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caminhos abertos — Narração


Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte.

Projeto gráfico Paulo Delgado 2017

Catalogação na Publicação Serviço de Biblioteca e Documentação Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo Dados fornecidos pelo(a) autor(a)

Delgado, Paulo Victor Fernandes de Barcellos Moreira Caminhos abertos / Paulo Victor Fernandes de Barcellos Moreira Delgado. -- São Paulo: P. V. F. B. M. Delgado, 2017. 4 v.: il. + Carta. Trabalho de Conclusão de Curso - Departamento de Artes Plásticas/Escola de Comunicações e Artes / Universidade de São Paulo. Orientadora: Maria Christina de Souza Lima Rizzi Bibliografia 1. Ensino de arte 2. Escultura 3. Memória pública 4. Monumento 5. Narrativa I. Rizzi, Maria Christina de Souza Lima II. Título. CDD 21.ed. - 700


À minha avó Luiza, que me ensina a caminhar pelo tempo. Ao meu avô Flávio, cuja ausência sempre foi presença.


Agradeço à minha orientadora Christina, que me acompanhou com muito respeito, atenção e carinho em um processo tão pessoal. Agradeço a todos os meus professores – tanto os de dentro quanto os de fora das salas de aula – que fizeram parte deste percurso. Especialmente à professora Dalia, que me possibilitou o contato inicial com a pesquisa científica e o trabalho de Joseph Beuys, e à professora Sumaya, que me ensinou muito sobre o ser professor. À minha professora Rita, que me hizo volar. Aos meus colegas e amigos, que me ensinam tanto e a mis compañeros de Graná, sin lo cuale no habría alcanzao esto. A Javi, que me enseña lo mejor de mi y del mundo. A Mariana, Danilo e Romeu, pela amizade, ensinamentos, parceria e apoio durante este longo caminho. À Anita, que me fez continuar quando pensei em recuar. E ao Pedro, que me ensina sobre a viagem. À toda minha família, sem a qual absolutamente nada disso seria possível. Ao Liam, Nina e Preta, por toda a paciência e carinho. Ao meu irmão, por me ensinar sobre os ramos de rumos. À minha tia Alice, que me ensina a mergulhar em tantos mundos. À minha avó Luiza, com quem aprendo todos os dias. Ao meu pai, por me ensinar do que há sobre a terra. E à minha mãe, por me ensinar do que há ao voar.


Narração


Kublai pergunta para Marco: — Quando você retornar ao Poente, repetirá para a sua gente as mesmas histórias que conta para mim? — Eu falo, falo — diz Marco —, mas quem me ouve retém somente as palavras que deseja. Uma é a descrição do mundo à qual você empresta a sua bondosa atenção, outra é a que correrá os campanários de descarregadores e gondoleiros às margens do canal diante da minha casa no dia de meu retorno, outra ainda a que poderia ditar em idade avançada se fosse aprisionado por piratas genoveses e colocado aos ferros na mesma cela de um escriba de romances de aventuras. Quem comanda a narração não é a voz: é o ouvido. (CALVINO, 1990, p. 123)


Narração

Foram em dados momentos da formação. No Departamento de Artes Plásticas da USP (CAP), despertou em mim um interesse pela estatuária, isto é, pela materialização tridimensional da figura humana, o que é frequente em monumentos públicos, especialmente nos anteriores ao modernismo. Mas isso não foi algo de sopetão. Em meu processo formativo, reconheço pontos que possibilitaram que, naquele momento, durante a disciplina de introdução à escultura, eu iniciasse o esboço de um projeto em que pretendia conversar com estátuas públicas, gerar uma espécie de diálogo entre o corpo móvel e o imóvel. Minha ideia com essa série de reflexões é esclarecer os terri13


