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Coletânea “Cenários”

Utilizando Cenários para Alinhar-se ao Futuro

Apresentação

APRESENTAÇÃO:

UTILIZANDO CENÁRIOS PARA ALINHAR-SE AO FUTURO A

inda são poucos os executivos que perguntam-se uma questão fundamental: “Queremos ou não controlar nosso próprio futuro?” Para aqueles que respondem afirmativamente, cenários têm um valor incalculável. Cenários são como sondas para o futuro. Seu valor está em sensibilizar os executivos para possibilidades que eles dificilmente perceberiam de outra forma. Cenários reduzem as chances de surpresas indesejáveis e capacitam os executivos a tomar melhores decisões, em melhor timing. O propósito essencial de cenários é apresentar aos executivos uma imagem significativa de futuros prováveis, em horizontes de tempo diversos. A partir dos cenários os executivos podem projetar o interrelacionamento de sua organização com o ambiente daqui há alguns anos. Eles podem, também, projetar formas de alterar esse relacionamento, visando a assegurar um posicionamento mais favorável da empresa no futuro. É importante que se faça uma distinção clara entre cenários e previsões. Freqüentemente previsões não passam de simples extrapolações de tendências. Cenários, por sua vez, são sistemas complexos, que buscam revelar sinais precoces de alterações do futuro.

MAS, O QUE CONSTITUI UM “BOM” CENÁRIO?

(1) Bons cenários afetam o julgamento dos executivos sobre como o futuro deve ser. Muitas vezes cenários são desenhados para serem profecias auto-realizá-


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veis (positivas ou negativas). Por isso, a arte de preparar e interpretar um cenário é apenas o primeiro passo para alterar o futuro. (2) Bons cenários reconhecem que ainda que passado e presente sejam importantes no estabelecimento de direções para o futuro, o objetivo último de executivos é transformar as tendências, o que requer visões de um futuro radicalmente diferente. Em outras palavras, eles levam em conta a dinâmica do futuro e o poder de ação humana para moldá-lo. (3) Bons cenários permitem a tradução de declarações sobre o futuro em insights sobre riscos/probabilidades para o tomador de decisões. Cenários de qualidade guiam os executivos em “cálculos” mentais sobre o que pode acontecer e as interrelações entre os fatos e suas decisões. (4) Bons cenários testam todos os elementos de um sistema mais amplo e suas interações com o ambiente. Por isso, eles levam em conta, de forma abrangente e equilibrada, aspectos econômicos, tecnológicos, sociais, políticos, psicológicos, culturais, espirituais etc. (5) Bons cenários oferecem descrições tão vívidas do futuro que os executivos podem colocar-se na situação e compreender esse futuro de uma maneira que não seria possível apenas por meio de números ou gráficos. Algumas vezes até artistas são utilizados para dotar cenários dessas qualidades. (6) Bons cenários dão “pistas” que podem ser verificadas anos antes da ocorrência dos eventos que elas sinalizam. Essa é uma diferença fundamental entre cenários de qualidade e meras especulações futurísticas sem fundamento. (7) Bons cenários são resultado de reflexões de pessoas com referenciais intelectuais, culturais e sociais diversos. A diversidade de opiniões assegura a riqueza dos futuros idealizados e dá margem aos executivos para optar pelo futuro que eles desejam construir. Esta coletânea “Cenários” consolida artigos publicados em Idéias Amana sobre tendências de futuro e paradigmas emergentes que, certamente, atendem a esses requisitos. Mas ela vai além ao trazer artigos que sugerem como esses cenários de futuro afetam o presente das organizações e dão as bases para muitas das decisões correntes. Obviamente os cenários aqui descritos não são a visão de futuro, mas representam algumas visões de futuro. Cabe a cada executivo preparar, a partir dos referenciais aqui apresentados, a sua visão de futuro, levando em conta seus referenciais, sua experiência e as especificidades de sua empresa e ramo de atuação. Esta coletânea inicia-se com uma apresentação de dez megatendências para os anos 90 identificadas e descritas por John Naisbitt e Patricia Aburdene. Essas megatendências são, na verdade, dez cenários de futuro em áreas diversas da atividade humana como economia, estilos de vida, cultura, tecnologia, espiritualidade, ética e outras. A descrição de cada cenário é seguida por um conjunto de questões que visam a estimular a reflexão e auxiliar os executivos a preparar seu próprio cenário em cada área e refletir profundamente sobre sua empresa e sua própria pessoa em cada um desses cenários.


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Ainda pode ser fonte de hesitação para alguns o fato dessas megatendências serem terem sido descritas por analistas americanos. É importante lembrar que essa troca multi-cultural/global — que tem recentemente se acelerado com apoio das telecomunicações — é não apenas uma forma de “comprimir o espaço”, mas também uma forma de “comprimir o tempo”: se pudermos reconhecer uma crise ou oportunidade futura para nossa sociedade numa crise ou oportunidade atual em outra sociedade estaremos sensibilizados para agir desde já. O artigo “Megatendências e o Brasil”, que se inicia à página 58 foi preparado com esse espírito, mostrando que, além de globais, os cenários são fontes inesgotáveis de aprendizagem. Neste artigo as reflexões sobre como as megatendências exercem suas forças em nosso país são seguidas de questões que buscam auxiliar a reflexão do executivo sobre os efeitos das tendências em sua comunidade e empresa. Essa transição dos cenários sociais amplos para os cenários específicos e relevantes para a situação particular da empresa é uma das responsabilidades centrais do management. O artigo “Megatendências e a Administração como Arte”, apresentado às páginas 66 a 71, é uma reflexão sobre como essa transição dos cenários para a ação deve ocorrer e porque ela faz da administração uma arte. Mais do que isso, o artigo estimula os executivos a não apenas descrever cenários de futuro, mas ousar moldá-los a partir de sua própria iniciativa. São diversas as empresas que já estão atuando nesse sentido e têm conseguido, no processo, produzir vantagens competitivas vis-à-vis seus competidores, que permanecem estagnados. O artigo “Reinventando a Organização” (páginas 72 a 74) traz uma amostra do que algumas dessas empresas estão fazendo em relação a cenários específicos de futuro. Ele é seguido por um conjunto de tópicos curtos (“Cenários de Futuro Requerem Ações no Presente”, página 75) que trazem mais alguns exemplos e idéias de como empresas podem processar essa transição para o futuro de maneira mais vantajosa e benéfica para todos seus públicos internos e externos. Uma forma alternativa de discorrer e refletir sobre os cenários de futuro é observar com profundidade os paradigmas — formas de descrever, pensar e compreender a realidade — que estão emergindo rapidamente hoje. A compreensão profunda desses paradigmas tem como conseqüência natural a formulação de cenários abrangentes para hoje e para o futuro, em diversos horizonte temporais. O artigo “Novos Paradigmas”, apresentado à página 78, analisa como esses paradigmas estão emergindo e que tipo de influência eles têm sobre as empresas, na análise da pensadora Marilyn Ferguson. Esse artigo é seguido por 6 páginas de quadros que descrevem de forma vívida os paradigmas emergentes em três áreas-chave para as organizações: política, educação e management. Mais uma vez, não basta apenas descrever os cenários de futuro ou dialogar sobre eles de forma superficial. Esse é um exercício inútil, incapaz de gerar as mudanças necessárias em empresas, comunidades e países. A descrição de um cenário é apenas o ponto de partida para uma reflexão profunda que conduza ao essencial: ação. Esse é o objetivo central do artigo “Mudanças: Tendências e Reflexões Visando à Ação”, apresentado à página 87. Nele são descritos 17 cenários de mudanças acompanhados por questões que visam a estimular uma reflexão profunda sobre seus significados para a empresa. Cada conjunto de cenário e ques-


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tões para reflexão é acompanhado por um desafio que é a essência da ação que os executivos devem desencadear desde já. Finalmente, é preciso motivação para agir. Esta coletânea é concluída pelo artigo “Tempo de Renascer”, apresentado à página 97, um texto inspirador que dedica-se a mostrar que vivemos uma época ímpar na história da humanidade, uma era em que pessoas comuns podem ser capacitadas a realizar façanhas notáveis quando bem lideradas. Um texto que descreve vividamente um cenário que todos nós certamente desejamos e podemos construir. Vivemos em um período de transição. Os que estiverem dispostos a lidar com a ambigüidade inerente a esse período de verdadeiros “parênteses” e buscarem antecipar o que será a nova era terão uma fantástica vantagem, um verdadeiro salto à frente daqueles que permanecem agarrados ao passado. O tempo de “parênteses” é um tempo de mudanças e dúvidas. Mas é também um tempo de oportunidades excepcionais…


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As Megatendências para os Anos 90 e os Novos Paradigmas

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 •1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

AS MEGATENDÊNCIAS PARA OS ANOS 90 E OS NOVOS PARADIGMAS C

aptar e compreender as grandes tendências que estão se delineando para os próximos anos é tão vital para as organizações quanto gerenciar os problemas do dia-a-dia. Uma empresa “sonhadora”, descolada da realidade presente, pode tropeçar em obstáculos mais imediatos e sucumbir. A organização dirigida sem um olho no amanhã corre o risco de ser apanhada de surpresa por transformações nos consumidores, na competição, no ambiente como um todo, muitas vezes sem ter como reagir de forma eficaz Conseguir se colocar acima das turbulências de curto prazo e enxergar as transformações mais amplas e consistentes que ocorrem no ambiente é algo essencial aos executivos e empreendedores nos dias de hoje. Apesar do bom senso inerente a esse raciocínio, é comum encontrar nas empresas uma distância grande entre o cotidiano e o processo de construir o longo prazo. Especialmente em ambientes conturbados como o brasileiro, e em função dos constantes bombardeios em termos de informação, o executivo corre ainda o risco de perder a visão global de longo prazo de sua empresa. Como montar o quebra-cabeça formado pelos milhares de eventos internos e externos à empresa? Como encaixar os pequenos fatos do micro-mundo da empresa no todo maior de uma sociedade em contínua transformação? O estudo das grandes tendências de mudanças – as megatendências – oferece uma boa resposta a essas questões. As megatendências apresentam uma estrutura, um framework, que tem o poder não apenas de sinalizar eventos significativos


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As megatendências declineam cenários de futuro que permitem às organizações posicionar-se e usar melhor as energias

As Megatendências para os Anos 90 e os Novos Paradigmas

Idéias Amana • Ano II Nº4/5/6 •1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

em emergência, ajudando a distinguir o que é do que não é relevante, como também de encaixar estes eventos num todo coerente. A análise das megatendências transforma dados em informações e conhecimentos, dando significado às coisas e revelando os desafios que as organizações têm pela frente. São desafios que não devem ser encarados apenas como “mais problemas”, mas como algo estimulante, positivo, nutriente. Transformações trazem sempre fantásticas oportunidades. Ao mesmo tempo em que traz à tona as oportunidades que o futuro estará gerando, o estudo das megatendências permite a monitoração da congruência entre o que a empresa faz e as forças que estão moldando o ambiente maior: “estamos alinhados com o processo maior de transformação da sociedade?” O alinhamento das forças da organização com as tendências de mudança do ambiente permite às organizações um uso mais racional das energias disponíveis. A empresa que trabalha em sintonia com as mudanças em curso tem o impulso adicional da “maré a favor” e multiplica suas possibilidades de sucesso. Essa sintonia com o ambiente maior pode vir a ser o principal diferencial competitivo de empresas num mercado em contínua transformação. É a diferença que existe entre ser levado pelas mudanças e interagir com elas, na busca de constantes inovações que por sua vez alteram continuamente o próprio ambiente. Longe de ser algo “distante”, existe um caráter extremamente realista na atitude de se tentar olhar para o futuro. Não se trata de prever o que vai acontecer. O objetivo básico é o de buscar compreender profundamente o contexto político, social, econômico, tecnológico e competitivo em desenvolvimento. A partir dessa compreensão, é possível cruzar as informações sobre mudanças externas, abstrair o processo de transformação ao longo do tempo, visualizar tendências e formular questões estratégicas relevantes para a construção do futuro. Como identificar as tendências a partir da “avalanche” de dados e informações que caracteriza a sociedade atual? Como distinguir as grandes tendências das ondas que são passageiras? Poucas pessoas têm conseguido, em todo o mundo, ser tão bem sucedidas quanto John Naisbitt nessa complexa tarefa de filtrar, cruzar e ordenar o emaranhado diário de notícias e informações e extrair delas ilações globais sobre o curso da sociedade em seus diversos aspectos. Em 1982, Naisbitt destacou-se mundialmente ao descrever em seu livro Megatrends as tendências que deram forma aos anos 80. 0 sucesso editorial e o acerto das projeções de Naisbitt, conforme se comprovou ao longo do tempo, consolidaram sua posição como um dos mais requisitados especialistas sobre tendências de mudança. Ele identificou, na época, a passagem da sociedade industrial para uma sociedade de informação, visualizando, entre outros aspectos, o desencontro do antigo sistema educacional com as novas necessidades em termos de conhecimentos e habilidades. Também em Megatrends, Naisbitt já chamava atenção para o crescimento da interdependência entre as nações, o novo arranjo em formação na economia global e a explosão do entrepreneurship.


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As Megatendências para os Anos 90 e os Novos Paradigmas

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 •1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

A nova obra de Naisbitt, Megatrends 2000 – As Megatendências para os Anos 90, escrito a quatro mãos com Patricia Aburdene, sua principal colaboradora, mostra as transformações mais importantes que irão se consolidar na próxima década e a influência que a passagem do milênio terá sobre as pessoas e a sociedade como um todo. Algumas das tendências, como a explosão econômica global, a emergência de uma nova forma de liderança e a ascensão dos países do Pacífico, são de importância evidente para o andamento dos negócios, isto é, têm “aplicação imediata” para a montagem das novas equações estratégicas para as empresas. Outras mudanças, referentes a novas correntes de pensamento e formas alternativas de viver em sociedade, embora a princípio não pareçam tão diretamente vinculadas ao dia-adia das organizações, não merecem menos atenção: estarão transformando o ambiente no qual as empresas estão inseridas, exigindo inovações e movimentos estratégicos igualmente significativos. Independentemente de sua aparente “aplicabilidade imediata”, é o conjunto completo dessas tendências que forma cenários capazes de sensibilizar os executivos. Tais cenários são um convite à reflexão e à busca de novos referenciais sobre os quais construir organizações compatíveis com os rumos e valores dos anos 90.


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Megatendência 1: A Explosão Econômica Global

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

CONFLUÊNCIA DE FATORES POTENCIALIZANDO CRESCIMENTO

A EXPLOSÃO ECONÔMICA GLOBAL Megatendência 1: Contrariando previsões pessimistas, a economia global experimentará durante a década de 90 um período de acentuado desenvolvimento, com forte estímulo ao crescimento das empresas e excepcional demanda por talentos.

N a década de 90, o mundo estará entrando num período favorável do ponto de vista econômico. O crescimento terá como base uma extraordinária confluência de fatores. Um desses fatores é a tendência de globalização da economia. O mundo estará movendo-se do atual comércio entre países para uma economia única, como a composta pelos estados de um mesmo país. Esse é o próximo passo natural na história econômica da civilização. Na economia global, considerações econômicas quase sempre irão transcender diferenças políticas e ideológicas. A economia global – um mercado único – gerará um comércio absolutamente livre entre as nações. Indícios disso já são observáveis, como o acordo entre EUA e Canadá, a unificação européia prevista para o final de 1992 e os debates sobre um acordo de livre comércio entre os EUA e o Japão. O processo de unificação da Europa é o indício mais avançado do processo de globalização. As duas coisas mais importantes a seu respeito são: (1) 1992 é uma resposta européia à crescente competição com a América do Norte e Ásia. Separados, os países europeus não têm muita chance. Juntos, passam a ser uma das maiores potências do mundo; (2) 1992 é parte de uma tendência de globalização a longo prazo, dentro da qual o protecionismo é uma contratendência menor, de curto prazo.


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Megatendência 1: A Explosão Econômica Global

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

A TRANSCENDÊNCIA AOS “LIMITES AO CRESCIMENTO”

O movimento em direção à economia global é potencializado pela tecnologia – principalmente pela tecnologia de telecomunicações – e por uma adesão crescente aos mecanismos de mercado. Isso permite deduzir que a explosão econômica dos anos 90 transcenderá os “limites ao crescimento” tão alardeados no passado. • Haverá abundância de recursos naturais durante os anos 90: os produtos novos gastarão cada vez menos material e menos energia. Não há qualquer possibilidade de um novo choque do petróleo: o mundo está usando cada vez menos energia e produzindo cada vez mais. • A crescente preocupação por redução de impostos também ajudará a expandir a economia global durante os anos 90 pelo fortalecimento dos mercados internos e expansão da base de consumidores. • Outro importante fator que leva a uma economia verdadeiramente global é o efeito de “redução de porte do output econômico”: o menor volume e peso dos produtos toma mais fácil sua movimentação entre nações. • A inflação será reduzida pela busca mundial de melhores preços e qualidade. As taxas de juros serão contidas em função da abundância de capital e concorrência para emprestar. • A expansão das economias dos países asiáticos estará também contribuindo para o crescimento econômico global e colocando novos consumidores no mercado.

CONDIÇÕES POLÍTICAS E SOCIAIS FAVORÁVEIS

A redução de guerras no mundo (a Europa recentemente completou 43 anos sem guerras – um recorde histórico), aliada à distensão entre as superpotências representa também fator relevante ao desenvolvimento de uma economia global. Adicionalmente, a mudança de regimes autoritários para democracias em muitas regiões no mundo vem preparando o terreno para o crescimento econômico de vários países. O mundo obviamente não estará totalmente livre de problemas (como o crescimento populacional, especialmente em países pobres, e as questões ambientais). Mesmo esses problemas parecem estar sendo reconhecidos e trabalhados intensamente em boa parte do planeta. É importante reconhecer que todas essas forças operando em favor do crescimento econômico não são elementos aleatórios: estão relacionadas umas com as outras e reforçam-se mutuamente, numa confluência de forças. A perspectiva colocada por esse novo mundo é de que a economia global não é um jogo de soma zero, no qual se algum país ganha, outros têm que perder. A economia global possibilitará uma expansão inusitada, na qual todas as economias poderão crescer.


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Megatendência 1: A Explosão Econômica Global

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

RECURSOS HUMANOS: O DIFERENCIAL COMPETITIVO

Na explosão econômica dos anos 90, os recursos humanos serão a principal força em atuação no ambiente. A qualidade e capacidade de inovar dos recursos humanos responderá pelo diferencial competitivo das organizações e países. A sociedade da informação e serviços estará produzindo um extraordinário número de empregos desafiadores e bem remunerados. Para desempenhar esses trabalhos as pessoas têm que ser altamente qualificadas. Os empregos da economia da informação requerem tal grau de treinamento e competência que não há atualmente, e nem haverá num futuro próximo, recursos humanos suficientes para preenchêlos. Isso demandará investimentos significativos na formação de pessoal e salários mais altos. As novas economias resultantes serão mais afluentes e capacitadas para um crescimento cada vez maior.


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Refletindo sobre a Megatendência 1: Preparando a Empresa para o Crescimento Global

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

REFLETINDO SOBRE A EXPLOSÃO ECONÔMICA GLOBAL

PREPARANDO A EMPRESA PARA O CRESCIMENTO GLOBAL S

e efetivamente houver uma explosão econômica mundial nos anos 90, o que isso representará para sua empresa? O que deverá ser feito por sua empresa no Brasil? E no exterior? Sua organização tem debatido questões como essas de forma profunda, visando a ações estratégicas?

Sua empresa está levando a sério o atual processo de globalização da economia, independentemente de seu atual porte, estágio de desenvolvimento e nacionalidade (brasileira, multinacional etc.)? Ou pressupõe que, por ser pequena ou filial de organização internacional não deva preocupar-se com a globalização dos mercados? Na medida em que o mercado para sua empresa tornar-se algo sem limites – o mundo – isso deverá afetar drasticamente a forma de ver o futuro, os objetivos maiores de longo prazo da organização. Sua empresa tem hoje uma visão do que construir nos próximos 10-20 anos? De que forma essa visão deverá mudar ao se considerar uma atuação mais ampla da empresa no mercado-mundo em emergência? Até que ponto a empresa está predisposta a assumir riscos na busca de integração à economia mundial e em projetos de crescimento voltados ao mercado global que transcendam à exportação de produtos? Os riscos têm sido analisados com profundidade e realismo, ou idéias/projetos têm sido rejeitados sistematicamente, de forma negligente e preconceituosa? Há consenso na cúpula da empresa quanto ao nível de risco que a empresa deva assumir ao buscar um posicionamento estratégico adequado junto ao mercado global?


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Refletindo sobre a Megatendência 1: Preparando a Empresa para o Crescimento Global

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

A empresa tem explorado cuidadosamente as várias alternativas – principalmente as menos ortodoxas – de se globalizar? Como está a predisposição a parcerias e acordos operacionais com empresas (tanto do Brasil como do exterior) bem posicionadas no mercado mundial? A empresa possui pessoas preparadas para implantar as alternativas escolhidas? Energia e tempo dos talentos existentes estão sendo efetivamente alocados a projetos de globalização? A estrutura da empresa já começou a ser ajustada nesse sentido? Como integrar-se à economia mundial e participar do crescimento previsto de forma autônoma, sem depender de terceiros, principalmente de ações, decisões ou apoios governamentais? O que é preciso fazer, desde já, para assegurar crescente autonomia em todas as áreas-chave do negócio (produção, distribuição, tecnologia, pesquisa, geração de know-how)? De que modo a provável explosão econômica mundial irá afetar a estrutura humana da empresa? Algum risco em termos de evasão de talentos para o exterior? Medidas preventivas nesse sentido? Mudanças significativas serão necessárias nos planos de recursos humanos de longo prazo? Intercâmbio internacional de executivos e técnicos? E quanto a programas de treinamento e desenvolvimento (formação de executivos internacionais, cultura geral, línguas etc.)? Que fatores definirão a competitividade da empresa no mercado global e a eficácia com que a organização aproveitará as oportunidades que a explosão econômica global fará surgir? Qualidade? Tecnologia inerente? Custos? Inovação/criatividade em serviços, conexão com cliente final? Qualidade das pessoas na linha de frente? O que é preciso fazer desde já para assegurar competitividade a nível global? A empresa está se preparando tecnologicamente (informática/telecomunicações/ know-how em geral) visando a conectar-se de forma cada vez mais eficaz ao mercado global? Os sistemas de informação da empresa têm contemplado pesquisas/prospecções/dados relevantes ao processo de globalização?


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Megatendência 2: Renascimento nas Artes

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

A VOLTA À BASE E AO HUMANO

RENASCIMENTO NAS ARTES Megatendência 2: Liberando-se do papel de recurso de produção, o ser humano voltará à base e a uma crescente “busca interior”.

N os países em que o desenvolvimento da economia da informação manifesta-se com maior força, tem crescido a necessidade de as pessoas reexaminarem o sentido de suas vidas. Na medida em que gera mudanças profundas nas pessoas, essa busca interior provoca inúmeras outras alterações na sociedade. Os consumidores de hoje, sofisticados e afluentes, estão voltando-se para as artes nesse processo de busca. O hábito de assistir a espetáculos artísticos vem substituindo a procura de espetáculos esportivos como atividade predominante de lazer. O renascimento nas artes não se dá apenas nos grandes centros: está também acontecendo nas cidades de médio porte e áreas rurais, com organizações artísticas assumindo novos papéis na sociedade. Esse movimento produz, ao mesmo tempo, uma reabertura da discussão sobre como a sociedade deveria dar suporte às artes. Empreendedores imobiliários, planejadores urbanos, construtores e especialistas em desenvolvimento econômico concordam quanto a um ponto específico: a existência de uma comunidade artística vibrante é hoje um fator-chave para a decisão das empresas sobre onde localizar suas instalações. Acesso à arte passa a ser um importante determinante do potencial da empresa de atrair e reter talentos. Pesquisas mostram que 92% dos americanos consideram as artes importantes para a qualidade de vida em sua comunidade. Para as comunidades, os interesses econômicos relacionados a essa tendência são altos. As artes geram empregos, estimulam o desenvolvimento comercial e residencial e elevam as receitas de restaurantes, hotéis, lojas de varejo e estacionamentos. Uma cidade com uma atividade artística efervescente recebe um contínuo fluxo de receitas.


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Megatendência 2: Renascimento nas Artes

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O atual renascimento das artes está estimulando novas oportunidades de negócios em nichos relacionados, como: transporte, serviços de colocação profissional, lojas de museus, serviços de reprodução etc. A explosão artística tem também aberto novas oportunidades de carreira para as pessoas. Atualmente, com mais galerias, orquestras locais e grupos de teatro, aumentam as chances de as pessoas se manterem financeiramente – ainda que de forma modesta – fazendo o que mais gostam.

AS ARTES EM VEZ DE ESPORTES

Na medida em que as artes se tornam mais importantes na sociedade, indivíduos, empresas e cidades tendem a decidir sob a influência das imagens, personalidades e estilos de vida do ambiente artístico. Essa megatendência irá afetar a forma pela qual as pessoas planejam sua educação e carreira, a maneira pela qual as empresas fazem suas campanhas de propaganda e seus projetos de comunicação. Em menos de uma geração, os americanos reverteram completamente seus hábitos de lazer. Ao longo dos anos 90, as artes substituirão os esportes como principal atividade de lazer. Já há sinais de que a audiência das artes está superando a dos esportes, mas a sociedade está apenas começando a reconhecer essa revolucionária megatendência e suas implicações. Uma coisa é certa: as empresas irão desempenhar um papel crítico em determinar quão rapidamente as artes assumirão a dianteira. Mesmo com as pessoas gastando mais tempo e dinheiro com arte, as empresas continuam investindo bilhões nos esportes, pois a maioria delas, assim como a maior parte da sociedade, ainda não se deu conta da existência não apenas de um renascimento das artes, mas de uma mudança nos padrões de lazer. Mais importante, as empresas em geral ainda não se conscientizaram de que a arte tem maior acesso a um público mais selecionado.

O PAPEL TRANSFORMADOR DAS NOVAS MÍDIAS

Logicamente, não se vê muita ópera nas redes de TV. Afinal de contas, o objetivo da mídia de massa é conseguir a maior audiência possível. As redes de TV são um produto da sociedade industrial e seu negócio visa a atingir as massas. Isso funcionou até o início dos anos 80, quando as redes começaram a perder audiência para as crescentes opções oferecidas pela TV a cabo. Os espectadores da TV a cabo constituem um público de renda maior e nível cultural mais elevado. Tem-se verificado nos EUA um crescimento de cerca de 15% ao ano das receitas de propaganda auferidas por essa mídia. A perda de audiência que as grandes redes de TV vêm experimentando é evidência de uma mudança maior, possibilitada por novas tecnologias. É a passagem de broadcasting (rede ampla de comunicação) para “narrowcasting” (rede focada de comunicação): videocassetes, TV a cabo, CD players etc.


