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Um Dom Especial

Taming The Duke

Jackie Manning

Um Dom Especial Taming the Duke

Jackie Manning

HAVIA CONFORTO NO TOQUE DAQUELA MULHER... Uma espécie de cura que trouxe a paz e a excitação do amor onde Dalton Warfield jamais esperava encontrar: dentro de si mesmo! Porém, poderia realmente se render à doçura de Alicia Spencer, quando ele era o duque de Wexton e ela uma jovem bandida da sociedade? A primeira aparição de Alicia perante a sociedade trouxera a ruína de sua reputação. No entanto, os talentos curativos que ela possuía com os cavalos a levou a um acordo passional e inesperado com Dalton Warfield, um homem da alta classe, o mesmo que lhe cortejava os donos e que se apossara de seu coração... mas que jamais poderia lhe pertencer!


Um Dom Especial

Taming The Duke

Jackie Manning

Digitalização: Polyana Revisão: Rosa Santos

Copyright © 2001 by Jackíe Manning Publicado originalmente em 2001 pela Harlequin Books, Toronto, Canadá. Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma. Esta edição é publicada por acordo com a Harlequin Enterprises B.V. Todos os personagens desta obra, salvo os históricos, são fictícios. Qualquer outra semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência. Título original: Taming the duke Tradução: Gabriela de Oliveira Machado Campanhola Editora e Publisher: Janice Florido Editora: Fernanda Cardoso Editora de Arte: Ana Suely Dobón Paginação: Dany Editora Ltda. EDITORA NOVA CULTURAL LTDA. Rua Paes Leme, 524 - 10° andar CEP: 05424-010 - São Paulo - Brasil Copyright para a língua portuguesa: 2001 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA. Impressão e acabamento: DONNELLEY COCHRANE GRÁFICA E EDITORA BRASIL LTDA DIVISÃO CÍRCULO - Fone (55 11) 4191-4633


Um Dom Especial

Taming The Duke

Jackie Manning

CAPÍTULO I Marston Heath, Inglaterra, Lady Alicia! Venha depressa! Da fresca estufa de ervas medicinais onde se encontrava, Alicia ouviu o chamado da criada. Pôs-se de pé e, apanhando uma cesta de flores colhidas havia pouco, gritou: — Hortense, qual é o problema? Quando Hortense surgiu correndo diante dela, Alicia deixou cair a cesta das mãos, assustada. — O que aconteceu? — E seu pai, milady. — Fez uma pausa, buscando recuperar o fôlego. — Milorde acabou de chegar e está esperando pela senhorita no estúdio. — Meu pai? — Alicia teve um mau presságio. O lorde não era esperado pelos próximos três dias. Não devia vir até que terminasse o leilão de cavalos. — Ele parece... não estar bem? — Perguntou, cautelosa, consciente da fraqueza do pai pela bebida. Hortense conteve a respiração. — Não tenho certeza, milady. Nunca vi o patrão em tal estado. — Abanou o rosto afogueado com o avental. — Sente-se e descanse, Hortense, enquanto eu cuido disso. Alicia apanhou um maço de ervas e saiu numa corrida desabalada pela trilha do jardim. Se, pelo menos, tivesse acompanhado o pai até Londres... Não devia ter confiado a ele uma missão de tal importância. Alcançou os degraus da mansão e em instantes batia à porta do estúdio. — Papai, sou eu. — A calma de sua voz escondia o nervosismo que sentia. Seguiu-se um breve silêncio e, então, Alicia escutou os pesados passos do lorde fazendo estalar o assoalho de nogueira. A trava vibrou na fechadura. Alicia entrou e encarou o lorde. Quando sóbrio, seu pai orgulhava-se em ostentar trajes imaculados. Agora, trazia a capa de viagem coberta de poeira. Sua gravata branca estava suja e desfeita, e a peruca pendia torta, no alto de sua calva. Contudo, foi o sorriso misterioso que ele mostrava no rosto onde a barba crescia o que aumentou a preocupação de Alicia. — Pai, o senhor parece tão... estranho. O que há? O lorde jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada. — Pelas trombetas de Jerico! Está tudo bem! Na verdade, trago novidades esplêndidas. O cheiro de uísque em seu hálito confirmou as piores suspeitas de Alicia. É mesmo, papai? Ele caminhou para trás da escrivaninha. — Nossa sorte foi revertida por uma intervenção milagrosa. — Oh papai, você não apostou no jogo o dinheiro que lhe dei para dar o lance na égua, não é?! O lorde deu uma risadinha casuísta. — Você me recorda sua mãe quando me acusa assim. — Apontando para a cadeira ao lado, disse: — Acomode-se, enquanto lhe conto tudo. A raiva e a frustração ferviam dentro de Alicia. Seu pai prometera que, dessa vez,


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning seria digno de confiança. Desejava que fosse merecedor de crédito tanto quanto queria Good Times, a magnífica égua puro-sangue a que o lorde se comprometera arrematar no leilão de Tattersall. O animal possuía a linhagem ideal para aprimorar o crescente plantel de animais de corrida de Alicia. — Muito bem, pai. Conte-me o que aconteceu. — Nossa nova égua a espera, no pasto. Alicia mal pôde acreditar. — Good Times?! O sorriso do lorde se desvaneceu, por um instante. E então, reapareceu, vibrante como nunca. — Não Good Times. Mas Cinnamon Rose, uma égua mais pura e de melhor compleição do que Good Times. — Evitou encarar a filha. — Mas os lances não estavam programados para começar em Tattersall até amanhã, papai. Onde a conseguiu? — Cheguei até a égua pelas graças do bom Deus. Um desconforto muito seu conhecido a invadiu. — Eu lhe entreguei quase duzentas libras, minha poupança de um ano, para que desse um lance em Good Times. — Alicia endireitou-se na cadeira, rígida, alteando os ombros. — O senhor usou meu dinheiro no jogo e depois comprou algum animal alquebrado com o resto que sobrou. Levantou-se. — Não me insulte com mentiras, pai. Como pôde fazer isso, de novo, depois de me prometer que... O lorde abriu a gaveta e tirou a bolsa de seda que ela lhe dera. Alicia pestanejou ao ver as brilhantes moedas de ouro se esparramarem sobre o tampo da mesa, e ficou a observá-lo enquanto o pai as contava, mostrando que ali estava quase a quantia total que ela lhe entregara. Tornou a sentar-se, estarrecida. — Se temos uma nova égua, quero saber de todos os detalhes. Como a conseguiu? O lorde estampou um sorriso misterioso e alçou as mãos, num gesto largo. — Cinnamon Rose é de raça campeã, filha. Por que não a vê primeiro? Depois, voltaremos a falar do assunto. A égua está amarrada no salgueiro, às margens do riacho. Vá até lá e veja por si mesma e, então, decida-se. Alicia ergueu-se do assento. — É isso o que vou fazer, agora mesmo. Porém, voltarei. Quero ouvir como conseguiu ter um cavalo sem pagar nada mais que uns poucos xelins. Ao passar pelo estábulo, minutos mais tarde, Alicia ouviu um suave relincho. Júpiter, um de seus três puros-sangue, resfolegou para ela, do padoque. — Voltarei mais tarde para lhe dar algumas cenouras bem tenras, doçura. Seus adorados cavalos eram sua alegria, seu conforto, sua vida. Júpiter fora o primeiro potro que Alicia criara que demonstrava a promessa de uma linhagem de corrida de qualidade. Com uma égua escolhida, tal como Good Times... Alicia fez um esgar. Não, não iria permitir que esse revés a enfurecesse. Além disso, não havia a quem culpar, a não ser a si mesma. Embora quisesse acreditar que o lorde pudesse superar sua fraqueza em relação à bebida, devia encarar a realidade. Ele estaria indefeso em meio ao mundo tresloucado da jogatina dos frequentadores de Tatts. Suas histórias de quando montara Escape, o cavalo do príncipe de Gales, para a vitória em Newmarket deviam ter lhe garantido muitos copos de graça até o dia clarear. Um bando de gansos grasnou quando Alicia cortou caminho pelo viveiro de aves


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning e correu em direção ao pasto, mais além. Não tinha o direito de apontar defeitos no pai, não depois da desonra que ela trouxera para o nome da família. E, nos últimos três anos, desde que caíra em desgraça durante sua apresentação à sociedade, resignara-se a uma vida de solteira. Melhor estar só com sua criação a aceitar um dos homens inadequados que tinham lhe oferecido. Baniu as lembranças amargas, recusando-se a nutrir mágoas contra a injustiça de tudo aquilo. Agora seus dias eram plenos com o trabalho gratificante e com os lucros provenientes da cura de animais de seus vizinhos e amigos. Quando chegou à margem verdejante do rio, o aroma de rosas do jardim de sua mãe perfumou o ar de Julho. Semicerrando os olhos contra os raios de sol que rebrilhavam na superfície, esquadrinhou a área sob um velho salgueiro, mas não havia nenhum cavalo à vista. Um golpe de vento veio brincar com suas saias. Alicia segurou no lugar o tecido macio de musselina rosa, os olhos examinando a pastagem. Estava prestes a marchar de volta, em busca do pai, para exigir uma explicação, quando ouviu um ruído suave do outro lado das árvores. Lá avistou a mais esplêndida égua que já vira. Estacou, admirada. O animal trotou em sua direção, e Alicia pôde sentir sua força e pujança. A puro-sangue cor de canela sacudiu a cabeça, a crina sedosa brilhando à luz dourada do entardecer. Caminhou, cheia de graça, para Alicia, que observava, hipnotizada, a desenvoltura elegante de Cinnamon Rose. O lorde tinha razão. Aquele animal era um belo espécime. Se provasse ser tão superior como parecia ser, cruzar aquela égua com Júpiter poderia vir a resultar num plantel vencedor de cavalos de corrida. A égua empinou o focinho, e Alicia ergueu a mão para tocar a pelagem avermelhada e sedosa, e descobriu que era tão macia como o dorso de uma pomba. — Como todas as belas damas, ela é de tirar o fôlego, não é? Assustada com a profunda entonação masculina, Alicia voltou-se. Entre os matizes de sombra e luz, sob o velho carvalho, um homem alto, de ombros largos, vestido em um elegante traje bem talhado, colete negro finíssimo, recostava-se, preguiçoso, contra o tronco. Sua camisa branca, imaculada como a neve, e a gravata deslumbrante destacavam-se contra a tonalidade escura de seu casaco. O estranho sorria para ela. Alicia notou-lhe os quadris estreitos e as coxas firmes, vestidos em calça larga, de montaria. As esporas de prata que usava nas botas pretas eram mais adequadas para serem mostradas que para cavalgar, concluiu Alicia. O rapaz se curvou, num rápido cumprimento. E Alicia encontrou seu olhar divertido, de um belo azul. — O senhor sempre se oculta entre as árvores, pronto para cair sobre mulheres distraídas? Ele deu risada. Alicia respirou fundo. Aquela aparição súbita lhe amolecera os joelhos, fazendo-a balançar. E perdera a fala, algo que quase nunca acontecia. Talvez sua estranha reação fosse causada pelo mágico jogo de luz e penumbra que brincava naquelas feições aristocráticas. Cabelos escuros, quase negros, mais compridos do que a moda mandava, emolduravam aquela face regia. A boca erguia-se num tique irónico, e ela percebeu que o desconhecido notava seu olhar avaliador. — Só caio sobre moças adoráveis, e uma jovem mais bonita que você... eu ainda estou para ver. O elogio impertinente devolveu o juízo a Alicia. — Quem é você e o que está fazendo em Marston Heath?


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Naquele exato instante, Cinnamon Rose trotou para perto dele e esfregou o focinho na manga de seu casaco. — Tem algo a ver com essa égua? — Perdoe-me, milady. Sua rara formosura fez com que eu me esquecesse de minhas boas maneiras. Sou Dalton Warfield, o duque de Wexton, a seu dispor, Lady Alicia, e estou aqui para ver se Cinnamon Rose lhe agrada. Alicia engoliu em seco. Warfield, o duque de Wexton. Três anos haviam se passado desde aquela fatídica noite de sua ruína perante a sociedade, mas toda a vergonha e injustiça da ocasião fervilharam dentro dela. Seu coração se acelerou. Alicia pestanejou, tão zangada como se o incidente tivesse sido na véspera. Aqueles vividos olhos azuis, tão semelhantes aos da duquesa de Wexton, trouxeram de volta as dolorosas acusações. Alicia lutou para se controlar. — Que negócios tem o senhor com meu pai, para trazer este cavalo até esta casa? Dalton arqueou uma das sobrancelhas negras, bem definidas. — Milorde não lhe contou sobre nosso acordo? Alicia sentiu a ansiedade aumentar. — Não. — Um mês atrás, um de meus garanhões, Bashshar, sofreu um acidente que o deixou muito ferido. Desde então, suas feridas físicas cicatrizaram muito bem, porém o animal sofre de histeria. Temo que terei de sacrificá-lo, a menos que... Eu tinha esperanças de que você pudesse tratá-lo. Alicia sentiu o estômago revirar. — Meu pai disse que eu poderia? Um trejeito de surpresa perpassou pelo semblante de Dalton. — É claro. Na verdade, milorde concordou que você partisse agora mesmo para nosso ducado. Em troca de suas habilidades curativas, estou lhe oferecendo Cinnamon Rose, uma de nossas éguas mais promissoras. Seu pai falou que seu estábulo precisa de uma matriz de qualidade. "Papai, como o senhor pôde?!", ela pensou. — Lamento que seu cavalo esteja doente, milorde, mas tenho certeza de que conta com recursos mais eficientes do que lançar mão de uma curandeira. Alicia encheu o peito com mais uma inspiração profunda, para fortificar-se. — Não há como considerar sua oferta. Minha resposta é não. — Enviou um longo e reticente olhar sobre Cinnamon Rose. — E leve seu suborno com você. Em passos cadenciados e seguros, Alicia marchou para a trilha. As longas passadas de Dalton logo a alcançaram. — Dizem que sua doce natureza pode domar bestas selvagens, milady. Sua imensa compaixão é apenas um boato ou é verdadeira? Quem sabe refute minha proposta, não porque seja insensível, mas por causa de minha fortuna. Eu lhe asseguro, a tragédia de meu cavalo é tão grande que é o mesmo que ele pertencesse a um mendigo. Alicia estacou e voltou-se para encará-lo. — Sua riqueza nada tem a ver com isso, milorde. E acho uma tal sugestão ofensiva. — Ofensiva? A paciência de Alicia estava por um fio. — Vai fingir que não sabe que sua mãe me arruinou perante a sociedade? Dalton ficou imobilizado, de boca aberta.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Do que está falando? Alicia pôs as mãos na cintura. Pelo visto, a perda de sua reputação era coisa insignificante para o duque. — Só um crápula esqueceria o que sua mãe fez comigo. E eu não faço acordo com crápulas! — Deu-lhe as costas e se lançou em corrida desgarrada pela trilha. Dalton tornou a interceptá-la. — Você sabe que, se fosse homem, eu poderia desafiá-la para um duelo por macular a honra de minha mãe? Alicia parou. Fosse pelo tom injuriado dele ou pelo fato explícito de que Wexton se recusava a entender que era ela a parte ofendida, Alicia não podia ignorar a ameaça. — Um duelo é? — Esfregou as mãos, em regozijo. — Como seria bom confrontálo com uma arma na mão. Oh, se pelo menos eu pudesse... — Acredito que possa! — Você, porém, não vale o fio de minha espada, sir. Agora, por favor, pare de me seguir. Nosso assunto está encerrado. Dalton trilhou os dentes ao observar Lady Alicia avançar pelo roseiral, a longa cabeleira cor de avelã voando em cascata ao vento. Que história era aquela de a duquesa tê-la arruinado perante a sociedade? Um crápula, ele? Ora, aquela jovem devia ser uma desequilibrada! Cinnamon Rose ergueu a cabeça e resfolegou, como se desse risse dele. — Ah, você acha engraçado, também? — Dalton apanhou as rédeas e a puxando pela trilha. Não sabia o que fazer. Mas não podia esperar. Antes de partir, iria até o estábulo para certificar-se de que era verdade o que ouvira. O pai de Alicia podia ser um barão, mas a família Spencer não tinha um tostão e precisava com urgência de sangue novo em sua criação de cavalos. Se era assim, por que Lady Alicia desprezava uma oportunidade como aquela? Dalton ouvira dizer que ela era uma tentação, porém ninguém o alertara acerca de seu temperamento e o modo de ser intempestivo. Sem mencionar o espírito passional, que faiscava como fogo naqueles olhos escuros. Por que não se casara? Talvez seu noivo tivesse morrido na guerra. O pensamento fez Dalton recordar-se de seu irmão mais novo, Drake, um soldado entre muitos que haviam encontrado a mesma triste sorte. Dalton devia perguntar a sua irmã, Olívia, sobre o passado de Alicia Spencer. Devia ter feito isso antes. Contudo, jamais esperara que ela recusasse sua oferta. A atmosfera estava ainda carregada de raiva. O que dissera para acender um tal ressentimento dentro dela? Bem, melhor usar o tempo para pensar em um outro meio de persuadir Lady Alicia a ver o garanhão, Bashshar. Só de ver o pobre animal até mesmo o coração empedernido de Alicia iria se derreter de piedade, e sem dúvida iria querer ajudá-lo. Puxou a rédea e conduziu a égua em direção à carruagem. — Venha, Cinnamon. Ainda não fomos derrotados. Como costumava dizer meu irmão, Drake, quando você deixa cair sua última cartada, é hora de usar o ás da manga. — Pelas trombetas de Jerico! — O barão Spencer bateu com força o punho no tampo da escrivaninha. — Você vai voltar lá agora mesmo e pedir desculpas a ele. Ouviu, filha? — Não posso acreditar que possa me pedir tal coisa! — Alicia andava de um lado para o outro, em círculos. — Eu me recuso! E o senhor não pode me obrigar, papai.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Ela nunca erguera a voz para o pai antes, mas dessa vez sentia-se traída. O lorde não dava a mínima importância a seus sentimentos. O rosto do barão adquiriu uma tonalidade arroxeada. — Muito bem, Alicia. Eu lhe darei uma escolha. O viúvo Sedwick Rollins pediu-me sua mão. Se você se recusar a cuidar do cavalo do duque, serei forçado a dizer a Rollins que você se casará com ele tão logo seja obtida uma licença especial. — Está blefando! — Alicia reprimiu uma risada. — Rollins não tem um centavo no bolso... — Não me force a... — Em que saco de gatos o senhor se meteria com um genro como Sedwick Rollins, papai? Com aquelas doze crianças e sem um tostão furado, ele não se contentaria em viver lá na beira do rio, naquela sórdida choupana, se casasse comigo. Alicia mal conseguia manter as feições inalteradas. — Sedwick se mudaria para cá com a ninhada mais depressa do que os cães da cozinha roubam a torta que o cozinheiro deixa para esfriar no beiral da janela. E o senhor não conseguirá manter seu uísque por muito tempo, com seu genro mergulhando fundo até o fim do jarro. Seu furioso pai não pestanejou quando a fitou. O barão tirou um pergaminho da escrivaninha e apanhou o tinteiro e a pena. — O que está fazendo? — Alicia humedeceu os lábios, a boca tão seca como os carvões frios da lareira. O barão continuou a escrever, a pena correndo pelo papel rústico. Alicia ficou a observar a larga caligrafia cobrir a folha. Viu quando o pai endereçou a carta a Sedwick Rollins. O sangue correu mais rápido por suas veias. — O senhor não pode ir em frente com esse ultraje, papai. — Posso e o farei. Rollins herdou uma pequena soma e irá mudar-se para Dorset. Você partirá com ele, a menos que recupere o juízo. — Mamãe nunca permitiria uma coisa dessas. — Sua mãe já sabe e compreende a necessidade. — Falarei com ela. — A baronesa nada tem a dizer sobre o assunto. Você irá cumprir o acordo que fiz com Wexton ou fará as malas e sairá daqui até o cair da noite. Alicia jamais vira seu pai agir daquele modo. Um peso enorme oprimiu-lhe o peito. Por fim, murmurou: — Por quê, pai? Por que está fazendo isso comigo? — Porque estamos no fundo do poço. Fiz empréstimos dando como garantia Marston Heath e... O barão cerrou as pálpebras, e Alicia percebeu que o lorde lutava para controlarse. Uma vez mais, deduziu, ele jogara pesado. E perdera. — Você é a única que pode nos livrar desse barco afundando, minha filha. — O senhor sabe o que a mãe de Wexton fez comigo, pai. Como pôde... — Às favas o que ela lhe fez, Alicia! Agora, a bota aperta um outro calo. É hora de aquela família pagar a você pelo que a duquesa fez. Cinnamon Rose vale cinco vezes mais que o preço que podemos pagar por um puro-sangue, e temos a vantagem de Wexton ter o coração mole com aquele seu garanhão. Portanto, faça sua parte na barganha: Negociei um preço com o duque. Tudo o que tem a fazer é curar seu cavalo, e nós teremos o dinheiro. Era inútil argumentar com palavras. Não havia nada que pudesse dizer para refutar o valor de Cinnamon Rose e a importância que a égua traria ao plantei. O barão bufava, agitado, aguardando sua resposta. Alicia suspirou. Discutir com


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning ele seria falar com uma porta. — O senhor venceu, papai. — E correu para fora. O comprido corredor e a escadaria, ao final, transformaram-se numa imagem distorcida quando as lágrimas toldaram-lhe a visão. Precisava ficar sozinha. Alicia abriu a porta da frente e partiu em direção ao quieto santuário da estufa de ervas. CAPÍTULO II Balançando ao vento, uma cortina rendilhada de flores de angélica sombreava o banco do jardim. Alicia sentou-se, a testa franzida. Não passava de uma prisioneira. A despeito do papel ativo que desempenhava para as finanças da família, exigia-se dela, tal como de sua mãe, que obedecesse a seu pai, independente das estúpidas decisões do lorde. Seu pensamento voltou-se para Bashshar. Se o garanhão estava sofrendo, gostaria de ajudá-lo. Curar animais feridos era sua salvação, seu maior prazer. Enquanto permanecesse em Havencrest, iria se concentrar apenas nele. Mas e se a mãe de Wexton morasse em Havencrest? A duquesa iria considerá-la uma criada, uma mulher que ganhava a vida com o próprio suor. O trabalho de Alicia com animais era a prova de que não era adequada para a sociedade. Correndo as mãos com delicadeza pelos tufos da verde folhagem a seus pés, respirou fundo. O ar estava carregado do aroma de hortelã, de verbena e dos gerânios perfumados. Alicia sentiu sua raiva transformar-se em uma firme determinação. Talvez a duquesa ficasse em Londres, durante o verão. A possibilidade encheu-a de esperança. Distraída, Alicia apanhou um ramo florido de confiel, a nuvem de pólen amarelo caindo como uma fina poeira dourada em suas saias. O que tinha a temer? Não merecia ter sido banida da sociedade, e iria enfrentar a duquesa ou qualquer outra pessoa, se necessário fosse. Porém, não era tola de partir procurando encrenca. Um relincho suave, e então um focinho macio roçou-lhe a orelha. Espantada, Alicia virou-se. Cinnamon Rose mordiscou-lhe o pescoço. — Veio interceder pelo problema de seu dono, minha linda? — Alicia a acariciou. A égua jogou a cabeça para cima, brincalhona. Sem dúvida, um animal magnífico. Alicia recostou o rosto no focinho aveludado. — Não precisa pedir, amorzinho. Eu ajudarei seu amigo. Assim ficou, ainda afagando a crina vermelho dourada de Cinnamon Rose, quando notou que Wexton saía dos estábulos conduzindo uma bela carruagem, com uma parelha de cavalos lusitanos de pelagem branca e luzidia. Estreitou os olhos, ao vê-lo. Pegando as rédeas e puxando a potranca, Alicia cruzou o gramado. O duque pareceu não notá-la. Ao chegar a uma pequena distância de onde Alicia se encontrava, Wexton parou o veículo. Seu semblante não mostrava nenhuma emoção. Em vez de um último apelo, que Alicia esperava, o duque permaneceu calado, o olhar fixo no dela. Não obstante, o efeito daquelas íris hipnóticas não poderia ter produzido um resultado mais desastroso sobre os nervos de Alicia. — Reconsiderei minha decisão, milorde. Pode me esperar em Havencrest no início da próxima semana. Gostaria de poder contar com acomodações privadas, onde possa me isolar, com Bashshar, longe das pessoas. Recuso-me a ficar na casa principal. Não preciso de nada requintado, apenas que me preparem um quarto em cima da


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning garagem das carruagens. — Encarou-o. — Alguma pergunta? — O que a fez mudar de ideia tão depressa, posso saber? Alicia cruzou os braços. "Ora essa!" Lógico que o lorde sabia que sua família estava arruinada e que seu pai nunca permitiria que ela jogasse fora a oportunidade de possuir uma égua tão valiosa como Cinnamon Rose. — Não estou fazendo esse favor a você, milorde, mas sim por seu cavalo. — Obrigado, milady. Deixarei Cinnamon Rose aqui, em seu estábulo. Se for a Havencrest, sua gentileza terá como recompensa a égua. — Leve Cinnamon consigo. E um belo animal, o melhor que já vi. Embora meu pai seja o lorde, ele me permite administrar os poucos cavalos que compõem nosso plantei. Serei capaz de incrementar minha criação sem nenhuma ajuda de sua parte. Dalton apanhou as rédeas que Alicia lhe jogou. Intrigado, permaneceu imóvel, vendo-a erguer o nariz e cruzar o gramado, orgulhosa e cheia de si. Sentia-se como se ela o tivesse colocado em seu devido lugar. Porém, o que fizera para merecer aquilo? Esfregou o queixo, um tanto perturbado. Nunca encontrara uma jovem mais temperamental. Seriam todas as mulheres daquela casa tão desagradáveis e encrenqueiras como Alicia? Se assim fosse, não era de admirar que lorde Spencer procurasse conforto nas garrafas de gim. As velas luziam nos pesados candelabros no imenso salão de Havencrest, Colunas jónicas sustentavam a balaustrada do segundo andar, onde Dalton, de pé, olhava para baixo, para os pares que dançavam a quadrilha. Durante a semana anterior, não conseguira pensar em mais nada a não ser nesse dia, quando Lady Alicia chegaria e, por fim, conheceria Bashshar. Os carpinteiros tinham trabalhado dia e noite para terminar os aposentos que ela exigira. Se ao menos Alicia pudesse curar Bashshar... O duque sentiu a garganta se fechar mais uma vez, ao se lembrar da perigosa ansiedade que o cavalo apresentava. Era egoísmo seu tentar mantê-lo vivo? Estudou os rostos dos convidados de sua mãe. Como detestava aqueles eventos aborrecidos! Se não esperasse a chegada de Lady Alicia fazia muito teria sumido, enterrando-se no trabalho supervisionando os campos, em qualquer lugar onde pudesse ficar longe daquela gente e das armadilhas da sociedade. — Dalton suplico sua atenção. O duque se voltou para ver sua irmã, Olívia. — Irmãzinha descobriu algo a respeito de Lady Alicia? — Ainda não, mas acho que tia Mary pode saber. Ela deve chegar a qualquer momento. — Olívia sorriu. — Devo dizer, Dalton, pelo que me contou sobre Lady Alicia, que estou muito curiosa, tanto quanto você, de descobrir o que se passou com ela. — Queria falar comigo? Diga-me, que assunto sério a afastou dos braços de seu devotado Robert? Os olhos azuis de Olívia faiscaram de prazer ao ouvir o nome do marido. — Há uma confusão lá em baixo. O mordomo está aborrecidíssimo e insiste que só você poderá solucionar a questão. — Santo Deus! — Brincou. — Dalton, eu o vi poucas vezes durante a última semana. Você está evitando seus familiares de propósito? Ou apenas tenta se esquivar de Elizabeth? A irmã o provocava, o lorde sabia. Olívia mal conseguia manter a seriedade ao fitar o salão de baile, onde a jovem loira e esguia a que se referira flertava, sem o menor pudor, dançando com um visconde. Olívia segurou o irmão pelo braço, deixando


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning clara a intenção de não permitir que se fosse enquanto Dalton não lhe desse uma resposta. — Não estou evitando ninguém, querida. — Dalton viu Elizabeth enrubescer de evidente prazer quando vários homens a cercaram, vindo se juntar ao crescente círculo de admiradores. Elizabeth fora noiva de seu irmão mais novo, Drake, e, depois de sua morte a duquesa e a própria Elizabeth tinham presumido que ela se casaria com Dalton, coisa que ele jamais encorajara. Gostava da jovem, mas apenas como de uma irmã. Era uma criaturinha graciosa, mas muito mimada para seu gosto. — Olhe como a garota rouba o coração dos rapazes, Olívia. Tenho certeza de que nem notou que fui embora. — Sorriu, soltando-se da irmã. As sobrancelhas de Olívia se arquearam. — A atitude dela é apenas um recurso para lhe fazer ciúme. Elizabeth é louca por você. Ouvi dizer que espera que anuncie o noivado antes que as festas terminem, no próximo fim-de-semana. — Jamais me passou pela cabeça uma ideia dessas, minha cara. E nossa mãe quem a encoraja a pensar assim, não eu. — Pode ser, Dalton, mas acho que Elizabeth não precisa ser encorajada nesse sentido. O único coração que deseja é o seu, meu adorado irmão. Eu teria cuidado, se fosse você. — Não se preocupe, Olívia. Não tenho intenção de me casar com Elizabeth, nem com ninguém. Olívia o fitou com tristeza. — Desejo tanto que você encontre uma mulher que o faça feliz! Merece o prazer que um casamento perfeito pode trazer, Dalton. — Anjinho, espero que a vida nunca lhe mostre sua face perversa e a desaponte. — Você é jovem demais para ser assim tão cínico, Dalton. Dalton esboçou um sorriso enigmático. — Desculpe-me, minha querida Olívia, preciso ver o que o mordomo quer. Ignorando a frustração da irmã, voltou-se e desceu os degraus, misturando-se entre os convidados. Um coro de vozes saudou Dalton antes que ele chegasse ao saguão principal. Na entrada, Ives, o mordomo, parecia uma torre projetando-se sobre uma moça de compleição miúda, defronte a ele. Num relance, Dalton reconheceu Alicia. A bela Lady trazia os cabelos repuxados para trás, de um modo bastante severo, sob um chapéu de aba curta. Embora usasse uma capa de viagem sobre o vestido, o duque podia imaginar suas curvas femininas escondidas pela vestimenta mal cortada. O criado virou-se ao som dos passos do patrão. — Milorde, esta jovem recusa-se a dar seu nome e a falar com alguém a não ser o senhor. — Está tudo bem, Ives. Bem-vinda a Havencrest, Lady Alicia. Eu a aguardava. O mordomo empalideceu ao perceber que o duque conhecia mesmo a estranha. — Eu... perdoe-me, milorde, eu... eu... — Pode deixar, Ives. — Dalton tomou-a pelo braço, conduzindo-a para fora. — Venha por aqui, milady Alicia. O duque fez um sinal para um cavalariço, que estava de pé, a pouca distância. — Traga minha carruagem. Eu mesmo vou dirigi-la. O rapazinho disparou pela alameda que conduzia à garagem. Enquanto esperavam, Dalton olhou Alicia de soslaio, na esperança de ver-lhe a expressão, mas preferiu manter o rosto nas sombras.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Mostrar-lhe-ei suas acomodações eu mesmo, milady. Dalton percebeu que ela lhe enviava um olhar de esguelha, por debaixo da aba do chapéu. — Pedi para não ficar na casa principal. — Seus aposentos são separados. A cabana é tão longe que terei de levá-la até lá em minha carruagem, milady. Aliviado, Dalton notou Alicia relaxar. Uma mulher singular aquela. Mas, se fosse para ajudar Bashshar, ele não se importaria ainda que Alicia resolvesse dividir a cama com o gado. O cavalariço chegou com a elegante carruagem preta, puxada por uma parelha de rápidos animais. Estendeu a mão para ajudar Alicia a subir, enquanto Dalton tomava as rédeas. Instantes depois, desciam o passeio bem aplainado em meio aos jardins, passando pelas numerosas edificações. Cruzaram a ponte de pedras e percorreram uma alameda arborizada. Do outro lado, o caminho conduzia a uma pequena cabana, rodeada de árvores e sebes. Alicia examinou a choupana. Seus olhos castanhos se arregalaram, os lábios carnudos deixaram escapar uma exclamação de surpresa, antes que mascarasse os sentimentos. — E aqui... que eu vou ficar? Dalton deu graças ao ver que a reação era de prazer. — Espero que ache as acomodações adequadas, milady. — Tenho certeza disso. — Darei ordens para que tragam sua bagagem para cá. Se mudar de ideia... — Estou aqui por causa de Bashshar, milorde. Ele é tudo o que me interessa em Havencrest. — Então, se não há mais nada que queira... — Não, sir. — Alicia cobriu a boca com a mão, bocejando. — Foi uma viagem tenebrosa, estou extenuada. Dalton voltou-se para ir embora, mas, antes de ir, disse: — Até amanhã de manhã, depois do desjejum. Eu a apresentarei a Bashshar. — Por que não agora? — Porque é tarde, e não quero que o cavalo fique agitado. — Certo. Boa noite. — Curvou-se, em uma ligeira reverência, e pôs-se a caminhar em direção à casa. — Descanse bem, milady. Dalton escondeu o sorriso ao perceber que a jovem se afastava, sem sua permissão. Sem dúvida, Alicia sabia que tal comportamento, para com um duque, era considerado uma falta grave. Droga! Esperara que a aversão dela por sua pessoa tivesse se abrandado. Aborrecido, subiu na carruagem e tomou o caminho de volta. Quem sabe Olívia já teria conseguido alguma informação sobre aquela mulher intrigante? Antes que cruzar a ponte, não pôde reprimir o impulso de relancear os olhos para a choupana. Alicia estava em pé, à soleira, observando-o. "Interessante..." Ora, ora, ali estava uma criatura bem estranha. E, de novo, o duque não conseguiu imaginar qual o motivo de tamanha animosidade contra ele. Alicia ficou a ver a magnífica carruagem parar, antes de desaparecer de vista. Sim, Wexton era tão gentil e charmoso como Lúcifer, e tão belo quanto o próprio. Em seus


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning elegantes trajes, era tudo isso e muito mais. Mordeu o lábio inferior. O duque atendera às imposições que lhe fizera, como se desafiado. E, para Alicia, isso era uma vitória. O chalé era, na verdade, encantador. A caiação ainda estava húmida em muitos pontos, e podia apostar que o sapé do telhado era tão fresco que iria brilhar como salpicos de ouro à luz do sol da manhã. Hesitou, antes de abrir a porta. Como gostaria que a sensação de excitação em seu ventre já tivesse se acalmado! Sentia coisas estranhas quando Wexton a fitava com aqueles penetrantes olhos azuis. Na escuridão, o som suave do resfolegar de cavalos, vindo dos estábulos das proximidades, trouxe-lhe uma familiar impressão de conforto. Uma certa curiosidade envolveu-a. Corria de boca em boca que os cavalos do duque eram os mais esplêndidos da Inglaterra. Devia esperar até o amanhecer para vê-los, quando os animais não ficariam incomodados com um estranho. Mas não podia esperar um minuto a mais. As cocheiras eram enormes. Não faria mal espiá-los por alguns minutos. Alicia esgueirou pela entrada do estábulo. Engoliu em seco, incapaz de acreditar no que via. Paredes de mármore branco subiam para encontrar o teto decorado onde, a poucos metros, a luz tremeluzia das tochas de ferro trabalhadas. Corredores de cascalho conduziam às baias individuais, passando por salas imensas de material de montaria, com dezenas de ganchos de onde pendiam bridões, rédeas, arreios e selas. A direita, uma placa pendurada acima do corredor indicava a ala dos criados. Espiou para dentro de um dos quartos vazios. O aposento era imaculado, e a mobília, simples, em acomodações maiores e mais confortáveis que sua própria suite, em Marston Heath. Apressou-se em dar uma olhada nos cavalos. Tirando uma tocha do suporte, seguiu em direção às baias. — O que você está fazendo? Um rapaz apontou a cabeça de dentro da última baia. Pelo jeito, ela o acordara, a julgar pelos cabelos emaranhados e os olhos sonolentos. — Estou inspecionando as instalações. Quem é você? — Penn, um dos cavalariços. — Coçou a cabeça e franziu a testa. — Nunca a vi antes. — Vou trabalhar aqui por um tempo. Um cavalo dourado esticou a cabeça pelo portão e ensaiou um cumprimento. Sem pensar, Alicia subiu na grade, ansiosa para ver a compleição do animal. De repente, do fundo do estábulo, veio um urro penetrante, seguido pelo coro de lamentações dos outros cavalos. — O que foi isso, Penn? — Não é nada, não — murmurou o rapaz, o rosto pálido. — Nada? — Alicia empurrou-o para o lado e correu em direção ao barulho. Aquele som de agonia fazia-a recordar-se do dia, na última primavera, em que uma de suas éguas havia se perdido, ao longo do rio. Alicia seguira os brados de terror até que encontrara o animal, atolado na lama, no tempo justo de salvá-lo do ataque de uma matilha de cães selvagens. O lamento extinguiu-se. Erguendo a tocha, Alicia viu que, no final da parede, ficava outro boxe, de paredes muito altas para que pudesse espiar dentro. Esqueceu-se de tudo e correu para lá. Pendurou a tocha num suporte e ergueu a travessa que mantinha a porta fechada. — Não entre! Ele vai matá-la! Ignorando o aviso de Penn, Alicia entrou e fechou a porta atrás de si. A um canto,


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning um enorme garanhão negro tremia. Os olhos escuros e penetrantes estavam emoldurados de um círculo branco, e ele se espremia contra a parede, fitando-a com apreensão. Alicia sentiu um nó na garganta. Bashshar, só podia ser ele. Afastou-se da porta da baia, para dar ao animal a sensação de que não estava encurralado. O belíssimo puro-sangue jogou a cabeça pesada para o alto. O suave luzir da tocha destacava sua brilhante pelagem, negra e acetinada. Caboucou o chão com a pata, as orelhas empinadas em alerta, os dentes expostos. O desejo de confortá-lo sobrepujou o medo de Alicia. Num tom baixo e claro, começou a cantarolar, enquanto se concentrava em visualizar uma imagem tranquilizante: o vento soprando entre as folhas ondulantes do salgueiro. A uma distância segura do cavalo, ela ficou imóvel, permitindo que ele se acostumasse a seu cheiro. Embora Bashshar pudesse empinar, Alicia manteve-se quieta, continuando a cantar. Procurou por algum sinal exterior que revelasse o motivo de um tal estresse. Cicatrizes brancas destacavam-se no flanco esquerdo, brilhando à luz da tocha. Um sorriso triste lhe veio aos lábios. Chegou mais perto. A laceração ocorrera fazia menos de um mês, como indicava a carne intumescida, o tecido rosado, inchado que se formara em torno da ferida. Encontrou os olhos assustados do cavalo. Sim, o que o atormentava era muito mais do que suas feridas. Ela podia sentir seu terror, sua angústia. Penn espiou por uma fresta da parede de madeira. O cavalo percebeu o leve movimento. A boca recurvada contorceu-se, e o animal soltou outro urro aterrorizado. Alicia sentiu-se como se a tivessem partido ao meio. Cerrou as pálpebras e tocou o pescoço de Bashshar. No mesmo instante, as sensações de pavor e confusão do animal transmitiram-se a ela, tão intensas que Alicia julgou que a houvessem golpeado nos ouvidos. Afastando o terror da mente, Alicia apaziguou os pensamentos e procurou transmitir-lhe calma. Continuou a afagá-lo com gentileza. — Ninguém se atreve a tocar nesse cavalo, a não ser o patrão. — Penn abrira uma fresta na porta, mantendo-se a uma respeitável distância. Alicia voltou-se para encará-lo. — Então, este é Bashshar? Penn fez que sim, os olhos arregalados. — Como aconteceu o acidente? Ao ver que Penn não respondia, ela caminhou até a porta, movendo-se com cautela para não assustar o cavalo. — Perguntei como o acidente aconteceu. — Não sei. — Um animal valioso como Bashshar fica machucado e o cavalariço não sabe de nada? — Meu pai é o chefe dos estábulos. Chama-se Ulger. Ele me disse para não contar nada sobre aquela noite. — Falava tão baixo que Alicia mal podia ouvi-lo. — Por que seu pai lhe daria uma ordem dessas? — Assim que indagou, Alicia ficou a imaginar se Ulger não teria sido intimidado pelo duque. Decidiu mudar de tática. — O duque de Wexton estava cavalgando Bashshar quando o acidente aconteceu? O olhar apavorado de Penn foi a única resposta. — Por favor, Penn. Se eu souber como o cavalo foi ferido, isso poderá me, ajudar


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning a entender o que houve com ele. — Sentia-se culpada por pressionar o garoto, mas precisava descobrir o que pudesse. — O duque estava cavalgando o cavalo quando o acidente aconteceu? Penn apertou os lábios numa linha fina. — Sim, milady. E não foi... acidente. — Não quer me dizer que alguém feriu o animal de propósito, não é? — Ela estudou as feições de Penn, que se desviou. Não, Penn não se atreveria a dizer nada depreciativo acerca do patrão, era óbvio. Alicia respirou fundo. — Você presenciou... o ocorrido? — Meu pai e o patrão trouxeram o cavalo. Nunca vi Bashshar daquele jeito, nem nenhum outro animal, por Deus! Quando perguntei o que tinha acontecido, disseram que era para eu ir dormir. Não consegui pregar os olhos, pensando no sofrimento da pobre criatura. Embora quisesse saber mais, Alicia não desejava que Penn contasse a Ulger ou ao duque que ela o andara pressionando com perguntas. Descobriria o que precisava saber a sua própria maneira. — Obrigada, Penn. Não direi uma palavra a ninguém sobre o assunto. O garoto coçou a orelha. — Volte a dormir. Quero ficar com Bashshar por mais um tempo. — Mas... — Explicarei tudo a seu pai, pela manhã, se for necessário. — Não tenho medo de meu pai, minha senhora. É o patrão. Ele vai me comer vivo se descobrir que a deixei se aproximar do cavalo. Surpresa, Alicia percebeu que Penn não sabia que ela iria ajudar na cura de Bashshar. A quantas pessoas Dalton falara sobre sua chegada? — Deixe que eu me preocupe com seu patrão. Penn hesitou, e, então relanceou os olhos para o garanhão. — O bicho parece mais quieto. Acho que gostou de você. Parece apreciar sua companhia. — Enviou a ela um olhar furtivo e, então, esgueirou-se para longe da vista, seus passos desaparecendo pelo corredor de cascalho. Alicia deixou-se penetrar pelas intensas sensações trazidas por sua intuição. Embora o garanhão ainda estivesse aterrorizado com sua presença, Alicia sentia que poderia vir a ganhar sua confiança. Primeiro, porém, devia insistir em buscar a verdade acerca do que houvera. Wexton teria de lhe explicar. Um arrepio percorreu-a. Olhou pela janela, para o brilho dourado de Havencrest, ao longe, como um diamante refulgente contra o negro céu de veludo. "Qualquer que seja a verdade, Wexton, eu irei descobrir. Pode ter certeza disso."


Um Dom Especial

Taming The Duke

Jackie Manning

CAPÍTULO III Ao retornar ao baile, Dalton estava determinado, mais do que nunca, a descobrir o que Olívia conseguira saber a respeito da misteriosa Lady Alicia. Seu olhar perscrutou a multidão de convidados de sua mãe, a mais fina nata de Londres. Droga! Sua irmã não se encontrava em lugar algum. Notou que Elizabeth lhe acenava, em meio a um grupo de jovens admiradores. Dalton respondeu com um sorriso. Fitou a mãe. Vestida nos trajes negros de viúva, a tiara de diamantes no alto dos cabelos penteados de forma rebuscada, Mildred, a duquesa de Wexton, em seus cinquenta e cinco anos, era ainda uma mulher atraente. E continuava a ser cortejada por um sem número de homens, representantes da mais alta sociedade, como sempre fora. Ao parar, observando-a, as imagens indesejáveis da infância e a cena de sua mãe com o amante se intrometeram nos pensamentos de Dalton. De imediato, expulsou-as. Eram dolorosas demais. Com relutância, abriu caminho entre as pessoas, até parar ao lado da duquesa. — Já era tempo de dar o ar de sua graça, Dalton. — Com uma dignidade pétrea, os dedos dela roçaram o colar reluzente de diamantes e ónix, que lhe enfeitava o pescoço. Num sussurro, para os ouvidos dele apenas, acrescentou: — Espero que atenda a estes... — Dalton! — Interrompeu-a Elizabeth. — Procurei-o por toda parte. A jovem enfiou a mão no braço dele, enviando à duquesa seu sorriso mais encantador. — Milady decerto não manterá seu filho longe dos convidados, não é mesmo? — Brincou. — Nós o vemos tão pouco... Uma expressão de deleite transformou as feições de Mildred. — E evidente que meu filho não vai ignorá-la, minha querida Elizabeth. Num gesto de coqueteria, Elizabeth deitou a cabeça contra o peito de Dalton. — Na verdade, ele me ignora sem parar. — E fez beicinho. — Eu estava ocupado... — explicou Dalton, sem nenhuma emoção... — Cuidava de uma missão especial. A curiosidade faiscou nos olhos verdes de Elizabeth. — Um convidado? Alguém especial? Eu o conheço? — Não saberia dizer. — Dalton sentiu uma pontada de satisfação ao desapontála. Deu-lhe um tapinha nos dedos enluvados. — Temo ter de deixá-la. Espero revela amanhã. Mildred abriu o leque e abanou-se, furiosa. — Se puder me desculpar, mamãe... — Inclinou-se, despedindo-se. O rosto de Elizabeth enrubesceu. Dalton afastou-se e só percebeu que a moça o seguira quando chegou ao hall, onde foi interceptado. — Como ousa me desprezar?! — Elizabeth, por favor... — Seu canalha! — As pupilas de Elizabeth reluziam de ira. — Como se atreve a me tratar com esse desprezo explícito, na frente de todos? Surpreso, Dalton deu um passo atrás. — Não sei do que está falando... — Oh, sim, você sabe! Esta manhã, Lady Fredricks me disse que eu deveria


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning aprender a relinchar se quisesse atrair sua atenção. Não me tornarei motivos de risos por sua causa, Dalton. E não serei ignorada por mais tempo! — Esbofeteou-o, girou nos calcanhares e correu de volta para o salão. Dalton esfregou a face e suspirou. O que estava acontecendo? — Dalton! — Olívia surgiu no hall e postou-se a seu lado. — O que fez a Elizabeth para... — Temo que não seja nada que eu tenha feito. Parece que é algo que me recusei a fazer. — Dalton, brincar com Elizabeth pode ser um esporte perigoso. Dalton soltou uma gargalhada. — É mesmo? — É. — Os olhos azuis de Olívia se arregalaram, de medo. — Ela cria fantasias por causa da paixão por você. — Elizabeth ainda é muito nova, Olívia. Crê que está apaixonada. Na próxima semana, vai superar essa infantilidade e, quem sabe, apaixonar-se por qualquer outro. — Você verá. Olívia meneou a cabeça. — Elizabeth é uma criatura teimosa, que sabe o que quer. E ela quer você, Dalton. Quer que a leve a sério. Ele deu de ombros, com indiferença. — Minha querida irmã é uma deliciosa romântica. Espero que sua crença no verdadeiro amor nunca a abandone. Porém, temo que nem todo casal possa dividir um relacionamento tão perfeito quanto o que você e seu marido partilham. Olívia franziu a testa, preocupada. — Algumas vezes você pode ser muito cabeça dura. Dalton deu-lhe um beijo. — A noite está adorável demais para ser desperdiçada em discussões, meu anjo. — Tomou-lhe o braço e conduziu-a de volta ao salão. — Perdoe-me por mudar de assunto, mas você conversou com tia Mary sobre Lady Alicia? Olívia estacou e o encarou. Seus dedos remexeram-se febrilmente, brincando com as fitas do leque. — Sim... Dalton olhou ao redor, buscando um lugar tranquilo para conversarem. — Venha. — Conduziu-a para o terraço, longe do risco de encontrar Elizabeth de novo. — Vamos dar uma volta pelos jardins. A música envolvente fluía pelas janelas abertas enquanto os dois caminhavam. Ao chegarem a um banco vazio, debaixo dos soberbos rododendros, sentaram-se. Olívia ficou muito séria. — O pai de Alicia é um notório beberrão, um jogador que quase chegou a perder as propriedades da família por várias vezes. Há três anos, na apresentação de Alicia à sociedade, ela se viu envolvida num escândalo chocante. Dalton sabia que Olívia, ao contrário de sua mãe, abominava mexericos. Gostaria de tê-la poupado. Porém, era uma das poucas pessoas em quem confiava. — O incidente aconteceu durante o baile de debutantes que foi realizado por mamãe em nossa casa, em Londres. Era a apresentação de Lady Alicia e também de Elizabeth. Mamãe era a madrinha de Elizabeth, naquele ano. Você se recorda, Dalton? — Não. Estava em Portugal naquela primavera, lutando na batalha de Wellesley. Pouco antes de Drake se alistar... — Suas palavras morreram quando ele viu a expressão penalizada cruzar o semblante de Olívia, à menção do irmão. — Perdão, Olívia, eu não pretendia... — Está tudo bem, Dalton. Passados três anos, eu deveria aceitar o fato de que ele


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning nunca mais voltará para casa. — Suspirou, com tristeza. — Sei que pareço tola. Eu é que peço perdão. — Você não é tola, minha querida. Tenho saudade dele também. — A pior parte, para mim, foi o corpo de Drake não ter retornado à Inglaterra. Odeio pensar que... Ele afagou-lhe a mão. — Drake permanecerá vivo em nossos corações enquanto nos recordarmos dele, Olívia. Ficaria tão orgulhoso de saber que você deu seu nome a seu primeiro filho. — Graças a Deus voltou em segurança da guerra, Dalton! Não sei o que eu teria feito sem você também. Olívia, tão sensível, tão comprometida com as pessoas... Dalton fez-lhe um carinho numa tentativa de confortá-la. — Não lhe contei o pior. — Olívia recobrou-se. — Na noite do baile, Alicia foi encontrada a sós com seu amigo, Justin Sykes, no quarto. Dalton arqueou as sobrancelhas, incrédulo. A reputação de Justin Sykes, tido como um conquistador costumava, era bem conhecida. Diziam os rumores que ele fizera sua fortuna contrabandeando para as tropas de Napoleão, mas Dalton jamais acreditara. Na certa, uma criatura inocente como Alicia seria alertada para manter distância de um escroque como ele. A menos... que a jovem se julgasse apaixonada pelo sujeito. — Tem certeza? — Sim. Os boatos se espalharam e, ao cair da noite do dia seguinte, Lady Alicia voltava para o lar em total desgraça. — Os olhos azuis, tão semelhantes aos dele, o fitaram. — Tia Mary recorda-se muito bem do incidente. Alicia, todos diziam, era, de longe, a mais bela entre as debutantes. — Sykes pediu-a em casamento? — É isso o que aborreceu a todos. Justin Sykes ofereceu-se para casar-se com ela, e a garota recusou. — Ora, ora... Por quê? — Ninguém conseguiu descobrir. Dalton pensou naquela mulher adorável e independente. Sob seus vestidos simples, ele percebera os seios altos e fartos, a linha delgada de sua cintura e a curva sensual de seus quadris, e lembrou-se da imediata reação que sentira diante dela. Ele orgulhava-se de ser capaz de superar esse tipo de atração. Isso levava a fazer julgamentos precipitados. Contudo, quanto mais descobria sobre Alicia, mais misteriosa, ela se tornava. Agora compreendia a recusa inicial em cuidar de Bashshar e o sacrifício que ela fizera ao vir até ali e enfrentar a duquesa de Wexton. — Prestei um enorme serviço a Lady Alicia, creio. — O que quer dizer com isso, Dalton? — Alicia está aqui. Veio apenas para ajudar a curar Bashshar. — Hum... Vejo que a moça o impressionou, meu irmão. Estou curiosa de conhecê-la. — Talvez você possa fazer-lhe uma visita amanhã. Não contei a ninguém que Alicia chegou. — Dalton, mamãe nunca permitirá que ela fique. — Sou eu o duque, agora. Mamãe terá de aceitar o fato. — Não subestime o estrago que nossa mãe poderá vir a causar. Ela é ainda um dos membros mais influentes da Inglaterra. Com sua língua, pode destruir pessoas com tanta facilidade quanto Wellington com sua espada. — Não precisa me alertar sobre o dragão, querida.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Dalton percebeu que Olívia imaginava o que ele saberia sobre a mãe que o fazia colocar-se tão em oposição à duquesa. — Seu marido deve estar a sua procura, feito louco. — Dalton levantou-se e levou-a para dentro. Assim que deixou Olívia, Dalton rumou para os estábulos. Queria verificar como estava Bashshar, naquela noite. Ao chegar ao prédio, uma luz dourada filtrava-se pela janela da ala oeste. Desde o incidente, o duque ordenara que as tochas acima da baia de Bashshar permanecessem acesas, na esperança de que isso pudesse acalmar os medos do animal. As lembranças ainda assombravam de Dalton. Por mais que refletisse, não conseguia encontrar as razões que tinham levado alguém a atirar no animal. Porém, pelas pegadas que o couteiro encontrara, restavam poucas dúvidas. O atirador ficara à espreita, e o atentado fora deliberado. Já dentro da cocheira, Dalton cruzou o corredor, em largas passadas. Vários animais relincharam, num cumprimento. Ao se aproximar da baia de Bashshar, notou um leve resfolegar, sinal que o garanhão reconhecera seus passos. Sorriu, julgando ser um indício positivo. Depois do acidente, o garanhão se tornara incapaz de distinguir aquilo que era familiar daquilo que era estranho. Interpretava tudo como uma agressão. Ao se aproximar, Dalton notou que a travessa da portinhola havia sido retirada. A irritação o dominou. Que descuido de Ulger ou dos cavalariços! Avistou Alicia em pé, a poucos centímetros de Bashshar. Dalton quis correr até ela, protegê-la, caso o cavalo empinasse. Mas hesitou, temendo que um movimento repentino pudesse assustá-lo. Ela vestia uma camisola delicada, com rendas brancas que lhe circundavam o pescoço. Seus cabelos ruivos, soltos, brilhavam como fogo líquido sob a luz da tocha. O xaile de lã branca que enrolara em torno dos ombros não impediu que ele a imaginasse totalmente nua. Deus, Alicia parecia uma feiticeira! Veio-lhe à memória a pintura que enfeitava a cabana de caça. Potnia, a senhora dos animais selvagens, com sua cabeleira vermelha, retratada em todo o esplendor de sua nudez, rodeada por leões, grifos e cervos. Alicia voltou-se para encará-lo, seus dedos continuando a afagar o pescoço de Bashshar. O garanhão ergueu a poderosa cabeça, de súbito, como se apontando ao dono a estranha que se intrometera entre ambos. Dalton não conseguia acreditar no que via. Incrível como Alicia parecia vulnerável e terna sob a luz da tocha. Fora-se o lampejo teimoso em suas íris castanhas. Agora em seu olhar suave e aveludado via-se a compaixão por Bashshar. Uma estranha emoção envolveu-o. Ela pusera de lado seus ressentimentos para vir até ali e ajudar um animal ferido. Só de observá-la, a esperança o animou. Aquela jovem intrigante poderia conseguir aquilo que os especialistas afirmaram que era impossível. "Você estava apaixonada por Justin Sykes?", quis perguntar, e então, de repente, não mais se importou. Desejava-a. E o desejo era como lava ardente, correndo por suas veias. E mais: quis ser o homem que iria domar aquele espírito altivo. — Por que está me olhando assim? — Alicia mordeu o lábio inferior e o fitou com uma inocência que quase o desarmou. Qual era o problema com ele? Dalton forçou-se a expulsar as fantasias. Talvez as sensações perturbadoras tivessem um motivo. Quando algum ser humano, sem nada a ganhar, tinha feito um sacrifício por ele?


