Issuu on Google+


Paul Law

CONTOS


Paulo, Maria de Lourdes e Giovanni, meu muito obrigado, mais está vez; À minha família Miriene e Bárbara; Aos amigos fiéis de sempre e aos novos.


Apresentação

As pessoas ainda se perguntam sobre o mundo de Ester, se é possível voltar lá. A resposta,

caro leitor

é simples: é possível,

sempre que quisermos. Estes contos são relatos fragmentados de pessoas que voltaram lá e viveram grandes aventuras, tal qual a menina Ester, quando lá esteve. Passei a coletá-las e a colocá-las aqui e em meu blog, a fim de que todos possam conhecê-las. Espero que a leitura possa ser agradável e que você também possa ter sua aventura neste fantástico mundo. Se um dia isso acontecer me comunique, pois ficarei honrado em relatar sua história.


Áurea Se perguntassem para Áurea qual era sensação que ela estava sentindo naquele exato momento; se houvesse alguém ali além dela para que a pergunta pudesse ser feita, ela diria que não saberia explicar. Era diferente do que havia vivido até então, uma mistura de euforia com tristeza e medo. Tudo estava longe de lhe parecer familiar, pôde constatar com a aparição de uma mulher. Primeiro transparente, mas depois se tornou tangível: — Olá, Áurea! – Disse a mulher – Chamome Lady Morte e sou sua guia para o Outro Mundo. Estranhamente, dessa vez, Lady parecia estar de muito bom humor. Sua tradicional roupa negra tinha sido trocada por um leve vestido branco. Os cabelos enfeitados por uma fita negra estavam distribuídos em um penteado seguro; seus cachos estavam presos por um coque — Eu vi você! Esteve comigo, pouco antes de chutarem o banquinho que me impedia de ser enforcada! Depois, disso não lembro o que aconteceu...


— Isso mesmo! Estive contigo no seu ultimo momento de vida. – Lady apontou para o corpo pendurado à sua frente. Os lábios rosados da Morte se alargaram num sorriso. Até mesmo sua maquiagem forte tinha sido

abandonada.

Seus

olhos

negros

até

pareciam ter vida, dessa vez; apesar de serem duas pedras totalmente negras onde não se podia definir o que era esclera e íris. Áurea levou suas mãos até o rosto e chorou; primeiro devagar e depois forte e mais alto: — comigo!

Eu Que

não me

acredito mataram

que de

fizeram verdade.

isso —

Enxugou o pranto com a manga prata de seu vestido. Lady contorceu seu rosto numa expressão de pena: — Oh, minha criança — aproximou-se — Eles fazem isso mesmo! Matam uns aos outros e sempre me dão trabalho. Áurea

caminhou

até

seu

corpo

que

balançava com o vento. Ele estava suspenso no ar e seguro por uma corda dourada.O banquinho


que haviam chutado tinha desaparecido, assim como todas as pessoas que assistiram aquele espetáculo: — Quero reviver! Ouvi histórias desde criança de um homem que morria e ressuscitava todos os dias! É possível reviver, não é? — A jovem encheu-se de esperança. Morte lhe respondeu: — Sim, é possível. Não sou eu quem pode lhe ajudar, porque minha função é constatar o fim da vida não o contrário! — Quem pode então? — Você saberá no momento oportuno. Se deseja mesmo voltar a viver; se é essa a sua real vontade, ele virá até você! — Lady, espere! Aonde vai? Vai me deixar aqui, sozinha? — Você não quer ir para o Outro Mundo, não é? Então não tenho mais nada para fazer aqui, Áurea! Lady

Morte

desapareceu

da

mesma

maneira que havia se feito: seu corpo tangível foi ficando transparente até que desapareceu por completo.


A jovem Áurea tinha os cabelos prateados florescentes,

lisos,

que

lhe

escorriam

pelos

ombros. A pele tinha agora uma coloração brilhante-prateada. Ela havia se tornado um fantasma, como nas histórias que havia ouvido do Exército Azul derrotado pelos homens do Soberano: — Lady! Lady — gritou em vão a jovem. — Volte! — Se ajoelhou vencida embaixo do seu próprio corpo pendurado sem vida. — A Morte vem uma vez só na vida! — Quem disse isso? — Áurea se levantou veloz. Atrás da copa de uma árvore se revelou um homem de cabelos compridos. Vestia-se de colete negro e capa lhe cobria as costas. A calça preta se estendia até as botas de couro negro: — Fui eu quem disse! Áurea se mostrou impressionada: — Como pode me ver? — Ela se afastou. — Eu sou Frys, o Mágico! — Ele abriu a mão e uma rosa prateada se formou em sua palma — Qualquer um poderia vê-la, milady! — Mas estou morta...


— Ah sim, é verdade. — ele fez a rosa desaparecer — Mas tua beleza é tanta que é impossível não notá-la. Se Áurea não estivesse tão pálida, teria corado nas bochechas. — Jeito doloroso de morrer — Fryz se aproximou e tocou com a mão o pé descalço do corpo de Áurea — Lamento. Áurea fantasma abaixou sua cabeça, mas o mágico mudou de assunto: — Tenho que seguir meu caminho, bela dama! As vilas estão cheias de crianças para assistirem os meus shows! Tenho uma vida inteira para desfrutar! — Espere! Deixe-me ir contigo! Estou só e não sei para onde ir! — Teu lugar é no Outro Mundo! – Frys fez um sinal de cruz com os dedos para Áurea — Mas se não quer aceitar o fim, não me importo de têla como companhia. Áurea não disse nada. Preferiu seguir o mágico em silêncio. Só que este silêncio não tardou muito para ser quebrado por Frys. Ora ele cantava,

ora

declamava

poemas

que

não

rimavam. Vez ou outra fazia aparecer rosas na


palma de sua mão. Cada vez que fazia isso, a rosa aparecia de cor diferente. — Se eu ainda tivesse meu cavalo, poderia chegar bem mais depressa até a vila. Perdi-o na minha ultima mágica quando o fiz desaparecer! Até hoje não consegui fazê-lo reaparecer — Comentou ele. — Você é maluco! — Com todo o respeito milady, mas não sou eu que não aceitou a morte. – Sorriu ele, fazendo aparecer na palma de sua mão uma rosa amarela. Áurea preferiu não responder. Contudo Fryz continuou: — Qual é sua graça? — Áurea. — Bonito nome. — Obrigada.


