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O Amante Lady Lyte's Little Secret

Deborah Hale

Clássicos Históricos Especial nº 183 Alguns segredos são impossíveis de ser guardados por muito tempo! Inglaterra, 1815. Como Felicity Lyte contaria a seu querido amante que ele iria ser pai? Thorn Greenwood, apesar das circunstâncias difíceis, certamente faria uma oferta de casamento responsável e honrosa, a qual Felicity jamais poderia aceitar. Porque ela só se casaria com ele se houvesse amor verdadeiro entre ambos... Thorn Greenwood queria ter apenas alguns momentos de prazer ao lado de Felicity, mas, em vez disso, acabou se apaixonando perdidamente por ela! No entanto, de repente, ela terminou o relacionamento deles de forma abrupta. Teria Felicity imaginado que ele não passava de um caça-dotes? Não podia ser... A única coisa de valor que Thorn queria era o amor daquela mulher! Digitalização e Revisão: Alice Akeru


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313 páginas Querida leitora, Sempre existe uma fase na vida que se quer, se prefere e se precisa estar sozinha... para amadurecer, crescer, se conhecer. E claro que neste período não deixamos de sair e nos divertir, de conhecer pessoas novas e interessantes! Inclusive acredito que é neste período que conhecemos e fazemos grandes amizades, amizades que duram para sempre! Fernanda Cardoso Editora Copyright © 2003 by Deborah M. Hale Originalmente publicado em 2003 pela Harlequin Books Toronto, Canadá. Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma. Esta edição é publicada por acordo com a Harlequin Enterprises B.V. Todos os personagens desta obra, salvo os históricos, são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.

Título original: Lady Lyte's Little Secret Tradução: Nancy Alves Editora e Publisher: Janice Florido Editora: Fernanda Cardoso Editoras de Arte: Ana Suely S. Dobón, Mônica Maldonado Paginação: Dany Editora Ltda. EDITORA NOVA CULTURAL LTDA. Rua Paes Leme, 524 – 10° andar CEP 05424-010 - São Paulo - Brasil Copyright para a língua portuguesa: 2003 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA. Impressão e acabamento: RR DONNELLEY AMÉRICA LATINA Tel.: (55 11) 4166-3500


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CAPÍTULO I

Bath, Inglaterra, maio de 1815

— Felicity! O som de seu nome, pronunciado por aquela profunda voz masculina, ecoando pelo hall de sua casa de campo em Bath, despertou lady Felicity Lyte da sonolência em que se deixara cair. Já devia passar da meia-noite; o que Thorn poderia estar fazendo ali àquela hora?, indagou-se, preocupada. Não que o sr. Hawthorn Greenwood fosse um estranho naquele endereço, rua Royal Crescent ns 18, ainda mais à noite... Muito ao contrário. Havia apenas duas noites, naquela mesma hora, ele estivera em sua cama, aconchegando-a, descansando, sereno e inocente quanto ao fato de que seus dias como amante de Felicity estavam contados. Até aquele momento, ela não se comunicara de forma alguma com ele para explicar a discreta e educada carta que lhe enviara terminando seu caso de amor. Ele tornou a repetir seu nome, ainda mais alterado, e subiu depois os degraus da enorme escadaria que levava ao andar superior e, por conseguinte, ao quarto em que ela se encontrava. Felicity sentiu sua respiração se acelerar, a pulsação ficar caótica, a boca seca. Pulou da cama e passou a mão no roupão que estava sobre uma cadeira para vesti-lo logo em seguida. Jamais ouvira Thorn erguer a voz assim, muito menos o vira mover-se com precipitação, sem cuidado, sem controle; seus passos sempre tinham sido calmos e seguros, sem a pressa que agora adquiriam ao avançar pelo corredor. Por isso sentiu-se um tanto amedrontada. Talvez ele tivesse bebido além da conta, imaginou, amarrando as duas pontas do cinto de seu roupão. Talvez tivesse bebido até quase cair, num estabelecimento qualquer, e depois vindo até sua casa para pedir-lhe, implorar-lhe que reconsiderasse sua decisão e reatasse o romance. Talvez quisesse apenas maiores satisfações sobre os motivos que a tinham levado a romper o relacionamento de forma tão abrupta. E a idéia de que ele se importava a ponto de exigir ou suplicar por explicações deu a Felicity uma estranha sensação que não era, no entanto, totalmente desagradável. Poderia, talvez, compará-la à sensação que se tem ao se olhar uma belíssima paisagem, mas de um lugar perigosamente alto... Mesmo querendo muito, não podia mais continuar a ver Thorn Greenwood. E


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jamais poderia pensar em explicar-lhe seus motivos. Seguiu, apressada, até a porta de seu quarto e abriu-a por completo no exato instante em que ele aparecia diante dela. E, esperando encontrar um homem absolutamente fora de controle devido à bebida, como se acostumara quando ainda vivia com seu falecido marido, Felicity surpreendeu-se ao perceber que não havia o menor sinal de embriaguez em Thorn. Ali, na fraca luminosidade proporcionada pela arandela 1 que ficava no topo das escadas, deu-se conta de que Thorn estava muito perturbado, tanto a ponto de tê-la feito imaginar que bebera para ganhar coragem de ir ter com ela. Sua aparência não era das melhores: tinha o paletó aberto, não usava chapéu, e seus cabelos escuros estavam desalinhados. Seus olhos, geralmente tão calmos, de um castanho muito claro, incomum, faiscavam. Felicity percebia-o mais alto, mais forte do que era, com os ombros largos e o corpo musculoso parecendo crescer de dentro de seu paletó, e teve uma vontade imensa de esquecer tudo que fizera e atirar-se em seus braços, tão atraída se sentia. Ele podia ter vindo confrontá-la num outro momento, avaliou, num outro lugar... Tão tarde da noite, à porta do quarto onde haviam feito amor com tanta frequência... Não, aquele não era o local mais indicado, com certeza. Sim, tinham se amado com frequência, ela ponderava, com pensamentos rápidos que pareciam viajar em flashes por sua mente, mas nunca fora o suficiente... e era como se ali, naquele instante, pudessem ouvir o chamado de sua cama sensual e perfumada, convidando-os a repetirem os deliciosos momentos de paixão e prazer que haviam passado um nos braços do outro. Felicity sentiu-se aquecer com as recordações quase físicas do toque suave e, ainda assim, firme, de Thorn. Seus seios vibravam contra o tecido fino da camisola, guardando segredos das carícias que haviam recebido e que pareciam querer reviver. E todo seu corpo vibrou ao sentir que poderia viver novamente a intensidade da paixão que a levava a entregar-se por completo nos braços dele. Se Thorn se ajoelhasse diante dela e pedisse por mais uma noite de amor, com o rosto pressionado contra seu corpo e as mãos fortes segurando-a com a vibração de sempre, Felicity sabia que não haveria poder sobre a Terra que a pudesse forçar a recusar ficar com ele. — Ivy está aqui? — Thorn perguntou, despertando-a daquela espécie de embriaguez que os pensamentos lhe tinham causado. As palavras eram tão contrárias a tudo que estivera imaginando que se tornaram difíceis de ser entendidas por ela. — Ivy? Sua... irmã? — indagou, sentindo-se uma tola por fazê-lo. — É claro que sim. — O tom brusco que ele usava raspava e doía em sua mente como a barba por fazer de um homem arranhando a pele delicada de uma mulher. — 1

Peça que se põe na boca do castiçal para aparar os pingos da vela.


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Acha que eu vim até aqui, a esta hora da noite, sem ter um bom motivo?! A resposta atingiu-a, ferindo-a e deixando-a subitamente fria. — E o que sua irmã estaria fazendo aqui, na minha casa, no meio da noite? — rebateu. — Se este é um pretexto tolo para entrar aqui e me acordar, vai se arrepender de tê-lo feito, sr. Greenwood! — Lady Lyte, saiba que nada me arrastaria até aqui a não ser a defesa da honra e da reputação de minha irmã; ainda mais porque eu jamais ousaria trespassar o umbral da entrada de uma casa onde sei que não sou mais bem-vindo. Mesmo naquela luz difusa, ela podia ver os músculos do maxilar de Thorn firmes, tensos. Ele prosseguiu, ainda muito nervoso: — Quanto ao motivo de Ivy estar aqui, sob o seu teto, sugiro que faça essa mesma pergunta a seu sobrinho, aquele pequeno canalha! Cada palavra pronunciada por Thorn feria Felicity mais e mais. Eram como um balde de água gelada jogado sobre o calor que a presença inesperada dele tinha provocado em seu corpo. Era terrível imaginar que Thorn viera e causara-lhe tamanha comoção para depois acabar com ela dessa forma. Mas pior ainda era ouvi-lo insultar o sobrinho de seu falecido marido, um rapaz que Felicity adorava como ao filho que jamais esperara poder ter. Isso era demais! Muito ultrajante, analisou. — Peço-lhe que preste atenção ao que diz, senhor, e segure sua língua! — disse, firme. — Oliver Armitage não merece ser chamado de canalha, como muitos outros rapazes que conheço! O que meu sobrinho poderia ter feito para comprometer a reputação de sua irmã? Por que não pode imaginar que ela mesma a tenha comprometido? Porque, eu lhe digo, jamais vi uma garota tão... voluntariosa quanto ela! O que estava insinuando não era verdade, Felicity repreendeu-se. Nas poucas vezes em que se encontrara com a irmã mais jovem de Thorn, em Londres, tinha-se deixado cativar pela alegria contagiante da moça, tão contrastante com a moderação de seu irmão. Apesar da diferença de idade entre ambas, as duas tinham se tornado amigas e Felicity costumava falar muito bem de Ivy. No entanto, naquele momento de intensas emoções, deixara de lado a razão; o ataque de Thorn contra Oliver parecia-lhe exigir uma resposta à altura, e atacar sua irmã parecera-lhe a única forma de fazê-lo. Sabia que ele não se importaria com um insulto contra sua própria pessoa, mas não suportaria que se dissesse nada contra a querida irmã mais nova. Thorn apertou os dedos contra a palma das mãos, extremamente perturbado diante do que ouvia. Parecia controlar-se para não pegar Felicity pelos braços e dar-lhe algumas sacudidelas. Ou, então, tomá-la em seus braços e beijá-la até que pedisse para ser levada para a cama... E, diante de tais possibilidades, Felicity sentia-se estranhamente tonta. — A... além do mais — acrescentou, um tanto vacilante. —, duvido até que Oliver


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conheça sua irmã! Ele é o único rapaz em Bath que não quer sair daqui e seguir para Londres, mesmo na temporada de festas e recepções! Não que Felicity não o tivesse instigado a tanto. Duas semanas antes, ela mesma teria insistido para que Ivy Greenwood pudesse tirar seu sobrinho de sobre os livros ou de dentro de seu laboratório. Sorte sua, agora via, que não o fizera. Estremeceu só em pensar. Qualquer ligação entre Oliver e Ivy a teria ligado demais aos Greenwood, e agora precisava ficar o mais longe possível de Thorn. — Pois eu tenho minhas razões para acreditar que seu sobrinho e minha irmã fugiram juntos para Gretna Green — ele afirmou, fazendo-a estremecer ainda mais. Felicity costumava não ter paciência para com mulheres que desmaiavam à toa ou que fingiam desmaios diante de situações que consideravam estressantes. Era afetação demais para suportar. E a última coisa que poderia querer no mundo era que as palavras de Thorn a deixassem fraca a ponto de perder os sentidos e cair nos braços dele. Mas, de repente, tudo ao seu redor começou a girar, deixando-a absolutamente tonta, e nada mais viu ou sentiu. — Felicity! — Thorn exclamou, atônito e surpreso, oferecendo os braços de pronto para amparar-lhe a queda. Mesmo quebrando seu juramento de jamais voltar a entrar no quarto dela, Thorn ergueu Felicity nos braços e depositou-a sobre o leito. Ao fazê-lo, o suave e familiar perfume de rosas que havia nas cobertas atingiu-lhe as narinas, desencadeando uma onda de recordações que foram como uma tortura para todos os seus sentidos. Mas, controlado como sabia que precisava ser, afastou-se, olhando-a, atento, considerando que a última vez que sentira aquela vontade enorme de beijá-la, e o fizera, tinha sido a última, embora nem mesmo soubesse... Por um indelével momento, toda sua paixão por Felicity obscureceu-lhe a razão, inclusive fazendo-o esquecer a preocupação com a irmã, que fora o que o trouxera até ali. O perfume continuava tentador, suave e envolvente. Sabia que, se fosse dominado mais uma vez por seus sentidos, não conseguiria mais deixar aquela casa, não com sua dignidade intacta. Devia saber que, desde a primeira vez que Felicity, suave e meiga, lhe revelara a vontade de ser sua amante, ela cometera um grande erro. Porque uma mulher como Felicity, fina, elegante, bem-nascida, não tinha afinidade nenhuma, nem poderia ter, com um sujeito comum, sem dinheiro, como ele. Tipicamente simples, com uma mente normal, sem ser brilhante e sem pretensão alguma de ser charmoso e irresistível, Thorn apenas se deixara levar pela situação. Não era um homem que pudesse ser considerado bonito, avaliava-se. No entanto não era feio. Tinha responsabilidades familiares e obrigações financeiras e não poderia jamais cobrir Felicity com todos os presentes que gostaria de poder lhe dar, também não podia oferecer-lhe uma posição definida, segura, na sociedade. No entanto, mesmo assim, ela o escolhera. E, pela primeira vez em sua vida


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correta, honrada, Hawthorn Greenwood fizera algo que podia ser considerado abaixo do respeitoso. Algo furtivo, escandaloso até. Mas algo tão maravilhoso que nem podia acreditar que estivesse lhe acontecendo. Felicity Lyte lhe oferecera um banquete de frutas proibidas. E, mesmo servindo-se à vontade, sentia que não estava nunca saciado, jamais poderia ter o suficiente do que mais adorava na vida. Tinham concordado que seu tempo juntos estaria limitado àquela temporada em Bath. E, com algumas semanas da mais pura felicidade ainda adiante de si, ele se vira frustrado pelo recebimento daquela carta que terminava com tudo entre ambos. Como Thorn já devia saber de antemão, ela se cansara de sua presença, de sua companhia, analisava. Talvez tivesse encontrado um substituto com mais estilo, mais classe... Passou os olhos ao redor, percebendo que, naquela noite, ela estava sozinha. E ficou satisfeito. Mas sabia que devia banir de seus pensamentos idéias tão egoístas. Havia se zangado pela forma simples com que ela o dispensara, essa era a verdade. Ficara magoado, chocado, surpreso. Mesmo assim, não tinha o direito de entrar naquela casa, àquela hora da noite, e levar Felicity a um choque tão grande que a fizesse desfalecer porque acusara seu sobrinho com suas suspeitas agressivas. — Felicity? — chamou, baixinho, segurando-lhe as mãos. — Acorde, por favor. Lamento ter lhe dado a notícia de forma tão rude. Eu devia saber que seria um choque para você... Thorn respirou fundo, começando a sentir-se alarmado porque ela não despertava. Pressionou os dedos na base de sua garganta para sentir-lhe a pulsação, e ficou mais tranquilo, embora ainda estivesse tenso. — Thorn? — Felicity murmurou, entreabrindo os olhos. Pronunciou seu nome com a suavidade peculiar à afeição que dizia sentir antes, e sorriu muito de leve. — O que houve? Onde estou, querido? Thorn engoliu em seco. Sentiu seu peito se apertar. Lembrou-se mais uma vez da carta e chegou a considerar se teria entendido mal seu conteúdo. Talvez ela ainda o quisesse, pelo menos por mais algumas semanas. Sentiu-se invadido por uma estranha onda de esperança que, ao mesmo tempo, o animava e frustrava. Talvez tivesse colocado poder demais sobre sua felicidade nas mãos de Felicity, avaliou com tristeza. E, como para atestar tal fato, ela abriu os belos olhos verdes e estremeceu. E só então se afastou dele, parecendo tomada por uma aversão imediata. — O que está fazendo aqui? — Felicity perguntou, rude. Se ela o tivesse atingido com uma bofetada, não o teria ferido tanto. A frieza em sua voz o machucava demais. Thorn levantou-se, deixando o lado da cama em que se sentara para ampará-la, e olhou-a, tentando voltar à realidade. Ambos sabiam por que ele estava ali, e ambos sabiam que precisavam permanecer afastados um do outro.


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As próximas palavras de Felicity confirmaram quanto ela já estava consciente: — Sua irmã e Oliver... Então, acha que fugiram para Gretna? Como pode ter certeza? Thorn viu-a sentar-se na cama e manteve-se calado, controlando-se para não lhe pedir que tivesse cuidado, caso ainda se sentisse tonta. — Se eu tivesse certeza, não estaria perdendo meu tempo aqui, lady Lyte — ele respondeu, frio. — Neste exato momento, estaria na estrada a caminho de Bristol, tentando alcançá-los antes que prosseguissem nesse ato impensado. — Deve estar enganado — ela rebateu, mas o seu tom de dúvida acabava com a certeza que queria impor às suas palavras. — Tomei o desjejum com Oliver esta manhã. E ele não me pareceu nem um pouco excitado, como se estivesse preparando uma fuga com uma moça. Felicity levantou-se, mas teve de se apoiar na mesinha-de-cabeceira para evitar outra tontura. Thorn, mesmo contra sua vontade, acabou estendendo um dos braços para ajudá-la. Ele sempre agira com sobriedade e equilíbrio em sua vida e orgulhava-se disso. Não estava costumado a ser empurrado em direções opostas por sentimentos e sensações fora de controle e não apreciava a forma como se sentia agora. Felicity apoiava-se em seu braço, e ele queria poder não gostar de tê-la assim tão próxima. — Espero que esteja certa quanto a seu sobrinho — disse para desviar os pensamentos. Mas as palavras saíam-lhe um tanto incertas, estranhas. Porque, se encontrassem Oliver Armitage recolhido em seu quarto, sozinho e tranquilo, ou então afundado em seus estudos no laboratório, então o desaparecimento de Ivy tomaria uma aparência ainda mais sinistra. — Poderia, pelo menos, para me tranquilizar, confirmar se ele se encontra em casa? — Thorn insistiu. — Está bem. — Felicity tentou afastar a mão do braço dele, mas sentiu que precisava ainda de seu apoio. E foi mordaz: — Farei qualquer coisa que o tire desta casa rapidamente. Com passos lentos e vacilantes, Felicity dirigiu-se à porta do quarto, tendo Thorn a seu lado, pronto para ampará-la, caso a vertigem a acometesse de novo. Mas isso não aconteceu e, aos poucos, os passos de Felicity ganharam mais segurança, em especial quando saiu para o corredor e seguiu em direção ao estúdio do rapaz. — Vou tentar aqui primeiro — avisou, parando diante da porta que ficava no final


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do corredor. — Oliver sempre se esquece do tempo quando está absorto em seu trabalho. Ela bateu com suavidade na porta, chamando pelo nome do sobrinho. Não houve resposta. — Oliver? — insistiu, girando a maçaneta e abrindo a porta devagar. — Você está aqui? Um odor característico de livros velhos saiu do cômodo, misturado a um leve cheiro de soluções químicas. Mas tudo lá dentro estava escuro e silencioso. Oliver Armitage não se encontrava ali. — Ele deve ter se recolhido ao seu quarto já há algum tempo — Felicity observou, mas sem muita certeza. E voltou-se para a porta que ficava logo à frente do estúdio do rapaz. Bateu agora com mais insistência e chamou-o em voz mais alta. — Oliver, acorde! É urgente! Preciso falar com você agora mesmo! Não houve resposta. — Ele tem sono profundo — Felicity tentou explicar. Mas ficou no ar a dúvida se ela dizia isso para acalmar-se ou para confrontar a certeza que Thorn tinha sobre o que viera fazer ali. Repentinamente impaciente, ela abriu a porta dizendo: — Oliver, vai ter que nos desculpar, meu querido, mas o sr. Greenwood veio até aqui para... Felicity interrompeu as próprias palavras diante da absoluta escuridão do quarto. A única fraca luminosidade vinha de fora, do corredor, que também estava em penumbra, e mostrava apenas contornos de móveis e de uma cama que não fora desfeita. — Bem... ele deve ter saído — ela comentou, contradizendo sua afirmação anterior de que o sobrinho não tinha intenção alguma de deixar a cidade. — Talvez — Thorn confirmou, seco. Uma cor mais clara sobre as cobertas escuras da cama chamou-lhe a atenção. Passou por Felicity, baixou a mão e pegou uma folha de papel dobrada que fora deixada ali e lacrada com cera. Thorn foi até a porta, onde podia ler melhor o que estava escrito do lado de fora do papel. Depois de fazê-lo, estendeu-o a Felicity, dizendo apenas: — Está endereçada a você.


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CAPÍTULO II

Felicity tinha as mãos trêmulas ao pegar a carta que Thorn lhe entregava e que estava escrito com a caligrafia de seu sobrinho. Também sua vista parecia-lhe falhar, então pediu em tom suave: — Poderia arranjar-me uma vela, sim? — Fosse qual fosse o conteúdo daquela carta, ela não tinha intenção de voltar ao seu quarto para lê-lo. Muito menos na companhia de Thorn Greenwood, porque seu quarto guardava muitas recordações dos momentos preciosos que haviam passado ali juntos. E Felicity não queria, em hipótese alguma, lembrar-se do carinho, da atenção, da suavidade de Thorn quando faziam amor. Calado, ele se retirou para o corredor, de onde voltou instantes depois trazendo uma vela que tirara de dentro de uma arandela. A textura do papel que Felicity segurava fazia com que se lembrasse da carta concisa que escrevera a Thorn havia poucos dias. Fora com certa relutância que o fizera, e o arrependimento antecipado por ter de romper com seu relacionamento quase a tinha feito desistir, mas ela sabia que aquela seria a melhor atitude a tomar, e, assim pensando, endurecera as palavras que escrevera. Não queria feri-lo, mas também não queria que Thorn tivesse falsas esperanças quanto à possibilidade de ela mudar de idéia e aceitá-lo novamente. Se o visse pouco depois, sabia que aqueles belos olhos castanhos dele e seu jeito calado, meigo, a teriam feito desistir da decisão. Não, não podia fazê-lo, argumentara consigo mesma. Haveria consequências desastrosas se agisse de outra forma. — E então? — Thorn incentivou-a, o olhar fixo na folha de papel que Felicity segurava sem abrir. — Vai ler ou não? — É claro... — ela declarou, desperta de suas próprias reflexões. Seus dedos ainda tremiam quando rompeu o selo. — Não me apresse. Tudo indicava que Thorn estava certo em suas desconfianças até o momento. Mas Felicity ainda alimentava uma tênue esperança de que a carta de Oliver contivesse algo muito diferente do que temia ler. Tudo o que sabia era que seu sobrinho mal conhecia Ivy Greenwood. E, mesmo se ele conhecesse aquela moça muito bem e até gostasse dela, um homem das ciências como Oliver não teria o temperamento tão desvairado a ponto de fugir com ela daquela forma. O problema, ao que parecia, era que o temperamento de Ivy Greenwood era assim. E isso poderia valer para ambos, numa situação de desvario provocada pela paixão, pior ainda, ela era linda, o que poderia levar qualquer homem a perder completamente o juízo.


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Felicity esforçava-se por concentrar-se e ler o que o sobrinho lhe escrevera. Thorn segurava a vela um tanto alta, procurando espiar por sobre seu ombro. E sua respiração, junto a seu ouvido, tornava quase impossível para Felicity conseguir pensar em qualquer coisa, ainda mais porque a caligrafia do jovem cientista era um tanto complicada. — Querida tia Felicity — Thorn leu em voz alta, impaciente, tomando à dianteira. — Quando encontrar esta carta, já estarei a caminho da Escócia, onde pretendo casar-me com a srta. Ivy Greenwood. Como ela ainda se encontra em idade que depende do consentimento de sua família, e teme que o irmão possa não aprovar nossa união... — Thorn interrompeu a leitura para murmurar, raivoso: — Tem razão, rapaz! — E depois continuou: — ...decidimos fugir juntos. E, sabendo quanto a senhora gosta de minha futura esposa, imagino que vá nos desejar muita felicidade. Esperamos ansiosamente poder residir com a senhora quando retornarmos já casados. Seu sobrinho, que a estima por demais, Oliver Armitage. Thorn baixou bem devagar a mão que segurava a vela. Felicity agiu da mesma forma com a carta que ainda tinha em mãos. Nenhum dos dois foi capaz de pronunciar uma só palavra por alguns segundos, durante os quais toda a defesa que Felicity articulara a favor do sobrinho ruía por terra. — Meu Deus! — sussurrou ela por fim. — Isso é uma loucura! Não... não consigo imaginar um casal mais... inadequado do que meu sobrinho e sua irmã! O que pode ter acontecido a essas duas crianças para agirem assim?! Ela ergueu os olhos para Thorn, atônita. E, ao perceber quanto ele se encontrava próximo, engoliu em seco e deu um passo para se afastar. Não estava com medo dele, mas do efeito poderoso e intenso que Thorn exercia em seus sentidos. Sentia uma vontade enorme de tocar-lhe o rosto, acariciar-lhe os cabelos, num gesto que acabara ficando entre os dois como um sinal para que se recolhessem à cama. Um sinal que não existia mais, lembrou-se, entristecida. E fechou as mãos, detendo a vontade que as fazia agirem. Talvez o brilho intenso de seus olhos tivesse traído seus pensamentos, avaliou, pois Thorn baixou o tom de voz consideravelmente, falando-lhe com o mesmo carinho de antes: — Acho que sei o que aconteceu a essas duas crianças, lady Lyte. — E seu olhar passou-lhe pelo rosto como uma doce carícia. — Foi a mesma loucura que às vezes aflige corações mais velhos e mais experientes. Ela tornou a engolir em seco, depois afirmou, tentando parecer firme: — Não está se referindo a nós, por certo... — E forçou uma risada que, no entanto, nada tinha de alegre, mas de irônica. — Porque eu já estou curada das ilusões da adolescência há muito tempo e nada tenho em mim de romântica. E você é o último homem em Bath, talvez em toda a Grã-Bretanha, inclinado a cometer uma loucura ou qualquer outro tipo de excesso por amor.


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Thorn Greenwood, sempre tão sensato, correto, respeitável, decente; Felicity sabia, porque tinha pesado todas essas qualidades a favor dele mesmo antes de escolhêlo para tornar-se seu conveniente amante. Não quisera alguém mais romântico, muito menos passional, que pudesse pensar em estar apaixonado por ela. Mas Thorn não parecia contente com o que deveria ter sido um elogio a seus atributos de caráter. Franziu as sobrancelhas e encarou-a muito sério, e Felicity chegou a recuar diante da sombra que surgiu naqueles belos olhos castanhos. — Então, eu a entediava — ele comentou, parecendo ferido. — Não seja tolo — ela rebateu, mas suas palavras pareceram falsas até mesmo para si própria. Thorn não a entediava, repetia para si própria, Thorn simplesmente deixara de surpreendê-la. Até essa noite... E agora Felicity não conseguia entender se gostava ou não de tais surpresas. — Sou incapaz de ser tolo — Thorn respondeu, com franqueza. — Bem, da forma como fala, parece que o acusei de um crime! Não é bem assim... Há muita gente tola neste mundo, e eles só conseguem causar problemas a pessoas sensatas como nós. Esses dois jovens, por exemplo. O modo como você chegou aqui esta noite leva-me a crer que não está gostando dessa fuga romântica tanto quanto eu. — É claro que não estou! — Thorn, agora, parecia estar ofendido diante de tal possibilidade. — Minha irmã é jovem demais para saber o que quer da vida, ainda mais num assunto tão importante quanto o casamento. Ivy Greenwood não tinha mais do que dezessete anos, Felicity sabia. A mesma idade com que ela própria embarcara para uma viagem terrível em seu casamento. Thorn continuava sem perceber que lhe causava recordações amargas: — E, como você mesma disse, eles formam um par completamente incompatível! Minha irmã... Oh, Deus, jamais poderia imaginá-la como esposa de um cientista! Ivy tem um temperamento adorável, um coração de ouro! — Mas poderia também ser considerada fútil e impulsiva, não? — Felicity indagou, sabendo do que falava. Thorn preparou-se para contradizê-la, porém preferiu dar de ombros e comentar: — Talvez você tenha razão. Imagino que Ivy deve ter achado a idéia de uma fuga muito romântica. Mas viu tão pouco do mundo! Como pode saber se o jovem Armitage é o homem indicado para fazê-la feliz?! Não deve nem ter certeza se quer passar quinze dias com ele, quanto mais uma vida inteira. — É verdade — Felicity comentou, num suspiro. Pelo menos nesse aspecto, ela e Thorn pensavam da mesma forma. Tinham os mesmos motivos para querer impedir que seu sobrinho se casasse com a irmã dele. Ou quase. Ela possuía um motivo a mais do que ele. Um de que Thorn não podia ter


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conhecimento. O mesmo motivo pelo qual rompera o relacionamento de ambos prematuramente, quando ainda queria muito continuar aquele romance até o fim da temporada; não fosse por esse motivo, poderia até querer continuar a ver Thorn e amálo no ano seguinte. Mas, agora, esse desejo não poderia mais se concretizar, da mesma forma que o casamento de seu sobrinho com alguém da família Greenwood não poderia jamais se realizar. — Parece que concordamos, então — Thorn observou, arrependendo-se agora por ter feito aquela observação quanto a ser entediante para Felicity. Nada poderia ser mais entediante do que um amante que se recusava a partir em silêncio, sem contestar o porquê de um rompimento. — Eles precisam ser alcançados e verem a loucura que estão cometendo, para depois serem trazidos de volta para casa. Felicity ergueu as sobrancelhas e endireitou os ombros. Depois disse, decidida: — Muito bem, então. Vou fazer uma pequena mala e partir esta noite mesmo. Eles não devem estar mais de doze horas adiantados e, provavelmente, os alcançarei antes que cheguem a Gloucester. Com um movimento rápido, ela se dirigiu à porta. Vestida como estava com a alva camisola e com os cabelos negros soltos sobre as costas, parecia pouco mais velha do que Ivy. — Não seja ridícula! — Thorn protestou, adiantando-se e segurando-a pelo pulso, que lhe pareceu frágil entre seus dedos. — Não pode sair por aí sozinha, cruzar praticamente todo o país! Felicity encarou-o e soltou a mão puxando-a sem delicadeza. — Não vou estar sozinha — rebateu. — Vou em minha carruagem, é claro, com um cocheiro muito experiente e pelo menos um criado. E, como se tais palavras tivessem definido a situação, voltou-se, saiu do quarto do sobrinho e seguiu pelo corredor, de volta a seus aposentos. Thorn acompanhou-a de pronto. — Além do mais — ela continuou, voltando-se de repente para encará-lo ainda uma vez —, não vou precisar seguir Oliver e sua irmã por todo o caminho, daqui até a Escócia! Não sabemos o que eles estão usando como meio de transporte! Talvez um veículo de aluguel. É o mais provável. Com um pouco de sorte, vou até adiantar-me a eles amanhã. E então poderei enviar Ivy de volta em segurança no dia seguinte. Felicity parou à porta de seu quarto e ergueu uma das mãos. Por um segundo, Thorn imaginou se ela queria que ele se inclinasse e a beijasse numa despedida, mas depois entendeu que lhe pedia a vela. Teimoso, não a entregou. — Acha, honestamente, que vai segui-los, encontrá-los com facilidade e depois


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mandar Ivy de volta a Bath? — perguntou com certo sarcasmo. — E se pararam em uma taverna ou hospedaria de beira de estrada para trocarem de cavalos, e você passar por eles com muita antecedência? Felicity não respondeu. Aquela, como muitas outras, era uma possibilidade que não considerara. Thorn tivera muito mais tempo para pensar e considerar, até mesmo planejar, desde que se dera conta do desaparecimento da irmã da casa modesta em que viviam nos subúrbios de Bath. — Vou perguntar por eles sempre que parar em qualquer lugar para descansar ou trocar de cavalos — ela explicou. — Não deve ser assim tão difícil saber por onde passaram, ou rastrear seu paradeiro. E, se eu tiver de segui-los até Gretna, estou preparada para a jornada. Agora, por favor, dê-me essa vela para que eu possa me vestir e arrumar minha mala, sim? Se... não for lhe pedir muito, por favor, acorde meu cocheiro e meus criados e informe-os a respeito da viagem e sobre a urgência de sairmos daqui quanto antes. — Não, Felicity. Não vou permitir que faça uma coisa dessas. — Thorn afastou a vela das mãos dela. — Será uma viagem difícil, talvez até perigosa. Os olhos de Felicity brilharam, audazes, altivos. — Não é meu guardião, sr. Greenwood. E, mesmo tendo partilhado minha cama, não é meu marido tampouco. Se eu disse que vou partir nessa viagem, não há como evitar que o faça. Thorn cerrou os dentes diante daquela teimosia. Felicity parecia querer mostrar a ele que, além de tê-lo dispensado, era-lhe superior também pela posição social. Mas se controlou, seria bem-feito para Felicity se ele permitisse que ela se metesse numa empreitada assim. Para sua surpresa, porém, ela tomou-lhe a mão livre nas suas e suavizou a voz para dizer: — Pensei que tínhamos concordado que Ivy e Oliver devem ser detidos. Por que estamos discutindo, então? Que alternativa temos? Uma alternativa poderia ser óbvia, Thorn pensou. E decidiu que, se a mostrasse, Felicity poderia aceitá-la: — Eu irei. Posso ser mais rápido se for a cavalo. Posso até cruzar os campos para interceptá-los. Posso pedir informações em qualquer lugar por onde passar, para qualquer pessoa, desde viajantes até donos de espeluncas e cobradores de pedágio, qualquer um que uma dama talvez tivesse receio de interceptar. Felicity pensava, e Thorn percebeu que ela começava a ceder. Portanto continuou, sentindo o calor das mãos dela, que subia lentamente por seu braço e o deixava entorpecido. — Assim que eu conseguir alcançá-los, poderei exigir que minha irmã volte


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comigo para casa. Afinal, sou seu tutor legal, e ela não poderá se recusar. — Esse era o melhor argumento que ele tinha para convencer Felicity de sua ida. — Você não teria tal influência sobre ela ou seu sobrinho. Por esta e outras razões que mencionei, sou eu quem deve persegui-los. Mas... — Sim? Thorn hesitou, visivelmente embaraçado. Preferiria cortar a língua a ter de admitir o que pensava, em especial para ela. E, como sabia que sua vergonha estava estampada em suas feições, baixou a mão que segurava a vela para que Felicity nada percebesse. Só então disse: — Não tenho recursos à minha disposição para a viagem, como antes tive. Mesmo digno e cheio de orgulho, ele não conseguia encarar uma das mulheres mais ricas da Inglaterra e cuidava para não gaguejar na revelação humilhante que era obrigado a fazer-lhe. Nunca tinham falado a respeito da enorme disparidade entre suas posses. Na verdade, jamais tinham conversado sobre assuntos mais profundos. Ainda assim, imaginava que Felicity soubesse que sua família havia perdido boa parte dos bens que um dia possuíra. Pelo menos, a casa modesta em que morava devia ter sido uma evidência suficiente, numa cidade onde o preço das casas crescia na mesma proporção da vizinhança. Suas roupas, bem talhadas, mas antigas, poderiam tê-lo acusado como o homem sem meios que era agora. Não tinha sequer uma carruagem... Ao que parecia, Felicity conhecia sua situação financeira desde muito antes de se aproximar de Thorn com seu convite sedutor, intrigante, e até escandaloso para que se tornassem amantes. Um homem mais rico poderia sentir-se até ofendido... E ele, agora, tinha de confessar sua situação em face do dilema que viviam: — Meu pai deixou dívidas consideráveis quando faleceu, há algum tempo. Tenho conseguido quitar boa parte delas e espero ver minha família recuperada em alguns anos, próspera até. No momento, porém, não disponho de dinheiro vivo. E, já que nós dois temos interesse em ver seu sobrinho e minha irmã afastados de um casamento que poderia ser catastrófico, sugiro que juntemos nossas forças. Se você financiar a viagem, eu a pouparei do trabalho de ir pessoalmente, colocando-me à sua disposição para encontrá-los. Felicity já soltara a mão de Thorn e via agora que ele aguardava sua resposta, parecendo tenso. Não a olhava, talvez para não ver algum sinal de piedade, que completaria sua humilhação. Houve alguns segundos de um intenso e misterioso silêncio por parte de Felicity, até que ela, num movimento rápido, tomou a vela da mão de Thorn e, em seguida, entrou em seu quarto e fechou a porta. Antes que ele pudesse reagir, um ruído seco indicou que ela girava a chave no ferrolho.


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— Felicity! — Thorn bateu contra a madeira trabalhada, indignado. — O que está fazendo?! O que significa essa sua atitude?! A voz dela soou distante, fria e calma: — Imagino que seja óbvio. Sinto muito, mas não aceito a sua oferta para fazer a viagem em meu lugar. Thorn percebeu que os criados deviam estar acordados agora, porque ouviu ruídos e sussurros no andar de baixo da casa. Imaginou que um deles poderia aparecer e lançá-lo porta afora sem fazer perguntas. Na verdade, todos os criados daquela casa tinham mostrado grande paciência até agora para com ele. Assim, parou de bater na porta e baixou a voz: — Não ouviu nem uma palavra do que acabei de dizer? — Ouvi, sim. E considerei cada uma delas para tomar minha decisão — ela disse lá de dentro. — Aprecio a sua oferta, mas decidi seguir sozinha, ponto final! Tenho certeza de que exagerou em suas considerações quanto ao que pode me acontecer. — Não, não exagerei em nada. Eu apenas... — Sr. Greenwood, por favor! — Felicity pediu, como se perdesse a paciência. — Tomei minha decisão e não vou deixar que me convença a agir de forma diferente, muito menos se se exaltar. Agora, se me der licença, tenho muitas coisas para preparar. A implicação de que ele deveria se retirar estava implícita, porém, mesmo assim, ela concluiu: — Espero que poupe sua dignidade e a minha saindo daqui em silêncio. Se não o fizer, terei de chamar meus criados para acompanhá-lo até a porta. No quarto, Felicity arrumava suas roupas, prestando atenção a Thorn do lado de fora. Os argumentos dele para seguir em seu lugar atrás do casal fugitivo eram bons, quase chegara a aceitá-los. Mas acabara por não fazê-lo devido a uma última consideração do caso. Thorn Greenwood tinha um coração muito mole e seus motivos para querer evitar aquele casamento tolo eram bem menos urgentes do que os dela. E se, ao alcançar Oliver e Ivy, acabasse por deixar-se convencer de que eles se amavam e que entendiam todas as consequências do que estavam fazendo?, avaliava. Como se eles pudessem entender alguma coisa... Provavelmente, Thorn acabaria até abençoando a união dos dois... e os três voltariam a Bath para dizer-lhe que tudo estava resolvido. O que ela poderia fazer a respeito, então?! Felicity fechou a mala, ainda pensando, Thorn podia ter uma influência legal sobre a irmã, mas era ela, Felicity, quem tinha influência financeira sobre Oliver e não teria escrúpulos em exercê-la, se fosse preciso. Aquela fuga do casal a colocara numa situação muito difícil. Uma situação em que seria a única a perder, e muito. Não podia


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vacilar. Não ouvia mais nada do outro lado da porta, e sentiu-se aliviada. Chegou mais perto e perguntou, em voz baixa: — Thorn? Você ainda está aí? Houve alguns segundos de silêncio, depois ele respondeu: — Sim. Felicity respirou fundo. Olhou para o vestido que separara sobre a cama, precisava trocar de roupas, mas, de alguma forma, não conseguia fazê-lo com Thorn assim tão perto. Nem mesmo com aquela grossa porta de madeira maciça entre ambos. — Então... adeus — disse. — Prometo trazer Ivy para você sã e salva, assim que puder. — Se... está assim tão decidida a ir, Felicity, poderia, então, levar-me com você? Ela cerrou os olhos. Agradecia a Deus por aquela porta estar entre ambos. Se tivesse de olhar nos olhos de Thorn agora, sua resposta seria outra. — Não, Thorn. — Sei que pode parecer estranho diante das circunstâncias, mas somos dois adultos civilizados. Podemos fazer essa viagem juntos, por um ou dois dias, sem... Felicity pegou a sineta que usava para chamar os criados e sacudiu-a com violência. — O que propõe está fora de cogitação, sr. Green-wood — disse em voz alta e clara. — Agora, por favor, vá embora! Ela ouviu os passos apressados que se aproximavam pelo corredor e depois a voz de Thorn, complacente: — Está bem, está bem, estou saindo! Se aquelas palavras eram dirigidas aos criados ou a ela, Felicity não saberia afirmar. E, enquanto esperava que o tumulto no corredor se acalmasse, sentou-se diante da penteadeira e começou a se pentear. Pegou a escova e viu que, logo ao lado, encontrava-se, bem dobrado, o lenço que Thorn costumava usar ao pescoço. Felicity tocou-o com dedos trêmulos. Uma de suas criadas devia tê-lo encontrado enquanto arrumava o quarto. Aquela era a primeira e única peça que ele deixara ali, traindo sua presença. E Felicity agora se lembrava, com saudade, dos momentos em que Thorn estivera ali, com ela, despindo-se antes de se amarem... Tinham sido tantas as vezes e de formas diferentes. Em muitas ocasiões eles se ajudavam mutuamente a retirar as roupas, deliciando-se a cada momento, acariciando-se, vivendo aqueles momentos com um prazer indescritível.


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Apertou o lenço de seda entre os dedos e levou-o ao rosto, aspirando-o de leve, deliciando-se com o suave aroma de colônia que ainda restava no tecido. Sentiu que seus olhos se enchiam de lágrimas e, deixando a peça sobre a penteadeira, olhou-se no espelho, resistindo, teimando em ser forte. Não queria sentir-se uma tola sentimental. Aquele não era o momento para chorar ou para ter devaneios com Thorn Greenwood. Precisava manter-se sensata e fria para agir, para sair da situação em que se encontrava, não por vontade própria, mas pela impulsividade de seu sobrinho e de Ivy Greenwood. Ouviu batidas suaves na porta e seu coração se acelerou de imediato. — Sr. Greenwood! — gritou. — Será que vou ter de chamar meu mordomo também e fazer com que meus advogados movam uma ação contra o senhor por invasão de privacidade?! — O cavalheiro já se foi, senhora — Hetty, sua criada pessoal, informou em tom tranquilo. — Na verdade, ele não causou problema algum para sair. E, como vi a luz sob a sua porta, imaginei que a senhora talvez estivesse precisando de mim... Felicity acalmou-se, foi até a porta e a destrancou. — Obrigada, Hetty — agradeceu à criada quando esta entrou no quarto. — Acho que vou precisar de você, sim. Imagino que a presença do sr. Greenwood já tenha acordado a casa inteira. Por favor, peça a Ned e ao sr. Hixon que preparem a carruagem e façam suas malas para viajarem comigo para o norte. Pretendo partir dentro de uma hora. A criada encarou a patroa com olhos assustados, mas, como não lhe competia indagar nada, disse apenas: — Pretende ficar fora muito tempo, senhora? Quer que eu faça suas malas? Ou que me arrume para ir em sua companhia? Felicity chegou a considerar a idéia, depois respondeu: — Não, acho que não. Caso se tratasse da antiga criada Alice, que ficara com ela por mais de oito anos, Felicity teria aceitado a oferta pela companhia. Mas, desde que Alice deixara sua casa para casar-se com um próspero açougueiro, Felicity acabara ficando com Hetty, que era muito diligente, muito solícita, mas falava demais. Em breves conversas, Hetty podia até ser divertida, porém numa carruagem, por tantas horas, sua companhia não parecia ser muito interessante para Felicity. Preferia ficar sozinha com seus pensamentos e seus planos para o futuro. — Não vou me demorar muito — acrescentou. — Um ou dois dias no máximo. E acho que posso ficar sem uma criada nesse meio-tempo. Hetty pareceu sentir-se aliviada e abafou um bocejo. — Se é assim, senhora, acho que vou dar seu recado a Ned e ao sr. Hixon.


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A moça fez uma pequena mesura e deixou o quarto, mas, antes que Felicity fechasse a porta novamente, voltou para dizer-lhe: — Quer que eu peça a Cook para preparar-lhe uma xícara de chá antes que parta, senhora? Ou então que prepare uma cesta com algo para a senhora comer durante a viagem? A simples menção à comida fez o estômago de Felicity revirar. — Para os homens, sim, mas não para mim — respondeu. Fechou a porta e correu até a bacia que mantinha sobre a cômoda, para aliviar as náuseas que a tomavam. Depois molhou a ponta de uma toalha na água morna que era mantida em sua lareira e passou-a pelo rosto. Em seguida, sentou-se mais uma vez diante da penteadeira. Olhou-se no espelho e notou sua palidez. Depois de doze anos de casamento e de viuvez, a providência parecia ter-lhe pregado uma peça. Acordava todas as manhãs nauseada e seu ciclo menstrual fora interrompido. Logo seu ventre começaria a crescer e, no verão, ela estaria tão redonda que não caberia mais em seus vestidos... Thorn Greenwood, sem saber, realizara-lhe o grande sonho de sua vida; um que ela não mais esperava poder transformar em realidade. Um filho. Mas, justamente por isso, ele criara a necessidade de ser expulso da vida de Felicity...

CAPÍTULO III

Se Felicity achava que podia livrar-se dele com tal facilidade, estava redondamente enganada!, pensava Thorn, enquanto passava pelos edifícios da parte velha da cidade. Lançou um olhar aborrecido às janelas escurecidas do New Assembly, o salão de bailes mais concorrido de Bath, mas que agora já estava às escuras, pois seus frequentadores havia muito tinham voltado para suas casas. Depois dos dois últimos dias, nos quais sofrera como um condenado, estava a ponto de amaldiçoar o local onde vira pela primeira vez sua problemática ex-amante. O que teria acontecido a ele e a Ivy se não tivesse deixado que a irmã o convencesse a ir àquele baile, o primeiro dessa temporada?, avaliou, aborrecido. Se, de repente, diante de si, aparecesse um ser fantástico que lhe desse a oportunidade de realizar um desejo, o de voltar atrás no passado, dois meses antes precisamente, para modificar o que acontecera, não tinha certeza se aceitaria a oferta ou não...


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Tudo acabara de forma tão amarga! Aquele romance com lady Lyte mudara tanto sua vida! Mas, enquanto durara, ele vivera os momentos mais maravilhosos que um homem poderia sonhar em ter. Thorn meneou a cabeça, querendo afastar os pensamentos sombrios. De nada adiantava ficar se lamentando, analisou. Precisava apenas pensar na viagem que ainda queria fazer à Escócia. Diminuiu os passos apressados com que deixara, indignado, Royal Crescent, sentindo a brisa suave, mas fria, que passava pelas ruas desertas de Bath. Havia nela o suave aroma de comida que vinha das janelas das cozinhas de muitas das casas elegantes daquele bairro. Também podia ouvir de longe os últimos ruídos, risadas e notas musicais de festas que estavam acabando só agora. Havia no ar uma sensação de convívio social e de riqueza que pareciam zombar de sua situação e o deixavam ainda mais zangado. Mas não podia deixar-se abater por tais idéias, lembrou-se, seguindo adiante. Estudava o problema que ele tinha diante de si com a mesma determinação com que enfrentava os problemas financeiros que sua família vinha enfrentando havia já algum tempo. Sabia muito bem que, com uma boa análise, calma e segurança, qualquer problema podia ser resolvido. E tinha mais experiência do que a maioria dos homens de sua idade e classe no que se referia a arranjar uma solução para o que parecia sem solução. Passou a descer a rua Gray, ponderando sobre o problema da forma mais sensata e fria que conseguia, mantendo-se firme e determinado. Uma solução podia não ser a melhor, então avaliava outra, pesando prós e contras, descartando idéias absurdas, seguindo as mais prudentes. Ainda possuía alguns artigos de valor dos quais podia se separar no intuito de fazer dinheiro para a viagem até Gretna. Muitos dos itens que pretendia vender eramlhe caros e valeriam muito menos em dinheiro do que em consideração pessoal, mas esse era um aspecto do problema que precisava ser superado. Seus passos agora ecoavam na madrugada quando pisava sobre o calçamento um tanto irregular da rua Milsome. Muitas das peças que pensara vender eram-lhe queridas demais. Tinha de haver outra solução. Além do mais, se quisesse apenas empenhá-las, as lojas de penhores ainda estavam fechadas e assim permaneceriam por muitas horas, e ele tinha pressa em arranjar uma solução para poder partir em breve. A sensatez dizia-lhe para regressar à sua casa, separar o que tinha de valor, dormir um pouco e depois voltar ao problema pela manhã. No entanto a idéia de ver a irmã e Oliver Armitage tomando uma dianteira muito grande o impelia a agir naquele exato momento. Outro motivo o empurrava, e com mais força ainda: o fato de que Felicity estaria numa bela carruagem, sozinha, cruzando boa parte do país. Mesmo porque ela levaria como companhia apenas um velho cocheiro e um criado jovem demais para poder protegê-la.


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Seus pensamentos desviaram-se para outro aspecto do problema, pensou por instantes e, de repente, com um sorriso, murmurou: — Mas é claro... Podia estar sem dinheiro agora, mas ainda dispunha do que a maioria dos homens de bem possuía: amigos. Se pudesse falar com seu cunhado! Merrit Temple tinha muitos cavalos, carruagens e fundos, e estava certo de que ele os colocaria à sua disposição de imediato, finando fosse necessário. Infelizmente, a propriedade de campo de Merrit ficava a quilômetros de distância de Bath... Se fosse até lá, estaria provocando um atraso ainda maior em sua perseguição ao casal de namorados que ele pretendia trazer de volta. Pensou nos amigos que ele tinha em Bath e aos quais poderia recorrer de pronto. Lembrou-se de Weston St. Just. Se havia alguém que poderia ajudá-lo num momento tão difícil, esse alguém era o homem que o havia apresentado a lady Lyte!, avaliou, com um breve sorriso. E seus passos se apressaram quase automaticamente. Estava praticamente diante de sua casa e, ao chegar, entrou apressado e lá permaneceu tempo suficiente apenas para escrever um recado à sua governanta dizendo que ele e Ivy tinham sido chamados para fora da cidade e que não retornariam senão em alguns dias. Quando saiu mais uma vez para a escuridão da rua, Thorn virou para o sul, em direção a Sydney Gardens. Era naquele lado da cidade que St. Just mantinha sua bela casa. Não haveria problemas em acordar seu velho amigo de infância, mesmo no adiantado daquela hora. Ao contrário, temia até que o noctívago e farrista Weston ainda não tivesse voltado para casa e fosse demorar muito a fazê-lo. Dobrou a esquina, apressado, e, ao ver que havia uma luz na sala da frente da casa do amigo, respirou aliviado. Bateu na porta entalhada e não esperou muito até que um criado viesse abri-la. Quando este o introduziu à presença de seu patrão, Weston mostrou-se espantado e também um tanto divertido: — Ora, ora! Greenwood?! Mas o que houve para estar aqui tão cedo? Problemas com lady Lyte? Thorn não sorriu. — Estou surpreso que ela não lhe tenha contado — disse, muito sério. Conhecia muito bem o amigo para saber quanto ele gostava de saber de todas as novidades da cidade. — Ela rompeu comigo há dois dias. — Mas que pequena travessa, não? — Weston indicou-lhe uma poltrona e sentouse à sua frente. — Mas devo dizer-lhe, meu amigo, que o invejo até por ter passado apenas algumas semanas na companhia de uma dama tão bela e interessante! — Indicando uma mesa próxima, onde havia uma bandeja com copos e uma garrafa de conhaque, ofereceu: — Não quer afogar suas mágoas?


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Depois do que acabara de passar com Felicity, a oferta parecia tentadora, porém Thorn preferiu recusar: — Acho que não ousaria... — Não? — Weston olhou-o com certa indulgência. — Claro... Nunca afoga suas mágoas, não é? Nunca foge delas. Não gosta de cobardices2. Sei muito bem que prefere encarar os problemas e lutar com eles até vencer. Thorn encarou-o por alguns segundos, depois comentou, um tanto amargo: — Uma maneira um tanto aborrecida de ser, não? — Imaginava como conseguiram, ambos, continuar aquela amizade durante tantos anos tendo temperamentos tão opostos. Felicity poderia ter feito uma escolha melhor se tivesse ficado com St. Just, avaliou, em vez de apenas usá-lo como menino de recados entre ela mesma e Thorn. Além de ostentar uma beleza masculina clássica, de ser elegante e atraente, Weston tinha um jeito todo especial para com as mulheres que as fazia esvoaçar ao seu redor como abelhas em torno de uma fonte de néctar. — Aborrecida? — ele repetiu. — Não, meu amigo. Muito ao contrário! — St. Just serviu-se de conhaque e ajeitou-se melhor na poltrona que ocupava. — Sou uma pessoa que costuma cansar-se das outras até com facilidade, porque a maioria das que conheço é como eu: um tanto frívola, preguiçosa, egoísta... Mas pessoas que são o sal da terra, como você, frustram-me o tempo todo. Vivo numa constante antecipação de que vocês possam sair de seu caminho absolutamente reto e honesto e se deteriorar num mar de orgias e maldades. Thorn assentiu. — Foi assim que me imaginei. — Está se referindo ao seu romance com lady Lyte? Ora, foi apenas um leve escorregão seu, porém discreto demais para acabar com sua honra impecável, amigo. Mas, vamos deixar isso de lado e falar de coisas mais práticas: o que o traz à minha casa a esta hora? Acho que eu até poderia adivinhar, mas como você continua a me confundir... Vamos lá, diga-me o que houve. — Trata-se de minha irmã, Ivy. Ela enfiou na cabeça que deveria fugir com Oliver Armitage, sobrinho de lady Lyte. Weston ergueu as sobrancelhas. — E ela o fez?! — indagou, surpreso. Sentou-se mais para frente, interessado, os olhos brilhando. — Oh, queria eu ter uma bela irmã que me obrigasse a correr atrás de seus pequenos pecados... — É mesmo? Por que não fica com a minha, então? — Thorn indagou, amargo. E 2

Covardia.