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Megatendência 2: Renascimento nas Artes

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

Com tão pouca programação de artes na mídia de massa, milhões de aficcionados estão montando suas próprias discotecas e videotecas, e programando seu próprio calendário de artes. A passagem de broadcasting para “narrowcasting” transfere para as mãos das pessoas o poder das grandes redes, em sintonia com a megatendência de potencialização do indivíduo. Todas essas mudanças trazem diversos desafios para as organizações que desejam manter-se sintonizadas com o ambiente. Certamente na medida em que se acumularem provas estatísticas de que os consumidores estão prestando mais atenção às artes do que aos esportes, as empresas irão reavaliar suas prioridades de patrocínio e propaganda. E as artes, sem dúvida, despontarão como uma grande alternativa de investimento.


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Refletindo sobre a Megatendência 2: A Arte no Contexto das Empresas

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

REFLETINDO SOBRE O RENASCIMENTO NAS ARTES

A ARTE NO CONTEXTO DAS EMPRESAS E

m que sentido seu negócio/produto/mercado poderá vir a ser alterado pelo crescente interesse das pessoas por artes? Algum tipo de diversificação? Novos produtos? Reorientação estratégica? Criação de novos negócios? Que tipo de oportunidades de negócios uma explosão das artes poderá trazer para sua empresa? Na medida em que a arte venha a estar cada vez mais vinculada à qualidade de vida, que ações sua empresa deve desencadear, desde já, junto ao quadro de colaboradores? Trazer arte para dentro da empresa? Promover eventos artísticos nas próprias instalações? Envolver familiares no processo? Incentivar colaboradores a se expressarem por meio de arte, inclusive como catalisadora do potencial de criatividade/imaginação/intuição dos mesmos? Incentivar a arte como caminho para aliviar tensão e stress? Arte como benefício? Em que direção os programas formais de formação, treinamento e desenvolvimento da organização deverão evoluir, na medida em que a arte e a busca de riqueza interior passem a ter cada vez maior significado na vida das pessoas? Atividades específicas para despertar a sensibilidade das pessoas e sua cultura geral? Programas desvinculados dos negócios, especialmente voltados ao enriquecimento interno dos colaboradores? O renascimento das artes, projetado para os anos 90, aponta para uma necessidade de se criar novos benefícios e produtos de compensação para os colaboradores da empresa? O que a área de RH da organização poderá criar em termos de programas, produtos e práticas visando à inclusão da arte e valorização de processos de busca interior no dia-a-dia das pessoas?


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Refletindo sobre a Megatendência 2: A Arte no Contexto das Empresas

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

Quais as possibilidades da arte como referencial de base nos processos de comunicação e integração de sua empresa à comunidade? E quanto à integração empresa-colaboradores e entre os próprios colaboradores? Até que ponto o próprio marketing de sua empresa deverá ser alterado, em função do interesse maior de determinados segmentos da população pela arte? Utilização de imagens e personalidades das artes na comunicação? Patrocínio de eventos culturais? Seria possível usar as próprias instalações da empresa para criar espaços para promover eventos artísticos/culturais voltados tanto ao público interno como externo? O planejamento a longo prazo da empresa está contemplando espaço para programas de melhoria da qualidade de vida, inclusive em termos de proximidade maior à arte e cultura geral? De que forma seria possível potencializar a força da comunidade em que sua empresa atua por meio da arte? Como sua empresa poderá agir/contribuir nesse sentido? Aproveitar a arte como impulsionadora da atividade econômica local e da própria demanda pelos produtos da empresa? Usar a arte para atrair talentos para a comunidade e para a empresa? De que formas criativas o “narrowcasting” poderá vir a ser usado por sua empresa, visando a conseguir um melhor foco e maior eficácia em sua comunicação com o mercado? Até que ponto a junção “narrowcasting”/arte deverá ajudar a potencializar o processo? Como usar melhor o “narrowcasting” no marketing da empresa dentro de uma estratégia de busca de nichos de mercado? O que é preciso fazer desde já para preparar a empresa para lidar com arte como alternativa de investimento? Investir em arte poderá vir a representar importante forma de hedging para a empresa? Que tipo de auxílio/expertise a empresa ainda precisa para usar essa alternativa de forma eficaz?


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Megatendência 3: A Emergência do Socialismo de Mercado

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

O DECLÍNIO DOS GOVERNOS CENTRALIZADOS

A EMERGÊNCIA DO SOCIALISMO DE MERCADO Megatendência 3: Verifica-se em todo o mundo uma transformação das economias dirigidas por governos centralizadores para economias dirigidas por mercados, com conseqüências importantes para as pessoas e organizações.

N o socialismo, o governo é proprietário dos meios de produção e controla a distribuição de bens. Nos últimos anos tem-se assistido, em todo o mundo, a mudanças nesse tipo de controle centralizado. Por meio de formas criativas de privatização, leasing e outros mecanismos, países socialistas estão transferindo a propriedade dos meios de produção para a sociedade. Cada vez mais ouve-se a expressão “socialismo de livre mercado”. Inúmeras evidências indicam que os anos 90 marcarão o fim do socialismo como em geral tem sido conhecido e definido. Com a emergência da economia global, países isolados não conseguirão sustentar economias fechadas. Os países que não se esforçarem para se tornar participantes importantes da atividade econômica mundial acabarão sofrendo um inevitável retrocesso. Seria como se um estado de uma federação resolvesse não mais participar da economia do país, insistindo em sua auto-suficiência. Os países socialistas parecem estar, em função de sua compreensão da importância do atual processo de globalização, em busca de maior integração à economia mundial. Contudo, para fazer parte do mercado global, um país precisa ser bastante competitivo, e ambientes de proteção/tutela não conseguem gerar a competitividade necessária. Logo, o afastamento em relação a modelos centralizados parece inevitável.


Coletânea “Cenários”

Megatendência 3: A Emergência do Socialismo de Mercado

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

O FRACASSO DA CENTRALIZAÇÃO

Gradualmente tem se reconhecido que economias de planejamento central não vêm obtendo êxito. Está cada vez mais evidente a todos que o modelo descentralizado, empreendedor, dirigido pelo mercado, tem sido mais bem sucedido em todos os lugares do mundo. Os custos dos serviços de assistência social prestados exclusivamente por governos centrais têm atingido níveis altíssimos em quase todos os países, chegando à inviabilidade em muitos deles. Falência é a expressão utilizada por líderes de governo de diversos países. A proporção entre pessoas na ativa e pessoas aposentadas tem se alterado dramaticamente nos últimos 20 a 30 anos. Nos EUA, por exemplo, a relação passou de 32 pessoas ativas para cada aposentado, ao final da 2ª Grande Guerra, para apenas três trabalhadores ativos para cada aposentado nos últimos anos. Parece que a própria demografia, que tem sido ignorada por muito tempo, está agora surpreendendo a todos. A resposta de muitos países a essa transformação tem sido tradicionalmente a de expandir os gastos públicos para garantir assistência social. Contudo, os anos 90 trarão um questionamento básico: o que o governo deve fazer por aqueles que não são capazes de ajudar a si próprios sem levar o Tesouro Nacional à falência?

A OBSOLESCÊNCIA DA TEORIA DO VALOR DO TRABALHO

Na medida em que a porcentagem de mão-de-obra empregada na produção de bens manufaturados tende a zero, observa-se um declínio mundial na quantidade e no peso da classe de trabalhadores manuais/operários na sociedade. Logo, a teoria do valor do trabalho, uma das bases do socialismo, mostra-se cada vez mais obsoleta na nova sociedade da informação. Uma nova teoria é necessária.

A NOVA IMPORTÂNCIA DO INDIVÍDUO

Adicionalmente, assiste-se em todo o mundo à atribuição de uma nova importância ao indivíduo. A mudança de foco do estado para o indivíduo também tem sido parte do processo de mudança em direção à economia da informação. Ao contrário do que se imaginava, os computadores fortalecem o indivíduo e enfraquecem os estados. A informação permite descentralização, tornando os indivíduos mais poderosos e importantes. Nesse sentido, é extraordinário testemunhar quão comum tornou-se, nos países socialistas, invocar a primazia do indivíduo sobre o estado, sobre o coletivo. A confluência de todas essas mudanças é que tem atuado no sentido de provocar o declínio do socialismo, que se intensifica na medida em que se caminha para o próximo milênio.


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Megatendência 3: A Emergência do Socialismo de Mercado

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Os anos 90 despontam como um período de transição, uma época em que as economias com planejamento central estarão experimentando uma ampla gama de mecanismos de mercado. Muitos países socialistas em todo o mundo já estão privatizando os meios de produção/distribuição, criando mercados de ações, descentralizando, deixando de interferir em processos de falência, permitindo que o mercado fixe os preços dos bens e desregulamentando. Durante mais de cem anos perdurou na sociedade industrial uma competição ideológica entre marxismo e capitalismo. Agora que o período industrial começa a ser parte do passado, essa competição perde cada vez mais seu sentido. Mais e mais países socialistas tenderão a tomar emprestado conceitos da economia de mercado.


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Refletindo sobre a Megatendência 3: A Eficácia Numa Sociedade Mais Autômona

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

REFLETINDO SOBRE A EMERGÊNCIA DO SOCIALISMO DE MERCADO

EFICÁCIA NUMA SOCIEDADE MAIS AUTÔNOMA O

provável processo de crescente privatização nas próximas décadas envolve que tipo de oportunidades para empresas que atuam no seu ramo de negócios? Que oportunidades serão geradas pela tendência de descentralização dos serviços hoje administrados por órgãos governamentais? O que essas oportunidades representam para sua empresa? Novos produtos e serviços? Crescimento da base de clientes? Um mercado completamente inédito? Que conseqüências a tendência mundial de menos regulamentação e intervenção do estado poderá trazer para a empresa? A empresa está preparada para enfrentar essas conseqüências? Em que horizonte de tempo isso deverá ocorrer? O fim de privilégios, proteção e “cartorialismos” pode beneficiar a empresa? Como as tendências de fortalecimento do mercado, redução da centralização, privatização e outras podem influenciar a própria forma de agir e pensar das pessoas? Os indivíduos se sentirão mais independentes e desejosos de agir? Poderão passar a reivindicar maior espaço para realizar e empreender? Que mudanças deverão ocorrer no management da empresa para melhor aproveitar o potencial empreendedor desses indivíduos? A célula da economia global tende a ser representada pelo indivíduo-empreendedor (e não por países) e diminui a ação de governos centralizados, principalmente sobre a atividade econômica. Como isso deverá mudar a forma de atuar de empresas como a sua? Como está a iniciativa em sua empresa em termos de atuação no mercado global?


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Refletindo sobre a Megatendência 3: A Eficácia Numa Sociedade Mais Autômona

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

Sua empresa possui talentos-empreendedores em quantidade suficiente para desencadear as ações necessárias e trabalhar eficazmente as oportunidades geradas pela emergente descentralização, privatização e “individualização” da sociedade? O que é preciso fazer, desde já, para potencializar a força empreendedora da empresa e desenvolver intrapreneurs com a velocidade necessária? Nas economias de mercado o equilíbrio/sucesso do todo depende – em muito – de uma forte disposição das empresas em fazer com que os ativos disponíveis potencializem sua força produtiva em vez de serem utilizados de forma especulativa. De que forma sua empresa deverá trabalhar seus ativos, tanto financeiros como humanos, visando, numa economia cada vez mais de mercado, a contribuir para o todo e gerar sucesso genuíno para a empresa? O atual estágio de cidadania da empresa, isto é, seu grau de consciência quanto a seu papel na comunidade, é suficiente para que ela absorva as atividades descentralizadas pelo governo? Quanto mais é necessário evoluir? Se o governo é hoje cliente significativo de sua empresa, que mudanças deverão ser introduzidas em sua estratégia de longo prazo visando a prepará-la para um novo ambiente bastante privatizado? Que oportunidades de intercâmbio tecnológico poderão surgir em função do processo de abertura econômica dos países socialistas? Oportunidades para venda de tecnologias e serviços? Oportunidades para aquisição de novas tecnologias? Oportunidades de alianças e parcerias? O que a empresa deve buscar nessas alianças? Que qualidades a empresa tem a oferecer para ser uma boa candidata a esse tipo de acordo? Como adquirir novas qualidades nesse sentido? A abertura econômica dos países socialistas pode trazer alguma competição adicional à empresa? A empresa está preparada para fazer frente a um eventual acirramento da competição oriunda desses países? Que precauções seria importante tomar? Como a empresa pode ajudar o país como um todo a integrar-se ao processo de fortalecimento do conceito de mercado em todo mundo? Praticando de forma mais efetiva esse próprio conceito? Acelerando e intensificando investimentos produtivos? Zelando para que nos mercados em que atua prevaleça uma conduta ética exemplar entre todos os concorrentes, evitando jogos de manipulação do mercado?


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Megatendência 4: Globalização do Estilo de Vida

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

INTERCÂMBIO ENTRE CULTURAS

GLOBALIZAÇÃO DO ESTILO DE VIDA Megatendência 4: A emergência de um estilo de vida global gerará uma contratendência de reafirmação cultural.

O

nacionalismo político-econômico dará lugar, na sociedade global, a um forte nacionalismo cultural. Atualmente, cerca de três milhões de pessoas voam, a cada dia, de um lugar para outro no planeta. Durante a década de 90, esse número irá aumentar consideravelmente. Estima-se que no ano 2000 a quantidade de passageiros/ano irá atingir a marca de 2 bilhões. O comércio internacional hoje já é muito mais do que simples trocas entre nações: é uma economia global singular e interdependente. No passado, costumava-se transacionar apenas coisas básicas: aço, matérias-primas, alimentos. Hoje comercializase tudo. Há uma explosão na compra e venda de instrumentos financeiros: ações, títulos públicos, moedas. Há também uma explosão na compra e venda de produtos para vestir, comer, ouvir e assistir – itens que definem um estilo de vida. Graças a mudanças como a intensificação das viagens internacionais e a ampliação do leque de trocas entre os países, imagens e valores de diferentes estilos de vida estão percorrendo rapidamente o mundo, difundindo seu conteúdo por toda parte. Em áreas como alimentação, vestuário e entretenimento, cujas opções não demandam grandes comprometimentos, são superficiais e fáceis de fazer, as pessoas estão abertas a uma gama ampla de influência estrangeira. No que comem, no que vestem e em como se divertem as pessoas estão misturando estilos e intercambiando produtos. Uma prova disso é a existência de mais de 40 marcas “super-mundiais”, como Coca-Cola, Benetton, McDonald’s, IBM e Sony, um fenômeno historicamente inédito.


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Megatendência 4: Globalização do Estilo de Vida

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A globalização de marcas e produtos tem sido acompanhada por alguns fenômenos correlacionados. Um deles é o rápido crescimento das vendas internacionais pelo correio. Outro é o merchandising global, que demanda a prática de um pricing global, viabilizado por meio da eletrônica. Um exemplo são os preços de cadeias internacionais, regulados eletronicamente para proteger todas as filiais contra flutuações de câmbio. Paralelamente, há projetos para a criação de um sistema global de TV que permitirá a todo o mundo assistir as mesmas imagens, transmitidas por uma única rede múltipla. Outro fator importante de aceleração do desenvolvimento de um estilo de vida global único é a disseminação do idioma inglês. O inglês está se tornando a primeira língua verdadeiramente universal, com fortes implicações culturais. A linguagem é um grande agente de homogeneização. É a freqüência na qual uma cultura é transmitida. Na medida em que o inglês ganhe espaço como idioma global, a cultura de países de língua inglesa tenderá a exercer forte influência sobre a de outros países.

REAÇÃO CULTURAL

Embora os estilos de vida efetivamente estejam ficando mais similares, há claros sinais de uma poderosa contratendência. Observa-se uma reação contra a uniformidade, um desejo de afirmar a exclusividade de cada cultura e língua, um repúdio à influência estrangeira. O entretenimento propiciado por filmes e TV atravessa a linha do intercâmbio superficial e vai direto ao centro das culturas – o espírito fundamental que dá forma às crenças e práticas do país. Esse tipo de entretenimento – literatura eletrônica e tecnológica – invade o domínio dos valores por meio de uma linguagem própria, muito eficaz e de excepcional alcance. Do mesmo modo, na medida em que o inglês se torna uma língua universal, há uma reação contrária a essa universalidade. Mais e mais pessoas estão insistindo em manter vivas suas tradições, sua cultura, sua língua.

REFORÇO DA SINGULARIDADE

A crescente globalização do estilo de vida produz um efeito paradoxal. Ao mesmo tempo em que gera um maior número de opções, também provoca crescente homogeneização, que em sua base significa uma redução de alternativas. Quanto mais homogêneos os estilos de vida se tornam, mais arraigadamente as pessoas se prendem a valores profundos – religião, língua, arte e literatura. Na medida em que seu mundo exterior torna-se mais similar, as pessoas tendem a valorizar as tradições que brotam de dentro. Essa é uma questão profunda, e de certo modo explosiva: quando as pessoas percebem uma cultura estranha invadindo a sua, elas se sentem ameaçadas, e


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Megatendência 4: Globalização do Estilo de Vida

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respondem com nacionalismo cultural: reafirmam vigorosamente seus valores com a força com a qual conteriam uma invasão militar ou política. O nacionalismo cultural é um fenômeno profundo. Quando desafiado, ou quando há uma nova oportunidade para sua expressão, o nacionalismo emerge à superfície. Contudo, quanto mais a humanidade vê a si própria como habitantes de um planeta único, maior a necessidade de que todas as culturas do globo compartilhem uma herança única. Assim, de modo curiosamente contraditório, quanto mais as pessoas tornam-se parecidas, mais reforçam sua singularidade.


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Refletindo sobre a Megatendência 4: A Busca do Global e a Valorização do Indivíduo

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REFLETINDO SOBRE A GLOBALIZAÇÃO DOS ESTILOS DE VIDA

A BUSCA DO GLOBAL E A VALORIZAÇÃO DO INDIVÍDUO A

empresa está acompanhando de perto as tendências mundiais em termos de gostos e preferências dos consumidores? Isso tem sido feito de forma sistemática e contínua, ou depende de iniciativas esporádicas e individuais? Os resultados desse acompanhamento vêm sendo adequadamente disseminados e aproveitados por toda a empresa? O que é necessário fazer para aprimorar esse tipo de monitoramento? Faz sentido designar pessoas exclusivamente para o papel de observadores/ “sensores” das tendências de consumo mundiais? Como deve ser a atuação dessas pessoas? Deve a empresa buscar a internacionalização de seus produtos e marcas? Está preparada para isso? Há possibilidades de que a empresa possa representar no país (ou até em outros países) produtos e marcas internacionais? O que deve ser feito para tanto? O que está impedindo a empresa de penetrar mais agressivamente no mercado global? Excesso de cautela/conservadorismo? Medo do desconhecido? Falta de ousadia? Falta de talentos com “cabeça internacional”? Falta de hábito? “Provincianismo” da cultura organizacional vigente? “Introspecção” excessiva? Problemas de idioma? 0 que é possível fazer para superar essas barreiras? Quais riscos podem existir em uma estratégia de concentrar-se exclusivamente no mercado local? São maiores ou menores do que os riscos da internacionalização?


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Refletindo sobre a Megatendência 4: A Busca do Global e a Valorização do Indivíduo

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Que implicações a globalização de produtos, marcas e do estilo de vida pode trazer para a base tecnológica da empresa? Que investimentos precisam ser feitos desde já para que a empresa mantenha sua base tecnológica atualizada, compatível com a existente em nível mundial? O processo de globalização do estilo de vida gerará naturalmente consumidores mais bem informados e exigentes. A empresa está preparada para atender a esse novo tipo de cliente? Em que pontos são necessários aprimoramentos que capacitem a empresa a atender a consumidores mais exigentes? Como a globalização do estilo de vida irá influenciar a comunicação da empresa com os consumidores? Novas mídias devem ser buscadas? Um reforço do caráter nacional, da cultura local, pode ser uma boa opção? De que forma a intensificação do surgimento e do fortalecimento de marcas internacionais poderá afetar a empresa? Possibilidade de competidores internacionais entrarem nos mercados da empresa? Em que pontos os concorrentes levariam vantagem ou teriam desvantagem? Possibilidade da entrada de competidores internacionais com produtos substitutivos aos produtos atuais da empresa? Seria sensato passar a desenvolver nichos de mercados que sejam mais refratários à concorrência internacional? A empresa está desenvolvendo executivos que tenham visão global e capacidades/habilidades para agir e decidir em ambientes em processo acelerado de globalização do estilo de vida? Que investimentos devem ser feitos desde já? Cursos de idiomas? Viagens? Exposição prolongada à cultura de outros países? Parcerias com empresas de outros países para ir acumulando experiências? Que conseqüências a globalização do estilo de vida poderá trazer sobre os próprios colaboradores da empresa? Novas atitudes e posturas surgirão? Serão necessárias mudanças culturais e em práticas de recursos humanos? De que forma a empresa poderá dar equilíbrio ao binômio estilo de vida global/ nacionalismo cultural por meio de ações que valorizem e preservem a cultura local? Por meio de projetos especiais (eventos, livros etc.) que resgatem o folclore, tradições, arte e literatura da comunidade? Por meio de projetos internos junto aos próprios colaboradores, que passariam a ser multiplicadores no processo? Em termos de ambiente, o que a empresa pode fazer para assegurar condições/ espaço para que as pessoas (colaboradores, clientes) consigam expressar/valorizar sua individualidade nas relações com a empresa? Maior flexibilidade? Menos regras burocráticas? Mais consideração positiva e busca de relacionamentos fundamentados em confiança?


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Megatendência 5: Declínio de Welfare State

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

PRIVATIZAÇÃO DO PAPEL DO ESTADO

DECLÍNIO DO WELFARE STATE Megatendência 5: Passagem do controle de companhias estatais para empreendedores privados, venda de ações aos trabalhadores e transferência de serviços sociais para os indivíduos são soluções que estarão se generalizando mundialmente.

W elfare state é o conceito de se alocar recursos públicos para ajudar a proteger os cidadãos e promover seu bem-estar social. É um termo relativo: o welfare state americano é considerado puro laissez faire na Escandinávia. A idéia de cuidar do bem-estar das pessoas remonta às sociedades primitivas e certamente aos gregos e romanos na antigüidade. Contudo, a assistência governamental em larga escala tem apenas cerca de 100 anos de idade. A assistência governamental assumiu no mundo todo tal escala, que passou a causar mais efeitos negativos do que positivos sobre a sociedade. Por isso, observa-se atualmente em muitos países uma espécie de reação ao welfare state.

PRIVATIZAÇÃO

Por ter privatizado mais de 40% de seu setor estatal nos últimos oito anos, a GrãBretanha pode ser considerada como um modelo dessa reversão do socialismo e do welfare state. A Grã-Bretanha, até 1987, havia transferido 14 grandes empresas e muitas outras menores, que empregam um total de 600.000 pessoas, do setor público para mãos privadas. O setor estatal foi cortado em 1/3 e, no processo, o Tesouro acumulou mais de US$ 11 bilhões. Politicamente, a privatização foi além dos mais ambiciosos sonhos de seus idealizadores: hoje, pela primeira vez na história da Grã-Bretanha, mais cidadãos são proprietários de ações do que afiliados a sindicatos. A tendência de privatização está na ponta da transformação mundial do socialismo e do declínio do welfare state. Alguns países vêm experimentando o “capitalismo popular”, transformando-se em “nações de acionistas.”


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Megatendência 5: O Declínio de Welfare State

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A nova forma de financiar um sistema de welfare está em deixar de ser um “estado que toma conta”, para ser uma “sociedade que toma conta”. Uma sociedade onde o indivíduo deve assumir mais responsabilidade pela oferta de serviços sociais de modo a aliviar o estado. Na base dessa mudança está a privatização. A tendência do pós-guerra em direção ao estado proprietário da atividade econômica está sendo revertida.

DO WELFARE PARA O WORKFARE

Talvez o melhor exemplo de declínio do welfare state esteja nos próprios EUA, que vêm gradualmente, por iniciativa de seus estados, substituindo o welfare pelo “workfare”: fazer as pessoas saírem do welfare para engajarem-se em trabalhos/ empregos que as remunerarão melhor que o próprio welfare. A política de workfare reflete um mix de valores americanos: (l) a crença de que as pessoas estão melhor trabalhando do que dependendo de recursos do governo; (2) a tendência de mães de classe média baixa trabalharem fora; (3) a noção de que pessoas que aceitam os benefícios de welfare devem ao governo um esforço de conseguir trabalho – na verdade um novo contrato social. O workfare é um exemplo clássico da convergência entre os valores em mudança (é aceitável pedir a mulheres que trabalhem) e as necessidades econômicas (equilibrar o orçamento, preencher as muitas vagas criadas pela escassez de mão-deobra etc.).

NOVO INCENTIVO AO TRABALHO

Mesmo antes do workfare, pessoas responsáveis por diretrizes governamentais já se faziam perguntas difíceis sobre os impactos do welfare sobre indivíduos, famílias e sobre a nação. O welfare destrói o incentivo para trabalhar? Ele promove gravidez de adolescentes? Desencoraja o casamento e uma vida familiar estável? Encoraja um ciclo de dependência da assistência governamental que é transmitido de geração em geração? Por trás dessas questões ainda existem outras, mais básicas. Quais são as responsabilidades legítimas do governo em relação às pessoas que não conseguem ajudar a si próprias? Como se pode ajudar as pessoas sem torná-las dependentes do governo? A resposta está em ajudar tantos beneficiários do welfare quanto possível a encontrarem empregos no setor privado. O workfare irá tornar-se a mais importante política social da década de 90 nos EUA porque: (l) é consistente com os valores do país – o novo contrato social e a emergência das mulheres que trabalham; (2) está sintonizado com a tendência global de privatização; e (3) goza de apoio das duas alas políticas – conservadores e liberais. Para os conservadores há o aspecto da ética do trabalho e do novo contrato social. Para os liberais há a ênfase na


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Megatendência 5: O Declínio de Welfare State

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colocação profissional e no treinamento. Para ambas as correntes políticas há a satisfação criada pelo fato de o próprio trabalho tirar as pessoas da pobreza. O problema central com o workfare está em seu investimento inicial em creches, treinamento, educação e colocação profissional. Não é algo barato, mas é certamente bem menos oneroso que o welfare (US$ 5 bilhões vs. US$ 100 bilhões nos EUA).


