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Nieves Hidalgo

Urze Branca

Tradução/Pesquisa: GRH Revisão Inicial: Nadia Cortez Revisão Final: Cris Veiga Formatação: Ana Paula G.


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Nota da Revisora Nadia Cortez O enredo é comum sem muitos momentos de mistérios ou tensões, começa com o encontro dos dois protagonista que são (como sempre de famílias rivais), ela o ajuda a escapar e tempos depois, acaba raptada por ele (acho que já li essa história...) Sem grandes momentos é uma leitura fácil e tranquila, não existe muito envolvimento dos personagens coadjuvantes, nem momentos de expectativa, parecia que a escritora estava com pressa de acabar o livro pois parecia tudo muito primário, até a relação deles relatada de forma superficial e ligeira, sem ser hot. Nem a esperada batalha é de valer a pena. Mas para distrair e passar o tempo é agradável e gostoso sem grande pretensão e comprometimento, bem água com açúcar.

Nota da Revisora Cris Veiga Um enredo sem grandes emoções.A história é previsivel, sem grandes reviravoltas. Realmente, como comenta a Nadia, bem água com açucar, tipo sessão da tarde.Como diversão vai bem, sem esperar grandes momentos.

Nota da Revisora Veronica Amei a história do princípio ao fim! As cenas que mais gostei foram a que a mocinha começou a acariciar o mocinho enquanto ele dormia e quando ela deixou ele fugir e ele ficou preocupado em evitar machucá-la E quando ela sofreu o acidente provocado pela rival e ele pensou que ela fosse morrer, chorou! Mocinha corajosa e mocinho sensível! Lindooou!

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Resumo Os McDurney e McFersson vem se enfrentados há décadas. Desde que os bisavôs causaram um conflito que acabou com a vida de um deles. Ao retornar de uma aldeia em que esteve ajudando a tratar dos doentes, a escolta de Josleen McDurney aprisionou um homem, que acreditavam ser culpado por um roubo de cavalos realizado contra seu clã. Atraída por esse homem, constata assombrada que se trata de um McFersson e, temendo as represálias, deixa-o escapar para evitar posteriores complicações ou inclusive uma guerra. Meses mais tarde, Josleen parte de Durney Tower para a fortaleza de Ian McCallister, com quem sua mãe havia se casado em segundas núpcias. Mas jamais chegou ali. A patrulha organizada para roubar gado de seu irmão Wain está liderada pelo mesmo guerreiro que ela havia deixado escapar. E esse homem, embora ela ignore tudo sobre ele, é simplesmente o laird Kyle McFersson, chefe do clã inimigo. Um feroz guerreiro sobre quem contam as histórias mais terríveis. A primeira intenção de Kyle é pedir resgate pela jovem, mas logo a ideia de deixá-la partir parece impossível para ele. Entretanto, Wain McDurney não está disposto a deixar a sua irmã em mãos do rival a quem deseja matar faz muito tempo. Josleen terá que assumir uma penosa decisão: retornar para junto dos seus ou permanecer ao lado das pessoas de quem acabara gostando e do homem que, ainda que inimigo de seu clã, conseguiu conquistar seu coração pouco a pouco. E para angústia da jovem, Stone Tower se verá rodeada por inimigos comandados por seu irmão, que está decidido a não deixar pedra sobre pedra.

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Capítulo 1 A neblina cobria a vereda do rio e fazia um frio espantoso. Apesar de tudo, Josleen McDurney não quis ficar a passar a noite na aldeia e preferiu que empreendessem o caminho de volta ao Durney Tower. Olhou com um olhar crítico os preparativos dos homens que a acompanharam na viagem e, mentalmente, agradeceu a ajuda deles. Na aldeia de Dorland tinha ocorrido uma epidemia e Josleen não hesitou em tentar prestar toda a ajuda possível. Já fazia um mês, mas, felizmente, a epidemia tinha sido controlada. Não era a esposa do chefe do clã McDurney, mas era a sua irmã e, uma vez que sua cunhada, Sheena, estava com um forte resfriado quando souberam dos problemas, foi ela quem tomou em suas mãos a responsabilidade de levar ajuda aos camponeses. Não lamentava este fato. Seu dever era cuidar de quem pertencia ao clã e assim como seu irmão providenciava mantimentos, justiça e vingança — quando esta era necessária, ela ajudava em outras responsabilidades. Apesar de tudo, retornava insatisfeita por não ter podido fazer mais pelos doentes. Seis deles morreram por causa das febres e em seus ouvidos repercutiam ainda os lamentos daquela mulher que perdera seu bebê. – Um pouco de vinho? Josleen virou para olhar o guerreiro que estendia um odre a ela. Bebeu um pouco e o devolveu. Nieves Hidalgo

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– Deveria descansar, está esgotada. Ela assentiu. Havia um longo caminho e suas forças fraquejavam, depois de tantos dias e noites sem conseguir repousar. Agasalhou-se na pele curtida que a cobria, recostou-se sobre a manta, encolheu os joelhos junto ao corpo e deixou que ele a cobrisse com outra manta de lã grossa. Ainda assim, tiritou de frio sem poder conter-se. O frio invadia seus ossos. – Daremos uma batida para ver que tudo está bem – lhe informou, – Aufert e Will farão guarda no acampamento. Josleen não o escutou, pois assim que tinha fechado os olhos, adormecera. O guerreiro observou-a. Com um grunhido de desacordo, procurou mais uma coberta e colocando-a sobre Josleen. Inconscientemente, ela agradeceu o aumento de calor e gemeu com satisfação. Então ele se afastou, falou algo em voz baixa com dois de seus companheiros e montaram nos cavalos para dar uma batida pelos arredores. Não tinham visto ninguém desde que saíram de Dorland, mas não deviam esquecer que estavam muito próximos das terras dos McFersson, seus inimigos declarados fazia décadas. Desde que o Laird Colman McFersson matou, numa briga, Ian McDurney o bisavô da moça. E não era apenas questão de cair em mãos daqueles desgraçados enquanto dormiam. Porque não era a primeira vez que o clã McFersson atravessava a linha divisória para roubar gado. Claro que eles do clã McDurney faziam o mesmo, quando a ocasião era propícia. Os dois homens que ficaram de guarda se acomodaram perto da jovem, dispostos a protegê-la contra qualquer eventualidade. Ela era a irmã bem amada de Wain McDurney, o chefe do clã, e perderiam suas cabeças se acontecesse algo a ela.

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Capítulo 2

Alheio à presença de inimigos tão perto de suas terras, Kyle apeou do cavalo, um memorável garanhão negro. Afastara-se de tudo e de todos e deixou que o animal decidisse a rota, sem se preocupar com nada que não fosse escapar de seus fantasmas pessoais. No momento, sem estar consciente disso, encontrava-se a grande distância do Stone Tower. Sabia que não era prudente sair sem uma escolta, mas ele necessitava de alguns momentos de paz. Muitas preocupações, muitas responsabilidades circulavam em torno dele como um grilhão que, em algumas ocasiões, sufocava-o. Desde que seu pai morrera e ele se tornara chefe do clã, tinham derramado sobre suas costas um sem fim de problemas. A educação de seus irmãos, a viuvez de sua mãe, cada vez mais melancólica e isolada. Inclusive, havia aquela criança que pertencia a ele e do qual se sentia incapaz de cuidar. Era seu filho, sim. Tinha-o gerado e o amava, embora não amasse a mulher que o pariu. A situação foi recíproca. Muriel nunca o amou. Concordou com o casamento porque a obrigaram. Kyle sempre soube, desde o primeiro momento, que ela o detestava e que somente as ameaças de seu pai para conseguir a aliança com o clã McFersson a obrigaram a dar seu consentimento. E agora, como explicar a uma criança de cinco anos tudo aquilo? Como contar a ele que sua mãe morreu proferindo impropérios contra seu filho e seu marido? Como por amor de Deus! Fazê-lo entender que os amaldiçoou antes de exalar seu último Nieves Hidalgo

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alento? Por isso, quando o pequeno Malcom perguntava sobre sua mamãe, Kyle escapava. Fugia como um covarde e saía de Stone Tower, acompanhado somente por um odre de uísque. Muitas vezes, embebedou-se até perder a consciência. Mais tarde, ao recuperar o sentido, procurava de novo as forças para retornar. Deixou-se cair de joelhos à margem do rio. A densa neblina cobria o bosque e atravessava suas roupas. Mas o frio não importava. Engatinhou até a água. Precisava se limpar, voltar a ser ele mesmo. Passara todo o dia fora e já era hora de retornar. Que valente chefe do clã ele parecia! Molhou a cara, o pescoço e o peito. A água espalhou pontadas de frio por todo seu corpo, mas limpou-o um pouco. Sentou-se, ainda ligeiramente aturdido. E tiritou. Amaldiçoou entre dentes sua própria estupidez, porque alguém o roubara enquanto estava totalmente bêbado. Sua capa de pele desapareceu nas mãos de um ou mais assaltantes que, isso sim, como prova de boa vontade, tinham deixado outra capa puída que quase não o abrigava. Não perdeu o cavalo porque com certeza não o viram. De outro modo, teria que retornar a pé e maldita à zombaria que seria ao dar explicações a sua chegada! Então, achou ter ouvido um galho quebrar-se a suas costas. Virou-se com rapidez, mas não foi suficientemente ágil para evitar que o punho de uma espada o golpeasse sobre a sobrancelha. Kyle caiu sem um gemido. Quem o deixou fora de combate se agachou a seu lado e virou-o de frente. Tinha a sobrancelha ferida e o sangue emanava profusamente cobrindo seu rosto. – Quem será? Nieves Hidalgo

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Barry Moretland se ergueu sobre seu cavalo com com uma expressão de aborrecimento na cara. – Seja quem for é nosso prisioneiro – disse. – Por sua capa, deve ser um mendigo. – É provável que pertença ao grupo que nos roubou vários cavalos, faz dois meses – opinou outro. – Não tem nenhum tartán que o identifique, Barry – se aventurou um terceiro, – mas olhe sua compleição. Mais parece um guerreiro. E seu cavalo é um animal excelente. Moretland deu outra olhada ao sujeito que acabaram de capturar. Certamente, não parecia ter sofrido necessidades em toda sua vida. De ombros largos, braços e pernas fortes, bem podia tratar-se de um homem de guerra. – Certamente o cavalo é roubado – disse. – Nos dirá isso quando o interrogarmos. Voltemos para acampamento. Colocaram o prisioneiro sobre o animal e empreenderam a marcha de volta. Para os domínios dos McDurney. Um lugar que, se pudesse evitá-lo, Kyle jamais teria ido.

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Capítulo 3

Josleen dormiu um pouco. Despertou enregelada, envolveu-se nas mantas e foi se sentar mais perto da fogueira. Rogou para que amanhecesse o quanto antes e que pudessem reiniciar a viagem. Lamentou sua obstinação de não querer ficar aquela noite na aldeia. O barulho de cascos a alertaram e puseram em guarda os dois homens que a protegiam. Mas eram os seus guerreiros que regressavam. E parecia ter uma carga adicional. Desmontaram e trouxeram um sujeito que parecia desacordado. Josleen se levantou e se aproximou, mas a ordem de seu meio primo, Barry, deteve-a: – Afaste-se dele. Olhou-o, em dúvida, mas acabou por aproximar-se. – Parece morto, de maneira que dificilmente poderá me atacar, não é mesmo? Logo conseguiu da uma espiada nele, quando Barry ordenou que o amarrassem. Ergueram-no pelos braços, arrastaram-no até um tronco e prenderam seus braços e tornozelos com corda. A cabeça, que caía sobre o peito, só permitiu a Josleen contemplar um cabelo loiro e um corpo musculoso. – Está ferido gravemente? – Perguntou. Nieves Hidalgo

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– Tanto faz que ele esteja morto! – retrucou Moretland. – Encontramos com ele junto ao rio, e certamente é um dos ladrões de gado que se protegem sob as saias dos McFersson. O prisioneiro deixou escapar um gemido e abriu os olhos. Barry se aproximou, agarrou-o pelo cabelo e puxou sua cabeça para trás. Josleen deixou escapar uma exclamação ao ver o sangue. – A que clã pertence? – Interrogou-o. Kyle, lutando ainda contra as brumas da inconsciência, só viu uma cara imprecisa. A cabeça lhe doía, igual à sobrancelha. E o sangue tampava a visão de um olho. Na penumbra, apagavam-se as cores de seus tartans e acreditou distinguir um fundo negro sulcado de raias amarelas. Equivocadamente, pensou que se encontrava diante dos homens do clã Dayland. – McDuy – disse com voz algo pastosa. – McDuy? Os asquerosos McDuy? – Perguntou alguém – Por Deus! E ainda se atreve a dizê-lo! Kyle sacudiu a cabeça para limpar-se e olhou com mais atenção. Acaso os Dayland não tinham uma aliança com os McDuy? Então, por que…? Josleen apertou ainda mais as mantas ao seu corpo. Não estava de acordo que os homens se comportassem às vezes como bestas. Retornou para junto da fogueira e se acomodou, esticando um braço e aproximando-o das brasas. Sentou-se tão perto do fogo o quanto podia e tentou se esquecer deles. Que resolvessem o problema como quisessem! Kyle fixou o olhar na mulher. E sua respiração se deteve. À luz da fogueira, descobriu um fundo vermelho sangue com raias amarelas e negras. Apertou os Nieves Hidalgo

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dentes para não soltar uma maldição. Sua estupidez acabara de chegar ao auge. Porque quem tinha capturado-o não foram do clã Dayland. Eram os condenados dos McDurney, que Satanás fosse aos infernos! Seus piores inimigos! E ele, como um idiota, acabava de declarar que pertencia a um clã inimigo. Em que bela confusão acabava de se meter. – Descansa se puder cão –disse Barry. – Amanhã necessitará de todas suas forças. Ninguém percebeu o repentino brilho de alarme que apareceu em seus olhos, e seus sequestradores se deitaram sem dar mais atenção a ele. Só um deles ficou de guarda. Josleen era incapaz de dormir e, de sua posição, continuava com o olhar fixo no prisioneiro. Perguntou-se quem seria e que fazia nas terras de seu irmão. – Barry – chamou muito baixinho. – Está dormido? – Hummm? – Não tem aspecto de ladrão de cavalos. Barry deu a volta, ficando de costas para ela. – Amanhã saberemos. Dorme de uma vez.

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Capítulo 4

Despertou ao escutar um grito sufocado. Um pálido sol que logo esquentaria, surgia entre as nuvens. Estirou-se, notando os músculos doloridos. E um novo gemido a deixou alerta. Sentou-se e procurou sua adaga, da qual nunca se separava, acreditando que os atacavam. Mas o que viu, a fez levantar-se de um salto. Um de seus soldados golpeava o prisioneiro enquanto o resto observava, formando um corredor ao seu redor. – O que estão fazendo? – Aproximou-se, lutando por desfazer-se das mantas. – Se afaste daqui –disse Barry. A cabeça do cativo caía sobre seu peito e ele lutava por inalar ar. – Não podem golpear um homem indefeso! – Recriminou-os. – Estamos interrogando-o. Vá refrescar-se no rio e não se meta no que não diz respeito. Um novo golpe no estômago obrigou o refém a soltar o ar dos pulmões, junto com um novo lamento. – Onde estão os cavalos? – Perguntou Barry. O outro moveu a cabeça. Não souberam se para dizer que não sabia ou para negar-se a responder. Seu silêncio o fez ganhar outro golpe direto nas costelas. – Parem de uma vez! –Josleen tentou aproximar-se. Nieves Hidalgo

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Barry a empurrou para o lado bruscamente. Josleen escorregou no mato coberto pelo orvalho e esteve a ponto de cair de bruços. Então foi dominada pela fúria. Nunca fora muito paciente, seu irmão, Wain, fartava-se de recriminá-la com frequência. E nesse exato momento ela demonstrou que, com certeza, não era. Observou-o, com as mãos na cintura. – Se não o deixarem em paz, contarei tudo isto ponto por ponto. Foi uma ameaça muito clara. Wain tinha um gênio dos diabos, mas nunca se rebaixou em humilhar um inimigo vencido e souberam que ela estava se referindo a ele. Olharam-na com a dúvida refletida nos olhos. A cicatriz que atravessava o queixo do Barry se tornou mais pálida. Mas a decisão no rosto de sua prima diminuiu sua vontade de brigar. Sim, aquela harpia era muito capaz de contar a Wain o que estavam fazendo. E ele não tinha pretensão de ouvir reprimendas, embora ficar sem autoridade diante do grupo revolveu seu fígado. – De qualquer maneira – disse – este acabará na torre. Lá poderei interrogá-lo com prazer – e então, pensou, não usaria apenas os punhos, e sim o chicote para arrancar a pele daquele bastardo. Diria onde tinham escondido os cavalos, cedo ou tarde. Barry afastou-se do prisioneiro, então deu ordem para levantar o acampamento. Uma vez preparados, soltaram o prisioneiro e amarraram suas mãos às costas. Ajudaram-no a montar e pouco depois partiram. Kyle, pendurado precariamente sobre seu cavalo, recuperou a consciência em seguida. Tinha uma dor aguda no estômago e nas costelas, com os braços amarrados nas costas, que aumentava seu desconforto. Seus olhos brilharam ao reconhecer a trilha por onde passavam, à beira do rio. Sabia muito bem para onde se dirigiam. As terras inimigas. Ele acabaria numa masmorra de Durney Tower. Nieves Hidalgo

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Isso não tinha a menor graça. Porque os McDurney pediriam um alto resgate por ele, assim que descobrissem sua identidade. E maldito seria se pagasse algo para aqueles filhos de uma cadela! Inspirou com cuidado para evitar as pontadas de dor, mas escapou um gemido. Josleen conduziu seu cavalo para aproximar-se mais da montaria de seu primo e ficou entre ambos. – Não se aproxime – ordenou ele de novo. – OH, deixe-me em paz, Barry! – ela ironizou – Está amarrado, por todos os céus! Por acaso acha que ele pode se jogar em cima de mim, e torcer meu pescoço? – Teria merecido isso. Josleen mostrou a língua a ele quando ele avançou para ficar à frente do grupo. Com gesto brusco, jogou para trás os cabelos que o gélido vento, insistentemente, jogava na sua cara. Deu uma olhada no prisioneiro, ficou paralisada por alguns segundos e logo se afastou dele, fazendo caso da advertência do Barry. Mas Kyle não pôde tirar os olhos de cima daquela moça, durante o resto do trajeto. Embora não soubesse o motivo. Tinha conhecido muitas mulheres em sua vida. Algumas delas, realmente formosas. E aquela não era tão especial, ainda que numa primeira olhada, seu cabelo como fogo misturado com ouro, seu rosto de maçãs delineadas e seus grandes olhos, em conjunto poderia ter provocado essa ilusão. Ela era bonita, sim. Mas nada mais que isso. Entretanto, havia algo em seu porte orgulhoso e em seu modo de mover-se que atraía seu olhar uma e outra vez. Era pura sedução. Josleen cavalgava ereta, sem atrever-se a olhar de novo para o prisioneiro. Uma vez tinha sido suficiente para que o seu coração pulsasse alucinado. Por Deus, era Nieves Hidalgo

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como uma estátua dourada! Seu cabelo comprido dourado, sua pele bronzeada… E seus olhos! Josleen nunca tinha visto nada igual. Âmbar líquido. Grandes e exuberantes, orlados de pestanas espessas ligeiramente mais escuras. O nariz reto, o queixo denotando autoridade. Sua boca... Piscou, recordando-a e ficou mais rígida sobre a sela. «Um ladrão de cavalos?» perguntou-se a si mesmo. Barry devia estar louco! Kyle se esqueceu da mulher quando seu cavalo pisou num desnível e uma pontada lhe atravessou. Prestou atenção ao terreno por onde cavalgavam antes de acabar com a cabeça quebrada por culpa dela. Josleen lutava para esquecer que ele cavalgava atrás dela, embora tivesse a sensação de que a vigiava. Acabou virando-se, instigada pela repentina necessidade de comprovar se realmente ele tinha os olhos dourados. E recebeu um olhar desdenhoso que a fez retornar a sua posição imediatamente, como uma adolescente pilhada em falta. Realmente era dourado! Fogo e gelo. Paixão e desdém ao mesmo tempo. Kyle não voltou a fixar-se nela nenhuma só vez durante as horas seguintes. Propôs-se e o conseguiu. A despeito de estar muito consciente de sua proximidade. Uma mulher do clã McDurney. Por toda a corte do inferno! Só faltava nesse momento, sentir-se atraído por uma cadela do clã inimigo! Tinha coisas mais importantes que pensar. Por exemplo, um modo de escapar.

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Capítulo 5

Barry ordenou desmontar duas horas mais tarde para dar um repouso aos cavalos e cavaleiros. Josleen saltou a terra antes mesmo que alguém a ajudasse, desejosa de um momento de privacidade e farta de sacudir na sela. Kyle, desmontado de forma rude, caiu de joelhos e soltou uma nova maldição. Logo que prenderam os cavalos, a moça desapareceu uns instantes atrás de uns arbustos. Os guerreiros, sem ela à vista, esvaziaram suas bexigas ali mesmo. Ao retornar, dando a eles tempo suficiente para cobrir suas necessidades, pegou um vasilhame e se aproximou do rio para enchê-lo de água. Procurou logo um pano limpo em sua bolsa de viagem e se dirigiu para o prisioneiro. Pensar em aproximar-se fazia com que seu estômago saltasse, mas era impossível abandonar a necessidade de ir ao seu auxílio. Barry, insistente e fastidioso, voltou a interpor-se. Ela esteve a ponto de quebrar o balde contra sua cabeça. – Você é cansativo, Barry –disse. – Só quero limpar a ferida da sobrancelha. Acaso quer fazê-lo você? Moretland grunhiu algo entre dentes, escutando a repentina risada de seus companheiros. Acabou por colocar-se de lado. Kyle estava recostado contra uma árvore. Todo o seu corpo doía e precisava de um pouco de privacidade, mas aqueles bastardos nem sequer repararam nisso. Em outras circunstâncias, teria agradecido os cuidados daquela jovem, mas nesse momento somente desejava que desaparecesse. Nieves Hidalgo

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Josleen viu seu semblante sério, capaz sem dúvida de atemorizar a qualquer um. E contra todo prognóstico, sorriu. Seu rosto se acalmou e duas covinhas apareceram em suas bochechas. – Tranquilo. Eu não sou tão besta como eles. Kyle não disse uma palavra. Mas se abalou quando ela passou o pano sobre a ferida. Ele até fez um movimento brusco para afugentá-la. Não conseguiu nada. Ela estava decidida a lhe ajudar e tratou do corte com mãos hábeis. – Você tem um corte bem fundo aqui – comentou. – Não deveria tê-los enfrentado. – Atacaram-me pelas costas – resmungou. – Claro que é assim que agem sempre os McDurney, não é verdade? Josleen se retesou pela alfinetada dele, então um relâmpago de indignação atravessou seus olhos azuis. – Demonstra ser pouco agradecido. Outros, certamente, teriam lhe atravessado com uma espada. – Imagino que ainda pode acontecer – proferiu. – Bandido! – A irritação soltou a língua dela. – Não se confunda. Não somos como os McFersson, que atacam sem aviso prévio e assassinam. Barry se aproximou ao escutar o insulto. Seu olhar escuro se cravou em seu prisioneiro e este devolveu outro sem emoção. – O que aconteceu? – Tem uma nefasta opinião de nosso clã.

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– Piorará quando estiver preso numa argola. Mas enfim, podemos alimentar um pouco mais sua aversão – sorriu com escárnio. Josleen não compreendeu a que se referia até que viu que lhe arrebatava a puída capa. O que pretendia Barry? O ar cortava a pele e sob a capa, ele não vestia mais que uma camisa e o kilt, que era abrigo insuficiente para a baixa temperatura que fazia. Kyle não opôs resistência alguma, sabendo que era de todo inútil. Mas ele não conseguiu minorar o golpe de frio ao sentir suas roupas atravessadas por uma rajada gelada. Josleen não podia afastar seu olhar. Se sob a capa já se adivinhava um corpo forte, viril e musculoso, agora não havia lugar para a imaginação. Um súbito desejo de estender a mão e tocar a pele que se vislumbrava sob o pescoço da camisa, paralisoua. – Alguns minutos e recordará o paradeiro de nossos cavalos – disse Barry. Josleen não podia acreditar que seu meio primo estivesse fazendo uso de tanta crueldade. – Deveria pensar melhor – advertiu, – porque talvez não chegue vivo. Ele encolheu os ombros, afastando-se para procurar por um pouco de comida. E Josleen não teve outra opção que afastar-se também. Era evidente que não iriam fazer caso de suas solicitações. Mas o denunciaria quando chegassem a casa. Se Kyle pensava que iriam lhe dar um pouco de comida ou água, enganou-se infelizmente. Nem sequer se aproximaram dele durante o breve descanso. E a jovem, ao que parecia farta de batalhar com quem comandava o grupo, tampouco voltou a aproximar-se. Nieves Hidalgo

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Na hora de partir, simplesmente lhe obrigaram a montar de novo, mas não lhe devolveram a capa.

Capítulo 6 Nieves Hidalgo

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Pararam para revisar uma ferradura solta de um dos cavalos. Então, Kyle já não sentia os braços. Seu corpo parecia um bloco de gelo e estava convencido de que eles queriam matá-lo de frio. Além disso, fazia tempo que começara a garoar e estava encharcado. Enfraquecido e enregelado, caiu ao chão quando alguém fez com que desmontasse, bastante tempo depois. Não pôde nem se mover. Tiritava de maneira incontrolada e era incapaz de articular nem um lamento. Arrastaram-no para longe do grupo e ali o deixaram. Josleen deu uma rápida olhada aos seus homens e se enfureceu ao ver que nenhum deles parecia interessado no prisioneiro. Tanto fazia se vivesse ou morresse. Assim pegou um par de mantas e se aproximou dele, sem intenção de preparar naquela noite o jantar, o que estivera fazendo desde que iniciaram a viagem. – O que está fazendo? – quis saber seu primo. – Prepare algo para comer, estamos famintos. – Prepare você mesmo! – respondeu a ele. Cobriu o corpo trêmulo do prisioneiro com as mantas. – Vamos, Josleen. Um pouco de frio o ajudará a se recordar. – O frio vai matá-lo! – Não é assunto seu. Eu estou no comando e sei o que faço. – De verdade? E isso é tudo que sabe fazer? Deixar congelar-se? – Observou que Kyle continuava tiritando sob as mantas – Se não está de acordo comigo, pode dizer ao meu irmão quando chegarmos. Nieves Hidalgo

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Moretland fixou seus olhos nela. Gostaria de golpeá-la, apertar seu pescoço… Odiava-a. Da mesma forma que odiava o seu irmão Wain e a todos os malditos McDurney. Só carregava uma parte desse sangue. Sua mãe tinha sido uma criada na casa do Rob McDurney, irmão mais novo do chefe do clã fazia anos. Sua aventura com ele não passou disso, uma aventura. Então ele nasceu. Mas não levava o sobrenome McDurney. Wain era o herdeiro e ele, embora dois anos mais velho, nada mais que um subalterno, o bastardo que nem sequer chegou a ser reconhecido devido a uma emboscada que provocou a repentina morte do homem que o gerou. Cresceu vivendo a sombra de Wain. E apesar de gozar de certa posição, ainda queria mais. Queria o que correspondia a ele. Encaminhou-se para a fogueira que já haviam preparado seus companheiros e se acomodou para jantar um pouco de pão e queijo banhado com uísque. Os dentes de Kyle batiam. Tentava, mas era impossível parar com os tremores. Ela desejava poder fazer algo mais por ele. Aproximou-se do buliçoso grupo, pegou um pão, queijo e um odre de uísque e retornou ao seu lado sob o atento e malhumorado olhar do Barry. Kyle aceitou o uísque. O ambarino líquido caiu em seu estômago vazio como uma pedra, mas ao menos esquentou-o um pouco. Esteva tentado a desprezar a comida, mas não era questão de comportar-se como uma criança, de modo que deixou que ela fosse lhe dando os alimentos. Olhou-a com gratidão e até esteve a um tris de agradecê-la verbalmente. Entretanto, quando Josleen estirou uma manta perto dele, disposta a passar a noite, todo seu corpo se retesou. O suave aroma da lavanda que desprendia de seu cabelo estava causando desconforto nele. Fazia muito tempo que não ficava com uma mulher e aquela, não podia negá-lo, parecia cada vez mais atraente. O dourado de seus olhos se tornou glacial. Tanto, que ela afastou sua manta um pouco. Nieves Hidalgo

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– Só tento ser amável – disse. – E seria melhor que dissesse a eles onde estão os cavalos. Receio que Barry pensa em arrancar sua pele das costas a chicotadas. Os ânimos estão bastante alterados depois deste último roubo. – Nada tenho com isso – respondeu entre as batidas dos dentes. – Eu poderia acreditar. Mas eles, não. Além disso, você foi capturado em nossas terras. Kyle se amaldiçoou mentalmente. Que demônios o deixaram ser pego nos domínios inimigo! Conhecia perfeitamente os limites de seu território e dos bastardos dos McDurney. Não tinha ultrapassado a fronteira, por Deus! Ou sim? Poderia estar tão bêbado que não percebeu onde se encontrava? Não, maldição! Eles é que deviam ter cruzado os limites das terras, atacando-o pelas costas! Jurou que se conseguisse escapar, se vingaria dos McDurney de uma forma ou outra.

Capítulo 7 Nieves Hidalgo

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O silêncio reinava no acampamento. Todos dormiam à exceção de Will, que recebeu o primeiro turno de sentinela. Atento a qualquer coisa que se movesse, encontrava-se um pouco afastado, acima de uma pequena ladeira de onde podia vigiar o terreno ao redor. Josleen, entretanto, despertava a cada momento, consciente da proximidade do guerreiro. O prisioneiro acabou sendo vencido por um sonho inquieto e tremia de vez em quando. Teria desejado aproximar-se dele e o reconfortá-lo. Observou-o, apoiando-se num cotovelo, o queixo sobre a mão. Não compreendia a estranha e perturbadora fascinação que aquele homem provocava nela. Estava convencida de que não era um simples ladrão de cavalos. Ninguém com um corpo como o dele podia ser um vulgar bandido. Mas o que fazia em suas terras? Podia tratar-se de algum espião dos McFersson? O que procurava? Deu uma rápida olhada ao grupo e aproximou sua manta da dele. Tomara qua ninguém percebesse, porque de outro modo, poderia receber uma boa reprimenda ao chegar a Durney Tower. Porque com certeza o desaforado do Barry iria contar tudo, mudando os fatos. Kyle se moveu. A manta deslizou o suficiente para permitir ver seu peito. Josleen cravou seu olhar naquela demonstração de força e custou respirar. Deus, como desejava tocá-lo! pensou, abafando uma risadinha nervosa. Estaria ficando louca? Ou seria que, de repente, suas necessidades tinham despertado? Sua mãe educou-a para que não reprimisse nunca seus sentimentos. Contou sobre a magia que podia envolver uma carícia. E a instruiu nas diferenças que existiam entre o corpo de um homem e o de uma mulher. Ela era uma mulher sábia e, talvez, Nieves Hidalgo

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adiantada para seu tempo. Ao seu lado aprendeu tudo: a cozinhar, a curar as feridas, a cuidar dos doentes… E a vislumbrar como podia ser a relação com seu futuro marido. Mas a mãe nunca disse a ela que poderia sentir-se atraída repentinamente por um desconhecido. E era justamente isso o que estava passando. Deveria perguntar a ela assim que a encontrasse de novo. Vagou seu olhar por aquele rosto virilmente atraente. Seu corpo era uma ode ao poder. Estupidamente, imaginou o que sentiria se ele a beijasse. Kyle se moveu de novo e a manta deslizou, descobrindo seu quadril e uma larga e musculosa perna. Fixou-se no largo cinturão que prendia seu kilt: uma torre. Franziu o cenho. Pareceu-lhe vagamente familiar. Mas se esqueceu disso imediatamente e seus olhos se fixaram em sua pele nua. Umedeceu os lábios. Sem estar consciente de seu atrevimento, estendeu a mão para tocá-lo. Kyle se debatia em sonhos. Os olhos de Muriel, a moça com a qual tivera que se casar logo que completou vinte anos, observavam-no. Gritava, dizendo que o odiava. Ele esticava sua mão para senti-la, mas ela estava cada vez mais longe. Nunca voltou a tocá-la depois daquela horrível e desagradável noite de bodas. Mas tinha deixado nela sua semente e ela tinha dado um filho a ele, Malcom, ao qual ela odiou tanto como a ele mesmo… Entretanto, Muriel estava tocando-o agora e ele vibrava sob aquela delicada carícia. Não a amava, nunca chegaram a ser íntimos o suficiente. Mas a desejava. Ardia sob o tato suave de sua mão. Seu órgão sob ventre vibrava… Debateu-se em sua alucinação. As mãos do Muriel eram cálidas, suaves. Gemeu aceso como uma fogueira, desejando que o morno contato continuasse, com seu Nieves Hidalgo

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corpo pedindo já satisfação… Josleen mordeu os lábios ao experimentar sob os seus dedos a sedosa pele dele. Acalorada por sua própria desfaçatez acariciou-o. Ele suspirou e ela se deteve, com seu coração pulsando na garganta. O que estava fazendo não era correto, pensou. Mas sua mão, com vida própria, desceu por seu quadril até a coxa. Kyle, ansioso, sussurrou um nome: – Muriel... Josleen assustou-se. Mas não moveu um músculo. Então se deu conta de que ele estava ardendo. Ao retirar a mão, tocou a fivela do cinturão. Uma torre trabalhada sobre metal. E ficou assim, pensativa, com sua mão sobre o estômago daquele guerreiro. Não conseguia respirar normalmente e um tremor repentino alertou o adormecido. Kyle despertou, mas não se moveu. Demorou um pouco ao se dar conta de que tinha estado sonhando com sua esposa, mas que não era ela, certamente, quem o tinha acariciado. Seus músculos se retesaram, adivinhando o que acontecia. Apertou os punhos. O prazer se mesclou com a irritação. Nunca tinham se aproveitado dele de modo tão mesquinho, enquanto delirava. Pelo amor de Deus! Aquela maldita moça havia lhe acariciado com todo o descaramento do mundo.... E ele estava excitado! Apertou as pálpebras e normalizou sua respiração. Os dedos femininos já não se moviam, estavam parados sobre seu abdômen. Logo, escutou-a suspirar, e voltou a cobri-lo. O latejar insistente e humilhante de seu órgão sob seu kilt o enfureceu. Era uma nova categoria de tortura para que falasse, contando o que queriam ouvir? Excitava-o de propósito para deixá-lo depois desejoso de mais, para vencê-lo, quando Nieves Hidalgo

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não o fizeram nem os golpes nem o frio? Demorou em olhá-la. Ela parecia dormir. Era bonita, sim, pensou. Seu jovem rosto mostrava tranquilidade e sua boca se franzia em um gesto quase infantil que fez com que desejasse beijá-la. Se estivesse livre das amarras... De repente, Josleen abriu os olhos e se levantou. Olhou-o e estremeceu ao verse observada. Sua cara, excitada, adquiriu a cor dos pêssegos amadurecidos. Mas se compôs imediatamente. Ele não se deu conta de suas carícias, de maneira que não devia preocupar-se. Fora outra coisa o que a despertou subitamente, com o coração na garganta. A torre! Aproximou-se, ficando quase unida a ele, sentada sobre seus calcanhares. Jogou a roupa para um lado e passou os dedos pela fivela. E seus grandes olhos voaram, cheios de estupor, para o poço dourado que a olhava fixamente. – Quem é? – Balbuciou num sussurro que só quem ouviu foi Kyle. – Um McDuy. Josleen moveu a cabeça com força. Sua juba faiscou sob os raios lunares. – Não. Não é. Os McDuy são gente miserável. Não guerreiros. E você é um guerreiro. – Se você o diz… – Por que usa este cinturão? A verdade tinha estalado em sua cabeça como uma chama. Mas necessitava uma confirmação por que… Não podia ser! Por todos os infernos!

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Capítulo 8 Nieves Hidalgo

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– É um McFersson – lhe disse. Kyle ficou em silêncio. Percebia de que ela estava atemorizada e um brilho diabólico atravessou seu olhar. Avaliou que poderia muito bem tirar partido de sua descoberta. – E se o for, mulher? – Mas… Como…? – Isto trará a guerra. Sabe. Ela se ergueu. Os McFersson eram seus inimigos, mas fazia anos que existia algo assim como um acordo tácito entre os dois clãs. Os roubos de gado e o saque de algumas aldeias continuavam, era verdade. Mas fazia muito tempo que não se enfrentavam com as armas. Entretanto, se aquele homem era realmente um McFersson, e não tinha dúvida, agora que tinha recordado o brasão do outro clã, seria um problema. E poderia significar a guerra! A miséria para os camponeses, a morte para muitos guerreiros, a dor pela perda de muitos seres queridos para as mulheres McDurney. Sabia que o chefe McFersson aproveitaria aquela oportunidade e atacaria com a desculpa da ofensa a um de seus homens. – É de verdade um McFersson? – Sim. Cambaleou ligeiramente. – E se o deixo ir? – Perguntou, resolvida. Kyle piscou. Endureceu o olhar e sua voz soou muito rouca.

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– Poderia livrar seu clã de uma morte certa, moça. – Não haverá guerra? Esquecerá este incidente? Prometa-me isso – exigiu. Kyle pareceu pensar durante um instante. O que tinha acontecido afinal de contas? Uma sobrancelha suturada que num par de dias cicatrizaria, alguns golpes e, isso sim, um bom resfriado. Nada suficientemente importante para empreender uma guerra que a ninguém beneficiava. Embora a ameaça tivesse sortido efeito. Claro que, também houve algo agradável: o tato de sua mão. Concordou. – Prometido. – E não fará nada a eles quando for solto – apontou os que dormiam. – Estou desarmado. Josleen tranquilizou-se. Ajudou-o a virar de costas, tirou sua adaga e a aproximou das cordas. Mas se deteve repentinamente. – Pensou melhor? – indagou Kyle. Ela não respondeu, mas começou a desatar os nós. Se eles encontrassem a corda cortada, todos saberiam que ela o tinha ajudado a fugir. Kyle conteve um grito de alegria quando ficou livre. Encarou-a. E retrocedeu um pouco ao ver a adaga que apontava para ele com os olhos ofuscados de precaução. Kyle sorriu. Apesar de tudo estava se divertindo. E ela secou sua garganta. Era tão atraente. Kyle levantou-se, cuidando para não fazer ruído. Tinha que partir agora, enquanto ainda podia, mas algo parecia segurá-lo junto a ela. Além disso, incomodava-o pensar que talvez recebesse um castigo, se desconfiassem que o tinha Nieves Hidalgo

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ajudado. – Deveria bater em você – disse. Josleen levantou um pouco sua adaga. – Nem se atreva! – E se pensarem que você me libertou? – Não cortei a corda. Mas ele tinha razão. Barry, sem dúvida, suspeitaria dela. Como iria explicar a eles? Qual a desculpa que poderia dar mais tarde a Wain? Suspirou e guardou a adaga. – Não me golpeie muito forte – implorou. Kyle sentiu um aperto no peito diante de sua passividade. Nunca até então tinha ferido uma mulher e agora as circunstâncias obrigavam-no a fazê-lo. E ela se colocou em suas mãos sem nenhum temor! Poderia torcer seu pescoço, sem que os seus companheiros se inteirassem de nada. E tudo para evitar uma guerra. Punha em risco sua própria vida para evitar mortes. Até esse exato momento, não conhecera nenhuma mulher tão valente, capaz de sacrificar-se pelos outros a tal ponto. 67 Inclinou-se um pouco para ela. Sua mão direita a segurou pela nuca ela o olhou com os olhos bem abertos, para ter certeza que ele faria apenas o necessário. Ele poderia estrangulá-la se quisesse. Mas o contato daqueles amplos dedos em sua nuca, enredando-se em seu cabelo, provocou um estremecimento. Não importava muito, afinal. Uma vida em troca de muitas. Melhor que ver seu povo sumindo nas penúrias de uma guerra. – Confio em você – murmurou, fechando os olhos. Nieves Hidalgo

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E suas palavras desarmaram Kyle completamente. Se por algum instante tivesse pensado lhe fazer mal, a frase teria evaporado o rancor. Mas como machucála? Tirou-lhe a adaga de sua mão. Então fulminante como um raio, a necessidade de saboreá-la o atravessou. Em seguida sua boca cobriu a de Josleen. Ela estremeceu diante do morno contato, mas antes de poder reagir, estava em pé e apertada ao corpo daquele guerreiro, respondendo à carícia. Ambos respiravam ofegantes ao separar-se. Kyle então a olhou, fascinado. Quem era aquela bruxa que o excitava só de olhá-la? Em outro momento, aquela moça teria conhecido o modo como um McFersson… Mas não era lugar nem hora para rompantes amorosos. Apertou os dentes, pediu perdão mentalmente a Josleen e seu punho bateu sem muita força contra o queixo dela. Josleen não soltou um gemido, simplesmente desfaleceu. Kyle a reteve em seus braços durante um momento. Atordoava-o a sensação de plenitude que o embargava, sentindo o corpo dela junto ao seu. Lamentou profundamente ter precisado golpeá-la, mas era isso ou arriscá-la a um castigo. Depositou-a sobre o chão com muito cuidado, sentindo-se então o pior ser da face terra, por ter sido obrigado machucá-la. Voltou a beijar aquela boca carnuda, quente e sedosa. – Me perdoe princesa, – sussurrou sobre seus lábios. Depois, mandou seu imprevisível desejo ao inferno, levantou-se, correu escondido até o seu cavalo e montou. O garanhão, bem treinado, não fez ruído. Mas o grupo escutou seu galope. Quando os McDurney se deram conta de que o seu prisioneiro escapava, e perceberam a imobilidade de Josleen suspenderam a perseguição. Kyle aproveitou Nieves Hidalgo

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sua vantagem, pondo distância entre eles e dirigindo-se para suas terras.

