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Julia London

Os Segredos de Hadley Green 1

O Ano em que Vivemos Escandalosamente

Tradução/Pesquisa: GRH Revisão Inicial: SandrinhaDD Revisão Final: Deia Formatação: Ana Paula G.

Os Segredos de Hadley Green: 1.O ANO EM QUE VIVEMOS ESCANDALOSAMENTE

1.5-THE CHRISTMAS SECRET

2.THE

REVENGE OF LORD EBERLIN


3.THE SEDUCTION OF LADY X

4.THE LAST DEBUTANTE

Sobre a Autora Julia London vive em Austin (Texas), com seu

companheiro

Louie

e

seus

dois

enormes cachorros, mas quando o calor se torna insuportável vai para Taos (Novo México). Quando está em Austin se dedica a escrever, que é sua grande paixão. Afirma que passa seus días criando mundos imaginários em sua cabeça, contrários ao que vivemos hoje m dia. Suas séries «Os libertinos de Regent Street», «A trilogia das irmãs Lear», «A trilogia da família Lockhart», e «Questão de honra»,

entre

outras,

fizeram

um

enorme

sucesso

internacional.

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Comentário da Revisora Sandrinha DD Não posso dizer que amei, mas o livrinho é bom. Na verdade, essa história é uma introdução para o segundo livro, pois envolve um grande mistério. Tem de tudo um pouco: romance, traições, tragédias, mocinho turrão, mocinha determinada. A trama é boa, vale a pena ler, até para poder entender o segundo da série, que deve pegar fogo (no bom sentido). Boa leitura.

Comentário da Revisora DÉIA Como comentou a Sandrinha, é o primeiro de uma série, onde se começa a desvendar os vários segredos de um pequeno povoado. Eu gostei bastante da história, mas com certeza é como um ‘prólogo’ para os próximos, já que nos apresenta vários personagens e suas tramas. Tem trechinhos hots.rsrsrsrs.Não são muitos,mas vale a pena!

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PRÓLOGO West Sussex, Inglaterra, 1793. Todos os verões, no vilarejo de Hadley Green, os moradores esperavam com ansiedade dois importantes acontecimentos: a primeira semana de junho quando o vigário colocava seu gotoso em uma confortável carruagem emprestada e se despedia de sua congregação para ir visitar sua irmã em Shropshire. Era a única semana do ano, em que conseguiam ver o pároco separar suas rígidas mãos do púlpito e que o sermão fosse pronunciado pelo visitante jovem clérigo, que era muito mais sucinto. O segundo acontecimento consistia na festa anual que era oferecida pelo conde de Ashwood no final da estação. Celebrava-se em honra da boa colheita, dos bons arrendatários e era uma oportunidade para arrecadar recursos destinados aos pobres órfãos da paróquia de São Bartholomew. A festa durava o dia inteiro, com comida e bebida suficiente para alimentar o exército do rei; além disso, os aldeãos mais ambiciosos vendiam diversos objetos nas tendas montadas para esse fim. Havia jogos para crianças e os adultos, e uma pequena banda de música, para entreter os felizes convidados que escolhiam sentar-se sob os guarda-sóis, na frente das mesas decoradas com bandeirolas e flores procedentes dos invejáveis jardins e estufas do conde. Também desfrutavam de um pequeno lago com dois botes, que os jovens usavam para cortejar às jovens, enquanto passeavam remando. Tradicionalmente, os convidados da nobreza que chegavam de Londres para participar da festa permaneciam como hóspedes do conde e de sua encantadora esposa, muito mais jovem que ele, Althea Kent, lady Ashwood. Os nobres convidados compartilhavam artesanato, comida e cerveja com os moradores de Hadley Green, embora talvez, mais cerveja 4


que artesanato. No final do dia, lordes e homens do povoado se amarravam nos tornozelos, um com o outro para juntos fazerem corridas de três pernas, cujo prêmio era um beijo da condessa. Diante a extraordinária beleza de lady Ashwood, a maioria dos homens desejava participar dessa atividade. E também estava na tradição que, quando o sol começasse a se esconder atrás dos altos olmos das árvores, os habitantes do povoado retornassem para suas casas em carroças e carretas, que estralavam ao longo do caminho. Os lordes e as ladies se dirigissem para o interior da colossal mansão georgiana do conde, onde se entregavam a uma noite de exaustão. Essas reuniões eram legendárias. Mais de um matrimônio se viu ameaçado por essas noitadas e da mesma forma, mais de um matrimônio aconteceu em decorrência de atos comprometedores ocorridos na ocasião. Em 1793, uma tempestade torrencial de final de verão pôs fim às atividades ao ar livre na primeira hora da tarde. Os aldeãos e os órfãos foram enviados rapidamente para suas casas e asilos, muito mais humildes que Ashwood, enquanto que os ilustres convidados do conde entraram com urgentemente na mansão, onde os serventes os esperavam com toalhas e lareiras acesas em seus dormitórios. A chuva constante se prolongou durante o resto do dia; esfriou a temperatura e encheu as estadias com certo aroma de umidade. Os convidados, presos dentro do castelo como animais bem cuidados, começaram a procurar entretenimento. Divertiram-se moderadamente com a bebida, com os jogos de cartas e com flertes durante as longas horas da tarde até a noite. Mas quando esta caiu, as apostas nas mesas de jogo cresceram de forma alarmante, assim como o número de homens e mulheres que desapareceram do salão para retornarem uma meia hora mais tarde com as perucas tortas. Em cima dos salões de jogos e das outras salas mais escuras do andar de baixo, ficava as acomodações das crianças, onde se encontrava a 5


senhorita Lillian Boudine, sobrinha e pupila de lady Ashwood. Lily era uma órfã de oito anos, a quem sua tia Althea tinha adotado depois que o destino tirou seus pais na precoce idade de cinco anos, ambas as vítimas da mesma febre, com duas semanas de diferença. De acordo com os costumes, se esperava que lorde e lady Ashwood mudassem seus hábitos ao acolherem à menina, mas isso não aconteceu. Suas noitadas de festas e reuniões continuaram e Lily se foi se acostumando a ver as misteriosas figuras abraçadas nas sombras das escadas e ao som de portas abrindo-se e fechando-se. Tinha ouvido muitas risadinhas femininas e sussurros de vozes masculinas. Podia detectar o aroma de um persistente perfume de mulher nos corredores, entre os cheiros de cera de vela e lareiras acesas. Nessa tarde, Lily se encontrava fora das acomodações das crianças com sua babá. Essa tinha desfrutado da cerveja do conde em abundantes quantidades e não conseguiu manter os inchados olhos abertos. Roncava ruidosamente sentada em uma poltrona, perto do fogo. Lily estava com muita vontade de sair da sala e jogar uma olhada nos adultos. Passou na frente da babá adormecida, saiu para o corredor e fechou a porta em suas costas sem fazer ruído. Correu até a escada de serviço, desceu e foi para seu esconderijo perfeito, onde podia observar as idas e vindas dos convidados. Mas quando chegou ao andar térreo, encontrou-o mais escuro do que o normal. A prolongada chuva provocou a escassez de velas e só havia duas acesas, no longo corredor. Estava tão escuro, que Lily não viu o casal abraçado até que um deles sussurrou. O som a assustou e fez com que se escondesse rapidamente, atrás de uma mesa. Entre os pés da mesma, distinguiu as silhuetas no meio das sombras. Estavam se beijando. Lily se inclinou um pouco para ver melhor, mas ao fazê-lo perdeu o equilíbrio. Parou a queda com ambas as mãos antes de dar com o rosto no tapete, mas se assustou e soltou um grito

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sufocado. Em seguida recuou para trás, se pressionando contra a parede e cobrindo a boca com a mão para abafar o som de sua respiração. Levou apenas um momento, antes que se atrevesse a olhar novamente. Decepcionou-se quando viu que o casal desapareceu entre as sombras. Levantou, olhou ao redor com cautela e logo correu pelo corredor em direção ao seu esconderijo. Mas ao chegar ao pé da escada dupla, curvada e muito ornamentada, que conduzia aos andares superiores, uma mão a agarrou pelo ombro. Lily soltou um grito alarmado, enquanto a viravam e se viu obrigada a levantar os olhos e ver o encantador rosto de sua tia Althea. Ela não estava muito contente. O vermelho de seus lábios combinava com o rubi do seu vestido de veludo, e a cor de suas faces não o desmerecia absolutamente. —O que acha que está fazendo aqui, Lily? —Nada, tia! Só queria ver os vestidos das damas! Lily havia usado essa desculpa anteriormente com êxito, mas essa noite Althea não estava disposta a aceitá-la. Colocou as mãos em seus ombros e lhe deu um suave empurrão para o corredor. —O que vou fazer com você, querida? Volta para a sala! Sabe muito bem que amanhã vou partir para a Escócia. Tenho que ter certeza, que você se comportará bem enquanto eu estiver fora. —Farei isso! —prometeu ela com sinceridade. —Não, Lily, não quero mais promessas falsas —respondeu sua tia com severidade.— Não há nada que desgoste mais ao conde que seu mau comportamento e se ele cansar de você, então o que vai acontecer contigo? —ajoelhou-se para olhá-la nos olhos.—Sua mãe, minha querida irmã, está morta. Minha outra irmã está doente. Só sobraria minha irmã mais nova que está na Irlanda para acolhê-la. Você realmente quer ser irlandesa, Lily? Estarei fora bastante tempo e quando voltar será melhor que meu marido, não se queixe e nem exija que você faça as malas. Precisa deixar de espiar e rondar por aí! Ela se sentiu culpada e com medo. 7


—Sim, tia prometo cumprir de todo coração. —Foi sincera. Jamais pretendeu ser desobediente, simplesmente acontecia. Althea se acalmou e sorriu para ela, segurando o queixo. —Como você me lembra Maria! —exclamou, referindo-se à mãe de Lily. — Era uma diabinha igual a você. Não tão bonita, acho, mas também muito alegre. Sinto muitas saudades dela. E também sentirei muitas saudades de você. —Sorriu e deu-lhe um beijo na face. —E agora, mostre a menina boa que você é voltando para seu quarto e ficando ali. — Levantou-se e acariciou a cabeça de Lily. — Vai antes que o conde a veja. Lily correu pelo corredor e subiu até o primeiro andar pela escada do serviço. Entrou nos aposentos das crianças e fechou a porta atrás de si. A babá se agitou, mas logo se acomodou na poltrona e continuou roncando. Lily revirou os olhos e subiu no assento da janela. Lá fora estava escuro e chovia; a única luz era a que a casa lançava. Com o dedo, desenhou uma linha sobre o vidro molhado deixando um rastro grosso, como um caracol. O quarto das crianças nunca se esquentava. Era muito grande para a única lareira que havia ali e ela sempre tinha frio. Pensou como seria bom ter uma companheira, alguém com quem compartilhar aquelas noites intermináveis e aborrecidas. Um movimento lá fora chamou sua atenção. Grudou o rosto na janela e olhou para fora. Era um cavaleiro; viu-o se afastar à luz da casa. De repente, Lily sentou-se muito erguida. Conhecia o cavaleiro, ou melhor, conhecia o cavalo. Era cinza grande com manchas negras nas costas que pertencia ao senhor Scott, que esculpia madeira. Lily o havia visto muitas vezes antes dessa noite, enquanto o homem trabalhava na escada dupla que era curvada desde o piso superior do vestíbulo principal ao andar térreo. Por que estaria em Ashwood nessa noite? O senhor Scott não era de uma família de nobre. Que madeira poderia estar esculpindo no dia da festa? E por que partia sob a chuva em direção ao parque ao invés do caminho principal? Não partiu quando mandaram os demais aldeãos voltarem para suas casas? 8


Mas o homem se afastou e se perdeu na profunda escuridão da noite. Lily escreveu seu nome na condensação do vidro; logo percebeu que estava tremendo e se meteu na cama. Um pouco mais tarde, foi despertada por gritos, tão forte que até acordou à babá. —Santo Deus, deve ser um incêndio! —exclamou a mulher, e se apressou a levar Lily para o andar térreo; ela com camisola e bata e a menina ainda usando o vestido. Elas se encontraram com um grande alvoroço; os convidados estavam gritando um com os outros e havia pelo menos uma dama chorando. O conde olhava a todos com grande severidade e Althea estava pálida. —O que aconteceu? —perguntou a babá a um lacaio, com um sussurro. O criado, testemunha do fato, estava mais que disposto para espalhar a notícia. —Lady Ashwood estava jogando cartas, mas o conde se negou a lhe dar dinheiro porque advertiu ela para que não continuasse, mas como conhece a senhora, ela continuou de qualquer forma. Perdeu uma grande fortuna. Quando chegou o momento de pagar a dívida, foi a procurar as joias dos Ashwood para oferecer de garantia, mas as mesmas desapareceram. —O que? As joias antigas? —perguntou a babá, horrorizada. Até Lily sabia que existiam essas joias; todos sabiam. Eram pesados rubis e de grande valor que o rei Eduardo IV presenteou o primeiro conde de Ashwood, por sua lealdade durante a Guerra das Duas Rosas. Os rubis, fixados em um pesado colar, em longos brincos e em uma tiara, ficavam guardados e trancados a chave em uma sala privada do conde. —Sim, as antigas —confirmou o lacaio, muito sério. Naquele momento, Althea viu Lily e à babá entre as pessoas e se encaminhou para elas. 9


—Foi um dos convidados, aposto o que for. Com todo esse ir e vir atrás de portas fechadas —disse o lacaio rapidamente, que também tinha visto a condessa se aproximar.— Mas você vai ver Annie, como será a um de nós a quem culparão. —Annie, você perdeu a cabeça? E se o conde ver vocês aqui? — sussurrou Althea, irritada. Virou a cabeça para olhar inquieta a seu marido, quase como se tivesse medo dele. Lily não podia culpá-la; o conde parecia muito ruim. Sua tia voltou a olhar sorrindo um pouco dessa vez. — Vá embora — disse à babá. Esta segurou Lily pela cintura e a arrastou escada acima, mas ela resistia e foi virando até que não pôde ver ninguém mais. O dia seguinte amanheceu brilhante e azul. Havia muito alvoroço devido à planejada partida da condessa para Escócia; todos sabiam que ela e seu marido ficaram discutindo até ao amanhecer por causa das joias desaparecidas. Enquanto os convidados tomavam o café da manhã ou continuavam dormindo, reuniram os criados na cozinha de serviço. Lily entrou furtivamente na cozinha e viu sua tia apoiada em um aparador, pálida de esgotamento. O conde se encontrava entre seu secretário e advogado, com o lenço do pescoço torto e as grossas sobrancelhas sem pentear. Tinha as mãos juntas nas costas, enquanto informava aos servidores, composto por vinte e quatro pessoas, de que encontraria o ladrão e que o culpado seria enforcado. Os criados olhavam inquietos para os três homens. O secretário do conde, o senhor Bowman, encarregou-se dos interrogatórios. A governanta, a senhorita Penhurst, a quem Lily gostava muito, tremia; Annie a babá, chorava. Quando o senhor Bowman perguntou à senhorita Penhurst como podia confiar em sua palavra, de que não havia roubado as joias, enquanto dormia justo debaixo da sala onde as 10


guardavam, Lily não pôde suportar mais e se intrometeu. O conde tentou expulsá-la, mas ela o segurou pela mão. —Acho que sei quem as pegou! Todos os olhos se voltaram para Lily, a quem os joelhos começaram a tremer. O conde a segurou pelo cotovelo, cravando dolorosamente os dedos na pele. —Essa é uma de suas histórias, menina? —grunhiu. Ela negou com a cabeça. —Como você pode saber quem pegou as joias? Por acaso viu o ladrão agindo? —Não, milord. —A voz tremia e ficou sem fôlego. Ele emitiu um som de desgosto e a separou de um empurrão. —Mas o vi afastando-se a cavalo —disse, enquanto as lágrimas começavam a nascer nos olhos. O conde e o senhor Bowman se viraram lentamente para olhá-la. Sua tia seguia imóvel como uma estátua, olhando-a também. —Foi o entalhador. O senhor Scott —acrescentou Lily, se por acaso o conde não sabia quem era o entalhador. — O vi ontem à noite afastando-se a cavalo de Ashwood pelo parque, muito tempo depois dos aldeãos terem ido. O conde entreabriu os olhos. —Era muito tarde para que estivesse trabalhando —acrescentou Lily. O olhar escuro do homem se voltou para sua esposa. —Estava trabalhando? Trabalhando no que? —perguntou. —Em uma reparação —respondeu Althea friamente. — De um armário. O senhor Bowman olhou para Lily cético. —Como pode estar certa que era ele, senhorita Boudine? —Porque era seu cavalo —respondeu ela e imediatamente ficou com medo de estar errada. — O cinza com as manchas negras em volta da cauda —disse em voz muito alta, para convencer a si mesmo. —OH, não, querida... —começou sua tia, mas um olhar de seu marido a silenciou. Então, de repente, o conde sorriu para Lily e lhe aproximou. 11


—Vamos tomar um pouco de chá, certo Lillian? —perguntou, e ela tentou lembrar se alguma vez antes desse momento, o tinha ouvido pronunciar seu nome. Depois de algumas horas, trouxeram o senhor Joseph Scott de sua casa, onde ficaram sua esposa e seus três filhos, e o conduziram a um barracão nas terras de Ashwood, onde o prenderiam até que pudessem convocar o magistrado.

A notícia correu rapidamente por toda Hadley

Green e não demorou a estalar as fofocas. Haveria um ladrão entre eles? Não tinham informado que a senhora Rollingwood recentemente, teve seus frangos roubados? Por acaso o senhor Clark não se queixou de que desapareceram vários sacos de farinha de sua loja? E não seria nenhuma surpresa se fosse o senhor Scott? Todo mundo sabia que sua mulher estava muito doente, e os médicos de Londres não eram baratos, certo? E por que mantinham segredo sobre seu paradeiro naquela noite? Afirmava que ele não tinha roubado as joias, mas não queria dizer onde se encontra na noite do roubo. Sua pobre esposa foi obrigada a dizer a verdade, para que não interrogassem as crianças: seu marido não tinha retornado para casa antes da meia-noite. O magistrado, um homem com reputação de fazer justiça de forma rápida e severa, chegou a Hadley Green depois de quinze dias. O julgamento aconteceu na comunidade local do povoado. O senhor Scott, o entalhador, provavelmente já sabia, antes mesmo de ser levado diante o magistrado que o considerariam culpado, porque não podia dar uma resposta satisfatória sobre seu paradeiro na noite do desaparecimento das joias. Entretanto, um grupo de amigos e vizinhos tentaram com toda a alma convencer o magistrado de seu bom caráter. Esses seguiram com uma série de testemunhas dos acontecimentos da noite do delito. O povo inteiro se reuniu em volta do local para ouvir a exposição diante o magistrado sobre o caso das joias desaparecidas. Justo antes do meio-dia, duas elegantes carruagens de Ashwood apareceram; um para uso 12


do conde, quem, como parte prejudica, assistiu durante toda a manhã ao julgamento do senhor Scott. A segunda carruagem levava Lily e à condessa, cuja viagem havia sido adiada indefinidamente. Lily não sabia por que. Olhou pela janela toda aquela gente reunida, muitos deles procuravam ver o interior da carruagem. —Há muita gente —disse, nervosa. —Não muita —respondeu Althea para tranquilizá-la.— Só procuram distrair-se. Não pretendem fazer mal. E dentro não haverá muitos. Lily não estava tão convencida; de repente, sentiu que enjoava e suas mãos suavam. —Não quero fazer isso, tia —disse, encolhendo-se sobre o assento de couro.—O conde não poderia contar o que vi? —Não —respondeu Althea, com um sorriso afetuoso. —Deve contar você, querida. Ela sentiu o estômago encolher. —Mas não sei o que dizer! —Só tem que dizer a verdade —respondeu sua tia. Então, de repente, inclinou-se para frente e colocou uma mão no seu joelho. —Mas deve ter muita certeza do que diz Lily. Isso é o mais importante: deve ter certeza do que viu naquela noite. Tem? Tem certeza de tudo? Ela voltou a pensar no que tinha visto. Haviam dito tantas coisas depois, tanta gente tinha ido e vindo de Ashwood... Mas ela viu o cavalo do senhor Scott e às duas pessoas beijando-se no corredor. Assentiu solene. Queria agradar sua tia, lhe assegurar que podia repetir o que tinha visto. Mas Althea parecia estranhamente triste. Recostou-se novamente e cruzou as mãos no colo. —Totalmente certa querida? Estava muito escuro naquela noite e em Ashwood havia muita gente. Tem certeza que viu o senhor Scott? Havia muitas pessoas ali fora e Lily se sentia como se fosse à causa de todo aquele alvoroço, que todos estavam ali reunidos nesse dia, devido ao que ela tinha dito, e não queria envergonhar a Althea ou zangar o conde tendo medo de contar. 13


—Estou certa —disse novamente. Sua tia sorriu para ela, mas em seus olhos brilhavam as lágrimas. A carruagem parou completamente. Um momento depois, a porta se abriu e as pessoas a cercavam, esticando o pescoço para ver quem era. Althea se inclinou, abraçou a Lily e a abraçou com força. —Lembre-se que deve dizer só a verdade, querida. E não tenha medo, ninguém quer fazer nenhum mal a você. —Beijou-a no rosto e a soltou. — Vai. O senhor Bowman acompanhará você para dentro. Lily se deu conta de que a estava enviando sozinha. —Você não vem, tia? Althea negou com a cabeça. —Desta vez não. —Mas tem que vir comigo! —gritou, realmente assustada. —Não posso —respondeu sua tia e uma lágrima rolou pelo seu rosto. —O sinto muito, querida, mas meu marido... —Baixou os olhos e Lily ouviu algo que parecia um soluço abafado. Althea levantou o rosto e lhe sorriu. — Minha irmã necessita de mim e já atrasei muito. Vai Lily. Tudo terá terminado, antes que você perceba e eu voltarei assim que possível, prometo isso. —Senhorita Boudine! —Era o senhor Bowman, que esperava na frente da porta da carruagem com uma multidão curiosa em suas costas.— Venha garota, o magistrado está esperando. Lily olhou para Althea, desesperada para que sua tia a abraçasse. Mas esta a fez virar para a porta. —É uma menina muito valente. Pode fazer o que quiser. Agora vai. A contra gosto, Lily saiu da carruagem e imediatamente se viu rodeada de lacaios, que a guiaram entre a multidão. —Nos deixem ver a menina! —gritou alguém e os olheiros se empurraram para ver melhor. Os lacaios seguiam avançando atrás do senhor Bowman, escoltando Lily para a sala do julgamento. Dentro estava lotado. Os que não conseguiram encontrar um assento, se apoiavam nas paredes. O teto era baixo, o que fazia o ambiente torna-se mais cheio ainda. Os criados tiveram que abrir caminho entre os 14


corpos amontoados. Assustada, Lily se aproximou tanto do lacaio de Ashwood, que pôde sentir o cheiro da lã de seu uniforme. Ele posou a mão no seu ombro com força e foi guiando. Levaram-na até a fronte da sala, diante de um homem magro e robusto. Estava sentado atrás de uma mesa, com sua toga e peruca de magistrado. Olhou para Lily por cima dos óculos, observando-a, e franziu a testa como se ela não fosse de seu agrado. O conde estava sentado em uma cadeira ornamentada, à direita do homem e à esquerda deste, o que parecia uma jaula construída a toda pressa, estava o acusado. O senhor Scott usava uma roupa desalinhada e estava sem se barbear. Lily podia sentir seu cheiro, parecia como se tivesse vivendo em uma cova. Evitou olhá-lo. —Vamos, vamos —disse o magistrado, lhe fazendo gestos para que se aproximasse mais. O senhor Bowman a empurrou para frente. O magistrado apontou para a borda da mesa, onde se supôs que Lily deveria permanecer. Ficava diretamente na frente do senhor Scott e atrás dele estava sentada sua família. Sua esposa segurava seu filho pequeno no colo e estava chorando. A sua filha parecia muito triste e junto a elas se encontrava o filho mais velho, Tobin, que olhava para Lily severamente. Ela conheceu a família, quando o senhor Bowman a levou em sua casa para que identificasse o cavalo que tinha visto na noite da festa. Naquele dia, todos saíram de casa para vê-la e a senhora Scott tinha os olhos vermelhos e inchados, como estava agora no julgamento. Até então, Lily só conhecia Tobin, porque acompanhava com frequência seu pai a Ashwood, para ajudá-lo na construção da escada. Algumas poucas vezes, mandavam o garoto para fora para vigiar Lily quando Althea desejava falar com o senhor Scott em particular. Tobin, era alguns anos mais velho que ela, possivelmente tivesse treze anos e sempre a tratou com muita amabilidade. Entretanto, nesse dia, seus olhos castanhos escuros a olhavam como se desejasse estrangulá-la. 15


—Senhorita Boudine, jura solenemente diante a Deus que o que dirá hoje aqui é a verdade? —Perguntou o magistrado. Lily cometeu o engano de olhar para a direita e viu que todos aqueles rostos, a olhavam fixamente. Engoliu saliva e assentiu. —Fale! —Sim, milord —respondeu finalmente. Seus joelhos tremiam. Temia desmaiar ali na frente. O conde se zangaria muitíssimo com ela e a obrigaria a ser irlandesa. Percebia o olhar do velho cravado em suas costas, igual à de Tobin que a atravessava como fogo pela frente. —Pode continuar —indicou o magistrado e de repente, o senhor Bowman estava na frente dela. —Senhorita Boudine —disse olhando-a. — Por favor, explique a sua senhoria o que viu na noite de festa do verão. Foi um milagre poder dizer alguma coisa. Quase não era ciente de estar falando. A voz tremia tanto como os joelhos, enquanto explicava ao magistrado o das sombras do corredor e o do cavaleiro sobre o cavalo cinza com manchas negras. —E você identificou o cavalo? —quis saber então o homem. —Eu..., eu... —Sim, fez milord —interveio o senhor Bowman. —A conduzi à residência do senhor Scott faz dois dias e identificou o cavalo que havia em sua propriedade, como o que viu na noite em questão. —E isso é certo? —perguntou para Lily o magistrado. —Sim, milord. A senhora Scott abafou um soluço na cabeça de seu bebê. O magistrado voltou a olhar fixamente para Lily. — Você jura sobre a Bíblia que, o que acaba de nos dizer hoje é verdade? Ela pensou que ia vomitar e humilhar-se ainda mais do que já tinha feito. —Sim, milord. —Muito bem. O homem se recostou no assento e fez um gesto para o senhor Bowman. Este, por sua vez, olhou para o lacaio com um breve aceno de 16


cabeça. Antes que Lily percebesse, o criado já a acompanhava entre as pessoas, para sair da lotada sala e a colocava na carruagem do conde. Sua tia Althea e carruagem tinham desaparecido. Passado mais uma hora depois, o conde se sentou em frente à Lily na carruagem para voltar a Ashwood. Só a olhando uma vez. —Você foi muito bem—disse e logo virou a cabeça para a janela. Algum tempo depois, Lily ficou sabendo que, depois de seu testemunho, o senhor Bowman expôs a hipótese que o senhor Scott e uma criada eram amantes e que planejaram roubar juntos as joias. Que o secretário do conde, não apresentasse à criada em questão, não importava ao magistrado, que declarou o senhor Scott culpado de roubo e o sentenciou a morte por enforcamento. Durante os dias que seguiram, tia Althea parecia menor e mais velha. Não era a mesma pessoa alegre de antes e isso impressionou Lily. Não era nenhum segredo que sua tia e o conde não se entendiam bem. Mais de uma ocasião, seus gritos despertaram Lily de noite. Agora, durante o dia, Althea não deixava que Lily se afastasse muito dela. Mas se mostrava distraída. Havia momentos, em que parecia furiosa com sua sobrinha, especialmente quando estavam procurando em Ashwood as joias desaparecidas. Lily não entendia por que as procuravam ali. —Se o senhor Scott as roubou, não estão aqui, certo? —perguntou, confusa. —Nunca se sabe —murmurou sua tia. O dia que enforcaram o senhor Scott por seu delito, a senhorita Penhurst levou Lily no lago. Remaram pelo pequeno lago, movendo-se tranquilamente entre os gansos, enquanto o senhor Scott se encontrava com seu criador. Mas Lily estava desanimada. Achava que tinha sido ela quem fez isso ao senhor Scott. Matou ele ao explicar o que tinha visto. A senhorita Penhurst lhe assegurou que não era culpa dela, que o homem fez algo muito errado e que só podia culpar a si mesmo. Mas Lily não

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conseguia deixar de sentir-se responsável. Não podia deixar de ver o ódio nos olhos de Tobin. Tentou falar disso com sua tia, mas esta se negou a escutá-la. Disse que foi uma tragédia e que acabou que, não deveria continuar pensando nisso. Althea deixou de tocar o piano. Cada via ela mais abatida e Lily se preocupava achando que não devia estar se alimentando bem. Não era nenhum segredo que sua tia e o conde já não se falavam. No final da semana, Althea viajou para a Escócia; apesar de tudo, a vida retomou seu ritmo normal: Lily estudava suas lições, desenhava e brincava com suas bonecas. Depois de quase três semanas, Althea retornou a Ashwood. Sorria e disse que estava muito contente por ver Lily, que tinha jogado terrivelmente de menos. Mas para ela, algo estava diferente. Havia uma distância nos bonitos olhos cinza de sua tia. Um dia, mais ou menos um mês depois, de retornar da Escócia, Althea entrou no quarto onde ensinavam as lições de Lily, ajoelhou-se junto a ela e a abraçou. —Tenho notícias! —exclamou, animada. —Você viajará para a Irlanda! —Disse como se isso fosse algo fantástico. —Irlanda! —repetiu Lily e sua cor caiu nos pés. Vou ser irlandesa! — Por que, tia? Fiz alguma coisa errada? —Não, não, Lily! —exclamou Althea, enquanto colocava uma mecha solta de Lily atrás da orelha. — Somente porque Lenora poderá cuidar melhor de você. Tem três filhas, já sabe. Uma é sua prima Keira e as gêmeas, Molly e Mabe. Lily não as conhecia. Não queria ficar com suas primas, queria ficar com Althea. —Não, tia, você cuida bem de mim! —exclamou, desesperada, segurando seu braço. — Por favor, não me faça ser irlandesa! Por favor, não me afaste!

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—OH, Lily, querida! Mas é que eu não estarei aqui para cuidar de você. —respondeu Althea.— E não vou deixá-la sozinha com o conde, certo? —Por que não estará aqui? Onde você estará? —perguntou, nervosa. — Posso ir com você. Poderia ser sua acompanhante. Sua tia sorriu, enquanto segurava seu rosto entre as mãos e devagar e lentamente, beijou-a nos olhos. —Você não pode ir, para onde eu vou querida. Só poderá ir para a Irlanda. Não chores bonita. É melhor assim. E deixou-a sozinha, com seus soluços de decepção. Lily achava que havia ganhado um castigo. Tinham obrigado Althea a enviá-la para longe, pois por sua causa enforcaram o senhor Scott. Tudo era culpa dela. Sua querida tia morreu poucas semanas depois, da chegada de Lily a Irlanda. Contaram que se afogou em um trágico acidente, no mesmo lago onde a senhorita Penhurst e ela estavam acostumadas a remar nas longas tardes de verão. Lily nunca esquecerá a horrível sensação de culpa e remorso que sentiu ao saber da notícia. Primeiro sua mãe, depois sua tia Althea e, alguns anos depois, sua tia Margaret da Escócia. Só sobrava à mãe de Keira, Lenora. Lily se sentia responsável por tudo. Muitas perguntas não paravam de dar voltas em sua cabeça de menina de oito anos; perguntas que a seguiram até a idade adulta, perguntas como por que aconteceu tudo aquilo, como teriam sido as coisas se tia Althea não a tivesse enviado para Irlanda. Se ela não estivesse ido para ali, possivelmente estaria com Althea no dia em que se afogou. Talvez, poderia ter salvado sua querida tia. E outra pergunta queimava no coração de Lily, uma pergunta que ninguém soube responder, durante toda aquela série de trágicos acontecimentos, pergunta que Althea tinha tentado tão desesperadamente responder: onde estavam as joias? 19


CAPÍTULO 01 Irlanda, 1808 Uma evidente corrente de excitação se apoderou de todos os moradores de Lisdoon, a mansão dos Hannigan. Encontravam-se capturados em um torvelinho de frenética atividade, preparando a viagem de Lily Boudine para Itália. Itália! Sua prima, Keira Hannigan, quase não acreditava na boa sorte de Lily. Por muito tempo, Keira sonhava visitar lugares como esse; via a si mesmo passeando pelas praças, admirando a arte e a arquitetura, e também aos cavalheiros italianos. Mas estava certa que ela jamais poderia deixar à costa oeste da Irlanda, porque seus pais pareciam decididos a vê-la casada. Lily ia viajar como acompanhante contratada da senhora Canavan. Com esta ia também seu filho, o muito belo e desejável senhor Conor Canavan. Lily tinha conseguido esse emprego graças a sua ardilosa diplomacia, já que estava decidida a ter uma aventura amorosa com seu filho. O fato do senhor Canavan não ter conhecimento que estava a ponto

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de participar de uma aventura amorosa, não desanimava absolutamente a Lily, que se mostrava despreocupada. —Aprecia-me, Keira — tinha confidenciado um dia, enquanto examinava sua perfeita tez diante o espelho. — Sem dúvida se sentirá aliviado ao saber que eu também o aprecio. Não me surpreenderia que se declarasse, enquanto estamos na Itália. Lily estava muito segura de si mesmo; de fato, as duas primas possuíam uma autoestima saudável. Ambas eram consideradas muito bonitas em todo o condado de Galway e não faltavam pretendentes. A mãe de Keira sempre dizia que foram cortadas do mesmo tecido. Keira nunca esquecerá a primeira vez que viu Lily, quinze anos atrás. Sua mãe tinha lhe advertido que fosse muito amável com ela, porque era uma pobre órfã. Keira imaginava que qualquer órfão seria fraco, se vestiria com farrapos e teria profundas olheiras de saúde delicada. Esperava que suas únicas posses fossem um sujo e esfarrapado urso de pelúcia e uma bacia de madeira. Mas Lily não era nada parecido. Pelo contrário, sua aparência era tão exótica que a deixou encantada. Demorou apenas um ano; Lily falava com um leve sotaque, encantando os ouvidos irlandeses de Keira, e usava um vestido de seda carmesim. Tinha o cabelo negro, como ela, mas sedoso e liso, enquanto que os de Keira eram encaracolados. Olhos verdes, como os seus, mas puxando para um tom um pouco cinza, não como o verde escuro da Irlanda, como o pai da Keira lhe dizia que eram seus olhos. Lily esboçava um grande sorriso quando desceu da carruagem e estendeu a mão para que o pai de Keira a beijasse. —Como está você? —disse, com uma correta reverência. —Sou Lily Boudine. Keira achou que estava vendo uma princesa, não uma órfã. Depois de muito pouco tempo, já eram grandes amigas e aliadas. Quinze anos depois, as duas estavam tão ligadas como irmãs e tinham pretendentes para escolher. A escolha de Lily era o senhor Canavan. Ou, 21


melhor dizendo, a escolha de Lily nesse mês era o senhor Canavan, pois a jovem tinha certa tendência em trocar de opinião. Estava previsto, que embarcassem para Itália em questão de dia e Keira e ela, junto com Molly e Mabe, as gêmeas de dezoito anos, estavam no salão de Lisdoon, preparando tudo o que Lily precisaria para os meses que ia passar longe de casa. O salão era espaçoso, com três grandes janelas que faziam vista para o jardim dos fundos. Além deste havia o mar. De Lisdoon não se podia ver, mas quando as janelas estavam abertas, como nesse dia, o ar arrastava o aroma fresco da brisa marinha. O salão estava decorado com tecidos dourados, vermelhos e com grossos tapetes belgas. Retratos quase de tamanho natural dos antepassados de Hannigan decoravam as paredes. Entretanto, naquele dia foram cobertos por desenhos de modelos e manequins. Cilindros de seda, musselina e brocado, enviados da distante Dublin, estavam espalhados sobre o sofá de seda florido e das poltronas de veludo. Em uma mesa havia um serviço de chá esquecido. Logo a água esfriou e as bolachas continuavam intactas. Brian Hannigan, o patriarca daquela prole, estava irritado com todo o barulho que havia invadido seu quarto. —Não está certo —queixou-se com sua esposa, Lenora. — Se supõe que o salão é um lugar de repouso para todos. —É apenas temporário —respondeu sua mulher, mas Brian não estava tão convencido e foi a seu escritório, carrancudo. Era para Lily, que estavam confeccionando os vestidos, colocados em três dos quatro manequins, teve sorte de ter encontrado em Galwaya uma costureira de certo talento, Caitrin. Agora que estava em Lisdoon, preparando seu guarda-roupa, gostava muito de copiar a última moda. Naquele momento, Caitrin estava em um canto da sala, terminando um dos muitos artigos que Lily lhe tinha encarregado. Era um bonito vestido de dia na cor marrom com cós verde. Keira estava junto à costureira, admirando seu trabalho. 22


Diante delas, no centro do salão, em uma mesa redonda que era habitualmente usada para jogar cartas ou para tomar o chá, suas primas contemplavam extasiadas, com os últimos modelos que havia chegado de Londres. —Olhe isto —exclamou Lily, entusiasmada, enquanto apontava para um dos desenhos. Molly e Mabe inclinaram as cabeças de escuros cabelos, para olhar o desenho. — É o vestido perfeito para um casamento pela manhã. Deus santo, como tinha imaginação. —Ainda não se declarou para você Lily —lhe lembrou Keira, enquanto examinava a manga do vestido. —Fará—afirmou sua prima com toda segurança. —Parece-me precioso —disse Mabe em tom sonhador. —Na verdade, não sei como pode pensar nessas coisas —replicou Keira, enquanto se afastava para que o criado pudesse retirar o serviço de chá. — Se eu fosse você, só pensaria na Itália. —Quer dizer, se fosse você que estivesse prestes em ir a Itália — brincou Lily. —Verdade Keira, que não pensaria no senhor Maloney nem mesmo um pouquinho? —perguntou Molly, dando-lhe um sorriso irônico para sua irmã mais velha. Esta revirou os olhos. —Não, absolutamente. E, para deixar claro, digo a você que Loman Maloney não é o único cavalheiro da Irlanda, se por acaso ainda não notou. —Mas é o único que parece disposto a casar com você —replicou Molly, rindo. Keira não queria que a lembrassem. O senhor Maloney era um cavalheiro muito amável, cuja família fez fortuna com a naval. Tinha aparência agradável, mas, sinceramente, lembrava a todos outros cavalheiros agradáveis que circulavam pela Irlanda, como um rebanho de ovelhas. A única coisa que diferenciava o senhor Maloney, foi que a opinião do pai de Keira sobre ele tinha melhorado milagrosamente durante 23


o inverno, e chegou a considerá-lo como o par perfeito para sua filha mais velha. O senhor Maloney levou muito a sério o apoio entusiasta do homem e foi abertamente, logo atrás da mão de Keira. Keira tinha vinte e quatro anos. Já havia ultrapassado há tempos a idade em que a maioria das jovens se casavam. Sabia que o condado de Galway, conforme comentários que futuramente lhe faltariam pretendentes. E que sua relutância em se casar era motivo de grande preocupação para seus pais. Mas não conseguia decidir-se por alguém tão formal e previsível como Loman Maloney. Tinha uma sensação, uma vibração no corpo que a dizia que a vida era muito curta, para conformar-se com alguém tão insosso. Entretanto, o pai da Keira estava perdendo a paciência. Não fazia duas semanas, que havia dito que, se ela não podia decidir-se por um pretendente, ele não teria nenhum problema em fazer isso. —Acho que seria muito bonito que, Lily e você casassem no mesmo dia —disse Mabe. Estava meio deitada sobre a mesa, com o queixo apoiado nos punhos. A fita que segurava os longos cabelos negros estava solta. — Pense... Um casamento duplo! —Com Keira! —riu Lily. —Por favor, o dia do meu casamento eu gostaria que prestassem pelos menos um pouco de atenção em mim. E, além disso, Keira nunca se renderá —afirmou e piscou com um dos olhos para sua prima. Esta não pôde evitar de rir; sem dúvida Lily a conhecia muito bem. —Lily. O pai de Keira assustou a todas. Estava na porta, com as pernas grossas separadas e um papel na mão. —Sim, tio? —respondeu ela, enquanto ficava em pé. — Outra vez estamos fazendo muito barulho? —Sim. Mas não estou aqui por isso. Tenho que falar com você sem demora. Venha comigo, por favor. —Por quê? —perguntou Keira. Seu pai franziu a testa com desaprovação. 24


—Tenho que falar com Lily, Keira. Lily, venha. —Virou-se e saiu do salão. Lily trocou um olhar com ela, enquanto seguia seu tio. —Esperem aqui —disse Keira a Molly e Mabe e seguiu sua prima. Mas as gêmeas ignoraram e rapidamente as tinha atrás. Além da mãe de Keira, que estava em frente às janelas abertas, com ar pensativo, no escritório havia um desconhecido. Ele parecia ter cavalgado durante um bom tempo; o pó cobria suas botas e suas mãos e rosto estavam sujos. Ele parecia desconfortável, de pé sobre um quadrado do tapete, como se tivesse medo de sair dele. Acenou educadamente com a cabeça quando entraram as jovens. —Falei somente Lily —lembrou o pai, mas ninguém saiu do escritório. —O que acontece, tio? —perguntou a jovem, enquanto olhava com curiosidade ao recém-chegado. —Este é o senhor Hood. É um mensageiro contratado por Ashwood —respondeu o pai de Keira.—Trouxe uma mensagem muito importante e deve retornar amanhã com uma resposta. —Ashwood —repetiu Lily, como se jamais tivesse ouvido falar de tal lugar, como se o nome fosse novo para ela. Brian Hannigan entregou-lhe o papel. —São notícias muito inesperadas, Lily. Lentamente, ela desviou o olhar do mensageiro para o papel, que olhou com desconfiança. Não fazendo nenhum movimento que iria pegá-lo. —Que notícia? —perguntou Keira e se inclinando mais sobre o ombro de sua prima para dar uma olhada, enquanto Molly e Mabe se apinhavam atrás dela, tentando olhar também. —Molly, Mabe, se afastem, por favor —disse Lenora. Segurou suas mãos com força e sorriu para sua sobrinha. —Não precisa ter medo Lily —disse e para Keira parecia que Lily se encolheu um pouco ao ouvir isso.

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—Absolutamente nada! —gritou o pai da Keira. —Este papel diz que é a única herdeira de Ashwood e a condessa como direito. —Sorriu de orelha a orelha. — Entendeu Lily? É uma condessa! A notícia era fantástica. Molly e Mabe lançaram gritinhos de excitação. Keira segurou Lily pelos ombros e apertou. —Condessa, Lily! —Mas como? —perguntou sua prima, confusa. — Como posso ser a condessa de Ashwood? —Vou dizer como. —O pai da Keira desenrolou o papel que segurava. —Este foi escrito pelo senhor Theodore Fish, que é o administrador de Ashwood —explicou; logo percorreu o texto com o olhar até encontrar o que procurava. —Sim, aqui está. —Pigarreou: — «Depois de uma importante investigação e consultas com os advogados de Londres, comprovou-se que Lillian Boudine é a única herdeira viva de Marcus Kent, o falecido conde de Ashwood e como tal, herda diretamente a propriedade de Ashwood. O título de condessa é reconhecido legalmente no caso em que uma mulher seja a única herdeira, o que outorga a Lillian Boudine o título de condessa de Ashwood, com todas as obrigações e direitos que tal título implica. Se a mulher estiver casada, as terras e os títulos passam naturalmente para o marido. “Entretanto, se herda estando solteira, continuará sendo seu até sua morte, quando passará a seu filho mais velho.» Brian Hannigan levantou o olhar e sorriu. Molly e Mabe começaram a falar ao mesmo tempo, mas Lily só olhava boquiaberta para seu tio. —Lily, você está bem? —perguntou a mãe de Keira. —É uma notícia fantástica! —Está atônita, Lenora —disse Brian alegremente. — E não é de se admirar. Lily, pensa... Condessa por direito! O senhor Fish pede que você vá o mais rápido possível, porque há vários assuntos que requerem sua atenção imediata. —Voltou a estender a carta. Ela segurou vacilando. 26


—Estou... Sim, estou atônita —reconheceu. — Mas você esqueceu tio? No final desta semana parto para a Itália. —Itália! —bufou o homem. — É melhor esquecer isso, moça. Keira irá em seu lugar. Você irá para a Inglaterra e assumirá a responsabilidade que lhe corresponde! —Itália! —gritou Keira. Era tão inesperado como se um presente tivesse caído de repente em seu colo. —Está falando sério, papai? —Bom, sim..., caso à senhora Canavan aceite você. O que é certo é que não posso enviar a nenhuma delas —acrescentou, fazendo um gesto vago para Molly e Mabe. —Papai! —protestou Mabe. —Não posso acreditar! —gritou Keira, transbordando de alegria. —Lily, condessa e eu, na Itália! Mas sua prima não disse nada. Só olhava fixamente para seu tio. Brian Hannigan olhou para sua esposa em busca de apoio. —Não diz nada —disse, indicando Lily. —Por que não fala nada? Olhe o presente que acabou de receber, e você fica aí muda! —Brian, por favor! —repreendeu sua esposa, e abraçou Lily pelos ombros. — Foi um grande choque, posso imaginar isso! —Isso quer dizer que somos parentes de uma condessa? — perguntou Molly, excitada. Seu pai sorriu. —Sem dúvida, moça. Vamos levar esse bom homem à cozinha e lhe dar algo para comer, porque deve retornar logo e anunciar que a condessa está a caminho! O pai e as irmãs de Keira acompanharam animados, o mensageiro fora do escritório. Keira ouviu o bate-papo das gêmeas perder-se pelo corredor, sem dúvida sobrecarregando o pobre homem com perguntas. Ela por sua vez, não parava de dar voltas ao surpreendente e excitante giro dos acontecimentos; seu desejo se converteu em realidade! O senhor Maloney teria que esperar se estivesse tão decidido a casar-se com ela; talvez ficando tanto tempo fora, ele se cansasse e pedisse a outra em casamento. Uma cascata de possibilidades de liberdade começou a fluir em sua cabeça. 27


Mas quando olhou para sua prima, percebeu que Lily continuava sem dizer nada. Olhava para o chão, com o rosto tão branco como o vestido de musselina que usava. —Lily, diga alguma coisa —pediu ela. —Não sei o que dizer —respondeu sua prima. —Acho que devíamos enviar uma mensagem à senhora Canavan imediatamente —sugeriu Lenora. Lily assentiu. Mas continuava olhando o tapete, claramente perdida em seus pensamentos. Possivelmente Keira a conhecesse melhor do que ninguém, mas achava essa sua reação muito estranha. Que mulher não ficaria extasiada, ao saber que se tornou uma condessa? Nem por um momento, Keira acreditou que Lily estivesse tão apaixonada assim pelo senhor Canavan, para não se alegrar ao descobrir que tinha recebido um título e algumas terras para administrar. O humor de sua prima não melhorou durante a tarde, enquanto escreviam cartas, baixavam os baús e preparavam a bagagem de Keira. Tampouco durante o jantar, quando Mabe e Molly perguntaram incansavelmente sobre Ashwood. Quando todos se retiraram para dormir, Keira teve finalmente a oportunidade de falar com Lily em particular, sem que suas irmãs girassem por ali ou os criados entrassem e saíssem de seus dormitórios, empacotando e organizando seus pertences. Bateu na porta de sua prima levemente, para que Molly e Mabe não a ouvissem já que compartilhavam o quarto ao lado. —Entre —foi a resposta. Keira entrou rapidamente e fechou sem fazer barulho. O quarto de Lily tinha pouca iluminação: uma única vela na mesinha da cabeceira. As janelas estavam abertas e a fresca brisa noturna agitava de vez em quando as pesadas cortinas de brocado. Sua prima estava sentada na cama, com camisola e a longa trança pendia em seu ombro. Afastou um livro, que não havia aberto e se apoiou nos travesseiros que tinha na cabeceira. 28


—Você está doente? —perguntou Keira ao aproximar-se da cama. — Quase não deu uma palavra o dia inteiro. —Estou bem. Mas estive pensando. —Encolheu os joelhos e deu um tapinha na cama a seu lado. —Tenho uma ideia. Keira sempre desfrutava de uma boa ideia, ainda mais se fosse divertida, assim subiu com vontade na cama de Lily, deitou ao seu lado e apoiou a cabeça na palma da mão. —Que ideia? Que me nomeará dama de companhia e será a anfitriã dos maiores bailes, é isso? —perguntou, divertida. Lily não riu. —Escute antes de você negar —disse com seriedade. —Eu negar? —Keira, acho... Acho que você deveria ir para Ashwood. Em meu lugar. Ela soltou um bufo diante tão absurda sugestão, mas sua prima a olhava séria e fria. —Eu? —exclamou. —E por que eu deveria ir para lá? —Para cuidar de tudo —respondeu Lily. —Para fazer, o que se supõe que alguém como eu deveria fazer, até que retorne da Itália. —Itália! OH, Lily! —exclamou Keira com compaixão.—Concordo que o senhor Canavan é muito bonito..., mas a verdade é que não tem nem ideia de seus verdadeiros sentimentos. Inclusive se estiver apaixonado por você, sem dúvida deve saber que não pode casar-se com uma condessa. —Isso não sei nada —replicou a jovem com frieza. — Tenho certa ideia de seus sentimentos e acredito que quando duas pessoas se amam, um título não deve interpor-se em seus caminhos. Keira não conseguia acreditar no que estava ouvindo. —Lily, ficou louca? Não se declarou! Sua prima se aproximou e segurou uma mão dela, com seus dedos finos. —Você sabe o que eu planejei para a Itália. Sabe muito bem o que significa para mim. Quero ir. E, além disso, tenho..., tenho más lembranças de Ashwood. Não suporto a ideia de voltar para lá. Pelo menos, ainda não. Devo pensar bem e me preparar antes. Isto é tão repentino, tão inesperado... 29


Entende que necessito um pouco de tempo para aceitar? —Agitou os dedos perto de sua têmpora. Keira achava difícil compreender, por que era tão difícil Lily aceitar as novidades. Afinal era uma condessa, pelo amor de Deus! Então se lembrou de quando sua prima chegou à Irlanda. Keira a ouviu contar várias vezes, a história da noite em que desapareceram as joias e às vezes, quando nuvens pesadas e baixas se abatiam sobre Lisdoon a noite e o cheiro da chuva enchia o ar, quase chegava a acreditar que havia visto com seus próprios olhos. Lily explicava com grande dramatismo os acontecimentos que a levaram a Irlanda e tinham encenado tão frequentemente a história do desaparecimento das joias, que Keira aprendeu algumas cenas e se atribuiu no papel de conde ou de magistrado. Era muito divertido atuar em suas pequenas obras. Mas essa brincadeira acabou de repente, quando receberam a notícia da trágica e inesperada morte da tia Althea. Lily nunca mais voltou a falar do episódio das joias. Nada era capaz de convencê-la a reviver essa experiência. Também de falar da tia Althea. Era como se tivesse erguido uma muralha ao redor dessa parte de seu passado. —Lily querida—disse Keira nesse momento. — Já faz muito tempo. Sem dúvida, essas lembranças já não irão doer mais. —Para mim é como se tivesse acontecido ontem —respondeu sua prima em voz baixa. Parecia realmente afetada. Keira gostava muito de Lily e não suportava vê-la assim. Tentou imaginar-se a si mesmo em Ashwood. —Como vou poder fazer isso? —perguntou a ela. —Muito fácil. Você terá a carta do senhor Fish. Vai dizer e eles que eu a enviei para lá para fazer o que é preciso fazer até que eu retorne. Não poderão negar. Keira pensou. —É uma propriedade muito grande? —Muito —respondeu Lily, inclinando-se esperançada para ela. 30


Keira se imaginou passeando pelas terras de um importante patrimônio inglês. Mas logo pensou na Itália e nos cavalheiros italianos que esperava conhecer, na arte e na comida. —Há muitos cavalheiros nessa parte da Inglaterra? —Keira! —O que? —perguntou essa inocentemente. — Não espera que eu finja que vou para um convento, certo? Sua prima suspirou. —Não sei —respondeu. — Não sei se tem cavalheiros. Suponho que sim... Fará isso Keira? Esta sorriu. —Papai jamais permitirá... —Ele não precisa saber —replicou Lily imediatamente e, ao ver sua expressão de surpresa, acrescentou: — Na Irlanda ninguém tem por que saber, Keira. Nem seus pais, nem Molly ou Mabe. —Inclinou-se para mais perto dela e a ponta da trança ficou apoiada na parte do lençol que havia entre as duas. — O senhor Maloney também não. Com isso conseguiu captar toda a atenção de Keira. —Temos que nos reunir com a senhora Canavan em Dun Loaghaire para embarcar. E, uma vez ali, explicaremos que houve uma mudança nos planos. Keira a olhou com os olhos arregalados. Você realmente pode fazer isso? Olhou para a porta, desceu da cama e correu sobre o tapete Aubusson e fechou a chave. Uma forte rajada de vento levantou as cortinas; com cheiro da chuva. Foi até a janela e antes de fechá-la olhou para fora, a fim de assegurar-se de que ninguém as tinha ouvido. Depois quase saltou em cima da cama ao lado de Lily. —O que devo fazer. Só tenho que cuidar da casa até que retorne? —Sim, sim —concordou rapidamente sua prima. — Fará com que as coisas sigam seu curso, por assim dizer. —Que coisas? —As que fazem com que a propriedade funcione, suponho. Não sei. Imagino que você deve autorizar os recursos usados para comida e essas coisas. 31


Isso parecia fácil. —Suponhamos que façamos o que você sugere —continuou Keira. — Quanto tempo passará até nos encontramos? Lily encolheu de ombros. —Três meses? A ideia estava se tornando cada vez mais atraente. Era uma aventura e para Keira, não havia nada mais que gostasse que um pouco de aventura, para animar os dias. Durante três meses poderia atuar de acordo com sua vontade, sem ninguém atrás dela para dizer que fizesse alguma coisa totalmente diferente. —Fará isso? —perguntou sua prima. Keira suspirou.

—Por você Lily. Farei por você, porque a amo muito. Só tem uma pequena condição —acrescentou docemente.— Você me dará o vestido marrom com cós verde. Lily revirou os olhos. —Isso é extorsão, Kiki. —Isso é negociação —replicou Keira. —Não. —Lily cruzou os braços e recostou-se atrás. —Eu adoro esse vestido. O dia que Keira chegou a Ashwood usava o vestido marrom com cós verde e com carta do senhor Fish guardada em sua bolsa de renda. Desceu da carruagem alugada e olhou a impressionante mansão georgiana. Era cor areia, com mais de uma dúzia de lareiras. O sol brilhava contra os vidros das janelas o que fazia com que toda a casa refulgisse. «OH, sim —pensou Keira, essa vai ser minha maior loucura.»

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CAPÍTULO 02 Hadley Green, 1808 O leilão de cavalos de Ashwood começou pontualmente às duas da tarde, no cercado. A recente chuva tinha um pouco, mas o sol brilhava com força e Declan O’Conner, o conde o irlandês de Donnelly, estava com muito bom humor. Adorava o cheiro dos cavalos e era da opinião de que se não houvesse um pouco de lama no meio, não era trabalho. Declan era um conhecido criador de cavalos na Irlanda e na Inglaterra. Desde a infância quando ainda usava calças curtas se interessou e começou a criar cavalos de corrida na Irlanda. Nesse momento, em seus trinta e um anos de idade, proporcionava cavalos aos reis, príncipes e duques, seus animais ganharam algumas das corridas com as apostas mais altas de toda a Inglaterra. Não fazia muito, que um conde dinamarquês contratou ele para que se encarregasse de uma égua de criação muito premiada e a tornou em um cavalo de corrida de primeira linha. Quando os agentes ingleses do dinamarquês entraram em contato com ele, Declan não achava nenhum problema em aceitar seu dinheiro. Não é que precisasse, era um homem rico, mas a oferta chegou em um momento onde estava começando a fartar-se da vida bucólica da Irlanda. Sua eterna maldição era sempre sentir um peculiar desejo pela distância: terras longínquas, gente longínquas e luzes longínquas. Tinha uma imperiosa necessidade de ver mundo, algo muito parecido com sua necessidade de ter cavalos por perto. Então, Declan aceitou o desafio do dinamarquês. Comprometeu-se a cuidar da égua e cuidá-la na Inglaterra, onde os agentes do homem 33


podiam visitá-la com regularidade. Declan tinha uma pequena casa em Londres, mas como precisava de mais espaço para os cavalos, alugou Kitridge Lodge, em West Sussex, que pertencia a seu bom amigo o duque de Darlington. Kitridge, que consistia em um castelo normando e um pavilhão de caça, era muito velho e ultrapassado para acomodar um grande número de criados necessários para manter uma família tão ilustre e extensa como os Darlington. As dependências eram pouco ventiladas e escuras; os corredores estreitos e sinuosos, mas isso para Declan não incomodava.

Ele

não precisava

de anfitrião,

de

servidores

ou

acompanhantes. Só precisava de um lugar onde comer e dormir. O duque ficou encantado de alugar para ele, o lar por todo o tempo que quisesse. Quanto? Declan não podia dizer. Ele nunca ficou muito tempo no mesmo lugar. Até o momento alugou o pavilhão por um ano. Entretanto, em algum momento desse período, a culpa o faria voltar para a Irlanda, como sempre. Declan amava a Irlanda, mas não gostava de ficar ali. Havia todo um mundo além das fronteiras de seu país, que parecia muito longe dele. Mas sua irmã pequena Eireanne, vivia ali junto com sua avó materna e ele era responsável por ambas. Seu pai faleceu quando ainda tinha quatorze anos, deixando para ele a grande propriedade familiar dos Ballynaheath, no condado de Galway. Declan nunca quis perder seu pai, evidentemente, e tampouco ser conde. Também não gostava de ser o responsável pela felicidade de sua irmã ou ter que arrumar para ela um casamento. Amava Eireanne e desejava que fosse feliz; a ideia de que pudesse casá-la com o homem errado o impedia de favorecer a qualquer pretendente, e se por infelicidade, não surgisse um marido para jovem. Aparentemente, Declan não tinha boa reputação, nem sequer para o critério irlandês, e se os diversos incidentes em sua vida tivessem afetado negativamente a sua irmã. Sua avó havia dito a ele que, devido a tudo isso, poucos irlandeses estariam dispostos a casar-se com Eireanne. O que ela 34


precisava, dizia a mulher, era ir para longe durante um tempo. Para uma escola de jovens de boa família. Especificamente, para Lucerna, Suíça, o para Instituto Vila Amiels, onde as jovens ricas conseguiam os contatos que as garantiam, com quase toda segurança, encontrar um pretendente durante a Temporada de Londres. Para Declan pareceu uma ideia excelente e escreveu para a escola imediatamente. Mas justo antes de partir para a Inglaterra, recebeu a notícia de que haviam negado o pedido por Eireanne. —Deve ir para Inglaterra —disse sua irmã, animada, quando a comunicou da notícia. — Não adiantará de nada você ficar vagando por Ballynaheath como uma alma penada, não é? Ela o conhecia bem e sabia que ele estava morrendo de vontade de partir. —Não se preocupe, Eireanne — respondeu ele. — Essa escola é muito puritana, certo? Encontraremos uma melhor. A moça sorriu, mas sabia também assim como Declan, que não havia uma escola melhor. E então estava ele novamente, sentindo que a responsabilidade pela felicidade de sua irmã o amarrava na Irlanda. Assim cuidava de sua égua, ia para Londres de vez em quando, para estar em sociedade, divertir-se e depois retornava a Irlanda para ver Eireanne. Naquele dia, estava procurando um garanhão para sua égua de criação e o leilão de cavalos de Ashwood ia incluir alguns exemplares de corrida de grande reputação. Não viu ainda nada que o satisfizesse, mas havia uma espirituosa potranca que acreditava poder treinar para competir; conhecia a dama de Hertfordshire que estava procurando um bom cavalo para dar de presente a seu marido. Quando o leilão estava para começar, os cavalheiros se reuniram do lado de fora do cercado e os ajudantes foram passando os cavalos um a um, em lentos círculos, enquanto o leiloeiro aceitava seus lances. A maior parte dos animais em dupla puxavam carruagens e um par de castrados, foram vendidos por menos de dez libras. Ganhando com suas ofertas, os 35


cavalheiros foram afastando do cercado, assim, quando tiraram a potranca, com passo brioso e um fogoso sacudir de cabeça, só restou cinco cavalheiros, um agente, um par de rapazes e o leiloeiro. —Começa o leilão em dez libras, cavalheiros —anunciou o leiloeiro e, quase instantaneamente, um jovem dândi, com um extravagante nó no lenço de pescoço e botas novas e brilhantes, inclina o chapéu. Os lances foram subindo rapidamente a partir desse momento. Dois homens se retiraram quando o lance passou de treze libras e outro ficou nos quinze. Sobrou Declan e o das botas novas. —Temos uma oferta de vinte libras —disse o leiloeiro.— Vinte libras pela potranca. Alguém dará vinte e dois? Declan assentiu. —Vinte e duas libras, cavalheiros. Alguém por vinte e três? O jovem olhou para Declan, enquanto elevava dois dedos para indicar que sim. Ele sorriu. Não ia permitir que um cavalo assim fosse parar nas mãos daquele almofadinha. Havia algo que o jovem não sabia: o que Declan mais odiava no mundo era perder. —Muito bem, então temos vinte e três libras —continuou o leiloeiro. — Alguém por vinte e cinco? Vinte e cinco libras era muito por aquele cavalo, mas Declan estava decidido. Assentiu. Alguém atrás dele murmurou animado e dois cavalheiros retornaram ao cercado para assistir o espetáculo. O jovem afetado olhou a potranca. Usava punhos de renda e a corrente de seu relógio brilhava de uma forma quase ofensiva. Parecia ter saído recentemente da alfaiataria para ir ao leilão. —Vinte e oito libras? Alguém oferece vinte e oito libras? — perguntou o leiloeiro. O janota olhou para Declan e este lhe dedicou um sorriso frio. O outro levantou ao nariz um lenço bordado com um monograma e negou com a cabeça. —Vendido ao cavalheiro por vinte e cinco libras. Declan sorriu e saudou o jovem levantando o chapéu. —Senhor, se permitir... —disse então um homem. 36


—Sim? —respondeu Declan e olhou ao recém-chegado. Era o administrador da propriedade, pequeno e magro, com aparência de homem de negócios. —Parabéns por vencer o leilão. Se permitir, à condessa gostaria de vê-lo no salão verde. —A condessa —repetiu Declan e imediatamente, enquanto colocava uma luva, imaginou a uma senhora de idade. — E por que isso, senhor...? —Senhor Fish —respondeu o outro com uma leve inclinação de cabeça. — Sou o agente da condessa. Não poderia dizer com certeza senhor, mas acredito que tem muito afeição por essa potranca. —Então não deveria tê-la colocado à venda —replicou ele tranquilamente e inclinou a cabeça para o leiloeiro quando esse passou a seu lado. — Mas fez e eu ganhei o leilão. O que mais terá a dizer? O senhor Fish, de nariz afiado e maçãs do rosto salientes, sorriu levemente. —Possivelmente deseja dar algum conselho para o cuidado da égua. Declan supôs que a condessa queria dar a ele, algo completamente diferente. Não era a primeira vez que uma dama o chamava a sua casa com algum pretexto. Não ido para ali para esse tipo de esporte, mas não deixaria de ser um homem. —É uma anciã? —perguntou, sem dar muita importância. —Anciã? —repetiu o senhor Fish, confuso. — Não senhor, é bastante jovem. —Bonita? Isso fez o outro homem se ruborizar. Ele levantou a mão fina, com que Declan supôs que jamais carregou algo mais pesado que um lápis, para o lenço do pescoço, enquanto pigarreava. —Se permitir, a condessa pediu que fosse ao salão verde para finalizar a venda. Ele sorriu com malícia.

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—E quem sou eu para dizer não a uma condessa? Sem dúvida irei senhor Fish. —Muito bem. Posso lhe dizer quem comprou a potranca? —Declan O’Conner, lorde Donnelly —respondeu ele e colocou a outra luva antes de olhar Fish. — Que entreguem o cavalo em Kitridge Lodge —indicou, e começou a caminhar para a casa. Ele imaginou encontrar uma mulher normal com um desejo físico normal. Mas não esperava a uma impostora. O fato não era evidente, porque a dama se comportava como correspondia a uma condessa. Não fazia nada que pudesse despertar uma clara suspeita, como se esquecer de levantar o mindinho ao beber o chá ou fazer uma medíocre reverencia, mas Declan sabia que era uma impostora, porque sempre conheceu Keira Hannigan e a jovem não era nenhuma condessa. Entretanto, parecia totalmente à vontade fingindo ser. Não tinha a mínima ideia do que ela estava fazendo na Inglaterra e menos ainda em uma vila como Hadley Green. A última vez que a viu, foi há vários meses se a memória não lhe falhasse, ele estava no condado de Galway —de onde ambos vieram— e Loman Maloney, cuja riqueza só era comparável a sua ambição, estava a cortejando com magistralmente. Keira era uma Hannigan, a filha de uma família católica irlandesa poderosa e influente, famosa por seus cavalos e por sua maneira de expor abertamente suas ideias políticas. A jovem era bonita de um jeito que Declan achava que só as mulheres irlandesas poderiam ser de cabelo negro, pele clara e olhos verdes brilhantes. Também era vivaz, como boa irlandesa, o que para ele significava que devia possuir um bom senso de aventura e uma língua engenhosa, inclusive às vezes afiada. O que achou particularmente irritante em Keira foi que esta não parecia absolutamente consternada, pelo fato de que tivesse descoberto sua

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farsa, naquele pacato vilarejo inglês. Muito pelo o contrário. Olhou-o com ousadia, como se acreditasse que ia desafiá-la abertamente. —Lady Ashwood, permita que eu apresente o lorde Donnelly — disse o senhor Fish. Após ter passado o momento de surpresa, Declan debateu consigo mesmo se ia desmascará-la, mas supôs que seria descoberto por si mesmo e que então receberia seu castigo. Enquanto isso, ele não tinha nenhuma intenção de deixar-se arrastar para seu jogo. Anos atrás deixou que isso lhe acontecesse, com consequências desastrosas. Agora estava ali para comprar um cavalo. Nada mais. —Boa tarde, milord — ela o cumprimentou. Sua voz se filtrou através da consciência de Declan e ficou no lugar reservado para o conhecido. Avançou na direção dele com uma saia de montar na cor verde, agitando sobre suas botas. Lançou um ridículo chapéu com uma borla dourada em um sofá ao passar na frente do mesmo. Caminhava como caminham sempre as mulheres bonitas: frágil, com um certo rebolado de quadris, uma coquete elevação do queixo e os olhos brilhantes. —Lorde Donnelly, lady Ashwood —completou o senhor Fish. —Lady Ashwood? — Se Declan tivesse rido não pareceria tão atônito. Ela sorriu com descaramento. —Lorde Donnelly ofereceu vinte e cinco libras pela potranca, senhora — informou o senhor Fish. —Uma soma respeitável —respondeu ela em tom amável. — Embora deva admitir que esperava que fosse vendida por um pouco mais. É um bom cavalo. Chá, milord? —Vinte e cinco libras é muito mais do que vale. E eu preferiria um whisky irlandês —replicou Declan com secura. —Que sorte! Não é que temos um pouco à mão. Senhor Fish? Enquanto o homem foi para a mesa das bebidas, Declan observou as dependências. O salão era tão impressionante como o restante da mansão georgiana. As paredes estavam cobertas de seda verde e creme, que 39


combinava com as pesadas cortinas. Os móveis eram de luxuosa tapeçaria; o tapete era grosso e o sol entrava pelos três pares de janelas que se elevavam até as molduras esculpidas do teto. Este estava pintado imitando um céu azul de verão, completado com nuvens, o sol e passarinhos gordinhos voando ao redor dele. Pousou então o olhar em Keira, que sorriu meio nervosa e petulante, enquanto o senhor Fish servia três whiskys. Ofereceu um a Keira, que criada como uma boa garota irlandesa, não tinha medo dessa bebida, a diferença das delicadas damas dos salões de Londres. —Lorde Donnelly —começou amigavelmente o senhor Fish, enquanto servia seu whisky —, sua reputação o precede, senhor. —Aparentemente, minha reputação é pintada somente para isso — respondeu Declan, olhando fixamente a Keira. Ela sorriu serena, tão bonita como um quadro e totalmente imperturbável. Uma mecha de cabelo estava enrolada em sua face, azeviche contra sua pele branca. O senhor Fish parecia confuso, pelo comentário, mas por ser um cavalheiro, continuou falando como se nada tivesse acontecido. —Estamos muito honrados de que, um homem com sua habilidade na criação de cavalos, se interesse pelos nossos. —Os nossos, de quem? —perguntou Declan. O senhor Fish uniu ainda mais as sobrancelhas, confuso. —De lady Ashwood, naturalmente. —E lady Ashwood tem intenção de estar conosco? —perguntou então, sem afastar os olhos de Keira. O senhor Fish piscou, confuso; Keira começou a rir e tirou o cacho errante, com um gesto inquieto. —Lorde Donnelly está usando seu humor irlandês afiado, senhor Fish. Poderia fazer a gentileza de nos desculpar um momento? Surpreso, o homem a olhou. Ela sorriu levemente e levantou seu copo de whisky. —Se nos fizer o favor... —insistiu. 40


—Naturalmente, senhora —respondeu o senhor Fish; mas parecia completamente perplexo, enquanto deixava seu copo e saía do salão. Quando a porta fechou atrás dele, Keira terminou com o whisky em um gole. —Não é o que você pensa —disse sem fôlego. —Não é o que eu penso? Acho que você está se fazendo passar por uma condessa inglesa, a menos que tenha se feito o casamento mais inesperado —replicou ele. —Não, Declan. Isso é Ashwood. —Sim..., e? —É de Lily! Você não ouviu? Ele não tinha nenhuma ideia, do que ela estava falando. —O que é de Lily? —Ela herdou Ashwood —explicou Keira. — Totalmente e sem trabalho. Não zombe de mim, você já sabia. Ele ouviu que as propriedades do velho conde de Ashwood passaram para uma única herdeira, mas que esta fosse Lily Boudine, jamais passou pela cabeça. Ignorava que tivesse alguma relação com Ashwood. —E como diabos eu poderia saber de algo assim? —perguntou com tom irritado. —Bom... —respondeu Keira, igualmente irritada, — ela veio de Ashwood. Todo mundo sabe. —Desculpe, mas eu não. Não tenho por costume estudar a árvore genealógica de Lily Boudine! Mas, o que eu acho mais interessante dessa conversa esclarecedora é que você não mencionou o fato de estar se passando por sua prima. —Não! —exclamou ela, enquanto lançava um olhar nervoso para a porta. — Você está mais ou menos errado! —Onde está Lily? —perguntou ele, cético. Keira suspirou. —Na Itália. —Está querendo dizer que, sua prima está na Itália e que você está a passeio por aqui se fazendo passar por ela? —Não estou a passeio! —replicou a jovem. — Garanto a você que evidentemente, não cheguei aqui com a intenção de fingir ser a condessa— 41


disse, mas Declan não viu nada evidente nisso. — Lily pediu que eu viesse e me encarregasse de tudo por ela, porque agora é a condessa. Sim, sim, estou vendo seu olhar de surpresa e acredite, quando eu digo que foi uma surpresa para todos, mas é verdade. Enquanto Lily viaja pela Itália com a senhora Canavan, eu vim para cá em seu lugar. Imagine meu espanto quando chego, todos acreditavam que eu era Lily, porque aparentemente somos parecidas, mais do que eu achava e, a verdade Declan, foram eles que acreditaram. —OH, posso imaginar —respondeu ele, cético. — O capeta tem rosto de anjo, Keira Hannigan. Ela franziu a testa, irritada. —Isso é o que você já ouviu dizer antes. —E repetirei novamente. —Não sabia o que pretendiam Keira e Lily. Certa vez, achou que Keira fosse bastante sensata, mas era difícil acreditar que em algum momento, Lily tivesse aceitado aquela fraude ridícula. — Que conspiração você desenvolveu para ambas? —Precisa usar a palavra «conspiração»? —protestou. —É muito simples: Lily havia se comprometido a acompanhar à senhora Canavan... Declan levantou uma sobrancelha. —E eu vim aqui, para cuidar de tudo até que ela retorne da Itália. Mas não imaginei que encontraria tudo nesse estado de caos! O velho conde morreu deixando Ashwood na ruína. Não pode imaginar as emergências... Como por exemplo, com essa pobre senhora Hannah Ou. Um monstro horrível estava tentando assumir seu arrendamento e incluí-lo em sua propriedade e a pobre anciã, estava a ponto de ser despejada da casa que sempre viveu, da casa que nasceu e criou seus três filhos. Naturalmente, tive que intervir. —Adotando a identidade de Lily? —perguntou ele, incrédulo. —Bom, não era o que eu pretendia, é claro —respondeu Keira com exasperação.—Mas era imprescindível que o dono legal da propriedade, a condessa, assinasse um documento proibindo a alteração ou a venda da 42


terra arrendada, ou caso contrário, a senhora Hannah Hough perderia tudo. Não tive escolha. Declan sabia que Keira era audaz, mas aquilo era incrível. —Por acaso, você não compreende que, o que está fazendo é ilegal? —Não é —rebateu ela. —Quando Lily vir a Ashwood vai resolver tudo. Afinal, ela pediu para que eu cuidasse de sua propriedade. Como prova, tenho a carta que diz que ela é a condessa. —Resolverá tudo? Às pessoas não gostam de ser enganadas. Seja o que for que Lily pediu a você e por muitas cartas que tenha—replicou ele com severidade e fez um gesto para que voltasse a encher seu copo, isso é tão típico de você, Keira... —continuou ele, zangado. — Primeiro agi e depois pensa. E não se importa com quem você prejudica. Ela arregalou os olhos verdes. OH, aqueles olhos! Eram a perdição dos homens. —Não está escutando —disse Keira, enquanto voltava a encher seu copo. — Havia muito a resolver, e assim estou fazendo por Lily, com muito afinco. Além disso, descobri algo tão assombroso que inclusive você, que é um homem desprovido de curiosidade, ia querer descobrir a verdade que está por trás disso. —Garanto que não —replicou ele e contemplou seus olhos brilhantes, enquanto bebia o whisky.— A propósito, o venerável senhor Brian Hannigan, sabe que sua filha está se fazendo passar por uma condessa inglesa? E onde está sua acompanhante? Sem dúvida, não a deixaria sozinha brincando de correr pela Inglaterra. —Isso não diz respeito à você. —O que quer dizer que ele não sabe —concluiu ele. —Por que, em nome de Deus, chamei você para vir aqui? — lamentou-se Keira e afastou-se dele, mas Declan segurou o pulso da mão que segurava a garrafa.

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—E o senhor Maloney? Será que ele sabe que, o objeto de seu apreço e da felicidade do seu futuro está perpetrando uma fraude como essa? Ela ruborizou em um tom vermelho muito atrativo. —O senhor Maloney está muito ocupado com seus próprios assuntos —respondeu, aparentemente ofendida. —O que quer dizer, suponho, que ele também acha que está na Itália. Ela encolheu os ombros e Declan negou com a cabeça. —Garota tola. —Soltou-a, enquanto percorria seu rosto com o olhar. —Darei a você vinte libras por essa potranca. Keira franziu as sobrancelhas. —O senhor Fish disse que você ofereceu vinte e cinco. —E tem razão —afirmou ele. — Mas isso era antes de eu saber o que você estava fazendo. Vinte libras. Ela jogou a cabeça para trás, totalmente consciente de que a estava olhando. —Não seja ridículo. —Quinze —disse então. Com a mão livre, colocou um cacho que caía em sua face atrás da orelha. Keira sorriu para ele com malícia. —Foi uma grande sorte que eu tenha vindo Declan. Pergunto a você quem estava cuidando dos assuntos de Lily? Ora, ninguém, ninguém absolutamente até minha chegada. Ele moveu a mão e desceu até o seu pescoço. —Deve estar muito contente ao pensar que, como Maloney e seu pai acham que está na Itália, não há ninguém para vigiá-la, não é? —Sorriu diante essa ideia. — É como casar, só que sem bodas. As brancas faces da jovem avermelharam, ainda mais. —Eu jamais faria isso, senhor. O sorriso dele desapareceu. Baixou a cabeça e seus lábios ficaram a um só milímetro dos dela. —Nenhuma vez, Keira? —perguntou a ela, em um sussurro. Os olhos dela cintilaram com fúria. —Se afaste. Declan não se afastou. 44


—Há um velho provérbio que diz que, se jogar com fogo pode se queimar. Keira abriu ligeiramente os lábios e seu olhar caiu na boca dele. Alguma coisa se agitou dentro de Declan. —Não quero seus conselhos, milord —disse com voz suave. — Quero sua ajuda. Ele olhou sua boca e se imaginou roçando aqueles lábios carnudos. —Está louca —replicou em voz baixa.—Não quero ajudá-la. Quero entregar você às autoridades inglesas. —Mas não vai. Porque isso prejudicaria a Lily. Seja qual for sua opinião por mim, sei que você a aprecia. Não podia negar. Lily foi a única pessoa que tinha falado em seu favor, em um momento particularmente difícil de sua vida e estava incomodado por Keira usar precisamente isso, para comprar seu silêncio. Era muito corajosa, muito provocadora. Segurou o queixo dela e a fez jogar a cabeça para trás. —Por que é que sempre consegue me irritar? —Nesse momento, é você que está me irritando. —Sua boca estava bem debaixo da dele. Keira esperava que a beijasse; Declan podia ler em seus olhos estreitados. —Quinze libras. —Não estou muito convencida de querer vender essa égua, depois de você ter se comportado tão mal —disse ela esboçando um tentador sorriso. —Pensa que se não vender isso, não direi a todo mundo quem é? Ou, melhor dizendo, quem não é. —Não está à venda —insistiu a jovem. Assim era Keira Hannigan, muito segura de si mesma, para seu próprio bem. Além de sua beleza, o descaramento de sua farsa irritava Declan até a ponto de ter medo sua própria reação. Mas pensou em Lily, pelo visto a nova condessa de Ashwood que em outro tempo foi sua única amiga.

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—Não brinque comigo, Keira —resmungou. — Não tente amarrarme em alguns dos seus truques. E desta vez, não espere que guarde seus segredos. Com um último olhar quente em sua boca, Declan se afastou dela e partiu daquele salão, que não era dele.

