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Connie Mason

Nos Braços do Pirata

Tradução:GRH Revisão Inicial: Maristela Revisão Final: Caroline Alves Formatação:Ana Paula G.


Connie Mason

Nos Braços Do Pirata

Um pirata sem escrúpulos… O aristocrata inglês Morgan Scott, conhecido como O Diabo, atacava sem piedade a todas as naves que cruzavam o oceano Atlântico procurando vingar-se pelos cinco anos de brutal cativeiro que tinha passado a bordo de um navio espanhol. Quando seu navio abordou o Santa Cruz, encontrou a ocasião perfeita para levar a cabo essa vingança: uma inocente dama espanhola, recém saída do convento, cujo corpo podia fazer seu pára desse modo humilhar a sua gente. Mas logo Morgan se encontrou dividido entre o desejo de vingança e a paixão que lhe provocava.

Uma estranha cativa…. A vida de Luzia Santiago mudou de forma traumática quando seu pai lhe informou que tinha acordado seu matrimônio com o poderoso governador de Cuba, e que, portanto tinha que deixar o convento no que tinha vivido até agora e no que era feliz. Sua situação não melhorou com a repentina abordagem que sofreu seu navio em águas do Caribe. Mas embora temesse por sua sorte nas mãos daquele poderoso e temível pirata, Luzia lutava contra o transbordante desejo que lhe inspirava, com aqueles olhos azuis como o mar e aquele corpo flexível cujos músculos pareciam tirados da estátua de um deus grego. Por mais que estivesse se fazendo passar por monja, as emoções que sentia entre os fortes braços de Morgan era algo menos santo, e foram consumindo a cólera que os separava até que não tiveram mais remédio que render-se a seus sentimentos...

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Nota da revisora Maristela

Todos os livros dessa escritora são fabulosos, e neste ela se superou, o pirata nos faz

sentir todo tipo de emoções contraditorias. Havia

momentos em que ele era um fofo, e em outros queria mata-lo, mas o principal é que o livro prende a atenção do inicio ao fim, com cenas de tirar o folego!!! LEIAM!!!!

Nota da revisora Caroline Alves

O livro é bom, tem aventura, guerra, uma rainha cretina, cenas hot, um mocinho que me perdoem mas odiei, muito enraizado a um ódio que se estende a todo um povo e que passa praticamente todo o livro usando e abusando da mocinha que faz parte desse povo e logo após a desprezando,a mocinha mais ainda por ser tão idiota e perdoar tão facilmente o mocinho, ele tinha que ter se rebaixado mais um pouco para ter seu perdão.

Prólogo

Em algum lugar do Oceano Atlântico - 1580 3


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Morgan Scott se equilibrou brevemente na proa do galeão que afundava, arqueou o corpo gasto, cheio de cicatrizes, e se lançou de cabeça para baixo, mergulhando no mar escuro e impetuoso pelo vento. Batendo furiosamente os braços e as pernas, lutou para escapar da grande sucção que produziu o Negra Maria ao afundar. Não olhou mais que uma vez para trás, para alegrar-se em silêncio ao ver como aquele navio do demônio desaparecia sob a superfície da água, levando consigo seu brutal amo espanhol e a toda sua tripulação. Então riu. Riu até que lhe doeram os músculos e esteve a ponto de afogar-se. Logo, bruscamente, voltou-se para a fragata inglesa, cujos canhões ainda fumegavam, e se pôs a nadar para ela como uma alma que leva o diabo. — Está afundando, capitão Dunsworth — informou o contramestre Nickols, baixando a luneta e sorrindo ao capitão. —Pois, menos mal! —grunhiu Dunsworth — Outro mal nascido espanhol que não voltará a se meter com as embarcações inglesas. Seu primeiro engano foi nos enfrentar, o segundo, acreditar que ia poder afundar ao mais granado de Sua Majestade a Rainha. Algum sobrevivente, senhor Nickols? Nickols voltou a elevar a luneta para escrutinar o desabar das cristas brancas sulcadas por um vento cada vez mais forte. —Não parece que haja nenhum, senhor. Dunsworth assentiu. —Melhor assim. Nós o largaremos aqui, vai haver tormenta. Ponham rumo à Inglaterra: temos que reparar os destroços que nos tem feito o Negra Maria. —Bem, muito bem, senhor. Nickols deu uma última olhada ao mar através da luneta, baixou-o um instante e voltou a levar-lhe ao olho. —O que é, senhor Nickols? Vê algo?

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—Sim, capitão. Parece a cabeça de um homem entre o vaivém das ondas. — Nickols passou a luneta para Dunsworth, que o apontou na direção que este lhe assinalava. — O vê? —Sim. Tenho vontade de deixar que afogue sse mal nascido, mas eu não sou um selvagem. Desçam um bote e me tragam isso a bordo. —Parece que está quase morto, capitão —observou Nickols contemplando aquele homem meio afogado enfraquecido sobre a coberta. — Olhem como tem as costas o pobre diabo. Quem quer que seja, não o mimaram muito no Negra Maria. Não é mais que um moço. Não acredito nem sequer que seja espanhol, com esse cabelo tão loiro. —Leve-no abaixo e que o médico a bordo se ocupe dele. E, pelo amor de Deus, que lhe deem de comer. O transpassam todas as costelas. Até que ouçamos sua história, não estará mau que o tratemos dentro do possível como é devido. Morgan se sacudiu, voltou-se de lado e cuspiu parte da água do mar que tinha tragado. Logo se recostou de costas e elevou a vista para aqueles ingleses que o tinham resgatado do mar. Apesar de estar muito debilitado e completamente exausto, sorriu com autêntica alegria. Eram os primeiros ingleses que via em cinco anos, e a visão quase lhe transbordava de puro alívio. —Fala inglês? —perguntou o capitão Dunsworth. Embora lhe ardia a garganta pela copiosa água do mar que tinha tragado enquanto nadava ao relento, Morgan respondeu sem duvidá-lo: —Falo perfeitamente, senhor. Meu nome é Morgan Scott. Meu pai era Sir Duncan Scott. Faz cinco anos foi enviado pela rainha a Itália. Nosso navio, o Estrela do Sul, foi atacado e afundado pelo Negra Maria, e eu fui o único sobrevivente. Minha mãe, meu pai, meu irmão, minha irmã… morreram… morreram todos. O capitão parecia incrédulo: —O Estrela do Sul! Meu Deus, me lembro muito bem daquele sucedido. Não voltou, ou seja, o navio, e deu por feito que todos os tripulantes e passageiros tinham morrido. Onde você esteve nestes últimos cinco anos? 5


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—No inferno —disse Morgan, fazendo esforço para levantar. Um marinheiro se apressou a ajudar. — Não pus um pé fora do Negra Maria por cinco anos. Me mataram de fome, açoitaram, humilharam e me trataram literalmente como um escravo. Tive que crescer depressa quando me tiraram da inocência e confiança juvenis e me jogaram às vísceras do inferno, à idade de dezessete anos. O capitão Dunsworth sacudiu a cabeça com comiseração. —Graças a Deus que cruzamos no caminho do Negra Maria quando o fizemos. Agora é livre, Morgan Scott. Estou seguro que a Rainha lhe restituirá toda a fortuna e as posses de sua família logo que tenha notícia de que está vivo. —Isso imagino —disse apagadamente Morgan. —Eu sou o capitão Dunsworth da Marinha Real. O doutor a bordo lhe dará uma olhada imediatamente. Quando chegarmos a Inglaterra parecerá um autêntico lobo do mar. É jovem, se recuperará, e logo estará dentre os de sua classe levando uma vida privilegiada. Pálido e com o olhar vazio, Morgan contemplou Dunsworth. Ninguém mais que ele sabia da verdade, ou seja, com que intensidade tinha sofrido nas mãos dos espanhóis. Podiam imaginar, mas não saberiam jamais, a menos que o tivessem experimentado por si mesmos. Nunca poderia voltar a viver aquela vida absurda a que estava acostumado antes de seus anos de cativeiro. Tinha a alma abrasada de ódio, seu coração clamava vingança. A morte cruel de sua família e o subsequente cativeiro lhe tinha marcado de forma indelével. —Usarei minha fortuna para vingar a morte de minha família —disse, com uma voz tão carregada de ameaça fazendo Dunsworth estremecer e afastar o olhar. — De hoje em diante, nenhum espanhol, seja homem, mulher ou menino, estará a salvo de mim. Obterei a permissão da rainha, aparelharei um navio e os perseguirei até os limites do mar como os animais que são. —Admiro sua ambição, senhor Scott, mas não é muito jovem para capitanear seu próprio navio? Terá a habilidade necessária para controlar aos homens?

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Nos olhos azuis de Morgan cintilou a veemência de seu ardor vingativo: —Nos cinco anos que passei cativo em alto mar aprendi tudo o que teria que saber de navegação e de navios. Do mesmo modo que aprendi a odiar aos espanhóis. Com isso acredito que estou mais que capacitado para enfrentar a eles. Nada me deterá, capitão. —Levantou o punho para a escuridão, ameaçando ao céu. — Juro por todos os mortos de minha família que serei desumano e firme em minha vingança para os espanhóis. Perseguirei-os implacavelmente e sem piedade. E que Deus me ajude.

Capítulo 1

Cádiz Espanha - 1587 —Me dá no mesmo quão piedosa seja, minha filha. Está em jogo a honra da

família —afirmou enfaticamente Dom Eduardo Santiago. — Vais deixar o convento e vai para Cuba se casar com Dom Diego de Fujo. Envolta em um apagado hábito cinza, Luzia Santiago ficou perceptivelmente tensa e elevou o queixo em um gesto de desafio quase sem precedentes. Os dez anos que passou junto à mãe abadessa e as monjas do Convento da Mãe de Deus lhe inculcando submissão e obediência se desvaneceram no ar ali mesmo, porque não podia permitir que aquilo ocorresse sem opor-se. Não a sacrificariam pela honra de seu pai. —Não quero me casar com Dom Diego, pai. Nem tampouco quero sair da Espanha. Estou bastante satisfeita aqui no convento. Dentro de um mês vou fazer os

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votos definitivos e servirei felizmente a Deus para sempre. —Se seu entusiasmo era um pouco forçado, ela fez como se não se desse conta. Ser monja era sua maior meta na vida. —Precisamente por isso vim, Luzia —lhe disse Dom Eduardo. — Nunca quis que te fizesse religiosa. Quando tinha dez anos era incorrigível e por isso te trouxe aqui, para que as boas monjas do convento lhe domassem e lhe educassem. Sua mãe acabava de morrer, e eu não era capaz de me ocupar de uma menina com tanto caráter. Já era muito para mim criar a seus irmãos. Mas nunca tive intenção de te deixar aqui para sempre. Está prometida a Dom Diego há anos, e ele já começa a ficar impaciente. A mãe abadessa me assegurou que está preparada para te converter em esposa. Luzia estremeceu, imaginando o repugnante que seria entregar seu corpo a um homem, especialmente a um homem a quem mal conhecia. —Por favor, pai, por que não quer ver que fui feita para uma vida de prece e recolhimento? Eu quero ser esposa de Cristo. Dom Eduardo lançou a sua filha um eloquente olhar que delatava seu desdém. —Basta ver-te para notar que você não foi feita para viver enclausurada. Contemplou-a, contemplou a sensual beleza de seu rosto, as curvas exuberantes de seu corpo, dissimuladas apenas pelo hábito folgado. Seus olhos, grandes, escuros, faiscavam de vida, de temperamento e de paixão. Possivelmente pudesse enganar a outros, mas a ele não podia enganar; por isso era seu pai. Tinha o convencimento de que, uma vez iniciada na paixão, Luzia se entregaria a ela com avidez, e tinha disposto que seria Dom Diego o encarregado de inflamar esse fogo que abrasaria por dentro sua filha. —Eu não tenho culpa de ser como sou, pai —disse ela com um tom de censura na voz.— O aspecto exterior não tem nada haver com a fé. Eu quero dedicar o resto de minha vida a servir a Cristo.

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—Ora! Como pode saber o que quer, ou seja, se não experimentou nada da vida? —arreganhou-a Dom Eduardo, impaciente. — Melhor teria sido não te deixar tanto tempo neste lugar. Agora vai vir comigo, Luzia. Tem que estar preparada para embarcar dentro de duas semanas no Santa Cruz que te levará para se reunir com seu prometido. Agradará saber que Dom Diego foi renomado governador geral de Cuba. É um homem poderoso, muito respeitado e admirado. É uma garota de sorte, Luzia. —Mas pai, ele é velho e eu… —Já basta! Não penso seguir discutindo. Você vai casar com Dom Diego e não há mais o que falar. Irá contigo na viagem, uma dama de companhia e um sacerdote, que irão instruí-la sobre seus deveres de esposa. Dom Diego esperará de você certas coisas… — disse evasivamente. — Um exército de costureiras vai trabalhar noite e dia para te prover de um enxoval digno da noiva de um homem tão importante como Dom Diego. Tem que entender que estou fazendo isto porque te quero, Luzia. Verá que viverá bem com Dom Diego. Luzia não entendia nada daquilo. Por que tinha que abandonar aquele lugar de paz e bem-estar para inundar-se em um mundo esmigalhado pelas disputas e as guerras? Ela não era de todo ignorante do ocorrido do mundo. Sabia das precárias relações entre a Espanha e Inglaterra, e tinha ouvido falar de como a intriga política se cozia a fogo lento nas cortes de Felipe II da Espanha e Isabel I da Inglaterra. Muitos visitantes chegavam ao convento e falavam em sussurros dos atos de pirataria que se produziam mar a dentro. Havia um nome em particular que a fazia estremecer de terror cada vez que o ouvia. O Diabo. O demônio encarnado em um inglês. Sentiu um calafrio ao recordar a primeira vez que escutou aquele nome. Foi há vários anos. Tinha ouvido por acaso um hóspede que estava passando ali à noite, contava à mãe abadessa sobre o corsário inglês que se dedicava a atacar e afundar galeões espanhóis com uma mania quase obsessiva. Provavelmente estava rico como

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um rei saqueando aos espanhóis, refletiu, e a repugnância a fez retroceder quando tentou fazer uma imagem do cruel pirata que atacava quase exclusivamente navios espanhóis. —Ouviste, Luzia? —repetiu impaciente Dom Eduardo. — Te despeça da mãe superiora e arrume a bagagem. Temos que ir imediatamente. Luzia sabia que, apesar de ter completado vinte anos, não lhe ia servir de nada seguir com seus protestos. Resultava degradante saber que todos os aspectos de sua vida estavam controlados por homens. Seu pai, seus dois irmãos, e agora Dom Diego, com quem a tinham prometido. No convento, ao menos, não tinha que render contas a ninguém mais que a Deus. —Ouvi, pai. Não há nada que eu possa fazer ou dizer para lhe fazer mudar de opinião? —Não, filha, não; estou decidido a fazer o que é melhor para ti. Com Dom Diego vai ter fortuna e posição. Vai ser a esposa consentida de um homem importante. Não quer ter filhos? Dom Diego te dará filhos. Luzia não sentiu o mínimo desejo pelo tipo de vida que seu pai descrevia até que mencionou os filhos. Ter seus próprios filhos seria maravilhoso, mas não conseguia imaginar que Dom Diego fosse ser o pai. Só o tinha visto uma vez, quando ela tinha dez anos, e já então lhe tinha parecido um homem velho e sério, apesar de naquela época ele não devia ter mais do que vinte e cinco anos. —Está bem, pai —lhe respondeu, abatida.— Mas saiba que meu coração fica fora deste matrimônio. A bordo do Santa Cruz Escorando os pés na amurada, Luzia se inclinou para o vento, com redemoinhos de ar prendendo-se na cabeleira de ébano e cintilando em seus luminosos olhos escuros. Suas bochechas estavam rosadas em meio a palidez azeitonada do rosto,

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como encantadora consequência do vento forte. Levava horas ali, em equilíbrio sobre a amurada, contemplando taciturna o mar revolto e desejando voltar ao convento, onde a vida era tranquila e sem complicações. —Por favor, volte para a cabine, Luzia. Pode pegar um resfriado Dom Diego vai se desgostar com você, e comigo também por lhe permitir isso. Luzia lançou a dona Carlota um olhar de desespero. Gostava de sua dama de companhia, mas a achava muito rigorosa por ser tão jovem ainda. Não muito mais velha que Luzia, dona Carlota era uma viúva a quem Dom Eduardo tinha contratado como companheira de viagem de Luzia. Também a acompanhava o sacerdote, o padre Sebastian, que se ocuparia de suas necessidades espirituais durante a viagem. —Não tenho frio, Carlota. Este vento é do mais tonificante. —Me põe do avesso — disse Carlota. Seu rosto tinha adquirido um anormal matiz verde que dava fé dos enjoos que levava sofrendo desde que embarcaram no porto de Cádiz.— Tinha a esperança de que o enjoo passasse ao cabo de umas semanas no mar, mas não fez mais que piorar. —Volte para a cabine, Carlota; eu estou bem. Estou segura de que o pai Sebastian lhe fará companhia. —Sim, Luzia, isso é o que vou fazer. Que leia um pouco a Bíblia. Tem uma voz muito relaxante. Luzia contemplou como cambaleava aquela mulher pelo caminho de volta para o amplo camarote de popa que compartilhavam. Tinha que admitir que Carlota era uma acompanhante piedosa e recatada, mas resultava aborrecida. E quanto ao padre Sebastian, o bom padre, era um severo amante da disciplina enviado para garantir que Luzia chegasse às mãos de seu prometido tão pura como o dia em que saiu do convento. Todos os dias o padre reservava certo tempo para a oração e a instrução religiosa, e isso Luzia gostava. Tinha a esperança de que uma vez que o padre percebesse quão devota era, iria ajudá-la a evitar aquele matrimônio em que seu pai estava tão empenhado.

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Contemplando taciturna o longínquo horizonte, Luzia acreditou ver uma vela. Entreabriu os olhos para o resplendor do mar e o observou outra vez: a viu desaparecer por debaixo do horizonte. Como não voltou a aparecer, imaginou que tinha sido uma miragem e voltou à vista para outra parte. A bordo do Vingador —Estou vendo, capitão. É um galeão com todas as da lei. Leva a linha de flutuação muito abaixo. Deve estar até acima de pilhagem. O capitão Morgan Scott focou com a luneta o galeão espanhol, que alcançava a ver apenas. Tinha-o divisado no dia anterior, e após foram o seguindo, mantendo em uma distância necessária para evitar que os detectassem. —Têm razão, senhor Crawford, é dos grandes. Provavelmente leva vinte canhões ou mais. —Podemos tomá-lo, capitão. O Vingador não tem rival. Nossos homens são lutadores curtidos e estão impacientes para brandir com esses miseráveis espanhóis. Disponho os homens para a batalha? Morgan esboçou um sorriso vingativo. —Têm razão, senhor Crawford. Dê a ordem. Preparem o navio para a batalha e distribuam as armas. Que os artilheiros estejam em seus postos. Já é hora de que o Diabo ganhe outro prêmio. —Sim, meu capitão. Vamos ensinar a esses mal nascidos espanhóis do que é capaz o Vingador. A bordo do Santa Cruz Em seu camarote a bordo do Santa Cruz, Luzia estava ajoelhada junto ao padre Sebastian, recitando ferventes preces, enquanto o fogo cruzado dos canhões invadia ao redor deles com um estrondo ensurdecedor. O capitão Ortega tinha avistado o

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navio pirata inglês à alvorada. Com o passar do dia foi cortando a distância entre eles, até que estiveram a um tiro de canhão. Navegando tão pesadamente, o Santa Cruz não era rival para o Vingador, que era mais veloz e mais ligeiro. Quando começou a luta, Luzia só conseguiu pensar na terrível devastação que ia fazer o navio pirata. Ao primeiro indício de perigo, padre Sebastian se ajoelhou para rezar, exortando Luzia e Carlota que fizessem o mesmo. Mas, parecia que Deus fazia ouvidos surdos a suas súplicas, porque no convés a intensidade da batalha não diminuía. Depois de um sem-fim de rezas, Luzia já não pôde suportar mais: precisava saber o que estava acontecendo. Levantou, trêmula, e se aproximou da porta. Abriu uma fresta e olhou para fora. Conseguiu ver o capitão Ortega na ponte, na metade do que ficava de seu navio, e saiu ao convés, decidida a averiguar que possibilidades tinham de escapar dos piratas. —Luzia! Aonde vai? — na voz de Carlota soou uma nota aguda de pânico. —Vou falar com o capitão. Não posso ficar aqui sem fazer nada, sem saber o que vai ser de nós. —Como sem fazer nada, menina —a repreendeu o padre Sebastian— Estamos rezando para que ocorra um milagre. —Volto em seguida —disse Luzia, sem deixar-se convencer pelas palavras do sacerdote e fechando com força a portinhola do camarote a suas costas. Em vários pontos do convés se elevavam chamas e fuligem, e o bramido dos canhões ameaçava ensurdecendo enquanto sorteava cadáveres e escombros para chegar junto ao capitão. De repente, uma bala de canhão do Vingador cruzou assobiando e foi estelar contra a despensa contígua ao camarote no que padre Sebastian e Carlota seguiam de joelhos rezando. A explosão que seguiu lançou Luzia voando à outra ponta do convés. Levantou-se do chão, gritou com autêntico alarme e correu para o camarote destroçado. A portinhola pendia inclinada de suas dobradiças quebradas e teve que 13


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forçá-la para abri-la; foi jogando a um lado pedaços de madeira ainda fumegantes e entulhos até que encontrou seus dois companheiros de viagem naquela ruína. —Capitão, me ajude! —gritou, enquanto tratava de achar um sopro de vida no corpo inerte de Carlota. Mas o capitão Ortega tinha seus próprios problemas. O Vingador estava se aproximando muito rápido, e seu próprio navio estava afundando. Viu como os piratas aparelhavam ganchos e passarelas para a abordagem e soube que sua tripulação, seus passageiros e ele mesmo enfrentavam a uma morte segura. Para horror de Luzia, ninguém podia fazer nada por Carlota. Luzia dirigiu sua atenção ao padre. Ainda respirava, embora com muita dificuldade. Seu peito subia e baixava com tão pouca regularidade que Luzia compreendeu que sua morte era iminente. Padre Sebastian abriu os olhos e viu Luzia inclinada sobre ele. Era consciente de que ficava pouco tempo de vida, mas estava em paz consigo mesmo, tinha dedicado sua existência inteira a preparar-se para o encontro com Deus. Seus últimos instantes os dedicou a temer pelo destino de Luzia. Seu pai a tinha posto a seu cuidado, e ele já tinha rezado o suficiente para lhe transmitir alguns conselhos importantes antes que a morte viesse lhe buscar. —Está abordando o inimigo? —perguntou, com os olhos já frágeis. —Sim, Padre —disse Luzia com tristeza— O capitão Ortega não tinha forma de impedi-lo. —Me escute atentamente, menina, porque fica pouco tempo —Luzia se inclinou ainda mais para ouvir as últimas palavras de padre Sebastian.— Não deve deixar que os piratas lhe ultrajem. Escolhe a morte em lugar da desonra. Acabarão lhe resgatando, mas então já haveria sido sem piedade violada. Não terá já a inocência que dom Diego exige de sua mulher e a mãe de seus filhos, e por desgraça tampouco será já apropriada para levar uma vida de santidade entre as religiosas do convento.

