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newsletter

Dia internacional da Filosofia 2011

O Núcleo de Estudantes de Fi-

losofia da Universidade do Minho comemora o Dia Internacional da Filosofia de 2011 com a publicação da sua primeira newsletter, cujo objetivo passa pela permanente projeção das realizações filosóficas que o Curso permite.

Os artigos ora publicados resultaram da iniciativa dos seus autores, que escolheram livremente os temas dos seus textos; é possível, contudo, perceber uma preocupação comum com o atual momento de crise. A Filosofia surge, neste contexto, como uma solução ainda válida (e, talvez, a mais válida) para repensar os problemas atuais e as possíveis soluções. Este é o espírito da disciplina

As crises são dolorosas para muitos, mas

podem ser boas para a Filosofia. O conceito de crise remete para a dúvida e para a mudança. Uma crise é sempre um momento em que aquilo que era tomado por garantido passa a estar em causa, deixa de ser aceite e é confrontado com novos possíveis. Há vários aspetos da crise atual que põem em causa aquilo que muitos tomavam como estabelecido, particularmente desde a implosão do mundo comunista. Em primeiro lugar, a fé na capacidade dos mercados financeiros para produzir riqueza e bem-estar. Hoje tornou-se evidente que as finanças internacionais perderam o contacto com a realidade dos povos e tornaram-se num fator da sua insegurança e empobrecimento. Em segundo lugar, a crença na inevitabilidade e linearidade da construção europeia, de uma espécie de destino comum para os povos da Europa, com a capacidade para garantir paz e prosperidade ao longo das gerações. Tornou-se agora mais evidente a fragilidade e reversibilidade do projeto europeu e dos seus esperados efeitos benéficos. A Filosofia Política, que desde há muito reflete sobre o Estado, a soberania, o papel dos mercados, a liberdade, a justiça social, etc., tem de fazer aqui um esforço redobrado para pensar os aspetos financeiros e económicos da crise, os seus impactos sociais e a sua relação com o projeto de construção de uma “paz perpétua” na Europa. No entanto, não devemos centrar a nossa análise da crise apenas nos seus aspetos mais imediatos. A crise que nasceu nos Estados Unidos e se agravou na Europa não existe da mesma forma noutras paragens, particularmente na China. Assim, por detrás

das crises já referidas, esconde-se a crise daquilo a que estamos habituados a chamar ocidente, um tema já objeto de longa reflexão filosófica mas que hoje parece materializarse. Esta é pois a ocasião para repensarmos as relações entre a Filosofia ocidental e as Filosofias orientais. A confrontação entre modelos ocidentais e orientais de pensamento moral, político e metafísico é um dos grandes desafios da atualidade. Aliás, há pelo menos uma dimensão da cri-

se que é igualmente partilhada pelo ocidente e pelo oriente: trata-se da crise ambiental. Podemos até especular que esta constitui o núcleo duro das crises anteriores, já que a escassez dos recursos naturais e as limitações ambientais ao crescimento funcionam como pano de fundo para as mudanças económicas e políticas já referidas. Também neste aspeto será necessário rever a Filosofia da Natureza e a Ética Ambiental para sermos capazes de dar um novo sentido a um mundo com cada vez mais habitantes, mas com recursos limitados.

e do curso: permitir pensar de forma crítica os problemas e avançar soluções alternativas, sobretudo quando o pensamento parece mais dominado por um consenso aparente do que por um dissenso saudável. O desafio kantiano ainda faz hoje todo o sentido: Sapere aude! Ousa saber e pensar, e, acrescentaremos nós, ousa publicar o que pensas...

