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Paul Law

V DE VERÔNICA

2018


Copyright © 2018 by Paulo Antonino Scollo Junior Capa Paul Law Diagramação Paul Law

___________________________________________________ L415e Law, Paul V de Verônica / Paul Law - Mogi Guaçu: 2018 128 p.: 15.24 x 22.86 cm ISBN: 978-19-80673-72-9

1. Ficção brasileira. 2. Contos brasileiros CDD: 869.8 ___________________________________________________

Todos os direitos reservados a Paulo Antonino Scollo Junior paulo.antonino@gmail.com Mogi Guaçu, SP – Brasil


A Sidnei Salazar Minhas filhas e esposa Pai, mĂŁe e irmĂŁo Aos meus amigos e leitores


CAPÍTULO 1 Era depois do meio-dia, eu arrumava algumas revistas nas prateleiras e separava outras que ia devolver ao fornecedor quando uma viatura grande encostou em frente a minha loja de livros e revistas usadas. Parei o que estava fazendo e esperei pelos homens fardados, achando que gostariam de comprar o jornal do dia. As quatro portas do veículo se abriram, seis homens desceram, nervosos. Entraram pela porta da frente do Sebo e vieram até mim. Um deles encostou no balcão com a mão no revolver que vinha preso à cintura e disse: — Há uma denúncia contra a senhora, temos que revistar o local. Eu estava assustada àquela altura e não consegui lhe responder. Os policiais começaram a revirar as revistas enquanto o meu interlocutor mantinha os olhos em mim. Não encontraram nada de suspeito, o que forçou o homem a voltar a falar comigo. — A senhora é Verônica Albuquerque Gonçalves? — Sim — respondi, trêmula. — A senhora terá que nos acompanhar até a delegacia — ele se virou para um colega. — Algeme-a.


O metal frio se fechou sobre os meus punhos. Fui escoltada e empurrada com violência no porta-malas da viatura. Sem entender o que estava acontecendo, pensei em alguém que pudesse me ajudar. Entenda, eu não tinha muitos amigos. Que advogado eu conhecia? Automaticamente me lembrei de uma, mas seria complicado... podia tentar fugir, desaparecer, quando tivesse chance. A minha mente viajava nas possibilidades enquanto nos aproximávamos do Distrito Policial. O carro parou, fiquei ainda mais assustada, pois havia muita gente em frente à delegacia. Placas eram empunhadas com palavras ofensivas; pessoas me xingavam. Um cuspe “caprichado” acertou o meu rosto. Fui conduzida para dentro da delegacia suspeitando do que tinha acontecido. A saliva alheia pingou do meu queixo enquanto observava uma mulher bem vestida, de cabelo curto num corte moderno se aproximar de mim. Ela passou um guardanapo em meu rosto e falou: — Um belo par de olhos verdes, garota! Eu baixei a cabeça e ela ordenou: — Levem-na até a minha sala. Vou colher o depoimento. — Tudo bem, doutora Meire — respondeu-lhe um dos homens que me escoltava.


— Não precisa ter medo, nós somos os bonzinhos — ela me disse. Era a primeira vez que frequentava uma delegacia. Sentia-me avessa ao local, apesar de as algemas me lembrarem da realidade. — Como vai ser? Quer chamar um advogado ou a conversa pode ser entre nós mesmo? — Eu não sei — levei as mãos trêmulas e algemadas ao rosto. Meire suspirou. Procurou alguma coisa sobre a mesa desarrumada. Não encontrou. Voltou-se a mim. — Tudo isso é novo para gente também, se serve de consolo. Por que não fugiu? Sei lá. Ela voltou a procurar sobre a mesa desordenada. — Devia estar aqui. Observei-a inspecionar os documentos, displicente. — Achei — ela sorriu. Era um maço de cigarros. Sacou o isqueiro do bolso do paletó e acendeu um cigarro. — Deve saber o motivo de estar aqui, não? Eu continuei silente e ela baforou a fumaça para o alto.


— Eles querem trucidar você lá fora. Tem ideia de como a notícia corre em cidades pequenas? Muitos juízes, acusadores, formadores de opinião, essa merda toda. Para falar a verdade, eu mesma não entendo o que está acontecendo. Esse pessoal ficou louco? Definitivamente estamos todos loucos — ela apagou o cigarro sobre a mesa. — Sou inocente — consegui dizer. — O problema é que temos um processo criminal instaurado contra a senhora. Um mandado de prisão expedido por um juiz e cumprido pelos meus homens. Não que eu queira, mas preciso te ouvir. — Você não pode me manter aqui. Eu não cometi nenhum crime! — Ok, você pode ler se quiser — ela empurrou algumas folhas sobre a mesa. — Não entendo de leis. Meire entrelaçou os dedos das mãos, afastou sua cadeira e falou: — Vamos supor que nesta cidade esteja acontecendo um crime e que você seja um policial. Um homem está matando outro homem. Você está perto, tudo bem? Está vendo aquilo acontecer, mas não faz nada. O sujeito termina o trabalho dele, vai embora e você finge que não vê, consegue entender? — Eu não sou um policial! Não me diga que... — então, eu entendi o que Meire queria dizer.


Ela ergueu as sobrancelhas, triunfante. Completou: — É por isso que está aqui — deu de ombros. Naquele momento, notei que a minha noção de dever estava equivocada. O coração acelerou, o estomago afundou. Era ansiedade. Eu precisava saber; tinha que compreender imediatamente a dimensão de tudo aquilo. Ora, se tinha chegado ao ponto de ser presa... — Vou precisar de um advogado — foi o que respondi. — E um copo de água. Eu não sei o que a água faz com as pessoas nervosas, enfim. Sei que é o que posso te oferecer. — Por favor, doutora Meire.


CAPÍTULO 2 Não sou uma pessoa violenta, nunca fui. Tenho um senso de justiça que considero apurado e jamais faria algo a alguém que não quisesse que fizessem comigo e por isso fica tão difícil entender o que estava acontecendo comigo. Pensei logo em minha mãe. Ela foi uma advogada conhecida aqui da cidade. Nos seus anos de glória chegou a defender empresários e famílias importantes. Foi fundadora de uma Sociedade de Advogados, um tipo de empresa de juristas. Em contrapartida, mal teve tempo para a filha, no caso eu. O problema de minha mãe é bastante simples: ela não teve um bom exemplo de mãe. Quem a pariu, a abandonou ainda na maternidade e uma enfermeira acabou adotando-a. Mãe falou pouco sobre o assunto, mas a mágoa era facilmente constatada quando o caso surgia. Imagine como foi difícil para ela viver na mesma cidade que sua mãe biológica e seus irmãos sem saber o motivo do abandono. Mesmo que sua mãe adotiva tenha lhe dado boa criação e carinho, este começo de existência é suficiente para traumatizar uma pessoa. Eu não conheço meu pai, mas sei que ele era músico. Mãe era jovem e o namoro com ele deu-lhe muita dor de cabeça. Eles se separaram logo, pois ele queria seguir viagem com sua banda. Ela brigou com os pais, saiu de casa, voltou comigo no colo, continuou os estudos e assim que se formou começou a trabalhar na área com a ajuda de


um colega de classe, o mesmo que veio a ser o seu sócio e fundador da empresa de advogados. Quando eu tinha quatro anos, alugou uma casa para nós. Voltando a falar de meu pai, acho que ele nunca soube que nasci então não deve se arrepender de nada. Quanto a mim, nunca senti falta de um pai, já que não se pode sentir falta de algo que nunca se teve, não é? Senti muito a ausência de minha mãe, isso sim, embora compreenda os seus motivos para se manter distante das pessoas. Elas te machucam. Mãe sempre gostou de trabalhar, mais que isso, sentia-se renovada toda vez que obtinha sucesso em uma demanda. O triunfo refletia em sua aparência e mãe gostava de usar as melhores roupas, os melhores sapatos, frequentar o melhor salão de beleza. Qualquer homem a acharia uma mulher atraente, mas nunca a vi saindo com alguém. Ela podia me dar bens matérias, pagar meus estudos, o que mais eu poderia querer? Não sou de reclamar de nada. Sabe aquela coisa de ficar pensando se tivesse feito isso ou aquilo diferente, não teria estado naquele lugar naquela hora? Eu nunca fiquei pensando nessas coisas. Nem naquele dia na delegacia. O que eu podia fazer, eu fiz. Pedi para que ligassem para minha mãe, apesar de ter ciência de que ela não me reconheceria e de que provavelmente não viesse. Imaginava que ainda sofresse mesmo tendo passado anos. A culpa era minha. Não do modo que ela pensava, mas ainda assim, minha. A doutora Valéria nunca foi boa com sentimentos e acho que herdei isso dela. Ainda que as


circunstâncias não fossem apropriadas, meu pedido foi feito para esconder uma tentativa de reaproximação. Quando minha mãe chegou, eu já havia prestado depoimento, o que foi um erro segundo ela. — Se mandou me chamar, por que não esperou minhas instruções? — foram suas primeiras palavras dirigidas a mim depois de tanto tampo. — Tire-me daqui. Ela riu cinicamente. Vestia-se muito bem, como de costume, mas os olhos estavam fundos e cansados. — Acha que estou aqui para te tirar daí? Eu só aproveitei a oportunidade para olhar na sua cara e dizer umas verdades! — Não sou uma criminosa! — Por que não salvou minha filha? Se você podia, por que não fez? É seu dever! Era sua obrigação salvar minha menina! — Eu não podia — respondi num sussurro —, mas isso não quer dizer que não senti muito. Ela riu outra vez. Disse-me: — Quem é você? Sou sua filha. Você pensa que estou morta, mas não estou! Pensei em dizer a verdade a ela, mas isso causaria mais confusão. Respondi de outra forma:


— Sou apenas uma vendedora de livros velhos. — Deixe-me esclarecer uma coisa: a primeira condição para um advogado defender alguém é a de que ele conheça a verdade. — Então vai me defender? Eu não tenho muitas posses, mas a senhora não ficará sem receber. — Eu não quero o seu dinheiro. Para um cliente especial, uma condição especial. — Que seria... — Devolva-me a minha filha. Todo mundo está dizendo que você pode fazer coisas incríveis. Notei que ela necessitava crer que algo impossível pudesse ser feito para lhe devolver a filha perdida. Eu e minha mãe queríamos a mesma coisa e sentíamos o mesmo: esperança e remorso, nesta ordem. Então, menti: — Está bem. Tire-me daqui e vou tentar trazer sua filha de volta. Imediatamente o semblante da doutora Valéria mudou. Seus olhos se firmaram e seus lábios se amenizaram. Ela respirou fundo, agarrou os óculos que estavam pendurados em seu pescoço e limpou a garganta. Falou. Foram termos jurídicos complexos que pouco faziam sentido para mim. Citou artigos, leis e procedimentos. A única coisa que pude compreender é que


eu seria apresentada ao juiz de Direito no dia seguinte, oportunidade em que poderia ser solta se entendessem que não represento perigo. — Você não tem antecedentes criminais, tem endereço certo. A chance de ser solta amanhã é grande.