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Capítulo 9

Era o antigo culto às árvores. Em tempos remotos, os celtas adoraram o carvalho e fundaram sua religião no culto à natureza. Agora, o ritual pagão tinha mudado e não era um carvalho e apenas um poste adornado com muitas fitas de várias cores, ao redor do qual a criançada dançava até enfeitar o singelo pedaço de madeira. Mas para o povo, aquele insípido poste continuava representando o carvalho. Diziam que as mulheres que nasciam durante esse ritual, como Josleen, menos as nascidas no mês de Agosto, eram pragmáticas embora sensíveis, que só permitiam ser amadas por aquele que lhes presenteassem com um carinho sincero, intranquilas e apaixonadas, elas eram capazes de demonstrar sua irritação exarcebada, inclusive quando não havia motivo para isso. Josleen sorriu diante do bulício das crianças e procurou os que a acompanharam em sua viagem até a aldeia do Mawbry, para depois levá-la até a casa de sua mãe. Gostaria de ter ficado até o anoitecer, desfrutando da festa, mas tinha que partir. Seis guerreiros armados até os dentes a rodearam e juntos se encaminharam para os cavalos. – Poderia esperar um pouco, Josleen. Josleen se voltou diante do pedido e sorriu ao sujeito. Aproximou-se para beijálo na bochecha. Separou-se um pouco e o olhou com afeto. – Quero estar a meio caminho antes que caia a noite, Wain. Nieves Hidalgo

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Ele assentiu. Estreitou-a entre seus braços e ela riu feliz, embora sua força quase lhe quebrasse uma costela. – Mande-me um recado por um mensageiro tão logo chegue. De acordo? E quero ter boas notícias. – Eles podem retornar meu irmão – apontou ao grupo. – Prefiro que fiquem contigo e com nossa mãe. – Ela tem um bom contingente de guerreiros. – Ainda assim. – De acordo. Mas depois não me jogue na cara que precisou deles. Wain acompanhou a sua irmã até o cavalo, agarrou-a pela cintura e a colocou sobre a cela. Josleen lhe sorriu, embora aquela exibição de proteção a irritava às vezes. Era uma mulher feita e não precisava de contínuos cuidados. Mas Wain continuava pensando que ela era ainda uma criança. E sabia que ele sempre estaria ali, providenciando seu bem-estar, como procurava a prosperidade para todo o clã. Era o chefe. Todos confiavam nele. – Tome cuidado – pediu ele. – Para de se preocupar. Tenho que ir sabe disso. Custou convencê-lo de que aquela viagem era necessária. Helen, a filha mais velha do homem que desposou a sua mãe numa segunda união, pediu como um favor. Ela passaria melhor os dois últimos meses que faltavam até o parto tendo ao seu lado alguém da sua idade. Além disso, poderia ajudar a sua mãe no parto. Wain tinha concordado só pelo amor que dedicava a Aliem, sua mãe, agora uma McCallister. Nieves Hidalgo

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Wain acariciou o lombo do cavalo. – Espero que, nesta ocasião, não se encontre com outro ladrão, irmãzinha. O rubor cobriu suas bochechas. Instintivamente, passou os dedos pelo queixo. Ainda recordava a alegação de Wain quando se inteirou do acontecido, culpando-a diretamente por ter se exposto ao perigo dormindo tão perto do prisioneiro. O execrado do Barry insistiu em que, se não fosse por isso, teriam evitado que o McDuy escapasse. «Se eu não o houvesse libertado» pensou Josleen. Recordava-se tão vividamente da textura de seus músculos… Percorreu-lhe uma estranha comichão. Tinha tentado esquecê-lo durante todos aqueles meses, mas foi impossível. Seu beijo a marcou a fogo. E a mantinha acordada muitas noites, até irritá-la. Entretanto, ele cumprira a sua promessa, nenhuma das aldeias foi atacada, nem chegara nenhum exército em tom de guerra às portas do Durney Tower. Aceitou a brincadeira e se inclinou para puxar a orelha de seu irmão. – Lhe trarei um na minha volta – brincou. – E eu lhe esquentarei o traseiro. Josleen lhe assoprou um beijo com os lábios e se virou na cela ao escutar a chamada de uma mulher. Aproximou-se uma jovem muito bonita, a quem Wain enlaçou da cintura assim que a teve a seu alcance. – Sentiremos sua falta. – E eu a sua, Sheena. Mas Helen precisa de mim agora. – É muito tempo – se queixou a outra. Nieves Hidalgo

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– Wain irá mantê-la ocupada, não duvide. Nem sequer se lembrará de mim. Sheena ficou vermelha como uma rosa e abaixou a cabeça para apoiá-la no peito de seu marido. – É terrível – se queixou a meia voz. Wain se uniu à risada divertida de sua irmã e abraçou mais forte a sua mulher. Fazia três anos que se casaram e era o homem mais feliz do mundo. Sheena era justamente o oposto da sua irmã, que pecava pela teimosa, irritável e, na maioria das vezes, sarcástica. Sheena era doce; Josleen, mandona. Uma ruiva e a outra loiroavermelhada. A primeira tímida, a segunda descarada. Elas só tinham em comum os formosos olhos azuis e profundos que tiravam o fôlego de qualquer homem. – Enviarei notícias logo que chegar – prometeu de novo Josleen. – Se precisar de algo, avise-me. Beije a mamãe. E dá um soco no McCallister de minha parte – brincou Wain, elevando a voz, quando o grupo já se afastava na saída da fortificação. Sheena se apertou contra ele e elevou a cabeça para receber um beijo. Suspirou e o olhou com os olhos velados. – Desejo-o – lhe confessou. Wain McDurney explodiu em gargalhadas. – Acredito que Josleen está corrompendo-a, mulher. – Eu gostaria de ter seu caráter. Josleen não se intimida diante de nada, faz o que quer e... – E ganha uma surra de quando em quando – cortou. Nieves Hidalgo

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– Falando disso. Eu não gostei que você a repreendesse quando retornaram de Dorland. Qual foi a culpa de Josleen por esse sujeito conseguir escapar? – Já ouviu o Barry. – Barry é propenso à cólera. Às vezes penso que já nasceu irado. Wain permaneceu em silêncio. Ao diabo com seu meio primo! Tinha coisas mais importantes com que ocupar-se, por exemplo, fazer imediatamente amor com sua mulher. Levando-a apertada em seus braços, eles aproximaram-se do poste adornado para a festa do Mai Day, que celebrava a chegada da primavera. Acotovelado em uma das muralhas, o turvo olhar do Moretland os seguiu. – Algum dia... – Disse entre dentes. – Algum dia, Wain.

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Capítulo 10 James agarrou uma coxa de ave de uma das bandejas que os servos já retiravam e lhe deu uma dentada enquanto tentava, de uma vez, tirar a capa. – Pelos infernos, James! – Bradou uma voz na entrada do salão. – Já vou maldito seja! – rezingou o moço – Já vou! Saiu rapidamente, resmungando sobre a estúpida necessidade de ter que ir justo agora numa incursão. Seu irmão, o chefe do clã, cismara de “pegar emprestado”, assim ele nomeava, uma parte do rebanho que os McDurney tinham perto da cidade do Mawbry, umas vinte milhas fora do território McFersson. Deu outra dentada e atirou o osso a um lado. Pouco faltou para que acertasse um dos serviçais que passava nesse momento. – Sinto muito! – Desculpou-se ao mesmo tempo em que escapulia. Lá fora, dez homens montados a cavalo aguardavam. Importou-lhe um pouquinho o olhar de reprovação de nove deles. Mas do último, provocou-lhe desgosto. Montou de um salto e olhou seu irmão mais velho e chefe. Kyle deixou uma imprecação pela metade. – É a última vez que lhe espero James. – Nem sequer me deixou acabar a comida. – Se tivesse chegado à mesa quando todos o fizemos, em lugar de estar atrás ou debaixo das saias de alguma moça, teria tido tempo suficiente. James se encolheu de ombros. E sorriu como um diabo ao ver seu cenho Nieves Hidalgo

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franzido. – Por que está sempre de tão mau humor, Kyle? A vida é formosa. Uns olhos dourados relampejaram, mas se aplacaram em seguida. Era impossível lutar contra James. O menino mal completou os vinte anos e era tão rebelde ou até mais que o pequeno Duncan, que ainda não tinha completado quatorze anos. Vencia-o sempre com seus sorrisos. Dos três, era sem dúvida o que tinha melhor aspecto. Por isso conquistava sempre as mulheres. – Vamos! Quase na porta do castelo, tiveram que deter-se. Montado em um cavalo de cor canela, Duncan lhes cortava o caminho. Kyle suspirou, acotovelou-se no pescoço do seu cavalo e olhou para o irmão mais novo. – E agora o que aconteceu? – Vou com vocês. – Já te disse que não, Duncan. – Pois eu insisto. Kyle bufou. Pelos chifres de…! Será que teria que estar sempre brigando com seus irmãos? A suas costas, as risadinhas de seus guerreiros o irritaram ainda mais. Fez o cavalo avançar e se ergueu sobre a cela, aproximando-se do jovem. Sua voz soou tranquila. Muito tranquila. Isso não era bom sinal para quem o conhecia de verdade. – Garoto, tira seu traseiro do meu caminho ou juro por todo o sagrado que o esfolo com uma vara. Duncan empalideceu. Imediatamente, o caminho ficou livre. Nieves Hidalgo

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– Sinceramente Kyle, o surraria com uma vara? – Perguntou James, divertido, enquanto avançavam. – E a você, se me aporrinhar muito, irmão. – Por Deus, que gênio! – Afastou-se. Gritou a distância – Não é boa companhia, Kyle! Sabe? Preferiria viajar com um mendigo antes que ao seu lado! Ressoou alguma gargalhada e ele sorriu. As brincadeiras do James eram sempre bem recebidas pelos homens e ainda mais quando o centro daquelas brincadeiras era ele. Foi divertido também para ele, mas para que o jovem não se sentisse orgulhoso de seu triunfo se afastou, tomando distâncias.

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Capítulo 11

Avistaram a pequena aldeia depois de ultrapassar a colina. De algumas chaminés, saía fumaça. Havia uma quietude que tranquilizava o espírito naquela bucólica paisagem. Havia umas dez cabanas. E o gado pastava aos cuidados de dois homens, um pouco afastado do povo. Entardecia já, mas os Montes não se resignavam a deixar de obsequiar aos viajantes com o malva das flores de suas ladeiras. Era um momento propício para atacar e apropriar-se de algumas cabeças de gado. Além disso, havia luz suficiente para que soubessem quem os atacava. Sempre foi assim entre eles e os McDurney, desde o tempo de seus avôs. Sem esconder. Cara a cara, luzindo as cores de seus tartans e lançando ao vento seu grito de guerra. Levavam tanto tempo roubando uns aos outros, que era quase uma tradição. Kyle estava a ponto de ordenar para descerem a colina quando avistaram o grupo que se aproximava da aldeia. Esconderam-se atrás de uns arbustos e vigiaram. Vários homens e uma mulher, no centro, claramente protegida pelos guerreiros. Não lhe importava quem era. O gado, sim. Ergueu-se sobre sua cela, mas a distância não permitiu distinguir se estavam armados, nem suas cores. Podiam ser guerreiros e se iniciassem uma briga, alguém sairia ferido, seria inevitável. Kyle não desejava arriscar nesse momento a integridade de nenhum de seus homens. Muito menos a de seu irmão James. Os viajantes pareciam estar de passagem. Certamente, eles iriam pernoitar na aldeia, o que alterava sua intenção. No entanto uma noite sob as estrelas nunca fez mal a ninguém, assim decidiu esperar o dia seguinte e assim o comunicou a seus companheiros. Nieves Hidalgo

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– Mas, Kyle – protestou James, – até poderia ser divertido. Faz muito tempo que não cruzamos armas com ninguém. Suponho que pertençam ao clã dos McDurney. Poderíamos nos divertir um pouco. – Não sei se são McDurney. – Seja quem for eles são amigos dos McDurney. De outro modo não se atreveriam a cruzar estas terras com essa tranquilidade. – Possivelmente. Mas viemos pelo gado. – Está-se tornando muito brando, irmão. – Provavelmente – repetiu Kyle enquanto prendia seu cavalo ao arbusto. O resto apeou também. James não teve mais opção para discutir. Acomodou-se junto a ele e começou a mordiscar um talo de capim. – Teria gostado de um pouco de animação. – Se está tão ansioso, quando retornarmos, nós testaremos nossas espadas. James deu um pulo. – Não estou tão ansioso! Além disso, não posso competir contigo. Sempre ganha – disse, vexado. – Mas o aliviará. Não é o que quer? James emudeceu. Os outros, escutando o dialogo, sorriram. Agora era Kyle que se divertia.

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Capítulo 12 Nieves Hidalgo

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Logo que clareou o dia, Josleen e sua escolta entraram em marcha. Agradeceram ao líder da aldeia e montaram. Ainda havia todo um dia de viagem. Kyle, escondido, deitado no chão, observava-os. Seu humor não era o melhor, depois de ter suportado o sarcasmo do James durante boa parte da noite. O mais rápido que eles roubassem o gado e retornassem ao Stone Tower, mais rápido tiraria aquele folgado de cima. Ordenou montar. Mas o destino lhes pregou uma peça. O grupo agora se dirigia diretamente para eles. Portanto, para a fortaleza do McCallister. Isso lhes deixava só duas saídas: ou eles os enfrentavam ou fugiam como coelhos. E Kyle McFersson nunca tinha feito o segundo. James esfregou as mãos. A final de contas haveria um pouco de farra. – Solicito à dama – disse ao ouvido de Kyle. Kyle não prestou atenção. Estava já para ordenar o ataque quando uma rajada de vento abaixou o capuz que cobria a cabeça da mulher. O sol nascente saudou por alguns instantes o cabelo dourado–avermelhado. Ela se cobriu depressa, mas ele já tinha suspendido a respiração. Pensando que era um equivoco, forçou o olhar, fixando toda sua atenção na dama. Jovem. Magra. Dominava seu cavalo com maestria. Viu-a falar algo com o homem que estava ao seu lado direito e ela jogou a cabeça para trás, parecendo divertida. Agora sim pôde ver bem as cores de seus tartans. McDurney. E para culminar, aquela moça era…! Um estremecimento percorreu suas costas ao reconhecê-la. Como não fazê-lo! Não tinha passado um só dia sem recordar o tato de sua pequena mão sobre seu Nieves Hidalgo

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corpo. Soltou uma imprecação. Lançou uma olhada a seus homens. Todos já estavam montados e preparados. Aproximou-se deles. – Quero a mulher – disse. – Nem um sussurro e nem um ferido. Olharam-no com assombro, mas assentiram em silêncio. Só James protestou baixo. – A dama eu pedi lhe isso. – Esqueça James! Por trás dos arbustos, aguardaram que os outros se aproximassem mais. Então saíram. Não houve grito de guerra e o assalto aconteceu no mais absoluto silêncio. Os guerreiros de Josleen, surpresos, nem puderam desembainhar suas espadas e durante o ataque, dispersaram-se. Foram desarmados com uma rapidez entristecedora. Os mais próximos a jovem tentaram protegê-la, mas foram atacados pelas costas e sendo golpeados na cabeça, desabaram no chão. Josleen teve que fazer um verdadeiro esforço para controlar sua montaria, repentinamente assustada. E quando o conseguiu, a curta luta tinha acabado e sua escolta tinha sido vencida. Ordenaram que desmontasse, mas ela se negou. Presenteou um olhar de desdém ao homem que se aproximou dela. Era jovem e usava as cores dos McFersson: fundo negro com quadrados verdes. O broche que prendia seu tartán sobre o ombro era uma torre, ao redor da qual leu: Honra ou Morte. Ele estendeu seu braço para segurá-la pela cintura, mas ela levantou a perna, dando-lhe um pontapé, que o derrubou do cavalo.

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Brotou uma gargalhada geral entre seus atacantes. Mas Josleen não saboreou muito seu pequeno triunfo porque alguém, do outro lado de seu cavalo, apanhou-a com um braço, que apertou ao redor de sua cintura, machucando-a. Ainda assim, lutou. Gritou quando a soltaram de repente e caiu ao chão, sobre joelhos e mãos, mas se assentou como uma fera disposta a atacar…. E ficou paralisada diante de uns olhos que lhe tiraram o fôlego. Gelo e ouro.

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Abriu a boca, mas só lhe escapou um som parecido a um grasnido. Kyle desmontou com lentidão, saboreando a imagem dela assim, meio agachada, despenteada, aparentemente vencida, no entanto pronta para o ataque. Uma gata. Josleen, embora assombrada, não deixou de prestar atenção ao presente do destino. Agora, à luz do dia, pôde observar muito melhor sua aparência, ele era alto, braços fortes e com poderosas e largas pernas calçadas com botas de pele. Cintura estreita que aumentava a amplitude no tronco, acabando em ombros de incrível largura. Seus olhos, da cor do ouro, tinham, talvez, uma faísca de ironia. Era condenadamente bonito. Mais esplêndido ainda de como se recordava. – Voltamos a nos ver – disse ele, lhe oferecendo a mão. Josleen demorou em aceitá-la, mas acabou fazendo-o. – Assim parece. – Embora agora estejamos em posição oposta. – Infelizmente para mim e minha escolta. Kyle sorriu de repente e ela acreditou encontrar-se no sétimo céu. – Não esqueci que tenho uma dívida contigo, moça. Nada deve temer. Não lhes faremos mal. – Então... Por que nos atacou? – Eu os detive. Existe uma diferença. Se tivéssemos atacado realmente, nenhum Nieves Hidalgo

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de seus homens estaria com vida. Josleen assentiu mais calma. Se não estivesse enganada, ele tinha reconhecido-a e só desejava saudá-la. Percebia que ele não havia encontrado melhor maneira além de surpreendê-los, porque sua escolta não os teria recebidos bem ao perceberem a cor de seus tartans. Sorriu e começou a caminhar como quem dá um passeio. Kyle a seguiu enquanto seus homens esperavam, sem saber o que fazer com os prisioneiros. Tampouco estes pareciam compreender nada. – Pensam roubar o gado da aldeia? – Sim. – E mudou de ideia ao me reconhecer. – Não exatamente. Só priorizei. Pareceu-me boa ideia lhe saudar. Mas depois levarei o gado. Josleen se pôs a rir. Sem que ela percebesse, Kyle se retesou. Sua risada o fez desejá-la. – Assim sendo quis trocar saudações. Não é frequente entre clãs inimigos. Kyle encolheu os ombros. Ela pensou que essa era uma estupenda e preciosa anedota para contar a sua mãe e ao Wain quando ela retornasse ao Durney Tower. Por que não? Pensou. Fazia muitos anos que durava aquela inimizade estúpida entre seus clãs. Estava entusiasmada. Até que o ouviu dizer: – Não exatamente trocar saudações, moça. Virá comigo.

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Capítulo 14

Josleen retrocedeu um passo. Do que ele estava falando, por todos os céus? Ir com ele! – Não o está dizendo a sério – disse com um fio de voz. – Muito a sério. Que viaje com uma escolta só pode significar que é importante no clã McDurney. Isso significa um bom resgate. Ela engasgou. Oh…! Deu uma rápida olhada ao redor. Não podia contar com sua escolta. – Eu o libertei quando o capturamos – lhe recordou. James assobiou e quando Kyle se virou para olhar explodiu numa gargalhada. O velhaco não tinha contado nada a esse respeito. – E eu paguei a dívida respeitando a vida de seus homens. Como agora. Josleen entendeu. Não pensava em deixá-la ir. – Wain McFersson lhe declarará guerra por isso. Sua referência fez com que Kyle erguesse as sobrancelhas. – Não acredito. Pagará o resgate e só. – Nem sonhe – repôs com desdém. – Virá por mim. – É sua amante? Josleen esteve tentada a lhe bater. Apertou os punhos contra os quadris e

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levantou o queixo num gesto altivo. – É meu irmão. Pelos olhos dele atravessou um raio de tormenta. Fixou nela sua atenção. Tinha visto o McDurney só uma vez, fazia sete anos. E não esqueceria seu rosto jamais, porque o outro conseguiu lhe alcançar com sua espada e guardava uma cicatriz no flanco esquerdo como lembrança. A moça que tinha diante dele tinha os olhos mais azuis, o cabelo mais avermelhado... Mas... Aquela expressão tenaz, aquele rictus de superioridade que aninhava em seus lábios carnudos... – Seu nome – ordenou cortante. – Para você, só McDurney. Kyle a agarrou pelo braço, repentinamente enfurecido. Tinha jurado fazia anos que se encontrasse de novo o Wain McFersson, acabaria com ele. Wain tinha tachado de assassinos a todos os de seu clã devido a um antigo confronto. Tinha lhe ferido, humilhado e pisoteado seu orgulho. E agora, louvados fossem os céus! Tinha nada menos que a sua irmã em seu poder. Que melhor vingança? Que melhor modo de lhe prejudicar? Empurrou-a para o grupo e gritou uma ordem: – Amarrem todos com as mãos às costas e que montem. E me dê uma corda! James a estendeu, mas ao adivinhar o uso que ia fazer dela se aborreceu, embora guardasse silêncio. Kyle amarrou as mãos de Josleen e a tomou pelo braço para deixá-la ao lado dos outros prisioneiros. Em seguida, montou seu cavalo, deu uma silenciosa ordem elevando o braço e saiu rapidamente para a aldeia, sabendo que seus homens logo o seguiriam. Ter entre seus braços aquela moça não o fez se esquecer do gado.

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Capítulo 15 Nieves Hidalgo

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A origem dos clãs escoceses derivava dos celtas e esse princípio de vida deles era o único conhecido. O núcleo do clã era constituído pelos membros naturais, quase sempre relacionados com o chefe por vínculos de parentesco de sangue. Eram os Native Men e, por conseguinte, os que exerciam maior poder dentro da comunidade. O resto do clã, os Broken Men, eram apenas membros de outros clãs menos poderosos que se aliavam ou de outros clãs desfeitos que procuravam amparo sob o mais forte. McFersson e McDurney tinham muitos daqueles entre seu clã. Josleen observou que havia grupos isolados que saudavam as cores McFersson, conforme entravam em terra inimiga. Atravessaram um rio e se internaram num bosque fechado, com espessa vegetação. Cavalgaram sem descanso durante horas que ela julgou um inferno. Aquele desgraçado a tinha montado diante dele e era impossível não chocar uma e outra vez contra seu musculoso corpo. Seu humor era o pior que recordava há muito tempo. Kyle, não

tinha

nada

para

invejá-la.

Embora

tivesse

se

lembrado

frequentemente, durante aqueles meses, de suas trêmulas e tímidas carícias enquanto foi seu prisioneiro e o acreditou dormindo, agora se fazia custoso manterse indiferente, tendo-a ali, entre suas coxas. Desejava chegar a Stone Tower o mais rápido possível. Seu perfume o transtornava e teve que mudar várias vezes de posição enquanto cavalgavam para não demonstrar sua excitação. Deveria ter se sentido orgulhoso por aprisionar uma McDurney, a quem obrigar o Wain negociar, conseguindo terras e gado. Mas não era assim. Estava irritado. Logo pararam para dar um ligeiro descanso e água aos cavalos e ao gado e para descansarem. Durante a breve pausa, amarraram os prisioneiros juntos. Josleen foi desmontada sem muito cuidado ao ponto que esteve para machucar-se. Nieves Hidalgo

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James lançou um olhar aborrecido ao seu irmão e o repreendeu em voz baixa sua lamentável ação. Ela escutou. E pensou que, talvez, encontrasse um aliado antes de acabar numa masmorra. Sorriu ao jovem guerreiro e ele respondeu com uma meia reverência. James escutou a advertência de Kyle a suas costas, mas o mandou mentalmente ao inferno e se aproximou dela. Pegou-a pelo cotovelo e a conduziu, com toda galanteria, até acomodá-la numa sombra. Mas não lhe soltou as mãos. Proporcionou-lhe uma parte de carne seca e um odre de vinho tinto. Estava esfomeada, cansada, muito zangada e até um pouco temerosa de sua sorte, mas agradeceu e se dispôs a comer. Ao menos, tinham lhe prendido as mãos na frente. A ponto de saborear a carne seca, se deu conta de que nada tinham dado nada a sua escolta. Com um gesto altivo, jogou a carne e o odre para um lado e se recostou na casca da árvore, fechando os olhos. – Eu não gosto de desperdiçar comida, moça – a dura voz de seu carcereiro a fez saltar. – Não penso comer se eles não o fizerem também. Kyle a olhou de acima. Era tão alto e parecia tão temível… Brilhavam-lhe os olhos. De diversão? De cólera? Josleen se manteve firme e não afastou seu olhar. Por fim, Kyle acabou por encolher os ombros, deu um chute na carne e recolheu o odre de vinho. – É mais do que me ofereceram – disse. Josleen mordeu a língua para não insultá-lo e ele se afastou, sentando-se junto aos seus guerreiros. Não lhe escapou que o mais jovem parecia discutir com aquele Nieves Hidalgo

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gigante dourado. Fechou os olhos de novo e procurou descansar. Não sabia quanto tempo cavalgariam ainda e estava extenuada. Cochilou um tempo. Até que desamarraram a corda e a ergueram. Deu uma olhada ao seu redor, um pouco confusa. Todos já tinham montado e aguardavam a ela? Kyle a pegou pela cintura e a colocou de novo sobre a cela. Só que essa vez, não foi sobre a sua, e sim na do James. Josleen olhou por cima do ombro ao seu novo companheiro de viagem e ele sorriu. – Ele disse que tinha que pensar, por isso cavalgará comigo. – Ah! Mas… pensa e tudo? A gargalhada lhe retumbou no ouvido. James agarrou as rédeas e a estreitou, talvez muito, entre seus fortes braços. Logo, afundou o nariz em seu cabelo. – Cheira bem. Como as urzes. – Disse-lhe. Ela não respondeu, mas se alegrou da conquista. Estava cada vez mais segura de que a ajudaria. Acaso não parecia estar em desacordo com o chefe? Não achou vê-los discutindo? Não era uma perita em sedução, porque nunca lhe interessou nenhum guerreiro o suficiente para testar, mas pensou que era um bom momento para praticar.

Capítulo 16

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– Seu chefe é sempre áspero? – Às vezes, mais. – Alguém deveria lhe ensinar boas maneiras. – Bom... As mulheres não se queixam – brincou ele. – Até diria que as agrada às vezes... Se me entende. – Eu não estou acostumada que um homem seja tão grosseiro. – Talvez todos a tratam com cortesia porque é a irmã de Wain McDurney, verdade? – Simplesmente porque meu povo é sem dúvida mais agradável. Aqui todos vocês parecem ter engolido um porco espinho, sobretudo ele... Menos você – e ao dizê-lo se voltou para olhar, luzindo seu mais encantador sorriso. – Você é diferente. – Obrigado. – É mais educado, mais… cavalheiresco. James arqueou uma sobrancelha. Sua voz se tornara melosa, tão doce que até enjoava. Estava encantado pela decisão de Kyle de ter colocado aquela beldade em sua montaria. Mas imediatamente se acautelou de suas intenções. – Como se chama? – Perguntou ela. – James. – Eu gosto. – E você?

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– A você posso dizer, é Josleen. – Encantador. Ela então deixou transcorrer um tempo antes de voltar à carga. Simulando um pequeno bocejo se recostou em seu peito. James estava passando apuro por duas razões: a primeira era por desfrutar do contato da dama e o segundo era pelos olhares irritados que Kyle lhe lançava. – James... Posso lhe perguntar algo? – Sim. – Tem propriedades? – Nenhuma, mas desfruto das de meu irmão. – E, você não gostaria de ter as próprias? Viver em outro lugar, talvez? – Por que pergunta? Este território é estupendo. Eu gosto de viver aqui e tenho o que necessito. – Mas há outros lugares. Por exemplo, nossas terras. – Isso é território inimigo, pequena. Josleen engoliu saliva. Começava a suar as mãos. Via-o recuando e ela devia conseguir sua ajuda quanto antes. – Meu irmão pode lhe dar de presente terras e gado – ofereceu, sabendo de que Wain daria isso e muito mais por recuperá-la. – Seria seu próprio senhor. – Às ordens de um McDurney? James fixou sua nuca. Sua oculta ironia a tinha deixado enrijecida. Mas o divertia Nieves Hidalgo

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que ela estivesse tentando lhe subornar. – Teria que lhe jurar lealdade, sim. Ele tomou um tempo para responder com um simples: – Talvez. Era o momento, pensou Josleen. Virou o corpo para poder olhá-lo nos olhos: – Se nos ajudar a fugir terá tudo isso e uma boa bolsa de dinheiro. James abafou uma gargalhada. A jovem tinha coragem, disso não havia dúvida. Por Deus! Tinha que estar desesperada para lhe fazer semelhante proposta. Duncan morreria de risada quando o contasse. Quis aumentar a diversão e conservou silêncio, como se o estivesse pensando. Logo suspirou, agachou a cabeça e beijou com rapidez seus lábios. Ela se afastou. Mas não protestou. Que diabos! Pensou. Um beijo era um triste pagamento se conseguissem fugir. – Bom... – disse James um tempo depois. – Existe um problema, sabe? – Que problema? Meu irmão o protegeria. – Já imagino. Mas o meu me mandaria esfolar. – Isso é tudo? Traga o seu irmão. E toda a sua família se quiser! O que irão dever aos McFersson, apenas a vassalagem. – Talvez… É que não gostaria de ter que viver às ordens de um McDurney. Josleen começou a se desesperar-se. – E quem é o seu irmão? Um idiota que não vê uma oportunidade quando a tem diante de seu nariz? Convença-o! – Impossível. Nieves Hidalgo

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– Não há nada impossível! – Com ele sim – riu entre dentes. – Porque é esse que não deixa de me lançar dardos com os olhos minha jovem. Kyle McFersson. Nem mais nem menos só o chefe do clã, moça. Josleen revolveu esbofeteá-lo pela brincadeira, mas antes de dar-se conta a arrancaram da cela e se encontrou sentada sobre a de Kyle. Seus braços a rodearam. E sua coragem desapareceu. OH, Deus! Não estava nas garras de um McFersson qualquer, e sim nas do laird McFersson. Em sua mente chegaram, em rajadas, os relatos sanguinários que escutou. Dizia-se que até mesmo os ingleses o temiam. Que ele tinha arrasado aldeias inteiras, assassinando mulheres e meninos. Contavam que, inclusive, tinha bebido algumas vezes o sangue de seus inimigos. O rei, Jacobo, tinhalhe em alta estima, entretanto, tinha posto preço a sua cabeça e aumentado a quantia em várias ocasiões. Parecia que McFersson fazia ouvidos surdos à ordem de pactuar uma aliança com alguns clãs para manter a paz. Josleen sabia, porque conhecia seu povo, que aquela recompensa podia ser um incentivo para um inglês, mas nunca para um escocês. Acima de tudo estava a raça. Podiam manter-se se enfrentando durante anos, mas se tratasse de lutar contra um invasor, todos os clãs podiam unir-se nessa causa comum. Tentou de manter-se erguida, mas o cansaço acabou por vencê-la. Um par de vezes ela despertou sobressaltada, com o calor do outro corpo agasalhando-a. Mas, finalmente, dormiu. Para o Kyle foi uma benção sentir que ela relaxava em seus braços. Tinha colocado-a com o James para acalmar um pouco o ardente desejo que ela despertava em seu corpo, mas a risada do James acabou por lhe pôr os nervos alvoroçados. Além disso, algo parecido ao sentimento de posse o fez recuperá-la. Agora, estava certo de Nieves Hidalgo

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ter cometido um engano, porque sua silueta suave voltava a lhe excitar. Fixou-se no seu rosto oval perfeito, em suas largas e espessas pestanas, em sua boca…. Era deliciosa. Como não se dera conta antes? E cheirava maravilhosamente, a essência de urze branca. Josleen suspirou e apoiou o rosto no seu ombro, mexendo sobre a cela. Kyle agarrou as rédeas com mais força. Seu corpo reagiu dolorosamente, mas suportou valentemente o sofrimento enquanto ela se esfregava, sem ser consciente disso, contra sua virilha. Kyle então se amaldiçoou e cravou o olhar no horizonte. Estava perdendo o controle, o que nunca lhe aconteceu até agora. Obrigou-se a pensar em outra coisa que não fosse ela e seus olhos voaram para as cores de seu tartán. Aquilo foi suficiente para esfriar o seu ardor. Ainda assim, o quanto antes eles chegassem ao Stone Tower, muito melhor para sua saúde mental.

Capítulo 17 Nieves Hidalgo

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Stone Tower era uma fortaleza impressionante, quadrada, rodeada de um muro exterior. A torre principal estava erguida no centro e a flanqueavam outras quatro, uma em cada canto. O grupo e as cabeças de gado ultrapassaram a muralha em silêncio enquanto eles atravessavam a aldeia interna, todos que passavam os observavam com interesse. Não era para menos. As cores dos prisioneiros os delatavam como inimigos. Josleen então se ergueu e olhou para frente, evitando mostrar-se intimidada. Mas uma coisa era ter sido refém em campo aberto e outra, muito distinta, encontrar-se na guarida do McFersson. Além disso, seu orgulho já tinha ficado bastante maculado, ao despertar recostada sobre o peito dele. Ainda assim, fixou-se no que via. Fora do espaço da muralha tinha visto várias cabanas que ocupavam o vale e parte da pequena colina. No interior devia haver, ao menos, outras sessenta moradias, contornando uma rua principal pela qual agora transitavam. Mantinha certa semelhança com os castelos ingleses. A curiosidade que aguçavam, proporcionou uma curiosa escolta de observadores até que chegaram a um amplo lugar de forma redonda, onde se encontrava a torre principal. Uma vez dentro, havia um pátio quadrado onde alguns homens praticavam com a espada e o arco e que, imediatamente esqueceram seu treinamento para aproximar-se. Logo que entrou, Kyle grunhiu: – Prendam-nos! Desceu do cavalo, estirou os braços, enlaçou o talhe de Josleen e a deixou no Nieves Hidalgo

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chão. Kyle escutou alguns murmúrios de admiração, mas fez ouvidos surdos. Lançou-lhe um olhar furioso e, dando meia volta, caminhou na direção de sua escolta. – Você, não! Engasgou ao escutá-lo. Voltou-se. – Não, gatinha – sussurrou, cravando nela seu olhar ambarino e aproximando-se. – Você não vai às masmorras. – Então, onde pensa aprisionar-me, McFersson? – Disse seu nome como um insulto. – Em minhas dependências…? Ela engoliu saliva. A muito clara alusão acendeu sua ira. Por Deus que não podia consentir que a humilhasse diante de todos! Tomou ar, fechou os punhos com força e lançou o soco. Ter as mãos atadas ajudou a potencializá-lo. Kyle recebeu o golpe no queixo e a surpresa o fez retroceder. Um estrondo de gargalhadas explodiu ao seu redor. O olhar de Kyle se transformou em ouro líquido, mas não disse uma palavra. Tocou a parte machucada e ela lamentou ter sido tão imprudente. Se for verdade tudo o que contam dele, pode muito bem lhe cortar a cabeça agora mesmo. Olhou-o com certa reserva, mas não cedeu um palmo de terreno. E se obrigou a não sair correndo quando ele voltou a aproximar-se. Embora tivesse sido melhor havê-lo feito. Ao menos, poderia ter salvado parte de seu orgulho. Não soube se foi como castigo, mas ele a agarrou e a jogou sobre o ombro, caminhando a seguir a longos passos para a entrada. Josleen escolheu os piores insultos que conhecia e o informou de cada um deles enquanto se sufocava com cada passada dele que a fazia ricochetear sobre um ombro Nieves Hidalgo

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de pedra. Kyle a deixou desabafar com prazer. Não fez nada para sossegar a fileira de impropérios, ainda que todos os que cruzavam com eles paravam a olhá-los, entre divertidos e assombrados. Atravessou o salão, logo uma galeria fresca, outro pátio quadrado com dezenas de vasos de barro e uma fonte, outra galeria… Kyle abriu uma porta com o ombro livre, entrou e a deixou cair de repente sobre uma cama. Livre, Josleen tratou de escapulir-se. Foi agarrada pelo cabelo e retornada à cama. – Maldito filho do diabo! –Gritou-lhe. – Fique onde está e evitará problemas. Obedeceu-o. Que outra coisa podia fazer! Continuar resistindo era tolice, porque estava desfalecida. Além disso, nem sequer sabia onde estava depois do labirinto de corredores pelo qual ele a conduziu de cabeça abaixo. Assim se acomodou na cabeceira e esperou. Kyle mexia numa arca situada na parede esquerda, sob a janela e ela aproveitou para dar uma olhada no aposento. Era um cômodo grande e pouco mobiliado. A cama, um par de arcas e duas poltronas frente à lareira. Algumas tapeçarias nas paredes e no chão o faziam acolhedor. Espartano. Mas agradável. Josleen franziu o cenho quando o viu aproximar-se com uma corda na mão. Antes que pudesse protestar, ele a passou entre as que ainda prendiam suas mãos e a deixou amarrada a armação da cabeceira. Apertou os dentes, reprimindo outra rodada de insultos e guardou silêncio enquanto ele procurava de novo na arca e retornava com um pedaço de pano. Ergueu as sobrancelhas. Será que pensava Nieves Hidalgo

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amordaçá-la? Tudo o que Kyle fez, foi colocar o pano entre a pele e as cordas, para evitar que continuasse machucando-a. Então, abriu a porta. – Vai deixar-me aqui? Kyle se voltou para olhá-la. Deixou de respirar. A claridade que entrava pela janela banhava seus cabelos convertendo-os em fogo. – Ficará aqui. – Prefiro ir com meus às masmorras. – E eu prefiro que fique aqui, mulher. E aqui ficará! – Não pode me manter em seu dormitório! Maldito seja Kyle McFersson! Juro que se meu irmão não lhe arrancar a cabeça com sua espada eu o farei! Olhou Josleen fixamente durante uns segundos que lhe pareceram horas. Depois, aproximou-se. Suas grandes mãos enlaçaram seu rosto, abaixou a cabeça e sua boca cobriu a de Josleen. O primeiro impulso foi mordê-lo. Mas algo crepitou em seu peito, como da outra vez. O sangue se tornou mais espesso, custava-lhe respirar. Ele o fazia tão bem, que desejava beijá-lo e beijá-lo e beijá-lo… Mas Kyle se distanciou e ela sufocou um suspiro. – Se alguma vez voltar a enfrentar-me com Wain McDurney, moça, será ele quem acabará sem cabeça. Disse-o com tanta convicção, que Josleen foi incapaz de replicar. Odiou-o. E o desejou. Aqueles dois sentimentos tão opostos lhe causaram uma terrível dor de cabeça e acabou amaldiçoando aos gritos o homem até que, rendida pelo cansaço e Nieves Hidalgo

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pelo pranto, dormiu.