O NEFILUM

O que está por detrás da crise ambiental é também um certo modo de vida, a existência de padrões de consumo insustentáveis, mas, antes disso, uma determinada visão do mundo – aquilo que alguns designam como o primado da técnica, ou mesmo uma entificação do ser. Esta dimensão mais profunda da crise interpela-nos fortemente, já que remete para as grandes questões da Teoria do Conhecimento, da Filosofia das Ciências e da relação desta com o domínio tecnológico do mundo e, por fim, para a nossa conceção do homem e do ser, para a Antropologia Filosófica e para a Ontologia. Assim, no compartimento final desta caixa de Pandora, encontramos a crise da própria Filosofia. Esta não é alheia ao tipo de construção mental operada pela Ontologia e Antropologia que conduziram à crise, à violência da cisão entre o sujeito cognoscente e a realidade construída, aos construtos morais e políticos prevalecentes nas nossas sociedades, e por aí adiante. Mas a Filosofia, como sempre, tem a capacidade para tudo colocar em causa e para re-conceber a relação entre os homens, a relação destes com a natureza, o pensamento sobre os limites do conhecimento e a estrutura do real. Cabe pois aos filósofos, mais do que a quaisquer outros, reconstruir o futuro em bases diferentes daquelas que a crise atual demonstrou já não serem válidas. Como notava Kant, à Filosofia cabe construir racionalmente a esperança - e isso é particularmente relevante em momentos de crise. O nosso tempo é, portanto, um tempo bom para a Filosofia. João Cardoso Rosas Diretor do Curso de Filosofia


A UNESCO indicou em 2002 a

celebração internacional do Dia da Filosofia na terceira quintafeira do mês de Novembro. Neste ano de 2011 será celebrado no próximo dia 17 de Novembro. Com este dia a UNESCO pretende promover a importância da reflexão filosófica e destacar o valor da filosofia para as nossas vidas quotidianas. A filosofia é uma atividade crítica. Ao caracterizar-se a filosofia como crítica não se está a dizer que ela é uma atividade de “bota-abaixo”. Pelo contrário, significa que se procura em filosofia examinar se as ideias que os sujeitos cognitivos veiculam são plausíveis ou não. Com a crítica a filosofia destrói dogmas cristalizados, mostra ignorância onde se supunha um saber indisputável, nada aceita sem uma cuidadosa análise, e obriga constantemente a repensar ideias para as sustentarmos com melhores razões ou argumentos. Esta atividade encetou-se fundamentalmente com Sócrates, na

Dia da Filosofia “Uma vida não examinada não merece ser vivida”

Grécia Antiga, ao estimular cada cidadão a examinar cuidadosamente as suas crenças em diálogo crítico com os outros, de modo a haver uma maior aproximação da verdade. É também isto que a filosofia nos convida a fazer hoje: a examinar e a discutir criticamente as nossas crenças. A filosofia critica nomeadamente as crenças mais básicas que o ser humano possui e que dirigem a sua vida. Porém, pode-se levantar aqui uma objeção: a ciência também investiga criticamente crenças básicas, então qual é a relevância da filosofia? É preciso atender a uma diferença peculiar: a ciência trata daqueles problemas que podem ser analisados empiricamente, enquanto

a filosofia trata daqueles outros problemas que não podem ser analisados empiricamente e para os quais não existem métodos formais de prova. Por exemplo, se nos limitarmos a usar metodologias empíricas nunca conseguiremos responder a problemas como os seguintes: Deve a eutanásia ser legalizada? A sociedade deve estar organizada segundo uma conceção libertarista (como pretende o nosso Governo) ou segundo outras conceções como o liberalismo-igualitário ou o comunitarismo? Será que Deus existe? Estas questões dizem respeito à filosofia, pois só se podem tentar resolver tais problemas recorrendo fundamentalmente ao pensamento, à argu-

mentação cuidadosa e à discussão crítica. Portanto, a filosofia é essencial pelo seu valor instrumental de facultar ao ser humano um pensamento crítico, mas também pelo seu valor cognitivo intrínseco de procurar encontrar boas respostas para problemas que são fundamentais para os seres humanos e que são insuscetíveis de resolução empírica e formal. Nada melhor do que percecionar a filosofia em ação para se compreender melhor a natureza e a relevância desta área do conhecimento humano. Por isso, uma boa sugestão para celebrar o dia internacional da filosofia poderá ser ler algum texto de introdução à filosofia. Que este dia seja, como a UNESCO recomenda, um dia para debater ideias e para reafirmar o verdadeiro valor da filosofia. No entanto, espera-se que a filosofia não fique circunscrita apenas a um dia, mas que seja uma presença constante na vida humana. Domingos Faria