tórios que formam parte do contexto de elaboração do projeto. Contudo, não é intelectualmente honesto ou possível sentir o calor daquele processo, o que criaria o risco de operar um anacronismo ou uma espécie de traição. No entanto, é dado que o que foi feito e pensado se tornou brasa e segue a alimentar um fogo. Penso estes textos como um soprar de brasas, uma visita ao projeto a partir do que seguiu dele, as criações elaboradas e o momento presente. Mais que justificar e contextualizar raciocínios artísticos, e analisá-los em seus êxitos e falhas, encaro este trabalho como um momento de detenção sobre um único e longo processo ainda corrente – o que significa amarrar nós ao mesmo tempo em se deixa fios soltos –, isto é, compreender o processo criativo como um sistema vivo. Ao longo do currículo de artes plásticas, passei por um árduo e revigorante processo de valorização do que Walter Benjamin chamou de “escovar a história a contrapelo” em suas Teses Sobre o Conceito de História. Nesta obra, o filósofo apresenta estratégias de compreensão e investigação do mundo a partir de noções que consideram o processo histórico como um processo bárbaro e que se vincula fortemente à perspectiva política do vitorioso. Em sua sétima tese, Benjamin escreve que Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie. E, assim como ele 14


Narração não está livre da barbárie, também não o está o processo de sua transmissão, transmissão na qual ele passou de um vencedor a outro. Por isso, o materialista histórico, na medida do possível, se afasta dessa transmissão. Ele considera como sua tarefa escovar a história a contrapelo. (LÖWY, 2005, p. 70)

Consigo enxergar a noção de escrita da história em diversos trabalhos e exercícios meus, seja através da poderosa metáfora da tecelagem, na criação de mitologias imaginárias ou na manipulação e investigação linguística com traduções entre linguagens e idiomas. Em paralelo, o trabalho e os estágios com processos de arteducação, aguçaram minha percepção para o momento de encontro com uma obra de arte e de seu caráter enquanto bem cultural e, logo, suas possibilidades de ser um documento de barbárie. Simultaneamente, ao longo de 2013, finalizei um período de iniciação científica dedicado a investigar, em diálogo com a produção do professor e artista alemão Joseph Beuys, as possibilidades de articulações de uma prática educativa transdisciplinar. O mergulho nas obras e conceitos que Beuys desenvolveu se mostrou fundamental para minha compreensão acerca do processo e da linguagem escultórica contemporânea. Para além disso, ele me ajudou a enxergar formas de organizar os atravessamentos de referências de naturezas diversas, assim como a relação entre minha produção e a prática educativa. Neste contexto, durante a disciplina de introdução à escultura, 15


encontrei-me com referências criativas que se relacionavam com estatuária e memória pública. Isto deu início a um projeto em que propunha a conversa com monumentos – que são uma sensível evidência do caráter bárbaro descrito por Benjamin. Durante o período de intercâmbio na Universidad de Granada (Espanha), pude amadurecer o projeto e observar sua transformação a partir das relações e desejos que estabelecia com a cidade, meus colegas e o curso. As referências que meus professores espanhóis apresentaram, as exposições que visitei e as vivências naquele contexto possibilitaram que aquele desejo inicial se formalizasse no trabalho Noticias del Nuevo Mundo (2015-16). Ao retornar ao Brasil, desejava continuar o raciocínio, sem idealizações, mas a realidade paulistana, brasileira e latino-americana é outra e a relação entre cidadão e espaço público existente aqui impunha novas reflexões. De um desejo inicial de adaptar o projeto iniciado na Espanha passei a considerar uma série de problemas envolvendo a relação que o cidadão paulistano tem com o monumento público e, logo, com a ideia de memória. Entramada nesse processo, minha formação enquanto arteducador resgatava provocações do início da graduação no que concerne à construção do ensino de arte no Brasil e as conexões entre ele e a criação político-ideológica do ser-brasileiro – algo relacionado à tese de Benjamin. 16


Narração

Fruto dessas reflexões, desenvolvi Armadilha para Tempo e Espaço (2016) e o projeto intitulado Oficina de Desenho: Modelo Vivo. Elaborado no momento presente, este oferece seu processo de construção ao debate, porém, não possibilita uma análise mais detida, já que vem a público ao longo da conclusão desse trabalho. Sem embargo, retomo o caráter processual e de reconhecimento deste trabalho, de um único e longo processo ainda corrente, ou seja, integro essas criações e raciocínios à mesma cartografia de reflexões. Mas para além da minha, há a do passageiro.

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esta obra foi composta em minion pro por paulo delgado e impressa pela arrisca encadernaçþes sobre papel pólen bold em fevereiro de 2017.

Caminhos Abertos - Narração  

Um dos quatro volumes que integram "Caminhos Abertos", meu trabalho de conclusão de curso no Departamento de Artes Plásticas da Escola de Co...