Capítulo 18

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– Quem é ela, Kyle? O chefe do clã não tinha que dar explicações a ninguém. Sua posição social como líder não o obrigava a nada mais que prestar contas a cada determinado tempo diante do conselho de anciões. Era dono e senhor de fazer o que tivesse vontade, portanto, perguntá-lo não vinha ao caso. Mas nesse momento não se sentia como o chefe de nada e era sua mãe quem perguntava. Sentado à mesa, com seus irmãos, sua mãe e seu filho, de quatro e dos seus guerreiros de confiança, bem podia ser o momento de fazer concessões. Kyle respondeu distante. – Uma McDurney. Ela se retesou e o olhou com atenção. Iniciou um trote com os joelhos para entreter o menino e seus olhos, tão dourados como os de Kyle, refulgiu. – Uma McDurney. – Estará aqui até que Wain pague um resgate. – É algum familiar dele? – É sua irmã, mãe. – OH. – E uma bruxa – disse Kyle, passando o dorso da mão pelo queixo que ela golpeara com tanto acerto. James riu com vontades. – Mas é muito bonita. – Como todas as bruxas – resmungou Kyle. Nieves Hidalgo

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– O que aconteceu? Como conseguiu fazê-la prisioneira? – indagou o irmão caçula. James deu uma palmada no ombro de Duncan que quase o atirou da banqueta. – Nosso invencível irmão e também chefe, caiu prisioneiro dos McDurney. E foi essa moça quem o libertou – explicou, virando-se para todos e ganhando um olhar buliçoso. – De verdade? –Duncan parecia entusiasmado. Não imaginava o seu irmão resgatado por uma mulher – Vamos, Kyle, nos conte de uma vez! – Não há nada que contar – disse. – James tem uma mente criativa para os contos. – Mas se ela mesma o disse – contou o outro – Até lhe jogou isso na cara. – Onde foi, Kyle? – insistiu Duncan – E quando? Foi há alguns meses, quando retornou machucado por todo o corpo e um resfriado de mil demônios? Kyle suspirou. Era impossível lutar contra aqueles dois estúpidos quando decidiam lhe fazer frente comum. Tomou a taça que um dos serviçais acabava de encher e a esvaziou de um gole. – São tão chatos, que me tiram até mesmo as vontades de jantar. Explodiram em gargalhadas enquanto ele se levantava e se afastava. O menino sentado nos joelhos da mulher segurou James pela manga. – Meu papai esteve prisioneiro? James lhe sentou sobre ele. Acariciou seu cabelo dourado e lhe fez cócegas até que se revolveu entre risadas.

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– Esteve sim. Mas acredito que não vai confessar o nunca. No exterior, Kyle se sentou junto no muro e sorriu. No fundo, divertiam-no aqueles dois, mas não podia baixar a guarda ou logo seria incapaz de cumprir suas ordens. ***** Josleen estava morta de fome e sede. Fazia quase vinte e quatro horas que não provava alimento algum. Como se seus pensamentos tivessem chamado os seus inimigos à prudência, a porta se abriu e uma mulher de uns cinquenta anos, gordinha e de rosto corado entrou com uma bandeja que deixou sobre um arca. Josleen não disse uma palavra, mas a outra a olhou de cima abaixo e estalou a língua. – Não sei como vais comer com as mãos atadas. – Então, me solte – lhe pediu ela. A outra moveu a cabeça. – Não posso fazê-lo. – Por todos os infernos! – enfureceu-se Josleen, levantando-se puxando a corda. – Preciso também... Outras coisas – insinuou, com o rosto acalorado pela vergonha. – Tem um urinol sob a cama. E a corda é o suficientemente longa. – Não quero! – Ao seu gosto – encolheu os ombros. – Eu me restringirei a lhe trazer o que comer. O resto consegue com ele, moça. Não quero me meter. Nieves Hidalgo

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Josleen estava com água na boca. A comida cheirava deliciosa. Mas tinha outras necessidades. E não estava disposta a humilhar-se diante de ninguém usando o maldito bacio da noite. A teimosia, não a abandonou. Assim inclinou a cabeça quando a mulher lhe aproximou uma colherada de aveia cozida. – Não vou comer nada – disse, com o estômago pulando em mudo protesto. – Diga ao maldito McFersson. A faxineira olhou-a com interesse. Mas não seria ela quem iria se colocar em oposição às ordens do chefe, contudo entendia suas razões. Além disso, haveria outras dificuldades: quando Evelyna Megan soubesse que tinha uma moça nos aposentos do laird, mais valeria a todos desaparecer do Stone Tower. Encolheu os ombros, deixou a colher e pegou a bandeja. – Tem muito gênio. Mas ele tem ainda mais – avisou. – Se eu fosse você não o irritaria muito. – Tudo que puder – prometeu Josleen. ***** Devia ter acatado a advertência. Pouco depois, Kyle entrou na antecâmara com gesto azedo. Levava a bandeja nas mãos e a deixou de um golpe seco. Sua voz, rouca, a fez dar um salto. – Por que não quer comer? – Já sou adulta para que tenham que me alimentar. E parece que não vão soltarme. Quer que coma como os porcos? – Está bem – concordou. – A soltarei enquanto estiver aqui. – Também necessito uns minutos de privacidade. Nieves Hidalgo

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Kyle se ergueu. Sentiu que o rosto lhe ardia pela quentura. Não tinha se lembrado que ela precisaria…. Tirou uma adaga que levava no cinturão e cortou as cordas. Josleen teve que esforçar-se para seguir suas largas passadas sem cair de bruços. Cruzaram a galeria, desceram e atravessaram um pátio. Kyle entrou por um corredor estreito que acabava num quarto de uns cinco metros quadrados. Empurrou-a para dentro. Eram os sanitários, que davam diretamente para o exterior da fortificação. – Esperarei lá fora. Em Josleen, o rubor lhe subiu à cara. Fechou os punhos aos flancos e apertou os dentes procurando um pouco de calma ou acabaria por assassiná-lo com suas próprias mãos. Como o odiava. Ninguém podia ser tão desagradável. Nem tão besta! Ela terminou o mais rápido possível, temerosa de que ele se impacientasse e entrasse. Já era humilhação suficiente que estivesse aguardando lá fora. Quando saiu, não pôde nem olhá-lo na cara. Kyle voltou a arrastá-la pelo corredor. Ao cruzar o pátio, Josleen deu um puxão e se soltou, ajoelhou-se junto à pequena fonte e lavou as mãos e o acalorado rosto. Secou-se com seu próprio tartán. – Agora sim McFersson, eu irei jantar. Tinha que ser imaginação pensou Kyle. Aquela criatura frágil e delicada tinha mais topete que muitos de seus guerreiros. Mas ele se encarregaria de abaixar-lhe a crista. Voltou a segurá-la de novo e Josleen continuou dando tropeções. Eles não retornaram ao quarto, ele a levou ao salão. Estava vazio, salvo pelos serviçais que trabalhavam em recolher as mesas montadas sobre cavaletes. Kyle a obrigou a sentar-se no extremo de uma mesa, junto à lareira acesa e pediu a um dos criados que trouxesse comida. Nieves Hidalgo

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Kyle se afastou, acomodando-se em um tamborete, no outro lado do salão, talvez para lhe proporcionar alguns minutos de placidez e tranquilidade enquanto jantava. Ela se esqueceu de sua presença e se dedicou a comer. Ele a observava de tempo em tempo. Outra pessoa, depois de ficar tanto tempo sem se alimentar, teria atacado a comida. Mas não ela. Pegava cada porção com delicadeza, como se estivesse satisfeita e só bicasse seu prato. Também bebeu com prudência. Quanto mais a olhava, mais bonita lhe parecia. Grunhiu. Seria muito complicado que ela vivesse sob o mesmo teto que ele até que Wain McDurney aceitasse suas condições.

Capítulo 19

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Não voltou a amarrá-la quando a levou de novo ao quarto, apesar de deixá-la sozinha. Josleen aguardou inquieta por sua volta, perguntando-se o que aconteceria então. Afinal de contas, estava em seu quarto. Depois de muito esperar, decidiu-se a abrir a porta. E se encontrou com o áspero olhar de um guerreiro alto e forte que montava guarda. Então, compreendeu por que não a amarrou. Não havia forma de sair dali. Mas o que passaria quando ele retornasse? Se tentasse forçá-la, iria matá-lo. O tempo transcorria e Kyle, entretanto, não dava sinais de vida. Irritada, sentindo-se como uma cabeça de gado à espera do sacrifício, pegou uma manta, estirou-a perto da lareira e se deitou sobre ela. Por nada do mundo dormiria na sua cama! Enquanto isso, Kyle elaborava seu plano para retê-la sem ter que lutar com os guerreiros de Wain às portas de sua fortaleza. Ao clarear o novo dia, já organizara o suficiente. Mandou chamar um de seus homens e este partiu imediatamente para o Durney Tower… vestido com as cores do clã McCallister. O amanhecer encontrou Josleen tremendo de frio. Acordou com o som do chacoalhar de seus dentes e uma insuportável dor nas costas. No primeiro momento, não soube onde se encontrava. Depois, recordou. Com um palavrão nos lábios se levantou e esfregou os braços. Aproximou-se da janela. A atividade na fortaleza começava: homens e mulheres iam e vinham em seus afazeres diários. Sentou-se na beirada da cama e apoiou o queixo nas palmas das mãos. O que iria fazer? Seu desaparecimento causaria um rebuliço e muita preocupação. Kyle pediria resgate. Mas Wain, com segurança, não se conformaria e enviaria seus guerreiros para Stone Tower. Será que McFersson queria uma guerra? Não sabia que Wain seria capaz de mover céu e terra para resgatá-la? Nieves Hidalgo

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A porta se abriu de repente e Josleen retrocedeu por instinto. Kyle a olhava com um sorriso e ela pôde ver o corpo do guarda atrás dele. Isso a reconfortou em parte: o pobre desgraçado tinha estado toda a noite de vigília. Onde pensavam que poderia ir? Kyle se irritou ao ver a manta no chão. Aproximou-se, pegou-a e a lançou sobre o colchão. – Por que diabos, você torna tudo mais desagradável? Josleen abriu a boca. Ela tratava de…? – Tolo – resmungou. – Queria acaso que dormisse em sua cama? Uma rajada de desejo o invadiu ao imaginar. – Por que não? – Mas que pergunta tão tola. – Não a incomodei, verdade? – Certamente, meu senhor. Mas poderia tê-lo tentado. E tenha por certo que não teria me encontrado em seu leito. Kyle suspirou. Sentou na cama e tirou as botas, que provocaram um ruído surdo ao cair. Levantou-se e tirou a jaqueta. Josleen abriu os olhos imensamente. Por Deus, ele estava se despindo e ela tinha que sair dali! Uma estranha sensação se alojou na boca de seu estômago, recordando sua pele, seu tato, tão suave como o veludo. Nem por sombra desejava rever aquele corpo imponente e másculo! Seu rosto se tingiu de carmim. Deu-lhe as costas, porém tensa e atenta, se por acaso lhe ocorresse aproximar-se dela. Sua risada a obrigou a voltar-se. E sufocou. Tudo que o cobria era seu kilt. Seu poderoso corpo voltou a intimidá-la e notou que Nieves Hidalgo

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sua boca secava. Retrocedeu um par de passos, para a porta. – Aqui todos fazem algo, moça – disse, como se não percebesse sua reação. – E você terá seus afazeres, como os outros. Ela recuperou a fala, embora a voz lhe saísse como um gemido. – O que supõe que devo fazer? Esquentar sua cama? A gargalhada deixou-a perplexa. – É uma ideia. – Meu irmão o matará. – É possível. – Além disso, no tempo de um suspiro ele se apresentará aqui com todos seus homens. Veremos então se persisti o seu bom humor! Kyle abriu uma arca e tirou uma jaqueta curta, botas de pele e também uma capa. Convenientemente vestido, cruzou o quarto sem responder a aguilhoada, abrindo a porta. – Ouviu-me, maldito rufião? – Gritou ao ver que ele tinha intenção de partir sem nenhuma explicação. O guerreiro que estava de guarda nem se alterou pelo insulto ao seu chefe. Kyle, entretanto, voltou-se e disse: – Seu irmão não virá, moça. Não sabe que está aqui. – Saberá. Seguirá os rastros da aldeia em que nos capturaram e... – calou ao ver que ele negava. – Josleen McDurney, as coisas estão assim: nesta madrugada um dos meus Nieves Hidalgo

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guerreiros saiu para suas terras. Seu irmão receberá a mensagem de que você chegou salva na casa de Ian McCallister. Envia-lhe abraços de sua mãe e de seu marido. Josleen sentiu que enjoava. – Como sabe que...? – Um de seus homens, o chamado Verter, me contou tudo. É um poço de informação, sabe? – Mentira! – então se ergueu e quis golpeá-lo, mas Kyle a deteve segurando-a pelas mãos até que enfim ela, desanimada, parou de debater-se – Não acredito – disse entre soluços. – Verter não é um traidor e jamais lhe diria nada que... – E não é, Josleen. Eu não lhe disse que era um traidor. Ou sim? –Olhou-a com os olhos transformados em lagos, e ele esteve a ponto de ceder ao impulso de beijá-la. – Eu gosto de ser sutil quando a ocasião requer. Só foi preciso uma pequena ameaça para que falasse. – Verter não se renderia nem que o pendurasse. – Não – Kyle estalou a língua. – É um homem duro. Acredito que tem um par de hematomas que podem demonstrá-lo – ela lançou um gemido ao saber que o tinham machucado. – Não se preocupe, não é nada sério. Mas não ameacei a ele, e sim a você. Confusa, deu um puxão e se soltou, pondo distância entre ambos. Seus olhos brilhavam, mescla de medo e fúria. – O que lhe disse para que falasse? Kyle deixou escapar todo o ar de seus pulmões. De relance, deu uma olhada ao Nieves Hidalgo

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guarda. Não tinha analisado bem à moça, deveria sair rapidamente, porque não queria que aquela gata lhe marcasse o rosto. – Que a desceria às masmorras, iria despi-la e a açoitaria enquanto obrigava a todos a vê-lo. Ficou atônita. O tempo suficiente para que Kyle saísse e fechasse a porta. Só um segundo antes que ela finalmente se jogasse contra a porta gritando impropérios.

Capítulo 20

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Cansada de dar voltas pelo quarto e aparecer um montão de vezes na janela e dizer todos os insultos que conhecia se deu por vencida. Não ganharia nada se exaltando já que ele nem sequer estava ali para escutá-la e o tipo que fazia guarda parecia surdo. – Claro. O guarda... – sussurrou de repente. Pediria para aquele energúmeno que a vigiava, para ver o James McFersson. James não era como seu irmão e talvez conseguisse que intercedesse para que aquela loucura não acabasse num banho de sangue. Abriu a porta e se surpreendeu. Não havia ninguém. Colocou a cabeça e olhou de um lado e do outro da galeria. Nenhuma viva alma. Nervosa, voltou a fechar e se sentou na cama. Tinham-na deixado sem vigilância? Por quê? O que pretendiam? Talvez, pô-la a prova. E se tentasse escapar, o que fariam? Matariam a sua escolta? – Porco! – Disse sussurrando. Nesse momento a porta se abriu. Ela pensou que era Kyle, lançou-se para o atiçador da lareira e o esgrimiu ao jeito de espada. Uma cabecinha loira como o ouro apareceu com precaução. E uns olhos grandes de cor âmbar percorreram o quarto até descobri-la. Josleen largou imediatamente o atiçador. O menino era demais parecido com um anjo. Malcom fixou seu olhar nela. O medo o fazia notar algo parecido como rãs pulando em seu estômago, no entanto estava disposto a demonstrar a todos que ele não temia ninguém. Tampouco uma bruxa. Se seu pai a tinha capturado, ele bem podia fazer uma visita. De modo que, criando coragem, acabou por entrar e fechou a Nieves Hidalgo

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porta, ficando apoiado na madeira. Tremiam-lhe ligeiramente as mãos e as escondeu nas costas. Não se moveu da porta; já demonstrava ser um valente ao entrar ali, onde se encontrava a bruxa, e também não era ocasião de se arriscar mais do que o prudente. Observou-a atentamente, inclinando ligeiramente a cabeça. Não se parecia em nada às bruxas das histórias que James, Duncan e a avó lhe contavam. Aquela era jovem. E muito bonita. Seu comprido e sedoso cabelo loiro com reflexos avermelhados lhe caía pelas costas e os ombros. E seus olhos, tão azuis como os lagos, ele gostou dela. Malcom sabia que as bruxas exerciam seu poder sobre os mortais por meio de seu olhar. Mas ela continuava sem lhe parecer perigosa. – E você quem é? A pergunta o fez dar um salto e se encostou mais na porta. De repente se dava conta de que podia estar metido numa confusão. – Como se chama? – insistiu Josleen. – Não vou lhe dizer isso, falou muito baixinho. Por certo que não iria lhe contar o seu nome. Aquela feiticeira imaginava que ele era tolo? Se souber seu nome poderá lhe lançar um feitiço. No entanto de repente, a bruxa pôs-se a rir e ele sorriu também,Malcom avançou um passo relutante. Era agradável ouvi-la rir. Agradável e reconfortante. Uma risada muito diferente de todas, que soava como uma cascata. – Por que você não quer me dizer como se chama? Eu me chamo Josleen. – Vamos, venha aqui. Não vou comê-lo, jovenzinho. Nieves Hidalgo

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Malcom retrocedeu um passo. – Proibiram-no de entrar aqui? Porque estou certa de que não tem medo – disse, tentando ganhar sua confiança. – Vá, um McFersson não pode ser um covarde, verdade? Foi à conta. Malcom se aproximou com o queixo altivo. – Não sou nenhum covarde. – Isso imaginava. Proibiram-no de vir? – Não. Josleen encolheu graciosamente os ombros e agradou ao Malcom o seu sorriso. – É uma bruxa? Josleen ergueu as sobrancelhas. Aqueles olhos dourados refletiam decisão e um pouquinho de temor. Eram tão parecidos com os de... – Por que me pergunta isso? Disseram que sou uma bruxa? – James o disse. – James? Vá! – Bom... – Malcom decidiu que não se aproximaria mais. – Na realidade, foi papai quem o disse, se bem que não nos contou que poder tem. James não o negou, mas acrescentou que era bonita. Logo acredito que papai murmurou algo assim como que sim, que era certo, mas que enfim era uma bruxa. Não sei, às vezes não entendo as conversas dos adultos. É ou não? Josleen mordeu o lábio inferior para não rir. – Não, carinho. Não sou uma bruxa. Só sou uma inimiga de seu clã. Nieves Hidalgo

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Malcom a olhou com reservas. – Realmente não o é? Não pode voar ou transformar os meninos em rãs, fazer que um homem desapareça ou um cão...? – Não, sinceramente. Vá! Nunca pensei que as bruxas tivessem tantos poderes. O menino estalou a língua e franziu o cenho. Mas ele parecia estar desencantado por ela não possuir terríveis poderes maléficos. – Tinha pensado demonstrar ao meu pai que era valente. – Por visitar uma bruxa? – Claro. Nem todos os meninos se atreveriam. – É obvio que não. Até agora, não conheci ninguém tão valente como você. Mas enfim está falando com uma inimiga. Uma inimiga que lhe disse o nome e que continua ignorando o seu. O menino sorriu. – Malcom. – O nome de um grande guerreiro. – Serei algum dia. Isso papai diz. – Ele disse que eu era uma bruxa? – Claro. Josleen se sentou na beirada da cama e bateu no colchão, lhe convidando. Malcom acabou por ceder e se acomodou, embora à distância. – E me diga, Malcom... Não teme que possam lhe castigar por falar com o Nieves Hidalgo

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inimigo? – Nunca vi um inimigo. Todos os inimigos de meu papai são como você? – Nem todos, – aquele pirralho era um encanto. Vivaz, direto, inteligente. – Como são os outros inimigos? – Malcom... Ninguém lhe explicou nada a respeito? – Não. Papai sai às vezes para fazer incursões. Mas não me leva e nunca vi um. Bom, agora conheço você. Mas não parece tão terrível. – Tá. Josleen se armou de paciência. Recostou-se sobre um cotovelo e esteve a ponto de soltar uma risada vendo que ele a imitava. – Veja Malcom. Os adultos fazem coisas estúpidas muitas vezes, como viver em conflito. Mas um inimigo não é mais que uma pessoa com interesses diferentes. – E não são feios ou algo assim? – São como você, como James, e como seu papai e sua mamãe. Pelo olhar do menino atravessou uma nuvem de pesar. – Minha mamãe partiu – disse. – Partiu? – Morreu ao meu nascimento. – OH, céu, sinto muito! – aproximou-se dele e o abraçou. Malcom não resistiu. – Não sabia. – Não podia sabê-lo, não vive aqui. Você tem mamãe? Nieves Hidalgo

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– Sim – disse em um fio de voz. – É tão bonita como você? – Mais bonita, Malcom – sorriu. – Não lhe amaldiçoou ao morrer? Josleen se enrijeceu. – O que? – Minha mamãe o fez. – Mas… – Ouvi papai falar, quando conversava com o James e tinha bebido – lhe contou. – Não sabe que eu sei. Papai não está acostumado a beber, sabe? Mas às vezes, quando se lembra da mamãe, cavalga e não deixa que seus homens o acompanhem. Tio James e tio Duncan dizem que é perigoso sair sem escolta, mas eu acredito que ela lhe faz falta. Sofre muito quando se lembra de mamãe. E quando eu lhe pergunto algo sobre ela... – faz uma carranca, – me olhe de modo estranho e não responde. Nesses momentos, temo-o. – Santo Deus... – gemeu Josleen. Abraçou-o mais forte, notando um nó na garganta. Como podia alguém ser tão cruel com aquela criatura! – Eu acredito que papai me quer, menos quando pergunto por ela. – Pois claro que seu pai te quer! – Confirmou, projetando sua raiva contra aquele sujeito sem sentimentos. – E sua mãe também lhe queria! Malcom a olhou, esperançoso. – De verdade? Nieves Hidalgo

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– Estou segura. – Mas ele dizia a tio James que ela odiava a nós dois e por isso morreu nos amaldiçoando. Algo se rasgou no peito de Josleen e uma repentina ternura para o menino a embargou. Revolveu seu dourado cabelo, sorrindo com esforço. – Veja, Malcom – disse, pondo cuidado em suas palavras. – Às vezes, a dor faz com que as pessoas digam coisas que não sentem. Trazer um menino ao mundo é muito difícil e certamente sua mamãe sofreu muito. Por isso disse essas coisas. Mas não o deve levar em consideração. Se ela não tivesse lhe querido realmente, você não teria nascido. Compreende o que quero lhe dizer? Malcom assentiu. – Não duvide nunca do amor de sua mãe, Malcom. Esteja onde estiver ela continua lhe querendo e velando por você. Meu papai também morreu, faz muito tempo, mas eu sei que continua cuidando de mim lá do Céu. – Então, por que está prisioneira? Por que a trouxe aqui meu pai? Não estava o seu a lhe proteger? – Bom, há coisas que nem os pais podem remediar, mesmo estando vivos... – emudeceu de repente e olhou o menino com os olhos arregalados – Seu pai? Seu pai foi quem me trouxe para o Stone Tower? – Pois claro. Papai e o tio James. – OH, Deus! Josleen se levantou e passeou nervosamente pelo quarto. Fixou seu olhar no menino. Como não se dera conta? Por todos os céus, era a viva imagem de Kyle Nieves Hidalgo

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McFersson em miniatura! A mesma cor de cabelo, os mesmos olhos... Deixou cair os ombros. – Malcom, eu acredito que deve partir. – Acreditei que nos estávamos ficando amigos. A vozinha dele a fez sentir-se culpada. – E já o somos, pequeno. Mas seu papai não gostará de lhe encontrar aqui. – Quase nunca venho – encolheu os ombros. – Ele sempre está muito ocupado para me atender. É o chefe do clã e tem muitas obrigações. Isso diz tio James. Também tio Duncan. Com eles sim jogo às vezes. Mas não com papai. Josleen engoliu saliva. Estava lhe partindo o coração, porque ele estava lhe fazendo confidências que ela não desejava conhecer. A necessidade de carinho aflorava em cada frase. – Sim, seu pai deve estar muito ocupado com suas obrigações. Deve velar pela segurança e o bem-estar de muita gente. – Mas eu gostaria de passar mais tempo ao seu lado. Eu apenas o vejo – disse Malcom. – Outros meninos saem para caçar com seus pais e se banham no lago quando faz bom tempo. – Estou segura de que a seu pai adoraria fazer isso mesmo, carinho – lhe beijou na bochecha. – Deve lhe dar um voto de confiança. – O que é isso? – Um pouco mais de tempo. E quando for o momento oportuno falar com ele e lhe dizer o que pensa.

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– Isso não é fácil. É o chefe e não devo estorvá-lo. Minha avó me repete isso frequentemente. – Por Deus! –Gemeu de novo. Em que casa de loucos estava? Malcom se levantou de um salto. Deu um largo sorriso e disse: – Gostei de conversar contigo, mesmo que não seja uma bruxa, Josleen. E poderei contar aos outros que estive falando com uma inimiga! – resmungou – Será que… irão crer em mim? Josleen lhe deu de presente um sorriso. – Se não o fizerem, que venham para ver-me, se forem capazes. Embora duvide que sejam tão valentes. Certamente ficarão em suas casas, tremendo apenas de pensar. Malcom explodiu em gargalhadas e correu para a porta. Josleen se encontrou sorrindo, como uma boba. Mas logo após, a irritação franziu seu cenho. Santo Deus! Onde tinha ido cair? Uma casa onde um menino estorvava. Kyle McFersson carecia de bons sentimentos? Como podia excluir seu próprio filho de sua vida? Deixou-se cair sobre a cama, cravando o olhar nas vigas do teto. Se ela pudesse fazer algo para que Malcom fosse feliz...

Capítulo 21 Nieves Hidalgo

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Era meio-dia quando a porta voltou a abrir-se. Até então, Josleen só tinha recebido a visita de uma criada que a acompanhou para fazer suas abluções matinais. E estava com gênio de mil diabos. Necessitava um bom banho e trocar de roupa. E tinha renegado um milhão de vezes o maldito McFersson. Ela gostaria de lhe arrancar os olhos ou lhe marcar com as unhas e… A cabeça de Kyle surgiu e ela, ao lhe ver, atirou-lhe o atiçador. Ele o evitou colocando-se ao lado e a arma atravessou o vácuo da galeria e caiu ao pátio, ricocheteando antes na pedra do corrimão. Abaixo, alguém protestou asperamente e a ela sustou a respiração. Passou ao lado de Kyle, empurrando-o, e saiu, rezando para não ter ferido ninguém. James olhava para cima com o atiçador na mão. – Vá, minha senhora! – disse-lhe – Acreditei ter me comportado de modo cavalheiresco com você durante a viagem. Este é o meu pagamento? Quer me matar? Josleen desejou desaparecer. Estivera a ponto de matá-lo! Ficou vermelha como o grão. – Sinto muito. De repente, James se pôs a rir, confundindo-a. – Imagino que era um presente para o mulo que têm ao seu lado. Josleen sentiu a presença de Kyle junto dela e ficou tensa. – Imaginou perfeitamente, James. É uma lástima que tenha errado o disparo. Kyle a segurou pelo braço e a empurrou para o quarto, enquanto as gargalhadas do James ressoavam em baixo. Josleen virou-se para enfrentá-lo e se perguntou o Nieves Hidalgo

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que viria agora. Ele a olhava pouco amistoso. – Pensei que os McDurney tivessem mais miolos. Desejava me matar? – Teria me conformado abrindo uma boa brecha nessa cabeça dura que tem. Kyle não disse mais nada, mas a atenta inspeção dele provocou-lhe falta de ar. Moveu-se para o lado quando ele se aproximou um pouco temerosa. Mas ele começou a despir-se. Seu rubor se tornou tão visível que a irritou. Maldito fosse! Onde estava sua decência? Dando-lhe as costas, aproximou-se da janela. Kyle a olhava de tempo em tempo enquanto se trocava. Que diabos ele achava que estava fazendo? Ou cedia o quarto para ela e ocupava outro cômodo, ou a trancava no outro extremo da fortaleza. Contrariamente, ela estava ali e ele tinha passado a noite no curral. Alguém chamou e ele permitiu a entrada. Entrou um homem arrastando um pequeno baú. Josleen deixou escapar uma exclamação ao reconhecê-lo. Era seu baú! Suas roupas! O sujeito o deixou perto da janela e desapareceu. Josleen se aproximou, abriu-o e começou a avaliá-lo. – Não falta nada! – Rugiu Kyle. Deu um pulo e se voltou para olhá-lo. – Creio que não – sussurrou. – Só procurava algo para me trocar. – Em seguida saio – grunhiu ele. Pelo canto do olho o viu pegar uma camisa noturna. Estava muito zangado. Talvez não fosse para menos. Tinha metido os pés pelas mãos, e percebeu seu engano. Kyle tinha mandado trazer seus pertences e tinha lhe atirado o atiçador. Sua mãe a educou para reconhecer suas faltas, de modo que se desculpou. Nieves Hidalgo

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– Lamento que antes… – falhou sua voz. Kyle arqueou uma sobrancelha. O rubor em suas bochechas o fez sentir alvoroço no peito. – Comeu algo? – Sim. Obrigado. Kyle acabou de guardar suas coisas em completo silêncio. Ao abrir a porta disse: – Já notou que não há guarda – ela assentiu, sem olhar. – É livre de ir e vir pelo Stone Tower ao seu prazer. Mas espero que não arrisque a vida de seus homens, porque qualquer tentativa de fuga eles que pagarão. Então, duas lagoas azuis e geladíssimas lhe atravessaram. – Não penso fazer nada que os ponha em perigo, McFersson – ela prometeu. – A vida deles é muito valiosa para mim, porque são meus amigos. – Então, conto com sua palavra? – Tem-na a esse respeito. Mas não se confunda e acredite que me derrotou. Aguardarei a que se ponha em contato com meu irmão para falar sobre meu resgate. Porque o fará, verdade? Significa uma boa soma para ti. E espero que não signifique uma guerra. Quando lhe mandará o recado? – Quando achar conveniente. – Quanto antes, McFersson – exigiu. O olhar de Kyle foi tormentoso. – Praga… farei quando achar conveniente, moça. Seu tom não deixava lugar para discussão e Josleen preferiu ficar em silêncio. Nieves Hidalgo

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Não podia fazer outra coisa além de esperar. A astúcia de Kyle fazer Wain acreditar que ela chegara às terras do Ian McCallister não podia ser mais que isso, uma artimanha para que seu irmão pagasse o que lhe pedissem. Afinal de contas, tudo se tratava de tirar melhor partido de seu sequestro. Irritava-a, mas não podia culpá-lo por tentar tirar vantagem. Wain teria agido do mesmo modo. De fato, essa tática foi à mesma que usou quando sequestrou Sheena, decidido a exigir concessões aos Gowan. No entanto, sua cunhada lhe roubou o coração e quando Wain se encontrou com o clã da Sheena não exigiu resgate algum, e sim a celebração de suas bodas, que acabou com a inimizade entre os clãs. Ao ficar a sós, Josleen procurou no baú. Escolheu um vestido azul pálido, despiuse e se trocou. Estava mais que farta de permanecer ali e já que o próprio McFersson lhe concedera a sua liberdade, aproveitaria a boa disposição de seu carcereiro. O que primeiro pensava fazer era saber em que fedorento buraco eles tinham confinado os homens de Wain. Jurou pelo mais sagrado que se os encontrassem em deploráveis circunstâncias, ou feridos, Kyle saberia o que era o caráter dos McDurney.

Capítulo 22

Tornou-se muito fácil averiguar o lugar em que se encontravam os prisioneiros. Uma mulher indicou a parte direita da torre principal, embora isso fosse depois de Nieves Hidalgo

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olhá-la de cima abaixo, como se tivesse pintada. Atravessou o pátio e empurrou uma pesada porta. Era uma passagem comprida que descia às entranhas da terra, iluminada por tochas engastadas ao muro. Não encontrou guardas e caminhou com passo decidido, ainda que conforme entrava o aroma de umidade atacava suas fossas nasais, encontrava-se mais tensa. Chegou a uma sala ovóide. Ali havia dois sujeitos. Um deles estava sentado depois de uma mesa montada sobre cavaletes. O outro, ao seu lado, sustentava uma pilha de bandejas vazias onde se amontoavam cuias e algum pedaço de pão. Ambos a olharam em silêncio e o que estava sentado se levantou. – Senhora? – Quero ver os prisioneiros. Por um momento, acreditou que não a tinham entendido, porque ficaram olhando-a como uns estúpidos. Josleen repetiu seu pedido. Eles continuaram sem responder. E ela começou a irritar-se. Agarrou uma das terrinas e a ergueu na altura da cabeça. Talvez um bom golpe fizesse compreender. – Donald, abre a porta. Josleen lançou uma imprecação, jogou a terrina com força sobre a mesa e se voltou. – Acreditei ter entendido que era livre para ir e vir a meu desejo, McFersson. Está-me seguindo? – Não me ocorreu que queria vir aqui – grunhiu. – Se soubesse, teria avisado-os. Nieves Hidalgo

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Graças a Deus, parece que cheguei a tempo de evitar que lhes abra a cabeça. A brincadeira foi acolhida com humor pelos carcereiros. Olhou-o soltando faíscas. – Donald, abre essa porta antes que tenha que lhe costurar a cara – advertiu Kyle, com um ar de risada na voz. – Uma McDurney nunca faz ameaças vazias. Josleen se mordeu a língua. O sujeito tirou uma réstia de chaves e abriu o acesso às celas. Não tinha percorrido um metro quando Kyle a segurou pelo braço, fazendo que caísse sobre seu peito. No mesmo instante, um grasnido a sua direita a fez escoicear. Ele riu baixinho junto a sua orelha e uma onda de calor a encharcou da cabeça aos pés. – Aqui não só estão seus guerreiros, Josleen – explicou Kyle, conduzindo-a ao seu lado, longe das grades das masmorras – Também existem assassinos. Se qualquer um deles pega seu lindo pescoço, tenha certeza que o quebrariam. Josleen não disse nada. Dissimulou-o, mas estava assustada. As grosseiras saudações com que a recebiam, intimidaram um pouco. E o aroma era nauseabundo. Apertou os dentes, pensando que seus amigos estavam ali encerrados. Atravessaram uma sala pequena de alto teto e Kyle empurrou uma porta que dava a outra galeria. A mudança foi assombrosa. No teto se abriam claraboias por onde entrava a luz e não cheirava a urina, ainda que tampouco a rosas. Kyle a soltou e ela compreendeu que ali não corria perigo. Ele pôs-se a andar e o seguiu. Um minuto depois, Kyle parou e se colocou ao lado. Havia uma única porta e Josleen se aproximou. Chamou a seus amigos, sentindo as lágrimas lhe rodar pelo rosto. Nieves Hidalgo

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Um rugido e movimento de corpos e as vozes misturadas de vários homens que se amontoaram contra a grade. – Verter! Norman! Dillion! Estão bem? Todos quiseram falar de uma vez. Josleen tentou ver a todos e colocou a mão entre as grades, rindo e chorando ao sentir o contato de várias mãos que seguravam a sua. Kyle a arrancou dali. – Não! – resistiu Josleen, pensando que iria levá-la e não poderia falar com os seus. – Me Solte! Bastardo! Incendiado pelo insulto, colocou-a de lado e apontou o dedo. – Continue me ofendendo, mulher, e acabarei por lhe esquentar o traseiro antes de pedir resgate ao seu irmão. A ameaça foi ouvida pelos soldados de Wain e vozes iradas se ergueram a um só tempo. Entre elas, a de Verter. – Se toucar um só cabelo, McFersson, eu arrancarei seu coração e suas tripas e os deixarei secando-se ao sol! Josleen o viu apertar os punhos contra os quadris e soube que sua cólera estava a ponto de explodir. Entretanto, para seu assombro, Kyle tirou uma chave de seu cinturão e abriu a cela. – Deem um só passo em falso e ela sairá daqui. Sua voz retumbou nas profundidades das masmorras. Os homens de Wain retrocederam com precaução, mas seus sorrisos ao ver a jovem fizeram com que a Josleen explodisse em soluços. Kyle não compreendeu seu repentino arrebatamento Nieves Hidalgo

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de fragilidade. – Pensei que era o que queria – reclamou. O olhar de agradecimento que recebeu daqueles olhos azuis lhe tirou o fôlego. Nunca a vira desse modo. – Assim é – concordou ela. – Então por que demônio chora? Josleen sorriu e secou as lágrimas. Em seguida, entrou na cela e as várias perguntas a aturdiu, enquanto escutava a porta fechar a suas costas. Verter a envolveu entre seus braços de urso, fazendo-a sumir. O resto quis também certificar-se que estava bem e não tinha sido maltratada. Ela procurou sinais da tortura no rosto de Verter, o capitão de seu irmão. De fora, Kyle não perdia nenhum detalhe, observando cada movimento como um lobo em zelo. Não estava seguro de ter agido com prudência deixando-a entrar sozinha na cela, mas a repentina necessidade de que ela não o visse como um monstro ganhara da lógica. Agora se perguntava se não estaria procurando um problema. Depois de acalmar a sua escolta, Josleen deu uma olhada à cela. Era ampla. Duas janelas gradeadas situadas a boa altura deixavam entrar suficiente luz e calor. Havia camas de armar e uma larga mesa montada sobre cavaletes; sobre ela, ainda ficavam restos da última comida que lhes tinham proporcionado. Acomodou-se sobre os joelhos daquele gigante moreno e forte como um touro e ele a abraçou como a uma criança. Verter sempre a tratou como se fosse sua própria filha e a adorava apesar de seus toscos modos. Josleen confiaria sua vida a aquele guerreiro sem duvidar um segundo. Nieves Hidalgo