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contou ao amigo tudo que acontecera, inclusive a insistência de Felicity em perseguir o jovem casal e sua necessidade desesperada de conseguir um bom cavalo e algum dinheiro para financiar a viagem. St. Just parecia divertir-se com toda aquela situação, porém Thorn procurou ignorar o sorriso do amigo; se queria partir ainda nessa noite atrás de Ivy e Oliver, o homem a sua frente era a única fonte de ajuda possível. — Imagino que queira que eu mantenha todo esse caso em segredo, agora que confiou em mim — Weston analisou. Levantou-se, então, e, um tanto cambaleante, foi até a lareira. Thorn também se levantou, acrescentando: — Não me adiantaria nada perseguir minha irmã até Gretna para trazê-la e vê-la mal-falada, se a informação que lhe dei vazar. Então, eu seria obrigado a casá-la com Armitage para que a questão da honra ficasse resolvida. Mas você sempre foi um grande amigo, Wes. O que me diz? Posso contar com a sua discrição e também com o seu auxílio? — Olhe, quanto à discrição, juro por minha honra duvidosa que não vou abrir a boca! Agora, quanto ao auxílio... — Ele enfiou a mão no bolso e o revirou. — Acabei de chegar de uma noite de jogatina monstruosa. Não sei ao certo quanto perdi, mas, seja quanto for... você ficaria escandalizado em saber. Sinto informá-lo, meu querido amigo, mas não tenho o suficiente para você aqui comigo. Só o terei quando me encontrar com o meu contador pela manhã. — Droga! — Thorn deixou escapar, passando, de imediato, a pensar em quem mais poderia ajudá-lo. Weston pareceu raciocinar um pouco e continuou como se não o tivesse ouvido: — A não ser que... — Sim? — Thorn adiantou-se, ansioso. Mas sentia, no tom do amigo, que não deveria animar-se tanto. — Não tem alguma coisa de valor com você? — St. Just perguntou, olhando para o anel que Thorn trazia no anular da mão direita, como se avaliasse quanto ele poderia render. — Tenho isto — Thorn respondeu, erguendo de leve a mão. — E o relógio de bolso que foi de meu avô. Mas não vai adiantar, já tinha pensado nisso. As lojas de penhores estão todas fechadas a esta hora e ainda vão demorar muito para abrir. — Eu não me referi à penhora de seus bens, caro amigo. — Weston espreguiçouse com prazer, como se tivesse acabado de acordar de uma relaxante noite de sono. — O que acha de apostar essas peças? Thorn entreabriu os lábios para protestar, porém seu anfitrião o impediu de falar, adiantando-se:


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— Uma boa mão no jogo do qual acabei de sair e você terá dinheiro suficiente para seguir com conforto até Gretna e depois voltar. Três boas mãos e você poderia financiar uma bela e longa viagem. — Weston já o instigava a seguir para a porta. — Mas eu nunca fui um jogador! — Thorn exclamou. — Sabe muito bem disso! De certa maneira, ele jogara ao iniciar aquele romance com lady Lyte. Tentara ganhar uma partida de puro prazer. E jogara, chegando a acreditar que tinha tudo a ganhar e absolutamente nada a perder. No entanto avaliara tarde demais que sua aposta fora em suas habilidades para levar uma mulher para a cama em se apaixonar por ela... O risco maior havia sido para o seu coração. E Thorn perdera. Weston St. Just parou à porta e se virou para encarar o amigo. — Pode tentar quanto quiser jogar em segurança, meu caro, mas a vida é um grande jogo, em qualquer aspecto. Pode ficar aqui esta noite, é bem-vindo, sempre foi. E, quando amanhecer, poderemos procurar meu contador para que eu consiga algum dinheiro rápido. No entanto, se está determinado a partir antes de ver o sol nascer, pode vir comigo e arriscar seus únicos bens numa rodada de cartas. O que vai ser? Thorn olhou para o anel e o acariciou, pensativo. O relógio era tão antigo que apenas mostrava as horas, o que limitava seu uso, e o anel era ainda mais velho. Ambos haviam passado, em sua família, de pai para filho, de geração a geração, até chegarem a ele. Já lhe era difícil separar-se de peças tão queridas num balcão de penhores, onde poderia recuperá-las mais tarde, e agora, diante da possibilidade de perdê-las de uma vez... vacilava. Ainda seria, sem sombra de dúvida, o cabeça de sua família, mesmo sem aquelas peças de ouro que representavam insígnias de autoridade para os Greenwood, mas, mesmo assim, bem no fundo de seu coração, sentia que algo mudaria se não estivesse mais com elas.

O bom senso dizia a Felicity que ela estava seguindo no único caminho ajuizado que havia à sua frente. Seu coração podia avisá-la do contrário, mas ela aprendera havia muito tempo que não devia confiar nesse órgão tão caprichoso. Nem mesmo quando seu experiente cocheiro concordava com Thorn Greenwood. — Tem certeza de que esta viagem não pode esperar até o amanhecer, senhora? — perguntou o sr. Hixon, abafando um bocejo. — Sinto muitíssimo por tê-lo tirado de sua cama a esta hora da noite — ela se desculpou, porém mantendo o tom educado e insistente. Esforçava-se por não bocejar também, enquanto Hetty a ajudava a colocar a capa. Mesmo no mês de maio, as noites podiam ser muito frias, em especial quando se pretendia ficar várias horas sentada numa carruagem seguindo pelos campos desertos. — Acho que esse assunto não pode esperar — concluiu. — A carruagem já está


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pronta? — Sim, senhora. — O criado girava o antiquado chapéu de três bicos nas mãos, indicando a porta. — Posso perguntar para onde seguimos? — Espero estar em Tewkesbury amanhã à noite. — Felicity fez alguns cálculos rápidos, imaginando quando Oliver e Ivy poderiam ter partido de Bath. Pedia a Deus que seu sobrinho tivesse alugado uma carruagem não tão rápida, nem queria imaginar que ele pudesse ter embarcado num coche ligeiro, ou, pior ainda, que tivesse alcançado a carruagem dos correios, que era extremamente rápida e eficiente. — Espero não precisar seguir além de Tewkesbury — murmurou quase para si mesma. O cocheiro, porém, ouviu-a e assentiu, sabendo que teria de sentir-se muito bem disposto para enfrentar a estrada. — Pelo menos o tempo está limpo e temos uma lua clara — comentou. Minutos mais tarde, Hixon abria a porta da carruagem para sua patroa. — Partindo agora, passaremos por Bristol ainda antes do trânsito mais intenso do mercado — disse. — E, se não tivermos contratempo algum, poderemos parar na taverna King's Arms para o desjejum. — Muito boa sugestão, sr. Hixon — Felicity apoiou, aceitando a mão que ele lhe oferecia para entrar no veículo. Quase sempre ficavam nessa taverna e hospedaria, que era muito limpa e organizada, quando seguiam para Bath ou voltavam para a capital. Se Oliver tivesse alugado um coche e levado a srta. Greenwood consigo antes do meio-dia, deveriam com certeza passar sua primeira noite de viagem na King's Arms. Felicity poderia obter notícias deles ali, talvez até interceptá-los, se não tivessem retomado a estrada de manhã bem cedo. O cocheiro subiu para a boléia e, segundos depois, a elegante carruagem de lady Lyte descia a Bristol Road. Dentro dela, Felicity sorria para si mesma. Antevia seu retorno a Bath na noite seguinte, e a expressão atônita de Thorn quando lhe trouxesse a casta irmã de volta. Mas o rosto dele não desapareceu de sua mente com tanta facilidade quanto esperava. Era como se algumas imagens de Thorn ainda a assombrassem. Revia-o chegando à porta de seu quarto, querendo saber sobre a irmã desaparecida, seu estado de desespero, sua expressão tensa, seus cabelos desfeitos... e aquela preocupação que lhe deixava os olhos ainda mais encantadores. Ah, aqueles olhos! Depois revia-o zangado como nunca o vira antes. E, em seguida, curioso enquanto ela abria a carta que Oliver deixara... Enfim, a cada segundo, uma nova imagem de Thorn aparecia em sua mente, forte, insistente, ainda sedutora.


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Talvez tivesse sido a coisa mais acertada desfazer aquele relacionamento com ele prematuramente, antes que a influência que Thorn parecia exercer sobre seus sentidos ficasse forte demais. Os cavalos seguiam num trote compassado e Felicity envolveu-se ainda mais em seu longo casaco, encolhendo-se num dos cantos do banco estofado e confortável da carruagem. Cerrou os olhos, descansando a cabeça contra o veludo do assento, tentando deixar de pensar em qualquer coisa que fosse, sobretudo em Thorn. Queria dormir. Mas, sem conseguir, decidiu concentrar seus pensamentos em algo que, com certeza, afastaria qualquer outra imagem de sua mente: seu bebê. Por baixo da capa, passou a mão pelo ventre ainda elegante, num gesto de carinho e de proteção. Apesar de todas as evidências concretas que conhecia, custava ainda a crer que havia uma criança sendo gerada dentro de si. Quantas vezes, durante os primeiros anos de seu casamento, rezara para engravidar, mas se vira decepcionada seguidas vezes. E, nesse meio-tempo, a prole bastarda de Percy crescia como se cada uma daquelas crianças fosse um novo insulto contra ela, uma prova a mais da virilidade dele — crianças que vinham ao mundo para serem criadas e educadas à custa de seu próprio dinheiro. Quantas supostas "curas" tentara para acabar com sua esterilidade! Às vezes até doloridas, outras vezes, humilhantes. Ano após ano, vira a falta de um herdeiro acabar com o relacionamento com seu marido e destruir seu casamento. Até que, por fim, mal conseguia olhar para ele de frente porque sabia o que Percy devia estar pensando. Por que se casara com a filha de um rico comerciante? Para repor as perdas dos cofres de sua família com a fortuna que ela herdara. Mas Felicity nem mesmo conseguia produzir uma criança para herdar o que ele se sacrificara tanto para restaurar. A carruagem já seguia pelos campos ao longo de Sommerset, calmos e silenciosos, e ela chorava, numa mistura de suspiros e soluços, mas tão baixo que nem o cocheiro nem o criado que o acompanhava na boléia poderiam ouvir. Quem fora o tolo mais ingênuo?, perguntava-se mais uma vez, analisando seu passado. Ela mesma ou Percy? Como nenhum dos dois tinha percebido que as amantes dele poderiam ter tido filhos de outros amantes, e não dele?! Mas as mulheres tinham forçado a paternidade de suas crianças sobre ele porque Percy possuía dinheiro para prover por elas e também porque ele estava ansioso demais para provar sua masculinidade, clamando aos quatro ventos que aqueles filhos eram todos seus. E agora ali estava ela, finalmente grávida. E de um homem com o qual não tinha a menor intenção de se casar. Thorn Greenwood teria aceitado ser seu amante se imaginasse haver alguma possibilidade de que ela engravidasse? Felicity sabia a resposta para tal pergunta, pois o próprio Thorn levantara a questão quando ela se aproximara dele pela primeira vez com sua proposta escandalosa.


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Thorn chegara a corar e gaguejara com uma inocência que a encantara, pois vinha de um verdadeiro cavalheiro. Foram necessárias três tentativas para que Thorn deixasse claro o que estava querendo perguntar. Felicity chegara a pensar em mentir para esconder seu doloroso passado, mas algo dentro de si a fizera deixar de lado a auto-piedade e o embaraço e confessar-lhe a verdade. Thorn quisera saber se havia perigo de uma gravidez indesejada, mas ela garantira que não, explicando que, enquanto fora casada, seu marido tivera vários filhos com outras mulheres, mas ela nunca conseguira conceber um. E rira para disfarçar sua dor e não ver nenhum olhar de piedade ou de constrangimento que pudesse surgir nos doces olhos castanhos de Thorn. E acrescentara: "Sou tão livre quanto um homem para viver meus prazeres". Talvez essa sua afirmação tivesse tentado o destino a provar-lhe o contrário, analisava agora. Mas seria ela quem iria rir por último, apesar de tudo. Sua grande fortuna e sua viuvez garantiriam-lhe os prazeres de ser mãe sem a presença incômoda e entediante de um marido. Sua consciência podia recriminá-la por imaginar que Thorn pudesse ser considerado incômodo ou entediante, mas preferia ignorar tais recriminações. Mesmo se tivesse pensado em arriscar um novo casamento, até por questão de decência, analisaria a conveniência de um marido em uma escala diferente da que usara para escolher um amante. E Thorn estaria numa das últimas posições em tal lista de pretendentes. Respirou fundo, imaginando que talvez tivesse sido melhor ter trazido Hetty. Pelo menos a conversa fútil da criada a teria distraído e permitido que seus pensamentos não se voltassem tanto assim para Thorn. Talvez tivesse sido muito mais fácil expulsá-lo de sua casa e de sua vida do que era tirá-lo de seus pensamentos, concluiu, aborrecida. Precisava fazer planos para si mesma e seu bebê assim que aquela viagem inesperada e problemática tivesse terminado e a situação de Oliver e Ivy estivesse assentada. Primeiro, seguiria para o interior, onde pretendia ficar em retiro até o nascimento da criança. Um lugar bem tranquilo, com clima saudável. Bem distante de Bath, com certeza, e ainda mais distante de Staffordshire, onde sua família vivia. Talvez algum lugar em Kent fosse o ideal. Exceto que... De repente, a idéia de que Thorn pudesse possuir uma casa em Kent a deixou confusa e inquieta. Tentava lembrar-se de algo que ele tivesse dito a respeito, mas não conseguia. Não se lembrava de terem falado sobre tal assunto. Na verdade, raramente haviam falado fosse do que fosse além de trivialidades, talvez até por receio de haver um envolvimento maior entre ambos. Felicity respirou fundo, zangada consigo mesma. Estava pensando em Thorn de novo. Se queria saber se ele tinha ascendência em algum lugar do interior, precisava afastar as perguntas e as divagações e deixá-las para quando estivesse com Ivy, de volta


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a Bath. Poderia perguntar tudo o que quisesse à moça sobre sua família, suas propriedades... Deixou de pensar nisso e tentou outra coisa: a casa silenciosa e agradável que arrumaria para si mesma e seu filho. Eram pensamentos doces e suaves que lhe agradavam muito. E deixou-se levar, sentindo o balanço da carruagem embalar seus sonhos e planos. Foi com certo desconforto que, pouco tempo depois, sentiu a mudança de ritmo no seguir da carruagem. Percebeu, então, que cochilara, talvez até dormira, e imaginou que deviam estar seguindo pelas ruas calçadas de pedras de Bristol. Tranquila, deixouse adormecer de novo. E só tornou a despertar de repente quando a carruagem diminuiu abruptamente de marcha, quase lançando-a contra o banco da frente. Tudo estava imerso na escuridão lá fora. Quanto tempo dormira?, Felicity tentava imaginar. Onde estariam agora? Os relinchos dos cavalos soaram no silêncio da noite quando o veículo, por fim, parou. Felicity ajeitou-se no banco e ergueu o braço para bater contra a parede da carruagem, exigindo uma explicação do cocheiro. Mas o som que veio em seguida, lá de fora, fez sua mão parar no ar enquanto um frio terrível percorria-lhe o corpo, e seu estômago revirava, mas sem ter nada a ver com sua gravidez. — Desça daí e entregue tudo! — gritou uma voz. Talvez alguém estivesse fazendo uma brincadeira de mau gosto, Felicity chegou a pensar, mas logo afastou tal idéia, considerando-a ridícula. Escondeu sua bolsa sob as dobras da capa, pensando nas figuras famosas e terríveis dos salteadores de estrada, que haviam sido numerosos no século anterior, mas que agora quase não existiam. Talvez tivessem sido os viajantes, que ficaram mais conscientes dos perigos de viajar à noite e passaram a evitar as estradas nessas horas, considerou, estremecendo. O aviso prudente de Thorn parecia ecoar em sua mente. Ele dissera que a viagem podia ser difícil, até perigosa... Mas ela estava tão ansiosa por afastar-se dele, tão impaciente em relação às tentativas dele de controlar a situação que não o ouvira. — Deixem-nos passar! — ouviu o sr. Hixon dizer. — O que querem, afinal? — O que acha que queremos? — o outro homem rebateu com desdém. E então seguiu-se uma gargalhada que fez com que Felicity se arrepiasse. — Uma carruagem assim bonita deve ter um bom recheio, não é? Vamos dar uma olhadinha... Felicity encolheu-se junto ao banco enquanto ouvia alguém desmontando e seus passos se aproximarem da porta do veículo. — Estou com uma pistola armada e pode ter certeza de que não tenho receio de usá-la — avisou o salteador, para quem pudesse estar dentro da carruagem. Felicity vasculhou em sua bolsa e retirou algumas notas das muitas que trazia.


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Aquele bandido jamais daria por falta delas. Mesmo com o coração na boca, ela estendeu o braço, abriu a porta e jogou sua bolsa para fora, para a silhueta que aparecia nas sombras da noite. — Pegue isso e deixe-nos em paz — disse. — Preciso chegar a Gloucester pela manhã. Minha mãe encontra-se muito enferma. Se aquelas terríveis criaturas tinham coração, a mentira e a colaboração que demonstrara deviam ajudá-la a não ser molestada ainda mais. — Sinto muito saber disso, moça — disse o salteador, sacudindo sua bolsa, onde as moedas tilintaram. — Obrigado pelo presentinho, mas não se apresse tanto assim para seguir viagem. Ele deu dois passos à frente, e Felicity encolheu-se ainda mais dentro da carruagem. — Sabe, estou imaginando se você é tão linda quanto sua voz é suave — continuou o bandido, enfiando o braço para dentro do veículo. Felicity notou que a mão que tentava alcançá-la estava enluvada. — Não sou bonita — disse, tentando desesperada-mente pensar em alguma coisa que dissuadisse aquele criminoso de fazer o que parecia ter em mente. — E estou com varíola! De repente, o corpo do homem invadiu a carruagem, e ela não conseguiu reter um grito de pavor.

CAPÍTULO IV

Impaciente, Thorn moveu-se na sela. Estava cavalgando havia horas, tendo passado por uma sucessão de estradas estreitas do interior, nas vizinhanças de Bristol, a fim de alcançar a estrada principal que seguia daquela cidade portuária até Gloucester, mais de cinquenta quilômetros para o norte. Era estranha a sensação que trazia no peito, que o comprimia, enquanto seus pés pressionavam as laterais do inquieto cavalo que St. Just lhe emprestara. Um forte vento de sudoeste soprou com força, lançando no ar a crina comprida do animal e ameaçando levar o chapéu de Thorn. Ele o segurou com uma mão no lugar e continuou sua cavalgada. Parecia que uma voz interior lhe repetia que não devia ter deixado Felicity partir


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sozinha de Bath. E esse aviso repetia-se já havia horas, praticamente desde que iniciara a viagem, enchendo-lhe a mente de preocupação. A lua cheia que brilhava no céu lançava sua luz sobre a Terra, formando espectros de sombra e luminosidade pelo caminho. E, neste, Thorn ansiava por encontrar algum sinal da carruagem de Felicity. Imaginava se tinha chegado à estrada antes dela ou se ela já estava quilômetros adiante dele, naquela jornada solitária e perigosa. Mas não precisou mais divagar a respeito, pois quando passou por mais uma curva e atingiu um ponto mais alto do caminho, quase uma colina, sua visão se abriu e pôde divisar uma luz enfraquecida na distância. Pediu a Deus que aquela luz viesse da lanterna pendurada na boléia da carruagem de Felicity. Quando percebeu estar certo quanto a isso, chegou a ensaiar um sorriso, mas este desapareceu de imediato ao perceber, com um aperto no peito, que a luz parara de repente de se movimentar. Tal parada poderia significar muitas coisas, porém, no momento, Thorn pensou em apenas uma. Esporeou o cavalo mais uma vez, numa tentativa de se aproximar quanto antes à carruagem. Em seu íntimo, temia chegar tarde demais para o que nem conseguia imaginar ao certo. Seu coração batia tão descompassado que o sentia na garganta. Quando atingiu uma distância suficiente para poder ver melhor, reconheceu o veículo e sentiu-se aliviado, mas no mesmo instante percebeu que um homem, um estranho, entrava na carruagem. E o homem tinha algo em seu rosto; algo muito parecido com um lenço amarrado à nuca, provavelmente um salteador! Acelerou ainda mais a marcha do animal, num ímpeto de chegar que o fazia esquecer até de respirar. E, sem pensar, lançou-se sobre o sujeito, caindo, junto com ele, para dentro da carruagem, enquanto um grito de mulher ecoava na noite. A falta absoluta de movimento sob seu corpo garantiu a Thorn que o salteador estava sem sentidos. Mas, para garantir sua segurança, Thorn passou a mão pelo chão da carruagem, tateando em busca do que imaginou ser uma pistola. — Fique longe de mim! — Felicity gritou, ainda sem perceber o que estava acontecendo. — Fique longe, entendeu bem?! Thorn tentava falar, pelo menos para garantir a Felicity que tudo estava bem, melhor do que estivera momentos antes, mas o golpe que dera no salteador acabara deixando-o também um tanto zonzo. E, sem conseguir proferir as palavras mais alto do que um sussurro, levantou-se com dificuldade, na intenção de tomar Felicity nos braços e confortá-la de alguma forma. Porém, ao estender os braços em sua direção, ela gritou novamente, e com tamanha estridência que seus ouvidos doeram. No mesmo instante, ela se defendia, erguendo a perna e desferindo uma terrível joelhada contra Thorn, fazendo-o dobrar-se em dois de tanta dor. Ele deu dois passos atrás, cambaleou sobre o homem ainda


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desfalecido no chão da carruagem e caiu sentado no banco oposto. Antes que pudesse se recuperar da dor, sentiu que Felicity avançava contra ele mais uma vez, agora para arranhá-lo, esbofeteá-lo, violenta como a mais hostil das criaturas. Com as mãos erguidas, para defender-se melhor, Thorn mal conseguiu articular-lhe o nome: — Felicity! Mas o ataque não diminuiu. Ela parecia dominada por uma raiva cega e surda, atingindo-o sem piedade e ao mesmo tempo, gritando. — Felicity, sou eu, Thorn! — disse ele, em voz mais alta, segurando-a pelos pulsos e sacudindo-a para que voltasse a ter bom senso. — Está em segurança agora! Ela parou de repente. — Thorn? É realmente você?! — duvidou. — É claro que sou eu! Conhece outro alguém idiota o suficiente para segui-la pelos campos durante a noite? — Thorn... — Felicity murmurou, pasma. E então, com toda a força e a paixão com que havia avançado contra ele momentos antes, lançou-se entre seus braços, soluçando. Thorn apertou-a contra si, sabendo que ela necessitava daquele conforto. Sensações intensas o dominavam. A paixão por ela, a desesperada busca pelos campos àquela hora da noite, temendo por sua segurança, depois encontrá-la daquela forma, sendo vítima de um salteador de estrada... Seu sangue estava fervendo, ainda mais agora com Felicity em seus braços, sentindo sua respiração acelerada, seu perfume, seu temor cedendo aos poucos. A proximidade entre seus corpos era convidativa, ardente. E, naquele momento, Thorn teria dado tudo para poder estar com ela novamente em seu quarto, em sua cama... e não ali, no meio do nada, naquela noite escura e fria, numa carruagem em cujo chão um bandoleiro começava a despertar do desmaio. — Sr... Greenwood? — ouviu-se uma voz trêmula do lado de fora do veículo. — É mesmo o senhor? O que houve?! — Aconteceu algo a lady Lyte, senhor? — perguntou outro homem, com voz mais grave. — Além do susto, acredito que ela esteja bem — Thorn explicou aos criados, sentindo ainda o temor terrível de imaginar que algo sórdido poderia ter acontecido a ela. — Mas acho que vocês dois não foram de grande valia — acusou. — Mas ele tinha uma arma de fogo, senhor! — protestou o rapaz que seguia com o cocheiro na boléia. O cocheiro não se desculpou, porém sua voz soava contrita: — Há algo que possamos fazer agora, sr. Greenwood? O saqueador gemeu e tentou se levantar. Thorn aplicou boa parte de sua força no


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pé direito, que mantinha sobre as costas do criminoso, mantendo-o no chão, imóvel. E ordenou para o cocheiro e o rapaz, que tentavam espiar pelo lado de fora: — Arranjem um pedaço de corda para amarrar este homem. — Está bem, senhor. Agora mesmo! — respondeu o rapaz, solícito. — E amarrem-no ao cavalo em que ele veio, se puderem encontrá-lo. Caso contrário, amarrem-no no meu. Depois prendam o animal nos fundos da carruagem. Vamos entregar este sujeito às autoridades na primeira cidade a que chegarmos. Por enquanto, acho melhor continuarmos em nosso caminho o mais rápido possível, para evitar que algum companheiro deste traste venha a nos encontrar. Os dois criados, diante de tal perspectiva, apressaram-se a fazer o que lhes fora ordenado, a fim de amarrar o criminoso que, mesmo acordado, parecia ainda muito inconsciente da realidade. Pouco depois, com tudo feito como Thorn dissera, a carruagem já seguia novamente rumo ao norte, e os soluços de Felicity se acalmaram aos poucos. Mas ela não parecia disposta a se afastar de Thorn. Para ele, tê-la assim, tão junto a si, era o paraíso. Fazia-a perceber claramente quanto sentira sua falta no curto espaço de tempo em que haviam estado separados. Thorn chegava a imaginar se o incidente com o saqueador teria feito com que ela mudasse de idéia quanto à sua separação prematura. Poderia ser uma esperança vã, essa, mas era a única que Thorn tinha e agarrou-se a ela como um náufrago a uma tábua de salvação. Ela deveria afastar-se de Thorn, mandá-lo sair da carruagem, ou, pelo menos, ralhar com ele por tê-la feito assustar-se tanto. Mas a carruagem seguia seu caminho para Newport, e Felicity não conseguia encontrar forças para aquilo que sua mente a mandava fazer. Haveria ainda muitos anos futuros nos quais teria de ficar sem o abraço de Thorn, analisava. No momento, precisava estar junto dele desesperadamente. Mais do que jamais precisara de alguma coisa na vida. E sua vida tinha sido cheia de regalias. Mas não se lembrava de um momento em que tivesse passado tanto medo. Seu coração ainda batia apressado dentro do peito, e, apesar de estar aconchegada por Thorn, começou a tremer. — Calma — ele a consolou, apertando os braços ao seu redor. E, dando-lhe um beijo suave na têmpora, acrescentou: — Ainda não está bem, Felicity? Será que me precipitei ao garantir a seus criados que você estava bem? — O calor, a preocupação na voz dele a confortavam como nunca. Mas havia uma voz cheia de orgulho que falava mais alto em seu coração e que a fez responder: — Não, você estava certo. Foi apenas um choque. Tem um lenço, por favor?


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Felicity teria detestado qualquer outra pessoa que tivesse presenciado um momento seu de pura fraqueza que a levara a lágrimas histéricas. Talvez viesse a detestar Thorn também, quando o dia amanhecesse e pudesse pensar melhor sobre o que ocorrera e ver quanto suas lágrimas e sua falta de força pudessem ter diminuído sua imagem perante ele. Mas, naquele instante íntimo de escuridão e segurança, poderia deixar-se ficar no calor dos braços de Thorn, apenas usufruindo o luxo de poder confiar num homem. Ele se movia, na intenção de procurar um lenço nos bolsos, até que, ao achar um, colocou-o entre as mãos de Felicity. — Obrigada — ela murmurou, secando as lágrimas que ainda molhavam seu rosto, tranquila por imaginar que, quando Thorn a visse mais claramente, as marcas de seu choro convulsivo já teriam desaparecido. Podia ser uma atitude até vaidosa, imaginou, mas sabia que não podia permitir que um homem atraente a visse sem ser em seu melhor estilo. E, enquanto passava o tecido suave pelo rosto, uma idéia lhe ocorreu de repente, levando-a a indagar: — E você, Thorn? Está bem? Porque, depois de derrubar aquele homem horrível e suportar meus golpes... bem, eu... sinto muito pelo que fiz. Não consigo imaginar o que me deu... — Você estava apenas reagindo, fazendo o que achava certo para se defender. — Ele sorriu. — E acho que fez um bom trabalho... Mas creio que não fiquei ferido. Alguns golpes vindos dela não lhe teriam feito mal, Felicity avaliava, porém, se aquele salteador tivesse conseguido usar sua arma... jamais se perdoaria se Thorn tivesse sido ferido no incidente, ainda mais por sua causa. — E... então? — indagou, imaginando que ele deveria passar-lhe uma descompostura, aliás, bem merecida. — Então... o quê? — Thorn estranhou. — A reprimenda que deve estar preparando desde que saiu de Bath. Onde está ela? — Ah, isso... — Ele riu e, logo em seguida, bocejou. — Vou deixá-la para amanhã de manhã; por enquanto, acho que nós dois merecemos pelo menos uma boa hora de sono. O que acha? Felicity assentiu de leve, sentindo um aperto no peito por ele. Thorn devia ter passado metade da noite atrás da irmã e as outras poucas horas tentando encontrá-la, para encontrá-la sendo atacada por um bandoleiro e ainda tendo que defendê-la... — Como sempre, não me parece estar falando com bom senso — repreendeu-o, porém com simpatia. E tentou afastar-se de seus braços. — Como pode pensar em dormir com uma mulher chorona praticamente sobre você?


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Seria bom para ela afastar-se, avaliou Felicity. Já era doloroso demais estar ali, usufruindo o calor daquele abraço, sabendo antecipadamente quanto iria sentir saudade dele. — Você não me incomoda em nada — Thorn garantiu. E puxou-a de leve para perto de si novamente. — Além do mais, vou conseguir dormir com muito mais tranquilidade sabendo que você está aqui, junto de mim e em segurança. — Se é assim... — Ela se contentou em repousar a cabeça sobre o peito dele. — Para mim, está muito bom aqui. Alguns minutos se passaram num silêncio quebrado apenas pelo ruído da carruagem avançando pela estrada. — Thorn? — Felicity chamou em voz baixa. — Sim? — Ele já parecia um tanto adormecido. — Onde encontrou um cavalo para vir atrás de mim? — Com St. Just. Acho que perdi um pouco do bem senso também e ganhei algum dinheiro num jogo de cartas. Se ele tivesse dito que havia roubado o dinheiro, ela não teria ficado mais surpresa. — Mas pensei que você nunca jogava! — E não jogava mesmo. Não até esta noite. — A voz dele, na sonolência, guardava o mesmo tom de que ela se recordava, das noites em que falavam alguma coisa depois de terem feito amor. — Não conheço nada de cartas e de jogos. Mas acho que o que me ajudou foi o fato de ser o único sujeito sóbrio ao redor daquela mesa. — Talvez tenha sido sorte de principiante. — Felicity disse, sabendo muito bem que não deveria erguer a mão para acariciar-lhe o rosto, o que, no entanto, estava fazendo. — Talvez — Thorn concordou, num tom que parecia demonstrar o mais doce dos carinhos. E, num movimento rápido, porém meigo, apertou a mão dela, que ainda o acariciava entre o pescoço e o queixo, de forma inocente, mas que provocou um aperto no coração de Felicity. E, apenas para afastar a impressão doce demais que ficava daquele afago, ela indagou: — E... como pôde se envolver nesse tipo de jogo de que St. Just tanto gosta? Porque se apostam somas enormes, e você poderia perder muito... Ele se afastou de repente. — Não sou tão pobre assim — observou, parecendo magoado. Felicity sabia que o atingira. Mesmo sem querer, comparava-o a seu falecido


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marido, que dava demasiada importância à prosperidade e à ascensão social. Sabia que Thorn estava fazendo tudo o que podia para restaurar a perda da fortuna da família, e o fazia de forma honesta, correta, não se casando com a primeira herdeira rica disponível. — Eu não quis dizer que é pobre — Felicity se corrigiu. — Mas a maioria dos homens não carrega consigo uma quantia grande de dinheiro, ainda mais no meio da noite. Thorn não respondeu de imediato. Felicity chegou a imaginar se teria adormecido ou se estava ofendido ainda e não queria mais continuar o assunto. — Tenho um relógio e um anel de ouro — disse ele, por fim, após alguns minutos. Parecia estar confessando um crime. — E St. Just acabou convencendo os outros jogadores de que as minhas peças valiam alguma coisa. Tal admissão atingiu Felicity, como sua indagação sobre a possibilidade de ele jogar o havia atingido antes. Conhecia muito bem o relógio e o anel aos quais ele se referia. Não sabia qual preço eles poderiam conseguir num joalheiro, mas eram peças de valor incalculável para Thorn, eram sua maior lembrança de que pertencia a uma família antiga e de boa linhagem. Apesar da fortuna que possuía e do título pelo qual pagara muito caro, Felicity sabia muito bem que muitas pessoas ainda a olhavam com certo desprezo por não passar de filha de um comerciante abastado. Conveniente apenas como amante para um cavalheiro feito Thorn Greenwood, nunca como sua esposa. Um casamento assim causaria comentários sem-fim. E cavalheiros respeitáveis detestavam ser motivo de comentários na sociedade. Ela sentiu que o abraço de Thorn ficava mais frouxo e que sua respiração parecia estar mais ritmada e lenta. Talvez tivesse adormecido, imaginou. E continuou pensando, avaliando o que ele fizera naquela noite, colocando-se a uma mesa de jogo para poder segui-la. Arriscara tanto! Primeiro, porque apostara seus bens mais preciosos; depois, porque se pusera a caminho, no meio da noite, para conseguir alcançá-la. Depois ainda, arriscara sua vida ao lutar com aquele saqueador. Thorn não era um homem dado a palavras elegantes ou discursos calculados. Mas seus atos falavam com eloquência sobre o que ele sentia por Felicity, o que ela reconhecia muito bem. Percy Lyte jamais lhe dera tanto valor assim. Ele a vira apenas como fonte de dinheiro e de possíveis herdeiros. E quando ela se mostrara incapaz de fornecer sua segunda grande aspiração na vida, ele passara a desprezá-la, ferindo-a bem fundo. Thorn, por outro lado, jamais seria capaz de feri-la. De forma alguma. Ele deixara de lado sua prudência costumeira e jogara por causa dela. Arriscara-se numa cavalgada em meio aos campos por ela, lançara-se contra um bandido que poderia ser extremamente perigoso. Tudo por ela.


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Felicity sorriu de leve, vendo que os primeiros sinais do dia começavam a clarear o horizonte. E, conforme os raios do sol ganhavam mais consistência naquele novo dia, e ela podia ver melhor as feições de Thorn adormecido a seu lado, sentiu que seus sentimentos por ele eram muito mais fortes e intensos do que imaginara até então. Mas não podia, como ele fizera, arriscar-se demais. Não podia e não iria se arriscar, com medo de perder o que, no momento, era-lhe mais caro na vida. Thorn acordou em tamanho sobressalto que poderia ter lançado Felicity ao chão da carruagem, não estivesse ela tão firmemente presa entre seus braços. E o sobressalto acabou por despertá-la também. — O que houve, meu querido? — ela indagou, assustada, ainda meio adormecida. — Sonhou com aquele salteador? — Ah... algo assim — Thorn resmungou, passando a mão pelos cabelos, ainda sentindo a terrível pressão que o pânico causara em seu peito. Mal podia lembrar-se do sonho que tivera, mas sabia que ele lhe parecera tão real e urgente que ainda estava preso em sua mente. Tratava-se de um jogo de cartas, com certeza, no qual as apostas iam ficando cada vez mais altas. Muito altas. E ele estava a ponto de ficar arruinado. Mas havia uma impressão de medo e de confiança louca em si próprio que o fizeram baixar a mão sobre a mesa, mostrando as cartas que, estranhamente, possuíam a aparência de notas bancárias. Não ganhara no jogo. Seu adversário, sim, com notas mais altas. E ele, Thorn, perdera tudo: sua honra, seu coração... — Onde acha que estamos agora? — perguntou, tentando esquecer as lembranças do terrível pesadelo. Procurava também controlar a respiração acelerada e afastar-se de Felicity, sentindo que, de alguma forma, assim seria mais seguro. O dia amanhecia e parecia-lhe absurdo estar ainda abraçando-a, mesmo ali, na privacidade da carruagem. Embora quisesse muito continuar com Felicity nos braços, precisava afastar-se dela. Ela tentou disfarçar um bocejo e olhou pela janela. Já não parecia disposta a permanecer nos braços de Thorn, e ele chegou a imaginar que não passara de impressão sua a ternura que chegara a sentir em sua voz. No entanto Felicity lhe acariciara o rosto... — Estamos prestes a passar por uma pequena ponte — Felicity informou, ainda olhando para fora. — Imagino que Newport esteja do outro lado e sinto que iremos encontrar nossos fugitivos em breve. Ela preferiu sentar-se no banco oposto e contou a Thorn sobre seu costume de passar por ali todas as vezes que vinha de Bath. Depois perguntou: — Que horas são? Ele procurou pelo precioso relógio de ouro no bolso do colete. — Já passa das sete — disse. — Acho que seu cocheiro e o rapaz que o acompanha


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devem estar exaustos, isso para não falar dos cavalos. — Espero que alcancemos Oliver e sua irmã antes que eles nem sequer tenham tempo para descansar. Assim, todos nós poderemos descansar um pouco antes de retornarmos a Bath. Thorn apenas assentiu, mas sem muita convicção Queria, sim, e muito, alcançar sua irmã antes que ela arriscasse colocar sua reputação em cheque. Mas isso significava que teria de afastar-se de Felicity novamente e, dessa vez, sem chances de uma volta.

CAPÍTULO V

Seis horas depois de ter partido de Bath, a carruagem de lady Lyte parava diante de uma hospedaria elegante, de boa aparência. E estacionou bem abaixo da placa, onde um brasão de armas antigas era a imagem que mais sobressaía no metal. Felicity encarou Thorn e tentou parecer casual: — Com certeza, Oliver e sua irmã ainda não devem ter saído para tomarem a estrada. — Estava envergonhada pela forma como se deixara dominar pelo medo e pela aflição na noite anterior, gritando como uma louca enquanto Thorn e o homem lutavam dentro da carruagem, depois atacando seu defensor como cega histeria. E, com se isso não fosse suficiente, acabara por humilhar-se ainda mais ao chorar feito uma criança, agarrando-se a Thorn como se ele fosse seu último recurso. Ele suportara tudo com classe e compreensão, mas isso não aliviava a maneira como Felicity se sentia agora. Se aprendera alguma coisa em sua vida, era que uma mulher deve saber como viver sozinha, cuidando de si mesma contra todas as adversidades do mundo. Ninguém mais poderia fazê-lo por ela, muito menos um homem. E não permitiria que Thorn Greenwood a convencesse do contrário. No assento diante dela, Thorn esticou as longas pernas e permitiu-se rir, antes de comentar: — Bem, se o jovem Armitage conseguir tirar minha irmã da cama assim tão cedo, então ele é um homem bem melhor do que eu. O significado de tais palavras acabou por atingir o próprio Thorn, fazendo-o franzir a testa logo em seguida e perguntar: — Seu sobrinho teria a decência de alugar quartos separados para ambos, não? Por algum motivo que ela mesma desconhecia, tal pergunta a irritou.


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— É claro que sim — respondeu, um tanto brusca. — Meu sobrinho é um rapaz honrado. E não é pelo fato de ter sido tolo o suficiente para fugir para a Escócia com sua irmã que vai fazer algo para manchar a honra da moça. Afinal, ela não é nenhuma herdeira rica, nem ele um caça-dotes. A emenda apresentada por lorde Hardwick na Casa dos Lordes tornara bem mais difícil para homens inescrupulosos seduzirem moças de grande fortuna. E, agora, poucos se aventuravam a seguir até a Escócia, onde as mulheres menores de idade ainda podiam casar-se sem o consentimento de suas famílias. E a maior parte dos que o faziam acabavam por desonrar a garota durante a viagem, para que o casamento acabasse sendo inevitável. Thorn olhou para Felicity, preocupado. Uma idéia surgira-lhe na mente e o deixava irritado. — Está querendo acusar minha irmã de perseguir seu sobrinho por causa do dinheiro que ele tem? — Bem, ela não seria a primeira... Felicity arrependeu-se do que dissera assim que as palavras soaram, mas já era tarde para recuperá-las. Ivy podia ser atirada e imprudente, mas era também carinhosa e franca. Muito diferente das garotas interesseiras que haviam investido contra Oliver nas últimas temporadas que ele e Felicity haviam passado em Bath. E, se Felicity e Thorn encontrassem os dois namorados na Hospedaria King Arms, como ela estava certa de que aconteceria, talvez nunca mais o visse. E, se pudessem brigar antes de se separarem, se sua despedida fosse cheia de mágoa e rancor, talvez fosse melhor para ambos, avaliava. Mas temia aquele olhar de dignidade ultrajada que via em Thorn. Ainda mais porque aqueles belos olhos castanhos, magoados, a perseguiriam todas as noites de sua vida, por mais distante que ele estivesse. — Poderia ficar surpresa com a quantidade de homens e mulheres que formam casais felizes, sem preocupações quanto ao dinheiro, senhora — disse Thorn, muito sério. Poderia jogar suas palavras contra ela, numa acusação fria, mas preferia manter a calma, deixando Felicity ainda mais embaraçada com isso. E a resposta dela veio rápida e cáustica, antes mesmo que pudesse controlá-la: — Quando não há uma fortuna envolvida no caso, talvez. Thorn não demonstrou seus sentimentos, manteve-se fleumático como sempre. Mas alguma coisa no brilho de seus olhos mostrou a Felicity que ela acabava de perder mais pontos diante dele. Nesse momento, o jovem criado que acompanhava o cocheiro abriu a porta da carruagem. Tirou o chapéu e colocou-o junto ao peito, em sinal de respeito, enquanto observava Thorn preparar-se para descer.


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— Vamos acabar logo com isso — disse ele, em tom baixo. — Com certeza — Felicity concordou, não querendo perder a pose. Deixou que ele a ajudasse a apear, sabendo que aquele toque em sua mão poderia ser o último. Soltou-se, virou-se para a entrada da hospedaria e seguiu para lá, sem esperar para ver a reação de Thorn. Ele que a seguisse, se quisesse. Havia alguns hóspedes no saguão de entrada e eles pareciam estar se preparando para partir. Felicity prestou atenção para ver algum sinal de Oliver ou de Ivy entre aquelas pessoas, mas não os encontrou. Reconheceu a esposa do dono do estabelecimento, que passava por entre os hóspedes que iriam embora, levando uma bandeja com o desjejum de outros, que ela serviria no quarto, com certeza, pois se dirigia às escadas. A bandeja estava coberta por um guardanapo e Felicity imaginou que tipo de comida haveria ali. Seu sobrinho insistia em comer ovos e peixe todas as manhãs, dizendo que esse tipo de alimentação estimulava seu raciocínio. Mais uma vez indagara-se de que maneira um cientista como Oliver podia ter se deixado enfeitiçar por uma criaturinha como Ivy Greenwood. Fosse como fosse, ele precisava recuperar seu bom senso, avaliou, mesmo que tivesse de ameaçar deserdá-lo. O dono da hospedaria apareceu, então, por trás do balcão, trazendo as contas dos hóspedes que partiam. E assim que percebeu a presença de Felicity no saguão, deixouos para que averiguassem as contas e seguiu em direção a ela. Curvou-se exageradamente diante de Felicity e exclamou, sorridente: — Lady Lyte! Mas que grande prazer tornar a recebê-la aqui! Imaginamos que ainda ficaria algumas semanas em Bath. Eu lamento, mas o quarto que costuma ocupar estará tomado até depois de amanhã. Porém, é claro, poderemos acomodá-la muito bem, mesmo assim. Na verdade, afirmei ao sr. Armitage ontem à noite, assim que chegou, que também a presença dele, embora surpreendente, era muito bem-vinda em nosso estabelecimento. — Ah, então ele está aqui! — Felicity exclamou, aliviada. Tinha vontade até de abraçar o militar reformado e dar-lhe um beijo ali mesmo, diante de todos, tamanha era sua alegria por saber que sua busca tivera sucesso mais cedo do que esperava. — Se puder, por favor, levar-nos até os aposentos em que ele se encontra... Tenho um assunto urgente a tratar com meu sobrinho. O sorriso do homem diminuiu um pouco. — Mas... deve haver algum engano, então, senhora. O sr. Armitage e sua jovem noiva jantaram aqui ontem à noite, porém partiram logo em seguida para Gloucester. Logo atrás de si, Felicity sentia a presença de Thorn, que chegara a murmurar algo quando o hospedeiro dissera a palavra "noiva". Mas, agora, ele se mantinha calado. — Gloucester? — ela repetiu. — Tem certeza?


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— Absoluta, senhora. O sr. Armitage foi bem claro quanto a isso. Eu até pensei que a hora era muito adiantada para que eles seguissem viagem. Cheguei a dizer-lhes que talvez fosse difícil encontrarem alojamentos em Gloucester, pois era muito tarde. — O homem olhou para seus outros hóspedes, que pareciam impacientes com a demora. — Por favor, queira me desculpar, senhora, mas preciso atender aquela gente. — Claro, claro... Assim que ele se afastou, Felicity voltou-se para Thorn. — Por que ele estaria com tanta pressa? — indagou, contrariada. — Sempre paramos aqui quando estamos seguindo para Trentwell. — Parece-me que o motivo é bastante óbvio, não? — Thorn rebateu. — Estão ansiosos para chegarem a Gretna quanto antes. Além do mais, seu sobrinho é esperto, deve ter imaginado que, se você viesse atrás dele, este seria o primeiro lugar em que pararia. Felicity respirou fundo. Ele estava visivelmente calmo e controlado, enquanto ela sentia que o chão lhe fugia sob os pés. Contava em encontrar Oliver ali e acabar com aquela perseguição o mais rápido possível! — Se continuarmos a viagem, poderemos chegar a Gloucester antes que eles saiam de lá? — perguntou, ansiosa. — Bem, são mais de trinta quilômetros... E com a feira de rua para nos atrapalhar... Vamos chegar apenas por volta do meio-dia. Felicity se impacientava. Se pudesse pôr as mãos em Oliver e Ivy, poderia estrangulá-los por lhe causarem tantos problemas. A última coisa de que precisava no momento era continuar perseguindo-os pelo país. — Além do mais — Thorn acrescentou, pensativo, apontando para a janela por onde Felicity podia divisar a carruagem. —, não podemos simplesmente entrar na carruagem e seguir viagem. Precisamos de cavalos descansados e alimentados, e seu pobre cocheiro e o coitado do rapaz precisam descansar. E temos também o problema do bandido. Precisamos entregá-lo às autoridades locais e prestarmos queixa do que aconteceu. O mundo inteiro parecia estar conspirando contra ela, Felicity analisou, aborrecida. Sentiu as mãos suadas e o estômago revirando. Não tivesse ficado tão nauseada na noite anterior, ficaria agora, ali, diante de todas aquelas pessoas. Pior ainda: diante de Thorn Greenwood! Seria bem-feito para ela se a deixasse ali mesmo, Thorn dizia a si mesmo. Com o que ganhara no jogo da noite anterior, poderia continuar perseguindo Oliver Armitage e Ivy sozinho, deixando Felicity para trás. Mas aquelas doces horas, depois que a defendera do bandido, ainda estavam em sua memória, mesmo tendo ela deixado bem claro, depois, que não queria seus conselhos, sua ajuda ou sua companhia. Então, analisava, por que não a deixava e seguia seu caminho? Lady Lyte que cuidasse de si


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mesma! Qualquer homem racional agiria assim. Até o momento, porém, ele sempre se vangloriara de ser um homem racional. Mas conhecera Felicity, perdera-se na beleza de seus incomparáveis olhos verdes, e sua vida estava perdida... Prestou mais atenção a esses mesmos olhos e notou-os opacos; na verdade, Felicity estava com uma aparência muito deprimida. — O que houve, minha cara? — perguntou. — Não me parece bem. — E você ainda tem que aprender muito sobre ser um cavalheiro, sr. Greenwood! — ela rebateu, súbita-mente ríspida. — É claro que não pareço bem! Como queria que eu estivesse?! Fui acordada no meio da noite com os seus gritos, levada a fazer uma viagem no meio da madrugada! Fui atacada por um salteador de estrada! E agora estou diante da possibilidade de perseguir meu sobrinho por metade do país! Eu, provavelmente, quebraria um espelho se olhasse para um no estado em que me encontro! Os outros hóspedes estavam lançando olhares inquisitivos e curiosos para eles agora. Thorn detestava ser objeto de curiosidade. Puxou Felicity para um local mais discreto, pouco abaixo das escadas, e explicou: — Eu não disse que a sua aparência estava ruim, e você sabe muito bem disso. Está linda como sempre. Mas é que... me parece... doente. Ela se preparava para rebater novamente, porém Thorn ergueu as mãos, num gesto de defesa e rendição: — Está bem, admito que tem todo o direito de sentir-se doente pelo que vem acontecendo nas últimas horas. Mas não diga nada agora, apenas ouça o que tenho a dizer: você precisa de descanso e de comida, bem como seus criados e os cavalos. Vou cuidar disso com o hospedeiro. Então, enquanto estiver se recuperando da viagem desta noite, vou cuidar para que alguém cuide daquele fora-da-lei. Felicity esperou até que Thorn terminasse, para perguntar: — E o que propõe que façamos depois? — Bem... vamos ter que conversar. Para decidirmos nosso próximo passo. — Está bem, então. Ele estava surpreso por ter conseguido convencê-la tão facilmente. — Tem certeza? Mais uma vez, os olhos dela lançaram chispas verdes de irritação em sua direção. — Mas que tipo de pergunta é essa?! Acha que me oponho a você por... diversão? — Não, claro que não! — Thorn mentiu. — Eu só quis dizer que... bem, não importa. — O que poderia dizer que não o metesse ainda num problema maior?


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Os hóspedes, tendo pago suas contas, partiram com um certo burburinho, o que chamou a atenção de Felicity, desviando-a da conversa, para alívio de Thorn. Assim que o saguão ficou vazio, ele se aproximou do hospedeiro e explicou: — Vamos ter que seguir viagem antes do anoitecer, mas, nesse meio-tempo, lady Lyte, seu cocheiro e o criado que o acompanha precisarão de acomodações para poderem descansar. Os olhos do homem brilharam. — É sempre um prazer abrigar lady Lyte, senhor! — Ah, e os cavalos também precisam de cuidados. — Providenciarei para que os rapazes do estábulo dêem um tratamento todo especial a eles, fique tranquilo, sr... — Greenwood. Hawthorn Greenwood. — Thorn não gostou muito da forma com que o homem o olhava. — Sou um velho amigo da família de lady Lyte. A... noiva do sobrinho dela é minha irmã. — Ah, de fato, senhor? — O rosto do hospedeiro se iluminou, como sempre acontecia quando as pessoas falavam de Ivy. — Ela é uma criatura adorável! Não imagino como um rapaz calado e sisudo como o sr. Oliver Armitage conseguiu ficar noivo de alguém tão cheia de vida, mas eu sei que o amor é frequentemente cheio de contrastes, não é mesmo? — Acredito que sim — Thorn concordou, imaginando se era assim também em relação aos sentimentos intensos e profundos que ele tinha em relação a Felicity. — A propósito, minha irmã ou o sr. Armitage mencionaram algo sobre o local onde se hospedariam assim que chegassem a Gloucester? — Para falar a verdade, senhor, eles me perguntaram se eu poderia aconselhar algum local em que fossem bem recebidos tão tarde da noite. — E o senhor o fez? — Thorn esforçava-se para não parecer tão desesperadamente interessado nas informações quanto estava de fato. — Bem, minha esposa tem um primo que possui uma taverna na parte antiga da cidade, entre a catedral e a prefeitura. Ela não fica tão lotada quanto as hospedadas das estradas que ligam Londres a Bristol. Eu disse ao sr. Armitage que seria fácil ele e sua noiva encontrarem acomodações por lá, mesmo que chegassem muito tarde. — Bem, obrigado por tê-los aconselhado. — Thorn retirou uma moeda do bolso e ofereceu ao hospedeiro, e fez uma pequena cena para não aceitá-la, até que enfiou rapidamente no bolso da calça, dizendo: — Vou cuidar imediatamente das acomodações de lady Lyte e seus criados, senhor. — Ah, mais uma coisa! — Thorn pediu.


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— Pois não, senhor. — Tivemos um pequeno problema a caminho daqui... um salteador. — Oh, não me diga, senhor! — Os olhos do hospedeiro se arregalaram. — Espero que ninguém tenha ficado ferido! Esse bandido tem causado sérios problemas durante toda a primavera! O senhor não é o primeiro hóspede que reclama de suas atividades. — Espero ser o último, então. — Thorn assentiu em direção à porta. — Trouxemos o infeliz conosco, para apresentá-lo às autoridades locais. Onde posso levá-lo? — Bem, eu o lavaria a Berkeley, sr. Greenwood. — O hospedeiro apontou para uma direção que, para Thorn, pareceu ser noroeste. — Vão cuidar dele lá e acho que ficarão muito agradecidos ao senhor por entregá-lo. O hospedeiro se afastou para tomar as providências quanto à acomodação de seus novos hóspedes, e Thorn voltou para junto de Felicity, que se acomodara numa cadeira próxima. Notava, mais uma vez, o estado deplorável em que ela se encontrava, parecendo-lhe mais abatida do que deveria estar. Mas cuidou para nada dizer e não acender novamente a irritação dela. Culpado, imaginava que Felicity poderia ter dormido bem melhor se tivesse se deitado no banco oposto, em vez de ter ficado em seus braços. Ajoelhou-se diante dela e tomou-lhe uma das mãos. Sentia-a mais quente do que minutos antes, mas não muito. — O hospedeiro me disse que poderão cuidar do bandido em Berkeley. Vai ficar bem até eu voltar de lá? — É claro que sim. — Ela se endireitou na cadeira. — Não sou nem criança e nem velha. Não preciso de babá. Por mim, poderia levar aquela criatura asquerosa até Londres, se quisesse. Posso cuidar muito bem de mim mesma. Thorn assentiu de leve. Ela era, de fato, inquebrantável e teimosa. E desprezava seus cuidados como se ele não tivesse papel mais importante em sua vida do que o cocheiro ou o criado que trouxera. Levantou-se, um tanto irritado com a idéia, e indagou com ironia: — Tão bem quanto ficou a noite passada, na carruagem? Felicity fuzilou-o com o olhar. — Ah, então agora seria o momento apropriado para a repreensão que esteve guardando desde ontem à noite! — replicou. — Imagino que não deva estar menos amarga, agora, no desjejum... Thorn jamais vira esse lado desagradável do temperamento de Felicity. Engoliu em seco, repreendendo-se interiormente por ter se deixado envolver por ela, pela paixão que lhe despertava. Qualquer homem de bom senso devia ter imaginado que uma rosa tão vibrante e linda devia ter grandes espinhos... E, agora, estava sentindo a dor que eles provocavam. — Ontem à noite, você bem que merecia uma reprimenda — concordou. — Tentei


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mostrar certa compreensão, imaginando que já tivesse aprendido a lição de forma mais dura do que qualquer das minhas palavras poderia ensinar-lhe. Felicity levantou-se, indignada com a audácia daquelas palavras. — Você é bem presunçoso! Como ousa repreender-me como se eu fosse uma de suas irmãs?! — Minhas irmãs têm muito mais res... — Ele se interrompeu, sabendo que não deveria chamar atenção sobre ambos, ainda mais porque agora outros hóspedes desciam para o saguão. Baixou a voz, porém sua irritação ainda era evidente. — Podemos continuar esta discussão em particular quando eu voltar de Berkeley. Nesse ínterim, sugiro que coma algo e descanse. — Eu já lhe disse que sou capaz de cuidar de mim mesma. Se ficasse ali mais alguns segundos, a teimosia dela o forçaria a agarrá-la pelos ombros e dar-lhe umas boas sacudidelas. Pior ainda: a animosidade entre ambos poderia levá-lo a tomá-la em seus braços e dar-lhe um beijo tão feroz e intenso que causaria espanto aos outros hóspedes, para depois virar folclore nas histórias que se contassem sobre incidentes acontecidos na King's Arms. Conforme Thorn se afastava, Felicity tentava controlar as emoções que a tomavam. Como pudera levá-lo para a sua cama tantas noites sem conhecer de fato a real natureza de seu caráter? Imaginara-o quieto, gentil, suave, e não o tipo de homem que ordena e exige mais do que ela poderia dar. Fora por isso que o preferira entre outros candidatos a serem seus amantes. Como poderia imaginar que o temperamento sutil e calado do sr. Greenwood mascarasse um caráter forte que a fazia irritar-se mais e mais a cada minuto?! Detestava ser manipulada! Talvez algum bem viesse, afinal, da fuga de Oliver com Ivy, imaginou. A loucura de seu sobrinho a fizera ver aspectos do temperamento de Thorn que ignorava por completo. Agora podia ver-se livre dele sem nenhum constrangimento ou contrição. Felicity endireitou-se ainda mais na cadeira, olhou pela janela e observou o assaltante que a atacara na noite anterior. Agora que o via à luz do dia, percebia que não passava de um pobre rapaz. Mas ele a assustara um bocado! O bandido encontravase com as mãos amarradas e presas à sela do cavalo que montava. E aprecia estar implorando a Thorn que não o entregasse às autoridades. Mesmo sem querer, Felicity acabou sentindo pena. O rapaz, com certeza, seria enforcado por seus crimes, provavelmente cometidos por impulsos da juventude dos quais ele não pensara nas consequências. Exatamente o tipo de impulso que a levara ao altar com Percy Lyte. Pelo menos ela sobrevivera a seu erro e aprendera com ele. Felicity forçou-se a desviar o olhar e percebeu que o hospedeiro se aproximava. — Já temos um quarto pronto para a senhora, lady Lyte — ele informou,


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indicando-lhe a escada. — Não é um primor como eu gostaria que fosse, porque sei quanto gosta daqui, mas é um cômodo tranquilo nos fundos da casa. Se pretende descansar, não será de forma alguma perturbada com ruídos vindos da rua. — Obrigada, sr. Mobley. — Ela abafou um bocejo. — Acho que preciso de fato dormir um pouco. Mesmo antes de partir de Bath, Felicity não tivera um bom dia e agora mal podia manter os olhos abertos, tão cansada se sentia. — Um cavalheiro muito agradável, esse sr. Greenwood — comentou o hospedeiro, enquanto acompanhava Felicity até o quarto. — Imagino que, com certeza, ficará satisfeita por recebê-lo em sua família. — Família?! — ela estranhou. Seriam seus sentimentos por Thorn assim tão transparentes?, imaginou, perturbada. — Sim, com o casamento de seu sobrinho e a irmã do sr. Greenwood... — O homem sorriu, tentando parecer gentil e agradável. — A senhora e o sr. Greenwood engendraram a união dos dois? Felicity conteve a vontade de rir. — Não, não. Muito ao contrário, sr. Mobley. O hospedeiro pareceu não entender o que ela dizia. — Ah, então eles vão se casar por amor. Olhe, nem posso dizer que esteja surpreso com isso, sabe? Afinal, a moça me pareceu bastante afetuosa para com seu sobrinho, prestando absoluta atenção a cada palavra dele. Como ela, um dia, prestara atenção a cada respiração de Percy Lyte, Felicity pensou, aborrecida. Ainda uma vez avaliou o que poderia ter atraído a vivaz srta. Greenwood para seu calado sobrinho Oliver, a não ser a fortuna que ele possuía. Chegaram ao quarto, o último do longo corredor, e o hospedeiro abriu a porta e virou-se, sorridente. — Aqui estamos! Quer que eu mande minha senhora preparar um bom desjejum? Felicity sentia o estômago revirar só de pensar em comer. Ainda mais porque o cheiro da comida já preparada para outros hóspedes parecia estar por toda parte. — Apenas chá e torradas, por favor — pediu. — Não costumo dormir bem quando como muito. — Chá e torradas, então. Muito bem. — O hospedeiro sorriu. — Minha esposa vivia comendo apenas isso quando estava grávida, sabe? Não suportava nem o cheiro nem o gosto de mais nada. Quando percebeu o que acabara de dizer, o pobre homem ficou mais vermelho do que uma beterraba.