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Com meu último fôlego te imploro que pense cuidadosamente, e logo atue segundo os ditados de sua consciência. Luzia contemplou o padre com espanto. —Está me dizendo que me suicide, Pai? O padre Sebastian não pôde lhe responder por que deslizava já serenamente para a morte, mas Luzia soube exatamente o que ele pensava que devia fazer. Ergueu-se sobre seus pés inseguros, subitamente consciente do fedor da fumaça e do sangue e da feroz batalha que estava acontecendo entre seus compatriotas e os piratas ingleses. O navio estava em chamas, escorado para estribo e em perigo de afundar, mas Luzia ficou no meio da fumegante devastação do camarote, com os dois cadáveres a seus pés, incapaz de matar-se como padre Sebastian lhe tinha recomendado. Se não tivesse saído do camarote quando o fez, agora estaria com eles a caminho para a paz eterna. O terrível ruído da batalha diminuiu bruscamente, e Luzia ouviu o retumbar e a voz profunda de um inglês que exigia que se rendessem. A seguir ouviu um nome que a deixou gelada; um nome que, passando de boca em boca, chegou-lhe com os ventos fumegantes do terror e do medo: o Diabo. Momentos mais tarde a mesma voz profunda ordenou revirar o navio em busca de ouro, e Luzia compreendeu que ficava muito pouco tempo para decidir-se entre morrer e ser violada pelo desumano Diabo. Nenhuma das duas opções resultava fácil. Medindo a pequena adaga que levava no bolso, preferiu o suicídio. Dois talhos rápidos nos pulsos e antes que os piratas a encontrassem já teria sangrado. Entretanto… não era a morte o modo de escapamento dos covardes? Dez anos tinham demorado as freiras do convento em domesticar o caráter veemente de Luzia e submetê-la a suas decisões, mas apenas lhe custou dez segundos recuperar aquele orgulho obstinado e aquela teimosia que tanto desesperava a seu pai quando era menina. Se Dom Eduardo a tivesse visto nesse momento, com o brilho de desafio no

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olhar e aquela expressão, sua ideia de que Luzia não estava feita para a vida religiosa teria sido confirmada. —Não penso em matar-me —declarou corajosamente Luzia, — nem tampouco penso em me entregar a esses sujos piratas. Apesar dessas palavras audazes, não tinha armas, além de sua pequena adaga, com a que defender-se, assim encaminhou seus pensamentos em outra direção. Tinha visto sua mala jogada entre os escombros do camarote, e recordou que tinha colocado nela seu hábito cinza de freira. Tinha calculado estupidamente que durante a viagem poderia impressionar Sebastian com sua fé e convencê-lo do engano que seria obrigá-la a celebrar aquele matrimônio quando o que ela em realidade queria era dedicar sua vida a servir a Deus. Mas, o padre tinha dado pouca importância a seus protestos e se negou de forma categórica a interceder por ela ante Dom Eduardo. Tinha recebido do pai de Luzia o encargo de conduzi-la até seu prometido e assegurar-se de que o matrimônio se celebrava como era devido, e ele era um homem de palavra. O alvoroço que se aproximava obrigou Luzia a apressar-se; fechou de um empurrão a portinhola desvencilhada e escavou na mala procurando o hábito. Extraiu-o com um puxão, arrancou o vestido e colocou o hábito, atando o rosário de madeira à cintura, como um cinturão. Logo fez uma bola com seus finos vestidos e jogou pela escotilha. Em uns minutos seu longo cabelo de ébano ficou ocultp sob a touca de linho, completando a transformação. Teve o tempo exato de terminar. De repente na porta saltaram suas dobradiças quebradas e na soleira apareceu um fornido pirata coberto de sangue e de sujeira, que inspecionou o desastre com sinistra satisfação. Descobriu Luzia e lançou um olhar lascivo, mostrando uma fileira de dentes enegrecidos e quebrados. —Gueno, gueno, gueno, o que é que temos por aqui? —transpassou a soleira, esquivando os corpos de Carlota e do padre, e agarrou a mão de Luzia. Ela retrocedeu

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para

escapar,

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tropeçando

sobre

os

escombros.

Ele

seguiu

cercando-a

implacavelmente. —Não tenha medo, pipoca cinza. O velho Pete não vê uma mulher desde que saímos das Bahamas. E muitíssimo menos uma tão bonita como você. Avançou, agarrou Luzia pela cintura e a atraiu contra o duro muro de seu maciço peito. Ela perdeu o fôlego, mas recuperou em seguida para gritar. Tampandolhe a boca com a mão, Pete a arrastou até o convés. Morgan estava perseguindo a seus homens para que se apressassem antes de que afundasse o Santa Cruz. Naquele galeão espanhol tinham encontrado mais riquezas que em seus melhores sonhos, e os piratas os estavam transportando ao Vingador enquanto ele e Stan Crawford empurravam aos sobreviventes espanhóis para o canto. Quando Morgan ouviu o grito se deteve em seco e rodeou aos detentos para encarar-se com o capitão espanhol, elevando uma sobrancelha com genuína surpresa. —Levam mulheres a bordo? O capitão Ortega se manteve em silêncio. Acreditando que não entendia o inglês, Morgan lhe repetiu a pergunta em perfeito espanhol, porque o tinha aprendido em seus anos de cativeiro. Como Ortega seguiu sem responder, Morgan lhe apoiou a ponta da espada na garganta, e não teria necessitado muita provocação para cravar-lhe em Ortega, com os olhos saindo das órbitas, grasnou: —A senhorita Santiago, filha do dono do navio, e sua acompanhante. —Aonde se dirigiam? —A Cuba. O noivo da senhorita Santiago a está esperando em Havana. Morgan entrecerrou os olhos enquanto contemplava os restos do camarote de popa, com a certeza de que era dali de onde tinha vindo o grito. —Se encarregue disto, senhor Crawford. Morgan cruzou com grande rapidez o convés em chamas, constatando que todos os seus homens, salvo uns poucos atrasados, haviam retornado ao Vingador e estavam esperando ali. Quando chegou ao camarote, a inclinação já era tão grande

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que temeu que qualquer passageiro que ainda estivesse a bordo ficaria apanhado no afundamento do navio. Abrindo com os pés o que ficava da porta, Morgan varreu rapidamente com o olhar o massacrado camarote, passando sobre os dois cadáveres para deter-se no casal que lutava na coberta. Um de seus homens jazia em cima de uma mulher, e estava para colocá-la na cintura. Surpreendeu-lhe observar que o traje da mulher era um discreto hábito cinza de freira. Apesar de nunca ter tido especial consideração às freiras nem a nenhum outro tipo de devoto religioso, agarrou ao pirata pelo cangote e o jogou em um lado. —Volte para Vingador, Potter, a menos que queira afundar com este navio. Pete Potter deu um olhar áspero a seu capitão: —E o que passa com a mulher, Capitão? Quero-a pra mim; é minha. Luzia tinha posto os olhos redondos de medo ao ver Morgan. Sabia, sem necessidade que o dissessem, que aquele era o renomado Diabo, o pirata temido e odiado por todos os espanhóis. Não se parecia em nada à imagem que tinha feito dele. O Diabo era majestosamente masculino, seu rosto tinha linhas duras e planas em sombra. Não se parecia em nada a um diabo, e isso o fazia ainda mais perigoso. O cabelo dourado e abundante e o arco perverso de suas sobrancelhas se viam realçados pela pronunciada covinha de seu queixo. E aqueles olhos, de um azul tão penetrante e tão calculadores, estavam-na percorrendo de cima a baixo com uma intensidade insultante. Aquele corpo musculoso estava tenso de energia contida. Nas linhas enérgicas, duras, de seus traços faciais preponderavam a generosa boca, que parecia totalmente capaz de ser cruel e implacável, e a mandíbula quadrada, agressiva. —Me ocupo dela. Protestando em tom desanimado, Potter lançou ao Morgan um olhar emburrado ao passar junto a ele e saiu pela porta. O Diabo era um amo justo, que esperava que obedecessem suas ordens sem as questionar, e não lhe tremia o pulso a

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hora de aplicar castigos rigorosos a quem não o fizesse. A bordo do Vingador, a ninguém tinha ocorrido amotinar-se; nem sequer Potter. Movida pelo desespero, Luzia caiu de joelhos, inclinou a cabeça para baixo, juntou as mãos e rezou com todo o ardor de que era capaz. Morgan a contemplava consternado; tanta devoção o fazia sentir-se decididamente incômodo. —Como se chama? —perguntou em espanhol. Uma labareda de teimosa resistência obrigou Luzia a manter-se muda, apesar de seu medo, e continuou rezando com redobrada diligência. Morgan cuspiu uma maldição. —Deixa de litanias e me responda! Quem é? Luzia pestanejou ao lhe olhar: —A irmã Luzia. —O que está fazendo a bordo do Santa Cruz? —Dom Eduardo me contratou para que acompanhasse a sua filha…, Carlota Santiago. —Ela sabia que Deus lhe perdoaria essa mentira. Morgan deu um olhar desapaixonado aos dois cadáveres que jaziam no meio do camarote em ruínas. —Suponho que a morta é Carlota Santiago. —Sim. —E o padre? —Vinha com o encargo de velar pela virtude de Carlota e ser testemunha do matrimônio que ia se celebrar entre ela e Dom Diego de Fujo. Morgan ficou olhando fixamente o rosto de Luzia, hipnotizado por sua sensual beleza. Nunca entenderia como podia uma preciosidade como aquela querer enclausurar-se entre os muros de um convento, separada da sociedade e dos homens. Embora o apagado hábito cinza não realçasse em nada sua figura nem sua beleza, tampouco conseguia ocultar. Só um cego poderia não ver, através do descolorido envoltório que tinha posto, à tentadora mulher que havia dentro. "Lástima que seja espanhola", pensou, contemplando-a com um desprezo mal dissimulado.

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Com essa estatura miúda, mas distribuída de forma exuberante e essa cútis tão branca, ela tinha alguma coisa que em Morgan suscitava pensamentos deliciosamente lascivos. Nem sequer o folgado hábito cinza o impediu de imaginar o que sentiria ao cravar-se na calidez daquele corpo virgem. Uma escura e nociva nuvem de asfixiante fumaça trouxe os caprichosos pensamentos de Morgan de volta a realidade. —Capitão, o navio está afundando muito rápido! Os homens estão já todos a bordo do Vingador nos esperando — na voz de Crawford havia um matiz de desespero. —Já vou, senhor Crawford! —gritou em reposta Morgan. Logo se voltou para Luzia —Levante-se! —ladrou, e agarrando-a pelo braço a arrastou fora do camarote. —Me deixe —insistiu Luzia— Terei a mesma sorte que os sobreviventes de nosso navio. Ninguém vai pagar por mim um resgate, não ganharia nada me levando com você. Não sou mais que uma pobre freira. Os frios olhos azuis de Morgan percorreram de cima abaixo seu corpo, avaliando descaradamente seus méritos. —Pode que me ocorra alguma outra coisa para ti. Luzia tomou ar, respirando de forma entrecortada. Significava que pensava em violação, por mais que fosse como havia dito, uma casta freira? Repassaria aos seus homens quando tivesse terminado com ela? No lapso de um batimento de coração, considerou a ideia de jogar-se no mar para escapar ao terrível destino que a esperava no navio daquele Diabo. Mas, suas reflexões tiveram um final brusco quando o navio se inclinou violentamente e ela caiu sobre Morgan. Este, amaldiçoando airadamente, agarrou-a, e a jogou ao ombro como se fosse um saco de farinha. Saiu correndo do camarote e, cruzando a coberta inclinada, dirigiram-se as passarelas, onde o senhor Crawford esperava. Luzia deixou escapar um grito de alarme quando Morgan saltou sem

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esforço a extensão que separava os dois navios, aterrissando com suavidade na coberta do Vingador. Continuando, o senhor Crawford fez o mesmo. Logo que estiveram a salvo, a bordo do Vingador, as velas se estenderam ao vento, afastando-os das chamas do Santa Cruz. O último viu Luzia do navio, foi o capitão Ortega e a tripulação sobrevivente tentando febrilmente desatar os botes salva-vidas antes de o navio desaparecer sob o escuro redemoinho das ondas.

Capítulo 2 A bordo do Vingador

Morgan não se atrevia a soltar à tremente freira por medo de que ela se jogasse no mar. Não tinha ideia do por que, mas lhe importava. Ela era espanhola, e

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ele a desprezava por isso. Possivelmente deveria tê-la deixado que afundasse com o Santa Cruz, refletiu, dado que obviamente não ia conseguir por ela nenhum resgate. Em seus refinados gostos não entravam inocentes membros de ordens religiosas. A lógica lhe dizia que deveria entregá-la a seus homens para que se divertissem, e sem o menor escrúpulo. Mas um rescaldo da decência que seus pais tinham inculcado fazia já muito tempo lhe impediu de fazê-lo. Ela era muito delicada, não sobreviveria nenhuma noite a tão rude tratamento. —Sou o capitão Morgan Scott — disse Morgan a Luzia, arrastando-a pela coberta— Está a bordo do Vingador, e em minhas mãos. —A aonde me leva? —perguntou Luzia, morta de calor pelo diabólico sorriso de Morgan. —A meu camarote. Luzia resistiu, lutando contra a força inexorável com que Morgan a tinha puxado. —Não! —Sim, Irmã, ou como quer te chamar. Ali vai estar mais segura que aqui fora. Meus homens são boa gente, mas odeiam os espanhóis tanto como eu. Esse saco de batatas que tem posto não te manterá a salvo deles. Se sabe falar inglês, recomendo que o faça. O som de sua odiosa língua a bordo de um navio inglês bem poderia incitá-los à violência. Sem nenhum esforço, Morgan levou Luzia a rastros por todo o convés até seu camarote, que estava sob a ponte de mando. Abriu de um puxão a porta e a empurrou para dentro. Ele entrou atrás, fechou a suas costas a porta e se apoiou nela. Cravou o olhar em Luzia, os olhos penetrantes e desumanos como o fio de uma espada. —Em nome de Deus, o que vou fazer contigo, irmã Luzia? —meditou Morgan, pensativo— Deveria te entregar a meus homens para que se divirtam um pouco? Asseguro que me agradeceriam por isso. Ou possivelmente —continuou, em um tom

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tão baixo e tão gutural que a Luzia produziu calafrios— poderia encontrar alguma utilidade em minha cama —inesperadamente seus olhos se acenderam, excitados pelo pensamento de seduzir aquela beleza exuberante que afirmava ser freira. —Por que não fiz o que mandou padre Sebastian? —lamentou-se Luzia, retorcendo com desespero as mãos— Ele me disse que melhor seria me matar que me entregar aos sujos piratas. —Corsários, Irmã, corsários. Com a bênção da rainha da Inglaterra e navegando com bandeira inglesa. E por que não se matou? —perguntou, curioso. Luzia levantou um pouco o queixo, e seus olhos escuros brilharam desafiantes. —Não queria morrer — respondeu em um inglês não perfeito, mas com um acento encantador— Quero viver. Ele respeitou sua franqueza, mas pouco mais. —É um enigma, Irmã. Suas pretensões de inocência não me impressionam, porque debaixo dessa vestimenta tem um corpo nu para a cama. Sua sensualidade terrestre desmente seu ardor religioso. Em seus olhos escuros há brasas ardentes e ânsias de vida, e sua beleza seria uma tentação até para o diabo. —Eu ouvi dizer que o Diabo é o próprio diabo —se atreveu a dizer Luzia. Morgan jogou a cabeça para trás e soltou uma estridente gargalhada. —Isso não vou discutir. —O brilho infernal de seus olhos perfurava a armadura de seu traje de freira. Saiu da porta, cortando a distância que havia entre eles. Ela foi retrocedendo até se chocar com o beliche. Morgan seguiu avançando até ficar a escassos centímetros dela, com um sorriso preguiçoso nos generosos lábios que faziam enrugar a extremidade de seus olhos. Intrigado pelos suaves tons azeitonados de sua pele alargou a mão e passou um dedo calejado em sua bochecha, assombrando-se de sua textura acetinada. O dedo continuou audazmente para baixo, parando para descansar onde sua carne desaparecia sob o pescoço do hábito. Luzia soltou uma aguda exalação, temendo o que ele fosse fazer a seguir, embora excitada e sem fôlego por aquela carícia superficial. —Não o faça! 23


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Morgan se deteve. —"Não o faça?" É minha prisioneira, Irmã. Posso fazer contigo o que tenha vontade. Como refém não teria nenhum valor, você mesma o há dito. Quem iria pagar um resgate por uma miserável freira? —Poderia me desembarcar em sua próxima escala. Eu mesma acharei a forma de voltar para casa. —Não conseguiria sobreviver se te soltasse. Você mesma admitiu que não sabe nada do mundo que há fora de seu convento. Já pensarei o que vou fazer contigo. A Luzia suas palavras soavam fáceis, enganosamente tranquilas, deliberadas. Morgan dava a impressão de ser um homem que mantinha um controle tão estrito sobre sua alma e suas emoções que parecia tê-las reduzido ao mais frio gelo. Se soubesse o que Morgan estava sentindo em realidade, teria ficado assombrada. Pela primeira vez em muitos anos, Morgan estava estranhamente perdido e confuso. Nunca havia acontecido nada parecido. Ele nunca perdia o controle, sabia exatamente o que tinha que fazer em cada situação. Ver a si mesmo à deriva nas brasas daquele par de olhos escuros era para ele uma experiência nova. Embora seu ódio para os espanhóis não tivesse diminuído, Morgan resistia entregar aquela jovem freira a seus homens, ou a deixá-la livre para que abusassem dela outros ainda mais cruéis que seus próprios marinheiros. Tampouco sentia o menor impulso de fazer ele mesmo mal à pequena devota. De fato, o impulso que lhe consumia era muito mais protetor. Em realidade desejava à mulher, por cima de sua vocação religiosa e seu aspecto inocente. Nunca um homem tinha tocado em Luzia como Morgan Scott estava atrevendo a fazê-lo. De fato, eram poucos os homens que ela tinha visto no convento, mas reconheceu o perigo assim que o teve diante. E perigo era precisamente a melhor palavra para descrever o olhar dos olhos azuis de Morgan. Sustentou-lhe o olhar, muito inocente para compreender o efeito que seus olhos sensuais tinham nele. Antes que pudesse dar-se conta lhe tinha posto a mão na nuca e a atraía para ele. 24


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Luzia gritou assustada quando sentiu o calor abrasador dos lábios de Morgan contra os seus e o úmido deslizar de sua língua que a saboreava. Foi um ato tão grosseiramente íntimo que retrocedeu sobressaltada, cobrindo a boca com a mão tremula. Era o primeiro beijo de sua vida, e sentiu que em seu interior despertava um calor tórrido, acendendo algum lugar de si mesma que tinha permanecido intacto pelas emoções humanas. Sentiu-se vulnerável e frágil e… assustada. Muito, muito assustada. Tinha Morgan Scott intenção de violá-la? A resposta lhe pareceu evidente quando ele baixou as mãos por suas costas até suas nádegas e notou um estranho vulto que apertava contra seu estômago quando ele a atraiu com força para si. Presa pelo desespero e o medo, Luzia empurrou Morgan para o lado, fincou de joelhos e juntou as mãos em fervente prece. Rezou alto, elevando os olhos e a voz ao céu, com a esperança de aguar com seu ardor as lascivas intenções do atrativo pirata. —Que nosso doce Salvador —rezava— me mantenha pura, de alma e de corpo; que me proteja destes pagões ingleses. Que, se for brutalmente violada, dême forças para me matar logo. —Baixou a cabeça e seguiu rezando em silêncio enquanto Morgan a contemplava de cima, impressionado pela força de sua fé. Havia poucas coisas que podiam fazer Morgan Scott sentir-se derrotado, e a fé de Luzia era uma delas. O desejo o abandonou tão depressa como tinha feito elevar sua masculinidade fazia só uns instantes. Deus sabe que seguia desejando aquela exuberante bruxa espanhola, mas a sua incomoda fé o desarmava. —Fica de joelhos, Irmã, e reza o quanto te agrade —lhe espetou com voz rouca— A ideia de violar uma devota inocente não me seduz. Pode ser que não respeite sua vocação religiosa, mas admiro a forma em que a usa para diminuir minhas intenções — entreabriu os olhos e acrescentou com voz áspera— É de uma valentia surpreendente, Irmã Luzia. Teria gostado de te mostrar o que está perdendo por se esconder embaixo desse feio hábito e essa touca. E pode ser que ainda o faça, se

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consegue reservar um espaço entre suas contínuas orações —disse em tom ameaçador. As orações de Luzia se detiveram em seco. —Não estou fingindo. Vivi dedicada a Deus e à religião. Por não saber nada das coisas terrenas não significa que esteja perdendo algo. Se lhe desse espaço, seria para lhe recordar que meu corpo é sagrado. Morgan soltou uma gargalhada inclemente. —Quando quiser seu corpo tomarei a meu desejo. Ou possivelmente te entregue aos meus homens. Ainda não decidi. Agora, a deixo para que possa continuar com suas rezas. Mas, entende bem, bruxa espanhola, que nem suas mais ferventes súplicas bastarão para te salvar se digo que não vale a pena. —E girando sobre seus calcanhares, saiu dando uma portada. A pequena estrutura de Luzia pareceu paralisar-se uma vez que esteve sozinha. Oscilou sobre seus joelhos, tremendo ao lembrar as ferozes palavras de Morgan e sua forma de ameaçá-la. Tocou ligeiramente a boca, recordando a suavidade dos lábios dele sobre os seus, sentindo o rescaldo de calor de seu beijo. A bochecha ainda estava ardendo pelo contato de seu dedo calejado, e se perguntou uma vez mais, que tipo de homem seria. O capitão Morgan Scott odiava aos espanhóis, isso resultava mais que evidente, e pelo que se via não tinha a menor dúvida ao matá-los. Seria ela a seguinte? Era óbvio que ele não respeitava a religião, nem a vida humana. E, mesmo assim, tinha mostrado uma extraordinária contenção no que a ela respeitava; atribuiu-o inteiramente ao efeito que o fazia seu ardor religioso. No momento em que ele a olhava com esse brilho perverso nos olhos, ela tinha ajoelhado para rezar e ele se separou despeitado. Se era isso o que tinha que fazer para que a deixasse tranquila, iria empregar-se a fundo em seu papel de freira piedosa. Confiaria em sua fé para convencer ao Diabo de que a deixasse livre.