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Refletindo sobre a Megatendência 5: Gerenciando a Transição Para Uma Sociedade Mais Privatizada

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

REFLETINDO SOBRE O DECLÍNIO DO WELFARE STATE

GERENCIANDO A TRANSIÇÃO PARA UMA SOCIEDADE MAIS PRIVATIZADA E

m havendo uma transformação de um ambiente em que “o estado toma conta” para outro em que a própria sociedade passe a tomar conta de si mesma, o que deverá mudar em termos de: (l) postura da empresa junto à comunidade; (2) mudança da cultura organizacional; (3) estratégia global da empresa? A empresa está preparada para ocupar os espaços que tenderão a ser deixados pelo governo? Há pessoas na empresa atentas à abertura desses espaços? A empresa está se preparando para preencher esses espaços de forma cada vez mais rápida e eficaz? Em que áreas o declínio do welfare state tenderá a gerar oportunidades para empresas como a sua? Em termos de novos produtos? Em termos de aquisição de empresas hoje dirigidas pelo próprio governo? Expansão dos produtos/serviços existentes hoje? Verticalização? Diversificação? Sinergia com os produtos de linha da empresa? Que demandas irão surgir para as empresas na medida em que se enfraquece o conceito de estado provedor de todos os serviços sociais? Será necessário oferecer treinamento e educação básicos? Sustentar/apoiar escolas? Instituir fundos para programas de habitação? Manter creches, asilos, campanhas de saúde pública/organizacional?


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Refletindo sobre a Megatendência 5: Gerenciando a Transição Para Uma Sociedade Mais Privatizada

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

Que riscos o processo de privatização poderia trazer à empresa? Perda de clientes importantes? Enfraquecimento do poder de barganha? Acirramento da competição? Mudanças aceleradas que a empresa não conseguirá acompanhar? O que é preciso fazer, desde já, para proteger/controlar essas áreas de risco? Busca de novos clientes/expansão da base negocial? Mudança estrutural? Busca de talentos? Programa inovador de desenvolvimento de pessoal para os novos tempos? A longo prazo, o declínio da assistência governamental implica em redução de impostos em geral. Quais serão as implicações disso para o seu negócio? O que seria importante começar a fazer desde já? Aquisição de experiência em termos de serviços/informações? Busca de mais capital por meio de inovações em política societária? Uma transição da previdência governamental para a previdência privada abriria mais oportunidades de capitalização da empresa via emissão de papéis? A empresa está pronta para abrir seu capital e aproveitar essas oportunidades? Que atrativos a empresa oferece a administradores de fundos de previdência privada? O que sua empresa pode fazer para fortalecer esse mercado e trazer cada vez maior credibilidade às relações entre empresas e investidores? Como a tendência mundial de declínio do welfare state pode ajudar a empresa em suas gestões por menor intervenção governamental na economia? Maior poder de argumentação e persuasão da opinião pública? Oportunidade para provar na prática que a descentralização é viável e funciona bem melhor do que os processos hierárquicos? Como a crescente valorização de uma nova ética de trabalho está influenciando os colaboradores da empresa? Novas atitudes e posturas irão surgir? Que mudanças nas políticas e práticas de recursos humanos poderão ser necessárias? Novos tipos de benefícios? Mudanças nas ênfases dos pacotes de recompensas? Abolição de restrições/controles? Formas novas de liderança? Qual a abertura de sua empresa em termos de criação de empregos e oferta de trabalho para a comunidade? Há preocupação em investir em atividades produtivas que movimentem a força humana da comunidade, ou o objetivo da organização se concentra em maximização de lucros (que inclusive leva a desviar recursos, capital e ativos para atividades meramente especulativas)? De que forma sua empresa poderá contribuir para assegurar maior nível de bemestar social na comunidade como um todo? Há consciência de que preocupações desse nível fazem parte do conjunto de responsabilidades da empresa? Até que ponto os próprios dirigentes estão cientes de que maior bem-estar social significa também mercado (clientes e colaboradores) de melhor nível e potencial?


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Megatendência 6: A Era da Biologia

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

MUDANÇA NOS REFERENCIAIS BÁSICOS

A ERA DA BIOLOGIA Megatendência 6: A forma como as pessoas pensam, decidem e agem está sendo fortemente influenciada pela ascensão da biologia, provocando uma intensa mudança de referenciais, até então guiados pela física tradicional.

G radualmente os modelos e metáforas da física estão sendo transferidos para referenciais oriundos da biologia. Com isso, os referenciais básicos em todas as áreas, inclusive nas empresas, também deverão passar do modelo da física – que sugere o linear, mecanístico, determinístico, programável/programado, analítico, causa/efeito racional, intensivo em energia – para o da biologia – que sugere o holístico, interconectado, adaptativo, orgânico, sistêmico, intensivo em informação. Essa mudança está ocorrendo não apenas porque a humanidade está posicionada no início de uma grande era para a biologia. A transformação também está ocorrendo em função do processo de criação de uma sociedade que cada vez mais se assemelha a uma elaborada cadeia de sistemas de feedback de informações, comparável aos organismos biológicos. Isso tenderá a mudar a linguagem e a forma de ver as coisas. Do ponto de vista estritamente tecnológico, a biotecnologia já está se tornando uma poderosa presença na vida das pessoas. Na medida em que se caminha em direção ao próximo milênio, a biotecnologia vai se tornando tão importante quanto a informática. Não será possível ignorá-la e a seus progressos. É indispensável conhecer a biotecnologia e saber para onde ela está caminhando. A engenharia genética representa a mais importante técnica da biotecnologia, pois dá acesso ao código da vida. Prevê-se que a engenharia genética conseguirá erradicar doenças agrícolas para as quais ainda não existe cura. Outra perspectiva é de que animais poderão gerar produtos biológicos de valor para os seres humanos, quase como se fossem fábricas.


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Megatendência 6: A Era da Biologia

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

Decifrar o código genético para construir, gerenciar e reproduzir organismos, pode ser o maior avanço científico deste século. Eventualmente, será possível identificar e selecionar genes para virtualmente cada característica hereditária. E essa é a parte assustadora, pois relembra as experiências genéticas do passado, as tentativas de criação de uma “raça pura.” Por mais assustadora que seja, uma tecnologia como essa tem seu componente positivo. Na primeira década do século XXI, adultos e crianças deverão ser rotineiramente investigados para detecção dos genes que os tornam suscetíveis a doenças como o câncer. Para prevenir e tratar tais doenças, genes defeituosos poderão ser substituídos por genes saudáveis. Na primeira década do próximo século, a biotecnologia deverá estar no centro de uma nova era em cuidados com saúde. Por meio da engenharia genética será possível vacinar pessoas contra muitas doenças, com uma única injeção no braço. Do ponto de vista comercial, já é possível comparar a biotecnologia aos carros e computadores. Bilhões de dólares estão sendo investidos por centenas de empresas em várias partes do mundo. Mas essa comparação corre o risco de tornar triviais as delicadas conseqüências da biotecnologia.

UMA NOVA ÉTICA

Ao mesmo tempo em que sugere contribuições fantásticas para o desenvolvimento da vida, a biotecnologia levanta questões que incomodam às pessoas preocupadas. As preocupações mais comuns sobre biotecnologia são: (a) como se pode ter certeza de que organismos geneticamente alterados – ainda que potencialmente bons para a humanidade – não trarão conseqüências desastrosas quando liberados para o ambiente?; (b) como deve se estabelecer o equilíbrio entre a segurança pública e o progresso científico? Na falta de respostas, os legisladores podem impor alguns controles sobre as pesquisas na área de biotecnologia. Todavia, será impossível deter o seu avanço. Empresas, governos e pessoas devem estar preparados para uma grande discussão quanto aos aspectos éticos da biotecnologia. Na verdade, as considerações éticas da biotecnologia ocorrerão em um campo ainda maior: uma nova preocupação com a ética em geral. Informações privilegiadas, subornos, fraudes têm provocado uma busca por novos padrões éticos. Questões de ética biomédica, incluindo transplantes e eutanásia, que já encontramse em estágios mais avançados que os problemas éticos da biotecnologia, têm ocupado um espaço importante. Prepara-se o terreno sobre o qual irá se considerar a ética da biotecnologia dos anos 90. Filósofos e teólogos já estão sendo recrutados por empresas tão intensamente quanto cientistas de computação. Até o final do século, a humanidade irá se defrontar com a tarefa de reconsiderar as grandes questões éticas. Os problemas éticos da eutanásia, biotecnologia e outros irão crescer na medida em que o terceiro milênio se aproxime.


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Megatendência 6: A Era da Biologia

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Na verdade, todos esses problemas éticos são uma antecipação do grande dilema espiritual que a humanidade terá que enfrentar. As questões éticas estão relacionadas à necessidade de compreender o que verdadeiramente significa ser humano, uma questão para a qual dificilmente a ciência e a tecnologia terão todas as respostas. Para as empresas o grande desafio trazido pela era da biologia estará em ter humildade suficiente para entrar profundamente nos novos referenciais e implantar as mudanças que se farão necessárias em todos os campos.


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Refletindo sobre a Megatendência 6: Implantando Novos Referenciais na Organização

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

REFLETINDO SOBRE A ERA DA BIOLOGIA

IMPLANTANDO NOVOS REFERENCIAIS NA ORGANIZAÇÃO C

om base em que referenciais se pensa, decide e age na empresa? A cultura, os valores, padrões de análise e comunicação estão mais para os referenciais da física ou da biologia? Até que ponto os executivos da empresa estão conscientes quanto à importância de entrar mais profundamente no estudo desses novos referenciais? Em que sentido os novos referenciais oriundos da biologia, em substituição aos referenciais da física, (que têm prevalecido na sociedade industrial) deverão mudar a cultura de sua empresa, sua forma de planejar, de se estruturar, de comunicar, de decidir, de se adaptar às mudanças, de perceber e atuar sobre o ambiente? E quanto a mudanças no design, no projeto e no próprio conceito dos produtos? Mudanças na forma de se relacionar com os clientes? Como utilizar-se dos novos referenciais da biologia para entender melhor o funcionamento da própria empresa e do relacionamento desta com o ambiente maior, inclusive em termos de economia-mundo? Os executivos e principais colaboradores estão envolvidos em programas/projetos holísticos que levem a mudanças de base na forma de atuar da empresa como um todo? Novos referenciais levarão a empresa a mudar seus valores, principalmente em relação ao binômio cooperação/competição? A consciência cada vez mais forte quanto à interconexão de tudo que ocorre na sociedade levará a empresa a buscar


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Refletindo sobre a Megatendência 6: Implantando Novos Referenciais na Organização

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

cada vez mais freqüentemente cooperação/parcerias, inclusive entre concorrentes e até a nível mundial? A empresa tem dedicado tempo/energia em níveis adequados para refletir e agir em relação a estas questões? O que é preciso fazer, desde já, para assegurar transição adequada para uma abordagem mais “biológica” na forma de dirigir/gerenciar a empresa? Como deverão ser trabalhadas as resistências que naturalmente deverão surgir no processo? Por meio de educação/treinamento? Por meio de uma comunicação mais eficaz/criativa? Por meio de atuação pessoal dos principais líderes da empresa? Até que ponto será necessária uma completa reeducação em todos os níveis da empresa para ajustar-se aos novos referenciais? Será esse um processo que terá de iniciar praticamente “do zero”? Ou já tem ocorrido uma mudança gradual dos referenciais em partes da própria empresa, nestes últimos anos (até causando divergências/conflitos entre pessoas que estão em diferentes estágios de transição)? Os programas de treinamento/desenvolvimento estão sendo ajustados adequadamente aos novos referenciais? E a cultura da empresa? Que oportunidades estratégicas a ascensão da biotecnologia irá trazer à empresa? Oportunidades de diversificação, expansão, entrada em novos negócios? Surgimento de novos clientes? Quem poderiam ser esses novos clientes? Eles já estão sendo trabalhados? Há oportunidades de novos fornecedores? Que riscos a era da biologia pode trazer à empresa? Novos lançamentos no mercado competindo com atuais produtos? Outras empresas competindo pelas atuais matérias-primas da empresa? Novos produtos podem substituir os atuais? Há riscos de obsolescência tecnológica (processos, qualidade, custos)? O que a empresa tem feito para adquirir/desenvolver tecnologia nesta área? Parcerias com universidades, centros de pesquisa, fundações e com fornecedores, clientes e até concorrentes que também desejem pesquisar na área? A empresa está preparada para participar da grande discussão ética que emergirá nos anos 90 (estimulada também pela ascensão da biotecnologia)? Até que ponto os executivos da empresa estão sensibilizados para questões de ética e moral? Que esforços a empresa pretende envidar para aprimorar o grau de consciência ética de todos seus colaboradores? A mudança de referenciais, a ascensão da biologia e a intensificação das preocupações éticas poderá exigir a contratação de profissionais com os quais a empresa não está acostumada a lidar, como cientistas, biólogos, ecologistas, filósofos etc. A empresa está preparada para atrair e reter esses profissionais? E quanto a estratégias para integrar esses profissionais à cultura da organização e evitar choques internos?


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Megatendência 7: Liderança nos Anos 90

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

VELOCIDADE DAS MUDANÇAS E O LÍDER EMERGENTE

LIDERANÇA NOS ANOS 90 Megatendência 7: Os anos 90 trarão enormes desafios para empresas. Para enfrentá-los, mais do que gerentes, as organizações precisarão de líderes capazes de construir o futuro com pessoas alinhadas à visão maior.

O s anos 90 deverão ser os mais desafiadores da história para as empresas, em função do conjunto de transformações em curso no mundo. Aparentemente a única maneira de fazer frente aos novos desafios será uma nova forma de liderança, capaz de revitalizar as empresas e elevá-las ao status de efetivos competidores globais. Já é possível notar que o princípio de organização dominante está passando do “management para controlar a empresa” para a “liderança para trazer à tona o melhor das pessoas e responder rapidamente às mudanças.” A nova forma de liderança reconhece que, ainda que capital e tecnologia sejam recursos importantes, hoje são as pessoas que fazem diferença em uma empresa. Para viabilizar o aproveitamento do potencial humano, os novos líderes devem inspirar comprometimento e conceder poder às pessoas, compartilhando autoridade. A necessidade de modificar a forma de liderança está intrinsecamente ligada às novas tarefas e à nova força de trabalho dos anos 90. O trabalho das pessoas em setores como informações, serviços, finanças, computação, biologia e saúde não pode ser desempenhado como em uma linha de montagem. Conseqüentemente, não pode ser gerenciado como no passado. Outro motivo para se criar novas formas de liderança é o resultado de pesquisas que mostram que principalmente os jovens executivos não exibem mais a lealdade às suas empresas que era a norma dos anos 50. A nova força de trabalho ajuda a empresa a atingir seus objetivos se ela própria puder também atingir seus objetivos pessoais.


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Megatendência 7: Liderança nos Anos 90

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Diversos são os desafios para os líderes nos anos 90: desenvolver uma visão clara do futuro que se deseja para a empresa; trabalhar no sentido de alinhar objetivos da empresa aos objetivos pessoais de seus colaboradores; encorajar os colaboradores a serem mais empreendedores, auto-gerenciados e orientados para uma aprendizagem ao longo de toda a vida. Para energizar as pessoas, os líderes deverão descentralizar autoridade ao longo da organização, freqüentemente promovendo reestruturações que transformem hierarquias em redes. Descentralização significa delegação eficaz, incluindo diretrizes que definam quanto de autoridade as pessoas têm e não têm. Significa dizer às pessoas o que se deseja que elas alcancem e oferecer sugestões, sem obrigá-las a fazer de modo específico/determinado.

O EXECUTIVO COMO FACILITADOR

Atualmente já se está substituindo o conceito de executivo como fornecedor de ordens pelo executivo como professor, facilitador e treinador. O fornecedor de ordens tem todas as respostas e diz a todos o que fazer. O facilitador sabe como extrair respostas das pessoas que efetivamente as possuem – aquelas que fazem o trabalho. Flexibilidade será essencial para os líderes nos anos 90. A crescente escassez de mão-de-obra ajustada às novas demandas obrigará as empresas a rever profundamente suas políticas de pessoal. Uma das mais importantes fontes de mão-de-obra para os empregos que se criarão estará nos milhões de mulheres com filhos pequenos. As creches se tornarão um benefício comum. Se as empresas e a sociedade forem capazes de dominar o desafio das creches, também estarão mais próximas de levar a cabo a próxima grande tarefa dos anos 90 – o cuidado com os idosos. Com os aposentados e mães figurando como grupos em crescimento entre os trabalhadores da década de 90, tende a haver intensa pressão em favor de ocupações de tempo parcial (part time). Para obter maior produtividade, as empresas terão de empregar essa mão-de-obra de modo criativo e eficiente. Graças aos computadores, que podem lidar com fórmulas complexas de recompensa, a flexibilidade da era da informação irá substituir a tradicional fórmula sindical da era industrial: tratar todos da mesma maneira.

LIDERANÇA DAS MUDANÇAS

Na década de 90, as organizações estarão mudando de controle gerencial para liderança de mudanças aceleradas. A velocidade acelerada das mudanças tem colocado as empresas face a face com a vantagem competitiva da velocidade – levar os produtos aos consumidores mais rapidamente e elevar a participação no mercado, ao mesmo tempo em que se reduzem os custos de estoques. Líderes comprometidos com velocidade terão de impor cronogramas de desenvolvimento


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Megatendência 7: Liderança nos Anos 90

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de produtos “impossíveis”, para forçar as pessoas a reconceituar sua abordagem aos problemas. Apenas fazer as coisas mais rápido não será suficiente. A liderança de mudanças exigirá pessoas que sintam-se confortáveis com ambigüidade, ainda que a maioria delas prefira a ordem. Em grande parte, essa nova liderança virá das mulheres. Os dias das mulheres como uma espécie de minoria da força de trabalho fazem parte do passado. Nos negócios e nas profissões liberais, as mulheres passaram de uma minoria de 10%, 20 anos atrás, para uma massa crítica, que varia entre 30 e 80% dependendo do setor, nos EUA. Nos anos 90 as mulheres atingirão as posições de liderança que lhes têm sido negadas no passado.


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Refletindo sobre a Megatendência 7: Introduzindo Uma Nova Forma de Trabalhar com Pessoas

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

REFLETINDO SOBRE A NOVA LIDERANÇA

INTRODUZINDO UMA NOVA FORMA DE TRABALHAR COM PESSOAS A

empresa tem se preocupado em desenvolver líderes apropriados aos novos tempos, em toda sua estrutura? Os ocupantes de cargos gerenciais estão sendo preparados para transformar seu estilo de forma mais compatível com o paradigma de liderança para os anos 90? Que ações específicas a empresa está desenvolvendo com o objetivo de adequar sua cultura aos novos paradigmas de liderança? Mudanças na forma e nos instrumentos de controle? Introdução/experimentação de novas alternativas estruturais/organizacionais? Alteração no modo de motivar/recompensar pessoas? Nos padrões de comunicação e diálogo? Na forma de tomar decisões? Por meio da criação de cargos inéditos/papéis inovadores? Por mudanças nos critérios de promoção? Por meio de promoções, mudanças de pessoas específicas? Por meio de debates amplos/profundos na empresa como um todo? Que ações específicas de educação/treinamento/desenvolvimento estão sendo desencadeadas visando à formação de líderes para o futuro? Essas ações cobrem que áreas de desenvolvimento? Visão global/visão de mundo? Capacidade de gerenciar mudanças aceleradas? Criatividade e uso da intuição? Negociação? Comunicação? Habilidades interpessoais? Até que ponto os programas existentes hoje estão obsoletos/fora de sintonia em relação às tendências de mudança? Os executivos da empresa possuem uma formação/educação básica adequada para suportar o aprimoramento de suas habilidades de liderança? Que lacunas


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Refletindo sobre a Megatendência 7: Introduzindo Uma Nova Forma de Trabalhar com Pessoas

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deveriam ser prioritariamente trabalhadas? São necessárias mudanças em atitudes e posturas, mudanças mais profundas, de caráter interior? Como promover essas mudanças? A empresa e seus executivos estão suficientemente sensibilizados quanto à importância da liderança na administração dos anos 90? Até que ponto as pessoas hoje em postos de liderança estão adequadamente capacitadas para lidar com questões humanas? Trata-se de uma capacitação refinada, fundamentada em posturas e atitudes autênticas ou de algo superficial/ manipulativo/de “verniz”? Esse é um debate considerado importante na empresa ou trata-se de um círculo vicioso, ou seja, os que deveriam estar à frente dos debates carecem das posturas básicas necessárias e, por conseguinte, não estão sensibilizados/propensos a trazer a questão à tona? A cúpula da empresa tem transmitido exemplos de comportamento ético, íntegro, autêntico, aberto e inspirador, essencial para que a verdadeira liderança floresça? Há consciência de que liderança eficaz só é possível na medida em que a cultura da empresa pressuponha uma ética impecável (formas não-éticas de atuar nunca são internalizadas por colaboradores fundamentalmente íntegros; os não-íntegros, por sua vez, sentem-se – em ambientes não éticos – totalmente à vontade para “criar transações” em proveito próprio, provocando rápida deterioração organizacional)? Dentro da filosofia da empresa, a ênfase em pessoas (como condicionante do sucesso da empresa a longo prazo, como fator-chave de competição, como algo inerente ao próprio conceito de organização/grupo de trabalho) é algo presente nas ações do dia-a-dia, ou é mero discurso, artifício de fachada, um “modismo gerencial”? O que é necessário fazer para assegurar uma cultura organizacional que efetivamente coloque as pessoas no centro de sua estratégia de forma autêntica e verdadeira? Como está a cultura de sua empresa no que se refere à participação das mulheres, principalmente em termos de ausência de preconceitos, igualdade de oportunidades, abertura a postos de liderança e respeito profissional? O que é necessário fazer desde já para ajustar a cultura aos novos tempos e tornar a empresa competitiva em termos de atração de talentos, tanto homens como mulheres? A empresa possui hoje uma visão clara do que pretende construir a longo prazo? Trata-se de uma visão compatível, comprometida com o futuro (que incorpora inclusive as grandes tendências de mudança/uma noção ampla do mundo), ou uma mera projeção do passado?


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Megatendência 8: A Ascensão do Pacífico

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

DESLOCAMENTO DO EIXO ECONÔMICO

A ASCENSÃO DO PACÍFICO Megatendência 8: Desenvolvimento do Pacific Rim representa uma grande transformação que poderá beneficiar o mundo todo com mais oportunidades de negócios e um edificante intercâmbio cultural.

A

região do Pacífico, limitada por Los Angeles, Tóquio e Sidnei está ultrapassando a até então dominante região do Atlântico, com sua cultura industrial de Nova Iorque, Paris e Londres. A região do Pacífico está emergindo como uma jovem e dinâmica “América”, mas em uma escala muito maior. Como região geográfica, é duas vezes maior que a Europa e os EUA combinados. Tem 2/3 da população mundial, e em torno do ano 2000 seu produto econômico irá equiparar-se ao dos EUA ou Europa de hoje. De qualquer ângulo que se veja, a região do Pacífico é uma potência global. Quando se fala no Pacífico, pensa-se logo no Japão e talvez na China. Na realidade, trata-se de uma vasta região, que vai da costa oeste dos EUA até o sudeste asiático e Austrália. Há cinco considerações principais sobre essa ascensão dos países do Pacífico: (l) O deslocamento em direção ao Pacífico é comandado pela economia, numa velocidade sem precedentes. Essa mudança econômica maciça irá transformar de tal forma o mundo que é impossível prever seus resultados com precisão. Atualmente, a economia da região está crescendo cinco vezes mais que a taxa de crescimento experimentada na Revolução Industrial do século passado. (2) Essa é uma mudança não apenas econômica, mas também cultural. Nos países da região falam-se mais de mil idiomas e neles residem as mais ricas tradições religiosas e culturais do mundo. Prevê-se que nos anos 90 Tóquio estará desempenhando a liderança em moda, design e artes. Atualmente, estima-se que 30% das compras mundiais de arte já são feitas por japoneses.


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Megatendência 8: A Ascensão do Pacífico

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(3) Ainda que o Japão seja atualmente o líder indiscutível da região, o leste da Ásia – China e os Quatro Tigres Asiáticos – irá eventualmente dominar. Prevê-se que no ano 2010 o produto econômico chinês virá a ser o segundo do mundo, superado apenas pelo dos EUA. O nome do jogo na região do Pacifico é “evolução econômica”. Os Quatro Tigres Asiáticos – Coréia do Sul, Taiwan, Singapura e Hong-Kong – revolucionaram a teoria do desenvolvimento econômico, mostrando ao mundo que é possível ultrapassar a fase industrial e ir direto à economia da informação. Espera-se que esses países continuem crescendo a taxa anuais entre 7 e 10%. As economias dos Quatro Tigres eram, inicialmente, baseadas em mão-de-obra barata. Atualmente, porém, estão voltando-se para computadores sofisticados e outras atividades complexas, tradicionalmente dominadas pelos EUA e Japão. E não são apenas os Quatro Tigres. Novas áreas de crescimento como Tailândia, Malásia, Indonésia e Filipinas, que têm menores custos de mão-de-obra irão provavelmente apropriar-se das tarefas econômicas menos sofisticadas.

O COMPROMETIMENTO COM A EDUCAÇÃO

(4) A arremetida econômica da região está sendo reforçada por um elevado comprometimento com a educação. Desde 1985, mais jovens coreanos do que jovens britânicos freqüentam escolas de educação superior. Na nova ordem econômica, os países que investem mais em educação serão os mais competitivos. No Pacífico – onde o crescimento econômico é regularmente o triplo daquele das economias maduras do ocidente – a necessidade por pessoas bem educadas é extraordinária. Os países da região estão respondendo a essa necessidade por meio de elevados investimentos em educação. O comprometimento de países como Coréia e Taiwan com educação excede, ou ao menos iguala-se, àquele de qualquer país desenvolvido, exceto EUA e Japão. Hoje, a Coréia tem o mais elevado número de PhDs per capita do mundo. Por meio de empreendimentos cooperativos na área de educação, os EUA deverão ajudar os países do Pacífico a educar pessoas e melhorar a força de trabalho.

