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ANDERSON SPIDER SILVA O

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a


Este livro é dedicado a Edith (in memoriam), Dayane, Keiry (in memoriam), Kaory, Kalyl, Kauana, Gabriel e João.


Agradecimentos

A

ideia deste livro foi apresentada pela turma da 9ine. Topei de cara porque achei que seria uma boa oportunidade de con-

tar, com minhas próprias palavras, uma parte da minha trajetória de vida e de lutador. Agradeço ao Ronaldo, que fez questão de me ter a seu lado na agência e é hoje um grande amigo, ao Marcus Buaiz, seu sócio e outro grande amigo, ao Fábio Kadow e ao Sérgio Amado, a quem devo meu primeiro contato com Ronaldo. O time da 9ine é dez! Da mesma forma, conto com uma equipe que me acompanha há muito tempo e que também me proporciona o suporte e a amizade em todos os momentos. São os casos de Hebert Mota, Dandan, Rogério Camões, irmãos Nogueira, Cesário, Josuel Destaque e Ramon Lemos, entre tantos colaboradores. Nem sempre é fácil lembrar alguns momentos da vida, e eu agradeço ao jornalista Eduardo Ohata, que ao longo de mais de 20 horas de conversas soube captar o que eu gostaria de passar às pessoas. Faço questão de agradecer também a todos os mestres que me tornaram o lutador que sou hoje – Leandro Frates, Kang, Edmar


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Cirilo dos Anjos, Cláudio Dalledone Jr., Fábio Noguchi, Almir Ramos, Diógenes, Gibi, Vitor Ribeiro, André Xaropinho, Rogério Camões, Edelson, Luis Dórea e Sérgio Cunha, meu ex-treinador. Obrigado também aos meus alunos, faixas pretas e amigos Marquinhos Duncan, XPey, Marcílio, Damasu, Dandan, George, Pablo, Claudio, Zanon e Carlos Mel Dolar (in memoriam). Aos meus patrocinadores e ao Corinthians, que me permitem estar focado integralmente na melhor preparação para cada combate, meu agradecimento pela confiança no homem e na “marca” Anderson Silva. Agradeço aos lutadores brasileiros que treinaram ou lutaram comigo ao longo dos últimos 15 anos. Ao dividir o octógono com cada um deles, eu me tornei um atleta mais completo. Finalmente, dedico aqui uma palavra especial de agradecimento ao meu mestre Rodrigo Nogueira, o Minotauro, e ao seu irmão, Rogério Minotouro. Sem o apoio de um ser humano especial como Rodrigo, eu provavelmente teria desistido da minha carreira. Por último, obrigado ao povo brasileiro pelo carinho e pela acolhida que tem me dedicado. Só encontro palavras de incentivo aonde quer que eu vá. Este calor e esta torcida me impulsionarão em direção a novas conquistas.


SUMÁRIO

Prefácio

Na teia do Aranha. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

Introdução

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13

Capítulo 1

A teia do destino leva a Curitiba . . . . . . . . . . . . . . 15

Capítulo 2

A descoberta dos superpoderes. . . . . . . . . . . . . . . . 29

Capítulo 3

A vida golpeia abaixo da cintura. . . . . . . . . . . . . . . 45

Capítulo 4

Alguém lá em cima gosta de mim . . . . . . . . . . . . . 61

Capítulo 5

O primeiro cinturão a gente nunca esquece. . . . . . 71

Capítulo 6

Anderson “The Spider” Silvaaaaaa!!!!!!!!! . . . . . . . . . 79

Capítulo 7

Pride e preconceito . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93

Capítulo 8

Campeão no UFC. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 103

Capítulo 9

Um nocaute fora dos ringues. . . . . . . . . . . . . . . . 111

Capítulo 10

Uma lembrança de Ali (e Liston). . . . . . . . . . . . . 115

Capítulo 11

Uma vitória para os irmãos Nogueira . . . . . . . . . 123

Capítulo 12

Uma parceria fenomenal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133

Capítulo 13

A luta do século acaba rápido. . . . . . . . . . . . . . . . 137

Capítulo 14

O Brasil descobre Anderson Silva . . . . . . . . . . . . . 143

Capítulo 15

Um grande poder exige grande responsabilidade. . . 151


Francisco Cepeda / AgNews


Prefácio

Na teia do Aranha por Ronaldo Nazário de Lima

M

inha vida dentro dos campos foi marcada por muitas conquistas. Fora dos campos, quando iniciamos o projeto da

