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[ENTRE]MEIOS URBANOS intervenção na cidade de Santos


“A cidade, a partir do momento em que é apropriada, vivenciada, praticada, não apenas deixa de ser cenário mas, mais do que isso, ela ganha corpo, torna-se “outro” corpo.” Paola Berenstein Jacques Corpografias Urbanas - relações entre corpo e cidade


[ENTRE]MEIOS urbanos_intervenção na cidade de Santos

Trabalho de Graduação Integrado – TGI 2012 Paula Garcia Monteiro Universidade de São Paulo Instituto de Arquitetura e Urbanismo


introdução_

A intervenção urbana na região dos armazéns 7 e 8 no porto do Paquetá na cidade de Santos busca a conexão entre porto e cidade, buscando sobrepor a perimetral - vista aqui como uma cicatriz que aparta os dois lados. Suas camadas temporais, fluxos e ruínas são encarados aqui como a preexistência para o projeto, na qual um elemento intermediário é inserido nesse percurso urbano e contínuo, como uma pele, facilitando essa transposição de interfaces entre porto e urbano, renovando o degradado, qualificando o espaço e não determinando o que ali acontece. A experimentação da cidade como forma de dar-lhe corpo e reativar uma vivência já esquecida pelo tempo e por sua degradação.


Universo Projetual_

O universo projetual, a partir de inquietações e dúvidas, procura referenciais a fim de se construir um conceito, busca um problema para ser resolvido, a ser solucionado no projeto, auxiliando assim no seu desenvolvimento, de forma a retirar de cada exemplo o seu melhor, sua resolução mais apropriada a determinado problema. As referencias são muitas, a insistência em algumas resumem as intenções projetuais e o desejo por encontrar um resultado parecido – tão eficiente, belo e funcional quanto - ao final do desenvolvimento de TGI. A cidade como propulsora de percursos, palco de vivências e experimentações aparece em meio às inquietações de como se dão as intervenções que buscam solucionar problemas do seu abandono, da sua degradação, dos seus fluxos e passagens e de como fortalecer os links entre suas preexistências e a localidade em si. A configuração atual das cidades provêm das mudanças de suas dinâmicas que se alteram com o tempo, fator aqui de extrema importância a se considerar. Assim, considerando a temporalidade como um processo da ordem do tempo o qual se foi reconfigurando o urbano, a cidade em si, suas alterações, seus usos, os entre-meios, espaços residuais e seus contrastes, a copresença de diversas forças e tensões distintas, gera uma área de conflito onde um passado áureo, de crescimento, memória e desenvolvimento é representado hoje por abandono e decadência. Tal conflito é inerente da cidade “metropolitana”, fazendo-se uma união positiva entre ambos.


Projetos como do High Line Park, na cidade de Nova York, aparece aqui como um dos primeiros a despertar certa inquietação sobre sua aplicabilidade. A positiva revitalização se dá em uma área até então totalmente degradada e que funcionava como um divisor em meio ao urbano e foi transformada hoje em um percurso que rasga parte da cidade e ali se dão acontecimentos distintos e desprogramados. Do mesmo modo se dá o Le Fresnoy, de Bernard Tschumi que, mesmo sendo um edifício, o projeto se destaca pelo que acontece em seus “entres” – a circulação, os encontros, os vetores de movimento e atividades, assim como as ocorrências imprevistas e a disjunção entre a forma do espaço e a atividade desempenhada no mesmo - seus espaços desprogramados. Também relacionado à revitalizações de áreas urbanas, o Tate Modern Museum trouxe à região das docas em Londres uma vivência totalmente extraordinária e nova, local onde as pessoas participam, vivenciam a cidade, muito além de passagens cotidianas,fazendo com que a cidade deixe de ser somente uma cenografia no momento em que é vivida, como disse Paola Berenstein em seu texto Corpografias Urbanas. Outra referência que aparece diversas vezes no processo projetual é Carlo Scarpa, principalmente com seu o Castel Vecchio Museum, em Verona. Ele usa o enquadramento da visão do usuário para focalizar aspectos importantes do edifício já existente; pontos onde o edifício em si era parte da exposição do museu. A ideia também da Caixa Fórum Madrid, de Herzog et de Meuron, a qual se eleva o edifício do solo deixando uma “praça” de livre passagem, ao mesmo tempo que se mantém conectado com o histórico do local e com a cidade, dando diversas texturas às paredes – o tijolo, o aço cortain e a parede verde, estabelecendo uma conexão relacionada ao jardim botânico e à paisagem do Paseo del Prado.