Victória nem viva nem morta Estava ali, perante a porta da casa humilde em

que

Lucas

havia

passado

a

tarde

descansando, uma linda mulher de madeixas castanhas e de pele clara, vestida de ceda branca e folgada. O vento desembaraçava os seus cabelos e sua roupa branca ao mesmo tempo em que seus pés descalços tocavam aquela areia. Lucas estranhou: — Victória, não é? A

mulher

fez

uma

reverência.

Lucas

continuou: — Você não está morta? Victória deu de ombros: — Não sei mais! As vezes estou, outras vezes não! Não entendo o que me aconteceu! — Mas como pode alguém não saber se morreu? — Eu senti toda a dor de uma morte! Mas não sei se morri de verdade... — Bem, você me parece ótima agora! Sua mãe vai ficar muito feliz em vê-la! Victória correu ao encontro de Lucas:


— Você não pode contar a ela! — colocou a mão nos lábios do falso soldado — Eu não sei se estou viva! Se eu não estiver, já imaginou a tristeza de minha mãe? Ela terá a filha por algum tempo, até que descubra que eu estou morta! Ficará cheia de esperança e depois perderá toda ela de uma vez! Sua dor será imensa! — Isso é bem verdade! — Pois então! Prefiro continuar morta, para todos os efeitos! Só eu sei o quanto minha mão sofreu na oportunidade que o soldado que está estirado aí no chão, me atingiu no abdômen com seu disparo. — Então você está vingada, se isso lhe serve de consolo! Victória sorriu. Tinha um sorriso muito bonito por causa dos dentes brancos e os lábios carnudos. Seus olhos amarelados fitaram as medalhas de Lucas antes da sua pergunta: — É um soldado de alta patente, não é mesmo? — Que nada! Peguei do defunto ali! Na verdade, não sou nem soldado! Estou procurando uma pessoa! Victória não deu muita atenção:


— Leve-me contigo! Quero descobrir se estou viva para então poder voltar á minha casa e para minha mãe! Lucas olhou para os lados: — Mas e sua mãe? Ela dará falta do seu corpo, não acha? — Tenho uma ideia, escute! Eu vou voltar para a cama e fingir que estou morta. Quando minha mãe dormir, partiremos! — Está bem! Victória voltou para dentro de sua casa enquanto sua mãe e outros moradores aliviados deixavam

as

dependências

da

igreja.

Aproximaram-se de Lucas e o cumprimentaram pela vitória. Depois de explicar como conseguira vencer os inimigos, Lucas se retirou juntamente com a mãe de Victória. Quando entraram em casa, a senhora entristeceu: — Lembrei que minha filha está morta! Que amanhã terei de sepultá-la. — Abraçou Lucas e chorou. Por estivesse

um

momento,

alucinando

Lucas

Victória

pensou

que

viva;

que

provavelmente, ela nunca havia falado com ele. Cheio de dúvidas, retirou-se para dormir. A mãe


da moça ora morta, ora viva dormiria em seu quarto, enquanto o militar falso, na sala. O corpo de Victória estava repousando em seu próprio quarto. Mas Lucas não conseguiu tirar da cabeça o plano de partir dali com Victória. Tanto que não pregou o olho durante a madrugada e em dado momento, constatando que a mãe de Victória dormia profundamente, levantou-se e foi até o quarto da defunta: — Victória! — chamou baixinho — Vamos embora? Mas

não

houve

resposta.

Ainda

que

estivesse escuro, Lucas conseguiu se aproximar e colocar seu ouvido no peito da falecida. Antes mesmo de perceber que o coração não batia, ele soube que Victória estava morta por causa da temperatura gelada de seu corpo: — Mas que diabos! Eu devo estar ficando maluco!— ele gesticulou um não com a cabeça — Desde que resolvi procurar por Iara, muitas coisas estranhas estão me acontecendo... Mas não posso perder de vista meu objetivo! Victória, morta ou não, amanhã bem cedo você será


sepultada! — Deu meia volta para retornar à sua cama improvisada.


Lucas Fosse

aquela

situação

a

mais

desesperadora possível, o rapaz não se deixava abater.

Tinha

calma,

sabia

pensar,

sempre

soubera, era sua qualidade. Afinal, ele próprio quis estar ali; quis vir ao encontro de seu destino. Lucas tinha total consciência de que havia dado causa àquela situação: — Duelo? Mas como funciona isso? — disse ele ao soldado de farda esverdeada á sua frente — Eu não sei nada sobre isso que você acabou de dizer! — Ora, mas de que buraco você saiu? – Indagou-lhe o soldado robusto — Todo bom homem conhece as leis de duelo! Ainda mais agora... em tempos de guerra. — Perdão! É que eu não sou daqui. — Bem... de onde você vem, não importa! O que importa mesmo é o duelo, então vamos a ele! Para seguir seu caminho, deve me vencer! Do contrário não poderá passar! — Como funciona um duelo? – Lucas quis saber.


— É simples! Encostamos nossas costas e damos dez passos para frente. Aquele que depois dos dez passos for mais ágil em sacar sua arma e atirar no outro, vence o duelo! — Mas o que receber o tiro não vai morrer? — As vezes sim, as vezes não. Aquela esquisitice já era recebida com tranquilidade por Lucas: — Mas eu não tenho arma! O soldado suspirou. Era um homem forte de algumas rugas na cara e de rosto limpo. O quepe verde de aba negra cobria-lhe a cabeça ao passo que a farda verde contornada por uma faixa branca tapava-lhe o peito: — Te empresto a minha, está bem? – Disse o soldado. Lucas assentiu. O soldado passou para o jovem seu rifle polido: —

Faremos

agora

com

lhe

expliquei!