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— Chá e torradas — repetiu, sem graça. — Chá e torradas. Vou mandar preparálos de imediato, senhora. Ah, e não deixe de tocar a sineta se precisar de algo. — Tenho certeza de que estarei bem confortável — Felicity assegurou. — Como sempre, aliás. — E entrou no quarto, pensando, aflita: Ele não quis dizer nada além do que falou. Não poderia ter desconfiado... Era estranho. Sabia que o homem não poderia ter desconfiado de nada. Era ridículo pensar que pudesse, mas a observação que ele fizera, de alguma forma fizera-a sentir seu estado como mais real, mais palpável. Seu filho crescia em seu ventre. A criança pela qual esperara tanto tempo e que desejara tanto. De certa forma, analisava, era bem melhor estar grávida agora do que ter tido um filho de Percy, pois esse bebê não traria consigo toda a carga de ambição e mau caráter da família Lyte. E seria seu. Apenas seu. Uma criança que ela criaria com amor e carinho. Podia esquecer tudo que lhe acontecera nos últimos dias, as emoções fortes que vivera, intensas e contrárias porque agora imaginava-se brincando com seu filhinho. Poderia, finalmente, sentir toda a alegria de se mãe. Poderia olhar para a sua carinha linda e... e ver os belos, intensos, castanhos olhos de Thorn Greenwood ali refletidos.

CAPÍTULO VI

Felicity despertou devagar. No banco em que se encontrava, ao lado da porta, Thorn lutava para não adormecer. Chegara havia pouco de Berkeley e viera até o quarto para avisar Felicity de que partiriam para Gloucester em breve. No entanto, ao encontrá-la profundamente adormecida, não tivera coragem de acordá-la. Preferira sentar-se na única cadeira que aquele modesto aposento possuía e deixara-se ficar ali, embevecido, olhando para Felicity com olhos profundamente apaixonados. E, então, ela despertou e o viu. Naquele primeiro instante, o olhar de Felicity o fixou com uma expressão que parecia prometer tudo, em especial amor. Mas Thorn sabia, bem no fundo de seu coração, que não devia deixar-se enganar pelo brilho daqueles olhos tão verdes e lindos. Podia até enganar-se, já que estava cansado, com sono, parcialmente fora de seu estado normal. Mas muitas coisas eram apenas fantasia em seu romance com Felicity Lyte, inclusive aquela ilusão. Assim, em segundos, ela acordou por completo e sentouse na cama, já com expressão mudada. — O que está fazendo aqui? — protestou de pronto. — Há quanto tempo está sentado aí?


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Era difícil para Thorn precisar o que havia na voz dela talvez medo ou inquietação ou hostilidade. Podia levantar-se, dar-lhe uma resposta hostil também, porém se sentia cansado demais para isso. — Não fique tão alarmada — preferiu dizer. — Eu estava apenas vigiando seu sono. Estou aqui há menos de meia hora. Ia acordá-la, mas você estava dormindo tão tranquila que achei melhor não perturbá-la. — Ele preferiu omitir a imensa vontade que sentira de deitar-se a seu lado e dormir também, sentindo o calor de seu corpo. Afinal, se acordasse e o visse ali, Felicity, com o temperamento que possuía, poderia facilmente ter-lhe mordido as orelhas. Mas teria valido a pena, Thorn pensou. Sua resposta calma pareceu tranquilizá-la. Ela esfregou os olhos e se espreguiçou. Thorn sentiu seu corpo reagir de imediato ao vê-la assim, tendo na memória as lembranças das manhãs em que haviam acordado juntos e ficado lado a lado, sentindo apenas o prazer de estarem sob as mesmas cobertas. Ergueu a mão para soltar o colarinho que, de repente, parecia perturbá-lo sobremaneira. Felicity ainda o olhava, mas agora sem a ternura de quando despertara e sem a irritação que sobre viera depois. — Conseguiu colocar aquele rapaz atrás das grades? — perguntou ela. — De certa forma, sim. — Thorn preparava-se para mais uma discussão. — Pelo que vejo, olhou bem para ele, para notar que ainda era jovem. Mal tinha barba, o pobre coitado. E a sua pistola nem estava carregada. Felicity percebeu algo de estranho na voz de Thorn e indagou, desconfiada: — Você o deixou ir?! — Não. Claro que não. O rapaz cometeu um crime grave, aliás, mais de um. Assustou e roubou muitas pessoas nos últimos tempos. Mas não tive coragem de deixálo ser enforcado por isso. — Muito bem. Então, o que fez? — O regimento local estava fazendo um recrutamento em Berkeley, e eu dei uma opção ao nosso jovem amigo para que escolhesse entre ser entregue às autoridades ou alistar-se na Infantaria Real. Estão precisando de qualquer homem que se ofereça, já que o general Wellington quer colocar um ponto final, de uma vez por todas, nas ambições desse tal Bonaparte. E o rapaz teve bom senso suficiente para escolher o Exército. Felicity deixou a cama num átimo3 e se aproximou de Thorn, impetuosa, dandolhe a impressão de que o atacaria. Ele até se preparou para defender-se do golpe, mas, surpreso, viu que ela passava os braços por seu pescoço. E recebeu um beijo completamente diferente de todos os que Felicity já lhe dera. Os outros beijos, leves, provocantes ou profundos, sensuais ou ferozes, ardentes, haviam estado todos ligados à paixão que sentiam um pelo outro. Esse, porém, tinha 3

momento, instante.


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um intrigante ar de inocência, no qual Thorn sentiu um sentimento mais profundo. Um calor agradável passou-lhe pelo corpo, deixando-o aliviado e feliz. E, quando Felicity se afastou, parecendo tão chocada quanto ele pelo que fizera, Thorn respirou fundo e perguntou, ainda incerto: — Por que fez isso? Ela deu-lhe mais um beijo, mas agora na testa. — Foi... por você ser um homem de bom coração e muito sábio — explicou. Se fosse de fato sábio, ele teria controlado a pergunta que acabou fazendo e que vinha já fazia alguns dias atormentando-o: — Se sou assim tão bom, o que a deixou tão ansiosa por se ver livre de mim? Felicity afastou-se como se Thorn lhe tivesse dito algo terrível. Parecia vulnerável como ele nunca a vira. Havia dor e arrependimento nos olhos dela, e Thorn sentiu-se culpado por ter provocado seu sofrimento. Mas precisava saber a verdade, pensou, e aquela poderia ser sua única chance de obter uma resposta honesta de Felicity. Por isso insistiu: — Imaginei que tivéssemos um acordo. E tudo parecia estar indo tão bem! Então, de repente, recebi a sua carta, terminando com o nosso romance. Não acha que mereço uma explicação, pelo menos? — Merece mais do que isso, Thorn, mas eu não posso lhe dar mais nada. — Felicity pressionou os lábios, pensando bem no que iria dizer, e prosseguiu: — Minha decisão nada tem a ver com você. Quero dizer, você não tem culpa de nada. Acho que eu deveria ter explicado melhor em minha carta. O tom de compaixão que sentia na voz dela o irritou. — Não sou uma criança, Felicity. Não precisava mentir para poupar meus sentimentos. — Homens! — ela exclamou, aborrecida. — Vocês são todos iguais, sabia? Acham que são o centro de tudo! — Muito bem, se não sou eu o problema, então, o que é? Já que você admitiu que mereço uma explicação dê-me uma que faça sentido! Felicity encarou-o por longos momentos, em silêncio. E a grande paciência de Thorn já estava no limite quando ela decidiu dizer: — Está bem. Talvez você seja o problema, sim, mas não da forma como imagina. Nunca pensou que eu pudesse ter me apegado demais a você enquanto estivemos juntos? Se estivesse em pé, Thorn, com certeza, teria caído sobre a cadeira diante daquela revelação. Não, nunca considerara tal possibilidade e poderia nem acreditar nela agora,


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mas o olhar de Felicity e a impressão do beijo que acabara de dar-lhe ainda o perturbavam, como tentando provar-lhe que ela dizia a verdade. — Não entendo — ele murmurou. — Por quê... sua afeição por mim seria um problema? Felicity meneou a cabeça, começando a se exasperar. — Talvez você não seja tão sábio quanto imaginei, afinal — comentou. — Digame, o que sentiu quando recebeu a minha carta? — Bem, eu... — Thorn não estava costumado a colocar seus sentimentos em palavras. Quanto mais profundos eles eram, mais dificuldade tinha para expressá-los. — Ficou feliz? — ela insistiu, apressada, querendo deixar sua indagação mais clara para ele. Thorn apenas negou com a cabeça. — Pode não acreditar — Felicity arrematou, agora num sussurro. — Mas eu também não estava feliz quando escrevi aquela carta. Ela se afastou até a janela e ficou olhando para os campos muito verdes que a paisagem lá fora oferecia. Continuou em tom dolorido: — Não tive alternativa. Nosso rompimento pode fazer-nos sofrer agora; mas imagine quanto mais sofreríamos se tivéssemos de nos separar daqui a um mês, ainda mais no envolvimento em que nos encontrávamos... Da forma como ela colocava a situação, sua decisão fazia sentido, porém Thorn não conseguia aceitá-la. Na verdade, vendo-a ali, junto à janela, sua suave silhueta definida pela claridade do dia, seus cabelos iluminados pela luz do sol, ele se indagava por que, em nome de Deus, tinham de se separar.

Ainda olhando para os campos, Felicity indagava-se se Thorn acreditaria no que dissera. Sofrera, de fato, ao escrever aquela carta de despedida. Mesmo tendo se esforçado muito para manter seu relacionamento com Thorn em termos livres, sem compromissos, passara a gostar de seu amante muito mais do que deveria. E, quanto mais tempo ficasse em sua companhia, mais difícil seria para ambos dizerem-se adeus quando a temporada terminasse e tivessem de voltar às suas vidas normais, como fora acertado no início de seu romance. Mas Thorn Greenwood não era tolo. Era apenas calado, reservado, sério. Porém jamais tolo. E, quieto como era, prestava atenção a tudo que se passava ao seu redor. Muito mais até do que um homem que gostasse de rir, brincar, falar. Se Felicity desse a ele tempo suficiente para pensar, Thorn poderia perceber que ela estava ocultando algo, e algo de suma importância.


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Lembrando-se de tudo que estava em jogo ali, Felicity respirou fundo e endireitou os ombros. Teria muito tempo no futuro para olhar para trás e lamentar-se. No momento precisava manter-se firme a fim de não estragar seu futuro. — Bem, então agora você entende — disse, voltando-se para encará-lo. — Nós dois temos bom senso e responsabilidade suficientes para percebermos quando um romance não pode mais dar certo. Meu sobrinho e sua irmã são ainda jovens demais para poderem reconhecer que a sua fuga pode ter sérias e terríveis consequências para ambos. Portanto, agora que já descansamos, acho que devemos seguir nossa viagem para conseguirmos alcançá-los antes que atinjam a Escócia. Thorn assentiu e levantou-se. O assunto sobre seu relacionamento com Felicity já estava colocado de lado. — Conheço minha irmã muito bem e sei que ela e Oliver não poderiam ter deixado Gloucester muito cedo — disse. — Ela sempre dorme demais pela manhã. Portanto, já nos adiantamos bastante. Com sorte, o tempo vai continuar bom e poderemos alcançá-los antes que passem por Hereford. — Não. "Nós" não vamos alcançá-los em parte alguma — Felicity corrigiu, muito séria. Imaginava que deveria ter sido mais esperta e ter partido dali antes que Thorn voltasse de Berkeley, mas o cansaço a vencera. — Por favor, continue sendo o homem sensato que demonstrou ser até agora e volte para Bath depois de dormir um pouco. Pretendo continuar viagem sozinha. Thorn encarou-a por momentos, avaliando suas palavras. Depois observou: — E quem é você para falar em sensatez? — Passou os dedos por entre os cabelos, num gesto que lhe era peculiar, e, sem deixar de olhá-la, prosseguiu: — Não aprendeu nada com os acontecimentos de ontem à noite? Se insiste em perseguir Ivy e Oliver, precisa de mim a seu lado. — É claro que aprendi com o que houve ontem, mas, ao que me parece, não da mesma forma que você. No futuro, cuidarei para não andar desarmada por lugares desertos e de madrugada. Ao chegarmos a Gloucester, vou procurar um negociante de armas e comprar pistolas para Ned e para o sr. Hixon. Isso o satisfaz? — Não. — Thorn começava a se irritar com aquela teimosia de Felicity. — Há muitos outros perigos numa estrada que duas pistolas não poderiam enfrentar. Como tempestades, enchentes, problemas com a carruagem ou com os cavalos. Seu criado não passa de um rapazola sem muita força, e o seu cocheiro já está bem velho. Não consigo entender por que insiste em não querer a minha companhia. Felicity sentiu um aperto no estômago. Não podia deixar que Thorn ficasse muito tempo a seu lado e começasse a meditar demais sobre seu rompimento. Pensava rápido, tentando encontrar uma resposta que colocasse um ponto final naquela discussão, mas ele falou primeiro e sua voz já estava calma novamente: — Não provei ser útil? — Thorn sorriu de leve.


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— É claro que sim, mas... Ele se aproximou e colocou suavemente dois dedos sobre seus lábios. O gesto não seria suficiente para calá-la, mas a fazia lembrar-se do toque gentil, carinhoso dele em outras partes de seu corpo, e parecia tirá-la da realidade. — Por favor, não complete seu elogio com algo desagradável — pediu Thorn, suave. — Eu vou com você e não há nada que possa fazer para me impedir. Tenho um cavalo e dinheiro suficiente para a viagem, e, se não permitir que siga em sua carruagem, eu o farei por minha conta e risco. Prometo não atrapalhá-la em nada e estarei sempre presente se houver necessidade da minha ajuda para qualquer coisa. Thorn deixou de tocá-la. Continuava sorrindo. — Agora, podemos, por favor, agir como adultos que somos? — pediu. — Temos um objetivo em comum e conseguiremos alcançá-lo com mais facilidade se juntarmos nossas forças. Felicity respirou fundo. Reconhecia que ele tinha razão, porém não pretendia ceder. Na verdade, não o queria por perto porque não desejava pensar nele, vê-lo, sentir que ainda o amava. Mas, apesar de tudo, tinha de concordar com Thorn. — Está certo — murmurou, embora a contragosto. — Vamos seguir juntos até encontrarmos Ivy e Oliver. — Felicity esperava, do fundo do coração, que isso não demorasse muito a acontecer. O sorriso antes incerto de Thorn abriu-se mais, alegrando-lhe as feições másculas. — Não fique séria desse jeito, então — sugeriu. — Não vai ser tão ruim quanto pensa. Prometo. Felicity olhou-o, um tanto desconfiada. Cada hora que passava em companhia de Thorn colocava em maior risco seu futuro e seu coração. — Será apenas por mais alguns dias — ele insistiu, erguendo-lhe o queixo com dedos suaves. — Então, va 1 poder ficar livre de mim. Nesse meio-tempo, dou-lhe minha palavra de honra que me comportarei da melhor forma possível. Felicity engoliu em seco. Sentia uma vontade imensa de acariciar-lhe o rosto, de mostrar-lhe quanto ainda o queria. E não era o comportamento dele nos próximos dias que a preocupava, mas o seu próprio...

CAPÍTULO VII


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— Tem certeza de que não quer comer nada antes de seguirmos viagem? — Thorn perguntou a Felicity quando se preparavam para deixar a hospedaria. Ela negou com a cabeça e acrescentou: — Tomei um desjejum reforçado esta manhã enquanto você foi a Berkeley. E você? Não comeu ainda hoje e nem dorme direito há horas. Thorn imaginou que ela pudesse sugerir que ele ficasse para trás, a fim de descansar, e depois encontrá-la em Droitwitch ou Bromsgrove, mas não estava disposto a morder a isca. — Estou bem — respondeu apenas. E deixou o orgulho de lado ao permitir que Felicity acertasse a conta da hospedaria. Afinal, mal ocupara uma cadeira por meia hora enquanto ela dormia. Além disso, poderia ainda passar por alguma situação em que viria a precisar de todo o dinheiro de que dispunha no momento. Assim, pouco depois, Felicity entrou na carruagem, auxiliada por seu criado, e Thorn montou o cavalo que St. Just lhe emprestara. Mas ela colocou a cabeça para fora da janela e sugeriu: — Por que não amarra seu animal à carruagem ou deixa que Ned siga nele, e você viaja aqui dentro? Poderia dormir um pouco, se quisesse. Thorn não entendeu o motivo de tal oferecimento, já havia pouco, Felicity se mostrara tão ansiosa por ver-se livre da sua presença. Preferiu negar com a cabeça sabendo que a proximidade de Felicity, bem como eu perfume, seriam uma tortura à qual ele não conseguiria resistir por muito tempo. Prometera comportar-se e, na intimidade da carruagem, sua promessa poderia ser facilmente quebrada. — Muito bem, então. — Ela pareceu irritada com a negativa. — No entanto, se mudar de idéia... Sabe de uma coisa? Eu não sabia que você podia ser tão teimoso! Thorn sorriu de leve e observou, tranquilo: — Isso faz de nós muito parecidos, lady Lyte. — E, incitando seu animal, se pôs na estrada. Logo atrás de si, ouviu a porta da carruagem ser fechada com força, para depois o veículo colocar-se em movimento. Durante toda a tarde, seguiram por aquela estrada antiga, primeiramente construída pelos romanos. Ela passava entre as belas montanhas Cotswold e os campos que se abriam junto ao rio Severn, que seguia para oeste, rumo ao Atlântico. Thorn mantinha-se firme em sua sela, evitando olhar para a carruagem. Ainda mais porque, quando o fizera havia algum tempo, notara que Felicity o observava com insistência. Naquele momento, seus olhos tinham se encontrado, e fora como se suas almas pudessem ter se tocado. Uma sensação deliciosa passara pelo corpo de Thorn, fazendo-o imaginar que dividiam algo muito particular e íntimo, muito mais do que durante o tempo em que dormiam juntos.


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O momento mágico durou pouco, porém, pois logo um posto de pedágio surgiu após uma curva, quebrando o enlevo. Thorn apeou, pagou a taxa e perguntou ao funcionário da cabine: — Imagino que possa ter visto uma carruagem alugada com um casal ainda muito jovem, que passou por aqui ontem à noite. Talvez se lembre da moça... Uma garota vistosa, alegre, com cabelos longos, cacheados e ruivos. O homem logo sorriu. — Ah, sim! — recordou-se. — Uma criatura linda com certeza! Linda! — De fato. É minha irmã. — Thorn lembrava-se muito bem do poder de sedução que Ivy sempre tivera. Mesmo quando, ainda muito jovem, ela era colocada de castigo por alguma travessura que cometera, seu olhar e aquele sorriso maravilhosos eram suficientes para abrandar a autoridade que ele tentava manter e faziam-no desmancharse em ternura. — No entanto, senhor — continuou o funcionário federal, tirando Thorn de seus pensamentos —, não foi ontem à noite que eles passaram por aqui. Foi esta manhã. — Tem certeza? — Claro que sim, senhor. Tiveram um pequeno problema com a carruagem e pararam aqui por algum tempo. E o rapaz levou umas três horas para consertar o veículo. Thorn sentiu-se animar. Ofereceu uma moeda ao homem, para agradá-lo pela ajuda, e disse sorrindo: — Obrigado pela informação. Saberia precisar ha quanto tempo eles partiram? O homem consultou seu relógio de bolso. — Bem, eu diria que saíram daqui há umas três horas, talvez um pouco menos. Espero que não estejam com problemas. — Problemas? Não, não, claro que não. — Thorn imaginava que poderia alcançar sua irmã e Oliver antes do entardecer, e estava ansioso. — Na verdade, quero alcançálos para dar-lhe notícias. Boas notícias. — Ah, então não vai demorar a encontrá-los, senhor. Além do mais, apesar de o rapaz ter consertado a carruagem, imagino que ela não esteja tão boa assim para poder ser páreo para o veículo que segue com o senhor. — O homem apontou de leve para a carruagem de Felicity. Thorn agradeceu mais uma vez e seguiu até a carruagem, levando o cavalo pelas rédeas. — O que tanto falou com aquele sujeito? — Felicity quis saber assim que ele se aproximou.


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— Eu estava perguntando sobre minha irmã e seu sobrinho. Aliás, se você tivesse vindo sem mim, imagino que nunca teria conseguido as informações que aquele homem me passou, porque não teria falado com ele. — Thorn explicou a ela tudo que acontecera. Felicity ouviu em silêncio, interessada. Quando ele terminou seu relato, sorriu e perguntou: — Está me dizendo que já os teríamos alcançado se não tivéssemos parado em Newport esta manhã? Thorn entreabriu os lábios, mas nada disse, e ela se pôs-se a rir. E aquela risada pareceu-lhe extremamente contagiosa. Talvez os muitos anos de seriedade que passara o tivessem esgotado um pouco e estava ansioso por poder rir também, o que passou a fazer, com gosto. — Imagino que estamos quites agora — ele afirmou depois. — O que acha? Vamos entrar num acordo sobre o que fazer agora? — Bem, creio que nem há necessidade de pensarmos muito. — Felicity secou as lágrimas que sua risada provocara. — Se estamos assim tão perto deles, temos que prosseguir depressa para alcançá-los logo! — Está bem, então. Vamos! — Só acho estranho que... — Sim? — Se Oliver e Ivy deixaram a hospedaria ontem à noite, seguindo direto para Gloucester... por que levaram a noite toda para chegarem aqui? — Boa pergunta. Talvez por causa do problema com a carruagem sobre o qual o funcionário do pedágio comentou. Ou acha que acabaram passando a noite em Newport, afinal, e deram dinheiro ao hospedeiro para que mentisse para nós? Felicity ergueu os ombros. — Só vamos saber quando os encontrarmos. Agora, pela última vez, será que vai se deixar persuadir a seguir viagem aqui dentro? Mais algumas horas juntos não nos farão tão mal assim, ainda mais se você dormir... O convite era tentador, mas Thorn tornou a negar com a cabeça e explicou: — Vou dormir bem apenas quando levar minha irmã de volta para casa. É melhor seguirmos como estamos, porque assim poderei pagar os pedágios mais prontamente, abrir portões e coisas assim. A expressão de decepção no rosto de Felicity quase o fez repensar sua decisão, mas as palavras dela, não: — Você é quem sabe. Se prefere assim, que assim seja!


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Thorn tornou a montar, dizendo: — Sabe de uma coisa? Isto está me parecendo uma caça à raposa. — Ah, eu bem que gostaria de ter dois bons cães faladores para encontrar aqueles fujões bem depressa! Logo em seguida, retomaram viagem, dirigindo-se, apressados, para Gloucester. O sol começava a se pôr por trás das colinas galesas, a oeste, e Thorn seguia, compenetrado, os pensamentos involuntariamente voltados para seu futuro com Felicity. Um futuro que, ao que parecia, não haveria. De dentro da carruagem, ela o observava e notava sua expressão pensativa. No que ele estaria pensando tanto?, indagava-se, curiosa. Talvez estivesse arrependido por ter insistido em que parassem em Newport. Ela gostava de saber que estivera certa o tempo todo, mas sabia também que o descanso que tivera lá fora bom. Tanto o breve sono quanto o leve desjejum a tinham animado. Na verdade, sentia-se bem melhor agora do que em muitos dias passados. Ouvira dizer que as náuseas no início da gravidez tendiam a diminuir e achava que talvez já não as tivesse mais. Se assim fosse, poderia até retomar seu romance com Thorn, pois ele nada perceberia. Não haveria mais o receio de que ele a surpreendesse nauseada e desconfiasse de seu estado. Tal pensamento trouxe um sorriso de felicidade aos lábios de Felicity. Havia dias não estava com ele e queria muito poder desfrutar seu amor mais uma vez. Sentia falta de seu toque, de seus carinhos. A carruagem seguia pela estrada costeira entre Bristol e Gloucester, e Felicity continuava observando Thorn cavalgando logo ao lado, embevecida com sua força, sua seriedade, sua masculinidade. Lembrava-se muito bem daquela primeira noite, em março, quando haviam se tornado amantes. Mal se dera conta da falta de experiência dele, embora devesse tê-lo feito. Thorn nunca se casara e não era do tipo de homem dado a encontros amorosos fáceis. E o fato de ele ter aberto uma exceção em seu caso a encantava. E a sua falta de experiência chegara a ser muito interessante. Seu antigo marido era muito experiente, um amante cheio de talentos, mas dedicado a muitas mulheres. E Felicity sentia-se feliz por ser amada e tocada por um homem que a via como uma deusa, em cujo corpo podia perder-se de amor e desejo. Isso acontecia sempre com Thorn. Na verdade, ela lhe ensinara muitas técnicas amorosas, e ele mostrara-se um excelente aluno. Agora, ela se arrepiava só em lembrar os momentos intensos de amor e paixão que haviam vivido. Era estranho, mas Thorn conseguia excitá-la até sem tocá-la. Era assim que se sentia agora. Excitada, ardente, querendo-o mais do que nunca. E ele nem sequer a estava olhando... Seria tão bom se pudessem continuar seu romance!, analisou, ansiosa. Depois de


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recuperarem Oliver e Ivy, quem sabe pudessem reencontrar-se em alguma hospedaria em Gloucester e fazer amor mais uma ou muitas vezes... Mesmo sentindo aquela paixão renascer em seu peito, Felicity ainda se lembrava do que dissera a Thorn na King´s Arms. Se seria doloroso separarem-se agora, quanto não sofreriam se viessem a se separar mais tarde, quando seu envolvimento seria ainda maior? Para ela, a promessa de prazer poderia valer a pena correr o risco, mas... e para Thorn? Ao escrever aquela carta de despedida, jamais lhe correra que sua separação fosse aborrecê-lo. A não ser, talvez, pela perda imediata do prazer físico. No entanto, quando Thorn irrompera em sua casa, na noite anterior, todo seu comportamento demonstrara a profundidade de seus sentimentos. Havia nele muito mais do que a perda do prazer carnal ou o orgulho masculino ferido. Ao perceber quanto gostava de Thorn, Felicity também notara que ele estava mais envolvido do que deveria. E agora que ela queria retomar seu relacionamento, talvez ele já não quisesse, por ter sido magoado uma primeira vez. Mesmo sem querer, Felicity sentiu as lágrimas inundarem seus olhos. Detestava chorar, porém não havia como controlar-se. Desde que se tornara amante de Thorn, seus sentimentos pareciam estar à flor da pele. Pior ainda: não se encontravam mais sob seu controle. Talvez fosse mesmo muito melhor se tirasse Thorn de sua vida para sempre quanto antes, para não sofrer ainda mais. Ele a fazia querer tanto da vida, da paixão...

Em seu cavalo, Thorn de repente sentiu como se despertasse. Tivera um cochilo, tão exausto estava. Não Podia deixar-se dominar dessa forma, avaliou. Tornava-se a cada instante mais e mais difícil manter o bom raciocínio e clareza de pensamentos. Andara pensando demais sobre Felicity e os motivos pelos quais não podiam mais ser amantes. Continuava meditando, numa tentativa para manter-se acordado: havia a fortuna dela, é claro. Muitos homens veriam todo aquele dinheiro como um excelente motivo para forçar um casamento, mas Thorn arrepiava-se de horror diante de tal perspectiva. Na verdade, jurara a si mesmo não se casar antes que suas duas irmãs estivessem casadas e a fortuna de sua família restaurada. Sabia muito bem quanto se falaria se um homem em suas condições se casasse com uma mulher tão rica quanto Felicity. Sua imagem seria a de um aproveitador, um canalha, e ela, uma criatura patética que precisava comprar um marido. Tal idéia parecia-lhe tão absurda que poderia rir dela. Mas não estava disposto a rir. Tanto ele quanto Felicity eram pessoas com orgulho próprio e que não queriam se expor a fofocas e comentários humilhantes. E, pelo que sabia, ela não queria casar novamente, e nem precisava. Tinha um


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título, possuía uma fortuna enorme sobre a qual mantinha absoluto controle, desde que permanecesse viúva. E, se quisesse ter um filho, por exemplo, teria de adotar um, fosse ou não casada. Se pretendesse apenas a companhia de um homem, poderia, sempre que desejasse, arranjar um amante. Uma mulher interessante e inteligente como Felicity, bonita, culta, teria sempre muitos candidatos à sua disposição. Tal idéia o fez apertar as rédeas entre as mãos. Não suportaria que Felicity o deixasse por outro homem. Talvez por um mais jovem e mais atraente, ponderou, o peito apertado. Alguém com um senso de humor que lhe agradasse... Alguém canalha o suficiente para satisfazer-se com o que ela oferecia numa cama e nada mais. Mas o que colocara aquela ridícula idéia de casamento em sua cabeça, afinal?, repreendia-se. Mesmo que fosse muito rico e Felicity estivesse ansiosa por desposá-lo, nunca daria certo. Quando ele achasse que o momento certo para se casar chegara, teria de escolher uma esposa que lhe pudesse dar filhos, e Felicity não podia gerar uma criança. E, sem herdeiros, sua querida propriedade, de nome Barnhill, passaria para algum primo distante após sua morte. Thorn podia admitir tal idéia. Seu dever para com a família, para com seu nome, não permitia que deixasse sua linhagem acabar com ele. E Thorn sempre fora um homem muito ligado ao dever. Mais uma vez sentiu um sobressalto ao voltar à realidade de sua cavalgada ao lado da carruagem de Felicity. Estivera cochilando outra vez ou apenas muito distraído?, indagou a si mesmo. Respirou bem fundo e sacudiu a cabeça, na intenção de despertar por completo. Por um momento chegou a pensar em fazer um sinal ao cocheiro para que este parasse o veículo e ele pudesse entrar, aceitando a oferta de Felicity para poder dormir um pouco. Mas logo afastou a idéia. Fosse como fosse, iriam logo encontrar Oliver e Ivy. Se não alcançassem a carruagem deles na própria estrada, com certeza os encontrariam na hospedaria de Gloucester que o hospedeiro mencionara em Newport. E, assim, Thorn poderia dormir tranquilo, com a consciência do dever cumprido. Ele avistou alguma coisa na estrada, pouco mais adiante. Talvez outra carruagem, analisou, ansioso. Imediatamente alerta, apesar do cansaço e do sono, Thorn esforçou-se para ver melhor do que se tratava. A estrada fazia uma curva para noroeste, e ele teve de cobrir os olhos para poder protegê-los do sol. Era de fato uma carruagem!, animouse. Olhou para Felicity e, mais uma vez, encontrou os olhos dela fixos nele. — Acho que os avistei — anunciou, em voz alta, para que ela pudesse ouvi-lo por sobre o ruído das rodas e dos cascos dos cavalos. Felicity também pareceu animar-se. — Onde?


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— Na estrada, mais para frente! — Ele apontava para o que via. — Só pode ser a carruagem deles! Vou seguir até mais perto para verificar! Thorn instigou o cavalo com os joelhos, fazendo-o avançar de repente. Em sua mente, ele ensaiava o que iria dizer à irmã. Teria de mostrar-lhe a tolice que estava cometendo, o grande erro de fugir assim, a ansiedade e o desespero em que o deixara. E, se Ivy pensava que suas expressões cativantes de arrependimento o iriam convencer dessa vez, estava redondamente enganada. Pelo visto, o cavalo que St. Just lhe emprestara gostava de uma boa corrida, pois nem era necessário foi forçá-lo para que acelerasse a marcha. Mais alguns segundos e Thorn conseguiria ver quem estava com as rédeas da carruagem. E sua irmã não seria a única a experimentar a sua irritação. Thorn já tinha algumas perguntas prontas para o jovem Armitage. O rapaz era cientista, afinal; não avaliara as consequências de fugir assim com uma donzela? Não antevira que terrível engano aquele casamento seria tendo um começo tão desastroso e errado? Ainda mais porque ambos possuíam temperamentos tão opostos. Com certeza, as horas que os dois haviam passado juntos até aquele momento já deviam ter sido suficientes para mostrar-lhes quanto não tinham sido feitos um para o outro. Na verdade, eles até se sentiriam aliviados por serem interceptados assim, em meio à sua fuga para Gretna. Conforme emparelhava seu cavalo com a carruagem, Thorn procurava ver sua irmã dentro dela. Mas ali havia apenas uma mulher bem mais velha e de cenho franzido, que o olhava também, profundamente aborrecida. Ela chegou a fazer-lhe um sinal para que se afastasse e disse algumas palavras que, por sua expressão, Thorn adivinhava não serem elogiosas. Decepcionado, ele já diminuía a marcha e preparava-se para voltar e contar a Felicity que se enganara. Deixou de olhar para dentro da carruagem no exato momento em que avistou uma ponte de pedras logo adiante, na estrada. Felizmente, seu cavalo também a viu. E antes que Thorn pudesse reagir de alguma forma, o animal desviou para a direita e entrou no rio, diminuindo abruptamente a velocidade, o que, no entanto, não aconteceu com Thorn. Ele foi arremessado para frente, voando acima do pescoço do animal. Seus braços se estenderam numa tentativa de aparar a queda, mas encontraram apenas ar. E, ao atingir a água Thorn perdeu a consciência de imediato, mergulhando por fim, no sono contra o qual lutara tanto para que não o derrotasse.

CAPÍTULO VIII


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A carruagem parou de repente, fazendo com que Felicity fosse lançada para trás. Lá fora, os cavalos relinchavam, num protesto pelo puxão que haviam sofrido nos freios. Saíram da estrada, arrastando a carruagem consigo por alguns metros campo adentro. Dentro dela, Felicity se alarmava. O que poderia estar acontecendo?!, indagava-se. Após alguns segundos de tumulto que pareceram durar uma eternidade, tudo parou. Felicity ouviu o sr. Hixon e Ned descerem, apressados, suas vozes ansiosas afastando-se, proferindo palavras que ela não compreendia, mas cujo tom percebia ser de preocupação. Não tinham vindo de imediato para verificarem se ela estava bem, e isso era muito estranho, analisava. E, irritada pela falta de consideração de seus criados, abriu a porta e pulou para o chão, ainda sentindo as pernas trêmulas devido ao sobressalto do incidente. Olhou para frente, em busca de algum sinal do cocheiro e do criado, e também para tentar entender o que ocorria. Não conseguia ver ninguém, mas ainda ouvia suas vozes, bem como o som de água sendo chafurdada. Por um momento, ficou ali parada, olhando para a pequena ponte de pedras logo adiante, sem saber o que pensar. Lembrava-se muito bem daquele lugar, já que tantas vezes passara por ali em suas viagens entre Bath e Staffordshire. Sabia que ali havia um rio, cujas águas frias desciam das montanhas Cotswold. De repente uma idéia começou a se formar em sua mente, e seu peito se apertou. Saiu correndo em direção à margem do rio e, ao chegar, viu o cavalo que Thorn montava saindo da água e sacudindo-se todo para livrar-se dela. No rio, Ned e o sr. Hixon se encontravam dentro da água até a cintura. Mas... onde estava Thorn?, indagou-se, alarmada. O medo que passara quando do ataque do saqueador não era nada comparado ao pânico que começava a sentir agora. Ned mergulhou, rápido, e voltou à superfície segundos depois, trazendo Thorn junto a si. E ele parecia desfalecido. Felicity cobriu os lábios com as mãos, aflita. O cocheiro ajudou o rapaz a retirar Thorn da água, passando um de seus braços pelos ombros, e os dois trouxeram o corpo inerte de Thorn, que era muito maior do que o deles, até a margem, onde o depuseram sobre a grama. Felicity sabia que precisava fazer alguma coisa para ajudar. Voltou correndo para a carruagem, lembrando-se dos casacos pesados que sempre ficavam guardados num compartimento de trás do veículo, para quando viajava por locais muito frios. Voltou, apressada, para a margem do rio, onde os dois criados ainda prestavam socorros a Thorn. Ele ainda estava inconsciente. E ela imaginou que, talvez, para sua imensa infelicidade, poderia estar morto! Os dois homens estavam cansados e deixaram-se cair ao lado de Thorn. — Ele está vivo? — Felicity perguntou, desesperada, vendo seu cocheiro apenas assentir, já que o cansaço e a idade avançada impediam-no de agir de forma mais ágil — Tem certeza? — insistiu, passando um dos casacos pelos ombros do rapaz e depois


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outro sobre os do cocheiro, para só então ajoelhar-se e cobrir Thorn com o terceiro agasalho. — Sim... senhora... — respondeu Ned, com lábios trêmulos devido ao frio. A água devia estar a ponto de congelar, Felicity imaginou, pelo estado em que se encontravam. — Mas... ele bebeu... muita água... enquanto... estávamos tirando-o... do rio. Felicity olhou para Thorn, que, deitado de bruços, como o tinham deixado, permanecia imóvel. Acariciou-lhe o rosto, sentindo-o terrivelmente frio. — Thorn! — chamou, primeiro em voz baixa, depois quase num grito, enquanto lhe sacudia os ombros: — Thorn! Pode me ouvir?! E, como se aquela fosse a única resposta que ele podia dar no momento, mais água saiu de sua boca, e Thorn começou a tossir e a respirar com muita dificuldade. De repente, Felicity sentiu como se ela também estivesse conseguindo respirar novamente. Seu rosto estava coberto de lágrimas. Afastou os cabelos de Thorn, que haviam caído, molhados, sobre sua face, e, com ar aflito, olhou para o cocheiro. Também ele parecia melhor agora que o calor do casaco o aquecia. — Viu o que aconteceu, sr. Hixon? — perguntou, imaginando que sim, pois ele agira de pronto. — Sim, senhora. — Ele puxou o casaco mais sobre os ombros. Seus dentes começavam a ranger, talvez pelo frio ou pelo choque do que acabara de acontecer — O sr. Greenwood saiu em disparada para tentar alcançar a carruagem que seguia à nossa frente. Então foi como se... ele não visse a ponte... O cavalo virou-se para o lado... e ambos caíram no rio... Não vi mais nada então, porque estava tentando parar os animais para ir em seu socorro. Felicity olhou para a ponte. A carruagem, é claro! Talvez fosse o veículo em que Oliver e Ivy se encontravam. Thorn devia estar muito tenso e preocupado tentando alcançá-los e nem sequer notou a aproximação da ponte. Afinal, não conhecia aquele caminho. Um gemido saiu dos lábios dele nesse momento, mas Thorn ainda não abrira os olhos. Felicity acariciou-lhe o rosto mais uma vez, depois voltou-se para seus criados. — O que fizeram foi um ato de heroísmo — disse, emocionada. — Nunca poderei agradecer-lhes o suficiente, mas podem ter certeza de que serão recompensados por sua bravura. O cocheiro apenas sorriu, ainda tremendo muito. Depois de alguns segundos, porém, murmurou: — Obrigado, senhora... mas saiba que foi um prazer socorrer o sr. Greenwood. Ele é um excelente cavalheiro. Ned assentiu, concordando, e, de repente, Felicity sentiu um calor subir-lhe pelo rosto, demonstrando seu embaraço. Certamente, seus criados sabiam das visitas de


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Thorn à sua casa, mas aquela leve alusão ao seu relacionamento com ele, mesmo dita de forma muito elegante, deixou-a envergonhada. — É verdade — murmurou, mudando de assunto rapidamente: — Bem, mas precisamos levar vocês três para um lugar aquecido quanto antes. De preferência antes do pôr-do-sol. Além disso, acho melhor chamarmos um médico para avaliar as condições físicas do sr. Greenwood. O senhor tem condições de guiar a carruagem, sr. Hixon? — Com certeza, senhora! — Ótimo, então. Trouxeram uma muda de roupas? Os dois criados assentiram. — Então, vão depressa trocar de roupa para que possamos prosseguir sem perda de tempo. Ned não a esperou sequer terminar de falar e foi depressa para a carruagem. O cocheiro, porém, hesitou um pouco. — Se me permite, senhora, sabe, sempre trago uma garrafa de bebida, para quando tenho de dirigir em noites frias... Se conseguirmos colocar alguns goles na boca do sr. Greenwood, acho que isso o reanimaria mais rápido. — Oh, excelente idéia, sr. Hixon! — Felicity aprovou, sorrindo. — Mande Ned trazer a garrafa até aqui depois que ele tiver trocado de roupa. Agora vá também, antes que pegue um resfriado. — Sim, senhora. — O cocheiro tirou o casaco de seus ombros e colocou-o sobre as costas de Thorn, para aquecê-lo ainda mais, e depois se dirigiu à carruagem. Os dois voltaram logo, mas Felicity sabia que cada minuto era importante para a saúde de Thorn. Ainda mais porque ele ainda não abrira os olhos. Estava gelado e seu rosto, pálido demais. Felicity sentia-se a cada instante mais desesperada, porque uma lembrança assombrava sua mente. Seu falecido marido jamais recuperara a consciência depois de ter caído de um cavalo.

A água fria e escura o havia engolido. Thorn não conseguia entender se tinha subido para a superfície ou se afundava para sempre no esquecimento da morte Tentava reunir forças, ganhar consciência dos fatos mas aquele frio terrível tirava-lhe qualquer capacidade de julgamento. Talvez fosse um tolo por resistir... Talvez fosse melhor desistir e entregar-se de vez, morrer. Então, como se tivesse vindo de muito longe, ouviu aquela palavra numa voz que fez seu coração bater mais depressa, com mais força. Uma palavra... seu nome... Não conseguia entender quem o chamava. Mas a voz feminina estava nos


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recônditos de seu cérebro, reverberando uma lembrança suave e doce. Não havia propriamente um pensamento claro em sua mente, porém era como se soubesse que, seguindo o som daquela voz, estaria salvo, de volta à sua consciência e à sua vida. Queria apenas segui-la, temeroso de que desaparecesse e o deixasse perdido no nada. Podia ouvi-la cada vez com mais clareza, chamando seu nome, dizendo-lhe palavras de carinho... — Thorn! Volte, meu querido! Volte! E, de repente, aquele toque! Era como se houvesse se esquecido de que havia outras sensações além do frio intenso que lhe gelava os ossos e daquele cansaço opressivo. Agora podia sentir uma espécie de dor, e esta mostrava-lhe os limites de seu próprio corpo. Queria que ela passasse, queria poder voltar a viver normalmente. E a ajuda viria, com certeza, daquele suave carinho em seu rosto, em seus cabelos... De repente, lembranças começaram a invadir-lhe a mente conturbada. Lembranças de cabelos encaracolados e soltos sobre um travesseiro alvo, da pele suave e clara de um colo de mulher. Lembranças de lábios doces, macios, de um perfume embriagador, de uma voz que murmurava palavras carregadas de desejo... E seu corpo se aqueceu, muito devagar a principio, mas de forma constante. Podia sentir calor e frio ao mesmo tempo, dor e prazer... Tentou mover-se, alcançar essa mulher adorável que ainda o chamava. Queria poder abrir os olhos e vê-la, mas não conseguia! Seu corpo todo recusava-se a obedecer aos seus anseios. Estava ainda preso na intensidade obtusa daquele frio insuportável. — Pode me ouvir, Thorn? — A voz dela estava mais próxima e seu perfume chegava-lhe às narinas. Talvez fosse apenas uma ilusão, avaliou, em sua semiconsciência. Mas havia um novo toque em seu rosto, ainda mais suave. Com certeza, eram os lábios dela. Havia histórias em sua mente, contadas fazia muito tempo, sobre princesas acordadas do sono da morte por beijos de amor. Sua mãe as contava quando ainda era pequeno e não tinha a responsabilidade da família sobre seus ombros. Ela lhe falava do poder do amor, que realizava qualquer milagre quando era usado de forma adequada. Havia anos não se lembrava de tais histórias. Também havia anos não pensava em sua mãe de forma tão querida e íntima. Era estranho, mas agora conseguia rever o rosto dela com clareza, como não acontecia fazia bastante tempo! Um rosto muito parecido com o de sua irmã Rosemary, mas não com aquela sombra de tristeza que havia na expressão dela até bem pouco tempo atrás. Também havia traços de Ivy no rosto de sua mãe, agora via, todo o encanto, porém nada dos caprichos... Talvez também houvesse em seu próprio rosto alguma reminiscência do rosto de sua mãe. Esperava também ter herdado as boas qualidades dela. E era como se pudesse ouvir-lhe a voz suave com clareza: "Tenho que ir agora, meu menino querido...". Sabia que ela não se referia à casa de praia em Bournemouth, ou a Bath. As


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temporadas que sua mãe passara nesses dois lugares pouco tinham feito por sua saúde delicada. Não queria ouvi-la falar em despedidas. Queria apenas fingir, como quisera um dia, que ela iria melhorar, muito embora mal pudesse se recordar de um momento na vida em que sua mãe tivesse gozado de plena saúde. "Fico tão feliz e tranquila por saber que você cuidará de suas irmãs por mim", dissera ela, certa vez, à beira da morte. "Em especial nossa bebezinha... Não vai ser nada fácil para ela crescer sem mãe, a pobrezinha..." Thorn sentira-se fortemente tentado a recusar tal pedido. Talvez, se não tivesse aceitado a responsabilidade de cuidar de Rosemary e de Ivy, sua mãe não fosse capaz de partir. Ou, pelo menos, poderia ter lutado mais para continuar com eles. Quisera tanto perguntar-lhe por que ela estava colocando aquele fardo de criar as irmãs sobre suas costas, e não nas de seu pai. Muito embora a razão lhe fosse muito conhecida, como era também para ela. Mas ele sempre fora um menino consciente de seus deveres e não se recusara a atender ao pedido da mãe. Também não se entregara às lágrimas, apesar de elas poderem aliviar o medo e a dor que sempre estiveram em sua alma depois que ela se fora. E cuidara de suas irmãs fazendo delas moças que dariam orgulho à sua mãe. Tornara-as felizes. Quando Rosemary se casara com seu velho amigo Merritt Temple, Thorn sentira que metade do peso tinha sido tirado de seus ombros. E, se falhasse na tentativa de colocar Ivy no bom caminho novamente, todos os seus esforços teriam sido em vão. Por isso precisava agarrar-se a qualquer coisa que o trouxesse de volta à vida. Qualquer coisa! A próxima voz que ouviu foi de um homem. Alguém que sabia torturar, com certeza, pensou, pois a dor física que sentia agora era enorme. — Nada quebrado, felizmente — ele dizia. — Também não está muito ferido, graças à água gelada. — Pare com isso! — sentiu-se dizer, tentando escapar às mãos fortes que apertavam seus membros. Pelo menos, seu corpo parecia estar obedecendo a seus comandos outra vez. Talvez pudesse abrir os olhos... Conseguiu! Esperava ver o local onde se lembrava de ter caído, ou então o interior da carruagem, mas a primeira imagem que seus olhos captaram foi a de uma vela muito próxima. Talvez ainda estivesse tendo ilusões, pensou, como as que tivera havia pouco, e nas quais ouvira a voz delicada de sua falecida mãe. Devido ao tom brusco que ele usara, o médico riu levemente e apertou-o de novo entre as costelas, comentando: — Pronto! Eu bem que imaginei que isso o traria de volta. — Afaste essas mãos horrendas de mim! — Thorn protestou ainda, tentando focalizar os olhos em quem falava. — Ou vou ser obrigado a arrancá-las de você! — Parece que o seu temperamento está intacto — médico disse, rindo novamente.


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Os olhos de Thorn estavam um tanto confusos. Tentava concentrar-se para identificar quem estava ali sentado a seu lado, naquela cama estranha, e viu o senhor miúdo, de óculos grossos com lentes redondas pendurados sobre um nariz adunco. Um ser sobrenatural, com certeza, não humano, avaliou. O médico abriu a mão diante dos olhos de Thorn e indagou: — Quantos dedos vê aqui? — Cinco. Agora, quer me deixar em paz, sim? — Bem, meu exame está quase completado, senhor, mas vou precisar de mais alguns minutos em sua companhia. — Seja rápido, então — Thorn murmurou, aborrecido. — Não vai adiantar nada ficar me apertando. Se quer ser útil, pegue uma bebida para mim. Estou com frio e quero me esquentar depressa. Thorn percebia que estava completamente seco e lembrava-se agora, com clareza, de ter mergulhado no rio gelado com o cavalo. — Ah, quer uma bebida, então? — o médico comentou com certa ironia. E voltouse para alguém que parecia esperar logo atrás dele, assentindo e dizendo: — Acho que não vai lhe fazer mal algum. Seus órgãos vitais me parecem estar muito bem. — Oh, graças a Deus! — Era a voz de Felicity. Ela apareceu por trás do médico e sorriu para Thorn, muito embora sua expressão fosse preocupada. — Que tipo bebida recomenda, doutor? Vinho? — Algo não muito forte, já que o nosso paciente acabou de recobrar a consciência. Acho que café seria ótimo. — Vou mandar preparar um pouco. Felicity afastou-se e Thorn deixou de vê-la, impedido pelas cortinas pesadas da cama em que se encontrava. Quando o médico estendeu as mãos para tocá-lo novamente, Thorn afastou-se. Mas foi apenas seu pulso que o doutor quis examinar. — Fique calmo agora, enquanto verifico sua pulsação — ele recomendou, retirando um relógio de dentro do bolso do colete. Depois de alguns segundos, soltou a mão de Thorn e observou: — Como eu suspeitava. Já está bem mais forte. Recuperado. Felicity voltou para junto do leito. — Que maravilha! — murmurou. — Ele tem boa saúde — disse o médico. — É forte, vai se recuperar ainda mais com facilidade. — E, voltando a encarar Thorn, indagou: — Diga-me, sr. Greenwood, qual é a última coisa de que se lembra antes de acordar aqui?


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Thorn abriu os lábios para responder, porém hesitou. Lembrava-se de um sujeito que conhecera e que ficara desacordado por muito tempo depois de um golpe na cabeça. Ao despertar, ele não se recordava de muitas coisas e assim permaneceu por vários dias. E os médicos tinham recomendado à família e aos amigos do tal sujeito para que não comentassem sobre o que houvera e nem tentassem ajudá-lo a se lembrar. Thorn imaginava o que aconteceria se dissesse não se lembrar do que acontecera nos últimos dias. Felicity parecia-lhe tão ansiosa agora... Talvez estivesse disposta a fingir que não terminara seu romance, pelo menos durante algum tempo. No entanto, se fingisse não se lembrar disso, teria de fingir não se lembrar da fuga de Ivy e Oliver também, e isso daria bastante tempo ao casal para chegar a Gretna e voltar. Além do mais, como Thorn poderia pensar em enganar Felicity? — Lembro-me de ter sido lançado dentro do rio — declarou. — Depois disso, nada mais, até acordar neste quarto. Felicity aproximou-se mais, afastando o médico. Tomou a mão de Thorn e murmurou: — A outra carruagem que você estava perseguindo... Conseguiu ver quem se encontrava lá dentro? Eram Oliver e Ivy? Thorn negou com a cabeça e acrescentou: — Era uma senhora idosa. Imagino que eu deva tê-la assustado ao perseguir a sua carruagem daquela forma. Felicity pareceu desapontada, o que fez Thorn lembrar-se, mais uma vez, de que precisava, custasse o que custasse, encontrar sua irmã e salvá-la de si mesma. Se não o fizesse, estaria traindo a confiança que sua mãe depositara nele. Tentou sentar-se, mas todo o seu corpo protestou com dores. — Estamos em Gloucester? — perguntou, fazendo uma careta de sofrimento. — Preciso encontrar Ivy! De repente, tudo começou a girar ao seu redor, deixando-o nauseado. Deixou-se cair sobre a cama e ouviu a explicação do médico: — Já que perguntou, estamos apenas nas vizinhanças de Gloucester. Felicity acariciou os cabelos de Thorn e acrescentou com voz suave: — Pedi ao sr. Hixon que parasse na primeira hospedaria que encontrasse. Este local não estava muito distante. Felizmente, é uma hospedaria muito boa. — Tenho certeza que sim. — Thorn preparava-se para uma nova tentativa de se sentar. — Mas eu não nosso ficar aqui enquanto minha irmã está fugindo para ainda mais longe. Felicity olhou-o significativamente, mostrando-lhe que, quanto menos falasse sobre o caso na frente de estranhos, tanto melhor.


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— O que pretende fazer? Mal consegue sentar-se na cama... Como acha que poderá cavalgar?! — O que... o que aconteceu com o cavalo de St. Just? — Bem, ele... ficou todo molhado, mas pode ter certeza de que está muito melhor do que você. — É, mas eu poderia estar ainda muito pior se ele não tivesse desviado da ponte a tempo. Antes que Felicity pudesse responder, batidas na porta chamaram a atenção de todos. Felicity levantou-se para ir atender e Thorn olhou para o médico, imaginando se ele viria apalpá-lo outra vez. Estava preparado para defender-se caso isso acontecesse. Sua expressão devia ser bastante clara, pois o doutor afastou-se e foi arrumar seus apetrechos em sua maleta. Satisfeito, Thorn cerrou os olhos, pensando no problema Que precisava resolver. Com certeza, Ivy e Oliver iriam passar a noite em Gloucester, naquela hospedaria que o dono da King's Arms mencionara. Tinha de levantar-se e ir atrás dela quanto antes! Tentou sentar-se outra vez, bem devagar, mas os músculos de seu abdômen protestaram em espasmos doloridos. Conseguiu manter a cabeça firme, sem tonturas, e, depois de alguns instantes, a porta se fechou e Felicity voltou para seu lado. Ela trazia uma bandeja com sanduíches e duas canecas fumegantes. O cheiro forte e agradável de café inundava o quarto. — Thorn, pelo amor de Deus, deite-se! — ela pediu apressando-se em colocar a bandeja sobre a mesinha-de-cabeceira. — Precisa descansar e se recuperar! — Só depois de recuperar minha irmã! — ele teimou preparando-se para colocar as pernas para fora da cama. — Ela deve passar esta noite em Gloucester e, quanto antes eu a encontrar, melhor! — Olhe, podemos falar a respeito depois, quando você já tiver se alimentado, está bem? — Felicity tentou contemporizar. — Se Ivy vai ficar aqui esta noite, então você vai ter muito tempo para ir atrás dela, concorda? Thorn não conseguia explicar nem a si mesmo essa sua nova e mais forte compulsão de seguir atrás da irmã. Então, como podia fazer com que Felicity também compreendesse? Estava prestes a erguer as cobertas e sair da cama, quando se deu conta de que estava nu. Nesse meio-tempo, Felicity abria sua bolsa e se preparava para pagar os honorários do médico. — Não se preocupe em me acompanhar, senhora. Cuide do sr. Greenwood — disse o doutor, afastando-se até a porta. — E não hesite em me chamar, mesmo que seja no meio da noite, caso as condições dele piorem. — Obrigada, doutor. O senhor foi de grande ajuda. Ela pegou uma das xícaras, na intenção de oferecê-la a Thorn, que preferia manter


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sua opinião sobre o médico para si mesmo. Tomou um gole do café, esperando que este o reanimasse mais depressa. Ouviu o médico dizer-lhe ainda, antes de fechar a porta: — Vai se recuperar ainda mais depressa se conceder ou dois dias de descanso ao seu corpo, sr. Greenwood Sugiro que descanse bastante e deixe que sua adorável esposa cuide bem do senhor. Esposa... Thorn quase se engasgou com o café.

