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hescolhidos omoeroticos ´ poemas

PAULO AZEVEDO CHAVES & RAIMUNDO DE MORAES


hescolhidos omoeroticos ´ poemas

PAULO AZEVEDO CHAVES & RAIMUNDO DE MORAES


Projeto Gráfico e Capa: Roberto Portella portella_roberto@hotmail.com Desenho de Capa Pastel (1975) Luís Caballero (Colombia) Desenho de Contracapa Bico De Pena (1991) Cavani Rosas (Brasil) Ilustrações: Federico Undiano (1966 - Argentina) Arlindo Daibert (1952 - Brasil) Roberto Portella (1991 - Brasil) Jim (1991 - Brasil) Miguel Angel Rojas (1974 - Colombia) Revisão de Texto, Tradução e Conteúdo: Os Autores azevedo-chaves@uol.com.br / raimundodemoraes@interpoetica.com Não é permitida a reprodução total ou parcial desta obra sem a prévia autorização dos autores. Copyright © Direitos Reservados Paulo Azevedo Chaves e Raimundo de Moraes 2011 - Edição Virtual - Pernambuco, Brasil


“O que ocultamos é o que importa, é o que somos” Lúcio Cardoso, Diário Completo, 1949-1962 “Homens com homens/mulheres à margem” Paulo Azevedo Chaves, Misoginia “O amor que não ousa dizer seu nome é o grande afeto de um homem mais velho por um jovem, como acontece entre David e Jônatas; é aquele de que Platão fez a base de toda sua filosofia; é aquele amor que se encontra nos sonetos de Michelangelo e Shakespeare”. Oscar Wilde fazendo sua própria defesa no tribunal que o condenou a dois anos de trabalhos forçados, no final do século XIX, pela prática de sodomia com Lord Alfred Douglas, de 20 anos. “Sou a favor da obscenidade e contra a pornografia. O obsceno é franco, direto; a pornografia é o indireto, perifrástico. Acho que se deve dizer a verdade apresentando-a friamente, de modo chocante se necessário, sem disfarçá-la. Em outras palavras, a obscenidade é um processo purificador, enquanto a pornografia aumenta a sujeira”. Arthur Miller


Indice UMA EXPLICAÇÃO ­— Raimundo de Moraes e Paulo Azevedo Chaves  08.

IN MEMORIAM ANTONIO BOTTO E CASSIANO NUNES 

10. Quem é que Abraça meu Corpo 11. Le Dîner sur l’Herbe  PERFIL DE PAULO AZEVEDO CHAVES  13. POEMAS DE PAULO AZEVEDO CHAVES  14. O Amor não se Improvisa  15. No Jardim  16. Show Sadomasoquista de Dois Jovens Ianques  17. No Paraíso 18. “Toda Nudez Será Castigada”  19. Sandro  20. Vigilante I 21. Pornô para Marcelo  23. A Todos Amei, Todos São Bem-vindos 24. Detritos  25. Ejaculação precoce  26. Taras familiares  27. Agitos de Sábado à Noite  TRADUÇÕES DE PAULO AZEVEDO CHAVES 31. Quando Medito na Fama Conquistada — Walt Whitman  33. Colóquio Sentimental — Paul Verlaine  35. A Vida — Luis Cernuda 37. Com Vinho, Dizendo que é Vinho, Enche-me a Taça — Abu Nuwas  39. Fragmento de “O Condenado à Morte” — Jean Genet  41. Distante — Constantino Cavafy  43. O Amor dos Homens Mais Velhos — James Kirkup  47. (Sem Título) — Federico Garcia Lorca 


51. PERFIL DE RAIMUNDO DE MORAES POEMAS DE AYMMAR RODRIGUÉZ E DE RAIMUNDO DE MORAES DE AYMMAR 52. Masô 53. Descanse em paz? 54. Orgia no byte 55. Dante entrando no paraíso 56. Amplexo

DE RAIMUNDO 58. O desejo 59. Lírica 60. Festim 61. Ciclo 62. Mi corazón arde por ti


