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ANO LII • N. 305 • OUT/NOV/DEZ • 2018

www.pbcm.com.br lazaristasbr

INFORMATIVO SÃO VICENTE PROVÍNCIA BRASILEIRA DA CONGREGAÇÃO DA MISSÃO

Obras Completas de São Vicente Uma conversa com a equipe de tradução

Cultura Vocacional

Sebastião 80

Como as dimensões da formação contribuem para fortalecer as vocações

Perfil do Pe. Sebastião de Carvalho Chaves, mais jovem octogenário da PBCM

Missão em Itaobim Preparativos para as Santas Missões Populares previstas para janeiro de 2019


SUMÁRIO Palavra do Visitador Mensagem de fim de ano pág. 3 CM Global Chamada missionária 2018 pág. 4 Voz da Igreja Dom Belchior ganha selo comemorativo pág. 5 Artigo Por uma cultura vocacional vicentina pág. 6 Obra em Destaque Missão Itapuã do Oeste pág. 11 Espaço dos Seminaristas EREV 2018 pág. 14 Especial: Obras Completas São Vicente agora fala português pág. 16 Cotidiano Provincial Procissão de bicicletas em Riacho Fundo II - DF pág. 24 Pastoral Vocacional Primeiro encontro de diretores vocacionais da CM pág. 26 Ação Social Jornada Mundial dos Pobres pág. 28 Família Vicentina Preparativos para as Missões Populares em Itaobim - MG pág. 29 Perfil Pe. Sebastião Carvalho Chaves pág. 30 Notícias da PBCM pág. 32 Cultura Dicas de filme e livro | Memória da Província pág. 34 Poema Traduzir-se pág. 36 EXPEDIENTE Informativo São Vicente - 305 - Edição fechada em 11/12/2018 www.pbcm.com.br/informativosv | informativosv@pbcm.com.br Telefone: (21) 32352900 / Rua Cosme Velho, 241 CEP: 22241-125 Rio de Janeiro - RJ | Impresso na Gráfica Print - São Paulo | Tiragem: 250 exemplares | Conselho Editorial: Pe. Geraldo Mól, Ir. Adriano Ferreira e Cristina Vellaco | Editoração: Adriano Ferreira | Jornalista Responsável: Sacha Leite | Revisão: Sacha Leite e Pe. Lauro Palú| Colaboraram nesta edição: Pe. Geraldo Mól, Cléber Fábio, Ramon Aurélio, Pe. Vinícius Augusto Teixeira, Pe. Denilson Matias, Pe. Alexandre Nahass Franco, Pe. Eli Chaves, Pe. Raimundo João, Pe. Gustavo Alivino, Pe. Erik Carvalho, Pe. Lauro Palú | Os textos publicados são de total responsabilidade de seus respectivos autores.

EDITORIAL PBCM 200 anos Fato 1: no dia 7 de dezembro de 1819, após longa viagem marítima, desembarcaram no Rio de Janeiro os padres portugueses Antônio Ferreira Viçoso e Leandro Rebelo Peixoto e Castro, primeiros padres vicentinos a aportarem no Brasil em colocação oficial da Congregação da Missão. Fato 2: no dia 31 de janeiro de 1820 foi entregue aos primeiros missionários a Carta Régia de doação das terras e prédios do atual Santuário do Caraça. Fato 3: no dia 15 de abril de 1820 os dois pioneiros chegaram ao Caraça a partir de onde realizaram as primeiras missões e fundaram o mais afamado Colégio do período imperial. Estes três fatos representam o “marco zero” da Congregação da Missão e do Carisma Vicentino no Brasil . A contar de agora, falta menos de um ano para comemorarmos o bicentenário de nossa fundação carismática aqui no Novo Mundo. É sabido que São Vicente sonhou enviar missionários para a América ainda no século XVII e, não tendo conseguido cumprir esta meta durante a vida, resolveu, lá do céu, fazer cumprir o seu desejo na segunda década do século XIX. Tendo transcorrido quase dois séculos de história, a PBCM chega àquele ponto em que toda pessoa ou instituição se pergunta: será que tenho mais passado do que terei futuro? Pensando em responder a esta questão, decidimos comemorar nossos primeiros 200 anos, rememorando saudosamente o passado, mas com os olhos fitos em nossos projetos futuros. Pensando nisso, a comissão responsável pela organização das comemorações do bicentenário da Província programou suas ações divididas em três eixos: 1. Recuperar a nossa história (ode ao passado); 2. Celebrar e agradecer (um olhar sobre o nosso presente); 3. Revitalização da PBCM (propostas para o futuro). As ações referentes a cada um destes eixos serão apresentadas no Encontro Provincial de Párocos e Vigários, onde sua viabilidade será avaliada. 2019 surge como um ano de muita esperança e renovação para a nossa Província. Sigamos firmes rumo aos 200! *** Nesta Edição do ISV contamos com um grande número de coirmãos entre os colaboradores. Somos gratos por isso. Trata-se de bons textos escritos com muita dedicação e zelo. Vale a leitura de cada um. Como não poderia deixar de ser, o maior destaque vai para a matéria sobre o hercúleo trabalho de tradução das Obras Completas de São Vicente, empreendido por um talentoso grupo capitaneado pelo Pe. Getúlio Grossi. Ainda não é possível mensurar o alcance deste trabalho, tendo em vista que não está pronto, mas é certo que sua repercussão histórica ecoará por gerações e gerações de lusófonos que desejam conhecer o Grande Santo do Grande Século. Boa leitura!


PA L AV R A D O V I S I T A D 0 R Pe. Geraldo Eustáquio Mól.

Mensagem de fim de ano A celebração do Tempo do Advento tem a força de renovar em cada um de nós os sentimentos de fé, esperança, amor, alegria e paz. Toda esta riqueza de sentimentos tem como fundamento a certeza de que Deus é sempre fiel à aliança estabelecida com o seu povo. “Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque a seu povo visitou e libertou; e fez surgir um poderoso Salvador na casa de Davi, seu servidor”. (Lc 1,68-69). Assim, desejo-lhes um santo e abençoado Natal e que o ano de 2019 seja repleto de bênçãos e realizações.

ou longo prazo, vai nos proporcionando, apesar dos nossos bons planejamentos e “planos de voo”. E, para contrariar a nossa razão, “absolutas certezas”, há sempre algo inesperado a se formar no horizonte, que a qualquer momento, vai se descortinar diante de nós, colocando-nos em posições vulneráveis, obrigando-nos a tomar decisões rápidas ou improvisar, com responsabilidade e agilidade, movimentos.

percebamos e a vida, misteriosa vida, vai acontecendo rumo à eternidade. Alguns dias passam tão rápido que nem percebemos em qual dia, mês, estamos. Outros parecem uma eternidade. E assim vamos caminhando, descobrindo o que o futuro, seja a curto

Penso que ficamos mais irmãos, mais correspons á v e i s , g e n e ro s o s , d i s p o n í v e i s , t o l e r a n t e s , pacientes.... Mais PBCM… Que venha 2019, com suas alegrias e desafios!

Olhando, rapidamente, para o ano que vai se 2018 vai se despedindo. Momento de síntese. encerrando, percebo que nós, membros da PBCM, Rever os acontecimentos e deixar que a nossa síntenão podemos reclamar muito. Foram muitas as bênse lance luzes para o futuro. Foi çãos proporcionadas pelo nosso um tempo de realização de projeBom Deus, muitas conquistas, tos, sonhos, desejos, de adminiscrescimento em todos os sentidos. Todo fim é sempre um trar conflitos e problemas. SobreTivemos, também, alguns percalrecomeço, com mais exvivemos. 2018 também foi um ços ao longo do caminho. Sim. tempo, como os demais anos pasperiências, mais projetos, Caminhada sem dificuldades não sados, de fazer projetos, de avaliar tem sabor, gera acomodação, indimais sonhos, buscas propostas e, de calendários e plaferença à realidade que nos cerca. sempre maiores, com o nejamentos prontos, vamos iniciar Desafios estimulam o crescimento. sentimento dos mais huo novo tempo que vem chegando, Nos despertar para a vida que vai com renovado vigor e entusiasmo. desabrochando ao longo de nosmanos e comuns em toAliás, não nos despedimos de sos dias, sempre vividos em busca das as pessoas, vislum2018, ele vai estar sempre presende um sonho ou de muitos sobrar o infinito te em nossas vidas, com as expenhos, sejam eles pessoais, comuniriências que ele nos proporcionou. tários, eclesiais, humanitários.... Os Todo fim é sempre um recomeço, limites que trazemos ou enfrentacom mais experiências, mais projetos, mos desafiam a nossa criatividade, mais sonhos, buscas sempre maiores, com o sentinos faz homens melhores, mais humanos, sempre em mento dos mais humanos e comuns em todas as busca da satisfação dos nossos desejos e necessidapessoas, vislumbrar o infinito. des. Busca constante. Ter muitas coisas para fazer nos faz levantar mais cedo, rezar mais, pensar mais, Com todas as nossas conquistas, experiências criar mais, viver mais. Ter todas as necessidades acumuladas ao longo do tempo, inseguranças, inceratendidas, ou tentar tê-las, pode ser perigoso. Potezas, vamos continuando nossas vidas que estão demos vir a perder os desejos, a procura, a astúcia, o sempre em movimento. Vida é movimento. Ausência empreendedorismo, desvendar mistérios, atividades dele é morte. Os tempos e sentimentos vão se altertão necessárias para encontrar o sentido do nosso nando e vamos administrando nossas preciosas horas existir. que, por vezes, escorrem por entre nós sem que as

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CM GLOBAL

Por Sem. Cléber Fábio

Chamada Missionária 2018 Superior Geral convoca coirmãos de todo o mundo para as Missões Internacionais da CM

Na última carta da chamada missionária, o Superior Geral, Pe. Tomaž Mavrič, CM, nos lembrou que o Papa Francisco anunciou que, em outubro de 2019, viver-se-á um "Mês Missionário Extraordinário”, com o tema: “Batizados e enviados: a Igreja de Cristo em missão no mundo", convidando todos os batizados a se envolverem nesse projeto, convite esse que alcança todos nós, membros da Congregação da Missão. Para Pe. Mavrič, a resposta positiva a este chamado, e em especial à missão “ad Gentes”, depende da generosidade de cada um de nós. Recordou ainda, que na carta do ano anterior, ele tinha manifestado o desejo de enviar 1% dos membros da Congregação às missões "ad Gentes”. O desafio para esse 2019 é poder escrever ao Papa comunicando que enviaremos 30 coirmãos, como novos missionários “ad Gentes”. Trabalhemos para que essa meta seja cumprida! Na tabela (ao final do texto) vão informações sobre a necessidade de coirmãos para as atuais Missões Internacionais da CM.

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Os recursos necessários às missões não são apenas humanos, mas também financeiros, de modo que Pe. Mavrič solicita doações às mesmas, que podem ser feitas por meio do Escritório de Solidariedade Vicentina (VSO) indicando que os recursos são para projetos do Fundo de Solidariedade Vicentina (FSV), ou enviadas diretamente à Congregação da Missão, com cheques dirigidos exclusivamente ao Economato Geral da CM - Via dei Capasso, 30, 00164 Roma. O desejo da Cúria Geral é que, paulatinamente, essas missões sejam assumidas por províncias concretas, ou cresçam e tornem-se vices e logo províncias. Na Circular do Tempo Forte de 6 nov. 2018, Pe. Mavrič nos lembra que o artigo 5º do Estatuto das Missões Internacionais prevê e aconselha esta possibilidade, e que pensa refletir sobre o assunto no Encontro Internacional de Visitadores (Filipinas 2019). Como o Superior, despedimo-nos evocando São Vicente: "Não sou daqui nem dali, mas de qualquer lugar onde Deus quer que eu esteja" (SVP IX/1,30).


VO Z DA I G R E JA

Da Redação

Dom Belchior ganha selo comemorativo Diocese de Luz (MG) presta homenagem ao bispo da Congregação da Missão

Foto: Curia Diocesana de Luz

sualizar a imagem aérea da Catedral Diocesana Nossa Senhora da Luz, sede da centenária Diocese de Luz, a qual Dom Belchior governou por 34 anos. À frente, há uma reprodução da pintura com o retrato oficial de Dom Belchior, feita pelo artista luzense José Alexandre Lamounier, datada de 1992, que atualmente faz parte do acervo do arquivo diocesano e está em exposição no Centro de Memória Nossa Senhora da A s s u n ç ã o , n o antigo Palácio Episcopal.

A Diocese de Luz prestou homenagem a Dom Belchior Joaquim da Silva Neto, CM, em 7 de novembro de 2018, por conta do centenário de seu nascimento. Na data foi lançado oficialmente um selo comemorativo através da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Estiveram presentes o vigário geral padre Antônio Campos Perreira e o pároco e cura da Catedral, padre Orlando Ferreira Barbosa e representantes da empresa dos Correios. Segundo Bispo de Luz, ele participou ativamente do processo de criação do Ministério da Eucaristia para leigos. “Dom Belchior Neto foi poeta, escritor, além, é claro, de uma sabedoria e humor sensacionais”, lembra o Visitador Provincial Pe. Geraldo Estáquio Mól. Na imagem do selo, há um brasão de armas de Dom Belchior e as inscrições: "Centenário de Nascimento - Dom Belchior Joaquim da Silva Neto - 7 de novembro - 1918 - 2018". Além disso, é possível vi-

Dom Belchior fez os seus estudos iniciais em Luz e no Seminário do Caraça. Cursou Filosofia e Teologia em Petrópolis- RJ, no Seminário dos Padres da Congregação da Missão. Posteriormente, graduou-se em Filosofia, História e Psicologia pela Faculdade Salesiana de São João Del Rei – MG, e em Letras pelas Faculdades de Luz e Formiga. Trabalhou como formador dos Seminários Sagrado Coração de Jesus, em Diamantina – MG, São Vicente de Paulo e da Prainha em Fortaleza – CE, de 1946 a 1960. Ademais, foi sagrado Bispo de Aterrado em 1960, na Igreja São José do Calafate, em Belo Horizonte, por Dom João Resende Costa, então Arcebispo de Belo Horizonte. Seu lema Episcopal era “Charitas Christi Urget” – “O Amor de Cristo Urge”. Assumiu o governo da Diocese como Administrador Apostólico “Sede Plena”, devido ao precário estado de saúde de Dom Manoel. E com a morte deste, tornou-se o 2° Bispo Diocesano em 1967. De acordo com o Arquivo da PBCM, ele publicou três cartas pastorais, quatro biografias, quatro livros de poesias e seis romances pastorais. Faleceu há 18 anos, em Belo Horizonte, e foi sepultado na cidade de Luz.

