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Verdes que em vosso tempo se mostrou. Das boticas jesuíticas da Província do Brasil SÉCULOS XVII – XVIII Bruno Martins Boto Leite

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Bruno Martins Boto Leite1

Verdes que em vosso tempo se mostrou

1 Mestre em História pelo IFCS/ UFRJ e doutor em História pelo Instituto Universitário Europeu (EUI) de Florença. 2 Kircher, Athanasius. 1667. China monumentis, qua sacris qua profanis, nec non variis naturae et artis spectaculis aliarumque rerum memorabilium argumentis Illustrata. Antuérpia: Jacobum a Meurs. 3 Riccioli, Giovanni Battista. 1661. Geographiae et hydrographiae reformatae libri duodecim. Bolonha: Typographia Haeredis Victorij Benatij. 4 Borri, Cristoforo. 1631. Collecta

A Companhia de Jesus, na Época Moderna, foi uma das organizações mais importantes no que diz respeito à circulação de conhecimentos e de coisas ao redor do mundo: seus intelectuais, situados em muitos lugares do globo, intercambiavam entre si diversos conhecimentos gestados em diferentes geografias. O padre Athanasius Kircher, por exemplo, havia elaborado sua importante obra China illustrata, sobre as coisas provindas da China, com base em nada mais do que informações e objetos passados a ele por outros jesuítas que se encontravam no Oriente. Ele nunca havia pisado na China. 2 O padre Riccioli havia escrito seu importante tratado de geografia, Geographiae et hydrographiae reformatae libri duodecim,3 servindo-se de informações que astrônomos jesuítas e cosmógrafos da Península Ibérica haviam recolhido nos domínios de ultramar. E, finalmente, para ilustrar essa questão com algumas poucas amostras no extenso mar de exemplificações, o astrônomo Cristóforo Borri, estando na Cochinchina, intercambiava, com outros jesuítas missionários em outros pontos do extenso Oriente, informações sobre a observação de cometas nos céus orientais.4 Além disso, se por meio dos intelectuais da Companhia os saberes circularam de forma eficaz, a estrutura da própria Companhia de Jesus, disposta como uma rede, permitia que essa circulação fosse ainda mais eficiente. Todos os colégios da Companhia eram vinculados ao comando da Ordem em Roma e deviam prestar contas, anualmente, ao geral da Companhia, o que fazia com que muitas cartas fossem enviadas de todas as partes do mundo aos jesuítas situados na Europa. A organização centralizada da Companhia estabelecia um elo entre todos os polos onde a Ordem havia se difundido na geografia do mundo funcionando, como dissemos, como uma rede.5

Astronomica ex Doctrina... De tribus

Página de abertura: Albert Eckhout, 1660. Detalhe de Nhambu-guaçu, ilustração do livro Theatri Rerum Naturalium Brasiliae. Acervo Biblioteka Jagiellonska, Cracóvia

caelis aereo, sydereo, empyreo. Lisboa: Matias Rodrigues, em particular p. 115-116. 5 Sobre as implicações que essa estrutura em rede teve no conhecimento produzido pelos jesuítas, veja-se Harris, Steven J.

Athanasius Kircher, 1667. Poivre, ilustração da página 190 do livro China monumentis qua sacris qua profanis, nec non variis naturae et artis spectaculis, aliarumque rerum memorabilium argumentis illustrata. Descoberta no Oriente, descrita e analisada por Garcia de Orta, a pimenta fez carreira nas boticas, hortos e jardins de toda a Europa e de todo o império português. Empregada essencialmente como tempero, teve grande impacto na vida dos europeus e seus domínios. Acervo Bibliothèque Nationale de France, Paris

Mapping Jesuit Science: the Role of Travel in the Geography of Knowledge. In: O’Malley, John W. et al. 1999. The Jesuits. Cultures, Sciences and the Arts, 1540-1773. Toronto: University of Toronto Press, p. 212-240. Uma análise atualizada das teias tecidas pela rede dos jesuítas na assistência portuguesa, de que o Brasil formava parte, pode-se encontrar em Dauril Alden. 1996. The Making of an Enterprise. The Society of Jesus in Portugal, its Empire, and Beyond, 1540-1750. Stanford: Stanford University Press.

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Athanasius Kircher, 1667. Ananas; Ficus Indica, Arbor Paradisi e Arbor Papaya, ilustrações das páginas 189, 188 e 187 respectivamente, do livro China monumentis qua sacris qua profanis, nec non variis naturae et artis spectaculis, aliarumque rerum memorabilium argumentis illustrata. Muitas plantas do Oriente, como o figo e o mamão, haviam sido importadas para o Brasil pelos navegadores portugueses. Inicialmente, o abacaxi, assim como o cajueiro, fora exportado para as terras orientais também pelos portugueses e muitos autores o haviam descrito como sendo proveniente daquelas geografias. Seu fruto era tido como um importante alexifármaco e foi empregado no tratamento de muitas epidemias de peste, como aquela de Florença, ocorrida entre 1630 e 1633. A presença de plantas do Oriente e da América, como o figo, o papaia e o abacaxi, nas obras de jesuítas como o padre Athanasius Kircher, atesta a efetiva circulação que esses saberes tinham no interior da Companhia. Acervo Bibliothèque Nationale de France, Paris

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6 Cf. a introdução ao Tratados da terra e gente do Brasil de Fernão Cardim, organizado por Ana Maria Azevedo, São Paulo: Hedra, 2009. 7 Os simples eram substâncias extraídas da natureza que tinham uso oficinal e serviam de base na composição de medicamentos mais complexos ou compostos. Eram ingredientes de origem mineral, vegetal e animal

A estrutura da Companhia organizava-se em torno dos colégios em todo o mundo. Esses colégios, em alguns casos interdependentes como os do Brasil, eram interligados com outros colégios europeus e com sua matriz: o Colégio Romano. Eles faziam circular um número enorme de epístolas das regiões as mais distantes da América, da África e do Oriente até a Europa e desta até esses lugares, informando as características e as realizações dos padres. Se os colégios da Companhia de Jesus trocavam informações entre si, o mesmo pode ser dito das boticas dos colégios, as quais, estando incrustadas na materialidade dessas instituições, trocavam com outras boticas de outros colégios jesuítas informações sobre o conhecimento empregado e inovado. Essas farmácias faziam circular receitas, como aquelas do padre Manuel Tristão que seriam enviadas aos jesuítas de Portugal pelas próprias mãos do reitor do Colégio da Bahia e do Rio de Janeiro, Fernão Cardim, 6 assim como ingredientes simples e compostos descobertos para as muitas boticas da Companhia. Nessas idas e vindas de textos e ingredientes, muitas plantas e saberes sobre elas eram levados do Brasil para as boticas da Europa e do Oriente, do Oriente ao Brasil e à Europa e da Europa ao Brasil e ao Oriente. As boticas dos colégios jesuítas formavam, assim, uma extensa e animada teia através da qual circulavam informações, saberes e, por vezes, pessoas. Essas trajetórias dos vegetais e dos saberes botânicos apoiavam-se, portanto, na existência e organização das boticas jesuíticas. A circulação das plantas dependia da compreensão da finalidade, neste caso aquela oficinal ou médica, que se tinha delas para a produção de remédios. A importação e a exportação das plantas estavam em consonância com a ciência que se tinha do seu uso nas boticas. Em outras palavras, a circulação das plantas estava diretamente relacionada ao conhecimento que se tinha delas e ao uso que lhe seria atribuído. Desde a fundação dos colégios da Companhia de Jesus no Brasil, os jesuítas encarregaram-se da produção de medicamentos, assim como do estudo dos simples 7 brasileiros, para suprir a população doente com remédios de botica. Coisa que já acontecia em outros lugares onde a Companhia havia disposto os seus colégios, como a Europa, a Ásia e a África. Os padres não eram os únicos a exercer esse tipo de função, contudo, sua ação no que tange a produção e os estudos dos medicamentos no Brasil era, sem sombra de dúvida, destacada diante do que havia nas cidades e vilas do Brasil da época. Os jesuítas, como já se sabe, não somente exerceram essa função como também criaram na América portuguesa espaços para a produção e para o estudo dos medicamentos: as boticas. Nesses lugares de saber, hábeis irmãos boticários realizavam a tarefa de reproduzir, com aquilo que tinham à mão, as receitas inventadas nas boticas da Europa.

estudados na sua relação com a medicina. A ciência dos simples pode ser comparada ao que hoje denominamos farmacognosia.

