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Editor: José Carlos Vieira josecarlos.df@dabr.com.br

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CORREIO BRAZILIENSE Brasília, terça-feira, 24 de setembro de 2013

Celebraçãonavolta aoCineBrasília Apesar da tensão por conta do equipamento de projeção, a 46ª edição do festival reacendeu o espírito de diversidade na linguagem dos filmes Daniel Ferreira/CB/D.A Press

» RICARDO DAEHN » YALE GONTIJO » GUILHERME PERA » MARIANA VIEIRA » PAULA BITTAR ESPECIAL PARA O CORREIO

e começou com clima de ressaca para a sessão de abertura com o documentário Revelando Sebastião Salgado, regada a 500 garrafas de espumante, o 46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, ao longo de sete dias, viu arrefecida a verdadeira panela de pressão em que inicialmente transformou-se. Saíram os ânimos exaltados das tensas sessões de teste, dia a dia, depois do fiasco de um filme não exibido (Os pobres diabos) e, no bojo, predominou a celebração entre equipe e público das 30 produções em disputa oficial, e os integrantes de uma repaginada Mostra Brasília. Mais de 130 veículos de imprensa irradiaram as notícias de um festival apoiado na tradição e na visibilidade de prêmios que alcançaram R$ 700 mil. A cada noite, cerca de 1,5 mil prestigiaram as duas sessões da mostra competitiva. “É um festival que se arrisca e, este ano, eu percebi filmes muito distintos, que vão por caminhos bem diferentes. A gente vê como as pessoas estão pensando cinema no país e é isso que importa”, resume o cineasta Paulo Sacramento, que compete com Riocorrente,

Projetor vilão Atendendo o “privilegiado”, o produtor de Hereros Angola João Guerra se disse surpreso com a lotação da sala, na primeira vinda a Brasília. “Gostei de todos os documentários e, em geral, dos filmes de ficção. Brasília abriga o mais importante e histórico festival dedicado ao cinema nacional, por isso não quero comentar sobre problemas técnicos”, disse Guerra. Falhas no projetor de DCP (Digital Cinema Package), ocorridas até em Cannes, foram responsáveis pelo ponto mais baixo do festival. Maior prejudicado pelas falhas no projetor,

Rosemberg Cariry (de Os pobres diabos) destacou peculiaridade da reunião de olhares e estéticas brasileiras, na festa do cinema. “Um problema pontual, como o que ocorreu, não tira o brilho e a importância do encontro. No fundo, todo festival é feito pelo público e o de Brasília continua crítico e participativo”, emenda. Participação sentida em momentos ternos, como o da homenagem a Carlos Reichenbach (morto ano passado, e presente na tela como ator de Avanti popolo), como os aplausos — à cena aberta — para a atriz Maeve Jinkings, do filme Amor, plástico e barulho. Saído do mesmo filme (e integrante em funções diversas de outros longas), o ator Leo Pyrata compartilhou da receptividade de longas como Avanti poplo. “A figura do Carlão Reichenbach se relaciona com as utopias e o filme de Michael Wahrmann tem uma potência sutil e incisiva, além de trazer humor refinado”, comentou. O apelo popular de Amor, plástico e barulho não passou batido na avaliação. “O público identificou a leitura sofisticada do olhar da Renata Pinheiro (diretora) que trata com carinho e contundên-

cia esse filão dito brega da pós-indústria cultural. Riocorrente foi outro longa que achei poderosíssimo e bem coerente com a trajetória do diretor (Paulo Sacramento)”, analisou. Do painel “vigoroso” identificado por Leo Pyrata, filmes com carga transformadora chegaram à capital. Figuras centrais do cinema novo do porte de Joel Barcellos, o fotógrafo Affonso Beato e o diretor Joaquim Pedro de Andrade despontaram na reapropriação de discurso contemplada por Plano B. Com a importância histórica do resgate da imagem de João Guimarães Rosa, Outro sertão despontou em meio a documentários compostos de fortes traços culturais, como os vistos em O mestre o Divino e Morro dos prazeres. Presença ilustre, Paula Gaitán, viúva de Glauber Rocha, emulou parte da convivência com o mestre, em Exilados do vulcão. Santiago Dellape, codiretor de Plano B, não poupou críticas à estrutura. “Senti falta de uma sessão às 23h. Por conta de trabalho, quase não pude assistir aos filmes das 19h”, disse. “Separar entre ficção e documentário não me parece uma boa ideia, hoje temos vários filmes híbridos entre ambos”, completou. A praça, tradicional ponto de encontro, deixou Dellape desanimado. “Frequento o evento há 10 anos e não me lembro de ter visto a praça tão vazia”, disse, enquanto apontava cadeiras desocupadas no local.

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Glauber Polanski é crítico de cinema, agitador cultural e de batidas de abacaxi, entrepeneur do cerrado, comedor de coxinha com pequi e jornalista nas horas vagas Leia mais sobre a discussão do uso do DCP para a projeção.

Tendência do verão?

Sem buuuuu!

Doce vitória

Imaginem que Brasília, agora, vai lançar tendência cinematográfica para o verão 2014! Um cine-sauna, já pensou? Quem prestigiou as sessões de domingo no Cine Brasília já sabe como vai funcionar, pois foi um dia de sol, cinema e climatização natural! Digam-me, por acaso tem cota para uso do ar-condicionado? Ficou ligado na madrugada anterior e pifou? Essa moda veio para ficar? Minha humilde sugestão é que se ofereça, no press kit do festival do ano que vem, um grande leque abanador! Francamente!

O público do Festival de Brasília, no geral tão sincero em suas manifestações de apreço ou desgosto durante as sessões, este ano parece que desistiu das vaias, mesmo durante filmes que, francamente, as mereciam. Em compensação, rolaram pedidos de todos os tipos: teve gente gritando para que ligassem o ar, pedindo o aumento ou diminuição da luz, do volume, pedindo para retroceder a projeção. Vem cá, se for para controlar todas as variáveis, melhor assistir a um DVD em casa, não?

A noite de premiação está logo ali, virando a esquina que não existe em Brasília, como bem sabemos graças a uma das vinhetas maravilhosas que exibem antes de cada sessão. Pois quem não ganhar nada, nadica, pode se consolar com um chocolate em formato de troféu Candango, à venda na praça de alimentação do festival. A derrota não precisa ser amarga, meus caros!

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longa autoral exibido no penúltimo dia de mostra competitiva. Atriz da fita, Simone Iliescu sentiu o vigor das realizações “sem condução comercial”. “São filmes como Depois da chuva (de Marília Hughes e Cláudio Marques), em que percebi a proposta de uma posição política e da cobrança de movimento dos jovens. O que diferencia Brasília dos outros festivais é o favorecimento do debate: é mais a galera interessada em cinema mesmo, e não no oba-oba”, detecta.


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