OPORTUNIDADES PARA AS ECONOMIAS OCIDENTAIS

(5) Em uma economia global, a ascensão dos países do Pacífico não significa necessariamente o declínio das economias ocidentais se estas reconhecerem a significância da tendência e agirem sobre a mesma. O extraordinário crescimento econômico do Pacífico revela grandes oportunidades para os ocidentais que desejam fazer negócios na região. É necessário criatividade para analisar as vantagens comerciais que existem para o Ocidente na era do Pacífico e determinar como explorá-las adequadamente. Há algumas razões pelas quais a ascensão do leste não significa, necessariamente, o declínio do oeste:


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Megatendência 8: A Ascensão do Pacífico

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• o desenvolvimento econômico do Pacífico cria novos mercados para produtos e serviços ocidentais – se seus vendedores estiverem preparados para aprender a lidar com as peculiaridades da região; • a despeito de histórias em contrário, os países asiáticos do Pacífico começaram em 1987/1988 a reduzir as barreiras comerciais e a abrir suas portas para produtos ocidentais; e, • o Japão e os países recém-industrializados da região necessitam de um lugar para investir sua crescente riqueza.


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Refletindo sobre a Megatendência 8: Participação do Crescimento do Pacific Rim

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

REFLETINDO SOBRE A ASCENSÃO DO PACÍFICO

PARTICIPANDO DO CRESCIMENTO DO PACIFIC RIM O que sua empresa precisa fazer para aproveitar as excepcionais oportunidades que estão se abrindo/irão se desenvolver no Pacífico? Há pessoas em sua organização especialmente alocadas para pesquisar/explorar as possibilidades inerentes a essa verdadeira explosão econômica em processo no Pacífico? Os principais executivos da empresa têm se mantido adequadamente informados sobre o que tem acontecido na área, inclusive quanto a iniciativas bem sucedidas de empresas que atuam no Brasil junto a países do Pacífico? Quais seriam as principais características da empresa e de seus produtos que a posicionariam favoravelmente na intensa competição que deverá se estabelecer na região? Algum diferencial em especial? Quais poderiam ser alguns eventuais pontos fracos da empresa nessa competição? É possível reduzi-los ou atenuá-los a partir de já? Na somatória de pontos fortes e fracos, qual seria a posição estratégica resultante da empresa para competir no Pacífico? O que deve ser feito a partir de já para fortalecer essa posição? Como estabelecer contatos nos países do Pacífico visando a possíveis parcerias? Por meio das filiais de organizações financeiras brasileiras já estabelecidas na região? Por meio de filiais de bancos internacionais que atuem tanto no Brasil como nos países do Pacific Rim? Por meio de organizações de serviços/consultores internacionais? Por meio de organismos oficiais? Por meio de escritórios montados na região, num sistema de pool integrando várias organizações do Brasil?


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Refletindo sobre a Megatendência 8: Participação do Crescimento do Pacific Rim

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

A empresa está envidando esforços para atrair/preparar pessoas capazes de realizar negócios na região do Pacífico? Que tipo de especialistas a empresa precisa para assegurar maior índice de sucesso na região? Especialistas em comércio exterior junto a países específicos? Profundos entendedores de hábitos e culturas dos países da região? Negociadores extremamente preparados para atuar na área? Na medida em que a demanda por recursos humanos continue a crescer a taxas exponenciais nos países do Pacific Rim, poderá haver drenagem de talentos (migração maciça) em países como o Brasil? O que a empresa deve fazer para tornarse cada vez mais competitiva na atração/retenção de talentos, não só em termos locais como em nível internacional? A ascensão acelerada dos países que compõem o chamado Pacific Rim encerra lições importantes para o Brasil e empresas como a sua? O que podemos aprender em termos de estratégias de atração de investimentos estrangeiros? E em formação e desenvolvimento de recursos humanos na sociedade como um todo? Em aquisição e aperfeiçoamento de tecnologia? Em termos de parcerias criativas com empresas estrangeiras? E quanto ao senso de equipe que une governo/ empresas e a sociedade como um todo? Como desenvolver valores/cultura que integrem a força de todos os segmentos da sociedade? Países do Pacífico estão “queimando etapas” e avançando de forma muito rápida em atividades típicas da sociedade da informação (sem precisar “amadurecer” no estágio industrial tradicional). O que podemos aprender nesse sentido? Como conseguir um equilíbrio adequado entre a necessidade de alavancar sobre a mais avançada das tecnologias com ajuda externa e a necessidade de criar espaço para empresas locais? Que ações desencadear já junto aos países do Pacífico com o objetivo de atrair investimentos para o Brasil? Montar escritórios na região, por conta própria ou juntamente com outras empresas? Montar um plano estratégico competitivo (em relação à atuação altamente sofisticada de muitos outros países, inclusive os ditos ricos) que pressuponha alta intensidade de recursos a investir? Alocar os melhores talentos da empresa à missão de buscar investimentos/parcerias no Pacífico? O que podemos aprender em termos de estratégia de empresas da região? Qual a estratégia de capitalização/financiamento? Qual a política industrial/de manufatura? O mix de produtos encaminha-se em que direção? Que estratégia de marketing internacional é usada pelas empresas? Como as empresas da região trabalham juntas (mesmo na forma de parcerias entre concorrentes) para obter um máximo de produtividade/sinergia?


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Megatendência 9: O Renascimento Espiritual

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

À BUSCA DE VALORES MAIS PROFUNDOS

O RENASCIMENTO ESPIRITUAL Megatendência 9: Na sociedade emergente dos anos 90, as pessoas tenderão, de forma cada vez mais intensa, a buscar a verdade e o significado de suas vidas por meio da espiritualidade.

A o aproximar-se o final do milênio, observam-se sinais de um renascimento espiritual em todo o mundo. O que atualmente se compartilha com as pessoas que viveram momentos semelhantes no passado é o sentimento de se viver hoje um tempo de enormes mudanças. Quando as pessoas se sentem “agredidas” pelas mudanças, sua necessidade de busca espiritual parece se intensificar. Essa necessidade está também levando as pessoas a redescobrir e cultivar seu lado mais emocional, não-racional. Os limites da ciência e da racionalidade linear são cada vez mais patentes. Intuição, lógica não-clássica, criatividade e sensibilidade passam a freqüentar o vocabulário de campos tradicionalmente “exatos”, em coerência com a mudança nos referenciais básicos trazida pela era da biologia. Ao lado da intensificação desse movimento de busca espiritual, pesquisas têm demonstrado um declínio das religiões organizadas tradicionais. Trata-se de uma contradição apenas aparente: ao mesmo tempo em que ocorre o declínio das religiões tradicionais, crescem efetivamente a fé e a espiritualidade. Nos EUA, por exemplo, um amplo conjunto de novas religiões, fora da estrutura judaico-cristã tradicional, vem evoluindo.

NOVOS MOVIMENTOS ESPIRITUAIS

As religiões tradicionais têm historicamente atendido às necessidades das pessoas em períodos de pouca mudança. Em épocas de instabilidade, como a atual, as pessoas tendem a buscar segurança e conforto em novos caminhos, sejam eles


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Megatendência 9: O Renascimento Espiritual

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movimentos dirigidos exteriormente (do tipo “esse é o modo como as coisas são”) ou guiados pela interioridade (do tipo “confiança em seu sentimento interno”). Outra razão pela qual as igrejas tradicionais têm perdido tantos fiéis está no fato de que igrejas menores e mais independentes têm se mostrado capazes de adaptar seus serviços às necessidades e aspirações dos fiéis, mantendo-se mais próximas dos “consumidores”. Um dos movimentos para o qual as igrejas tradicionais têm perdido fiéis é o fundamentalismo religioso. O fundamentalismo manifesta-se por meio de facções radicais das igrejas tradicionais e volta-se a elementos exteriores à própria experiência espiritual (como, por exemplo, valores morais, sociais e até políticos). Ao mesmo tempo, adota uma postura mais diretiva e rígida. Dessa forma, o fundamentalismo propicia um retorno a tempos mais simples, onde valores e princípios eram mais claros e menos questionados. A principal força do fundamentalismo tem sido sua extrema habilidade em utilizar a tecnologia, principalmente a mídia eletrônica. Esse uso retrata um equilíbrio perfeito: a face hard da tecnologia a serviço do contato elevado e soft da religião.

O MOVIMENTO DA NOVA ERA

O movimento de busca espiritual oposto ao fundamentalismo, uma vez que se concentra em uma busca espiritual interior, tem sido genericamente chamado de movimento da Nova Era. Sem qualquer lista de membros, ou até mesmo um dogma ou filosofia claramente expressos, é difícil definir ou mensurar esse movimento, mas estima-se que ele já conte com a adesão de cerca de 5 a 10% da população americana. Os adeptos do movimento da Nova Era têm em comum sua postura de rejeição à “autoridade” externa em termos de experiência espiritual e um “voltar-se para dentro” em busca da verdade. O movimento da Nova Era busca uma perspectiva diferente da vida, uma visão mais holística, abrangendo um espectro que envolve o corpo, a mente e o espírito. Isso inclui uma preocupação crescente com nutrição, questões ecológicas, mudança nas perspectivas dos negócios e maior ênfase à intuição.

IMPLICAÇÕES ECONÔMICAS

Fora as questões teológicas e espirituais, tanto fundamentalistas como adeptos da Nova Era têm gerado significativas conseqüências econômicas enquanto consumidores. Há estimativas de que os fundamentalistas representam cerca de 60 milhões de pessoas nos EUA, enquanto os adeptos da Nova Era somam pelo menos 20 milhões de pessoas, entre as mais afluentes e bem educadas. Livros, discos, fitas e video-tapes têm experimentado aumento de vendas expressivo em ambos os grupos.


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Megatendência 9: O Renascimento Espiritual

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

A abrangência do pensamento do movimento da Nova Era, por exemplo, gerou um novo fenômeno editorial. Além disso, muitas empresas têm buscado consultores/treinadores ligados ao movimento para desenvolver habilidades como intuição e criatividade em seus colaboradores. Implicações econômicas à parte, é evidente que na medida em que a humanidade caminha em direção ao final do milênio renova-se o desejo de construir um novo mundo. Esse desejo somente irá realizar-se por meio de uma reafirmação do lado espiritual da natureza humana, em equilíbrio com a contínua busca de uma vida melhor por meio da ciência.


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Refletindo sobre a Megatendência 9: Equilibrando Evolução Tecnológica com a Humana/Espiritual

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

REFLETINDO SOBRE O RENASCIMENTO ESPIRITUAL

EQUILIBRANDO EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA COM A HUMANA/ESPIRITUAL C

omo a empresa tem buscado equilibrar progresso tecnológico com desenvolvimento humano/melhoria do nível das relações entre as pessoas, tanto a nível interno como externo? Até que ponto a empresa está consciente de que uma ênfase excessiva em tecnologia poderá levá-la a descuidar-se dos aspectos humanos e de seus próprios objetivos maiores? Que ações a empresa pode desencadear para crescer equilibrando o humano com o tecnológico? Um programa especial de valorização do contato humano? Cultura holística, inclusive em termos espirituais?

Como trazer a questão da busca do espiritual e do significado maior da vida à mesa de diretoria? Mesmo para decidir que se trata de algo desvinculado da atividade estritamente profissional, não seria saudável debater/deliberar sobre a questão (do que simplesmente ignorá-la ou conversar sobre a mesma como algo segregado/estigmatizado)? Questões relacionadas à espiritualidade/significado da vida/valores básicos tendem a não ser debatidas naturalmente por todos dentro da empresa? Resistências para lidar com o assunto? Preconceitos? Ignorância? Ceticismo básico? Medo de ser mal interpretado? Medo de se expor abertamente e ser “rotulado”? Medo de ser “diferente/não profissional”? Por que a tendência à segregação e a uma postura de ignorar as questões relacionadas ao espiritual? Como a maior preocupação com o ser humano, que está na base do renascimento espiritual, poderá afetar a empresa e seus colaboradores? Mudanças em práticas e


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Refletindo sobre a Megatendência 9: Equilibrando Evolução Tecnológica com a Humana/Espiritual

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políticas de recursos humanos? Necessidade de desenvolver uma nova forma de gerenciar pessoas? Novos padrões de liderança? Refinamento na comunicação interna? A busca do holístico que caracteriza os novos tempos leva naturalmente à busca da unidade organizacional e sua inserção na sociedade maior, constituindo, por seu lado, uma outra unidade mais ampla. A unidade no ser humano não deveria necessariamente levar em conta o lado espiritual das pessoas? Não deveria a empresa considerar o espiritual ao preocupar-se com as pessoas de forma profunda/autêntica? A busca da conciliação entre objetivos pessoais e institucionais não pressupõe a integração das pessoas no seu todo? É possível conseguir coesão profunda entre todos os colaboradores da organização e alcançar um nível de parceria total entre a empresa e sua equipe sem levar em conta as questões mais básicas (relacionadas ao significado da vida das pessoas e aos próprios objetivos maiores da organização)? Como trabalhar essas questões de forma nutriente/positiva, com o máximo de respeito ao estágio do desenvolvimento espiritual (e caminho escolhido) de cada colaborador? Que recursos/espaço deve a empresa oferecer para facilitar o processo de busca de cada indivíduo? Não deveria a cultura organizacional da empresa ser estruturada de modo a ajustar-se aos valores universais que estão no bojo das religiões? Isso não seria fundamental à busca de máxima sintonia entre pessoas/empresa de forma profunda? Até que ponto as “formas certas” de se fazer as coisas na empresa violentam esses valores universais? Em que sentido os programas de desenvolvimento dos colaboradores da empresa deverão ser ajustados para incluir aspectos mais humanos/não-racionais/espirituais? Até que ponto há consciência de que intuição, criatividade, sensibilidade, qualidade das relações entre pessoas, espírito de cooperação/ajuda mútua, visão holística podem estar fortemente vinculados a aspectos mais básicos – inclusive a nível espiritual – do desenvolvimento humano? A empresa deve oferecer algum tipo de apoio explícito às pessoas e ao processo de busca do espiritual e dos objetivos maiores da vida? Que alternativas deve a empresa criar para assegurar liberdade de escolha em clima de absoluto respeito aos caminhos escolhidos/preferências religiosas? Até onde deve a empresa ir nesse sentido? De que forma o renascimento espiritual e a busca cada vez mais intensa do significado da vida irá afetar o comportamento do mercado? Que mudanças a empresa deverá introduzir em sua estratégia, comunicação, produtos e até objetivos institucionais?


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Megatendência 10: O Triunfo do Indivíduo

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

AS PESSOAS NO CENTRO DE TUDO

O TRIUNFO DO INDIVÍDUO Na sociedade da informação as pessoas, como detentoras de conhecimento, tornam-se centro de poder. Os anos 90 serão a era do triunfo da responsabilidade individual sobre a anonimidade do coletivo.

N unca as pessoas foram tão poderosas. Elas podem alavancar mais mudanças do que muitas instituições. São pessoas que criam obras de arte, têm visões de novos negócios, apostam neles, inspiram colegas de trabalho a serem bem sucedidos, emigram para um novo país, experimentam uma espiritualidade transcendente. Mudanças globais têm suas raízes na integridade, comprometimento e ação de indivíduos. Esta é a era do triunfo da responsabilidade individual sobre a anonimidade do coletivo. Dentro de estruturas coletivas – religiões organizadas, sindicatos, partidos políticos, grandes empresas, governos – as pessoas encontram oportunidades de fugir de responsabilidade, abrigando-se sob o manto da burocracia. Quando o indivíduo passa a ser a célula detentora do poder, essa possibilidade deixa de existir. O individualismo atual não é, contudo, um sinônimo de egoísmo. É muito mais do que a necessidade de satisfazer os próprios desejos. É o reconhecimento de que somente o indivíduo, na busca da satisfação de suas necessidade pessoais de realização (na arte, nos negócios, na ciência), pode satisfazer às necessidades da comunidade. O indivíduo consciente do contexto social amplo em que vive e do papel que desempenha contribui para a comunidade, especialmente quando é recompensado de forma justa por seu esforço. Indivíduos poderosos não existem isolados. Indivíduos livremente associados produzem uma comunidade. E em comunidades construídas dessa forma, não há lugar para esconder-se; todos tornam-se responsáveis.


Coletânea “Cenários”

Megatendência 10: O Triunfo do Indivíduo

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

Num nível mais elevado, cada indivíduo faz parte de uma comunidade última: a humanidade. Na medida em que se caminha em direção ao terceiro milênio, é cada vez mais importante que cada indivíduo seja responsável pela comunidade global, pela humanidade como um todo. É a globalização do interesse pelas pessoas que promoverá ações em prol do bem-estar de todos e não apenas de pessoas da própria cidade ou país.

A POPULAÇÃO SE DISPERSA

O lançamento das tecnologias celulares, que podem ligar indivíduos diretamente – sem auxílio de sistemas nacionais – inaugura um novo estágio no desenvolvimento da era da informação. Dentro de poucos anos, as pessoas, não importa onde estejam, terão acesso instantâneo a qualquer informação no mundo. A tecnologia está contribuindo, também, para romper o vínculo das pessoas com seu local de trabalho e, em escala maior, com as próprias cidades. Observa-se em quase todos os grandes centros do hemisfério norte uma diminuição da concentração populacional. As pessoas estão se movendo das cidades e subúrbios para áreas rurais, em busca de melhor qualidade de vida. Ao mesmo tempo, ainda prevalece no hemisfério sul a contratendência de concentração da população nos grandes centros urbanos. O agravamento dos múltiplos problemas inerentes às megalópoles – a ingovernabilidade causada pelo gigantismo, os problemas sociais, a deterioração da qualidade de vida – fará com que a tendência predominante seja a dispersão, a redução da população urbana em todo o mundo. Uma tendência que também evidencia a força da busca da individualidade e da qualidade de vida. O triunfo do indivíduo também traz importantes mudanças ao ambiente de trabalho. Com o computador para manter os controles, abre-se um enorme campo para a liberdade individual. Por exemplo, cada membro de uma organização pode ter um horário diferente ou um pacote de pagamento e benefícios sob medida, segundo as necessidades individuais. As diferenças individuais, especialmente aquelas que se refletem nos níveis de contribuição às empresas, podem ser agora devidamente trabalhadas/recompensadas.

A EXPLOSÃO EMPREENDEDORA

A era do indivíduo é também a era do empreendedor, a pessoa que tem visão das oportunidades de novos produtos e serviços, um fenômeno que está cada vez mais estendendo-se a campos como arte, medicina e outros. As conseqüências da explosão empreendedora se fazem sentir na sociedade como um todo, influenciando inclusive várias das outras megatendências. A potencialização do indivíduo tem dado origem a uma significativa mudança na estrutura de poder vigente, até então, na sociedade. O poder está se descentralizando, fluindo das instituições para as pessoas. Na medida em que informações e


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Megatendência 10: O Triunfo do Indivíduo

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

conhecimentos passam a ditar as regras, governos e políticos tornam-se cada vez menos relevantes. Se no passado o poder estava com reis e governantes, hoje existe uma nova possibilidade: o indivíduo pode influenciar a realidade impulsionado por uma visão do que se deseja construir. Conhecimento é poder, e pessoas potencializam ainda mais esse poder através de insights sobre o futuro mais do que por lutas contra o passado. Essa é, talvez, a tendência ao mesmo tempo mais importante e impactante: a crescente conscientização de que as pessoas têm força suficiente para moldar o futuro na medida em que soltem-se dos referenciais antigos e projetem-se em direção à visão do que desejam construir.


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Refletindo sobre a Megatendência 10: Uma Nova Relação da Empresa Com Pessoas Mais Autônomas

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

REFLETINDO SOBRE O TRIUNFO DO INDIVÍDUO

UMA NOVA RELAÇÃO DA EMPRESA COM PESSOAS MAIS AUTÔNOMAS A

o entrar de forma cada vez mais rápida na era da iniciativa/do envolvimento pessoal/engajamento à ação (contraposto ao espectador ou crítico), como as empresas deverão trabalhar a cultura organizacional vigente para ajustá-la aos novos tempos? Que mudanças nos conceitos de forma certa de fazer as coisas na empresa deverão ser introduzidas? A própria empresa deverá tornar-se uma organização de “proatividade máxima” para poder sobreviver e ter sucesso? Que mudanças devem ocorrer na cultura organizacional para acomodar o fortalecimento do indivíduo? A cultura deverá admitir mais variações/ser menos “padronizadora”? A cultura organizacional tenderá a se enfraquecer em função do fortalecimento do indivíduo? Como estabelecer equilíbrio entre formas certas individuais e formas certas grupais? O triunfo do indivíduo representa também pessoas mais autônomas, independentes e conscientes de seus próprios direitos e responsabilidades. Como isso afetará a conexão entre a empresa e seus colaboradores? A empresa precisará cada vez mais buscar parcerias com seus talentos, em vez de uma relação patrão-empregado tradicional? A empresa está preparada para lidar com essa mudança? Uma vez que o poder dos indivíduos tenda a aumentar, que mudanças precisarão ser consideradas pela empresa em termos de práticas/políticas de recursos humanos, liderança/forma de lidar com as pessoas na organização, espaços para os colaboradores na forma de dialogar/comunicar dentro da organização, no proces-


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Refletindo sobre a Megatendência 10: Uma Nova Relação da Empresa Com Pessoas Mais Autônomas

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

so de harmonização de interesses/negociação, no próprio processo de desenhar os objetivos de longo prazo da empresa? Na medida em que mais e mais pessoas passem a assumir a responsabilidade por tudo que ocorre na sociedade (em vez de esperar que outros façam o que é necessário), que mudanças tenderão a ocorrer na sociedade como um todo? Como isso afetará o que sua empresa faz hoje? O que é preciso fazer desde já, para preparar a empresa para as mudanças previstas? Novos produtos? Formas novas de se comunicar e negociar com os clientes? Mudanças estruturais? Que mecanismo deverá ser desenvolvido na empresa para substituir a burocracia, crescentemente rejeitada pelos indivíduos? Como preparar pessoas para gradualmente se libertarem da estrutura rígida de controles e assumirem responsabilidades individuais? Que desafios o triunfo do indivíduo traz à empresa do ponto de vista de atrair e reter talentos? Como obter lealdade e comprometimento de pessoas mais autônomas e independentes? O triunfo do indivíduo e dos empreendedores representa também uma nova forma de fazer as coisas acontecerem: em vez de projetar o futuro a partir do passado, desenvolver algo novo a partir de uma visão inédita do que se pretende construir no futuro. De que forma isso muda os métodos de se fazer as coisas na empresa? A alta administração está consciente da magnitude dessas mudanças e do seu impacto em tudo que se faz na empresa? Em que sentido o triunfo do indivíduo e a crescente atuação dos empreendedores irá afetar o perfil da concorrência? O que é preciso fazer, desde já, para prepararse para o que vai acontecer nesse sentido? Como está a própria força empreendedora da empresa? A empresa está formando empreendedores internos no nível necessário? Há executivos especialmente designados para desenvolver e implantar soluções criativas/eficazes ao problema da força empreendedora como fator chave de competição? Como evoluirá a preocupação das pessoas com a qualidade de vida no trabalho? As condições de trabalho hoje existentes na empresa são as ideais? O que deve ser feito a partir de já, para evitar problemas futuros nessa área? Que investimentos são prioritários visando a elevar a qualidade de vida na empresa?


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Megatendências e o Brasil

Idéias Amana • Ano III Nº 1 • 1990 Copyright Amana-Key Editora 1990

MEGATENDÊNCIAS E O BRASIL Veja neste artigo as influências específicas que as me– gatendências estão tendo sobre o Brasil. Após a aná– lisa de cada tópico leia as questões para reflexão tendo como pano de fundo uma questão-chave: como a empresa está se posicionando em relação a cada tendência?

U m dos principais pontos de apoio para executivos que precisam atuar em épocas de mudanças profundas e rápidas é o conhecimento das megatendências mundiais. É com base em reflexões estratégicas sobre essas grandes tendências de mudanças (tendo por foco o que é preciso fazer na empresa em termos de “megacaminhos”) que torna-se possível colocar a organização acima das turbulências de curto prazo e assegurar uma evolução segura ao longo do tempo.

BRASIL, MEGATENDÊNCIAS E RACIOCÍNIO ESTRATÉGICO

Em países como o Brasil, raciocinar de forma estratégica parece uma tarefa impossível, porque tudo muda com incrível rapidez, inclusive as próprias “regras do jogo”. Mas, é exatamente em contextos como esse que o conhecimento das megatendências mais pode ajudar. A visão do que se deseja atingir a longo prazo possibilita traçar planos amplos, tão macro ou mega quanto as próprias megatendências: direções que ajudarão a ordenar as ações de curto prazo, por mais turbulento que o dia-a-dia possa ser. Pode ser que em planos de longo prazo os objetivos pareçam menos reais. Entretanto, a disciplina imposta pelo pensar a longo prazo muda o processo de raciocínio na medida em que se passa a orientar sistematicamente as ações de curto prazo com base na visão do objetivo de longo prazo que se pretende atingir. Nesse sentido, é fundamental que as empresas aprendam a “enxergar” essas grandes tendências, numa abordagem que privilegia uma visão do todo em contraposição a formas míopes de “dar voltas em torno de si mesmas” através de discussões intermináveis sobre cenários provincianos, restritos ao meramente econômico/numérico/de curto prazo.


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Megatendências e o Brasil

Idéias Amana • Ano III Nº 1 • 1990 Copyright Amana-Key Editora 1990

Reflexão: A empresa tem investido energia suficiente em evitar o enfoque míope, identificando/monitorando as megatendências mundiais e brasileiras, e promovendo uma contínua avaliação/ajustamento de seu posicionamento quanto a essas tendências? Mudanças ambientais que estejam ocorrendo no Brasil estão sendo analisadas tendo como pano de fundo uma visão maior que inclua, além daquelas de âmbito social, político e econômico, as transformações de valores/paradigmas e a própria evolução, extremamente significativa, do conhecimento humano? Os líderes da empresa têm investido energia em pensar a longo prazo, levando em conta essas megatendências de mudança? Os líderes têm uma visão de longo prazo para a empresa que leve em conta um futuro que poderá ser muito diferente de hoje?

A SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E O BRASIL

No Brasil coexistem os três estágios da evolução econômica — agrícola, industrial e da informação — gerando oportunidades fantásticas.