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—O que têm pensado em fazer com a moça espanhola, Capitão? Sua presença distrai à tripulação. Solicitam que a passe quando tiver acabado com ela. Morgan tinha a expressão pensativa quando voltou para responder

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Crawford, seu contramestre e amigo há muito tempo. Parecidos de aspecto, de corpo e de mente, ambos cultivavam um saudável rancor pelos espanhóis. Conheceram-se pouco antes de Morgan obter a permissão da rainha para navegar como corsário sob bandeira inglesa. A primeira coisa que fez quando foi devolvida sua herança foi comprar um navio, equipá-lo com canhões e contratar como contramestre Crawford. Este tinha sofrido em sua própria carne a crueldade dos espanhóis e os odiava quase tanto como o próprio Morgan. Juntos tinham formado uma formidável equipe, além de em seguida se fizeram amigos. —Não o decidi —disse Morgan, devagar— O normal é que peçamos um resgate, quando capturamos alguma mulher. —Um espanhol é um espanhol, seja homem ou mulher —entoou secamente Crawford— esqueceu o que os mal nascidos lhes fizeram? O corpo de Morgan ficou tenso. —Não esqueci nada. — Fez uma pausa, e logo disse— Essa mulher pertence a uma ordem católica. Acaso estão os homens tão impacientes para violar a uma religiosa? Crawford soltou uma risada sarcástica. —Debaixo desse saco de batatas cinza há uma mulher como qualquer outra. E têm que admitir que tem seu encanto. Nossos homens levam meses no mar, e importa bem pouco o que seja ou não seja essa mulher. Morgan separou o olhar. —Não tenho inconveniente em admitir que a moça é atrativa, além de imensamente irritante. Entretanto, há algo nela que me desloca. Parece sincera em sua fé. Mas é muito terrestre, muito sensual, maldita seja, para ser o que ela afirma. No fundo desses olhos escuros se esconde um temperamento ardente, ela saiba ou não. 27


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Crawford lançou a Morgan um olhar preocupado. —Você gosta da moça, Capitão? Se assim for, lhe de um boa queda e tire-a da cabeça. E depois, a passe aos homens. Não convém mantê-la muito tempo a bordo, seguramente, vai trazer-nos problemas. A tripulação inteira acabará brigando por ela, assim que você a tenha despachado. —Eu não gosto da moça, Stan —negou Morgan de forma pouco convincente — Não posso suportar aos espanhóis, sejam homens, mulheres ou meninos. Isso sabe tão bem como eu. —Bom, mas sempre há uma primeira vez — acautelou Crawford— Tome cuidado, Morgan, não se deixe enrolar por essa moça. Pense que é muito provável que por debaixo dessa touca que leva esteja mais calva que um ovo. —Ocupe de suas obrigações, senhor Crawford —disse Morgan com um ar de irritação — e eu me ocuparei das minhas. Nunca me atraíram as mulheres calvas, mas admito que essa bruxa de olhos escuros me intriga como nenhuma outra o tem feito em muito tempo. Deixe bem claro aos homens que não podem pôr a mão em cima dela, até que eu me tenha fartado dela. Contendo um sorriso, Crawford saudou marcialmente e se afastou, deixando Morgan confuso e sem saber o que decidir sobre o destino de sua cativa. Seus marinheiros queriam à mulher, e em circunstâncias normais ele não haveria oposto a entregar-lhes. Não tinha ideia de porque estava empurrando a não seguir os ditados de sua consciência. Seria a fé daquela mulher? Seus suplicantes olhos negros, que falavam eloquentes de mistérios que ele ansiava descobrir? A paixão que transluzia, inclusive não sendo consciente? A viçosa promessa de seu corpo virgem? O que tinha ela que a fazia distinta do resto das mulheres? Morgan sabia que não se tratava só da beleza da freira, porque ele tinha estado com mulheres ainda mais belas sem que lhe fizessem perder o norte. E agora tinha que decidir o que devia fazer com ela. Percorreu com os olhos o convés, onde sua tripulação trabalhava em excesso para arrumar os destroços que tinha infligido o 28


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galeão espanhol. Por mais que sua lealdade fosse incondicional, a maior parte eram homens toscos, grosseiros em suas palavras e em seu comportamento. Estremeceu ante o pensamento de que qualquer de seus homens pudesse equilibrar-se sobre o corpo inocente, virginal, da irmã Luzia. Sabia que se a dava a eles, mais de um homem possuiria seu frágil corpo da forma mais violenta que podia imaginar. Não duraria nem uma noite. Por que tinha que lhe importar o que seria daquela bruxa espanhola? O fato de que fosse espanhola, que deveria ter facilitado a decisão de Morgan, não fazia mais que complicar as coisas. Acaso havia se tornado tão insensível, tão desalmado, tão desprovido de honra para permitir que seus homens violentassem uma religiosa? Ou para violá-la ele mesmo? Seus turvos pensamentos foram interrompidos pelo contramestre, que vinha informar os danos sofridos pelo Vingador. —Capitão, os homens têm descoberto mais imperfeições por bala de canhão do que tínhamos pensado. Precisamos ancorar em algum porto para fazer as reparações. Voltamos para a Inglaterra ou vamos rumo a Andros? —A Andros, senhor Crawford —disse sucintamente Morgan. A resposta que andava procurando, concernente à irmã Luzia, lhe fez clara de repente— Os homens merecem descansar um pouco do mar, e eu seguro que posso aproveitar o tempo que estejamos atracados para atender minha plantação. Crawford limpou a garganta: —E o que fará com a mulher, Morgan? —Virá conosco. Igualmente pode salvar algumas almas em nossa ilha. Luzia passeava em círculos pelo estreito espaço do camarote, esperando que o pirata viesse comunicar seu destino. Quando ele partiu, comprovou se a porta estava fechada com chave. Não estava, mas junto a ela havia um guardião armado que quando viu aparecer seu rosto pela fresta, deu um olhar lascivo. Ela fechou de um golpe a porta, com o coração pulsando como um martelo.

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Luzia não fazia falsas ilusões com respeito ao pirata inglês. Pode que tivesse rosto de anjo, mas por debaixo de seu formoso aspecto se escondiam o negrume e a lascívia. Se decidisse entregá-la a seus homens, ela encontraria um modo de se jogar antes ao mar. "O padre Sebastian tinha toda a razão", refletiu. Uma morte honorável era preferível a ser violada por piratas ingleses. Mas, Virgem Santa, ela não queria morrer! Ouviu ruídos de passos no exterior do camarote e se preparou para o pior. Breves instantes antes que a porta abrisse, ajoelhou e abaixou a cabeça. Seu ardor religioso tinha funcionado antes, e tinha intenção de seguir o usando uma e outra vez, quando no futuro tivesse que encontrar-se com Morgan Scott. —Ainda de joelhos, já vejo — burlou sarcástico, Morgan quando entrou— Sua fé não me impressiona. Nem aos meus homens tampouco. Não veem em ti mais que uma mulher como qualquer outra, com todo o necessário para lhes agradar. Luzia levantou imediatamente a cabeça: —É um bárbaro sem coração! Decidiu me entregar a seus homens! Morgan esboçou um sorriso zombador, achando graça no brilho de rebeldia dos olhos dela. —Pois sim, uma vez que eu tenha me fartado de você. Mas, para falar a verdade, não me atrai —mentiu— É verdade que debaixo da touca leva a cabeça raspada? Graças a Deus que Morgan não tinha visto o abundante cabelo de ébano que sua touca ocultava. Nesse mesmo instante, Luzia decidiu raspar o cabelo na primeira ocasião que tivesse, antes que ele descobrisse seu segredo. —Sim, estou calva como uma cebola —concedeu Luzia— Quer vê-lo? —Com o pulso tremendo, fez como se fosse tirar a touca. Era uma mutreta temerária, e Luzia rezou para que não tivesse que arrepender-se. Morgan fez uma careta de desagrado, visivelmente enojado. Não sentia o menor desejo de ver uma formosa mulher como Luzia despojada da gloriosa coroa de

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seu cabelo. Tinha ouvido dizer que a rainha Isabel estava calva, mas não o tinha acreditado. Ele sempre a tinha visto com uma exuberante mata de cabelo vermelha. —Não, não tenho nenhuma vontade de ver sua cabeça calva. Fazer isso a uma mulher é um autêntico ultraje. —E, entretanto, você pensa em me ultrajar de outras formas ainda mais vis — replicou Luzia. Seus olhos o desafiaram a negá-lo, mas ele não foi capaz de fazer. —É espanhola — arrebitou Morgan, como se isso fizesse perfeitamente aceitáveis suas intenções— Não vim para discutir contigo. —Para que veio? —Para te informar de seu destino —a contemplou com perturbadora intensidade— Levante, eu não gosto de estar falando com sua cabeça, e estou já cansando de tanta reza. Tem que ter os joelhos destroçados de tanto te ajoelhar. Luzia levantou com graça, apesar de ter as pernas intumescidas. Encarou diretamente Morgan, apertando o queixo. Sua atitude era tão belicosa que custou acreditar o muito que tinha mudado em tão pouco tempo. Resultava evidente que nem dez anos entre os muros do convento tinham conseguido domar o temperamento fogoso e o espírito rebelde que em sua infância desesperavam a seu pai. Jogou a culpa dessa recaída ao pirata conhecido como "o Diabo". —Que decisão tomou, Capitão? —Em seus olhos escuros havia uma inegável faísca de rebeldia. Morgan reprimiu a súbita irritação que sentia para a espanhola. Por que aquela orgulhosa freira espanhola o fazia sentir como o mais vira-lata de rua? Resultava difícil pensar de um modo racional tendo-a tão perto, e contra sua própria vontade tirou o chapéu admirando a faísca de seu olhar. Logo um doce aroma de rosas estava flutuando no pequeno espaço que os separava, e ele franziu o cenho, mais que surpreso de descobrir que as freiras usavam perfume. Sacudiu a cabeça para limpar os seus pensamentos muito perturbadores para seu bem-estar, mas não deu

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resultado. Formigavam-lhe os dedos de vontade de tocá-la. Queria montá-la, cavalgar sobre ela, queria ouvi-la ofegar de deliciosa liberação. Por Deus, é que estava ficando louco? Devia fazer o que sua parte consciente exigia: violá-la, e logo entregá-la a seus homens. —O navio necessita reparações. Vamos aportar em nosso refúgio nas Bahamas. Você virá conosco. Luzia tragou saliva. —Para que? Do que eu ia servir? —Possivelmente te encontre algum valor. É de família rica? Estariam dispostos a pagar um resgate para voltarem a vê-la? Luzia ficou olhando. Se lhe dizia a verdade, seu hábito de monja já não poderia protegê-la. Se ele cobrava o resgate e a devolvia a seu pai, Dom Eduardo a enviaria de novo a Cuba para celebrar um matrimônio que ela não queria. Mas se continuava com sua farsa, existia uma possibilidade de que Morgan a escutasse e a deixasse partir. Então poderia procurar a forma de voltar para casa, reingressar tranquilamente no convento e fazer seus votos definitivos. Quando seu pai a descobrisse, já seria muito tarde. Luzia sabia que podia ficar em grave perigo se mentisse para o capitão pirata. Por um lado, não tinha a menor garantia de que ele não fosse violá-la se admitia que era Luzia Santiago; por outro, se fazer-se passar por monja tampouco dissuadiria ao pirata de cometer qualquer baixeza. Mesmo assim, tinha que dizer algo. Decidiu em uma fração de segundo: —Ai, Capitão, minha família é pobre. Encomendaram-me ao convento à idade de dez anos para ter uma boca menos que alimentar. Eu sou a única irmã entre muitos irmãos. Eles valiam para trabalhar nossa miserável terra, e me puseram nas mãos da Igreja. Suplico-lhe que me libere para poder retornar ao convento. —Isso não posso fazê-lo. Os homens se amotinariam, se te soltasse. Estão esperando que a entregue a eles quando tiver acabado contigo.

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Luzia tragou saliva de forma visível. O medo cravou suas geladas garras em suas vísceras. —Rogo-lhe que me deixe ir. Eu não lhe tenho feito nada. Por que têm esse ódio para com os meus compatriotas? Morgan endureceu a expressão e cravou a vista no vazio atordoado por lembranças que ela não podia sequer começar a compreender. Ainda sentia o açoite do látego nas costas, ouvia ainda as risadas cruéis de seus torturadores espanhóis quando lhe jogavam água salgada nas feridas e ele se retorcia de dor. Tinham-lhe feito trabalhar até a extenuação e o tinham alimentado com rações para morrer de fome durante cinco anos, e dificilmente teria conseguido sobreviver muito mais tempo em tão intoleráveis condições. Se não fosse pelos espanhóis, seus pais e seus irmãos ainda estariam vivos. E aquela mulher que tinha diante levava o odioso sangue dos assassinos espanhóis. Luzia retrocedeu aterrorizada ao ver a expressão feroz de Morgan. Fosse o que fosse, seus compatriotas tinham que ter-lhe feito algo verdadeiramente horrível, refletiu com sutileza. Morgan notou que estava assustada e lhe lançou um sorriso mortífero: —Faz bem em me temer, irmã Luzia. Seus compatriotas me fizeram viver um inferno e destruíram tudo o que me era querido. Jurei que não ia ter piedade com os espanhóis, e agora cabe a você sofrer por isso. Nos acompanhará no Vingador até Andros e se submeterá a mim do modo que me agrade. O pirata se aproximou tanto que Luzia se sentiu transbordada pela solidez inflexível de sua força. A urgência de sua ira, o calor de seu corpo… a tenacidade e a determinação daquele homem e a nitidez da energia que emanava a alagaram de um pavor tão intenso que se sentiu perdida e sem remédio. E, entretanto, apesar de tudo o que sabia daquele pirata inglês, de todas as coisas terríveis que tinha ouvido contar, que bastariam para fazê-la desmaiar, o que tinha era a embriagadora sensação de estar por fim viva, depois de muitos anos de existir sem mais. 33


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—Antes me matarei que permitir que você ou algum desses degenerados marinheiros seus me ponham a mão em cima —jurou lançando a Morgan um olhar de absoluto desdém. Era uma ameaça vazia, porque não se via com coragem para cumpri-la. Esperava, entretanto, que obrigasse o pirata a pensar duas vezes antes de tocá-la. A generosa boca de Morgan se curvou para cima em um sorriso muito pouco reconfortante: —OH, não, Irmã, a morte é a forma mais fácil de fugir, e você não é uma covarde. Seus olhos dizem claramente o quanto ama a vida. Será divertido deixá-la seguir pensando sobre o seu destino. Posso tomá-la esta noite, em minha beliche. Ou pode ser que espere até que cheguemos a Andros. Ou —acrescentou, sacudindo a cabeça com despreocupação — pode ser que diga que é um problema e te entregue imediatamente a meus homens. Na realidade não é meu tipo, mas minha tripulação não é tão exigente. — Seus olhos lhe acariciaram o corpo de cima abaixo com insultante intensidade — Se tiver um pouco de cérebro, poderia me fazer mudar de opinião. Luzia sentiu um sufoco tão forte que com muita dificuldade conseguiu tragar o nó que tinha formado na garganta. Morgan apertava o definido ângulo da mandíbula com tanta força que via o movimento convulsivo do músculo sob a pele torrada da bochecha. Nem por um instante pôs em dúvida suas palavras. Seu ódio pelos espanhóis era tão violento, estava tão profundamente enraizado nele, há tanto tempo, que não podia esperar compaixão dele. Não conseguia pensar em nada que pudesse lhe fazer mudar de opinião, mas isso não lhe impediu de voltar a recorrer a um método que outras vezes tinha funcionado. Estava segura de que Deus não ia abandoná-la. Ajoelhando-se, inclinou a cabeça e rezou com todo o ardor que pôde.

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Capítulo 3

Luzia seguia rezando com desespero quando Morgan se foi despeitado do camarote. No ar que a rodeava vibrava ainda sua imponente presença, e se sentiu apanhada em uma violenta tempestade. Uma tempestade chamada o Diabo. Quando por fim conseguiu levantar-se de seus joelhos, estava agitada como uma folha. Aquele rufião infame lhe produzia um efeito que ela não entendia. Por que não fez caso ao pai Sebastian? Por que se sentia tão covarde para matar-se? Estremeceu, sabendo o que lhe faria essa noite quando voltasse. Esse pensamento aterrador a obrigou a ajoelhar uma vez mais. Morgan saiu do camarote dando uma portada, com todo seu autocontrole pendente por um fio. A pequena bruxa espanhola estava fazendo-o questionar os motivos que tão inexoravelmente lhe tinha empurrado a procurar vingança. Estavalhe fazendo questionar até sua própria prudência, por ter permitido que chegasse tão dentro. Por que não podia utilizá-la sem mais e deixar de dar voltas? Ou entregá-la a seus homens, se não lhe atraía? O problema era que lhe atraía muito. Levá-la a Andros era uma loucura e ele sabia. Mas, o mais fastidioso era no que a Luzia respeitava, nem ele mesmo sabia o que queria.

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—Há algo que o inquiete, Morgan? —perguntou Stan Crawford quando Morgan alcançou a ponte. Morgan lhe lançou um olhar austero. —Deveria havê-lo? Crawford sorriu. —Pelo que sei, não. E o que tem a monja? A gozará você mesmo ou a dará aos homens? —Acreditava saber a resposta a sua pergunta, mas queria ouvir de Morgan — Já sabia que algo tão simples como a sorte que corra a uma mulher, não inquietava ao Diabo. —É minha! —disse Morgan, com uma veemência que pegou Crawford de surpresa — Vou levá-la a Andros. Quando me cansar dela, se é que me canso, será o primeiro em sabê-lo. Crawford dissimulou seu regozijo. —Estou surpreso, Morgan. As virgens inocentes não costumam lhe resultar atrativas. O que você vê na irmã Luzia que eu não vejo…? —entrecerrou os olhos, especulando — Ou é que já a têm feito sua, e a achou de seu agrado? Poderia compartilhá-la. Morgan ficou tenso. —Não tente à sorte, senhor Crawford. Nossa longa amizade não lhe autoriza a pôr em questão as decisões de seu capitão. Sugiro-lhe que vá se ocupar de suas obrigações. —À ordem, capitão Scott —disse Crawford, voltando para o convés. Não era habitual que Morgan fizesse valer sua fila, mas quando isso ocorria Stan sabia recompor-se a tempo. Crawford recordou as inumeráveis vezes que ele e Morgan tinham compartilhado uma mulher, sem nunca brigar por nenhuma delas. Não só compartilhavam mulheres, mas também, o mesmo ódio aos espanhóis. Também ele tinha sofrido o açoite do látego durante os seis meses que passou prisioneiro dos espanhóis. O que tinha aquela monja, perguntou-se Crawford, para pôr tão irascível

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ao Morgan? Se não a tinha gozado ainda, Crawford esperava que o fizesse logo, ou ele mesmo e a tripulação sofreriam em suas carnes o mau humor de Morgan. Ao escurecer, um dos homens foi levar a Luzia uma bandeja. O rude marinheiro ficou um instante contemplando-a, e logo se foi depressa. Embora a comida parecesse bastante apetitosa, Luzia era incapaz de tragar um bocado. O perigo implícito nas ameaças de Morgan produzia efeitos terríveis em sua mente. Imaginou a si mesma a mercê dele. Não podia olhar o amplo beliche sem pensar no que um homem poderoso como o Diabo podia chegar a fazer nela. Não estava segura como levava a cabo uma violação, com a sua vivida imaginação se fazia ainda mais terríveis. Se ao menos tivesse uma arma… Em um arrebatamento de excitação recordou a pequena adaga que guardou no bolso quando colocou suas roupas de monja. Ao colocar a mão no bolso se sentiu reconfortada pela garantia do frio aço, por exíguo que fosse. Ela teria a coragem de usá-la em defesa própria? Luzia estava pesando nas consequências e armando de coragem que necessitava, quando a porta se abriu de supetão e Morgan Scott irrompeu no camarote, maior e o dobro de aterrador. Ele a olhou com ar distraído, notando como o medo transformava suas feições quase perfeitas. Sua vista posou na bandeja que estava junto a ela, intacta. —Não é de seu gosto a comida? —perguntou, desabotoando o cinto da espada ao tempo que cruzava com grande rapidez a habitação— Eu acreditava que as religiosas estavam acostumadas à comida singela e frugal. Nosso cozinheiro faz autênticas maravilhas com o pouco que temos por aqui; deveria prová-lo. —Terminou de tirar a espada e a jogou sobre uma cadeira. A casaca voou atrás. Luzia ficou em pé de um salto e retrocedeu. —Não se aproxime mais! —Sua castidade está a salvo no momento; não acredito que pudesse me pôr com bastante anseio para saborear seus duvidosos encantos. —Lançou a Luzia um