CAPÍTULO 03 O senhor Fish entrou pela porta que Declan deixou aberta; em seu magro rosto refletia a preocupação. —Tudo em ordem, senhora? —Sim, claro! —respondeu Keira como se estranhasse a pergunta. —Tudo está bem, senhor Fish. Mas não estava. Tinha armado uma boa confusão em Ashwood. É verdade, que jamais teve a intenção de fazer-se passar pela condessa de Ashwood, mas assim foram as coisas e tudo era tão complicado que, na 46


verdade, sentiu-se muito aliviada em ver um rosto conhecido. Além da surpresa. Santo Deus ficou paralisada, quando viu Declan no cercado. Ficou tão surpresa que o coração quase parou e foi por um milagre que não desmaiou. Mas não podia descer do cercado e apresentar-se para ele sem correr o risco de ser descoberta, chamada por seu nome ou acusada em público de representação. Mandou chamá-lo e rezou para que pudessem ficar a sós um momento, antes que Declan dissesse alguma coisa inadequada diante o senhor Fish. Declan O’Conner, lorde Donnelly de Ballynaheath, era o homem mais atraente, mais sedutor e mais desejado que Keira havia conhecido. Não achava possível, mas ele pareceu ainda mais atraente quando entrou no salão, carregado de confiança em si mesmo, com o cheiro dos cavalos na roupa, com lama em suas botas e o cabelo comprido até o pescoço da camisa. Um cabelo castanho e espesso que pedia a gritos as carícias de uma mulher. Seus impressionantes olhos azuis pareciam cravar-se nela. Seus lábios davam a água na boca e imaginava suas mãos grandes e fortes, acariciando sua pele. Keira teve que fazer um grande esforço ao permanecer tão perto dele, sentir sua mão na pele, sua boca só a alguns milímetros de distância e não tocá-lo. Mas não fez. Sabia que era melhor não tocar em um homem como Declan O’Conner. Um homem tão viril só poderia trazer problemas. Havia descoberto já algum tempo. Declan era impressionante e por um tempo Keira teve um pouco de medo dele. Sempre o consideraram louco, inclusive para o condado de Galway. Quando montava a cavalo, cavalgava nele como se fosse imortal, sem nenhum medo de quebrar o pescoço. «A única maneira de conhecer de verdade um cavalo é lhe dar rédea solta —disse uma vez durante um piquenique. — “Se tiver medo pela vida no lombo de um e não soltares as rédeas, não pode chegar a ver a onde ele é capaz de ir.» 47


Naquele tempo, Keira o considerava muito pedante e ignorou suas fanfarronices. Mas depois, quando ela subiu em um cavalo quase selvagem e quando a tinha arremessado, sequer se incomodou em ajudá-la a levantarse. Por sorte, dois cavalheiros se apressaram a socorrê-la. —Teve a oferta de vinte e cinco libras —disse o senhor Fish, inquieto e fazendo-a voltar para o presente. — Cobre sua dívida, não é? Aquilo não parecia bem. Keira sorriu. —Não vendi para ele a égua, senhor Fish. —Como? —O homem parecia confuso. —Não entendo. Ofereceu vinte e cinco libras por ela. —Não quero vender para ele —respondeu Keira. — Tem uma aparência sombria, não acha? «Sedutoramente sombrio.» —Sombrio? —Má reputação. —É um conde, lady Ashwood... —O senhor Fish pareceu ainda mais confuso. —Estou muito consciente disso —interrompeu ela, —mas não quero vender para ele. E o restante do leilão, senhor Fish? Como foi para nós? O homem apertou os lábios, onde Keira supôs que devia ser um esforço supremo para não discutir. —Por desgraça, não tão bom como esperávamos. Recebemos ofertas por um valor total de trinta e duas libras. A venda da potranca era..., era crucial para nossas necessidades. Ela sentiu um calor repentino na nuca e na cabeça, mas se obrigou a sorrir. —Não importa! —respondeu, animada. — Quando arrumarmos o moinho, obteremos mais dinheiro do que se necessita para fazer funcionar Ashwood, não é certo? Foi sua ideia de reconstruir o moinho, que a mais de décadas estava sem ser usado, para conseguir os recursos que a propriedade necessitava para cobrir seus gastos. A dura realidade, é que depois de dois verões de seca fez com que, muitos dos arrendatários se atrasassem no pagamento 48


dos aluguéis. E como resultado, Ashwood a propriedade famosa por seu luxo, sofria uma grave falta de capital para continuar funcionando com normalidade e mais ainda, para realizar as contínuas reparações e renovações que uma mansão desse tamanho precisava. O senhor Fish propôs vender os cavalos que não necessitavam. Keira achava que precisavam um plano mais abrangente e ousado se queriam sobreviver. Quem dera soubesse o que fazer. O senhor Fish não esteve a favor de reabrir o moinho. —Foi fechado justamente porque era necessário mais dinheiro para fazê-lo funcionar de que gerava —explicou na primeira vez que ela sugeriu. —Mas isso foi, quando só era usado para Ashwood. Imagine se permitirmos que todo West Sussex, e mais além, qualquer um que necessite de um bom moinho usar em troca de pagamento —insistiu Keira. — Poderíamos acrescentar um celeiro, onde pudéssemos armazenar o grão. —Senhora, o que você sugere é dedicar-se a um negócio — respondeu o homem com um tom que indicava sua desaprovação; como o que ela sugeria o condenasse para o inferno. A nobreza inglesa era muito reservada nesse assunto, pensou Keira. Como se dedicar a um negócio degradasse uma pessoa. —Nos dedicaremos a nossa sobrevivência —replicou e finalmente, o senhor Fish convencido pela condessa, cedeu. Nesse dia, o homem parecia terrivelmente decepcionado com ela e Keira não podia culpá-lo. Vinte e cinco libras seriam bem vindas para várias despesas, como velas, azeite e salários. —Não fique desanimado—disse alegremente. — Temos outras alternativas, senhor Fish. No entanto, agora se desculpar-me. Estão esperando-me no orfanato. As magras faces do senhor Fish se ruborizaram. Os planos do pobre homem, para endireitar o escorado barco de Ashwood foram alterados novamente. 49


Tampouco era de grande ajuda, que Keira realmente não tivesse nenhuma ideia do que estava fazendo, mesmo com alguém tão competente como o senhor Fish para guiá-la. Naturalmente, seu pai nunca a consultou sobre suas decisões em Lisdoon. OH! Caiu em um terreno de areias movediças e se afundava nele com rapidez. Estava furiosa consigo mesma, por ter perdido a venda da potranca. Apressou-se espirituosa pelo corredor, diante aos retratos e vasos Ming colocados sobre consoles de madeira polida e cheios de flores da estufa. Queria fugir da dupla encenação exibida no salão; fez uma educada inclinação de cabeça a dois lacaios e sorriu à donzela, que se apressou a afastar-se de seu caminho. Subiu por um lado da majestosa escada dupla curvada e caminhou apressadamente pelo corredor até seus quartos. No santuário de suas acomodações particulares, de paredes rosa e brancos e alegres estampados florais nos estofados e cortinas, Keira se deixou cair na cadeira de sua penteadeira e esfregou a testa. Percebeu uma ligeira dor atrás dos olhos, o que ultimamente não era estranho, com toda a farsa que precisava manter. Muito bem, de acordo, podia considerar-se culpada de alguns deslizes morais em sua vida, e quem não? Mas aquilo... Aquilo ultrapassou o jeito, em que as coisas estavam acostumadas a acontecer com ela. Aconteceu exatamente o que tinha explicado a Declan: ao chegar em Ashwood com a carta do senhor Fish, sua semelhança com Lily foi suficiente para que, depois de quinze anos o velho mordomo, o senhor Linford, desse como certo que ela era sua prima. Keira tentou corrigi-lo, mas o homem era surdo ou teimoso (ainda não sabia com certeza o que) e insistiu que ela era a condessa e então todo mundo começou a adulá-la e pareciam realmente felizes de que tivesse retornado, E..., e imediatamente, naquela mesma tarde, apresentaram o problema da senhora Hannah Hough e, além disso, o senhor Fish precisava de sua assinatura como condessa para pagar os salários. Sinceramente, 50


Keira se viu tão sobrecarregada que não sabia o que fazer. Só havia entendido que aquela pobre gente precisava receber e que a vida da senhora Hannah Hough dependia de Lily. —Está dizendo que só lady Ashwood pode deter isso? —tinha perguntado com muito cuidado, naquela tarde fatídica. —Sim, senhora. Só você! Por acaso não entende por que estamos tão aliviados com sua chegada? A pobre gente que dependia de Ashwood para sua subsistência necessitava que Lily estivesse ali. Naquele momento, Keira achou prudente sua decisão de assinar com o nome de Lily. Tinha raciocinado que contava com sua aprovação e, na verdade, sua prima pediu para que se encarregasse de seus negócios. Não teve nenhuma outra saída para salvar a senhora Hannah Hough. E antes de perceber, Keira era «a condessa». Em retrospecto, possivelmente não foi o mais prudente. A mentira parecia estar crescendo dia após dia. Keira ainda acreditava que Lily chegaria e que juntas, explicariam a todo mundo o que ela fez em seu nome. Mas então tinha que aparecer Declan O’Conner. Aquele homem era tão irritante como atraente. E pensar que, certo tempo atrás, achou que estava apaixonada por ele! Tudo bem, que nessa época era uma garota, mas mesmo assim! E sim, entre eles rondava o horrível fantasma do que aconteceu com eles, um evento tão horroroso que, inclusive oito anos depois, sentia-se doente quando lembrava. Mas também lembrava alguma coisa mais naquele dia. Lembrava de Declan. Vividamente. Dolorosamente. E essa lembrança a levava a fazer coisas ridículas, como negar a aceitar seu dinheiro por um cavalo. Aconteceu em um desses dias extraordinariamente brilhantes, junto a um mar tranquilo na Irlanda, quando o sol brilhava dourado e prata sobre a superfície da água. Eireanne O’Conner havia convidado a vários amigos e conhecidos para um piquenique na propriedade familiar de Ballynaheath, o tipo de evento onde os criados precisavam carregar longos assentos e mesas 51


até alguma colina de difícil acesso, levantar grandes tendas para que as damas se refugiarem debaixo e depois ficavam ali, para que não faltasse nenhum mirtilo aos poucos privilegiados do condado de Galway. Eireanne programava esses piqueniques, porque não havia muito com que ocupar-se. Seu irmão e guardião passava a maior parte do tempo longe de Ballynaheath e a deixava aos cuidados de sua avó, quem, embora fosse uma alma encantadora, começava a envelhecer e frequentemente saía com as outras viúvas e esquecia-se de sua neta. No entanto, para Eireanne não faltava nada. Declan sempre lhe deu tudo o que queria. Certa vez, o pai de Keira disse que ele precisava aliviar seu sentimento de culpa. Keira nunca entendeu o que ele quis dizer com isso. Quando Declan estava em Ballynaheath, todo mundo ficava sabendo. Sempre aparecia em Galway, quando o sol brilhava forte, excessivamente intenso para aquela terra. Quase dava para perceber a corrente de excitação que arrastava com ele, iluminado pelas corridas de cavalos e por um fim de semana de jogo em Ballynaheath. Geralmente, não comparecia aos piqueniques de Eireanne. Ela dizia que eram muito tranquilos para seu irmão. Naquele dia, não o tinha visto por nenhuma parte e Keira lembrava que isso a deixou decepcionada. O local, no alto da colina, era espetacular, com uma maravilhosa vista para o mar. Vasos de flores silvestres enfeitavam as imaculadas toalhas brancas que cobriam as mesas. No topo das tendas penduravam fitas e mais floresça. Prepararam uma pista para jogar boliche e os cavalheiros tiravam as jaquetas e os lenços do pescoço, enquanto jogavam. De Connemara trouxeram um flautista e um violinista. Para aquele dia, Keira, Lily e Eve, amiga de Keira, tinham traçado um plano. Planejaram um dia antes, enquanto as três passeavam até um pequeno lago atrás de Lisdoon, o lugar onde os Hannigan residiam há duzentos anos. Levaram uma cesta de piquenique e três varas de pescar. 52


Lançaram a linha sem prestar muita atenção e logo se esqueceram das varas e ficaram conversando e fofocando. Começaram a idealizar o plano quando Eve confessou seu interesse pelo senhor Brendan, um homem alto, de cabelo avermelhado, que a pouco havia se instalado no condado. Ninguém parecia conhecê-lo muito bem, exceto a velha senhora Russell. Foi ela quem o apresentou, inclusive deu um jantar em sua homenagem. Nesse jantar, o senhor Brendan contou que tinha ido ao condado de Galway, desde Clare, para vender a propriedade de sua falecida mãe e que, quando tivesse sua herança na mão, pretendia viajar para a América e fazer fortuna. Partir para a América para fazer fortuna soava como algo muito romântico, especialmente para Eve, que acreditava estar muito apaixonada por ele. Não parava de falar do homem, da elegante maneira que inclinava a cabeça para falar, de seus atraentes lábios. Keira entendia muito bem Eve, porque ela o achava bem parecido com Declan. Sabia que era imprudente, porque esse era maluco e tinha sete anos a mais dos dezesseis de Keira, mas mesmo assim, ela sempre se sentiu perigosamente atraída. Teve sorte de dançar com ele na festa do aniversário de Eireanne, na primavera anterior e Declan a tinha observado com seus impressionantes olhos azuis e disse que algum dia enlouqueceria aos homens. Nesse mesmo outono, cavalgaram juntos em uma caçada e disse que ela era uma excelente amazona. É verdade, que tiveram um desconfortável encontro em Lisdoon nesse mesmo verão, quando Declan chegou à casa de Keira com Eireanne e ambos tinham desaparecido com o pai de Keira no escritório deste. Chamaram Keira no escritório uma hora depois. Eireanne estava sentada no sofá, com as mãos no colo e com a cabeça para baixo. Seu pai estava de pé atrás da mesa e Declan plantado em frente as janelas, com os braços cruzados e com uma expressão sombria.

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—Keira Rose Hannigan, convenceu à senhorita O’Conner para que fosse a Galway com o propósito de se encontrar com dois cavalheiros? — havia perguntado seu pai. Keira olhou um momento para Eireanne, enquanto começava a queimar as faces. —Fomos..., fomos comprar luvas, papai —gaguejou. —E não almoçaram em Lough Tarry Tarvern, com dois cavalheiros? —E com a senhora Flannery! —exclamou Keira, achando que não a poderiam culpar por ter aceitado a participar de um almoço, que foi organizado pela senhora Flannery. Que não tivesse explicado exatamente a seus pais seu paradeiro durante esse dia, não parecia nenhum delito. Sempre foi aventureira e procurava novas experiências sem pensar, quando podia fazê-lo assim, no decoro. Entretanto, seu pai e Declan se zangaram muito com ela. Outra vez, Keira encontrou Declan beijando uma mulher. Tinha cavalgado até Ballynaheath e os viu os dois atrás do estábulo. Ficou muito fascinada para afastar-se e Declan a viu. Ele a acusou de espionar. Ela alegou que foi um acidente. Keira jamais conseguiu esquecer aquela imagem, nem o curioso e peculiar calor que sentiu ao imaginar Declan beijando-a. Na verdade, era nesse beijo que estava pensando na tarde que foi pescar com Lily e Eve. Deitada em um tapete de grama à beira do rio, com os tornozelos cruzados e as mãos debaixo da cabeça, escutava Eve sonhar com o senhor Brendan, enquanto imaginava Declan beijando-a. —Ama ele? —perguntou Lily para Eve que era uma moça pequena, de cabelos castanhos claros, que parecia muito jovem para seus dezesseis anos. —Sim —respondeu ela com uma risada tola. —Então deve dizer isso para ele, antes que embarque —interveio Keira impulsivamente, enquanto imaginava a si mesmo confessando seu

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amor para Declan. Imaginou como ele a devoraria com o olhar, como a beijaria. Entretanto, Lily não estava muito de acordo com a ideia de Keira. —Uma dama jamais declara seus sentimentos a um cavalheiro, até saber o que ele sente. —Parece a mamãe —replicou Keira, desdenhosa. Sua mãe sempre dizia o que deviam pensar e como deviam agir. —E por que não? Possivelmente ele sinta o mesmo, mas teme dizer por medo de não ser correspondido. E, além disso, os cavalheiros se sentem muito lisonjeados quando as damas os apreciam. Eve, isso faria com que a apreciasse mais. —Mas se viaja para a América —tinha comentado a garota. —Sim, mas se souber que o ama, enviará alguém para buscá-la quando ficar rico. Eve havia ficado boquiaberta, diante essa possibilidade e Lily franziu a testa pensativa. —E se a rejeitar —continuou Keira com muita autoridade, —não terá que suportar a humilhação... porque terá embarcado rumo à América. Isso fez Eve se ruborizar. —Jamais —disse calmamente. Mas, enquanto a tarde ia passando, a ideia de que Eve devia declarar seus sentimentos ao senhor Brendan foi ficando imperativa. As três garotas retornaram a Lisdoon e juntas escreveram uma carta para o senhor Brendan, pedindo que se encontrasse com Eve na praia no dia seguinte. Terminaram a carta dizendo que Eve tinha «uma coisa muito preciosa» para dar ao senhor Brendan, antes que embarcasse. Essa coisa preciosa era uma mecha de seu cabelo, algo que às garotas achavam terrivelmente romântico. As varas de pescar ficaram esquecidas no lago. Mandaram um rapaz para entregar a carta na casa da senhora Russell, onde devia esperar uma resposta do senhor Brendan. Trancaram-se no quarto de Keira, especialmente para manter afastadas às gêmeas, e caminhavam para um lado e outro, muito inquietas. O rapaz retornou com uma sucinta nota do senhor Brendan: «Sim».

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Essa foi toda a resposta do senhor Brendan, mas o suficiente para arrancar gritos tão altos das três moças, que Molly chutou a porta frustrada, pedindo que a deixassem entrar. Na tarde seguinte, Keira, Lily e Eve deixaram a pista de boliche e as tendas do piquenique para irem ao escarpado frente ao mar. Ninguém suspeitou nada das três garotas, que foram recolher flores silvestres. Elas seguiram o atalho do rio, atravessaram um antigo bosque de carvalhos, passaram pelos prados cobertos com as últimas flores de verão e seguiram pelos ventosos paramos. Quando chegaram ao escarpado, onde seus caminhos se separariam, Eve sorriu para elas nervosa e deu uma volta mais com seu melhor vestido de musselina para que dessem suas aprovações. Enquanto entrava no atalho que descia à praia, onde encontraria seu amado, Keira a tinha invejado por sua aventura. Para ela era um jogo, uma diversão de um dia do verão, um sonho de amor infantil. Keira e Lily ficaram passeando pelo alto do escarpado, olhando o mar, recolhendo flores e discutindo sobre onde estava um colar de ouro que ambas desejavam. Quando passou uma hora, viram que Eve não retornava, Lily começou a preocupar-se. Keira pensou que a garota e o senhor Brendan, depois de terem declarado seu amor, não encontravam o momento de separar-se. Lily a convenceu de que deviam descer à praia e dar uma olhada. Keira se aproximaria até a boca do rio, no caso de Eve ter passado por cima do desvio para o escarpado e Lily iria à praia. Encontraram-se no cruzamento dos caminhos, no alto do escarpado. Keira seguiu o caminho sinuoso para descer no vale onde o rio corria a juntar-se com o mar. Não esperava encontrar ninguém, e menos Declan, seu coração, seu tolo jovem coração, acelerou quando viu o homem lá no prado e percebeu que era ele. O destino. Tinha que ser o destino. Com que clareza lembrava aquele dia! Naturalmente, Declan estava exercitando seu cavalo. O animal ia a um trote rápido, com ritmo contínuo e fácil, com ele montado em cima. Suas coxas, fortes depois de 56


anos de equitação, estavam tensas sob as calças para poder controlar a velocidade do galope com as rédeas e o corpo. Keira o viu majestoso, um exemplo excepcional da força masculina e seu coração começou a bater com força. Pensou em Eve beijando o senhor Brendan, pensou em quanto ansiava sentir as mãos de Declan e sua boca sobre sua pele, e o desejo a lançou para o prado. Declan a viu, enquanto fazia o cavalo formar um grande círculo. Olhou-a com curiosidade, como se fosse algo incompatível com a paisagem. Seu profundo olhar azul foi além dela, para o atalho, procurando as outras pessoas, enquanto detinha seu cavalo. —Keira? —disse, com uma ligeira expressão de preocupação. Só por ouvir seu nome nos lábios dele, seu corpo latejou de desejo. Imediatamente

e

de

forma

irremediável,

sentiu-se

perdidamente

apaixonada. Continuou avançando até ficar a dois palmos do cavalo. Declan desmontou e tirou o chapéu, logo passou as mãos pelo cabelo, da cor das folhas de carvalho no outono, salpicado com tons mel. —Está tudo bem? —perguntou. — Alguém me mandou procurar? Ela negou com a cabeça. Parecia tão majestoso, tão bonito com sua jaqueta de montar, que se agarrava em seus ombros largos... Passava-lhe um bom palmo. Estava tão perto dele que podia ver a sombra da barba e imaginar a sensação que causaria sobre a pele. —Onde estão suas amigas? —inquiriu ele, olhando para o atalho. Keira não respondeu. Acariciou o focinho do cavalo. —É muito formoso —disse. Declan a observou por um momento com curiosidade, depois voltou a olhar para caminho como se esperasse que aparecesse alguém e o resgatasse. —Por que não está no piquenique, moça? Ela encolheu os ombros e o olhou de esguelha. —Não posso dizer o por que. —Não pode? —Bom... não. É um segredo. —Ah, sim? —respondeu ele arrastando as palavras, em dúvida. — E esse segredo tem algo a ver com Eireanne? 57


—Não —respondeu Keira, sorrindo. — Ela está no piquenique, claro. —aproximou-se mais de Declan e acariciou o pescoço do cavalo. — Como se chama? —Fiddler. —Observou-a durante um momento e ela se perguntou o que via ao olhá-la. Acha que eu bonita? Pensaria em beijá-la? Ou percorrer o corpo com seus lábios? — Onde estão suas amigas, Keira? E suas irmãs? Não deveria estar por aqui sozinha. Nunca se sabe quem poderá encontrar escondido nesses campos. —Você é o único que encontrei escondido— respondeu, sorrindo. Ele estreitou os olhos, desconfiado, mas a comissura de sua boca perfeita se curvou um pouco parecendo um sorriso preguiçoso. —Keira Hannigan —resmungou, enquanto afundava o olhar em seu decote. — Sempre se colocando em confusões. Suponho que o que dizem é certo: o diabo tem rosto de anjo. O coração de Keira acelerou a toda velocidade! O cavalo relinchou e levantou a cabeça. Declan passou a mão por trás dela para segurar a crina do animal e acalmá-lo. —Tranquilo —lhe disse, mas com os olhos em Keira. — Onde estão suas amigas? —Ocupadas. Percorreu com o olhar seu corpo. —Volta para elas. —Afastou-se e se dispôs a montar novamente. Um violento rubor inundou Keira, uma sensação suave e quente que achou muito agradável. Pensou em Eve e no senhor Brendan abraçando-se. Pensou na boca de Declan, suave sobre a sua e impulsivamente, colocou a mão sobre a dele. O sorriso de Declan se desvaneceu um pouco. Olhou para mão de Keira e foi para trás. —Volte para o piquenique ou vai para casa, não me importa. Mas não deve ficar aqui. Ela sorriu provocadora, como tinha visto sua mãe sorrir para seu pai. — Você tem medo de mim? 58


O olhar dele foi escurecendo, enquanto percorria seu corpo. —É uma garota descuidada e tola. Não tem ideia, de como pode ser perigoso flertar com uma garota tão bonita como você? Tome cuidado, Keira. «Considera-me bonita.» Ela se aproximou mais. —Não estou correndo nenhum perigo, certo? Uma mecha grossa de cabelo castanho escuro caiu sobre a testa de Declan, que levantou o olhar até a boca de Keira, enquanto ela soltava o fôlego, que não sabia que estava contendo. —Não tem ideia alguma do que está fazendo —disse ele com suavidade. — Volte para casa. —Não quero ir para casa. Surpreendeu-a pegando-a pela cintura e aproximando dele. O cavalo relinchou e se separou deles... Pelos menos foi isso pareceu a Keira. Seu olhar estava cravado no de Declan e em seus olhos viu um gelado oceano azul. Nunca conseguiu esquecer a sensação de sua mão na cintura. Ele inclinou a cabeça e seus lábios ficaram quase sobre os seus. —Pense sobre o que está fazendo. Direi mais uma vez: volte para casa. Keira logo que pode respirar. Jogou a cabeça para trás para poder olhá-lo nos olhos. —Não. Se isso o surpreendeu, Declan não deu nenhuma amostra. Percorreu-lhe o rosto com os olhos e inclinou a cabeça para um lado para olhar além dela. —Suas amigas estão olhando das árvores? É algum tipo de brincadeira? Algum tipo de plano? Sua voz era baixa e suave, avivando o que fosse que Keira estava sentindo. Paixão. Poder. Desejo. —Você tem uma opinião muito ruim de mim — disse ela. — Estão muito ocupadas, pode acreditar. Prometo não dizer a ninguém que o encontrei aqui, se você prometer isso também.

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Ele sorriu duvidando e acariciou o queixo com seus nódulos. Keira conteve um gritinho. —Onde estão? —murmurou. —Não posso contar. Confia em mim. —Confiar. —Declan soltou uma risada. — Não confio em você absolutamente. Passou a mão em seu seio e ela sentiu que poderia levitar a qualquer momento, flutuar sobre os prados levada pela velocidade dos batimentos do seu coração. Ele inclinou a cabeça e aproximou a boca da sua orelha para sussurrar. —Um pequeno conselho, moça. Não provoque um homem adulto, porque frequentemente seu apetite é mais forte que sua vontade. Imediatamente, Keira pensou como seria forte a vontade de Declan; a sua era incrivelmente fraca nesse momento. Sentia-se arrastada para ele, arrastada para o perigo e não conseguia lutar contra o que estava crescendo dentro dela. Assim não fez caso da advertência, ficou nas pontas dos pés e lhe roçou os lábios com os seus. Depois ficou ali, levada por uma sensação tão eletrizante que teve medo que os joelhos não a sustentassem. «Eu fiz. Beijei Declan O’Conner.» Mas se achou que Declan a devolveria um educado beijo, enganouse e muito. Como se fosse normal, ele foi riscando com a língua um lento e sensual caminho pela borda de seus lábios. Quando Keira lançou um grito afogado diante a intensa sensação, aproveitou para colocar a língua em sua boca e a segurou com mais força. Foi mais sensual e decadente beijo que Keira poderia ter imaginado. O calor explodiu pode dentro e se estendeu do centro para as extremidades, subindo pelo pescoço e fazendo cócegas em sua cabeça. Declan segurou o queixo e a fez inclinar a cabeça para a direita, enquanto aprofundava o beijo. A única coisa que a sustentava era o braço dele. Suas pernas tinham perdido toda sua força e os braços pendurados aos lados. E de repente, muito de repente, Declan afastou a cabeça. 60


—Maldita seja —resmungou; soltou-a e se afastou passando a mão pelo cabelo. Enquanto, Keira tratava de recuperar o fôlego, ele se inclinou e recolheu o chapéu. Logo se virou para ela e a percorreu com um olhar ardente. —Keira Hannigan é um perigo para qualquer homem. Vai já. Volta com suas amigas ou faz o que queira, mas se afaste de mim. Ela viu como a olhava, o brilho de desejo em seus olhos e pela primeira vez, em sua jovem vida, compreendeu o poder que uma mulher tinha sobre um homem. —Vai! —ordenou ele, cortante. —Não deve dizer a ninguém que estive aqui —disse Keira sem fôlego, com o coração ainda pulsando como louco pela excitação. — Prometa que não dirá que me viu. Isso ganhou um olhar turvo e acusador de Declan. —O que está escondendo? —Nada, juro! —Você pode ter certeza, de que não direi sequer a uma maldita alma —replicou ele e saltou sobre o cavalo. Não a olhou, enquanto o esporeava. O coração de Keira continuava acelerado dentro do peito, mas se virou e correu em direção oposta, em busca de Lily e Eve. Mas essa última, não retornou de seu encontro com o senhor Brendam. Acharam ela horas depois, com o rosto machucado e com o vestido ensanguentado. Alguns dias depois, Eve pulou no mar do escarpado, terminado com sua vida e sua vergonha. Mesmo, depois de tantos anos, Keira não conseguia pensar nesse dia sem sentir-se afligida pela culpa, pelo remorso e tristeza. Sua decepção então, como atualmente, por muito inocente que ela fosse, tinha crescido vertiginosamente. Dessa vez, estava assinando papéis que deveriam ter sido assinados fazia tempo, cumprindo com obrigações que deveria deixar para Lily e enfrentar outro assunto nada insignificante: acreditava que o homem que Lily acusou de roubar as joias da tia Althea e ao que tinham enforcado, 61


não era culpado absolutamente. Estava totalmente convencida de sua inocência. E, se isso for verdadeiro, tinha medo do que Lily pudesse fazer ao saber da verdade. A morte de Eve quase a destroçou e Keira estava certa, de que ao saber que foi responsável pela morte de um homem inocente acabaria com sua prima. Uma batida na porta devolveu Keira ao presente. —Entre —disse. —Com sua permissão, senhora —disse Betts sua donzela, enquanto entrava.— Lençóis limpos. —Obrigada —respondeu Keira. Sacudiu a cabeça e ficou em pé, sorrindo para Betts. — Como ficou o vestido que dei? —perguntou para dizer alguma coisa, enquanto colocava as luvas. A jovem se ruborizou. —Um pouco grande no corpo, senhorita, mas minha irmã tem boa mão com o fio e a agulha. Na verdade está com ciúmes...; é muito bonito. —Fico feliz que tenha gostado —disse ela. —Diga a sua irmã que poderá ter o próximo que eu não use. —Deu uma piscada de olhos quando Betts saia. No vestíbulo, o mordomo entregou o chapéu e um xale leve. —Muito obrigada, Linford —disse alegremente. — Acha que choverá? —Meu joelho diz que sim, sem dúvida, senhora —respondeu o homem, com uma reverência. —Bem! Deus sabe a falta que nos faz. —colocou o chapéu, amarrou as fitas azuis debaixo do queixo e foi para a porta. Louis o lacaio, a abriu. — OH! As bolachas... —Na carruagem, senhora —disse o lacaio. Sorriu para ele agradecida. —O que eu faria sem você, Louis? Muito obrigada. Continuou o caminho e saudou Paul, o chofer chefe. —Bom dia, senhora —respondeu ele alegremente. —O joelho de Linford disse que choverá, Paul — disse ela. —Então me alegro de estar com a Agnes — respondeu o homem, puxando as rédeas de uma égua. — É a melhor que já vi na lama. 62


Keira riu e permitiu que Louis a ajudasse a subir à carruagem. Esse começou a avançar entre as fileiras de olmos que ladeavam o caminho, à frente dos verdes campos onde as vacas e as ovelhas pastavam. Viraram para outro caminho onde os pássaros se aninhavam no alto das ruínas de pedras de um antigo edifício. Passaram em frente a outros campos, onde trabalhavam os arrendatários, que pararam para tirar o chapéu e saudá-la. Quando chegaram ao povoado de Hadley Green, um bando de crianças se aproximaram da carruagem, correndo ao lado deles e chamando Keira. Quando a carruagem reduziu a velocidade para permitir a passagem de um homem e sua vaca leiteira, Keira abriu sua bolsa, tirou algumas moedas e jogou pela janela. As crianças se lançaram pelas moedas e um menino que colocou a cabeça antes dos outros se ergueu primeiro, com o punho fechado ao redor de uma moeda. —Henry Beedle, dessa vez deve compartilhar com seu irmão! — gritou Keira, enquanto a carruagem voltava a avançar. —Sim, senhora! —respondeu o menino, sorrindo. OH, esse vai ser um grande galã. Ela saudou com a mão as crianças, enquanto a carruagem seguia seu caminho. Em frente às grades do orfanato de St. Bartholomew a esperava a irmã Rosens, a diretora. Keira gostava dessa mulher. Era alta, de idade madura e estava há muitos anos, em St. Bartholomew. Era evidente, que se preocupava com seus tutelados e que sempre tentava melhorar sua sorte. De fato, foi ela quem a apresentou a Lucy Taft. Imediatamente, Keira se afeiçoo a menina de nove anos. A irmã Rosens havia contado que Lucy era filha do farmacêutico, que infelizmente morreu ao queimar-se, enquanto preparava um tipo de tintura combustível. Sua mãe morreu pouco depois (alguns diziam que foi de tristeza, outros que pelo peso das dívidas), os prestamistas levaram os pertences da família e a Lucy deixaram no orfanato. Era uma menina muito doce e a irmã Rosens acreditava que podiam educá-la para que tivesse uma melhor posição na vida. Keira e a 63


religiosa combinaram que Lucy iria para Ashwood, onde Keira a educaria pessoalmente para que pudesse ser ama das chaves ou ter alguma outra ocupação adequada. Assim que a menina acabasse seus estudos na escola, iria com ela à mansão. —Como vai, irmã Rosens? —Keira saudou-a alegremente, enquanto descia da carruagem com a caixa de bolachas na mão. —Muito bem, obrigada, sua senhoria. Voltou a trazer bolachas! Vai acostumar mal as crianças — acrescentou, olhando a caixa. Keira a abriu e sorriu, enquanto a irmã Rosens se inclinava para examinar o conteúdo. —Senhora, desse jeito faz que seja muito difícil manter o voto de austeridade —protestou. —Austeridade é limitar-se a só uma —respondeu ela. A religiosa sorriu e escolheu com muita delicadeza uma bolacha. —Muito obrigada. —Como estão as crianças? —perguntou Keira ao atravessarem juntas, o portão de grade rangente. Havia muito que fazer no orfanato, muitas reparações pendentes. Todo o dinheiro estava destinado a alimentar e vestir as crianças e não sobrava nada para as reparações. Os currais dos animais precisavam de uma reconstrução e tinha um teto com goteiras na ala infantil. Dois anos atrás, um incêndio na capela fez com que a missa de domingo fosse celebrada no pátio, e se o tempo estivesse ruim, no refeitório. —Como se pode esperar —respondeu a mulher. — Nessa semana nos trouxeram três irmãos. A mãe morreu de parto e seu pai não tinha intenção de cuidar deles. —OH, Deus —exclamou ela. Essas crianças receberam da vida alguns golpes muito cruéis, desde muito pequenos. Era a primeira vez que Keira de verdade valorizava a vida de luxo, que tinha na Irlanda. Até esse momento, tinha se dado conta de tudo que recebeu. De repente, vacilou quando um par de bracinhos abraçaram suas pernas. 64


—Lucy, querida! Deve tomar cuidado —disse Keira, enquanto se abaixava para abraçar à menina. —Desculpe —respondeu Lucy e virou seus brilhantes olhos azuis para a caixa. — O que nos trouxe? —Senhorita Taft, esqueceu suas maneiras? —perguntou a irmã Rosens com severidade. — Por isso, pegará a última bolacha da caixa. Diante o castigo, a pequena abaixou a cabeça loira. —Perdão, senhora. —Toma —disse Keira. — Leve para os outros. E, por favor, se assegure de que as crianças novas recebam sua parte correspondente. E verifique se sobra uma para você. —Sim, senhora —respondeu a menina, alegrando-se novamente. Foi pulando com as bolachas. Os outros órfãos, que brincavam no pátio, reconheceram imediatamente a caixa e rapidamente cercaram Lucy, ansiosos para conseguir um doce. Keira e a irmã Rosens continuaram caminhando; atravessaram os jardins, que as crianças trabalhavam para manter cuidado e foram além de uma fonte decrépita. —A propósito, as damas da Sociedade Caridosa do Orfanato de St. Bartholomew convenceram-me para que organize a festa anual de verão de Ashwood neste ano, irmã —comentou Keira. — Conforme entendi, faz vários anos que não se celebra. —Aleluia, isso é uma boa notícia! —exclamou a mulher. — As crianças sempre a desfrutavam de muito. Neste ano temos vinte e quatro órfãos. Ficarão muito felizes! —Com sorte, poderíamos recolher dinheiro suficiente para fazer as reparações —comentou Keira. —Que Deus queira! —suspirou a irmã. — Tem tanto o que fazer. Por exemplo, olhe isso —disse e parou em frente uma porta aberta. — Antes, esse era o quarto das crianças pequenas, mas é impossível usá-lo com as goteiras do teto. 65


Ao entrar no quarto, o cheiro do mofo estava bastante forte. Em um canto, havia vários brinquedos grandes, provavelmente guardados ali. Keira se fixou em um cavalo de balanço em madeira. Estava esculpido à mão, com as patas dianteiras no alto e a cabeça para trás. —É muito bonito —disse, indicando o brinquedo com um gesto de cabeça. A irmã Rosens também o olhou. —É mesmo? O senhor Scott fez vários brinquedos para o orfanato. Estou convencida de que jamais houve outro artesão como ele. —O senhor Scott que fez? —perguntou Keira olhando o cavalo. Abaixou-se para ver melhor e passou os dedos pela esculpida crina. — Então, você o conhecia, irmã? —Sim. —Que tipo de homem ele era? —inquiriu Keira por curiosidade. A mulher a olhou. —Que tipo de homem? Um bom homem. Disse com tal convicção que a surpreendeu. —Mas era um ladrão. —Foi acusado e o declararam culpado —respondeu a irmã Rosens, — mas eu nunca vi esse lado. Só sei que criando seus três filhos, ainda encontrava tempo para esculpir brinquedos para os órfãos. Era um homem bom e generoso. —Fez um gesto para a porta. Enquanto Keira ia para ali, o número de perguntas que tinha sobre o senhor Scott aumentava. Onde estavam as joias pelo qual o tinham acusado de roubar?

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CAPÍTULO 04 Em um quarto da Taverna de Grousefeather de Hadley Green, Declan O’ Conner estava deitado na cama, com um braço dobrado sob a cabeça e observando Penny, procurando suas meias. —Porcaria! O que eu fiz com elas agora? —murmurava ela, enquanto se passava a blusa pela cabeça. Declan viu o tecido deslizar-se sobre seu traseiro nu e redondo. —Qual é a pressa? —Não disse para você? Meu irmão Johnny volta hoje para casa. Faz quase um ano que está fora, milord. Morro de vontade de vê-lo novamente. —Onde esteve? —perguntou ele por perguntar. —Não sei exatamente. Em Londres, suponho. Escreveu uma carta e minha mamãe pediu para que o velho padre a lesse. Dizia que Johnny chegava hoje no carro correio das duas. —Encontrou uma meia, enrolou-a rapidamente, colocou o pé nela e esticou pela perna, enquanto a subia. Fez o mesmo com a outra; depois colocou o vestido sem se importar que Declan a estivesse olhando fixamente. Quando acabou de vestir-se, virouse, afastou o cabelo loiro do rosto e pulou na cama para beijá-lo. —Na quinta-feira que vem? —perguntou, pulando de novo para o chão. —Não perderia isso por nada. Ela sorriu.

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—Isso é uma estupidez amor e sabe bem. Um dia você sairá correndo a para fazer isso, com a condessa e se divertir de verdade, em uma cama de verdade. Ouvi dizer que é muito bonita. O bom humor de Declan se diluiu o suficiente. —Mesmo que fosse a última mulher sobre a face da terra. Não precisa se preocupar por ela. —Como não vou preocupar-me, com um homem tão bonito como você? E nada menos, que um homem de conde! —Não um homem de conde —a corrigiu ele. — Um conde. Penny franziu a testa. —Se é conde, então por que trabalha para meu lorde? Declan sorriu meio de lado. Penny representava tudo o que ele gostava das pessoas comuns. Títulos, protocolo..., nada disso importava para ela. —Não faço o que disse —explicou. — Estou criando um cavalo para ele. —Qual é a diferença? —perguntou a garota alegremente. —Uma muito importante: a criação de cavalos é meu passatempo, não meu trabalho. —Hum —refletiu ela, sorrindo um pouco cética. — Bom, muito bem! Estou saindo. Não demore muito. À senhora Cornish não gosta que seus quartos fiquem ocupados muito tempo, no caso de um autêntico viajante precisar parar aqui. —Não demorarei —assegurou ele e a viu sair depressa pela porta, prendendo o cabelo em um apressado coque. Declan usou seu tempo para vestir-se, parando para terminar com a jarra de cerveja que tinha começado a beber antes que Penny colocasse a mão nas suas calças. Amarrou o lenço de pescoço, passou os dedos pelo cabelo para alisar e calçou suas botas Hessian. Depois jogou um último olhar no espelho. Estava com uma barba incipiente e precisava de um corte de cabelo. Olhou-se um momento. Estava envelhecendo. Às vezes se perguntava quanto tempo mais poderia seguir vivendo assim, sempre de um lugar a outro, sempre atrás da próxima corrida importante. De certo modo 68


vago, gostava da ideia de ter filhos. Achava que gostaria de ter um filho para poder ensinar-lhe o mundo. Deu as costas para espelho e pegou o chapéu. —Já chega de tolices sentimentais por hoje —resmungou. Na verdade, a ideia de sentar cabeça o deixava estranhamente nervoso. Era quase como se pudesse ver as correntes cercando seus tornozelos. Eireanne havia dito que ele era como um velho ganso cego, correndo daqui para lá e depois dando a volta. Sorriu ao pensar em sua irmã. Era a pessoa mais compreensiva que conhecia. Merecia um irmão melhor que ele. Doía ver que a vida de Eireanne não tinha acabado como sem dúvida ela esperava. Deixou Grousefeather pensando em Eireanne e seguiu para a rua principal de Hadley Green. Era um dia quente, muito ensolarado. Pensou em cavalgar até o povoado de Horsham e jogar uma olhada a um cavalo que tinha ouvido falar. Muito rápido e ágil, disse-lhe um ancião. Perdido em seus pensamentos, passeava simplesmente que quando uma mulher gritou: «Milord Donnelly!», cometeu o engano de olhar para ela. A senhora Ogle, uma das damas mais importantes da sociedade de Hadley Green, o que queria dizer uma das mais ricas e reputada fofoqueira, o pegou despreparado. Havia levantado alto o braço e o agitava furiosamente para saudá-lo. —Que Deus me ajude! —resmungou para si e pensou em sair correndo, quando a viu ir para ele, esquivando com rapidez e habilidade de uma carroça cheia de gaiolas de frangos barulhentos e de um grande atoleiro com dois cavaleiros ao trote, em sua pressa por alcançá-lo. —Como está você, milord? —saudou-o sem fôlego, segurando com sua mão o coração sobrecarregado. Usava um chapéu de renda, que as mulheres elegantes de Londres há muito tempo tinham esquecido e um casaco curto abotoado até o pescoço.

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—Muito bem, senhora Ogle, obrigado. Você também parece estar bem, se me permite dizer. A viva imagem da saúde e agora, depois de ter certeza disso, vou seguir meu caminho. —A saudou com o chapéu. Mas a mulher não ia se deixar enganar, por essa tentativa de partir e falou antes que ele pudesse dar um passo. —Teve, por acaso, a oportunidade de participar do leilão de cavalos de Ashwood? Declan não podia imaginar, por que importava à senhora Ogle se tinha participado ou não do leilão e levantou uma sobrancelha com curiosidade. —Desculpe? —A condessa está vendendo uma boa parte de seus animais. Todo mundo fala disso. —Senhora Ogle e porque está interessada nisso? —OH, não estou interessada, garanto —respondeu a dama e riu alegremente, enquanto olhava ao redor. De repente, inclinou-se para ele e sussurrou: — Sei de boa fonte que a condessa não está comprometida. Pronunciou as últimas palavras como se estivesse transmitindo uma notícia de vital importância, algo como se os franceses estivessem desembarcando na Inglaterra, ou que o príncipe herdeiro se afogou com a cerveja. Declan também se inclinou para ela e a olhou de esguelha. —É você uma casamenteira, senhora Ogle? —Bem —respondeu ela rindo, levando uma afetada mão ao pescoço. — Não pretendo ser uma casamenteira milord, mas sou muito boa em saber quem convém a quem. —Bom dia, senhora Ogle —respondeu ele e começou a andar. —Milord, espere, por favor! Há notícias! —seguiu dizendo a mulher. Declan grunhiu para o céu, antes de voltar para olhá-la. —A condessa aceitou organizar a festa anual de verão. Durante muito tempo, foi uma tradição em Ashwood, uma tradição abandonada tristemente nos últimos anos, desde que a saúde do conde começou a

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piorar. Toda Hadley Green está convidada e também muita gente influente de Londres. Deus santo, a ousadia de Keira por acaso não tem limites? —E qual relevância isso tem para mim, exatamente? —É um evento da maior importância milord, diria que mais inclusive, que qualquer um dos que você tenha participado em Londres. —Ridículo. —Sim, bom, de todas as formas é uma oportunidade perfeita para que se relacione com pessoas importantes, enquanto está conosco —insistiu a senhora Ogle. — Para um solteiro, poderia interessar saber que participarão muitas jovens debutantes. E a condessa, naturalmente, que olhando, como deve ser olhada, é a mais desejável de todas. O que Declan desejava era que a suposta condessa retornasse a Irlanda, onde deveria estar. —Então será uma maravilha para os solteiros. Estou certo que o desfrutarão do momento. Mas se você for uma casamenteira, senhora, sem dúvida terá comprovado que poucas vezes cortejo a damas que não estão comprometidas, porque descobri que geralmente existe uma boa razão para que essas não o estejam. Prefiro as aventuras com damas que já conseguiram seus maridos e só querem um pouco de diversão. A senhora Ogle afogou um gritinho e logo se ruborizou. —OH! OH, milord! Declan se afastou, antes que a mulher pudesse dizer algo mais. Especialmente sobre «ela». Keira Hannigan que era sem dúvida, mimada, teimosa e muito perigosa. E também bonita, com brilhantes olhos verdes e um sedutor sorriso, capaz de dobrar ao mais forte dos homens. Pior ainda, provavelmente, era muito consciente de como atraente representava. Ah, essa garota não passava de uma atrevida. Se passar pela própria prima! Só isso já era o suficiente para ganhar seu desprezo, mas foi o que aconteceu naquela tarde em Ballynaheath, há oito anos atrás, que o fez desprezá-la. Essa lembrança ainda o perseguia. O fez perder o controle, tinha feito desejá-la de uma maneira que não era normal para ele. Declan partiu 71


daquele prado acalorado e excitado, sentindo como aqueles olhos verdes gravavam indelevelmente nele. A suavidade de seu corpo e a fome pelo seu beijo foi uma combinação para excitá-lo de uma forma quase incontrolável. Havia se envergonhado de seu desejo. Mas era um jovem de apenas vinte e três anos e tinha sucumbido com tanta facilidade a ela que pareceu não ter nenhum domínio sobre seu próprio corpo. Assim, que percebeu o que estava fazendo, fugiu do seu lado e lançou Fiddler a uma desenfreada corrida de volta a Ballynaheath. Keira Hannigan só tinha dezesseis anos. O que fez ele? Que loucura tomou conta de sua cabeça para se permitir tantas liberdades com ela? Naquele dia, quando chegou ao estábulo, o senhor Cousins, um dos cavalheiros que participava do piquenique de sua irmã, aproximou-se dele. —Milord, graças a Deus você chegou —disse o cavalheiro. — Viu por acaso às senhoritas Keira Hannigan, Eve O’Shaugnessy ou Lily Boudine? —Por que pergunta isso? —replicou Declan com aspereza, enquanto jogava as rédeas ao moço do estábulo. Não queria pensar nela absolutamente. —Faz muito tempo já que partiram —respondeu o senhor Cousins. — Foram passear. Então, suas amigas estavam sim, por perto. Certamente olhando. Keira tinha zombado dele e isso o azedou ainda mais seu humor. —Não as vi —mentiu. — Mas estou certo que voltarão para casa muito contentes. —Milord? Declan se afastou sem responder. Não soube que meia hora mais tarde Keira e Lily voltaram para piquenique sem Eve. Porque ele estava com Aileen, a criada, no quarto dela, debaixo da escada. Não se inteirou de que algo estava horrivelmente errado até várias horas depois, quando uma chorosa Keira Hannigan

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confessou o plano de enviar a Eve com o senhor Brendan e, ao contá-lo, admitiu também que se encontrou com Declan no prado, perto do rio. Ao unir-se ao grupo de busca que se formou, viu a condenação nos olhos do senhor Cousins e na expressão dos homens que o cercavam. Adivinhou o que eles pensaram: que poderia ter salvado a Eve se tivesse reconhecido que se encontrou com Keira; se não tivesse colocado as mãos em cima de uma menina de dezesseis anos e depois tivesse tentado esconder. Encontraram Eve naquela noite. A garota não quis dizer nada, mas sua aparência dizia tudo. Tinha o vestido rasgado e manchado de terra e sangue; o cabelo despenteado e alvoroçado e os olhos... Deus, como aqueles olhos perseguiram Declan durante todos esses anos. Tão vazios. Tão imensamente vazios, como se a vida tivesse ido completamente embora deles. A busca pelo senhor Brendan resultou infrutífera. Pelo Galway se especulou que devia ter fugido em algum navio para a América. Alguns dias depois, Eve saiu da casa de sua família sem dizer nada, subiu até o alto dos escarpados de Moher e pulou. Declan foi um dos que encontraram seu corpo, encharcado e destroçado na margem, onde o mar o havia jogado. Pouco dias depois, Declan partiu da Irlanda. Keira e Lily foram enviadas para por um ano ao Instituto Vila Amiels, em Candelabro. Curiosamente, pouco a pouco, as pessoas do condado de Galway foram transferindo para Declan a culpa pela morte de Eve. Das garotas, diziam, que eram muito jovens e tolas para saber o que faziam, mas ele deveria ter compreendido que alguma coisa estava errada ao encontrar-se com Keira sozinha. E tinham razão. Teve que viver com a morte de Eve na consciência dia após dia. Já fazia parte dele, um peso que o esmagava nos momentos mais inesperados, uma faca que se cravava no peito. Declan achava que merecia sua condenação. 73


Entretanto, Lily Boudine não achava assim. Ela o defendeu mais de uma vez. Como poderia saber? Dizia a garota. Era um bom homem, insistia. A culpa, afirmava Lily, era só de sua prima e dela. Declan não era um bom homem, mas jamais esqueceria a apaixonada insistência de Lily em afirmar o contrário. Não sabia se Keira se arrependia do que tinha acontecido. Continuava tão cheia de vida como sempre e ainda era muito apreciada na Irlanda. Fazia alguns anos, na festa de Natal, a jovem o tinha pegado sozinho e tentou falar do que tinha acontecido naquele dia no prado. Era bonita, muito bonita, ainda mais na tênue luz do inverno, quando seus olhos pareciam brilhar, ainda com mais força do que o costume. —Se eu soubesse —havia sussurrado ela,— se o tivesse suposto, jamais haveria..., haveria dito o que disse. —Quer dizer que não teria mentido para mim —replicou ele com secura. Ela franziu a testa. —Não posso expressar o quanto lamento. E passou a enumerar a profundidade de sua tristeza, vacilando um pouco, procurando as palavras. Declan não disse nada, enquanto ela desabafava. Quando terminou, sugeriu que não voltassem a se falar. Depois disso, ele havia conseguido evitá-la; era o centro de sua vergonha e pesar. Até esse momento. Até que ela apareceu de repente em sua vida. Sim, as consequências não seriam leves quando descobrissem sua farsa, o que sem dúvida aconteceria, porque Keira era descuidada. Como acreditava que reagiriam os ingleses, sendo ela nada menos, que uma irlandesa católica, roubando a identidade de uma condessa? Sem dúvida, pensariam que seus motivos não eram nada claros, se não politicamente sinistro, dada a luta pela emancipação católica na Grã-Bretanha. O melhor era ficar longe dessa confusão e daqueles endiabrados olhos verdes.

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CAPÍTULO 05 Keira tomou chá sozinha depois de retornar do orfanato, o que, dada sua agenda social, era algo bastante estranho. Mas agradeceu a oportunidade, para pensar no que a irmã Rosens havia dito sobre o senhor Scott. Lembrou do cavalo de madeira, esculpido com tanta perfeição. De repente, deixou sua xícara de chá e ficou em pé. Naquele momento, um lacaio abriu a porta e ela saiu do salão para ir à sala de música. Tinha sido uma simples coincidência o que levou Keira a questionar a versão de Lily, que tão bem conhecia os acontecimentos. Por uma parte, encontrou uma carta escrita por sua tia Althea e dirigida a sua mãe, que nunca foi enviada, onde dizia que sua vida com o conde era infeliz e que procurava diversões. Naquele momento, Keira não deu muita importância; não era nenhum segredo que os matrimônios arrumados, com frequência eram infelizes. Mas se não tivesse começado a fingir e possivelmente até acreditar, que era uma princesa no castelo de Ashwood e portanto merecia um piano, jamais questionaria a versão oficial do assunto. Estava um pouco mais de um mês ali, quando pensou no piano. Na verdade, era muito boa pianista, graças à insistência de sua mãe para que estudasse lições de música durante a maior parte de sua vida. «Querida, nenhum homem sensato irá propor casamento com essa língua impaciente que tem, assim sendo, a única coisa que eu posso me apoiar é em seus dotes. Outra vez, por favor.» A Keira achou estranho que uma mansão tão magnífica como Ashwood não tivesse um piano e perguntou ao senhor Fish. —Não poderia dizer senhora. Acredito que não há nenhum piano. —Sim, senhor, sim há um —o contradisse a senhora Thorpe, a governanta. — Lady Ashwood o fez subir ao sótão depois do Incidente. 75


«O Incidente» era a forma em que os habitantes de Hadley Green se referiam ao lamentável falecimento do senhor Scott. Para Keira, parecia que tudo que tinha acontecido em Hadley Green passou «antes do incidente» ou «depois do incidente». —Comprou para você, milady —acrescentou à senhora Thorpe, ao ver as olhadas surpresas do senhor Fish e de Keira. — Por acaso não lembra? —OH, ah... Sim! Agora acho que estou lembrando... —Suspeito que lembrará muito bem quando o ver —continuou a mulher. — Tão bonito e comprado na Itália. Mas quando você se foi, a falecida condessa não suportava vê-lo; tinha tantas saudades, senhora; assim pediu que o subissem ao sótão. Não era curioso, Lily não ter comentado com Keira, sua preferência pelo piano, ou a nenhum especial talento para tocá-lo? Todas aquelas horas que ela havia passado virtualmente encadeada ao piano de sua casa na Irlanda e, mesmo assim, sua prima jamais mencionou que trouxeram um da Itália especialmente para ela. O senhor Fish mandou o mordomo, senhor Linford, que descessem o piano à sala de música para que a condessa pudesse examiná-lo e decidir se ainda continuava a agradando. O instrumento agradou Keira; era um piano que jamais tinha visto outro igual. Era feito de nogueira e na madeira esculpiram partituras. Keira só precisou jogar um olhar, colocar os dedos sobre as teclas de marfim e escutar as notas, para saber que era de uma qualidade maravilhosa. O senhor Fish se encarregou de trazer um homem rapidamente de Londres para afiná-lo. Keira esteve tocando para si mesmo, por toda uma quinzena, até que uma tarde, uma rajada de vento provocou o voo da partitura e, em sua pressa para agarrar as folhas, levantou-se de repente e derrubou o tamborete. Ao tentar endireitá-lo, percebeu algo estranho: um espaço alargado na parte de abaixo. Sentou-se no chão para examiná-lo melhor. 76


Supôs que seria a marca do artesão, mas ao fixar-se viu que era uma inscrição. Estava esculpida justo em um lado, sob a borda do tamborete. «É a canção que interpreta meu coração; para A, meu amor, minha vida, a única nota de meu coração. Teu por toda a eternidade, J. S.» —Deus do Céu! —exclamou Keira, enquanto passava os dedos pela inscrição. Achou que era uma dedicatória muito sensível...mas então, lembrou que o senhor Joseph Scott era um mestre entalhador e que ele deveria ser o J. S. da inscrição. Então, quem era A? A resposta veio de forma tão repentina que Keira se sentou sobre seus calcanhares com um grito afogado. —Não pode ser —sussurrou aniquilada e leu de novo a frase. Sua falecida tia, a condessa de Ashwood. Althea Kent. Essa descoberta foi completamente chocante e sua imaginação correu ao pensar que, o homem que tinha roubado as joias de lady Ashwood, também havia fabricado aquele tamborete e esculpido aquela bela inscrição. —Encontra-se bem, senhora? Uma donzela a viu no chão. Keira bateu dolorosamente os dedos em sua pressa para ficar em pé e endireitar o tamborete. —Muito bem, obrigado —exclamou com excessiva convicção. — Só estava...jogando uma olhada, isso é tudo. Já está na hora do almoço, não é? —Não, senhora. Só são onze horas. —OH! A criada começou a limpar o pó e Keira não se atreveu a olhar de novo o tamborete com ela por ali. Assim o aproximou cuidadosamente do piano e saiu da sala. Depois, novamente a sós, fechou a porta e se aproximou do piano, com o olhar fixo no tamborete. Ajoelhou-se e virou-o para ler de novo a inscrição. Estava esculpida com bom gosto e expressava sentimentos muito belos. O senhor Scott havia amado à tia Althea. Keira colocou direito o tamborete, sentou-se e começou a tocar. 77


Era uma tolice sem importância, mas a inscrição ou, melhor dizendo, o roubo, não fazia sentido para a Keira. Um homem não fazia um tamborete, esculpia folhas de parreira e flores nas curvadas pernas do mesmo, acrescentando uma inscrição tão adorável expressando seu amor por uma mulher, para depois roubar suas joias. Desejou que Althea estivesse viva para perguntar, mas havia morrido tão jovem e de uma maneira tão trágica... Keira a tinha visto apenas algumas vezes, mas guardava uma bonita lembrança dela. Achava que sua tia Althea possivelmente, tivesse sido a mais bela das irmãs, sobre tudo de caráter. Era tão cálida e estava tão cheia de vida. Isso era o que mais lembrava dela: que amava a vida. Lembrava de certa vez ter convencido sua irmã Lenora, para que viajassem a Espanha. A mãe de Keira nem considerou, porque Molly e Mabe eram muito pequenas. «E o que vais fazer Lenora, viver toda sua vida dentro dessas quatro paredes? Que reclusão!» Então, Keira não sabia o que significava «reclusão», mas sim, sabia que devia ser algo ruim à tia Althea, se não gostava. Teria amado o senhor Scott? Claro que sim; havia aceitado seu presente do tamborete. E logo a tinha roubado? Não fazia sentido. Keira estava tão convencida de tudo isso, que na tarde seguinte se armou de coragem, enquanto a senhora Thorpe e ela revisavam as tarefas da semana em Ashwood. A governanta, com sua camisa de pescoço alto e apertado coque, era um exemplo de eficiência e não gostava que a fizessem perder o tempo com bate-papos desnecessários. Mas Keira ficou em pé, quando a mulher ia sair da sala. —Senhora Thorpe, conceda-me um favor. —Sim, senhora? —Você acha que minha tia...? Sabe se possivelmente...? —Não havia uma maneira delicada de perguntar e enquanto dava voltas de como fazer, notou a impaciência da governanta.— Minha tia conhecia bem o senhor Scott...? A mulher piscou com seus grandes olhos castanhos. 78


—Peço que me desculpe, senhora Thorpe —disse Keira e com o rosto queimando de rubor, começou a recolher seus papéis. —Não, milady, sou eu que peço que me perdoe. É que não ouvi mencionar esse nome aqui, há quinze anos. —Não deveria ter perguntado. Mas eu era tão pequena e... —Certo, só era uma menina. —Mas depois, não deixou que de me inquietar. A senhora Thorpe a observou um momento, perspicaz. —Não sei de primeira mão —respondeu com tato,— mas acredito que ela o achava agradável, porque o recomendou com muito entusiasmo a lady Horncastle. O senhor Scott só havia terminado uma seção da escada de lady Horncastle quando... Bom, antes que ele encontrasse seu destino. Acho que jamais chegou a terminar a escada. —Lady Horncastle —repetiu Keira, pensativa. — De Rochfield? —perguntou, pensando na antiga mansão nas colinas. —A mesma —respondeu a governanta. — Era amiga de sua senhoria. Lembra dela? —Só...vagamente —respondeu Keira, incômoda. —Achava que a lembraria muito bem. Sempre trazia doces para você. Naquele tempo, você gostava muito dos doces! A Irlanda deve ter curado você disso —acrescentou à senhora Thorpe com um toque de desaprovação na voz. Todos os habitantes de Ashwood estavam assombrados por Keira não gostar particularmente dos doces e que muito educadamente, estivesse rejeitado o bolo de maçã que a apresentaram durante o jantar, há alguns dias atrás. Aparentemente, Keira tinha ferido os sentimentos da cozinheira. Pensou em falar com lady Horncastle, mas como não as tinham apresentado, não sabia exatamente como fazer. Por sorte, a oportunidade apareceu. As damas da Sociedade Caridosa dos Órfãos de St. Bartholomew (ou, como gostavam de chamar, a Sociedade) visitaram-na novamente, para falar da festa de gala. Todos em Hadley Green estavam como loucos com a festa, apesar, de ainda faltar dois meses, Keira recebia mensagens regulares 79


da Sociedade, com ideias para a mesma. Que Deus a ajudasse! Ela não queria organizar um acontecimento como descreviam aquelas mulheres, mas novamente se viu impotente. Era evidente que o orfanato necessitava de recursos. Pensar em todas aquelas crianças necessitadas, a dava ânimo para preparar o que fosse! Disse-se que Lily já estaria de volta a Ashwood para ocasião. Era a oportunidade perfeita, convenceu-se. Ela planejaria a festa e depois sua prima ganharia todo o mérito. Naquela tarde ensolarada, a senhora Felicity Morton,a senhora Robina Ogle e a senhorita Daria Babcock vieram de visita, todas com um vestido de seda dourados muito parecidos, certamente confeccionado pela única costureira decente de Hadley Green. Foram em delegação para tratar a possibilidade de organizar uma corrida de cavalos durante a festa de gala. Linford serviu chá e bolachas no jardim, cercado de jacintos que impregnavam o ar com o aroma de seus casulos. Keira escutou atentamente as sugestões das damas, que consideravam que uma corrida de cavalos seria como a joia da pequena coroa da festa. Previam que várias pessoas participariam pelo prazer de apostar e que arrecadariam o dobro do esperado, somente com jogos e um concurso de pipas. —Eu gosto muito das corridas de cavalos —disse Keira, enquanto as damas gorjearam animadas. — O certo é que até participei de alguma. Isso provocou maior excitação ainda. —Então, deve fazer isso aqui também, sua senhoria! —chiou a senhorita Babcock. —Eu adoraria, mas infelizmente, estou reduzindo a quantidade de cavalos de para o inverno. —Isso não era nem de longe verdadeiro, mas achou que pelo menos soava plausível. Não precisava levantar a lebre sobre as dívidas de Ashwood. — Temo que não haverá cavalos suficientes, para organizar uma tarde de corridas. 80


—OH, mas lady Horncastle tem muitos —disse a senhora Ogle. — Tive a oportunidade de encontrá-la na loja da senhora Langley e disse que justo nesse mês havia recebido três cavalos. —Três! —exclamou a senhora Morton. — E para que precisa tantos? —Para seu filho, lorde Horncastle —respondeu à senhorita Babcock, se inclinando para frente com graça e o entusiasmo, de uma jovem dama que tem algo interessante a dizer. Daria Babcock era bonita e Keira suspeitava que era muito consciente disso. Nesse aspecto, recordava a si mesma. Era uma tolice fingir que a beleza não existia só para cobrir as aparências. As flores do salão e o gatinho que rondava por Ashwood, todos os presentes dos admiradores,

eram

testemunhas.

Para

Daria

tampouco

faltariam

pretendentes. —Lorde Horncastle está muito aborrecido em Rochfield e ameaçou mudar-se para a cidade —explicou a jovem. — Sua mãe não sobreviveria sem ele e pretende entretê-lo com uma esposa, se puder arrumá-lo. A senhora Morton, que para Keira parecia uma mulher inteligente, olhou à senhorita Babcock com os olhos entrecerrados. —E como você sabe disso, Daria? Esta encolheu os ombros com modéstia e olhou fixamente para o prato de bolachas por debaixo da aba de seu chapéu. —Ouvi comentar. —Talvez, você pudesse visitar a senhora —sugeriu a senhora Ogle para Keira.— Afinal, é por uma boa causa. Ela quase gritou de alegria. Acabou de dar a ela, o motivo perfeito para visitar lady Horncastle. —Você tem razão! Devo fazer isso o quanto antes. Pedirei ao senhor Fish, para enviar uma mensagem o mais breve possível. A senhora Ogle soltou uma risadinha. —Como você me faz lembrar a sua senhora tia, lady Ashwood! — comentou.— Um sorriso tão bonito e olhos tão alegres como os seus. E tão 81


generosa com seu tempo e sua influência! Era a personificação da bondade, sabia? Keira sorriu orgulhosa. Mas o sorriso da senhora Ogle se apagou, enquanto Linford servia uma segunda xícara de chá. —Lamento muito tudo o que aconteceu. —Obrigada —respondeu ela.— Ultimamente pensei bastante nisso. —Deixou a xícara de chá por um momento. — Na verdade, encontrei-me perguntando o que aconteceu com as joias de Ashwood, porque jamais as recuperaram, não é verdade? —OH, apostaria que as venderam em troca de uma fortuna —disse a senhora Morton. —Mas parece estranho que não as encontrassem, depois de levar o ladrão diante a justiça —comentou Keira com cautela. —Muito estranho e muito trágico —concordou com ela a senhora Ogle, enquanto mexia o mel em seu chá.— Nunca esquecerei como fiquei chocada e triste quando soube que lady Ashwood tirou sua vida por isso. Suas palavras surpreenderam tanto Keira, que bateu o pires com a colherinha, assustando a todas. —Perdão, o que disse? —perguntou, olhando à senhora Ogle. Esta abriu muito os olhos, assombrada. —Por acaso..., por acaso não sabia, senhora? Afogou-se... —Por acidente —a cortou Keira. De repente, a senhora Morton se inclinou para ela e colocou uma mão no seu braço. —Acreditávamos que você sabia —disse em tom amável.— Não era nenhum segredo que lady Ashwood era terrivelmente infeliz com o conde. —Sim, mas...suicídio? —insistiu Keira. A senhora Morton olhou muito séria à senhora Ogle. —Existiu uma carta —disse essa simplesmente. —Uma carta? Que carta? —Encontraram uma carta dela, onde confessava que tirou sua vida. Atordoada, Keira ficou olhando. —E o que mais dizia? 82


—Isso não poderei dizer —respondeu a senhora Ogle.—.Suspeito que só o conde sabia. —Pegou sua xícara e bebeu um gole. Keira pensou em Lily, da pobre querida Lily e o como ficaria consternada ao saber. Culparia a si mesma. De repente, sentiu que não podia esperar para falar com lady Horncastle.

CAPÍTULO 06 O jovem Franklin Girard, lorde Horncastle, era justo o tipo de homem que Declan gostava de ver sentado na frente dele em uma mesa de jogo. Sem experiência, petulante e, além disso, fazia pouco tempo que havia recebido sua herança. Como tantos jovens, mostrava muito interesse em fazer apostas altas, coisa que Declan comprovou já no início da noite. E depois de perder uma boa soma, negava-se a deixar o jogo, convencido, como frequentemente eram os principiantes, que recuperaria tudo e não se veria obrigado a explicar para sua mãe viúva seu vício secreto. Esses jogos, praticamente nunca acabavam bem para homens como Horncastle. Declan tinha cavalgado até Rochfield para dar uma olhada no cavalo que ganhou do jovem. Se pudesse dizer algo de West Sussex, é que a paisagem era muito agradável. Verde e exuberante, salpicado de cabras e ovelhas. Enquanto Declan se aproximava de Rochfield, viu um cavalo solitário pastando em um prado, com grama até os joelhos. Lembrou-se do 83


prado da Irlanda onde se encontrou com Keira naquele dia infausto. Quando pensava nesse dia, sempre lembrava dos olhos vazios de Eve. «Keira», pensou, zangado; ela e suas descaradas tramoias. Em Rochfield, um mal-humorado Horncastle, que ainda não havia aprendido a arte de perder com elegância, encontrava-se apoiado nas cercas, observando asperamente o responsável pelo estábulo, conduzir dois pôneis negros pelo cercado. Os pôneis Fell eram bons, sólidos cavalos de trabalho e hábeis em saltos, mas não muito dotados na hora de correr. Entretanto, Declan olhou a ambos fingindo interesse. —É tudo isso que tem? —perguntou a Horncastle. —O que tem de ruim nesses dois? —replicou o jovem, impaciente. —Há mais? —inquiriu ele. O outro encolheu os ombros. —Um pônei galés. Que nesse momento, minha mãe o tirou. Um pônei galés sim, poderia transformá-lo em um corredor. —Jogarei uma olhada no galés —disse Declan. —Esse acaba de chegar —interveio o encarregado dos estábulos, inquieto, enquanto acariciava o pescoço de um dos Fell. —Ali está, dê uma olhada —disse Horncastle, indicando um pasto mais à frente do cercado— Mas seja rápido, certo? Declan seguiu seu olhar. Viu três cavaleiros, duas mulheres e um rapaz dos estábulos, trotando de volta para o cercado. Uma das damas estava no lombo de um velho cavalo de trabalho, que se esforçava por seguir o passo do galés. Esse trotava com graça jogando a cabeça para trás, irritado pelo freio. Por isso, Declan pôde ver, que o animal tinha uma imagem excelente e também gostou de seu brio. Enquanto o grupo se aproximava da cerca, ouviu uma risada cantada conhecida e levantou o olhar do peito do cavalo até a amazona. Santo Deus, deveria saber que só uma mulher podia sentar-se sobre um cavalo, assim tão bem. Os verdes olhos de Keira cintilaram junto com seu sorriso, enquanto entrava a trote no cercado, do mesmo modo que naquele dia, oito

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anos atrás e que graças a ela, voltava a estar no pensamento de Declan. A jovem inclinou a cabeça recatadamente. —Boa tarde, milords. —Frankie, não disse que esperávamos convidados —protestou a outra mulher. Declan passou o olhar para ela. Era o dobro da idade de Keira e usava um chapéu de renda, bem armado sobre as bochechas. As mulheres de Hadley Green eram muito aficionadas a esses chapéus. —Mãe, permita apresentar lorde Donnelly —disse Horncastle sem nenhuma vontade. —Lorde Donnelly! —exclamou a mulher e olhou para Declan.— OH! Lorde Donnelly! —repetiu e desceu do cavalo sem esperar o moço, que corria para ajudá-la.— É um prazer conhecê-lo, milord. Ouvi que veio para residir no campo. Alugou Kitridge Lodge? —Isso mesmo. —OH, bem, onde estão minhas maneiras? Eu adoraria lhe apresentar a lady... —Não precisa —a interrompeu Keira, animada. — Já tive o prazer de conhecer milord. —Foi um prazer? —soltou ele. Ela começou a rir como se fosse uma brincadeira amistosa. —Lorde Donnelly, sabe perfeitamente que sempre que temos a oportunidade de nos encontrar é um puro prazer. —É algo puro —reconheceu Declan. — Entretanto, «prazer» não seria a primeira palavra que eu pensaria. —«Exasperação» seria um termo mais adequado. Santo Deus, que descaramento dessa garota, exibindo-se assim. Não tinha consciência. Se tinha, só se manifestava depois dos acontecimentos. Declan se aproximou do pônei galés e colocou a mão no pescoço. O cavalo o olhou com curiosidade. —Permite que eu a ajude a descer? —perguntou ele.— Eu gostaria de dar uma olhada em seus arreios. —Isso não será nece... De repente, Declan a pegou pela cintura e a desceu do pônei. 85


—Mas obrigada —acrescentou Keira sem fôlego, quando estava no chão. —Possivelmente prefira se afastar— advertiu ele e foi até a cabeça do cavalo. Colocou os dedos sob as gengivas para examinar os dentes, em seguida puxou um pouco para obrigá-lo a abrir a boca. Tinha dois anos, uma boa idade para começar com outro tipo de treinamento. Acariciou o nariz e depois fez um reconhecimento tateante do pescoço até a traseira. Agachou-se e pegou com ambas as mãos as patas, procurando defeitos. De lado, captou movimento a sua direita; um par de pequenas botas de montar apareceu em sua visão periférica. Declan a olhou. —Importaria de se afastar? Keira deu um pequeno passo para trás. —Está bem cuidado —disse Horncastle com impaciência. —O que está fazendo sua senhoria? —inquiriu lady Horncastle de algum ponto atrás de Declan. —Por que está examinando o pônei dessa maneira? Apalpou os rins e as ancas e também comprovou as patas traseiras. O cavalo relinchou e o açoitou com a cauda. —Agora eu gostaria de montá-lo —disse a Horncastle. —Pelo amor de Deus —resmungou o jovem.— Wills, traz uma sela. O encarregado do estábulo suspirou com resignação. —Não entendo —insistiu lady Horncastle. —Mãe, por favor. Declan passou a mão por debaixo do cavalo para soltar a sela de amazona. Keira ficou ali, observando-o com curiosidade, com a vara na mão. —Está-se afeiçoando às cadeiras inglesas? —perguntou ele do nada, enquanto tirava a sela do lombo do pônei. —O que? —perguntou lady Horncastle.— O que disse, lorde Donnelly? —Lorde Donnelly está brincando —respondeu Keira, enquanto Wills voltava com uma sela. Declan achou que parecia ter lágrimas nos olhos. 86


—Aonde pretende levar meu cavalo? —objetou lady Horncastle em suas costas. —Pelo amor de Deus, mãe, não é seu assunto... —O que não é meu assunto? —exclamou a mulher com voz estridente.— Claro que é meu assunto, meu jovem, porque esses cavalos me pertencem! Declan sentiu pena do jovem Horncastle. De uma longa lista de defeitos outros acabava de acrescentar, o de envergonhar sua mãe na frente de outro lorde. —O que você fez, Frankie? Até mesmo Declan não poderia resistir à vontade de escutar a resposta, a essa pergunta e olhou para trás. Mas Horncastle pegou sua mãe pelo cotovelo, a fez virar-se e a levou até o estábulo, onde entraram em uma calorosa discussão. —O que você fez, milord? —perguntou Keira e o empurrou brincando com a bota. —Se eu fosse você tomaria cuidado, condessa. Parece estar por toda parte. O que planeja hoje? Planeja um baile a fantasia com seu título de fantasia? Ela franziu a testa, reprovando suas palavras e olhou de esguelha ao encarregado do estábulo, quem parecia mais preocupado pelo cavalo do que por ela. —Eu selarei agora, assim você poderá escovar o alazão —sugeriu Declan ao homem. Wills acariciou o galés no nariz e depois se foi a contra gosto, levando o outro cavalo. —Por que está olhando esse pônei? —perguntou Keira com curiosidade.— Lady Horncastle acaba de prometer que eu poderia montá-lo na corrida beneficente. —Disso isso? Eu estou aqui para um assunto legítimo, não para interpretar uma representação absurda e correr por aí em uma cadeira de amazona. Quando começou a usar as cadeiras de amazona? 87


—Quando cheguei à Inglaterra —respondeu ela.— É que eu estou aqui por uma boa causa, se quer saber. —Não quero saber. —Declan colocou a cadeira sobre o lombo do galés.— Não tenho nenhuma vontade. Além disso, não quero saber. —Estou aqui por um assunto de caridade —continuou Keira, obstinada. —Hum —respondeu ele, indiferente.— Suponho que seria bom um pouco de ajuda do céu. —E eu suponho que você sabe alguma disso —replicou ela. Declan a fulminou com um olhar assassino. Keira arqueou uma sobrancelha, como se o desafiasse a negá-lo. —Preciso falar com você, por favor. —Não, não falará. Meu desejo de não saber no que está metida é muito firme. —Dói admitir que cairia bem sua ajuda —acrescentou ela, como se ele não houvesse dito nada. —Não —insistiu Declan com mais força.— Não quero ouvir nenhuma palavra. —Lady Horncastle conhecia o amante de minha falecida tia — sussurrou Keira. Ele se deteve e suspirou revirando os olhos. —Falei para não dizer nada disso, certo? —Mas é que não tenho a ninguém mais com quem falar, Declan — insistiu a jovem, enquanto se aproximava mais dele sem separar a visão dos Horncastle. —Não me importa —respondeu Declan, olhando de novo para o cavalo. —E com quem mais poderia falar? —OH, eu não sei... Com o padre de sua paróquia? Com seu Deus? —Declan, vamos! Sabe perfeitamente que não posso fazer isso! — disse Keira, claramente zangada. —Na verdade, moça... —Não entende...Minha tia se suicidou! —exclamou ela em voz baixa.