9ine e escolhemos Anderson Silva como o primeiro atleta para quem realizaríamos o trabalho de gerenciamento de imagem, sabíamos que não era hora de errar. A parceria tinha de ser vencedora. Logo que conheci Anderson percebi estar diante de um brasileiro muito diferente do estereótipo desenhado no imaginário das pessoas para lutadores de MMA, um vencedor já reconhecido lá fora. Faltava o principal para o atleta que sai do país em busca de títulos: o reconhecimento do seu próprio povo. Neste relato corajoso e sincero, Anderson fala, entre muitas coisas, que gosta de usar máscara facial. Posso garantir que é a única máscara que ele usa. É atleta de alto nível e fama mundial, mas também despojado, relaxado e humilde. Ao conhecer melhor sua história, fica claro que o sucesso não acontece por acaso. Anderson passou por todo tipo de dificuldade e provação. Podia ter escolhido o caminho errado mais de uma vez. A vida o testou em diversas ocasiões. De uma forma diferente, a vida me testou também. As contusões


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sofridas e as cirurgias a que me submeti talvez levassem outros atletas a desistir. Por alguma razão, eu sabia que alguma coisa de melhor estava reservada mais à frente. A impressão é de que Anderson sentiu algo parecido quando as portas pareciam se fechar, uma a uma. A vida pode tirar alguma coisa num momento, mas ela é generosa o suficiente para devolver em dobro logo adiante. É como numa luta. Perde-se um round, mas sempre é possível encontrar o golpe perfeito e finalizar o combate. Eu me vi muitas vezes no depoimento do Anderson. Impossível não se identificar com quem ouve o destino sussurrar que desista de seu sonho e, ainda assim, segue em frente. Por pouco Anderson não foi obrigado a desistir da carreira. Por pouco não tomou um caminho sem volta num momento de desespero. A vida tirou-lhe uma filha. Anderson foi vítima de racismo mais de uma vez. Foi alvo de injustiças e calúnias. Foi perseguido covardemente. Foi agredido, humilhado e ameaçado. Tentaram boicotar sua trajetória vitoriosa. Nada disso, porém, foi capaz de impedir a caminhada do Aranha. Anderson é um grande pai. Um cara que ama sua família e vive por ela, mesmo estando distante muitos meses num ano. É um exemplo de atleta, alguém que respeita seus adversários. É um lutador que enxerga nas artes marciais um caminho para o autoconhecimento. As páginas deste livro podem ser lidas como quem assiste a um combate. Nos primeiros rounds, o herói é golpeado para valer. À medida que a luta avança, ele vira o jogo até a redenção final com a glória do título e do reconhecimento internacional. Fico feliz em saber que Anderson Silva é hoje um ídolo aclamado no Brasil. Juntos e misturados, Anderson!


Introdução

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nderson “The Spider” Silva! Muitas vezes escutei o locutor me chamar assim. O Homem-Aranha apareceu na minha

vida bem antes disso. Adorava suas histórias. Sempre que juntava um dinheirinho, dava um jeito de comprar seus gibis. Essa era minha identidade secreta quando moleque. Peter Parker, Homem-Aranha. Até máquina fotográfica dei um jeito de usar para tornar a coisa mais verdadeira. Minha tia Edith não sabia da minha identidade secreta. Em casa eu era apenas Anderson “Peter Parker” Silva. Fora de casa, me transformava no herói que voava por cima dos carros, dos arranha-céus, das pessoas e de toda a cidade. O tempo passou e pude compreender o porquê do meu fascínio pelo Aranha. Assim como Peter Parker, fui criado por uma tia. O Homem-Aranha foi muitas vezes vítima de injustiças e incompreensões. É um herói mais humano do que os outros. Um cara tão imperfeito que não foi capaz de impedir a morte do próprio tio. Na minha vida, volta e meia me culpei por acontecimentos que eu talvez não tivesse a possibilidade de evitar. A teia do destino é tão invisível que a gente chega à conclusão


