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Este panfleto é dedicado aos músicos dos PALOP que não tiveram a atenção merecida. Espero que ainda estejamos a tempo.

Agradecimentos Obrigado ao Sebastião Belfort Cerqueira pela discussão que ajeitou a estratégia de ataque, e ao António Pinho Vargas pela sua tese de doutoramento.


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Roland Barthes tem uma definição própria de “mito”. Um ”mito” é um conjunto de percepções que origina uma forma de entender o mundo da qual não estamos conscientes: uma realidade que nos parece absolutamente natural porque é uma forma de pensar tão entrincheirada na nossa consciência que se torna invisível. Este panfleto pretende identificar um mito Português que vive radiante, belo e escondido. De cada vez que acorda a meio da manhã, enche-se de ar e mais confia num futuro modesto e num Portugal culturalmente subalterno.


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Mas antes de falar do mito, há que clarificar alguns conceitos fundamentais para a principal tese deste panfleto de guerrilha, que sendo um panfleto vai introduzir conceitos mas não aprofundá-los. Não há espaço. Para isso há a bibliografia. Falarei adiante do availability heuristic (1). Este conceito é uma tendência comportamental bem documentada que relata a predisposição para avaliar a frequência ou probabilidade de um acontecimento com base exclusiva na sua disponibilidade (através dos media) a um dado momento. Exemplo: a percepção popular de risco de um ataque terrorista aumenta em alturas em que os media lhe dão maior destaque, mas baixa pouco tempo depois do destaque desaparecer. Ou seja, o público tem memoria fraca e é manipulável como um cão. Adiante. Só muito recentemente a comunidade de sociólogos ocidentais passou a estar interessada na história da humanidade para além daquela desenhada pela Europa e pelos valores que de aí vieram (2). Hoje reconstrói-se no ocidente aquilo que foi a vitalidade artística, científica e colonial na Ásia, América e África muito antes do seu contacto áspero com a cultura europeia. Isto foi consequência directa do desenvolvimento do pensamento pós-colonial, em que se baseia este impresso que o leitor tem em mãos. Dediquemos agora umas linhas à troca de culturas e inovação: A troca e agregação de ideais é aceite como uma condição importante e favorável à criação de novas direcções (inovações) na - que para simplificação chamaremos – arte. Uma das for-


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mas eficientes de fazer esse confronto é fundindo culturas distantes. Porquê? Conceitos e convenções culturais anteriormente estabelecidos dentro de cada cultura têm maior probabilidade de originar conceitos novos quando re-interpretados a partir de um contexto cultural fresco. Logo, quanto maior a diversidade cultural num dado local, maiores também as possibilidades de inovação através do confronto de ideias. Por conseguinte, o contrário também é verdade: quanto maior a disponibilidade ou preponderância de uma determinada cultura sobre outras, menor será a frequência do confronto cultural e consequentemente a probabilidade de inovação cultural, porque as possibilidades (combinações) de interacções são de número necessariamente menor. Desde o surgimento do pensamento cultural pós-colonial que a hierarquização da cultura caiu. Digo melhor: Que a cultura europeia deixou de ser teoricamente descrita e aceite como central, dominadora e hierarquicamente superior para se passar a situar entre milhares de outras de validade e importância rigorosamente igual (3). Logo, a capacidade de expansão/imposição de cada cultura deixou de ser um indicador de superioridade para ser uma característica eticamente inaceitável. Esta mudança radical no pensamento da cultura entra em choque frontal e bárbaro com a monopolização cultural extrema que vivemos no quotidiano em países periféricos como Portugal.


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Ora tendo disponibilidade de informação e capacidade tecnológica para a trocar a um nível nunca antes visto na história da humanidade, se esta hierarquização teoricamente desapareceu, porque será que hoje as nossas referências culturais são quase sempre ocidentais e do eixo anglo-saxónico ao ponto de não deixarem espaço para mais nenhumas? O cânone ocidental actual para a arquitectura, moda, música pop, gastronomia ou cinema é o resultado de um processo contínuo de escolhas feitas por vários decisores (políticos, celebridades, artistas, chefs, escritores) que integram e definem o bloco central cultural, termo que adopto na sequência da tese de António Pinho Vargas (4). Ora o bloco central cultural é a cultura dominante, o centro a partir do qual são medidas todas as novas tendências e avanços no ocidente. É o centro de um sistema em que os “países mais desenvolvidos” servem de modelo aos “países menos desenvolvidos” (5). É um bloco que protege os seus valores, os difunde e ao longo do caminho da sua lenta evolução de ideais vai escolhendo os representantes que melhor garantam uma continuidade pura, clara e indomável da sua doutrina.


