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It only ends with a fall. Okkervil River

Pausa para ser lido nos intervalos

BELO HORIZONTE MAIO DE 2008 NĂšMERO QUATRO


expediente Conselho Editorial Alexandre Fantagussi Erick Costa Maraíza Labanca Rafael Reis II Projeto Gráfico e Direção de Arte Fernanda Gontijo II Colaboradores desta edição Flávio de Castro Leo Drumond Letícia Féres Luciana Lanza Pedro Groppo II Capa Leo Drumond II Revisão Isabela Monteiro II Impressão Guia Prático II Tiragem 1.000 exemplares II Informações Críticas Comentários Envio de Material Contato jornal.pausa@gmail.com II As opiniões expressas nos textos assinados são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores II Favor não deixar este jornal em vias públicas

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Capa

Leo Drumond é fotógrafo da Agência Nitro (www.agencianitro.com.br). As fotos aqui reproduzidas fazem parte do seu projeto documental Beira de Estrada, uma extensa pesquisa visual sobre o universo das estradas em Minas Gerais.

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nanobiografias eclairton pai, aposentado. aos 68 anos viajou à cordilheira dos andes e nunca mais foi visto. após vinte anos retornou à sua cidade natal: criciúma. morreu aos 100 anos, em mogi mirim, de onde nunca deveria ter saído. everildes mãe, mulher e amante. nasceu em boa família (mg). aos 30 anos realizou o sonho de ver a torre eiffel, mas jamais conseguiu uma bolsa de estudos em alguma universidade inglesa. nunca foi aprovada no toefl. ganhava a vida fazendo quadras, quadrilhas e, com fazenda chinesa, bolsas usadas à tiracolo. jamais foi descoberta. morreu aos 80 anos em juazeiro do norte, dizendo “não sou noel, mas vou para o céu”. POEMA AUTOBIOGRÁFICO ENCONTRADO NO BOLSO DO VESTIDO DE EVERILDES-MORTA ^ VERSOS DE CIRCUNSTANCIA Jamais apreciei balas de goma, Venezianas gôndolas, Cortes de casimira. Casei-me com véu, Cantei com Noel E quando tive que sambar, corei. Imitei Monalisa, Usei vestido de fita, Cosi a roupa roída do rei. Jamais li Macário. Não jogo baralho. E de rimar, cansei.

4 II Letícia Féres


Letícia Féres é responsável pelo blog Onde Andará Dulce Veiga? atrasdosolhos.wordpress.com


Apesar de a Dança ser talvez a arte mais antiga do mundo, ainda hoje ela se apresenta como uma linguagem misteriosa. A Dança Contemporânea, principalmente, é considerada extremamente complexa para a grande parte dos brasileiros. Isso ocorre talvez por não ser costume cultural no Brasil prestigiar trabalhos do gênero assim como se prestigiam as passistas de samba em época de carnaval. O público de dança ainda é muito pequeno. Por isso, quando uma pessoa se arrisca a prestigiar um trabalho de Dança Contemporânea, ao fim do espetáculo sai de lá mais confusa do que entrou, com sentimentos e pensamentos borbulhando dentro de si. A Dança Contemporânea é uma linguagem artística que tem como princípio a movimentação do corpo físico e da alma. Para que esse princípio ocorra, não existem regras específicas. Isso significa que um intérprete do gênero não precisa seguir uma única técnica determinada, ele tem a liberdade de usufruir do que for necessário, do que seu corpo precisar para se comunicar. Não existe uma fórmula para se criar dança 6 II Luciana Lanza


Sobre a Dança Contemporânea contemporânea, e sim uma intenção. É preciso que haja um exercício de escuta e entrega, tanto do artista como do público. Para o bailarino/criador, o importante é ouvir as necessidades interiores e utilizar o corpo como instrumento de exteriorização dessas necessidades, de uma forma que não haja barreiras. A beleza da arte contemporânea não está no virtuosismo de inúmeras piruetas, e sim na dança que se inicia interiormente na alma e então se torna concreta no corpo do artista. Partindo dessa premissa de não delimitar barreiras, ressurge então uma antiga discussão: Quais os limites de uma linguagem artística? Até onde é dança? Até onde é teatro? Até onde é canto? Muitos artistas defendem a idéia de que essa delimitação não é necessária e, na verdade, até prejudica o desenvolvimento de um trabalho. Num processo de criação, o artista é fiel apenas a sua intenção, a sua proposta cênica. Essa intenção é então desenvolvida e aprofundada por meio de estímulos infinitos: uma música, um texto, o tempo, o espaço... Qualquer coisa pode ser tomada como um estímulo,

