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Plantas nativas do Brasil nas farmacopeias portuguesas e europeias SÉCULOS XVII – XVIII

Flávio Coelho Edler

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Flávio Coelho Edler1

Com o início da colonização da Terra de Santa Cruz, a compilação de receitas indígenas tornou-se uma necessidade devido à raridade das drogas europeias. Assim, a história da medicina colonial e de sua farmácia não pode ser contada sem referência a esse conhecimento. Desde o século XVI, a Europa conheceu as virtudes de ampla gama de ervas brasileiras, assimiladas ao repertório médico ocidental. Nas farmacopeias portuguesas e europeias, frutas, folhas, flores, raízes e lascas de plantas brasileiras que serviam como alimento ou remédio atestam o contínuo trânsito dos elementos da natureza tropical, valorizados por sua ação terapêutica. No período que se estende do século XVI ao XVIII, a medicina universitária europeia, em que pese a existência de diferentes sistemas médicos – iatroquímica, galenismo, iatromecânica, vitalismo, animismo –, cada qual oferecendo suas próprias teorias sobre a natureza e o significado das doenças, a concepção de saúde e doença permanecia holística. As doenças eram predominantemente percebidas como orgânicas e constitucionais. Os sofrimentos físicos ou psíquicos eram explicados, prioritariamente, como produtos de processos físicos, não de possessões do espírito ou bruxaria. Todos os aspectos do indivíduo eram interligados. O corpo afetaria a mente e, da mesma forma, paixões e emoções afetavam o corpo. A rigor, não havia a doença, mas o indivíduo doente. Tal visão, centrada na pessoa como um todo, ensinava que a retidão do pensamento, compostura, controle das paixões e estilo de vida adequado poderiam prevenir as doenças. A gula, por exemplo, era percebida como causa de várias enfermidades, já a sobriedade e parcimônia eram responsáveis pela boa saúde. Essas circunstâncias eram percebidas como subordinadas ao controle individual. Tais relações implicavam uma atitude por parte dos médicos que enfatizava o que hoje chamamos de “estilo de vida” e que à época denominava-se regime ou dietética. O médico era um conselheiro que atuava preventivamente, segundo um modelo clínico que alguns historiadores conceituam como medicina biográfica. 2 Desse modo, antes da medicalização centrada no hospital que ocorreu em fins do século XVIII, a medicina era exercida em visitas regulares às casas dos pacientes. De acordo com a cosmologia médica de então, o bom médico examinava, sucessivamente, os circunfusa (meteorologia, hidrologia, geologia, climas e habitações), os ingesta (alimentos e bebidas), os excreta (excreções e banhos), os appli-

1 Graduado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ (1987), mestre em História Social pela Universidade de São Paulo – USP (1992), doutor em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Uerj (1999). 2 A referência seminal a essa tipologia está em Jewson, N. D. [1976] 2009. The Disappearance of Sick-Man from Medical Cosmology, 17701870. In: International Journal of Epidemiology 38:622-33. Ver também, Pickstone, John V. 1993. Ways of Knowing: Towards a Historical Sociology of Science, Technology and Medicine. BJHS 26:433-458 e Shorter, Edward.1993. The History of the Doctor-patient Relationship. In: Binum, W.; Porter, Roy (org.), Compendium Encyclopedia for the History of Medicine. Londres: Routledge, p. 1032-1057. 3 Semmedo, João Curvo. 1749. Observações medicas doctrinaes de cem casos gravissimos, que em serviço da Patria, e das Nacões estranhas escreve en lingua portugueza e latina. Lisboa Occidental: Officina de Antônio Pedroso Galrão, p. 101.

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cata (vestimentas e cosméticos), os percepta (costumes, sexualidade, higiene pessoal) e, por fim, os gesta (movimentos habituais, atividades profissionais). As interações mais frequentes do médico com seu paciente, portanto, não eram aquelas da cura, como podem sugerir o imenso repositório de receitas catalogadas nas farmacopeias, ainda que dela dependesse o prestígio pessoal do médico. Porém, mesmo quando o médico precisava abandonar a postura expectante diante de um caso de maior gravidade e empregar toda a sua perícia na arte do diagnóstico, a anamnese baseava-se, antes, no conhecimento dos seus hábitos do que no exame físico. Como ensinava o renomado doutor Curvo Semmedo (1635-1719), nos casos gravíssimos, a escolha da melhor terapêutica – a eleição da sangria, da purga ou de um remédio alquímico – dependia dos hábitos alimentares do enfermo. Se falto de exercícios e dado à vida descansada e regalona, se casado de poucos dias ou muito dado às mulheres. Se muito penitente, demasiadamente estudioso; ou trabalhador, ou se lhe falta o comer a seu tempo. Se pessoa gastada ou exausta de forças.3

Na página de abertura: Walter Hood Fitch, 1846. Cipó-de-mil-homens, da revista Curtis’s Botanical Magazine, volume 72. Também conhecido como angelicó, cipó-caçau e cipó-jarrinha, dentre outros, cipó-de-mil-homens é o nome comum a diversas plantas do gênero Aristolochia. Corresponde à planta Ambuyaembo (Aristolochia labiosa) descrita pelo médico e botânico holandês Marcgrave, em 1647. Na Pharmacia Tubalense (1735) era indicado no combate às úlceras gangrenosas e nas febres. Depois de estudada por Bernardino Antônio Gomes (A. grandiflora) e Frei Veloso (A. orbiculata), foram exaltadas suas propriedades antisséptica, diurética, emenagoga (provoca a menstruação) e diaforética. Acervo Missouri Botanical Garden Library, Saint Louis

À direita: Herman Muller, a partir de Heemskerck, 1566. O humor sanguíneo. Os planetas Júpiter e Vênus sentados em uma nuvem, com uma águia e um cupido, encimados pelos signos zodiacais de libra, gêmeos e aquário, simbolizam as características do temperamento sanguíneo que corresponde ao elemento ar com suas qualidades de calor e umidade. Esta alegoria expressa o amálgama da medicina galênica e astrológica vigente no período. Acervo Rijksmuseum, Amsterdam

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A mestiçagem terapêutica na América portuguesa

Durante os três primeiros séculos da colonização brasileira, a sociedade branca recorreu indiferentemente às formas de cura trazidas da Europa ou àquelas que diversas culturas, com as quais se manteve em constante contato, utilizavam para lutar contra os males que as acometiam. Mesmo os portugueses opulentos, muito embora se tratassem também com seus médicos, cirurgiões e barbeiros, não hesitavam, quando precisavam curar suas feridas, em se servir do óleo de copaíba, ou ainda, de macerar e ingerir a semente do jenipapo para livrarem-se do curso do ventre (diarreia), conforme aprenderam com os indígenas. Com a vinda dos escravos africanos, aderiram igualmente a certas curas relacionadas com suas plantas e rituais mágicos, como nos revelaram os documentos das visitas inquisitoriais do Santo Ofício.4 Os próprios franceses conheceram e fizeram uso de plantas medicinais indígenas, no período das invasões francesas comandadas por Villegagnon. O missionário francês, Jean de Léry (15341611), que esteve no Brasil entre 1555 e 1556, descreveu o tratamento e a gravidade do piã (doença semelhante à sífilis): o iurare tem a casca espessa de meio dedo e é muito agradável ao paladar, principalmente quando colhido fresco. Os dois botânicos que vieram conosco afirmavam ser uma espécie de guaiaco. Os índios o empregam contra o piã, doença tão grave entre eles como entre nós a bexiga.5

4 Souza, Laura de Mello e. 1994. O diabo na terra de Santa Cruz. São Paulo: Companhia das Letras. 5 Léry, Jean de. 1961. Viagem à terra do Brasil. Trad. Sérgio Milliet, 2a ed. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, p. 137. 6 Santos, Fabrício Lyrio. 2008. A expulsão dos jesuítas da Bahia:

Em cartas e documentos oficiais trocados entre metrópole e colônia enfatizava-se com frequência a falta de médicos, remédios e hospitais. Porém, é preciso que se pergunte: quais setores da população se ressentiam da escassez desses profissionais? Ora, o florescimento das demais artes de cura esteve intrinsecamente ligado às diferentes raízes culturais das populações aqui residentes. Além disso, os missionários jesuítas – principais suportes da educação colonial que tomaram para si o papel de curadores – aproveitaram muito da medicina indígena, tornando as plantas medicinais brasileiras famosas em todo o mundo. Pelas mãos dos jesuítas, a Triaga brasílica, uma panaceia composta de elementos da flora nativa, que chegou a ser a segunda fonte de renda da ordem jesuítica na Bahia, ganhou fama internacional.6 Aos jesuítas deve-se imputar a iniciativa pioneira de intercâmbio entre esses universos da medicina, já que eles também absorviam o saber dos físicos, cirurgiões e boticários, aplicando-os nos precários hospitais da Santa Casa da Misericórdia.

aspectos econômicos. Revista Brasileira de História 28(55):171195. Walker, Timothy. 2013. The Medicines Trade in the Portuguese Atlantic World: Acquisition and Dissemination of Healing Knowledgment from Brazil (c. 1580 – 1800). Social History of Medicine 26(2).