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Partindo do princípio ocidental de que as culturas mais fortes se devem espalhar, tem o leitor a certeza de que a capacidade difusora de cada cultura está dependente do seu mérito e inovação? Poderá ser, por exemplo, o resultado de planeamento: Nas condições para a execução do plano Marshall, os negociadores Estado-Unidenses introduziram como parte das suas condições de “contrato” a introdução em crescendo de filmes Estado-Unidenses, acompanhados de uma diminuição de apoios públicos ao cinema europeu, que eram o seu sustento principal (6). O argumento era o da liberdade de escolha. Digo eu: Mas que humildade esta! Que beleza, lágrimas de cristal! O argumento é a liberdade…uma vez garantida a prepoderância de Hollywood sabendo do availability heuristic. O resultado está à vista. Tem mais proveito (seguidores) quem tem mais propaganda: Andy Warhol com latas de sopa no centro comercial “Colombo”, elogios a um arranha-céus minimalista à beira-tejo, o Vítor Belanciano a copiar a selecção de álbuns da Pitchfork . No Cais Sodré tocam bandas indie em flanelas largas, que se promovem em fotos vintage-instantâneas com óculos de marca. Em Portugal, desde o mais reputado jovem artista ao mais devoto membro de uma claque de futebol, a colonização cultural é quase total. É também independente de classe social, interesses e idade. Practicamente todas as nossas referências


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como povo nascem no eixo anglo-saxónico. Não falamos aqui de um desequilíbrio, leitor: é um massacre. E um massacre universal, omnipresente. Um mundo todo da mesma cor, visto da mesma perspectiva, com a mesma pronúncia! Falemos de música. Que ouvimos nós para além de musica erudita? Pop de Brooklyn, Soul de Detroit, Hip-Hop e Funk de Nova Iorque, Afrobeat Nigeriano, House de Chicago, Dubstep e Drum´n´bass Britânico, minimalismos Berlinenses, experimentalismos de Sheffield. E que bom, porque a homogeneidade é um tédio. Vivam as amálgamas de ideias, o confronto de ritmos, a diferença de objectivos entre todas as possibilidades do som! Todos estes tiveram sucesso, e são o resultado de trabalho e triunfo na guerra por dentro da indústria musical.


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Ora se a riqueza da produção musical de um povo resulta da diáspora, Portugal não anda mal: Chegou a Angola, Damão, Ilha de Vera Cruz e a umas centenas mais de sítios exóticos. São três continentes! Dessa mistura resultaram interacções culturais (não as analisarei. Aconteceram). Não sendo a música mais que a expressão cultural de um povo (7), onde está essa influência na música portuguesa? O fado nasceu no norte de África. E o resto? Para onde foram as influências musicais da Índia? De Macau? De Angola? De Cabo Verde? Da Guiné-Bissau? De Moçambique? De S. Tomé e Príncipe? De todos os PALOP com quem Portugal trocou gentes e costumes durante 500 anos? Que música tem Portugal hoje? Vejamos os artistas popularmente avaliados como intérpretes/ compositores de “música Portuguesa”: São eles gente ilustre como o Rui Veloso, o José Cid, os Delfins, ou até (vá lá) os contemporâneos If Lucy Fell e Tropa Macaca mais os indies Nice Weather for Ducks. O leitor estranha? Todos estes, caro leitor, repito, todos, fazem música baseada num modelo/estrutura pré-existente que nasceu e se desenvolveu na totalidade e até à maturidade fora de Portugal, sob valores/contextos culturais anglo-saxónicos absolutamente distantes da realidade sul-europeia periférica em que vivemos, e completamente alienada dos problemas, desafios e especificidades culturais Portuguesas. Foram adoptados por bandas portuguesas após serem considerados modelos de sonoridade e aparência internacionalmente válidos, após ter havido gente nos EUA ou Reino Unido que as criou para serem posteriormente assi-