CAPÍTULO 3 Depois que a doutora Valéria deixou a delegacia eu me senti melhor. Ela ia me defender e não havia outra pessoa em quem confiasse mais. Apesar de distantes o vínculo entre mãe e filha continua forte. Mesmo estabelecido por uma mentira. Por várias mentiras. Ok, isso me entristeceu um pouco, mas o que eu esperava? Minha vida era uma completa mentira. Ao me lembrar disso, uma pessoa apareceu no meu pensamento. Ele poderia chegar ali a qualquer momento. Sei que ia me dizer que fechou o Sebo; que tudo ficaria bem. Não sabia se o deixariam entrar... Em seguida, uma lembrança agradável tomou conta de mim. De uma noite ao som de Clara Nunes e cheiro de discos velhos. Eu gosto de discos de vinil, há muitos em minha loja e na noite em questão, estava testando alguns que adquirira em um lote pela internet. Raul Seixas, Tim Maia, Clara Nunes, Maria Betânia, Elis Regina, todos eles eram velhos conhecidos. Eu ouvia Clara Nunes quando ele chegou. Trazia uma sacola com alface e um sorriso no rosto. Comentou do som. — É mesmo triste morrer no mar? — Nunca vamos saber — eu lhe disse. — Tem certeza? — ele me abraçou.


A sacola de verdura caiu do balcão. Dançamos. Isso não foi há muito tempo, embora não parecesse. Aproximei-me das grades. Elas eram frias, ásperas, enferrujadas, a tinta bege descascada. Não havia iluminação em minha cela, de modo que a escuridão só não se fazia completa pela luz que escapava pelo corredor. Eu ouvia conversas; ouvia comentários sobre mim. O movimento ainda era grande. Pude ouvir a repetição de um nome em especial: Marcelo Siqueira. Afastei-me das grades e me sentei no banco de concreto. Abracei meus joelhos. Que o dia seguinte viesse logo. Ele não veio. A cela da delegacia não era uma prisão definitiva. Tratava-se de um local em que os presos eram mantidos até que seu destino fosse traçado. Após a apresentação ao juiz, caso não fosse determinada a minha soltura, eu seria transferida para uma prisão de verdade. Isso tudo me foi explicado pela doutora Valéria enquanto aguardávamos a audiência. Antes disso, porém, logo cedo, Meire apareceu e disse que íamos sair. Que deveríamos aproveitar a manhã para evitar o tumulto. Ela entrou descuidada em minha cela, deixou a grade aberta e me olhou por algum tempo. Eu sabia o que ela estava querendo me dizer, mas desviei os olhos. Era possível notar que a delegada queria se ver livre de mim. Se eu fugisse a pouparia de muito trabalho. Talvez


ela não achasse justo me manterem sob custódia, não sei. Meire era uma mulher difícil de decifrar. Apesar de ter pouco mais de trinta anos e ser bonita não parecia ter boa relação com os demais policiais. Durante a madrugada, depois que todos foram embora eu ouvi os plantonistas comentarem sobre ela. Comentários maldosos que permeavam desde a sua sexualidade até sua competência. Nada foi pior do que ouvir que ela precisava de uma boa trepada e que estavam dispostos a ajudá-la. Não ia dizer nada, embora pensasse nisso enquanto ela me olhava com seriedade. Meire se irritou, aproximouse, tirou uma algema do bolso do jeans e agarrou minhas mãos. Eu não estava em trajes apropriados para ver um juiz de Direito, já que quando fui presa encontrava-me trabalhando, vendendo discos e revistas. Vestia uma camiseta branca, agora amarrotada, uma bermuda jeans e sandálias. Meire fez sinal para que eu me sentasse. Juntou os meus dois pés e pediu a um policial que lhe trouxesse algemas para tornozelos. Elas eram parecidas com as de pulso e se diferenciavam apenas pela extensão da corrente. As das pernas me permitiriam dar passos curtos. Ela apalpou minha panturrilha e comentou que era forte. Atou as algemas em minhas pernas. Saí da delegacia escoltada por vários policiais e sob o grito de manifestantes. O número era menor do que na tarde em que fui presa, mas as pessoas não eram menos


violentas. O que, diabo, eu tinha feito àquela gente? Meire me segurava pelo braço e me conduzia firme até a viatura. — Eles te amam! — ela disse com ironia. Dessa vez fui sentada no banco traseiro da viatura ao lado de Meire. Ouvi a delegada falar no rádio com sua equipe. Chegamos com três horas de antecedência. Entramos pelos fundos, pela entrada dos funcionários. Poucas pessoas sabiam de minha presença no local. Fiquei trancada no Salão do Tribunal do Júri, junta de Meire e alguns policiais. Ainda tentava entender a dimensão de tudo aquilo. Valéria chegou meia hora antes da audiência. Ela usava um blazer grafite, camisa social branca, salto alto, óculos escuros, cabelo bem escovado e penteado. Parecia renovada, como se o tempo tivesse mesmo voltado. Era minha mãe, como eu me lembrava dela, como várias vezes vi me ignorar. A esperança pode salvar uma pessoa. Ou o remorso. Não pude deixar de reparar na reação de Meire ao vê-la. Elas se cumprimentaram com descrição, no entanto. A delegada se afastou, Valéria sentou ao meu lado, retirou os óculos escuros e colocou os de leitura. Abriu sua pasta e tirou alguns documentos. — Esta audiência é para conferir se você foi bem tratada durante a prisão. O juiz vai lhe perguntar sobre isso


e conferir se você pode ser solta a fim de responder ao processo em liberdade — ela me disse. Depois do exemplo de Meire sobre o policial que vê um bandido cometendo um crime e não faz nada, eu tinha noção do que estava sendo acusada, mas queria que minha mãe me explicasse. Perguntei: — Do que se trata este processo? Ela abaixou os óculos e me observou atentamente. Respondeu: — Eu não vou manifestar as minhas concepções pessoais sobre o caso; serei profissional como lhe prometi que seria em troca da sua ajuda com minha filha. — Só me diga do que me acusam. — É o que estou tentando dizer. O processo é complexo, impreciso. Nunca vi nada parecido. Basicamente estão te processando por deixar crimes acontecerem. — Pensei em algo assim — Omissão de Socorro. Ok, omissão de socorro, sou leiga em Direito, não sei as implicações legais deste crime, mas entendo perfeitamente o que os termos significam. Acusavam-me de deixar de agir; de não fazer algo que eu posso fazer.


CAPÍTULO 4 Fomos chamadas. A audiência ia começar. Entrei, sentei-me de frente ao escrevente judiciário. Minha mãe permaneceu do lado direito da mesa de madeira, retangular, ao passo que o promotor de justiça ficou do lado esquerdo. O juiz estava atrás de sua escrivaninha num deck superior um pouco a frente, a minha esquerda. A sala era ampla, bem arejada e bem pintada, de branco. — O nome da senhora? — foi a primeira pergunta do juiz. Pensei no meu nome verdadeiro e quase me trai. Respondi: — Verônica Albuquerque Gonçalves. — A profissão? — Comerciante. — A senhora está sendo processada pelo crime de Omissão de Socorro e sua prisão preventiva foi decretada como medida de segurança. O objetivo desta audiência não é saber se houve crime ou não, mas averiguar as condições da prisão. A senhora foi maltratada pela autoridade policial? — Não senhor. — Certo. Doutor Cícero?


— Excelência, o Ministério Público se manifesta no sentido da manutenção da prisão da acusada. Devido a peculiaridade do caso, até que mais provas sejam produzidas, entendo que ela deve ser mantida sob custódia. — Doutora Valéria? — A defesa requer a liberdade da acusada, uma vez que é primária, tem domicílio certo e emprego, não havendo nada que a desabone. A prisão é medida última, devendo ser adotada apenas nos casos em que o acusado represente perigo à sociedade. Não é o que se evidencia no presente caso, Excelência. O juiz deslocou sua cabeça levemente para o lado a fim de ver minha mãe. Sorriu e disse: — Doutora, embora seus argumentos sejam válidos, não podem ser aplicáveis ao caso. Há, como posso dizer? Variáveis. Até que se verifique o grau de perigo que a senhora Verônica efetivamente representa é prudente mantê-la sob vigilância. — As pessoas não são inocentes até que se prove o contrário? Não há provas contundentes de que esta menina possa fazer o que dizem que pode. Apenas um dossiê de um repórter de índole questionável. — Repórteres são perigosos, doutora Valéria. Eles domam o povo. As pessoas lá fora já julgaram sua cliente. — Vossa Excelência vai fazer o mesmo? O juiz fez uma careta. Respondeu:


— De forma alguma. É para ter um julgamento justo que vou acatar a manutenção da prisão. — Isto é um absurdo! Já ponderou que esta menina não matou ninguém? Que ela tem família; trabalho. É evidente que ela é humana, merece ser tratada com dignidade. — Não sabemos se ela é humana, doutora Valéria. Depois dos exames, se for constatado que ela realmente é uma cidadã, posso reavaliar o caso. Por ora, a prisão está mantida. A audiência está encerrada. Minha mãe não retrucou, mas não deixou de manifestar sua indignação. Ali mesmo, pouco antes dos policiais entrarem para me escoltarem ela me disse: — Fique tranquila. Vou fazer um novo pedido de liberdade. Dessa vez por escrito e vamos brigar com isso até a última instância se for preciso! Eu sorri para ela pouco antes da porta se fechar atrás de mim. Levaram-me de volta ao Salão do Júri, onde Meire e outros policiais me aguardavam. No caminho, porém, fui impedida de chegar ao meu destino por repórteres. Eles nos cercaram a disparavam perguntas, ao mesmo tempo em que esticavam os braços com gravadores, celulares e microfones. Os policiais forçaram passagem, mas tive tempo de ouvir algumas perguntas, tais como “é verdade o que o Marcelo escreveu sobre você?”, “o Governo Americano é o responsável pelas experiências?”, “Há outros?”, “você é alienígena?”