Ilustração: Federico Undiano


Uma Explicação

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esses tempos em que os direitos dos homossexuais são reivindicados e reconhecidos em todo o mundo livre, nada mais oportuno do que reunir, em livro, poemas na vertente homoerótica de autores diversos, mas sobretudo de dois escritores pernambucanos que se firmam no contexto cultural do Estado por sua postura firme de defesa e celebração dos direitos dessa parte expressiva da população mundial. Poemas Homoeróticos Escolhidos é a primeira coletânea de poesia reunindo textos de conotação gay lançada em Pernambuco. Um pioneirismo que deve ser visto como uma de suas maiores virtudes. O volume reúne sete poemas de Paulo Azevedo Chaves publicados anteriormente em livros de sua autoria, além de seis poemas (inéditos), escritos em agosto/setembro de 2011 — Show Sadomasoquista de Dois Jovens Ianques,Pornô para Marcelo, A Todos Amei, Todos São Bem-vindos, Ejaculação Precoce, Taras Familiares e Agitos de Sábado à Noite. Do mesmo autor, constam do volume oito traduções publicadas em livros anteriores, a partir de 1984. Os textos foram traduzidos do inglês, francês e espanhol. Os poemas selecionados por Raimundo de Moraes para esta coletânea foram publicados em dois livros de sua autoria, ambos lançados no Recife, em 2010: Baba de Moço (com assinatura de seu heterônimo Aymmar Rodriguéz) e Tríade. Os poemas de RM neste último têm a conotação singular de mesmo que a maior parte sejam assinados em seu próprio nome, alguns trazerem a assinatura de duas personas criadas pelo escritor – os heterônimos Aymmar Rodriguéz e Semíramis. Os textos de Poemas Homoeróticos Escolhidos trazem a assinatura do próprio Raimundo e a de seu heterônimo Aymmar Rodriguéz. Na seção In Memoriam são homenageados dois poetas que se destacam, respectivamente, no cenário nacional e internacional – o brasiliense Cassiano Nunes e o mestre português Antonio Botto. Um poema famoso de cada um deles consta desta seção.

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Poemas Homoeróticos Escolhidos


As ilustrações que enriquecem Poemas Homoeróticos Escolhido foram retiradas de dois volumes: Now the Volcano (Gay Sunshine Press) e Os Ritos da Perversão (Editora Comunicarte), de Paulo Azevedo Chaves, publicado em 1991. Orquestrando todo esse material poético e de ilustrações do livro na elaboração da capa, contracapa, 6 ilustrações em seu interior e projeto gráfico do mesmo está o talento e criatividade do designer Roberto Portella. Esta edição online do livro será talvez seguida de uma edição impressa do mesmo. Mas essa já é uma outra história... OS AUTORES Recife, novembro de 2011

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antonio botto ­– in memoriam Antonio Botto (1897-1959, Portugal) é sem dúvida um mestre da poesia lírica – sobretudo na vertente homoerótica – na primeira metade do século XX. O seu livro mais famoso é o volumoso Canções, do qual foi retirado o poema transcrito a seguir. Deve-se ressaltar sua coragem de escrever poesia declaradamente gay numa época e num país de sociedade conservadora e hostil a homossexualidade em suas manifestações diversas, seja na vida, na arte ou na literatura. Mas sua obra poética é de tal qualidade e de um tal refinamento estético-literário, que ele foi aceito pelo establishment literário e teve seus livros publicados com sucesso, embora fossem recebidos com manifestações hostis dos homofóbicos de sua época.

Quem é Que Abraça o meu Corpo  uem é que abraça o meu corpo Q Na penumbra do meu leito? Quem é que beija o meu rosto, Quem é que morde o meu peito? Quem é que fala da morte, Docemente ao meu ouvido? És tu, Senhor dos meus olhos E sempre no meu sentido.

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cassiano nunes – in memoriam Cassiano Nunes nasceu em Santos (SP), em 1923. Cidadão honorário de Brasília,foi consagrado com prêmios da Academia Brasileira de Letras e com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Brasília. Sua obra, com mais de cinquenta títulos publicados, abrange ensaios, história literária, crítica e poesia. Entre seus livros de poesia está Madrugada, publicado pela Pool Editorial (Recife,1975), com erudito prefácio de Edson Nery da Fonseca. O poema Le Dîner sur l’Herbe, transcrito abaixo, foi retirado desta coletânea. Poemas do autor santista foram publicados em espanhol, inglês e francês. C. Nunes morreu em 2007.

Le Dîner sur l’Herbe À noite foram chegando pouco a pouco ao parque umbroso (a treva rumorejante). Desconhecidos uns dos outros, vinculava-os apenas a opção profunda. Com naturalidade desnudaram as almas, afrouxando roupas... O sexo acendeu como um fósforo. Uma imensa felicidade (tão breve!) no desafogo. Findo o improvisado festival, retiraram-se sem despedidas para seus subúrbios, dispostos a roer por mais uma semana a côdea do cotidiano.