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Kyle se irritou ao ver a familiaridade com a que ela abraçava a aquele urso. Quem era aquele tonto para mantê-la sobre seus joelhos? Um familiar? Um amante? Uma repentina veia de ciúmes se apoderou dele. Sacudiu a cabeça e raciocinou que ela, realmente, deveria ser uma bruxa, porque ele se sentia como se lhe tivessem jogado um malefício. – Quebrarei os braços desse bode! – resmungou entre os dentes, assombrandose imediatamente de sua falta de controle. Obrigou-se a relaxar e se afastou ligeiramente da cela. Mas a súbita gargalhada de Josleen o obrigou a lhes prestar de novo atenção. Viu-a acariciar a cara do urso e apertou os dentes. A fúria estava varrendo seu raciocínio, do que sempre fez bom uso. – Bateram em você, Verter? – Escutou-a perguntar. Um silêncio opressivo ocupou a cela. Ninguém se moveu e Verter baixou o olhar. – Sinto – disse Verter. – Não tive outro remédio além de contar a esse filho de cadela tudo que queria saber. – Contou-me isso, – assentiu ela. – Bom, não importa. Preocupava-me mais que estivessem todos bem. Pensei que poderiam ter lhes torturado. Kyle amaldiçoou de novo baixinho. Que espécie de monstro ela acreditava que era? – Só recebi um par de golpes. Embora tivesse preferido que me cortasse o pescoço antes de escutar o que nos disse. Realmente, acreditamos que iria fazê-lo. Chicoteá-la – ergueu o punho fechado para a porta. – Que o demônio leve a esse condenado McFersson! Josleen lhe sorriu. Nieves Hidalgo

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– Também eu o teria acreditado – lhes disse em tom muito baixo, para evitar que Kyle escutasse a conversa. – Mas acredito que sua selvageria não é mais que uma fachada. Ladra muito, mas me devolveu meus vestidos e sou livre para perambular pela fortaleza. Nem sequer tenho guarda na porta de seu quarto. O súbito pulo de Verter a fez saltar. – Filho de uma cadela! Onde diz que ele está? Josleen avermelhou então até a raiz do cabelo. – Não aconteceu nada – sussurrou. – Mas vale! Ouça-me, maldito McFersson? –Gritou a pleno pulmão e Josleen se encolheu – Se você se atrever a manchá-la, eu o matarei com minhas próprias mãos! – Verter, pelo amor de Deus... – Ele há...? – Já lhe disse que não aconteceu nada – respondeu vermelha de vergonha sob o atento olhar de todos. – Nem sequer dormiu ali. – Matá-lo-ei! – Verter se acalme, por favor. – Só digo que... – Já sei o que quer dizer – o cortou. – Para isso não precisa nos deixar a todos surdos. Ele tem um ouvido excelente, sabe? E estou segura de que entendeu sua... Insinuação. – Se acontecer de lhe tocar, menina... – Já sei Verter. Irá matá-lo – suspirou. – Mas teria que esperar sua vez, porque eu Nieves Hidalgo

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o faria antes. Vamos me fale de vocês. Eles os tratam bem? Comem o suficiente? – Não se pode dizer que isto seja um paraíso – disse alguém, – mas não nos trataram mal. – Pedirão um resgate, de modo que não devemos nos preocupar. Sairemos muito em breve para o Durney Tower. – Um minuto nas terras dos McFersson já é um século, moça – voltou a grasnar Verter. Kyle deixou que o encontro se alongasse um pouco mais. Logo, apareceu na grade e ordenou: – Suficiente moça. Saia agora. Josleen o olhou através da grade e franziu o cenho. Gostaria de passar mais tempo com seus camaradas. Verter a reteve pela cintura quando já se levantava e dirigiu ao seu inimigo um olhar desafiador. – Por que não entra você para levá-la se você se atreve, demônio? Escutaram uma maldição sufocada. E no segundo seguinte a porta se abriu. Os homens do clã McDurney se moveram de uma vez, levantando-se e tomando posições. Josleen se espantou. O que acontecia com todos eles estavam loucos? E quanto ao Kyle... Era pior que todos eles! Seus amigos desejavam escapar e aquela porta aberta era um claro convite a fazê-lo. E ele? Será que não via o perigo? Se sua escolta o agredisse, não melhoraria sua situação, porque escapar das masmorras não significava sair de uma fortaleza repleta de inimigos. Todos poderiam acabar mortos. Mas Kyle parecia, com certeza, disposto a entrar e procurá-la, arriscando seu pescoço. Ela sabia que se lhe acontecesse algo, ninguém viveria para contá-lo. Nieves Hidalgo

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Libertou-se de Verter e se ergueu, interpondo-se entre seus leais e Kyle McFersson. – Tenho que ir agora. Sem lhes dar tempo a reagir correu para a saída. Houve um movimento geral e único dos prisioneiros, mas Kyle fechou a porta da cela em suas caras e trancou com a chave. O gigante moreno voltou a lhe amaldiçoar aos gritos. – Toque-a, filho de cadela, e lhe juro que...!! Retornaram à sala dos guardas, Kyle devolveu a chave e a arrastou ao exterior. Uma vez lá fora a pegou pelos ombros e a fez encará-lo. – Satisfeita? Olhou-o através de suas espessas pestanas. Viu-o magnífico. Colérico, mas esplêndido. Um deus dourado. Mas ao recordar que sua arrogância tinha posto a todos em perigo... Socou-lhe a cara sem aviso prévio. Tão logo o golpeou ficou atônita por sua ousadia. O pânico a dominou. Só um segundo. Porque no minuto seguinte se encontrava agarrada ao seu corpo e a boca de Kyle castigava a sua. Uma onda de calor a envolveu. Ela lutou entre a prudência e a inesperada necessidade de abandonar-se àquela carícia, mas então aproveitou para saborear seu sabor até que ele a soltou. Aturdida, deixou-se conduzir para o exterior da torre. Ao chegar ao quarto, Kyle empurrou-a para dentro e fechou a porta. Josleen continuava atordoada pelo amontoado de sensações que o beijo levantara em seu corpo. – Por que me golpeou? Nieves Hidalgo

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A pergunta a deixou espantada e sem fala. Corou e virou-se de costas. Desculpou-se sem muita convicção. – Sinto muito. Mas merecia isso. – O que? Agarrou-a pelo braço e a virou para ele. – Repete isso minha cara. Deixá-la ver os seus amigos merece esse agradecimento? O estômago Josleen se contraiu. Kyle tinha toda a razão do mundo para estar zangado. Abaixou o olhar e disse: – Seu orgulho o pôs em perigo. Kyle ficou pasmado. Do que falava aquela bruxa condenada? Retesou-se imediatamente. Ela tinha razão. Como um principiante, se expôs a que os guerreiros de Wain o destroçasse. Até esse momento não se dera conta da sua soberana estupidez. Suspirou ruidosamente e se sentou na beirada da cama. Olhou Josleen. Ela permanecia com o olhar baixo e o rosto acalorado, em atitude moderada, sem saber o que fazer com as mãos, que retorciam o tecido de sua saia. Kyle teve uma vontade inconcebível de se pôr a rir. Esperava tudo daquela mulher, menos que se mostrasse submissa. Agora a via tão frágil. A surpreendente necessidade de abraçá-la e acalmar seu temor, o envolveu como um sudário. Irritou-o que a sensação se repetisse com frequência, cada vez que a olhava. Ele não era dado a consolar às mulheres. E odiava lágrimas de crocodilo com que elas se defendiam com muita assiduidade. – Venha aqui. Josleen ergueu os olhos. Arregalou-os ao ver que ele tirara a jaqueta e a camisa. Quando o fizera? Apertou os punhos pelo brusco desejo de acariciar sua pele. Seus Nieves Hidalgo

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olhos se obscureceram sem ela dar-se conta e molhou os lábios, repentinamente ressecados. Era algo contra o que não podia lutar desde que o conheceu, essa atração. Kyle prognosticou os pensamentos dela. Conhecera aquele olhar faminto nas mulheres com quem já compartilhara sexo. Mas nunca o desejo refletido nos olhos de uma amante, o lançara a um estado de excitação tão demolidor. Desejava que ela o tocasse de novo, como daquela vez no bosque. Queria observar suas mãos, tão pequenas e delicadas. Cheirá-la. Saciar-se dela. Comê-la a beijos… – Venha aqui, Josleen – lhe disse de novo. Olhou-o com temor. O que seria agora? Castigá-la? Não pôde dar um passo e foi ele quem se aproximou. Pegou suas mãos e as apoiou em seu peito nu. Ela estremeceu e ele abafou um gemido. – Me toque – pediu.

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Capítulo 23

Ela retrocedeu com tanta força que tropeçou na bainha de sua saia e acabou sentada no chão. Olhou-o e viu o perigo. Engatinhando, procurou a porta. O maldito McFersson devia estar louco. Tocá-lo? Fazê-lo de novo? OH, não! Durante muitas noites lutou contra sensações inaceitáveis. Se ela aceitasse ser envolvida por aquela estúpida necessidade acabaria apaixonando-se por ele e não estava disposta a ser vencida de modo tão mesquinho. Tinha que odiá-lo. Era seu inimigo, pelo amor de Deus!

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Kyle se agachou e segurou-a, levantando-a. enfrentaram-se seus olhares e Josleen soube então que ele já não estava zangado. Mas encontrou outra coisa naquelas pupilas que a atemorizou muito mais que sua fúria: desejo. – Me toque – e aquela vez, foi uma ordem. – Está louco... – E você, está louca por me sentir. Por que se ilude? Sei que não a desagradei no bosque. Josleen emitiu um gemido e o sangue lhe subiu à cabeça. Palpitava seu coração dolorosamente, desreguladamente, deu-se conta de que ele adivinhara sua urgência. Ainda assim, objetou: – Não sei do que fala McFersson. A gargalhada dele deixou-a perplexa. – Moça, é uma consumada embusteira. Josleen sentia a boca seca. Tinha os olhos cravados naquele peito másculo e bronzeado e era incapaz de afastá-los dali. Sua força a atraía, ela percebia um formigamento entre as pernas e na sua cabeça ecoavam tambores de perigo. Sua mão direita se aproximou dele com vida própria. Notou-o retesar-se sob a delicada carícia. Quando seus pequenos dedos percorreram a sedosa pele, ele fechou os olhos, entregando-se. Brasas ardentes percorreram cada nervo da Josleen. Era tão agradável tocá-lo como se recordava. Inclusive, sua pele, quente, assemelhava-se ao veludo. As pontas dos seus dedos percorreram cada cicatriz, subiram até o ombro e deslizaram pelo poderoso braço. Era uma carícia enlouquecedora e temerosa. Retornou sua carícia ao ombro e depois deixou escorregar sua mão pelo peito. Até chegar ao estômago. Nieves Hidalgo

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Ali parou. Josleen respirava com dificuldade. Fascinada diante das desconhecidas sensações que a embargavam. Os olhos dourados a observavam agora com um brilho demoníaco, então ela deu um passo atrás. Um segundo depois os braços de Kyle a puxava. Beijou-a e ela correspondeu, ardendo já, faminta de carícias, consumindo-se no vulcão demolidor que a assolava. Um calafrio percorreu Kyle. Não estava preparado para o que sentiu. Foi como se em suas veias estivesse correndo lava escaldante e o desprezível pensamento de possuí-la agora, nesse momento, deixou-o atordoado. A boca de Josleen respondia à sua, suas mãos abriram o vestido, fazendo escorregar as alças para acariciar a pele de seus ombros. Tudo aquilo era como um sonho para o Josleen. Só sentia as mãos viris de Kyle sobre sua pele ardente, de que o vestido ia escorregando languidamente e parava em sua cintura, amontoando-se em seus quadris. Sentiu as grandes mãos do guerreiro em seus seios. Abafou uma exclamação em sua boca quando ele explorou seu mamilo entre os dedos. Kyle tinha sido, até então, capaz de controlar seus atos, mas agora se sentia como um boneco que a paixão arrastava por um tobogã sem fim. Com um grunhido, ergueu-a e se dirigiu ao leito. Josleen o olhou por entre suas pálpebras semicerradas. Durante aquele curto momento ele poderia ter recuperado o controle e abandonado o quarto antes de cometer uma iniquidade. Mas o suspiro dela o deixou louco, escalou seu corpo e aniquilou suas defesas. Acabou por tirar seu vestido. E aquilo foi sua total perdição. Ela tinha a pele branca, como tinha imaginado. Contrastava de tal maneira com a Nieves Hidalgo

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roupa da cama, que o deslumbrou. Seus olhos percorreram com lentidão aquele corpo, devorando-o: seios perfeitos, cintura estreita, quadris arredondados. A formosura das longas pernas era um presente para a vista. E o sublime triângulo de pelo entre suas coxas, ouro e fogo, lançaram-no de cabeça a um abismo que ele mesmo tinha aberto. Rapidamente se desfez da única peça que o cobria, jogou as botas para um lado e se dirigiu ao leito. Josleen batalhava contra o desejo e o temor. Enrubescida pela vergonha e a paixão em partes iguais. Desejava tocá-lo, senti-lo mais que tudo nesse mundo, mas receava o que iria acontecer. Ela era donzela. Nunca antes tinha estado com um homem e não sabia o que devia fazer. Deveria lhe permitir a iniciativa? Permanecer impassível enquanto ele tomava sua honra? Kyle deu a resposta tomando suas mãos e as pondo ao redor de seu pescoço. – Me abrace pequena. Josleen se encontrava envolta numa nuvem. Flutuava. Ansiava o contato de Kyle e uma fome voraz por saborear seu corpo. Apertou-se contra ele e o beijou no peito enquanto seus dedos, no desejo incontrolável de acariciá-lo, escorregavam pelos músculos de suas costas. Não tinha se atrevido a olhar a nudez de Kyle e havia virado a cabeça ao vê-lo se despir totalmente, mas notou sua masculinidade presa ao seu quadril enquanto seus lábios retornavam a arrebatar sua boca. Uma vertigem a dominou quando a boca de Kyle acariciou seu pescoço e desceu para o seio. Ele apanhou um mamilo entre os seus dentes e o sugou. Josleen gemeu em voz alta e ergueu seu corpo para lhe facilitar a tarefa. O que se passou depois a transportou para um mundo longínquo, num que não Nieves Hidalgo

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existia mais ninguém além deles dois, seus corpos suados, mesclando-se, querendo possuir um ao outro. Caíram sobre o leito como dois animais no cio, saboreando, mordendo e beijando, gemendo sob as carícias. As mãos de Kyle, tremendo como de um adolescente, acariciaram o interior de suas coxas. Detiveram-se a milímetros do lugar que desejava perder-se. Ela reteve o fôlego e se arqueou para aqueles dedos, exigindo mais. Transtornado e notando seu membro dolorido e intumescido, introduziu um dedo no estreito túnel. Sua umidade lhe produziu um espasmo de prazer indescritível e sem poder se conter mais a obrigou a abrir as pernas e ficou sobre ela, empurrando para entrar nela. As mãos sôfregas de Josleen seguraram suas rígidas nádegas, atraindo-o, puxando-o de um modo que não lhe deixou dúvidas. O membro ereto de Kyle penetrou na intimidade de Josleen e ela deixou escapar um gemido, agarrando-se mais a ele. McFersson se ergueu sobre as palmas das mãos e a olhou. Duas grossas lágrimas escorriam por sua face, tinha os olhos fortemente fechados e os lábios apertados. Sentiu-se o mais desprezível dos homens. – Lamento Josleen... Ela abriu os olhos, azul brilhante, mais formoso do que nunca. Escapou-lhe um suspiro e Kyle a beijou nas pálpebras, no nariz, na boca... A seguir, lutando por conterse o suficiente, moveu-se de novo dentro dela com extremo cuidado, levando-a pouco a pouco até ao auge. Sem sentir mais nenhuma dor, Josleen se agarrou nele e gritou quando os espasmos do orgasmo a engolfaram. Ela rodeou o quadril de Kyle, com suas pernas como grilhões, puxando-o. E ele, incapaz já de pensar, abandonouNieves Hidalgo

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se a sua própria necessidade enquanto as convulsões femininas o obrigavam a dar de presente a sua semente. Passaram alguns minutos antes que Josleen pudesse pensar de novo com clareza. Tinha a vista nublada e o corpo lasso. Inclinou-se um pouco para vê-lo. Apoiado sobre um cotovelo, Kyle a olhava fixamente com o cenho franzido. Assustouse com a frieza daqueles olhos. E de repente, sentiu-se uma prostituta. Vermelha de vergonha deu-lhe as costas. Kyle não disse nada, embora compreendesse o que acontecia. Queria acalmá-la, mas como fazê-lo se estava mais confuso ainda que ela? Sua cabeça era uma panela em ebulição. Não entendia como fora possível que se atrevesse a desonrá-la. O que era Josleen? Uma feiticeira com poderes, capaz de levar a um homem à perdição? Com um soluço, Josleen saiu do leito e procurou por suas roupas. Vestiu-as de qualquer modo e escapou do quarto. Kyle se deixou cair sobre a cama revolvida e fechou os olhos. À sua cabeça retornou a imagem de Muriel e um rictus de asco aninhou em seus lábios. Um semfim de rosto feminino desfilou diante de seus olhos e a mente de Kyle não pôde parar em nenhum deles. Tinha tido muitas mulheres, antes e depois de casar-se com aquela víbora sem coração, mas lhe era impossível recordar a nenhuma com clareza. Só via o rosto de Josleen. Amaldiçoando entre os dentes sua idiotice, levantou-se.

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Capítulo 24

Josleen não conseguia engolir. Kyle enviara um dos seus soldados para procurála quando ela não apareceu para jantar, ele a encontrou no pátio da fonte. Não queria ver Kyle. Não podia olhá-lo depois do que aconteceu. Embora se negasse a acompanhar o guerreiro, ele insistiu então finalmente cedeu. Agora se encontrava numa situação embaraçosa e a culpa era só dela. Kyle lhe Nieves Hidalgo

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cedeu um lugar na mesa, como se a tratasse como uma convidada, mas sua reservada negativa ganhou a silenciosa batalha e ele não insistiu. Acomodou-se junto à lareira, sentando-se num tamborete baixo, ao lado de alguns criados. Mas esses não pareciam dispostos a comer ao lado de uma inimiga e se retiraram para o outro extremo da sala. Josleen recebeu o insulto aparentemente bem, embora por dentro se sentisse como uma repudiada. Sob o exame de Kyle e também daqueles que o acompanhava à mesa, desejou desaparecer. Sozinha, naquele canto, notava fixas nelas os olhares. Todos a observavam como se fosse um animal de feira, senhores e criados. Doíam suas costas de tão rígida como a mantinha. Mas era uma McDurney e não se deixaria amedrontar. Kyle se recostou, colocando um cotovelo sobre o respaldo de sua cadeira. Não podia deixar de olhá-la. O jantar perdeu para ele todo interesse. Estava furioso consigo mesmo e não com ela. Então ele teve a certeza de que ela devia lhe odiar. Nem sequer tinha querido compartilhar sua mesa. – É muito bonita. Kyle se voltou para o James. O jovem não tirava os olhos da prisioneira desde que entrou. – Come e cala – grunhiu. James o olhou com ironia. Atacou um pedaço de carne de veado e logo estourou numa gargalhada. Josleen se retesou mais ainda. Estava segura que era o centro da conversa e abaixou mais a sua cabeça. A comida estava parecendo palha na boca. – E muito orgulhosa, diria eu – opinou Duncan. Nieves Hidalgo

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– Isso também – assentiu James. – A ninguém agrada ser uma prisioneira, meus filhos – interveio Elaine, sua mãe. – Deveriam deixá-la em paz. – Vamos, mamãe! Só elogiamos sua beleza. E analisamos o mau-humor de Kyle – sorriu ao ver o gesto irado do irmão. Josleen beliscou um pedaço de pão enquanto os observava com dissimulação. Era espantoso ver o modo como os dois mais jovens se comportavam na mesa. Pareciam uns porcos. Sujavam as mãos de gordura e logo as limpavam em qualquer lugar sem que ninguém os repreendesse. O único que tinha bons modos era Kyle e não parecia muito interessado em emendar os maus costumes dos outros dois. Desagradou-lhe ver que o pequeno Malcom imitava as maneiras daqueles dois energúmenos. Entretanto, a mulher tinha um ar digno e se comportava educadamente. Ela se indagou quem seria e por que a via triste e desinteressada. – Quando você vai enviar um mensageiro ao maldito McDurney? –perguntou James de repente. Kyle não respondeu. Em sua cabeça flutuavam ainda os gemidos de Josleen enquanto faziam amor. Ao não obter uma resposta, James se desinteressou do seu irmão, pegou uma jarra de cerveja e bebeu direto dela, empapando a túnica. O mais novo deve ter dito uma anedota, porque voltou a dar risadas e deu uma palmada nas costas de Duncan, que fez com o menino cair de cara na carne. Duncan blasfemou baixo, limpou a gordura da cara e, pegando um pedaço de javali, bateu-o contra a cabeça de seu irmão James. Josleen observou a cena horrorizada. E seu assombro alcançou o máximo Nieves Hidalgo

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quando James, longe de zangar-se, riu de boa vontade, certamente ébrio, e entornou na cabeça do mais jovem uma tigela de sopa. Virou à cabeça, enojada. Estava claro que fazia falta para aqueles dois uma boa surra e uma mão dura para transformá-los em dois homens decentes. Kyle continuava sem se incomodar com eles. Estava a ponto de levantar-se e solicitar permissão para partir quando alguém puxou seu vestido. Malcom estava ao seu lado e lhe estendia uma coxa de ave. – Não quer provar? – Perguntou-lhe – Está muito magra. Apesar de tudo, Josleen lhe sorriu e aceitou a comida. O menino se sentou ao seu lado. Uma moça jovem e bonita, de frisada cabeleira azeviche e olhos claros, entrou no salão. Josleen não prestou atenção até que a viu aproximar-se de Kyle, inclinar-se sobre ele e o beijar na boca com todo o descaramento do mundo. Algo se retesou em seu interior. – Acreditei que estaria fora mais tempo – a escutou dizer com voz melosa, enquanto sua mão direita o acariciava no braço. – Deveria ter me avisado. Kyle disse algo que Josleen não pôde escutar. A beleza morena fez uma careta e deixou escapar uma risadinha satisfeita. Duncan lhe cedeu o lugar e ela ocupou o banquinho junto ao Kyle. No primeiro momento, Josleen soube que aquela mulher não tinha intenção de provar nada, na verdade, além do próprio chefe do clã. – Não me importa se me castigarem – disse a vozinha do Malcom, obrigando-a a lhe prestar atenção. – Castigá-lo? Por que o castigariam?

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– Porque você é nossa inimiga. – E não deveria estar aqui, comigo. É isso? – Sim. – Então volte para o seu lugar. Além disso, acabou de chegar uma convidada. O menino deu uma olhada à mesa e em sua cara se refletiu o aborrecimento. Moveu a cabeça e cruzou os braços sobre o peito, num gesto idêntico ao de seu pai. – Quando James e Duncan começam a atirar coisas, sempre acabo sujo. E logo a minha avó se zangará. E ela – disse assinalando a recém chegada, – não me cai bem. – A dama de cabelo escuro? – Não é uma dama. – Mas o que…? – Duncan diz... – abaixou a voz, – mas não o diga a ninguém... Que é uma rameira – franziu o cenho. – O que é uma rameira, Josleen? Ela se engasgou. Certamente aquele menino tinha uns professores alarmantes. – Não é algo que deva saber agora, Malcom. Talvez mais adiante, quando crescer um pouco. Anda, volte para sua mesa, não gostaria que tivesse problemas por minha culpa. – Mas é que o James e o Duncan continuam jogando comida! –protestou o pequeno. Os jovens seguiam com sua batalha particular, sem levar em conta às damas. As gargalhadas de ambos troavam no salão e os criados pareciam apreensivos em aproximar-se da mesa sobre a qual voavam as carnes. Cruzou um olhar com o Kyle e Nieves Hidalgo

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seu queixo se ergueu altivo. Desprezava a todos. Ao James e Duncan por sua falta de educação, à mulher idosa por não chamar a ordem aqueles dois asnos; ao Kyle... Por muitas coisas. – Quer se sentar ao meu lado na mesa? – perguntou-lhe Malcom. Josleen lhe acariciou o cabelo. Era um encanto. E tão parecido com seu pai. Então elevou a voz ao responder. O suficiente para que todos a escutassem. – Obrigado, Malcom, mas estou acostumada a participar da mesa com pessoas educadas e seus tios não são bons anfitriões. Estariam melhor comendo no chiqueiro. Malcom arregalou os olhos. Suspenderam as brincadeiras e as conversas. O silêncio poderia ser pego. Duncan se engasgou com o pedaço de carne que acabava de morder e James cuspiu o uísque. Josleen corou, mas não abaixou o olhar, embora lhe formasse um nó no estômago. Estava louca? Como se atrevia a chamar de porcos nada menos que aos McFersson? Deveria ter parado a língua, mas já era tarde. Os criados, transtornados, olhavam-na horrorizados. Os que compartilhavam a mesa do chefe estavam atônitos, embora distinguisse algum sorriso divertido. Quanto à avó do Malcom... Seus olhos lhe cravaram na alma. E na alma também, lhe acertou a voz da recém chegada. – Quem é ela, amor? Alguém disse seu sobrenome e a morena ficou rígida. – O que ela faz aqui? Deveria estar numa masmorra! – Se cale Evelyna – disse Kyle. – Isto é incrível! Uma McDurney se atrevendo a chamar de porcos os seus irmãos...! Nieves Hidalgo

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A gargalhada de Kyle a emudeceu. Todos o olharam. Recostado em seu assento com uma jarra de cerveja na mão, Kyle parecia estar divertindo-se. – Não é má ideia o que disse a moça – o ouviram dizer ao fim de um momento. – Vamos, meninos, vão para o chiqueiro. – O que? – saltou James. – Desde quando...? – Protestou Duncan. – Já me ouviram. Saiam agora mesmo daqui. – Kyle, ficou louco. – Não o diz a sério Kyle se levantou. Seu divertimento tinha desaparecido e deu aos seus irmãos um olhar áspero. – A dama tem razão. Comem como os porcos e ali é onde devem estar. Da minha parte, prefiro tê-la na mesa. Até o Malcom parece mais sensato que vocês. – Mas Kyle… – Homem de Deus, não pode nos obrigar A... – Fora! Por um momento Josleen, que estava com problema para respirar, refletiu se aqueles dois arruaceiros enfrentariam o irmão. Mas James e Duncan, intimidados pela clara irritação do outro, levantaram-se e saíram. – Kyle, carinho – intercedeu à morena, – você não pode fazer isso. Como se atreve a...? – Mulher, fecha a boca amaldiçoada de vez – ordenou ele com voz potente. – Nieves Hidalgo

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Por ocupar minha cama de vez em quando não lhe dá direito a questionar minhas ordens. Josleen abaixou à cabeça. Envergonhada pela confusão que ela tinha provocado, estava ruborizando. – Acaso encontrou nessa... Cadela, melhor companhia? Josleen enrijeceu. Os olhos de Kyle se transformaram em duas frestas que exalavam perigo. Não pronunciou uma palavra, mas não foi necessário: Evelyna Megan se afastou do seu lado para sentar-se no outro extremo do salão, deixando escapar um soluço muito convincente. Josleen soube que acabara de ganhar outra inimiga. Kyle voltou a tomar assento e chamou seu filho com um gesto. O menino, com uma careta de desgosto, voltou a sentar-se junto de sua avó. – Agora, moça... – escutou Kyle dizer em voz alta – compartilhará a mesa conosco? Josleen nem se moveu. – Não partiram todos os porcos, milorde. Kyle fixou nela seu olhar, observando a tensão criada entre seus homens relevou o insulto. Procurou mostrar-se sereno. Ele acabava de ser insultado, por duas vezes, por aquela coisinha miúda e de frágil aparência. Diante de sua família e seus soldados. Acreditava ser impossível: o semblante altivo de Josleen, sua decisão, sua valentia, era algo ao que não estava acostumado. E já estava na hora de James e Duncan receberem um pouco de disciplina. Deixou cair à cabeça para trás e rompeu a rir.

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– Sinto ter me enganado com você, senhora – disse em seguida, devorando-a com os olhos. – Teria jurado que lhe agradava a carne de porco, pela maneira como você a lambeu. Josleen foi à única que entendeu a reprimenda. Com certeza que a entendeu. O maldito estava recordando-a do jeito vergonhoso como saboreou sua pele, lambendo e mordendo. Levantou-se como se tivesse alfinetes no traseiro e se aproximou, os olhos flamejantes e o rosto ruborizado. Kyle continuava rindo entre os dentes. Ela parecia a ponto de lhe agredir, mas ele desejava beijá-la até voltar a ouvir seus gemidos de entrega. Com os punhos apertados ao lado, respondeu-lhe: – Você, milorde, não é um porco – cuidou das palavras, sabendo que a mãe e o filho de Kyle não lhes tiravam o olho. – Somente um dissoluto. A caçoada de Kyle desapareceu como num passe de mágica. Ergueu-se e a pegou pelo cabelo. Puxou-o, obrigando-a a se inclinar sobre a mesa. Tão perto que um novo desejo de aproximá-la ainda mais e beijar sua boca o açoitou, disse-lhe: – Um dissoluto que fará com que se sente em sua mesa e lhe caia em sua cama. Josleen deu um puxão e se soltou, embora as lágrimas inundassem seus olhos pela dor e ele ficasse com alguns cabelos entre os dedos. Levantou a mão para lhe estapear a cara, mas Kyle foi mais rápido e segurou sua mão. Estendeu o outro braço, segurou seu corpo e a levantou por cima da mesa, sobre jarras e tigelas. Ela protestou enquanto suas saias acabavam de semear o caos na mesa. Encontrou-se presa ao corpo de Kyle. Revirou-se e chegou a proporcionar-lhe um par de golpes no peito, mas aquele abraço de ferro a apertou contra ele, lhe cortando a respiração. Nieves Hidalgo

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Diante do assombro de todos, Kyle carregou-a, como se ela fosse um fardo e saiu dali acompanhado dos insultos de sua prisioneira. Da porta, James e Duncan, que não perderam nada daquela cena, prorromperam em risadas e retornaram a seus lugares. – Parece-me que nosso irmão encontrou a fôrma de seu sapato – comentou o primeiro. – Acredito que sim – concordou Duncan. – Embora seja um pouco rabugenta, não lhe parece? – Não me importaria nada em ter uma moça tão queixosa em minha cama, se fosse tão bonita como essa condenada McDurney. – E ela não é uma bruxa! – gritou-lhes Malcom, sentindo que devia fazer algo por defender a jovem. O menino não entendeu a gargalhada geral.

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Capítulo 25

Josleen se indignou quando ele a largou de repente sobre a cama. A voz dele foi como um trovão. – Pelos infernos que acabará me tirando do sério! Josleen rolou sobre o leito e ficou em pé do outro lado, a distância de Kyle.

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– Tiram-no do sério com muita facilidade, laird – lhe aguilhoou. Quis pegá-la rodeando a cama, mas ela saltou por cima voltando a escapulir. – Está lhe fazendo falta uma boa surra. Josleen engoliu saliva ao escutar a ameaça. Deu uma olhada no quarto, como uma fera encurralada. A porta ficava muito longe, para conseguir escapar. Mas não estava disposta a permitir que aquele selvagem lhe pusesse a mão em cima. – Não sairá, assim esqueça advertiu Kyle. Procurou algo para lhe atirar à cabeça. Se ele imaginava que iria amedrontá-la, seria melhor ele se preparar. Descobriu a espada dele apoiada ao lado de uma arca. Subitamente se atirou para cima dela. Kyle adivinhou suas intenções e também saltou por cima do leito. Entretanto, não foi rápido o bastante para segurá-la pelo braço e Josleen se apoderou da arma. Enquanto ele caia no chão, ela afastou-se alguns passos, então subiu a espada com ambas às mãos. Kyle se levantou devagar. O olhar da jovem era gelo azul e ele julgou prudente tomar precauções. Se a irritasse mais, só um pouco mais, podia acabar com seu próprio aço entre as costelas. Parecia muito capaz de utilizá-la, a muito hábil. – Josleen, deixa disso. – É um cão! – Josleen... – deu um passo para ela e a moça abaixou a espada pondo-a na altura de seu peito. – Não seja infantil. O que pensa fazer? Matar-me? – Se deseja comprová-lo, só tem que se aproximar.

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Kyle deu um passo à frente e ela retrocedeu outro, amaldiçoando mentalmente o peso da arma. Wain a tinha treinado algumas vezes, meio que de brincadeira, mas nunca com algo tão pesado. Estava se fazendo de valente, mas a espada parecia pesar uma tonelada e seus braços já começavam a doer por sustentála no alto. De qualquer maneira, esse fora o único modo que tinha para impedir que ele a alcançasse. Engasgou-se ao ver que ele continuava avançando para ela, com os braços abertos e uma calma infinita. Era como um gato. Um depredador, disposto a atacar. Recuou sempre em direção à porta. Se conseguisse sair dali, alguém a socorreria. Tropeçou na bainha do vestido, se desequilibrou, gritou e foi de cabeça contra a parede. Kyle aproveitou a ocasião e encurtou a distância, mas Josleen ergueu os braços para recuperar o equilíbrio e ele não imaginou esse repentino movimento. O fio da espada rasgou sua camisa. O gemido de Josleen ao cair e sua maldição ao sentir o corte, confundiram-se. Numa fração de segundo Kyle estava com a arma, lançava-a para um lado e rodeava sua cintura evitando que ela batesse a cabeça na quina de uma arca. Josleen o empurrou tão logo se viu em posição vertical. E ficou atônita. Kyle tinha um bom corte e sua camisa rasgada se tingia de sangue. – Deus! – Josleen, tampou a boca com uma mão, presa de um súbito enjoo. Kyle deu uma olhada à ferida e a fulminou com o olhar. Chutou a espada, que foi parar sob a cama. O sangue lhe escorria por entre os dedos. – Condenada seja – maldisse, chispando seus olhos dourados. Nieves Hidalgo

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– Kyle, eu não queria... – Busque algo para me remendar. Josleen subiu o vestido e rasgou sua anágua. Preocupada como estava, tremendo pelo que fizera não se preveniu do olhar voraz de Kyle quando mostrou boa parte de suas pernas. Dobrou o tecido, e o pôs sobre o peito e o obrigou a segurar o precário curativo. A seguir, saiu rapidamente. Era um arranhão sem muita importância, mas Kyle amaldiçoou o desastre de sua camisa, que acabou tirando enquanto abarrotava o quarto de obscenidades. Aquela ferazinha tinha fibra, pensou. E era mais perigosa que um javali ferido. Deveria tomar cuidado com ela ou talvez houvesse um McFersson a menos antes de entregá-la ao cretino do irmão. A culpa voltou a incomodá-lo. Mas, no entanto, doeu-lhe pensar, que teria que devolvê-la. Claro que, existia outra questão: ela tinha sido desonrada. A única solução para evitar uma guerra declarada era desposá-la. Wain McDurney deveria entender a razões. Ou isso, ou enfrentar um conflito que causaria muitas mortes e nenhum benefício. Mas… ligar-se a aquela harpia? Desejava-a. Desde que a viu pela primeira vez. Não podia negá-lo. Ardia quando ela estava perto e uma singela batida de suas pestanas o punha duro como uma pedra. Entretanto, casar-se com Josleen era outro caso, porque certamente McDurney não iria querer nem pensar no assunto. Ela retornou pouco depois, trazendo quase arrastada uma das criadas. Mas não vinham sozinhas. Elaine entrou pressurosa atrás delas. Josleen estava pálida como um defunto e ele se alegrou com o medo dela, ainda que a custa do corte. – O que aconteceu? – Perguntou sua mãe. – Foi por minha culpa – disse Josleen com voz entrecortada.

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Sem olhá-la sequer, Elaine examinou a ferida. – Não é mais que um raspão – disse. A dama desinfetou o corte, pôs um emplastro e o enfaixou com rapidez. Entregou a bandeja com os utensílios à criada. – Leva também essa camisa – disse. – Dói? – Não foi uma carícia precisamente. O tom seco a espantou. Seu filho não era propenso a lamentar-se por uma ferida tão pequena. De fato, nem sequer quando esteve entre a vida e a morte naquela ocasião em que enfrentou Wain McDurney, escutou-o protestar, apenas por ter que ficar cama. Josleen seguia soluçando. – Posso saber o que passou? – foi um acidente, mãe. Observou a ambos e acabou por encolher os ombros. A moça não conseguia falar e seu filho não parecia disposto a esclarecer nada. – Certamente – disse por fim. – Me parece que aqui não tenho mais nada para fazer, assim retornarei aos meus assuntos. Quando a porta se fechou Josleen se amparou nela e enxugou as lágrimas. – Não queria... – Já sei. Kyle parecia calmo. Deu um passo para ele, mas se deteve. Devia-lhe uma desculpa e engolindo o orgulho disse: Nieves Hidalgo

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– Lamento. É a primeira vez que firo alguém. – Pois por ser a primeira vez, o fez muito bem – grunhiu. Ela se encolheu temerosa. Sentiu um aperto no peito. Ela estava de causar pena, tão indefesa, tão inocente... Mas que diabo estava pensando, condenação? Acabara de feri-lo com sua própria espada e a via como um anjo. Devia estar perdendo a razão. Mas seu corpo começava a responder, uma vez mais, a sua proximidade. – Saia antes que resolva torcer seu pescoço. Josleen não esperou para ouvi-lo duas vezes e saiu como alma que o diabo leva. Kyle se deixou cair sobre o colchão. Maldita fosse! Tê-la ao seu lado o transformava num idiota. Isso o irritava. Odiava-a. Chateava-o seus ares de rainha. Desejava-a... – Raios! Aí residia o problema. A sua imperiosa necessidade de abraçá-la, de beijá-la, de protegê-la, golpeava-lhe uma e outra vez. Josleen era a irmã de seu inimigo, o homem que quase o matou. Mas recordá-la lhe devolvendo as carícias produziu uma dor no baixo ventre e seu membro respondeu com vida própria.

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Capítulo 26

Tinham se passado vários dias. Aborrecidos dias durante os quais nem Kyle não apareceu na antecâmara e nem ela desceu ao salão, comendo e jantando a sós. Até o Malcom parecia tê-la abandonado a sua sorte. Na verdade, o que poderia esperar depois de ferir o Kyle? A notícia teria percorrido todo o castelo e o pequeno devia odiá-la.

