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para ser lido nos intervalos BELO HORIZONTE SETEMBRO DE 2008 NÚMERO SETE


A continuidade, como bem percebeu Italo Calvino, é uma das características peculiares à geografia improvável das cidades invisíveis. Isso talvez explique o fato de a equipe do Pausa, caminhando erraticamente, haver encontrado, em Buenos Aires, o pessoal do Siempre de Viaje, um grupo de escritores portenhos que participa ativamente da vida cultural da capital argentina, organizando debates e oficinas de literatura. Dessa experiência, Pausa apresenta a tradução de um poema de Karina Macció, que, além de responder pelo grupo, vem, aos poucos, se firmando como uma das poetas de destaque da nova geração de escritores argentinos. Além disso, porém numa geografia mais descontínua, Pausa traz um ensaio sobre o espaço e a literatura, de Luis Alberto Brandão, ficcionista e professor de Teoria da Literatura na UFMG. Nesse ensaio, o autor analisa com propriedade alguns aspectos referentes ao espaço literário, pensando, inclusive, nos desafios e nos (des)caminhos da literatura contemporânea. Para finalizar, há um poema de Erick G. Costa. Todas as ilustrações foram feitas pelo designer gráfico Vitor L. M. exclusivamente para esta edição.

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Rua Padre Odorico, 128 sl. 606 Savassi | BH | MG | (31) 3225 9026 casadaletra@uol.com.br


Todas as imagens desta edição são do designer gráfico e ilustrador Vitor L. M. <vlm.design@gmail.com>.

expediente Conselho Editorial Alexandre Fantagussi Erick Costa Maraíza Labanca Rafael Reis II Projeto Gráfico e Direção de Arte Fernanda Gontijo II Colaboradores desta edição Luis Alberto Brandão Karina Macció Vitor L. M. II Capa Vitor L. M. II Revisão Isabela Monteiro II Impressão Guia Prático II Tiragem 1.000 exemplares II Informações Críticas Comentários Envio de Material Contato jornal.pausa@gmail.com II As opiniões expressas nos textos assinados são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores II Favor não deixar este jornal em vias públicas


LO ROJO MIRA, ARDE, LATE

En la cruz el rojo es otro empotrado y calcificado ojo duele su mirar el músculo atrapado deforme molusco nítido transparece. ¿Hay algo por salir? ¿Hay dos encerrados? Lo cobierto siempre penetra penétrate el corazón exaspera su búsqueda teme un dolor de cruz doble pueda saberse así caracol enloquecido enrojecido agigantado malparido crisálida del cuerpo cruzado en lucha por abarcar y multiplicar su dominio de color.

5 II Karina Macció


O VERMELHO OLHA, ARDE, LATE

Na cruz o vermelho é outro encavalado e calcificado olho dói seu olhar o músculo atrapado desforme molusco nítido transparece. Há algo para sair? Há dois enclausurados? O encoberto sempre penetra penetra-te o coração exaspera sua busca teme uma dor de cruz dobrada possa saber-se assim caracol enlouquecido enrubrecido agigantado malparido crisálida do corpo cruzado em luta para abarcar e multiplicar seu domínio de cor.

Rafael Reis II 5


LITERATURA

E ESPAÇO Luis Alberto Brandão Ficcionista (autor de Tablados e Saber de pedra) e professor da Faculdade de Letras/UFMG.

Fascinante no termo espaço é que lhe são atribuídos significados discrepantes, não raro opostos. Em parte, isso ocorre porque ele é utilizado em várias áreas de conhecimento, como Física, Geografia, Lingüística, Arquitetura, Teoria da Arte, Sociologia. Em cada área há um esforço específico de conceituação, mas o resultado acaba sendo relativo, pois os conceitos de uma área influenciam os de outra, mesmo que a influência, em geral, não ocorra de modo consciente ou deliberado. Além disso, o termo espaço também é fundamental na linguagem quotidiana, e há um processo de contaminação recíproca entre os sentidos que circulam nos registros especializados e os que vigoram nos não-especializados.


Mas é possível constatar alguns significados recorrentes. Entre eles está o que associa espaço a extensão física. Espaço tem, aqui, uma acepção concreta, material, é algo passível de ser percebido pelo corpo humano. Assim, uma casa, uma praça, um bosque são espaços. Mas há outro sentido também muito difundido: o que entende espaço como um conjunto de referências que estabelece uma circunscrição, um limite. Espaço, assim, não é definido por sua natureza material, é algo mais abstrato, o resultado de relações. É este significado que leva a pensar que o vazio de uma caixa, por exemplo é um espaço. Tais significados estão presentes em dois tipos de espaço muito discutidos atualmente: o urbano e o virtual. É claro que a tendência imediata é se vincular a cidade ao significado físico, material de espaço; e o universo virtual ao significado abstrato, relacional. Mas logo se percebe que a associação é insatisfatória, pois o espaço urbano não é definido apenas por seus elementos físicos; e espaço virtual não é só uma metáfora que designa algo sem realidade própria. Na literatura, sobretudo na moderna, a relação com o espaço urbano é fundamental. Aí se nota com clareza o primeiro significado em ação: o espaço entendido como categoria realista. Quando se afirma que a literatura ocidental produzida a partir da segunda metade do século XIX é profundamente marcada pela consolidação das metrópoles (a referência inescapável é a Paris de Charles Baudelaire), está-se pensando que a realidade dos grandes centros urbanos se projeta nos textos literários, ou seja, que a nova literatura representa o novo espaço. Mas ao mesmo tempo se difunde a constatação de que a cidade não é só um lugar, mas uma série complexa e dinâmica de relações de todas as ordens: econômicas, políticas, sociais, sem dúvida; mas também existenciais, simbólicas, perceptivas, epistemológicas. Assim a literatura não somente representa a cidade como também passa a incorporar, no trabalho com a linguagem verbal, as características da cultura urbana. Observar que o regime textual dos escritores modernos se pauta pela fragmentação, pela simultaneidade, pela desierarquização e justaposição de imagens justifica que se afirme que suas obras se espacializam. Luis Alberto Brandão II 7