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João Curvo Semmedo, 1716. Frontispício da Polyanthea Medicinal notícias galenicas e chymicas [...]. Reeditado várias vezes a partir de 1695, este livro ajudou a propagar os fundamentos da farmácia química. Nela, o destemido João Curvo Semmedo (“sem medo”) teceu minuciosa crítica aos fundamentos da terapêutica galênica e buscou demonstrar a supremacia dos remédios alquímicos. Acervo Fundacão Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

Atribuído a Frei Christóvão de Lisboa, 1624-1627. Jinipapo, do manuscrito Historia dos animaes e arvores do Maranhão. O efeito da semente do jenipapo, macerada antes de ser ingerida visando deter as diarreias, era conhecido pelos primeiros colonizadores portugueses. Gabriel Soares de Souza relata que sua tinta era usada para curar boubas. Acervo Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa

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Mas que relações mantinham os físicos, cirurgiões e boticários portugueses com os demais agentes de cura? Embora geralmente preconceituosos em relação a outros elementos pagãos e selvagens da cultura indígena, os colonizadores se interessaram em recolher informações sobre como os indígenas e seus pajés faziam para combater as doenças que grassavam no lugar. Observavam, imitavam, experimentavam e descreviam as propriedades terapêuticas das novas espécies e seus usos, e divulgavam-nas na metrópole, ampliando os saberes sobre a matéria médica. Mais tarde, tal saber retornaria à colônia em compêndios de farmacopeia, orientando a atividade de boticários profissionais, religiosos ou leigos.7 Tal roteiro não foi tão linear, entretanto, como possa parecer. Bernardino Antônio Gomes (1768-1823), médico português e estudioso da flora brasileira, em fins do século XVIII, observou o pouco uso feito pelos médicos portugueses das plantas medicinais do país, entendendo que isso ocorria porque tendo aprendido medicina das universidades europeias, eles curavam tudo à europeia, desprezando a medicina indígena. De todas as práticas terapêuticas, o uso das ervas medicinais brasileiras era a que maior legitimidade popular possuía. Mezinheiros (vendedores de medicinas, ou mezinhas), curandeiros africanos e pajés utilizavam folhas, frutos, sementes, raízes, essências, bálsamos e resinas, partes lenhosas e brancas que esmagavam entre as pedras, pulverizavam, carbonizavam, dissolviam, maceravam. Cozinhavam, para ingerir, aspirar, friccionar, ou aplicar em cataplasma numa série de extensas enfermidades. Não se pode esquecer que o emprego dessas plantas tinha um sentido mágico ou místico. Determinados minerais, bem como partes do corpo de animais, eram usados como medicamentos ou amuletos. Se a antropofagia ritual era encarada com horror pelos europeus, a utilização da saliva, da urina e das fezes, humana ou animal, eram compartilhadas como recurso terapêutico, embora tendo um significado distinto para ambas as culturas. Enquanto a sucção ou sopro dos espíritos malignos, a fumigação pelo tabaco, os banhos, fricções com cinzas e ervas aromáticas e o jejum ritualístico eram desprezados como elementos bárbaros, a teoria das assinaturas, que supunha existir, radicado em cada região, o antídoto das doenças do lugar, autorizava a assimilação da farmacopeia empírica popular.8

7 Silva, Maria B. N. Da. 1991. A cultura implícita. In: Frédéric, Mauro (org.). O império luso-brasileiro (1620-1750). Lisboa: Editorial Estampa, p. 265-365. 8 Ibidem. 9 Souza, Laura de Mello e. Op. cit. 10 Anchieta, José de. 1970. Feitos de Mem de Sá. São Paulo: Ministério da Educação e Cultura, p.97.

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Embora, em ampla variedade de aspectos, o saber erudito e o popular fossem indissociáveis na experiência dos distintos extratos sociais, os representantes da arte médica oficial lutavam ferrenhamente contra os que praticavam as curas na informalidade. Reivindicando para si o controle do corpo doente, a medicina metropolitana esvaziava o sentido dos conhecimentos terapêuticos populares e reinterpretava-os à luz do saber erudito. A fluidez entre o domínio da medicina e aquele da feitiçaria, com o emprego de cadáveres humanos e de animais associados ao universo demoníaco, como o sapo, o cão negro, o morcego e o bode na produção de remédios, impunha aos portadores de diploma a tarefa de distinguir o procedimento “científico”, das crenças populares “supersticiosas”. Nesta tarefa encontravam o apoio da Igreja e das Ordenações do Reino.9 Desautorizadas pela Inquisição e pelas autoridades sanitárias, essas práticas de sanar com o toque das mãos, orações, sucções e remédios caseiros foram diabolizadas. O pajé, guardião do saber indígena, foi comparado a lúcifer por José de Anchieta: Já não ousas agora servir-te de perversos sacrifícios, perverso feiticeiro, entre os povos que seguem a doutrina de Cristo: já não podes com mãos mentirosas esfregar membros doentes, nem com lábios imundos chupar as partes do corpo que os frios terríveis enregelaram, nem as vísceras que ardem de febre [...] Já não enganarás com as tuas artes os pobres enfermos que creem, coitados! Nas mentiras do inferno.10

Jean de Léry, 1580. Ilustração do livro Les singularitéz de la France Antarctique [...]. Em seu relato da viagem que empreendeu, em 1557, à França Antártica, o calvinista Jean de Léry, antes de ser expulso por Villegagnon, descreveu vários costumes dos índios Tupinambá, com os quais conviveu. Seu testemunho constitui um dos primeiros registros das formas de cura realizadas e do emprego de plantas medicinais em alguns tratamentos. Acervo Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro


Jean de Léry, 1580. Ilustração do livro Les singularitéz de la France Antarctique [...]. Na imagem deste livro de Léry, a América parece povoada por demônios, além de fauna e flora inauditas. Acervo Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

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Da apropriação e dos usos medicinais da flora brasileira

Com os seus saberes sobre a natureza, os índios indicaram aos colonizadores as novas plantas que poderiam servir para alimento e remédio. Como afirmou Sérgio Buarque de Holanda, o conhecimento de quase todos esses produtos foi apropriado pelos bandeirantes paulistas. Jesuítas e bandeirantes foram, assim, os primeiros grupos que aprenderam o valor terapêutico de ervas indígenas.11 Com o avanço da colonização, médicos, mezinheiros, jesuítas, barbeiros sangradores, cirurgiões e boticários incorporaram dos ameríndios o uso da botica da Natureza. Dava-se a fruta do cajá aos doentes com febre. O sumo do caju era usado nas febres e fazia bem ao estômago. Da imbaúba, o óleo era cicatrizante e as folhas agiam como purgante. Tal como a noz-do-andá. Com o mesmo fim, mas mais popular, era empregado o óleo de copaíba. A parreira brava e o malvaísco eram antipeçonhentos. No caso de chagas ou doenças de pele, a língua-de-vaca e o camará eram indicados. A casca e o suco da maçaranduba, as folhas do camará, e os “olhos” da salsaparrilha, eram usados para as boubas, mas tinham bons resultados para os corrimentos, diarreias e doenças venéreas. O ananás dissolvia as pedras, o ingá teria virtude para o fígado, o maracujá, por ser fruta fria, era bom para as febres. A erva-santa ou tabaco servia para os doentes de cabeça, estômago e asmáticos. Seu sumo matava os vermes, tal como a erva-de-santa-maria ou mastruço. A fruta do jenipapo e a ipecacuanha ou poaia eram excelentes mezinhas para deter as câmaras (diarreias).12

11 Holanda, Sérgio Buarque de. 1995. Caminhos e fronteiras. São Paulo: Companhia das Letras, p. 74-89. 12 Ribeiro, Lourival. 1971. Medicina no Brasil colonial. Rio de Janeiro: SulAmericana, p. 40-41. 13 Wissenbach, Maria Cristina Cortez. 2002. Gomes Ferreira e os símplices da terra: experiências dos cirurgiões no Brasil Colônia. In: Ferreira Furtado, Júnia (org.). Erário mineral – Luis Gomes Ferreira. Belo Horizonte-Rio de Janeiro: Fundação João Pinheiro- Fiocruz, p. 112-3. 14 Para este parágrafo, servi-me do resumo de Gurgel, Cristina. 2012. Doenças e curas. O Brasil nos primeiros séculos. São Paulo: Contexto, p. 60-67.