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Josleen deixou escapar um palavrão quando se espetou com a agulha. Deixou a costura com que tinha aliviado seus momentos de solidão durante aqueles dois dias e sugou a gotinha de sangue. Odiava costurar, além dela não ter a menor aptidão. Sempre preferiu entretenimentos mais masculinos, como montar a cavalo, atirar de arco ou treinar com o Wain quando ele estava de bom humor. Também lhe agradava ensinar os pequenos. Saiu da torre e passeou até o rio, que corria a pouca distância. Homens de guarda vigiavam, de modo que ninguém a impediu já que era impossível escapar sem que a vissem. Acomodou-se, um pouco afastada, fazendo-se de desentendida com a animosidade das olhadas que todos lhe dirigiam. Observou uma menininha de cabelo acobreado e encaracolado, comprido até a cintura. Seus olhos, dois enormes círculos de um azul diáfano. Era miúda, provavelmente ela não teria completado ainda os três anos. Caminhava com passinhos curtos e quando corria Josleen não podia deixar de sorrir. Sua mãe conversava com outras mulheres enquanto lavavam roupa na margem. Josleen adorava crianças. Sonhava ter quatro ou cinco quando seu irmão encontrasse para ela o marido adequado e... A imagem de Kyle fazendo o amor com ela, a fustigou sem piedade. Uma dor profunda se instalou em seu peito. O que estava pensando? Já nem sequer podia sonhar com um casamento. Deixou-se seduzir pelo McFersson, assim quem iria casar com ela? Era uma mulher manchada. Subiulhe um soluço à garganta. Nem marido, nem filhos. Apenas podia esperar o desprezo de todo seu clã, se é que retornaria com eles e Wain não a desterrasse longe do Durney Tower. Semicerrou os olhos e se recostou na árvore, lamentando suas tristezas. Por entre as pálpebras entreabertas observou que a menina se aproximava da margem e

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arrancava florzinhas amarelas. Josleen suspirou. Recordava a ela mesma quando era pequena: sempre investigando, desejando saber mais do mundo, querendo ter tudo em suas pequenas mãos. Um cavaleiro atravessou a esplanada chamando sua atenção. Alto e loiro, de corpo poderoso. Quase tão arrumado como... Veio-lhe um sabor muito amargo à boca ao compará-lo com o Kyle. Estava irritante sua obsessão por ele. Aquele período sem vê-lo tinha sido uma agonia para ela. Porque o odiava… o odiava? Por tê-la maculado, mas era um suplício tê-lo longe. Vagava constantemente pelo mundo fantástico que Kyle tinha despertado nela. Um mundo de sensações que a atordoavam. Temia estar se apaixonando como uma estúpida por ele, e era a última coisa que desejava. O grito de alarme a fez dar um salto. Um chapinhar. Josleen viu com horror que a menina tinha caído na água. Embora o rio fosse diminuído, era bastante profundo para alguém que não sabia nadar. Josleen ficou paralisada, ouvindo os gritos de pânico das mulheres e não pôde pensar em nada durante uns segundos. Logo, levantou-se e correu para a beira. Jogou para o lado os sapatos e mergulhou. Ao emergir, a menina afundou. Encheu seus pulmões e submergiu em sua busca. As águas estavam revoltas e escuras depois da pequena tormenta do dia anterior, que arrastou terra avermelhada. Estava difícil poder ver sob a água, mas bracejou e tocou algo. Entretanto, a corrente lhe roubou o que fosse que tinha apalpado. Emergiu, tomou ar de novo e, uma vez mais, mergulhou. Na margem, as mulheres continuavam gritando e alguns guardas já se Nieves Hidalgo

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aproximavam. Por fim, os esforços de Josleen deram fruto e seus dedos roçaram uma cabeleira. Agarrou-a e puxando-a, retornou à superfície. Muitas mãos se estenderam para ela para ajudá-las a subir pela lamacenta encosta até terra firme. Arrebataram-lhe à menina e ela se deixou cair de barriga para cima, recuperando o fôlego. Ardiam-lhe os pulmões. Só descansou alguns segundos, mas imediatamente, se interessou pela criança. Alguém conseguira fazê-la expelir a água e agora ela chorava mais assustada que machucada, embalada nos braços de sua mãe. Josleen começou a tremer, agora que o perigo tinha passado. Sempre lhe acontecia o mesmo. Encarava o perigo com decisão e frieza, mas depois entrava em pânico. Abraçou-se e fechou os olhos enquanto ao seu redor os comentários se afastavam. Pressentiu alguém ao seu lado e ergueu a cabeça. Kyle estava muito perto. Sentiu-se invadida por um sentimento de agradecimento por tê-lo ali. – Decididamente, é louca. Josleen se levantou sem ajuda. Muito próprio de um McFersson, pensou. Acabava de arriscar a vida para salvar a um dos seus e ele ainda a insultava. Era um asno. Veio-lhe um insulto à boca, mas ela mordeu a língua e se afastou para entrar na torre. Não tinha subido três degraus quando um braço de ferro rodeou sua cintura. Retorceu-se para soltar-se. Kyle segurou sua cara entre suas grandes mãos e seu olhar a paralisou. Podia ser reconhecimento o que viu em seus olhos? Ele abaixou a cabeça Nieves Hidalgo

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e a beijou, com tanta suavidade e doçura que Josleen perdeu a noção do tempo e do espaço. Em seguida, quando ele tomou em seus braços, já não tinha forças para opor-se, então se reclinou em seu peito e fechou os olhos, deixando que ele a levasse dentro.

Capítulo 27

Kyle a deixou escorregar até o chão, mas ela continuava sem poder mover-se. A seus pés, foi formando uma poça d’água. – Não volte a fazer algo assim, Josleen. Piscou. Havia implicação de medo em sua ordem? Fez uma careta, sem sentir. Um segundo depois se punha a chorar. Sem pensar, seus braços envolveram a cintura de Kyle e aumentou o pranto ao sentir-se abraçada e protegida. – Não pensei... – soluçou. – Eu... Sinto... Nieves Hidalgo

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A boca dele enxugou suas lágrimas. E ela se sentiu estranhamente segura entre seus braços. Era agradável, extremamente agradável tê-lo tão perto, cheirá-lo, sentir sua força. Ergueu a cabeça, solicitando em silêncio um beijo. E o recebeu. Respondeu com o mesmo ardor que ele imprimia à carícia. Suas mãos voaram para aqueles ombros largos, desceram pelos braços, enlaçou seus dedos aos dele. Kyle sufocava. Nunca antes ele havia sentido algo assim. Estivera observando-a a distância, sem fazer outra coisa mais que olhar cada gesto dela, cada sorriso enquanto ela via as brincadeiras da criança, seu franzir de sobrancelhas quando a agulha a espetava. Deveria estar se preocupando com a próxima incursão, com seus homens e seus bens; entretanto, tinha esquecido tudo quando saiu da torre e viu a Josleen, ali sentada sozinha, junto ao rio, afastada de todos. Em seguida, quando ela correu como uma alucinada e mergulhou no rio, o coração quase parou no peito. Suspirou fundo e tomou-a nos braços para levá-la até o leito. Decididamente, estava se tornando um idiota, pensou enquanto sentia sob sua boca a suavidade dos lábios de Josleen. Jamais antes uma mulher o tinha enlouquecido daquele modo. Ele é quem deveria ter percebido o perigo que a menina corria, mas só tinha tido olhos para Josleen. Isso quase tinha provocado a morte da pequena e de Josleen. Sentiu uma horrível dor na boca do estômago ao imaginá-lo. Soube então o que era realmente o medo. Até então, o medo tinha sido algo intangível, quase longínquo. Ela era um guerreiro e o temor não tinha lugar em sua vida, assim o ensinaram. Ensinaram-no a lutar sem tremer diante do inimigo. No entanto, agora sabia o que significava o pavor de poder perder a alguém que lhe importava e... Kyle a analisou, ela estava com os olhos semicerrados e arrasados pelo pranto, caída sobre o leito, o cabelo flamejante e ensopado estendido sobre os almofadões, o

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rosto ainda pálido. Kyle voltou a beijá-la com ânsias. – Nunca – gemeu, enquanto suas mãos se encarregavam já de abrir o vestido dela. – Nunca mais, doçura... Josleen não entendeu ao que ele se referia, mas também não importava. Seu corpo jovem começava a notar o desejo enquanto as mãos de Kyle a despiam. Deixou que lhe tirasse o destroçado vestido e ruborizou quando os olhos ambarinos a admiraram a prazer. Sorriu. Como não fazê-lo quando Kyle parecia disposto a devorá-la e oferecer-lhe o mundo atrás daquele olhar ardente de paixão? Kyle começou a despi-la, mas Josleen o impediu. As sobrancelhas douradas dele se ergueram e ela sorriu amplamente. – Quero despi-lo – sussurrou. Os músculos de Kyle se retesaram como cordas. Nenhuma mulher lhe pedira algo semelhante. Nem sequer a descarada de Evelyna. Mas concordou um tanto sobressaltado, e permitiu que Josleen fosse tirando peça por peça. O coração pulsava como um tambor de guerra e custava-lhe respirar. O simples roçar das pontas de seus dedos o embriagava. Quando suas roupa e botas ficaram esquecidas no chão, junto ao leito, e o olhar azul profundo dela o percorreu do cabelo até a ponta dos pés, sua força masculina ergueu-se para frente de forma desavergonhada, impudicamente. Não pôde controlá-lo. Já não. Sua voz foi um gemido agoniado. – Acaba o quanto antes, Josleen.

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Os olhos dela se arregalaram. Que acabasse? Pelo amor de Deus, se nem sequer tinha começado! Fixou seu olhar naquele ponto entre as coxas masculinas. E se maravilhou com o poder que exercia sobre ele, sem necessidade de sequer acariciar. Sua mãe lhe explicara algo, certamente, mas nunca que uma mulher podia excitar um homem somente olhando-o. Escapou-lhe uma risadinha. O corpo dourado de Kyle era uma tentação. E teria ido de cabeça ao inferno para poder tocá-lo nesse momento, mas... Um medo repentino a paralisou. Se um olhar conseguia aquele efeito, que não faria ele se o acariciasse... Ali? Kyle pareceu adivinhar os pensamentos dela, e com a decisão que faltava a ela, agarrou sua mão direita e a levou até sua virilidade. Ela tremeu dos pés até a cabeça enquanto segurava seu órgão. Durante algum tempo, sem atrever-se sequer a respirar, percebia a pulsação de seu sangue nos ouvidos... E o batimento do coração dele em sua mão. Olhou-o, vermelha de vergonha, o corpo dele estremecendo de prazer. Kyle parecia estar sofrendo tortura; tinha a expressão séria, suas sobrancelhas franziam, seus olhos emitiam faíscas douradas... Pouco a pouco, soltou-o e começou a acariciá-lo. Kyle gemeu e apertou as pálpebras. Ardia, consumido por línguas de fogo que devastavam sua alma. As carícias de Josleen careciam de experiência, mas o consumiam, mal podia respirar. De repente, com um movimento rápido, Josleen se agachou e depositou um trêmulo beijo em sua ereção. Kyle deu um pulo. Tão forte, que a mão dela escorregou e o membro escapou. Prontamente Kyle a deitou e começou a beijá-la do queixo até o ventre, sorvendo cada gota de água de seu corpo. Sua boca deixava sulcos ardentes por onde passava e ela emitiu gritinhos de surpresa quando a língua masculina brincou no seu umbigo. Nieves Hidalgo

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Elevou os quadris ao sentir um dedo no interior de seu corpo. Mordeu os lábios para não gritar mais forte quando o dedo saiu só para dar passagem a dois. E quando o polegar de Kyle começou a acariciar o montículo endurecido entre suas coxas, chorou sem poder remediá-lo. Não percebeu o sorriso presunçoso dele. Nem pôde adivinhar o sentimento de orgulho que envolveu Kyle. Ele se colocou pronto para entrar em seu corpo e ela o recebeu de boa vontade. Josleen segurou suas nádegas e foi ao encontro de suas investidas para ascender, ascender, ascender… e alcançar o céu.

Capítulo 28

Os dias se passaram e a estadia no Stone Tower estava cada vez menos penosa. Mesmo assim, não deixava de pensar nos seus. Mas, ao menos, estava tranquila porque seu irmão ainda não sabia do seu desaparecimento. Kyle deixava a cada dois dias ela visitar Verter e outros e, embora não usufruísse de muita liberdade, também não se sentia mais uma prisioneira. Nieves Hidalgo

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Apesar de já conversar com o resto dos moradores da fortaleza; preferia comer a sós para não estimular os ânimos, que sabia estar alterado por sua presença. Apesar de sua auto-exílio, Josleen começou a notar que as mulheres não a olhavam como antes; até estavam dispostas a falar com ela em algumas ocasiões e pedir-lhe pequenos favores ou servi-la. Mas sabia que os homens de Kyle desejavam que, o quanto antes, fosse pedido um resgate definitivo. Kyle estava cada vez mais negligente e sempre dava desculpas para retardar o momento. Josleen levantou a cabeça de sua costura justo no momento em que Elaine McFersson tentava suspender um caldeirão cheio de água. Deixou a costura e fez intenção de levantar-se para ajudá-la, mas não chegou a abandonar o tamborete. Um homem de quase dois metros de altura saiu só Deus sabe de onde, e levantou sem esforço o caldeirão. Josleen observou o rosto da mãe de Kyle, se iluminar. Logo, ela abaixou os olhos para o chão, disse obrigado num sussurro e ruborizou. Josleen arqueou as sobrancelhas. Era tola ou acabava de ver a única pessoa que parecia tirar a mulher de sua apatia? Até então, só a tinha visto pestanejar quando ela feriu o Kyle, e nem sequer nesse momento pareceu muito afetada; sempre a via passear a sós, lânguida e apática, embora se adivinhasse nela uma férrea vontade. Elaine era muito jovem ainda, quando tivera o seu primeiro parto. Só se unia ao resto na hora das refeições. Distante de tudo e de todos. E, entretanto, agora, diante da presença daquele gigante, a vira muito frágil e quase amedrontada, como uma jovenzinha tímida. Observou o indivíduo enquanto, atencioso com Elaine, caminhava carregando com o caldeirão para o exterior. Era muito forte e, certamente, atraente. Farta cabeleira avermelhada, barba espessa e bons músculos. Um completo guerreiro,

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capaz de fazer sentir numa mulher a necessidade de ser protegida. E sem dúvida a mãe de Kyle se sentia atraída por ele. Josleen retornou a atenção para sua costura, mas não deixou de pensar no que tinha visto. Sempre gostou das historias amorosas e imaginou se poderia fazer alguma coisa para que a apatia da mãe de Kyle desaparecesse. Passava muito tempo sozinha. Com um sorriso divertido, respondeu a si mesma: tentaria remediá-lo. Entretida em seus pensamentos não notou a entrada no salão de um homem alto e magro. Ele sim o fez. Deu alguns passos para o interior, viu-a e parou em seco. Imediatamente deu meia volta e saiu pálido como um morto. ***** Moretland passeou nervoso sob o atento olhar de seu anfitrião. Ao fim de um tempo olhou Kyle e disse em tom de recriminação: – Não sabia que Josleen McDurney estava aqui! As douradas sobrancelhas de Kyle descreveram um arco perfeito. – Não é seu assunto. – Não posso deixar que me veja! – Então não o faça. – Deve entender McFersson. Se essa moça souber que visito Stone Tower se perguntará a causa. Não é lógico que um inimigo venha aqui sem uma razão muito justa. – Imagino. Seria muito difícil explicar ao Wain o que faz em minhas terras. E mais Nieves Hidalgo

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complicado ainda explicar o motivo pelo qual é um asqueroso traidor aos seus. Barry Moretland se ergueu em toda sua estatura e seus olhos relampejaram, criticado pelo insulto. Sabia que não era bem recebido ali, que o maldito McFersson o odiava. Mas também sabia que suas informações eram importantes e que tinham proporcionado a Kyle, extraordinário lucro. Era um acordo que durava já um longo ano, desde o verão anterior quando ele ofereceu seus serviços. – Eu deveria contar sobre ela ao Wain – sussurrou como ameaça. Kyle encolheu os ombros e sorriu com ironia. – Deveria, sim. Seria interessante ver como explicaria conhecer seu paradeiro. – Seu irmão acha que ela está em... O mensageiro... – Esse sujeito era um de meus homens. – Pensa pedir um resgate então? – Pensei, sim. – Quando o fará? – Isso ainda eu não decidi. Moretland estreitou os olhos e o olhou com mais interesse. Então era isso? O maldito McFersson estava desfrutando daquela vadia que tantas vezes o tinha desprezado. Esteve a ponto de soltar uma gargalhada. Wain recuperaria sua irmã, certamente, pagando o que o outro pedisse, mas Josleen já não teria valor para negociar uma união com outro clã porque ninguém acreditaria, embora o jurasse, que aquele bandido não a tinha maculado. Isso iniciaria a guerra entre os dois clãs, ele saberia jogar então suas cartas. Era o que mais desejava Barry. Conhecia a fúria do McFersson e sabia que dificilmente voltaria ser vencido pelo Wain, de modo que se o Nieves Hidalgo

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irmão de Josleen acabasse morto, ele teria maiores possibilidades de tornar-se o chefe do clã McDurney, inclusive levando seu sobrenome; era o único varão da casta, já que Sheena não lhe tinha dado nenhum herdeiro ainda ao Wain. Sorriu e se serviu um pouco de cerveja. – É boa na cama? O gole lhe teve sabor de fel quando os olhos dourados de Kyle se cravaram nele. Se um olhar pudesse matar, Barry Moretland teria caído fulminado ali mesmo. Engasgou-se. – Quero dizer... Como parecia interessado na Evelyna Megan... – Por todos os deuses celtas! – explodiu Kyle. – Que me passe informação sobre seu clã, que leve um bom ganho de nossos furtos, que se aproveite de meu nome para roubar ao Wain... – ergueu a mão para pedir silêncio quando viu o gesto de protesto iniciado. – Acredita que não sei dos vários roubos que me acusam? O que me diz desses malditos cavalos pelos quais seus homens me interrogaram quando me teve prisioneiro? – Barry rilhou os dentes e abaixou o olhar. – Bem, pois como dizia Moretland, não acredito que tudo isso lhe dê direito a se colocar na minha vida privada. – Não pretendia... – Ultrapasse os limites, meu amigo, e pouco me importará pôr sua cabeça no pelourinho que fica mais alto nas minhas ameias. Acredite-me, Moretland, ainda me ardem os golpes. – Não pude fazer nada. Eu só o vi quando estava à margem do rio, viram-no os outros. Não poderia voltar o olhar para o outro lado não verdade? Se não estivesse tão bêbado, não o teríamos descoberto. O que eu podia fazer? Tinha que disfarçar, eu Nieves Hidalgo

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tinha que tentar tirar informação do inimigo, de outra forma todos teriam suspeitado. Embora o reconhecesse não denunciei sua verdadeira identidade, lembra. Por sorte não usava suas cores. – Bem, afinal creio que deveria matá-lo por isso. Barry ficou lívido, mas com muita prudência assentiu em silêncio. – Devo retornar ao Durney Tower. – Desejo boa viagem. Deixarei sua parte na próxima aldeia como sempre, na abadia. – Bom. Kyle o viu partir com um sabor amargo na boca. Sabia que o tipo era um asqueroso traidor dos pés à cabeça, mas também o amor que tinha ao dinheiro lhe proporcionava lucros substanciosos. Lucrava informando-o sobre os passos de Wain McDurney, mas nada ganharia informando seus inimigos sobre os seus, porque seria como abandonar o próprio tesouro. De qualquer modo, estava ciente de que tinha um escorpião negro debaixo de seu traseiro e isso não o agradava. Não o agradava absolutamente.

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Capítulo 29

Barry não saiu imediatamente das terras dos McFersson. Ninguém, à exceção de Kyle, sabia sua verdadeira identidade, já que se fazia passar por um homem do clã Moogan e utilizava esse tartán quando se aproximava do Stone Tower. Por isso podia passear livremente pelo território sem medo a ser detido. Mas que Josleen estivesse ali era perigoso para ele; não estava disposto a que aquela cadela prejudicasse seu

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plano de guerra entre os dois clãs, se resolvesse interceder junto a seu irmão para evitar a guerra. Devia livrar-se da moça, culpando certamente aos McFersson. Mas aproximar-se dela era tão perigoso como ser descoberto pela jovem. Tinha que descobrir outra maneira. Alguém que fizesse o trabalho. E quem melhor que a despeitada amante do maldito Kyle? Desde as suas primeiras visitas, conquistar a meretriz fora um de seus objetivos porque viu nela a mesmo anseia de poder que o dominava. Procurou um menino para que levasse uma mensagem. A seguir, ansioso, esperou perto do escarpado. Evelyna Megan se encontrava na torre, como sempre fazendo a vida dos criados dificílima e tratando de se fazer agradável aos olhos da Elaine. Kyle amava aos seus, ainda que não fosse um homem muito dado a demonstrar seus sentimentos. E Evelyna sabia que se conseguisse conquistar a mãe dele, teria maior chance de alcançar o coração do chefe do clã. Fazia mais de dois anos que seu pai, James Megan, tentava conseguir um bom matrimônio para ela, mas os candidatos apresentados pareciam horríveis. Tornaram-se muito mais desde que chegou ao Stone Tower e viu Kyle. Desde aquele instante decidiu que esse homem seria dela. Certamente, teve que fazer concessões. Kyle não parecia disposto a compartilhar sua vida com outra mulher depois da espantosa experiência com sua falecida esposa, Muriel. Então se entregou a ele como uma prostituta e se comportou como tal em sua cama. Mas não importava se no final acabasse por tornar-se sua esposa? O menino que chegou procurando-a não disse uma palavra, só lhe entregou a nota e partiu. Era direta, mas certamente interessante: "Se quer voltar a ocupar o posto, que tanto anseia minha senhora, eu tenho a chave. Espero-a junto ao escarpado."

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Ela tentou imaginar quem desejava ajudá-la, porque sabia que não era a santa de devoção de nenhum dos serviçais e mal lidava com os habitantes da aldeia. Afinal de contas, ela era a filha de James Megan, não uma vulgar moça do povo. Seu lugar era junto aos lairds, não junto aos criados. Evelyna era uma moça decidida, que sempre queria tirar proveito e a missiva parecia indicar que podia ter um ás na manga. Ela apareceu vinte minutos mais tarde e Barry a admirou, ainda que sem esperar, o rebolado primoroso de seus quadris. Kyle era um patife com muita sorte. Evelyna se aproximou dele com certa cautela. Seu rosto refletia estranheza ao encontrar o Barry. Nunca gostara dele, desde quando o conheceu. Havia algo insano em seu olhar, um que de maldade que nunca lhe passou despercebido. Além disso, eles se encontravam afastados da aldeia e o escarpado era um lugar perigoso. Seus olhos se transformaram em duas frestas quando ele fez uma ligeira reverência sem deixar de observá-la. – É você que queria me ver? Barry concordou. – Sim. Porque até recentemente você compartilhava a cama do McFersson. E agora perdeu esse privilégio, verdade? Evelyna se retesou e seu olhar refletiu sua cólera. Desagradou-a que a recordasse de que aquela cadela McDurney a tinha substituído. Aquiesceu secamente. – Vi à nova aquisição de Kyle, disse James – ela fez um gesto depreciativo. – Sim, já sei que os homens às vezes perdem o gosto e sem dúvida ele o perdeu por que... – olhou-a com descaramento, – não resta dúvida que ele perdeu com a mudança. É a Nieves Hidalgo

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mulher mais linda que já vi Evelyna. – Tenho coisas que fazer – o cortou – me adulando não conseguirá nada. O que quer? – Lhe ajudar. – Em troca do que? – Essa rameira McDurney me atrapalha. Digamos que... Se lhe acontecesse algum acidente... Ganharíamos ambos. Ela retrocedeu um passo. As mãos começaram a suar. – Um acidente. Está falando de um assassinato? – Eu me vingaria de uma antiga dívida e você voltaria a ter Kyle só para você. Durante um expectativo momento, Eve não disse nada, somente o olhou com intensidade, avaliando o que acabara de ouvir. – Poderia o delatar ao Kyle. – Não chegaria até ele – Barry então olhou significativamente o precipício, mas logo sorriu jovialmente. – Não seja estúpida. Você estaria morta e eu encontraria outra pessoa que me fizesse o favor. De repente, ela se pôs a rir. Procurou uma pedra plaina em que sentar-se e seus olhos faiscaram. Pegou uma pedrinha e a lançou longe, aumentando o momento de sua resposta. – Eu também pensei em afastá-la de nós, sabe? – disse-lhe em fim. – Imaginei que uma mulher como você o teria feito. – O ruim é que Kyle não a deixa sair sozinha. Assim que sai da fortaleza e quando Nieves Hidalgo

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ela o faz ele mesmo ou algum de seus homens a acompanha. – Estou certo de que encontrará uma maneira de providenciar isso. Stone Tower é um lugar muito grande e em um sítio assim, podem acontecer muitos acidentes. Evelyna piscou coquete. Logo se recordou da torre da ala norte que estavam remodelando. Andaimes e cordas. Pedras soltas. Sorriu como uma gata manhosa e se levantou. – Certamente, tudo pode acontecer, mas... O que você ganharia? – Já lhe disse. Cobrar uma antiga dívida. – Por que não faz você mesmo o trabalho? Por que tenho que me arriscar eu? Cedo ou tarde Kyle a repudiará. E eu estarei então ali, ao seu lado. Barry Moretland deixou escapar uma ampla gargalhada. Com os punhos apoiados na cintura a olhou e sacudiu a cabeça. – Espanta-me, Eve. Achava que era uma mulher com mais fibra. Mas agora vejo, agrada-a ser o segundo prato na mesa do bastardo. Evelyna sorriu, sem deixar-se levar pela raiva. – Apenas não estou louca – disse. – Tentar algo contra a vida dessa vadia é perigoso. Além disso, ela vale um bom resgate. – Se ele se decidir a pedi-lo. – Fará! – Tem certeza? – Por todos os infernos! – estourou a jovem – Pensa por acaso que Kyle vai ficar com ela? É uma maldita McDurney! Nieves Hidalgo

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Moretland encolheu os ombros. Assobiou ao seu cavalo e esperou que ele se aproximasse obediente. Tomou as rédeas e disse: – Darei uns dias para que repense. Estarei aqui por perto. Eu tenho muito tempo, embora eu deseje acabar com isso o quanto antes. Mas posso esperar que essa rameira desapareça, seja trocada ou que seu irmão declare guerra ao McFersson e se matem entre si. Mas você, senhora... Quanto tempo você está disposta a esperar que Kyle resolva novamente querê-la? Evelyna se engasgou, mas foi incapaz de dizer uma palavra antes que Barry montasse e esporeasse seu cavalo. Viu-o se afastar para as colinas com um sabor amargo na boca. Maldito! O que esperava? Que se atirasse no pescoço daquela porca loira matando-a?

Capítulo 30

Serman Dooley. Esse era o nome do guerreiro que protegia Elaine McFersson. Josleen o observou enquanto ele se encarregava de dirigir uma equipe que colocava em ordem as cavalariças. Ao levantar a cabeça, a silhueta da mãe de Kyle se Nieves Hidalgo

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escondeu imediatamente atrás da cortina de uma das janelas da torre. Sorriu. Já não lhe restava dúvida de que a senhora do laird estava interessada no Serman. Ele era um tipo nobre apesar de sua aparente rudeza, que desaparecia imediatamente quando estava próximo à dama. A moça decidiu que se Kyle era cego às necessidades de sua mãe, ela bem poderia pôr umas gotinhas de romantismo para se arriscar em arranjar o romance. Pensou no melhor modo e depois de refletir muito, resolveu que seria melhor um encontro em que nenhum dos dois pudesse escapar. Josleen tinha percebido que eles mal trocavam palavras, só olhares que diziam tudo para alguém que não fosse tolo. Aproximou-se do Serman e o chamou. – Esta tarde eu vou precisar de ajuda para colher ervas – disse a jovem. Serman ergueu as sobrancelhas, sem entender. – Ervas? – Sou uma perita trabalhando com elas. Liria, a cozinheira, tem dores nas costas e eu posso preparar uma mistura que a alivie. Mas não desejo sair desprotegida, já sabe que o laird não permite que eu vá mais, sozinha à frente do rio. Disseram-me que no bosque posso encontrar o que faz falta. – Entendo – concordou Dooley, embora a observasse com certa intranquilidade. Josleen se pôs a rir. – As ervas medicinais não é bruxaria, Serman. O guerreiro acabou por assentir. – Tá. Imagino que seria um favor para a Liria. Eu terei prazer em lhe ajudar, Nieves Hidalgo

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milady, mesmo que só servindo de guardião. – Então, às seis horas? Junto à entrada norte – Ali estarei senhora. Com um doce sorriso, Josleen se afastou e ele voltou para os seus afazeres. A primeira parte estava concluída. Em seguida, subiu à torre em busca da Elaine. Encontrou-a na cozinha, ensinando a uma das criadas o melhor modo de fazer velas, muito escassas nessa época e caras se tinham que comprar. Qualquer dama que se respeitasse devia conhecer a maneira de confeccionar velas para iluminar os aposentos. Ela ainda recordava as tardes que passara com sua mãe aprendendo a tarefa. Elaine estava explicando nesse momento o jeito como se deveria mesclar extrato de flor de laranja com a cera, de maneira que quando acendessem os pavios exalassem um aroma agradável. Com toda certeza, eram velas para uma ocasião especial. Aproximou o nariz ao recipiente da flor de laranja e aspirou com deleite. – Cheira maravilhosamente bem – Será ainda melhor quando arderem às velas – comentou a mãe de Kyle. Josleen esperou que a mulher acabasse de dar as instruções e a seguir disse: – Poderia me acompanhar esta tarde, senhora? Eu gostaria de recolher algumas ervas medicinais. – Entendem de medicina? – Minha mãe me ensinou. Liria tem problemas com suas costas. – Com certeza. E a pobre piora bastante durante os meses de inverno. Ficarei Nieves Hidalgo

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encantada de acompanhá-la. – Às seis horas, junto à torre norte? – Perfeito. Felicitando-se por sua astúcia, Josleen saiu da cozinha. Aqueles dois tolos acabariam por falar quando não restasse outro remédio. Logo, ficou nervosa pelo encontro e pela atenção de que foi objeto por parte de Evelyna, que parecia disposta a não partir do Stone Tower até conseguir de novo os favores de Kyle. A animosidade entre ambas estava cada vez mais palpável. Por sorte, assim que Kyle falou com a Eve, não tirou mais o olhar de Josleen desde que se sentaram à mesa. A jovem agradeceu que Malcom aproximasse seu assento ao dela e conversou com o menino animadamente, tentando se esquecer das adagas de ódio lançadas pelos olhos de sua rival. Também notou, com muito agrado, que James e Duncan procuravam comportar-se na mesa decentemente. Não jogaram nada e apenas sujaram os dedos. Demorou a espera até as seis da tarde. O tempo parecia não passar. Josleen se escondeu na torre e espiou de uma das janelas procurando não ser vista. Serman já a esperava apoiado em uma árvore, junto à torre norte e ela cobriu a boca sufocando uma risadinha quando a mãe de Kyle apareceu pela esquina do torreão e se encaminhou direta para onde ele se encontrava. Por um longo minuto, ambos se olharam sem dizer uma palavra. Josleen viu que Elaine estava com o rosto corado. Quanto ao Serman, parecia não saber o que fazer. Nieves Hidalgo

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Josleen esperou muito preocupada, que nenhum dos dois dissesse algo. Os segundos corriam e eles continuavam mudos. Ao ponto que esteve para lhes atirar algo à cabeça, quando viu que Serman trocava pela décima vez sua posição e Elaine arrumava a saia mais uma vez. Quase lhe escapou um grito de alegria quando o guerreiro suspirou fundo e se encaminhou para a mulher. – Deus bendito – sussurrou. – Achei que nunca iria se atrever. Dooley pigarreou. Então Elaine levantou o olhar, mas o abaixou imediatamente. – Senhora. – Dooley. Outro longo silêncio. Josleen os amaldiçoou em segredo do seu esconderijo. Seria tudo que iriam dizer? Mas de repente, ele esticou a mão para o rosto da dama. Interrompeu sua respiração, aguardando a reação do Elaine. – Milady tem um pedaço de palha no cabelo. Elaine empurrou imediatamente a mão dele de sua cabeleira e corou ainda mais. – Estive na adega... – gaguejou. –. Faltou vinho para o jantar e... Serman sorriu e Josleen, do seu esconderijo, observou o modo sublime como o rosto dela sempre circunspecto, rejuvenescia. Serman também não conseguia dissimular o prazer que representava para ele poder estar ao lado da dama. Retirou a palha dos sedosos cabelos e ela se moveu, inquieta e sobressaltada como uma jovem. – São seis? –Josleen escutou-a perguntar. – Creio que sim.

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– Não têm nada que fazer? – Prometi à jovem McDurney acompanhá-la para recolher erva medicinal. Parece que sabe como misturar para que... – Para que Liria encontre alívio em sua dor nas costas – acabou a frase Elaine. Serman Dooley ergueu uma sobrancelha. – Disse-lhe isso? Elaine olhou seu gesto antissocial e soltou uma sonora gargalhada. Josleen, da janela, fixou-se na adoração que iluminava os olhos dele. – O que é tão engraçado, senhora? – Perguntou, enquanto a mãe de Kyle limpava as lágrimas com a manga de sua blusa. – Creio Dooley, que caímos numa armadilha. – Não entendi. – Bom, é fácil adivinhar. Josleen pediu a você para vir aqui colher ervas. Pediume o mesmo, mas... Ela está aqui em algum lugar? – Começa a demorar – grunhiu Serman. – Não virá – a dama voltou a rir com vontades. – OH, Deus, essa moça é uma ilusão de diabo. Não se deu conta do que ela pretende? Ele estalou a língua. – Talvez se esquecesse. – Não. Não esqueceu. Eu creio que não pensa vir. – Então, talvez seja melhor voltarmos aos nossos afazeres. Nieves Hidalgo

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– Talvez – sorriu a dama. Serman a olhou por um longo tempo. Para ele, aquela mulher sempre fora a mais formosa. Amava-a a tanto tempo. Em silêncio, à distância. Esticou a mão e acariciou com tanto cuidado seu cabelo que as lágrimas correram em Josleen. – Ou talvez devêssemos aproveitar este encontro para dar um passeio e pegar a erva que ela precisa – disse ele. – Você sabe quais são? – Não tenho a menor ideia. Mas o passeio me parece agradável – murmurou novamente corada. Serman sorriu. – Fica tão bonita quando ruboriza senhora – murmurou. – Mas especialmente, quando ri. Deveria fazê-lo com mais frequência. Elaine voltou a arrumar a saia. – Que gentil você fala Dooley. – Lhe agrado um pouco, minha senhora? Do esconderijo, Josleen suspirou. Sem nenhuma dúvida! Respirou, aliviada. Por fim parecia que Serman tomara o caminho correto. E agora o que! Palpitou-lhe o coração aguardando a resposta. – Não me desagrada absolutamente, Dooley – e abaixou os olhos. O sorriso dele foi sublime. Josleen deu uns passos de dança e até se permitiu dar um beijo nos dedos e colocá-los na bochecha. Já não havia mais dúvida de que aqueles dois estavam apaixonados. – Se minha posição fosse mais apropriada... – falou. – Talvez me atrevesse a... Nieves Hidalgo

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Os olhos azuis do Elaine se cravaram no rosto do Serman. – Pensei que fosse um guerreiro mais atrevido. – Tenho terras, sabe. Não são muitas. Apenas alguns hectares. O laird foi generoso comigo. Também tenho cavalos, algumas ovelhas... Algumas vacas.... Elaine soltou uma risadinha nervosa. – Por que me enumera as suas posses, Dooley? Serman pigarreou e ficou em silêncio. Josleen inclinou meio corpo pela janela e abafou a risada ao ver que agora era ele quem estava ruborizado. – Quero saber se minha pouca fortuna e minha pessoa é suficiente para uma mulher de sua estirpe, senhora. Um gorjeio de felicidade escapou da garganta de Elaine. – Só a sua pessoa já me é suficiente, Serman. Não é necessário que a adorne com terras nem ovelhas. – Elaine... – disse como numa oração. Josleen se inclinou mais ainda. Se Deus não a ajudasse poderia acabar quebrando o reboco e cairia, mas não queria perder nada do que estava se passando. Eles desapareceram de sua vista ao se aproximarem do muro, Josleen soltou uma imprecação por entre os dentes. Mas quando conseguiu vê-los de novo riu efusivamente. Serman Dooley tinha abraçado Elaine McFersson e ela não parecia sentir desejos de afastar-se. Pouco a pouco, Serman abaixou à cabeça e a beijou com delicadeza. – Falarei com seu filho – prometeu ele depois de um longo suspiro de satisfação.

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– O quanto antes, Serman – pediu. Josleen correu para o exterior, desceu a escada pulando de quatro em quatro degraus e quase colidiu com Duncan quando saía da torre. – Aonde diabo vai tão às pressas? – Gritou o jovem. – Desculpa – gritou ela por sua vez, entre risadas. – Agora não tenho tempo de lhe explicar. Quando chegou ao pátio o casal continuava olhando-se e ela então pode respirar. – Boa tarde – saudou de uma distância razoável. Separaram-se imediatamente, Elaine com o rosto corado e ele como se o pegassem em falta. – Devem me desculpar, mas adormeci. Vamos procurar as ervas? Serman e Elaine a olharam sobressaltados. – Milady indicará os lugares onde se encontram as que eu preciso para fazer a mistura de Liria – disse para mãe de Kyle. – E você, Dooley, irá servir-nos de escolta. Atônitos mas internamente divertidos e agradecidos pela armação da jovem seguiram-na. Durante mais de uma hora, estiveram recolhendo aqui e lá o que Josleen necessitava e ela usufruiu muito, observando de relance a ambos, enquanto trocavam olhares de carinho ou então se tocavam com comedimento. Quando os três retornaram a fortaleza, Josleen se sentiu bem-aventurada. Ao menos tinha conseguido arrumar algo naquele lugar. Sua mãe riria quando o contasse.

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Capítulo 31

Mas o dia não iria finalizar como um mar de rosas. Kyle retornou mal-humorado da caça, que tinha saído com quatro de seus homens. Aconteceu que, um deles escorregou e um veado que podia ter lhes proporcionado carne para ao menos uma Nieves Hidalgo

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semana, conseguiu fugir.Aquela noite Josleen preferiu não descer para jantar com outros e decidiu fazê-lo a sós. O aborrecimento de Kyle fez com que Elaine pedisse ao Serman que aguardasse melhor ocasião para falar com o jovem laird, pois ela tinha certeza de que se Serman ficasse diante de Kyle, seu filho acabaria atirando uma jarra à cabeça dele. Além disso, as constantes bajulações de Evelyna com o Kyle a deixava doente. Josleen brincou distraidamente com a comida sem vontade de comê-la realmente, enquanto sua mente dava voltas e mais voltas aos últimos acontecimentos. Sorriu ao ver o bolo que tinham levado; recém feito, estranho, pois ela sabia que no Stone Tower somente faziam bolos aos fins de semana para contentar ao pequeno Malcom. Era uma mostra de gratidão da Elaine que ela agradeceu encantada. Sua posição tinha alterado desde o episódio do rio. Todos pareciam começar a estimá-la mesmo pertencendo a um clã inimigo. Todos, salvo Evelyna Megan. Entendia que ela a odiasse. Afinal de contas ela roubara a atenção de Kyle. Que maldição tinha caído sobre ela para perder a cabeça? Por qual malfadada ideia deixou que Kyle a seduzisse? Tinha confundido tudo e as consequências podiam ser nefastas. Mas não podia remediá-lo. Estava apaixonada pelo Kyle. Com uma imprecação nos lábios se levantou e caminhou até a janela. Embaixo, no pátio, os homens de guarda estavam tão quietos como estátuas, mas alertas ao menor movimento. Por um segundo se perguntou se não deveria tentar escapar. Mas imediatamente a lembrança de seus amigos presos nas masmorras a fez desprezar a tola ideia. Estava segura, sem dúvida, de que Kyle não faria nenhuma represálias contra eles, contudo mesmo que conseguissem afastar-se o suficiente de Stone Tower ela estava convencida de não conseguir atravessar as terras dos McFersson antes que os homens de Kyle a alcançasse de novo. Ele não iria dispensar um rico resgate, isso Nieves Hidalgo

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estava claro. Ele a desejava, mas não a amava. Não era nada mais que uma prisioneira por quem conseguiriam uma boa quantidade de cavalos e cabeças de gado. – Então por que faz amor comigo? – Questionou em voz alta. Ninguém poderia lhe responder isso e a angústia cobriu seus olhos de lágrimas de infelicidade. Ergueu-se. Não iria chorar. Não o faria, condenação! Kyle a denegrira. Agora ninguém iria casar-se com ela, seu irmão não poderia concretizar sua união com outro clã que fortalecesse o poder McDurney. Soltou um palavrão muito feio e se sentou no leito. – Maldito se me importa. Deixou escapar uma risada. OH, Deus, começava a ficar louca. Agora estava falando consigo mesma e esse era um sintoma muito claro. Mas agora, a ela importava muito pouco se nenhum homem desejava desposá-la. Sempre sonhou em casar e ter filhos, claro, mas até então não tinha conhecido nenhum homem por quem pudesse sentir algo mais além de afeto. Nunca amou ninguém. Agora era impossível que acontecesse, não depois de apaixonar-se pelo Kyle! – Bastardo – sussurrou. Levantou-se e começou a caminhar pelo amplo dormitório com longas passadas. Se ele aparecesse diante dela nesse instante, teria lhe arrancado os olhos. Kyle tinha a culpa de todos seus transtornos. A matinha prisioneira e a conservava ali com a estúpida ameaça de vingar-se nos homens de seu irmão, também a desonrara... Escapou-lhe um gemido e cobriu a cara com as mãos – por que tive que me apaixonar por você? Amaldiçoou-se até que a garganta lhe doeu, de modo que mais tarde, quando a porta abriu, o humor de Josleen era algo assim como um vulcão a ponto de explodir.