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ARTIGO

por Pe. Vinícius Augusto Teixeira

Por uma cultura vocacional vicentina Sobre como as dimensões da formação podem ajudar a implementar e robustecer a cultura vocacional

Eis o apelo que nos foi apresentado pelo atual sucessor de São Vicente, Padre Tomaž Mavrič: impulsionar uma renovada cultura vocacional na Congregação da Missão e na Família Vicentina (FV). Motiva-nos, em primeiro lugar, a convicção do valor, da beleza e da atualidade da vocação vicentina: chamado que o Senhor nos dirigiu para seguir Jesus Cristo, evangelizador dos pobres, no caminho de São Vicente de Paulo. Este convite continua ecoando nos corações de muitas pessoas, especialmente entre os jovens, rapazes e moças, atraídos pelo vigoroso exemplo do místico da caridade missionária, cuja herança espiritual nada perdeu de seu frescor. Precisamos ajudá-los a discernir e a corresponder ao chamado de Deus, deixando-se cativar pelo carisma

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vicentino e dispondo-se a trabalhar na vinha da caridade e da missão, entrando em comunhão com os pobres e colaborando no serviço do Reino. Falamos aqui da vocação fundamental de toda a FV, que reúne leigos e leigas, Irmãs, Padres e Irmãos, todos impelidos pelo mesmo espírito e comprometidos com a mesma causa. A cultura vocacional, portanto, não se restringe às nossas fileiras institucionais, não visa apenas os candidatos ao ministério ordenado e à Vida Consagrada. Ela abarca toda a Família, a começar dos leigos e leigas que, com o contributo de sua vocação específica, desde os tempos do fundador, enriquecem e dinamizam a evangelização e o serviço dos pobres. É o que atestam, hoje, por exemplo, nossas Santas Missões Populares.


Foto: www.vincentians.com

Se, por um lado, constatamos preocupados o decréscimo das vocações presbiterais e consagradas; por outro, notamos esperançosos o protagonismo das vocações leigas na Igreja e na FV, embora também estas estejam declinando numericamente. Sabemos, porém, que todos os vocacionados, os de Da Redação ontem e os de hoje, seja qual for a etapa da vida a que tenhamos chegado, sempre precisamos de vitalidade espiritual e ardor missionário. A crise vocacional de nossos dias é mais qualitativa que quantitativa, incidindo mais fortemente sobre os que já pertencem do que sobre os que cogitam pertencer. Em distintas ocasiões, São Vicente mesmo já o mostrara, prevenindo seus Padres e Irmãos quanto ao risco de uma animação vocacional agitada pela preocupação com o êxito quantitativo e pouco voltada à qualificação da perseverança daqueles que já pronunciaram seu primeiro sim. Afinal, “não importa se em pequeno número, contanto que sejam bons” (SV XI, 357), porque “bons Missionários, suscitados e modelados por Deus, bastam poucos para fazer muito” (SV VII, 613). Todos, portanto, temos necessidade de revisitar os fundamentos de nossa vocação para sedimentar nossa resposta e qualificar nossa entrega. Essa tarefa

não se consolida sem constante retorno ao Evangelho como regra primeira de nossa vida, sem reencontro com São Vicente como depositário e dispensador da centelha inspiradora de nosso carisma, sem comunhão com a Igreja em seu esforço de impulsionar a fé e o discernimento vocacional, sem solidariedade efetiva com os irmãos mais pobres, sem atenção aos sinais dos tempos e aos apelos de nossos contemporâneos. A cultura vocacional abrange todos estes elementos, demonstrando-nos que não poderemos incentivar e acompanhar os jovens na correspondência ao chamado do Senhor, se não estivermos sinceramente implicados em um processo contínuo de revigoramento vocacional, ou seja, de recriação de nossa fidelidade pessoal e comunitária ao seguimento de Jesus Cristo, evangelizador dos pobres, com tudo o que isto comporta em termos de valores e exigências, tais como: espiritualidade, missão, comunidade, virtudes, votos, formação inicial e permanente etc. Aqui, vale ter presentes as propostas contidas na circular do Visitador de 25 de novembro de 2018. A cultura vocacional a que nos propomos não se confunde com uma estratégia de sobrevivência >>>

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institucional, nem com um plano de recrutamento de candidatos. Trata-se, na verdade, de um projeto de revitalização que nos possibilita voltar ao essencial de nossa forma de vida e, a partir daí, de seu coração pulsante, rever e ressignificar as diferentes dimensões de nossa identidade vicentina (espiritual, apostólica, comunitária etc), a fim de aprimorar, corrigir e ampliar nossas vivências e tentativas, tornando-nos, assim, capazes de comunicar, com a verdade de nosso existir e atuar, a força de atração do carisma que nos move.

firmeza, sem cair no rigorismo, e do máximo de compreensão, sem cair na conivência com o mal”. Também na animação vocacional, como na vida inteira, retidão e bondade, transparência e mansidão caminham sempre de mãos dadas. São Vicente estava convencido de que só um homem virtuoso pode se tornar um cristão autêntico. E só um cristão autêntico pode ser um Missionário fecundo. Vocação humana, vocação cristã e vocação missionária integradas em um só itinerário. “Em que consiste nossa perfeição? Em fazer bem todas as ações: 1º como homens dotados de razão, em conviver bem com o próximo e Quatro ideias relacionadas às dimensões da forlhe garantir a justiça; 2º como cristãos, em praticar as mação talvez possam nos ajudar a implementar e a virtudes de que Nosso Senhor nos robustecer a cultura vocacional: deu exemplo; 3º como Missionári- Dimensão humana. Na inos, em realizar bem as obras que terminável tarefa de construir sua São Vicente enfatizava a ele fez, e no mesmo espírito, enpersonalidade, não é suficiente ao quanto nos permitir nossa fraqueforça de atração que a ser humano identificar os dilaceza, bem conhecida por Deus” (SV ramentos e ranhuras de sua intericomunhão fraterna – iluXII, 77-78). oridade (traumas, frustrações, me-

minada pela fé e susten-

- Dimensão comunitária. Na dos, impulsos, tendências etc). É tada pelos vínculos da sociedade contemporânea, tendepreciso dar um passo a mais e disse facilmente a dois extremos nopor-se corajosamente a recompor caridade de Cristo – civos às relações interpessoais, o fissuras, superar limites e reconcipode exercer sobre os da introversão que, não raro, enliar-se com sua história. A humilde outros. Não se trata de cerra o indivíduo no egoísmo, na autoaceitação deve ser seguida uma estratégia de conindiferença e na frieza, e o da expela corajosa autotransformação. Sem a primeira, a segunda não se vencimento, nem de uma troversão que pode resvalar para a efetua. Sem a segunda, a primeira maquiagem artificial, mas possessividade, a dependência e a vulgaridade. Não é à toa que, se encerra no imobilismo. O de um esforço contínuo, hoje, assistimos ao recrudescimenexemplo e a palavra do apóstolo de uma experiência vivito de tantas cisões e conflitos faPaulo nos ensinam que a graça se miliares, comunitários e sociais, manifesta em uma fraqueza acoda, que se irradia como gerando insegurança psicológica e lhida, reconciliada e oferecida (cf. por transbordamento. desencadeando extremismos de 2Cor 12,8-9). Uma personalidade várias ordens. No panorama da integrada e qualificada é aquela cultura vocacional, conta sobremaque se exprime em uma consciênneira o empenho em equilibrar as relações intercia íntegra e um coração bom, em uma conduta pessoais, de modo a evitar apegos e aversões, em reta e em um procedimento generoso. A relevância vista de uma convivência humanizadora, livre de exdo que acaba de ser dito pode ser constatada na cessos, asperezas e azedumes, caraterizada por atiexperiência comum. Quem são, afinal, as pessoas tudes de respeito, cordialidade e gentileza. Uma vida que mais inspiram confiança aos vocacionados e aos comunitária verdadeiramente fraterna, enriquecida demais? São aquelas que se mostram verazes e sinpelo diálogo e pelo perdão, marcada pela comunhão ceras, sem deixar de ser acolhedoras e benévolas. E no primordial, pela liberdade no secundário, pela quem são as pessoas de quem os vocacionados e caridade e pela verdade em tudo o que a ela se refetodos os outros mais gostam de se aproximar para re, torna-se, então, um terreno fértil para a maturaabrir-lhes o coração? São aquelas que se revelam ção da própria vocação e a animação vocacional. Na compreensivas e bondosas, sem deixar, porém, de sequela das primeiras comunidades cristãs (cf. At ser lúcidas e coerentes. Dom Helder Câmara já o dis2,42-47), São Vicente enfatizava a força de atração sera em outro contexto: “Que sejamos capazes de 8 INFORMATIVO SÃO VICENTE


- Dimensão espiritual. Aqui, será muito oportuno iniciar-se ou aprofundar-se na arte do discernimento, entendido como busca da vontade de Deus, frente às diferentes possibilidades que se abrem (cf. Cl 1,9-11). Para isso, devemos saber examinar o que se passa dentro de nós – pensamentos, desejos, angústias, medos, expectativas – e ao nosso redor – acontecimentos, interações, circunstâncias. A consideração pura e simples das realidades interiores e exteriores não é suficiente. Não basta uma abordagem de corte meramente científico (psicológico, sociológico, antropológico etc). Discernimento não se reduz à autoanálise ou à análise de conjuntura social. Discernimento é uma experiência de fé. Exige uma sincera saída de nós mesmos para deixar-nos surpreender pelas novidades do Espírito e seguir suas moções, assumindo a entrega por ele inspirada e abraçando as renúncias que dela decorrem. Portanto, o discernimento jamais poderá dispensar o recurso à oração e à meditação da Palavra de Deus, bem como a atenção ao magistério da Igreja. Aí, encontram-se o farol que aclara e a bússola que indica os caminhos de liberdade pelos quais o Senhor deseja conduzir nossos passos rumo à meta por ele mesmo apontada. Assim, o discernimento possibilita a intuição do fim a que somos chamados, dos meios que a ele poderão nos conduzir e dos motivos que nos animam a

prosseguir. Com a sabedoria para o discernimento, recebemos do Espírito Santo a fortaleza para as decisões e escolhas úteis ao nosso bem e à nossa santificação, de modo a fazer-nos perseverar até o fim. São Vicente foi um abalizado mestre espiritual, bem familiarizado com a arte do discernimento. Ajudou-o, sem dúvida, sua experiência dos Exercícios de Santo Inácio de Loyola. As instruções dadas por Vicente aos Padres e Irmãos da Missão, às Filhas da Caridade e a tantas outras pessoas que se confiavam à sua orientação testemunham sua capacidade de ajudar os outros na assimilação dos desígnios de Deus e na resposta a seus apelos (cf. SV III, 345-347; VII, 462-464; VIII, 254-256). Explicando as Regras Comuns a seus Missionários (cap. II, art. 3), quis rec o r d a r- l h e s a importância do discernimento na disposição de conformar-se à vontade de Deus, servindo-se das mediações humanas: “Há uma quarta maneira de conhecer a vontade de Deus. É a das inspirações. Porque, muitas vezes, Deus projeta luzes no entendimento e dá movimentos >>>

Foto: Adriano Ferreira, CM

que a comunhão fraterna – iluminada pela fé e sustentada pelos vínculos da caridade de Cristo – pode exercer sobre os outros. Não se trata de uma estratégia de convencimento, nem de uma maquiagem artificial, mas de um esforço contínuo, de uma experiência vivida, que se irradia como por transbordamento. Eis a recomendação do fundador aos oito Coirmãos enviados à Irlanda: “Estejam unidos uns aos outros e Deus os abençoará. Mas que seja por meio da caridade de Jesus Cristo (...). Sem duvidar, em Jesus Cristo, por Jesus Cristo e para Jesus Cristo, vivam unidos uns aos outros. O espírito de Jesus Cristo é um espírito de união e paz. Como poderão atrair as almas a Jesus Cristo, se não estão unidos uns aos outros e com ele?” (Abelly II, 145). Como poderemos transmitir o fascínio de nossa vocação, se não estamos unidos entre nós e com o Senhor?


ao coração para inspirar sua vontade. Mas é necessária a pitada de sal para não se enganar nisso. De uma multidão de pensamentos e sentimentos que nos vêm, alguns são aparentemente bons. Mas não vêm de Deus e não são conforme seu gosto. É preciso, pois, examiná-los bem, recorrer a Deus mesmo, perguntar-lhe como se pode fazer isso, considerar os motivos, o fim e os meios, para ver se tudo está harmonizado segundo sua vontade, propô-los aos prudentes e pedir o parecer daqueles que cuidam de nós, que são os depositários dos tesouros da sabedoria divina” (SV XII, 159-160). Cabe recordar que as mediações humanas e históricas do discernimento (interioridade humana, autoridade dos superiores, sinais dos tempos) são sempre limitadas e passíveis de confronto com as exigências da Palavra. O desafio permanece o mesmo: empregar a arte do discernimento em nossa vida, comunidade e missão, bem como ajudar os vocacionados a caminhar na mesma direção, em vista da descoberta dos desígnios de Deus, dentro ou fora dos ramos vicentinos. - Dimensão apostólica. Nossa vocação vicentina é eminentemente apostólica. Tem um claro direcionamento: os irmãos mais pobres. Evangelizando-os com zelo e servindo-os com humildade, vemos crescer e amadurecer nossa resposta ao chamado do Senhor. E ainda aprendemos dos pobres grandes lições de vida, desde que nos aproximemos deles com simplicidade e mansidão, vencendo, pela mortificação, as resistências e comodismos que nos instalam em nossas zonas de conforto. Quando olhamos para nosso próprio itinerário vocacional, recordamos admirados pessoas que nos cativaram pelo testemunho de disponibilidade e criatividade na missão. Pessoas que se nos afiguram como o apóstolo que dizia: “Em tudo, recomendamo-nos como ministros de Deus”. E, por isso mesmo, foram ou são capazes de “enriquecer a muitos com sua pobreza” (2Cor 6, 4.10). Vários de nós, por exemplo, lembramo-nos com saudade da figura veneranda de Padre João Saraiva. Esquecido de si, sempre pronto para servir, incansável em ajudar a quem dele precisasse, empenhado em preparar-se da melhor maneira para tudo o que lhe competia fazer, na pastoral cotidiana, na formação dos nossos, na animação da comunidade local, etc. Disponibilidade e criatividade vão na contramão da autorreferencialidade e da pastoral de mera conservação. Estas costumam embaçar as vistas e impedir de enxergar além do já conhecido e do já realizado, paralisando os passos dos que deveriam ir 10 INFORMATIVO SÃO VICENTE