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Sacrifício?! Ora bolas! Alicia teria Cinnamon Rose, como pagamento. De súbito, Bashshar relinchou, jogando a cabeça, as orelhas empinadas. Dalton lançou-se para a frente, agarrando o bridão e segurando-o com firmeza. — Talvez seja melhor que você retorne à cabana. — Bashshar tem o direito de expressar-se quando quer — ela disse, baixinho, sem querer excitar o animal. Dalton a encarou. — Bashshar não é um cavalo comum, Lady Alicia. Está doente e não é responsável pelo que faz. Além disso, obedece apenas a mim. Alicia enrolou-se no xaile e ergueu o queixo daquele jeito orgulhoso que Dalton começava a reconhecer. — Então, dê ordens a ele, não a mim. Pois eu não o obedecerei, milorde. Dalton nada pôde fazer, a não ser rir. — Bem, considere isso como uma sugestão, e não como uma ordem. Retorne à cabana, milady. Tenho uma boa razão para querer que espere até amanhã para ver os cavalos. Muitos hóspedes costumam vagar pelas cocheiras. O que iriam pensar se encontrassem uma jovem de beleza angelical passeando seminua entre as baias? Mais que depressa, Alicia cobriu-se melhor. — E o que milorde está fazendo aqui, tão tarde da noite? — Seu tom o fez sentirse com um transgressor. — Sempre venho dar uma olhada em Bashshar antes de dormir. Independente do que possa pensar a meu respeito, importo-me com ele. — Diga-me, como Bashshar foi ferido? Seu cavalariço tem medo de falar sobre o incidente. — Esteve interrogando meus criados? Alicia relanceou os olhos para Bashshar. — Estou aqui para tentar curar este garoto. — A expressão ofendida desapareceu, para dar lugar à piedade. — Preciso saber a verdade sobre o acidente. Dalton estudou-a. Quando olhava para o garanhão, a bondade iluminava-lhe a face. Sentiu que podia confiar nela. Sem reservas. — Era fim de tarde — ele começou. — Eu voltava do campo com Bashshar quando um tiro soou. Um segundo tiro foi desferido... e atingiu-o. — Você viu o atirador? — Não, ele estava bem escondido no matagal. — Por que pensa que o atirador era um homem? Surpreso, Dalton hesitou. — A ideia de que pudesse ser uma mulher jamais passou por minha cabeça. — Mesmo? — Os olhos de Alicia faiscaram. Seus lábios torceram-se, num trejeito irónico. — Nunca deu a uma mulher motivo para atirar em você? Dalton gargalhou. — Tocou num ponto interessante, milady. A expressão de Alicia tornou-se séria. — Você ficou ferido também? — Não. — E depois do acidente não descobriu mais nada sobre esse atirador? — As autoridades ainda estão estudando o assunto. Alicia meneou a cabeça, como se estivesse satisfeita com as explicações. Tocou o focinho do animal. — Acho que posso entender o medo de Bashshar. Dalton estudou-lhe as mãos delicadas. Por um instante, pôde imaginar aqueles dedos suaves, gentis, dotados do dom da cura pousando em sua testa.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — O que você faz? Enxerga a mente do animal? — Não, não vejo coisas, eu as sinto. Às vezes são fragmentos, apenas. Mas, com Bashshar, senti seu pânico antes de abrir a porta da baia e vê-lo. E também que ele quer que eu o ajude. Bashshar a aceitara mais rápido do que Dalton julgara possível. Qual era a magia que emanava daquela jovem? E se fosse uma tolice sua acreditar que Bashshar pudesse ser salvo? — Como você cura os animais? A questão a fez voltar-se e sorrir para Dalton. Como era adorável quando sorria! — Primeiro, devo ganhar-lhes a confiança. Embora isso demore, começo por me concentrar em uma sensação de paz. Talvez o animal sinta que estou tranquila, serena, e que não irei magoá-lo. — Enrubesceu, como se esperasse ser ridicularizada pela explicação. Ao contrário, Dalton estava embevecido. — Quem lhe ensinou essa habilidade? — Meu avô. Ensinou-me tudo sobre cavalos e seu treinamento. — O pai de sua mãe? — Sim, o conde de Longworth. — Ouvi falar dele. — Dalton admirou-se de não ter feito a conexão entre Alicia e seu renomado avô. -— Vovô construiu Marston Heath na terra que herdou de seu pai. Era um experiente cavaleiro, que desenvolveu um belo plantel de animais de corrida antes de morrer. Dalton foi tomado de curiosidade. Queria saber tudo sobre ela. — O que ele lhe ensinou? — Levaria meses para responder essa pergunta. Vovô traduziu e estudou o trabalho de Xenofonte, o Grego, datado do século III antes de Cristo, que defendia o uso da gentileza em lugar da crueldade. Ensinou-me as técnicas de Xenofonte, que tenho usado com sucesso com a maioria dos animais. Alicia o fitou e esboçou um sorriso tímido. — Acho que você teria gostado de meu avô... Ele morreu seis anos atrás. — Teria sido um privilégio. Ali, de pé, sob a luz dourada da tocha, na baia de Bashshar, Alicia parecia tão à vontade como se estivesse em casa. — Você me faz lembrar de Potnia, a deusa grega dos animais selvagens. Na cabana de caça há uma tapeçaria dela, na floresta, entre leões e cervos. Alicia arregalou os olhos, de surpresa. — Ela é chamada também de Doce Virgem, e é mostrada com seus grifos mágicos, que a protegem. Dalton ergueu a sobrancelha, incrédulo. — Conhece a mitologia grega? — Meu avô também era um professor que acreditava na noção impopular de que as mulheres deviam ser educadas. E eu adorava ler. Ele me ensinou francês, latim e grego, que aprendi depressa. E também história, literatura e arte. "Essa jovem é mesmo incrível." Nada parecida com sua mãe, ou Elizabeth, ou as amantes que Dalton havia conhecido. Estava diante de uma mulher dotada de força interior, orgulhosa e, ao mesmo tempo, doce. — Essa sensação de paz... Como a manipula, milady? Ela ficou vermelha, parecendo envergonhada. Desviou-se. — Nunca ninguém me perguntou sobre isso.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Dalton percebeu que Alicia não queria responder. Tomou-lhe a mão e colocou-a em seu peito. — O que sente agora, Alicia? Alicia se assustou ao experimentar as batidas do coração de Dalton em sua palma. — Se você pode enxergar a alma de um cavalo, lógico que pode fazer o mesmo com a de um homem, não é? — Uma fagulha pareceu, de repente, acender-se entre ambos. Ele sentiu-a entre os dedos. Ou seria imaginação? Alicia livrou-se e deu um passo para trás. — Tomarei providências para que receba relatórios diários do progresso de Bashshar, milorde. — Sua voz soou fria. O que havia acontecido entre os dois? Por um segundo, Dalton tivera certeza de que ela sentira aquilo, também. O duque se afastou, de súbito precisando de espaço. — Se precisar de algo, peça a Ulger, o chefe dos estábulos, milady. Ele tem instruções para preservar sua privacidade. — Abriu a porta e deixou que Alicia passasse na frente. — Eu a levarei à cabana em minha carruagem. Está muito escuro para caminhar uma distância tão longa sozinha. Em passos largos, cruzaram os corredores. Lá fora, Dalton a ajudou a subir no veículo. — Espero que tenha achado as acomodações de seu gosto. — Sim, obrigada. O duque notou que Alicia tremia. Será que, de repente, tivera medo de estar a sós com ele? Quando, por fim, alcançaram a cabana, ele a auxiliou a descer e curvou-se numa mesura, com tanta galanteria como se Alicia fosse a debutante do ano. — Boa-noite, milady. Antes de entrar, ela esperou que o coche percorresse a trilha e desaparecesse na escuridão. — Boa noite, milorde. — E exalou um longo suspiro. A luz do sol da manhã banhava de dourado o mármore branquíssimo das paredes do estábulo. Bashshar mostrava-se tranquilo, não aparentando os sinais do nervosismo da véspera. Alicia ficou satisfeita e aliviada por o garanhão tê-la aceitado tão depressa. Havia aveia, feno fresco e água para ele. Se ninguém conseguia chegar perto de Bashshar, com exceção de Dalton, isso significava que o próprio duque devia ter se encarregado da tarefa, bem antes de o dia raiar. — Então, já viu seu dono hoje? — Alicia sorriu ao ver que Bashshar balançava a cabeça. — Então, não vai se importar se eu o deixar um pouquinho sozinho. Alicia percebeu que o cavalo parecia hesitar, como se tivesse entendido suas palavras. — Voltarei mais tarde, para vê-lo. — E afastou-se em passos lentos para a porta, procurando não assustar o animal e não quebrar o ténue vínculo de confiança que se estabelecera entre eles. Retornou à cabana por um atalho, através do bosque. A caminhada era mais curta e o mais importante, a trilha era isolada, o que significava menor chance de encontrar estranhos. Ao ouvir passos do lado de fora, espiou pela janela. Surpreendeu-se ao ver uma jovem de pé, à soleira, na companhia de uma criada. Era bonita, bem penteada e vestia um traje verde, de montaria, com um boné enfeitado de penas, combinando. Alicia


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning abriu a porta. — Bom dia, Lady Alicia. Sou Lady Olívia Seabrook, a irmã de Dalton. Alicia convidou-a a entrar. — Perdoe minha aparência, milady, mas... — Não precisa se desculpar, minha querida. Você está adorável. — Olívia tirou as luvas e sentou-se perto da vidraça, sorrindo. — Ontem meu irmão me confidenciou as circunstâncias de sua visita. — Obrigada, Lady Olívia. — Alicia sentiu que a gentileza da jovem era sincera. — Creio que estabeleci o início de uma frágil aliança com Bashshar. — Eu ia dar uma cavalgada. Compreendo que seu dever é sobretudo para com Bashshar, mas não permitirei que passe todo seu tempo no estábulo. — Olívia fez uma pausa, como se esperasse alguma objeção. — Minha montaria favorita é Mischief, a égua malhada e esperta da ala leste das cocheiras. Por que não manda selar Mischief para você e me acompanha num passeio? Seria uma boa oportunidade de nos conhecermos melhor. — Mas eu pensei... — Está uma manhã maravilhosa para ser desperdiçada aqui dentro. — Olívia sorriu, revelando covinhas fundas, semelhantes às de Dalton. — Agradeço, Lady Olívia, mas não posso aceitar. E melhor que eu fique longe do caminho dos outros hóspedes, se não se importa. — Pensei em seguirmos pela pequena trilha secreta que eu costumava usar quando criança. Mostrarei a vista de onde uma cascata se derrama numa piscina, tendo as colinas como moldura. Alicia sabia que seria melhor recusar, mas a oportunidade podia ser perfeita para saber mais sobre o duque. A profunda solidão que observara na noite anterior, quando tocara o peito dele, voltou, como num choque. A impressão contrastava com a imagem superficial que Dalton transmitia. — Muito bem, Lady Olívia. — Esplêndido! Chamarei a criada para que entre e a ajude a se vestir. Enquanto estiver aqui, Marie ficará a sua disposição. — Não deveríamos pedir que selassem nossos cavalos? — Desculpe-me, Lady Alicia, mas eu já fiz isso! Enquanto Alicia se trocava, vestindo um traje de montaria, Olívia percorria a pequena cabana, olhando tudo com uma incredulidade crescente. — Meu irmão deve ter usado um decorador de Londres. Tudo aqui é lindo. — Estudou o quarto elegante, os lençóis rendados de linho belga, as cortinas. — Nunca vi uma banheira de linhas tão belas! Rosas abertas de um tom pálido, uma estampa popularizada pela imperatriz Josefina, enfeitavam o papel de paredes do dormitório. A criada terminou de abotoar os minúsculos botões do casaco de Alicia, recuando para que a jovem se mirasse no espelho de três folhas. — Linda, minha querida! Esse conjunto azul combina à perfeição com seus lindos cabelos ruivos e esses olhos escuros. Alicia sorriu diante do elogio. Não usava o traje desde que viajara, havia três anos. O sorriso desapareceu, com a lembrança. Marie entregou-lhe o chapéu de aba larga, comentando: — E uma pena esconder uma cabeleira tão farta e tão brilhante. — Obrigada — murmurou Alicia, feliz ao ver a bela imagem refletida. A vaidade era um pecado, recordou a si mesma. Nunca se importara com isso, mas, por um instante, ficou a imaginar o que Dalton pensaria se a visse tão elegante.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Censurou-se. Não ligava a mínima para o que aquele homem pudesse pensar. Meia hora mais tarde, a égua castanha montada por Olívia trotava ao lado da de Alicia. — Havencrest é um dos mais belos lugares que já vi — comentou Alicia. A parte das trilhas impecáveis para cavalgada, a paisagem ondulante dos campos em mil tons de verde era de tirar o fôlego. — Havencrest pertence a nossa família desde os Tudor. Quando papai morreu, no ano passado, Dalton herdou a propriedade, junto com o título. — Olívia olhou-a, de soslaio. — Pobre irmão... Como se algum dia ele fosse gostar das responsabilidades de ser duque. A curiosidade de Alicia acendeu-se. — Por que não? — Até então, pouco ou quase nada conseguira saber sobre o irmão de Olívia. — Dalton não aprecia a vida no campo. Só o problema de Bashshar o tem mantido aqui. Claro deu-se conta Alicia. Como pudera esquecer de como eram os homens da sociedade? Salões de jogos, prados de corrida, mulheres bonitas. Olívia estava certa. Homens como Dalton nunca poderiam apreciar a beleza de Havencrest. Contudo, o duque parecera preocupado de verdade com Bashshar. — Lady Olívia, seu irmão tem planos de inscrever Bashshar nas corridas? Olívia ergueu uma sobrancelha. — O pai de Bashshar era um puro-sangue árabe, cruzado com uma égua da melhor linhagem inglesa. O sonho de Dalton era vê-lo vencer o clássico de Newmarket deste ano. — Suspirou. — Agora, há pouca chance de que isso possa acontecer. Ah... Então era essa a razão para Dalton estar tão desesperado para que Bashshar se recuperasse. O dinheiro e o prestígio decorrentes de possuir um campeão. Saber disso, de alguma forma, deprimiu Alicia. — Creio que Dalton me falou que sua família tem um plantei de cavalos de corrida, Lady Alicia. Pretende inscrever um de seus animais em algum páreo futuro? Alicia sorriu, pensando em Júpiter. — Meu potro de dois anos promete. É possível que eu o inscreva no clássico de Newmarket, também. — Desejo-lhe boa sorte. — Olívia pareceu impressionada. O som de patas em galope ressoou pela trilha. Dois cavaleiros surgiram. Altos, muito bem vestidos, ambos cavalgavam com a agilidade de quem tem experiência. Com um toque de galanteria, desviaram as montarias para a beira da estrada, deixando espaço livre para Alicia e Olívia. — Lorde Theodore Clitheridge e lorde Templestone — Olívia cumprimentou-os, alegre. — Esta é Lady Alicia Spencer. Lorde Clitheridge tirou o chapéu, fitando Alicia com um misto de curiosidade e apreciação. — Meus cumprimentos a seu pai, Lady Alicia, por ter uma filha tão adorável. Alicia sorriu de um jeito gracioso, mas percebeu que lorde Clitheridge sabia de sua reputação manchada. Sem dúvida a tratava com gentileza em deferência a Lady Olívia. O segundo cavaleiro, lorde Templestone, tocou a aba. — Não conheço seu pai, Lady Alicia, mas sua beleza e graça devem enchê-lo de orgulho, com certeza. Ela agradeceu. A seu lado, Olívia conversava, com desenvoltura. Alicia percebeu que nunca deveria ter aceitado o convite. Logo os mexericos


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning iriam fervilhar. Forçou-se a manter a compostura e enfrentou os olhares especulativos dos lordes com altivez. — Lamento o acidente com o garanhão de Dalton, Lady Olívia. Foi muito triste. — Bashshar está melhorando muito, lorde Clitheridge. — Ouvi dizer que chicotearam o pobrezinho. — Está mal informado, lorde Templestone. — A voz de Olívia tinha uma tonalidade aguda que não se notava antes. Um novo som de cascos ecoou. Alicia fitou os cavaleiros. Sentiu um nó na garganta ao reconhecer Dalton, montado num puro-sangue árabe todo branco. Uma dama o acompanhava. Debaixo do chapéu de abas estreitas que usava, os cabelos loiros brilhavam como uma moeda de ouro recém polida. Ao se aproximarem, Alicia notou que a jovem a encarava com crescente interesse. — Irmã vejo que já conheceu Lady Alicia. — Dalton não fez menção de apresentar Alicia a sua bela acompanhante. — Bom dia, Elizabeth. Conhece Lady Alicia Spencer? — Indagou Olívia. Os traços perfeitos de Elizabeth torceram-se, num trejeito de desgosto. Com evidente desdém, virou-se para Dalton. — Podemos tomar o caminho de cima? A expressão de Dalton não se alterou, mas Alicia pensou ter visto um lampejo duro em seus olhos azuis. — Você pegou uma montaria muito arisca, Lady Alicia. Mischief gosta de testar um novo cavaleiro. Essa égua não é tão dócil quanto parece. — Não se preocupe, milorde. Nem eu sou. Desculpe-me, por favor. — Girou a égua na direção dos estábulos e saiu a galope. Quase de imediato, outro trote a seguiu. — Vou levá-la de volta! — Dalton gritou. — Dalton! — Elizabeth, cheia de raiva, o admoestava. — Sou sua noiva! Não pode me largar aqui! Noiva de Dalton? A surpresa e o desapontamento derramaram-se sobre Alicia. Que insulto deixar a noiva sozinha, correndo atrás de outra mulher. Grave o bastante para pôr em perigo um compromisso. Mas de que lhe importava? O puro-sangue árabe estava quase a seu lado. Alicia inclinou-se para a frente, incitando Mischief. Momentos mais tarde, a égua tomava com tranquilidade a dianteira. Segundos depois, a poderosa montaria de Dalton galopava ao lado dela, de novo, mas Mischief tinha uma cabeça de vantagem. A alma era tudo, Alicia sabia. Cavalos grandes e poderosos podiam arremeter firme a princípio, mas, como os humanos, a chave estava em ter um espírito vencedor. Árvores imponentes e moitas mirradas ficavam para trás, num borrão verde, enquanto corriam, os cavalos pescoço a pescoço. Rindo, Alicia fitou Dalton de relance. Ele era belíssimo. O casaco ajustava-se a seus ombros largos com perfeição. Botas pretas e reluzentes moldavam suas pernas musculosas como uma segunda pele. Sua risada rica e sonora de barítono era deslumbrante. O perfil de pedra dos estábulos surgiu a distância. O cavalo de Dalton avançou perto de Mischief preparando-se para assumir a liderança. Alicia queria vencer. Tinha de vencer, se quisesse superar a sensação de que era uma rejeitada. Venceria! Ao se aproximarem do lado oeste das cocheiras, Dalton deitou-se sobre a sela, avançando. Justo então Alicia viu a cabaninha situada à esquerda. Se virasse à direita do bangalô e seguisse por trás dos estábulos, pelo atalho, até a entrada do padoque,


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning poderia vencer Dalton, afinal. Quando estavam a uns cem metros do prédio, Alicia puxou a égua para a esquerda. Dalton percebeu a manobra, mas já era tarde para segui-la. Alicia fez Mischief disparar na direção do bangalô. Passando pelo estábulo, contornou o padoque. Vários cavalariços correram em sua direção e ajudaram-na a desmontar. No peito, o coração de Alicia disparou, de satisfação. Poucos segundos mais tarde, Dalton chegava, desmontando a poucos passos adiante. Sua boca arqueou-se num sorriso torto. — Você venceu, milady. — Uma vitória justa — afirmou, mas sabia que não era verdade. Dalton teria ganhado se ela não tivesse enveredado pelo atalho. E sua conduta não tornava a vitória tão prazerosa quanto esperava. O pior era que ele parecera não se importar. — Pena que não tenhamos feito uma aposta. — O duque a encarava. — Eu teria me esforçado mais. — Claro! Como pude me esquecer de que só valeria a pena se houvesse uma aposta? Bem, vou ver Bashshar. — Vestida assim, nessa elegância encantadora? Por um instante, Alicia se esquecera de seus trajes. Um calor subiu-lhe até o rosto. Desejou que Dalton fosse embora. Se pelo menos tivesse mencionado antes que era noivo... Entretanto, por que o faria? Para o duque, ela era uma empregada, uma enfermeira para seu cavalo. Oh, por que se deixara convencer a sair e fingir ser alguém que nunca poderia ser?! Raiva, frustração e algo que Alicia não conseguiu reconhecer borbulharam em seu íntimo. Era uma dama, mesmo que tivesse sido escorraçada pela sociedade. — Irei colocar uma roupa mais apropriada, então. Se me der licença... Dalton segurou pelo ombro e fez com que Alicia se voltasse, para encará-lo. — Não sei o que deu em Elizabeth para agir daquele jeito. Não somos noivos. — Isso não é de minha conta. — Soltou-se dele. — Não há nada entre nós, Alicia. Não tenho nenhum compromisso com Elizabeth. Somos ambos livres para fazer o que quisermos. — Não lhe pedi explicações. — Alicia deu um passo atrás, tentando afastar-se. — Não estamos noivos — insistiu, tomando-lhe a mão. Alicia sentiu-lhe o aroma, tão perto... Perto demais. De repente, foi tomada de tonturas. — Por favor, deixe-me ir embora. — É importante que acredite em mim. — Entendo... Elizabeth é a mentirosa, e você diz a verdade. E isso? A cerca do padoque parecia girar, em torno dela. — Não quero que pense o pior de mim, mais do que já pensa. — Sugiro que tenha essa conversa com sua amada, não comigo. — Alicia tentou livrar a mão, porém o duque a segurou com mais força. — Alicia, por favor... Um silêncio embaraçoso instalou-se entre os dois. Enfim, Dalton a soltou, e Alicia saiu correndo. Suas mãos ainda tremiam quando entrou no chalé e fechou a porta. Recostou-se contra a madeira, o pulso disparado. Esfregou as pálpebras. O rosto bonito de Dalton Warfield, o duque de Wexton, permanecia claro em sua


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning mente. Seu olhar apaixonado queimava-lhe a alma. "Elizabeth e eu não somos noivos..." Que lhe importava se Dalton estava sendo sincero? Enxergou, porém, a dolorosa realidade. Ela se importava, sim. Que Deus a ajudasse, pois queria acreditar nele. CAPÍTULO IV Dalton deixou as estrebarias a galope. A despeito da aparência calma, ainda sentia-se abalado com o comportamento de Elizabeth. Tão logo a encontrasse, resolveria o assunto de uma vez por todas. Elizabeth! O que a levara a berrar aos quatro ventos que era sua noiva? Ainda recordava a imagem de Alicia, primeiro surpresa, depois zangada, antes de se esconder por detrás de uma máscara desprovida de emoções. Dalton foi tomado por uma sensação de desconforto. Sem dúvida a jovem Lady aprendera a mascarar a dor desde que caíra em desgraça. Já era bastante desagradável que o acordo entre ambos a tivesse jogado no meio da sociedade, mas a pobre criatura não precisava suportar o ciúme de Elizabeth. Sem contar em que proporções ela poderia fazer da vida de Alicia um inferno. E o desdém, a forma cruel com que se negara a cumprimentá-la? O duque não iria permitir um tal comportamento em seus domínios. Entre os arbustos, trilha acima, Dalton vislumbrou um vulto de azul e logo Elizabeth surgiu à vista. Cerrou os dentes e puxou as rédeas, esperando por ela. — Espero que tenha vindo me procurar — disse Elizabeth, ao aproximar-se. Sua voz não mostrava a raiva que faiscava em suas pupilas. Ao ver que Dalton nada respondia, Elizabeth ergueu o queixo, com ar de censura. — Dalton quero que se desculpe pelo comportamento ultrajante desta manhã. Ele precisou de todo o autocontrole para não dizer o que lhe gostaria. Continuou calado, esperando que ela terminasse. — Por que aquela mulher escandalosa está aqui? Lógico que você deve saber que gente do tipo dela não pode conviver com pessoas respeitáveis. — Pessoas respeitáveis não mentem dizendo que estão noivas, quando não estão, Elizabeth. Exijo um pedido de desculpas, mas será você quem vai se desculpar com Lady Alicia. — Ora... ela é sua amante! — Exclamou, quase cuspindo a acusação. — Alicia não é minha amante. Contudo, está em Havencrest a meu pedido. Elizabeth estreitou os olhos, irritada. — Sempre achei suas tentativas de chocar a todos bastante intrigantes, Dalton. Desta vez, porém, você foi longe demais. Embora não tenhamos anunciado oficialmente nosso noivado, todos sabem que você e eu iremos nos casar. Sei que sua mãe aguarda o anúncio antes de partir. E não vou protelar por mais tempo esta situação. — Elizabeth escute. Não vou me repetir! — Exclamou Dalton, como se estivesse falando com uma criança estragada pelos mimos. — Nunca a encorajei. Não estou pronto para o casamento. Com você ou com qualquer outra mulher. De agora em diante, este assunto está encerrado. A moça o fitou, o rosto pálido manchado de pintas avermelhadas. — Espero que se desculpe com Lady Alicia diante de mim e de minha irmã, durante o chá. Amanhã à tarde, no jardim.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Os lábios de Elizabeth se estreitaram, trémulos. — Por que está fazendo isso comigo, Dalton? Que prazer pode ter em me... — Estarei esperando por você lá. Sem mais uma palavra, Dalton tocou o chapéu e fez o cavalo girar, rumando para os campos. A suas costas, Elizabeth gritava de ódio, praguejando e chorando. — A duquesa irá vê-la agora, milady. — A criada abriu a porta do quarto da duquesa, e Elizabeth entrou, apressada. Mildred ergueu os olhos da correspondência espalhada pela escrivaninha. — Minha querida, que agradável surpresa! Vejo que esteve cavalgando. Dalton lhe fez companhia? Elizabeth fez uma pequena reverência e, então, postou-se diante de Mildred, os ombros tensos. — Milady é por causa de Dalton que vim aqui. Estou muito aborrecida. Não sei o que devo fazer. O sorriso de Mildred desvaneceu-se e suas sobrancelhas finas arquearam-se de preocupação. Ergueu-se da poltrona e caminhou até o sofá de veludo azul, sentando-se perto das janelas. — Venha, acomode-se e me conte o que a está aborrecendo. Elizabeth tremia. — Eu... não sei como lhe dizer. — Diga-me o que meu filho fez, desta vez — murmurou a duquesa, com um suspiro pesado. — Dalton comportou-se da forma mais ofensiva possível. — Os olhos de Elizabeth se encheram de lágrimas. — Ele me envergonhou diante de todos por causa daquela criatura horrível, Alicia Spencer. Mildred endireitou-se na cadeira, espantada. — Quem?! — Alicia Spencer. Decerto a senhora se recorda do escândalo, quando ela e Justin Sykes foram encontrados sozinhos, no quarto, em sua casa de Londres, não? Foi na noite da soirée que a senhora promoveu, em minha homenagem. Mildred apertou os lábios com violência. — Deve estar enganada, minha criança. Aquela moça não pode estar aqui. — Ah, mas está! E como convidada de Dalton. Eu mesma mal pude acreditar. Alicia cavalgava com Lady Olívia, esta manhã. E, embora Dalton negue, é claro que é amante dele. Mildred levou a mão ao pescoço. — Talvez você tenha apenas imaginado... — Se não acredita em mim, pergunte a lorde Templestone. — Templestone tem conhecimento disso? — A duquesa ficou rígida. — Sim. — Elizabeth ficou satisfeita em ver a reação que esperava. — Ele e lorde Clitheridge. Mildred levantou-se, tomada de desconforto. — Desça e espere por mim no escritório, querida. Preciso ficar só. Elizabeth percebeu a palidez da duquesa e um lampejo de apreensão dominou-a. Se a mãe de Dalton ficasse doente ou morresse, então, quem iria exercer controlo sobre Dalton? Sem a pressão da duquesa, ele jamais a desposaria. — Senhora devo chamar a criada? Mildred fez que não e caminhou até a escrivaninha.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Estou bem, Elizabeth. Só preciso de alguns poucos minutos para pensar. — Fechou os olhos, ao sentar-se, e levou os dedos às têmporas. — Descerei em seguida. Com relutância, Elizabeth voltou-se para sair. "Droga, não era isso o que eu esperava!" Queria estar por perto quando a duquesa fizesse seus planos. Entretanto, deixou-a e, em silêncio, fechou a porta, dirigindo-se para as escadarias. Bem, podia esperar. Já esperara tanto... Uns poucos minutos a mais eram um pequeno preço a pagar. Pela próxima meia hora, Elizabeth aguardou sozinha, no enorme escritório, tentando não se sentir esmagada pela grandiosidade do teto em abóbada, todo trabalhado em pinturas de arte. Mesmo quando criança, quando sua mãe a trazia para Havencrest, para brincar com Olívia, Elizabeth sentia-se oprimida pela opulência daquele aposento. E, desde então, nutrira a esperança de casar-se com Dalton e um dia tornar-se a senhora de Havencrest. E assim seria. Dalton era um homem complicado, mas ela sabia como mantê-lo amarrado. Se, pelo menos, passassem mais tempo juntos, poderia usar de seus ardis femininos para seduzi-lo. Então, o duque se esqueceria daquela inútil Alicia Spencer. Passos ecoaram pelo hall de mármore e Elizabeth virou-se, fazendo uma ligeira mesura quando a duquesa entrou. — Mandei chamar meu filho. — O tom alegre de Mildred ocultava seu íntimo. — Dalton deve reunir-se a nós em breve e aí iremos até o fundo desse problema, minha querida. A duquesa dirigiu-se ao grupo de poltronas, em frente à lareira. Elizabeth sorriu. — Obrigada, milady. Eu sabia que podia contar com a senhora. — Sua mãe era como uma irmã para mim. Quero que saiba que você pode contar comigo. — Muito agradecida. — Agora, enquanto esperamos por Dalton, tenho uma pequena surpresa para você. — Adoro surpresas! — Elizabeth bateu palmas, alegre. — Por favor, diga-me o que é antes que Dalton chegue. — Quero que esteja mais linda que nunca no baile deste fim-de-semana. A curiosidade de Elizabeth aumentou. Nunca vira a duquesa com aquele jeito de conspiração antes. Talvez estivesse planejando anunciar, enfim, seu noivado com Dalton. — Por favor, milady diga o que é. — Quero que use meu colar de diamantes e rubis. Foi de Maria Antonieta. — Fez uma pausa, como se esperasse a reação de Elizabeth. — Obrigada... — A jovem forçou um sorriso, desapontada. — Lembro-me de que a senhora o usou no ano passado, no jubileu do rei George. Pouco lhe importava. Afinal, assim que se casasse com Dalton, os diamantes e muito mais seriam seus. A duquesa reclinou-se, estudando-a. — Não pode esconder seu desapontamento de mim, Elizabeth. Ora, por que não estaria deliciada com a possibilidade de usar um dos mais famosos colares do mundo? Elizabeth deixou que as lágrimas lhe inundassem o rosto, para causar mais efeito. — Tinha esperanças de que o baile terminasse com o anúncio de meu noivado com Dalton.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Mas, querida... — As feições de Mildred tornaram-se rígidas. — Todos os dias, mais e mais homens ricos e com títulos de nobreza pedem minha mão a meu pai. Não sei até quando poderei impedir que ele me case com algum príncipe estrangeiro ou... — Seu pai e eu temos um acordo, Elizabeth. Não precisa se preocupar quanto a isso. — Mas não pode haver um casamento sem um noivo. A duquesa fitou-a, desaprovando sua atitude. — Escute, quero que considere uma coisa com todo o cuidado. — Não compreendo... — Dalton é muito teimoso. Desde que era criança. E um homem que você não pode pressionar. — Eu sei, mas... — Desde a morte de Drake, no ano passado, Dalton tem estado mais temperamental do que nunca. Era muito apegado ao irmão. Tenho medo... — A duquesa hesitou, seus dedos brincando com o enorme anel de brilhantes do anular direito. — De quê? — De que Dalton possa deixar a Inglaterra e voltar para aquela horrível guerra. Temo que, se sofrer alguma pressão, resolva partir. Meu filho está em Havencrest apenas por causa do acidente com seu cavalo. Seu olhar percorreu a imensidão do verde gramado que se descortinava da janela. — De alguma forma, estou contente que Bashshar tenha sido ferido. Isso tem mantido meu filho em Havencrest por mais tempo do que eu julgava possível. — Encarou Elizabeth com um olhar de advertência. — Por um especial favor a mim, filha, quero que seja muito paciente com Dalton. — Mas eu não vejo por que... — Quero vê-la casada com meu filho. Nada poderia me dar um prazer maior. E, acredite, isso vai acontecer. — Como eu gostaria de acreditar... Mildred sorriu. — Confie em mim. Um dia, você será a duquesa de Wexton. Antes que Elizabeth pudesse falar, um barulho soou à porta e o mordomo entrou. — Desculpe-me, milady, mas não pudemos encontrar o lorde. O chefe dos estábulos disse a William que o patrão saiu para caçar. Não voltará a não ser mais tarde, ao anoitecer. Devo pedir a Ulger que envie um cavalariço ao campo para encontrá-lo? Mildred ponderou por instantes. — Não, o assunto pode esperar até que ele volte. — Milady, o assunto não pode esperar... — Isso é tudo, Ives. Elizabeth ficou calada até que o mordomo saiu. — O tempo está correndo, milady. A senhora deve tomar alguma providência quanto a Dalton. Se nosso compromisso não for anunciado no baile de sábado, eu me tornarei motivo de piadas. Mildred encarou-a de um modo autoritário, e Elizabeth estremeceu. — Conheço meu filho melhor que você. Não vamos fazer nada. Ouviu bem? Elizabeth reconheceu nos olhos azuis da duquesa a mesma teimosia que via sempre no de Dalton.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Muito bem, milady. — Elizabeth baixou os cílios e sorriu, com jeito de criança bem-comportada. "Talvez você julgue que não vamos fazer nada, mas eu sei de algo que a fará mudar de ideia." Através da cortina natural da densa folhagem dos carvalhos, Dalton observou o magnífico cervo erguer a cabeça do riacho e empinar as orelhas, à escuta. Quantas vezes ele e Drake tinham observado os rebanhos quando vinham beber, perto da cascata? Quando garotos adoravam perseguir a caça. Costumavam disputar quem seria o primeiro a atingir a presa. Mas, desde a guerra e a morte de Drake, Dalton não tinha estômago para matar o que quer que fosse. Até mesmo detestava ter de ler os relatórios mensais do guarda-florestal, informando quais das árvores mais franzinas os trabalhadores tinham arrancado dos campos. O cervo pôs-se a mordiscar os brotos tenros de um arbusto baixo. Dalton suspirou. Adoraria passar a tarde inteira ali, naquela clareira sossegada, mas tinha um trabalho importante a fazer. Portanto, voltou-se e caminhou para o cavalo, que deixara amarrado nas proximidades. Na verdade, o breve repouso no bosque silencioso restaurara seu bom humor. E, com alguma sorte, Lady Alicia deveria estar mais receptiva, também. Precisava falar com ela. Elaborara alguns projetos para uma arena redonda que seria construída com facilidade ao lado do estábulo. Se Alicia aprovasse o plano, entre as cercas altas teria liberdade para trabalhar com Bashshar, protegida dos olhares indesejados dos hóspedes da duquesa. Ao se aproximar do padoque, Dalton desmontou e caminhou para o estábulo, estendendo as rédeas para um cavalariço. Passava pela esquina do pavilhão quando reconheceu o relinchar alto de Bashshar. Parou e espiou através da cerca pintada de branco. Lá dentro, no centro do círculo, Alicia estava de pé, como uma estátua, os braços caídos ao lado do corpo. Em uma das mãos, segurava o que parecia um velho cachecol de lã, que pendia até o chão. Uns poucos passos adiante, Bashshar batia os cascos na terra. Fascinado, Dalton pôs-se a observar. Alicia agitou o longo cachecol. Bashshar examinou-a com atenção e, então, moveu-se para o lado oposto, seus olhos brilhantes fixos nela. Dalton esperou que Alicia reagisse, agitando a estola, mas, ao contrário, ela permaneceu imóvel, encarando o garanhão. Minutos se passaram, e Dalton acabou percebendo que Alicia mantinha a posição de poder no palco central. Bashshar sabia disso e parecia não gostar da situação. Caboucava o solo, jogando a cabeça para trás, em protesto contra aquela jovem que parecia não ter medo dele. Recusava-se a se acomodar, enfrentando-a. O que quer que estivesse acontecendo ali, e Dalton não tinha a mínima ideia do que fosse, ele não conseguia se desviar. Ficou a observar, paralisado, o comportamento do poderoso garanhão. Quando pareceu que o animal ia escoicear, Dalton empurrou o portão e correu para dentro. — Alicia, afaste-se! Bashshar balançou a cabeça com ferocidade e, então, ergueu as patas traseiras, ferindo o ar. Alicia deu um passo para trás e, em seguida, encarou Dalton. Seu rosto era uma


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning máscara de raiva silenciosa quando colocou as mãos nos quadris. Olhou por sobre os ombros para o corcel negro. Então, caminhou determinada em direção a Dalton e passou por ele. — A... aonde você vai? — Ele correu atrás dela. Ao saírem do padoque, Alicia parou para fechar o portão. Colocou a trava e se virou. — Se eu quiser fazer algum progresso com seu cavalo, você não poderá me interromper. — Interromper? Eu estava tentando salvar sua vida. Ora essa, você não parece entender como aquele animal é perigoso... — Sei muito bem o que estou fazendo! — Não, não sabe! Dalton se flagrou olhando-a com raiva, de mãos nos quadris, enquanto Alicia zombava dele, do jeito como fizera no estábulo, na primeira noite em que chegara. Controlou-se. — Venha, Lady Alicia. Gostaria de trocar umas palavras com você. — Dalton respirou fundo e a segurou pelo cotovelo, conduzindo-a para o banco sob o caramanchão de rosas que sabia estar vazio àquele horário. O roseiral seria o lugar perfeito para explicar as coisas àquela garota teimosa. Alicia permaneceu calada enquanto ele a puxava pelo caminho. Chegaram ao banco, e ela sentou-se. Ele ficou de pé. — Bem? — Alicia ergueu o rosto para Dalton, provocando-o. Ele quase caiu na risada. — Você se esqueceu das ordens que lhe dei? Alicia respirou fundo. — Milorde, já tratei de animais machucados antes. Mas não posso ajudar Bashshar se não ganhar sua confiança. Agora, se continuar interferindo... — Bashshar é um animal traumatizadíssimo. E um cavalo de um só dono, e querer trabalhar com ele sem minha presença é rematada tolice. Alicia suspirou, e Dalton ficou bem mais do que um pouco irritado com a reação que sentiu. — Você é o dono dele. Não pretendo infringir os limites de sua posse sobre Bashshar, mas ele deve confiar em mim. Completamente. E isso irá ocorrer mais depressa se eu for a única pessoa que ele vir. Não me refiro aos garotos do estábulo, ou aos cavalariços, ou mesmo ao chefe deles. É por isso que estou lhe pedindo que evite interromper nossas sessões enquanto eu estiver trabalhando com o garanhão. Dalton só pôde continuar a encará-la. Será que Alicia não sabia que os homens tremiam dentro das calças quando falavam com o duque? Será que não sabia que estava quebrando todas as regras de civilidade ao dirigir-se a ele com tamanha audácia? Droga, ela estava lhe dando ordens como se fossem iguais! No entanto, parecia tão pequena, tão indefesa sentada diante dele... Dalton recordou-se dos comentários ferinos de Elizabeth, pela manhã, e como fora difícil para Alicia tentar esconder a dor que, sem dúvida sentira. Uma necessidade imperiosa de protegê-la o acometeu. — Deve me prometer que não vai se expor a Bashshar. Alicia inclinou a cabeça para o lado e fitou-o com firmeza. — Farei uma proposta, milorde. Como?! Ela ia fazer-lhe uma proposta? Ele era o duque de Wexton, e Alicia queria lhe propor algo?! — Muito bem, qual é? O sorriso ligeiro de Alicia revelou que ela julgava estar fazendo progressos, e o


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning pensamento trouxe a Dalton uma surpreendente pontada de prazer. — Não me exporei sem necessidade, se você me prometer algo. — Que seria... — Quero que me dê sua palavra de que não manterá contato algum com Bashshar por... quatro semanas. — O quê? — Juro que serei muitíssimo cuidadosa em minhas ações futuras com seu cavalo. — Quatro semanas? Que absurdo! — Dalton deu um passo atrás. — Primeiro, Bashshar não deixará que você o alimente e lhe dê água. Satisfeito com o argumento, o lorde riu. — Como vê, não posso permanecer longe dele. Alicia meneou a cabeça. — Eu cuidarei de Bashshar. — Meu cavalo não deixará. — Ele ficará com fome e com sede até que aceite. — Você o deixaria com fome e com sede?! — Bashshar é esperto demais para chegar a isso. Irá se aproximar, e eu ganharei sua confiança com a barganha. — Alicia ergueu o queixo. — Sei que existe sabedoria por trás de minha técnica. Ao sorrir, Alicia revelou uma pequena covinha ao lado da boca encantadora. Dalton, por uma fração de segundo, imaginou como seria beijar aquela marca adorável. — E então, milorde? Dalton afastou os devaneios para longe. — Ah... ora... Não! Não, não permitirei, e ponto final. — Muito bem. — Alicia levantou-se. — Por favor, peça ao chefe dos estábulos para mandar um garoto buscar minha bagagem. Arrumarei minhas coisas enquanto a carruagem fica pronta e os cavalos são arreados. Se eu partir antes de escurecer, estarei em Marston Heath pela manhã. — Como assim?! Alicia ignorou-o, saindo do roseiral e dirigindo-se para o gramado próximo às cocheiras. — Veja bem, você deu sua palavra! — Gritou Dalton, suas largas passadas logo fazendo com que a alcançasse. Alicia continuou em frente, sem diminuir a marcha. — Seu pai ficará muito aborrecido, milady. Ao chegarem aos estábulos, Dalton segurou-a pelo cotovelo e forçou-a a se virar e a encará-lo. — Você é a mulher mais teimosa... — Suas palavras morreram quando fitou aqueles ardentes olhos castanhos, cheios de um brilho maroto. — Saiba que é uma bruxa, Lady Alicia Spencer. A pessoa mais forte que ele já conhecera. — Muito bem. Quatro semanas, nem um dia a mais. Ela baixou as pálpebras de longos cílios. Em seguida, ergueu-as e o olhou com muita seriedade. — Obrigada, sir. O duque esperava algum sinal de vitória, como o sorrisinho satisfeito que Alicia exibira quando o vencera na corrida. Porém, aquela jovem não era como as outras que ele conhecia. Era franca, tinha uma graça natural, uma integridade interior que o atraía. Por um inacreditável instante, Dalton desejou mergulhar naquele olhar adorável para sempre. Sentia-se hipnotizado. Sim, ela era uma bruxa, uma sereia tentadora que podia lançar feitiços sobre homens e animais.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Com um esforço incrível, deu-lhe passagem. Então, uma ideia lhe ocorreu, e o duque a prendeu pelo ombro. — Se eu ficar escondido, milady, você deixaria que eu a observasse treinar Bashshar? — De modo algum. — Alicia abriu o portão e entrou na arena. Dalton ouviu Bashshar relinchar de leve ao vê-la. E, pela primeira vez desde o acidente, percebeu que o garanhão tinha seus pensamentos em outra coisa que não a explosão da arma de fogo que o aterrorizara. E só por isso Dalton devia um imenso favor a Alicia. CAPÍTULO V A lua cheia ia alta no céu. Faltavam poucos minutos para a meia-noite, e Alicia não conseguia dormir. Os raios prateados de luar desenhavam sombras rendadas pelos lençóis de seda. Quebrando o silêncio, o relógio bateu as doze badaladas. Durante as últimas três horas, ela havia se virado e revirado, incapaz de conciliar o sono, a indesejada imagem de Dalton Warfield, o duque de Wexton, a assombrá-la. Enterrou a cabeça nos travesseiros. A despeito do trabalho incessante de um dia inteiro, seus pensamentos teimavam em concentrar-se em Dalton. O que estava acontecendo? Através da janela aberta, a melodia suave de uma valsa flutuava, vinda do salão de baile, alimentando-lhe a imaginação. Alicia quase podia sentir na cintura a mão direita de Dalton, os dedos dela a tocar de leve aqueles ombros largos, enquanto ele a conduzia nos braços, ao compasso da música. Seu sangue esquentou àquela ideia. Via-se usando um vestido de esvoaçante e branco, em contraste marcante com os trajes escuros e elegantes de Dalton. Deslizavam pelo salão, rodopiando com a música, e os convidados se detinham, extasiados com o belo casal que rodopiava, diante deles. — Você não pertence a este lugar! — Gritou uma voz aguda. A multidão se abriu e a duquesa ergueu-se de sua cadeira, batendo a bengala cravejada de diamantes no chão, enquanto o ambiente mergulhava num tenebroso silêncio. Alicia sentou-se no leito, o coração martelando no peito. Relanceou os olhos pelo quarto e então recuperou o fôlego. Sua mãe sempre dizia que a luz da lua podia levar uma pessoa à loucura e, por isso, mandara colocar pesadas cortinas nas janelas de Marston Heath. Quando criança, Alicia costumava abri-las, numa atitude de rebeldia, e deitava-se sob os raios prateados, depois que todos haviam se recolhido para dormir. Quem sabe sua mãe tivesse razão, e Alicia agora sofresse de perturbações lunáticas? Que outra razão podia haver para sonhar com Wexton? Suspirou, ajeitando os cabelos emaranhados. A lua brilhava, iluminando a noite. Podia dar um passeio a cavalo. A ideia levantou-lhe o ânimo. Deixou a cama e vestiu-se rápido, no escuro. Acender uma vela poderia acordar Marie, a jovem criada francesa que dormia no quarto ao lado. Olívia insistira para que a jovem ficasse na cabana e atendesse a todas as necessidades de Alicia. Quando ficou pronta, Alicia prendeu a cabeleira farta com uma fita. Sem fazer barulho, saiu, pé ante pé, tomando a trilha que conduzia ao roseiral. Ao chegar ao caramanchão, parou para admirar o brilho dourado que vinha da casa principal. Milhares de archotes deviam estar ardendo, a luz filtrando-se pelas


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning inúmeras vidraças. Sentiu-se como uma espiã. Aquilo era assustador, ainda que excitante. Não ousou aventurar-se mais longe, com receio de encontrar algum convidado. Correu a mão pelo decote império do vestido cor de jade, de cintura alta. Não pretendia chamar a atenção para si, se um dos hóspedes surgisse. Isto é, se já soubessem quem era ela. Correu para os estábulos e apressou-se em encontrar Cinnamon Rose. A égua saudou-a, jogando a cabeça para o alto. Alicia selou-a e puxou-a até um monte de feno, para poder montar. Dez minutos mais tarde, conduzia a égua pela trilha, rumo ao campo aberto. Que noite gloriosa! A lua cheia reinava absoluta no céu, iluminando a terra com um brilho intenso. O vento soprava, fazendo seus cabelos dançarem, beijando-lhe a face com o ar frio, cheirando a cravo. Cavalos e cavalgadas sempre haviam feito bem a seu espírito, acalmando-a. Um passeio noturno, pelo menos por enquanto, poderia suavizar o fato doloroso de que ela não fazia parte daquela gente bonita que circulava sob os candelabros de cristal. Ao retornar da cavalgada, deixando Cinnamon Rose na baia, Alicia se encaminhava para a cabana, quando o som de passos apressados a assustou. Escondeu-se atrás da sebe do jardim. Reconheceu Lady Olívia, que corria em direção à trilha. — Lady Olívia, o que aconteceu? Olívia parou e voltou-se. — Lady Alicia estou procurando por Dalton. Por acaso o viu? — Não, ora essa! Achei que estivesse no baile. — Não, ninguém sabe dele desde o café da manhã. Aconteceu uma coisa horrível, e preciso encontrá-lo. — De testa franzida, Olívia torcia as mãos. — Já perguntou a Elizabeth? A respiração de Olívia acelerou-se. — Tenho receio de que Elizabeth não esteja em condições de responder a quaisquer perguntas. — Olívia olhou ao redor, como se tivesse medo de ser ouvida e, então, aproximou-se de Alicia. — Ela criou uma situação muitíssimo embaraçosa para si mesma, junto com o conde de Rothbury. Mamãe está histérica e determinada a exigir que Dalton anuncie seu noivado com Elizabeth, antes que os boatos se espalhem. — Ela meteu-se numa situação embaraçosa? — Acho que estava tentando fazer ciúme a Dalton. Porém, Elizabeth e lorde Rothbury estavam bebendo, e creio que passaram dos limites. Graças a Deus, lorde Templestone os encontrou antes que alguém pudesse vê-los, e contou a mamãe. — Olívia fez uma pausa, ofegante. — Ah, minha querida, perdoe-me pela insensibilidade! Esses fatos devem fazê-la lembrar-se de... — Está tudo bem, Lady Olívia. — Alicia engoliu em seco, percebendo que a amiga, assim como os outros membros da sociedade, sabiam do escândalo de três anos atrás. — Quer dizer que Dalton vai se casar com Elizabeth? — Não, ele não deve! Tenho de avisá-lo antes que mamãe o encontre. — Não compreendo... — Não tenho tempo de explicar agora, Alicia. Por favor, ajude-me a encontrar meu irmão. — Claro. — Alicia tomou o braço de Olívia e conduziu-a em direção às cocheiras. — Vamos falar com o chefe dos estábulos para saber se Dalton mandou selar algum cavalo. — Já perguntei a Ulger. Ele disse que Dalton costuma fazer isso sozinho. Penn


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning falou que o alazão que meu irmão usa não está na baia. Meu Deus, onde pode estar a esta hora da noite?! - Por quem estão procurando? — A voz grave de Dalton pegou Alicia e Olívia de surpresa. Ele surgiu das sombras, puxando o alazão pelas rédeas. O alívio derramou-se sobre Alicia ao vê-lo. Dalton assemelhava-se a uma aparição, vestido com um traje azul-marinho de montaria, o luar emprestando um toque azulado a seus cabelos. — Dalton! — Olívia torcia as mãos. — Lorde Templestone encontrou Elizabeth com o conde de Rothbury. Ela havia bebido muito e tomou atitudes escandalosas. Por sorte, Templestone é confiável, mas mamãe está determinada a exigir que você anuncie o noivado com Elizabeth antes que os rumores se espalhem entre a sociedade. — Mamãe ainda está no baile? — Você não deve procurá-la! — Olívia conteve-se e baixou o tom. — Não antes que achemos um jeito de... — Minha querida irmãzinha, não se preocupe comigo. — Sorriu com uma ternura tal que Alicia foi pega de surpresa. — Por que não fica com Lady Alicia no chalé enquanto resolvo isso? Voltarei tão logo tenha falado com mamãe. Antes que Olívia pudesse objetar, Dalton se foi. Alicia expulsou a súbita sensação de medo que ameaçava engolfá-la. — Venha, Olívia. Tomaremos uma xícara de chá enquanto aguardamos. Casais passeavam pelos jardins perfumados e pela imensa varanda que se abria para as portas do salão de baile. Dalton subiu os degraus de pedra e passou pelos convidados. Seu olhar procurou por sir John Oxley, o advogado da família, que imediatamente aproximou-se dele. — Divertindo-se, sir John? — Dalton sorriu diante do rosto vincado de preocupação do sério cavalheiro, cuja família de advogados vinha servindo os duques de Wexton por gerações. — Milorde preciso falar-lhe. — Eu sei, John. — Dalton parou a caminho das escadas. — Onde está a duquesa? — Foi para seus aposentos, sir. O doutor já foi chamado. — Para mamãe ou para Elizabeth? — Dalton não procurou esconder o sarcasmo. Sir John contraiu os lábios, num trejeito de desgosto. — Então já sabe? Dalton arqueou as sobrancelhas. — Como se eu não a conhecesse... — Seria... — começou sir John, quase sem fôlego — do melhor interesse de todos que esse assunto permanecesse em segredo. Dalton virou-se e subiu as escadas, seguido por sir John. Caminhou resoluto para a suite da mãe e bateu à porta. Uma criada veio abrir. Com um sorriso envergonhado, murmurou: — Direi à minha patroa que o senhor está aqui. Dalton encarou sir John. — Espere aqui. Isso não vai demorar. Antes que o advogado pudesse responder, Dalton entrou nos aposentos da duquesa. Acomodada na poltrona francesa onde costumava receber os visitantes, a duquesa, pálida como cera, mantinha os olhos fechados, a cabeça recostada no encosto de cetim. Dois candelabros iluminavam o quarto. Várias criadas a cercavam. — Quero falar com minha mãe a sós. — Dalton puxou uma cadeira para perto da poltrona. As criadas apressaram-se a sair do aposento. A duquesa o fitou.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Pedi a sir John que viesse até aqui também, filho. — Ele está esperando lá fora. Agora, diga-me, mamãe, o que é tão importante que não pode esperar até amanhã de manhã? A duquesa sentou-se e encarou-o, com severidade. — Como pôde trazer aquela desavergonhada Spencer para Havencrest? — Lady Alicia Spencer não é uma desavergonhada, minha cara. — Eu estava lá quando ela foi encontrada com aquele seu amigo insuportável, Justin Sykes, no quarto de hóspedes de nossa casa em Londres. É uma desclassificada, e eu nunca o perdoarei por tê-la trazido aqui. — Devo lembrá-la de que sou maior, mamãe. Não preciso de sua aprovação para nada. — Não seja insolente comigo, Dalton! — Estou recordando-a de uma verdade. — Recostou-se e cruzou as pernas. — Quanto aos boatos sobre Lady Alicia, sei que Sykes prefere mulheres casadas a experientes a garotas ainda imaturas. E ele é muito esperto para ser apanhado. — Não tenho ideia do que está falando. Dalton, você não se importa com ninguém, a não ser consigo mesmo! Pobre Elizabeth! Estava aflita quando me contou sobre o encontro com aquela Jezebel. Com pôde trazer sua amante... — Lady Alicia não é minha amante. A duquesa estreitou os olhos. — Não me importo se é ou não é. Você é o culpado pelo que aconteceu a Elizabeth. Ignorou-a de uma forma acintosa. A pobre garota só estava tentando chamar sua atenção. — Ouvi dizer que ela bebeu muito na companhia de Rothbury, e que Templestone os encontrou numa situação constrangedora. O que isso tem a ver comigo? Mildred respirou fundo. — Elizabeth estava fora de si por causa de seu comportamento ultrajante com aquela moça, e... Bem, apenas tentou lhe fazer ciúme. Rothbury manipulou-a com uns drinques... — Meneou a cabeça. — Graças aos céus, Templestone encontrou-os e levou-a para longe, antes que alguém a visse. Sabe-se lá o que poderia ter acontecido, e tudo isso é culpa sua. O duque deu de ombros, indiferente. — Eu diria que Elizabeth é leviana o bastante para se embebedar junto com o velho Rothbury. O semblante de Mildred endureceu-se. — Rothbury, aquele miserável! Elizabeth tem um dote considerável, e sua família mora na propriedade vizinha a Havencrest. Você vai se casar com ela. É tempo de tomar juízo e perceber isso. — Elizabeth gosta de provocar e sabe que eu não me importaria se ela levasse alguém para a cama. Nunca me casarei com aquela garota. — Imagine! Elizabeth sente-se arrasada porque você não liga a mínima para ela. Quer casar-se com você. E assim será. Não admito nem mais um desses episódios estúpidos com essa adorável jovem tentando enciumá-lo. Essa sua indiferença tem de parar de uma vez por todas! Dalton reclinou-se, estudando-a em sua ira. Não era próprio de Elizabeth agir de forma a irritar a duquesa. Mesmo assim, não havia dúvidas de que sua mãe estava brava. — Na próxima semana, haverá o último baile da temporada — continuou a duquesa —, antes que a sociedade parta para as caçadas aos faisões, na Escócia. Você anunciará seu noivado com Elizabeth no baile, ou eu anunciarei o compromisso por


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning você. — Mildred fechou o leque com uma batida seca. — Creio que está perdendo seu tempo e o meu, querida mamãe. Pelo visto, não ouviu uma palavra do que eu disse. Não me casarei com Elizabeth. Nem agora, nem em outra ocasião. Pode me dar licença? — Dalton levantou-se e dirigiu-se para a porta. — Por que Deus não o levou no lugar de Drake?! — Berrou a duquesa, pondo-se em pé. Dalton estacou, sem se voltar. A voz de Mildred tomou um acento de angústia: — Já não fui punida o bastante, sem que você precise se comportar como um endemoninhado? Sei que me detesta, desde que era um garoto e me encontrou com George... Dalton virou-se. Pelos últimos vinte anos, jamais falara a ninguém sobre aquela tarde. Em sua alegria, subira as escadas para contar à mãe do nascimento de seu potro. O que vira quando abrira a porta e entrara naquele mesmo quarto mudara sua vida para sempre. — Não a odeio, mamãe. Apenas, não sinto nada por você. — Não sente nada por ninguém! Drake era tão diferente... — Sim, Drake era todas as coisas que nunca fui. — Sentiu um nó na garganta. — E ninguém sofre mais a falta dele do que eu. — Se Drake estivesse vivo, ele se casaria com Elizabeth. — Meu irmão merecia coisa melhor. Sabe que Elizabeth tentou seduzir-me pouco antes de Drake e eu partirmos para a Espanha? — Não acredito nisso. — Oh, sim, você acredita. Porque, lá no fundo, sabe muito bem como é Elizabeth. A garota sabia que Drake estava perdido de amor por ela, assim como meu pai esteve cego de paixão por você. Quando recusei Elizabeth, isso só a encorajou. Pena que tio George não tivesse mais autocontrole. — Dalton, homens e mulheres são diferentes. Eu amava George antes de me casar com seu pai. Porém, seu pai era o mais velho, e não tive escolha a não ser casarme com ele. — Graças aos céus papai nunca soube de sua infidelidade. E Drake jamais conheceu a verdadeira natureza de Elizabeth, também. — Acha que é melhor, se metendo com aquela Spencer? — Você não é digna sequer de pronunciar o nome dela. — Faça o que quiser com a moça. Mas, se for indiscreto, destruirá o precioso nome de seu pai. Você não haveria de desejar isso, não é? — A duquesa sorriu, com maldade, sabendo que tocara num ponto sensível. — Está com quase trinta e cinco anos, Dalton. Goste ou não, é tempo de ter um herdeiro. — Mamãe vamos colocar um ponto final nessa lengalenga. Prometo comparecer ao baile. A duquesa ficou rígida e estudou-o, com cautela. — Quer dizer que mudou de opinião? — Sim. Você me convenceu de que é tempo de eu me casar. — Você vai... anunciar seu noivado? Dalton sorriu, divertindo-se com o olhar de incredulidade no da mãe. — Anunciarei meu noivado, de braços com minha noiva, para todo o mundo ver, mamãe querida. — Seu sorriso alargou-se. — Prometo que essa noite você jamais esquecerá. Ela o fitou, atónita. — Sem mais discussões?


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Dalton inclinou-se e beijou-lhe a mão. — De maneira alguma. — Muito bem, Dalton. Ele fez uma reverência e deixou o quarto. O advogado se aproximou, depressa. — Venha, sir John, temos trabalho a fazer. Traga seus papéis e o tinteiro e sigame. — Claro, milorde. No instante em que a carruagem de Dalton parou em frente à cabana, ele mal podia esperar para ver a expressão de Alicia quando a pedisse em casamento. Ao ouvir o som do veículo lá fora, Alicia saltou da cadeira e correu para a porta, antes que Dalton tivesse a chance de bater. Olívia, reclinada no sofá ao lado da lareira, endireitou-se, ansiosa para ouvir o que o irmão tinha para contar. — Gostaria de ficar alguns poucos minutos com ela, minha irmã. — O duque voltou-se para Alicia. — Pode sair ao jardim comigo? — Dalton, não é correto que ela saia com você desacompanhada. — Olívia ergueu-se, enrolando-se no xale. — Irei junto. — Por que não nos faz companhia observando-nos da porta? — Ele sugeriu, saindo. — Muito bem, irmão. Alicia gostaria de perguntar a Dalton o que a duquesa dissera, mas se conteve. Caminhou ao lado dele até que chegaram ao banco de mármore. O duque tirou um lenço e enxugou o sereno do assento, antes que ela se sentasse. — Diga-me, Lady Alicia, tem se sentido feliz durante sua breve estada, connosco? — Eu... queira me desculpar, mas estou aqui há menos de uma semana. — É suficiente para saber se Havencrest a agrada. — Bem, os domínios são muito bonitos, mas vi apenas uma pequena parte das terras. — Sim, é claro. Desculpe-me pela pergunta embaraçosa. Agora, o que pensa de mim? Alicia ficou atordoada. — De você? — Não conseguia responder. — Está um gelo aqui fora, milorde, e é muito tarde. Eu... — Perdoe-me de novo, Lady Alicia. Estou colocando muito mal as coisas. — Respirou fundo. — Oh, que droga! E melhor ir direto ao assunto. — Tomou-lhe a mão e a encarou. — Lady Alicia quero me casar com você. Ela se soltou com um gesto brusco e fitou-o como se ele estivesse louco. — Se isso é alguma piada... — Estou falando sério. — Os olhos azuis encontraram os dela, e Alicia percebeu que ele era sincero. — Se você se casar comigo, suas irmãzinhas serão beneficiadas, e as portas de um bom casamento poderão se abrir para elas. Marston Heath poderia ser restaurada para recuperar a antiga glória de quando seu avô a construiu. Seus pais não teriam de se preocupar com problemas financeiros na velhice, e você teria tudo que o dinheiro pode comprar. — E o que você ganharia, com isso? Dalton a estudou de cima a baixo, e Alicia arrepiou-se diante o exame. — É hora de me casar. Preciso ter um herdeiro. Não farei exigência alguma, exceto que me dê um filho. Assim que a criança tiver nascido... — E se eu não lhe der um filho? Vai me decapitar, como o Henrique VIII fez com Ana Bolena?