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Kyle ficou mais uma vez sem respiração ao olhá-la. A luz do único candelabro as suas costas a envolvia em um halo dourado, seu cabelo reluzia caindo sobre os ombros. E a luz da lua provocava a ilusão de que tinha o rosto diáfano. Ela não se voltou para olhá-lo, mas Kyle imaginou se não era mais uma artimanha

feminina

e

que

ela

sabia

que,

naquela

postura,

resultava

avassaladoramente formosa. Bom, o estratagema de uma mulher, não o desagradava, enquanto não ficasse cansativo. Fechou a porta e entrou enquanto seu corpo respondia ao suave perfume que impregnava o quarto e que, indubitavelmente, provinha de Josleen. Franziu o cenho vendo que ela mal tinha provado o jantar, mas tampouco ele tinha jantado muito pensando nos prazeres da noite. Aproximou-se até Josleen e pegou uma mecha do cabelo entre seus dedos, esfregando-o e maravilhando-se de novo com sua textura. Josleen reagiu como se tivesse sido picada uma serpente. De um sopapo, afastou-o e colocou distância entre ambos. Kyle ergueu uma sobrancelha e esperou o sermão com um sorriso. Tinha demorado muito em subir, embora o seu maior desejo, já há muito tempo, era estar ali com ela, tendo-a nua entre seus braços. Foi impossível, entretanto, desembaraçar-se de suas obrigações quando chegaram dois homens do clã Galligan. E embora não tivesse comido muito, por deferência aos seus convidados, bebera mais do que seria prudente, de modo que se encontrava um pouco folgazão. – Não pretendia lhe deixar tanto tempo só – se desculpou. – Oxalá tivesse lhe engolido a terra! – Explodiu a moça, deixando-o perplexo. Kyle enrijeceu.

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– Que diabo lhe aconteceu? – Quero um quarto só para minha – lhe disse Josleen. – Está louca! – Insisto nisso McFersson. Ele quis acreditar que tudo era um jogo para seduzi-lo. Uma boa bronca e depois uma reconciliação melhor. – Não há quartos livres, minha senhora. – Duvido muito que isso seja verdade numa fortaleza como esta. Encontre. Sua insistência começou a lhe irritar. Tirou a jaqueta e quando a tirou a camisa disse: – Só estão livres algumas masmorras e não imagino que queira... – Uma masmorra, então – cortou Josleen. – Ficarei lá até que Wain venha a me buscar. Kyle olhou como se ela estivesse louca, como se acabasse de confirmar que o mundo tinha desaparecido por completo. Que bicho a tinha mordera? – Não está em seu normal. Josleen, irritada diante da sua passividade se atirou sobre ele e tentou lhe golpear. Acabou presa entre seus braços. – Quero sair deste quarto, McFersson. – Esqueceu meu nome? Esta manhã o pronunciava com muito ardor, mulher. – Esta manhã – disse entre os dentes, notando o calor ao recordar que rolaram Nieves Hidalgo

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como possessos na cama – eu não tinha as ideias claras. – E agora sim? – gritou ele – Pedindo uma cela? – Qualquer lugar que você não esteja maldito seja mil vezes! Kyle a soltou como se o queimasse. Piscou, sem entender que diabo tinha acontecido para que ela mudasse tão repentinamente. Ao despertar, com o corpo magro e quente de Josleen junto ao dele, uma febre de desejo o atacou sem piedade. Tinha começado a acariciar suas costas e ela, meio dormindo meio acordada, gemeu e se entregou aos seus beijos. Uniram-se de um modo selvagem e ele saíra para caçar com um humor memorável. Cada instante do dia desejou reunir-se de novo com aquela mulher que lhe tinha roubado a alma. Entretanto, agora se mostrava como uma harpia, desejosa de sair de sua vista. – Ficará aqui. Pronto – disse com voz rouca. – Então você irá para outro lado. – Nem sonhe princesa. A fortaleza é minha, o quarto é meu e o que há dentro me pertence e não vou deixá-lo. – Leve seus baús então. E sua cama – enfrentou. – Eu posso dormir no chão. Kyle rilhou os dentes e tentou ser paciente. – Refiro-me a você, Josleen. – Eu não lhe pertenço! – Não me parece isso quando fazemos amor! A jovem o olhou fixamente e logo se pôs a rir. – Amor! O que pode saber um homem como você de amor? Alguém que não se Nieves Hidalgo

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preocupa das necessidades de sua mãe, que não acolhe seu filho quando este deseja mais que nada no mundo estar ao seu lado. Mas diz que faz amor! – Quis soltar uma gargalhada, mas saiu um gemido de agonia. – É como um pavão, orgulhoso de suas plumas, mas como ele, não se importa se o chão onde pisa está cheio de excrementos! Não, McFersson. Você não me faz amor. Só me utiliza para que esquente sua cama e sacie seu desejo. Por isso prefiro uma masmorra que continuar neste quarto. Uma nuvem vermelha acabou com a cautela de Kyle. O desejo de agarrá-la pelo pescoço e sacudi-la para fazê-la voltar à razão foi tão forte, que até deu um passo para ela. O olhar de ódio que Josleen lhe deu de presente acabou por derrotá-lo. Já tinha passado por isso outra vez e não estava disposto a que se repetisse. De modo que sua fúria também estourou. – Seja então! Terá o que quer mulher. E que o diabo a leve! – de duas passadas chegou à porta e a abriu de sopetão – Seil!! À carreira, um homem de aspecto imponente se aproximou. – Leva a prisioneira McDurney às masmorras. A ordem de Kyle deixou mudo. – Não ouviu o que ordenei? – Claro, laird, mas... – Que ocupe a que está ao lado de sua escolta – olhou à jovem e encolheu os ombros. – Creio que, ao menos, aceitará essa concessão. Josleen sentiu o sabor do fel na garganta. Apaixonara-se por aquele imbecil, mas era claro que ele não estava por ela. Era verdade que ela gritara com ele, que o tinha insultado e dito coisas atrozes, mas ele poderia ter tentado acalmá-la, demonstrar Nieves Hidalgo

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que a queria. No entanto, apenas provocara uma discussão e ele a afastara. Sufocou a vontade de lhe pedir perdão porque desejava mais que tudo no mundo, trazê-lo de volta para seus braços. Assim, assentiu com gesto seco e passou ao seu lado com ares de rainha destronada sem sequer o olhar. – Seil, leva seu baú. Certamente nossa "convidada" desejará trocar de roupa para as quatro paredes de sua cela. Josleen esteve a ponto de chorar. Mas não o fez.

Capítulo 32

– O que fez?!

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O grito do Duncan quando James lhe contou no ouvido o que se murmurava por toda a habitação, provocou um esbarrão num dos criados. Como consequência, uma bandeja de mingau de aveia para o café da manhã foi ao chão. Kyle olhou seu irmão caçula com vontade de assassiná-lo. – Modera seus gritos ou saia, Duncan. – Pelo amor de Deus, James me contou que mandou prender a Josleen numa masmorra! Como quer que não grite? – Incomodam-me seus berros – disse Kyle sem desejar entrar em mais detalhe. – Está bem, chateiam-lhe meus gritos, mas não me respondeu. Josleen passou a noite toda numa masmorra? É certo? Evelyna olhava Kyle com adoração. Se fosse certo o que acabava de dizer Duncan seu problema fora solucionado. A vadia McDurney acabara onde merecia e ela voltaria então a ocupar o seu posto sem necessidade de arriscar-se com um assassinato. ***** Malcom lançou um olhar sinistro ao seu pai. Sabia que ele devia às vezes fazer aos outros, coisas que o desagradavam, como quando castigava alguém por comportar-se mau, no entanto não conseguia entender o que fizera Josleen para ser castigada. Quanto a Elaine, ela não ergueu a vista de seu prato, mas apertou com tanta fúria um pedaço de pão que este de desfez sobre a mesa. – É certo – acabou assentindo Kyle. – A enviei para uma cela na masmorra, junto aos seus camaradas.

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– Por que, por todos os deuses celtas? – Ela o pediu. – Pediu-o? – Inquiriu James, também aos gritos – Ela pediu? Irmão pode ser o chefe do clã, mas é também um asno! – Ninguém em seu juízo perfeito pediria uma cela na masmorra quando pode estar livre por todos os lados – apoiou Duncan. – Posso visitá-la? – interveio Malcom. – Pode ser que tenha se precipitado, filho – sussurrou Elaine. Kyle rilhou os dentes. Então se ergueu e golpeou a mesa com a mão. – Já basta! – gritou, fazendo calar a enxurrada de protestos. –Josleen McDurney é uma prisioneira e acabou. Está no lugar que lhe corresponde. – Até agora esse lugar era seu quarto – disse o pequeno Malcom com ar inocente. – Vamos, carinho – interveio Evelyna, tão radiante que até devia ter engordado uns quilogramas ao inteirar-se da notícia. – Seu papai fez o correto e não devemos pôr em julgamento suas decisões. Afinal de contas, essa mulher deveria estar desde o começo numa cela, de modo que... Imagino que ela está desgostosa ao ser privada das comodidades – se aproximou de Kyle e acariciou seu braço. – Já sabe que estou disposta a voltar quando quiser carinho. Parece-me natural que tenha decidido castigar essa cadela. Kyle lançou outro olhar sinistro a todos. Odiava ficar como um ogro quando a culpa não fora dele, mas lhe doía mais era que todos pensassem que estava castigando Josleen. Nieves Hidalgo

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– Josleen preferiu a cela a ficar na minha cama, Evelyna. Eu não a castiguei. Ela não tem feito mais do que me proporcionar prazer, de modo que por que iria fazêlo? – Olhou o resto – Estão satisfeitos? Antes que alguém respondesse, saiu do salão a largas passadas. – Vai agarrar uma ressaca impressionante – disse James. – Eu em seu lugar faria o mesmo – assentiu Duncan. – Por que os adultos resolvem tudo com uísque? – quis saber Malcom. Elaine pegou o pequeno e o pôs sobre seus joelhos enquanto Evelyna partia feito uma fera. A senhora presenteou a jovem com um olhar de pena. Realmente a lastimava, porque tinha adivinhado fazia dias que seu filho estava apaixonado como um bezerro por Josleen e nem Evelyna, nem ninguém, poderia arrancá-la dos braços daquela McDurney altiva, mas encantadora. – Céus – ela disse ao neto, – falta muito tempo ainda para entender todas as tolices que fazem os adultos. Até eu, velha como sou, ainda não o compreendo. – Você não é velha, avó. É a mulher mais bonita da terra. Serman o diz, o escutei. Elaine se engasgou. Ficou vermelha como um grão. James e Duncan, ao ver sua reação, romperam em gargalhadas. ***** Josleen já lamentara um milhão de vezes sua teimosia. A perda do controle a induzira a passar aquela longa noite na cela. Na verdade estava razoavelmente limpa e pudera conversar através das grades com Verter e outros, por isso a estadia ali se tornou mais suportável. Nieves Hidalgo

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Ainda assim, suportaria tudo para não cair de novo sob o feitiço de Kyle. Não podia render-se, simplesmente. Seu orgulho valia mais que qualquer comodidade. Mas durante aquela noite não só sentiu falta do calor das cobertas na cama de Kyle, mas também do calor de seu corpo. Kyle estava acostumado a dormir abraçando-a pelas costas, pondo uma de suas musculosas pernas sobre as dela; naquela postura se entregavam ao sono reparador, quase sempre depois de momentos de paixão. Ao rememorar os lábios de Kyle, suas carícias, seu corpo quente e dourado, os olhos se encheram de lágrimas. – Josleen. A voz de Verter a fez voltar então à realidade. À realidade de seu confinamento, de sua cela. – Estou aqui – respondeu. – Conseguiu descansar? – Como um bebê – mentiu com descaramento. Verter ficou num profundo silêncio. – Vou arrancar do maldito McFersson o que o torna homem e o queimarei como oferenda aos deuses – grunhiu o soldado. – Prendê-la aqui não tem... – Verter, já lhe disse que eu o exigi. Não deve reprovar nada a ele. – Mesmo que tivesse sido assim, coisa que duvido! Que homem de respeito prenderia à irmã de Wain McDurney numa condenada cela da masmorra? Vou matálo por isso. Nieves Hidalgo

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– Não insista, por favor – pediu ela com voz cansada. – A que hora trazem o café da manhã? – Tem fome? – Ontem à noite não jantei. – Não lhe deu de jantar o bastardo? – Explodiu Verter sacudindo os barrotes de sua porta. – O matarei! Josleen explodiu numa nervosa gargalhada ao escutá-lo xingar de novo. Verter parecia inesgotável quanto a amaldiçoar ou ameaçar. – Deixa para lá, amigo. – Vai matá-lo tantas vezes que não poderá fazê-lo numa só vida e terá que viver várias vezes para poder cumprir suas ameaças. Verter se calou, mas em seguida a escutou rir. A porta que abria para primeira galeria das masmorras se abriu e dois homens entraram empurrando um carrinho apinhado de tigelas, pedaços de pão e odres de água. Josleen caminhou até a janelinha da porta ao sentir o cheiro da comida. Na verdade estava esfomeada. Um dos guardiões ordenou que ela se afastasse até o fundo da cela antes de abrir e deixar sua comida no chão. Justo quando abria a porta da cela, uma voz imperiosa gritou fazendo o carcereiro tremer. – Leve essa porcaria, Segmun! – Ela identificou imediatamente a voz de James e se atreveu a chegar até a porta. – Bom dia, princesa – saudou o jovem, sorridente. – Duncan e eu pensamos que não lhe agradaria o café da manhã dos prisioneiros e roubamos algo da cozinha. James lhe mostrou um prato onde tinha uma ave assada. Duncan, ao seu lado, Nieves Hidalgo

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lhe mostrou uma jarra de vinho e um enorme pedaço de bolo. Josleen se pôs a rir, com os olhos turvos com lágrimas de agradecimento. – Vocês são muito amáveis, mas por acaso o seu irmão lhes deu permissão para trazer isto a sua inimiga? – Esse apalermado! – Grunhiu Duncan, entrando na cela como se estivesse em seu próprio quarto – Vamos, venha tomar o café da manhã. Liria disse que ontem à noite retirou sua bandeja intacta. Ela tinha lhe preparado esse bolo muito antes de inteirar-se de que esse brutamonte que temos por irmão a tinha encarcerado aqui embaixo. Ela nos enviou então, sabe que ela a estima. E vocês o que esperam? – Censurou os dois carcereiros que os olhavam distraídos. Depressa eles começaram a passar a comida à cela dos homens. Duncan e James se acomodaram na beira da enxerga. – Os dois fiquem a vontade, por favor – brincou Josleen. – Não seja irônica, princesa. Sente-se e coma – disse James. – Está fraca como um ramo. E a ave vai esfriar. – Compartilharão meu café da manhã? – Já tomamos o café da manhã. – Mas se insiste – sorriu Duncan arrancando uma coxa dourada. – Duncan, Por Deus, só pensa em comer! Josleen, divertida apesar de toda sua penúria, sentou-se no único tamborete que havia na cela, disposta a desfrutar do café da manhã e da companhia. Pensou que aqueles dois não eram tão néscios como pareciam e que tinham bom coração. Mas nem tinha engolido a primeira porção quando a voz irada da Elaine fez os três Nieves Hidalgo

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virarem-se. – Malcom, meu querido, não corra não estou habituada a isso, e também está escorregadio e pode lhe fazer mal. Escutaram a saudação nervosa dos guardiões quando a senhora do Stone Tower adentrou nas masmorras precedida do filho do chefe do clã. Um segundo depois, Elaine aparecia pela porta, com o Malcom atrás. Ficaram parados ao se verem uns os outros. – James! Duncan! O que fazem aqui? – Eles nos adiantaram avó – reclamou Malcom, fazendo um gesto de aborrecimento tão idêntico ao do seu pai que contraiu o coração de Josleen. – Hah. Ave, vinho e bolo – disse mostrando a bandeja que ela trazia nas mãos e que continha quase as mesmas iguarias. – Mas nós trouxemos leite em lugar de vinho. As risadas inundaram a cela de Verter e dos outros prisioneiros, Josleen também caiu na risada. OH, Deus, nunca conhecera pessoas iguais a eles. Ali não havia controle. Cada um deles quebrava as regras como e quando gostava. – É muito, só para mim – disse, enxugando as lágrimas, – de modo que... O que lhes parece se fizermos algo parecido como um café da manhã campestre? – Mas se não estamos no campo! – Cale-se tolinho – James riu forte, – procure onde se sentar. Este vai ser o café da manhã mais interessante de toda minha vida. Entre risadas e brincadeiras, comeram de tudo. Ao acabarem, todos pareciam tristes ao partir. Elaine pôs sua mão na de Josleen. – Sinceramente, não quer sair daqui, menina? Nieves Hidalgo

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– Creio que não – mentiu. – Estou melhor longe dele. – Mas, filha... – Não insista, Elaine, o rogo. Faria mais difícil minha decisão. – Como quiser – suspirou a mãe de Kyle. – Me encarregarei de que tenha boa comida e algo um pouco mais confortável do que esse pestilento catre. Josleen assentiu sem dizer uma palavra por medo a romper em soluços. Agachou-se e deu um beijo na bochecha do Malcom. – E nós? – Protestou Duncan. Ela lhes sorriu com doçura e deu de presente um beijo a cada um dos tios do pequeno. De repente, sentiu que aqueles mal educados moços, que o menino, que inclusive Elaine, poderiam fazer parte de sua família, e já não pôde sustar as lágrimas. Abraçou-se à mulher e ela a reconfortou o melhor que pôde embalando-a como a uma criança. Quando os quatro partiam, escutou-se o alvoroço de Verter: – Senhora, diga ao seu filho condenado, que vou arrancar-lhe as tripas e as secar ao sol assim que estivermos cara a cara! Tanto Verter como Josleen se assombraram com a serena resposta da dama. – E seria bem feito, para o idiota.

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Capítulo 33

Kyle rolou no leito, calculou mal e acabou estatelado no chão. Levantou-se soltando uma enxurrada de obscenidades. Quando o sol que entrava pela janela brilhou nos seus olhos, fez um gesto de dor e voltou a amaldiçoar com a voz Nieves Hidalgo

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roufenha. A noite anterior pegara um odre de uísque, saiu de Stone Tower, procurado um lugar afastado e tinha bebido como um condenado imbecil. Nem sequer recordava como tinha retornado ao seu quarto. O que recordava com nitidez era que o tinha encontrado vazio. Que Josleen estava trancada numa cela por vontade própria e que ele não podia tê-la em seus braços. Então gritou, pedindo mais bebida. Não sabia se alguém a proporcionou ou a pegara ele mesmo, mas aos pés da cama havia uma jarra vazia. Tinha a boca seca e a cabeça explodia, com certeza por cair do leito. Estava claro que participara de uma carraspana de primeira. Não se embriagava daquela maneira desde o dia em que Malcom lhe perguntou pela Muriel, e ele escapou do Stone Tower para beber. No dia em que acabou prisioneiro dos condenados McFersson. O dia em que maldito fosse! Tinha conhecido ao Josleen. Levando as mãos à cabeça e movendo-se devagar, saiu do quarto. O alarido de James chamando-o fez Kyle soltar um gemido de dor, ele se encolheu apoiando-se no corrimão que dava ao pátio. James chegou à carreira. – Kyle, um grupo de... – Se cale, Por Deus – suplicou. James observou seu irmão e laird do clã, o homem capaz de extrair a cabeça a qualquer guerreiro numa luta, e sorriu largamente ao ver o seu lamentável estado. Longe de sentir pena, deu-lhe uma palmada nas costas em sinal de saudação e se regozijou ao escutá-lo gemer. Nieves Hidalgo

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– Dormiu bem, irmão? Kyle estava a ponto de vomitar pela sacudida e pela dor de cabeça que se tornara insuportável. – Deus... – Já vejo que não – disse James. – Por sua vida, fique em silêncio – lhe pediu Kyle. James susteve a risada e disse: – Um grupo de mulheres quer falar contigo. – Não quero receber ninguém agora – sussurrou. – Traz algo de beber, James. Tenho uma ressaca de mil diabos. – Seu dever como laird é atender... – Por todos os deuses, James, não estou para...! – seu próprio grito o fez encolher-se e cair de joelhos – OH, maldição! – Esperava que seu irmão lhe tirasse de cima a obrigação de atender aquela comitiva das mulheres, só o diabo sabia o que queriam pedir agora, mas o outro parecia muito divertido com seu alarmante estado e pouco disposto a lhe fazer o favor, de modo que o olhou soltando faíscas pelos olhos. – Dê-me ao menos uma hora. – Meia. – James... – Ninguém o instigou a fazer algo tão estúpido como colocar essa moça numa cela. Ninguém, portanto, é o único culpado, e também apenas você por sua bebedeira. Não, irmão, eu não vou lhe dar mais que meia hora; as mulheres parecem Nieves Hidalgo

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muito interessadas em vê-lo e eu não tenho a obrigação de atendê-las. Tivessem-lhe matado. Tivessem-lhe arrancado a cabeça. Houvesse... Que demônios, ele tinha razão, pensou. Ele e só ele, era culpado pelo que estava sofrendo. Aquiesceu com cansaço. – Peça ao menos que me preparem um banho. No quarto anexo à cozinha. Por favor. – Dá-o por feito. James se afastou para falar com o grupo de mulheres. Tão logo chegou às dependências do primeiro piso, procurou algo para beber. Sabia por própria experiência que uma ressaca se curava com algo forte. Encontrou um excelente brandy inglês que só Deus sabia quem o tinha trazido, e bebeu longamente da garrafa. O álcool lhe caiu no estômago como uma pedra. A princípio não pareceu lhe causar nenhum efeito, mas um minuto depois teve que sair rápido e vomitou até ter a sensação de esvaziar a primeira cerveja que tomou anos atrás. Mas logo se sentiu melhor e embora a dor de cabeça não tivesse parado ao menos seu estômago não estava mais embrulhado e suas ideias começavam a clarear. Banhou-se com rapidez e em seguida, esperou no salão principal até que James apareceu com as mulheres. Kyle as olhou desejando que desaparecessem num piscar, mas tratou de comportar-se como correspondia. Eram dez. A que tomou a palavra era Helen Garren, a mulher do ferreiro. Nieves Hidalgo

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– Milord – ela disse com voz forte, fazendo que Kyle se encolhesse ligeiramente, – nós desejamos lhe pedir um favor – ele assentiu, sem ânimo de abrir a boca. – Nós gostaríamos que a moça McDurney ensinasse alguns de nossos filhos a nadar. A petição fez Kyle piscar. Engoliu com dificuldade e replicou: – Qualquer um dos homens poderá fazê-lo. Imagino que mais de um sabe nadar. – Não são muitos, laird. E eles têm outras tarefas que executar ou não estão presentes, por estar trabalhando. Por isso pensamos na dama. – Sei. – A lagoa do Chilly seria um lugar perfeito. Kyle considerou por um momento. E esteve a ponto de beijar a mulher, porque ela acabara de lhe dar uma magnífica desculpa para poder tirar Josleen da cela. Embora certamente pensasse em fazê-la pagar por sua cabeça dura e pelo seu malestar. Mas não seria até o dia seguinte. Não. Uma noite a mais na masmorra a faria repensar. – Não posso afirmar que aceitará. – Estamos seguras de que o fará, laird. A observamos desde o dia que a trouxeram. Só terá que lhe dizer que com isso evitará que aconteça o mesmo do outro dia. Kyle assentiu. Helen fez uma ligeira inclinação com o joelho direito e com um gesto autoritário indicou às demais que a audiência tinha encerrado. James se aproximou de seu irmão quando todas já tinham saído e se sentou ao seu lado. Nieves Hidalgo

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– O que vai fazer? Não será natural que a mulher ensine as nossas crianças a nadar, continue dormindo numa cela. – Desapareça, irmão – grunhiu Kyle. O laird do Stone Tower levou a cabo sua palavra de não ir procurar Josleen naquele dia. Uma dura batalha para ele, porque além dele desejar amá-la de novo, todos e cada um dos membros da fortaleza fez o voto do silêncio naquela noite. Na hora do jantar, James e Duncan, ao ver que Josleen não estava no salão, procuraram uma desculpa e saíram. Kyle foi incapaz de proibir nada, e conhecendo como conhecia aqueles dois, ele quase agradeceu. Entretanto, a corriqueira desculpa de sua mãe para ausentar-se também da mesa um segundo antes que começassem a servir as carnes, ardeu-lhe como um jato de vinagre numa ferida. Sobretudo, porque ela levou consigo Malcom, inclusive, o pequeno parecia satisfeito de afastar-se de seu progenitor. Kyle teria dado qualquer coisa para ter companhia aquela noite. Até mesmo teria aceitado de bom grado a presença de Evelyna, mas a moça nem apareceu no salão, irritada sem dúvida por seu descaso. Se por acaso o desprezo de sua própria família fosse pouco, os criados se somaram à rebelião lhe servindo um jantar frio e insípido e um vinho aguado, que não teriam dado nem a um mendigo. Provou uma coxa de ave e a devolveu à bandeja, enjoado e mal-humorado. Reclinado no assento e sem vontade de provar nada, Kyle pensou seriamente no que estava acontecendo em seu mundo desde o encontro com a irmã de Wain. Aquela jovem tinha conseguido pôr todos sob seu jugo, sem sequer mover uma sobrancelha. Sem dúvida teria sido um grande líder de tivesse nascido varão, porque tinha a coragem de um guerreiro, o olhar de um valente e a sensibilidade de uma Nieves Hidalgo

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mulher, combinação francamente diabólica para um homem como ele, acostumado a ser obedecido num simples olhar. Josleen até conseguira que tanto James como o Duncan se comportassem decentemente, também o Malcom estava mais feliz do que já havia sido antes, e o que era mais importante, sua mãe sorria. Não a tinha visto sorrir desde que enviuvou. Além de tudo isso, as mulheres do clã solicitavam-na como professora desejando pôr à vida de seus pirralhos em suas mãos, apesar de saber que pertencia a um clã com quem a animosidade já durava desde o tempo de seu bisavô. E os criados a adoravam. Retiraram as bandejas intactas. Kyle foi até a cozinha, onde Liria lhe lançou um olhar irado e não lhe dirigiu a palavra, procurou uma jarra de uísque e olhando criticamente a bebida, pensou que mais uma bebedeira não tinha importância. Afinal de contas, ninguém parecia desejar sua companhia e Josleen estava numa cela. Que outra coisa podia fazer um homem naquela situação, a não ser beber?

Capítulo 34

Apesar do uísque não conseguiu pregar o olho a noite toda e tão logo clareou o Nieves Hidalgo

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dia, decidiu que a teimosia da Josleen já tinha durado o suficiente. E a sua também. Se ela queria permanecer numa masmorra, ele não iria consenti-lo. Precisava trazê-la ao seu quarto, a sua cama. E acabar com o desdém que lhe dedicavam cada membro do clã quando se cruzava com ele. A surpresa que o recebeu quando lhe abriram a porta da cela foi enorme. Observou tudo com olhos arregalados e imaginou se aquele lugar tinha sido em alguma ocasião uma fedorenta masmorra, ele devia ser cão que era o rei da Inglaterra. Josleen não só tinha várias mantas de lã bem macia sobre a estreita cama de armar, mas também lençóis e cobertores, uma bacia, uma jarra com água fresca e uma mesa com carne recém cozidas. Seguramente, muito melhores que as que lhe serviram na noite anterior. Soltou uma blasfêmia entre dentes. Ela, que não esperava vê-lo, ergueu o queixo num gesto orgulhoso, embora repentinamente insegura. Agora, ele ordenaria que levassem todos os utensílios que Elaine tinha ordenado trazer à cela. Era apenas uma prisioneira. Só esperava que a mulher não fosse castigada por tentar tornar sua estadia mais confortável. Kyle foi incapaz de falar. Estava tão formosa e viçosa como se acabasse de passar a noite em um colchão de plumas de ganso. Qualquer outra mulher, depois de ficar um tempo presa ali, teria suplicado sua liberdade. Mas não Josleen McDurney. Aquela moça tinha fibra, por todos os diabos. – McFersson!! Se estiver aí, se aproxime para poder matá-lo! –Escutou-se o clamor de Verter da outra cela. Kyle rilhou os dentes. A resseca em sua cabeça não suportava ainda os gritos e Nieves Hidalgo

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começou a pensar muito sério em tirar aquele McDurney e o pendurar numa árvore. Ma enfim, dando uma olhada em Josleen, se encaminhou para a outra cela e apareceu na janela gradeada. – O que quer escória? – Ver a cara do homem que se atreveu a prender a minha senhora numa cela – retrucou o outro. – Para que não me esqueça quando o atravessar com minha espada. Kyle fechou os olhos e abaixou à cabeça para que não o vissem rir. Aquele fanfarrão o fazia rir de verdade. Não parava nunca de lhe ameaçar. Tão cabeça-dura como a própria Josleen. – Escutou? – Gritou de novo Verter. – Escutei, sim. Até um surdo o faria. – Então está avisado McFersson. Kyle suspirou e assentiu, lhe dando as costas. – Se você se aproximar dela, demônio, vou a...!! – Se continuar zurrando, Verter, acabará com minha paciência!! –gritou Kyle, exasperado. – E o que fará bastardo? Matar-me? Já na porta de Josleen, Kyle sacudiu a cabeça e falou quase em tom baixo: – Mandarei que lhe cortem a língua, juro-o. A ameaça foi um jarro de água fria para Verter, que ficou num silêncio sepulcral. Josleen não pôde reprimir a risada e Kyle viu, como num sonho, seu rosto trasfigurarNieves Hidalgo

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se. Seus olhos, transformados em duas lagoas azuis, acabaram nublados pelas lágrimas de tanto rir. Quando ela teve o ataque de riso, ele a olhou e não pôde fazer outra coisa além de sorrir. – Sinceramente que o farei – disse. – Estou ficando farto. Josleen pigarreou, limpou as lágrimas com os dedos e se manteve a distância. O pedaço do céu que se via pela abertura no teto estava terrivelmente azul e ela desejou poder voltar a sentir o calor do sol em sua face. Mas não iria ceder nem um palmo. Seu orgulho não lhe permitia... – Quero que saia daqui. O pedido de Kyle a fez girar-se subitamente. Soube que ele falava sério, que não era uma brincadeira ou um capricho. Observou-o com atenção e se perguntou o que ele estivera fazendo, desde que ela foi para masmorra. Dava a impressão de ter brigado com vários homens, estava sem se barbear, e poderia até jurar que não tinha dormido. As olheiras escuras ao redor dos olhos dourados eram clara evidência de cansaço. – Não, McFersson – retrucou, lhe dando as costas. Os dentes de Kyle rilharam de tal modo que ela o escutou. Esperou um novo pedido, teria adorado escutá-lo suplicando. Kyle não disse nada e ela aguardou em vão. De repente, dois fortes braços a ergueram e a jogaram sobre um ombro duro como o granito. Então gritou e esperneou, mas Kyle a tinha bem presa e já saía a grandes passadas. – Me solte! – Nem em sonho, minha senhora. Nieves Hidalgo

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– Me solte, já falei! Kyle cruzou na frente da cela dos presos e escutou um grasnido geral quando o clã McDurney se deu conta do que acontecia. – Maldito bode! – Deixa à moça! – McFersson, eu vou matá-lo! – Ouviu o alarido inconfundível de Verter. Kyle parou de andar e se virou com sua valiosa carga no ombro. Seu olhar foi um raio ao se fixar no rosto de Verter atrás das grades da janelinha. – Primeiro protesta porque a coloquei numa cela. Agora porque a tiro. Quem o entende, homem! – Eu não quero ir contigo! – Pouco me importa o que você quer! Na verdade o que ambos querem! Vocês devem se lembrar que são meus prisioneiros, e que ainda posso decidir desistir de um volumoso resgate e mandar que enforquem todos. Mas Josleen vem comigo. – Vou matá-lo! Vou tirar suas as entranhas e...! – Se cale de uma vez ou acabará numa cela, só e amordaçado! – De todos os modos tirarei suas tripas! – Gritou o outro. Kyle se afastou ruminando um: – Vá para o inferno. ***** Teve que lutar com ela com cautela, quando a depositou no chão, porque ela Nieves Hidalgo

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parecia obcecada em lhe arrancar os olhos da cara. Só depois de sacudi-la com força pelos ombros e gritar por duas vezes que as mulheres tinham pedido sua ajuda, Josleen ficou quieta. Foi se acalmando pouco a pouco. Seu seio, seu glorioso seio pequeno e empinado, que ele recordava tão vividamente ter saboreado, movia-se acelerado pela respiração. Kyle teve que fazer um esforço para tirar os olhos do decote e encará-la. – Minha ajuda? – Perguntou ao fim Josleen. – Querem que... Perguntaram se... – Pigarreou, incomodado. – Decidiram que podia ser uma excelente professora para eles. – Lhes ensinar? – A nadar. – OH – ela corou. – Ele teve desejo de beijá-la ali mesmo, mas alguns já os olhavam intrigados pela discussão. Brigar com Josleen parecia ter se tornado algo habitual e Kyle poderia jurar que aquelas escaramuças divertiam a todos. Simplesmente porque nunca antes conheceram ninguém que se atreveu a enfrentá-lo. – Querem que os ensine a nadar. – Disseram isso. Josleen suspirou, tão profundamente, que seu seio quase escapou dos limites do decote e Kyle teve que fechar os olhos. Santo Deus, jamais uma mulher, com um gesto tão singelo como o de respirar, o fizera sentir-se assim. Estava enfeitiçado por ela. – O rio é perigoso – a ouviu dizer ao fim de um tempo. – Há muitas correntes. – Existe uma lagoa a uma milha. Elas imaginam que é o lugar ideal para que os Nieves Hidalgo

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pirralhos aprendam. Disseram que não se negaria – murmurou enquanto via de relance que os curiosos já formavam num bom número. – Poderia me negar. Mas creio que tem um argumento infalível para me convencer – retrucou desdenhosa. – Eu não. Elas que desejam evitar uma desgraça, como aquela que podia acontecer com a aquela criança. Josleen ergueu as sobrancelhas e o olhou com atenção. Apesar das profundas olheiras, seu desalinho e a barba de dois dias, era o homem mais atraente que já conheceu. Sua estatura, sua compleição e aquele tom dourado de seu cabelo, os seus olhos e a sua pele, deixavam-na muda. Kyle cintilava nessa manhã no típico kilt escocês e havia esquecidos de colocar as calças que costumava usar quando saía de incursão. O tecido lhe permitia, portanto, ver suas pernas robustas e belamente desenvolvidas de onde terminava o tecido até o início de umas curtas botas de couro marrom. A camisa, ampla e branca, embora franzida, aberta no peito, a deixava admirar os pelos que cobria aqueles peitorais perfeitos e rígidos. Sentiu cócegas nas palmas das mãos ao recordar a textura de seu corpo. Acabou, como não, aceitando. E a notícia correu imediatamente, chegando além das muralhas e estendendo-se pela aldeia que circundava a colina. Para o Kyle foi um alento que ela aceitasse, além disso, retornar a casa, ainda que exigisse outra vez um maldito quarto independente. Concordou, mas jurou mentalmente que Josleen não dormiria aquela noite sozinha. Jurou-o por todos seus antepassados e quando um McFersson jurava por isso, nem o céu nem o inferno conseguiam que quebrasse sua promessa. Josleen, infelizmente, não sabia.

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Capítulo 35

Sheena caminhou com passo elegante, como tudo o que fazia, para se encontrar Nieves Hidalgo

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com homem que tinha compartilhado os últimos dois anos de sua existência. Com o homem com quem começara a viver verdadeiramente, porque só se sentiu realmente viva quando o conheceu, apesar das estranhas circunstâncias. Wain a tinha raptado para conseguir um resgate e a rendição do clã dela, depois de seis meses de constantes combates. Mas acabou realizando seu casamento e uma aliança que beneficiou a ambas as partes. O laird do clã McDurney a viu se aproximar enquanto treinava com seus homens. Sorriu, disfarçou... E acabou perdendo sua espada no ataque repentino de seu rival e com o traseiro no chão, seu orgulho ferido quando os homens receberam sua derrota com gritaria. Longe de zangar-se, Wain voltou a ficar de pé, envolveu sua esposa pela estreita cintura e a beijou na boca. As risadas os rodearam e ela se sentiu encantada. Pôs uma mão no peito poderoso de Wain e lhe sorriu com ternura. – Chegou um homem do McCallister – informou. O olhar de Wain se adoçou ainda mais. Além da Sheena, amava sua mãe e sua irmã mais do que tudo e aquela visita significava que trazia notícias delas. – Atendeu-o? Ela riu, pois sabia que era uma brincadeira, porque era conhecida como uma incomparável anfitriã apesar de sua juventude, ela fez como se golpeasse o queixo de seu marido. – Não quis mais que um pouco de vinho. Wain se voltou para seus homens e disse: – É suficiente por hoje. Atraindo-a pelos ombros, encaminharam-se para o castelo sem deixar de trocar Nieves Hidalgo

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olhares carinhosos. Wain se admirou por encontrá-la cada vez mais bonita. Sua cara tinha adquirido um tom nacarado, seus olhos estavam mais luminosos e sua pele se tornou mais suave, como se toda ela estivesse sofrendo uma transformação. Como um pavão, ponderou que era seu amor que a fazia estar cada dia mais formosa. Não imaginava que ela estava a ponto de lhe contar que a receita não era outra do que estar esperando um bebê. Mas primeiro estavam seus deveres como laird do clã e sua esposa sabia, que Wain pensava receber, como todos os anos, os clãs amigos para repetirem seus juramentos de cooperação e ajuda em caso de guerra. Para não distraí-lo, Sheena decidiu esperar ele voltar daquela entrevista. Já estava com três meses de gravidez e embora desejasse ver o rosto de Wain quando soubesse que ia ter um herdeiro, suportaria a espera. Wain saudou efusivamente o enviado do homem com quem sua mãe tinha decidido partilhar um segundo matrimônio. Depois de ver o laird, o sujeito aceitou comida e mais bebida e deu saudações em nome de seu chefe e de Aliem, a mãe do jovem laird. – E minha irmã? – Indagou, brincando Wain enquanto saboreava uma boa caneca de cerveja – Ela já se esqueceu de nós, desde que se encontra sob a proteção de meu padrasto? O gesto de assombro do enviado alertou Sheena, que parou de comer, embora seu apetite no último mês tivesse aumentado de forma alarmante. – Sua irmã, laird? Casualmente milady me rogou que a apressasse. Lady Helen já se encontra num avançado estado de gestação, de fato está a ponto de dar a luz e deseja tê-la ali antes que a criança... – Mas o que está dizendo? – O grito de Wain repercutiu nas paredes. Levou ao menos dois minutos para Wain inteirar-se de que Josleen e seus Nieves Hidalgo

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homens jamais chegaram à fortaleza dos McCallister. Mais cinco para tirar conclusões: dois dias depois de Josleen partir, havia recebido notícias da aldeia do Mawbry de um roubo de gado, e um dos homens jurou que o grito de guerra e os tartans dos atacantes eram McFersson. Em menos de meia hora, pôs todos seus homens em pé de guerra. A indiscutível certeza de que lady Josleen havia sido raptada, alastrou-se como pólvora por todos os lados e até muitos lavradores, ineptos com armas, pegaram suas foices e tentaram unir-se ao grande grupo de guerreiros que iria sair para buscá-la. Por sorte, Sheena fez Wain raciocinar, advertindo que aqueles homens não estavam preparados para uma batalha, assim ele os fez retornar às suas casas. Deixou um pequeno destacamento armado para defender Durney Tower durante sua ausência e se dispôs a partir. Montado em seu cavalo sentiu em sua perna o tato de uma mão. Abaixou a cabeça e observou os olhos chorosos de sua esposa. Agachou-se e a beijou com doçura nos lábios. – Enxugue essas lágrimas, mulher, porque vou trazer minha irmã sã e salva – jurou. – Traga-a, Wain, mas retorne também. Não quero que meu filho nasça sem pai. A repentina notícia de uma gravidez fez o coração do jovem laird saltar, que sorriu, ergueu-a até sua posição e buscou sua boca. – Terá seu pai e sua tia, meu amor. Juro pela honra dos McDurney. Sheena escutou a voz poderosa de seu marido dando instruções a vários homens para que se dirigissem ao território dos clãs amigos para que se aliassem com eles às margens do rio que fazia fronteira com os McFersson. A jovem os viu Nieves Hidalgo

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partir sabendo que em menos de dois dias, os McCallister e os Gowan se uniriam a eles. Teriam homens suficientes para começar uma guerra. Rezou para que nada acontecesse com Wain. Despediu-se com a mão e saudou também ao indivíduo que estava a sua direita. Barry Moretland a olhou fixamente e fez uma suave inclinação de cabeça. Tinha escutado as palavras dela anunciando ao chefe do clã a vinda de um herdeiro. Mas ele sabia que Wain não retornaria da guerra com os McFersson, porque se encarregaria particularmente disso. Tinha desejado aquela batalha e por fim chegara à hora. Só esperava que quando eles chegassem ao castelo Stone Tower Josleen já tivesse sido eliminada por aquela cadela ciumenta de Evelyna Megan. Então, não restaria ninguém, apenas Sheena, que seria mais fácil de fazer sumir do que atravessar um rio seco. Ou talvez decidisse ficar com ela porque era bela e não tão arisca como a irmã de Wain. No entanto, com certeza não ficaria com o filho dele. Não, o menino deveria ser eliminado logo ao nascer, já procuraria o método mais simples. Então, ele seria o novo laird dos McDurney por direito de sangue, embora fosse bastardo.