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de que só mesmo alguém dotado de poderes divinos, um deus de verdade, e não um herói com todas as suas fraquezas, pode estar por trás de tantos fatos que se sucedem e se amontoam de uma maneira que nenhum autor de histórias em quadrinhos poderia imaginar. A primeira coisa que o Aranha fez quando se viu investido de superpoderes foi subir num ringue. Assim como ele, eu também não desconfiava que fosse capaz de derrotar tantos adversários quando me aventurei no mundo das lutas. Nas páginas deste livro, vou contar uma parte da trajetória do cara que muita gente já viu no octógono, nas campanhas publicitárias, nos talk shows e no cinema. A novidade é que, desta vez, o público vai conhecer um pouco mais da minha vida fora dos ringues. Procurei ser o mais verdadeiro possível sem a fantasia do Spider Silva. Como diria Peter Parker, um grande poder vem acompanhado de grande responsabilidade. Agora estou diante da responsabilidade de contar a minha própria trajetória. Espero que todos curtam esta viagem enquanto lanço minha teia pelo passado, presente e futuro de um certo Anderson Silva. Com vocês, as incríveis aventuras de Anderson Spider Silva!


Capítulo 1

A teia do destino leva a Curitiba

V

ivi os primeiros anos de minha infância num quarto de pensão na Barra Funda, em São Paulo. Minha mãe, Vera Lúcia

da Silva, minha avó e eu dividíamos alguns poucos metros quadrados. Ainda bebê, era acordado às 6h e deixado na creche às 7h. Ficava por lá até as 18h. Só então minha mãe me buscava. Era empregada doméstica. Às vezes, nos feriados, eu não tinha onde ficar e ia com ela para o trabalho. Mamãe se parecia comigo. Era magra, alta, esguia. Jamais deixou que faltasse qualquer coisa, apesar de abandonada muito cedo por meu pai. Eu era pequeno quando meus pais se separaram. O tempo passou e mamãe começou a se relacionar com um homem que enfrentou problemas com a justiça. Eles tiveram dois filhos: George, meu irmão dois anos mais novo, e Jean, o caçula. Por parte de mãe, tenho ainda uma irmã, Aline, nascida anos mais tarde. Mamãe sempre procurou preservar a união da família. Infelizmente, meu padrasto passava mais tempo na prisão do que com a gente. Eu via coisas que me assustavam. Ele tratava mal minha


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mãe. Fui testemunha de duas ou três agressões. Em mim e em meus irmãos nunca tocou. Daqueles dias, lembro em especial de um domingo. Bem de manhãzinha, assim que acordamos, mamãe avisou que íamos sair. A notícia animou a mim e a meu irmão Jean. Não perdemos tempo em vestir nossas roupas mais bonitas, aquelas poupadas para os passeios. Tenho a recordação viva de meu irmão usando uma touca. Eu também estava agasalhado, era um dia frio. Já vestidos, soubemos que visitaríamos meu padrasto. Fazia tempo que ele não aparecia em casa. Meu irmão sentia sua falta. Para ele, o passeio era a oportunidade de matar a saudade. De minha parte, fiquei decepcionado. Ainda me lembrava de como ele tratava mamãe. Apesar dos pesares, um programa, para onde quer que fosse, era melhor do que passar todo o fim de semana num quarto. Brinquei com meu irmão por todo o percurso do ônibus. Mamãe se mantinha séria. Ao desembarcar, percebi sua tensão. Ela não era a mesma de quando nos levava ao parque ou para visitar suas amigas e filhos, com quem passávamos algumas tardes. Após breve caminhada chegamos a nosso destino. Era um prédio enorme, feio, com um portão grande e malconservado. Havia muita gente na fila, centenas de outras pessoas, em sua maioria mulheres. Também me recordo de crianças em fila para entrar. Estava de mãos dadas com minha mãe, que ainda segurava meu irmão no colo. Por toda parte havia muitos policiais. Dezenas. Armados. Dava para ouvir o choro de alguns meninos e meninas. – Mãe, que lugar é este? Onde estamos? – perguntei.