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olhar que a fez estremecer. Era tão pouco atrativa que aquele homem não queria nem tocá-la? Bem, pensou cheia de alívio. Isso era exatamente o que pretendia ao colocar aquela discreta roupa de monja enclausurada. A mãe abadessa teria estado orgulhosa dela. Sua expressão deve ter transluzido seus pensamentos, porque Morgan lhe dedicou um desavergonhado sorriso que fez com que a alma lhe caísse aos pés. —Essa certeza me basta, irmã Luzia. Não digo que não vá pensar o contrário amanhã, ou inclusive dentro de dez minutos. Caso resolva lhe ter, terei, mas prefiro deixar-lhe com a dúvida. Além disso, quero estar bem descansado quando lhe procurar —lançou um olhar libidinoso — estou seguro de que minha paciência será amplamente recompensada. Luzia o olhava boquiaberta e aterrorizada. —É um monstro, capitão Scott. Nem lhe tenho medo, nem me sinto tentada pelo Diabo. — Deu um olhar ofegante à espada que ele acabava de tirar. Morgan se aproximou ainda mais, em todo seu esplendor varonil sobre a miúda silhueta de Luzia. —Está segura, Irmã? Quanto mais me insulta, mais acredito que é uma farsante. Estive pensando muito e cheguei à conclusão de que você não é monja. O fogo profano de seus olhos nega até a existência desse seu ardor religioso. É muito arrogante para ser a humilde devota que afirma ser. Falta-lhe contenção e modéstia. Quem é na realidade? Estava tão perto que Luzia sentiu o calor premente de seu fôlego na bochecha. Tentou retroceder, mas não havia para onde. Mediu com a mão a adaga que levava no bolso e lançou ao pirata um olhar desafiante. —Já disse quem sou. Sou a irmã Luzia, recém saída do convento da Mãe de Deus. A reverenda mãe superiora me encarregou que acompanhasse à senhorita

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Carlota Santiago até Havana. Se me levar de volta a Espanha, rezarei por você até o dia de minha morte. —Eu não quero suas rezas, irmã Luzia —disse Morgan. Tinha a voz grave e áspera, como se lhe custasse um grande esforço controlar a respiração — É possível que queira de ti outra coisa. Uma coisa que fará feliz a nos dois. Luzia ficou com a boca seca. A ponta de sua língua apareceu a seus lábios para umedecê-los. Pareceu ouvir um grunhido de Morgan, mas não estava segura. —Não… não sei do que me esta falando. Morgan estendeu a mão para diante e agarrá-la pelo queixo. —Ah, não? Pois, posso ensinar isso. Talvez esteja muito cansado para te tentar, mas teria que estar em meu leito de morte para resistir a tão doce convite. Luzia ficou paralisada, subjugada pela intensidade azul dos olhos de Morgan. Pensou que eram simplesmente azuis, mas agora via que eram cinza azulado como o mar agitado pela tormenta, com tumultuosos brilhos de prata pura. Nunca tinha visto uns olhos como aqueles. Os olhos do Diabo. Consternada, tragou saliva e procurou uma resposta para as palavras intimidadoras que ele acabava de lhe dizer. —Eu não lhe convidei a nada. —OH, sim que o tem feito. —Ele baixou um ponto a cabeça, e seu cabelo loiro lhe roçou a testa quando seus lábios tocaram os dela. Fogo. Puro fogo. Ao princípio foi uma sensação abrasadora no lugar por onde se uniram seus lábios. Mas quando a boca dele cobriu por completo a sua e sua língua se deslizou úmida por entre seus lábios selados, o ardor se converteu em um inferno de chamas que se precipitava por suas veias até lugares inomináveis. Quando tentou separá-lo de um empurrão ele a segurou pelos braços, mantendo-a imobilizada enquanto seguia explorando sua boca. No momento em que ele tentava colocar à força a língua em sua boca, deu a impressão, que lhe escapou um suspiro involuntário que facilitou a sua língua o livre acesso a cálida doçura de seu interior. Luzia jamais havia sentido nada parecido ao transbordante magnetismo do beijo de Morgan. Queria beijá-lo outra vez! Morria de vontade de lhe rodear o

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pescoço com os braços e lhe passar as mãos pelo loiro matagal de cabelo. Desejava… Aquele beijo lhe fez desejar coisas que não tinha nome. Aquilo não estava bem. Não estava nada bem. Ela não deveria sentir isso. Aquele homem era seu inimigo. Era um pirata degenerado que a tinha sequestrado e tinha intenção de violá-la. Esse pensamento proporcionou um ápice de prudência a suas dispersas emoções, por mais que as mãos de Morgan foram ganhando em audácia, tentando descobrir lugares que nenhum homem tinha direito a tocar. Ela sabia que tinha que fazer algo, o que fosse, para romper o feitiço que aquele homem exercia sobre ela antes de ficar totalmente a sua mercê. A adaga! Levou a mão ao bolso, extraiu a pequena arma e a brandiu para cima, apertando-a contra um ponto vulnerável do pescoço de Morgan. Ele deixou cair às mãos, interrompendo bruscamente o beijo, e a olhou com uma espécie de perversa admiração. A pequena devota se envolvia em sua virtude como se tratasse de um hábito. —Não me toque. Não volte a me tocar nunca. Os lábios dele se estiraram em um sorriso. —A coisa fica complicada. De onde tirou essa adaga? —É minha. Saia, ou não viverá para ver outro dia. Morgan fez o que pôde para não tornar a rir abertamente. O que esperava ela conseguir com aquela adaga minúscula? De um único golpe de braço poderia desarmá-la, lhe machucar inclusive, se quisesse. Não precisaria de muito esforço jogá-la em cima do beliche, lhe levantar as saias, lhe abrir as pernas e tomar o que queria. Ele era inimigo de todos os espanhóis. Por que seria uma bruxa espanhola, que se dizia religiosa, a ser distinta de outros? —Que cruel é, irmã Luzia —zombou dela. —Falo completamente a sério, Capitão. —Ah, sim, de verdade? Muito bem, a meu ver o pior que é capaz de fazer é me cortar o pescoço, se te atrever. — Nos olhos de Morgan havia um brilho perigoso.

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Quando a adaga fez brotar uma gota de sangue, não reagiu como ela tinha esperado — Antes de fazê-lo — acrescentou sinistramente — possivelmente deveria ter em conta outra coisa: minha morte afligirá a meus homens até lhes fazer perder o senso. Quererão fazê-la sofrer, e te asseguro que não será agradável. A mão de Luzia vacilou. —Não é preferível se entregar a mim, em lugar de experimentar com meus marinheiros? Olhe que trata-se de um rebanho de brutos. Não acredito que durasse nem uma noite. —Antes prefiro morrer! Disse-o com tanta fúria que Morgan não pôs em dúvida nem por um instante que tinha coragem para cumprir sua ameaça. Era consciente de que tinha sido ele que tinha deixado o jogo fora de suas mãos. Luzia não teria podido lhe ferir com aquela espécie de palito de dentes, mas por alguma razão inexplicável, tampouco queria que aquela pequena devota briguenta com mais coragem que o sentido comum, sofresse nenhum dano. Um movimento repentino, mais rápido que o olho, e Luzia se encontrou despojada da adaga e presa na prisão dos braços de Morgan. As lágrimas lhe arderam nos olhos quando se deu conta do que tinha passado, mas não as deixou derramarse. —E agora o que, irmã Luzia? Onde está sua coragem agora? —Desprezível e vil… pirata! —Corsário, Irmã. Há uma diferença. Eu só abordo e saqueio a espanhóis. —Me deixe partir! —Com muito gosto — a soltou imediatamente, e ela deu uns tropeções antes de refazer-se — Vai à cama. De repente perdi o interesse. Mas me guardo deste seu joguinho, não vai me degolar enquanto estou dormindo. Luzia deu um olhar espantado ao beliche. Acaso o pirata pretendia que se deitasse junto a ele? Quando voltou a olhar buscando uma explicação, viu com assombro que tirou a camisa de seda negra e não levava mais que a ajustada calça

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negra, que lhe rodeava as fortes coxas e as panturrilhas, e as botas de couro. Empalideceu e afastou os olhos, mas não sem antes dar um olhar furtivo a seu peito bronzeado e a seus ombros, sobre os quais esticavam em grossas bandas os músculos. E ao estranho vulto que se amontoava por diante das calças. —Pensa dormir com essa touca espantosa? — perguntou Morgan, desdenhoso — Te asseguro que não vou me assustar por ver sua cabeça calva. Pode ser que me dê desgosto, mas me assustar, não. —Prefiro não tirar isso —se obstinou Luzia. Se a tirava e revelava seu comprido cabelo, ele daria conta do engano. Embora as monjas normalmente não raspassem a cabeça, estavam acostumadas a ter o cabelo muito curto debaixo da touca. Ela não tinha feito ainda os votos definitivos, e até que o fizesse lhe tinham permitido conservar sua exuberante cascata de cabelo ébano. — Te coloque na cama —lhe ordenou secamente Morgan. Desatou o cordão da calça e se dobrou para tirar as botas. —O que vai fazer? — na voz de Luzia vibrava uma nota de pânico. —Dormir — Morgan a olhou com olhos lascivos — A menos que te ocorra algo melhor. —Não penso em me deitar a seu lado — disse ela, apertando os lábios com obstinação. Lhe deu um olhar feroz, e logo encolheu os ombros. —Faz o que queira. Estou avisando que pode resultar duro depois do primeiro par de horas. —Estou acostumada às penalidades. No convento há poucas comodidades materiais. Levamos uma vida de austeridade e prece. Ele assentiu, cortante. —Por agora pode fazer o que te dê vontade. Quando requerer sua presença em meu leito, lhe farei saber isso. Luzia tentava não olhar seu peito nu, mas era difícil não fazê-lo. Com o pouco que ela sabia da anatomia masculina. Alheia a seu escandalizado escrutínio, Morgan sentou na borda do beliche e tirou as calças. O grito de consternação que escapou de 42


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Luzia o fez voltar e posar a vista nela. Dedicou-lhe um sorriso fanfarrão. Ela deu a volta a toda pressa, ruborizando até a raiz do cabelo. Ouviu seus passos atrás dela, mas se negou a olhar. Sentiu um alívio enorme quando ele atirou uma manta e um travesseiro, que caíram no chão perto dela, e voltou para trás. Ela não queria olhar o seu corpo nu, mas cada vez que o ouvia mover-se não podia evitar espiá-lo por cima do ombro, mantendo a vista à altura dos pés. Ele se aproximou despreocupadamente à cadeira e recuperou sua espada. —Isto vai estar mais seguro comigo —disse, levando a espada consigo ao beliche. Ouviu-se um ranger de lençóis, e logo o silêncio. De repente tudo ficou escuro, e Luzia compreendeu que Morgan tinha apagado a lanterna que balançava sobre suas cabeças. Continuou sem mover-se, temendo que ele pudesse mudar de opinião e requerer sua presença na cama. Ficou imóvel, atrevendo-se apenas a respirar, até que ouviu a cadência regular da respiração dele e soube que estava dormindo. Só então se envolveu na manta e tombou no duro chão de madeira. Apesar do travesseiro, com a touca posta era quase impossível encontrar uma postura cômoda. Por debaixo do tecido de linho lhe picava a cabeça, e sentia falta de um pente para poder desembaraçar o cabelo. Ou melhor, ainda, uma tesoura, para cortá-o o mais curto possível. A única concessão à comodidade que fez foi tirar os sapatos e as meias. Ficou adormecida quase imediatamente, esgotada após seu encontro com o Diabo. Infelizmente, seus sonhos se encheram de imagens do varonil capitão, de seu corpo nu exibindo-se em toda sua masculina beleza. Sem calças. Que Deus tivesse piedade dela. A Morgan não resultou fácil dormir, apesar da regular cadência de sua respiração. Permaneceu acordado na cama, fogosamente consciente daquela mulher que afirmava ser monja. Produzia-lhe o efeito de fazer sentir-se incômodo. Tinha

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havido muitas mulheres em sua vida. Era um homem viril, dos que tiram das mulheres o prazer sensual e o alívio sexual que elas lhes proporcionam. Havia muitos portos, e muitas mulheres. Mas nenhuma era a irmã Luzia. O que era o que tinha aquela monjinha que o fazia querê-la para si? Não teria mais do que tomar o que o seu corpo lhe pedia e logo esquecer-se dela de uma vez por todas. Acaso não era espanhola? Não tinha havido espanhol, homem ou mulher, a quem não tivesse odiado com todas suas forças. É que ela era monja. Isso ele não tinha acreditado nem por um instante. Queria tê-la. Teria sido tão simples fazer caso omisso de sua devoção religiosa e tomar seu corpo… Tão singelo… Seria de verdade uma religiosa? Deu um olhar a Luzia, que parecia um novelo sobre o duro chão, assombrado pelo curso de seus próprios pensamentos. Já tinha capturado a um par de mulheres espanholas, e as devolveu imediatamente em troca de um resgate. Em nenhum momento lhe inspiraram o menor desejo, apesar de estarem ansiosas de agradar ao Diabo. Uma delas em particular tinha deixado claro que gostava. Mas ele não se sentiu atraído por ela. Não encontrava beleza alguma em suas feições escuras e seus olhos negros, de modo que a rechaçou. Morgan lançou um suspiro entrecortado e voltou de rosto à parede. Por que iria se preocupar se a bruxa espanhola estivesse ou não cômoda? Ela mesma tinha elegido dormir no chão. E assim foi. Luzia despertou com o sol da manhã que entrava enviesado pela escotilha de bombordo aberta. Deu um pulo ao dar-se conta de que estava deitada no beliche de Morgan e, levantando-se de um salto como se algo lhe queimasse, olhou com horror os lençóis revoltos. Como tinha chegado do chão à cama? Não tinha a menor lembrança de haver-se movido, nem de que a tivessem transladado. Onde estava o pirata? O que lhe teria feito? 44


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Repassou sua roupa. Aparentemente não lhe faltava nada do que tinha posto no dia anterior. Notou o corpo um pouco intumescido de ter dormido no duro chão, mas além disso não sentia dor em nenhuma zona desacostumada. Não teve tempo de continuar com sua inspeção, porque a porta se abriu e entrou Morgan, fechando com firmeza a suas costas. Trazia uma bandeja que emanava um aroma delicioso. —Ah, vejo que já está acordada. Trouxe algo para comer. Deve estar faminta depois de haver saltado, ontem à noite, o jantar. —Posou a bandeja na mesa, empurrando a um lado um mapa. A Luzia lhe fez a boca água. —Não tenho fome —mentiu. Mas a traiu seu estômago, fazendo uns ruídos tão fortes que até Morgan os ouviu— Como cheguei até o beliche? —Coloquei-a aí —disse Morgan— Despertei ao amanhecer. Tinha pinta de estar tão incômoda que transladei-a ao beliche. Quando saí do camarote estava dormindo como um tronco. —Não haverá me... — Luzia passou a língua pelos lábios, sem saber bem como continuar— Não terá… aproveitado de mim, verdade? É bastante malvado para ultrajar uma servidora de Deus? Morgan lhe deu um olhar tão carrancudo que ela chegou a dar um salto, assustada. —Quando a tomar quero que esteja acordada para que se dê conta. Quero que em meus braços esteja receptiva, não inconsciente e alheia ao que lhe faço. Posso ser um mal nascido, mas há certas coisas que nem eu mesmo penso rebaixar. Agora come. Eu tenho que levar o navio. —E deu a volta para ir. —Espere! —Morgan se deteve, mas não se voltou— Posso… posso sair a coberta? —Meus homens são leais, mas piratas apesar de tudo, irmã Luzia. Não vou poder protegê-la deles uma vez que tenha saído do camarote. Darão por feito que já me cansei de você e que têm permissão para satisfazer seus impulsos. Pode fazer o que preferir, mas se não quer se submeter a minha tropa, sugiro que fique prudentemente aqui dentro. 45


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Luzia sentiu um calafrio. Pareceu-lhe que ele dizia a verdade. Por que todos os homens eram tão ruins, tão reprováveis? Quando ele saiu pela porta, ela decidiu não abandonar o camarote por nada no mundo. O duvidoso amparo do capitão era preferível a ser violada pela tripulação inteira. Morgan saiu dali rindo entre os dentes. Não tinha sido de tudo sincero com Luzia. Seus homens podiam desejá-la, mas obedeceriam suas ordens por medo de sofrer as consequências. Depois do que lhes havia dito essa manhã, nenhum só deles teria se atrevido a pôr a mão em cima à moça sem sua permissão rápida. Luzia o seguiu com o olhar enquanto aquele aroma delicioso a empurrava para a bandeja de comida. Tinha que manter-se forte, não? Com esse pensamento devorou

rapidamente

o

conteúdo

da

bandeja

inteira,

encontrando-o

surpreendentemente saboroso, apesar de ter sido feito por um marinheiro. Assim que terminou, ouviu que chamavam discretamente à porta. Contemplou com o coração desbocado como a porta se abria sem convite e entrava o contramestre, com um jarro de água e uma pilha de toalhas limpas nas mãos. —O capitão pensou que gostaria de um pouco de água. Isto é o mais parecido que há a um banho, por aqui. Se não, terá que esperar até que cheguemos a Andros. Crawford deixou o jarro sobre a mesinha e avaliou descaradamente Luzia com o olhar. Perguntou-se se Morgan a teria tomado a noite anterior. Concluiu que, a julgar pelo humor horrível do capitão, a virtuosa monjinha era hábil para manter sua virgindade intacta. Não era próprio de Morgan perder o controle por uma putinha espanhola, por bela ou desejável que fosse; e entretanto aquela monja branca o tinha totalmente enganchado. Isso deixava

Crawford perplexo. Acreditava conhecer

Morgan melhor que ninguém, e não parecia próprio dele estar privando-se de algo que teria podido agarrar com apenas estender a mão, e menos ainda de algo que desejava desesperadamente, como evidentemente lhe ocorria com aquela monja espanhola.

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—Há algum problema? —perguntou-lhe Luzia, picada pelo intenso escrutínio de Crawford. Crawford lhe deu um sorriso fanfarrão. —Dá-se conta do que está fazendo ao capitão Scott? Por que não se rende e economiza tempo e problemas? Ele vai acabar saindo com a sua. Luzia ficou indignada. —Me render? Não, jamais! Sou monja. Me ofender é ofender a Deus. —Deus abandonou Morgan quando lhe necessitava. Luzia soltou um gritinho afogado. —Blasfemo! Assim são os pagões ingleses. Pode dizer a seu capitão que penso me defender dele até meu último fôlego. Crawford sacudiu a cabeça. — Só estou te advertindo que Morgan não é um homem paciente, e que a tripulação prefere vê-lo contente. Eu mesmo prefiro lhe ver contente. —Pode ir ao diabo, senhor Crawford. —Onde aprendeu o inglês? Fala-o estupendamente para ser uma monja — também ele suspeitava, igual a Morgan, que a veemente espanhola não era o que afirmava ser. —Tive excelentes professoras no convento. Comecei a estudar aos dez anos, e me dava conta de que tinha uma inclinação natural para as línguas estrangeiras. Também falo um pouco de francês e alemão. —Não é de admirar que tenha intrigado a Morgan — entoou secamente Crawford— A beleza e a inteligência não costumam visitar uma mulher. E todas as monjas são tão cultas como você? Estava tratando de pegá-la em um renuncio? Ela não podia reconhecer que seu pai tinha exigido que a educassem bem para não envergonhar o seu futuro marido. Dom Diego de Fujo era um homem muito culto e poderoso que necessitava de uma esposa tão inteligente como bela. Dom Eduardo tinha sido generoso com sua única filha no relativo à sua educação. —Não posso falar mais que por mim mesma, senhor Crawford. Obrigado pela água. 47


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Crawford sabia reconhecer quando lhe estavam dizendo que partisse, e deu a volta para ir-se. —Ah, por certo —acrescentou, antes de sair pela porta— há um ma… ups!, um urinol debaixo da cama. Pode usar. O ajudante de cozinha vem esvaziá-lo uma vez ao dia. A Luzia lhe ardeu o rosto. Para falar a verdade necessitava desesperadamente de um urinol, mas lhe dava muita vergonha pedir-lhe ao desprezível capitão Morgan Scott. Perguntou-se se teria sido ele quem tinha indicado ao senhor Crawford que o mencionasse. E, apesar de tudo, agradeceu a água, porque não se lavou decentemente desde que a raptaram do Santa Cruz. Quando se deu conta de que a porta não tinha ferrolho, optou pela segunda melhor solução: segurar com o respaldo da cadeira o trinco. Logo se lavou depressa, tirando por um instante a parte de acima da túnica e levantando logo as saias para chegar às pernas. Considerou a ideia de tirar a touca, e o fez com muitas reservas, com um olho posto na porta, há não ser que o pirata arrebentasse sua precária barreira e descobrisse seu segredo. Lamentou não ter consigo seu punhal para poder cortar seu glorioso cabelo. Quando terminou de lavar-se contemplou com interesse o escritório de Morgan. Uma verdadeira coleção de tesouros, pensou, abrindo as gavetas em rápida sucessão. O melhor que pôde encontrar foi um abre cartas, mas se estava o suficientemente afiado bastaria para cortar seus cachos. A sorte estava de sua parte. Na última gaveta, Luzia encontrou uma pequena tesoura de penteadeira. Imaginou que Morgan as usava para cortar o cabelo. Mas quando a aproximou de sua própria cabeça lhe tremeram as mãos. Seu cabelo era o único traço físico que estava orgulhosa. Sabia que teria que cortar-lhe quando fizesse os votos definitivos, mas até então tinha cuidado caprichosamente e preservado seus compridos e lustrosos cachos. Agora enfrentava a uma dolorosa decisão: o que preferia conservar, a

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castidade ou o cabelo? Não havia eleição possível. Tinha que proteger sua castidade do varonil pirata e do entristecedor poder que exercia sobre ela. Pôs mãos à obra rapidamente, com eficácia, tirando grandes mechas de cabelo sem o benefício de um espelho. As lágrimas rodavam por suas bochechas enquanto o montão de cabelo tosquiado ia crescendo. Não tinha ideia de se o estava cortando uniformemente, e tampouco lhe importava. Só sabia que tinha que terminar e desfazer-se das provas antes que voltasse o capitão Scott. Por fim concluiu sua obra. Recolheu cuidadosamente do chão os negros cachos, aproximou-se da escotilha, que permanecia aberta para que corresse o ar, e jogou no mar até a última mecha de cabelo. Contemplou com indiferença como seus cachos morenos se elevavam sobre a crista de uma onda para desaparecer logo dentro da água. Então deu meia volta e voltou a colocar a touca. E não lhe sobrou um minuto. O trinco começou a sacudir ruidosamente, a cadeira saiu voando de repente e Morgan irrompeu pela porta. —Do que pensava que te ia servir essa cadeira? —O torcido sardônico de sua sobrancelha lhe revelou o pouco eficaz que lhe parecia aquela tática para manter-lo fora. —Necessitava um pouco de intimidade para me lavar. —Ninguém, a não ser eu, vai entrar neste camarote sem minha permissão. —E supõe que isso deveria me tranquilizar? Morgan sorriu. —Logo, minha monjinha. Logo estará me suplicando que te faça conta. —Isso será quando dancem as estrelas! —Eu posso fazer que isso ocorra —lhe prometeu ele. Baixou a voz até um sussurro rouco— Quando eu te faça chegar ao prazer, vai ver como arde a lua e dançam as estrelas. Suas palavras sedutoras levantavam um redemoinho nos sentidos de Luzia. Não tinha ideia do que lhe estava contando, mas fosse como fosse tinha a suspeita de que ele teria sido capaz de fazê-lo, se ela o tivesse permitido. 49