Capítulo 36

No final da tarde, Kyle compreendeu quanto tinha simplesmente apreciado Nieves Hidalgo

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observá-la. Josleen tinha conseguido fazer daquela primeira aula de natação uma verdadeira festa para os meninos, que gritaram, mergulharam e riram sem parar. As mães vigiavam atentamente as suas brincadeiras, animadas pelo andamento da aula e pelo amor e dedicação que a McDurney dava a cada criança. Tanto elas como Josleen participaram do folguedo da criançada e terminaram tão encharcadas como os meninos. Quando deu a primeira aula por finalizada, Kyle soube que as mulheres de seu clã iriam à guerra se Josleen o pedisse. A briguenta irmã de Wain colocara todas no bolso. Não se surpreendeu pela maneira como elas a acolheram, porque ela tinha roubado o coração de todos fazia tempo. O que o pegou despreparado foi que ela corresse para ele e lhe desse um beijo na boca enquanto ria e espremia sua saia molhada. E mais ainda o assombrou, quando ao entrar no salão, encontrou toda a família os aguardando. James e Duncan sorriam como idiotas e Elaine se arrumara como há muito tempo não se arrumava, estava radiante e jovem, muito mais jovem porque seus olhos tinham um brilho de alegria que Kyle acreditou que ela havia perdido para sempre. Quanto ao Malcom... Parecia um homenzinho e não afastou o olhar dele, como costumava fazer com frequência. Para seu total regozijo, o pequeno decidiu que seu lugar era ao seu lado direito, quando até então tinha preferido sentar-se o mais afastado possível, protegido pelas saias de sua avó. O jantar daquela noite estava quente e suculento, decorreu entre brincadeiras Nieves Hidalgo

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sobre a aula de natação e quando ao acaso surgiu na conversa o nome de Wain, Josleen teve a prudência de não trazer a baila o tema de seu resgate. Kyle já se sentia fascinado por ela, quando todos saíram e os deixaram sozinhos, ele se encontrava completamente deslumbrado. Obviamente não quis aceitar que se apaixonara e tentou se convencer de que era somente um capricho passageiro. Em silêncio, subiram as escadas. Sem tocar-se. Quase como dois estranhos. Kyle, ansiando por estreitá-la entre seus braços; Josleen, imaginando se por acaso ele decidira lhe dar um quarto particular. Era um idiota! Porque ao olhá-lo de soslaio, o vendo caminhar com esse ar seguro, felino, saboreando o poder que emanava sem intuir, perguntou-se se seria capaz de lhe dizer que se equivocara e já não queria ocupar outro maldito quarto. Desejava-o de um jeito irracional e já que tinha perdido mesmo a sua honra no seu leito, não tinha mais muita importância, quando toda ela vibrava por abraçá-lo. Kyle fez honra a sua palavra e a conduziu para um dormitório no final da galeria. Abriu a porta e pegou uma tocha da galeria, entrou, deixou a luz em uma das argolas da parede e fez um gesto convidando-a a passar. Josleen engoliu saliva e examinou o cômodo Seus pés estavam paralisados. Não era um quarto muito grande, porém adequado. A cama era ampla, havia um bonito cofre aos pés e sob uma janela aberta, por onde entrava uma brisa suave e o aroma agradável e inconfundível das urzes brancas, estava o baú com seus pertences. – Obrigado – murmurou completamente decepcionada. Entrou, consternada por ele não dizer nenhuma palavra. Um suspiro escapou. Kyle a olhava com os olhos carregados de desejo. Tinha apoiado um pé sobre o cofre e tinha os braços cruzados sobre o joelho. Os olhos de Josleen voaram para os músculos tensos e de novo se deu conta de que tudo nele a enfeitiçava. Ela salivou ao

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pensar em voltar a acariciar aquele corpo imponente, passar seus dedos pelos braços, peito nu, pelos quadris e as pernas. Recordou suas escuras nádegas e quase se afogou com sua própria saliva. Tudo no Kyle gritava vitalidade e virilidade. Era puro magnetismo. E ela era vulnerável, embora não quisesse sê-lo. Ao lhe ver sorrir se amaldiçoou mentalmente. Era desumano ser tão atraente. De novo desculpou o ciúme de Evelyna Megan, porque ela o sentia agora pensando que alguma outra mulher o tivera antes. – Dar-me-á um beijo de boa noite? Sua voz, aveludada e sensual, enviou dardos de desejo ao seu ventre. O sangue começou uma amalucada carreira por suas veias. Beijá-lo. Deuses era isso que estava desejando! – Não acho necessário – respondeu enfim, tentando controlar seu nervosismo. Kyle suspirou e seu peito expandiu tanto como as pupilas dela ao olhá-lo. Mariposas dançarinas revoaram em seu estômago. – Que descanse então, Josleen. E obrigado por fazer os meninos felizes. Ela assentiu com um gesto e caminhou atrás dele quando se dirigiu à porta, para fechá-la, chorando já sua estupidez ao deixá-lo partir. Kyle passou a soleira e ela segurou a porta enquanto sustinha a vontade de chorar. Sabia que assim que fechasse aquela porta, cairia sobre a cama e choraria como uma estúpida. De sua parte, apesar da sua aparente indiferença, Kyle exultava por dentro. Ela iria reconsiderar? Era tão mesquinha que não podia pedir-lhe perdão? Incapaz de suplicar-lhe que voltasse a dormir com ela? Uma lágrima escorregou pela face de Josleen e aquela minúscula pérola o obrigou a reagir. Um segundo antes que a porta fechasse na sua cara a pegou pela Nieves Hidalgo

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cintura, colou-a ao seu corpo e abaixou a cabeça. Sua boca, como brasa ardente, acendeu a de Josleen. E o fogo da paixão os consumiu outra vez num minuto, sem que nenhum pudesse escapar, sem que nenhum dos dois colocasse resistência. O fervor os enlouquecia, embriagava-os, cegava-os. Já não havia mais nada além de suas bocas, o corpo do outro. O anseio de se possuírem mutuamente, de se entregarem, de se arrastarem por um interesse comum: amarem-se. As mãos masculinas estavam por todos os lados: em sua face, em sua nuca, em seu pescoço, nos ombros, na cintura… Chegaram aos quadris e ele a apertou contra a mostra de seu desejo. As mãos de Josleen, com vida própria, acariciaram-lhe as costas, apertaram suas nádegas, escorregaram pelas coxas... Incapazes já de escaparem do incêndio que arrasava cada fibra de seus corpos, Kyle deu um pontapé na porta e a tomou nos braços. Josleen se esqueceu da decência e procurou, entre os dois corpos, sua virilidade. Apesar de que tudo acabaria depois, quando ele a devolvesse ao seu irmão, guardaria aqueles momentos triunfantes e os recordaria enquanto vivesse. Porque agora, era todo dela. O leito os recebeu como um ninho acolchoado, ela se abandonou por inteiro enquanto, ele num louco afã, começava a lhe despir. Os olhos de Kyle, dourados e hipnotizantes, brilhavam ao olhá-la. Sua boca percorreu o corpo de Josleen sem deixar um só pedaço por acariciar, deixando rastros de fogo, fazendo-a gemer e retorcer-se. Kyle deseja prolongar o momento da união. Ela tenta puxá-lo, para senti-lo afundar-se em sua carne, mas as mãos dele impediram-na e ele prendeu os braços dela por cima da cabeça enquanto seguia beijando-a, mordiscando aqui e lá, deixando-a louca.

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Porque amar ao McFersson só podia lhe conduzir a loucura. Não pôde controlar um grito prolongado quando o orgasmo a alcançou como um raio, tão logo Kyle a penetrou. Kyle esperou que os últimos espasmos lhe gravassem com a imagem devastadora de sua beleza. Seu membro o apressava, mas ele conseguiu manter-se dentro dela. Queria fazê-la sentir o prazer uma e outra vez. Precisava esvaziar-se, mas daria a vida por fazê-la sentir de novo o vulcão do prazer. Josleen suspirou ao retornar ao mundo real e todo seu corpo sofreu uma sacudida. Olhou-o com olhos sonolentos. E o sentiu. Como não fazê-lo. Era um deus pagão. Amou-o. Odiou-o. Amou-o de novo. Pouco a pouco, ele começou a investir de novo em sua intimidade, excitando-a outra vez. – Não vou poder… – gemeu. – Poderá. Quem fala é um McFersson. Quase riu por aquela amostra de presunção. Mas segundos depois confirmou que aquele homem não era nada presunçoso, porque voltou a levá-la às alturas. E juntos, escaparam para as estrelas.

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Capítulo 37 Nieves Hidalgo

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Ela se cobria recatadamente com o lençol. Ele, pelo contrário, jazia descaradamente nu. Josleen sorriu e aceitou o pedacinho de fruta que lhe pôs na boca. Sentiu que seu coração se derretia de amor por aquele homem, inimigo de seu clã, mas seu amante. – De modo – disse ele, – que tenho negligenciado os meus. Ela se ruborizou até a raiz do cabelo. Não podia dizer, certamente, que a tivesse negligenciado. – Poderia me explicar isso melhor? – Perguntou ele. Num primeiro momento, não entendeu, mas logo recordou as amargas palavras que lhe disparou durante a discussão, que a levou a solicitar uma cela. Desviou o olhar. – Sua mãe deveria casar-se de novo. Kyle elevou as sobrancelhas. – Casar-se? Nem sequer parece se interessar em seguir vivendo na maioria das vezes… Salvo hoje. Estava diferente e formosa. – Contudo, há um homem com quem não se importaria de dividir um novo matrimônio – ele voltou a erguer as sobrancelhas, com gesto sarcástico, o que a irritou. – Serman Dooley. – Serman! – Não grite – lhe tampou a boca. – Os vi. Bom... O certo é que arranjei um Nieves Hidalgo

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encontro entre os dois com uma desculpa tola. E os espiei. Kyle se esqueceu da fruta que roubara da cozinha e se recostou na cabeceira. – E...? – Amam-se. Se não escutei mal, Serman vai pedir-lhe a mão de sua mãe, como laird do clã que é. Ficou calado. Um longo minuto. E logo riu com vontade. – É uma ideia estupenda. Como é que não me dei conta? – Porque todos pensam que sua mãe é uma mulher idosa, viúva e sem vontade de refazer sua vida. Eu acredito – disse Josleen, sonhadora, – que Serman sempre a amou. Não se casou nunca não é verdade? – ele concordou. – Aí o tem. Ele a olha de um modo... Dará seu consentimento? – Se minha mãe o desejar por marido, nada tenho que objetar. Dooley é um bom homem. É um incomparável guerreiro a quem devo muito. Josleen se inclinou e o beijou nos lábios, que tinham sabor de fruta e desejo. – Obrigado. – O que aconteceu com Malcom? Ela brincou um momento com a borda do lençol. Não era igual, dizer que sua mãe desejava voltar a casar-se, que o recriminar por ter abandonado seu filho. Mas devia ao menino, que aprendera a gostar. – Seu filho quer ser como você. Um guerreiro. Para isso necessita que você o ensine e lhe dedique tempo, que lhe explique as coisas. – Pelo inferno, é ainda um bebê! Nieves Hidalgo

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– Não, Kyle. Já não é um bebê. Tem idade aceitável para que comecem a lhe dar oportunidades – engoliu saliva ao lhe ver franzir o cenho. – Se saísse com ele alguma vez para caçar... – Poderia ferir-se. Pode ser que dê a impressão de que não o quero, porque minhas obrigações me deixam pouco tempo para ele. Entretanto, é meu filho e não desejo que lhe aconteça nada de mal. Talvez quando tiver um par de anos mais... – Deve ser agora, Kyle. Agora, em que ele o admira como a um deus, em silêncio, tentando imitá-lo. Por Deus! Se até os mais mínimos gestos são os teus. Não se deu conta disso? Copia-o na maneira de comer, de caminhar, de franzir o cenho. É você em miniatura – lhe acariciou o rosto para dar mais ênfase a seu pedido. –Se deixar que ele perca isso, não poderá recuperá-lo quando achar que chegou o momento. Kyle a olhou longamente, mas não abriu a boca. Levantou-se da cama então começou a vestir-se. Josleen o comeu com os olhos, admirando de novo seu varonil descaso. – Tenho que providenciar algumas coisas – disse Kyle, colocando uma adaga curta na bota direita. – A verei no jantar. Josleen reprimiu um soluço ao vê-lo dirigir-se para a porta. A tentativa de modificar a vida do pequeno Malcom tinha fracassado. A vitória com o assunto da Elaine era pequena diante daquela derrota. Como sempre que não conseguia o que se propunha, o cavalo da cólera voltou a golpeá-la e sua voz foi quase estridente ao perguntar: – Uma dessas coisas não será pedir de uma vez o resgate ao meu irmão? Doeu em Kyle. Rilhou os dentes e reprimiu um palavrão. Entendia que ela desejasse retornar a sua casa, mas depois daquela noite, depois de todas as noites Nieves Hidalgo

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passadas juntos, o ciúme o abrasava vendo que queria deixá-lo e esquecê-lo. Tampouco ele pôde bloquear sua irritação e respondeu: – É muito provável, senhora. Quando a porta se fechou com um estrondo atrás de suas largas costas, Josleen se pôs a chorar. Debater-se entre o desejo de voltar para os seus e o de permanece ao lado de Kyle, estavam-na destroçando. ***** Aproveitou a manhã para passear e pensar e mencionando dor de cabeça comeu a sós no quarto de Kyle, aonde eles haviam tornado a levar seus pertences. Mas na hora do jantar, parou de lamentar-se e desceu ao salão disposta a enfrentar uma batalha. Exigiria, de uma vez por todas, que Wain fosse informado de seu rapto. Não podia brigar por mais tempo ou acabaria louca. Era necessário escapar dali, embora lamentasse durante o resto de sua vida. Sorriu para James e Duncan, piscou para Elaine e afagou o cabelo dourado e sedoso do Malcom quando o menino passou junto a ela para ocupar seu lugar. Nem sequer olhou para Kyle, aparentemente ocupado em falar com um de seus homens. Quando começaram a servir a refeição, Josleen se fixou no modo em que Elaine olhava o Serman, no extremo mais afastado da mesa. Alegrou-se por eles. Ao menos o condenado McFersson tinha cedido nesse ponto. – Serman! O vozeirão de Kyle ergueu o olhar de todos. O aludido o olhou de frente, esperando certamente uma ordem, deixou de comer e logo se levantou. O laird lhe indicou com a mão que voltasse a sentar-se. – Acredito que tem algo a me dizer. Nieves Hidalgo

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O coração de Josleen saltou no peito. Apesar de ser gigantesco, Serman lhe pareceu nesse instante um menino assustado. Orou para que Kyle não o intimidasse o suficiente para que ele se calasse. Por sorte, o guerreiro não era daqueles que se deixavam intimidar. Depressa, ficou em pé e sua voz soou tão forte como a Kyle. – Com efeito, senhor. Solicito a mão de lady Elaine. Um murmúrio de assombro percorreu o salão. Kyle pegou uma coxa de ganso, deu uma dentada e a mastigou, mantendo a incerteza entre os pressente. Josleen começou a golpear o chão com o pé. – O que estava esperando? Que chegassem as chuvas? – Sorriu de repente. – Mãe, você está de acordo? – Sim – a mulher se levantou também, enquanto o seu rosto se tornava do tom de um pêssego e apertava as mãos. – Sim, filho. – Seja então – anuiu. – O casamento se realizará daqui a um mês. As felicitações e os gritos de guerra do James e Duncan troaram no salão. Alguns brincaram com o Serman, que acolheu as brincadeiras com um sorriso de orelha a orelha, esquecendo seu habitual cenho franzido. Os olhares de Josleen e Kyle se cruzaram e ele encolheu os ombros, com um brilho ardiloso nos olhos. Mas se acreditava que Kyle tinha acabado, estava equivocada. Ele esperou que as graças e felicitações se aplacassem e logo elevou a voz para dizer: – Amanhã sairemos para caçar, cavalheiros – ele se dirigia aos seus homens. – A despensa começa a se ressentir da gulodice de vocês – o comentário foi acolhido com risadas e frases de aceitação. Nieves Hidalgo

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Josleen tornou a fixar os olhos naquelas lagoas douradas e ergueu o queixo, rebelde, dando a entender que continuava mantendo o estandarte do menino em riste. – E você, Malcom – Kyle se dirigiu ao seu filho, mas não deixava de olhá-la, – encontra-se em condições de me acompanhar? O menino quase derramou sua terrina de sopa ao lhe escutar. Olhou-o deslumbrado, como se acabassem de lhe dizer que um anjo acabara de descer do céu. Engasgou-se, tossiu e acabou por assentir, vermelho como o grão. – Estou disposto, pai. – Fantástico – lhe sorriu Kyle. – Espero que possa caçar um bom cervo – Josleen pôs os olhos serenos, – ou um javali. Malcom ficou lívido. Olhou-o com dúvida. Sua vozinha mal se escutou no salão quando perguntou: – Não lhe seria igual um coelho ou uma lebre, pai? Parece-me que um cervo é muito para uma primeira vez. Kyle, sem se conter, explodiu em gargalhadas, e pela primeira vez pegou seu filho pelas axilas e o sentou sobre seu colo. Malcom não conseguiu falar, mas seu rosto irradiava tal adoração que escorreram lágrimas pela face de Josleen. – Já ouviram cavalheiros – trovejou a voz do chefe do clã. – Meu filho se encarregará dos coelhos. E levando ele o meu sangue, eu lhes juro, que teremos para todo o inverno. Josleen não conseguia mais suportar. Se caísse no pranto todos pensariam que era uma parva. Aproveitou a gritaria geral e escapou dali para aliviar-se com prazer.

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Uma garra comprimiu o coração de Kyle ao vê-la sair correndo. Que demônio tinha feito de mal agora? Desejou segui-la, mas todos o retiveram no salão até tarde. Kyle empurrou a porta de seu quarto temendo não encontrá-la. Josleen o esperava, já na cama e logo que entrou lhe estendeu os braços, onde ele se perdeu sem pensar duas vezes. Nunca a nenhum homem agradara tanto, convidar um menino a uma excursão de caça. Passaram quase toda a noite fazendo o amor e na manhã seguinte custou um verdadeiro esforço levantar-se para sair com o Malcom e os homens. Josleen passou a escova por seus longos cabelos, um pouco descuidados desde que deixara Durney Tower. Era Sheena que estava acostumada a escová-los todas as noites e se acostumara com isso, por isso agora que não tinha ao tinha a seu lado, era uma tarefa que a chateava. Bateram na porta. Sorriu, pensando que Kyle e Malcom já estavam de volta, embora o sol ainda estivesse alto, e tivesse imaginado que retornariam mais tarde. Abriu-a com um sorriso de boas-vindas nos lábios. Mas não havia ninguém. Olhou de um lado para outro da galeria, mas estava deserta. Dispunha-se a fechar a porta, quando viu uma nota no chão. Sentiu saudades, recolheu-a e a leu. A letra era grande e desigual, mas a mensagem estava muito clara: "Kyle não nunca pedirá resgate por você, e não posso ajudá-la porque a vigia Nieves Hidalgo

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como um lobo. Mas tenho um modo de que, ao menos, seus amigos, possam escapar. Vá à torre norte às oito. Estarei lhe esperando" Não estava assinada. Josleen a amassou entre os dedos, e pensou rapidamente. Alguém próximo ao Kyle sabia que ele não pensava pedir resgate. Ela poderia suportar, porque já não desejava partir, mas nunca aceitaria que os homens de seu irmão Wain, suportassem mais tempo prisioneiros nas masmorras do Stone Tower. De modo que se o autor daquela nota podia ajudá-los a escapar, devia agir e rápido. Durante o tempo que faltava para as oito, esgotou os miolos pensando em quem podia ser aquela pessoa e os motivos para oferecer sua ajuda. Os criados passaram a gostar dela e as mulheres da aldeia, estavam agradecidas por salvar à menina e ensinar aos seus filhos, mas... Era suficiente para trair ao chefe de seu clã?

Capítulo 38 Nieves Hidalgo

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À margem do rio que fazia fronteira com as terras dos McFersson, Wain amassava a grama andando nervoso de um lado ao outro. Um de seus capitães se aproximou e lhe entregou um odre com uísque. – Devemos esperar laird – disse, ao ver o olhar turvo de seu chefe, cravado na outra margem do rio. – Os McFersson são um clã forte e não devemos enfrentá-los sem ajuda. – Sei – grunhiu Wain, bebendo longamente. – Inferno, se souber... – Os McCallister e os Gowan estarão aqui amanhã com toda certeza. Então seremos um bom número. Suficiente para atacá-los. – Serei inclemente, Teddy juro! Não deixarei pedra sobre pedra! – E nós o ajudaremos. O jovem assentiu, agradecendo sua lealdade. A raiva surda pelo rapto de sua irmã e de alguns de seus homens tinha conseguido lhe provocar dor de cabeça. – Esta inimizade já dura a muito – disse. – Desde que o bisavô do McFersson assassinou o meu. Desde então não tivemos mais paz e já está na hora de cobrar as afrontas. – Lembra quando há tempo quase o partiu em dois – sorriu o outro. – Mas não acabei com sua vida! – recriminou-se Wain. – Agora o farei. E porei sua cabeça dourada numa estaca que cravarei na porta do Durney Tower. ***** Josleen subiu as escadas que davam à torre devagar. Perguntava-se uma e outra Nieves Hidalgo

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vez por que Kyle não estava disposto a pedir resgate por ela. Não era lógico. Podia ser volumoso e seu irmão estaria disposto a pagar o que fosse para recuperar ela, Verter e os outros. Ninguém em seu juízo normal desprezaria aquela transação. Quando chegou ao local, a ameia lhe pareceu um lugar muito inóspito. Até esse momento não tinha subido até ali e agora via que estava em obras. Tratando de pisar com cuidado, identificou-se, esperando ver quem lhe enviara a nota. Mas ninguém respondeu. Estava a ponto de cair quando seu pé bateu numa viga de madeira cruzada no chão. Sufocou uma exclamação e se agarrou a outra das vigas. Justo nesse instante, o piso cedeu sob seus pés e Josleen deixou escapar um grito de terror. As pranchas que compunham o piso estavam tão podres que estalaram ao suportar seu peso. De nada serviu o leve cabo ao qual se agarrou. Em seguida caia pelo vazio enquanto via pela extremidade do olho uns cabelos longos e negros e escutava uma risada que identificou imediatamente com a Evelyna Megan. ***** Liria a levantou ligeiramente e a obrigou a beber. Depois, colocou o corpo machucado de Josleen sobre os almofadões, recolheu suas coisas e se dirigiu à porta. Antes de sair se voltou e olhou ao seu laird. Nunca tinha visto o jovem em tão lamentável estado. Nem sequer quando sua esposa, Muriel, o amaldiçoou e ao seu filho recém-nascido. Nem sequer, quando esteve a ponto de morrer sob a espada de Wain McDurney. Kyle estivera dando voltas pelo quarto, desgastando o chão numa vã tentativa de acalmar-se. Tinha sido terror o que sentiu quando, ao retornar da caçada, noticiaram que Josleen sofrera um acidente. Foi Elaine quem o pôs a par dos fatos, depois Kyle ficou como louco. Nieves Hidalgo

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Josleen tinha caído de uma altura considerável e a viga que caiu sobre ela duplicou o golpe. Tinha hematomas em todo o corpo e um enorme machucado na têmpora direita. Quando inquiriu Liria, a cozinheira encolheu os ombros, chorosa. O pavor mais absoluto se alojou nele. Desde então, não desejara comer nem dormir e tinha permanecido junto à moça, rezando por sua recuperação. – Não sentirá dor – disse Liria em voz baixa. – A mistura que lhe administrei a fará dormir. Kyle olhou à criada sem vê-la e concordou. Com barba e as roupas amassadas, parecia um demente, mas não quis sair dali. Não podia deixá-la só, quando talvez pudesse morrer e... Fechou os olhos e um gemido de desespero lhe escapou. A queda poderia ter matado um homem e Josleen era uma moça frágil. Só tinha despertado apenas um instante desde o acidente, e seus olhos extraordinariamente azuis, que estavam velados pela dor, provocaram nele uma angústia infinita. Por sorte, voltara a desmaiar. E ele estava tenso, temendo que não despertasse de novo. Aproximou-se do leito e a olhou. Muitas emoções o açoitaram sem piedade ao ver seu rosto, agora pálido. Um nó na garganta lhe dificultava respirar. Algo escorreu por sua face e ergueu a mão para tirar. Só então se deu conta de que estava chorando. Não recordava quando chorou pela última vez. Nem sequer recordava havê-lo feito. Josleen se moveu e deixou escapar um gemido dolorido. Kyle se ajoelhou junto ao leito e tomou uma de suas mãos entre as suas. Sua debilidade o fez sentir-se miserável. Ele era culpado dela estar às portas da morte. Se não a tivesse raptado, se a tivesse deixado seguir seu caminho, se não... – Papai? Nieves Hidalgo

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Kyle ergueu a cabeça e olhou para a porta sem se importar com as lágrimas que molhavam seu rosto. Malcom o olhou surpreso e se aproximou dele devagar. O menino passou um dedo pelo rosto do seu pai, enxaguando uma lágrima. – Josleen está pior? – Perguntou com o queixo trêmulo. Kyle não pôde responder. – Não quero que morra – disse o menino. – Não quero que ela se vá como partiu minha mamãe. – Não o fará, Malcom – lhe assegurou com um fio de voz. – Lhe prometo isso. – Você não o permitirá, verdade? – A vozinha desesperançada de seu filho lhe fez mais mal que uma espada atravessada no peito. – É o chefe do clã. O laird. Não pode deixar que morra. Pelos dentes de Deus! Se pudesse dar sua vida pela dela o faria, entretanto tudo estava nas mãos do destino. Sem levantar estendeu o braço e puxando Malcom para si, abraçando-o com força, tentando encontrar um pouco de consolo, embora não lhe tivesse dado muito de si mesmo. Era possível que nunca tivesse entregado muito de si mesmo a ninguém e por isso pagava agora. – Não o permitirei, filho. Não o permitirei. Juro-lhe isso. A porta se abriu com certo estrépito os obrigando a voltar-se. Serman ocupava quase todo o vão da porta com seu enorme corpo e estava lívido de fúria. – Uma armadilha – disse. – Josleen foi vítima de uma tentativa de assassinato, Kyle. As pranchas do chão da torre tinham sido trocadas há pouco, as tábuas podres já tinham sido reformadas. Elas estavam serradas pela metade.

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Capítulo 39

Mais de dois mil homens atravessaram o rio a um sinal de Wain McDurney. Nieves Hidalgo

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Guerreiros a cavalo, soldados a pé, carroças carregadas de mantimentos, máquinas de guerra para o assalto. Os estandartes dos clãs Gowan, McCallister e McDurney se mesclaram em uma sinfonia de cor enquanto avançavam dispostos a sitiar Stone Tower. Já tinha passado muito tempo desde que os clãs de Wain e Kyle se enfrentaram pela última vez; desde que seus bisavôs se enfrentaram num duelo incrível, o bisavô de Wain morreu sob a espada do outro. Desde então, aconteciam algumas escaramuças, roubos de gado e alguma choça queimada no fragor do combate, sem baixas pessoais. O rei, Jacobo, insistia constantemente para terminar com aquela rivalidade, principalmente por que uma verdadeira guerra poderia acontecer contra outros inimigos próximos, mas nem McDurney nem McFersson nunca quiseram fazer as pazes. Existia muito rancor entre eles para firmarem um pacto. Nem sequer se uniram para lutar contra os ingleses, fazendo-o cada um por seu lado. Wain sabia que seu rei, bem que poderia acabar por perder a paciência com eles, quando se inteirasse da confrontação que se aproximava, mas não lhe importava. Ele tinha argumentos para defender-se. Acaso o maldito McFersson não tinha raptado a sua irmã? Acaso já não a tinha desonrado, com certeza? Pelas presas de Satanás! Estava seguro de que Josleen já não era virgem, sabendo o que se dizia de Kyle. Não havia rumores que ele matou a sua mulher por lhe dar apenas um filho? Wain sabia que os boatos do povo só aumentavam com o tempo e não acreditava em todas as histórias que se atribuíam ao Kyle McFersson, mas estava convencido de que sua irmã tinha sofrido nas mãos daquele condenado filho do diabo e iria pagar com sua vida e com a de todo seu clã. Conhecia a fortaleza do Stone Tower. Sabia estar bem protegida pelas quatro

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torres que circundavam a principal, que a muralha que rodeava a fortificação era alta e Lisa e que os homens do clã inimigo eram valentes e sanguinários na luta. De todos os modos, ele contava com seus guerreiros e com os de seus aliados e pegariam McFersson em desvantagem, já que Kyle não esperava por eles. Não poderia pedir ajuda aos clãs amigos. Pois quando percebessem, já teriam passado a todos os McFersson na faca e queimado até os alicerces do castelo. Três dias no máximo lhe bastariam para chegar às portas do Stone Tower, dado o volumoso contingente que levavam. Wain pensava que também era possível que não encontrasse já a sua irmã nem a seus homens com vida, mas Kyle pagaria cada uma daquelas mortes. Jurou-o perante Deus. ***** O rosto lhe ardia e a dor a fez abrir os olhos lentamente. – O que me aconteceu? Kyle foi ao seu lado. Tremeram-lhe as mãos ao segurar o amado rosto e seus lábios descenderam para apanhar a boca de Josleen num beijo. Ela o empurrou quando lhe faltou o ar. – Vai sufocar-me – protestou. A gargalhada de Kyle foi sincera e Josleen o olhou como se ele estivesse louco. Quando ele se acalmou, sentou-se ao seu lado e a acomodou, de modo que sua cabeça descansasse sobre seu joelho. Ela suspirou confortável, e sorriu. – Como se encontra? – Como se me tivesse caído por uma ravina.

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– Não foi exatamente por uma ravina, pequena. – Sei. O golpe não me afetou a cabeça – se virou um pouco para olhá-lo e parou no meio do caminho. – Dói-me. – Liria jurou que se acordasse as dores não durarão mais de dois dias com suas misturas. – Se despertasse? Kyle engoliu saliva e concordou e Josleen acreditou ver medo em seus olhos. – Os hematomas desaparecerão. Não tem nenhum osso quebrado. Milagrosamente, devo dizer. Poderia ter se matado. – Tenho os ossos muito fortes. Nunca quebrei um. Quanto tempo estive inconsciente? – Dois dias. – Condenação! Acaso não lhe ocorreu me despertar? Kyle riu com vontade. Ela ainda era teimosa como um pangaré, apesar de ter estado a ponto de morrer. Mas a lembrança de que alguém tentara assassiná-la, fezlhe rilhar os dentes e uma expressão demoníaca transformou seu atraente rosto. Josleen lhe acariciou a face. – Parece um mendigo – lhe disse. – Os McFersson não sabem que a água serve para assear-se? Kyle se inclinou e a beijou outra vez. A pesar da dor, Josleen elevou o corpo para ele, desejosa de mais, notando que lava ardente percorria de novo em suas veias. Deus pensou, seria sempre assim? Perderia a cabeça cada vez que ele a beijasse?

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Dois dedos apareceram diante de seus narizes, fazendo-a piscar. – Quantos há? – O que? – Quantos dedos há? – a voz de Kyle demonstrava certo alarme quando não lhe respondeu imediatamente. Sua mãe e Liria haviam dito que se ela recuperasse a consciência, primeiro ele teria que comprovar se Josleen não estava vendo em dobro ou triplo, porque isso podia significar que o golpe tinha produzido algum coagulo de sangue na cabeça e podia ser fatal. – Quantos malditos dedos você vê, Josleen? Seu desespero a agradava e a divertia ao mesmo tempo. Desde que o conhecera tinha desejado fazê-lo pagar por cada um de seus maus momentos, inclusive por estar afastada dos seus. Agora podia ter uma pequena e infantil vingança. – Um? – perguntou. Seu gemido de frustração a obrigou a conter a risada, mas ao ver que tinha o rosto mudado se assustou. – Dois. Dois dedos, Kyle. Kyle! Está-me escutando? Kyle a olhou sem estar convencido. Os olhos azuis de Josleen refletiam agora certo pânico. Pôs quatro dedos diante de sua cara. – E agora? – Quatro – não quis brincar mais. Ele pareceu aliviado, mas voltou a insistir e deixou o dedo erguido. – Quantos? Josleen apanhou sua mão, levou o dedo a sua boca e o sugou eroticamente. Nieves Hidalgo

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– Não poderíamos jogar de outra coisa? – Perguntou melosa, aproximando-se dele como uma gatinha – Está ficando cansativo. Kyle estava assombrado. Josleen parecia recuperar-se mais a cada segundo. Ao final acabaria acreditando que era certo o que se dizia dos McDurney, que tinham sido tocados pelos anjos no princípio da Criação. Bebeu a formosura daquele rosto machucado. Apesar de ter estado inconsciente dois dias inteiros, ter um machucado na fronte e o cabelo grudado ao rosto ela estava magnífica. Kyle pensou que certamente era a única mulher que conseguia estar ainda desejável, estando suja e ferida. – Receio, senhora, que vão passar alguns dias antes que você e eu possamos jogar outra coisa além de lhe cuidar – repôs sarcástico. – OH, vamos. – Seja uma boa garota e durma. Deve se recuperar. Meus irmãos e Malcom estiveram se pegando para ver quem lhe cuidava enquanto estava inconsciente, de modo que chamarei um deles para que fique de guarda enquanto vou arrumar-me um pouco – então a recostou nos almofadões, beijou-a na testa e se caminhou para a saída. – Uma pergunta, tesouro. Viu alguém na torre? Ela esteve a ponto de concordar e dizer que tinha reconhecido Evelyna Megan, mas conservou o segredo. Aquela mulher tentara matá-la, sim, mas não sentia ódio por ela, e sim pena. Se ela tivesse que lutar com uma rival pelo amor de Kyle, não estava muito segura de que coisa terrível poderia fazer. Negou com a cabeça, mas afastou os olhos para a janela. – Foi Evelyna? O nome da outra nos lábios de Kyle a queimou. Nieves Hidalgo

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– Não vi ninguém – insistiu. – Josleen, no fim, eu acabarei sabendo quem lhe preparou uma armadilha. As tábuas do piso foram serradas, não se quebraram por acidente, já tinham sido restauradas. – Por favor, deixa as coisas como estão. – Nem o sonhe. – Faça-o por mim, Kyle. Olhou-a da porta, longamente, recreando-se nos contornos de seu rosto e na silhueta de seu corpo sob os lençóis. Desejava apertar o pescoço de Evelyna entre suas mãos até que aquela vadia colocasse dois metros de língua para fora. Pressentia que era ela. Não, não o pressentia somente. Sabia. Algo no coração o dizia. E apesar de tudo, Josleen, aquela maravilhosa criatura, não desejava culpá-la, só Deus entendia seus motivos. Acabou concordando a contra gosto, mas desterraria Megan mesmo que lhe implorasse de joelhos. Não queria víboras em sua casa. – Todos celebrarão sua recuperação, meu amor. O peito de Josleen parou. Meu amor. Tinha-a chamado seu amor! E tesouro! E queria vingá-la! Não tinha sido uma frase feita. Não podia ser uma frase feita! Abraçou-se e riu nervosa. Amavaa. Estava segura. Não obstante, o teimoso ser incapaz de dizer-lhe com palavras. James a encontrou rindo quando entrou um momento depois.