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O incentivo às obras que descrevessem o quadro das doenças e, especialmente, a flora e a fauna de valor medicinal estava já expresso no édito de Felipe II, de 1570, no período da União Ibérica. Nesse documento, o Rei nomeava emissários para se informarem sobre a experiência dos nativos sobre o uso, faculdade e quantidade de medicamentos reconhecendo o quanto de benefício será para este e aqueles reinos a notícia, comunicação e comércio de alguma planta, ervas, sementes e outras cousas medicinais que possam conduzir à cura e saúde dos corpos humanos, temos resolvido enviar, algumas vezes, um ou muitos protomédicos gerais às províncias das Índias e adjacentes.13

No entanto, ao contrário do que ocorreu em relação às drogas de origem asiática, que foram objeto de estudo do médico e botânico Garcia da Orta (1501-1568), autor do admirável livro Colóquio dos simples e drogas e coisas medicinais da Índia (1563), admite-se que a flora medicinal da América portuguesa tenha despertado, inicialmente, apenas o interesse de colonos, missionários, militares e viajantes. Pero Magalhães Gandavo (?-1579), em História da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, foi o primeiro a descrever o óleo de copaíba como analgésico e cicatrizante. Seu sucesso correu mundo e, no século XVII, ao lado do tabaco, do anil e do cravo, chegou a ser um dos produtos de exportação das províncias do Grão-Pará e Maranhão. Gabriel Soares de Souza (15401594) em seu Tratado descritivo do Brasil (1587), verdadeiro manual de terapêutica indígena, recomendava carimã (farinha de mandioca seca) como vermífugo e antídoto universal. Milho cozido para tratar doentes com boubas. O sumo do caju, para a conservação do estômago. Emplastros de almécega, para soldar carne quebrada; amêndoas-de-pina (figueira-do-inferno) para purgas e cólicas; araçá para doentes com câmaras. Tinta de jenipapo para secar boubas; jaborandi para feridas na boca; cajá para febre e camará para sarna. Frei Vicente de Salvador (1564-1635), em sua História do Brasil 1500 – 1627, fez a descrição de várias plantas medicinais. Destacou o poder terapêutico e cicatrizante da cabriúva e das folhas da jurubeba. Ele também fez menção à erva-fedegosa, à salsaparrilha e ao andaz como úteis no combate de uma variedade de sintomas.14

José Mariano da Conceição Veloso, 1798. Joannesia princeps, do livro Alographia dos alkalis fixos vegetal ou potassa, mineral ou soda [...]. O andá, andaz ou andá-açu, é uma árvore cuja noz é descrita em várias farmacopeias por sua ação emética e purgativa. Frei Veloso adotou o padrão binomial proposto por Lineu, denominando-a Joannesia princeps em homenagem a D. João VI. Acervo Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro


S. Edwards, 1815. Malvaísco publicado na revista Botanical Register, volume 1. Na página à direita: E. Blackwell, 1760. Smilax aspera peruvina (salsaparrilha) publicada na revista Herbarium Blackwellianum, volume 4. Os colonizadores portugueses identificaram muitas espécies de plantas nativas da América como sendo variações de medicamentos simples já conhecidos nas farmacopeias europeias. O caapiá (Dorstenia brasiliensis) que aparece no livro de Gabriel Soares de Sousa foi identificado como uma erva semelhante ao malvaísco (Althaea officinalis) e valorizado pelas mesmas qualidades terapêuticas. Do mesmo modo, sob a denominação de salsaparrilha, várias espécies do gênero Smilax encontradas no Brasil foram equiparadas a Smilax aspera, valorizada pelas suas virtudes medicinais desde a Antiguidade, conforme constatamos nos tratados de história natural e matéria médica de Teofrasto, Dioscórides e Plínio. Acervo Missouri Botanical Garden Library, Saint Louis


Esses remédios só lentamente foram se incorporando às caixas de boticas do cirurgião e do físico. Eram inicialmente remédios de pobres ou mesmo de desbravadores como os bandeirantes paulistas e os mineradores, no contexto do ciclo do ouro na região das Gerais, que aprendiam com os carijós a localizar ervas e a improvisar mezinhas. Como relatou, em 1735, o cirurgião Luís Gomes Ferreira (1786-1864), autor do famoso Erário mineral, os homens bons preocupavam-se em conservar os matos próximos dos arraiais, onde muitos eram vistos e experimentados em raízes, ervas, plantas, árvores e frutos, por andarem pelos sertões anos e anos, não se curando de suas enfermidades, senão com as tais coisas e por terem muita comunicação com os carijós, de quem têm se alcançado coisas boas.15

Já no contexto de racionalização das práticas administrativas do iluminismo português, que incentivou a coleta de informações científicas sobre a natureza e as populações das colônias, 16 Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815), em sua Viagem filosófica, recolheu e descreveu inúmeros dados sobre a natureza do Brasil. Também desenhou e nomeou diversas plantas. Frei Veloso (1742-1811), com o mesmo propósito, asseverou que não há vegetal algum que não mereça ocupar a atenção de um verdadeiro sábio; nenhum há, por mais desprezível que pareça, de que se não possa esperar alguma utilidade. Eles são estimáveis por suas virtudes medicinais e requerem um particular estudo de todos os que se destinem ao curativo dos enfermos, eles fazem que não haja terreno algum que se possa verdadeiramente chamar estéril, ou incapaz de se aproveitar; fornecem uma grande parte dos nossos alimentos, servem-nos em infinitos usos econômicos e merecem por conseguinte de ser estudados relativamente à agri-

15 Dias, Maria Odila da Silva. 2002.

cultura e comércio.

Sertões do Rio das Velhas e das Gerais: vida social numa frente

Bernardino Antônio Gomes, que também residiu na Bahia, aprovou o emprego da erva-de-cobra no combate aos efeitos das picadas desse réptil. 17 O naturalista Carl Von Martius (1794-1868), que esteve no Brasil no período joanino e se interessou vivamente pela medicina e terapêutica indígena, comentou o efeito de certas ervas frescas que um pajé empregou numa úlcera maligna no pé de um escravo negro de sua comitiva que se achava inválido há meses, e havia resistido a muitos medicamentos e o uso do emplastros de mastruço no tratamento de dores de dente e astenia da língua e garganta.18

de povoamento – 1710-1733. In: Furtado, Júnia Ferreira (org.). Erário mineral – Luis Gomes Ferreira. Belo Horizonte-Rio de Janeiro: Fundação João Pinheiro-Fiocruz, p. 53. 16 Sobre a circulação de informações científicas relativas aos domínios coloniais no período da ilustração portuguesa, ver: Kury, Lorelai. 2004. Homens de ciência no Brasil: impérios e circulação de informações (1780 – 1810). História, Ciências, Saúde – Manguinhos 11 (supl. 1):109-129. 17 Viotti, Ana Carolina de Carvalho. 2012. As práticas e os saberes médicos no Brasil colonial, 16771808. Dissertação de mestrado. São Paulo: Unesp, p. 18. 18 Von Martius, Carlos Friedrich. 1939 (1840). Phil. natureza, doenças, medicina e remédios dos índios brasileiros. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, p. 234-235.

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José Mariano da Conceição Veloso, 1827. Prancha no. 62, Ricinus communis, publicada na Florae fluminensis. A mamona, também conhecida como figueira-do-inferno, rícino ou carrapato nhanduguaçu, foi aclimatada no período colonial. Von Martius constatou sua disseminação em muitas roças fluminenses, usava-se seu óleo na iluminação de lampiões. A Farmacopeia Geral do Reino (1794) a recomendava como um purgante brando. Suas sementes eram engolidas como pílulas. Ela era também utilizada como vermífugo e ingerida na forma de óleo ou emulsão. Acervo Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

José Mariano da Conceição Veloso, 1827. Frontispício da obra Florae fluminensis. Por intermédio do vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa, em 1779, frei Veloso (1741-1811) foi liberado da rotina dos ofícios religiosos para dedicar-se aos estudos de botânica. Mais tarde, entre 1799 e 1801, sob a proteção de D. Rodrigo de Sousa Coutinho, tornou-se diretor da Oficina Tipográfica do Arco do Cego, em Lisboa, onde teria escrito a sua célebre obra Florae fluminensis, publicada postumamente em 11 volumes, entre 1825 e 1827. Acervo Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