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Ele sempre achou que aquela garota fosse a mais exasperante, mas até esse momento, jamais acreditou que estivesse louca, ou que fosse perigosa. —Por favor, se afaste —disse e se moveu para frente, obrigando-a a dar um passo para trás.— Não quero ter nada a ver com sua desenfreada imaginação. —Não é minha imaginação —replicou Keira, muito séria.— Minha tia não se afogou acidentalmente. E seu amante foi enforcado por um delito que não cometeu. Acredito que Lily foi involuntariamente responsável, o que será devastador para ela... —Não voltarei a dizer isso... —Declan tentou interrompê-la, mas Keira apoiou a mão no antebraço. Olhou a pequena mão enluvada e lembrou, da outra vez em que havia tocado o seu braço. A lembrança o fez sentir calor. E aborrecimento. Um grande aborrecimento. Não ia permitir que o arrastasse a outra derrota.— Não... —Desculpe —disse Keira com suavidade.— Lamentarei eternamente. Quantas vezes terei que me desculpar? Estava falando de outro tempo, de outro lugar, de uma lembrança que Declan não queria recordar. —Estamos falando de sua fraude atual —replicou ele com brutalidade.— E não quero ter nada a ver com isso. —Por acaso acha que não sei que o coloquei em uma boa confusão? —continuou ela obstinadamente.— Mas estou fazendo o melhor que posso e se pudesse encontrar as joias... —Joias —zombou ele.— Agora há joias? —Sim, joias, Declan —respondeu Keira e olhou os Horncastle.— Alguma vez ouviu falar delas? —perguntou, falando rápido e com voz baixa.— As roubaram quando Lily era criança e vivia aqui; e depois o tribunal tomou seu testemunho e condenou um pobre homem à forca. Estou convencida, que esse homem era o amante da tia Althea e que não era nenhum ladrão e depois, tia Althea se afogou... 89


—Nada disso é de minha incumbência —insistiu ele e tentou dar a volta por ela para passar, mas ela não se moveu. —Sei que deve pensar que estou sendo egoísta, mas dou minha palavra de que não é assim. Eu gostaria de saber a verdade, para poder dizer a Lily e que não tenha que descobrir de repente, como aconteceu comigo. Declan tinha que reconhece, ninguém era capaz de advogar com tanta paixão por algo. Com aqueles olhos, olhando-o com tal súplica, com as faces avermelhadas...Colocou uma mão sobre a dela e se inclinou. Os olhos de Keira se encheram de esperança. —Não —disse ele com a voz muito baixa. Keira soltou um som de chateio e afastou a mão de repente. —É impossível! Declan soprou. —Olhe quem fala. Eu sou totalmente racional. Tenta se concentrar no que estou dizendo, Keira: não voltarei a ajudá-la. Não guardarei seus segredos e não direi que não vi você se ... —Continua dando voltas a um terrível mal-entendido que aconteceu faz oito longos anos, quando eu só tinha dezesseis anos. —Não foi bem um mal-entendido como uma mentira de sua parte e não me importa se tinha dezesseis anos ou sessenta... Ambos se assustaram ao ouvir um grito de lady Horncastle e, quando olharam em sua direção, a viram correndo pelo caminho, para eles. Keira olhou para Declan. —Não sei por que gastei saliva com você. —O mesmo digo eu —concordou ele, justo quando a agitada dama chegava a seu lado. —Lady Ashwood, deve perdoar e me desculpar. —Levou a mão no pescoço.— Meu filho me deu uma notícia terrivelmente inquietante! — explicou quase sem fôlego e olhou para Declan.— Não pode ficar com meu cavalo, milord! Não sei o que combinou com Frankie, mas acabam de trazer esse pônei e nessa mesma manhã prometi a lady Ashwood que

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poderia montá-lo na corrida da festa de gala. Não deixarei de cumprir minha palavra para satisfazer as malfadadas dívidas de meu filho! —Mãe, não fale assim com lorde Donnelly! —exclamou Horncastle. —Senhora, conta com minha simpatia e meu respeito —respondeu Declan e apoiando o pé no estribo, sorriu para lady Horncastle e montou.— Tem bom olho para os cavalos. Só pretendo prová-lo. De repente, esporeou o animal e esse reagiu como ele esperava: saiu a toda velocidade para deu um salto ágil salto e correu para o pasto. Ouviu gritar lady Horncastle, enquanto percorria o verde pasto no lombo do pônei, assustando a umas quantas vacas que se aproximaram muito da casa. Ah, sim, aquele pônei poderia treinar para correr. Declan percebeu sua potência muscular ao alargar o passo. Poderia correr todo o dia se o deixassem. Conteve-o, fazendo trotar e galopar devagar, e depois soltou as rédeas novamente antes de retornar para a casa. O cavalo relinchou, sacudiu a cabeça e levantou a cauda, enquanto entrava trotando no cercado, muito satisfeito de seu passeio. Uma vez dentro, Declan desmontou. Keira estava apoiada na cerca, com os braços cruzados e um pé na barra de seda inferior. Olhava-o fixamente. Lady Horncastle estava do outro lado da cerca, com uma mão no coração e também o olhava. —Deu-me um susto de morte, senhor! —repreendeu-o. —Peço que me desculpe, senhora, mas aprendi que essa é a melhor maneira de julgar a capacidade de um cavalo. —Ou de um louco, como poderia ser o caso —comentou Keira. —Diz como se conhecesse muitos loucos, senhorita K... —Poderia ter quebrado o pescoço! —exclamou lady Horncastle. —Infelizmente, não foi assim —soltou Keira com um suspiro. Como se atrevia recriminá-lo por seu comportamento? Pensou Declan. —Não, senhora, não quebrei isso. Não tenho intenção de deixar Hadley Green, antes de ver o que será de você. 91


Ela olhou-o furiosa. E sorriu. —O que quer dizer com o que será de lady Ashwood? —perguntou lady Horncastle. —Na corrida —respondeu Declan. —Fará muito bem com esse pônei —afirmou a dama com grande autoridade. Ele sorriu. —Infelizmente, senhora, devo cobrar a dívida que seu filho fez comigo. —Pegou sua mão e a beijou, se inclinando.— Peço desculpas, por qualquer incomodo que isso a cause. Lady Horncastle ficou totalmente atônita. —Mas...se levar esse cavalo o que montará lady Ashwood? — perguntou.— Estará tirando a comida da boca dos órfãos, senhor! —Absolutamente —respondeu Declan.— Se a dama deseja montar este pônei, pode discutir isso comigo. —OH, pelo amor de Deus —exclamou Keira, irritada.— Não penso fazer tal coisa! —Como você desejar, senhora —respondeu ele e a saudou com o chapéu.— Com esse é suficiente —disse a Horncastle.— Enviarei alguém para buscá-lo. Agora, acredito que já abusei bastante de seu tempo. Desejo um bom dia, senhoras. Enquanto saía do cercado até o estábulo, sorria. Não estava certo se era porque tinha ganhado um soberbo pônei galés, com uma mão medíocre, ou porque Keira Hannigan estava muito zangada com ele.

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CAPÍTULO 07 Os nervos de lady Horncastle melhoraram bastante, com uma generosa porção de vinho em seu desorganizado salão. Keira nunca viu tantos bibelôs e enfeites em uma casa e em circunstâncias normais, teria achado divertido estar sentada ao lado de um leão de porcelana, mas ainda, se sentia bastante agitada pelo comportamento de Declan. Cheio de fúria, lorde Horncastle havia subido para seu quarto, situado acima do salão, e depois chutou o chão por cima da cabeça das damas, durante o que pareceu uma eternidade, antes de descer correndo a escada, vestido para sair. Keira desejou poder chutar o chão ela também. —Um momento, jovem! —chamou sua mãe. Keira captou um audível grunhido, antes de Horncastle aparecer na porta da sala. A mulher levantou em sua altura. —Compreende que lady Ashwood se ofereceu generosamente a organizar uma corrida durante a festa de gala, cuja arrecadação doará ao orfanato? —perguntou com severidade. Ele olhou um momento para Keira. —É muito generosa, sem dúvida —respondeu, tenso.

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A cor tinha desaparecido de suas rosadas faces e olhava a sua mãe com a ardente indignação dos jovens. Mas, sabiamente, mordeu a língua e decidiu partir a toda pressa da casa, antes de dizer algo inconveniente. Entretanto, lady Horncastle não deixou a coisa por aí. Correu à janela para observar seu filho afastar-se galopando. —Olhe com que temeridade cavalga! Deus, acabará com minha paciência! Keira se sentiu um pouco incômoda, possivelmente porque há alguns poucos anos, era ela quem partia indignada do salão de seus pais. —Sem dúvida, lembrará como era encantador esse menino, não é lady Ashwood? Estava acostumado a me acompanhar quando visitava sua tia. Seguia você como se fosse um cachorrinho, lembra? Estava louco por você. Aquele indivíduo petulante seguia Lily por toda parte? Keira se obrigou a sorrir. —Devo confessar lady Horncastle, que era tão pequena que quase não lembro. —Althea estava decidida a casá-los algum dia, sabe? —Riu como uma menina diante a ideia e só graças a Deus, Keira conseguiu não de engasgar com o chá. —Ah, pudera o pai de Frankie não ter engolido aquele último pedaço de pescado —comentou com tristeza.— Aquele espinho o cravou e o matou; tirou a vida de meu marido e deixou o meu filho sem a mão firme que precisava para guiá-lo nesses últimos anos. —secou os olhos com o guardanapo.— Tentei. O bom Deus sabe que tentei. Mas Frankie necessita da mão de um homem, não acha? Keira pensou em Loman Maloney, o homem que seu pai escolheu para ela. Loman seria o companheiro perfeito de Frankie, porque era muito tranquilo e razoável. Muito tranquilo para o gosto dela. —Deixa-se ser influenciado por cavalheiros como Donnelly com muita facilidade —concluiu lady Horncastle. Keira bufou. —Donnelly é um impertinente, não acha? 94


—E temerário! —apressou-se a acrescentar a mulher. —Excessivamente —concordou Keira.— Não parece se importar com ninguém, só com que ele mesmo. Eu não gosto absolutamente — afirmou com uma careta. —Não, sem dúvida. Você é muito educada para os de sua índole. Merece conhecidos muito mais refinados, lady Ashwood. Sem dúvida. Merecia... Não queria pensar no que merecia. De repente, deixou sua xícara de chá, desejando desesperadamente mudar de assunto. —Tem uma escada muito bonita. Parece bastante com a de Ashwood. —Teria sido igual à de Ashwood, só um pouco menor, claro, se o incidente não tivesse ocorrido. —A dama virou a cabeça para olhar a escada. Subia formando uma curva de um lado da entrada até o andar superior, que tinha uma cerca no extremo oposto, onde a escada dupla devia ter sido finalizada. Essa cerca parecia um pouco torcida se alguém se olhasse bem, mas Keira supôs que a entrada de Rochfield era tão escura e estreita que se alguém entrasse na casa dificilmente seria percebido.— Infelizmente, nunca houve outro entalhador que pudesse comparar-se em talento com o senhor Scott. —Lembra dele? —perguntou Keira. —OH, claro que sim! —respondeu lady Horncastle, enquanto voltava a reclinar-se na poltrona, com as mãos no colo.— Era um homem muito bonito. Com belos olhos castanhos e cabelos loiros claros — explicou, enquanto tocava o chapéu de renda. —Acredita que..., que possivelmente minha tia gostava dele? Isso fez com que a mulher virasse a cabeça de repente. —Gostar dele? Por que, em nome de Deus, pergunta-me uma coisa assim? Keira notou o calor do rubor nas faces. —Eu... Ah... Bom, suponho que porque tenho umas vagas lembranças... 95


—Com devido respeito senhora, é impossível que tenha alguma lembrança importante disso. Você era muito pequena. Althea podia ser infeliz em seu casamento com o conde, mas não era uma adultera e deveria envergonhar-se de sugerir tal coisa. —Não, não pretendia insinuar que... —Vou falar claramente —continuou lady Horncastle: — Scott era um enganador. Muito hábil com as mãos e muito encantador com as palavras. Althea não deveria ter confiado nele, mas ela confiava nos cavalheiros geralmente de uma maneira que resultava alarmante. —Confiava nele? —perguntou Keira rapidamente, agarrando essa pouca informação. —Confiar nele? Não disse tal coisa! Como vou saber o que pensava dele? Só pretendia dizer que Althea, achava que era muito bom em seu trabalho e é verdade, que era um grande artesão, mas possivelmente você saiba melhor que ninguém que no final ele a enganou. Um momento antes, Keira era muito jovem para lembrar algo. Nesse momento, supôs que devia lembrar muito bem. —Sim —respondeu, com olhando para baixo durante um momento, para que lady Horncastle não pudesse ver a vacilação em seus olhos.— Sem dúvida era muito bom. A escada de Ashwood é esplêndida. Suponho que o senhor Scott deve ter passado muito tempo na casa para esculpi-la. A mulher entrecerrou seus pequenos olhos, com um olhar ardiloso. —O que está insinuando exatamente? —Nada absolutamente! — Keira apressou-se a responder, fingindo inocência.— Só tenho curiosidade, lady Horncastle. Estive tentando resgatar minhas antigas lembranças. A dama suavizou quando ouviu isso e inclusive sorriu um pouco. —Não vale a pena. Faz muito tempo, que o senhor Scott morreu, assim como a senhora sua tia. Deus tenha piedade de sua alma. —Tem razão, claro —respondeu Keira com recato. Bebeu um gole do seu chá e pensou em perguntar a lady Horncastle pela morte de sua tia, mas não sabia como fazer isso.— Suponho que a família do senhor Scott 96


continua vivendo em Hadley Green, não é? —disse como quem não quer dizer nada. —Claro que não. Como poderiam ficar depois daquele horrível assunto? Aquelas pobres crianças. Não tinham trabalho, ninguém que desse um pão e, evidentemente, nenhuma pessoa decente queria relacionar-se com eles. Mas lady Ashwood, você parece ter muita curiosidade sobre esse tema tão ultrapassado e desafortunado. —Absolutamente —respondeu ela com doçura. — É só como disse, estou tentando situar vagas lembranças. Estive pensando em minha tia e em sua trágica morte... —Não faça isso —replicou bruscamente lady Horncastle.— Só conseguirá angustiar-se. Já mostrei esse quadro? —perguntou de repente e se levantou.— É de um artista jovem, mas já é bastante famoso. Keira olhou para a pintura, muitos pedestres em uma paisagem, que pendurava da parede. —É Rochfield —explicou lady Horncastle. Enquanto Keira a escutava, perguntava-se com quem mais poderia falar do senhor Scott. Sem dúvida, ninguém do círculo de amizades de sua tia teria se relacionado com ele. Inclusive em Ashwood, o único que talvez, tivesse falado com ele alguma vez seria Linford. Linford! Keira estava surpresa de não ter pensado nisso antes. Claro que o mordomo teria se relacionado com o homem! Com essa ideia na cabeça, Keira partiu de Rochfield pouco depois, conduzindo um cabriolé de um só cavalo. O senhor Fish não gostava que conduzisse e a tinha advertido sobre todos os percalços que podia sofrer sua ilustre pessoa saindo sozinha. Mas não amedrontavam Keira com suas advertências; não podia suportar que limitassem seus movimentos. Gostava da liberdade e estava totalmente tranquila no cabriolé. Na verdade, supôs que estaria totalmente tranquila em qualquer parte do mundo. Adorava novas e diferentes aventuras. Mas sem dúvida ia distraída, porque não viu o cavaleiro até que quase esteve em cima. O cavalo saltou para fora do caminho e jogou o 97


pobre homem. Keira freou de repente e olhou para trás. Ele estava se colocando em pé e estava sacudindo as calças. —Peço mil perdões! —disse ela.— Você está bem? —Não fiz nada —respondeu o homem; pegou a brida de seu cavalo e montou com agilidade. Fez virar-se e se aproximou de Keira.— Peço que me desculpe, senhora, mas deveria tomar cuidado nessas estreitas estradas rurais. —Estou completamente de acordo —respondeu ela e sorriu. —Possivelmente alguém deveria levá-la — ele sugeriu, sorrindo também um pouco. —Levar-me? —repetiu Keira. O homem era muito bonito, de cabelos dourados e olhos azuis.— Não ter visto você, não me transforma em alguém incapaz de conduzir uma carruagem, senhor. —Poderia discutir isso, mas tenho por norma, não discutir nunca com as damas encantadoras. Ela se ruborizou e esboçou um belo sorriso. —E o que outras normas você tem sobre as damas? O homem começou a rir. —Não revelo essa informação, a não ser que conheça a dama. Sem deixar de sorrir, Keira o avaliou. Jamais dizia seu nome, nunca disse que era Lily Boudine. Parecia como se sempre houvesse alguém a mão para dizer; se não dizia ela, parecia que, de algum jeito, não estava mentindo. —Nunca digo meu nome a um cavalheiro que não conheço. —Então, tenho que me apresentar imediatamente. Sou Benedict Sibley. —Boa tarde, senhor Sibley. —Keira voltou a pegar as rédeas. —Peço que me desculpe, senhora, mas não pretende partir sem dizer seu nome, não é? Para um pobre viajante ferido? Ela riu. —Você está ferido? —Infelizmente, não —respondeu ele com um sorriso inclinado. Keira sorriu outra vez. —Tenha um bom dia, senhor Sibley —disse e continuou, olhando para trás. 98


Ele continuava ao lado do caminho, observando afastar-se. Ela riu para si e cutucou o cavalo para que fosse mais rápido. Um monte de correspondências esperava Keira quando chegou a Ashwood e o senhor Sibley logo caiu no esquecimento. Havia tanto o que fazer... Nunca pensou que dirigir uma propriedade desse tanto trabalho. Tinha que planejar os menus e manter um calendário de atividades sociais. Devia tomar decisões sobre o pessoal: quem devia fazer o que e quanto devia gastar-se em artigos domésticos. Não era estranho que seu pai sempre estivesse trancado em seu secretário. Estaria perdida sem o senhor Fish. Nessa tarde, Linford anunciou, enquanto ela estava ocupada arrumando outro carregamento de flores da estufa, recém chegadas e da cortesia do senhor Anders, um solteirão com alopecia incipiente e dedos ossudos. Linford levava uma pilha de cartas e colocou ao lado das outras, que Keira ainda tinha que ler. —O senhor Fish e outro cavalheiro, senhora —anunciou. —Graças a Deus, uma distração de todas essas correspondências —respondeu um pouco mais animada.— Que outro cavalheiro, Linford? —Não posso dizer, senhora. Acredito que é um advogado. —Um advogado? Eu não gosto dos advogados, na verdade. Sempre querem algo, como impor cargas sobre a propriedade ou dinheiro por serviços prestados, muito antes que eu chegasse. —Sorriu e entregou o vaso de flores. O mordomo as pegou e foi para a porta. —Linford..., espere —disse Keira, quando ele já chegava à porta. Não havia, momento melhor que aquele e ela nunca foi daquelas que faziam rodeios quando algo a interessava.— Perguntava-me se você lembra do senhor Scott. No rosto do ancião apareceu uma expressão de total desconcerto. —Desculpe? —O senhor Scott —repetiu Keira.— O que esculpiu a escada. 99


Imediatamente, Linford apertou os lábios e seu rosto corado ficou em um tom mais escuro. —Eu quase não lembro nada —prosseguiu ela,— mas tenho muita curiosidade em saber mais dele. Esperava que você pudesse dizer algo. —Agora, senhora? —perguntou o homem olhando para a porta.— O senhor Fish... —Por favor, Linford. Será breve. O mordomo voltou a olhá-la, com os lábios tão apertados, que quase desapareceram. —Não sei muito bem o que dizer —respondeu falando devagar.— Era um tipo decente. —Acredita que era culpado? —Isso eu não devo dizer. —Parecia terrivelmente incômodo.— Faço entrar já o senhor Fish? Keira sorriu. —Sim, por favor. Obrigada. O velho mordomo não ia dizer mais nada e Keira começou a pensar, que ninguém diria, porque independente do que cada um pensasse do senhor Scott, ela ou, melhor dizendo Lily, foi quem o enviou à forca. O que poderiam dizer, sobre o senhor Scott à pessoa que o consideravam seu verdugo? Que era um bom homem, honrado e inocente, com cuja vida Lily havia acabado? Declan, aquele uva sem semente recalcitrante. Ele era o único que poderia ajudá-la a chegar a fundo no assunto. Mas nesse momento, era hora de conhecer o advogado. No grande escritório de Ashwood, com seus altos tetos e suas cortinas de veludo, Keira endireitou os ombros para dentro de seu novo vestido de musselina branca, com faixa rosa claro. Usava o cabelo preso com fitas da mesma cor e um colar de pérolas no pescoço. O senhor Fish entrou primeiro e ela ficou muito surpresa, ao ver o cavalheiro que o seguia: era o senhor Sibley. Viu-o sorrir e avançou rapidamente para ele. —Senhor Sibley, como está você? —saudou-o, estendendo a mão. —Conhecem-se? —perguntou o senhor Fish, surpreso. 100


—Por acidente —respondeu Keira. —A condessa me fez cair do cavalo —explicou o senhor Sibley e se inclinou sobre sua mão, embora seus olhos não se separassem de seu rosto. O senhor Fish pareceu horrorizado diante essa afirmação e ela não pôde evitar de sorrir. —Assegurou-me que estava em perfeitas condições, senhor Fish.

—Lady Ashwood, é um prazer conhecê-la formalmente —disse o advogado, galantemente.—Suspeitava que fosse você quem conduzia a carruagem, mas devo dizer que os rumores sobre sua beleza não a fazem justiça. Como Keira sempre teve muitos pretendentes em sua vida, essa pequena adulação não a afetava. —Pergunto-me, se seus comentários seriam tão aduladores se tivesse sido ferido —respondeu e fez um gesto para os assentos que havia perto à lareira.— Desculpe-me novamente. —Não é necessário —se apressou a assegurar o senhor Sibley. Keira não pôde evitar de perceber como a devorava com os olhos. Ambos os cavalheiros esperaram que ela sentasse, antes de levantarem a cauda de seus casacos e sentarem-se frente a ela. A gatinha que o senhor Green havia lhe dado e que Keira chamou de Branca, meteu-se entre as pernas do senhor Fish e depois se esfregou nas botas do senhor Sibley. Nenhum deles prestou a menor atenção ao animal. Linford ficou ao lado, preparado para servir o chá. Keira lhe fez um gesto para que começasse. —Vem da cidade, senhor? —perguntou a Sibley. —Exato. —Não conseguia afastar os olhos dela. Seu sorriso era cálido e fácil, seu olhar passeava por seus seios. —Veio de Londres só para ver-me? —perguntou fingido acanhamento.

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—E lamento não ter feito antes —respondeu ele.— O certo é que vim para discutir um assunto importante. O conde Eberlin contratou os serviços de minha firma. —O conde...? —Eberlin. É um nobre dinamarquês com vínculos com a Inglaterra. —E o que tem a ver o conde Eberlin com Ashwood? —Tem importantes propriedades na Dinamarca. Entretanto, não está do lado de Napoleón e dada a incerteza no continente e o medo que a Inglaterra entre em guerra com a França, gostaria de comprar propriedades aqui, se por acaso chegar o momento em que tenha que abandonar seu país... por questões políticas. —Disse de uma maneira que fez Keira pensar em algo pior do que isso. —Não pode comprar Ashwood —respondeu ela, rindo. —Claro que não. O conde comprou Tiber Park —continuou Sibley. — Como sem dúvida você sabe, limita com Ashwood pelo norte. —Tiber Park! —exclamou Keira. Conhecia muito bem; era um de seus lugares favoritos para cavalgar.— Fico muito contente de ouvir que alguém comprou essa pobre casa. É muito bonita e é uma vergonha que esteja vazia. Está se deteriorando. —Lorde Eberlin pretende começar a restaurá-la dentro de duas semanas. —OH, isso é uma boa notícia! —exclamou, contente.— Pode assegurar a sua senhoria que apoio totalmente essa restauração. —recostouse no assento, satisfeita consigo mesmo. No que dependesse dela, seria uma boa vizinha. Mas quando Keira olhou o senhor Fish, percebeu que este observava atentamente o senhor Sibley. —Veio aqui para falar da restauração de Tiber Park, senhor? — Perguntou seco, ao advogado. —Não exatamente —respondeu o senhor Sibley e sorriu para Keira.— O motivo de minha visita senhora, é que durante a compra de Tiber Park, chegou a conhecimento do conde que existem certas 102


particularidades sobre o verdadeiro limite entre Ashwood e Tiber Park. Tem que ver com uma vinculação legal que expirou. —Que expirou? —repetiu ela, insegura. Keira conhecia as vinculações e a prática de comprometer a propriedade durante gerações para manter a terra e os ganhos procedentes dela em uma família ou uma fundação familiar. Como era o caso de sua casa na Irlanda, a família podia ficar com os benefícios da propriedade, mas não podia vendê-la, porque seus antepassados a tinham legado a seus herdeiros. O senhor Sibley tirou um documento do bolso do casaco, desatou a fita de couro que o segurava e colocou sobre a mesa. —Perdoe-me por expor esse assunto a sua requintada atenção, lady Ashwood. Não é um tema com que gostaria de sobrecarregar uma dama, mas como é a única herdeira, devo fazê-lo. —OH, senhor Sibley, permita que o desiluda da ideia de que sou muito sensível para ouvir o que tem a dizer —respondeu ela, sorrindo.— Por favor, continue. —Com sua permissão, resumirei o assunto. Aparentemente, quatrocentos hectares do terreno original de Tiber Park deram de presente de casamento à filha do dono original do imóvel, que se casou com um antepassado Ashwood. Continuo? —Sim, sim. Continue. —As escrituras e os ganhos dessas terras se vincularam aos herdeiros varões. O falecido conde de Ashwood, um descendente dela, teve muito cuidado de estender seu título e sua herança a qualquer herdeira mulher, se por acaso nenhum herdeiro varão sobrevivesse, mas esqueceu de fazer o mesmo, com esses quatrocentos hectares. —E isso quer dizer? —perguntou Keira, enquanto uma sensação de pânico encolhia seu estômago. —Quer dizer que os quatrocentos hectares ficaram desvinculados pela morte do conde e pela falta de um complemento à vinculação original. Lorde Eberlin pretende pedir portanto, que o título dessas terras se inclua em sua propriedade. 103


Keira ficou boquiaberta. Sabia que as terras que se referia o senhor Sibley, eram as mais proveitosas de todas, as únicas ultimamente que produziam receitas constantes. A falta de dinheiro líquido era tão extrema que tinha medo que toda a propriedade acabasse na ruína sem esses hectares. Lily não podia ter esse problema, além de suas dúvidas também o senhor Scott e a tia Althea. Keira tinha prometido cuidar de Ashwood, não destruí-lo. O que o senhor Sibley estava dizendo era muito sério e se ela tivesse tido alguma dúvida a respeito, era só olhar o pálido rosto do senhor Fish. —Permite-me perguntar se compreendeu? —inquiriu o advogado, como se ela fosse tola. —Entendi perfeitamente, senhor Sibley —respondeu Keira, docemente, embora estivesse lutando para controlar sua fúria irlandesa. De repente, suspeitou que o «horrível homem» que estava por trás com intenção de despejar a senhora Hannah Hough de sua terra era o conde dinamarquês.— Entretanto... Na verdade é que não estou nada de acordo. Se a propriedade foi um presente para um antepassado Ashwood, pertence a Ashwood. Sibley sorriu pacientemente. —Concordo que essa é uma interpretação possível. Mas investiguei bastante e acredito que também há certa validade na teoria do conde. E agora vim a Hadley Green para continuar minha investigação nos registros da paróquia. De repente, Keira ficou em pé. —Então, esperarei notícias delas. —Sorriu a ambos os homens, que também ficaram em pé. O senhor Sibley a superava em altura e a percorreu com o olhar de cima abaixo. —Foi um prazer conhecê-la. —O prazer foi meu —respondeu ela, com um leve sorriso. Isso pareceu agradar ao homem, que olhou então ao senhor Fish. —Que tenha um bom dia, senhor —se despediu e partiu da sala. Quando saiu, Keira se voltou para seu administrador. 104


—Isso significa o que penso? —Acredito que sim, é. —Santo Deus —exclamou ela.— O moinho, senhor Fish. O moinho tem que estar funcionando logo se existir inclusive a mínima possibilidade de perdemos essas terras. —A reconstrução já começou —assegurou ele. —Devemos o entreter de algum jeito —sugeriu Keira.— Pelo menos, até que possamos encontrar um advogado que entenda dessas coisas. —Já começarei a perguntar —disse o senhor Fish.— Mas como o entreteremos? —Deixe isso comigo —respondeu Keira. Se havia algo que tinha talento em conseguir era fazer um cavalheiro fazer o que ela queria.— Só precisamos de um pouco de tempo. Não podemos deixar que isso aconteça. Desejou que o senhor Fish, se mostrasse um pouco mais seguro disso.

CAPÍTULO 08 A senhora Ogle ia oferecer um jantar. Declan não tinha intenção de participar da noite dessa velha fofoqueira e quase nem olhou o convite ao receber. Mas depois encontrou 105


Keira em Hadley Green. Estava acompanhada de um dândi; aquela garota colecionava homens como se fossem fitas de cabelo: mandava neles, jogava com alguns, ficava com outros e os trocava frequentemente. Na verdade, era um assunto ridículo que não o concernia e estava muito zangado por permitir que Keira tivesse metido à cabeça até nesse ponto. Ao sair de Grousefeather Tavern estava com humor esplêndido, até que quase se chocou com ela na frente da loja Clark’s Dry Goods. Ela usava um vestido marrom com cós verde e Declan viu como combinava bem com seus malditos, formosos e expressivos olhos, tão cheios de vida e malícia. Keira sorriu alegremente ao vê-lo, apesar de seu último dois encontros. Mas, claro, ela não era das que se deixavam afetar por algumas discussões. «Dia duit», havia dito, saudando-o em gaélico. —Senhora. O que a traz na cidade? Há em alguma casa, ou algum lugar vazio que você queira comprar? —O que divertido —disse ela. Declan olhou para seu acompanhante. —OH —disse Keira, como se acabasse de lembrar que o homem estava ali.—Permita-me apresentar o senhor Sibley. Senhor Sibley esse é lorde Donnelly. —E, dirigindo-se a Declan:— O senhor Sibley veio de Londres. Como se isso fosse importasse para ele! —Senhor Snibley —saudou, secamente. —Sibley, milord —o corrigiu este com a mesma secura.— É um prazer conhecê-lo. Ouvi falar muito de você. —Ah, sim? —perguntou Declan e jogou um olhar acusador em Keira. Ela o devolveu. —Através da senhora Ogle —explicou logo.— Está muito contente por tê-lo convidado para seu jantar. Mas eu disse, que era bem provável que você não participasse, porque prefere os cavalos às pessoas. Como está acostumado a dizer, Deus os cria e eles se juntam.

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E isso foi tudo; um pequeno comentário, ridículo e tolo, que novamente enfureceu a Declan. Ela agia como se, de algum jeito, ele estivesse errado. —Pelo contrário —respondeu Declan então.—Eu adoraria admirar seu círculo, cada vez maior de conhecidos. Keira não se sentiu cortada, nem um pouco por isso e sorriu de orelha a orelha. —Será uma grande noticia para a senhora Ogle, porque agora pode contar que teve a sua mesa o mais seleto de Hadley Green. —Eu não diria tanto —replicou ele com um olhar significativo. —OH, céus milord, você é sem dúvida um grande companheiro de mesa, falem o que falem os outros —disse ela com um brilho irônico nos olhos.— Esperarão ansiosas sua participação. —Asseguro que o prazer será todo meu —replicou Declan. Keira teve a audácia de sorrir para ele como se a divertisse. —Vamos, senhor Sibley? O senhor Fish está nos esperando. —Estava a ponto de fazer essa mesma sugestão —respondeu o cavalheiro e ofereceu o braço para que ela colocasse a mão.— Milord. —Senhor Snibley. —Sibley. —Peço que me perdoe —disse Declan e com as mãos à costas, fez uma pequena reverência e se afastou para permitir que passassem pela calçada. Observou o balanço de Keira ao andar, a forma que caminhava ao lado daquele homem. Esteve pensando nesse encontro casual, todo o caminho até Kitridge Lodge. Ao chegar ali, seu todo bom humor se evaporou. Chamou seu encarregado, o senhor Noakes e deu uma resposta afirmativa, escrevendo rapidamente para que enviasse à senhora Ogle. Entretanto, na noite em questão, arrependia-se de sua reação. Não conseguia pensar em nada pior que a senhora Ogle tentando emparelhá-lo com alguma das rústicas jovens damas de Hadley Green, todas soltas por ali como ruminantes em um pasto. Parecia que podia ouvi-la: «Já está na 107


hora de casar, milord», ou sua favorita: «Precisa de um herdeiro», como se fosse um touro no meio das vacas. Fazia dez anos que ouvia o mesmo refrão, mas não estava preparado para casar ou ter um herdeiro. Entretanto, ali estava, vestido de fraque, com colete de seda branco e lenço no pescoço, preparado para suportar o que só poderia ser uma noite interminável e tudo porque Keira Hannigan o exasperou uma vez mais. Quando chegou, a suposta condessa ainda não tinha feito sua aparição, mas por outro lado, dava a impressão que todos de Hadley Green estavam ali. Os convidados se reuniram no salão. No fundo do mesmo, alguém tocava um piano sem muita perícia e as damas, que queriam inspecionar aos convidados e ao mesmo tempo, exibir seus trajes, pioravam a situação ao forçar os cavalheiros ficarem encostados nos móveis para permitir a passagem, enquanto elas passeavam pelo salão. Declan mal tinha provado o vinho, quando teve que suportar a apresentação de três moças solteiras. Suspirou e depois sorriu, preparandose para manter o bate-papo superficial de sempre, já que era um cavalheiro consumado. E gostava das mulheres. Das três, fixou-se em Daria Babcock, uma jovem bonita e pequena, de olhos castanhos e cabelos muito loiros. Era a mais interessante de todas, só porque não parecia estar tremendo de timidez, ou tão reservada que não se atrevesse a falar. —Tenho entendido que você está em Kitridge Lodge —disse, depois de trocar as frases de rigor sobre o tempo de verão. —Sim, estou. Sorriu para ele com certa timidez. —Há muito poucas novidades no povoado de Hadley Green para poder entreter-se, milord. Despertamos todas as manhãs desejando desesperadamente que alguém alugue uma propriedade ou venda um cavalo, para poder ter algo do que falar durante o chá. Declan não pôde evitar dar uma risadinha. —Que pena que não tenham nada melhor para ocuparem-se! 108


—OH, acredito que talvez se surpreenderia —replicou ela, com um sorriso irônico. Talvez sim. Declan se aproximou mais dela. —Então, me surpreenda. Mas justamente naquele momento, Keira fez sua entrada triunfal. Um repentino murmúrio se ouviu entre as pessoas e a senhorita Babcock, que distraída, esticou o pescoço para a porta. —Acho que a condessa chegou —disse, com uma voz cheia de reverência juvenil. Se a pluma branca que se agitava acima das cabeças dos outros fosse Keira, então sim, havia chegado. —Agora sim, alguém que pode surpreendê-los e dar mais do que suficiente, para falar durante o chá —comentou Declan, sarcástico. —Claro! —assentiu rapidamente a senhorita Babcock.— Todo mundo a tem em grande estima. É generosa de espírito e de atos. Deseja fervorosamente melhorar Ashwood e as condições dos pobres órfãos de St. Bartholomew. Declan quase se engasgou com seu segundo gole de vinho. —Quer salvar os órfãos? —disse jovialmente.— Pois deveria ter a mesma obstinação para salvar a si mesmo. —Perdão? Ele sorriu. —Nada, uma brincadeira. Bom, estou a impedindo que vá saudá-la. Por favor, desculpe-me, senhorita Babcock. —E se afastou antes que a garota pudesse pensar em algo para prendê-lo. Declan terminou o vinho e fez um gesto ao lacaio para que o servisse outro. Em seguida o encurralou a senhora Morton, quem, como era de esperar, tinha uma sobrinha solteira que iria visitar no fim de mês. Enquanto a mulher tagarelava sobre as grandes qualidades de sua sobrinha, Declan viu Keira. Teve que admitir que parecia muito uma condessa, capaz de rivalizar com as grandes damas da aristocracia londrina. Estava resplandecente, com um vestido de seda branca e cós prateado. Usava 109


cabelo preso, com uma bonita pluma branca contra o brilhante cabelo negro. No peito tinha um grande broche aceso em diamantes e esmeraldas que cintilava como uma pequena estrela. Circulou pela sala, saudando conhecidos, sorrindo arrebatadora, enquanto sua risada flutuava por cima dos cochichos e as conversas. Era muito encantadora. Sempre foi. A maioria dos homens do salão pareciam gravitar para ela, elogiando-a abertamente e competindo por sua atenção. Com aquela aparência e todo mundo no salão convencido de que possuía uma fortuna, era sem dúvida a favorita de todos. Keira não parecia alheia absolutamente. Declan ouviu sua alegre conversa, viu-a falar longamente sabe-se Deus sobre o que. O certo é que o deixou perplexo; como acreditava que não a descobririam antes de Lily voltar? Aquilo era ridículo. Não deveria ter ido ao jantar; só estava se exasperando. Aproximou-se dela. Os olhos de Keira cintilaram de satisfação ao vê-lo, como se desfrutasse de irritá-lo e fez uma profunda reverência, oferecendo uma perfeita visão de seu decote. Depois, levantou o olhar para ele. —Milord. Declan ofereceu a mão para ajudá-la a levantar-se e captou um rastro do seu perfume. Imediatamente, o fez pensar em uma tarde quente e ensolarada em um prado irlandês. —Acreditava que não viria —disse Keira retirando a mão e roçando a palma com os dedos. —Disse que eu viria. —Sim, disse —respondeu com um descuidado encolhimento de ombros.— Vejo que quis me contrariar. —Arqueou uma sobrancelha em uma silenciosa pergunta. —Totalmente falso —respondeu ele, enquanto a percorria com o olhar.— Não pensei em você absolutamente. Keira sorriu. —De verdade? Ele se inclinou um pouco. 110


—De verdade —assegurou em voz baixa.— A senhorita Babcock disse que sente um repentino interesse pelos órfãos. O que pretende fazer, empregá-los para que a defendam quando as autoridades baterem em sua porta? —As crianças são encantadoras —replicou ela, coquete.— Incluso você poderia chegar a se dedicar à caridade se os visse. E acho que já expliquei com toda clareza. Deve confiar que estou fazendo o certo pelo bem de Lily. —Confiar? «Confiar» não é uma palavra que venha à cabeça quando penso em você, moça —soltou Declan. —Se entregou! Já vejo! —Keira sorriu, zombadora.— Sim, pensa em mim. —Penso que você não gostará de estar em uma prisão inglesa durante muitos anos — disse sorrindo um pouco também. —Que amável. Eu também penso em você, Declan. Acredito que você tem inveja. —Inveja? —repetiu ele, incrédulo. —Sim, inveja. De que gostem do que eu estou fazendo e das coisas boas que faço para minha querida prima Lily, muito melhor do que você faz por... —De repente se calou. Declan a olhou fixamente. —Por quem? —perguntou, embora já sabia a resposta. Refere-se a Eireanne. —Não importa. —Não, Keira..., por quem? —insistiu ele. —Lady Ashwood! Peço perdão por interrompê-los —disse a senhora Ogle, que apareceu de repente ao lado de Declan.— A prima da senhora Morton, a senhorita Patterson, veio de muito longe e... —Sim, claro —respondeu Keira e fulminou Declan com um olhar assassino.— Lorde Donnelly. Ele inclinou a cabeça e a observou, enquanto se afastava, antes de ir em busca de outra taça de vinho. O vinho fluiu livremente e durante mais tempo do que era habitual antes do jantar; Declan já não era um desconhecido para os lacaios, que 111


circulavam entre os convidados. Ouviu que havia um pequeno problema na cozinha. —Robina contratou uma cozinheira de Londres — comentava uma bojuda dama a sua companheira.— Disse que havia cozinhado para lorde Townsend. Mas mal terminou de preparar a sopa! Declan suspirou e bebeu mais vinho. Apresentaram a duas jovens mais, uma com seios impressionantes. O vinho estava subindo à cabeça e se desculpou para ir em busca de ar fresco. Saiu para o terraço, perguntando-se bobamente se já teria bebido o suficiente. Por desgraça, a terraço não estava vazio. Keira estava ali com um pequeno grupo de admiradores. Ele não ouvia o que dizia, mas sim a via falar com grande animação, enquanto com as mãos gesticulava no ar. Seu pequeno grupo, composto de três cavalheiros e duas damas, bebiam suas palavras, rindo alegremente. A risada de Keira flutuou diretamente sobre a cabeça de Declan como uma nuvem. Olhou-a do outro lado do terraço, dolorosamente ciente dela. Irritava-o. Nada no condado de Galway foi igual depois da morte de Eve e, entretanto, Keira contínuo como se não tivesse acontecido nada. Sua aparência, seu encanto, eram aceitos pelos mesmos que a tinham censurado. Não que lhe importasse; Declan tinha seus amigos em Londres e estava mais do que satisfeito com eles. Mas igualmente o irritava. Não era justo. Ela virou a cabeça ao acaso e o viu ali de pé. Declan jurou que tinha visto algo, um desafio, brilhar em seus olhos. Foi suficiente para enviá-lo direto a guarida do leão. —Boa noite, milord —o saudou Keira, inclinando a cabeça.— O senhor Huxley estava contando que na Escócia, o dia de San Miguel é quando roubam mais cavalos. —Assim é, senhora —disse o senhor Huxley, rindo.— Pode-se levar um cavalo que tenha mais à mão e fingir que vai de peregrinação. É o que diz o costume. 112


—Uma peregrinação aonde? —perguntou outro cavalheiro. —No pub —respondeu o terceiro e o grupo começou a rir. —Os escoceses dedicam esse dia às corridas de cavalos —disse Declan a ninguém em especial. —Correu ali? —perguntou Keira, com o olhar resplandecente. Ele desejou ter mais vinho. —Sim. —Algum dia eu gostaria de visitar Escócia —disse ela. —E na Irlanda? —perguntou o senhor Huxley.— Os irlandeses celebram também o dia de San Miguel? —Na Irlanda, o dia de San Miguel se come ganso —respondeu Keira.— Há um ditado que diz: «Quem come ganso no dia de San Miguel, sem dúvida não faltará dinheiro». —E o que você fará aqui na Inglaterra no dia de San Miguel? — continuou o senhor Huxley. Declan achou que a olhava com excessiva admiração. —Aqui? —Keira fingiu pensar com cuidado.— Uma festa de gansos —respondeu no final.— E depois roubarei um dos cavalos de lorde Donnelly. Todos riram. —Será melhor que prenda bem seus cavalos, milord! —aconselhou um dos cavalheiros. —Não tenho nada o que temer —respondeu ele.— Estou certo, que até lá então, a dama já não estará aqui. —E para onde quer que eu vá, milord? —perguntou Keira animada, como se estivessem jogando. —Suponho que para a Irlanda. Ou possivelmente, para algum lugar ainda mais distante. —O que? E nos deixar? —exclamou Huxley. —Está vendo, milord? O senhor Huxley deseja que eu fique e roube seu cavalo. —Keira sorriu radiante. Por sorte, ouviram o sino do jantar, antes que alguém pudesse desafiá-la a ficar e roubar o cavalo. Enquanto o grupo ia para a porta, ela olhou para Declan e dedicou um sorriso impertinente, como se estivesse 113


muito satisfeita com sua atuação. Ele a pegou pela mão e a separou do grupo. —Um momento, «condessa». —Desculpe-me —disse Keira, tentando soltar-se.— Estou faminta. —O dia de San Miguel? —perguntou ele em voz baixa.— Pretende continuar com esse jogo absurdo por dois meses a mais? —Pelo amor de Deus —exclamou ela, soltando a mão.— Lily já estará aqui então. É muito possível que goste de celebrar uma festa para San Miguel. —Deixe de fazer isso — advertiu Declan.— Deixa de ficar por aí passeando e disfarçando com cavalheiros pendurados do braço. Ela abriu muito os olhos e depois sorriu de orelha a orelha. —Não estou passeando. Estou guardando as aparências até que minha prima venha. Mais uma vez, parece estar com inveja Declan. —Pelo amor de Deus, não se engane. O sorriso de Keira se fez mais amplo. —Bem, e o que posso pensar de você por aí carrancudo,buscandome o tempo todo? —Carrancudo? —Soltou um bufo. — Está enganada. Se a quisesse, poderia tê-la a qualquer momento. Não preciso procurá-la. O sorriso dela se transformou em fogo. —Assim é o que pensas? Acredita que cairia em seus malditos pés? —sussurrou, acesa.— Você, senhor, jamais me terá... Ele a silenciou com um beijo. Não soube como; estava falando e imediatamente depois, ele a estava beijando. E Keira, Deus do céu, aquela mulher fazia ferver seu sangue, não se intimidou que estivessem sozinhos a poucos metros de dúzias de pessoas, ou por sua pequena mascara ficasse reduzida a cinzas com um bom escândalo. Grudou-se a ele, como se estivesse esperando ele e abriu a boca. Os lábios de Keira eram como um doce: suaves e com sabor de vinho. Declan roçou a língua com a sua e notou como o corpo da jovem parecia abrandar-se e fundir-se com o dele.

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Isso o deixou totalmente desconcertado. Sua cabeça dizia que parasse, que se afastasse, que partisse daquele jantar e daquelas pessoas, mas seu corpo e seu coração diziam que precisava um tiro de vinte cavalos para se afastar dela. Sua língua brincou com a de Keira e com seus dentes, mordiscou levemente o carnudo lábio inferior. O desejo começou a rugir em seu por dentro pedindo mais e incitou a ela para que procurasse mais. Foi Keira quem se afastou primeiro. Passou o dedo pelo lábio inferior olhando para Declan e depois sorriu, enquanto se virava sem dizer uma palavra e cruzava a terraço para entrar na casa. «Que Deus me ajude!», pensou ele. Em qualquer outro momento e lugar, teria agarrado pela mão e mostraria o que aquele tipo de olhar poderia conduzi-la. Nas circunstâncias que estavam, teve que ir ao maldito jantar e sentir aquele beijo e aquele olhar atravessa-lo por dentro, enquanto se sentava impossibilitado de fazer algo a respeito. Os convidados entraram correndo no pequeno salão e Declan se topou com um alvoroço, enquanto todos procuravam seu nome nos cartões. Quatro lacaios com perucas e librés alugadas tentavam ajudar, mas levou um tempo e muitos gritos por parte do senhor e da senhora Ogle, para que cada um encontrasse seu assento. Colocaram Declan sentado ao lado da senhora Ogle, que presidia em uma extremidade da mesa e a sua esquerda estava à senhorita Babcock. Estava certo, que a jovem tinha a mão no assunto e em mais de um rosto, pôde ver que umas quantas mães haviam esperado ver suas filhas sentadas ao lado dele. A expressão da senhorita Babcock estava um pouco azeda e Declan supôs que tinha uma boa ideia do que acabava de acontecer no terraço. Justo a frente dele se encontrava Keira, que nesse momento, evitava seu olhar alegremente e à direita dela, estava o senhor Robert Anders, quem segundo Declan soube, era o filho de um rico fazendeiro que herdaria cinco 115


mil libras ao ano. Ah, se soubesse da fraude de Keira; com certeza, pegava seus cinco mil e saía correndo. O senhor Sibley mostrou certa deferência por razões que escapavam a Declan; estava sentado ao lado da senhorita Babcock. Não parecia especialmente contente com esse acerto e, no meio do caos, tinha tentado iniciar uma conversa com Keira de um lado ao outro da mesa, mas viu que precisava gritar para fazer-se ouvir. Como uma rainha presidindo a mesa, a senhora Ogle se desfazia em sorrisos e dirigia seus serventes contratados como se a servissem todos os dias. Seu marido, um homem severo com um nariz bulboso, fez alguns comentários de boas vindas e depois convidou a todos para provarem a sopa de codorna. A senhora Ogle levantou uma colher de prata, sorriu serenamente e a colocou no prato que tinha na frente. Os convidados a imitaram. —Lorde Donnelly, conhece senhor Anders? —perguntou a mulher, enquanto tomava sua sopa. —Sim, obrigado. —Lorde Donnelly e lady Ashwood estavam nos contando como se celebra o dia de San Miguel na Irlanda —explicou Anders. —OH! Não sabia que se conheciam tão bem —disse a senhora Ogle para Keira. —Faz muito tempo que nos conhecemos —respondeu esta. —Alguns até diriam que muito, não é? —interveio Declan e levantou sua taça de vinho para ela. A senhora Ogle e a senhorita Babcock abriram bem olhos, surpresas. O senhor Anders parecia horrorizado. Se Declan tivesse virado a cabeça para a esquerda e visse Sibley apontar com uma pistola para ele, não teria ficado surpreso, absolutamente. Keira começou a rir. —Sem dúvida, eu também acho que alguns opinariam assim, milord. —Que curioso se encontrarem em Hadley Green —comentou o senhor Anders. 116


—O mundo é um lenço —respondeu Keira. —Até se poderia dizer que sujo —resmungou Declan. A seu lado, a senhorita Babcock fez um som que ele achou que poderia ser uma risadinha. —Estou vendo que lorde Donnelly gosta de brincar —disse o senhor Anders, com diplomacia. —OH, sim —reconheceu Keira rapidamente.— Temos até um apelido para ele na Irlanda. O chamam de Óinseach, ou seja, o brincalhão. —Olhou para Declan e sorriu para ele. Na verdade, essa palavra significava «o parvo», e ele não pôde evitar soltar uma risada. —Touché. —On-soch —tentou dizer a senhora Ogle e riu como uma colegial, é muito difícil de pronunciar, certo? Duro para os ouvidos, na verdade. Onsoch. A senhorita Babcock tentou também, inclusive com menos êxito que a senhora Ogle. Para Declan surpreendia que a Irlanda pudesse estar tão perto da Inglaterra, com sua história inextricavelmente entrelaçada e, entretanto, em muitos sentidos, fosse como se estivessem em dois extremos opostos do mundo. —Sempre achei muito interessante que as velhas línguas ainda existam em lugares como a Irlanda. —O senhor Anders tentava corajosamente manter viva a conversa. — Deve nos contar coisas de lá, lady Ashwood. —É bela —disse ela sem vacilar e deixou a colher sobre a mesa.— Em especial o condado de Galway, onde vive minha família, igual à de lorde Donnelly. A propriedade de minha família, Lisdoon, encontra-se no alto das colinas e está cercada de verde durante todo o ano. Se seguir o vale do rio, chega-se ao mar e aos escarpados de Mohar, que são muito impressionantes. Não está de acordo, lorde Donnelly?

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—Sem dúvida —respondeu ele e provou a sopa. Jamais conseguia olhar os escarpados sem pensar em Eve. A sopa estava fria. Voltou a pegar a taça de vinho. —Lisdoon —disse Sibley.— Soa muito lírico. —A propriedade de lorde Donnelly está justo ao norte de Lisdoon. Devem ter ouvido o nome... Ballynaheath. —Ballynaheath? —repetiu Sibley e riu.— Não tão lírico, não é verdade? —Anders e a senhora Ogle riram com ele. —Soa muito bonito —replicou a senhorita Babcock à defensiva. Declan sorriu para ela. —Obrigado, senhorita Babcock. Só um ouvido refinado o consideraria assim. —O lugar é muito bonito —continuou Keira.— Sua senhoria tem uma mansão requintada de onde se vê o mar. No verão, sempre senti um pouco de inveja de sua situação. Durante o inverno, entretanto, acredito que os ventos e a chuva podem ser bastante assustadores. Não está de acordo milord? Declan gostava dos dias de inverno em Ballynaheath. Eram familiares. —Não tão assustadores, não —respondeu, sem dar muita importância. Quando era criança, imaginava que os ventos frios o levavam e o depositavam em algum lugar distante e excitante. —O mar é tão cativante —comentou Keira.— Estava acostumada ficar nos escarpados, olhando-o durante horas. Declan sentiu que se encolhia por dentro. Frequentemente se perguntava quanto tempo teria ficado ali Eve, pensando no que ia fazer. Teria pulado logo? Ou teria ficado armando-se de coragem para fazer? —Sua cor e aparência mudam constantemente; é algo vivo e em movimento. Às vezes parece plácido, mas engole os homens, os navios inteiros e outras vezes quando está revolto, lança seus presentes à margem. Uma vez, meu pai e eu encontramos um arca cheia de xícaras de porcelana. —Não é só isso que lança à margem —replicou Declan e imediatamente Keira baixou o olhar para a sopa. 118


—Você disse seu pai, lady Ashwood? —perguntou à senhora Ogle com curiosidade.— Pensava que... —Meu tio —se corrigiu Keira imediatamente e sorriu, encantadora.— Claro que para mim era como um pai. —Evitou o olhar fixo de Declan.— O mar é fascinante para mim. Ele teve uma súbita imagem dela, sobre os montes açoitados pelo vento dos escarpados do Mohar, olhando o mar com o cabelo agitando-se atrás dela e o vestido esmagado contra o corpo. Foi uma breve imagem, mas inquietantemente excitante. —Não vejo o mar desde que era menina —comentou a senhora Ogle, com um suspiro de saudade.— Frequentemente, digo ao senhor Ogle que uma viagem à costa seria mais tonificante para ambos e com Brighton tão perto! Mas não gosta de afastar-se de casa. —É uma pena —disse Keira. —Que afortunada foi você lady Ashwood, ao poder desfrutar dessa oportunidade! E pensar como ficamos todos inquietos por você quando deixou Hadley Green! —continuou à senhora Ogle.— Só podíamos imaginar a selvageria que a esperava na Irlanda. Alegra-me saber que a receberam tão bem. Keira ficou paralisada. —Selvageria? —perguntou, olhando à mulher. A senhora Ogle bebeu alegremente sua sopa. —Frequentemente, dizem isso da Irlanda. —Dizem os ingleses —soltou Declan, com bastante frieza.— Os que jamais se aventuraram além da sua fronteira. Há um mundo fascinante além da Inglaterra, cheio de paisagens que nunca seriam vistos aqui. —Sem dúvida —aceitou a senhora Ogle.— Mas lady Ashwood era uma menina e inclusive o lugar mais formoso pode intimidar. Digo isso também, a menina lady Ashwood seria querida em qualquer lugar que fosse. —A dama sorriu para ela carinhosamente. —Sim, tem um impressionante poder de persuasão —concordou Declan. 119


—OH, não tão impressionante como tudo isso —respondeu Keira com acanhamento. —Não, devo dizer que estou de acordo com Donnelly —interveio o senhor Sibley.— Tive a oportunidade de passar algum tempo com lady Ashwood e sem dúvida, me persuadiu mais de uma vez, de que eu estou errado e ela tem razão. Com isso, todos riram educadamente; Keira dedicou um encantador sorriso a Sibley. —Espere conhecê-la mais tempo —respondeu Declan.— O persuadirá para que aceite muito mais que sua forma de pensar. As risadinhas educadas se calaram e se fez um incômodo silêncio, naquela extremidade da mesa. Ele pensou que talvez deveria deixar de beber, mas Keira sorriu e continuou comendo. —Ganhe de um homem em uma corrida de cavalos e jamais esquecerá —comentou alegremente. —Uma corrida! Deve correr contra ele na festa de gala! —propôs à senhorita Babcock, muito excitada. —Não poderia! —disse Keira, rindo.— Lorde Donnelly tem todos os bons cavalos de corridas de West Sussex. Em Ashwood só temos cavalos de trabalho. —Lorde Donnelly, deveria conceder um —continuou a senhorita Babcock, cada vez mais entusiasmada.— A corrida seria tão emocionante! —OH, não senhorita Babcock —riu Keira.— Concederia um velho pangaré para garantir sua vitória. Contarei um segredo sobre lorde Donnelly para você: não gosta de perder nada. Declan não tinha nem ideia como ela podia saber isso dele, mas era verdade. E ainda odiaria mais perder para ela. Embora, certamente, morreria feliz se ganhasse. Lentamente, terminou o vinho que restava na taça. —Darei um cavalo para você competir. —Parece que isso é um desafio, senhora —indicou o senhor Anders, rindo. 120


—É um desafio em toda regra —confirmou Declan, olhando fixamente a Keira. Essa respondeu com outro olhar fixo. —Não sei... Devo confiar no cavalo que meu competidor me daria? —Não se quer ganhar —respondeu Sibley com uma gargalhada. —O desafio não está no cavalo —disse Declan,— a não ser em como se monta. Achei que você melhor do que ninguém sabia disso. —Não é totalmente correto, Donnelly —interveio Anders.— Um pangaré não correrá tão rápido como uma potranca, por melhor que seja o cavaleiro que o leve. —Então, aqui e agora, prometo deixar o pônei galés que ela cobiça —declarou Declan.— Já o montou, senhora. Sabe que é tão bom cavalo como qualquer outro que possa encontrar em Hadley Green. —É verdade, conheço —respondeu Keira, erguendo-se um pouco. — Se prometer o galés, aceito seu desafio encantada. —E esboçou um grande sorriso, como se já estivesse ganho. —Acreditava que era seu desafio —replicou ele e fez um gesto ao lacaio para que lhe servisse mais vinho. —Tem razão —admitiu ela, com uma inclinação de cabeça.— Suponho que provoco os desafios porque desfruto deles. Nego-me ficar assustada diante um bom desafio. Isso fez todos rirem. Declan também. OH, como ia gostar de apagar aquele sorriso do rosto! —Eu adoro desafios difíceis —disse.— Tanto como não gosto dos desafios tolos. —Quer dizer que uma corrida para arrecadar recursos para caridade é uma tolice? —perguntou Keira, claramente encantada pelo apoio que estava recebendo de seus companheiros de mesa. —Absolutamente. Esse é um desafio que aceito alegre e ansiosamente. —Mas isso é esplêndido! —cacarejou a senhora Ogle e bateu em seu prato, com a colher para chamar a atenção de todos.— Lorde Donnelly 121


acaba de desafiar lady Ashwood para uma corrida durante a festa de gala! —proclamou. Um grito de entusiasmo se levantou da mesa. —Pelo que eu entendo, deseja ajudar aos pobres órfãos — continuou Declan, desfrutando de do rubor que ia cobrindo as faces de Keira.— Digamos que o perdedor doa uma bolsa ao orfanato? —Melhorou meu desafio. Não poderia negar —respondeu ela. Os convidados aplaudiram e mais de um prometeu contribuir com a bolsa de Keira. —Olhe, ainda poderá fazer uma considerável doação a sua caridade favorita —comentou Declan.— Supondo claro, que tenha a bolsa a que esses cavalheiros possam acrescentar alguma coisa. Várias pessoas riram. —Tenho a bolsa, milord —respondeu Keira.— E você? —Igualarei o que for preciso que essa boa gente coloque na sua. —Então, estamos de acordo. —Bom —exclamou ele, jovial. —Bom —repetiu ela, possivelmente um pouco zangada. —OH, aqui chega o veado! —exclamou a senhora Ogle com certo alívio. A atenção e os estômagos vazios dos convidados se centraram na carne. Depois de alguns comerem o veado morno e as verduras mal cozidas que Declan não conseguiu ingerir, as damas se retiraram do salão e aos cavalheiros serviram um porto antes de reunirem-se com elas. Declan se serviu dois. Ainda estava irritado pelo jantar. Keira era inteligente e cativante, isso tinha que reconhecer. Todas aquelas pessoas a consideravam uma maldita heroína. Quando se reuniram com as damas, insistiram para uma jovem, que demonstrasse seu talento com o piano e um trio de cavalheiros entreteve o grupo cantando. Interminável. Declan tomou outro porto e contemplou Keira sorrir, enquanto falava com Sibley. Perdeu a visão enquanto tomava outro porto, mas logo a 122


viu através de uma porta aberta. Estava no corredor, com a capa na mão e a senhora Ogle revoando atrás dela como um passarinho. Sibley também colocou a capa e o chapéu. Declan se levantou e envolvido em uma cálida neblina, caminhou para a porta principal, onde os anfitriões estavam despedindo-se de Keira. Declan se enfiou entre eles. —Minha capa — ordenou para o lacaio. —Lorde Donnelly! Não fica mais um pouco? Tínhamos pensado fazer um jogo —disse a senhora Ogle. —Obrigado, mas já está na hora de eu partir. —Olhou a Keira.— Vai tão cedo, condessa? Com tantos admiradores. Ela esboçou o que ele considerou um sorriso condescendente. —Tenho muita sorte nesse aspecto. Mas não sou admirada por todos. —OH, tenho certeza. Embora me atreveria supor que ser condessa tem efeitos diferentes sobre uma mulher. —Pegou a capa que o lacaio estendia.— Talvez, deveria deixar que outra pessoa tentasse. —Lorde Donnelly, estou começando a achar que algo afetou seu bom humor —replicou secamente Sibley. Declan estava com uma réplica cortante na ponta da língua, mas acabou não deixando sair. —E o que quer dizer com isso? —Quero dizer que é bastante evidente que sente inveja a atenção que a condessa tem com os outros. —Inveja? —soltou Declan e a língua começou a funcionar, embora tivesse que admitir que se sentia um pouco estranho.— Se acreditar que de algum modo tenho inveja de você senhor, então é por que é ainda mais iludido que ela. Fico muito contente, que seja a você a quem sorri, porque para mim isso não serve de nada. Mas antes de ficar primeiro com sua carteira de baile, assegure-se de que não tenha deixado a alguém no alto de um escarpado, a ponto de pular. Assim que essas palavras saíram de sua boca, soube que tinha ido muito longe. A senhora Ogle o confirmou com um grito afogado e Keira o 123


olhou, surpresa e pálida. Parecia ferida e isso fez que Declan sentisse uma curiosa dor atrás dos olhos. —Desculpe-se —grunhiu Sibley. —Não farei isso —replicou ele tenso, enquanto tentava de entender por que importava para ele fazer mal a aquela farsante.— Boa noite. —Não olhou para Keira, mas sim saiu da casa e foi pelo caminho, ladrando ao moço para que trouxesse seu cavalo. Meia hora mais tarde, chegou à obscura Kitridge Lodge. O velho castelo rural apareceu como uma sombra escura no céu noturno de verão, com uma única luz piscando em uma janela, procedente de uma lareira acesa dentro. Simplesmente no verão anterior, o velho edifício estava cheio de luz e risadas. Christie, duque de Darlington, um bom amigo de Declan, tinha ido ali com sua esposa, Katharine Bergeron, que era uma famosa cortesã. Christie desafiou sua família e o príncipe de Gales para casar-se com ela. Tiveram uma filha e Declan foi para conhecer. Dessa vez, invejou o calor de Kitridge Lodge, a felicidade que se respirava entre aquelas paredes quando Christie, Kate e sua filha estavam ali. Naquele momento não sentia nada disso. Nesse verão, a casa estava vazia e escorria solidão, algo normal para ele nos últimos tempos e não sabia por que era. Ballynaheath não estava vazia ou solitária, entretanto, por alguma razão, Declan reconhecia essa sensação como uma segunda pele. Mas Kitridge Lodge era apenas um refúgio temporário, de onde acabaria partindo. Sempre fazia. Sua irmã Eireanne, dizia que estava afligido de uma eterna ânsia de conhecer mundo. Ele não sabia o que o fazia estar sempre indo de um lugar para outro; só sabia que nunca encontrava o lugar que o fizesse se sentir a vontade. Entregou o cavalo ao sonolento rapaz e entrou na casa. Ficou no meio do pequeno saguão, com espadas e armaduras pendurando nas paredes. Percebia uma incipiente dor de cabeça. 124


«Muito vinho, muito vinho», disse ele. Ele sentiu-se mau, tão fisicamente como de espírito. Não acreditava, que pudesse chegar a lamentar nada do que dissesse a Keira Hannigan, não depois do que passou entre eles na Irlanda, e menos ainda depois de descobrir sua farsa ali, em Hadley Green. Mas sim, lamentava. Tinha bebido muito, deixou que sua língua se adiantasse a seu cérebro. Não parava de vê-la falando de seu país, com aquele suave acento cantado irlandês, os olhos brilhantes, os longos e finos dedos brincando com a taça de vinho. E seu sorriso... OH, sim, sim que lamentava. A dor de cabeça disparou. Foi para o salão. Noakes tinha deixado à lareira acesa e o ambiente estava quente. Declan tirou o casaco e o lenço do pescoço e depois desabotoou o colete. Tirou também as botas e as jogou para um lado. Encheu um copo com whisky irlandês e se sentou em uma poltrona na frente do fogo, com os pés apoiados em um divã, ruminando sobre o jantar, que inicialmente, não queria participar. Fechou os olhos. Nunca esqueceria daquela tarde na Irlanda, que Keira havia descrito durante o jantar; um dia depois, nada foi mais o mesmo. «Admite —pensou.— Aquele dia mudou você.» Nunca mais havia sentindo que merecia ser feliz. E, sem dúvida, nessa noite não se sentia merecedor de nada. Novamente tinha deixado que aqueles olhos verdes o vencessem. Alguns golpes na porta da rua o assustaram e fez com que derramasse o whisky em cima dele. —Quem é? —resmungou sonolento e terminou com o pouco que sobrava do whisky antes de ir abrir. Ao aproximar-se do vestíbulo, pareceu que soava como se alguém estivesse chamando com ambas as mãos e uma bota. —Já vou! —gritou irritado e abriu a porta. Uma nuvem prata e branca passou ao lado dele entrando no vestíbulo seguida por um aroma de lavanda. Declan fechou e se virou, enquanto Keira baixava o capuz da capa e tirava o chapéu da cabeça. 125


—O que...? Ela cruzou seu rosto com uma furiosa bofetada.

CAPÍTULO 09 Declan inclinou a cabeça por causa da bofetada de Keira. Cambaleou para trás e fez uma careta de dor, enquanto tocava o rosto com os dedos; depois se virou lentamente para olhá-la. —É um homem horrível e desprezível! —exclamou ela, furiosa. Ele não disse nada, só ficou olhando com seus frios olhos azuis. —OH! —Keira se virou, caminhou pelo estreito corredor para onde parecia um pequeno salão. Não tinha janelas e fazia calor. «Uma cova —pensou.— Que adequado.» Declan a seguiu. —Entre, por favor —disse com seca ironia, enquanto se apoiava no marco da porta. Ela quase se arrancou as luvas das mãos. —Como pode ser tão cruel? —quis saber, raivosa. O olhar de Declan escureceu e pareceu que ia replicar com igual raiva, mas de repente relaxou o semblante. —Não sei —admitiu, tenso. Sua resposta a surpreendeu, mas continuou avançando, zangada. Sabia que estava fazendo algo incorreto, mas isso não dava direito dele tratá-la daquela maneira desprezível. —Nessa noite você comportou de uma forma repreensível. Por quê? Eu não fiz nada para você! A expressão de Declan se tornou tormentosa. —De verdade espera continuar com esse seu jogo estúpido e perigoso depois do que aconteceu Ballynaheath? —A Dhia dhílis! —exclamou ela, levantando as mãos.— Deve esquecer essa antiga história? —Antiga história? —Ele riu com dureza.— Eve está morta Keira, ou por acaso esqueceu? 126


Como se pudesse esquecer alguma vez. Negou com a cabeça e apertou o estômago com a mão para reprimir a náusea que provocava essa lembrança. —Não passou um dia sequer, que eu não tenha lembrado — respondeu, com voz tremula.— Mas bendito Deus, Declan! Eu só tinha dezesseis anos. —Sim. Sou... era... totalmente consciente de que só tinha essa idade. Parece acreditar que, de algum jeito, isso desculpa seu comportamento, então ou agora. Entretanto, não é assim, agora. Keira notou que seu rosto ardia de raiva e de vergonha. —Muito bem. Mas tampouco desculpo o seu... nem do passado ou de agora. Declan apertou os lábios e a fulminou com o olhar... e depois passou ambas as mãos pelo cabelo com um suspiro. —Não. Não há desculpa. —Deixou cair às mãos, passou ao lado dela para dirigir-se ao aparador. Keira percebeu que ele estava meio despido. Estava muito atraente com seu fraque, na casa da senhora Ogle e sem dúvida, à maioria das mulheres acharam o mesmo, a julgar pela maneira em que o olhavam. Mas sem o casaco e o colete e com o pescoço da camisa aberta, podia ver sua força, seus grandes ombros musculosos. Uma barba incipiente escurecia o queixo e Keira imaginou diante ela, nu... Viu que tinha um copo de whisky na mão e que a oferecia. Seus profundos olhos azuis a olhavam como se desculpando e alguma coisa mais, algo que Keira reconheceu..., uma dor surda e constante, que também era sua companheira habitual. Pegou o copo e separou o olhar. Não era estranho que a insultasse. Ela tinha pensamentos carnais, enquanto ele revivia a dor por Eve. Keira nunca foi capaz de imaginar o horror que Declan sentiu quando encontrou o corpo destroçado da garota, que o mar jogou miseravelmente até a margem. De repente, essa imagem encheu os olhos de lágrimas ardentes, furiosas e impotentes, que se engoliu imediatamente. Nunca poderia fugir 127


dessa lembrança, do arrependimento e da culpa. Não merecia absolutamente poder fazer isso. Independente da forma que os outros a vissem, para Keira era uma lembrança muito dolorosa, uma lembrança que retorcia seu coração já há oito longos anos. Não passava um dia em que não pensasse em Eve, em que não imaginasse o terror que havia sentido. Desde aquele dia, desenvolveu uma necessidade quase antinatural de viver a vida, pois essa podia desaparecer em um instante e ela não queria ir sem sentir, sem provar, sem ter absorvido. Apertou as pálpebras e pressionou os dedos. —Até o dia de minha morte lamentarei esse estúpido jogo infantil —disse a meia voz. —Não pensemos nisso —respondeu ele e se afastou para beber o whisky. —Como posso não pensar nisso? A culpa, o arrependimento, a tristeza; todos esses sentimentos formavam parte de seu ser, como um rio correndo dentro dela sem parar nunca, que perfurava seu leito mais e mais. Se tivesse confessado seu jogo quando Declan perguntou por suas amigas no prado naquele dia, Eve continuaria com vida, disso estava certa. Keira acreditou que, ao ser evasiva, estava sendo leal a Eve. Como poderia imaginar o que ia acontecer? Dava no mesmo. Sempre se sentiu completamente responsável pelo ocorrido. Com um baixo gemido, deixou-se cair na poltrona, enquanto largava o copo. As lembranças a invadiram: naquele dia infausto, dias e anos passaram e percebeu, que tentou pedir perdão a Declan de uma forma tão torpe. —Por favor, deixa de me castigar —pediu em voz baixa, notando o peso de sua censura. —Como diz? —Deixa de me castigar —repetiu ela.— Por favor..., para. —De castigá-la? —soltou ele com um bufo.— Que tolice!

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—Sabe que faz —respondeu ela, olhando para ele. — Desde aquele dia me despreza. Rejeitou qualquer intenção de desculpa por minha parte. Declan negou com a cabeça. —Não que eu culpe você —continuou ela, impotente.— Deus sabe que eu mesma me desprezo por isso. Não tenho nenhuma desculpa exceto dizer que só tinha dezesseis anos, que era muito ingênua e que desconhecia o mundo. E que esse nos confundiu. Eve queria... achava que estava apaixonada por aquele homem e a verdade, Declan... —Olhou-o em seus olhos: — Eu estava também um pouco apaixonada por você. Sabe. Ele olhou o copo com as sobrancelhas franzidas, mas não negou. —Era jovem e tola e Deus sabe que não podia nem imaginar o que estava fazendo. —Tinha a voz carregada de desprezo para si mesmo.— Acha que se tivesse suposto que ele se aproveitaria de Eve de uma maneira tão cruel não haveria contado imediatamente? Nem por um momento imaginei que uma coisa tão horrível pudesse acontecer! —Apertou as têmporas com os dedos. — Todos os dias vivo com essa culpa. Arrependome Declan, arrependo-me profundamente, mas nunca pretendi fazer mal, nem a você ou Eve, nem a ninguém. Declan suspirou cansado e se sentou ao seu lado no sofá. —Sei —respondeu, com uma suavidade muito pouco habitual dele. — Entendo como se sente. Imagine como me sinto culpado. Não posso dizer que não sabia que me comportei mal com você. Se a tivesse tratado como deve fazer um cavalheiro, poderia tê-la salvado. Keira o olhou, surpresa. —Você? —perguntou, incrédula. — Santo Deus, não foi sua culpa, Declan. Ele encolheu os ombros e afastou os olhos; ela percebeu, que ele devia ter acreditado que era culpado durante todo esse tempo. —Não, Declan —insistiu e colocou a mão sobre o joelho para acalmá-lo.— Não foi sua culpa. Não a teria salvado, inclusive se não nos encontrássemos no prado. 129


—Está feito, Keira —respondeu ele.— Ambos cometemos enganos. Não tem nada a ver com o presente. Ela pensou que tudo tinha a ver com o presente. —Eu acredito que sim. Declan franziu lentamente a testa e negou com a cabeça. —Isso não tem nada a ver com sua farsa em Ashwood. Não pode dizer que é muito jovem e inocente, para não entender o que está fazendo — disse e ficou em pé. Deu um passo, mas de repente se virou e a olhou com olhos entrecerrados. — Como pode fazer? Como pode enganar todos, pessoas que evidentemente, tem você em grande estima? Keira já tinha problemas suficientes para ser recriminada. —Já disse isso a você, faço por Lily... —Lily — soltou ele, sarcástico e foi até a lareira, dando as costas para ela. —É verdade! Ashwood estava se afundando na ruína quando cheguei, mas isso não foi mencionado na carta que minha prima recebeu. Se tivessem feito, com certeza teria vindo imediatamente. —Por que ainda não fez? —perguntou Declan, voltando a olhá-la. — Como pode saber que herdou o título de condessa e não vir imediatamente? —Ashwood... representa más lembranças para ela —respondeu Keira. Não estava certa de entender completamente o que Lily sentia por esse lugar. — Queria muitíssimo à tia Althea e se sente responsável pelo que aconteceu ao senhor Scott. Mas desconhecia os problemas financeiros ou o assunto do vínculo. Foi a vez de Declan olhá-la assombrado. —O vínculo? Ela desejou não ter mencionado e abanou a mão para tirar a importância. —Um assunto que tem a ver com o vínculo de nossos quatrocentos hectares mais rentáveis. O senhor Fish e eu o solucionaremos, mas o importante é que não tive escolha, para ajudá-la precisava passar por ela... pois foi o que aconteceu. 130


—Keira, moça —respondeu ele. Ele se agachou na frente a ela e a olhou diretamente nos olhos. — Não pensou nas repercussões? É uma irlandesa católica, o que, para muitos na Inglaterra, o que a coloca entre o mais baixo. Está se fazendo passar por uma condessa inglesa. Está cometendo um delito contra a propriedade de Ashwood e pouco importa, quais sejam as suas boas intenções. E Lily não poderá salvar você, por muito que deseje. Inglaterra não é uma terra sem lei. Aqui você poderá se encontrar com verdadeiros problemas. Entende? —perguntou voz baixa. Keira sentiu se encolher um pouco. —Lily retornará antes que aconteça alguma coisa —insistiu, obstinada; desejou que fosse verdade e rezou para que assim fosse. Não era uma estúpida; entendia perfeitamente que poderia ter sérios problemas. Declan negou com a cabeça e ficou em pé. —Você está brincando com fogo. —Então, ajude-me a encontrar as respostas que preciso para esclarecer tudo a Lily assim que ela chegar — implorou Keira.— Alguma coisa aconteceu aqui Declan, algo que poderia ser muito prejudicial a Lily. Minha tia se suicidou. —Ele começou a negar com a cabeça, mas ela se inclinou para frente. — Estou totalmente convencida de que um homem inocente morreu por um delito que não cometeu e Lily, sem perceber, ajudou com seu testemunho que isso acontecesse. Acha que poderá suportar depois do que aconteceu com Eve? Não permitirei que descubra isso, como eu descobri e será o que acontecerá. —Isso você não pode saber — respondeu ele, enquanto se aproximava da lareira. — Está precipitando suas conclusões. É a mesma parva romântica e impulsiva que foi há oito anos. Keira não podia culpá-lo por dizer isso, mas nessa ocasião estava convencida de estar certa. Ficou em pé. —Você já reparou a escada de Ashwood? Não admiraste alguma vez sua intrincada escultura? —O que isso tem a ver? 131


—Imagine a quantidade de tempo que o cavalheiro demorou para fazer essa magnífica escada. Imagine as horas que o senhor Scott passou na mansão, na mesma casa e na mesma sala que lady Ashwood. —Keira, a verdade... —E depois vem a questão do piano que a condessa fez trazer da Itália —continuou rapidamente. — O subiram para o sótão depois que enforcaram o senhor Scott. Pode imaginar colocar um estupendo instrumento em um poeirento sótão, quando a condessa ainda estava viva? Não podia tocá-lo porque fez para ela o tamborete e na parte inferior havia... —Meu Deus, fluiu a imaginação, Keira... —... uma bela inscrição. Diz: «É a canção que interpreta meu coração; para A, meu amor, minha vida, a única nota de meu coração. Seu por toda a eternidade, J. S.». —Keira se sentiu sobressaltada ao repeti-lo e olhou fixamente para Declan, esperando que ele entendesse.— As iniciais J. S. —se apressou a acrescentar. — Sem dúvida Joseph Scott é a pessoa que esculpiu o banco. E A é a tia Althea. Ele se limitou a olhá-la. —Inventou um grande romance, moça. —De que outra maneira poderia explicar? —exclamou ela, exasperada. —Não tenho a remota ideia. Mas suponhamos por um momento, que tivesse razão e que o senhor Scott apreciava lady Ashwood. Isso não o transforma em um homem inocente. Pensou possivelmente, não fosse correspondido? Ou que talvez, ela encontrasse calor em seus braços e depois o desprezasse? Ou ele a ela? Possivelmente só estivesse cortejandoa para aproximar-se das joias. Há homens que têm feito coisas muito piores. Poderia haver muitas razões para que ele roubasse as joias. —Não, não posso acreditar — insistiu Keira, obstinada. — Ele a amava. Esforçava-se muito nas coisas que fazia para ela. E um homem que ama uma mulher como ele a amava, jamais faria algo que a fizesse sofrer. Estou totalmente certa! 132


—O que sabe você de amor, Keira Hannigan? Por acaso Loman Maloney a ama tanto? Ou Snibley? Ela o olhou boquiaberta e deu um branco em sua cabeça, pela raiva que sentiu. —Você nunca vai compreender o que são capazes os homens — continuou ele, zangado. — É uma garota tola que inventa histórias românticas para justificar suas mentiras. —Meu Deus. Você realmente tem um coração tão duro? —E agora sou duro de coração, porque não acredito em suas fantasias? Pergunto novamente Keira, o que sabe você do amor? —Possivelmente não sei nada — respondeu ela, lutando para manter a compostura. — Mas sei como sonho que é o amor, o que acredito que é, o que espero que seja. Pelo menos, eu tenho esperança, Declan. Pelo menos, minhas ideias não são tão deprimentes como as suas. Por alguma razão, isso o fez sorrir com tristeza e impulsivamente, roçou o queixo com os dedos. —Não são deprimentes: são realistas. Ela se separou de sua mão. Com apenas um toque, o inesperado e apaixonado beijo no terraço da senhora Ogle estava de repente, fazendo arder o sangue. —Pode acreditar no que quiser. Continuo achando que enforcaram um homem inocente e preciso de ajuda para descobrir se minhas suspeitas são corretas. Ninguém quer falar comigo sobre o evento porque acham que sou Lily. Acreditam que sou quem enviou a esse homem à morte e não querem me contradizer em público, o que aconteceu. —E se por acaso for verdade que enforcaram um inocente, o que poderá fazer por ele agora? Não há nada que possa fazer Keira, porque está metida em uma fraude bastante impressionante. Assim que a pegarem, terá sérios problemas. Ninguém terá tempo ou vontade de esclarecer o que aconteceu com uma antiga execução. Dhia, alguma vez pensa nas consequências de seus atos?