além das fronteiras da estrita obrigação ou da passiva conveniência. Disponibilidade e criatividade exigem reflexão mais profunda, oração mais constante, doação mais generosa, serviço mais abnegado, horizontes mais amplos. Era o que nosso fundador queria ver consolidar-se em seus Coirmãos: “Praza à bondade de Deus dar-nos este espírito que anima os verdadeiros missionários, um coração grande, amplo, imenso! (...). Se nada podemos por nós mesmos, tudo podemos com Deus. Sim, a Missão pode tudo, porque temos em nós o germe da onipotência de Jesus Cristo” (SV XI, 203-204). Foi assim para os vocacionados de ontem, é assim para os de hoje, será assim para os de amanhã: a missão assumida com disponibilidade e criatividade manifesta que vale a pena seguir Jesus Cristo, evangelizador dos pobres, e que aí encontramos um caminho de humanização, uma estrada de santidade. ****** É de Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe, esta conhecida comparação: “Se quiseres construir um navio, não comeces por dizer aos operários para juntar madeira ou preparar as ferramentas; não comeces por distribuir tarefas ou organizar atividades. Em vez disso, detém-te a acordar neles o desejo do mar sem fim. Quando estiver viva esta sede, entregar-se-ão ao trabalho para construir o navio”. 
 Resta-nos, pois, a pergunta: o que afinal encanta, atrai e interpela em nossa forma de vida vicentina? O que pode despertar nossa sede e a sede dos que convivem conosco ou nos procuram? Nossas obras e atividades? Isso é muito pouco. Nosso marketing e nossas ferramentas? Também não. Ficaríamos em um nível demasiado superficial. Tudo isso só terá significado e relevância na medida em que se fizer transparência do que somos chamados a ser: seguidores de Jesus Cristo, evangelizador dos pobres, no caminho de São Vicente. É aí, neste mar sem fim, que reside o segredo de nossa vida, o impulso de nossa missão e a força de atração de nosso carisma. É a este núcleo identitário que precisamos voltar para despertar nossa sede e dilatar a cultura vocacional vicentina. Apoiados na certeza de que “pertence somente a Deus escolher os que ele quer chamar (...), a nós nos cabe pedir-lhe que envie operários para sua messe e viver tão retamente que, com nossos exemplos, sejamos mais atraentes do que repugnantes aos que trabalham conosco” (SV VIII, 287). Assim, poderemos acordar, sempre de novo, em nós e nos outros, “o desejo do mar sem fim”.


O B R A E M D E S TA Q U E

por Pe. Gustavo Alivino Silva

Paróquia Nª Srª de Lourdes - Itapuã do Oeste- RO Foto: Sacha Leite

Uma missão intercongregacional no limiar da Amazônia Igreja Matriz de Itapuã do Oeste

A Paróquia Nossa Senhora de Lourdes está localizada no município de Itapuã do Oeste/RO, a 108 km de Porto Velho, às margens da BR-364. A cidade foi criada no dia 13 de fevereiro de 1992. Possui uma área de 4.081 km² e uma população de aproximadamente dez mil habitantes, com densidade demográfica de 2,10 hab/km² (IBGE, 2014). A Paróquia Nossa Senhora de Lourdes atende uma pequena parte do município de Candeias do Jamari. O município de Candeias do Jamari possui uma população de aproximadamente 12.425 habitantes, com densidade demográfica de 2,89 hab/km² (IBGE, 2014). A Paróquia Nossa Senhora de Lourdes foi criada aos 7 de março de 1987, por Dom José Martins, bispo de Porto de Velho na época, “tendo em vista o crescimento da Vila de Itapuã do Oeste e a necessidade espiritual do Povo de Deus”. Os limites da paróquia são: Norte: Trevo da Hidroelétrica de Samuel na BR 364. Sul: Divisa com o Município de Ariquemes. Oeste: Rio Candeias. A Paróquia é formada por 19 comunidades, sendo 16 comunidades rurais e 2 comunidades urbanas e uma comunidade num distrito. Tem como santos padroeiros das comunidades de fé: Nossa Senhora de Lourdes, Santa Bárbara, São Vicente de Paulo, Nossa Senhora Aparecida, Santa Ana, São Marcos, Santo André, São Francisco, Santo Antônio, São José, Maria Mãe dos Migrantes, Cristo Redentor, Imaculado Coração de Maria, Nossa Senhora de Fátima, São João Batista (Distrito do Triunfo), Nossa Senhora do Divino Pranto, Sagrado Coração de Je-

sus, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e Santa Luísa de Marillac. Nas comunidades encontramos populações migrantes e ribeirinhas que residem próximo ao Rio Candeias do Jamari e outros afluentes. Povo sofrido por constantes êxodos, por último, forçado a deixar sua terra para as águas da Hidrelétrica de Samuel e ocupar a Vila de Triunfo, verdadeiro triunfo da malária e da enganação dos políticos de má fé que o explora de várias formas. O clima em Itapuã do Oeste é considerado tropical. Na maioria dos meses do ano existe uma pluviosidade significativa. Uma árvore presente e que encanta nestas terras, é a castanheira. É uma árvore de porte, frondosa, exuberante, deslumbrante e abundante nestas terras. Árvore nativa da Floresta Amazônica. Floresce na passagem da estação seca para a chuvosa, o que no leste da Bacia Amazônica ocorre de setembro a fevereiro. Perto de julho suas folhas caem. Algumas ficam completamente sem folhas na estação seca. Os frutos demoram de 12 a 15 meses para amadurecer, e caem principalmente em janeiro e fevereiro. Seus frutos são as famosas e saborosas castanhas do Brasil. A economia de Itapuã é reforçada pelas agroindústrias de laticínios, serralherias e temos ainda próximo da cidade uma Mineração de Cassiterita. Garantia de emprego para os jamarienses. A pecuária e a agricultura ainda são fortes nesta região. O agronegócio está ganhando força também por aqui. >>>

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Temos a grata alegria de ter a presença da Companhia das Filhas da Caridade ajudando no trabalho missionário e compondo assim a Equipe Missionária. As irmãs que aqui trabalham são das Províncias de Curitiba, Fortaleza e Rio Janeiro, é a primeira experiência missionária interprovincial no Brasil acontecendo neste chão amazônico. Vários são os desafios que encontramos por aqui. Dentre eles destaco o avanço das comunidades evangélicas (protestantes); é gritante na comunidade paroquial. Dentro de Itapuã existem 42 igrejas diferentes. É uma verdadeira exploração do povo. Isso é uma conseqüência do abandono da Igreja Católica. Temos no estado um feriado chamado Dia do Evangélico, 18 de junho. A data foi definida pela Lei Estadual n° 1.026/2001. O dia é sempre comemorado com vários shows gospel pelo estado. O diálogo com os “pastores” não acontece, são fechados e fundamentalistas. Um dado curioso: Itapuã é o único município de Rondônia em que o protestantismo foi maior que o Catolicismo no Censo de 2010. Outro desafio, o êxodo e as migrações. A maioria da população que compõe a comunidade paroquial não é natural de Rondônia. Rondônia é o estado mais jovem e é considerada uma terra de oportunidades. Esses migrantes que povoaram Rondônia e também a cidade onde estamos são principalmente sulistas, com a predominância de paranaenses. No entanto, o estado de Rondônia recebeu contingentes populacionais relevantes de vários estados brasileiros, dentre os quais podemos destacar São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e

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Podemos mencionar outro desafio relacionado ao fato de estarmos próximos da divisa com a Bolívia. Com isso, estamos na rota do tráfico. Mas, a maior causa mortis em Rondônia é a questão agrária, já que é comum o assassinato de fazendeiros. A prostituição também é alta, pois estamos à beira da BR-364. A má conservação das estradas é sempre uma dificuldade para irmos às comunidades, trata-se de uma dificuldade e não de um impedimento. O desmatamento continua gritante em todo o estado. No período da seca existem muitas queimadas. Aquelas no Distrito do Triunfo costumam ser mais intensas, além disso, existem as carvoarias e com isso, muita fumaça. O ar fica "quase irrespirável". As carvoeiras são formas de reaproveitar as pequenas madeiras que são descartadas pelas serralherias. Situando a paróquia de uma forma geral, ela está no coração da Amazônia. A Amazônia é mais falada que conhecida, mais discutida do que vivida. Acredito que seja esta preocupação do Papa Francisco ao propor um Sínodo para a Amazônia. É preciso convocar novas pessoas para que se juntem a nós na defesa da Amazônia e dos povos isolados. É necessário agradecer sua generosa e exuberante beleza, e todos os recursos que ela nos oferece: remédios, oxigênio, folhas, raízes, frutas, madeiras, alimentos, beleza a ser mantida e cultura a ser preservada. Amazônia é fonte de vida, alegria e prazer.

A paróquia Nossa Senhora de Lourdes está em comunhão com o Plano Pasto- Assembleia Paroquial de Pastoral - 18/11/2018 ral da Arquidiocese, assumindo o seguinte objetivo geral: “Evangelizar, a partir de Jesus Cristo, na força do Espírito Santo, como Igreja discípula, missionária, profética e misericordiosa, alimentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, assumindo sua missão neste chão da Amazônia. Consciente do mandato de ir ao encontro das pessoas, para que todos tenham vida, rumo ao Reino definitivo”. Foto: Enviada pelo Pe. Onésio Gonçalves

Pe. Onésio, Pe. Gustavo, Filhas da Caridade e Paroquianos

Espírito Santo. Essas pessoas vieram em busca do progresso, de terras e de melhorias para suas vidas.

A Assembleia Paroquial,


Foto: Sacha Leite

Bicicleta, meio de transporte mais comum em Itapuã do Oeste

em sua última reunião, assumiu como temas prioritários: Família, Formação e Juventude, dentro da ênfase missionária e do aprofundamento do sentido de pertença eclesial proposta pela diocese. Algo bonito que temos na Arquidiocese é a cartilha dos Círculos Bíblicos produzida pelas pessoas engajadas nos trabalhos da Arquidiocese. Os círculos bíblicos devem despertar a integração, escuta da Palavra da Deus, a partilha, a solidariedade e a convivência fraterna entre as pessoas do grupo. Por isso, são sementes de comunidades. São oportunidades de fomentar a espiritualidade e a própria formação missionária. Hoje, podemos afirmar que a presença vicentina tem dado bons frutos. Muitas pessoas estão buscando os sacramentos. Há muitos adultos que não são batizados. Nota-se uma busca pela preparação e uma participação maior das pessoas na comunidade e também um fortalecimento da fé. Houve ainda um crescimento espiritual da comunidade, maior corresponsabilidade e compromisso com a Igreja local. A PBCM tem investido muito aqui em Itapuã, já tivemos alguns módulos do Projeto Construindo e Preparando o Futuro direcionado aos professores da rede municipal e o mesmo foi estendido aos professores da rede estadual. Muitos professores da rede estadual ficaram sabendo do sucesso do primeiro módulo e tiveram interesse em participar. Infelizmente, este projeto foi interrompido pela Secretária da Educação Municipal em Itapuã. Mas continuamos avançando e planejando um novo projeto com a Juventude. É preciso investir para formamos bons cristãos.

Posso concluir esta pequena notícia com três depoimentos que ressaltam a importância de a Congregação da Missão estar presente nestas terras quentes e aconchegantes. De uma paroquiana da Comunidade São João Batista (Triunfo): “A comunidade vicentina vai em lugares de difícil acesso, onde poucos querem ir. As pessoas que tinham abandonado a Igreja estão retornando. Na comunidade São João Batista eram poucos participantes, hoje há uma boa presença e participação”. Acrescentou ainda: “que a comunidade São João Batista era esquecida pelos padres. Hoje, pelo fato de ter a comunidade vicentina em nossa igreja, nós nos sentimos acolhidos e agradecidos”. Outro depoimento de uma paroquiana da Comunidade Nossa Senhora de Lourdes: “muitos frutos são perceptíveis como a presença dos fiéis nas celebrações, participação nos serviços litúrgicos, formações na área bíblica e também para os novos Ministros da Eucaristia e da Palavra, criação dos coroinhas, incentivos vocacionais para os jovens, ressignificação do sentido de ser Igreja”. Outra paroquiana ressalta que “alegria e sentido de pertença foram os sentimentos mais fortes com a chegada da congregação. Nunca nesta paróquia foram realizados tantos sacramentos, algumas vezes os sacramentos eram negados porque as pessoas não participavam e com isso, muitos se afastaram, abandonando a Igreja”.

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E S PA Ç O D O S S E M I N A R I S TA S

por Sem. Ramon Aurélio

EREV 2018 Dilemas e desafios do Encontro Regional dos Estudantes Vicentinos Aconteceu no dia 23/10/2018, o segundo Encontro Anual Regional dos Estudantes Vicentinos (EREV) da PBCM, no teologado São Justino de Jacobis. O encontro constou do repasse das atividades anuais do colegiado estudantil da PBCM e a participação representativa no ENEV (Encontro Nacional dos Estudantes Vicentinos), que aconteceu no mês de julho de 2018, em Curitiba (PR). O Encontro, promovido pela coordenação deste ano, começou com a celebração eucarística, presidida pelo Pe. Eli Chaves, CM, atual coordenador da Comissão de Formação de nossa Província, e concelebrada pelo animador vocacional, Pe. Denílson Mathias, CM. O encontro foi um momento rico e oportuno para refletirmos sobre a caminhada do EREV, atualmente. Neste mesmo encontro tivemos o relato dos estudantes Louis (2º ano de Teologia) e Natanael (2º ano de Filosofia) que participaram do ENEV em Curitiba. Contaram-nos que o Encontro Nacional é um momento rico de nossa formação, cujo tema foi: "Carisma Vicentino e o Magistério do Papa Francisco", tendo como assessor o Padre Guilherme Schelbauer, CM, da Província do Sul. Neste último encontro dos Estudantes da PBCM, foi repassada para todos os presentes a prestação de contas do atual caixa do colegiado estudantil vicenti14 INFORMATIVO SÃO VICENTE

no, bem como as propostas para arrecadarmos mais fundos para o caixa comum do EREV. Foi proposto pela coordenação atual que haverá uma rifa de final de ano, a fim de arrecadar financeiramente recursos para o caixa comum do EREV. O Estatuto do EREV, também foi pauta de discussão entre os estudantes. O mesmo foi lido de modo partilhado, onde todos puderam participar, ler e retomar os artigos e parágrafos do Estatuto atual. No entanto, há uma necessidade ainda de que este seja bem trabalhado entre os estudantes. Alguns assuntos referentes ao Estatuto do EREV requerem uma atenção maior dos estudantes, e retomaremos nos próximos encontros. Por exemplo, nas entrelinhas de nosso encontro parecem ter surgido muitas dúvidas referentes a participação do Seminário Interno, uma vez que, neste ano, todas as casas de formação da Província têm como sede a cidade de Belo Horizonte. Este ponto toca primeiramente ao que tange aos seminaristas do Seminário Interno Interprovincial, que há menos de três anos estão residindo em Belo Horizonte. Pela lógica, se o intuito do EREV é formar, reunir, estreitar os laços fraternos e a confraternização entre os estudantes do nosso regional, os estudantes desta etapa não poderiam deixar de participar das reuniões e encontros do EREV, uma vez que estes re-


Seminaristas da PBCM reunidos para o EREV no Teologado São Justino de Jacobis, em Belo Horizonte

O EREV é uma iniciativa louvável dos estudantes de nossa Província e acolhida de boa vontade. Notase nos estudantes o desejo de fazer com que este encontro seja frutífero, de maneira que nos faça refletir, nos organizar, trocar experiências formativas e sobretudo que criemos laços intercomunitários provinciais. A esperança deste encontro para 2019 é que possamos retomar algumas atividades que encontram-se inativas, como, por exemplo, os estudos a respeito da Espiritualidade Vicentina, os aspectos da vida comunitária formativa, os encontros semestrais e a confraternização entre os estudantes. De fato, a prece é que assumamos com responsabilidade este encontro importante na nossa formação, de forma que consigamos promover ações práticas e concretas que gerem frutos na nossa formação missionário-vicentina e facilite nossa convivência fraterna a nível provincial. Atuais representantes do EREV-2018 Coordenador: Túlio Medeiros Secretário: Leonardo Almeida 1º Tesoureiro: Natanael Silva 2º Tesoureiro: Louis F. Costa *Fonte: Informativo São Vicente de Paulo: Ano XXXIX – N. 256 – Março/Abril de 2005. Artigo sobre: Encontro Regional dos Estudantes Vicentinos, p. 59-62.