Uma nova economia está surgindo com força extraordinária. É uma economia baseada em informação, e não mais em atividades industriais. Essa transformação está afetando todos os países inexoravelmente, embora esteja ocorrendo de forma mais vigorosa nos países mais avançados. A história dos países mais avançados mostra uma evolução linear e clara quanto ao tipo de trabalhador que vem predominando em cada época. Primeiro foram os trabalhadores rurais, depois os operários e mais tarde os de escritório. Em continuação, ao final da década de 90, cerca de 90% dos trabalhadores estarão processando informações. No Brasil os três tipos de trabalhadores — o rural, o operário e o de escritório — convivem, refletindo a diversidade da atividade econômica no país. Pode-se pressupor que uma parte do Brasil seja predominantemente agrícola, outra predominantemente industrial, e outra em transformação acelerada rumo à sociedade da informação, formando assim vários “Brasis”. Num país como o Brasil, onde se observam diferentes estágios de evolução dentro de cada uma das fases — agricultura, indústria e informação — existem, na verdade, fantásticas oportunidades de criação de atalhos no processo de superação de cada estágio, como já tem acontecido dentro do próprio “Brasil Industrial”. Muitas indústrias saíram de estágios primitivos de industrialização para estágios que usam tecnologia de ponta, gerando produtos altamente competitivos no mercado mundial. O mesmo ocorre na agricultura, que em algumas regiões do Brasil ainda é muito primitiva e em outras é altamente industrializada e informatizada. É nesse quadro paradoxal que reside a grande força do Brasil. Se o potencial para o uso de atalhos for bem gerenciado, o Brasil tem condições de diminuir o gap em relação aos países avançados de forma mais acelerada, tornando bastante factível o objetivo de entrar no Primeiro Mundo antes da virada do século. Reflexão: A empresa tem sabido tirar proveito da convivência das três etapas do processo de desenvolvimento econômico, não apenas empregando recursos da economia da informação para maximizar o aproveitamento dos recursos da economia agrícola e industrial, mas buscando equilibrar riscos por meio de uma atividade


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Megatendências e o Brasil

Idéias Amana • Ano III Nº 1 • 1990 Copyright Amana-Key Editora 1990

diversificada? Como as mudanças em processo geram oportunidades para a criação de atalhos que levem a uma diminuição do gap em relação às empresas de países mais desenvolvidos? Através de uma participação mais agressiva na economia global? Através de uma conexão mais intensa com o mercado mundial via recursos da sociedade da informação? A empresa tem avaliado os impactos da sociedade da informação sobre o comportamento de consumidores, fornecedores, competidores e outros grupos? A empresa está preparada para fazer frente a esses impactos? A empresa tem acompanhado de perto a evolução dos recursos tecnológicos (não só em termos de conhecer, mas em termos de usar)?

O COLAPSO DO FLOAT DAS INFORMAÇÕES

A redução do tempo de tráfego das informações a nível global potencializa empresas brasileiras a fecharem o gap em relação a seus competidores globais.

O que se presencia no mundo com o advento das tecnologias avançadas de telecomunicações é a eliminação do float das informações — tempo gasto no trânsito das informações, durante o qual elas não são utilizadas. Por exemplo, se uma carta aérea do Brasil para os Estados Unidos demora uma semana, o float da informação é de uma semana. Eletronicamente, porém, pode-se eliminar esse float ou reduzi-lo a quase zero. Pode-se usar um equipamento de fax e fazer a mesma carta chegar ao destinatário nos Estados Unidos em poucos minutos. Do colapso do float da informação decorre uma aceleração significativa de mudanças na sociedade. A crescente universalização de informações e conhecimentos propiciada pela eliminação de seu tempo de trânsito faz com que as curvas de evolução da participação no mercado dos diversos países mostrem uma tendência de estreitamento dos gaps existentes, principalmente em países de maior potencial, como é o caso do Brasil. Reflexão: A empresa tem sabido utilizar estrategicamente os recursos tecnológicos para posicionar-se adequadamente no contexto mundial, de maneira a capturar uma participação de mercado cada vez maior? Que mudanças ambientais imediatas ocorrendo no próprio Brasil poderiam facilitar, auxiliar ou acelerar o processo de utilização estratégica dos recursos tecnológicos? O que a empresa deve fazer para aproveitar de forma positiva essas mudanças? A empresa tem praticado uma análise sistemática de como a redução do float de informações impacta áreas estratégicas como comunicação com o mercado, comunicação com fornecedores, desenvolvimento de produtos etc.? O que essa análise sugere em termos de ações estratégicas imediatas?

INFORMATIZAÇÃO, COMPETITIVIDADE E EDUCAÇÃO

Para alavancar sua competitividade as empresas brasileiras devem investir em educação para elevar a produtividade na base.

O desenvolvimento social e uma melhor distribuição de renda, necessários em todos os sentidos, inclusive para o desenvolvimento de um mercado interno cada vez mais forte, significam também custos de mão-de-obra mais elevados. Outros países do Terceiro Mundo poderão se tornar mais competitivos nessa dimensão. Potencialização da força humana parece ser a palavra-chave neste contexto. Em essência, trata-se de um desafio de cunho gerencial (relativo a eficácia em liderança e otimização de produtividade) e tecnológico (uso inteligente de know-how de ponta).


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Megatendências e o Brasil

Idéias Amana • Ano III Nº 1 • 1990 Copyright Amana-Key Editora 1990

Reflexão: O que vale para o país como um todo vale também para as empresas que nele atuam: aos poucos o custo de mão-de-obra irá tornar-se um componente cada vez mais pesado na formação dos custos totais dos produtos da empresa, e compensações terão que ser encontradas para que a lucratividade seja mantida. A empresa tem investido coerentemente em tecnologia (em todos os sentidos — equipamentos, computadores, técnicas de administração e produtividade etc.) para que possa contrabalançar os crescentes custos da mão-de-obra? Que mudanças ambientais imediatas no Brasil podem exigir uma aceleração nesse processo de investimento? Como a empresa está respondendo a essas mudanças? Energia suficiente tem sido alocada ao processo estratégico de se buscar formas de contrabalançar a crescente pressão dos custos de mão-de-obra? A empresa tem exercido esforços sistemáticos de maximização da produtividade (especialmente através de práticas de management de vanguarda), tendo em vista um grau cada vez maior de valor agregado pela mão-de-obra?

A ECONOMIA GLOBAL E O BRASIL

As empresas brasileiras estarão tomando elas mesmas a iniciativa de integrar-se à economia global, sem intermediários oficiais.

Uma grande transformação em andamento na sociedade é a globalização da economia. Está-se evoluindo de um processo limitado de comércio entre países “isolados” para um mercado global único no qual todos fazem “parte de um só time”. Atualmente está-se decidindo quem fará o que nesta economia-mundo. Este é um momento de grandes oportunidades para o Brasil, que ainda participa muito pouco da economia mundial. A questão básica é o posicionamento estratégico dentro dessa tendência. Empresas relativamente pequenas (em comparação a multinacionais) localizadas em cidades do interior de São Paulo, por exemplo, estarão buscando nichos de mercado no exterior de forma direta, sem interferência ou ajuda do governo ou de qualquer outra organização local ou internacional. Será através do conjunto de milhares de atuações independentes como essas que o Brasil se posicionará dentro da economia-mundo com devida força. Reflexão: A empresa tem buscado nichos no mercado internacional que possam posicioná-la melhor na economia global? A empresa tem agido com rapidez suficiente na identificação e penetração nesses nichos? A empresa tem se preparado para fazer frente à concorrência cada vez mais acirrada, típica dos mercados internacionais? Mudanças ambientais em curso atualmente no Brasil trazem que tipo de impacto para a decisão da empresa de procurar mais agressivamente uma participação no mercado global? A empresa está dotada de executivos e profissionais preparados para atuar de forma global? Que esforços de desenvolvimento estão sendo feitos neste sentido?

A IMPORTÂNCIA DOS EMPREENDEDORES

As empresas brasileiras precisarão abrir cada vez maior espaço a empreendedores internos.

O papel desempenhado pelos empreendedores no desenvolvimento/evolução da economia de um país é de alta relevância. São eles que possibilitam a revitalização da sociedade de baixo para cima, num processo de grande força e vigor.


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Megatendências e o Brasil

Idéias Amana • Ano III Nº 1 • 1990 Copyright Amana-Key Editora 1990

Nas condições criadas pela sociedade da informação, conhecimento/know-how/ informações representam os fatores críticos de todo o empreendimento, e não mais o capital financeiro que, na sociedade industrial, sempre representa o fatorchave do processo de geração de novas empresas. Numa sociedade em que o capital humano prevalece, o acesso ao sistema econômico depende mais da força empreendedora e da força do talento. Reflexão: A empresa está preparada para enfrentar a competição de empreendedores dinâmicos que, mesmo de pequeno porte e com pouco capital, representam uma ameaça à sua participação de mercado em função de fatores de diferenciação ligados a inovatividade, qualidade e outros? Que medidas a empresa tem adotado para estar ativamente à frente do processo de inovação em seu setor, assegurando a conquista e manutenção de clientes? Há espaço para empreendedores internos na empresa? Que papel os novos empreendimentos — externos e internos — podem representar no momento atual vivido pelo Brasil? Como esse momento pode influenciar a “decolagem” de novos projetos internos e externos à empresa? Qual seu poder de fazer a “máquina” da economia rodar mais rápido? Há consciência, entre os líderes da empresa, quanto à importância de fatores estratégicos como criatividade, inovação, “fazer acontecer” e velocidade? A cultura da organização tem sido gerenciada para estimular esses fatores?

DESCENTRALIZAÇÃO DO PODER DE REALIZAR

Maior democracia e participação em todos os níveis, inclusive dentro das empresas, são inevitáveis.

Gigantismo parece ser um mal que está sendo combatido mundialmente nas mais diferentes esferas: grandes empresas tentam dividir a organização em várias unidades estratégicas independentes, buscando a agilidade e eficácia inerentes às empresas menores; governos altamente centralizados buscam descentralizar o poder para níveis de Estado, cidade e cidadão; organizações em geral procuram transformar-se em redes multifacetadas, em que todos têm acesso às informações, evitando a rigidez e a concentração do poder de decidir e realizar no topo da pirâmide. As próprias pessoas parecem combater inconscientemente o poder centralizado através de uma busca persistente de auto-suficiência e independência. As pessoas não acreditam mais nos grandes sistemas de saúde, serviços sociais, educação pública, previdência e ajuda institucional. Querem de volta a responsabilidade de se auto-ajudar em todas essas áreas, buscando inclusive formas alternativas e não tradicionais de solução de seus problemas. Possivelmente muitos dos problemas básicos do Brasil — principalmente nas áreas sociais, como educação e saúde — só serão resolvidos a contento através de formas criativas de auto-ajuda, em termos de grupos de cidadãos do mesmo bairro, organizações e instituições locais, colaboração entre empresas e a comunidade onde se localizam. Esse é um vigoroso processo das bases para cima, que se impoe em vez de soluções institucionais, centralizadas, de proporções gigantescas e impostas de cima para baixo de forma padronizada. A diminuição da presença do governo na economia, a privatização de empresas estatais, a descentralização dos serviços públicos e a diminuição da estrutura


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Megatendências e o Brasil

Idéias Amana • Ano III Nº 1 • 1990 Copyright Amana-Key Editora 1990

governamental são tendências mundiais. O próprio processo democrático conduz a estruturas mais do tipo “rede”, afastando-se das estruturas piramidais e autoritárias, do tipo “de cima para baixo”. As pessoas precisam aprender novas formas de agir, de se relacionar, precisam reaprender habilidades que deixaram de usar há muito tempo, precisam inclusive aprender a ter muita paciência com as novas dimensões de tempo, principalmente no presente período de ajustamento. Reflexão: A empresa tem acompanhado a tendência em direção a uma maior descentralização das estruturas e do poder? As pessoas da empresa têm sido preparadas para atuar nesse ambiente mais descentralizado, em que independência e autonomia são traços essenciais? Que alterações ambientais em curso atualmente no Brasil podem reforçar essa tendência? A empresa está preparada para aproveitar as oportunidades (tanto internas quanto externas) geradas pela concretização dessa tendência? De que forma a empresa planeja a transição de estruturas centralizadas, hierarquizadas e rígidas para estruturas descentralizadas, que enfatizem a autonomia e a participação? A visão dos líderes para o futuro da empresa contempla essa forma de organizar-se? Há consciência quanto aos riscos de uma eventual dessintonia em relação a esta tendência?

OPÇÕES MÚLTIPLAS

A prática de uma segmentação de mercado refinada será uma das bases para o sucesso das empresas no Brasil.

Outra megatendência que tende a ser global, a partir inclusive dos avanços da comunicação em nível mundial, é o surgimento de opções múltiplas em praticamente tudo à nossa volta, saindo das escolhas dicotômicas do tipo preto ou branco, que durante muito tempo prevaleceram em nossa sociedade. A tendência à criação de opções múltiplas está, por sua vez, relacionada ao conceito de nichos de mercado. Os próprios recursos inerentes à sociedade da informação possibilitam refinar a segmentação a níveis sofisticadíssimos, fazendo com que se consiga atingir o consumidor com alta precisão. Num país como o Brasil, o fenômeno das opções tende a assumir contornos bastante complexos em função dos contrastes que existem entre a faixa populacional mais rica e a menos privilegiada. Certamente, uma maior precisão e os recursos possuídos pelas empresas permitem cada vez mais oferecer uma ampla gama de opções de produtos para cada segmento da população brasileira, em sintonia com os respectivos níveis de renda. Reflexão: A empresa tem buscado segmentar adequadamente os mercados que atende, visando a atingir posições altamente competitivas em nichos de mercado específicos? Tem sido considerada a possibilidade de buscar novos mercados (inclusive em segmentos de menor renda), visando a uma cobertura mais ampla? Como mudanças ambientais atualmente em curso no Brasil afetam a segmentação de mercado praticada pela empresa? Como os diferentes segmentos da sociedade serão afetados pelas mudanças? Como a empresa está posicionada nesses segmentos? Que ajustes devem ser feitos? A tendência de opções múltiplas tem, também, sido projetada para dentro da empresa em termos de gerenciamento de sua força humana? Os colaboradores da empresa dispõem de opções múltiplas em termos de alternativas de desenvolvi-


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Megatendências e o Brasil

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mento profissional e pessoal? Os colaboradores da empresa dispõem de opções mútiplas em termos de alternativas de compensação, reconhecimento e qualidade de vida?

COMPENSANDO A CRESCENTE INFORMATIZAÇÃO

O avanço rápido da tecnologia no Brasil irá exigir das empresas um equilíbrio refinado entre alta tecnologia e alto contato humano.

À medida que a alta tecnologia vem interferindo em praticamente todos os aspectos das vidas das pessoas, vem ocorrendo um verdadeiro renascimento das artes, música, teatro, numa tendência a desenvolver atividades compensatórias, principalmente no campo das humanidades, do cultural e do espiritual. No Brasil, também, deverá ser especialmente desafiadora a busca de soluções compensatórias pelos segmentos menos favorecidos da população para contrabalançar a crescente presença do computador e da alta tecnologia em suas vidas. Reflexão: A empresa tem levado adequadamente em consideração os aspectos humanos envolvidos ao se introduzir novas tecnologias ? De que formas a empresa tem procurado contrabalançar a introdução de tecnologia (computadores, telecomunicações, robôs, equipamentos de produção informatizados etc.) no trabalho cotidiano das pessoas? De que maneira as mudanças em curso no Brasil poderão afetar a maneira pela qual as pessoas têm se relacionado com a tecnologia? A tendência de compensação à crescente tecnologia através das artes e da busca de riqueza da vida interior traz oportunidades de melhoria para a empresa? E que demandas ela pode trazer em áreas como comunicação com o mercado e imagem institucional? A empresa está preparada para agir de forma proativa na sociedade de modo amplo, para assegurar um melhor equilíbrio entre tecnologia e contato humano?

O BRASIL NOS ANOS 90

As empresas brasileiras podem atingir posições de liderança na economia global desde que realmente o desejem e planejem uma estratégia coerente para fazê-lo.

Tomando por base a leitura das megatendências que estão transformando o mundo e estudando as condições prevalecentes no Brasil, é possível visualizar a evolução do país nos próximos anos como um processo que terá de transpor dez passagens independentes e interligadas entre si. Para atingir esse objetivo, o caminho é complexo e desafiador. Será preciso gerenciar todas as variáveis de forma integrada, coordenando de maneira refinada as inter-relações, os efeitos de uma sobre a outra, as sinergias envolvidas, a alocação de energia, o timing de cada movimento estratégico e principalmente os aspectos humanos/culturais. São passagens que necessariamente terão de ser transpostas de forma criativa e inovadora, para realizar a visão de fazer do Brasil um país plenamente desenvolvido (num novo conceito de desenvolvimento em que os valores humanos e a qualidade de vida transcendem o “vencer economicamente”) na virada para o século XX: 1. Educação compatível com os desafios dos novos tempos para a nação como um todo (todas as faixas de idade). Compatibilização entre alta qualidade (modernidade) e quantidade/alcance (acesso a todos). 2. Cultura e valores que restaurem o vigor da nação pela força de integridade, ética, respeito humano, predisposição à ajuda mútua e postura de ser produtivo e contributivo para a sociedade como um todo.


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Megatendências e o Brasil

Idéias Amana • Ano III Nº 1 • 1990 Copyright Amana-Key Editora 1990

3. Descentralização máxima até o nível de cidadão e a transformação de postura de “um Estado que toma conta da sociedade” para “uma sociedade que toma conta de si mesma”. 4. Democratização de espaços e recursos básicos que dêem condições para que cada cidadão possa ser produtivo e contributivo para a nação. 5. Assegurar um esforço integrado da sociedade como um todo para garantir qualidade de vida decente a cada um de seus menbros, a curto prazo. 6. Força empreendedora da nação estimulada e devidamente canalizada para as áreas de atividade prioritárias e para o próprio processo de participação comunitária. 7. Potencialização inteligente/bem-orquestrada de todas as riquezas/“ativos” materiais, humanos e intangíveis da nação. 8. Programas prioritários de longo prazo — essenciais ao desenvolvimento do país — devidamente protegidos (por mecanismos criativos/inovadores) das flutuações e distorções políticas casuísticas/circunstanciais de curto prazo. 9. Inserção estratégica do país no emergente mercado mundial através de parcerias e alianças inovadoras/criativas. 10.Abertura inteligente do país ao capital mundial e soluções empreendedoras/ não míopes/integradas ao todo dos problemas financeiros internos e externos da nação. Reflexão: De certa forma, essas dez passagens também podem ser aplicadas em termos de empresa, com as devidas adaptações. Como a empresa traduziria cada uma delas para aplicá-las à sua realidade? Como a empresa está posicionada e qual tem sido seu desempenho em relação a cada uma dessas dez dimensões? De que forma mudanças ambientais em curso no Brasil podem afetar (positiva ou negativamente) essas passagens e o posicionamento da empresa em relação a cada uma delas? As passagens em questão estão sendo contempladas no processo de formulação de uma visão de longo prazo para a empresa? A empresa e seus líderes estão suficientemente dotados de competência em management para gerenciar de forma refinada todas as variáveis envolvidas nesse processo? Que ações são necessárias para elevar ainda mais essa competência?


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Megatendências e a Administração como Arte

Idéias Amana • Ano III Nº 1 • 1990 Copyright Amana-Key Editora 1990

MEGATENDÊNCIAS E A ADMINISTRAÇÃO COMO ARTE Cenários de futuro podem ser o ponto de partida para a reinvenção de administração de uma empresa. Esse novo management não coloca-se passivamente nesses cenários, mas ousa moldar as tendências e construir o futuro desejado.

“O

Brasil será os EUA do Século XXI.” Essa afirmação, feita por John Naisbitt em 1988, pareceu a muitos, na época, uma referência a algo ainda bastante distante. Tempo demais para o Brasil deixar de ser o quase eterno “país do futuro” e integrar o presente como grande potência. Para outros, representou um poderoso estímulo à busca de uma visão que pudesse direcionar o esforço do país como um todo.

Hoje, já nos anos 90, aquela frase gera outras reflexões. As novas tendências apontadas por Naisbitt e Aburdene em seu livro Megatrends 2000, pela ênfase dada à Europa e ao Pacífico, fazem aquela previsão de Naisbitt parecer menos concretizável. De acordo com Naisbitt e Aburdene, chegaremos ao ano 2000 com três quartos da economia mundial nas mãos de três principais players: Estados Unidos, Pacific Rim e Europa. O restante estará com os outros países fora desse eixo, inclusive o Brasil. Seremos hoje menos viáveis como “potência futura”? Tudo parece depender de nós mesmos. Se quisermos efetivamente realizar todo o nosso potencial, o posicionamento estratégico do país em relação a esse mundo em rápida mutação deve fazer com que o Brasil necessariamente volte sua atenção para esses três quartos da economia mundial nos anos 90. Nesse sentido, a primeira equação-chave em termos de megaestratégia para o país pode ser sintetizada em uma questão: como o país poderá inserir-se mais profundamente no contexto mundial emergente, para estar em condições de posicionar-se no epicentro da explosão econômica global prevista por Naisbitt para os anos 90? Por tudo que semearam nos últimos anos é que a Ásia e a Europa recebem hoje um fluxo natural de investimentos. Para o Brasil, o primeiro passo é participar ativamente desses megamercados como fornecedor e parceiro comercial. Seu


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Megatendências e a Administração como Arte

Idéias Amana • Ano III Nº 1 • 1990 Copyright Amana-Key Editora 1990

segundo passo é, aprendendo a partir do que tem sido feito naquelas regiões — de seus acertos e erros —, montar uma estratégia para atrair investimentos “de risco”, que lhe possibilitem concorrer nessa dimensão de forma cada vez mais eficaz e competitiva em relação ao resto do mundo. Uma outra equação estratégica parece ser decorrência natural das anteriores: como conseguir, a partir do ano 2000, vir a ser o Pacific Rim de hoje? Ou seja, como fazer com que o Brasil venha a ser um player ativo na definição das tendências mundiais para as próximas décadas?

OUSANDO MOLDAR TENDÊNCIAS

Tendências são criadas pelas ações de pessoas e podem, portanto, ser revertidas pela ação de pessoas.

Tendências são construídas. Não são obra do acaso. Elas são geradas por fatos do presente. Fatos são criados por ações de estadistas, executivos, cientistas e empreendedores. Assim como tendências são criadas pela ação de pessoas, elas obviamente podem ser mudadas, revertidas. Para reverter tendências, porém, não basta apenas agir. É preciso também saber lidar com a informação e os processos de comunicação. Como atrair investidores estrangeiros, se o que se divulga dentro e fora do país não dá uma idéia precisa do real potencial do Brasil e da própria realidade existente? Como “ler” o que ocorre na economia informal, ao se avaliar o potencial e o desempenho do país? Que padrões de “paridade” de análise devem ser usados para produzir comparações válidas em nível internacional, impedindo-se medições pasteurizadas, que ocorrem a partir do uso de médias e referenciais já distorcidos em sua própria base? Como evitar que os atuais pontos fracos obscureçam o que de positivo e atraente efetivamente existe no país, gerando um círculo vicioso negativo? Informação e comunicação têm grande relevância na definição de tendências. O “efeito Pigmalião”, a profecia auto-realizável, se faz presente. Arautos do Apocalipse estão em todas as partes do mundo. Notícias ruins e negativas exercem forte atração também no Brasil. Más notícias são notícias em uma proporção muito maior do que as boas. O seu resultado é um efeito multiplicador que instila medo e atitudes generalizadas de ceticismo e descrença, gerando tendências negativas de regressão e encolhimento. Assim como tendências negativas são geradas por pessoas, elas podem ser revertidas como resultado da ação de uma massa crítica de indivíduos motivados, dispostos a construir e produzir. Uma motivação que só pode ser gerada através de cultura e valores políticos sadios, alinhados à busca de algo maior, a uma visão de um futuro otimista e altamente promissor.

EM BUSCA DE UMA CULTURA VENCEDORA

Da mesma forma que uma organização tem condições de aprimorar sua cultura, um país pode transformar seus valores e reverter comportamentos cartoriais,


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Megatendências e a Administração como Arte

Idéias Amana • Ano III Nº 1 • 1990 Copyright Amana-Key Editora 1990

individualistas, de queixas passivas, de críticas muitas vezes irresponsáveis e destrutivas, de desculpas, desenvolvendo, inclusive, novos padrões éticos para a nação. São processos complexos, que levam tempo, mas perfeitamente viáveis. Como dizem Naisbitt e Aburdene, “não devemos ser escravos do passado, da história, do que já se foi”. É preciso estruturar principalmente nossa postura em face do futuro — posicionando-nos estrategicamente para efetivamente concretizar tudo com que sonhamos e realizar nossa visão de um futuro ideal. Novas tendências são criadas por pessoas de visão: estadistas, executivos e indivíduos que decidem construir o futuro em vez de serem meramente empurrados pelos acontecimentos. Por trás de cada grande tendência apontada por Naisbitt existem indivíduos que a moldaram a partir de ações visionárias de anos ou décadas atrás. Vivemos hoje uma época em que países e organizações líderes são desafiados por outros — bem menos poderosos — e chegam a ser suplantados. Nada impede que o Brasil estabeleça novas tendências para as próximas décadas e venha a desafiar a hegemonia dos EUA, Japão ou de uma Europa unificada. Hoje, o desenvolvimento de novas tecnologias, a evolução explosiva em muitos campos do conhecimento humano e a possibilidade de formação de alianças mundiais (que fundamentalmente só dependem de nossa ousadia e criatividade) tornam visíveis inúmeros atalhos para o progresso do desenvolvimento de uma nação. Isso significa que posições de países no ranking mundial podem vir a ser alteradas significativamente, em muito pouco tempo. Muito mais do que intervenções e megas-soluções tecnocráticas, para realizar tais reviravoltas são necessárias liderança visionária e arte em “management de país”. Uma arte que equilibre o técnico com o humano; aspectos objetivos com qualitativos; curto prazo com longo prazo. Que gere evolução em diferentes segmentos da sociedade de forma refinadamente equilibrada.

ADMINISTRAÇÃO COMO ARTE

Para alterar o curso das tendências e produzir alterações em rankings globais a administração precisa ser vista como uma arte.

Para produzir tais resultados, a administração precisa ser vista como uma arte. Uma arte capaz de trabalhar os aspectos materiais, psicológicos e espirituais que determinam a motivação e a mobilização da força humana da nação. Que pode fazer o pouco que temos render exponencialmente e produzir mais do que os países “ricos”. Que se fundamenta em know-how refinado, aprendido dos melhores do mundo, mas devidamente ajustado, potencializado através de intuição e criatividade. Uma arte que consegue coesão no país como um todo, desenvolvendo forte identidade cultural em uma população caracterizada por uma diversidade étnico-racial riquíssima, só comparável, em sua força intrínseca, de acordo com Naisbitt, aos EUA. E que produz negociações refinadas tanto internas quanto externas, levando à formação de alianças ganha-ganha por todo o globo. Uma arte que pode colocar o país de vez no contexto mundial, com muita dignidade e equilíbrio, conquistando o respeito de todos. Nessa arte é também fundamental atentar para os aspectos soft envolvidos, especialmente os de natureza ética. Parcerias duradouras exigem integridade e confiança, um grande desafio de natureza cultural para nosso país.