CAPÍTULO IX

— Esposa? — Thorn perguntou, ainda surpreso diante da palavra. — O que mais aconteceu enquanto eu estava inconsciente? Felicity sorriu, vendo-o, afinal de contas, são e salvo. O grande alívio que sentia deixava-a mais à vontade agora, pois quando o médico estivera no quarto tentara mostrar-se mais firme, mais sóbria. E, agora, a idéia de Thorn de que poderiam ter se casado enquanto estava inconsciente fazia-a ter vontade de rir. Deixou a caneca que ele lhe entregara sobre a mesinha-de-cabeceira e sentou-se a seu lado, rindo. Não entendia por que ele fingia tamanha surpresa, ou, até mesmo, desagrado, pela idéia de tê-la como esposa. — Devo lembrá-lo de que estamos ainda muito longe de Gretna Green? — disse, olhando-o com carinho. — Só lá eu poderia arrastá-lo, sem sentidos, diante de um pastor, tendo meu cocheiro a segurá-lo para que parecesse estar disposto a se casar comigo. — A cena pareceu-lhe, de repente, tão engraçada que riu ainda mais. — Bem, mas o médico disse que você era minha esposa... — Porque foi essa a explicação que eu lhe dei, nada mais. Afinal, esta hospedaria tinha apenas um quarto desocupado e pareceu-me óbvio que você precisaria de alguém que cuidasse do seu estado durante a noite. E, como não queria que houvesse comentários desagradáveis sobre nós, menti. — Podia ter dito que era minha irmã... A observação eliminou qualquer resquício de alegria do rosto de Felicity. — É... suponho que sim — concordou, por fim. — Mas nem pensei nisso. Como ela não tinha irmãos, a idéia, de fato, nem lhe passara pela cabeça. Além do mais, não conseguia imaginar-se tendo um relacionamento assim tão casto com Thorn. — E acho que você não deve ficar questionando minha atitude num momento de


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crise — acrescentou, sentindo-se irritada com tudo aquilo. — Está vivo, não está? — Parece-me que sim... — Está bem alerta, pelo menos, embora eu ache que ainda não recobrou totalmente a razão. Não tem ferimentos que alguns dias de descanso não curem. Meus criados e eu fomos de grande ajuda, sabia? Mas pensa em me agradecer? Não, claro que não... Muito ao contrário. Você está até querendo sair da cama e arriscar ainda mais seu restabelecimento para ir correndo atrás da sua irmã e do meu sobrinho. E, além do mais, reclama só por eu ter inventado que sou sua esposa para podermos ter uma estadia tranquila aqui! — Desculpe-me — disse ele, por fim, vendo que, mais uma vez, era inútil discutir com Felicity. — Não quis parecer ingrato. Fiquei surpreso com essa história de você ser minha esposa, nada mais. E, quanto à minha irmã, quero apenas encontrá-la enquanto há tempo. Não está, também, ansiosa por reencontrar seu sobrinho e fazê-lo enxergar o erro que está cometendo? — É claro que sim, mas... — Ela hesitou. Estava, na verdade, muito mais preocupada com a saúde de Thorn do que com Oliver, o que era uma tolice, analisava, já que teria de cortar todos os laços que a uniam a ele. — É claro — Thorn repetiu suas palavras estendendo a mão, e, por alguns suaves momentos, Felicity chegou a pensar que ele a estivesse convidando a partilhar a cama. — Agora, seja uma boa esposa e pegue aquelas roupas para o seu pobre marido ferido. — Bem, eu gostaria de poder — Felicity respondeu, não sem uma ponta de satisfação —, mas você caiu no rio, lembra-se? Suas roupas ficaram encharcadas e geladas. Nem sei como você não congelou dentro delas. Nem sei como você estaria agora se não o tivéssemos despido assim que chegamos aqui. Thorn lançou-lhe um olhar sério, que ela entendeu de imediato e explicou: — Sim, nós o despimos. Eu e Ned, enquanto o sr. Hixon ia buscar o médico. E, como a maioria dos criados, Ned tem muita experiência em ajudar um cavalheiro a despir-se, pois trabalhou com mais de um até hoje. — Felicity apontou para a lareira que, da cama, Thorn não conseguia ver. — Suas roupas estão secando diante do fogo, mas ainda estão muito molhadas. Acho que só estarão boas para serem vestidas pela manhã. — Não me importo que estejam molhadas — Thorn teimou. Fez menção de sair da cama, exigindo: — Traga-as para mim. — Não! — Felicity deu um passo atrás quando ele afastou as cobertas, expondo-se diante de seus olhos. — Você vai acabar se matando se sair numa noite fria vestido com roupas molhadas! A expressão de Thorn estava mudada, deixava de ser afável como sempre e


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adquiria um ar de hostilidade que ela desconhecia. — Muito bem. Então, eu mesmo vou pegá-las! — decidiu. Felicity colocou-se entre ele e a lareira. — Se der um passo em direção à lareira, eu jogo suas roupas no fogo! — ameaçou. — Mas o que deu em você, Felicity?! — Uma careta de dor apareceu no rosto dele quando se levantou. — Não é minha mãe! Nem mesmo quer mais ser minha amante! Portanto pare de agir assim! Thorn ameaçou dar um passo, mas a força de suas pernas pareciam não ser compatíveis com a de sua vontade. Praticamente caiu sobre Felicity, que teve grande dificuldade em levá-lo de volta para a cama, onde acabou por cair por cima dele. E toda a indignação que se forçara a mostrar até então desapareceu como por encanto. Uma sensação deliciosa apoderou-se de seu corpo quando sentiu seu peito junto ao de Thorn. O desespero que a tomara quando vira seus criados tirando o corpo inerte de Thorn do rio agora desaparecia por completo, porque ele estava ali, junto dela, quente como sempre, vivo! Poderia afastar-se, mas adorava estar assim, sentindo-o por completo, percebendo que ele a desejava ainda, talvez como nunca. Quem sabe estivesse agindo errado o tempo todo, pensou por uma fração de segundo. Talvez, em vez de querer forçar Thorn a permanecer na cama, fosse melhor e mais fácil seduzi-lo para ele ficar. Então, acariciou-lhe o rosto e sussurrou: — Gostaria que eu voltasse a ser sua amante? Pelo menos por uma noite? — Sua voz fraquejava, não por causa do desejo, mas porque um temor absurdo a afligia no momento: e se Thorn agora a recusasse? Ele ainda não acreditava no que acabara de ouvir. E, mesmo que aquilo fosse verdade, que Felicity o estivesse querendo, poderia arriscar o futuro de sua irmã permanecendo ali, com ela, e deixando que Ivy e Oliver ficassem à vontade para agir como quisessem? — É claro que sim — respondeu, também sussurrando. — Parece-me óbvio que sim, não? O que não consigo entender é por que, de repente, você não se importa mais se minha irmã e seu sobrinho possam fugir de nós, já que estão tão perto. — Não quero que eles escapem — Felicity explicou, com certa culpa no coração. — Mas também não quero que você arrisque sua saúde para impedir que meu sobrinho cometa um erro. Thorn encarou-a, sentindo-se incrivelmente tentado a beijá-la. Estaria assim tão errado colocar seu desejo antes de sua obrigação para com os outros?, avaliava. Ao menos por uma vez? Sem sair da posição em que se encontrava, ela propôs: — E se eu pedisse aos meus criados para verificarem as hospedarias da região?


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Quando localizarem Oliver e Ivy, poderão ficar vigiando e, ao amanhecer, eles os trarão aqui. Aquelas palavras tentavam-no quase tanto quanto as curvas macias do corpo de Felicity junto ao seu. E aqueles intensos olhos verdes, brilhando, ansiosos por sua resposta, excitavam-no. — Se eu falar com os meus criados e eles fizerem o que eu disse, promete ficar na cama, sem tentar sair por aí no meio da noite? — ela insistiu. — Ficar na cama... com você? — Sim. Comigo. Thorn ergueu um pouco o rosto e deu-lhe um longo beijo. Aquele que vinha querendo dar-lhe desde que a reencontrara. Um beijo com toda a força e a saudade de seu amor. — Está bem, lady Lyte. Temos um acordo, então — sussurrou logo em seguida, ainda muito próximo dos lábios dela. E depois tornou a beijá-la, agora com uma paixão ardente que os fez se esquecer de tudo o mais. Thorn sentia uma certa mudança em seu relacionamento com Felicity. Era como se, desde que se tinham tornado amantes, ele a tivesse procurado como um criado ou alguém a quem ela estivesse fazendo o grande favor de se entregar. Mas, nessa noite, sentia que ela estava sendo, de alguma forma, subjugada pela força de seu amor. — Por que não vai falar com seus criados logo, antes que eles se recolham? — sugeriu, entre beijos. — Claro... — Felicity parecia estar tão zonza quanto ele quando despertara de sua inconsciência. E, ao levantar-se para ir fazer o que ele dissera, sentiu que suas pernas fraquejavam. Foi até a lareira e ouviu Thorn estranhar: — O que está fazendo? — Vou levar suas roupas comigo, para garantir que você não vai vesti-las e sair enquanto falo com Ned e com o sr. Hixon. Thorn sorriu, enfiando-se embaixo das cobertas novamente. — Parece que a minha palavra de cavalheiro já não é suficiente para convencê-la, lady Lyte — observou. — Pois eu suspeito que, por baixo de todo esse cavalheirismo e de toda essa honra, meu querido, você deva ter uma centelha de canalhice, sabia? E não pretendo arriscar nada. Quero ter certeza de que estará aqui quando eu voltar. — Então, juro que não vou me mover mais do que o suficiente para alcançar a bandeja. — Ótimo. É melhor mesmo comer algo. — E, sorrindo com malícia, acrescentou:


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— Para manter as forças... — É? Então, é melhor ir logo falar com os criados, ou vou puxá-la para esta cama e fazê-la esquecer por completo dos dois malucos que nos fizeram começar essa viagem. Felicity sorriu e foi até a porta. Já a abria quando ouviu: — Não demore mais do que o necessário, Felicity. — Nem um segundo a mais. Eu prometo! Depois de avisar os criados sobre o que queria que fizessem, Felicity subiu as escadas dos fundos, ansiosa por voltar ao quarto. A idéia de que Thorn a estava esperando, sob as cobertas, a aquecia de desejo. Algo mais a apressava também, embora não quisesse admiti-lo nem para si mesma. Eram as dúvidas e incertezas sobre o que estava prestes a fazer. Sabia muito bem que reatar aquele romance só traria mais dor para ambos quando tivessem de se separar novamente. E ela sabia que ficaria melhor do que ele, porque, afinal, teria seu filho para consolar a tristeza e a solidão. Thorn nada teria... — Sra. Greenwood? — chamou uma mulher atrás de Felicity, fazendo-a voltar-se de pronto. — A senhora e seu marido precisam de mais alguma coisa? "Seu marido". A camareira a chamara pelo sobrenome de Thorn... Felicity sentiu o coração se acelerar. Toda a amargura e a traição que haviam ficado como lembranças de seu casamento eram um vivido contraste em relação ao que havia agora em seu relacionamento com Thorn. — Não, obrigada. Temos tudo de que precisamos — respondeu com um sorriso. — Não quer que as roupas do cavalheiro sejam lavadas? Felicity dava-se conta de que segurava as roupas dele. — Oh... não, não... Obrigada. E que... notei que um botão estava frouxo e... levei a calça de meu marido para que o nosso criado o costurasse de volta ao lugar. Sabe, ele foi aprendiz de alfaiate e sabe muito bem lidar com uma agulha... — A explicação parecia-lhe excessiva, mas a mentira era o que a provocava. Se continuasse assim, admirou-se, acabaria contando ainda mais mentiras do que lhe tinham contado a vida toda. — Muito bem, então, senhora. Se precisarem de alguma coisa, é só tocar a sineta. Espero que passem uma noite agradável aqui. — Ah, tenho certeza de que passaremos. — Pelo menos isso era verdade, Felicity ponderou. E seguiu pelo corredor com passos calculados, para não levantar suspeitas quanto à sua pressa por regressar. Ao entrar no quarto, encontrou-o iluminado apenas pela claridade vinda da lareira.


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— Quando lhe pedi para que voltasse logo, não quis dizer que deveria correr o tempo todo — Thorn observou, percebendo que ela respirava fundo, cansada. Felicity sorriu, trancou a porta e avançou para a lareira, onde tornou a pendurar as roupas. — Não comeu nada — comentou, notando que os sanduíches ainda se encontravam no prato. — Porque achei que seria muito mais agradável dividi-los com você. Além do mais, minhas mãos estão um tanto trêmulas. Acharia que sou mimado se lhe pedisse que me alimentasse? — Havia um tom de malícia na voz dele que a fez sorrir outra vez. — Muito mimado — comentou, escolhendo um lanche. — Mas eu também fui mimada ontem à noite quando me apoiei em você, na carruagem, porque estava assustada. Não vejo por que não possamos nos mimar de vez em quando. Felicity chutou longe os sapatos e sentou-se na cama, segurando o lanche para Thorn e mordendo um pedaço de outro. Sentiu os lábios dele tocarem sua mão quando Thorn mordia outro pedaço, e isso causou-lhe um arrepio intenso por todo o corpo. — Eles fazem bons sanduíches aqui, não acha? — comentou, tentando afastar a sensação que a sacudia mais do que poderia esperar. O presunto era tenro e bem temperado, o pão, macio e saboroso. Mas a perspectiva de passar uma noite completamente diferente com Thorn, ali, era o tempero mais delicioso de todos. — Os melhores que já provei — ele concordou. E com, uma última dentada, arrebatou o resto do lanche, mordendo-lhe a mão de leve e fazendo-a rir. — Deve estar faminto — Felicity observou, pegando mais dois sanduíches do prato. E sentou-se ao lado dele contra os travesseiros. Thorn achegou-se ainda mais, mas não mordeu o lanche e sim seu pescoço, fazendo-a arrepiar-se. E seguiu beijando-a muito de leve, até que chegou a seu ouvido para sussurrar: — Voraz... Ela engoliu em seco antes de dizer: — Eu também... — E largou os sanduíches para poder passar os braços pelo pescoço de Thorn e buscar-lhe a boca, num ardente beijo. E, de repente, estavam envoltos num mar de desejo que os arrastava, como já havia acontecido tantas vezes. As mãos de Thorn, acariciando-a, estavam, como ele dissera, trêmulas, mas isso não parecia perturbá-lo. Sentia a exigência de uma forma que jamais experimentara, e seus beijos intensos deixavam Felicity totalmente entregue.


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Havia nele uma necessidade premente, uma fome que precisava ser saciada logo, mas Felicity pediu-lhe, entre beijos: — Precisamos ir tão depressa? Temos a noite toda pela frente... — Não, meu amor. Há uma necessidade muito maior — Thorn sussurrou, acariciando-a e livrando-a das últimas peças de roupa. — Não sente também? — Sim, mas... se nos apressarmos, tudo vai acabar tão depressa... Ele beijou-lhe os seios e riu, murmurando apenas: — Então, minha querida, vamos ter de recomeça tudo... Que problema, não? Felicity entreabriu os lábios, mas sem saber o que dizer. Nunca o vira assim tão agitado, tão ardente. Era sempre ela quem conduzia seu amor, seu desejo. Porém, nessa noite, Thorn estava diferente. E a faria sentir essa diferença de todas as formas possíveis.

CAPÍTULO X

Para Thorn, era como se, mais uma vez, tivesse voltado do mundo dos afogados para o esplendor da vida. Só que, agora, não havia dor ou pânico, e sim prazer e paixão. Permaneceu no silêncio e na escuridão do quarto por intensos, felizes momentos, que lhe pareceram poder durar para sempre, livre como jamais se lembrava de ter estado. Era como se nada pudesse levá-lo de volta à consciência, exceto o doce prospecto de poder fazer amor com Felicity uma vez mais. Só que, agora, mais devagar, saboreando cada segundo, deixando que a paixão fluísse com lentidão e delícia por todas as partes de seu corpo. Sentia os lábios dela, muito suaves, beijando-lhe o queixo, e abriu os olhos. Queria aproveitar cada instante daquela noite para embebedar-se na beleza inebriante de Felicity. — Devo dizer que tem excepcionais poderes de recuperação — Felicity murmurou com um sorriso. Livrou-se das meias, que ainda usava, e voltou para os braços dele, continuando: — Quem poderia imaginar que há menos de uma hora, mal tinha forças para segurar um sanduíche?! Thorn sorriu e buscou-lhe os lábios, para mais um beijo ardente. Depois murmurou, junto aos lábios dela. — Qualquer paciente teria melhoras fenomenais sob seus cuidados, minha querida. E, quanto à minha recuperação, devo dizer que você ainda não viu nada.


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Felicity olhou-o, carinhosa. — Sabe, essas palavras, vindas de qualquer outro homem, poderiam parecer presunção, mas você é a pessoa menos presunçosa que já conheci. Porém, pelo que vejo, tem muito do que se orgulhar e até do que se vangloriar, meu querido. Na verdade, todas as pessoas que o conhecem só podem falar bem a seu respeito. Até mesmo Weston St. Just, que praticamente não se dá bem com ninguém. Thorn apenas sorriu. Muitos o respeitavam, sim, ele sabia, mas sempre fora considerado um homem sem maiores atrativos, tanto em relação às mulheres quanto em relação a suas possibilidades de ter sucesso na vida e nos negócios. Inúmeras vezes sentira os laços apertados das convenções e do decoro segurando-o, puxando-o para baixo. Conseguira livrar-se deles apenas por um breve tempo, para conceder-se aquele romance maravilhoso com Felicity, porém sabia que seria loucura tentar abandoná-los por completo para seguir uma vida mais liberal. Sua natureza não era assim. Além do mais, sem a reputação de que gozava, que identidade poderia ter na vida? — Também deve sentir-se orgulhoso de suas irmãs — Felicity prosseguiu, acariciando-lhe o rosto e olhando-o, absolutamente apaixonada. — Ivy, certa vez, me contou que você praticamente criou as duas sozinho. — Nós nos criamos juntos — ele explicou puxando-a mais para seu peito. — Mas as duas sempre foram garotas muito especiais. E tem razão, tenho muito orgulho de ambas, embora não seja eu o responsável pelo bom caráter que elas têm. — Thorn interrompeu-se, pensou um pouco, depois, rindo, acrescentou: — Vê como sou esquisito? Que tipo de homem ficaria falando de suas irmãs enquanto está na cama com a sua magnífica amante, exatamente após ter feito amor com ela e com sérias intenções de fazer de novo? Pela última vez. Tais palavras martelavam em sua cabeça, embora evitasse dizê-las porque elas estragariam a sensação maravilhosa que estava desfrutando. Aborrecia-se consigo mesmo porque jamais era capaz de viver um momento sem pensar no passado ou preocupar-se com o futuro. E não tinha certeza de que tipo de reação esperar de Felicity. O carinho das mãos dela em seu rosto não significava uma resposta, mas era suficiente para inflamar seu desejo de novo. — Você não é esquisito. É um homem muito especial, isto sim — murmurou ela. — E muito bondoso e gentil também. Que se preocupa com suas irmãs mais do que consigo mesmo. Eu gostaria de ter sido criada por pessoas que fizessem o mesmo comigo. Aquilo não era uma repreensão, Thorn compreendia, já que ela fizera tudo ao seu alcance para evitar que ele saísse em busca de Oliver e Ivy, como pretendera. No entanto o que acabara de dizer atingia-o da mesma forma. De fato, ao despertar de sua inconsciência, ficara alarmado, quisera agir, sair à procura da irmã, mas tal imediatismo passara. Se insistisse, Felicity jamais teria sido capaz de detê-lo ali a seu lado, porém quisera muito passar aquela última noite com ela


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e arriscar sacrificar todo o futuro de Ivy, bem como sua felicidade para satisfazer seus próprios desejos. Estava envergonhado por isso agora e tal sensação impedia-o de entender com precisão o que Felicity acabara de lhe dizer. Na época em que haviam estado juntos, nunca tinham se preocupado em falar sobre seus passados, por que estavam mais interessados no presente, na paixão que os envolvia. O tempo que teriam seria curto demais e precisavam aproveitá-lo totalmente. Agora, seu tempo era ainda menor e um interesse repentino enchia a mente de Thorn, fazendo-o querer saber mais, tudo, se possível, sobre a mulher que ele amava. Não sabia ao certo de onde ela viera, quem havia sido sua família, quais eram seus sonhos, seus maiores temores, que experiências de vida a tinham tornado tão intensa, tão fascinante. — Que idade você tinha? — perguntou de repente, quase sem sentir, ainda cariciando os cabelos dela e sentindo-lhes a maciez e a suavidade de seda. Ela demorou a responder, o que o fez imaginar que o acordo inicial de seu romance, de absterem-se de saber sobre a vida um do outro, ainda estava em pé. — Treze — disse Felicity, por fim, e sua voz soou triste. — Quando minha mãe morreu, e mal me lembro de meu pai. Não tive um irmão mais velho e responsável que cuidasse de mim, e meu avô estava sempre muito ocupado aumentando sua fortuna. — Bem... poderia ter sido pior — Thorn tentou consolá-la. — Seu avô poderia estar sempre muito ocupado perdendo quantias enormes de dinheiro, como meu pai. — É verdade. Mas eu sempre quis ter alguém sensato a meu lado, alguém que pudesse me consolar naquela época em que me sentia tão sozinha... Talvez eu pudesse, então, aceitar meu destino e minha sorte com mais racionalidade, entendendo que, afinal, eu tinha certos privilégios, embora outras coisas preciosas me tivessem sido tiradas. — Sinto muito, Felicity. Não quis ser duro com você. — Eu entendi o que quis dizer. Sei muito bem que centenas de garotas dariam qualquer coisa para poderem trocar de lugar comigo. Mas tenho certeza de que nenhuma de suas irmãs o faria. Felicity afastou-se devagar, para não deixar que ele visse seus olhos marejados de lágrimas. Porém Thorn percebeu-as mesmo assim. — É muito bom ter dinheiro, sim — ela comentou, sem olhá-lo —, mas há muita sabedoria no velho ditado que diz que o dinheiro não compra a felicidade. — Talvez tenha sido isso, então, que meu pai tentou fazer depois da morte de minha mãe — ele ponderou, pensativo. E, pela primeira vez desde que era ainda uma criança, conseguiu pensar em seu pai sempre ausente, sempre mais e mais desesperado, e não sentir raiva dele, muito menos ressentimento. Era estranho, mas, de alguma forma, libertador poder olhar assim para seu passado agora. Felicity dera-lhe as costas e mantinha-se virada para o outro lado. Continuou, como se não o tivesse ouvido:


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— Meu avô deixava-me aos cuidados de um número sem conta de governantas estranhas, endurecidas, cuja única intenção era tornar-me uma moça extremamente refinada. Thorn olhou para ela, para o contorno de seu corpo delineado na penumbra do quarto, e aproximou-se abraçando-a por trás. Apoiou a cabeça em seu ombro e comentou, malicioso: — Fico feliz por nenhuma delas ter conseguido. — É, mas elas tornaram minha vida um inferno enquanto tentavam. Com todas aquelas repreensões, aqueles sermões infindáveis, aqueles castigos... — Havia amargura em sua voz, e Thorn sentiu pena da criança alegre, cheia de vida, que haviam tentado acabrunhar dentro dela. Felicity continuou, aceitando o abraço: — Embora sua irmã não seja o tipo de esposa de que Oliver necessita, sua vivacidade é encantadora. Imagino que você tenha se sentido tentado a mantê-la dentro de certos limites, impondo-lhe restrições às vezes, para torná-la mais respeitável, mas jamais para colocá-lo em uma situação embaraçosa. — É... às vezes — Thorn admitiu. — Mas devo dizer que não me esforcei muito. Na verdade, sempre adorei a exuberância do caráter de Ivy; quase cheguei a invejá-la. Talvez eu tenha, bem no fundo, um pouquinho da sua audácia. Quem sabe? Por exemplo... — Ele apertou Felicity contra si. — Imagino o que os meus respeitáveis conhecidos diriam se me vissem aqui, agora, com você. — Ah, com certeza haveria assunto para fofocas durante muito tempo — ela concordou. E, voltando-se, aceitou o beijo que ele estava pronto para lhe dar. Thorn sorriu durante o beijo. Reconhecia que nenhuma mulher poderia ser tão sua, estar tão de acordo com suas atitudes quanto Felicity, e isso lhe agradava profundamente. Nenhuma mulher tinha, também, inflamado seu desejo dessa forma, ou feito com que seu coração batesse tão depressa, absolutamente apaixonado. — Imagino, então, que seja nossa obrigação criar algo mais para que tenham do que falar — sugeriu, ardente, junto aos lábios dela. — Com certeza, meu amor — Felicity concordou, entreabrindo os lábios para seduzi-lo com mais um beijo alucinante. Poderia ser apenas força de expressão, afinal estavam vivendo um momento quente, carregado de paixão, mas as palavras "meu amor" reverberavam na mente de Thorn e o faziam pensar. — Você tem muito mais imaginação do que eu — sussurrou. — O que sugere que façamos para as fofocas serem ainda mais apimentadas? — O que acha disto? — Ela o empurrou de leve para trás, fazendo-o deitar-se. Depois, ousada, sentou-se sobre seu corpo, tomando para si as rédeas do amor que fariam em seguida. Tinha habilidade, talento e vontade suficiente para mostrar a ele que poderiam, ambos, ir até o ápice da paixão e do prazer juntos, devagar, muito


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devagar, para fazer durar ainda mais o tempo de que dispunham. Seria, de fato, sua amante, fazendo-o delirar de desejo, querer sempre mais e mais, até poder satisfazê-lo, e a si mesma, por completo. Thorn sabia que depois seria ainda mais difícil poder separar-se dela. A manhã chegaria e os encontraria abraçados, e seria terrível para ele ter de deixá-la ir, sair de sua cama, de sua vida... Desde o momento em que se tinham conhecido, e depois, quando ela o desafiara a ser seu amante, passara a admirá-la, a admirar seu gosto pela vida e seu desprezo pelas normas rígidas da sociedade em que viviam. Assim, ela era quase se oposto e, embora isso o preocupasse às vezes, esta com Felicity fazia-o sentir-se completo como jamais se sentira. O fato de saber que a perderia era terrível e fazia-o pensar num dia em que o sol simplesmente desaparecesse da face da Terra. A vida cessaria totalmente, como a sua sem Felicity. Havia tantos obstáculos entre ambos que seria necessário ter muita força de vontade para lutar e poder ficar juntos. Já encontrara muitos e grandes obstáculos em sua vida, criara suas irmãs sozinho e recuperara parte da fortuna de sua família com muito esforço e perseverança. E sabia que tudo que valia a pena merecia o sacrifício da luta. Também Felicity merecia seu sacrifício e sua luta. Com paciência e resolução, conseguira muitas coisas na vida, podia conseguir Felicity também, assegurava a si mesmo. De alguma forma sabia que a chave para qualquer futuro para si mesmo e Felicity devia estar escondida em algum lugar do passado dela. O problema seria descobrir onde sem afastá-la de sua vida.

Estando ainda com a cabeça deitada sobre o peito dele e ouvindo as batidas ritmadas de seu coração, Felicity jamais se sentira tão segura e libertada. Era como se a força que emanava de Thorn fosse absolutamente confiável e constante, dando-lhe confiança e segurança para qualquer atitude que viesse a tomar. Nessa noite, por exemplo, ele a levara a agir na cama. Tomara a liderança, deixara-se levar por sua paixão. E dera a ele um prazer incalculável porque fora com esse objetivo que quisera estar com Thorn. E o resultado de seu carinho, de sua preocupação em fazê-lo vibrar de paixão fora seu próprio prazer, nunca antes tão intenso. E era estranho pensar agora que seu mais profundo encontro com um homem fosse, ao mesmo tempo, o último. Sentia seu coração gelado, entristecido, magoado, pelo que teria de fazer ainda. Porque não podiam ficar juntos. Alerta como nunca quanto às necessidades silenciosas de sua amada, Thorn estendeu a mão e puxou as cobertas sobre Felicity, imaginando que o arrepio que sentira passar pelo corpo dela fosse devido ao frio. Se soubesse... avaliou ela, com o coração apertado. Uma montanha de cobertores não seria capaz de aquecer seu corpo como os braços dele ou o timbre de sua voz conseguiam.


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— Alguma vez tentou comprar a felicidade, Felicity? — ouviu-o perguntar, quase sem voz. Mesmo percebendo que ele procurava usar um tom suave em sua pergunta, Felicity sentiu suas entranhas se contraírem ao ouvi-la. Poderia, talvez, desviar a conversa com uma brincadeira qualquer, mas não o fez. A intimidade partilhada do momento que estava vivendo e o segredo que escondia de Thorn exigiam todos os seus poderes de discrição, deixando-a não muito bem preparada para ser discreta em outros assuntos. Sorriu de leve e respondeu, um tanto hesitante: — E... como achou que eu tenha... aprendido a me alegrar? Assim que meu avô faleceu, comprei o marido mais bonito e melhor nascido que o dinheiro poderia comprar! Imaginei que, assim, estivesse também comprando minha liberdade, mas acabei percebendo que não havia nada de feliz e nem de vantajoso no negócio que havia feito. Um pesado silêncio caiu entre ambos, e ela entendeu que, com ele, vinha também a reflexão de Thorn sobre o assunto e sua profunda compreensão dos fatos. E sentiu-se falando antes mesmo de poder controlar suas palavras: — Eu tinha uma noção ridícula de que, se estivesse casada, poderia escapar de todas as pessoas que tentavam me controlar: governantas, tutores, parentes... Mas foi então que conheci minha sogra e entendi o que é, de fato, cair na teia de uma aranha gigante. — Felicity estremeceu só em se lembrar. — Aquela mulher era terrível. Pior do que todas as minhas governantas juntas. Nunca perdia uma só oportunidade de insinuar que a minha fortuna, adquirida no comércio, era uma nódoa para a sua família, uma enorme mancha de vergonha da qual procurava ocultar-se o tempo todo. E o tempo todo seu filho estava apenas fazendo o possível para gastar cada centavo do que eu tinha. — Miserável! — Thorn não pôde deixar de opinar entre os dentes. Felicity sorriu, percebendo a sinceridade em seu tom. Seria tão fácil viver com ele, avaliou. Thorn era tão diferente de seu falecido marido! Mas tinha se enganado, e muito, antes. Não podia pensar com o coração mais uma vez. — Sabe, ele era até muito gentil no começo — continuou. — Chegou até a tomar meu partido contra a própria mãe. E eu tentei ser uma boa esposa para ele. Tentei muito, com todas as minhas forças. — A voz de Felicity, em suas lembranças, ia sumindo devagar, até tornar-se um mero sussurro sobre o chiar da madeira que se consumia na lareira. — Mas de nada adiantou, já que falhei no principal dever de uma esposa... Thorn não se moveu, nada disse. O que pensava a respeito do que acabara de ouvir era segredo. No entanto era como se ela pudesse sentir todo o peso de suas próprias palavras. Porque sabia que, se alguém poderia entender a humilhação de falhar em seu dever, esse alguém era ele. Por isso prosseguiu:


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— Minha sogra, então, passou a ter prazer no que falava contra mim, porque percebia que estava, no fundo, com a razão. Até que se deu conta do que isso poderia significar para a sua preciosa família. — E, Felicity sabia, mais do que tudo o mais, fora exatamente isso que contribuíra para o rápido declínio dos Lyte. — E Percy não ficou a meu lado, então. Se eu soubesse... — Se soubesse o quê? — Thorn indagou, quando ela se interrompeu. A pergunta sacudiu-a, tirando-a daquela espécie de enlevo no qual as recordações a tinham colocado. Estremecia, sentindo o coração apertado, o estômago agitando-se. Não precisava mais de prova nenhuma para saber que, ao lado de Thorn, deixava-se levar, abria-se, entregava-se. Precisava ter mais cuidado! O compreensivo silêncio dele e sua simpatia a seduziam, como seus carinhos eram capazes, sempre, de seduzir-lhe os sentidos. Parte de seu ser queria deixar o assunto de lado, beijá-lo novamente, incendiá-lo... Fazer qualquer coisa que a resgatasse das águas perigosas em que se deixara apanhar. Mas precisava encontrar uma forma de afastar-se dele, ou acabaria contando-lhe tudo sobre o bebê Então, conhecendo o desenvolvido senso de dever que havia dentro de Thorn, jamais poderia afastá-lo de si. Por isso continuou, tentando parecer casual: — Se eu soubesse que a viuvez é o melhor estado para uma mulher rica! Sim, porque pode-se ter todos os prazeres de um casamento sem se perder a independência. Thorn retesou-se, e ela o sentiu. Mordeu o lábio, sem olhar para ele, porque sabia que, se o fizesse, iria vacilar, tornar-se vulnerável. Além do mais, garantia a si mesma, como forma de consolo, Thorn merecia uma leve alfinetada, já que fizera ressurgir a paixão entre ambos e a deixara esquecer toda a dor de sua iminente separação. Preparou-se para receber uma resposta dura, para poder rebatê-la e encontrar um motivo para deixar aquela cama e sair em busca do que seus criados tivessem descoberto. Assim que a manhã chegasse e os dois tivessem de se separar para sempre, talvez ainda sentisse algum arrependimento, mas precisava ser assim, assegurou a si mesma. Contudo, para sua surpresa, Thorn nada disse, apenas abraçou-a ainda mais, carinhoso. E assim permaneceu por alguns segundos, até que murmurou: — Minha querida... Não é de admirar que você se rebele contra qualquer coisa que tente deter seus atos. A inesperada compreensão deixou-a muda. Era bom ser tão bem compreendida, mas era assustador também. E ele prosseguiu, deixando-a ainda mais pasma diante de sua reação: — Não é de admirar também que se recuse a desistir do controle que tem sobre tudo em sua vida. Mesmo que isso signifique ter de sair no meio da noite atrás de seu sobrinho, quando eu mesmo poderia tê-lo feito sozinho.


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Felicity respirou fundo. Como poderia ir contra tamanho senso de bondade?! Ele conseguia fazer com que ela se abrisse! Conseguia deixá-la vulnerável com sua compreensão! Como ela podia estar certa de que Thorn algum dia não usaria esse poder que possuía sobre ela?! Mas ele parecia estar absorto em seus próprios pensamentos para perceber que ela mudava de atitude. — Não é de estranhar que você tenha se contentado apenas com romances — ele ponderou. — Porque não quer mais se submeter à tirania de um marido! — Ora, como ousa, Thorn Greenwood! — Felicity protestou, afastando-se de vez dele. Olhou-o, irritada, os lindos olhos verdes flamejantes de indignação. — Como ousa julgar-me e sentir pena de mim?! — Mas, minha querida, eu não quis... Ela deixou de olhá-lo. Aquela expressão de surpresa no rosto dele a deixava ainda mais vulnerável, com vontade de atirar-se novamente em seus braços e esperar que, de alguma forma milagrosa, Thorn fosse capaz de consertar tudo que dera errado em sua vida. Detestava estar exposta assim diante dele. — Oh, deixe para lá suas palavras de consolo! — exclamou, querendo escapar daquela situação quanto antes. Passou a mão nas roupas e continuou, zangada: — "Apenas com romances"! Pois sim! Pois saiba que esses romances passageiros podem ser tão cansativos quanto um marido quando levam tempo demais para acabar! E um amante pode ser tão tirânico quanto um marido quando se recusa a manter-se a uma distância segura! — Calma, Felicity. Eu estava apenas tentando dizer que entendo e que me preocupo com você. Isso é tão ruim assim? Ela se vestia, bem afastada da cama. — Nunca lhe pedi que entendesse nada — rebateu querendo apenas que ele parasse com aquelas palavras gentis que a tocavam cada vez mais e a faziam fraquejar. — Nunca lhe pedi... — Interrompeu-se devido a um soluço involuntário. — Nunca lhe pedi para que se preocupasse comigo! Ela foi até a cômoda e despejou um pouco de água numa bacia. Não queria mais ouvi-lo. Queria apenas escapar dali, daquela situação, dos sentimentos que invadiam seu peito e a atormentavam. Molhou a ponta de uma toalha na água e começou a passá-la pelo corpo, sentindo-o, de repente, frio e arrepiado. Era melhor assim, pensou. Assim esqueceria os momentos de paixão que haviam acabado de viver e poderia pensar melhor. Quando terminou, estendeu o braço para pegar seu vestido e viu que Thorn havia se levantado e estava ao lado da cama, ainda nu. E sentiu-se novamente presa de uma violenta paixão por ele. Forçou-se a encará-lo, imaginando que ele poderia estar furioso por sua atitude intempestiva.


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Não entendeu, porém, o que viu em sua expressão. Poderia ser calma ou raiva controlada, fria, ou ainda uma angústia muda ou uma decepção amarga. Ou tudo isso misturado, além de algo mais que a atingia mais do que tudo, mais do que queria admitir. Thorn não olhava para seu corpo ainda despido. Olhava-a nos olhos e fazia, com os seus, uma pergunta muda, mas imperiosa, que, no entanto, Felicity não conseguia entender, muito embora a resposta estivesse com ela, sem que a quisesse dar. — Eu já lhe disse uma vez — ele começou, calmo — que não podemos escolher quem irá se preocupar conosco, gostar de nós... Não lhe estou pedindo nada, Felicity, e jamais tirarei coisa alguma de você. Mas não pode dar ordens ao meu coração, como eu mesmo não posso. Ela apertou os lábios, reconhecendo que Thorn devia estar furioso. Tinha todo o direito de fazê-lo, sim. Todos, em sua vida, tinham dado-lhe as costas quando ela não agira à altura do que esperavam. Por que Thorn Greenwood seria diferente?, perguntava-se, amarga. E a resposta, em sua mente, desafiava seus sentidos: porque ele "era" diferente, porque não dava e nem mostrava amor facilmente. Mas, quando o dava, sua afeição era constante e dedicada, sempre pronta a fazer-se notar por atitudes muito mais do que por palavras. E, nesse momento, Felicity nada mais queria além de poder atirar-se nos braços de Thorn e aceitar o que ele lhe oferecia. No entanto uma náusea intensa formava-se em seu estômago, deixando-a aflita. Nunca se sentira assim tão mal, avaliou. E, sem ousar dizer uma palavra, com medo de vomitar, vestiu-se, apressada, e passou por Thorn e saiu depressa para o corredor. Seguiu por ele, sem olhar para trás, e atingiu a porta dos fundos da hospedaria. Continuou, na densa escuridão da noite, até os estábulos. Lá, o cheiro dos animais a fez vomitar. Apoiou-se à parede, tentando seguir adiante, mas parando muitas vezes para aliviar seu estômago revolvido. Sentia-o vazio como sua vida fora antes de Thorn aparecer. Talvez, analisava, enquanto respirava fundo recobrando-se de um último espasmo, fosse melhor reconsiderar seus planos para o futuro. Planos nos quais não havia espaço para um homem, muito menos para o pai de seu filho. Mas primeiro precisava colocar uma certa distância entre ambos, para poder pensar em tudo com clareza e decidir-se sem sofrer influências de outras pessoas. Afinal, havia tanto em jogo! Seu bem-estar, o bem-estar de seu filho! Não podia deixarse influenciar pelos sentimentos agitados e profundos que Thorn lhe provocava. Muito menos podia deixar que ele descobrisse sobre sua gravidez, porque, assim, iria insistir em se casar com ela apenas para cumprir com seu dever. Ela merecia mais do que isso, e seu filho também. Até mesmo Thorn merecia algo melhor em toda aquela situação. Assim, por todos, devia pensar com mais cuidado, avaliar as possibilidades, seguir atrás de seu sobrinho e, ao encontrá-lo, voltar para a sua vida rotineira e pensar bastante


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sobre o caso. Se, ao final de suas reflexões, decidisse arriscar seu coração e aceitar Thorn, saberia onde encontrá-lo. Ouviu passos apressados se aproximando e afastou-se da parede. Foi então que viu Thorn entrando no estábulo. — Felicity? — A voz dele mostrava claramente sua preocupação. Ao vê-la, segurou-a pelos ombros, tentando ampará-la, pois percebia-a fraca. — O que está fazendo aqui?! Por que saiu correndo daquele jeito?! Ela o puxou consigo para fora, evitando que percebesse que vomitara. — Eu é que pergunto o que está fazendo aqui fora, neste frio, com essas roupas ainda úmidas! Ele sorriu e explicou: — Achei que seria bem melhor arriscar um resfriado do que um processo por atentado ao pudor, se eu saísse nu do quarto. Agora, vamos voltar e nos aquecermos, está bem? Prometo não aborrecê-la de modo algum, certo? Prometo até sair do quarto, se é o que você quer. — Olhe, Thorn, eu... — Felicity buscava palavras que explicassem seu comportamento estranho, mas outros passos chamaram-lhe a atenção. Havia também vozes no ar frio da noite. Vozes que ela reconhecia. — Sr. Hixon, Ned, são vocês? — indagou. Os dois criados apareciam por entre as sombras, e suas expressões eram de surpresa. — Senhora! Esteve esperando por nós aqui?! — perguntou o cocheiro, abismado. — E o senhor, sr. Greenwood! Já em pé! Felicity rebateu as perguntas com a sua: — Encontraram a srta. Greenwood e meu sobrinho? Onde estão hospedados? Precisamos seguir imediatamente até eles! O sr. Hixon pareceu hesitar. Até que falou: — Estivemos em todas as hospedarias de Gloucester, senhora. — Duas vezes! — Ned acrescentou. — E? — Ela começava a se afligir. — Nem sinal dos dois, senhora. Felicity respirou fundo. Agora, o que mais poderia fazer?, indagou-se, mas ficou sem resposta.


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CAPÍTULO XI — Oh, Deus, eles não estão aqui! — Felicity repetiu, sentindo-se repentinamente tonta. Thorn segurou-a pela cintura, ajudando-a a manter o equilíbrio. Sentia-se preocupado, claro, por saber que sua irmã não se encontrava em Gloucester, mas ali, diante da porta dos fundos da hospedaria, para onde conseguira trazer Felicity na intenção de voltarem ao quarto, sentia uma sensação inquietante de alegria por imaginar que, diante do fato de Oliver e Ivy não se encontrarem em Gloucester, teria de continuar sua viagem ao lado de Felicity. O dever ainda falava mais alto em seu peito, mas era bom poder sentir que ainda teria mais algum tempo ao lado de seu grande amor. Porque sabia que, assim que encontrassem o casal fugitivo, Felicity sairia de sua vida de uma vez por todas, como entrara: de repente, sem avisos. Não sabia como conciliar o dever para com a família e a intensa paixão que ardia em seu peito, e o pior de tudo era que, mesmo ficando com Felicity, tinha consciência de que seu envolvimento não passaria de uma ligação passageira. A única coisa de que tinha certeza era que precisava esforçar-se para ficar junto dela, se quisesse ser bemsucedido tanto em encontrar Ivy e Oliver quanto em ganhar o amor de Felicity. Olhou para o cocheiro e, por sua expressão, percebeu que o homem estava prestes a dar mais alguma má notícia. — No último lugar em que perguntamos sobre eles senhora... — Pela segunda vez! — interferiu Ned, para que ficasse ainda bem claro que haviam estado em todos os lugares por duas vezes. O cocheiro prosseguiu como se não tivesse havido nenhuma interrupção: — Era a hospedaria mais afamada da região, e um dos criados de lá nos garantiu que um casal tinha chegado por volta da hora do jantar, mas que havia alugado outra carruagem porque a sua estava em péssimo estado. — E esse homem disse para que direção seguiram? — Felicity perguntou, ansiosa. Thorn podia sentir quanto ela tremia. — Não, senhora. Mas o ferreiro que trabalha para a hospedaria disse que eles partiram assim que a carruagem nova ficou pronta. Contou também que o jovem cavalheiro deu uma boa examinada no veículo antes de prosseguirem viagem. — Oh, meu Deus, para onde podem ter seguido? — Felicity suspirou. — O que farei agora?! Ela sabia que precisava de Thorn. E, percebendo isso também, ele sentiu suas energias se renovarem, apesar do acidente que sofrerá.


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— Não podemos fazer nada por algumas horas — disse, seguro de si. — Então, vamos usar esse tempo da melhor forma que pudermos. — Virou-se para os criados e ordenou: — Vão dormir um pouco, e obrigado pelo que fizeram esta noite. Foi um bom serviço. Os homens hesitaram, talvez à espera de ordens diretas de sua patroa. Mas ela nada disse e os dois se preparavam para afastar-se quando Thorn acrescentou: — E obrigado por terem salvado minha vida hoje. Foi uma demonstração de muita coragem. Ned apenas sorriu, e o sr. Hixon respondeu, fazendo uma breve mesura: — Foi um prazer, senhor. Boa noite. Boa noite, senhora. Os dois criados se foram, seguindo para o pequeno quarto que lhes fora reservado na hospedaria. Uma porta abriu-se, ao fim do corredor, depois fechou-se logo, e Thorn a instigou para a escada: — Vamos, ou acabaremos acordando todos os hóspedes. Vamos dormir um pouco e pensar no que faremos amanhã. Felicity apenas assentiu, deixando-se conduzir. Também não resistiu quando entraram no quarto. Thorn reavivou o fogo da lareira e tornou a pendurar suas roupas para que secassem. Felicity retirou uma camisola de sua mala e foi para trás de um biombo, onde trocou de roupa. Quando voltou, Thorn já estava deitado, coberto até o peito. Ele bateu no espaço vazio a seu lado, convidando-a: — Venha. Prometo não tocá-la. Felicity assim o fez, mas agia com certa reserva, como se temesse cada passo que dava em direção ao leito. Estava calada demais para seu normal, Thorn avaliou, preocupado. Preferia vê-la agitada, como era de seu feitio, muito embora ele sempre tivesse problemas para adaptar-se ao seu temperamento forte. E, agora, aquele silêncio o deixava ainda mais tenso. Viu-a entrar sob as cobertas muito devagar e ajudou-a a cobrir-se. E não se afastou quando os pés gelados de Felicity buscaram o calor de suas pernas. — Acho que posso abraçá-la pelo menos para aquecê-la, não? — perguntou, à espera de um sim. — Sim, se se comportar. Thorn sorriu e a abraçou pelas costas. Então pensou que deveria oferecer-se para seguir atrás de Oliver e Ivy sozinho, deixando-a livre para voltar para casa e não mais se preocupar com tudo aquilo. Talvez, como ela já experimentara alguns desconfortos daquela viagem, Felicity estivesse aberta a aceitar tal sugestão. Ainda mais agora que teriam de vasculhar todos os locais pelos quais o casal poderia ter passado. E, talvez pela primeira vez em sua vida, Thorn percebia que não se dispunha a


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seguir o que a responsabilidade lhe mandava fazer. Estava alarmado, sim, com a situação, mas apreciava cada minuto em que podia partilhar aquela cama com Felicity, mesmo que fosse apenas para dormir, como agora.

Felicity tentava dizer a si mesma que não deveria sentir-se tão bem por dormir com Thorn novamente, muito menos por esperar acordar em seus braços, como antes. Mas de nada adiantava sua força de vontade. Não estava costumada a negar-se nada. Ao contrário, o dinheiro podia não comprar a felicidade, ponderava, porém podia comprar independência e prazer. E ate recentemente, estivera satisfeita com as duas coisas. — Imagino que tenhamos de decidir o que fazer agora — Thorn murmurou junto a seu ouvido, e ela arrepiou-se. — Confesso que estou perdida — respondeu. — Se não conhecesse aqueles dois tão bem, imaginaria que Oliver e Ivy estão agindo assim de propósito, para nos obrigar a persegui-los dessa forma. Talvez devesse apenas lavar as mãos quanto a seu sobrinho, Felicity ponderou; dar-lhe um pouco de dinheiro e depois esquecer-se dele quando desaparecesse para criar seu filho em paz. Afinal, Oliver não era seu parente de sangue... Ouviu Thorn rir de leve e comentar: — Tenho certeza de que isso tudo é obra de minha irmã. Não me lembro de nenhuma vez em que Ivy tenha feito o que se esperava dela. Neste momento, seu pobre sobrinho deve estar desejando que alguém apareça e o salve de ter de se casar com aquela pequena raposa. Ele sempre me pareceu ser do tipo que é o sonho de qualquer babá: calmo, metódico, desde pequeno. — Você deve estar certo. Mesmo quando vi Oliver pela primeira vez, ele me pareceu solene demais para uma criança. De alguma forma, aquele menino tranquilo e calado, um tanto negligenciado pela família, conseguira conquistar seu coração. E Felicity sentia que não deveria deixar de zelar por ele agora; gostava do temperamento quieto de Oliver, não importando o trabalho que estava lhe dando agora. — Lembro-me de quando Percy levou Oliver para Trentwell no primeiro dia de férias escolares, depois que nos casamos — disse, lembrando-se muito bem daquele dia. — Eu sentia que o pobre menino estava feliz por se encontrar lá, embora nem ele mesmo me parecesse acostumado a ser feliz. Era como se gostasse do que sentia, mas... não tivesse confiança em sua sensações. — Então, o jovem Armitage é sobrinho de seu marido? — Sim. Filho da irmã de Percy. Os pais o tinham mandado para a minha casa


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naquelas férias. Viviam na Índia. Pouco depois, o pai foi morto numa guerra colonial e a mãe faleceu na viagem de volta à Inglaterra. O navio em que vinha naufragou. Pobrezinha. — Eu não sabia... pobre menino! Meu cunhado, Merritt Temple, passou por algo semelhante quando nos conhecemos na escola. Possuía pouco dinheiro, não tinha família... E eu o convidei para passar o verão conosco em Barnhill porque o coitado não tinha outro lugar para onde ir. A menção de um ato de bondade para com um colega de escola provou mais uma vez a Felicity quanto Thorn era gentil. Ele, provavelmente, teria se interessado bem mais por Oliver do que Percy se interessara. — Minha sogra nunca prestou muita atenção a Oliver — contou Felicity. Essa fora uma das razões pelas quais ela se aproximara do menino tão estudioso. — Dizia algumas bobagens sobre sua filha ter se casado com um homem do qual ela não gostava. Imagino que fosse porque o pai de Oliver não possuía a fortuna que ela desejava para a filha e para si mesma. Felicity pensou por instantes, avaliando a figura da sogra. Então, meneou a cabeça e completou: — Puxa, não havia nada de agradável naquela mulher O pai de Oliver não tinha dinheiro suficiente para agradá-la e eu, com tanto dinheiro, não a agradava porque meu dinheiro não vinha da aristocracia, e sim do comércio. Parece que até o dinheiro precisa ser de certo tipo para agradar certas pessoas... — Essa mulher se daria muito bem com meu pai — Thorn comentou, tentando manter um tom de brincadeira, embora houvesse amargura em sua voz. — Pobre Merritt. Apaixonou-se por minha irmã Rosemary naquele verão, em Barnhill, e, quando meu pai percebeu o que estava acontecendo, persuadiu Rosemary a não aceitar a corte de Merritt, embora fosse óbvio que ela já o amava perdidamente. Rosemary devia ser como o irmão, Felicity imaginou; devotada demais ao dever familiar para deixar de obedecer ao pai. Thorn continuou, agora mais sério: — Naquela época, eu achava que meu pai estivesse apenas preocupado com o futuro, com a felicidade de minha irmã. Mas depois percebi que ele queria, de fato, casá-la com um homem muito rico para poder, assim, recuperar toda a fortuna que vinha perdendo havia anos. Tinha dívidas incalculáveis e queria pagá-las da forma mais vil e mesquinha que conheço: com dinheiro alheio. — E no que deu tudo isso? — Felicity quis saber. Interessada, voltou-se para Thorn. — Você disse que esse rapaz é seu cunhado... Ele a aceitou entre seus braços e respondeu: — Bem, pode-se dizer que o destino deu uma segunda chance a Rosemary e


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Merritt. E eles foram espertos o suficiente para agarrarem essa chance com unhas e dentes. É claro que houve uma certa ajuda minha e de Ivy... — Thorn abafou um bocejo. — Foi uma das grandes alegrias da minha vida ver minha irmã feliz novamente. Não devia ter sido fácil para Rosemary Greenwood e seu marido reencontraremse, Felicity analisou, saboreando o terno abraço que a prendia e imaginando por que a felicidade de dois estranhos significava tanto para ela. Um rapaz rejeitado por seu primeiro grande amor e uma jovem que devia ter duvidado da possibilidade de ser perdoada pelo homem amado. Mas eles tinham conseguido se entender e ter um final feliz para o seu romance; ou, talvez, um começo feliz... Podia ser que o destino estivesse oferecendo também a ela e a Thorn uma nova oportunidade... Ali, junto dele, sentindo o calor de seu corpo, como duvidar de tal possibilidade? Se pudesse dar-se ao luxo de ter mais tempo para poder ponderar a respeito, se pudesse se distanciar da doce, mas forte tentação que Thorn representava, talvez conseguisse entender seus próprios sentimentos e as opções que tinha diante de si. Talvez uma semana ou duas bem tranquilas em Trentwell, quando aquela loucura de encontrar Oliver e Ivy tivesse terminado... Sentou-se de repente, com uma idéia brilhando em sua mente. E foi inevitável exclamar: — Trentwell! Mas é claro! Assustado, Thorn sentou-se também, indagando: — Mas o que houve, minha querida? — Nada, nada... apenas imaginei um lugar onde poderíamos interceptar Oliver e sua irmã: Trentwell! Tenho certeza de que meu sobrinho não passaria tão perto de lá sem parar por algum tempo. — Acha mesmo? Que bom! — Mas ele não parecia estar tão animado quanto deveria com a nova perspectiva. Felicity imaginava que talvez fosse o sono que o acometia que o deixava assim tão pouco ansioso. — E onde fica Trentwell? Quanto tempo levaríamos para chegar lá? — Fica em Staffordshire. — Felicity podia rever as viagens entre Bath e Trentwell, feitas tantas vezes em seu passado. — Se sairmos daqui amanhã bem cedo, e se nada nos atrasar pelo caminho, poderemos chegar antes do anoitecer. — A idéia de poder estar em sua casa agradava-lhe sobremaneira. — Bem, nós não conseguimos encontrá-los em Newport e nem em Gloucester — Thorn observou, voltando a deitar-se. — Vamos torcer para que, da terceira vez, tenhamos mais sorte.