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Capítulo 40 Nieves Hidalgo

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As patas dos cavalos pisaram terreno dos McFersson levantando nuvens de pó e torrões de capim. A vingança estava muito perto. Tão perto, que Wain já saboreava sua vitória e cheirava o fedor do sangue de Kyle apodrecendo-se ao sol. – Aproximam-se cavaleiros! McDurney se ergueu sobre o cavalo. Se os que se aproximavam eram aliados dos McFersson acabaria com eles. No entanto, a cor do estandarte o deixou perplexo igual ao Warren McCallister. Laranja e negro. – Pelos chifres de Satanás, são minhas cores! – Murmurou Warren olhando ao seu enteado Wain. – Pediu mais homens, Warren? – Indagou Neil Gowan, ao sogro do laird McDurney. O referido negou em silêncio. – Então receio que são voluntários. Ou não seria melhor dizer voluntária? Juraria que quem cavalga em primeiro lugar é uma mulher. Então tanto Wain como Warren prestaram mais atenção em quem chegava. Mesmo confiando na afamada visão de Neil – capaz de distinguir de que clã fazia parte, um rapaz que passasse cavalgando pelo povoado, – não podiam acreditar no que diziam. Um tempo depois, quando puderam distinguir melhor à tropa que se aproximava entre uma nuvem de pó, Wain lançou uma maldição, ao que se seguiu uma blasfêmia por parte do McCallister. Wain reconhecia sua mãe. Conhecia-a muito bem para negar a evidência. Warren, também sabia dos ataques repentinos de valor daquela mulher com quem se casara. Ela era obstinada e arrojada, mas unir-se a um exército que iria entrar em batalha contra um clã inimigo, era muito. Nieves Hidalgo

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– O que ela faz aqui, Wain? O jovem o olhou hesitante. – Pergunta-me isso, Warren? Ela é sua mulher. E agora é sua responsabilidade. – Condenada seja. Aliem McCallister instigou o seu cavalo até chegar junto deles. Tanto ela como sua escolta, composta por vários cavaleiros estavam cheios de suor e pó e os cavalos se viam cansados. Parecia que não tinham descansado até alcançá-los. Warren aproximou seu cavalo ao de sua esposa. – Vai me explicar o que faz aqui, mulher? – Elevou a voz de tal modo que todo o exército deve ter escutado. Os olhos de Aliem, tão azuis como os de sua filha, lançavam faíscas de indignação. – Venho pela Josleen. – Por todos os infernos! – Rugiu seu marido. – Por que acha que movimentamos este exército? Para fazer exercícios bélicos? Retorna imediatamente, este não é lugar para uma mulher! Aliem inalou todo o ar que seus pulmões permitiam. Não desejava deixar em má situação o seu marido, mas a irritação por não ter sido informada do que se passava estourou. – Inteirei-me do sequestro de minha filha por um criado. Era você que deveria ter me comunicado, que a tinham sequestrado! Josleen é minha filha e eu tenho direito de estar aqui! Além disso... – sorriu ironicamente, – sabe que estou capacitada para estar aqui. Se a memória não me falha, fato que a sua parece estar falhando, Nieves Hidalgo

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você mesmo mordeu o pó naquela vez em que nos enfrentamos. Warren ficou lívido. Wain virou à cabeça para ocultar um sorriso. Gowan foi mais à frente e deixou escapar uma gargalhada. Por todos era conhecida a história daqueles dois, antes de contrair matrimônio. Os McDurney e os McCallister estavam se enfrentado numa incursão para obter lucros roubando, era Aliem McDurney quem defendia as terras, já que Wain estava se recuperando de uma ferida. Aliem não duvidou em montar seu cavalo, consumada amazona como era desde a mais tenra idade, e pegar uma espada. Seu finado irmão e falecido marido a tinham ensinado a usar várias armas e ela sempre foi uma aluna excelente. Para desgraça do Warren naquela confrontação, lutou com ela antes de perceber de que se tratava de uma mulher. A seguir, assombrado e um tanto temeroso, acreditando que ela tinha coragem, mas pouco domínio da espada tinha abaixado sua guarda um instante. Um só instante. Aliem que não tinha lhe dado trégua, provocou-lhe um corte no antebraço e ele acabou caindo por terra diante da alegria feminina e da diversão de seus próprios homens. Warren raciocinou que depois daquele ultraje, deveria submeter aquela formosa mulher e não lhe ocorreu outra coisa além de pedi-la em matrimônio ao Wain, que embora jovem, já atuava como chefe do clã McDurney. Mais tarde se inteirou pelo Warren que Aliem, logo assim que o feriu, já havia se decidido a seduzi-lo. – Vai pagar por isto, Aliem – lhe disse entre os dentes, embora não confiasse em poder exercer sua autoridade. – O que vai fazer? – Incitou-lhe ela – Esquentar meu traseiro? As risadas troaram e Warren acabou por sorrir. Inclinou-se sobre o cavalo, enlaçou o corpo de sua esposa e quase a fez cair de sua montaria ao juntá-la ao seu corpo. Beijou-a com paixão.

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– Vou esquentar algo mais além do seu traseiro, minha senhora – disse também em voz alta. As graças, agora, envergonharam a dama, mas acabou por unir-se às brincadeiras. Se ela fizesse o que queria e, além disso, Warren esquentasse... Qualquer parte do seu corpo, o que mais podia pedir? – De qualquer maneira – disse ele, já mais sério, – você ficará na retaguarda. Não pense que vou deixá-la na primeira fila. – Como você quiser – sussurrou ela, mansamente. Wain deu rédea solta à risada, sem conseguir conter-se por mais tempo. Se sua mãe acatasse a ordem Warren, ele era um anjo.

Capítulo 41

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A batida na porta, fez com que James interrompesse a cômica aventura, que estava contando a Josleen para entretê-la. Quando a porta se abriu e Evelyna entrou, o moço proferiu um palavrão. Kyle tinha comentado suas suspeitas e ele acreditava que ela era capaz, certamente, de ter provocado o acidente. – Posso falar um minuto contigo, Josleen? James ia protestar, no entanto a mão de Josleen o deteve. Em muda súplica, disse-lhe que as deixasse a sós. – Um sussurro seu, que eu não gostar Evelyna – disse James, – e entrarei e torcerei seu pescoço. Quando ele saiu, Eve se pôs a chorar desconsoladamente. – O que é o que quer agora, Evelyna? Com os olhos encharcados de lágrimas, aproximou-se da cama, pegou uma das mãos de Josleen e a beijou. – Kyle me exilou – disse entre soluços. – Podia ter mandado que me enforcassem. Inclusive poderia ter me matado com suas próprias mãos. – Duvido que ele faça. A lenda que circula sobre ele não se vincula, em nada, com a realidade. – Sei. É um homem de honra, Josleen. Quando me interrogou, dizendo que você me vira na torre, desmoronei e confessei tudo. OH Josleen, não queria matá-la, só lhe assustar! Queria que partisse e que ele pedisse seu resgate de uma vez por todas, e me deixasse o caminho livre para seu coração. O pranto dilacerador abrandou o coração de Josleen. – Ama o Kyle, de verdade? Nieves Hidalgo

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– Desde que era menina – limpou a face. – Ele é capaz de tirar o juízo de uma mulher. Mas para você não tenho que falar isso, pois já sabe. – Sim, sei. – Juro que só queria lhe assustar! Aquele homem me disse que se sofresse um acidente, que se eu a matasse voltaria a ter Kyle e eu... Mas não pude. Fiz muitas coisas más em minha vida, Josleen, mas um assassinato era muito. – Que homem? – Josleen sentiu que a pele se arrepiava. – Como se chama? Descreva-o. – Só o conheço pelo nome Barrymore. Usa o tartán do clã Moogan. É moreno e de meia estatura, olhos pequenos, sem nada que o identifique e... Não, espera. Tem uma cicatriz. Uma cicatriz pequena em forma de meia lua debaixo do queixo. Conhece-o? Josleen necessitou de toda sua força de vontade para permanecer serena. Eve acabava de descrever perfeitamente ao seu meio primo, Barry Moretland. Que fazia em território dos McFersson vestindo as cores de...? É obvio! Seu disfarce não poderia ser melhor já que os Moogan tinham acordo de cooperação com o clã de Kyle. Agora compreendia por que muitas das cabeças de gado eram roubadas, até mesmo quando se encontravam em lugares escondidos. Barry era um traidor. – Contou ao Kyle algo sobre isso? – Não. Logo que confessei, ele me disse que saísse daqui e não me deixou lhe explicar mais nada. Foi quando me informou que você não lhe contou nada, que não havia dito que me viu na torre. Estendeu-me uma armadilha e eu caí como uma estúpida – pôs-se a chorar de novo. – Se acalme. O fato já não tem remédio e teve sua lição. Nieves Hidalgo

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– Sinceramente não me viu? Não disse a ele...? – Eu a vi, Evelyna. E escutei sua risada. Mas não o disse ao Kyle. – Mas… por quê? Por que não me delatou? – Porque o amo. Como você. E se uma mulher tentasse afastá-lo do meu lado… – deixou a frase em suspense. – Aonde irá? – Irei à casa de meu tio. Espero que possa me perdoar algum dia, Josleen. Seu sorriso foi triste, mas franco. – Já a perdoei. O amor, às vezes, joga estranho. Evelyna se afastou para a porta. James a abria nesse momento. – Se alguma vez, em qualquer lugar, em qualquer ocasião – lhe disse, – se precisar algo de mim, é só me chamar Josleen. Nunca poderei lhe pagar pela sua mostra de amizade. Sem olhar para trás, saiu, fechando a porta nas suas costas. James ergueu uma sobrancelha. – O que passou? – Assuntos entre mulheres. Não queira inteirar-se, fofoqueiro. – Kyle diz que foi ela quem... – Deixa James, doçura. Estou cansada. – Hey! Chamou-me doçura! – Gritou o jovem. – Quando Kyle souber se comerá de raiva e...! – Do que tenho que me inteirar? – Perguntou uma voz de barítono a suas costas, Nieves Hidalgo

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fazendo que desse um salto. – Diabo, irmão, deveria fazer um pouco de ruído quando caminha! Assustou-me. – Cuidou bem de minha convalescente? – Perguntou Kyle. – Vi que Evelyna saía daqui. – Pediu para vê-la um momento. Em particular. – E você as deixou a sós? – Condenado seja! Tente proibir algo a esta agradável pessoa que está na cama. Tente fazê-lo e logo me conte como o conseguiu. Rangendo os dentes partiu. – Que droga queria essa desgraçada? – Perguntou Kyle, mal James fechou a porta. – Pedir perdão. Jurou que só queria me assustar. – Já vejo. E você, doce alma caridosa, acreditou. – Não só acreditei meu irritado guerreiro dourado – repôs, – mas também estou certa de que ganhei uma amiga para toda a vida. Ei não franza o cenho desse modo. O faz parecer temível. – Sou temível, senhora. Josleen riu com vontade e ele se aproximou e depositou um beijo em seus lábios. – Encontra-se melhor? – Encontro-me perfeitamente bem. Só um pouco machucada – os dedos masculinos riscavam círculos sobre o hematoma da têmpora. –Como certo.... Nieves Hidalgo

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Conhece Barrymore Moretland? A pergunta o deixou perplexo. – Moretland? – Sim. Pode acomodar-me nos almofadões para ficar um pouco mais para a direita? – Liria disse que... – Por favor. – Está bem – concordou. Acomodou-a e ela emitiu um longo suspiro de prazer – Melhor assim? – Muito melhor, obrigado. E bem? – E bem... O que? – Sobre o Moretland. Kyle fez como se tentasse recordar. – Darei umas pistas – disse Josleen. – Moreno, de média estatura, olhos pequenos e pardos, com uma cicatriz em forma de meia lua no queixo. Acredito que em algumas ocasiões usa as cores dos Moogan. Imagino que quando lhe passa informação sobre o gado de meu irmão – todo o corpo de Kyle se retesou. – Outra pista mais: estava com minha escolta no dia em que o encontramos lhe deram aquela surra e quase o mataram de frio. Seu tom, realmente irônico, fez Kyle endurecer a mandíbula. – Se já saber que o conheço, a que vem então a pergunta? – Curiosidade. E para poder me vingar desse porco. Evelyna me contou que um Nieves Hidalgo

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homem com essa descrição a enredou para que me matasse e assim voltar a têlo – Kyle então se ergueu em toda sua envergadura – O que vai fazer, perguntou Josleen? – Ir a terras de seu irmão, buscá-lo e matá-lo. Justo nesse momento um grito anunciou que estandartes dos McDurney, McCallister e Gowan se aproximavam. – Parece-me que não vai precisar buscá-lo – sussurrou Josleen, aterrada diante da ideia de que um exército completo estivesse às portas do Stone Tower.

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Capítulo 42

Perante o contingente que se aproximava da fortaleza, os aldeãos que viviam fora das muralhas correram a refugiar-se no interior da fortificação, abandonando suas casas e equipamento aos invasores. Josleen saiu da cama, mal Kyle desapareceu para se encarregar da defesa. Rezou para que Wain não atacasse de repente, para que primeiro pedisse explicações. Ela estava bem, se não contassem os hematomas, Verter e os outros gozavam de boa saúde e boa comida embora eles estivessem confinados na masmorra. Ninguém tinha sofrido dano e um sequestro naqueles tempos era o pão de cada dia. Mas sabia a cólera que embargava seu irmão cada vez que o nome dos McFersson aparecia. Wain podia ser imprevisível. Laird Enchem McFersson tinha matado seu bisavô e essa afronta ainda estava por ser cobrada, segundo o jovem. Naquela altura, depois de conviver em Stone Tower e conhecer aquelas pessoas, Josleen se questionava o que realmente acontecera entre seus bisavôs. Duvidava muito que Enchem tivesse matado a sangue frio o seu antepassado, e sabia que os falatórios e as lendas aumentavam e modificavam com o passar do tempo, passando de pais para filhos. Nem tudo que se narrava era exato. Se aquele McFersson fora a metade de cavalheiro que era Kyle, não poderia matar seu bisavô a não ser numa luta limpa. Conseguiu pôr um dos vestidos enquanto resmungava pela dor e pelas moléstias. Limpou o rosto, prendeu o cabelo numa trança que deixou solta nas costas e saiu dali para dirigir-se à muralha. Ninguém a deteve. Nem se fixaram nela. No Stone Tower reinava a confusão e Nieves Hidalgo

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todos iam ou vinham preparando-se para a batalha ou o bloqueio. Um bom número de camponeses ajudava nos trabalhos dirigidos pelos guerreiros, as mulheres colocavam as crianças em segurança. Seu estômago se comprimiu pensando no que poderia acontecer. Entre aquela confusão, Josleen avistou Malcom e se aproximou. – Onde crê que vai jovenzinho? O menino a olhou como a uma aparição. – Está bem! – gritou alegre. – Mais ou menos, céus. Vá para dentro. – Mas estão nos atacando, Josleen! Há muitos guerreiros fora das muralhas. – Justamente por isso, quero que vá para dentro. Onde está sua avó? – Creio que me procurando – confessou. – Mas eu devo defender o castelo, como meu pai. Os camponeses são nossa responsabilidade. – Malcom, carinho, esses camponeses são maiores e mais fortes que você. Seu pai e seus tios se encarregarão desse trabalho. Entre. – Ao menos quero ver o que acontece. Josleen também queria. Não em vão, pois seu irmão estava fora das muralhas. E temia por ele e pelo Kyle. – Há algum lugar seguro do que ambos possamos bisbilhotar? –Malcom assentiu. – Mostre aonde. O menino a conduziu através do caos subindo por uma escada lateral. Chegaram às ameias e ali, escondidos para não serem vistos, olharam para o exterior. Nieves Hidalgo

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O sangue de Josleen congelou ao ver o volumoso número de guerreiros. – Agora guarda silêncio, Malcom. E não te assuste. – Não estou assustado, a não ser nervoso. É minha primeira batalha, sabe? ***** Kyle observou seus inimigos. Sabia por que estavam ali. Imaginou com que demônio eles se inteiraram de que Josleen se encontrava entre os muros de sua fortaleza. Amaldiçoou cem vezes sua má sorte. Deu-se conta de que tinha sido um irresponsável, de que tinha estendido muito o assunto. Reter Josleen podia custar muitas baixas. E muitas perdas. As chamas que se erguiam no povoado, que estavam consumindo as cabanas de seu povo mostravam com clareza, que seu rival não iria simplesmente conversar. Mas estava decidido a fazer um pacto com o maldito Wain McDurney. Não podia enfrentá-lo. Não o irmão de Josleen. Ela não o perdoaria nunca, se ele o matasse ou matasse algum de seus familiares. E tinha todos em sua porta. – Tire os prisioneiros da cela e deixa-os partir – disse ao James. – E ela? Kyle conteve a vontade de lhe dar um murro. Mas só apertou os dentes e murmurou: – Ela fica. – Imagino que McDurney não se conformará recuperando só eles – interveio Duncan. – Veio buscar a sua irmã. – Por cima de meu cadáver! – Parece disposto a fazê-lo – sussurrou James com um fio de voz, assinalando ao Nieves Hidalgo

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longe. Em efeito, Wain parecia disposto a tudo. Eles estavam queimando toda a aldeia, inclusive o celeiro. Um cavaleiro envolto no tartán McCallister fez seu cavalo avançar levando uma bandeira branca. Quando estava a pouca distância da muralha se deteve. – Kyle McFersson! Apareceu por cima do muro. – Aqui estou! – Trago uma mensagem de Wain McDurney! – Diga! – Liberte lady Josleen e os homens que tem retidos. Quando todos estiverem a salvo entre nós, ele perdoará a vida de todos que usam suas cores, falará de compensações e se enfrentarão. Kyle conteve o fôlego. Wain queria a sua cabeça cravada numa estaca e exposta ao sol. E não era para menos. Certamente imaginava que sua irmã não continuava sendo donzela. Não pararia até vê-lo morto. Mas, acontecesse o que fosse ele não podia matar Wain. Ele devia isso a Josleen. – Deixarei livres os homens! – E lady Josleen? – Ela fica. Não está em condições de ir a nenhum lado. O emissário de Wain se ergueu como se o tivessem atravessado no peito. Fez girar sua montaria e retornou aos seus. Nieves Hidalgo

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O silêncio caiu sobre os homens de Kyle como um túmulo. Todos já sabiam que haveria uma batalha. Muitos deles até aceitava com entusiasmo, não em vão, pois os McDurney eram seus mais ferozes rivais. E lhes tinham roubado em muitas ocasiões. Eles tinham feito o próprio, claro, mas isso não vinha agora ao caso. Pouco depois, o emissário retornou às muralhas. O pano branco que brilhava na haste que se apoiava com desinteresse sobre sua coxa, parecia mais um símbolo de guerra do que de trégua. – McDurney não quer derramar mais que um sangue: o seu! –gritou a voz. – O desafia a luta aberta! – Para isso tem que enviar um emissário? – gritou Kyle por sua vez – por que não vem ele mesmo? – O que responde McFersson? – Pode apodrecer esperando, diga-lhe. O homem concordou e voltou a dar a volta. Kyle pensou ter enxergado um sorriso satisfeito. Todos pareciam estar ansiosos pela batalha. Todos exceto ele, porque tinha as mãos amarradas. Afastou-se e amaldiçoou em voz alta o condenado embrulho em que tinha metido sua gente. Estava entre a espada e a parede. Não podia enfrentar Wain. Não podia deixar que Josleen retornasse com os seus. Pertencia-lhe! E só ideia de que partisse o encolerizava. E Wain não aceitaria suas desculpas. Tampouco ele o faria se a moça tivesse sido sua irmã. Josleen tinha modificado tantas coisas no Stone Tower que já pertencia ao lugar. Conseguira fazer seus irmãos se comportarem, que conquistasse seu filho e se dedicasse a ele como um verdadeiro pai e não só como o chefe do clã. Sua mãe Nieves Hidalgo

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voltara a ser feliz graças a ela. Sua gente confiava nela, tinham-na admitido de boa vontade porque dia a dia conquistara o afeto de todos, por seu amor e dedicação. E Wain aspirava que a deixasse partir? Duncan o advertiu, então voltou a prestar atenção. Os inimigos se moviam, acabando de destruir o povoado. A suas costas, alguns protestaram por aquele desastre. Não era a primeira vez que batalhavam contra outro clã e não seria a última em que se perderiam moradias e equipamento, animais ou vidas. Mas nenhuma tão absurda como aquela. Tudo por sua luxúria. Por sua falta de controle. Por ter seduzido uma mulher. Kyle se perguntou se tinha direito a sacrificar o bem-estar de toda sua gente para não humilhar-se e decidiu que não. Não, condenado fosse, não tinha esse direito, apesar de ser chefe do clã. Sua vida era um tributo muito baixo a pagar em troca da vida dos seus. Não lhe importava morrer. Só sentia não poder voltar a ter Josleen. – Ondula a bandeira branca, James. Seu irmão ficou olhando como se tivesse perdido o juízo. – O que disse? – Ondula a bandeira branca. E faça-o já, antes que eles acabem por incendiar todo o povoado e ataquem! Segundos depois a camisa branca que Duncan, usava por baixo, balançava ao vento. Kyle viu que Wain McDurney fazia um gesto com a mão. Imediatamente, seus guerreiros retrocederam e deixaram de saquear as cabanas. E quase ao mesmo tempo as portas da muralha se abriram ligeiramente para dar passagem aos prisioneiros recém libertados. Todos correram ao se verem livres, para se unirem ao Nieves Hidalgo

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seu clã. Kyle se cumprimentou por ter ordenado que os tratasse bem. Realmente, não tinha nada contra eles e Verter acabara por cair em suas graças. Foi ele quem se voltou para a muralha e o procurou com o olhar. Kyle esperava seu alvoroço, mas ainda assim o sobressaltou quando chegou. – McFersson, irei matá-lo por isso!!

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Capítulo 43

De sua posição, Josleen se alegrou ao vê-los partir. Escaparam algumas lágrimas, vendo que Kyle tinha cedido. Entretanto, algo doía no peito. Algo profundo, como uma adaga cravada entre as costelas. Kyle libertava os homens e certamente a deixaria a qualquer hora. Aspirava voltar a abraçar seu irmão, a Sheena e aos seus parentes, mas deixar Kyle parecia insuportável. Tentando conter o pranto, pegou Malcom pela mão. – Voltemos para baixo. – Por quê? Ainda não terminou. Agora vem o melhor. Meu pai enfrentará McDurney. – Esse McDurney é meu irmão, carinho – mordeu os lábios. – E eu não quero que ele saia ferido, como não quero que firam seu pai. Não posso permiti-lo. Ninguém deve morrer Malcom. Tenho que partir. Conseguirei que meu irmão deixe suas terras. O menino se soltou. Franziu o cenho, naquele gesto idêntico ao de Kyle. – Papai não a deixará partir. Prometeu-me isso quando estava chorando junto a sua cama. Josleen piscou. As lágrimas já rolavam. Kyle tinha chorado por ela? – Prometeu-lhe isso? – Fez, seriamente. – E chorava? – Perguntou confusa. Nieves Hidalgo

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– Suponho que ele achou que fosse morrer. Quando você estava desacordada, depois da queda. Sabe? Nunca tinha visto papai chorar. Ele é um guerreiro e os guerreiros não choram não é certo? Eu procuro não fazê-lo. Uma vertigem a fez apoiar-se na parede. Se ainda restava alguma dúvida do amor de Kyle, agora ela desaparecia. A felicidade explodiu dentro dela com tanta força que as pernas lhe tremeram. Escutou o retumbar de muitas vozes de uma vez e espiou para ver o que acontecia. Ficou sem fôlego. Kyle estava a ponto de sair das muralhas. Sozinho. Montado em seu cavalo. O pânico se apoderou dela. – Malcom – tomou ao menino pelos ombros com tanta força que ele fez uma careta de dor. – Malcom, carinho, me escute. Conhece alguma saída secreta? Sabe como posso sair daqui? O menino a olhou com atenção. – Para que quer sabê-lo? – Conhece ou não o modo de sair sem ser visto? – É possível. – Mostre-me. – Não posso Josleen. Meu pai me mataria. E meus tios. – Malcom, tesouro – o abraçou. – Seu papai está em perigo. Agora mesmo está saindo do Stone Tower. – Vai render-se? – Não acredito. Certamente quer falar com meu irmão, mas ele está furioso. Nieves Hidalgo

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Compreende? Podem lhe fazer mal. – Seu irmão tentara matar meu pai? – Assustou-se. Não pôde lhe responder isso, mas lhe disse: – Temos que ajudá-lo. Os olhos do menino se arregalaram. – Nós? Refere a você e a mim? – Exatamente. Quer ser um bom guerreiro no dia de amanhã, não é verdade? – Malcom assentiu. – Para ser um grande homem terá que tomar às vezes decisões difíceis. Agora é uma delas. Pode desobedecer ao seu papai e me mostrar essa saída secreta para que eu impeça sua morte, ou pode não dizer nada e carregar sobre suas costas. Deve se decidir e deve fazê-lo agora. – Meu pai vencerá McDurney. – Mas acontece que eu amo também a esse danado McDurney, Malcom. – E a mim. Quer-me também Josleen? – Perguntou, esperançado – Se importaria de ser minha mamãe? Josleen apertou seu corpinho contra o peito e explodiu em pranto. Deus, não entendia por que a vida era tão injusta às vezes. Pensou que todos os homens eram idiotas. Orgulhosos e idiotas. Nada a satisfaria mais que tornar-se esposa de Kyle e na mãe do pequeno, mas o destino estava a ponto de lhe arrebatar aos dois. Devia sacrificar sua felicidade em troca de saber que eles viveriam. Wain não cessaria até trazê-la ao seu lado e para isso era capaz de matar Kyle e a metade do clã McFersson ou morrer tentando. Devia ir ao seu encontro e convencê-lo para que parasse com toda a luta. Não se sentia com coragem para assumir a perda de Wain. Nem para ver Nieves Hidalgo

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o rosto choroso de sua mãe se o que perdesse era a vida do Warren. O destino já tinha decidido por ela. – Eu adoraria ser sua mãe, Malcom – lhe disse, – mas agora devo evitar uma guerra – escutou o chiado da enorme porta ao abrir-se e o seu cabelo se arrepiou. – Por Deus, me mostre essa saída, Malcom! – Está justo aqui debaixo – falou o menino. E pôs-se a correr. Josleen segurou a barra do vestido e o seguiu. Seu corpo protestou ao mover-se depressa, mas mordeu os lábios e rezou para chegar a tempo de parar toda aquela loucura.

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Capítulo 44

Kyle estreitou o olhar quando o sol incidiu direto nos seus olhos, cegando-o. A porta se fechou a suas costas não sem antes escutar a voz de seu irmão James lhe aconselhando: – Tome cuidado. O maldito McDurney não se deixará convencer. E aposto meu cavalo de batalha que sei o que vai lhe dizer. Era possível, pensou com ironia. Era presumível que seu rival, durante anos, não quisesse nem lhe escutar. De todos os modos estava decidido a fazer tudo que pudesse para evitar a briga. E se para isso devia deixar que o outro pisoteasse seu orgulho, que assim fosse. Era mais fácil continuar vivendo sem orgulho do que ver o ódio nos olhos de Josleen. Amava-a. Deu-se conta quando esteve a ponto de perdê-la. Não tivera a coragem de dizer-lhe, ele que jurou não voltar a casar-se, não voltar a cair nas redes de uma mulher. Ergueu os ombros, respirou fundo e espetou ligeiramente os flancos de seu garanhão. Iria desculpar-se com os McDurney, com os McCallister e com os Gowan. Iria desculpar-se inclusive com o rei dos infernos se fosse necessário. Pediria para Wain a mão de Josleen e se o outro não aceitasse... Igual lhe seria se o matasse. Wain o viu avançar devagar. O McFersson saía sozinho, sem seus homens, depois de mostrar bandeira branca? Tratava-se de uma armadilha? Onde estava Josleen? Wain a viu nesse mesmo instante.

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Aquela moça magra com o cabelo vermelho e ouro flutuando atrás dela, não podia ser outra que sua irmã. Levantou-se sobre seu cavalo e ergueu o braço em sinal de saudação. O gesto alertou Kyle que se voltou para olhar atrás dele. Josleen corria ladeira abaixo. Fazia para ele. Ou para eles? Wain esporeou seu cavalo para alcançar a sua irmã antes que o fizesse Kyle. Kyle, por sua vez, obrigou o seu garanhão a dar a volta e cavalgou também para ela. Um clamor unânime percorreu pelos guerreiros de Wain e ele desembainhou a espada. Josleen, ao ver que ambos cavaleiros corriam para ela, ficou paralisada. Kyle chegou primeiro e apeou do cavalo antes mesmo que o animal parasse sua carreira. Ainda estava no ar quando retirou sua espada. Josleen não pôde evitar de sentir orgulho diante de sua habilidade, mas quase imediatamente seu corpo a protegeu. Já não pôde ver nada, salvo suas largas costas. – Não a toque, McDurney! Wain segurou as rédeas a dois palmos dele. Faltou muito pouco para instigar o animal a lhe escoicear, mas temeu por sua irmã e conteve o ímpeto de seu cavalo. – Entregue-a McFersson. – Primeiro me escutará. Josleen sentiu que se desfalecia. Kyle concordava em entregá-la? Elevou-se sobre as pontas de seus sapatos para poder ver seu irmão, mas dada a estatura de Kyle teve que acabar aparecendo por debaixo de seu braço armado. – O que pretendo escutar de seus lábios é uma oração quando o matar – Nieves Hidalgo

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respondeu Wain. – Me escutará? Wain apertou os dentes. Seu cavalo estava nervoso, já sentia a luta, e lhe custava detê-lo. – Defende-se com minha irmã, maldito bastardo. Deixa que ela se afaste, poderia acabar ferida. Então, saldaremos nossas diferenças. Kyle sacudiu a cabeça. – Josleen está ferida gravemente e... Com um grito de fúria, Wain saltou a terra. – Se atreveu a maltratá-la... Josleen emitiu um gemido. Pareciam dois lobos a ponto de atacar-se. Tentou falar, mas as vozes de ambos anularam suas palavras. Assim fez a única coisa que podia fazer: acariciou as costas de Kyle. Imediatamente, ele se esqueceu de Wain e a olhou. – Está bem, meu amor? Wain ficou aturdido ao escutar aquele tom de voz com que o McFersson se dirigia a sua irmã. E ela aproveitou para ganhar posição entre ambos, embora o braço de Kyle a segurou pelo corpo. – Se embainharem as espadas estarei melhor. Kyle começou a baixar sua espada, atento, entretanto a qualquer possível ataque. Wain permaneceu rígido, mas estava tão pasmado que foi incapaz de fazer outra coisa que não fora observar à moça. Descobriu o hematoma na têmpora e deu Nieves Hidalgo

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um passo para ela. – Houve um acidente, Wain – se apressou a explicar ela. – Caí. Mas estou bem, juro-lhe isso. Kyle a atraiu para ele com mais força, sem soltar ainda a espada que mantinha a meio caminho entre o peito de Wain e o chão. Josleen sentiu a força de seu braço, a firmeza de seu corpo. Levantou o rosto para olhá-lo e Kyle a obsequiou um meio sorriso. Foi um momento inesquecível para o Wain, porque quando Kyle descobriu o brilho de paixão naqueles olhos azuis, esqueceu-se de tudo. Josleen acariciou-lhe o queixo, ficou nas pontas dos pés e o beijou na boca. Tudo os alarmes latejaram na cabeça de Wain. – Que demônio está acontecendo aqui, Josleen? – Imagino que rapaz saiu para explicá-lo, escutou-se uma voz de mulher. Josleen lançou um grito de alegria, separou-se de Kyle e correu para sua mãe, que já desmontava. Junto dela, já que não tinha havido forma de detê-la, estavam Warren, Neil o pai da Sheena e também Verter. E nenhum dos três parecia muito feliz. – Mamãe! Aliem abraçou sua filha e a moça se queixou. – Encontra-se bem, querida? – Perguntou, observando o rosto sério do McFersson, nada cômodo ao ver-se cercado. – Um par de hematoma. Uma queda inoportuna, mamãe. Nada sério. Poderia convencer a estes dois idiotas que desçam de uma vez as espadas? Na verdade – disse lançando um olhar gelado a todo o grupo, – você poderia dizer a todos que guardem as armas? Nieves Hidalgo

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Enquanto falavam, James, Duncan e um forte grupo de guerreiros tinham saído da fortaleza e rodearam por sua vez. Os homens de Wain começaram a moverse e das ameias, os de Kyle apontaram seus arcos. Aliem afastou sua filha e se voltou para seu marido. – Cavalheiros eu receio que uma dessas incômodas tormentas de verão, logo começará. Não tenho intenção de ficar dialogando sob a chuva, de modo que se McFersson nos convidar para um gole de uísque, estou certa de que poderemos esclarecer toda esta confusão, todos comodamente sentados. Josleen segurou a risada ao escutar ao uníssono os grunhidos de desconformidade do Warren e Wain. – Será uma honra, milady – afirmou Kyle. Aliem voltou a segurar sua filha pela cintura e sem ligar para ninguém, ambas se encaminharam para a porta do castelo. Warren McCallister passou a mão pelo queixo e assobiou. Sua esposa acabava de lhes dar uma lição e ele, no fundo, orgulhava-se. O que lhe chateava era que o condenado McFersson parecia estar-se divertindo, dado o sorriso que brilhava. Os homens de Kyle não souberam como reagir quando aquela dama, de altivo gesto, passou entre seus cavalos de guerra com toda tranquilidade. Mas ao ver que não as seguiam, voltou-se e lhes repreendeu: – Vão ficar aí parados até que lhes aumente o traseiro no inverno? – a reprimenda conseguiu arrancar uma risada de Josleen. – Filha, já lhe disse alguma vez que todos os homens são um pouco… lentos? A jovem sufocou a risada ao escutar um golpe seco e uma maldição.

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Kyle, caído no chão, tocava a mandíbula. E Verter, com as pernas abertas e quase em cima dele, tinha ainda os punhos apertados. Ante o movimento geral, Kyle pediu calma com um gesto, enquanto furava Verter com os olhos e tratava de averiguar se tinha todos os dentes no lugar. – Suponho que merecia isso. Verter assentiu. – Tinha-lhe ganas, moço, não vou negá-lo. Estendeu o braço e Kyle o aceitou para levantar-se. Josleen foi ao seu lado imediatamente e presenteou o outro um olhar que teria gelado o centro da terra. – Besta – o insultou. – Lhe fez algum mal? Age como uma mula. – Bom – disse Kyle, ainda atordoado pelo soco, – já recebi golpes maiores. Não se ofenda, Verter. Gowan esfregou a barriga. Estava há vários dias comendo o rancho que serviram durante a marcha e sonhava com uma boa peça de carne. Pressentia que aquela noite comeria comida quente. No momento em que se dirigiam para as muralhas, o sexto sentido de Kyle evitou uma tragédia. Um muito ligeiro brilho entre os matagais desviou sua atenção. A flecha ia direta para as costas de Wain. Com um reflexo extraordinário Kyle empurrou o outro, que caiu de bruços, recebendo ele o impacto em seu ombro. Mas lhe deu tempo de tirar sua espada e lançá-la. O estertor de morte apenas se escutou. A confusão só durou uns segundos. Foi Verter quem correu para os arbustos enquanto Aliem e Josleen se ocupavam de atender Kyle. Quando retornou, sua Nieves Hidalgo

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expressão era de assombro. – Pelo amor de Deus, é Moretland – disse. Kyle quebrou o cabo da flecha e a tirou do ombro ferido. – Esqueci-me dele – disse Josleen, rasgando já parte de sua anágua para estancar o sangue. – Por sua culpa quase quebro o pescoço ao cair do alto da torre até o piso inferior. É um traidor, Wain. – Era um traidor – retificou Verter. – McFersson, sua espada lhe atravessou a garganta. – Certamente pensou que era o momento adequado, nos jogando a culpa – disse Kyle ao Wain. – Odiava-o. Desejava ser o chefe dos McDurney. – Sempre o tratei bem, era de minha confiança. Com certeza tentava eliminar você. – Wain, não seja teimoso! – Exclamou Josleen. – Essa flecha o teria atravessado. – Devo supor que acaba de me salvar a vida, então. Kyle sabia que o outro não estava muito satisfeito, porque agora lhe devia um favor. Encolheu os ombros e o movimento o fez pular. – Terá que cuidar disso antes que fique menos sangue no corpo do que cérebro na cabeça – resolveu a mãe de Josleen. – Quanto a você, filho, pois sim, acaba de lhe salvar a vida. Imagino que agora a dívida pela morte de seu bisavô poderá ficar resolvida.

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Epílogo

O morno sol de outono tingia de vermelho a pradaria. As copas das árvores numa mistura de ocre, vermelho e verde, transformavam a paisagem numa vista maravilhosa. Fazia frio, mas Josleen, agasalhada sob grosas mantas de pele, não o sentia. Muito pelo contrário, estava ardendo. Os lábios de Kyle acariciaram sua orelha. Olhou-o. Olhou-o como sempre fazia, sem acreditar que aquele deus pagão, dourado da cabeça aos pés, lhe pertencesse. Aceitou sua boca. Quando ele aprofundou o beijo, voltou a desejá-lo. – Faz apenas uns minutos, Kyle – protestou falsamente. – Uma eternidade – disse ele, entrelaçando suas pernas às dela e envolvendo-a em seus braços. – Uma eternidade, meu amor. Ela se aninhou dengosa, apoiando a face em seu peito. Ainda não estava satisfeita. Nunca estaria satisfeita dele, embora passassem mil anos. – Liria prometeu fazer um pudim de frutas para a sobremesa de amanhã – disse para distraí-lo. – Odeio pudim de frutas. – Ah meu amor, eu adoro. – Por isso Liria o faz. – Me mima muito.

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– Vai ter o meu novo filho e todos a adoram, como eu – afirmou, acariciando o ventre ainda plano. – Será uma menina. – Será preciosa. – Assim espero. Malcom diz que ficará encantado de ter uma irmãzinha para proteger. – Com certeza. – Kyle inalou o perfume de flores que emanava de sua esposa. – E mamãe prometeu passar o inverno conosco. Não quer estar longe quando o bebê nascer – levantou a cabeça para olhá-lo. – Se importa de receber a sua sogra por uma temporada? – Sabe que não, meu amor. – Verter a acompanhará. – Por Deus, mulher! – protestou – Verter ainda tem antipatias por mim. Ainda me dói o murro. Josleen riu com vontades. Mas sua risada foi se convertendo em gemidos quando começou a acariciá-la sob as mantas. – Será sempre igual? – Ronronou. – Tenho que me recuperar senhora. – Do que? – Da semana que seus parentes passaram no Stone Tower, até que Wain aceitou que nos casássemos. Recorda carinho, que não me permitiu tocá-la durante todos os dias que durou o... Como o chamou sua mãe? Cortejo? Nieves Hidalgo

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Josleen voltou a soltar uma gargalhada que lhe provocou soluço. Kyle a olhou fascinado. Quando ria o mundo explodia em mil cores. Amava-a de um modo completo. Tanto, que às vezes lhe doía o peito. E o disse. Uma vez mais. Talvez o tivesse repetido um milhão de vezes desde que pediu formalmente sua mão a todo o condenado clã McDurney, ao clã Gowan e também ao clã McCallister. Beijou-o no queixo. Seus olhos, mais brilhantes do que nunca, envolveram Kyle em ternura e paixão. – Recuperemos então o tempo perdido, meu terrível guerreiro das Highlands – sussurrou ela. – Faça amor comigo. – Uma e mil vezes, minha formosa flor de urze branca. Uma e mil vezes. E Kyle cumpriu sua palavra. Passaria o resto de sua vida concedendo esse desejo a sua esposa.

Fim

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Sobre a autora Madrilenha de nascimento e devoradora de livros, Nieves Hidalgo escreve há mais de vinte anos, por simples afeição, que reunia com seu trabalho. Atualmente deixou que trabalhar e se dedica por completo a escrever. Começou escrevendo novelas românticas em princípios dos anos 80, para o desfrute de suas amigas e colegas de trabalho. Nunca em todos esses anos pensou que poderia publicar seus livros, por isso nunca enviou seus manuscritos a nenhuma editoria. Para ela era prêmio suficiente saber que seus próximos gostassem de suas histórias de amor e aventuras. Em 2007, movida pela insistência de sua mais querida amiga, enviou a várias editoras algumas de suas novelas, e logo teve resposta de um dos mais importantes selos de novela romântica em nosso país: Edições B. Editorial que apostou nela quando a novela romântica era um mercado no qual reinavam as escritoras inglesas. Sua primeira novela publicada viu a luz em Março de 2008 pela Vergara, que seguiu apostando em suas novelas, depois de ver o êxito colhido. Incansável viajante, situa seus protagonistas em qualquer parte do mundo, embora lhe entusiasma criar aventuras em chão espanhol. Em 2009 se consolidou como uma das escritoras espanholas de novela romântica mais vendidas, graças a Orgulho saxão, que foi um dos grandes êxitos editoriais de Z Bolso em sua coleção romântica. Em Dezembro do 2009 ganhou dois Prêmios Dama: "Premio a melhor escritora nacional de novela romântica" e "Premio a melhor novela romântica nacional" por seu livro Amanheceres cativos. Em 2010 O Círculo de Leitores a incluiu em seu catálogo de escritoras românticas, sendo assim a primeira escritora espanhola de novela romântica publicada por eles.

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Nota da Revisora Cris Veiga: Urze é o arbusto abaixo (Erica azorica). É um arbusto muito ramificado que pode medir cerca de 1 a 4 metros. Tem os ramos pequenos esbranquiçados por estar densamente coberta de pelos. Ocorre nos bosques com bastante luz e frescos. Floração: desde Fevereiro a Março, até Julho ou Agosto.

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