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Ilustração: Roberto Portella


Perfil

Paulo Azevedo Chaves

Paulo Azevedo Chaves nasceu no Recife, em 1936. Bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC), jornalista e poeta, assinou no Diário de Pernambuco, nos anos 70/80, a coluna cultural Poliedro e também a coluna Artes e Artistas, especializada em artes visuais. Livros publicados: Versos Escolhidos (Edições Pirata,1982, traduções); Trinta Poemas e Dez Desenhos de Amor Viril (Pool Editorial Ltda., 1984, traduções); Nu Cotidiano (Grupo X, 1988, poesias); Nus (Editora Comunicarte, 1992, coletânea de poesia de autores diversos); Os Ritos da Perversão (Editora Comunicarte,1992, poesias); Réquiem para Rodrigo N (Editora Coqueiro,2011, prosa e poesia). Em 2003, participou de uma coletânea de artigos publicados, naquele ano, na seção Opinião, do Jornal do Commercio, em edição patrocinada pelo próprio jornal com o título de Escritas Atemporais (Edições Bagaço). Atualmente, Paulo Azevedo Chaves trabalha como Consultor Adjunto e tradutor numa indústria em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco. O livro online Poemas Homoeróticos Escolhidos, escrito em parceria com o poeta Raimundo de Moraes, será posteriormente publicado em edição impressa, também com programação visual do designer gráfico Roberto Portella.

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Poemas

O Amor não se Improvisa Pus a cabeça em seu regaço cingiu-me o corpo com o braço. Tirou-me as vestes, despiu-se de recato. O amor, porém, não se improvisa E o beijo, se frio, martiriza. Foi tudo embaraçoso e muito chato.

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Paulo Azevedo Chaves


No Jardim “Posso comparar-te a um dia de verão?” William Shakespeare A um nu de Praxíteles posso comparar-te? Teu corpo tem a textura do leopardo seu vigor e tensa musculatura, o olhar fundo e no ato de amor és pleno de rumores. Ainda estás lá, em teu horto penumbroso na madrugada, insone, os passantes solitários atraindo aos teus braços beijos, à carícia das palavras doces?

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Poemas

Paulo Azevedo Chaves

Show Sadomasoquista de Dois Jovens Ianques W. Sado e P.Masoch exibem seus talentos extraordinários: Peter arria a bunda lubrificada no gargalo da Budweiser e William enfia o punho cerrado no cu gozante do parceiro: “Oh yeah! Oh yeah,baby!”

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No Paraíso Uma roseira em vigília só rosas, sem espinhos. E sob as ramas floridas Adão ao lado de Adão. Uma serpente adormece à altura das virilhas

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Poemas

Paulo Azevedo Chaves

“Toda Nudez Será Castigada” A Nelson Rodrigues Se morro, ressuscita-me no asfalto o beijo úmido do estranho, proibido na boca dentes de ouro e perfil escrachado de ladrão boliviano sedutor e pederasta. O Rio boêmio foi cenário de minha ardência com bonitinhos mas ordinários em tristes hospedarias. E lá como aqui, ontem como hoje ou amanhã toda nudez será castigada e a inversão, estigma. Mas prossigo... e vivo a marginalidade como território de conquista, brasão gotas de esperma perlando-me a fronte, a calva minha grinalda de noiva em coma e delírio. Obs. – O poema contém referências a títulos, personagens e situações das seguintes peças de Nelson Rodrigues: Beijo no Asfalto, Boca de Ouro, Toda Nudez Será Castigada, Bonitinha mas Ordinária, Vestido de Noiva.

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Sandro Uma coluna se ergue no aconchego das mãos. O capitel é dourado sua textura é de seda e na base enredam-se pentelhos de azeviche.

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Poemas

Paulo Azevedo Chaves

Vigilante I “Les ombres du tabac, du bagne et des marins Visitent ma cellule ou me roule et m’étreint Le spectre d’un tueur à la lourde braguette”. Le Condamné à Mort, Jean Genet As insatisfações – foi dito –são belas como auroras de verão. O corpo apenas vislumbrado estampa-se na noite vazia. Os membros, sêmen, rosto pardo o pão e vinho de minha orgia. De braguilha cheia, o vigilante – sol e sombra, meu destino – hoje em meu delírio é amante amanhã, quem sabe, assassino.

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Pornô para Marcelo A Marcelo, amante antigo “Por mim se vai das dores à morada, Por mim se vai ao padecer eterno, Por mim se vai à gente condenada” A Divina Comédia, Dante Alighieri

O cilindro formado pelo espaço vazio na mão que se fecha delineia a rola ausente do amante antigo. Então chupo com avidez a glande escura gerada no tesão da lembrança do corpo forte de Marcelo. Dela recebo o esperma tépido no lábio circunflexo e na língua rósea estendida para engolir a negra hóstia ou pétreo pênis que ejacula. Marcelo contraiu Aids nos cines pornôs Ritz e Astor ao final de nosso caso breve e hoje fode arcanjos gays e querubins frescos iluminados nos campos minados de desejo de satânicos paraísos perdidos. Bichas mil o cercam e lutam