(aluno do mestrado de ensino em Filosofia)

BUÑUEL – O Cineasta de Calanda

L

uís Buñuel y Portolés nasceu a 22 de Fevereiro de 1900 em Calanda, pequena povoação aragonesa da província de Teruel, a cerca de 100 km de Saragoça. Calanda ficou para sempre marcada na memória deste extraordinário e não menos controverso cineasta. Nas recordações da sua infância, Calanda é a presença mais forte. No seu livro Meu Último Suspiro, Buñuel diz: «Pode dizer-se que ali a Idade Média se prolongou até à primeira guerra mundial. Sociedade isolada, imóvel, marcando muito nitidamente as diferenças entre as classes. O respeito, a subordinação do povo trabalhador em relação aos senhores, pareciam imutáveis, fortissimamente enraizados em hábitos seculares.». Os pobres sentavam-se todas as sextas feiras, à porta das casas dos ricos, para receberem um bocado de

pão e uma moeda que os criados distribuíam. Calanda era ultra-católica. Um seu tio era padre, Luís Buñuel ajudava-o à missa e fazia parte do coro musical da Virgem del Cármen «a minha fé era tão cega – pelo menos até aos catorze anos – que nunca pus em dúvida a veracidade do milagre de Calanda». No capítulo “Memórias da Idade Média” dedicado a Calanda, o cineasta abre um subcapítulo para a morte, a fé e o sexo, com os quais tomou contacto pela primeira vez nas férias da Páscoa e de verão que aí passava com a família todos os anos e que, mais tarde, teriam, na sua obra, uma importância fundamental. Na Espanha da sua juventude, só se conheciam duas formas de fazer amor: o bordel e o casamento. Por isso, não é de espantar o que ele conta sobre a aprendizagem do sexo que, em toda a península ibérica, era tido como o maior pecado, recaindo sobre ele uma implacável proibição. Mas é essa proibição que cria um sentimento de pecado que pode tornar-se delicioso. Foi esse sentimento de pecado que levou Buñuel a deixar a virgindade num bordel de Saragoça e a encontrar no seu autor favorito (o Marquês de Sade) a associação entre sexo e morte,

associação essa que estará omnipresente na sua obra constituindo mesmo o cerne dela. Diz Buñuel em Meu Último Suspiro: «Por razões que me escapam, sempre vi no acto sexual uma certa semelhança com a morte, uma relação secreta mas constante. Tentei traduzir esse sentimento inexplicável em imagens, em Um Cão Andaluz, quando o homem acaricia os seios nus da mulher e, subitamente, a sua cara se transforma na de um cadáver. Será porque fui vítima, na minha infância e juventude, da mais feroz opressão sexual que a História alguma vez conheceu?». E, mais à frente, refere ainda: «Os homens da minha geração, ainda por cima espanhóis, sofriam de uma timidez ancestral diante das mulheres e de um desejo sexual que talvez fosse, como muitas vezes tenho dito, o mais forte do mundo. Esse desejo era, evidentemente, a consequência de muitos séculos de catolicismo emasculador. A proibição de qualquer relação sexual fora do casamento, a exclusão de qualquer imagem, de qualquer palavra que pudesse de perto ou de longe ter que ver com o acto de amor, tudo contribuía para fazer nascer um desejo de uma violência excepcional. Quando apesar de todas as proibições,