Foto: Enviada por Ramon Aurélio

sidem atualmente na região de BH, na casa São João Gabriel Perboyre, no bairro Nazaré. No entanto, esta é uma questão que deverá ser retomada no início do ano de 2019, quando nos reuniremos novamente. É necessário, nós estudantes, pensarmos e refletirmos para o ano de 2019, sobre qual é a finalidade do EREV em nossa Província. Retomar a história do mesmo, buscar nas fontes a origem e a motivação inicial do nosso encontro. Por exemplo, qual é o objetivo central do EREV hoje? O EREV é um encontro de formação, de confraternização ou de ambos? E o que estamos fazendo para promover em nossa Província estes encontros? Qual a influência do EREV na decisão da escolha dos temas do ENEV? Uma vez que este encontro, nos seus inícios, segundo a ata do EREV do ano de 2005* tinha como intenção também pensar sugestões e temas para o encontro nacional.


E S P E C I A L : O B R A S C O M P L E TA S

Texto e fotos por Sacha Leite Colaboraram: Pe. Lauro Palú e Ir. Adriano Ferreira

São Vicente agora fala português Uma conversa com a equipe de tradução das Obras Completas de São Vicente de Paulo A história de Vicente foi contada por muitos autores ao longo dos últimos 400 anos. O grande diferencial das Obras Completas de São Vicente está em proporcionar um contato direto com a palavra do santo fundador da Congregação da Missão, aproximando o leitor dos traços mais característicos de seu carisma, estilo e tempo. Há dez anos, o Padre Getúlio Mota Grossi, CM, recebeu a missão de traduzir para o português os 14 volumes da edição francesa, contendo cartas, conferências e documentos, assumindo então o posto de coordenador da equipe de tradução. Também integram o time desse honroso projeto o Padre Lauro Palú, CM, revisor e consultor, a Irmã Neil Pimentel, FC, responsável pela tradução de quatro volumes da série, Cosme Damião da Silva, revisor, e Douglas Oliveira, digitador. No dia 21 de novembro de 2018, a reportagem do Informativo São Vicente esteve com a equipe de tradução, na Casa Dom Viçoso, a fim de conhecer e tornar público este admirável processo editorial. Na ocasião, Padre Getúlio explicou que, embora os volumes XI e XII já estivessem traduzidos desde 1940, não se sentia a necessidade de traduzir o restante da coleção para o português, já que a maioria dos 16 INFORMATIVO SÃO VICENTE

Coirmãos dominava o francês. Ele lembrou que, na época, o estudo de francês fazia parte do Seminário Menor, sendo uma etapa obrigatória da grade curricular: “No quarto ano estudávamos grego e francês. Os livros em Petrópolis eram redigidos em latim ou em francês. Todos os Coirmãos tinham boa leitura desses idiomas. Então não havia a necessidade de se traduzir, já que a maioria de nós compreendíamos bem no idioma original”. Com a mudança nos currículos, o francês começou a não ser mais obrigatório e os padres passaram a não dominar mais a língua. Daí então surgiu a necessidade de se traduzirem as obras completas de São Vicente de Paulo. “Teria sido muito mais fácil se tivéssemos feito esse trabalho há 50 anos, porque teríamos a chance de distribuir entre os Coirmãos fluentes em francês e dar andamento ao processo com mais agilidade”, analisa Pe. Getúlio. O bloco das cartas, o das conferências, palestras e conversas para irmãs e o bloco das conferências para padres e irmãos foi revisto. Estavam manuscritos. “Queríamos traduzir as cartas principais. A partir do provincialato do Pe. Agnaldo Aparecido de Paula fui encarregado de coordenar esse trabalho”, recorda Pe. Getúlio.


Cosme, Pe. Gétulio, Pe. Lauro e Douglas - a equipe de tradução sob as bênçãos de São Vicente

Uma dinâmica editorial que privilegia a correção Realizar um trabalho de tradução deste porte não é tarefa fácil. O coordenador explica como ocorreu a sequência de adesão da equipe, quando foi colocado em Brasília (DF) e iniciou o trabalho de tradução do tomo I, dia 19 de março de 2008: “Trabalhava com Lamartine, digitador e formatador. Desde então Pe. Lauro Palú já se envolveu na tarefa de revisão. Em 2011 fui para Badaró (MG) e lá conheci Douglas Gomes de Oliveira, que veio a integrar a equipe, fazendo o trabalho assumido inicialmente pelo Lamartine”. Antes de se ocupar com a versão brasileira das Obras Completas de São Vicente de Paulo, Pe. Getúlio trabalhou em diversas frentes missionárias da Província: “em 2013 vim para a Casa Dom Viçoso, não como recolhido, mas especificamente para trabalhar na tradução das Obras Completas. Aqui se construiu uma equipe formada pelo Visitador Provincial, pelo ecônomo, por mim e pelo Pe. Vinícius Augusto Teixeira e Fráter Henrique Cristiano José Matos. Aí definimos a identidade visual com a aprovação total do Fráter Henrique, que tinha o papel de garantir a ex-

celência gráfica da coleção, que seria lançada no Brasil. O comentário do Fráter foi: “excelente, não pode melhorar”. Pe. Vinícius colaborou na concepção da versão brasileira e teve o papel de intermediar a relação com a editora O Lutador. Valdiney do Carmo, contratado pela editora, ocupou-se das artes gráficas e trabalha na produção dos volumes da coleção até hoje. A maior dificuldade, segundo a equipe, será a composição do volume XIV. Para tal, cogitam retirar do índice as minúcias de lugarejos e de personagens mais secundários e outras coisas, além de atualizar os tópicos que se colocarão nesta seção da publicação. Um índice atual destacará as novas categorias teológicas, práticas pastorais e linhas de ação que as Assembleias Gerais e os Superiores Gerais foram produzindo e propondo: “Não há necessidade de se fazer um índice superexaustivo, mas deve ser inspirador para nossas pregações, nossos retiros e nossas festas e, especialmente, para a animação dos outros grupos da grande Família Vicentina” pondera Pe. Lauro Palú. Os colaboradores externos comentaram o que significa, para eles, participar desse projeto: >>>

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Cosme Damião da Silva afirmou que considera surpreendente o fato de o Pe. Getúlio conduzir esse importante trabalho já com idade avançada e sem férias há dois anos. Já Douglas de Oliveira, que hoje cursa faculdade de Sistemas de Informação, conta que se ateve à correção do português a partir da convivência com Getúlio. O Padre comemora: “ele aprendeu o bom português a ponto de me corrigir! Escritor tem que escrever com dicionário ao lado. Feliz daquele que duvida, quem não duvida é burro”. Fidelidade à obra original surpreende os franceses Recentemente os franceses decidiram acrescentar à coleção das Obras Completas um tomo XV, publicado na revista Mission et Charité, composto por cartas novas, descobertas após a edição feita pelo Pe. Pierre Coste. No entanto, a equipe de tradução da PBCM optou por ir encaixando as cartas deste novo tomo nos oito volumes das correspondências, de acordo com a data de cada documento. O objetivo da equipe é que a informação esteja disposta de forma prática e funcional. Conforme relata Pe. Lauro Palú, as Províncias da Espanha, Itália, França, Polônia e dos Estados Unidos foram descobrindo outros escritos inéditos e lançando edições mais recentes: “Na França é vendido a muito bom preço cada autógrafo de São Vicente em leilões editoriais. Estão fazendo uma edição crítica agora em Paris com todos esses inéditos”, antecipa Pe. Lauro. Pe. Getúlio rememora que traduziu os primeiros quatro tomos e que os quatro volumes seguintes foram vertidos para o português pela Irmã Neil Pimentel: “A dificuldade relativa à tradução de toda a obra está no francês antigo do século XVII que, segundo os próprios franceses, não é algo fácil de se traduzir. “Ouvi isso do ex-secretário geral da Congregação, Pe. Emeric Amiot d’Inville, que comentou, na reunião de missionários, em 1997, ser de difícil tradução até para os próprios franceses, por conter palavras e expressões que caíram em desuso. Em Brasília, selecionei 50 frases difíceis de traduzir. Um Padre francês a quem consultei confirmou essa dificuldade, me deu razão e não foi capaz de resolver uma única questão”. Os tomos IX e X foram publicados pelos portugueses, italianos e espanhóis em um único volume. A equipe da PBCM optou por colocar em dois volumes, conforme o original em francês. No entanto, o processo foi diferente com relação a estes volumes. Nos volumes VIII e XIII há correções feitas pelo autor, Pierre Corte. O volume VIII está sendo finalizado atualmente. O bloco das cartas será finalizado até o final de 2019. O bloco de conferências das Irmãs já está sendo revisto pelo Pe. Lauro Palú. A Irmã Neil está traduzindo o volume XIII, dos Documentos. O conteúdo das cartas de Santa Luísa, por exemplo, era mais fácil de ser entendido em espanhol, segundo o Pe. Michel Lloret, diretor geral das Irmãs. Segundo o Pe. Lauro Palú, os Padres Bernard Koch e Claude Lautissier, da Casa Mãe de Paris, foram consultados diversas vezes e responderam sempre prontamente, depois de fazerem a pesquisa necessária, quando o assunto era mais técnico ou datado. Por exemplo, quando questionados sobre o que quer dizer "la comité", o Pe. Lautissier respondeu que o significado se referia à convivialidade, ao companheirismo, ao ambiente caloroso entre os membros de uma mesma comunidade. Vem do latim, comes, cómitis, que quer dizer companheiro. Já não se registra nos dicionários de hoje. Pe. Lauro contou que os franceses estão admirados e muito bem impressionados pelo cuidado que a equipe de tradução da PBCM emprega na tradução da obra para o português, já que foram feitas diversas consultas ao estilo do exemplo citado. Na Casa Mãe, secretários, arquivistas e bibliotecários estão organizando um dicionário de São Vicente de Paulo, com todas essas palavras, expressões e alusões, persona-

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gens, usos, tradições, que não estão registrados nos dicionários de hoje e são consideradas raras, não sendo encontradas facilmente em mesmo na internet. Este glossário, conforme explicou Pe. Lauro, servirá para todas as traduções a fazer, para as biografias, os estudos críticos, etc. “Sou muito grato aos Coirmãos que responderam às minhas dúvidas. Acho que todos nós, da língua portuguesa, deveremos ter gratidão a esses Coirmãos pesquisadores e a seus auxiliares, secretários, bibliotecários, etc.”, disse Pe. Lauro. A contribuição da Filha da Caridade Irmã Neil Pimentel Na ocasião, a equipe da PBCM ressaltou a importância da contribuição da Irmã Neil Pimentel, Filha da Caridade, nas traduções: “Ela tem o dom de traduzir com maestria. Às vezes uma frase complicada sai em português fluente, sem ser infiel. Além de ser muito elegante, é felicíssima em exprimir o que está no idioma original, sem ser servil. Colaborou e colabora muito”, reconhece Pe. Getúlio. A Irmã Neil Pimentel não pôde estar presente no bate-papo com a equipe de tradução, realizado na Casa Dom Viçoso no dia 21 de novembro, por motivos de saúde. Contudo, como ela acompanhou o processo de tradução das Obras Completas, dando uma contribuição inestimável por meio da tradução rigorosa de quatro, dos 14 tomos, fomos conversar com ela pessoalmente na Casa Provincial das Filhas da Caridade, no Rio de Janeiro.