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Na página à esquerda: José Mariano da Conceição Veloso, 1827. Pranchas no. 48, Convolvulus contortus (batata-de-purga) e no . 138, Dorstenia cayapia, ilustradas no livro Flora fluminensis. Nessas pranchas de Veloso destacam-se duas plantas medicinais valorizadas pelo amplo valor terapêutico: a batatade-purga e a contraerva (Dorstenia cayapia). A primeira teve suas propriedades químicas e ação medicinal estudadas por Henriques de Paiva. Em Fernão Cardim a cayapiá é descrita como o único remédio para peçonha de toda sorte, máxime de cobras. Da família das moráceas, a Dorstenia cayapia também era conhecida como contraerva. O termo tupi vem de caá (erva) e apiá (testículo). Acervo Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro À direita: L. Köhler, 1890. Copaíba (Copaifera officinalis L.), ilustração publicada na revista Medizinal Pflanzen, volume 2. O óleo de copaíba, um licor resinoso extraído da casca de uma grande árvore, cuja ação era descrita como analgésica e cicatrizante, foi empregado ao longo de todo o período colonial e continuamente valorizado pelas farmacopeias. Acervo Missouri Botanical Garden Library, Saint Louis Na próxima dupla de páginas: Carl von Martius, 1824. Raízes (gengibre), ilustração do livro Specimen materiae medicae brasiliensis. O médico e naturalista Carl Von Martius (1794-1868) e o zoólogo Spix (1781-1826) chegaram ao Brasil na comitiva da grã-duquesa Leopoldina, que viera casar-se com D. Pedro I. O autor da Flora brasiliensis que aqui permaneceu entre 1817 e 1820 tinha a missão de coletar e formar coleções botânicas, zoológicas e mineralógicas. Uma de suas maiores preocupações era reunir os conhecimentos sobre plantas medicinais indígenas. No livro Systema materiae medicae vegetabilis brasiliensis identificou quase 500 espécies, reunindo informações sobre sua nomenclatura botânica, seus nomes vulgares em cada localidade e seus usos medicinais. Acervo Missouri Botanical Garden Library, Saint Louis

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Das transformações da arte médica lusitana nos séculos XVII e XVIII

19 Apud Abreu, Jean Luiz Neves. 2011. Nos domínios do corpo: o saber médico luso-brasileiro no século XVIII. 1a ed. Rio de Janeiro: Fiocruz, p. 38. 20 Martins, Carlos; Fiolhais, Décio. 2010. Breve história da ciência em Portugal. Coimbra: Gradiva-

Até a promulgação dos Estatutos de 1772, no período pombalino, os jesuítas exerciam poderoso controle sobre o ensino na Universidade de Coimbra. Regido pelos Estatutos de 1563, o ensino médico mantivera a venerável tradição galênica, cultuada sob as regras da pedagogia escolástica, relativamente à margem da renovação cultural que atingia outros países sob o influxo dos avanços nos estudos de anatomia, publicados, dentre outros, por Andreas Vesálio (1543) e William Harvey (1628) e das filosofias experimentalistas, químicas e mecanicistas que propunham uma descrição da fisiologia humana alternativa ao paradigma humoralista. Isso não quer dizer que as outras ideias não chegassem a Portugal, nem que a sua rejeição, por parte dos seguidores da tradição aristotélico-tomista, significasse superstição ou atraso, posto que o que estava em jogo eram os fundamentos metafísicos que imprimiam diferentes racionalidades às explicações sobre a estrutura causal do mundo. Defensores das ideias alquímicas de Paracelso e van Helmont, dos princípios químico-animistas de George Ernesto Stahl e das hostes do vitalismo de Montpellier também se envolveram no combate ao que um contemporâneo definiu como os erros do Alcorão galênico.19 Com a inclusão das obras de Paracelso no Index, a Inquisição portuguesa perseguiu os remédios alquímicos. Do ponto de vista doutrinal, a medicina galênica se opunha às drogas secretas de ampla difusão, pois essas ignoravam as particularidades do paciente: sua constituição, seu temperamento, sua idade e hábitos alimentares e higiênicos. No entanto, no século XVII, apesar da proibição emanada da Inquisição, as principais obras literárias de famosos alquimistas eram conhecidas em Portugal. O lente de medicina em Coimbra, João Bravo Chamisso (?1636), em sua obra De Medendis Corporis Malis per Manualem Oprerationem (1605), considerava a alquimia parte da medicina. Do mesmo modo, Duarte Madeira Arraes (?-1652), médico de D. João IV, foi autor de um Tratado dos óleos de enxofre, vitriolo, philosophorum, alecrim, salva, e de água ardente (1648).20 Nas primeiras décadas do Setecentos, o droguista Jean Vigier (1662-1723) e, principalmente, João Curvo Semmedo (1635-1719) desenvolveram rumorosa campanha que punha em cena a retórica dos Modernos contra os Antigos, para chamar a atenção da superioridade da farmácia química e dos remédios secretos diante da tradição galênica. Comentários sobre a insuficiência da sabedoria dos Antigos também podiam ser encontrados em obras como a impressa em Lisboa, em 1720, Cirurgia metódica e Química reformada, de Francisco Soares Ribeira, que apresentava o movimento circular do sangue, e no Tratado fisiológico, médico-físico e anatômico da circulação do sangue (1735), do médico João Marques Correia (1671-1745).21

Imprensa da Universidade de Coimbra, p. 32-36. 21 Abreu, Jean Luiz das Neves. Op. cit.

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Portanto, o debate científico português é anterior à difusão das ideias mecanicistas e vitalistas de Descartes, Newton, Torricelli ou Boerhaave. A partir de meados do século XVIII, críticas igualmente contundentes ao ensino médico português partiram de autores ligados ao ideário ilustrado, como o clérigo Luís Antônio Verney (1713-1792) e o médico Antônio Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783). Tanto o primeiro, em seu Verdadeiro método de estudar (1746), quanto o segundo, em Método para aprender e estudar a medicina (1761), propuseram a reformulação nos estudos da anatomia e da fisiologia que banisse a filosofia aristotélica da natureza e as ideias alquímicas e incorporasse a filosofia natural renovada. Esses dois reformadores se associavam à divulgação dos ideários mecanicista e vitalista fomentados, dentre outros, pelo cristão-novo Jacob de Castro Sarmento (1691-1762) que, da Inglaterra, enviou ao Reino sua Matéria médica físico histórico mecânica (1735).

À esquerda: Antônio Ribeiro Sanches, 1756. Frontispício do livro Tratado da conservaçaô da saude dos povos [...]. A partir de meados do século XVIII, ao lado das farmacopeias e compêndios médicos relativos ao diagnóstico e à cura das doenças, as preocupações relativas à higiene pública e privada da população se afirmam como um novo objeto da medicina. Antônio Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783), médico, filósofo e pedagogo, foi, em Portugal, um dos pioneiros na divulgação dessa literatura. Acervo Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa À direita: Autor desconhecido, segunda metade do século XV. Ilustração do Opusculum Alchemicum, originário da Alemanha. No início da época moderna, a herança mágico-astrológica do pensamento grego antigo e medieval ganhou novo impulso com o movimento humanista. A natureza, percebida como um todo vivo que contém em si mesmo uma alma, autorizava o estudo das correspondências secretas entre o mundo (macrocosmo) e o homem (microcosmo). A alquimia utilizou muitos símbolos herméticos, como a cópula entre figuras humanas representando o Sol e a Lua como alegoria de processos. Acervo British Library, Londres

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Os desafios à terapêutica galênica

De acordo com a tradição hipocrático-galênica, transformada em dogma pelo ensino escolástico professado nas universidades medievais desde o século XIII, o corpo humano seria constituído por sangue, pituíta, bile amarela e bile negra. Existiria saúde quando esses princípios estivessem em justa relação de equilíbrio (crase), de força e de quantidade, misturando-se perfeitamente; a doença surgiria quando um desses princípios estivesse em menor quantidade ou em excesso, ou isolando-se no corpo, por uma espécie de obstrução, e não se combinasse harmonicamente com o resto. Eis o grande princípio hipocrático, que os jovens doutores em medicina, formados nas universidades europeias, deviam ter em mente enquanto examinavam seus doentes. As doenças seriam causadas por falta (caquexia), excesso (pletora) ou corrupção de um ou mais humores. Tratava-se, então, de restaurar o déficit ou, ao contrário, suprimir o excedente. Como ensinava João Lopes Correa, em Castelo forte contra todas as enfermidades que perseguem o corpo humano (1726), os humores não naturais (pútridos ou corrompidos) estão apartados do sangue e por sua malícia não são aparelhados para manter os membros.22 Assim, convinha, antes, evacuar os maus humores. Os humores podiam também se desviar, sendo fundamental repô-los em seus caminhos. A febre não seria nem um sintoma nem uma doença em si, mas a expressão do esforço curativo da natureza (vix medicatrix naturae). Proveniente do coração, o calor atuaria no cozimento dos humores corrompidos.

Albrecht Dürer, 1515. Melencolia. O termo grego significa literalmente bile negra. A melancolia tem como sintoma um estado psíquico caracterizado pela tristeza. Os indivíduos nos quais esse humor predomina correspondem ao temperamento melancólico ou saturnino. Para eliminar o excesso de bile negra, a sangria e os remédios purgantes eram os mais recomendados. Nesta gravura com elementos neoplatônicos, a melancolia é valorizada como uma disposição própria ao filósofo contemplativo para quem a alma racional precisa transcender o mundo sensível. Acervo Bibliothèque Nationale de France, Paris

22 Correia, João Lopes. 1723. Castelo forte contra todas as enfermidades que perseguem o corpo humano e tesouro universal, onde se acharão os remédios para elas. Tomo 1. Lisboa: Oficina da Música, p.12.