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Planta do Colégio Jesuítico e Quartel Militar na Vila de Santos no anno de 1801. As boticas jesuíticas eram importantes lugares de saber interligados aos colégios da Companhia de Jesus no Brasil. Novos métodos de produção eram ali desenvolvidos e empregados, como aquele da espagiria ou iatroquímica. Fala-se da farta presença de aparelhos de destilação nesses lugares. Acervo Arquivo Histórico do Exército, Rio de Janeiro

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8 Para o estudo das boticas europeias da época moderna, cf. Allant, André. 1952. La boutique de l’apothicaire au XVIIe siècle. Cahors: Impr. A. Coueslant; Olmi, Giuseppe. 1992. L’inventario del mondo: catalogazione della natura e luoghi del sapere nella prima età moderna. Bologna: Il Mulino; Reutter de Rosemont, Louis. 1931-

Desde o início, as boticas europeias basearam-se na tradição clássica, de Dioscórides, do De materia medica, e de Galeno, do De simplicium medicamentorum, herdando uma longa e antiga cultura de receitas médicas, de conhecimentos da flora, fauna e dos minérios da Europa. Com a preponderância da tradição árabe no período medieval, essas boticas entraram em contato com novas receitas e com o conhecimento dos simples de novas geografias, como aquelas de parte da África e de parte da Ásia. Os médicos e filósofos árabes (Avicena, Averrois, Rasis, Serapião e outros) trouxeram incontestes novidades ao ofício do boticário europeu. 8 Além disso, no século XVI, no momento da expansão ultramarina, espanhois e portugueses contribuíram para a vida cultural das boticas europeias com um enorme manancial de novos conhecimentos empíricos. Novos simples do Oriente foram trazidos a lume pela pluma de Garcia de Orta que, num esforço claro de revisão do conhecimento acumulado sobre o tema pela Antiguidade lançou no cenário cultural europeu a importância incontornável da tradição árabe. Novos simples da América espanhola foram descritos pelo médico Nicolau Monardes, que, trancado em seu pequeno gabinete de curiosidades em Sevilha, mostrou aos intelectuais de então que muito havia ainda a ser conhecido na esfera do mundo. 9 Ao lado dessas novidades, os processos químicos trazidos à cultura europeia pela arte espagírica dos árabes e pela filosofia de Paracelso transformaram substancialmente as práticas e o dia a dia dos boticários da Europa. Esses processos, ocorridos desde a época medieval até finais do século XVI, faziam das boticas da Europa um lugar de tradições cruzadas, onde a cultura árabe, os aportes das descobertas ultramarinas e as inovações as mais recentes em medicina tinham importância fundamental. Assim sendo, as boticas jesuíticas do Brasil importavam aos trópicos uma intensa vida cultural e adicionavam não parcas inovações a esses processos.

1932. Histoire de la pharmacie à travers les âges. Paris: J. Peyronnet. 9 Para o estudo da importância de Orta e Monardes na cultura médica da época moderna, cf. Boxer, Charles R. 1963. Two Pioneers of Tropical Medicine: Garcia

Garcia da Orta, 1563. Frontispício do livro Coloquios dos simples, e drogas he cousas mediçinais da India, e asi dalguâs frutas achadas nell [...]. Esta importante obra foi responsável pela vulgarização de conhecimentos sobre os simples (minerais, flora e fauna) da Índia. Seu autor, médico de Martim Afonso de Sousa, descreveu, catalogou e analisou um número importante de simples, muitos dos quais, até aquele momento, ainda não haviam sido descritos. A importância de Garcia da Orta para o conhecimento desses novos simples havia sido cantada por Camões. Os jesuítas tinham importância similar no que tange o conhecimento dos simples da América portuguesa, ainda que o saber por eles adquirido não tivesse sido difundido para todos. Acervo Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa

d’Orta and Nicolau Monardes. Londres: Wellcome Historical

Autor desconhecido, século XVIII. Ilustração do manuscrito redigido em árabe intitulado Five Treatises on Alchemy, originário do Oriente Médio. Desde a época medieval, as práticas laboratoriais, ou de espagiria, eram empregadas pelos médicos árabes. A partir do final do século XVI, a importância dada à espagiria ganharia terreno em toda a Europa e a prática seria readaptada pelas teorias médicas de Paracelso e seus seguidores. Acervo The British Library, Londres

Medical Library; Ficalho, Francisco M. de. 1886. Garcia de Orta e o seu tempo. Lisboa: Imprensa Nacional; Guerra, Francisco. 1961. Nicolás Bautista Monardes, su vida y su obra, ca. 1493-1588. México: Compañia Fundidora de Fierro y Acero Monterrey; Pina, Luís de. 1958. Investigadores portugueses sobre medicina tropical (Bosquejo histórico da medicina exótica portuguesa). Porto: Imprensa Portuguesa.

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Pedanius Dioscórides, 1555. Frontispício e dedicatória do livro Pedacio Dioscorides Anazarbeo, acerca de la materia medicinal, y de los venenos mortiferos [...]. Esta obra foi o principal ponto de partida para o estudo dos elementos que integravam os remédios das farmácias europeias. Além disso, serviu de arena para importantes disputas de médicos sobre a natureza e função dos simples. Desde o século XVI, muitos comentários deste livro foram escritos e publicados na Europa, por meio dos quais os contendores teciam suas interpretações e seus aportes ao conhecimento dos simples. O frontispício belissimamente colorido pertence ao comentário do médico espanhol Andrés de Laguna ao livro de Dioscórides, que era fartamente empregado pelos jesuítas do Brasil no estudo das matérias-primas medicamentosas, como se pode depreender por sua presença em muitas bibliotecas de colégios e por sua citação em numerosos escritos dos padres que aqui estavam. Acervo Biblioteca Nacional de España, Madri

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Pedanius Dioscórides, 1555. Chicória, Arruda e Aristoloquia, ilustrações do livro Pedacio Dioscorides Anazarbeo, acerca de la materia medicinal, y de los venenos mortiferos [...]. A presença de plantas europeias nas boticas jesuítas de todo o mundo não europeu, em especial da América portuguesa, é inconteste. Muitas delas, tradicionalmente usadas nas boticas da Europa, haviam sido importadas para o Brasil pelos jesuítas e eram cultivadas em suas quintas. Os sais da chicória e da arruda europeias eram alguns dos ingredientes químicos que compunham a receita da triaga brasílica, indicada contra venenos e doenças epidêmicas. A aristolóquia redonda integrava a massa de cezoens da botica do Colégio do Rio de Janeiro, a qual servia contra as febres. Acervo Biblioteca Nacional de España, Madri

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Pedanius Dioscórides, 1555. Rosa, Laranja e Limão, ilustrações do livro Pedacio Dioscorides Anazarbeo, acerca de la materia medicinal, y de los venenos mortiferos [...]. Os simples europeus como a rosa e os cítricos também compunham a farmacopeia dos jesuítas boticários da América portuguesa. Uma variedade de rosa era usada na composição de um cozimento para a virgindade perdida da botica do Colégio da Bahia. Os agrumes ou as frutas cítricas eram tidos como conservantes, pois seu sumo impedia a corrupção das coisas. Tendo em vista que, segundo a medicina da época, a substância na base das epidemias agia de modo a putrefazer as coisas, tudo aquilo que impedia a corrupção dos corpos, como os agrumes, era empregado no combate às pestes. Acervo Biblioteca Nacional de España, Madri Pedanius Dioscórides, 1555. Aloe, ilustração do livro Pedacio Dioscorides Anazarbeo, acerca de la materia medicinal, y de los venenos mortiferos [...]. O aloé ou azebar era um ingrediente incluído pelo irmão boticário Francisco da Silva na composição do emplastro para matar lombrigas. A planta tinha propriedades vermífugas para os médicos do período. Acervo Biblioteca Nacional de España, Madri

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10 As primeiras receitas de remédios produzidos nas boticas do Brasil de

Garcia. Rio de Janeiro: Editores J.

que temos notícia foram escritas

Leite e Cia.; Purchas, Samuel. 1625.

pelo irmão Manuel Tristão, que

Hakluytus Posthumus, or Purchas his

trabalhou no Colégio da Bahia, de

pilgrimes, volume IV. Londres: Henry

Recife, de Olinda e na Aldeia de

Fetherson.

S. André de Goiana, e foi um dos

Além dessas receitas advindas da

primeiros boticários do Brasil.

prática das boticas brasileiras, temos

Ele se encontrava, já idoso, no

também dois outros documentos

Colégio de Olinda, onde morreu,

do século XVIII. O primeiro deles,

em 1621. As suas receitas estavam

disponível na Biblioteca da Casa de

anexadas às cartas de Fernão

Oswaldo Cruz, é o Formulário médico:

Cardim sequestradas pelo pirata

atribuído aos jesuítas e encontrado em

inglês Francis Cook. Parte desses

uma arca da igreja de São Francisco de

documentos, em especial a carta de

Curitiba, 1703. Nesse documento, há

Cardim, fora publicada pelo inglês

várias informações sobre as práticas

Samuel Purchas que havia tido

boticárias nas boticas jesuíticas do

contato com o espólio de Cook. Na

Brasil. Contudo, as informações

publicação de Purchas, a autoria do

ali presentes carecem de nomes

manuscrito de Cardim é atribuída

e referências locais que nos

ao boticário Manuel Tristão pela

permitam situá-las nos contextos

presença das receitas no final

mais específicos analisados. O

do conjunto documental. Muito

segundo documento a esse respeito

mais tarde, depois que Capistrano

é o manuscrito da Collecção de

de Abreu resolveu a questão da

várias receitas (Roma: 1766). Esse

autoria do Tratado da terra e gente

documento foi escrito por um irmão

do Brasil como sendo de Cardim,

boticário que circulou bastante

não se falou mais nos documentos

entre os colégios jesuítas do Brasil e

deixados por Tristão. Na cópia da

do mundo. Ele próprio diz ter estado

carta de Cardim que Francisco

nas quatro partes do mundo. Ali

Adolpho de Varnhagen encontrou

encontram-se, com muitos detalhes,

na Biblioteca Pública de Évora não

informações sobre as receitas

houve menção alguma à cópia das

usadas nas boticas dos colégios da

receitas de Manuel Tristão, que

Companhia, em alguns casos seus

até hoje, infelizmente, não foram

autores / inventores e o lugar onde

encontradas. Cf. Cardim, Fernão.

foram elaboradas. Este manuscrito

1847. Narrativa epistolar de uma

tem uma importância inconteste

viagem e missão jesuítica pela Bahia,

na história da farmacologia da

Ilheos, Porto Seguro, Pernambuco, Espírito Santo, Rio de Janeiro, S.