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miladas pelo mundo todo, Portugal incluído. A adopção por artistas Portugueses de uma sonoridade exterior já amadurecida é uma decisão sem riscos. Cá, consome-se o que chega. E como vimos acima, ao consumir os mesmos modelos culturais estamos a criar uma barreira à inovação. Visto que a sua identidade foi construída à distância, para que estas bandas integrem o cânone anglo-saxónico pertencendo à narrativa principal, há que entender e copiar a estética, atitude, tiques, referências. Mas eles, caro leitor, não são anglo-saxónicos: são Portugueses. E têm estética, atitude, tiques e referências culturais Portuguesas. Ora copiando eles um modelo exterior, terão para isso de rejeitar elementos da cultura nativa para se apropriarem da outra. Nem tudo coexiste alegremente! Por muita disponibilidade e esforço que emp(r)enhem, o melhor que conseguirão é uma interpretação, e nunca (por definição) um produto autêntico (que no caso das bandas indie é um paradoxo porque é isso que foram ensinados a ambicionar). Vão por isso inconscientemente dedicar-se a uma carreira de subalternidade irreversível (8). Este mecanismo repete-se para outras sonoridades: Metal, Country, Ópera, Techno.


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O cosmopolitismo é baseado na confusão e uma comunidade é tanto mais rica quanto mais culturas e mentalidades conseguir juntar bem. Mas numa condição: seguindo o pensamento pós-colonial, exclui-se a hierarquização cultural. A interacção cultural só tem vantagens recíprocas se as culturas envolvidas nessa troca forem mutuamente reconhecidas como tendo igual importância, caso contrário a troca cultural é desigual, ou seja, uma colonização cultural. Se a cultura local não for intrinsecamente respeitada, as condições são à partida muito favoráveis a uma colonização cultural. A cultura exótica terá à partida a vantagem da sobreposição imediata quase garantida. Entra em ombros com uma coroa de lírios na cabeça pelo arco da Rua Augusta! E assim a guerra cultural é ganha por quem impõe maior quantidade de informação (availability heuristic). Já sabemos por quem. Ora sendo uma troca desigual de culturas uma colonização cultural e Portugal em grande medida responsável por ela, será justo dizer que Portugal se auto-coloniza e entrega o milho a países de barriga cheia para que façam o negócio à sombrinha! Pior, como isso acontece no contexto do mito, ninguém protesta! Bom negócio.


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É o da ilusão de viver numa sociedade de consumo cultural neutro. O da não-percepção de viver submerso numa cultura única que nos é exótica. E de tão submersos que estamos, tornamo-nos meros contempladores de uma sociedade distante. Só nos resta copiar essas referências, que são tudo o que sempre conhecemos. Quem inspira à criação em Portugal são sempre os mesmos. Admirar as mesmas escolas de arte, usar os mesmos segredos técnicos, ouvir as mesmas bandas ocultas, usar o mesmo cabelo a cair pela testa, as mesmas pulseiras indianas. Os mesmos


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Esperando mais uns meses lá vem nova ordem de fora: – Já estamos noutra. Muda a página! E a gente muda. E então mudam as escolas de arte, as bandas ocultas, as franjas, as pulseiras. Mas dentro de um determinado tempo, entre cada fase de influência, quem nos influencia são sempre os mesmos. A mando de quem manda, e voluntariamente. O que inspira a comunidade artística Portuguesa são modelos já implementados, testados, de sucesso garantido. Risco zero, mas frescura suficiente para ser um inovador local. Esses inovadores de aldeia sem habitantes aproveitam-se do lag entre o apogeu de uma moda estrangeira e a sua adaptação para o exterior para se auto-denominarem pioneiros locais. E são! Épicos pioneiros da cópia daquilo que já foi inventado. Aguenta-te! O DJ Kitten dizia há uns anos que foi em tempos o pioneiro “em Portugal”. Fica o leitor a saber: as invenções mudam de inventor de cada vez que passam a fronteira! Passando de Badajoz para cá, o motor Diesel deixa de ser González e passa a Costa Ramalhete! A forma de expressão a que chamamos arte é (seja que forma de arte for) inevitavelmente uma consequência daquilo que lemos, vemos, ouvimos. Daquilo a que estamos expostos! A expressão surge de aí em diante. Cada um junta a informação