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23 Uma excelente apresentação da epistemologia neoplatônica e hermética que caracterizava essa visão de mundo encontra-se no capítulo 3, “A prosa do mundo”, de Foucault, M. 1999. As palavras e as coisas – uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes. 24 Henry, John. 1998. A revolução científica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 25 Gomes, Leonardo Gonçalves. 2012. A farmacopeia tubalense de 1735 e a

A partir de meados do século XVI, ocorrem grandes inovações no conhecimento científico, destacando-se os avanços na astronomia, na física e nas ciências naturais; a medicina também conheceu grandes inovações teóricas e práticas. Numa época em que todos os remédios eram os simples derivados de plantas ou animais, o rebelde Paracelso (1493-1541) foi um defensor dos remédios minerais e metálicos, pregando a doutrina dos remédios específicos para cada doença – o mercúrio tornou-se um específico para a sífilis ou mal gálico. Sydenham (1624-1689), o chamado Hipócrates inglês, também defendia a ideia de que toda doença teria seu medicamento específico. A epistemologia mágico-hermética das similitudes, que autorizava a doutrina dos sinais ou assinaturas, permitia associar o poder curativo de certas plantas por semelhança com a morfologia de certos órgãos ou sintomas físicos. Assim, plantas amarelas, como o açafrão deviam atuar na icterícia. Substâncias vermelhas, tais como a ferrugem ou o vinho tinto, eram tidas como convenientes para combater a palidez. A pulmonária, com suas manchas brancas nas folhas, possuiria evidente virtude para as doenças do pulmão. Com a descoberta do novo mundo, uma droga utilizada pelos índios como antídoto para as maleitas, a cinchona ou quina, também conhecida como casca peruana ou casca dos jesuítas, foi incorporada à terapêutica médica, pelo mesmo princípio das assinaturas. Subjacente a essas crenças havia a convicção de que todas as criaturas tinham miríades de significados e incontáveis conexões de simpatia e antipatia com outras coisas, fossem elas animais, plantas, corpos celestes, números ou artefatos humanos, como amuletos e moedas. Isso explicava a ação curativa de certas plantas. 23 Aqui a História Natural era vista como um meio de exibir as maravilhosas sabedorias, arte e benevolência do Criador.24 A afirmação da nova fisiologia de base química, pelos adeptos da iatroquímica, não negou a existência dos quatro humores, mas limitou-os a um papel acessório, em relação a três outros elementos minerais: o sal, o enxofre e o mercúrio. Esta tria prima, que representava os princípios do corpóreo (sal), do inflamável (enxofre), e do volátil (mercúrio) eram forças espirituais que interligavam o macrocosmo – conjunto das coisas existentes no universo – ao microcosmo – o corpo humano. A extração do princípio ativo, ou virtude, geralmente pela destilação, das substâncias naturais – dos reinos vegetal, animal e mineral – correspondentes às partes do corpo humano debilitadas, implicava o estímulo em se estudar o “livro da natureza”. Os adeptos da iatroquímica concebiam o organismo como um laboratório ou destilaria, palco de muitos processos químicos.25

construção de um modelo para a farmácia portuguesa setecentista. Dissertação de mestrado. São Gonçalo: FFP-Uerj.

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Peter Paul Rubens, s/d. Retrato de Paracelso. No contexto da contrarreforma e de crise das instituições culturais da Europa moderna, o rebelde Paracelso (1493-1541) queimou em praça pública as obras de Galeno e Avicena. Ele foi pioneiro na defesa dos remédios minerais e metálicos, pregando a doutrina dos remédios específicos para cada doença. Acervo Musées Royaux des Beaux-Arts de Belgique, Bruxelas

Mary Beale, século XVII. Retrato de Thomas Sydenham. A grande reputação que Thomas Sydenham (1624-1689) teve em sua época baseia-se nos tratamentos que desenvolveu para as “febres”, em especial a varíola. Em Observationes medicae (1676), introduziu o conceito de espécie morbosa, insistindo que os médicos deveriam individualizar as doenças e classificá-las tal como os naturalistas faziam com as plantas. Outra fissura que ele abriu em relação à tradição galenista foi sua defesa de uma terapêutica baseada na botânica e nos elementos minerais alquímicos. Acervo Royal College of Physicians, Londres

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26 Pita, João Rui. 2000. História da farmácia. Coimbra: Minerva. 27 Pita, João Rui. Op. cit.

À exceção de algumas drogas, os medicamentos que os doutores de Coimbra usavam, até meados do Setecentos, não se distinguiam muito da farmacopeia galênica, ainda que eles possuíssem um punhado de específicos e tópicos. Aos médicos não faltavam respostas para os diferentes casos que se apresentavam no curso de suas consultas. Convém lembrar que, na medicina humoral, não se esperava que as drogas desempenhassem um papel decisivo na cura. O que se esperava de uma boa droga não era tanto que ela curasse diretamente uma doença, mas que, através de sua ação ou faculdade vomitiva, purgativa ou sudorífera, ajudasse a natureza a restaurar o equilíbrio entre os humores. Entretanto, com a fixação de químicos e destiladores provenientes do estrangeiro que comercializavam medicamentos (al)químicos e, principalmente, com a publicação da farmacopeia elaborada pelo médico João Curvo Semmedo (1635-1719), Polianteia medicinal (1695) – tornada uma espécie de evangelho da medicina portuguesesa – a comunidade médica incorporou a nova terapêutica. Outra obra influente, a Pharmacopeia Ulyssiponense, de autoria do francês Jean Vigier (16621723), comerciante de drogas estabelecido em Portugal, foi a primeira farmacopeia escrita em português a tratar organizadamente a preparação de medicamentos químicos e a descrever o material e as técnicas da química farmacêutica.26 O físico galenista, tendo que escolher frequentemente entre várias indicações terapêuticas, devia levar em conta não apenas a causa da doença, mas também todos os aspectos do paciente e de seu meio. Em Portugal, as medicinas (mezinhas) da farmácia galênica, caracterizadas pela produção pelo boticário, mediante a receita do físico, e indicadas para um determinado doente, iam de encontro aos remédios secretos e às panaceias, vendidos em larga escala e consumidos como automedicação (água da Inglaterra, água celeste). Condenados pela Reforma Pombalina do ensino médico, em 1772, os remédios secretos foram mais perseguidos a partir da criação da Junta do Protomedicato, em 1782. No Século da Razão, cuja obra mais famosa, a Enciclopédia de Diderot e D’Alembert, louva as ciências e a técnica, dois campos do saber sofreram profundas transformações com implicações diretas para a arte farmacêutica: a história natural e a química. Carl Lineu (1707-1778), em Systema naturae (1735), apresentou uma classificação binominal, baseada nos órgãos reprodutores de animais ou vegetais, que tornou possível organizar um catálogo coerente do gigantesco inventário de ambos os reinos. No campo da química, Lavoisier (1743-1794) é o nome mais saliente de toda uma geração que, ao criar o novo conceito de elemento químico, ajudaria a enterrar a milenar teoria dos quatro elementos fundamentais da natureza: terra, fogo, água e ar, assim como a tria prima alquímica – sal, enxofre e mercúrio. Com Fourcroy (1755-1809) e Bertholet (1748-1822), as denominações antigas, como o “ácido vitriólico” e as “flores de zinco”, passaram a chamar-se ácido sulfúrico e óxido de zinco sublimado, respectivamente.27

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Jean Vigier. 1716. Frontispício da obra Pharmacopea Ulyssiponense, galenica, e chymica, que contem os principios, diffiniçoens, e termos geraes de huma, & outra Pharmacia [...]. Jean Vigier (1662-1723), comerciante de drogas estabelecido em Portugal, foi o autor da primeira farmacopeia escrita em português a tratar organizadamente a preparação de medicamentos químicos e a descrever o material e as técnicas da química farmacêutica. Acervo Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa

I. G. Hallman (del.) e Carol Bergqvist (grav.), 1749. Ilustração do livro Materia medica de Carl von Linné. A obra contém a descrição, a classificação e os usos de 535 espécies de plantas medicinais. Na ilustração destacam-se alguns medicamentos que deveriam compor uma botica. Dentre as drogas prestigiadas estão a jalapa e a ipecacuanha, plantas do Novo Mundo que foram consagradas pelas farmacopeias europeias. Acervo Linnean Society, Londres