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—Têm o ego gravemente inchado, Capitão. —Isso crê, pequena bruxa? Ou possivelmente deveríamos provar minha teoria? —aproximou-se com passos lentos a ela. Ela quis dar volta para lhe evitar, mas ele era muito rápido. Além disso, não havia aonde ir. Morgan a segurou e a atraiu para ele. Ela notou seu incrível calor através da roupa de ambos. —O que é o que quer de mim? —gritou— Me Olhe! Minha conduta não é sedutora nem lasciva. Vou coberta da cabeça aos pés de uma discreta cor cinza, sem mostrar mais que o rosto. Seguro que há mulheres muito mais atrativas que eu. Eu sou uma monja, alguém que serve ao Senhor. Não sei nada das coisas terrestres. —Se crê que essa roupa que leva te faz menos atrativa, equivoca-se. Eu vou ensiná-la o que é a paixão. A boca dele se apertou com força contra a sua, exigindo, separando seus lábios. Sua língua lhe percorreu calidamente a boca, lhe produzindo um fogo que ameaçava consumi-la. Sentiu seu calor contra ela, incendiando-a. Gemeu sob o furioso assalto de seu beijo, enfeitiçada por seu lacto e seu sabor. Morgan tinha consciência do contato físico agudo entre Luzia e ele. Estavam pegos um ao outro, e através da barreira daquelas roupas pôde sentir a longitude de suas torneadas pernas, a curva sedutora de seus quadris e a suave plenitude de seus seios. Ela podia ser ou não ser monja, mas não havia dúvida de que era uma mulher. E estava justo em seu ponto para tomá-la. Para que ele a tomasse. Luzia se deu conta do perigo, sentiu-o com todas as fibras de seu ser e se sentiu impotente para deter o que Morgan Scott tinha começado. Se de verdade, tivesse querido aprender o que é a paixão, estava segura de que aquele pirata inglês teria podido levá-la a contemplar esse paraíso proibido. Mas ela tinha mais juízo que tudo isso. Ser seduzida e desprezada por aquele varonil velhaco teria sido ainda pior que casar-se com um homem ao que não conhecia. Nenhuma das opções resultava desejável. Tinha que fazer o que fosse para convencer ao Diabo de que a devolvesse

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ao convento. E logo, antes que lhe despojasse de todo o seu sentido de ardor religioso. Arrancando-se de suas mãos, Luzia voltou a usar o truque que melhor lhe vinha funcionando com o pirata: ficou a toda pressa de joelhos, antes que ele pudesse agarrá-la outra vez. Apertando entre as mãos as contas de seu rosário, elevou os olhos ao céu e moveu os lábios em fervente oração. Sua devoção voltou a tocar alguma fibra sensível ao Morgan, que saiu dali lançando infames maldições. Como ia seduzir a uma mulher tão devota, tão reverente? "Em realidade não é monja", argumentava uma voz em seu interior. Mas o ardor de Morgan esfriou. Não porque o catolicismo lhe inspirasse a menor reverência, mas sim porque lhe tocava alguma fibra muito funda que apelava a sua decência. "Confia em Deus, monjinha", resmungou Morgan. "Mas ao final não vai servir de nada. Eu a terei, quanto me dê a vontade."

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Capítulo 4

O cenho furiosamente franzido de Morgan impulsionou Crawford a falar. —Assim que a monja espanhola segue sendo virgem. Morgan deu uma volta ao redor dele. —Que demônios está tentando me dizer, senhor Crawford? —Até a tripulação está comentando seu mau humor. Não seria próprio de você negá-lo. —Não me agrada tomar a moléstia de deflorar à moça. —Morgan se encolheu expressivamente de ombros — As virgens são criaturas acanhadas,

não sei se

compensam a moléstia. —Está me dizendo que não a quer? Nenhum só de seus marinheiros deixaria passar a ocasião de se divertir um momento com ela. —Incluindo a você mesmo, né? —perguntou Morgan com dureza— Pois, se esqueça — acrescentou, sem esperar que Crawford lhe respondesse — Não penso entregá-la nunca à tripulação. Nem sequer se digo que não a quero para mim. Crawford o mediu com o olhar. —Então entendo que vai desembarcar à irmã Luzia em alguma ilha espanhola para que volte por seus próprios meios a Espanha. —Não, Por Deus! Não seja ridículo. Mas é que não a viram? Inclusive envolta nessa vestimenta espantosa e com essa touca, transpira sensualidade. Não pode enganar a ninguém escondendo sua extraordinária beleza sob um hábito de monja. —É que não acredita? Crê que está mentindo, por que não a toma até lhe saciar e logo se desfaz dela? Não seria a primeira vez que o faz, de fato, têm-no feito muitas vezes. Morgan passeou o olhar por entre as agitadas ondas, refletindo sobre o conselho de Crawford. Deus sabia o quanto desejava a insolente espanhola, fosse ou

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não monja. Mas por alguma razão se sentia incapaz de desonrá-la, pelo improvável caso de que fosse monja de verdade. Pelo caminho que fosse, estava decidido a averiguar a verdade sobre ela. Assim que a tivesse em sua ilha, concentraria seu engenho em averiguar quem era exatamente a irmã Luzia e por que lhe tinha mentido a respeito de sua identidade. Se é que de fato estava mentindo. Então a seduziria. Pouco a pouco, com muito cuidado, até que ela já não pudesse seguir resistindo. Esperava com ânsia esse dia em que a irmã Luzia tivesse que tirar o hábito e confessar que tinha mentido. E esse dia ia chegar. Tão seguro quanto o sol nasce e se põe. —Quando me der vontade, senhor Crawford —sorriu Morgan — quando me der vontade. Agora mesmo me agrada fazê-la zangar-se. Asseguro-lhe que assim que cheguemos a Andros vou averiguar a verdade. E então ensinarei à irmã Luzia no que consiste em ser mulher. É certo que eu não gosto dos espanhóis, mas pode ser que encontre nela alguma qualidade que a redima. Já o dirá o tempo, senhor Crawford, já o dirá o tempo. —E o que fará com Rouge? Não vai gostar dessa ampliação da família. —Rouge não é minha dona, nem tem nada que opinar sobre a quem convido a minha casa. —Algo me diz que Rouge não pensa o mesmo de sua relação. Ela gostaria de fazê-la permanente. Morgan soltou uma risada. —Sou mais rico que o rei Midas. O que Rouge ama é o dinheiro. Faz três anos, quando ficou nesta ilha, ofereci-me a levá-la em meu navio a Inglaterra. Ela preferiu ficar na ilha e ser minha amante. Mas crê que sou o único? Pelo menos sei de outros três tipos, piratas todos eles, que a atendem e lhe mantêm a cama quente durante minhas longas ausências. E seguro que há outros dos que eu não estou informado. Quando resolver me casar, se algum dia o resolva, não será com uma prostituta ambiciosa como Rouge.

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"Não, certamente que não", pensou em silencio Morgan. Por incrível que pudesse parecer, não tinha dedicado um só pensamento à ruiva Rouge desde que conheceu a irmã Luzia, uma mulher cuja herança espanhola a convertia em sua inimiga. Luzia dava intermináveis passeios pelo camarote, detendo-se ocasionalmente a olhar pela escotilha. Mais de uma vez levou a mão à cabeça, sentindo agudamente a perda de seu cabelo. E tudo por culpa dele. O Diabo. Era arrogante, prepotente, e… Belo como um pecado. Sentia-se tentada por ele. A fazia ter pensamentos impuros. Tocava-a em formas e lugares pecaminosos. Obrigava-a a querer mais. Pode que seu pai tivesse razão e ela não fosse feita para a vida no convento. Teria que ter aceitado o matrimônio com Dom Diego se essa era a vontade de Deus e haver-se confortado com os filhos que nascessem de sua união. Mas quando tentava evocar o rosto de Dom Diego, quão único via era o diabólico sorriso de Morgan. Deixou escapar um grito de sincera inquietação e se esforçou em apagar de sua mente essa imagem. De fato, Luzia estava desejando que chegassem à fortaleza do pirata, mas só pelas oportunidades que oferecia. Embora não soubesse nada das Bahamas, imaginou que de quando em quando passariam por ali navios espanhóis, e com a ajuda de Deus poderia encontrar a forma de chegar ao convento e fazer seus votos definitivos, antes que seu pai se inteirasse e a mandasse de volta a Havana para Dom Diego. O que não estava desejando era ficar a sós com Morgan Scott mais que o necessário. Às escuras e ardentes emoções que despertava nela estavam completamente fora de sua esfera de conhecimento. Luzia passou o dia inteiro maquinando e fazendo planos para sua fuga de Andros. Desgraçadamente, não tinha ideia de que Bahamas estivesse desabitada.

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Apesar de tecnicamente ser propriedade espanhola, haveria dito que não havia nenhum país interessado em suas mais de setecentas ilhas e seus recifes. Ao meio dia lhe trouxeram sua bandeja de comida, e de noite voltou a levar-lhe o senhor Crawford, que não insistiu em conversar. Em algum momento do dia apareceu o ajudante de cozinha, um jovem desalinhado que disse que se chamava Lester, para arrumar o camarote e levar o odioso conteúdo do urinol. Pelo visto tomava sua tarefa com calma, sem prestar maior atenção ao rosto aceso de Luzia. Para imenso alívio desta, Morgan não havia retornado desde que a deixou de joelhos rezando aquela manhã. Quando chegou a escuridão e o navio ia acomodando para passar a noite, os olhos de Luzia não deixavam de olhar para a porta, consciente de que Morgan estaria muito em breve de volta ao camarote e sua tortura voltaria a começar. Tentou preparar-se mentalmente, mas ainda não tinha obtido quando ele irrompeu de repente no camarote. Arrogante, seguro de si mesmo, autoritário; até o ar vibrou a seu redor com a turbulência de sua irrupção. Foi direto a seu rosto, e uma vez mais Luzia se encontrou rapidamente a mercê de seu feitiço. O feitiço de um homem capaz de violá-la, de um homem que a odiava por seu sangue espanhol. Devolveu-lhe o olhar, assombrada da tempestade que havia em seus olhos. Ele sorriu, e seus olhos azuis adquiriram um peculiar tom de prata, de um prata fascinante. Seria desejo o que estava vendo neles? Tinha muita pouca experiência dessa sensação para sabê-lo. Não lhe devolveu o sorriso. —Surpreende-me encontra-la ainda acordada, irmã Luzia. Sem dúvida estará acostumada a te retirar cedo e despertar ao amanhecer para começando a rezar. — a língua não lhe obedecia, assim assentiu— Então recomendo que se meta na cama. Luzia abriu muito os olhos. A boca ficou seca. A voz lhe saiu rouca quando conseguiu recuperá-la. —Dormirei no chão.

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Morgan desatou a espada e a jogou na cadeira. Ia sem a jaqueta, porque fazia um tempo bastante agradável naqueles mares sulinos pelos que agora navegavam. Com os braços cruzados e as pernas abertas, teria sido a resposta às fantasias de qualquer jovenzinha. Mas na imaginação de Luzia não havia lugar mais para a vida de santidade entre as monjas. —Vai dormir na cama… comigo —disse ele, aproximando-se muito para olhá-la. Ela tinha os olhos postos na espada, e parecia disposta a tentar escapar. Morgan reagiu imediatamente. Com grande rapidez esteve junto a ela lhe rodeando com as mãos a cintura. Levantou-a sem esforço e a estendeu no beliche. Ela tentou levantar uma vez, mas logo ficou quieta. Ele não tinha podido evitar notar o pouco que ela pesava, o incrivelmente fina que tinha a cintura, quão delicada era e quão indefesa estava. Teria podido destroçála com uma só mão se lhe tivesse dado vontade. Mas eram outras coisas, mais prazerosas, que queria lhe fazer. Quando ele deitou no beliche, ela apressou em afastar-se rodando para ir ficando de joelhos junto à cama. Rezava em voz alta e sincera. —Maldita seja sua imagem! — amaldiçoou ele furioso— Você acredita que essas suas rezas vão salva-la de verdade se a quisesse? Sou um pirata, recorda? —Como ia esquecer? Outra fileira de maldições seguiu a essa resposta. —Vai, deite-se, que não vou incomodá-la. Pode dormir tranquila, que é o que penso em fazer. —Na mesma cama? — Luzia lhe tremia a voz. —Na mesma cama —respondeu Morgan— Por que não vamos estar cômodos os dois? Esta noite não tenho vontade de tê-la. Morgan mal soube mentir daquele jeito. Desejava Luzia mais que alcançava admitir. Não era capaz de dizer se aquela espanhola era uma bruxa ou uma Santa. Por sorte ele tampouco era nenhum atordoado jovenzinho incapaz de controlar-se. Até que averiguasse o segredo da irmã Luzia, seguiria esperando o momento. E enquanto

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isso utilizaria a sutil arte da sedução para assaltar seus sentidos e desgastar sua resistência. Uma vez que estivessem em sua ilha a teria totalmente em suas mãos. —À cama, irmã —ordenou Morgan, ao tempo que começava tirar a roupa. —Não. —Se você não se deitar agora mesmo, eu vou te amarrar aí. Ela se sentou com cautela na borda da cama, e logo deitou. Com o corpo rígido, afastou-se tudo o que pôde para a borda para não cair. Quando Morgan apagou a lanterna, ela suspirou de forma audível. Pelo ruído do roçar de tecidos soube que ele se despojou de sua roupa; logo notou como o colchão afundava para um lado sob seu peso, e se estendeu a seu lado. Lhe escapou um gritinho de alarme quando ele estendeu o lençol por cima dos dois. — Tranquila —protestou ele— Como não me deixa dormir vou ter que encontrar alguma diversão para me entreter até que encontre o sono. Ela ficou imóvel, desejando poder relaxar, temerosa de não gostar do tipo de diversão que ele estava pensando. Quando ele a rodeou com o braço, conteve a respiração, e logo foi deixando sair pouco a pouco o ar ao ver que ele não fazia outra coisa que atraí-la contra seu corpo. Morgan sentiu o palpitar desbocado do coração dela através de sua roupa, e soube que estava assustada. Mas não lhe tirou o braço de cima. Tampouco fez nenhuma outra coisa que pudesse assustá-la, por mais desesperado que fosse seu desejo físico por ela. Queria que ela se acostumasse a sua presença, que se sentisse a gosto com ele, dormindo a seu lado, que se familiarizasse com sua imagem vestida e com sua imagem nua. Logo, quando ela menos esperasse, poria a prova sua inocência com um assalto dos sentidos contra sua castidade. No pouco tempo que levavam juntos ela tinha demonstrado ser uma criatura temperamental cuja sexualidade estava ainda por explorar; mas ele sabia que estava aí, de igual modo, escondida sob sua vestimenta cinza e sua falsa devoção. Algum dia desenterraria a verdade e a obrigaria a lhe revelar sua alma.

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Luzia despertou sobressaltada e se desprezou, surpreendeu-se por sentir-se tão descansada. O beliche do capitão era muito mais cômodo que o chão de madeira, ou que a dura cama que se acostumou no convento. Teria sido ainda mais agradável se o capitão não tivesse estado também no beliche. Voltou muito devagar à cabeça e o encontrou com a vista cravada nela, essa manhã brilhavam em seus olhos luz chapeadas. —Era para tanto, santinha? —perguntou. Havia em sua voz um tom estranhamente rouco que atravessou Luzia em um calafrio de consciência— Sou o primeiro homem com quem já dormiu? — Seu braço se apertou em torno dela. —Me deixe levantar —lhe respondeu, tentando desprender o braço dele de sua cintura — O que faz ainda na cama? Acreditei que levantava a alvorada. —Está tentando se libertar de mim? —Sim. —Estou muito cômodo para me mover. —Pois eu não estou! Ele soltou uma risada afogada quando a viu levantar-se de um salto do beliche, mas não fez nada para detê-la. —Pode ser que tenha razão, é hora de levantar. As Bahamas se veem já no horizonte. Chegaremos ao porto ao meio-dia. Os olhos escuros de Luzia faiscaram de emoção. —De verdade? Estão habitadas as Bahamas? Há alguma cidade? E um porto? Aportam nele outros navios? —Esta manhã está cheia de perguntas, Luzia? Não vejo motivo para não lhe responder isso. As Bahamas estão desabitadas, salvo pelos índios Arawak, um povo pacífico e amistoso. É um território espanhol, mas ainda têm que tomar posse dele. Os índios trabalham em minha plantação e cuidam de minha casa. Quanto à cidade, se pode chamar assim a uma coleção de choças habitadas por nativos e piratas, então suponho que sim, há uma espécie de cidade. Há um porto natural de águas profundas, mas sem mole nem atracadouro. Poucos navios visitam Andros, exceto os

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navios piratas que chegam para aprovisionar-se de água fresca e fruta. De vez em quando algum navio inglês ou espanhol se aproxima de nossas bordas, mas partem rápido. Uma ilha desabitada tem muito pouco interesse para qualquer país. —Não há colonos nas Bahamas? Nem mole? Nem atracadouro? —repetiu Luzia, desconsolada. —As Bahamas as compõem mais de setecentas ilhas e dois mil recifes — informou Morgan— Em muito pouco deles há suficiente água doce e vegetação para poder manter-se. Andros tem ambas as coisas em abundância, mas temos poucas visitas. E pretendo que siga sendo assim. Quando o Diabo não anda pelo Atlântico, fica em casa, seja em Andros ou na terra de seus ancestrais, Inglaterra. Se está pensando em escapar, esqueça. —Me deixe partir, Capitão —lhe rogou Luzia, com os olhos faiscantes de lágrimas contidas — Me desembarque em algum porto espanhol, e eu sozinha voltarei para o convento. Conheço bem o ódio que sente por meus compatriotas, e não consigo imaginar para que poderia me querer, quando não tenho nenhum valor para você. —Nenhum valor? —repetiu ele, incrédulo— Não te tenho em tão pouco, santinha. É certo que não estou acostumado a ter hóspedes, a não ser os que estão esperando o pagamento do resgate por suas famílias, mas se fiquei contigo é para meu próprio entretenimento. — E então, com uma despreocupação que a deixou estupefata, Morgan levantou da cama tão gloriosamente nu como sua mãe lhe trouxe ao mundo. Luzia explodiu de raiva envergonhada: —Isto que me faz não tem nenhuma graça! Arrogante, miserável, canalha! — equilibrou-se sobre ele, lhe golpeando o peito com os punhos como uma possuída. Ele a agarrou pelos pulsos, segurando-lhe com uma só de suas grandes mãos, enquanto com a outra a puxava para si.

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—Está pondo a prova minha boa natureza, Irmã — resmungou. Sentiu que lhe disparava o calor nas virilhas, lhe enchendo até quase transbordar. É que ela não se dava conta do que lhe estava fazendo? Até que Luzia sentiu a dura protuberância de sua virilidade elevando-se contra seu estômago, não se deu conta do perigo. Ele tinha o rosto tão perto do seu que lhe via as pupilas, escuros círculos sombreados de prata, e sentia o bater desenfreado de seu coração. Ele foi encurralando-a para o beliche. —Por favor, OH, por favor, não me faça isto. Lamento ter feito você se zangar. — Luzia fechou os olhos e proferiu uma oração desesperada— Deus dos céus, me salve deste destino. Não permita que me desonre de forma tão violenta. —Que lhe desonre! —bramou Morgan— Quando eu te fizer amor, a desonra não vai ter nada haver com isso. Será pelo prazer e pela mútua satisfação. Juro que, quando esse dia chegar, estará desejosa e complacente. E te perguntará por que tinha tanto medo de se entregar a mim. —Antes me matarei! —Morrerá um pouquinho, igual a mim, mas não será uma morte permanente, isso lhe prometo. Desejará fazê-lo uma e outra vez. Então apertou sua boca contra a dela, enfurecido, apressado, lhe roubando o fôlego. OH, Deus, a sedução. Ela tentou manter os lábios firmemente selados contra o assédio de sua língua, mas ele burlou com facilidade aquela exígua barreira. Buscavalhe a língua, deslocando-se por dentro de sua boca, lhe roubando todo indício de razão. Ela respirou seu aroma, saboreou seu sabor e seu tato, e se obrigou a não responder. Então de repente ele a soltou, e ela caiu de costas sobre o beliche. Esperava que ele caísse sobre ela, mas não o fez. Para sua surpresa e sua satisfação, lançou-lhe um olhar de enfastiada indiferença e começou a colocar as calças. —Por que está me fazendo isto? —perguntou ela, desenquadrada— É que desfruta corrompendo monjas? Ele sorriu severamente.