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Ela merecia; fechou os olhos. Não era capaz de explicar como precisava desesperadamente esclarecer aquilo. Eve estava morta e nada poderia mudar isso. O senhor Scott estava morto e mais nada o faria voltar, pelo menos poderia limpar seu nome. Tinha a sensação de que tia Althea gostaria que fizesse isso. Abriu os olhos e olhou diretamente para o rosto de Declan. —Pensou no que Lily pode fazer quando chegar? Poderia compensar à família, poderia limpar o nome desse pobre homem. Se realmente for inocente, merece isso pelo menos. Declan começou a negar com a cabeça, mas Keira o parou tocando em seu braço. —Não pode negar. Tenho uma oferta que certamente vai convencêlo. A expressão dele mudou e a olhou de uma maneira que a excitou. —O que tem você para me oferecer? —perguntou em tom neutro. —Posso conseguir que aceitem Eireanne no Instituto Vila Amiels. Os olhos de Declan cintilaram. —Sei que você não conseguiu —continuou ela, — mas eu tenho os contatos adequados. Poderia conseguir. Ele se moveu tão inesperadamente que Keira soltou um grito. Virou tentando escapar, mas Declan a agarrou, a fez voltar e a empurrou contra o sofá, cravando os dedos no seu braço. —Sabe por que não aceitaram Eireanne? Tenho todo o dinheiro que madame Broussard e sua gente possam querer, mas se nega a admitir minha irmã devido a minha implicação na morte de Eve O’Shaugnessy! Keira afogou um grito. Jamais ouviu isso; supôs que era devido à reputação de libertino dele. —O que? —Uist — cortou ele com secura, fazendo-a calar em seu idioma. — Quer fazer um trato, não é? — perguntou e se inclinou sobre ela, empurrando-a para trás. Seu olhar era escuro, insondável e duro. — Terá que fazer melhor. —Declan, não... 134


Ele a agarrou pela nuca e a obrigou aproximar o rosto do dele. Olhou seus lábios. —Mais uma vez Keira, não entende as consequências de seus atos. Com o calor que via nos olhos dele e seu duro corpo contra o seu, algo ardente se acendeu dentro dela. Voltava há ter dezesseis anos, a sentirse louca de desejo, imprudente e desesperada para beijá-lo. Olhou seus brilhantes olhos e respondeu quase sem fôlego. —Sim entendo. Declan inclinou a cabeça e seus lábios ficaram a milímetros dos dela. —Maldita idiota —grunhiu ele e reclamou sua boca. Pegou o lábio inferior entre os dentes e Keira ficou sem fôlego. Depois afundou a língua na sua boca, fez abrir os lábios, passou entre seus dentes e se afundou na fogueira que inesperadamente rugia dentro dela, procurou seu rosto com as mãos e acariciou seu queixo, a áspera barba incipiente e depois o canto da boca. Esse beijo era diferente; o que havia entre eles era um tipo diferente de raiva. Sentia como se pudesse consumi-la completamente. E Keira desejava que a consumisse. Declan colocou a mão por debaixo da capa e cobriu um seio acariciando e roçando com o polegar, o tecido que cobria o mamilo. Keira pensou que deveria parar, mas se sentia impotente diante as sensações que a invadiam e o desejo que tinha avivado. Declan soltou o laço da capa, a tirou dos ombros e deixou cair, enquanto apertava os lábios contra a pele que ficava por cima do decote. Keira percebeu que estava em um caminho perigoso, que estava perdendo o pé e temia se deixar cair com ele, indo para onde Declan queria levá-la. Então, sem prévio aviso, ele levantou a cabeça e a empurrou para um lado, em sua pressa para se afastar dela e ficar de costas. Ela cambaleou um pouco. Essa brutalidade a surpreendeu; tinha o pulso acelerado e o coração saltava dentro do peito.

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—Escreve essa maldita carta para Eireanne —disse ele, malhumorado, voltando a cabeça para trás para olhá-la. O brilho de seus olhos era duro e implacável. Keira passou o dorso da mão pela boca, para tentar apagar a sensação daquele beijo ardente e sedutor. Declan foi até o aparador e se serviu de outro whisky. Levantou o copo em um brinde sarcástico. —Assim Keira, já temos nosso pacto, não é? Sláinte. Não gostou de como soou essa frase. —Declan, eu... —Cale-se — replicou ele com brutalidade.— Não tente fazer isso menos mesquinho do que é. Fale o que quer de mim. Keira engoliu a saliva. —Quero... quero encontrar os amigos do senhor Scott. Acredito... —Não é necessário — cortou Declan. — Não quero saber cada um de seus pensamentos, só o que devo fazer. Ela se exasperou. —Quero encontrar os amigos do senhor Scott ou sua família, e fazer algumas perguntas. —Esplêndido — exclamou ele e bebeu o whisky em um só gole. Deixou o copo e a olhou com impaciência. — Isso é tudo? Aquilo era tudo? Keira não conseguia pensar com claridade, não com aquele furioso beijo ainda ardendo por dentro. —Bom, então pode ficar, tirar a roupa e permitir que façamos um pacto melhor... ou pode partir. Ela afogou um grito; depois se abaixou rapidamente e pegou a capa. —Para que tenhamos êxito, deve tratar-me como uma condessa. —OH —exclamou Declan e arqueou as sobrancelhas. — Assim há regras nesse pacto, certo? —aproximou-se rapidamente. — Muito bem muirnín, devo tratar você como uma condessa... —Colocou os dedos sobre os lábios e apertou levemente. Muirnín era um apelido carinhoso em irlandês que, daquela forma tão sarcástica, feriu-a. Ele foi baixando os dedos até o queixo. Ela se separou de sua mão e fechou a capa. 136


—Mandarei uma mensagem quando tiver alguma pista que seguir. —Cruzou a sala, desejando de repente, estar longe dali. —A propósito, Keira — disse ele, o que a fez parar e olhar para ele. — Tenho uma curiosidade. Quanto tempo vai esperar Maloney? Quanto tempo vais continuar com essa absurda farsa, antes de perder tudo? Estava zombando dela e isso estava fazendo mais mal do que queria admitir. Quase não podia pensar no senhor Maloney sem sentir uma necessidade de evitar a culpa. —É um cavalheiro e acredita que vale a pena me esperar — replicou zangada e partiu da sala. Enquanto ia para a porta de entrada, ouviu em suas costas uma risada de desprezo. Estava furiosa, por experimentar aquele desesperado desejo por ele. Sentia como se acabasse de fazer um pacto com o diabo, mas a seu incauto coração não se importava: queria viver a vida.

CAPÍTULO 10

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Vários dias depois, em uma cálida tarde, Declan recebeu uma mensagem junto com a chegada de um cavalo austríaco que havia comprado há pouco tempo. Quase conseguiu esquecer aquela noite em Kitridge, distraindo-se com a joia de animal que tinha encontrado em Lancashire há algumas semanas, durante uma visita ao conde de Northrop. Este havia conseguido o alazão na Austria, onde a constante ameaça de guerra tinha prejudicado o cuidado dos cavalos. Northrop tinha bom olho e conhecia o valor do animal, por isso, foi difícil para Declan comprá-lo, embora tenha se recusado a partir até conseguir e ter convencionado seu cuidado, enquanto preparava uma baia para acomodálo. Ele ficou tão nervoso como um menino no Natal, quando o coche chegou às portas de Kitridge Logde, com o cavalo trotando atrás. Assim, achou que devia se sentir como um náufrago ao alcançar terra firme. Fora da maré dos pensamentos encontrados e das emoções em que esteve imerso nos últimos dias. Detestava sentir-se tão inseguro. Gostava de ter o controle do que estava em volta de seu trabalho. O que significava que, não gostou nem um pouco de ver o menino ruivo de sorriso desdentado, que veio de Ashwood e que chegou justo depois do cavalo. O menino tirou a suja boina e estendeu para ele um papel vitela dobrado. —De sua senhoria a condessa, milord —disse o menino. Declan desdobrou o papel. Lendo: «Praça do povoado as três em ponto». Isso era tudo o que estava escrito, um maldito encontro, como se ele não tivesse nada melhor para fazer, que esperar suas ordens. Tinha cedido, dobrou-se a seus desejos e por isso, Keira achava que podia lhe dar ordens? Dobrou o papel e o colocou no bolso. Tirou uma moeda do bolso e deu para o menino.

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—Ouça com muita atenção e repita essa mensagem a sua senhora, exatamente como vou dizer, certo? Está preparado? O menino assentiu. —Não. O menino ficou surpreso. Olhou para o cavalo e logo depois, novamente para Declan. —Não, milord? —Isso é tudo. Vai agora —respondeu e se virou para o animal. Uma segunda mensagem chegou nessa tarde, nessa ocasião pela mãos de um lacaio. —Devo esperar sua resposta, milord —disse o mesmo. Declan grunhiu e leu a mensagem. «Possivelmente, esqueceu sua promessa. Agora já é muito tarde, porque me esperam para jantar na casa dos Morton nessa noite. Poderia esperar que cumprisse sua palavra e se encontrasse comigo manhã às duas?» Olhou para o lacaio. —Um momento —disse e entrou na casa zangado, direto no escritório, onde escreveu sua resposta. Claro que não esqueci minha promessa senhora, nem tampouco a maneira correta, em que uma dama deve agir para que um cavalheiro faça algo por ela. Pedindo com amabilidade, sem dar ordens e seu pedido deve ser acompanhando com abundantes «por favor» e «obrigado». Estarei na praça do povoado amanhã às duas. Não demore porque não esperarei; e eu sei que você vai levar a carta, que é sua parte desse abominável trato. D. Naquela noite, quando Declan se sentou para o jantar que a senhora Noakes tinha preparado, o lacaio de Ashwood voltou a aparecer. Entregou outra mensagem e não esperou resposta. «Por favor —dizia a mesma.— E obrigada.» Declan se esforçou para não sorrir, mas não pôde evitar.

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As duas em ponto, estava apoiado languidamente no poste da praça do povoado, quando viu Keira cruzando-a, deixando um caminho na grama atrás dela. Caminhava tão depressa e com tanta intenção, que sua acompanhante corria atrás dela e quase não podia segui-la, e certamente a trouxe para evitar fofocas e especulações. Em certo momento, tropeçou e ligeiramente se endireitou soltando o que parecia uma maldição. Parou na frente de Declan, com os olhos entrecerrados e brilhantes como pequenas esmeraldas. A moça os alcançou, ofegando. —Bem! Aqui estamos, milord —disse Keira, com descaramento. —Keira —respondeu ele. —Apresento Lucy Taft —olhou para a jovem e fez um gesto para a menina. —Senhorita Taft —saudou ele, inclinando a cabeça. A menina não disse nada, mas o olhou de cima abaixo. —Lucy, será que você poderia sentar ali por um momento? — pediu Keira, assinalando um banco. —Sim, senhora. —Correu até o banco e se deixou cair sobre ele, agradecida. Keira cruzou os braços, inclinou-se para Declan e sussurrou alto. —Não tinha intenção de ferir seus frágeis sentimentos com uma breve mensagem, mas precisava tomar cuidado. Parece-me que é evidente que a discrição quanto à natureza de nossos assuntos é essencial. Quanto menos palavras tenham no papel, melhor. —A discrição é essencial para você — recordou ele, — não para mim. Bonito chapéu, diga-se de passagem. Keira se ruborizou um pouco e levou uma mão ao enfeitado chapéu. —Não pude fazer outra coisa. Linford estava pairando por perto, ansioso para pegar minha carta e dar a Wills para que a entregasse. Mas como vimos, tudo por nada, porque Linford se recusa a dizer alguma coisa. —Contar o que para você?

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—Quais eram as pessoas conhecidas do senhor Scott, naturalmente — respondeu ela, olhando para a jovem Lucy.— Posso afirmar que é o menos cooperativo! Diz: «É uma história muito antiga milady e diria que mesmo que pudesse recordar um nome ou dois, já não serviria para nada». Agora como saber o que serviria ou não! —E tem razão. —Não se atreva a ficar de seu lado nisso! —protestou Keira. — Como estão às coisas, já estou a ponto de explodir de irritação! — As faces ficaram ruborizadas e estranhamente, estava mais encantadora. Declan se envergonhou de si mesmo. Depois de ter se repreendido severamente sobre o perigo para sua felicidade e prudência representava Keira Hannigan, deixava-se levar com muita facilidade por um brilho de encantador. O melhor que podia fazer era terminar com tudo aquilo o mais breve possível. —Fique calma, moça. Não está fazendo muito bem isso de..., de colocar o nariz onde não a chamam. —O que? A que se refere? —perguntou ela, olhando-o com curiosidade. —Refiro-me que, se quer descobrir algo sobre um homem que faz quinze anos que morreu, não pode entrar em qualquer botequim ou um salão e começar a fazer perguntas à primeira pessoa que encontrar. A memória das pessoas é muito curta, isso no caso, quando tem intenção de responder. —Então, possivelmente você tenha uma ideia melhor — replicou com frieza. Declan sorriu. —Sugiro que procure seu pároco. Keira franziu a testa, não muito convencida. —O seu pároco. —Sem dúvida, algum sacerdote consolou o senhor Scott em suas últimas horas. Assim como, sem dúvida consolou sua família e seus amigos, depois do seu triste final. 141


Algo despertou sua atenção e de repente, os olhos dela se iluminaram, seguido por um brilhante sorriso. —Declan! — gritou. — Isso é genial! Genial de verdade... como não pensei antes? —acrescentou com exuberância. —Isso mesmo, como é que não pensou? — replicou ele, zombador. — Bem, é isso Keira. Já tem sua próxima tarefa — disse e tirou seu relógio de bolso. Ainda dava tempo para fazer uma visita a Penny. —Minha próxima tarefa? —repetiu ela. — Quer dizer que eu deveria visitar o reverendo Tunstill? —Se é você a responsável pelas pessoas de Hadley Green, sim — respondeu Declan com secura. —Mas é muito velho. E está surdo. —Nesse caso Keira, terá que falar com ele muito alto e muito claro. E agora... —Você não vai partir... — replicou ela rapidamente. Não, que não estivesse desfrutando de ver ela tão indignada. Produzia nele uma perversa satisfação, comprovar que não era o único que se sentia incômodo. —Sim vou. Eu tenho um encontro. —Onde, no botequim? —bufou ela. Como era descarada. Colocou a mão na sua cintura. —Possivelmente tenha uma ideia melhor, muirnín. Keira se ruborizou com tanta fúria que Declan não pôde evitar de rir. Desfrutava fazê-la ruborizar e, apesar de toda sua fanfarronice feminina, era fácil conseguir. —Disse que me ajudaria — lembrou ela. Declan observou que não se afastou, mas sim continuava muito perto dele. —Não tenho o dia inteiro, para me dedicar a seu pequeno mistério — replicou e se conteve de comentar, que seria fácil convencê-lo para que dedicasse seu tempo, em alguma coisa muito mais agradável. —Esse foi nosso acordo. Acordamos que você me ajudaria nesse assunto — insistiu Keira. —Em troca de uma carta de recomendação para Eireanne. Tem a carta? 142


—Como? — Olhou à garota. — Eu... Claro que tenho a carta! Na verdade mentia muito mal, o que fazia que, sua grande fraude fosse ainda mais incrível. —Se a tem, não se importará de mostrar, sugeriu isso ele. Nesse momento, ela deu um passo para trás. —Mostrarei depois que tenha falado com o pároco. —Eu diria que tampouco foi esse nosso acordo. Prometeu a carta em troca de minha ajuda. Keira brincou nervosa, com a pequena pérola que adornava seus brincos. —Dúvida da minha palavra? — perguntou, enquanto mexia. Ele a observou; deixou que seu olhar a percorresse de cima abaixo seu bem moldado corpo. Ela pareceu ainda mais nervosa. —Onde está a carta? —perguntou ele. —Em..., na carruagem. Uma formosa mentirosa. Declan iria desfrutar de obter seu pagamento. —Não tenho o dia todo — protestou. — Acabemos com isso de uma vez. —OH! —Keira sorriu novamente, surpresa de ter ganhado aquela pequena batalha.— Bem. Minha carruagem está lá. Vamos? Venha Lucy querida!

CAPÍTULO 11 Na carruagem, houve uma pequena disputa decidir quem entraria na paróquia para fazer as perguntas. Keira, que não confiava em Declan para interrogar o pároco de maneira adequada, decidiu que não entraria sozinho, mas Lucy e ela o acompanhariam. Mas ele apoiou suas grandes 143


mãos em suas coxas atléticas e se inclinou do assento, até que o rosto de Keira esteve somente a alguns centímetros do dele. —Não — disse terminante.— Arrastou-me até aqui para que fizesse essas perguntas e por Deus, as farei sem nenhuma suposta ajuda por sua parte. «Maldito galo.» —Muito bem — respondeu Keira; cruzou as mãos sobre seu colo e olhou pela janela. Mas Declan a surpreendeu, ao agarrá-la de repente pelo queixo e virar seu rosto para ele, inclusive, mais perto do que já havia feito há um momento antes. —Se pensa seguir-me, moça — disse enquanto olhava seus lábios, — Pagará. Está claro? «Maldito galo pomposo.» —Então, vai de uma vez, sim? Hoje sou convidada a Foxmoor e não posso chegar tarde. —Lembro a você, que muito menos é meu desejo passar à tarde na paróquia, assim não serei eu quem a deixará sem seu chá — replicou ele e saltou da carruagem. —«Não serei eu» — imitou Keira em voz baixa, enquanto a loira cabeça de Lucy aparecia pela porta aberta da carruagem. —O cavalheiro disse que devo esperar aqui dentro — disse a garota com insegurança. —Não é um cavalheiro querida, e sim um conde. Sobe, sobe — apressou ela, fazendo um gesto para que entrasse. Lucy se sentou no banco e olhou ao redor, com os olhos muito abertos. A menina chegou em Ashwood fazia só dois dias. Keira preparou para ela, um quarto com uma cama dossel e um pequeno cavalete para pintar. Além dos grossos tapetes, uma mesa e cadeiras de tamanho infantil e inclusive, um jogo de chá em miniatura. Pensou que isso faria feliz Lucy, mas essa pareceu preocupada. Imediatamente, Keira percebeu seu erro: tudo era novo e diferente para a menina, que não estava acostumada com aqueles luxos, aos criados e a ter mais de dois vestidos. 144


Keira esperava realmente poder mudar a sorte da pobre criança e transformá-la em uma boa governanta. Depois, que Daria Babcock a manteve à corrente das fofocas, sobre a quantidade de tempo que passava em companhia do senhor Sibley, pensou que viria bem, ter uma acompanhante inocente, e Lucy encaixava perfeitamente nesse papel. Com nove anos, era muito jovem para entender o que Keira trazia nas mãos ou se cometia algum erro, em seu papel de condessa. Ah sim, a pequena Lucy Taft era um perfeito manto de castidade para ela. Ficaram sentadas durante quinze minutos, a menina passando em silêncio as mãos sobre os assentos de veludo e Keira olhando ansiosa pela janela da carruagem, a porta de madeira no muro de pedra que cercava a paróquia. Sabia por experiência, que o pároco podia lhe soltar qualquer um longo discurso sobre assuntos mundanos e, pior ainda, tinha tendência a repetir-se. E se Declan não sabia como desviar educadamente o ancião, de uma conversa inútil e levá-lo ao centro da questão? Afinal, o irlandês não era um homem particularmente paciente. Nem especialmente cortês. Parecia que estavam horas esperando e não conseguia esperar por mais tempo. —Vamos, Lucy. Vamos acender umas velas na capela. —Por quem? —interessou-se a menina. —Por lorde Donnelly. — Keira abriu a porta da carruagem. — Necessita desesperadamente da graça do céu. O cocheiro saltou do assento para ajudá-la e ela sacudiu as saias, enquanto Lucy saía do veículo quase caindo. Depois, com a mão da menina firmemente segura na sua, Keira caminhou para a porta de madeira. —Não está bem? — perguntou Lucy, enquanto corria a seu lado. —Quem, Donnelly? — replicou ela alegremente. — É irredimível. Por isso devemos rezar por sua alma imortal. Atravessou a grade e entrou no descuidado jardim florido, com uma explosão de botões de rosas, que se agitavam em seus longos caules sob a brisa do verão. Keira avançou decidida. Pesou em deixar Lucy na 145


capela para que acendesse tantas velas que pudesse, enquanto ela ia em busca dos cavalheiros, mas antes de chegar, a porta da frente se abriu e o viril, atraente e alto Declan, saiu seguido de perto por um falador reverendo Tunstill. Declan a olhou, mal-humorado, mas o vigário se alegrou muito de vê-la. —Esse é um dia cheio de benções, sem dúvida! —exclamou, encantado. Imediatamente, se adiantou ao carrancudo Declan e, com suas gordinhas mãos, pegou uma de Keira. — Lady Ashwood, é uma grande honra recebê-la aqui. É estranho que a condessa de Ashwood visite nossa humilde morada. Fui o pároco desse povoado durante quarenta e três anos, e só lembro de duas..., não, não, estou enganado, foram três, três vezes que a condessa veio à paróquia. A primeira foi quando assim que me ordenei, no ano de nosso Senhor de mil setecentos e sessenta e cinco. Evidentemente, eu era um homem muito mais jovem, mas igualmente um homem de Deus, entretanto, devo confessar que a achei muito bonita... —Ah..., perdoe, padre, mas eu... — Keira tentou recuperar sua mão. —... e encantadora naturalmente, mas qual condessa não é encantadora, pergunto, incluindo sem dúvida à presente companhia. —Minha mão, senhor — disse ela com uma leve careta. —Perdão? —Minha mão — repetiu Keira, tentando tirar a sua entre as dele. O reverendo olhou para baixo e riu. —Bem, olhe, está vendo? Estou tão impressionado com sua beleza e seu encanto, como sem dúvida todos estão, que esqueci que segurava sua mão. Atrás dele, Declan revirou os olhos. —E a quem temos aqui, milady? Essa encantadora menina me parece conhecida, mas não consigo lembrar de onde —disse o homem e tocou com um dedo o nariz, enquanto olhava para Lucy. —É a senhorita Lucy Taft — respondeu Keira. Notou que Declan a perfurava com o olhar, enquanto dava um empurrãozinho na menina para 146


que se aproximasse do padre. — Disse que desejava acender uma ou duas velas. —OH, bem, tem alguém doente, senhorita Taft? — perguntou o padre. — Por quem você quer acender uma vela? —Eu? Mas sua senhoria disse... —Lucy querida, a caridade é algo que deve ser praticado na intimidade dos próprios pensamentos. Não seria adequado alardear de minhas intenções. —Sim, claro, claro — concordou o vigário. — Preste atenção à condessa jovem, ela é muito sábia. — E dirigindo-se a Keira, acrescentou: — Comentava com lorde Donnelly há poucos minutos, que raramente a vemos nas missas, senhora, e como a sua assistência inspiraria a muitos outros. Nesses quarenta e tantos anos, notei uma diminuição da participação durante os meses de verão, quando se pensa mais em sair, mas é importante que todos sigam vigiando sua alma. —O vigário acredita que seria bom para todos um pouco de redenção — interveio Declan. — E, por algum milagre, parece ser você a única que os atrairia para vim receber. Ela lançou um sorridente olhar de advertência. —Sem dúvida, sem dúvida — concordou o padre, ficando nas pontas dos pés e apoiando-se depois nos calcanhares. — Nunca é muito tarde, para trazer uma alma desencaminhada de volta ao redil e devolver a eles à luz de Cristo nosso Senhor. —Alguns dos que caminham entre nós, sem dúvida, já estão se balançando a beira da escuridão — apontou Declan, com os olhos cravados em Keira. —Ou possivelmente, já se lançaram inteiros ao poço da escuridão — replicou ela, segurando o olhar. —OH, Deus! — exclamou o padre, levando uma mão na sua bojuda barriga e começando a rir. — Eu diria que em Hadley Green, não temos necessidade de nos preocupar por isso! —Ficaria surpreso — respondeu Declan e o padre voltou a rir. 147


—Se puder ajudar de algum jeito, só tem que me dizer isso, disse Keira ao homem. —É você muito boa, lady Ashwood! — disse o sacerdote com um grande sorriso. — É uma dádiva de Deus, que tenha conseguido reabrir o moinho. Colocou todos os homens capazes para trabalharem e não há nada melhor para limpar uma alma, que um bom dia de trabalho duro. Isso pareceu despertar o interesse de Declan, que arqueou uma sobrancelha, olhando-a. Keira sorriu elegantemente. —Lembra a sua falecida tia. A última oportunidade, que tive para falar com ela, foi quando me recebeu em Ashwood em uma fria manhã. No inverno de mil oitocentos e dois, que sem dúvida lembrará que foi terrivelmente frio. Bem, lembro que a chuva congelava ao cair e me cravavam como urtigas. Tínhamos uma vaca leiteira e... —Perdoe reverendo, mas a pobre Lucy está esperando pacientemente para acender as velas. —OH, sim, sim — disse ele e colocou uma mão no ombro da menina. — Não devemos fazer demorar mais sua cristã tarefa. Vamos, moça, vamos acender suas velas. — Deu-lhe a mão e Lucy lançou um olhar suplicante a Keira, enquanto ele a levava para a capela. Quando desapareceram na escuridão da porta, Declan se virou para Keira. —Adverti você — disse isso bruscamente; pegou-a pelo cotovelo, a fez virar arrastando-a e caminhando com toda pressa. —Vim resgatar você — respondeu ela, enquanto tentava soltar-se. — Já sabe como pesado pode ser o vigário e, além disso, não lembro que o tenham nomeado meu amo e senhor! —Que diabos pretende? — perguntou ele, ignorando-a. — Realmente quer ouvir mais fofocas e especulações sobre você, mais do que já circulam pelo povoado? —O que? —perguntou Keira, sobressaltada. — O que ouviu? —Se por algum momento, acreditou que as línguas não andam soltas atrás das portas fechadas, então é porque é uma estúpida. — 148


Empurrou o portão de madeira para abri-lo. — Você é quem precisa ser resgatada —acrescentou mal-humorado, enquanto a fazia cruzar a cerca. O cocheiro desceu em um pulo de seu assento, mas Declan o despachou com um gesto. Abriu a porta da carruagem, segurou Keira pela cintura e a colocou dentro, sem necessidade do degrau. Disse ao cocheiro que esperasse à menina e depois entrou também, na carruagem e se sentou no banco, de frente para ela. Abriu os braços sobre o respaldo do assento e, ao esticar as pernas, ocupou todo o espaço livre. Em seguida a olhou, cheio de recriminações. —E bem? —inquiriu Keira, se inclinando para ele, sem fazer prestar atenção em seu olhar turvo. —E bem o que? —Sabe perfeitamente o que. — Moveu as pernas juntou as saias, para evitar tocar com elas nas longas pernas de arvores de Declan.— O padre conhece os amigos do senhor Scott? Um sorriso travesso mudou de repente o semblante de Declan. —Se quer ouvir o que esse papagaio me contou, terá que tirar isso dos meus lábios. Keira suspirou exasperada..., mas seu olhar foi para aquela tentadora boca. —Com amabilidade — disse ele. Ela soltou um bufo. Declan levantou uma de suas grossas sobrancelhas. —Peça isso bem..., justo aqui — continuou e levou um dedo à boca. Isso era a última coisa, que Keira pensava fazer. A última, por mais tentada que estivesse para provar seus lábios. OH, mas a lembrança de seu encontro a açoitou insistentemente naqueles últimos dias! Viu-se fantasiando sobre isso, quando deveria estar pensando em outras coisas e não pôde evitar perguntar-se aonde teria chegado aquele beijo, se ele não tivesse ficado tão zangado. Todo aquilo era ridículo. Ainda não estava completamente louca. O desejo era uma coisa e montar um escândalo com Declan O’ Conner, era outra muito diferente. Não prometeu a si mesma, 149


depois de transforma-se em Lily, que pelo menos, uma vez em sua vida faria a coisa certa? —Um beijo, Keira — disse ele com voz aveludada. — Esse é o preço. Ela franziu a testa ao ver como a olhava, a segurança em si mesmo que tinha aquele sorriso. Aquela boca. —Fala muito de minha estupidez, mas você não tem decência. É dos que arrancam a virtude de uma mulher. Declan soltou uma risada e a segurou pela mão. —Sou dos que gostam de dar prazer às mulheres — respondeu ele e beijou lentamente a palma da sua mão. — Há uma grande diferença. Keira engoliu o ar. —É só um beijo — insistiu Declan, como se não tivesse importância. — Sua virtude continuará intacta... a não ser que peça com um «por favor» e um «obrigado» que a arrebate isso. Ela tentou soltar mão, mas ele a prendeu com força. Um arrepio delicioso percorreu suas costas. —Não se importa absolutamente ser conhecido como um libertino em todo esse reino e na Irlanda? —perguntou. —Não. —Não quero beijar você, Donnelly — afirmou. — Como deve lembrar, não há nada entre nós. Por que ia querer beijá-lo? — Teve que afastar o olhar de seus olhos; havia alguma coisa neles que mostrava que sabiam muito. — Só quero sua ajuda nesse delicado assunto. Ele entrelaçou os dedos com os seus e deu um tapinha no joelho. —Então, onde está minha carta? Estou vendo, que você quer saber o que eu descobri e só tem duas possibilidades. Ou entrega a carta em troca ou me beija, pois essa informação não é gratuita. —Maldito galo — sussurrou ela, incrédula. Declan riu como o canalha que era. —Simples palavras. Já me chamaram de coisas piores. Onde está a carta? Keira levantou um pouco o queixo, desafiante e apertou mais a mão. —Não tive tempo... 150


—Claro que não. —Estive muito ocupada! —insistiu Keira, enquanto tentava novamente soltar-se. —Sim, inaugurando moinhos. Mesmo assim, é uma desculpa muito fraca. —Puxou a mão com mais força. —Isto é extorsão — lhe lembrou ela, e apoiou uma palma no peito dele, porque, de algum jeito, sem esforço, conseguiu aproximá-la até o ponto de que quase estava em seu colo. —Chame como quiser. —Declan estava com os olhos cravados em sua boca. — Mas se quer saber o nome dos amigos do senhor Scott, terá que me beijar agora, antes que nossa pequena sentinela retorne para salvar você. Se não fizer, não contarei e você terá que ir pessoalmente, perguntar a esse padre. Keira quis odiá-lo com todo seu ser, mas nunca sentiu um desejo tão intenso quando indicou tranquilamente suas exigências, olhando como se ela fosse água na frente de um homem sedento. Era impossível conciliar seu desejo voraz com o decoro que devia a Lily, enquanto se fizesse passar por ela. Por não dizer que devia a si mesmo, ou a sua promessa de fazer o certo e evitar um escândalo. Mas também prometeu a si saborear a vida, desfrutar da excitação e da ousadia, enquanto pudesse. Com aquele beijo não comprometeria sua virtude, certo? Declan, o malvado, podia ver como se debatia e sorriu como se achasse muito divertido. —Lady Ashwood! —gritou Lucy de fora da carruagem. Isso foi o suficiente para que Keira se decidisse em um instante. Beijou-o. Sua intenção era dar um beijo rápido nos lábios, algo para que se acalmasse..., mas Declan passou seu braço apertando suas costas e a segurou, enquanto explorava lentamente sua boca e Lucy batia na portinhola da carruagem. Keira lutou com ele, que a mordeu no lábio

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inferior, roçou um seio com a palma da mão e depois a deixou ir lentamente. Keira se deixou cair no banco sem fôlego. Declan em ao contrário parecia malditamente relaxado. Ela percebeu que tinha entortado o chapéu e terminava de ajustar-lhe quando o cocheiro abriu a porta e Lucy olhou para dentro. —Entra querida — disse Keira. A menina subiu devagar e se sentou a seu lado, olhando Declan com receio. —Hollingbroke — disse ele. Keira percebeu seu rubor nas faces, olhou-o desconcertada. —Desculpe? —O senhor Edward Hollingbroke era o amigo mais antigo e possivelmente o mais querido do senhor Scott. —Sorriu, satisfeito de si mesmo. —OH. O padre se lembrou, então? —perguntou ela com indiferença e sorriu para Lucy, que continuava observando Declan. Que menina inteligente, pensou Keira, sem dúvida percebia o quanto era libertino e depravado. —Lembra com todo luxo de detalhes —respondeu ele e bateu no teto da carruagem para avisar ao cocheiro que se colocasse em movimento. — Sei tudo o que precisará saber do senhor Hollingbroke, desde sua origem a sua humilde ocupação atual. Vive perto do rio, há alguns três ou quatro quilômetros do povoado. Segundo o vigário, não se relaciona muito com as pessoas. —Que interessante! —exclamou Keira alegremente. — Quando o visitará? Declan sorriu. —Eu não irei. O senhor Hollingbroke é um arrendatário de Ashwood. —Acho que seria muito mais fácil convencê-lo a falar, se você o fizesse milord.

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—Ah, bom — soltou ele e encolheu os ombros. — Terá que se esforçar para me convencer disso. — E piscou um dos olhos para ela na frente de Lucy. Sabiamente, Keira ficou em silêncio e não prestou atenção ao brincalhão toque do pé de Declan, enquanto avançavam pelas ruas do povoado. Falou com Lucy até que chegaram à praça do povoado. Quando a carruagem parou, ele abriu a porta e saiu. —Bom dia, senhorita Taft. —Bom dia, milord — respondeu Lucy com educação. — Espero que recupere logo sua saúde. Surpreso, Declan lhe lançou um olhar de estranheza, mas antes que pudesse dizer algo, Keira fez um sinal ao cocheiro para que fechasse a portinhola.

CAPÍTULO 12

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—Nunca entenderei por que deixou que as coisas caíssem em tal abandono, senhor Fish —disse Keira uma tarde, enquanto revisavam os livros. —Não saberia dizer-lhe exatamente, senhora. Fui contratado somente depois da morte do conde, mas para mim, entendendo que em seus últimos anos estava cada vez mais irritado ele gastava mais dinheiro. Em Ashwood consideramos uma bênção você estar decidida a devolver a vida à propriedade. Keira pensou em Lily. Em cada libra que gastava ali, mais inquieta se sentia. Jamais poderia ter imaginado o quanto custava manter em funcionamento uma propriedade, um lugar como Ashwood. «Lily estará aqui no final do mês», não parava de dizer a si mesma. —Não é curioso — perguntou casualmente — que tanto a lady, como lorde Ashwood se afogarem? —Bastante — reconheceu o senhor Fish. —O que aconteceu com o conde exatamente? —Foi pescar e jamais voltou — explicou o senhor Fish. — Pelo que eu sei, o rio estava cheio pelas chuvas e, embora nunca acharem o seu corpo, recuperaram a bengala e seu chapéu, que ficaram enganchados rio abaixo. A maioria das pessoas do lugar acredita que certamente, se inclinou para lançar o anzol para pegar um peixe e caiu. A água puxava com muita força para que pudesse sair antes de se afogar. Fui contratado um pouco depois, para ficar encarregado da administração. —Então foi quando procurou Lily — comentou ela, distraída. —Desculpe? Keira quase se engasgou ao perceber seu deslize. E começou a rir. —Quando mandou me buscar, senhor Fish. —Sim, senhora. —Quem dera, tivesse vindo há dois anos, quando as coisas não estavam tão ruins, como parecem estar agora. —Quanto a isso..., continuo achando que o mais prudente é aumentar os aluguéis — disse o homem. Ela sorriu e negou com a cabeça. 154


—Você é muito tenaz, senhor Fish, mas o que eu pergunto é como vão pagar alugueis mais altos nossos arrendatários. —Devem produzir mais. —É tão fácil isso? — perguntou, olhando-o. — Não vejo como podem produzir mais, sem um pouco de planejamento. Confiaremos no moinho. Se demonstrar ser rentável, construiremos um celeiro. —Um celeiro — repetiu o senhor Fish, com tom de dúvida. —Não quero dizer imediatamente. Mas se terceiros usarem nosso moinho e constatarmos que é um empreendimento rentável, então, por que não oferecer a eles também, um lugar onde armazenar seus grãos? —Não terminamos de reconstruir o velho moinho. Possivelmente deveríamos... A aparição de Linford os interrompeu. —Desculpe senhora, está aqui o senhor Sibley. Keira se levantou do seu assento perto da mesa, enquanto o advogado entrava. —Senhor Sibley — o saudou, estendendo a mão. Ele esboçou um grande sorriso e cruzou a sala para beijá-la. —Lady Ashwood. Encantadora como sempre. —Obrigada. —Sibley, o que o traz hoje em Ashwood? —perguntou o senhor Fish. —Ah — respondeu o outro sorrindo. — Lamento muito ser o portador dessa mensagem milady, mas o conde Eberlin pediu para dizer-lhe que já que não se chegou a nenhum acordo sobre os hectares, não fica outra escolha que litigar por elas. Ela afogou um grito e olhou ao aniquilado senhor Fish. —Peço que me perdoe — acrescentou o advogado, tristemente. Foi a pior noticia possível. Keira não tinha a mínima ideia de como funcionavam aquelas coisas, mas estava quase certa, de que meter-se em um pleito acabaria com a sua frágil reserva de recursos. Desesperada, pensou o que poderia fazer ou dizer. Teve uma ideia. Pela maneira em que o senhor Sibley a olhava, percebia-se que estava louco por ela. Esperava que a apreciação do homem atrasasse o inevitável até que Lily chegasse. Aproximou-se mais dele. 155


—Não entendo bem — disse, com sua voz mais suave. — Por que o conde quer pleitear comigo? Não parece uma forma muito amistosa de resolver nossos assuntos. —Está convencido de que não tem outra opção, senhora — explicou o senhor Sibley. Por um breve momento, permitiu-se percorrê-la com o olhar. — Você deixou muito claro, que não está de acordo com sua interpretação do legado original e as especificações do vínculo. Ele pretende que meçam as terras e que se estabeleçam os limites adequadamente. —Acha que comprou e pagou, você quer dizer — interveio o senhor Fish, com um bufo de desdém. — A interpretação do conde está errada, senhor Sibley. Você mesmo concordou que parecia ser. —Eu disse que parecia — respondeu o advogado educadamente, sem deixar de olhar para Keira. — Mas, é claro, que outros não estão de acordo com essa opinião. Se você estiver realmente certo, não têm por que temer a pedido do conde. —Eu não temo seu pedido — respondeu Keira em voz baixa. — O que tenho medo é procure me arruinar. —Deu outro passo para aproximarse mais de Sibley. — Por que quer fazer isso? O homem soltou uma risadinha. —Senhora, nada está mais longe da verdade. O conde espera ser um bom vizinho, digno de sua confiança, quanto à compra e revisão de Tiber Park tenha terminado. —Seriamente? Percebe como me verei obrigada a subir os aluguéis, não é assim? O senhor Sibley teve ao menos a decência de parecer um pouco incômodo. —Talvez, se você oferecesse em compromisso... — sugeriu ele. —Um compromisso! —exclamou Keira, como se fosse a melhor ideia que pudesse ter e o olhou com astúcia. —Se puder ser amável de permitir que eu e lady Ashwood tenhamos um momento em privado — disse o senhor Fish. 156


—Naturalmente. Tomem o tempo que precisarem. Visitarei em outro momento — respondeu o senhor Sibley e saiu da sala. Quando a porta se fechou atrás dele, Keira se voltou para o administrador. —Argh! — exclamou, zangada. — Esse..., esse dinamarquês está fazendo o impossível. Serei obrigada a aumentar os aluguéis! O que acontecerá com a senhora Hough? E com os Moncrieff? O pequeno Bill Moncrieff está muito doente, você sabia? —Acredito que, tratando do interesse de Ashwood, deveríamos preparar um acordo e apresentar o que sugeriu o senhor Fish. —Que tipo de acordo? —Um acordo econômico, para que Eberlin pague um preço justo pela terra. Keira não acreditava que chegassem a um acordo em dinheiro, que pudesse suprir os ganhos perdidos com esses hectares. —Não — respondeu, negando com a cabeça. — Precisamos de um advogado senhor Fish, alguém que saiba tudo o que precise saber sobre vínculos e essas coisas. —Estou de acordo. Entretanto, não encontrará a ninguém assim em Hadley Green. Vamos ter que procurar em Londres. E, se me permiti a falta de delicadeza, precisaremos dinheiro para mantê-lo. —Dinheiro, sim, precisamos de dinheiro — admitiu ela, pensativa. — Espere aqui um momento, por favor. Deixou o senhor Fish e correu para seus aposentos. Estando ali, abriu a gaveta superior da penteadeira e tirou um pequeno porta joias de veludo. Revirou dentro dele e pegou um broche de esmeraldas e diamantes. Seu pai o tinha dado em Lisdoon quando fez vinte e um anos. Keira nunca esqueceria: o sol estava descendo no horizonte e acabavam de acender as velas. Ela usava seu vestido favorito, de seda azul e se sentia elegante. Seu pai a tinha beijado na cabeça e havia dito: «É a luz dos olhos desse ancião, muirnín. Que tenha o mais feliz de todos os aniversários». Então deu o

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broche e ela se ficou sem fôlego ao vê-lo. Molly, Mabe e Lily se aglomeraram a seu redor, enquanto o olhava contra a luz. Gostava de muito desse broche. Usava-o com todas suas roupas. Com os xales, o prendia no decote dos vestidos de noite, inclusive o pendurava em uma gargantilha como complemento de um traje de dia. Talvez fosse sua posse mais apreciada. Mas era só um objeto. Não era um lar, como o que a senhora Hannah Hough podia perder. Não era um sustento, que podiam se ver privados vários dos seus arrendatários se os tirassem aquelas terras. E em Londres pagariam um bom dinheiro por ele. Quando retornou ao escritório, o senhor Fish estava ao lado da mesa. Sem falar, estendeu-lhe o broche e o administrador a olhou com surpresa. —Senhora, isso é requintado. Não vai querer vendê-lo... —Sim eu quero, senhor Fish. Necessitamos do melhor advogado que possa encontrar. O pobre homem ficou estupefato. Keira colocou o broche sua palma da mão e fechou os dedos sobre ele. —Agora isso está resolvido, vamos ver como está indo o moinho? Eu gostaria de comprovar que progressos têm feito — disse e deu as costas para o senhor Fish e a seu broche. O melhor era não pensar nele ou em sua família. O melhor era pensar só no que precisarei fazer.

CAPÍTULO 13 Uma semana passou até que Declan voltou a ver Keira; Por uma semana, felizmente, conseguiu recuperar o equilíbrio emocional. 158


Não foi uma tarefa fácil, porque aquela pequena diabinha conseguiu meter-se bem dentro. Não havia percebido, que estava impregnado por dentro até que cometeu o erro de visitar Penny. Durante esse encontro, Declan teve um deslize tão grande que temeu não poder recuperar-se nunca. O que lhe aconteceu jamais se passou antes, em toda sua vida e esperava que nunca mais voltasse a acontecer: tinha chamado Penny de Keira, enquanto estavam fazendo sexo na cama de armar. Maldita fosse, foi um dia repleto de novas experiências em mais de um sentido, porque finalmente com Penny tampouco conseguiu... trepar. Tentou explicar-lhe e, como de costume, ela usou muita filosofia. —Não tem por que me dar explicações — havia dito alegremente. — Sempre existe um final, não é? Sim, sempre existia um final, mas não dessa maneira. À tarde com Penny o deixou bastante chateado, em vários sentidos e não menos importante era sua absoluta certeza, do por que lhe tinha acontecido aquilo. Ele era um homem muito forte, que estava acostumado a viver o momento, ainda mais quando se tratava de mulheres. Certamente, não estava acostumado a fazer amor com uma e pensar em outra. E especificamente em Keira, entre todas as mulheres deste mundo. Declan não sabia o que estava acontecendo com ele, mas não parecia ser capaz de tirar Keira da cabeça. Via-a sorrir, ouvia-a rir. Lembrava a intensidade com que falava até da coisa mais insignificante e seu evidente carinho por aquela órfã que tinha colocado sob seu cuidado. Se por acaso, isso não fosse suficientemente ruim, ainda podia notar seus pequenos seios sob a mão. E aquele beijo... Que Deus o ajudasse! Sem dúvida a faltava experiência, mas absolutamente entusiasmo. Tinha incitado ele, como se fosse um garoto inexperiente. Desse modo, Declan se dedicou intensivamente a seus cavalos e conseguiu não pensar em Keira. Havia mandado chamar o senhor Evans, um renomado ferreiro, para que desse sua perita opinião, sobre os cascos de um cavalo castanho que Declan suspeitava que estava desenvolvendo 159


laminite. Essa doença, poderia deixar o animal coxo ou, no mínimo, incapaz de correr. Fez com que o mesmo, fecundasse uma égua alazã, descendente de um dos melhores cavalos de corridas, que Declan já tinha visto. Estavam examinando o animal no pasto e o senhor Evans estava com o casco do mesmo no colo. —Sim que pode ser laminite — disse, deixando cair à pata do cavalo e se levantou. Mas ao invés de continuar falando disso, o homem olhou atrás de Declan e fez um gesto com a cabeça, indicando alguma coisa à distância.— Bom, isso sim que é uma beleza, não é milord? Declan seguiu o olhar do senhor Evans e viu uma carruagem parar no caminho. Ele não chamou de «beleza» a carruagem de Ashwood, mas sim, o chamativo gosto da atual condessa, pelas plumas. Com a desastrosa tarde de Penny ainda fresca na memória e ainda sendo capaz de arrepiar seus pelos, disse simplesmente «Perdoe», e começou a andar em direção a carruagem. Um lacaio saltou de trás da boleia e abriu a porta, enquanto ele se aproximava. Primeiro apareceu uma sombrinha, que logo se abriu formando um brilhante círculo amarelo que se sacudiu e agitou, enquanto a portadora descia do veículo. De repente, levantou-se por cima da cabeça de Keira como seu sol particular. Ela sorriu e agitou uma mão enluvada para Declan. Não se aventurou mais no campo, mas sim ficou na margem do caminho, fazendo rodar seu pequeno sol atrás de sua cabeça. —Boa tarde, milord — o saudou alegremente, quando ele chegou no caminho. Declan estava parado na frente, percorrendo-a com um olhar suspeito, enquanto ela tirava as luvas. Usava um traje de dia de cor amarela claro, com um xale verde e amarelado com largos bordados, que pendurava solto nos braços. No pescoço, uma cruz dourada, pendia sobre um tentador decote. O chapéu ostentava um par de monstruosas plumas que lhe inclinavam e bamboleavam sobre os ombros com a brisa. 160


Declan a achou deslumbrante. Como uma fruta de verão amadurecida esperando que a arrancassem e a devorassem. Pensando em Keira como uma fruta amadurecida o perturbou. Sem perceber, deu um passo para trás. — Um dia magnífico, não é mesmo? — comentou Keira, sem parecer se importar com seu olhar suspeito. —O que está fazendo aqui? Onde está seu pequeno cinturão de castidade? —Suponho que com esse comentário se refere à Lucy Taft. Hoje está em Ashwood, tendo sua primeira lição de música. E, certamente, não vim aqui para vê-lo. Estou a caminho do povoado. —Sorriu. Ele franziu a testa. —Por que será que não acredito em você? —Porque confia muito pouco nas pessoas, Declan. A verdade é que vi você com seu cavalo e pensei em ser amável. Pode perguntar a Louis se não acredita em mim —acrescentou, fazendo um gesto para o lacaio, que não se inteirou de que o mencionava, porque estava conversando com o robusto cocheiro. —Perdoe o meu ceticismo, mas poucas vezes, as coisas são tão simples como quer me fazer acreditar — replicou ele. — Agora, espero com inquietação que a verdade caia de seus formosos lábios. —É muito esticado, Declan. —Esticado? —Inflexível. Carente de humor, poderíamos dizer. Como um velho fóssil... —Já captei a ideia —a cortou com sarcasmo. Keira sorriu novamente e olhou mais à frente, atrás de Declan. —O que acontece com seu cavalo? —Tem laminite. —Isso soa fatal. É? —Não parou aqui para me perguntar sobre o cavalo — respondeu ele. — Possivelmente deveria dizer o que quer.

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—OH! Já esquecia — disse e colocou a mão na bolsa de renda que estava pendurava no pulso. — Tenho uma carta para você. — Tirou um papel vitela dobrado e o entregou. Declan pegou. —Então, viu-me por acaso nesse campo e por acaso tinha uma carta para mim, não é? Acho que a verdade está começando a aparecer. Ela bufou e afastou o olhar. A carta estava dirigida para madame Broussard, do Instituto Vila Amiels. Ele voltou a olhar para Keira. —Não está selada. —Não? —perguntou ela, fingindo inocência, enquanto se inclinava para olhar. — Devo ter esquecido. Declan desdobrou a carta e a leu. Era uma bonita e cuidadosa carta, com uma entusiasmada recomendação de Eireanne e uma solicitação em seu nome. —Naturalmente, enviei uma cópia ao maior benfeitor da escola, o senhor Forgionne —acrescentou Keira, enquanto ele lia.— Sempre me apreciou muito. Pedi a ele que, se pudesse, acelerasse a decisão, para evitar que Eireanne adoeça em Ballynaheath durante todo o inverno. Declan dobrou a carta lentamente. Era o que precisava para sua irmã, o que a podia desvincular da má reputação dele. —Obrigado — disse e a olhou. — Posso perguntar por que agora? —Dei a minha palavra — respondeu ela e lhe sorriu radiante. Declan a olhou, cético. — Não acredita? — perguntou Keira e ele negou com a cabeça. — Certo, preciso de sua ajuda outra vez. —Que surpresa. Ela revirou os olhos. —Não é preciso exagerar tanto Declan. É tão impossível acreditar que posso ser sua amiga e ao mesmo tempo precisar que me ajude? —Sim. —Zombe se quiser, mas não somos animais, senhor. Somos humanos, capazes de sentimentos complexos e às vezes compatíveis. Ele começou a rir. Como podia ser uma mulher tão irritante e atraente ao mesmo tempo? 162


—Esses são os tipos de tolices, que ensinam hoje em dia às jovens, nas escolas privadas? —Agora parece meu pai. Parece-me evidente, que os homens são muito simples em seus desejos e necessidades e que requerem um pouco de prática para cultivar amizades, que supostamente envolvam mais sofisticação, que um apertão de mãos e uma aposta. Com isso, Declan riu abertamente, o que chamou a atenção dos criados de Keira. —Não preciso prática, muirnín — afirmou ele. — Diria que poderia ensinar a você, uma ou duas coisas sobre sentimentos compatíveis e incompatíveis —acrescentou, enquanto deslizava o olhar da boca de Keira até a cruz dourada sobre seu peito. Podia perceber a atração entre eles, alimentando-se de seu calor, puxando ambos e se aproximou.— Basta pedir direito, que a ensinarei como fazer a espera interminável de Maloney por você, valha a pena. Ela inclinou a cabeça para observá-lo. —Suponho que você poderia, mas não fará, você sabe? Porque nunca chegaremos a ser esse tipo de amigos. —Não esteja tão segura — replicou ele com um sussurro. — Ouvi dizer que meu poder de persuasão com as mulheres, pode ser impressionante. Keira riu, mas sob o escrutínio de Declan e, estava começando a ruborizar-se. —Possivelmente eu pudesse persuadir você a visitar o senhor Hollingbroke. Que Deus o ajudasse! Desejava acariciá-la, beijar aquela parte de sua pele ruborizada no pescoço, vê-la reluzente e nua debaixo dele. Nesse momento, não queria pensar em Hollingbroke. —Já disse isso; Você deve visitá-lo. —Fiz isso. — respondeu ela. — Fiz exatamente o que você sugeriu. Perguntei ao senhor Fish onde podia encontrá-lo e fiz uma visita.

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Inclusive, tinha o motivo perfeito para fazer, porque se atrasou nos aluguéis. Mas foi horrível comigo. —Horrível? —Não quis sair da sua choça, assim eu entrei, como me sugeriu. Fui muito amável e sequer falei do aluguel, mas ele deixou muito claro que não queria me ver, que eu era repugnante e desprezível... Isso tocou algo dentro de Declan. —Perdão? —Disse coisas horríveis de mim, quero dizer, de Lily — acrescentou com um leve movimento de cabeça.— É um velho teimoso e antiquado. Disse que não se importava se eu o despejasse, que não encontraria nenhum outro arrendatário que pudesse tirar um centavo a mais do que ele tirava daquela terra, que eu era uma mulher e ele não falava com mulheres sobre aluguéis ou coisas do tipo, e que eu já havia arruinado vidas o suficiente. Surpreendentemente, Declan ficou zangado com Hollingbroke, por mais razão que o velho pudesse ter. —Não havia ninguém com você para defendê-la? O senhor Fish? Seu lacaio? —Louis estava comigo e disse ao senhor Hollingbroke que não falasse assim, mas o entendi perfeitamente. Está indignado pela perda de seu amigo e acha que eu causei sua morte. Acredita que o senhor Scott era inocente e que o acusaram injustamente, e que eu foi quem o condenou. Lily, obviamente. —Estou achando, que o mais provável é que seja um velho rabugento que perdeu seu sentido de decência — respondeu Declan. — Eu falarei com ele. —Fará isso? — perguntou ela, iluminando os olhos verdes. Imediatamente, Declan se arrependeu de suas palavras, porque no rosto da Keira apareceu um formoso sorriso e ele estava começando a ter medo, do que poderia chegar a fazer por esse sorriso. —Disse que farei — replicou, mal-humorado. Colocou a carta de recomendação de Eireanne no bolso do casaco. 164


—Muito obrigada, Declan — disse Keira, agradecida. — Quando iremos ver ele? —Nós não: eu. Eu irei visitá-lo — afirmou e levantou uma mão para parar a avalanche de perguntas que estava certo que viria. Como supôs, ela ignorou sua mão. —Mas quando? E se..., e se fosse visitar o senhor Hollingbroke amanhã e depois passasse em Ashwood, para comprar aquele cavalo que você gostou? Possivelmente, eu tenha me apressado um pouco ao recusar em vendê-lo. —Obcecou-se, quer dizer. —Vamos, quando você irá visitar o Hollingbroke? Seus olhos brilhavam. Declan estava com o louco desejo de afundar o rosto em seu pescoço e aspirar seu aroma. O sorriso de Keira se fez mais radiante. Ela sabia, sabia perfeitamente, a maneira que tinham as mulheres para saberem dessas coisas; sabia o efeito que estava causando nele. Estava manipulando ele, fazendo girar à sombrinha e isso o irritava imensamente. —Quando eu tiver tempo. Agora não posso dizer —respondeu secamente e se afastou dela voltando para seu cavalo e o ferreiro. —Obrigada, lorde Donnelly! Ah, e boa sorte com seu cavalo! — gritou Keira em suas costas.

CAPÍTULO 14 O senhor Hollingbroke também não quis sair de sua choça para falar com Declan. Apoiado no marco da porta, com os braços cruzados sobre o peito e o chapéu puxado até os olhos, Declan suspirou impaciente. —Vamos senhor, o que pode perder me recebendo? —gritou, através da porta de madeira gasta. —O que posso ganhar? —gritou Hollingbroke em resposta. Era uma excelente pergunta. 165


—Possivelmente eu possa ajudá-lo a sair de sua situação —sugeriu Declan. — Não é nenhum segredo que tem pagamentos atrasados. Talvez, eu possa encontrar uma maneira de ajudá-lo a pagar suas dívidas. —E por quê? Vai pagar meus atrasados? Na verdade, Declan não estava propondo isso absolutamente, mas como chegou nesse ponto, pensou em fazer o que fosse, para terminar de uma vez com aquilo. —Suponho que não saberá até que abra a porta, certo? Durante um tempo, não ouviu nada e sua paciência chegou ao limite. Mas justo quando se virava para partir, ouviu arrastar uma cadeira no chão de madeira, seguido por um passo irregular de alguém que caminhava pela casa. A porta se abriu. —Entre. O senhor Hollingbroke era um homem curvado, de cabelo cinza, muito sujo e barba sem cortar ainda mais cinza e suja. Keira tinha esquecido de mencionar o quanto desarrumado era. Declan abaixou a cabeça e cruzou a soleira; parou um momento, para que os olhos se acostumassem à penumbra e o nariz ao fedor do corpo sem lavar que impregnava as duas habitações da choça. —Estou a quase quarenta anos, cultivando essa terra e nenhuma vez, recebi tantas visitas de pessoas — disse o homem, enquanto caminhava coxeando para o lar. — Bom, e quem diabos é você? —Lorde Donnelly —respondeu Declan e lhe estendeu a mão sobre a gasta mesa de madeira que os separava. —Ora —soltou o velho e fez um gesto de desprezo para a mão. — Isso não servirá a você. Não importa um cominho se você é um lorde ou um caçador de ratos. —Muito cordial de sua parte —replicou Declan com secura e baixou a mão. —Eu não o convidei para vir —respondeu o ancião. — Você é um enviado da condessa? Ele tentou não irritar-se com essa hipótese.

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—Vim porque acredito que você poderia ter a informação que procuro. —Tirou uma pequena bolsa de couro do bolso e jogou sobre a mesa de madeira, que havia entre ambos. — Aí deve ter o suficiente para pagar sua dívida com Ashwood. — E mais, supôs Declan. Hollingbroke se limitou a olhar para bolsa. Pegou uma jarra e verteu um líquido da cor marrom escuro em uma pequena caneca. —Veio para colocar o nariz em meus assuntos particulares —disse e se sentou em uma cadeira de madeira junto à lareira, sem tocar a bolsa. —Não coloquei o nariz em seus assuntos particulares; não me importaria se estivesse pagando seu aluguel ou não. Só pretendia fazer uma espécie de acordo: suas dívidas em troca de informação sobre o senhor Joseph Scott. Hollingbroke ficou imóvel. Depois deixou com força a pequena caneca sobre a mesa. —Ela o enviou? — exigiu saber. — Ela tem algo a ver com isso? —Com quem? — perguntou Declan, confuso por um momento. —Com a condessa, idiota estúpido! — gritou o velho. — Apareceu aqui como se fosse me fazer um favor. Nem sequer me reconheceu! Quando era pequena, estava acostumada a cavalgar por essas terras com seu pônei e agora finge que jamais colocou os olhos em cima de mim. Foi ela que o enviou! Ele não confirmou ou negou. —Não o conheço —prosseguiu Hollingbroke entrecerrando os olhos. — Por que iria lhe dar alguma maldita informação? Declan não era um homem que achasse fácil mentir, mas tinha a estranha sensação de ter estado naquele lugar antes, de ter tido já essa conversa. «Viu à garota?» Encolheu o estômago. —Digamos que sou parte interessada — respondeu. — Você tem uma dívida que não pode pagar e a informação que eu quero ter. —Parte interessada! — cuspiu o velho. — O que está acontecendo? Também colocou em você uma corda ao redor do pescoço? —Perdão? 167


—Essa mulher fez que enforcassem o único homem a que chamei amigo. Cometeu uma injustiça com ele. Foi injusta com todos nós! E agora, aparece tranquilamente em sua grande carruagem, como se não me conhecesse, como se nunca tivesse visto meu rosto! Pode me dar todas as suas moedas milord, que não servirá de nada. Ela não encontrará outro homem que possa tirar algum penique a mais do que eu tirei dessa miserável parte de terra. A terra acumula a água. Não posso fazer crescer mais que um pouco de grão e o que cresce, as malditas vacas comem! —Por que diz que ela fez enforcarem seu amigo? —perguntou Declan. — Por acaso, não foi ele mesmo, que colocou a corda no pescoço, ao roubar algumas joias valiosas? Hollingbroke pareceu desconcertado durante um momento. De repente, ficou em pé com um grunhido de indignação. —Não falarei disso com você. —Suponho que acredita que ele não cometeu esse delito, porque era amante de lady Ashwood — soltou bruscamente. Hollingbroke rodeou a mesa e foi para Declan apertando a pequena caneca na mão. —Não sei quem é você, mas não manchará seu nome mais do que ela já o fez! Joseph Scott era um homem decente e colocaria a mão no fogo por ele! Não era um ladrão e, entretanto, sua família sofreu pela infundada acusação dela. Não permitirei que você acrescente mais mentiras, por Deus que não permitirei. Falava com tal firmeza, com tanta paixão, que Declan não pôde evitar de duvidar. Olhou para Hollingbroke, seu desarrumado casaco, suas calças velhas e seu lenço sujo. —Como pode estar tão certo? —perguntou. —Vai para o inferno —replicou o ancião e virou de costas. Declan o parou, segurando-o pelo braço. —Se for verdade, que quer ver seu nome limpo, me contará isso. Como pode estar tão certo que ele não roubou essas joias? —Porque esteve aqui na noite em que se supôs que roubou. Comemos ovos. Ovos! Pode acreditar? Um ladrão com algumas joias 168


preciosas no cinturão, parando em uma velha choça para me trazer ovos de seu curral? Sentou-se nessa mesma cadeira e falamos do tempo, de quando ia parar de chover. Ah, sim, posso ver seu ceticismo. Todos de sua estirpe acham que estão acima de nós, não é? Eu tinha uma úlcera no pé, senhor. Não pude andar durante um tempo. O senhor Scott estava acostumado a vir aqui, depois de passar todo o dia trabalhando, para lavrar minha terra. Trazia-me comida de sua despensa. Era um homem cristão, milord. Ele não roubou essas joias. Se tivesse feito, não teria vindo aqui para me trazer alguns malditos ovos. Os ovos não provavam ou deixavam de provar nada, como tampouco a afirmação de Hollingbroke, de que Scott era um bom homem; apesar de tudo, bem poderia ter tido uma aventura extraconjugal. Mas Declan concordava com o ancião em um ponto. Não estaria Scott mais interessado em esconder as joias, do que preparar um álibi ao entregar alguns ovos? —Por que não disse isso no julgamento? — perguntou-o com curiosidade. A expressão de Hollingbroke se azedou ainda mais. —Fiz isso. E riram de mim. Sua gente, que veio de Londres, riu dos ovos. Declan podia imaginar aquele homem sujo, falando de ovos; como deveriam ter achado divertido essas pessoas elegantes. Mesmo assim, ele continuava não convencido. —E o senhor Scott não se defendeu? Onde mais esteve nessa noite? —Esteve aqui um bom tempo — respondeu o senhor Hollingbroke. — E disse no julgamento. Mas não disse nada mais. —E por que não? O ancião sorriu com amargura. —Porque não estava em sua casa com a esposa e seus filhos, senhor. Você é um cavalheiro, pode imaginar por que não falou. E não mudaria nada se tivesse feito. Digo que essa desgraçada, poderia ter 169


apontado com o dedo a qualquer um, que eles acreditaram em suas mentiras e fantasias. Mandou um homem inocente à forca, mas dorme bem todas as noites. —Não saberia dizer a você como dorme —respondeu Declan. — Há alguém mais, que tenha a mesma opinião que você? Hollingbroke começou a rir, mostrando a falta de dois dentes. —Todos tem a mesma opinião. Mas não queriam admitir naquele tempo, porque temiam por seu próprio pescoço. —E por que tinham medo por seu próprio pescoço? De quem tinham medo? — perguntou ele. O sorriso do homem desapareceu. —De quem permitiu que pendurassem um homem inocente. —Quem? —insistiu Declan, impaciente. — Aconteceu há quinze anos. Sem dúvida, ninguém teme agora de dizer a verdade. —Agora já não temem por seu pescoço. Calam por vergonha. —Por vergonha? —Por deixar um homem inocente morrer. E isso é tudo o que vou dizer sobre esse assunto —concluiu o velho. —Obrigado, senhor — disse Declan e abriu a porta. —Está esquecendo suas moedas — avisou Hollingbroke. — Não as peguei por acreditar na honra de Scott. —Então as pegue para pagar suas dívidas — respondeu ele e saiu da casa, antes que o ancião pudesse pará-lo.

CAPÍTULO 15 Keira não se sentia muito bem. Estava começando a desmoronar-se sob o peso de sua farsa, a imensa dificuldade de manter a representação. Havia dias, como aquele, no qual se perguntava se estivesse casada com o senhor Maloney não seria preferível a padecer daquela angústia constante. Mais cedo, nesse mesmo dia, as damas da Sociedade tinham ido visitá-la junto com a senhora Lorquette e sua filhinha recém-nascida. A 170


mulher queria ter a honra de dar à pequena, o nome de Lily e pediu a Keira que participasse do batismo. —Será uma honra, meu bebê ter o seu nome, senhora — tinha soltado à senhora Lorquette atropeladamente. Naturalmente, Keira não foi capaz de negar-se a receber às damas, mas foi quase impossível olhar para o formoso bebê sem sentir-se doente. Soube imediatamente, que se aceitasse seu pedido, aquela mulher jamais poderia olhar seu bebê da mesma maneira, quando soubesse a verdade. Inventou uma desculpa. —Sem dúvida você pode colocar esse nome se assim desejar — havia dito. — Mas temo que nesse domingo não estarei em Ashwood. —Poderíamos mudar o dia — havia sugerido a senhora Lorquette. — Digamos no próximo domingo? —Ah..., acredito que essa data tampouco será conveniente — respondeu Keira quase fazendo uma careta. As damas ficaram muito decepcionadas. A senhora Lorquette pareceu magoada e Keira ficou abatida desde que partiram. A gravidade do que tinha feito ao assumir a identidade de Lily, estava causando uma dor surda nas têmporas. Dormiu mal, tentou pensar em uma forma de sair do atoleiro. Estava furiosa consigo mesma. Decepcionada. Que inconsciente tinha sido ao aceitar aquilo! Até esse colossal erro, não havia apreciado a singela e despreocupada vida que levou. Possivelmente muito singela, porque não conseguia nem imaginar as responsabilidades de uma autêntica condessa, antes de fingir que era uma. Assim eram as aventuras? Aquilo era viver no limite? Deveria ter dito a Lily que era impossível para ela fazer o que pedia e ter ido à Itália com a senhora Canavan. O que pensou que aconteceria ao chegar a Ashwood? Como não previu que as mentiras iriam acumular e crescer, ao tal ponto, que acabariam prejudicando as pessoas? Encontrava-se em uma confusão tão grande e emaranhada, que não sabia como sair dela, ou inclusive, se poderia sair dela sem ferir Lily. A si 171


mesmo. A pequena Lily Anna Lorquette. Ao senhor Loman Maloney, que se horrorizaria se soubesse o que fez. Já tinha vinte e quatro anos e não era muito melhor, que a estúpida garota que havia beijado lorde Donnelly naquela ensolarada tarde na Irlanda. Todo isso a convenceu de que devia colocar um fim aquela farsa. Não sabia como poderia fazer exatamente, mas faria, antes que alguém saísse mais prejudicado. Nessa tarde, no grande salão, estava com a cabeça ocupada, pensando em como terminar. Sentou-se e olhou pela janela, cercada de flores que tinham enviado seus admiradores. Lucy estava esforçando-se para desenhar um vaso com flores. Precisava melhorar muito seu talento para a arte. —Não vai olhar? —perguntou a menina. —Como? —respondeu Keira, levantando os olhos. Lucy tinha dado a volta no cavalete para que Keira pudesse ver o resultado de seus esforços. — Desculpe. Estava pensando. —No que? —insistiu a pequena com curiosidade. —Em..., em quando poderei voltar para a Irlanda — respondeu ela com sinceridade. —Onde fica a Irlanda? — inquiriu Lucy. —Muito longe de Ashwood — respondeu. —Do outro lado do mar está a Irlanda —disse uma voz masculina em suas costas. Lucy afogou um grito de surpresa e elas olharam para a porta. —Boa tarde, lorde Donnelly — saudou Lucy, com sua melhor reverencia até o momento. —Boa tarde, senhorita Taft — respondeu Declan. Ficou na porta, com as mãos nas costas e com uma deliciosa mecha de cabelo castanho caindo sobre um olho. Estava vestido para montar; Keira se fixou que suas calças se ajustavam como uma luva e sentiu um repentino calor na nuca. De tudo que tinha acontecido ultimamente, seu amor por aquele diabo de homem era a última coisa precisava. Levantou-se devagar. 172


—Ah, aí está — disse Declan. — Era difícil ver você entre todas essas flores. Linford está muito ocupado e eu o assegurei que estava me esperando. Entrou na sala olhando ao redor. Estava magnífico. Keira não lembrava nenhum outro homem em sua vida que tivesse a capacidade de deixá-la sem fôlego como ele fazia e seu tolo coração começou a pulsar um pouco mais depressa. De repente, encontrou-se lembrando do beijo na carruagem e as coisas que havia dito a ela no campo, enquanto seu cavalo era diagnosticado com laminites ou lismania, ou seja, lá o que fosse que padecesse o pobre animal. Pelo amor de Deus, sem dúvida Keira era capaz de manter uma conversa civilizada sem imaginar todas essas coisas que não deveria imaginar. —Não se preocupe milord. Suas visitas sempre são... —Prazerosas? —Inesperadas. Declan sorriu, enquanto continuava avançando pela sala e parou para olhar o desenho de Lucy. —Muito bonito senhorita Taft. São rosas, não é? —Não, senhor. São narcisos e isso é uma ovelha. —Então que é uma ovelha, não é? —respondeu ele, ligeiramente confuso. — Bom, tem que perdoar minha falta de olho artístico, mas devo admitir que estou um pouco afligido, com todas essas benditas flores por aqui. —Sim, chegam muitas todos os dias — disse a menina. —Parece que todas as flores da Inglaterra foram cortadas para lady Ashwood. Imagino que há grandes partes de terra descoberta onde antes cresciam. Lucy riu. —Querida — disse Keira pegando um jarro cheio de rosas; o senhor Anders se excedeu um pouco com seu último envio, — poderia levar isso à senhora Thorpe, por favor? Ajuda-a colocar em vários vasos. Eu gostaria de vê-las em todos os consoles; há muitas, assim deve ser paciente enquanto ajuda ela. 173


—Tenho que fazer agora? — perguntou Lucy. —Sim. A menina franziu a testa. —Sim, senhora — respondeu, mas pegou o vaso a contra gosto. — Não sei por que temos que fazer isso. No final sempre morrem. —Como todos e por isso devemos viver a vida ao máximo. Obrigada, Lucy. A menina não respondeu e fez uma reverência a Declan. —Que tenha uma boa tarde, senhorita Taft — disse ele e fez uma inclinação de cabeça, enquanto a menina tentava ver através das flores do vaso, passou na frente dele. Quando viu que partiu, voltou-se para Keira. —Ouvi dizer que quer partir — comentou. — antes de terminar de criar confusão e caos em Hadley Green? —Vá, milord, parece até mais irritado — respondeu ela com um sorriso descarado. — Acreditava que você ficaria encantado. —Surpreende-me. Parecia tão decidida a ficar aqui e governar seu pequeno reino. —Sim, bom, pois agora estou decidida a arrumar a confusão que armei e retornar a Irlanda, para aceitar a proposta do senhor Maloney. Tenho a intenção de viver tão longe da vida social como for possível. Declan sorriu ainda mais, claramente divertido. —De verdade? Não gostou daquela faísca de diversão em seus olhos. —Ria se quiser, mas tinha razão no que me disse. Causei muitos problemas e prometo não ser nunca mais um incômodo para alguém. Declan levantou uma incrédula sobrancelha, enquanto se aproximava. —E a que se deve essa súbita mudança de opinião? — perguntou e acariciou sua face, o que fez com que o estúpido coração de Keira desse um salto. — decidiu que o pobre senhor Maloney já esperou o suficiente? Maloney! Sem dúvida, Keira não queria que a lembrassem nesse momento. —Não.

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—Então, possivelmente eu a tenha assustado — disse Declan e acariciou o lóbulo da sua orelha. — Talvez acredite que sucumbirá à paixão e finalmente me permitirá a desonrá-la. Ela avermelhou com intensidade, diante a verdade dessa afirmação. —Novamente faz ilusões. Ele sorriu meio de lado e ergueu a linha do queixo. —Assim tenta arrumar toda a bagunça que armou? Keira se separou do calor de seus dedos. —Não sei. O único que sei é que não posso manter as mentiras que fui criando — respondeu com toda seriedade e, de repente, pressionou as têmporas com a ponta dos dedos. — Nem as expectativas que todos têm de mim. Nunca suspeitei que ser uma condessa fosse tão difícil. Como faz? Como consegue que Ballynaheath não o consuma de corpo e alma? Ele sorriu; compassivo, pensou ela. —Contrato homens excelentes. Mas diga... aconteceu algo, muirnín? Fez a pergunta com ternura e de repente, Keira desejou lançar-se em seus braços e que ele consertasse tudo. Mas infelizmente, ela organizou aquele desastre e só ela podia repará-lo. —Aconteceu tudo —respondeu. — A festa de gala, que parece ser maior dia a dia e não tenho nem ideia de como vou pagar. E Lucy, a quem estou me afeiçoando. O que pensará de mim quando souber a verdade? E agora, as damas da Sociedade pediram que eu participasse do batizado de uma linda menina de grandes olhos castanhos a quem vão colocar o meu nome, bom, o nome de Lily e sua mãe, sua pobre mãe, parecia tão esperançada com que eu participasse do batismo e repartisse algum tipo de magia de condessa sobre sua filha... —explicou com grande agitação. — Como ficará decepcionada quando descobrir minha farsa! E não será a única, não é? A senhora Ogle também se sentirá traída e a senhora Morton não muito menos, porque se têm feito bastante imprescindíveis para a condessa e sua festa de gala; quero dizer para mim, claro, mas eu não sou eu. Sou ela e, embora realmente jamais pretendi ser, sobre tudo, 175


não pretendo ser a que vai a batismos nos que se colocam seu nome a uma menina... Mas não importa — disse e apertou o punho. — O que é inclusive pior é esse homem, esse maldito homem que quer roubar os hectares de Ashwood. —O que? Como? —perguntou Declan. Keira negou com a cabeça. —É bastante complicado, mas diz que o vínculo de nossos quatrocentos hectares mais rentáveis expirou e que ele tem direito a elas. —E por que acredita que isso é assim? — inquiriu Declan. —OH, não aborrecerei você com os detalhes; a coisa é que necessitamos um bom advogado para defender Ashwood do pleito que pretende nos colocar. Adianto Declan, que a situação financeira de Ashwood, já é bastante precária sem necessidade de perder terras, sobre tudo terras que estão produzindo. —Não entendo como pode apresentar um pleito contra um vínculo de Ashwood, mas conheço um advogado — disse ele e imediatamente pegou um lápis e um papel da mesa junto ao cavalete onde Lucy esteve pintando. — Não encontrará ninguém melhor em Londres que o senhor Goodwin — acrescentou, enquanto anotava alguma coisa. Passou o papel com o nome do advogado e seu endereço em Londres. —OH! —exclamou Keira, surpresa de ter esse problema resolvido com tal rapidez. Olhou-o e sorriu agradecida. — Muito obrigada. Algo brilhou nos olhos de Declan. —Posso falar com ele se quiser — se ofereceu, mas ela rejeitou sua proposta imediatamente. —Não, obrigada, o senhor Fish conhece bem o assunto. Declan, não vê? Por todas essas razões, cheguei à conclusão de que devo pôr um ponto final nessa farsa e retornar a Irlanda assim que Lily chegar. É a única coisa que posso fazer depois de tudo o que fiz. Esperava que Declan a dissesse que já a tinha advertido, mas ele continuou em silêncio. Seus brilhantes olhos azuis estavam fixos nela, com uma expressão inescrutável. —Ouviu algo do que disse? —perguntou confusa. 176


—Até a última tolice — respondeu ele. —Então, por que não diz nada? —inquiriu. — por que fica aí? Essa é sua oportunidade, já sabe. Poderia dizer: «Já disse isso, Keira» ou «Você merece tudo o que está passando». —Se afastou. — Deveria estar trazendo uma carruagem para me levar para casa — acrescentou zangada. — E teria razão. Mereço tudo o que está acontecendo. Quando Declan continuou sem falar, ela se virou para ele. —O que acontece com você? —Estava esperando que lembrasse tudo o que fez de bom. Sim, não deveria ter atuado desse modo moça, mas isso não muda o fato que se esforçou muito por Lily. Pense: está reparando tudo o que deixaram apodrecer por aqui. Chamou a atenção sobre a situação dos órfãos e o que tem a senhorita Taft? Onde estaria essa menina sem você? Garanto que não estaria pintando narcisos e ovelhas. Keira negou com a cabeça, mas Declan tocou seu braço. —Nessa manhã passei em frente o moinho. Havia pelo menos vinte homens reparando-o. Não tiveram a oportunidade de fazer isso antes de você chegar Keira. Fez o que Lily pediu e diria que tem feito muito bem. Por mais que ela quisesse sentir-se adulada por suas palavras, ainda negou com a cabeça. —Só arranhei a superfície. Há muito mais por fazer. —Não quer aceitar que o tem feito de bom? Então, esqueceu do senhor Scott? Ou de sua tia? —Não, claro que não — respondeu e se virou para pressionar as têmporas com os dedos. — Acredito que era inocente Declan. De verdade acredito. Mas dei muitas voltas nesses últimos dias e o que podemos fazer a respeito? O pobre homem está muito tempo morto e fui uma estúpida por tirar esse assunto depois de tantos anos. Possivelmente..., possivelmente Lily não tenha como saber nunca. Ele sorriu um pouco cáustico. —O que quer que eu diga? —continuou ela. — Quer que eu diga que você tinha razão novamente? Muito bem, tinha razão, tinha razão. 177


—Claro que tinha razão — respondeu ele, como se fosse uma conclusão evidente. — Entretanto, Lily saberá da mesma forma que você tomou conhecimento. De verdade quer que isso aconteça? Acredito que você tinha razão ao querer explicar para que não soubesse por desconhecidos, Keira — disse, entrelaçando os dedos com os seus. — Todos os dias descobre algo novo. Sua prima logo estará aqui e agradecerá você por contar. Pelo bem de Lily... Já terá que suportar muito pelas consequências de seu engano, não acrescente ainda mais carga. Ela não podia estar mais perplexa. —Não posso acreditar no que ouço. Desde que me viu aqui, desprezou minha farsa. E agora que quero ser verdadeira, quer que eu continue com ela? —Preferia a sinceridade, sim. Mas isso foi antes que deixasse passar tanto tempo. Agora que tem feito o impossível para retificar sem que caia em algum tipo de acusação legal, embora tenha medo que isso possa ser assim, inclusive com a intervenção de Lily. E, além disso, já estou ligado a seu plano, ao pedir que falasse com o pároco e depois com o senhor Hollingbroke. Acredito que agora devemos ir até o fim. Keira afogou um grito. —Falou com o senhor Hollingbroke? O que disse você? —Disse muitas coisas, mas não muito que possa repetir em companhia feminina. Mas uma coisa sim que assegura e com grande paixão: que o senhor Scott era inocente. Ela ficou olhando boquiaberta. Era verdade! Por fim alguém, além de si mesma, dizia o que estava convencida de que era verdade! Mas de repente, pensou em algo e olhou para Declan com olhos entrecerrados. —Compreende que, embora tenha tentado convencê-lo que o senhor Scott era inocente, você não parou de insistir que eu estava errada em meu raciocínio? E agora, as palavras de um velho louco com corte nas orelhas causaram essa súbita mudança em seu parecer? —Isso é justo o que estou dizendo. Quer ouvir por quê? —Com detalhes — respondeu e se sentou no sofá. 178


Declan se sentou em frente a ela e contou tudo o que Hollingbroke havia dito. Enquanto Keira escutava seu relato, imaginava o senhor Scott cavalgando até a choça com um pacote com ovos e possivelmente alguma fogaça de pão que sua esposa tivesse feito. Via os dois homens tomando uma jarra de cerveja, falando de Deus seja lá o que e passando as horas naquela noite chuvosa. «Naquela noite chuvosa.» De repente, negou com a cabeça. —Aqui há algo que não se encaixa — afirmou. — Aquela noite chovia. Por que o senhor Scott iria debaixo de chuva levar alguns ovos a seu amigo? Parece que o senhor Hollingbroke deve lembrar-se de outra noite. —Isso é possível — reconheceu Declan. — Mas não muda sua firme crença de que o senhor Scott foi acusado injustamente e enforcado mais injustamente ainda. —Durante o julgamento, o senhor Hollingbroke jurou que foi assim? —Sim, fez isso — respondeu Declan, — mas ninguém acreditou nele. Depois de tudo, é um homem muito estranho. —E ninguém acreditaria agora —respondeu Keira, pensativa. Aquele era seu momento de reivindicação, mas sua tranquilidade desapareceu diante a imagem da pequena Lily, Anna Lorquette e negou com a cabeça. — Não serve de nada. Na verdade, ninguém acreditaria nele agora. Ficou em pé. Declan também. —Isso não é um baile da boa sociedade, Keira. Não pode decidir deixá-lo só porque se cansou de dançar. Ela o fulminou com o olhar. —Não vou desistir. Só vou fazer o que for necessário para manter Ashwood à margem até que Lily chegue. Não posso perseguir fantasmas; Deus sabe que já tenho o suficiente me ocupando pela festa de gala e pelo 179


moinho e esse malfadado pleito. — moveu-se, tentando passar ao lado dele, mas Declan a segurou pelo braço. —Solte-me. Ele não fez. Keira tentou se soltar, mas Declan a empurrou contra a mesa e apoiou seu outro braço em cima, segurando-a. —Escute-me, não permitirei que abandone o senhor Scott, porque de repente esse assunto se resultou incômodo. Se não fosse por seus profundos olhos azuis, Keira teria duvidado que se tratasse do mesmo homem dias atrás. —O que provocou em você essa mudança repentina? —perguntou, zangada. —Uma vez, Lily foi muito amável comigo e penso fazer o mesmo por ela. Mas, além disso, não posso suportar a injustiça. Sofri em minha carne. Acusaram-me injustamente em relação a uma menina de dezesseis anos, como lembrará. Você deu a volta nessa pedra, Keira. E agora vai ter que olhar o que tem debaixo. —Solte-me — exigiu ela. Sentia-se frágil, apanhada, pequena em frente seu tamanho, totalmente vulnerável diante sua fúria. Também sentia algo mais, algo inclusive mais aterrorizante: um grande prazer, um estremecimento tão profundo que quase não podia respirar. Empurrou-o com todas suas forças, mas era como empurrar uma árvore. Declan nem piscou e, evidentemente, não se moveu. — Não pode me dizer o que vou fazer ou deixar de fazer! Os olhos dele brilhavam decididos. —Se não poder apelar para o seu sentido correto, então terei que obrigá-la a fazê-lo. Keira riu. —Acha que pode me obrigar a fazer sua vontade? —Eu gostaria de considerá-lo como persuasão — respondeu ele, com um travesso sorriso e se inclinou sobre ela, obrigando-a a ir para trás. O pulso de Keira pulsava a uma velocidade perigosa. —Poderia gritar e todas as pessoas da casa viriam. É isso o que quer? 180


—Quero algo muito mais prazeroso — respondeu Declan, olhando seus lábios. — Mas me conformarei com sua palavra. Ela notou que seu rosto ardia. —Bárbaro — murmurou para si. —Se você diz... —O olhar dele era abrasador, incitante. Keira sentiu a pulsação de um devorador desejo. — Vejo como me olha — murmurou Declan. — Sei que ideias se amontoam nessa sua bonita cabeça. Deseja-me, Keira. Quer sentir-me entre suas pernas. Deseja-me e não tem medo que saiba. —Colocou a mão no final de suas costas e a fez inclinar-se para trás sobre a mesa, ao mesmo tempo em que sua boca descia sobre a sua. Ela lançou um gritinho de protesto e o empurrou no peito com ambas as mãos, mas ele a agarrou pelas mãos e a segurou com facilidade. Estava-a beijando tão entregue, com tanta habilidade, que o profundo desejo que Keira sentia começou a ferver. «Tem razão, tanta razão...» Ele segurou seu rosto com a mão aberta, enquanto devorava seus lábios. Keira notou sua ereção contra ela e a maré de prazer que a começava a inundar. As tesouras de recortar caíram da mesa, seguidas dos lápis de Lucy. Keira não parecia achar forças para afastar a cabeça. Estava irremediavelmente perdida em uma ardorosa excitação e um desejo urgente, e não confiava absolutamente em si mesma para proteger sua virtude. Declan emitiu um áspero ruído gutural, o som do prazer. Todas as lições, toda a cautela desapareceu da cabeça de Keira; ansiosa, procurou a língua invasora, mesclou seu fôlego com o dele, apertou o corpo ousadamente contra a prova de sua excitação. Seu aroma picante e masculino correu pelas suas veias como fogo. Quando Declan segurou seu rosto entre as mãos e a beijou com mais intensidade ainda, ela se arqueou contra seu corpo e segurou sua cintura com as mãos. Ele respondeu com outro grunhido e se meteu entre suas pernas. 181


O prazer daquele beijo, o erótico aroma e o sabor daquele homem forte e viril foram à perdição de Keira. A mão de Declan encontrou seu seio, seus dedos penetraram por debaixo do sutiã do vestido, roçando a pele, deslizando-se sobre seu mamilo e ela teve medo de desmaiar de desejo e, pior ainda, temeu entregar-se a ele de forma voluntária e ansiosa. Quando Declan abaixou a cabeça para beijar a curva dos seios sobre o sutiã, ela afogou um grito de prazer e se segurou à mesa. Notou que seu corpo se desfazia se abria, lhe dando espaço. Ele deslizou as mãos até seus quadris, apertando, estreitando-a contra sua ereção e atacando a sua vez. O desejo erótico se converteu em uma dor erótica. O corpo de Keira respondeu perigosamente; queria senti-lo dentro de si, experimentar todas as coisas que a fariam perder-se por completo. Poderia ter perdido sua virtude nessa brilhante tarde, se não tivesse ouvido vozes no corredor. Afogou um grito, segurou a cabeça de Declan e a afastou. —Senhora? —ouviu chamar à senhora Thorpe. —Não dê atenção —murmurou Declan, mordiscando seus lábios. Mas a mulher e Lucy estavam chegando. Keira o afastou, afastouse cambaleante da mesa e se abaixou para pegar as tesouras e os lápis, enquanto passava a mão sobre o sutiã para alisar-lhe. Declan ficou atrás dela e a segurou pela cintura, enquanto a beijava no pescoço. —Venha comigo para casa —sussurrou. — Não se entretenha, não vacile... —A Dhia dhílis! (O Deus verdadeiro) — exclamou ela a meia voz e separou suas mãos. Afastou-se e colocou tanta distância entre os dois como foi possível. Virou a cabeça para olhá-lo, viu o desejo em seus olhos, o vulto em suas calças. Keira não podia falar, não podia articular o que desejava dizer... —Você está aqui! —exclamou a governanta da porta. Declan se virou. Keira tinha as tesouras e os lápis na mão. —Sim! Estou aqui, senhora Thorpe. 182


—Lucy me disse que sua senhoria tinha vindo. E a senhora Ogle acaba de chegar — explicou a mulher. — Trago o chá? Declan fez um som de desdém e Keira avançou para a porta. —A senhora Ogle está vindo? —Boa tarde, lady Ashwood! —A dama entrou na sala, depois da senhora Thorpe. —Senhora Ogle! O que... surpresa! — exclamou Keira. A julgar pela expressão de seu rosto, à dama não tinha passado por cima, do que acabava de acontecer naquela sala fazia há alguns instantes e Keira envergonhada, esfregou o rosto com os dedos, tentando em vão apagar a prova de seu desejo. A senhora Ogle passou o olhar dela a Declan, que se virou só pela metade e a saudou com uma seca inclinação de cabeça. —Espero não estar interrompendo nada — disse a mulher. —Sim — respondeu Declan. —Não — disse Keira ao mesmo tempo. — Absolutamente, senhora Ogle. Entre. Sim, senhora Thorpe, nos traga o chá. —Eu não gostaria de incomodar — insistiu a dama, olhando a Declan com um leve sorriso suspeito. —Absolutamente — assegurou Keira. — Lorde Donnelly já estava saindo. Declan a olhou, como se tivesse esperado que fosse mandar embora a senhora Ogle para continuar com seu apaixonado encontro. E Keira teria desejado fazer justamente isso, mas deixou as tesouras e os lápis e acompanhou a sua visita até o sofá. —Keira... — começou Declan. —Lorde Donnelly! —exclamou ela com um riso nervoso, o detendo antes que dissesse algo comprometedor. — As flores são realmente formosas. Obrigado por vir — gorgolejou e sorriu docemente, pedindo a ele em silêncio que partisse. Ele deve ter captado a mensagem, porque fez uma lenta reverência e se foi, não sem antes lançar um olhar intenso e ardente.

