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Diversão&arte

• Brasília, sábado, 31 de agosto de 2013 •

CORREIO BRAZILIENSE • 3

Programação de hoje

TEATRO

Teatro

Pontodeencontro

Fernando Santana/Divulgação

O festival Cena Contemporânea provoca um debate sobre o panorama nacional. Em entrevista ao Correio, a atriz Beth Goulart aponta as dificuldades, os impasses e a vitalidade do momento atual

Recusa, da Cia. Teatro Balagan (SP). No Teatro Sesc Garagem, às 20h. Classificação indicativa: 14 anos O homem vermelho, de Marcelo Braga (RJ). No CCBB – Teatro I, às 21h. Classificação indicativa: 14 anos Ensaio geral, da Agrupação Teatral Amacaca. No CCBB – Teatro II, às 19h30. Classificação indicativa: 16 anos

Zuleika de Souza/CB/D.A Press - 7/7/09

» DIEGO PONCE DE LEON carioca Beth Goulart conhece bem Brasília. Por aqui, estreou Simplesmente eu, Clarice em 2009 e, desde então, encarou temporadas na cidade com a peça na qual interpreta a escritora ucraniana/brasileira e que segue em cartaz, atualmente no Rio. Apesar da relação constante, ainda não teve a chance de participar do Cena Contemporânea, que ocupa todos os espaços cênicos da capital durante o mês de agosto: “Acompanho o festival, que prima pela busca de novas linguagens, algo que muito me interessa. A curadoria é muito cuidadosa”, elogiou.

A

Debate Depois de convocar nomes conhecidos da cena local — como Marcus Mota, Hugo Rodas, o grupo Novos Candangos, Guilherme Reis, entre outros — para debater o panorama cênico da capital, o Correio ampliou a discussão para o nível nacional. Beth Goulart, que acumula 40 anos de palco, percorreu os principais espaços do país e conhece, como poucos, a realidade teatral brasileira. “Antigamente, não existia patrocínio. Íamos ao banco atrás de crédito e batalhávamos pelo público, que pagava a produção.” Uma época que era possível se dedicar exclusivamente ao palco: “O teatro era autossustentável. Hoje em dia, dependo da televisão, por exemplo, e agradeço a oportunidade de estar na tela”, comentou. Nem por isso, deixa as cortinas de lado. Pelo contrário. O projeto com Clarice Lispector mantém uma trajetória de êxito, mesmo sem apoio: “Estou em cartaz e sem patrocínio. São cinco anos de resistência e de muito amor”. O público retribui o carinho e lota cada sessão.

A atriz Beth Goulart: o teatro é um espaço de resistência e de reflexão

Três perguntas // Beth Goulart Fabian /Divulgação

A sua visão quanto ao cenário atual é otimista? O teatro representa um pouco a própria sociedade. Ou seja, vemos a sociedade em processo de transformação. De questionamentos, de busca de valores reais. Mas também de insatisfação. A atual inquietação social está presente em todas as manifestações artísticas, e também no teatro. Entretanto, tenho observado a entrada de novos autores e autoras na cena contemporânea, o que não deixa de ser uma resposta criativa ao panorama. Aquela velha história da necessidade de políticas culturais que promovam o teatro permanece? Mas sempre faltam essas políticas! Sempre. Teatro é uma arte de resistência. Uma cultura que precisa de fomento, de estímulo, de disseminar esse prazer de ir ao teatro. E isso começa na escola e em casa. Se o público não lê, não conhece os autores, como vai

para também valorizar o trabalho. Deveria ser natural a pessoa querer, por exemplo, ir ao teatro pelo menos uma vez por mês, como parte da sua necessidade emocional, intelectual e psicológica. A fome não deve ser só de comida. Seria importante o público ter essa clareza de pagar um ingresso e, assim, contribuir para a manutenção daquela produção. Tudo começa lá trás. Teatro deveria ser curricular. Fazer parte do dia a dia das pessoas. Ainda precisamos criar certos hábitos culturais nos brasileiros.

Em cena, no espetáculo Simplesmente eu, Clarice, em cartaz há cinco anos descobrir o teatro? Se as pessoas são educadas a não pensar, como vão descobrir o prazer de pensar? O teatro faz o movimento contrário e tenta promover um pensamento crítico diante da realidade que se vive.

amanhã entrevista » Leia com Fernanda Montenegro

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E o papel do público, nesse contexto? Seria importante que o público tivesse consciência do processo teatral,

Confira as sinopses das peças em cartaz neste fim de semana.

À deriva, do Teatro do Instante (DF). No Teatro Newton Rossi SESC Ceilândia, às 17h e às 20h30. Classificação Indicativa: 16 anos O duelo, da Mundana Companhia (SP). No Espaço Cultural 508 Sul, às 19h. Classificação indicativa: 12 anos Duas mulheres em preto e branco, de Remo Produções (PE). No Teatro da Caixa, às 20h30. Classificação Indicativa: 14 anos Murga Madre, de Fernando Toja (Uruguai). No SESC Gama, às 21h. Classificação indicativa: 12 anos Tempo e espaço: Os solos da Marrabenta, de Panaibra Gabriel Canda (Moçambique). No Teatro Paulo Autran SESC de Taguatinga, às 20h30. Classificação indicativa: 12 anos Matéria prima, de La Tristura (Espanha). Na Sala Martins Pena, às 21h. Classificação indicativa: 12 anos Música Apresentações de Pink Freud (Polônia) e Dj Nagô. Na Praça do Museu Nacional da República, às 22h30. Não recomendado para menores de 18 anos. Jambinai (Coreia do Sul). No Teatro Funarte Plínio Marcos, às 20h. Classificação indicativa: Livre Ingressos nas bilheterias do Cena Contemporânea. A Terceira Roda ou O Alado, a Tristeza e o Espantoso Rio que bebe nuvens e mija Mar – Seu Estrelo e O Fuá do Terreiro (DF). No Teatro Funarte Plínio Marcos, às 19h. Classificação indicativa: Livre