De acordo com Manuel de Solà-Morales, tanto como sistema de fluxos ou código de memória, a cidade é a questão das coisas, que possui uma lógica abstrata e seus lugares urbanos uma riqueza latente. Seu modo de intervir na cidade presta demasiada atenção tanto nas riquezas existentes quanto nas possíveis: sentir seu peso, suas sensações. É ali em sua própria epiderme urbana que aprendemos suas características, formas, diferenças e texturas, olhando com atenção e insistência para nos revelar suas “repostas escondidas”. A ideia do tempo como um percurso, em que o presente também é passado e é futuro, se faz presente no modo desejado que esse TGI se desenvolva. A inserção da preexistência na nova dinâmica da cidade é essencial, abraçando esse fluxo contínuo que encontramos em um trajeto. Deu-se a necessidade de localizar o projeto em um centro histórico onde a todo momento o transeunte é remetido ao passado, mas também criando-se percursos onde a visão seja dirigida a objetos do presente colocados ali – mostrando essa transição, e também coexistência, entre o passado e o presente; explorando-as, apaziguando-as e destacando-as até certo ponto, colocando juntos momentos de tensão e relaxamento. Fazendo assim com que existam áreas de estares, onde se possa sentar, diminuir o ritmo do presente e observar aquela dinâmica, a dinâmica da cidade; seus momentos mais e menos intensos. As camadas da cidade que fazem parte dessa “pele”, desse involucro – camadas temporais, culturais, sociais e econômicas que compõem o tecido urbano – se juntam em uma rede, uma membrana cheia de diferentes usos, interpretações, qualidades a qual cabem diversas intervenções e estratégias, na qual se busca destacar e também resgatar suas melhores características.


a escolha do local_

O desenvolvimento do projeto se deu desde o início envolvendo as intenções de intervir na cidade, nos seus “entres” abandonados e sem uso, nos espaços considerados improdutivos, espaços livres, estabelecendo assim, em determinados pontos dessa malha urbana, amarrações que fizessem disso um percurso com um programa cultural, conectando edifícios já existentes, com programas relacionados. Isso foi se alterando pouco a pouco e a partir dessa vontade inicial se deu a busca por um local onde pudesse ser realizado um projeto assim; um centro com preexistências de certo valor, um local com uma necessidade de revitalização e também necessidade de se estabelecer novos usos. A cidade de Santos se enquadrou nesse perfil especialmente pela existência do porto tão próximo do centro histórico e ao mesmo tempo tão apartado e abandonado.


entre

visão

tato

a

CORPO

experiência

sensações

multiplicidade

meios pele

prática

fluidez

rígidos

movimento

entranhas

significação

da cidade

identidade

históric

conexões

transparência variedade cicatriz

co

vazios relações

das diferenças


complexidade

integradora

memória

amarrações

terrenos vagos

urbanidade indefinidos

temporalidade

código

contínuo

fluxo referência

trajeto riquezas

cultural

Prótesis

livres

co

s

percurso tempo

ontinuidade ambiente

componentes

espaços Uso surpresa

ruas rasgos


a cidade_ Santos é umas das cidades mais antigas do Brasil, onde podemos encontrar um pedaço conservado desse seu passado histórico. Seu povoamento começou por volta de 1540 e como legados deixados dessa época se encontram preciosos casarões, museus e igrejas como marco da riqueza da cidade. A cidade abriga o maior complexo portuário da América Latina, construído no início do século XX, fase de grande crescimento devido ao café. Santos tem sua origem relacionada com a chegada dos primeiros colonizadores portugueses ao Brasil na expedição de Martim Afonso de Souza, que veio distribuir entre os fidalgos que o acompanhavam as terras ao redor da Ilha de São Vicente, sendo que entre eles estava Brás Cubas, fundador oficial de Santos. A partir desta cidade partiram muitas bandeiras que desbravaram o interior do território brasileiro buscando riquezas, também como os imigrantes de diversas partes do mundo que desembarcaram no mesmo porto e que acabaram por colonizar o país no início do século XIX. Em Santos também foi construída a primeira Santa Casa de Misericórdia da América, além de ser berço de muitas figuras de renome como os irmãos Andradas, como José Bonifácio de Andrada e Silva personagem importante da Proclamação da Independência. Santos possui inúmeros monumentos históricos que fazem de seu centro histórico um local digno de preservação: edifícios compostos por azulejos, mármores, estátuas, pinturas em tela, afrescos, gradis de ferro e até mesmo os postes de iluminação que valorizam mais ainda a região.