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– Carandiru – respondeu. Finalmente entramos. Apaguei da memória detalhes daquela visita que me fez tão mal. Prometi para mim mesmo que era um lugar para onde não retornaria jamais. Hoje, anos depois, reconheço que esse episódio ajudou a formar meu caráter. A tal ponto que fiz questão de passar para meus filhos e sobrinhos o que senti naquele domingo. Fiz isso numa tarde em que combinei de tomar um café com um amigo delegado. Levei as crianças à delegacia, mas elas não nos acompanharam ao bar. Formamos um círculo com algumas cadeiras e, sob o olhar cuidadoso dos carcereiros, deixamos que observassem os presos enquanto me afastava com meu amigo. Quando voltei do bar, uns 15 ou 20 minutos depois, as crianças estavam chorando, assustadas com o que tinham visto. Era de cortar o coração, mas aprenderam uma lição valiosa. – Sabem o que é isso? – perguntei sem esperar resposta. As lágrimas escorriam pelos rostos dos meninos – Isso é o que acontece com quem não obedece pai e mãe. Ou com quem tem a chance de ir para a escola e não quer estudar. Essas pessoas acabam aqui. É isso que vocês querem? – completei. De novo, não houve resposta. Não precisava. Eu sabia que a mensagem estava entendida. Muita gente não vai concordar com minha atitude. Acredito que esse gesto, na prática, tenha valido mais do que qualquer sermão que pudesse dar. No meu caso, foi uma maneira de transformar algo negativo em positivo. Voltamos para casa e a visita ao Carandiru continuava viva na minha mente de criança.


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 * * *  Meu pai se chamava Juarez da Silva. Era magro e alto como minha mãe e eu. Ele desconfiava que o ambiente familiar em que eu vivia era pesado, mas não tinha cabeça ou estrutura para assumir uma família ou cuidar de um filho. Minha avó também percebia que aquele não era o melhor lar para uma criança. Ela e minha mãe passaram a buscar uma solução. Um dia fui surpreendido por uma visita de minha tia-avó, Edith, que havia criado mamãe. Ela morava em Curitiba. Assim que a vi, corri em sua direção para beijá-la. Era minha madrinha e costumava ser muito carinhosa comigo. Logo percebi que aquela não seria uma visita comum. Mamãe pediu que minha avó ficasse comigo e com meu irmão e saiu para conversar com minha tia. O assunto era eu. Passando por dificuldades financeiras, mamãe concordou que eu fosse morar com minha tia-avó. Assim teria uma vida melhor, pensava ela. Ainda sem saber o que se passava, me despedi de minha avó e de minha mãe. Num primeiro momento, imaginei que passaria uns dias com tia Edith em Curitiba. Apesar do abraço mais apertado e das lágrimas de mamãe no meu rosto, não desconfiei que a viagem fosse sem volta.   É incrível que me lembre de tantos detalhes desse dia. Eu tinha apenas 4 anos. Embarcamos no ônibus. Observei minha tia acomodar as malas no bagageiro. Constatei que era muita coisa para alguns dias ou poucas semanas. Abracei tia Edith com força. Permaneci assim até adormecer.


A teia do destino leva a Curitiba

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A viagem foi longa e cansativa. Finalmente chegamos a Curitiba.  A casa me parecia enorme. Tão grande quanto uma propriedade no campo. Ficava no bairro da Barreirinha. Meu tio Benedito foi nos buscar na rodoviária. Ele era militar e havia criado três filhos – Sandra, Wilson e Elson, o mais velho, então com cerca de 20 anos. São meus primos, mas me refiro a eles como irmãos. Minha chegada a Curitiba foi uma terapia para minha tia. Era uma mulher forte, mais enérgica que meu tio. Fisicamente, tinha aquele tipo Big Mama. Havia perdido dois filhos. Uma prima minha, Marili, morreu ao levar um coice de cavalo. Um outro primo, Édson, que seria o mais velho, morreu vítima de acidente num centro fabril onde trabalhava. Meu tio passava quase o dia todo no quartel, muitas vezes a noite também. Quanto retornava, era por volta das 20h. À época era cabo, mas se aposentou como primeiro-sargento. Lembro dele sempre de farda. Nunca perdeu a imagem de comandante da família. Era uma pessoa sistemática. Para entrar em minha nova casa, era obrigado a tirar os sapatos e me referir a meus tios como “senhor” e “senhora”. Não tinha esse negócio de “já vou...” quando me chamavam. Precisava pedir a “bênção”. Na hora das refeições, os mais velhos sentavam primeiro. Não podia comer de boca aberta, os palavrões eram proibidos e TV só até as 20h. Ainda assim, alguns programas eram vetados. Novela era um deles. Tio Benedito nunca nos bateu. Sua autoridade estava no olhar. Às vezes, quando eu fazia algo errado, achava que aquele olhar era pior do que uma palmada. Minha tia, sim, de vez