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CAPÍTULO 16 Grayson Christopher, duque de Darlington, mais conhecido como Christie entre seus amigos e familiares, surpreendeu-se quando Declan apareceu em Darlington House, em Londres. Embora seu amigo estivesse acostumado a desaparecer de vez em quando, muito poucas vezes aparecia sem avisar. Ele apareceu na porta de Christie em meio de uma tempestade de verão. Estava encharcado até os ossos e pediu desculpas por ir de uma forma tão inesperada, antes de perguntar se ainda tinha o bom whisky irlandês, que havia presenteado em uma visita anterior. Sim ainda restava e os dois se sentaram na biblioteca; Kate a encantadora esposa do duque, e sua filhinha Allison já haviam se retirado. Christie conversou amigavelmente sobre seus conhecidos em comum e de sua vida, mas Declan não conseguia se concentrar. Percebia-se que estava distante, como se seus pensamentos não estivessem entre aquelas quatro paredes. —Se importaria se eu ficasse aqui? —perguntou quando começou a ficar tarde. — Deixei minha casa na cidade para alguns amigos — explicou, se referindo a uma pequena mansão que possuía em Mayfair. —Claro que não — respondeu Christie. — Fique o quanto quiser, um mês, dois meses... —Não tanto tempo assim — riu Declan. — Só algumas noites. Seu amigo o olhou com curiosidade. 184


—E depois? —Depois? —repetiu Declan. Não tinha ideia alguma. Começou a rir. — Depois —concluiu negando com a cabeça. —Deveríamos organizar uma pequena festa enquanto está aqui — propôs Christie quando ambos subiam para o andar de cima, para irem aos seus respectivos quartos. —Não, não se complique —respondeu Declan rapidamente. —Não é nenhuma complicação e, francamente, minha esposa se sentiria bastante decepcionada se não realizássemos — disse o outro, dando alguns tapinhas em suas costas. — Prepare-se para ser apresentado, a jovens damas que ficariam encantadas de casar-se com um conde irlandês. Na noite de sábado, Darlington House acolhia um pouco mais de cem convidados. As grandes janelas estavam abertas para o terraço e acenderam lanternas de papel pelo grande jardim. Fazia uma noite muito agradável e todo mundo parecia de bom humor, inclusive Declan. O salão de baile estava cheio de mulheres formosas, destacando entre todas elas a senhorita Nell Adams, a solteira mais bonita desse ano. Declan acreditou por algum tempo, que a senhorita Nell Adams era o belo «passarinho», como chamou uma seção de fofocas do The Times, que havia aparecido à sociedade com lorde Frampton no ano anterior, enquanto a esposa desse fazia uma viagem pela Itália e visitava antigas ruínas. A identidade da jovem se manteve muito em segredo, porque diziam que era somente uma debutante. Se descobrissem seu nome, teria sido sua ruína e não ia ser Frampton que o revelaria. Mas entre os cavalheiros da boa sociedade corriam as especulações. No verão anterior, Declan conheceu por acaso à senhorita Adams em uma reunião e, imediatamente, suspeitou dela, porque ao lidar com ele se mostrou muito tranquila, inclusive um pouco descarada, e isso era estranho, sobre tudo considerando que acabava de ser apresentada em sociedade. Nesse momento, na casa de Darlington, suas suspeitas eram 185


ainda maiores; na noite de terça-feira passada, foi convidado para jantar na residência dos Brockton, assim como os Adams, e a senhorita Nell Adams havia tocado Declan no braço e insinuou a ele que sua visita seria bem vinda. Surpreso, ele a observou com desconfiança. —Meus pais fazem um passeio todas as tardes. Eles saem às três. —E sorriu para ele, de uma maneira muito descarada. Curioso, Declan aceitou a oferta e a visitou no dia seguinte. A jovem se mostrou muito receptiva. Sentou ao lado dele em um luxuoso sofá, assim que a acompanhante —uma velha governanta reservada para essas ocasiões, pensou Declan— virou as costas, a senhorita Adams colocou uma delicada mão em sua coxa e o olhou com fingido acanhamento através de seus longos cílios. Ele partiu pensando que poderia ter se aproveitado dela. Mas o único proveito que tirou da senhorita Adams foi um casto beijo. Não havia o estimulado o mínimo desejo, de ir mais à frente. Pelo contrário, Keira Hannigan o tinha provocado a loucura, que o enfurecia e fazia ter medo de perder a cabeça. Não podia escapar a daquela febre, e essa era o que o tinha levado a Londres. Estava claro que Declan sabia que Keira estava em Londres. Todo mundo em Hadley Green sabia onde estava a condessa. Quando ouviu que tinha ido, não sabia exatamente por que, mas supôs que teria ido ver o senhor Goodwin. Mas depois, imaginou deixando-se acompanhar por qualquer dândi de Londres. Havia pensado que a moça era uma inconsciente e que se arriscava muito. Na verdade, não sabia por que se preocupava com uma pessoa como ela, mas curiosamente, de repente, Londres pareceu para ele um lugar apetecível. Poderia visitar Darlington e passar algumas noites na cidade, com mulheres londrinas que o curariam da estranha inquietação que sentia.

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Não pensava encontrar-se com Keira. Londres era muito grande e, como se moviam em círculos sociais diferentes, não era possível que seus caminhos se cruzassem. Estava quase seguro. Declan tinha bebido dois copos de whisky e estava decidido a segurar à senhorita Adams pela mão e levá-la ao jardim que havia atrás da casa, mas ao aproximar-se dela, seu olhar se desviou para uma pluma verde que enfeitava um penteado de cabelo negro e ficou parado. Conhecia aquele penteado. Conhecia aquelas esbeltas costas e a curva daqueles quadris. De repente, imaginou os botões de pérolas desse vestido desabotoando-se um por um, para mostrar a pele acetinada que cobria. Podia ver o traje de seda verde caindo dos delicados ombros com o passar do corpo, deixando as costas e os quadris deliciosamente nus, enquanto o encaracolado cabelo negro roçava seus ombros. Era uma imagem muito excitante. Até que percebeu que os caminhos de Keira e dele se cruzaram. Impossível! Era impossível que ela estivesse ali, em Darlington House. Como teria conseguido? Imediatamente, Declan já estava abrindo caminho entre as pessoas, seguindo a maldita pluma verde. Por um momento, a perdeu de vista, mas logo captou a ponta da mesma por cima do ombro de um cavalheiro, agitando-se como se a portadora estivesse rindo ou falando com muita animação. Esquivou-se de um convidado e rodeou duas damas para chegar até ela. Mas quando se aproximava, foi interceptado por lorde Ettinger, para juntar-se a ele na sala de jogos. Enquanto Declan se desculpava, havia a perdido. Passeou entre os convidados, procurando-a; parava de vez em quando para saudar algum conhecido que cruzava seu caminho. Encontroua novamente depois de contornar dois cavalheiros. Keira acabava de colocar a mão na palma de Richard Link e se dirigia à pista de dança. Por 187


acaso, virou a cabeça para dizer algo a seu acompanhante e viu Declan; seus profundos olhos verdes se abriram de surpresa. —Dhia duit — saudou ele. —Ah! Aha! —Keira balbuciou e deu a ele um rápido e brilhante sorriso a Link. — Lorde Donnelly — disse, olhando novamente a Declan. — Você... sempre me surpreende. — E o olhou nos olhos, enquanto fazia uma reverência. —A surpresa é toda minha — assegurou ele e inclinou a cabeça. O vestido de Keira ficava muito bem. Declan não acreditou que houvesse um busto mais suave e voluptuoso em toda a mansão nessa noite. —Donnelly —o saudou o senhor Link e então Declan lembrou que o jovem estava esperando sua companheira de baile e ouviu que a música já tinha começado. —Senhor Link, boa noite. Perdoe a interrupção, mas a senhorita... —Faz muitos anos que nos conhecemos —interveio Keira. —OH, já estou vendo — respondeu Link, olhando para Declan. —Peço que me perdoe senhor Link, mas deveria..., deveria... Parece que lorde Donnelly tem notícias importantes de casa —disse Keira, olhando esperançada e suplicante a Declan. —Não, não há notícias. Nenhuma pequena sequer notícia. Na verdade, pensei que você sim teria novidades para mim. Não sabia que conhecia o duque de Darlington. Ela franziu as sobrancelhas. —Ah, não? —Absolutamente. —Bom —disse o senhor Link, olhando para Keira e em seguida para Declan, — é evidente que há coisas que devem conversar. Possivelmente em outro momento, lady Ashwood. —Senhor Link... — Mas o homem já se afastava. — Obrigada — acrescentou ela a suas costas. O senhor Link virou à direita e desapareceu atrás de um grupo. Keira fulminou Declan com o olhar. — Se não se importar, já tenho problemas suficientes sem você me ajudar. —Como obteve? —perguntou ele, contente por Link ter ido. Ela abriu o leque. 188


—Como obtém qualquer dessas coisas? Acredita de verdade, que vim aqui sem ser convidada? —Na verdade Keira, de você acreditaria no que fosse. Ela esboçou um sorriso irônico. —Eu diria que a duquesa de Darlington convidou a lady Horncastle. —Lady Horncastle? Esse velho machado de guerra está aqui? — perguntou Declan, olhando ao redor. Keira conteve uma gargalhada. —Sim está. —inclinou-se para ele. — Está decidida a encontrar um bom partido para seu filho. —Não duvido que obterá sem dificuldade —resmungou Declan. Keira riu atrás do leque; o que parecia adorável. — Agora está em Londres, mas a última vez que vi você, estava decidida a voltar para a Irlanda. Ela sorriu insegura e suas faces se ruborizaram, possivelmente porque estava lembrando, assim como ele, do beijo que a tinha roubado nesse dia. —O senhor Fish e eu viemos para consultar o senhor Goodwin. Declan sorriu meio de lado. —Então, parece que por uma vez seguiu meus conselhos. Pode ser que ainda haja esperança para você. Keira sorriu e inclinou a cabeça cortesmente com o elogio. —Meu humor melhorou muito, depois que fui mandado embora de uma forma tão grosseira na última vez que nos vimos —prosseguiu ele. —Isso não é verdade —disse ela, sorrindo. —Sim é. Keira riu. —E como se encaixa lady Horncastle em tudo isso? —perguntou, por perguntar. Ela encolheu os ombros e olhou para o outro lado do salão. —Precisava um lugar para ficar —explicou, enquanto observava os que dançavam. — Lady Horncastle ficou encantada por me ajudar. Viu uma desculpa para vir em busca das possíveis candidatas para seu filho. — Sorriu com certo acanhamento. — Enquanto não pensar em mim... Declan sorriu. —É perigoso que esteja aqui. 189


—Eu sei. —Keira suspirou. — Não tive escolha. E, na verdade, me alegro por ter vindo —afirmou, olhando para os lados. — Nunca poderia estar em Londres, nem participar de um baile tão elegante como esse com minha própria identidade, não com todas as regras sociais de quem se relaciona com quem —comentou com uma leve careta. — Quero viver, Declan. Quero ter aventuras e experimentar coisas excitantes, enquanto possa. Como Lily, posso fazer isso pelo menos durante um tempo. Sei que é perigoso, mas também é muito... libertador. Declan a entendia. Ele pensava o mesmo da vida. Preferia provar o que esta pudesse oferecer que oxidar-se em Ballynaheath, contando ovelhas e vacas e consertando cercas. Olhou para Keira, enquanto essa observava os que dançavam. Faltava-a experiência para fazer o que ela estava fazendo, mas também havia boa quantidade de coragem. —E não se preocupa que a descubram? —perguntou-a com curiosidade. A jovem sorriu e negou com a cabeça. —Uma loucura, não é? —Totalmente —assentiu ele. — Mas só os loucos descobrem o mundo. —Deu-lhe uma piscada. — Deve estar orgulhosa, de não ter dado meia volta com o rabo entre as pernas e ter saído correndo. —OH, Declan. —Keira suspirou docemente. — O que quer que eu diga? Que tinha razão? Ele sorriu indolente e resistiu o impulso de tocá-la. —Devo confessar que nunca me canso de ouvir. Ela negou com a cabeça rindo e o som de sua risada foi como o roçar da seda no coração de Declan. —Bom, já sabe que vim ver Donnelly. Agora diga, o que faz você em Londres? «Estou aqui por você.» —Nada que possa parecer muito interessante, estou certo. —Hum — soltou ela, olhando-o desconfiada. —Dança, lady Ashwood? —perguntou Declan, oferecendo sua mão. 190


—Dhia, por acaso meu ouvido está ruim? —Sorriu e posou a mão sobre a sua. —Parece que você está começando a ficar tolerável. Ele fechou os dedos sobre os dela. —Nada disso —mentiu, brincando. — Só estou ajudando uma compatriota irlandesa a manter as aparências. Uma verdadeira condessa estaria com seu cartão de dança cheio. —Meu herói —respondeu Keira, com uma piscada e permitiu que a guiasse à pista da mesma maneira que, conforme supôs ele, um homem crédulo podia avançar mais à frente da beira de um precipício.

CAPÍTULO 17 Declan era um excelente bailarino. Ou talvez Keira só estivesse encantada com seu sorriso fácil, as rugas que apareciam na extremidade dos olhos e a firmeza com que a segurava enquanto giravam juntos. Era uma valsa, um dança que ela e suas irmãs praticaram na intimidade de seus aposentos. Seu pai no teria no ato desabado morto, ao saber que suas filhas dançavam de uma forma tão íntima com um homem. 191


Nesse momento, Keira entendeu seu temor. Aquele baile era embriagador. Giraram os dois como enormes aranhas, com dúzias de velas de cera, sobre um chão de madeira polida, além das janelas, onde a brisa da noite de verão os refrescou. Declan se mexia com facilidade, indicando com a pressão da mão em suas costas a direção que devia seguir. Segurava sua outra mão alto e a fazia virar-se para um lado e para o outro. A cauda de seu vestido formava redemoinhos nas pernas dele e em um canto a fez girar e girar, obrigando-a a apertar-se contra seu corpo, com suas pernas entre as suas, enquanto a segurava com firmeza e carinho. Keira nunca tinha dançado de uma forma tão livre. Havia pessoas por toda parte, mas foi como se desaparecessem. Havia vivido com a lembrança de Declan, que começou quando ela era uma menina, mas aquilo era diferente. O que estava experimentando não era o sonho de uma menina. Isso era algo que podia sentir até a medula, algo que se misturava com o desejo que sentia por ele. Quando a valsa infelizmente terminou, Declan a guiou para fora da pista de baile. Keira queria lhe agradecer, mas de repente apareceu uma mulher, com o olhar fixo nele e um alegre sorriso. —Lorde Donnelly! —exclamou. Declan dedicou a ela um sorriso encantador. —Senhorita Adams. Pela maneira em que a jovem o olhava, Keira pôde notar que ela não era bem-vinda. De repente, isso a lembrou que Declan sempre viveu em um mundo diferente ao dela. Ele sempre foi o conde temerário, altivo e desejado, e Keira só a atrevida filha mais velha de Brian Hannigan, o cidadão mais influente do condado de Galway junto com Donnelly, mas unicamente porque era um homem rico. Seu pai ganhou sua fortuna enviando lã ao continente para fabricar uniformes militares e empregava com liberdade para influenciar o panorama político da Irlanda. A família dela se dedicava as ocupações que a nobreza inglesa olhava com desprezo. 192


Keira não era uma condessa, sua família não tinha nenhum título. Jamais poderia ter entrado naquele luxuoso salão de baile se não fosse por sua farsa. Jamais residiria em uma casa tão elegante como aquela, com um tamanho e uma decoração muito mais magnífica do que jamais viu na Irlanda. A bela mulher de vestido de seda, de tez perfeita e sorriso descarado, falava com Declan naquele momento, Keira se lembrou de tudo isso. Enquanto ele se virou para a recém-chegada, Keira se foi se afastando. Aquele não era seu lugar. Olhando ao redor, a opulência e o esplendor de Darlington House, se deu conta de que, de certa maneira, começou a acreditar na mentira que começou o dia em que se transformou em Lily. Passou o resto da noite passeando pelo salão e dançando de vez em quando, mas nenhuma dessas danças pareceu tão mágica como a que compartilhou com Declan. Evitou as conversas, convencida de que, quanto menos falasse, mais segura estaria. Mas era difícil evitar a companhia; lady Horncastle estava claramente orgulhosa de ter chegado ali com a condessa e constantemente arrastava a um pobre cavalheiro atrás de outro diante dela. —Lady Ashwood, deve conhecer lorde Dither! —gorjeou a mulher com a mão sobre o braço de um ancião visconde. No final, Keira conseguiu escapar de seus cuidados. Desejou estar em outro lugar, mais ainda, enquanto vagava entre a multidão, vendo Declan dançando com a senhorita Adams. Essa parecia muito contente de estar em seus braços. Muito contente. Keira não duvidava de que a todas as mulheres gostavam de suas atenções. Tinha ouvido falar da garota de Grousefeather. Entretanto, a senhora Morton falou interminavelmente, de que esperava conseguir que Declan se comprometesse com Clarissa Pontleroy, a filha do senhor Pontleroy, um rico latifundiário de South Downs. E para Keira era 193


dolorosamente evidente que Daria Babcock, cravaria os dentes em Declan como um cachorro em um osso na menor oportunidade. Acabava de pedir a um lacaio um copo de ponche quando o objeto de seus pensamentos apareceu do seu lado. —Desapareceste — a reprovou ele. —Não é verdade. Só me afastei para que as damas tivessem oportunidade de receber suas atenções. —De verdade? Pois eu acreditei que tinha me abandonado no fronte de batalha e ido para que a admirassem todos os cavalheiros desse salão. Keira levantou uma sobrancelha. —Deveria se casar Declan. O que mais desejaria Eireanne seria ter a companhia de outra mulher em Ballynaheath, como já sabe. — O lacaio retornou com o ponche. — Muito obrigada. —Não acredito que até você advogasse para um homem se casar só para que sua irmã tivesse companhia —se burlou ele e negou com a cabeça, quando o lacaio lhe ofereceu ponche. Keira encolheu os ombros e olhou para o outro lado. —Suponho que há razões piores para casar. Minha família parece acreditar que eu devo fazer isso só pelo mero fato de estar casada. Declan sorriu. —É a armadilha que a sociedade tende a todos, e que tenho medo. Ela bebeu um gole de seu ponche. Sabia que era um pouco forte, franziu a testa e olhou o copo. —Está regado com uma boa quantidade de gim —explicou ele e riu diante sua expressão de surpresa. — Está em Londres, muirnín. E por isso mesmo, precisava ter todos os sentidos em alerta, pensou, e aconteceu o copo ao Declan, que o deixou em uma mesa próxima. —Viu o jardim que tem atrás da casa? —perguntou ele. Ela negou com a cabeça. —Você gostaria de vê-lo agora? —Está escuro. Declan sorriu malicioso.

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—Não se preocupe assim moça. Manterei você junto a mim e a protegerei dos monstros que rondam por ali. — levantou-se e ofereceu seu braço. Keira o olhou e pensou nele abraçando-a, rodeando-a, com sua boca sobre a sua... —Virá bem um pouco de ar fresco — aceitou. Era tão tola. E se os descobrissem? E se não os descobrissem? Permitiu que a guiasse para fora. No jardim fazia muito mais frio. Havia vários casais e grupos rondando por ali, e se ouviam risadas dispersas. Declan e Keira passearam pelo atalho central em silêncio e quando chegaram em uma fonte especialmente impressionante, ele parou. Separou-se dela, levou as mãos à costas e olhou para o céu. —Uma noite bonita. —Sem dúvida — respondeu Keira, olhando-o. De repente, Declan se virou e percorreu seu corpo com o olhar. Estava a admirando. Ela conhecia esse olhar; havia visto muitas vezes em sua vida. Mas nunca a fez sentir-se tão... viva. —Sibley deve estar desesperado por sua ausência — comentou Declan. —Quem? — perguntou ela com um pequeno sorriso. — Vais retornar a Kitridge Lodge? Ou abandonou o campo para um período prolongado em Londres? Ele pareceu pensar na resposta durante um momento. Havia algo em sua expressão, pensou Keira, algo em seus olhos, um brilho do que ela estava sentindo. —Claro que voltarei — respondeu. — Meus cavalos estão lá. Possivelmente fosse a tênue luz das tochas e da lua. Ela não o teria chamado de desejo, exatamente, mas sim algo assim como desejo. —Seus cavalos, claro — murmurou. Declan abaixou o olhar e separou o cabelo da testa. —A verdade é que decidi ajudar você Keira. Ajudarei como puder até que Lily retorne. 195


O coração dela deu um pequeno salto. —Não tem por que. Já sei o que pensa de mim e do que faço, ainda mais depois de que Eve... —Não, Keira. Não é por você que me sinto tão... — Negou com a cabeça. — Minha decepção, minha raiva, é contra mim mesmo. Nunca poderei me perdoar, mas..., isso já se esclareceu. —Sorriu meio de lado. — O que me preocupa mais, é seu delito atual. Em consciência, não posso deixar que conserte isso sozinha. Como poderei explicar a seu pai o motivo de sua prisão, em um cárcere inglês? Keira tratou de rir, mas a imagem de si mesma em alguma cela escura e úmida a assustou de repente. —Quando Lily vier, deve me prometer que irá procurar uma aventura nova e sincera. O coração dela bateu as asas. Tinha em mente uma aventura ou duas e todas tinham a ver com ele. Ele se aproximou mais. —Na Irlanda — acrescentou deliberadamente. Keira piscou surpresa. —Pretende me enviar para casa? —Sim. Posso brincar, mas o que está fazendo é um delito. Tenho medo que corra um sério perigo se a descobrirem. —Ah, mas você vai me proteger dos monstros — replicou brincando e cravou um dedo no seu peito. Declan pegou sua mão e a apertou. —Não pense isso. Ajudarei no que puder, mas..., mas sabe que não pode ser nada mais. As faces de Keira arderam. —Não pretendia dizer... —Escute-me. —Segurou suas mãos entre as suas e se aproximou mais. — Compartilho seu amor pela liberdade. Não sou do tipo de ficar em um mesmo lugar, durante muito tempo. Não posso dizer quanto tempo mais continuarei em Kitridge Lodge, ou inclusive na Inglaterra. Não darei a você falsas esperanças, assim já quero dizer agora que não poderei ajudá-la depois da volta de Lily. Entende? 196


Surpreendida, Keira só pôde assentir com a cabeça. O certo era que nunca esperou mais e tampouco esperou sua ajuda. Possivelmente fosse a certeza de que, logo cada um iria por seu lado, o que a fez sentir-se repentinamente enjoada. Sorriu para ele com ternura e acariciou o pescoço. —Chegamos a fundo no assunto da culpabilidade do senhor Scott e da morte de sua tia —disse. — Poderíamos começar pelos registros do julgamento. —Sim — concordou Keira, enquanto tentava afastar aquela tristeza de sua mente. — Quanto antes descobrirmos a verdade, antes poderei pôr fim a essa abominável mentira. —Sim, bom, cada coisa há seu tempo — respondeu ele e colocou a mão no pescoço. Olhou-a nos olhos e, sob a luz da lua, Keira pôde ver que havia pelo menos, um pouco de admiração brilhando neles. — Possivelmente deveríamos ser prevenidos — sugeriu Declan. — Depois de tudo, não ficaria bem que alguém pensasse que somos algo mais, que simples conhecidos. Poderiam suspeitar que existe uma conspiração. —Deus não queira — disse ela com um sorriso brincalhão. — Um rumor assim poderia acabar com minha reputação. Acreditariam que, de algum jeito, tenho apreço por você. Ou você por mim. Ele sorriu. —Impossível. —Naturalmente. —Keira também sorriu. — Você mira muito mais alto. O sorriso de Declan se fez mais amplo e a aproximou. —A nossa união seria infeliz, no mínimo — murmurou ele e a beijou no canto da boca. — Você sempre me desafiando. Keira sentiu como se brilhasse por dentro. Cada carícia de sua mão, cada pressão de seus lábios, enviava a ela outro raio de luz. —Você me dando ordens como se eu fosse uma criada — sussurrou contra seu rosto. —E você nunca obedecendo — murmurou Declan e a beijou nos lábios. 197


Esse beijo tirou de Keira todas as inibições. Subiu as mãos pelo peito dele e tocou seu rosto. —Este será nosso último beijo — disse. —Que beijo? —perguntou Declan, enquanto sua boca descia sobre a dela. Inclinou a cabeça para um lado e roçou sua boca com a língua enquanto acariciava suas costas com as mãos e logo depois novamente nos quadris. Segurou o rosto e elevou a cabeça para olhá-la. — Não mais — disse e mordiscou seus lábios. — Não haverá mais beijos. Não haverá mais carícias. —Beijou-a novamente. —Nunca — afirmou Keira e riu quando ele voltou a beijá-la. O som de vozes começou a penetrar na consciência dela, e também na de Declan, porque este levantou a cabeça e olhou para a casa. —Público — murmurou, irritado. —Possivelmente deveríamos retornar ao salão, antes que as más línguas preparem nossas bodas, não é? —sussurrou Keira, olhando para a escuridão. —Sim — reconheceu ele com um suspiro. Acariciou suas costas e a beijou uma vez mais antes de voltarem juntos pelo caminho. Entretanto, enquanto se encaminhavam para a casa, lady Horncastle e outra mulher os interceptaram. Declan as saudou com uma inclinação de cabeça. —Miladies — disse. O estômago de Keira se encolheu, enquanto fazia uma rápida reverência. —Donnelly, aqui está — disse a mulher. — Todo mundo está falando de você. —De novo? —perguntou ele, encantador. —Sua excelência, permita-me apresentar à condessa de Ashwood? —disse lady Horncastle, excitada. — Lady Ashwood a duquesa, mãe de Darlington. O estômago de Keira se encolheu ainda mais. Aquela mulher era uma duquesa; e não uma duquesa qualquer: Darlington era um nome reverenciado na Inglaterra. —Sua excelência — a saudou. 198


A mulher sorriu a ela, amável. —Ah, veja querida como cresceu. Quando lady Horncastle me disse que a sobrinha de Althea estava aqui, alegrei-me muitíssimo. Não a vi desde quando tinha seis anos mais ou menos. Fico alegro de vê-la tão bem, lady Ashwood. Deveria vir a Londres mais frequentemente! Meu filho Harry acaba de voltar da França... —É muito atrevido por viajar pela França nesse momento — brincou Declan e ofereceu a Keira o braço. —Alguns o chamariam de louco — bufou lady Darlington. —Por favor, dê lembranças a Harry de minha parte — disse ele. — Miladies. —Inclinou a cabeça e levou Keira dali. —Obrigada — sussurrou essa. Declan respondeu cobrindo a mão com a sua e apertando levemente os dedos. Era um gesto simples, mas a fez sentir-se quase como se a estivesse protegendo de sua própria farsa. —Quando retorna a Ashwood? —perguntou ele quando entraram no salão de baile. —Amanhã. —Fique. Foi só uma pequena palavra, pequena e sem elegância, mas possivelmente a mais formosa do idioma. Keira desejava ficar. —Não posso — respondeu em voz baixa. — Devo retornar. Aconselhou-me que não tentasse fugir dos meus problemas, lembra? —Pensando bem, acho que foi um conselho muito ruim. Ela sorriu. —Quando retornará você? Ele olhou para o outro lado do salão. Keira seguiu seu olhar e viu a senhorita Adams. —Não saberia dizer, respondeu isso e deu uma piscada. — Se anime Keira e tenha cuidado de não dançar com todos os cavalheiros. Pensarão que está no mercado do matrimônio. —Inclinou a cabeça. — Boa noite, muirnín. —Boa noite, milord. Contemplou ele afastar-se. Ainda tinha que recuperar o fôlego e, enquanto o observava, o viu colocar a mão no ombro de um cavalheiro e os 199


dois riam, Keira tratou de respirar fundo. Era impossível. Sabia o que estava sentindo. Era intenso e devorador, muito mais que nos dezesseis anos dela. Era forte de corpo e alma. Sensual. Puxador. Ainda estava apaixonada por ele.

CAPÍTULO 18 Keira adorou Londres, mas o encontro da última noite com a duquesa foi inclusive muito para ela. Não podia evitar perguntar-se quantas pessoas mais lembrariam a Lily de menina na Inglaterra ou em salões de baile da cidade, junto à Keira. Assim abandonou Londres com certo alívio, pouco depois de sua reunião com o senhor Goodwin. Esse era um homem jovial e gordo, de nariz bulboso e encheu de perguntas a ela e ao senhor Fish. No final de uma 200


reunião de uma hora, o advogado disse que tinha muito que investigar e que depois entraria em contato com eles. Em retrospectiva, Keira considerou que a reunião foi bastante boa. Alegrou-se ao voltar para Ashwood, enquanto subia correndo os degraus de entrada e entregava seu chapéu a Linford nessa mesma noite, deu-se conta de que sentiria falta desse lugar quando se visse obrigada a partir. O senhor Fish retornou de Londres no dia seguinte. Também era otimista sobre a reunião com o senhor Goodwin. —Acredito que nos ajudará — comentou o administrador. — Não há ninguém melhor que ele, senhora. Keira pensou em dar graças a Donnelly por passar o nome do advogado, quando voltasse a vê-lo.

Passou alguns dias ocupada, com a interminável lista de tarefas que tinha pendente. Também tocou o piano e tentou, em vão, ajudar Lucy a aprender a desenhar. Alegrava-se de poder estar afastada um tempo, mas indevidamente, teve que ir ao povoado para uma reunião sobre a festa de gala. OH, a festa de gala! Se não fosse por isso, talvez vivesse tranquila. Mas as damas de Hadley Green estavam completamente entregues ao assunto e parecia que, com cada semana que passava, estavam cada vez mais precisando de coisas preparar. Nessa tarde, estavam todas reunidas na casa dos Morton, que tinham montado no jardim umas mesas cobertas com toalhas de linho para tomar o chá. Estavam repletas com o serviço de porcelana, bolinhos recémfeitos e flores. Estava previsto que Keira e Lucy se sentassem à mesa da senhora Morton, junto com a senhora Ogle, a senhorita Babcock e lady Horncastle, que essa tarde, suspeitou Keira, estava um pouco malhumorada. 201


—Boa tarde a todas — saudou Keira alegremente, enquanto levava Lucy até uma das cadeiras. — Um dia magnífico é verdade? —Encantador! —coincidiu a senhora Ogle. —Se assim parece, diria que é porque não aconteceram as tribulações e penalidades que passei eu —replicou lady Horncastle. —Lamento muito ouvir isso senhora — respondeu Keira. «Outra vez», pensou. Em Londres já tinha se fartado de ouvir as tribulações e penalidades de lady Horncastle, causadas sobre tudo por seu filho. —Tive uma desavença com Frankie — explicou a dama, como se Keira tivesse perguntado. — Chateou completamente o meu dia. —Todo o dia? —perguntou à senhora Morton irônica, enquanto mexia seu chá. Lady Horncastle passou por cima desse comentário e se dirigiu a Keira. —Conhece a senhorita Reynolds, não é verdade? Uma garota encantadora, com duas mil libras de renda ao ano, lembra-se dela? Penso que seria um grande partido para Frankie, mas meu filho não quer nem ouvir falar! — explicou e agitou seu guardanapo, desgostosa. Keira se lembrou de uma moça tímida, com alguns dentes feios. —Não? —perguntou sem muita atenção e sorriu a Lucy. —Não! —replicou lady Horncastle. — Tem o olho em cima de Nell Adams, como a metade de Londres, mas lhe asseguro que essa jovem se casará com lorde Donnelly antes que termine o ano, se é que se casa! Não é nenhum segredo que são muito íntimos. —A senhorita Adams? —perguntou à senhorita Babcock, com um tom carregado de decepção. — Mas quem é? Não ouvi falar dela. —Bom, é normal querida, vive em Londres. É filha de um homem muito rico, que se dedica a construir barcos. —Na verdade, navios — acrescentou a senhora Ogle. —Navios, barcos, o que for. É um burguês e, embora tenha reunido uma considerável fortuna, conseguiu-a trabalhando. Pelo menos, a senhorita Reynolds pode dizer que tem um barão entre seus antepassados. Asseguro a vocês, que se a senhorita Adams fosse a filha do rei, ainda não 202


interessaria a Frankie, mas além disso, a moça está decidida a roubar lorde Donnelly e diria, que ele está igualmente decidido a caçar a ela. —OH — exclamou a senhorita Babcock. Parecia tão decepcionada, como Keira se sentia. —Surpreende-me que não se fixasse em você, lady Ashwood — continuou lady Horncastle. — Lorde Donnelly dançou três vezes com a senhorita Adams no baile dos Darlington... —No baile dos Darlington? —perguntou à senhorita Babcock, que parecia ainda mais decepcionada. — Você participou do baile na casa dos Darlington? —Três vezes! —respondeu lady Horncastle. — E não tirou os olhos de cima em toda a noite! —Vá — exclamou a senhora Morton. — Se fixou muito nesse cavalheiro. —Bom, que outra coisa podia fazer, com Frankie flertando por ali, tentando chamar a atenção da senhorita Adams? E pensar que acredita estar apaixonado por ela! Deus! —OH, querida, não fique assim! —interveio a senhora Ogle. Keira se ergueu e sorriu... antes de perceber que a mulher estava se dirigindo à senhorita Babcock. —Não estou de maneira nenhuma! —replicou esta, tentando sorrir de maneira convincente. — Pensava você que eu...? —Riu e agitou a mão. — Claro que não! Lucy olhou curiosa para Keira. —Então, lorde Donnelly não voltará a vir por aqui? —perguntou a menina. —Claro que virá! — respondeu à senhora Morton e deu alguns tapinhas na mão. — Todos os cavalheiros de Sussex deverão ver a sua senhoria, porque é encantadora. Mas acredito que todos nós sabemos em quem recai o interesse de lady Ashwood, não é verdade? —O meu! —exclamou Keira. Era tão evidente? Notou o calor na nuca.

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—Aqui está entre amigas — assegurou a senhora Morton. — E, além disso, acredito que nós adoraríamos ter umas bodas em Ashwood. —Como disse? —Está certo que é o terceiro filho de um visconde, mas de todas formas é de boa família —interveio com orgulho a senhora Ogle, sorrindo da mesma maneira que a senhora Morton. — Sua posição poderia servir para grandes negócios a um jovem como ele. Keira olhou boquiaberta para elas. —De quem falam? —De quem? Do senhor Sibley, claro! —respondeu à senhora Ogle. —O senhor Sibley — repetiu Keira. —Ele a adora — afirmou a senhora Morton, com um radiante sorriso. —Pode ser, mas sem dúvida eu não o adoro... —O senhor Sibley não é um pretendente adequado para uma condessa — sentenciou lady Horncastle com grande autoridade. — É o terceiro filho. Não ficará mais que uma pequena casa e um salário. —Obrigado, lady Horncastle — disse Keira, aliviada. —Na verdade, quase não há homem algum em Sussex que seja adequado. Não queridas, lady Ashwood poderia aspirar um matrimônio muito acima de nós. —Está pensando em alguém? —perguntou à senhorita Babcock, irritada. —Sem dúvida. —A dama se ergueu. — Minha querida amiga a duquesa de Darlington pensa que seu filho Harry o visconde, poderia apaixonar-se por nossa lady Ashwood. Isso foi recebido com gritos afogados por toda a mesa e com uma sensação de decepção por parte de Keira. —De verdade acredita que é possível? —quase chiou a senhora Morton. —Não só acredito possível, acredito que até é iminente. —Peço que me desculpe, lady Horncastle —interveio Keira rapidamente, antes que a enviassem já à capela rapa pronunciar os votos matrimoniais, — mas nem sequer conheço esse cavalheiro. 204


—Um visconde, lady Ashwood! —exclamou a senhora Ogle, excitada. — Que casal mais afortunado! —Damas, por favor — implorou ela. — Tenho um pai e uma mãe e agradeceria que não se apressassem para me conseguirem um marido em seu lugar. A senhora Ogle abriu muito os olhos, surpreendida. Todas as damas trocaram um olhar. —Um pai e uma mãe? —perguntou à senhora Morton. Keira notou que encolhia seu estômago. Como pode ser tão descuidada! —Refiro a minha tia e meu tio, naturalmente. Para mim, são como meus pais e sempre penso neles assim. E agora, eu gostaria de acabar com essa conversa sobre pretendentes, se não se importarem. —OH, quase me esqueço! Ouviram a notícia? — perguntou à senhorita Babcock, ansiosa por agradá-la. — O doutor Creighoton vai trazer um ajudante — explicou e começou a falar sobre o novo ajudante do médico. Keira soltou um longo suspiro de alívio. Mas não pôde evitar de notar que a senhora Ogle a olhava de uma maneira um pouco estranha. Nessa tarde, na carruagem voltando para casa, Lucy afastou o nariz da janela e olhou para Keira. —Vai se casar com um visconde, senhora? Ela começou a rir. —Não, carinho. Não conheço esse homem. É lady Horncastle que gosta de imaginar essas coisas. A menina pensou durante um momento. —Eu pensava que ia se casar com lorde Donnelly — disse do nada. — É certo que esperava. E Keira também, alguma vez. Sorriu, contornou seus ombros com o braço e a atraiu para si. —Há algo que deve saber de lorde Donnelly, querida. Não é dos que se casam. —E por que não? —perguntou Lucy com curiosidade. Ela também desejava saber a resposta a essa pergunta. —Não sei. 205


—Eu gosto bastante dele — disse a menina, fazendo beicinho. Keira apoiou o queixo na sua cabeça. Também gostava bastante dele.

CAPÍTULO 19 Alguns dias depois de retornar de Kitridge Lodge, Declan cumpriu sua promessa de ajudar a Keira. Havia voltado de Londres muito mudado. Havia tirado da cabeça os sensuais e perturbadores pensamentos de Keira e seus olhos irlandeses; tinha desfrutado da companhia de outras mulheres, embora só no salão de baile; e ao retornar ao campo, descobriu que uma égua se deixou montar pelo cavalo austríaco com êxito. Quando por fim decidiu que era seguro ir a Ashwood, parou em Hadley Green para tomar umas bebidas em Grousefeather, jogou umas algumas partidas de cartas e quando uma má mão esvaziou os bolsos, cruzou a praça do povoado para o salão da paróquia. A senhorita Ainsley, uma mulher pequena e dinâmica, ficou encantada de vê-lo, especialmente depois que ele fez um comentário sobre o bonito laço de renda que usava. —Um trabalho primoroso —comentou Declan. — Sem dúvida deve ter comprado em Londres. Na loja de rendas da Rainha, estou errado? 206


—Da rainha! —exclamou a mulher, ruborizando-se. — Não milord, fiz eu mesmo. —Tocou-o levemente. —Você? —exclamou ele, fingindo assombro. — Sem dúvida tem um grande talento, senhora. O rubor dela ficou mais intenso, mas sorriu orgulhosa. —Bom..., entendi que eles têm muito boa opinião de minha renda. Pouco depois, Declan tinha o que foi procurar.

Em Ashwood, Linford o guiou pelo jardim, onde encontrou Keira sob um chapéu de aba larga e com um avental, cortando rosas. Lucy estava com ela, naturalmente, cortando flores a seu lado. —Bom, bom —exclamou Keira quando o viu. — O gato voltou para curral. —Parece que quis dizer o galo —disse ele e depois olhou para Lucy. — E como está você hoje? —perguntou. —Eu? Muito bem —respondeu Keira alegremente, sem afastar o olhar de sua tarefa. — Nunca estive melhor. —Essas são muito boas notícias, mas estava perguntando à senhorita Taft. Keira levantou os olhos. —OH. —Estou muito bem, milord —respondeu a menina e fez uma reverência. Olhou além de Declan. — A senhorita Adams veio com você? —Lucy! —exclamou Keira rindo e, ao ver o olhar de curiosidade de Declan, acrescentou: — Lady Horncastle expressou sua opinião aos quatro ventos. —Estou vendo —respondeu ele e sorriu para Lucy. — Não, não veio. A menina pareceu decepcionada. —Esteve fora uma boa temporada, Donnelly —comentou Keira sem lhe dar importância, enquanto continuava cortando rosas. — Deve ter desfrutado muito de Londres.

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—Foi muito agradável, sem dúvida —reconheceu Declan e a observou, enquanto cortava uma rosa e a deixava cair no chão. — E você o que achou da cidade? Keira se agachou para pegar a rosa e jogá-la à cesta. —Passável. —O olhou de esguelha. —Ao menos, participou de um baile. Acho que isso seria do agrado de uma condessa. —OH, foi encantador! —respondeu e cortou outra rosa, e outra, e as jogou à cesta. —Lady Ashwood possivelmente se case com um visconde —o informou a menina. —Pelo amor de Deus, Lucy! —exclamou Keira. — Não deve repetir nada do que diz lady Horncastle. Tem certa tendência aos delírios. —Um visconde? —perguntou Declan. Ela agitou uma mão para tirar a importância. —Lady Horncastle e lady Darlington conspiraram contra o filho mais jovem desta, lorde Raley. Declan não pôde evitar lançar um bufo. Conhecia Harry e não havia um homem mais devasso em toda a Inglaterra. Mas esse bufo ganhou um turvo olhar de Keira, que o contemplou um momento antes de seguir com a jardinagem. —E o que o traz até a Ashwood essa tarde? —perguntou com indiferença. —Tinha pensado cavalgar até Hadley Green e visitar o escritório da paróquia para poder folhear os registros do que tínhamos falado. —Ah, sim? —Keira cortou mais flores, embora a cesta estava quase transbordando. — E então, o que? Vamos até a porta do escritório da paróquia e começamos a revisar séculos de registros? —perguntou e cortou outra rosa, muito perto do casulo. Essa a caiu no caminho, mas Lucy a pegou. —Não — respondeu ele com paciência. — Perguntei à senhorita Ainsley, que se mostrou encantada em me permitir ter acesso às atas do julgamento. Colocou-as em uma sala, à espera de nossa leitura. Keira o olhou diretamente, com expressão fria. 208


—Você virá? —perguntou ele. Ela não respondeu, mas sim olhou para Lucy. Declan também. — Tinha pensado sair para cavalgar. —Lucy ainda não aprendeu a montar. Mesmo gostando muito da menina, Declan não desejava sua presença nesse dia. —Farei que o senhor Noakes nos acompanhe — disse. Keira franziu a testa. —Certamente tem coisas melhores a fazer, que nos escoltar. Ele se aproximou e ela acelerou o ritmo que cortava as rosas. —Eu diria que você está me evitando. E isso depois, de ter me implorado que a ajudasse. —Não implorei que me ajudasse. Apelei para seu sentido de decência. E não estou evitando você —replicou Keira, mas a aba do chapéu ocultava seu rosto. — Está me interpretando mal, senhor. Meus pensamentos estão em assuntos mais importantes que você. Ele não acreditou. —Muito bem. Então, virei amanhã e iremos a cavalo até Hadley Green para jogar uma olhada nos registros. —Muito bem. —Ela pegou a cesta e o olhou. — Digamos a uma em ponto? —De acordo. —Esplêndido —replicou Keira. — Venha, Lucy. Está hora da sua lição de música. Não disse mais nada, mas passou bem perto dele. Tinha soltado o avental e, quando segurou Lucy pela mão, começou a afastar-se, arrastava atrás uma das fitas. Declan ficou parado no lugar até que elas dobraram a esquina e já não pôde as ver. Só então tirou o chapéu e passou a mão pelo cabelo. Malditas mulheres. Justamente por isso preferia a companhia dos cavalos. Estava tão zangado com a fria recepção de Keira que o senhor Noakes e ele chegaram cedo no dia seguinte. Quando por fim ela desceu da magnífica escada, usando um traje de montar cinza bem ajustado e um chapéu idêntico ao de Declan, mas com um raminho de margaridas colocado na fita. 209


Parou na entrada para colocar as luvas. Olhou o chapéu e depois para ela. —Bonito traje. —Obrigada —respondeu a jovem e se inclinou para olhar o chapéu no espelho. —Já está pronta? —É uma hora? —perguntou ela, enquanto colocava um cacho atrás da orelha. —E dez. Keira se separou do espelho e olhou para Declan com olhos brilhantes. —Então, estou pronta. —E se dirigiu para a porta e a caminho. Ele a seguiu. Tinham levado de seus estábulos um cavalo para ela, um elegante animal ao que ofenderam ao colocar uma cadeira de amazona sobre seu lombo. Com a ajuda do moço dos estábulos, Keira subiu no cavalo. Ajustou bem suas saias e colocou os pés nos estribos, enquanto Declan e Noakes a olhavam. Quando ficou pronta, olhou para Declan. —Depois de você —disse esse, fazendo um gesto para o caminho. Ela colocou o cavalo a trote. Noakes e ele trocaram um olhar e saíram atrás. Como Declan supôs, o caminho até Hadley Green foi interminável, com a Keira bamboleando-se na cadeira de amazona. Não foi pelo tempo que demoraram para percorrer os poucos quilômetros, mas sim porque se viu obrigado a ir contemplando seu traseiro ricocheteando sobre aquela ridícula cadeira. Achou que tinha se livrado de seus estúpidos pensamentos, mas ali estava, imaginando como seria acariciar aquele traseiro. E também foi pelas flores do chapéu de Keira. Não podia dizer por que essas flores o incomodavam. Possivelmente porque pareciam muito volúveis, exatamente igual a ela. Fosse qual fosse a razão, ambas as coisas conspiravam para deixá-lo de mau humor em Hadley Green. No povoado, Keira desceu do cavalo antes que ele pudesse segurar o seu e ficou diante a porta do escritório, esperando que Declan a abrisse. 210


—Noakes, você espera aqui com os cavalos, certo? —disse ele. —Sim, milord —respondeu Noakes, que já estava tirando umas maçãs de sua sela. Declan foi até a porta do escritório da paróquia, olhou para Keira, que estava sacudindo a saia, abriu a porta e se afastou. Ela entrou com atitude real e Declan rezou para que não esgotasse sua paciência. —Lady Ashwood! —exclamou a senhorita Ainsley ao ver a Keira. — Não a esperava! —Não? —perguntou ela com cortesia e olhou para Declan. — Lorde Donnelly tem algo que gostaria de me ensinar. —Não vamos demorar — assegurou ele à senhorita Ainsley e guiou Keira para a sala de leitura, colocando uma mão nas suas costas. Não falaram; ela passeou pela sala, enquanto Declan tirava umas pastas encadernadas em couro de uma das caixas onde arquivavam os registros da paróquia. Então, Keira tirou o chapéu e as luvas, antes de desabotoar o pescoço da jaqueta e da camisa, onde Declan pôde ver a base do seu pescoço. Afastou o olhar daquele suave pedaço de pele e reprimiu qualquer desejo de beijá-la. —Vamos com isso, de acordo? —disse com brutalidade e abriu de repente uma pasta de couro, de onde saiu uma nuvem de pó. Keira agitou de forma teatral uma mão enquanto espirrava. Estoico, Declan tirou um lenço do bolso e o passou. Ela o pegou sem dizer nada, esfregou brandamente o nariz e o devolveu. —Obrigada —disse com voz rouca. — Bom e o que é isso tudo? —Registros. Nascimentos, mortes, processos judiciais e coisas assim. A senhorita Ainsley me disse que um dos volumes contém as atas do julgamento. Sugiro que o procuremos e vejamos o que há nele. —Muito bem —respondeu Keira e se sentou em frente à mesa. Olhou o conteúdo da pasta que Declan tinha aberto. — Isso parece um registro dos nascimentos —informou, passando umas quantas páginas, as segurando entre o polegar e o índice. —Então, veja o seguinte. 211


Ela fez o que ele disse. Em quinze minutos, encontraram a pasta correta. Era bastante grossa; constava os delitos leves e as disputas entre vizinhos que eram bastante frequentes em Hadley Green. Havia tantos registros que Keira passou para Declan a metade da pilha de papéis e ambos começaram a revisá-los. —Achei! —exclamou ela depois de alguns minutos. — Olhe, tudo está aqui —comentou, excitada. — «Julgamento contra Joseph Baron Scott, pelo assunto do roubo de umas joias avaliadas em vinte mil libras, pertencentes à família Ashwood» —leu em voz alta. Declan ficou em pé e se aproximou para olhar. —Há folhas e folhas —disse Keira, desanimada. Declan se sentou a seu lado e ambos foram revisando as páginas do registro. A tinta se desvaneceu e a letra era muito pequena, certamente para economizar papel. Estavam muito juntas; ele percebeu o calor do corpo de Keira no braço. Tocava o braço ou a perna para chamar sua atenção e depois ainda se inclinava mais perto para mostrar algum apontamento ou lhe perguntar por alguma palavra. Declan estava embriagado pelo seu aroma. Foi uma tarde muito tediosa. No final, foi ele quem encontrou as declarações das testemunhas. Uma donzela havia admitido que tinha visto o senhor Scott em Ashwood naquela tarde. Um moço dos estábulos jurou que tinha guardado o cavalo do senhor Scott naquela noite. O testemunho de Lily, que ambos leram com as cabeças juntas, era especialmente condenatório. Havia testemunhas do caráter do senhor Scott, como havia dito o senhor Hollingbroke, mas ninguém pôde assegurar onde estava aquela noite. Inclusive sua esposa se viu obrigada a dizer que ele tinha saído pela tarde e não havia retornado até bem o início da noite. Depois de lerem tudo, Keira ficou em pé e passeou pela sala, com as mãos nas costas. —Ele não as roubou —afirmou.

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—Aqui há algo que não se encaixa —observou Declan e voltou a dar uma olhada nas folhas pulverizadas pela mesa. —A que se refere? —Não há nada de sua tia. Nenhum testemunho, nem registro de sua assistência. Se eram amantes, não tentaria salvá-lo? —Olhou para Keira. — Por que não atestaria em sua defesa? Ela franziu a testa, pensativa. —Pode ser que me enganei. Talvez não fossem amantes. —Mesmo assim —respondeu ele e ficou também em pé. — Acredito que o juiz poderia ter perguntado se havia alguma razão para que o senhor Scott estivesse na casa naquela tarde. Afinal de contas, foi ela quem o contratou para fazer a escada. Não teriam que ter perguntado se tinha sido encarregado de algum outro trabalho? Se havia alguma razão, para ele estar na casa àquela tarde? E, além disso, foram suas joias que desapareceram. Por que não a interrogaram? —Para evitar o desconforto que poderia ser? —sugeriu Keira. —Para evitar um desconforto em troca da vida de um homem? — replicou Declan. —Lily e tia Althea foram para Escócia visitar tia Margaret. Possivelmente já tinham ido. —Quanto tempo esteve fora? —Não sei —respondeu Keira, negando com a cabeça. — Lembro que quando Lily chegou à Irlanda, as folhas já tinham caído. Devia ser final de outono e foi tia Althea quem a enviou. Declan segurou a primeira página dos registros do julgamento e revisou as datas. O roubo aconteceu em quatorze de julho. O senhor Scott foi julgado vinte e seis e enforcado dia trinta. Declan se surpreendeu com a rapidez com que mandaram o senhor Scott à morte. —Althea foi embora antes da execução? Viu como o enforcaram? —Não sei como poderíamos averiguar —disse Keira. Ele voltou a olhar os papéis. —O senhor Samuel Bowman, o secretário do conde. Foi quem atuou de acusador na representação do conde. Perguntarei a ele, se ainda estiver vivo. 213


—Está bem vivo —respondeu Keira. — Fish o mencionou mais de uma vez. —Pegou os papéis e os colocou na pasta. — Perguntarei ao senhor Fish onde encontrá-lo e irei perguntar a ele. Você não tem por que se incomodar. —Passou-lhe a pasta. —Não é nenhum incomodo — assegurou ele, enquanto devolvia a pasta à caixa. —Olhe, preferiria que não continuasse com isso —disse ela, tensa. Declan a olhou, mas Keira estava ocupada abotoando o pescoço. —O que acontece com você? —perguntou. —Não tenho a remota ideia do que quer dizer. Estou muito bem. —Conheço você muito melhor do que isso, moça —replicou Declan. — Está incomodada com algo e não tenho nem ideia do por que. Ela suspirou. —Nunca deveria ter pedido que se comprometesse a me ajudar — disse. — Agradeço tudo o que tem feito, de verdade, mas..., mas eu já posso terminar o que tenho por fazer. —Desviou o olhar. — Não preciso de você Declan. Posso continuar sozinha com o que devo fazer. Disse que não queria tomar parte disso. —Olhou-o nos olhos. — Portanto, libero você. E agora devo partir. Prometi a Lucy que a levaria para remar. —Deu a volta e saiu da sala. Declan ficou olhando-a boquiaberto. Keira acabava de terminar a busca pela verdade sobre o senhor Scott. E, embora fosse irônico e um pouco desconcertante, que estivesse irritado com ela por isso, o certo era que estava muito zangado. Apressou-se a segui-la, sem sequer parar para adular um pouco à senhorita Ainsley. —Não é tão fácil se livrar de mim, senhora —disse, sem preocupar-se de quem pudesse estar ouvindo. —Não estou me livrando de você milord, como poderia? Mas nunca deveria ter o comprometido nesse assunto. Pode me ajudar a montar? Ele se aproximou, pegou-a pela cintura e a subiu à cadeira. Keira segurou o pomo, endireitou o chapéu e o olhou de acima. —Obrigada. Vem você? 214


—Isso é tudo o que posso esperar? —perguntou Declan. — Um gracioso «obrigado, mas já pode ir»? —De verdade esperava algo mais? —Maldita seja... —Lorde Donnelly, por favor —o interrompeu ela com doçura. — O senhor Noakes não tem nenhum interesse em ouvir seus protestos. Ele a olhou furioso, apertou os dentes e se virou em redondo para ir para seu cavalo. Se não fosse um cavalheiro, deixaria que fosse ricocheteando sozinha até em casa. Mas montou e passou diante, disposto a acompanhá-la. Não sabia por que se incomodava em tratar com Keira, por que se permitiu sentir coisas e ter pensamentos que jamais teve antes, ou perder tempo em Londres só para livrar-se desses pensamentos, quando tinha trabalho pendente. O prendeu com aquele sorriso cativante, uma falha de seu... Sobressaltou-se quando ela apareceu a seu lado. Tinha alcançado ele com aquela maldita cadeira e isso o irritou. Fez que o cavalo trotasse mais rápido, mas um segundo depois a viu de novo com a extremidade do olho. Virou a cabeça para olhá-la. Cavalgava como um maldito pavão, erguida e com os olhos cravados no caminho, como se não acontecesse nada. Declan olhou para trás. Noakes estava tão atrasado que não os alcançaria. Voltou a olhar para o pequeno pavão. Por acaso ela fazia isso para atormentá-lo? De repente, Declan tirou o cavalo do caminho e galopou pelo campo, certo que assim a deixaria para atrás. Mas Keira o surpreendeu; sem dúvida, era uma grande amazona. Não só o alcançou, mas também se adiantou. Tinha perdido o chapéu e estava agachada sobre o pescoço do cavalo, segurando com força o pomo e as rédeas, galopando de forma temerária, quase perigosa. Ao aproximar-se de uma cerca de pedra, Declan atirou das rédeas do cavalo, certo que ela cairia. Entretanto, saltou limpamente a cerca e seguiu adiante.

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Então, o sangue ardeu e foi atrás dela. Seu cavalo não o decepcionou; depois que entendeu que tinha dado rédeas soltas, o jovem cavalo foi ganhando terreno da égua de Keira, correndo ao seu lado. Inclinou-se sobre o pescoço de seu cavalo, agarrou a brida da égua e puxou os dois animais ao mesmo tempo. A égua relinchou irritada, mas Declan se manteve firme, fazendo-a girar até que baixasse a cabeça. Só então o animal parou. Ele saltou de seu cavalo, agarrou Keira pela cintura e a fez descer. Ela cravou os olhos, desafiando-o com o olhar e Declan fez a única coisa que pôde fazer: beijou-a. Com força, em seus lábios. Em seguida a soltou e se afastou, furioso pela temeridade da jovem, furioso porque isso acendeu seu sangue e o fez desejá-la com desespero, como a desejava nesse momento. Ela deu alguns passos atrás, cambaleantes. O peito subia e baixava com cada furiosa respiração. Quase lhe mostrou os dentes, jogou a vara e foi para ele. Declan se preparou para receber um bofetão, mas Keira o surpreendeu novamente. Saltou sobre ele, rodeando seu pescoço com os braços e a cintura com as pernas e devolveu o beijo. Isso o deixou atordoado e o deixou rodando de cabeça pelo terreno escorregadio de seus sentimentos. Também o fez perder o equilíbrio e ambos caíram no chão, com Keira em cima dele. A queda, entretanto, não a incomodou absolutamente. Limitou-se a voltar a beijá-lo. Declan a fez rolar até colocá-la de costas sobre a grama. —Deveriam trancá-la em um convento — soltou. —É um milagre que não tenha quebrado seu pescoço idiota — replicou ela. — Por que não me deixou em paz? —Deixar você em paz? Estava tentando fugir de você! —Fugir de mim e correr de volta para a senhorita Adams? — acusou-o zangada, enquanto tentava de tirá-lo de cima. Declan ficou parado. E depois a imobilizou no chão. —Tudo isso, por quê? Arriscou sua cabeça de passarinho porque está com ciúmes? 216


—Não estou com ciúmes — gritou Keira e voltou a lutar. — Não me importa o que faz. —Para sua informação, Nell Adams é uma caça fortunas e uma insuportável. —E a mim o que isso importa. Sai de cima — protestou ela e o empurrou novamente. —Eu gosto das mulheres Keira, e eu gosto de sua companhia. Mas isso não significa, que você me importe menos. Isso pareceu enfurecê-la ainda mais. Deu-lhe um forte empurrão. —Se afaste! —Na verdade, você não quer que eu faça isso — grunhiu ele. —Deus do céu, por que não me deixa em paz de uma vez? — gritou de novo. —Porque não posso! —rugiu Declan e a beijou outra vez; beijou-a como jamais beijou outra mulher. Não havia nada doce ou brando nesse beijo; era um beijo carregado de fogo e de paixão liberada e ofegante que queimava nele, possuindo-o por completo. Keira passou a língua pelos seus dentes, como se o estivesse tentando. Seu corpo estava apertado contra o dele, os seios contra seu peito, as pernas entre as suas. O aroma de sua pele e seu cabelo, o doce sabor de sua boca e a suculenta carne de sua língua eram absolutamente embriagadores. O cabelo dela soltou dos grampos e uma grossa mecha caiu de um lado. Declan o enrolou no punho e roçou seu rosto com ele. Que Deus o ajudasse! Estava perdido com a sensação de seu corpo e o sabor de sua pele. Comportavam-se como loucos, com o desejo fluindo como relâmpagos entre os dois. Ele desabotoou a jaqueta e depois a blusa. Com a mão, procurou a redondeza de um de seus seios e o cobriu com a palma e Keira respondeu com fúria. Passou-lhe as mãos pelo corpo com frenesi e se moveu debaixo dele para poder senti-lo mais; seus dedos roçaram levemente sua ereção e

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rodeou seu pescoço com os braços arqueando-se para ele e devorando seus lábios. Declan voltou a mover-se, encontrou a bainha da saia e a subiu. Ela não o deteve; se por acaso, pareceu apertar-se com mais força nele, que lhe deslizou os dedos pela sedosa pele da perna, parando ao encontrar a suave carne da coxa. Keira afogou um grito em sua boca, mas mesmo assim, abriu as pernas e ele a tocou. Ela soltou um gemido, quando Declan colocou os dedos entre as dobras do seu sexo. Arqueou o pescoço e jogou a cabeça para trás para levantar-se para ele. «Estou perdida.» Beijou a pele que o sutiã aberto deixava descoberto, enquanto a acariciava, rodeando o centro de seu desejo, deslizando os dedos e entrando nela. Keira começou a ofegar; apertou as coxas ao redor da mão dele e Declan tomou em sua boca os maduros montes de seus seios, lambendo e beijando o espaço entre eles. Notava o corpo de Keira abrindo e palpitando debaixo; sentia-se a si mesmo cair naquele espiral de desejo, duro e palpitante pela ânsia de estar dentro dela. Não faria isso. Pela primeira vez em sua vida adulta, não tomaria o que sabia que podia ter. Dessa vez era diferente, muito importante, também transcendente. Continuou acariciando-a, acelerou o ritmo para igualar a respiração ofegante dela. Keira começou a gemer e escondeu o rosto no ombro dele ao alcançar o orgasmo, com um violento estremecimento. Declan também ofegava e apertava os dentes para conter a palpitação de sua ereção. Passou um tempo e Keira foi se afastando lentamente dele, cuja mão continuava entre suas pernas. Ela tinha os lábios vermelhos e ligeiramente inchados pelos beijos apaixonados. Olharam-se um momento, que por impossível que pudesse parecer, Declan sentiu mais intenso que qualquer outro momento em sua vida. Desceu lentamente a cabeça e a beijou com ternura, enquanto afastava a mão de entre suas pernas. 218


Keira rolou afastando-se e ficou em pé. De costas para ele, sacudiu as saias e arrumou o sutiã. Tinha o cabelo cheio de grama; Declan não sabia como poderia justificar aquilo. Levantou-se também e tentou ajudá-la tirando as gramas, mas ela se manteve de costas e continuou arrumando a roupa. Declan não sabia o que dizer. Tinham cruzado uma linha, mas não lamentava. Ainda estava dolorido por não ter satisfeito sua necessidade, ainda queimava por estar com ela, mas continuou ali, esperando seu aborrecimento ou, pelo menos, acusações. Keira virou um pouco a cabeça e o olhou de esguelha. Ele se preparou para o que viesse. Mas quando ela se virou, estava sorrindo. —Muito bem, então — disse. — Pode vir comigo para visitar o senhor Bowman. Aquela mulher! Nunca conheceu outra igual. Nesse momento, não estava seguro se devia beijá-la de novo ou chamá-la a ordem. Colocou os braços no quadril e abaixou a cabeça. —Se na verdade está decidida a ser minha perdição, terá que se esforçar mais. Keira sorriu ainda mais. Depois começou a rir, enquanto ia para os cavalos. —OH, vá! Perdi meu chapéu! —exclamou, sem lhe dar importância.

CAPÍTULO 20 219


Keira estava apaixonada. Amor! De todas as coisas inúteis e imprudentes que podia chegar a sentir, precisava sentir isso! O que ia fazer? Tampouco, Declan O’ Conner iria corresponder, sendo como era, um homem que evitava os laços a todo custo. Quando o senhor Noakes entregou o chapéu que tinha perdido durante sua maluca corrida, ela pensou em Loman Maloney e tentou imaginar-se perdendo o chapéu por ele. Não conseguiu. Só tentando, se sentiu um pouco enjoada. Durante alguns dias, Keira se dedicou as suas coisas, trabalhando com diligencia para convencer-se de que não estava apaixonada, que só era um capricho. Sentava-se na frente da janela e olhava os campos. Comia com Lucy e sorria quando a menina lhe falava, mas não escutava quase nenhuma palavra do que dizia. Cuidava do jardim, revisava a correspondência, autorizava pagamentos, tocava piano e se advertia, de que não devia ser ainda mais idiota. Não amava Declan. Não podia amar Declan. Mas possivelmente, só possivelmente, sim o amasse. Talvez, com tanto ardor como oito anos atrás. Mas a única coisa, que parecia ajudá-la a não pensar nele era centrar-se que precisava falar com o senhor Bowman. Demorou um pouco convencer o senhor Fish, mas no final esse revelou onde poderia encontrar o secretário ancião. Quase não pode esperar para ver Declan por várias razões, mas entre elas estava a notícia sobre o senhor Bowman. Entretanto, tinha um pequeno problema: devia encontrar uma maneira de ver Declan sem levantar suspeitas ou incitar fofocas. Uma coisa era ele ir visitá-la e outra muito diferente, ela o visitando. À medida que passavam os dias, perguntava-se por que Declan não ia visitá-la. Pensava que, depois do que aconteceu entre eles, não poderia 220


manter-se afastado. Sem dúvida, algo fundamental havia mudado em sua relação... Ou não? Mas Declan não aparecia e Keira começou a sentir-se inquieta. Suas ideias de amor se converteram em dúvidas. Quando o senhor Sibley foi visitá-la, estava de mau humor. Recebeu ele na sala de música, onde esteve tocando o piano. —Senhor Sibley — o saudou quando o anunciaram. — Pensava que havia voltado para Londres. —E assim foi — respondeu o homem, fazendo uma reverência. — Retornei para preparar tudo para o conde Eberlin. Chegará no final de semana. —Muito bem — respondeu ela sem pensar. Tinha a cabeça a quilômetros dele e do conde dinamarquês. O senhor Sibley se inclinou, para que Keira pudesse olhá-lo no seu lugar na frente do piano. —Vou confessar lady Ashwood, que estive procurando uma desculpa para vir a Hadley Green. Ela imaginou Declan ali nesse momento. Seu coração esteve pairando no vazio, abrigando esperanças, mas percebeu que sua mente estava aferrada em terra firme. Sabia quem era Declan. Sua reputação, com mais de um coração quebrado, era bem conhecida na Irlanda e em Ballynaheath há muitos anos. Entretanto, depois do que aconteceu... Percebeu que o senhor Sibley a estava olhando de uma forma estranha. —Estou contente por ter vindo — disse ela por costume. —De verdade? De verdade o que? Keira centrou sua atenção no piano. O homem ficou ao seu lado, escutando-a tocar. Mas ela parou de pressionar uma nota errada e colocou as mãos no colo. —Continua tocando —a incentivou ele. — Toca muito bem. —É muito amável de sua parte dizer isso, senhor Sibley. Veio tratar de algum assunto? 221


—Ah... Não — respondeu ele, sorrindo com um pouco de acanhamento. Keira sorriu. —Devo confessar que hoje não tenho muito tempo. Estou muito ocupada com os órfãos do St. Bartholomew, e prometi a eles uma caixa de laranjas nessa tarde. —Não prometeu exatamente e, de fato, o senhor Anders ficaria desolado se soubesse o que pretendia fazer com seu presente, mas assim eram as coisas. Lucy e ela haviam contado e ficaram encantadas em ver que havia uma para cada uma das crianças e inclusive também para as irmãs. —Uma causa nobre —disse ele enquanto Keira se levantava e ia para a porta. — Se puder ajudar em algo no orfanato... —Faria isso? —perguntou, agradecida. —O que for preciso. É só pedir. —É muito amável de sua parte. Gostaríamos muito de algumas pipas. —Pipas? Keira riu. —Pode imaginar eu prometendo a eles algumas pipas? Foi muito impetuoso de minha parte, mas era um dos meus passatempos favoritos quando menina e há um campo perfeito junto aos muros do orfanato. Comentei e não podia acreditar... mais da metade das crianças nunca tiveram esse prazer! O senhor Sibley sorriu com indulgência. —Sem dúvida, poderemos encontrar muitas pipas em Hadley Green. —Foi o que pensei —assentiu ela. — Mas ainda não encontrei nenhuma. —Muito bem —respondeu o senhor Sibley, inchando o peito, — as crianças terão suas pipas. Três dias depois, voltou com os braços carregados de pipas de todas as formas e tamanhos. Comprou-as em Londres, explicou orgulhoso. —OH! —exclamou Keira. — Nunca pensei... Não era minha intenção fazer você ir a Londres... 222


—Você é muito bondosa, lady Ashwood —disse ele, admirando-a. — Era o mínimo que eu podia fazer. Ela subiu com Lucy na carruagem para irem entregar as pipas no St. Bartholomew e o senhor Sibley foi a cavalo a seu lado. Era uma linda tarde e Keira precisava desesperadamente sair de casa. Havia passado uma semana desde que caiu na grama com Declan, uma semana longa, apaixonada e infeliz ao mesmo tempo. Com a ajuda da irmã Rosen, levou as crianças no campo para fazer voar as pipas. Havia pelo menos uma dúzia delas no ar e vendo-as voarem sobre as copas das árvores, atraiu uma quantidade de curiosos do povoado, para ver o que estava acontecendo. Depois de uma hora, não só havia crianças brincando com as pipas, mas também alguns vizinhos. Keira estava cuidando de três crianças, nenhum era maior de três ou quatro anos. Escolheu uma pipa pintada de azul com flores amarelas que Lucy havia dito que combinava com seu chapéu, o que encantou a Keira. —Houve um tempo em que eu era melhor que todo mundo na Irlanda ao fazer voar as pipas —informou as crianças, enquanto as alinhava ombro com ombro. — Existe um segredo para que voem bem. Vocês gostariam de saber? As crianças assentiram. —O segredo — confidenciou a eles, enquanto se agachava ao lado — é pegar o vento de maneira adequada. E para fazer isso precisa correr. Algum de vocês é bem rápido? —Eu! —exclamou o menino do meio, levantando uma mão. —Eu sou tão rápido como você — disse outro e o terceiro, o menor dos três, só piscou com seus grandes olhos, olhando para Keira. —Você parece muito rápido — disse ela para ele. — Acho que você me ajudará. E vocês ajudarão a não perder de vista a pipa. Certo? Muito bem. —Passou a corda enrolada em um graveto para o menino menor. Desamarrou as fitas do chapéu e o deixou no chão, antes de colocarse entre os dois meninos. — Agora, quando eu avisar, devemos correr o mais rápido que podemos e quando for o suficiente, o vento levantará a 223


pipa. Você, senhor — disse para o menor, enquanto o tocava no ombro, — deve ir soltando a corda e quando a pipa estiver bem alta, a mantenha lá e a impulsionaremos para fazer piruetas. O menino segurou ambos os extremos do graveto. —Preparados? No três. Um, dois, três! — Keira correu e os meninos atrás. Ela soltou a pipa e deixou corda quando a brisa a segurou começou a levantá-la; gritou para o menino soltar mais corda. Quando a pipa ficou no ar, os meninos trocaram de lugar para guiá-la. — Mexam com ela! —dizia-lhes quando a pipa descia e girava com a brisa da tarde. — E não se aproximem das árvores! —gritou-lhes quando se afastaram, correndo atrás da pipa. Keira ficou observando eles por um momento e quando viu que os meninos sabiam o que faziam, deu a volta. E quase se chocou com Declan. Este segurou o chapéu dela. Um dos cantos de sua boca se curvou em um sorriso um pouco indolente. —Encontrei isso e pensei que só uma pessoa poderia ter perdido isso. De novo. Ela percebeu que seu rosto se iluminava ao sorrir. —Na verdade, deveria me esforçar para mantê-los na cabeça — disse enquanto o pegava. O colocou e amarrou as fitas. —Estava procurando você — disse ele. Keira ficou absolutamente encantada de ouvir isso. —Como soube que eu estava aqui? Declan sorriu irônico e olhou para uma dúzia de pipas que voavam no céu. —Tive um pressentimento. —Lorde Donnelly! Ela quase grunhiu ao ouvir a voz de Sibley a suas costas. —Veio soltar pipas, milord? —perguntou Sibley, enquanto ficava entre eles. —Não — respondeu Declan. — E você, senhor Snibley? —Vamos, senhor... —Desculpe, senhor Sibley.

