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PATRICIA NORMAN GRAVURAS 1991 | 2000


Sem tĂ­tulo, 1991 monogravuras em metal 32 x 23 cm col. particilar


Sem tĂ­tulo (alfabeto), 1992 monogravuras s/ tela 20 x 20 cm col. particilar


Miniprints , 1991 monogravura em metal

col. da artista


Alfabeto (1 a 26), 1992 monogravura em relĂŞvo 15 x 10 cm col. particular


Misunderstanding, 1992 monogravura

15 x 10 cm col. particular


SĂŠrie Pregos, 1995 monogravura em metal 20 x 20 cm col. particular


SĂŠrie Furos, 1995 monogravura em metal 20 x 20 cm col. particular


Série Grãos, 1997 impressão em relêvo s/ tela 20 x 20 cm col. da artista


Série Grãos (literatura), 1997 monogravura em relêvo 20 x 17 cm col. particular


S/ tĂ­tulo, 1998 monogravura em relĂŞvo 28 x 27 cm col. particular


SĂŠrie tambĂŠm..., 1999 monogravuras em metal e relĂŞvo 27 x 19,5cm col. da artista


SĂŠrie tambĂŠm..., 1999 monogravuras em metal e relĂŞvo 11 x 15 cm col. da artista


Série também..., 1999 monogravuras em relêvo 25 x 20 e 25 x 12,5cm col. da artista


SĂŠrie ainda..., 1999 monogravura em relĂŞvo 28 x 34 cm col. particular


SĂŠrie ainda..., 1999 monogravura em relĂŞvo 39 x 28 cm col. particular


S/ tĂ­tulo, 2000 monotipia 21 x 27 cm col. da artista


S/ tĂ­tulo, 2000 monotipia 79 x 28,5 cm


Série Núcleos, 2000 monogravura em relêvo 20 x 20 cm col. particular


Série Núcleos, 2000 monogravura em relêvo 20 x 20 cm col. particular


Modalidades do Visível (10/2), 2000 Impressão eletrônica 27,8 x 22,5 cm col. particular


Como acrescentar algo? Adentrar o universo criativo de Patricia Norman é tarefa um tanto delicada. Dada a leveza do seu trabalho e de sua personalidade reservada, qualquer olhar mais atento dirigido a sua obra parece consistir em um grande distúrbio. Meticulosa e displicente, sistemática e obsessiva, a produção da artista desconcerta pela astúcia com que conduz seu ofício. As efetivações artísticas de Patricia entrevistam o presente com discrição, lidam responsavelmente com o aqui & agora. Durante a última década, Patricia Norman experimentou a fundo o aparentemente infindável universo da gravura. Tendo cumprido todo o credo da tradição, a artista pôde libertar-se com autoridade e partiu para a exploração das mais diversas possibilidades da monotipia, das reproduções eletrônicas e outras tantas incursões na seara das impressões. Curiosa esta insistência em operar com os avessos, com os espelhamentos, com os reflexos: não é difícil supor uma necessidade de se ver no mundo, de se perceber em ato. Suas peças alternam humor e irritação, leveza e rispidez, oscilam entre a forma e o informe. Emergem simultaneamente orgânicas e mecânicas; expressividade e assepsia altercam-se. Porém, inexiste descompasso nestas oscilações: afinal, não é esta a dialética cotidiana? Hoje, dado o refinamento de suas criações mais recentes, as letras e os números que preenchiam quase todo o suporte no início dos anos 90 mais pareciam abarrotar um mundo sem significação. Decerto que nos ocorre uma afinidade com a índole da primeira pop art, um percurso necessário à artista, e cumprido à risca, sem dúvida. O passo seguinte, o que justifica o anterior, é o que consolida definitivamente sua trajetória artística. Ainda na disposição estética serial, Patricia partiu para o uso heterodoxo dos furos, dos grãos, dos pregos e arames, exibindo uma estranha familiaridade como que abrisse mão de qualquer definição banal, trazendo o espectador para uma realidade material. Ironicamente graciosos, tais trabalhos são por vezes tão despretensiosos e bem-humorados que lembram as monotipias de Mira Schendel. Aliás, estas não são as únicas peças de Patricia Norman que nos reenviam à artista suíça. Contudo, de algum