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—Pois não sei, nunca tentei. Como já disse antes, você pode me proporcionar entretenimento. Já deve saber que não sinto nenhum amor pelos espanhóis. Por que ia me importar com o que ocorra a uma monja espanhola? Ou a uma mulher que diz ser monja… — Colocou a espada no cinto e se deteve um instante na porta— Esteja preparada para baixar hoje a terra, um pouco mais tarde. Você gostará muito mais de minha casa do que desse medonho convento de que vem, se é que é verdade que vem de algum convento. Ilha de Andros Luzia estava olhando pela escotilha quando a ilha de Andros apareceu no horizonte. Contemplou como manobrava o Vingador para meter-se por um canal de águas profundas entre duas ilhas de vegetação profusa. Quando viravam para Andros, vislumbrou um rio que dividia o bosque até chegar ao mar. Em certo ponto teria jurado que iriam chocar contra o escarpado, mas logo as rochas se abriram em um porto natural, o bastante largo para acolher três ou quatro navios ao mesmo tempo. A Luzia o coração lhe palpitou de esperança quando viu que havia outro navio ancorado a pouca distância da borda. Ali não havia atracadouro de nenhum tipo, mas viu homens brancos e homens de pele morena que se ocupavam de diversas tarefas na borda. Aos poucos o Vingador jogou a âncora, Morgan foi procurar Luzia. subiram em um dos botes, em companhia de vários membros da tripulação, que se ocupavam dos remos, e outros quantos marinheiros, os desprenderam até o mar. A água estava de um azul mais transparente que Luzia jamais tinha visto, e quando a roçou com a mão a encontrou cálida. Lançou uma exclamação admirada ao descobrir um bando de aves bicudas com as patas metidas na água, ao longo da linha costeira. Sua

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esplêndida plumagem rosa contrastava vivamente com a exuberante folhagem verde e as águas azuis. Uma nuvem de pássaros silvestres de todas as espécies elevou voo por cima dos manguezais que se estendiam ao longo da borda. —Esses são flamingos — a informou Morgan, assinalando os lustrosos pássaros rosas — Põem os ovos em Andros e se alimentam de bagatelas. Aqui há centenas de espécies de aves, mas nenhum animal selvagem digno de menção. O Arvoredo da Colina está subindo essa costa. —O Arvoredo da Colina? —Esse é o nome de minha plantação. —Que tipo de plantação é? O que se pode cultivar nesta terra? —Árvores, irmã Luzia. Pinheiro caribenho, para ser preciso. Cortamos e exportamos madeira de pinheiro a Inglaterra. Já vê que cresce em abundância por toda parte. Os índios, além disso, mergulham para agarrar esponjas, as quais tem muitas por estas ilhas. Vendem-se muito bem na Inglaterra e na Europa. Levantou-a sem esforço do bote e a depositou na areia branca coberta de centenas de conchas de cores de todos os tipos e tamanhos. O olhar de Luzia foi posar sobre o navio que estava ancorado ao lado do Vingador. —Que navio é esse? — perguntou, tratando de esconder a emoção. Possivelmente seu capitão poderia ajudá-la a escapar. —Esse é um de meus navios. Transporta madeira a Inglaterra e na volta traz artigos de primeira necessidade. Tenho vários como esse em minha frota. O Vingador é o único que uso em meu trabalho de corsário. Ela sentiu uma aguda decepção. É que não havia modo de escapar do Diabo? —Fique aqui enquanto falo com o senhor Crawford —lhe ordenou Morgan, quando viu seu contramestre desembarcar de um segundo bote. Apressou-se a afastar-se, e Luzia concentrou imediatamente a atenção no que a rodeava. Com aquela vegetação frondosa e aquelas águas cristalinas, a ilha teria sido um paraíso em qualquer outra circunstância.

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Morgan fez gestos a Crawford e o alcançou junto à borda a umas poucas jardas de onde Luzia se achava. —O que ordena, Capitão? —perguntou Crawford. —Vai custar um bom par de meses para deixar o Vingador em tão boas condições como estava. Ponha os homens ao trabalho imediatamente. Aqui têm madeira mais que suficiente para todas as reparações. Deixe-no em bom estado, parado na praia após lhe consertarem o casco. Enquanto isso tenho um encargo especial para você, amigo. —Que encargo pode ser esse, Morgan? Não terá nada haver com a irmã Luzia, verdade? —Exatamente — disse Morgan, lançando um olhar de lado para Luzia, que tinha se ajoelhado na areia para examinar as conchas — Quero que vá a Glorifica da Rainha, em Cuba, e que averigúe todo o possível sobre o Santa Cruz e seus passageiros. Sem dúvida a tripulação sobrevivente já terá sido resgatada por algum navio dos que passam por ali, e já terão informado do afundamento. Quero saber como reagiu Dom Diego à notícia da morte de sua prometida. Se inteire de todo o possível e logo volte para me informar. —Devo partir agora mesmo? —perguntou Crawford, desejoso de cumprir as ordens de seu capitão. —Já lhe avisarei quando têm que partir. Pode ser que tenha que levar um passageiro. Crawford o olhou atônito. —A irmã Luzia? Quer enviá-la a Havana? —Jamais! — Morgan negou com veemência— Pelo menos no momento — acrescentou em tom mais razoável— Se Luzia é quem eu acredito que seja, tenho planos especiais para nossa monjinha. E se não o é… — suas palavras se interromperam. Não tinha ideia do que ia fazer se Luzia resultava ser uma monja de verdade. —Pois se não for Luzia, quem demônios vai ser meu passageiro?

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—Morgan!! Mon amour, mon cheri, quanto desejei que voltasse. Morgan e Crawford se voltaram como um só homem para olhar a uma mulher de voluptuoso cabelo cor mogno que saiu correndo do bosque em direção a eles. Crawford olhou ao Morgan, com uma sobrancelha levantada em gesto de interrogação. —Rouge? Está pensando em mandar Rouge a Cuba? —Tenho o pressentimento de que vai ser mais feliz ali — disse pausadamente Morgan. —Meu Deus! Essa bruxa espanhola lhe tem de verdade obstinado. Eu acreditava que você gostasse de Rouge. —Sim eu gostava, mas as coisas seguem seu curso, e tenho a sensação de que Rouge está cansada deste paraíso. Aqui não há com o que mantê-la ocupada durante minhas longas ausências. Além disso, tenho intenção de retornar a Inglaterra muito em breve para entregar à rainha sua parte do ouro, e não gostaria de levar uma rameira francesa comigo. O acordo que chegamos quando se converteu em minha amante, foi que qualquer um dois podia deixar o outro quando quisesse, sem ataduras de nenhum tipo. Dando gritinhos de alegria, Rouge chegou até Morgan. Os homens que estavam trabalhando na praia, para descarregar o tesouro do Vingador ficaram olhando divertidos como aquela libertina de chamejante cabeleira se lançava aos braços de seu capitão. Luzia contemplou com desânimo aquela exibição pública de afeto entre a mulher e Morgan. Pareceu-lhe que ela não terminava nunca de lhe beijar, com grande sentimento. Na boca, nas bochechas, na garganta, em qualquer lugar ao que pudesse chegar seus lábios. Luzia sentiu uma agonia nas têmporas, e fechou com força os olhos para evitar a dor. Por que não lhe havia dito, Morgan, que tinha mulher? —Tome com calma, Rouge —riu Morgan, defendendo-se como podia da avalanche de amor de Rouge — Este não é lugar para exibir seus sentimentos. Está dando um espetáculo a meus homens.

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—Dá-me igual, mon amour —disse Rouge com uma careta. Devorou-o com aqueles olhos sensuais— Mas se isso te incomodar, vem para casa comigo. A cama resulta muito mais cômoda que a areia quente para deitar-se. Notou Morgan distraído e seguiu seu olhar pela borda do mar até o lugar de onde uma mulher adornada com um vestido cinza os contemplava. —Quem é essa mulher, Morgan? Vem e nos apresente. —E agarrando a sua mão, o puxou pela praia. Luzia estava enfeitiçada por aquela beleza de chamejantes cabelos. Para que ia querer ele uma insípida pomba cinza, quando podia ter em sua cama uma mulher como aquela? A mulher a olhou com hostilidade, e isso deixou Luzia perplexa. Não lhe ocorria o que podia ter aquela mulher contra ela. —Quem é esta bruxa de olhos escuros, Morgan? —perguntou Rouge— Tem pinta de monja. Não me diga que de repente se tornou crente. —Rouge, apresento-lhe à irmã Luzia, recém saída de um convento espanhol. Irmã Luzia, esta é Rouge LeClerc, uma… amiga minha. —Uma muito boa amiga —ronronou Rouge — Mas me diga, mon amour, o que faz uma monja em sua ilha? Dieu, uma monja espanhola, nem mais nem menos. —É minha convidada. E agora, podemos ir para casa? Estou seguro de que a irmã Luzia morre por um banho e uma cama cômoda. —Lançou a Luzia um sorriso desavergonhado— Meu beliche não é precisamente cômodo. Rouge lhe abriram os olhos de aborrecimento, mas antes que pudesse lhe dar rédea solta, Crawford a levou dali. Luzia se viu conduzida através da praia por Morgan, que a levava implacavelmente pelo cotovelo. —A casa está a umas poucas centenas de jardas cruzando o bosque, em uma clareira aberta por meus homens. Contratei aos Arawaks para que me construíssem a casa, importando da Inglaterra tudo, menos a madeira —continuou explicando Morgan — Não é que seja muito luxuosa, mas resultará cômoda. Luzia continuava sem voz. A aparição da bela Rouge a tinha deixado sem fala. Teria que haver-se dado conta de que uma só mulher não podia satisfazer Morgan. O

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mais provável era que tivesse toda uma coleção de amantes repartidas por todos os portos do mundo. Em realidade, encontrar uma mulher vivendo na casa de Morgan tranquilizou Luzia. Com Rouge por ali, era impossível que quisesse carnalmente de outra mulher, e isso para ela era perfeito. Não queria que Morgan pensasse dessa forma nela. Mas a possessiva forma em que Morgan lhe segurava o braço parecia desafiar à lógica. Nada resultava claro, nem singelo com o capitão Morgan Scott. Quando se internaram no frescor do bosque, Luzia teria gostado de parar pelo caminho e examinar a variedade de flora e fauna, mas Morgan não permitia que se desviasse do atalho de terra batida pelo que andavam. De repente chegaram a uma clareira, dominada por uma grande casa inteiramente construída de troncos de pinheiro. Tinha dois pisos e em cada um deles, um telhado corrido, que impedia que entrasse chuva e permitia deixar as janelas abertas para ventilar. As janelas em si tinham cristais, sem dúvida importados, e o telhado era de telhas de barro. Em conjunto, por estar no meio daquele bosque resultava uma casa impressionante. Subiram os degraus do terraço e cruzaram a porta de entrada. Luzia se deteve no vestíbulo, assombrada pelo frescor que os acolheu. Saiu a seu encontro uma agradável mulher amadurecida de marcados traços índios. Ia descalça e vestida com uma colorida saia. —Bem-vindo a casa, Capitão. —Em seu sorriso havia verdadeiro carinho. —Me alegro de estar de volta, Lani. Foi tudo bem em minha ausência? —Todo o bem, que se pode esperar —disse Lani, lançando um olhar um tanto contrariado a Rouge. —E sua família? —Prosperando Capitão, graças a você. —Trago uma convidada a Arvoredo da Colina, Lani. Por favor, faz que a irmã Luzia se sinta bem-vinda e olhe que esteja cômoda. Ponha-a no dormitório que dá ao jardim. Acredito que gostará. Sua bagagem chegará em seguida. Luzia lhe lançou um olhar assombrado.

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—Não tenho bagagem. —Tomei a liberdade de fazer que tirassem o baú da senhorita Santiago do galeão que afundava. Seguramente nele encontrará algo que possa usar. Algo será melhor que essa roupa cinza que traz. —Esta roupa cinza é o traje regulamentar de minha ordem — disse Luzia com um deixe de recriminação— Me sinto muito orgulhosa de meu hábito de monja. Quem se dedica a servir a Deus renuncia à vaidade e às armadilhas mundanas. Durante este intercambio entre Luzia e Morgan, Rouge tinha estado escutando atentamente, cada vez mais receosa da estranha ternura que havia na voz de Morgan e da forma em que ele olhava a aquela ratinha cinza. O que veria nela? Assim que Lani levou Luzia a seu quarto, e Stan Crawford se retirou a seu próprio refúgio, Rouge se voltou contra Morgan. —A que demônios vem tudo isto? Você não é mais religioso que eu, e vem dando adulação com essa monjinha como se… como se planejasse seduzi-la. O olhar de Morgan bastou para convencer Rouge de que estava certa. —Dieu! Isso é exatamente o que planeja, verdade, mon amour? Ou acaso já o conseguiste?

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Capítulo 5 Morgan olhou com desagrado a Rouge. Recordava nitidamente todas as vezes que, a sua volta a Andros, tinha passado dias de amor e noites de erotismo com ela, comendo e dormindo quando podiam. As quedas com aquela rameira francesa tinham sido divertidas e gratificantes, mas de repente tinha deixado de lhe atrair. Entre eles o tempo tinha seguido seu curso; cansou-se dela, tão simples como isso. E por mais que ela se empenhasse em negá-lo, ele sabia que estava preparada para partir da ilha. —Bom, Morgan, mon amour, responde a minha pergunta. Seduziste já essa mulher? Mesmo sendo uma monja! Custa-me acreditar que o fez, até mesmo sabendo o ódio que tem aos espanhóis. —As aparências quase sempre enganam —disse Morgan, sem admitir nem negar nada. Rouge era muito ardilosa para não dar-se conta do que de verdade pretendia. —O que quer dizer com isso? Essa garota é monja, não? —Isso sei no momento —disse despreocupadamente Morgan— E, para sua informação, não a seduzi. Não consigo que deixe de estar de joelhos o tempo suficiente para lhe levantar as saias. Rouge soltou uma risada lasciva. —Ah, mon amour, se de verdade a deseja acabará encontrando a forma de consegui-lo. Vem —disse com acento rouco enquanto lhe pegava a mão e o levava para a escada — Te julguei mal. Por mim podemos não sair do dormitório em uma semana. Quero me saciar de ti antes que volte a ir. Morgan resistiu. —Tenho que atender a minhas obrigações. Rouge lhe lançou um olhar aceso. —Deixa que Crawford se encarregue. —Crawford está ocupado. Tem que partir muito em breve da ilha. 68


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—Sozinho? —Não. Não necessariamente. Pensei que gostaria de acompanhá-lo a Cuba. Estarei encantado de te proporcionar uma soma de dinheiro que te permita viver com independência o resto de sua vida. Se Cuba não for de seu gosto, pode pegar ali um navio para a França. Rouge retrocedeu ferida, entreabrindo incrédula os olhos. —Está se desfazendo de mim? Dieu! Esta deixando-me de lado por uma zorra espanhola que diz ser monja? Tornaste-te louco! Mas o que te tem feito? —Pensa-o, Rouge —disse Morgan em tom apaziguador —Acreditou que não me dei conta de quão inquieta estiveste estes últimos meses? Admite-o. A vida em Andros é muito aborrecida para ti. —Salvo quando você está aqui, mon amour. —A voz se pôs sensual, os olhos, escuros e luminosos. Colocou-lhe as mãos sobre o peito, introduzindo-lhe sob a camisa para brincar com seus mamilos— Sempre gostou das coisas que eu te faço. —Não o posso negar —admitiu Morgan— Mas nossa associação chegou a seu fim. Quando partir com o senhor Crawford me ocuparei de que não te falte nada. —Mal nascido! —Esqueceu de nosso acordo? Cada um é livre de seguir seu caminho no momento em que mais goste. Ela, desgostosa, vaiou: —Esperava mais de ti. Esperava que me levasse a Inglaterra a conhecer sua rainha. Com o tempo… quem sabe aonde poderia ter chegado nossa relação. Morgan ficou tenso. —Não teria chegado a nenhuma parte. Quando eu me casar, se é que me caso algum dia, terá que ser com alguém… —com alguém de quem está apaixonado— É igual. —Se isso for o que quer, Morgan —disse Rouge com acento amargo. —Já não terá que sofrer por nossa relação. Desejo-te boa sorte e que vá de uma vez com Deus. —E dando meia volta Morgan saiu da habitação. Rouge teve vontade de gritar de pura frustração. Tinha sabido desde o começo que sua relação com Morgan Scott não ia ser nada duradoura, mas apesar de tudo 69


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tinha altas expectativas. Morgan era asquerosamente rico; esse era um traço dele que lhe encantava. Entendiam-se bem na cama. Ele nunca tinha jogado na cara, mas sabia que ela, em sua terra tinha sido prostituta até que ficou com um capitão de navio que lhe tinha prometido uma substanciosa compensação por lhe esquentar o beliche durante a viagem. Uma tormenta fez que o navio encalhasse em Andros, e ela ficou ali como amante de Morgan. De momento, seguia sendo jovem e formosa, e se Morgan resultava tão generoso como tinha dado a entender, ia ser rica, assim tampouco podia queixar-se. Tinha sido divertido enquanto durou. Mas, para falar a verdade, Morgan tinha razão. Andros estava começando a aborrecê-la. Morgan não, Morgan nunca, mas entre suas idas e vindas ela passava o tempo vagando pela ilha como um animal enjaulado. Nem sequer os piratas apetecíveis que ocasionalmente ancoravam seus navios na enseada conseguiam acalmar sua inquietação. Mesmo assim, doía-lhe ver-se rechaçada tão fácil. Compreendeu instintivamente que a culpa era de Luzia. O que não chegava a entender era o que podia querer o Diabo com uma insípida monjinha espanhola. Luzia se sentiu estranha no precioso dormitório que lhe tinham atribuído. Todos os móveis tinham que proceder da Inglaterra, pensou, posando com admiração o olhar na grande cama adornada com dosel e o resto do barroco mobiliário, encerado e reluzente. Aproximou-se da varanda, a porta que se abria ao terraço que rodeava a casa. A brisa empurrava as cortinas para dentro, deixando entrar o sopro fresco do oceano. Não recordava nada tão luxuoso desde os dez anos, quando abandonou a casa de seu pai. O baú de Luzia que haviam trazido fazia um momento, e esteve estudando ele, mas não encontrou nada apropriado para uma monja. Era tudo roupa confeccionada para a filha de Dom Eduardo. Não havia nada adequado para a irmã Luzia.

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Depois de um longo e voluptuoso banho, Luzia lavou seu hábito e colocou uma bata que tinha tirado do baú. Envolveu a cabeça com uma toalha e estendeu o hábito para secar no corrimão do terraço. Estava mais que desejosa a ter uma sesta, e desprezou a cama enquanto esperava que sua roupa se secasse ao calor do sol. Morgan chamou brandamente à porta de Luzia. Queria lhe perguntar se tinha gostado de seu dormitório. Como ela não respondia, começou a alarmar-se. Temendo que tivesse cometido a tolice de tentar escapar da ilha, apertou o trinco e entrou no quarto. Imediatamente a viu, pacificamente dormido na cama. A tina de água usada estava ainda no meio da habitação. Perguntou-se o que teria feito com sua roupa, uma inspeção visual da habitação lhe permitiu localizar o hábito cinza pendurado no corrimão do terraço. E a seu lado, desdobrada, a touca branca. Com um sorriso picante, Morgan recolheu sem fazer ruído aquelas roupas e saiu do dormitório tão silenciosamente como tinha entrado. Levou aqueles desagradáveis objetos à cozinha, que estava na parte baixa, e ali as jogou ao fogão. Ficou esperando que ardessem em chamas antes de voltar para suas próprias habitações e seu próprio banho. Uns golpes fortes na porta despertaram Luzia. Ainda aturdida do sonho, contemplou o quarto pouco familiar e de repente recordou onde estava. Na ilha de Morgan, em sua casa, a sua mercê. Voltaram a bater na porta. —Quem é? —Sou Rouge. Posso entrar? —Se quiser… Rouge entrou, curvando sensualmente os lábios. —Está escurecendo. Como é que não acendeu uma vela? —Sem esperar resposta, arranhou um fósforo de enxofre e acendeu as velas de um candelabro que tinha perto. —Obrigada. Quer algo? Rouge a observou com curiosidade. —É de verdade uma monja? 71


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Luzia não afastou o olhar. —Sim, sou monja. — Esperava que Deus pudesse perdoar essa pequena mentira dela. —E o que faz com um homem como Morgan Scott? É provavelmente um dos homens menos piedosos que conheço. Odeia aos espanhóis, já sabe. Crê que seu hábito de monja vai mante-la a salvo dele? —Não tive eleição nisso. Supliquei-lhe que me liberasse ou me deixasse no navio que afundava, mas ele se negou. —Como? Que ele te raptou? Não acredito. Ninguém vai pagar seu resgate, e que outra coisa poderia querer ele de ti? —Entreabriu os olhos enquanto especulava — Morgan é um homem arrumado, que qualquer mulher gostaria. —A mim não —negou Luzia com veemência. —Pois está claro que ele te quer. Me mandou embora. —O que?! Não! Não é possível. Não deve partir me deixando sozinha com ele. Rouge encolheu os ombros. —Não fui eu quem tomou a decisão. Além disso, não acredito que seja tão inocente como faz parecer. Conheço Morgan Scott muito bem. Nenhuma mulher em seus plenos poderia resistir durante tanto tempo quando juntos. Foi você quem lhe disse que me mandasse longe? —Não! Eu nem sequer sabia que existia até que chegamos à ilha. —Mente —a acusou ferozmente Rouge— Não me engana se fazendo de inocente. Você quer Morgan somente para você, e por isso lhe disse que me obrigue a partir. Pois irei, irmã Luzia, mas guarde isso, Morgan nunca me faria partir se não fosse por você. —O que está fazendo aqui, Rouge? — Morgan estava na soleira da porta, com um gesto ferozmente carrancudo. —Só estava falando com a irmã Luzia, mon amour —disse melosamente Rouge — Não é todos os dias que tenho ocasião de conversar com uma religiosa. —Talvez deveria se trocar para o jantar. Sei o suscetível que é no que se referente a seu aspecto. A Rouge não escapou seu tom sutil. 72


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—Oui, tem razão, Morgan. O verei no jantar. Pedi a Lani que ponha a mesa fora no pátio. Será muito romântico. —A irmã Luzia e Stan Crawford vão jantar conosco também. Rouge lançou a Morgan um olhar azedo. —É obvio. O que você quiser, mon amour. Saiu dali zangada, e Morgan voltou a olhar a Luzia. —Essa bata é o objeto mais favorecedor que te vi posta. Luzia se revolveu em seu assento, oprimida. —Não é minha. —Que engraçado, pois qualquer diria que é sua. —Não vou descer para jantar esta noite. Não acredito que meu hábito secou para então. —Hábito? Que hábito? —Fixou o olhar nela com os olhos entreabertos. —Lavei-o e o estendi para secar no corrimão do terraço. Morgan se aproximou pausadamente do terraço. —Pois não o vejo. —O que? Onde pode ter metido? —Luzia correu ao terraço e se inclinou sobre o corrimão para escrutinar frenética o jardim de baixo. Morgan tinha razão, seu hábito não se via por nenhuma parte— Bom, pois então está claro. Não posso sair deste dormitório até que apareça meu hábito. —Tem um baú cheio de roupa. Roupa bonita, se não supor mau. Agora é tua, pode pôr isso. —Não posso. —Fará-o. Antes que Luzia pudesse compreender o que Morgan pretendia, lhe agarrou a toalha e de um puxão a tirou da cabeça. Estremeceu-se maravilhado. Luzia levava o cabelo moreno, que provavelmente tinha sido formoso algum dia, pego à cabeça em frisados cachos que logo começavam a cobrir as orelhas. —Quem demônios te tem feito isto? Luzia se esforçou em não deixar que as lágrimas lhe escorregassem pelas bochechas. —É o costume. Todas as monjas se raspam a cabeça.

