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50 | PÚBLICO, QUI 29 MAR 2012

Um fantasma paira sobre a vida pública portuguesa — chama-se José Sócrates MIGUEL MANSO

Francisco Assis Atacando Sócrates, pretende-se condicionar António José Seguro. Essa tentativa é, aliás, muito perigosa

1.

Um fantasma paira sobre a vida pública portuguesa — chamase José Sócrates. A imprensa tablóide persegue-o e calunia-o, o principal partido do Governo convoca-o e difama-o, o Presidente da República ataca-o com uma ausência de subtileza imprópria das funções que exerce, um grupo de ignotos juízes desprovido do mais elementar sentido de Estado vitupera-o e o próprio PS revela algumas dificuldades em lidar com a sua memória política recente. Esta obsessão quase patológica com a figura do anterior primeiro-ministro prejudica a qualidade do debate em curso, obnubila a compreensão dos verdadeiros problemas com que o País se defronta, diminui a lucidez dos vários intervenientes na vida pública e, não raras vezes, apouca quer intelectual, quer moralmente um conjunto de personalidades que, por razões institucionais, deveria cultivar outra perspectiva da dignidade política. Neste instante tão complexo da vida nacional, precisávamos de uma imprensa séria e qualificada, de um Presidente sereno e sensível ao apelo da grandeza, de um PSD exclusivamente concentrado nas tarefas de governação e de um PS empenhado no esforço de construção de uma alternativa credível de poder. Enquanto Sócrates permanecer como o horizonte inultrapassável da nossa vida pública, teremos dificuldade em abordar a substância das coisas e de perceber as virtualidades das múltiplas soluções possíveis. Permanecendo reféns de uma relação psicótica com um homem que não exerce qualquer função institucional no nosso País, permitiremos a paralisia do pensamento e proporcionaremos a eclosão torrencial dos piores sentimentos humanos. Recusemo-nos a aceitar a ideia de que Portugal se transformou num imenso tablóide, onde políticos, jornalistas e analistas aceitam a sua própria redução à condição de figuras de uma interminável ópera bufa. Somos, ou devemos procurar ser, muito mais do que isso. Conheci de perto e trabalhei com José Sócrates. Porque nunca integrei a corte dos seus aduladores de circunstância, sinto-me especialmente à vontade para vituperar aqueles que limitam a sua intervenção pública ao exercício da sua execração. Advirto mesmo que escrevo dominado por

uma certa cólera que é a única reacção íntima digna perante a infâmia. De alguma forma, é preciso esquecer Sócrates, deixar aos historiadores o trabalho que lhes compete, para podermos enfrentar serenamente o futuro deste País. Esquecêlo não é, porém, ignorá-lo, renunciar a um olhar crítico e inteligente sobre a sua acção e o seu legado. Para que esse exercício seja possível precisamos de romper com esta claustrofobia mental. Custanos assim tanto tornarmo-nos em verdadeiros póssocráticos? Esta questão aplica-se desde logo ao Partido Socialista. Um partido não é uma entidade evanescente, uma pura sucessão de presentes sem qualquer relação com o passado ou com o futuro. Um partido é simultaneamente uma substância e um processo, uma permanência

O PS não terminou quando Sócrates partiu, mas também não começou nesse instante

e um devir. Só assim se pode falar de um projecto colectivo. O PS tem uma história de que ninguém se pode excluir e deve ser afirmada sem qualquer tipo de limitações. Afirmá-la não significa, porém, proceder à anulação de qualquer perspectiva crítica, imprescindível para a permanente renovação de um projecto comum. Há dois erros que devem ser evitados — o excesso de melancolia e o exagero da vontade de ruptura. Um conduz ao enaltecimento do atavismo, o outro leva ao culto da novidade adâmica ingénua. O PS não terminou quando Sócrates partiu, mas também não começou nesse instante. O confronto entre os fundamentalistas de um passado erigido em improvável “idade de ouro” e os fanáticos de um futuro integralmente novo, fatalmente condenado ao insucesso, não serve o PS e prejudica o País. É preciso lançar um olhar lúcido para o passado, levando a cabo o exercício de uma verdadeira avaliação crítica, caminho imprescindível para que o partido possa enfrentar com sucesso a gigantesca operação de demolição da imagem do anterior Governo que se encontra em curso e não visa outra coisa que não seja a drástica limitação da margem de manobra da sua actual direcção. Não nos enganemos quanto ao último destinatário dos soezes ataques que têm vindo a ser dirigidos ao executivo anterior — destinam-

se a todo o PS, não apenas a um PS passado; atacando Sócrates, pretende-se condicionar António José Seguro. Essa tentativa de condicionamento é, aliás, muito perigosa, já que aponta para o nível radical da própria legitimidade de um discurso político oposicionista e dotado de uma verdadeira dimensão alternativa. A direita, a orgânica e a inorgânica, sabe que o assassinato póstumo do antigo primeiroministro, se devidamente consumado, teria sempre o efeito de desvitalizar o actual secretário-geral do PS, que ficaria condenado a sobreviver num permanente estado de paralisia política. Não cultivemos ilusões ingénuas: para a direita, neste momento, não há socialistas inocentes… 2. Lê-se e não se acredita. Contudo, é verdade. Um membro do actual Governo admitiu atribuir nomes de patrocinadores às Lojas do Cidadão. Estamos perante a completa prostituição do Estado, a demolição da “Respública”. Isto diz muito sobre grande parte do actual Governo, sobre a sua origem ideológica, a sua perspectiva histórica, o seu grau de impreparação cultural. Nada disto tem a ver com a troika. Tem a ver com uma coisa mais dramática — o grau de degradação a que se está a chegar na política portuguesa. Deputado (PS). Escreve à quinta-feira


Artigo Assis Público