esse desejo se podia satisfazer, o prazer físico era incomparável porque estava associado à secreta alegria do pecado.». Em Calanda, a mesma proibição que rodeava o sexo envolvia a morte. A miséria era imensa e as imagens de morte eram tão terríficas como as do sexo. Os homens matavam-se facilmente, nas frequentes cenas de facadas e, ao sol, apodreciam cadáveres de burros, que os cães vinham comer, como mais tarde Buñuel retrataria em Las Hurdes. Buñuel apresenta nos seus filmes imagens, consideradas oníricas e irreais, mas que têm uma base bem real nas suas recordações de Infância. São, também, recordações de infância as imagens sonoras associadas aos célebres “tambores de Calanda” que comemoravam a treva que se fez no mundo a seguir à morte de Cristo e que Buñuel introduziu nos filmes A Idade de Ouro e Nazarin. Diz-nos Buñuel que em Calanda, o povo sabia como ninguém que a morte é «a única coisa depois da qual não acontece nada». António Lopes Pereira (antigo aluno) O artigo encontra-se redigido sem as regras do Novo Acordo Ortográfico por vontade do autor.


manifesto“ Irás ser um Cientista! Diziam-lhe

admirados. Porém, as quantidades da matéria apenas serviram para tirar medidas às suas amigas. E para apreender a beleza dessas musas tornou-se Artista Plástico, expressou ideias e o fluir de autênticos sentimentos, criou formas significantes e emoções estéticas, contudo, pouco público contagiou. Então, espiritualmente empírico quis ser Psicoterapeuta, abordar o autoconhecimento, compreender emoções e comportamentos, mas encontrou-se mais ignorante, pois a verdade, como vento invisível ou como água límpida, fugia-lhe por entre os dedos. Procurou então a essência das palavras e virou Poeta, para no Panteão ser o mais sábio. Mas tal Prometeu acorrentado, foi por um fio, que o menino antes de ser salvo não se perdeu, não fosse o despertar em si de um novo amor chamado Sophia. No entanto, quanto mais o menino a desejava observar, possuir e sobre ela se

debruçar, mais compreendia que nada sabia, nem das coisas terrenas nem das coisas celestes, muito menos sobre essa menina que chamámos Filosofia. Pensou então que ela era a tal, a única coisa que indubitavelmente para além do seu pensamento existia. Logo, matriculou-se na Universidade do Minho e visitou Platão (Apologia). Se foi Sócrates injustamente acusado, por “cometer crime corrompendo os jovens e não considerar como deuses os deuses que a sua cidade considerava porém outras divindades novas.” Então muitos acusados deveriam ser, por considerarem o ser humano não como pessoa pensante, mas como falso carneiro, que sem valores e sem cultura visa o lucro, daqueles que têm como bem último um outro deus, a venerada mão invisível do mercado (ou do Estado). E se “os demónios são filhos bastardos dos deuses com as ninfas” estes semideuses inimputáveis são os filhos adúlteros desta mão, que em vão a dignidade tentam arrancar à minha amada Filosofia. Mas o menino, amigo de Sophia, assim como Sócrates e ao contrário da maio-

ria, disse não às circunstâncias, procurou não o supérfluo mas proteger a alma da sua menina. “Quando os meus filhotes ficarem adultos, puni-os, atormentai-os do mesmo modo que eu vos atormentei, quando vos parecer que eles cuidam mais das riquezas ou de outras coisas que não a virtude.” Pois podiam-me tirar tudo, irreversivelmente tudo: as mulheres que ternamente aquecem ossos antropológicos em círculos de volúpia ou em saltos olímpicos intermináveis. As que ouvem, as que falam, as que se despem na despedida e até mesmo as que felizmente nada fazem: giras advogadas, inteligentíssimas juízas, sensuais psicólogas ou generosas bancárias. Também me podem arrancar os amigos que julgo ter e aqueles que poderia vir a ter, sejam eles solidários, geniais ou categoricamente leais. Podem levar este amontoado de órgãos que serve de ambulante divã terapêutico, o veículo, levem-no que vos ofereço a televisão de brinde, para onde as partículas do meu cérebro mental e visceral fruem. Levem tudo que eu não sou niilista! Levem o teto que as