— Sabem muito bem o que se diz: a terceira vez sempre costuma dar sorte! —


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Thorn tentava imprimir um certo ar de alegria ao falar aos criados de Felicity. Olhava para o cocheiro e para Ned sorrindo, mas ainda sonolento. Afinal, o dia acabara de clarear. — É verdade, senhor — concordou o sr. Hixon, lançando um olhar rápido para Ned. — Então, vamos seguir sem parar até Trentwell? Thorn assentiu e acrescentou, procurando ignorar as expressões um tanto preocupadas que havia no rosto dos criados: — Vamos ter que parar para trocar os cavalos, é claro, bem como para comermos alguma coisa. — Então, é melhor nos colocarmos a caminho. — O cocheiro colocou o chapéu de três bicos e virou-se para a carruagem. — A distância até Trentwell não é tão pequena! — É, imagino que não. E sei também que vocês dois passaram boa parte da noite atrás de minha irmã e do sr. Armitage. Sinto muito pelas horas de sono que perderam. Felicity saiu da hospedaria. Parecia cansada, pois não dormira muito bem o resto da noite. Pretendia fazê-lo um pouco durante a viagem. — Talvez eu possa guiar a carruagem durante algum tempo esta tarde, para que vocês dois durmam um pouco. O que acham? — Thorn ofereceu aos criados. — Muito obrigado pela oferta, senhor — agradeceu o cocheiro —, mas eu não poderia aceitar. Fique tranquilo, estou bem. — Deixe disso, homem — Thorn insistiu, ignorando o olhar que Felicity lhe lançava. — Nós todos vimos muito bem o que acontece a alguém que guia um cavalo quando não está em seu completo domínio de suas habilidades. Tenho certeza de que lady Lyte não gostaria nada de ver sua bela carruagem caindo dentro de algum rio por aí. — É claro que não — Felicity resmungou, à espera do desfecho daquela conversa. — Pois então! Estão vendo? — Thorn sorria. — Sua patroa está praticamente ordenando que acatem a minha sugestão! E vocês dois nos estariam fazendo uni favor ao trocarem de lugar conosco e deixar que possamos aspirar um pouco de ar puro, de cima da boléia. O sr. Hixon ergueu as sobrancelhas, mas, diante da maneira como as coisas estavam sendo colocadas, concordou: — Se prefere assim, senhor... — E subiu para a boléia enquanto Ned abria a porta da carruagem para Thorn e Felicity entrassem. Já estavam a meio caminho de Tewkesbury quando ela decidiu tocar no assunto: — Mas o que foi que deu em você quando partimos?! Por que ofereceu trocar de lugar com os meus criados para que eles possam dormir no meio da viagem?! Jamais ouvi algo tão... ridículo!


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— Não vejo nada de ridículo no que propus, Felicity. Esses dois homens salvaram a minha vida. Não é porque são criados que não merecem certa consideração. Thorn percebia que se inflamava ao falar e imaginava por que isso seria tão importante para si mesmo. Devia ser algo além do fato de ter sido salvo por aqueles homens. Talvez fosse porque via as pessoas pelo que elas eram, valorizava-as como seres humanos, e não pelo que possuíam ou pela profissão que exerciam. Olhou para Felicity com seriedade e prosseguiu, mantendo o tom de voz baixo: — Quando não se pode mais manter tantos empregados quanto se estava acostumado a ter, aprende-se logo a apreciar tudo o que eles fazem por você. Acho que não nos fará mal algum seguirmos na parte de cima da carruagem por alguns quilômetros num dia de primavera tão agradável quanto hoje. Felicity entendia o que ele estava dizendo, percebia até mesmo o significado mais profundo que havia por trás de suas palavras. — É... Não vai ser tão ruim assim — concordou, vendo o rosto de Thorn abrir-se num sorriso. — Será divertido, você vai ver — ele prometeu. Ela ergueu as sobrancelhas, não muito certa de que seria tão bom assim, e impôs: — Está certo, então, mas com uma condição! — E qual seria? — Quero saber mais sobre Barnhill, a respeito da sua infância lá com suas irmãs e sobre os verões nos quais Merritt Temple esteve com vocês, nas férias escolares. — Oh, mas essa condição é fácil de aceitar! — Ele se recostou no assento e esticou as longas pernas. —. Vou ter muito prazer em falar-lhe a respeito, embora deva avisá-la de que não sou tão bom contador de histórias quanto Ivy. — Ah, mas a minha condição não termina aí! — Felicity também acomodou-se melhor para ouvi-lo. — Quero saber todos os detalhes sobre o reencontro de Rosemary com seu marido, em especial sobre a ajuda que você e Ivy deram para que eles chegassem ao altar. — Está certo. Vou lhe contar tudo, então. O pedido de Felicity fazia-o pensar e, antes mesmo de pensar, já estava dizendo: — Talvez eu seja como aquela odalisca em As Mil e Uma Noites. Você vai me manter por perto enquanto eu estiver contando belas histórias... A expressão de Felicity mudou, e Thorn desejou não ter feito aquela brincadeira, muito embora tivesse descrito boa parte de seus sentimentos. Os lindos olhos verdes dela mostravam uma mistura de apreensão e intensidade que ele não entendia muito bem.


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E, antes que Thorn pudesse dizer alguma coisa para desculpar-se, Felicity o confundiu ainda mais com um belo sorriso e um murmúrio: — Quem sabe? Talvez eu queira mantê-lo assim, perto de mim... Sem saber ao certo se ela falava a sério ou não, Thorn apenas sorriu de leve. — Acho melhor eu começar, então, certo? — indagou. — Bem, vejamos... O que posso lhe dizer sobre Barnhill? É uma propriedade muito antiga, mas não enorme, eu acho. E os Greenwood têm morado lá desde tempos imemoriais. Há um belo bosque ao redor, com árvores altas, centenárias, e um riacho. Se continuasse nesse ritmo de descrição, Felicity logo estaria dormindo, em vez de incitá-la a mantê-lo em sua companhia. E vasculhou sua mente em busca de alguma curiosidade sobre Barnhill que pudesse atiçar o interesse dela. — O riacho é muito límpido e de águas frias. Desemboca no rio Ouse. Quando Merritt vinha para passar as férias de verão, costumávamos pescar e nadar nele. Certa vez, Ivy convenceu Rosemary a nos espionar. Queria saber se usávamos nossas ceroulas enquanto nadávamos. — E vocês usavam? — Felicity, de fato, se interessava. — É claro que não! E minha irmã acabou pagando por sua curiosidade quando se esticou demais para nos observar e acabou caindo no riacho. — Thorn começou a rir ao se lembrar do fato. — Se conhecesse Rosemary, Felicity! Ainda mais do jeito que ela era naquela época! — Ele meneou a cabeça e explicou: — Toda bonita e elegante! Isso para não mencionar seu senso de dignidade. Queria que a tivesse visto, batendo os braços, desesperada, dentro da água, angustiada, pensando que iria se afogar. — Oh, pobrezinha! — ela comentou, vendo-o rir sem parar. — Rosemary não se machucou? — Talvez um pouco, mas apenas em sua vaidade Em especial porque seus cabelos ficaram desmanchados, colados à cabeça, e seu lindo vestido cheio de laços ficou encharcado! Nem sei como eu e Merritt não nos afogamos de tanto rir! Mas as nossas risadas acabaram por nos afundar ainda mais na água. Rosemary não poderia ter se afogado porque bastava ficar em pé para poder sair tranquilamente do riacho. Mas ela ficou sem falar conosco por mais de uma semana. Mal nos via, erguia o nariz no ar e dava-nos as costas. — Ah, pois eu ficaria um mês sem olhar para vocês! — Felicity exclamou, embora parecesse mais divertida do que indignada com a história. — O que mais vocês faziam para se divertir nas férias, além de nadar nus no riacho e rir do infortúnio de sua pobre irmã? — Bem, vejamos... — Thorn pensava. Seus olhos ainda estavam marejados de tanto que rira. — Jogávamos bola, golfe, tênis. Eu e Ivy sempre jogávamos contra Merritt e Rosemary. Às vezes fazíamos uma cesta de comida e bebida e seguíamos para um piquenique no bosque. Costumávamos colher amoras. Também jogávamos cartas,


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xadrez, em especial quando os dias estavam chuvosos. Outras vezes nos enrodilhávamos nos sofás para ler bons livros. Costumávamos ler em voz alta as partes de que mais gostávamos, para que todos pudessem partilhar a boa literatura ou cenas divertidas de romances que tínhamos em casa. — Thorn interrompeu-se e a olhou. — Parece tedioso para você? Felicity negou rapidamente com a cabeça. — De forma alguma! Eu teria dado qualquer coisa para fazer parte dessas atividades quando era adolescente. Diga-me: vocês nunca iam a festas? — Ah, muito raramente. Apenas quando as garotas conseguiam nos convencer a acompanhá-las ao clube local. Lembro-me de uma ocasião em que sir Edward Faversham deu uma grande festa em Heartsease. — Heartsease? — É. Uma propriedade imensa não muito longe de Barnhill. Depois que sir Edward morreu, o lugar foi assumido por um parente seu muito distante, que logo colocou tudo à venda. Thorn pareceu entristecer-se. Pensava na raiva que sentira ao ver aquele belo lugar sendo tão pouco considerado na época. Mesmo quando Merritt Temple voltara e comprara Heartsease, ficara em sua mente aquela vaga impressão de que era ainda muito triste saber que aquela linda propriedade acabara saindo da família Faversham porque não havia herdeiros para assumi-la. E, como em outras vezes em que pensara no assunto, ocorreu-lhe que o mesmo poderia acontecer a Barnhill se ele não tivesse filhos...

CAPÍTULO XII

— Há uma coisa que ainda não entendo — disse Felicity, momentos depois de ela e Thorn terem trocado de lugar com seus criados, na boléia. — Como seu cunhado conseguiu tornar-se proprietário de um lugar tão grande quanto Heartsease? Parece-me que você disse que ele não tinha fortuna... — Não tinha, de fato, quando éramos adolescentes. — Thorn mantinha sua atenção voltada para os cavalos e a estrada que se abria à sua frente. — Pelo menos, não muito. Mas possuía o suficiente para conseguir pagar a escola e ainda sobrar um pouco. Porém meu grande amigo voltou da Espanha, onde viveu durante algum tempo ao lado do general Wellington, como um grande herói. E, como resultado da fama que


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conquistou como soldado, acabou chamando a atenção de... — Ele se interrompeu. Felicity olhou-o, estranhando a interrupção da narrativa. Mas logo entendeu. — Chamou a atenção de uma mulher muito rica — ela completou por ele. — Seu amigo se casou com urna herdeira muito rica. Thorn assentiu. — Que pena — Felicity comentou. Sentia o estômago apertar. — Eu estava gostando desse sr. Temple... até agora. — Merritt não se casou com essa mulher por causa dinheiro dela — Thorn explicou. — Não é como está pensando, Felicity. — Ele a amava. Bem, pelo menos, achava que sim. A princípio. Uma carruagem dos correios os alcançou nesse instante, e parecia estar atrasada, pois o cocheiro não poupava os animais, seguindo a toda velocidade. Dois rapazes, que ocupavam os locais mais baratos do lado de fora do veículo, olharam com certa curiosidade para Felicity, já que ela, uma dama, estava sentada no local onde deveria estar o acompanhante do cocheiro. E ela quase não pôde resistir à tentação de mostrar a língua a eles. Quando, por fim, a carruagem dos correios se distanciou o suficiente para que não precisasse gritar para ser ouvida, Felicity observou: — Pelo que parece, a primeira esposa de seu cunhado não estava à altura das expectativas dele. Quando o amor desaparecia num casamento, nenhuma quantia em dinheiro conseguia ser um bom remédio. Felicity sabia que, diferentemente da primeira esposa de Merritt Temple, ela, pelo menos, sobrevivera ao seu casamento para levar uma vida independente. A idéia de morrer e não ter sua perda lastimada pelo marido, e, além disso, saber que ele poderia estar gastando sua fortuna para atrair uma segunda esposa, fez com que Felicity se sentisse ainda mais indignada. Por isso preferiu guardar silêncio, a fim de que a história que Thorn acabara de lhe contar não servisse de pretexto para enveredarem numa discussão. Minutos depois, porém, ele falou novamente: — A verdade é que Merritt não estava à altura das expectativas da esposa. Nunca o ouvi dizer uma só palavra que fosse contra a primeira sra. Temple, mas Rosemary acabou por revelar alguma coisa, certa vez E conheço meu amigo muito bem para saber que seu primeiro casamento não deve ter sido nada fácil. — E como acha que foi esse casamento? — Felicity quis saber, sentindo que seu tom era mais agudo do que pretendia. Thorn deu de ombros e olhou-a por instantes. Então explicou: — Parece-me que aquela senhora achava que havia comprado Merritt. Pela fama


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que ele tinha, suponho, ou, talvez, por sua boa aparência. Embora tenha tido uma infância e adolescência difíceis, Merritt tornou-se um homem muito atraente. E sua esposa, provavelmente, achava-se no direito de dar-lhe ordens como se ele fosse um seu criado. Mesmo se Thorn a tivesse golpeado com o chicote, que ele não usara uma única vez com os cavalos, Felicity não se sentiria tão atingida quanto por aquelas palavras. Jamais tratara Percy da forma que a primeira esposa de Merritt Temple fizera com o marido. Pelo menos achava que não. E imaginava se Thorn estaria achando que ela poderia tratá-lo dessa forma caso ele fosse tolo o suficiente para desposá-la. Puxou o casaco mais sobre os ombros, como para se proteger dos próprios pensamentos, e olhou para a paisagem que parecia correr ao longo da estrada. Ali estavam os limites de Shropshire, Worcestershire e Staffordshire, misturando-se de forma estranha e interessante. Uma mistura de divisas tão inquietante quanto suas próprias emoções, avaliou. — Uma diferença muito grande na conta bancária pode estragar um casamento — comentou. E não sabia ao certo se estava tentando desculpar suas atitudes passadas ou acautelar a si mesma e a Thorn quanto a flertar com ilusões perigosas de felicidade. Mais uma vez, um pesado silêncio caiu entre ambos, e foi Thorn, novamente, quem o quebrou: — Merritt disse quase a mesma coisa a Rosemary quando voltou pela primeira vez a Lathbury com seu filhinho, depois da morte da esposa. Tais palavras foram seguidas por um breve sorriso de Thorn, o qual Felicity estranhou. Ouviu-o prosseguir, ainda rindo: — Meu pobre amigo quase arruinou suas chances com minha irmã naquele momento. Não fazia idéia de quanto nossa fortuna fora diminuída naqueles últimos anos, e Rosemary era orgulhosa demais para dizer-lhe a verdade. E, quando, por fim, ele acabou descobrindo, imaginou o pior: que Rosemary nada lhe dissera porque estava atrás do seu dinheiro! — Oh, que horror! — Felicity exclamou, achando todo esse assunto sobre dinheiro simplesmente horrível. Mas seu coração era solidário para com Merritt e Rosemary e o amor profundo que parecia uni-los. Se estivesse no lugar de qualquer um deles, ponderava, teria agido e pensado da mesma forma. — Não é um bom negócio guardar segredos — Thorn observou, sério. — Em especial quando escondemos algo da pessoa amada. De alguma forma, aquilo que estamos tentando esconder acaba por vir à tona nos piores momentos possíveis! E isso torna a situação ainda pior do que antes. Felicity sentiu como se todo o ar tivesse sido drenado de seus pulmões. E, por uma fração de segundo, imaginou que poderia até cair da boléia da carruagem. Como


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Thorn reagiria se soubesse que ela estava escondendo dele algo tão importante?!, perguntou-se, aflita Não era difícil de imaginar a resposta. Ele a detestaria por não lhe ter contado e nada o impediria de insistir mesmo assim, para que se casassem, apenas por responsabilidade e senso de dever. E isso não seria uma boa base para um relacionamento duradouro, como não fora a troca de fama e riqueza entre Merritt Temple e sua primeira esposa. Algum sinal de seu desassossego devia ter surgido em seu rosto ou em sua atitude, pois Thorn segurou as rédeas com uma só mão e passou o outro braço por seus ombros, atento, carinhoso. — Algo errado, meu amor? Já ouvi dizer que a velocidade e o movimento da carruagem podem deixar as pessoas zonzas, em especial aqui em cima. Quer que eu pare para que troquemos de lugar com o sr. Hixon novamente? — Não, não... estou bem — ela assegurou, tentando parecer sincera. — É que imaginei que deve ter sido terrível para o sr. Temple e sua irmã... Como tudo se resolveu, afinal? — Para dizer a verdade, eu dei uma ajudazinha. — Thorn reduziu a velocidade dos cavalos, já que estavam se aproximando de uma pequena aldeia. — Foi uma pequena armação, sabe? — Ele parecia orgulhoso do que fizera. — Eu sabia que nem o meu amigo nem minha irmã poderiam suportar a idéia de que ela poderia estar interessada nele por sua fortuna. Assim, sugeri que ele dissesse que havia perdido tudo o que possuía em maus investimentos. — Ah, mas isso foi um truque baixo! — Havia uma semana, Felicity não acreditaria que Thorn fosse capaz de criar uma mentira desse tipo, mesmo que para ajudar alguém. Mas, desde a noite em que ele invadira sua casa em busca de Ivy, mostrara-se um homem de características ocultas e sempre muito agradáveis... — E sua irmã acreditou nessa história? — quis saber. — E por que não acreditaria, depois do que havia acontecido a nosso próprio pai? Como eu esperava, a perda da fortuna de Merritt, mesmo sendo uma grande mentira, não abalou os sentimentos de Rosemary por ele. E se casaram pouco depois, são felizes até hoje, sabe? Muito felizes. Eu seria até capaz de invejá-los se não os amasse tanto. Felicity sorriu, percebendo a sinceridade dele. — E o que Rosemary disse quando descobriu que seu marido tinha mentido sobre a perda da fortuna? — perguntou. — Afinal, essa mentira não foi tão ruim quanto o fato de ela ter escondido que seu pai tinha perdido tudo, não é mesmo? — Talvez não. — Thorn pensou por instantes, depois acrescentou: — Mas acho que Rosemary entendeu que aquela mentira serviu apenas para torná-los muito felizes e foi capaz de perdoar tudo. — Thorn sorriu de teve, depois disse ainda: — Ou talvez ele apenas lhe tenha contado tudo após fazerem amor em sua noite de núpcias... — Oh, verdade? — Felicity riu também, mesmo sentindo certa inquietação.


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Poderia perdoar qualquer coisa a Thorn caso ele lhe contasse o que acontecera depois de terem se amado?, indagava-se, sem saber qual poderia ser a resposta. E, apenas por brincadeira, perguntou: — E se eu lhe dissesse que perdi a minha fortuna? Thorn riu abertamente. Mas, depois de pensar por alguns segundos, respondeu, sincero: — Eu lhe diria o que Rosemary disse a Merritt. Não faria diferença alguma para mim se você fosse rica ou pobre. Felicity gostaria de poder acreditar. Mas aquilo tudo não passava de uma conjectura. — Espere — ele acrescentou logo em seguida. —Acho que faria certa diferença, sim. Porque eu preferiria ter você sem fortuna alguma, sabe? Porque, assim, você poderia ter certeza de que os meus sentimentos são verdadeiros, e não haveria nenhum comentário detestável sobre eu a querer pelo seu dinheiro, muito menos sobre você querer comprar um marido. Com aquelas palavras, ele fazia a calamidade da perda de sua fortuna parecer uma bênção, Felicity avaliou, pensativa. A não ser pelo fato de que isso também significaria a perda de sua independência tão duramente conseguida. E ela jamais desistiria da liberdade que conquistara. — E se eu lhe dissesse que o fato de eu não poder ter filhos foi apenas um engano e que sou perfeitamente capaz de engravidar? — perguntou, de repente, arriscando muito mais do que estava pronta a ouvir. Desejou não ter feito aquela pergunta, mas já era tarde. Assim, insistiu: — Isso faria alguma diferença para você, Thorn? Felicity prendia a respiração, na ansiedade de ouvir a resposta. Se ao menos isso não significasse tanto para seu coração! — Eu gostaria de poder lhe dizer que não, minha querida. — Ele apertou o braço que ainda a prendia, depois soltou-a para segurar as rédeas com ambas as mãos outra vez. — Mas acho que isso, sim, faria uma grande diferença. Para Felicity, foi como se seu coração tivesse caído por entre as rodas da carruagem e sido esmigalhado por elas. Estava muito bem para Thorn falar sobre guardar segredos, mas sua consciência pesava ao ouvi-lo. Mesmo deixando de lado aquela detestável questão do dinheiro, jamais poderia se casar com um homem que a visse apenas como uma égua parideira. Mesmo tendo o filho desse homem crescendo em seu ventre naquele exato momento...

Ele a ferira profundamente. Mas ela não se deixava dobrar. Ao contrário, tinha no


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rosto uma máscara de puro divertimento ao continuar a conversa com uma trivialidade que deixava Thorn admirado, imaginando que ele poderia estar conversando com qualquer amigo despreocupado, irresponsável até, como Weston St. Just. No começo da tarde, pararam em Wolverhampton Para cuidar dos cavalos. Depois o sr. Hixon e Ned reassumiram seus lugares na boléia, parecendo bastam recuperados por terem podido dormir por algumas horas. Thorn e Felicity voltaram para dentro da carruagem, usufruindo novamente o conforto e a privacidade de seu interior durante a última parte da viagem até Trentwell. Thorn começou a contar outra história sobre as escapadas que ele, Ivy, Rosemary e Merritt tinham feito naqueles verões passados em Barnhill, mas Felicity logo mudara o assunto para algumas trivialidades da vida social em Bath. E ele percebeu que estava sendo forçado a ficar novamente a certa distância dela; era como se tivesse cometido o grave erro de querer, de alguma forma, ficar próximo demais. E, mesmo rindo com o que ela dizia, sentia-se ferido. Aos poucos, porém, passou a prestar menos atenção ao que Felicity dizia, e só assentia e sorria de vez em quando, quando lhe parecia que era isso que ela estava esperando de sua parte. Preferia olhá-la, maravilhar-se uma vez mais diante da beleza daqueles olhos tão verdes, daqueles cabelos escuros, daquela pele clara, daquela boca sensual, rosada. Gostava de ouvi-la falar, de vê-la mover a cabeça e as mãos para enfatizar o que estava contando. Sentia-a agradavelmente familiar, uma intimidade que crescera naquelas últimas semanas que ambos haviam partilhado. Também sentia uma ponta dolorida de tristeza ao lembrar-se de que logo teriam de se separar, e que aqueles momentos todos se tornariam meras recordações suaves para o futuro. Uma semana antes, no entanto, a atitude de Felicity poderia tê-lo enganado. Mas o tempo e as confidencias que haviam partilhado desde muito antes daquela viagem tinham-no presenteado com uma visão interior muito mais intensa de Felicity. O que ele dissera sobre sua esterilidade fazer diferença no relacionamento de ambos a tocara fundo, tinha certeza. Ela estava magoada. E agora criava uma espécie de divertimento para disfarçar seus sentimentos feridos. Não podia arriscar que ele lhe desse outro golpe tão dolorido. E Thorn indagava-se se estava assim tão errado por ter dito a verdade. Um outro homem poderia ter sido diplomático e teria encontrado uma evasiva ou uma mentira que a mantivesse calma. Mas Thorn nunca fora muito bom em enganar. Além do mais, amava Felicity demais para dizer-lhe qualquer outra coisa que não fosse a verdade. Queria ter seus próprios filhos, não para ter simplesmente herdeiros em uma dinastia de tradição, ou para levar adiante o nome da família Greenwood, mas porque gostava de crianças, queria ter as suas, amá-las, criá-las com carinho e compreensão. Queria poder ensinar tudo o que sabia e dar a seus filhos as oportunidades que ele nunca tivera. Conseguira dar uma boa educação a suas irmãs e achava que poderia


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fazer ainda melhor com seus próprios filhos, pois neste caso abraçaria a responsabilidade que teria com eles desde o momento em que chegassem ao mundo. Antes até, por vontade própria, e não porque o destino lhe colocasse nas mãos a incumbência de educar alguém. E estaria pronto para ser o provedor e educador, o pai carinhoso, sempre presente, que o seu próprio nunca fora. Se tivesse a mais vaga chance de trocar toda a fortuna de Felicity pela oportunidade de ter filhos com ela, sabia que aceitaria de imediato, sem pensar duas vezes. Mas, infelizmente, algumas coisas na vida eram preciosas demais para poder ser compradas. — Imaginei que a minha história fosse divertida — Felicity comentou, em tom de queixa. — Talvez eu não a tenha contado muito bem, pois você está sério e pensativo. — Não, não. Não se trata disso. — Thorn não queria magoá-la de forma alguma. Mas nem se lembrava do que ela estivera dizendo nos últimos minutos. — Você sempre tem um jeito todo especial de contar fatos. — É mesmo? Por quê, então, essa expressão apreensiva em seu rosto? Thorn ergueu os ombros, sem saber como explicar. Por fim, declarou: — Acho que não tenho sua habilidade para esconder meus reais sentimentos, Felicity. — Esconder? — Ela deixou de lado o sorriso e abriu mais os olhos. Mau sinal, ele sabia. Estava irritada. — Não faço idéia do que esteja falando! Mas Thorn queria levar adiante o assunto que começara; então rebateu, sério: — Faz, sim. — E inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, para olhá-la mais de perto e fazer com que o brilho de seus incríveis olhos castanhos mergulhasse nos dela. — Mas talvez eu não devesse estar mencionando o fato, certo? Não é uma atitude, digamos... política de minha parte. Eu não diria que estou apreensivo, como você observou, mas apenas um tanto arrependido. — Ah, arrependimentos... — Felicity comentou, mordendo o lábio inferior e olhando-o com ar caprichoso. Em seu tom de voz, agora, havia seriedade, e ela deixou de lado a máscara que, de fato, estivera usando até o momento. — E quem não os tem? — Você se arrepende, não? De haver se envolvido com um sujeito sem dinheiro e aborrecido como eu, que se recusa a manter uma distância respeitável de você, que a sufoca com a sua presença, e que não sabe reconhecer quando um romance chegou ao fim. Felicity sentiu-se atingida por aquelas palavras. Porque não era isso o que pensava dele, mas fora o que lhe dissera para conseguir que Thorn se afastasse de seu caminho. E, num esforço, tentou sorrir e usar a máscara novamente. No entanto, diante dos olhos dele, sentia-se como um livro aberto, no qual ele podia ler nas entrelinhas. — Jamais me arrependerei do que vivemos juntos, Thorn — declarou, por fim,


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sem conseguir fingir. E estendeu as mãos para tocar as dele. — Mas eu me arrependo do que lhe disse ontem à noite, e muito mais se lhe dei a impressão de que não quero estar mais em sua companhia. Aquele carinho tão singular nas mãos dele mostrava a Thorn que ela estava sendo sincera, que se encontrava diante da verdade dolorida que a ferira, como a ele próprio. — Eu não o culparia por arrepender-se de se envolver com uma herdeira mimada e caprichosa, egoísta demais para se importar com os sentimentos alheios. — Felicity completou, num murmúrio. — Você não é egoísta — ele discordou. — O que faz é agir em defesa própria, nada mais. — Acha mesmo? — O olhar dela, suave, terno, fazia-o querer tomá-la em seus braços. — Talvez sim. Porque desde que me entendi como gente, eu sempre tive de me proteger sozinha. — Felicity baixou a voz até torná-la um sussurro, como se o teor do que estava dizendo a assombrasse de alguma forma. — E, muitas vezes, até mesmo daqueles que estavam mais próximos a mim. — Jamais de mim, Felicity. Ela retirou suas mãos das dele abruptamente, rindo de leve, num tom que o lembrava do vento frio do inverno passando por delicados desenhos de gelo nos ramos das árvores. E ouviu-a afirmar, fria: — De você, principalmente, Thorn Greenwood. Porque você me entende bem demais, e isso o torna muito próximo. Demasiado. E é mais difícil me proteger assim. E você insiste em fazer com que eu me importe a cada dia mais com a sua presença, com o seu carinho... Faz com que eu me apegue a você, o que não quero. Tal declaração deixou-o calado por momentos, tomado de surpresa. Felicity continuou falando, vendo a expressão de assombro que surgia no rosto de Thorn, fazendo-o recostar-se muito lentamente no banco: — Não me arrependo do que partilhamos, Thorn. Mas temo vir a arrepender-me demais se não for cuidadosa. Ele ia responder, porém a carruagem dobrou subitamente à direita, chamando-lhe a atenção para a estrada lá fora. — Estamos tomando a estrada que vai para Trentwell — Felicity explicou, retomando a compostura superficial de lady Lyte. — Mais meia hora e estaremos vendo a casa, imagino. — Olhou pela janela, talvez para se distrair ou para recompor-se da conversa tensa que estavam tendo. — Está vendo aquele grupo de árvores lá adiante? Faz parte de Cannock Chase. Percy costumava ir caçar ali com frequência. Thorn lançou um olhar despreocupado na direção que ela apontava, vendo que, por trás das árvores, fechava-se um bosque. Tentava lembrar-se de algo que Weston St. Just lhe dissera pouco depois de lhe apresentar Felicity, tempos antes, algo que se


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referia ao fato de Percy Lyte ter morrido durante uma caçada. Imaginava agora se o marido de Felicity teria morrido ali, em Cannock Chase. — Ah, estou tão ansiosa por dormir na minha própria cama esta noite! — Ela se espreguiçava e bocejava como uma criança. — Isso para não falar em todas as outras doces amenidades de uma casa bem administrada. Thorn apenas assentiu. Não tinha dúvidas de que a cama de Felicity devia ser simplesmente exuberante, luxuosa. Mas nenhuma cama poderia ser para ele o que fora aquela simples da hospedaria na noite anterior, onde vivera intensos, maravilhosos momentos com Felicity. No entanto, se pudesse, em qualquer outro lugar, ter Felicity novamente entre seus braços, esse lugar seria, da mesma forma, magnífico em sua opinião. — Você e sua irmã são bem-vindos para ficar em minha casa por alguns dias antes de voltarem a Bath — ela ofereceu, num sorriso. Mas seus olhos ainda estavam presos a Cannock Chase. — E pode levar minha outra carruagem em sua viagem de volta. Felicity queria livrar-se dele e, ao que parecia, quanto antes, melhor. Thorn entendia. Mas em sua mente ainda perdurava a admissão que ela fizera havia pouco sobre o que sentia, sobre o esforço que fazia para não se afeiçoar demais a ele. E ela sempre falara com tanta naturalidade sobre o momento em que teriam de se separar! Era muito mais fácil imaginar que estivesse cansada da sua companhia, e não que temesse gostar demais dele. — Você e seu sobrinho não vão voltar a Bath?— Thorn indagou. — Poderíamos viajar todos juntos. Felicity franziu o nariz, como se não gostasse da idéia. — Ah, seria muito... esquisito. Além do mais, a temporada já está quase no fim e acho que vou preferir ficar em Trentwell. Estava ainda mais claro, ponderava Thorn, que ela não queria arriscar encontrá-lo em alguma das últimas recepções dadas em Sydney Gardens ou em outro salão de bailes qualquer. Mas tentava não demonstrar sua tristeza com isso. — Bem... nesse caso, se encontrarmos Ivy e seu sobrinho em Trentwell, imagino que seria muito melhor para todos nós se eu e minha irmã partíssemos imediatamente de volta para Bath. Se tivermos sorte, poderemos chegar a Wolverhampton bem antes do anoitecer. Fosse o que fosse que Felicity estava pensando, Thorn teve a nítida impressão de que ela empalidecia. Por isso achou melhor explicar-se: — Já que os dois conseguiram nos ludibriar por duas vezes, imagino que seria possível imaginar que eles poderiam escapar durante a noite, caso eu não levasse Ivy embora de pronto.


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— Entendo... — Obrigado por nos oferecer a carruagem. Mas eu prefiro voltar na que Oliver e Ivy estão usando agora. — Ele jamais aceitaria caridade de Felicity. — Poderemos não voltar a Bath e seguir diretamente para a nossa casa em Lathbury. Acho que Ivy estaria bem melhor sob a supervisão de Rosemary, e há menos possibilidade de haver comentários em Bath se ela não voltar para lá. Longe dos olhos, longe do coração, é o que se diz. — É um raciocínio sensato, esse seu — Felicity concordou. — Como sempre, aliás. Mesmo sabendo que ela estava sendo apenas gentil, Thorn ainda se ressentiu. Não queria ser sensato para ela. Queria ser seu amor, sua paixão. Parte de seu ser queria deixar de lado a sensatez e o respeito e todas essas outras virtudes tediosas pelas quais era famoso, mas não ousaria jamais arriscar ser como seu pai tinha sido. — Mas não é sensato falar sobre encontrarmos Ivy e Oliver em Trentwell com certeza. — Thorn observou ainda. Sabia que soava sério demais, mas não se importava. — Acho que precisamos planejar uma saída para o caso de eles não terem chegado, ou, pior ainda, para o caso de já terem alcançado Trentwell e partido antes da nossa chegada. Bem no fundo de seu coração, Thorn imaginava que, se ele e Felicity fossem forçados a seguir viagem juntos, talvez todos os obstáculos que se interpunham entre ambos desaparecessem como por encanto enquanto seguiam rumo ao norte. Vãs esperanças, ele sabia, mas ainda as tinha. — Isso não é possível! — Felicity exclamou. — Eles devem estar em Trentwell! Oliver jamais passaria tão perto de casa sem parar. Espero que ambos estejam tão ansiosos por uma boa refeição e descanso apropriado quanto nós estamos! Mais até, já que estão viajando durante a noite e alojando-se nas hospedarias mais baratas. — Espero que esteja certa, Felicity. Mesmo com todo o desconforto, a inconveniência, a correria e o tumulto dos últimos dias, Thorn preferia viver tudo de novo a afastar-se definitivamente dela. Oliver Armitage era esperto, analisava; se desconfiasse de que estava sendo seguido, e devia estar desconfiado, a casa de sua tia seria o último lugar em que pensaria para pernoitar. Assim, Thorn assegurava a si mesmo, conforme a belíssima mansão aparecia na distância, entre altas e esguias árvores, que poderia ter mais tempo para ficar junto de Felicity. A carruagem diminuiu a marcha consideravelmente ao entrar numa alameda larga, em cujos lados os elmos gigantes formavam uma espécie de cortejo natural, como sentinelas do tempo. Não era de admirar, ponderava Thorn, que Percy Lyte tivesse se obrigado a casar com uma das herdeiras mais ricas da Inglaterra a fim de poder conservar aquela mansão espetacular. A visão da casa era simplesmente assombrosa, com os detalhes em


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mármore, as fontes, os jardins impecáveis. Devia custar uma fortuna manter aquela beleza toda. A carruagem parou com suavidade diante do pórtico principal, que se elevava, suntuoso, em oito gigantes colunas. Thorn estava abismado. Percebeu seus lábios abertos, então fechou-os, sentindo-se um tolo. Um criado de meia-idade apareceu, vestido de forma impecável, e abriu a porta do veículo com elegância. — Lady Lyte, que adorável surpresa, senhora! — disse, com educação reservada e um sorriso calculado. — Obrigada, Dunstan — Felicity agradeceu, erguendo de leve a mão enluvada para aceitar a ajuda do criado e descer da carruagem. E indagou de imediato: — Diga-me, tem visto meu sobrinho nos últimos dias? "Não, não, não!" A palavra rebatia na mente de Thorn com uma insistência que chegou a irritá-lo. Mesmo com a magnificência daquela mansão diante de si, um obstáculo a mais a colocar-se entre ele e Felicity, agarrava-se à ridícula idéia de que poderiam permanecer mais alguns dias juntos, como se isso fosse fazer alguma diferença em seu romance próximo do fim. — O sr. Oliver? — Dunstan indagou, sem necessidade, num tom que deixou Thorn ainda mais ansioso. — Ah, sim, senhora! Ele chegou esta manhã em companhia de uma adorável senhorita. Imagino que os dois estejam, neste momento, dando um passeio pelos jardins em companhia do sr. Rupert. — Oh, que maravilha! — Felicity exclamou. — Estamos tão ansiosos por encontrálos! — Uma certa hesitação em sua voz parecia trair-lhe os verdadeiros sentimentos diante do fato. Mas Thorn achou que isso fosse apenas reflexo de sua própria decepção. E, sem esperar por mais nada, apeou também e deu alguns passos largos até a fonte mais próxima. Olhou ao redor, tentando divisar sua irmã, mas não viu ninguém. Então, olhou para os graciosos cisnes de mármore de cujos bicos saía um fio de água cristalina. Talvez não fosse o caso de Felicity imaginou, mas ele precisava de algum tempo e certo esforço para também criar uma máscara de indiferença e forçada alegria, por trás da qual esconder o desespero que, de fato, sentia.

CAPÍTULO XIII


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Por alguns segundos, as palavras de seu criado pareceram não fazer sentido a Felicity. Esperara, sim, encontrar Oliver e Ivy ali; havia tomado cuidado para afastar-se de Thorn nos últimos momentos daquela viagem, enquanto ainda tinha algum tipo de alternativa quanto a isso, porque imaginava que, ao reencontrar o sobrinho e Ivy, logo deveria separar-se de Thorn. E agora que lhe diziam que o casal estava caminhando calmamente pelos jardins de Trentwell, não sentia nem o alívio nem a satisfação que imaginara. — Assim que Oliver e a srta. Greenwood retornarem de seu passeio, mande avisar-me de imediato, sim, Dunstan? — recomendou — E diga ao chefe dos cavalariços que meu sobrinho não deve pegar nenhum dos cavalos sem minha permissão. — Nem mesmo os dois animais que ele trouxe na carruagem alugada, senhora? — Esses, em especial! — Felicity passou os olhos ao redor e viu Thorn diante dos cisnes da fonte. — Quero ser avisada de todos os passos de Oliver. — Como queira, senhora. — Dunstan afastou-se para certificar-se de que as ordens de sua patroa fossem, obedecidas à risca por todos os criados da casa. — Lady Lyte! — Ned chamou, descendo da carruagem. — Quer que eu leve as malas para dentro, senhora? Ela se voltou, com uma resposta afiada na ponta da língua. Era óbvio que a bagagem deveria ser levada para dentro, avaliou, irritada. Mesmo se não tivesse encontrado seu sobrinho em Trentwell, não deixaria sua casa para seguir novamente atrás dele, pelo menos não antes de ter duas boas refeições e uma noite de sono reparador. E, antes que pudesse dizer qualquer coisa a seu jovem criado, viu-o abafar um bocejo, tão cansado o pobre rapaz estava daquela viagem. E foi como se pudesse ouvir as palavras que Thorn lhe dissera antes, sugerindo que, apesar de serem criados, aquela gente merecia consideração de sua parte. Ela sorriu de leve, lembrando-se, ainda, de outras palavras de Thorn, agora referentes a Merritt Temple, dizendo que a primeira esposa dava-lhe ordens como se ele fosse um criado. Ergueu os olhos e viu que Ned aguardava pacientemente suas ordens. — Sim, eu gostaria que minhas malas fossem levadas para dentro, obrigada — murmurou. — E, assim que o fizer, você e o sr. Hixon podem ir até a cozinha e avisar Cook que eu quero que ela lhes prepare um bom bule de chá e torradas. Os dois criados se afastaram, levando a carruagem, sorrindo, satisfeitos. Era óbvio que as ordens de Felicity lhes tinham agradado sobremaneira. Assim que eles se foram com o veículo, Felicity voltou-se para a fonte, onde Thorn ainda estava, e seguiu até ele com passos calculados e atitude artificial. — São lindos, não são? — perguntou, olhando com orgulho para os magníficos cisnes. — O bisavô de Percy trouxe um famoso escultor da Itália para fazê-los.


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— É, de fato são maravilhosos — ele concordou, mas em tom um tanto alheio, como se seus pensamentos estivessem em outro assunto. E, numa vontade súbita de chamar-lhe por completo a atenção, Felicity pensou no que dizer, no que fazer, mas logo repreendeu-se, mantendo-se casual. — O escultor demorou a completar o trabalho — explicou, forçando um tom animado na voz, que ia contra o que sentia. — Foi ficando por aqui até que o avô de Percy ameaçou não pagá-lo pelo serviço, dizendo que ele já tinha recebido casa e comida suficientes para valer o que fizera. Pelo menos, foi essa a história que me contaram da primeira vez que vim a Trentwell. — Ela não conseguiu resistir à tentação de olhar para ver se Thorn agora prestava atenção às suas palavras. E animou-se quando viu que ele a olhava. — O que aconteceu então? — ele quis saber. — O escultor terminou o serviço? — Ele foi embora na manhã seguinte — Felicity revelou, saboreando o fim picante da história. — E levou a filha mais velha do dono da casa com ele... — Ah, entendo! — Thorn sorriu, malicioso. — Já ouvi dizer que muita gente paga verdadeiras fortunas por trabalhos de arte, mas... uma filha! Que preço alto, não? Felicity até podia imaginar o que acontecera. A moça e seu amante encontrandose às escondidas pelos cantos da propriedade, já que havia dezenas de lugares propícios a encontros amorosos por ali. E, sem querer começou a imaginar-se nos braços de Thorn nesses mesmos locais recônditos, tão especiais para quem se amasse muito. — Vamos entrar — sugeriu, para afastar tais pensamentos. — Podemos tomar um refresco enquanto esperamos por Oliver e Ivy. Eles não devem demorar em seu passeio pelos jardins. Mais imagens apareceram em sua mente e Felicity não conseguiu afastá-las. Era como se pudesse ver a tia-avó de Percy ansiosa, tensa, conforme chegava o dia em que seu amor teria de partir. Talvez ele lhe tivesse implorado que o seguisse de volta à Itália. E ela devia ter ficado absolutamente dividida. Deixaria a família e seguiria numa vida de incertezas com o seu amor? Trocaria as regalias do luxo e da riqueza pela liberdade e incerteza do futuro nos braços daquele artista? — Bem... lady Lyte... não vai entrar? Felicity sentiu-se arrepiar, despertando de seu devaneio, vendo que Thorn a esperava alguns passos à sua frente. — Claro... — murmurou, passando por ele e sentindo um pingo de chuva cair sobre seu ombro. — É melhor entrarmos, sim, antes que comece a chover. Cruzaram o piso de pedriscos e subiram para o pórtico enquanto Felicity retirava as luvas e o casaco, deixando-os nas mãos do criado que aguardava ao lado da porta principal. — Gostaria que eu mandasse alguém chamar o sr. Oliver e a moça, senhora? —


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indagou Dunstan. Ela hesitou. Sabia que deveria dar tal ordem, mas queria ter ainda alguns momentos de privacidade com Thorn antes que seu romance acabasse de uma vez. — Não há necessidade — disse apenas. — Tenho certeza de que eles voltarão logo que começar a chover. O criado assentiu, sem contestar a ordem, e acrescentou: — Gostaria de mais alguma coisa, senhora? — Sim, sim. Por favor, traga chá para mim e para o sr. Greenwood na Sala Rajah. — Sr. Greenwood? — estranhou Dunstan, mesmo sabendo que não deveria interferir em nada que dissesse respeito aos assuntos de sua patroa. — Sim. O sr. Greenwood é irmão da moça que chegou com meu sobrinho — Felicity explicou, mas num tom que deixava bem claro que não gostara da indagação. — Ah, Dunstan, diga a Cook que eu e o sr. Greenwood estamos famintos e que queremos um bom acompanhamento para o chá. O criado fez uma mesura, deixou o hall e desapareceu por trás da escadaria. Felicity, então, voltou-se para Thorn, que olhava ao redor, ainda maravilhado com o luxo que havia dentro da casa. Como ela, na primeira vez em que estivera ali, ele estava fascinado pela decoração elegante e de extremo bom gosto que havia em cada canto de Trentwell. Felicity voltou-se para um enorme quadro que pendia na parede oposta à escadaria e que retratava o Primeiro lorde Lyte. Ele parecia olhar para todos os que entravam na casa, com jeito majestoso, imponente. — Um tanto pedante, não acha? — comentou, num sorriso. — E gigantesco — Thorn acrescentou. — Sempre achei que Heartsease fosse uma propriedade majestosa, mas não é quase nada comparada a Trentwell. Quanta à minha pobre Barnhill, acho que cabem mais de doze delas aqui dentro, sobrando ainda muito espaço. — Pois acho que esse é o tamanho ideal para uma casa, sabe? — Ela o chamou até a ala sul da mansão — Não tenho bem certeza se alguém, de fato, possui uma propriedade como esta, tão grande. Na verdade a propriedade acaba possuindo seu dono... Mas Trentwell não a possuiria por muito mais tempo, analisava consigo mesma. Assim que o assunto com Oliver e Ivy estivesse resolvido, encontraria um comprador para a propriedade, depois seguiria para longe dali e compraria uma casa mais aconchegante no interior, onde poderia criar seu filho em paz. Num lugar bem distante da casa de Thorn, em Buckinghamshire. — Bem, e o que é exatamente a Sala Rajah? — ele indagou, seguindo-a por um


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longo e largo corredor onde havia mais retratos nas paredes, todos de ancestrais da família Lyte. Felicity parou diante de duas portas duplas. — Isto é a sala Rajah — explicou. — O bisavô de Percy fez sua fortuna por intermédio da Companhia das índias Orientais e, mais tarde, importou uma série de objetos curiosos de lá. Fora por isso que Felicity decidira tomar chá ali com Thorn. A sala fornecia combustível suficiente para uma conversa de horas de duração, evitando silêncios embaraçosos que precisavam de palavras que ela não estava disposta a proferir. E Thorn fez exatamente o que Felicity esperava, andando pela sala, fazendo todo tipo de perguntas impessoais sobre as peles de tigre penduradas pelas paredes e os sofás e a belíssima escrivaninha de ébano e adornada com estátuas de marfim que representavam deusas com numerosos braços e elefantes sagrados. — E quanto a esta cesta aqui no canto? — indagou ele aproximando-se do objeto. — Vejo que a trama é muito bem-feita, mas me parece uma peça modesta se comparada à riqueza das demais. — Ah, isso... — Felicity riu, começando a relaxar os nervos. Estava tão envolvida pela conversa que quase se esquecera de que, em breve, Thorn estaria fora de sua vida para sempre. — Diziam que o bisavô de Percy manteve uma cobra aí dentro durante anos, até o dia em que ela picou um dos criados encarregados de alimentá-la. Thorn deu um passo prudente para trás, afastando-se da cesta. — É, não há dúvidas de que Trenwell tem muitas histórias interessantes — comentou. E, antes que Felicity pudesse lhe contar mais algumas, um criado entrou trazendo a bandeja com o chá. E deixou-a sobre uma mesa de pedra sustentada por quatro elefantes de jade. Felicity sentiu a boca encher-se de água ao aspirar o aroma suave do chá e do bolo de baunilha. Por trás das portas duplas abertas, o movimento no corredor chamou-lhe a atenção. Pareceu-lhe ouvir passos apressados de homem. Sem perder tempo, ela passou pelo criado e chamou: — Oliver! Venha até aqui um instante, sim? O sr. Greenwood e eu temos algumas coisas para conversa com você! O rapaz parou abruptamente e depois voltou-se para a porta da sala. Por um longo momento, Felicity apena encarou-o, incapaz de reconhecê-lo. Aquele não era seu sobrinho! E estava com o rosto ferido! Havia três arranhões profundos em uma de suas faces e, na outra um inchaço deformava suas feições como se estivesse com uma inflamação dentária terrível. E o rapaz segurava sua mão esquerda com a direita, como se a primeira estivesse machucada também.


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— Rupert Norbury? — Felicity arriscou, surpresa e confusa. Aquele era o mais importuno dos rebentos de seu falecido marido, e jamais o vira num estado tão lastimável. — Mas o que aconteceu a você? — indagou, atônita. — E o que está fazendo em Trentwell? Não devia estar na Irlanda? Desde que o vira, ainda menino, dando voltas pela propriedade, para depois descobrir de quem se tratava, ou, pelo menos, quem todos acreditavam ser, essa era a primeira vez que o via tão ferido. — Bem... lady Lyte... também é estranha sua volta ao campo tão cedo... — Ele tentou sorrir, mas não conseguiu. E o olhar insistente de Felicity acabou por fazê-lo responder, um tanto embaraçado: — O que aconteceu comigo? É que... eu e um cavalo nos desentendemos, nada mais. Felicity sentiu a presença de Thorn logo atrás de si, e ele comentou, estranhando aquela história: — E os cavalos de Staffordshire têm garras? Porque, se assim for, terei sempre o cuidado de evitar me aproximar dos estábulos. O semblante do rapaz, já tão desfigurado, carregou-se ainda mais. — Acabei caindo entre uns galhos secos — explicou, tentando cobrir os arranhões em seu rosto com a mão que não estava ferida. Como sempre, estivera aprontando das suas, Felicity tinha certeza. Devia ter arranjado alguma briga com um dos criados e acabara machucado, sem querer contar a verdade por estar envergonhado da surra que levara. Ou talvez tivesse tomado liberdades com alguma moça e fora surrado pelo namorado dela ou por ela mesma, já que as garota locais eram fortes e valentes. E, com tantas emoções enchendo seu coração nesse dia, Felicity estava disposta a colocá-lo para fora de sua propriedade quanto antes. Mas sabia que havia coisas mais importantes a fazer primeiro. — Viu meu sobrinho, Oliver, por aí, acompanhado da moça que veio com ele de Bath? — quis saber. O jovem cafajeste estava ansioso por desviar o assunto de seus ferimentos, e respondeu, animado: — Ah, eu os vi, é claro! Seu sobrinho estava dizendo a ela que iria lhe mostrar um ninho de pombos e o jardim silvestre. — Ele moveu a cabeça em direção às janelas que davam para a parte externa da casa. — Imagino que só estarão de volta perto da hora do jantar. Mesmo sem entender por quê, Felicity sentiu seu coração se aliviar. Virou-se de leve para Thorn e comentou:


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— Oliver deve achar que desistimos de persegui-los e que regressamos a Bath. E, quando eles voltarem será tarde para você e Ivy saírem de viagem. Ele assentiu, pensativo, enquanto ela continuava. — Não precisa se preocupar. Oliver e Ivy não vã fugir no meio da noite. — Pelo canto dos olhos, Felicity viu Rupert afastar-se para ir cuidar de seus ferimentos — Vou colocar sentinelas do lado de fora dos quartos deles, se for necessário. Você merece pelo menos uma boa noite de sono antes de seguir para a sua casa. Assim, poderá partir pela manhã com sua irmã sentindo-se bem melhor. Será um bom começo para a viagem. Para ela, a manhã seguinte também seria um bom começo. Deveria estar feliz com isso, mas o estranho era que não estava... Enquanto observava o rapaz que desaparecia pelo corredor um tanto sorrateiramente, Thorn tentava entender a emoção forte que se apoderava de seu peito devido ao que acabara de ficar estabelecido. Iria ficar em Trentwell, junto de Felicity, por mais algum tempo! — Quem é esse sujeito? — perguntou, tentando ignorar o que sentia, mas percebendo que a presença de Rupert naquela casa era algo de, no mínimo, estranho. — E que direito ele tem de ficar entrando assim em sua casa como se fosse também dono do lugar? — Era estranho, porém em sua voz havia um tom de ciúme que só percebia agora. Felicity o encarou, surpresa por seu tom mais brusco do que o usual. — E que direito você tem de me perguntar isso de forma tão ríspida? — rebateu. — A presença de Rupert aqui não é da sua conta! Não, ele não tinha direito algum de perguntar, Thorn reconheceu. E esse era, exatamente, o grande problema. Percebeu que o criado que trouxera o chá retirava-se discretamente para a cozinha, então baixou a voz: — Imagino que seja da minha conta da mesma forma que foi da minha conta segui-la quando deixou Bath. Porque eu me preocupo com você. A expressão dela se suavizou com a explicação e, por instantes, Thorn chegou a pensar que Felicity fosse chorar. Se isso acontecesse, talvez completasse sua humilhação juntando-se a ela nas lágrimas. E apegou-se àquela espécie de raiva que estava sentindo para deixar de lado a sensibilidade aguçada. Não devia importar-se em magoar Felicity agora, ela já o dispensara uma vez antes, e ele sabia que logo estaria fora de sua vida de uma vez por todas. Assim, apontou para o lugar por onde o rapaz se fora e acusou: — Um bobo como aquele jamais lhe causaria problema algum, não é mesmo? Os olhos muito verdes de Felicity abriram-se mais, no ultraje que sentiu diante de tais palavras.


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— Ora, como ousa?! — murmurou, zangada, passou por ele e entrou novamente na sala. Thorn a seguiu e bateu a porta atrás de si. Podiam estar de novo naquela sala esquisita, cheia de ornamentos exóticos, mas a sua irritação só fazia aumentar. Felicity parou diante da lareira e sua expressão era, no mínimo, feroz, embora, curiosamente, vulnerável ao mesmo tempo. E tão linda que Thorn sentia seu peito doer ao imaginá-la nos braços de qualquer outro homem. — Como ousa questionar a companhia que eu venha a escolher? — desafiou ela, sem encará-lo. Mas parecia prestes a agarrar uma das peças da coleção de esquisitices da sala para arremessá-la contra a cabeça de Thorn. — Justamente você, que pode, a qualquer momento, escolher uma dessas virgenzinhas de boa família para casar-se com ela, enchê-la de filhos e constituir uma prole enorme para herdar sua inexistente fortuna! — E o que mais espera que eu faça? — ele retrucou brusco. — Quer que eu desista de qualquer chance de encontrar a felicidade no futuro para passar o resto de meus dias chorando por sua causa?! Sou um homem prático e nada romântico, Felicity! Você sabe muito bem disso. Passei minha vida inteira tentando fazer o melhor possível daquilo que o destino me entregou, e vou fazê-lo sempre! — Mas ele sabia que, fosse quem fosse a esposa que um dia viria a ter, e os filhos que teria com ela, sempre haveria um grande vazio em sua alma. Talvez tivesse chegado o momento de deixar de lado sua resignação, avaliou. Talvez devesse arriscar tudo, até mesmo seu coração, seu orgulho, numa última e desesperada tentativa de obter o que mais queria. Felicity ergueu os olhos para ele, sentindo que a armadura de indignação que criara para si mesma começava a fraquejar. — Você faz com que tudo pareça tão... frio... — queixou-se ela. Aquela palavra calou fundo em Thorn. Engoliu em seco e olhou-a profundamente para dizer, com voz bem mais baixa: — Uma vida sem você seria de fato fria, Felicity. E agora que conheço Trentwell, compreendo por que não consegue confiar num homem e acreditar que ele só a queira por seus encantos, embora eles sejam tantos. A resposta dela foi apenas um assentimento, que o fez desejar tomá-la nos braços ali mesmo e beijá-la com paixão. A princípio, apaixonara-se pela vivacidade e alegria que via nela. Mas o tempo lhe mostrara uma outra Felicity, que ele amava ainda mais: uma mulher vulnerável, que não tinha tanta confiança assim em si mesma, que procurava esconder suas fraquezas. E estava fascinado por ela. Mais do que nunca. Amava até suas imperfeições, porque cada uma delas a tornava mais acessível a um homem como ele. Felicity não protestou quando Thorn tomou-lhe as mãos. Mas seus dedos finos e delicados estavam trêmulos e frios nos dele.