Conforme, as regras de duelo! Encostaram então suas costas e contaram dez passos. Quando se viraram, o soldado foi surpreendido:


— Mãos ao alto! – Lucas o ameaçou!— Vamos! Senão eu atiro! — Mas que droga! Emprestei para você a minha arma e fiquei sem! — Vamos! Tire a sua roupa! – Lucas ordenou de arma em punho. O soldado contrariado obedeceu. Tirou sua farda verde, seu cinturão de couro branco que continha

sua

espada

pendurada;

sua

calça

branca e suas botas pretas: — O quepe também! – Disse Lucas. – E as luvas! — Está bem! Mas não atire! Com a vestimenta toda depositada no chão, o soldado ficou apenas com suas roupas de baixo. A pesar da vergonha ficou até aliviado quando Lucas lhe ordenou que corresse dali. Que se voltasse, ele o mataria. O soldado quase pelado sumiu no horizonte depressa e Lucas aproximou-se da farda caída: — Agora vou me vestir de soldado e não terei

mais

problemas

com

outros

militares!

Poderei andar livremente por essas terras! Ele retirou a sua roupa e vestiu-se de soldado

esmeralda.

Seus

cabelos

compridos


foram cobertos pelo quepe verde e seus ombros largos agora eram protegidos pela farda de couro verde. As mãos agora tinham sido cobertas por luvas brancas, ao passo que os pés com as botas de couro preto. Sua calça era agarrada ao corpo e tinha a coloração branca. Lucas sorriu satisfeito. Ele era um jovem magro de pele clara e olhos castanhos. O rosto sem espinhas e barbas era fino e seu nariz um pouco arrebitado. Como alça de mochila, colocou a tira de couro de seu rifle nas costas e seguiu seu caminho. Caminhando tranquilo pelas estradas de terra batida daquela região, Lucas ia sendo acompanhado de cima pelo sol quente. A estrada reta tinha suas bordas protegidas por mourões e arame em farpado. Antes daquela estrada, ele havia passado por um vale todo gramado. No fim do gramado foi que Lucas encontrou o soldado de quem pegara a farda esmeralda. O soldado tinha lhe dito que estava ali para vigiar a divisa; que para adentrar naquelas terras, só vencendo-o, pois ninguém tinha autorização para estar ali. — O dono dessas terras, por certo é um pessoa muito malvada! - Lucas disse a si mesmo.


E continuou sua caminhada até que sua estrada reta desembocou numa pequena vila. Havia cerca de cinco casas e uma igreja ao centro. Na porta dessa igreja, Lucas notou uma aglomeração de pessoas. Aproximou-se cauteloso para ver o que estava acontecendo quando uma mulher em pratos lhe abordou: — Oh, meu soldado! Chegou tarde à nossa vila! Ela já não vive mais! Nossos inimigos estiveram aqui noite passada, você sabe, os soldados de amarelo! Eles saquearam todas as nossas casas e mataram Victória! Lucas tentou manter o seu recente disfarce de soldado: — Lamento, minha senhora! Só soubemos esta manhã do acorrido. — Venha ver minha filha agora que não vive mais! Venha vê-la para constatar a maldade daqueles homens de amarelo! – A mulher em pranto pegou Lucas pelo braço e o levou até o caixão da filha. O caixão repousava em uma mesa de cedro coberta por flores e as pessoas em sua volta pareciam rezar. Lucas se aproximou e estranhou aquela defunta. Ela parecia corada


demais para quem estivesse morta. Victória tinha os cabelos longos e castanhos claros. Eram muito lisos

e

estavam

bem

penteados.

O

rosto

branquinho e os lábios grossos, ao passo que a sobrancelhas eram largas; parecia dormir. Para tirar da sua cabeça que ela podia estar viva, Lucas retirou uma de suas luvas para checar a temperatura do corpo: — Mas ela está quente! Acho que não está morta! Exclamações se fizeram em toda a volta do falso soldado e ele continuou: — Se bem que o sol está muito quente... A mãe da menina deu a ideia: — Cheque o pulso! Veja se consegue ouvir o coração dela! — É uma boa ideia! Lucas descruzou o braço de Victória e constatou sua pulsação. Para o seu pasmo ele percebeu que

o coração

da menina estava

batendo: — Ela esta viva! O coração está batendo! Vamos! Tirem a moça desse caixão! Como vocês não perceberam que ela não estava morta?


O religioso que puxava a reza tomou a palavra: — Ontem, a menina Victória foi baleada na barriga

e

nĂŁo

resistiu

ao

ferimento,

tenho

certeza! Eu mesmo constatei que ela estava morta, estirada na areia, perto da igreja!


Miranda O barulho da água tocando algum tipo de metal ou louça, não se sabia até então, trouxe Miranda de volta do inconsciente. Seus olhos piscaram por algumas vezes durante a volta da consciência, ao mesmo tempo em que sua mente deduzia que aquele barulho, vinha da chuva que estava caindo do céu. Ventos gelados adentraram pela janela de madeira apodrecida quando Miranda se colocou sentada naquela cama envelhecida. Queria saber onde

estava,

foi

seu

primeiro

pensamento.

Posteriormente, sua curiosidade lhe levou até a janela donde fitou a garoa cair sobre a terra empoçada. Cheiro de terra adentrou pelas suas narinas

quando

ela

fitou

em

baixo

um

amontoado de pratos, talheres e xícaras, agora ensopados pela chuva: — Foi isso que me acordou! O barulho da água

nos

pratos!

Abraçou

seus

ombros

tentando se proteger do frio. Miranda resolveu sair daquele quarto e procurar algum conhecido nos outros cômodos


daquele

estranho

casebre.