Sobre a diferença de classes

Em várias áreas da investigação são pro-

curados exemplos que conduzam a uma demonstração científica. Normalmente, a ciência tenta superar ideias concretizadas e desligarse do vulgar conhecimento e da ilusão. Neste momento, em que a questão das desigualdades entre o poder e a riqueza se acentuam, ao ponto de se perspectivar a decadência de uns e o fortalecimento de outros, também as classes sociais, em maior grau, sentem a sua decadência dentro da comunidade. Tudo isso nos mostra a escala linear de valores, que cresce e diminui e, na circularização social, muitas vezes faz inverter posições. Ainda hoje, ninguém nos poderá dizer com razão qual o mistério que está por detrás de toda esta ordem estabelecida entre classes. Se uns estão no topo e outros na base, será uma teoria pré-estabelecida pelas elites? Desde os primórdios da ciência moderna que a biologia e a sociedade interagem uma com a outra em todos os aspectos. Há quem aponte o determinismo biológico como uma teoria geral que nos pode levar a compreender melhor a existência eterna entre pobres e ricos. De uma coisa estamos certos, desde a antiguidade que as elites dominantes continuam a manter formas de tentar sobrepor-se à maioria das outras classes. Contudo, não deixam de sentir essa desvalorização em relação ao seu semelhante, o que as faz denotar algum medo. Não é por acaso que os cortes no orçamento de Estado em questões sociais, normalmente semeiam a instabilida-

de nos mais penalizados. E que originam, na maioria das vezes, mudanças de poder. No momento actual, parece que estamos a viver os tempos longínquos de Sócrates (cerca de 470-400 a.C.), em que este ao dirigirse aos cidadãos da República, lhes dizia que todos os indivíduos deviam ser educados e depois avaliados consoante o seu mérito, que, por sua vez, os dividia em três classes: os governantes, auxiliares e artesãos. Argumentava que a força divina os moldou para serem diferentes. Sem dúvida, que não podemos enveredar por esse mito. É certo que, hoje em dia, parece que isso prevalece, mas com outra demonstração: ricos, médios e pobres. Ora, se a clas-

estrelas iluminarão o caminho interno e se em erro me conduzirem ao inferno, podem apostar que eu regresso ileso, com o coração nas mãos a pulsar de frio por ter congelado Hades no seu próprio trono. Podes tirar-me os ossos das partículas e o ar onde em respiração elas convivem através de leis que jamais algum génio determinou. Podes tirar-me a cama, onde o espírito repousa e abastece o ânimo, as paredes, sem as quais o vento clarifica e ondula as minhas palavras. A alma que eu permanecerei crente, o raciocínio que eu permanecerei autónomo, os olhos que eu jamais esquecerei Sophia. E os ouvidos por onde a sua melodiosa voz me chega, leva-os! E a alma que acaricia o seu rosto angélico e cheio de vida, podes levar, pois a realidade fortalecerá a paixão que Sophia sempre recordará. Mas as luzes que provocam ilusões óticas e ofuscam a necessidade da verdadeira luz efetivamente brilhar, através da pura realidade contingente que a menina Sophia possui no seu olhar, apaguem-nas. Alexandre Costa (aluno do 1.º ano)