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em quando recorria a uns petelecos. Meus tios eram altos. Meus primos também. Naquela época, como era muito criança, todos pareciam gigantes. A ficha demorou a cair em Curitiba. Ainda não estava claro que aquele seria meu novo lar, que não moraria mais com minha mãe e minha avó. Aos poucos, pequenos detalhes me fizeram perceber que as coisas não seriam mais as mesmas. Senti uma diferença de tratamento nos primeiros dias, até em atividades corriqueiras, como comer uma fruta. Quando pedi uma maçã a minha madrinha, ela me deu. Olhei para a fruta e para ela de novo: – Quero comer maçã – protestei. – Você já ganhou uma maçã – respondeu, firme. – Quero do jeito que minha mãe “faz” – reclamei com impaciência. Tentei “ensinar” à tia Edith que, ao me dar a maçã, minha mãe costumava cortar em duas partes, tirar as sementes e raspar o miolo com uma colher. – Bom, a maçã está aí, lavadinha. Se não quiser assim, não vai comer – disse sem rodeios, pondo fim à discussão. Foi o bastante para que eu abrisse o berreiro. Não entendia por que se recusava a fazer como eu pedia. Onde estava a madrinha que costumava mimar o sobrinho quando o visitava em São Paulo? Chorava de saudade da minha mãe. Nas ocasiões em que fazia algo errado e meus primos vinham brigar comigo, eu me defendia: “Você não é meu pai, vou falar para meu pai...” E ouvia de meu primo: “Falar com teu pai!... Teu pai nem está aqui...”


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Eu me sentia desprotegido. Na verdade, estava protegido o tempo todo, amado pelos meus tios, por meus primos. Mas era assim que me sentia nos primeiros tempos. Meus tios conversavam comigo. Eles deixavam claro que meus pais estavam em São Paulo, que eu tinha ido para Curitiba por causa disso, por causa daquilo, enfim, para ter uma vida melhor. Explicavam que não ia faltar nada – nem comida, nem roupa, nada. Apenas me conscientizavam de que seria daquele jeito. O processo de adaptação foi gradual. Por muito tempo comparei minha nova realidade com os passeios com minha mãe e minha avó em São Paulo. Quando pedíamos algo para comer e o prato chegava, eu dizia: “Não quero mais comer isso.” Então vinha outra coisa, eu dava duas garfadas e soltava outro “não quero mais isso”. Fui uma criança mimada por minha mãe e por minha avó, apesar das dificuldades financeiras. Em São Paulo, duas pessoas me atendiam quando eu gritava. Minha tia tinha a “manha” para lidar com crianças, já havia criado meus três primos. Ela sabia como tirar os mimos de criança mal-educada. A melhor coisa que me aconteceu foi não ter tido todas as vontades atendidas. Não fosse isso, teria me tornado uma criança sem identidade, terrível. O que faço hoje com meus filhos é inspirado no que aprendi com meus tios. Se explico que não dá para fazer alguma coisa, eles entendem. Na casa dos meus tios nada faltava. Mas não se esbanjava, era tudo muito controlado. Eu dispunha de apenas um par de tênis, que usava para ir à escola e sair. Em casa, precisava tirá-lo ao chegar, guardar e calçar chinelos. O primeiro