Depois

da

porta

pintada de verde-abacate, a menina notou que havia uma escada de poucos degraus que não continham corrimão. Descendo pela escadaria que rangia a cada passo, a menina atingiu um saguão de piso de madeira e de sofás de bambu: — Pai? Mãe? Mas ninguém lhe respondeu. Andou mais um pouco e depois de passar por um portal largo chegou até a cozinha. Ali, Miranda pôde perceber que não havia geladeira, tampouco fogão a gás. Nem

mesmo

um micro-ondas.

Onde

estava

afinal? — Fervi o leite esta manhã! Deve estar frio, mas eu posso esquentar! – Uma voz rouca e baixinha se fez para assustá-la: — Que susto – Ela se virou – O senhor quase me matou do coração! Não ouvi os seus passos! O velho sorriu. Era um senhor de baixa estatura, de barriga saliente e de pele muito clara.

Os

cabelos

despenteados

grisalhos

passavam pelas suas orelhas grandes. Não eram compridos e nem curtos, mas davam a impressão de

que

precisavam

ser

cortados.

Os

olhos


pequenos

e

emoldurados

por

rugas

eram

castanhos e seu rosto largo era coberto por barba rala embranquecida. — Chamo-me José Mendonça! – Disse ele. — O meu nome é Miranda Albuquerque. — Eu sei. — Meu pai, não foi? Ele te contou! — Não. – Sr. José se aproximou do fogão à lenha e tocou o canecão de leite para conferir sua temperatura – Está quente ainda! — Onde eu estou? — Você chegou ontem. Eu estou aqui faz mais tempo. — Mas que lugar é este? — Eu não sei também! Um dia qualquer eu adormeci na minha casa e acordei aqui. Ontem eu vi que alguém é que me trouxe, porque vi esse alguém trazer você! — Esse alguém não falou com o senhor? E o senhor não quis saber como voltar para sua casa? — Esse alguém colocou você para dormir no quarto e quando fui conversar, ela colocou o dedo nos lábios pretos e fez o sinal de silêncio.


Por algum motivo que não sei bem, eu não disse nada. — Só pode ser algum sequestrador, Sr. José! Ele sequestrou o senhor e depois a mim! — Será? — Mas é claro! – Miranda foi até a janela da cozinha e abriu – Esse lugar deve ser algum sítio afastado! Por certo deve haver cercas altas ou bandidos vigiando as saídas! — Deve ser uma seqüestradora então... — Mas eu não vou ficar aqui! Darei um jeito de voltar para minha casa! — Miranda, espere! – Sr José andou atrás da menina que ia até a porta para deixar aquele casebre – Tome o seu leite primeiro! Miranda não deu atenção ao que o Sr. José havia dito. Ao invés pegou-o pelo braço e lhe arrastou para fora da casa. Quando pisaram na área do casebre, imediatamente a chuva cessou: — Que bom! Sem chuva fica melhor para procurarmos

pela

saída!

A

adolescente

continuou sua caminhada para fora da área. — Mas menina! Devagar! Eu sou idoso, não posso te acompanhar nesse passo!


Só que a adolescente tinha pressa em deixar

aquele

convencida

de

local que

estranho. havia

sido

Totalmente raptada,

emaranhou-se entre aquelas árvores sem um destino preciso. Seguindo em frente, encontraria a saída. Miranda não tinha se dado conta de que estava sem sapatos e os galhos secos que forravam

o

chão

machucavam

seus

pés.

Caminhava desajeitada ao lado do Sr. José Mendonça até que encontraram uma porteira de madeira esverdeada: — Aqui deve ser o fim do sítio que estamos presos! – Disse Miranda ao se aproximar da porteira – Vamos pular por ela e procurar ajuda! – Ela colocou o pé em uma das madeiras da porteira para galgar, quando uma força estranha a arremessou para trás. A menina ficou ali no chão assustada. Nunca havia sentido aquela sensação. Era como se alguém a tivesse grudado pela cintura e a jogado! — Já ouvi falar dessa porteira – Sr. José se aproximou da estranha passagem bloqueada.


Miranda

se

sentou,

ainda

tentando

entender o que lhe havia acontecido: — Não é possível! Alguém me agarrou pela cintura e me jogou com força de cima da porteira! — É um Espírito que está aí. – Sr. José disse calmamente. – Se ele não nos deixar passar, não há como sair por aqui. — O senhor deve estar brincando! Espíritos não existem! — Melhor a gente procurar por outra saída. Por essa porteira não poderemos passar. Só se convencermos o Espírito a nos deixar passar... — Não acredito nessas coisas! – Miranda se levantou decidida e foi até a porteira para tentar pular mais uma vez. Mas como da primeira tentativa, ela foi arremessada com violência para trás. O Sr. José se aproximou devagar e a ajudou a se levantar: — Vamos para o sul agora...


Diálogo da Morte com a Justiça — Sabe, Julia! O mundo as vezes é tão injusto — Disse Lady de cabeça baixa. — Sei que parece estupidez falar isso com você. Julia

Justa

escutava

com

atenção

os

dizeres de sua irmã Morte. A mulher honesta não podia vê-la. Tinha as pálpebras costuradas às extremidades

dos

olhos;

era

ouvinte

por

excelência: — Nas suas palavras eu noto aflição. Que pode curar a aflição da Morte? Que pode o justo trazer ao fim? Lady balançou sua cabeça. Dava tudo por um cigarro: — Queria justiça para os que vivem. Como sei que também precisam os mortos. — É por isso que eu existo estimada irmã! Mas como você bem sabe, tudo obedece à uma ordem de acontecimentos. O que está ao meu alcance para plantar a justiça, sabe que faço! Lady sorriu. —

Sei

insignificante...

sim.

É

que

as

vezes

parece


Julia se levantou e virou de costas para a irmã. Os cabelos alongados que varriam o chão de pedra daquela sala reluziam ao sol que brilhava pela janela: — Vê o sol? — Disse — Eu daria tudo para vê-lo. O que é insignificante para uns é tudo para outros. Foi a vez de Lady se levantar: — Até hoje não compreendi os motivos que te levaram a costurar os olhos! Eles eram tão bonitos! — Meus olhos eram humanos, irmã! Para que houvesse efetiva justiça foi preciso que abrisse mão da visão e explorasse meus outros sentidos. Foi preciso fechar os meus olhos para melhor ouvir; melhor sentir... — Isso é loucura! Seria como se eu precisasse morrer para melhor executar minha tarefa! — E você não morre a cada morte que atesta? A cada pessoa que guia? Por falar nisso que tem feito por essas pessoas? Lady se sentiu encurralada e culpada, como se duas paredes grossas de pedra a


pressionasse.