Domingo Teatro

Do jornal para o palco

Fotos: Monique Renne/CB/D.A Press

Ale Catan/Divulgação

» PAULA BITTAR ESPECIAL PARA O CORREIO

O duelo, da Mundana Companhia (SP). No Espaço Cultural 508 Sul, às 19h. Ennsaaio geerall, da Agrupação Teatral Amacaca (DF). No CCBB – Teatro II, às 18h30. Recusa, da Cia. Teatro Balagan (SP). No Teatro Sesc Garagem, às 19h. Duas mulheres em preto e branco, de Remo Produções (PE). No Teatro da Caixa, às 20h30. O homeem vermelho, de Marcelo Braga (RJ). No CCBB – Teatro I, às 20h. Alejandro Persichetti/Divulgação

Gostei muito da programação. Peças atuais, como é a proposta do Cena, com preço muito bom.” Patrícia Motta, 42 anos, servidora pública Recusa foi inspirada na história de dois índios remanescentes da etnia Piripkura Isso tudo começou a despertar uma experiência sensível. Isso foi muito determinante para a elaboração do trabalho”, lembra Eduardo Okamoto. Os atores Antonio Salvador e Eduardo Okamoto dividem o palco para encenar Recusa. A direção é de Maria Thais, diretora também da companhia. A peça traz diversas narrativas que exploram os contrastes, mas que também se completam. Reproduzem, ao longo das cenas, o conceito indígena de que o universo foi criado a partir das diferenças. Interpretam e cantam em português e no idioma do povo Piripkura. Além do diálogo ríquissimo entre as culturas, o cenário, assinado por Marco Medina, tem uma história própria. O movimento da cenografia acompanha o desenrolar das cenas, o que atrai o olhar do público para diferentes interpretações. “Queremos mostrar nosso ponto de vista e ver o que a plateia tem a dizer do espetáculo”, fala Salavdor.

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Depois de ler uma notícia sobre um pedido da Funai dirigido ao Ministério Público Federal para obrigar o próprio órgão indigenista a proteger uma área de floresta no noroeste de Mato Grosso, onde vivem os dois últimos membros de uma etnia isolada — os piripkuras —, o ator Antonio Salvador começou a idealizar o projeto que deu vida ao espetáculo Recusa, da Cia. Teatro Balagan, em cartaz no Festival Cena Contemporânea. Salvador é natural do Mato Grosso do Sul. Cresceu em contato com a cultura indígena, às vezes, de maneira distante ou bem próximo. Viu de perto as mazelas de algumas etnias, como fome, falta de abrigo, conflitos e mortes. Levou para São Paulo as lembranças. “Quando li a reportagem, vi ali o meio de dar vazão a uma inquietação que não era só minha, mas também da companhia”, revela. Foram três anos e meio de pesquisa e preparação. Um tempo atípico de produção no teatro. Mostra o cuidado que a equipe teve para transformar aquela reportagem em uma arte reveladora ao contar a história dos piripkuras com a sociedade que eles recusam ter contato. “Essa história a gente não conhecia. Não podíamos simplesmente representar dois índios para contar uma história em que recusam qualquer contato com os brancos. Eles estão fugindo há 20 anos. São remanescentes de um massacre. É um povo que tem uma outra linguagem da vida”, conta Salvador. Passaram 11 dias juntos aos índios Suruí em Rodônia. Contato essencial para concepção de Recusa. “Uma coisa é saber sobre a cultura indígena por relato de antropólogo e jornalista. Outra é se meter na floresta Amazônica. Aquilo que era relato ganha cheiro, calor, suor.

Termômetro do Cena

Contrapontos “É impossível viver só de um espetáculo. Temos que nos dedicar a diferentes trabalhos”, afirma Salvador. Apesar do sucesso de algumas peças que se mantêm em cartaz por grandes períodos, nem toda verba da produção garante o desenvolvimento do projeto e o sustento dos artistas envolvidos. O governo tem feito incentivos à cultura, mas ainda é pouco. “A ministra da Cultura liberou 7 milhões e meio para promover desfiles de moda fora do país. O principal programa de financiamento de teatro do país, edital Lilian Muniz, oferece 10 milhões de reais para o país inteiro. Como pode o governo achar normal essa lógica?”, questiona Okamoto. Para os atores, festivais como o Cena Contemporânea trazem o olhar da sociedade para a importância da cultura. “Não se cria uma nação sem organizar o imaginário de um povo”, afirma Okamoto.

Murrgaa Madre, de Fernando Toja (Uruguai). No SESC Gama, às 20h. Maatéria priima, de La Tristura (Espanha). No Sala Martins Pena, às 20h. Múúsica

Assisti a duas peças pela localização. O Cena Contemporânea é sempre muito bom, cada ano fica melhor. O que surpreende também é que as peças nacionais e locais são melhores que aquelas que vêm de fora.” Luciano Raguzzoni, 48 anos, psicólogo

Apresentações de Guillaume Perret & The Electric Epic (França), na Praça do Museu Nacional da República, às 21h. Não recomendado para menores de 18 anos. A Terceira roda ou o Alado, a tristeza e o espantoso rio que bebe nuvens e mija mar – Seu Estrelo e O Fuá do Terreiro (DF). No Teatro Funarte Plínio Marcos, às 19h. Classificação indicativa: Livre

5 cena contemporânea 2013  
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