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Ele sorriu, com malícia. — Creio que a rainha de Henrique também foi acusada de adultério. Espero que você seja fiel a mim até que nosso primeiro filho nasça, não importa quanto tempo isso possa significar. Alicia corou, desejando ter ficado calada. — Não se preocupe, minha pequena. Depois disso, estará livre para retornar a Marston Heath e nunca mais me ver de novo. Providenciarei uma pensão para você, para sua família e para seus domínios. — Um casamento de conveniência... — Isso mesmo. — Eu... tenho certeza de que meu pai ficará feliz em concordar. — Anunciaremos nosso compromisso no baile, daqui a três dias. De súbito, a realidade desabou sobre Alicia. — E sua mãe, a duquesa, o que dirá? — Mamãe nada tem a dizer sobre este assunto. Eu escolho minha mulher. Alicia deu-se conta, de repente, dos motivos pelos quais Dalton queria unir-se com ela. — Quer chocar sua mãe e vai se casar comigo para fazer isso. — Levantou-se. — Bem, não quero ser parte dessa brincadeira de mau gosto. Ache alguma outra para se casar. Deu-lhe as costas para sair dali, mas o duque a agarrou pelo punho e fez com que se virasse para ele. — Alicia, espere. Se se casar comigo, isso será a resposta para todos os seus problemas. — Certo, você resolverá minhas questões financeiras, mas a vida com sua mãe e seus amigos será um inferno para mim. — Minha mãe e seus amigos estarão bem longe de nós. Em algumas semanas, a duquesa deverá partir para nosso castelo, na Escócia. Você nunca mais a verá, se assim desejar. Poderá ficar sozinha com os cavalos, se preferir. — Um sorriso surgiu, malicioso, em seus lábios. — Claro que teria de me ver, vez ou outra. Alicia fez questão de ignorar o comentário. — Na verdade, eu me apeguei muito a Bashshar, a Cinnamon Rose e aos outros cavalos. — Eu lhe comprarei um estábulo com os melhores animais. Tudo o que seu coração desejar. Alicia ergueu os olhos para ele. "E o que me diz sobre amor?", gostaria de perguntar, mas já conhecia a resposta. Dalton seria capaz de amar? Ele se importava muito com seus cavalos, e Alicia podia perceber que devotava um sentimento de proteção em relação à irmã, Olívia. Porém, era apenas por responsabilidade? Sentia que ele poderia recolher-se numa concha de gelo, se assim escolhesse. Poderia algum dia importar-se com mais alguém, além de si? Dalton tomou-lhe às mãos, num aperto caloroso. — Diga sim, Alicia. Ela quis correr, desaparecer na escuridão sem olhar para trás. — Eu... preciso pensar. — Não há tempo. Concorde, e iremos contar a Olívia. — Puxou-a pelo jardim. — Case-se comigo, Alicia. — E Elizabeth? Você não gosta dela? — Elizabeth é uma criança mimada. Devia ter se casado com meu irmão, Drake.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Antes de decidir-se, porém, fez uma confissão ardorosa de amor a mim. Rejeitei-a, lógico. Meu irmão estava apaixonado, e eu o adorava. Elizabeth é muito jovem para saber o que quer. Imagina que me ama, só isso. — Você lhe contou que estava planejando pedir minha mão? — Ela vai descobrir logo. — Esboçou aquele sorriso encantador que a deixava deslumbrada. — Estarei livre para voltar a Marston Heath quando tiver o bebé? — Sim, minha querida. A emoção provocou-lhe um arrepio que lhe correu a espinha até a nuca. "Minha querida." Uma expressão vazia, que não significava nada para Dalton. O que o duque dissera era verdade. Casar-se com ele iria resolver tudo. Seu pai ficaria encantado, suas irmãs poderiam arranjar bons maridos. Kimbra deveria ser apresentada à sociedade dali a dois anos, e, com um suporte adequado, poderia tornar-se o sucesso da temporada londrina. Lyssa seguiria seus passos. Sua mãe poderia restaurar Marston Heath a sua beleza original. — Muito bem, Dalton. Eu me casarei com você. — Ótimo! Há mais uma coisa que preciso saber. Por favor, perdoe-me se achar esse assunto desagradável, mas preciso ouvir sua versão das coisas. — Sim, o que é? — Quando nos conhecemos, você insinuou que eu sabia o que minha família havia lhe feito durante seu debut... Os lábios de Alicia transformaram-se numa linha rígida. — Só mais tarde, quando perguntei a minha irmã sobre o episódio, é que eu soube do que havia acontecido naquela noite. — E o que, milorde, aconteceu naquela noite? Dalton percebeu a mágoa na voz de Alicia, e um nó apertou-lhe a garganta. — Disseram-me que você foi encontrada no quarto, sozinha com Justin Sykes. — Sim. Sua mãe e seus amigos me encontraram lá, depois que ela me pediu para apanhar seu xale naquele mesmo aposento. Mas, quando abri a porta, descobri que o aposento não era dela. Estava ocupado pelo Sr. Sykes, que se encontrava bêbado, largado na cama. Quando percebi meu engano e voltei-me para sair, sua mãe e seus amigos já haviam entrado, acusando-nos de todo tipo de coisas. — Seu rosto tornou-se pálido. — Eu nunca tinha visto o Sr. Sykes antes, em toda a minha vida. — Então... não estava apaixonada por ele? — Evidente que não! Justin Sykes, apesar de cafajeste, era um homem bonito, e Dalton sabia que muitas mulheres sentiam-se atraídas por escroques como ele. Alicia pareceu adivinharlhe os pensamentos. — Se eu amasse o Sr. Sykes, teria me casado com ele, pois me propôs casamento, numa atitude bastante honrada, considerando que estava tão aborrecido quanto eu. Dalton arqueou as sobrancelhas. — E por que recusou? — Porque não o queria. — E seu pai não insistiu? — Sim, mas me mantive irredutível. Dalton coçou o queixo. — Pode imaginar por que minha mãe armaria um escândalo desses? Alicia fitou-o com seus grandes olhos castanhos, confiantes e vulneráveis. — Não. Não sei por que a duquesa me odiava tanto. De súbito, Dalton entendeu tudo. Aquela jovem adorável e inocente devia ter sido uma ameaça para os planos de


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning sua mãe com relação ao casamento de Drake e Elizabeth. Que maneira melhor de acabar com a competição que arruinar aquela garota maravilhosa desde o primeiro instante? — Mamãe era madrinha de Elizabeth naquela temporada, e ouvi dizer que você era a única capaz de ofuscá-la. E uma coisa terrível para se acusar a própria mãe, mas... — Dalton sorriu com doçura. — Sinto muito que você tenha sido magoada. Alicia meneou a cabeça. — O que está feito está feito, sir. Nada se ganha se ficarmos presos ao passado. — Concordo. — Dalton beijou-lhe a mão. — Espere aqui enquanto vou chamar meu advogado. Dalton enveredou pelo passeio e rumou para a carruagem estacionada a distância. Dentro de minutos, retornava, com um senhor de idade de compleição franzina. — Venha, sir John. Entraremos para assinar os documentos que o senhor preparou, enquanto contamos a novidade a Olívia. A mão de Alicia tremia, ao aceitar o braço que Dalton lhe ofereceu. Seguiram para a cabana, onde Olívia os esperava, à soleira. Se essa era a resposta para todos os seus problemas, pensou Alicia, então por que se sentia como se estivesse fazendo um pacto com o demônio? CAPÍTULO VI Olívia levou a mão ao pescoço de Dalton! Você deve estar louco! — Olhou para Alicia. — Oh, minha querida, eu não quis dizer com isso que... — Seu rosto tornou-se vermelho. — Meu Deus! Alicia não deixou transparecer, nas feições, nenhum traço de surpresa, de mágoa, ou do medo que sentia. — É um choque, eu sei — disse apenas. "Descobrir que seu amado irmão vai se casar com uma mulher de honra manchada..." emendou, em pensamento. Sentou-se e lutou para manter a compostura. O duque andava de um lado para o outro, em frente à lareira, sua presença enchendo a pequena sala de estar. O advogado sentou-se numa cadeira, a um canto, equilibrando o tinteiro sobre a pasta de couro em seu colo, enquanto tomava notas. — Primeiro, o anúncio do casamento. — Dalton fez um gesto para sir John. — Coloque nos jornais, no Times, no Morning Post e na Gazette. E vamos precisar obter uma licença especial do arcebispo. Olívia olhou para o irmão. — Dalton, você tem de ir a Londres encontrar-se com o... — Não iremos nos casar na capital. Será na capela, em Havencrest. Alicia e eu não podemos deixar Bashshar ainda. O matrimónio será realizado em duas semanas. — Duas semanas! — Olívia riu. — Impossível, irmão. Seis meses não seriam suficientes para... — Bobagem. O que precisa ser feito? Olívia respirou fundo. — Bem, Alicia precisa ir a Paris para mandar fazer o vestido, o enxoval, mais um guarda-roupa completo... — Mande buscar as modistas em Paris e traga-as para cá. Alicia precisa


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning permanecer em Havencrest por causa do tratamento de Bashshar. — Mesmo assim, não haverá tempo de aprontar o traje. Mais as flores, os convites, o banquete... — É para isso que servem os criados. Contrate quantas costureiras, cozinheiras, mordomos e ajudantes forem necessários. O que mais? — Dalton, você nunca vai entender! Ele parou e recostou-se contra a lareira. — O que eu não vou entender, minha irmã? Olívia fitou Alicia. — Levará semanas para entrevistar os novos empregados e treiná-los. — Mande buscar a criadagem que já temos em nossos domínios na Escócia. Traga os criados da casa de Londres, do castelo na Irlanda e de nossas terras no lago. — Dalton mal disfarçava a satisfação. — O que mais precisa ser feito? Alicia endireitou os ombros e empinou o queixo. — Decerto não se esqueceu, milorde — disse, num tom suave — de que não sou maior de idade. Tenho dezanove anos. Precisará pedir minha mão a meu pai. A simples ideia de que o barão pudesse recusar um duque como noivo era hilariante, mas, mesmo assim, Alicia se sentia diminuída e embaraçada por Dalton ter ignorado as convenções. O fato não passou em branco para Olívia. Ela baixou o olhar para o colo e ficou quieta, num silêncio desconfortável. A mão de sir John imobilizou-se sobre o papel. O sorriso de Dalton desapareceu. — Claro. Perdoe-me, Alicia. Partirei ao nascer do sol para Marston Heath para pedir a permissão de seu pai. E convidarei sua família para que se reúna a nós sem demora. — Fez um gesto para o advogado, cuja mão pôs-se a escrever de novo. — Seus pais e suas irmãs ficarão aqui até o enlace. Vamos acomodar toda a família... — Mas... — Alicia não podia continuar sentada como uma boba, a observar o que acontecia. — Não quero uma festa suntuosa. — É evidente que quer! Toda noiva deseja isso. — Dalton se virou para a irmã, como se pedisse por confirmação. — Olívia arranje alguma coisa adequada para Alicia usar no baile deste fim-de-semana. Que seja branco e que caia bem com o colar de diamantes e rubis de vovó. — Por favor, eu não gosto de usar jóias, milorde. E muita... ostentação. Dalton ficou boquiaberto. — Mas é claro que diamantes e rubis são ostentação, Alicia. Você será uma duquesa! — Meu irmão são quase três horas da manhã! Se não dormirmos um pouco, estaremos muito cansados para planejar o casamento. — Sinto muito, perdoem-me. Mas não é toda noite que um homem fica noivo. — Sorriu. — Venha, Olívia. Vou levá-la para a mansão. Os joelhos de Alicia tremiam como gelatina quando ela se levantou e acompanhou-os até a saída. Não desejava um casamento fabuloso. Se fosse honesta, confessaria que não queria nem mesmo se casar, ainda mais com alguém tão poderoso com Dalton. Ela seria considerada uma "comedora de sapos", o termo usado para as mulheres pobres que conseguiam entrar para uma família rica. Estaria sujeita a conviver com todo tipo de indignidades, tão detestáveis como ter de engolir um sapo vivo. Porém, não podia ser egoísta. Tinha de continuar com aquela trapalhada, pelo bem da família. Seus pais estavam envelhecendo, suas irmãs nunca se casariam bem, a menos que tivessem um começo feliz. Ela própria nunca teria outra oportunidade. Precisava se casar com o duque de Wexton, e havia muito pouco a fazer quanto a isso. Viu Dalton ajudar Olívia a entrar na carruagem. Acima da folhagem densa das


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning aveleiras, o brilho dourado da mansão ainda reluzia. Ao final da semana, estaria lá, no baile com Dalton, enfrentando a duquesa, sua mãe. O coração de Alicia disparou no peito. Que Deus a ajudasse! Na manhã seguinte, um céu de chumbo e uma fina neblina saudaram Alicia, quando ela conduziu Bashshar do estábulo, pela trilha, em direção ao pavilhão. A área isolada, rodeada de árvores, era o lugar perfeito para treiná-lo, desde que Dalton concordara em permitir a ela um contato livre com o garanhão. Bashshar relinchou e jogou a cabeça para trás, num desafio teimoso, forçando as rédeas como que a avisá-la de que estava pronto para lhe testar a paciência. Em lugar das usuais palavras suaves, Alicia o ignorou, continuando a caminhar, entregue a seus pensamentos. O firmamento nublado combinava com seu ânimo. Durante as últimas horas, tentasse o quanto tentasse, não conseguira pensar em nada a não ser no horror que teria de enfrentar no baile daquele fim-de-semana. O cavalo parecia sentir seu estado de espírito. Observava-a com cautela, enquanto Alicia o conduzia para a arena, soltava a brida e, então, tomava lugar no centro do círculo. Bashshar pôs-se a escavar o solo assim que Alicia pegou a echarpe cheia de nós, a mesma que seu avô usava para treinar potros. Ela engoliu um princípio de choro. Devolver a Marston Heath o esplendor que tivera quando seus pais haviam se casado era um desejo com o qual nunca se atrevera a sonhar. Nos vinte e um anos de união, a bebida e o jogo em que o barão se afundara drenaram todos os lucros de Marston Heath, os domínios que ele recebera como dote da esposa. Além da perda de rendimentos, o barão Spencer jamais fizera reparos ou melhorias na propriedade, com exceção dos jardins, de que as mulheres e a pequena equipa de criados cuidavam. Seus olhos toldaram-se de lágrimas, mas seu peito encheu-se de esperança. Poderia restituir a grandeza de Marston Heath e deixá-la tal como quando seu avô a construíra. Sim, o sonho seria possível, quando se casasse com Wexton. Fitou Bashshar, que a observava com desconfiança do canto mais afastado. Relinchou e empinou o pescoço, com se procurasse chamar-lhe a atenção. Alicia tornou a ignorá-lo. Fechou os olhos, respirando fundo. A imagem de Dalton, o duque de Wexton, tornou-se nítida em seu íntimo. Um dos mais belos e ricos homens da Europa. Ele poderia se casar regiamente, se assim quisesse. Porém, escolhera-a. Alicia ainda mal podia acreditar. Dalton era arrogante, tinha ares pomposos, superiores. Ainda assim, possuía um outro lado que era bastante confuso. A despeito de sua natureza extravagante e voluntariosa, o duque demonstrava uma bondade extraordinária para com Bashshar, e parecia adorar a irmã. Bashshar soltou outro relincho, forçando Alicia a se concentrar no trabalho que tinha em mãos. Ela agitou a echarpe no chão, observando a reação do animal. O cavalo ergueu a cabeça, o olhar nunca se afastando do dela. Gotas de chuva começavam a pingar em seu rosto e Alicia baixou a cabeça, os braços ao longo do corpo. — Que espécie de homem é esse seu dono, Bashshar? Você confia nele. Obedece-o. Num momento, Dalton é a mais desdenhosa das pessoas e, no outro, pode ser tão carinhoso e gentil que quase parte meu coração. Que espécie de bicho se


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning comporta assim, dessa maneira tão peculiar? O pranto quente misturou-se à garoa em suas faces. Não, Dalton não a desejava como esposa. Ele queria um símbolo da desonra, para usá-la como um marco delimitador, detestável e repulsivo, para colocá-la como um obstáculo entre sua mãe e ele mesmo. O estômago de Alicia revolveu-se diante da constatação. Mesmo assim, não podia se aventurar a negar-se ao pedido dele, por mais que ansiasse por isso. Deus Todo-Poderoso, isso era pior que a vergonha original, da qual fora uma vítima inocente! Agora, aceitara o duque sem pensar duas vezes. Para sua desgraça, não tinha ninguém a quem culpar, a não ser a si própria. Por longos instantes, Alicia ficou de pé, cabisbaixa, de pálpebras cerradas, envolvida pela chuva incessante. De súbito, sentiu um suave toque roçar-lhe a palma direita. Abriu os olhos e viu Bashshar a seu lado. Estremeceu, incapaz de acreditar que o cavalo, por espontânea vontade, se aproximara dela. O focinho negro de Bashshar roçou-lhe os dedos, outra vez. A cauda agitava-se, de um lado para o outro, e suas orelhas apontavam para Alicia. As lágrimas agora eram de felicidade e ela as deixou correr livres. — Bashshar, querido — murmurou, levando a mão para acariciar a enorme cabeça. Com toques gentis, esfregou os pêlos húmidos e acetinados do pescoço do animal. Sentiu que a pele se arrepiava, sob seus dedos. O garanhão parecia sentir seu desespero, querendo confortá-la. Alicia enterrou o nariz no pescoço musculoso, tão forte. — Você percebeu minhas aflições e esqueceu o medo para me dar conforto. Com os braços rodeando a cabeça de Bashshar, Alicia permitiu que o choro a dominasse. E, pela primeira vez em muito tempo, deu-se o direito de sentir a profunda infelicidade que lhe consumia a alma. A névoa fina cobria Londres, enquanto a carruagem cor de ébano trepidava, percorrendo o calçamento da Regent Street. Embora estivesse viajando por três dias, Dalton sentia-se entusiasmado. Tudo corria de acordo com seus planos. Rememorando a primeira parte de seu trajeto, franziu a testa, ao se lembrar da reação do pai de Alicia. Aquele momento da jornada fora vergonhoso. Bastante dispendioso também. Neal Spencer exigira uma generosa pensão para si mesmo, explicando que o dom de Alicia constituía o núcleo da renda familiar. Se ela partisse, os parentes deviam ser compensados. Droga, o homem era um estroina sem escrúpulos! Não o surpreendera que Alicia fosse o esteio económico dos Spencer. Mas, ao se correr os olhos por Marston Heath, via-se que o barão gastava mais dinheiro nas cartas do que com os domínios. Praguejou baixinho. Como um homem egoísta como Spencer podia ser pai de uma mulher desprendida como Alicia? A constatação surpreendeu Dalton. Não podia negar que debaixo do orgulho teimoso dela havia uma natureza generosa, delicada. E generosidade era uma virtude rara entre as jovens que conhecia. Com exceção de Olívia. Quando o cocheiro parou o coche em frente à casa de três andares em estilo georgiano em Hampton Lane, Dalton pulou para fora e subiu os degraus da escadaria de entrada. Bateu na porta com a aldrava de bronze e esperou pelo mordomo de Lady Fresham. — Boa noite, Holmes — gritou, para o criado de ombros curvados e quase surdo,


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning que o atendeu. — Sykes está lá em cima? — Sim, milorde, mas... — Os olhos do velhinho arregalaram-se de surpresa — ele... está... — Tudo bem, Holmes. Assumo a total responsabilidade — afirmou Dalton, por sobre o ombro, caminhando para as escadas. — Vou subir. Holmes ficou estático e boquiaberto, sem condições de impedir que o recémchegado, em largos passos, subisse os degraus de mármore, dois de cada vez, até o andar superior. Ao chegar em frente à suite de Lady Fresham, Dalton bateu na porta. — Justin? É Dalton. Preciso vê-lo, depressa. Dentro do quarto, uma mulher sensual, de cabelos ruivos, puxou os lençóis de seda sobre os seios e dirigiu um olhar espantado para o belo rapaz deitado a seu lado. Um sorriso irónico espalhou-se pelo rosto bronzeado de Justin. — Dalton é você? — Sentou-se e apanhou a calça. — Entre, não faça cerimonia. Dalton adentrou o recinto às escuras. Cortinas de veludo marrom cobriam a janela, e a única luz vinha de um fogo baixo que queimava na lareira de mármore. Reclinada contra os travesseiros macios da imensa cama de dossel, a bela ruiva sorriu de forma sedutora. Dalton inclinou-se, numa mesura. — Célia, você é uma festa para os olhos. — Caminhou para o leito. — E se isso não fosse uma emergência, jamais me faria de intruso. — É claro que sim. — Os dentes muito brancos de Justin contrastavam com a face bronzeada. Célia afastou os longos cabelos dos ombros. — Fazia tempo que não o via, querido Dalton. Muito mesmo. Mas, agora que está aqui, por que não se junta a nós? Por alguma razão desconhecida, a ideia de fazer amor com a bela ruiva não lhe pareceu nada atraente. Porém, não desejava ferir-lhe os sentimentos. Encarou-a, malicioso. — Para me fazer recusar um convite tão excitante, só mesmo um assunto urgente, minha doçura. Os olhos verdes de Célia faiscaram de deleite, o orgulho satisfeito. Enviou-lhe um sorriso deslumbrante, devorando-o com os olhos, com descarada admiração. Justin terminou de vestir-se e caminhou até o espelho para amarrar a gravata. — O que há de tão urgente, amigo velho, que não lhe deixa tempo para Célia? — Franziu a testa, os dedos parando em meio ao nó. — Não me diga que um marido enciumado desafiou-o para um duelo, e você me quer para sua testemunha! Dalton gargalhou. — Céus, nada disso! Entretanto, isso lhe cairia bem, se eu precisasse. Lembro-me da última vez em que lhe servi de testemunha, quando lorde Kingsley encontrou-o com sua esposa. Quando apontou a pistola para Kingsley, você estava tão embriagado que quase atirou em mim. — Apenas me fingi de bêbado. Sabia que você era um atirador melhor que Kingsley e muito melhor que eu. — Seus dedos voltaram a amarrar a gravata. — Não continua zangado com aquela pequena aventura, não é? — Não, Justin. Porém, tenho certeza de que Kingsley não esqueceu, seu safado. Teve sorte de cair fora com a honra intacta. Célia bocejou, entediada. Ajeitou-se no colchão. — Quando voltará para mim, Justin? Justin sentou-se na beirada da cama e enfiou a bota esquerda. — Boa pergunta. Quanto tempo esse pequeno favor vai tomar, Dalton?


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Uns poucos dias. — Dias?! — Justin levantou-se, com a outra bota na mão. — No que está me metendo? — Explicarei mais tarde. Logo você estará de volta a Londres. — Dalton fez um gesto de despedida para Célia, aproximando-se da saída. Justin abotoou o colete e vestiu o casaco, atravessando a suite. — Muito bem, amigão. Isso vai pagar tudo o que lhe devo por ter me ajudado com Kingsley. — Voltou-se e enviou um beijo de despedida para a amante. — Guarde meu lugar, querida. Voltarei assim que for possível. E os amigos deixaram o quarto. — E bom que isso seja importante, Dalton. O marido de Célia está na caçada aos faisões na Escócia e só retornará na próxima semana. Nós dois sabemos que a dama não gosta de dormir sozinha por muito tempo. Dalton sorriu, descendo as escadas. — Eu lhe explicarei na carruagem. Por ora, deixe-me dizer-lhe que quero que me faça um favor muito importante. — Hum... Conhecendo você, eu diria que isso diz respeito a um cavalo ou a uma mulher. — Justin arqueou uma sobrancelha. — E, já que você tem o mais impressionante estábulo em toda a Inglaterra, adivinho que seu problema tem a ver com uma garota. Dalton soltou uma risada. — Acertou. Vou me casar, e preciso de sua ajuda. — Nunca pensei que ouviria você pedir minha ajuda nesse quesito! — Não é para mim, mas preciso que me auxilie com Elizabeth. — Então a danadinha conseguiu, enfim, amarrá-lo, hein? — Não, vou me casar com outra pessoa, e quero que você me ajude a manter Elizabeth ocupada, digamos assim, enquanto anuncio meu noivado, amanhã à noite. Ao chegarem ao pé da escada, Holmes lá estava, esperando, com uma bengala, uma cartola e luvas na mão. — Obrigado, Holmes. — Justin apanhou os acessórios e deixou na mão do idoso criado uma moeda brilhante. Já dentro da carruagem que os aguardava, Justin quis saber: — De todos seus outros amigos inúteis, por que sou o encarregado de ajudá-lo com Elizabeth? Ela e eu nada temos em comum, a não ser a aversão mútua, como você bem sabe. — Quero mantê-la longe do baile em que anunciarei meu casamento. Não é minha intenção humilhá-la em público. Quando Elizabeth souber que meus planos não a incluem, temo que abra os portões do inferno. — Prefiro enfrentar Kingsley com as pistolas carregadas a Elizabeth! — Isso porque ela atira melhor que você. Bem, antes que eu lhe conte tudo, digame. Você se lembra, há vários anos, de ter sido envolvido num escândalo que dizia respeito a uma jovem que acabara de ser apresentada à sociedade? Isso aconteceu na casa de minha mãe, em Londres. O nome da jovem era... — Alicia Spencer. Uma dama que nenhum homem esqueceria com facilidade. Dalton hesitou. — Do que se lembra do incidente, Justin? — Espero que não se ofenda, amigo, mas... — Os olhos de Justin tornaram-se duros e ele pigarreou. — Não gosto de falar mal da mãe de ninguém, porém... acredito que a sua querida mãezinha preparou uma boa armadilha para aquela pobre garota. — E isso mesmo que Lady Alicia alega. — Foi numa soirée realizada na mansão da duquesa, na capital. A festa havia


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning apenas começado, e Drake e eu tínhamos tomado alguns drinques. Drake me disse que a duquesa o estava pressionando para que pedisse a mão de Elizabeth, e isso o incomodava. Ele, eu e todos os outros homens não podíamos afastar os olhos daquela adorável criatura que acabara de chegar. Era Alicia Spencer, a filha de um barão, mas ninguém sabia muito sobre sua família. Sua avó a trouxera, e, pelo que se dizia, a velhinha fora alguém importante, em seus dias de glória. De qualquer forma, Drake ganhou a primeira dança com Lady Alicia, para desgosto de Elizabeth e de Lady Mildred. O cartão de Lady Alicia encheu-se mais depressa do que consigo beber uma caneca de cerveja. E fiquei bebendo, a um canto. Afinal, não podia competir com tantos camaradas mais ricos. Mais tarde, esgueirei-me do salão para dormir. Justin respirou fundo, fazendo uma pausa. — A próxima coisa que sei é que aquela comoção toda me acordou. Recordo-me de sua mãe inclinando-se sobre minha cabeça e suas amigas gritando como harpias. Pobre Lady Alicia! Estava indefesa no meio daquelas aves carniceiras. Mesmo em minhas condições, ainda posso me lembrar de seu rosto adorável. Coisa rara aquela criatura. Às vezes me pergunto o que aconteceu a ela. Dalton sorriu. "Ainda é uma raríssima, meu caro." Relanceou os olhos para o homem sentado a seu lado. — Alicia alega que minha mãe mandou-a de propósito até aquele quarto, o que mamãe nega, e que nada aconteceu entre vocês. — Eu não a toquei, Dalton. — Acredito em você. — Depois, uma confusão pavorosa se instalou. Fiquei com muito dó da garota. Ofereci-lhe casamento, julgando que isso satisfaria aquele bando de urubus, mas ela não aceitou. — Meneou a cabeça. — Lady Alicia e o resto de sua família partiram direto para casa. Justin recostou-se, pensativo. — Acho que a duquesa fez isso para tirar Lady Alicia de uma vez por todas do páreo. Ela não queria que Drake pensasse duas vezes com relação a Elizabeth. — Olhou pela janela da carruagem, pensativo. Então, voltou-se para Dalton. — Diga-me, por que está tão interessado nisso? — Vou me casar com Lady Alicia. — Ora, ora! Gostaria de ter visto sua mãe quando você contou a novidade! — Ela ainda não sabe. Na verdade, ela acha que anunciarei meu noivado com Elizabeth. — Piscou para Justin. — E aí que você entra, meu amigo. — Ah! — As pupilas de Justin cintilaram. — Céus vou me divertir demais! A carruagem sacolejava pela estrada, percorrendo os últimos quilómetros. Ia a uma boa velocidade, apesar da chuva persistente que não dava sinais de trégua. No silêncio do interior do veículo, ouvia-se o ressonar suave de Justin, recostado contra as almofadas. Dalton olhou pela janela. Cruzavam agora a ponte de pedra sobre o rio que fazia divisa, ao norte de Havencrest. Estava ansioso para chegar. Queria rever Alicia. O pensamento pegou-o de surpresa, e se apressou a expulsálo. Lógico que estava impaciente para vê-la. Ela também devia estar querendo saber as notícias que ele trazia de seu pai. Ficaria contente em ouvir que sua família estava bem e ansiosa para visitá-la em Havencrest. A quem estava tentando enganar? Queria ver Alicia porque não conseguira esquecer-se dela, da última vez que a vira, parada no jardim. Em seu vestido de corte justo, de seda cor de jade, estava tão tentadora como uma feiticeira, banhada de luar,


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning com seus fartos cabelos ruivos derramando-se em cascata sobre seus ombros. Mas, além de seu porte altivo, um orgulho ferido queimava em seus olhos escuros. Dalton tivera vontade de confortá-la, acalmá-la e convencê-la de que ela nada teria a temer, uma vez que estivessem casados. Alicia sofrerá terríveis indignidades por obra e arte da duquesa. E, se o plano de Dalton funcionasse, Alicia jamais voltaria a se sentir inferior a ninguém da sociedade. Se seu plano funcionasse. Rejeitou a possibilidade de fracasso. Claro que iria funcionar. Não permitiria que nenhuma dúvida idiota toldasse seu ânimo, como as nuvens da tempestade escureciam o céu. Porém, não podia afastar essa impressão. Alicia poderia jamais perdoá-lo se acreditasse que ele resolvera casar-se com ela só para se vingar da mãe. E isso ele não poderia suportar. — Esta será sua suite, Alicia — disse Olívia ao entrarem no enorme aposento acarpetado em tons de azul. — Meu quarto fica do outro lado do hall. Sabe, sempre quis ter uma irmã... Alicia correu os olhos admirados, paralisada diante do esplendor do magnífico aposento. A cama era mais larga que seu quarto, em Marston Heath, concluiu, com uma risadinha nervosa. Olívia abriu uma outra porta e entrou numa alcova repleta de espelhos. — Este é seu closet. Do lado oposto, sua sala de descanso. E aqui... — Cruzou o recinto e abriu outra porta. —...é uma saleta para a criada. Olívia deu um rodopio. — Devo avisá-la de que esta suite faz face para o leste. Você vai ser acordada pelo sol da manhã. Eu prefiro dormir até mais tarde. Alicia caminhou pelo quarto, os sapatos afundando no espesso tapete. — Nunca vi um quarto tão luxuoso, Olívia. Examinou a delicada textura do papel de parede, de um tom suave, em exata combinação com o tapete. Ao voltar-se para Olívia, percebeu que ela a observava com atenção. — Tem alguma expectativa romântica a respeito do casamento com meu irmão, Alicia? — Ora, não, por que eu teria? — Alicia teve esperanças de que sua voz não traísse seus verdadeiros sentimentos. Sentiu-se desconfortável e, por um instante, desejou ter ficado na cabana, em vez de ter concordado em vir preparar-se para o baile, na mansão. Olívia inclinou a cabeça, pensativa. — Creio que qualquer mulher quer estar apaixonada quando se casa. — Pressionou a têmpora com a ponta dos dedos. — Sei que não teve tempo para conhecer Dalton, mas acho que vocês vão se dar muito bem. — Seu irmão e eu concordamos com um casamento de conveniência. — Sei o que meu irmão disse. — Olívia sentou-se num sofá. — Mas Dalton nunca conheceu o amor. Oh, claro, houve muitas mulheres... Levou a mão à boca. — Perdoe-me, querida. — Ficou ruborizada. — Não pretendia chocá-la. — Compreendo que Dalton e Elizabeth tenham... Creio que ele se referiu a isso como um entendimento. — Ah! Não havia nada entre os dois! — Olívia fez um gesto de desdém. — Não sei por que, mas Dalton tem horror a Elizabeth. Sorriu, revelando as covinhas iguais às do irmão. — Sempre quis muito que Dalton descobrisse o amor, a única coisa que pode


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning curar tudo o que o atormenta. — E o que atormenta seu irmão? — Desde que posso me lembrar, Dalton mostra-se retraído, mesmo rodeado de gente. Amava nosso pai e nosso tio George. Titio morreu na guerra. Eu era muito jovem, mas creio que Dalton sempre sentiu falta dele. Papai estava sempre envolvido em grandes negócios. No ano passado, morreu. Nós já tínhamos perdido um irmão. São tantas coisas dolorosas... Olívia mordeu o lábio e levantou-se. — Basta de tristezas! É hora de nos prepararmos para o baile. Oh, Alicia, quando as criadas terminarem de ajudá-la a se vestir, você será a dama mais bonita da festa. Vamos começar preparando seu banho. CAPÍTULO VII Passava da meia-noite quando Dalton subiu correndo as escadas, de volta a seus aposentos, em Havencrest. Sabia que sua mãe deveria estar furiosa por ele não estar a seu lado, atendendo aos convidados. Mas sua ausência não pudera ser evitada. Tivera de se certificar de que Elizabeth não estaria no baile no momento em que seu noivado com Alicia fosse anunciado. O duque rechaçou o peso da consciência ao recordar-se da maneira ansiosa de Elizabeth, poucos momentos antes, atender às palavras cuidadosas de seu bilhete para encontrá-lo. Sentira-se como um crápula, escondido no jardim, espreitando-a correr pelo atalho iluminado pelo luar, a caminho da garagem das carruagens. Uma pontada de remorso o atingiu, ao imaginar o choque e a sensação de traição quando a jovem descobriu que era Justin quem a esperava. Bem, que escolha lhe restara? Podia confiar na discrição de Justin e, se tudo corresse de acordo com os planos, a reputação de Elizabeth não seria maculada. Quando a carruagem com Justin e Elizabeth por fim se afastara, com Ulger dirigindo os cavalos nervosos, Dalton não sentira alívio algum. Planejara esse engodo para o próprio bem de Elizabeth, recordou a si mesmo. Se pelo menos ela o perdoasse, algum dia... Era a única maneira de protegê-la do constrangimento. Agora, era rezar para que o restante do plano funcionasse. Ao chegar à suite, o traje já estava sobre a cama. Seu mordomo preparava-lhe o banho. — Mande um recado à criada de minha irmã dizendo que já voltei, Ives. — Lady Olívia pediu que o chefe dos estábulos a avisasse assim que sua carruagem chegasse, milorde. Eu mesmo me encarreguei de passar-lhe as instruções. — Excelente! — Dalton sorriu. Estava preocupado com Alicia, mas, sem dúvida, Olívia cuidava dela a contento. Tinha de concordar com a irmã nesse ponto. A duquesa e suas amigas tratariam de acabar com Alicia se imaginassem que a Lady compareceria ao baile. Dirigiu-se à escrivaninha e apanhou uma folha de papel, escrevendo um recado. — Tão logo saia daqui, Ives leve isto a Lady Alicia, e certifique-se de que ela o receba. — Dobrou o bilhete e selou-o com o lacre vermelho, colocando-o sobre a mesa. Despiu-se e caminhou para a banheira. A água fumegante envolveu-o quando entrou e inclinou-se para trás, inalando o aroma de sândalo do óleo que Ives espargira na banheira. O criado aproximou-se e colocou uma dose de conhaque num copo largo de cristal, deixando a bebida numa bandeja de prata, ao alcance de Dalton.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Obrigado, Ives. — O duque provou o líquido âmbar e, em seguida, inalou seu buquê. — Alguma coisa aconteceu em minha ausência? — Esta manhã, durante o desjejum, ouvi quando lorde Templestone perguntou a nossa patroa se o senhor iria estar aqui, esta noite. Dalton sentiu um aperto no estômago. Templestone era um viúvo muito esperto, um aproveitador, cujos casamentos o tinham tornado rico. Tomou um gole. — O que minha mãe respondeu? Ives recolhera as roupas espalhadas, e agora polia as botas de Dalton. — Ouvi quando milady afirmou que o senhor anunciaria seu noivado no baile, hoje. — E o que Templestone disse? — Que no dia em que o senhor anunciasse seu casamento, sir... — Ives fez uma pausa, os olhos baixos, concentrado no trabalho. — Os porcos criariam asas. Dalton soltou uma gargalhada. — Que pena eu não estar aqui para ver a reação de minha mãe! As feições de Ives continuaram impassível. — Nem me diga, milorde. Dalton ficou a imaginar se Templestone iria partir para a Escócia junto com os amigos da duquesa. Então, recordou-se de que isso não era da sua conta. — É tudo, Ives. Eu me vestirei sozinho. — Muito bem, sir. — Ives deixou as botas, já brilhantes, ao lado da cama, e apanhou o bilhete para Alicia, antes de sair do quarto. "Não posso prosseguir com isso!" Vestida num penhoar de seda cor-de-rosa, Alicia mordeu o lábio e olhou para o espelho, vendo o reflexo pálido de si mesma. Marie, a criada de Olívia, penteara-lhe os cabelos na última moda. Prendera a cabeleira para trás, arrumando os cachos cor de fogo no alto da cabeça, seguros por um fio de pérolas. Os olhos castanhos de Alicia pareciam imensos no pequeno rosto oval. Cerrou as pálpebras, a garganta apertada como se o pavor ameaçasse sufocá-la. "Não posso continuar. Não posso!", repetia, quando um arrepio percorreu-lhe a espinha. Fora uma tola de ter aceitado a proposta de Dalton, e uma tola ainda maior de pensar que a sociedade não a expulsaria do salão como a um cachorro faminto implorando por migalhas. Olívia entrou no quarto. Vestia num traje azul de cintura alta, que combinava com seus olhos. Bateu palmas, ao ver Alicia. — Querida! Oh, Marie, você se superou! — Lady Alicia tem cabelos que brilham como seda, minha senhora — elogiou Marie, com seu forte sotaque francês. — Mal posso esperar para ver Dalton quando ele a encontrar. — Olívia levou tocou o rosto. — Antes que eu me esqueça, chegou este recado para você, Alicia. O mordomo me pediu para entregá-lo em suas mãos. — Estendeu o papel dobrado. Alicia tomou o bilhete, quebrou o lacre, e pôs-se a ler: “Minha queria Alicia. Procure não ficar preocupada. Estarei a seu lado a cada passo. Seu criado devotado, Dalton". Ela engoliu em seco e amassou o papel. Procurar não se preocupar? O que Dalton sabia sobre preocupação? Devia estar adorando a sensação de aborrecer a mãe e seus amigos. Mas não seria ele o objeto dos cochichos e o alvo das caçoadas. Fechou os olhos de novo, para não ver o medo estampado em seu semblante, no espelho. Deus Todo-Poderoso, onde encontraria a força necessária para passar por aquela


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning penitência? Dalton terminou de se vestir e pediu a um mensageiro que avisasse Olívia de que estaria esperando lá em baixo. Descendo a escadaria sinuosa, a melodia de uma agitada música regional vindo encontrá-lo. Cumprimentou os vários grupos de rapazes que se espalhavam ao longo da mesa de bebidas, observando os dançarinos no salão de baile próximo. Sua ansiedade aumentava. Alicia devia ter passado um dia terrível. Se pelo menos Mildred reagisse ao anúncio de noivado como ele esperava, tudo ficaria bem. Se não, talvez Alicia jamais o perdoasse. Aproximou-se de um criado. — Leve um recado à suite de Lady Olívia e diga a ela... — Estou aqui, irmão. — Olívia correu para ele, os cachos loiros roçando-lhe os ombros rosados. — Dalton estou tão contente por encontrá-lo! A pobre Alicia está nervosíssima, e não posso culpá-la. Não sei se terá coragem de descer. — Onde está ela? — Em minha suite. Acho que é melhor você deixar essa ideia de lado antes que seja tarde. Antes que o duque pudesse responder, um murmúrio chamou-lhe a atenção para o alto da escada. Descendo os degraus de mármore vinha a jovem mais bela e elegante que ele já vira. O duque perdeu o fôlego ao descobrir que era Alicia. Usando num traje de seda branco, bordado de prata, estava magnífica. As pregas suaves do tecido moldavam-lhe as curvas femininas a cada passo. Os cachos faiscavam em torno de seu rosto radiante, os longos cabelos presos no alto da cabeça numa coroa de pérolas. Descia os degraus com a desenvoltura e a graça naturais de uma rainha. — Quem é ela? — Sussurravam os muitos homens que se reuniram em torno de Dalton. Alicia o fitou, e Dalton endereçou-lhe um sorriso lento, o coração quase explodindo de orgulho. Ela chegou ao último degrau e colocou-se a seu lado. — Esta é Lady Alicia Spencer. — O duque tomou-lhe as mãos enluvadas. — Minha futura esposa. — Você é um sujeito de sorte, Dalton — cumprimentou-o Robert Seabrook, o marido de Olívia. — Minhas congratulações. — Obrigado, cunhado. Dalton parecia inebriado com a visão de Alicia. Viu que ela respirava fundo. Através das luvas, seus dedos estavam frios como gelo. A pobrezinha estava aterrorizada. Tremia, embora o sorriso encantador não lhe abandonasse a face. — Você está linda. As pupilas de Alicia faiscaram de prazer quando puseram-se a caminhar para o salão. Dalton ficou a pensar se ela fazia ideia do efeito que causava sobre todos os cavalheiros presentes. Deduziu, então, que Alicia era inocente demais para imaginar. Ela o fitou por baixo dos longos cílios, e o duque não pôde evitar um sentimento de admiração. A bela jovem sabia se comportar sob pressão. — Parabéns, Dalton! — Lorde Theodore Clitheridge curvou-se num mesura diante de Alicia. — E meus melhores votos de felicidades, milady. Dalton reconheceu lorde Teddy, conhecido por seu amor aos cavalos velozes e às belas mulheres. Teddy se apressara, junto com Templestone e os amigos de Elizabeth, a aproximar-se de Alicia. Antes que Dalton pudesse dizer alguma coisa, Alicia respondeu: — Lorde Clitheridge, que gentileza a sua...


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Os olhos de lorde Teddy cintilaram como se tivesse sido pego de surpresa, mas, mesmo assim, estivesse satisfeito por ela ter se lembrado de seu nome. Dalton sentiu um renovado orgulho por aquela garota bem-educada e charmosa, que seria sua esposa. — Desculpe-nos, Teddy, — Dalton livrou-se do convidado e voltou-se para Alicia. — Venha, minha querida. A orquestra está tocando uma música regional. Pode me dar a honra? Ela aquiesceu, e ele tomou-a nos braços. — Olhe apenas para mim, Alicia. Dalton estava atordoado. A luz profusa dos candelabros parecia realçar o encanto das faces rosadas e o nariz arrebitado de Alicia. Os fios ruivos, tão suaves, balançavam ao ritmo da melodia. Puseram-se a rodopiar, e o duque tomou consciência dos olhares interessados dos casais e do burburinho. Perguntas circulavam de boca em boca, e os dançarinos recuaram, indo juntar-se à multidão de espectadores. Em minutos, Dalton e Alicia eram o único par dançando. — Você está fantástica, milady. O que mudara nela? Ou Alicia sempre fora assim, arrebatadora? Alicia sorriu, e Dalton percebeu que ela era dona de um certo ar, de uma certa confiança que ele nunca notara antes. Estava fascinado com a elegância natural e a desenvoltura régia que emanavam dela. A música terminou, e Dalton sentiu um grande desapontamento. Ao deixarem a pista, Olívia e Robert se aproximaram. — Acho que você deveria fazer o anúncio agora, meu irmão. Olívia e o marido ficaram junto dele. Dalton percebeu que os dois estavam dispostos a sofrer as consequências, caso a duquesa resolvesse fazer uma cena, quando ouvisse as novidades. Uma forte gratidão pela lealdade que lhe demonstravam aqueceu-lhe o peito. Voltou-se para o cunhado. — Tem certeza do que está fazendo, Robert? Ainda há tempo para você e Olívia se afastarem. Os olhos de Robert, de um cinza escuro, mostravam altivez. — Estaremos com você, e Lady Alicia. Afinal, para que servem os amigos, não é, minha querida? — Indagou à esposa — Estaremos aqui, sempre, minha cara! — Olívia se dirigia a Alicia. Depois, ao irmão. — E melhor se apressar. Mamãe está olhando para cá. Dalton correu o olhar ao redor. Cercada de alguns dos membros mais influentes da sociedade, a duquesa encontrava-se sentada a um canto, muito pálida. Os dedos, brancos nas juntas, apertavam o cabo cravejado de diamantes de sua bengala. A orquestra se calou. Dalton tomou a mão de Alicia e conduziu-a ao centro do salão. Ao ver que tinha a atenção de todos, pronunciou-se, em voz bem alta: — Damas e cavalheiros é meu privilégio esta noite anunciar meu noivado com esta adorável jovem, Lady Alicia Spencer. Seguiu-se um instante de comentários engasgados e, então, os convidados irromperam numa polida salva de palmas. Dalton beijou a mão de Alicia, que esboçava um sorriso nervoso. Vários casais se aproximaram. — Nunca vi uma jovem tão bela e tão charmosa — disse lorde Teddy, tendo ao lado tia Mary. Dalton deu uma piscada para Alicia, quando a viu corar diante do elogio. Tia Mary, vestida num traje púrpura recamado de ouro, aproximou-se. — Minha querida, estou feliz em lhe dar as boas-vindas em nome da família. Dalton deixou escapar um suspiro profundo. Tia Mary estivera presente quando


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Alicia fora encontrada ao lado de Justin Sykes. Receber a aprovação da matriarca dos Warfield era um grande trunfo. Se pelo menos sua mãe... Olívia e Robert foram os próximos a apresentar os cumprimentos. Seguiu-se um silêncio desconfortável, e todos os olhares se voltaram para a duquesa. Minutos se passaram, e os murmúrios tornaram-se ensurdecedores, enquanto Dalton esperava que Mildred decidisse o que fazer. Ele acariciou a palma de Alicia, buscando transmitir-lhe um pouco de coragem. Mas não pôde evitar pensar que cometera um erro trágico. Com um simples erguer de cabeça, sua mãe poderia arruinar tudo e destruir a moça inocente a seu lado. O sorriso de Alicia permaneceu inalterado, seus olhos castanhos fixos sobre a mulher que a enganara de forma tão traiçoeira. A duquesa encarou Olívia e Robert, que ladeavam Alicia, e, em seguida, a cunhada, tia Mary, e lorde Teddy. A matriarca arqueou uma sobrancelhas, desafiadora, como se provocasse a duquesa a ousar destratar Alicia depois de sua aprovação. Dalton quase podia sentir a duquesa vergando sob o peso do dilema, se valeria mais a pena ou não rejeitar Alicia e ofender uma das mais idosas e mais respeitáveis figuras da sociedade. Apoiando-se no braço de Templestone, a duquesa respirou fundo e aproximouse. Dalton ficou a imaginar se seria possível que sua mãe tivesse perdido a fala. Enfim, ela falou com Alicia: — Bem-vinda, srta. Spencer. — Sua voz agradável não revelava nada da animosidade estampada em sua face. Dirigiu a Dalton um daqueles olhares que dizia "este assunto está longe de estar encerrado" e, então, saiu, sem esperar resposta. Alicia curvou-se, numa reverência, e, em seguida, tomou seu lugar, com Dalton, enquanto Templestone conduzia a duquesa de volta a sua cadeira. Dalton percebeu que sua testa estava molhada de suor frio. Enxugou o rosto com um lenço. — Belo espetáculo. — E abraçou sua noiva pela cintura. — Posso ter o prazer desta dança? — Lorde Teddy pediu, oferecendo o braço a Alicia, que aceitou. Foi com uma pontada de vaidade que Dalton ficou a observar a noiva na pista de dança. Todos os olhares masculinos estavam sobre Alicia, que, conduzida pelo conde, executava os passos elaborados da dança com graça e destreza. Robert chegou perto do duque. — Tenho um recado para você, Dalton. Sua mãe exige sua presença. — Obrigado, Robert. Com licença. Dalton atravessou o salão, a cada instante parando para agradecer os votos de felicidades. Ao se aproximar de Mildred, ela segurou-o pelo braço e o conduziu para a varanda. Ao ver que estavam sós, confrontou-o. — Onde está Elizabeth? A criada me disse que a jovem saiu da mansão depois de receber um bilhete seu. — Foi passar a noite na cabana de caça, com Justin Sykes. Acho que dar o troco faz parte do jogo. Afinal, foi com Sykes que você arruinou o ingresso de Alicia na sociedade, não foi, mamãe? — Como pôde?! — Fiz um favor a Elizabeth, para que não presenciasse meu noivado com Lady Alicia. Achei que você fosse aplaudir meu gesto de cavalheirismo. — Isso não é brincadeira, Dalton! Você não vai prosseguir com essa... — Se tentar evitar o compromisso, eu mesmo me encarregarei de ver a


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning reputação de Elizabeth enlameada. Veja bem, há testemunhas idóneas para a noite romântica de Elizabeth com Sykes que apresentarão provas, se eu pedir. Se quiser que a honra de Elizabeth permaneça imaculada, não fará nada para ferir Alicia. Estamos entendidos? — Você é desprezível! — Agradecido. — Dalton fez uma reverência. — Tive como professora uma especialista no assunto. Mildred o olhava com ódio. — Muito bem, Dalton. Eu, porém, me recuso a honrar seu casamento com minha presença. — Segurou a bengala e deu-lhe as costas, afastando-se, os calcanhares batendo nas pedras do terraço. Apesar das palavras duras que lhe dissera, Dalton não se sentia feliz. Se sua mãe se recusasse a comparecer ao enlace, Alicia poderia sentir-se muitíssimo ofendida. Porém, não havia escolha. A orquestra começou a tocar uma animada polca, e Dalton retornou ao salão, para reencontrar Alicia. Uma multidão de cavalheiros a circundava, cada um deles pedindo para si a dança. Ela sorriu, ao vê-lo. — Gostaria de um pouco de ar, milorde, por favor. Dalton tomou-lhe a mão. — Com licença, senhores. A dama precisa descansar. Lá fora, Alicia voltou-se para encará-lo. Notou que Dalton sorria, os dentes muito brancos contrastando com a pele bronzeada. Sentiu seus dedos quentes através do braço coberto pela luva, enquanto ele a conduzia por entre os casais que por ali caminhavam. Ao chegarem a uma parte mais retirada da varanda, Alicia relaxou um pouco. Ao luar, Dalton ficava ainda mais atraente, de fraque preto e de colete, que lhe acentuavam o porte atlético. As pernas musculosas pareciam uma escultura na calça de corte perfeito e com as botas pretas de cano alto. Sua camisa branca, de pequenos babados, e mais a gravata de renda contrastavam com seus cabelos escuros e a beleza morena. Sua pele exalava um aroma masculino de conhaque e sândalo. Os olhos azuis a estudavam de uma maneira perturbadora, fazendo-a experimentar um arrepio que era, ao mesmo tempo, de alarme e de excitação. — Estou muito orgulhoso de você. — Dalton acariciou-lhe o braço. Alicia lutou para pensar em algo que a libertasse da estranha e inesperada sensação de calor que a dominou. — Eu esperava ver Elizabeth no baile, milorde. Uma expressão estranha toldou o rosto de Dalton. — Quem sabe ela esteja embaraçada por causa do comportamento indiscreto com lorde Rothbury. — Ah... Imaginei que talvez Elizabeth não desejasse estar presente quando nosso noivado fosse anunciado. — Observou o semblante dele, buscando confirmação, mas Dalton escondia o que lhe ia no íntimo sob aquele sorriso bonito, de novo. — Acho que mamãe portou-se com muita gentileza — Dalton decidiu mudar de assunto. — Você não acredita, nem por um momento, que a duquesa me aprova, não é? Ele cerrou os maxilares. — Minha mãe poderá surpreendê-la. Mas não vamos falar disso, hoje. Dalton estava prestes a beijá-la. Uma súbita timidez a assaltou, e Alicia quis voltar-se para o outro lado. — Olívia deve estar imaginando o que aconteceu comigo... — Alicia... — Dalton puxou-a para mais perto, os cílios ocultando as íris azuis. —


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Não tenha medo de mim. — Não tenho medo, sir. Não tenho medo de você — repetiu, com mais firmeza. Dalton prendeu-lhe o rosto com as mãos. — Então, o que teme? "Apaixonar-me por você." Alicia engoliu em seco, diante da verdade. Sim, descobrira-a desde a primeira vez em que o encontrara, em Marston Heath. Podia apaixonar-se com extrema facilidade por aquele homem tão fascinante. E, se isso acontecesse, teria o coração partido quando Dalton a deixasse. E a deixaria, assim que o acordo matrimonial tivesse sido completado. — Olhe para mim, Alicia. Recusar-se a obedecê-lo viria apenas provar que ela estava com medo. Assim, fitou-o, e a chama do desejo, refletida nos olhos claros tirou-lhe o fôlego. Os lábios de Dalton desceram sobre os dela. A pulsação de Alicia disparou, quando o duque a abraçou, aninhando-a contra si. Podia sentir os babados engomados de sua camisa através da seda que lhe cobria os seios sensíveis. Dalton a apertou ainda mais, o hálito quente mesclando-se ao dela. Alicia entreabriu os lábios e a boca ávida se apossou deles com ímpeto voraz. Alicia ergueu os braços e enlaçou-o pelo pescoço, enquanto as mãos de Dalton deslizavam por suas costas e desciam até os quadris. Arrepios de desejo correram-lhe pela espinha. As mãos dele desceram mais, atrevidas, e Alicia o empurrou. — Por favor, sir... pare! — Estamos noivos, minha querida. Você com certeza sabe o que se passa entre marido e mulher, não é? — Ainda não sou sua esposa. — Empurrou-o outra vez. No fundo, não queria que ele se afastasse. Forçou-se a dar um passo para trás, arrumando o vestido. — O jantar vai ser anunciado em breve. Estão esperando por nós. — Podemos fazer qualquer coisa que desejarmos. — Provocante, o duque a puxou. — E claro que você pode. Você é o duque. Sou eu que a sociedade vai julgar sob aqueles olhares de crítica. — Marcou um ponto, Alicia. Muito bem, querida. — Segurou-a pelo braço e conduziu-a adiante. — Mais tarde, porém... Dalton dirigiu-lhe aquele olhar penetrante que aqueceu Alicia ainda mais. Ela lutou para recuperar o sorriso, ao acompanhar o noivo em direção ao salão. Teria de enfrentar a duquesa e seus amigos. Mas, se permanecesse na varanda com Dalton, teria de encarar seus próprios demónios. Já enfrentara antes os inimigos e os derrotara. Podia conseguir, de novo. Com Dalton, porém, era outra questão. CAPÍTULO VIII Os primeiros raios de sol infiltravam-se pela fresta das cortinas de veludo, salpicando de dourado a colcha de cetim azul. Alicia tirou o vestido de baile e voltou-se para a criada, que a ajudava. — Por favor, Marie abra as cortinas. Adoro ver o céu ao amanhecer. — Mon Dieu, milady! — Disse Marie, pendurando o traje de noite num cabide. — Se eu fizer isso, a senhorita não conseguirá dormir, com o quarto ensolarado. — Não estou com sono. — Alicia suspirou. Como explicar a Marie? Estava excitada demais para deitar-se. Queria ficar sozinha com seus pensamentos. Podia