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Poemas entre si pela dádiva de seu pau de ébano sempre ereto a penetrar cus e bocas ávidas. Gritos de dor e prazer ecoam no saguão amplo do firmamento. Arcanjos e querubins buscam noite e dia penetrações divinais. Como aves de rapina do deserto disputam, ferozes, a presa farta das virilhas de Marcelo, tesudo em meio ao pandemônio celeste de paixões demoníacas desenfreadas. Enquanto isso, o Mestre e Senhor – clone de Amy Winehouse – esquálido e fissurado no portal, masturba o corpulento chaveiro de barba branca e rola flácida nesse paradisíaco bacanal. Na solidão e silêncio do meu quarto as cortinas cerradas deixam entrar alguns raios tímidos da aurora. E de novo e de novo e mais uma vez a rola pétrea e macia de Marcelo penetra minha boca e cu frouxo sobre lençóis úmidos de suor e gala em infinitas felações e sodomias. O passado intato como nasceu.

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Paulo Azevedo Chaves


A Todos Amei, Todos são Bem-Vindos A Gilberto A., Fefa (Fernando), Carlinhos Varella, Pierre Protti, Peter, Jaime Vieira Félix, Marcelo – boys de meu passado, com saudade

Quantos passaram e se esvaeceram nos recônditos da memória! Rostos vagos, fantasmagóricos, corpos desmembrados, etéreos no delírio de sonhos desconexos. Passeei com Pierre Protti em Londres, vaquinha francesa no curral de Sua Majestade. Dizia a putinha: “Perdes as plumas, meu caro”. E isso por eu, seu macho, estar ficando calvo. À noite comia seu cu, em forma de boceta peluda, enquanto ele me ofendia e ria de mim, putana! Também comia a bunda de Peter, na mesma cidade, escutando sonatas de Beethoven em discos de vinil no flat classe média do bairro boêmio de Chelsea. Ele gostava e pedia mais. Latin lover tem que comer. De volta ao Brasil fui muitas vezes penetrado (enfim!) por Jaime Vieira Félix, magro, moreno, bem dotado. Parecia Osama Bin Laden bem jovem e machão. Explode em mim,meu amor bandido gente fina! Ele era cheio de tesão e ciúmes nas baladas de Copacabana. Rio de Janeiro, década de 70, anos felizes, inconsequentes...

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Poemas

Paulo Azevedo Chaves

Coitos calientes voltam em flashes nos sonhos... Amores nebulosos, antigos, dispersos aqui e ali – Paris, Londres, Rio, Recife ou São Paulo. Eles perambulam nas ruas da urbe, perdidos, ou estão desfeitos sob a terra em sepulturas? A rola marrom-café com cheiro de amêndoa de Marcelo me toca e excita na madrugada. Requiescat in pace, meu doce olindense roludo e suave sobre meu dorso estático! Quantos passaram por minha vida, gozaram deixando como legado lembranças, saudade! Amores agora revisitados em sonhos sem paixão, fugazes, interrompidos, falhos... Que espectro virá nesta madrugada, sutil e descalço? A quem esperar? Por quem chorar? Que bunda lamberei? Que rola vou chupar ou vai me enrabar, incorpórea? Que boca vou beijar sem dentes e saliva acre? Que nome em sonho direi baixinho, inaudível? Que importa quem? A todos amei, todos são bem-vindos.

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Detritos Agachado beijo-lhe as ancas o iridescente púbis, o oval das coxas. Ele navega entre gemidos e explode galáctico no céu da boca em mim, acre-doces, seus detritos.

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Poemas

Ejaculação precoce Ejaculação precoce e o pinto na boca mortinho da silva. E agora, mona? vai pagar pelo que não aconteceu? Quem mandou deixar o bofe se masturbar antes de trabalhar! Mona burra!

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Taras familiares Meu priminho louro e bem comportado foi ao galinheiro em busca de vítimas e estuprou a galinha cocoricó com seu pinto pequenino. Nos vãos do quintal adormecido sodomizou o gato de estimação da tia a quem, no dia seguinte,respeitoso e solícito, saudou com seu sorriso de anjo lascivo “ A benção, madrinha”.

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Poemas

Paulo Azevedo Chaves

Agitos de Sábado à Noite A Manuzé Nu sobre o leito desfeito, em meio a revistas pornôs, começa a lamber os mamilos. Em seguida a língua desce pelo ventre até os pentelhos. Dali prossegue gentilmente pela rola meio flácida até alcançar a glande., Então chupa o membro em ritmo acelerado olhando de soslaio as figuras das revistas em transas empenhadas. Num clímax erótico lambe o colhão engelhado e segue caminho até o cu – previamente raspado – onde opera deliciosa penetração com a língua tesa aguçada. Com a mão direita se masturba enquanto a língua sodomiza o cu liso pelo cuspe lubrificado. Quando goza o ânus se contrai em convulsos estertores em torno da língua repousada. Voltando à posição vertical o contorcionista vai ao banheiro, escova os dentes, como de praxe

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depois das refeições diárias. Em seguida, toma uma ducha fria, recolhe as revistas pornôs na gaveta e prepara-se para um sono tranquilo após os agitos de sábado à noite longe dos Bee Gees e John Travolta.