Companhia de Jesus. 11 Collecção de varias receitas e segredos

Vicente, São Paulo, etc. Desde o anno

particulares das principais boticas

de 1583 ao de 1590, indo por visitador

de nossa Companhia de Portugal, da

o P. Christovam de Gouvea. Lisboa:

India, de Macao, e do Brazil. Compostas

Imprensa Nacional; Idem. 1881. Do

e experimentadas pelos melhores

princípio e origem dos Índios do Brasil e

médicos, e boticários mais célebres que

de seus costumes, adoração e cerimônias.

tem havido nestas partes. Aumentada

Rio de Janeiro: Typographia da

com alguns índices, e notícias muito

Gazeta de Notícias; Idem. 1925.

curiozas, e necessárias para a boa

Tratados da terra e gente do Brasil –

direcção e acerto contra as enfermidades.

Introduções e notas de Baptista Caetano,

1766. Roma: Archivum Romanum

Capistrano de Abreu e Rodolpho

Societatis Iesu, Op. NN. 17.

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Nas boticas jesuíticas do Brasil, usavam-se os métodos e as receitas extraídos da tradição clássica, da tradição árabe e dos aportes da iatroquímica com o acesso aos ingredientes vindos da Europa, Ásia e África. Ao longo do tempo, do século XVI ao XVII, os jesuítas foram incluindo novos ingredientes da flora e da fauna nativas do Brasil, pela sua utilidade e pelo fato de estarem ao alcance de suas mãos. Assim, nas boticas jesuíticas do Brasil concentravam-se saberes sobre as plantas europeias, sobre aquelas conhecidas dos antigos árabes, vindas de partes do Oriente e da África e sobre aquelas descobertas nos domínios orientais portugueses, nos domínios da América espanhola e no Brasil. As boticas dos colégios da Companhia de Jesus agregavam um farto conhecimento a respeito de grande diversidade vegetal da América portuguesa e do mundo, o qual fazia com que viesse da Europa, da África e do Oriente uma grande quantidade de plantas a serem empregadas nessas boticas e também com que muitas das plantas aqui descobertas e utilizadas pelos padres fossem exportadas para uso nas boticas da Europa e da Ásia. As boticas jesuíticas do Brasil se configuravam, portanto, como um eixo de saberes e polo de circulação de elementos farmacêuticos, entre os quais, os que aqui nos interessam, aqueles de origem vegetal. Esse estudo baseia-se na tradição das boticas e, essencialmente, na análise das receitas de remédios produzidos nas boticas jesuíticas do Brasil da época moderna, em especial de finais do século XVII e início do século XVIII. Dentre os documentos disponíveis para esta análise,10 utiliza-se essencialmente o manuscrito romano Collecção de várias receitas e segredos particulares, datado de 1766.11 Ele fornece informações mais detalhadas tanto das boticas brasileiras quanto daquelas dos colégios de outras regiões, como as da Europa e as do Oriente, e permite empreender a análise desejada.

Autor desconhecido, 1766. Folha de rosto e índice do manuscrito Collecção de varias receitas e segredos particulares das principaes boticas de nossa Companhia de Portugal, da India e de Macao, e do Brazil [...]. O modo como o manuscrito foi organizado sugere que ele tenha sido feito para ir ao prelo. Contudo, isso nunca aconteceu. Em 1766, a Companhia de Jesus estava vivendo um intenso processo de supressão e extinção. O feito de compilação do autor pode estar relacionado a um intento de preservação de certos conhecimentos, neste caso os de farmácia, que os padres da Companhia haviam adquirido e mantido em segredo por décadas. Acervo Archivum Romanum Societatis Iesu, Vaticano

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Autor desconhecido, 1766. Dedicatória e prólogo do manuscrito Collecção de varias receitas e segredos particulares das principaes boticas de nossa Companhia de Portugal, da India e de Macao, e do Brazil [...]. A obra é dedicada ao Sagrado Coração de Jesus, mostrando claramente a vinculação desse projeto boticário com a ação protridentina da Companhia de Jesus no mundo. Podemos, por conta disso mesmo, pensar, mais particularmente, numa farmácia de padre e, de modo mais abrangente, numa ciência de padre. O próprio autor deixa clara a vinculação do projeto científico com a atividade eclesiástica “advertindo que são couzas estas da Religião, e não tuas”. Trata-se de um documento fundamental para o estudo das boticas e do conhecimento farmacêutico dos padres da Companhia de Jesus no Império português. No prólogo, afirma-se a condição de segredo do conhecimento ali exposto. Diz o autor que “não fiz esta collecção de receitas particulares das novas boticas, senão para que se não perdessem tão bons segredos [...]”. Acervo Archivum Romanum Societatis Iesu, Vaticano

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As boticas e os boticários dos Colégios da Companhia de Jesus da América portuguesa

12 Esses colégios eram: o Colégio da Bahia, Recife, Olinda, Paraíba, Fortaleza, Porto Seguro, Maranhão, Pará, Ilhéus, Paranaguá, Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, Colônia de Sacramento, Florianópolis, Santos e São Vicente. Cf. Leite, Serafim. 1938-1950. História da Companhia de Jesus no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 13 Infelizmente, ainda falta um estudo descritivo e analítico detalhado das boticas jesuíticas do Brasil, pois, como dizia Serafim Leite, a história das antigas boticas do Brasil ainda não se escreveu. Cf. Leite, Serafim, 1953, p. 87. 14 Idem, p. 92. 15 Idem, pp. 91-92. 16 O inventário de 1760 registrava que Tinha mais [de] 400 [vasos], todos com remédios necessários para aquela terra, os quais importariam 400$000 reis. Perto da botica situavam-se o depósito e a oficina ou laboratório. E aqui havia Tres fornalhas, uma estufa com os trastes seguintes: hum alambique de cobre estanhado, dois alambiques de barro vidrado, 5 tachos de arame, um almofariz de 2 arrobas com sua mão de ferro, e outro de 12 libras com sua mão, mais ainda 2 pequenos; tinha mais 4 almofarises de mármore com mãos de pau, mais 2 de marfim pequenos, 6 tamizes com suas tampas de couro, 4 sedaços. § Tinha mais 2 almarios grandes e hum bufete grande com 4 gavetas; 2 pares de balanças pequenas; mais duas que eram

Sendo o projeto jesuítico converter as populações indígenas aqui residentes à religião católica tridentina, os padres, desde o início, fundaram escolas e colégios no intuito de formar e preparar religiosos para a tarefa da conversão. Com o passar do tempo, e com a mudança no projeto educacional da Companhia, os jesuítas começaram a formar não somente seus noviços mas também os próprios colonos aqui residentes. Esses colégios, nesse novo momento da história educacional da Companhia, foram ganhando vulto e importância. Construíram-se suntuosos prédios ao lado dos quais os jesuítas implantaram boticas para produzir remédios e enfermarias para cuidar dos doentes. Havia no Brasil, quando da expulsão dos jesuítas em 1759, 17 colégios da Companhia, 12 o que nos remete para a existência, aproximada, de 15 a 17 boticas. Há notícias, nos documentos dos padres, de que existiram, sem dúvida, as boticas dos colégios da Bahia, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Maranhão e Pará. Contudo, é bem provável que todo colégio jesuíta do Brasil tivesse uma botica própria.13 As boticas situavam-se ao lado dos edifícios dos colégios e sua descrição geral, segundo o padre historiador, era a seguinte: a Botica era constituída por uma sala e uma oficina; a loja ou farmácia propriamente dita, onde estavam os remédios à disposição do público, presidida por uma imagem, que habitualmente era a de Nossa Senhora da Saúde; e a oficina ou laboratório, onde se fabricavam os medicamentos.14 A botica da Bahia era ampla, ao rés do chão (Terreiro de Jesus), no lugar precisamente onde é hoje a entrada para a Faculdade de Medicina da Universidade da Bahia. 15 A botica do Colégio de São Paulo seguia-se à igreja, à biblioteca e ao salão de atos ou Aula Magna. A botica do Colégio do Maranhão era dotada de fartos instrumentos para a dissolução e a resolução de substâncias. No inventário de 1760, dizia-se haver nela, além dos instrumentos clássicos de produção de medicamentos seguindo o método galênico, fornalhas, alambiques, almofarizes e outros instrumentos bastante familiares aos laboratórios de química ou alquimia daquela época.16

ordinarias, uma de arame, outra de folha. Havia mais na Botica huma imagem da Senhora com sua coroa

Manuel Rodrigues Teixeira, c. 1786. Prospecto visto pela frente de hua porção da cidade da Bahia. A botica do Colégio da Bahia era, sem sombra de dúvida, a mais importante na América portuguesa. A grandeza e centralidade daquele colégio haviam engrandecido e concentrado na sua botica obras e grandes intelectuais farmacêuticos da Companhia de Jesus, como o irmão Francisco da Silva e o irmão André da Costa. Acervo Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa

de prata e com seu Menino que tinha resplendor de prata. Tinha mais 30 tomos de Medicina e Botica, um candieiro de arame, 6 espatulas de arame, huma imprensa, 2 bacias de arame, 2 escumadeiras de arame. Ficou mais em casa do cirurgião Manuel de Sousa 30$000 reis em remedios, 5 tomos de Medicina, um alambique de cobre estanhado, 2 alambiques de barro vidrado. Roma: Archivum Romanum Societatis Iesu, Bras., 28, 27. Apud Leite, 1953, p. 92.