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brinquedo “caro” que ganhei foi um carrinho dos Comandos em Ação. Nem era de fricção, era aquele simples mesmo. Os Comandos eram famosos na época e eu entendia que era aquilo que meus tios podiam dar. Às vezes ficava sozinho no meu mundo, com um pedaço de papel e alguns brinquedos. Só às vezes. Em geral, era uma criança hiperativa. Meus tios quebravam a cabeça para me fazer queimar toda aquela energia. Quando visitava meu pai, uma das brincadeiras era escalar um muro e subir numa laje para alcançar a caixa-d’água da casa. Um dia quebrei a tal da caixa. Para me frear um pouco, minha tia decidiu me matricular numa escola de dança perto de casa. Aos 13 anos, me tornei aluno de balé e sapateado. Ela não sonhava com uma carreira de bailarino para mim. A dança foi só o que encontrou para me manter ocupado. – Não quero – reclamei, ao saber da notícia. – Você vai! – ordenou minha tia. Para ter certeza de que iria mesmo às aulas, minha tia me acompanhava até a porta da academia. Aconteceu por pouco tempo. Tia Edith logo percebeu que eu encarava a coisa numa boa. O problema é que esse tipo de notícia se espalha, e bem depressa a molecada na escola tomou conhecimento da “novidade”. Passei a ouvir provocações como “E aí, vai pôr colantezinho? Isso é coisa de bichinha, sabia?”. Não dava bola. Graças a Deus, sempre fui muito bem resolvido com essas coisas. Acabei saindo da escola de dança porque não levei a sério. Se tivesse levado, quem sabe não teria me tornado bailarino? Por causa dessas aulas, quem melhor fazia cover de Michael Jackson nas festinhas era eu. Cheguei a montar um pequeno


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grupo de dança com meus amigos. Imitávamos as coreografias. A gente pedia a minha tia que costurasse as roupas para dançar. Todo mundo vestido igualzinho, meia branca, calça meia canela. O funk estava na moda. Não era esse funk que faz apologia de coisas erradas. Era o funk da Donna Summer, do próprio Michael Jackson. Meus primos escutavam esse tipo de som, Jackson Five, era um negócio mais dançado. Foram muitas festinhas. A gente enchia uma mão de talco, outra de purpurina, dançava e jogava para cima. Foi um tempo bem gostoso, me diverti muito. Uma música de que gostava especialmente era “Billie Jean”. Em minha carreira como lutador, ensaiei passos de dança, à Michael Jackson, pouco antes de subir ao ringue. Até hoje, quando participo de programas de auditório, pedem uma demonstração das coreografias. Não perdi a prática porque ainda danço, principalmente quando estou com meu filho Kalyl. Ele adora. Mesmo nos treinamentos, gosto de música. Embora eu não reconhecesse na época, meus tios, a seu modo, também me cobriam de carinho. Eu dormia no quarto deles. Chegaram a providenciar um berço nos primeiros tempos. Por saberem da situação à qual fui exposto em São Paulo, meus tios e primos moldaram uma forma de me dar todo o amor e o carinho de que precisava. À medida que eu crescia, meu tio me apresentava às outras regras da casa já aplicadas a meus primos. Ele dizia que homem tinha de acordar cedo, lá pelas 6h. Sempre estávamos de pé antes dele. Meu cotidiano era recheado de atividades para que não ficasse ocioso durante o dia. Ele sempre orientou os filhos a cui-


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darem do lugar onde moravam. Eu acordava, fazia minha cama, capinava o jardim e deixava o quintal limpo. Tio Benedito era dono de uns terrenos no bairro. Montava casas pré-fabricadas e, com o tempo, de alvenaria. O material desmontado ficava guardado no porão de casa. Separávamos pregos em latinhas. Eles eram reutilizados mais tarde conforme seus tamanhos. Minha rotina diária era essa. Mesmo com uma educação tão rígida, cometi deslizes. Não sou perfeito, nunca disse que era. Certa vez, decidi matar aula. Estudava à noite e, ao lado de alguns amigos, deixei a escola mais cedo. Era a segunda vez que fazia isso. Para nosso azar, fomos parados por policiais. Eles ordenaram que formássemos uma fila. Em meio àquela confusão, ouvi uma voz familiar. “Tudo resolvido”, pensei. Era Elson, meu primo mais velho, militar como tio Benedito. Meu primo não percebeu de cara que era eu. Foi ele que veio me revistar. Assim, longe dos colegas, imaginei que seria mais fácil explicar o que acontecia. Estava certo de que ele nos liberaria. Esbocei um sorriso, olhei para ele. Para minha surpresa, meu primo me mandou encostar na parede. – Você vai me dar uma geral? Sou eu, seu irmão – argumentei. – Cala a boca, não tenho irmão vagabundo! Encosta aí e separa as pernas – ordenou. Fiquei em choque. Estava sendo revistado por meu primo mais velho, com quem havia tomado o café da manhã no início do dia. Os policiais logo nos liberaram. Não tive coragem de encarar meu primo. Já em casa, fui direto para o quarto. Não contei nada do que havia acontecido a meus tios. Não conseguia dormir. “Que