A Propósito de Meus Poemas Recentes Ao escrever os versos de Show Sadomasoquista de Dois Jovens Ianques, Pornô para Marcelo , A Todos Amei, Todos são Bem-vindos, Ejaculação Precoce, Taras Familiares e Agitos de Sábado à Noite, eu procurei seguir à risca o conselho de Keats no dístico final de sua bela Ode Sobre uma Urna Grega, onde está escrito: “Beleza é verdade, verdade,beleza, – isso é tudo/ Que sabeis na terra e tudo que precisais saber”. O que muitos certamente enxergarão como vulgaridade, indecência, obscenidade, para mim nada mais é do que a busca de uma linguagem visceral em consonância com o que pretendo exprimir – a realidade nua e crua do sexo, que deve prescindir de eufemismos e de termos e construções verbais bem comportados e/ou eruditos para descrevê-la e para exprimi-la. Entre quatro paredes, os homens, via de regra, transam como gatos – com brutalidade e sem meias ações, deixando aflorar o instinto despojado das barreiras do convencionalismo. Para descrever esse momento íntimo e brutal do sexo, seja ele homo ou heterossexual, usei uma linguagem igualmente íntima e brutal e, desse modo, na verdade do verbo encontro a beleza preconizada por Keats. Pois para mim, embora nem sempre beleza seja verdade, Verdade (com V maiúsculo) é sempre beleza. Poemas Homoeróticos Escolhidos

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Ilustração: Arlindo Daibert

Poemas Traduzidos

Paulo Azevedo Chaves


Quando Medito na Fama Conquistada Walt Whitman (Estados Unidos, 1819-1892) Quando medito na fama conquistada por heróis e nas vitórias de grandes generais, eu não invejo os generais, Nem o presidente em seu cargo, nem o milionário em sua mansão, Mas quando fico sabendo da fraternidade entre dois amantes, como foi sua vida em comum, Como, através dos anos, do perigo, do ódio, juntos, sempre, Eles conviveram na mocidade, na idade madura e velhice, perseverantes, afeiçoados e fiéis um ao outro, Então fico pensativo e me afasto cheio de amargor e inveja.

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Poemas Traduzidos

Paulo Azevedo Chaves

When I Peruse the Conquer’d Fame When I peruse the conquer’d fame of heroes and the victories of mighty generals I do not envy the generals, Nor the President in his Presidency, nor the rich in his great house, But when I hear of the brotherhood of lovers, how it was with them, How together through life, through dangers, odium, unchanging long and long, Through youth and through middle and old age, how unfaltering, how affectionate and faithful they were, Then I am pensive – I hastily walk away fill’d with the bitterest envy.

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Poemas Homoeróticos Escolhidos


Colóquio Sentimental Paul Verlaine (França, 1844 – 1896) Num parque solitário e gelado Um casal caminhava apressado. O olhar era vazio, cada boca, uma cava E o que diziam bem mal se escutava. Num parque solitário e gelado Dois vultos relembravam o passado. – Lembras-te de nosso amor, amigo? – Tolice... um caso já tão antigo! – Nada restou de tua paixão? Nunca pensas em mim? – Não. – O êxtase era indescritível A cada beijo. – É possível. – O céu era claro, parecia belo o futuro. – O futuro envileceu, o céu ficou escuro. Assim iam eles pelas aléias, de olhar fito, E só a noite escutou o que foi dito.

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Poemas Traduzidos

Paulo Azevedo Chaves

Colloque Sentimental Dans le vieux parc solitaire et glacé Deux formes ont tout à l’heure passé. Leurs yeux sont morts et leurs lèvre sont molles, Et l’on entend à peine leurs paroles. Dans le vieux parc solitaire et glacé Deux specters ont evoqué le passé. – Te souvient-il de notre êxtase ancienne? – Pourquoi voulez-vous donc qu’il m’en souvienne? – Ton coeur bat-il toujours à mon seul nom? Toujours vois-tu mon âme en revê? Non. Ah! les beaux jours de bonheur indicible Où nous joignions nos bouches! – C’est possible. – Qu’il était bleu, le ciel, et grand l’espoir! – L’espoir a fui, vaincu, vers le ciel noir. Tels ils marchaient dans le avoines folles, Et la nuit seule entendit leurs paroles. Obs. – De “Festas Galantes”, publicado em 1869. Apesar da indefinição dos sexos dos personagens no poema original, a bissexualidade de Verlaine permite uma interpretação/tradução do mesmo no âmbito da temática homoerótica deste livro.