se média tende a diminuir ou a ser destruída, então a sociedade ficaria composta somente pelas outras duas classes. O que a suceder seria o caos, de que muitos falam. Repare-se que a inteligência é a entidade que está na base de toda esta formulação. Muito embora se discorde por completo desta anuência, também hoje, mais do que nunca, é duvidoso ou aparente o sonho de um jovem poder vir a tirar um curso superior para se fixar com emprego na vida. Aí, Sócrates dizia que a educação e formação que a juventude recebia não era mais do que uma aparência. E não será que esse tipo de exemplos tem semelhanças com o que se passa na actualidade? Se os governantes são unânimes em apelar à educação das pessoas para que elas possam dar um contributo de qualidade ao país e tenham uma melhor decisão na escolha de si mesmos, porquê os cortes no orçamento? Será que os apelos não passam de uma farsa? Ou estamos perante um interesse acentuado de teorias que não passam de uma intenção fundamentada num movimento de opiniões políticas e reconhecimento cínico, cuja seriedade falaciosa apenas deseja evidenciar o interesse social? Isso tem sido reconhecido por quem detém a riqueza, existindo quem afirme que os impostos estão a penalizar quem precisa de manter o património adquirido pelo trabalho, modo de vida, etc.; ou de que “são sempre os mesmos a pagar”; e, ainda, de que alguns “ricos se estão a rir!”.

Abílio Monteiro (antigo aluno)


Homenagem ao Professor Acílio Rocha O Departamento de Filosofia ho-

menageou, no dia 29 de outubro, o Professor Acílio Estanqueiro Rocha, professor catedrático desta casa que se aposentou recentemente. O auditório do Instituto de Letras e Ciências Humanas foi pequeno para todos os colegas e amigos do mundo académico que quiseram, com a sua presença, prestar tributo ao homenageado. O Professor Acílio Rocha licenciou-se em Filosofia na Universidade Católica Portuguesa, em Braga, no ano de 1973 e prosseguiu os seus estudos na Sorbonne, tendo defendido aí o primeiro dos seus dois doutoramentos,

sobre o estruturalismo de LéviStrauss. Em 1984, defendeu na Universidade do Minho a sua segunda tese de doutoramento sobre o pensamento estruturalista no seu conjunto. A sua carreira académica desenrolou-se, sobretudo, na Universidade do Minho, onde criou profundos laços de amizade e respeito com todos aqueles com quem trabalhou. Este movimento de homenagem é resultado disso mesmo, e foi materializado numa coletânea de ensaios, organizada pelo Diretor do Departamento de Filosofia, Doutor Vítor Moura, e pelo Diretor do Curso de Filosofia, Doutor João Cardoso Rosas,

Os novos alunos

Há três anos atrás tomei

conhecimento de uma tal coisa chamada “Filosofia”. Sem saber minimamente o que seria algo tão estranho, e muito menos conhecedora de alguém que me explicasse, comecei por ler O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder. Interessei-me tanto que decidi frequentar o seu curso. Assim, com apenas algumas semanas de aulas, apercebime da verdadeira grandeza e

Filosofia

não era apenas uma entre seis opções. Filosofia era a única opção. Foi com esse objetivo que decidi entrar no mundo académico e foi com essa motivação que optei por este curso. Penso que a maior parte das pessoas que decide entrar na universidade e fazer uma Licenciatura, têm em vista um melhorar da sua condição atual projetando um futuro luminoso, buscam conhecimento técnico no geral e talvez por último queiram dinamizar a sua condição pessoal e social. Penso que foram esses os motivos que me levaram a este curso, porém falta enumerar algo mais importante, algo que eu venho buscar e que muito provavelmente só o curso de Filosofia visa proporcionar diretamente: uma perceção alargada do mundo, uma dose de discernimento e um

intitulada com uma expressão retirada de um ensaio do próprio homenageado: Pensar Radicalmente a Humanidade. Também nós, alunos e antigos alunos do Curso de Filosofia, somos marcados pelo cunho indelével que deixou na nossa Universidade e por isso também nós nos queremos associar a esse tributo tão merecido. Obrigado, Professor Acílio, por todo o seu trabalho e dedicação, que nos permitem hoje refletir melhor e radicalmente sobre o homem e o mundo! O NEFILUM