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning ainda ouvir a música inebriante, ver o belo rosto de Dalton sorrindo para ela ao dançarem. Não, não queria desperdiçar um momento dessa gloriosa sensação dormindo. — Preciso ver Bashshar, Marie. Alicia sabia que os convidados iriam dormir até mais tarde. Os estábulos e as trilhas de passeio estariam desertos. Portanto, era a hora perfeita para trabalhar com o garanhão. — Ah, então vou apanhar sua roupa de montaria. Quer o azul ou o marrom? — Nenhum dos dois. Usarei minha roupa comum, e posso me vestir sozinha. — Alicia esperou que a criada não perguntasse qual vestido seria. Não havia jeito da francesinha entender por que uma dama gostava de vestir-se com calça e camisa solta. Alicia sentou-se em frente à penteadeira e começou a retirar os grampos. Pelo espelho, pôde ver o ar de espanto de Marie. — Milady, isso é trabalho para mim. — Marie correu para perto e pôs-se a soltarlhe a cabeleira, removendo com cuidado o fio de pérolas dos fios vermelhos. Enquanto a criada tagarelava, a mente de Alicia se voltou para os acontecimentos da véspera. Estremeceu ao se lembrar de como eram fortes e envolventes os braços de Dalton, quando ele a abraçara, quando a beijara... — Prendo os cabelos no alto ou devo amarrá-los para trás, com uma fita? Arrancada de seu devaneio, Alicia pestanejou. — Eu... eu mesma vou me pentear, Marie. Obrigada. Agora quero que saia e vá descansar um pouco. Marie abafou um bocejo. — Está bem, milady. — Fez uma mesura e se foi. Com seus dedos práticos, Alicia fez uma longa trança. Sorriu, feliz com a lembrança do olhar cheio de orgulho de Dalton diante de seu sucesso. Quem haveria de imaginar que ela pudesse divertir-se com a mãe e os amigos de Dalton no mesmo ambiente? Contudo, divertira-se graças a Dalton. Enfiou-se na calça de couro e pôs uma camisa de algodão. Calçou as botas e, em seguida, saiu, pé ante pé, pelas escadas até o jardim que levava aos estábulos. Quando entrou na baia de Bashshar, o garanhão jogou a cabeça para o alto, numa saudação. — Bom dia, beleza! — Alicia afagou o pescoço acetinado do animal. Ele esfregou o focinho em seu braço, enquanto Alicia colocava-lhe o freio na boca. Quando o conduzia para o padoque, o cavalo, de súbito, relinchou, nervoso. Alicia olhou ao redor, mas não havia ninguém ali. Sentiu um aperto no peito. Nos últimos dias, fora capaz de levar Bashshar para a arena aberta sem que o garanhão entrasse em pânico. Então, de repente, uma figura encapuzada, usando uma capa marrom, surgiu, esgueirando-se pela lateral do estábulo. A princípio, Alicia ficou aliviada em descobrir uma razão lógica para o alarme de Bashshar, mas, quando a criatura jogou para trás o capaz, reconheceu Elizabeth, que trazia no rosto fechado uma expressão dura e agressiva. — Tenho uma coisa a dizer a você. Bashshar jogou a cabeça para o alto, como se fosse empinar. Alicia não teve certeza de poder controlá-lo. — Calma, amor — Alicia pediu, com suavidade, acariciando-o. Voltou-se, para Elizabeth. — Por favor, afaste-se para que eu possa levá-lo de volta para a baia. Então, poderemos conversar. — Não é preciso. Não tenho medo dele.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning As orelhas de Bashshar se empinaram, seus olhos mostrando um halo esbranquiçado. — Pois deveria ter — retrucou Alicia, num tom tranquilo, não obstante sua preocupação. — Não posso manejar o cavalo se você não se afastar de sua linha de visão. Recue, estou dizendo. — Não, enquanto eu não falar o que quero. — O laço da capa de Elizabeth soltou-se, revelando um vestido verde. Parecia estar com o mesmo traje de baile da noite anterior. Alicia fechou os dedos na rédea de Bashshar e procurou tranquilizar o cavalo. — Está bem, mas fale em voz baixa. Bashshar fez um movimento que quase ergueu Alicia do chão. — Você pode até se casar com Dalton, mas nunca ficará com ele. Todos sabem que Dalton se diverte com essas pequenas piadas, mas, escolher uma cavalariça como esposa é ridículo demais. Alicia ficou rígida. — Agora que já disse o que queria, por favor, saia daqui. Está perturbando Bashshar. — Eu cuidarei de Bashshar! De soslaio, Alicia viu que a jovem tirava um chicote de dentro da capa. Bashshar também viu e recuou, relinchando. — Elizabeth afaste-se! — Ordenou Alicia, tentando segurar a rédea, mas sabendo que não teria força suficiente. Elizabeth agitou a mão para o alto, o chicote de couro cantando no ar, num arco perigoso, deixando de atingir o rosto de Alicia e o pescoço do animal por milímetros. Alicia soltou a rédea e lançou-se sobre Elizabeth, tentando arrancar-lhe o chicote. — Solte-me! — Elizabeth caiu ao chão. Alicia inclinou-se sobre ela e lutou pela posse do chicote, mas Elizabeth recusavase a soltá-lo. Bashshar voltou a relinchar, e desta vez não era de medo, mas de fúria. Alicia sabia que o animal poderia matar para protegê-la. Com as unhas afiadas, Elizabeth agarrou a manga da camisa de Alicia. Tinha o rosto transtornado pelo ódio. Alicia caiu e rolou para o lado, puxando a jovem pelos cabelos, justo no instante em que os cascos mortíferos de Bashshar feriram o solo onde Elizabeth estava. A poeira toldou os olhos de Alicia e encheu-lhe a boca, quando arrastou Elizabeth em segurança, para longe do alcance do cavalo. A jovem parecia desvairada, inconsciente do perigo. Por fim, Alicia arrancou-lhe o chicote das mãos. Elizabeth arqueou-se, esbofeteando Alicia na face. — Esse bicho devia ser abatido. Ele tentou me matar! Alicia ergueu-se, tirou os cabelos do rosto e correu para o cavalo. Bashshar se agitou, refogando, escavando o chão e relinchando. — Seria melhor se não ameaçasse um animal com um chicote — disse Alicia, tentando controlar-se. Elizabeth levantou-se, as pernas trémulas. — Tinha de me proteger. Todo mundo sabe que Bashshar ficou louco. Se entendesse alguma coisa de cavalos, você mandaria matá-lo. — Fique longe. Preciso acalmá-lo. Elizabeth, ao contrário, aproximou-se. — Afaste-se, sua idiota! Se ele resolver atacá-la, não haverá nada que eu possa fazer. — Eu posso fazer alguma coisa — retrucou Elizabeth. — Vou mandar o chefe do estábulo abatê-lo.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Elizabeth entre no estábulo! Bashshar mostrava os dentes, as orelhas empinadas, com um olhar assassino. Alicia ficou de pé, longe do animal, ombros para trás, e encarou-o dentro dos olhos. — Calma, calma — disse, baixando os braços ao longo do corpo, as mãos escondidas. Falava suavemente, sem tirar os olhos dele. O enorme garanhão sacudiu a cabeça, estremecendo, mas, em minutos, estava sob controlo. Enfim, o cavalo trotou até perto dela. Alicia o afagou. — Tudo vai ficar bem, Bashshar. Calma, querido. Pegando as rédeas, conduziu-o para o estábulo. Entrou na baia, soltou as rédeas e, então, devagar, afastou-se. Com uma sensação de alívio, colocou a tranca na porta. Poucos minutos mais tarde, ela saía para o padoque ensolarado. Encontrou Elizabeth, ainda esperando, encostada na cerca. — Elizabeth, se fizer isso de novo, direi a Dalton que não permita que você se aproxime dos estábulos, está me entendendo? — Acha que venceu, não é? — Elizabeth a fitou de cima a baixo. — Ora, estou aqui para lhe dizer que aquele seu truque sujo não vai funcionar, srta. Spencer. Confusa, Alicia aproximou-se. — Truque? — Sabe muito bem do que estou falando. Estou me referindo a ontem à noite, quando forjou o bilhete dizendo que Dalton estava esperando por mim na carruagem. — Ergueu o queixo, os olhos verdes apertados e faiscando de ira. — Muito conveniente que seu amante estivesse disposto a ajudá-la com esse plano sórdido. — Do que está falando? Que amante? — Justin Sykes ora essa! — Não diga asneiras, Elizabeth. Eu não... — Poupe-me de suas mentiras, srta. Spencer. Dalton ouvirá a verdade e, quando souber que você mandou Justin raptar-me e prender-me na cabana de caça, irá descobrir quem é você, sua mulherzinha à toa! Alicia mal podia acreditar no que ouvia. — Está dizendo que Justin Sykes a raptou? — Não se finja de inocente comigo. Quando eu contar à duquesa... — Sugiro que faça isso já! De repente, tudo ficou claro. Era esse o motivo da certeza de Dalton de que Elizabeth não estaria no baile. Como ele pudera ser tão insensato? — Agora, com licença, Elizabeth, tenho algo a fazer. Elizabeth aproximou-se e agarrou Alicia pelo braço. — Não me dê as costas! Nossa conversa só termina quando eu a dispensar. — Não tenho tempo a perder com bobagens. — Alicia libertou-se com um safanão, entrou no estábulo e não parou até chegar à baia de Cinnamon Rose. Apanhou uma sela e arreou a égua. Raiva e indignação queimavam dentro dela ao perceber o que Dalton havia feito para afastar Elizabeth do baile. Talvez a jovem fosse mimada e voluntariosa, mas tinha sentimentos, como qualquer pessoa. Um erro não justificava o outro. Quando terminou de selar o animal, levou a égua para o padoque. Contente por ver que Elizabeth fora embora, Alicia hesitou um instante, procurando acalmar os nervos. Seus joelhos pareciam geleia e suas mãos estavam trémulas. As roupas, sujas, e a manga esquerda se rasgara, na luta com Elizabeth. Porém, tinha algo importante a fazer. Montando a égua, galopou direto em direção à mansão. — O duque não está aqui — informou Ives, numa voz monótona, os olhos acinzentados mirando uma figura imaginária, por sobre a cabeça de Alicia.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Então, onde está? — Insistiu Alicia, grata que ainda fosse cedo para os hóspedes estarem acordados. Caso contrário, poderiam vê-la, parada no meio do grande hall, toda suja e amarrotada depois da briga com Elizabeth. — Imagino que milorde esteja onde costuma ficar a esta hora, senhorita. — O rosto de Ives continuava impassível. — E onde é, Ives? — Em seu refúgio, senhorita. Alicia escondeu a crescente frustração e encarou o idoso criado. Era óbvio que ele sabia que, muito em breve, ela se tornaria a nova senhora de Havencrest. Quem sabe a estivesse testando, num jogo de autoridade? — E onde é exatamente esse refugio, Ives? Quero saber, para que eu possa enviar um dos cavalariços até Marston Heath. Seu patrão me falou que está procurando um novo mordomo. O olhar de surpresa de Ives encontrou o dela por uma fração de segundo, antes que suas feições voltassem a ser uma máscara de indiferença. — Milorde está na cabana de caça, milady. Devo pedir a um criado que lhe mostre o caminho? — Perguntou, com um dos cantos da boca um tanto arqueado, numa expressão irónica. — Não será necessário, sei onde é. Obrigada. Ouviu quando o mordomo dava uma risadinha seca, ao se voltar. Alicia saiu cavalgando Cinnamon Rose pelos campos, as pernas ágeis da égua cobrindo a distância num galope brando. Puxou as rédeas quando se aproximou do riacho próximo à cabana de pedra que ela vira muitas vezes, quando saíra a passear. Rolos de fumaça subiam da chaminé. Desmontou, amarrando o animal num tronco de árvore, ali perto. Um relinchar a distância chamou-lhe a atenção para o abrigo onde um garanhão de cara branca e pêlo acastanhado estava parado. Alicia reconheceu o cavalo que Dalton costumava montar. Cruzou os braços e dirigiu-se à entrada. Bateu, sentindo que seu pulso começava a acelerar-se ainda mais. — Entre, Alicia. — Dalton, que abrira a porta, devia tê-la visto chegar, pois não parecia surpreso. — Visitar seu noivo sem avisar e ainda mais desacompanhada é malvisto pela sociedade, minha querida. Porém, muito bem-vindo para mim. — Então, observou-a melhor. — Se vissem o quanto está adorável com essa calça, esse estilo iria tornar-se a última moda, em Londres. Alicia ignorou o elogio e entrou. Tirou as luvas e relanceou os olhos pelo aposento. Cabeças de animais e falcões empalhados a espiavam das paredes, fazendo conjunto com muitos livros. Um sofá e várias cadeiras rodeavam a lareira de granito, que ocupava todo o comprimento do ambiente. Simples e muito masculino. — A que devo a honra de sua visita? Alicia percebeu que Dalton a fitava, curioso. Com a mão, fez um gesto para que sentasse. — Elizabeth me procurou. — A custo continha a raiva. — E me contou uma história bastante interessante. — Como prefiro ficar aqui sozinho, não trouxe um criado e não estava preparado para ter companhia. Perdoe-me, mas creio que só poderei lhe oferecer cigarros, uísque e conhaque. — Apontou para os frascos de cristal, na prateleira. — Talvez seja um pouco cedo para você, não é? Alicia recusou-se a mudar de assunto.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — É verdade? — Sentou-se na cadeira de balanço ao lado da lareira e encarou-o. — Você pediu a Elizabeth que fosse encontrá-lo, ontem à noite, e, então, arranjou um jeito de Justin Sykes raptá-la? — Raptá-la? — Dalton franziu a testa. — Você é óbvio, acreditou nela. Diante disso, o que deseja de mim? "Diga-me que Elizabeth mentiu." Como gostaria de acreditar que a garota exagerara... Porém, era preciso ouvir o que se passara. — Quero ouvir sua versão, Dalton. Ele respirou fundo e reclinou-se no sofá. — Mandei um bilhete a Elizabeth, pedindo que ela fosse me encontrar em minha carruagem. Embora eu nada tenha sugerido, sabia que ela iria imaginar coisas. E, sim, combinei com Justin para que ficasse esperando por ela. Alicia sentiu um baque no peito. Suas últimas esperanças haviam morrido. — Como pôde?! Dalton estudou-a por alguns instantes, antes de dizer: — Justin Sykes é meu amigo. Não obstante sua reputação, que julgo infundada, eu confio nele. Sei que Justin nada faria para comprometer Elizabeth, não importa o que ela diga. Não achei outra forma de evitar que Elizabeth ficasse constrangida quando nosso noivado fosse anunciado. Além disso, poderia fazer uma cena. — Tem ideia de como Elizabeth deve ter se assustado? Deve ter pensado que estava sendo sequestrada em troca de resgate, ou que talvez fosse morta. Deve ter temido pela própria vida. Os lábios de Dalton curvaram-se, num trejeito irónico. — Sou capaz de jurar que, se a situação fosse inversa, Elizabeth não estaria nem um pouco preocupada com seus sentimentos. Alicia respirou fundo. — Isso não tem nada a ver com o fato. Ela está apaixonada por você, Dalton, e a tratou de uma maneira abominável. Dalton olhou para fora, pela janela, para onde Cinnamon Rose pastava sossegada sob o sol da manhã. — Sim, acredito que agi mal. — Fitou-a, parecendo arrependido. — Que quer que eu faça? Pega de surpresa pela súbita reviravolta, Alicia titubeou. — Você podia, pelo menos, remediar a situação, dizendo a verdade. Elizabeth acha que a ideia foi minha, que eu mandei Sykes fazer isso. Dalton meneou a cabeça e sorriu. Levantou-se, caminhou até a lareira e jogou uma acha de lenha no fogo. — Ela acreditará naquilo que lhe convier. Quando recuperar o juízo, lera o bilhete e verá que a letra é minha. — Dalton voltou para o sofá e sentou-se, defronte dela, dobrando o braço na nuca. — Pedi a Justin que ficasse com Elizabeth por mais de uma razão. Eu tinha poucas escolhas, Alicia. Era a única maneira de minha mãe concordar em aceitar você na família. Alicia engasgou. — A duquesa sabe disso? Chantageou sua mãe, é isso? Se ela se recusasse a aceitar-me, iria expor Elizabeth aos comentários, como se ela tivesse passado a noite com Sykes?! Dalton baixou os olhos, sem negar. Alicia ergueu-se e correu para a porta. Dalton, porém, foi mais rápido e pegou-a pelo pulso. — Alicia, você é pura e inocente. Nem sequer imagina com que tipo de pessoa estamos tratando.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Oh, sim, imagino! — Alicia, espere. Minha mãe está acostumada a obter tudo o que quer. Não iria descansar enquanto eu não me casasse com Elizabeth. Não havia outro jeito. — Dalton, a duquesa jamais vai me aceitar. Acho que deveríamos pôr um ponto final nesse noivado. — Minha adorável Alicia, você é tão pura... Mamãe concordará. Não haverá máculas na reputação de Elizabeth, se minha mãe disser que estava enganada sobre aquilo que pensou ter acontecido quando a desgraçou, na casa de Londres. — Você crê nisso? — Alicia quase caiu na risada. — Ela será obrigada. Dirá que estava enganada quanto ao que aconteceu no quarto de Justin. Dirá que havia pedido a você para buscar seu xale, mas, por engano, mandou-a para o aposento errado. Quando percebeu o erro, foi até a suite de Sykes. Vai jurar que não houve tempo de acontecer nada impróprio. — Você teve coragem de chantagear sua própria mãe! — Prefiro dizer que ela foi pega na própria armadilha. — A sociedade não acreditará. Pensarão que ela está tentando salvar as aparências porque você me propôs casamento. — Podem pensar assim, mas não ousarão falar nada. Tia Mary aceitou você. Como irmã de meu falecido pai, ela e minha mãe são poderosas demais para entrar em confronto. Ao término da temporada, o incidente terá sido esquecido. — Pensei que minha desgraça não lhe importava... — Tudo o que lhe diz respeito me importa, Alicia. — Correu a ponta dos dedos pelo rosto dela. — Você foi acusada injustamente. Sei como valoriza seu bom nome. Fiz isso por você. — Posso ser inocente, mas não sou estúpida, Dalton. Você quer que a sociedade me aceite e, para isso, chantageia sua mãe, que, por sua vez, ficará ainda mais furiosa com nossa união. — Não foi por essa razão que fiz isso, Alicia. Não ligo a mínima para o que aquele bando de idiotas pensa. — Por favor, não me faça mais favores, se isso significar magoar as pessoas. Dalton segurou-a pelos ombros e a trouxe para mais perto. — Alicia, Justin Sykes sempre foi um bom amigo para mim. E os sentimentos dele? Quem sabe ele tivesse seus próprios motivos para dar o troco à duquesa? Alicia mordeu o lábio. Nunca se preocupara com os sentimentos de Sykes antes. Talvez porque um homem não estivesse sujeito aos ataques da sociedade numa situação como aquela. Dalton podia estar sendo sincero. Justin Sykes se sentira atraiçoado pela duquesa também. Fitou Dalton e ficou a imaginar se ele a estava manipulando. O duque sabia que ela se preocupava com os semelhantes, mesmo com gente como Justin Sykes. Tudo o que viu naquele intenso olhar azul foi a esperança de ser perdoado. Sentiu que a pressão dos dedos em seu ombro se abrandava. — Lamento que tenha ficado aborrecida comigo, Alicia. O que posso fazer para remediar as coisas? — Podia, pelo menos, desculpar-se com Elizabeth. Dalton enfiou os dedos pelos cabelos. — Muito bem. Farei isso, se servir para apagar esse ar desapontado de seu rostinho. Alicia observou, com fascínio, aquelas íris escurecerem com a mesma paixão ardente que vira antes, quando ele a beijara. Conteve o fôlego. Dalton estava tão perto... Podia sentir a fragrância do sândalo misturada ao


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning aroma de madeira. Sua respiração queimava-lhe a face. Ela não conseguia raciocinar direito quanto ele a fitava assim. Seu olhar procurou os lábios dele, aquela boca de traços perfeitos. Sabia que devia ir embora, mas seu corpo não concordava. Inclinou a cabeça, humedeceu os lábios e esperou. Queria ser beijada. Sentiu uma palma quente tomar-lhe um dos seios quando a boca de Dalton apossou-se da sua. Mal conseguiu reter um murmúrio ao perceber que retribuía o beijo com uma ansiedade tamanha que a espantou. Enlaçou-lhe o pescoço, entregando-lhe à carícia. — Não sabe que eu faria qualquer coisa para protegê-la, minha querida? Alicia recuou, para olhá-lo. — Sim, mas espero que jamais fira ou use os outros para vingar-se. — Deu um passo em direção à porta. Dalton ficou a observá-la, em silêncio. — Preciso voltar, milorde. Embora tentasse, Dalton jamais poderia compreendê-la. Ele parecia acreditar que as mulheres deviam ser levadas para a cama ou protegidas, quaisquer que fossem os meios disponíveis para isso. E nenhum deles incluía o amor. CAPÍTULO IX Pelos dias que se seguiram, Alicia sufocou sua ansiedade com relação ao casamento iminente, passando longas horas no tratamento de Bashshar. O esplêndido garanhão compartilhava muitos traços similares a seu dono, ela pensou, divertida. Ambos podiam ser teimosos, orgulhosos e charmosíssimos quando queriam. Ao chegar mais perto de Bashshar, ele jogou a cabeça para o alto e correu em torno da nova arena que Dalton projetara e mandara construir. A estrutura era ideal para o inquieto puro-sangue. Afastado do barulho e das pessoas, aquele se tornara um dos lugares favoritos de Alicia, em Havencrest. Ali, sentia-se protegida e amparada. E Bashshar também. Ela fez um gesto de comando, e o cavalo estacou. Caminhando até ele, confiante, Alicia montou o animal, fazendo-o trotar em torno do círculo. Momentos mais tarde, notou que o cavalariço, Penn, os espiava, sentado na cerca. Alicia puxou as rédeas e foi em direção ao rapaz. — Saia daí, Penn, antes que caia e se machuque. — Que os Santos a protejam, milady. É melhor pular fora do cavalo do patrão antes que esse demónio perceba que a senhorita está montada nele. Alicia forçou um ar zangado. — Penn sabe que não tem permissão para observar meu trabalho. — Não conseguiu disfarçar um sorriso. — Eu soube que a senhorita o domou — disse Penn, antes de se esconder atrás do mourão. Alicia deu uma risada, satisfeita com a performance de Bashshar, que obedecia a seus comandos com facilidade e elegância. — Bom garoto — murmurou ao garanhão, enquanto conduzia até o portão. Desmontou, afagando o pescoço do animal. Bashshar bufou e chacoalhou a crina majestosa, como se estivesse vaidoso de si mesmo. Alicia achou graça.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Sem dúvida, minha beleza, você tem motivos de sentir orgulho. — Correu as mãos pelo lombo acetinado do puro-sangue. Ao abrir o portão, viu que Penn espremia o rosto entre as frestas, espiando. — Rapazinho, o que foi que eu lhe falei? — Alicia colocou as mãos na cintura, com evidente irritação. — É isso mesmo, seus olhos não mentiram. Bashshar deixou que eu o montasse. — Meu pai disse que o patrão vai se casar com a senhorita. É por ter curado o cavalo dele? Pensar no casamento com Dalton fez o estômago de Alicia se comprimir. — Não, Penn. Em primeiro lugar, Bashshar não está totalmente curado. Só deixou que eu me aproximasse dele. Agora, posso começar o tratamento efetivo. E, no que diz respeito ao casamento com seu patrão, bem... vou me casar com ele porque... — Estudou o semblante sério do rapaz a sua frente. Penn devia ter uns quinze anos. Alicia não tinha certeza se entenderia como um matrimónio podia ser complicado. — Nosso enlace é um acordo de negócios. O sorriso de Penn iluminou-lhe a face. — Então eu estava certo. A senhorita vai ficar. Meu irmão me deve a aposta. Ah deve! Ela arqueou uma das sobrancelhas, surpresa. — Seu irmão? Não me recordo de Ulger me ter dito que tinha outro filho trabalhando nos estábulos. — Neville é meu irmão mais velho. Ele ajuda o couteiro a consertar as cercas. Não gosta de cavalos, como eu. — Você precisa trazê-lo até aqui, alguma hora. Gostaria de conhecê-lo. — Nem pense nisso. Meu irmão e meu pai não se dão bem. — Oh! Não posso imaginar que alguém não goste de seus pais. Alicia percebeu que havia se afeiçoado a Penn e ao chefe dos estábulos e sua esposa. Dalton empregava gente decente, leal e trabalhadora. Penn cutucou o chão com a ponta do sapato. — Falei a meu irmão que a senhorita ficaria aqui connosco e com Bashshar depois do casamento. Neville afirmou que milady iria embora assim que o animal estivesse curado. — Penn ergueu os olhos para ela, cheio de esperança. — Eu tinha razão, não é? Essa questão também vinha atormentando Alicia. Assim que a lua-de-mel terminasse, Dalton se cansaria dela? Se quisesse, poderia mandá-la embora. — Não sei, Penn. Tenho outro puro-sangue em Marston Heath que precisa de minha atenção. Deixei de treiná-lo para estar com Bashshar. Penn enrugou os lábios, num trejeito de desapontamento. Alicia observou-o e, então, teve uma ideia. — Sabe, Penn, eu poderia usar um rapaz esperto que tivesse habilidade com cavalos... Penn endireitou-se e fitou-a, ansioso. — Milady, nunca irá se arrepender. Trabalharei duro. — Acredito, mas eu não poderia contar com um jovem que não sabe ler. — Eu... sei ler alguma coisa... — E somar, dividir e escrever com uma bonita caligrafia. Penn chutou uma pedra, mortificado. — Meu pai disse que não tenho tempo para isso. — Não está pondo a culpa em Ulger, está?


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Penn não respondeu, coçando a nuca. — Vou lhe dizer o que farei, garoto. Mostrarei a você como ajudar com o tratamento de Bashshar. Se provar que é capaz, falarei com seu pai. As faces de Penn se iluminaram com um largo sorriso. — Verdade, milady?! — Sim, desde que saiba fazer contas e escrever. Quero que leia livros, também. — Livros? Nunca cheguei sequer a ver um! Alicia suspirou. — Eu o ajudarei. Começaremos com alguns dos que meu avô usava para me ensinar sobre cavalos. — Obrigado, milady. Quando podemos começar? — No fim da tarde, depois que você jantar. Começaremos com o alfabeto. — Alfa... o quê? Alicia percebeu que Penn não tinha a menor ideia do quanto teria de se esforçar para poder trabalhar com cavalos, algo com o qual ele sonhava. Por um instante, recordou-se do próprio acordo que fizera com Dalton. Os dois iriam se casar dentro de poucos dias. Sabia o que teria de enfrentar com sua decisão de tornar-se esposa do duque? Não. E poderia não saber, até que fosse tarde demais. A distância, um passarinho gorjeava, seus trinados enchendo o ar com uma delicada melodia. O cantar alegre fez com que Alicia se determinasse a não perder o bom humor com pensamentos sobre o futuro nebuloso. — Eu o apresentarei ao alfabeto esta tarde, quando vier para a primeira lição. Penn agradeceu e saiu correndo, de volta a seus afazeres. Alicia virou-se, ao ouvir passos. A sombra de Dalton cortou-lhe a frente. — Vi você conversando com Penn e fiquei a pensar se poderíamos trocar algumas palavras. — Dalton parou, de costas para o sol matinal. Alicia levou a mão aos olhos, protegendo-os da luminosidade. O duque usava uma camisa solta, semelhante à dela, com a diferença de que o botão da gola estava desabotoado. Pêlos negros escapavam da abertura, em vivo contraste com o tecido branco. A visão provocou em Alicia uma sensação esquisita. As pernas musculosas vestiam calça de couro, e as botas pretas subiam até quase os joelhos. Um sorriso sutil brincou em seus lábios quando Dalton percebeu que ela o observava. — Como Bashshar está se comportando hoje? — Talvez seja melhor que veja por si mesmo. Os olhos azuis de Dalton faiscaram como os de uma criança na manhã de Natal. — Vai me deixar observar? — Acho que fizemos bastante progresso. Além disso, aposto que Bashshar iria divertir-se, exibindo-se para você. Alicia abriu o portão e eles entraram na arena. Ao ver Dalton, Bashshar relinchou para, em seguida, trotar na direção dele. — Se eu soubesse que iria vê-lo, teria trazido cenouras. — Dalton esfregou o pescoço do animal. — E bom que não tenha trazido, porque eu não permitiria que lhe desse. — Por que não? — Porque alimentar Bashshar com suas mãos o encoraja a morder, sobretudo os dedos dos outros tratadores. Enquanto eu for responsável por Bashshar, ele terá cenouras e outras coisinhas especiais colocadas em seu cocho. De soslaio, Alicia observou a expressão de censura no rosto bonito de Dalton. — Como queira.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Procure um lugar para sentar-se, milorde. — Ela ia afastar-se quando ele a segurou pelo pulso. — Continue a me chamar de Dalton. — Você é quem sabe... Dalton. Alicia aceitou o pedido dele, embora preferisse a segurança do tratamento formal, pois não queria que o duque soubesse o quanto ficava vulnerável, em sua presença. — Tenho permissão para chamá-la de Alicia? — Acho que já tomou essa liberdade. Ele piscou, com malícia. — Agora que somos oficialmente noivos, penso que posso tomar outras liberdades também, não concorda? Alicia sabia que o duque estava brincando, embora também soubesse que o que dizia era verdade. Sentia-se mais ou menos segura, pois tinha certeza de que Dalton não a arrastaria para debaixo dos arbustos e abusaria dela, Contudo, podia ver naquele olhar a mesma luxúria que notara antes, quando ele a beijara. As coisas estavam mudando entre os dois ou era apenas imaginação? A um canto, Bashshar resfolegou, caboucando o chão, fazendo lembrar um garoto mimado que quer atenção. — Julguei que gostaria de ver o progresso de Bashshar, Dalton. — Muito bem, só tomarei as liberdades que você permitir. — E o duque mostrou a linha impecável de seus dentes branquíssimos, esbanjando sedução. Alicia caminhou para o centro da arena e encarou Bashshar, que a fitava em desafio. — Darei alguns comandos mudos ao cavalo, para fazê-lo avançar, dar três passos para o lado e, depois... — Relanceou o olhar para Dalton, por sobre o ombro. —...Bashshar irá executar um truque especial, que preparou só para você. Dalton sentou-se sobre o cocho, apoiou um dos pés sobre a estrutura de madeira e ficou a observar. Alicia fez uma série de gestos, guiando o garanhão. O elegante puro-sangue avançou com precisão, voltou-se e deu três passos para o lado. Parou por um instante, jogou a cabeça para o ar e seguiu em frente, até parar a cinco passos de Dalton. Fitando Alicia de relance, Bashshar hesitou, e em seguida dobrou a perna dianteira, executando uma mesura, apropriada para um rei. Dalton bateu palmas, feliz com a surpresa. — Bravo! — Gritou, entusiasmado e pulando do cocho, aproximando-se do cavalo. Colocou um braço em torno do pescoço de Bashshar e, com o outro, puxou Alicia para si. O coração dela disparou de alegria diante da felicidade de Dalton. Os olhos dele encontraram os dela, e o duque percebeu que ela o surpreendera num momento de espontaneidade, portanto, desarmado. Alicia fitou Bashshar, que permanecia imóvel e orgulhoso, o pêlo negro reluzindo sob a luz do sol. — Você é mesmo incrível, Alicia. — Dalton tomou-lhe as mãos nas suas. — O que fez com Bashshar é um milagre. Ela sentiu que o rubor tingia-lhe a face. — Seu cavalo é muito especial. Tem uma sensibilidade admirável. Alicia deixou-se envolver por aquela admiração e percebeu o quanto a aprovação de Dalton significava para ela.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning O duque observava os lábios dela. Alicia queria que ele a beijasse. Não, queria mais! Ela o desejava. A constatação feriu-a com força. Dalton a trouxe para mais perto e, então, enfim, aquela boca quente e firme apossou-se da dela. Braços fortes e musculosos a envolveram, quando Alicia se apoiou no peito firme. Através do tecido da camisa, sentia os seios se comprimirem contra aquele corpo rígido. Dalton insinuou a língua por entre os lábios entreabertos de Alicia, que experimentou uma leve vertigem, que diluiu quaisquer traços de razão. Descobriu que seus braços ganhavam vida própria, enlaçando-o pelo pescoço, os dedos enroscandose nos cabelos escuros do noivo. Quantas vezes imaginara uma cena assim? Porém, nem em seus sonhos mais loucos pensara que um beijo pudesse ser algo tão fantástico. Ouviu um gemido, que lhe escapara de sua garganta. Deus, o que estava fazendo? Uma coisa era desejá-lo. Seria uma tola, entretanto, se deixasse que o duque percebesse. Assim que estivessem casados, poderia entregar-se por completo a ele, mas Dalton jamais poderia descobrir que ela o desejava com tamanha paixão. Melhor deixá-lo crer que estava apenas honrando a palavra empenhada. Era orgulhosa demais. Afastou-se, os lábios frios. Ele a soltou. — O que foi, Alicia? Não pode ter ficado espantada por que eu ter querido beijála, não é? — Quando eu for sua esposa, sei que nada terei a dizer sobre o que fizer comigo, milorde. Mas até lá... — Perdoe-me se a assustei e feri sua sensibilidade, mas eu jamais acreditaria que uma mulher como você... — O que quer dizer com uma mulher como eu? — Você é uma moça prática. Conhece animais e aquilo que acontece quando cruzam... Alicia sentiu-se sufocar. — Como pode fazer uma comparação dessas? Gerar um herdeiro é mais do que colocar dois animais no mesmo pasto! O duque enrubesceu. — Alicia, nunca dei a entender... — Mas foi isso o que quis dizer, não foi? Muito bem, Dalton. Temos um acordo, e cumprirei minha parte, pode estar certo. E prometo que não cultivarei nenhum pensamento romântico sobre as razões pelas quais quer se casar comigo, mesmo porque você está correto. Sou uma moça prática. Contudo, até mesmo as éguas de meu plantel em Marston Heath só cruzam com um garanhão quando querem. — Ergueu o queixo, altiva. — Pelo visto, não terei a mesma opção. Os maxilares de Dalton se contraíram. — Sabe que não é assim, Alicia. Não tente fazer parecer que eu a estava forçando. — Arqueou uma sobrancelha. — Está insinuando que quer desfazer nosso acordo? Ela o encarou com cautelosa. Por que tinha de entregar-se a um ataque temperamental? Por que não permanecera imóvel como um poste e permitira que o noivo a beijasse, sem corresponder com tanta emoção? Porque queria beijá-lo, e Dalton sabia disso. — Como bem sabe, milorde, sou financeiramente responsável por minha família. E, como também sabe, não tenho escolha a não ser me casar com você. Claro que não romperei nosso trato. — Pobrezinha... Como deve ser horrível casar-se com um dos duques mais ricos


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning e, ouso afirmar, mais bonitos da Inglaterra! — Não se esqueça de acrescentar arrogante, teimoso, orgulhoso, voluntarioso e... — Não conseguiu ocultar um sorriso. — Sim. E não se esqueça você disso. — Dalton sorriu largo, formando duas covinhas. Alicia endireitou os ombros. — Preciso voltar a meus deveres. — E caminhou até Bashshar, sem pedir licença. Dalton soltou uma risada, observando a jovem determinada que seria a nova duquesa de Wexton no final da semana. Nunca tinha se dado conta antes, mas agora adquirira plena consciência. Estava louco para se tornar marido dela. Dalton encontrou Justin Sykes no salão de bilhar, praticando uma jogada. Justin parou, taco no ar, observando o recém-chegado. — Qual é o problema, amigão? Parece que acabou de ser desafiado para um duelo. — Nada assim tão dramático. — O duque dirigiu-se ao bar e serviu-se de uma dose de uísque. — Quer um? — Não. Não bebo desde ontem à noite. Acho que é por causa de todo esse ar limpo do campo. Ficar sóbrio é uma sensação estranha, devo dizer. Inclinou-se sobre a mesa, ainda segurando o taco. O bater das bolas de marfim soou, assim que ele fez a jogada, a bola branca tocando a mesa acolchoada e, então, ricocheteando e chocando-se contra a vermelha. — Seu jogo está melhorando. — Dalton apanhou um taco da grade de dentro do armário. Estudou a mesa, enquanto passava o giz na ponta do taco. — Vamos fazer uma aposta? — Hum... acho que não. Não quero tirar vantagem de minha recem descoberta sobriedade. — Olhou para Dalton, de soslaio. — Ou fazer sobrar para mim o que quer que seja que o está aborrecendo. Justin soltou uma risada, limpando as mãos numa flanela. — Nada me aborrece, amigo. — Dalton elaborou uma jogada duas vezes mais complicada que a de Justin. O amigo soltou um assobio baixo, observando a bola cruzar o feltro. — Talvez seja mais do que isso — disse, com um sorriso de malícia. — O que foi que a adorável Alicia fez, Dalton? Ou foi o que ela não fez que o deixou nervoso desse jeito? — Não estou nervoso. — Não negue, amigão. Conheço-o muito bem. — Mulheres... Nunca vou entendê-las. Pensei que Alicia fosse diferente das outras. — Erro número um, seu tolo. Dalton encarou Justin. — Alicia deveria ser diferente. Ela se sente mais confortável num estábulo do que num salão de baile. É muito inteligente para se permitir participar dessas conversas enfadonhas que excitam tanto a maior parte da sociedade. E fica tão feliz quanto eu em calças de couro. — Isso soa como se vocês dois tivessem nascido um para outro. Então, qual é o problema? Dalton fez uma pausa. Não tinha certeza se havia um problema. Tudo o que sabia era que ela podia revirar seu mundo de cabeça para baixo apenas com um olhar daqueles doces olhos castanhos. — Quando estamos sozinhos, Alicia me faz sentir como se eu... fosse uma


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning espécie de... bicho papão. — Devia ter imaginado! — Justin deu um tapa na coxa. — Você deu-lhe permissão para que se deitasse em sua cama. — Claro que não! — Dalton se indignou. — Bem, não em palavras... — É por isso que não gosto de donzelas. Comportam-se da primeira vez como se estivessem sendo imoladas num altar de sacrifícios. Assim que levar Alicia para o leito, ela se dará conta do que a espera. E aí que seus votos matrimoniais vão começar para valer, amigo velho. Dalton deu uma tacada. — Alicia concordou em me dar um herdeiro. Assim que a criança nascer, ela estará livre para fazer o que quiser. Mas acho que ela quer algo mais de mim, embora eu não possa afirmar. — Dalton contornou a mesa, posicionando o taco. — Droga de sentimento mais idiota o amor! Justin sorriu. — Olívia parece acreditar no amor. E você... acho que se meteu numa enrascada, amigo. — Olívia foi protegida pela família durante a vida toda. Por sorte, casou-se com um homem que continua a estimular seus sonhos cor-de-rosa. — E por que não faz o mesmo com Alicia? — Porque não acredito em perpetuar mentiras. — Dalton acertou mais uma tacada e pôs-se a passar o giz na ponta do taco. — Tenho bons olhos, Dalton. Vi o jeito como olha para ela. Acho que você está com medo. — Torceu a boca, com ironia. — Ora, ora, você está louco por ela e não sabe o que fazer! Dalton encarou-o, com raiva. — Não me tome por um simplório, Sykes! O amor só torna os homens fracos, e as mulheres, tolas. — Voltou-se para rodear a mesa, quando notou Alicia parada, à soleira. O rosto dela era uma máscara petrificada. O sorriso de Justin desvaneceu-se, e ele se endireitou, segurando o taco. Pigarreou, quebrando o estranho silêncio que se seguiu. Alicia desviou o olhar do semblante embaraçado de Justin para Dalton. — Olívia me falou que você poderia estar aqui, Dalton. — Sua voz não escondia a mágoa que o rosto ocultava. — Um homem o espera, no escritório. Chegou de Londres com uma mensagem que disse ser da maior importância. Alicia deu-lhe as costas e saiu, depressa. — Alicia, espere! — As longas passadas de Dalton logo a alcançaram. — Por favor, ouça o que tenho a dizer. — Eu ouvi. Você foi muito claro. — Estava frustrado, Alicia... é que... — Compreendo o que sente, e concordo com você. Não sou nenhuma doidivanas ingénua que acredita no amor. Não precisa se explicar. — Devo-lhe desculpas. Sinto muito, Alicia. — Dalton deu um passo atrás e ficou a estudá-la. Pelo jeito dela, soube que Alicia ficara magoada com os estúpidos comentários que fizera a Justin. Droga! Por que ficava na defensiva quanto tinha de admitir que se importava com ela? Justin o conhecia bem o suficiente para enxergar através dele. Mas e Alicia? Ela permaneceu rígida. — O cavalheiro de Londres continua esperando. E eu devo voltar para o que


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning estava fazendo. Quer que diga a ele que você vai procurá-lo em breve? — Não se preocupe, irei vê-lo agora mesmo. — Está bem. — E Alicia deixou-o. Dalton sentiu-se como se tivesse dado uma surra num cãozinho. Comportava-se como um cretino, para com Alicia. E o que dizer dessa necessidade de embalá-la nos braços e mantê-la em segurança, contra tudo e contra todos? O amor era uma fraqueza que provocava o caos, eis o porquê. Ele havia cegado seu pai para as infidelidades da esposa. Dalton jurara jamais permitir que as emoções o destroçassem. Expulsaria da mente os pensamentos sobre Alicia. Ou tentaria, pelo menos. Dalton abriu a porta do escritório e entrou. O detetive Humphrey Leary, de Bow Street, levantou-se de sua cadeira ao lado da lareira. — Boa tarde, milorde. — Leary, que bons ventos o trazem? — Dalton notou o vinco de preocupação entre as sobrancelhas do homem. — Descobriu alguma pista? — Começamos nosso inquérito, senhor. O que descobrimos é bastante interessante. Dalton experimentou uma incómoda de ansiedade. — Não pode ser tão ruim como você deixa transparecer. Leary tinha excelentes credenciais, mas Dalton ouvira falar que o sujeito era obcecado por detalhes. — Sente-se. Vou preparar-lhe um drinque. — O duque caminhou até o aparador e colocou bebida em dois copos, estendendo um para o detetive. Leary agradeceu e tomou um gole. Sentaram-se, e o detetive abriu uma pasta de couro, cheia de papéis. — Acabei de receber este relatório de meu investigador mais confiável. — Estendeu o papel a Dalton. — Está tudo aí, milorde. Dalton bebericou seu drinque e correu os olhos pelas anotações. — Lorde Templestone? — Ergueu os olhos. — Ele não é da família. Por que estaria incluído neste documento? Leary remexeu-se na cadeira. — Perdoe-me, sir, mas ele tem estado, digamos assim, muito próximo de sua mãe, a duquesa. Dalton sentiu-se incomodado diante da frase bem elaborada que sugeria que sua mãe e Templestone partilhavam de intimidade. — Diga-me o que descobriu, detetive. — Templestone tem andado jogando pesado. E perdendo, embora pareça ser capaz de cobrir suas dívidas. — No passado, desposou mulheres ricas. Está viúvo de novo, e gasta dinheiro onde lhe dá prazer. — É verdade, seus casamentos lhe renderam vastas propriedades. Mas não dinheiro, sir. Embora Dalton detestasse mexericos, tinha conhecimento do misterioso passado de Templestone. — Já que é um dos amigos de minha mãe, talvez seja melhor continuar a investigá-lo. — É claro, milorde. — Leary fez uma anotação rápida num caderno. — O senhor também pediu que verificássemos os álibis de todos, durante o tiroteio. Dalton assentiu. — Onde estava Templestone?


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Com sua mãe, sir — disse o detetive, constrangido, tirando um lenço e enxugando a testa suada. Dalton escondeu sua surpresa. — Entendo. — Sua entonação era tão casual como se estivessem falando do tempo. — Não há engano. Posso ler os detalhes, se assim desejar. — Não, não é necessário. — Dalton levantou-se e caminhou até a janela, incomodado com a informação. Mildred era ainda uma mulher bonita, aos cinquenta e cinco anos. Com a generosa pensão que dava a ela, a duquesa era mais rica que muitas viúvas. Será que tinha fantasias amorosas? Ele não podia acreditar. — Há mais outras coisas, senhor. Dalton apertou o copo entre os dedos e esperou. — Seu cunhado tem emprestado largas somas de dinheiro. — O detetive estendeu um papel a Dalton. — Refere-se ao marido de Olívia, Robert Seabrook? — Exclamou Dalton, arrancando o papel das mãos de Leary. — Se minha irmã precisasse de dinheiro, ela viria me procurar. O duque correu os olhos pelas anotações. — Droga, ele emprestou quase trezentas libras! — Não conseguiu disfarçar o espanto. — Sabe por que Robert precisou dessa soma? — Ainda não, mas tenho um agente rastreando a informação. Esses assuntos devem ser tratados com cuidado e sem pressa. — Mais alguma coisa, Leary? — Algo de menor monta, milorde, mas que pode significar algo. Foi feita uma aposta, há pouco, na Casa de Apostas White. Templestone colocou uma soma vultuosa em Desert Prince, favorito para o primeiro lugar na corrida em Newmarket, neste Outono. — Eu mesmo apostaria nele, agora que Bashshar não pode competir — retrucou Dalton, com amargura. — Porém, nada disso nos dá a menor pista de quem pode ter atirado em meu cavalo. — Veja bem: se Bashshar fosse tirado da competição, a aposta de Templestone teria sentido. O trabalho de detetive leva tempo. Em primeiro lugar, devemos reunir os fatos. Cada dado conduz a uma direção diferente. Com o tempo, desenvolve-se um padrão. O senhor deve ter fé, como eu tenho. Descobriremos quem atirou no senhor. — Ninguém atirou em mim. Meu cavalo recebeu um tiro. — Sim, mas não podemos descartar a possibilidade de que, quem quer que tenha atirado em Bashshar, tivesse o senhor como alvo. Sua vida pode estar em perigo. — Bobagem! O mais provável era que o atirador fosse um intruso disposto a roubar caça. — Nossas descobertas não apontam para um ladrão, sir. Dalton começou a perder a paciência. — Obrigado, Leary. Aprecio suas preocupações, mas estou seguro em Havencrest. O detetive levantou-se. — Milorde deveria ter cuidado. — Colocou o copo vazio no aparador. — Homens em posição de destaque sempre podem angariar inimigos. Leary hesitou por um instante e, então, fez uma reverência, saindo da sala. Dalton deixou-se cair numa cadeira e colocou as mãos entrelaçadas na nuca. Teria sido vítima de um atentado? Ou era Bashshar o alvo, por ser um sério competidor


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning nas corridas para o clássico de Newmarket? E o que pensar de Robert? Sempre parecera um rapaz correto, não um jogador. Por que haveria de precisar de dinheiro? Tolice! E Templestone? Resolvera fazer uma aposta alta em Desert Prince, agora que Bashshar estava impossibilitado de competir? Todavia, outro pensamento cruzou a mente de Dalton. Se alguém quisesse ter certeza de que Desert Prince venceria em Newmarket, Bashshar poderia estar correndo um grande perigo. E se ficasse curado a tempo de correr? Todos sabiam que Alicia era a chave para a cura de Bashshar. Correria risco, também? A ideia provocou-lhe um arrepio pela espinha. Dalton caminhou até o aparador e deixou ali o copo de uísque. Se a vida de Alicia estivesse sendo ameaçada, seria capaz de protegê-la? CAPÍTULO X Alicia bateu à porta do berçário, no terceiro andar, onde Olívia a esperava. A mansão era um labirinto de corredores, onde uma pessoa poderia perder-se, ela resmungou, quando o criado que a conduzira se afastou. — Entre — disse Olívia. Alicia adentrou o aposento. Recostada contra as fofas almofadas de uma cadeira, Olívia embalava seu bebé. Um rostinho miúdo e rosado, coroado por uma penugem loira, espiava por debaixo de uma manta branca enfeitada de babados; — O pequeno Drake acabou de mamar, e eu pedi a Sarah que o deixasse ficar aqui por alguns minutos. — Desculpe-me se estou atrasada, Olívia, mas me perdi em meio a esse emaranhado de corredores. Graças a Deus um dos criados me resgatou e me trouxe até aqui. Olívia achou graça. — Nasci nesta casa e ainda me perco, de vez em quando. — Olhou para o filho, embevecida. — Estou tão contente por Drake não estar mais nervoso com o novo dentinho. Ele passou a manhã inteira chorando. — Que criança linda! — Alicia sentou-se ao lado de Olívia, observando o menino. Acariciou com a ponta dos dedos a cabecinha do bebé. — Estou encantada em conhecê-lo, mestre Drake. — Todos dizem que o nenê se parece com Robert — Olívia murmurou, com orgulho. — Mas acho que ele se parece com meu pai. Drake tem o mesmo nariz e o queixo dos Warfield. Voltou-se para Alicia. — Gostaria que você tivesse conhecido papai. Era um homem caloroso e gentil. Dalton é muito parecido com ele, isto é, quando sai daquela casca dura que gosta de usar. — Deu uma risada. — Jamais conte a meu irmão que eu lhe disse isso. — Prometo. — Alicia sorria. Como gostaria de perguntar mais coisas a respeito de Dalton! Porém, achou que não era o momento adequado. — Seu filho é um belo garoto, com certeza. O rosto de Olívia iluminou-se ao fitar o pequeno embrulho em seus braços. — Mais um ano, e você pode estar sentada aqui, acalentando seu próprio nenê, Alicia. Não seria maravilhoso? Eu poderia ter sua companhia, enquanto Drake brincasse com o velho Cobby. — Velho Cobby?


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Olívia apontou com a cabeça o pesado cavalinho de madeira, a um canto. — O velho Cobby tem embalado cada uma de nossas crianças por quilómetros e quilómetros de infância — disse, com emoção. — E agora espera, paciente, pela próxima geração dos Warfield. Uma estranha onda de ansiedade perpassou Alicia. Concordar em casar-se com Dalton era uma coisa, mas ver Olívia com o pequeno Drake trouxe de volta a finalidade única daquele acordo. Não soube o que dizer. — Minha querida Alicia, meu irmão não é um monstro! Debaixo daquela fachada insensível que Dalton adora ostentar existe um homem bom, apaixonado por você. Surpresa, Alicia a encarou com ironia, por um instante. — Acha que Dalton está apaixonado por mim? — Eu nunca faria uma afirmação dessas se não acreditasse, Alicia. O que ouvira de Dalton voltou a perturbar Alicia: "O amor só torna os homens fracos, e as mulheres, tolas." — Ouvi o duque afirmar que não acredita no amor. — Os homens dizem certas coisas porque têm medo de amar. Conheço meu irmão, vejo como ele se comporta quando você está por perto. Porém, o modo como se comporta quando você não está por perto é que me diz mais. — Como assim? — Gostaria de parecer menos curiosa, mas queria saber. O sorriso de Olívia expandiu-se. — Dalton está sempre falando a seu respeito, ou perguntando onde você está. — Recostou-se, a fisionomia feliz. — Esperei tanto para ver meu irmão mais velho se apaixonar! Agora que está perdido de amor, eu não poderia me sentir mais contente. Alicia permaneceu quieta. Não confiava em sua voz. Ansiava para que Dalton a amasse. E a afirmação de Olívia a deixava ainda mais assustada. Desviou-se para a prateleira de bonecas que cobria a parede, ao lado da janela. — Eu a ofendi, Alicia? — De maneira nenhuma! É que... Como poderia explicar que o casamento com Dalton iria lançá-la num mundo hostil, com pessoas nas quais não podia confiar? Precisava da paz e da simplicidade da vida rural. E estar junto de um homem que a amasse e aceitasse seu amor. Olívia levantou-se e puxou a corda da campainha, perto da porta. — Chamarei Sarah, para que ponha Drake no berço. Então, poderemos continuar a fazer os planos para seu enlace. — Recebi uma carta de minha mãe, esta manhã. Não puderam deixar Marston Heath ainda, por causa de alguns problemas. — Alicia recostou-se nas almofadas, o rosto ardendo de vergonha. A família estaria ali agora se não tivesse decidido esperar até que os hóspedes da duquesa partissem. — Mal posso esperar para conhecê-los. Será maravilhoso ter gente jovem por aqui. Quantos anos têm suas irmãs? — Kimbra tem quase quinze, e Lyssa, oito. — Alicia levantou-se e se aproximou da vidraça. Lá em baixo, no jardim, belas carruagens esperavam em fila que os hóspedes da duquesa embarcassem e partissem para a próxima rodada de festas. Uma criada miúda, de cabelos escuros, entrou no quarto. Olívia beijou o rosto do bebé e, então, entregou-o a Sarah, voltando a sentar-se na poltrona ao lado da casa de bonecas, grande o bastante para que uma criança entrasse nela. — Acha que suas irmãs vão gostar de vir ao casamento? Alicia deu uma risada.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Kimbra é uma jovem dama e vai adorar. Lyssa, porém... — Riu ao pensar na irmã, que adorava comportar-se como um garoto, sempre metida em confusões e atividades masculinas. — Não tenho certeza. — Falei com o cozinheiro, que quer que você estude o menu com ele. E já começou a fazer o bolo. Precisa se decidir a respeito das flores que quer para os arranjos. — Qualquer coisa serve. — Alicia fez um gesto displicente. Sentia-se, de repente, oprimida. Antes que se desse conta, seria a esposa de Dalton. — A costureira está pronta para os ajustes finais. Oh, mal posso esperar para vêla em seu vestido de noiva! — O rosto de Olívia corou de alegria. — Que flores quer para sua grinalda? Pensei em um arranjo de rosas sobre o véu, já que passou a estação das flores de laranjeira. O nó no estômago de Alicia apertou-se. Lutou para mostrar um ligeiro sorriso. Olívia, porém, não notou, ocupada em contar os itens em falta nos dedos. — Dalton prometeu falar com o reverendo Drew. Acha que seus parentes chegarão amanhã, Alicia? Você e seu pai devem ensaiar com as damas de honra. Nervosa, Alicia alisou as pregas da saia. — Será uma cerimónia simples, Olívia. Só minha família, uns poucos amigos de Dalton, você e seu marido... — Simples mas elegante. Um sentimento de gratidão vibrou dentro de Alicia por aquela moça gentil e sensível que logo seria sua cunhada. — Obrigada por sua ajuda, Olívia. Não sei como passaria por isso sem você. — Estou emocionada de estar a sua disposição, minha cara. Isso me dará tempo para que nos conheçamos melhor, eu e você. Essa foi minha intenção quando disse que sempre desejei ter uma irmã. — Oh, Olívia... — murmurou Alicia, com um nó na garganta. A porta se abriu, de repente, e Alicia levantou os olhos, deparando-se com a duquesa, que entrava. Usando um vestido de seda negra e com um turbante combinando, Mildred ostentava um ar autoritário. Seu olhar furioso contrastava com as sorridentes marionetes, Punch e Judy, penduradas na parede, atrás dela. Olívia levantou-se, boquiaberta. — Mamãe, que adorável surpresa. Posso pedir o chá? — Esta não é uma visita social, Olívia. A carruagem está esperando. Estou de partida para Londres. Entrei apenas para dizer adeus. Olívia levou a mão à garganta, olhando a mãe ao vê-la cruzar o aposento até parar ao lado de Alicia. — Gostaria de dizer algumas palavras à srta. Spencer, filha. Por favor, deixe-nos a sós. Um arrepio de preocupação franziu a testa de Olívia. Olhou para Alicia, sem jeito. — Está tudo bem, Olívia. — Alicia sorriu. — Falaremos mais tarde. — Estarei em meu quarto, se precisar. — Olívia correu até Mildred e deu-lhe um beijo em seu rosto. — Faça uma boa viagem, mamãe. — Milady — disse Alicia, sentindo uma ponta de insegurança —, eu tinha esperanças de que pudéssemos conversar antes que a senhora partisse. Sente-se, por favor. — Comportando-se como se já fosse a duquesa, não é? Olívia empalideceu. — Quem sabe eu devesse ficar...