Havia

deixado

muitos

sem

explicação. Julia se virou para a irmã e sorriu: — Ajudar é prelúdio para a paridade! Lady sorriu de volta e abraçou a irmã que cheirava à rosas. Beijo-a no rosto. Julia fechados

sorriu para

e

mesmo

sempre

com

deixou

caíssem. Morte se afastou revigorada: — Vou ajudar a todos!

que

os

olhos

lágrimas


A Recordação de Miranda — Oh, Deus! Como estou bonita! – Miranda olhou para o rosto refletido nas águas do córrego que

encontrara

pelo

caminho

que

resolvera

seguir. O sul, como seu companheiro havia sugerido Os cabelos antes mal cuidados, presos num prático “rabo de cavalo”, agora estavam soltos,

intensamente

brilhantes

e

lisos;

de

coloração castanha, claro. Olhos de mel que sempre tivera, atualmente pareciam duas pedras amarelas, ao passo que as maçãs do rosto se encontravam levemente rosadas. As imperfeições causadas

por

espinhas

tinham

desaparecido

completamente. Seus lábios, que esticavam num belo sorriso, tinham se tornado carnudos e belos. José

Mendonça,

seu

companheiro

lhe

indagou: — Algum problema? — Agora me recordo! — Miranda levou sua mão ao rosto ao mesmo tempo que sua mente lhe arrebatava para o pretérito. Teve medo. Ela não queria, sabia! Não desejava morrer; não assim; não ali. Havia tanto


para ser consertado, tanto... Mas o que havia chegado ao fim era o tempo. Tinha esvaziado sua ampola temporal por vontade própria: — Droga — disse baixo, num sussurrou. Ninguém a ouviria, ali trancada. O frasco que portava em sua mão tornou-se pesado demais e caiu se espatifando contra o piso frio de seu dormitório. Ela tentou impedir a queda do frasco, mas não pôde. Ao invés, caiu com seu corpo pesado no chão forrado por cacos. A respiração se tornou difícil, a vista turva. Não souber precisar o que estava vendo; se era um sonho ou se estava morrendo: — Boa noite! — Ouviu essas palavras enquanto um coturno negro se fazia em sua frente. As palavras pareciam vir acompanhadas de um vento frio. Miranda não conseguiu responder e nem acreditou que aquilo fosse real. O veneno que

havia

tomado

estava

lhe

causando

alucinações. A voz continuou: — Um desejo! Peça uma felicidade final, você tem direito! Os coturnos se afastaram um pouco e mudaram de posição. Estavam com os cadarços


soltos quando deram lugar ao joelho pálido que tocou o piso. Então Miranda viu a face de quem lhe falava: os cabelos cacheados escorriam pelos cantos de toda aquela cabeça e seus olhos eram totalmente

negros,

inexistia

íris.

O

sorriso

daqueles lábios negros causou-lhe arrepio: — Peça menina! Mas Miranda não tinha forças. — Quer falar e não consegue, não estou certa? É que falas com a boca e não com a alma! Pense no desejo! Pense no que quer saber e eu lhe responderei! A dama estranha se sentou e encostou-se à parede rosa do quarto de Miranda. Suspirou: — Eu sou Morte! – Morte tinha respondido à pergunta inicial feita pela adolescente que agonizava. Continuou respondendo: — Se você vai para o inferno por ter cometido suicídio? Bem, o inferno é um estado de espírito e vai depender muito de você – Ela deu de ombros — Quer saber que horas são? — A guia de almas fitou seu pulso que não continha qualquer relógio – Data do óbito: 14 de fevereiro de 2010. Hora: daqui a dez minutos.


Morte acendeu um cigarro e baforou a fumaça: — Adoro cigarros! Se pode pedir qualquer coisa? Não! Não se pode pedir ressurreição! Nem voltar no tempo! Um corvo negro adentrou pela janela naquele momento e pousou perto de Miranda. Morte acariciou o animal e disse: — Ele é a sua culpa! Você vai morrer com ele! Tudo

parecia

muito

estranho

para

a

adolescente que tinha tentado se matar. Não sabia se estava alucinando, se estava mesmo morrendo ou se sonhava. Aquele corvo grande que agora era acariciado por aquela mulher estranha

que

dizia

ser

a

Morte,

era

definitivamente a confirmação de que as coisas não estavam normais. — O desejo? Ah sim, voltemos ao desejo! — Morte apagou seu cigarro no piso. Por um segundo assimilou o que Miranda tinha lhe pedido e depois disse: — Isto é possível! Então, eu concedo a Miranda

Albuquerque

a

sua

felicidade

final.


Depois da alegria final causada pelo desejo eu a declararei morta! Um trov達o clareou a janela aberta.


Frys e Áurea na cidade Uma

pequena

tempestade

de

areia

recepcionou o mágico andarilho, quando ele passou pelo arco de madeira apodrecida daquela pequena vila. As ruas de chão, não se estendiam; tampouco eram muitas. Não mais de três: — Milady? Que acha que encontraremos aqui? Áurea flutuava ao lado do amigo vivo: — Não faço ideia. —

Pois

eu

sei

bem!