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Essa arte deve ser exercida não apenas por estadistas, mas também por cidadãos envolvidos, participativos, não alienados, que, em vez de se queixar e se perder em debates inúteis sobre de quem seria a responsabilidade pelas coisas, se coloquem à sua frente sempre prontamente, para fazer com que tudo que seja necessário realizar efetivamente aconteça. No management do país, assim como no empresarial, não é preciso seguir “o que tem sido feito tradicionalmente”. Equilibrando de forma sábia o velho e o novo, o incremental e o visionário, é possível criar novas formas, novos métodos, novos mecanismos de “orquestração” e de “fazer acontecer” na sociedade: comissões de cidadãos comuns para supervisionar atividades de serviço público; estímulo a empreendedores não só através de impostos menores nos primeiros anos, mas com oferta de projetos prioritários em linha com a estratégia maior do país; reunião dos melhores cérebros do país para trabalhar (e não apenas opinar) em regime de força-tarefa temporária, em questões-chave e prioritárias para a nação; incentivos para que voluntários capacitados se apresentem para contribuir em projetos relevantes; incentivos à participação dos cidadãos e empresas na solução de questões de base como saúde, erradicação da pobreza, melhor distribuição de renda. A arte da administração exige reflexões apuradas, sobretudo quando se idealizam soluções que se ajustem perfeitamente ao contexto e que conduzam aos objetivos maiores. Essas reflexões não podem ficar circunscritas ao periférico, ao superficial, ao cômodo e ao medíocre. Elas devem nos fazer ver, por exemplo, que educar no sentido amplo é muito mais do que “adestrar”. De que adiantaria ter pessoas “adestradas”/treinadas e até desenvolver uma sociedade eficiente, mas que fosse se deteriorando em seu valores essenciais, levando a desequilíbrios que desloquem o próprio ser humano do foco principal?

PRIORIDADE À EDUCAÇÃO

É preciso dar prioridade máxima à potencialização da força humana do país.

No Brasil, os esforços de uma administração inovadora devem privilegiar a potencialização da força humana do país. Nesta era em que o capital humano definirá, mais do que nunca, a capacidade competitiva de nações e empresas no contexto mundial, é preciso canalizar nossa criatividade e imaginação para encontrar atalhos que impulsionem o nível de qualidade de nossa população. É possível queimar etapas utilizando tecnologias avançadas já disponíveis de nossa infraestrutura de telecomunicações e muita criatividade/engenhosidade. No “management arte” do país, a equação estratégica a exigir prioridade máxima refere-se à educação. Através de alocação maciça de energia em educação, conseguiremos refinar a qualidade dos recursos humanos do país, adequando-os às novas demandas da sociedade da informação. Isso significará, também, melhores empregos e melhor remuneração, assim como aumento considerável do “bolo” e, ao mesmo tempo, uma melhor distribuição de renda. Melhor distribuição de renda representa, por outro lado, mercado interno forte, fator essencial para alavancar a competitividade do país no mercado externo.


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Mas, como viabilizar isso quebrando o círculo vicioso (falta de recursos, baixo nível de educação, baixo desempenho econômico) no qual nos sentimos presos hoje? Aparentemente, só um caminho é viável: a participação direta de cada cidadão,ou seja, a ação proativa dos cidadãos e a ação da própria força humana total do país, construindo efetivamente em nossa nação o moderno conceito de democracia participativa (“a sociedade que toma conta de si”) seja, por exemplo, por meio da ajuda voluntária em programas de melhoria de educação, seja por meio da “adoção” de escolas por empresas.

UMA VISÃO CLARA PARA O PAÍS

É indispensável o consenso em torno de uma visão de longo prazo para lidar de forma definitiva com os obstáculos de curto prazo

O que, mais do que nunca, parece ser necessário ao Brasil é visão: aonde o país quer chegar como sociedade e como membro ativo da comunidade mundial? Não apenas no que diz respeito a aspectos econômicos, mas principalmente no que tange ao bem-estar das pessoas que aqui vivem e à contribuição para a humanidade como um todo. Em suma, uma visão em linha com objetivos mais nobres que uma nação possa almejar. Uma vez que se alcance um consenso nacional em torno dos objetivos maiores do país, os fatores de curto prazo começarão a interligar-se e harmonizar-se de forma natural. As pessoas tenderão a contribuir espontaneamente para a realização desse ideal maior. Mesmo problemas difíceis, como inflação e dívida interna/externa, serão resolvidos com naturalidade e fluência, sem traumas e choques. Estratégias criativas em todos os setores da sociedade serão idealizadas da base para o topo, com interferência mínima do Estado. Estadistas surgirão e se desenvolverão em todas as camadas da sociedade, nesse ambiente em que tudo que se faz está sintonizado com algo maior. Essa visão do que o país quer vir a ser exige, necessariamente, uma leitura ampla do mundo, algo fundamental na medida em que o Brasil — queira ou não — faz parte da sociedade global de forma cada vez mais complexa e intrincada. Por outro lado, nada impede que o Brasil inove, agindo independentemente, desenhando uma visão inovadora para o país, e, como decorrência, criando novos padrões, novas tendências mundiais. Um processo de dois sentidos.

VISÃO DE MUNDO E AS MEGATENDÊNCIAS

Que ações devem ser desencadeadas desde já em preparação para o futuro?

Em termos de visão de mundo, as megatendências apontadas por Naisbitt e Aburdene nos levam a reflexões profundas, num verdadeiro desafio à nossa capacidade de abstração: que ações devemos desencadear desde já, como profissionais e, principalmente, como seres humanos, tendo em vista esse futuro que se avizinha a passos acelerados? Talvez esteja exatamente na força impulsionadora dessa reflexão seu mérito maior. Como não poderia deixar de ser, as dez megatendências apontadas por Naisbitt e Aburdene estão intrincadamente interconectadas. A explosão econômica prevista para os anos 90 é uma das conseqüências da globalização dos mercados e da evolução da tecnologia da informação, dos


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processadores de conhecimento, das telecomunicações e da biotecnologia, principalmente. É preciso não só acompanhar essa evolução, mas assegurar acesso rápido de todos os setores da sociedade a ela. A descoberta dos atalhos ao processo de equiparação com as nações desenvolvidas só será possível com o domínio do estado da arte das novas tecnologias. Ao mesmo tempo, estratégias de desenvolvimento deverão ser formuladas com vistas ao futuro, evitando o risco de “preparar-se para o passado”. Os quatro “Tigres Asiáticos”, como apontam Naisbitt e Aburdene, demonstram que é possível saltar de uma economia primária para uma outra tecnológica sem passar pelo estágio industrial tradicional. Por que não “queimar etapas” também no Brasil, na busca de novos patamares de desenvolvimento? A ascensão do Pacific Rim é, em essência, a celebração da importância básica e estratégica da educação, da extraordinária relevância da qualidade dos recursos humanos de uma nação, inclusive pelo seu impacto econômico, e da visão estratégica de longo prazo. Ela é, antes de tudo, também, uma extraordinária lição para o Brasil, em termos de “management de país”, principalmente no que se refere ao processo de construção da força de competição em nível mundial, exigida pelos novos tempos. Por outro lado, a emergência da nova liderança celebra a queda dos preconceitos, a igualdade do ser humano em todos os sentidos e a importância da força de participação de cada pessoa na construção de um mundo cada vez melhor. Também evidencia a extraordinária importância dos recursos humanos e dos talentos nestes tempos que antecedem o terceiro milênio. A universalização dos estilos de vida e a contratendência do nacionalismo cultural parecem simbolizar a crescente preocupação pelo bem-estar da humanidade como um todo, aliada à valorização do indivíduo, dois pólos aparentemente opostos que se harmonizam quem sabe pela primeira vez na História. As conquistas da Biologia — a ciência da vida — talvez venham a produzir mudanças de referenciais que nos ajudem a construir a avenida que nos aproxime ainda mais de verdades básicas, hoje ainda obscurecidas por distorções criadas pelos próprios homens ao construir a sociedade industrial. Nesse sentido, a emergência das sociedades de livre-mercado e a decadência dos sistemas centralizados parecem representar o triunfo do ser humano sobre a armadilha das relações de poder e dependência. Um triunfo que força as pessoas a olharem para dentro de si mesmas, em busca de respostas para suas questões essenciais, e a sentir-se efetivamente co-responsáveis pela construção de um mundo cada vez melhor. O retorno à valorização das artes e do espiritual mostra-se, assim, bastante coerente com essa busca maior que parece definir nosso fim de século: um verdadeiro mergulho para dentro de nossa própria essência. Nas tendências apontadas por Naisbitt e Aburdene em Megatrends 2000, o humano está presente em suas dimensões mais básicas. E sempre onde é fundamental estar: no centro de tudo.


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Reinventando a Organização

Idéias Amana • Ano I Nº 6 • 1988 Copyright Amana-Key Editora 1988

A CRESCENTE DEMANDA POR MUDANÇAS

REINVENTANDO A ORGANIZAÇÃO Como as empresas de visão estão se recriando para adequar-se às mudanças no ambiente e antecipar-se às tendências de mudança para os anos 90.

D iversas empresas já encontram-se engajadas no processo de reinvenção da organização. São empresas pioneiras, verdadeiros modelos para organizações que buscam ajustar se aos novos tempos. Numa época em que empresas estão experimentando círculos de controle de qualidade e políticas de “portas abertas” apenas como acessórios para “incrementar” sua estrutura tradicional, essas empresas-protótipo e seus líderes estão gerando novas formas de gerenciar a organização. Estão reinventando a organização, criando a organização de amanhã. Muitas delas tiveram início como criações experimentais de pessoas que pretenderam apenas fazer as coisas de uma nova forma. Pessoas que nunca pretenderam formular novos modelos organizacionais para a década de 90. Foi pesquisando e analisando estas empresas e suas práticas inovadoras que John Naisbitt, o destacado analista de tendências e mudanças econômicas e sociais escreveu, juntamente com Patrícia Aburdene, o livro Re-inventing the Corporation. A obra tem por objetivo mostrar as tendências de evolução das empresas como organismos geradores de lucro e de trabalho inovador, ajustado aos novos valores. Por que reinventar a organização? Naisbitt e Aburdene identificaram três poderosas tendências que estão transformando o ambiente de negócios e compelindo as empresas a reinventarem-se. São tendências que se intensificarão muito durante os anos 90:


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Reinventando a Organização

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(l) mudança no valor estratégico de capital financeiro para capital humano; (2) achatamento das estruturas organizacionais com a eliminação de níveis intermediários de gerência; e (3) a escassez de mão-de-obra especializada e o maior poder de barganha dos profissionais nos anos 90.

DE CAPITAL FINANCEIRO PARA CAPITAL HUMANO

As pessoas são a principal fonte de vantagem competitiva das empresas

A nova organização difere da antiga em termos de metas e premissas básicas. Na era industrial, quando o recurso estratégico era capital, a meta da empresa só poderia ser lucro. Na era da informação, porém, o recurso estratégico é informação, conhecimento, criatividade. Há apenas uma maneira de uma empresa ter acesso a essas valiosas qualidades: por meio das pessoas nas quais esses recursos residem. Assim, uma premissa básica das empresas reinventadas é que pessoas – o capital humano – constituem seu mais importante recurso. Na sociedade da informação os recursos humanos representam o diferencial competitivo de maior impacto. As novas organizações descobriram que sendo pró-pessoas e pró-lucros podem conseguir resultados excepcionais. Não se trata da questão de “ser simpático” às pessoas. É simplesmente o reconhecimento de que seres humanos podem construir ou destruir uma empresa.

MUDANÇAS NA GERÊNCIA MÉDIA

Novas formas de organizar e trabalhar estão alterando a estrutura das empresas.

Os gerentes intermediários – pessoas que coletam, processam e transmitem informações para cima e para baixo ao longo da hierarquia – estão perdendo para a tecnologia na disputa por produtividade. Os gerentes intermediários têm se beneficiado da crença de que pessoas trabalham melhor quando são supervisionadas de perto. Mas agora aquelas hierarquias nas quais os gerentes intermediários tinham posição assegurada, estão sendo alteradas por um vasto conjunto de estruturas de auto-gerenciamento: redes, equipes multidisciplinares e pequenos grupos. O auto-gerenciamento está substituindo gerenciadores de pessoas; o computador está substituindo gerenciadores de sistemas. Computadores estão substituindo gerentes a uma taxa mais elevada que aquela em que robôs estão substituindo operários de linha de montagem. Empresas estão se estruturando em pirâmides achatadas ou outras formas organizacionais, onde as pessoas efetivamente gerenciam a si próprias.

A ESCASSEZ DE TALENTOS

Práticas de recursos humanos estão sendo rapidamente alteradas para permitir às empresas competir por talentos.

A maioria das organizações está acostumada a operar num mercado com grande oferta de profissionais, podendo escolher os mais qualificados e competentes para cada cargo. A exceção está, obviamente, nas áreas de informática e alta tecnologia onde já há – e continuará a haver – considerável escassez de talentos. Mas, a


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Reinventando a Organização

Idéias Amana • Ano I Nº 6 • 1988 Copyright Amana-Key Editora 1988

partir do final dos anos 80 haverá escassez de mão-de-obra em um crescente número de ocupações. As organizações irão agressivamente competir pelos poucos talentos disponíveis. Os melhores serão atraídos pelas empresas reinventadas: excelentes locais para trabalhar e onde os indivíduos podem crescer também em termos pessoais. Muitas das idéias implantadas pelas empresas que estão se recriando em função dessas mudanças não são novas, e vêm sendo debatidas e analisadas há alguns anos. Contudo, o ponto central é que novos valores, novas noções das coisas e boas idéias não produzem mudanças por si mesmos. Transformações só ocorrem quando há uma confluência entre novos valores e necessidades econômicas. As turbulências dos anos 90 – a emergência de uma economia global e o declínio da base industrial – têm representado o ímpeto econômico para a mudança. Novas forças como a escassez de mão-de-obra, a redução das gerências intermediárias e a definição dos recursos humanos como diferencial competitivo estão reforçando esse imperativo econômico. As empresas que desejarem sobreviver, desenvolverse e vencer não têm tempo a perder. Precisam recriar-se.

O QUE AS EMPRESAS EM PROCESSO DE RECRIAÇÃO ESTÃO BUSCANDO ESTRUTURAS ÁGEIS QUE PERMITAM À ORGANIZAÇÃO REAGIR AOS NOVOS DESAFIOS À FRENTE DOS CONCORRENTES

LIBERDADE PARA AS PESSOAS ATUAREM AUTOMOTIVADAS NA BUSCA DOS OBJETIVOS INSTITUCIONAIS

ATAQUE SISTEMÁTICO A PRECONCEITOS, RESTRIÇÕES ARTIFICIAIS E “BARREIRAS PRÉ-CONCEBIDAS” QUE INIBAM A INOVAÇÃO

RELAÇÕES NUTRIENTES ENTRE A EMPRESA E SEU PESSOAL, QUE ATRAIAM E RETENHAM TALENTOS

ESPAÇO PARA INTUIÇÃO, JULGAMENTO, “SABEDORIA” GERADA PELA EXPERIÊNCIA PARA EQUILIBRAR ÊNFASE EXCESSIVA À RACIONALIDADE

AMBIENTES QUE FAVOREÇAM O DESENVOLVIMENTO E O EXERCÍCIO DE CRIATIVIDADE

PRIORIDADE AO TREINAMENTO, DESENVOLVIMENTO E EDUCAÇÃO DE PESSOAS ENQUANTO FATOR ESTRATÉGICO CHAVE

BUSCA DO HOLÍSTICO, DO GLOBAL E DA OTIMIZAÇÃO DAS INTERRELAÇÕES DENTRO DO TODO EM TUDO QUE SE FAZ

PROCESSOS DE PLANEJAMENTO E EXECUÇÃO QUE NÃO DEPENDAM DE UMA ADMINISTRAÇÃO CENTRALIZADA


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Cenários de Futuro Requerem Ações no Presente

Flash-Idéias

IDÉIAS PARA COMEÇAR A AGIR

CENÁRIOS DE FUTURO REQUEREM AÇÕES NO PRESENTE N ão

basta refletir ou debater a respeito das transformações em curso no ambiente maior. O desenvolvimento de cenários de futuro tem um objetivo maior: a ação estratégica oportuna. Veja neste artigo algumas ações que já estão sendo adotadas por empresas. Que tal iniciar ações semelhantes em sua empresa desde já?

DE ONDE VIRÃO OS CONCORRENTES DO FUTURO?

Acompanhar mudanças em andamento e estudar tendências pode parecer, para muitos executivos “pragmáticos”, meros exercícios de “futurologia” – pouco relacionados com o dia-a-dia da empresa. A história, porém, revela que muitas empresas foram expelidas do mercado exatamente por ignorarem essas tendências. Quando as mudanças realmente acontecem, provavelmente é tarde demais para ter sucesso na reação. Quanto mais antecipadamente são detectadas as grandes tendências de mudanças, melhores são as condições de se assegurar um amanhã saudável e sem problemas. Quanto do sucesso de empresas que são líderes de mercado há décadas se deve a esse cuidadoso monitoramento das tendências de mudança? A propósito, de onde virão seus futuros concorrentes? Onde estão as “pistas” que darão essa resposta? Poderão vir de áreas completamente diversas (caso dos serviços de correio, contrapostos à expansão do fax; dos bancos, que enfrentam concorrência das lojas de varejo no financiamento a pessoas físicas)?


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Cenários de Futuro Requerem Ações no Presente

Flash-Idéias

OPERÁRIOS DA INFORMAÇÃO

A tendência rumo à automação e crescente informatização é irreversível. Isso não significa, porém, o fim dos funcionários de fábrica, mas sim uma mudança em suas habilidades. As mudanças trazidas pela informática estão transformando o operário tradicional em um trabalhador da informação, ao mesmo tempo em que estão tornando cinzenta a linha de separação entre operário e supervisor e entre supervisor e gerente. No bojo dessa mudança está uma descentralização do poder e da autoridade, pois o trabalhador de linha pode tomar muitas decisões que impactam o todo, mantendo um maior controle sobre o processo produtivo. Esse é um ponto importante. O retreinamento do pessoal operacional não pode simplesmente ater-se a ensinamentos técnicos sobre como operar novos equipamentos. É necessário despertar nesses funcionários uma nova consciência quanto ao processo como um todo e sua importância/participação no mesmo. Isso pode envolver desde uma complementação de sua formação escolar até um processo de valorização de seu trabalho e de sua pessoa, que produza amadurecimento profissional e individual.

CONTATO HUMANO VERSUS INFORMÁTICA

Se de um lado a informática pode ajudar a melhorar consideravelmente o processo de prestação de serviços (menor custo, maior racionalização, menos filas, maior rapidez etc.), há outros problemas que surgem como conseqüência da diminuição do contato humano (excessiva impessoabilidade, frieza, dificuldade em resolver problemas não padronizados). Enquanto algumas organizações correm à busca de cada vez maior informatização na prestação de serviços (auto-serviço padronizado), outras têm conseguido resultados excepcionais caminhando em sentido contrário (cada vez maior personalização e excelência do contato humano). Algumas dessas empresas de sucesso têm usado alta tecnologia e alto contato humano para assegurar alta qualidade de atendimento. Por exemplo, um banco de investimento tem conseguido excelentes resultados dando ênfase à qualidade mais do que à quantidade de pessoal (poucos super-especialistas muito bem remunerados dando atendimento personalizado) e usando sofisticadíssimo sistema de computação para suportar o atendimento (atendente tem acesso aos registros do cliente em poucos segundos). Esse é mais um exemplo do valor do equilíbrio (uso dos pontos fortes de cada recurso), do entendimento refinado das necessidades do cliente e da criatividade para obtenção de vantagem competitiva.

A FORÇA DAS MULHERES

Mais e mais as mulheres têm conquistado respeito e poder nas organizações. Essa condição está fazendo com que as empresas reconheçam as legítimas necessidades dessa nova força de trabalho. O impacto das mulheres que trabalham está por trás de muitas das práticas que reinventam a empresa: do interesse crescente em jornadas e benefícios flexíveis até a nova respeitabilidade conferida à intuição. As creches, por exemplo, estão finalmente sendo vistas não como um problema


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das mulheres, mas como uma questão de trabalho em geral. Como membros de famílias em que marido e mulher trabalham, as mulheres estão fazendo as empresas reverem suas políticas de transferência (que fazem a família se mudar e um dos cônjuges ficar desempregado), os critérios de licença maternidade/paternidade e as regras contra o casal trabalhar na mesma empresa. Mulheres com carreiras bem estabelecidas que tornam-se mães estão conseguindo negociar contratos part-time, de modo a manter suas carreiras enquanto cuidam de seus filhos pequenos. Todavia, a principal questão na relação de trabalho com as mulheres tem sido sua remuneração. É crescente o reconhecimento de que é injusto pagar às mulheres desproporcionalmente à sua contribuição para a empresa. Esse é um problema básico, que deve ser resolvido por toda empresa que deseje garantir os melhores talentos em seus quadros, homens ou mulheres, em tempos de acirrada concorrência por pessoas capazes.

RECRUTANDO NO EXTERIOR

Empresas reinventadas atentas ao processo de globalização da economia têm buscado internacionalizar-se de forma criativa/não ortodoxa. Algumas dessas empresas têm recrutado pessoas em outros países. Por meio da introdução de estrangeiros, essas empresas têm conseguido produzir um saudável “choque cultural” em seus funcionários, fazendo-os compreenderem mais profundamente as sutilezas envolvidas no processo de internacionalização. Elas têm também extraído vantagens de conhecimentos especiais, experiência e relacionamentos desses novos colaboradores. Além disso, trata-se de excelente forma de importar tecnologia: trazendo os próprios cérebros que a retêm e desenvolvem.

ADOTE UMA ESCOLA

Quando as empresas reinventadas contribuem para a educação nas comunidades em que estão instaladas, elas estão investindo a longo prazo. Um bom sistema educacional local é um dos principais ativos que a empresa pode desenvolver em relação ao ambiente em que opera. Boas escolas são, em essência, o fator-chave para o suprimento de pessoas talentosas e criativas para o mercado de trabalho. “Adotar” uma escola pode garantir à empresa o melhor pessoal, hoje e no futuro.


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Novos Paradigmas

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

NOVOS REFERENCIAIS PARA INOVAÇÕES ESTRATÉGICAS

NOVOS PARADIGMAS Quais os novos paradigmas das transformações pessoais, organizacionais e sociais que caracterizam os dias de hoje? São os valores emergentes que exigem das empresas inovações estratégicas?

Q ue mudanças de valores estão afetando o management das organizações? • Que tipo de estrutura de poder e liderança irá emergir para substituir a atual? • Qual será a forma de organização da sociedade que irá prevalecer no futuro? • A sociedade de consumo irá perdurar? Que tipo de sociedade tende a substituí-la? • A que se atribui esse sentimento de declínio da sociedade, de governos, das estruturas tradicionais? O que explica a aparente alienação de vasta parte da sociedade? • O movimento de globalização da economia está ligado, de alguma maneira, à internacionalização de outras instituições sociais? • Como podemos nos tornar atores de destaque no processo de transformação, compartilhando responsabilidades e superando a inércia, os interesses mesquinhos e nossos próprios hábitos? Os executivos, mais do que acadêmicos ou profissionais de outras áreas, dependem de respostas adequadas a indagações como essas para assegurar êxito em suas decisões. Isso os obriga a ampliar sua visão na busca de uma perspectiva maior. Nesse tipo de busca, de extraordinária relevância, a pensadora americana Marilyn Ferguson tem se destacado mundialmente.


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Novos Paradigmas

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

FORÇA GERADORA DE INOVAÇÃO

Pessoas das mais diferentes áreas, unidas por um estado de espírito comum, vêm produzindo os novos paradigmas.

De acordo com Ferguson, executivos, cientistas, políticos e profissionais dos mais diversos campos vêm caminhando “juntos” numa mesma direção, sem saber da existência uns dos outros. São pessoas que, unidas por um estado de espírito e uma força fantástica, buscam formas inovadoras de fazer as coisas, produzindo transformações de enorme poder multiplicador. Trata-se de algo extraordinário. Um processo que se desenvolve com muita rapidez mas ainda não tem nome, e é muito difícil de ser descrito. Um espírito repleto de paradoxos: ao mesmo tempo pragmático e transcendente, ele valoriza tanto as descobertas como os mistérios, tanto o poder como a humildade, tanto a interdependência entre as pessoas como a individualidade, integrando o mágico à ciência, arte à tecnologia. Algo simultaneamente político e apolítico, unindo pessoas das mais diferentes tendências. Um espírito que tem influenciado fortemente a evolução dos mais diversos campos do conhecimento humano e da própria forma de governar e liderar organizações, levando a novos paradigmas. E levando também a uma nova estrutura de pensamento que é mais “descoberta/vista” do que racionalmente construída. Não é apenas mais conhecimento. É um “novo conhecer”. Ao descrever de forma inédita esta verdadeira “conspiração benigna” em suas obras, Marilyn Ferguson conseguiu identificação instantânea com milhões de pessoas no mundo inteiro. Pessoas que perceberam que as inovações que geram no que estão fazendo estão inseridas num processo maior, de excepcional força transformadora. Uma força que está desencadeando o que parece ser a mais rápida e significativa mudança cultural da história da humanidade. A obra de Ferguson é um verdadeiro guia que nos leva a enxergar os novos paradigmas em emergência, a fazer perguntas que levam a reflexões inéditas e entender o que está por trás das imensas transformações em processo, tanto no âmbito pessoal como no organizacional e social.

UMA NOVA PERSPECTIVA PARA AS EMPRESAS

Entender o que está mudando será mais fácil se captamos a essência das transformações em curso.

Um número cada vez maior de líderes de negócios parece estar em busca de uma nova perspectiva que responda às questões de caráter fundamental. A obra de Marilyn Ferguson fornece aos executivos um quadro de referência que responde a essas inquietações, indo ao cerne, à essência das questões. Uma vez que se capte a essência das transformações em curso, muitos dos fenômenos e tendências aparentemente inexplicáveis parecerão encaixar-se no lugar certo. Ficará mais fácil entender o que está mudando a nível das pessoas, das organizações e do ambiente maior. Cada um terá mais confiança em si e, como conseqüência, nos outros. O otimismo produzido pela disseminação em rede das iniciativas inovadoras que estão dando certo, deverá gradualmente contrapor-se ao ceticismo, tão em voga nos tempos atuais, gerando uma quantidade cada vez maior de ações transformadoras.