Com a chegada de Domenico Vandelli (1730-1816), em 1764, contratado pelo Marquês de Pombal para participar da ampla reforma educacional que resultou na expulsão dos jesuítas e na reforma do ensino conibrense, cada vez mais plantas brasileiras são estudadas e as suas virtudes destacadas, com suas propriedades purgativas, laxantes, vomitivas, catárticas e refrigerantes. Com a criação de cadeiras como filosofia e história natural, química e física experimental na Universidade de Coimbra, a partir de 1772, a terapêutica ganha novo alcance investigativo nos domínios lusos. Por sugestão do vice-rei, Marquês do Lavradio, fundou-se no Rio de Janeiro a Sociedade de História Natural do Rio de Janeiro. Inaugurada no ano da reforma da Universidade de Coimbra (1772), no contexto da ilustração portuguesa, e extinta em 1779, essa sociedade científica chamou a atenção para assuntos de história natural no Brasil, entre os quais, o aproveitamento da cochonilla, aplicações de mercúrio, uso da goma de peixe, cultura do bicho-da-seda e estudo de plantas medicinais. 28 Ela foi a primeira instituição a empreender estudos sistemáticos da flora medicinal brasileira. Manuel Joaquim Henriques de Paiva (1752-1829), que foi boticário no Rio de Janeiro, antes de graduar-se médico em Coimbra, aprendeu botânica com Frei José Mariano da Conceição Vellozo e descreveu a jalapa e suas propriedades farmacêuticas. Seu pai, Antônio Ribeiro de Paiva, distinguiu o mechação legítimo (jalapa) da raiz de norça-negra, usada, no lugar daquele, pela ignorância dos boticários portugueses. 29 Entre 1773 e 1777, Henriques de Paiva foi demonstrador do laboratório químico e de história natural na Faculdade de Filosofia, na qual depois viria a ser lente de filosofia. A indicação para o cargo de demonstrador teria sido feita por Domingos Vandelli. 30 A partir desse período, a nova nomenclatura química frequentaria todo o saber farmacológico. As inovações no campo da botânica, da química e da farmacologia deram novo impulso ao estudo da flora brasileira. Contudo, os trabalhos fitoquímicos não foram inicialmente tão animadores, já que não deram respostas mais adequadas à terapêutica que aquelas alcançadas pela farmácia galênica ou alquímica. O isolamento das substâncias de ação farmacológica – princípio ativo – conforme os procedimentos da química moderna, a partir de drogas vegetais, começou no início do Oitocentos. 28 Herson, Bella. 1996. Cristãos-novos e seus descendentes na medicina brasileira (1500-1850). São Paulo: Edusp, p. 200. 29 Reis, Paulo Cesar dos. 2006. Ciências e saberes no Rio de Janeiro Setecentista. O caso da Academia Científica do Rio de Janeiro. Dissertação de mestrado em História. Rio de Janeiro: Universidade Federal Fluminense – UFF. 30 Filgueiras, Carlos A. L. 1991. As vicissitudes da ciência periférica: a vida e obra de Manuel Joaquim Henriques de Paiva. Química Nova 14(2):133-141.

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Domenico Vandelli, 1788. Frontispício do Diccionario dos termos technicos de historia natural extrahidos das obras de Linnéo [...]. Uma das figuras centrais da Ilustração portuguesa, o paduano Domenico Vandelli (1735-1816) preocupou-se com a divulgação do sistema classificatório de Lineu. O crescente interesse da história natural em nomear, descrever e classificar a multidão de animais, plantas e minerais, agrupando-os segundo uma ordenação racional e sistemática devia-se à compreensão de que este era o primeiro passo para uma análise mais complexa de suas origens, distribuição geográfica, interações e propriedades. A importância econômica dos produtos naturais impulsionou essa disciplina e o desenvolvimento dos jardins botânicos. Acervo Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro


Com a estreia dos trabalhos da Real Academia de Ciências de Lisboa, em 1780, novo impulso foi dado aos estudos das ciências naturais, sobrepujando erráticas iniciativas anteriores. Nessa época, as qualidades de plantas tropicais, como o café, o tabaco e o cacau, há muito valorizadas na terapêutica, passam a ser estudadas pela nova farmacêutica. Antônio Bernardino Gomes, o já mencionado médico e cirurgião da Armada Real, embarcou, em 1797, em Lisboa para o Brasil, onde permaneceu durante quatro anos e meio. Destacou-se por suas atividades em diversos ramos da medicina. Em farmacologia pesquisou no domínio da química analítica da época. Temos, por exemplo, as suas investigações acerca da ação da romeira brava e de outras plantas na qualidade de vermífugos, a descoberta da cinchonina, o primeiro alcaloide extraído da casca da quina. Ele começou a dedicar-se ao estudo da botânica, durante sua primeira estada no Brasil, onde realizou observações terapêuticas sobre 16 espécies de plantas brasileiras. Desses estudos resultaram as memórias sobre a Ipecacuanha fusca do Brasil (1801), sobre a canella do Rio de Janeiro (1798) e sobre a virtude tenífuga da romeira. Suas Observações botânico médicas (1803), publicada em Lisboa, apoiava-se na química moderna para estabelecer o princípio ativo e pertence ao contexto do reinado mariano (1777-1816), em que várias expedições científicas ao território americano foram promovidas por D. Rodrigo de Souza Coutinho.

Pierre Pomet, 1694. Du Mechoacam e Du bois du Bresil, pranchas do livro Histoire générale des drogues, traitant des plantes, des animaux, & des mineraux; ouvrage enrichy de plus de quatre cent figures en taille-douce tirées d’aprés nature [...]. Considerada, em sua época, o mais completo e confiável catálogo de drogas simples e compostas, esta obra, publicada pelo droguista Pierre Pomet (1658-1699), foi traduzida em muitas línguas, como inglês e alemão. Contendo mais de 400 figuras, já na primeira edição de 1694 aparece a descrição de drogas simples da América. O pau-brasil, cujo óleo era empregado nas febres, nas oftalmias e para fortalecer o estômago e o mechação (jalapa ou batata-de-purga) estão entre as várias plantas medicinais brasileiras ali descritas. Acervo Bibliothèque Nationale de France, Paris

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Bernardino Antônio Gomes, 1801. Ipecacuanha, ilustrada no livro Memória sobre a ipecacuanha fusca do Brasil [...]. Além de distinguir a Ipecacuanha fusca de outros cipós, que eram comercializados como tendo a mesma propriedade emética, e de confirmar o valor medicinal do barbatimão como adstringente, e do andá-açu, Bernardino Antônio Gomes extraiu da quina o alcalóide chichonino. Acervo Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

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Bernardino Antônio Gomes, 1803. Barbatimão ilustrado no livro Observationes Botanico-Medicae de Nonnullis Brasiliae Plantis. Bernardino Antônio Gomes (1768-1823), médico e cirurgião da Armada Real, esteve no Brasil, entre 1797 e 1801. Dedicou-se ao estudo da botânica durante sua primeira estada na Colônia, onde realizou observações terapêuticas sobre 16 espécies de plantas brasileiras. Suas Observações botânico médicas (1803), publicadas em Lisboa, apoiavam-se na química moderna para estabelecer o princípio ativo e pertencem ao contexto do reinado mariano (1777-1816), em que várias expedições científicas ao território americano foram promovidas por D. Rodrigo de Souza Coutinho. Acervo Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

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Bernardino Antônio Gomes, 1803. Jaca, andá-açu e tabebuia ilustradas no livro Observationes Botanico-Medicae de Nonnullis Brasiliae Plantis. Bernardino Antônio Gomes, ao mesmo tempo que tinha uma concepção holística da medicina, estudava botânica e os princípios ativos das plantas. Acervo Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

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O sucesso da flora brasílica nas farmacopeias portuguesas e europeias

A medicina doméstica, como a profissional, baseava-se, principalmente, em folhas, raízes, sementes ou cascas, denominados simples. As ervas eram moídas, maceradas e diluídas em infusões. Dentre os Antigos, Celso (séc. I d.C.), Dioscórides (séc. I d.C.) e Galeno (séc. II, d.C.) compilaram receitas sobre ervas em tratados de Materia medica. Suas obras, muito apreciadas desde a Idade Média, divulgavam o emprego medicinal de substâncias aromáticas como o açafrão, além de óleos e unguentos. A medicina árabe acrescentou novos preparados de origem persa, indiana e oriental. Dentre as drogas desconhecidas pelos autores gregos que foram absorvidas pela medicina medieval destacam-se: cânfora, cássia, sena, noz-moscada, tamarindo, canela e cravo.31 O impulso humanista para a observação direta, valorizando a experiência individual como forma de conferir a autenticidade de textos antigos, teve sua expressão mais impressionante na história natural do século XVI. Nesse domínio do conhecimento, entendia-se que as cópias existentes dos textos referidos tinham um caráter duvidoso. Admitindo-se que as formas das plantas e dos animais não haviam se alterado ao longo do tempo, a observação podia ajudar a decidir quais haviam sido, na verdade, as descrições originais. Dessa forma, os autores humanistas seguiam as recomendações prescritas pelos antigos. Galeno recomendara aos praticantes da medicina que se tornassem especialistas em toda a matéria médica, examinando pessoalmente a ação terapêutica dos remédios. Tendo realizado a observação direta, médicos, boticários e cirurgiões aproximavam-se de suas fontes antigas, mais bem preparados. 32 A busca pelo realismo em ilustrações botânicas, em oposição ao significado alegórico e função decorativa, reforçava a mensagem, explícita nos textos, de que a experiência pessoal era um guia mais confiável que a autoridade.