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à sua maneira e vá de criar. É importante que o leitor note que eu não advogo que a arte se tenha que limitar àquilo que é a nossa experiência local, embora seja natural que a experiência local seja a principal influência. Tal como é normal que os nossos amigos de infância sejam principalmente dos locais onde crescemos, ou que as cidades que conhecemos melhor sejam as que nos acolheram mais tempo, ou que tenhamos um gosto especial pela gastronomia do país onde passámos mais anos. Sendo a arte uma forma de expressão da nossa experiência, é natural que os costumes locais representem grande parte dessa experiência, e consequentemente influenciem a arte que fazemos. E é aqui que a porca torce o rabo: que influências culturais locais os artistas Portugueses respeitam? Que costumes culturais de especificidade Portuguesa sobrepõem eles a costumes culturais do bloco central? Siza Vieira, Emmanuel Nunes ou Joana Vasconcelos são um exemplo de sucesso de figuras moldadas ao cânone, e não o contrário. Serão artistas Portugueses? Se a actualidade teórica exige a igualdade de culturas, onde anda ela na práctica? Quantas teses em arquitectura sobrepõem influências locais ao cânone Germânico sagrado? Mais: que utilidade tem a imitação de um modelo estrangeiro totalmente estabelecido? A medida do risco que se toma em adoptar uma estratégia de criação que tenha em conta (e respeito) correntes culturais não pertencentes ao cânone é também a medida em que esta


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poderá oferecer alguma novidade. A solução está nas mar� gens culturais porque oferecem maior informação sujeita a menos escrutínio, e Portugal é privilegiado porque tem tanto por onde escolher.


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EUA, anos 10: Grosso modo, a única música consolidada era tradicional Irlandesa e música do Oeste Africano trazida pelos imigrantes e escravos, respectivamente. Não havia ainda jazz nem blues nem rhythm n´blues: isso seria o resultado da mestiçagem, do confronto de culturas em processo de junção. Entre influências religiosas e políticas, lá começaram eles. 100 anos depois, o resultado é conhecido e entrou pelos outros países (quase) todos adentro. Em Portugal, estamos nesse período inicial em que a mestiçagem ainda não criou novidades. No entanto, a nossa comunidade ainda disso não tem consciência clara. Estão por dar os primeiros passos em busca da sonoridade futura do Portugal contemporâneo, e assim a saída é só uma: a criação e desenvolvimento de estandartes culturais próprios. Mas este é um caminho armadilhado. Tendo Portugal uma cultura urbana ainda por criar, cada passo será um passo novo, para fora do conforto tolo e submisso que é a colonização cultural actual. Num mundo de mistura contínua, como identificar localismos valiosos? O grande desafio será a identificação de características representativas da vivência local. Carlos Paredes disse que a sua guitarra cantava Lisboa. Mas não precisaria de o dizer. A luz, a vida e o ritmo Lisboeta estão lá. Na criação da sua música havia uma profunda procura pelas suas influências, e essa procura era entendida a vários níveis. Não só pelo uso da guitarra Portuguesa, não só pela melancolia das notas, não


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só pela perfeição técnica através do trabalho contínuo. Tudo isto e centenas de outras características (nem todas fáceis de identificar ou descrever) moldaram uma obra que assumia a procura da identidade. Uma só destas características na sua música não seria suficiente para que se pudesse exprimir como queria: precisava de todas, e antes do processo de criação já tinha uma predisposição consciente para abarcar influências locais para depois as exprimir da forma que queria. Joana Vasconcelos constrói símbolos culturais Portugueses em formato pop-gigante. A forma descarada de expôr o seu trabalho, a comunicação de imagem, o modelo de captação de fundos públicos, as suas referências artísticas (iguais a milhares de outros artistas) são totalmente importadas. Posto em contexto, o facto do símbolo exposto ter sido criado em Portugal não passa de um pormenor. Na realidade, a origem do símbolo é quase irrelevante na hora de julgar a identidade cultural do seu trabalho. Aqui não tento avaliar a obra do Carlos ou da Joana, tão-só os utilizo como bons exemplos para o texto. A influência da cultura Portuguesa em bandas indie nacionais tem a mesma falta de contexto das obras de Joana Vasconcelos: Têm todas as já conhecidas características das bandas indie Estado-Unidenses, mas cantam em Português, tocam guitarra portuguesa ou usam um barrete de campino. Os elementos locais são introduzidos um a um e à força, fora de contexto. E desta forma, ficam a mais.