A Filosofia em 2011/2012

importância duma disciplina como esta. Creio ser, na sociedade em que vivemos, de maior importância o tipo de matéria abordada no curso de Filosofia que, na sua maioria é intemporal e aplicável a este milénio, a este século, a esta década e mesmo a este exacto ano. Assim, seria de ponderar uma maior aplicação destas matérias no mundo dos jovens cada vez mais complexo injectado de informação

a cada momento, incutindolhes uma real reflexão acerca do tempo e do espaço, no geral, do universo que os rodeia. Eu, enquanto jovem reconheço esta realidade e é com orgulho e até vaidade que digo a todos estar a frequentar o Curso de Filosofia, o melhor curso onde vou ter espaço e tempo para dar-me ao prazer e simultaneamente ao incómodo que é pensar.

autoconhecimento alucinante. Talvez, no geral, a experiência académica proporcione isso, mas com a tendência para que cada especialista se feche na sua área e nos seus paradigmas, ficando mesmo com dificuldades de comunicação com especialistas de outras áreas. Em Filosofia isso não acontece, fala-se de tudo, trabalha-se com tudo e tudo serve para refletir. Ainda estou no 1º semestre, ainda nem sequer sei o que Filosofia é na sua plenitude, mas as cadeiras que temos foram de tal forma organizadas e colocadas no momento mágico para proporcionar um arranque aos alunos neófitos que de outra forma não poderíamos ter começado: Lógica, Filosofias Orientais, Filosofia Antiga, Seminário e Teoria do Conhecimento, são exatamente os conteúdos perfeitos para nos dar um cheirinho do que ainda está para chegar.

Impossível não falar dos docentes, entre livros publicados e dezenas de artigos, eles respiram e transpiram Filosofia. Não existe simplesmente o professor que atira matéria que o aluno decora e cola numa resposta qualquer. Há todo um pensamento crítico e uma vivência daquilo de que se está a falar e isso, seja via consciente ou inconsciente, passa para os alunos e tolda positivamente a sua forma de pensar e agir – é inevitável. Há comunicação entre alunos de todos os anos e surge já um gosto em estarmos juntos. Muito bom. Um curso relativamente pequeno em número, mas com uma importância extrema para qualquer boa Academia. Estou no sítio certo.

Diana Neiva (aluna do 1.º ano)

Bruno Silva (aluno do 1.º ano)

O presente ano letivo começou com a realização do Encontro Nacional de Professores de Filosofia, organizado em parceria com a Sociedade Portuguesa de Filosofia, nos dias 9 e 10 de setembro. O mês de outubro recebeu a Conferência sobre Distributive Justice in Health (dias 5-7); o II International Congress on Political Philosophy and Theory (Democracy, the Media and the Public Sphere) (dias 11 e 12); e o Simpósio Luso-Galaico de Filosofia (nos dias 28 e 29). No dia 18 de outubro realizou-se a aula inaugural do Curso de Filosofia, com uma conferência proferida pelo Professor Fernando Machado, intitulada «J.-J. Rousseau, Botafogo de Modernidades. Ecos em Portugal».

Atividades a realizar: • III Jornadas de Filosofia (março) • Conferência Left and right: the great dichotomy revisited (23 de março) • The Braga Meetings on Ethics and Political Philosophy, 3.rd edition (maio) • Congresso de Teoria Crítica Revisitada - Diálogos entre Música/Filosofia, Estética/ Ética, Política/ Arte (21 e 22 de junho) • Conferência Anual da Sociedade Europeia de Estética (25-27 junho) • Encontro Nacional de Filosofia Analítica (13-15 setembro) • Comunidade de Leitores de Filosofia e Seminário Permanente de Filosofia (a realizar ao longo de todo o ano)

Newsletter Filosofia 2011  

Newsletter do Dia Internacional da Filosofia

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