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Um dos meninos gritou antes que o advogado pudesse dizer algo e Keira, protegendo os olhos do sol com a mão, olhou para eles. —OH, veja. Senhor Sibley, a pipa está presa em uma das árvores. Importaria-se? O homem vacilou. Olhou para os meninos, parados impotentes ao pé da árvore, contemplando-os. Em seguida, Sibley olhou para Declan e apertou ligeiramente os olhos. —Possivelmente lorde Donnelly... —Claro que faria — respondeu ele, — mas tenho uma lesão no joelho. — Então, eu irei ajudar as crianças — disse Sibley como se anunciasse que estava indo para a guerra. Inclinou a cabeça para Keira. — Senhora. —E foi para a árvore. —Intolerável — resmungou Declan. —Foi o senhor Sibley que trouxe as pipas — explicou Keira. — Foi muito amável. —Ah, sim — grunhiu ele. — Pensei que tinha voltado para Londres, para seu buraco de lá. Keira observou seu rosto, impassível. —Voltou para preparar Tiber Park para a chegada do conde. — Sorriu coquete. — Entre outras coisas — acrescentou com tom satisfeito. Declan a olhou sem alterar-se. Sua falta de interesse pareceu irritar a Keira. Imaginou que passariam aquela tarde juntos? —O senhor Anders também me visitou. Trouxe-me uma caixa de laranjas. Ele levantou uma sobrancelha. —Pelo visto, é muito popular entre os solteiros de West Sussex. —Sim. Sou. Declan meditou enquanto posava o olhar nela. —A felicitaria, mas você já felicitou a si mesmo muito bem. Deixo-a com seus admiradores - disse isso, e depois de saudá-la com o chapéu, começou a afastar-se.

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—Lorde Donnelly? —chamou ela, enquanto ele caminhava. — Espere... Não, por favor, milord. —Foi atrás dele quase correndo, até alcançá-lo. Declan continuou caminhando. —Acho que você está com ciúmes — afirmou, enquanto se apressava a segui-lo. Ele soprou ao ouvir aquilo. —Não seja absurda. —Não precisa soar tão irritado — respondeu impertinente. — Pensei que falaríamos com o senhor Bowman. O senhor Fish me disse onde podemos encontrá-lo. Declan parou e a olhou. —Isso é um avanço. Onde ele vive? —Em Rockingham — respondeu Keira. — Estive pensando qual desculpa poderíamos usar para ir visitá-lo... —Eu o visitarei. Ela não gostou da forma autoritária que ele disse. —Bom, tinha pensado que poderia vir comigo. —Ah, é mesmo? —perguntou ele cordialmente. — Eu achei que preferiria ficar e deixar que o senhor Sibley a admire ainda mais. Ou comer mais laranjas que o senhor Anders trouxe. Suponho que com isso, você já tem muito para manter-se ocupada. Keira afogou um grito de surpresa e sorriu de orelha a orelha. —Está com ciúmes. Declan deu um sorriso um pouco envergonhado. —Não era isso que pretendia, quando começou com a nomeação de todos seus admiradores? Era verdade e o sorriso de Keira refletiu sua satisfação. —Pelo menos, eles me visitaram para ver como eu estava. —Veja só. —Declan a olhou de cima abaixo. — Chegamos a isso? Se você incentivou esses pobres janotas que a corteje para me incomodar, então tratou mal aos dois. —Deixe de ser convencido — respondeu alegre. — Não incentivei e não achei que fosse tão estranho pensar que pudesse estar um pouco invejoso, dado que... O que... Tudo! —Estava se ruborizando e Declan, 226


maldito fosse, continuava tão tranquilo e calmo, como se tivesse conversas do tipo com frequência. Possivelmente assim fosse. Talvez ela só fosse mais uma longa lista de damas. E foi tão parva em acreditar... Ficou olhando boquiaberta. Ele arqueou uma sobrancelha. —Acontece algo? —Claro que sim — respondeu, olhando furiosa para ele debaixo da aba do chapéu. — Acho que você é o homem mais irritante... —O sentimento é mútuo — cortou ele alegremente. —Como pode fingir e atuar como se nada tivesse acontecido? — perguntou ela. Declan olhou para onde as crianças corriam com as pipas. —Olhe, aí vem o seu mais ardente admirador — disse e voltou a olhar para ela. — Keira, o que aconteceu entre nós foi agradável para ambos. Mas não é necessário dar grande importância. Vou ver o senhor Bowman. Ela ficou sem fôlego. Além dos comentários sobre seus planos, não podia acreditar no que estava ouvindo. Parecia tão frio e distante inclusive vindo de Declan. —Não fala a sério — replicou em tom acusador. — Não acredito que fala a sério. Não é uma árvore, sem nenhum tipo de sentimento descente... —Senhor Sibley — disse Declan, olhando atrás de Keira. — Que bem, recuperou a pipa. Sobe muito bem. Vendo você subir a essa árvore, diria que naturalmente esteve fazendo isso toda a sua vida. —Por Deus, Donnelly, é realmente surpreendente que não lhe tenham dado um tiro - replicou o outro com frieza. Ele sorriu irônico. —Isso eu não discutirei. Estou indo. Senhora — se despediu de Keira e se afastou deles. —Lady Ashwood, voltamos para as pipas? — perguntou o senhor Sibley, tocando seu cotovelo.

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O advogado tinha toda razão: era realmente surpreendente que ninguém tivesse dado um tiro em Declan até o momento e se Keira soubesse um pouco de armas, ela mesma poderia lhe fazer as honras. —Sim, senhor Sibley — respondeu e foi com ele para reunir-se com as crianças, enquanto imaginava todas as deliciosas maneiras em que poderia acabar com Declan O’ Conner.

CAPÍTULO 21 Estava com ciúmes. Louco de ciúmes. E isso o surpreendia. Além de preocupá-lo. O que tinha acontecido com ele? Durante quinze anos, Declan viveu tranquilamente, livre de laços emocionais. Havia viajando da Irlanda a Inglaterra à vontade e, antes das guerras, também ao continente. E nunca teve compromisso sério com mulheres, coisa que seus amigos não foram tão afortunados na hora de evitar. Mas de repente, não podia mais parar de pensar no pior enredo de todos: sua relação com Keira Hannigan. Para piorar as coisas, nesse dia descobriu que, enquanto ele sofria pensando nela e tentando se livrar do férreo magnetismo que exercia em sua mente, ela se dedicava a fazer voar pipas e comer laranjas, cortesia de seus muitos admiradores. E com o Sibley, pelo amor de Deus! Por acaso não se importava com seu futuro? Loman Maloney era uma escolha muito melhor. Se ela ia brincar assim com o afeto de tantos pobres infelizes, disse-se com aborrecimento, ao menos deveria fazer isso com homens de melhor calibre que Sibley. O certo é que só podia culpar a si mesmo, pelo lamentável estado de sua mente. A estranha mistura de inocência e paixão de viver que havia em Keira tinha arrebatado ele. Declan deixou que seus instintos mais primários deslocassem seu bom senso. Foi um engano fatal e a razão pela 228


qual, se mantinha afastado dela tanto como podia suportar. E embora ele tenha se deixado levar pelo momento..., na verdade, por muitos momentos..., aquela mulher continuava sendo Keira Hannigan. Se não podia conter seu desejo, aonde o levariam aqueles sentimentos? Declan era um homem que valoriza a liberdade de ir de um lado a outro, criar cavalos e ver seus amigos quando e onde quisesse. Não desejava estar preso em Ballynaheath dia após dia. Tinha pensado doar a propriedade a Eireanne quando esta se casasse, e ele construiria seu próprio lar em Londres. Antes, nunca pensou em ter herdeiros. Mas ter uma esposa, uma condessa irlandesa, significava que precisava de uma propriedade, um lugar para chamar de lar e onde poderia criar filhos. Ballynaheath era tudo isso. Ballynaheath era seu legado. OH, a loucura tomou conta dele! Estava pensando em casar-se? Se alguma vez chegasse a fazer isso, de todas as mulheres do mundo, Keira Hannigan seria a única que o prenderia em Ballynaheath. Quando soubesse a verdade, certamente a expulsariam da Inglaterra devido a sua colossal farsa, e isso se pudessem evitar um castigo pior. Além disso, duvidava muito que suas ideias de limpar o nome de Scott ou contribuir para o orfanato, ou reconstruir o moinho tivessem algum peso, perante as autoridades que considerariam seu delito. Keira parecia esquecer que era uma irlandesa na Inglaterra, o que já colocava a lei contra ela, inclusive sem cometer nenhum delito. Era uma mulher tola e maluca, que não tinha nem ideia de quantos na Inglaterra odiavam os católicos irlandeses. Vivia ali como vivia na Irlanda, com ousadia. Com temeridade. Esses eram sentimentos ridículos e muito sensíveis da parte de Declan, e se perguntou se haveria algum antídoto para combatê-los. A próxima vez que fosse ao condado de Galway, perguntaria pela viúva Cleeney; essa mulher parecia ter poções para curar qualquer mal. Enquanto isso, o que ia fazer com o fogo que o consumia?

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Na tarde seguinte cavalgou até Rockingham, esperando que a distância fosse à cura, como oi sua viagem a Londres. Não deveria ter voltado da cidade e talvez, não teria feito se Harry, o irmão mais novo de Christie, não tivesse se apresentado na casa desta. Agora era muito tarde. Rockingham não chegava nem a ser um povoado. Consistia em umas algumas casas baixas, com teto de palha, construídas ao longo de uma estrada estreita e que abrigavam várias lojas de diversos artigos e uma ferraria. Foi nesse local, que Declan perguntou pelo senhor Samuel Bowman. —Bowman — repetiu o ferreiro, pensativo. — Não sei exatamente, milord. Mas se viver por aqui, o padre saberá dizer.

A igreja era pequena para ser inglesa, uma capela em um único só espaço e uma plataforma levantada em um dos extremos, onde ficava o púlpito. Declan teve a sorte de encontrar o padre ali, polindo o cálice e a patena da comunhão. Era um homem robusto e alegre, de cabelo muito curto e rebelde, que ocupava a maior parte do espaço entre os bancos e o púlpito. —O senhor Samuel Bowman! —gritou quando ele se apresentou e perguntando pelo antigo secretário. Sua voz ressonou na cavernosa igreja. Declan supôs que era assim, que mantinha a seus paroquianos grudados aos assentos todos os domingos, quando chegava o momento do sermão. — O senhor Bowman não perdeu nenhuma missa na igreja até que sua gota o impediu. —Sabe onde poderia encontrá-lo? —perguntou Declan. —Bom isso depende do que você queira milord. Não desejo nenhum mal a nenhum dos meus paroquianos. —Não tem nada a temer de mim. Só procuro certa informação, que ele poderia ter, por ter servido o conde de Ashwood. 230


O padre agitou as sobrancelhas. —Melhor não mencionar a ele o conde — respondeu e continuou com sua tarefa. —Por que não? —perguntou Declan com curiosidade. —A julgar pelo que diz o senhor Bowman, o conde de Ashwood arruinou sua vida. —Quer dizer lady Ashwood... —Não. O conde. Isso sem dúvida contradizia o que Declan acreditava saber. —E como foi isso? —Deverá perguntar a ele. A verdade é que nunca confidenciou suas razões, mas sempre se negou a arrepender-se de qualquer afirmação difamatória que tenha feito sobre o conde. —Deixou o trapo e franziu a testa pensativo. — Será melhor que eu o acompanhe. —Não queria incomodá-lo... —Não é nenhum incomodo milord! Um pouco de ar fresco faz bem para o espírito. E acredito que precisarei submetê-lo. O senhor Bowman não gosta de desconhecidos. Esplêndido, pensou Declan com ironia. De repente, viu a imagem de Keira e desejou ter um poste por perto, do que lhe dar uma patada. O padre foi cantarolando um hino durante o que pareceu a Declan um passeio muito lento a cavalo pelo campo. Na verdade duvidava que o pangaré do vigário, Old Mable, como chamava ele, pudesse chegar até o final da rua, mas o animal e o homem seguiam em frente com decisão. Mais ou menos a um quilômetro e meio da igreja, o padre virou por um caminho que levava para o bosque. Não chegava a ser uma estrada, mas sim um atalho frequentado. Seguiram por ele dois quilômetros até chegar a uma modesta casa, que o vigário parou para admirar. —Não é tão impressionante como as das outras zonas, mas esta casa tem muita história — disse. — Foi construída na época de Enrique VIII para a sobrinha neta do senhor Cromwell. —Olhou para Declan. — Antes de Cromwell perder o favor do rei, obviamente. 231


Era evidente que, por um tempo foi uma casa elegante. Foi construída em pedra, com grandes colunas no pórtico. Mas o jardim da frente estava descuidado e a argamassa se desfazia. Uma das colunas se inclinava levemente para a direita. —Insisti ao senhor Bowman para que a conserve em bom estado, porque sou partidário de conservar o passado. Entretanto, ele não quer nem ouvir falar disso. Não gosta dos desconhecidos. —Isso já havia dito — replicou Declan. —Vamos continuar milord? —perguntou o padre e fez avançar seu pangaré. Só tinham dado dois passos quando um ancião apareceu na porta, com um rifle apontando para ambos. —Vamos senhor Bowman — disse o vigário com paciência enquanto levantava as mãos. — Isso não é necessário. Deixe o rifle, por favor. —Quem é? —resmungou o ancião. — Quem é você? —Não vê muito bem — explicou o padre para Declan e disse ao senhor Bowman: — Sou o vigário Harcourt, que você conhece muito bem. E esse é o conde de Donnelly, da Irlanda. O senhor Bowman baixou um pouco o rifle e olhou para Declan. —Irlanda? E o que tenho a ver com um maldito irlandês? —Senhor Bowman! Isso não é nada cristão — o repreendeu Harcourt com severidade. — Ele não pode evitar ser irlandês. Declan teria fulminado o padre com o olhar, mas este estava com os olhos postos no senhor Bowman. —São todos sodomitas — replicou o senhor Bowman com desprezo. —Não o entreterei mais do realmente necessário senhor — disse Declan, fazendo um supremo esforço de paciência. —Você não tem nada para falar comigo — balbuciou o homem, mas o rifle já apontava para i chão. — É melhor seguir o seu caminho. —Acredito que pode ter uma informação que preciso senhor — insistiu Declan. — Posso ter um momento? 232


—Informação! —bufou o ancião. — Que tipo de informação possa eu ter, que o beneficie? Antes que ele pudesse responder, uma pequena mulher com chapéu de renda apareceu com o pescoço na porta. —Samuel! —exclamou. — Deixa esse rifle e convida os cavalheiros para entrarem! —Não os quero em minha casa — replicou ele. —Não permitirei que você trate às visitas de uma forma tão abominável. Entrem senhores — disse ela e sem aviso ou esforço, tirou o rifle do senhor Bowman e desapareceu para dentro. O padre desceu do cavalo e o deixou sem amarrar, sem nenhum medo que pudesse sair correndo. Aproximou-se do senhor Bowman. —Vamos entrar senhor Bowman. Declan desmontou também, amarrou as rédeas do cavalo e com uma mão na pistola que levava no bolso, seguiu com cautela os outros para dentro. A casa estava abarrotada com os trastes de toda uma vida. Havia livros e papéis empilhados nas mesas do salão principal e bordados em diversas etapas de elaboração espalhados sobre a poltrona. A senhora Bowman tirou um gato de uma cadeira e a ofereceu a Declan; este agradeceu, mas preferiu continuar de pé. Tinha a sensação de que não permaneceria ali por muito momento. O senhor Bowman, ao contrário, sentou-se em uma poltrona perto da lareira. Imediatamente, o gato pulou para o seu colo e se acomodou. —Seja o que for que procura, não encontrará a resposta aqui — disse o homem para Declan enquanto acariciava o gato. — Não o ajudarei. —Vou trazer o chá — anunciou alegremente a senhora Bowman. —Não traga nada, maldita seja Margaret! —exclamou seu marido, mas ela já estava saindo pela porta. —Com um pouco de mel, senhora Bowman — gritou o padre para ela. —Muito bem, comece — disse o senhor Bowman para Declan, enquanto arranhava as orelhas do gato. 233


—Estou aqui em nome de um amigo — começou ele. — Você se encarregou da acusação de um ladrão de Ashwood faz quinze anos, em nome do conde... —Deus, como se atreve a entrar em minha casa e falar disso? Declan se surpreendeu pela veemência desse protesto. —Tenho uma pergunta muito fácil. Por que lady Ashwood não participou do julgamento do senhor Joseph Scott, no assunto das joias roubadas? —OH, bem — murmurou o padre. O senhor Bowman parou com a mão que acariciava o gato e empalideceu. De repente afastou o felino e tentou ficar em pé. O vigário correu para ajudá-lo, mas lhe afastou com um golpe na mão. —Você é um ser vil — espetou Bowman, apontando com o dedo para Declan. — Não tem nenhum direito! —Acusaram esse homem de roubar as joias de lady Ashwood, entretanto, ela não apareceu no julgamento para testemunhar — acrescentou ele rapidamente. — Por que não a perguntaram? Por acaso não estava em Hadley Green? — insistiu. —Possivelmente deveríamos todos nos sentar — propôs o padre. Declan o ignorou e se aproximou mais do senhor Bowman. —Parece que eu tenho uma vaga ideia. Acredito que enforcaram um homem inocente, senhor Bowman e também acredito que você também sabia disso. O ancião estava tremendo. —Saia! Saia daqui agora mesmo! —É melhor que faça o que pede milord — sugeriu o vigário, assustado. Mas Declan não pensava em partir, sem obter alguma informação. —Por que lady Ashwood pediu que abandonasse a casa depois do julgamento? —Tudo isso de um grande velhaco irlandês! Esqueça desse assunto! —Por favor, por favor, cavalheiros — pediu o padre. — Sentem-se. Podemos tratar deste assunto como homens razoáveis... 234


—Onde estava a condessa, senhor Bowman? Por que não testemunhou a favor de seu amante? O ancião ficou imóvel por um momento e depois se desabou em sua poltrona. —Senhor Bowman! Está bem? — exclamou o vigário, correndo para ele. —Estou bem, estou bem — respondeu ele, afastando-o novamente. Apertou os olhos com os dedos, como se lhe doessem. A senhora Bowman entrou na sala com uma bandeja de bolachas e um bule. —O chá... Santo Deus! O que aconteceu? Samuel, você está bem querido? —Acho que deveria ir milord — disse o padre com firmeza. — O senhor Bowman é um ancião. Não deveria suportar... Declan o ignorou e se ajoelhou perto do homem. —Senhor Bowman, pretendo limpar o nome de um homem inocente. Não desejo nenhum mal a você, mas eu gostaria de saber por que a condessa não esteve presente no julgamento. O ancião abriu os olhos. Estavam avermelhados, embora Declan não soubesse se era devido às lágrimas ou fúria. —Ela não estava lá. Isso é tudo o que vou lhe dizer. —Por que enforcaram o senhor Scott com tanta rapidez? Não passou sequer cinco dias desde que o declararam culpado até que o executaram. —OH, não — exclamou a senhora Bowman. —Está incomodando à dama — disse o padre irritado. Declan contemplou o rosto de Bowman, a pele flácida, as escuras olheiras e a dura expressão da sua boca. Mas viu algo mais. Viu culpa. —O senhor Scott era inocente, não é? O senhor Bowman o olhou furioso e o apontou com um dedo ossudo. —O advirto de novo senhor, há coisas neste mundo que é melhor não mexer. Nada de bom pode sair de suas perguntas. Entende-me? Não 235


servirão para nada. E agora, agradecerei se partir e não volte a aparecer em minha porta. Declan suspeitou que fosse o que fosse que soubesse, o ancião iria com isso à tumba, junto com sua culpa. Olhou para o padre e depois para a senhora Bowman, que lhe devolveu um olhar temeroso. —Obrigado por seu tempo — disse e foi para a porta. —Senhor! Declan parou e olhou para trás. O senhor Bowman voltou a ficar de pé. —Houve momentos em minha vida em que, contra minha vontade, fui obrigado a fazer certas coisas para proteger a minha família. Entendeme? Entendia ele perfeitamente. O senhor Bowman se viu obrigado a acusar um homem inocente. Declan assentiu com uma seca inclinação de cabeça. —É você um estúpido por abrir velhas feridas — acrescentou o ancião amargamente. Talvez. Mas em consciência, Declan já não poderia esquecer o assunto.

CAPÍTULO 22 Os preparativos da festa de gala estavam começando a consumir Keira. Quisesse ou não, consultavam-lhe todos os detalhes. Parecia haver um contínuo fluxo de visitantes passando por Ashwood para falar da montagem das mesas, ou de qual seria o percurso da corrida, ou do número de barcos que seriam transportados para o pequeno lago. Debateram interminavelmente sobre a música e a comida, o artesanato e os artigos à venda. A senhora Ogle, a senhora Morton e as damas da sociedade pareciam estar sempre em Ashwood, e também o reverendo Tunstill, que

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acompanhava à irmã Rosens do orfanato. Além disso, o senhor Anders e o senhor Sibley continuavam competindo por sua atenção. Nesse dia, junto com a senhora Morton e o senhor Graham, o chefe dos jardineiros, Keira estava revisando o percurso da corrida em velhos mapas amarelados de Ashwood. —Faremos que o percurso passe pela pracinha e depois em volta ao velho carvalho — dizia o senhor Graham, apontando uma marca no mapa. — Sem dúvida lembra desse velho carvalho, não é senhora? —Do velho carvalho? —perguntou Keira, enquanto olhava o ponto que ele apontava no mapa. — Não..., não me lembro, senhor — respondeu, olhando o mapa. —Peço que me perdoe senhora — disse o jardineiro imediatamente. — Pensei que se lembraria. A filha da senhora Thorpe e você subiram tão alto, que depois não conseguiram descer. Demoramos uma tarde toda para encontrá-las. Keira continuou olhando o mapa. —Ah, sim — disse. Percebeu que todos a olhavam, sentiam curiosidade por ela não lembrar de algo assim. —Leve-me lá! — exclamou Lucy de algum lugar da mesa. — Eu gostaria de ver esse carvalho! —Lucy, por favor, sai daí — ordenou Keira. — O carvalho terá que esperar. Antes temos muitas coisas para fazer. —Gostaria que a festa de gala já tivesse passado! —replicou a menina petulante, enquanto saía de debaixo da mesa e se chocando com o senhor Graham ao fazê-lo. Keira também desejava. Só faltavam quinze dias e Lily já deveria ter vindo. Segundo seus cálculos, sua prima deveria estar ali na semana anterior. Supôs que o tempo a teria impedido de navegar, mas certamente chegaria antes da festa de gala. Com certeza. Olhou para Lucy. Pensou na irmã Rosens, no senhor Fish. Em Linford e na senhora Thorpe, e em muitas outras pessoas de Ashwood. Considerava seus amigos, quase família.

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—Esse percurso estará bom para a corrida, senhor Graham. Não está de acordo, senhora Morton? —Sim, parece bom — respondeu a dama. —Esplêndido — respondeu Keira e virou-se. Sentiu um pouco de vertigem ao imaginar o que todas aquelas pessoas pensariam dela se descobrissem antes da volta de Lily. Não podia pensar nisso. Ficaria louca. Felizmente, apareceu o mordomo. —Uma visita, senhora — anunciou. —Quem é Linford? O senhor Anders? —Não, senhora. Um cavalheiro. Tomei a liberdade de levá-lo ao escritório. —Sempre algum cavalheiro — disse a senhora Morton, sorrindo para Keira com ironia. — Eu o senhor Graham terminamos? —Por favor — respondeu ela, e depois de agradecer o jardineiro, seguiu Linford até o escritório. Ao chegar à porta, o mordomo a abriu. —Lorde Eberlin, senhora — lhe indicou. «Eberlin» pensou Keira, enquanto cruzava a soleira. O homem que estava no escritório apresentava uma aparência imponente, alto e de ombros largos. Seus olhos eram tão escuros que pareciam negros. Tinha um espesso arbusto de cabelo cor mel, lábios elegantes e queixo quadrado. A princípio não disse nada e se limitou a olhála fixamente, como se esperasse ela falar. «Lorde Eberlin.» O conde dinamarquês, o homem que estava tentando roubar as melhores terras de Ashwood. O que disse o senhor Fish no dia anterior? Sim, que o senhor Goodwin a visitaria no final dessa semana com seu relatório preliminar. «Ganha tempo», disse-se Keira. Ele a olhava com tal intensidade que se sentiu exposta. —Lorde Eberlin, finalmente você veio para a Inglaterra. —Se aproximou e estendeu a mão. —Certo.

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O homem vacilou e, por um momento, olhou seu rosto com curiosidade antes de pegar sua mão e roçar os nódulos com os lábios. Em seguida a soltou e deu um passo para trás. Keira se fixou que segurava uma pequena bolsa. —Por favor, perdoe minha intrusão — disse ele, enquanto seu olhar se fixava com frieza no rosto de Keira. — Cheguei a Tiber Park e queria me apresentar pessoalmente a minha vizinha mais próxima. Tinha um acento curioso, que não parecia nem muito inglês ou muito do continente, a não ser algo intermédio. —Bem vindo — saudou-o e sorriu com a máxima calidez que pôde. — Peço que me perdoe milord, mas se soubesse que nos visitaria hoje, teria pedido a meu administrador, o senhor Fish, que se juntasse a nós. —Minha visita é meramente social — respondeu ele. Percorreu-a com olhar sinuoso de avaliação, que Keira estava acostumada a receber de certos cavalheiros. Mas ao invés de sorrir com admiração, como a maioria dos homens estavam acostumados a fazer, o conde virou de costas e foi até a janela, ainda com a bolsa na mão, e ficou ali olhando para fora. —Está você olhando algo específico? — perguntou ela, perplexa por seu comportamento. —Estou contemplando a vista — respondeu ele. — Tem uma fonte impressionante. Keira deu uma olhada para a janela. Três anjos tocavam a trombeta onde uma longa água emanava da boca das mesmas. —Uma aquisição relativamente nova — comentou Eberlin e voltou para olhá-la. Seu olhar era desconfortavelmente intenso. Não a olhava como a maioria dos homens, mas sim de uma maneira fria e inclusive um pouco malvada. —Na verdade não estou certa da data de sua construção — respondeu. —De verdade? 239


«Um homem muito estranho» pensou Keira. —Já se instalou em Tiber Park? —perguntou-lhe. Ele continuou olhando-a fixamente. —Ainda não, porque ainda tem muito a fazer. Estou hospedado perto da igreja de Uppington por alguns dias. Esplêndido. Ela esperava que ficasse muito cômodo em seu atual alojamento e não demorasse em sair de lá. Sorriu. O conde permaneceu impassível. —Há..., está perto da igreja de Uppington desde sua volta a Ashwood? —Pensando na igreja de Uppington? Não conheço essa igreja. Fica perto daqui? O queixo dele se moveu levemente, como se estivesse apertando os dentes. —Muito perto. A três quilômetros no máximo. —Observou-a como se esperasse que ela dissesse alguma coisa a mais sobre a igreja ou que anunciasse que tinha lembrado de repente. Ao ver que não, olhou para a bolsa que segurava na mão. — Perto do rio, há uma cabana que divide nossas propriedades. Perto do velho moinho. —Levantou o olhar. — Tenho que felicitá-la por seu trabalho ali. Parece que será um grande moinho. —Essa é minha esperança — respondeu Keira. — Se desejar, poderá levar ali seu grão para moer. O senhor Fish poderá lhe explicar os detalhes. Eberlin sorriu, com frieza. —Obrigado, mas não será necessário. Tenho intenção de construir meu próprio moinho. Ela piscou surpresa. —O moinho será o bastante grande para cobrir as necessidades de nossas duas propriedades e mais — remarcou Keira. —Sim, isso parece — respondeu o homem, assentindo com a cabeça. — Mas construirei o meu. O coração dela acelerou. Acreditou que o entendia; pretendia competir diretamente com Ashwood. —Onde? —perguntou, sabendo a resposta. 240


—Rio acima — respondeu ele. — Nos hectares que voltarão a ser de minha propriedade. Keira não podia acreditar na sua falta de vergonha. Apresentava-se em Ashwood e lhe dizia que roubaria a terra e o moinho como se fosse nada? —Eu diria que sua intenção é prejudicar Ashwood, com seu moinho e seu desejo de obter essas terras, milord. —Sorriu. — Estou certa que essa não é sua intenção. —Pode pensar o que desejar — respondeu Eberlin com toda tranquilidade. —Acredito que o assunto das terras pode interpretar-se de várias maneiras — prosseguiu ela com firmeza. — Deve saber que contratei um dos melhores advogados de Londres. Assegurou-me que a coisa não é tão fácil como você quer me fazer acreditar. — Uma pequena mentira, mas Keira não se importou. — Na verdade, milord, dois moinhos tão próximos? Ele deu de ombros. —Os granjeiros terão que escolher um ou outro, certo? Por que odiava tanto Ashwood? Não podia acreditar, mas estava desafiando ela abertamente. —Vamos ver — respondeu ela em um tom tão tranquilo como o seu. — Mas esse assunto não pode ser resolvido hoje. Talvez, em outro momento? O conde não fez gesto para sair. Abriu a bolsa que segurava. —Como você sabe, a cabana perto do velho moinho está há bastante tempo abandonada. Mas encontrei isso. Keira conteve o fôlego. Não a teria surpreendido absolutamente se tivesse tirado um crânio humano. Mas era apenas um cavalo de brinquedo que faltava as duas patas. —Um brinquedo — disse. — Suponho que algum dos antigos arrendatários o deixou ali.

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—Duvido que seja o brinquedo de um arrendatário. Está finamente esculpido. Os brinquedos de seus camponeses certamente seriam feitos de palha ou algo assim. Pensei que talvez, gostaria de tê-lo. —O que? O brinquedo? —Não confiava nele, nem no cavalo sem patas. Por que podia pensar que aquela coisa a importaria?— Obrigada. Darei para as crianças do St. Bartholomew. Ele inclinou a cabeça lentamente. —Muito bem. Keira desejava que ele fosse e olhou para a porta. —Bom. Obrigado por me receber, lady Ashwood. —Não há de que — respondeu ela com frieza e evitou seu olhar, enquanto caminhava para a porta. Eberlin a seguiu, mas antes de ir, olhou-a novamente de uma maneira fria e calculadora. —Senhora — se despediu e entregou a bolsa enquanto saía. Assim que o conde saiu, Keira jogou a maldita bolsa com o brinquedo quebrado sobre uma cadeira. Quando esteve segura de que o homem já não podia vê-la, fechou a porta e se apoiou nela, com a mão pressionando o estômago. Desejou desesperadamente que Lily estivesse ali. Não se permitiu pensar no que aconteceria quando chegasse, mas não suportaria que algo acontecesse com Ashwood, enquanto estivesse em seu comando.

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CAPÍTULO 23 Linford informou a Declan que lady Ashwood estava no parque, ensinando à senhorita Taft a cavalgar e, efetivamente, encontrou Keira guiando um pequeno pônei pelo caminho, enquanto Lucy se segurava na crina. Ele reduziu o passo de seu cavalo e se aproximou delas. —Bem, bem — disse Keira. E sorriu, enquanto guiava o cavalinho em um círculo ao redor de Declan. — Pensei que talvez tivesse morrido. —Morto? —perguntou ele com um sorriso irônico. — Antes que Lily chegue e saiba de tudo? Jamais faria. —Desmontou. — Senhorita Taft, como se encontra nesta agradável tarde? —Estou aprendendo a montar — respondeu a menina, tensa. Estava pálida e tinha os nódulos brancos devido à força com que se segurava à crina do cavalo. Fazia um tempo quente e Lucy tinha o rosto quase suarento. Keira, por sua vez, parecia muito fresca com seu traje de montar azul céu. Uma cauda longa e grossa pendurava pelas costas e usava um elaborado chapéu com plumas. Declan não pôde evitar pensar nos pobres pássaros que perdiam sua plumagem para enfeitar os chapéus femininos. —Posso descer? —perguntou Lucy. —Mas não cavalgou quase nada, querida — respondeu Keira. —Não tenha medo — interveio Declan.— O cavalo não a morderá. —Não adiantará de nada — disse Keira, enquanto parava o pônei. — Parece que Lucy tem medo dos cavalos. 243


—Testou cavalgar com ela? —perguntou Declan. Ele tinha ensinado Eireanne montar sentando-a na frente dele a cavalgar. Keira soprou. —Mas se eu ficar apenas segurando a cadeira. Isso fez com que ele sorrisse divertido. Se podia dizer algo de Keira Hannigan é que podia manter-se em qualquer cavalo e com qualquer cadeira. —Senhorita Taft, gostaria de cavalgar comigo? Ensinarei-a como usar as rédeas. —Sim, por favor, milord! —respondeu Lucy, mas em seu entusiasmo se soltou da crina do cavalo e escorregou um pouco. Afogou um grito e se inclinou, agarrando-se no pescoço do animal. —Dhia, parece tarefa impossível — resmungou ele. —Completamente — concordou Keira. Declan desmontou e desceu à menina do pônei. —Permita-me — disse cortês, e ofereceu o braço quando Lucy estava no chão. — Vem você também? —Claro — respondeu Keira e sorriu ao passar na frente dele. Ele a observou colocar o pé no estribo e montar sem esforço, e se perguntou como conseguia parecer mais atraente cada vez que a via. Keira colocou o cavalinho a trotar na frente de Declan e Lucy, com as plumas de seu chapéu agitando-se, e ele se perguntou com quanta frequência teriam ido ali Sibley ou Anders para cortejá-la em sua ausência. Uma vez nos estábulos, Keira mandou Lucy para casa. —Peço o chá? —perguntou a menina. —Parece-me que é muito cedo, querida — respondeu Keira. —Mas você sempre pede chá quando tem visitas, senhora. —OH! —exclamou Declan, olhando para Lucy. — E vieram muitas visitas para tomar chá? —Muitas — respondeu a menina sem se importar, enquanto olhava como estava o seu traje de montar e puxava as pontas da jaqueta. —OH, Deus, Lucy. Como exageras! —disse Keira rindo. —Visitas de cavalheiros? —perguntou Declan sem lhe dar importância.

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—Cavalheiros e damas. Sua senhoria é muito considerada — explicou a pequena. — A irmã Rosens diz que é um espírito indomável. —Indomável? —perguntou Keira. —Indomável — esclareceu Declan com uma risada. Lucy pensou por um momento e franziu a testa. —Possivelmente — disse insegura. — Devo pedir o chá? —OH, de acordo — respondeu Keira e fez uma carícia à menina no cocuruto antes de mandá-la para casa. Quando ela desapareceu na esquina, olhou para Declan. — Podemos falar? —Fez um gesto para o jardim. — Prefiro que não nos vejam. — Começou a ir para a grade de ferro. —Ah. Novamente muitos pretendentes, sim? —inquiriu ele enquanto a seguia. —O que? —Keira abriu a grade e bateu no seu braço para passar. Declan pegou a grade e a abriu toda antes de cruzá-la. —Parece muito agitada, condessa. O que aconteceu agora? O rei veio visitar você? —Pareço agitada? —perguntou ela, fingindo surpresa. — Não posso pensar por que, milord! Meu único amigo desaparece e... —Eu não vou dizer que ficarei preocupado, se ouvir que lady Horncastle está desaparecida... —Ela não tolo, você! Você é meu único amigo e desapareceste e, enquanto isso precisei suportar as maquinações de todo o condado! — queixou-se teatralmente, enquanto fazia um gesto com o braço para abranger os arredores. — Foi horrível! Declan não pôde reprimir um sorriso. —Sinto-me emocionado — disse, enquanto fazia uma reverência. — Parece que sentiu minha falta. —Pelo amor de Deus — soltou Keira e começou a andar pelo atalho do jardim; parou uma vez para olhá-lo. — Venha, vamos — insistiu, fazendo um gesto com a mão. Havia algo em sua voz, que indicava que estava desesperada. —Muito bem — respondeu ele e colocou a mão na parte inferior das costas. — Conte o que aconteceu. Keira grunhiu. 245


—O que aconteceu? As damas da sociedade estão constantemente em Ashwood, para organizar a maldita festa. O senhor Fish esteve em Londres. Lorde Eberlin veio e é um homem muito estranho. E agora lady Horncastle convidou lady Darlington para a festa de gala, junto com seu filho mais novo, com toda a intenção de emparelhá-lo comigo! — exclamou, destacando a si mesmo. Eberlin? Declan a olhou boquiaberto. —O que disse? —Sim, é bastante surpreendente. Parece que lady Darlington deseja fervorosamente, que eu encontre o amor e a felicidade com... —Isso não — cortou ele, negando com a cabeça. — Você mencionou lorde Eberlin. Conhece Eberlin? Keira o olhou confusa. —É quem comprou Tiber Park. Declan a olhou com incredulidade. —Também é quem me encarregou de criar um cavalo de corrida. Ela afogou um grito. —Conhece-o? —exclamou e o segurou pelo braço. —Não, nunca nos encontramos — respondeu ele. — Só tratei com seu administrador. Nunca mencionou quem era o comprador de Tiber Park. Keira deu de ombros. —Não deu importância o caso. —É uma coincidência bastante incrível que esteja aqui — comentou Declan, carrancudo. — Sabia que viria para a Inglaterra, mas não até que nascesse algum potro. E certamente, não tinha nem ideia que havia comprado uma propriedade aqui. —É um homem muito estranho — repetiu Keira e esfregou seus braços como se tivesse frio. — Inclusive assusta. —A que se refere? —inquiriu Declan. —Não sei como explicar — respondeu ela, pensativa. — Trouxeme um brinquedo quebrado que encontrou em uma cabana abandonada. Ele não pôde evitar de rir. —Possivelmente queria que o distinguisse entre tantas flores. Keira o fulminou com o olhar e continuou caminhando. 246


—Não zombe. Há algo inquietante nele. Pretende arruinar Ashwood. —Não deve preocupar-se, moça. O interesse desse tipo de cavalheiros vai para outro lado. —Que tipo de cavalheiros? —perguntou curiosa. —Dos que apostam muito forte. Sem dúvida Eberlin é um desses, porque está decidido a ter o cavalo de corrida mais veloz da Europa. Tenho curiosidade para saber por que comprou Tiber Park. O normal seria que seu administrador tivesse mencionado isso, ainda mais sabendo que eu aluguei Kitridge Lodge. —Não só comprou, o senhor Sibley me disse que abrirá parte da mansão dentro de quinze dias. Bom, não importa... Não disse nenhuma palavra sobre os Darlington — protestou então. Sorriu. —E o que você quer que eu diga? —Declan! Não ouviu nenhuma palavra do que eu disse? Lady Darlington quer casar seu filho com Lily! Ele começou a rir. Keira grunhiu. —Será minha perdição. Percebe certo? Descobrirão tudo e será minha perdição. —Com lorde Raley será uma corrida para ver qual dos dois encontra antes sua perdição — respondeu. — Não se preocupe. Com todas as coisas que tem que pensar, essa é a menos importante. Conheço bem Harry e nunca se casará. É uma uva sem semente e uma fonte de contínuas preocupações para seu irmão, o duque. Ela suspirou. Inclinou a cabeça e o observou. —Apesar de sua falta de sentimentos, sabe como me tranquilizar. Declan se surpreendeu ao ouvir isso, mas se surpreendeu ainda mais quando Keira fez uma rápida carícia em sua barba, que não tinha barbeado há alguns dias. Seu contato o estremeceu; de repente, todas as fibras de seu corpo vibravam. —Onde você esteve? —perguntou ela com suavidade. «Longe de você, muirnín», pensou ele. 247


—Não recebeu minha mensagem? —perguntou-lhe, enquanto segurava com força as mãos à costas para não tocá-la. — Como eu disse, fui visitar senhor Bowman. Keira assentiu. —Mas por que demorou tanto? Declan se sentiu incômodo, como se não tivesse uma boa resposta para essa pergunta. —Tive que procurá-lo — respondeu vagamente. — Depois, quis revisar mais uma vez os registros do julgamento. —O que encontrou? —No senhor Bowman? Só culpa. —Culpa. —Keira fez uma careta de dor. — O que disse a você? Declan não podia olhar aqueles olhos sem pensar nas coisas que gostaria de lhe fazer. Segurou-a pelo cotovelo e a fez continuar caminhando. —O senhor Bowman se negou a falar do assunto, de nenhum assunto. Na verdade me advertiu que não mexesse no passado. Mas notei que havia algo, alguma coisa que ele pretende manter em segredo. Sabe por que um homem inocente foi acusado, julgado e condenado. Mas, por desgraça, não quer falar. —Possivelmente, eu deveria falar com ele — sugeriu Keira. —Acredito que não. Deixou muito claro, que não quer falar desse assunto e não gosta de visitas. Recebe-as na porta com uma escopeta. —Uma escopeta! Então, o que vamos fazer? —perguntou ela com evidente frustração. —Deve ter alguém que queira falar, além de Hollingbroke — supôs Declan. — Um criado, ou alguém do povoado. Alguém que saiba o que aconteceu. —Alguém, mas quem? Estou ficando sem tempo. Lily já deveria estar aqui. —Tudo estará bem, Keira — tentou acalmá-la. —Que fácil dizer! Não tem que carregar minha farsa. —Possivelmente não, mas sim tenho sentido seu peso —lhe recordou e ela baixou o olhar envergonhada. — Você se colocou em uma 248


posição insustentável e agora deve aguentar. Isso significa que deve seguir respirando, pouco a pouco. Ela negou com a cabeça. Declan tocou sua mão. —Keira, olhe para mim. — Ela fez preocupada. — Sabe tão bem como eu, que deve seguir adiante. Ela assentiu e logo se virou, foi até um banco e se deixou cair nele. Apesar de maluca como era, Declan sabia que nunca pretendeu chegar tão longe. Parecia realmente arrependida e confusa. Agachou-se ao seu lado. —Pode aguentar alguns dias mais, moça. É irlandesa, lembra? Pode fazer por Lily, porque sei que não quer que aconteça uma confusão dessa magnitude, quando chegar a Ashwood. —Sim, mas entenderá se eu... Ele a interrompeu ao pegá-la pelo queixo e obrigá-la a olhar para ele. —Por uma vez em sua vida pensa nas consequências do que faz. Pensa nas crianças que se beneficiarão da festa de gala. Pensa nos habitantes do Hadley Green, que trabalharam tanto para fabricar os artigos que venderão a favor dessas crianças. Pensa nos homens que agora têm um trabalho graças a sua ideia de reconstruir o moinho e nos arrendatários de Ashwood, cuja subsistência está protegida com você aqui e que sem dúvida, correriam perigo se sua farsa tirasse o chapéu antes que Lily volte para arrumar as coisas. Pensa em Lucy, pensa nos filhos do senhor Scott, que viveram todos esses anos sem um pai e ouvindo chamar ladrão o único que tiveram. Não merecem saber a verdade? Keira deixou os ombros caírem. Fechou os olhos, mas não disse nada. —Não pode esquecer que há muitas pessoas que dependem de você — concluiu ele e tocou seu rosto. Então, ela abriu os olhos e Declan notou que uma corrente poderosa fluía entre os dois. —Muito bem — respondeu Keira suavemente. 249


Ele percebeu a tensão no seu semblante e no gesto do queixo. Jamais acreditou possível, mas se compadecia e sentia um forte desejo de ajudá-la, de protegê-la. Não o pôde evitar: Beijou-a. Keira então fez um pequeno som, como se de alívio e esperança ao mesmo tempo e Declan se levantou, levantando-a com ele, beijando-a com mais paixão. Seu corpo não demorou em responder; o desejo vibrava por dentro apagando todo o resto. Queria saborear sua pele, sentir contra a sua. —Venha à minha casa — disse no seu ouvido, enquanto beijava o pescoço. — Vai esta noite —insistiu, enquanto passava as mãos pelo seu corpo. —Será minha perdição — sussurrou ela, com voz rouca. —Já está perdida, muirnín. Quer viver e ter experiências, não é? Então, venha comigo. —Não — insistiu Keira fracamente. Declan pegou sua mão e a levou na boca para beijar os dedos. —Quer ir... Estou vendo — disse e acariciou o rosto com os nódulos. Ela afastou o rosto de sua mão. —Você vê o que quer ver. —Então, diga o que eu vejo — respondeu e a olhou fixamente nos olhos. — Fale isso. —Ainda não deixei claro? —gemeu Keira. — Lembra aquela tarde na Irlanda? Ele ficou desconcertado. —Você sabe que sim. —Eu gostava de — explicou ela. — Não era tão impetuosa como acredita. Eu gostava e esperava esse momento. Ainda o espero. Ainda espero que você goste de mim, como eu gosto. Declan não soube o que responder a isso. Estava pisando sobre gelo, mas não podia prometer mais do que estava oferecendo. Embora tenha percebido que não era uma grande oferta. Desejava-a, mas Keira tinha que decidir. Pegou rosto entre as mãos. Ela o afastou. 250


—Mas não sou uma cortesã. Possivelmente, este seria um bom momento para me lembrar uma vez mais que, meus atos têm consequências — disse e passou na frente dele para continuar pelo caminho. Que jogasse suas próprias palavras em sua cara doeu. Declan estava começando a entender que, pela primeira vez em sua vida adulta, não tinha sequer ideia do que estava fazendo com uma mulher. Desejava-a, mas o assustava tê-la completamente. Observou-a afastar-se rapidamente, com a cauda balançando-se no meio das costas. Não a chamou. Keira tinha razão... Ele alcançou o topo mais alto da hipocrisia. Sim, mas jamais em sua vida desejou alguém tanto como desejava a aquela mulher irritante. Não sabia absolutamente o que fazer com isso e nunca em sua maldita vida teve algo tão pouco claro. CAPÍTULO 24 O coração de Keira batia como um tambor dentro do peito, enquanto subia correndo os degraus da entrada de Ashwood. Abriu a porta dupla empurrando-a com ambas as mãos, entrou e jogou as luvas de montaria. Declan O’ Conner a estava matando. Matando! Estava acendendo um desejo inimaginável, fazendo-a desejar tudo o que não deveria, ou não podia desejar, insistia que pensasse nas consequências de seus atos, que entendesse que seus feitos tiveram resultados direto e importante na vida de outros. Como se ela não soubesse. Como se não despertasse pensando nisso ou dormisse com essa ideia remoendo por dentro. Olhou-se no espelho que havia sobre o aparador. Era tão ignorante! Declan tinha razão: nunca pensava nas consequências de nada. Não teve há oito anos e não fez ao descer da carruagem em Ashwood pela primeira vez. Havia tantas coisas que jamais pretendeu que acontecessem... —Lady Ashwood, pedi o chá — disse Lucy aparecendo a seu lado. 251


Keira se perguntou quanto tempo estaria a menina ali, enquanto ela ficou ardendo por dentro e não pôde falar. —OH, sim, o chá — respondeu. — Obrigada querida, mas acho que lorde Donnelly não vai entrar. —E agradecia todos os Santos por isso. Não confiava em si mesmo quando se tratava dele. —Para ele não, senhora. Para o senhor Fish e o outro homem. Keira deixou de alisar o cabelo e olhou para Lucy. —O senhor Fish está aqui? A menina assentiu. —Não deveria ter pedido o chá? —Sim, sim, fez muito bem — respondeu ela e colocou uma mão no ombro. — Ainda farei de você uma condessa — disse, o que a fez ganhar um grande sorriso da pequena. — Acho que tem lições, certo? Procure à senhora Thorpe e a verei antes do jantar.

—Sim, senhora — respondeu Lucy, correndo para a escada esculpida pelo senhor Scott. Keira voltou a se olhar no espelho. Notou os lábios de Declan sobre a pele, quase podia ver o rastro de sua boca no rosto. Novamente alisou o cabelo, respirou fundo e foi para o salão verde. O senhor Fish e o senhor Goodwin ficaram em pé, quando Keira entrou na sala. —Senhor Fish — saudou. — Senhor Goodwin, que surpresa. O advogado inclinou a cabeça. —É um prazer vê-la novamente, lady Ashwood. —Obrigada. —Fez um gesto para o sofá. Nesse momento, não estava com humor para falar da visita de Eberlin. — Em seguida trarão o chá — disse um tanto ausente. —Muito obrigado, mas devo retornar a Londres o mais breve possível — respondeu o senhor Goodwin. — Entretanto, tenho notícias que acredito que deve ouvir.

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—Ah, por favor, sente-se senhor Goodwin — disse ela e também se sentou na beira do sofá. —Serei sincero, senhora. Não são muito boas notícias — começou o homem, sentando no assento onde foi indicado. O senhor Fish permaneceu de pé. — Vim a Hadley Green para revisar os registros da paróquia e ver se podia encontrar algo que contradiz o que achei até agora. Infelizmente, minha investigação sugere que o vínculo dos hectares em litígio é justo como explicou o senhor Sibley. Legalmente, devem voltar para proprietário de Tiber Park. Não há nenhuma provisão para que você as herde. A princípio, Keira não disse nada, estava muito aniquilada. Depois, sua mente começou a dar voltas à improbabilidade e as repercussões de tudo aquilo. —Sem dúvida deve estar errado — disse finalmente e se levantou devagar. O senhor Goodwin também se levantou. — Não posso acreditar — acrescentou, parecendo surpreso. — Nunca ouvi nada igual! —Desejaria que não fosse verdade senhora, mas essa é a lei e existem precedentes. Como disse, quero revistar os registros da igreja com a esperança de encontrar algo que possa contradizê-lo, possivelmente uma disposição que tiver sido realizado nos últimos anos, mas não tenho muitas esperanças. Assim, acredito que o melhor seria negociar com os proprietários de Tiber Park. Pelo menos, possivelmente conviria conseguir um acordo que a compensasse de algum jeito pela perda dessas terras. Eu estaria encantado de... —Não, não vou negociar. Disse imediatamente, sem pensar. Não venderia a terra de Lily e menos ainda, para um homem que, por razões que Keira não entendia, procurava arruinar Ashwood. —Senhora, se me permite — interveio o senhor Fish: — agora que conhecemos a verdade legal, por que não tenta conseguir um preço justo pela terra? 253


—Não há preço justo — respondeu ela. — E não nos proporão nenhum, disso estou segura. Conheci lorde Eberlin, senhor Fish. Não concordará com nada. Prefere destruir Ashwood. O administrador parecia perplexo e também um pouco impaciente, pareceu a Keira. —Ele disse algo assim? —Não, mas sei que tenho razão senhor. Há algo muito inquietante e estranho em lorde Eberlin e não negociaria com ele, embora estivesse em liberdade para fazê-lo. —Mas..., mas você está em liberdade de fazê-lo — replicou o senhor Fish. —Não é assim — disse ela em voz baixa. Queria dizer toda a verdade. Mas o que faria o homem sem Lily para confirmar sua história? — Deve confiar em mim, senhor Fish. Este parecia aniquilado. Olhou para Goodwin, enquanto um lacaio aparecia na porta com o serviço do chá. Keira deixou que entrasse o lacaio e depois caminhou para a porta. —Senhor Goodwin, consulte os registros da paróquia, por favor. Espero que encontre algo que nos ajude. Rezarei por isso. Bom dia. E partiu do salão. Pensava a toda velocidade. Não negociaria com lorde Eberlin e não venderia nada para ele. Algo lhe dizia que o melhor seria que insistisse no celeiro, porque Ashwood ia precisar de todos as receitas que este pudesse gerar. Perdido em uma inquietação incomum, Declan passou o resto da tarde em Kitridge Lodge, com uma caneca de cerveja em uma mão e uma pistola na outra, disparando em diversos alvos que tinha colocado na cerca. Seu único acompanhante era o senhor Noakes, quem Declan mandou recolher um dos dois cubos que havia disparado e colocá-lo de volta em cima da cerca.

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—Sem dúvida acha que sou um irlandês louco — comentou com o estoico encarregado, enquanto apontava com um olho fechado. — E tem razão. — Disparou e errou feio. — Mas não porque sou irlandês. Sabiamente, Noakes não o contradisse. Por que Declan não sabia o que estava fazendo. A angústia por Keira, embora a tivesse ganho em pulso, inquietava-o. De algum jeito, queria protegê-la do que estava por vir. Era uma necessidade primitiva pensou. Uma que jamais sentiu antes. E o que significava exatamente, que pensasse e sentisse tudo aquilo por Keira? Não havia duas pessoas mais diferentes que eles. Isso sempre foi assim. Não continuava sendo assim? Keira Hannigan há anos lhe causava problemas. Mas desta vez era diferente. Sentia-a diferente, sabia que era diferente. Mas ainda continuava sendo um problema. Declan não sabia a resposta para suas perguntas. Só desejava que Lily chegasse de uma maldita vez na Inglaterra. Os tiros e a cerveja não serviram para acalmá-lo, assim também passou a noite inquieto. Fez um valente esforço para ler, mas na verdade não era um grande leitor e seus pensamentos, não paravam de interromper as palavras que explicavam a história dos povos nórdicos. Em algum momento, ficou dormiu na cadeira; despertou com o pescoço dolorido quando o livro caiu das mãos. Também culpou Keira por isso. No dia seguinte, depois de trabalhar com os cavalos, pensou em Penny. Não a tinha visto fazia várias semanas e pensou que ela poderia aliviar sua inquietação de uma forma muito prazerosa. Penny se alegrou de vê-lo; sorriu e percorreu a sala para saudá-lo. —Uma cerveja, milord? —Uma cerveja não saciará minha sede — respondeu ele, olhando seus seios. A garota sorriu coquete e se inclinou, colocando os seios a escassos centímetros do seu rosto. —Há um quarto vazio no final do corredor — disse em voz baixa. Declan sorriu. 255


—Traga a cerveja — pediu e abriu passo entre as lotadas mesas e cadeiras, até chegar à escada. Quinze minutos depois, quando Penny apareceu com dois canecos, Declan estava sentado na frente da mesa, com os pés apoiados em outra cadeira. Convidou a jovem para sentar-se com ele. Ela o olhou com curiosidade, mas sentou alegremente. —Que bom descansar um pouco — suspirou. Olhou para ele e depois para à cama a espera. Declan sorriu para sua antiga amante. Havia se precipitado indo ali; deveria saber que não sentiria nenhum desejo de deitar-se com ela. Na verdade, a única coisa que sentia por Penny era um certo carinho amistoso. Todos seus pensamentos estavam em uma diabinha de cabelos negros e olhos verdes. —Como está seu irmão? — perguntou, enquanto bebia a cerveja. —Meu irmão? —James? —Johnny, quer dizer. OH, voltou a ir, milord. Não passou nem duas semanas na casa de minha mãe, antes de voltar a partir. —Entrelaçou os dedos atrás da cabeça e se esticou. — Esse sempre está de um lado a outro. Quando era pequeno, eu cuidava dele e sempre tinha que ir atrás dele e arrastá-lo para casa. Parecia queria sempre escapar. Declan conhecia essa sensação. Sempre teve desde quando era jovem. Quando seu pai morreu e ele herdou o condado. Nunca desejou essa responsabilidade, nem ter que estar preso a Ballynaheath por toda sua vida. Mesmo agora, tinha medo que não lhe permitissem ficar fora da Irlanda por muito tempo. —Na verdade, essa é sua forma de viver — disse Penny. — Não é feliz se não estiver vendo mundo ou algo novo todos os dias. Declan o entendia melhor que ninguém. —Você sempre viveu em Hadley Green? —perguntou à garota por curiosidade. —Minha mãe antes que eu nascesse e sua mãe antes dela — respondeu Penny com orgulho. 256


De repente, Declan teve uma ideia. Inclinou-se para a moça. —Então, estava aqui quando enforcaram o senhor Scott. —OH, sim, claro que estava — respondeu Penny. — Era só uma menina, obviamente, mas foi um grande acontecimento. Papai sim viu como o enforcaram e trouxe para todos um bolo. Vendiam perto da forca. —E o que diziam dele? Do senhor Scott? A garota deu de ombros. —Que era um maldito ladrão — respondeu sem vacilar e começou a massagear um joelho. — Roubou as joias da condessa. —Acusaram disso sim, mas as joias nunca foram encontradas. —Bom, dizem que as enterrou em alguma parte por aqui. — Soltou uma risadinha. — Johnny e eu furamos a metade de Sussex procurando por elas. —Alguma vez pensou na possibilidade de que fosse inocente? — perguntou Declan. —Deus, não! —respondeu Penny. — Bom, Louis sim pensa, mas Louis também não era mais que uma criança. O que sabe dele? —Louis? Ela sorriu com certa vergonha. —Um lacaio de Ashwood. Vem aqui de vez em quando. Por acaso... pensou que só suspirava por você, milord? — brincou. Declan sorriu. —E o que contou Louis para você? —OH, não lembro muito bem — respondeu a garota, tirando a importância com um gesto. — Só que seu pobre tio caiu sobre sua forca por isso. «Que pobre tio?» Deixou sua caneca de cerveja. —A que se refere? —Não sei exatamente, milord. Louis disse uma vez que um tipo de Ashwood havia morrido por falar muito. Não lembro o que disse mais. Ele e eu não estávamos precisamente conversando. Um servente de Ashwood tinha a resposta que estavam procurando por todo esse tempo. Como nem Linford ou a senhora Thorpe quiseram falar, supôs que ninguém falaria. —Isto é importante, Penny. Por que Louis contou isso para você? 257


—OH, foi só uma tolice — respondeu ela. — Estávamos brincando sobre escavar procurando essas malditas joias. Por aqui todos procuraram, sonhando tornarem-se ricos. Louis comentou que o único homem em Ashwood, que disse que não acreditava que o senhor Scott fosse culpado, o encontraram um dia com seu tridente cravado no peito. Dizem que teve uma queda feia. Declan ficou em pé de repente. —Aonde vai, milord? —Devo falar com Louis — respondeu ele e pegou sua bolsa de moedas. — Ainda é lacaio em Ashwood? —Sim, mas falar com Louis? Sobre aquele ancião? —Penny soprou. — Isso aconteceu faz muito tempo. Venha aqui agora. Tenho algo que vai gostar mais do que isso. Declan deixou algumas moedas sobre a mesa, inclinou-se e beijou a garota na cabeça. —Muito obrigado, Penny. Sempre sabe o que dizer. — Piscou um dos olhos, enquanto cruzava a porta. —Veja se isso não é o cúmulo — exclamou ela; pegou as moedas e as guardou no sutiã.

Em Ashwood, Linford abriu a porta para Declan. —Sua senhoria está tomando chá com as damas da sociedade, milord — disse o mordomo depois de inclinar sua branca cabeça. — Devo informá-la de sua chegada? —Na verdade, eu gostaria de falar primeiro com Louis. Ele está por aqui? —Louis? — repetiu Linford, enquanto franzia um pouco a testa. — Posso perguntar milord, se Louis fez algo que o tenha ofendido? —Absolutamente. Mas acho que ele pode ter a resposta a uma pergunta que dá volta em minha cabeça. —Possivelmente eu também poderia responder-lhe, se ofereceu o homem. 258


—Acredito que não, Linford. É Louis quem preciso ver. O mordomo parecia não gostar muito da ideia, mas de todas as formas assentiu em direção a Declan. —Se for amável em esperar na sala de recepção, milord... —Obrigado — respondeu ele e passou ao lado do ancião servente. Só precisou esperar alguns minutos, antes de Louis entrar com uma expressão preocupada. Devia ser da idade de Declan, por isso teria dezesseis ou dezessete anos, quando enforcaram o senhor Scott. O olhar do lacaio ia de um lado a outro da sala, quase como se esperasse que alguém saltasse sobre ele. —Milord? Declan passou por seu lado e fechou a porta; depois voltou-se para ele. Louis parecia muito nervoso. —Isso será breve, senhor — disse Declan. — O que você sabe sobre a morte do senhor Scott? O lacaio o olhou sem compreender. —Milord? —O senhor Scott. O senhor Joseph Scott. Enforcaram ele há quinze anos por roubar as joias da condessa. Louis ficou pálido e olhou para a porta. —Nada, milord. Juro por minha honra, que nada. Eu era apenas um moço, ignorante de muitas coisas. Peço que me perdoe, mas agora estou servindo à condessa. — Tentou chegar à porta, mas cortou seu passo. —Olhe, não quero causar problemas para você, mas acredito que enforcaram um homem inocente por esse delito. —Eu não sei nada sobre isso — insistiu o outro e tentou se esquivar de Declan. Nessa vez, ele o parou colocando a mão no seu peito e empurrando-o. —Estou certo, que não sou o único que acredita em sua inocência, Louis. Parece que muitos mais pensam o mesmo. Mas infelizmente, em Hadley Green as lembranças não duram, assim quando Penny me disse que você compartilhava do meu cepticismo, pensei que deveríamos conversar um pouco. Só quero saber por que você acha que era inocente. 259


Louis olhou para a mão de Declan sobre seu peito. —Por favor, senhor. Estou em Ashwood há dezoito anos. Se perder meu trabalho, não terei para onde ir. Minha mãe é anciã, está doente e depende de mim. Ele afastou a mão. —Não perderá seu trabalho, dou minha palavra. E se isso acontecer, pessoalmente me encarregarei de encontrar outro trabalho. Conte para mim o que sabe. —Nada — repetiu o lacaio. — Deus é testemunha de que eu não sei nada. —Para Penny disse outra coisa. Louis se ruborizou e abaixou a cabeça. —Penny deveria ter ficado de boca fechada — resmungou. —Conte-me insistiu nisso Declan. O homem suspirou resignado e fez um gesto de impotência com a mão. —Ninguém aqui acreditava que o senhor Scott tivesse roubado as joias. E..., e o senhor Caufield tentou dizer ao velho conde das suas boas maneiras e que não tinha sido o senhor Scott, que ele o tinha visto com lady Ashwood nos jardins mais de uma vez, mas depois, o senhor Caufield... encontraram ele com um tridente cravado no peito. E depois disso, ninguém disse mais que acreditava que o senhor Scott fosse inocente. Enquanto Declan escutava Louis, o assunto parecia muito simples. A condessa teve uma aventura e quando o conde descobriu, castigou o pobre homem, acusando ele de roubo. Mas assassinato? —E o que o faz acreditar que a morte do senhor Caufield não fosse um trágico acidente? O lacaio grunhiu e voltou a olhar para a porta. —Milord, você sabe tão bem como eu, que quando um homem foi encarregado dos estábulos por toda sua vida, não deixa um tridente jogado por aí e muito menos tropeça e cai sobre ele, certo? «Deus do céu.»

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—Se o que diz for verdade então, por que a condessa não salvou esse homem de uma falsa acusação? Por que esteve ausente do julgamento ou, pelo menos, não mostrou as joias para demonstrar sua inocência? Louis deu de ombros. —Dizem que o conde a ameaçou — respondeu. — Os senhores tiveram uma terrível briga na noite em que as joias desapareceram. Inclusive as criadas puderam ouvi-la, três andares abaixo. —Ameaçou-a? Com o que? —perguntou Declan e tentou imaginar que tipo de ameaça evitaria que uma mulher salvasse seu amante da forca. —Não sei milord — respondeu Louis, negando com a cabeça. — Faz muito tempo. Fosse o que fosse já era muito tarde para o senhor Scott. Lembro-a dizendo isso mesmo ao capitão Corbett, na manhã em que mandou à senhorita Boudine para a Irlanda. Ouvi-a dizer-lhe no caminho, enquanto eu ajudava à menina a subir à carruagem. Nunca esquecerei, porque gelou meus ossos. Assombrado, Declan olhou para Louis. Althea Kent sabia. Sabia que Scott foi acusado injustamente e não interferiu. Teria se suicidado pelo peso da culpa? —Onde posso encontrar o capitão Corbett? —Isso senhor, não posso dizer. Era amigo de lady Ashwood e vinha de Londres para levar a menina. Sempre vinha de Londres. Sei por que alugava uma carruagem de lá para que o trouxesse. Declan assentiu. Pegou sua bolsa e tirou uma moeda para dar ao lacaio. —Você foi de grande ajuda. Vacilante, Louis pegou a moeda e o olhou. —Tenho sua palavra milord, que não perderei meu trabalho? —Tem minha palavra — assegurou Declan e o outro colocou a moeda no colete. — Agora, se puder fazer a gentileza de dizer à condessa que vim... —Sim, milord. —dirigiu-se à porta.

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—Só mais uma pergunta — o deteve Declan antes que pudesse abri-la. — Por que lady Ashwood mandou à senhorita Boudine para a Irlanda? Louis deu de ombros. —Não sei dizer milord. Suponho que a menina sabia muito sobre a condessa e seus amantes. Possivelmente possa perguntar a ela, não é?

CAPÍTULO 25 Keira se alarmou um pouco, quando Louis sussurrou ao ouvido que o conde de Donnelly estava esperando para vê-la. Assentiu e sorriu para lady Horncastle, que estava sentada em frente dela e falava excitada da ideia de emparelhar Keira com o filho mais jovem de lady Darlington. —Ganha quinze mil libras ao ano, no mínimo — disse a mulher do seu assento na mesa do terraço, onde estavam tomando o chá. Abaixo delas, no jardim, começaram a trabalhar para erguer as tendas da festa de gala, pois só faltavam quatro dias. — Entre os que sabem dessas coisas, o consideram um grande partido — afirmou, enquanto olhava para o grupo, que incluía à senhora Morton, senhora Ogle e a senhorita Babcock. — É um grande elogio para você o tê-lo tão interessado, lady Ashwood. —O único interesse que recebo é o de sua mãe — respondeu Keira secamente. —Mas querida, é assim que acontecem as coisas — insistiu lady Horncastle, enquanto levantava a xícara para que um lacaio a servisse mais chá. — Os cavalheiros falam com suas mães, que planejam as apresentações. —O senhor Sibley não depende de sua mãe — observou à senhora Morton. 262


—Nem o senhor Anders — acrescentou a senhorita Babcock. —Por favor! —exclamou lady Horncastle com toda a exasperação de quem é contrariada. — Nenhuma de vocês entende tanto como eu, como essas coisas acontecem entre as pessoas da nobreza! Keira não estava muito certa que lady Horncastle entendesse alguma coisa. Não podia imaginar Declan recorrendo a sua avó para ser apresentado a alguém. Mas supôs que as mulheres a procuravam para serem apresentadas a ele. —Achei ter entendido que o filho de lady Darlington, estava prometido para casar-se com uma debutante — disse a senhora Morton. —Desculpem senhoras — a interrompeu Keira com educação. — Há um pequeno assunto que requer minha atenção. As damas ficaram de pé imediatamente. —Você se refere a lorde Merrick, o segundo filho — respondeu lady Horncastle à senhora Morton, enquanto Keira se afastava e elas voltavam a sentar-se. — A uma debutante da Escócia, veja você! Ouvi dizer que no norte não se importam se não banhar-se... Com Louis pisando em seus calcanhares, Keira se apressou para ir à sala de recepção. O lacaio abriu a porta e ela viu Declan na janela, olhando para fora. Ficava maravilhada sempre que o via, deixando-a sem fôlego. Estava tão bonito, ali de pé, com o escuro cabelo roçando o pescoço da jaqueta, que se ajustava tão bem nos ombros... Declan se virou quando ela entrou e sorriu da maneira mais terna, como se estivesse feliz de vê-la, derretendo o coração de Keira. Ouviu Louis fechando a porta. —As damas da Sociedade estão aqui. —Deus santo, não, as damas da Sociedade! —exclamou ele fingido horror. —Pelo amor de Deus, Declan, estão procurando pretendentes por toda parte, e se verem você aqui, todas sofrerão um ataque de histeria matrimonial. Ele começou a rir. 263


—Não é absolutamente divertido — replicou Keira, enquanto entrava mais na sala. — Não tem nem ideia do quanto é difícil suportar seus constantes cuidados, enquanto finjo ser quem não sou. Mas devo voltar antes que comecem a perguntar-se para onde fui. Por que veio? —Para vê-la. Para ela, outro pedaço do seu coração derreteu como manteiga e sorriu um pouco. —Não sorria assim para mim, moça. Não sou um desses seus pretendentes que a olham com olhos de cordeiro abatido. Keira sorriu ainda mais. —Pensei muitas coisas de você, milord..., mas nunca que fosse um pretendente com olhos de cordeiro abatido — disse suavemente. Olharam-se durante um longo momento. Declan baixou o olhar para os lábios dela, e ela começou a sentir que fervia o sangue. —Se sua intenção não é me cortejar, o que traz você aqui hoje? — perguntou. —Tenho notícias — respondeu ele. — Acho que poderei demonstrar que o senhor Scott é inocente se falar com o capitão Corbett. Logo poderemos nos dedicar a procurar as joias, que se minhas hipóteses forem corretas, certamente estarão nessa casa. Keira piscou surpresa. —Como? Aqui? Declan explicou o que tinha averiguado. Ela escutou atenta e em silêncio foi se deixando cair em uma cadeira, enquanto tentava absorver toda a informação. Podia imaginar uma noite chuvosa. Lily vendo tia Althea e o senhor Scott juntos. O senhor Scott escapando antes que os descobrissem..., mas sem as joias. Joseph Scott perdeu a vida por Althea. Sua família tinha perdido o marido e um pai devido sua aventura ilícita com ela. O senhor Caufield também tinha perdido a vida. E Lily... Sem saber, Lily colocou a roda em movimento. Como poderia suportar?

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—Lembra-se do capitão Corbett? — perguntou Declan. — Foi o homem que acompanhou a Lily para a Irlanda. Keira ainda estava tentando assimilar suas palavras. Era como se tudo em Ashwood estivesse suspenso em leves teias de aranhas, tão leve que com um pequeno movimento de um dedo, pudesse fazer tudo cair. Começou a negar com a cabeça. Não se lembrava de Corbett..., mas de repente veio à mente a imagem de um homem de tórax grande, com uma cartola, ajudando Lily a descer da carruagem. Sim se lembrava; ficou lá um dia ou dois antes de retornar a Inglaterra. Era um homem jovial, com riso sustentado e estrondoso. —Sim, claro, o capitão Corbett. De repente, Declan estava do seu lado. —Se falarmos com ele, vamos ter o que precisamos para limpar o nome do senhor Scott. «As joias, as joias...» —Se as joias estiverem realmente em Ashwood, então não terei que me preocupar que lorde Eberlin roube a terra de Lily. Poderiam ser a segurança que necessita. —Sim. Teve notícias dela? —Espero todos os dias — respondeu Keira. — Disse que retornaria em três meses e o prazo já passou. Mas Declan, como vamos encontrar o capitão Corbett? Não sabemos onde vive. —Como diz Louis, certamente está em Londres. Poderia ir, procurá-lo e retornar em um ou dois dias. —Não pode ir agora. A festa de gala é dentro de quatro dias. —Voltarei a tempo — respondeu ele, impaciente. Olhava-a fixamente, com seus olhos de um azul insondável e Keira não era capaz de imaginar que ideias escondiam. — Partirei no amanhecer. Não posso ficar aqui sentado, sem fazer nada, sabendo o que sei sobre o senhor Scott e sem tentar fazer algo para limpar seu nome. —Mas como encontrará o capitão Corbett? —perguntou Keira novamente. 265


—Perguntarei. Vou procurá-lo nos lugares que está acostumado a frequentar pessoas de seu trabalho. —Percorreu-a com o olhar. — Agora devo partir — acrescentou. — Se pretendo partir, tenho que fazer muitas coisas ainda. —Olhou-a de novo nos olhos como se fosse dizer algo mais, mas apertou os lábios e caminhou para a porta. Uma vez ali, parou e se virou para observá-la. — Retornarei assim que possa. Keira ficou cravada no lugar, contemplando o lugar por onde ele acabava de sair. Tinha medo de ficar sozinha quando Lily chegasse e todos se inteirassem de sua farsa. Deus, desde que montou sua farsa; já não era a mesma pessoa. Segurou-se no respaldo de uma cadeira e afundou os dedos no estofado de seda ao notar que falhavam suas pernas. Não queria nada do que assumiu: o nome, título e aquela formosa casa. Se pudesse, partiria naquele mesmo momento; voltaria para seu lar, onde se deitaria e sonharia com o homem e a vida que jamais poderia ter. «Pelo Santo Deus, onde estará Lily?» O som fraco de umas risadas femininas chegou a ela de longe. Keira engoliu a saliva e depois se obrigou a mexer-se para reunir-se novamente com as damas. O dia passou muito depressa. Keira passeou pelo jardim com o senhor Fish, examinando as estruturas que os jardineiros estavam construindo para a festa de gala. Sorriu e assentiu com a cabeça; disse sim a várias coisas, e depois se perguntou por que tinha concordado. Tinha que pensar; e mais, necessitava desesperadamente escapar e pensar. Como poderia procurar as joias sem chamar a atenção? Não importava muito; não tinha tempo para isso, com tanto que precisava fazer. Até uma hora depois de jantar, quando Keira estava tocando o piano e Lucy praticava sua caligrafia, não pôde pensar no assunto. Perguntou-se onde esconderia algumas joias naquela casa. 266


A metade de uma peça que gostava especialmente, uma que a fazia pensar na Irlanda, em colinas verdes, altos escarpados e o mar enfurecido, parou de repente. Lucy levantou o olhar de sua tarefa. Keira se levantou do tamborete e ficou de joelhos. —Senhora? —perguntou a menina, enquanto largava o quadro e o giz. Deu a volta no tamborete e passou os dedos pela inscrição. «É a canção que interpreta meu coração; para A, meu amor, minha vida, a única nota de meu coração. Teu por toda a eternidade, J. S.» As lágrimas turvaram sua visão ao imaginar o meticuloso esforço de gravar aquilo no tamborete para a mulher que amava. —Acontece algo? —perguntou Lucy. Keira colocou o tamborete de barriga para cima, pegou à menina pela mão e a fez sentar-se nele. —Lucy querida, há algo que quero que lembre sempre — disse. — Terá que defender a verdade, por muito incômodo que isso possa ser. A pequena parecia confusa. —Prometa-me que, embora não lembre mais nada de mim, nunca esquecerá que algo que fiz, fiz por amor. Fará isso? Lucy afogou um grito. —Você vai morrer? Keira riu e abraçou à menina.

—Não, querida! Pelo menos não hoje. —afastou-se e a segurou pelos ombros. — Quero que lembre isso, de acordo? Agora vai terminar sua tarefa. Tenho que falar com a senhora Thorpe. Uma perplexa Lucy desceu do tamborete voltando para o quadro e olhando a Keira. Esta sorriu tão alegre como pôde. —É isso um olhar de preocupação, moça? Não se preocupe! Não acontece nada! Se Lucy sabia que mentia, não demonstrou.

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Keira encontrou à senhora Thorpe nos armazéns, revisando a roupa branca lavada. —Senhora! —exclamou a governanta e em seguida deixou o papel e o lápis. — Chamou? Não ouvi o sino... —Não, não chamei — respondeu ela e distraída, passou os dedos por uma pilha de lençóis dobrados. — Peço que me desculpe senhora Thorpe, mas se for possível, eu gostaria de perguntar uma coisa. —Naturalmente — respondeu a mulher, como se fosse pedir um favor que não queria conceder. —Lembra-se do capitão Corbett? — perguntou Keira com acanhamento. — Que me levou a Irlanda. —Lembro-me muito bem, senhora — respondeu à senhora Thorpe, estoica. — Era amigo de sua senhora tia. —Um bom amigo — respondeu ela, esperando que fosse certo. — Estava me perguntando... O que será que lhe aconteceu? —O que lhe aconteceu? Nada que eu saiba. —E por acaso sabe onde ele vive? A governanta levou as mãos para o peito. —Não saberia dizer, lady Ashwood. Suponho que continua em Londres, mas não tenho nenhum contato com o capitão Corbett. —Estava acostumado a visitar Ashwood com frequência? Por um momento, a senhora Thorpe não disse nada. —Sem dúvida, você deve lembrar lady Ashwood. Não se lembra das longas horas que passavam jogando xadrez? Acho que foi ele quem a ensinou a jogar. Xadrez? Keira não lembrava ter visto nenhuma só vez Lily jogando xadrez! —Claro que sim — mentiu — e por isso eu gostaria de ter certeza que goza de boa saúde. Mas não tenho a mínima ideia de onde procurá-lo. A senhora Thorpe a olhou com astúcia e, por um momento, Keira teve medo que estivesse descoberto à verdade. —Suponho que continua vivendo em Cheapside — respondeu finalmente. — Pelo menos, alguém por ali certamente saberá o que aconteceu com ele. —Cheapside — repetiu Keira. 268


—Sim, senhora, Cheapside é o que lembro. Algo mais? — A mulher voltou a pegar o lápis e o papel. —Sim. Tenho estou muito ocupada. Por favor, encarregue-se de que Lucy termine suas lições. A senhora Thorpe se esticou de forma quase imperceptível. —Como deseja — respondeu um pouco seca. Keira não podia culpá-la pela resposta. A mulher não queria ter a responsabilidade pela menina, além de todas suas outras responsabilidades. Pobre Lucy! O que seria dela se descobrissem Keira? Devia planejar algo o mais breve possível para protegê-la. E agora, nesse exato momento. Porque a noite iria a Kitridge Lodge dizer a Declan que o procurasse em Cheapside. Tinha que ser nessa noite, porque Keira tinha tomado uma decisão. Embargava a forte sensação de que seu mundo logo iria desaparecer.