34 Poemas Homoeróticos Escolhidos


A Vida Luis Cernuda (Espanha, 1902-1963) Como quando o sol ilumina Algum rincão deste mundo, Redimindo sua pobreza, Enchendo-o de verdes risos, Assim tua presença chega À minha existência obscura Para exaltá-la, para dar-lhe Esplendor, prazer, formosura. Mas tu, amado, também te pões, Assim como o sol, e crescem À minha volta as sombras Da solidão, velhice, morte.

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Poemas Traduzidos

La Vida Como cuando el sol enciende Alg煤n rinc贸n de la tierra, Su pobreza la redime Com risas verdes lo llena, Asi tu presencia viene Sobre mi existencia oscura, A exaltarla, para darle Esplendor, gozo, hermosura. Pero tambi茅n tu te pones, Lo mismo que el sol, y crecen Em torno mio las sombras De soledad, vejez, muerte.

36 Poemas Homoer贸ticos Escolhidos

Paulo Azevedo Chaves


Com Vinho Dizendo que é Vinho... Abu Nuwas ( Pérsia, c.750 – 810) Com vinho, dizendo que é vinho, enche-me a taça, Pois beber furtivamente não há quem me faça. Pobre e maldito é o tempo em que sóbrio fico, Mas quando trôpego pelo vinho torno-me rico. Não escondas por temor o nome do amado; O prazer verdadeiro nunca deve ser ocultado.

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Poemas Traduzidos

Paulo Azevedo Chaves

Ho! A cup and fill it up… Ho! a cup and fill it up, and tell me it is wine, For never will I drink in shade if I can drink in shine. Curst and poor is every hour that sober I must go, But rich am I whene’er well drunk I stagger to and fro. Speak, for shame, the loved one’s name, let vain disguises fall; Good for naught are pleasures hid behind a curtain-wall. Obs. – O poema acima consta do livro “Anthology of Islamic Literature” (Penguin Books, Edited by James Kritzeck, 1964) e sua versão em inglês é assinada por R.A. Nicholson.

38 Poemas Homoeróticos Escolhidos


O Condenado à Morte (fragmento) Jean Genet (França,1910-1986) ... Sonhemos junto, Amor, com algum rude amante grande como o Universo,no corpo manchas sombrias. Ele nos enrabará nus em tristes hospedarias entre suas coxas de ouro, sobre seu ventre fumegante. Um bofe deslumbrante, num arcanjo talhado tesudo sobre um buquê de jasmins e rosas tremulamente deposto por tuas mãos luminosas sobre seu flanco augusto, por teu beijo perturbado. Tristeza em minha boca! Amargor inchando, Inchando este pobre coração! Os amores perfumados Adeus, vão partir! Adeus, meus colhões amados! O’ pica em brasa que corta meu suspiro brando! ...

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Poemas Traduzidos

Paulo Azevedo Chaves

Le Condamné à Mort (extrait) ... Rêvons ensemble, Amour, a quelque dur amant Grand comme l’Univers mais le corps taché d’ombres Qui nous bouclera nus dans ces auberges sombres, Entre ses cuisses d’or, sur son ventre fumant. Un mac éblouissant taillé dans un archange Bandant sur les bouquets d’oillets e de jasmins Que porteront tremblant tes lumineuses mains Sur son auguste flanc que ton baiser dérange. Tristesse dans ma bouche! Amertume gonflant Gonflant mon pauvre coeur! Mes amours parfumées Adieu vont s’en aller! Adieu couilles aimées! O sur ma voix coupée adieu chibre insolent! ... Obs.– Este poema de Jean Genet foi escrito em homenagem a um belo assassino de 20 anos, Maurice Pilorge, seu amante, executado na França na década de 40.

40 Poemas Homoeróticos Escolhidos


Distante Constantino Cavafy (Egito, 1863- 1933) Se ao menos, se ao menos me voltasse a lembrança agora, tão distante, tão imprecisa... Tão pouco restou dos anos de minha juventude! Uma pele como se fosse jasmim naquela noite de agosto... Era agosto? Sim, agora me lembro dos seus olhos... Eram azuis, suponho... Sim. De um azul- safira.

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Poemas Traduzidos

Paulo Azevedo Chaves

Far Off If only, if only I could recall that memory now; so distant, so faded… So little is left from the years of my youth. A skin as if carved from jasmine that night in August – was it August? Yes, I can just remember his eyes… They were blue, I think… Yes, blue… A sapphire blue… Obs. – A tradução acima foi feita da versão inglesa de Ian Young, publicada na antologia “Orgasms of Light” (Gay Sunshine Press, San Francisco, 1977).