No meio de todos aqueles braços eu vi a pessoa que esperei noite passada; que eu tinha certeza que viria e não veio. Bem, eu não estava errada quando supus que não o deixariam entrar. — Verônica! — ouvi nitidamente a voz de Felipe. Tentei parar, mas minha escolta forçou o passo e me empurrou para o Salão do Júri. — Esperem! Tem alguém que preciso ver lá fora! — eu falei aos policiais. Meire se aproximou e com gestos questionou os policiais sobre o que estava acontecendo. Eu mesma respondi: — Alguém importante para mim está lá — apontei para a porta. Felipe era importante. Um companheiro, um amigo. O único. Ele era professor e trabalhava na Escola Estadual próxima a minha loja. Gostava do que fazia, ajudar as pessoas, sabe? Escolheu a profissão pelo fator humanitário e não o financeiro, permanecendo muitas horas e quase todos os dias na escola. Nos conhecemos no dia em que ele passou no meu estabelecimento para comprar um livro. Foi aí que me contou de seu trabalho. Falamos de outras coisas também.


Ocorreram mais visitas a pretexto de comprar o jornal diário. Fomos conversando sobre assuntos variados. Eu lhe indicava alguns livros, ele comprava todos. Certo dia, Felipe comentou comigo que haveria uma festa beneficente na comunidade em que residia; que eu era sua convidada especial. Depois daquela noite nos tornamos mais próximos. Ele era um homem religioso e isso me deixa um pouco envergonhada. Sou egoísta? Felipe não é. Ele tinha trinta anos, não possuía carro ou moto e sempre me dizia que era bobagem gastar dinheiro com isso se possuía boa saúde para pedalar e dinheiro para pagar coletivos. Era engraçado que em nossos encontros (se é que posso chamar assim), passávamos um tempo gostoso dentro de ônibus. Conversávamos muito nessas oportunidades. Era como ser adolescente para sempre por mais irônico que isso possa parecer. Felipe era alguém que tinha uma alma jovem, cheio de esperanças; que acreditava na humanidade.


CAPÍTULO 5 Meire estava com as mãos na cintura enquanto me ouvia dizer de Felipe. Ela deu de ombros e ordenou que um policial fosse buscá-lo. Meu namorado entrou receoso, sentou-se ao meu lado e fez a pergunta óbvia: — O que está acontecendo? Eu gesticulei negativamente. Ele pegou a minha mão algemada. — É algum tipo de pegadinha de TV? As pessoas lá fora estão dizendo que você tem, como é que posso dizer? Poderes? Um maluco reuniu provas, foi a TV, só se fala disso. Não tem como um absurdo desses ser verdade. Estamos no mundo real, certo? Eu namoro uma pessoa normal. Lágrimas se juntaram em meus olhos. Ele não me deixou explicar. — Você não ia mentir para mim, não é? Não por dois anos... Ele entrelaçou seus dedos aos meus. Suspirou e continuou: — Estão dizendo que pode fazer muito, mas não faz. Sabe o quanto eu me empenho para ajudar os outros e se isso fosse verdade, seria a pior das traições. Deus, seria como se eu convivesse com uma desconhecida. Só que isso


não é verdade, não tem como ser. Eu praticamente moro com você no Sebo. — Felipe, escute, é verdade. Minhas palavras o acertaram pra valer. Percebi que sua expressão mudou imediatamente. Ele não disse, mas eu podia imaginar o seu pensamento e ele era o seguinte: “como pôde?” A resposta era muito simples, era mais fácil mentir. Eu também não disse isso. Abaixei os olhos, as mãos dele soltaram as minhas. — Quero que você apodreça na cadeia — levantouse e saiu. Assim que Felipe deixou o Salão do Júri, Meire se aproximou de mim. Estava com um cigarro nos lábios, embora fosse proibido fumar naquele local. Se ouviu minha conversa com o meu agora ex-namorado, foi discreta. Sentou-se e disse-me: — Temos que esperar a poeira baixar para te levar daqui. Ela olhou em volta para se certificar de que ninguém prestava atenção. Aproximou os lábios dos meus ouvidos e continuou: — Fuja. Não. Eu não sou mulher de fugir, pensei na hora. Se agisse assim, teria confessado o crime; teria admitido que agi errado.


— Quer saber? É o que eu faria — ela apagou o cigarro no banco de madeira envernizado. Eu a observei por um instante, enquanto tentava limpar a mancha de queimado do banco. Ela continuou: — Eu vou te levar para a cadeia de verdade. Lá não é lugar para pessoa como você, qualquer um que te olhe saberá disso. Veja sua cara de bonequinha, seus olhos... acha que eles serão gentis? — Não se preocupe, eu ficarei bem — respondi. Naquele momento, não me passou pela cabeça o que poderiam fazer comigo na prisão. Descobri logo. Meire voltou para a delegacia e eu fiquei trancada no Salão do Júri pelo resto do dia. Cheguei à penitenciaria feminina de madrugada, levada pelos policiais da delegada que me deixaram sob a responsabilidade da diretora Gilda e das agentes penitenciárias Rita e Benedita. Elas se apresentaram na primeira oportunidade em que ficamos sozinhas, deixando claro que eu sereia tratada como um objeto a ser explorado. Gilda era uma mulher de cinquenta e poucos anos, cabelos malcuidados, coloridos artificialmente e curtos, obesa, baixa. Naquela madrugada a ouvi dizer, que para estar ali eu devia ter, no mínimo, feito algo que não devia; casos como o meu eram muito comuns. Eu não a impressionaria facilmente. Deixou claro, ainda, que não


acreditava em deus; que eu não era uma divindade. Chegou mesmo a dizer que eu era uma farsa. — Há apenas uma verdade sobre a condição humana, menina. Nós fazemos qualquer coisa para nos mantermos vivos — foi assim que a diretora finalizou seu monólogo ao me acompanhar até o pavilhão de celas. Até ali, eu nunca havia parado para pensar na verdade da diretora Gilda, embora ela me parecesse coerente. — Eu vou gostar de saber o quanto você se esforçará para manter-se viva. Eu não lhe respondi. Ela se aproximou das grades. Enfiou a chave no grande cadeado e cumprimentou Cláudia e Manuela, duas presas que estavam no local. A primeira era jovem, magra e alta. Tinha os cabelos bem presos e um pomo de adão sobressalente. A segunda, musculosa, baixa e orelhuda. Gilda trancou a porta e se afastou. As presas se aproximaram de mim imediatamente, eu estava distraída. A magra me agarrou, a orelhuda sacou um canivete.


CAPÍTULO 6 Eu me debatia enquanto minha camiseta era rasgada e o sutiã arrebentado. A faca pontuda perpassou de leve entre os meus seios. O filete de sangue escorreu. Eu não gritei, apesar de arfar. Meu coração acelerou, o sangue circulou com velocidade por minhas veias. Cláudia ficou admirada ao observar o ferimento se fechar imediatamente. — Puta que pariu — ela disse. Eu lhe dei uma cabeçada, aproveitando o momento de surpresa. Cláudia afrouxou o seu aperto sobre mim, eu me afastei, veloz. Ofegava no canto da cela quando a ouvi reclamar: — Sua vadia, você me fez sangrar, olhe! — Afaste-se de mim! Cláudia avançou em minha direção, mas era muito lenta pelos meus padrões. Corri para o outro lado e disselhe: — Eu não quero te machucar. — Que boazinha! — ela tentou mais uma vez. Em vão.


Então, levei uma estocada nas costas. Eu havia me esquecido de Manuela. — Pega ela agora, Cláudia! A presa fez o que sua comparsa tinha sugerido. Ela era mais forte do que eu, de modo que era inútil tentar me soltar. Manuela se aproximou com um sorriso nos lábios e agarrou o meu queixo. Apertou minha bochecha e com a outra mão me deu um soco. O gosto de sangue invadiu a minha garganta por um segundo. Outro soco, dessa vez no nariz. Depois, falou: — Eu quero tentar uma coisa. Segura ela direito. O canivete me atingiu mais uma vez no peito, dessa vez até o cabo. — O que você fez? — perguntou Cláudia, ainda me segurando firme pelos braços. Manuela explicou: — Queria que o canivete ficasse preso no meio do peito dela. Deu certo! Por causa dos meus poderes, a ferida se fechou com a lâmina em mim. Cláudia continuou, irritada: — Puxa essa merda, Manu! Manuela obedeceu. Então gritei. Era como se estivessem retirando uma rolha teimosa de uma garrafa de


vinho. Um ferimento de dentro para fora, consegue imaginar? Os gritos chamaram a atenção de Gilda e suas agentes. Elas vieram calmamente até o local em que eu estava sendo agredida. A diretora disse: — Já chega. Rita e Benedita, as agentes, entraram na cela, afastaram minhas agressoras. Elas foram levadas para outro local e eu fiquei no chão cobrindo com os braços os meus peitos, sentindo dores que meus poderes não podiam aliviar; lesões morais, violações do meu espírito e dos meus conceitos sobre humanidade. Gilda me fitou demoradamente, parecendo saborear minha humilhação. Eu não conseguia olhá-la de volta, não queria que me visse chorando. A diretora se afastou e eu chorei com vontade. Mais tarde ela voltou com uma blusa que me jogou por entre as grades. — Eu sabia que você não era grande coisa, boa noite — me disse. Não sei precisar o quanto envelheci naquela noite. É difícil notar quando e quanto o rosto ou o corpo mudam ao longo dos anos. Trata-se de um processo lento e irreversível. Você começa a morrer no instante em que deixa de nascer, mas não pode precisar quando há vida ou quando há morte. Eventos como aquele que vivenciei podem contribuem para o envelhecimento? Não sei.