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azar”, ruminava. “Com tanto lugar para fazer a ronda, ele tinha logo de estar perto da escola?” Um grito me jogou para fora da cama. Era meu tio. Quando cheguei à sala, lá estavam ele, de pijama, tia Edith e Elson, recém-chegado. – Você não vê o duro que damos para que tenha um futuro melhor? Não percebe de onde veio? Quer jogar fora a oportunidade de estudar e ser alguém na vida? Por acaso não sabe que tudo o que fazemos é para seu bem? – perguntou tio Benedito. Eu fitava o chão, cabeça baixa. Não havia resposta. Quando olhei para o lado, vi algo que jamais gostaria de ter visto. Minha tia observava a cena e chorava. Aquilo foi o que me deixou mais triste e arrependido. Não queria causar dor a quem tinha me acolhido dentro de casa e me devotava tanto amor e carinho. Com o tempo, ela se tornou minha confidente e melhor amiga. Aquele foi um momento difícil. Nos anos que se seguiram, meus tios e primos, quando mais precisei, estiveram ao meu lado e compraram minhas brigas. Aquele núcleo familiar está comigo todos os dias ainda hoje. É engraçado pensar que ficava aborrecido quando me davam uma dura. Hoje, já adulto, ligo para dizer onde estou e o que tenho feito. O amor daquela família unida não me impedia de sentir falta de meus pais. Certa vez, minha mãe foi a Curitiba me buscar. Estava acompanhada do marido. – Você não vai tirar ele daqui – anunciou tia Edith. – Ninguém vai levar ele daqui – reforçou tio Benedito, que sentiu alguma coisa estranha no companheiro da minha mãe. Minha mãe não me tirou dali, mas aos 12 anos decidi morar com meu pai. Ou melhor, com meu pai, minha madrasta, Márcia,


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e minhas duas irmãs por parte de pai: Erika, então com 9 anos, e Fabiana, de 7 anos. (Mais tarde nasceu meu terceiro irmão por parte de pai, Cristian.) Vivi com eles por um ano. Foi naquele período de adolescente rebelde por que passam tantos jovens. Meu pai atribuía às dificuldades financeiras a decisão de me abandonar tempos atrás.  Até hoje recordo os primeiros presentes que meu pai me deu: uma bola de futebol e um par de luvas de boxe. Não fiz muito uso da bola, mas o João Bobo sofreu com as luvinhas de criança. Infelizmente, os presentes se perderam com o tempo e não os carrego mais comigo. Um dia meus tios foram me visitar. Tia Edith percebeu que eu não estava bem. – Quer ir embora? – perguntou ela sem cerimônia diante de meu pai e de sua mulher – Se quiser, arruma tuas coisas e vamos – completou. Não pensei duas vezes. Saí da sala, juntei todos os brinquedos e fiz minha mala. Não me dava mal com meu pai, apenas não me sentia tão bem na casa dele como na casa da minha tia. Ele chegava tarde do emprego de contador, eu o via muito pouco. Também sentia falta de meus amigos e primos em Curitiba, da casa com aquele quintal enorme. De alguma forma, meu pai e eu sempre estamos separados. É difícil explicar o porquê. Há ocasiões em que fico dias em São Paulo (onde ele mora). Quero falar com ele, mas acabo não telefonando. Por quê? Não sei ao certo. Nós nos dávamos bem, mas ao voltar para Curitiba perdi a vontade de viver com ele. Eu o visitava nas férias, nada mais.


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Quando retornei para a casa dos meus tios, após um ano fora, meu quarto estava do jeito que eu havia deixado. Aquela casa era minha identidade, minha vida. Ainda hoje é assim. Todos os dias me fortaleço ao pensar no amor que recebi de meus tios e meus primos. Eles são minhas referências de união familiar.


Ana Carolina Fernandes / Folhapress


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