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Novos Paradigmas

Idéias Amana • Ano II Nº 4/5/6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

Como declara Ferguson: “Não podemos ficar esperando que o mundo se transforme e nos mude. Nos somos a própria força transformadora do mundo.”

OS NOVOS PARADIGMAS

Nenhuma área de atividade humana deixará de ser afetada pela mudança de paradigmas.

A mudança de paradigmas afeta as instituições da sociedade em campos tão diversos como política, economia e negócios, educação, saúde, cidadania, comportamento e espiritualidade. Em todas essas áreas, Ferguson identifica as transformações em curso na maneira de compreender e agir sobre a realidade, superando padrões e modelos há muito estabelecidos. Nesse processo de transformação, um número incalculável de pessoas das mais diferentes atividades, incorpora valores e orienta suas ações com base nos novos paradigmas que emergem em substituição a princípios tidos como dogmas. Nas estruturas de poder e da política esse tipo de mudança se expressa como um questionamento das formas tradicionais de hierarquia e autoridade. Em lugar de governos monolíticos e verticalizados, os novos paradigmas apontam para uma maior descentralização e por uma distribuição mais “horizontal” de poder. A contraposição entre esquerda e direita cede lugar a uma síntese entre idéias liberais e conservadoras. Há uma ênfase nas propostas de ação pessoal espontânea, em vez da imposição de reformas. Os sistemas econômicos vigentes também estão sendo confrontados, sob a ótica de novos valores. Uma sociedade pluralista onde os indivíduos tenham mais autonomia, requer uma nova economia. Entre as mudanças de paradigma nesse campo está o declínio do conceito de consumo a qualquer preço – fruto de “necessidades” criadas e fator de estímulo à obsolescência planejada – em favor de um consumo apropriado, conservação/reciclagem e atendimento de necessidades autênticas. Nesse processo, inserem-se formas inovadoras de organização e gerenciamento das empresas, que privilegiam o estímulo ao trabalho, a desburocratização, a administração participativa, a troca das hierarquias por redes de cooperação e um questionamento da divisão trabalho/lazer. As páginas seguintes ilustram alguns cenários resultantes das tendências de transformação nesses paradigmas, identificadas por Marilyn Ferguson.


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O cenário futuro para o poder e a política é o da sociedade que toma conta de si mesma, liderada por uma nova forma de democracia participativa.

O Paradigma Emergente: Poder e Política

Idéias Amana • Ano II Nº 4-5-6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

O PARADIGMA EMERGENTE: PODER E POLÍTICA Premissas do antigo paradigma: “Estado que toma conta”

Premissas do novo paradigma: “Sociedade que toma conta”

• Mudanças impostas por autoridade, de cima para baixo

• Mudança emergem de consenso e/ou inspiradas por liderança

• Serviços de assistência institucionalizados e centralizados

• Encorajamento a auto-ajuda e redes de ajuda mútua, “voluntarismo”

• Governo como uma instituição monolítica, central e forte

• Governo como consenso de indivíduos, descentralizado, atua como coordenador

• Governo para manter as pessoas na linha (papel de disciplinador), ou como um pai benevolente

• Governo para estimular crescimento, criatividade, cooperação, transformação, sinergia

• Líderes agressivos, seguidores passivos

• Líderes e seguidores afetando uns aos outros num relacionamento dinâmico

• Interesses ocultos, manipulação, tráfico de poder

• Respeito pela autonomia dos outros, ética

• Humanidade como conquistadora da natureza, visão exploradora dos recursos

• Humanidade como parceira da natureza, ênfase em conservação/ ecologia

• Escolha entre interesses do indivíduo ou da comunidade

• Interesse individual e da comunidade se complementam

• Ênfase em reformas externas e impostas

• Ênfase na transformação individual como base das reformas

• Orientação ganha/perde. Uso de poder a favor ou contra

• Orientação ganha/ganha. Poder com outros


Coletânea “Cenários”

Poder/Política — Contrastando Vozes e Visões

Idéias Amana • Ano II Nº 4-5-6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

PODER/POLÍTICA CONTRASTANDO VOZES E VISÕES

“RETROVISÃO”

“EVOLUÇÃO”

O governo é responsável pelo que acontece em nosso país…

Somos todos responsáveis pelo que acontece na sociedade. Depende de cada um de nós.

Estamos sem direção. Onde está o governo?

Precisamos de um grande diálogo na sociedade como um todo. É preciso buscar um consenso global.

Precisamos de um governo forte para mudar o estado das coisas.

Precisamos que mais líderes emerjam e haja maior envolvimento de todos.

Até quando vamos ter que esperar? Quando o governo vai resolver?

Não podemos ficar esperando. Temos que tomar a dianteira. O país é nosso. Nós somos o país.

É responsabilidade do governo oferecer… O governo precisa mudar…

Precisamos de maior iniciativa para resolver nossos próprios problemas e ajudar-nos mutuamente…

O papel do governo é cuidar do bem-estar de todos os cidadãos…

O papel do governo é criar espaços para crescimento/ desenvolvimento, coordenar o esforço conjunto…

Se não houver ordem, obediência e ajustamento àquilo que é estabelecido, o caos…

É preciso alta flexibilidade para inovar e levar em conta a enorme quantidade de nuances…

Temos que ter controles rigorosos e cercear possíveis excessos desde o início.

Precisamos, através de negociações profundas, ter o compromisso e o envolvimento de todos.

É preciso controlar tudo com extremo rigor. Caso contrário, será impossível…

Precisamos descentralizar e distribuir autoridade e poder horizontalmente. Isso tornará viável…

Somente uma máquina governamental bem montada, bem estruturada…

Somente através de programas “ad hoc”, flexíveis e em evolução, é possível o ajustamento à realidade…

Precisamos de um programa claro, uma plataforma de governo, objetivos específicos.

Precisamos de novas perspectivas para o futuro e espaço para inovação, ações com flexibilidade…

Temos que estar livres de certas interferências…

Temos que ser livres para criar, auto-realizar…

De que partido você é?

Participação política exige trabalhar paradigmas.

É da esquerda ou da direita?

Em que a polarização ajuda o país? Rotulação só atrapalha a busca de soluções criativas/inovadoras…

O governo precisa fazer todo mundo entrar na linha.

O governo deve catalisar o esforço conjunto de todos e a harmonização de interesses.

É preciso mais um ministério especializado em…

Governo precisa operar mais holisticamente…

Precisamos de líderes fortes, que guiem os passos…

Precisamos de líderes que consigam potencializar a força humana presente em todos.

Chegaremos lá se formos capazes de manobrar bem as coisas, usar a pressão certa, trabalhar o poder…

Atingiremos os objetivos legitimamente através de autenticidade, ética e negociações com cartas na mesa.

Governo é “dono” dos recursos naturais e tem direito de explorá-los como bem lhe aprouver.

Governo é responsável por cuidar do equilíbrio natural e dos direitos das futuras gerações.

Não é possível contentar a gregos e troianos. As pessoas precisam se sacrificar em prol do todo.

Atinge-se o objetivo da nação na medida em que os objetivos de todos sejam atingidos.

Mudanças efetivas só ocorrem através de ações fortes. Com um decreto…

É preciso antes de tudo mudar atitudes, valores. Mudanças e evolução serão conseqüências naturais.

Todo mundo busca tirar vantagem do outro. É preciso proteger…

É preciso negociar sem defensividade. Manipulação sempre gera barreiras e evita acordos nutrientes.

Estamos todos numa grande selva onde uns ganham e outros perdem.

Devemos nos tornar uma grande equipe. Por cooperação máxima, todos estarão ganhando.


Coletânea “Cenários”

O cenário de futuro para a educação é, na verdade, o resgate da aprendizagem, em que as pessoas desenvolvem ao máximo seu potencial em vez de serem apenas adestradas em habilidades ultrapassadas da sociedade industrial.

O Paradigma Emergente: Educação/Aprendizagem

Idéias Amana • Ano II Nº 4-5-6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

O PARADIGMA EMERGENTE: EDUCAÇÃO Premissas do antigo paradigma: Educação

Premissas do novo paradigma: Aprendizagem

• Ênfase no conteúdo, na aquisição de conhecimentos “certos” e definidos

• Ênfase em aprender a aprender, a fazer boas perguntas, a estar aberto. Importância do contexto. Conhecimento sujeito a mudanças

• Aprendizagem como produto, como destino final. Prioridade ao desempenho

• Aprendizagem como processo, como jornada. Prioridade à auto-imagem como gerador de desempenho

• Autoritarismo de quem sabe: recompensa ao conformismo, desestímulo à discordância

• Igualdade, discordância permitida, relação entre pessoas e não entre papéis. Encorajar autonomia

• Ênfase no mundo externo; experiência interior/pessoal inadequada ao ambiente escolar

• Experiência interior/pessoal/sentimentos como contexto importante para potencializar aprendizagem

• Ênfase no raciocínio analítico-linear. Baseado em “conhecimento de livros”. Teoria

• Busca do todo, racionalidade somada à intuição. Teoria complementada por experiências/vivências/viagens

• Educação como necessidade temporária, o mínimo para exercer papéis específicos

• Educação como processo para vida toda, relacionada apenas tangencialmente à escola

• Estrutura do currículo rígida e prescritiva. Burocrático. Fechado a inputs da comunidade

• Estrutura do currículo flexível em conteúdos e metodologia. Encorajamento a inputs da comunidade, inclusive controle

• Professor proporciona conhecimentos, caminho de mão única

• Professor também aprende, caminho de duas mãos

• Salas de aula projetadas para eficiência e conveniência. Ênfase à tecnologia. Desumanização

• Preocupação com ambiente para aprendizagem: luz, cores, conforto físico. Ênfase na relação humana professor-aluno

• Preocupação com normas. Compartimentalização em termos de idade

• Preocupação com o desempenho do indivíduo. Busca de novos “limites”. Integração de pessoas com idade diferentes


Coletânea “Cenários”

Ensino/Aprendizagem — Contrastando Vozes e Visões

Idéias Amana • Ano II Nº 4-5-6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

ENSINO/APRENDIZAGEM CONTRASTANDO VOZES E VISÕES

“RETROVISÃO”

“EVOLUÇÃO”

O papel do professor é o de transmitir conhecimentos e controlar a qualidade de retenção.

O professor é um facilitador, um agente da aprendizagem. Ele catalisa a descoberta…

Produz-se desenvolvimento por transferência de conhecimentos.

As pessoas crescem por si mesmas na medida em que seu potencial seja estimulado.

O que você quer que eu lhe transmita?

Como posso ajudá-lo a melhorar sua eficácia em aprender coisas novas?

Vamos ver se você vai conseguir…O teste deverá mostrar…

Você tem tudo que é necessário para desenvolver… Veja pelo que você já realizou que…

Não somos qualificados para fazer isso.

O que precisamos aprender para conseguirmos fazer isso?

A teoria correta sobre este assunto…

No atual estágio, sabemos que…

Meu método de ensino é o seguinte…

Como você aprende melhor? Que método de aprendizagem você gostaria de…

Veja bem… Está conseguindo me acompanhar?… Preste muita atenção…

Vamos conversar a respeito… O que você acha? Dentro do seu referencial…

Você precisa aceitar que… Não seja teimoso… É do meu papel… Exijo respeito!

Essa é uma das formas de ver a questão. Há outras que… Vamos pesquisar… Pensemos juntos…

Eis o que vou lhe ensinar/o que você precisa aprender.

O que você já sabe a respeito? O que falta aprender?

Esqueça isso! O que é certo é que…

Vamos relacionar isso que você acha/sente àquilo que estamos discutindo…

Não é racional, nem lógico. Portanto, não pode dar certo…

Nem todo sucesso foi “lógico” desde o início… Há exemplos que mostram que…

É preciso desenvolver a base de conhecimentos das pessoas e aguçar seu raciocínio lógico…

É preciso potencializar a intuição, a criatividade e a sensibilidade das pessoas.

É preciso ensinar uma coisa de cada vez.

Nem tudo que aprendemos passa pelo nosso nível consciente. Somos uma esponja…

Os estágios de desenvolvimento intelectual são estruturados, com dinâmica própria, e fixos.

A mente humana é capaz de saltos inesperados.

Primeiro a teoria, os fundamentos. Depois, sua aplicação prática.

A prática com reflexão e envolvimento gera teorias de extremo valor.

Minha fase de escola já se foi. O negócio agora é fazer as coisas acontecerem.

Inovação constante pressupõe educação permanente.

A teoria, na prática, é outra.

Teoria e prática andam juntas. Boas teorias são atalhos à prática.

Você quer ser treinado em quê e para que?

Como tornar o processo de desenvolvimento auto-sustentado, contínuo, para a vida toda?

Cachorro velho não aprende truque novo.

Nunca é tarde demais para aprender. Todos têm um enorme potencial para…

O programa certo/aprovado, devidamente legitimado… A metodologia pressupõe…

Nesse nosso contexto, o que faz sentido em termos de programa e metodologia hoje?

Hoje estarei ensinando…

Hoje dialogaremos juntos sobre…

Sala arrumada? Equipamentos em ordem? Tudo funcionando?

Interação no grupo acontecerá satisfatoriamente? Pessoas estão bem para trabalharem produtivamente?

Está desajustado em relação ao grupo, Não está acompanhando. Não é normal…

Que ponto forte da pessoa será preciso usar como “gancho” para potencializar seu desenvolvimento?


Coletânea “Cenários”

O cenário do futuro para a administração é caracterizado pela consolidação, uma forma de liderança em que executivos atuem como influenciadores e catalizadores do potencial de todos os colaboradores da empresa

O Paradigma Emergente: Management

Idéias Amana • Ano II Nº 4-5-6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

O PARADIGMA EMERGENTE MANAGEMENT Premissas do antigo paradigma: Administração

Premissas do novo paradigma: Liderança

• Pessoas ajustam se às ocupações; rigidez, conformismo. Trabalho e lazer separados.

• Ocupações ajustam-se às pessoas; flexibilidade, criatividade. Trabalho e “divertimento” como algo possível.

• Metas impostas, decisões de cima para baixo. Operações centralizadas. Tratamento “alopático”.

• Autonomia encorajada, auto-realização. Operações descentralizadas. Tratamento holístico.

• Hierarquia, burocracia. Fragmentação de trabalhos e papéis. Especialização. Descrições de cargo bem definidas.

• Participação, democratização, metas compartilhadas, consenso. Relevância da visão de todo.

• Agressividade, competição: “negócio é negócio”. Motivação estritamente econômica.

• Cooperação, valores humanos transcendem o vencer. Processo tão importante quanto o produto.

• “Racional”, confiança apenas em dados, principalmente os quantitativos.

• Racional e intuitivo; dados complementados por feeling, insights, visão holística. Quantitativo e qualitativo.

• Promoção de consumo a qualquer preço, obsolescência planejada, criação de “necessidades” artificiais.

• Consumo apropriado; conservar, manter, reciclar, agregar qualidade, inovação para servir necessidades autênticas.

• Polarizações: trabalho x capital, consumidores x produtores.

• Superação de polarizações, compartilhamento de metas e valores.

• Ênfase em soluções de curto prazo e em fatores “especiais” mais focados. “Explorador”.

• Reconhecimento da importância de soluções de longo prazo considerando ambiente, cultura, relações com clientes. “Ecológico”.

• Modelo newtoniano/mecanicista da economia. Funcionamento “como um relógio.”

• Reconhecimento das incertezas da economia e da complexidade intrínseca ao organismo macro.

• Busca de estabilidade e segurança. Conservadorismo.

• Senso de mudança, abertura a riscos, atitude empreendedora.


Coletânea “Cenários”

Management: Contrastando Vozes e Visões

Idéias Amana • Ano II Nº 4-5-6 • 1989 Copyright Amana-Key Editora 1989

MANAGEMENT CONTRASTANDO VOZES E VISÕES

“RETROVISÃO”

“EVOLUÇÃO”

Precisamos ter pessoas certas nos lugares certos.

Precisamos criar uma estrutura que potencialize a força de nossos talentos.

Ou entra nos eixos, ou...

Espaços são para ser ocupados...

As pessoas precisam sempre de orientações preto no branco.

As pessoas precisam de espaço para explorar caminhos inovadores.

Isso não é da minha área.

Como posso contribuir? Posso ajudar?

Não invada!

Vamos trabalhar juntos.

Não é da nossa conta. Não procure sarna para se coçar...

É sempre nossa responsabilidade. Precisamos de envolvimento máximo de todos.

Em negócios, vale tudo! Os fins justificam os meios.

Nossos valores são inegociáveis! Integridade é o único caminho a longo prazo.

Precisamos ser durões. Ou eles, ou nós...

No fundo, somos parceiros. Precisamos harmonizar nossos interesses.

Competição sadia é o melhor caminho.

Cooperação máxima é o único caminho

Isso não tem lógica... Os números mostram que...

Em termos de feeling, sinto que devemos buscar...

Como aumentar o consumo? Se exagerarmos na qualidade, não haverá reposição e...

O que o cliente precisa, valoriza, quer? Como podemos melhor servir ao cliente?

Vamos dar um jeitinho...

Precisamos de soluções definitivas...

Manda quem pode, obedece quem tem juízo...

Estamos todos no mesmo barco. Responsabilidade e poder compartilhados...

Vamos aproveitar, antes que acabe.

Criamos hoje as sementes do amanhã. Não podemos sacar contra o futuro.

A idéia é extrair o máximo a curto prazo.

É essencial protegermos nosso crescimento de longo prazo...

Não estamos usando a fórmula certa. Se mudarmos para... a economia...

Economia é arte: há dimensões subjetivas, culturais, filosóficas, credibilidade, liderança...

Antes o problema que se conhece do que o problema que não se conhece.

Quem não arrisca não petisca. Risco e recompensa...

Não se mexe em time que está ganhando.

É preciso mudar em preparação para o futuro.

Deixe assim que está bom. Tranqüilidade...

Como podemos melhorar ainda mais? Não podemos nos acomodar...

Já tentamos uma vez... Foi tão difícil...

Temos experiência nisso. Estamos preparados para fazer de novo e melhor!

Qual a utilidade disto?

Como podemos usar isso?

Nunca fizemos isso antes. Parece difícil. Acho que não vai dar certo...

Vamos conseguir. Somos na verdade capazes de fazer quase tudo que nossa mente visualize.

Mais tarde, quando tivermos tudo pronto...

Quando começamos?


Coletânea “Cenários”

Mudanças: Tendências & Reflexões Visando à Ação

Idéias Amana • Ano I Nº 8 • Novembro 1988 Copyright Amana-Key Editora 1988

REFLEXÕES ESTRATÉGICAS QUE LEVAM À INOVAÇÃO

MUDANÇAS: TENDÊNCIAS & REFLEXÕES VISANDO À AÇÃO I novação nos tempos atuais é fator estratégico central em todas as áreas de atividade e representa um dos mais críticos desafios ao management. Inova-se nas empresas para explorar as oportunidades que as mudanças geram e evitar problemas que elas podem provocar. As próprias inovações, por sua vez, geram novas mudanças. Inovação e mudanças andam juntas. Mas, afinal, que mudanças estão em curso? 0 que se deve fazer em relação a elas? Leia, nestas páginas, exemplos de reflexão R sobre algumas possíveis tendências de mudança T , tendo por foco uma questão básica: o que os executivos de alta administração precisam fazer, desde já, em relação a elas, tendo em vista os objetivos maiores da organização? EVOLUÇÃO ACELERADA DO CONHECIMENTO HUMANO

Desafio 1: Inovar fazendo uso criativo/pioneiro dos novos conhecimentos que afetam a base de nosso negócio.

T O conhecimento humano estará evoluindo a taxas cada vez maiores, gerando um processo extremamente acelerado de obsolescência cognitiva. O que se aprende hoje, em termos de um novo conhecimento, provavelmente já estará ultrapassado, se comparado com os avanços, muitas vezes provenientes de outras áreas do conhecimento, que estão sendo obtidos em alguma parte do mundo... Isso ocorrerá a uma velocidade jamais vista na história da humanidade – o que significa que os referenciais que se possui hoje (no que se refere a mudança/ evolução) não ajudarão muito na compreensão/visualização do que estará acontecendo daqui para a frente em todos os campos, inclusive em negócios.


Coletânea “Cenários”

Mudanças: Tendências & Reflexões Visando à Ação

Idéias Amana • Ano I Nº 8 • Novembro 1988 Copyright Amana-Key Editora 1988

R Que campos do conhecimento humano estão na base do nosso negócio? O que está mudando nesses campos? Que conhecimentos poderão vir a representar fator-chave de competição nos próximos anos? Ameaças poderão vir de áreas de conhecimento que hoje nada têm a ver com o que fazemos? De que forma seria possível monitorar organizada e eficazmente o que está evoluindo nessas áreaschave? Existem formas de fazê-lo por meio de universidades, associações etc. (no país ou no exterior)? É possível algum tipo de parceria com outra empresa? Uma estrutura interna faria sentido? Executivo específico encabeçando o esforço? Investir pesadamente em fazer as pessoas “aprenderem a aprender” cada vez mais eficazmente?

MUDANÇAS CADA VEZ MAIS RÁPIDAS

Desafio 2: Inovar em management e na formação de talentos para antecipar-se às mudanças.

T Mudanças estarão acontecendo nos mais variados campos de atividade, cada vez mais rapidamente, em função da própria evolução do conhecimento e do encurtamento progressivo do tempo entre idéia e implantação – possibilitado pelos próprios avanços tecnológicos e exigido pela crescente pressão competitiva. O “encurtamento” progressivo das distâncias no globo possibilitado pela explosiva evolução das comunicações torna exponenciais as taxas de velocidade de mudanças: essas são geradas no mundo todo e rapidamente disseminadas. Se a velocidade de mudanças irá continuar alta na área industrial, na economia da informação e serviços ela será muito maior, exigindo redobrado esforço de ajustamento e inovação. R

Estamos conscientes, em nossa organização, das mudanças em andamento? O que estamos fazendo para monitorá-las adequadamente? Como está nossa organização em termos de capacidade de responder rápida e eficazmente às mudanças? Como podemos melhorar cada vez mais? Por meio de mais descentralização? Outros tipos de pessoas? Estruturas fluidas? Pessoas super-capacitadas na “ponta” e executivos treinando pessoas? Como podemos encurtar o período entre idéia e implantação? Tecnologia? Será que nosso conceito de “rápido” já está ultrapassado? O que você acha de um produto novo no mercado por semana, numa empresa de serviços? Mudanças cada vez mais rápidas sugerem a você algum produto novo em sua empresa?

MUDANÇA NOS REFERENCIAIS BÁSICOS

Desafio 3: Inovar buscando transformar a empresa num todo holístico coerente e auto-regulável.

T

Os referenciais básicos em todas as áreas, inclusive nas empresas/negócios, passarão da área da física (que sugere o linear, o mecanístico, o determinístico, o programável/programado, o analítico, o racional causa-efeito, o intensivo em energia etc.) para a área de biologia (que sugere o holístico, o interconectado, o adaptativo, o orgânico, o intensivo em informação, o sistêmico etc.) na medida em que – com a crescente informatização – nos transformamos num grande sistema de feedback informacional (típico de todos os organismos biológicos). Isso tenderá a mudar a linguagem e a forma de ver as coisas. As organizações também participarão desse processo com grandes mudanças em sua forma de operar interna e externamente.


Coletânea “Cenários”

Mudanças: Tendências & Reflexões Visando à Ação

Idéias Amana • Ano I Nº 8 • Novembro 1988 Copyright Amana-Key Editora 1988

R Como pensamos, decidimos e agimos em nossa organização? Nossa cultura, valores, padrões de análise e comunicação estão mais para os referenciais da física ou da biologia? Se estivermos 100% nesses referenciais talvez nem consigamos – na verdade – sentir a importância deste tópico… Até que ponto somos humildes o suficiente para, em princípio, entrar mais profundamente no estudo desses novos referenciais para depois avaliar se faz sentido ou não? Essa mudança nos referenciais mudará nossos produtos? E nossa forma de comunicação com os clientes? Quais serão as conseqüências dentro da empresa? Mudanças na forma de trabalhar? Na forma de encarar o ambiente externo? Nos sistemas de treinar pessoas? Em nosso próprio negócio?

MUDANÇA NOS PROCESSOS EDUCACIONAIS

Desafio 4: Inovar por meio de participação ativa na transformação da formação básica de pessoas.

T

A evolução acelerada do conhecimento humano, as mudanças cada vez mais rápidas, a crescente informatização, o surgimento de novas profissões e crescente valorização do capital humano, entre outros fatores, tenderão a forçar mudanças mais radicais (conceituais, estruturais e tecnológicas) nos processos de educação – do básico ao superior especializado – já não mais ajustados às demandas atuais. Educação será um fator estratégico cada vez mais importante para o desenvolvimento do país em todos os sentidos: para ser mais competitivo em todos os setores por meio de um capital humano mais sólido, para atender às demandas emergentes, para melhorar o nível de bem-estar social, para o desenvolvimento de um mercado interno mais forte.

R

Até que ponto essa tendência afetará nossos negócios? É de nosso interesse que isso ocorra mais rapidamente? Como podemos contribuir para isso de forma direta, em vez de ficar esperando soluções do governo? Por meio de esforço isolado de nossa empresa? Por meio de associações? Em que direção o processo educacional deveria evoluir para ajudar-nos em nosso negócio, suprindo profissionais mais preparados? Que tipo de qualificação será chave para o sucesso de nossa empresa a longo prazo? Temos pensado o suficiente sobre esse assunto? Temos agido o suficiente? O que fazer desde já para assegurar que tenhamos um adequado número de pessoas com essa qualificação no futuro? “Adotar” escolas/ professores/pesquisadores?

PREOCUPAÇÃO POR CONSERVAÇÃO AMBIENTAL

Desafio 5: Inovar introduzindo soluções à questão ambiental de forma pioneira.

T

Será crescente a preocupação por proteção ambiental, tanto em termos de cidades/regiões como em termos de países/continentes e do mundo como um todo (questão da camada de ozônio, chuvas de ácido, aumento global da temperatura da Terra/efeito estufa etc..). Conservação de energia, o problema de suprimento de água, a questão da energia nuclear, poluição dos rios e lagos, poluição da atmosfera, saneamento básico etc. passarão a despertar interesse cada vez maior em todas as camadas da população, governos e empresários/organizações. Consideráveis investimentos tenderão a ser canalizados a essas áreas, a nível governamental e pelas empresas. O comportamento dos consumidores será afetado significativamente como decorrência.