Certamente causam uma tristeza capaz de ser observada pelos outros. A doutora Valéria apareceu na penitenciária para colher minha assinatura para alguns documentos, na tarde seguinte a minha recepção. — Você está péssima — ela me disse assim que me viu nas grades. Naquela oportunidade eu trajava calça e camiseta marrom, descoloridas e sandálias. Não tinha acesso à escova de pentear cabelos, nem roupas de baixo. Disse a ela, num sussurro: — Tire-me daqui, por favor. — Farei os pedidos ao Tribunal, aguente firme. — Não é justo! — O que você sabe sobre Justiça, garota? — Sei o bastante — desviei os olhos dos dela — para entender o que não é. — Tem certeza? É justo você ter habilidades incríveis e não ajudar as pessoas? — Não sou obrigada a ajudar os outros! Você é? — De forma alguma, mas as pessoas boas ajudam umas às outras. Eu não sou uma boa pessoa, doutora Valéria, pensei. Não disse nada.


Mãe, notou meu desapontamento e tratou logo de se explicar: — De todo modo, isso não é da minha conta. Não se preocupe, eu sou profissional e vou te tirar daí. Aguente firme. No dia seguinte foi a vez de Meire me visitar. Na verdade, ela e alguns policiais vieram me buscar para a realização dos exames mencionados pelo juiz em audiência. Em nossa cidade não havia um laboratório capaz de realizar todos os testes necessários, de modo que viajamos para a capital. Poucas vezes em minha vida eu tinha ido à capital. A visão que gente como eu tem de cidades grandes é a de um local fascinante e assustador ao mesmo tempo. As pessoas de lá tratam a gente de modo indiferente e isso, no meu caso, seria bom. No vasto laboratório que frequentamos, ninguém me perguntou sobre os superpoderes. Para eles, tratava-se de uma ordem judicial que deveria ser cumprida sem maiores preocupações. Colheram o meu sangue, urina, fezes. Fizeram radiografias e tomografias de todas as partes do meu corpo. Eletrocardiograma e Ecocardiograma. No teste ergométrico foi que tivemos um problema. Puseram-me para correr em uma esteira enquanto monitoravam o meu coração pelo computador. A velocidade foi aumentando gradativamente, mas meu corpo não demonstrou qualquer esforço.


— O equipamento está com defeito? — ouvi uma técnica perguntar, batendo na tela de LED do computador. Meire que estava de braços cruzados na porta da sala de exames disse: — Vocês nem leram o motivo de ela estar fazendo estes exames, não é? As funcionárias do laboratório se entreolharam. Uma disse: — Não precisamos. — Posso falar uma coisa? Ninguém respondeu à delegada. Ela continuou: — Aumente essa joça no máximo, eu também estou curiosa para ver isso. — Está maluca? A esteira não foi feita para ser usada no máximo. — Olha só, minha cidade está um caos por causa dessa garota e ninguém sabe se ela pode mesmo fazer o que estão dizendo que pode. Um pessoal aí diz que já viu, mas não temos nenhuma prova. Essa esteira, essa coisa de vocês, está ligada há um bom tempo e o esforço físico continua o mesmo. As técnicas se voltaram para os monitores, depois para mim. Uma delas disse: — Ok, aumentando velocidade.


As minhas pernas, meu coração e pulmões acompanharam o aumento de velocidade sem qualquer dificuldade, o que deixou as funcionárias abismadas. Meire deu de ombros. — Diminuindo velocidade. — Certamente a máquina está com problemas. Tirara-me os sensores de monitoramento. Eu não estava nem suada. Mandaram me vestir o meu uniforme de presidiária. Minutos depois, sob o olhar de muitos curiosos, fui liberada. Segui com Meire e seus homens de volta à penitenciária. Na viatura enquanto seguíamos, Meire puxou assunto: — Como foi que isso aconteceu? — Eu lamento, mas não posso dizer. Se serve de resposta, eu gostaria que não tivesse acontecido. — Sabe, em minha profissão, a gente aprende a bater o olho e reconhecer qualidades e defeitos de uma pessoa. O julgamento é muito rápido e quase sempre correto. É inevitável, sabia? Assim que pus os olhos em você eu já sabia com quem estava lidando. Uma típica menina do interior de São Paulo, de boa educação, que nunca passou fome ou teve contato com o crime. Poderia facilmente estar em uma faculdade que seria paga pelo papai, fazendo um curso qualquer. Se viesse a exercer a


profissão seria por pouco tempo, logo inventaria outro curso e a história se repetiria. — Eu não tenho pai — foi a primeira verdade que eu disse a Meire. — Que seja. Preciso fumar — Meire puxou um cigarro do maço que estava no bolso de sua camisa branca de mangas — Passei horas no laboratório sem poder fumar! — Sou filha única, eu poderia mesmo ter uma história parecida com o que você descreveu. — Mas aí esse negócio de superpoderes fodeu com tudo. Assenti. — Escute, eu conheço o sistema. Sei como tudo isso vai terminar e quer saber? Meu conselho ainda é o mesmo. A gente até poderia fazer uma dupla, o que acha? Eu te daria a direção, você faria o trabalho. Eu sorri. — Não sou um super-herói, doutora Meire. Sua amizade me basta.


CAPÍTULO 7 Os dias que se seguiram na penitenciária feminina foram mais calmos. Vou explicar o motivo. Rita me contou que a notícia de minha existência e prisão se espalhou rapidamente, o que trouxe atenção ao local em que estou “hospedada”. As presas que me agrediram tiveram que ser transferidas de pavilhão e Gilda estava respondendo a uma sindicância. A carcereira comentou, ainda, que a diretora podia ser afastada a qualquer momento por ter feito vista grossa ao canivete de minhas agressoras. Rita chegou a comentar que suspeitava que a própria diretora tinha pedido às presas que me testassem. O estabelecimento prisional foi visitado por entidades reguladoras, as condições dos presos revistas e adequadas. Até mesmo a minha. Eu já tinha uma cela exclusiva, mas ganhei colchão e papel higiênico, além de livros para leitura. Como havia me habituado em liberdade, passei o tempo nas páginas, esquecendo-me da triste realidade. Nos banhos de sol, eu estava algemada nos pés e nas mãos. Até mesmo em minha cela, as algemas de tornozelos se faziam presentes. Gilda aparecia nas grades de minha cela em seus plantões e me contava alguma coisa do que estava


acontecendo lá fora. Aproveitava para dar sua versão sobre minha condição. — Você tem sorte. Todo mundo está de olho, até parece que preso voltou a ser gente. — Preso é gente — vociferei. Ela deu de ombros, respondeu: — De todo jeito, vamos ver até onde você vai. Lembra-se do que te disse no primeiro dia? Eu quero ver até quando consegue sobreviver. Ainda bem que eu tinha o livro, pois as presas não se aproximavam de mim. Elas tinham medo, explicou-me Benedita, a outra carcereira. Medo de que eu revidasse ou de que fossem transferidas. Eu ansiava por uma visita, qualquer uma, fosse Felipe para me pedir desculpas, fosse Valéria para me tirar de lá ou Meire, para me levar a outra audiência. Entretanto, elas não vieram, mesmo o grande volume de pessoas nos dias de visita dizendo o contrário. As pessoas até queriam me ver, mas não podiam. Então, num dia que não era reservado a visitas uma equipe de TV apareceu. Sim, foi desse jeito que eu conheci Marcelo Siqueira, o jornalista que me descobriu. Ele era o homem com o microfone na mão que se aproximou do corredor de celas dizendo que mostraria em primeira mão o primeiro super-herói da história.