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Por momentos, Thorn sentiu a voz presa na garganta e forçou-a a soar clara e firme: — Não há dúvidas de que seja ainda mais difícil você acreditar num homem que esteja em minha situação, mas, creia, é a verdade. Eu gosto de você, Felicity. Muito. Não me interessa sua fortuna nem a casa onde mora, nada... Quero apenas você. — Ele baixou a cabeça e beijou-lhe as mãos com suavidade. — Quero apenas seu toque, sua voz, seu sorriso. Felicity sorriu muito de leve. — Meu querido Thorn — sussurrou —, é claro que acredito em você e em seus sentimentos. Sei muito bem que a minha fortuna não lhe interessa. Nunca duvidei disso. Uma inesperada ponta de esperança surgiu no coração de Thorn, e foi com ansiedade que buscou os lábios dela para um beijo profundo. Mas a sentia relutante, mesmo quando aceitava seus lábios. No entanto a aceitação desse beijo, como ela costumava fazer, dominado pelo desejo, veio só depois de alguns instantes. E Thorn deixou-se levar pela intensa paixão que corria por suas veias e as aquecia. Tinham feito amor por duas vezes na noite anterior, mas ele sentia como se não a possuísse havia muito tempo. Não fosse pelo senso de pudor que Thorn tinha muito forte dentro de si, ele a teria deitado ali mesmo numa daquelas peles horríveis de tigre, e a possuído com toda a força que a paixão colocava em seu corpo. — Por favor, sejamos sensatos... — Felicity pediu afastando-se um pouco. — Não vamos tornar esta situação ainda pior do que já é. E não finja que a minha fortuna é a única coisa que se interpõe em nosso relacionamento. Thorn não se afastava. Pelo contrário, beijava-lhe o pescoço e os ombros com paixão crescente. — Estou cansado de ser sensato — ele confessou, sem voz. — Quero que seja tão difícil para nós nos separarmos que faremos qualquer coisa para ficarmos juntos. Qualquer coisa! Não me importa o que há entre nós. Não suporto a idéia de que possa haver outro homem em sua vida. E não consigo imaginar minha vida sem você. É simples, não? Felicity afastou-se ainda uma vez, olhando-o. Havia um brilho intenso em seus olhos, como se estivesse feliz pelo que acabara de ouvir, mas Thorn percebia que havia também algo mais naquelas pupilas tão verdes. Era como se ela mantivesse a vaga esperança de uma criança que olhava, encantada, para uma bolha de sabão soprada pelo vento. — O rapaz que viu no corredor — disse ela, quebrando a intensidade do momento — não é o que você pensou. — E... quem é ele, então?


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Uma sombra de dor e humilhação passou pelo semblante de Felicity. — A mãe de Rupert Norbury foi uma das inúmeras amantes de meu falecido marido. Thorn respirou fundo, avaliando a gravidade do que Felicity dissera. Lembrava-se das referências que ela fizera, havia algum tempo, aos filhos ilegítimos de Percy Lyte, mas ver um deles e sentir o eco da angústia que Felicity sofrerá por causa das muitas traições do marido, era algo muito diferente, muito mais profundo. — E... você permitiu que ele vivesse aqui? — perguntou, sem acreditar que isso fosse possível. Felicity assentiu com certa relutância. Depois acrescentou: — Ele parece achar que tem mais direitos a Trentwell do que eu. — Mas que canalha! — Thorn murmurou entre os dentes. — Que diabo, Felicity, esse sujeito é um insulto vivo à sua pessoa! Como pode permitir que isso aconteça?! — O fato é que Trentwell é o único lar que ele teve em muitos anos, Thorn. Não consegui privá-lo de um certo conforto, já que sofreu tanto quando menino. — O tom que ela usava era como se estivesse admitindo uma espécie de vício. — Imagino que, por baixo desse ar de sofisticação que eu tento mostrar, acabo sendo uma boba sentimental. — Pois eu a aviso, moça. — Ele tocou-lhe de leve a ponta do nariz. — Não vou ficar parado e ver a mulher que amo ser tratada mal seja por quem for. — A mulher que você ama? — Ela saboreava aquelas palavras como se fossem o néctar dos deuses. — Mas que mulher afortunada é essa! — Não mais do que eu, se você pudesse retribuir meus sentimentos. — Pois saiba que ela receia já os estar retribuindo — Felicity suspirou antes de prosseguir: — E há ainda tantas outras coisas a recear! Você pode não se importar com a fortuna que eu tenho, mas há tanta gente que acha o contrário! E um homem respeitável como você poderia suportar ser objeto de comentários terríveis? Thorn não respondeu de imediato, hesitando. — Entende o que digo? — indagou Felicity, acariciando-lhe o rosto. — Pois eu me sentiria mal também se ouvisse dizer que, como herdeira muito rica, tivesse comprado um segundo marido. Thorn negou com a cabeça, alegando: — Ninguém com bom senso acreditaria que uma mulher maravilhosa e bela como você precisasse comprar um marido. Felicity apenas sorriu. Depois de alguns segundos, replicou: — E ninguém com bom senso poderia acreditar que você fosse capaz de qualquer


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ato desonroso. — Nesse caso, se todas as pessoas sensatas e inteligentes soubessem o que pensar, quem seríamos nós para nos importarmos com o que os tolos poderiam especular? Ele se inclinou para buscar-lhe os lábios mais uma vez, porém Felicity se afastou. — Ainda há o problema dos filhos, Thorn, não se esqueça. E não finja que pode esquecer a sua vontade de tê-los. — Não, não posso. Não vou negar que quero ter minha família. E quero muito. Acredito que serei um bom pai, um dia. Talvez fosse exatamente por isso que ele se importava tanto em ser pai, Felicity imaginava. Porque era um homem bom e queria ser o pai que nunca tivera. — No entanto — ele prosseguiu — a idéia de perder você, de tirá-la da minha vida... é terrível demais, e acho que pesa mais do que o fato de eu querer uma família. Ela o encarou, incrédula. — O que... o que está dizendo? — indagou, sem voz. — Olhe, Felicity, sei muito bem que há muitos outros empecilhos ao nosso amor. Sei que o nosso futuro não será fácil se teimarmos em ficar juntos... mas, se colocarmos tudo numa balança, acredito que, ainda assim, teremos uma vantagem a nosso favor. Não... nos separe, Felicity. Não queira afastar-se de mim, por favor! Case-se comigo! Um silêncio intenso, pesado, caiu entre ambos, terrível como uma tempestade. Havia alegria e esperança nos olhos de Felicity, Thorn podia ver, mas havia também dúvidas e receios. E ele começou a recriminar-se por haver feito um pedido de casamento precipitado, repentino, que nenhuma mulher de classe aceitaria, Pensou. Quanto mais uma mulher que tinha muitos Motivos para desconfiar dos homens em geral. Thorn arrependeu-se do que dissera. Da forma como o dissera. Acabava de fazer o pedido mais importante de sua vida, e ele saíra de forma errada... Controlava-se, sabendo que ouviria um sonoro "não" a qualquer momento e já se angustiava por isso, quando Felicity disse-lhe a segunda palavra mais bela de seu idioma. — Talvez...

CAPÍTULO XIV


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Talvez... Um eco suave e sedutor da resposta de Felicity ainda flutuava no ar da sala. E estava também nos pensamentos dela, em seu coração, em suas veias, como numa doce e envolvente melodia. Talvez Thorn a tivesse enfeitiçado, analisou, sentindo uma felicidade amena, aconchegante. Não quisera dar-lhe uma falsa esperança. Quisera, na verdade, dizer-lhe um sonoro "não". Mas a voz de Thorn soara tão sincera, tão razoável! E aquele brilho de paixão em seus adoráveis olhos, o calor de seu toque, tinham exercido uma espécie de magia sobre seus sentidos. Uma magia poderosa demais para que ela pudesse resistir. Não tivesse mantido a força de vontade em seu coração, a resposta poderia ter sido um impossível "sim". Mas como podia acabar com as esperanças de Thorn olhando-o assim tão de perto?! — Vou me contentar com esse seu "talvez" — murmurou ele, calmo, suave, tentando controlar um sorriso de felicidade. Era como se, ao mostrar qualquer sinal de alegria, pudesse fazê-la mudar de idéia. Mesmo assim, não conteve um complemento às suas palavras: — Por enquanto. Ele a beijaria, Felicity sabia, se lhe desse um mínimo de encorajamento. E assim que os lábios de Thorn tocassem os seus, tinha certeza de que não conseguiria mais afastá-los... — O chá! — Lembrou-se providencialmente. — Vamos tomar um pouco antes que esfrie. Thorn lançou um olhar à bandeja. — Não comemos direito desde que deixamos Bath não é mesmo? — comentou. — Então, vamos compensar nossos estômagos com esse delicioso bolo de baunilha que Cook prepara tão bem. Aqueles rituais familiares de servir o chá davam a Felicity a oportunidade de se recompor. Seria tolice agora discutir assuntos mais sérios. O importante era saborear o chá, o bolo, e não pensar em mais nada. E, enquanto comessem e falassem sobre assuntos mais triviais, ela poderia equilibrar as sensações que se debatiam em seu peito. Estendeu o braço para pegar o bule como se este fosse uma tábua de salvação em um mar tempestuoso. Sua mão tremia um pouco, e Felicity perguntou, para disfarçar o próprio nervosismo: — Quer limão ou creme? — Há muito tempo me acostumei com o creme — Thorn respondeu, olhando-a, ainda inebriado com os momentos íntimos que haviam partilhado havia pouco. Ela sabia que estava sendo observada por aqueles incríveis olhos castanhos. — Pois eu, ultimamente, tenho preferido o limão — confessou, sorrindo, tensa. E sentiu a boca salivar apenas com a menção do fruto. Pegando as longas pinças, retirou


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uma fatia do pote que viera na bandeja e colocou-a no chá de Thorn. — Açúcar ou mel? — perguntou em seguida, para continuar a servi-lo. — Sabe, temos nosso próprio apiário aqui em Trentwell. — Oh, então esse mel é daqui! Parece-me doce demais para resistir... — Ele falava além do assunto, ela sabia. Felicity inclinou o pote sobre a xícara dele, observando o líquido dourado escorrer devagar. Cada palavra de Thorn parecia-lhe doce como aquele mel. Fosse quando lhe falava de paixão ou quando contava coisas sobre sua família ou, ainda, quando lhe pedia para partilhar sua vida com ele, Thorn atraía Felicity de uma forma que nenhum homem conseguira antes. Ao entregar-lhe a xícara, seus dedos se tocaram e ela sentiu um frêmito passar-lhe pelo corpo. Ridícula sensação, ponderou, essa de estremecer devido a um casto toque de dedos, quando recebera Thorn em sua cama durante semanas! Mas não havia como negar: ele a fazia estremecer. Conquistava seu autocontrole de uma forma que deixava Felicity ao mesmo tempo assustada e ansiosa. Sua mente pensava rápido, criando idéias, imagens de um futuro que lhe parecia improvável, mas que lhe era muito agradável. Um futuro em que estariam naquela mesma sala, tomando chá, rodeados de uma família grande, unida, feliz... o tipo de família que Felicity jamais tivera, mas que sempre desejara secretamente possuir. Quase podia ouvi-los rir, aconchegados, felizes. Não era preciso ter muita imaginação para visualizar Thorn com os cabelos mais acinzentados e as leves rugas que apareceriam nos cantos de seus olhos quando sorrisse. E ela mesma estaria mais velha, mas tão feliz que o peso dos anos não importaria em nada Duas coisas não mudavam em sua imagem do futuro: a afeição profunda nos olhos de Thorn e o desejo despertado dentro dela quando se tocassem. A promessa de um futuro assim não valeria a pena? indagou-se, esperançosa. Não valeria o sacrifício de derrubarem todos os obstáculos que porventura aparecessem em seu caminho, querendo atrapalhar seu amor? Como o mel feito em Trentwell e as palavras de Thorn tal idéia era doce demais para Felicity lhe resistir... — Coma — ofereceu, apontando para as fatias de bolo e os pequenos lanches que Cook colocara numa travessa. — Depois vou levá-lo para dar uma volta e conhecer o resto da casa. E então poderemos discutir sobre o que diremos a Oliver e Ivy quando eles voltarem. Felicity mal sabia o que diria ao sobrinho. Como poderia, em sã consciência, aconselhá-lo a resistir ao poder do amor quando ela mesma estava a ponto de render-se a seu próprio coração? Thorn fez um breve gesto em direção às janelas, onde grossos pingos de chuva desenhavam estranhos contornos. — Imagino que a primeira coisa que diremos seja "Vão trocar essas roupas


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ensopadas". Eu achava que eles estariam de volta já há algum tempo. Não acha que seria aconselhável mandar alguém atrás dos dois para trazê-los? Felicity já pensara nisso, e, assim que Thorn sugeriu a idéia, levantou-se e puxou a sineta para chamar um criado. Se Oliver e Ivy parecessem estar arrependidos e apaixonados de fato, ponderou, iria intervir a seu favor. E se Thorn permitisse que o casal se visse regularmente dali em diante, longe das línguas fofoqueiras de Bath, o jovem casal poderia ser deixado à vontade para um namoro mais discreto e sério, com a possibilidade de haver um casamento em breve. Talvez houvesse dois... Talvez... Ele teria de esforçar-se por parecer severo, zangado, quando falasse com sua irmã e a repreendesse por sua fuga com o jovem Armitage, pensava Thorn quando, pouco depois, seguia com Felicity para um passeio pela casa. Não fosse pela necessidade de perseguir o jovem casal, ele e Felicity já estariam separados, levando cada um sua própria vida, em Bath... Ele, com o coração partido, com certeza, tentando em vão esquecê-la, imaginando, erradamente, que ela nunca o amara de fato. Num dos elegantes salões da casa, Thorn viu-se refletido num espelho sobre um móvel entalhado. E mal reconheceu o homem que o olhava de volta. — Não me diga que se tornou vaidoso, sr. Greenwood — disse Felicity, a seu lado, com um sorriso. E, por segundos, ele ficou apenas olhando para a imagem de ambos juntos, e saboreou a sensação de felicidade que ela lhe trazia. — É como se tivesse saído de um conto de fadas, não acha? — brincou Felicity, apontando para o requintado desenho que emoldurava o espelho. — Acha que, se lhe perguntarmos quem são as pessoas mais lindas do país, ele nos dirá que somos nós? Thorn abraçou-a e beijou-lhe o rosto, depois voltou a olhar para o espelho. — Bem, com certeza eu estou vendo a mulher mais bonita do país — admitiu. — Oh, está sendo lisonjeiro. Mas nunca ouvi dizer que você fosse do tipo que exagera a verdade... — E não estou exagerando agora. — Ele poderia passar horas assim, olhando-a, sentindo seu perfume, tocando-a, sendo feliz. — Não havia outro espelho mágico? — prosseguiu Felicity, pensando nas histórias infantis. — Um que mostrava à pessoa que o olhasse seus mais profundos desejos? — Olhe, este seu espelho é um objeto incrível!— Thorn exclamou ao olhar mais atentamente para o reflexo que via. — Porque estou vendo, ao mesmo tempo, a mulher mais linda da Inglaterra e também meu maior desejo! — Melhor ainda, imaginou, já que não estava diante de uma ilusão. Felicity riu e afastou-se.


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— Quer ver a biblioteca agora? — convidou, deixando de lado a fantasia. Thorn pensou por alguns instantes, depois olhou-a, malicioso, e, baixando a voz, respondeu: — Não haveria um meio de eu convencê-la a mostrar-me os quartos primeiro? Uma casa maravilhosa como esta deve ter quartos muito especiais... — Sr. Greenwood, pelo que vejo, minha influência sobre o senhor foi das piores possíveis! — ela rebateu, ruborizada, mas feliz. — E não está gostando do que me tornou? — Ah, completamente! Não há nada de que eu goste mais do que um traço de malícia num homem respeitável como você! Espero apenas que nunca o perca. — Nunca! — Thorn prometeu, gostando, ele próprio, da expressão maliciosa que seu rosto adquiria quando estava junto dela. E, pela primeira vez na vida, achou seus traços realmente atraentes. — Agora, quanto aos quartos... — retomou o assunto. Felicity chegou a entreabrir os lábios para responder-lhe, mas passos apressados chamaram a atenção de ambos, e eles se separaram, como mandava o decoro. — Desculpe-me a intromissão, senhora — disse um dos criados, que aparecia completamente molhado. Ele hesitava, sem entrar, claramente para evitar qualquer dano aos tapetes da sala. Mas Felicity fez-lhe um sinal para que se aproximasse. — Pelo que parece, tem algo importante a me dizer. Então, entre! Oliver e a srta. Greenwood já foram trazidos de volta para casa? O criado negou com a cabeça e explicou: — Não há sinal de nenhum deles na propriedade, senhora. Já procuramos por toda parte! — Tem certeza? — Felicity alarmou-se. — Procuraram em todos os cantos, mesmo nos lugares mais ocultos? Olharam no caramanchão? — Verificamos tudo, lady Lyte. — Até na gruta? Nos estábulos? A cada novo local mencionado, o criado assentia. — Não estão em parte alguma, senhora — insistiu ele. — Nem mesmo na velha torre oeste. — Mas devem estar em algum lugar! — Felicity não se conformava. — Alguém os viu voltando para a casa? — Dunstan pensou nisso, senhora, e pediu para que as criadas dessem uma olhada nos quartos, nos banheiros, mas... nada. E... as malas que eles tinham deixado


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nos quartos... desapareceram. Felicity entreabriu os lábios, porém não foi capaz de articular um único som. — Dei ordens para que não fornecessem cavalos a Oliver! — disse, depois de alguns segundos de silêncio — Ninguém o fez, senhora. Ninguém nos estábulos os viu. Apenas o sr. Rupert. Mas ele saiu, foi até a aldeia há pouco, levou um coche. Thorn não estava gostando nada daquilo. — A noite não está boa para uma cavalgada, nem mesmo para sair com um coche — observou. E, voltando-se para Felicity, indagou: — Acha que Rupert ajudou Oliver e Ivy a nos enganar mais uma vez? Ela pensou por instantes, depois negou com a cabeça e disse: — Não acho que ele o fizesse. Não teria motivos... Rupert nunca teve um relacionamento mais chegado com Oliver. — Mas parece-me óbvio que mentiu sobre seus ferimentos. — Thorn arrependeuse de não ter averiguado melhor quando tivera a oportunidade. — Talvez aqueles ferimentos tenham algo a ver com o que de fato aconteceu. — Pode ser... — Felicity mordia o lábio inferior, pensativa. Depois de alguns momentos, voltou-se para o criado, que aguardava suas ordens. — Vá até a aldeia e faça perguntas. Descubra se alguém de lá viu Oliver e a srta. Greenwood, depois venha nos dizer o que averiguou. E, se os encontrar por lá, faça o que puder para detê-los enquanto manda alguém nos avisar. — Como quiser, senhora. — O criado foi embora sem discutir. Thorn abriu os lábios, mas, antes que dissesse qualquer coisa, Felicity chamou o homem que acabara de sair. O criado se voltou: — Troque essas roupas molhadas antes de sair de novo! — Está bem, lady Lyte! Felicity virou-se para Thorn e tomou-lhe as mãos nas suas, apertando-as de leve. — Se eu não tomar cuidado, vou acabar sendo totalmente influenciada por você e tratar meus criados como familiares. — Parece que nós dois temos nos influenciado um bocado, não acha? — Talvez sim. Mas não espere mudar meu comportamento completamente, ouviu? Sou uma mulher egoísta e quero continuar a ser. Thorn pensou em esclarecer que havia uma grande diferença entre ser egoísta e em se auto-preservar, porém preferiu nada dizer. Lembrava-se de como Felicity ficara aborrecida na última vez em que ele mostrara sua visão particular do caráter dela...


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Era-lhe suficiente saber que essa diferença existia e que Felicity jamais poderia ser considerada egoísta. Assim que ela aprendesse que podia confiar nele para salvaguardar sua felicidade, compreenderia que poderia baixar a guarda e deixá-lo amá-la. E então se tornaria a mulher suave, quente e feliz que ele sempre conseguira vislumbrar por trás da armadura que Felicity fazia questão de usar. — Também não precisa imaginar que vai me transformar num charmoso cafajeste — ele disse, por sua vez, olhando-a com um sorriso. — Oh, eu não faria tal coisa... — ela brincou. Mas mesmo brincando, era-lhe óbvio que Thorn era seu par perfeito, com sua modéstia, sua seriedade, sua praticidade.

Eles já tinham terminado o segundo prato do jantar quando o criado voltou da aldeia. E, pela expressão no rosto do rapaz, Felicity compreendeu logo que ele não trazia boas notícias. — Vamos, pode dizer logo — instigou-o. — Eles foram embora, não é? — Havia frustração em sua voz porque imaginara poder ter mais alguns bons momentos com Thorn em Trentwell assim que tivessem repreendido Oliver e Ivy. O criado assentiu brevemente e explicou: — Os dois ficaram na hospedaria Fox e Crow, senhora. E eu os perdi por uma hora! O dono do lugar disse que eles chegaram a pé e que, pouco depois, o sr. Rupert chegou para buscá-los com o coche. Thorn sentiu que o vinho que bebia queimava-lhe na garganta. — O dono da hospedaria disse em que direção eles seguiram? — quis saber, ansioso. — Não, senhor. Ele achou que o sr. Rupert tinha ido lá para trazê-los de volta a Trentwell. — Oh, aquele pequeno cafajeste! — Felicity murmurou, irritada. — Como, senhora? — perguntou o criado, dando um passo à frente. — Nada, nada. Obrigada. Ao perceber que sua missão estava cumprida, o criado foi embora. E Felicity voltou-se para Thorn, comentando: — Que bela dupla eles fazem, não? Escorregadios como peixes fora d'água. Eu devia ter mandado os criados cercarem-nos assim que chegamos. Jamais me ocorreu que tivessem coragem de seguir até a vila a pé, e eu não... — Felicity se interrompeu. Thorn lançou-lhe um olhar curioso e viu que ela dobrava e desdobrava o guardanapo em seu colo. E Felicity completou, meiga: — Eu não queria me afastar de você antes que


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fosse necessário... Quando, por fim, conseguiu coragem para encará-lo, viu que ele sorria, feliz. — Então somos dois — Thorn afirmou, tocando-lhe a mão por sobre a mesa. — Eu também poderia ter saído atrás de minha irmã assim que chegamos, mas... preferi ficar com você. Se, no futuro, Ivy sofresse pelo passo que estava dando agora, Thorn sabia que se sentiria terrivelmente culpado, porque seguira seus próprios desejos, e não o dever de encontrá-la. — O que podemos fazer agora? — Felicity indagou, confusa. Thorn pensou um pouco, depois respondeu: — A única coisa que podemos fazer é retomar a perseguição. O que existe entre nós agora pode estar mudado, mas isso não torna a fuga de Ivy e Oliver menos errada, não acha? Ele tinha razão, Felicity reconhecia. Olhou para o prato à sua frente e sentiu que seu apetite se fora por completo. Mas a missão que eles tinham de seguir o casal fugitivo perdera sua urgência, já que ela decidira aceitar a proposta de casamento de Thorn. Mesmo a sim, não podia negligenciar a felicidade de seu sobrinho — Se preferir ficar aqui, em Trentwell — Thorn ofereceu —, enquanto eu continuo a segui-los... A sugestão era tentadora, Felicity analisava. Desejava dormir em sua própria cama, alimentar-se com regularidade com a comida caprichada de sua cozinheira. Não queria enfiar-se de novo numa carruagem e sair em perseguição a Oliver e Ivy pelos campos. Mas estaria junto de Thorn, e tal consideração a fez se esquecer de todos os outros incômodos da possível viagem. Além do mais, se ficasse em Trentwell, tendo em torno de si vários elementos que a fariam recordar-se da infelicidade de seu primeiro casamento, poderia acabar se deprimindo. Suas dúvidas voltariam, e ela não queria mais tê-las. — Acho que prefiro seguir com você, se não se importar — respondeu, por fim. — Não pense que não confio na sua habilidade para encontrá-los. Longe disso! Mas é que, apesar de tudo, acho que gostei da viagem que nos trouxe até aqui. — E isso mostravalhe com clareza que Thorn era o tipo de homem com quem gostaria de passar o resto de seus dias. Ele assentiu. — Eu também gostei de tudo, apesar da queda no rio e do susto de ter quase morrido — confessou. — Eu nem me lembrei daquele detestável assaltante... Então está acertado!


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Seguiremos juntos! — Se é assim que quer... — Ele nem precisaria de muita persuasão, afinal. — Mas devo lhe dizer que cansei de perseguir aqueles dois por tanto tempo apenas para que eles nos enganassem mais uma vez, ou então ara perdê-los por minutos de diferença. Sugiro que partamos quanto antes para Carlisle, a toda velocidade e que esperemos por eles lá, porque chegaremos primeiro se formos com bons animais e um veículo mais adequado do que um coche. — Está sugerindo que lhes armemos uma emboscada? — Felicity estava saboreando a idéia. — Está bem! Vai ser bem-feito para eles, depois de todo o trabalho que nos deram! Vou pedir ao sr. Hixon para que apronte a carruagem mais veloz que temos e que esteja pronto para dirigi-la assim que o dia clarear. Thorn negou com cabeça, decidido. — Não podemos esperar — explicou. — Eles têm algumas horas de dianteira, e nunca estivemos assim tão perto de pegá-los. Pelo menos, não que soubéssemos. Acho que devemos sair assim que terminarmos de comer. Acha que uma carruagem pode ser preparada nesse meio-tempo? — É possível. Mas não sei se seria sensato... Thorn, há momentos em que devemos pensar mais em nós mesmos, não acha? — Mas, se não chegarmos a Carlisle e evitarmos que eles cruzem a fronteira com a Escócia, todos os nossos esforços terão sido inúteis! Por baixo da mesa, Felicity tirou os sapatos e esfregou os pés nas pernas de Thorn, murmurando: — Não completamente inúteis, espero... — Mesmo sabendo que não devia provocá-lo assim, ela não conseguia evitar. — Felicity, a idéia me parece sedutora, mas sabe o que quero dizer. Precisamos fazer o possível para deter essa fuga. Se não for assim, é melhor nem tentarmos. Podemos simplesmente ficar aqui e nos divertirmos enquanto eles fogem. Felicity sorriu de leve e sussurrou: — Não devia estar propondo algo assim tão interessante... — Felicity! — Thorn reagiu, numa espécie de reprimenda que, em vez de aborrecê-la, agradou-lhe. Ela não reconhecia muito bem o que sentia. Sempre fizera o que bem entendera depois de enviuvar, e essa noção de seriedade, de dever, que Thorn lhe mostrava agora, era envolvente de certa forma. Mal podia perceber o que acontecia em seu próprio coração, porém estava começando a gostar muito dessa sensação de segurança e de firmeza que Thorn lhe passava.


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CAPÍTULO XV

Estaria ele louco de amor a ponto de arriscar sua vida e seu futuro com uma mulher assim tão passional e decidida? Essa era a pergunta que Thorn se fazia na manhã seguinte, enquanto a carruagem de Felicity os levava rumo norte, passando pelas cidades produtoras de algodão e lã que surgiam ao longo dos campos de Yorkshire. Afinal, indo contra todo o bom senso, ele permitira que ela o convencesse a pernoitar em Trentwell antes de continuarem a viagem atrás do casal fugitivo. E Felicity o fizera prometendo uma maravilhosa noite de amor numa das enormes camas dos quartos da mansão. Mas, assim que se deitara, Thorn adormecera profundamente, e, quando ela chegara para viverem a paixão prometida, não fora capaz de acordá-lo. Parecia-lhe impossível agora que tal fato tivesse acontecido, tamanho era seu desejo por Felicity, mas seu corpo simplesmente sucumbira ao cansaço. Ela aninhara-se junto dele, e talvez fosse seu perfume ou o calor de seu corpo que acabara por tornar seu sono ainda mais tranquilo, mais feliz, garantindo-lhe uma noite reparadora. Para Felicity, porém, ao que parecia, a noite não fora tão boa assim, a julgar pelo aspecto cansado, abatido mesmo que ela demonstrava. Quando saíram de Trentwell, Thorn não havia prestado tanta atenção, mas agora podia ver as olheiras que a abatiam. Notava que ela estava sonolenta, que esfregava com frequência os olhos avermelhados. Ao passarem por Manchester, Felicity já cochilava e muitas vezes sua cabeça pendia sobre o ombro de Thorn, para logo depois endireitar-se e, segundos depois, pender outra vez. Não conversavam, e, no momento, Felicity havia, por fim, se rendido ao sono e descansava a cabeça sobre o braço de Thorn, tranquila. Olhando-a, ele se deixava levar pelos sentimentos fortes que nutria por ela desde que se tinham conhecido. Tinha ainda algumas dúvidas quanto a seu relacionamento, mas não se cansava de admirar a beleza de Felicity e avaliar quanto ela lhe era importante. Seus pensamentos atormentavam-no. Um homem como ele poderia tornar uma mulher como Felicity feliz?, indagava-se. Porque pretendia passar sua vida inteira ao lado dela e, se fracassasse em mantê-la satisfeita a seu lado, quanto ambos não ficariam infelizes, miseráveis mesmo? Thorn não conseguia encontrar respostas para as suas dúvidas. Olhou para a paisagem, para os campos em constante mudança devido às diferentes culturas da região. Queria que Felicity acordasse, que o chamasse num sussurro e afastasse todas aquelas dúvidas irritantes de sua mente. E ela pareceu começar a despertar, pois moveu, um pouco mais para cima, a mão


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que descansava em sua perna. Em resposta e sem poder se controlar, Thorn sentiu um calor intenso percorrer-lhe o corpo todo. Baixou os olhos, esperando encontrar o rosto de Felicity com aquele sorriso maroto e sensual que já conhecia tão bem, mas percebeu que ela ainda dormia, apesar de notar que suas pupilas se moviam, agitadas, por trás das pálpebras. Talvez estivesse sonhando, imaginou. Ou fingindo que sonhava... para provocá-lo. Levou sua própria mão à dela, tentando detê-la, porém Felicity parecia querer acariciá-lo, e isso o excitou ainda mais. Mas achou melhor afastar-lhe a mão para o próprio colo. Sentiu-se tentado a provocá-la também, acariciando-a como ela tentara fazer, mas sabia que o mais sensato era parar com aquela espécie de brincadeira. Thorn procurou pensar em assuntos aborrecidos para afastar o desejo que começava a tomar conta de todo seu ser. Qualquer coisa servia: contas, lembranças de pessoas enfadonhas, de conversas aborrecidas... E imaginou o escândalo que seria se determinadas pessoas de Bath ficassem sabendo do que acontecera entre ele e Felicity nos últimos dias. Mesmo querendo pensar em tal possibilidade com o desprezo que essas mesmas pessoas mereciam, sua preocupação com o fato de alguém poder descobrir tudo o que ocorrera tomava-o por inteiro. E acabou por sentir-se culpado por ter-se deixado levar. Afinal, o que mais tinha além de sua reputação impecável? Não possuía um título nem fortuna. Precisava preservar seu bom nome, então. Não apenas por si mesmo, mas por sua família. Porém a mão de Felicity estava lá novamente, provocando-o, acariciando-o daquela forma tão íntima, tão sensual. Então, ele deixou de lado os pensamentos sensatos e ajeitou-se melhor no banco, buscando-lhe os lábios e acariciando-a também. Com um leve gemido de surpresa, ela abriu os olhos. Então, estava realmente adormecida!, Thorn percebeu — Eu... não quis acordá-la — desculpou-se, sentindo-se um grande tolo. — Mas é que... você me tocou e... pensei que, talvez... Felicity riu, percebendo seu embaraço. — Por favor, não se desculpe, meu amor! — pediu — Seja o que for que tenha pensado, garanto-lhe que aprovo completamente! Afinal, quase nunca se acorda de um sonho tão agradável para descobrir que tudo era, de fato, real... Felicity sentou-se, disposta a tornar seu sonho ainda mais verdadeiro. Sentou-se sobre as pernas de Thorn e passou a abrir-lhe a camisa, oferecendo-lhe os lábios ardentes, que ele não vacilou em beijar com desejo. — Não deveríamos estar fazendo isto aqui dentro — murmurou Thorn, enquanto suas mãos o contradiziam, já que acariciavam Felicity com crescente entusiasmo. — Não? Por que não? — ela murmurou. — Consegue imaginar um passatempo mais agradável do que este enquanto não chegamos a Preston?


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— Não, claro que não... Mas alguém poderia nos ver... — Deve estar brincando! Quem nos veria aqui? Afinal, mal acabou de amanhecer e a carruagem está seguindo tão depressa que ninguém poderia ver nada aqui dentro. — Mas... seus criados... Felicity sorriu, beijou-o e sussurrou: — Garanto que, depois de servirem meu marido por tantos anos, nenhum deles seria capaz de parar a carruagem e abrir a porta antes de bater. — Havia certa amargura na voz dela ao explicar seu ponto de vista. Thorn percebera que todos os criados tinham fingido não perceber o que se passava entre ambos. Discrição a toda prova, chegara a observar para si mesmo. Mas não lhe ocorrera que todos pudessem agir assim por terem estado acostumados a fazêlo em ocasião das frequentes escapadas do falecido lorde Lyte. Ao ver que Felicity estava tão empenhada em amá-lo ali mesmo, Thorn deixou de pensar em qualquer outra coisa para poder dedicar-se ao seu amor. Queria Felicity com todas as suas forças, não apenas ali, naquele idílio delicioso, mas em sua vida, para sempre! Aquela foi, sem dúvida, a viagem mais louca e selvagem que fizera na vida, mas valeu cada segundo, cada balanço da carruagem, cada gemido de prazer que ouviu, sem saber ao certo se era seu, de Felicity ou de ambos... Seu falecido marido fora um grande amante, não havia dúvidas, Felicity se lembrava. Mesmo quando seu casamento já estava em frangalhos, as raras noites — que iam se tornando mais raras ainda — em que Percy a procurava para fazerem amor, ela ainda conseguia se enganar, achando que ele de fato a amava e que não se importava nem um pouco com sua fortuna, pois era com um profundo ardor que a possuía e a fazia delirar de paixão. Não fosse por isso, Felicity jamais teria sentido necessidade de arranjar um amante depois da morte dele. No entanto, desde a primeira vez em que estivera com Thorn, passara a sentir algo muito mais profundo do que a mera satisfação carnal que experimentava com Percy. E isso não fazia sentido, analisava, pois não o tinha escolhido com base numa atração fatal. Desde a primeira noite que passara nos braços dele, esforçara-se por sentir-se desligada, quase indiferente, mas não conseguira; ao contrário, ficava mais e mais envolvida a cada encontro. E agora, ali, naquela carruagem, ainda agarrada a ele, sentindo o prazer fluir devagar em seu corpo, sabia que tinha ido longe demais; que não haveria mais volta. Estava profundamente ligada a Thorn Greenwood. E gemeu de leve, na compreensão dessa verdade. — Felicity? O que houve? Será que, com o balanço da carruagem, você se machucou? — Thorn perguntou, preocupado.


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Havia tamanha apreensão nos olhos dele que Felicity chegou a sentir-se culpada por seu gemido. — Não, meu querido. Estou bem. — Afinal, ele jamais a machucaria, de forma alguma; jamais a trairia, jamais a decepcionaria. — O meu gemido foi justamente pelo contrário, por estar feliz demais, satisfeita demais. — Posso dizer o mesmo, meu amor. Você ainda vai acabar fazendo de mim um fantoche, sabia? — E eu acho que ainda vou me tornar escrava do meu desejo por você, Thorn. Mais uma vez, ela acabara falando mais do que pretendia. A sensação de estar ficando sem forças diante de seu amor por ele deixava-a inquieta. Apenas depois de tornar-se viúva, Felicity conhecera o real domínio que podia ter sobre sua própria vida; antes disso, foi sempre presa de uma constante infelicidade. E nem mesmo os momentos de intenso prazer que vivia com Thorn poderiam valer o preço de não ser mais livre e dona de sua vontade total. Mas ele sorriu, enternecendo seu coração. — Prometo ser um senhor muito bonzinho — murmurou —, se você for uma senhora boazinha para coligo também. Como ela poderia resistir a tanta ternura?, Felicity indagou-se, acariciando-lhe o rosto. Como podia ainda ter receios quando Thorn a estava abraçando assim, com força e, ao mesmo tempo, com tanto carinho? Precisava encontrar um meio de punir-se por haver duvidado dele. Talvez, se lhe falasse sobre a criança que estava esperando... Não. Ainda não. Mesmo sabendo que a notícia o deixaria extremamente feliz. Porque assim que soubesse que seria pai, Thorn estaria preso a ela por laços ainda mais sólidos do que os do casamento. Temera separar-se dele, mas a idéia de não conseguir separar-se de Thorn ou de qualquer outro homem ainda a assombrava. O filho era dele também, é claro. E sua consciência protestava tal fato, deixando-a confusa, sem saber como agir. Thorn tinha o direito de saber sobre sua gravidez; direito de saber que não estaria desistindo de ter uma família se ficasse a seu lado. Iria contar-lhe, sim, decidiu-se. Mas não hoje. Não agora. Em breve, talvez. Esse poderia ser seu presente de casamento para ele. — É um grande desperdício... — murmurou — viajar de Bath a Gretna Green e não haver nenhum casamento no final. — É verdade. — Thorn concordou. — Todo o dinheiro que você gastou nas hospedarias, nos pedágios... Isso para não mencionar o incômodo de viajar com tanta pressa para tão longe. Um silêncio estranho caiu entre ambos, quebrado apenas pelo barulho dos cascos dos cavalos na estrada que seguiam sem parar rumo à Escócia. Felicity desejava que, com a velocidade que os animais corriam pudesse ver-se livre de seu desassossego


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também. — Está querendo dizer o que estou imaginando, Felicity? — Thorn perguntou de repente, depois de alguns minutos durante os quais ficara analisando o que ela havia acabado de dizer. — Ou será que estou sonhando? Felicity ergueu os olhos para olhá-lo, sentindo que os seus deviam estar muito ansiosos também. — Como eu estava sonhando há pouco? — indagou. — Quando acordei e vi que estava vivendo a realidade do meu sonho? — Esse é o melhor tipo de sonho, não? Quando eles são bons... Ela sorriu. — Quer que eu o belisque para saber se está, de fato, acordado? — Não, não é necessário. Acho que estou preparado para encarar a realidade. — Isso quer dizer que não vai protestar se eu o arrastar para diante de um sacerdote quando chegarmos à Escócia? — Não, não vou protestar, meu amor. — Thorn tomou-lhe o rosto entre as mãos, maravilhado diante do que acabava de ouvir, e beijou-a lenta e profundamente para selar o pacto que acabavam de fazer.

— Acha que conseguiremos que meu sobrinho e sua irmã sejam nossas testemunhas? — Felicity perguntou ao cair da tarde, quando a carruagem já cruzava os últimos quilômetros até a fronteira de Carlisle. — Quero dizer... depois de os proibirmos de se casarem lá? Thorn moveu-se no assento, procurando diminuir a pressão que sentia sobre seus ombros. Gostaria de sair da carruagem, estender pernas e braços e esquecer aquela viagem tão longa e desconfortável. — Bem, eles até podem aceitar... — disse. — Ainda mais se deixarmos bem claro que não pretendemos impedir seu casamento para sempre. Vamos apenas pedir-lhes que vão mais devagar, para que tenham certeza absoluta do que realmente querem. Tenho certeza de que minha irmã iria preferir um belo casamento numa igreja, com toda a pompa costumeira e todos os convidados que sempre sonhou ter em seu casamento, mais o vestido com que deve ainda estar sonhando, a essa fuga maluca para uma capela qualquer em Gretna Green. Não que o nosso casamento perca algo da sua importância por nos casarmos numa capela de Gretna Green, quero dizer. Havia algo de desrespeitoso em uma fuga para um casamento rápido na Escócia. E Thorn temia que os comentários sobre seu casamento com Felicity pudessem ser mais mordazes do que imaginara. Jurara a ela que a amava e que não se importava nem um


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pouco com sua fortuna, mas muita gente seria maldosa o suficiente para querer envenenar seu amor. E ele ainda queria manter sua reputação impecável. — Acho que sei o que você quer dizer — Felicity comentou, pensativa. — Também já tive um lindo casamento, com muitos convidados, um belo vestido, uma igreja enfeitada... Mas prefiro uma cerimônia rápida e serena em Gretna Green com você, porque sei que agora serei feliz. — Eu sei, meu amor, e dou-lhe razão. — Mesmo assim, ele ainda imaginava que, se tivesse orgulho de sua união, Felicity preferiria um casamento mais público. Talvez ela adivinhasse seus receios, pois observou: — Pelo menos, participar do nosso casamento daria a Oliver e Ivy uma boa desculpa para terem seguido até Gretna. Se as pessoas se preocuparem em fazer comentários maldosos sobre você e mim, ninguém terá nada do que censurá-los. — Isso me parece um esquema bem altruísta... — Um lapso temporário de minha parte, posso garantir. Já lhe disse que sou egoísta. Thorn meneou a cabeça e sorriu. — Se não a conhecesse tão bem, minha querida, eu não mereceria casar-me com você — observou. — Você merece alguém bem melhor do que, na verdade. — Felicity já estava séria novamente. Ele a abraçou com força. — Ora, não deve estar falando a sério... — Estou, sim. — Agora, ela mais parecia uma criança fazendo uma queixa do que uma mulher voluptuosa que conquistara seu coração. Thorn sabia que ninguém conhecia esse lado do caráter de Felicity. Apenas ele. E sentia-se privilegiado por isso. — Bobagens — murmurou. Confortara suas irmãs muitas vezes no passado quando se sentiam assim amuadas. E sabia o que dizer: — Está apenas cansada disso tudo. Nós dois estamos. Mas tudo vai melhorar, você vai ver. — Talvez... — Mas é claro que tudo estará melhor amanhã! Vai poder acordar tarde e ficar na cama enquanto eu vigio todos os coches que chegam e os que partem em direção a Éden Bridge. Assim que encontrarmos Oliver e Ivy, vamos poder até respirar melhor. — E se não conseguirmos encontrá-los? E se eles estiverem muito à nossa frente o tempo todo? Porque parece que foi assim desde que saímos de Bath. Thorn ergueu as sobrancelhas diante de tal possibilidade.


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— Bem, vamos ser otimistas, então. Não devemos enfaixar a cabeça antes de quebrá-la, certo? Vamos lidar com o problema quando e se ele aparecer. E o faremos de estômago cheio e depois de uma boa noite de sono. Certo? Felicity assentiu concordando: — Está bem. Parece-me sensato, e eu preciso de um homem sensato para manterme equilibrada. — E eu preciso de uma mulher vibrante como você para me sacudir do meu marasmo. — Somos feitos um para o outro, não acha? — Ela ergueu o rosto para olhá-lo e, em seus olhos, havia uma espécie de súplica. — Mesmo sendo tão diferentes... — Sim, minha querida. Somos feitos um para o outro, não resta dúvida. E seremos muito felizes juntos, eu prometo. — Thorn tentava colocar confiança em sua voz. Assim, poderia convencer Felicity... e a si próprio.

CAPÍTULO XVI

— Nenhum sinal deles ainda, Ned? — Thorn perguntou, saindo da hospedaria na praça principal de Carlisle, depois de uma noite inquieta em que mal conseguira conciliar o sono. Tantos dias dentro da carruagem de Felicity, seguindo por estradas não tão boas assim, tinham-lhe deixado uma incômoda sensação de movimento que não conseguia controlar nem quando estava parado, como agora. E, durante a noite, acordara a toda hora, tendo a impressão de que ainda estavam a caminho, e depois havia sido ainda mais difícil adormecer outra vez. Mesmo tendo garantido a Felicity que encontrariam o casal fugitivo em Carlisle, não estava mais tão certo assim. E aquela era, afinal, sua última chance decente de encontrarem Oliver e Ivy antes que o casal chegasse a Gretna Green. — Nenhuma carruagem ou coche passou por aqui, senhor — informou o criado de Felicity, levantando-se do banco de pedra diante da hospedaria em que estivera sentado na última hora. A brisa fria que soprava na rua tinha deixado sua pele avermelhada, e ele mantinha as mãos enfiadas nos bolsos do paletó. — Apenas uma carroça de frutas que seguia para o mercado acabou de passar, e depois mais duas pessoas, mas a cavalo. Ninguém parecido com o sr. Oliver ou com sua irmã.


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Assim que terminou o relatório, o rapaz abafou um bocejo. — Ainda bem — Thorn murmurou, olhando para o caminho que levava a Penrith. — Se ainda não estão à nossa frente, e duvido que estejam, vão ter que passar por aqui a qualquer momento hoje. Agora, entre e vá tomar um bom desjejum, rapaz, depois descanse um pouco. Ou faça ao contrário, se preferir. — Acho que vou dormir primeiro, senhor — respondeu Ned, sorrindo, aliviado por estar livre da incumbência. — Boa sorte em sua vigília. — Obrigado. E obrigado também por sua paciência e discrição em todo esse caso. Lady Lyte e eu estamos muito agradecidos a você e ao sr. Hixon. — É sempre um prazer poder ajudar, senhor — disse o criado, baixando a voz quando dois homens que pareciam comerciantes passavam diante da hospedaria. — Eu sei como me sentiria se se tratasse de minha irmã. — Ned voltou-se para entrar e acrescentou, baixinho: — Embora eu não ficasse tão preocupado assim se ela estivesse com o sr. Oliver. Thorn gostaria de também poder pensar assim. Nas poucas ocasiões em que se encontrara com Oliver Armitage, achara-o um bom sujeito, embora muito preocupado com seus estudos. Mas, ao que parecia, o rapaz tinha bem mais em mente do que seus livros e fórmulas científicas, ou jamais teria fugido para Gretna Green em companhia de uma moça tão alegre e vivaz quanto Ivy. Por sua própria experiência nos últimos anos, Thorn tinha razões para saber que as paixões podiam ser mui to fortes entre um homem e uma mulher que ficassem juntos por muitas horas. Lembrando-se de como fizera amor com Felicity na carruagem, a caminho de Preston, sentia certa vergonha misturada com culpa. Até conhecê-la, jamais ficara chocado com seu próprio comportamento, porém Felicity fazia surgir nele sensações e atitudes que nunca pensara ser possível ter. Mas as sensações não importavam no momento. Podia até ser alvo de comentários maldosos, que ele conseguiria tolerar essa situação, podia, até, aceitar um futuro sem filhos, se esse fosse o preço que devia pagar para poder viver com Felicity. Porém seus sentimentos por ela, tão intensos, chocavam sua natureza sempre reservada e calma. Parte de seu ser achava essa mudança de sentimentos excitante, como aquela viagem inesperada que haviam feito até Preston, mas outra parte temia a perda de controle sobre seus próprios atos. Afinal, aonde aquela situação poderia levá-lo? A grande imprudência de seu pai com o dinheiro custara tão caro à sua família! Não queria ser imprudente em assunto nenhum. Thorn meneou a cabeça, tentando afastar os pensamentos que o preocupavam e também a fadiga que ainda o dominava. Ouviu cascos de cavalos e olhou para a direita, para ver o pequeno coche que se aproximava por London Road. Era muito parecida com aquela que Ivy e Oliver tinham deixado para trás quando saíram de Trentwell. Sem pensar em mais nada, Thorn seguiu até o meio da rua e colocou-se diante do veículo, obrigando o cocheiro a puxar as rédeas de repente.


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— Ei, mas o que é isso agora?! — protestou o homem. Ignorando as palavras dele, Thorn seguiu diretamente para a porta do coche e a abriu. Uma jovem, que em nada se parecia com Ivy, soltou um grito assustado e encolheu-se no banco. E, antes que Thorn pudesse gaguejar um pedido de desculpas, um rapaz que estava no banco oposto indagou, furioso: — Mas o que significa isso, senhor?! — Oh, peço-lhes mil desculpas! — Thorn exclamou, completamente humilhado por sua atitude impensada. — Imaginei que esta fosse a carruagem de alguns amigos meus. Por favor, queiram aceitar minhas mais profundas desculpas, sim? A moça pareceu disposta a aceitar o pedido aflito de Thorn, mas o rapaz estava muito mais enraivecido do que seria de esperar. E Thorn entendeu tudo de imediato: o jovem casal também devia estar fugindo para Gretna! E, provavelmente, ele os tinha assustado demais, pois deviam ter imaginado que algum parente os tivesse seguido até ali e os surpreendido antes que pudessem se casar. De repente, a culpa que Thorn sentia por ter agido mal transformou-se numa vontade muito grande de rir. Porém se conteve. Pediu desculpas mais uma vez enquanto o rapaz o olhava, muito sério, e ordenava ao cocheiro que prosseguisse viagem. Ao observar o veículo afastar-se até o outro lado da praça, onde a rua se dividia em três caminhos diferentes, Thorn ouviu os sinos da catedral de Carlisle baterem 5 horas da manhã. — Meu Deus! Este vai ser um dia muito longo! — murmurou para si mesmo, sabendo o que o esperava. E uma voz logo atrás de si retorquiu, assustando-o: — Com sua licença, senhor! Está, por acaso, esperando que algum veículo passe por aqui? Thorn voltou-se para o carregador de malas da hospedaria que o olhava com a expressão de quem espera algum dinheiro em troca de uma informação. — Esperando? Bem... parece que sim. — Embora não tivesse por costume aceitar a companhia ou a conversa de estranhos, Thorn sabia que nada teria a perder se falasse com aquele sujeito. Por isso explicou: — Estou perseguindo minha irmã e seu jovem... pretendente de Bath. Imagino que os tenha perdido em algum lugar entre Staffordshire e esta cidade. E esperava poder estar aqui antes mesmo de eles chegarem, para evitar que cruzem a fronteira. O homem assentiu gravemente, pensativo, como se estivesse acostumado a ouvir aquela história nos muitos anos em que vivia ali. E, dado o trabalho que executava na hospedaria, com certeza devia ter ouvido mesmo. — Bem, se eu fosse o senhor, não pararia todas as carruagens que vêm pela


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London Road — aconselhou. — Poderia arranjar um grande problema, sabe? — Bem, eu realmente prefiro não ter problema algum, se o puder evitar de alguma forma... Mas não gostaria de ter vindo de tão longe para saber que minha irmã e o rapaz conseguiram me despistar. O sujeito sorriu, tentando parecer simpático. — Talvez fosse interessante para o senhor se as carruagens tivessem que parar por alguns instantes, para que pudesse dar uma olhadinha dentro delas, não? — Mas é claro que sim! E... isso poderia ser arranjado de alguma forma? O carregador sorriu ainda mais. — As pessoas que estão seguindo para Gretna são, na verdade, um bom comércio nesta cidade, senhor. Todos por aqui conseguem ganhar alguma coisinha, o senhor sabe... E, como estamos sempre por aqui, acabamos conhecendo as pessoas. Não sei se me entende... — Acho que sim. Conhece os cocheiros, então. — Quase todos. E, com um breve sinal, posso fazer com que parem, para ganharem uma ou duas moedas. — "Minhas" moedas, certo? — Está entendendo mesmo, senhor! E, enquanto as carruagens ficarem paradas, o senhor poderá olhar para dentro delas e ver se reconhece alguém. Se não reconhecer, o cocheiro poderá seguir sem que ninguém seja... digamos... incomodado. O que lorde Hardwick, autor da Lei do Casamento, diria se soubesse que a sua lei tinha gerado tal comércio ali, bem junto à fronteira com a Escócia?, Thorn imaginou. Com certeza, devia estar se revirando no túmulo. — E quanto você me cobraria por... esse favor? — indagou, sabendo que teria de abrir o bolso. — Duas moedas de ouro por dia, mais metade de tudo que eu tiver de pagar aos meus colegas cocheiros para que parem as carruagens. Muita gente considera esse um bom negócio... — Deve evitar muitas fugas, não, amigo? — Algumas, senhor. E sinto orgulho por isso. Salvei a sobrinha de um nobre outro dia, sabe? E uma herdeira rica, na semana anterior. — Bem, minha irmã não é de uma família assim tão rica. Mas, como eu a adoro, gostaria de pagar-lhe o que me pede para garantir que ela tenha um bom futuro Thorn começou a esvaziar os bolsos, quando ouviu mais um veículo se aproximando pela rua calçada de pedras. No mesmo instante, o carregador fez um sinal largo para o cocheiro do veículo, e este diminuiu de velocidade até parar, exatamente o


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tempo suficiente para que o carregador tirasse duas moedas das mãos de Thorn e as jogasse para o condutor. A porta da carruagem se abriu numa breve fresta e alguém reclamou lá de dentro: — Por que paramos aqui? O que está havendo, cocheiro? Dentro da carruagem, Thorn pôde ver um casal idoso e uma mulher de meiaidade. O cocheiro deu uma piscadela marota ao carregador e respondeu aos seus passageiros: — É que preciso me certificar de qual é o caminho correto para Kirkhampton, governador! — Ora, mas que diabo de cocheiro é você, se não conhece as estradas?! — reclamou o homem dentro do veículo. E bateu a porta, fechando-a. O carregador, então, fez de conta que dava orientações ao cocheiro e, segundos depois, este recolocou os cavalos em movimento. — Imagino que nenhuma das senhoras que estavam na carruagem fosse sua irmã, senhor — disse o sujeito a Thorn, com ar de riso. — É... não. — Thorn colocou duas moedas de ouro na mão estendida do homem e acrescentou: — Mas acabo de ter uma boa demonstração dos seus serviços. Bem, acho que não tenho dinheiro suficiente comigo, caso muitas carruagens passem por aqui antes de eu localizar minha irmã. Vou ter que buscar mais. Thorn, porém, hesitava. Não sabia se Felicity aprovaria tamanho gasto. Além do mais, sentia-se mal com aquilo. Seria aquela a primeira ocasião em que teria de recorrer à bolsa de sua futura esposa por dinheiro? Afinal, depois do casamento, tudo que era dela lhe pertenceria também, mas Thorn sabia que jamais aceitaria tal fato. E jamais se sentiria bem com a enorme diferença entre suas fortunas. — O que houve, senhor? — o carregador perguntou. — Está preocupado, achando que a moça pode passar por aqui enquanto vai buscar o dinheiro? Ora, não precisa recear! Basta me dizer como ela é, e eu mesmo vou prestar atenção a quem está dentro dos veículos até que o senhor volte. — Está certo — Thorn concordou por fim. Olhou para a rua por onde esperava que as carruagens viessem. Não havia outro movimento além do normal: algumas barracas estavam sendo montadas para a feira do dia seguinte. — Não vai ter dificuldade em reconhecer minha irmã. Ela é do tipo que qualquer homem nota. — E deu ao carregador uma descrição detalhada de Ivy. — Puxa, ela deve ser linda, senhor! Gostaria que todas as moças que passam por aqui a caminho de Gretna fossem assim tão bonitas. Sabe aquela herdeira rica de quem lhe falei? Puxa, era feia! Mas tinha uma bolsa linda, se é que me entende... Thorn não gostou do comentário. Era como se servisse para ele e Felicity também, embora ela fosse linda. Mas era rica, e todos poderiam pensar, como aquele sujeito


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estava fazendo agora, que o homem que a quisesse desposar o fizesse apenas por dinheiro. Afinal o primeiro já fora assim... — Olhe, quero lhe dizer uma coisa, senhor — continuou o carregador. — E nem vou lhe cobrar a mais por isso. Assim que tiver sua irmã de volta, é melhor casá-la logo com um homem sério para não precisar voltar aqui dentro de seis meses a fim de fazer tudo de novo se é que me... — Sim, eu o entendo perfeitamente! Obrigado pelo sábio conselho. Agora, se me der licença, vou buscar o dinheiro. O homem tinha razão, pensava Thorn ao subir as escadas da hospedaria até o quarto em que Felicity se encontrava. Alguns hóspedes já desciam para o desjejum e ele teve de recostar-se à parede para deixá-los passar. Um rapaz sério como Oliver Armitage poderia ser uma escolha um tanto estranha para sua irmã tão decidida e vivaz, mas ela poderia fazer algo bem pior... Era bem melhor Ivy ter escolhido Armitage do que algum cafajeste sem escrúpulos do tipo que infestava as rodas sociais londrinas na época. — Algum sinal deles? — Felicity perguntou, assim que ele entrou no quarto. Ainda amarrava as pontas do roupão sobre a camisola e parecia sonolenta. — Nada ainda. Se passaram a noite em Penrith, ainda vai demorar para que passem por aqui. — Ele girava o chapéu que tirara nas mãos, embaraçado com o motivo que o levara até ali. — Desculpe se a acordei. — Eu já estava acordando quando bateu à porta — ela mentiu. — Estava pensando em me levantar e vestir para depois pedir o desjejum. — Devia dormir mais, meu amor. Por que não volta para a cama e dorme mais um pouco, agora que tem oportunidade? Felicity negou com a cabeça. Não voltaria a dormir porque não queria ter novamente o sonho terrível que acabara de ter. Um sonho em que era uma bela raposa com uma cauda longa e peluda, perseguida de perto por dois cães enormes e que acabava encurralada num beco sem saída. — Já dormi o suficiente — tornou a mentir. Aproximou-se mais de Thorn, querendo sentir seu cheiro, seu calor, para sentir-se mais segura. E murmurou, sensual: — Mas posso ser convencida a voltar para a cama, você sabe... se tivesse uma companhia carinhosa... Thorn engoliu em seco, lançando um olhar rápido à cama. — É um convite sedutor, minha querida, mas agora não posso — disse. — Alguém tem que manter os olhos bem abertos lá embaixo, para não deixar que seu sobrinho e Ivy escapem desta vez. — Vendo que ela se decepcionava, Thorn acaricioulhe o rosto com suavidade e acrescentou: — Logo, logo, vou estar tão presente em sua vida que vai acabar se cansando de mim, vai ver. Aproveite enquanto a cama é só sua.