Luciana Lanza II 7


e justamente por isso não é interessante limitar o intérprete em sua criação. Isso vale também para os diretores e coreógrafos do meio. Pois essa arte não se apega às estéticas convencionais e muito menos se prende à necessidade do “belo”, não se liga a um tempo devidamente cronológico, nem a uma interpretação literal de um tema. Entendendo a Dança Contemporânea dessa forma, talvez fique mais fácil para o espectador aceitar a subjetividade que ela carrega. O que importa é a expressividade do corpo. Sendo a liberdade um fator tão presente, surge então a questão: como seria então a preparação e a formação de um bailarino de Dança Contemporânea? O fato é que o bailarino contemporâneo é um eterno pesquisador do corpo. Justamente por lidar com um campo de trabalho tão livre e amplo, ele deve estar sempre na busca de um exímio domínio de seu físico, para que haja a possibilidade de experimentar e se arriscar, mas não se machucar. Esse tipo de dança prima pelo aprofundamento do conhecimento do próprio corpo a partir de movimentos básicos, como andar, sentar, deitar, agachar. Esses movimentos são considerados orgânicos e fundamentais e, uma vez dominados, permitirão a experimentação de movimentos mais elaborados, sem perder essa “organicidade”, mantendo o domínio. O estudo do corpo requer separar e conhecer o físico em todas as suas partes: articulações, músculos e ossos. Decompor uma movimentação, entender por qual parte do corpo começa um deslocamento, perceber quais os músculos necessários e a quantidade de energia para a realização de uma ação qualquer são exercícios do corpo e também da mente. Esse nível de intimidade com o corpo permite ao bailarino se arriscar em diversas técnicas. Quanto mais rico em técnicas, linguagens e experiências, mais aberto o artista estará para um processo de criação. Para o bailarino, a Dança Contemporânea se resume num risco constante entre a matéria física e a subjetividade do ser humano. Para o espectador, o ideal é estar disponível de corpo e alma, receber os diversos estímulos e necessidades, guiando-se pelas emoções e sensações e, conseqüentemente, acionando o campo das idéias, da discussão, da crítica, da degustação e da prática na própria vida.

8 II Luciana Lanza


Ela desapareceu ontem à noite: vestia sapatos obscenos e aparentava a tristeza de um amor sem fim. Sofre de alguns probleminhas mentais, conseqüências de um passado que não passa mais. Foi vista pela última vez na noite de ontem, na porta da minha casa. Quem souber notícias dela, quem souber seu paradeiro, por favor não diga nada, por favor me deixe em paz.

10 II Flávio de Castro


desaparecida


Ignorance Philip Larkin Strange to know nothing, never to be sure Of what is true or right or real, But forced to qualify or so I feel, Or Well, it does seem so: Someone must know. Strange to be ignorant of the way things work: Their skill at finding what they need, Their sense of shape, and punctual spread of seed, And willingness to change; Yes, it is strange, Even to wear such knowledge - for our flesh Surrounds us with its own decisions And yet spend all our life on imprecisions, That when we start to die Have no idea why.

Ignorância Pedro Groppo Estranho não saber nada, não ter certeza Do que é verdadeiro, real ou justo Mas forçado a qualificar ou assim acho, Ou Bem, é o que parece ser: Alguém deve saber. Estranho ser ignorante de como as coisas funcionam: Sua habilidade em achar aquilo que precisam, Seu senso de forma, da pontual disseminação E prontidão pra mudar É de se estranhar Calçar tal conhecimento - pois nossa carne Nos cerca com suas próprias decisões E ainda passar toda a vida em imprecisões, Que quando começamos a morrer Nem sabemos o porquê.


Pausa