Eu o odiei imediatamente. Era um homem alto, de pele clara, olhos castanhos e barba bem cuidada. Os cabelos penteados para trás, lisos, fixados por gel. Vestia um terno fino, tinha uma barriga sobressalente. Vinha acompanhado de um cinegrafista. — Mostra aqui! — foi a primeira coisa que ele disse, referindo-se a mim. Eu encarei a câmera com aborrecimento. Afastei-me das grades. Marcelo me disse: — Sou Marcelo Siqueira da TV Local, como vai? O público quer saber como você conseguiu seus poderes. Eu não lhe respondi. Ele continuou falando de mim, do processo e de sua opinião sobre minhas atitudes. Insistiu mais uma vez por uma declaração, que recusei. Falou: — Bem, gente, ela não quer falar. É uma pena, já que a população gostaria de saber por que ela não ajuda as pessoas. — Você não sabe nada sobre mim! — respondi, irritada. — Estou escrevendo um livro a seu respeito. — Como você me descobriu? Ele sorriu com vontade e fez um sinal para que a gravação fosse interrompida. Aproximou-se das grades e me contou, triunfante:


— Explica uma coisa: se estava tentando se esconder, por que fez exame de sangue no Hospital Municipal? — Então foi assim que fui descoberta... Eu sabia do que o repórter estava falando. Foi numa manhã no Hospital Municipal e aconteceu por insistência de Felipe. Ele teimou que eu deveria realizar exame de sangue para saber a tipagem, a fim de evitar o problema do fator RH caso tivéssemos filhos. Eu tentei convencê-lo de que não era preciso realizar qualquer exame; disse que tinha medo de agulhas ou qualquer coisa parecida, mas pouco convincente. Isso o deixou cismado. Com a minha recusa confessou-me que achava que sua namorada estava escondendo algo. Estava mesmo, mas não o que ele imaginava; não uma doença, bem talvez uma doença, mas não o que ele pensava que fosse. No fim, cedi e realizei o exame, cujo resultado, soube dias depois, foi normal e minha tipagem sanguínea deu para AB. — Tenho contatos no laboratório do hospital, sabia? Eu farejei uma boa história, assim que minha fonte me falou sobre células com propriedades incríveis. — Você arruinou minha vida! Eu não sou uma criminosa! — Acha que isso importa? Parou para pensar no que está em jogo aqui? Eu sou só um cara que apresentou fatos contundentes sobre um ser com a capacidade de se


regenerar instantaneamente, o que aconteceu depois não tem nada a ver comigo. — Você começou com tudo isso! A culpa é sua! — Escute, estou faturando com o que descobri, nada mais justo. Consegui um emprego na televisão e quer saber? Ninguém liga se é verdade ou não. Eles querem notícia. Você pode ficar calada, pode responder as minhas perguntas, tanto faz. O que importa é o que eu farei depois com as imagens que consegui aqui. É assim que as coisas funcionam, Mulher-Maravilha. — Você é sujo! — Obrigado — Marcelo Siqueira fez uma reverência. Pigarreou e se voltou para o cinegrafista. Disse: — No três voltamos a gravar. Um dois...


CAPÍTULO 8 Gilda me mostrou em seu celular uma reportagem especial sobre mim, exibida no programa televiso de Marcelo Siqueira. Ouviram meus vizinhos que disseram nunca suspeitarem de nada; mostraram os testes realizados em meu sangue e juntaram depoimento de especialistas. As probabilidades eram infinitas, diziam, supervelocidade, cura instantânea para todas as doenças e juventude prolongada. Opiniões tendiam a concluir que o meu caso se tratava de mutações celulares causadas por um elemento externo. Qual elemento externo? O que eu estava fazendo naquela cidadezinha do interior do Estado de São Paulo? A reportagem terminava assim, mas prometendo manter os telespectadores informados. — Logo ele vai estar trabalhando na Globo, não acha? A ironia de Gilda não foi pior do que os dias de visita seguintes. Multidões tumultuavam a entrada da penitenciária. O motivo? Queriam me ver, pedir ajuda. Por causa do tumulto, as visitas foram suspensas até segunda ordem, o que gerou tensão no presídio, fazendo com que Gilda informasse a situação aos seus superiores e pedisse reforço. Minha advogada apareceu na penitenciária para me atualizar sobre o processo. Foi logo me advertindo:


— Que ideia foi aquela de dar entrevista? Nossos pedidos de liberdade foram negados. Está um inferno lá fora, a cidade cheia de curiosos. — Eu não dei entrevista. Ele entrou aqui e me filmou. — O fórum está um caos, já que o juiz se tornou uma celebridade. O promotor, o seu namorado, a doutora Meire, todos estão em evidência por sua causa. — Até a senhora? — Eu só quero fazer o meu trabalho e receber meus honorários. Concordei. Ela continuou: — Escute, levei o seu caso a pessoas importantes. Gente que pode fazer alguma coisa. Aguente mais uns dias. — Está bem, obrigada. — Tente não fazer bobagens. Minha mãe estava prevendo o que viria a seguir. Naquela tarde ouvi passos apressados no corredor da minha cela. Aproximei-me das grades e pude ver Benedita, ofegante. Trêmula, enfiou a chave no cadeado da minha grade e abriu a porta: — Elas pegaram a Gilda e outras policiais.


Inicialmente não compreendi o que a carcereira queria me dizer. Foi preciso que ela repetisse com mais calma. Manuela havia organizado uma rebelião na penitenciária por conta da suspensão do direito de visitas. No pavilhão destinado à visitação, as presas haviam queimado colchões, agredido detentas de facção rival. Gilda foi ter com elas e acabou sendo rendida. — Você tem que fazer alguma coisa — ela finalizou. Eu não tenho. Não é minha culpa o mundo ser como ele é. Não consegui dizer isso à Benedita. Corri até o pavilhão da rebelião e o que vi me deixou assustada. Muitas presas estavam aglomeradas atrás de um monte em chamas, ao passo que pequenos grupos se estabeleciam nos telhados, balançando lençóis como bandeiras. Afastados, identifiquei alguns policiais que estavam em alerta. Aproximei-me deles, identificando Rita: — O que vai fazer? — perguntei. — Estamos esperando reforços e uma equipe de negociação. Veja bem, eu não queria me meter nos assuntos de Gilda, mas me sentia responsável. E se a matassem? Ou pior, se matassem várias pessoas? O caos completo parecia iminente. E se eu agisse e piorasse as coisas?


— Eu vou falar com elas — disse à Rita. — Tome cuidado. Aproximei-me do grupo de Manuela. Ela tinha o braço em volta do pescoço de Gilda e uma arma apontada para a cabeça da diretora. — O que vai fazer? — ela me perguntou assim que me viu. Gilda me olhava com fúria. Estava com o rosto machucado, o nariz sangrando, mas a cabeça erguida. Respondi: — Só quero que pare. — Vem me fazer parar. — Já fizemos isso antes... — Tem razão. Você não é grande coisa. Uma corrida com o máximo de velocidade que posso imprimir? Eu seria mais rápida do que uma bala que sairia do cano de um revólver encostado na cabeça de alguém? Difícil. — Ofereço-me para fica no lugar dela — abri os braços, sugerindo rendição. — Eu não te quero como refém. Quero te matar — ela apontou a arma para mim e puxou o gatilho.


A explosão, o avanço lento do projétil. O mundo havia desacelerado enquanto o meu coração fazia o inverso. As pernas se firmaram sob solo e mesmo de sandálias, disparei. Desviei do projétil e empurrei Manuela. Ela foi lançada para longe por causa da força de minha aceleração, rolando pelo piso cimentado por vários metros até parar, inconsciente. Estendi a mão para Gilda, enquanto as outras detentas ainda tentavam entende o que estava acontecendo. — Obrigada — ela sussurrou. — Vou te levar para um lugar seguro. — Não, isso não acabou. Enquanto estava distraída, uma presa me agarrou pelo pescoço. Outra me segurou pelo braço direito e uma terceira pelo esquerdo. A quarta veio com um ferro de ponta e o enfiou várias vezes em minha barriga. As feridas se abriram em vários lugares até que os golpes cessassem. Senti dificuldade de respirar, as pernas se dobraram, a vista turvou e o sangue quente escorreu pelas minhas mãos que tentavam cobrir o ferimento. As minhas agressoras sabiam que eu estava morrendo, eu achei que ia morrer. Gilda que a este tempo tinha recuperado sua arma, atirou contra o aglomerado de mulheres, uma delas tombou, consegui me soltar, corri para longe.


Outros policiais se aproximaram com rifles em punho, mas eu não pude ver o que fizeram para conter a rebelião, já que perdi a consciência.


CAPÍTULO 9 Acordei com o som da borracha do rodo contra o piso. — Onde estou? — indaguei à mulher que limpava o meu quarto. — No hospital. Então, eu não sou invulnerável, pensei enquanto conferia a agulha presa em meu braço direito. Sabia que seria um problema tirá-la de lá. Um homem negro, alto, de camiseta branca e jeans abriu a porta. — Oi — disse-me Felipe. — Oi — respondi, tentando disfarçar a alegria em vê-lo. — Como se sente? — Bem. — Que bom. A enfermeira me disse que chegou aqui muito fraca, como se tivesse passado vários dias sem se alimentar. — Foi um acidente na penitenciária, acho que sabe. Ele concordou. Conferiu a bolsa de soro ao lado da minha cama e disse:


— Tantas coisas aconteceram depois do dia em que terminamos... Então terminamos mesmo? — Conte-me — eu me ajeitei na cama. Ele sorriu e começou a falar que havia conseguido vários patrocinadores para o seu trabalho social no bairro pobre da cidade; que era conhecido como “o namorado da “super-heroína do interior de São Paulo”. Recebera convites para entrevistas e artigos, oportunidade em que falava bem de mim e do meu apoio às causas sociais. — Estamos ajudando pessoas, Verônica, não é incrível? — Você está usando nossa popularidade para o bem. Eu não tenho nada a ver com isso. — Tem sim. Existindo, você já ajuda. Soube o que fez na penitenciária, foi um ato heroico. Não, não foi, mas eu não quis decepcioná-lo. — Eu só quero que as coisas voltem ao normal. — Bem, em relação à saúde o médico me falou que tudo está normal. Posso te pedir um favor? Podemos tirar algumas fotos juntos? — Claro. Ele se aproximou de mim e tiramos algumas fotografias. Depois veio o silêncio constrangedor. Algo


entre nós havia se partido e eu sabia o que era, chama-se confiança. Eu menti para Felipe. — Eu tenho que ir — ele me disse. — Está bem. — Não vou te abandonar. Forcei um sorriso. Ele se foi. O médico veio me ver pouco depois, explicando-me que eu estava bem, mas seria mantida ali por alguns dias em observação. Apesar de longe do cárcere não pude me desvencilhar das consequências dos meus atos. Recebi uma nova intimação dessa vez para prestar depoimento à polícia sobre a rebelião. — Que aconteceu lá? — perguntou-me Meire, na oportunidade em que compareci à delegacia. Expliquei-lhe o ocorrido. — Ok, eu vou arredondar isso aqui para não dar outro processo nas suas costas. Daqui você vai voltar para a cadeia, mas não se preocupe, será só para se despedir. Eu não compreendi bem o que Meire insinuou, mas logo suas palavras fizeram sentido. Chegando ao presídio, fui levada diretamente à sala de Gilda. A diretora parecia inquieta:


— Acho que é a última vez que nos vemos, então preciso te falar uma coisa. Fiquei de frente a ela, esperando por suas palavras. — Quero que me desculpe — ela continuou. — Você salvou minha vida. — Também salvou a minha. Estamos quites. Foi a primeira vez que vi a diretora sorrir. A porta se abriu e Rita acompanhou duas pessoas a entrarem e se sentaram nas cadeiras ao meu lado. — Eu disse a ele que você estaria disposta a ajudar, este é o General Lacerda — minha mãe e advogada começou. A doutora Valéria me explicou que havia sugerido um acordo no qual eu seria colocada em liberdade se aceitasse os testes científicos. Liberdade monitorada, mas já era alguma coisa. O homem fardado falou: — Valéria me contou do seu caso, está mesmo disposta a colaborar? — Eu farei o que minha advogada achar melhor. O homem do exército apontou minhas algemas e Gilda entendeu o que deveria fazer. Saí do presídio logo depois. O sujeito que ordenou minha soltura tinha uns sessenta anos, quepe junto aos olhos, barba bem-feita, postura correta. Enquanto dirigia me disse que era General


da Divisão Especial do Exército. Eu pouco compreendi, mas estava feliz. Finalmente estava livre. A sensação de recuperar a liberdade é singular, quem já esteve preso sabe do que estou falando. Você nota que todos os problemas que tinha antes da prisão são ínfimos, comparados ao cárcere. Enquanto estive presa, ainda que por pouco tempo, fui isolada do mundo, das horas, das notícias e da vida. Era outra dimensão, com suas próprias regras. Notei que minhas companheiras de cela chegavam ao presídio ainda sob efeito do mundo lá fora e até tentavam contagiar as que já estavam ali há tempo, mas com o passar dos dias, acontecia o contrário: elas se adaptavam àquela realidade angustiante e não tardavam a entrar em conflito com outras presas. Todo animal enjaulado fica violento, não é diferente com o homem. As presas faziam café com uma resistência de chuveiro, conseguiam fermentar o arroz para fazer bebida alcoólica, mas nada disso surtia efeito. Queriam voltar à realidade, sentir novamente que faziam parte de algo, não que eram colocadas de lado, como as cartas de um baralho que não são usadas em um jogo. Eu estava de volta ao mundo, mas o mundo não era mais o mesmo que eu havia deixado. Soube quando cheguei em minha casa, o prédio do Sebo no Centro da cidade. Uma das portas de metal tinha sido arrombada, meus livros revirados, roubados. Pelo chão havia páginas arrancadas, discos quebrados e pedaços de madeira. Abaixei-me e vi um pedaço da capa do primeiro LP do Tim Maia de 1970, lançado pela Universal, o que me encheu de tristeza.


Aqueles pedaços de vinil eram deste disco? Os passos do general, sobre os cacos doíam como se estivessem pisando em meu coração. — Viemos aqui apenas para que pegue o que acha importante, tenho um novo lar para você — disse Lacerda. Eu quase escutei a música “Coroné Antônio Bento” do disco perdido mencionado há pouco, enquanto o general me explicava questões básicas do acordo que tínhamos celebrado. — Vamos abafar o caso. Entenda, não tem como você viver aqui. Eu assenti, enquanto agarrava alguns livros e os devolvia à estante. Voltei-me para Lacerda e pedi para ele zelar por minha casa. — Um dia eu vou voltar — disse a ele. — Ei, temos que acertar os meus honorários! — a doutora Valéria entrou na conversa. — Tem razão — respondi. — Coronel Lacerda, poderia me dar licença, por favor. — Seja rápida. Não quero que as pessoas descubram que estamos aqui. Já pensou no tumulto? — Está bem — respondi ao homem do exército.


Eu estava atrás do velho balcão que sempre usei para vender minhas revistas e discos. Em minha frente, olhando-me fixamente, a doutora Valéria. Ela já havia me dito para voltar no tempo, impedir o raio de atingir sua filha. Contou-me que quando viu a menina no hospital, ela parecia dormir. Só não estava porque os órgãos vitais dentro dela tinham explodido. Morte instantânea, mais rápida do que se possa perceber, se isso servia de consolo. — Sinto muito. — Você já disse isso. Só que ninguém sente mais do que eu. Ninguém sabe o quanto me arrependo por não ter passado mais tempo com minha filha. — Sua filha sentiu muito sua ausência. Ela ainda sente... Todos os dias em que alguém entrou por aquela porta, imaginou você chegando. Pensou em te procurar por muitas vezes, mas não teve coragem. Como se explicaria? Como suportaria a rejeição se algo desse errado? Ela é uma mulher que tem defeitos como todo mundo, mas um em especial chama atenção: é o de ser covarde. Não é por isso que ela está nesta situação? Valéria ajeitou os óculos e me observou nos olhos. Respondeu: — Não estou entendendo. Gesticulei negativamente. Abaixei a cabeça e disselhe: — Não há ninguém na sepultura de sua filha.


— Está me dizendo que durante todos estes anos eu visitei um túmulo vazio? — Eu sou sua filha. — Que brincadeira é essa? Não, não é brincadeira, é crueldade! Você me usou todo esse tempo para se safar da cadeia e agora inventa uma história absurda dessas! — É verdade, mãe — esta última palavra saiu vacilante. — Queria que as coisas fossem diferentes, mas não posso mudá-las — lágrimas molharam o meu rosto. — Pare! Eu vi minha menina ser velada e enterrada! Pessoas não ressuscitam! Morre-se apenas uma vez! Não se cresce da noite para o dia! — Cresci quando ganhei os poderes. — Cale essa maldita boca! — minha mãe me respondeu, agressiva. Lacerda pigarreou, já de volta ao salão do Sebo. A doutora Valéria enxugou as lágrimas, era uma pessoa que não gostava de demostrar sentimentos. Recompôs-se e falou: — Vou checar o túmulo de minha filha e se você o vilipendiou vai pagar caro! — afastou-se. Doeu vê-la partir. Nossa relação de advogado e cliente tinha chegado ao fim sem que ela recebesse os seus honorários e eu tivesse minha mãe de volta. Ambas não conseguimos o que almejávamos, ainda que um peso


grande tenha saído das minhas costas. Agora ela sabia, mas não acreditava que sua filha estava viva, embora não fosse mais uma menina de treze anos. Depois da despedida frustrada segui meu destino com o general Lacerda e seu carro preto. Viajei no banco de trás do veículo espaçoso e climatizado. O homem não era de muitas palavras, mesmo eu tentando puxar assunto, pouco me adiantou sobre o futuro. Futuro, mal sabia o que me aguardava. A viagem foi demorada, de modo que adormeci e acordei por várias vezes durante o percurso. Paramos duas vezes para higiene e alimentação, oportunidades em que procurei me localizar, mas sem sucesso. Chegamos já de madrugada no Complexo Militar que me serviria de abrigo. Lacerda conversou com alguns soldados, obteve permissão de entrar comigo no Complexo. Conduziu-me por entre os pavilhões até o Laboratório, onde uma equipe de pesquisadores me aguardava ansiosa. Eram duas mulheres e três rapazes, especialistas em genética. — Você ficará aos cuidados da equipe da doutora Noêmia a partir de agora. Ela providenciará um local confortável para sua estadia. A única condição para que as coisas fiquem bem é a de que colabore com os estudos da equipe, entende isso? — Sim — respondi a Lacerda. — Ótimo. Tenho que ir, mas volto assim que puder. — General, por quanto tempo ficarei aqui?


Ele interrompeu os passos que já tinha iniciado. Voltou até mim e respondeu: — Pelo tempo necessário. As pessoas precisam esquecer o que aconteceu. Bem, aquilo fazia sentido. Ingênua, acreditei que eles queriam o meu bem. Sorri e disse-lhe: — Obrigada. Ele deu de ombros e se afastou.


CAPÍTULO 10 A primeira coisa que fizeram em mim foi uma bateria de exames. Viraram-me do avesso, analisando cada parte do meu corpo. A doutora Noêmia não falava comigo, tratando-me como um objeto a ser estudado. Era uma mulher de uns quarenta anos, extremamente magra e de nariz exagerado, cabelo castanho-claro preso em um coque rígido e que trajava um jaleco branco bem cuidado por cima de uma calça social. Nos pés sempre tinha sapatos de salto. Sua assistente direta, a doutora Carmem, era mais jovem, obesa, baixa com os cabelos curtos tingidos de vermelho. Vestia jeans e o jaleco, este amaçado, o que lhe dava um contraste interessante quando vista junta da chefe. O outro membro da equipe, o doutor Matheus, era um negro forte, alto e de óculos e barba, ficava mais nos computadores do que perto de mim. Os gêmeos Cosme e Damião eram os mais jovens do grupo. Era deles a reponsabilidade de lidar diretamente comigo, ou seja, me instruir sobre os exames, me preparar para eles e me buscar no meu quarto. Eu nunca sabia com qual dos dois estava lidando, pois além da mesma fisionomia, tinham ou fingiam a mesma personalidade. Tanto Cosme quanto Damião eram loiros, cabelos compridos e rosto limpo, olhos verdes e corpo “normal”. Vestiam branco da cabeça aos pés, o que era estranho. Por falar em quarto, instalaram-me em um alojamento de 10 metros quadrados, com banheiro azulejado e chuveiro simples. O quarto era preenchido com


