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SALVADOR, SÁBADO, 7 DE SETEMBRO DE 2013

Um lugar para viver

EM PAZ Estudos mostraram que Salvador não é uma cidade segura para crianças e jovens morarem

MAPA DA VIOLÊNCIA

4e5

A Bahia é o terceiro estado mais violento do País, atrás somente de Alagoas e Espírito Santo. O estado baiano tem 16 municípios no ranking de 100 cidades brasileiras com taxas altas de assassinatos entre pessoas de 0 a 19 anos

POPULAÇÃO

MORTES

TAXA DE ASSASSINATO

134,4 58 43.125

SIMÕES FILHO Fotos Heberth Sobral / Divulgação

PAULA MORAIS

O caminho até a Terra do Nunca continua igual: segunda estrela à direita e depois direto, até amanhecer. É certo que o Capitão Gancho incomodaria o sossego. Mas seria mais seguro viver por lá do que em Salvador. Nem a tripulação de piratas malvados nem o crocodilo-de-água-salgada se comparam à violência na cidade. O número de mortes de crianças e jovens na capital aumentou quase oito vezes em dez anos. Em 2000, foram 58 meninos e meninas mortos. Já em 2010, esse número cresceu para 446. Os dados são do Mapa da Violência, pesquisa feita pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso-Brasil).

FONTES USADAS NA MATÉRIA: DEPARTAMENTO DE HOMICÍDIOS E PROTEÇÃO À PESSOA (DHPP-BA) / DELEGACIA ESPECIALIZADA DE REPRESSÃO A CRIMES CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES (DERCCA) / SOCIÓLOGO JULIO JACOBO, AUTOR DO MAPA DA VIOLÊNCIA

52.845

50

94,6

LAURO DE FREITAS

168.175

149

88,6

ANANINDEUA (PA) O artista Heberth Sobral usa Playmobil para falar da violência

55

Culpa de quem? A principal causa de assassinatos entre crianças e adolescentes na capital e no estado baianos tem a ver com o uso e venda de drogas. A Delegacia do Adolescente Infrator (DAI) mostrou que a comercialização das substâncias ilegais cresceu nove vezes mais durante os últimos cinco anos. A violência causada pelo tráfico de drogas já acontecia em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Mas o mercado de substâncias ilegais ganhou espaço aqui quando a região Nordeste, principalmente a Bahia, cresceu economicamente, ou seja, ficou bem mais rica. Esta criminalidade é reforçada pela fragilidade das formas de segurança utilizadas no estado. Nem sempre foi assim. O estado já foi um lugar tranquilo para meninos e meninas morarem.

A Bahia pulou da para o 3º lugar m 23ª posição, em 2000, 27 estados do Paí ais perigoso, entre os s, em 2010. Hoje, nosso estado está atrás somente de Alagoas e Espírito Santo.

Violência não é brincadeira

85,7 4º

64.123

ITABUNA

O número diminuiu

253 316.926

79,8

MACEIÓ (AL)

446 769.359

12º

SALVADOR FONTE Mapa da Violência 2012

58,0

Nos seis primeiros meses do ano, aconteceram menos mortes em Salvador. A Secretaria da Segurança Pública (SSP) mostrou que, no período, foram 89 assassinatos a menos que 2012. A redução também aconteceu em outros municípios. Simões Filho, Lauro de Freitas e Camaçari registraram a maior queda: 96 mortes. Mas o resultado não faz com que Simões Filho e Lauro de Freitas deixem de ser campeãs em violência no País. O coordenador do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca), Walter Oliveira, disse que não é suficiente:

comparada ao a, im ín m é o çã du “A re que ainda temos. número excessivo efeito na sociedade”. Não tem nenhum

Ninguém escapa Walter Oliveira falou que o motivo de crianças e jovens entrarem no mundo das drogas é a falta de emprego ou de atividades culturais. “Os meninos e meninas ficam sem ter o que fazer e o universo do crime se torna atrativo para eles”. A maioria dessas crianças e jovens vive em lugares pobres, segundo o coordenador. “De cada 100, oito são negros, moram na periferia e têm entre 9 e 17 anos”. O urbanista Carlos Alberto, que tem experiência em projetos para diminuir a violência na cidade, explicou que a população inteira sofre quando meninos e meninas morrem. “Eles são a base da sociedade. São eles que vão produzir riqueza para toda a sociedade”.

Uma reportagem fez o artista visual Heberth Sobral trabalhar com a violência. Enquanto a repórter denunciava um bairro com esgoto a céu aberto, os moradores só pensavam em aparecer na televisão. “O brasileiro é conhecido como um povo alegre. Isso é bom. Mas reclamar do que está errado também é preciso”. Foi aí que ele começou a retratar a violência com Playmobil. “O boneco está sempre rindo, independentemente do que acontece. Parece com os moradores que vi na reportagem”. Heberth escolhe situações e monta cenários: assaltos, acidentes, violência policial... Fica engraçado e divertido. Mas a violência é coisa séria.


"Um lugar para viver em paz"