31 Porter, Roy. 2004. Das tripas coração. Uma breve história da medicina. Rio de Janeiro: Record. 32 Shapin, Steven. 2000. A revolução científica. Lisboa: Difel. 33 Edler, Flávio Coelho. 2006. Boticas e pharmacias. Uma história ilustrada da farmácia no Brasil. Rio de Janeiro: Casa da Palavra.

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A descrição de espécies botânicas engendrou uma vasta rede de cooperação internacional. No Novo Mundo, médicos, farmacêuticos, botânicos, diplomatas, viajantes, comerciantes e clérigos foram em busca de ouro e prata, mas também de novas drogas. A Materia medica já tinha os novos produtos exóticos vindos da Índia. Garcia da Orta (1501-1568), autor do Colóquio dos simples e drogas e cousas medicinais da Índia, editado em Goa, em 1563, era fiel ao espírito da tradição renascentista. Ao contradizer os Antigos, e manifestar sua predileção pelos árabes, ele afirmava ter sido testemunha direta de tudo o que relata, ao contrário de Galeno que se utilizava muitas vezes de informações de segunda mão. Escrito em português, cada um dos 58 colóquios, ou partes em que se divide sua obra, dedica-se a uma ou mais drogas, partindo de uma apresentação etimológica, antes de passar à sua aparência, origens, preparação e uso terapêutico. Dentre suas descrições encontram-se a cânfora, a palma, o sândalo, a assa fétida, o gengibre e a babosa (Aloe vera). Como continuação ao trabalho de Orta, deve-se mencionar o de Cristóvão da Costa (1515 – 1594), com seu Tratado de las drogas e medicinas de las Índias Orientais (1568). A prioridade na descrição de vários simples da América coube aos portugueses e espanhois, como observamos acima, com exceção da obra dos físicos holandeses vindos com Maurício de Nassau, Guilherme Piso (1611-1678) e George Marcgraf (1610-1644), Historia naturalis Brasiliae (1648). 33

Dioscórides, 801-900. Página 116 do manuscrito em pergaminho De materia medica. Dioscórides, que viveu no século I, é o autor desta obra em que são descritas cerca de 600 plantas medicinais, 35 fármacos de origem animal e 90 de origem mineral. Escrita originalmente em grego, alcançou renovado prestígio durante o Renascimento, sendo impressa pela primeira vez, em latim, em 1478. Acervo Bibliothèque Nationale de France, Paris

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Nas farmacopeias surgidas desde fins do século XVII, dava-se igual importância ao formulário quanto à descrição de todos os procedimentos para a preparação dos medicamentos. Embora fossem, inicialmente, dependentes de iniciativas particulares, essas obras logo foram adotadas pelas autoridades públicas, devido ao seu enorme sucesso. Elas tiveram grande influência na circulação de ervas e drogas medicinais por todo o mundo e forçaram a padronização e aperfeiçoamento da arte farmacêutica. 34 Houve, desde então, uma clara intenção de valorizar a arte do boticário, em oposição a outras categorias de terapeutas consideradas mais rústicas, como os algebristas (consertadores de ossos), as comadres, os vendedores de ervas e barbeiros que manipulavam drogas em seus ofícios. Em Portugal, há referências a mulheres boticárias desde o século XIV, prestando serviços às mulheres da alta nobreza.35 Com a introdução das técnicas (al)químicas, as farmacopeias valorizavam ainda mais a perícia no processo de elaboração dos remédios. Ao descrever a complexidade do método de destilação, o autor da Farmacopeia tubalense salientou a muy grande diferença [...] ao de umas mulheres rústicas desta profissão, quais são as que atualmente estão provendo a maior parte das boticas da Corte e das conquistas deste Reino.36

De fato, as farmacopeias buscavam contribuir para aperfeiçoar a formação dos boticários e restringir a eles o monopólio da fabricação de medicamentos. Assim, na preparação dos simples ou na fabricação dos remédios compostos multiplicavam-se as exigências teóricas e habilidades práticas. No momento da colheita, deviam ser observados cinco critérios para estabelecer qual planta encontrava-se com maior virtude: 1) reparar as qualidades das substâncias que, a depender de suas naturezas, deveriam estar mais compactas ou friáveis, leves ou pesadas, duras ou secas; 2) muitos simples eram considerados melhores quando mais cheirosos; 3) outros podiam ser escolhidos por se apresentarem doces, como a alcaçuz ou amargos como as losnas, outros ácidos como tamarindos, outros acres como gengibres; 4) a coloração e, por fim; 5) a grossura.37

Dentre os procedimentos para a preparação dos simples, podemos enumerar as seguintes ações: triturar para reduzir a pó; levigar, cortar, raspar, limar, crivar, espremer, lavar, umedecer, dissolver, liquidar, infundir, nutrir, fermentar, putrefazer. A cocção era operação complexa e servia a diversos fins, como atenuar ou aumentar a ação de uma virtude. Para evitar as impurezas de certos simples ou para abrandar ou aumentar suas virtudes, ou simplesmente para tornar os medicamentos “mais vistosos” era preciso conhecer diversas operações como defumar, clarificar, conservar, aromatizar, corar, abrandar, endurecer, evaporar e cristalizar, conforme os métodos estabelecidos pela tradição galênica ou (al)química. Já a arte da mistura para fabricar os medicamentos compostos necessitava de muita perícia, pois era fundamental muita precisão na proporção regulada de cada simples na preparação. Era preciso pesá-los separadamente e estar atento ao grau do fogo, à escolha correta dos recipientes e instrumentos (vasos, o cadinho, o almofariz, as peneiras, o fogareiro, os tachos). O controle do tempo dependia do conhecimento de cada parte e de suas qualidades. As mais voláteis e cheirosas deveriam ficar para o fim da preparação. Reivindicava-se, assim, o domínio tanto da teoria quanto da prática nas operações da farmácia. O cônego Dom Caetano de Santo Antônio foi o primeiro a redigir em português, em 1704, um formulário, a Farmacopeia lusitana, que teria ainda outras três edições. Já na segunda edição, em 1711, introduzia algumas fórmulas químicas e plantas brasílicas, como a salsaparrilha. Foi ele também o primeiro a apresentar um argumento, já referido, que seria repetido em todas as obras desse gênero: ela servia para evitar os intoleráveis erros nos usos e preparos dos medicamentos. Cada autor de farmacopeia pretendia ampliar a arte terapêutica e corrigir os erros encontrados nas outras farmacopeias, enriquecendo e aperfeiçoando a arte. No entanto, a multiplicação das farmacopeias, com cada autor apresentando suas fórmulas particulares, contribuiu para a ampliação do barbarismo na terapêutica.

34 Gomes, Leonardo Gonçalves. Op. cit., p. 51. 35 Dias, José Pedro de Sousa. 2005. A

D. Caetano de S. Antônio, 1754. Dedicatória da Pharmacopea lusitana augmentada Methodo pratico de preparar os medicamentos na forma Galenica e Chimica [...]. A Pharmacopea lusitana, publicada em 1704, teria ainda outras três edições. Já na segunda, em 1711, introduzia algumas fórmulas químicas e plantas brasílicas, como a salsaparilha. Acervo Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

farmácia e a história. Uma introdução à historia da farmácia, da farmacologia e da terapêutica. Lisboa: Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, disponível online, p. 48. 36 Coelho, Manuel Rodrigues. 1760. Pharmacopea tubalense chimicogalenica. Roma: Oficina de Balio Geredini, p. 337. 37 Lamery, Nicolas. 1741. La Pharmacopée Universelle. 2a ed. Paris: Chez Charles-Maurice D’Houry.