uma cama de solteiro, um guarda-roupa simples, uma cômoda de metal com uma televisão de quatorze polegadas. O local era praticamente dentro do laboratório, monitorado por câmeras de segurança. Sobre a vigilância, fui informada de que no banheiro não havia câmeras, a fim de garantir minha privacidade nos momentos de higiene. Depois de um tempo, os testes avançaram para minha regeneração instantânea. A descoberta gerou calorosos debates. — Então a supervelocidade é geral? — perguntou um dos gêmeos. — É o que parece — respondeu Carmem. Soube que eles me classificaram como um espécime humano alterado geneticamente. Concluíram que o meu DNA mutante pode ser reproduzido em laboratório. O plano era mesmo este, reproduzir a minha genética e fazer dinheiro com isso. — Pense no câncer, por exemplo — falou Noêmia. — Uma cura com essas células regenerativas não seria vantajosa? Todos concordaram. As possibilidades eram inúmeras e os exemplos não paravam se surgir: vacinas, tratamentos, cosméticos, enfim, variáveis que perpassavam pelo campo da saúde propriamente dito e iam até a estética, tudo com o intuito de aumentar a qualidade de vida das pessoas. Entretanto,


quando o estudo foi apresentado a Lacerda e sua equipe eles não se mostraram impressionados. Foi um dos gêmeos que me contou que o general mandou trabalharem com outro ponto de vista. — Use o estudo para criar algo que prolongue a vida, não que cure doenças. Se o paciente é curado ele não vai mais comprar remédios — foi isso que Lacerda disse à doutora Noêmia. Remediar, doutores, remediar. Era essa a política do misterioso general. Seria ele mesmo um membro do exército? Aqueles cientistas seriam, também, funcionários públicos? Onde, afinal de contas eu estava? Lacerda veio me visitar dias depois do episódio do remediar. Ele estava sozinho e vestido com o seu traje militar. O quepe debaixo do braço enquanto esquadrinhava os meus aposentos. Chegou a comentar que o local parecia aconchegante, só deu falta de cadeiras. Recusou-se a sentar na cama e conversamos em pé mesmo. Ele começou: — Seu processo foi arquivado — mostrou-me uma folha de papel. — Como? — indaguei-lhe antes de ler as informações. — Achei que ficaria feliz. A partir de hoje é uma nova mulher, sem crimes, sem passado.


Ele se esqueceu de dizer “sem futuro”. Não compreendi de imediato o que tinha acontecido ao ler a decisão final do juiz. Ele teve que me explicar: — Arrumamos outro juiz e um dublê para você. Fizeram novos exames, deu tudo normal. Plantamos informações de que tudo aquilo era uma grande mentira com o intuito de dar visibilidade a sua cidadezinha. Então, tudo foi resolvido e Verônica Albuquerque Gonçalves foi inocentada. Seu amigo Marcelo Siqueira ficou decepcionado. — Está dizendo que posso voltar para casa? Que maravilha! — Estou dizendo que logo você poderá. Já limpamos a sua barra, falta a sua parte no acordo. — Ei, já fiz o que me pediu. — Escute, tudo é muito recente ainda. A dublê precisará de tempo para convencer as pessoas daquele fim de mundo em que você vive de que é uma pessoa normal. — Minha mãe, quero vê-la. — A doutora Valéria? — Sim. — Posso providenciar isso se você colaborar. — Está bem.


CAPÍTULO 11 Um mês depois daquela conversa, a doutora Valéria visitou o meu quarto no complexo militar, trazida por um dos gêmeos. Ela se sentou na beirada da cama e fitou as paredes. — Acho que falhei com você — começou. — Como é? — Ainda não consegui sua liberdade — ela olhou para a câmara no canto da parede. Observei o mesmo local e respondi: — Não se preocupe, eu estou bem. — Tenho certeza que sim. Fui orientada a não lhe dizer o local em que estamos, atualizá-la dos acontecimentos. — Eu só queria te ver mais uma vez. — Eles queriam confirmar se sou sua mãe. Fizeram exames, acho que posso te contar — lágrimas se juntaram nos olhos de minha mãe. Meus olhos também ficaram úmidos, enquanto concordava. Continuou:


— Não lhe parece familiar estarmos nesta situação? Dessa vez, no entanto, não somos mais cliente e advogada. Eu sabia lidar com você antes, mas agora... — Um abraço é um bom começo. A doutora Valéria me abraçou. Senti o seu perfume o cheiro familiar de seus cabelos. Há quanto tempo não toco minha mãe? Apertei-a contra o peito, desejando que aquele momento durasse para sempre. Nada dura infinitamente. Ela se afastou e falou: — Agora que as coisas foram esclarecidas, conversarei com Lacerda sobre o seu caso. Na medida do possível tudo será como antes. Deus, quem estou querendo enganar? Eu serei uma mãe presente dessa vez, mesmo que tenha que esconder o fato das pessoas. Cosme ou Damião retornou aos meus aposentos e esclareceu que estava marcado para aquela hora um teste de habilidade na pista de velocidade. Pedi a ele que me desse mais alguns minutos com minha mãe, mas ele desconversou e negou. Valéria me pediu calma, logo tudo seria resolvido. Ela deixou o meu quarto e o complexo. Contudo, não tive mais notícias de minha mãe. Pedi informações aos cientistas que cuidavam de mim, mas eles se negavam a me atualizar. Exigi uma audiência com Lacerda e eles prometeram consegui-la para os próximos dias. Isto não aconteceu.


Com o passar dos dias, a equipe de cientistas foi mudando de ânimo. Até mesmo os gêmeos que sempre foram maleáveis, já não brincavam como antes. Falavam comigo, apenas o necessário, o que foi me deixando aflita. Passava mais dias enclausurada em meu quarto e quando saía para os exames, quase ninguém dialogava comigo. O que estava acontecendo lá fora? Um dia eu escutei algo que me fez repensar o meu papel no mundo. Ouvi Carmem dizer que estavam desenvolvendo uma arma biológica. Ela tentou abafar o caso, justificando que o termo fora mal-empregado. O que ela queria dizer é que estavam desenvolvendo uma arma para o sistema imunológico: uma arma biológica. Como todo bom cientista, Carmem era péssima com mentiras. Depois disso minha imaginação fez o resto: meus genes sofreram mutações que me deram habilidades sobrehumanas. Se alguém conseguisse provocar a mesma mutação e aplicar nas pessoas, o que aconteceria com elas? As deduções me deixaram nervosa. Por causa de mim, um exército de supersoldados poderia ser criado e usado para matar pessoas ou conquistar território. O conselho de Meire aflorou em minha mente. Cosme e Damião sempre foram displicentes ao destrancar a porta. Penso que agiam assim por me imaginarem como aquele elefante amarrado ao pé de uma cadeira de plástico. Naquela manhã, assim que a porta foi destrancada e o gêmeo cientista avançou calmante em minha direção


olhando-me fixamente nos olhos, eu desapareci usando supervelocidade. Acho que demorou um pouco para o cérebro treinado de Cosme ou Damião entender o que havia ocorrido, pois só mais tarde o alarme soou estridente. A voz era da doutora Noêmia nos autofalantes do complexo. — Código alfa, o espécime fugiu, Alerta geral em todos os pavilhões. Medidas hostis de contenção necessárias. Acelerei pelos corredores da instalação militar até me deparar com alguns soldados. Ao me identificarem, eles atiraram, mas pude me desvencilhar de todos os projéteis. Avancei novamente e comecei a empurrá-los com a força da aceleração, torcendo para que as quedas não fossem letais. Um tiro acertou o meu joelho e me fez cair em supervelocidade, machucando-me bastante. No chão, fui atingida mais algumas vezes, o que me fez procurar abrigo. Sob a chuva de balas consegui me esconder atrás de uma pilastra de ferro e esperei o meu corpo fazer o trabalho dele. Depois, avancei novamente, deixando aquele corredor perigoso. Já distante dos soldados algo me fez desacelerar novamente, era Matheus em um corredor qualquer do complexo. — Não faça isso — ele gesticulou calma. Eu estava ofegante, apavorada e com a roupa rasgada por causa da queda no corredor anterior.


— Tudo isso está errado — respondi. Ele continuou: — Talvez, mas não é assim que você vai resolver as coisas. Pense nos avanços que estamos tendo estudando você. Quantas vidas poderão ser salvas. Não jogue isso fora. — Eu ouvi a palavra arma e isso é suficiente para eu não concordar com você. — Não tem como evitar o uso do conhecimento em todas as áreas. Deve pensar no bem que fará e esquecer o resto. Apontei para ele e fiz algo que eu jamais havia feito até então. Gritei com alguém: — Vá para o inferno, Matheus. Desapareci, utilizando a velocidade mais uma vez. Eu perpassei por aqueles longos corredores por inúmeras vezes, deparando-me com soldados armados que me procuravam. Quando eu diminuía o ritmo por causa da presença deles, conseguiam me ver e atiravam mesmo sabendo que eu podia me desviar dos projéteis; podia acertá-los. Nos olhos dos homens de Lacerda era visível o pavor por enfrentarem algo que estava além de suas capacidades. Eu não seria desatenta dessa vez. Afastei-me. Resolvi procurar pela saída, o alarme continuava audível, atrapalhando o meu raciocínio.


Comecei a testar todas as portas, a fim de encontrar uma destrancada. Depois de mais ou menos dez, achei uma. Entrei. Era um escritório, havia alguém com os cotovelos sobre a mesa. O quepe militar descansava sobre a superfície. — Contaram-me que queria me ver, não acha curioso nos encontrarmos assim? De todo modo, penso que merece a verdade. Será a última coisa que lhe darei. Lacerda. O homem continuou: — Não somos o Exército, acho que já percebeu. Embora possamos facilmente nos passar por miliares, somos uma empresa sem nacionalidade, ou filiações políticas que desenvolve e vende tecnologia. Os nossos parceiros comerciais nos conhecem como Copas. Procuramos desenvolver armas, remédios, equipamentos que possam ajudar países ou pessoas a conquistarem seus objetivos. Estávamos tentando ajudá-la verdadeiramente, senhorita Verônica, mas acho que não entende assim. — Quero sair daqui! — Sei que quer. Sua mãe também quis, o que foi uma pena. Eu gostava verdadeiramente dela. Entenda, mas uma vez que você a quis aqui e confirmado o parentesco, tive que encobrir rastros. Sou bom nisso, não se lembra do seu processo?