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Saia, Olívia. — O tom da duquesa não permitia réplicas. Olívia olhou, desalentada, para Alicia, antes de deixá-las. Com seu jeito majestoso, a duquesa esperou até que a porta se fechasse e, então, com um torcer de nariz, sentou-se numa poltrona. Alicia sentiu-se insegura diante da atitude hostil da duquesa, mas decidiu que não iria permitir que a futura sogra a intimidasse. Permaneceu calada, esperando pelo real motivo que levara a mãe de Dalton a procurá-la. Com um olhar de sarcasmo, Mildred correu os olhos pelo aposento. — E quase irónico que nosso primeiro encontro em particular se dê aqui, um lugar para crianças e seus brinquedos. — Seus lábios finos se retorceram. — Como uma bela boneca, você encantou meu filho. Ele meteu na cabeça que quer tê-la como esposa, e Dalton sempre consegue o que quer. Contudo, é meu único filho, agora que Drake se foi. À minha maneira me importo com Dalton. Não quero vê-lo magoado. Mildred fez uma pausa, fixando os frios olhos azuis em Alicia. — Dalton e eu temos muitas semelhanças, srta. Spencer. Desde criança, ele sempre foi incapaz de amar. Assim, se estiver com algum sonho romântica... — A duquesa sorriu, estudando o semblante de Alicia. — Dalton está determinado a seguir em frente com essa decisão porque sabe que isso vai me aborrecer. Ele me conhece muito bem. E posso entender por que você aceitou fazer parte dessa palhaçada. Dalton é um dos mais ricos homens da Inglaterra, e os domínios da família, alguns dos mais invejáveis em toda a Europa. É bonito, atraente e, com certeza, um grande amante, pois é o melhor em tudo o que faz. Alicia sentiu as faces queimar, porém se manteve calada. — Muito bem, irei direto ao assunto. Estou disposta a lhe pagar uma fortuna para que desista de se casar com meu filho. Quero que parta ao anoitecer. Eu lhe darei a quantia que pedir. Claro que quero um documento assinado atestando que está rompendo o contrato de casamento. — E se eu me recusar? — Por que haveria de recusá-lo? Estarei lhe dando aquilo que meu filho ofereceu, e mais ainda. Com minha proposta, você será livre, uma jovem muito rica que poderia casar-se com quem escolhesse. — Não estou à venda, milady. A duquesa arqueou a sobrancelha. — Está negando que meu filho colocou um preço para seus serviços, como a alguma prostituta comum? — Assinamos um contrato matrimonial. — Então, como pode dizer que não está à venda? — A senhora é quem está tentando me comprar. Sou Lady Alicia Spencer, não alguma desmiolada deslumbrada por títulos ou riqueza. — Ergueu o queixo, libertando-se da sensação de perturbação que a ameaçava. — Sinto muito que esteja desapontada com a escolha de Dalton. Lamento que Elizabeth esteja magoada... — Ah... você não deve saber. Os pais de Elizabeth obrigaram-na a um casamento às pressas com lorde Rothbury. Mas a união com um homem a quem não ama não irá impedir Elizabeth de encontrar a felicidade. Ela sempre irá permanecer próxima a Dalton, eu diria. — Seus lábios se entortaram e sua expressão fez Alicia lembrar-se de um gato prestes a cair sobre a presa. Sob a raiva da duquesa, Alicia sentiu algo mais: uma sensação... como a de um animal em sofrimento. Sim, já experimentara aquilo ao encontrar animais presos em armadilhas. Fascinada, Alicia ignorou as palavras da duquesa e concentrou-se em seus


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning próprios instintos. Debaixo daquele ódio, podia vislumbrar uma alma cheia de angústia. Desafiando toda a razão, encheu-se de tristeza e compaixão por aquela mulher. Era uma criatura infeliz, uma loba defendendo sua cria da melhor maneira que sabia. Mas e toda aquela mágoa, aquela dor? A ideia era intrigante, embora Alicia não pudesse ignorar sua intuição. — Creio que milady ama Dalton, e sei que ele se importa muito com a senhora. A duquesa encarou-a, surpresa. — Você nada sabe a nosso respeito! — Não é algo que eu saiba, é o que sinto. — Alicia levantou-se. — Não posso explicar de forma lógica, mas confio em meus instintos. Mesmo agora, neste quarto tão preenchido com sua dor, noto que a razão por trás de sua visita é seu amor por seu filho. O espanto, e em seguida a cautela, perpassaram pelo rosto de Mildred. — Que brincadeira está tentando fazer? — A senhora crê mesmo que Dalton seria feliz casando-se com Elizabeth. Não posso fazê-la mudar de opinião, mas se se recusar a permitir que Dalton tome as próprias decisões, então vai perdê-lo. E um preço terrível a pagar, se insistir nas coisas a sua maneira. A senhora precisa de Dalton em sua vida, e ele, da senhora. Espero que perceba isso antes que seja tarde demais. — Não venha me dizer do que preciso! Não preciso de ninguém! E se Dalton se casar com você, nunca mais tornará a me ver! — A duquesa se ergueu e, antes que chegasse à porta, Alicia alcançou-a. — Por favor, não deixe Havencrest com esse ódio pairando entre a senhora e Dalton. A duquesa voltou-se, fitando-a com ironia. — Gostaria muito que a senhora ficasse para nosso casamento. Alicia estava tão surpresa quanto a duquesa com o convite. Afinal, a mulher a desprezava sem reservas. Mas, assim que pronunciou o pedido, descobriu que queria muito que a mãe de Dalton partilhasse da cerimónia. Os traços finos da duquesa transformaram-se numa máscara de confusão mesclada de suspeita. Depois de um longo e desconfortável silêncio, Mildred se foi. Quando a porta se fechou, Alicia estremeceu. Sentiu-se como se tivesse ficado face a face com um bicho ferido. Só que, desta vez, não fora capaz de lhe transmitir conforto. Sentou-se na poltrona, a mente pesada, cheia de questões. O que acontecera àquela mulher para endurecê-la tanto? Mesmo que soubesse, a duquesa haveria de querer ajuda? Decerto que não. Alguém bateu à porta. Alicia pôs-se de pé em um salto, imaginando, por um instante, que a duquesa havia voltado. Ora, ela não se importara em bater da primeira vez... Girou a maçaneta, os dedos ainda tremendo. — Alicia! — Dalton entrou, o rosto bonito cheio de preocupação. — Olívia me disse que minha mãe veio vê-la. Onde ela está? — Milady esteve aqui, mas já foi embora. — Alicia exalou um suspiro de alívio. — Você está bem? — Dalton rodeou-a com os braços. — Vim assim que soube. — Claro que estou. Sinto muito se Olívia o deixou preocupado. Eu, porém, posso enfrentar minhas próprias batalhas, você sabe. Dalton sorriu, afastando uma mecha da testa altiva e delicada. — Sim, eu sei. E, é claro, minha mãe tomou nota do fato, também. — Bem, agora vamos procurar sua irmã e acalmá-la. — Alicia aceitou o braço que


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning o noivo lhe oferecia. Graças a Deus, Dalton não pensara em perguntar, em primeiro lugar, por que a duquesa quisera vê-la. CAPÍTULO XI Choveu durante os três dias que antecederam o casamento, mas Alicia mal notou, envolvida pelo torvelinho de atividades que a ocupavam em todos os momentos. Eram os ajustes do vestido de noiva, os últimos detalhes para a recepção, para os quais Olívia julgara necessária sua opinião, os exercícios e o treinamento de Bashshar. Por sorte, não via Dalton com frequência. Mal tinha tempo para se preocupar com as mudanças desconcertantes que viriam quando se tornasse a duquesa de Wexton. Marie cantarolava, abotoando as costas do vestido de noiva. Embora as palavras fossem em francês, Alicia não teve problemas em entender: "Feliz é a moça que se casa com o dia ensolarado, mas infeliz é a noiva que casa com chuva". — Pare com isso, Marie! — Olívia endereçou um olhar aborrecido para a criada. — E uma superstição tola, que só faz sentido para os franceses. Além disso, creio que o céu está clareando. Nisso, ouviu-o o ribombar dos trovões. — Espero que tenha razão, Olívia — desejou Alicia, enquanto uma das costureiras ajustava a linha alta da cintura e outra ajeitava o véu em sua cabeça. — Meus pais já deveriam ter chegado há dois dias. Ives falou que todas as estradas estão quase intransitáveis. E se não chegarem a tempo para a cerimónia? — O que Ives sabe sobre estradas? Desde que a chuva começou ele não saiu de casa. Marie suspirou. — Oui, mas eu ouvi o jardineiro comentar que a chuva arruinou todos os canteiros de flores. Nem um simples lírio... — Marie! Termine de passar o vestido amarelo de Alicia! — Mas, milady, eu ainda não... — Suma daqui! — Gritou Olívia para a francesa, que saiu em disparada do quarto. Alicia franziu a testa. — Isso não era necessário, Olívia. Marie está certa. A chuva está estragando tudo. Olívia colocou o dedo sobre os lábios de Alicia e sorriu. — Mas não pode estragar sua aparência resplandecente, quando você pronunciar os votos com meu irmão, querida. Agora, não se preocupe. Sua família chegará em tempo, a igreja estará cheia de flores frescas, e tudo estará perfeito para seu casamento, amanhã. Se continuar chovendo, colocaremos tendas no gramado para o povo daqui. Será como uma feira, só que muito mais festiva. Alicia sentiu seu ânimo naufragar. Contudo, não tinha intenção de extinguir a teimosa tentativa de Olívia em manter o otimismo. De repente, Olívia deu um grito, os olhos reluzentes. — Alicia! Uma fila de carruagens acaba de passar pela guarita dos portões! — Apertou o nariz contra o vidro. — Sua família chegou! Alicia correu para a vidraça embaçada. Quatro carruagens, cada uma puxada por seis cavalos, estacionavam diante da entrada principal. Uma grande excitação e


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning felicidade a dominaram. — Olhe, eles trouxeram Júpiter! — Apontou para o belo garanhão amarrado à última carruagem. — Um animal magnífico. É um de seu plantel? — Sim, foi o primeiro potro que treinei para as corridas. Tinha esperanças de inscrevê-lo no clássico de Newmarket, este Outono. — Sacrificou o treinamento de seu próprio animal para vir a Havencrest e ajudar Bashshar, não foi, minha querida? — Há hora e lugar para tudo. Júpiter terá outros anos e outras chances de vencer o clássico. — Apesar do que disse, Alicia podia ver que Olívia não se convencera. A chuva caía sobre o jardim abaixo, enquanto os criados se desdobravam entre as carruagens. Os pais de Alicia e suas irmãs desceram do primeiro coche, um belo veículo. Onde será que o barão encontrara uma carruagem tão impressionante assim para alugar? O coração de Alicia disparou de alegria quando reconheceu sua criada, Hortense, espiando para fora das janelas da segunda carruagem. Como sentira saudade dela! Nos dois últimos veículos, baús de tamanhos variados e de formatos diversos ocupavam todo o espaço. Sua família chegado para o casamento. Seu casamento. Deus Todo-Poderoso, aquilo estava mesmo acontecendo! No dia seguinte, àquele horário, estaria adentrando a nave da igreja para tornar-se a esposa de Dalton Warfield. — Depressa, querida! — Olívia observava a costureira tirar o vestido de Alicia. — Marie, traga a roupa nova de Lady Alicia — ordenou à criada, que passava a ferro, na ante-sala. — O vestido verde-musgo e os sapatos combinando. — Oui, milady. Quatro criadas, carregando os trajes de noiva e o véu, saíram para a ante-sala. As mãos de Alicia tremiam quando ela ergueu os braços para que Marie a ajudasse a pôr o primeiro dos vestidos que haviam sido feitos com os tecidos que Olívia a ajudara a escolher, como parte do enxoval. A seda verde-musgo se transformara num traje encantador. Olívia dissera que fazia realçar seus olhos castanhos e o vermelho-dourado de seus cabelos. Alicia corou ao se olhar no espelho. Ficou a imaginar o que sua mãe diria. Mal podia esperar que Marie terminasse de abotoar a elegante roupa para descer correndo as escadas. — Sua pele brilha como uma pérola de água doce contra esse tom delicado, Alicia. — Olívia sorria. "Vaidade é pecado", pensou Alicia, de súbito. Olhou pela última vez para o espelho e, então, desviou os olhos, enquanto Marie lhe penteava os cabelos, trançando-os com uma fita. — Lady Alicia, a senhorita está a própria imagem da formosura! — A criada ergueu as mãos, encantada. — Obrigada. — Alicia enrubesceu. Enfiou nos pés os sapatos e respirou fundo. Levantou-se e caminhou para o corredor que levava às escadarias. Não chegara ao meio dos degraus quando, na entrada do salão, viu quatro criados ajudando sua mãe e suas irmãs a tirar os mantos ensopados. Ives se encontrava de pé, de cenho franzido, olhando as poças que se formavam no piso de mármore. — Alicia! — Gritaram Lyssa e Kimbra, numa só voz, quando a viram. Deixaram cair os agasalhos e, com um farfalhar das saias, correram escada acima para encontrá-la.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Sufocada de alegria, Alicia envolveu as duas meninas nos braços, quando se debruçaram sobre ela, num rompante de gritos e risadinhas. — Meninas! — Admoestou-as a baronesa, de pé, os ombros retos, o porte digno como sempre, observando a cena com severidade. Alicia escondeu um sorriso ao ver que Ives continuava a ostentar uma carranca amarrada. Abraçou as irmãs e, junto com elas, desceu para cumprimentar a mãe. — Minha querida, você está muito bem! — A baronesa examinou o vestido de Alicia com curiosidade maternal. — Onde está papai? — Alicia olhou para a porta por onde os criados carregavam os baús. Ives permanecia lá, orientando-os para que colocassem a bagagem nos quartos apropriados. — Neal quis acompanhar os cavalariços que estão levando Júpiter ao estábulo. — E deu um beijo no rosto de Alicia. — Que surpresa maravilhosa ter trazido Júpiter! Mal posso esperar para vê-lo. — Vamos agora, então — suplicou Lyssa, de olhos arregalados, tomando-a pela mão. — Mais tarde amorzinho, prometo. Primeiro, quero que venham comigo. A criada lhes mostrará suas acomodações. Depois que se refrescarem, o jantar será servido. Alicia seguiu na frente, acompanhada pelas irmãs, enquanto uma das criadas levava a baronesa até os aposentos reservados para os hóspedes. Desde que vira as meninas pela última vez, fazia poucas semanas, parecia que tinham crescido vários centímetros. Uma estranha tristeza apoderou-se do coração de Alicia. Tanta coisa estava acontecendo, e tão depressa... — Nem posso acreditar que vou assistir a seu casamento! — Lyssa segurava a saia e rodava em círculos pelo salão. — Posso ser dama de honra? — Lyssa, aja como gente grande — ordenou-lhe Kimbra. Lyssa ameaçou retrucar, mas resolveu calar-se. Alicia ficou a imaginar como Dalton iria receber as brincadeiras e a algazarra de suas irmãs. Então, recordou-se de que sua família ficaria ali por apenas dois dias. Pelo menos seus pais tinham concordado em vir. Seriam bem poucos os convidados. Os únicos membros da família de Dalton eram Olívia e seu marido, Robert. — Onde está o duque? — Kimbra quis saber, quando chegaram à suite que Alicia escolhera para as irmãs. Os olhos da menina se arregalaram de deslumbramento, quando se viu dentro do imponente aposento. — Dalton espera se juntar a nós no jantar. — Alicia imaginava onde ele poderia estar. Não via o duque desde a refeição noturna da véspera, mas não tinha intenção de confessar isso. — As criadas as ajudarão a desfazer as malas e a se vestir para o jantar. Peçam ao rapaz que fica no fim do corredor para que as acompanhem. Prometam-me que não sairão por aí sozinhas. — Não precisa ficar com medo, irmã — retrucou Lyssa, com um sorriso misterioso, como se achasse a ideia muito divertida. Trocou um olhar de cumplicidade com Kimbra. — Não iremos deixá-la embaraçada. Deixamos isso para o papai. — O jantar será daqui a duas horas. — Alicia fechou a porta e saiu para o corredor, com a esperança de que Kimbra estivesse apenas tentando fazer troça. A porta da suite de seus pais estava entreaberta. Alicia espiou dentro e viu a mãe deitada na cama, de olhos fechados. — Mamãe cansou-se demais da viagem?


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Não, querida. Pensei apenas em deitar-me e me recobrar um pouco. — Sua voz falhou e, então, ela sorriu. — Oh, Alicia, você vai se casar! Não é mais minha garotinha... Alicia envolveu-a num abraço. — Não importa quantos anos eu tenha, mamãe, a senhora sempre será minha mãe, e eu sempre a amarei. — Sei disso, meu anjo. Alicia, muita coisa aconteceu depressa demais. Tem certeza de que será feliz aqui? — Quem não seria feliz em Havencrest? — Alicia desviou o olhar. — E há muitas outras propriedades. A casa em Londres, o castelo na Escócia... — Sabe o que eu quis dizer, filha. — Sim, mamãe, eu serei feliz. Muito. — Não havia por que atormentar a mãe com seus temores. — Estou tão contente, querida! Por causa de seu casamento, Kimbra e Lyssa irão ter as coisas que eu sempre quis que você tivesse. — Terei tudo que o dinheiro pode comprar. — Alicia afofou os travesseiros atrás da cabeça da mãe. — A irmã de Dalton e seu marido estarão aqui para a cerimónia. Alicia tentava demonstrar a alegria que não sentia. Pensou no convite que fizera à mãe de Dalton. Sem dúvida ela iria dar as costas ao casamento do filho, como afirmara que faria. — Dalton tem um outro convidado: o padrinho. Será um casamento simples. A senhora parece cansada, mamãe. Não a estou aborrecendo com minha conversa? — Bem, não quero ser indelicada, minha querida, mas... fiz algumas dívidas com os vestidos de suas irmãs e os presentes de casamento, e estou pensando se você poderia... cuidar das despesas com a costureira e com o aluguer da carruagem. — Mas eu achei que Dalton... — Alicia percebeu que sua mãe não sabia nada sobre o dinheiro. — Quero dizer, imaginei que as despesas para virem até aqui estivessem pagas. — Não vi um só centavo. Alicia disfarçou a frustração. Seu pai não contara à esposa sobre a generosa pensão que Dalton providenciara para a família. — Muito bem, mamãe. Quando tiver tempo, traga-me as contas e eu mandarei pagá-las. Ao ver o sorriso de alívio da baronesa, uma sensação de satisfação logo a confortou. Pela primeira vez na vida, podia lidar com aquilo que, no passado, fora seu mais grave problema: as finanças dos Spencer. Agora, o futuro deles seria seguro. — Descanse, mamãe. Poderá tirar um cochilo antes do jantar. Não se preocupe com as meninas. Providenciarei para que Lyssa e Kimbra estejam vestidas adequadamente. — Obrigada, filha querida. Alicia fechou a porta e atravessou o corredor em direção à suite do final da ala. Antes que chegasse à porta, um criado chegou, apressado. — Milady, seu pai a espera na biblioteca. Quer vê-la neste instante. — Obrigada. Sabe se seu patrão já chegou? — Sim, milady. Está lá em baixo, com seu pai. — Oh... Um arrepio de desconforto a percorreu. Encaminhou-se para as escadas. Podia ouvir as vozes alteradas que vinham da sala ao final do corredor, antes de se aproximar das portas fechadas. Bateu e, então, girou a maçaneta. A conversa parou assim que Alicia adentrou o recinto. Dalton estava em pé, junto


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning à janela, de braços cruzados, as feições impassíveis. O barão recostava-se contra o aparador de mármore branco, o rosto sardento avermelhado. Sua fisionomia zangada suavizou-se quando a viu, e um largo sorriso cruzou-lhe a face. — Pelas trombetas de Jerico! Olhe para minha garota! Linda como os primeiros botões da primavera. Alicia correu a abraçá-lo. — Papai, estou tão contente em vê-lo! Neal soltou-a e deu um passo para trás. — E mais do que seu futuro tinha a dizer. — Sua voz saiu num resmungo baixo e raivoso. Alicia percebeu o desrespeito de seu pai ao referir-se a Dalton com "seu futuro". Olhou para o noivo, aflita. — Aconteceu alguma coisa, Dalton? Os lábios dele se torceram com um trejeito de escárnio. — Parece que seu pai trouxe um garanhão de Marston Heath. — Sim, vi Júpiter pela janela. — Voltou-se para encarar o pai. — Foi muita consideração de sua parte. Estava preocupada com o treinamento dele. Além disso, sentia saudade de meu cavalo. — Parece que o barão pensa que poderei comprar Júpiter como um presente de casamento para você. — Ora, isso é ridículo! Papai, Júpiter é meu. Eu o criei desde que era um potro. — Deixe-nos a sós, filha. — Neal apontou para Dalton. — Isso é comigo e você, Wexton. Mulheres não entendem de negócios. — Sinto muito, papai, mas agora sou eu que desejo falar em particular com o senhor. — Olhou para Dalton, cuja expressão se transformara em uma máscara de profundo tédio. — Se fizesse a gentileza de me permitir conversar com meu pai a sós... Dalton relanceou o olhar de um para o outro. — Não há necessidade de privacidade entre membros da família, que é o que seremos em menos de um dia. — Sorriu, malicioso. — Não preciso de outro cavalo, muito menos um garanhão, lorde Spencer. Contudo, visto que Júpiter não é de seus cavalos de tração, e porque é um garanhão, deve ficar longe de meus outros animais. Devo cobrar taxas de hospedagem pelo período em que ficar aqui. E claro, o custo incluirá alimentação, água, abrigo e todos os pagamentos para os tratadores, mais as gorjetas. Quatro mil libras devem cobrir a estadia dele, eu diria. — Quatro mil! — O queixo de lorde Spencer caiu. Fechou a boca e seu rosto avermelhou-se ainda mais. — Muito bem, Wexton. Eu lhe darei o cavalo, mas pode ter certeza de que é só por causa de minha preocupação com uma querida filha. Ela adora aquele bicho. — Obrigada, pai. — Alicia fitou Dalton e reconheceu aquele misterioso luzir em seu olhar. Sorriu, em agradecimento. — Papai, o senhor deve estar cansado. Chamarei um criado para que lhe mostre seus aposentos. — Agradeço, garota. — Sem um olhar de volta para Dalton, lorde Spencer dirigiuse até a porta, onde um empregado esperava. — Não sei como lhe agradecer — disse Alicia, assim que o pai se foi. — Você não imagina como desprezo as tentativas de meu pai de tomar seu dinheiro. Acho isso tão vergonhoso! Ainda mais diante de sua extrema generosidade. — Estou apenas preocupado com aquilo que a faz feliz. — Dalton correu a mão por entre os cabelos de Alicia, enrolando um cacho nos dedos. — Sei disso. — Notou a mudança perceptível no estado de espírito dele, fascinada ao perceber que aquele olhar ardente a percorria, detendo-se em sua boca, seu pescoço e demorando-se na linha do decote, onde os seios roçavam a seda verde-


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning musgo. Alicia sentiu os mamilos endurecerem. Depois daquela noite, seria dele, e não haveria impedimentos para o que via naquele intenso olhar azul. Não precisou fitá-lo para saber que Dalton pensava da mesma forma. O noivo queria beijá-la, e ela percebeu que também desejava o mesmo, e muito mais. Por mais que tentasse, não poderia retroceder. Ergueu o queixo, entreabriu os lábios e baixou as pálpebras, à espera. Dalton estava a centímetros de distância. Podia sentir seu calor, seu cheiro másculo. Em qualquer lugar ela reconheceria o aroma sutil de sândalo, de conhaque e um traço de tabaco. Por um instante que pareceu a eternidade, Alicia esperou, uma tensão insólita pairando entre os dois. Então, estendeu a mão e correu os dedos pelo rosto bem barbeado de Dalton. E ele a beijou, sua boca apossando-se da dela como se houvesse esperado que a noiva lhe desse as boas-vindas. Com um suspiro, Alicia entregou-se aos sentimentos que a vinham consumindo, enterrando os dedos nos cabelos negros de Dalton. A carícia tornou-se mais apaixonada. Ela afastou-se, abrindo os olhos. Viu que Dalton esboçava aquele sorriso malicioso, como se estivesse encantado em saber que Alicia o queria. Até uma cortesã ficaria ruborizada diante daquele sorriso. Alicia sentiu-se corar, mas forçou-se a expressar um trejeito confiante e um tanto mordaz, um certo ar de zombaria. — Você é mesmo adorável, minha querida. — Dalton a encarou. — E acho que estou ficando ansioso demais para que chegue logo nosso casamento, amanhã. — Eu também. Alicia teve esperanças de que Dalton não notasse que, às costas, ela cruzava os dedos. CAPÍTULO XII A noite, depois do jantar, enquanto Dalton e outros cavalheiros se retiraram para a sala de jogos, para uma partida de bilhar e uma rodada de cartas, Olívia e a baronesa foram conversar no berçário com Lyssa, em torno do pequeno Drake. Alicia havia se trocado, tirando o vestido para colocar os trajes de montaria. Queria ver Bashshar antes de se recolher. Quando passava pela biblioteca, Kimbra alcançou-a. — Você se importa que eu vá junto, Alicia? — Adoraria ter sua companhia. — Entretanto, pressentia que havia algo por trás daquele pedido. Quantas vezes, no passado, Alicia ouvira os problemas de Kimbra e ajudara a jovem irmã a encontrar uma solução para eles? Se, pelo menos, os seus fossem tão simples... — Talvez possamos apenas conversar e deixar para ir ao estábulo mais tarde, o que acha? — Sugeriu Kimbra. — Claro, querida. — Alicia olhou para a porta aberta da biblioteca. — Vamos entrar. Ninguém nos aborrecerá aqui. Lá dentro, o aroma agradável de madeira queimando da lareira, de couro antigo dos volumes alinhados nas paredes e da cera de abelha com que os criados poliam os móveis recebeu-as.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Kimbra enrodilhou-se na poltrona de veludo vermelho, em frente à lareira de mármore, enquanto Alicia acendia o lampião sobre a mesa lateral. O fogo baixo crepitava alegre na grelha, afastando a humidade. Kimbra sorriu quando Alicia sentou-se a seu lado e correu os dedos pelos cabelos cor de avelã da menina. Depois de alguns instantes de silêncio, perguntou-lhe: — Como se sente ao ter uma duquesa como irmã? — Não sei. Pergunte-me amanhã, depois do casamento. — Muito bem. Queria conversar comigo? O sorriso de Kimbra desapareceu, substituído por um ar pensativo. — Quer se casar com Dalton, Alicia? — Ora! — Alicia deu uma risada, para esconder o próprio nervosismo. — Por que quer saber uma coisa dessas? O olhar sério de Kimbra provocou uma pontada de remorso em Alicia. A menina só queria ter certeza de que a irmã mais velha não estava se sacrificando pela família. Uma pergunta honesta merecia uma resposta igualmente honesta. Alicia olhou para o fogo e se deu conta da verdade. — Sim, eu quero, Kimbra. Não aceitaria me casar se julgasse isso detestável. Kimbra encarou-a, a estudá-la. — Papai disse que você está se vendendo. Alicia quase sufocou, sentindo o rosto queimar. — Que absurdo! Dalton e eu concordamos em uma união de conveniência. É bastante prático, e me considero com sorte por ter sido pedida em casamento por ele. — E o que você tem de fazer, como esposa de Dalton? Esfregando as mãos sobre as pregas do vestido, Alicia relanceou o olhar para a irmã. — Desempenharei meu papel como esposa. Terei seus filhos, cuidarei para que sejam bem-criados, supervisionarei os trabalhos domésticos. Depois que eu tiver lhe dado um herdeiro, estarei livre para conduzir meu destino, para ir e vir conforme me agrade. Terei permissão para voltar a viver em Marston Heath, se eu quiser. Kimbra se surpreendeu. — Não quer morar em Havencrest? — Sim, mas quero viver em Marston Heath, também. — Alicia forçou um sorriso. — Irei visitá-la com frequência, enquanto isso. E você pode vir para cá, passar uma temporada comigo. Além do mais, não é muito cedo para iniciar suas aulas de piano e de canto. Contratarei um professor de dança e, então, quando você tiver dezasseis anos, poderá debutar em Londres. Alicia encheu-se de ânimo, com os planos. — E será tão encantadora que todos os homens irão cair de amores por você. Kimbra perdeu a compostura, desatando a dar risadinhas. — Como vou saber com quem devo me casar? Alicia achou graça da questão, mas de repente hesitou e ficou séria, lembrandose da primeira vez em que vira Dalton. — Você saberá. — Como? E isso o que quero saber, Alicia. Como descobriu que o duque era o homem de sua vida? A garganta de Alicia se apertou. Claro que Dalton era o homem de sua vida, mas como explicar seus sentimentos quando ela mesma não sabia fazê-lo? Compreendia apenas que amava aquele que vivia sob aquela máscara de indiferença. — Quando estou com Dalton e estamos trabalhando juntos com o garanhão, é como se fôssemos uma só mente. Quase posso adivinhar o que ele está pensando. —


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Sorriu, envolta naquela sensação maravilhosa de comunhão total. — Às vezes, quando ele me olha de um certo jeito, sei que sente a mesma coisa, também. Dalton é tão gentil, por vezes! Importa-se com os outros, seja com os criados, seja sua irmã, ou... comigo. Pode ser muito delicado e protetor. Em outras ocasiões, noto que consigo enxergar dentro de sua alma, e o que vejo quase me parte o coração: a solidão, a dor que o mantém prisioneiro dentro de si mesmo. Alicia olhou de esguelha para Kimbra. — Sei que é difícil para você entender. — Não é. Você sempre curou seus bichos de estimação e outros animais, Alicia, com seu amor. Quem sabe possa curar o duque, também? Foi a vez de Alicia voltar-se para a irmã, atónita com o discernimento da garota. — Eu gostaria de tentar, querida. Kimbra apertou os lábios, num biquinho. — E com alguém assim que eu me casarei, Alicia. Um rapaz que possa enxergar dentro de minha alma e que prometa me amar para sempre. — Olhou a irmã e ficou vermelha. — Ou com aquele que ameace se jogar por sobre a espada a menos que eu me torne sua esposa. — E Dalton e eu dançaremos em seu casamento, irmãzinha! — Alicia gargalhou. Espreguiçou-se, com uma sensação de alívio. — Está pronta para ir comigo aos estábulos? Kimbra levantou-se e bocejou. — Não, acho que vou procurar mamãe e Lady Olívia, no berçário. A irmã de Dalton prometeu mostrar-me os últimos figurinos da moda em Londres. — Então, veremos Júpiter amanhã. Peça a um criado para acompanhá-la até o berçário. Você nunca irá encontrar o caminho, sozinha. — Vou pedir, não se preocupe. — Kimbra debruçou-se e roçou os lábios no rosto de Alicia. — Fico muito feliz em tê-la como irmã. — Obrigada, querida. Também agradeço aos céus por isso. Sorriu, vendo Kimbra afastar-se correndo. Um minuto antes, uma pequena dama, no instante seguinte, uma criança cheia de energia. Depois que a porta se fechou, Alicia afundou-se entre as almofadas, fitando os carvões que ainda crepitavam na lareira. Os únicos sons eram os das gotas de chuva escorrendo pela vidraça e do relógio, tiquetaqueando sobre o aparador. Tudo tão quieto. Tão tranquilo. — Lamento interromper sua solidão, milady, mas... Alicia deu um pulo e ficou de pé, o coração disparado. Voltou-se, defrontando-se com Justin Sykes, que se levantava do sofá perto da janela mais distante. — Meu bom Deus, há quanto tempo está escondido aí?! Justin ergueu as mãos, e Alicia recordou-se daquela noite, três anos atrás, quando o encontrara na cama. Teve vontade de sair correndo, mas conteve-se. — Eu lhe fiz uma pergunta, milorde. — Estava tirando uma soneca e acordei ao ouvir milady e sua irmã... — Seus olhos faiscaram, divertidos. — Quando percebi o que estava acontecendo, julguei que seria melhor passar despercebido. — E por que não continuou assim? — Porque... — Então? — Insistiu. — Fiquei aqui por algum tempo, minha cara, e... bem... Alicia se deu conta da delicadeza da situação. — É melhor se retirar, senhor.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Se eu pudesse, gostaria de trocar umas palavras consigo, Lady Alicia. Partirei pela manhã... — Não vai ficar para o casamento? — Diante da surpresa, ela esqueceu-se da raiva. — Não poderia me furtar à honra de estar ao lado de Dalton. Partirei logo depois da cerimónia. E, como não ficarei para o banquete, posso não ter outra chance de conversar com você. — Compreendo. Dalton ficará muito desapontado por o senhor não poder ficar para a festa. Tem certeza de que um dia fará diferença? — Fiz planos que não podem esperar, milady. Mas, antes de ir, não poderia deixar de comentar algo que você disse para sua irmã. — Quer dizer que estava ouvindo escondido... — Minha reputação é a pior possível, como bem sabe, milady. Ouvir escondido é uma virtude, comparada aos outros pecados que me têm sido imputados. — Estranha colocação... — Alicia arqueou uma sobrancelha. Mal pôde esconder o sorriso, ao sentar-se, diante dele. — Então, qual era seu comentário, Sr. Sykes? O rosto de Justin abriu-se num sorriso encantador, e Alicia pôde imaginar as diabruras que Dalton e aquele belo farrista deviam ter aprontado com a sociedade londrina. — Aprendi muito nestes últimos dias com Dalton. Na verdade, descobri algo sobre mim mesmo. E devo a você por essa constatação tardia. — A mim? — Sou um dos mais antigos amigos de Dalton, milady. Nós nos conhecemos em Cambridge, e temos estado juntos desde então. Você está certa quanto a Dalton. Ele se mantém enclausurado sob aquela fachada de arrogância. Contudo, em poucas semanas, pude ver através dele, como você. — E como o vê, Sr. Sykes? — Dalton é o melhor em tudo o que faz. É teimoso, embora possa admitir quando erra, contanto que se possa provar isso. — Justin riu, a sala se enchendo com o som rico e profundo de barítono. — Em uma luta, é o amigo que todo homem quer ter na retaguarda. E leal e usa a verdade como uma espada. Seus lábios se curvaram em outro sorriso irresistível, que revelava os dentes muito brancos. — Um homem entre os homens, aquele a quem me sinto honrado em chamar de amigo. — Seus elogios são mais apropriados para um epitáfio, Sr. Sykes. Ou, quem sabe, para alguém como o senhor o casamento seja o mesmo que a morte? — Por algum tempo talvez eu tenha pensado assim, mas agora não mais. Alicia não saberia afirmar se ele falava sério ou brincava. Afinal, era um bon vivant, ainda que charmosíssimo. — Posso entender por que Dalton o considera um amigo. — Ora, obrigado, milady! — Dalton sabe que partirá logo depois da cerimónia? Alicia estranhou a própria relutância em deixá-lo ir embora. Havia uma aura de honestidade envolvendo Justin Sykes, e descobriu-se desejando ter a oportunidade de conhecê-lo melhor. — Não, milady, eu lhe direi amanhã. Num impulso, Alicia indagou: — Por que não reconsiderar, Sr. Sykes? Garanto que Dalton ficaria desapontadíssimo se você partisse tão cedo. — Alicia percebeu que ele arqueava as sobrancelhas, surpreso. — É possível alterar seus planos e ficar connosco por alguns


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning poucos dias a mais? — Estou muito honrado com seu convite, Lady Alicia — murmurou, num tom baixo e profundo. — E aceito sua gentil e generosa sugestão. — Dalton ficará muito feliz! Sykes caminhou em sua direção, e Alicia ofereceu a mão para que ele lhe beijasse os dedos. — Perdoe-me por minhas maneiras indelicadas, Lady Alicia, mas prometi a seu futuro marido que não tocaria um dedo em sua pessoa, em suas irmãs, sua mãe ou qualquer criatura do sexo feminino debaixo deste teto. Ela gargalhou. — Dalton o fez prometer uma coisa dessas? Justin assentiu, correndo o dedo pelo colarinho. — Sim, e estou começando a perceber o peso dessa promessa. — Sua boca torceu-se, num trejeito divertido. —. Além disso, desde que estou aqui, sinto-me rodeado por um ambiente tão salutar que tenho procurado refrear minha vontade de beber e de fumar. Se continuar assim, minha reputação manchada mudará da água para o vinho. Droga, posso até mesmo me tornar respeitável! Quem diria, hein? Ela não conseguiu conter uma risada. — Muito bem, Sr. Sykes. Juro que não falarei a ninguém de sua honra recémdescoberta. Ele hesitou, e uma estranha centelha de ansiedade escureceu-lhe o olhar, sua expressão tornando-se mais séria. — Uma vez eu a pedi em casamento, lembra-se, milady? Alicia ficou ruborizada com a lembrança. Fez que sim com um gesto. Se Justin ia dizer algo mais, pareceu arrepender-se. — Dalton é um sujeito de muita sorte — murmurou, por fim, virando-se e caminhando para a porta. — Sr. Sykes? Justin parou e fitou-a, por sobre o ombro, a mão na maçaneta. Alicia correu até ele e ficou na ponta dos pés. — Acho que eu não lhe disse como fico feliz por Dalton tê-lo como amigo. — Esticou o pescoço e beijou-o no rosto. Um brilho fugaz perpassou as pupilas de Justin. — Sim, Dalton é mesmo um sujeito de sorte. Alicia ficou a observá-lo, e Justin abriu a porta e saiu, seus passos morrendo ao se afastar pelo corredor. Apenas quando o silêncio tomou conta do hall é que ela se lembrou que ele não lhe contara o que havia aprendido a respeito de si mesmo. Na manhã do casamento, a chuva caía a cântaros quando Alicia entrou na carruagem ducal que a levaria à igreja. Coberto de fitas brancas e laços, e buquês de flores lavados pela água, o veículo mais parecia um imenso melão. Ela sufocou uma risada nervosa ao se recostar no assento de veludo, uma fria onda de ansiedade correndo-lhe a espinha. Diante dela, sentavam-se seus pais, como era o costume. Alicia sentiu uma pontada de remorso. No íntimo, gostaria de ter Olívia consigo, mas a cunhada fora na frente, com Marie e Hortense. O barão permanecia num moroso silêncio, enquanto sua mãe, os olhos vermelhos de tanto chorar, tentava sorrir. O veículo balançou perigosamente, adernando para o lado, quando as rodas lutavam contra o lamaçal em que se transformara a estrada. Alicia ficou rígida,


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning imaginando se os outros coches tinham chegado a salvo. A última carruagem do cortejo era sempre a nupcial. Ainda bem, pois assim sentia-se mais tranquila em saber que Dalton já a esperava na igreja. Não via o noivo desde o jantar, na véspera, que fora bastante breve. A baronesa permanecera no quarto. Para tornar as coisas ainda piores, seu pai estava com aqueles seus modos insuportáveis, recusando-se a falar com alguém. Logo cedo, Alicia fora acordada e o desjejum servido em seu quarto. Não conseguira engolir um só bocado. Depois, as criadas a ajudaram a se vestir, com sua mãe ao lado derramando-se em pranto, flanqueada por uma sombria Lyssa e uma Kimbra preocupada. "Amado Senhor, eu lhe imploro que a cerimónia não seja um completo desastre", rezou, aflita. Alicia apertou o buquê de botões de rosa, brancos e rosados, que trazia nas mãos, seus dedos enregelados. Graças a Deus, a igreja ancestral da família ao lado do mausoléu ficava apenas a poucas milhas da mansão. As estradas estavam uma lama só, tornando o trajeto quase impossível. Enfim, a carruagem estremeceu, parando. O ajudante de cocheiro, vestido em seu novo uniforme púrpura e dourado, especial para a ocasião, saltou para ajudá-los a descer e entrar na nave. Através do vento e da água, Alicia notou uma fila de carruagens que já haviam chegado, e sossegou um pouco. Quem sabe tudo corresse bem? Um criado correu com um manto para protegê-la e a sua mãe. Alicia tentou abrir a sombrinha, mas um golpe de vento arrancou-a de sua mão. Enceguecida pela borrasca e pela coberta que o criado segurava, escorregou numa poça de água. "Deus ajude-me ao longo deste dia!" Por aquilo que pareceu uma eternidade, Alicia esperou na antecâmara por algum sinal de que a cerimónia iria começar. Marie e Hortense tinham secado com toalhas os cabelos e as roupas de todos, e ressuscitado o que sobrara do buquê. Olívia sorriu, cheia de ternura. — Olhe, eu tinha razão. Tudo está transcorrendo à perfeição! Sem saber se ria ou se chorava, Alicia murmurou: — Sim, você estava certa. — Tentou conter uma risada histérica. Sentia-se atordoada, com os pensamentos enevoados, porém aliviada por Olívia estar ali. — Obrigada de novo por ser minha dama de honra. Sei que não é usual, mas significa muito para mim. — A honra é minha, Alicia. Eu teria insistido, mesmo se você estivesse se casando numa cerimónia requintada, em Londres. Alicia sorriu, feliz que Dalton tivesse concordado com seu desejo de que fosse um casamento sem requinte. Não seria capaz de suportar a zombaria da sociedade, examinando-a através de suas lupas críticas. Os primeiros acordes do órgão soaram. Alicia levantou-se da cadeira. Um arrepio de antecipação percorreu-a. Olívia levantou-se, pálida, mas sorrindo. — Eu trouxe sais, para o caso de você precisar. Está na hora, querida. Alicia fitou-a, surpresa. A despeito de sua insistência em afirmar que tudo sairia bem, a futura cunhada decidira levar os sais de cheiro, por via das dúvidas... — Estou pronta. — Alicia endireitou os ombros e enterrou os dedos no buquê. Olívia apanhou seu ramalhete de rosas amarelas, brancas e cor-de-rosa, e dirigiuse para a porta. Os pajens abriram as pesadas folhas de carvalho e Alicia pôs-se a caminhar, passo a passo, o coração martelando no peito. Não havia mais como retornar.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Dalton postava-se de pé, no altar, com Justin, seu padrinho. Esperava pela noiva, que atravessava as portas imensas que haviam resistido às batalhas das guerras medievais e ao último conflito em que seus antecessores defenderam seu rei. Por mais de seiscentos anos, a história da família Warfield tinha sido encenada dentro das paredes ancestrais de pedra daquela igreja: casamentos, batismos e funerais. Dalton sabia que Alicia estaria linda, mas não estava preparado para a delicada inocência e a vulnerabilidade desconcertante que reluzia no semblante dela, enquanto a viu caminhar pelo átrio, conduzida pelo pai. Quando Alicia tomou lugar a seu lado e sorriu para ele, Dalton pensou que seu coração iria explodir de felicidade. Deus Todo-Poderoso, que mulher era aquela, que podia fazê-lo derreter-se assim? A voz do ministro quebrou a quietude e interrompeu seus devaneios, mas Dalton não conseguiu afastar o olhar dela. Em seu delicado vestido branco, Alicia era só saias e ombros. O único fio de pérolas em sua garganta mostrava-se envergonhado em contraste com a beleza luminosa de sua tez. Um véu de noiva colocado sobre a coroa de rosas no alto de sua cabeça deslizava solto sobre os braços nus e, então, caía gracioso até o chão. Que sentimento poderoso o capturara? Como era tentador deixar-se embebedar na visão de tal pureza e acreditar naquilo que os poetas tanto cantavam: o amor. Quem sabe pelos próximos dias pudesse jogar a razão aos ventos e acreditar? Pois quem poderia culpar um tolo apaixonado? Alicia pronunciou seus votos com sua voz clara e forte ecoando dentro dos arcos góticos que subiam em direção aos céus. Dalton repetiu seu juramento numa entonação profunda e cadenciada. Por fim, o ministro anunciou que eram marido e mulher. O duque deslizou a aliança de ouro no anular de Alicia, num toque cálido e firme. Ela e Dalton uniram as mãos e voltaram-se para encarar a pequena congregação de rostos sorridentes. Pela primeira vez, Alicia notou a face estóica da duquesa, sentada ao lado da tia de Dalton, Mary, do outro lado da primeira fila de bancos. Pestanejou, não acreditando em seus olhos. Olhou de esguelha para Dalton, que a observava com evidente deleite. Seu coração encheu-se de alegria e gratidão. Contrariando todas as expectativas, a mãe de Dalton viera para o matrimónio do filho. Dalton afagou-lhe a mão, e Alicia devolveu a carícia com um sorriso para o marido. Belíssimo em seu fraque azul-marinho e colete branco, o duque também parecia imponente e poderoso. Nunca o vira sem aquela aura de autoridade e controle, e assim estava, naquele dia, quando a recebia em casamento. A pequena festa esperava à porta, assim que Dalton conduziu Alicia pela nave. Justin inclinou-se perante ela, e Alicia meneou a cabeça, em retorno. O rapaz desempenhara seus deveres de padrinho mais cedo, dando ao pastor uma generosa soma para os pobres e entregando uma bela gorjeta aos atendentes. Quando os pajens abriram as pesadas portas da igreja, uma manhã gloriosa de sol os esperava, quando desceram os degraus. Alicia foi tomada por uma nova onda de felicidade, ao fitar o firmamento cor de anil. Virou-se para Dalton. — Há um velho ditado francês que diz: se o sol brilha em seu casamento, você será muito feliz. Ele tomou-a nos braços e carregou-a até a carruagem ducal. — Felicidade é o único caminho que desejo que você trilhe, minha mulher. Os criados acorreram, apressando-se a abrir a porta do veículo.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Descobri que não tenho vontade alguma de soltá-la — murmurou Dalton, ao ouvido de Alicia. Ela ficou vermelha, ao sentir a forte atração que os envolvia. — Mas deve. De outra forma, como iremos entrar na carruagem? Alicia recebeu em resposta uma risada, enquanto ele a ajudava a se acomodar no coche. Assim que o duque se sentou, ao lado dela, o veículo arrancou, o retinir dos arreios e o clamor das patas dos cavalos batendo no solo enlameado. Alicia podia sentir o olhar do marido sobre si, mas fingiu não notar, pondo-se a tatear o fundo da carruagem. — O que está fazendo? — Dalton mostrava um sorriso divertido. — Estou procurando pelo saco de moedas que temos de jogar, quando chegarmos à vila. — Seu pai já deve tê-lo surrupiado. — Dalton a puxou para mais perto. Alicia estremeceu, e sua reação não passou despercebida a Dalton. — Não tem nada a temer, Alicia. Não farei nada que não queira que eu faça. Alicia desejou poder esconder o nervosismo, mas sabia que pouca coisa conseguiria ocultar daquele homem. Num gesto tenso, alisou as dobras do vestido. — O que faremos sem as moedas para os camponeses? Eles estarão esperando. Ele reclinou-se, um ligeiro sorriso no rosto. — O cocheiro escondeu a caixa de moedas sob o assento. Vai diminuir a velocidade quando nos aproximarmos das imediações da vila. — Fitou-a como quem observa uma criança super-excitada em uma festa de aniversário. — O que faremos quando voltarmos à mansão? — Iremos participar do festejo, pelo menos até que a noite caia. Alicia ouviu a risada cheia de malícia que Dalton deixava escapar e quase morreu de vergonha, ao pensar na lua-de-mel e naquilo que devia acontecer. Desviou o rosto para a janela. Mas, quando sentiu os dedos dele traçarem uma linha ao longo de sua face, voltou-se. Entreolharam-se. — Não tenha medo de mim, Alicia. O olhar candente com que ele a envolveu só lançou mais chamas aos pensamentos de Alicia, quanto ao que estava por vir. CAPÍTULO XIII O velho pastor de rosto crestado com couro curtido ergueu sua caneca, num brinde ao duque e à duquesa de Wexton. — Possa o Senhor iluminar com sua luz o duque e sua esposa. Um alarido de alegria irrompeu entre os camponeses em festa, nas filas de mesas recobertas com toalhas de linho, repletas de travessas de carne de carneiro, presunto, grelhados e tortas de gamo. Guirlandas de lírios e rosas pendiam das tendas esvoaçantes de seda, a cobertura improvisada que Olívia mandara preparar em caso de chuva. Crianças de pés descalços e cães ladrando pelo gramado, gritos, risadas e cantigas enchiam a tarde beijada pelo sol. Mildred, apoiando-se em sua bengala, havia reclamado que o mau tempo afetara seu reumatismo e partira para Londres, antes que as festividades houvessem começado. Alicia ficou a imaginar a razão real que a levara a comparecer ao matrimónio. Talvez aquela senhora orgulhosa não desejasse aborrecer tia Mary.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Mas Alicia preferia crer que a mãe de Dalton, embora preferisse morrer a ter de admiti-lo, quisera estar presente numa ocasião tão importante na vida de seu filho. Esperava que assim fosse, para o bem de Dalton. Olhou para o belo marido, sentado a seu lado, à cabeceira da mesa. Dalton parecia feliz. Sorriu quando o mais velho dos habitantes da vila, a alguns metros, ergueu-lhes um brinde. O ritual repetiu-se, de mesa em mesa. Na verdade, Dalton tinha os pensamentos distantes. Horas antes, não pudera desviar os olhos da esposa, quando ela fora apresentada aos súbditos. Alicia cumprimentara cada um dos camponeses pelos filhos fortes, suas esposas pela aparência asseada, pelas cabanas cheias de flores e pelas crianças, bonitas e bemcomportadas. Cativara-os de imediato, com sua generosidade e graça. Embora o curto trajeto pelo vilarejo fosse costumeiro, Alicia se misturara à multidão de curiosos e pedira para caminhar com eles, em vez de seguir na carruagem aberta, de volta à mansão. Andando de mão dada com a esposa por entre o povo, Dalton não conseguira evitar a imensa alegria. Cada homem, mulher e criança aproximava-se para saudar, primeiro a ele, como era o costume, e depois à nova duquesa. Mas fora Alicia quem prendera a atenção de todos. Jovens e idosos esticavam os dedos para tocá-la, como se ela fosse algum talismã precioso, que tivesse o dom de trazer colheitas fartas e boa saúde para a aldeia. —...não acha, Dalton? — Perguntou Robert. Dalton sobressaltou-se. — Desculpe-me, cunhado, devo ter me distraído. — Eu disse que os homens estão acendendo as fogueiras. Logo estará escuro e vai começar o baile. Pode ser um bom momento para você e Alicia se retirarem. — Robert tomou a mão de Olívia. — Lembra-se de nosso casamento, amor? A única resposta de Olívia para o marido foi um intenso rubor em suas faces. Voltou-se para o irmão. — Acho que Robert tem razão. Se você ficar para mais brindes, pode não sair daqui andando... Tia Mary deixou escapar uma gargalhada. — Fale por si mesma, criança. — Fez um gesto para que o criado enchesse sua taça de champanhe. — Acho que é hora de irmos, Alicia — disse Dalton. A pele dela estava fria como gelo, e ele sentiu um certo desapontamento. Alicia sabia os termos do acordo, que incluíam dar-lhe um herdeiro. Será que o detestava tanto assim e abominava a ideia de unir-se a ele na noite de núpcias? Um criado puxou as cadeiras para que se levantassem, e Dalton afastou para longe sua frustração. Na privacidade do quarto nupcial, marido e mulher seriam um só. — Alguma coisa a mais, milorde? — A voz monótona de Ives oscilou um pouco, a única indicação de que, mais cedo, conduzira a celebração entre os criados, bebendo muita cerveja. — Sim, mais uma só. — Dalton apanhou na gaveta, da escrivaninha um pequeno embrulho. — Uma recordação do dia de hoje, por parte de minha esposa e de mim. Sua nova patroa escolheu especialmente para você. As pupilas de Ives faiscaram, quando tomou a caixa. — Ora, obrigado, sir. — Ande, abra. — Dalton sorriu de prazer quando o mordomo, que servira seu avô, seu pai e agora o servia, rasgou o papel com uma alegria infantil. — Um relógio! Um relógio de ouro! — O rosto de Ives iluminou-se, diante do


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning valor do presente, e uma expressão de gratidão espelhou todo seu júbilo. — Obrigado, milorde, e a nossa nova duquesa. Espero que ambos sejam muito felizes. — Obrigado, Ives. Agora, corra e volte a juntar-se aos outros, para se divertir. Dalton relanceou os olhos para a jóia. Deus o ajudasse, mas não lhe passara pela cabeça que a esposa se mostrasse relutante na lua-de-mel. Que coisa terrível! Nunca, antes, levara para a cama uma mulher que não o quisesse. E não iria começar a fazer isso agora. Sob as curvas femininas de Alicia havia uma jovem passional, sabia disso. Porém, o que desejava dele? Bem, o que quer que fosse descobriria logo. As mulheres não costumavam ficar em silêncio por muito tempo, se queriam algo de um homem. Não, isso não se aplicava a Alicia. Sua esposa não era como outras que ele conhecera. Embora fosse a criatura mais desejável que já encontrara, parecia não ter a menor vontade de partilhar o leito com ele. — Meu Bom Deus! O que devo fazer? Alicia correu o olhar pela suite, quando Hortense puxou o pesado cortinado que circundava a imensa cama trabalhada em madeira maciça, cujo dossel era sustentado por quatro colunas esculpidas em carvalho. — Vocês podem ir agora. — Alicia sentou-se na banqueta da penteadeira, esperando que Marie e Hortense se fossem antes de perceber que ela tremia. Hortense deixou escapar uma exclamação de surpresa ao dobrar a colcha de cetim dourado que recobria o leito. Pétalas de rosa carmim espalhavam sua fragrância entre os lençóis imaculados. — Kimbra esteve aqui, mais cedo, com Marie. — Alicia deu uma risada. — Agora sei o que estavam aprontando. — Foi ideia de sua irmã, milady. — Kimbra sempre foi a romântica da família, Marie — murmurou Alicia, comovida com o gesto amoroso da irmã. Se pelo menos, como Kimbra, conseguisse sentir-se feliz pela ocasião, pensou, a tensão aumentando a cada instante. Com dedos trémulos, desatou as fitas brancas do pescoço, revelando a camisola virginal de renda branca. — Devo colocar outra acha de lenha no fogo, milady? — Hortense caminhou até o suporte de bronze que sustentava a madeira. — Está muito húmido, e a senhora pode pegar um resfriado. Marie deixou escapar uma risada alegre. — Milorde não permitirá que isso aconteça, Hortense. — Um violento rubor tingiu o rosto de Hortense, que resmungou, reprovando o comentário ousado de Marie. — Seria ótimo, Hortense. — Alicia estremeceu. Marie inclinou-se. — Talvez a patroa quisesse um copo de licor. Alicia levantou-se e foi até a cama. Deitou-se, afundando e quase sumindo no colchão de plumas. — Não, obrigada. Por favor, fechem a porta quando saírem. Marie e Hortense trocaram um sorriso de cumplicidade e deixaram rápido o aposento. Ao ver-se sozinha, Alicia se levantou e vestiu o robe de seda. Recusava-se a esperar por Dalton como um peru de Natal, todo amarrado e pronto para ser abatido. Foi até o aparador e soprou o único lampião que as criadas tinham deixado aceso. Então, só a luz do fogo crepitante iluminava o recinto. Minutos se passaram, durante os quais Alicia fitou as chamas, o tiquetaque do relógio parecendo cada vez mais alto. Mordeu o lábio e olhou para os numerais romanos, feitos de ouro, do mostrador. Quase meia-noite. Onde estava Dalton? Até


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning quando a deixaria esperando? Relanceou o olhar por sobre o ombro e espiou o enorme leito de dossel. Opulento, impositivo, intimidativo... como o dono. Esfregou as têmporas, a cabeça latejando. O que as próximas horas poderiam trazer? Quando Dalton entrou no quarto envolto em sombras, não estava preparado para a visão que o aguardava. Na cadeira, em frente à lareira, Alicia repousava, enrodilhada, as pálpebras cerradas. Pensara que ela estaria tensa demais para dormir, mas devia ter se exaurido, depois dos últimos dias. A despeito da efervescência dos preparativos para o enlace, Alicia levantava-se antes do nascer do sol, empenhada nas sessões de treinamento de Bashshar, entre os detalhes sem-fim das núpcias. Antes de qualquer coisa, empregara a maior parte do tempo com o garanhão. Nem mesmo seus outros deveres tinham-na impedido de ensinar Penn a ler depois do jantar, até bem mais tarde. Dalton sorriu, saboreando os novos e inesperados sentimentos, como o orgulho, que enchiam seu coração por aquela mulher incomum que era agora sua esposa. No sono, ela parecia uma criatura tentadoramente inocente, se é que podia haver coisa assim. A luz das chamas acariciava o brilho acetinado de sua pele e o vermelho dourado de seus cabelos cor de avelã. A seda delicada do robe nada fazia para ocultar as curvas femininas por baixo do tecido. Dalton engoliu em seco, consciente da resposta fulminante de seu corpo, ao observar o suave subir e descer daqueles seios redondos que despontavam da convidativa abertura da camisola. Como desejava erguê-la nos braços, carregá-la para cama e mergulhar dentro dela! Queria ver sua face em êxtase quando fizessem amor da forma mais arrebatada. Queria ensiná-la a conhecer todas as delícias do prazer carnal e observá-la se derreter de desejo por ele. Alicia remexeu-se, a boca entreaberta. Moveu a cabeça, seus cabelos escorregando pelo ombro e revelando a curva delicada de seu pescoço e o perfeito oval de seus traços. Era linda, sim, porém Dalton tivera mulheres belas, antes. Ainda mais bonitas... mas não com aqueles lábios carnudos, macios, ou com aquela pureza tão vulnerável. Por alguma razão, a visão de Alicia com as crianças da aldeia surgiu em sua mente. Ela pegara no colo um garotinho que chorava, com medo dos cavalos das carruagens. Acalentara-o contra o ombro, o rostinho sujo e as lágrimas copiosas arruinando-lhe o vestido. Não dera a menor importância a isso. E fizera o menino sorrir, também. Dalton pousou os olhos naquela boca, nos lábios cheios, de coloração rica e delicada em vivo contraste com a pele clara. Alicia sorriria para ele com ternura, se fizessem amor? Diria seu nome? Deixaria escapar os gemidos que podiam pôr a perder um homem? Afogaria suas mágoas? Estendeu a mão para tocar as mechas sedosas, quando notou que seus dedos tremiam. Surpreso, recuou. Um torvelinho de novas emoções irrompeu fundo, sentimentos que jamais experimentara antes. Queria protegê-la, confortá-la, tornar o mundo seguro e maravilhoso para ela. Qual era o problema com ele, afinal? Desejava a esposa, seu corpo reagia com a violência desse desejo. Assim, o que o impedia? Respirou fundo. Sentia muito mais do que mera luxúria. Estava apaixonado por ela. Alicia era uma mulher e qualquer homem que se deixasse enredar pelo amor era


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning um tolo. E Dalton não se permitiria isso. Assim, girou nos calcanhares e deixou a suite sem fazer ruído. Precisava de um drinque. E de um pouco de ar fresco, para pôr a cabeça no lugar. Porém, relanceando o olhar para trás, antes de fechar a porta, e a imagem ténue e intrigante daquele garotinho apavorado que se agarrara a Alicia voltou-lhe à memória. Uma acha de lenha estalou e caiu da grelha, desmanchando-se em carvões incandescentes. O barulho despertou Alicia, que se dobrou para a frente, a respiração presa na garganta. Observando ao redor, para o aposento às escuras, ficou, por um instante, desorientada. Então, recordou-se. Sua noite de núpcias. Engoliu em seco, arrumando os cabelos em desalinho. Consultou o relógio. Três e meia da manhã! Onde estava Dalton? Por razões que não conseguiu explicar, atravessou o quarto, abriu a porta e espiou pelo corredor vazio. O que esperava ver? Sentindo-se uma idiota, tornou a fechar-se lá dentro, recostando-se contra a madeira entalhada. Vendo as sombras ondulantes que o fogo quase extinto lançava pelas paredes e sobre a pesada mobília, seus olhos pousaram na cama nupcial, que esperava, intocada, tanto quanto ela. Dalton não a queria? Surpresa com o próprio desapontamento teve uma incrível e crescente sensação de rejeição. Não lhe ocorrera que isso pudesse acontecer. Será que Dalton a julgava tão pouco desejável ou sem nenhum atrativo? Claro, não era o tipo de mulher que ele apreciava. Não era conhecedora da arte de seduzir, como Elizabeth ou as outras jovens que assediavam cavalheiros como Dalton. Uma dor aguda surgiu na boca do estômago. A despeito de seus medos anteriores, estava frustrada. Sim, queria que Dalton tivesse vindo até ali, feito amor com ela, como se gostasse dela e se importasse com seus sentimentos. O silêncio, aflitivo, desolador, a deixou arrepiada. Abalada e perplexa com a reveladora verdade, Alicia notou que a solidão e o isolamento a oprimiam até o âmago da própria alma. Lutou contra as lágrimas quentes que ameaçavam escorrer. Deus Todo-Poderoso, ainda tinha o seu orgulho. Se o marido não a amava e nem mesmo a desejava, então, a única saída era esforçar-se para esquecê-lo e matar a paixão que nutria por ele. Saiu correndo da suite, atravessando o corredor em direção a seu quarto, para trocar de roupa. Tinha muitas coisas a pensar e havia um único lugar onde podia encontrar a paz que almejava. Ao entrar no estábulo, Alicia sentiu-se reconfortada pelo cheiro familiar de feno, de animais e de couro. Apressou-se pelos corredores das baias até chegar à última delas, no final da ala. Penn deixara o lampião aceso, ela pensou, com irritação. Então, notou que a portinhola da baia de Bashshar estava aberta. Escancarou a porta. Dalton voltou-se e estacou, tomado de surpresa. Ao lado dele, Bashshar relinchou, jogando a cabeça para cima, numa saudação. Alicia notou o pente de aço na mão de Dalton e se deu conta que o duque muitas vezes cuidava dos cavalos depois que os criados haviam se recolhido. Talvez tivesse procurado o único local que lhe trazia paz, também. Estava vestido com uma camisa branca, solta na cintura. Tufos de pêlos pretos recobriam seu tórax. Alicia não conseguiu impedir-se de fitá-los.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Dalton continuou a segurar o pente em uma das mãos e a escova dura na outra, passando-os no flanco do Bashshar em longas escovadelas. As mangas foram enroladas até os cotovelos. Ela nunca o vira de braços nus antes. A visão provocou-lhe estranhos formigamentos no ventre, enquanto admirava a flexibilidade e o jogo dos longos e fortes músculos em seu antebraço. — Veio procurar por mim, Alicia? — Claro que não! — Seu rosto tingiu-se de vermelho quando ela percebeu que Dalton era arrogante o bastante para pensar que ela poderia ter saído à procura dele. — Eu... não conseguia dormir. Achei que devia vir ver como estava Bashshar. — Hum... — As longas escovadelas não diminuíram de ritmo. — Estava dormindo a sono solto momentos atrás. Surpresa encarou-o. Então, ele tinha ido até o quarto. Alicia hesitou, temendo de revelar a alegria que o fato lhe proporcionava. — Então, por que você não... ficou? — Acreditei que precisava descansar, milady. — Oh... — Estudou as lindas mãos de Dalton, que tão bem cuidavam do garanhão. Ficou a observar, encantada, enquanto os músculos se moviam a cada passar da escova e do pente. Um forte comichão a assolou. Será que a julgara tão sem graça que se afastara na própria noite de núpcias? Talvez devesse ir embora. Mas, por algum motivo, ali, no conforto familiar do estábulo, com os cavalos, Alicia não sentiu desejo de voltar para a fria elegância da suite. Sempre se sentira mais à vontade com Dalton nas rústicas dependências das estrebarias, trabalhando com Bashshar. — Logo vai amanhecer... — Hum... Nunca agradeci como devia por tudo o que você fez por Bashshar, Alicia. Bashshar levantou o focinho, como se compreendesse. A garganta de Alicia se fechou quando viu o raro lampejo de carinho que Dalton tentou esconder. — Depois do acidente dele, fiquei assolado pelo remorso de não mandar abatêlo. Todos me aconselharam a pôr um fim a seu sofrimento. Mas... eu não podia suportar a ideia de perdê-lo. De alguma forma, esperei por um milagre... e então encontrei você. Uma onda de terna gratidão aqueceu o coração de Alicia. — Fico feliz, sir. Dalton endireitou-se e deixou a escova e o pente de lado. Em algumas passadas, estava ao lado dela. Tomando-lhe as mãos, afagou-lhe os dedos, com gentileza. — Mãos tão pequenas para um poder de cura tão grande... — Gostaria de poder curar aquilo que o atormenta. Dalton ficou rígido. — Curar-me? Do quê? — Do seu medo de amar. Ele sorriu, os dentes muito brancos reluzindo. — Você não esqueceu meus comentários a Justin. Peço desculpas, Alicia. Não vai me perdoar? Oh, por que não deixar as coisas como estavam? Agora, Dalton poderia estar pensando que Alicia queria que lhe fizesse uma declaração de amor, que confessasse uma profunda afeição por ela. Embaraçada, desviou o rosto. — Está planejando ficar aqui pelo resto da noite? — É esse seu jeito de me perguntar se irei para sua cama?