Que a Família Vicentina tenha coragem de correr riscos em favor dos pobres, mas uma ousadia baseada na convicção de que estamos buscando servir a Deus por meio das nossas ações e da colaboração de nossos irmãos Recebeu-nos sentada, por conta de um problema na perna, porém não faltou simpatia e lucidez em seu raciocínio. Ela contou que está traduzindo o volume XIII, considerado por muitos o mais difícil, uma vez que abarca vocabulário jurídico, além das dificuldades de tradução já conhecidas. Segundo a Irmã, a dificuldade se dá porque os documentos publicados pelo Pe. Pierre Coste reuniam elementos pessoais, detalhando locais, muitos só existentes naquele tempo e nas cidades e províncias citadas. Ir. Neil já possuía experiência com tradução, pois realiza a versão em português dos “Ecos da Companhia”, publicados em francês. Também atuava como tradutora e revisora de todas as edições: “Nas cartas de São Vicente percebi o grau de dificuldade já que se tratava de um francês antigo. Embora às vezes eu sinta que Pierre Coste tenha usado algumas construções propositalmente, algumas palavras não existem mais”. Irmã Neil afirma que, por vezes consulta seus pares na equipe de tradução e outras vezes prefere refletir individualmente: “Às vezes demoro bastante para encontrar o sentido de um pequeno trecho, muitas vezes por conta do uso de períodos muito longos. Temos que ser exatos, porém a tradução não pode ser literal”. Sobre o cuidado com o sentido empregado por Vicente: “Ontem, por exemplo, passei o dia inteiro em dois parágrafos das Conferências, seguindo o nosso intuito de manter a fidelidade aos originais. Por exemplo: ele fala em distribuir as coisas “par ordre du pain. Literalmente, seria por ordem do pão bento, mas no contexto das obras achei que não faria sentido”, lembra Ir. Neil, que teve de refletir e pesquisar a referência correta. A Irmã partilha outra questão que chamou a sua atenção. O fato de São Vicente referir-se a todo tipo de gente. Segundo ela, lendo as obras completas é possível ver >>> INFORMATIVO SÃO VICENTE 19


que São Vicente falava com todos e todas e para todos e todas: “As cartas eram variadíssimas. Escrevia a pobres, rainhas, nobres, bispos, cardeais e também aos Coirmãos e a Santa Luísa”. Ademais, de acordo com a Irmã, faz-se nítida a obstinação de Vicente na construção da Congregação da Missão, posto que toda organização possui imperfeições. De acordo com a observação dela, um recurso de gestão utilizado por ele era nunca começar pelas advertências. Uma vez que os tradutores não apenas verteram para o português, mas também realizaram uma leitura muito cuidadosa do texto, a Irmã nos diz o que mais lhe chamou a atenção na obra em questão:

“Traduzi as cartas, os volumes V, VI, VII e VIII e o que me chamou a atenção foi como São Vicente se revela um professor comprometido com o evangelho. Ele possuía um amor louco por Cristo e pelos pobres. Agora, quando se tratava da pessoa dele, era estranhamente desprendido e amoroso. Era também hábil em conversar com as pessoas”. São Vicente sob o olhar dos tradutores De acordo com Pe. Lauro Palú, nas conferências publicadas São Vicente demonstra que estava plenamente consciente de que estava fundando e fundamentando seriamente uma Congregação que deveria durar e ser eficiente na missão que Deus lhe 20 INFORMATIVO SÃO VICENTE

deu. Pontua, portanto, que as Conferências do Fundador da Congregação da Missão não devem ser consideradas apenas colóquios íntimos: “São Vicente estava criando uma obra, alicerçando-a, buscando fortificá-la pelos atos que sugeria ou prescrevia, consciente dos problemas que decorrem de cada um agir pela própria cabeça. Essas Conferências são de natureza pública, diferentes, por exemplo, dos conselhos a um Irmão, ao Pe. Antoine Durand etc.” enfatiza Pe. Lauro. Uma das preocupações que toda a equipe de tradução tem tido é com a destinação e o uso que será feito das Obras Completas de São Vicente, já que, até o momento, não foi divulgado o planejamento de difusão da coleção. Uma ação de divulgação desse trabalho, para que o mesmo alcance mais pessoas afins com o carisma vicentino, aproximandonos da finalidade máxima da Congregação da Missão, se faz necessária. Outro ponto destacado pela Ir. Neil a respeito da personalidade de São Vicente, revelada nas Obras Completas, é sua capacidade de separar o indivíduo de suas ações. Como exemplo ela citou a maneira de São Vicente lidar com o jansenista Ir. Neil, em seu escritório no Rio de Janeiro Saint-Cyran: “São Vicente combatia determinados comportamentos com suas atitudes, mas sempre empreendia um relacionamento respeitoso com as pessoas. Combater o pecado, mas acolher o pecador”. De acordo com a Ir. Neil as Filhas da Caridade são a mais ousada fundação de São Vicente: “Nenhuma miséria pode nos ser estranha. Está faltando muito essa ousadia. Teremos por claustro as ruas da cidade, como disse São Vicente. Temos creches, asilos, hospitais, escolas. São Vicente foi um homem simples e corajoso; nos miramos neste exemplo”. Quando convidada a fazer um exercício de imaginação, e questionada sobre que acha que São Vicente diria hoje para a Família Vicentina, Irmã Neil


OBRAS COMPLETAS DE SÃO VICENTE ESTADO DA ARTE . Tomos publicados: I, II, III, IV, V, VI, VII, XI e XII = 6.166 páginas do francês. . Tomos a serem publicados: Tomo VIII, IX, X, XIII e XIV = 3.614 páginas do francês. . Somando os tomos I, II, III, IV, V, VI, VII, XI e XII já publicados, temos 60,3% da obra já concluídos. . Tomo VIII – Traduzido pela Irmã Neil, revisto pelo Pe. Lauro, atualmente, pelo Pe. Getúlio . Tomos IX e X – Já foram traduzidos pela Província de Portugal e foram reunidos em um único volume. A equipe optou por publicar em dois tomos. Foram digitados e formatados, segundo o padrão adotado para os demais tomos. A tradução de Portugal deverá ser revista e adaptada ao português do Brasil. . Tomo XIII – Está sendo traduzido atualmente pela Irmã Neil. . XIV – Índice que deverá ser revisto e completado segundo o interesse e a exigência dos assuntos atuais. . Quantidade de palavras de toda a obra: Aproximadamente 2.500.000 palavras. . Quantidade de palavras já traduzidas: 1.500.000 palavras. Curiosidade: Em sua obra São Vicente raramente afirma um número qualquer. Ex: diz 1 ou 2, 10 ou 12.

responde, com brilho nos olhos: “Que seja mais ousada. Que tenham coragem de correr riscos. Mas uma ousadia baseada na convicção, na certeza de que estamos buscando servir Deus através dos nossos irmãos. São Vicente não fechou os olhos diante de nenhuma dificuldade. E uma coisa que ele disse para nós é que nenhuma miséria pode nos ser estranha. Então acho que está faltando muito essa ousadia. Agora, como sou revisora do Ecos da Província, percebo que em muitos países as irmãs estão muito avançadas. Elas estão se lançando mesmo em determinados projetos. São Vicente, na sua época, ousou mandar as irmãs para o campo de batalha para atender os soldados”. Já para Pe. Getúlio, a partir desse trabalho de tradução e de uma leitura mais cuidadosa das Obras Completas de São Vicente de Paulo, desfez-se sua impressão de que Vicente seria um homem marcadamente severo e rigoroso, reconhecendo, em sua fala e atitudes, traços de sensibilidade e ternura. Inclusive em seu livro “Um místico da missão”, Pe. Getúlio registra que “São Vicente tinha um sentido muito profundo da vida do pobre em sua integridade e uma grande sensibilidade para com suas exigências (...) E procurou responderlhes ao clamor, mobilizando recursos, pessoas e sobretudo todas as energias do seu coração, dentro das condições históricas e com a consciência possível, no seu tempo.” >>>

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Pe. Sebastião Carvalho na capela da Casa Dom Viçoso

Leitura diária das Obras Completas de São Vicente de Paulo na Casa Dom Viçoso Pe. Sebastião de Carvalho Chaves, superior da Casa Dom Viçoso, conta que realizou uma consulta junto aos coirmãos da casa e a partir de então foi decidido que leriam as Obras Completas de São Vicente diariamente, no final das orações matutinas: “Ao final, temos de 10 a 15 minutos que dedicamos à leitura das Obras Completas de São Vicente de Paulo. Fazemos assim desde 2013. A maioria decidiu por esta leitura. Estamos no tomo IV. A última carta lida foi a de nº 1480, “ao irmão Leonardo Lamirois, em Gênova”. Conta que, ao final de cada leitura, costumam partilhar reflexões a respeito do conteúdo. “A última carta lida, por exemplo, falava de um irmão cozinheiro. São Vicente valorizava todo tipo de serviço, comparando o serviço do irmão com a Divina Providência”, comenta o Pe. Sebastião. Outro ponto de destaque dessas leituras é a escuta atenta do Pe. Getúlio: “Ele toma nota caso detecte qualquer equívoco nas traduções e pede para todos anotarem também”. A quem se destina prioritariamente este trabalho Publicar este material fundamental em português ajudará toda a Família Vicentina, que tem uma forma específica de seguir Jesus Cristo, no serviço dos Pobres. Foram produzidas boas biografias de São Vi22 INFORMATIVO SÃO VICENTE

cente em português e em outras línguas. Mas nada se compara ao sabor das cartas e das falas do santo Fundador. Quando o Papa Francisco citou São Vicente como um “humorista”, ao lado, por exemplo, de São Felipe Néri, estava, por certo, lembrando-se de frases de São Vicente ou atribuídas a ele, como quando, ao falar do missionário que escapou de um naufrágio e ficou vários dias sem comer, comentou que o Padre tinha até bastante apetite. Ou quando disse que fulano gostava muito da Congregação, tanto que já havia entrado nela duas ou três vezes. As cartas do Santo e suas Conferências, especialmente às Irmãs e às Voluntárias da Caridade, estão cheias de atitudes pastorais de respeito e cordialidade. Tanto São Vicente como Santa Luísa foram magistrais em sugerir os atos de caridade na visita aos Pobres, no cuidado dos Doentes, no trato com homens e mulheres de fora da comunidade. É possível observar a prudência nas palavras e nas decisões, sobretudo quando os problemas terminam nos tribunais, com os processos frequentes e ao sugerir as atitudes de perdão e reconciliação aos membros das Comunidades, Padres, Irmãos, Irmãs e Voluntárias da Caridade. A partir da leitura das Obras Completas de São Vicente de Paulo, lendo e anotando suas sugestões, seus conselhos, torna-se possível enriquecer as pregações, os retiros, e não se corre o risco de repetir apenas três ou quatro palavras que ainda são lembradas das leituras do tempo de Seminário Interno.


O esmero de um tradutor O que desejo acrescentar é um elogio superlativo ao trabalho empreendido pelo Pe. Getúlio Grossi. É espantosa a quantidade de textos que ele preparou até agora para a publicação: já são sete e em seguida serão oito os volumes da Correspondência e os dois das Conferências aos Padres e Irmãos. Descrevo um pouco este trabalho gigantesco: nas páginas digitadas por algum dos tradutores, numa primeira correção, anotei, por exemplo, umas sete mil correções a fazer. Algumas, de tradução, outras, quase todas, de digitação, espaço duplo entre palavras, plural com singular, acentos, hífens etc. Pois o Funcionário que digitava as correções era orientado pelo Pe. Getúlio, para incorporar ou não cada correção ou as sugestões. Depois de tudo emendado, o Pe. Getúlio ainda repassava todas as páginas, verificando o texto e conferindo-o com os originais franceses ou latinos (e me disse que às vezes vai até à tradução espanhola). Sei como isso é um trabalho cansativo, desgastante, aparentemente inútil, pesado demais e de poucos ganhos. Novas tarefas para o digitador e a atenção duplicada para não escapar nada... Vindo o volume da Editora O Lutador, o Pe. Getúlio dividia o volume em três ou quatro partes, pedindo a outras pessoas, em geral Coirmãos mais atentos e cuidadosos, uma revisão, por alto, antes da autorização para a impressão. Vi com que rigor e exatidão o Pe. Getúlio ia,

cada manhã, ao escritório, no Centro Social Pe. Raimundo Gonçalves, para seu trabalho. E uma coisa que me impressionou, nas vezes em que vi o funcionário trabalhando com o Pe. Getúlio, foi notar o ambiente de cordialidade, alegria, paz e colaboração entre os dois, coisas que nem sempre conseguimos com nossos colaboradores ou eles nem sempre recebem de nossa parte. Nossas Províncias e os vários ramos da Família Vicentina de língua portuguesa terão muitíssimo o que agradecer ao Pe. Getúlio, pelo trabalho imenso que coordenou e pela parte substancial que realizou sozinho, nas revisões sucessivas até à versão definitiva. Pe. Lauro Palú

Para adquirir os Volumes já traduzidos das Obras Completas de São Vicente de Paulo, ligue para a Sede da PBCM: (21) 2556-1055


COTIDIANO PROVINCIAL por Fernanda Lima (Pastoral da Comunicação) e Pe. Erik Carvalho

Procissão de bicicletas marca a celebração do dia de N. S. Aparecida no Riacho Fundo II - DF Centenas de fiéis participaram da comemoração que contou com celebração eucarística, almoço e programações especiais para as crianças

Para celebrar a data da padroeira do Brasil e de Brasília, a comunidade Nossa Senhora Aparecida do Riacho Fundo II – Distrito Federal, mobilizou toda a Paróquia Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, reunindo centenas de fiéis, no dia 12 de outubro deste ano. Na comemoração especial, os devotos participaram de uma procissão, a pé, de bicicleta e também de carro. A mobilização emocionou e chamou a atenção dos moradores da cidade. Há três anos, o feriado de Nossa Senhora Aparecida é comemorado no Riacho Fundo II com procissões que unem ciclistas devotos da Mãe de Deus. A ideia partiu do pároco e do vigário da Paróquia e membros da Congregação da Missão, padre Paulo José e padre Erik de Carvalho, respectivamente. Para os religiosos, a celebração é única, pois permite que a comunidade participe de uma forma diferente das mais comuns. A ideia da procissão de bicicleta surgiu em uma reunião do Conselho Pastoral Comunitário, com o padre Erik e membros da comunidade Nossa Senhora Aparecida, em 2015. “Nesse primeiro momento, não tínhamos ideia do que seria essa Solenidade da Bem-aventurada Virgem Maria. Sendo assim, a comunidade ficou com receio de empreender tamanhos esforços para mobilizar a Paróquia inteira e não obter resposta. Por isso, preferimos deixar para o próximo ano”, conta o religioso. Foi então que, em 2016, com a ideia de fazer uma festa diferente para celebrar o dia da padroeira de Brasília e do Brasil, os padres organizaram a procissão de bicicletas. Ao recordar da primeira celebração, padre Erik disse que a comunidade abraçou a realização da festa e, para surpresa de todos, a Solenidade foi um sucesso, contando com a participação de grande parte da população do Riacho Fundo II. Após a primeira experiência, a festa foi crescendo

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cada vez mais e passou a contar ainda com novenas em prol da comemoração da festa de Nossa Senhora. “A festa foi crescendo a cada ano. Na primeira, por exemplo, não tínhamos ideia que tantas pessoas iriam participar. Então, estamos aprimorando cada vez mais, inclusive nas refeições que são vendidas após a missa. A ideia é sempre serem comercializadas por um preço acessível, não visando o lucro. E essa celebração é muito especial. Fiz uma pesquisa, e, até onde eu sei, essa é a primeira procissão de bicicletas que existe. Não ouvi falar de outra”, explica padre Erik. Na celebração desse ano, a novena foi realizada cada dia em uma comunidade da cidade. No dia 12 de outubro de 2018, os devotos deram início à comemoração às sete horas da manhã, na Matriz da cidade. Inicialmente, a comunidade rezou um terço e recebeu as bênçãos do vigário. Em seguida, foi iniciada a procissão que seguiria até a capela Nossa Senhora Aparecida (no Caub II), localizada a aproximadamente 10 km da Matriz Nossa Senhora da Medalha Milagrosa. A imagem de Nossa Senhora foi levada pelo padre Erik, rodeada de flores, em um carro que puxava o comboio dos fiéis. No caminho, a comunidade de São Daniel Comboni, que fica na metade do trajeto, distribuiu água para as centenas de fiéis que participavam da procissão. Ao chegar à Capela Nossa Senhora Aparecida, os fiéis foram acolhidos pela comunidade e acomodados na quadra de esportes da região, onde foi realizada a Celebração Eucarística. O padre Erik presidiu a Missa, e o padre Paulo e o então diácono Paulo César Silva concelebraram, dando destaque ao ato de devoção à santa protetora do país. Um dos destaques foi a entrada dos padroeiros de todas as comunidades do Riacho Fundo II.