Encontraremos

crianças sonhadoras e necessitadas de uma boa ilusão! Encontraremos pessoas dispostas a nos fornecer ouro por elas! — Quero encontrar aquele que pode me devolver a vida. — Não tenha pressa! A dupla incomum parou em um barracão abandonado perto de uma igreja e puderam observar os fieis aglomerados na entrada da catedral. Frys ergueu a cabeça num sorriso:


— Primeiro as obrigações religiosas e depois a diversão! — Disse. Mas então, como se a ironia estive de prontidão, em algum esconderijo seguro, ouviuse o marchar de tropas. Frys desviou seu olhar para os guerreiros que vinham. Notou que a farda deles tinha a coloração amarela: — Ah não! — lamentou. Áurea lhe indagou: — Quem são eles? — Soldados inimigos! Vieram saquear e dominar este vilarejo! Os

soldados,

como

se

houvessem

ensaiado, sacaram seus rifles e atiraram contra a igreja. Os gritos de pavor foram imediatos e a correria se sucedeu logo mais. Dentre

as

pessoas

que

corriam

desesperadas à sinfonia do tiroteio, Frys notou uma jovem bonita, descalça e vestida com seda branca, cujos cabelos castanhos voavam contra o rosto. Percebeu, inclusive quando um soldado mirou contra ela e disparou. Um tiro certeiro. A moça parou de correr e se abaixou; levou a mão até a barriga, como se isso pudesse estancar o sangue. Seu vestido,


suas pernas e a areia começaram a enrubrecer. Ela caiu debruçada e os soldados avançaram. A este tempo, o som dos tiros, o desespero dos moradores

daquela

vila,

tinham

perdido

o

volume. A agonia daquela jovem superou a tudo, para Frys. Ele se aproximou: — Lá se vai mais uma — Abaixou-se. — Lady virá e então poderei obter mais informações sobre quem devo procurar para ressuscitar! — Disse-lhe Áurea. Mas então, para a surpresa da dupla, materializou-se ao lado da defunta, uma mulher que não era Lady Morte. — Quem é você? Outra Morte? — Quis saber Frys. A mulher vestia-se com jaqueta branca, mine-blusa negra e calça branca. Os sapatos de salto alto eram negros ao passo que os pulsos e pescoço estavam

enfeitados por pulseiras e

colares. Os olhos puxados dela tinham um brilho especial e eram castanhos, misturando-se á coloração de sua pele morena. As orelhas eram enfeitadas por brincos de pena e o rosto por desenhos estranhos, como se fosse de alguma tribo indígena. Essa teoria tinha mais fundamento


se fosse observado os lindos cabelos de ébano e lisos que escorriam pelas costas daquela dama. Ela não disse nada. Apenas sorriu com os olhos. — Você é quem procuro? Quem pode me trazer de volta a vida? — Disse-lhe Áurea. A mulher de branco suspirou. Abaixou-se, tocou com a ponta dos dedos a cabeça da outra moça que jazia naquela areia e sumiu.


O aniversário de Maria Falsa

Hoje é o aniversário de Maria Falsa ou não. A jovem de natureza peculiar, já que pensa uma coisa e se expressa de forma contrária a este pensamento,

está

muito

feliz

com

seus

convidados. — Proponho um brinde! — levantou-se um senhor de aproximadamente cinquenta anos que vestia-se de calça jeans e jaqueta de couro. — Um brinde para Maria Falsa! Todos se levantaram. Ali, naquele salão de festas

do

endereço, Aurora,

castelo

que

estavam Flora,

não

Julia e

se

pode

definir

Justa,

Lady

Morte,

muitos

outros

que

representavam alguma força maior, que eram chamados de Fenômenos. Salomão, o homem de meia idade e que parecia estar embriagado se ergueu primeiro dizendo: —

Gosto

dos

aniversários!

É

uma

oportunidade de nos reunirmos como era no princípio e também uma chance de eu tomar um porre de graça!


Todos

repudiaram

as

ultimas

palavras

daquele homem, mas ele não se importou. Então uma menininha de cachos avermelhados e de olhos púrpuros indagou: — Sabedoria, poderia me contar a história de quando fomos criados? Sempre quis saber, mas onde moro ninguém sabe contá-la! Salomão, ainda com a taça ao alto, fitou Maria Falsa pedindo a ela licença com os olhos. Ela

gesticulou

um

não

que

significava

sua

aprovação. Sabedoria então começou: — Misericórdia você como a mais nova de nossa família ainda não conhece nossa origem. Então vou lhe contar. No início foram criadas as criaturas. Elas são seres que existem por existir, sem uma razão específica. Quando estes seres se relacionaram nasceram os Fenômenos,

Nós!

Existimos por causa daquilo que representamos e servimos para modificar, qualificar e dar sentido a vida dos seres vivos. — Que confuso! — A criança coçou a cabeça. — Eu também acho — ele bebeu um pouco de vinho.


— Esta criatura que você menciona é o Homem? — Na maioria das vezes sim, mas não em todas. — Queria um exemplo. Maria Falsa tomou a palavra: — Você é um exemplo — apontou o dedo para a menina de vestes simples — quando um ser humano se relacionou com outro e teve clemência dado o fato de se encontrar em situação de vantagem, resolvendo ajudar, foi então que surgiu a Misericórdia. Salomão ergueu mais uma vez sua taça de vinho: — Eu não explicaria de maneira mais sensata, Maria! Maria sorriu e disse baixinho: — Obrigada, Ester! Misericórdia não sabe ainda, talvez nunca venha a saber, mas foi você que a criou. Espero que ela cresça e se torne aquilo que Zeca procurou tanto e não pôde encontrar, Amor. E todos saudaram Maria Falsa por estar completando mais um ano de existência ou não.


Miranda antes Os dias de verão passavam mais depressa que em outras estações. Talvez fosse pelo fato de as tardes se alongarem devido ao horário de verão. Os dias pareciam feitos para as férias que já tinham acabado. Mas naquela época, as pessoas

estavam

mais

empolgadas

com

a

proximidade do carnaval do que com as férias acabadas. É que em nosso país o ano só começa de verdade depois do carnaval. As aulas tinham retornado desde o inicio do mês, mas as classes estavam vazias ainda. As professoras

mantinham

o

brilho

das

férias

quando lecionavam e os alunos não tinham se dado conta de que o ano havia começado. Entretanto,

para

a

adolescente

de

cabelos

castanhos e amarrados num penteado “rabo de cavalo”, como chamavam, tudo parecia sem brilho

fazia

muitos

anos.