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — De jeito nenhum! Quero dizer, eu esperava que... não... Dalton sorriu. — Devo dizer-lhe que essa não é uma mensagem muito clara, querida. — Sinto muito. Não tenho experiência nesses... assuntos. — Isso é óbvio. Não viria procurar por mim aqui, agora, se não quisesse saber mais sobre esse... assunto. — Acredite, milorde, não quero aborrecê-lo. O olhar ardente de Dalton tornou-se ainda mais intenso. — Creia, minha mulher, você não poderia me aborrecer. Alicia deu vários passos para trás, chegando até a porta da baia. Voltou-se e abriu a cancela. O duque a seguiu. — Acho que vou passar o resto da noite em minha cabana, sir. — Ora, é uma boa ideia! Alicia caminhou para o corredor e parou, espiando por sobre o ombro e vendo que Dalton passara a travessa, fechando a baia de Bashshar, e a seguia. — O que quer dizer com isso? — A cabana... Podemos passar o que resto da noite naquele ambiente gostoso. — Decerto você não... Quero dizer, não há bastante espaço para... — Seus dedos agarraram as fitas do decote. Dalton soltou uma risada. — De quanto espaço acha que vamos precisar, milady? Ele inclinou-se, o rosto a centímetros do dela. Afastou-lhe uma mecha do rosto, o cheiro dele, familiar e masculino, deixando Alicia perturbada. A pulsação acelerou-se, martelando no pescoço. Sob a luz do lampião, ela reconheceu o fogo da volúpia naquelas íris azuis. — Alicia, quero lhe dar prazer — ele murmurou, com ternura. Roçando os lábios em suas têmporas, acrescentou: — Não tenha medo. Suas mãos fortes ergueram-na nos braços. Alicia recostou-se contra seu peito rijo e deslizou as mãos para os ombros largos, fechando-as em torno de seu pescoço. Dalton, feliz, carregou-a para fora da cocheira. As passadas pesadas de suas botas pelo cascalho mal podiam ser ouvidas acima das batidas fortes do coração de Alicia. Lá fora, o ar frio e húmido soprava, arrepiando-lhe a pele. O duque a carregou pela trilha que conduzia à pequena cabana aninhada nas sombras. Empurrou a porta com os pés. A fragrância de rosas dos buquês sobre o aparador encheu-lhes as narinas. Alicia fechou os olhos. Queria acreditar que o marido a amava. Por aquela noite, fingiria crer que aquilo era mais que desejo. Então, quem sabe, no dia seguinte... Mas as palavras que ouvira Dalton dizer a Justin voltaram, para assombrá-la. "O amor torna as mulheres fracas, e os homens, uns tolos." Dalton deitou-a sobre a colcha de renda, a única luminosidade vindo da lua minguante que se infiltrava pelas cortinas rendadas. — Eu queria que você me visse em minha nova camisola... — Não diga nada, querida. Alicia observou aqueles dedos firmes desfazerem os laços das fitas em seu decote. Com segurança, o duque tirou-lhe o vestido, cobrindo-lhe a nudez parcial com o corpo, enquanto a libertava das outras peças de roupa. O calor que emanava dele a rodeou. Alicia fechou os olhos, envergonhada e insegura. Dalton correu os lábios por seu rosto, beijando-a na face, na testa, nas pálpebras fechadas. — Alicia, olhe para mim.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Quase incapaz de respirar, Alicia fez o que ele pedia. Porém, não estava preparada para a paixão selvagem e avassaladora que lhe toldava o olhar. — Beije-me, Alicia. Ela queria muito, mas não tinha a habilidade das outras mulheres que o duque conhecera. E se o desagradasse? Dalton mordiscou-lhe o lábio inferior. — Beije-me, meu amor. "Meu amor?" Como gostaria que fosse verdade! — Qual é o problema, Alicia? Não quer que eu a ame? Ela estremeceu, voltando a cabeça para o lado. Os dedos de Dalton seguraram-na pelos ombros, puxando-a para mais perto. Sua respiração quente misturou-se à dela. — Não vou forçá-la. — Afastou-se, sentando-se, o colchão rangendo quando seus pés forçaram a beirada da cama. — Se quer que eu saia, diga. Tudo estava indo de mal a pior. Alicia deixou escapar um soluço sufocado. — Minha querida, se está com medo de mim, então é melhor esperarmos. — Dalton estava desconcertado. — Por Deus, está tão infeliz assim por ter se casado comigo? Ela ergueu a cabeça. — Não... é que... — É o que, Alicia? — É que eu... não acho que você possa fingir. Sei que não o agrado. — Não me agrada? — Intrigado, encarou-a. — Céus, querida! O que fiz para que você pensasse uma coisa dessas? — Ambos sabemos que não tenho prática em... Dalton pensou que fosse explodir de tanto afeto. — Sou eu quem deve agradá-la, meu amor. Não sabe disso? Deite-se e deixe-me amá-la, Alicia. Quero mostrar-lhe tudo o que acontece entre um homem e uma mulher. — Vai me beijar? — Você quer? — Sim, eu gostaria. Dalton achou graça, e então reclinou-se sobre ela, pousando um beijo, leve como uma pluma, sobre sua boca. Alicia o fitou. — Por que não me beija como fez na biblioteca? — Hum... acho que não lembro como foi. Por que não me mostra? Alicia o obedeceu, os dedos delicados buscando-lhe a nuca. Dalton desejava mais, e ela logo acedeu. Acomodou-se sob ele, moldando as formas contra as de Dalton. O sangue ferveu-lhe nas veias, Com timidez, Alicia avançou a língua, tocando a dele, o que o inflamou ainda mais de paixão. Com imensa doçura, Dalton tomou-lhe o seio sedoso na palma da mão, o mamilo rosado retesou-se a seu toque. O gemido abafado atingiu-o em cheio na virilidade e desafiou seu autocontrole. Movendo-se com suavidade, deslizou o rosto e lambeu-o, provando-lhe o gosto. Alicia se arqueou, debaixo dele, gemendo. — Dalton? — Sim, minha doçura? — Por que quanto mais você me beija, mais... — Mais quer que eu a beije? A resposta veio num suspiro lento e profundo. — Esta, minha coisinha linda, é a maravilha de há em fazer amor. — Puxou-a para cima dele, apertando-a contra si.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Alicia deixou que seus dedos escorregassem, explorando os caracóis que enchiam aquele peito másculo. Onde ela o tocava, Dalton sentia a pele incendiar-se, queimando-o. Ele a desejava com desespero. Nunca conhecera uma garota cuja doce pureza e intensa sensualidade acendessem nele tanta excitação e paixão. Desejava-a como nunca, jamais, desejara uma mulher. Mais audaciosa agora, Alicia inclinou-se e beijou-o com volúpia. Dalton a olhou ao sentir que ela encaixava os quadris nos dele, atendendo ao ritmo ancestral do instinto. E o que viu nos olhos dela, pesados de luxúria, o aqueceu ainda mais. Ardia de vontade de deslizar para as profundezas do ninho de delícias, mas não queria assustála. Com a respiração ofegante e rouca, Alicia ergueu a cabeça. Se sabia do poder de sedução que seu olhar incendiado tinha sobre ele, parecia não se dar conta. Dalton afagou suas coxas até as nádegas macias e sentiu que Alicia estremecia. Em seguida, escorregou as mãos até a virilha. Alicia contorceu-se. O duque a fez deitarse, dando-lhe outro beijo profundo e infindável, faminto de lascívia. Sentiu que ela abria as pernas, arqueando os quadris, contorcendo-se e enterrando as unhas em suas costas. Tocou-a em sua feminilidade e constatou que estava húmida, pronta para recebê-lo. Alicia estremeceu quanto Dalton penetrou-a e começou a mover-se. Gostaria de implorar para que ele pudesse fim àquele doce tormento, mas não queria que o marido parasse com as investidas que a enlouqueciam, provocando uma tempestade em suas entranhas. Quando Dalton aumentou o ritmo, Alicia sentiu que uma explosão de êxtase a atordoava, irrompendo do fundo de sua alma. Agarrou-se a ele, contorcendo-se, e percebeu que Dalton lhe tomava a boca, sufocando o grito de liberdade que lhe escapava pela garganta. Quase em delírio, ela mergulhou num deleite profundo, sentindo que o marido se derramava em seu íntimo, numa última e mais longa investida. Alicia o envolveu nos braços, perdida na glória do momento. Se pelo menos pudessem permanecer assim, corações batendo em uníssono, envolvidos naquele fantástico e indescritível paraíso... CAPÍTULO XIV Dalton ficou a observá-la, aconchegada em seu ombro, dormindo tão confiante em seus braços. Acordara fazia algum tempo e ficara ali, deitado, lutando contra a reação que aqueles seios quentes, aninhados contra seu peito nu, provocavam nele. Sabia que Alicia possuía uma natureza passional, mas não fora capaz de imaginar que as tentativas tímidas da esposa para lhe dar prazer pudessem despertar nele um êxtase tão profundo. Mas o efeito sobre Dalton era mais que apenas luxúria. Nunca antes experimentara tanta vitalidade, tanto prazer em estar vivo. A despeito de seu cinismo arraigado, tomava consciência da mudança dentro de si. Sentimentos fazia muito sepultados e, por que não dizer, desconhecidos, despertavam para a vida. Uma estranha emoção, permeada de desejo, apertou-lhe o peito. Com Alicia a seu lado, o mundo transformara-se em um lugar especial. O aroma das rosas do buquê sobre o aparador derramou-se sobre eles, trazendo seus pensamentos para o presente. A aurora lançava seus pálidos raios pelo céu.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Embora não quisesse deixar aquele ninho cálido, sabia que os criados já estavam de pé. Esperando que a cabana estivesse vazia, alguém poderia aparecer ali, para colocar flores frescas nos vasos e acordaria Alicia, o que o lorde não queria. Ao contrário, deixaria ordens na mansão para que ninguém perturbasse a nova patroa, até que acordasse. Olhou para a bacia e o jarro vazio e uma ideia lhe ocorreu. Como Alicia ficaria surpresa se encontrasse água morna para a higiene matinal! Se se apressasse, teria tempo para encher, ele mesmo, o jarro com água, antes que a esposa despertasse. Afastou o manto sedoso dos cabelos de Alicia que lhe cobriam o tórax e, com cuidado, rolou para o lado. Ela resmungou baixinho. Remexeu-se, voltando o rosto para cima, a boca rosada entreaberta como a esperar por seus beijos, fazendo despertar nele cada músculo. Dalton não podia ficar um instante a mais ali sem provar de novo o mel daqueles lábios. Gemeu e forçou-se a se levantar. Vestiu-se rápido e apanhou o jarro vazio, saindo em silêncio do chalé. Quando Alicia ergueu as pálpebras, o sol filtrava-se pela janela, enchendo o quarto com um brilho radioso. Lá fora, a distância, um rouxinol emitia seu doce trinado, chilreando para sua companheira. Feliz e saciada, Alicia sorriu, espreguiçando-se com um gato contente. Olhou para o lugar vazio, a seu lado, e tocou a marca sutil impressa no travesseiro de Dalton. Ele devia ter se levantado cedo. Talvez estivesse nos estábulos, preparando os cavalos para um passeio matinal, antes do desjejum. Jogou para longe os lençóis e se ergueu. O jarro de porcelana, cheio de água morna, a esperava no aparador. Dalton devia ter dado ordem às criadas nesse sentido, pensou, com surpresa. Ninguém sabia que eles passariam a noite ali. Sentiu um calor aquecer-lhe as faces ao imaginar o que Hortense e Marie deviam ter imaginado. Derramou a água do jarro na bacia e, então, começou a banhar-se. Não esperava ver o marido com frequência quando, enfim, passassem a viver o dia-a-dia, na mansão. O duque tinha vários e imensos domínios para supervisionar, e ela estaria atarefada com o gerenciamento dos afazeres domésticos. Contudo, aquilo podia esperar. Pelos próximos poucos dias, queria ficar junto a Dalton. Queria saber tudo o que pudesse sobre esse homem fascinante que era seu. Depois de banhada, escolheu um traje azul de montaria e vestiu-se, com a esperança de encontrá-lo. Embora tivessem feito amor pela maior parte da noite, percebeu que ainda ardia de desejo. O mais chocante era que mal podia esperar para que se unissem de novo, com aquela intensidade que a levara ao paraíso. Céus, estava se tornando insaciável! Ao terminar de se vestir, estudou a própria imagem no espelho. Aquele brilho glorioso estava mesmo em seu semblante? Riu alto, diante da expressão de enlevo. Mas estava feliz demais para se importar. Durante toda a vida fora prudente e prática quanto aos assuntos do coração. Aquele era o primeiro dia de sua nova condição de casada, e sentia-se felicíssima. Contudo, ainda era realista o bastante para saber que seus sentimentos não iriam durar, e prudente o suficiente para aproveitar o momento. Antes que Alicia chegasse aos estábulos, notou que um criado conduzia Bashshar para o padoque, onde Dalton esperava. Ao vê-la, ele fez um gesto, chamando-a. — Bom dia, dorminhoca! — Usando um traje de montaria verde-pálido, ele estava arrasador. Alicia conteve o fôlego, diante da visão. O duque sorriu. — Já pedi que selassem Júpiter para você. Com uma manhã tão bonita, julguei


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning que pudesse apreciar dar um passeio comigo. Sem confiar na própria voz, Alicia assentiu, sorrindo com deleite, e, então, correu até Júpiter, que escavava o chão, impaciente. Um criado a ajudou a montar, e logo estava ao lado de Dalton e Bashshar. Os dois garanhões entreolharam-se, com certo desconforto. Embora não fosse frequente deixar dois machos em estreita proximidade, Alicia sentiu que a presença de Júpiter poderia ajudar a devolver o orgulho e a confiança em Bashshar. Dalton e Alicia saíram cavalgando pelo gramado bem aparado e tomaram a trilha. Passou-se um longo tempo antes que ela dissesse: — Júpiter está cheio de energia e quer correr. O que me diz de uma disputa? — Excelente! — Dalton olhou para campina, afagando o flanco de Bashshar. — Vamos cruzar o campo e seguir até a cachoeira. — Esplêndido! — Alicia esperou até que Dalton trouxesse Bashshar para o lado de Júpiter. — Está pronto? Um sorriso largo foi a resposta de Dalton. Alicia deu rédea a Júpiter, que disparou na liderança, pelas ondulações do campo coberto de flores silvestres. O vento lhe agitava os cabelos, e a sensação de intensa alegria quase a sufocou. Com facilidade, Dalton emparelhou o garanhão negro com o dela, e Alicia percebeu, emocionada, que Bashshar aceitara o desafio. As semanas de treinamento intensivo estavam à mostra. As longas passadas de Bashshar provavam sua linhagem de campeão. Mas Júpiter também vinha de um plantel superior e demonstrava ser, do mesmo modo, uma bela promessa. Estimulada, Alicia inclinou-se sobre o pescoço de Júpiter, alteando-se um pouco da sela. Com gentileza, incitou o cavalo a arrancar com uma súbita explosão de velocidade. Sob seus pés, podia sentir a flexão poderosa dos músculos do garanhão e sua respiração forte. Quase como se Dalton tivesse percebido sua estratégia, também instigou a montaria, os animais agora pescoço a pescoço. Alicia sabia que não podia tirar os olhos de Júpiter, mas não conseguiu evitar e deu uma espiadela em Dalton, a seu lado. O queixo escurecido pela barba, mostrando determinação, combinava com seu ar de desafio. E, naquele instante, Dalton fez. Bashshar avançar, ultrapassando Júpiter, que lutou para recuperar a dianteira, mas a última explosão de força de Bashshar o levara bem mais adiante. Logo os animais rodeavam o bosque de imensas árvores que circundava a cachoeira. Alicia gargalhou, colocando Júpiter num trote mais suave. — Nunca estive mais satisfeita em perder — disse, quando se aproximou. Alicia exultava. Era a primeira corrida séria que Dalton se permitia, desde o acidente com Bashshar, e ela sabia que ele estava entusiasmado com a melhora do garanhão. — Graças a sua ajuda, creio que Bashshar terá a possibilidade de tornar a correr. — Dalton afagava o belo animal. O coração de Alicia encheu-se de júbilo. — Lógico que sim. Talvez devesse inscrevê-lo no páreo de Newmarket. — Não sei. Faltam menos de seis semanas. — Bashshar pode não vencer, mas o treino e a experiência lhe farão bem. Se trabalharmos nós dois com ele, Bashshar estará pronto até lá. — E Júpiter? Achei que tinha esperanças de inscrevê-lo no clássico. — Podemos inscrever os dois. — Que ideia extraordinária! — Ajudou-a a desmontar. — Se não estou enganado,


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Ives deve ter mandado nosso café da manhã para cá. O duque olhou para a suave colina gramada que se erguia ao lado da cachoeira. — Achei que você gostaria de desfrutar o desjejum ao ar livre, querida. Ele a encarou, o rosto de Alicia sombreado pela aba de seu chapéu azul-pavão. Fios cor de cobre voaram em torno daquela face sorridente. Dalton sentiu um súbito baque no peito ao recordar, de novo, que aquela linda mulher era sua. O que ela diria se soubesse que queria fazer amor ali, na campina, ao lado da cachoeira? Podiam deitar-se à luz do sol, nus, e se amar pelo dia inteiro. Ficou a observar Alicia conduzir Júpiter até uma árvore, o poderoso garanhão seguindo atrás dela como um gatinho doméstico. Sentiu-se intrigado mais uma vez com a alegria profunda que o inundava só por ter dado um simples passeio matinal com aquela jovem fantástica. Fitou seu lindo semblante iluminado de infantil felicidade ao se deparar com a mesa coberta com uma toalha de linho branco e as cadeiras que Ives e os criados haviam preparado para os dois. Sim, era Alicia que lhe incendiava os sentidos. Ela riu, e sua risada encheu o ar como o mel escorrendo de um favo. Inclinou-se sobre a cesta, retirando uma garrafa de vinho, taças e travessas envoltas em linho. — Corra! — Gritou para o marido — Ou comerei tudo e não deixarei nem uma migalha para você. O que quer que fosse aquele sentimento maravilhoso que o possuía deixava-o com a sensação de atordoamento e de falta de equilíbrio. Não trocaria as últimas vinte e quatro horas por nada no mundo. Alicia era a mais incrível das mulheres, uma ninfa inocente e uma feiticeira tentadora ao mesmo tempo. Era capaz de deslumbrar os sentidos de qualquer um. E era sua esposa. Tornou a chamá-lo. — Codorna, linguiça, perdiz e ovos quentes. Ives preparou um banquete! — Descobriu uma tigela cheia de miolo de pão. — O que é isto? — Pão para os cisnes. Depois de comermos, vou lhe mostrar o outro lado do rio. Abaixo da ponte, cisnes, patos e todo o tipo de pássaros vêm comer ali. O couteiro tem ordens estritas para proteger os ninhos dos caçadores, — Ordens suas presumo. — Claro. Acredito piamente em proteger os pássaros e outras caças para as gerações futuras. "Para nossos filhos e netos", pensou, com um sobressalto. Olhou para o rio prateado que escorria pela campina, a superfície um espelho, a não ser nos pequenos trechos em que borbulhava, contornando as pedras, perto da margem. Quase conseguiu imaginar as risadas das crianças carregadas pela brisa. Filhos. Sim, era uma possibilidade, afinal. Embora sempre soubesse que necessitava de um herdeiro, nunca, até então, visualizara seu garoto, com os olhos escuros da mãe, ou uma garota, com uma risada musical. Por um instante, foi tomado por uma renovada sensação de deslumbramento. — Meu avô acreditava ser um dever proteger os campos de caça de Marston Heath. — Alicia tirou o chapéu, o vento fazendo esvoaçar os cachos cor de avelã em torno de seus ombros. Colocou uma pequena porção de codorna num prato e estendeu-o ao marido. — Seu pai permitirá que supervisione os melhoramentos que você deve implantar em Marston Heath? — Papai pouco terá a dizer. Minha mãe, porém, ficará encantada. — A baronesa é uma senhora muito distinta. — Sim, é. — Alicia ficou em silêncio por um instante, e, então, sua entonação


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning tornou-se séria. — Fiquei tão contente que a duquesa tenha comparecido a nosso casamento! Teve chance de conversar com ela antes da cerimónia? Dalton sabia que aquela pergunta simples continha a esperança de ver a paz restaurada entre Mildred e ele. Quanto a si, faria tudo para agradar Alicia, mas quando se tratava da duquesa... Meneou a cabeça. — Trocamos apenas umas breves palavras. Mas fico satisfeito que a presença dela a tenha alegrado. Alicia ofereceu-lhe um cacho de uvas. — Talvez eu deva convidá-la para uma visita. Gostaria de organizar uma festa de aniversário para você. Acha que sua mãe aceitará? Dalton tomou um gole de vinho. Não queria abalar as esperanças da esposa, mas a duquesa acreditava que, quanto maior a distância da família, melhor. Contudo, descobriu-se fascinado pela infindável preocupação de Alicia para com as pessoas. — Mamãe nada lhe deu, a não ser tristeza. Por que ainda se importa com seus sentimentos, minha querida? — Lady Mildred me faz recordar alguém que foi muito ferido. Algumas vezes, são aqueles que agem de maneira desprovida de amor que precisam mais de amor, acima de tudo. Como era inocente e pura a doce Alicia! Nunca poderia compreender uma pessoa tão complicada como a duquesa. — Minha mãe se orgulha de não demonstrar emoção. Considera o estoicismo uma virtude. — É o falso orgulho falando, Dalton. Milady acredita que tudo que fez, no passado, foi por seu bem e o da família. Ela o adora, mas é incapaz de demonstrar esse afeto. Dalton escondeu um sorriso ao imaginar o que Mildred diria se soubesse o que pensava Alicia. — Você se mostra muito generosa para com uma mulher que fez tudo para arruiná-la. Mesmo assim, está disposta a perdoá-la. Por quê? — Porque, sem perdão, não há cura possível. — Baixou os longos cilios e corou. Pousou as mãos no colo e fitou-o com uma expressão que era quase envergonhada. — Não compreendo. Por que haveria de se importar, Alicia? — Talvez eu lhe diga mais tarde. — Alicia, se quiser convidá-la, faça isso. — Sentiu de súbito a necessidade de proteger aquela adorável criatura. — Mas prometa-me que não vai ficar magoada se ela recusar. A única resposta de Alicia foi um doce sorriso que tocou Dalton no fundo da alma. Terminaram a refeição em silêncio, e Dalton ficou a imaginar se Alicia poderia compreender melhor sua mãe se lhe contasse o único segredo que jurara jamais partilhar com alguém. — Alicia, há uma coisa que acho que você deveria saber. Ela o encarou por sobre o copo de vinho. — Quando eu tinha doze anos, meu animal favorito era uma égua árabe, Quicksilver. Fiquei encantado quando ela ficou prenhe. Passei quase que a noite toda na cocheira, a seu lado. Quando o potro nasceu, eu mal podia esperar para contar a minha mãe. Meu pai estava em Londres, a negócios. Subi correndo as escadas para o quarto dela. Não havia criados por perto. Abri a porta, entrei e... Alicia arregalou os olhos, esperando.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — E? Dalton desviou o rosto, embaraçado. — Encontrei o irmão de meu pai, tio George, com ela. Estavam deitados, nus, minha mãe debaixo dele. Ela gritou e vestiu o robe, correndo atrás de mim, tentando explicar. Eu fugi. Escondi-me na cabana de caça onde um dos couteiros me encontrou, muito depois. — Seu olhar encontrou o dela, e o duque percebeu seu choque e sua tristeza. — Nunca a perdoei por trair papai. Nunca a perdoarei. — Seu pai ficou sabendo? — Nunca se comportou como se soubesse. Alicia levantou-se e postou-se ao lado do marido. Seus dedos tocaram-lhe a face. Sem que fosse preciso palavra alguma, Dalton a envolveu nos braços, colocando-a no colo. E sentiu as batidas rápidas do coração de Alicia quando sua boca tomou a dela. O beijo tornou-se mais ardente, avassalando-o numa paixão que parecia querer aniquilálo. Os lábios de Alicia eram como uma rosa beijada pelo sol, sedosa, dulcíssima, inebriante. Ela ofegou, puxando-o para mais perto, e Dalton insinuou a língua na cavidade quente e húmida, explorando e provocando. Como a desejava! Ao longe, um cavalo relinchou, trazendo-o de volta à realidade. Ele ergueu a cabeça a tempo de ver algo reluzir à luz do sol. O que era? Um tiro explodiu, vindo do bosque, ali perto. A bala enterrou-se no carvalho, ao lado dos dois, lascas da casca da árvore voando pelo ar. — Abaixe-se! — Gritou Dalton, atirando-se o chão e puxando Alicia consigo. Rolou para cima dela, protegendo-a com o corpo. O lampejo de luz que vira fora do cano de um rifle. Bashshar, amarrado debaixo de uma árvore, corria em círculos, relinchando desesperado. A auréola branca, em seus olhos, aumentava enquanto lutava para soltar as rédeas. Ao lado, num renque de pinheiros, Júpiter dançava, inquieto, as orelhas empinadas. Alicia tentou desvencilhar-se de Dalton. — Bashshar! Eu preciso... — Fique quieta, Alicia! Alguém está atirando em nós! Não sei quantos são. — O duque ergueu a cabeça, o olhar correndo pelas árvores e moitas à procura de sinal dos atacantes, mas o bosque estava em silêncio. Quieto demais. — Mantenha a cabeça baixa — sussurrou, segurando-a pelo pulso para ter certeza de que ela não se afastaria. Os rinchos de Bashshar, como de um animal nos estertores da morte, cortavam o ar, enquanto ele empinava e escoiceava na ponta da rédea. — Dalton, por favor! — Implorou Alicia, de olhos fechados, sensibilizada até o fundo do coração por aqueles apelos horríveis. — Alicia, fique quieta, amor. Não há nada que possamos fazer por ele, agora. Havia uma grande chance de que o atirador estivesse usando Bashshar para atraílos para o aberto. Mas não podia dizer isso a Alicia. — O miserável pode ter querido apenas nos assustar — sussurrou, mesmo sabendo que quem quer que tivesse atirado poderia tentar, de novo. — Você acha que ele quis nos atingir de propósito?! — Não tenho certeza. Dalton olhou para o horizonte. Nada. Tudo parecia ter mergulhado numa quietude profundo. Até os relinchos de Bashshar haviam cessado. Ficaram ali, deitados, escondidos, escutando, por aquilo que pareceram horas, mas que não passaram de vinte minutos. Bashshar acabou por se acalmar, mais por exaustão do que por falta de medo.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Dalton, porém, não tinha dúvida de que o cavalo não se aquietaria se o atirador ainda permanecesse nas imediações. Observou ao redor. Os bosques pareciam em paz, permeados pelo canto dos passarinhos. — Quero que caminhe até onde está Júpiter, que se protegeu naquelas árvores e não pode ser visto pelo atirador. — Não, não vou deixá-lo. — Alicia, escute-me, por favor. Pegue Júpiter e tome o caminho ao longo das cercas. Você ficará longe da vista se o atirador ainda estiver por aqui. Mas o ruído irá confundi-lo o bastante para que eu possa soltar Bashshar e colocá-lo em segurança. — Não, você pode ser morto. Não posso permitir... — Alicia, faça o que estou pedindo. Quando você chegar à campina, eu a alcançarei. Se não aparecer, continue cavalgando até alcançar a mansão. Peça ajuda. O duque conteve o fôlego, esperando poder convencê-la, Era a única maneira de assegurar que Alicia estaria a salvo. — Promete me seguir sem demora? — Prometo. O duque não pôde deixar de admirar-lhe a coragem. A maioria das mulheres assim confrontada por um atacante desconhecido ficaria histérica. Alicia não apenas mantivera o raciocínio claro, mas seus pensamentos tinham sido para ele e Bashshar. Dalton percebeu que ela confiava nele, e a sensação lhe causou imenso prazer. Alicia relanceou os olhos para o garanhão negro, e sua expressão angustiada indicou a Dalton que ela sabia que o animal estava exaurido. Quanto mais cedo tentassem escapar, melhor. Por fim, ela concordou. — Vá com cuidado até onde está Júpiter, querida. Estarei logo atrás de você assim que desamarrar Bashshar. — Ficou a observá-la se arrastar em direção aos pinheiros. Dentro de minutos, viu que Alicia montava Júpiter e saía galopando. Rápido, Dalton se moveu pelo capinzal até o lugar onde Bashshar estava, sempre alerta. Falou com suavidade com o animal, enquanto lhe soltava as rédeas, continuando a esquadrinhar as imediações. Nenhum som ou movimento nos bosques. Não havia engano. Se o atirador quisesse atingi-los, ele e Alicia seriam alvos fáceis. Não, quem quer que fosse quisera apenas assustá-los. Dalton montou e incitou Bashshar a galope para a campina. Uma fúria gélida ameaçava quebrar-lhe a fleuma exterior, porém obrigou-se a controlá-la. Aquele não era o momento. Contudo, fez um juramento: fosse quem fosse que tivesse feito aquilo, iria pagar. Júpiter jogou a cabeça para o alto assim que Dalton, cavalgando Bashshar, apareceu à vista. — Graças a Deus estão bem — murmurou Alicia, aliviada. Logo as montarias emparelhavam e ela diminuiu o passo do animal, para um trote. Percorreram a trilha que vagueava pelos campos, em direção à mansão, sem falar, os únicos sons vindos do bater dos cascos na relva. Um vento ligeiro, carregando o cheiro das bagas dos espinheiros, dilatou as narinas dos cavalos e fez com que agitassem as caudas. Uma ideia inquietante cruzou a mente de Alicia, que teve de fazer um esforço férreo para manter o medo ausente da entonação: — Como pode ter certeza de que você não era o alvo? Dalton fitou-a de soslaio.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Se alguém quisesse me matar, teria a chance de fazer o trabalho agora. Como desejava acreditar nele! Contudo, Dalton podia estar tentando protegê-la da verdade. — O investigador de Bow Street levantou a hipótese de que você poderia ser o alvo do atirador? — O Sr. Humphrey Leary tem um raciocínio por demais meticuloso, Alicia. Não deixa pedra sobre pedra. Ela arqueou uma das sobrancelhas. — Não foi isso o que eu perguntei. — Está imaginando se minha vida corre perigo por curiosidade, ou descobriu que se importa comigo, me amor? — Mera curiosidade — Alicia falou um tom divertido Dalton soltou uma sonora risada, contagiante, e Alicia percebeu que não podia deixar de acompanhá-lo. A despeito disso, a questão continuava a incomodá-la. — Vai me manter informada? — Alicia deixou de olhar para os campos cultivados, que formavam quadriláteros em verde e dourado, cobrindo as colinas sinuosas. Não queria que o marido visse a preocupação refletida em seu semblante. — Você é adorável, doçura. Fazia anos que ninguém se preocupava comigo. — O calor em seus olhos azuis a aqueceram como nenhuma chama poderia, e Alicia teve consciência de que Dalton, também, saboreava o momento. "Eu me importo porque te amo", ela gostaria de dizer, mas sabia que não devia. Dalton podia se sentir obrigado a dizer: "Eu te amo, também", e isso seria horrível, pior do que se o duque jamais pronunciasse a frase que Alicia ansiava tanto por ouvir. CAPÍTULO XV Dalton passou a maior parte de seu tempo livre, durante as três semanas que se seguiram, observando Alicia treinar Bashshar para que superasse o medo de ruídos altos. Ela era fascinante de se olhar. Além da paciência e energia sem limites, os movimentos de Alicia em torno do cavalo eram tão fluidos e graciosos como os de uma bailarina. Bashshar parecia sentir o que Alicia queria e obedecia a seus discretos comandos. Na verdade, a interação era tão perfeita que, se Dalton fosse um homem fantasioso, poderia acreditar que mulher e animal conseguiam ler a mente um do outro. Claro que não era tolo a esse ponto. Contudo, quando estava por perto, Alicia despertava uma faceta nele que queria crer que tudo era possível. O duque parou perto da cerca mais baixa e descansou os braços no topo. Alicia acenara para Ulger, parado no meio da pastagem com uma arma pendurada no ombro. Segurou as rédeas com força quanto Ulge moveu-se em direção ao padoque. Quando ele estava a uns cem metros de Alicia e Bashshar, Alicia gritou; — Pare. Está perto o bastante. Ulger assentiu, carregou a arma e disparou para o ar. O tiro rompeu o silêncio, com um estampido surdo. Alicia afagou o pescoço do garanhão, cantarolando em seu ouvido, mas ainda mantendo a rédea firme. Bashshar mal se moveu, empinando apenas as orelhas, numa atitude de alerta.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Bom garoto... — ela murmurou. Penn aproximou-se, jogando uma cenoura no cocho de comida. — Obrigada, Penn. A cabeça maciça de Bashshar abaixou-se para apanhar o petisco, e o garanhão pôs-se a mastigar a cenoura, tranquilo. Os olhos do menino se arregalaram. — Não demora e Bashshar vai estar curado do pavor de barulho, hein, patroa? — Saberei com certeza quando diminuirmos aos poucos a distância entre ele e a arma de fogo. — Alicia acariciava o lombo do cavalo. Sorriu, diante da curiosidade natural de Penn. — Você tem jeito com cavalos, garoto. Será um bom treinador, um dia. — Preferia ser um curandeiro, como milady. Meu pai diz que a senhora é a melhor curandeira que ele já viu. — Bem, agradeça a Ulger por mim. Vindo de um homem com tanta experiência como seu pai, isso é um grande elogio. — Eu é lógico, gostaria de ser cavaleiro, também. Talvez pudesse ser um curandeiro e um cavaleiro. — Será excepcional, Penn, seja qual for a vocação que escolher. — Posso montar Bashshar e levá-lo de volta ao estábulo? — Não. O cavalo nunca foi montado por ninguém, a não ser por seu patrão e por mim. — Por favor, milady... Tenho catorze anos. Sou crescido. Além disso, como vou poder ajudar com o treinamento se não posso montá-lo? Alicia estudou o rosto sério do menino, e seu coração quase derreteu. Responsável e dedicado, Penn tinha trabalhado como cavalariço de Bashshar mais que qualquer um. Era, na verdade, bem grande. Forte e magro tinha o peso perfeito. Muitos jóqueis não eram maiores que ele. Além disso, Bashshar parecia sentir-se confortável com Penn. — Muito bem, mas me prometerá fazer exatamente aquilo que eu disser. — Prometo, milady. — O sorriso de Penn iluminou-lhe a expressão. — Suba na cerca, e eu trarei Bashshar até você. Penn correu a obedecê-la. Alicia aproximou-se, puxando o garanhão. — Agora, Penn, bem devagar, vá descendo seu peso sobre ele. Bashshar empinou as orelhas, mas permaneceu quieto enquanto Penn, com cuidado, passava o pé sobre a sela. Alicia afagou o pescoço do cavalo, esperando Penn acomodar-se no assento. Com os dedos segurando a rédeas com firmeza, continuou a murmurar palavra doces ao ouvido do animal. Olhou para Penn. — Da primeira vez, puxarei Bashshar em torno do círculo e, então, veremos como ele se comporta. A expressão de Penn era um misto de excitação feliz e séria concentração. Assim que Alicia se pôs a conduzi-los pelo círculo, o garanhão movimentou-se sem nenhum reclamo, não fazendo menção de empinar ou escoicear. Alicia entregou as rédeas na mão do garoto e deixou que Penn completasse várias voltas, sozinho. Pouco depois, ele retornava até a cerca, sorrindo, triunfante. — Viu só, milady? Eu disse que podia cavalgar Bashshar! Posso fazê-lo de novo amanhã? Ela agradou o animal, enquanto Penn pulava da sela. — Depende. Terá de me mostrar, mais tarde, como vai se saindo com as contas. Se estiver bem, acho que poderá cavalgá-lo amanhã. Alicia fitou Dalton e Ulger, parados perto. Seu coração disparou ao perceber o


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning sorriso de aprovação nos lábios do marido. Ulger coçou a barba. — Se eu não visse Penn montado em Bashshar, não acreditaria. — Seu filho tem tudo para ser um ótimo jóquei — disse Dalton para o mestre dos estábulos, mas seus olhos não se afastaram de Alicia. — Muitos garotos teriam medo de montar Bashshar. — E verdade. Penn sempre foi um garoto corajoso. — Ulger colocou o braço em torno dos ombros magros do filho, seu rosto curtido iluminado pelo orgulho paternal. Alicia entregou as rédeas ao menino. — Faça sua parte e leve Bashshar para a baia. Eu o verei mais tarde. Enquanto o cavalo era conduzido para os estábulos, ela voltou-se para Dalton. — Você não se importa mesmo de eu ter permitido que Penn montasse Bashshar, não é? — Confio em seu julgamento, querida. Além disso, Penn tem uma afinidade natural com os animais. Ele se importa com eles de verdade, e isso ressalta os resultados de seu treinamento, já que Bashshar permite que Penn o monte. — Seu semblante continha uma tal admiração que Alicia quase sufocou. — Obrigada, Dalton. Espero que sempre confie em mim. Ele fitou-a por um instante, e Alicia percebeu em seus olhos algo inquietante. — Confiança é um mérito que se conquista, Alicia. Havia uma seriedade naquela frase que não estava ali, antes. Será que se referia ao treinamento de Bashshar ou a algo mais? Sua incerteza aumentou ao ver que o duque a estudava com ainda mais intensidade. "Por que não haveria de confiar em mim, Dalton?" Claro! A infidelidade da mãe. O pensamento irrompeu dentro dela como um relâmpago. Dalton não voltara a mencionar o incidente desde que lhe contara o fato da primeira vez, na manhã depois do casamento. Contudo, não fora capaz de esquecer o quanto devia ter sido horrível para um garoto carregar o ultraje e a traição por tantos anos. A ideia de que pudesse ser infiel a Dalton era ridícula, mas que ele nutrisse uma dúvida não era de todo impensável. Alicia correu os dedos em concha, ao longo da palma da mão do marido. — Nunca lhe darei razões para desconfiar de mim, Dalton. Sabe disso, não é? A aparência fechada se foi e, num piscar de olhos, os lábios do duque se curvaram. — Concordei em colocar Bashshar em suas mãos capazes, minha querida, e sou um homem de palavra. Alicia retribuiu o sorriso, todavia consciente de que não obtivera uma resposta. Dalton puxou um envelope do bolso interno do colete e estendeu-o a ela. Um arrepio de excitação a fez estremecer. — É de sua mãe? — Perguntou, ao abrir. — Espero que ela venha para sua festa de aniversário. Escrevi convidando-a e... Sua alegria murchou quando desdobrou o papel e viu o timbre do Conselho de Corrida do Clássico de Newmarket. Olhou para Dalton. — Não compreendo... — Eu queria que fosse uma surpresa. Lamento, Alicia. Não espere por notícias de minha mãe. Pensei que tinha deixado isso claro. — Sim, você deixou, Dalton. Eu... sinto muito. Tinha uma tola esperança de que... — Recobrou-se, mudando de assunto: — Isto aqui parece um formulário de inscrição. — Sim! — O duque tomou a folha dela. — É para que inscreva Júpiter. Assim que o preenchermos e pagarmos os cem guinéus da taxa, Júpiter estará registado para


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning correr em Newmarket. — Não acho que ele esteja pronto. Não tem treinado desde que cheguei aqui. Um olhar de ternura cruzou o rosto de Dalton. — Você tem se dedicado tanto a Bashshar que eu quis mostrar-lhe minha gratidão inscrevendo Júpiter em seu nome. Eu o treinarei, e juntos conseguiremos prepará-lo. Alicia mal podia acreditar em seus ouvidos. Dalton era um Cavaleiro experiente que havia guiado o treinamento anterior de Bashshar, o que resultará no animal excepcional em que se tornara, antes do acidente. Emocionou-se, cheia de gratidão. — Faria isso por mim, Dalton? Aquelas envolventes íris azuis pousaram sobre ela como uma doce carícia. — Eu faria qualquer coisa por você. Alicia lutou para recobrar o fôlego. Se, pelo menos, as coisas pudessem ficar assim para sempre, entre os dois... Quando estavam sozinhos, sem a intromissão do mundo exterior, sentia-se parte integrante dele. As noites de amor que partilhavam a enchiam de paixão, que Dalton parecia também sentir. Mas era só desejo. Logo a realidade iria se imiscuir entre eles e... Recusou-se a pensar na possibilidade. — Ótimo, então — continuou Dalton. — Iremos começar o treinamento de Júpiter amanhã. Cronometrarei a corrida por um quarto de milha. Veremos o que ele pode fazer. Alicia sorriu, reanimada com a possibilidade de trabalhar junto com Dalton. Viver em Havencrest, partilhar seu amor por cavalos com o homem que amava era sua idealização do céu na terra. Na manhã seguinte, Alicia entrou na sala de refeições e encontrou Dalton, que esperava por ela. Em vez do bufê usual, uma pequena mesa e duas cadeiras haviam sido preparadas em frente à lareira. Ela olhou ao redor e percebeu que estavam sozinhos, não havia um criado à vista. Dalton sorriu, diante de seu espanto. — Eu disse às criadas que nós mesmos nos serviríamos. Espero que não se importe. — De modo algum. Mas por quê? Ele puxou-lhe a cadeira. — Queria desfrutar o desjejum de nosso aniversário sem mais ninguém por perto. Um arrepio percorreu-a. Jamais pudera imaginar que Dalton fosse lembrar que estavam casados fazia exatas quatro semanas. — Nosso aniversário? — Um mês de casados, querida. Convidei Olívia e Robert para o fim-de-semana, assim como sua família, para participar de uma pequena comemoração. Embora você não tenha mencionado, achei que devia estar com saudade de seus pais e suas irmãs. — Quanta consideração, Dalton! Na verdade, fico muito feliz. Quando terminaram de comer, Dalton pegou uma caixa de veludo do bolso do casaco, colocando-a ao lado do prato de Alicia. — Tenho uma lembrancinha para marcar a data. — Dalton, não sei o que dizer. Eu... não tenho um presente para você. Ele sorriu, com ternura. — Tê-la como esposa é meu maior presente, doçura. — Beijou-lhe os dedos. A garganta de Alicia fechou-se, num nó de angústia. Ele dizia tudo o que ela sonhava em ouvir. Se pelo menos fosse verdade...


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Alicia ergueu a tampa do estojo. Dentro, estava uma corrente de ouro com um medalhão na ponta, com a inicial R. Intrigada, Alicia correu o dedo pela letra. A corrente era curta demais para ser um colar. Assim, enrolou-a no pulso. Comprida para ser um bracelete. Perplexa, fitou-o. — Desiste? — Havia um brilho provocativo em suas pupilas. — Dalton, a jóia é linda, mas... o que é? — Examinou o medalhão. — O que significa esse R? — Vou lhe dar uma pista. O R é de Rufus. — Rufus? — Ela riu. — Explique-se. — Muito bem, mas terá de vir comigo para descobrir. E traga o presente. — Tomou-a pela mão e puxou-a, rindo, para fora da sala. Em instantes, chegaram ao padoque. O ar puro, lavado pela chuva, recendia a terra molhada e lírios. Alicia notou que Bashshar e Júpiter já estavam selados, à espera. — O que têm a ver os cavalos com meu presente? — Paciência, meu amor. Logo saberá. Na verdade, pensei que você gostaria de desfrutar de uma corrida. Júpiter tem se mostrado incrivelmente rápido. Acho que pode ser mais veloz que Bashshar. — Muito bem, que caminho tomaremos? — Vamos cavalgar pelas campinas até a cabana de caça. — Dalton apontou para as colinas sinuosas ao longe. — O terreno e a distância são semelhantes ao trajeto gramado de Newmarket. Ajudou-a a montar, e Alicia acomodou-se na sela de Bashshar. O garanhão empinou as orelhas e olhou para o outro cavalo, nervoso. — Calma, garoto — murmurou Alicia, afagando-lhe o pescoço. Dalton montou Júpiter e dirigiu a montaria no sentido da cabana. Alicia acompanhou-o, esperando por um sinal. Bashshar estremeceu, excitado. Parecia pressentir a competição. Quando Dalton fez o gesto, Alicia incitou o garanhão preto num galope, e logo as longas passadas de Bashshar reduziam a distância entre os dois corredores. O vento frio e húmido fazia esvoaçar os cabelos de Alicia. Em pouco tempo, ela assumia a liderança. O som do couro rangendo e das patas ressoando contra o solo transmitia-lhe a energia que vibrava no esplêndido animal. Cercas e sebes passavam como um relâmpago à medida que o garanhão avançava, mantendo a dianteira com pouco esforço. Minutos mais tarde, quando contornavam uma curva, a cabana surgiu à vista. Alicia relanceou os olhos por sobre o ombro. Dalton e Júpiter estavam vários metros atrás, e ela se encheu de orgulho pela vitória. Aquilo era mais do que vencer uma corrida. Bashshar demonstrara a classe de um campeão. Ofegante, ela desmontou, apanhando a corrente de ouro. Esperou por Dalton, que trazia no rosto uma expressão emocionada. — Bashshar nunca correu tão rápido! — Acariciou o lombo do animal. — Contudo, pensei que Júpiter iria se mostrar melhor. — Ele é novo ainda — retrucou Alicia, na esperança de dissipar-lhe o desapontamento. — Vamos apostar uma corrida de volta e, dessa vez, você montará Bashshar. — Ah, mas primeiro precisa ver seu presente, querida! Alicia observou a corrente que segurava. — Devo confessar que estou morrendo de curiosidade. Onde você o escondeu? — Lá dentro. — Dalton abriu o portão e dirigiram-se para a entrada. Alicia mal tocara a maçaneta quando um enorme lobo acinzentado saltou contra


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning os vidros da janela, dentro da cabana. Ela recuou, de susto, caindo nos braços de Dalton. A sonora gargalhada do marido encheu o ar. Alicia fitou o gigante, que latia, raspando as unhas contra o vidro, e seu coração se encheu de alegria. — Um cão irlandês! — Alicia escancarou a porta, e o animal pulou, colocando as patas da frente em seus ombros. Uma língua molhada lambeu-lhe a face. Se não se agarrasse a Dalton, o cachorro a teria jogado ao chão. Dalton fez um gesto de comando. — Deite-se, Rufus. Obediente, o cão lobo estendeu-se no assoalho. — Dalton, ele é apenas um filhote. — Alicia sei ajoelhou ao lado do animal e afagou-lhe o focinho peludo. Rufus agitou a cauda, batendo-a com força no tapete. — Tem nove meses. O couteiro o vem treinando, e esse filhote sabe fazer mais coisas do que derrubar as pessoas. — Dalton não conseguia esconder a alegria. Inclinou-se e fez um carinho no cachorro. Rufus latiu e ergueu a cabeça enorme, lambendo-lhe a face. — Vamos lá, Rufus! — Alicia ria. — Deixe-me ver como fica a coleira em você. O animal levantou-se de um salto e apanhou o punho da camisa de Dalton com os dentes, ameaçando rasgá-lo. — Talvez esse menino só obedeça ao couteiro! — Dalton soltou uma gargalhada gostosa. Alicia estalou os dedos e o cão correu para seu lado, que colocou a coleira em seu pescoço. — Perfeita! — Rufus vai precisar de uma maior em poucos meses. — Dalton caminhou para a porta. — Está em fase de crescimento. Rufus sentou-se, a língua pendurada. Alicia fitou-o, emocionada. Mal cabia em si de alegria. Seu marido era um dos homens mais ricos do reino, alguém que podia lhe dar qualquer coisa que desejasse, e lhe dera. — Dalton, não há nada que você pudesse me dar que eu gostasse mais. Como sabia que adoro cães-lobo irlandeses? — Acho que não existe um animal que você não adore, amor. Cães-lobo são inteligentes, de bom temperamento. E, acima de tudo, leais. Rufus será um bom guardião. Alicia, de súbito, compreendeu. Dalton estava preocupado que alguém pudesse repetir o atentado de que tinham sido vítimas. Um cão de guarda daria o alerta se um estranho ousasse se aproximar. — Você tem medo de que quem tenha atirado em nós tente de novo? O duque desviou o olhar, o perfil duro recortado contra a janela ensolarada de onde pendiam cachos de madressilvas. — Alicia, não vou mentir a você. — Voltou-se e encarou-a. — Não sei se o atirador tornará a atacar, mas, se o fizer, devemos estar preparados. O detetive Leary chegará de Londres hoje, a qualquer momento. Gostaria que você estivesse presente quando ele apresentar seu relatório. — Claro. Você lhe escreveu sobre o último atentado? — Sim, e o detetive acredita que devemos tomar todas as precauções. — Tais como? — Pode ser melhor que você informe sempre onde vai estar, em todos os momentos.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Alicia levou a mão ao pescoço. — Mas... decerto não acha que eu corro perigo. — Não sabemos direito quem é o alvo. Se for Bashshar, você fica com o garanhão mais do que eu. Não quero que corra riscos. Um pensamento súbito ocorreu-lhe. — Oh, meu Deus, então Penn e Ulger... — Duvido que estejam em perigo. A menos que o malfeitor altere a rotina, ele só ataca quando Bashshar está longe dos estábulos. Talvez tenha medo de ser visto pelos criados. — A menos é claro, que seja um dos criados. — Logo Alicia se surpreendeu com as próprias palavras. A expressão de Dalton não se alterou e ela percebeu que a ideia não era nova para ele. Um arrepio a percorreu. — Quase toda a equipe de servidores nasceu aqui e cresceu a serviço de Havencrest. — Dalton parecia pressentir a preocupação da esposa. — Quero crer que todos são leais. Dalton era tão orgulhoso... ficaria arrasado se um dos membros da criadagem provasse estar envolvido num complô para ferir Bashshar. — Tenho certeza de que são leais, Dalton. — Como Alicia gostaria de dizer ou fazer algo para confortá-lo, ainda que houvesse pouco a ser feito! Afagou-lhe o braço. — O detetive Leary pode chegar logo, portanto, talvez seja melhor retornarmos à mansão. — Creio que sim. Alicia mal tocou a maçaneta e Rufus saltou, colocando-se a seu lado. — Acha que Rufus nos seguirá até a mansão? — Ele deverá ir correndo na frente e estará esperando por nós no estábulo. À entrada da cozinha, de preferência. O couteiro falou que esse cão pode nos deixar sem casa nem teto, de tanto que come. Alicia riu, feliz ao perceber que o bom humor do marido voltara. Lá fora, Júpiter relinchou nervoso quando Alicia o montou. Um tanto inquieta, ela relanceou o olhar para a fileira de carvalhos e faias cor de cobre que bordejava o fundo da cabana. Embora nada visse de anormal, os cabelos de sua nuca se arrepiaram. Sentiu como se alguém os observasse. Resolveu pôr aquilo de lado. Ela e Dalton estavam a uma distância segura de qualquer vegetação mais densa que pudesse ocultar um homem armado. Respirando fundo, procurou acalmar-se. Estavam a salvo. Dalton montou Bashshar e conduziu-o para perto de Alicia. A um sinal dele, os dois garanhões arrancaram, as patas batendo contra a terra fofa. Debaixo de Alicia, os músculos de Júpiter se retesaram, flexionados, e o animal tomou a dianteira com facilidade. Num galope veloz, amazona e cavalo pareciam um só. Os latidos de Rufus confirmaram que o cão-lobo os seguia. Alicia não se atreveu a dispersar a concentração com um olhar de relance para trás. A lembrança de seu sonho de que Júpiter pudesse tornar-se um dos mais notáveis cavalos de corrida de Inglaterra cruzou-lhe a mente, num relâmpago. Naquele momento, ela percebeu, essa esperança, graças a Dalton, poderia se tornar realidade. Embora mais jovem e menos experiente, Júpiter possuía o espírito de vencedor. Experimentou uma sensação renovada de vaidade. Com o tempo, seu potro, o cavalinho que vira nascer e crescer, viria a provar ser um campeão. Assim que alcançaram a última campina, Bashshar ganhou velocidade. Alicia