42 Poemas Homoeróticos Escolhidos


O Amor dos Homens Mais Velhos James Kirkup (Inglaterra, 1918 -2009 ) Eles são sempre tocantes em sua tristeza, ternura e ansiedade, todos os tristes homens idosos que um dia foram tristes rapazes. Como não se emocionar com seu isolamento e desolação, seus tênues sonhos e esperança de um amor,um novo amor, uma amizade? Os mais pobres e feios ainda anseiam por um calor humano passageiro, um toque, um aperto de mão,a sensação, o deleite da nudez de um outro, de sua força e graça enriquecendo toda aquela pobreza, vazio e morte. Amizade é apenas para os jovens mas também deveria ser para os velhos. Os velhos precisam mais de amigos que os jovens, que os têm em excesso.

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Poemas Traduzidos

Paulo Azevedo Chaves

Quando eu era mais jovem e de boa aparência sempre me oferecia aos homens idosos. Eu também saía com outros rapazes, às vezes, mas pelos velhos sentia um amor especial. Eu costumava me sentir como um radioso anjo louro que descia ao mundo para libertá-los da escuridão de suas moradas insalubres, da cansativa procura nos parques, nas saunas, da espera paciente, costas doridas, tornozelos inchados, de pé no fundo escuro das salas de cinema. Fátua juventude! E no entanto, do fundo do coração, eu apenas queria que eles fossem amados tanto quanto eu o era. E mais importante: eu vinha ao encontro deles e eles nunca me rejeitavam, como os jovens às vezes faziam com sua frivolidade, capricho e mesquinharia. Os velhos são sempre sérios. Eles têm que ser. Era por isso, em parte, que eu os amava. Minha mocidade passou, eu ainda amo os homens idosos, mas não existem mais à minha volta, como outrora, anjos radiosos como o que eu fui em meus dias dourados.

44 Poemas Homoeróticos Escolhidos


The Love of Older Men They are so moving in their sadness, gentleness and longing – all the sad old men who once were all the sad young men. How can you not be moved by their loneliness and desolation – their faint dreams and hopes of love,a new love, a friendship? The poorest and the ugliest still long for just a passing warmth, a touch, the clasp of hands, the feel, the joy of another’s nakedness and strength and grace enriching all that poverty and emptiness and death. Friendship is only for the young. But it should be for the old also. The old have more need of friends than the young, who have too many.

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Poemas Traduzidos

When I was young and better-looking I always offered myself to old men. I had young men too, sometimes,but with the old I felt a special love. I used to feel like a radiant blond angel coming down to deliver them from the darkness of their stinking cottages, the weary wanderings of the parks, the baths, patient waiting with aching backs and swollen ankles in the dark at the back of the movies. Fatuous youth! And yet my foolishness came from the heart: I wanted them to be loved as much as I was. And even more important – I came to them, and they never denied me, as the young so often did In their caprice and frivolity and meanness. The old are always serious. They have to be. It was for that I loved them. Now I am older, I still love older men, but there are no young angels like the one I was in my golden days.

46 Poemas HomoerĂłticos Escolhidos

Paulo Azevedo Chaves


(Sem Título) Federico Garcia ( Espanha,1927-1936,) Ai voz secreta do amor escuro! ai, balido sem lãs! ai ferida! ai,agulha de mel,camélia partida! ai,corrente sem mar,cidade sem muro! Ai, noite imensa de perfil seguro, montanha celestial de angústia erguida! ai,cão nas entranhas, voz perseguida! silêncio sem limite, lírio maduro! Afasta de mim o gelo cálido do teu alento não queiras que eu me perca na profundeza onde,sem fruto, gemem carne e firmamento. Deixa o marfim de meu crânio com presteza, apieda-te de mim, rompe meu desalento, que também sou amor,que eu sou a Natureza!

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Poemas Traduzidos

(Sem Título) Ay voz secreta del amor oscuro ay balido sin lanas! ay herida! ay aguja de miel, camelia hundida! ay corriente sin mar, ciudad sin muro! Ay noche immensa de perfil seguro, montana celestial de angustia erguida! ay perro en el corazón, voz perseguida! silencio sin confin, lírio maduro! Huye de mi, caliente voz de hielo, no me quieras perder en la maleza donde sin fruto gimen carne y cielo. Deja el duro marfil de mi cabeza, apiédate de mi, rompe mi duelo! que soy amor, que soy naturaleza!

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Paulo Azevedo Chaves


Obs.– De uma edição especial do jornal ABC, de Madri, dedicada a Federico Garcia Lorca, com publicação de poemas de amor inéditos de sua autoria.