Rosalinda dos Santos Vieira Novais, membro da comunidade Nossa Senhora Aparecida desde a sua criação, há 30 anos, falou sobre o evento. Rosa, como é conhecida, participa ativamente da campanha da Mãe Peregrina e da Pastoral da Liturgia, além de sempre estar ajudando nos eventos promovidos pela capela, incluindo a famosa procissão. “Foi gratificante participar da realização da festa de Nossa Senhora e poder acompanhar de perto a devoção do povo por Maria, Mãe de Deus e nossa. O momento mais emocionante foi a chegada dos fiéis”, explica. Ao comentar a festa do Dia da Padroeira do Bra-

Solene, faz parte Pastoral da Música e divulga os eventos promovidos pela comunidade. “A festa de Nossa Senhora Aparecida é muito bonita e une todas as comunidades do Riacho Fundo II. É possível perceber a fé e o entusiasmo das pessoas”, conta. Após a Celebração Eucarística, o público teve a oportunidade de saborear uma deliciosa galinhada, preparada pela comunidade e vendida a um preço acessível. Em seguida, aconteceu o bingo de uma bicicleta, e a vencedora foi Lucélia Emília, membro da comunidade Nossa Senhora Aparecida. Além disso, pela primeira vez, a comunidade organizou uma

Foto: Fernanda Lima

Paroquianos percorreram 12km de bicicleta até o local da celebração

sil, Rosa relembra sua bela história de devoção. “Minha família sempre foi devota de Nossa Senhora Aparecida. Minha mãe sempre nos deu este testemunho de devoção a Maria e aqui em casa sempre confiamos em sua intercessão junto a Jesus nos momentos de dificuldade. Participar da festa da Padroeira é um momento de ação de graças a Deus por todas as bênçãos alcançadas por intermédio de Nossa Senhora Aparecida”, afirma. Dando continuidade à tradição de devoção a Nossa Senhora, a filha da Rosa, Daniela Novais, também participou da organização das três edições da procissão. A estudante, que cantou durante a Missa

programação especial para celebrar também o Dia das Crianças. No período da tarde, os pequenos aproveitaram para participar de atividades como gincanas e pintura de rosto e também brincaram em brinquedos infláveis. “Estamos evoluindo a cada edição. Por isso, na comemoração de 2019, pretendemos trabalhar ainda mais na organização, buscando sempre melhorar a recepção dos peregrinos. A ideia é sempre envolver toda a comunidade e, também, convidar os fiéis, aumentando e deixando cada vez mais bonita a nossa procissão”, finaliza padre Erik.

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PA S T O R A L V O C A C I O N A L Por Pe. Denílson Matias

Primeiro Encontro dos Diretores Vocacionais da Congregação da Missão Mais de 50 coirmãos se reuniram na Maison Mère, em Paris, para tratar da Cultura vocacional na CM

A questão vocacional tem sido objeto de constantes reflexões na Igreja. Do mesmo modo, é algo que afeta e inquieta diretamente a Congregação da Missão. Passados os 400 anos do aniversário do Carisma Vicentino, a Congregação da Missão se preocupa e quer ocupar-se, em nível de prioridade, da questão vocacional. É tempo de criar uma cultura vocacional que perpasse a vida dos missionários vicentinos. Esta cultura pode gerar em nosso meio a consciência de que todos nós somos responsáveis pela reflexão e pela práxis da pastoral vocacional. A continuidade do nosso carisma depende da real aplicação dos nossos esforços, em todos os níveis, no Serviço da Animação Vocacional, e isto deve partir de ações concretas advindas da vivência de uma cultura vocacional. De modo geral, a realidade que temos vivido na Congregação da Missão é de declínio no número de vocações, mais intenso do hemisfério norte. Por outro lado, em diversas partes, as províncias têm tido abundantes vocações (Ex: África, Ásia, Polônia, América Latina). A Congregação não passa por um momento de trevas, no que concerne o número de aspirantes e dos Coirmãos Admitidos. Não estamos no vermelho. Temos conseguido manter um nível de membros incorporados, apesar das saídas e mortes. Comprova-se que temos condições de aumentar o número de membros. Em termos de aspirantes e de Coirmãos Admitidos, numa contagem geral, estamos bem. Não obstante, corremos o mesmo risco de declínio numérico, caso não assumamos a Animação Vocacional como prioridade. A Animação Vocacional não pode ser considerada um serviço menos impor26 INFORMATIVO SÃO VICENTE

tante, que fica na periferia dos demais apostolados, em uma província. Parte do desejo do nosso Superior Geral, o Pe. Tomaž Mavrič, e da necessidade que temos para realizar um trabalho vocacional mais efetivo, estabelecer uma cultura vocacional no centro da vida da Congregação. Há algum tempo ele nos tem incentivado a desenvolvê-la em nossas áreas de atuação. Neste ano, os bispos se reuniram em Roma para discutir o tema das “juventudes, a fé e o discernimento vocacional”; ou seja, trata-se de um assunto importante e atual. Se Deus continua chamando, o problema não é necessariamente dos chamados, mas dos que chamam. A cultura vocacional, enquanto estilo de vida, nos ajudará a repensar os efeitos do nosso testemunho enquanto meio direto para atrair os jovens. Neste encontro, éramos mais de sessenta Coirmãos reunidos, imbuídos de um mesmo espírito: o de compartilhar experiências, de descobrir as nossas Foto: Oficina de Comunicación CM

O Centro Internacional de Formação (CIF – Paris, França) convocou o primeiro encontro de Diretores Vocacionais da Congregação da Missão, do dia 19 de novembro a 1º de dezembro de 2018. Este encontro foi sediado na Casa Mãe, dos Padres e Irmãos Vicentinos, na Rue de Sèvre, 95, em Paris, França.

O Superior Geral, Pe. Tomaž Mavrič e o Pe. Denilson Matias, durante o encontro


Foto: Oficina de Comunicación CM

Diretores vocacionais de todo o mundo reunidos na Casa Mãe, em Paris

debilidades e as nossas deficiências para então propor caminhos novos para um Serviço de Animação Vocacional eficaz na nossa Congregação da Missão. Este encontro foi vivido e celebrado por Coirmãos dos cinco continentes, da maioria das nossas províncias. Esta reunião internacional nos fez perceber que o caráter internacional da nossa vocação vicentina deve ser cada vez mais ressaltado na nossa “propaganda” vocacional; uma vez que a cultura vocacional nos leva a pensar que nossas províncias necessitam ajudar-se mutuamente. Inclusive, na questão do envio de missionários. Somos uma só congregação. Façamos um rápido resumo do encontro. Pe. Andrés Motto, o Diretor do CIF, nos introduziu à dinâmica do encontro e logo depois, tivemos a primeira colocação, com o Superior Geral: "A Importância da Promoção Vocacional para a CM” (Isto aconteceu em nível de diálogo). Nossa segunda formação foi sobre "A Realidade e o Contexto da Promoção Vocacional”, com a Ir. Thérèse Read, das Irmãs de Caridade de Santa Joana Antida Touret. O Pe. Rolando Gutiérrez, CM, nos falou a respeito das “Estatísticas e realidade da promoção vocacional na CM”; não podemos jamais nos esquecer da vocação dos Irmãos, que tem estado em declínio constante em nossa Congregação. Pe. Roberto Gómez, CM, trabalhou conosco "Os fundamentos bíblicos para uma cultura das vocações"; enquanto, o Pe. Andrés Motto trabalhou o tema da “Tradição Vicentina e os desafios vocacionais para a CM". Tivemos a colaboração do Pe. Robert Maloney, CM, com a palestra “A formação permanente e a criação de uma cultura vocacional para a Congregação”. O Pe. Amedeo

Cencini nos falou sobre "Uma cultura de vocações (A relação entre a nova evangelização e uma cultura das vocações – esclarecimento dos conceitos)” . O Ir. Francisco Berbegal, CM, veio alertar-nos a respeito da vocação do Irmão: os desafios que hoje nos apresenta a vocação do Irmão, na Congregação da Missão, dentro da cultura vocacional. Pe. Javier Álvarez, CM, nos falou do "Ministério da promoção vocacional na Ratio Formationis”. “A pedagogia e o acompanhamento vocacional" foi o tema trabalhado com o Pe. Frédréric Pellefigue, CM. O Pe. Jacek Piotrowski, CM, nos expôs sobre o "Acompanhamento Vocacional". O Pe. Rolando Gutiérrez, CM, trabalhou o desafio da cultura vocacional vicentina e terminamos com a questão da comunicação digital na promoção das vocações, que foi o tema do Pe. Jorge Luis Rodríguez, CM. Para todos os conteúdos tivemos tempo para pensar, partilhar experiências e questionar-nos a partir das nossas estruturas. Um documento final sobre o encontro foi lançado e pretende-se, com a anuência do Conselho Geral, criar uma Comissão Internacional para a Pastoral Vocacional, na Congregação da Missão. Certamente, este foi um momento de graça para toda a Congregação. Não é fácil aterrissar os conteúdos; mas urge-nos a necessidade de adquirir mais eficácia no nosso trabalho de pastoral vocacional enquanto trabalho de todos os membros da Congregação. A Cultura Vocacional nos responsabiliza e pede que assumamos com amor este serviço. Espero, em algum momento, poder partilhar com os demais Coirmãos os temas que aqui estudamos. Que o Senhor nos abençoe hoje e sempre. INFORMATIVO SÃO VICENTE 27


AÇ ÃO SOCIAL

Da Redação

Jornada Mundial dos Pobres Foto: Sacha Leite

Ação social na Paróquia N. S. da Glória reune mais de 500 moradores de rua

No dia 17 de novembro a paróquia Nossa Senhora da Glória abrigou uma ação conjunta pela Jornada Mundial dos Pobres. Organizado pela Pastoral de Rua, o evento envolveu cinco paróquias, diversas comunidades e cinco colégios, dentre eles o Colégio São Vicente de Paulo. Na ocasião foram oferecidos almoço, atendimento médico, psicólogo, assistência social, banho e outros serviços. Muitas comunidades se envolveram, como a Shalom e a Toca de Assis, que proporcionou corte de cabelo e barbearia para os participantes da ação.

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Foto: Adriano Ferreira, CM

Neide Silva, Secretária do CSVP, comentou que ficou muito sensibilizada por ter participado da mobilização no dia anterior ao evento: “Saímos eu e Amanda, assistente social da Paróquia Nossa Senhora da Glória. Moradores de rua são invisíveis para nós. Em geral passamos, mas não reparamos que ali há um ser humano. Entregamos o convite impresso e envelopado. Quando perguntam se podem levar convidados dizemos que sim. Assim eles se sentem gente. É uma ajuda pequena, mas somando a outras, faz diferença.

Membro da Toca de Assis colabora na Jornada

Foto: Sacha Leite

A Assistência Social da PBCM realizou uma campanha arrecadando 312 pares de sandálias havaianas junto aos alunos do Colégio São Vicente de Paulo. Os pares de chinelos integraram kits de higiene com outros itens entregues na oportunidade, quando foram recebidos cerca de 500 moradores de rua. A comunidade vicentina também contribuiu para a refeição oferecida e prestou assistência no encaminhamento para serviços públicos.

Equipe do CSVP recolhe doações de chinelos junto aos alunos

Moradores de rua tomaram banho, almoçaram, receberam roupas novas e kit de de higiene


FAMÍLIA VICENTINA

por Pe. Raimundo João da Silva

Santas Missões Populares Vicentinas Rumo à missão no Vale do Jequitinhonha Abrindo o curso de formação teológica missionária de 2018, a Família Vicentina regional de Belo Horizonte inaugurou o caminho para a realização da Santa Missão Popular Vicentina, na paróquia de São Roque, em Itaobim, no nordeste de Minas Gerais, no Vale do Jequitinhonha, em janeiro de 2019. Neste tempo de preparação, iluminados pela proposta de rezar o "Ano Nacional do Laicato, os missionários refletiram também sobre outros temas que contemplaram: primeiramente, um olhar sobre a realidade onde irá acontecer a Missão, em um segundo momento, um estudo sobre a proposta e a dinâmica da Missão Popular Vicentina. Em terceiro lugar, as visitas domiciliares e os encontros, proposta que envolveu o trabalho em equipe, a abertura para o relacionamento interpessoal e o respeito às diferenças. No curso de formação para as missões, os missionários são chamados a abraçar as ações missionárias como projeto de vida, isto é, tendo em vista as Propostas e Dinâmicas da Santa Missão Popular Vicentina que se alicerça na pessoa de Jesus, pelo Carisma Vicentino nas reflexões, que são essenciais para que o missionário se sinta fortificado na opção preferencial pelos pobres, tendo clareza da sua vocação cristã, fazendo uma experiência profunda de Deus a partir de um jeito novo de evangelizar, respeitando as diferenças culturais e religiosas. Em 2019, mais uma vez receberemos o apoio da Família Vicentina Regional do Rio de Janeiro e do núcleo do MISEVI de Prudentópolis, PR. Outro ponto relevante neste trabalho de evangelização são os critérios que levaram a família vicentina a escolher a Paróquia São Roque, em Itaobim. O pedido do Pároco já supõe um critério determinante para que aconteça a missão em uma paróquia, mas é preciso considerar também outros pontos, tais como, a demanda que levou as lideranças paroquiais e os fiéis a despertarem para a necessidade de um momento de evangelização, e a realidade social apresentada, bem como alguns dados demográficos daquela região.