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A Farmacopeia Ulyssiponense galênica e chymica (1716), do droguista francês Jean Vigier, radicado em Portugal e físico-mor de D. João V, foi a primeira a reunir um grande número de referências às plantas medicinais das colônias, sobretudo do Brasil. Além de incluir a descrição do material, com estampas, e processos técnicos da farmácia química, trazia um tratado da eleição, descrição, doses e virtudes dos purgantes vegetais e das drogas modernas de ambas as Índias e Brasil, com estampas indígenas como: abatua, ambreta, ananás, andá, andira (angelim), anime, bálsamo de copaíba, caju, cacau, caucamo, contraerva, erva longuinosa, jenipapo, inhame, iparandiba, ipecacuanha, jabotapita, jaçapucaio, jacoacanga, mamanga, manacá, mangaba, manobi, mechoacão, pau-brasil.38 Considerada um monumento da polifarmácia, a Farmacopeia tubalense chimico-galênica (1735) já não insistia tanto na retórica antigalênica, muito presente na Polianteia medicinal (1727) de João Curvo Semmedo. Para seu autor, o boticário Manuel Rodrigues Coelho (1687-?), havia, no entanto, uma clara hierarquia entre ambas. Enquanto a farmácia galênica ensinava a escolher, preparar e separar os simples, sem especular de que partículas ou substâncias eles eram compostos, a química ensinava seus fundamentos, a separação e a resolução das partes puras e impuras e a fazer os medicamentos mais exaltados e essenciais. Evidenciando o incremento da perícia que o conhecimento da química impunha ao boticário, a Farmacopeia tubalense ampliou as operações no preparo dos medicamentos. Desde então, era preciso saber evaporar, cristalizar, destilar, incinerar, reverberar, distinguir e misturar, ou reduzir. A arte da calcinação dependia do conhecimento das técnicas de imersão, fusão, precipitação, umecção, fumigação, amalgamação e, por fim, cementação.39

Ao relacionar o uso dos simples, a Tubalense discrimina os vegetais brasileiros e seus usos. Através dela, sancionava-se que: a abutua ou parreira-brava servia para abscessos e apostemas inferiores, fazendo-os sair pela câmara ou urina. Também se prestava para combater o pleuris, pois descoagula o sangue e tem uma virtude que o faz circular. Serve para quedas e contusões, bebendo-se meia oitava. Serve para toda chaga e dores de cabeça. Serve para curar dores de cólica e de barriga;

o ananaz era uma fruta muito sumarenta e muito nociva à nossa natureza. Se uma pessoa a comeu, estando com uma chaga, com muita dificuldade se curará; o andá (Joannesia princeps), uma árvore do Brasil, tinha no interior de sua fruta uma noz considerada purgativa e também emética; a angélica tinha uma raiz que é bezoártica, cordial, aperitiva, sudorífica, defecante e vulnerária. Fazia expulsar o feto, sufocava infecções uterinas, curava enfermidades malignas era contra veneno e a peste; o angelim ou andira era uma árvore brasileira cujos caroços reduzidos a pó eram excelentes contra lombrigas; a goma de anime (Arbor brasiliensis siliquosa) era considerada um perfume nos afetos frios do cérebro e dos nervos, como as dores de cabeça, catarros e paralisia; o bálsamo da copaíba era um licor resinoso de uma grande árvore que se acha nas maiores matas da América. Dois bálsamos eram produzidos com suas cascas: um é branco, com cheiro de resina e de sabor acre e amargo; outro, mais espesso, com cor dourada e mesmo cheiro e sabor que o antecedente. Ambos são de excelentes virtudes para mundificar e consolidar as chagas, aplicando exteriormente; e dado interiormente é estomático, capital e nervino; serve nos reumatismos, dores nefríticas, fortifica os nervos, serve nas fraturas e deslocamentos; serve para curar gonorreia e purgações brancas, para corrigir humores que causam caquexia, escorbútica, para alimpar, sarar e afirmar os rins e bexigas dos humores crassos e áreas que os tem relaxados e obstruídos; também alimpa os bofes e desfaz os tubérculos;

o caju tinha virtudes refrigerantes; a canafístula era empregada para purgar com muita suavidade os humores coléricos, sem nenhuma impressão de calos, mas é um tanto flatulenta, o que se corrige fazendo-se uma moderada fervura; o cancamo era bom para a dor de dente e consolidante das feridas. A guauava servia como adstringente; o hyvourabe era uma erva sudorífica, defectiva e aperitiva; o jaçapucayo possuía um fruto que excitava o sêmen; o jacarandá tinha um lenho sudorífico e seu fruto era estomacal; o janvarandim, comum na Bahia e Pernambuco, tinha raízes consideradas milagrosas contra todas as mordeduras de animais venenosos; o jenipaba ou jenipapo tinha uma casca adstringente contra cursos e mitigava ardores de garganta. Também se aplicava em cataplasmas contra chagas malignas. O autor ainda se refere às virtudes da iparandiba, da mangaba, do manacá, da orelha-de-onça, e da raiz de milhomens, além da batata inhames.

38 Marques, Vera Regina Beltrão. 2004. As “medicinas” indígenas ganham o mundo nas páginas das farmacopeias portuguesas do setecentos. Anais do IX Encontro Regional da Anpuh – Paraná. 39 Gomes, Leonardo Gonçalves. Op. cit., p. 78.

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Jean Vigier. 1716. Fornalha portátil e outros apetrechos das estampas ilustradas na obra Pharmacopea Ulyssiponense, galenica, e chymica, que contem os principios, diffiniçoens, e termos geraes de huma, & outra Pharmacia [...]. Fornalhas, cinzeiros, cadinhos, capitéis de vidro ou cobre, bacias, tornos, tigelas e almofarizes foram alguns dos instrumentos introduzidos pelas novas técnicas alquímicas para produzir medicamentos. Desde então, era preciso saber evaporar, cristalizar, destilar, incinerar, reverberar, distinguir e misturar, ou reduzir. A arte da calcinação dependia do conhecimento das técnicas de imersão, fusão, precipitação, umecção, fumigação, amalgamação e, por fim, sedimentação. Acervo Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa

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Manuel Joaquim Henriques de Paiva, a quem nos referimos anteriormente, um dos maiores divulgadores da ciência moderna em Portugal, publicou a Farmacopeia lisbonense ou coleção dos símplices, preparações e composições mais eficazes, e de maior uso (1785). Impaciente com a demora da “Farmacopeia geral do Reino”, cuja composição D. José I havia encarregado à congregação da Faculdade de Medicina de Coimbra, na ocasião da reforma estatutária, ele elaborou a sua, com uma lista alfabética de medicamentos. Nela, faz-se referência a 37 plantas medicinais brasileiras. É interessante observar que, embora a obra incorporasse novos conhecimentos oriundos da química, da botânica, da anatomia, da fisiologia e da patologia, não aparece, então, nenhuma planta que já não houvesse sido descrita em outras farmacopeias, o que, à primeira vista, poderia revelar a permanência e o reconhecimento da flora medicinal consagrada pela tradição colonial. No entanto, o autor explica que não teve ânimo de suprimir alguns remédios compostos que julgava inúteis, pois apenas as farmacopeias oficiais, como as dos colégios de Londres, Edimburgo e Viena, achavam-se munidas de autoridade pública para reformarem os abusos, frutos dos erros e imperícias dos antigos.40 Somente em 1794, foi publicada a primeira farmacopeia oficial portuguesa, denominada Pharmacopeia geral para o Reino e domínios de Portugal. D. Maria I a promulgou em alvará que tornava obrigatório haver um exemplar em cada botica ou drogaria. Seu autor, professor de matéria médica e farmácia, Francisco Tavares (1750-1812), posteriormente físico-mor, foi autor de várias obras científicas. Em conjunto, essas obras ajudaram na ampla divulgação das plantas medicinais brasileiras na Europa moderna.

Página à esquerda: Carl von Martius, 1864. Cissampelos ovalifolia, prancha no. 43, volume 13, caderno 38 da Flora brasiliensis. A abutua, parreira-brava ou orelhade-onça era recomendada pelo autor da Polianthea medicinal por ter grande virtude no combate às tosses e infecções pulmonares. Sua raiz era empregada, também, nas febres intermitentes e usada como antídoto para as picadas de cobras. Acervo Missouri Botanical Garden Library, Saint Louis Georgii Hieronymi & H. F. Herbach (del.), 1674. Perfarum chirurgia dracunculos extrahendi, ilustração do livro Exercitatio de vena medinensi. Hóspede incômodo, o dracúnculo (Filaria medinense) foi importado com o tráfico de escravos africanos. Na literatura médica do período colonial, Piso, médico da corte de Nassau, foi o primeiro a registrar sua presença. A intervenção cirúrgica era um modo de facilitar a saída do verme pela pele. Na Bahia, empregava-se o óleo de dendê na epiderme. Supondo ser resultado de humores corrompidos, os médicos e cirurgiões recomendavam eméticos e purgantes. Bernardino Antônio Gomes indicava o uso de cataplasma emoliente até romper o tumor, concomitantemente com a ingestão de assafétida. Acervo Biblioteca de la Universidad Complutense de Madrid, Bh Fg 1111, Madri

40 Paiva, Manuel Joaquim Henriques de. 1785. Farmacopéa lisbonense ou collecção dos simplices, preparações e composições mais efficazes, e de maior uso. Lisboa: Oficina de Filipe da Silva e Azevedo.

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Usos e circulação - parte 4