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17 Idem, p. 94. Um exemplo importante da cultura boticária nas missões é o do padre Pedro de Montenegro. Esse jesuíta levara para as missões do Paraguai um importante conhecimento boticário a ser ali empregado e intentava passá-lo aos índios. Isso é evidente no manuscrito libro de la propiedad y bitudes de los arboles i plantas de las missiones no qual muitas plantas europeias e orientais tiveram seus nomes traduzidos para o tupi ou para o guarani tornando aquele conhecimento ocidental acessível àqueles nativos. 18 Santo Antônio, D. Caetano de. 1704. Pharmacopeia Lusitana. Coimbra: Joam Antunes. Essa obra foi encontrada em algumas bibliotecas jesuítas no Brasil. 19 O título mesmo do manuscrito Collecção de várias receitas e segredos particulares afirma serem os medicamentos provenientes das principais boticas de nossa Companhia

Além dessas boticas clássicas, os jesuítas tinham também certas adaptações adequadas às necessidades missionárias, como era o caso da Botica do Mar do Colégio do Maranhão, que consistia num barco cuja função era a de prover as populações ribeirinhas com medicamentos.17 Nessas boticas, produziam-se os medicamentos que seriam doados ou vendidos a parte da população brasileira feitos segundo o modelo das farmacopeias tradicionais europeias, como a lusitana de D. Caetano de Santo António, 18 e segundo receitas de autores de renome como João Curvo Semmedo. Além disso, outros modelos de produção medicamentosa eram inventados pelos irmãos boticários, como atestam as inovadoras receitas da Collecção de várias receitas (1766). Na produção das mezinhas, usavam-se produtos de origem mineral, vegetal e animal. De origem mineral havia as folhas-de-ouro e o sal de chumbo em pó, empregados, respectivamente, nas receitas do bezoartico do curvo singular contra febres malignas da botica do Colégio do Recife e do unguento para comechoens de corpo da botica do Colégio da Bahia. De origem vegetal as bicuíbas e o bálsamo do Brasil eram utilizados, o primeiro, no olio de bicuíbas expresso da botica do Colégio da Bahia, e o segundo, em muitas receitas de boticas brasileiras, europeias e orientais. E, finalmente, de origem animal, as Jararacas usadas para a produção dos trociscos (espécie de pílula) empregados na confecção da triaga brasílica, e as pérolas, ou aljofar, utilizadas na receita do bezoartico já mencionado. As boticas da Bahia, Recife e do Rio de Janeiro, segundo o autor da Collecção de varias receitas, eram as mais importantes, as principais. 19 Serafim Leite, por outro lado, afirma ser a Botica do Colégio de Recife a mais famosa do Nordeste.20 Essas boticas, além de serem as mais conhecidas, são as únicas acerca das quais dispomos de informações sobre os receituários ali inventados e empregados. Com base na leitura do manuscrito da Collecção de varias receitas, observamos que, na botica do Colégio da Bahia, havia sido inventado um total de 40 novas receitas. Ali, além da habitual produção de medicamentos com base nas receitas e simples importados da Europa, produziam-se muitos novos medicamentos. E, mais do que isso, na Botica do Colégio da Bahia inovava-se a forma de produzir os medicamentos, novas receitas eram criadas pelos irmãos boticários que ali estavam. Entre essas receitas, as mais curiosas e interessantes são o já mencionado olio de bicuíbas expresso, o olio de erva da costa, a panacea mercurial, a pedra infernal, as pílulas angélicas, a rosa solis e a importantíssima triaga brasílica.

de Portugal, da India, de Macao e do Brazil. Visto que do manuscrito somente constam receitas das boticas dos colégios da Bahia, Recife e Rio de Janeiro, temos nessas três as principais boticas jesuíticas do Brasil, ao menos na primeira metade do século XVIII. 20 Leite, Serafim, 1953, p. 163.

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Autor desconhecido, 1766. Receita do olio de bicuibas incluída no manuscrito Collecção de varias receitas e segredos particulares das principaes boticas de nossa Companhia de Portugal, da India e de Macao, e do Brazil [...]. Empregado nas afecções da cabeça e do peito e para as “dores de madre”, o óleo era aplicado nas regiões onde se sentia dor – uma espécie de tintura de arnica daqueles tempos. As receitas da Collecção eram organizadas alfabeticamente e em cada seção o autor incluiu belíssimas capitulares, como essa da letra O. Acervo Archivum Romanum Societatis Iesu, Vaticano

Autor desconhecido, 1766. Notícia breve dos lugares, onde se achão alguns Simpleces, que compoem a Triaga sobredita, do manuscrito Collecção de varias receitas e segredos particulares das principaes boticas de nossa Companhia de Portugal, da India e de Macao, e do Brazil [...]. Após a receita da triaga brasílica, achase uma lista de simples brasileiros com sua respectiva proveniência. Vê-se o conhecimento botânico e fitogeográfico dos padres. Nota-se também que alguns desses ingredientes, como a raiz de capeba e as jararacas, eram cultivados e criados nas quintas dos colégios para prover as boticas. Acervo Archivum Romanum Societatis Iesu, Vaticano

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21 Cf. sobre o óleo rosado, Dioscórides. 1563. Acerca de la materia medicinal. Comentado por André de Laguna. Salamanca: Mathias Gast., p. 38-39; Santo Antônio, D. Caetano de. 1704. Pharmacopeia Lusitana. Coimbra: Joam Antunes, p. 307-309. 22 Segundo o Vocabulário português e latino: “Calomelanos. Palavra de médico. He o nome de hum Mercúrio, ou Azougue, que he o mais suave & melhor de todos os Mercúrios. Querendo dar a um gallicado hum pouco de mercúrio chamado Calomelanos”. Bluteau, Raphael. 1728. Polyanth. Medic. 780. Num 60. Volume 2, p. 63. O mercúrio era usado na época moderna como um remédio no combate à sífilis. 23 O morbo gálico ou mal francês era

27 O irmão André da Costa (16481712) era natural de Lyon e era

o modo como muitos médicos

tido por notável boticário (optimus

europeus da época apelidavam a

pharmacopolae) e insigne químico (chimicus insignis) segundo o

sífilis. 24 No Novo Dicionário Aurélio da Língua

catálogo trienal de 1679. Archivum

Portuguesa (1992), a impingem é

Romanum Societatis Iesu, Bras. 5 (2),

uma designação imprecisa comum a

222 (1679); Bras. 6, 22. Além disso,

várias dermatoses. 25 Essa planta era tida como um

quintas e fazendas da Companhia e

antídoto ou contraveneno. 26 Sobre a triaga brasílica, cf. Leite,

então mandava buscar, às vezes de

reunia plantas medicinais nas minerais que lhe pareciam úteis, ou

Bruno Martins Boto. 2012. Mezinhas

bem longe, simples a serem usados

antigas e modernas: a invenção

em suas experiências e receitas. O

da triaga brasílica pelos jesuítas

padre Bettendorf, reitor dos colégios

do Colégio da Bahia no período

do Maranhão e do Pará, escreveu as

colonial. In: Anais do 13° Seminário

seguintes palavras acerca do irmão

Nacional de História da Ciência e da

boticário André da Costa: Não se

Tecnologia. São Paulo: Sociedade

deve passar aqui em silêncio uma pedra

Brasileira de História da Ciência;

branca, que lasca a modo de talco e

Santos, Fernando Santiago dos.

parece vidro, cuja mina se achou em o

2003. Os jesuítas, os indígenas e as

tanque grande, para a banda do mato,

plantas brasileiras: considerações

uns seis ou sete palmos afastada da

sobre a Triaga Brasílica. Dissertação

vala; e do canto dela uns vinte, pouco

de mestrado. São Paulo: PUC-SP;

mais ou menos. Soube desse mineral, o

Teixeira, Alessandra dos Santos.

Ir. André, apoticário da Baía, e mandou

2011. A farmacopeia jesuítica na

pedir algum para suas mesinhas.

América Portuguesa entre os séculos

[Bettendorf, Johann, Chronica, p. 307]

XVII e início do XVIII. Dissertação de

Ele faleceu na Bahia, paralítico, em

mestrado. Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS.