A paróquia São Roque é composta por oito comunidades urbanas e vinte e cinco rurais, distribuídas em pastorais, movimentos e uma Comunidade de Vida. A realidade social de Itaobim contempla, basicamente, atividades agropecuárias e industriais. Os principais produtos agrícolas são a laranja, a cana-deaçúcar, a mandioca, a banana e a manga. Na pecuária os maiores efetivos são de galináceos, bovinos, suínos e equinos. O tipo climático predominante é o Bsw (continental-seco) com precipitação média anual inferior a 1.000 mm e média das temperaturas máximas em torno de 34o C. Os meses secos (de abril a setembro) apresentam déficit hídrico. A temperatura média é de 24,5ºC com índice pluviométrico médio de 702,1 mm. O Vale do Jequitinhonha ficou nacionalmente estigmatizado como o vale da miséria e da seca, de uma população esfomeada, isolada e incapaz de reformular seu próprio destino. Na realidade do passado e para os que querem se aproveitar das dificuldades do presente, este discurso se encaixa perfeitamente, mas uma visita cuidadosa aos cantinhos e às pessoas do Vale é suficiente para ver que, apesar dos problemas, há muita riqueza humana, cultural e natural. Algumas famílias vivem exclusivamente da venda de suas panelas, esculturas e objetos de barro, que comercializam em tendas às margens da BR-367. A presença da BR é sinal de progresso, mas também permite a aproximação de diversos tipos de violência que marcam a vida do povo que não foi preparado para lidar com a novidade. Assim, se formam nossos missionários e missionárias tendo como expectativa esse grande acontecimento, as Santas Missões Populares Vicentinas, que não correspondem somente às coordenações dos ramos e núcleos de missionários leigos, mas a todos aqueles e aquelas que quiserem se dedicar, se preparar e se engajar nesse significativo trabalho para o povo de Deus. Que Jesus Cristo, o Evangelizador dos pobres ,nos anime e nos proteja!

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PERFIL

Por Padre Lauro Palú

Pe. Sebastião de Carvalho Chaves, CM Os 80 anos do Pe. Tião, um coirmão de coração jovem um ano e meio, e, em seguida, voltei para Petrópolis, onde o Irmão Carvalho já era diácono e foi ordenado logo em seguida. Foi a primeira festa que ajudei a organizar, no ano e meio que fiquei em nosso Seminário Maior. Na sessão festiva em homenagem aos neo-sacerdotes (Pe. Francisco Nunes Leite e ele), fizemos umas brincadeiras e o Tiãozinho, nome carinhoso com que era conhecido o seu Pai, nos divertiu pelas surpresas e porque reclamava que os estávamos fazendo de bobos, por exemplo, anunciando o coro do Seminário e um número de banda e aparecendo para as nossas palmas um couro de vaca, desenrolado lentamente para que todos pudessem apreciar o “coro" do Seminário... e o número de banda, um grande sete, pintado num cartaz, que o seminarista apresentou meio de lado, de fato, um número de banda!… Foto: Adriano Ferreira, CM

Creio que o gênio bondoso, alegre e divertido do Pe. Carvalho vem dessa fonte. Seu temperamento camarada e amigo o capacitava para o trabalho nos nossos seminários. E foi em Assis, São Paulo, o seu primeiro campo de serviço ao Senhor da messe, de 1967 a 1973, quando veio para Santa Bárbara, onde um grupo de adolescentes fazia seu seminário menor, no prédio do Patronato. Ali ficou até 1977, quando ele e os Alunos foram transferidos para o Engenho, que foi acomodado para ser a casa de formação inicial dos nossos candidatos. Entre o Engenho e o Caraça, permaneceu até 1988, quando pôde realizar também sua vocação missionária, trabalhando três anos na Prelazia de Cametá, no Pará, então regida por seu primo, Dom José Elias Chaves.

É totalmente inacreditável esta notícia que me chegou de repente: O Padre Sebastião Carvalho está completando 80 anos. E é verdade, pois nosso amigo não teve tempo de envelhecer, nem deixou o rosto encher-se de rugas e o coração, de negativismos, azedumes e manias. A bonita criança que ele foi, o coração jovem que o mantém, nasceu aos 30 de outubro de 1938 em Bambuí, de D. Maria da Conceição de Carvalho e de Sebastião Elias Chaves. É meu colega de chegada ao Caraça, em 1953, mas não de ordenação, pois cheguei em janeiro e entrei no 3º ano. Ele chegou em maio, me parece, para o 1º ano. Depois de ordenado Padre, fui trabalhar em Mariana, 30 INFORMATIVO SÃO VICENTE

Em 1991, foi colocado em Campina Verde, no


Foto: Arquivo do Caraça

Em 1953 o ano letivo começou com 186 alunos matriculados, dentre eles os Padres Sebastião e Lauro

trabalho paroquial, onde sua bondade inata se tornou ainda mais profunda, pelo esforço verdadeiramente pastoral de contato com o Povo de Deus. Cinco anos depois, foi para a paróquia do Calafate, onde encantou a todos com sua presença amiga e atenta, o bom pastor dedicado ao seu Povo. Mas já em 1997 voltou a Campina Verde, como Superior da Casa canônica e Formador no seminário menor São Justino de Jacobis. No início do novo milênio, veio para o Caraça, para os dois ministérios da casa, o pastoral e o pastoril... Como ecônomo local, no Caraça, pousada e centro de tantas atividades de peregrinação, cultura e turismo, e no Engenho, fazenda e também, aos poucos e cada vez mais, pousada complementar, quando os que procuram o Caraça já não cabem nas acomodações da Serra. Multiplicava-se nas viagens, nos atendimentos, na animação da Casa sempre mais visitada e necessitada de uma presença ministerial constante e consistente. De 2002 a 2004, foi membro do Conselho do Economato, sendo então eleito para o Conselho Provincial, no qual também foi escolhido como Assistente do Visitador. Finalmente, em 2012, foi chamado pela Província para um trabalho altamente merecedor de sua paciência, sua alegria, sua paz de espírito, sua atenção carinhosa com os doentes e os idosos, como Superior da Casa de Dom Viçoso, onde continua sua bonita missão. É de ver a alegria com que preside as missas na capela no Centro Social Padre Raimundo Gonçalves. Hoje é o bom pastor que deve apoiar os doentes e necessitados e o faz com o coração fraterno que cultivou e fez ainda mais atento e carinhoso. É discreto, acolhedor, divertido, caprichando para não deixar morrer a conversa nem esfriar o ambiente que

deve ser sereno e amadurecido, com os Coirmãos mais idosos da Província. Só Deus sabe quanto lhe pesam os sofrimentos dos outros, a agonia deles, a morte deles. Sei da qualidade de sua presença junto aos enfermos e aos idosos, pela vez que me acompanhou no Hospital Madre Teresa, onde fiquei internado para uma das biópsias que tive de fazer. Uma das graças recebidas pelo Pe. Sebastião Carvalho, sua serenidade e estabilidade de ânimo, é fundamental para o atual serviço na Província: Após os meses finais de um Coirmão, depois de seus Calvários e Tabores, é preciso manter sadio, alegre, desanuviado, calmo, pacífico, o ambiente da Casa, onde alguns têm mais vezes a ocasião de lembrar-se dos que se foram e dos que deverão ir, respondendo ao apelo final do Senhor. Com os sucessivos Coirmãos que falecem, o Pe. Sebastião mantém a paz na Casa, a alegria na convivência, o fervor na oração, o zelo pastoral nas liturgias e nas novenas perpétuas que preside. Nossa Província lhe agradece a presença altamente qualificada e a ajuda inestimável aos Coirmãos da Casa e aos que passamos por lá, mais ou menos frequentemente, indo aos hospitais, aos consultórios e às consultas com nosso Clínico, o Dr. Audary Cruz. Nossa Província rende ao Pe. Sebastião Carvalho as homenagens mais merecidas, o agradecimento mais justo, os votos mais fervorosos para que o Senhor o mantenha em seu ministério, o recompense pelos esforços fraternos de ajuda aos mais necessitados. Os ex-Alunos do Caraça, com quem trabalhou na associação deles, se unem a todos nós da Província neste abraço amigo, fraterno, caloroso. AD MULTOS ANNOS! INFORMATIVO SÃO VICENTE 31


N OTÍCIAS DA PBCM

Novo afiliado à Congregação da Missão A pedido da Comunidade dos Coirmãos da Comunidade da Casa Central, temos um novo afiliado à Congregação da Missão. É o Senhor Antônio da Silva, motorista do Colégio São Vicente de Paulo e que trabalha conosco há 61 anos, muito querido de todos os Coirmãos da Província. Vamos conhecê-lo melhor no próximo Informativo São Vicente.

Coirmão Admitido: Ezequiel de Oliveira No Conselho Provincial, realizado entre os dias 19 a 22/11/2018, no Recanto Coqueiro D’Água, Santa Luzia – MG, foram aprovados, com muita alegria, os Votos do nosso Coirmão Admitido Ezequiel Alves de Oliveira, C.M. Deus seja louvado!

Retorno do Projeto CPF Vamos voltar à Serra do Ramalho para avaliar o Projeto CPF, lá realizado entre os anos 2005 a 2010, 10 módulos, com módulos específicos, e darmos continuidade ao Processo de Formação de Educadores, Professores, Zeladores, Vigilantes, Merendeiras, Auxiliares de Serviços Gerais, Diretores, Coordenadores de Áreas, com a realização de mais seis módulos, janeiro e julho, por três anos, 2019-2021, com mais dois módulos específicos, a cada ano, maio e novembro. Participarão do Projeto diretamente 919 educadores. Ainda, temos trabalhos com apicultores, lideranças paroquiais, jovens – cinema na praça, mulheres, etc. Os módulos para 2019 já estão marcados: 14-18/1/2018; 2-4 5/2018; 15-19/7/2018; 1 5 - 1 6 / 1 1 / 2 0 1 8 e Foto: Fernanda Lima 6-10/1/2020. Os voluntários já estão animados e se preparando para a realização de importan- Ordenações na CM Pela imposição das mãos de Dom Paute missão. lo Jakson Nóbrega de Souza, foi ordenado Presbítero o Diácono Gustavo Novo projeto social da Província A Província vem se esforçando para Alivino Silva, CM, no dia 20 de outubro diversificar suas atividades. Foi adqui- de 2018, na Catedral Diocesana Nossa rida uma Casa em Santa Bárbara – MG, Senhora da Luz, Diocese de Luz – MG. Distrito de Brumal, onde funcionará um Também foi ordenado Presbítero o centro de recuperação para dependen- Diácono Paulo César da Silva, CM (foto tes químicos. Essa obra será marcada acima), pela imposição das mãos de pela convivência entre diversos grupos Dom Leonardo Ulrich Steiner, OFM, no dos arredores e municípios circunvizi- dia 8 de dezembro de 2018, na Parónhos, idosos, jovens, casais, mulheres, quia Nossa Senhora da Medalha Milavicentinos, músicos, grupos de teatro, grosa – Riacho Fundo II. Felicidades. dança, etc. e trabalhos preventivos, em Que Deus os abençoe! parceria, nos Municípios de Santa Bárbara, Barão de Cocais e Catas Altas, Encontro de Formação Permanente frequentando Secretarias de Saúde, Vamos realizar mais um Encontro de Cultura, Educação, Escolas, Associa- Formação Permanente, o último de ções, Sindicatos, etc. A primeira reu- 2018, Párocos, Vigários Paroquiais, Cunião para elaboração do Projeto está ras. O Encontro será realizado entre os marcada para os dias 15 a 17/12/2018. dias 10-14/12/2018, no Instituto São Vicente de Paulo em Belo Horizonte e 32 INFORMATIVO SÃO VICENTE

tem como principal objetivo estudar as características próprias de uma Paróquia Vicentina. Circular sobre a Formação Permanente Foi lançada, em 27/11/2018, uma Circular sobre a Formação Permanente na PBCM, com diversas sugestões de atividades que nos ajudarão muito em nossa própria formação em vista da Evangelização dos Pobres. Além de diversos Encontros, Retiros, etc., a Circular destaca a importância da formação para os jovens que terminam seus estudos de teologia até cinco anos de Incardinação na Congregação, através dos Votos, com a realização de alguns encontros, estudos, leituras, trocas de experiências, expectativas, etc. Vamos lá! Quanto mais preparados, maior alcance terá o nosso processo de evangelização! Vamos aproveitar todas as oportunidades! Santas Missões Populares Vicentinas Entre os dias 12 e 26/01/2019, as Santas Missões Populares Vicentinas serão realizadas em Itaobim (MG). Contaremos com a presença de Coirmãos, seminaristas e muitos Missionários Leigos. Que Deus possa abençoar tão importante atividade para a evangelização de todos nós, missionários e leigos. Retiro Provincial Entre os dias 15 e 19/10/2018 foi realizado o nosso Retiro Provincial, no Retiro das Rosas, Distrito de Cachoeira do Campo, Município de Ouro Preto – MG, com a presenta de 56 pessoas, entre Coirmãos, Seminaristas e o Padre André, da Arquidiocese do Rio de Janeiro, orientado pelo Frei Sinivaldo, OFM. Rezamos, com tranquilidade, num ambiente de grande fraternidade e demonstração de amizade entre todo os Coirmãos. Nossos Retiros estão se tornando cada vez melhores, com a graça do nosso Deus. Continuemos valorizando essa tão importante atividade para nossa formação permanente enquanto membros da Província e de toda a Igreja. Novo diretor para as Filhas da Caridade No dia 26/11/2018, assumiu a função de Diretor de Irmãs – Filhas da Caridade – Província do Rio de Janeiro, o nosso Coirmão Padre Vandeir Barbosa


Peregrinação em homenagem ao Pe. José Debortoli, CM, falecido há cinco anos Nos dias 2, 3 e 4 de novembro de 2018 um grupo formado por 15 pessoas da Paróquia de Nossa Senhora das Graças de Brasília - Asa Norte - juntamente com 8 pessoas da Paróquia São José do Calafate de Belo Horizonte, acompanhados pelo Padre Luiz de Oliveira Campos, CM, realizamos um antigo propósito: visitar o túmulo do Padre José Debortoli, falecido em Brasília no dia 3 de outubro de 2013. Foi um passeio, por quase todo o Estado de Santa Catarina, chegando quase à divisa com o Rio Grande do Sul. Chegamos até à cidadezinha de Salto Veloso (SC), terra natal do Padre José Debortoli. Foi uma viagem

de Oliveira, CM, por um período de 6 anos, de acordo com a nomeação do Superior Geral Padre Tomaž Mavrič. Congresso Internacional para Promotores Vocacionais O CIF para Promotores Vocacionais, realizado em Paris, de 19/11 a 01/12/2018, teve a Participação do nosso Promotor Vocacional Padre Denílson Matias da Silva, CM. Certamente teremos novidades por aí. Vamos aguardar as notícias e novidades trazidas pelo Padre Denílson.