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Ilustração: Jim


Perfil

Raimundo de Moraes

Raimundo de Moraes, jornalista e publicitário, é um dos editores do portal literário Interpoética. Ele vem da eclética geração do Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco, que agitou as ruas do Recife na década de 1980. Tríade (Ed. do Autor,2010) é seu segundo livro solo. Com ele, pela primeira vez na história da literatura pernambucana, uma mesma obra reúne três vozes distintas, unidas pelo processo de heteronímia. Em 2010 –na persona de Aymmar Rodriguéz – publicou Baba de Moço (Ed. Livrinho de Papel Finíssimo,PE). Publicações em coletâneas: Recife Conta o São João (Fundação de Cultura Cidade do Recife,2008); antologia nacional Dedo de Moça (Ed. Terracota,2009) e demais coletâneas de concursos literários em que foi premiado. Entre eles, os recentes Prêmio Canon de Poesia 2010; Concurso Nacional Carlos Drummond de Andrade (Sesc-DF-seleção 2008); Off-Flip 2008 (Paraty,RJ), onde obteve o primeiro lugar na categoria Poesia nacional-exterior.

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Poemas

Masô É um número 42 de pele alva e unhas perfeitas É um número 42 para ser lambido e louvado Rastejo, babo os dedos longos (se pisar em mim eu me apaixono)

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Aymmar Rodriguéz


Descanse em Paz mandaram que ele matasse vários homens – e lhe deram medalhas quando resolveu amar outro homem – lhe deram facadas

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Poemas

Orgia no Byte no pendrive dela a bunda de brad pitt o bilau de ben affleck a boca de rodrigo santoro – um comendo o outro – tem espaço para daniel radcliffe?

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Aymmar Rodriguéz


Dante Entrando no Paraíso por que não me beijaste a boca, virgílio? aqui não somos sodomitas

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Poemas

Amplexo de bruços vejo o mundo pertolonge longeperto por enquanto me vês a nuca

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Aymmar Rodriguéz


Ilustração: Miguel Angel Rojas


Poemas

O Desejo Quantas vezes o Tigre fez-me domado com patas sobre o peito e garganta – boca aberta babando em meu rosto? Não sei. Não sei. Lembro amores em variados bíceps corpos em arco a disparar serpentes. O Tigre acossa-me. Vejo! Sou seu espelho. “Narciso” – escreve com garras em meu ventre. E começa a lamber o que me resta.

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Raimundo de Moraes


Lírica E dizem: amor louco deste homem. Eu não me importo. Quando biparto a romã em força bruta a faca cintila em morte. Que oferenda o coração em chaga faz desabrochar em junho? Nada posso dar-te além da alegria da profanação. E a danação das almas espasmódicas em labaredas sensuais. Por ti esquivo-me dos tolos roubo pão dos famintos e a ilusão dos sábios. Almadiçôo infantes e mulheres grávidas espezinhando seus ventres. É por ti que eu inventaria um bestiário de heresias para cantá-las em templos e entre lençóis, com moribundos. Incendiaria casas – ver os corpos em tochas lembrando meu fascínio. Por ti liberto-me engendro venenos, digo mentiras por meu amor selvagem e puro que nas noites me conduz abrindo os portões do Éden.

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Poemas

Festim Meu amor Tem cheiro de maconha e de quintais Uma flor de lis desabrocha em sua omoplata escura seus dentes catam-me coisas e os dedos aprofundam-se retos em mim e tocam sinfonias. Alimento o desespero desse homem todos os dias lhe dou o futuro que não tenho cevo os músculos com beijos escuto humilde suas exigências. Enquanto que de luz acesa ele me possui no escuro lembro de histórias antigas ouço aplausos, rio baixo da tristeza vil. Meu homem me procura e beija-me as bochechas “Santo” digo-me eu e nas esquinas oro incessante incessantemente acompanhado por todos os meus demônios.

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Raimundo de Moraes


Ciclo A cama espinha teu corpo e na meia-noite insone teu desejo ofusca a pálida minguante. Sou eu que me vingo e surjo com as marés, semente no chão solta pela preamar. Sou eu, homem, que venho e broto os lenhos que crescem nos Ciclos, a seiva que corrói. Raiz que afunda a coifa no teu desespero sorvendo a inquietação em fome crescente. Ou o tronco largo, silhueta em poros na anatomia dos abraços. Não, não passarão as estações. Porque todos os homens me levarão a ti. No teu corpo continuo em verdes frutos que amadurecem em escândalos no verão.

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Poemas

Mi Corazón Arde por Ti Ainda rutilavam as últimas cinzas das Fogueres de San Joan Descabelada em grandes cachos castanhos gardênias floradas no pátio – entre os olivais de Valência A Rainha de Copas desceu do seu castelo Nada a deteve – e suas aias lamentavam cruel desatino Rasgada as saias corvos transformados azuis sob a lua cheia – a Rainha corria Escutou os lobos que seguiam a trupe de ciganos e seu grito era também como um uivo: – Juanitaaaaaaaaaaaaaaa... Depois disso, foram duas bocas e um mesmo desejo duas rainhas e nenhum Rei de Paus.

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Raimundo de Moraes



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