CAPÍTULO 26 O som de alguém batendo na porta se ouviu pela escada, passou pelo corredor e entrou na suíte de Declan, onde este se preparava para deitar. Naquela hora? —Maldito seja — resmungou. Os golpes continuaram, enquanto ele vestia as calças e uma camisa. Desceu a escada e passava os dedos pelo cabelo. Olhou para o 269


relógio no suporte, dez em ponto. Mentalmente, revisou o que jogou ultimamente e decidiu que não tinha dívidas pendentes. Entretanto, pegou uma pistola e, com ela na mão, foi até a porta principal, onde os golpes começaram de novo. —Maldito seja, já ouvi! — gritou e abriu de repente. Piscou diante a graciosa flor que apontava diretamente. Debaixo dessa e do masculino chapéu de montar no qual estava preso, encontrava-se Keira. Estava com traje de montar e batia com o chicote na saia. Ela olhou para a pistola e depois para ele. —Esperava alguém? —Não esperava ninguém absolutamente. — Declan apoiou o braço no marco da porta. — Que diabos está fazendo aqui nessa hora? Cavalgas a noite? — perguntou, olhando atrás dela. —Faz lua cheia — respondeu Keira e tocou a perna com a ponta do chicote. — Vim para dizer que o capitão Corbett residia em Cheapside naquele tempo. E também... que tinha razão. —Deslizou o olhar até o pescoço aberto de sua camisa. —Não precisava fazer todo esse trajeto para me dizer algo tão obvio, mas agora que teve todo esse trabalho, poderia esclarecer no que eu tenho razão dessa vez. Ela suspirou. —Em que... tenho um pouco de medo — admitiu. —Muito bem. —Olhou-a de cima abaixo como se não importasse. — E do que tem medo exatamente? —Parece que é evidente — respondeu ela, voltando a bater brandamente com o chicote. Declan a segurou. —Nada é evidente quando tem a ver com você, Keira Hannigan. Do que tem medo? —De você — sussurrou e o olhou com aqueles olhos verdes. Ele notou que algo mexia por dentro, a absoluta necessidade de estar com aquela mulher de maneira mais íntima. Sorriu meio de lado. —Sou a última pessoa que deveria ter medo. Se até poderia me convencer para que matasse dragões. — Soltou seu chicote e pegou Keira 270


pela mão. — Não tem nada para temer de mim — disse e puxou ela para que cruzasse a soleira. — Ao contrário. — Fechou a porta com o pé e deixou a pistola em um aparador. — Sou eu quem deveria ter medo de você. —Eu? — riu Keira. Declan jogou a vara no chão. —De você, sem dúvida — respondeu ele; pegando-a pela cintura e estreitando em seu peito. Beijou-a antes que ela pudesse dizer alguma coisa, beijou antes de permitir que seu medo de aproximar-se muito do amor pudesse convencê-lo do contrário. — Mas você nunca deve me temer — acrescentou e beijou seu pescoço, enquanto tirava o chapéu e o jogava em uma cadeira. Tirou um prendedor do cabelo, depois outro e foi deixando cair, enquanto a empurrava para o primeiro degrau da escada curvada. —Se quer ter medo — sussurrou ao ouvido, — tenha medo do aborrecimento. — Beijou-a no rosto, na boca. Keira não resistiu; rodeou seu pescoço com os braços e inclinou a cabeça para um lado, enquanto ele soltava o cabelo sobre os ombros. Declan a guiou pela escada, com uma mão nas costas. —Tenha medo das convenções — continuou ele e com a mão livre, tirou-lhe as luvas e jogo-as nos degraus enquanto subiam. No alto da escada, colocou-a contra a parede e desabotoou os botões da sua jaqueta de montaria. —Tenha medo das regras da sociedade — disse em voz baixa, enquanto abaixava a jaqueta pelos ombros. — Tenha medo dos ingleses, tenha medo das crianças com varas, tenha medo dos cavalos verdes — acrescentou por acaso, desabotoando os botões da blusa e tirando a saia. Abriu a blusa e cobriu seus seios por cima da regata, apertando e acalmando sua respiração. — Tenha medo de tudo isso... mas nunca tenha medo de mim.

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Ela separou os lábios, Declan a apertou contra ele, levantou-a do chão e a levou para o quarto. Parou para fechar a porta em suas costas. Depositou Keira na cama e depois colocou um joelho no chão e a mão por dentro de sua saia para acariciar a panturrilha. Olhou-a para os brilhantes olhos. —Isso só acontecerá se você quiser Keira. Não deve acontecer por nenhum outro motivo, concorda? —Sim — sussurrou ela, quando ele subiu com a mão pela perna. Com essa palavra, dita em voz tão baixa, tão libertadora, foi a perdição de Declan. Sem dúvida, Keira era sua mulher ideal. Era irlandesa, ousada e surpreendentemente tentadora. Olhou-a nos olhos enquanto tirava uma bota e a meia. Ela o observava quase com curiosidade ele tirando a segunda bota e meia, subindo a mão até o joelho antes de soltar as fitas da regata. Declan contemplou as extremidades de seda abrir-se; depois, com cuidado, afastou o tecido e olhou admirado para aqueles seios firmes e pequenos. Nunca sentiu uma atração tão forte por uma mulher, nunca esteve tão ardentemente excitado como nesse momento. Ele ficou em pé e diante ela com um joelho na cama e com uma mão, forço-a a inclinar-se para trás. Colocou-se escarranchado em cima de Keira e a contemplou. — Ta tu go haliann — sussurrou, para dizer que era formosa na língua que só tinha significado para eles, naquele dormitório do povoado inglês. Ela sorriu por um momento, com uma suave sedução, um sorriso que fez com que Declan lutasse contra seu próprio desejo selvagem, antes mesmo que tudo começasse. Seus lábios se moviam contra os seus como a água. Suas carícias eram suaves, mas denotavam uma terna ansiedade, provocando em Declan pequenos calafrios em cada ponto que a tocava. Colocou a língua na sua boca e Keira suspirou de intenso prazer. Esse som o incitou, rasgando o véu de sua consciência levando diretamente para sua virilha. 272


Ele rolou para um lado, levando-a com ele e procurando o fechamento da saia. Depois de tirar, deitou de costas e a guiou para que ficasse montada em cima dele para assim poder tirar também a regata. Keira o excitava; ela não fez qualquer som estranho quando levantou os braços e não se afastou quando lhe tirou a regata pela cabeça. Continuou sentada sobre sua virilha, onde a força do desejo de Declan era evidente. Keira já estava nua diante a ele, com seus mamilos escuros e eretos contrastando com o branco de sua pele, o abdômen plano e estreito, o pescoço comprido e elegante. Cachos negros, espessos e sedosos, caíam em cima dos ombros, e seus olhos, aqueles olhos irlandeses, brilhavam sobre ele. Era quase incompreensível, poder sentir um desejo assim por aquela mulher, justo por ela. Cobriu os seios com as mãos e se aproximou para levar um à boca. Keira puxou e ele ajudou ela tirar a camisa, acariciou o peito de Declan lambeu os mamilos; com cada carícia, sentia que se aproximava a beira da loucura. Ela beliscou os mamilos, avivando seu fogo, enquanto ele enchia seu rosto de beijos. De repente, Declan ficou em pé, observando-a enquanto tirava as calças. Keira abriu os lábios ao ver sua ereção, mas não mostrou nenhuma rejeição pudica, nem afastou o olhar por timidez. Ela não tinha medo, contrariando mais, qualquer mulher que tivesse conhecido e só isso, já o fazia amá-la. Declan percebeu que era isso, o que o fez tão inquieto ultimamente. Entendeu nesse momento, ao notar o sentimento que o percorria por dentro: amava-a. Pela primeira vez em sua vida, sabia o que era isso, que sentia amor de verdade por uma mulher. Deitou-se com cuidado em cima dela e começou o assalto de sua pele e seus sentidos. Sua ânsia palpitava sem parar, crescendo, pressionando-o, procurando uma via de escapamento. Acariciou Keira com as mãos e com a boca, colocou a mão entre suas pernas e notou o úmido 273


calor que havia entre elas, o pulsar de seu corpo no vale de seu sexo. Foi beijando com mais urgência, afundando mais os dedos, procurando suas profundidades, enquanto Keira respondia com gemidos guturais de profundo prazer. Declan a agarrou pelos quadris e se inclinou. Queria saborear sua umidade e afundou a cabeça entre suas pernas. Ela soltou um grito reprimido e se mexeu debaixo dele, Declan a segurou com firmeza; Keira enroscou os dedos em seu cabelo, enquanto a lambia, afundando a língua, girando-a ao redor do seu clitóris. —Declan — exclamou ela com voz profunda e rouca. — Santo Deus, o que está fazendo? Ele não sabia se era realmente uma pergunta. Keira estava completamente perdida em um mar desejos, flutuando debaixo de Declan, estremecendo-se com cada carícia. Nunca pensou que aquilo pudesse ser tão prazeroso e decadente ao mesmo tempo. Sentia-se fora de seu corpo, arrastada em um mar de desejo e de prazer, ardente sob a superfície. —Você faz sentir-me desesperada — disse, pegando-o pelos cabelos. — Acho que poderia morrer. Ele gemeu e chupou sua pele. A sensação era arrebatadora. Keira se sentiu cair e voar ao mesmo tempo, com um orgasmo tão violento que estremeceu. Ainda estava sentindo, quando Declan se colocou entre suas pernas e apoiando a palma da mão na coxa a levantou. —Não posso tocar você assim, sem tê-la por completo. A fome que sentia dela era evidente em seus olhos, no gesto de sua boca e por sua ofegante respiração. Keira respondeu arqueando as costas para ele e pressionando seus seios em suas mãos. Declan soltou um grunhido quase animal, acariciou-lhe o cabelo e o rosto, enquanto se encaixava melhor entre suas pernas. Ela notou a ereção dele em sua úmida vagina e percebeu em seguida seu pênis ajustando-se e abrindo caminho, quando empurrou com cuidado. 274


Declan puxou com o polegar um mamilo dos seios e Keira sentiu como se o corpo ardesse por dentro. Quando beijou seus seios e acariciou o mamilo com a língua, ela cravou os dedos em seus ombros e apertou com força. Fechou os olhos, sentindo-se flutuar novamente, perdida em muitas sensações eróticas. —Você está radiante — disse ele beijando seu ombro. — Linda. Ele pressionou um pouco mais e começou a penetrá-la lento e suavemente; parou quando sentiu o hímen, beijou-a com ternura antes de empurrar. Keira afogou um grito diante a sensação tê-lo tão dentro dela, mesclada com a dor. Deixou cair às pernas para os lados quando Declan começou a mover-se. Ele a penetrou com um gutural gemido de prazer. Escondeu o rosto entre seus seios, enlaçou os dedos com os dela, apertando sua mão enquanto se movia lento e com cuidado. Keira sentiu uma grande ternura por Declan, mas também ansiedade. Era muito suave, muito cuidadoso. Suas defesas, seu senso de decoro, seus medos, tudo caiu em pedaços assim que ele a penetrou já o queria completamente. Começou a mexer-se esperando senti-lo mais dentro, com mais intensidade, notou como se desmoronava por dentro tornando-se parte de seu corpo. —Keira — murmurou Declan ofegante, quando ela ofereceu seus seios a sua boca e se moveu ao ritmo dele. Com um gemido, segurou-a pelas costas e a levantou começando a mover-se com mais energia. Keira se arqueou, ao notar que seu corpo por dentro estava se preparando para outra explosão. Declan acoplou ainda mais seu corpo; suas estocadas e seu ritmo ficaram mais lentos e penetrantes. Depois começou a mover-se com a urgência que ambos sentiam, chegando até o mais fundo. Keira se esforçou para sair a seu encontro e achar de novo o alívio. Declan já tinha passado o ponto das estocadas suaves e ternas, estava nadando em uma corrente que os dois tinham criado, arrastados pelas águas rápidas do desejo. 275


E então começou a acariciá-la, movendo os dedos sobre seus clitóris, enquanto lançava-se dentro dela. Ela alcançou o orgasmo com um longo estremecimento. Gritou, agarrou os lençóis e se arqueou sentindo as convulsões dele dentro dela. Um momento depois, sentiu o fôlego quente de Declan no pescoço, o batimento do seu coração contra o peito. Tinha os dedos enredados nos cabelos dela, a palma da mão em seu rosto. A experiência foi libertadora. O coração de Keira estava livre, sua imaginação voou. Sentia-se flutuando por cima do mundo, por cima de seus erros. A única coisa queria era sentir era o forte corpo de Declan a seu lado, maravilhar-se com a forma que aquele homem podia dominar sua força e fazê-la voar como uma pipa, sem medo algum. Percebeu um laço com ele que nunca poderia se quebrar, nem por causa do tempo, ou por nenhum outro ser. Moveu-lhe o braço para ficar frente a frente. Declan afastou o cabelo do seu rosto. Tinha um sorriso na boca quando se acomodou sobre suas costas e Keira se apoiou nele. —Você parece um gatinho que se fartou de leite — disse ele, acariciando suas costas. — Você está bem? — perguntou com voz mais doce. —Perfeitamente — respondeu ela e apoiou o queixo em seu peito. Declan acariciou o rosto dela. —Por acaso você não visitou a viúva Cleeney. —À viúva Cleeney! — exclamou Keira, rindo. A viúva Cleeney vivia sozinha nos bosques entre Ballynaheath e Lisdoon. Tinha algumas cabras e um casal de cães irlandeses bravos, que mantinham longe à maioria dos desconhecidos e era curandeira. —Sim, a viúva Cleeney — insistiu ele, olhando-a desconfiado. — Meu pai me disse uma vez que a viúva não tinha escrúpulos em usar magia negra em suas poções e que se morresse nesse momento, não me sentiria nenhum pouco enfeitiçado. Ela riu e o beijou no peito. 276


—Sim, sim, ri tudo o que quiser — soprou Declan. — Aqui está quente e confortável em minha cama, quando eu deveria colocá-la em seu cavalo e mandá-la para casa. Mas me sinto totalmente enfeitiçado e escravo de suas maquinações. —Bem — respondeu Keira mordendo um mamilo. —Que Deus me ajude! — suspirou ele e aproximou sua cabeça para beijar seu cabelo, como se fossem amantes. «Amantes» pensou ela. Isso soava tão delicioso e emocionante...

CAPÍTULO 27 Vadiaram na cama diante um bom fogo que Declan acendeu na lareira. Keira ainda estava ruborizada por aquela extraordinária experiência e perdidamente apaixonada por ele. Queria contemplar suas mãos, seu rosto e sentir novamente seus lábios nela. Quase não conseguia deixar de olhá-lo. E tampouco podia apagar do rosto o que sem dúvida era um sorriso tolo. Declan se submeteu a sua interminável lista de perguntas. Keira perguntou o que pensava fazer quando terminasse seu trabalho em Kitridge Lodge. Ele respondeu que gostaria de ver a África. —África — repetiu ela com expressão sonhadora. — Que excitante! Declan riscou um vago caminho em suas costas. —Seria uma existência muito pobre. Os luxos que temos aqui lá não existem. 277


—Não me importaria — respondeu Keira. — Eu adoraria ir algum dia. E na Itália — acrescentou, pensando que certamente estaria lá nesse momento, se as coisas não tivessem saído como tinha planejado. —Itália, hein? —Meus pais foram em lua de mel e sempre quis ir. —É magnífica — disse ele. Keira tocou o lábio inferior dele. —Alguma vez sentiu falta da Irlanda? Declan pareceu pensar por um momento. —De algumas coisas — respondeu finalmente. — Acima de tudo, sinto falta de Eireanne. —Sempre apreciei muito sua irmã — disse Keira. Ele sorriu e afastou o cabelo do rosto dela. —E ela sempre apreciou você. No entanto, houve vezes em que eu não apreciei tanto sua amizade. Ela sorriu. —Não o culpo — respondeu, beijando ele novamente no peito. —Você mudou muirnín. —Sim? — perguntou ela, surpresa. Declan assentiu com a cabeça, enquanto passava a mão pelo seu cabelo e o colocava para trás. —Agora já não pensa só em você. É uma boa condessa. Keira sorriu, satisfeita. —Que animador saber que eu melhorei sua opinião — respondeu brincando. — Possivelmente, eu peça a você que convença o meu pai que mudei. —Bom, bom — respondeu ele a abraçando e se aproximando para beijá-la. — Tampouco posso fazer milagres. Falaram da Irlanda e ela foi enumerando tudo o que sentia falta de lá: sua família, claro, e os ceilidhs, os festivais de música, que estavam acostumados a celebrar no verão. Declan grunhiu. —Não há nada mais irritante, em minha opinião. —Claro que você pensa isso, pois foi tão generoso para organizálos. Mas eu, como simples convidada, acho as histórias encantadoras, o baile e os barris de whisky irlandês. —Devo admitir que um barril de whisky irlandês tem certo apelo. 278


—Vamos, deves sentir falta de algo mais, além de Eireanne — insistiu Keira. Ele pensou durante um momento, enquanto lhe acariciava o cabelo. —A caça. Não há caça melhor que a de Ballynaheath. Ela achou isso curioso, já que Declan muito poucas vezes estava em Ballynaheath. E se perguntou por que seria. A sua propriedade era magnífica, como um velho castelo cuidado e renovado com gosto ao longo dos anos. Estava localizada mais ou menos a quinhentos hectares de bosque, com uma espetacular vista para o mar, e a Keira sempre o achou um pouco misterioso. Pensava que qualquer um seria feliz tendo um lugar assim como lar. —Como é que não casou? —perguntou-lhe de repente. Ele levantou uma sobrancelha. —Como? Ela levantou a mão e juntou a palma com a sua. —Não pode me culpar por perguntar, não é? É o que se faz. A pessoa herda um título e uma propriedade, casa-se e tem herdeiros. —Que me parta um raio se houver uma só mulher que não se pergunte isso! — exclamou Declan com uma risada inquieta. —Não quer um herdeiro? Ele a olhou nos olhos, enquanto entrelaçava os dedos com os seus. —Quer que eu diga a verdade? —Sim. —A verdade é que eu não me importo. Keira afogou um grito ao ouvi-lo. —Não entendo como pode pensar assim de algo tão importante — respondeu ela. — E o que acontece com seu legado? De seu nome? De seu título? Como pode ser indiferente? Para sua surpresa, ele riu. —Possivelmente não falei da melhor maneira — admitiu, — mas ter obrigatoriamente um herdeiro não é algo que me inspire. A liberdade me inspira. O mundo me inspira. Como você muirnín, quero viver minha vida e eu não gostaria de renunciar a ela por um matrimônio, herdeiros e as responsabilidades que os acompanham. Ela ficou surpresa. 279


—Fala como se estivesse querendo renunciar todo o prazer do mundo só por estar casado. —Não todo o prazer — replicou ele com uma piscada descarada. — Mas se me casar, terei que oferecer a minha esposa um lar adequado. Meu lar é Ballynaheath. E isso está mais longe da vida que eu conheça. Na verdade, prefiro que fique com Eireanne. —Mas um dia, ela se casará e terá seu próprio lar — assinalou Keira. Pelo menos, esperasse que seja assim. —Sim, suponhamos que Eireanne, graças a sua ajuda, vá para essa escola na Suíça e depois, amadurecida na idade de vinte e três anos, apresentam-na novamente na temporada de Londres. Possivelmente, haja algum cavalheiro que a olhe além das falações, se declare para ela e se casem. E então, o que? Ficarei sozinho em um velho castelo cheio de correntes de ar. Não, prefiro minha vida de vagabundo. O que mais desejo é ser livre para poder ir aonde existam cavalos, amigos, boa comida e bebida; ver mundo a minha vontade... Era muito poético. Keira nunca conheceu ninguém como Declan, ninguém que não quisesse o que a tinham ensinado, a querer desde o uso da razão. —Diga a verdade sobre Maloney — ele pediu então. — Você o ama? Ela o olhou. —Não. Pelos menos não desta maneira. Loman é um bom homem. E é rico. Declan riu pelo baixinho. —E nisso estão os alicerces de um feliz casamento. —Não tudo. Loman pode ser bastante aborrecido. E não gosta das grandes aventuras. É dos que não se separam da lareira. Ele sorriu compreensivamente e acariciou seu cabelo. —Falava muito a sério quando disse para que não tenha medo do decoro e da sociedade — disse em voz baixa. — Podem afogar se permitir. Viva Keira, viva ao máximo antes que a prendam com o casamento e filhos. 280


Ela não queria pensar nisso. Não queria pensar na sociedade e no decoro. Só queria pensar em Declan e naquele momento singular e extraordinário de sua vida. Alguma coisa tinha acontecido com Declan nessa noite. Ter ficado com Keira foi muito emotivo e isso o surpreendia e o assustava ao extremo. Tentou não prestar atenção nesse sentimento; sentiu a irreprimível jovialidade de sua conversa, o brilho de seus olhos irlandeses, ou a simples visão de uma jovem linda, que ele tinha sido incapaz de ignorar o que sentia. Um sentimento estranho e comovedor. Por uma mulher que tinha a capacidade de irritá-lo até a loucura. À uma da madrugada, a fez sair da cama e vestir-se, depois de silenciar seus débeis protestos com um beijo. —Já fofocam muito — disse, sentindo uma forte necessidade de protegê-la. — E quero sair logo cedo a Londres amanhã. Insistiu em acompanhá-la até sua casa. Nos estábulos de Ashwood, Declan despertou um moço e ajudou Keira guardar o cavalo. Quando saíram, ela o olhou uma única vez. —Tenha uma boa viagem, Declan. Ele sorriu. —Prometa-me que não se preocupará muito moça. Lily voltará logo e isso terminará. Poderá voltar para a Irlanda em paz. —Não pára de me dizer isso — replicou, irritada. —Devo lembrá-la que, não faz sequer dois dias, voltar era o que mais você desejava? —Cercou-a com os braços por trás e a beijou no pescoço. —Há alguns dias disse muitas coisas — respondeu Keira. —Seja forte — murmurou ele, dando nela um carinhoso e longo beijo nos lábios. Afastou-se dela, inclinou o chapéu e subiu no cavalo. —Declan. Ele parou e a olhou. Keira sorriu e aí estava de novo, aquele peculiar sentimento amoroso no coração de Declan. —Foi... magnífico. 281


Ele pensou em várias coisas a dizer para ela, mas não disse nada, só lhe aproximou, abraçou-a e ali sob a luz da lua, em Ashwood, beijou-a. Como sempre fazia, devolveu o beijo com vontade. Mas Declan a afastou um momento depois. —Vai agora — disse Keira, e ainda sorrindo, afastou-se dele, perdendo-se na noite, a caminho da mansão. Declan partiu de Ashwood pensando, como ela foi a ele nessa noite sabendo perfeitamente o que ia acontecer e a coragem que precisou para isso. Imaginou lhe fazendo o amor à luz da lua, ou descendo-a do cavalo e possuindo-a em cima da macia grama, enquanto enchia os pulmões de seus ofegos e a sentia rodeá-lo com força. Nessa noite, ele tinha tirado algo de Keira muito importante; que esta tivesse dado sua virtude o fazia sentir-se como jamais suspeitou se sentir antes. Sensações estranhas e desconcertantes que de algum modo pareciam ameaçar sua independência. Declan não era tolo; não queria que ela partisse de Ashwood. Preferia que continuasse ali, para lhe dar prazer e para iniciá-la as muitas e diferentes maneiras do amor. Mas era um homem prático e sabia que sentisse o que sentisse, nunca poderia dar mais. Era uma cruel ironia que o grande erro de Keira os tivesse unido, e poderia esse mesmo erro, os manter separados. Ela voltaria para a Irlanda e ele não. Quando fosse embora, teria saudades mais do que poderia explicar.

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CAPÍTULO 28 Na manhã seguinte, em Ashwood, Keira se maravilhou ao ver que tudo parecia igual, ela ao contrário tinha mudado tão profundamente. Parecia quase irreal ter renunciado sua virtude, depois de confessar seu amor a um homem que nunca poderia ter. Tudo isso, lembrando as advertências de sua mãe: «Confie em mim, cuide de sua virtude querida, porque é a coisa mais valiosa que pode oferecer a seu marido. Se usar mal seu corpo, nenhum homem decente vai amá-la e você ficará comigo e com seu pai, tricotando meias para o resto de sua vida». Tinha valido a pena? Sim. OH, sim. Sim. Pensou em como estaria Declan e esse permaneceu em algum canto de sua cabeça, mas havia muitas coisas a fazer, para perder tempo sonhando. Havia uma pilha de correspondências, Lucy precisava ser entretida e se produziu uma pequena crise, relacionado com o percurso da corrida, porque parte do caminho traçado foi apagado por uma chuva que caiu no meio amanhã. No dia seguinte, sua noite com Declan parecia um sonho remoto. A pressão constante da festa de gala, a inquietação por sua farsa e a espera incessante de Lily e do momento em que todo aquilo terminasse, deixou-a sem apetite. Naquela tarde, enquanto davam os últimos retoques às tendas que foram levantadas no jardim, voltou a traçar o itinerário da corrida, preparava-se o ringue de boxe nos estábulos e Lucy estava ocupada com suas lições de música, quando Sibley chegou. Entrou no salão com um cálido sorriso. —Condessa — saudou, inclinando-se na mão de Keira. — Dou minha palavra, que você está mais bela toda vez que a vejo. 283


Para Keira, Sibley sempre dizia o mais previsível. «Não me olhe como se eu fosse um desses pretendentes seus que a contemplam com olhos de cordeiros abatidos», ouviu Declan dizer em sua cabeça. E quase não ouviu mais nada do que dizia Sibley, só porque pensava em Declan. Mas enquanto o advogado conversava amigavelmente sobre a festa de gala, Keira percebeu que ele estava realmente apaixonado por ela e que não fez nada para desanimá-lo, nem a ele e nem ao senhor Anders. Quis tampar o rosto com as mãos. Havia passado por experiências maravilhosas e surpreendentes; fez coisas que nunca acreditou capaz de fazer. Mas em muitos aspectos foi desconsiderada e não gostava de ser. O restante do dia passou em um borrão de visitas e trabalhadores indo e vindo. Keira se meteu na cama à meia noite e meia e na manhã seguinte se levantou com as primeiras luzes da alvorada. Era a véspera da festa de gala, havia um milhão de coisas para fazer e Declan não tinha retornado de Londres. Precisava dele, da sua força, de sua ironia e também de seu senso de humor. As damas da Sociedade chegaram justo depois do almoço, para fiscalizar a montagem dos lugares e das atividades. Keira ficou com elas, vigiando a colocação do teatro de palhaços, que foi preciso mudar de lugar, pois um bando de pássaros tomaram como lar a árvore sob a qual ficariam o público. Um dos jardineiros e ela acabavam de decidir qual seria o melhor lugar alternativo quando Louis foi a seu encontro. —Peço desculpas senhora, mas o senhor Fish está aqui com dois cavalheiros. Pede para ser recebidos imediatamente. —Cavalheiros? Que cavalheiros? —perguntou Keira, desconfiada. —O senhor Sibley e lorde Eberlin. Ela notou que seu pulso acelerava. Tinha que ser justo nesse dia! Mas não podia fazer nada; não podia evitar. Por sorte, podia recorrer à desculpa que tinha muito que fazer, para não entreter-se em uma longa discussão. 284


—Também chegou um pacote para você. —Um pacote? —Sim, senhora. Acaba de chegar. O pacote, que parecia uma chapeleira, estava no corredor. Estava com uma carta, com lacre sem selar. Keira abriu. Não esqueci da corrida que me desafiou. Se o cavalo galés cavalgar adequadamente, pode chegar a ganhar do meu cavalo. Vou aproveitar essa tarde para garantir que sua elegante cadeira de amazona se ajuste bem a você. Quanto ao chapéu, vi em Londres e achei que era loucamente ridículo e que não ficaria tão bem a ninguém, como ficaria tão bem em você, em virtude o seu peculiar gosto em tais complementos. Acredito que pode ficar muito elegante com ele. D. Um travesso sorriso apareceu imediatamente em seu rosto. Dobrou a carta e a guardou no bolso, depois abriu a caixa. Era um chapéu de jardim, de aba grande e flores de seda vermelha. Nunca um presente a tinha feito tão feliz e em seguida, o tirou da caixa para admirá-lo. «Pensou em mim.» —Esperam-na no salão verde, senhora — lembrou-a Louis de algum lugar a suas costas. A contra gosto, deixou o chapéu na caixa e seguiu o lacaio até o salão. Sentia-se como se estivesse entrando em uma despensa, a julgar pelo clima frio que se respirava ali. O senhor Fish estava com lorde Eberlin e com senhor Sibley. —Cavalheiros — os saudou ela e olhou diretamente para seu administrador. — Não os esperava. —Peço que me desculpe lady Ashwood, mas lorde Eberlin insistiu muito que tratássemos imediatamente de nossos assuntos. «Imediatamente é?» Keira olhou para o dinamarquês, que lhe devolveu um olhar frio. —No que posso ajudá-lo, milord? 285


O escuro olhar do conde a atravessou. —Percebi que os preparativos para a festa de gala estão quase prontos. Parece, que será um grande acontecimento. —Assim espero. O orfanato de St. Bartholomew precisa desesperadamente de uma reforma. —Pode contar com uma substanciosa doação de minha parte — respondeu o homem. Havia algo no jeito que a olhava que era muito inquietante. Seria raiva? —Obrigada — respondeu Keira. — No que posso ser útil milord? — repetiu. —Suponho que a festa de gala seguirá a tendência do passado — disse ele, sem prestar atenção a sua pergunta. — O desenfreio se prolongará também até as altas horas da noite? Disse isso de uma maneira maliciosa. —É uma celebração senhor — replicou Keira. — Você pode chamar desenfreio, mas é só um festival. —Estou vendo — respondeu o conde, alargando as palavras. Não gostou de seu tom e também de sua expressão. —Teria que voltar a... —Perdoe-me pela intrusão. Confiava poder resolver agora nossas diferenças. Keira olhou para o senhor Fish, cuja expressão era inescrutável. —Não estou certa que isso seja possível. —Não é possível? Então, o que vamos fazer com a questão dos quatrocentos hectares, lady Ashwood? Ela se irritou diante a condescendência que notou em sua voz. —Se você se refere à propriedade de Ashwood que pretende furtar, sugiro que não façamos nada. Eberlin sorriu com suficiência. —Como informou seu advogado, essas terras não pertencem legalmente a Ashwood. Pertencem-me. Entretanto, compreendo sua resistência a desprender-se delas. E vim para fazer uma oferta justa, para compensar sua perda. 286


Keira suspeitou que o senhor Fish estava por trás de tudo aquilo. —Não pode fazer nenhuma oferta justa por uma terra que é minha, já que não acredito que tenha direito legal a ela. Viu que o senhor Fish franzia a testa e abaixava a cabeça, mas não se importou. Eberlin se aproximou mais, atravessando-a com o olhar. —Não acho que prefira que esse assunto se resolva nos tribunais, senhora. O medo e o intenso desagrado que Keira sentia por aquele homem a encorajou. —Não tenho nada a temer de um tribunal, cavalheiro. Você está tentando ficar com minha propriedade e eu estou convencida que qualquer juiz me daria a razão. —Isso é o que acredita. — Era uma afirmação, não uma pergunta. —Isso é o que acredito. Eberlin entrecerrou os olhos. —Posso falar com você em particular, lady Ashwood? O senhor Fish levantou o olhar de repente e a lançou um olhar cauteloso. —Por quê? Para tentar de me intimidar? Não tenho nada a dizer a você, que não possa ser dito diante do senhor Fish e do senhor Sibley. O olhar do conde se escureceu. —Mas eu tenho algo a dizer, que estou certo que não vai querer que escutem esses dois cavalheiros. Keira percebeu a inquietação lhe fazendo cócegas na nuca. Não podia imaginar o que queria falar aquele homem para ela, mas a olhava com fria decisão. —Lady Ashwood, eu não recomendaria — murmurou o senhor Fish. —E eu diria que se arrependerá se não o fizer — replicou Eberlin como se não fosse nada. O administrador o olhou intrigado e inclusive o senhor Sibley pareceu surpreso. Keira percebeu que o medo encolhia seu estômago. O que poderia o conde saber? Era impossível que soubesse a verdade; acabava de chegar da Dinamarca. 287


—Não me arrependerei de nada, senhor — respondeu ela com frieza. — Mas se falarmos em particular nos permitirá terminar com isso, falaremos. — Olhou para o senhor Fish e sua súbita expressão de preocupação. — Por favor, senhor Fish, nos dê licença. Não acontecerá nada. —Como deseja — respondeu o homem, com voz seca. Parecia muito aborrecido de sair da sala, mas não tanto como o senhor Sibley, que ainda prolongou um olhar temeroso a Keira. Quando fecharam a porta, ela cruzou braços, tensa e olhou com frieza para lorde Eberlin. —O que tenha a dizer, por favor, diga rápido. Tenho muito trabalho a fazer antes da festa de gala de amanhã e não tenho intenção de entregar sem brigar por uma folha de arvore que pertença a Ashwood. Portanto, parece que não temos nada a nos dizer. —Você se mostra muito petulante, para uma mulher que pratica a arte da enganação — disse ele. Keira a percebeu empalidecer. —Não tenho qualquer ideia do que se refere! Está você estranho senhor... —Guarde sua fingida indignação para alguém que acredita em sua farsa. Não sei quem é você — continuou ele, enquanto se aproximando dela, olhando-a com olhos maliciosos e inquietantes, — mas é evidente que não é Lily Boudine. —Isso é absurdo! — Keira rezou para que seus joelhos não dobrassem. — Não escutarei suas calúnias. Farei que meus lacaios o tirem imediatamente. Já não é bem-vindo nesta casa, senhor! —Não me mandará embora porque você não é Lily Boudine. Não sei o que pretende e não me importa. Mas acredito que me entregará essas terras em troca do meu silêncio ou terá que enfrentar várias perguntas de algumas autoridades que não ficarão satisfeitos por você ter roubado um título e uma propriedade. Que você espera tirar com tudo isso? Casamento? A riqueza de Ashwood? 288


Ela forçou uma risada que soou falsa até para si mesma. —Se acha que vai me assustar com essas absurdas acusações, vai ter uma grande decepção. Ninguém acreditará nessas tolices! Você é um estranho senhor e está tentando causar problemas, com o propósito de roubar as terras de Ashwood. O olhar de Eberlin era frio e duro. —Estava disposto a fazer uma boa oferta, mas agora acredito que desfrutarei vendo-a responder a uma quantidade de perguntas. O coração de Keira pulava no peito. Não se surpreenderia se o homem pudesse ver através da musselina de seu vestido. —Entretanto, darei sua uma última oportunidade. Farei que redijam os documentos para transferir esses hectares sem encargos para Tiber Park e você assinará. Caso contrário, terá que enfrentar às autoridades. A escolha é sua..., seja qual for. —Isto é absurdo. Senhor vá embora de Ashwood — soltou. Não suportava vê-lo nem um minuto a mais. Não podia respirar e quase não sentia as pernas, entretanto, conseguiu ir até a porta e, de algum jeito, abrila. — Tenha um bom dia, senhor — disse e olhou à frente. O conde não se mexeu em seguida, mas quando o fez, avançou devagar e parou na soleira para olhar a Keira, antes de sair pelo atapetado corredor. Ela se virou e se segurou no apoio de uma cadeira, convencida de que ia vomitar. —Lady Ashwood! — exclamou o senhor Fish quando entrou na sala um momento depois. — O que aconteceu? Está passando mal? Espere, deixe que eu pegue um pouco de água. — Foi segurá-la pelo cotovelo, mas Keira se levantou de repente. —Peço que me desculpe senhor. Pela manhã não tomei o café e... —Deve comer alguma coisa — respondeu ele e foi até a porta. — Você! —gritou para alguém. — Chame Linford imediatamente! —Senhor Fish, não é necessário... —Está muito pálida, senhora — disse o administrador. — Sua aparência não está boa. 289


Permitiu que a ajudasse a se sentar, enquanto pensava freneticamente como livrar do senhor Fish. Tinha que pensar, precisava pensar. —Linford, venha aqui — disse o homem quando o mordomo entrou no salão. — Lady Ashwood não está passando bem. Não comeu. Traga algo..., pão e um pouco de queijo se tiver. E chá. —Imediatamente — respondeu Linford e partiu a toda pressa. O senhor Fish levantou a cauda de seu casaco e se sentou na frente de Keira com preocupação refletida no semblante. —O que ele disse que causou essa impressão? Ela tinha que recuperar a compostura e, com um gesto, tentou tirar a importância da situação. —O que era esperado. Quer as terras. —Isso é tudo? — perguntou o senhor Fish, sem acreditar muito. —O conde, sim... —Baixou o olhar e tentou pensar em como explicar sua situação. — Sua oferta não é o que você esperaria ouvir de uma pessoa educada. — Olhou o administrador. O homem parecia escandalizado. Olhou-a fixamente com os olhos arregalados e de repente, fechou a boca e ficou em pé. —Intolerável — exclamou. — Não permitirei isso. —Senhor Fish! Por favor, não se preocupe. Não me intimidam com facilidade. —Como cavalheiro e como seu administrador, lady Ashwood, não posso permanecer de braços cruzados, enquanto a insultam! —Eu imploro, para que não dê mais voltas — pediu ela e de novo se sentiu mal. As mentiras e as enganações... eram muito pesadas, muito sufocantes. — Podemos nos encarregar disso depois da festa de gala, concorda? Em menos de vinte e quatro horas, dezenas de pessoas chegarão a Ashwood e neste momento não posso pensar em mais nada. —Sim, mas poderia falar com ele... —Prefiro que não faça isso. Por favor, senhor Fish, deixe como estar. Ele parecia querer discutir, mas apertou os lábios e olhou pela janela, onde Keira sentiu que fez um supremo esforço para conter-se. 290


—Muito bem — aceitou finalmente tenso, enquanto uma donzela aparecia com uma bandeja. — Se for isso que deseja... — acrescentou com um tom, que mostrava claramente seu desacordo. —No momento, sim. —Vou mostrar meu desagrado quando o pleito chegar ao tribunal — indicou o senhor Fish. — Garanto que nenhum juiz olhará com bons olhos, que o conde a tenha assediado. Um juiz. A verdade era que Keira não havia pensado no futuro. Imaginou Eberlin acusando-a diante um tribunal. Diante testemunhas, diante todas as pessoas de Ashwood e a Hadley Green a que chegou a apreciar. Reprimiu um calafrio. —A deixo para que coma alguma coisa, lady Ashwood — disse o senhor Fish. — Deve recuperar suas forças. — Fez uma seca inclinação de cabeça e saiu da sala caminhando rapidamente. Keira agradeceu à donzela e olhou para o prato de pão, queijo e uvas. Não queria comida, queria whisky, algo que pudesse apagar o medo que roia suas vísceras e a brutal dor que sentia atrás dos olhos.

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CAPÍTULO 29 Declan não encontrou Keira na mansão; o lacaio que abriu a porta disse a ele que a última vez que a viu estava passeando com a senhorita Taft. Foi caminhando pelo jardim procurando-a. Para a festa de gala, ergueram tendas e barracas, certamente para vender as mercadorias e os artigos com o qual arrecadariam recursos para o orfanato. Além disso, foi montado um cenário para peças de teatro e de marionetes. Havia um palco para os músicos e estavam colocando mesas e cadeiras sob um alto carvalho. Havia também uma quadra de peteca, pista para boliches e, naturalmente, no campo perto do lago uma pista de corrida com um percurso de quatrocentos metros. Os jardins tinham sido meticulosamente preparados para o acontecimento. A grama estava bem cortada, as flores ladeavam os caminhos e penduraram casinhas de pássaros nas árvores, para obterem um fundo musical. Declan se sentia orgulhoso de Keira. A festa de gala do verão era um acontecimento extraordinário e Keira fez um trabalho exemplar com a organização, especialmente considerando as circunstâncias. Tudo apontava que seria um acontecimento esplêndido. Viu-a com Lucy em um barco no lago. Keira usava o chapéu que ele havia enviado, o que o agradou enormemente. Não tinha a menor ideia do porque fez isso, dado a sua relutância e teimosia em assumir sua paixão, mais do já tinha feito. Mas o viu na vitrine de uma loja e imediatamente soube, que a nenhuma outra mulher poderia ficar tão bem como a ela. Enquanto se plantava na beira do lago, ocorreu-lhe pensar que queria fazê-la feliz com o presente, que queria ver aquele radiante sorriso e aqueles olhos brilhantes cheios de gratidão. E ao olhá-la nesse momento, mais fresca que uma rosa irlandesa, alegrou-se de ter comprado. 292


Lucy o viu primeiro e acenou com a mão com tanto entusiasmo que quase fez virar o barco. Keira soltou um grito de pânico, agarrando a menina e a fazendo sentar-se. Demoraram um pouco para conseguir remar simultaneamente e depois, Lucy perdeu seu remo, o que fez que tivessem que remar em círculo até que o pudessem recuperar. Finalmente, chegaram à margem. —Estávamos remando! — exclamou a menina, entusiasmada. —Sim, senhorita Taft, vi você — respondeu Declan e segurando o barco para subi-la entre os juncos. —Remamos de um lado até o outro — continuou Lucy sem fôlego, enquanto Declan a tirava do barco e a colocava em terra firme. — Demoramos muito e doem meus braços, mas foi muito divertido. Lady Ashwood diz que, se quisermos ganhar a corrida de barcos amanhã, temos que treinar o máximo possível. —O que quer dizer? — Declan olhou para Keira com curiosidade, enquanto estendia a mão para ajudá-la a sair do barco. Ela sorria como sempre, mas ele notou certa preocupação em seus olhos. —Vou participar da corrida de barcos, na de ovos e na de três pernas — anunciou Lucy, levantando os dedos e enumerando as atividades. — Louis me disse que posso correr a três pernas com ele e ele tem pernas muito longas, assim ganharemos. E você o que vai fazer milord? —Eu? OH... Acho que poderia desfrutar de uma corrida de cavalos. —Acha que pode me ganhar Lucy — disse Keira, animada. —Mas..., mas você é mais rápida, senhora — respondeu a menina. Keira começou a rir. —Boa garota. —Amanhã veremos qual dos dois é o mais rápido, certo? — disse Declan. — Se quiser ver os cavalos senhorita Taft, já estão nos estábulos. Lucy afogou um grito e olhou para Keira. —Posso? —Se prometer que não incomodará o senhor Jepsen. —Prometo! —Vai correndo — respondeu Keira. 293


Lucy foi correndo para os estábulos, com seus cabelos dourados voando atrás dela. —Corrida de barcos? — perguntou Declan, observando seu chapéu. — Não tinha a mínima ideia que fosse tão versátil. —Desculpe? —respondeu distraída e olhou os barcos. — OH, isso. Decidi nessa manhã. Declan, como posso agradecer você pelo chapéu? Eu adorei. Ele sorriu. —Fica muito bem em você. — Mas ela não estava escutando tudo, olhava para Lucy com os olhos entrecerrados. — Keira? Não parece a mesma de sempre. —Garanto que não pareço, porque você está olhando para uma mulher perdida — respondeu e voltou a olhá-lo. —O que? Ela assentiu com a cabeça. —Não está perdida, muirnín. —OH, sim estou — respondeu com ímpeto. — Esse horrível Eberlin me visitou hoje. — Olhou para trás por cima do ombro, como se tivesse medo que alguém os tivesse escutando, e depois sussurrou: — Sabe Declan. —Sabe? Sabe o que? —O meu — respondeu Keira. — Sabe o meu. Isso era impossível. Ele negou com a cabeça. —Sim, sim, já sei o que deve estar pensando, porque eu também pensava. Como pode saber? É um estrangeiro! Acaba de chegar à Inglaterra! Como pode saber o que ninguém mais sabe aqui, exceto você? — Fechou os olhos como se a simples ideia a fizesse mal. Declan a segurou no cotovelo e a fez caminhar pausadamente. —Você deve estar enganada. Por que acha que ele sabe? —Porque me disse isso claramente. Veio para fazer uma oferta pelos hectares que quer roubar de Ashwood e, naturalmente, neguei. Não posso me fazer passar por Lily e vender a terra sem que ela saiba, acima de tudo essa terra, certo? E quando disse não, ele insistiu em falar comigo em particular, e disse... Disse que sabe que não sou Lily Boudine e que se não 294


lhe der esses hectares sem encargos, me entregará às autoridades. Portanto, estou totalmente perdida, porque não darei para ele as terras de Lily! Declan estava assombrado. Parou e fez que Keira o olhasse. —Quando aconteceu tudo isso? —Não faz nem duas horas — respondeu ela com um grunhido. — Deus sabe que mereço essa calamidade. Eu procurei isso! Nunca deveria... —Keira pense — a interrompeu Declan. — Como pode saber? Não é possível. Ele blefou. —Sim, eu também pensei. Mas é evidente que suspeita de mim. Ele se perguntou o que poderia saber Eberlin. Podia ser uma hipótese? Continuou caminhando, levando Keira com ele. —Como ficou a questão? —Não sei! Eu neguei tudo é claro, e não segui seu jogo. Ele disse que vai me dar uma última chance para lhe entregar as terras e que mandará redigir os documentos para ele. Mas se eu não assinar, vai dizer às autoridades que não sou Lily Boudine. Isso representava um problema maior do que Declan poderia imaginar. Até nesse momento, sua maior preocupação tinha sido como Lily poderia recuperar o papel que a correspondia, mas isso! —Que o céu me ajude... Sei que transformei-me em uma grande carga para você, e dou minha palavra que me esforcei para encontrar uma maneira de reparar o que tenho feito sem necessidade de sua ajuda, de verdade. Mas, Declan, não tenho a menor ideia do que fazer. —Ah, muirnín, você passou alguns dias muito maus, não é? — Circulou sua cintura com o braço e a aproximou dele enquanto caminhavam. — Sejamos razoáveis. Eberlin não tem nenhuma prova que você não é quem diz ser e qualquer autoridade inglesa aceitará sua palavra contra a dele. Mas disse que redigirá os documentos para que assines, não é assim? Ela assentiu. —Aposto que isso demorará pelo menos uma semana. Deve nos dar tempo suficiente. —Tempo? Tempo para que? 295


—Tenho notícias de Londres — explicou ele. — Corbett realmente vive em Cheapside. Entretanto, nesse momento está no campo e seu mordomo me informou que participará da sua festa de gala amanhã. Keira piscou surpresa. —Virá aqui? Lady Horncastle deve ter enviado um convite. Acho que convidou a toda Londres — disse com certa preocupação. —Mas isso representa uma vantagem, Keira. Poderemos falar com Corbett e talvez consigamos o que precisamos para que se abra uma nova investigação sobre a condenação do senhor Scott. Nesse caso, poderá retornar a Irlanda. Poderia estar fora no final de semana. Eberlin não pode apoderar-se dessa terra sem você e não poderá acusá-la em sua ausência. —Na Irlanda? —repetiu ela suavemente. Declan deu um apertão na sua mão. —Não tenha medo de Eberlin. Quer a terra. E se acha que vai tê-la, a deixará em paz. Devemos lhe dar algum motivo, para que pense que assinará o acordo que vai colocar em sua frente. Isso nos dará o tempo que necessitamos. Tinham chegado à pracinha que ficava do outro lado do lago. Estava decorada com lanternas e flores de papel, que foram coladas nas cadeiras ao redor de uma mesa. Declan entrou com Keira e esta se apoiou no corrimão, olhando para a água. Estava com os ombros caídos, observou ele, e escondia o rosto na grande aba do chapéu. Declan faria o que pudesse para aliviá-la dessa carga. Podia ser uma mulher irritante, mas descobriu que havia algo tremendamente atraente em sua enorme vontade de viver. Tocou seu braço. Keira levantou o olhar, com seus brilhantes olhos verdes cheios de dúvidas. —Não acontecerá nada — assegurou ele com um sussurro. Ela mostrou uma expressão de dúvida e negou com a cabeça, mas Declan pegou seu queixo e a fez olhá-lo. — Não acontecerá nada — repetiu e a beijou no canto da boca. — Tudo estará bem — lhe assegurou de novo e 296


beijou a solitária lágrima que caía pela face. — Sei que é valente Keira, sempre foi. Seja valente também agora. — Beijou-a na boca. Ela se encostou nele, abrindo a boca para ele, circulando sua cintura com um forte abraço, aferrando-se a ele. Como sempre, sua ardente resposta fez Declan perder a razão. Os últimos vestígios do bom senso e do decoro desapareceram. O quente ar do verão pareceu estalar em sua volta e ele sentiu seu insaciável desejo crescer novamente por dentro. Baixou a cabeça e olhou para Keira. Seus olhos brilhavam; seus lábios estavam úmidos pelo beijo. Sentiu um enorme desejo de deitar ali com ela, naquela pracinha, nada mais. Mas não esqueceu por muito tempo da situação precária de Keira e olhou para a casa. —Vamos, muirnín — lhe disse enquanto pegava sua mão. — Vamos terminar com essa festa de gala pelo bem dos órfãos, certo? Com um suspiro, ela assentiu. —Tem minha palavra senhor, que se eu escapar desta calamidade com a cabeça intacta sobre os ombros, nunca voltarei a incomodá-lo. Declan reconheceu o valor de sua decisão, mas esse voto não o tranquilizava absolutamente. Pensou que uma vida sem algumas incomodações seria muito aborrecida.

CAPÍTULO 30 Na manhã da festa de gala, Keira pensou no risco que o céu nublasse, mas o sol estava brilhante e fazia um dia de verão, sem nuvens. Achava que ninguém apareceria, mas apareceram. Dezenas. Em carros, em elegantes carruagens, a cavalo e a pé. Esperava que acontecesse algum desastre, mas não aconteceu nenhum. 297


Passeou entre as barracas de artesanato e comprou várias coisas para sua família. Para Molly e Mabe, xales de linho bordados com seda vermelha. Para sua mãe, um colar e algumas luvas de renda. Encontrou uma bainha de couro para a faca de seu pai. Parou em todos os jogos que aconteciam nos jardins. Desfrutou especialmente da competição de arco e flecha e atraiu uma boa multidão quando a convenceram para que demonstrasse sua habilidade. Entretanto, Keira tinha pouca pontaria, como pôde assegurar lorde Frampton, que esteve ao ponto de receber uma flecha. Jogou boliche, olhou por um momento o boxe e foi mestre de cerimônia da corrida de ovos. As pessoas de Hadley Green era um grupo alegre; suas risadas e seus estridentes gritos enchiam o ar de verão, junto com o cheiro do cordeiro assado e a cerveja, que fluía torrencialmente em vários barris distribuídos pelos jardins. Keira almoçou com as damas da sociedade no terraço, onde comeram pratos mais delicados, como frango assado e batatas fritas. Mas o que mais Keira gostou desse dia foi que as crianças do orfanato de St. Bartholomew passaram um ótimo dia e a pequena Lucy Taft desfrutou muito praticando de anfitriã. Seguiam-na por todos os lados como patinhos, da peteca ao boliche, na pesca ao lago a acariciar os cavalos. Suas risadas pareciam mais altas por cima das dos adultos. Parou muitas vezes para conversar com os convidados. Todos a felicitaram pelo êxito da festa de gala. Viu Declan duas vezes, ambas em companhia de Daria Babcock. A jovem segurava uma rosa de haste longa, que Keira sabia que era o prêmio que recebiam no boliche. Viu o senhor Sibley e o senhor Anders mais vezes, porque ambos procuravam acompanhá-la. Muitas pessoas tinham vindo de Londres, por cortesia de lady Horncastle, mas para alívio de Keira, lady Darlington e seu filho finalmente não vieram participar. 298


—Lorde Raley está doente — explicou lady Horncastle. — Uma febre que pegou em sua viagem às Índias Ocidentais. As condições de lá são deploráveis, conforme entendi. E, naturalmente, lady Darlington ficou em Londres para cuidá-lo. —As Índias Ocidentais? —perguntou à senhora Morton por curiosidade. — Pensei que havia me dito que tinha chegado da Espanha. —Não lembro ter dito nada disso — replicou lady Horncastle. Apesar do agradável dia que estava passando, uma parte de Keira esperava com inquietação que a qualquer momento, em alguma parte, acontecesse uma catástrofe. Mas não acontecia nada. Com uma cerveja na mão, a irmã Rosens lhe explicou que estavam vendendo bastante e a um bom ritmo e que as apostas nos jogos foram boas. Comentou que um misterioso benfeitor havia enviado cem libras para o orfanato. —Servirá para repararmos o poço — disse, com os olhos brilhantes de ilusão. Pela tarde iniciaram as corridas. Na de três pernas, Keira incentivou com gritos mais fortes que a todos, Lucy e Louis, mas perto da linha de chegada sofreram uma desafortunada queda. Entretanto, redimiram-se na corrida de barcos; Louis tomou o lugar de Keira e, junto com a menina, conquistou a vitória. A última atração da tarde era a corrida de cavalos, muito vendida e esperada. Parecia que toda a Inglaterra ouviu falar da aposta entre Keira e Declan, e fizeram suas apostas. No total havia cinco cavaleiros e foram tirando os cavalos do cercado um a um, entre um coro de aplausos por parte do público. Declan apareceu ao lado de Keira, quando conduziu seu cavalo cinza diante os assistentes. —Segure com força em sua sela de amazona, senhora, porque tenho a intenção de ganhar — disse amigavelmente. —Então, desejo-lhe sorte, milord, porque vai precisar — replicou ela, enquanto o cavalo Gales saía do cercado. No lombo levava uma 299


cadeira normal. Declan arqueou uma sobrancelha em direção a Keira, que sorriu para ele e se afastou. O jovem lorde Horncastle, quem, por razões Keira não chegou a entender, transformou-se no mestre de cerimônias, estava no segundo degrau da cerca, pedindo que prestassem atenção nele. —Damas e cavalheiros — começou fazendo uma reverência tão curvada que quase arriscou seu precário poleiro, — o que todos esperavam está a ponto de começar. Lorde Donnelly apostou contra lady Ashwood e terá que igualar e dobrar cada libra apostada a favor dela, e Lady Ashwood, sendo uma dama de grande categoria e linhagem, prometeu o mesmo. Até o momento, apostaram-se quarenta e duas libras e dezoito peniques a favor de lady Ashwood. Somente trinta e sete libras foram apostadas por lorde Donnelly. —E o cavalo? Em qual cavalo montará à senhora? — gritou alguém da multidão. —O cavalo senhor, é de meu próprio estábulo — respondeu então Frankie. —Perdido em seu estábulo, quer dizer — soltou alguém e a multidão riu. Lorde Horncastle, que nesse dia tomou várias jarras, sorriu condescendente, como se tivesse dado o cavalo a Declan, ao invés de ter perdido nas cartas. —Posso assegurar que é um dos melhores cavalos de corrida, que se possa encontrar na Inglaterra. Lady Ashwood tem um bom cavalo. O restante está em suas mãos. Todos os olhos se voltaram para Keira, que fez uma reverência e tirou o chapéu. —Tenham por certo, que sou uma amazona competitiva — disse alegremente e sorriu a Declan. — Tenho o pressentimento que hoje ganharei milord. 300


A multidão a aclamou ela e vaiaram de brincadeira Declan, que tirou também o chapéu e fez uma demorada reverência. —Então, é uma coincidência celestial milady, porque também tenho o pressentimento de que eu ganharei. A multidão uivou encantada. Declan fez um exagerado gesto para os cavalos. Keira deixou seu chapéu e foi para o cavalo Gales. Ouviu-se um murmúrio quando o moço se inclinou e uniu as mãos para ajudá-la a subir. Ela colocou o pé direito em suas palmas, segurou as saias, subiu e se sentou escarranchada na sela. Depois sorriu para o público e ajustou as saias para que somente fosse visto a bainha pela metade. —Concordo que é escandaloso — disse, diante o olhar assombrado das mulheres e o rugido encantado dos homens. — Mas é por uma boa causa. Viu Lucy sorrindo feliz. —Outro escândalo? —sussurrou-lhe Declan brincando. —Eu passei quase ano vivendo escandalosamente. Pelo menos, deixarei orfanato bem abastecido. Ele sorriu com aprovação. —Uma respeitável oponente — disse antes de ir até seu cavalo e subir à sela. — Então, você está pronta? —Sim, completamente. — Fez o cavalo avançar para a linha de partida, assim como Declan e os outros três cavalheiros. Lorde Horncastle tinha levado um lenço vermelho para a ocasião e mostrou dramaticamente ao público da cerca. Os gritos e as vaias continuaram, enquanto alinhavam os animais na saída. O senhor Wilson, que se colocou ao lado de Keira, desejou-lhe sorte. —Para você também, senhor — respondeu ela com desenvoltura. Vários cavalheiros entre o público gritavam incentivando Keira, mas as mulheres continuavam gritando por Declan. Ela o olhou de esguelha. —Cavalga bem que eu sei, mas não me alcançará. Ele riu baixinho. —Tem grande confiança em sua habilidade, mas eu também tenho um pouco pela minha. 301


—Em circunstâncias normais, diria que você é o favorito — respondeu Keira, na qual Declan acenou com a cabeça, agradecendo. Mas hoje eu tenho uma vantagem. —Por favor, me diga, qual é essa vantagem? — perguntou ele, enquanto Horncastle anunciava que se preparassem. —Determinação — respondeu e antes que Declan pudesse dizer alguma coisa, o jovem lorde desceu o lenço e disse: «Já». Keira saiu em meio aos gritos da multidão. Não conteve o cavalo, mas sim lhe deu rédea solta e se inclinou sobre seu pescoço. Sentiu-se como se estivesse fugindo de Eberlin e de seu destino, fugindo da farsa e de seus concidadãos. Cavalgaria até a Irlanda se pudesse, até a segurança do lar de seus pais, tão distante como poderia da moça tola e frívola que foi. Mas os outros cavaleiros a seguiam de perto. Keira fez a primeira curva, cravou os calcanhares nos flancos do cavalo e este acelerou. Inclinou-se então para frente, deitando-se tanto como pôde sobre o pescoço do animal sem perder o equilíbrio. Conseguiu girar a cabeça e olhar para trás; os outros cavaleiros tinham desaparecido, mas Declan a estava alcançando. Ouvia o público aclamar e via já a seguinte curva do circuito. —Arre! — gritou e esporeou o cavalo com seu chicote. Enquanto fazia a curva, Declan se aproximou mais. Viu-o por um instante, cavalgando sem esforço, como se sequer tivesse começado a correr. Mas a Keira também tinha experiência. Seu pai sempre disse que, ela nasceu em cima de uma sela de montar e nesse dia tinha toda a intenção de demonstrar. De repente, puxou as rédeas e intencionalmente, chocou-se com o cavalo de Declan, o fazendo perder o ritmo, enquanto chegavam à parte plana da pista. Em seguida, ele cravou os calcanhares e usou o chicote uma vez mais. O cavalo acelerou e adiantou o cavalo de Declan. Cavalgaram quase pescoço com pescoço até que a pista começou a virar para a meta. Keira 302


estava por dentro e ao fazer a curva fez com que o cavalo saísse um pouco da pista, cortando assim o percurso. O cavalo pisou na grama e gritou novamente, para que fosse mais rápido. Seu cabelo estava solto. As saias voavam levantando até os joelhos. Era como se fosse cair com cada sacudida e teve que empregar toda sua força para segurar-se. Estava entrando na reta final, correndo em direção ao caos, à revelação e as consequências do que tinha feito então, a única coisa que podia fazer era ganhar. Pelo menos poderia fazer isso bem. Mas Declan não era um homem que se deixasse vencer em uma corrida. Estava tão perto dela, que Keira podia ouvir os ofegos de seu cavalo; estava-lhe ganhando terreno e ficou em uma cabeça, em um quarto de pista. Mas o pequeno cavalo galés era como Keira: não ia permitir que ninguém ganhasse; dessa vez não. Seu cavalo esticou tudo o que pôde debaixo dela, notou como os músculos do animal se esticavam e relaxavam, esticavam e relaxavam, enquanto jogava terra. Quando cruzaram a linha de chegada com as exalações, não tinha certeza de quem havia ganhado. Não soube até que parou o cavalo e o levou de volta. E Declan, um Declan de sorriso resplandecente, fez uma profunda inclinação no pescoço de seu cavalo. A multidão gritava o nome dela. Ele levou seu cavalo à para seu lado e a olhou com expressão de orgulho e admiração. —Muito bem, muirnín — lhe sussurrou. — Muito bem. —Ganhei? — perguntou ofegante. Declan sorriu para ela. —Por um nariz. Keira começou a rir e esfregou o pescoço do cavalo, enquanto tentava recuperar o fôlego. Ela tinha vencido. Ao terminar a corrida, Declan sentiu algo estranho no peito, como se inchasse o coração. De orgulho. De algo um pouco mais profundo. Ficou impressionado com a corrida do cavalo galés. Era rápido como o relâmpago e não esteve disposto a ceder terreno para o outro cavalo. Mas o que tinha produzido aquela estranha sensação foi a 303


cavalgada de Keira. Deixando-o aniquilado. Era uma amazona temerária e impecável, que estava disposta a arriscar-se e totalmente decidida a ganhar. Ficou admirado com sua coragem; montava melhor que muitos homens peritos que conhecia. Sua admiração havia aumentado ao vê-la cruzar a linha de chegada com as faces rosadas pelo esforço, os cabelos ao vento e alvoroçados e os olhos brilhantes de emoção. Estava encantado de igualar e dobrar o que apostou por ela. Só da corrida, o orfanato receberia cem libras. Queria falar com Keira, dizer o quanto estava orgulhoso de sua corrida, mas o foi entregue ao público. Alguém deu uma caneca de cerveja e ele a bebeu agradecido. Passeou entre as pessoas recebendo as felicitações por uma corrida emocionante e disputada. Mas Declan pensava em outro assunto: encontrar o capitão Corbett. Durante a manhã, Anders o tinha apontado. Era um homem robusto, com uma cabeleira cinza que só seu bigode superava em espessura e uma risada estrondosa que se podia ouvir por todo o jardim. Enquanto as famílias e os aldeãos começavam a partir da festa de gala e se iniciavam os preparativos para a festa noturna, Declan voltou a ver Corbett. Estava sentado sob uma árvore, com o chapéu na mão. Tinha uma caneca de cerveja vazia ao lado. Parecia ter desfrutado do dia. Declan agarrou duas canecas de cerveja de um dos lacaios e foi tranquilamente até onde o capitão estava sentado. —Boa tarde — lhe saudou. —Boa tarde senhor! — respondeu Corbett alegremente, olhando as duas cervejas que segurava. — Permita eu felicitá-lo por uma corrida brilhante. —Obrigado — respondeu ele. — Conde Donnelly a seu serviço. —Sei muito bem quem é você — disse o homem com jovialidade. — Sou Corbett, antes capitão dos longos mares, mas nos últimos anos, só 304


da cidade de Londres. — Falava como se a cerveja tivesse soltado sua língua. —Eu também sei quem você é — respondeu Declan amigavelmente e se inclinou na frente dele para lhe oferecer a cerveja. Corbett pegou a cerveja agradecendo e bebeu com sede. —Eu gostaria de falar com você por um momento — disse Declan. —Comigo? Não nos conhecemos, certo milord? —Não, não nos conhecemos. Mas possivelmente tenhamos conhecidos em comum. —OH? —Lady Ashwood, para começar. —Ah! — Os olhos azuis do capitão se estreitaram. — Devo confessar que ainda não falei com nossa encantadora anfitriã. Hoje estava como um passarinho, voando daqui para lá. Entre você e eu lhe direi que é bastante perigosa com um arco e flecha. — Riu. — Tenho medo que talvez não se lembre de mim absolutamente, porque era muito pequena e na última vez que a vi... —E por falar nisso, capitão..., há um assunto delicado que eu gostaria de tratar com você. Corbett pareceu surpreso e depois horrorizado. —Tem alguma coisa a ver com dinheiro? Sei que desfrutei mais mesas de jogo do que devia, mas tenho o costume de pagar minhas dívidas. Isso fez Declan sorrir, negando com a cabeça. —Tem a ver com o que aconteceu aqui em Ashwood faz quinze anos. O capitão franziu a testa, pensativo. —Com o senhor Joseph Scott — acrescentou Declan. As grossas sobrancelhas de Corbett se juntaram. —Não sei nada... —Sei que ele não roubou as joias da condessa — afirmou Declan e o homem o olhou inquieto, mas não negou. — Era amante de lady Ashwood, mas não um ladrão. Corbett levantou uma sobrancelha, bebeu a cerveja e deixou o copo de um lado. —Você parece ter uma opinião muito firme. 305


—São as opiniões dos que estiveram aqui, as que me deram motivos para acreditar que estou certo. O outro assentiu, como se isso não o surpreendesse. —São águas passadas, milord. Aconteceu há quinze anos. Pouco importa já, não acha? Declan ficou um pouco parado. —Permita-me discordar senhor. Importa à família do senhor Scott e a seu bom nome, mesmo agora. Achei que talvez você soubesse a verdade. Afinal de contas, a condessa lhe confiou à tarefa de escoltar Lily para a Irlanda. —Sim, era necessário que fosse — respondeu, agitando uma mão. — Estava constantemente incomodando o conde. —Foi essa a razão? — perguntou Declan. — Ou a enviaram para a Irlanda porque possivelmente, sem perceber, conhecia a existência da aventura entre a condessa e o entalhador? Corbett o olhou de mau humor. —O que quer de mim? —Esperava que me proporcionasse as peças que faltam nesse quebra-cabeças. Por que ela não o salvou da forca? Por que tirou sua vida? —Você pergunta muito — replicou o capitão secamente. —Mas você era amigo de lady Ashwood. Por que não falou a favor de seu amante? — insistiu Declan. —Não teve oportunidade — respondeu Corbett. — O conde a prendeu em Ashwood contra sua vontade. Não lhe permitia ter visitas, ou falar com alguém. —Não poderia ter enviado uma carta para o magistrado? — perguntou ele. O capitão o olhou como se fosse tolo. —Deixe-me dizer a você, que Althea Kent era uma mulher valente. Poderia ter enviado uma carta ao magistrado e não faltaram mensageiros dispostos a levá-la. Mas era muito infeliz em seu casamento com o conde e diria que qualquer mulher teria sido. O conde era um homem poderoso e rico, mas frio e cruel. Ela não enviou nenhuma carta ao magistrado porque tinha medo que seu marido cumprisse sua pior ameaça e enviasse essa bela 306


menina, sua sobrinha, a um asilo de caridade em Londres se ela se atravesse a falar. E ele teria feito, sem nenhum remorso na consciência. Assombrado, Declan o olhou. —Mas... se o senhor Scott não roubou as joias, onde estão? —Quem sabe? — respondeu Corbett com um encolher de ombros. — Aposto que algum servo as pegou. Eram muito valiosas. A própria Althea procurou-as. Antes que enforcassem o senhor Scott, colocou Ashwood de pernas para acima, para demonstrar que não foram roubadas. Mas nunca as encontrou. — Suspirou e terminou a cerveja. — Durante anos, ninguém me fez pensar nesse feio assunto. Declan fez sinal a um lacaio, entregou-lhe a caneca vazia do capitão e pegou outra cheia. —É importante que me diga mais uma coisa, senhor. A condessa... começou a perguntar-se o que aconteceu realmente, pois tinha muito carinho por sua tia. Lady Ashwood tirou sua vida? Corbett negou com a cabeça. —Essa é uma teoria. Dizem que deixou uma carta para o conde, mas acredito que ninguém nunca a viu. — Olhou para Declan. — Mas muitos dizem que a condessa era boa nadadora. Não sei se era, mas eu não acredito que Althea Kent tirou sua vida. Declan estava desconcertado. —Tanta tragédia e morte por uma aventura amorosa? Esse tipo de assunto acontece constantemente entre pessoas de nossa classe. —O conde era um homem implacável — respondeu o capitão. — Bom, já tem sua resposta. O que pretende fazer com ela? —Exonerar o senhor Scott — respondeu Declan em tom solene. E com sorte, explicar a Lily o que de verdade aconteceu com sua querida tia. Corbett assentiu. —Muito bem. Com o conde morto, já não existe nenhuma razão para que alguém tenha medo de falar, suponho. E agora, senhor, se me permiti, eu gostaria de voltar a conhecer a condessa. —Venha — disse ele e lhe ofereceu a mão para ajudá-lo a levantarse. 307


Caminharam até o terraço que havia na parte de trás da casa, onde tinham preparado mesas com velas e flores para jantar. Keira havia se trocado e usava um vestido da cor da névoa irlandesa. Penteou e prendeu o cabelo, que caía pelas costas em uma cauda. Sorriu ao ver Declan e, imediatamente, ele se sentiu mais alegre. —Aqui está minha digna oponente — disse com uma grande reverencia. — Já soube? Como foi o resultado da nossa corrida, doaram mais de cem libras. —Tudo isso devido a você. —Tive uma grande inspiração — brincou ela e se virou para sorrir a Corbett. —Senhora, permita-me lhe apresentar o capitão Corbett. Declan viu uma sombra de medo aparecer em seus os olhos por um instante, mas Keira se transformou em uma atriz consumada. —Capitão! É um prazer voltar a vê-lo! — exclamou e pegou suas mãos entre as dela. — Faz muito tempo, não é? —Ah, senhora veja só, já é uma grande mulher — disse o homem, com autêntico carinho. — Sempre soube que seria uma beleza. Seus olhos são um pouco mais verdes do que lembrava e seus cabelos pareciam enrolados... — Olhou-a fixamente. — Mas você é tão encantadora como foi há quinze anos. —Muito obrigada — respondeu ela. —Continuou jogando xadrez, não é? — perguntou ele alegremente. —Ah... Não tanto como gostaria — respondeu Keira, enquanto colocava uma mecha atrás da orelha. —Venha e satisfaça a curiosidade deste velho com a história de suas aventuras — disse ele, enquanto a levava para um lado. Keira lançou um suplicante olhar para Declan, que piscou um dos olhos. Ela respondeu revirando os olhos, depois voltou a sorrir para o capitão Corbett, como se fosse o homem mais importante da festa.

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Declan estava certo de uma coisa: ninguém jamais acreditaria que aquela mulher não fosse uma condessa, por muito que Eberlin soubesse a verdade. Não a voltou a vê-la até bem a entrada da noite, quando o baile estava em seu apogeu, animado pelas grandes quantidades de cerveja, que foram consumidas durante o dia e a noite. Declan estava no terraço atrás de umas plantas quando captou o brilho de um vestido de seda azul que Keira vestiu para a noite. Olhou entre as folhas e a viu com as costas apoiada na parede, com os olhos fechados. —Lembro de uma vez que encontrei você, Lily e Eireanne atrás de alguns vasos de barro, em Ballynaheath, durante o baile de Natal. Ela abriu os olhos e sorriu com ironia. —Refere-se ao único baile celebrado em Ballynaheath nos últimos cem anos? —Nos últimos dez — corrigiu ele. —Lembro muito bem. Tinha quatorze anos. —Quatorze anos e já planejava o destino de Lily e... como se chamava aquele moço? —Ciaran Dougal — respondeu Keira com um tímido sorriso. — Lembra-se dele? Era só um pouco maior que nós e pensava unicamente em navegar pelos mares como seu pai e seu avô. Agora não lembro porque estávamos tão convencidas de que era o par ideal para Lily. Acho que possivelmente fosse pelos seus belos olhos. Declan sorriu. —Mas eu estraguei tudo, sabia? — continuou ela, fazendo cara de aborrecimento de brincadeira. — E pensar que Lily poderia estar casada com um capitão de navio, se eu não tivesse agido daquele jeito. —A próxima vez que a ver, pedirei desculpas de joelhos por ter roubado a oportunidade de ser feliz. Keira riu e depois bocejou. —Está exausta. Deveria ir para a cama. —Não me atrevo — respondeu, negando com a cabeça. — Não até irem todos os convidados. Mas não me importaria de tomar um pouco de ar. 309


Declan tinha vontade de abraçá-la. Queria deitá-la ele mesmo, perder-se entre seus braços. —Permita-me, milady — disse e oferecendo o braço. Foram para o jardim. Passearam diante as barracas e mesas vazias, além de um barril de cerveja que colocaram de pé. Cruzaram a área de boliche, onde as bolas ainda estavam como deixaram no final do jogo. —Estou orgulhoso de você, moça — disse Declan. — O que conseguiu hoje foi tão incrível como louvável. Deveria estar orgulhosa, do que tem feito pelo orfanato. Keira negou com a cabeça e baixou o olhar. —Muitas pessoas organizaram. —Não. Nada disso teria sido possível, sem você e ninguém pode dizer o contrário. Ela sorriu um pouco tímida. —Obrigada. Suponho que sim, que estou um pouco orgulhosa de mim mesma. Só desejaria poder ter feito sem nenhuma farsa. —Sim — respondeu Declan. E foram um pouco mais longe, para o lago, onde as tochas de juncos queimavam fracas. —Você teve oportunidade para falar com o capitão Corbett? — perguntou Keira. — Eu não me atrevi... Tive medo que me descobrisse se fizesse muitas perguntas. —Sim falei — respondeu ele e explicou o que havia dito o homem, sobre o porquê sua tia não tinha defendido o senhor Scott e as suspeitas que giravam sobre sua morte. Keira o escutou em um perplexo silêncio. Quando Declan terminou, já tinham chegado à pracinha. —Dhia — sussurrou ela. — Não sei o que dizer. — Olhou para o lago. — Pobre Lily. A verdade resultará muito difícil de aceitar. —Sim — concordou ele. — E eu gostaria muito de saber onde estão as joias. —Continuará procurando elas? Declan olhou para o jardim, mergulhado já nas sombras.

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—Suponho que sim — respondeu e nesse momento, percebeu o que ia fazer. — Joseph Scott merece. E também sua tia. Acho que é o mínimo que posso fazer, ainda mais porque continuarei em Kitridge Lodge vários meses, com uma égua prenha. —Vou necessitar de algo para encher os meus dias e horas em que estarei sentindo falta de Keira. — E você não estará aqui para me distrair com suas roupas e seus chapéus — disse com meio sorriso. Ela devolveu um sorriso triste. —Não quero ir Declan. Quero ajudá-lo a encontrar as joias. Quero esclarecer tudo. Se eu... —calou-se para não falar mais do que o necessário. —Ah, Keira — respondeu ele. Colocou as mãos em sua cintura, atraiu-a para si e a beijou com ternura. Era um beijo triste, pensou Declan, tipo de beijo que dão os amantes antes de se separarem. Amava-a. Essa era a estranha sensação que havia percebido. O estranho peso que sentia no centro de seu ser. Amava Keira Hannigan como a nada ou a ninguém, que tivesse amado antes e naquela estrelada noite de verão desejou saber o que fazer com isso, como deveria confrontar essa informação no panorama de sua inquieta alma. Pegou o rosto entre suas mãos e a contemplou pela fraca luz, passando o olhar pelas suas feições delicadas; queria gravar em sua cabeça a imagem dela e de seus brilhantes olhos irlandeses para que continuasse sendo tão real como era nesse momento. —Sentirei sua falta, muirnín. — Teria saudades, como teria saudade de respirar. Segurou sua mão. —Eu ficarei ainda mais com saudades — sussurrou e, com um fraco suspiro, fechou os olhos. Declan a beijou meigamente, mas um desejo mais feroz em seguida despertou nele. Sentiu-a cálida e suave entre suas mãos e percebeu que muito em breve não voltaria a vê-la em Ashwood, não teria seus olhos verdes posados nele. Não voltaria tocá-la assim. 311


Afundou os dedos no grosso cabelo que caía pelas costas e a beijou com mais paixão. Cheirava a lavanda. Mordiscou-lhe o lóbulo da orelha, depois o pescoço e o suave oco da clavícula. Afundou os dedos no seu quadril e se inclinou sobre seu seio, beijando a carne que seu decote deixava descoberto. Sobre ele, Keira afogou um grito de prazer, avivando ainda mais o desejo que se apoderou dela, de repente. Resmungou seu desejo de estar dentro dela e, impulsivamente, agarrou-a pela cintura e a fez virar e sentar-se no banco dentro da pracinha, enquanto fincava um joelho no chão. —O que acha que está fazendo? — perguntou Keira com voz cantada. — Não vê que tem convidados por toda parte? —Convidados que beberam muito e que estão mais interessados em seus próprios encontros amorosos — respondeu Declan e tirou seu sapato de cetim. Segurou-lhe a perna e beijou o tornozelo, com meia e tudo. Ela soltou uma risadinha. —Tome cuidado com meu sapato, senhor! —Que sapato? —perguntou ele e foi subindo a boca pela perna até o interior do joelho, levantando a saia ao mesmo tempo. —Declan O’ Conner, está me levando para o caminho da perdição — exclamou Keira, enquanto apoiava as mãos em seus ombros. —Não parece que se importa. — Mordiscou-lhe a perna bem na metade, depois levantou a cabeça e colocou a mão na parte de dentro das coxas. — Quer que eu pare? — perguntou-lhe com voz sedosa. O sorriso dela desapareceu; soltou um grande suspiro. —Descobrirão nós dois — sussurrou. —Não se ficar bem quieta — replicou Declan com uma piscada, subindo a mão até a abertura das meias, até sentir os cachos de seu sexo. —OH — gemeu ela. Ele colocou os dedos entre as dobras molhadas. Iria para o inferno por aquilo, por desejá-la tanto, mas não se importava. Estava decidido e a única coisa que lhe importava era dar prazer a Keira e vê-la recebê-lo. Ela estava quente e molhada e a acariciou sem piedade, roçando em seu ponto 312


mais sensível, entrando e saindo de seu sexo. Com cada carícia, com cada um dos suspiros de Keira, seu desejo palpitava em cada veia. Imaginou-se dentro dela, sentindo o roce de seu corpo contra o seu. Afastou a mão, segurou-a pela bainha do vestido e o levantou até os joelhos, para que pudesse ver sua calcinha e meias. A respiração de Keira acelerou imediatamente; segurou-se nas extremidades do banco como se estivesse lutando por manter-se sentada. Para Declan era insuportável. Agarrou-a pela cintura e a aproximou dele; depois colocou os dedos na abertura das meias e as rasgou. —Declan! — sussurrou. —Sihh — advertiu ele e a silenciou com um longo beijo que a deixou sem fôlego, antes de voltar a colocar-se entre suas pernas. Seu aroma o deixou louco. Acariciou com a língua os amaciados cachos e Keira gemeu baixinho, esforçando-se para não fazer barulho. Depois cobriu seu sexo com a boca e ela teve que conter um grito de prazer. —Que Deus me ajude! — gemeu, enquanto ele a acariciava com a língua. Nada podia tê-lo excitado mais que aquela silenciosa exclamação e, com um grunhido, começou a explorar seu sexo com a língua, desfrutando dela, enquanto se enchia com seu aroma. Quando Declan pegou o centro de seu desejo entre os lábios, Keira afundou os dedos nos seus cabelos. Moveu-se, pressionando contra o rosto dele e depois se afastando um pouco quando não podia suportar o prazer que ele estava dando. Declan não tinha nenhuma intenção de deixá-la escapar e a segurou pelos quadris, segurando-a com firmeza, levando-a até o limite, perdendo-se quando ela foi mais à frente, enquanto reprimia seus gemidos de prazer arranhando o banco, ao mesmo tempo levantando para apertar-se de novo contra ele. E depois ficou imóvel, exausta. Declan beijou as coxas, os joelhos e se sentou sobre os calcanhares para recuperar o fôlego. Tirou um lenço do bolso e secou a boca antes de limpá-la. 313


Lentamente, Keira arrumou as saias. Seus olhos verdes estavam escuros, seu cabelo era um matagal. Olhou-o durante um longo momento e o carinho que sentia por ele se refletiu em seu sorriso preguiçoso e satisfeito. —É malvado, Declan. Diabhal. —Obrigado — respondeu ele com um sorriso. Levantou e se sentou a seu lado no banco. Keira pegou seu rosto entre as mãos e o beijou até que Declan começou a rir, depois se apoiou nele. Enlaçando os dedos com os seus. Não disseram nada, só deixaram que o ar da noite os refrescasse. Ouviram um som de risadas e Declan suspirou. Virou a cabeça para olhá-la. —Seus convidados irão se perguntar, se você se perdeu. —Só a cabeça — respondeu Keira. Declan pensou que ele também, tinha perdido a sua com a dela.