1712. Cf. Leite, Serafim. 1953, p. 147.

76

O olio de bicuíbas expresso era uma espécie de unguento feito com o óleo extraído dos frutos de bicuíba, recomendado para afecções da cabeça e do peito no lugar do unguento nervino e peitoral e para as dores de madre, aplicado sobre a barriga da mulher grávida. O olio de erva da costa era retirado das folhas do Saião, que substituía, no Brasil, o olio rosado,21 para purgação do intestino, contra as dores das tripas e dores de madre. A panacea mercurial era um remédio produzido pela destilação em alambiques de calomelanos, 22 um composto de mercúrio, em espírito de vinho, e servia, usado internamente, para toda casta de gallico,23 para obstruções, para o mal escorbutico e lombriga e, se usado externamente, para escrófulas, herpes e todo tipo de escoriação da cútis. Além disso, a panacea era também empregada como linimento para empingens ou bálsamo para impingem.24 Usava-se a pedra infernal, feita com prata e água forte para abrirem-se as fontes, exterminar as verrugas, consumir as carnes supérfluas e calosas das úlceras e outros semelhantes fins. A pílula angélica era elaborada com resinas, trociscos e óleos diversos, e era indicada para purgar a cólera com muita suavidade. Preparava-se a rosa solis com muitas plantas do Oriente, empregada para confortar o estômago e contra as indigestões. E, finalmente, o grande remédio da botica do Colégio da Bahia, a triaga brasílica, confeccionada com diversas plantas da flora nativa, como a caapiá, 25 o mil-homens, a capeba, a jurubeba, o angericó, o jaborandi, a pagimirioba, a ipecacuanha, o cravo-do-maranhão, a angélica, o ibiraé e outras, e empregada contra qualquer veneno ou enfermidade de natureza venenosa, como as doenças epidêmicas.26 A receita da triaga brasílica era mantida em segredo e cobiçada por todos aqueles que produziam medicamentos. Essa receita apresentava uma variação reformada que nada mais era do que a receita original da triaga brasílica melhorada com alguns ingredientes químicos. Muitos deles, como o olio chimico de pindaíba e o sal chimico de caroba, ilustravam o encontro do processo espagírico ou químico com os ingredientes nativos da flora brasileira. Essa variação era obra do irmão boticário André da Costa, que residia no Colégio da Bahia como farmacêutico e tinha um vasto conhecimento acerca da medicina química de João Curvo Semmedo.27

Autor desconhecido, 1766. Triaga brasílica incluída no manuscrito Collecção de varias receitas e segredos particulares das principaes boticas de nossa Companhia de Portugal, da India e de Macao, e do Brazil [...].

Tratava-se de um antídoto composto inventado pelos padres do Colégio da Bahia, e baseado na fórmula da antiga triaga ou teríaca do médico romano Andrômaco, notabilizada pelo livro De theriaca ad Pisonem de Galeno. Contudo, a triaga brasílica apresentava uma grande quantidade de simples nativos da América portuguesa cujas propriedades haviam sido estudadas pelos jesuítas pela observação direta da natureza e pelas informações que eles puderam obter com as populações indígenas. Acervo Archivum Romanum Societatis Iesu, Vaticano

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28 Esse menor número de receitas inventadas na Botica do Colégio de Recife invalida, de certa forma, a afirmação de Serafim Leite sobre a botica deste colégio ser a mais famosa do Nordeste. Isso porque a maior quantidade de invenções farmacêuticas da Botica do Colégio da Bahia comprova a primazia desta botica sobre aquela. Primazia que se deu em matéria de acumulação e inovação de saberes farmacêuticos e mesmo talvez em notabilidade. 29 Francisco da Silva (1695-1763) era natural de Lisboa e foi boticário do Colégio da Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro, Olinda e Recife. Teve grande

Na botica do Colégio do Recife foi inventado um número menor de receitas do que no Colégio da Bahia. 28 Um total de sete novas receitas da autoria de D. Lourenza, do cirurgião Manuel dos Santos e outros, como os boticários Francisco da Silva, 29 que também esteve na Botica da Bahia, e seu pupilo o boticário Manuel Dinis,30 foi desenvolvido naquele colégio. Essa botica produzia, entre outros, um chá laxativo (cujo modelo era tirado de uma receita francesa de Montpellier), uma água oftálmica e um unguento para tudo. A tizana laxativa mompliacensis era uma infusão feita de várias plantas vindas da América espanhola, como a salsaparrilha, o pau-santo e o sassafrás, sendo indicada para qualquer infecção gallica. A agoa otalmica romana era um preparado elaborado com a destilação de várias outras águas, quintílio e pérolas num almofariz e que servia para curar as inflamações dos olhos. Finalmente, o unguento para tudo era preparado com plantas orientais, como o sândalo, e ingredientes europeus, como o azeite, a cera e o terebento, aplicado para dirigir, encarnar e cicatrizar qualquer chaga. Finalmente, na Botica do Colégio do Rio de Janeiro, onde também trabalhou o famoso boticário Francisco da Silva, aparentemente foram inventadas somente duas novas receitas: a massa para cezoens e o vinho febrefugo. A primeira era um eletuário31 feito com uma planta nativa, a quina, e muitas plantas europeias, como a aristolóquia redonda, o lírio e a centáurea e recomendado para toda a casta de febre que vem com o frio. A segunda era uma bebida de composição muito similar à fórmula da primeira receita. Também era composta de quina e aristolóquia, mas seu emprego voltava-se para o curso ou para purgar, contra a apoplexia, paralisia e febres terçãs. Pode-se observar que, na produção desses medicamentos nas boticas do Brasil, achavam-se amalgamados a tradições farmacêuticas europeias (a clássica oriunda de Galeno e a química, mais moderna e renovada por Paracelso) conhecimentos sobre as plantas da Europa, do Oriente, da América espanhola e do Brasil. Se nessas boticas a novidade era a descoberta das até então desconhecidas plantas brasileiras, não podemos, de modo algum, olvidar a existência de outras tradições igualmente importantes na cultura dos boticários jesuítas.

importância para o reavivamento da produção farmacêutica no Brasil daquele tempo, sendo por isso muito famoso em sua época. Faleceu em Roma, em 19 de setembro de 1763. Leite, Serafim. 1953, p. 261-262. 30 O irmão boticário Manuel Dinis (1708-1780) era natural de Braga e atuava em Recife e Olinda, depois de ter se formado nesta arte no Colégio da Bahia. Leite, Serafim. 1953, p. 162-163. 31 O eletuário é um sacaróleo pastoso feito com pós, polpas e/ou extratos medicamentosos. Era um preparado imerso numa solução açucarada.

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Constam do manuscrito Collecção de várias receitas e segredos particulares 49 receitas inventadas genericamente nas boticas dos colégios jesuíticos do Brasil e também 14 receitas atribuídas a boticários que trabalhavam em boticas brasileiras, o que aumenta o total para 63 receitas inventadas no Brasil pelos boticários da Companhia de Jesus. Isso atesta a intensa atividade produtiva e intelectual das boticas jesuíticas da América portuguesa. Pelo estudo dessas receitas, mais especialmente pelo estudo das plantas utilizadas nesses medicamentos, buscou-se analisar a proveniência dessas plantas e traçar um pequeno perfil fitogeográfico para observar mais precisamente como essas boticas se conformaram como locais de circulação e dispersão de espécies utilizadas na produção medicamentosa. Essa circulação subentende também aquela de saberes europeus e orientais para as boticas brasileiras da Companhia de Jesus.

Autor desconhecido, 1766. Panacea mercurial, receita do manuscrito Collecção de varias receitas e segredos particulares das principaes boticas de nossa Companhia de Portugal, da India e de Macao, e do Brazil [...]. Na época moderna, o tratamento da sífilis se fazia pelo uso de mercúrio ou guaiaco (pau-santo). O mercúrio era há muito empregado pelos árabes na medicina e fora utilizado contra a sífilis, pela primeira vez, pelo médico suíço Paracelso. Já o guaiaco fora introduzido na medicina europeia pelas obras de Nicolau Monardes. Os dois métodos eram adotados pelos jesuítas na América portuguesa. No Colégio da Bahia era produzida a panaceia mercurial, que tinha em sua composição mercúrio sublimado e espírito de vinho. No Colégio de Recife era produzida a tizana laxativa à base de guaiaco e mercúrio que também servia para o mesmo fim. Acervo Archivum Romanum Societatis Iesu, Vaticano

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Plantas exóticas e nativas na cultura das boticas jesuíticas brasileiras

32 O De materia medica era, na época moderna, um território de disputas em torno da definição e classificação dos simples. A obra de Dioscórides trazia muitas lacunas e perguntas não respondidas, assim, ao comentar aquilo que sobrou daquele texto, muitos autores completavam o que faltava com suas leituras. Além disso, os comentários ao texto em questão configuravam-se como lugares de disputa pela hegemonia de certos tipos de epistemologia de análise das coisas da natureza. Assim, por meio dos comentários ao texto em questão cada autor dispunha seu modelo epistemológico e seu modo de ler e interpretar o livro do mundo. Cada comentário ao De materia medica era uma obra nova de história natural. Os comentários de Antonio Musa Brasavola, Amato Lusitano, Pier Andrea Mattioli, etc. portavam consigo, cada um deles, a afirmação de uma forma precisa de ler, estudar e interpretar as coisas da natureza. Sobre essa questão cf. Leite, Bruno Martins Boto. 2012. Entre bibliotecas e boticas – a controvérsia dos simples entre Amato Lusitano e Pietro Andrea Mattioli, século XVI. In: Alessandrini N., Russo M., Sabatini G. e Viola A. (org.). Di buon affetto e commerzio. Relações lusoitalianas na Idade Moderna. Lisboa: Cham. A edição do De materia