Apesar de toda essa riqueza, nos dias de hoje ainda é uma região extremamente deteriorada, com muita pobreza e prostituição nos arredores. A prefeitura possui um projeto de revitalização desse importante centro o qual oferece diversos incentivos para restauração desses edifícios e colocação de novos usos para a região. O programa se chama “Alegra Centro” e oferece isenções fiscais para quem se interessa em investir e renovar a região, buscando assim a retomada do desenvolvimento socioeconômico do centro. Tais iniciativas resgataram um pouco o charme do local e já se vê claramente as alterações causadas por essa renovação de usos e reutilização desses espaços antes deteriorados e agora transformados em museus e até mesmo percursos históricos com centro comercial, bares, restaurantes e até mesmo um centro turístico. Ao lado se encontra um mapa feito por essa iniciativa onde foram localizados os edfícios que possuem valor histórico e também arquitetônico, considerados patrimônio. Estão classificados pelos níveis de proteção, onde muitos de alto valor se encontarm nas piores condições possíveis. Ainda sim, um projeto maior do que das iniciativas privadas é necessário para que essa renovação tome forma e também para que possam existir percursos que funcionem dentro desse tão rico centro.


regiรฃo do porto do Paquetรก atualmente


Santos sempre se destacou na história nacional, tanto em momentos como na libertação dos escravos ou lutando pela independência do país, e por isso mesmo percebe-se em suas ruas esses fatos marcados e como foram modificados com a evolução da cidade. Ainda é possível encontrar no centro trabalhos do pintor e historiador Benedito Calixto, como os painéis do Salão dos Pregões da Bolsa Oficial de Café, de 1922. A arte Sacra está presente nas igrejas coloniais, barrocas, neogóticas e no museu instalado no mosteiro de São Bento. O Outeiro de Santa Catarina é o local do marco inicial da fundação de Santos; um pequeno morro onde Brás Cubas passou a possuir terras e onde mais adiante Luiz de Goés e sua esposa construíram em sua base a capela de Santa Catarina. Esta, por sua vez, passou para seu topo e depois foi demolida, pois era de onde se tiravam as pedras para construir a cidade e o porto ao longo dos séculos XVIII e XIX. Assim, entre 1880 e 1884 o médico João Éboli, abolicionista, construiu uma casa incrustrada no bloco de pedra restante do outeiro local onde escondia escravos fugitivos. Com o tempo foi abandonada e após ser tombada foi reconstruída pela prefeitura em 1992, abrigando atualmente a sede da Fundação Arquivo e Memória de Santos. Também edifícios como o Pantheon dos Andradas, a prefeitura e a casa do Trem Bélico fazem parte desse percurso histórico ainda existente- e restaurado nos dias de hoje. Foi no centro histórico de Santos, entre as ruas São Bento, São Francisco, Constituição e o cais do Porto que surgiu inicialmente uma cidade – próspera e vanguardista – local onde atualmente quase tudo que aí se encontra forma um conjunto arquitetônico de inestimável valor, sendo um dos mais importantes remanescentes no Brasil.


1532

chegada de Martim Afonso de Souza

1640 construção da casa do Trem Bélico

1693 ciclo de ouro 1540

início da povoação de Santos

1543

construção da capela em homenagem a Santa Catarina no outeiro por Brás Cubas _ local do nascimento da cidade

Santa Casa de Misericórdia de todos os Santos _1º hospital

1734 reforma da Casa do Trem Bélico

_1ºcaminho pavimentado ligando São Paulo a Santos

1546 VILA de Santos

1808 chegada da família Real

1550 criação da Alfândega de Santos

1839 CIDADE de Santos

abertura dos portos brasileiros

1851 café 1867 São Paulo Railway _ligação de Santos às lavouras cafeeiras

chegada da Ordem das Carmelitas

1591 ataque do pirata Thomas Cavendish

_Destruição da capela de

Santa Catarina

1869

desmanche de um pedaço do Outeiro para demarcação de ruas e quadras

_grandes epidemias

1870

principal entrada no país dos imigrantes italianos e japoneses

1871 inauguração do Bonde 1603

Reconstrução da capela de Santa Catarina no topo do Outeiro

1631 Porto de Sal

tombamento do Outeiro

autorização da construção de mais 1130m de cais até o Paquetá

1990 crise no turismo 1991

volta da Bienal de Artes Plásticas de Santos

1892 Porto Organizado pronto 1993

programas da prefeitura para alavancar o turismo

[ciclovias, revitalizações paisagísticas]