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O exemplo de Carlos Paredes é perigoso: parece sugerir que eu busco cultura pura, local, imutável. No contexto deste libelo o leitor deduzirá que quando falo em criação baseada na vivência local, essa vivência é tudo o que se vive no local. Incluindo, no caso Lisboeta, cultura Indiana para quem vive no Martim Moniz, cultura Guineense para quem frequenta os Restauradores, a viagem de comboio que se faz de manhã com sol nas ventas ou uma desventura qualquer que deambule na cabeça de um qualquer transeunte. As influências são tudo o que nos rodeia, nos mata ou nos rouba. Ou nos abre um olho! São estes episódios (sinistros ou costumeiros) que inspiram a arte de todo o mundo, incluindo a do bloco central. Quando em Portugal as peripécias locais passarem a ter em nós impacto, o resultado vai ser inevitavelmente o crescimento de criação cultural própria e o trepar da auto-estima. De aí em diante poderemos usufruir de trocas culturais justas e construtivas com a cultura anglo-saxónica e as outras. Porquê? Como vimos acima, sendo julgadas ao mesmo nível, as trocas culturais deixarão de ser entre colonizador e colonizado, para se transformarem em trocas culturais mutuamente benéficas. Um bom exemplo de mestiçagem local negligenciada pelo centro cultural nacional e que é objecto de dedicação pelos autores deste panfleto é a música dos PALOP. A segregação no consumo de música dos PALOP em Portugal é de tal ordem clara que eu me questiono se os Portugueses sabem que os PALOP existem. Já ouviram falar, queridos?


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Os símbolos maiores da música dos PALOP em Portugal têm dois tratamentos: ou são perfeitamente ignorados, ou são objecto de um gozo ignorante de tal forma revoltante que até os cães vadios rangem os dentes de raiva. Exemplos de desprezo são muito fáceis de identificar num ápice: Paulino Vieira, Carlos Burity, Artur Nunes, Codé di Dona, Justino Delgado. A lista não acaba. Falemos de Angola: Só consome música Angolana em Portugal quem é Angolano, tem ascendência Angolana ou lá viveu e traz memórias. Nem mais um! Só ouve quem é obrigado a isso, portanto. Pobres gentes...todo o dia a ouvir tambores! O mesmo vale para a música e cultura dos restantes PALOP. Amigo, estamos na Europa! Temos óculos de massa, relógios suíços, barbas grandes! A comunidade artística Portuguesa, o centro de influência académica do nosso país em conjunto, tem tal pavor pelo crioulo e preto, que fica com azia de cada vez que ouve um batuque! A música dos PALOP é um ursinho de peluche, um carrossel da província! Merece contemplação à distancia. É admirável como um papa-formigas. A gente quando mete uma pinga até abana o rabiosque dois minutos. Posto o riso em dia, segue-se caminho. Numa simplificação grosseira minha, Boaventura de Sousa Santos chama “produção de não-existência” à desvalorização cultural activa de uma cultura perante outras, e esta acontece quando “uma entidade é desqualificada e tornada invisível, ininteligível ou descartável de um modo irreversível” (9). Bonga é um belo exemplo de desqualificação pelo contexto cultural.


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Faça a música que faça, será sempre o Bonga da “Mariquinha”, nunca o Bonga do “Angola 72” e “Angola 74”, obras universais e desassombradas. Está nivelado por baixo. Celebrizou-se...pelo que fez de menos interessante! Caso único no mundo! Proponho julgar os Pink Floyd pelos seus dois últimos álbuns. É claro: Como comunidade estamos activamente envolvidos na morte imediata dos nossos próprios estandartes culturais! Esperemos que esse envolvimento não seja irreversível. Cabo-Verde, por sua vez, é ignorado. Ou nas palavras de Sousa Santos, é “tornado invisível”: Tem pelo menos 50 anos de magistralidade musical (consolidada) à solta, grande parte gravada e produzida em Lisboa (lendários estúdios da Iefe em S. Bento, por exemplo), e letras em crioulo perceptível. Está aí, nas ruas, nas lojas, nos cafés! Razões suficientes para despertarem a nossa curiosidade, diria eu. Mas diria mal, porque morna em Portugal só a sopa quando há dinheiro para a aquecer. Se Cabo-Verde se sente na rua, se faz parte da cidade, se é uma comunidade válida, o que impede a sua música de influenciar e inspirar a nova música Portuguesa? (10) Portugal não é só uma colónia cultural voluntária, é-a com pompa! Acomete a cultura irmã para chupar a teta cultural doce onde a multidão mama todos os dias. E toma tudo isto de um trago sem pensar muito. Afinal, todos queremos sucesso. Os impostos aumentam à mesma, e a cerveja rebenta de fresca.