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Mesmo falando em tom de brincadeira, Felicity percebia que ele estava tenso. — Jamais vou me cansar de você, meu amor — confessou. — Quanto mais tempo estamos juntos, mais eu o amo. Nem sei onde vou parar deste jeito... Thorn sorriu. — Então, somos dois. E tão carinhosos um com n outro, que nossos amigos vão acabar se enjoando de nos ver juntos e felizes. Ela sorriu também. — É verdade. E vamos começar enjoando Weston St Just. Assim que retornarmos a Bath, casados, vamos procurá-lo e mostrar-lhe a consequência de seu ato quando nos apresentou. Riram juntos diante da perspectiva de verem a expressão de espanto no rosto do amigo comum, e depois com um beijo suave, deixaram o assunto morrer. — Vou voltar a vigiar agora — Thorn avisou, tocando a maçaneta. — Logo o trânsito vai aumentar muito na rua e tudo vai ficar mais difícil. — Então, faça-me mais um pequeno favor e eu o deixarei ir. — Um favor? — Sim. Mais um beijo. — Isso não é um favor, minha querida. É um prêmio para mim. — Thorn beijou-a, então, com mais ardor do que antes, fazendo com que seus corpos se incendiassem de desejo. Ao afastar-se, porém, sentiu novamente o dever falar mais alto. — Preciso ir enquanto posso — confessou, sabendo que, se ficasse mais um segundo, não iria mais querer descer para a rua. Quando ele se foi, Felicity suspirou, imaginando que momentos como aqueles que acabara de viver com ele valeriam qualquer coisa, qualquer preço que tivesse de pagar por eles, até mesmo o sacrifício de sua liberdade. A porta abriu-se novamente, surpreendendo-a. Thorn devia ter se esquecido de alguma coisa, analisou. E pareceu-lhe que um homem completamente diferente reaparecia a sua frente agora. Sua força, virilidade, segurança, pareciam ter dado lugar à incerteza, ao sofrimento. — Você tem um efeito lamentável sobre mim, Felicity — ele se queixou. — Acabei me esquecendo do motivo que me trouxe aqui... — E que motivo era esse? Ele vacilava. Por fim, depois de engolir em seco por várias vezes, disse: — Eu... vim... bem, preciso pedir-lhe algum dinheiro. — E logo ele se viu explicando, mas de maneira um tanto confusa, toda a armação que combinara com o carregador.


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— Dinheiro? — Felicity interrompeu-o. — Só isso? Mas é claro, meu amor! — Felicity foi até sua mala, vasculhando-a até encontrar sua bolsa. — Pegue quanto quiser! — E atirou a pequena bolsa de tecido a ele, que, surpreso, acabou derrubando-a junto com seu chapéu. Por fim, recuperando-os, Thorn pegou algumas moedas e devolveu-lhe a bolsa. — Obrigado — murmurou, extremamente envergonhado. — Isto deve ser mais do que suficiente. Espero que o investimento valha a pena. Assim que tiver Ivy e seu sobrinho sob minha custódia, eu os trarei até aqui para discutirmos o que faremos a seguir. Thorn colocou o chapéu e enfiou as moedas no bolso, saindo novamente. Felicity, então, pensou em voltar para a cama, mas acabou desistindo da idéia. Sem a companhia de Thorn, as cobertas lhe pareceriam frias demais. Além do mais, não queria estar ainda vestindo sua camisola quando tivesse de confrontar Ivy e Oliver. Uma aparência impecável ajudaria a impressionar os dois imprudentes. Vestiria a roupa preta que trouxera de Trentwell e que dava-lhe um aspecto mais severo. Decidida, colocou a roupa sobre a cama e começou a despir-se. E, enquanto se vestia, sorriu ao lembrar-se da expressão de Thorn e do modo desajeitado dele ao mexer em sua bolsa, como se tivesse uma batata quente nas mãos. Mas, pensando melhor, o sorriso desapareceu de seus lábios. Naquela mesma hora, no dia seguinte, Thorn não mais precisaria pedir-lhe dinheiro algum. Tudo o que possuía seria dele. E, se precisasse de alguma coisa, qualquer coisa, teria de recorrer a seu novo marido. Por lei, ele seria o dono de tudo. E, pela primeira vez desde que se sentira nauseada em Gloucester, tornou a sentir o estômago revirar. E mal teve tempo para chegar à bacia que estava em cima da cômoda.

CAPÍTULO XVII

O carregador ergueu o braço para parar mais uma carruagem e gastar mais algumas moedas do dinheiro de Felicity. E Thorn tentava controlar sua ansiedade para não se decepcionar. Quem poderia imaginar que numa madrugada como aquela, de primavera um tanto fria, tantas carruagens estariam passando por aquela rua de Carlisle? E uma boa parte dos veículos não estava levando casais fugitivos que seguiam para a fronteira a fim de obter uma cerimônia rápida de casamento contra a vontade de


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suas famílias. Thorn já perdera a conta do número de carruagens que conseguira espiar, do lugar onde se encontrava, quando o cocheiro parava diante do sinal do conhecido carregador da hospedaria. Sua esperança de ver os cachos avermelhados de sua irmã e aquelas covinhas deliciosas que Ivy tinha no rosto quando sorria estava desvanecendo. Já fazia dias que não via Ivy. E queria certificar-se de que ela estava bem e feliz. Mais uma carruagem se aproximava, e Thorn, mais uma vez, preparou-se para olhar para dentro dela quando parasse diante da hospedaria. Talvez agora se tratasse de uma velha senhora escocesa de volta de uma visita a parentes ingleses, imaginou, ou de um homem de negócios que retornava de uma viagem bem-sucedida a um dos pontos de comércio da Inglaterra. E, ao olhar, surpreendeu-se ao ver a moça que se encontrava no colo de um rapaz. O casal estava envolvido num abraço e num beijo no mínimo escandaloso. Sua discrição natural o fez desviar os olhos com educação. Como fizera já muitas vezes nesse início de manhã o carregador colocou duas moedas nas mãos do cocheiro, que já se preparava para retomar a viagem. Nesse momento, uma lembrança passou pela mente de Thorn acendendo uma faísca repentina. Recordava-se de Ivy mostrando-lhe alegremente um chapéu novo que seu abastado cunhado lhe comprara, feito de veludo verde e que, ela dizia, combinava muito bem com seu vestido de inverno novo. Thorn jamais prestava muita atenção a adornos femininos, mas algo lhe dizia que o chapéu de Ivy era muito semelhante ao que a moça que se encontrava naquela carruagem estava usando. E isso foi suficiente para que deixasse de lado qualquer educação e decoro e voltasse a espiar abertamente para dentro do veículo. Dessa vez notou que a mão do rapaz descera do pescoço da garota e alguns cachos acobreados apareceram ali. Alarmado por ter estado a ponto de perdê-los mais uma vez, Thorn avançou e abriu a porta da carruagem com mais força do que seria necessário. E sua voz soou zangada: — Sugiro que tire suas mãos de minha irmã, sr. Armitage! A surpresa e o terror que viu nos rostos de ambos quase o compensou por todo o trabalho e incômodo que havia tido desde que descobrira a ausência da irmã em Bath. — Thorn! — exclamou ela, mas num tom que fazia parecer que era ele quem estava agindo errado. — O que está fazendo aqui?! Felizmente para Ivy, seu irmão não era um homem dado a violências. Caso contrário, poderia tê-la puxado para fora da carruagem e dado-lhe uma surra ali mesmo, para que jamais se esquecesse do que fizera. — Fala como se não fizesse a menor idéia — observou ele, cínico. E estendeu a mão para tirá-la do veículo. — Ao que parece, seu grande objetivo na vida tornou-se envelhecer-me antes do tempo, Ivy Greenwood!


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Seu tom autoritário fez com que sua irmã se sentisse envergonhada. Seu queixo estremeceu e seus lindos olhos azuis encheram-se de lágrimas. — Por favor, não se zangue com sua irmã, sr. Greenwood — disse o rapaz, que permanecera em silêncio até então. E passou o braço por sobre os ombros de Ivy, numa atitude protetora, completando: — A responsabilidade é toda minha, senhor. Thorn apreciava aquela atitude, mas sabia que não deveria mostrar-se suave. Aqueles dois precisavam entender, de uma vez por todas, o transtorno que sua escapada causara a ele e a Felicity. — Tenho motivos para me sentir ultrajado, Armitage! — rebateu, olhando para o rapaz com severidade, mas sentindo-se secretamente contente quando Oliver não se acovardou. — Vai ter que me acompanhar também, para ouvir sua parte na reprimenda, pode ter certeza! Thorn os olhava sem saber ao certo se os dois já tinham consumado seu casamento ou não. E acrescentou, aborrecido: — Eu sempre soube que minha irmã não tinha muito juízo, mas acreditava que você, ao contrário, fosse sóbrio, inteligente, sensato. Ivy soltou-se da mão do irmão e enfrentou-o com uma audácia que Thorn jamais vira nela até o presente momento. — Não admito que fale com meu noivo nesse tom Thorn! — disse, altiva. — Gostaria que se desculpasse agora mesmo! Thorn encarou-a, exasperado. A danadinha o tinha arrastado em uma viagem desconfortável por metade do país, e agora que tinha sido pega no flagrante de seu ato impensado, ainda agia como se ele não tivesse o menor direito de estar zangado com ela! — Esse jovem não é seu noivo — respondeu por entre os dentes. — E falarei com ele no tom que eu bem entender! De repente, Thorn deu-se conta dos inúmeros olhares curiosos que sua confrontação com o casal estava provocando. E, não querendo ser um espetáculo ainda maior para aquele público desconhecido, tentou controlar-se. E poderia ter esperado qualquer palavra de sua irmã naquele instante, menos a pergunta que ouviu: — Lady Lyte está com você? Que diferença fazia se Felicity estava com ele ou não?!, Thorn indagava-se. Mesmo assim, esclareceu: — Está, sim. — E fez um movimento de cabeça em direção à hospedaria. — Vamos entrar e saber o que ela tem a dizer a vocês dois. Sem hesitar, Thorn seguiu até a porta da hospedaria, entrou e subindo de pronto para o quarto de Felicity. Olhava de vez em quando para trás, a fim de certificar-se de


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que o casal o estava seguindo. E eles estavam, abraçados um ao outro, parecendo se encaminhar para uma execução sumária. Como acontecia frequentemente quando era obrigado a disciplinar a irmã, Thorn sentiu que sua raiva se amenizava. Afinal, pensava, se aqueles dois não tivessem fugido juntos, não estaria a ponto de casar-se com a mulher que ele mais amava no mundo. E um tão grande favor merecia certa tolerância. O som dos passos subindo as escadas fez Felicity lembrar-se da noite em que Thorn irrompera em sua casa em Bath. E fazia menos de uma semana... Com tudo que acontecera nos últimos dias, tinha a impressão de que se haviam passado meses. Os passos pararam do lado de fora da porta do quarto e batidas breves, mas firmes, soaram nela. — Lady Lyte! — Thorn chamou. — Estou com minha irmã e seu sobrinho aqui, comigo. Podemos entrar? Felicity engoliu em seco e passou os olhos ao redor, para ver se ainda havia algum sinal de seu mal-estar de havia pouco. Mandara a criada da hospedaria limpar o quarto e queria estar certa de que tudo estava em ordem, apesar de saber que, em breve, não teria mais motivos para esconder seu estado. Queria, porém, partilhar a grande notícia apenas com Thorn, em particular, e no momento mais apropriado. — Podem entrar — consentiu, levantando-se da cadeira que ocupava ao lado da lareira. Thorn abriu a porta e afastou-se para deixar o casal entrar primeiro. Os dois continuavam abraçados diante de Felicity. Oliver, porém, parecia determinado, apesar de tenso. Ivy, no entanto, olhava para Felicity com certa curiosidade que chegou a deixá-la embaraçada. Era como se a moça pudesse perceber seus sentimentos, até seu estado... Tentando parecer natural, Felicity olhou para Thorn que, após fechar a porta, foi ficar a seu lado, para que ambos pudessem confrontar o casal juntos. E, de repente, Ivy exclamou, sorrindo: — Deu certo! Eu sabia que daria! Eu sabia!! Thorn olhava para a irmã como se achasse que ela enlouquecera. E Ivy avançou, abraçando-o e beijando-o, e depois fazendo o mesmo com Felicity, deixando-os atônitos, pasmos. E a explicação para tudo veio numa risada gostosa de Ivy: — Eu disse a Oliver que se vocês dois fossem obrigados a ficar juntos numa carruagem durante todo o trajeto até a Escócia, logo perceberiam quanto se amam! Ela olhava para o irmão e para Felicity com ar triunfante e feliz. E acrescentou, ansiosa:


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— E foi o que aconteceu, não foi? Não foi?! A verdade pareceu desabar sobre Felicity, sacudindo-a quase fisicamente. E seu estômago revolveu-se de novo, dando-lhe a terrível impressão de que iria passar mal diante de todos ali. Uma sensação estranha, diferente, apoderou-se de seu ser, fazendoa crer que aquele sonho que tivera fora um aviso, que estava sendo perseguida pelos dois cães que a forçavam a ficar acuada, sem possibilidade de movimentos... — Está dizendo que vocês dois planejaram isso tudo? — exclamou, horrorizada. Mas nem era preciso perguntar, tão óbvia era a situação agora. Aliás, devia ter sido desde o começo, mas ela não percebera... Diante de si estava toda a explicação de que precisava para entender tudo desde a noite em que deixara Bath. Como pudera ser tão cega? Como pudera deixar-se manipular daquela forma?! E de novo!! — Nunca teve intenção alguma de se casar com meu sobrinho? — Felicity perguntou a Ivy, sentindo a náusea formar-se, violenta, em seu estômago. — Bem... a princípio, não — Ivy admitiu, sorrindo, fazendo com que Felicity tivesse vontade de torcer-lhe o pescoço. — Mas tudo começou como um plano para fazer com que vocês dois se entendessem, e depois uma coisa levou a outra, sabe? E... bem... Um plano para que os dois se entendessem, Felicity avaliava, com sua mente dando voltas confusas. Era como se uma armadilha tivesse sido colocada para pegá-la, e ela se deixara apanhar como uma grande tola. Ao que parecia, seu passado não lhe ensinara nada sobre como deveria se manter sempre alerta. Talvez fosse estúpida demais para aprender, afinal... Seu olhar horrorizado encontrou o de Thorn. Uma garota insensata como Ivy jamais poderia ter engendrado um plano assim, analisava. E as palavras saíram-lhe da boca sem controle: — Você também está metido nisso, não? Foi você quem os levou a concordarem com esse esquema todo? Uma sombra fria, dura, surgiu nos belos olhos dele, mostrando a Felicity que suas suspeitas não eram infundadas. Afastou-se dele, mas bateu as costas na ponta da lareira e parou. — Não posso acreditar que tenha sido tão tola a ponto de deixar que vocês me manipulassem dessa maneira! — sussurrou, cheia de raiva. — Felicity, eu sabia disso tanto quanto você, juro! — Thorn exclamou, entendendo o que ela estava imaginando. Deu alguns passos, tentou tomá-la nos braços e murmurou: — Não pode estar pensando que eu estivesse envolvido nessa trama! Ela queria acreditar, e muito, para poder sentir-se segura entre seus braços novamente, para que pudessem planejar seu futuro juntos, mas a segurança do futuro e


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a segurança de que tanto precisava eram como grandes mentiras que a assombravam agora. — Não se aproxime mais — avisou, mais assustada e temerosa de seus próprios sentimentos, de sua vontade de acreditar em Thorn, do que dele mesmo. — Não me toque! Mesmo tentando controlar-se, Felicity olhava-os e via as faces terríveis de suas governantas e de seu avô. Também era como se pudesse ver o rosto de seu falecido marido e da mãe dele, sempre pronta a agredi-la moralmente. Todas as pessoas que de alguma forma a tinham oprimido pareciam estar de volta ali, naqueles rostos que a olhavam agora, e eram muito piores porque continuavam a tirar-lhe tudo de bom que sempre tentara conseguir na vida, em especial seu direito à liberdade. Apenas quando seu olhar encontrou o de seu sobrinho, sentiu-se melhor, sem aquela sensação sufocante de pânico. — Não o culpo, meu querido — disse a ele. — Nós dois fomos abominavelmente usados! — E, estendendo-lhe a mão, pediu: — Por favor, leve-me de volta para casa, sim? O rosto de Oliver estava contraído, como tantas vezes ela vira quando ele estava diante de algum enigma científico. E Felicity podia ver algo mais nele: uma perplexidade dolorida que muitas vezes o tomava quando não conseguia entender algo que lhe parecia correto, mas que era, na verdade, uma contradição. — Não se zangue com Ivy — Oliver pediu. — Ela queria apenas que vocês dois fossem felizes... — E, olhando para Thorn, acrescentou: — E o irmão dela nada sabia do nosso plano! Posso lhe garantir isso, minha tia! Mas Felicity negou com a cabeça, parecendo desesperada. Seu sobrinho podia ser um rapaz muito inteligente, porém ainda tinha muito que aprender na vida, analisou, amargurada. Havia muita falsidade no mundo, e ele ainda não aprendera a identificála. Antes que pudesse colocar um pouco de sensatez dentro de Oliver, ouviu-o falar novamente, agora mais determinado do que antes: — Seja como for, não posso levá-la para casa agora. Ivy e eu pretendemos nos casar. — E encarando Thorn mais uma vez, completou: — Antes do anoitecer, se eu puder persuadi-lo a dar-nos sua bênção. Já era ruim ter sido enganada pelos Greenwood daquela maneira, Felicity ponderava, mas não permitiria que também seu sobrinho continuasse a ser usado como um fantoche. E ele seguia falando com veemência, como se defendesse uma causa justa: — Eu sei que tudo acabou como uma grande comédia de erros, tia Felicity, mas ainda podemos dar a ela um final feliz! Por que não seguimos todos para Gretna Green e fazemos um casamento duplo? O que acham? Felicity engoliu em seco. Até havia pouco acalentara esse sonho também. Mas,


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agora, só em pensar nele sentia-se nauseada outra vez. — Garoto estúpido! — exclamou. — Será que não vê que Ivy Greenwood é como todas as outras? Que está atrás de você apenas pelo seu dinheiro?! Oliver olhou-a, incrédulo. Felicity fora dura em suas palavras, reconhecia, mas não se retrataria porque tinha consciência de que estava agindo de forma correta. Oliver precisava entender a situação para o seu próprio bem! — Tia Felicity — ele insistiu, mais sério —, tenho certeza de que Ivy me ama, mesmo que possa parecer o contrário. E eu a amo também. Muito. "Embora possa parecer o contrário." Felicity mal podia acreditar que Oliver acabara de dizer aquilo. Qual cientista diria tal coisa, tendo tantas evidências contra uma idéia?! Estaria ele assim tão cego de paixão?! Oliver voltou-se para Thorn e insistiu: — O senhor permitiria que sua irmã me desposasse? Prometo fazer tudo que estiver ao meu alcance para fazê-la feliz. Felicity sentia-se no meio de um outro pesadelo. Ainda mais porque a vida parecia ensinar-lhe, mais uma vez, que a decepção, a frustração e a traição eram o que de mais concreto havia no mundo. Confiança, segurança, felicidade eram apenas sonhos, devaneios friteis, ridículos. Ivy agarrou a mão do irmão e pediu: — Thorn, por favor, por favor! Diga que sim! Consinta com o nosso casamento! Não faça comigo o que papai fez com Rosemary ao proibi-la de se casar com o homem que ela amava! — Bem... — Thorn hesitou, como Felicity imaginara que faria. — Se vocês dois conseguiram chegar até aqui sem matarem um ao outro... — Não acredito no que estou vendo e ouvindo! — Felicity protestou. — Não me diga que pretende aceitar essa situação depois de tudo pelo que passamos para detê-los! — A não ser que suas piores suspeitas se confirmassem e aquela viagem toda até Gretna não passasse de uma grande conspiração para fazê-la casar-se. Olhando com seriedade para Thorn, deu a ele a última chance de acabar com suas dúvidas de uma vez: — Se chegou a sentir alguma coisa sincera por mim, Hawthorn Greenwood, vai proibir esse casamento e levar sua irmã de volta a Barnhill. Por alguns instantes, um brilho diferente nos olhos de Thorn a fez crer que ele assim agiria. Mas esse brilho desapareceu, e Thorn a olhou com certo arrependimento, como se fosse ela, Felicity, quem o tivesse enganado. — Se você tivesse o menor sentimento por mim, Felicity — disse ele, absolutamente sério —, não me pediria para sacrificar a felicidade de minha irmã. — E


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colocando um braço sobre os ombros de Ivy, olhou para Oliver e completou: — Se vocês dois querem, de fato, se casar, terei orgulho em dar a mão de minha irmã. — Estão todos contra mim, então, pelo que vejo! — Felicity não se conteve. — É um grande complô! — Seus olhos estavam cheios de lágrimas que ela não saberia dizer se eram de raiva ou de amor próprio ferido, mas não daria a ninguém ali o prazer de vêlas rolarem por seu rosto. — Muito bem, então. Se insiste nessa tolice, Oliver, não tenho outra saída a não ser deixá-lo sem um tostão! O que dizia era muito mais do que uma ameaça para detê-lo. Se queria voltar a seus planos iniciais de afastar Thorn de sua vida e retirar-se para o interior, onde teria seu filho e o criaria sozinha, sabia que não poderia manter contato com seu sobrinho, caso ele tivesse qualquer tipo de ligação com a família Greenwood. E completou, mordaz: — Vamos ver se isso não muda a atitude da srta. Greenwood... Mesmo tentando manter-se calmo, Oliver não podia esconder as dúvidas no olhar que lançava para Felicity. Ivy parecia-lhe chocada por ver que ele perderia tanto por querer casar-se com ela. — Será que podemos ter alguns minutos em particular para discutirmos o assunto? — Ivy pediu num murmúrio. Felicity sentiu-se estremecer diante do olhar daquela garota. Não pretendia deixar-se dominar por qualquer demonstração de sentimentos dos Greenwood, porém não podia negar um pedido tão simples. — Muito bem, levem o tempo que quiserem. — Pegou seu casaco, suas luvas, sua bolsa e caminhou até a porta. — Vou esperar na carruagem por dez minutos — avisou. — Se Oliver não for até lá nesse meio-tempo, voltarei a Bath sem ele e darei instruções ao meu advogado para que o deserde. Enquanto falava, Felicity evitou encontrar o olhar de Thorn, temendo o poder que ele ainda tinha sobre seu coração. Um poder que Thorn parecia não ter tido escrúpulos em usar. Felicity fechou a porta atrás de si com determinação e Thorn segurou-se para não segui-la de imediato. Procurava manter-se calmo e equilibrado. Sentia-se como se tivesse sido lançado novamente dentro daquele rio gelado e estivesse se afogando. Estivera seguindo, feliz, em direção a um futuro maravilhoso ao lado de Felicity, ela aceitara desposá-lo, tinha conseguido encontrar sua irmã e Oliver Armitage, e então, de repente, tudo parecia desmoronar ao seu redor. Felicity mostrara-se fria, acusando-o de conspirar com sua irmã para enganá-la e forçá-la a um casamento. Como a mulher que ele amava podia acreditar que agiria dessa forma, com tamanha falta de honra?! Sentia-se ferido como nunca. Olhou para o casal que ainda se encontrava à sua frente, tentando encontrar


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palavras que fizessem sentido para o que acabara de acontecer, porque eles pareciam estar tão abismados quanto ele próprio. Queria, ao mesmo tempo, agradecer a Ivy pelo que ela tentara fazer para ajudá-lo, mas queria também que ela tivesse cuidado apenas de sua própria vida, sem interferir na dele. Estava ainda pasmo diante da mudança no curso das coisas e entendeu que não conseguiria dizer nada coerente. Já perdera um dos dez preciosos minutos que lady Lyte lhes dera. Assim que Oliver se decidisse, haveria tempo para que conversasse com sua irmã. Respirou fundo e, meneando cabeça, deixou o quarto e desceu as escadas, sentindo-se muito mal com tudo aquilo. Quando parou no hall de entrada, ouviu Felicity acertando as contas com o dono da hospedaria. — Peça aos meus criados que venham para cá imediatamente — disse ela. — E mande buscar minha bagagem. Quero minha carruagem pronta para partir quanto antes. O homem, recebendo um dinheiro extra por sua urgência em obedecer, deixou o balcão de entrada de imediato, para ir fazer o que lhe tinha sido ordenado. Thorn não se movia. Não sabia se saía e ficava na frente da hospedaria, ou se seguia até a feira que estava sendo montada na praça, evitando, assim, permanecer perto de Felicity até que ela partisse. Sabia muito bem que não adiantaria nada falar com ela, que isso só o faria rebaixar-se ainda mais. Mas seu controle sobre seus próprios movimentos parecia não estar muito bom nessa manhã. Assim, viu-se diante de Felicity sem saber ao certo como chegara até ela. — Por favor — Thorn murmurou, sentindo seus nervos ficarem mais tensos. Já se humilhara diante dela antes e não estava disposto a repetir a cena. — Não gostaria de reconsiderar sua decisão? Vai perder tanto com ela quanto todos nós. Talvez até mais. Thorn tentava convencer-se de que não perderia nada que tivesse, de fato, sido seu. Mas quando olhou para aqueles intensos olhos verdes e viu a beleza sendo vencida pelo rancor e pela angústia, lembrou-se de quanto fora feliz com Felicity. E um aperto muito forte atingiu-lhe o peito, fazendo-o ter vontade de gritar diante da perda que estava prestes a sofrer. Felicity se afastou, parecendo ter receio de que ele a tocasse. — Por favor, deixe-me em paz — pediu, tensa, irritada. — O senhor e sua irmã já não me causaram mal suficiente? — Eu jamais lhe faria mal, Felicity. E minha irmã não tem culpa de nada, a não ser de haver cedido a um impulso juvenil cujo único objetivo foi de ajudar. Eu já lhe disse antes que ela gosta de ser uma espécie de cupido... — Ah, claro! — Felicity zombou. — Se é que me lembro bem do que estudei


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quando menina, Cupido sempre costumava fazer uma série de traquinagens para envolver deuses e homens. Gostaria que sua irmã tivesse poupado suas setas e as usado em outra direção. — Felicity, ninguém nos obrigou a nos apaixonarmos. Talvez... talvez você, sim, tenha feito com que eu me apaixonasse perdidamente. E até bem pouco tempo atrás, eu acreditava que tivesse feito você se apaixonar por mim também... Tudo o que Ivy e Oliver fizeram foi colocar-nos juntos quando perceberam que iríamos nos separar. Nesse momento, o sr. Hixon e Ned apareceram no hall. O rapaz estava esfregando os olhos sonolentos e abotoara seu paletó de forma errada. O cocheiro olhava para Thorn com expressão confusa e indagou, humilde: — É verdade, então, senhora, que vamos partir agora mesmo, quero dizer... Há... algo errado? — Sim, muitas coisas estão erradas, sr. Hixon. Mas nada com o que o senhor tenha de se preocupar. Vamos voltar para o sul assim que a carruagem estiver pronta E, sem mais nenhuma palavra para Thorn, ela saiu dali, altiva. Ned parou à porta da hospedaria para perguntar: — O senhor não vai voltar conosco? Thorn negou com a cabeça, e depois pediu: — Cuidem bem da senhora por mim. — Vou tentar, senhor — prometeu o rapaz. — Mas lady Lyte não torna essa tarefa muito fácil, como já deve saber... Um sorriso muito leve passou pelos lábios de Thorn conforme assentia, concordando. Da rua, o cocheiro chamou o rapaz, e este ainda hesitou, olhando para Thorn e comentando: — Seja o que for que tenha acontecido, senhor... eu sinto muito. Pelo senhor e por ela. — E depois saiu correndo, abotoando o casaco novamente, dessa vez de forma correta. Mesmo sem querer, Thorn deu alguns passos até a porta. Talvez, no último instante, Felicity compreendesse o que estava a ponto de perder. Ainda mais se Oliver Armitage insistisse em seu propósito. Saiu da hospedaria e seguiu em direção ao estábulo, no pátio, ao lado da fonte, onde encontrava-se a elegante carruagem de lady Lyte. Os cavalariços tinham acabado de atrelar os cavalos a ela, apressados pelo dono do lugar. Outro criado descia as escadas dos fundos trazendo a bagagem, que lançou para Ned, em cima da carruagem. Thorn viu que Felicity estava sentada dentro do veículo, muito pálida e quieta como uma estátua. Olhando para frente, ela parecia não se dar conta da presença de Thorn.


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E ali, em silêncio, ele pedia apenas para que ela tivesse bom senso, que não deixasse as dores de seu passado interferir e estragar seu futuro. Os sinos da catedral soaram de novo, dessa vez marcando as seis da manhã. O sr. Hixon subiu para a boléia da carruagem e, com grande experiência, colocou os animais em movimento. Thorn afastou-se para deixar o veículo passar, mas continuou próximo o suficiente para perceber, na semi-escuridão do interior da carruagem que havia duas lagrimas rolando pelo rosto de Felicity. Aquelas lágrimas garantiam a Thorn que ela sabia muito bem o que estava deixando para trás. No entanto ficar ali teria custado a ela muito mais do que Felicity parecia disposta a pagar...

CAPÍTULO XVIII

Felicity amaldiçoava as duas lágrimas teimosas que traíam sua fraqueza. Mas não demonstraria, por nada neste mundo, que estava tão vulnerável, secando-as e deixando que ele a visse. Assim, permaneceu firme, olhando para frente, sem se mover, recusando-se a olhar para vê-lo do lado de fora da carruagem e a reconhecer a força que seu amor por ele poderia ter. Mas quando a carruagem passou pelos velhos muros de pedra que cercavam a cidade e ela estava certa de que Thorn não mais a poderia ver, deixou-se curvar sob o peso do desespero e chorou até não mais poder. Queria ainda, teimosa, convencer-se de que estava chorando por Oliver. Porque seu sobrinho, que ela praticamente criara, iria abandoná-la depois de tantos anos sob sua proteção e cuidados, esquecendo-se dos laços de carinho que os uniam. E ele o fazia por causa de uma moça a quem conhecera havia tão pouco tempo! Felicity não podia perdoar tamanha ingratidão. Parecia que todos aqueles que um dia ela amara a estavam traindo de uma forma ou de outra. Percy, Thorn, Oliver... Todos a feriam. — Meu bebê não o fará — sussurrou para si mesma, abraçando o próprio ventre num gesto de proteção. Não podia agora, tinha certeza, contar a Thorn a verdade sobre a criança que esperava. Pelo menos, não enquanto ainda sentisse algo por ele. Se contasse, seu filho se tornaria a corda num cabo-de-guerra entre mãe e pai. Agradecia a Deus por ter se controlado e nada dito até o momento. O dia amanheceu por fim, e a carruagem continuava seguindo rumo ao sul por um vale estreito que ficava entre os rios Éden e Petteril, ambos cortando uma velha floresta chamada Inglewood.


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Dos dois lados da estrada havia linhas de muros de pedras que separavam lotes de plantações absurdamente pequenas. De tempos em tempos aparecia um grupo de casinhas brancas, uma pequena igreja e, às vezes, uma hospedaria simples. Mais ao leste, ficava uma cadeia cinzenta de montanhas que deixava a paisagem ainda mais bonita. Estava escuro demais para ver tudo aquilo na noite anterior, quando Felicity e Thorn tinham cruzado a mesma região para chegar a Carlisle. Agora, a atmosfera tranquila daquele lugar a encantava, acalmando seus nervos ainda em frangalhos. Olhou para o interior de sua carruagem e, de repente, achou-o grande demais, espaçoso, vazio... sem a presença de Thorn. Não que ele tivesse uma presença tão marcante como, por exemplo, seu amigo Weston St. Just, ela analisou. Mas Thorn Greenwood possuía um caráter muito forte. Calado, sério, que poderia passar despercebido numa festa frugal, mas que era, de fato, muito profundo. Ele tinha a força gentil que cativava. Pelo menos era assim que Felicity o considerava antes dos acontecimentos dessa manhã. Como podia tê-lo julgado tão mal?, avaliava agora sem se conformar. Teria, de fato, se enganado tanto assim?! Na solidão em que se encontrava nesse momento não podia fugir da verdade. Talvez não tivesse se enganado quanto à personalidade de Thorn durante os longos e doces dias e noites em que haviam partilhado aquela viagem para o norte. Mas os problemas começaram quando seus temores a tinham subjugado, enchendo-a de dúvidas e incertezas, já que passara praticamente a vida toda rodeada por pessoas que não mereciam sua confiança, que a haviam enganado e deixado vulnerável a qualquer suspeita. Escondeu o rosto entre as mãos, muito embora não houvesse ninguém ali para vêla ou recriminá-la. Soluçava novamente, sabendo que, agora, suas lágrimas eram provocadas por uma causa verdadeira, dolorida. Imaginara que não poderia sofrer mais do que quando fora traída por seu falecido marido, ou quando sofrerá a humilhação de ver-se dominada por ele durante tantos anos. Mas estivera tão enganada! Agora percebia. Era ainda pior ver suas poucas e admiráveis qualidades serem subjugadas por suas falhas de caráter. E muito pior era saber que teria de viver com a amarga certeza de que traíra sua própria felicidade por causa de seu orgulho cego e egoísta. Sentia-se fisicamente mal. Seu ventre começou a doer com mais e mais intensidade, até que uma cólica profunda a fez gemer. Seu cocheiro devia tê-la ouvido, pois a carruagem diminuiu de marcha imediatamente. Um momento depois parou, Ned abriu a porta e indagou, apreensivo: — Algo de errado, senhora?


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A dor a deixava fraca e abatida. — Não, nada sério — Felicity mentiu, tentando parecer bem melhor do que estava. Não podia adoecer agora. Não tão longe de casa, sem ninguém para cuidar de sua saúde, além dos dois criados que nada entendiam de remédios. — Assim que chegarmos a Trentwell, já estarei bem. Agora, seja um bom rapaz e peça ao sr. Hixon que prossiga a viagem. Ned não lhe obedeceu com a presteza que ela sempre esperava de seus criados. — Desculpe-me, lady Lyte, mas... a senhora não me parece nada bem... — É claro que não pareço bem — ela rebateu, encarando-o, severa. Sentia nova cólica formando-se e não queria que Ned a testemunhasse. — Você também não, para ser franca. Afinal, como poderíamos estar bem depois de uma viagem dessas, com tanta pressa e tão pouco descanso? Agora, volte para a boléia e diga ao sr. Hixon para partir imediatamente! Mas ele continuava hesitando, olhando-a, preocupado, e Felicity gritou: — Agora! Mas antes que Ned pudesse obedecer, a dor tornou-se aguda e insuportável, fazendo-a curvar-se num novo gemido. Para não gritar ainda mais, acabou mordendo o lábio inferior com tanta força que chegou a sentir gosto de sangue. E, para sua surpresa e alívio, percebeu que Ned batia a porta e que, segundos depois, a carruagem voltava a entrar em movimento. Mas não por muito tempo. A dor agora era constante e forte, e foi assim que chegaram à porta de uma pequena hospedaria na vila mais próxima. — O que significa isso? — Felicity protestou, numa expressão de dor, quando o cocheiro e Ned abriram a porta. O rapaz olhava para os próprios pés, como se a resposta à pergunta de sua patroa estivesse escrita em suas botas. Mas explicou, mesmo assim: — A senhora não está bem. Precisa descansar, precisa de um médico. O sr. Greenwood pediu para que tomássemos conta da senhora, e não pretendemos decepcioná-lo. Felicity engoliu em seco. Então, Thorn se preocupara a ponto de pedir que os criados olhassem por ela. Mas isso não aliviava o que estava sentindo agora. Depois de tudo que dissera a ele e à sua irmã, sabia não merecer tal consideração. O sr. Hixon parecia ainda mais perturbado que Ned diante da perspectiva de desobedecer a ordens. Mas apoiou o rapaz naquela espécie de motim contra Felicity, porém, ao mesmo tempo, a seu favor. — Não pode continuar viajando, senhora — aconselhou. — Pode até nos demitir quando estiver bem novamente, mas até então não vamos tornar a seguir viagem.


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— Está bem, então. — Felicity estava angustiada e dolorida demais para contestar. A idéia de deitar-se um pouco, mesmo que longe de casa, era-lhe atraente. Levantou-se e, com a ajuda de Ned, desceu da carruagem, porém, ao pisar o chão, suas forças pareceram abandoná-la por completo e seu corpo se soltou nos braços do rapaz. Um pensamento a atormentou naquele momento: devia estar perdendo seu filho! Não podia haver outra interpretação para a dor lancinante que sentia no ventre. E, mesmo angustiada com mais aquela possível perda, imaginava que, afinal, se isso acontecesse, não seria de todo uma injustiça. Depois da forma como tratara seu sobrinho, questionando sua escolha, ameaçando sua felicidade, tentando controlar seus atos, via-se forçada a reconhecer que devia ser uma criatura egoísta demais para poder ser mãe...

— Eu gostaria que mamãe pudesse ver você hoje, minha querida — disse Thorn, dando um beijo suave na testa da irmã quando se preparavam para entrar na pequena capela de Gretna Green. — Imagino que ela estaria tão orgulhosa quanto eu estou. O queixo delicado de Ivy estremeceu e seu sorriso sempre aberto diminuiu um pouco diante da emoção que a tomava. Mas ainda tinha no rosto aquela deliciosa expressão pueril de quem pratica uma traquinagem e, mesmo assim, é perdoada porque é por demais cativante. — Thorn, não devia me fazer chorar antes do meu casamento, embora eu ache que mereça... — protestou. Thorn tirou um lenço do bolso e deu-o a ela, sorrindo. — E eu que achava ser uma espécie de cupido... — Ivy observou, entristecida. — Estraguei tudo, na verdade. Depois do que fiz, afastando você de lady Lyte, teria todo o direito de me mandar de volta a Barnhill e me trancar no sótão até que eu colocasse um pouco de bom senso na cabeça! Thorn tocou-lhe o queixo, erguendo-o de leve. — Pare com isso — disse com voz suave. — Queria ficar trancada no sótão em Barnhill? Isso me parece terrível demais, querida. Você merece muito mais seguir para uma viagem de lua-de-mel, isto sim. Ivy sorriu e acariciou-lhe o rosto. — Não precisa fingir que aceita assim tão bem o que fiz. Vai me fazer sentir muito pior do que se tivesse me dado uma bronca. — Bem, não vou ser mentiroso a ponto de dizer que aceito bem o que aconteceu


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entre mim e Felicity — Thorn admitiu —, mas não foi sua culpa. Sei muito bem que teve as melhores intenções possíveis, Ivy, querendo apenas a nossa felicidade. Mas se Felicity foi capaz de acreditar que você e eu planejamos toda esta situação só para induzi-la a casar-se comigo e Oliver a casar-se com você, então, talvez tenha sido melhor eu me ver livre dela. E, talvez, se continuasse repetindo tais palavras para si mesmo pelo resto da vida, ele também pudesse acreditar nelas... A brisa suave da primavera fez esvoaçar os cachos ruivos de Ivy, e o sol ameno pareceu saudá-los com alegria. Os olhos muito azuis dela pareciam poder ver além de Thorn, dentro de seu coração atormentado. — Não acredito nisso, como não acreditava quando deixei Bath — Ivy murmurou. — E tenho certeza de que, bem no fundo do coração, lady Lyte não acredita em nenhuma daquelas coisas horrorosas que nos disse. Thorn assentiu muito de leve. — Eu gostaria de poder partilhar o seu otimismo, minha querida — comentou. — Não é apenas otimismo, Thorn. — Ela o encarava como se, assim, pudesse transmitir a ele sua ardente convicção. — Lembra-se de como Merritt acusava Rosemary de tê-lo colocado numa armadilha quando descobriu que tínhamos perdido a nossa fortuna? — Como eu poderia esquecer? — Afinal, Thorn sentira tanto quando vira sua irmã e seu querido amigo machucando-se daquela maneira! — E eles talvez nunca mais tivessem se reconciliado, não fosse por você — Ivy insistiu. — Embora eu saiba que você jamais vai admitir que fez o papel de Cupido naquela ocasião... — Olhe, Ivy, se ainda tem alguma intenção de interceder de alguma forma em meu favor em relação a lady Lyte, pode esquecer, está bem? Não quero que o faça. Está me ouvindo? — Não pensei em nada disso, Thorn! — Ivy protestou. — Você e ela devem se entender sozinhos. E sei que podem fazê-lo, se tentarem. Ela fez um gesto de cabeça em direção à igreja em que seu noivo a esperava. — Eu cresci muito nesta última semana, percebeu? E, depois das coisas que Oliver me contou sobre si mesmo e sobre sua tia, sinto muito por aqueles que têm uma fortuna muito grande, sabe? Porque nunca podem confiar no amor de ninguém. — Ivy apertoulhe as mãos nas suas, veemente. — Olhe, Thorn, quando lady Lyte disse aquelas coisas, o que ela queria de fato dizer é que não acredita que mereça ser amada por si mesma, pelo que é. Não é de você que ela desconfia, mas de si mesma! Thorn encarou-a, sério, na intenção de dizer-lhe que se deixara dominar pela atmosfera romântica de seu casamento, mas antes que pudesse falar qualquer coisa,


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suas lembranças o detiveram. Uma delas, de algo que ocorrera menos de um dia antes, quando estavam chegando a Carlisle. Podia ouvir as palavras de Felicity dizendo-lhe "Não sou boa o suficiente para você". Talvez, o que Ivy acabava de lhe dizer não fosse tão romântico assim, talvez fosse real... O que não podia fazer era deixar-se dominar por uma esperança louca apenas porque não tinha coragem suficiente para encarar os fatos. — Precisa ir atrás dela, Thorn — Ivy insistiu, vendo que ele pensava a respeito. — Tenho certeza de que, assim que lady Lyte tiver oportunidade de pensar melhor sobre tudo que aconteceu, perceberá que estava errada! E o que mais se pode fazer durante uma longa viagem de carruagem, a não ser pensar? Thorn olhava-a, inseguro. Se Ivy ao menos soubesse! Sentiu um calor intenso tomá-lo quando se lembrou do que se pode fazer numa longa viagem de carruagem... mas eram necessários dois para fazer certas coisas... Nesse momento, Oliver Armitage apareceu à porta da igreja, tendo um ar de apreensão em seu rosto inteligente. Ivy olhou-o, visivelmente feliz. E completou, para surpresa de seu irmão: — É claro que, quando se tem boa companhia, se podem fazer muitas coisas numa carruagem... Talvez ela soubesse tanto quanto ele, Thorn avaliou, engolindo em seco. Lembrava-se muito bem do abraço sensual em que surpreendera Ivy e Oliver naquele começo de manhã. E Oliver a olhava com expressão confusa, talvez imaginando o que ela achava de tão engraçado enquanto ele estava com os nervos à flor da pele. — Estou achando que você quer persuadir seu irmão a levá-la de volta para casa — disse ele, aborrecido. — Nunca! — Ivy exclamou, soltando-se de Thorn e correndo para ele. — Estou apenas tentando convencer Thorn a seguir sua tia, embora tenha jurado a mim mesma que jamais iria bancar o Cupido outra vez. — Então, vamos logo, mocinha! — Thorn incitou-a e a levou até os degraus da igreja. — Não vamos deixar seu noivo esperando por mais tempo. Ele me parece muito ansioso. Oliver entrou novamente, enquanto Thorn e Ivy seguiam em passos mais lentos. Quando chegaram à porta, Ivy pareceu hesitar. Por segundos, Thorn chegou a pensar se ela estava começando a se arrepender. Mas Ivy ergueu os olhos muito azuis para ele e pediu: — Faria algo por mim? Como presente de casamento? Como ela poderia ter adivinhado que ele se ressentia por não lhe ter dado presente algum?, Thorn indagava-se.


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— Vá em frente — incitou-a. — Diga o que quer. — Vá atrás de lady Lyte. Pelo menos, para ter certeza de que ela vai chegar bem a Trentwell. Sei que Oliver está preocupado com ela e que se sente mal por ter ido contra suas determinações. Afinal, eles sempre se deram tão bem! — Você devia estar pensando em seu casamento, não em mim — Thorn acusou. Mas ela o olhava daquela forma que conseguia convencê-lo a fazer qualquer coisa, e não pôde recusar-lhe mais esse pedido. — Não vai desapontar sua irmãzinha no dia do seu casamento, vai? — Ivy murmurou, fazendo um biquinho. Oliver Armitage teria problemas para lidar com aquela pequena feiticeira, Thorn pensou, acariciando o rosto da irmã. — Está bem, está bem — concordou, por fim. — Mas só porque não quero ficar aqui, discutindo o assunto com você enquanto seu pobre noivo está lá dentro esperando, tenso. Ivy sorriu ainda mais, provocando aquelas deliciosas covinhas nas maçãs do rosto. — Tenho certeza de que não vai se arrepender! — confidenciou-lhe. — O amor tem uma força muito grande, sabia? Basta termos coragem para aceitá-lo. Thorn sentiu-se estremecer. Onde já ouvira aquelas palavras? — Vamos, então! — Ivy agarrou-o pelo braço. — Não quero que Oliver acabe desistindo. Enquanto caminhava com a irmã pela nave da igreja, Thorn olhou ao redor, sentindo-se extremamente satisfeito. Oliver e Ivy podiam ter fugido para Gretna, mas ele insistira num casamento apropriado para que tal união fosse abençoada também em termos religiosos. Sem pressa, porque sua irmã merecia sempre o melhor. O vigário clareou a garganta e começou a recitar as palavras de praxe sem nem mesmo olhar para seu livro de orações. — Queridos amigos aqui presentes, estamos aqui, diante de Deus e destas testemunhas, para celebrar a união deste homem e desta mulher em sagrado matrimônio. Pouco depois, quando ele perguntou quem estava entregando a noiva, Thorn respondeu com orgulho: — Eu a entrego. — E colocou a mão de sua irmã na de Oliver com firmeza, mas não sem certa relutância. Porque lhe parecia que havia muito pouco tempo aquela pequena criatura não passava de um bebê risonho em seu bercinho, que ele pegara e incitara a acenar um


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último adeus à sua mãe morta, muito embora soubesse que ela jamais se lembraria daquilo... E agora ali estava Ivy, depois de alguns anos passados de forma suave e feliz, proferindo seus votos de fidelidade e amor para um rapaz... Uma linda mulher, observou Thorn, como tantas vezes antes, impulsiva, mas de bom coração, cheia de esperança no futuro. Fizera o melhor possível por ela, embora fosse inexperiente. E agora lá estava Ivy, ao lado de um bom rapaz que devia ter pouca experiência com o sexo feminino, mas que parecia encantado por sua irmã. Sentiu um calor estranho invadi-lo, e lembrou-se de sua mãe. Se ela estivesse viva, imaginou, teria aprovado a forma como criara aquela menina. E lembrou-se de onde ouvira aquelas palavras sobre a força do amor. Tinha sido havia muito tempo, quando sua mãe lhe contava belas histórias de princesas encantadas e príncipes heróicos que as resgatavam de feitiços maldosos com a força do mais puro amor. A força do amor... Com certeza, Felicity era tudo que ele sempre imaginara como uma bela princesa em perigo. Uma princesa cujo passado parecia ter lançado um feitiço maligno sobre seu coração. Não, ele não era nenhum príncipe de contos de fadas talvez fosse mais o sapo encantado... Seria possível que tivesse o poder de resgatar Felicity? Depois do que vira em seu olhar e do que ouvira de sua voz naquela manhã, seria ainda possível haver algo de bom entre ambos? Talvez, mas, primeiro, tinha ainda uma obrigação fraterna para com Ivy. Depois da cerimônia, enquanto ela perguntava ao vigário e à sua esposa se podiam recomendar uma boa hospedaria, Thorn puxou Oliver para um canto, a fim de poderem conversar a sós. — Seja paciente com ela esta noite, meu rapaz — aconselhou. — E trate-a com gentileza. — Eu amo Ivy demais, sr. Greenwood — disse Oliver. — Tem minha palavra de que jamais farei qualquer coisa que a fira ou assuste. E... quanto a nós dois, bem, senhor... sua irmã parece ter muito mais informações a respeito do que eu... Thorn abafou um sorriso. Pelo visto, Rosemary já havia preparado a irmã menor sobre o que significava de fato uma noite de núpcias. — Ao que me parece, vocês dois estão em boas mãos — Thorn observou, batendolhe amigavelmente nas costas. — E, assim que voltarem à Inglaterra, quero que saiba que são bem-vindos a Barnhill para viverem lá enquanto quiserem. Os olhos de Oliver brilharam de gratidão. — Prometo fazer tudo que estiver ao meu alcance para que Ivy nunca se arrependa de ter se casado comigo, senhor. — Faça isso, e eu terei orgulho de chamá-lo de cunhado. — Thorn estendeu a


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mão, que Oliver apertou com entusiasmo. — Agora preciso ir — avisou, olhando em direção ao sul, imaginando onde Felicity poderia estar naquele momento. — Ivy insiste para que eu vá atrás de sua tia para que nada de mal lhe aconteça na viagem de volta. E vou fazê-lo, mesmo que tenha de ficar vigiando-a a distância. Ele ainda dispunha do cavalo emprestado por Weston St. Just e de um pouco do dinheiro que pegara com Felicity para pagar o carregador da hospedaria em Carlisle. Não gostava da idéia de estar gastando o dinheiro dela em suas refeições no caminho de volta ao sul, mas estaria, afinal, prestando-lhe um serviço, Felicity querendo ou não. — É melhor você ir já, se quer alcançar lady Lyte — ouviu sua irmã dizer-lhe. Ela se aproximou e, dando um forte abraço em Thorn, acrescentou: — Cuide-se na viagem e não se preocupe mais comigo e com Oliver. Estamos os dois em boas mãos. — Eu sei. Comporte-se e obedeça a seu marido. Ele é um rapaz muito sensato e acabei de ser testemunha de que você jurou ser uma boa esposa. — Ora, vocês, homens! — Ivy protestou, sorrindo, numa expressão que demonstrava que obedeceria a seu marido, sim, mas apenas no que bem entendesse. — Vocês se protegem, sabia? Pode crer: vou ser a esposa mais dedicada que já viu! — Cuidado, que mentir é pecado! — Thorn brincou, dando-lhe um beijo no rosto. Sabia que o futuro seria risonho para Oliver e Ivy porque eles se amavam de fato e se mereciam. — Agora eu já vou, para não atrapalhar em nada sua lua-de-mel! Minutos depois ele já estava cavalgando de volta a Carlisle, imaginando que se deixara convencer mais uma vez por sua querida irmãzinha. Uma coisa fora seguir Felicity de Bath até o ponto em que a surpreendera sendo assaltada; naquela ocasião ela deixara bem claro que não queria sua companhia. Mas, então, ele podia dizer que estava agindo no interesse da felicidade de sua irmã, mesmo que, em parte, estivesse interessado na segurança de Felicity. Agora, porém, a aparência de sua viagem era a de que estava seguindo atrás de sua amante, querendo apenas que ela lhe desse uma outra chance. E, na verdade, nem sabia se ousava querer essa outra chance. Um homem sensato saberia quando parar de pedir, de implorar, quando cortar os últimos laços... Seu pai não fora um homem sensato, muito menos prudente, gastando demais seu dinheiro na esperança de salvar sua fortuna, e acabara por perdê-la por completo. Mais do que qualquer outra coisa, Thorn não queria seguir o exemplo do pai. Sua irmã tinha razão quanto ao fato de uma longa jornada fornecer tempo suficiente para profundas reflexões. Seguia pelos campos maravilhosos daquela região, pensando, pensando... Tinha tempo demais, sabia, para se arrepender, para ter esperança, para preocupar-se. Ao longo da estrada, ficavam suas apreensões, suas angústias, e seguia com ele a vontade de esclarecer tudo, reconciliar-se com seu grande amor, e poder, por fim, ser feliz. Talvez nem conseguisse encontrá-la, analisou, pensando na diferença de tempo que os separava. A menos que parasse em cada hospedaria pelo caminho e perguntasse


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sobre ela, corria o risco de desencontrar-se de Felicity. Mas, como ela tencionava chegar quanto antes a Bath, cada parada que ele fizesse poderia deixá-lo mais e mais atrasado, sem possibilidade de encontrá-la. Talvez isso fornecesse uma excelente desculpa para fracassar no que prometera à sua irmã fazer, pensou, enquanto passava por uma elegante carruagem parada junto a uma hospedaria de beira de estrada. Notou, de relance, que um criado parecia acenar-lhe... Thorn puxou as rédeas, refreando seu animal, e o fez voltar. — Posso ajudar em alguma coisa? — perguntou ao homem que sinalizara. — Sim, senhor, se tiver a bondade de poder parar um pouco... — O criado apontou para a carruagem. — Uma das rodas de trás se partiu ao passarmos por uma vala. Passamos há pouco por uma vila na qual havia um ferreiro... Um homem de meia-idade, que devia ser o cocheiro, apareceu então de trás do veículo, tendo as mangas da camisa enroladas até os cotovelos e as mãos sujas, já que estivera lidando com a roda. E explicou: — Pedi ao rapaz para tirar um dos cavalos para que ele voltasse à vila e pedisse ajuda, mas ele tem medo de cavalgar em pelo. Houve um tempo em que eu conseguia cavalgar qualquer coisa que tivesse quatro patas e fosse grande o suficiente para aguentar meu peso, e usando apenas uma pequena corda para me segurar! Mas aqueles dias já vão muito longe... — Bem, estou seguindo para o sul — Thorn ofereceu. E estendeu a mão para que o rapaz montasse junto com ele. — Duvido que o meu cavalo note a diferença de peso. É um bom animal. — Muito obrigado, senhor! — agradeceu o cocheiro enquanto o rapaz se agarrava às costas de Thorn, parecendo pouco à vontade no dorso de um cavalo, fosse com sela e arreios ou não. Seguiram viagem e, minutos depois, Thorn perguntou, em busca de informações sobre Felicity e também para distrair-se na cavalgada: — Estão na estrada há muito tempo? — Não muito, senhor. Saímos de Brough. Haveria poucas chances de terem encontrado a carruagem de Felicity, Thorn avaliou. A cidade de Brough ficava a alguns quilômetros ao sul de Penrith, na rota de Londres. — Imagino se teriam passado por uma elegante carruagem entre Penrith e esta região... — Thorn descreveu a carruagem em detalhes. O criado agarrava-se ainda mais a ele, parecendo pouco distraído, mesmo com a conversa, e cheio de medo. — Não, não passamos por nada assim, senhor — disse ele, por fim.


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Na verdade, Thorn não esperava uma resposta afirmativa, mas ao menos tentara. Porém o rapaz acrescentou, segundos depois: — Pelo menos, não na estrada. O cavalo acelerou a corrida, sentindo as pernas de Thorn mais firmes ao redor de seu flanco. E o rapaz agarrou-se ainda mais, apavorado. Sua voz mal lhe saía da garganta: — Nu... numa hospe... daria... quando para... paramos para... comer... Eu achei... a carruagem lin... linda, senhor. Thorn chegou a sorrir, animado com a perspectiva de Felicity estar tão perto. Pouco depois, deixava o rapaz na aldeia em que havia o ferreiro, e ele acenou-lhe um adeus aliviado, dizendo: — Boa viagem, senhor! Espero que encontre aquela senhora em melhor estado do que ela estava. Thorn já se preparava para partir, mas refreou o cavalo. — O que disse? — perguntou, preocupado. — Aquela senhora. A da carruagem bonita. Ouvi dizer na hospedaria que ela havia parado ali porque não estava nada bem de saúde. — Mas que droga, rapaz! Por que não disse isso antes?! O criado baixou a cabeça ao explicar: — Imaginei que, se o senhor soubesse, faria o cavalo correr ainda mais... E era verdade, porque Thorn estava alucinado para saber o que acontecera a Felicity. Murmurando uma imprecação por ter sido atrasado daquela maneira, incitou o cavalo rumo ao sul e partiu a toda velocidade. E, mesmo sendo um animal excelente, a velocidade que imprimia em sua cavalgada não era suficiente para acalmar o terrível medo que se instalara no coração de Thorn.