1900 Canais de drenagem de Saturnino de Brito

1545 auge do açúcar

1589

1985

1890

1792 calçada do Lorena

das Américas

1552 arsenal de defesa

construída a casa de João Éboli em cima do Outeiro de Santa Catarina

_projeto “Porto Organizado” e sua concessão pelos próximos 90 anos

POVOADO de Todos os Santos

_chegada dos padres jesuítas

1884

1883

Casa do Trem Bélico foi cedida para que funcionasse a sede de Tiro de Guerra de Santos número 11

Memória de Santos _fundação da Associação Poiesis

1922

Inauguração da Bolsa Oficial de Café

1998

Catarina como marco inicial do povoamento de Santos

1999 revitalização do centro

_reconhecimento do Outeiro de Santa

1935 jardins da orla de Santos _se torna cidade turística

1937 Casa do Trem

febre amarela

“Porto da Morte”

histórico_

prefeitura oferecendo

de restaurações de prédios depredados e históricos, o que passou a atrair programações culturais e artísticas restaurantes e clubes e até mesmo a reativação do teatro coliseu santista.

_projeto Alegra Centro em atividade.

1945

saída do Tiro de Guerra da casa do Trem Bélico

1964

Regime militar_ Área de Segurança Nacional perda da sua autonomia

2000

conclusão da recuperação do Outeiro

_restauro do Bonde elétrico

2009 1980

fim da concessão do Porto

1983

recuperação da sua autonomia

– CODESP

1889

criação do Museu do Café

incentivos fiscais às empresas em troca

estabeleceu-se uma escola

municipal na Casa do Trem Bélico

1995 Fundação Arquivo e

1908

a casa do trem bélico passa a ser parte do Circuito Turístico dos Fortes

2013

previsão do início da revitalização dos armazéns 7 e 8 para alojar o Instituto de Oceanografia da USP


1ºS COLONIZADORES CENTRO HISTÓRICO

EXPANSÃO DEVIDO À CONSTRUÇÃO DA SÃO PAULO RAILWAY _ano de 1867

GRANDE CRESCIMENTO POPULACIONAL_séc XX


Tudo se concentrava nesse centro até que, com a construção da ferrovia - São Paulo Railway - se iniciou um processo de urbanização mais acelerado, sendo então necessário sanear o resto da ilha, o que fez com que a população se deslocasse para a praia. Após o início do século XX a cidade cresceu mais ainda atraindo grandes contingentes de trabalhadores, devido principalmente ao desenvolvimento de infraestruturas como estradas rodoviárias.


Assim, os maiores fluxos da cidade se determinaram no seu entorno conforme se deu o seu crescimento e acabou por se intensificar e se definir após a conclusão de tais infraestruturas urbanas – São Paulo Railway, Rodovia Anchieta e Rodovia dos Imigrantes - conectando mais facilmente Santos à cidade de São Paulo e também às cidades vizinhas Isso também trouxe intensificação do transporte de produtos e o movimento do porto, que acabou por crescer bastante, tendo que se expandir para outros locais – o que levou a sua desativação na região do centro histórico e, por sua deterioração e tamanho, passou a não suportar mais a grande movimentação requerida ao porto santista.