modo percebemos que qualquer parentesco histórico, mesmo este mais evidente, não surge como dever de casa. Se a nossa artista traz algo de Mira, é o modo de tratar a arte. Ambas têm obras de difícil visibilidade, embora o observador, uma vez captado, tenha sempre muito o que olhar. Tal malícia surpreende especialmente por conta da moderação formal: como acrescentar algo? Patricia acentua uma disponibilidade experimental através dos espaços ‘desprezados’ pelos poucos grafismos executados – falemos dos vazios. Os vastos ‘brancos’, com a inevitável lembrança de um valor oriental que os acompanha, deixam estrategicamente áreas livres – ‘em aberto’, diríamos –, que cobram definições impossíveis para a realidade crispada anexada aos traços. Por vezes parece que a artista quer mostrar algo que o trabalho não mostra. Mas, algum dia foi diferente? Se tratarmos suas peças na tecla da expressividade gestual, jamais poderíamos anotar um tom superlativo nessa qualificação. Por outro lado, não apeteceriam igualmente outras classificações standard arrumadas pela história da arte. A obra de Patricia tem a capacidade de dizer e desdizer logo em seguida as referências artísticas que por ventura possam aderir criticamente à superfície: como acrescentar algo? Mais tarde foi a vez dos papéis que trazem alguns poucos traços e parecem resultar de gestos lentos e sem desenvoltura. A ação está dificultada por algo que lhe trava o braço. Tudo que assistimos no retângulo é a incidência de uma ou duas linhas grossas e profundas que emergem com a rispidez própria a alguém incapaz de dominar por completo os seus atos: caligrafia angulosa, retas toscas e curvas súbitas. Os sulcos negros sobre fundo branco procuram continuidade nos veios brancos sobre fundo negro, aprontando um jogo perverso de contrastes que não chega a cumprir uma identidade especular, mas induz a procura quase obsessiva do olhar. São linhas que ‘entram’ inesperadamente na ‘arena’, participam de um espaço imponderável, e seguem para um outro lugar. O que nos atrai neste lapso é a consciência (?) de que as relações não se esgotam como as matérias.


E temos também a coleção dos emaranhados sinuosos, dos movimentos biomórficos. Tratam-se, agora, de linhas que percorrem graciosamente quase todo o suporte, aviando uma caligrafia descompromissada, dotada de um ritmo fluido e ondulado que vai desfazer, temporariamente apenas, as graves impressões deixadas pelos trabalhos anteriores. É um instante igualmente precioso. Livres dos resmungos existenciais, o observador pode desfrutar de uma performance estética menos drástica, mais afeita ao desenho, embalada pelo encanto do pulso sem rumo. Daí começam a surgir as monotipias que distinguem-se pela especial fragilidade. É o momento em que assiste-se a uma debilidade aflitiva substituir a ânsia que regia as fornadas anteriores. A linha contínua, que media sua energia com o papel, dá lugar aos rabiscos leves e fragmentados dispostos sobre o papel de seda. Os riscos despontam delgados, rarefeitos, como que aleatórios e, mais uma vez, enunciam incerteza e desgoverno. Fios agora desprovidos de vigor físico que, no entanto, são igualmente derivados de uma tensão com o mundo: propõem expansões poéticas, não escamoteiam certezas inalcançáveis. São rabiscos econômicos, estancados, nervosos; funcionam excelentemente apenas até onde podem ir – um leve traço se arrasta e acaba numa súbita trepidação; um gesto experimenta seu impulso inicial e dilui-se desanimado. Sugerem a ocorrência de suaves espasmos durante os quais a mão não pode ser dirigida. Daí param e deixam uma série de questões para depois – um dia, quem sabe.... Afinal, esses tipos de conflitos não caducam com o tempo. Na seqüência, Patrícia desenvolve duas novas levas de trabalhos que esmeram-se numa interessante picardia visual. Uma delas, traz gravuras ‘tradicionais’: da sua prensa saem comportados traços negros e relevos secos obtidos pelos contumazes fios de cobres; posteriormente uma pequena área destes moldes é preenchida com pigmento de cor cobre preparado com muito óleo. Do processo resultam diminutas figuras abstratas, centradas ou quase isso, que deixam imensos territórios em brancos. Desta feita, porém, o desenho se contém – inexistem fios que procuram escapar. O que vaza (algo tinha que cumprir este papel) é o óleo: o pigmento metálico, aplicado nos limites determinados pela artista, esparrama seus excessos. A mancha gordurosa, um borrão