Seu

corpo

desengonçado de massa mais elevada que as outras meninas da sua idade, estava jogado em um banco de cimento do pátio daquela escola. O jeans todo rabiscado e rasgado cobria-lhe as


pernas levemente envergadas. Eram grossas demais. A camiseta do uniforme escolar, para ela, tinha que ser do tamanho G, apesar de ter apenas 15 anos e os olhos castanhos precisavam ser emoldurados por óculos para que ela pudesse ver corretamente. 2 gruas de miopia no olho direito e 2,5 no esquerdo. Miranda Albuquerque, como chamava a adolescente, era pessoa de poucas palavras e de atos rebeldes. Dizia só o necessário, mas já tinha experimentado pequenos

o

furtos

álcool em

e

cigarro.

mercearias

e

Cometia lojas

de

conveniência apenas por diversão, já que nunca tinha lhe faltado nada. Queria chamar atenção, diziam seus pais ao psicólogo quando lhes eram perguntado sobre a menina. Ela fazia terapia há dois anos mas de nada tinha adiantado. Os prazeres que Miranda sentia eram o de comer e o de imaginar, ambos lhe causavam alívio da realidade. — Mi? — uma voz fina chamou pela adolescente — Mi? — Hum? Ah! É você Carla... — Tava distraída é? Miranda não respondeu.


Consegui

falar

com

o

Felipe!

Continuou Carla. — E quem mandou você falar com ele? — Ora, ninguém! Mas eu sei que você gosta dele! Disse que você queria ficar com ele, hoje depois da aula! Miranda arregalou os olhos: — Você está brincando não é? Carla gesticulou um “não” com a cabeça e depois continuou: — Ele disse que iria te esperar atrás do ginásio! Você vai né? Miranda

suspirou.

Desde

que

entrara

naquela escola, há 4 anos, ela conservava um admiração especial por Felipe. O garoto foi chamando a atenção da menina apenas pelo modo com que se comportava; pelo modo com que falava e se vestia. Miranda idealizou na figura do garoto o seu príncipe encantado. Durante a noite, enquanto dormia, ela forçava seus

sonhos

a

serem

com

Felipe.

Sempre

estavam juntos em sonhos. Mas na vida real era bem diferente. O menino mal a cumprimentava quando a via. Como era popular, sempre estava misturado ao


pessoal

metido

da

escola.

Miranda

os

desprezava, mas Felipe era diferente... ela via nele algo que não se podia ver em outros meninos. — Eu vou — respondeu para a amiga – Ele não vai aparecer por lá e daí aproveito para fumar um cigarro. Carla, a menina de olhos vívidos e cheia de vida sorriu. Suas tranças ruivas chacoalharam eufóricas demonstrando a excitação que tomou conta de toda a menina. Apesar de muitas sardas da franja obsoleta que conservava, Carla era uma excelente pessoa. Findado o segundo e último período de aulas, Miranda arrumou seu material na mochila e se dirigiu lentamente até a saída da sala. Teve tempo, porém de ouvir Carla dizer-lhe “boa sorte”. Ela não se preocupou. Tinha certeza que Felipe não estaria no lugar combinado, pois sabia que ele tinha dito que iria apenas para afastar Carla. A sua amiga era muito irritante, sabia. Desceu a escadaria do prédio da escola e caminhou misturada aos outros estudantes até a saída. Dirigiu-se até o ginásio que ficava ao


norte, poucos metros de distância do prédio de aulas e lá chegando, se surpreendeu: — Miranda, não é? Que nome estranho... A voz de Felipe era perfeita; suave e transpassava segurança. Era um garoto de pele clara, de cabelos compridos e dourados. Seus olhos verdes fitavam Miranda que, por sua vez, não sabia o que dizer. Ele, porém continuou: — A Carla me disse que você queria ficar comigo — e se aproximou. Miranda

continuava

silente,

assustada.

Felipe pegou a mão de Miranda e sorriu. Mesmo sem querer a adolescente retribuiu o sorriso: — Galera! Podem sair! Venham ver! A garota achou mesmo que eu ia ficar com ela! Então para o pasmo total de Miranda, de trás das pilastras que apoiavam o teto do ginásio esportivo, outros garotos e garotas saíram rindo. Seu cérebro demorou um pouco para entender o que estava acontecendo: — Ela pegou a minha mão e tudo, olhem! — Felipe mostrou que estava de mãos dadas com Miranda — Achou mesmo que tinha chance! O pessoal metido da escola, como Miranda os chamava, não paravam de rir e a menina


sentiu seu coração disparar. Engoliu a seco, pois faltava-lhe saliva. Soltou a mão do menino que estava com ela: — Se enxerga, ô rolha de poço! — Felipe gargalhou – Eu jamais ia ficar com uma garota tão gorda igual a você! Aquelas

palavras

destruíram

todos

os

sonhos que Miranda tinha feito em suas noites; aquelas palavras foram como uma lança que lhe atravessou o coração. Mas Miranda era uma mulher calejada pelas ofensas e soube esconder sua ferida, fazendo igual às onças quando se sentem ameaçadas: atacou! — Seu idiota! — Desferiu contra Felipe um soco com toda a sua força. O silêncio ganhou todo o ambiente por um segundo. A adolescente olhou para o seu príncipe falso que limpava o sangue que lhe escorria pelo canto dos lábios. Viu em câmera lenta ele se recompondo e gargalhando. Miranda

saiu

correndo,

sentindo

as

lágrimas brotando em seus olhos. Não podia deixar que a vissem chorar.