Pela análise do conjunto de receitas referentes aos medicamentos produzidos nas boticas dos colégios jesuíticos do Brasil, pode-se observar uma grande diversidade de simples empregados na produção medicamentosa dos jesuítas. Dos ingredientes usados para a sua confecção pode-se observar e isolar os simples de natureza vegetal dos demais ingredientes animais ou minerais usados nos remédios, como as jararacas e os pós de ouro. Os ingredientes de origem vegetal podem ser mais bem compreendidos se compararmos as informações extraídas da Collecção de varias receitas com os dados contidos em livros de história natural utilizados na época pelos boticários europeus. Usamos aqui o De materia medica de Dioscórides, 32 o De simplicium medicamentorum de Cláudio Galeno, o De simplicibus medicinis de vários autores árabes, como Serapião, Rasis e Averrois, os Colóquios dos simples e drogas e cousas medicinais da Índia de Garcia da Orta, o Aromatum et simplicium aliquot medicamentorum apud indos nascentium historia de Carlos Clúsio, o Tratado de las drogas, y medicinas de las Indias Orientales de Cristóvão da Costa, o Historia medicinal de las cosas que se tienen de nostras Indias Occidentales que sirven en Medicina de Nicolau Monardes e os Quatro libros de la naturaleza y virtudes de las plantas y animales que estan recevidos en el uso de Medicina en la Nueva España de Francisco Hernandez. As plantas presentes nas receitas jesuíticas das boticas brasileiras mencionadas em Dioscórides, Galeno e nos árabes eram conhecidas de longa data entre os europeus e provinham essencialmente da Europa, de parte da África e de parte do Oriente. As plantas mencionadas em Garcia da Orta, Carlos Clúsio e Cristóvão da Costa provinham essencialmente do Oriente redescoberto pelos portugueses. Aquelas citadas por Nicolau Monardes e Francisco Hernandez provinham da América espanhola. E, finalmente, as plantas que sobravam da comparação dessas informações eram oriundas essencialmente do Brasil. A obra Historia Naturalis Brasiliae (1648), de Guilherme Piso, reforça a proveniência de algumas dessas plantas. Com essa análise filológica foi possível relacionar as plantas utilizadas nas boticas da Companhia de Jesus do Brasil com a sua proveniência geográfica. Das 122 plantas empregadas pelos jesuítas em suas boticas nas receitas inventadas na América portuguesa, 69 já eram de longa data conhecidas dos boticários europeus e integravam um conhecimento trazido para cá pelos portugueses; 19 eram oriundas dos novos domínios portugueses do Oriente; 9 advinham das conquistas espanholas e, finalmente, 25 eram provenientes do Brasil.

medica que utilizamos neste estudo foi aquela, bastante recorrente nas bibliotecas jesuíticas do Brasil, em espanhol, comentada por André de Laguna.

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Nicolo Monardes, 1576. Del Garofalo, ilustração do livro Due libri dell’Historia dei Simplici, Aromati, et altre cose, che vengono portate dall’Indie Orientali [...], com anotações de Carlo Clusio a respeito da obra originalmente assinada por Garcia da Horta Cristóvão da Costa, 1582. Caryophyl arbor [árvore do cravo]. Ilustração do livro Aromatum et medicamentorum in orientali India nascentium liber. As plantas originárias do Oriente fizeram fortuna na farmacologia dos jesuítas na América portuguesa. O cravo-da-índia integrava várias receitas, como o bálsamo apoplético das boticas dos Colégios de Macau e da Bahia, assim como a variação para as mulheres, que combatia as vertigens e confortava o cérebro; a caçoula admirável, usada para dar bom cheiro e expelir os ares corruptos da peste e a famosíssima triaga brasílica. Acervo Missouri Botanical Garden Library, Saint Louis

81


33 Os jesuítas utilizavam suas quintas e fazendas para o cultivo das plantas usadas nas boticas. No manuscrito da Collecção de várias receitas, em especial na parte referente à localização das plantas usadas na triaga brasílica, fala-se do cultivo da raiz de capeba, da raiz de jaborandi, da raiz de jarro, da raiz de pagimirioba, do neambuz e do cipóde-cobra. Além disso, nessas quintas, os jesuítas também encontravam ou criavam as jararacas para serem empregadas na fórmula da triaga. [Archivum Romanum Societatis Iesu, Op. NN. 17, pp. 410-412]. 34 Cf. sobre a dependência da tradição europeia na invenção dos medicamentos brasileiros, Leite, Bruno Martins Boto. 2012. Mezinhas antigas e modernas: A invenção da triaga brasílica pelos jesuítas do Colégio da Bahia no período colonial. In: Anais do 13° Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia. São Paulo: Sociedade Brasileira de História da Ciência. 35 Cardim, Fernão. 2009. Tratados da

Essa estimativa quantitativa das plantas usadas nas receitas inovadas nos colégios do Brasil mostra, em primeiro lugar, a preponderância da cultura boticária europeia nas boticas brasileiras e, em segundo lugar, o destaque e importância das boticas jesuíticas do Brasil, e de seus boticários, na descoberta e uso de exemplares nativos da flora brasileira. É importante observar o papel significativo das boticas jesuíticas ao trazer e aclimatar no Brasil33 plantas já há muito conhecidas na Europa como o açafrão, o alecrim, a alfazema, a arruda, a aveia, o aipo, a aloé, as azeitonas, o coentro, o cominho, a erva-doce, o gengibre, o hortelã, a laranja, o limão, o lírio, a manjerona, a mirra, a romã, a rosa, a salsa, o tremoço, o trevo, o trigo, etc. Essas plantas compunham o arsenal empregado há séculos pelos boticários europeus na confecção dos remédios usados contra as doenças que grassavam no dia a dia e contra aquelas que despontavam nos momentos de crise, como as pestes. Sua presença nas boticas jesuíticas do Brasil atesta uma importação/circulação considerável de componentes da tradição europeia. Sem contar que o modo como os boticários jesuítas preparavam seus medicamentos ainda derivava dessa tradição.34 Essa transferência da cultura europeia para o Brasil é o que marca o processo colonizador brasileiro. É por isso que Cardim afirmou que “este Brasil já é outro Portugal”, antes de falar das plantas e dos animais de enorme importância para o país trazidos do ultramar. Complementando o dito, Cardim precisava que “porém está já Portugal, como dizia, pelas comodidades que de lá lhe vêm”.35 A presença de plantas dos domínios portugueses do Oriente e dos domínios castelhanos da América também demonstra a importância que intelectuais boticários, como Garcia da Orta e Nicolau Monardes, tiveram não somente para a cultura e a vida europeia mas também para a do Brasil. O conhecimento acerca da almécega da Índia, do benjoim, da canela, da beldroega, do cate, do cravo, da noz-moscada, da raiz-da-china, do ruibarbo, da tutia etc. deslocava-se dos médicos orientais para as páginas do diálogo de Orta e daí inundava a cultura dos europeus no Velho e no Novo Mundo. 36 Não podemos esquecer que vinha do Oriente uma das plantas mais importantes para a economia brasileira: a cana-de-açúcar.

terra e gente do Brasil. São Paulo: Hedra, p. 168. 36 A importância do empreendimento de Orta para o mundo havia sido cantada por ninguém menos que Luís Vaz de Camões que, numa poesia na abertura dos Colóquios dedica a Martim Afonso de Sousa os seguintes versos: Verdes que em vosso tempo se mostrou / Ho fruto daquella orta, honde floreçem / Prantas novas, que hos doutos não conheçem. Orta, Garcia da. 1563. Colóquio dos simples, e drogas he cousas mediçinais da India. Goa: Joannes de Endem.

82

O conhecimento da batata, do cardo, da jalapa do Peru, do paca-maca, do pau-santo, do sassafrás, da salsaparrilha, do tabaco etc. movia-se das conquistas espanholas, do contato dos médicos espanhois na América, para as páginas do médico Nicolau Monardes que, em seu gabinete, tornava públicas a descrição e as virtudes de muitas plantas que se apresentavam novas aos olhos dos boticários e médicos europeus. Esses intelectuais que, entre muitos outros, sintetizaram as conquistas botânicas da expansão ultramarina, ampliaram o universo cultural e material das boticas adicionando saberes novos sobre novas plantas e novas plantas para a produção de novos medicamentos. Essas aquisições culturais, como podemos ver da análise do manuscrito jesuítico, não se limitaram às boticas da Europa, mas também chegaram ao Brasil, ao menos por meio das boticas dos jesuítas. Ademais, e isso é muitíssimo importante, os jesuítas do Brasil também empreenderam um esforço de síntese comparado àquele de Garcia da Orta e de Nicolau Monardes quanto ao conhecimento das plantas brasileiras. Desde o início da chegada dos jesuítas, podemos ver o forte conhecimento adquirido por eles das coisas naturais do Brasil.