Assim, mapeando-se o centro histórico é possível encontrar uma gama enorme de possíveis percursos culturais – existem diversos museus, igrejas e edifícios históricos restaurados e abertos ao público, além de outras diversas atividades. Estabelecer um percurso cultural, amarrações com um programa semelhante poderia se dar de muitas maneiras. Após intenso estudo sobre as possibilidades de se implantar um projeto abrangendo todas essas características encontradas na cidade de Santos, juntamente com as encontradas nas ações projetuais, o local a implantar o projeto foi de fácil definição. A proximidade do porto, da balsa, de dois museus importantes, de duas organizações não governamentais e de fazer parte do trajeto do Bonde elétrico, levou o foco do projeto à região dos armazéns 7 e 8, na região do Paquetá, onde os quarteirões entre as ruas Constituição, Gen. Câmara, Brás Cubas e a Rua Xavier da Silveira – a Perimetral – circulam a área escolhida.


museu/patrimônio

praça

outeiro de Santa Catarina

igreja

balsa

porto

prefeitura

teatro coliseu

monte serrat

estação

projeto reciclar

rodovia


área de intervenção


balsa

porto

armazéns 7 e 8 Alfândega

museu Casa do Trem Bélico

bonde turístico

outeiro de Santa Catarina

outeiro de Santa Catarina _fundação Arquivo e Memória de Santos

salão de autoestima _abrigo provisório

poupa-tempo teatro Coliseu

projeto Reciclar _ong sem fronteira Associação Poiesis


Os pontos de interesse da regi達o escolhida denominam o fluxo de pedestres de maior intensidade, de forma a identificar os eixos de que vir達o a estruturar o projeto.


balsa

porto

armazéns 7 e 8 Alfândega

museu Casa do Trem Bélico outeiro de Santa Catarina

outeiro de Santa Catarina _fundação Arquivo e Memória de Santos

salão de autoestima _abrigo provisório

poupa-tempo teatro Coliseu

projeto Reciclar _ong sem fronteira Associação Poiesis


A necessidade da transposição da Rua Xavier de Silveira para pegar a balsa – e, futuramente, para chegar no Instituto de Oceanografia da USP localizado nos armazéns 7 e 8 (que será explicado mais adiante como faz parte da intervençcão) determina os dois eixos que estruturam o projeto. Eles aparecem de modo a definir a intervenção em si como pontos chave, visando “abrir” a região a um uso público mais amplo.


balsa

porto

armazéns 7 e 8 Alfândega

museu Casa do Trem Bélico outeiro de Santa Catarina

outeiro de Santa Catarina _fundação Arquivo e Memória de Santos

salão de autoestima _abrigo provisório

poupa-tempo teatro Coliseu

projeto Reciclar _ong sem fronteira Associação Poiesis


Disposição atual dos lotes do quarteirão.


Buscando certa transparência através dessa massa urbana, mantendo-se os componentes rígidos dessa fluidez- como já disse Manuel de Solà-Morales- abre-se o quarteirão de forma a estabelecer os eixos já existentes e assim reforçá-los, liberando a quadra, adicionando e compondo os percursos e dinâmicas já existentes na cidade.


escala: 1:2500


Com a abertura da quadra é possível ver todas as possibilidades de cruzamentos e como os eixos determinados do projeto passam a executar sua função. Os lotes retirados dos quarteirões eram, em sua maioria, edifícios muito degradados, de baixo gabarito e abandonados. Preservou-se os que estavam em boas condições e possuíam usos que acrescentariam algo à região. Assim, pode-se ver quais as possíveis alternativas para a localização de passarelas e cruzamentos como solução à transposição da perimetral. Nas próximas páginas podemos ver pelo modelo 3d a clara diferença da volumetria do quarteirão com e sem os lotes .


escala: 1:2500


Aqui, podemos ver as possibilidades das paisagens encontradas, o enquadramento da visão, a determinação de um foco na paisagem, como a existência de eixos e também molduras que conduzem o olhar do usuário pela paisagem.


escala: 1:2500


Assim, foram determinados os usos da região e a escolha do que permaneceria ali. Os pontos importantes definidos no projeto são o Museu a Casa do Trem Bélico, o Outeiro de Santa Catarina e seu anexo da Fundação Arquivo e Memória de Santos, dois edifícios considerados de interesse histórico, mas que se encontram em um estado deteriorado e que se conectarão apara abrigar as duas ONGs existentes no local – ONG Sem Fronteira com seu projeto reciclar e a Associação Poiesis – também o Salão de Autoestima e Abrigo Provisório, projeto da prefeitura em que se pretende abrir o fundo do seu lote para dentro do quarteirão. Outros dois pontos já existentes na região são a localização do ponto da balsa e a consideração de que os armazéns 7 e 8 – de acordo com projeto da prefeitura e a Codesp – se tornará o Insituto de Oceanografia da USP , processo já em andamento, tavez com inicio das construções em 2013.