Victória e Vida Levanta-se! Esse mandamento, quase que religioso, soou na mente da menina Victória. Quem lhe falava? Quem sabia dos seus desejos mais intensos. A menina era doida por viver. — Vim por que implorou! — ela ouviu essas palavras num sussurro. — Mas você não pode atrapalhar meu trabalho! — essas outras saíram com mais intensidade. — E continua chata como sempre! — Agora Victória via que quem argumentava, era uma índia vestida em trajes estranhos. Continuou ela: — Ela me chamou, Lady! Eu nem queria voltar aqui, se isso te consola! Estou muito bem, onde vivo! Essa jovem, implorou por viver. —

Você

é

uma

vergonha

para

os

Fenômenos, Vida! Irresponsável, impulsiva e inconsequente! —

Não

me

importo

com

o

que

os

Fenômenos pensam sobre mim! Eu sei o que represento e o que penso a respeito disso! Mande toda a corja de Abstratos pra— Olhe o linguajar, Jacira!


— Ótimo, você sabe o meu nome, não é mesmo? — Tô pouco me importando com o que você acha de mim, Lady! Estou aqui porque alguém quer viver! E viverá! — Isso é o que veremos, Jacira! As duas desapareceram e Victória ficou ali sem

entender

se

estava

viva

ou

morta.

Aproximaram-se dela Frys e Áurea. A mulher fantasma falou: — Puxa nem tive tempo de falar com Lady! Victória podia ver Áurea: —

Quem

é

você?

Por

que

está

transparente? — Eu morri, sou um fantasma e você? — Não sei se morri. Chamo-me Victória. — Eu me chamo Áurea e este aqui é Frys, mágico. Victória

assentiu,

demonstrando

seu

entendimento: — Preciso saber se estou viva, como faço? Frys sugeriu: — Muito simples: tente se matar, se morrer é porque estava viva, se não é porque está morta! — É uma boa sugestão!


— Mas é claro que é! — o mágico abriu os braços. Então, para a surpresa de todos, antes que pudessem pensar num modo de colocar em prática o plano de Frys, Victória caiu sem consciência. — Mas o que houve? — quis saber Áurea. Frys abaixou-se e checou o pulso de Victória: — Morta! Ela está morta! — Mas que esquisito! Vinham se aproximando as pessoas que outrora tinham fugido do ataque dos soldados de farda dourada. Um padre e uma mulher em pranto vinham a frente: — Oh, minha pequena Victória! — chorava a mulher desesperadamente.


Lucas e Victória

Lucas

argumentava

com

o

padre,

na

tentativa de evitar que Victória fosse enterrada viva: — Mas o senhor se enganou! Talvez por estar apavorado por causa dos soldados inimigos, ou por causa da tristeza de ver a menina ferida! — disse ele. — Talvez eu tenha me enganado mesmo! Que sorte você ter resolvido se certificar da morte dela! Todos ficaram muito felizes com a notícia dada por Lucas, até ele mesmo ficou feliz. Victória foi retirada do caixão sob a exaltação de todos que estavam presentes e em procissão foi levada

de

volta

para

sua

humilde

casa.

Precisamente para ocupar a sua cama: —

Mandarei

um

mensageiro

avisar

a

Curandeira da vila vizinha para que venha cuidar da minha filha — Disse a mãe de Victória. — Faça isso! — Respondeu-lhe Lucas com ar de militar responsável.


O falso militar não recusou o convite para almoçar na casa de Victória. Depois, aproveitou também para tirar uma soneca, pois fazia tempo que estava caminhando. Mais tarde, uma voz em pranto trouxe Lucas de volta dos sonhos: — Ela morreu! De novo! — Era a mãe de Victória. — Como é? — Disse Lucas sonolento. — Victória! Fui ao quarto para ver se estava tudo bem e notei que os lábios dela estavam roxos! Chequei a temperatura e vi que minha filha estava gelada! Por favor, traga-a de volta como fez antes! Lucas ficou preocupado! Ele não tinha o poder de ressuscitar os mortos. Tinha sabedoria suficiente para saber apenas quando alguém estava vivo ou morto, ou será que nem isso? Levantou-se, calçou suas botas e dirigiu-se ao quarto de Victória para vê-la: —

Estranho

Disse

ele

depois

de

examinar o batimento da moça — Agora o coração não está mais batendo. — Ah, não! Fiquei tão feliz quando descobri que minha filha não tinha morrido! Agora estou


tão triste — e a mãe de Victória começou a chorar outra vez. — Lamento. Contudo, para interromper aquela situação triste, lá fora, ouviu-se o marchar de tropas. A mãe

de

Victória

engoliu

seu

choro

imediatamente, dizendo: — São eles! Os soldados de dourado! Os nossos inimigos! Eles voltaram para nos matar! Lucas ficou assustado. Havia se lembrado que ele era o único soldado de verde por ali e pior: não era um soldado de verdade. Mas precisava tranquilizar aquela mulher tão sofrida: — Não se preocupe! Eu estou aqui e vou proteger a senhora! Protegerei todos os morados da Vila! — Mas como? — A senhora verá! – Nem ele mesmo sabia. Lucas agarrou seu rifle e abriu a porta da casinha de Victória. Os soldados de amarelo marchavam imponentes pela única rua daquele vilarejo.

Estavam

passando

pelas

portas

da

capela, quando avistaram Lucas. Armaram seus rifles e apontaram para o falso soldado de verde.


Lucas nessa, hora sentiu um mal-estar, mas manteve-se firme: — Saudações! — Disse ele ao fechar a porta. O líder de amarelo, que tinha a farda muito similar a que Lucas vestia, só que de coloração dourada, tomou a frente dos seus soldados: — Vou meter uma bala no meio das suas fuças, militar esmeralda! — Ele engatilhou sua arma. — Grade coisa! — Lucas deu de ombros — Qualquer um consegue matar outra pessoa com um rifle! Não vejo nenhum mérito nisso! — Ora, seu verme! Está me desdenhando? — Longe de mim, desdenhar o senhor! Mas é que alguém do seu escalão militar, não mataria apenas por matar! Gostaria de um desafio para fazer jus às medalhas pregadas nessa farda! O militar inimigo abaixou seu rifle: — O que você sugere? Lucas se aproximou mais seguro: — Simples! Mande seus homens embora! Vamos duelar!



Contos