Nicolo Monardes, 1576. Ritratto della foglia e dei rami della Canella e frontispício do livro Due libri dell’Historia dei Simplici, Aromati, et altre cose, che vengono portate dall’Indie Orientali [...], com anotações de Carlo Clusio a respeito da obra originalmente assinada por Garcia da Horta. De enorme importância na farmacopeia dos irmãos boticários do Brasil, a canela estava presente nas receitas da água-decanela, que servia para a fortificação do estômago, da cabeça e do coração; do emplastro para dores de cabeça, produzido no Colégio da Bahia; e na jalea optima de ponta de veado, indicada para corrigir a acritude dos humores e resistir à malignidade dos ares. Acervo Missouri Botanical Garden Library, Saint Louis

83


44 Iabigrandi. Esta árvore há pouco que 37 Anchieta, José de. 1988. Cartas

foi achada, e é, como dizem alguns

jesuíticas 3. Belo Horizonte: Itatiaia,

indiáticos, o Betele [arbusto indiano]

p. 113-153.

nomeado da Índia; os rios e ribeiros

38 Sobre a copaíba, Anchieta escreve

estão cheios destas árvores: as folhas

que Das árvores uma parece digna de

comidas são o único remédio para as

notícia, da qual, ainda que outras haja

doenças de fígado, e muitos nesse Brasil

que distilam um líquido semelhante

sararam já de mui graves enfermidades

à resina, útil para remédio, escorre

do fígado, comendo elas. Idem, p. 117.

um suco suavíssimo, que pretendem

45 Cayapiá. Esta erva é pouco que é descoberta, é único remédio para

seja o bálsamo, que a princípios corre como oleo por pequenos furos feitos

peçonha de toda a sorte, maxime de

pelo caruncho ou também por talhos de

cobras, e assim se chama erva-de-cobra,

foices ou de machados, coalha depois

e é tão bom remédio como unicórnio

e parece converter-se em uma espécie

de Bada, pedra de bazar, ou coco de

de bálsamo; exala um cheiro muito

Maldiva. Não se aproveita dela mais

forte, porém suavíssimo e é otimo para

que a raiz, que é delgada, e no meio faz

curar feridas, de tal maneira que em

um nó como botão; esta moída, deitada

pouco tempo (como dizem ter-se por

em água e bebida mata peçonha da

experiencia provado) nem mesmo sinal

cobra; também é grande remédio para

fica das cicatrizes. Op. cit., p. 136.

as feridas de flechas ervadas, e quando

39 Sobre a ipecacuanha, Anchieta

algum é ferido fica sem medo, e seguro,

relata que Há uma certa raiz,

bebendo a água desta raiz; também

abundante nos campos, utilissima

é grande remédio para as febres,

para o mesmo fim [relaxar o ventre e

continuando-a, e bebendo-a algumas

limpar o estômago]; raspa-se e bebe-

manhãs; cheira esta erva à folha de

que provoque o vómito com bastante

figueira de Espanha. Idem, p. 133. 46 Idem, p. 136, 138.

violência, todavia bebe-se sem perigo de

47 Oliveira, no Systema de materia

se misturada com água; esta, se bem

Anchieta, em sua famosa carta de 1560 ao padre geral,37 menciona já a copaíba,38 da qual se extraía o bálsamo do Brasil, e a ipecacuanha. 39 Fernão Cardim, em sua carta ao geral de 1585, menciona, além da copaíba40 e da ipecacuanha,41 a almécega do Brasil, tirada de uma árvore chamada de igcica, 42 a caroba, 43 o jaborandi 44 e a erva caapiá.45 Além disso, Cardim tratou de algumas plantas, como o aipo, malvaísco e a beldroega, 46 que eram europeias e orientais, como se fossem nativas. Naquela época, a analogia era um recurso muito usado pelos intelectuais, muitas plantas brasileiras foram identificadas pela semelhança que tinham com espécies que já se conhecia, como a própria almécega, que na origem era uma resina de uma árvore oriental, e o cravo-da-índia.47 Essas plantas aparecem já na lista das plantas brasileiras usadas pelos jesuítas em suas boticas. A capeba, a jerubeba, o angericó, a angélica, o jaborandi, a pagimirioba, a ipecacuanha, a caapiá, o cravo-do-maranhão, o ibiraé, a erva caacica, a pindaíba, o nambuz, a copaíba, a caroba, a quina, o urucu etc. eram, já desde meados do século XVI, utilizados pelos padres na confecção de medicamentos para os doentes como vimos nas menções feitas a elas pelos primeiros jesuítas do Brasil. Isso nos permite afirmar, com veemência, que grande parte, senão a maioria, das coisas relatadas pela história natural de Guilherme Piso era já, de muito tempo, conhecida dos irmãos boticários da Companhia de Jesus. Assim sendo, a Historia Naturalis Brasiliae teve muito mais uma importância de difusão do conhecimento que se tinha, na medida em que tornou públicos muitos saberes que os boticários da Companhia de Jesus mantinham em segredo, do que propriamente científica.

medica vegetal brasileira, mencionava

vida. Idem, p. 137. 40 Cardim chama essa planta de

que havia grande comunicação

Cupaigba. Cardim, Fernão. 2009.

com a Índia Oriental, onde então

Tratado da terra e gente do Brasil. São

prevalecia o poder lusitano, e daí resultou que muitos portugueses

Paulo: Hedra, p.113. 41 Cardim menciona essa planta sob a

transferissem para o Brasil os

alcunha de Igpecacóaya. Idem, p. 131. 42 Igcica. Esta árvore dá a almécega; onde

conhecimentos que tinham adquirido das plantas medicinais

está cheira muito por um bom espaço,

do Oriente, bem como muitos

dão-se alguns golpes na árvore, e logo

gêneros daquelas terras. Além disso,

incontinente estila um óleo branco

foi costume nomear certas plantas

que se coalha; serve para emplastros

brasileiras com nomenclaturas

em doenças de frialdade, e para se

forjadas da experiência farmacêutica

defumarem; também serve em lugar de

oriental, como era o caso do

incenso. Idem, p. 115. 43 Caaroba. Destas árvores há uma

cravo-do-maranhão e da almécega do Brasil. Cf. Oliveira, Henrique Velloso de. 1854. Systema de Materia

grande abundância, as folhas delas mastigadas, e postas nas boubas as

Medica vegetal brasileira… extrahida

fazem secar, e sarar maneira que

e traduzida das obras de Martius. Rio

não tornam mais, e parece que o pau

de Janeiro: Eduardo & Henrique

tem o mesmo efeito que o da China, e

Laemmert; Marques, Cezar Augusto.

Antilhas para o mesmo mal. Da flor se

1870. Diccionário historico-geographico

faz conserva para os doentes de boubas.

da Provincia do Maranhão. Maranhão:

Idem, p. 116.

Typ. do Frias, p. 174.

84

Pedanius Dioscórides, 1555. Tremoços e Acorum, ilustrações do livro Pedacio Dioscorides Anazarbeo, acerca de la materia medicinal, y de los venenos mortiferos [...]. Das plantas cultivadas na Europa, o tremoço era empregado nas receitas do emplastro para matar lombrigas e da triaga contra lombrigas, ambas do irmão boticário Francisco da Silva. O açoro era parte da receita da triaga brasílica. Acervo Biblioteca Nacional de España, Madri

85


Plantas brasileiras nas boticas estrangeiras

48 O autor anônimo do manuscrito da Collecção de varias receitas exorta o leitor que sejas muito acautellado e escrupuloso em não revelar algum destes segredos, pois em consciência se não pode fazer, advertindo que são cousas estas da Religião, e não tuas. Roma: Archivum Romanum Societatis Iesu, Op. NN. 17. Prólogo ao Leitor. É interessante observar o paradoxo que é esse manuscrito.

