Page 1

6 | PORTUGAL | PÚBLICO, SEX 7 SET 2012

Seguro pressionado no OE por instituições económicas e políticas O líder do PS está cada vez mais distante do Governo. O voto no Orçamento do Estado para 2013 não está decidido, mas Seguro tem espaço político para votar contra e já disse que não cede a pressões MIGUEL MADEIRA

Partidos São José Almeida O secretário-geral do PS, António José Seguro, está a ser pressionado por responsáveis de instituições económicas e políticas para se abster na votação do Orçamento do Estado para 2013. É a estas pressões que Seguro se referia e a elas que respondia, quando, no domingo, ao encerrar a Universidade de Verão do PS, em Évora, garantiu que não cedia. De acordo com as informações recolhidas pelo PÚBLICO, o líder do PS ainda não tem uma posição fechada sobre o que será o voto dos socialistas no Orçamento do Estado e a decisão final só surgirá após uma análise do conteúdo real da proposta de contas públicas para o próximo ano que o Governo venha a apresentar. Mas há balizas que os socialistas não aceitam ver ultrapassadas e elas têm sido repetidamente apontadas pelo secretário-geral. Isto é, os socialistas não aceitam mais medidas de austeridade e querem ver a dívida pública soberana portuguesa renegociada, de modo a Portugal ter mais tempo e mais condições para honrar os seus compromissos, sem que seja posto em causa o desenvolvimento económico. O que é facto é que, ao fim de mais de um ano de liderança do partido, António José Seguro acredita que já fez o seu caminho das pedras no que se refere à afirmação quer interna no partido, quer externa para o eleitorado e para o país, mas também para as instituições internacionais e europeias. Um caminho que fez afirmando posições e defendendo medidas para o país e para a União Europeia, que lhe permitem nesta altura sentir-se legitimado e com espaço político construído para poder assumir posições de oposição frontal às propostas do Governo, fazendo-o em coerência com o que é o discurso que tem produzido no passado ano. E isso dá-lhe uma margem de manobra para não só resistir a pressões para se abster no Orçamento do Estado, como lhe dá espaço para assumir internamente no partido, mas também perante outras forças e instituições nacionais e internacionais,

à-vontade que leva a que, de acordo com as informações recolhidas pelo PÚBLICO, seja praticamente impossível que Seguro venha a aceitar integrar um Governo sem que o seu partido saia ganhador de uma eleições e o seu nome como primeiroministro seja sufragado pelo voto popular. Segundo as informações recolhidas pelo PÚBLICO, mesmo que haja uma crise política e governamental, mesmo que a coligação PSD-CDS se desfaça, mesmo que o Presidente tome o protagonismo político e avance para a constituição de um solução alargada com base parlamentar do tipo “Governo de salvação nacional”, Seguro não aceita integrar um Governo sem que haja eleições legislativas. O líder do PS está convicto de que só legitimado pelo voto um primeiro-ministro terá condições de levar a cabo soluções alternativas ao que é a actual governação de Pedro Passos Coelho.

Ruptura autárquica Seguro ensaiou o voto contra no Orçamento no discurso de rentrée

Mendes desdramatiza voto contra do PS Ex-líder do PSD distingue OE de memorando

M

arques Mendes defende que um eventual voto contra do PS no Orçamento do Estado para 2013 deve ser desdramatizado no país, mas sobretudo na União Europeia. “É uma decisão política conjuntural que não afecta o consenso político estrutural que existe em torno do acordo da troika”, afirmou o antigo presidente do PSD no seu comentário semanal da TVI 24. Para Mendes, o PS vai votar contra o OE porque em 2013 há eleições. “O que realmente vai determinar o voto do PS não é o conteúdo do Orçamento. São as eleições autárquicas e a necessidade que Seguro tem de as ganhar para não perder a liderança do PS”, afirmou. No entanto, Mendes distingue a oposição ao Orçamento do apoio ao memorando da

bem como perante o eleitorado, que quer ser poder e que quer ser Governo e que está a preparar um programa de Governo para o país que conterá soluções alternativas às do actual Governo. Isto é, uma proposta de manutenção de um modelo de Estado-providência dentro do que são as condições actuais do país e da União Europeia. E sem pôr em causa os compromissos do país face ao pagamento da dívida.

Legitimidade do voto troika, que acredita o PS vai continuar a apoiar. “Se [não] o fizesse, Seguro arruinava toda a sua credibilidade. O país e a Europa nunca mais o levariam a sério. Ficaria na história como um líder que não cumpre compromissos”, afirmou. Mendes desdramatizou ainda os dissensos na coligação: “Não há nem vai haver ruptura. PSD e CDS percebem que, se abrissem uma crise, seriam triturados pela opinião pública”. No entanto, criticou o CDS por tornar públicas as diferenças em matérias financeiras.

Mais: Seguro está apostado em que as soluções que apresenta ao país façam a reforma do modelo económico que o actual Governo do PSD e do CDS estão a introduzir no país, mas também em relação ao modelo económico e social em que o país funcionou durante o anterior Governo do PS liderado por José Sócrates. Ou seja, Seguro está a preparar-se para ser primeiro-ministro e disposto a resistir e a fazer o seu caminho das pedras para lá chegar. É por isso que não só o líder do PS se sente hoje com uma folga e um espaço político que lhe permitem surgir como alternativa ao actual Governo, mas também é este

A segurança que o actual líder do PS sente em relação ao cargo que ocupa no xadrez político nacional e às responsabilidades que tem para ser o contrapoder ao actual Governo foi ganha ao longo de um ano em que esperou que Passos Coelho quisesse aliar-se ao PS. Mas a convicção que existe hoje na direcção do PS e no próprio António José Seguro é a de que não há condições para o PS entrar em acordo com o Governo de Passos Coelho. O exemplo lapidar é o que se passou com o dossier autárquico. Há um ano, Seguro terá proposto a Passos que, face à necessidade de mudar o desenho do poder autárquico, se avançasse para uma reforma enquadrada que reescrevesse o mapa administrativo do país de forma enquadrada, desde a freguesia à região, passando pelo mapa dos círculos eleitorais. Mas o Governo avançou sozinho para a preparação da reforma, o que inviabilizou qualquer posterior negociação. O caso das autarquias é, aliás, apontado como um exemplo da distância que existe entre Seguro e Passos hoje em dia, e que é referente também a métodos de acção e não apenas em relação a divergências ideológicas e de modelo de desenvolvimento para o país.

AJS Público  

Público OE2013