ponto da balsa

instituto de oceanografia da USP

museu casa do Trem Bélico bar_lanchonete

outeiro de Santa Catarina

fundação Arquivo e Memória de Santos

salão de autoestima_abrigo provisório

ong sem fronteira _projeto reciclar + associação Poiesis

escala: 1:2500


os usos_


Outeiro de Santa Catarina É o marco da fundação da vila de Santos. Ficou abandonado por muito tempo, mesmo após ser considerado patrimônio pela prefeitura municipal. Após ser tombado, foi recuperado em 1992 e inserido no projeto de revitalização do Centro Histórico. Abriga atualmente um museu e também encontra-se ali a Fundação Arquivo e Memória de Santos, que guarda acervo fotográfico, de documentos, biblioteca e algumas exposições. Seu grande pátio também foi restaurado com o piso característico e marcante do edifício.

Casa do Trem Bélico Construída entre 1640 e 1656 para servir de depósito de armas e munições, a Casa do Trem Bélico hoje abriga exposições de armas e é parte do Circuito dos Fortes. Foi tombada pelo IPHAN em 1940 e possui estilo típico da arquitetura militar portuguesa: estrutura interna conhecida como falsa tesoura (método de sustentação do telhado) e paredes feitas com uma mistura de pedra, cal de sambaqui e óleo de baleia, com cerca de 90 centímetros de espessura. Em 1734, de acordo com historiadores, pode ter ocorrido uma importante reforma ou restauração no local.


ONG Sem Fronteira - projeto reciclar A ONG Sem Fronteira atua em Santos e na região tendo como principal projeto o Projeto Reciclar, que atende uma parcela da população carente, principalmente moradores de rua, ensinando o ofício e todo o processo desde o recolhimento do lixo até sua reutilização, proporcionando às famílias um complemento na sua renda. Dispõe atualmente de um pequeno galpão, onde são armazenados os materiais recolhidos ou recebidos diariamente por doação de empresas e condomínios. Pretende-se manter o projeto social na região e oferecer instalações apropriadas, juntando-o com a Associação Poiesis que também atua de modo a melhorar as condições da população carente da reigião.

Associação Poiesis A Associação Poiesis é uma instituição independente, sem fins lucrativos, iniciada em 1995. Atua na região central de Santos, no Paquetá, tendo como foco central do seu trabalho reestabelecer a convivência familiar e comunitária de crianças e adolescentes, ajudando para que esse público também tenha acesso aos seus direitos fundamentais, A associação será mantida na região em parceria com a ONG Sem Fronteira.


O Salão de Autoestima funciona junto com o abrigo provisório da área central da cidade. Essa iniciativa da cidade de Santos promove sistematicamente cursos e oficinas gratuitos de beleza à população carente dessa área, capacitando assim profissionais da área de beleza com possibilidades de desempenhar a nova profissão aprendida como meio de vida.

O local proposto para a implantação da ONG Sem Fronteira e a Associação Poiesis são dois edifícios localizados na esquina, logo ao lado do local onde se encontram hoje tais instituições.Os dois edifícios são considerados patrimônio e estão necessitando de uma revitalização. Se encontram abandonados atualmente e sem uso, e em uma localização estratégica em relação ao eixo reto que leva direto ao armazém. O edificio mais deteriorado, o da esquerda, possui três pavimentos, tendo assim um gabarito um pouco mais alto do que o restante da região. Assim se faz possível transformá-lo em um mirante abrangendo quase todo o percurso e principalmente o porto.


Os armazéns 7 e 8 do porto do Paquetá se tornarão futuramente o Instituto de Oceanografia da USP. O Edifício, considerado nível 2 de patrimônio, está em péssimas condições, totalmente abandonado, com apenas duas subestações de energia que ali funcionam. Os guindastes do antigo porto se encontram ali ainda, inutilizados. Sua conexão direta com a balsa hoje está interrompida e está totalmente cercado. A CODESP é a responsável pelo edifício atualmente. O processo para sua renovação e transformação no Instituto já está em andamento. Buscando a transparência em meio à massa, principalmente com relação ao eixo que dá diretamente em seu centro propõe-se uma passagem, a fim de que se possa alcançar a outra margem do porto diretamente, sem barreiras visuais, sem obstáculos, enquadrando-se exatamente essa transição para o porto.