Acesse os conteúdos do encontro de Promotores Vocacionais por meio do código acima. É necessário ter um app leitor de QR Code em seu celular. Ou visite: www.cmglobal.org

longa, mas valeu a pena. Fomos muito bem recebidos por sua numerosa família. Não contei, mas os seus sobrinhos são numerosíssimos. Rezamos um terço diante da Capelinha, onde repousam os restos mortais do Padre Debortoli, ao lado de seus pais e de sua irmã Filha da Caridade, falecida poucos meses antes dele. Celebramos missa na Igreja de Salto Veloso com a participação de quase toda a sua família. Quem conheceu o saudoso Padre José deve se lembrar que foi um autêntico filho de São Vicente de Paulo. Podem testemunhar isto os paroquianos de Nossa Senhora das Graças e de São José Calafate, onde Padre Debortoli, com todo o zelo e dedicação, exerceu o paroquiato nos últimos anos de sua vida. Voltamos de Salto Veloso, profundamente edificados, com tudo que presenciamos de sua família, que até hoje, não esqueceu, nem esquecerá a lembrança do Padre José Debortoli. Esta fotografia fala bem da homenagem àquele que, lá do céu, deve estar repetindo, no seu jeito de falar: “Pra que tudo isso, minha gente?” Esta era a humildade daquele autêntico filho de São Vicente. Durante muito tempo ainda vamos ouvir falar daquele que toda cidade de Salto Veloso jamais esquecerá. Pe. Luiz de Oliveira Campos

Eixos temáticos: PBCM 200 anos Para celebrar os 200 anos da chegada dos Padres Lazaristas ao Brasil, 2020, foi formada uma comissão, composta pelos Coirmãos Adriano Ferreira Silva, C.M. (Coordenador), Padre Lauro Palú, C.M., Padre Eli Chaves dos Santos, C.M., Padre Alex Sandro Reis, C.M., Padre Paulo José de Araújo, C.M., Padre Erik de Carvalho Gonçalves, C.M., Padre Emanoel Bedê Bertunes, C.M. e Padre Geraldo Eustáquio Mól Santos, C.M. Já foram realizadas duas reuniões e a comissão dividiu as comemorações em três eixos: 1. Recuperar a nossa história (ode ao passado); Celebrar e agradecer (um olhar sobre o nosso presente); 3. Revitalização da PBCM (propostas para o futuro). Para cada um dos eixos foram propostas ações, que serão apresentadas aos coirmãos no encontro de párocos, vigários e coordenadores de obras, que irá correr entre os dias 11 e 15 de dezembro. Celebração do Bom Propósito No dia 8/2/2019 teremos a reabertura

ra do ano letivo em nossos Seminários e o Bom Propósito dos nossos Coirmãos Admitidos. A celebração será realizada no Teologado São Justino de Jacobis. Agenda Seminário Interno Interprovincial O Seminário Interno Interprovincial vai encerrar suas atividades no dia 15/12/2018 e será reaberto, com nova turma, no dia 16/1/2019, com, mais ou menos, 12 Coirmãos, das três Províncias do Brasil, que serão Admitidos. Mais notícias no próximo Informativo São Vicente. Expo PBCM 200 anos Estamos preparando uma Exposição itinerante em comemoração ao bicentenário da Província. Serão expostos documentos históricos, obras de arte, fotografias, livros e objetos em geral. Caso você ou sua comunidade tenha algo para contribuir com essa exposição, favor entrar em contato com a comissão predatória dos 200 anos pelo e-mail: informativosv@pbcm.com.br INFORMATIVO SÃO VICENTE 33


C U LT U R A Dica de Livro: Elogio da Sede Uma leitura saborosa, tocante e desafiadora

Autor: José Tolentino Mendonça Editora: Paulinas

“O que tem sede aproxime-se; e o que deseja beba gratuitamente da água da vida” (Ap 22,17).

O livro “Elogio da Sede”, de José Tolentino Mendonça, publicado no Brasil pelas Paulinas, reúne as meditações propostas pelo autor ao papa Francisco e à Cúria Romana no retiro da Quaresma deste ano. Sacerdote português, poeta e biblista, José Tolentino propõe a sede como lugar para o encontro com a vida e com o Senhor da vida. Sem dúvida, uma proposta feliz e fecunda, desenvolvida de modo estimulante, pelo estilo inconfundível do autor, dinâmico, provocante e poético, que penetra, com ligeireza, o mais profundo da alma.

Com a mestria literária, o apurado conhecimento bíblico e a finura espiritual que o distinguem, José Tolentino nos convida a ser aprendizes do espanto com a sede de Jesus e fazer ecoar em nossas vidas as suas palavras: “Dá-me de beber” (Jo 4,7), “tenho sede”(Jo 19,28); convida-nos a descobrir Jesus que, no despojamento e na vulnerabilidade de nossa carne, tem sede de saciar-nos com a vida na abundância de seu amor; convida-nos a mudar de perspectiva, a sair do emaranhado da rotina, a deixar-nos surpreender e a descobrir-nos mendigos da sede de Jesus que nos procura; convida-nos a, na sede de Jesus, descobrir, escutar e interpretar nossas sedes e redescobrir e viver a “bem-aventurança da sede”.

Jesus tem sede. A sua sede não se esgota na água, é uma sede maior; é a sede de fazer a vontade do Pai; é a sede de tocar nossas sedes, de entrar em nossos desertos e feridas e sanar-nos com o dom da água que jorra para a eternidade. É surpreendente e consolador saber que esta água que jorra da sede de Jesus junto ao poço com a Samaritana e da ferida do lado aberto de Jesus no alto da cruz são as marcas da sua paixão por nós, são sinais eloquentes de sua solidariedade em nossas sedes, feridas e paixões. Em Jesus encontram-se duas sedes, a nossa sede de água viva e a sede de Jesus de nos dar esta água viva.

A sede de Jesus revela a sede humana. Temos sede, mas temos dificuldade de entender e reconhecer essa necessidade. A poetisa Emily Dickinson dizia que “a água é-nos ensinada pela sede”. A sede nos ensina, ela é uma escola de verdadeiro conhecimento, nosso e de Deus. A experiência da sede apela a uma maturidade de fé que torne possível uma relação autêntica consigo próprio, que abra a uma relação de amor ao outro e lance as bases de uma relação genuína com Deus. A partir da sede de Jesus, nossa sede ensina-nos a arte de buscar, de aprender, de converter-se, de crescer na alegria de servir.

Reconhecer a sede faz a pessoa olhar-se na sua inteireza, não a temer, não a negar, mas abraçá-la com maturidade, lucidez e confiança porque é assim que Deus nos olha. Reconhecer a sede é 34 INFORMATIVO SÃO VICENTE

ultrapassar-se continuamente; a sede coloca a pessoa na condição de peregrino, sempre a caminhar na busca da água, até alcançar a imensidão infinita do oceano que é o amor de Deus Na sede de Deus manifestada na sede de Jesus, aprendemos a descobrir e a saciar nossa sede, indo ao verdadeiro poço de água viva. A água que dessedenta a sede, e aqui elogiada, é a Vida de Deus, o Espírito Santo.

Não é fácil reconhecer-se sedento. A sede é uma dor que se descobre pouco a pouco. Falar e reconhecer as próprias sedes é falar da existência real, a sede toca a fragilidade que tendemos a evitar, a esconder e a negar. A sede revela quem somos; o reconhecimento da sede inquieta, pois ela aponta os limites a serem superados. A sede reclama a necessidade da água, a necessidade da água viva da graça que converte e transforma. A sede que é busca nos diz ser necessário aprender a desaprender, a enfrentar a possível secura espiritual, a confessar a acédia, que é sede de nada, o vazio que leva a fontes cujas águas não dessedentam.

A sede que é desejo de água viva diz respeito à fé cristã e às práticas eclesiais. Indiretamente, Tolentino põe o dedo na ferida de uma fé e de uma igreja idealizada, intelectualizada, abstrata, funcional, fechada, rotineira, autossuficiente e autorreferencial, que cultiva a mania das coisas perfeitas. Para que a fé seja escola de desejo e a Igreja seja sinal da fonte de água viva, faz-se necessário: apostar na misericórdia; ir à periferia, onde vivem os últimos, sem água e sem poços, como lugar propício para a Igreja habitar e a partir do qual se compreender; olhar para si mesma, colhendo com generosidade os olhares de fora, os olhares dos outros, sem os quais não compreenderá seu ser e sua missão.

O desejo de água viva é também contestação da cultura que prefere a satisfação à sede, a saciedade à procura, o supérfluo ao essencial. Tão satisfeitos e tão autossuficientes, escondemos um profundo vazio, uma enorme secura, uma indisfarçável insegurança, uma beleza artificial. O resultado são desejos triviais, laços mais fracos, ideais frágeis, vidas mais cansadas, sintomas de distanciamento da fonte, que alienam a pessoa do sentido real da vida e geram a aridez da alma e a perda de vitalidade física e espiritual.

José Tolentino, em seu “Elogio da Sede”, nos chama a iluminar a vida não com um conceito, mas com uma experiência de auscultar a sede que se oculta no coração, “uma sede infinita, insaciável”, uma sede que “pede para ser escutada como grito de libertação e de salvação”. Tolentino estimula-nos a descobrir e a interpretar nossa sede na sede de Jesus; provoca-nos a cultivar a espiritualidade da sede, centrada na “bem-aventurança da sede”, pois “a coisa pior para um crente é estar saciado de Deus”, visto que a experiência de fé nunca nos faz já totalmente saciados em nossas sedes, mas, ao contrário, amplia-as, fazendo-nos peregrinos sedentos de Deus, fazendo crescer constantemente em nós o desejo de Deus.

Pe. Eli Chaves dos Santos


Dica de Filme: Rede de Liberdade Direção: Pablo Moreno Lançamento: Outubro de 2017

Ir. Helena Studler dedica-se a acolher e cuidar de órfãos e abandonados, no Centro que a Companhia das Filhas da Caridade possui em Metz, capital da Lorena. Com a entrada dos nazistas, a situação da cidade tornou-se especialmente tensa e complicada. Se as circunstâncias da missão das Filhas da Caridade eram difíceis, agora elas se tornaram dramáticas. Ir. Helena descobre que perto de Metz, os nazistas instalaram um campo de concentração no qual os seres humanos são tratados como pessoas descartáveis, sem qualquer consideração pela sua dignidade.

Com uma admirável coragem, e até mesmo um pouco imprudente, ela confronta com os oficiais alemães para exigir respeito pelos prisioneiros. Não satisfeita com os pequenos resultados obtidos e com a colaboração de outras Filhas da Caridade e algumas pessoas, finge pertencer à Cruz Vermelha para entrar no campo e reduzir a escassez e os sofrimentos dos prisioneiros. Estes pedem para a Irmã levar suas cartas para as famílias, o que se torna extremamente perigoso. Mas o coração desta Filha da Caridade transforma-se no correio de tantas pessoas angustiadas.

Logo, o horror da crueldade tão desumana dos nazistas e a dor e a humilhação de tantos oprimidos fazem surgir um empreendimento ainda mais arriscado: Criar uma Rede de Liberdade, ou seja, um grupo de moradores de Metz para organizar a fuga de prisioneiros.

O Diretor, Pablo Moreno, não teve medo da falta de recursos para criar o filme. O cineasta pesquisou documentos da Companhia das

Filhas da Caridade que permitiram que ele fosse fiel à realidade. Por isso contou a história muito bem.

O destaque do filme vai para a atriz Assumpta Serna, que protagoniza a Filha da Caridade: Irmã Helena é verdadeiramente magnífica! Ela desempenha um papel impulsivo e destemido, incapaz de ficar indiferente ao sofrimento e à injustiça dos pobres. Traz-nos um personagem que transpira humanidade, uma verdadeira mulher em estado de caridade.

O roteiro não é fácil, mas é muito bem trabalhado, tem vigor e não permite que a ação caia a qualquer momento. A cinebiografia de uma pessoa relevante para seu tamanho humano e suas ações extraordinárias, apresentanos uma mulher incondicionalmente generosa, corajosa e determinada. É pertinente perceber que com a mesma moderação, a Irmã trata os "bandidos" do filme, os nazistas. Isso não significa disfarçar o horror do regime de Hitler, mas sempre deixa claro que, no pior inferno, os homens podem ter preservado uma brasa da humanidade.

Com as limitações de um filme feito com um orçamento minúsculo, totalmente insuficiente, Red de Libertad é o cinema real, que se conecta com o espectador, olha com prazer e atinge o coração!

Pe. Alexandre Nahass Franco

Memória da Província

Foto: Adriano Ferreira, CM

Pe. Manoel González, CM: um dos pioneiros do futebol no Brasil A história da PBCM é repleta de personagens que contribuíram de maneira significativa para a construção do nosso país. A humildade vicentina (muitas vezes confundida com a ideia de não se dar crédito pelos próprios feitos) contribuiu para que a memória e as proezas de alguns destes grandes homens acabassem se perdendo junto à poeira do tempo. Este é o caso do Pe. Manoel González, um dos nomes mais importantes dos primórdios do futebol no Brasil. Em um tempo no qual o futebol era considerado um jogo rústico para pessoas brutas, a Igreja reconheceu naquele esporte um enorme potencial de socialização. Segundo o crítico e antropólogo Anatol Rosenfeld “Deve-se até salientar o fato de que numerosos padres deram o impulso decisivo para a difusão do novo jogo. Uma certa notoriedade conseguiu o Padre Manoel González, que deve ter fabricado a primeira bola brasileira de couro cru, para que seus alunos do Colégio Vicente de Paulo (Petrópolis) pudessem dedicar-se ao esporte”. Ao Pe. González é atribuída a introdução do futebol em Petrópolis, feito pelo qual recebeu bela homenagem da Cidade Imperial, em 1953, materializada em um troféu com sua imagem em trajes de jogo (foto ao lado). E conforme dito acima, atribui-se também a ele a confecção da primeira bola de de couro cru do país. Conhecidas como “peludas", esse novo modelo substituiu as antigas bolas feitas de bexiga de boi. As bolas de couro foram usadas em competições oficiais da FIFA até 1986. INFORMATIVO SÃO VICENTE 35


POEMA

Traduzir-se* Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta: outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente. Uma parte de mim é só vertigem: outra parte, linguagem. Traduzir uma parte na outra parte — que é uma questão de vida ou morte — será arte? *Poema de Ferreira Gullar

INFORMATIVO SÃO VICENTE Sugestões e contribuições: informativosv@pbcm.com.br

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Informativo São Vicente N. 305  

Informativo São Vicente é uma publicação trimestral da Província Brasileira da Congregação da Missão - PBCM. Informativo São Vicente is a qu...

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