(queria incluir erros ortogrĂĄficos na pergunta do leitor, mas nĂŁo sabia qual escolher).


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Tendo em conta cinco séculos de trocas culturais entre povos, os PALOP têm uma grande influência em Portugal. Entre retornados, familiares de retornados e imigrantes, temos quórum. Quantidade de gente e força para integrar expressões Portuguesas, influenciar costumes, mudar hábitos. Portugal é em grande parte um país Africano (desculpem). E foi por essa presença tão forte de África em Portugal (neste caso Lisboa) que os Celeste/Mariposa nasceram. Discos da feira, conversas de café, teimosias que perduram...todo o conceito foi formado e amadurecido em Lisboa e com as suas gentes. E estamos a dar os primeiros passos. Nós só demos importância ao que já cá estava, e esta é a nossa interpretação e busca de cultura própria. Haverá milhares de outras por executar. Não sei como nem onde, mas estão aí por fazer. Cada um há-de escavar o seu cantinho. E entre dúvidas, certezas do ridículo, vergonhas de provincianismo e recuos, lá se levanta um de cada vez. De olhos abertos e passo leve que a firmeza ganha-se com calo. Suspirando, diz o leitor baixinho: - Que interessa isso? Ao fim do dia as minhas referências são as mesmas. Depois de ler este panfleto, ligamos a rádio, a televisão, vamos ao Cais Sodré. Todos os meios martelam as mesmas referências, e sucumbiremos inevitavelmente. É uma batalha bonita mas perdida.


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Bibliografia e quatro ressalvas. 1. Tversky, A. Kahneman, D. (1973). “Availability: A heuristic for judging frequency and probability”. Cognitive Psychology 5 (1): 207–233. 2. Diamond, J. (1997). �������������������������������������������������� Guns, Germs, and Steel: The Fates of Human Societ� ies. W.W. Norton & Company 3. B. Ashcroft, G. Griffiths, and T. Tiffin. (1995), The Post-Colonial Studies Reader Eds. London: Routledge. 4. Vargas, António Pinho. (2011) Música e Poder: para uma sociologia da ausên� cia da música portuguesa no contexto europeu, Coimbra, CES/Almedina. 5. Wallerstein, I. (2004) World-Systems Analysis: An Introduction. Durham, North Carolina: Duke University Press. 6. Jameson, ����������������������������������������������������������������������� Frederic (1998) “Notes on Globalization as a Philosophical Issue.” The Cultures of Globalization. Fredric Jameson and Masao Miyoshi, eds. Durham: Duke University Press. 7. Miller, Hugh M. (1972) History of music. Barnes & Noble, New York. 8. As bandas indie (nascidas em Portugal) não representam nada pior do que qualquer outra identidade ou sonoridade, mas são um exemplo muito actual de um processo próximo da cópia. 9. Santos, Boaventura de Sousa. (2006). Uma gramática do tempo: para uma nova cultura política. Porto: Edições Afrontamento. 10. Falo aqui de Angola e Cabo-Verde porque são os casos que melhor conhecemos. Moçambique, Guiné-Bissau e S. Tomé e Príncipe são igualmente desprezados. 11. Este panfleto é uma versão resumida das ideias em que assentam os Celeste/Mariposa, e que todos os seus (3) membros gritam alto. No entanto, o penejar do texto e traçar dos insultos ao leitor selvagem é da exclusiva responsabilidade do José Rotativo. 12. Cumprimentos à família.


Celeste Mariposa Colónia Cultural Voluntária  
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