A preponderância dos efeitos da cultura metropolitana sobre a produção literária é inegável ao longo do século XX. Contudo, a partir das últimas décadas, a disseminação intensa dessa cultura (que deixa de se restringir às grandes cidades, sobretudo em decorrência dos meios de comunicação de massa e do universo virtual) talvez esteja trazendo certo desgaste à chamada “literatura urbana”. Hipótese interessante é pensar que talvez esteja ocorrendo um processo de desurbanização da literatura. A realidade urbana, por estar em toda parte, deixou de ser nova, e, de certa maneira, tornou-se irredutível. Mas a literatura pode escolher caminhos que sigam justamente na contramão desse horizonte cultural consolidado, dominante, óbvio (a literatura disposta a fazer este tipo de escolha é, na minha opinião, a que de fato possui relevância). Em alguns casos, isso significa apostar no neo-regionalismo ou no internacionalismo. Mas também pode equivaler, como desafio ao escritor, à busca de realidades que, de diferentes modos e por distintas razões, são refratárias à urbanização e mesmo ao modelo ocidental de civilização. Quanto à relação entre literatura e espaço virtual, é bom lembrar que a história da literatura ocidental moderna é nitidamente determinada pelas transformações dos meios técnicos de veiculação de dados e signos. É impossível conceber a própria noção de modernidade sem a existência da imprensa (e a modernidade do texto literário com certeza se vincula ao fato de ele estar acessível a públicos mais amplos e diversificados). O impacto da invenção da fotografia é enorme, especialmente sobre as vanguardas da segunda metade do século XIX. O cinema e a expansão de uma “cultura visual”, que culmina no advento da televisão, se apresentam não apenas como temas para obras literárias, mas como demonstrações, a serem incorporadas no modo como a linguagem verbal se exercita, das rápidas mudanças nos regimes de percepção, sensibilidade e imaginário do homem moderno. O momento atual, com a propagação da internet, dos sistemas informatizados e dos ambientes virtuais, é também de mudanças radicais, que afetam a literatura. Os efeitos mais visíveis são os que concernem ao modo de veiculação, divulgação e circulação. A literatura finalmente pode se desvincular de seu suporte tradicional, o livro. A circulação não se dá somente por intermédio de instâncias autorizadas, como as editoras. A divulgação passa a incluir formas que extrapolam o meio acadêmico, a imprensa especializada e a crítica literária. A grande mobilidade dos textos, tanto no sentido de seu trânsito quanto no que se refere à possibilidade de serem alterados (e a suspensão torna-se seu estado mais típico), cria novos modelos para a noção de autoria. Além dos blogues e dos sítios interativos, já existem experiências de autoria compartilhada, mas os resultados ainda não se revelaram muito animadores (exceto, é claro, pelo horizonte que abrem). É preciso indagar, também, por efeitos ainda pouco visíveis. São os que se relacionam a novos padrões de trabalho com a linguagem verbal. Por enquanto, o que se constata é, em termos genéricos, a revalorização da escrita (em relação aos telespectadores, os internautas escrevem muito); 8 II Luis Alberto Brandão


mas trata-se de uma escrita com finalidades práticas, de comunicação imediata. É pouco provável que os ecos sobre a literatura se dêem por este viés, já que ela se define por um pacto indissolúvel com a complexidade que o uso da palavra pode oferecer. Possivelmente haverá uma intensificação de experiências com formas que ultrapassam fronteiras (sobretudo as vinculadas ao objeto livro). Isso já ocorre, por exemplo, com os RPG – Role Playing Games, que agregam, à ação de ler, as de escrever, argumentar, interpretar, representar, entre muitas outras que podem ser negociadas com o grupo de jogadores-autores-leitoresatores. Mesmo quando se focaliza exclusivamente o plano verbal, encontram-se barreiras que, a despeito de todo o esforço de subversão empreendido pela literatura moderna, se recompuseram com bastante vigor, por ingerência sobretudo do mercado editorial. É o caso das barreiras entre gêneros textuais. Talvez não seja casual que se esteja ouvindo falar, com insistência, de transdisciplinaridade, intersemiose, intermidialidade, da liberdade do gênero ensaio, de misturas entre poesia e filosofia, ficção e história, ciência e arte. A ênfase no caráter promissor da mistura – há quem prefira o termo hibridação – provavelmente indica que as entidades a serem misturadas já não satisfazem por si mesmas, já não têm o mesmo prestígio, o mesmo poder de sedução ou convencimento. O instante atual, por sua instabilidade (que com freqüência se manifesta por meio da faceta oposta: a sensação de imobilidade, saturação, trivialidade), parece propício a que as promessas da literatura moderna (algumas, pelo menos) possam finalmente se cumprir. Jeitos novos, novíssimos de ler, escrever e fazer circular a escrita já estão disponíveis. Resta saber o que os escritores – em potencial, todos nós – somos capazes de fazer com eles. Luis Alberto Brandão II 9


rodeio na noite tateante – liba ao ódio dos que amam no perímetro do fosso:

quero entrar, não deixam quero sair, não posso. sibilina, a sombra rubra da ceifeira errante.

Erick G. Costa II 11



Pausa