— Seu desgraçado! — avancei em direção ao “general” e o agarrei pelo pescoço. Senti uma grossa cicatriz entre os meus dedos, mas ele nem se moveu. Por que eu não tenho superforça para matar este maldito? Apertei com toda a minha força o pescoço de Lacerda enquanto ele continuava inerte. Afrouxei os dedos ao perceber que não teria sucesso, dando-lhe a oportunidade para atacar. Com habilidade, ele me deu uma cabeçada. Afastei alguns passos, o general subiu na mesa, me deu uma poderosa voadora, arremessando-me ao chão. Que técnica era aquela que superava os meus poderes? — Lamento profundamente que terminemos assim — Lacerda sacou uma faca da cintura —, mas já temos tudo o que precisamos de você, de modo que é inútil mantê-la viva. Eu me levantei e encostei as costas na parede, ofegante. O sangue parou de escorrer do meu nariz. — Eu vou acabar com você — ameacei. — Não vai. É apenas uma criança. — Não hoje — avancei até a porta e deixei o escritório de Lacerda. O general não se mostrou preocupado com minha fuga, já que sabia que não tinha como alguém escapar do complexo. Eu não pensava nisso, queria sumir, chorar a morte de minha mãe. Então, corri pelo corredor metálico,


imprimindo aceleração máxima. Ganhei as dependências da pista de teste de velocidade, local em que poderia correr em círculos. Descrever o que houve depois é complicado. A velocidade foi aumentando, aumentando até o ponto em que perdi a noção de mim. Sim, eu já não conseguia me identificar, pensar com clareza. Era como se estivesse fragmentada e pudesse estar em todos os lugares. Entendi que havia alcançado um estado de onisciência por toda a minha vida, mas sem uma âncora. Quero dizer que eu podia ver tudo, desde a minha primeira lembrança até aquela corrida, meu último momento. Vejo o dia do acidente. É uma tarde chuvosa, eu estou voltando para casa de bicicleta depois da ida ao dentista. Não há mais ninguém nas ruas por causa da tempestade que se aproxima. As árvores balançam com violência, o vento levanta poeira e lixo ao longo do meu caminho. A bicicleta cor-de-rosa vai rápida, já que emprego toda a força que uma garota de treze anos pode ter para pedalar e evitar que a chuva forte me alcance. Escuto os trovões. Poeira continua a se levantar das ruas sujas e raios racham os céus, mas ainda não chove. A escuridão obriga os postes a se acenderem, observo enquanto corto caminho pelo Parque da Lagoa, pois aquele local público de muitas árvores serve de atalho de um quarteirão a outro da cidade.


Entro pelo portal de ferro enferrujado e aproveito a descida antes de ganhar as dependências de uma estrada de terra. Sinto meu corpo ser atingido pelas primeiras gotas de chuva quando o relâmpago turva minhas vistas. O barulho, a violência com que sou arrebatada, dor? Nunca soube explicar aquele momento, afinal tudo é muito rápido e meu cérebro não pode acompanhar os acontecimentos. Acordo no cemitério dentro do meu próprio caixão. — Bem na hora, não é? — o ser que me desenterra fala ao abrir a tampa do pequeno caixão branco ainda dentro da cova de cimento. Estou confusa, respiro com intensidade. Minha salvadora estende a mão e me ajuda a deixar a cova, mas as pernas não funcionam direito. Caio de joelhos, levanto o rosto e observo melhor quem me salva. Ela veste um uniforme de faxineira azul-marinho-desbotado e um crachá do lado esquerdo do peito com os dizeres: Clarice de Souza. Fala: — Eu estava lá quando seu corpo chegou. Precisava dele para um, como vocês chamam? Ela procurava as palavras “trabalho acadêmico” para dizer. — Esqueça, eu não me lembro do termo — continua. — Deixa eu te explicar uma coisa o meu DNA não foi feito para se misturar ao dos seres da sua espécie, é uma gambiarra, não é assim que vocês falam? Acho que por


isso o seu corpo mudou, mas fique tranquila é só uma vez. Bem é o que a teoria diz... Observo minhas mãos trêmulas. Elas me parecem maiores. Então, noto as pernas, os seios. O vestido branco rasgado. Eu havia crescido. — Como eu disse, bem na hora! Mais um pouco e você ia mudar dentro do caixão e teríamos um problema. Sigo para o meu primeiro beijo em Felipe. Como eu estou nervosa, nunca havia beijado antes. O dia do exame de sangue, a chegada da polícia, o confronto com Lacerda. Tudo de novo, infinitamente. Assisto ao ser que me deu os poderes me desenterrando. Ele para por um segundo. Sabe que eu estou ali? Eu não posso parar. Então, uma mão agarra o meu punho e me puxa. Caio. — Bem na hora — é Clarice.


PALAVRA DO AUTOR Caro leitor, você acaba de conferir o resultado de muitos anos de empenho. Sim, estruturar este conto de super-herói levou tempo, embora a ideia me fosse familiar desde o princípio. Foram várias tentativas, começos, recomeços, fragmentos e desistências. Em 2006 iniciei meus estudos na IDE Escola de Artes de Campinas com o professor Theo, um grande mestre é preciso que se diga. No curso de desenho, chegamos a uma aula de criação de personagens e roteiro para uma história de quadrinhos, cuja ocasião criei Mercúria a personagem que mais tarde veio a ser a protagonista desta história. Ali também esbocei alguns outros personagens, mas apenas Clarice sobreviveu até este livro. Na história “original” Mercúria era o codinome de herói de Verônica e sua saga era bem diferente desta que tens em mãos. Lá ela seria uma super-heroína nos moldes dos quadrinhos que conhecemos, com uniforme e identidade secreta, orientada por um mentor, uma heroína anterior (Clarice). Os poderes eram os mesmos, mas conseguidos de outra maneira. O roteiro dizia respeito a um encontro da personagem com uma rival (eu ainda tenho este roteiro, embora incompleto). Depois resolvi aproveitar a personagem em uma produção literária, intitulada Superpoderosa, uma história dividida em temporadas, publicada na internet de 2012 até


2014. Cheguei a expor duas temporadas nas quais víamos a personagem Mercúria/Verônica atuando como uma superheroína de uma cidade fictícia chamada Santa Paz (esta cidade também é o cenário do roteiro de 2006). Nesta história já introduzo personagens importantes para este livro “V de Verônica”, como a delegada Meire, a doutora Valéria e Felipe. A relação da personagem central com sua mãe foi inicialmente criada nesta saga e a figura de mentor que havia sido conferida à Clarice, foi mantida, embora a personagem estivesse morta desde o início da história. O leitor ainda pode encontrar estes escritos pela rede mundial de computadores e se sentir curioso a comparar a versão com a deste livro, terá elementos para tanto, mas minha intenção com este texto é apenas contar como a saga de Verônica foi se transformando ao longo dos anos até chegar ao ponto que tens em mãos. É a última? É a correta? Superpoderosa não terá continuação? O leitor terá que me desculpar por não poder lhe responder estas perguntas, já que o ofício de escrever é deveras incerto, lentamente edificante, destrutivo algumas vezes, visando a produção de algo que nem sempre é pronto e acabado, mas ainda assim, algo que pode servir à alguma coisa (ou não). Não me faço claro, sei bem. Assim é o que ocorreu com esta história em sua totalidade, muitas vezes contada e mudada. Vendo desta posição é compreensível que o enredo de V de Verônica comporte realidades alternativas. Agora passo a discorrer um pouco sobre esta história. Este conto é uma saga fechada. Não se fazendo necessário a leitura de quaisquer outros escritos para sua total compreensão. O leitor que é observador notou que o


livro tem uma linha do tempo não convencional. O que num primeiro momento se entende por começo vem no fim e o fim foi apresentado inicialmente. Isto foi proposital para reforçar a ideia de amadurecimento e recomeço que a história possui, além de conferir dinamismo à obra. Como se vê, V de Verônica é narrado pela própria personagem principal. Apesar disso, a narrativa é objetiva, havendo momentos pontuais para divagações (o fim, por exemplo). Inicia-se com a prisão da personagem e diferente do que se espera, ou seja, revelar como aquilo se deu, a personagem conta a sua estadia na delegacia, a primeira audiência do processo e sua transferência ao presídio feminino. Os motivos que ensejaram o cárcere até são revelados no começo, mas não possuem destaque, já que a ideia que norteia toda esta produção, diferente das outras histórias envolvendo a personagem, é a de responder aos seguintes questionamentos: se você tivesse superpoderes, faria o que com eles? Usaria suas habilidades sobre-humanas para ajudar outras pessoas? Seria obrigado? Conversando com amigos e indagando-lhes sobre estas perguntas colhi conceitos interessantes sobre bem e mal, certo e errado. Em suma o necessário para rechear este enredo. O cenário, por sua vez, deixou de ser uma cidade totalmente fictícia para apresentar um local mais regional. Eu diria que a cidade em que os fatos ocorrem seria uma mistura de Mogi Guaçu, Mogi Mirim e Campinas, todas do interior do estado de São Paulo. As características dos personagens são inspiradas em trejeitos de pessoas reais de minha cidade.


O livro foi escrito no ano de 2017, em quatro meses, mas como dito no início, um trabalho extenso, resultado de processos que começaram em 2006. Talvez não seja, ainda, o ponto que eu quero alcançar, mas como em outras oportunidades divido-o com vocês. Atualmente é mesmo o melhor que fui capaz de fazer.


Paul Law é paulista, membro da Academia Guaçuana de Letra, advogado, professor e escritor. Autor dos livros Ester, Xeque-Mate, La Bandida, Edissa, Rainha, Estela e Por que, Pai? Homem simples que tem alma de menino e imaginação fantástica.


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V de Verônica  

Se você tivesse superpoderes seria obrigado a usá-los para ajudar os outros? Verônica Albuquerque Gonçalves, uma jovem e discreta vendedora...

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