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning incitou seu cavalo avante, e conseguiu uma ligeira vantagem. Excitada e exultante, viu a linha de chegada aproximar-se. Ela e sua montaria passaram pelo portão apenas segundos antes de Dalton e o garanhão negro. — Ganhei porque não sou tão pesada quanto você! — Ela gritou, alegre, procurando uma desculpa para a vitória. — Com um jóquei mais leve, Bashshar teria ganhado com facilidade. — Peso é um fator, mas... — O duque olhou para Júpiter, que mal resfolegava com o esforço — é possível que, devido à traumática experiência de Bashshar, ele só possa vencer se for você a montá-lo. Alicia nunca pensara nessa possibilidade antes, mas o que Dalton dizia fazia sentido. Ao voltarem para o padoque, o pensamento continuou a intrigá-la. — Estou muito contente com o tempo de Júpiter — Dalton comentou, mas ela mal o escutou. E se fosse ela a cavalgar Bashshar nas corridas de Newmarket? Aquilo era tentador, sem dúvida. CAPÍTULO XVI Mais tarde, Alicia dirigiu-se à biblioteca, com Rufus em seus calcanhares, para terminar a carta para Kimbra. Sentou-se à escrivaninha e apanhou a pena, hesitando antes de molhá-la no tinteiro. Recordou-se da pergunta que Kimbra lhe fizera na noite anterior ao casamento. "Você quer se casar com o duque?" Corou, seu pulso disparando, ao pensar no marido. Na época, respondera à irmã com convicção, mas pouco sabia dos prazeres indescritíveis que a esperavam. O que acontecia quando ela e Dalton se deitavam na cama era mais do que divino. Ele era um amante maravilhoso e a ensinara a relaxar e desfrutar das delícias sensuais que compartilhavam todas as noites. Sua vida de casada era maravilhosa. Quer à noite na cama, quer Dalton estivesse lendo um livro ou ela sentada com suas aguarelas, estavam sempre em sintonia um com o outro. E essa parte do acordo era mais agradável do que ousara um dia fantasiar. Adorava os comentários provocantes do marido e os olhares de cumplicidade que ele lhe dirigia. Na verdade, não tinha ideia de que pessoas casadas se comportassem de tal maneira. Pousou a pena e coçou as orelhas de Rufus. Com certeza, seus pais não eram assim. Quem sabe, quando eram jovens e recém-casados... Apoiou o cotovelo no tampo e recostou o rosto na mão, fitando o fogo. Claro, Dalton tivera inúmeras amantes antes do casamento, mulheres mais bonitas e experientes que ela. Sem dúvida, fora um amante apaixonado também com elas. Ele sabia como manipular o sexo feminino. Alicia sentiu que seu bom humor desaparecia. Dalton era um cavalheiro e, até que lhe desse um herdeiro, iria satisfazê-la. E, em retribuição, ela devia aceitar as condições do acordo e comportar-se de maneira adequada. Mordeu o lábio, perturbada. Nada de corresponder como uma jovenzinha apaixonada, cheia de ilusões românticas. Seria calorosa, generosa para atender às exigências de... De quem? Enrubesceu mais ainda. Ela o procurava com idêntica paixão, e se descobrira uma criatura quase insaciável.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Caminhou até a janela. Estaria em Havencrest ou em Marston Heath, no próximo Outono? Sobressaltou-se. No caso de ficar grávida, determinara-se a partir sem um lamento. Não demonstraria tristeza, derramando-se em lágrimas. De alguma forma, teria de encontrar forças para respeitar o acordo. Rufus latiu antes que Alicia ouvisse a porta se abrir. — Espero não a estar perturbando. — Dalton entrou. Percorreu-a, de cima abaixo, com um olhar apreciativo, admirando o vestido novo de seda verde-água. — Na verdade, tão tentadora como está, minha querida, sou eu quem fica perturbado. Riu, sua voz rouca provocando nela uma contração no ventre de Alicia. — Um mensageiro acaba de chegar com uma carta. — O conde puxou um envelope branco da pasta de couro. — É de Justin. — Justin! — Alicia exclamou, surpresa. — Onde ele está? — Em Londres, por enquanto. Planeja juntar-se à Armada de Wellington, em Portugal. — Correu os olhos pelas linhas escritas. — Diz que não terá tempo de nos ver em Havencrest antes da partida. Deixe-me ler este trecho: "Não preciso lhe dizer, velho camarada, que os pensamentos se atropelam em minha cabeça enquanto espero por notícias de minha missão. Com sorte, estarei de partida antes da próxima semana, para tomar parte nas Forças Expedicionárias de Wellington, em Portugal. Enquanto aguardo, não consigo evitar de pensar em você e nessa adorável esposa que não merece, vivendo na paz e na tranquilidade de Havencrest!" — Pobre Justin. Que ato de coragem juntar-se às tropas inglesas no combate a Napoleão! — Ela mesma admirou-se da emoção que sentia. — Lamento tê-lo interrompido. Por favor, prossiga, Dalton. — "Creio que sabe o quanto foi bafejado pela sorte, Dalton. Quando a guerra acabar, e se eu retornar à Inglaterra inteiro, poderei querer fincar raízes na terra e arranjar uma esposa também. Sim, sei o que está pensando, amigo. Um renomado doidivanas como eu nunca vai se acomodar com uma só mulher. Contudo, sinto uma pontada de inveja ao ver você e Alicia. Tem algo muito precioso, meu amigo. Dê um beijo em sua mulher por mim. Diga-lhe que você é um homem afortunado por ter se casado com ela." — A voz de Dalton falhou ao ler esse trecho. — Não posso imaginar Justin Sykes como um pacato morador do campo. Você pode? — Não, mas aposto que muitos devem dizer o mesmo de mim. Isto é, aqueles que não a conhecem, minha querida. — Sua boca torceu-se, num sorriso enviesado. — Justin está completamente caído por você, Alicia. Disso eu sei. Alicia corou. — Estranho, mas, pelo pouco que conheci dele, percebi que pode ser bastante encantador. — Todos os malandros são, meu amor. — Disso eu sei! Eu me casei com um deles. — Touché! Acho que Justin ficaria feliz se você lhe escrevesse. Creio que exerce uma boa influência sobre ele, Alicia, e suas cartas irão ajudá-lo a manter o espírito elevado durante a campanha. — Escreverei. Dalton aproximou-se e beijou-lhe a testa, rodeando-lhe a cintura. Trouxe-a contra o peito. Alicia pôde sentir um outro envelope dentro do bolso da jaqueta. O duque ficou a observá-la, sorrindo, enquanto ela tateava o papel, puxando-o para fora. — É de sua mãe! — Alicia sentiu um frémito de excitação. — Espero que tenha aceitado nosso convite.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Achei que gostaria de abri-la. Alicia rasgou o envelope de papel creme e sorriu. Logo, seu rosto perdia a vivacidade. Dalton tomou-lhe a folha das mãos e leu. Soltou um suspiro pesado. Ao erguer os olhos, seus olhos azuis faiscavam. — Minha mãe vai se casar. Vai casar-se com lorde Templestone! O homem alto e bonito que tinha sido a companhia constante da duquesa veio à memória de Alicia. Embora sem nenhuma razão, não gostava daquele homem. Talvez fosse a antipatia entre Dalton e Templestone o motivo. Fosse o que fosse, sempre confiava em suas sensações. — Vejo que não está contente, Dalton. — Não é problema meu — retrucou, caminhando para a lareira. Começou a andar de um lado para o outro, e Alicia percebeu que o marido estava bastante aborrecido. — Conhece bem lorde Templestone, querido? — O bastante para saber que seus dois primeiros casamentos foram com mulheres mais velhas e muito ricas. — Está sugerindo... — Apenas colocando os fatos. — Talvez deva falar com sua mãe. — Mamãe jamais deu ouvidos à lógica! — Tornou a apanhar a missiva. — Ela nos convida para um jantar na casa de Templestone, em Londres, daqui a algumas semanas. Vamos recusar! Alicia lutou contra uma sensação desagradável, embora fosse óbvio que Dalton tinha suas razões. Como se pudesse ler seus pensamentos, o duque se aproximou. — Não fique triste. Posso pensar em maneiras muito melhores de passar uma tarde. — Suas pupilas faiscaram. — Que desculpa dará a sua mãe? — Direi que ainda estamos em lua-de-mel. — E, sem aviso, tomou-lhe o rosto entre as mãos, roçando os lábios nos dela. Alicia sentiu os joelhos amolecerem ao ver, no semblante do marido, tamanho desejo. Dalton voltou a beijá-la, agora com mais arrebatamento. O coração de Alicia disparou. A paixão tomou conta de si, incendiando-a. Rodeou-lhe o pescoço com os braços e rendeu-se. — Alicia, como eu te quero! Ela fechou os olhos. "Você me deseja, mas não encontra motivos para dizer que me ama. Bem, não importa. Sei que me quer, e, por enquanto, é o que basta." Eram quase três da tarde quando o detetive Leary chegou de Londres. Sentada ao lado de Dalton, no escritório, Alicia estudou aquele homem digno, de óculos, de uns cinquenta e poucos anos, compleição forte. Com gestos comedidos, Humphrey tirou um documento da pasta. — O senhor me instruiu a conseguir rápido o endosso de um empréstimo para seu cunhado. — Leary ergueu os olhos, fitando Dalton. — Ficará aliviado em saber que meus homens descobriram o motivo pelo qual ele queria uma soma tão alta de dinheiro. — Por que você haveria de se imiscuir nas finanças pessoais de Robert? — Murmurou Alicia, espantada. — O detetive investiga qualquer coisa fora do comum, minha querida. Robert


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning estava em busca de um grande empréstimo. Até mesmo hipotecou os domínios da família, em Surrey, que eram parte do dote de Olívia. — Dalton! Suspeitar de Robert me parece chocante. — Milady, um profissional sério não pode deixar pedra sobre pedra. Nossas suspeitas eram infundadas. Como pode ler em meu relatório, seu concunhado usou a soma para comprar participação no White Dove, um navio mercante carregado de cana-de-açúcar. Na semana passada, o navio aportou, a salvo e com a carga em perfeitas condições. Hoje, o Sr. Seabrook é um homem rico. — Nunca tomei Robert por um jogador, mas essa cartada decerto valeu a pena. — Os vibrantes olhos azuis do duque brilharam de orgulho. — Estou feliz por ele e por Olívia. — Milorde deve admitir que as tentativas dele em emprestar somas tão expressivas pareciam suspeitas. Na verdade, sem seu aval no verso da nota promissória de seu cunhado, ele nunca teria encontrado alguém disposto a correr o risco. — E isso é confidencial, detetive. O mais importante é que não pairam suspeitas sobre Robert. — Dalton fitou Alicia. — O Sr. Leary está certo. Pode parecer cruel, mas sendo meticuloso ao extremo é que este cavalheiro dirige a melhor agência de detetives em Bow Street. O rosto de detetive tornou-se rubro, diante do elogio. — Ora, obrigado, milorde... — Quem mais há em sua lista de suspeitos, senhor? — Alicia quis saber. — Não podemos excluir Ulger, o mestre dos estábulos. — Evidente que Ulger não é suspeito! Dalton tomou-lhe a mão, como se tentasse acalmá-la. — O que o faz pensar assim, Leary? — Há rumores de que Ulger não aceitou muito bem o fato de sua esposa encarregar-se dos cuidados de Bashshar. Na verdade, alguns frequentadores da taverna têm caçoado muito dele, por causa disso. — Ulger vem de uma família de cavalariços. E um dos melhores tratadores que conheço. Antes de minha mulher chegar, discuti o problema com ele. Ulger não mostrou nenhum ressentimento. — Talvez não tivesse coragem de lhe confiar seus reais sentimentos, milorde. — Conheço o homem, detetive. E uma boa alma. Alicia continuou a ouvir, aliviada. Sentia que Ulger era merecedor de confiança. Também percebeu que, sob a indiferença superficial que ostentava, seu marido era alguém que se importava muito com os outros. O detetive Leary prosseguiu: — Não obstante, é com vistas a seus melhores interesses que meus homens continuam a investigá-lo. — Dirigiu um olhar agudo para Alicia e, depois, para Dalton. — Correm rumores de que sua senhora curou Bashshar. Embora o senhor afirme que Ulger é leal, quem se considera um especialista em cavalos pode não gostar de ter o prestígio usurpado por uma mulher. Leary arrumou os óculos. — Como bem sabe, milorde, os últimos dois tiros ocorreram à luz do dia, com os criados dispersos pela propriedade. É uma tristeza pensar que um elemento de sua equipe possa ser capaz de tal ato, mas fazer-se de cego para essa possibilidade pode colocar ambos em extremo perigo. Alicia pôde sentir a tensão de Dalton, que se inclinou para a frente, os músculos da mandíbula contraídos. — Quero que minha esposa saiba dos fatos, detetive. Porém, não pretendo afligila sem necessidade. — Seu tom não admitia argumentos.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Perdoe-me, milady. — Eu compreendo. O senhor está fazendo apenas seu trabalho. Dalton recostou-se outra vez, esticando as pernas. — E Elizabeth? Os domínios de sua família fazem fronteira com Havencrest. Ela está na lista de suspeitos? — Lady Elizabeth estava em lua-de-mel em Viena. — Diante da surpresa de Dalton, Leary arregalou os olhos. — Não sabia que ela se casou há pouco com lorde Rothbury? — Não, não me dei ao trabalho de ler as páginas sociais. A lembrança da jovem erguendo o chicote para Bashshar relampejou pela mente de Alicia. Graças a Deus, Elizabeth estava fora do país. — Investiguei outros membros da família também, milorde. Os pais de Lady Elizabeth estão no continente há mais de um ano, e seu irmão não deixou a universidade, em Cambridge. — Bem, Leary, talvez seja melhor contratar mais homens. — Temos todos os detetives disponíveis no caso, sir. Embora seja desagradável pensar que o atirador possa ser um de seus criados, todos os indícios apontam nesse sentido. — Diz isso porque seria difícil para um estranho agir e não ser visto? — Isso mesmo, milady. Considere o tiro mais recente. Naquela manhã, todos os empregados sabiam que vocês fariam um piquenique. Quem fez o disparo teve pouco tempo para se preparar e, no entanto, estava em posição, pronto para atacar, num local distante. — Infiltre alguns de seus homens em minha equipe. O detetive sorriu. — Era o que eu ia sugerir, sir. — Procure meu administrador. — Também gostaria de destacar alguns detetives para as cabanas de caça espalhadas pelos domínios. — Faça o que for necessário. — Dalton parecia bastante perturbado. — Descobriu alguma coisa a mais sobre Templestone? Minha mãe está planejando casarse com ele. — Mesmo? Imagino que isso possa explicar as grandes transferências de fundos da conta bancária da duquesa para a de Templestone. — Transferências de fundos? — Dalton descruzou as pernas e veio para a frente, muito atento. — De quanto estamos falando? O detetive remexeu os papéis na pasta e puxou um outro relatório. — Aqui estão os montantes, milorde. Dalton olhou para os números e assobiou. — Deus do céu, mamãe deu uma fortuna àquele sujeito! — Então, não se trata de um empréstimo? — Não, e isso me deixa curioso. Minha mãe nunca foi generosa por natureza. Se Templestone precisasse de dinheiro emprestado, ela, sem dúvida, lhe diria para procurar um agiota. — Por favor, perdoe-me, sir, mas é possível que milady esteja pagando alguma soma emprestada? — Não creio. Minha mãe recebe uma generosa pensão. Não tem motivos para dever nada a ninguém. — Então, isso nos conduz a uma das duas opções. Acha que Templestone vendeu a ela alguma coisa, como um quadro, uma obra de arte, ou agiu como corretor na aquisição de uma tal compra?


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — A duquesa não é do tipo extravagante, não é colecionadora. Alicia observou que o detetive se calava, como se escolhesse os termos com muito cuidado. — Isso nos leva a uma outra possibilidade. — E qual é, Leary? — Chantagem. — Chantagem?! — Dalton quase pulou da cadeira. — Não seja ridículo, Leary! O detetive levantou-se da cadeira, reunindo os papéis e recolocando os documentos na pasta. — Devo voltar dentro de uma quinzena com um novo relatório. Talvez até lá o senhor e sua esposa tenham pensado em algo. Uma discreta batida soou na porta, e o mordomo entrou. — Lady Olívia chegou, sir. Alicia se ergueu. — Eu a receberei na biblioteca, Ives. — Voltou-se para Dalton, que continuava sentado, com uma expressão carrancuda. — Isto é, se minha presença aqui não for mais necessária. — Claro, minha querida, pode ir. Irei em seguida. Depois que Alicia os deixou, Dalton voltou-se para o detetive. — Estarei aguardando ansioso por seu próximo relatório, mas, enquanto isso, quero que encontre alguém próximo de Templestone... um criado, uma amante, qualquer um que possa conhecê-lo na intimidade e se deixe persuadir a revelar uns poucos segredos. — Persuadir, sir? — Persuadir, subornar... chame como quiser. Quero saber exatamente o que se passa com ele. Dinheiro não é problema. — Certo, milorde. O detetive despediu-se e, assim que se foi, Dalton dirigiu-se para o aparador e serviu-se de uma dose de uísque. Virou o copo de um só gole. Algo que Alicia dissera certa vez ecoava em seu cérebro. "Sei que pode soar estranho, Dalton, mas sinto que sob o orgulho de sua mãe, ela carrega algo doloroso, penoso, que ameaça destruí-la." Deixou o copo vazio sobre a mesa. Será que aquela mulher tão intuitiva com quem se casara estava com a razão? Sua mãe carregaria algo de seu passado que Templestone descobrira e por isso a estava chantageando? Quando Alicia chegou ao saguão, Olívia a esperava de braços abertos. Ao lado dela, a babá segurava o nenê adormecido, Drake. Marie e várias outras criadas tagarelavam, apanhando as bagagens. — Alicia, minha querida! Está maravilhosa! Ela sorriu, feliz em rever a cunhada. — Estou tão contente que tenham vindo! Nossa, como cresceu o pequeno Drake! — Robert virá se juntar a nós num instante. Antes, quis falar com o jardineiro, na estufa. — Deu riu uma risada gostosa. — Meu marido está interessadíssimo no cultivo de abacaxis. Temos notícias incríveis para contar! Alicia logo adivinhou do que se tratava. — Dalton logo estará livre. Vamos esperar por ele na biblioteca. Olívia deu instruções à babá para que colocasse Drake no berço, enquanto Alicia pedia o chá. Poucos minutos mais tarde, estavam sentadas na biblioteca, quando Dalton entrou. — Onde está Robert? — Indagou o duque, após cumprimentar a irmã. — Pensei


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning que viriam juntos. — Ele estará logo aqui. Não vai acreditar, Dalton. Robert meteu-se numa arriscada aventura. Mas vou deixar que lhe conte tudo. — Recostou-se na cadeira. — Nossa, irmão, nunca o vi mais charmoso! Pelo visto, a vida de casado lhe faz muito bem. O duque curvou-se, galante, para a esposa. — Devo todo meu charme a minha adorável Alicia. Ela ficou vermelha. — Teve notícias de sua mãe, Olívia? Acabamos de saber das novidades. — Que novidades? — Recebemos uma carta em que ela nos diz que vai se casar com Templestone. — Casar?! — Olívia engasgou. Olhou para Alicia e, em seguida, para Dalton. — Deve haver algum engano. Mamãe nunca se casaria com aquele escroque. — Temo que não haja engano nenhum, minha irmã. — Mas, na semana passada, em Londres, vi algo que diz o contrário. Eu havia acabado de entrar numa pequena loja, em Bond Street, quando escutei uma alteração. Mal pude acreditar em meus olhos quando vi mamãe e Templestone discutindo. Em público! A princípio, os dois não me viram. Ouvi Templestone berrar "Veremos!" e sair enfurecido do estabelecimento. Pobre mamãe, seu rosto tornou-se púrpura! Ficou parada ali, olhando para a porta, parecendo perdida. Tive medo de me mexer. Assim, escondi-me atrás de um vaso, esperando que ela saísse sem me notar. Mas, antes de se afastar, olhou ao redor e me avistou. Fitou-me apavorada. Nossa mãezinha, tão orgulhosa, tão senhora de si... Olívia meneou a cabeça. — Tentei pensar em algo, mas, antes que pudesse dizer uma palavra, ela fugiu, quase correndo. O rosto de Dalton era uma máscara de indiferença. — Decerto tratou-se de uma discussão entre amantes de poucas consequências. — Levantou-se e roçou os lábios no rosto da esposa. — Queira me dar licença, querida. Lembrei-me de que preciso falar com o Sr. Leary, antes que ele parta. — Sorriu para a irmã e se foi. — Nunca entendi o comportamento de meu irmão naquilo que se refere à mamãe. — Olívia enrugou a testa. — Ele pôde se mostrar bastante insensível quando quer. Alicia, ao contrário, não acreditava que Dalton agisse com indiferença nem por um instante. Embora quisesse defendê-lo, porém, decidiu não tentar. Não era o lugar, nem a hora. Além disso, Olívia não sabia que o grande amor da duquesa não fora o marido, mas o cunhado, George. Sem conhecer os fatos, jamais poderia entender a complicada criatura que era a duquesa. — Por que acha que milady vai se casar com lorde Templestone, Olívia? — Não tenho ideia! Templestone é quem lucrará. Histórias a respeito de sua vida desregrada proporcionam horas e horas de falatório nos salões. Não posso imaginar o que mamãe tem na cabeça. A criada entrou, carregando a bandeja de chá. Assim que a deixou na mesa e saiu, Olívia continuou: — Mamãe é muito orgulhosa, muito digna para ser associada a gente como ele. — Tomou um gole do chá que Alicia lhe servira, a xícara delicada batendo contra o pires, com o tremor de suas mãos. — Falará com a duquesa a respeito de suas preocupações? — Não. Mamãe nunca escuta ninguém, uma vez que tenha tomado uma decisão. — Mas, se conversassem, talvez ela pudesse tranquilizar seus temores.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Querida, minha mãe não tem vontade alguma de tranquilizar os temores de quem quer que seja. Irá se recusar a tocar no assunto e ponto final. — Olívia a encarou e sorriu. — Temo, minha querida Alicia, que sua sogra possa ser bastante desagradável às vezes. — Eu a convidei a nos visitar para a festa de aniversário de Dalton. — Recebemos seu convite e já respondemos, por escrito. Sabe, não consigo me lembrar, agora em que penso nisso, que Dalton tenha convidado alguém para uma comemoração de aniversário. De qualquer maneira, eu e Robert estaremos aqui. Olívia tomou mais um gole de chá, parecendo procurar as palavras adequadas. — Acho muito gentil de sua parte, Alicia. Você é a pessoa mais generosa que já conheci. Mas não fique desapontada se mamãe recusar-se a comparecer. — Foi isso que Dalton disse. — Alicia se ergueu e puxou a sineta, com a esperança de desanuviar o humor sombrio de Olívia. — Agora, quero que conheça Rufus. — Rufus? Quem é? Em questão de minutos, a criada entrava na sala. — Marie, por favor, peça a Ives que traga Rufus. — Sim, milady. Alicia sorriu. — Espere até conhecê-lo. — Pelo que sei de você e Dalton, Rufus deve ser algum bicho. Uma batida soou, e logo Ives entrou com Rufus. O cão-lobo correu pela sala e saltou sobre a mesa, quase derrubando o serviço de chá. Num pulo, caiu sobre Olívia. — Deus do céu, um cavalo! — Olívia bateu palmas, rindo, afagando a cabeça do cachorro. — É um presente de aniversário, de Dalton. — Que romântico! — Os dedos de Olívia examinaram a coleira de ouro, no pescoço do cão. — Você é um belo camarada, Rufus. Estou muito feliz em conhecê-lo. Rufus lambeu-lhe o rosto, e Olívia caiu na gargalhou. — Oh, Alicia, mal posso esperar que você e Dalton tenham filhos! Ambos têm tanto amor a dar, e depositam isso nos animais. Alicia sentiu o rosto queimar. — Rufus desça daí, já! O cão pulou para o chão e deitou-se. Olívia colocou a xícara de lado e olhou para a bandeja. — Que saudade desta deliciosa torta de limão! — Serviu-se de uma generosa fatia. — Diga-me, continua tratando de Bashshar? — Sim. O filho de Ulger, Penn, está me ajudando. Bashshar aceita bem o garoto, e Penn tem jeito. Será um excelente tratador. — Aposto que Dalton está encantado. Agora, você terá mais tempo para ele. — Dalton está bastante ocupado, trabalhando com Júpiter. Inscreveu o garanhão no clássico de Newmarket. Todavia, dois meses não serão suficientes para prepará-lo, eu creio. — Trabalhar com Júpiter ajudará Dalton a superar o desapontamento. Ele ficou tão decepcionado quando Bashshar foi ferido! Meu irmão tinha esperanças de conseguir a copa dos campeões. — Acho que Bashshar está pronto para disputar corridas, e eu estava pensando... Acha que Robert me ajudaria a inscrevê-lo no clássico, às escondidas, para fazer uma surpresa a Dalton? Os olhos de Olívia se arregalaram de surpresa.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Que divertido! Acha mesmo que Bashshar pode correr de novo? — Sim, com certeza. E a experiência lhe faria muito bem. — Que esplêndidas notícias! Porém, por que surpreender Dalton? Meu irmão ficaria encantado com isso. Ele sempre quis que Bashshar corresse em Newcastle. — Eu sei, mas... Alicia não sabia se Olívia veria o plano com bons olhos. Hesitou. Olívia a observava, os olhos azuis brilhando, na expectativa. Sim, iria confiar na cunhada e em Robert. Se quisesse colocar a ideia em ação, precisaria de aliados. — Veja, Olívia, não estou certa se Bashshar poderá vencer se alguém o montar. Acho que... — Rezou para que Olívia não julgasse aquilo uma loucura e prosseguiu: — Estava pensando em eu mesma montá-lo. — Você?! — Olívia quase deixou cair o prato das mãos. — Ora... isso é quase impossível, querida. — Por quê? Tenho montado e treinado cavalos desde meus oito anos de idade. Quando vovô era vivo, alguns dos maiores jóqueis da Inglaterra treinavam em Marston Heath. Eu os observava e aprendi... — Sei que sim — Olívia interrompeu-a. Alicia baixou o tom: — Se eu me vestisse como homem, sei que poderia levar Bashshar à vitória. Mas há um problema que não tenho como resolver ainda. Dalton descobriria tudo assim que visse o nome dele. Não há como lhe fazer uma surpresa. O rosto de Olívia iluminou-se. — Não estou bem certa, mas me recordo de ter ouvido Robert falar de uma inscrição secreta, feita no continente, há vários anos. O cavalo misterioso venceu, disfarçado sob panos coloridos e com o jóquei mascarado. Alicia, se você fizesse o mesmo? — Uma inscrição secreta? Acha que pode dar certo, Olívia? — Vou falar com Robert. O primo dele, lorde Teddy, é um dos pilares do Jockey Club e poderia nos ajudar. Alicia recordou-se do cavalheiro de aparência distinta. — Obrigada, mas há outra coisa... Não sei o que Dalton vai pensar. — Alicia, o que é isso? Existe jeito melhor de mostrar a Dalton que Bashshar está curado do que levá-lo para a vitória? E se alguém pode fazer isso, esse alguém é você, querida. O coração de Alicia transbordou de esperança. — Eu faria qualquer coisa para provar que Bashshar está curado. Por Dalton. Olívia tornou a bater palmas. — Então, está combinado. Além disso, sempre quis fazer uma surpresa a meu irmão. Dessa vez, vamos enganá-lo! Falarei com Robert agora mesmo. Na tarde seguinte, Dalton passava pela sala de música, quando ouviu a esposa cantarolando. Parou e espiou pela porta, observando-a arrumar as rosas amarelas em um vaso, concentrada na tarefa. O duque reconheceu a melodia de sua valsa predileta, e aquele cantarolar alegre aqueceu-lhe o peito com um sentimento ainda novo para ele. Na verdade, nas últimas cinco semanas, dois dias e nove horas desde o casamento, Alicia trouxera para seus dias uma miríade de sentimentos tão profundos que mal podia acreditar. Ela infundira seu toque mágico na ancestral mansão dos Wexton, com aquele seu dom especial e notável. Desde as velas do quarto de dormir recendendo a sândalo até


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning os vasos de flores espalhados pelas salas, Alicia transformara a fria formalidade de Havencrest em um lar aconchegante e belo. Pusera seus dons especiais sobre ele, também. Desde a primeira vez em que haviam se encontrado, o duque soubera que nunca mais seria o mesmo. Assim que abria os olhos, mal podia esperar para ver de novo o rosto encantador transtornado pela paixão, como quando faziam amor. Vibrava ao vê-la quase desmaiar de deleite. E não era apenas uma paixão física o que o movia. Alicia era dona de seu coração. Estava apaixonado por ela. Deus do céu era verdade! Nunca imaginara ser possível, mas, de alguma forma, aquela criatura incrível, excepcional, conquistara seu amor. — Dalton? — Alicia aproximou-se, inalando o aroma de um botão de rosa. — Está me olhando com uma expressão tão estranha... Ele fingiu um ar sério. — Estava pesando os méritos do cultivo de nabos na colheita da primavera. A risada cristalina de Alicia ressoou, enchendo o ambiente de contentamento. — Seu olhar mostrava um tal alheamento que não acho que era em nabos que pensava... — Você me conhece bem. — O duque a tomou pela mão. Queria confessar-lhe o que descobrira, mas sentia-se muito vulnerável. Alicia sorriu, como se lhe adivinhasse os pensamentos, e baixou os cílios. — O que traz esse sorriso feliz a seus lábios, querida? Quem sabe sejam devaneios sobre o seu marido? — Acertou. Mas... é surpresa e não posso contar. — Ora, ora! Da festa de meu aniversário eu já sei. Está planejando alguma outra coisa? — Puxou-a contra si. — Vou lhe dar uma pista. — Alicia aconchegou-se a ele. — É uma coisa que Robert está arrumando. E basta, não lhe direi mais nada. — Robert, hein? Então minha irmã deve saber. Perguntarei a ela. Alicia se fingiu de brava. — Você vai se comportar e não perguntar mais nada. — Seus braços rodearamlhe o pescoço, quando Dalton beijou-a na curva do pescoço. Alicia sentiu um arrepio de prazer correr pela espinha. — Dalton, quase esqueci! Estão me esperando no estabulo. Mandei Penn selar Bashshar e deixá-lo pronto para mim. Dalton mordiscou-lhe a orelha, antes de soltá-la. — Irei junto. E melhor não cavalgar sozinha. — Adoro sua companhia. Uma batida na porta assustou-os, O mordomo entrou. — Milorde, o Sr. Brockmoor está aqui, para os ajustes. — Ajustes? Ah, sim, Brockmoor, meu alfaiate... Droga! Esqueci que ele chegaria de Londres, hoje. — Irei na frente, querido. Não deixe o alfaiate esperando. — Muito bem, mas leve Penn ou um dos cavalariços com você, por segurança. — Vou cavalgar perto das cercas, longe dos bosques e dos campos de caça. — Alicia sorriu por sobre o ombro. — Terei cuidado. CAPÍTULO XVII Alicia galopou com Bashshar pela raia amada, puxando as rédeas ao passar pelo


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning portão em arco que marcava o fim da distância de seis oitavos de milha. Olhou para o cronómetro, de novo, mal acreditando no que via. Era verdade: abaixo de dois minutos, o melhor tempo dele. Quase não cabia em si de felicidade desde que Olívia lhe dissera que Robert aprovara sua ideia de montar Bashshar, prometendo falar com o conselho de corridas. Sim, podia ter a chance de competir com o garanhão em Newmarket! Inclinou-se e afagou o pescoço do cavalo. — Você vai deixar seu dono muito orgulhoso, querido. O garanhão resfolegou, jogando a cabeça para o alto. Se Deus quisesse, o conselho haveria de aprovar seu registo como secreto. Olhou ao redor, procurando Rufus, que se afastara pelo campo em perseguição a um coelho. — Rufus? A única resposta foi o ranger dos galhos do cedro, estalando com a brisa da tarde. O pulso de Alicia se acelerou. Examinou as ondulações dos quarteirões cultivados até onde sua vista alcançava, mas nem sinal do cão. Inquieta, incitou Bashshar, avançando. — Rufus? — Tornou a chamar. Sob suas pernas, sentiu o cavalo estremecer, e ficou a imaginar se o animal percebera que se aproximavam da densa formação de árvores perto do local onde o atirador atacara, da última vez. Sentiu uma estranha premonição e puxou as rédeas, decidida a voltar à mansão. Nem bem fizera Bashshar dar meia volta e Alicia reconheceu a carriola de dois eixos de Dalton, puxada por um par de cavalos brancos, correndo através do parque. Observou o cavalheiro de cabelos escuros que a dirigia e a senhora elegante a seu lado. Olívia e Robert. Alicia mordeu o lábio. Os dois se dirigiam à raia aberta que contornava os campos de caça. Puxou as rédeas, fazendo Bashshar recuar, e saiu a galope pela trilha junto à cerca, à beira do bosque, com um único pensamento: avisar Olívia e Robert. Se corresse, poderia interceptá-los antes que se aventurassem mais longe. Enquanto as patas de Bashshar ressoavam no solo, ela forçava-se a uma calma que não sentia. Não ajudaria o cavalo se ele percebesse sua inquietação, se é que já não percebera. Seus temores eram tolice, sem dúvida. Quando alcançasse Robert e Olívia, sãos e salvos, iriam dividir umas boas risadas. De repente, Bashshar refreou o galope e diminuiu o passo. Relinchou, seus grandes olhos castanhos mostrando aquela auréola branca. — O que foi, garoto? — Alicia afagou-o, mas sem deixar de observar o bosque. Com exceção de um raio de sol banhando a cobertura das folhas, nada se via, a não ser vagas sombras. O potente animal refogou e afastou-se da trilha, galopando, galhos e folhas quebrando-se à sua passagem e voando pelos ares. Por um instante, tudo o que Alicia pôde fazer foi manter-se no assento, tentando de controlá-lo. O garanhão meteu-se em meio aos arbustos, e Alicia temeu pela vida, os joelhos pressionados contra os flancos poderosos. De súbito, o cavalo parou. Alicia foi projetada para a frente, quase caindo da sela. Bem adiante, um movimento nas moitas de buxos, a menos de quatro metros, atraiulhe a atenção. Um homem, meio escondido no matagal, erguera uma espingarda e apontava para a carriola em movimento. Alicia enregelou. Bashshar revirou a boca, expondo os enormes dentes. Uma onda de terror ameaçou sufocá-la quando o cavalo resfolegou e partiu contra o


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning atirador. Apanhado de surpresa, o homem voltou-se para encará-los, e a arma caiu, a seu lado. Antes que pudesse apanhá-la, Bashshar estava em cima dele. O cavalo empinou, a crina esvoaçando, e seus cascos feriram o ar, com violência. O semblante do atirador perdeu a cor. Apontou a espingarda, tentando enfrentar o cavalo com a arma. — Não! — Gritou Alicia, apavorada. Com todas as forças, puxou as rédeas, na inútil tentativa de controlar o garanhão. Naquele instante, a cabeça prateada de Rufus surgiu sobre a grama alta. O cãolobo saltou a cerca, em direção do estranho. Um rosnado furioso foi a última coisa que Alicia ouviu antes que Bashshar empinasse e atingisse o atirador, com as patas dianteiras. Seguiu-se um grito pavoroso. Bashshar recuou, e Alicia, enfim, conseguiu recuperar o controlo. Afastou-o dali e amarrou-o numa árvore. Então, desmontou e correu para perto do homem caído. Ele rolou para o lado, segurando o braço esmagado. Um grande alívio derramou-se sobre Alicia. Graças aos céus, Bashshar não matara o infeliz, apenas quebrara-lhe o braço. Rufus, com os dentes enterrados no tornozelo dele, sacudia-lhe a perna como se fosse uma boneca de trapos. — Tire seu cão sanguinário de cima de mim! — Implorou o atirador, tentando chutar o cão com o outro pé. Seu chapéu voou para longe, revelando os cabelos de um ruivo claro. Alicia encarou-o. Neville, o irmão mais velho de Penn! A raiva e a revolta a dominaram. Relanceou os olhos para a espingarda, caída a poucos passos além. Correu até lá e apanhou a arma. — Como pôde, Neville! — Esse maldito cavalo quebrou meu braço! Da árvore próxima, Bashshar bateu as patas no chão, refogando. E, então, atrás de Alicia, uma voz exclamou: — Lady Alicia, a senhora está bem? Ela girou o corpo e viu três cavaleiros. Reconheceu o homem barbado, de óculos, no meio: o detetive Leary. — Estou sã e salva, mas o homem no chão está ferido. Acho que seu braço foi quebrado. — Temos seguido Neville desde os últimos dias. — Ofegante, Leary pulou da sela. — Não podíamos prendê-lo antes que tentasse atirar em alguém. Quando vi a senhora naquele cavalo negro, em direção a ele, eu... eu... Viemos para cá assim que pudemos! — Por sorte, ninguém foi ferido. — De súbito, Alicia foi tomada por um violento tremor. O mais jovem dos homens agarrou Neville pelos ombros. — A senhora tem um belo cão de guarda, milady. — Voltando-se para Rufus, disse: — Muito bem, camarada. Solte essa bota, agora. — Venha, Rufus! — Alicia estalou os dedos, e o cão, com relutância, soltou o tornozelo de Neville. O terceiro homem ajudou Neville a montar em um dos cavalos. — Milady tem certeza de que não está ferida? — Insistiu o detetive, muito preocupado. — Estou um pouco abalada, mas bem. — Alicia se dirigiu até onde estava Bashshar. — E Olívia e Robert? Onde estão, Sr. Leary? — Vêm vindo para cá.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Alicia voltou-se e viu a cunhada correndo para ela. A poucos metros de distância, Robert, em pé ao lado da carriola, segurava as rédeas das montarias. — Jesus Cristo, Alicia, você está ferida?! Sentindo-se mais perturbada do que gostaria de admitir, Alicia meneou a cabeça. — Ficarei bem, Olívia. — Abraçou a cunhada. — Bashshar deve ter pressentido a presença do atirador no matagal... — A voz de Alicia falhou, de emoção. — Ele superou seu medo para me proteger. — As lágrimas assomaram a seus olhos. — Graças a Deus! — Murmurou Olívia, palidíssima. — Se tudo estiver bem — falou o detetive Leary —, e com sua permissão, Lady Alicia, meus homens irão interrogar Neville na cabana de caça. Tão logo eu tenha feito meu relatório, irei até a mansão prestar as informações a milorde. — O senhor tem minha permissão. Voltarei com Lady Olívia e seu marido. — Estou tão feliz que tenham capturado esse bandido! — Olívia observava Neville afastar-se, sob ostensiva vigilância. Embora estivesse satisfeita com a prisão do atirador, Alicia sabia que Dalton ficaria arrasado ao descobrir que o filho mais velho de Ulger o traíra. Pior seria se ficasse provado que Ulger tomara parte na conspiração, também. — Alicia, venha connosco. Vou amarrar Bashshar na traseira e... — Obrigada, Robert, mas prefiro cavalgar de volta à mansão. Estou bem e, além disso, Bashshar precisa se acalmar. Alicia esperou até que Olívia e o marido se acomodassem na carriola. — Tem certeza, Alicia? — Sim, querida, tenho. — Alicia sorriu, ansiosa para voltar a casa e explicar tudo a Dalton, antes que o detetive e seus homens chegassem. Acariciou Bashshar e levou-o para campo aberto. Acomodou-se na sela, tonta de alegria por o animal ter superado o trauma, e incitou o garanhão a galopar. O vento ondulava o capim crescido, ao avançarem pela campina. Um bando de perdizes assustadas alçou voo. O súbito bater de asas teria deixado Bashshar apavorado, da primeira vez em que Alicia o vira. Agora, mesmo inquieto depois do ataque a Neville, o garanhão não mostrara o menor sinal de estresse. Alicia diminuiu a pressão das rédeas, dando liberdade ao cavalo para correr à vontade. Rufus os seguia, ao lado. Ao lado da janela, em seu escritório, Dalton a segurava nos braços, enquanto Alicia com toda a calma relatava os dramáticos acontecimentos das últimas horas. O duque não confiava na própria voz, incapaz de falar. Com o coração em disparada, um único pensamento, terrível, o atormentava: ela podia ter sido morta, e ele não estava lá para protegê-la. — Deus misericordioso, você está bem! — Conseguiu, murmurar, quando Alicia terminou. Ela o beijou de leve na face. Dalton fechou os olhos, acariciando-lhe os cabelos, aspirando o suave perfume que era só dela. Alicia parecia tão pequena, tão vulnerável... Queria mantê-la assim, entre seus braços, a salvo, em segurança. Para sempre. — Não se culpe, Dalton. O duque estremeceu. Depois de tudo por que passara, sua preocupação isenta de egoísmo era para com ele. Afastou-a um pouco e fitou-a bem dentro daqueles olhos lindos. — Eu devia ter insistido para que você não fosse cavalgar. E ter alertado Robert e Olívia para que não levassem a carruagem para perto dos campos de caça. Por causa


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning da distância, o atirador deve tê-los confundido connosco. — Acabou, Dalton. O importante é que Neville foi preso e logo saberemos por que motivo fez isso. — Graças ao Pai, Rufus e Bashshar estavam com você! — Puxou-a contra o peito. Momentos mais tarde, ouviu-se o som de cascos, do lado de fora. Rufus latiu para os dois homens que se aproximavam. Eram o detetive Leary e Ulger. Dalton afagou os dedos de Alicia, antes de soltá-la. Quando o mordomo conduziu os senhores para dentro da sala, Dalton sentou-se ao lado de Alicia, no sofá. O detetive Leary acomodou-se numa cadeira, perto da lareira, e Ulger, de chapéu na mão, permaneceu de pé, muito solene, diante de seu amo. — Como o senhor sabe, tenho sido mestre dos estábulos, como meu pai, por quarenta e nove anos, sir. Deus é minha testemunha: minha mulher e eu nada sabíamos dos negócios sujos de Neville. Mas a vergonha sobre meus ombros é a mesma. Quero que Neville seja punido com severidade pelo que fez. E, se o senhor quiser que eu deixe Havencrest, entenderei, milorde. Dalton ergueu-se e pousou a mão no ombro do idoso empregado. — Não é necessário, Ulger. Nenhum pai pode ser responsabilizado pelos atos de seu filho. Ulger remexeu os pés, as lágrimas ameaçando rolar de seus olhos. — Obrigado. Eu... encontrarei um jeito de reparar essa desgraça, patrão. — Vá para casa e fique junto de sua mulher e de Penn. — Dalton falava com suavidade e doçura. — Farei tudo a meu alcance para que Neville tenha um advogado e um julgamento justo. Procure não se preocupar. O queixo de Ulger tremia quando resmungou um agradecimento, antes de deixálos. O detetive Leary inclinou-se para a frente, em sua cadeira. — Neville confessou que foi contratado por um tal de Sr. Gibbs, que o procurou há vários meses. Garanto que Gibbs é um nome falso, mas Neville nos forneceu uma boa descrição do sujeito. Meus detetives já estão verificando na aldeia. Com sorte, logo saberemos dos motivos. — Então, o senhor não faz ideia do porquê de Neville ter atirado em meu cavalo? — O cavalo não era o alvo, sir. — Leary engoliu em seco. — Neville confessou que esse Gibbs lhe pagou para atirar no senhor, apenas para assustá-lo. Seu cavalo foi atingindo por acidente. Isso se pudermos acreditar em Neville. Embora Alicia nada dissesse, Dalton percebeu que a cor fugia-lhe do rosto. A última coisa que desejava era preocupá-la ainda mais. — Um homem em minha posição granjeia inimigos, detetive. — Dalton tentava aparentar tranquilidade, mas sua garganta estava travada. — Estou muito grato ao senhor e a seus homens pelo trabalho. — Obrigado, sir. Sem esperar pelo criado, Dalton levantou-se e cruzou a sala, abrindo a porta. — Muito bem, Sr. Leary. Esperamos por notícias suas. — Esperou que a impaciência não ficasse explícita em sua entonação, mas estava ansioso para ficar a sós com a esposa. — Leve seus detetives até a cozinha. O cozinheiro irá providenciar o jantar. Assim que Humphrey saiu, Alicia correu para Dalton. — Quem são esses seus inimigos, Dalton, e por que alguém haveria de contratar Neville para assustá-lo? — Não sei, minha querida, mas vou descobrir.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Na terça-feira da semana seguinte, Alicia ensinava Penn a executar um giro com Bashshar, quando uma carruagem de passeio contornou a arena e parou. — Papai! — Ela gritou, limpando a saia coberta de poeira. Mal podia conter a alegria. — Onde estão mamãe e as meninas? Neal Spencer abriu um largo sorriso. — Filha querida, você está sempre mais adorável a cada vez que a vejo! — O barão desceu e abraçou-a, com força. — Sua mãe e suas irmãs estão se refrescando da viagem. Olhou para Bashshar, cheio de curiosidade. — Como vai o treinamento do bicho? E não estou me referindo a seu marido. Alicia sorriu, ao perceber que o pai a provocava. — Bashshar está quase curado de seu medo de armas de fogo, papai. Veja por si mesmo o que ele pode fazer. Spencer ficou a observar, atento, a desenvoltura de Penn, enquanto o garoto conduzia Bashshar pela arena. E, quando Alicia lhe contou como o garanhão atacara Neville para defendê-la, fitou-a surpreso. — Filha, você é um prémio para seu velho pai e para Marston Heath. O que conseguiu em tão curto espaço de tempo é incrível. — Bashshar é quem merece ser premiado, e eu vou ter a chance de provar isso ao mundo. — É? Como? — O senhor precisa prometer que manterá em segredo tudo o que eu lhe contar. — Claro, filha, claro. Alicia relanceou o olhar para Penn, que conduzia Bashshar em torno do círculo. — Estou inscrevendo Bashshar no clássico deste Outono. — O de Newmarket?! — Sim, papai. — Respirou fundo. Mal podia conter a excitação. — Bashshar é um dos mais rápidos cavalos de corrida que já vi. Alicia notou que no semblante do barão o interesse crescia. — Nesta manhã eu cronometrei a marca de seis oitavos de milha. Seu melhor tempo é de um minuto e meio. — Pelas trombetas de Jerico! — Spencer ficou de queixo caído. — Um minuto e meio! Esse cavalo vai valer o resgate de um rei se vencer o clássico. — Papai, minhas razões nada têm a ver com dinheiro. Diga-me, como vão as reformas em Marston Heath? — Caminhando bem, graças a minha devotada dedicação, posso dizer. Não existem mais carpinteiros confiáveis como antigamente. Mas eles sabem que vigio cada movimento, e descontarei um dia de trabalho, se fizerem corpo mole. Não se preocupe, filha. — O que eu faria sem o senhor papai? O barão sorriu de orelha a orelha. — Voltarei para casa para cuidar de tudo, enquanto sua mãe e as meninas irão fazer compras, em Londres. "Graças a Dalton e sua generosidade", pensou Alicia. Enfiou a mão pelo braço do pai e acertou o passo ao dele, dirigindo-se para a mansão. Depois do jantar, Dalton convidou Robert e Neal Spencer para um passeio pelos estábulos, enquanto, na sala de música, Alicia, suas irmãs e a mãe se inteiravam das últimas novidades de Londres, por Olívia. — A senhora deve ir até a loja de madame Minot, na Bond Street, baronesa. Vi um vestido de seda malva e um chapéu combinando, com rosas de cetim, que ficariam


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning perfeitos em Kimbra. Lady Spencer abanou-se com o leque. — Sem dúvida o farei, querida. — Riu, feliz. — Estou tão excitada quanto Kimbra com nossa viagem de compras. — Prefiro ficar aqui com os cavalos e Rufus. — Lyssa fez beicinho. — É porque você tem oito anos. — A mãe arrumou o laço nos cabelos da filha. — Espere mais alguns anos e saberá o que significa toda essa nossa agitação. Olívia fitou Alicia. — Por que você e Dalton não acompanham sua família até Londres? Agora que Bashshar melhorou, pode se afastar um pouco daqui. A mudança lhe fará bem. Robert e eu ficaremos e tomaremos conta de tudo até que retornem. — Não posso viajar até o fim da próxima semana — Dalton disse, entrando na sala, e sentou-se no braço da cadeira de Alicia. — Devo me reunir a meu administrador amanhã, para cuidar do festival da tosquia das ovelhas. — Então, eu ficarei aqui com você. — Alicia adorava aqueles dias agradáveis e tranquilos, sozinha com o marido. Se pudesse escolher, ficaria ali para sempre! O sorriso de Kimbra desapareceu e a menina voltou-se para a irmã mais velha. — Seria tão divertido se você fosse connosco, Alicia... — Alicia, acho que deveria ir. Você e sua família podem ficar em nossa casa de Londres. Se eu puder, irei ter com vocês em poucos dias. Alicia sentiu certo desapontamento. Dalton já estava se cansando dela, para fazer tal sugestão? Baixou os cílios, para esconder a mágoa. — Por que não posso esperar e ir a Londres com você, Dalton? — Oh, por favor! Quero muito que vá connosco — implorou Kimbra, apertando a mão da irmã. — Eu partirei assim que for possível — Dalton prometeu. Alicia, sem muito entusiasmo, acabou concordando. — Está bem. — Sendo assim, minha filha, partiremos ao amanhecer! Pelos dois dias que se seguiram, a garoa tomou conta de Londres, o que não ajudou a desanuviar estado de espírito de Alicia, que estava cada vez mais deprimida. O clima, contudo, não parecia influir sobre o ânimo de sua mãe e suas irmãs, que mergulharam na compra de chapéus, fitas, tecidos e vestidos, abarrotando de pacotes o coche extra que as acompanhava por toda parte. Alicia esfregou as têmporas, que latejavam. O trânsito confuso e os gritos dos cocheiros só faziam aumentar sua dor de cabeça. Sentia-se atordoada e com náuseas. Então percebeu porquê, não tinha comido. Na verdade, seu apetite desaparecera desde que partira de Havencrest. E, de súbito, deu-se conta da razão. Tinha muita saudade de Dalton. Sentia-se tão isolada como se estivesse perdida no meio da neblina. Recriminou-se pela tolice. Viera a Londres e iria aproveitar a oportunidade. A carruagem retornava para a bela casa do duque, em Park Lane, quando Alicia teve uma ideia. Sua viagem poderia valer a pena. Permaneceu sentada enquanto meia dúzia de criados apanhava os pacotes e embrulhos do segundo coche e levava as compras para dentro. A baronesa e suas irmãs tinham acabado de descer e a esperavam, na calçada. Alicia pôs a cabeça para fora da janela. — Farei uma visita à duquesa, mamãe.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Está bem, querida. — Para a residência de lorde Templestone! — Gritou Alicia para o cocheiro e, então, recostou-se contra o assento de veludo, cobrindo-se com uma estola de pele. De um salto, a carruagem arrancou, balançando e pulando pelas alamedas de paralelepípedos. Pela janela, Alicia ia vendo os vultos dos veículos em meio ao fog. Como poderia a duquesa recusar-se a comparecer à festa de aniversário do próprio filho, se Alicia a convidasse pessoalmente? Por que não pensara nisso antes? Mas e se a duquesa se negasse a recebê-la? Enrodilhou as mãos no colo. Se a sogra não quisesse vê-la, tentaria uma aproximação com lorde Templestone. Assim, a duquesa, quisesse ou não, teria de suportá-la. — A senhora irá recebê-la, milady. — O mordomo introduziu Alicia num pequeno escritório. No aposento, a duquesa permaneceu sentada, numa cadeira ao lado da lareira, um livro de poesias aberto do colo. A bengala descansava, encostava a uma mesinha lateral. Ergueu os olhos para Alicia, depois que o criado a anunciou. — Minha querida. Que bom que tenha vindo. Por favor, sente-se. — As palavras eram educadas, na frente do criado, mas seu tom era tão agradável como o granizo de Janeiro. Alicia sentiu a boca seca. Sentou-se na ponta do sofá. A despeito do fogo, na grelha, o escritório parecia húmido e gelado. Estudou o ambiente, imaginando se Templestone estaria em casa ou teria sido informado de sua visita. O olhar agudo da duquesa a mediu, como se a examinassem com uma lupa. — Estou bastante curiosa de sua visita, Alicia. Agora que está casada com meu filho, julguei que tivesse conseguido tudo o que queria. Está aqui para se vangloriar? — Milady, já que não recebi uma resposta, achei que talvez meu convite não tivesse chegado a suas mãos. Estou aqui para convidá-la a ir a Havencrest, para o aniversário de seu filho. Esperamos que fique connosco por uma semana. — Hesitou, esperando que a expressão defensiva de Mildred desaparecesse. Instantes se passaram, antes que a orgulhosa mulher respondesse: — Você convidou membros da sociedade e quer que eu compareça a sua pequena recepção como prova de minha aceitação à escolha de meu filho? — Dalton não gosta de grandes festas. — Alicia respirou fundo. — Convidei apenas Olívia, Robert e minha família. O semblante da duquesa era uma mescla de espanto e incredulidade. Depois de um longo silêncio, encarou-a. — Não existem laços afetivos entre nós, Alicia. E insisto: por que veio aqui? Alicia cruzou os braços. Tinha de ser sincera. — Vim porque acho que Dalton ficaria felicíssimo se a senhora nos honrasse com sua presença, no aniversário dele. — Viu que a desconfiança tornava duros os traços da duquesa, mas, mesmo assim, prosseguiu: — Não posso fazer com que goste de mim, mas não guardo nenhum rancor por aquilo que a senhora me fez e a Justin Sykes. Compreendo que acreditava, e talvez ainda acredite, que Dalton e Elizabeth deviam se casar. Mas isso não aconteceu. Agora, Dalton e eu resolvemos esquecer o passado. Sinto que ele gosta muito a senhora. E creio que o ama, também. A duquesa ergueu o queixo, em desafio. — Meu filho sabe que você veio aqui? — Bem... sabe de meu desejo em convidá-la.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Entendo. — Mildred fechou o livro no colo e colocou-o sobre a mesa lateral. — Deixe-me dizer-lhe algo sobre meu filho. Dalton recusou-se a aceitar qualquer reunião de aniversário que lhe ofereci desde... Perdi a conta de quantos anos. Ele fala comigo apenas quando não há outra escolha. Contudo, você vem até aqui e me pede para acreditar que Dalton deseja que eu compareça à reunião em sua homenagem? Alicia desviou o olhar para esconder as próprias dúvidas. O amor entre aquela mulher e Dalton existia, ela podia sentir. — Por que não comparece e constata por si mesma? Por um instante, um traço de esperança brilhou no rosto da duquesa. E, pela primeira vez desde que chegara, Alicia sentiu-se encorajada a continuar. — A senhora deve sentir falta de Havencrest, nesta época do ano. Os freixos estão começando a se cobrir de folhas douradas, as dálias vermelhas e amarelas ao longo dos limites do sul estão em flor. — Sentiu uma ligeira mudança na expressão dela. — E, além disso, seu neto, Drake, logo estará andando. Milady podia vê-lo dar seus primeiros passos. A duquesa ficou rígida. Alicia percebeu que, a despeito de seus esforços, uma luta intensa travava-se sob aquela máscara de indiferença. Quando falou, a voz de Mildred não deixava transparecer nenhum sentimento. — Levarei em consideração seu convite. Meu secretário enviará uma resposta formal a você em poucos dias. Alicia ergueu-se, sentindo-se dispensada pela fria resposta. — Obrigada por ter concordado em me receber, milady. — Ia se retirar, quando a duquesa a chamou. — Você está bem, Alicia? — Ora, sim. Estou muito bem, obrigada. E a senhora Mildred ignorou a questão, estudando a nora com um interesse maior do que a simples educação. — Você parece bastante... cansada. Tem olheiras escuras. Sente-se mesmo bem? A única resposta de Alicia foi um leve sorriso. Embora estivesse com dor de cabeça, preferiu não dizer nada. — Está muito pálida, também. E seu apetite, como vai? — Excelente. Na verdade, estou ótima. — Posso pedir a minha criada que traga um prato de picles, ou talvez gemada quente com creme e brandy para você? — Por favor... — Alicia levou a mão à boca, nauseada. A duquesa deixou escapar uma risadinha irónica e, então, apoiou-se na bengala e se levantou. Aproximou-se e tocou a mão gelada na testa de Alicia. — Não está febril. — Talvez eu precise descansar. Dormi pouco, com todo o barulho das carruagens subindo e descendo a rua, na noite passada. — Hum... — A duquesa voltou para a sua cadeira e dirigiu a Alicia um olhar estranho. — Desde quando se sente atordoada ou tem enjôos? — Não faz muito. Só uns poucos... — Calou-se, lembrando-se de não ter mencionado o fato na conversa. Um sorriso enviesado surgiu nos lábios da duquesa. — Minha cara, você está grávida. A afirmação pegou Alicia de surpresa. — Grávida? Mas... eu me casei faz só... — Tempo suficiente! Mostra àquele ar, Alicia. Notei no momento em que entrou, mas não podia afirmar até falar dos picles e da gemada. — Riu, ao perceber que suas


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning palavras provocavam uma nova onda de náuseas na nora. — Por caridade, não fale sobre isso a ninguém, até que eu possa contar a Dalton. Mildred deu de ombros. — Não me diz respeito. Seu segredo fica bem guardado, comigo. — Preciso ir, milady. Por favor, desculpe-me. — Alicia saiu apressada da sala, passou pelo mordomo, no hall, e correu para a carruagem que a esperava. Ao chegar à casa de Dalton, Alicia desviou-se do mordomo, que abriu a porta, e subiu em disparada pelas escadas, esperando não ser vista pela mãe e as irmãs. Não queria perguntas. A baronesa devia estar curiosa da visita, e Alicia não queria falar com ninguém. As criadas olharam, espantadas, quando Alicia entrou na suite, quase correndo. Dispensou-as, dizendo que ela mesma prepararia o banho. Precisava ficar sozinha. Como Dalton receberia a notícia de que ela carregava um filho seu no ventre? Quantas vezes se preparara para esse momento? Ainda assim, sentia-se despreparada. Precisava acalmar-se. Uma batida soou, e Lady Spencer assomou a cabeça pela porta. — Alicia querida, a criada me contou que você tinha chegado. — Estou com uma enxaqueca terrível, mamãe. Pensei em me deitar. — Está mesmo muito pálida hoje, filha. Espero que não esteja doente. — Apenas cansada. Mamãe acho que vou voltar para Havencrest. Se eu partir de manhã, talvez chegue antes que Dalton venha para Londres. A senhora e as meninas podem ficar aqui o quanto quiserem. Mas eu gostaria muito de deixar a cidade tão logo seja possível. Sophia Spencer mãe esboçou um lindo sorriso. — Sente muita falta dele, hein? Sim, Alicia sentia saudade de Dalton. Nunca sofrerá tanto antes. — Obrigada pela compreensão, mãezinha. — Suas irmãs ficarão desapontadas, mas eu tentarei explicar. — Agradeço. Lady Spencer se inclinou e beijou-a no rosto, e o gesto recordou a Alicia o quanto amava e admirava aquela mulher tão especial. E agora era sua vez de tornar-se mãe. Seria tão gentil e compreensiva como essa presença forte e tranquila que sempre estivera no centro de sua infância? — Mamãe? A sensível senhora hesitou, à soleira. — O que é, anjinho? Sob a luz suave dos candelabros que luziam no teto, Sophia parecia quase tão jovem como quando vinha dar boa-noite a Alicia, ouvir suas preces e confortá-la, em menina. — Alguma vez eu já lhe disse que mãe maravilhosa é a senhora? — Sim, minha querida — murmurou Lady Spencer, com um doce sorriso. — Muitas vezes. E algum dia seus filhos irão dizer que você é simplesmente divina. Boa noite, Alicia. CAPÍTOLOXVIII Alicia estava ausente fazia apenas dois dias, mas Dalton sentia que a falta dela doía-lhe até os ossos. E, a despeito das atenções de Olívia e Robert, na tentativa de distraí-lo, sentia-se só. Vazio.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Sabia que receber os convidados para o festival da tosquia das ovelhas do final de semana era sua obrigação de lorde, mas decidiu aceitar deixar tudo a encargo do cunhado. Sim, iria partir nas primeiras horas da manhã e, com bom tempo, estaria em Londres no final da tarde. Faria uma surpresa a Alicia. — Ives, diga ao cavalariço para preparar meu coche e deixá-lo pronto para partir ao amanhecer. — E entrou no quarto de vestir para se barbear. Mal percebeu a batida na porta ou Ives afastar-se para atender. — Sir, o detetive Leary está aqui. Devo pedir que espere? — Não, não. Diga-lhe que já vou. Fazia quase dez dias que o filho de Ulger havia sido preso. Talvez o detetive tivesse descoberto quem contratara Neville para o atentado. Momentos depois, Dalton sentava-se no escritório, com Humphrey e estudava o último relatório. — Onde localizaram esse tal de Sr. Gibbs? — Levamos Neville até a área portuária de Londres e, depois de muito procurar, ele nos apontou o suspeito. Não há dúvida de que encontramos nosso homem. Dalton releu o documento, sem poder acreditar. — Tem certeza de que não há engano? Leary meneou a cabeça. — Fiz o que me pediu e deu certo. Oferecemos retirar todas as acusações se Gibbs confessasse quem era o mandante. Ele falou como um papagaio. Dalton praguejou baixinho e pôs o relatório de lado. — Então, foi Templestone. Por quê? Quais os motivos dele? — Isso ainda não sabemos. Ao que tudo indica, lorde Templestone não disse os motivos a Gibbs. E a este só interessava o dinheiro. — Fez uma pausa, hesitante. — Devemos prender Templestone? — Não, não. Quanto menos pessoas souberem disso, melhor. — Dalton passou a mão pelos cabelos. — Preciso falar com minha mãe, primeiro e prepará-la. Leary fez um gesto de compreensão. — Podemos mantê-lo sob custódia no hotel perto de nosso escritório, em Bow Street. O gerente é discreto, e o local tem servido para hospedar testemunhas. — Excelente! — Dalton levantou-se, impaciente para pôr um fim ao assunto. — Mantenha-me informado. Irei falar com minha mãe. — Retornarei a Londres de imediato, milorde. Posso conseguir a captura de Templestone até o amanhecer. — Muito bem. — Dalton sentiu que o peito lhe pesava. — Mamãe está residindo na casa de Templestone, em Londres. Quero que seus homens o prendam quando ele estiver sozinho. Em hipótese alguma deixem que minha mãe presencie... — Fique tranquilo, sir. Depois que o detetive saiu, Dalton serviu-se de um copo de conhaque e tornou a apanhar o relatório. Templestone, o noivo de sua mãe. Por quê? Um nevoeiro pesado cobria Londres, na tarde seguinte, quando uma bela carruagem com o brasão do duque de Wexton parou em frente à casa de lorde Templestone. Um cocheiro uniformizado saltou e abriu a porta, enquanto o ajudante corria pela calçada e batia com a aldrava de bronze na porta. Dalton desceu do veículo e apressou-se em cruzar a calçada. A neblina húmida penetrava-lhe o corpo até os ossos. Mal podia esperar para encerrar aquele desagradável encontro com sua mãe e ir procurar Alicia. Estava ansioso para voltar com


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning ela ao mundo bucólico de Havencrest. Um mordomo abriu uma fresta e espiou para fora. Dalton empurrou a pesada folha de madeira e entrou, tirando a capa de viagem. — Sou o duque de Wexton. — Colocou o cartão na bandeja de prata, no aparador. — Minha mãe está me esperando — mentiu. Não queria correr o risco de não ser recebido e, assim, não a avisara de sua chegada. O mordomo apanhou o cartão, de testa franzida. — Direi a milady que está aqui, sir. Aliviado, Dalton relanceou o olhar pelo pequeno saguão. Discreto e de bom gosto. Mildred devia aprovar, pensou, aborrecido. O mordomo retornou e Dalton seguiu-o até o escritório. — Visita um tanto inesperada. — A duquesa estava sentada numa cadeira, ao lado da lareira. Dalton ordenou ao mordomo que saísse e fechasse a porta. Ignorou a expressão de surpresa do criado. Sua mãe fitou-o, com curiosidade. — Você é a última pessoa que eu poderia esperar, Dalton. Não veio aqui para me cumprimentar pelo casamento, não é verdade? — Não vim aqui para ser rude, mamãe. — Percebeu o quanto detestava aquela maneira hostil com que Mildred o tratava. — Tenho notícias desagradáveis. Ela ergueu o queixo, encarando-o. Dalton puxou uma cadeira e acomodou-se. — Lorde Templestone foi preso por contratar um de meus criados para atirar em mim. Dalton buscou no rosto da mãe algum sinal de emoção, mas viu a mesma máscara de ironia da qual sempre se lembrava. Uma imagem inesquecível de sua expressão, na noite em que recebera a notícia do acidente fatal com seu pai, em Hyde Park, veio-lhe à memória. Ela usava o mesmo jeito impassível quando contara o fato aos filhos. — Onde está ele? — O detetive Leary, de Bow Street, providenciou que ficasse em custódia num hotel. Visitas não são permitidas. — Então ele não está preso? — Estou tentando conduzir o problema com discrição. Entretanto, disseram-me que Templestone não está disposto a cooperar. — Dalton percebeu que Mildred deixava transparecer uma certa inquietude. — Quero saber por que ele fez uma coisa tão estúpida. Se Templestone me disser, retirarei a queixa e esquecerei o assunto. Pensei que talvez você pudesse ajudar a esclarecer as razões que o levaram a isso. — Por que retiraria a queixa, Dalton? — Porque detesto escândalos, e você está ligada a ele. — Faria isso... por mim? O duque desejava proteger o nome dos Wexton, por Alicia e por Olívia, mas hesitou. — Faria, mãe. — E percebeu que era verdade. De olhos arregalados, a duquesa o encarou, com uma emoção mal disfarçada. — E se Templestone ainda assim recusar-se a lhe dizer os motivos? — Serei obrigado a pressioná-lo. Os jornais de Londres irão fazer um circo com o escândalo. E a verdade virá à tona. Sempre vem. — Sim, a verdade sempre aparece... — A duquesa fitou o fogo, calando-se. — Por que estava dando a Templestone largas somas em dinheiro? Mildred ofegou, incapaz de esconder o susto.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Como sabe disso? — Não importa. Sei das quantias e das datas. A duquesa nada respondeu. Apenas deixou escapar um suspiro, apoiando-se na bengala. — Também sei que teve uma discussão com ele. Em público. — Por um instante, Dalton ficara satisfeito ao ver a angústia de Mildred. Agora, porém, doía-lhe vê-la sofrendo. — Sei que nunca mostrou a menor emoção em público, como se sua vida dependesse disso. Sou muito parecido com você, em alguns aspectos. — Sempre soube que éramos parecidos, Dalton, mas nunca pensei que o ouviria admitir isso. — Mildred retorceu os lábios e seu olhar baixou para as mãos. Depois de alguns instantes, fitou-o. — Posso confiar que tudo o que eu lhe disser permanecerá em segredo? — Se eu puder... — Preciso que me prometa, filho. — Não posso assegurar, mas você sabe que sou discreto. Afinal, nunca revelei seu outro segredo... exceto para Alicia. E sabe que está bem guardado com ela. — Alicia? A angústia cruzou o semblante da duquesa, e Dalton desejou não ter falado. Ela baixou os cílios, olhando para o enorme diamante do anel em seu dedo. Torceu o aro, fazendo a pedra faiscar. — Templestone vem me chantageando há vários anos. Descobriu que seu tio George e eu fomos amantes. Paguei-lhe as quantias que me pediu, mas, quanto mais recebia, mais queria. Por fim, ordenou que me casasse com ele. Recusei-me. Então disse-me que, se eu não aceitasse, iria... — Suas pupilas brilharam com aquilo que Dalton julgou que fossem lágrimas. E ele sentiu um nó na garganta, de compaixão. — Templestone faria o quê, mãe? — Mataria você. Dalton ficou estupefato, incapaz de falar. — Quando eu soube que alguém havia atirado em você e Bashshar, disse a mim mesma que fora um acidente. Um caçador descuidado. Um ladrão roubando um veado. Mas Templestone saboreou cada palavra ao me dizer que o próximo tiro não erraria o alvo. Falei que não acreditava nele. Ameacei chamar a polícia, porém, sabia que, como você mesmo afirmou, minha infidelidade viria a público. E não suportaria tal coisa. Assim, concordei com o casamento. Dalton respirou fundo. — Mamãe, por que não me procurou? As palavras escaparam antes que o remorso e a vergonha o compungissem. Mas como podia a duquesa apoiar-se num filho que sempre fora tão frio e distante? A cabeça orgulhosa abaixou-se, e a duquesa deixou cair os ombros, em desespero. — Ninguém podia me ajudar. Dalton fechou os olhos, sentindo-se egoísta e infantil pelo longo ressentimento que nutrira contra a mãe. — Sinto muito que não tenha podido confiar em mim, mamãe... Se tivesse me contado que Templestone havia descoberto sobre você e tio George... Mildred deixou escapar um longo suspiro. — Há muito mais do que isso. Dalton encarou-a, confuso. — Como?