50 Essas plantas serviam de ingrediente

Ele parece ter sido feito para ser

para a Agoa febrefuga da botica

impresso, organizado de modo

do Collegio de Macao optima, o

a ser enviado ao prelo. Contudo,

bezoartico de curvo da botica do Coll.

o caráter da informação e esse

de Macao e a massa para sezoens

tipo de afirmação se opõem a

da botica do Collegio de Macao, que

toda tentativa de tornar públicos

empregavam a quina, e para o

esses saberes. Provavelmente esse

balsamo estomacal da botica do Coll.

manuscrito constituía-se numa

de Macao, o bezoartico apopletico das

tentativa de sintetizar os aportes

boticas dos collegios de Macao e Bahia

das boticas de Jesus para servir de

optimo, para homens e mulheres, e

instrumento interno aos boticários

a tintura estomacal da botica do coll de

da Companhia. É provável que a

Macao, que empregavam o bálsamo

intenção desse manuscrito fosse propor uma espécie de farmacopeia

Se os aportes de médicos boticários como Garcia da Orta e Nicolau Monardes tinham chegado ao Brasil, os aportes dos boticários da Companhia de Jesus haviam também viajado ao exterior. Não a toda a Europa, porque, como dissemos, os jesuítas obravam em segredo, 48 mas unicamente às boticas da Companhia espalhadas pelo mundo. Nas receitas das boticas de Portugal, como aquelas do Colégio de Santo Antão e da Casa de São Roque, e naquelas das boticas do Oriente, como aquela do Colégio de Macau, encontravam-se menções a diversas plantas brasileiras. Ali, os boticários conheciam as suas virtudes e empregavam-nas na confecção dos medicamentos. Donde se infere que eram levadas àquelas partes muitas plantas nativas do Brasil. Nas boticas portuguesas, as plantas utilizadas eram a quina, o bálsamo do Brasil ou copaíba e a almécega do Brasil. 49 Nas boticas orientais da Companhia de Jesus, usavam-se preferencialmente a quina e o bálsamo do Brasil.50 Além dessas boticas, o bálsamo de copaíba era usado na Botica do Colégio Romano como uma alternativa ao opobálsamo europeu na receita da famosíssima triaga daquele colégio. Temos, no total, 18 receitas de boticas jesuíticas fora do Brasil que faziam uso de plantas descobertas nestas geografias, das quais, além da quina e do óleo de copaíba, constavam também o cravo-do-maranhão e bagas de aroeira.51 Iam para fora do Brasil, por meio das cartas, muitas informações sobre as plantas brasileiras e, pelas naus e pelos agentes da Companhia, muitas plantas brasileiras. A quina e a copaíba notabilizavam-se enormemente nas boticas jesuíticas da Europa e da Ásia e constituíram-se como ingredientes importantes, senão necessários, na produção medicamentosa dessas geografias.

do Brasil extraído da copaíba. 51 Além das receitas já mencionadas

jesuítica dirigida unicamente aos

do Colégio Romano, das boticas

jesuítas e secreta para os leigos.

portuguesas e das boticas de Macau,

Sobre os medicamentos secretos,

constam também aquelas sem

cf. Marques, Vera Regina Beltrão.

nenhuma referência como agoa

1999. Natureza em boiões. São Paulo:

febrefuga p. terçans e quartans, a agoa febrefuga, o linimento para empiges

Unicamp. Em especial o capítulo 4. 49 Essas plantas eram usadas nas

e as pílulas histéricas e aquelas do

seguintes receitas presentes na

boticário Manuel de Carvalho, de

Collecção, a saber, a agoa de Inglaterra

quem não sabemos precisamente

que costumava fazer na botica de

a origem e o lugar de trabalho.

S. Antão, que continha a quina, o

Conjectura-se, entretanto, que

balsamo apoplético da botica de Sao

ele era de Portugal por não estar

Roque, que continha o bálsamo do

presente nas informações oferecidas

Brasil, e o emplastro admirável da

por Serafim Leite sobre os boticários

botica de S. Roque, que continha

que trabalharam nas boticas dos

a almécega do Brasil. Roma:

colégios do Brasil, contudo isso

Archivum Romanum Societatis Iesu,

ainda carece de averiguação mais

Op. NN. 17, p. 16-18, 68, 120-121.

aprofundada.

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Albert Eckhout, 1660. Urucu, estampa do livro Theatri Rerum Naturalium Brasiliae. As ilustrações botânicas de Eckhout apontam para o interesse que os holandeses tinham no conhecimento que já era posse dos portugueses. O urucu, conhecido dos padres da Companhia de Jesus, era um dos compostos da triaga brasílica. Acervo Biblioteka Jagiellonska, Cracóvia


Conclusão Com base no que foi dito e analisado, pode-se dizer que as boticas dos colégios da Companhia de Jesus do Brasil configuraram-se como lugares de fusão de tradições culturais, sendo aquela mais preponderante, ou se quisermos hegemônica, a que vinha da Europa. Essas boticas eram Europas portáteis, traziam consigo a tradição farmacêutica das boticas europeias. As boticas jesuíticas do Brasil deixavam-se inovar pelos novos aportes do Oriente e da América espanhola, como acontecia com as boticas europeias, e, além disso, traziam para a cultura científica dos jesuítas novos aportes e conhecimentos de botânica brasileira. Contudo, esses aportes não eram divulgados para “todos”. O conhecimento obtido nas boticas jesuíticas do Brasil era cousa da Religião e não de toda a humanidade. Como o Estado português, a Companhia de Jesus empregava uma política de segredo e de sigilo que fazia com que os conhecimentos obtidos pelos padres fossem só e unicamente para o uso deles mesmos. Por isso, podemos dizer que os jesuítas antecederam, e muito, os holandeses no conhecimento da flora brasileira. Isso não somente por estarem aqui há muito mais tempo que os batavos, mas também, como vimos, por empregarem, desde sua chegada, seus conhecimentos da flora local na produção de medicamentos e na cura dos doentes. Além disso, pode-se dizer que as boticas dos jesuítas, do Brasil e do resto do mundo, promoveram a circulação de muitos saberes botânicos e de muitas plantas das mais diferentes geografias. As boticas dos colégios jesuíticos do Brasil trouxeram para cá plantas do Oriente, da Europa e da América espanhola. As mesmas boticas exportaram para os colégios do Oriente e da Europa, Portugal e Roma, muitas plantas brasileiras. No Brasil, achavam-se nas boticas jesuíticas de então plantas europeias como o alecrim, a arruda e o hortelã, plantas orientais como o benjoim, a canela e o cravo, plantas da América espanhola como a batata, a jalapa e o pau-santo e plantas brasileiras como a angélica, a quina e a copaíba. A estrutura da Companhia de Jesus, como uma vasta rede, permitia que saberes e plantas circulassem dos quatro cantos do mundo para o Brasil e deste para os quatro cantos do mundo.

Albert Eckhout, 1660. Cidra-real, ilustração do livro Theatri Rerum Naturalium Brasiliae. Os holandeses atestaram a presença no Brasil de várias plantas cultivadas na Europa trazidas pelos portugueses. A cidra integrava a composição de muitos medicamentos dos colégios jesuítas da América portuguesa, como por exemplo a triaga contra lombrigas do irmão boticário Francisco da Silva e a triaga brasílica. Acervo Biblioteka Jagiellonska, Cracóvia Albert Eckhout, 1660. Romeiro, ilustração do livro Theatri Rerum Naturalium Brasiliae. Cultivada na Europa, assim como a cidra, a romã era usada num composto produzido na botica do Colégio do Rio de Janeiro: a massa para cezoens era um medicamento indicado para combater as febres trazidas pelo frio. Acervo Biblioteka Jagiellonska, Cracóvia

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Albert Eckhout, 1660. Jaborandi-guaçu, ilustrações do livro Theatri Rerum Naturalium Brasiliae. Já conhecida dos padres jesuítas como Cardim, essa planta possuía virtudes contra as doenças do fígado e por isso era cultivada pelos padres em suas quintas. Como muitas outras plantas nativas, serviu de ingrediente ao composto da triaga brasílica. Acervo Biblioteka Jagiellonska, Cracóvia

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Albert Eckhout, 1660. Caaroba, ilustração do livro Theatri Rerum Naturalium Brasiliae. Foi descrita pelo padre Fernão Cardim em suas cartas ao geral da Companhia. Segundo ele, essa árvore tinha as mesmas propriedades do pau-da-china. Nas boticas dos Colégios da Companhia de Jesus do Brasil, era usada na confecção da conserva de caroba, variante brasileira contra a sífilis, e da triaga brasílica. Nesta, a caroba passava por um processo químico que exemplificava a adaptação de um novo simples a um novo método farmacêutico. Acervo Biblioteka Jagiellonska, Cracóvia

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Na página à esquerda: Albert Eckhout, 1660. Ibiraba, ilustração do livro Theatri Rerum Naturalium Brasiliae. Diversas plantas nativas da América portuguesa passaram a ser empregadas na farmacopeia europeia pela ação do irmãos boticários da Companhia de Jesus. Usava-se a casca do ibiraé na confecção da triaga brasílica. Acervo Biblioteka Jagiellonska, Cracóvia

Acima: Albert Eckhout, 1660. Nhambuguaçu, ilustração do livro Theatri Rerum Naturalium Brasiliae. Os naturalistas holandeses, sem sombra de dúvida, melhoraram o conhecimento sobre a natureza brasileira adquirido antes deles pelos portugueses. O nambuz era, como muitas outras plantas nativas do Brasil, um dos ingredientes da triaga brasílica. Acervo Biblioteka Jagiellonska, Cracóvia

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À direita: Albert Eckhout, 1660. Caapiá, ilustração do livro Theatri Rerum Naturalium Brasiliae. A caapiá era tida pelos médicos da época como um importante alexifármaco, sendo empregada contra a ação de venenos e doenças epidêmicas. Foi fartamente usada na produção de medicamentos antidotais, como a famosa triaga brasílica, e no tratamento das epidemias pestilenciais, como a que assolou Pernambuco na década de 1690. Uma variedade de caapiá da América espanhola, ali chamada de contrayerba, foi exportada em larga escala para a Itália e utilizada no tratamento das pestes que devastaram a península na primeira metade do século XVII. Acervo Biblioteka Jagiellonska, Cracóvia

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Usos e circulação - parte 3