CAPÍTULO 31 Keira não queria deixar a pracinha. Desejava que aquela noite durasse eternamente. Mas prendeu o cabelo na nuca, sacudiu a saia e permitiu Declan arrumar seu sutiã. Iniciaram a volta de mãos dadas. —Acho que vou praticar arco e flecha quando voltar a Irlanda — disse Keira por dizer. — Eu gosto, e você? Ele não respondeu, mas soltou sua mão. Ela viu que estava olhando para o escuro caminho. Seguiu seu olhar e viu Linford correndo para eles. Correndo! Surpresa olhou para Declan. Tinha a mesma aparência que devia ter ela: parecia um pouco enjoado. —Deus me ajude — sussurrou Keira. —Senhora — disse o mordomo, ofegante, — por favor, venha logo. —O que acontece Linford? O que aconteceu? —Deve vir. 314


O coração de Keira começou a bater com toda pressa. Sabia o que tinha acontecido: Eberlin havia realizado sua ameaça. Faria-a comparecer às autoridades e agora teria que rezar que acreditassem. Apressaram-se atrás de Linford, mas no final do atalho, este virou para o jardim. —Pela entrada de serviço. Keira olhou para Declan. —Eberlin — lhe sussurrou. Ele assentiu. —Vá com Linford. Eu averiguarei o que está acontecendo. —Venha, senhora — insistiu o homem; chegou a casa antes que ela e segurou a porta de entrada de serviço. Keira sorriu ansiosa quando passou na frente dele, mas não quis olhar para seus olhos. «OH, Deus. OH, Santo Deus.» Sentia como se caminhasse para a forca. O estômago revirava e as mãos suavam. Juntou-as e apertou-as contra o abdômen. Tudo estava ido tão bem... Deveria saber que a magia daquele dia não poderia durar. —No salão — disse Linford. Keira não tinha nem ideia de como fez, mas conseguiu colocar um pé na frente de outro e obrigar-se a percorrer o longo corredor até a parte da frente da casa no salão. Na porta, parou um pouco para recuperar o fôlego. Levantou o queixo; possivelmente era o momento do julgamento para ela, mas enfrentaria com o máximo de dignidade possível, apesar de sua grande mentira. Cruzou a soleira e ficou sem fala. Não era Eberlin quem estava na sala, a não ser Lily. Esta, com seu sedoso cabelo negro e seus olhos verdes cor de mar, que se parecia tanto com Keira... mas não em tudo. —Kiki! — exclamou Lily e a abraçou com força. Ela esteve ao ponto de desmaiar de alívio. —Pensei que não chegaria nunca! — disse ao pescoço de Lily. —Sei querida, atrasei-me terrivelmente. Mas o mau tempo tem fez o impossível para a navegação. — De repente, afastou-se e a segurou pelos ombros. — O que aconteceu aqui?

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Keira olhou a Linford e depois para Louis, que estava olhando Lily como se tivesse visto um fantasma. —Deixe-nos — pediu Keira. Nenhum dos dois se mexeu. —Por favor. Linford se inclinou e saiu, Louis também, mas com um passo mais lento. Olhou para Keira com uma mistura de confusão e possivelmente com um pouco de desdém. Quando ela ouviu fechar a porta, sorriu a sua prima. —OH, Lily, tenho tantas coisas para contar a você. Não sei por onde começar. —Pelo inicio — respondeu ela e se sentou no sofá. — Não entendo o que está acontecendo aqui. Linford me olhou e parecia que fosse desmaiar. Tirou à senhora Thorpe da cama e a pobre mulher não conseguia nem pensar. Olham-me como se estivessem vendo um fantasma. Só o lacaio conseguiu dizer algo. E disse: «Imploro que me perdoe senhora, mas já temos uma Lily Boudine. É a condessa». Imagina minha surpresa, Keira. —Eu sei, é... —Pensei que possivelmente não tivesse vindo a Ashwood e lhes disse: «Sou a condessa, sou Lily» — continuou esta sem respirar. — E à senhora Thorpe: «Não se lembra de mim? Você me ensinou a trançar o cabelo». Mas ela não respondeu nada e percebi que algo estava muito, muito mal. E então, pensei que sim, que tinha vindo e que, por alguma razão, todos acreditavam que você era eu. —Sim — respondeu Keira e pegou sua mão. — Vou explicar tudo isso. —OH, não — exclamou Lily, olhando-a fixamente. — OH, não, Keira! —levantou de repente do assento e foi à janela, depois virou para encarar ela. — Como pode fazer algo tão estúpido e insensato? Como não viu o caos que causaria? —Por Hannah Hough — respondeu Keira, recuperando a compostura, enquanto engolia as lágrimas de alívio. — Nunca tive intenção de passar isso, Lily. O que não daria para voltar atrás e começar de novo! 316


Mas não é possível. Só posso dizer que pensava que estava fazendo o que você tinha pedido. — Fazer você se passar por mim? Alguma vez pedi a você algo semelhante — replicou Lily, incrédula. — E que diabos vamos fazer agora? Keira sentiu que ia desmaiar. Não podia continuar com sua farsa, nem por mais um segundo, mais o peso deste afundou-a, fazendo com que falhassem suas pernas e caiu de joelhos no chão como uma pedra, com as saias estendidas ao seu redor. Todas as frustrações, os medos e as recriminações caíram em cima dela com toda sua crueldade. —Keira! — exclamou Lily, alarmada; correu para ela e se ajoelhou a seu lado. Passou os braços e a abraçou com força. — OH, Deus! — disse com tom mais suave. — O que aconteceu? Ela contou tudo. De sua semelhança, junto com os quinze anos transcorridos que fez todos as confundirem. Disse que nunca pretendeu fazer o que fez, mas se deparou com o problema de Hannah Hough, que perderia sua casa se a condessa não fizesse algo, e os salários que precisava pagar, a festa de gala e o misterioso conde dinamarquês que estava tentando roubar quatrocentos hectares e que a ameaçou, por nunca ter dito a verdade. —OH, Kiki! Deveria ter voltado para a Irlanda — suspirou Lily. — Ficar aqui só piorou as coisas. —Não podia — respondeu Keira tristemente. — Não podia deixar a todos e não podia permitir que Ashwood caísse na ruína. E, além disso, também tinha o senhor Scott. Lily empalideceu ao ouvir esse nome. —O senhor Scott — repetiu, como se não estivesse segura de poder dizer. Sentou-se sobre os calcanhares. — E o que tem isso a ver com ele? Keira gemeu. Fechou os olhos por um momento, depois recuperou as forças e ficou em pé. Estendeu uma mão para Lily e a ajudou a sentar-se no sofá. —Tenho notícias perturbadoras — disse. — O senhor Scott não roubou as joias. 317


Sua prima a olhou como se não tivesse entendido. —Declan e eu estamos descobrindo a verdade — acrescentou Keira. —Declan. Que Declan? —Donnelly — respondeu ela com uma careta. Lily se levantou novamente. —Sei o que está pensando — disse Keira. — É uma coincidência muito estranha, ele estar aqui criando cavalos. Em Kitridge Lodge! Não tinha ideia alguma, prometo que não, Lily. Mas... um dia apareceu. Por causa dos cavalos que colocamos à venda. —Cavalos? — repetiu sua prima e levantou as mãos à cabeça como se doesse. — E o que tem isso a ver com o senhor Scott? —Ele não roubou as joias da tia Althea... Era seu amante. Lily a olhou boquiaberta. —Isso é impossível — respondeu zangada. — Se trata de uma fantasia... —Não — insistiu Keira e ficou também em pé. Segurou a mão de Lily. — Acreditará quando ouvir o que vou mostrar para você. Saiu com ela do salão e percorreram o corredor, passando diante uma surpresa donzela e dois cautelosos lacaios. Na sala de música, Keira acendeu um candelabro e se aproximou com Lily do piano. —Lembra-se dele? — perguntou, apontando o instrumento. —Claro que sim. Era de Althea. —Aqui todo mundo pensa que ela o mandou fabricá-lo para você — disse Keira. Passou o candelabro e virou o tamborete. — Olhe isto, Lily. Olhe essa inscrição. A princípio, não parecia ver assim, Keira a segurou outra vez pela mão, fezendo-a ficar de joelhos e aproximou a luz. Lily se inclinou e entrecerrou os olhos ao distinguir a inscrição. Leu-a, sentou-se sobre os calcanhares e depois voltou a inclinar-se para ler novamente. —Não entendo. Não entendo. —OH, Lily — exclamou Keira com tristeza. — O senhor Scott não roubou as joias. E tia Althea não se afogou acidentalmente. Tirou a vida. Ou alguém a tirou. 318


Sua prima empalideceu e a olhou boquiaberta. Depois entrecerrou os olhos. —Não entendo o que pretende, mas isso não é certo — replicou, zangada. Keira segurou suas mãos entre as suas. —Sim é certo, querida — disse com solenemente e lhe explicou tudo o que sabia. Com cada palavra, Lily se afundava mais e mais, com os olhos cravados nela. Quinze minutos depois, Keira saiu da sala de música e chamou um lacaio. —Por favor, vá procurar lorde Donnelly — pediu. — Diga... — Olhou para trás e sua prima continuava sentada no chão, com o olhar fixo no tapete. — Diga a ele, que Lily Boudine voltou para Ashwood.

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CAPÍTULO 32 Declan soube que Lily tinha voltado para casa antes que o lacaio lhe dissesse; os rumores já estavam correndo entre as pessoas que ainda continuavam ali naquela hora da noite. Ouviu que alguma coisa ruim acontecia com lady Ashwood e quando uma mulher explicou que havia duas iguais e que uma delas tinha aparecido no caminho justo quando algumas pessoas partiam, teve certeza. Declan encontrou às duas primas sentadas frente a frente no sofá do salão verde. Assim que Lily o viu, ficou em pé. —Milord — disse com voz baixa e correu pela sala para fechar a porta atrás dele. Enquanto fazia, Keira se levantou lentamente. Seus olhos, carregados de preocupação e medo, cravaram-se nos de Declan. —Perguntaria sobre você e os seus, mas acredito que o problema em que Keira se encontra, exige nossa atenção imediata — disse Lily passando a seu lado. Estava com os braços cruzados e com cor nas faces. Era tão bonita como Keira, mas de uma maneira mais doce. A cor de seus olhos, não era tão impressionante e seu nariz não era tão arrebitado. Mas sim existia uma grande semelhança entre ambas, o que Declan já sabia, embora não pudesse confundi-las. Supôs que assim que alguns dos criados mais antigos na casa, assim que viram Lily, perceberam de seus enganos. —Sim — respondeu. — Os convidados sabem que acontece algo estranho. —Santo Deus! — exclamou a jovem. —Lily — disse Declan; aproximou-se dela e pegou sua mão, — Keira fez algo tão sem juízo que talvez, nunca possa recuperar. —Sinto muito! — exclamou Keira. —Mas já foi feito — continuou ele, ignorando o caso. — E embora tenha errado, fez o melhor possível e tem feito muitas coisas boas em seu nome. No momento, salvou a propriedade de alguns sérios desafios. 320


Colocou vários homens a trabalhar para reconstruir o velho moinho e elaborou um plano para moer grão do condado como negócio. Tomou o orfanato sob sua tutela e ajudou a recolher recursos para reformar o edifício. Também começou a reparar Ashwood. Foi extraordinária em seu posto, mas agora é o momento de reconhecer a verdade e mandá-la de volta para a Irlanda, antes que alguém possa lhes causar sérios problemas a qualquer uma das duas. —E deixar eu sozinha para arrumar toda essa confusão? — perguntou Lily e afastou a mão das suas. —Keira cometeu um crime ao assumir sua identidade — explicou Declan. — Não estou certo que possa protegê-la de toda lei inglesa. Ambas as jovens o olharam; quatro olhos verdes muito abertos. —Asseguro que o povo deste país considerará um ato atroz, que uma irlandesa católica tenha feito se passar por uma condessa inglesa, por melhores que fossem suas intenções. Estarão convencidos, que suas razões não tinham nada a ver com isso, que é uma moça maluca, mas sim, procurava algum benefício pessoal ou político. —Mas ela tinha minha permissão para fazer o que fosse necessário — indicou Lily. —Isso diz você — respondeu ele. — Mas não existe nenhuma prova. —Então, escreverei uma carta agora mesmo — respondeu a jovem, olhando para a mesa. —Nesse caso, perguntarão por que, tinha tal carta e não mostrou até agora. Keira e Lily trocaram um olhar de preocupação. —Sugiro que saiamos e anunciemos para quem ainda está aqui nesta noite, que a verdadeira condessa chegou. Keira e eu partiremos de volta para a Irlanda amanhã. —Você? — perguntou Keira. Declan olhou para seu belo rosto. —Deve partir imediatamente e não vou permitir que viaje sozinha. Vamos a cavalo. 321


—Mas o que acontece com seus cavalos? E com seu trabalho com o potro? — perguntou ela. Sim, e como ficava seus compromissos? Ele não parou para pensar muito nisso. A única coisa que sabia era que, não podia deixar Keira se arrumar sozinha. Não sabia dizer em que momento percebeu isso. Só sabia que, ao olhá-la, não poderia aceitar nenhuma outra alternativa. —Terei que confiar em Noakes para que se encarregue de tudo em minha ausência. — Olhou para Lily. — E você deve confiar no senhor Fish, no administrador. Ele a guiará durante os próximos dias. —O senhor Fish? — repetiu a garota e sacudiu a cabeça, enquanto apertava as têmporas com os dedos. — Não posso acreditar que esteja acontecendo tudo isso. — Tremiam suas mãos. —Vou procurar o senhor Fish — disse Declan. — E pedirei a Linford que prepare os convidados para um anúncio importante — acrescentou e deixou às duas jovens olhando-se, inseguras. O senhor Fish estava atônito. Ficou de pé no salão, olhando alternativamente para Keira e Lily como se não conseguisse compreender. Keira quase não conseguiu olhá-lo por se sentir culpada. —Não sei como me desculpar — disse. — Nunca tive a intenção de enganar a alguém, e muito menos a você, senhor Fish, que foi meu amigo e conselheiro, e ... E Ashwood estaria na ruína se não fosse por você. O homem engoliu a saliva e segurou as mãos com força nas costas. —Não posso dizer que eu entenda essa farsa — respondeu, tenso. — Ou que não me sinto gravemente enganado. Para Keira doeu ouvir isso, mas mordeu o lábio e assentiu com a cabeça. Merecia seu desdém, se não seu absoluto desprezo. —Não sei mais o que dizer — concluiu o senhor Fish. Declan dedicou a Keira um rápido sorriso de ânimo, mas ela não se consolou. Desprezava-se por ter ferido o senhor Fish, como era evidente que tinha feito. —Compreendo senhor. Espero ardentemente que algum dia consiga me perdoar... 322


Ele bufou e Keira fez uma careta de dor. —Mas até que chegue esse dia, minha esperança mais ardente é que não culpe Lily por isso. Ela é totalmente inocente e agora precisa de sua ajuda mais do que nunca. O senhor Fish olhou para Lily com frieza. —Estou de acordo que precisa de minha ajuda. —Então... ficará aqui, senhor? — perguntou Lily com cautela. Ele apertou os lábios, enquanto a observava. —Durante um tempo, senhora — aceitou. — Durante um tempo. Lily suspirou aliviada. —Nunca poderei agradecê-lo o bastante. —Bom — respondeu o homem com sua habitual eficiência, — sua senhoria sugeriu para que informássemos os convidados. Estou de acordo em que deve fazê-lo, em nome da decência, já que essas pessoas confiaram em... na senhorita Hannigan. Keira pensou que iria desmaiar, quando viu o senhor Fish sair do salão. Percebeu que estava se segurando no apoio da cadeira com tanta força que doíam seus dedos. —Vamos — disse Lily e pegou sua mão. — Vamos terminar com isso de uma vez por todas. Já durou muito. Ela só conseguiu assentir com a cabeça. Sua prima rodeou os ombros com o braço e a fez andar. Declan abriu a porta para elas e quando passaram, tocou na mão de Keira. —Levanta o queixo, moça — disse ele. Abraçadas pela cintura, Keira e Lily saíram para o terraço com Declan atrás. Este ficou ao lado do senhor Fish, que já havia reunido todos os convidados que ainda estavam presentes. Keira olhou o céu; as nuvens começavam a cobrir as estrelas, engolindo-as em seu passo lento. Desejou que uma a engolisse também. Ouvia os sussurros dos presentes, os gritos afogados, enquanto as pessoas se aproximavam e viam as duas juntas. Declan deu um passo à frente. —Eu falarei... —Não — o interrompeu Keira. — Eu devo fazer isso. — Fechou os olhos por um momento para tirar forças, depois soltou o braço de Lily e 323


deu um passo à frente, ficando só no último degrau do terraço. — Agradeço a todos por terem vindo hoje — começou a dizer, com uma voz que surpreendeu a si mesma pela sua força, e olhou para a multidão de rostos conhecidos. Estavam as damas da sociedade e seus maridos, a irmã Rosens, que ainda segurava uma caneca de cerveja e tinha rido nesse dia, como Keira jamais a tinha visto rir e Benedict Sibley, olhando-a com a mesma adoração de sempre. Estavam também seus novos amigos, como o capitão Corbett, que tinha descoberto que era um rabugento encantador. Do mesmo modo, havia alguns membros de serviço, como os lacaios, Linford e a senhora Thorpe. Todos a olharam, com expressão de confusão e curiosidade. —Obrigada — disse novamente. — Hoje conseguimos mais de quatrocentas libras para o orfanato. Isso produziu uma onda de educados aplausos, mas era evidente que no momento todos já haviam esquecido o orfanato. Seus olhares estavam cravados nela. —E agora — continuou Keira com pernas tremulas, — queria lhes apresentar à autêntica condessa de Ashwood, Lily Boudine. — Fez um gesto para sua prima e um murmúrio se levantou entre os presentes, enquanto alguns se viravam para outros e pediam que lhes repetissem o que Keira havia dito, porque sem dúvida deviam ter ouvido errado. Lily avançou, segurou sua mão e a apertou. —Talvez tenham notado como somos parecidas — prosseguiu Keira. — Eu... na verdade, sou prima de lady Ashwood, Keira Hannigan — explicou, com a voz um pouco insegura. Houve mais gritos afogados e o murmúrio se fez mais intenso. Justo na frente dela, viu a senhora Ogle, que a olhava boquiaberta. —É uma..., uma coisa muito curiosa — continuou Keira. — Quando recebemos a notícia de que Lily tinha herdado a propriedade e o título como única parente em vida do falecido conde, ela havia já se comprometido a viajar para a Itália. Então me pediu, para que viesse aqui e 324


me encarregasse de tudo até que pudesse assumir o lugar que lhe correspondia por direito, e eu naturalmente, não pude negar. Mas quando cheguei e fui confundida com ela... Keira hesitou. Não, não, não podia contar assim. Devia haver uma maneira melhor de explicar. Olhou para o senhor Sibley, cuja expressão se transformou em incredulidade e, encheu Keira de desgosto. —Continua! — gritou uma voz de mulher. — Não nos deixe em brasas! Lily lhe deu outro apertão na mão e Keira pigarreou. —Fui confundida com minha prima. Quis desmentir o engano, mas havia um assunto urgente da senhora Hannah Hough, que requeria a intervenção da condessa... e me pareceu que Ashwood precisava dela. Olhou para lady Horncastle, que parecia furiosa. E à irmã Rosens... OH, Deus, que expressão de decepção tinha! —Quero deixar muito claro que lady Ashwood não me pediu em nenhum momento que..., que me fizesse passar por ela — tratou de esclarecer. — Minha prima não é responsável por isso e desconhecia completamente... —Pedi que viesse se encarregar dos assuntos daqui — interveio Lily com voz forte e clara. — Tinha todo meu apoio para fazer o que fosse necessário. Mais murmúrios se levantaram entre as pessoas e o som de confusão também se intensificou. Ouvia-se também raiva. Daria Babcock, a doce jovem que Keira considerou uma amiga, sorria presunçosamente. A senhora Morton falava de ouvido com a senhora Ogle, com expressão de aborrecimento e mexendo as mãos. O senhor Anders deixou sua caneca de cerveja e se afastou, abrindo-se caminho entre as pessoas. Keira agradeceu por Lucy estar na cama e não precisasse ouvir aquilo tudo. —Queria ser eu quem lhes dissesse a verdade — continuou. — Mas agora que lady Ashwood voltou para casa, já não sou necessária aqui. Assim quero lhes agradecer... sua amizade e sua amabilidade comigo e lhes pedir que ofereçam a mesma lealdade a lady Ashwood. 325


As lágrimas fizeram um nó em sua garganta. Não acreditava ser capaz de dizer mais alguma palavra e olhou para Lily. Esta sorriu e fez um gesto lhe indicando a porta que tinham atrás. Keira abaixou a cabeça e começou a andar para lá. —Mentirosa! — gritou-lhe alguém. Ela sentiu náuseas. Não viu Declan se mexer, mas o ouviu. —Fique aqui! — disse ele com voz forte e firme. Keira afogou um gritou e se virou. Viu-o plantado na beira do terraço, com as pernas abertas. —Antes de condená-la, se lembrem de tudo de bom que lhes tem feito! — gritou. — O orfanato saiu beneficiado e, a não ser por seus esforços de hoje e não acredito, que o benefício tivesse sido o mesmo. Muitos de vocês estão trabalhando na reconstrução do moinho. Assegurouse de que lhes fossem pago os salários e de que não aumentassem os aluguéis. Assim, antes de julgá-la, lembre-se de tudo o que fez por Ashwood e por vocês. Virou às pessoas com olhar sombrio. —Maldito! Volte para a Irlanda! — gritou alguém, enquanto ele fazia Lily e Keira entrar. Declan apertou os dentes e guiou às jovens para dentro da casa na frente dele, enquanto os gritos da multidão se intensificavam. —Farei que partam — disse o senhor Fish com secura e saiu novamente, deixando-o com Lily e Keira. —É uma mulher valente — disse Declan a esta. — Voltarei pela manhã. Se prepare para viajar a cavalo. Lily, bem-vinda a casa — se despediu e se dirigiu para o corredor. Keira o contemplou afastar-se. Nunca o tinha visto assim, nunca viu tanta determinação em seu olhar. Lily a puxou. Apressaram-se pelos corredores atapetados até o quarto rosa e nata que Keira havia considerado seu lar durante todo esse tempo. Sua prima cruzou a soleira e olhou ao redor. —Passava horas neste quarto com tia Althea — disse, melancólica.

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—Como era? —perguntou Keira depois de fechar a porta. — Tenho tantas perguntas sobre ela! —Bonita — respondeu Lily com tristeza. — Uma princesa. Eu queria ser como ela. — deixou-se cair frente à lareira, enquanto Keira pegava uma quantidade de coisas. — Não posso acreditar que sua vida terminou de uma maneira tão trágica. O quanto solitária deve ter se sentido! O quanto estava assustada! Explique-me isso de novo — disse. — Conte tudo. Ela fez. Depois conversaram até a madrugada, até que Lily ficou cansada de todas as suas perguntas. —Você demorou tanto para voltar... — disse Keira quando a outra deixou de perguntar. — O senhor Canavan foi o motivo? Sua prima sorriu com acanhamento. —Não. O senhor Canavan não era tão interessante como eu acreditava — respondeu com um sorriso lânguido. — Na verdade foi o mau tempo... e, além disso, foi difícil retornar aqui. Tenho muitas lacunas em minhas lembranças; entretanto, conservo uma sensação estranha e desagradável deste lugar. Ainda mais agora, depois do que me contou da tia Althea. Não sei o que pensar. Deitou na cama e olhou para o dossel. Keira se deitou a seu lado. —Pois me parece um lugar encantador. Espero que possa fazer as pazes com ele. Continuaram falando até que as duas dormiram. Mas Keira dormiu inquieta. Despertou antes do amanhecer e terminou de recolher suas coisas; depois esperou que Lily despertasse. Quando esta por fim abriu os olhos, viu Keira sentada no sofá, observando-a. —Que horas são? — perguntou. —Sete e meia — disse Keira. — Lily, tenho uma coisa a mais a dizer para você. Há uma menina chamada Lucy Taft...

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Lucy estava na sala das crianças tomando o café da manhã sob o vigilante olhar da donzela, que olhou para Keira com desdém quando esta entrou. Em troca, Lucy parecia a alegre menina de sempre. —Bom dia, senhora — a saudou, coisa que ela considerou um bom sinal. Não devia ter sido informada ainda, do caos da noite anterior. —Betts, nos dá licença, por favor? — pediu Keira à donzela. A jovem se levantou e saiu da sala sem dizer nada. Como se esperava, Lucy percebeu algo estranho; baixou a colher e olhou para Keira. Esta se ajoelhou a seu lado e pegou sua mão. As lágrimas já turvavam sua visão. —Querida tenho que dizer uma coisa para você. —O que? — perguntou Lucy, com voz tremula. Não pareceu fixarse em Lily, que estava na soleira. —Aconteceu algo — começou a dizer Keira. — Algo na Irlanda e tenho... — Não sabia como continuar. — Devo retornar para lá. —Para Irlanda? — perguntou a menina. O queixo começou a tremer e Keira notou que lhe caíam lágrimas. — Quando? —Agora, querida. Hoje. —Hoje! — exclamou Lucy e começou a soluçar. — Por que? Keira a abraçou com força. —Sinto muitíssimo! — sussurrou. — É uma história muito longa e possivelmente não entenderia. Não tenho muito tempo pequena, mas quero que se lembre do que disse para você. Lembra-se? Lucy deixou escapar um soluço e assentiu. Keira segurou seu rosto entre as mãos, jogou o cabelo para trás e a beijou na face. —Ouça o que eu digo, deve lembrar sempre que jamais pretendi fazer algum mal. Lembra que só queria... — Não tinha palavras que pudessem explicar a uma menina de nove anos o que sentia. — Só queria viver, Lucy — disse finalmente. — Não posso dizer mais nada. Queria viver, provar a liberdade, ser e fazer todas essas coisas que nunca serei ou farei. No meio disso tudo, encontrei você! Eu amo você moça, nunca pense que não! 328


—Então, porque não posso ir com você? — pediu a menina com as lágrimas caindo pelas faces. — Prometo que me comportarei bem. Farei tudo o que disser. O coração de Keira partiu. Lucy era outra consequência de suas ações impulsivas e impetuosas. Tinha pensado que lhe estava fazendo um grande favor tirando-a do orfanato, mas nesse momento, percebeu que só lhe tinha feito mal. Abraçou-a, enquanto chorava e engoliu suas próprias lágrimas. —Não pode vir comigo, querida; dessa vez não... — disse-lhe, mas Lucy continuava inconsolável. Tranquilizou-a com sussurros. — Preciso que fique aqui! Tenho que pedir um favor muito importante para você. Minha prima chegou. Ela será a condessa agora! Mas não conhece ninguém em Ashwood e precisará de uma amiga. Vai querer ser seu amiga, querida? Ser a pessoa com quem poderá conversar? —Não, senhora! Quero ir com você! — gemeu a menina. —OH, Lucy, daria o que fosse para levar você, mas não posso. E Lily precisa de você aqui. Precisam mais uma da outra, do que imaginam as duas. De repente, sua prima se ajoelhou junto a elas. —Lucy estou muito contente por conhecer você... — disse, sorrindo. A menina aspirou pelo nariz e a olhou, relutante. —Se parece muito com você, senhora — disse a Keira com curiosidade. —Ela é mais bonita — admitiu esta, sorrindo para Lily, que tinha os olhos brilhantes de lágrimas. — E me parece, que a amará tanto quanto a mim. — Beijou de novo Lucy e ficou em pé; deixou que Lily a consolasse, enquanto ela partia em silêncio, com o coração rasgando um pouco a mais, a cada passo.

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CAPÍTULO 33 Se tivesse parado para pensar um pouco, Declan certamente se teria convencido que era uma loucura fazer, o que estava a ponto de fazer. E devia estar louco, porque já não podia dar as costas para Keira. Ela estava firmemente metida no seu coração. Amava-a e se preocupava com a sua segurança. Assim, pegou suas coisas e encheu os alforjes. Já estava pronto quando o senhor e a senhora Noakes chegaram para trabalhar. O homem ficou muito surpreso quando lhe pediu que cuidasse dos cavalos até sua volta. —Está doente, milord? — perguntou. —Não, mas precisam de mim na Irlanda. Retornarei antes do inverno. O senhor Noakes parecia perplexo, mas aceitou essa explicação. Prometeu-lhe que os cavalos seriam adequadamente atendidos até sua volta. Declan não duvidava, mas se sentia mal por deixá-los, especialmente à égua prenha. Nunca havia deixado seus animais até então. Selou o cavalo cinza e amarrou a rédea do cavalo Gales à sela antes de jogar um último olhar nos cavalos dos estábulos e partir para Ashwood. Só era nove e meia da manhã quando chegou lá. Linford o recebeu com frieza e Louis o olhou diretamente nos olhos com expressão desafiante. Parece que, mais uma vez o consideravam culpado somente por sua relação com Keira. Entretanto, dessa vez não se importou. Só queria tirá-la dali. Encontrou-a com Lily e com o senhor Fish no salão. Os três estavam muito sérios e se levantaram quando ele entrou. —Milord — o saudou o administrador. 330


—Eberlin chamou o oficial — lhe disse Keira, que parecia a beira da histeria. Declan olhou para o senhor Fish. —É certo isso? —Sim. Contou-me isso um amigo nesta manhã. O conde enviou uma mensagem ao oficial para lhe informar que foi cometido aqui um delito extraordinário. —As notícias viajam rápido em Hadley Green — respondeu ele. — Quanto tempo levará para chegar? —Um dia quando muito — respondeu o homem. Declan olhou para Keira. —Um dia de vantagem será suficiente. Duvido que o oficial a persiga se lady Ashwood não quiser acusá-la. Mas será melhor que tomemos algumas precauções. — E entregou a Keira algumas roupas que pegou em Kitridge Lodge. —O que é isso? —perguntou ela. —Viajará mais rápido e mais ligeira, vestida de homem. Keira olhou para Lily, que assentiu. —Vamos, Keira. Não há tempo a perder. As damas se retiraram e retornaram um pouco depois, com Keira vestida com calças de camurça bem seguras por um cinto e por dentro de um par de botas de montar. Mesmo assim, parecia perder-se nelas. A jaqueta e o colete ficaram igualmente grandes, mas Declan se deu por satisfeito vendo que cobriram suas curvas. O casaco a engolia por completo. Declan tirou uma faca e cortou as mangas e a bainha. —Bom — disse, dando um passo para trás para contemplá-la. — Parece um moço doente. —Por favor! — exclamou Keira. —O cabelo — apontou Lily e a ajudou a prender e escondê-lo debaixo do chapéu. Depois, amarrou-lhe um lenço no pescoço para dissimular a esbelteza do mesmo. —Ainda pareço um moço doente? — perguntou Keira. —Sim. Mas o mais importante é que não parece uma mulher — respondeu Declan. — Se despeçam moças. Devemos partir. Afastou-se, enquanto elas se abraçavam. 331


—Sinto-o muitíssimo, Lily — disse Keira. — E Eberlin... —Não se preocupe — respondeu sua prima sorrindo. — Eu me encarregarei dele — assegurou com firmeza. Declan teve a sensação, que isso seria exatamente o que faria. Keira olhou então para o administrador. —Adeus, senhor Fish. Esse inclinou a cabeça com expressão estoica. —Vamos, moça — a apressou Declan. — Sairemos pela porta de serviço. Depois de olhar para Lily uma vez mais, Keira o seguiu. Saíram pelo caminho lateral, onde esperavam os cavalos. Declan sorriu para ela tranquilizador, e lhe afastou uma mecha. Estava muito bonita. Uma princesa irlandesa. Lamentava o que ela tinha feito, mas já não pensava que desejasse mudar algo. Foi outra admissão particular, que fez seu coração cair. Deixava seus cavalos por aquela mulher. Isso era amor, algo doloroso, mas supôs que não devia haver alegria sem sofrimento. —Vamos — disse e a ajudou a subir no cavalo. Eles pegaram o caminho particular que conduzia ao bosque de Ashwood. Keira montava escarranchada, em silêncio e com a cabeça curvada, centrada no atalho. Cavalgaram até que o sol ficou mais alto e então pararam para comer algo e dar de beber aos cavalos. —Quanto fica até o mar? — perguntou ela. —Se podemos percorrer setenta quilômetros ao dia sem cansar os cavalos em excesso, chegaremos a Pembroke dentro de três dias. Continuaram até que começou a cair à noite e Keira se queixou de cansaço. Declan encontrou um lugar onde acampar, junto a um córrego. Ela desceu do cavalo e pegou tanta lenha como pôde encontrar, no pequeno espaço a seu redor, enquanto Declan dava de beber aos cavalos. Depois amarrou as patas dos animais com bastante corda e os deixou pastando, enquanto acendia uma fogueira com a lenha que Keira tinha empilhado perto do córrego. Quando o fogo acendeu, Declan estendeu as mantas, lado

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a lado, agachou-se e colocou os alforjes para que servissem de travesseiro, depois estendeu a mão a Keira para ajudá-la a deitar-se. Keira se deitou de lado, olhando o fogo. Declan estava exausto, mas não podia esquecer o corpo que tinha ao lado, as curvas sob o casaco, a pele doce e seu cabelo que cheirava a primavera. Queria abraçá-la, mas ela parecia perdida em seus pensamentos. Ele fechou os olhos e caiu em um sono leve. Era vagamente consciente dos bufos que lançavam os cavalos de vez em quando, do crepitar do fogo e... e de um som estranho que o despertou. Continuou com os olhos fechados até que percebeu o que estava ouvindo. Keira chorava. Abriu os olhos e a escutou chorar durante um momento, depois virou de lado e passou o braço por cima para aproximá-la dele. —Não chore muirnín. Tudo ficará bem — murmurou. —Envolvi você em tudo — disse ela tristemente. —Isso é verdade. —Não me dê razão — replicou chorosa. — Isso é o pior que pode fazer. Declan sorriu na noite e lhe acariciou o cabelo. A fraca luz do agonizante fogo parecia muito escuro, e suave como o cetim. —Vem aqui, tontinha — disse e afastou o cabelo para beijá-la na nuca. —Se tivesse o mínimo de bom senso, deixaria-me aqui para que os lobos me comessem. —Não seria uma grande refeição. —Não pretendo alimentá-los por todo o inverno — replicou ela e se virou, para ficar de frente com ele. Tocou sua testa e em seguida foi baixando os dedos pelo rosto até a boca. — Por que faz isso? Poderia ter me deixado para que enfrentasse às consequências. Estou preparada para isso. Declan não pôde deixar de rir. —Fico feliz em ouvir isso. Finalmente, Keira Hannigan compreende que seus atos têm consequências. —Isso é uma loucura e você sabe. Cruzar a Inglaterra a cavalo, como um casal de foragidos. 333


Ele achou interessante, que mesmo com uma luz tão fraca, ainda pudesse distinguir o verde de seus olhos. —Pense nisso como sua última aventura — sugeriu. — Não me surpreenderia que, depois disto, seu pai a colocasse em um convento. Keira fez uma careta. —Isso seria o mínimo que poderia fazer — respondeu ela e sorriu meio de lado, enquanto percorria o lábio inferior com o dedo. — Sabe o que penso? —Nem imagino. —Então eu direi. Sei que sou uma parva... mas penso que possivelmente, você seja ainda mais parvo do que eu. —Por quê? — perguntou ele com um sorriso irônico. —Porque está aqui comigo. Seu sorriso, seus olhos, tudo nela o chamava. Declan roçou os lábios com os seus e, como sabia que aconteceria, Keira o beijou com a mesma vontade que ele sentia. Esse beijo o inflamou e o corpo dela pressionado contra o seu era dolorosamente prazeroso. Não parecia se importar que estivessem sob um manto de estrelas, nos bosques da Inglaterra; eram como duas pessoas sedentas uma da outra, que podiam dar-se mutuamente. Declan a fez ficar de barriga para cima e ficou em cima; colocou a mão sob a jaqueta até encontrar a camisa. Abriu-a bruscamente, enquanto a beijava no pescoço. Depois colocou a mão por dentro da camisa e cobriu com a mão a suavidade de seu seio. Sob os lábios notou o suspiro de prazer de Keira. Estava louco por ela, completamente louco. O desejo o engoliu, mergulhou em seu sabor e no seu aroma. Keira gemeu baixinho se arqueando para lhe encher a mão. Os cavalos se mexeram, um galho caiu na fogueira e Declan se sentiu como se estivesse perdido em um sonho carnal, um sonho em que o coração batia cheio de vida pela primeira vez, em trinta e um anos. Seu coração acelerava por Keira. Tomou o seio na boca. Ela colocou as mãos debaixo da jaqueta e depois debaixo da camisa, arranhando seu peito com as unhas. Declan ofegava levemente e, 334


embriagado, pegou o rosto entre as mãos e procurou sua boca com a sua. Keira se mexeu contra ele de uma forma totalmente feminina, lenta, fácil e suave, Declan a lambeu e mordiscou seu corpo. Seu desejo lhe inchava as veias, o coração se alagava com cada gemido de prazer dela, alagando-o com emoções até então desconhecidas para ele. Desejava-a com um desespero absoluto e quando conseguiu descer suas calças, apertou os dentes para conter as palavras que estavam na ponta da língua. «Amor. Eu sinto amor. Amo você.» Keira colocou uma perna por cima da sua, atraindo-o para que se aproximasse mais. Pegou o rosto dele entre as mãos e o beijou na boca e nos olhos, enquanto ele a penetrava. Declan a balançou contra seu corpo, balançou-a até que ela começou a sentir a sensação que crescia por dentro. Quando Keira gritou na noite, Declan se perdeu dentro dela. Era delicioso. Alguns minutos depois, possivelmente horas, possivelmente dias, ela se mexeu e afundou o rosto no seu pescoço. Ele estava deitado de costas, olhando as estrelas do céu do verão. —Se há algo do que eu nunca ficarei arrependida — disse Keira e lhe mordiscou a orelha. — Nunca me arrependerei de você. —Isso é totalmente mútuo — respondeu Declan e a beijou na cabeça. —Ainda amo você — sussurrou ela. Surpreso, afastou-se um pouco para poder olhá-la. Keira sorriu timidamente e assentiu. —Amava você naquele dia no campo e ainda o amo. Acho que sempre o amarei. Declan não sabia como responder. Um milhão de ideias apareceram em sua cabeça, e a primeira de todas era que ele também a amava. —Pelo amor de Deus, não me olhe tão assombrado — disse ela. — Sabe muito bem que é assim. Suponho que sou como todas as mulheres da Irlanda, desesperada para conseguir a atenção do conde de Donnelly. 335


—Você..., você não parece em nada às demais mulheres da Irlanda — assegurou Declan. —Por favor, senhor... Isso soa muito parecido à admiração. —É muito mais que admiração — afirmou ele e acariciou o cabelo dela. — Eu também a amo, moça. Keira piscou surpresa e abriu bem os olhos. Levantou apoiando-se em um cotovelo e sorriu para ele de orelha a orelha. —Que sonho estranho devo estar tendo. Ele sorriu. —Irritado, exasperado e escandalizado, mas sempre a terei no coração. Ela o olhou durante um longo momento antes de baixar a cabeça. —Isso senhor, é o mais bonito que alguém já me disse. — Colocou a mão no seu peito, bem sobre o coração e fechou os olhos. Declan também fechou os olhos. A manhã não demoraria a chegar e, com ela, a realidade. Cavalgaram de sol a sol cada um dos dias e só pararam para descansar e dar de beber aos cavalos. Keira sentia dor por todo o corpo; notava as pernas como manteiga, quando desmontava e quase não tinha forças para levantar os braços. Maravilhava-a ver que Declan parecia sempre tão... forte. Apesar da dor, ou de estar fugindo da Inglaterra como uma vulgar criminosa, começou a achar que esses dias cavalgando pela Inglaterra foram os melhores de sua vida. Nunca se havia sentido tão livre. Livre dos botões, dos laços e dos grampos. Livre da sociedade e das damas que desejavam casá-la com seus filhos. Livre para ser exatamente o que era; e isso era maravilhoso. Cavalgaram até que Keira disse que, se sentia tão suja que não podia mais aguentar a si mesma. Declan sorriu ao ouvi-la, enquanto contemplava seu descuidado cabelo e sua camisa suja. —Acho que nunca a vi mais sedutora — respondeu com uma piscada. 336


Mas nessa noite encontrou um lago e, à luz das estrelas, ambos se enfrentaram à água fria e nadaram juntos. Nus. Se Keira achou que Declan já havia lhe mostrado o auge de sua sensualidade, ficou encantada ao descobrir que havia um novo pináculo. Keira havia tomado uma decisão que tinha mudado sua vida e a única coisa que poderia fazer agora era vivê-la. Além disso, não queria pensar nisso no momento. Mais tarde teria tempo de sobra para pensar. Declan se sentiria decepcionado se soubesse o pouco que lhe importava as consequências do que estava fazendo. Mas dessa vez era diferente; dessa vez Keira era totalmente consciente de que haveria consequências, mas escolheu estar com Declan. Tinha a oportunidade de desfrutar daquele momento extraordinário de felicidade e maldita fosse se não aproveitasse. Quando chegaram a Pembroke, na tarde do terceiro dia, a balsa que levava passageiros e gado para o outro lado do mar na Irlanda já havia partido e se viram obrigados a esperar a do dia seguinte. Declan procurou alojamento com nome de senhor Sibley e filho. Também pediu que preparassem um banho para o jovem Sibley, fazendo uma surpresa para Keira. Esta soltou um grito, na frente da banheira cheia de água quente que levaram, rapidamente tirou a roupa que tinha usado durante os últimos dias e entrou na água, suspirando de prazer. —Nunca recebi um presente melhor que esse senhor Sibley — exclamou. —Nem eu — respondeu Declan e a beijou antes de fazê-la sentar para poder lavar seus cabelos. Keira fechou os olhos e se deixou levar pela sensação. Mas quando terminou, ele tirou a roupa também e entrou na pequena banheira atrás dela, para que Keira se apoiasse em seu peito. Declan lavou os ombros, massageando-lhe, depois passou para os seios e o abdômen. Deslizou-lhe a mão entre as pernas e também a massageou lá, até que ela gemeu de prazer. 337


Após sua levitação erótica, Keira retornou para o pequeno quarto acima da ruidosa rua de Pembroke, mexeu-se na banheira e ficou escarranchada em cima de Declan, como este a tinha ensinado, montando nele ao mesmo tempo em que observava como os olhos do homem nublavam de prazer. Declan manteve o olhar cravado em seu rosto, enquanto ela se mexia sobre ele. Acariciou e a beijou aqui e ali, mas acima de tudo a observou até que seu próprio desejo lhe fez impossível ver algo mais. Agarrou-a entre os braços e foi se levantando a seu encontro, apertando-a contra sua ereção, com seu fôlego quente sobre a pele de Keira. Explodiu dentro dela, estremecendo-se. Ficaram assim, até que a água esfriou, depois pediram comida e vinho e dormiram abraçados. Seria a última vez, que ficariam juntos. Quando no dia seguinte cruzaram para a Irlanda, algo mudou entre os dois. Keira não sabia o que era, mas em algum lugar dentro dela, entendia. A aventura estava chegando a seu fim.

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CAPÍTULO 34 Chegaram a Galway três dias depois de colocarem o pé na terra irlandesa de Wexford. O verão chegava a seu fim; Declan já notava que os dias eram mais curtos e as noites mais frias. Sentia-se como se no final de sua viagem deixasse também o sol para trás. O buraco em seu peito ia aumentando à medida que estavam se aproximando de casa. Não era tão parvo para não saber, o que era esse buraco. Mas o que significava para ele era um assunto totalmente diferente. Keira ainda enfrentaria sérios problemas; o delito que cometeu na Inglaterra, para começar, embora isso eventualmente superasse. Entretanto, havia algo mais que não poderia superar: o desejo de liberdade de Declan. Não tinha nem ideia de como conciliar seu amor por Keira com sua necessidade de ser livre. Era algo que sempre esteve com ele e não podia renunciar a essa parte de si. Pararam em Galway e Declan entrou na loja da costureira para comprar um vestido para Keira. A senhora MacDougal ficou encantada. —Então, é para sua irmã? — perguntou a mulher alegremente, enquanto dobrava o vestido de musselina cinza. —Deus a abençoou com uma grande astúcia, senhora — respondeu ele e piscou um dos olhos. Que pensasse o que quisesse sobre o vestido. Virou para sair da loja, mas então viu um chapéu com bastante enfeite. —Levarei isso também — disse, enquanto pegava a carteira. —Este chapéu! — exclamou a senhora MacDougal é muito amável de sua parte, se me permite dizer. Faz meses e meses que está ausente. Ah, Eireanne ficará encantada com ele, não é?

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—Sim, é muito bonito — respondeu ele vagamente e alguns minutos depois, com o vestido e o chapéu, saiu da loja e cavalgou de volta para o bosque, onde Keira o esperava. Esta agradeceu educadamente pela roupa, mas ele se fixou que quase nem o olhava. Com uma manta de cavalo amarrada no ramo de uma árvore lhe proporcionou intimidade para trocar-se. Enquanto ela se vestia, foi guardando a roupa que tinha usado naqueles dias. Declan as colocou no alforje e se virou para contemplar Keira. —Está encantadora. Ninguém pensaria que é o jovem Sibley. Ela sorriu e olhou o vestido. —É muito bonito. E o chapéu! — exclamou. — Se não o conhecesse como conheço, diria que chegou a gostar de chapéus. Havia algo que gostava sim, mas não eram os chapéus. Pegou sua mão e beijou a palma. —Assim chegamos ao final da viagem, não é? —Sim, chegamos ao final dessa viagem. Mas algo me diz que, minha própria viagem acaba de começar. Ele arqueou uma sobrancelha. —Isso é algo muito profundo, senhor Sibley. Por favor, diga o que quer dizer com isso? Keira deu de ombros. —Agora sou uma pessoa diferente. Surpreende-se? Alguma coisa em mim é totalmente diferente. Percebo. Justo aqui — disse ela, apontando bem no meio do peito. Sim, ele também sentia. Keira suspirou e colocou o chapéu. —Ficarei feliz quando tiver passado essa prova dura. — Amarrou as fitas de veludo debaixo do queixo e estendeu os braços. — Como estou? O coração de Declan deu um pequeno pulo. —Parece um anjo, muirnín. —O diabo tem rosto de um anjo, não é verdade? — respondeu Keira, rindo e lembrando do dia em que se viram pela primeira vez em Ashwood. —Sim — respondeu ele, direto. Não esqueceria nem por um segundo daquele momento. 340


Ela o olhou como se quisesse dizer algo. Declan via tristeza em seus olhos, misturada com uma profundidade que jamais antes lhe tinha visto. Pensou em perguntar o que achava que lhes proporcionaria o futuro, mas não fez. —Bom, então continuemos — disse Keira, e afastou o olhar dele. — Papai precisará de todo o restante do dia, para falar muito serio comigo. Podia fingir que levava bem a situação, mas não podia olhar Declan nos olhos. Ele mesmo parecia perdido em um conflito; parecia que chegava o momento de tomar algumas decisões importantes e não tinha ideia alguma do que fazer. Keira não disse nada, enquanto cavalgavam para Lisdoon, mas quando chegaram aos escarpados, a somente alguns quilômetros de sua casa, parou de repente. Declan se surpreendeu e fez retroceder seu cavalo, mas ela já tinha desmontado e caminhava para a beira do escarpado. O coração dele parou. —Keira! —gritou, enquanto descia do cavalo e corria para ela. — O que está fazendo? Você está bem? —Estou perfeitamente — respondeu, afastando-o. — Achou de verdade que eu iria pular? Não pretendia assustar você, só queria... Estou triste. Muito triste. Isso é tudo. — Olhou por volta do mar um tempo e depois voltou para si mesma. —OH, querida... Keira levantou a mão para que ele não se aproximasse. —Disse que não lamentaria e o disse a sério; nunca lamentarei — afirmou resolvida, enquanto se esforçava a erguer-se. — Nenhum só momento do tempo que passei com você, mesmo quando foi desagradável. —Keira... —Vou sentir muitas saudades, Declan. — Se endireitou e o olhou com expectativa. Ele engoliu em seco. Endireitou-lhe a fita do chapéu e passou a mão pelo braço. —Eu também sentirei saudades. — Queria dizer mais, mas não sabia como expressar o que estava sentindo. 341


Ela ficou olhando. —Na verdade isso é tudo o que pode dizer? Como pode me deixar, Declan? Como pode continuar, como se nada tivesse acontecido entre nós? —OH, Deus, Keira — exclamou ele e foi abraçá-la, mas Keira se afastou. Declan sentiu que o buraco do peito estava ainda maior. — Sempre a amarei, Keira Hannigan. Com chapéus e tudo. Mas não sei como mudar o que sou. Ela o olhou, como se tivesse a esbofeteado. Assentiu lentamente e depois olhou por volta do mar. —Nunca pediria que você fosse quem não é — respondeu calmamente. — Eu não. Sua expressão era muito triste e Declan foi novamente a abraçá-la, mas ela voltou a se afastar. —Não — disse calma. — Não, por favor. Está na hora, de ambos seguir com nossas vidas, não acha? — Começou a andar para os cavalos. —Keira! — chamou-a ele. —Não precisa me consolar — respondeu com tom animado. — Agora estamos na Irlanda e temos vidas separadas e famílias. Sempre soubemos que seria assim, não é? — virou para ele e caminhou de costas, olhando-o. — Sempre amarei você, Declan! Mas está na hora, que cada um siga por seu caminho. —Virou-se de novo e seguiu adiante, deixando-o ali, olhando-a. Declan a observou montar no cavalo com a facilidade de uma amazona. —Vem? — perguntou Keira. Lentamente, ele avançou para o cavalo, com o olhar fixo nela, olhando-a com desconfiança. Keira não voltou a olhá-lo durante o restante do caminho até Lisdoon. Na porta da casa se armou um grande tumulto na família. Fizeram Keira entrar, abraçando-a, e seu pai bateu nas costas de Declan para lhe

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agradecer por ter escoltado Keira até sua casa desde Wexford, onde ambos disseram que se encontraram por acaso. —Onde estão seus baús? — perguntou Mabe. —Logo chegarão — respondeu Keira sem problemas e sorriu para Declan, enquanto sua família a empurrava para dentro da casa. —Muito obrigado, milord. Por favor, não lhe incomodem mais. Estou convencida de que Eireanne está desejando vê-lo chegar são e salvo. Ele estava no saguão, com o pai de Keira, olhando-a. Ela pensava que seu castigado coração havia se quebrado totalmente, mas descobriu nesse dia ainda, que não quebrou todos os pedaços. Não até aquele momento. Seguiu sorrindo radiante, protegendo-se atrás desse sorriso como se fosse um escudo. Molly, Mabe e sua mãe a levaram do salão. Keira se fixou em que esta parecia muito contente por vê-la, mas não deixava de olhá-la com desconfiança. —O que é que você mais gostou na Itália? — perguntou Molly no salão. —OH, da arte — respondeu Keira. —Essa é minha garota — gritou seu pai, enquanto entrava no salão. Estava sozinho. O coração de Keira encolheu Declan já foi embora. Partiu de sua vida. Tudo terminou de verdade. O pai de Keira a levantou pela cintura e a fez girar. —Bom, alimentaram bem você na Itália, não é? — perguntou e riu ruidosamente junto com Molly e Mabe. —Já vi antes esse chapéu — disse sua mãe. — Estava muito tempo na vitrine da senhora MacDougal. —OH, sim... Sim — respondeu Keira e tocou a cabeça. —Como é que você o conseguiu? —Eu gostei dele — disse tão inocentemente como pôde. —Que obras de arte? — perguntou Molly, excitada. — Viu a Capela Sistina? —Pois... Não — respondeu ela. — Estava fechada para reformas. —A capela? — perguntou sua mãe. —Sim — respondeu, evitando seu olhar. 343


—Por que usa botas com esse vestido? — perguntou Mabe, depois de olhar seus pés. —Onde disse que estavam seus baús? — inquiriu sua mãe. Keira notou o calor subindo pela nuca. Seu pai parecia feliz de vêla e Molly e Mabe esperavam ansiosas notícias e histórias da Itália. Mas sua mãe..., sua mãe sempre sabia quando alguma coisa não estava bem. —E bem? — insistiu a mulher, enquanto lhe afastava o cabelo da têmpora. —Não..., não estão aqui — respondeu Keira com prudência. —Bom, não se preocupe, moça. Enviarei um rapaz para buscá-los — interveio seu pai, alegre. — Me alegro de tê-la em casa. Acho que não vou permitir que viagem outra vez! —Está muito branca, Keira. Você está bem? — perguntou sua mãe e lhe colocou a mão na testa. —Estou bem. Estou... — Fechou os olhos. Estava apaixonada, estava desesperada, estava triste e estava com tantas e tantas coisas que nunca teve na Irlanda, que não sabia como explicar a sua família tudo o que era agora. Abriu os olhos. — Estou mudada. Mabe soltou um bufo e Molly pareceu invejosa. Seu pai riu e serviu alguns cálices de whisky para todos. Mas a mãe de Keira não tirou o olho de cima desta. —E como? —Bom, isso..., isso é uma história muito interessante — respondeu ela e rejeitou, negando com a cabeça, o whisky que oferecia seu pai. Sentou-se no sofá forrado com seda e olhou para o bosque pela grande janela. — Uma que acho que vocês não irão gostar muito. O sorriso de seu pai desapareceu. Sua mãe suspirou e se sentou no sofá, ao seu lado. Molly e Mabe a olharam com a boca aberta, ansiosas para saberem. —Minha querida menina — disse a mulher. — O que fez? —Se prepare mamãe — respondeu Keira, — porque fiz uma coisa extraordinariamente estúpida. Mais de uma, na verdade. Poderia-se dizer que dúzias de coisas estúpidas. 344


—Quer dizer pior que todas as coisas estúpidas que já fez na Irlanda? — perguntou Mabe, com a voz cheia de admiração. —Assim foi sem dúvida — respondeu ela e explicou para sua família sua extraordinária aventura, começando pelo dia em que chegou a carta de Ashwood para Lily.

CAPÍTULO 35 Alguns dias depois da volta de Declan, Eireanne recebeu uma carta convidando-a para ingressar no Instituto Vila Amiels. Estava louca de felicidade e tão preocupada com o que deveria usar que seu irmão teve que levá-la a Dublin e comprar um guarda-roupa completo para sua primeira viagem ao estrangeiro. Pela primeira vez, foi bom passar duas semanas fazendo pouco mais que assinar cheques bancários. Desde sua chegada a Ballynaheath, a única coisa que fez tinha sido grunhir de mau humor. A brusca despedida de Keira o incomodou e se convenceu de que lhe tinha feito um favor, porque justo quando achava que tinha perdido o coração por uma mulher, esta o lembrou que podia estar perfeitamente sem ela. Assim que se 345


concentrou no futuro, em seus cavalos e em planejar sua volta a Kitridge Lodge assim, que assunto da escola de Eireanne estivesse concluído e os preparativos para a viagem estivessem prontos. Em Dublin, junto com a avó de Eireanne, foram todas as noites ao teatro ou à ópera. Declan se passou pelos clubes de cavalheiros, mas não estava interessado em jogar. Tampouco estava interessado em mulheres. A única coisa que lhe interessava parecia ser o bom whisky irlandês. Ajudava-o a silenciar os pensamentos que lhe rondavam pela cabeça e a acalmar aquela estranha palpitação em seu peito. Não se reconhecia e, depois de duas semanas, estava começando a perguntar-se se voltaria a ser o de sempre. Quando retornou com sua família a Ballynaheath, já tinha tomado uma decisão: voltaria para a Inglaterra imediatamente, para sua égua prenha e seus cavalos. Lá era onde devia estar. Não na Irlanda, penando, porque isso era o que fazia, por mais que o incomodasse reconhecê-lo, pela mulher mais parva de toda a verde terra. Estava tão irritado consigo mesmo, que deu um passeio pouco habitual pelas terras de Ballynaheath. Para ser mais exato, saiu disparado de seu escritório para o jardim levado por um inquieto ressentimento, mas uma vez ali, percebeu que não sabia para aonde ir. Assim vagou sem rumo, tentando se lembrar da última vez que passeou por suas terras. O que ele viu o deixou sem fôlego. Contemplou a maravilhosa vista do mar, dos bosques espessos e coberto de musgos. Talvez, isso era o que mais gostava; suas terras eram verdes e belas. Toda a Irlanda era verde e sua propriedade parecia ser especialmente; sua cor no verão lhe lembrava dos olhos de Keira. Nessa noite, anunciou que partiria de Ballynaheath dentro de duas semanas. Eireanne suspirou e largou o garfo. —Na verdade Declan estou começando a achar que você é inglês.

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—Sou tão irlandês como você querida, mas tenho uma égua prenha em Kitridge Lodge que requer minha atenção. Além disso, você logo irá à escola. Que motivo tenho para ficar? —Isso não faz com que sua avó se sinta muito querida — interveio a mulher com um fraco gemido. Declan lhe segurou a mão e a apertou. —Se acha que não estou informado de sua amizade com o senhor Barney, engana-se. Quanto menos eu ficar aqui, mais atenção ele dará à senhora. Sua avó soltou uma risadinha. —Só sou uma anciã que busca um pouco de companhia e sua presença não afeta em nada a minha agenda social, milord. Pouco me preocupa minha virtude ou seu cuidado e alimentação, já que demonstrei ser capaz de cuidar de mim mesma — concluiu. — Quando acredita voltaremos a vê-lo? —Não sei dizer — respondeu com sinceridade. — Nesse momento, estou por aqui, depois pouco me interesse. —Há mais do que você acredita — replicou sua avó, enquanto se levantava do assento e rejeitava com um gesto a ajuda de um lacaio que corria para ela. — E veria com seus próprios olhos se você se incomodasse em olhar. E agora, boa noite, queridos. Prometi ao senhor Barney uma partida de cartas. —Boa noite, vovó — respondeu Eireanne, que também se levantou da mesa. — Desculpe Declan, mas tenho muito que fazer antes de partir. — Beijou-lhe no rosto ao sair e o deixou sozinho no refeitório. Por acaso não conseguiam ver que nessa noite necessitava de companhia? Claro que não. Esteve tão poucas vezes com elas, que era impossível que entendessem que precisava delas mais do que nunca.

Foi para o escritório e, como era esperado, pensou em Keira. Perguntou-se se Maloney teria ido visitá-la, se estariam planejando já o 347


casamento; Era melhor casar antes que as notícias da Inglaterra chegassem até ali. —Ora — disse a si mesmo e largou o copo na mesa. Nem sequer o whisky o consolava. No final da semana, decidiu que lhe faria uma visita antes de partir. Não conseguia ver o que lhe serviria, além de atormentar-se, mas de todas as maneiras foi a Lisdoon com seu cavalo. Keira, disse-lhe o mordomo, estava indisposta. —Pois diga que se disponha — replicou ele. — Que lorde Donnelly quer falar com ela. O homem retornou depois de alguns minutos com dois lacaios. —Imploro que me perdoe milord, mas a senhorita está indisposta. Pede que retorne em outro momento. Se não tivesse tão furioso, tinha medo que nesse momento, teria se deixado levar pelo abatimento ali mesmo, na porta dos Lisdoon. Mas como estava, esperou encontrar um coelho ou dois aos que chutar. No final da semana seguinte, já não podia mais com sua depressão e seus passeios pelo Ballynaheath. Não se relacionava com ninguém. Suas amizades eram poucas e a maioria partiu antes que começassem as chuvas de outono. Só tinha horas vazias. Em uma tarde, fez subir os alforjes para enchê-las e encontrou a roupa que Keira havia usado durante a viagem. Esqueceu que a tinha guardado ali dentro. Aproximou a camisa no nariz e cheirou seu aroma. Tirou as calças e depois o colete e os deixou em seu escritório, mas voltou a guardar a camisa no alforje. No sábado pela manhã, o dia em que Eireanne partia, Declan e sua avó saíram para se despedirem e esperaram, enquanto carregavam seus baús na carruagem. —Lembrasse que o espero para Natal — disse para sua irmã. —Claro! —respondeu, animada. Alegrava-se de vê-la sorrir; era evidente que essa mudança em sua vida era muito emocionante e Declan estava contente por ela. — Você vai amanhã? —perguntou para ele.

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—Sim. —Olhou o castelo de Ballynaheath. — Ficar aqui será muito aborrecido sem você, e tenho medo sem ninguém mais para me distrair. —Estão os Hannigan — sugeriu sua avó. —OH, sim, Molly e Mabe são encantadoras e agora também tem Keira — comentou Eireanne, enquanto colocava as luvas. — Mas como Keira rompeu seu compromisso com Maloney, possivelmente não goste de ficar com a gente. Declan ficou parado. —Como? —O que? — perguntou Eireanne despistando, olhava as mãos para admirar suas novas luvas de seda. —Disse que Keira rompeu seu compromisso. —Sim. Não soube? Estava comprometida com Loman Maloney, mas então foi para a Itália e, ao voltar, rompeu o compromisso. —Isso não é muito bom, se quer saber minha opinião — disse sua avó. — E, na verdade, não acredito que possa encontrar alguém melhor que Maloney. Eireanne começou a rir. —Talvez goste de um italiano. —Sim, bom, você pare de pensar nos italianos — respondeu Declan e abriu a porta da carruagem. Sua irmã lhe sorriu, enquanto o abraçava e beijava. Despediu-se de sua avó e subiu na carruagem. Os dois ficaram olhando ela afastar-se. Eireanne estava inclinada na janela, lhes dizendo adeus com a mão, até que a carruagem dobrou a esquina e já não a puderam ver. —O cavalo — pediu Declan a um moço. —Aonde vai? — perguntou sua avó. —Tenho um assunto para resolver — respondeu ele com tom frio. Keira tinha rompido seu compromisso com Maloney? Estava louca? Ele estava? Quando chegou a Lisdoon, desceu do cavalo antes que este parasse e subiu os degraus de dois em dois. Bateu na porta com o punho.

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Houve um pequeno contratempo quando o mordomo o informou que a senhorita Hannigan não recebia visitas. —Pois lhe asseguro que vai receber essa — replicou ele e afastou o homem e um lacaio, enquanto chamava Keira a gritos. Ela apareceu no patamar das escadas e se inclinou sobre a balaustrada de pedra, com suas irmãs ao lado. —Declan! — exclamou. — O que está acontecendo? Estava muito bonita, com um vestido rosa; impressionantemente bela. —Desce — mandou, apontando o chão a seus pés. — Venha aqui de uma vez, se não farei com que esta visita seja mais teatral do que já é. —Não acredito que seja possível fazê-la mais teatral. Ele a olhou, furioso. Quase não podia conter-se para não colocar-se a correr escada acima. —Desce Keira. Agora mesmo. —O que você fez agora? — perguntou Molly para sua irmã. —O que é tudo isso? — gritou o senhor Hannigan, aparecendo no corredor onde estava Declan, com o guardanapo ainda pendurado do pescoço. — Donnelly! Que demônios você está fazendo? —Eu gostaria de falar com sua filha — respondeu ele, sem afastar o olhar de Keira. —Isso é impossível — respondeu o homem, e fez um gesto para suas filhas. — Vocês, voltem todas para seus quartos! Não lhes permito visita... alguma! —E o que fiz eu? — exclamou Mabe. —Vou falar com ela — assegurou Declan a Hannigan. —Vamos, Donnelly... —Papai, por favor. — Keira começou a descer a escada, com o olhar brilhante e arrastando o cumprimento do vestido atrás dela. — Falarei com sua senhoria e me assegurarei de que entenda que, ninguém deve entrar em Lindoon dessa maneira rude. —Não brinque de condessa comigo, moça — lhe advertiu Declan. —Não brinco com você em nada, milord — replicou Keira parando na frente dele, fulminando-o com o olhar. — Se tiver algo a me dizer, diga isso como um cavalheiro. 350


—Muito bem — aceitou Declan. — Devo dizer aqui? — perguntou, abrangendo com um gesto o espaço que os rodeava. Ela entrecerrou os olhos e apontou uma sala que havia a sua direita. —Vamos conversar aqui — disse e, com um gesto altivo de cabeça, dirigiu-se para a sala. Declan e o senhor Hannigan a seguiram. Quando chegaram ali, Keira fez seu pai sair. —Pode ficar na porta se quiser papai, mas deve me permitir que deixe muito claro a lorde Donnelly, que esse seu comportamento é inadmissível. —Não o toleraremos, Donnelly! — gritou Hannigan, enquanto sua filha fechava a porta. Keira se virou com os braços cruzados. —Por que veio? — quis saber. — Não deveria estar na África ou em algum lugar assim? —Por que rompeu o compromisso com Maloney? Ela levantou uma sobrancelha. —Desculpe, mas não é seu assunto. —Ah — replicou ele. — Na Inglaterra, fez alegremente que sua vida fosse meu assunto, mas uma vez na Irlanda, já não precisa do meu ombro, não é? Não, Keira, não aceitarei. Por que rompeu o compromisso com Maloney? Sabe muito bem, que quando a notícia do que aconteceu Ashwood chegar a Irlanda, nenhum irlandês de vai querer casar com você. —Por favor, não acredite que tem o direito de me dizer com quem devo me casar —respondeu altiva. —Maldito seja, se não tem algo estranho em nisso tudo — replicou Declan e foi para ela. — Algum tipo de plano. Saberei do que se trata. — Estava tão perto, que Keira tinha que jogar a cabeça para trás para olhá-lo nos olhos. —Só porque procurei sua ajuda uma vez, não significa que a precise agora ou a queira. Era tão irritantemente bela. Segurou-a pelos ombros. —O que pretende Keira? —Tem certeza que quer saber a verdade? 351


—Sim. O olhar dela se suavizou. —Estou grávida. Disse com voz tão calma que Declan não teve certeza de tê-la ouvido. Olhou-a boquiaberto. Um milhão de emoções, surpresa, medo, euforia..., começaram a invadi-lo ao mesmo tempo. —Disse você que — replicou tenso. —É certo — respondeu. — Rompi o compromisso porque estou grávida. — Uma solitária lágrima caiu pela face. A notícia quase fez com que as pernas de Declan falhassem. Soltou-a e virou de costas para ela; depois levou uma mão à cabeça, tentando assimilar aquela informação. Cabeça e coração estavam a toda velocidade. Virou-se para ela e a olhou fixamente. —Por quê? — conseguiu dizer e segurou pelo braço para aproximá-la. — Por que não me disse isso? —Porque sabia que faria o correto e o amarraria a mim para sempre — respondeu Keira, e de repente o afastou, empurrando-o com ambas as mãos no peito. Declan estava preso no chão. Ia ser pai. Pai! O orgulho e o amor surgiram nele junto com fúria. Ela tentou esconder a existência de seu bebê. Não sabia se a estrangulava ou se a abraçava. —Por acaso achou que eu não o descobriria? — perguntou incrédulo. —Achei que estaria na África — respondeu desviando o olhar. — E então seria muito tarde. —Muito tarde! —Com grande rapidez, segurou-a pelos ombros e a obrigou a virar-se. — Que direito tinha em esconder isso? — exigiu saber. — Vou ser pai e quis esconder isso. Desde quando sabe? —Não..., não soube até depois que partiu, juro por minha honra — respondeu muito séria. — Não enviei uma carta porque..., porque não quero ser sua obrigação, Declan! Santo Deus, não quero ser o que é Ballynaheath. Por acaso não sabe? Se há algo que quero na vida, é ser livre. Eu nunca poderei ser, mas você sim; é a única pessoa que conheço que 352


entende. Não quero tirar isso. Não quero ver como seu ressentimento aumentará ano após ano. Assim, por favor, vai embora. Ninguém sabe e não contarei a ninguém. —Deus, Keira... — Pegou seu rosto entre as mãos. — Sabe, não passo um dia mais, sem pensar que em você? Sabe o que sofri por você e que a desprezei por me deixar livre? Ia partir da Irlanda. Para a Inglaterra e então ouvi a notícia... Que Deus me ajude! — exclamou, pensando no perto que esteve de perder a aquela mulher e seu filho. — É a garota mais parva que eu conheci. — Beijou-lhe a têmpora, o rosto, a boca. Beijou-a com amor, com orgulho, com a paz de espírito que acompanhava para um novo começo. Keira lhe rodeou a cintura com as mãos, aferrando-se a ele. —Quem é o parvo, Declan? Você quer vida e aventuras. Chegará a me odiar por obrigá-lo a sentar a cabeça quando o que quer é voar. Ele acariciou seu cabelo. —E não pensou que, com a mulher adequada, não teria que voar sozinho? Pensa muirnín. Há lugares no mundo esperando para ser explorados. Alimentos para comer, bebidas estranhas para provar. Podemos fazer isso; você, eu e nossos filhos, poderíamos fazer — repetiu e colocou a mão no seu ventre. Ela abriu os olhos, surpresa. Um sorriso começou a aparecer em sua boca. —Fala a sério? —Nunca disse nada mais sério em toda minha vida. Amo você, Keira Hannigan. E agora sei que sem você não há vida e nem aventura. —OH, Declan, não pode imaginar o quanto me faz feliz. — Suspirou, apoiou a testa na dele e riu. — Mas percebe que isso o faz inclusive, mais parvo do que eu, certo? Pode ser, mas era um parvo muito feliz. Beijou-a de novo, só que com mais intensidade, e seu corpo despertou diante a possibilidade de ver aquela mulher todas as manhãs, diante a vida que poderiam ter e a felicidade que podia ser sua. 353


CAPĂ?TULO 36 Ashwood O oficial demorou dois dias para chegar e quando chegou, interrogou Lily por muito tempo, mas no final reconheceu que pouco podia fazer respeito sobre a farsa de Keira dentro dos limites da lei; especialmente com ela longe de Ashwood e com Lily nĂŁo querendo apresentar queixa contra ela. Lily estava confiante que aquilo era um ponto final no assunto, mas se enganou. Parecia muito assustador ser a condessa de uma propriedade tĂŁo grande, especialmente quando havia um certo mal-estar pelo que Keira fez. Sabia que a olhavam desconfiados. A senhora Morton disse que havia 354


muitos em Hadley Green, que acreditavam que sua prima e ela prepararam aquele plano, para algum objetivo perverso. Que não houvesse nenhum objetivo perverso por nenhum lado, não eliminava as especulações e os rumores. A única pessoa que parecia aceitar Lily sem reservas era Lucy Taft. Mas a pobre menina tinha saudades de Keira. Compreendia-a muito bem; houve um tempo em que ela sentiu saudades de Althea. Declan estava certo sobre o senhor Fish; podia contar com ele para guiá-la pelo labirinto de assuntos e temas legais que Ashwood enfrentava. Também estava certo a respeito de Keira; quanto mais sabia, mais percebia Lily do grande trabalho que sua prima tinha feito por ela. Esperava poder fazer também bem. As piores horas eram quando o dia terminava e Lily ficava sozinha vagando por Ashwood. Era uma estranha sensação ver a mansão com olhos adultos. E, embora fosse de um tamanho bastante impressionante, não lhe parecia tão grande como quando era menina. Havia quartos que achava que ficavam em uma ala da casa e estavam em outra. Durante as duas primeiras semanas, percorreu pela casa, olhando todos os quartos, lembrando algumas coisas, alguns feitos e perguntando-se por outros, lutando constantemente contra suas fragmentadas lembranças. Não conseguiu dormir bem desde sua chegada; o que Keira havia dito sobre sua tia e o senhor Scott pesava na sua alma. A notícia de que Althea podia ter se suicidado era devastadora. Lily não podia evitar de sentir-se, em parte, responsável por isso. Como podia saber então, que tia Althea e o senhor Scott tinham uma aventura? Tentou ordenar suas lembranças para formar uma imagem, mas tinha muitos buracos, o que a deixava com numerosas perguntas que a inquietavam. Mas possivelmente, nenhuma tanto como a que sempre a tinha açoitado: se tia Althea e o senhor Scott eram amantes, e este não roubou as joias..., então, o que aconteceu com elas? 355


Depois de quase um mês sozinha em Ashwood, Lily se sentiu eufórica ao receber duas cartas da Irlanda. A primeira era de Molly, que lhe escrevia, com montões de sinais de exclamação e palavras sublinhadas, contando que a gravidez de Keira possivelmente, fosse o maior escândalo que Galway já teve conhecimento. Contava como se, de algum jeito, Lily já soubesse dessas notícias sobre Keira, coisa que não era verdade, e ficou atônita e escandalizada ao saber. Mas não se surpreendeu muito. Conhecia muito bem sua fogosa prima e sabia que a prudência jamais foi de suas qualidades. A segunda carta era de Keira, também cheia de palavras sublinhadas e sinais de exclamação, dedicada toda a Declan O’ Conner. Naturalmente, casaram-se em seguida e permanecem felizmente em Ballynaheath, longe do escândalo, planejando uma viagem pela África, depois do nascimento do bebê. Ele queria procurar cavalos árabes para criar e Keira queria ver um camelo. Tendo em conta sua história, para Lily parecia impossível que ambos se apaixonaram, mas supôs que coisas mais estranhas aconteciam. Sua prima expressava sua preocupação por ela. Desculpava-se muito pela confusão que tinha deixado e a advertia de que mantivesse distância de Eberlin. Explicou que o conde havia suspeitado da verdade sobre ela e, segundo Keira, tinha os olhos do diabo. A maior parte de sua carta irradiava felicidade. Lily não a invejava, mas sim que lhe parecia um pouco injusto, que a tivesse deixado sozinha em Ashwood para reparar todo mal que ela tinha causado, enquanto ela esperava um filho e se casava com alguém a quem amava. Fez com que Lily percebesse ainda mais, de como estava sozinha. Sentia falta de suas primas, ansiava ter alguém que fosse seu amigo. Não ajudava também, que o conde Eberlin parecesse decidido a destruir Ashwood. Ainda não o conhecia, entretanto, soube que havia começado a construir um moinho rio acima, mais à frente do moinho de 356


Ashwood. Há pouco tempo, Lily tinha recebido uma intimação para comparecer na Corte sobre o caso dos hectares em litígio. Com a ajuda do senhor Fish e do senhor Goodwin, preparou-se para lutar pelo que era dela, mas era assustador enfrentar a tantos desafios sem o apoio de ninguém. O outono estava avançando, com uma tarde chuvosa quando Linford lhe anunciou que tinha uma visita. Lily olhou o cartão, viu o nome e recostou-se para trás: Eberlin. Sua primeira ideia foi se negar a vê-lo. A segunda, lhe perguntar por que tinha tanto interesse em destruir Ashwood. —Faça-o entrar, por favor — disse; ficou em pé e alisou o vestido cor de vinho. Segurou suas mãos com força. Quando o conde entrou, ficou desconcertado por sua aparência. Não sabia o que tinha esperado algo um pouco parecido a um gnomo, para ser sincera. Mas em qualquer caso, aquele homem forte e atraente, de penetrantes olhos castanhos e ondulado cabelo loiro. Era alto, largo nos ombros e queixo quadrado. Havia algo nele que era vagamente familiar. —Senhora — disse ele, com uma profunda reverência. Tinha um sotaque estranho que Lily não conseguiu identificar. —Lorde Eberlin — o saudou tensa. — O que o traz em Ashwood nesse dia feio? Ele se aproximou mais e a atravessou com o olhar. —Pensei que já estava na hora. —Hora do que? O conde levantou uma escura sobrancelha. —Por acaso não é evidente? Lily piscou. Keira tinha razão; era um homem estranho, com um olhar duro. —Evidente? Do contrário, milord, não há nada evidente em sua visita ou no mal que pretende fazer para Ashwood. Eberlin se aproximou mais, escrutinando seu rosto. O coração de Lily acelerou e agradeceu a presença do lacaio na porta. Havia algo inquietantemente familiar no conde, mas o que era? 357


—Você é tão bela como sabia que seria — disse, enquanto a percorria com o olhar e se entretinha no seu decote e em sua boca. — Possivelmente inclusive mais. Lily se sentiu estranhamente exposta. —Desculpe? — disse tensa. Ele levantou seu inquietante olhar e cravou nos seus olhos. —Na verdade não sabe quem eu sou? Ou gosta de brincar com jogos perigosos, como a sua prima? Um certo medo obrigou Lily a retroceder. —Acabo de conhecê-lo, senhor. Eberlin sorriu. Em outras circunstâncias, ela teria pensado que era um sorriso agradável e atraente, mas havia algo sinistro nele, que fez gelar seu sangue. —Possivelmente tenha que refrescar sua memória. Sou Tobin. Lembra-se agora? Lily afogou um grito e o coração disparou. Sim o reconhecia: estava vendo Tobin Scott, o filho de Joseph Scott. Não viu ele desde o dia do julgamento, quando a fulminava com o olhar. Não reconheceu o menino no homem. —Tobin — repetiu em voz baixa. — Tobin... Quase não posso acreditar que seja você. —Está surpresa? Aniquilada. —Sim... — respondeu. — Nunca soube para onde tinham ido. —Por aqui e por lá — respondeu ele com um sorriso irônico. —E seu nome, Eberlin... —Ah, sim. O título é de uma propriedade que tenho na Dinamarca. —Dinamarca? Mas como...? —E agora retornei a Hadley Green e Tiber Park com um só objetivo. Você gostaria de saber qual é? Lily piscou. Não estava certa de querer saber. Tobin voltou a sorrir e, impulsivamente, tocou-lhe a face. Lily se encolheu e ele parou, com os dedos sobre sua pele, lhe riscando uma linha da face à boca. —Destruir Ashwood — disse suavemente. Lily afogou um grito e se afastou. 358


—E aviso de que não descansarei até que eu consiga — acrescentou tranquilamente. Permitiu-se percorrê-la com o olhar novamente; depois se virou e saiu da sala sem dizer nada mais, deixando Lily boquiaberta, enquanto o via partir.

FIM NT. Mirtilo-O mirtilo eurasiano é um arbusto que pertence à família Ericaceae (família da azálea). As plantas são arbustos de pequeno porte nativos da Eurásia e que também crescem em sub-bosques das florestas temperadas na Europa. Laminite -Chamada popularmente de “aguamento”, a Laminite é uma patologia que atinge o sistema locomotor de eqüinos. Sua ocorrência é bastante grande, e apesar de um estudo epidemiológico indicar que todas as raças são afetadas do mesmo modo, encontrou se uma maior incidência em cavalos Quarto de Milha, Árabes e PSI. Ela é descrita como uma doença vascular periférica, com diminuição da perfusão capilar no interior da pata, necrose isquêmica (falta de sangue) das láminas, gerando inflamação e muita dor. Esta doença ocorre devido a manifestação local de um distúrbio metabólico mais sistêmico, que afeta o sistema cardiovascular, renal, endócrino, coagulação sanguínea e do equilíbrio básico. Muirnín- querida em irlandês

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Profile for Patrícia Martins Fonseca

O ano em que vivemos escandalosamen  

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