claríssimo, gera um suave magnetismo, desintegrando contornos e dispensando cores: a imaginação quer mais espaço. No outro conjunto desta etapa, Patrícia apresenta-se com um papel muito velho - um clássico epistolar de 50 anos de idade -, sustentando uma intervenção tecnológica de ponta. Nem um dos dois fatos são imediatamente identificáveis. Plaquinhas, arames embolados, papéis amassados, dentre outros velhos companheiros, estão de novo presentes e, do mesmo modo, dissimulados. Os ‘trequinhos’ caros à artista, escaneados e retocados eletronicamente, são levados a seus limites pictográficos; em seguida, as imagens obtidas são printadas nos finíssimos papéis de linho amarelecidos. Os objetos retornam oscilando diversas condições representacionais: parecem iluminuras, são planas e profundas ao mesmo tempo. E, é nisto que reside grande parte da beleza do trabalho, numa sutil operação transfiguradora. Além do mais, estas imagens fingem e não fingem. Fingem que não fingem. Não fingem que fingem. Porque não iludem, muito iludem. Ou seja, a nossa simpatia com estes ‘delicados pergaminhos’ vai muito por conta das intricadas misturas técnicas disfarçadas pelo já conhecido low profile de Patrícia Norman. Nestas últimas experiências, temos objetos banais e processos artísticos remotos somados aos mais atuais e sofisticados. Quando tudo poderia descambar para um grande equívoco, a artista espanta- nos com uma especial aptidão perceptiva, manipulando compostos arriscadíssimos: impossível apreender de pronto o que se passa em suas superfícies. A gravura é, por definição, plana - a tinta gordurosa entranha no papel: é uma ‘impressão’. O relevo seco incorpora o desenho ao suporte e nada é superposto. Já o óleo abusivo é sugado, passa a ser componente do papel; e a imagem printada é foto-sensibilização. Nada novo e tudo velho, tudo novo e nada velho. A gravura requer disciplina. Trata-se de uma atividade que exige organização e seleção, ensina a alinhavar percepções pouco a pouco. Patricia é o tipo de pessoa que trabalha adiando as coisas, deixando a massa de lado, retomando-a se desenvolve lentamente para caber no timing existencial da artista. Resulta em uma pesquisa sóbria, de dimen-


sões igualmente modestas: são linhas envolvidas em suas próprias dúvidas. Assim, as sessões não seguem roteiros e as elaborações exalam tranquilidade. Mas, não acreditemos numa calma absurda: estas são realizações que indagam pelo momento no qual as coisas aparecem no mundo, como ganham existência. Investigam a gênese, a permanência matérica, o tempo todo. E tal empreitada pouco tem de inocente, apesar de seus traços nada decidirem. Tateando a vida, os modos de se olhar as superfícies, trata-se de um exercício cartográfico que age com precaução, que come pelas beiradas. Tal modo de operar a gravura tem seu componente contemporâneo, uma atualidade serena que não se alinha facilmente às estridentes poéticas que surgem a torto e a direito sem aguardar a maturidade necessária à apresentação pública. Ascéticos e lacônicos, estes papéis parecem falar tudo pela metade. Extremamente reticente, Patricia Norman exibe a contenção visual de quem pressupõe que os exageros do mundo não podem ser explicados, muito menos mostrados. Talvez esse aparente ideal de simplicidade não passe de um engasgo melancólico: é possível usar até o fim qualquer um dos sentimentos sem que sejam invadidos por outros? A vida é uma sucessão de experiências incompletas – afinal nada mais é integral ou passível de ser posto ‘preto no branco’: nada a acrescentar Christina Bach, novembro de 2000


Pzn gravuras 91 2000  

Seleção de gravuras produzidas entre 1991 e 2000, texto de Christina Bach

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