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Ela sorriu, os lábios transformados numa linha dura. — Ele descobriu que seu tio George é... o pai de Olívia. Dalton ficou rígido, tentando assimilar a força terrível daquela revelação. A lembrança de quando era menino, correndo pelas escadas, entrando no quarto às escuras de sua mãe, voltou-lhe, com um impacto fulminante. Abrira a porta e lá, na cama, estava seu querido tio George, nu, que se virará, e Dalton pudera ver o choque e as lágrimas de tristeza escorrendo por aquela face bonita. — Claro. Olívia é treze anos mais nova que eu. O pranto rolou pelas faces de Mildred. — Eu amava George desde que o vi, pela primeira vez, muitos anos antes de meus pais resolverem me casar com seu filho mais velho, seu pai, o primogénito e herdeiro do título. George foi meu único amor. Ele nunca se casou, embora eu tenha implorado para que o fizesse. Seu pai era um homem maravilhoso, Dalton, e eu gostava dele, mas não como amava George. Nunca fiz nada para embaraçá-lo, e não acredito que algum dia tenha suspeitado. Mildred estremeceu, e Dalton teve vontade de aproximar-se para confortá-la. Mas percebeu, triste, que talvez a mãe não estivesse aberta a esse contato mais próximo. — Sei que aquilo que viu em meu quarto, naquela tarde, há tantos anos, destruiu qualquer amor que você tivesse por mim. Porém talvez... agora que encontrou a felicidade com Alicia, possa ser capaz de compreender... — Mildred soluçou. Dalton queria dizer alguma coisa, fazer alguma coisa, e descobriu que não sabia como. Nem sequer conseguia falar. — Oh, meu filho! Quando o perdi, o único consolo que ganhei foi minha filha. Pela primeira vez na vida, Dalton percebeu o quanto tinha estado errado. Gostaria de pedir perdão, mas... Os olhos da duquesa inundavam-se de novas lágrimas e, quando ela fez menção de aproximar-se, no mesmo instante Dalton viu-se a seu lado. E, de repente, envolveu a mãe num abraço, o primeiro de que se lembrava depois de tantos e tantos anos. A mágoa e a raiva cultivadas até ali se dissolveram, enquanto ela soluçava, encostada em seu peito. Em seu lugar, instalou-se a compreensão e o amor por aquela mulher que o gerara. E gratidão por Alicia, que lhe abrira o coração e o libertara. Quando sentiu que a mãe se acalmara, afastou-se. — Precisamos decidir o que fazer. Mildred sorriu e acariciou-lhe o rosto com os dedos molhados. — Obrigada, filho, mas não creio que haja alguma coisa que possamos fazer. — Precisamos proteger Olívia. Ela deve saber de tudo. — Não! Não conte nada a ela! — Mamãe, não temos escolha... — Você prometeu! Dalton tomou-lhe a mão, que tremia. — Não, mãe. Eu disse que seria discreto. Mas se Templestone descobriu, então outros também podem ter descoberto. Um criado ou um parente podem querer vender o segredo... — Parou ao ver o olhar cheio de dor da mãe, sentindo o coração partido. — Olívia não é como você, Dalton. É parecida com George, tão gentil, tão vulnerável. — Encarou-o, a altivez voltando. — Você tem a vitalidade de seu pai sua autoridade. Tem até meu orgulho. Dalton afagou-a com suavidade. — Olívia é mais forte do que pensa, mamãe. Minha irmã deve saber de tudo para


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning se preservar. É o único jeito. A duquesa ergueu o queixo, mas não disse nada. Dalton beijou-lhe a testa e, então, atravessou o aposento. Girou a maçaneta. Um murmúrio estrangulado o fez estacar. — Olívia jamais irá me perdoar. Ele relanceou os olhos por sobre o ombro, para a senhora orgulhosa que se apoiava na bengala. — Não posso falar por minha irmã, mas creio que ela o fará. Enquanto isso, pense que você sempre poderá contar comigo. Através da neblina espessa, a carruagem de Dalton sacolejava e pulava pelo calçamento, descendo a Pare Lane em direção a sua mansão. Nunca antes vira sua vida de forma tão clara como naquele instante. Parecia que uma cortina havia sido arrancada de sua alma. Com sua intuição e gentileza, Alicia saberia com levar as notícias a Olívia da maneira mais branda possível. A doce e adorável Alicia... Ela havia lhe mostrado o significado do amor. E, por Deus, como a amava! E chegara o momento de confessarlhe isso. Mal podia esperar! Alicia olhou para o cartão na salva de prata. — O Sr. Justin Sykes está esperando no saguão? — Surpresa com a hora tardia, Alicia concluiu que não se poderia esperar que Justin seguisse as regras sociais numa visita a uma mulher casada. — Sim, milady. Devo mandá-lo entrar? Ela hesitou. Talvez fosse melhor recusar-se a recebê-lo, já que Dalton não estava ali. Então, recordou-se de que a presença da mãe, na casa, lhe servia de companhia. Além disso, estava contente por ter a oportunidade de falar com ele de novo e desculpar-se. — Sim, Jamison, por favor. Leve o Sr. Sykes até o escritório. Peça a minha mãe que venha nos encontrar e, depois, traga chá e biscoitos. Quando o mordomo de cabelos brancos voltou-se, para sair, ela acrescentou: — E deixe a porta do escritório aberta, por favor. — Sim, senhora. Alicia virou-se para as criadas e mandou que continuassem a fazer as malas. Passou a mão na saia, alisando as pregas, e desceu as escadas. Instantes depois, o mordomo conduzia Justin até o escritório. — Sr. Sykes, que gentileza a sua vir nos ver! — Ela lhe estendeu a mão. Justin estava elegantíssimo em seu casaco da mais pura lã, combinando com a calça escura e a camisa branca que contrastava com suas feições bronzeadas. — A senhora me parece ainda mais adorável do que me lembrava. — Justin beijou-lhe os dedos, seus olhos faiscando. — Sente-se, por favor. Pedi um chá para nós. — Vi a senhora, sua mãe e suas irmãs fazendo compras esta tarde, em Bond Street. Aproveitei a oportunidade para apresentar-lhe meus respeitos e dizer adeus, antes de partir para o continente. — Quanta gentileza, Sr. Sykes. Recebemos sua carta, há poucos dias. Que coragem a sua ir juntar-se às tropas de Wellington na luta contra Napoleão! Justin sorriu, num trejeito irónico. — Coragem não é um termo que possa ser associado a mim com frequência, duquesa. Alicia sentia de forma diferente, mas não o contra-disse.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Dalton ficou detido por negócios, e não pôde vir juntar-se a nós. Isso só seria possível daqui a alguns dias. Por isso, decidir encurtar minha estada. Voltarei a Havencrest amanhã, bem cedo. Espero que vá nos visitar antes de sua partida, Sr. Sykes. Dalton ficará feliz em vê-lo. Uma expressão de desapontamento cruzou o rosto bonito de Sykes. — Temo que não seja possível. Estarei embarcando no navio às primeiras luzes da manhã. — Deu de ombros. — Diga a Dalton que é uma pena não encontrá-lo. Mas estou contente por ter a oportunidade de vê-la outra vez. Reclinou-se, examinando-a com cuidado. — Meu melhor amigo a tem tratado bem? Lembre-se de que basta uma palavra, e eu lhe arrancarei a pele, se a maltratar. Alicia riu, divertida. — Sim, somos muito felizes, Sr. Sykes. — Tenho certeza de que ele é. — A alegria que havia em seus olhos espalhou-se por suas feições. Alicia relanceou o olhar, nervosa, para a porta aberta. Esperava que a mãe não os interrompesse antes que tivesse a chance de se desculpar. — Eu estava procurando uma oportunidade para lhe falar em particular, Sr. Sykes. Sabe, há algo que está me incomodando... — Sim, fale. Seu desejo é uma ordem, para mim. — Quero lhe pedir desculpas, não fazer um pedido. Queria lhe dizer que lamento pela maneira como o julguei mal. Justin arqueou uma sobrancelha, surpreso. — Perdoe-me, mas não entendi. — Então, sua boca torceu-se com uma expressão divertida. — Ah, não tem nada pelo que se desculpar, minha cara! — Tenho, sim. Veja, nunca dispensei um pensamento para o fato do quanto você deve ter se sentido mal na noite em que fomos injustamente acusados de... O senhor sabe do que estou falando. Justin assentiu, muito sério. — Não poderia ter sido diferente. Dadas as circunstâncias, seu comportamento foi o esperado. Qualquer moça correta teria reagido igual. — Fitou-a, com uma admiração crescente. — Porém, só uma dama com seu coração generoso iria se importar com meus sentimentos. Para ser franco, a acusação foi infundada, e ser motivo involuntário da desgraça de uma jovem inocente foi um fardo que descobri ser bastante estressante, mesmo para um safado como eu. Justin se levantou e estendeu-lhe a mão. Alicia também ficou de pé, aproximando-se. — Estou muito contente que seu nome tenha sido limpo, e o assunto, esclarecido, milady. — Sim, para ambos. — Sorriu. Justin curvou-se, numa ligeira mesura. — Preciso ir, duquesa. Estou sendo esperado para um último jantar com vários dos oficiais que embarcarão comigo. Sinto felicíssimo que tenhamos tido essa oportunidade de conversar. O sorriso dele era deslumbrante, e Alicia ficou a imaginar quantos jovens corações iriam se derreter ao serem brindados com ele. — Pelo que eu sabia, Sr. Sykes, o senhor aprecia bastante sua reputação de bon vivant. Justin a fitou, como se ponderasse a respeito. — O senhor gosta de empinar o nariz para a sociedade. Porém, não acredito que seja tão mau caráter como tenta fazer as pessoas acreditar.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Não? — Não. E tenho certeza, que o senhor possui uma imensa generosidade, também. Acho que é por isso que meu marido o valoriza tanto como amigo. — Talvez seja a senhora que faça emergir essas coisas boas em mim, Alicia. Fez isso com Dalton. — Era a primeira vez que ele a tratava pelo nome, o que era uma ousadia. Ela o observou por um instante e percebeu que a intimidade havia nascido do sentimento mútuo de amizade. — Já que estamos trocando confidencias, milady, tendo uma para lhe fazer, também. — Mesmo, Sr. Sykes? — Quando Dalton me disse que iria se casar, devo admitir que não o levei a sério. Mas, depois de conversar com a senhora e ver a mudança nele, soube que meu amigo a ama. Alicia suspirou. "Está redondamente enganado", ela quis gritar. — Não sabe o que está falando, Sr. Sykes. Justin pousou as mãos nos ombros de Alicia e fez com que ela o encarasse. — Não acredita que Dalton a ama? "Gostaria muito, mas não posso." — Não quero discutir esse assunto com o senhor, por favor. — E claro desculpe-me. — Justin fez um cumprimento, e tornou a sorrir. — Eu lhe avisei que era um safado. E incorrigível. Alicia não conseguir conter uma gargalhada. — Achei que eu despertava o que há de melhor no senhor. Não foi o que disse? — Pense em como deve ser meu lado pior! — Touché, Sr. Sykes! Justin tomou-lhe as mãos. — Se eu voltar da guerra, espero encontrar uma mulher como a senhora para partilhar minha existência. Por um segundo, Alicia viu os próprios temores refletidos no olhar de Justin. Sua garganta apertou-se num nó de emoção. — Evidente que voltará para a Inglaterra, Sr. Sykes. E irá encontrar o amor a sua espera. — Tocou-lhe o rosto, os olhos marejados de lágrimas. — Volte para nós, são e salvo. Que Deus possa guardá-lo na palma de Sua mão. Justin beijou-lhe os dedos. — Obrigado, milady. — Adeus, Justin. — Alicia pousou as mãos em seus ombros e beijou-o na face. Abraçaram-se e, por uns instantes, ela sentiu algo que quase lhe tirou o fôlego. Quase podia ver o sangue, ouvir os tiros, os gritos de homens agonizando. Sim, sentia o perigo que ele iria enfrentar. Quando afastou-se e os olhares de ambos se encontraram, algo refulgiu lá no fundo daquelas íris escuras. Era como se Justin soubesse que poderia não voltar. — Estará em minhas preces, Justin. Ele a abraçou, de novo, e Alicia sentiu-se como se enviasse o próprio irmão para a guerra. Uma terrível sensação a dominou. Parecia que algo pavoroso estava prestes a acontecer. — Você ouviu? — Ele perguntou, olhando ao redor. "Justin pressentiu, também." Era mais que uma sensação. Alicia olhou para a porta aberta. — Talvez seja Jamison com o chá.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Justin deu de ombros, o bom humor de volta. Acariciou-lhe a mão. — Preciso correr. Obrigado, mais uma vez, criatura especial. Alicia ficou a observá-lo ir embora, com uma profunda de inquietação. — Quisera que Dalton estivesse aqui — murmurou, cruzando os braços, com um súbito arrepio. Dalton permaneceu no saguão mergulhado em sombras e viu quando Justin deixou o escritório e passou apressado por ele. Se não tivesse visto com os próprios olhos, jamais acreditaria. Sua esposa e seu melhor amigo! Cerrou os punhos, lutando com a vontade de correr atrás de Justin e parti-lo ao meio. Tinha de ir embora. Partir antes que os criados o notassem. Não podia encarar Alicia nem ninguém. Precisava pensar. Desceu os degraus da entrada e esperou entre os arbustos, como um animal ferido, até que o coche de Justin perdeu-se em meio à neblina. A humidade molhava seu rosto e suas roupas, mas ele nada sentia. Tudo em que conseguia pensar era no que acabara de presenciar. Sua adorada esposa nos braços de seu amigo de confiança. Num momento de desespero, ficou a imaginar se estava revivendo a vida de seu pai. Será que, de alguma forma, fora transformado pelo poderes de Satã e revivia a desgraça de seus pais? Estava ficando louco! Tinha de se afastar dali! Correu até a carruagem, através do fog pesado. Abriu a porta e jogou-se para dentro antes que o cocheiro pudesse enxergá-lo. — Ande! — Ordenou. A carta de Justin, avisando Alicia de que estaria em Londres. A súbita decisão da esposa em acompanhar a mãe nas compras. Sua relutância fingida em partir sem o marido. Que tolo tinha sido! Como seu pai! CAPÍTULO XIX Quando Alicia chegou a Havencrest e descobriu que Dalton estava em Londres, levou um baque. Se pelo menos tivesse sido mais paciente e permanecido na capital, os dois estariam juntos, naquele momento. Seu desapontamento arrastou-se até o dia seguinte, quando procurou Olívia e o filho, no berçário. — Passei aqui apenas por um momento, Olívia. Preciso falar com o cozinheiro a respeito dos cardápios. Depois, quero ir conversar com Penn, que está me esperando para me inteirar dos progressos de Bashshar. — Fique e brinque connosco um pouquinho — pediu Olívia, com um sorriso convidativo. — O pequeno Drake adora sua companhia. Eu estava começando a alinhar seus soldadinhos de chumbo. Enquanto Olívia tagarelava, uma súbita onda de náusea dominou Alicia, que se apoiou no espaldar da cadeira. O sorriso de Olívia desapareceu. — Querida, está passando mal! Alicia prendeu o fôlego e sentou-se. — Não se preocupe, estou bem. Você vai ser titia, é só. Olívia engasgou. — Céus estou tão feliz! Dalton já sabe?


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Não. Essa foi uma das razões por eu estar tão ansiosa para vê-lo. — Meu irmão vai ficar encantado! — Olívia abraçou Alicia. De súbito, a imagem do filho de Dalton dormindo e brincando naquele mesmo berçário, onde gerações dos Warfield haviam estado, ocorreu a Alicia. Como desejava ver seu próprio filho montar o velho Cobbie e observá-lo brincar com os soldadinhos de chumbo! Queria envelhecer ao lado de Dalton. Mas não tinha direito a esse sonho. Pestanejou, reprimindo o choro, e levantou-se. — Não posso ficar, Olívia. Eu a verei à noite, depois da cavalgada da tarde. — Está esperando um filho, Alicia, não devia cavalgar. Alicia virou-se, a mão na garganta. — Olívia, eu não havia pensado nisso! Como irei montar Bashshar no clássico? A cunhada acariciou os cabelos dourados do filho, refletindo por instantes. — Isso não é importante, agora. Você deve fazer tudo para descansar e cuidar de si mesma e do bebé. — Claro tem razão. As lágrimas turvaram a visão de Alicia, que saiu apressada do berçário e atravessou o saguão, em passos rápidos. Depois do jantar, Alicia preparava-se para dormir quando ouviu Rufus latir, nas escadas. Uma grande excitação encheu-a de alegria. Dalton estava em casa! Antes que sua mão tocasse a maçaneta, ele abriu a porta. Seu ânimo voltou, quando se jogou nos braços do marido. Embora a abraçasse ainda afogado sob o assalto da raiva, Dalton não estava preparado para superar o desejo de envolvê-la consigo mais uma vez. Alicia agarrou-se a ele, e Dalton sentiu aquele cheiro de rosas silvestres. Por um segundo, desejou varrer da memória a imagem do que tinha visto acontecer entre ela e Sykes e nunca mais se afastar de Alicia. Porém, bem depressa a razão retornou, e ele soltou-a. — Dalton senti tanto sua falta! — Alicia deu um passo para trás, o olhar estudando-lhe o rosto. — O que aconteceu? Alguma coisa errada? Ele deveria ter adivinhado que ela sentiria seu estado de espírito. — Tenho algumas notícias que preciso transmitir a Olívia. Espero que me ajude. — Sim, lógico. — Era Templestone o homem que mandou que atirassem em mim. — Ignorou a surpresa de Alicia e contou-lhe tudo sobre a visita que fizera à mãe, esperando sua reação. — Minha pobre Olívia! Isso irá partir-lhe o coração. — Achei que ela poderia querer que você estivesse por perto, quando eu lhe falar. — Mas é claro, Dalton! — Não tem sentido postergar o que precisa ser feito. Olívia e Robert estavam jogando cartas no escritório quando Dalton e Alicia entraram na sala. — Estou contente que esteja aqui, Robert. — Dalton fechou a porta e ordenou ao mordomo que saísse, com ordens expressas de que não fossem perturbados. Quando Alicia sentou-se a seu lado, o rosto de Olívia empalideceu. — Aconteceu alguma coisa? — Ela quis saber, aflita. — Temos algo a lhe revelar, irmã. — Dalton sentou-se de frente, junto de Robert, que juntou as cartas e colocou-as de lado. Então, o duque se pôs a relatar todos os acontecimentos, culminando com sua


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning visita à duquesa. — Mas por que Templestone estaria chantageando mamãe? Dalton hesitou, e, então, relanceou os olhos para Alicia. — Olívia — começou Alicia, com doçura —, antes de seus pais se casarem, sua mãe esteve apaixonada por um outro homem. Porém, foi forçada a se casar com seu pai, o filho primogénito. Olívia ficou rígida. — Isso não é verdade. Ela amava papai, só papai. — Encarou Dalton, como se buscasse confirmação. — Sim, mamãe o amava, minha irmã, mas não da mesma maneira como amava seu irmão mais novo, George. — Isso é uma calúnia! — Surpresa e medo perpassaram pelo semblante de Olívia. — Não sei se quero ouvir mais alguma coisa. — Você precisa, Olívia. — Dalton a encarou. — Não! — Ela se levantou e deu uns passos para trás, quase derrubando a cadeira. Robert correu para a esposa. — Ora, você tem certeza de que isso é necessário? — Temo que sim. — Tudo em que Dalton conseguia pensar era na imagem de Alicia envolvida pelos braços de Justin. Suas entranhas doíam, como se tivesse sido chutado. Imaginava há quanto tempo ela mantinha relações com Justin. A questão lhe requeimava o cérebro era: Alicia e Justin eram inocentes quando tinham sido surpreendidos naquela noite fatídica? Ou era um encontro de amantes? Deus do céu, e se a duquesa tivesse dito a verdade? — Você sempre foi frio e insensível com relação a mamãe, Dalton. Desde que posso me lembrar, você e ela... — Sente-se, Olívia. Robert colocou o braço em torno da esposa, o cenho franzido. — Não há maneira fácil de dizer isso. — Dalton suspirou. — Olívia, seu pai não era o homem que você chamava de papai, mas sim tio George. Olívia soltou uma risada nervosa. — O que disse?! Robert apontou o indicador para Dalton, indignado. — Meu cunhado, isso é algo muito... Alicia levantou-se e postou-se ao lado de Olívia. — Tente compreender... — Isso é alguma espécie de brincadeira cruel? — Olívia torcia as mãos. — E verdade, irmã. — Dalton recostou-se no espaldar e fitou a todos. — Mamãe e George eram amantes. — Não! Você está enganado. Como se atreve a dizer uma mentira dessas? — Mamãe me contou. — Não acredito! — Dalton não quer magoá-la, querida. Você precisa saber, para sua própria proteção. — O que Alicia quer dizer com isso? — Olívia sentiu que cambaleava e voltou-se para Dalton. — Templestone descobriu tudo e estava chantageando mamãe, ameaçando contar a toda a sociedade que você era filha de George. Não satisfeito, insistiu para que ela se casasse com ele. Nossa mãe aceitou para manter o segredo guardado.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning As lágrimas inundaram os olhos de Olívia. — Há quanto tempo sabe disso, Dalton? — Fiquei sabendo que eram amantes desde que os surpreendi juntos, quando era garoto. — E foi esse o motivo pelo qual... Templestone sabia? — Nunca contei a ninguém, exceto a... Alicia. — Olívia — disse Alicia, com imensa doçura — a duquesa deve estar muito abalada por tudo isso. Não podemos julgá-la por aquilo que não sabemos. Dalton reprimiu uma gargalhada amargurada. — Eu ainda não consigo acreditar! — Olívia meneou a cabeça e, então, recostouse contra o ombro de Robert e desatou a soluçar. Raiva e mágoa por ter sido traído derramaram-se sobre Dalton, de novo, como uma onda gelada. — Não é de admirar que você a tratasse com tamanho desdém, meu irmão! Nunca mais quero tornar a ver a duquesa! — Sua mãe a ama, Olívia. Imagine como deve ter sido difícil viver com esse horrível segredo. — Espero que ela se sinta como a miserável que é! — Tente não julgá-la, minha querida. — Alicia abraçou a cunhada. — Isso só irá torná-la amarga. Dalton não podia aguentar mais um minuto. Alicia esperava que ele a encarasse de outra maneira, também? Que a perdoasse por enganá-lo com seu melhor amigo? — Acho que você precisa de algum tempo sozinha irmã. — O duque caminhou para a saída. Antes de girar a maçaneta, voltou-se para a esposa. — Gostaria de falar em particular com você, Alicia. Agora. — Certo. Robert fique com Olívia. Voltarei tão logo eu possa. Robert assentiu, envolvendo a esposa nos braços. — Tenho algo que quero lhe contar, também — disse Alicia, ao ficar ao lado de Dalton, no saguão. Seus dedos acariciaram-lhe a mão, mas ele fingiu não notar. — Teremos privacidade no quarto. — O duque subiu apressado os degraus e caminhou para a suite, sem esperar por Alicia. — Dalton, o que é isso? — Ela indagou, ao entrar. — Há alguma coisa que você não me contou sobre Olívia? — Não! — Encarou-a. — Não é sobre minha irmã. Sei sobre você e Justin. Beijouo em minha própria casa, em Londres! — O que está dizendo?! — Eu estava lá. Cheguei ao momento do qual ele saía, mas vi o bastante... — Dalton, você não compreende. Por favor, sente-se, e eu... — Acho que você é que não compreendeu. — Ele sentiu o martelo da traição desferir um golpe, e mais outro, tal como tantos anos atrás, depois de encontrar a mãe com o amante. — Não farei o papel de meu pai. Quero que vá embora. Nosso casamento está acabado, no que me diz respeito. Alicia agarrou-se a ele. — Eu vim correndo de Londres porque sentia sua falta, Dalton. — Partiu de lá porque Justin deixou a capital! Sem escutá-lo, Alicia insistiu: — Mal podia esperar para vê-lo porque... estou grávida. — Estremeceu ao ver-lhe o rosto transtornado. — Vamos ter um filho. Dalton cerrou os maxilares.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Sabe quem é o pai? Alicia ofegou e apoiou-se na parede, para manter-se de pé. O estômago de Dalton revirou-se. Deus do céu sentia-se como se a tivesse esmurrado! Voltou-se e deixou o quarto, enquanto ainda podia. Dalton partiu de Havencrest naquela mesma noite e não voltou. Transtornada, Alicia havia planejado fazer as malas e ir embora para Marston Heath, mas temia deixar Olívia. Em seu coração, guardava a esperança de que Dalton pudesse regressar, mas, no terceiro dia, percebeu que isso não iria acontecer. Na quarta manhã, Olívia, enfim, concordou em sair do quarto e aceitar o convite de Alicia para passear no jardim. Rufus as acompanhava e saiu em disparada, atrás de um esquilo. Alicia enrolouse no xale e olhou para as nuvens pesadas que se avizinhavam. — Espero que não comece a chover agora. — E verdade, tudo está tão melancólico... — Olívia correu as mãos pelas dálias, ao longo do canteiro. — Acho que seguirei seu conselho e tentar escrever uma carta para mamãe. — Olhou de esguelha para Alicia. — Você me ajuda? — Claro! Sua mãe gostaria disso. — Estremeceu, com o frio matinal. — Ela não deve ter ninguém em quem confiar. Embora falasse da duquesa, era em Dalton que Alicia pensava. Onde estaria ele? — Como pode ser tão generosa? Você, de todas as pessoas. Quando penso na maneira odiosa com que mamãe a tratou... Alicia sentiu uma pontada de mágoa. — Não sou tão nobre assim, Olívia. Mas acredito que devemos tentar compreender, antes de julgar. Com o entendimento, vem o perdão. E o perdão pode ser o começo da cura. — Voltou-se e fitou a cunhada. — Nenhuma mulher é tão afortunada quanto você, que se casou com o homem que ama, e Robert lhe é devotado. As palavras ficaram presas em sua garganta, ao imaginar o próprio casamento. — Alicia, tenho certeza de que meu irmão a ama. — Seus olhos azuis escureceram de pesar. — Dalton está se comportando com um imbecil. — Ele nunca me disse que me amava, querida. Venha, vou ajudá-la a escrever sua carta. Depois, partirei para Marston Heath. Mesmo porque, não podemos fazer a festa de aniversário, com Dalton longe. — Talvez meu irmão pensasse no casamento como um acordo, a princípio, mas sei que agora a ama. Alicia parou em frente ao banco escondido a meio do roseiral e sentou-se. — Nossa união não poderia durar. Com o tempo, Dalton se cansaria de mim. Imagino que esteja agora em Londres, neste exato momento, renovando seus contatos com... — Sua garganta fechou-se, de amargura. — Por que não o procura e explica o que aconteceu entre você e Justin? — Não sei onde seu irmão está. Além disso, Dalton pode não querer me ver. — E se eu fosse procurá-lo e lhe explicasse o que houve? Sei que Robert pode descobrir em que clube Dalton se meteu. Uma imensa gratidão aqueceu Alicia. — Obrigada, minha querida Olívia. É muito gentil de sua parte, mas... — Hesitou, procurando a forma certa para explicar como se sentia. — Se Dalton não pôde descobrir, em seu coração, motivos para compreender que eu nunca fui infiel, então... — Ele é orgulhoso demais. Você tem de procurá-lo, Alicia. — Tenho meu orgulho também — murmurou Alicia, com um profundo suspiro.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Afagou a mão de Olívia. Como sentiria saudade daquela boa amiga... — É hora de partir e deixar Havencrest. Darei instruções a Penn para o treinamento de Bashshar. Se terminar de arrumar a bagagem agora, poderei partir amanhã. — Como posso convencê-la a ficar? — Você não pode. Mas vá visitar-me. E leve Rufus. O cão-lobo latiu ao ouvir seu nome. Alicia acariciou os pêlos húmidos do animal, o pranto apertando-lhe a garganta. Voltou-se e saiu correndo pela alameda de pedra, antes que a chuva começasse a cair. CAPÍTULO XX Robert dobrou o exemplar do Times e olhou, carrancudo, para o cunhado, que acabara de entrar na sala de refeições. Rufus ganiu e saiu de baixo da mesa a saudar o dono. — Ora, Dalton! Você parece que não se barbeia há uma semana! — Sua carranca acentuou-se. — Não sei o que Olívia irá dizer quando o vir. — Não preciso de repreensões, Robert. — Dalton dirigiu-se até a mesa, desviando o olhar das travessas de ovos pouché, conservas de doces e linguiças. Tomou um lugar à cabeceira. Fez um afago na cabeça de Rufus, e sua expressão tornou-se ainda mais dura, ao perceber o arranjo de flores. — Tire estes vasos daqui! — Gritou, para a criada. — Não quero mais ver nenhuma flor nesta casa! A jovem empregada apressou-se em remover o arranjo e saiu correndo. — Você está com um mau humor pavoroso. Seus gritos são piores que os latidos de Rufus. Acabou de chegar de Londres? A única resposta de Dalton foi um esgar. Fez um gesto brusco para o copeiro, que correu a preparar um prato para ele. — Só café preto — resmungou. A mão do rapaz tremia ao encher a xícara e colocar a bebida fumegante em frente ao duque. — Olívia e eu estávamos preocupados com o que poderia ter lhe acontecido, Dalton. — Robert colocou o jornal de lado. — Faz quase uma semana desde que Alicia partiu, e... — Não quero ouvir o nome dela! — Que droga! Sua irmã e eu nos importamos com você. Não posso acreditar que tenha se escondido em Londres e... — Para seu governo, Robert, não estive na capital. Como Dalton gostaria de retomar sua antiga vida e ficar livre das lembranças de Alicia... Por Deus, como tentara! Chegara a se aproximar das imediações da casa de Lady Célia Fresham. Ficara sentado no coche por meia hora. O que estava fazendo? acabou perguntando a si mesmo. Foi então que compreendeu que nunca encontraria o que estava procurando longe dos braços de sua mulher. — Estive enfunado aqui mesmo, em Havencrest. Fiquei na velha cabana de caça, trabalhando com Júpiter. Estou determinado a ver aquele cavalo ganhar no clássico de Newmarket, daqui a três semanas. — Pela minha alma! — Robert o encarou como se ele tivesse duas cabeças. — Por que não deixar isso para os cavalariços? — Por razão nenhuma, a não ser que acredito em acabar aquilo que comecei. — Ou seja, estava debaixo de nossos narizes, enquanto sua irmã se descabelava de preocupação com você.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Prefiro me manter longe das pessoas. E, já que vejo a pergunta em seu rosto, sim, fui fiel a meus votos de matrimónio, embora minha mulher não tenha sido. — Mas que absurdo, Dalton! — Robert jogou o guardanapo no tampo. — Sabe que não houve nada entre Alicia e Justin! — Eu o avisei, Robert. — Dalton se ergueu, quase derrubando a cadeira. — Não quero ouvir o nome dela nunca mais! — Acho que alguém deveria falar por ela! — Exclamou Olívia, entrando na sala. Tinha uma carta na mão e olhou para o irmão com uma óbvia irritação. — Irmã, não estou com espírito para... — Parou, respirando fundo. — Você e Robert são meus hóspedes. Embora sejam sempre bem-vindos em Havencrest, irei deixar claro que estão aqui por minha generosidade. — Não se atreva a me ameaçar, irmão! — Como se eu pudesse... Olívia colocou a missiva sobre a mesa. — Vim lhe dizer que recebi este bilhete de mamãe. — Sentou-se, e, então, encarou o irmão. — Ela aceitou o convite de Alicia e chega neste fim-de-semana para seu aniversário. — Desdobrou o guardanapo e colocou-o no colo. — Embora você vá ficar mais velho, com certeza não ficou mais sábio. — Voltarei para a cabana de caça. — Dalton rilhou os dentes. — Como é? — Olívia fitou Robert. — Explicarei mais tarde, querida. — Robert deu de ombros. Dalton caminhou até o meio do recinto e voltou-se. — Não quero ver mamãe, nem ninguém. Alcançara a soleira quando Olívia o deteve, impedindo-lhe a passagem. — Dalton poderá sair quando eu terminar. Levou tempo até que eu pudesse julgar como me sinto em relação a mamãe. E ainda não estou certa se conseguirei compreendê-la. Mas, com a ajuda de Alicia, escrevi para ela e disse que a amava. Olívia voltou-se para Robert. — E, uma vez feito isso, senti que algum dia poderei vir a perdoá-la. — Seus lábios tremeram um pouco. — Alicia disse que devemos ter fé naqueles que amamos. Fé cega, Dalton. Encarou o irmão, e a tristeza em seus olhos tocou-lhe o coração. — Pelo curto período em que conheci sua esposa, ela me ensinou muito sobre o amor e o perdão. Teria mostrado a você, também, se não fosse orgulhoso demais para ver. Dalton lançou-se para fora da sala de refeição, com Rufus correndo alegre a seu lado, até que sumiram de vista. Olívia agarrou as mãos do marido. — Oh, Robert... — Dalton pode jamais estar pronto para aceitar esse lance cego de fé, minha querida. Sei que lhe dói, mas há pouca coisa que possamos fazer para ajudá-lo. As lágrimas desceram pelas faces de Olívia, ao olhar para a cadeira vazia, à cabeceira da mesa. — Temo que Alicia seja a única pessoa capaz de curar Dalton. E ela é tão teimosa como meu irmão! Dalton jogou outra acha de lenha no fogo. Fagulhas vermelhas voaram pelo sorvedouro da chaminé. A despeito das vivas labaredas que subiam da grelha, sentiase enregelado até a medula. Caminhando até a janela, olhou para fora. O céu estava cor de chumbo, e o dia parecia tão amargo e desolado quanto ele se sentia. Rufus ganiu, observando-o. Era


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning como se o cão-lobo chorasse por Alicia também. O duque relanceou o olhar para a tapeçaria na parede. Potnia, rodeada por seus animais dos bosques. A imagem o abateu ainda mais. A deusa o fazia recordar-se de Alicia. Os cabelos sedosos, a inocência pura de uma gota de orvalho... Rufus ergueu o focinho e rosnou. Dalton ouviu oi som de patas de cavalo. Quem teria vindo incomodá-lo? Puxou as cortinas, mas não enxergou ninguém. — Afaste-se, Rufus! — Foi até a porta e escancarou-a, com um tranco. — Mamãe! A duquesa, vestida com um traje de montaria e com uma capa de lã, encarou-o com severidade. — Você parece que acabou de ver São Pedro. — Entrou, sem esperar ser convidada. — Não faça essa expressão de surpresa, Dalton. Não sou tão velha que não possa montar, sabe disso. Ele olhou para fora, esperando ver uma carruagem, um coche ou uma charrete. Em vez disso, Cinnamon Rose esperava, junto ao portão. Voltou-se para a duquesa, que se servia de uma dose de brandy. Ela sorriu, diante de sua incredulidade. — Vim lhe desejar um feliz aniversário, filho. — Ah! Tinha esquecido disso. Mildred arqueou uma sobrancelha. — Alicia foi até minha casa para me convidar. — A duquesa o mediu com um olhar inquisitivo e esperto. Dalton recordou-se, então, de que a esposa insistira em chamar a duquesa para a comemoração. Estava tão feliz... Uma sensação de tristeza ameaçou tirar-lhe o controle. — Não vou comemorar, este ano. — Podia sentir a observação arguta da mãe sobre ele, quando ela se sentou, diante da lareira. — Imagino que já tenha falado com Olívia. Robert ou sua irmã deviam ter contado onde ele estava. Acomodou-se na poltrona, em frente à mãe. — Olívia me disse que lhe escreveu. Estou contente. A duquesa ergueu o copo num brinde. — A você, filho? Aniversários são muito importantes para não serem comemorados. Dalton sabia, de alguma maneira, que seu irmão, Drake, estava nos pensamentos da mãe naquele instante. — Termine sua bebida e eu a levarei de volta à mansão. — Não antes que eu diga aquilo que você precisa ouvir, Dalton. — A autoridade costumeira estava de volta a sua voz. — De todos os meus filhos, nunca precisei preocupar-me com você. Mesmo quando era um bebé, sempre soube o que queria, aonde desejava ir ou como encantar suas babás e enfermeiras para conseguir aquilo que lhe interessava. Bem, essa tolice já foi longe demais. — Mamãe sei bem aonde quer chegar... — Vá atrás dela, Dalton. Sabe que é isso o que deseja. Engula seu orgulho, filho, antes que seja tarde demais. A vida é tão curta. Tão breve... — Não quero ouvir mais nada, mamãe. — Você nunca quis ouvir, mesmo em garoto, quando estava errado. Dalton suspirou. — Alicia mostrou a você e a todos nós o seu amor, através de sua gentileza e sua


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning capacidade de perdoar. Filho, não seja teimoso. Sabe muito bem que a criança que ela carrega no ventre é sua. Qualquer tolo pode ver que Alicia o ama. E se você não fosse tão parecido comigo, veria isso também! As flores delicadas da verbena, num suave tom de lilás, tremulavam na brisa. Alicia encheu sua cesta de ervas com os botões rendilhados. Desde os tempos medievais, as mulheres solteiras recheavam os travesseiros com aquelas florinhas miúdas, como uma poção do amor. Lutou contra a melancolia, que se tornara sua companhia constante desde que partira de Havencrest. Embora soubesse que algum dia teria de encarar o futuro sozinha, não estava preparada para aquela realidade sombria. Porém, pode alguém se preparar para perder o amor? Sua mão tremeu quando pegou a cesta do chão e caminhou pela alameda circundada de pendões de flores. O cheiro de hortelã a circundou, quando seus sapatos esmagaram as folhas pequenas, do tamanho de um centavo, que cresciam entre as frestas. Sentou-se no banco do jardim e olhou para o céu cinzento. Lá longe, a oeste, as nuvens de chuva se amontoavam, mas, acima de sua cabeça, o sol brilhava. Procurou por um arco-íris e impediu-se de continuar meditando. Precisava correr para casa antes que a tempestade desabasse. Contudo, sentia uma certa relutância em deixar seu jardim, o único lugar onde sempre encontrara a serenidade. Até agora. Talvez, com o tempo... De repente, ouviu um suave relinchar e, então, um focinho aveludado roçou-lhe a orelha. Espantada, Alicia deu um pulo e voltou-se, para receber o beijo molhado de Cinnamon Rose em plena face. — Cinnamon! — A cesta de ervas escapou de seu colo, quando Alicia quase caiu do banco. Olhou ao redor, procurando uma explicação. Será que algum dos criados trouxera a égua de Havencrest? Não havia ninguém à vista. Afagou o focinho acetinado da potranca. O animal jogou a cabeça, a crina agitando-se no ar. Alicia olhou para o quintal da mansão, de onde o animal devia ter vindo. Ninguém. Segurou as rédeas e puxou-a pelo jardim. Na curva no passeio, lá estava a carruagem ducal com seus seis cavalos lusitanos. Seu peito se apertou de saudade. Esfregou os olhos, imaginando estar sonhando. — Eu esperava encontrá-la no jardim. Alicia enregelou. Sentiu uma leve vertigem. Teve medo de se mover. Virou-se bem devagar. Deparou com Dalton recostado contra o tronco do salgueiro, suas íris azuis reluzindo de desejo não disfarçado. — O que está fazendo aqui, Dalton? — Trouxe-lhe Cinnamon Rose. Não se recorda de nosso acordo? Ela sentiu a garganta fechar-se de desapontamento. Afinal, o que esperava que o duque dissesse? — Você está igualzinha ao dia em que a vi, da primeira vez. Lembra, Alicia? — Sim. — Achei que você era a bruxa de coração mais endurecido que eu já encontrara. Aceitou minha proposta de cuidar de Bashshar só em seus próprios termos, recorda? O que ele estava fazendo? Viera até ali para atormentá-la? Não sabia o quanto


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning sua presença a enchia de dor? Recusou-se a chorar, porém. — Como meu marido, em termos legais, Cinnamon Rose lhe pertence. — Aliviada por a voz soar forte e firme, Alicia ficou a imaginar se ele estaria ali em busca do divórcio. Um arrepio de aflição percorreu-a por inteiro. Por que não pensara nisso antes? Dalton tinha o amparo legal, se acreditasse que ela lhe fora infiel. — Por que veio aqui? — Alicia cruzou os braços, preparando-se para a resposta. — Estou aqui para dizer que minha primeira impressão de você estava errada. — Fez uma mesura e, quando ficou ereto, sorria. — E minha última impressão também estava, Alicia. Sei disso agora. E estou aqui para pedir que me perdoe. Seu sorriso desapareceu, e seu semblante mostrava seu remorso. Ela lhe deu as costas, esfregando o pescoço macio da égua. — O que o fez mudar de opinião, Dalton? Depois de um longo silêncio, ele falou: — Lembranças suas. Recordei-me de sua graça e de sua bondade. De seu doce sorriso e de como trouxe o sol para iluminar tudo o que a rodeava. Você é tudo o que há de belo e luminoso em minha existência, Alicia. E quando partiu, meu mundo tornou-se escuro. Minha querida, não posso prosseguir sem você. Devia estar sonhando. Aquele não era o Dalton orgulhoso e cheio de si que conhecia. — Como sabe que não se cansará de mim? — Alicia voltou-se e enfrentou-lhe o olhar. — Cansar-me de você? Posso me cansar da luz da lua? Ou do arco-íris? Ou do canto dos passarinhos? — De um impulso, tomou-a nos braços. — Você significa tudo isso para mim e muito mais, minha amada. Eu te amo, Alicia. Por favor, diga que me perdoa. — Você me ama?! — Ela queria olhá-lo nos olhos quando ele repetisse. Dalton sorriu. — E claro que te amo! Eu te amei desde que a vi, da primeira vez, debaixo dos salgueiros, com Cinnamon Rose. Pensei que você era a moça mais magnífica que eu já tinha visto. Ela caiu na risada. — Você nunca disse isso antes. — Alicia, minha doçura... O que se passa entre nós dois ultrapassa as palavras. — Beijou-a, um beijo intenso, desesperado, perpassado de saudade. Quando a afastou, seu olhar incendiado fez com que Alicia fosse tomada de vertigens, sentindo as antigas dúvidas retornarem. — Você parece ter acreditado em mim, desta vez. E da próxima, quando me vir com um homem? — Fiz a mim mesmo essa pergunta. E descobri, dentro de minha alma, que você sempre me foi fiel. Por infelicidade, naquele dia, foi como se... o destino tivesse me empurrado para a mesma situação de meu pai. Quando minha mãe me ajudou a superar esse problema... — Sua mãe? — Mamãe me convenceu de que eu seria um tolo teimoso se a deixasse ir embora. A alegria explodiu dentro de Alicia. Dalton beijou-lhe os dedos, com ternura. — Em meu coração, sempre soube disso, mas minha vaidade imbecil não me deixaria aceitar a verdade. O rosto de Alicia iluminou-se de felicidade.


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning — Amo você, minha querida. Lamento tanto por ter dito o que lhe disse! Por favor, tente me perdoar. Os lábios de Dalton pousaram sobre os dela, suaves a princípio, famintos depois. Cinnamon Rose relinchou, enfiando a cabeça entre os dois. Dalton enganchou o braço no de Alicia. — Tenho uma outra certeza, meu amor. Não poderei me controlar por muito tempo mais. Ela sorriu e lhe ofereceu a boca, que o duque beijou com volúpia. — Quando poderemos partir para Havencrest? — Alicia quis saber. — Agora mesmo. Seu pai disse que irá alugar cavalos descansados. Só espero que não venda meus lusitanos. Alicia gargalhou. — Não me diga que agora confia também em meu pai! — Estou apaixonado, anjinho, não louco. Convidei sua família para ir ao clássico de Newmarket connosco. O barão conduzirá minha carruagem até Havencrest e nós seguiremos para Newmarket daqui. Mamãe estará lá. Olívia e Robert também. — Mal posso esperar! — Alicia enlaçou os braços em torno do pescoço de Dalton, feliz como nunca. — Ali vem Júpiter! — Dalton olhava pelo binóculo, e entregou-o a Alicia. — Observe as pessoas nas carruagens. Veja como ninguém consegue parar de admirá-lo. Sentado ao lado da esposa, no veículo próximo, Neal Spencer inspecionava atento a fila de competidores. — Aquela inscrição misteriosa é um tiro no escuro, Wexton. Quer apostar um dinheiro no desconhecido, contra Júpiter? Dalton deu de ombros. — Deve se tratar de algum animal insignificante que o conselho de corridas julgou que pudesse aumentar as apostas. — Seus olhos azuis se aqueceram, ao sorrir para Alicia. — Não se preocupe, meu amor. Júpiter é o favorito ao prémio. Alicia endereçou um olhar de advertência ao pai. Neal recostou-se, desfrutando da rara oportunidade de tentar levar a melhor sobre o genro precavido. Alicia estava preocupada. Já tinha recebido notícias de Ulger, informando que Bashshar chegara e não estranhara os tratadores. Mas e se o antigo medo do garanhão retornasse? Não, tudo iria correr bem, afirmou a si mesma. Tinha de dar certo. Foi então que viu, de soslaio, a figura de Ulger, no meio do comum grupo de cavalariços. Ele acenou com o chapéu, reconhecendo-a. Alicia encolheu-se. Será que Dalton notara? Fizera de tudo para que saíssem mais cedo, para que os tratadores pudessem trazer Bashshar para a corrida sem levantar as suspeitas do marido. — Ali vêm Robert e Olívia. — E a duquesa está com eles, Dalton! — Alicia se inclinou e murmurou, ao ouvido do marido: — Templestone foi levado a julgamento? — Não, querida. Para evitar um escândalo, chegamos a um acordo. Eu retiraria as queixas se ele prometesse deixar o país. Além disso, o sujeito sabe que tenho provas de que é um chantagista. Não irá querer que sua próxima viúva saiba de seu passado duvidoso. A duquesa acenou, e Alicia sentiu uma onda de alívio e felicidade. Dalton afagou-lhe a mão. — Você colocou seu toque de cura em todos nós, amor. A família sempre estará


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning em débito para com sua pessoa. O clarim soou, e os cavalos começaram a se alinhar. A multidão pôs-se a gritar, quando o garanhão misterioso e seu cavaleiro aproximaram-se, emparelhando-se aos outros competidores. A duquesa espiou Bashshar, pelos óculos de alcance, o animal disfarçado sob um belo manto negro de seda. Só suas orelhas e pernas estavam de fora. O jóquei trajava um uniforme preto, capa e máscara. O rosto rubicundo de Neal Spencer iluminou-se. — Não é muito tarde para fazer uma aposta, milady. A duquesa se empertigou. — Uma mulher prudente só aposta numa coisa certa, milorde. — Sorriu com malícia para a nora. — Não concorda, minha querida. — Um conselho muito sábio, senhora. — Alicia sorriu. Dalton examinou o inscrito misterioso com algo mais que uma simples curiosidade. — Olhe ali, querida, veja. — Estendeu o binóculo para Alicia. — Eu diria que aquele animal não correu ainda nos prados da Inglaterra. Eu teria notado. Boas pernas, pelo que posso perceber. O sangue pulsou forte nas veias de Alicia. Mal podia se conter, de aflição, ao pensar em como Bashshar devia estar se sentindo. "Por favor, Pai misericordioso faça com que tudo dê certo!" O clarim deu a partida, e os cavalos dispararam. As patas trovejavam na grama. As carruagens começaram a se deslocar pelo prado, acompanhando a corrida. De onde estavam, Alicia e Dalton tinham uma ampla visão dos competidores. Ela sentia o coração na boca. — Dalton, qual é o cavalo na liderança? — Perguntou, protegendo os olhos com a aba do chapéu. — Júpiter! — Dalton deu um pulo. — Veja! Neal Spencer animou-se. — Uma bela jóia para a coroa de Marston Heath, se Júpiter levar a taça. Alicia forçou-se a erguer as pálpebras. Levantou-se, agarrando-se ao marido. Os cavalos passaram, em disparada, e Dalton apanhou as rédeas, dirigindo a carruagem para a linha de chegada, em meio à horda de espectadores. Alicia sentou-se, rezando para que a prova não estressasse Bashshar. E se o garanhão entrasse em pânico, com todo aquele barulho? E se a inscrição de Bashshar tivesse sido um terrível engano? A corrida terminou quando os cavalos cruzaram a linha de chegada. Incapaz de enxergar através da confusão de chapéus e de braços para o alto, Alicia perguntou: — Quem ganhou? — E o vencedor é... — O vencedor é... a inscrição misteriosa! — O sorriso de Dalton morreu, em seus lábios. Ficou mudo. Voltou-se para Alicia e ajudou-a a descer da carruagem. Ela tomou-lhe o braço ao atravessarem a multidão. Ao chegarem ao círculo dos vitoriosos, lorde Teddy, o membro mais antigo do Conselho de Corridas, falava com o jóquei vencedor. — Minhas congratulações, Dalton! — Teddy cumprimentou-o, ao vê-lo. — Duquesa... — Voltou-se para Alicia com uma mesura elegante. —...meus parabéns. Dalton encarou-o, confuso. Teddy avançou, segurando a enorme taça de prata e anunciou: — A taça de campeão deste ano pertence ao inscrito misterioso, Bashshar, o campeão puro-sangue de quatro anos, de propriedade de Dalton Warfield, o duque de


Um Dom Especial Taming The Duke Jackie Manning Wexton. Em meio aos milhares de aplausos, Dalton meneou a cabeça, atordoado. — Não acredito! — E verdade, querido. — Alicia olhou para o círculo da vitória, onde o jóquei desmontava e tirava a máscara. — Penn! — Exclamou Dalton. Com o troféu preso sob o braço, o duque puxou a esposa até onde os cavalariços retiravam o manto de Bashshar. O garanhão jogou a cabeça para o alto, relinchando, quando Alicia acariciou seu pescoço poderoso. Os cumprimentos os cercaram de todos os lados. Dalton abraçou Penn. O garoto, de rosto vermelho como seus cabelos, arfava de júbilo. — Eu queria que Júpiter vencesse, Alicia. Por você. — Dalton se lembrou de todo o sacrifício que a esposa fizera por ele. Tudo o que o duque queria, agora, era levá-la para casa e mostrar-lhe o quanto a amava. — Dalton olhe! — Alicia apontou para a guirlanda de flores pendurada no pescoço de um dos competidores. — É Júpiter! Chegou em segundo lugar! Um cavalariço correu e entregou a Alicia um buquê de rosas. De todos os lados ouviam-se gritos e aplausos, e Dalton acenou para a multidão, ao caminharem para a carruagem. — Precisamos nos apressar, Dalton. Sua mãe convidou alguns amigos e os familiares para uma pequena comemoração. Sabe, eu confidenciei a ela que Bashshar era o inscrito misterioso. Senti que era justo, já que meu pai sabia. Além do mais, tive medo de que papai quisesse tirar vantagem e induzi-la a uma aposta. O duque soltou uma gargalhada gostosa. — Isso eu gostaria de ver. — De repente, Dalton percebeu o que significava ser feliz. Correu o dedo pela face da esposa, com imenso carinho. — Acabo de descobrir uma coisa, querido. — E o que é, minha adorada? — Quem quer que ganhasse a corrida, não importava, pois nós teríamos vencido. Sabe por quê? Porque temos um ao outro, meu amor.

JACKIE MANNING acredita em amor à primeira vista. Ela e seu marido, Tom, casaram-se seis semanas depois de se conhecerem, e de ele pedi-la em casamento, há muitos anos atrás, e continuam plenos de felicidade. Seu lar é uma casa colonial de cento e cinquenta anos, no Maine, onde moram com seus cachorros Shihtzu e Terrier Aussie. Quando Jackie não está escrevendo romances, está pesquisando e visitando lugares interessantes sob os quais escrever. Ela adora ouvir os seus leitores. Você pode escrever para P.O. Box 1739, Watervile, ME 04963-1739.

Um dom especial  
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