as alteraçþes propostas_


A produção de um espaço narrativo em meio ao urbano, tentando estabelecer um percurso a fim de transpor essa “cicatriz” que rasga o local de fora a fora, realmente, que separa duas margens bem definidas - a do porto e a da cidade – separadas por fluxos intensos de caminhões, carros e especialmente pela linha do trem, ao mesmo tempo que sendo conectada pelo intenso fluxo de pedestres tentando alcançar ambas as margens. Busca-se fazer pela manipulação das sensações, da sua forma, estabelecendo as relações entre os elementos fixos dessa fluidez – como já dito anteriormente. Percorrendo o local descobrem-se seus potenciais, incentivando o espectador a passar a ser usuário do lugar.


Ao mesmo tempo que se propõe uma liberação do solo por dentro da quadra também é neutralizado ao se esculpir o solo na paisagem elevando seus volumes que atuam como os elementos construídos e parte da narrativa – manipulação das sensações. Assim, elementos surpresas que revelam a paisagem também podem ser encontrados em meio ao percurso. Adicionando algumas curvas de nível ao longo do porto, tratando-o como uma ação escultórica do solo, ali, com a inexistência de movimentações interessantes naturais com relação a elevação do relevo, em forma de fitas “incrustadas” no relevo que acabam por dar forma a este, sendo o solo aparecendo aí como agente envoltório, que molda o percurso e seus elementos – como o ponto da balsa, os estares e as passarelas para cruzar a perimetral. Essa membrana de mesma materialidade no porto se altera quando atinge o “urbano”. Ali encontramos outras necessidades, por mais que a narrativa do relevo tenha ainda relações, a abordagem quando se atinge a cidade em si deve ser diferente; a memória e o tempo existente ali muda, essa transição que nos permite uma alteração da sua materialidade e experimentação de texturas em meio às empenas, que acabam por influenciar o sensorial. Propõe-se duas conexões físicas entre o porto e quarteirão escolhido, duas passarelas que visam facilitar o acesso à balsa e à USP e também ao porto. Uma delas está mais próxima da balsa e a outra sai dentro do edifício da USP, na passagem aberta ao porto. Os guindastes existentes ali possuem um peso histórico e imponente, lembrando momentos áureos da história local. Estes são aqui mantidos como marcos a fim de demarcar o percurso.


O mapa programático define como tudo se engloba nesse espaço onde seus usos se mesclam ao mesmo tempo em que ocorre uma interdependência das atividades ali desempenhadas e da paisagem. Toda a percepção espacial, os campos de visão, os momentos de estranhamento e descoberta, os de revelação, os lugares de importância, os locais mais procurados, tudo se engloba e se relaciona dentro desse espaço urbano. A proposição de um espaço desprogramado leva a uma junção entre surpresa e intuição, encontrada em meio ao percurso do transeunte, como uma empena onde é possível a exibição de filmes ao ar livre para a população, que pode vir a ser parte de um festival artístico de projeções, parte educativa para os abrigos ou para as ongs da região, ou um espaço aberto onde se possa realizar encontros, jogos ou que possa se tornar um espaço para refeições, piquiniques; elevações no terreno que se façam palcos ou escadarias e bancos; espaços de estar onde podem ocorrer exposições, apresentações, etc. Assim, o urbano por si só passa a classificar esses respiros em meio ao quarteirão com suas passagens diretas, vistas desempedidas e alterações do dia a dia. Seus encontros desprogramados acabam sendo programados por seus diversos usuários, que passam a vivenciar a cidade e não apenas passar por ela despercebida.


“Eradicating the ruins can function as an urban lobotomy, erasing memory and dream.�

Rebecca Solnit


ponto de embracação da balsa


passagem em meio Ă USP - chegada da passarela e acesso Ă s docas


lateral externa Ă USP


vista do ponto da balsa e da passarela


vista de dentro da quadra


referências bibliográficas_

SOLÀ-MORALES, Manuel de. De Cosas Urbanas. Barcelona: Editora Gili, 2008. BERENSTEIN,Paola. Corpografias Urbanas BORTOLUZZI, Camila. Arquitetura como Paisagem: o Redesenho do Sítio na Produção Paisagística Contemporânea (relatório final Ensinar com Pesquisa 2010, USP- São Carlos). TSHCUMI, Bernand. The Manhattan Transcripts. Great Britain: Architectural Design, 1981


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