Coletânea “Cenários”

Mudanças: Tendências & Reflexões Visando à Ação

Idéias Amana • Ano I Nº 8 • Novembro 1988 Copyright Amana-Key Editora 1988

R Até que ponto essa tendência afetará meus produtos? E o mercado? E o comportamento de nossos clientes? E dos fornecedores? E nossos sistemas de produção? O que vamos precisar fazer desde já em função das mudanças que derivarão dessa tendência maior? Estamos pensando nessa tendência somente em termos de ameaças ou em termos de oportunidades? De que forma nossas ações em relação a essas questões nos darão vantagem competitiva? Novos produtos/ negócios poderão ser gerados por essa maior preocupação com o ambiente e os investimentos que serão feitos na área? Como estamos, nessa questão, vendo o nosso papel dentro da comunidade? Como somos vistos? Temos investido tempo suficiente para refletir sobre isso?

INFORMATIZAÇÃO EXPONENCIAL DA SOCIEDADE

Desafio 6: Inovar no uso criativo/estratégico da tecnologia da informação e na rapidez de resposta às mudanças.

T

A tecnologia da informação continuará a transformar intensamente as empresas em todas suas dimensões em ritmos cada vez mais acelerados, gerando mudanças ainda mais significativas do que aquelas que testemunhamos nestes últimos dez anos. O uso de tecnologia será de natureza mais estratégica (estratégias centrais do negócio que usam eficazmente a tecnologia existente e avanços tecnológicos que tornam possíveis certas ações antes inviáveis) e menos de “suporte”. Novos negócios/produtos serão criados rapidamente a partir de inovações tecnológicas que emergirão de todas as partes do mundo a velocidades cada vez maiores. A própria tecnologia estará imprimindo maior velocidade a essa mudança.

R

Estamos encarando esse processo de informatização exponencial de tudo que nos cerca de forma profunda? Estamos conscientes das ameaças representadas pela informatização dos concorrentes? O que nossos concorrentes têm feito em termos de uso estratégico de tecnologia da informação? Estamos conscientes das oportunidades que a tecnologia da informação pode gerar para nosso negócio? Estamos acompanhando de forma profunda o que está acontecendo de informatização no mundo inteiro? A informatização cada vez mais profunda da sociedade abre campo para introdução de novos produtos/serviços ainda aparentemente inéditos no mercado? Quão informatizados estamos como executivos? E nossos colaboradores?

PREDOMINÂNCIA DE INFORMAÇÕES E SERVIÇOS

Desafio 7: Inovar posicionando-se pioneiramente de forma estratégica na dinâmica da transição agrícola/in– dustrial/informação-serviços.

T

A evolução da sociedade na direção de informação e serviços continuará a taxas aceleradas. As atividades industriais e agrícolas continuarão a ser informatizadas, objetivando melhores taxas de produtividade e melhores relações custo-benefício. O componente “serviços” das atividades agrícolas e industriais continuará a crescer cada vez mais, principalmente em função das exigências dos consumidores e da competição acirrada. A emergência da sociedade da informação/declínio da sociedade industrial passará a ser melhor entendida e caracterizada na medida em que a informação se fizer cada vez mais presente no dia-a-dia de todos. Diferentes países reposicionar-se-ão nessa transição, gerando oportunidades e problemas para as empresas no Brasil.


Coletânea “Cenários”

Mudanças: Tendências & Reflexões Visando à Ação

Idéias Amana • Ano I Nº 8 • Novembro 1988 Copyright Amana-Key Editora 1988

R Como estamos posicionados no continuum sociedade agrícola–sociedade industrial–sociedade da informação? Como desejaríamos estar posicionados? Quais os riscos de permanecermos concentrados em um ou outro? O que significa crescente informatização da própria agricultura? O que significa a crescente informatização dos produtos industrializados? Ate que ponto o componente “serviços” está adentrando nosso negócio, exigindo mudanças significativas da organização como um todo? Que tipos de novos serviços estão sendo criados na sociedade? Como isto afeta – positiva ou negativamente – o que fazemos? Estamos participando de forma natural e construtiva desse processo? Ou estamos resistindo ou evitando lidar com o mesmo?

O HUMANO EQUILIBRANDO A INFORMATIZAÇÃO

Desafio 8: Inovar no equilíbrio da valorização do humano em relação à crescente “automação.”

T

Haverá uma natural e poderosa tendência a se equilibrar o acelerado processo de informatização geral da sociedade (computadores cada vez mais presentes nas empresas e no dia-a-dia das pessoas) por meio de um crescente interesse pelo humano, por aspectos de relacionamento, pelo cultural. A preocupação por qualidade de vida em todos os sentidos será cada vez maior. Essa tendência de compensação à explosão da evolução tecnológica se estenderá também fortemente às relações nas empresas – tanto no que se refere ao relacionamento interno (entre colaboradores), como a nível externo (com clientes, fornecedores e parceiros). Isso afetará os fatores que definem a competitividade das empresas, tanto por talentos como por clientes.

R

Até que ponto estamos efetivamente preocupados em equilibrar o processo de informatização em nossa empresa por meio de programas na área social, no âmbito das relações interpessoais, em termos de senso de grupo, em termos culturais etc.? Até que ponto a concentração no “tecnológico”, ignorando os aspectos humanos da empresa, acabará gerando problemas sérios do tipo stress, falta de motivação, falta de envolvimento etc.? Como essa tendência afeta a tendência global de nossa empresa, as especificações dos produtos, o tipo de serviço associado aos produtos, a forma de contato com clientes (por meio de terminais de computador ou de pessoas?)? Essa tendência traz em seu bojo oportunidades ou problemas para nosso negócio?

SOCIEDADE MAIS PARTICIPATIVA

Desafio 9: Inovar na busca de um management que adicione valor à crescente participação das pessoas.

T

Em todas as atividades humanas, as tendências se encaminham mais fortemente na direção de processos “de baixo para cima”, em substituição aos “de cima para baixo”: mais envolvimento, mais participação, maior consciência dos direitos próprios, mais negociações/diálogo e mais proatividade caracterizarão essa tendência. Isso deverá acontecer em todos os segmentos da sociedade. Uma democracia cada vez mais participativa tenderá a gerar sociedades mais horizontalizadas/menos hierarquizadas, nas quais todos atuam de forma mais autônoma/independente e auto-regulada (com cada vez menos necessidade de ações do governo). Haverá mudanças significativas na forma de as empresas se relacionarem com a comunidade, mercado, governo etc.


Coletânea “Cenários”

Mudanças: Tendências & Reflexões Visando à Ação

Idéias Amana • Ano I Nº 8 • Novembro 1988 Copyright Amana-Key Editora 1988

R Estamos mais habituados a mandar ou a dialogar? Nossa cultura é mais “de cima para baixo” ou é mais o contrário? Há espaço em nossa organização para as pessoas atuarem mais autonomamente/exercerem iniciativa? Como está a nossa capacidade de atrair pessoas mais independentes à busca de diálogo/participação, integrá-las à equipe de forma eficaz/produtiva e de retê-las atuando com alta motivação? Como está a capacidade de negociar/dialogar de nossos executivos? Até que ponto nossa empresa está preparada para atuar mais proativamente na sociedade/mercado abrindo espaços próprios e buscando o que precisa, sem esperar que o governo gere as soluções? De que forma vemos nossa participação dentro da comunidade em que atuamos?

DESCENTRALIZAÇÃO E MENOS HIERARQUIAS

Desafio 10: Inovar na busca de estruturas que aliem descentralização e agilidade à alta eficácia e coerência do todo.

T 0 processo global de descentralização, de menos hierarquias, menos intermediários/tudo mais direto continuará a evoluir de forma acelerada em toda a sociedade, inclusive nas organizações/empresas em geral. O gigantismo, tanto em termos de administração pública como privada, que faz com que as estruturas tornem-se praticamente ingovernáveis e excessivamente lentas, tenderá a ser erradicado gradativamente pela descentralização em todos os níveis. O extremo da descentralização será a pessoa independente que sabe sempre o que fazer e trabalha o tempo todo numa postura de auto-ajuda/auto-suficiência. Essa tendência poderá levar a soluções inovadoras na área de comunicação e coordenação gerencial, principalmente com uso de tecnologia. R Como estamos posicionados/preparados para competir com organizações altamente descentralizadas e extremamente ágeis (não só grandes empresas com estruturas modernas, mas pequenas e médias empresas atuando em nichos de mercado)? Como está nossa atual estrutura? Ela tende mais para o tradicional/ burocratizado, ou para o inovador no estilo unidades autônomas que buscam resultados de forma independente? Como está nosso quadro de talentos em termos de pessoas que consigam atuar bem dentro de estruturas descentralizadas? Como podemos usar formas altamente eficazes de decidir/agir (em estruturas menos hierarquizadas) como vantagem competitiva? Estamos lidando com descentralização e comunicação integradamente?

CRESCENTE IMPORTÂNCIA DA FORÇA HUMANA

Desafio 11: Inovar em desenvolvimento de talentos e na busca da potencialização da força humana da organização.

T

O sucesso das organizações tenderá – cada vez mais – a ser função direta da força humana de seus colaboradores/de seus talentos e menos de seu capital financeiro. Criatividade, engenhosidade, força empreendedora, drive/alta energia, competência gerencial, capacidade inovativa etc. serão fatores crescentemente críticos na determinação do potencial de competitividade das empresas. A demanda por pessoas capacitadas crescerá exponencialmente, e será cada vez mais acirrada a competição por talentos. Os salários tenderão a subir, em termos reais, de forma natural, na medida em que cresça essa valorização do talento humano e em função do desequilíbrio entre demanda e oferta (mercado tendendo a não conseguir suprir a demanda).


Coletânea “Cenários”

Mudanças: Tendências & Reflexões Visando à Ação

Idéias Amana • Ano I Nº 8 • Novembro 1988 Copyright Amana-Key Editora 1988

R 0 que podemos fazer, desde já, para começar a desenvolver talentos internamente? 0 que melhorar na forma de recrutar e selecionar pessoas, mesmo para cargos mais simples? Em que sentido deve-se direcionar o esforço de treinamento e desenvolvimento na empresa? O que devemos fazer para reter os talentos da organização tornando-os imunes a “pirataria”? Que empresas são nossos concorrentes no que se refere a talentos? Como inovar para estar à frente nessa dimensão? De que forma podemos participar do processo de melhoria da educação no país? Nossa empresa está conseguindo atrair talentos em todos os segmentos do mercado (formandos das melhores universidades etc.)? Temos incentivos/atrativos para cada segmento de talentos do mercado?

SURGIMENTO DE NOVAS PROFISSÕES

Desafio 12: Inovar no desenvolvimento de profissionais para especializações e trabalhos inéditos.

T

Novas especializações e profissões estarão surgindo a taxas exponenciais no rastro das inovações tecnológicas e da evolução do conhecimento. As próprias organizações, no processo de reinvenção e ajustamento à realidade em rápida e constante mutação, tenderão a criar novos cargos e carreiras. A velocidade com que isso ocorrerá tenderá a ser muito alta, não permitindo estruturações convencionais para administrar esses novos cargos/carreiras. A lentidão com que as escolas/universidades se ajustarão a essas mudanças levará a migrações profissionais constantes, escassez de oferta de mão-de-obra e aumento dos níveis salariais. Jovens tenderão a entrar cada vez mais cedo no mercado de trabalho à busca de formação nessas novas profissões.

R

Estamos acompanhando de perto a emergência constante de novos tipos de trabalho dentro da empresa e no ambiente externo? A área de recursos humanos da empresa tem conseguido ajustar-se a essas mudanças adequadamente, e não por meio de “improvisos burocráticos” nos sistemas existentes? O que estamos fazendo para formar profissionais que vão surgindo? Como está nosso diálogo com escolas e universidades visando a esforços conjuntos para trabalhar as lacunas do mercado de trabalho? Como estão nossas diretrizes de recursos humanos quanto a horários flexíveis, empregos de tempo parcial, cursos de formação etc. para acomodar jovens à busca de formação profissional dentro das empresas? E quanto a retreinamento de profissionais do quadro?

GLOBALIZAÇÃO DA ECONOMIA

Desafio 13: Inovar posicionando-se pioneira e estrategicamente dentro do mercado/economia-mundo em desenvolvimento.

T

A globalização da economia continuará a evoluir continuamente, e o conceito de mercado-mundo estará cada vez mais fortemente impregnado nas estratégias e ações das empresas, tanto transnacionais/multinacionais como nas nacionais, pequenas e grandes. O mundo ficará cada vez mais interligado: clientes, concorrentes, fornecedores estarão representando um número crescente de diferentes papéis em diferentes áreas geográficas e ramos, exigindo habilidades refinadas e altamente complexas de todos os participantes do processo. O próprio mundo financeiro tende a se tornar um grande único mercado e novos pólos de empresas com estratégias globais surgirão, mexendo constantemente na dinâmica do mercado mundial.


Coletânea “Cenários”

Mudanças: Tendências & Reflexões Visando à Ação

Idéias Amana • Ano I Nº 8 • Novembro 1988 Copyright Amana-Key Editora 1988

R Temos acompanhado de perto o atual processo de globalização da economia? Ou temos ficado à margem, achando que “isso é algo para as multinacionais pensarem...”? O que os executivos de nossa empresa entendem por globalização? Temos consenso quanto ao conceito? Temos dedicado tempo e energia suficientes para refletir sobre as implicações da globalização em nossa empresa e em nosso negócio? O que nossos concorrentes estão fazendo a respeito? Um novo tipo de concorrência poderá surgir em função da crescente globalização? O que precisamos fazer para proteger-nos das eventuais ameaças geradas pela globalização? O que devemos fazer para buscar a globalização de forma proativa numa postura de ataque e inovação?

NOVOS FOCOS DE ATENÇÃO NO MUNDO

Desafio 14: Inovar antecipando-se às tendências de mudança em diferentes regiões do mundo.

T

Alterações profundas tendem a acontecer na dinâmica do desenvolvimento de regiões a nível mundial. O tradicional eixo “costa leste dos Estados UnidosEuropa Ocidental” terá uma poderosa contrapartida no eixo “costa oeste dos Estados Unidos-Japão-Austrália” no Pacífico. Esse novo eixo, emergindo economicamente em alta velocidade, tenderá a gerar inúmeras influências nas relações internacionais globais, principalmente no plano econômico. O Brasil tenderá a estar cada vez mais no foco das atenções mundiais, principalmente em função de seu potencial como “parceiro sinérgico” nas iniciativas de empreendedores dos mais diferentes países à busca de participação cada vez maior no mercado-mundo.

R

Estamos acompanhando da forma como deveríamos o que vai pelo mundo? Até que ponto não acompanhar de perto as evoluções e mudanças a nível mundial pode estar nos privando de oportunidades em termos de aberturas de mercado, possibilidades de parcerias, janelas para exportação, novas idéias em produtos, marketing, em comunicações com os clientes, treinamento, estratégia etc.? Até que ponto nossa visão de países específicos é calcada em preconceitos e/ou referenciais desatualizados? Não estamos também agindo em relação ao Brasil com base em visões distorcidas de nossa realidade? Nossa própria visão preconceituosa de como outros países nos enxergam não seria barreira a uma postura mais proativa na busca de parceiros globais?

DESENVOLVIMENTO DE “ECONOMIAS-CIDADE”

Desafio 15: Inovar na reestruturação pioneira das formas de atuar em relação à economia e aos mercados.

T

O conceito de “economia-cidade” (como célula da “economia-mundo” em contraposição à noção de “economia-país”) emergirá gradativamente em todo o mundo. Esse fenômeno tende a intensificar-se na medida em que caminhar-se para sociedades cada vez mais descentralizadas e com menos interferências do governo central. O agravamento dos múltiplos problemas inerentes às megalópoles – a própria ingovernabilidade causada pelo gigantismo, os problemas sociais, a deterioração da qualidade de vida etc. – fará com que a tendência predominante seja o desenvolvimento de cidades “inteligentes” em torno dos grandes centros, ao lado do fortalecimento de cidades específicas do interior que desenvolverão suas próprias economias.


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Mudanças: Tendências & Reflexões Visando à Ação

Idéias Amana • Ano I Nº 8 • Novembro 1988 Copyright Amana-Key Editora 1988

R Não estaríamos hoje tomando decisões com base numa análise excessivamente simplificada e pasteurizada da economia-país/Brasil? Estamos conscientes de que os grandes termômetros de avaliação de um país não conseguem captar o que está acontecendo em suas células e no seu respectivo desenvolvimento? De que forma a consciência de que a emergência das economias-cidade como célula da economia-mundo muda nossa forma de ver nosso negócio, produtos, mercados, sistemas de distribuição etc.? Que oportunidades de inovação essa tendência traz em seu bojo para empresas em nosso negócio? E em termos de inovações gerenciais e organizacionais? Que conseqüências essa tendência pode trazer em termos de localização estratégica?

CONSUMIDORES MAIS INFORMADOS/EXIGENTES

Desafio 16: Inovar na comunicação com os consumidores e antecipar-se aos seus desejos e necessidades em evolução.

T

Os consumidores em geral, cada vez melhor informados sobre o que ocorre, inclusive a nível mundial (como decorrência da evolução da comunicação/satélites etc.), tenderão a se tornar cada vez mais exigentes em sua demanda por produtos e serviços. No geral, os consumidores estarão cada vez mais próximos a mais produtos. A exposição dos consumidores a cada vez maior número de opções tenderá a levar– de forma natural – a um outro tipo de exigência: diferenciação/produtos especializados e menos produtos padronizados/de massa. A globalização levará a outras mudanças como, por exemplo: grupos étnicos tenderão a se desconcentrar (não estarão mais concentrados em um único país) criando nichos dentro de nichos.

R

Como estaríamos hoje no mercado se todos os consumidores demandassem padrões de desempenho e qualidade a nível internacional? Chegar a padrões internacionais de qualidade, desempenho e custo é impossibilidade técnica ou uma questão puramente gerencial? Que inovações radicais deveremos introduzir em nosso marketing para chegar aos nichos em formação? De que forma podemos aumentar nosso nível de resposta às rápidas mudanças no perfil dos consumidores? Como aumentar nossa sensibilidade em relação às transformações do consumidor em aspectos muito sutis? Estamos conseguindo romper com preconceitos/“receitas” para entender os consumidores à luz de nossos referenciais (que por sua vez estão sempre em transformação)?

COMPETIÇÃO CRESCENTE/MAIS ACIRRADA

Desafio 17: Inovar à busca de competitividade a nível mundial e na forma de lidar com a crescente competição.

T

A competição tornar-se-á cada vez mais acirrada na medida em que na sociedade de informação e serviços a barreira para entrada de novos concorrentes deixa de ser capital financeiro. Mais pessoas com talentos, idéias e vontade passarão a entrar no mercado para competir com as empresas existentes. Neste contexto, pessoas/talentos é que passam a definir a força da competição das empresas. A tendência à globalização dos mercados quebra as barreiras geográficas e os concorrentes se multiplicam de forma exponencial. A emergência de novos concorrentes a partir de nichos de mercado tenderá a se acentuar, alimentada pela fantástica explosão do entrepreneurship em inúmeras partes do globo. A própria tecnologia tenderá a acirrar a competição.


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Mudanças: Tendências & Reflexões Visando à Ação

R

Idéias Amana • Ano I Nº 8 • Novembro 1988 Copyright Amana-Key Editora 1988

Na medida em que a competição cresce, não faria sentido formar parcerias e alianças para evitar competição predatória e alavancar o processo de desenvolvimento (pela potencialização de know-how) de todos os envolvidos? Como buscar um número cada vez maior de alianças do tipo “ganha-ganha” para fazer face aos desafios das mudanças aceleradas da globalização etc.? Sabemos quem são nossos concorrentes atuais ou só conhecemos os maiores? Estamos conscientes de que nossos maiores concorrentes no futuro poderão ser empresas que hoje estão decolando em certos nichos e que não são captadas nas análises tradicionais que fazemos? Estamos conscientes também de que concorrentes poderão surgir de campos desvinculados do nosso?


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Tempo de Renascer

Idéias Amana • Ano III Nº 1 • 1990 Copyright Amana-Key Editora 1990

TEMPO DE RENASCER A evolução da humanidade é pontilhada de inovações extraordinárias, fantásticas realizações. Ao refletirmos sobre elas, porém, poucas vezes pensamos sobre como foram geradas: Iniciativas de “estalo”? De uma só pessoa? De uma equipe? Como começaram? Em que condições e circunstâncias foram conseguidas? Cada uma dessas realizações tem uma história. Ou mesmo várias histórias, intrincadamente encadeadas. Histórias de pessoas. Inventores, empresários, técnicos, trabalhadores das mais variadas origens e profissões. Conquistas de seres humanos normais. Seres humanos que inclusive têm seus momentos de fraqueza, de cansaço, dúvidas, inseguranças. Momentos em que se pergunta se tudo efetivamente vale a pena...Quantos degraus ainda a superar?...Para que tudo isso afinal?...Momentos de esmorecimento e de desistências... Conquistas de pessoas que superam esses momentos e não desistem. Buscam reservas armazenadas no fundo de suas almas e chegam ao objetivo almejado. São pessoas que renascem nesses momentos. E tornam-se — no processo — pessoas especiais. Pessoas que acreditam que vão conseguir. Pessoas que acreditam na força infinita do ser humano em superar-se. Pessoas que apostam numa visão e crescem no processo de realizá-la. A própria evolução da humanidade nos mostra que obstáculos são oportunidades para crescer, ficar mais fortes. Rompendo barreiras e superando processos de transição nos quais tudo parece ficar pior, saltamos de patamar, desaprendendo muito para aprender e crescer ainda mais. Vivemos hoje um período de transição. Não somente em nosso país, mas no mundo todo. Mudanças parecem acontecer todos os dias em ritmos cada vez mais


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Tempo de Renascer

Idéias Amana • Ano III Nº 1 • 1990 Copyright Amana-Key Editora 1990

espetaculares. Em velocidade sem precedentes na História. Muros de Berlim caem em poucos dias, países se abrem e quebram estruturas de muitos séculos. Produtos ficam obsoletos da noite para o dia. Novas tecnologias tornam possível o impossível. Países saem da obscuridade de uma economia agrícola para o primeiro plano mundial em pouquíssimo tempo, alavancados por atividades focadas em alta tecnologia. Atrás de cada uma dessas transformações... pessoas. Pessoas que encaram a realidade como ela é, de forma autêntica, verdadeira e honesta. Pessoas que agem sobre a realidade. Pessoas que constroem, em vez de desperdiçar energias criticando e destruindo. Pessoas que, agradecidas, capitalizam criativamente o que possuem, em vez de lamentarem o que não têm, cheias de autocomiseração e revolta. Pessoas que não se acomodam e buscam evoluir a cada dia, em sintonia com a evolução do próprio mundo. Mais do que nunca, é tempo de criar. De estar o tempo todo alerta a tudo que ocorre à nossa volta e buscar novas soluções, com alto espírito empreendedor. É hora de iniciativa máxima. Iniciativa para gerar produtos ajustados aos novos tempos. Para atender a necessidades autênticas da sociedade. Para criar formas de incrementar qualidade, melhorar produtividade, conservar/economizar dentro dos novos paradigmas. Iniciativa para contribuir ativamente ao processo de construção de um mundo cada vez melhor, em linha com os valores dos novos tempos. Valores que privilegiam o ousar, o experimentar, o assumir riscos inerentes ao novo. Valores que abominam a rotina burocratizante. Valores que enfatizam a importância da flexibilidade, da abertura, da ousadia de ser diferente, da valorização da imaginação, da exploração de possibilidades. É tempo de enfrentar o ambíguo e o desconhecido sem medos. Sem tentar supersimplificar buscando driblar o complexo. É tempo de criatividade e de soluções refinadas, até revolucionárias. É tempo de soluções inéditas para desafios também inéditos. Hoje, mais do que nunca, não podemos nos acomodar, dormir sobre os louros. Mesmo porque mudanças repentinas sempre poderão alterar as condições externas significativamente, mudando toda a base do que foi conquistado... É preciso fortalecermo-nos o tempo todo, a fim de estarmos sempre prontos para os desafios que estão por vir. Atualizando-nos constantemente, desenvolvendo habilidades essenciais para o amanhã, aperfeiçoando-nos tanto profissionalmente como a nível pessoal. E, principalmente, sem esperar estímulos e orientação que venham de fora. Nunca foi tão importante adotar uma postura de busca e autodesenvolvimento. É tempo de dar um salto à frente como ser humano, como indivíduo. Mas é tempo também de trabalho em equipe, ajuda mútua. Tempo de cooperação e alianças. De generosidade no dar, no oferecer ao outro, quebrando círculos viciosos que mantêm as pessoas isoladas. É hora de dar o primeiro passo. É tempo de somar e multiplicar, de agir harmoniosamente como uma equipe autêntica de amigos e irmãos. Numa união na qual não há espaço para ações


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Tempo de Renascer

Idéias Amana • Ano III Nº 1 • 1990 Copyright Amana-Key Editora 1990

subterrâneas, politicagem, cinismo, ceticismo, críticas destrutivas, defensividade, desconfianças, falsidade, falta de ética e espertezas. É tempo de respeito humano e muito diálogo. Tempo de gerar novas forças, colocando em prática o que de mais nobre e positivo temos dentro de nós. De sermos construtivos e nutrientes. Com humor, otimismo, boa vontade e prazer. Realmente desfrutando e valorizando cada pequena coisa do dia-a-dia. É preciso estar acima das mesquinharias do dia-a-dia e buscar uma ordem maior. Um desenvolvimento harmonioso e equilibrado de todos, balanceando valores humanos e qualidade de vida com realizações econômicas. É preciso rever missões e objetivos. É preciso perguntar-se mais freqüentemente: “Por quê?”, “Para quê?”; “O que estou fazendo para ajudar a melhorar o que está à nossa volta?”. Vivemos hoje uma era na qual a força de cada pessoa, de cada ser humano, é crucial para a evolução da sociedade. Temos, cada um de nós — nesse sentido — uma enorme responsabilidade. É preciso influir no ambiente, em vez de sermos oprimidos por ele. Construir em vez de apenas reagir passivamente àquilo que ocorre à nossa volta. É tempo de visualizar o que se quer construir e buscar sua efetiva concretização. É tempo de transformar, buscar novas realizações. De caminhar à frente. De agir, realizar, fazer acontecer. É tempo de crescer e criar. De renascer. De renascer a cada dia.

Utilizando cenários para alinhar-se ao futuro  

uso das megatrends

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