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—E quem lhe raspou, o açougueiro? Por Deus, isso sim que é um sacrilégio. Vou dizer a Lani que suba e te ajude a se vestir. Esperemos que ela possa fazer algo com esse desastre que leva na cabeça. Nos vemos no jantar. Se por acaso não aparecer, subo para te buscar e te visto com minhas próprias mãos. Está claro? Luzia estava tremendo convencida que Morgan tinha tido algo a ver com o desaparecimento de seu hábito. Sem o amparo de sua vestimenta cinza, sentiu-se nua e vulnerável. Ajoelhada ante o baú, ficou a procurar algo menos chamativo que os elaborados vestidos que seu pai tinha encarregado que lhe fizessem para o enxoval. No fundo de tudo, debaixo de capas e capas de sedas e cetins, encontrou a roupa de luto da viúva Carlota. Recordava que lhe tinha permitido usar uma parte do baú para guardar seus escassos pertences. "Perfeito", pensou, tirando um sóbrio vestido e sacudindo-o para lhe tirar as rugas. Localizou inclusive uma mantilha com a que cobrir o cabelo tosquiado. Quando chegou Lani já tinha vestido o sutiã, as meias e as anáguas, e se esforçava em meterse no vestido. —Não têm outra coisa que pôr? —perguntou Lani, olhando com desgosto aquele vestido— E com esse cabelo… — se lamentou— Pobrezinha. —Sou uma religiosa — lhe disse Luzia como explicação— Se meu hábito não tivesse desaparecido misteriosamente, o teria posto em lugar disto. —O capitão me disse que necessitava ajuda. É um pecado cortar assim um cabelo tão bonito como o seu. Vou ver o que se pode fazer com ele. —Não, esta bem, de verdade. Não sou uma dessas mulheres frívolas. —Pois eu não me atrevo a desobedecer ao capitão —disse Lani, sentando Luzia em um banquinho ante um penteadeira baixa com espelho. Tirou uma tesoura de um cestinho que levava e começou a lhe cortar o cabelo, igualando-o e tratando de lhe dar um aspecto ordenado. Luzia, hipnotizada, contemplou como Lani fazia uma calota de lustrosos cachos negros em forma de pequenos caracóis. O resultado era encantador. Luzia mal se reconhecia no espelho.

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Enquanto Lani brandia a tesoura, Luzia não parou de lhe fazer perguntas. —Leva muito tempo trabalhando para o capitão Morgan Scott? —Desde que chegou a nossa ilha —respondeu Lani— Ele nos cuida. Algumas de nossas mulheres se casaram com marinheiros dele. Vivem nesse grupo de choças que há no extremo norte da praia. Ele ensinou a nossa gente a falar inglês e a tratar com os navios que se aproximam de nossas bordas procurando água potável e escravas. Luzia ficou um instante ruminando aquilo e logo perguntou: —E Rouge? Faz muito tempo que está com Morgan? Lani pensou um momento antes de responder: —Sim, muito tempo. Mas acredito que está começando a cansar da solidão. Não se preocupe, agora que você esta aqui, não acredito que ela fique. A Luzia lhe arderam as bochechas. Lani havia dito como se esperasse que Luzia fosse ocupar o lugar de Rouge na cama de Morgan. Mas isso não ia ocorrer. Nem agora, nem nunca. —Importa-me muito pouco que Rouge se vá ou fique. Se tiver terminado com meu cabelo, vou descer ao pátio para jantar com os outros. Luzia foi a última em chegar. A conversa se deteve quando ela apareceu naquele pátio iluminado por centenas de candelárias. O vestido negro não ficava bem, porque Carlota era muito mais corpulenta que ela, e havia coberto discretamente a cabeça de cachos com a mantilha, para que não se visse quão curto tinha o cabelo. —Deus santo! — exclamou Morgan com tom de desgosto — Transformou-se de um ratinha cinza em corvo negro. É que não havia nada mais favorecedor nesse baú? Custa-me acreditar que a filha de um nobre fosse ao encontro de seu prometido vestida de luto como uma viúva. —Isto é o único do baú que me serve —disse afetada. —Certamente —resmungou Morgan —Tinha que ter pensado nisso.

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Fosse como fosse, se via decepcionado. Estava desejando ver Luzia vestida com algo que não fosse cinza, nem negro. Algo que se ajustasse às curvas que ele suspeitava que ela tinha sob o santo traje. —Comemos? —perguntou, tentando distraí-lo. Morgan e Stan levaram o peso da conversa durante todo o jantar. Rouge estava amuada e Luzia pouco comunicativa. Cada vez que Luzia olhava Rouge, imaginava sua chamativa beleza nos braços de Morgan. A imagem não deveria incomodá-la, mas sim o fazia. Vá, se essa mesma noite lhes dava por… na cama dele… Deus! Por que estava torturando-se com aqueles pensamentos pecaminosos? —Stan, por que não leva Rouge ao navio para que escolha o que mais goste do que trouxemos? Não se esqueça de lhe mostrar as joias que agarramos do Santa Cruz. "Minhas joias", pensou zangada Luzia. Eram parte de seu dote. —OH, Morgan, que generoso —gorjeou Rouge, dedicando a Morgan o bater de suas largas pestanas— Vou ter que pensar a melhor forma de te agradecer. —Não faz falta, Rouge. Considera-o parte de seu presente de despedida. Não tenha pressa, escolhe o que mais goste. Eu, enquanto isso, levarei Luzia para dar um passeio pela praia. Stan lançou a Morgan um olhar divertido. Sabia sem que o dissessem que Morgan lhe estava dando permissão para sentir prazer com a voluptuosa Rouge se assim o desejava. Tampouco lhe vinha mau. Levava muito tempo sem estar com uma mulher, e as vezes que tinha estado antes com Rouge a tinha encontrado deliciosamente amena na cama. —Vamos, Rouge, vai ver os tesouros impressionantes de verdade que temos no Vingador — lhe disse, puxando para trás a cadeira dela. Depois de lançar um olhar inquisitivo a Morgan, Rouge se pendurou no braço de Stan, e se foi com ele por entre os pinheiros. Mortificava-a o seco rechaço de Morgan, mas ia ser ela quem riria por último. Morgan se voltou para Luzia com um sorriso de predador.

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—E nós, Irmã? Faz uma noite cálida e apetitosa. Aposto que nunca viu nada tão bonito como a lua quando sai por trás das ilhas. Luzia tremeu os joelhos. A última coisa que precisava era ficar a sós com o arrumado pirata. —Em algum outro momento, Capitão. Agora preferiria ir a minha cama. O sorriso dele se fez ainda mais amplo. —Eu também. Sua cama me servirá perfeitamente — lhe ofereceu o braço— Vamos? Luzia lhe amontoava a respiração no peito. —Pensando melhor, um passeio me virá bem depois de tanto tempo encerrada em seu camarote. —Como você prefira. Me agarre o braço, que de noite o caminho pode ser um pouco traiçoeiro, a menos que o conheça bem. Chegaram à praia deserta, e Morgan a conduziu longe do lugar onde estava ancorado o Vingador. A lua pendia sobre a água como um imenso globo brilhante. A paisagem era impressionante, como ele havia dito. Luzia conteve o fôlego quando se detiveram para admirar os brilhos de um milhão de raios de lua dançando sobre a água. —OH, que bonito! —disse suspirando. —Sim, sei. Às vezes penso que estou melhor aqui que na residência dos Scott, em West Sussex. A residência é a casa de meus antepassados, mas Andros é o lar de meu coração. —ficou olhando Luzia, seus luminosos olhos escuros e seus lábios sensuais, e sentiu um anseio que ia além da mera luxúria. Ela sentiu o calor tórrido de seu olhar e perdeu a capacidade de pensar. Disse o primeiro que lhe veio à mente: —Eu sinto isso mesmo para o convento. É o lar de meu coração. Morgan levantou uma sobrancelha. —Segue sendo? —Estava claro que não acreditava. —Os dias tranquilos que passei naqueles muros foram os mais felizes de minha vida.

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Ele a agarrou pelo braço, e continuaram andando. De repente, deteve-se e lhe arrancou a mantilha da cabeça. —M… mas o que faz? —Somente queria ver a obra de Lani. Tem muita habilidade, não lhe parece? Está preciosa, Luzia, preciosa de tudo. Se não fosse por esse vestido… —Irmã Luzia —lhe recordou Luzia— Acredito que deveríamos ir já. —Não. — Morgan tirou a casaca e a estendeu na areia aos pés de uma palmeira— Vamos descansar um pouco aqui antes que te leve de volta a casa. Se Luzia soubesse como chegar à casa, teria dado meia volta e teria corrido. Todos seus instintos a advertiam do perigo. Desse tipo de perigo que ela não sabia nada. Morgan lhe tinha ensinado o que eram os beijos, e muito temia que ainda quisesse lhe ensinar mais coisas. Sentou-se com precaução, com um olhar desconfiado em Morgan, colocando para um lado sua saia e recolhendo-a debaixo do corpo. —Não lhe parece que Rouge vai sentir falta se ficamos tanto tempo aqui? — perguntou-lhe em uma tentativa de apagar o calor que emanava das profundidades do metal fundido dos olhos azul cinzentos de Morgan. —Stan Crawford é mais que capaz de mantê-la entretida um par de horas. Vão partir muito em breve no Glorifica da Rainha. Aproximou-se um pouco mais. Luzia ficou tensa. Ele a rodeou com seus braços, atraindo-a para o calor abrasador de seu próprio corpo. —Capitão, isto não está bem. Lhe falei, sou uma… —…Uma monja, já sei. Prometo que não vou fazer nada que você não queira que eu faça. — Suas mãos deslizaram para cima, por entre os encrespados cachos negros que cobriam sua cabeça— Levava toda a noite com vontade de fazer isto. Tem o cabelo como seda. Estou seguro de que era precioso quando o levava comprido, mas tal como está agora resulta cativante. Professor na arte da sedução, Morgan sabia exatamente o que dizer e quando dizê-lo. Pretendia jogar um magia aos sentidos de Luzia para que esquecesse todo aquele sentido de ser monja; e se não, que lhe dissesse a verdade. 78


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—Não têm direito a me dizer essas coisas. —E suponho que tampouco tenho direito a fazer isto. —Para susto de Luzia, ele foi aproximando o rosto cada vez mais, até que sentiu seus lábios acariciar os seus. Notou-os ligeiros e brincalhões, e sentiu que se derretia no mais fundo de seu ser. Um calafrio lhe percorreu as costas quando ele deslizou a língua por seus lábios selados, lhe pedindo passo. Como ela não o dava, afundou-se diretamente entre seus lábios e entre seus dentes, separando-os a força até lhe colocar a língua dentro. Luzia suspirou enquanto ele, lhe agarrando a cabeça entre suas grandes mãos, profanava sua boca. Sentiu atravessá-la um anseio acalorado pela espinha, por causa de seu beijo. Sentiu lhe apertando no mais fundo, entre suas pernas. Os lábios dele abandonaram os seus e pegaram a sua garganta, sua língua lhe lambendo o acelerado pulso na clavícula. Em um movimento inconsciente, Luzia jogou a cabeça para trás, apoiando-a no braço dele, lhe facilitando o acesso. E de repente a doce pele de seu pescoço já não era suficiente. Com a mão que tinha livre, lhe desabotoou por diante o vestido e o abriu, deixando ao nu a curva superior de seus seios sobre o sutiã para embriagarse no prazer de seus beijos. Passou os lábios por aquela carne arredondada, apetitosa, excitante, úmida, de um calor febril. Tocava-a de um modo premente, sedutor. Liberou o seio direito de Luzia dos limites do sutiã, e seus dedos se curvaram sobre ele, acariciando sua plenitude. Fez girar o dedo gordo ao redor do mamilo e ela gritou: —Não, OH, não! Sentia o corpo duro de Morgan apertando-se contra o seu. Logo ele pôs a boca onde acabava de pôr o polegar, e ela em reposta tremeu. O que lhe estava fazendo? Morgan não tinha provado nunca nada tão doce como a carne de Luzia, nem havia tocado nada tão suave e sedoso. Seu desejo se desbocou, descontrolado, quente, doloroso, faminto. Deus, não queria parar, nem tampouco estava seguro de 79


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poder. Queria seguir com aquilo até sua culminação natural, queria que lhe abrisse as pernas em feliz bem-vinda, queria alcançar o paraíso. A boca de Luzia se abriu para esboçar um protesto, mas não lhe saiu nada mais que a respiração atropelada. As mãos de Morgan, cada vez mais diretas, levantaramlhe a barra do vestido e o subiu pelo interior de sua perna. Sua tortura aumentou ao encontrar a tentadora pele nua ao final da meia. Seguiu adiante e seus dedos roçaram a suavidade invicta e cálidos pêlos púbicos. Sua mão não se deteve na busca de uma recompensa mais íntima, enquanto a cálida sucção de seus lábios seguia presa em seu seio. Uma excitação frenética se agitava no corpo de Luzia, fazendo-a sentir frio e calor ao mesmo tempo. Sabia que aquilo não podia continuar que teria que pará-lo ou estaria maldita para sempre, uma mais entre as incontáveis mulheres seduzidas pelo Diabo. Tinha a suspeita de que uma vez que fizesse com ela o que queria a vida do convento já não poderia satisfazê-la. Esse pensamento fez com que se rompesse o feitiço dos embriagadores beijos de Morgan e lhe deu forças para escapar de seu abraço. Morgan a contemplou com o olhar vazio. Luzia estava ofegante, com os olhos brilhantes, seu rosto branco à luz da lua. —Não! Não vou deixar que me faça isto. Esta noite rezarei de joelhos pela salvação de sua alma. —Maldita seja! —Morgan tinha se excitado tanto com a bruxa espanhola que teria podido jogá-la de costas, lhe abrir as pernas e saciar-se dela. Que de fato não o fizesse lhe surpreendeu e o fez zangar-se consigo mesmo — Se de verdade fosse monja, Luzia, eu respeitaria sua vocação, por mais que a considerasse uma forma absurda de esbanjar sua feminilidade. Mas desde o começo duvidei que ti. Desejo-te, isso acredito que sabe. Não recordo ter desejado nunca tanto a uma mulher. Vou inteirar-me da verdade sobre ti. E quando o fizer, se liberará ou não de mim, averigúe

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o que averigúe. Entende-me, Luzia? —Quando ela assentiu, ajudou-a a se levantar a abotoar o vestido— Te levo de volta a casa. A Luzia ainda tremiam os joelhos quando chegaram à casa. Para maior alívio seu, Morgan a deixou ante sua porta e lhe deu boa noite. Dolorosamente excitado, Morgan entrou furioso no salão e bebeu de um gole vários dedos de conhaque, antes de acalmar-se o suficiente para poder planejar seu seguinte movimento. Quando Crawford e Rouge voltaram do Vingador, Morgan mandou Rouge à cama, indicando que queria falar com seu contramestre em privado. Quando teve Crawford sentado em frente lhe dando conhaque, Morgan lhe deu instruções para que partisse no Glorifica da Rainha no dia seguinte, com a maré alta, e fosse rumo a Havana. Queria saber quem era na realidade Luzia, e queria sabê-lo o antes possível. —Eu me ocuparei de que Rouge esteja preparada para sair a tempo — acrescentou— Em quinze dias pode ir e voltar. Cuba não está muito distante. Esperemos que em Havana possa encontrar a informação que me interessa. —Farei todo o possível, meu capitão —lhe assegurou Crawford. —E, Stan —lhe acautelou Morgan— Estou seguro de que Rouge vai estar muito a gosto em Havana. Não há nenhuma necessidade de que volte a trazê-la para Andros. Rouge deu um olhar amuado a Morgan. Estava em seu quarto preparando-se para se recolher quando Morgan chamou a sua porta e entrou sem esperar que o convidasse. Sem mais preâmbulo, lhe disse que tinha que ir no Glorifica da Rainha à manhã seguinte, com a maré alta. —Assim é como vai terminar isto. Conseguiu seduzir à monja esta noite? Nunca o tinha visto tão empenhado com uma mulher. A quer de verdade, não? Morgan passou distraidamente a mão pelo cabelo. —Essa não é a questão. Muito antes de conhecer Luzia… digo… à irmã Luzia, já tinha decidido que nossa relação estava chegando a seu fim. Admitirá, Rouge, que não te dá muita pena partir de Andros. 81


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Rouge avaliou o pesado saco de moedas de ouro que Morgan lhe tinha entregue e sorriu. —Não é exatamente pena, mon amour. Mas bem o chamaria despeito. Tem que ser a mulher que rompa a relação, não o homem. Mas estou resignada a partir. Possivelmente voltemos a nos encontrar algum dia. Além disso — acrescentou com um sorriso coquete — Crawford é um homem atrativo, pode que resulte divertido por uns dias. —Passamos bem juntos, Rouge, e aqui nos despedimos. —E, levantando a mão de Rouge, a beijou. A Rouge cintilaram os olhos. —Tampouco há por que terminar de uma forma tão impessoal. Passa esta noite comigo, mon amour, pelos bons tempos. Prometo que não vai se arrepender. Morgan se sentiu quase tentado. Aquela noite Luzia lhe tinha excitado mais do que era capaz de suportar, e clamava por um alívio. Infelizmente, só havia uma mulher que quisesse em sua cama essa noite, e a essa não podia tê-la, ao menos no momento… "Muito em breve, monjinha, muito em breve", jurou a si mesmo. Luzia estava muito nervosa para poder dormir. Morgan a tinha tentado até o inconcebível. Teve que jogar mão de toda sua convicção religiosa para resistir à atração poderosa de sua sedução. Colocou sua recatada camisola branca e saiu no terraço. Perambulou por lá, passando ante as habitações às escuras, tentando enfrentar às emoções que Morgan tinha despertado nela. Um som de vozes a fez deter-se diante de um dormitório em particular. A luz das velas iluminava o interior. A curiosidade a fez aproximar-se sigilosamente quando reconheceu a voz de Morgan. Ficou parada, escondendo-se entre as sombras, escutando, rezando para que não a descobrissem e a acusassem de estar espiando. Sabia que devia dar meia volta e afastar-se dali, mas sua curiosidade foi mais forte e procurou olhar o interior.

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Viu Rouge, e compreendeu que Morgan estava em seu quarto. Só havia uma razão pela qual um homem visitaria o dormitório de sua amante. Em lugar de se afastar, se aproximou mais, olhando diretamente para o quarto em penumbra e seus ocupantes. Rouge, deixando-se envolver pelos braços de Morgan, agarrava-lhe com a mão os abundantes cabelos para aproximar os lábios dele aos seus. Luzia via tudo: o beijo abrasador, a intimidade das carícias, a forma possessiva em que se abraçavam, como se seus corpos estivessem acostumados um ao outro há muito tempo. O coração lhe pulsava de forma frenética, e se zangou consigo mesma pelo golpe de ciúmes que lhe estava fazendo ferver o sangue. Ela não queria Morgan, e entretanto a horrorizava a ideia de que outra mulher pudesse estar com ele. O que lhe estava passando? Contendo o pranto, deu a volta e fugiu para refugiar-se em seu quarto. Os amantes necessitam intimidade, e ela era uma intrusa a que ninguém tinha convidado a presenciar aquele momento tão íntimo. Morgan se desprendeu bruscamente do beijo e foi para o terraço, estranhamente indiferente a quem tinha sido sua amante. Seu instinto tinha acertado. Agora sabia que fazia bem em mandar Rouge de viagem. —Boa noite, Rouge. Desejo-lhe todo o melhor. Ao olhá-la aos olhos, descobriu que os tinha úmidos. —Adeus, mon amour, desejo-te sorte com essa sua monja. Algo me diz que vai precisar — murmurou, enquanto ele se ia.

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Capítulo 6 Quando Morgan não estava incitando-a ao pecado, a vida de Luzia em Andros lhe resultava bastante agradável. Por sorte, para sua paz espiritual, Morgan passou a maior parte dos dias que seguiram ocupando-se de seu navio. Todas as noites jantavam juntos, e ela não conseguia encontrar uma só falha em seu comportamento. Apesar de tudo, seguia sem atrever-se a abandonar sua tática na hora de vestir-se, e continuava colocando todos os dias aquele vestido de luto que era grande e o véu. O fazia para recordar Morgan que ela estava proibida para ele. Apesar da conduta exemplar que Morgan mostrava, Luzia tinha a sensação de que estava jogando com ela. Como era virtualmente impossível escapar dali, lhe permitiu vagar pela ilha a seu desejo. Averiguou que Morgan voltava para Andros a incomuns intervalos. Em suas longas ausências, as passava sulcando os mares em busca de galeões espanhóis, ou na Inglaterra. Durante essas ausências se ocupavam de sua ilha Lani e sua família. 84


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Alguns tinham fixado permanentemente sua residência em Andros: homens de confiança que se casaram com nativas e preferiam ficar em terra fiscalizando a indústria madeireira de Morgan. As duas semanas que durou a ausência de Stan Crawford, Morgan as passou esperando, observando e especulando. E mantendo-se ocupado, porque se não teria se tornado louco de desejo. Aquela pequena devota espanhola, o estava deixando louco. Só pensar nela já era uma deliciosa tortura. Apesar de sua convicção de que ela não era uma monja como é devido, esforçou-se em manter o pensamento em outra parte, porque ela continuava invocando a Deus cada vez que tentava seduzi-la. Não tinha ideia do porquê não a tinha mandado embora também e desfazer-se dela. Para que queria andar irritando-se por culpa de sua beleza sensual e seus tentadores olhos negros. Às duas semanas e quatro dias de sua partida, Crawford chegou de Havana. Morgan saiu ao seu encontro na praia. —Me alegro de vê-lo de volta, amigo. Vamos para casa para que possa me contar o que averiguaste diante de uns refrescos. Stan Crawford assentiu, perguntando-se como reagiria Morgan ante a informação que lhe trazia de Havana. Esperava estar fazendo o correto ao contar aquilo ao capitão, porque não suportava a ideia de que Morgan pudesse fazer mal a sua prisioneira. Comodamente sentado em seu amplo gabinete, Morgan esperava impaciente que Stan falasse. —É justo o que suspeitava, Morgan. A filha do nobre espanhol se chamava Luzia, não Carlota. O capitão do Santa Cruz e os sobreviventes de sua tripulação foram recolhidos por outro galeão espanhol e levados a Havana, onde informaram sobre o naufrágio do navio, e do sequestro a Dom Diego de Fujo, governador geral de Cuba. Morgan juntou as pontas dos dedos e assentiu pensativo.