CAPÍTULO XIX

— Vou perder meu bebê? — Felicity perguntou, aflita. Mesmo estando com bem menos dor agora, ainda se preparava para receber más notícias. Tinha sido muito decepcionada pela vida para ter vãs esperanças.


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A esposa do dono da hospedaria, uma mulher alta, muito clara e magra, ajeitou as cobertas em torno de Felicity com mãos surpreendentemente gentis, mas sua resposta soou num tom forte, vigoroso: — Aborto? Não, não. Acho que não, moça. — Afastou-se da cama e, com as mãos na cintura, continuou: — E pode acreditar no que estou dizendo, porque eu já trouxe muitas crianças a este mundo e sei muito bem o que digo. Sempre sou chamada para atender uma parturiente ou outra em Penrith. Na maioria das vezes, trata-se de moças que engravidaram de rapazes da cidade, sabe? E elas ficam felizes quando vêem Mãe Merryvale chegando. Mãe Merryvale. É assim que me chamam. A pressão que apertava o peito de Felicity suavizou-se um pouco. — Que bom que acabei parando na sua hospedaria, então — comentou. — A senhora foi muito gentil e atenciosa comigo. Ela não se lembrava de ter sido tratada com tanta gentileza e cuidados, mesmo contra sua vontade, com exceção de uma ou duas ocasiões quando baixara a guarda com Thorn. — Bem, eu diria que teve mais sorte do que merecia, moça — repreendeu-a a sra. Merryvale com carinho, andando pelo quarto, verificando se o chá que trouxera para Felicity ainda estava quente e se havia cobertores suficientes dentro do guarda-roupa. — E seu marido? O que ele tem na cabeça para deixá-la fazer uma viagem assim tão longa estando grávida? — Não tenho marido, sra. Merryvale. — Felicity começava a exercitar a história que teria de contar no futuro. — Sou viúva. E não era mentira, analisava consigo mesma. A sra. Merryvale não precisava saber havia quanto tempo Percy morrera, muito menos que ele não era o pai de seu filho. De forma curiosa, sua separação de Thorn era como um estado de viuvez muito sofrido, muito dolorido, bem mais até do que fora quando da morte de Percy. — Oh, pobre moça! — compadeceu-se a esposa do taberneiro. — Então, não é de se admirar que não tenha tomado cuidado suficiente. Mas deve começar a se cuidar de agora em diante, ouviu? Sobretudo por causa desse bebezinho que está carregando. Felicity assentiu, obediente. — Ah! — A mulher pareceu lembrar-se de alguma coisa. — E não pretende repreender e muito menos demitir aquele pobre rapaz chamado Ned, não é? Por tê-la trazido até aqui quando queria continuar sua viagem. A preocupação de seus criados quanto a isso deveria ser muito grande, Felicity analisou, já que eles tinham até comentado o fato com a sra. Merryvale. Felicity meneou a cabeça, sentindo pena deles. O medo pelo qual passara, as grandes emoções daquele dia, deviam tê-la deixado ainda mais vulnerável. — Não, não vou sequer repreendê-los — prometeu. — Muito ao contrário. Eles


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até merecem uma recompensa por terem cuidado de mim melhor do que eu mesma estava preparada para cuidar. Afinal, eles tinham arriscado muito desafiando sua autoridade... Não era uma idéia muito fácil de ser digerida por Felicity, que alguém pudesse opor-se à sua vontade, tendo seu bem-estar como preocupação maior. No passado, fora condicionada a cuidar de seus próprios interesses, certa de que ninguém mais o faria. E seu casamento servira apenas para comprovar tal tese. Agora, seu relacionamento com as duas pessoas que mais amava estava rompido exatamente por sua crença nesse tipo de coisa. — A dor está piorando de novo, minha cara? — preocupou-se a sra. Merryvale, vindo até a cama com a caneca e o bule nas mãos. — Não. — Felicity tentou sorrir. — Ela melhorou muito depois do chá que a senhora me serviu. A dor em seu ventre diminuíra, sim, e muito, mas a que trazia em seu coração estava agora mais forte. E até mesmo uma parteira experiente como sua anfitriã não saberia que tipo de remédio dar-lhe para fazê-la melhorar desse tipo de sofrimento. No entanto a dona da hospedaria parecia pensar de forma diferente: — Vamos, beba isto. — E colocou a caneca fumegante nas mãos de Felicity. — É uma infusão com ervas do meu jardim. Não vai lhe fazer mal algum, apenas será bom para você e para o bebê. Na verdade, acho que você precisa mais de descanso do que qualquer outra coisa, e não estou dizendo isso para mantê-la aqui por mais tempo, pode ter certeza. Para sua surpresa, Felicity acreditou na mulher. Bebeu um gole do chá e achou o gosto bastante esquisito, embora não desagradável. A sra. Merryvale assentiu, aprovando sua obediência. — Você se sentirá bem melhor, mas, se for como a maioria das pessoas, vai melhorar mais depressa quando estiver na sua própria casa. Descanse aqui esta noite e amanhã poderá seguir viagem. Mas vai ter que prometer que não dará ordens para que o seu cocheiro siga com muita velocidade. Vai parar com frequência e esticar as pernas, respirar ar puro, descansar e comer um pouco. — Está bem, eu prometo. — Felicity tomou outro gole do chá, agora achando-o muito bom. — Vou cuidar melhor de mim mesma de agora em diante. O rosto magro da mulher se abriu num sorriso. — Mas é claro que vai, minha querida! Agora vou deixá-la para que termine seu chá e durma um pouco. O sono é o melhor remédio para muitos males, sabia? Se precisar de alguma coisa, é só tocar a sineta, está bem? Qualquer que seja a hora. — Obrigada, sra. Merryvale. Espero não precisar perturbá-la durante a noite,


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porém há algo que eu gostaria que fizesse por mim agora, se for possível. — O que quer, minha cara? — Por favor, diga ao sr. Hixon e a Ned que não corro perigo algum e que os seus empregos na minha casa estão garantidos pelo tempo que desejarem trabalhar lá. A óbvia lealdade deles a Thorn tornaria impossível a Felicity levá-los quando se retirasse para o interior a fim de ter e criar seu filho, e isso a deixava um tanto triste. Gostava de seus criados. Mas, antes de partir, cuidaria para que eles ficassem muito bem colocados em outra casa. — Pode ter certeza de que ficarei muito feliz em dizer-lhes isso — afirmou a dona da hospedaria, sorrindo. — E aposto que eles vão ficar muito felizes. Portanto não se preocupe mais com esse assunto nem com nenhum outro. — Vou tentar — Felicity sussurrou, enquanto a mulher se retirava do quarto. Podia ser efeito da infusão que acabara de beber, ou simplesmente cansaço, mas ela começava a se sentir calma, sonolenta até. E, suspirando, deixou-se levar por aquela deliciosa sensação de relaxamento. Pouco mais tarde, Felicity não estava certa se teria sido uma hora ou apenas alguns momentos, o ruído da porta sendo aberta muito lentamente a acordou de um cochilo leve. Abriu os olhos apenas um pouco para ver quem entrava, imaginando que a sra. Merryvale devia estar apenas verificando se tudo estava bem com ela. Mas quem entrava era uma figura que Felicity não esperava ver tão cedo: Thorn. Podia estar sonhando devido ao que bebera, imaginou. Porém não queria fazer nada para que aquele doce sonho terminasse... Ele não fez movimento algum que pudesse acordá-la, apenas ficou ali, olhando-a em silêncio. E, sem ousar abrir mais os olhos, mas decidida a não fechá-los de todo enquanto ele ali estivesse, Felicity ficou olhando para Thorn, enxergando-o agora com uma nova luz em seu coração. Tinha-o escolhido para amante por muitas razões erradas, avaliava. E acabara confundindo seu jeito calado, suave, gentil, com fraqueza de espírito e até mesmo excessiva simplicidade. Não vira com clareza suas boas qualidades e acabara travando uma intensa batalha com o amor que já nutria por ele. O que Thorn vira nela para torná-lo tão tolerante com seus excessos? Felicity gostaria de poder ver-se com os olhos dele. Queria tanto ser o tipo de mulher que Thorn pensava ver quando a olhava! Depois de algum tempo, ele deu alguns passos de volta à porta, deixando-a aflita com sua iminente partida. — Por favor, não vá embora! — ela pediu então, apoiando-se nos travesseiros.


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Thorn voltou-se ao ouvi-la, e olhou-a, calado. Para Felicity, ainda parecia estar num sonho. — Você... me encontrou? — ela indagou, sem saber o que mais dizer. E, mesmo ouvindo as palavras saindo de sua boca, ela sabia que não estava conseguindo mantê-lo ali. O rosto dele tinha uma expressão diferente, estranha, firme demais... — O que mais eu podia fazer? — ouviu-o perguntar em tom amargo. — Essas estradas não são seguras e eu imaginei que você não seria prudente o suficiente para parar numa hospedaria decente antes do escurecer. Felicity deveria saber. A esperança que aparecera em seu coração começava a se dissipar. Ele viera atrás dela, sim, mas não porque a amava. Acompanhara-a até Carlisle e, logicamente, consideraria seu dever acompanhá-la de volta, mesmo não gostando da tarefa. — Disseram-me que você não estava bem — Thorn prosseguiu, mantendo o tom de voz baixo. — Já estou bem melhor agora. Acho que os meus nervos não suportaram o estresse da viagem. Se escondesse a verdade sobre o bebê, Felicity sabia que ele continuaria a manter seu dever de acompanhá-la, mesmo tendo sido tão maltratado pela manhã. Uma vontade muito grande de contar-lhe tudo, porém, a assaltava. Poderia tentar... Talvez conseguisse o perdão de Thorn, mais do que isso até, talvez reacendesse o amor que ele sentira por ela... Não, não, segredava-lhe uma voz interior, na qual sempre confiara. — E Oliver e Ivy? — quis saber, disposta a afastar o interesse dele de seu malestar. Era estranho, mas o casal que ela tanto quisera separar agora poderia ser sua ligação com Thorn... — Tornaram-se marido e mulher há algumas horas — ele informou, conciso. — Que bom! Thorn encarou-a, sem entender aquele comentário. Mas suas feições se suavizaram mesmo assim, e acrescentou: — Insisti para que se casassem de forma apropriada, diante de um vigário. — Sou-lhe grata por isso. — Felicity mantinha a voz num sussurro. Sentia-se triste porque seu sobrinho se casara e ela nem estivera presente, devido à sua própria escolha egoísta. Thorn deu um passo à frente, ficando mais próximo da cama, mas parecia relutante, como se agisse contra sua própria vontade. — Pode parecer difícil de acreditar — disse —, mas Oliver ama de verdade minha


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irmã, sabe? E ela o ama também. Não há, porém, como duvidar de que terão lá suas desavenças no próximo ano, quando ainda estarão se conhecendo melhor... Mas, com o apoio da família, acredito que tudo ficará bem e eles perceberão que hoje fizeram uma escolha acertada. Felicity imaginava ter ouvido a voz de Thorn fraquejar quando mencionara as famílias do jovem casal. Ou teria sido ela mesma a fraquejar diante do que ele dizia? Não podia ter certeza. — Não vou deserdar meu sobrinho — anunciou, sentando-se lentamente, como para não afugentá-lo. Também não queria sentir dor de novo diante dele. — Foi maldade minha ameaçá-lo de algo tão terrível. Thorn nada disse por alguns instantes, e ela continuou: — Lembro-me muito bem de como detestava ser controlada por aqueles que tinham algum poder sobre mim. E hoje usei meu poder sobre Oliver de forma abominável, querendo apenas controlá-lo. Felicity agradecia a Deus por ter chorado todas as suas lágrimas na carruagem, porque, se chorasse ali diante de Thorn, sabia que acabaria amolecendo seu coração. Mas não queria tê-lo de volta devido à piedade e muito menos ao senso de dever. — Estou muito envergonhada da forma como me comportei esta manhã — prosseguiu. — Nem sei se serei capaz de me olhar no espelho novamente, tamanha é a minha vergonha. Ela baixou a cabeça e ouviu-o dar mais dois passos em direção à cama. Thorn se sentou numa cadeira próxima, calado, tranquilo. Felicity engoliu em seco, esperando poder ter seu perdão de alguma forma. Ao longe, o ruído de cavalos sendo cuidados, de gente conversando sobre assuntos triviais, de bagagem sendo tirada ou colocada em carruagens, parecia estar ficando familiar aos seus ouvidos. A tarde caía, suave, e começava a espalhar sombras pelo quarto. Felicity sabia que, se estendesse o braço, seus dedos tocariam o rosto de Thorn, e sentia uma espécie de comichão de vontade de fazê-lo. Mas se deteve. Sua língua, porém, não teve controle: — Não sei a qual de vocês fiz mais mal hoje. Você, Oliver, Ivy... Devem estar todos me detestando agora. Não os culpo se estiverem. Nem eu mesma estou gostando de mim. Na verdade, Thorn, acho que jamais gostei de mim o suficiente. Thorn tentava controlar-se com dificuldade. Sua vontade era de esquecer tudo que acontecera e tomá-la em seus braços, mas não sabia até que ponto poderia contar na reação de Felicity. — Nenhum de nós a detesta, lady Lyte. — Soava-lhe estranho o tratamento formal que dava a ela, mas, no momento, não se permitia chamá-la com mais intimidade. — Tire isso da sua mente de uma vez por todas.


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Alguns momentos de silêncio, pesado, tenso, caíram sobre ambos, até que Thorn prosseguiu: — Foi Ivy quem me pediu para segui-la, embora ela jure de pés juntos que aprendeu a lição e que jamais irá promover nenhum encontro amoroso. Imagino que tenhamos de esperar para ver. — Ele tentou rir, porém não conseguiu. — Sua irmã é muito generosa por ter sentido pena de mim mesmo depois do que fiz, acusando-a de estar atrás da fortuna de Oliver. Thorn não entendia. Por que o gesto de perdão de Ivy deixava Felicity tão tensa? — O fato de ela ter se casado com meu sobrinho — continuou ela, sempre em murmúrios —, apesar da minha ameaça de deserdá-lo, só prova seus sentimentos para com ele. E estou arrasada por quase ter impedido que eles fossem felizes. — Mas não o fez. — Thorn sentia uma vontade ainda mais intensa de tomá-la em seus braços. — Na verdade, pode até ter-lhes feito um grande favor. Porque seu sobrinho nunca irá duvidar dos sentimentos de Ivy, ao mesmo tempo em que ela sempre saberá que ele esteve disposto a abrir mão de tudo por seu amor. Felicity cerrou os olhos ao murmurar: — Ah, como eu queria que fosse assim! Que tudo não tivesse passado de uma armação como a que você fez para que Rosemary e o sr. Temple se convencessem da sinceridade do seu amor! Uma idéia surgiu na mente de Thorn, repentina, luminosa, fazendo-o sorrir. E propôs: — E quem poderá saber que não foi se sustentarmos essa versão da história? Podemos afirmar que estávamos apenas tentando provar a nós mesmos e a Ivy e a Oliver que eles se amavam de fato! Puxa, eu queria ter sido esperto o suficiente para ter essa idéia antes! Felicity ergueu os olhos para Thorn, mas eles estavam tão sofridos que a fizeram perder o ânimo que a idéia lhe dera. — Você faria isso? — ela perguntou, com voz trêmula. — Por mim? Thorn assentiu. — E por Oliver e Ivy também — ele acrescentou. — Prefiro que pensem que você é uma atriz brilhante que apenas fingiu toda aquela cena a... — Thorn interrompeu-se, sabendo ser melhor não completar a frase. Mas, para sua surpresa, Felicity não se ressentiu da verdade que ficara implícita. Ao contrário, terminou por ele: — A ter o nosso relacionamento futuro envenenado pelo fato de que eu realmente pensei que meu querido sobrinho fosse um tolo e que sua esposa não passasse de uma caça-dotes.


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Thorn assentiu. — Seria bem melhor assim, não? — indagou. Felicity nunca lhe parecera tão linda, mesmo tendo aquela tristeza e aquele arrependimento estampados nas feições suaves. Os cabelos soltos, espalhados pelo travesseiro, os olhos verdes emoldurados pelos cílios espessos, seus lábios rosados convidando-o para um beijo demorado... Quantas vezes, nos últimos meses, estivera na cama de Felicity? Passara momentos maravilhosos com ela, mas nunca se achara merecedor de tanta felicidade. E depois sofrerá tanto quando ela o deixara, quando o acusara de conspirar com a irmã... E, mesmo assim, a amava perdidamente. — Nada fiz para merecer um tratamento tão generoso de sua parte — disse ela, com certa formalidade. Thorn podia ver o agradecimento que se estampava naqueles olhos verdes. E sentiu-se imensamente feliz. — Ao contrário, lady Lyte — murmurou e estendeu a mão para ela, procurando mantê-la firme. — Sou eu que devo agradecer, pois me proporcionou as semanas mais felizes da minha vida. Felicity hesitava, antes de levar sua mão até a dele. — Essas semanas... — começou, num sussurro. — ...nada me custaram. Na verdade, acredito que você me deu mais do que recebeu. Quando suas mãos se tocaram, muito de leve, Thorn afirmou: — Talvez, quando um homem e uma mulher se entregam por vontade própria, sem se importarem com mais nada, ambos estejam plenamente recompensados... Felicity engoliu em seco e, acariciando a palma da mão dele, pediu: — Poderá, um dia, me perdoar, Thorn? — Está me pedindo que a perdoe? — Não. Estou implorando. Ele cerrou os dedos, prendendo os dela. — Não há necessidade de implorar. Imagino que sei por que disse tudo aquilo esta manhã. Foi por causa da maneira como foi tratada quando criança. E, depois por seu marido e sua sogra. — Sim, mas isso não deveria ser uma desculpa para o meu comportamento, reconheço. — Havia altivez ainda na expressão dela, como se quisesse seu perdão, mas jamais sua piedade. — Você nunca me tratou mal. Sempre foi sincero e generoso. E compará-lo a esses outros foi um enorme insulto. Ainda mais porque sei quanto a sua integridade é importante para você. E, de alguma forma, pedir seu perdão apenas não


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me parece ser suficiente. Thorn entreabriu os lábios, na intenção de dizer alguma coisa, mas Felicity apressou-se em acrescentar, como se temesse sua resposta: — Nem sei do que me arrependo mais: pensar mal de você ou ignorar seus conselhos para que reconsiderasse minhas ações... E, quando, por fim, deixei que a razão falasse mais alto em mim, compreendi que havia sido uma grande tola. Thorn sabia que ela já sofrerá o suficiente com o peso em sua consciência. — Não vou fingir que suas acusações não me tocaram — disse. — Se realmente tivesse imaginado que eu fosse capaz de tramar contra você para garantir o nosso casamento e o de Oliver e Ivy, eu... — Não, Thorn, jamais acreditei nisso de fato! — Felicity o interrompeu, aflita. E sentou-se mais próxima dele. — Mas é que, naquele momento, tudo parecia fazer sentido! Era como o enredo de uma tragédia... Porém quando o imaginei no papel de um vilão... você não se encaixou no perfil. — Eu sei. E sei também que a sua fortuna é para mim um grande estorvo. Quero você na minha vida, não o que possui. E é por isso que a perdôo por tudo. Thorn não sabia ao certo que reação esperar de Felicity. Talvez lágrimas ou um abraço, mas ela permanecia ali, sentada, olhando-o de uma forma nova que ele não compreendia. Até que Felicity murmurou, encantada: — Você me quer na sua vida? Ainda me quer na sua vida?! Thorn sorriu de leve. — Mas é claro que sim! — O tom que ele usava parecia demonstrar o óbvio. Thorn se lembraria, pelo resto da vida, do gritinho de alegria de Felicity e do abraço apertado e surpreendente que ela lhe deu, acabando por lançar a ambos no chão do quarto. Não era suficiente ouvir as palavras dele. Felicity precisava sentir seus braços, seus lábios, seu calor. E foi ali, abraçados no chão, que se beijaram com ardor, reatando um relacionamento cheio de desencontros, mas repleto também de um amor intenso. E os beijos que trocavam agora pareciam diferentes dos que já tinham trocado. Havia uma sensação adorável de segurança que, para Felicity, consistia na mais absoluta felicidade. Ela havia sido perdoada! E a sensação que invadia seu coração era maravilhosa! Sua família jamais a perdoara por não ter nascido homem. A família Lyte jamais a perdoara por não ter gerado um herdeiro. Ela mesma jamais conseguira perdoar as traições do marido. Muitas vezes, naquela viagem para o norte, Thorn vira o lado ruim da sua personalidade: imperiosa, desconfiada, egoísta, insegura. Mas continuara amando-a


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mesmo quando ela fora cruel, mandando-o embora. Queria que Thorn também sentisse que ela mudara. Porque, até aquele momento, mantivera boa parte de seu ser trancada dentro de si mesma, não se entregando de fato, temendo dar o que não podia admitir perder. Agora entregava-se completamente, confiante em que ele a aceitaria como era, até mesmo com seus defeitos. E aqueles beijos tão deliciosos que pensara jamais sentir novamente! Aquelas mãos que a acariciavam no abraço, e que imaginara nunca mais sentir! — Olhe, se eu fosse um sujeito romântico — Thorn murmurou, entre os beijos —, diria que até o chão duro fica maravilhoso quando você está nos meus braços. Mas espero que entenda que a cama parece-me muito mais confortável... Rindo, Felicity levantou-se, permitindo que ele fizesse o mesmo. — Venha, então — convidou, puxando-o pelas mãos. — Vamos fazer desta noite a primeira da nossa nova vida! — Puxa, estou gostando disso! — Thorn brincou, sentando-se na cama e começando a retirar as botas. Tirou depois o paletó e começou a desabotoar o colete. Feliz com a idéia de passar mais uma noite com ele, Felicity não ouviu os passos que se aproximavam pelo corredor. A porta se abriu de repente e a sra. Merryvale apareceu. — Meu Deus, o que é isso?! — assustou-se. E avançou sobre Thorn com a fúria de uma deusa da guerra, arrancando-o da cama. Thorn esforçou-se por soltar-se das unhas da mulher, exclamando: — Senhora, calma! Não é o que está pensando! Não estou atacando ninguém! Esta é... minha esposa! — É verdade! — Felicity gritou. — Meu marido ouviu dizer que eu tinha passado mal na estrada e veio me ver imediatamente! — Você me assustou, moça! — respondeu a mulher, mas sem soltar Thorn. — Ouvi um barulho, como se alguém tivesse caído no chão, e vim ver se tudo estava bem. — Obrigada pela sua preocupação. — Felicity puxou Thorn de volta à cama. — Porém me sinto muito melhor agora que meu marido está comigo. — Mas você não tinha dito que era viúva?! Felicity engoliu em seco, tentando lembrar-se exatamente do que dissera. — Talvez não tenha entendido bem o que eu quis dizer... A sra. Merryvale meneou a cabeça teimando: — Não, não. Você me disse! Não se lembra? Eu lhe perguntei o que seu marido


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tinha na cabeça por deixá-la assim, sozinha, numa viagem tão longa, em seu estado, e você me respondeu que não tinha marido, que era viúva! Felicity deixou a cama e começou a empurrar a mulher para a porta. — Não me lembro direito do que eu disse, tão mal estava. — Não, você já estava bem... — Que estado? — A voz de Thorn, mais forte, sobrepôs-se às delas. Felicity fingiu não ouvi-lo e continuou: — Estou muito bem agora, sra. Merryvale. E juro à senhora: este homem é meu marido, sim, e estamos os dois muito cansados. Portanto se não se importa... — Que estado?! — Thorn repetiu, mais alto. — Ora, os homens! — comentou a dona da hospedaria, enquanto Felicity a empurrava para a porta. E respondeu, mesmo assim: — De que estado acha que estou falando, ora?! Grávida, é claro! E, se o senhor tiver algum juízo nessa sua cabeça, vai deixar de andar com sua esposa pelo país inteiro, expondo-a ao perigo de um aborto! Porque o mal-estar que ela sofreu hoje pode se repetir, sabia? Felicity conseguiu colocar a mulher para fora e trancou a porta. Se ao menos pudesse também fazer desaparecer a revelação que a sra. Merryvale acabara de fazer e que ainda pairava no ar como uma nuvem de gás venenoso...

CAPÍTULO XX

Felicity aproximou-se da cama com as mãos juntas e expressão tensa. — Por favor, Thorn, eu posso explicar! — pediu. Mas era como se a voz dela o alcançasse de muito longe enquanto seus próprios pensamentos, num turbilhão, o atrapalhassem. E acabou por externar ao mais insistente deles: — Você está grávida?! — Sim. — De um filho meu? — Mas é claro!


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Thorn sentiu seus joelhos perderem a força. Felizmente, se encontrava ao lado da cama e pôde sentar-se sem maiores problemas. Ela estava grávida! Dele! Como podia ser?! E, de repente, sentiu-se um grande tolo. Imaginara por que Felicity levara um homem como ele para sua cama... Ali estava sua resposta, clara, evidente! Olhou para o chão, onde se encontravam suas botas, e inclinou-se para pegá-las. Mas Felicity aproximou-se e as afastou de seu alcance. — Não vou deixar que saia daqui antes de me dar uma oportunidade para explicar tudo, Thorn! — disse ela, decidida. — Explicar? — Ele não conteve o riso tenso. — Prefiro não verificar seus poderes de criação, minha querida. Estou espantado que, depois de uma semana como a que acabamos de ter, você não tenha se superado... Tudo que o tinha deixado confuso naquela semana ao lado dela começava a fazer sentido agora. — Eu ia lhe contar — Felicity protestou, suave, tendo no rosto a expressão da mais pura verdade. — É mesmo? Quando? Talvez no aniversário de cinco anos de nosso filho? Ou no décimo? Ou no meu leito de morte? — Ele estendeu a mão e ordenou, zangado: — Pare de mentir para mim e devolva minhas botas! Felicity foi até a porta, na frente da qual se colocou, escondendo as botas atrás de si. — A princípio, eu não ia mesmo lhe contar — confessou. — Ah, agora, sim, parece estar falando a verdade. — Já que não podia pegar as botas, Thorn passou a mão no paletó que deixara ao lado da cama e o vestiu. — Depois de me manter numa dieta de mentiras seguidas, estou pasmo por reconhecer tanta delicadeza quando a ouço. Ele detestava a ironia que sentia na própria voz, mas não conseguia evitá-la. Se não colocasse para fora aquela espécie de veneno que o estava sufocando, temia que ele acabasse por consumir seu coração. — Talvez ache que eu deveria me sentir lisonjeado por você ter-me escolhido para ser o garanhão que lhe daria sua tão querida cria! Felicity entreabriu os lábios diante de tanta grosseria. Aquele não parecia seu Thorn falando. Era como se ele sentisse prazer em chocá-la com a crueldade e a baixeza de seu vocabulário. — É isso o que pensa que eu fiz? — murmurou ela, ofendida. — O que acha que eu deveria pensar? Diga! — Uma nova dúvida pairava em sua


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mente, mas Thorn não conseguia pensar direito para entendê-la. — Você garantiu ser estéril, pelo amor de Deus! E não é esse, evidentemente, o caso! Admitiu que iria manter seu estado em segredo, e eu tenho apenas a sua palavra de que pretendia me contar, sabe-se lá quando! E ao imaginar que pensara que uma mulher como ela pudesse amá-lo de verdade!, Thorn se remoia. E o tempo todo não passara, para ela, de um objeto de uso! Desde que haviam deixado Bath, ele passara a ser um estorvo, nada mais, que precisava ser enganado com elogios falsos e promessas que nunca seriam cumpridas, até que pudesse ser convenientemente descartado. Mesmo ofendida pelo que ouvia, Felicity não se afastava da porta. — Sei que nunca lhe dei razões para confiar na minha palavra — murmurou —, mas peço-lhe do fundo do coração que me ouça, Thorn! Vejo agora que o que pretendia fazer estava errado, mas eu achava que não teria outra saída! Olhe, não é tão ruim como pode parecer... Se estiver disposto a me ouvir, tenho certeza de que vai acreditar no que digo. — É claro que vou acreditar, droga! — Ele passou os dedos por entre os cabelos, totalmente fora de si. — Afinal, não engoli cada mentira que você docemente me contou?! Sou um enorme tolo, lady Lyte! Um completo idiota, pronto para deixá-la me conduzir para onde bem entender! Porque não pensei quando me apaixonei por você! Não pensei! Fora assim, provavelmente, que seu pai acabara perdendo toda a fortuna da família, avaliou de repente sem saber ao certo por que pensava nisso agora. Mas ele, com certeza, devia ter dado ouvidos às mentiras que queria ouvir! Thorn deixara seu coração falar mais alto do que a razão, e isso o fazia arrepender-se profundamente agora. Não se reconhecia mais. Desprezava aquilo em que se tinha transformado. O que Felicity Lyte fizera dele... — Não vou ficar aqui para ser persuadido a aceitar aquilo em que não quero acreditar — disse, mais calmo. — Posso ficar sem as minhas botas, se insiste em escondê-las de mim. A noite não está assim tão fria que eu não possa cavalgar descalço. Olhou-a, imaginando como a tiraria do caminho sem tocá-la. E como poderia parar de tocá-la quando o fizesse pela primeira vez? A raiva que aparecera de repente em suas veias não conseguira acabar com o desejo que ainda sentia por Felicity. Pior ainda: os dois sentimentos pareciam alimentar-se mutuamente, dois lados de uma perigosa moeda chamada paixão. Continuava olhando-a. Estava furioso, sim, quase fora de si, porém se sentia intensamente vivo. Aproximou-se, e Felicity não se afastou de seu caminho. Não se moveu. — Pode estar me odiando neste instante, mas eu sei que não vai me fazer mal algum — ouviu-a afirmar. Sim, Felicity conhecia muito bem sua fraqueza e sabia lidar com ela como


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ninguém... — Saia do meu caminho, ou não respondo por mim, Felicity! — ameaçou. Mas ela permaneceu onde estava. E insistiu: — Quando eu lhe disse que era estéril, também acreditava nisso. Os pensamentos de Thorn, agitados, davam-lhe uma nova perspectiva: por que ela teria permitido a presença daquele fedelho chamado Norbury em sua casa se tinha motivos para saber que o rapaz poderia não ser filho ilegítimo de seu falecido marido? Tal pensamento deixou-o ainda mais tenso, mais enfurecido, pois mostrava-lhe como fora fácil para ela envolvê-lo naquela trama. Estendeu os braços, segurou-a pelos ombros e, mantendo-a distante de si, afastoua da porta. Se mantivesse seu desejo distante de si mesmo por mais alguns segundos escaparia ao poder de sedução de Felicity. E então poderia sentir-se feliz por ter fugido de suas garras, um pouco arranhado, é verdade, mas com seu amor-próprio intacto. Ela o estava perdendo! Uma voz interior desesperava Felicity. Se o deixasse sair agora, o homem que ela conhecera nessa última semana desapareceria para sempre de sua vida, atingido em sua honra, machucado pela decepção que sofrera, afastado por uma série de suspeitas e por um profundo ressentimento. E aquela mesma voz interior segredava-lhe, como um pequeno demônio: não era isso o que queria? O que sempre quisera? Ver Thorn Greenwood afastado de sua vida para sempre? Para poder criar seu filho em paz? — Não! — Felicity gritou, largando as botas e segurando-o pelas mangas do paletó assim que ele a soltou. Jamais pensara que poderia se humilhar dessa forma, pedindo, implorando assim... Mas não podia permitir que seu filho deixasse de ter aquele pai. Não podia permitir que sua vida acabasse por estar longe dele. E, de repente, soube o que fazer. Seu coração estava apertado, dolorido, cheio de remorso e de uma terrível sensação de perda. Mas, assim mesmo, indagou: — Iria abandonar seu filho aos cuidados de uma mulher como eu? — A pergunta doía em sua garganta. Thorn voltou-se e encarou-a. — O que disse? Felicity tentava manter a calma para saber exatamente o que dizer. Caso contrário, ele iria embora e ela o perderia para sempre... — Eu confio mais no seu bom senso do que você mesmo, meu querido. Estou lhe pedindo, por seu filho, que ouça o que tenho a dizer, com a mente e o coração abertos. Se o fizer, prometo que lhe entregarei a criança assim que ela nascer. — Olhe, Felicity, se essa é mais uma das suas mentiras, eu... — Thorn soltou-se


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das mãos dela, mas não fez movimento algum em direção à porta. Felicity aproveitou a ocasião: — Eu jamais diria algo assim se não fosse a sério. Thorn não se moveu, nada disse, nos segundos tensos que se seguiram. Por fim, apenas indagou, com voz baixa: — Por quê? — Por que eu lhe daria a criança? — Felicity sentiu-se estremecer. Ergueu os ombros e explicou: — Porque hoje provei a todos e a mim mesma que não sou uma boa tia e, portanto, não conseguirei ser uma boa mãe, enquanto você sempre agiu de forma a mostrar que consegue ser pai e mãe ao mesmo tempo. Ela sabia que, se permanecesse em pé por mais um instante, acabaria sucumbindo ao peso do próprio corpo. E Thorn provavelmente a ampararia nos braços, como fizera naquela noite em que toda essa viagem problemática começara. E então poderia sentirse compadecido e, ao mesmo tempo, motivado pelo desejo, e assim poderia aceitar o que ela lhe dizia sem, de fato, acreditar em suas palavras. Portanto, mesmo querendo apoiar-se nele, Felicity não arriscaria tanto. Não a tal preço. Suas pernas tiveram força suficiente apenas para levá-la de volta à cama. — Se ainda deseja ir embora — murmurou —, nada mais farei para detê-lo. Então deitou-se e cobriu-se, sabendo que nem mesmo o calor das mantas ou da lareira acesa poderiam protegê-la da sensação de frio intenso que a partida de Thorn lhe provocaria. A noite já caíra por completo agora, mas as chamas da lareira forneciam luz suficiente para ver que Thorn se abaixava e pegava as botas. Quando ele se levantou novamente e caminhou até a porta, Felicity mordeu o lábio inferior, impedindo-se de chamá-lo. Talvez alguma coisa dentro dele tenha ouvido seu apelo mudo, pois Thorn se voltou, recostou-se à porta e escorregou lentamente até o chão. — Vá em frente e fale, então — disse, num suspiro. — Mas saiba que vou fazê-la cumprir essa promessa a respeito da criança, não importa quanto custe. Agora que ele lhe dava a chance de se explicar, Felicity mal conseguia encontrar sua voz. Pensou muito antes de começar: — Pode duvidar de tudo, mas acredite nisto: não me tornei sua amante apenas para gerar um filho. Eu realmente acreditava no que lhe disse naquela noite em que St. Just nos apresentou. Achava ser estéril e, assim, livre como qualquer homem para viver minha vida como bem entendesse. — Eu me lembro.


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Felicity também se lembrava muito bem e, se pudesse voltar àquela noite, sabendo tudo que sabia agora, imaginava se o tomaria por seu amante novamente ou se apenas dançaria com ele uma vez e depois esqueceria tudo para poupar-se do que acontecera depois. Sabia a resposta, bem no fundo de seu coração, e estava surpresa e amedrontada com ela. Teria mudado tanto assim naquela viagem louca até Gretna? Engoliu em seco, deixando de pensar, e prosseguiu com suas explicações: — Quando percebi que devia estar grávida, fiquei tão confusa e incrédula quanto você. Perguntei-me centenas de vezes como era possível, até que, por fim, compreendi a verdade. As mulheres com quem meu falecido marido havia estado em todas as traições que me fez não deviam ter-lhe sido fiéis. Thorn ergueu a cabeça, que mantivera abaixada enquanto apenas escutava, e olhou-a, dando-se conta, só agora, do que ela também precisara de um tempo para perceber. A idéia de que era Percy o estéril ainda não lhe tinha ocorrido. — Não sei por que nunca notei isso antes — Felicity continuou. — Ainda mais porque os prováveis filhos de Percy não se pareciam com ele como gostava de anunciar aos quatro ventos. Minutos de um silêncio opressivo se seguiram, até que Thorn murmurou, com certa ironia: — Que pena, não, lady Lyte? Tantos anos sem ter filhos num casamento infeliz e, quando, por fim, se viu livre para ter seu próprio prazer, viu-se presa de uma gravidez indesejável. Felicity preparou-se para dar-lhe uma resposta à altura, mas sabia que as palavras dele eram apenas reflexo de sua mágoa, e preferiu ser mais suave: — Não foi isso que pensei quando descobri minha gravidez. Fiquei tão feliz e agradecida que mal podia respirar. E... imagino que tenha sido nesse momento que comecei a me apaixonar por você. Thorn riu, zombeteiro. — Tem um modo muito... peculiar de demonstrar gratidão e afeto — observou, amargo. — Aquela carta tão encantadora, por exemplo, dispensando minha presença na sua vida. Ou quando ameaçou colocar-me para fora da sua casa quando apareci por lá, no meio da noite, à procura de minha irmã... — Sei que o tratei muito mal, Thorn. E jamais me arrependi tanto de ter feito algo em minha vida como me arrependi de feri-lo. Mas... o que mais eu podia fazer? Se lhe falasse da criança, o que você teria feito? — Teria oferecido casamento a você, é claro. — É claro. E sempre imaginaria se eu tinha mentido sobre a minha esterilidade, achando que a usara apenas para agarrar um marido.


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— Eu jamais pensaria tal coisa! — Jamais? — ela desafiou. — Bem... talvez a idéia passasse por minha mente. — Eu sempre lhe disse quanto relutava em me casar novamente e contei-lhe os meus motivos. — De fato. — E você pareceu entender! Será que não consegue achar uma migalha dessa compreensão em seu coração agora? — Talvez. Mas não sei se deveria. Você não pensou quando decidiu tirar-me da sua vida e ter seu filho sem o meu conhecimento. — É verdade — Felicity admitiu, baixando a cabeça. — Eu lhe disse muitas vezes que sou uma pessoa egoísta. E você sempre se mostrou compreensivo, dizendo que eu estava enganada, que estava apenas tentando proteger a mim mesma... Eu fiz o que achava ser correto para me proteger e também a meu filho. — Queria se proteger de mim?! — A pergunta soou como se ele achasse a idéia um enorme absurdo. — Não. De um homem que eu mal conhecia, a não ser como uma companhia muito agradável e um amante adorável. — E agora acha que me conhece tão melhor assim? — O olhar de Thorn era firme, mesmo na distância que os separava. — Conhece-me tanto agora, a ponto de me entregar a criança em troca de ouvi-la, sem promessa alguma de que poderei entender seus motivos? — O que eu sei é que, se nosso filho precisar ser protegido de qualquer um de seus pais... será de mim. Felicity encarava-o sem saber se o atingia. Talvez Thorn estivesse cansado demais, devido à raiva que passara, e fosse apenas uma impressão de que ele a estava entendendo que surgia no coração de Felicity. Pelo menos, porém, parecia que ela afastara a suspeita terrível de que o usara deliberadamente para ter seu filho. Se, ao menos, ele baixasse a guarda, se abrisse seu coração outra vez... Talvez pudesse julgá-la não por suas falhas passadas, mas pelas promessas que o futuro guardava. Porém Thorn poderia apenas levantar-se dali e ir embora, e deixá-la sofrer toda a carga de arrependimento que sabia merecer. Como previra, Thorn via-se querendo acreditar em cada palavra que Felicity dissera. E era exatamente por isso que precisava manter-se firme e não ceder. Via-se numa charada muito bonita, mas fatal. Não, não queria brincar...


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Tinha, porém, de dar o braço a torcer num ponto: Felicity devia, sim, conhecê-lo bem melhor depois dessa semana turbulenta que haviam passado juntos, porque ele mesmo a conhecia bem melhor do que quando tinham partido de Bath rumo a Gretna Green. Pelo menos, era assim que pensava até uma hora antes. — Suponha que eu acredite no que me disse até agora — ele propôs. — Estava apenas me dirigindo durante todo o trajeto da viagem com aquela conversa sobre casamento? Como posso saber que não se agarrou à inocente armação de Ivy como uma forma bem conveniente de finalmente livrar-se de mim? — O que eu lhe falei sobre o nosso casamento era verdade! — As palavras de Felicity vinham carregadas de convicção. — Com exceção, é claro, da conversa sobre não poder ter filhos... Sabe, quando penso em quanto me esforcei para aceitar isso, enquanto você estava o tempo todo grávida de um filho meu! — Thorn passou as mãos pelos cabelos, sentindo-se profundamente exausto. Não estivesse assim, teria se levantado e ido embora sem mais uma palavra. — Eu precisava ter certeza de que você me amava, e não que queria apenas casarse comigo porque eu estava grávida! Se conseguir se lembrar de tudo que lhe disse sobre o meu casamento com Percy, talvez possa entender... Talvez, com uma boa noite de sono, um desjejum quente, reconfortante, com muito café forte para acordá-lo de uma vez, pudesse lembrar-se bem de tudo que se passara nos últimos dias e ponderar sobre o que era verdade ou não. Mas ele sabia que não conseguiria dormir bem enquanto não resolvesse aquela situação de uma vez. O quarto estava mais escuro agora e era na penumbra que podia vê-la na cama. E, quando ela falou, olhou-a, sem conseguir ver com clareza seu rosto. — O que fiz foi assim tão pior do que quando seu cunhado mentiu para Rosemary dizendo-lhe que havia perdido a sua fortuna? A pergunta retirou Thorn do estado letárgico em que começava a afundar. — É claro que são duas situações completamente diferentes! — protestou. — Rosemary não se importava nem um pouco com a fortuna dele! — E você se importava muito em ter uma família... — A voz trêmula de Felicity mostrava que ela estava à beira das lágrimas. — Mesmo assim, você ainda queria se casar comigo, mesmo achando que eu não poderia dar-lhe filhos. Não pode imaginar quanto isso significou para mim, Thorn! Porque nunca fui amada pelo que sou! Thorn começava a perceber, no meio daquele mar de mentiras e verdades, que algo de sólido estava se formando, só não sabia se seria sólido o suficiente para erguer seu futuro sobre ele. — Foi você mesmo quem disse que temos de pesar tudo que está entre nós diante da perspectiva de um futuro separados — ela analisou, com um nó na garganta. — E sei


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que isso tudo deve estar pesando muito contra mim. Demais até. — Sua voz parecia sumir aos poucos, embora houvesse resignação nela. — De algum modo, você encontrou uma maneira de me perdoar pela forma como me comportei esta manhã. E o conheço o suficiente para ter certeza de que não vai conseguir me perdoar agora. Mas eu queria apenas que ouvisse minhas explicações, porque elas são verdadeiras. E você foi mais do que paciente comigo. Não pretendo... detê-lo por mais tempo. Nesse momento, uma lembrança cruzou a mente cansada de Thorn, algo que ouvira quando ainda era pequeno e estava na escola. Uma leitura... Pitágoras, talvez, não tinha certeza... Talvez fossem palavras de Arquimedes... "Dêem-me um lugar firme para fincar uma alavanca, e eu erguerei o mundo". Outras palavras passavam por seus pensamentos, palavras que também ouvira havia muitos anos e que sua irmã repetira nessa manhã: "O amor tem uma força muito grande, sabia? Basta termos coragem para aceitá-lo". E era necessário um homem sensato com muita coragem para dizer: — Eu estava errado. — O quê?! — Felicity estranhou. Thorn também fazia-se a mesma pergunta. E, de algum lugar recôndito de seu ser, veio a resposta que o surpreendeu tanto quanto parecia estar surpreendendo Felicity. — Eu estava errado quando imaginei que se poderia pesar o amor como se pesa qualquer produto numa feira. Não se trata de um saldo bancário tampouco, onde há depósitos, saques, juros cobrados sobre dívidas... Thorn levantou-se com agilidade, sem saber ao certo para que direção seus pés o levariam. — O que é o amor, então? — ela quis saber, ansiosa. Estava esperançosa, mas ainda receava a atitude dele. — O amor... é uma aposta de tudo ou nada. — E deu alguns passos em direção à cama. Parou, então, e continuou: — Uma aposta de muito mais do que podemos perder. Contra todas as possibilidades. — Mais alguns passos e estava ao lado dela. Se seu pai tivesse arriscado dizer-lhe o real estado de suas finanças, talvez pudessem ter trabalhado juntos para restaurar seu patrimônio. Mas Royce Greenwood levara sua vergonha secreta para o túmulo. Talvez por ter sido orgulhoso demais para revelar sua tolice aos filhos. Ou por medo de que eles jamais o perdoassem. Felicity saiu de baixo das cobertas e ajoelhou-se na cama, aproximando-se dele. Perigosamente, Thorn chegou a pensar, mas deixou de lado qualquer outro pensamento que não fosse os que ele tinha por ela. — Isso não me parece algo que um homem sensato diria ou... faria — ouviu-a sussurrar, muito próxima.


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— E não é mesmo. — E... depois de tudo que aconteceu, você seria tão descuidado assim a ponto de jogar a sua felicidade numa aposta arriscada... comigo? Felicity lhe parecia tão vulnerável! Não estava ali a mulher voluntariosa, desafiadora, egoísta que Thorn conhecia antes. Tudo isso fora apenas uma fachada para a verdadeira mulher que havia dentro dela e que se mostrava agora. Era possível, sim, que no chão firme de seu amor, a confiança mútua pudesse criar raízes, florescer, provar que a insegurança de Felicity, que a levara a testá-lo tantas vezes, e agora estava ali, real, palpável, desaparecesse. Thorn abriu os braços para recebê-la e murmurou: — Acho que vai valer a pena arriscar. Por nós dois e por nosso filho. Felicity abraçou-o, sentindo-se a mulher mais feliz da face da Terra. — Oh, Thorn, você é tão bom para mim! — sussurrou, emocionada, sentindo as lágrimas, que antes eram de dor, rolarem por seu rosto numa demonstração de pura felicidade, de puro alívio. — E vou fazer tudo que estiver ao meu alcance para torná-lo feliz. Prometo! Ele assentiu, observando, também quase sem voz: — Permita-se ser feliz, meu amor. E me fará, com certeza, muito feliz também. Felicity ergueu o rosto para buscar-lhe os lábios, e encontrou-os como sempre, só seus, quentes, apaixonados, ardentes.

EPÍLOGO

Lathbury, Inglaterra, Fevereiro de 1816

— Olhem, vou lhes dizer uma coisa: nunca vi um bebê de natureza tão tranquila! — Ivy comentou, acariciando o queixo rechonchudo de sua pequena sobrinha, que recebera o nome de Ivy Olívia Greenwood. — Tão bonitinha! Não chorou nem um pouquinho durante o batismo todo! Nem mesmo quando o vigário derramou aquela água fria na sua cabecinha, ou quando colocou sal na sua boca. Fora da bela propriedade de Barnhill, a neve começava a cair suave, e logo os campos estariam todos cobertos de branco; dentro da casa, porém, o calor da lareira


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criava uma atmosfera de aconchego e ternura na qual a família Greenwood se juntava para o almoço que comemorava o batismo da pequena Ivy Olívia. — Ouviu isso, sr. Hawthorn? — Rosemary indagou, aproveitando as palavras da irmã para repreender seu pequenino filho, que ela balançava nos braços. — Sua tia está querendo lembrar a todos aqui quanto o senhor gritou no seu batizado. Oh, ainda me lembro de como os meus ouvidos zuniam depois que saímos da igreja! O bebê piscou seus enormes olhos azuis e sorriu diante do rosto sério da mãe, que logo se enterneceu. Merritt Temple parou de ler a história de fadas que contava para seu filho mais velho, junto à lareira, e disse, por sua vez, também para o bebê: — Não ria, seu pequeno traquinas! Os nervos do pobre vigário nunca mais foram os mesmos! Thorn, que servia ponche a todos, no canto da mesa, sorriu e comentou: — A perspectiva de ter uma série de pequenos Armitage deve estar preocupando o pobre velho. — É verdade — Merritt concordou, olhando para Oliver e Ivy. — E então, alguma chance de isso acontecer no ano que vem? Oliver nada disse, mas sorriu, baixando a cabeça. — Ah, então, seremos tios em breve! — Merritt quase gritou, fazendo Thorn rir ainda mais. — É verdade, então? — Rosemary perguntou, em tom desconfiado. Depois correu até a irmã e a abraçou. — Oh, parabéns, querida! E para quando é o bebê? — Thorn, eu estava guardando a novidade para o almoço! — Ivy retrucou, olhando com seriedade para o irmão. — Ouvi falar em almoço? — Felicity apareceu na sala, sorrindo. — Pobrezinhos! Devem estar todos famintos! Mesmo tendo visto a cunhada durante todo o verão e o outono, Ivy ainda estava surpresa pela mudança que o casamento com Thorn provocara em Felicity. Tudo nela parecia ter se suavizado. E aquele brilho no olhar que a maternidade lhe conferira era incrível, aumentando ainda mais sua beleza. — Vim para dizer-lhes que está tudo pronto, afinal! — ela anunciou, chamandoos. —Vamos! Vamos comer enquanto está tudo quentinho! E o que foi que ouvi quando estava chegando? Alguém ia anunciar alguma coisa? Você não contou a novidade a todos, contou, Thorn? — Não, querida. — Ele entregou um copo de ponche à esposa, e outro a Oliver. — Eu apenas aludi ao fato de que os Armitage tinham boas novas. E agora Ivy está aborrecida comigo porque adivinhei! Será que você vai ficar muito zangada com ela por


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torná-la tia-avó tão cedo? — Acho que não. — Felicity pegou a mão do sobrinho e apertou-a de leve. — Ainda mais se eles forem gentis o suficiente para dar a Ivy Olívia uma priminha com quem ela possa brincar. Não seria muito bom vê-la sozinha no meio de tantos meninos... — Mas é muito bom ter meninos! — Merritt protestou, sempre bem-humorado. — Mas quantas novidades parecem estar surgindo esta manhã, não? Thorn me disse, há pouco, que tem uma também. Vamos logo a esse almoço, então, para sabermos de tudo quanto antes, certo? Duas criadas apareceram para levar as crianças, que já tinham sido alimentadas, para a nova sala especialmente criada para entretê-las. Enquanto brincavam ali, seus pais e tios seguiram para a sala de jantar, para uma alegre reunião familiar. Já à mesa, Merritt serviu-se de uma porção de peixe, brincando com o cunhado: — Ei, Oliver, dizem que peixe é bom para o cérebro! Não quer um pouco? A propósito, como vai indo a sua mais recente pesquisa? Alguma nova descoberta? — Nada de muito novo — respondeu o rapaz, servindo-se também. — Mas são coisas pequenas, que, quando colocadas juntas, poderão significar algo de espetacular! Estou desenvolvendo umas aplicações para indústrias no setor de máquinas a vapor. Isso vai economizar muitas horas de trabalho humano, e acho que me dará bons lucros. Por baixo da mesa, Ivy tocou a perna do marido com os pés. E, quando ele a olhou, surpreso, viu-a sorrindo para disfarçar o que fizera. — Oliver anda intrigado com as máquinas a vapor desde que fugimos para Gretna — explicou. Essa ainda era uma de suas piadas favoritas referentes à sua noite de núpcias: como Oliver comparara o ato de amor com o funcionamento de um pistão e um cilindro! Oliver pigarreou e endireitou os óculos. Ivy sabia que, mesmo mantendo uma expressão sóbria e continuando a conversa com Merritt, ele estava se esforçando por conter uma risada. E lançou-lhe um olhar que garantia que aquela piadinha teria volta, mas de uma forma muito agradável para ambos, quando estivessem a sós... A sua esquerda, Ivy tinha Felicity e Rosemary que falavam baixinho, muito unidas. Pelo que pôde ouvir da conversa, soube que se tratava de bebês. E, como nunca tivesse tido muita paciência para o assunto, Ivy deixou de prestar atenção. No entanto sabia que, em breve, estaria envolvida no mesmo tipo de comentários. Por fim, Ivy dirigiu os olhos para a ponta da mesa, onde seu irmão parecia extremamente satisfeito diante de toda a família. E ela sentiu seu coração se enternecer. Ali, ao redor daquela mesa, estavam três dos casais mais felizes do país, e ela ajudara a uni-los.


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No fim do almoço, quando todos apenas conversavam diante dos pratos vazios, Rosemary anunciou: — Vamos lá, Thorn, não nos deixe em suspense por mais tempo! Quais são as novidades que disse ter para nós? Ele se levantou. — Bem, não é nada tão significativo quanto a novidade de Ivy e Oliver, devo dizer, mas estou satisfeito por poder partilhar minha novidade com a minha família. Achei que gostariam de saber que, finalmente, consegui recuperar tudo que nosso pai devia e que também comecei a acumular capital próprio. Muitas exclamações de alegria ergueram-se no ar tranquilo da sala de jantar. Apesar de ter escondido de Rosemary e de Ivy a maior parte dos problemas financeiros que enfrentara, Thorn os tivera, e muitos. — Eu gostaria de acrescentar ao que meu marido disse — Felicity esclareceu — que tudo o que ele conseguiu foi por seu próprio mérito e que nem um centavo da minha fortuna foi usado nisso. — Na verdade — Thorn acrescentou, olhando-a, apaixonado —, devo muito mais à minha esposa pela confiança que depositou em mim. Talvez, algumas pessoas possam achar que fiz uso do dinheiro de Felicity para conseguir saldar as dívidas de meu pai, mas o que me importa é que vocês, da nossa família, saibam a verdade. O resto do mundo pode pensar o que bem entender. Thorn sentou-se e, dessa vez, foi Merritt Temple quem se levantou. — Acho que devemos brindar! — propôs. — Ao meu querido amigo e irmão, que perseverou e triunfou em seus negócios! Devo dizer que essa sua conquista, porém, só é obscurecida por outra que eu considero muito maior e mais bela: a de ter criado estas duas maravilhosas senhoras: Rosemary e Ivy! — A Thorn! — saudaram todos, para depois beberem. — Espero que ainda não tenham esvaziado seus copos — Felicity observou, levantando-se também e olhando com intenso amor para seu marido. — Porque também quero propor um brinde. Vamos beber a Ivy e a Oliver e à maravilhosa notícia que nos deram hoje! Que eles sejam tão felizes como eu e Thorn temos sido, graças aos seus esforços! Todos beberam à felicidade dos Armitage enquanto Ivy procurava ocultar as lágrimas que lhe vinham aos olhos. — Bem, se sou responsável por três casamentos felizes — disse, em tom de brincadeira —, acho que ficarão satisfeitos em saber que estou me aposentando do serviço de Cupido para não danificar meu recorde. E, quando todos riam e terminavam seus ponches, Ivy completou:


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— Pelo menos até que a próxima geração de Greenwood esteja crescida e pronta para amar, quando, com certeza, contarão com uma ajudazinha da tia Ivy!

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Depois de passar uma década traçando a árvore genealógica de seus ancestrais até suas origens na Grã-Bretanha da era Georgiana, DEBORAH HALE, ganhadora do prêmio Golden Heart, voltou-se para a autoria de romances históricos como forma de reunir seu amor pelo passado a uma boa história de amor. Ela vive na Nova Escócia, Canadá, entre a cidadezinha de Halifax, repleta de reminiscências históricas, e o romântico vale de Anápolis. Por ser mãe de quatro crianças menores de dez anos, incluindo dois gêmeos, Deborah diz que escrever é seu "mecanismo de manter a sanidade". E, em dias melhores, gosta de chamar sua atividade de "trabalho".

O amante  
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