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—Luzia Santiago. Assim não é monja. Sabia que essa bruxa estava mentindo desde o começo. —Parte de sua história é certa, Morgan. Luzia cresceu em um convento, e a tiraram dali contra sua vontade para casá-la com De Fujo. O governador geral estava esperando com impaciência sua inocente noiva. E tornaram a pôr preço a sua cabeça, companheiro. Mil dobrões de ouro. Morgan lançou um assobio. —Tanto? Devem estar loucos por me agarrar. —Mais que loucos, especialmente De Fujo. Sequestrou sua prometida. Despachou imediatamente um navio a Espanha para informar a Dom Eduardo Santiago, o pai de Luzia. Segundo os rumores, Dom Eduardo está furioso pela perda do dote de Luzia. Isso por não mencionar o assunto de sua virgindade. Todo mundo dá por feito que o Diabo já teria violado à moça quando cobrar o resgate e a devolva a sua família. —Que perspicazes —disse Morgan sem que lhe alterasse a voz. Em seu rosto havia um risco que não pressagiava nada de bom para Luzia. —Já sei que eu mesmo, lhe aconselhei que dormisse com ela, mas isso foi antes de me inteirar de sua história. Em tudo isto ela é inocente. Não lhe faça mal. Os pensamentos de Morgan tomaram um rumo sério. —Que não lhe faça mal? Com o bem que me conhece, Stan. Vamos jogar este joguinho até seu triste final, mas te asseguro que vou ganhar. Ao final devolverei a nossa falsa santinha a seu prometido, mas não sem antes tê-la despojado de sua virgindade. E, quando o fizer, asseguro-te que ela participará ativamente. —Não o faça, Morgan, não faça isso a Luzia. Não merece um tratamento tão vil. O que vai passar se lhe faz um filho? Que vida pode esperar a sua volta se a viola? Já sabe quão rígidos são esses mal nascidos espanhóis para estas coisas. Morgan tentou não pensar no que aconteceria se Luzia levasse dentro um filho dele. Sabia que não poderia reclamar um menino que levasse em suas veias sangue espanhol. No que se concentrou foi na lembrança de seus anos de escravidão em um

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galeão espanhol, a base de surras diárias e rações minúsculas, e de que lhe torturassem além do suportável. Ninguém teve piedade dele em todos esses anos, fizeram-lhe sentir-se menos que humano, assim por que ira ele perdoar Luzia? Mas tinha uma razão ainda mais imperiosa para reclamar sua carnal recompensa. Uma que nunca antes tinha compartilhado com ninguém. —Isto não tinha te contado nunca, mas o galeão que atacou ao navio no que viajava com minha família pertencia à frota de Eduardo Santiago. Inclusive cheguei a ver o pai de Luzia uma vez que visitou o navio no que me tinham escravo. Assim tenho que fazer o que manda meu orgulho — Morgan fez uma breve pausa— Vai se ocupar de suas coisas e deixe a mim e a Luzia. Não lhe vou fazer mal físico, se é que isso te tranquiliza. É muito boa atriz, e vou deixar que siga um pouco mais com seu jogo, mas ao final penso sair com a minha. Então sorriu, com um sorriso genuíno, que revelava quanto lhe agradava aquela tarefa que se impôs. A sedução. Se ficava alguma fresta de remorso em algum ponto próximo a seu coração, tentou ignorá-lo. Não ia fazer mal a Luzia, não, não. Ia tecer uma rede de sensualidade ao redor de seus sentidos e ia dar prazer, mais do que jamais houvesse sentido. Para quando terminasse com ela, já a teria feito esquecer-se daquele absurdo empenho de ser monja. Mais tarde, a devolveria a sua família coberta de vergonha, e poderia contá-lo como mais um ato de vingança contra seus inimigos espanhóis. Se ele fosse um selvagem, teria executado imediatamente Luzia, exatamente igual aos compatriotas dela fizeram com sua família. Mas, como havia dito Crawford, Luzia não tinha nenhuma culpa em tudo aquilo, e não lhe desejava nenhum mal. Para falar a verdade, se não tivesse sido pelo muito que a desejava não lhe tocaria nem um cabelo e teria pedido por seu resgate uma quantidade enorme. Mas essa opção a tinha perdido no momento em que a beijou e sentiu desejo.

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—Já está bem de falar de Luzia. Parecia contente Rouge quando a deixou em Havana? —Parecia contente com o dinheiro e os presentes que lhe deu —disse Stan— mas zangada pela forma tão brusca em que te desfez dela. Embora seguro que se arrumará bem, como revestem fazer as de sua classe. —Lançou a Morgan um plácido sorriso — Tem feito a viagem até Cuba muito agradável. É estupenda, Morgan, estupenda. Surpreende-me que dela se desprenda. Quando Luzia se vá, Andros vai ficar muito solitária. Teria que ter deixado por aqui Rouge para te entreter durante suas visitas à ilha. Morgan evocou a imagem de Luzia, os olhos escuros faiscantes de raiva, os cachos negros que lhe cobria a cabeça em encantadora desordem, os lábios viçosos inflamados por seus beijos, e soube que nunca poderia voltar a desejar Rouge como o tinha feito um dia. —Era o melhor —disse, sem dar mais explicação. Luzia e Morgan jantaram essa noite no caramanchão de convidados. A chuva que tinha começado pela tarde continuou até bem entrada a noite. Luzia se revolvia inquieta em seu assento, receosa da forma em que Morgan a estava olhando, como se quisesse comê-la, ao mesmo tempo que o jantar. Ela acreditava que já tinha desistido de tentar seduzi-la, mas algo no mais profundo daqueles olhos azuis a advertiu do contrário. Acaso levava todo esse tempo esperando somente o momento oportuno? Inspirou profundamente e começou a benzer a mesa, um ritual ao que se acostumou no convento e que tinha continuado em Andros. Morgan esperou pacientemente enquanto ela rezava, sem prestar atenção ao feito de que estava alargando o propósito de suas orações mais do que habitual. Algo lhe dizia que essa noite ela ia necessitar toda a ajuda que pudesse conseguir.

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—Terminou já, irmã Luzia? —perguntou-lhe, recalcando o tratamento— Está esfriando a comida. —Sim — disse Luzia, concentrando-se na comida que tinha no prato. Agarrou o garfo e começou a comer. Morgan a contemplava com olhos cheios de calor e de fome. —Passa… passa algo? —perguntou ela, nervosa. —Não; está preciosa esta noite, embora preferiria vê-la com algo um pouco mais colorido. Mas mesmo assim o negro te cai bem. É muito mais atraente que aquele cinza mortiço. Lástima que esteja chovendo. Um passeio pela praia seria a cereja perfeita para um dia esclarecedor como o de hoje. —Esclarecedor? Por que? —Por coisas que não lhe interessam. Diríamos que hoje me inteirei de algo que me agrada. Luzia não gostou do rumo que estava tomando a conversa, assim o desviou. —Hoje vi chegar Glória da Rainha. Voltou o senhor Crawford? Por que não está jantando conosco? —O senhor Crawford está ocupado esta noite. —Ah. Decidiu me liberar? Logo terá que partir para cumprir com seus trabalhos de pirata. —Me deixe a meu ritmo, Irmã, a meu ritmo. Terminou de jantar? Luzia apoiou o garfo no prato. —Sim. —Pois lhe acompanharei a seu quarto. —Não é necessário. Os olhos de Morgan se fizeram prata pura. —Como não. Vem comigo, Irmã. Luzia sabia que estavam sozinhos na casa. Depois de preparar o jantar, Lani tinha ido ao povo para estar com sua própria família. Não voltaria até a manhã seguinte cedo. —Boa noite, Capitão —disse Luzia quando chegaram ante seu dormitório. Morgan elevou a encrespada sobrancelha e abriu a porta. Lani tinha aceso um castiçal antes de partir para passar a noite fora; banhava a habitação um fulgor

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dourado. Quando Luzia entrou e tentou fechar a porta na cara de Morgan, ele a empurrou e entrou também. —Me desculpe enquanto rezo minhas orações —lhe disse ela. Sua voz tremia. A forma em que Morgan a estava olhando lhe produzia formigamentos e ardores. Aproximou-se de sua cama e ajoelhou, para rezar com mais ardor que nunca. Morgan sentou na borda da cama, contemplando-a com um brilho predador nos olhos. Ela rezou larga e intensamente, até que lhe doeram os joelhos e as costas. Morgan não parecia comovido por suas prolongadas preces, a não ser bastante impaciente, enquanto Luzia renovava seus votos de manter-se pura para Deus e lhe pedia forças para resistir à malvada tentação de Satanás. Durante seu desempenho, Morgan sorria sem vontade. —Já está bem, Luzia — disse impaciente ao cabo de um momento. —Por favor, parte de meu dormitório para que eu possa me recolher. —Estou em minha casa, e você é minha… convidada. Irei aonde me agrade. —Sua prisioneira, quer dizer. —Chama-o como quer. Tive mais que paciência contigo. Já sabe você o que quero. —O que quer é violar uma mulher que está reservada a Deus. Os olhos do Morgan cintilaram perigosamente. —Jamais violei a alguma mulher em minha vida, e não tenho intenção de começar agora. Como sabe que a tua é a vida religiosa? Parece um tipo de vida menos apreciável. Até um parvo daria conta de que você é uma criatura sensual, tão pouco apropriada para a vida religiosa como eu mesmo. E eu não sou um parvo. Luzia encheu de ar os pulmões, irada. —Não sei do que esta falando. Até lhe conhecer, jamais tinha beijado alguém. Pareceu-me terrível que me beijasse. — Isso, pensou com determinação Luzia, querendo que ele se inteirasse, de uma vez, do que ela achava de suas tentativas de sedução. — Não sabe? —disse Morgan— Pode ser que não o tenha tentado suficiente. —E agarrando-a pelo braço, levantou-a e a sentou em seu colo.

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—Não me toque! Sou uma serva de Deus! — Morgan se limitou a sorrir. Possivelmente não estava dizendo com suficiente convicção — Me ouviu? Sou uma monja, uma religiosa. —E eu sou um santo. —E sua boca se equilibrou sobre a dela, brincando com a língua em seus lábios antes de cobri-los por completo. Luzia respirava de forma entrecortada. O beijo de Morgan fazia que as palavras que acabava de dizer resultassem ridículas. Em realidade seus beijos não lhe pareciam terríveis: adorava-os. Adorava seu sabor, o calor úmido de sua boca, o aroma doce de seu fôlego, sua excitação. Ia direto ao inferno! Ele a empurrou sobre a cama e se inclinou sobre ela para continuar com renovado ardor o assalto a sua boca. Luzia tentou despertar a raiva e tratou de romper o laço sensual que tendia sobre seus sentidos. Morgan se desprendeu do beijo e lhe lançou um sorriso animal de presa. —Ah, irmã Luzia —disse, voltando a recalcar o tratamento— Não acredito que pudesse suportar que você gostasse de meus beijos. Esqueça de todo esse absurdo de ser monja e te entregue a mim. Eu te darei prazer; um prazer tão grande que virá me pedir mais. Ao encontrar de repente sua boca livre dos eletrizantes beijos de Morgan, recorreu a seu ardor religioso para se proteger do arrumado pirata. Quando Morgan se deslocou com seus beijos para o pescoço e começou a lhe desabotoar por diante o vestido para chegar a seus seios, Luzia invocou em voz alta o nome de Deus, rezando para que a liberasse. Morgan sorriu com lástima, porque sabia que na realidade estava lutando por conservar sua virgindade para seu prometido espanhol. Agora Morgan a tinha submissa. O que ela temia era que se lhe tirasse a inocência, já não poderia casar-se com o grande governador geral de Cuba. Ela e sua família confrontariam uma desonra irremediável, não teriam a menor possibilidade de celebrar um matrimônio

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prestigioso. Decidiu que seria divertido seguir o jogo de Luzia até o final. Mas nem um passo mais à frente. —Tão importante é sua virgindade, santinha? —burlou-se. —É o único que tenho para oferecer a Deus —respondeu fervorosamente Luzia. —Pois, conserva-a um pouquinho mais. —Morgan ficou de pé, perguntando-se quanto tempo poderia suportar seguir com aquele jogo. As vísceras lhe ardiam, a dignidade lhe pulsava dolorosamente — Guarda-a bem, monjinha, durante o tempo que eu lhe permita isso. Quero que saiba que muito em breve lhe vou tirar isso. Luzia o viu sair a grandes passos de seu dormitório, com o medo e o desejo lutando em seu interior. Morgan Scott era a encarnação do Diabo. Tentava-a além do concebível, lhe prometendo coisas que ela só podia imaginar, fazendo-a retorcer de desejo. Quanto tempo ia poder resistir ao poderoso ímã de sua sedução? Por que não conseguia lhe convencer de que a liberasse? Por que não acreditava que era monja? É que tinha visto nela algo que lhe fizesse pensar que estava mentindo? A sedução sutil de Morgan continuava interminavelmente. Era encantador, atento, um professor do pecado e a sensualidade. Pretendia lhe roubar a honra, e ela não podia fazer nada para evitá-lo. Muito em breve, Luzia sabia, sairia com a sua e ela cairia em seus braços como ameixa amadurecida. E o que ia ser dela então? Passaram vários dias sem que nada ocorresse. Morgan soube exatamente quando caiu a gota que encheu seu copo. Foi enquanto ela rezava inclinada sobre a comida. Tinha esperado tudo o que podia muito mais do que nunca se acreditou capaz de esperar. Se Luzia não tivesse continuado desafiando seu desejo com aquele ardor religioso, há muito tempo que a teria feito dele. Mas, agora que sabia que em realidade não era monja, já não havia nada que lhe impedisse de continuar até o final. Quanto antes se deitasse com Luzia, antes poderia devolvê-la desonrada a sua

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família. Tentava convencer a si mesmo que seduzir à filha de Dom Eduardo Santiago acalmaria sua sede de vingança contra aqueles a quem tão apaixonadamente odiava. Essa noite, depois do jantar, Morgan sugeriu que dessem um passeio pela praia. Luzia recusou, recordando o que tinha ocorrido, ou tinha estado a ponto de ocorrer, a última vez que saíram juntos para passear à luz da lua. Mas Morgan se negou a aceitar um não por resposta. Chegaram à praia justo quando a lua saía pelo horizonte do mar. Ele a guiou um trecho por entre as árvores até onde não podiam ser vistos e ali estendeu sua casaca na areia. Luzia duvidou. —Acredito… acredito que vou voltar… Sinto de repente a necessidade de rezar… Ele a agarrou pela cintura e a deitou a seu lado. —Esta vez não vai servir, Luzia. Agora sei. Luzia fixou o olhar nele. —Que sabe o que? —Que é Luzia Santiago, a filha de Dom Eduardo Santiago. Viajava a Havana para se casar com Dom Diego de Fujo, governador geral de Cuba. Seu prometido ficou furioso quando se inteirou de que te tinha sido sequestrada pelo Diabo. Oferecem uma recompensa por minha cabeça. Luzia ficou olhando. —Não, isso não é verdade! A filha de Dom Eduardo era Carlota. Eu não era mais que sua acompanhante. —Não precisa seguir mentindo, Luzia. Enviei Stan Crawford a Havana porque tive a sensação de que estava mentindo desde o começo. Em Havana se falou muito do que

tinha ocorrido ao Santa Cruz, incluído o fato de que a prometida do

governador geral tinha sido sequestrada pelo Diabo. Assim já vê, Luzia, que interpretar esse papel só serviu para atrasar o inevitável. —Não estava interpretando nenhum papel —negou acaloradamente Luzia— É verdade que quero me ser monja. Já o seria se meu pai não me tivesse tirado do convento antes de ter podido fazer os votos definitivos. O matrimônio entre Dom 93


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Diego e eu, já estava acordado há anos, mas eu tinha a esperança de que se suspendesse. Por desgraça, meu pai via as coisas de outra forma. —Elogio sua fé —disse Morgan— mas penso fazê-la minha, por mais horas que passe de joelhos rezando. —Por favor, rogo-lhe isso. Pode obter de meu pai mais dinheiro se me devolver intacta. Ele soltou uma gargalhada. —Pensa que seu prometido vai acreditar que não a tenho feito minha nenhuma só vez? —Dá-me igual o que ele acredita. Eu saberei e Deus saberá. Só espero voltar para o convento e dedicar minha vida ao serviço de Deus. —Não acredito — o tom de Morgan era baixo, sedutor, imperativo— Me beije, Luzia. Me beije com todo o zelo e todo o ardor que dedica a suas rezas. —Não. —Tem medo? —Sim. —E era verdade que tinha. Temia que o pirata chegasse a aquele lugar privado de seu interior que ela considerava santo. Um lugar que ninguém havia chegado antes. Já tinha feito uma ideia do que era o desejo, o ardor. Se permitisse que Morgan a conduzisse ao paraíso, estaria condenada para sempre. E só a queria para desonrá-la, a ela e a sua família. O ódio que sentia por sua gente exigia que a violasse e a devolvesse coberta de vergonha. Não lhe importava, isso Luzia sabia. A vingança era a força motriz de sua vida, controlava todos os aspectos de sua existência. —Não vou lhe fazer mal, Luzia —disse Morgan, levando-a para seus braços— Não tenho nada contra ti além de sua nacionalidade. Em seu momento cobrarei seu resgate e devolverei a seu pai. —Depois de me haver desonrado —disse Luzia com amargura. Ele se levantou e deu a mão a Luzia para que fizesse o mesmo.

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—Vem, não quero que a primeira vez o faça no chão, por muito macia e confortável que esteja a areia. Quero que seja algo memorável, algo que possa recordar com prazer quando voltar junto a seu prometido. Luzia soltou uma risada áspera. —Dom Diego já não me quererá quando me tiver desonrado. —Então poderá voltar para convento como você queria. Terei-te feito um favor. —Não me admitirão. Aquilo deixou perplexo a Morgan. Deveria ter compreendido que a rígida mentalidade espanhola era capaz de castigar a uma mulher pelo pecado que um homem cometesse contra ela. Mas tampouco ia deixar que isso lhe desviasse de seu caminho. Necessitava que Dom Eduardo sofresse, que alguém o fizesse tragar seu orgulho, nem que para consegui-lo, Morgan tivesse que utilizar sua filha. A desonra não seria só para Luzia, mas também para seu pai. Chegariam à casa muito em breve, logo. Luzia atrasou um pouco, mas Morgan a agarrou pelos braços e a levou escada acima até seu dormitório. Deixou-a de pé no chão, passou à porta a chave e a guardou no bolso. Logo se voltou para Luzia, com o rosto desencaixado de desejo. —Sabe quanto tempo levo desejando que chegasse este momento? Luzia tinha ficado sem voz. Viu o olhar voraz daqueles olhos, sentiu como o calor se desdobrava nele, envolvendo-a, e soube que não haveria argumento que pudesse afastar aquele homem do caminho que tinha empreendido. Estava perdida. Deu um passo para trás, e logo outro. Ele a seguiu aproximando-se implacavelmente. Estendeu as mãos para agarrá-la. Ela ficou gelada. Rodeou-a com seus braços. Ela se derreteu. O fogo da pele lhe acendeu o sangue, lhe fundindo até os ossos. Ele a beijava. A ela não lhe ocorria nenhuma prece capaz de conter o tórrido calor que lhe estava forjando dentro. O professor da sensualidade e do pecado tinha conseguido, por fim, abrir espaço até esse lugar de seu interior que vinha negando sua sexualidade.

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—Santo céu, Luzia, que doce, mas que doce é. Não me cansaria nunca de te beijar. Mas há mais, muitas mais coisas que quero te fazer, ou que façamos. Me deixe, monjinha, me deixe. Ela respirou entrecortadamente enquanto Morgan a apertava contra seu corpo. Apoiando as mãos nos ombros de Luzia, sondou-a profundamente com os olhos. —Não sabe o tempo que levo desejando arrancar essa maldita roupa de luto de seu formoso corpo. O vestido foi abrindo por diante à medida que ele ia soltando os botões. Ela tratou de lhe segurar, mas lhe afastou as mãos. Então, deslizou-lhe o vestido pelos ombros abaixo até os quadris, onde ficou um instante detido antes de cair ao chão a seus pés. Seguiram as anáguas. Quando se viu ali de pé em sutiã e meias, Luzia recuperou por fim a voz. —Morgan, rogo-lhe pela última vez, não faça isto. Deus vai lhe castigar. Pertenço-lhe. —A quem pertence é a esse mal nascido do De Fujo. A ele sim lhe daria o que eu estou pedindo. Mas a partir de agora me pertence. Morgan franziu o cenho. De onde diabos lhe tinha saído aquilo? Não tinha o menor desejo de possuir nenhuma mulher, e menos ainda uma bruxa espanhola. —Não quero pertencer a ninguém mais que a Deus. —Te demonstrarei que se equivoca. Então a beijou, e os lábios de ambos se desfizeram em fogo e de ânsia. Os dedos dele trabalhavam rapidamente em despojá-la do sutiã. Afrouxou-o e de um puxão o tirou. Ela soltou um gemido e se rendeu a seu beijo, faminta de seu tato embriagador. Sem desprender-se de sua boca, Morgan lhe rasgou em dois as meias e as arrancou do corpo. Logo a elevou do monte de roupa, em meio do qual estava, e a levou aos braços à cama. Depositou-a com suavidade, liberando por fim sua boca. Luzia deixou escapar um grito. Morgan ficou de pé e ficou contemplando-a, contemplando sua beleza e a perfeição de seu corpo. Tinha os seios do tamanho de suas mãos, cheios, mas firmes,

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com grandes mamilos que teriam posto a prova a prudência de qualquer homem. Era pequena de estatura, mas tinha todas as curvas necessárias. Seus quadris partiam cativantes de uma cintura incrivelmente fina. Tinha as coxas esbeltas e flexíveis, e as panturrilhas e os tornozelos mais torneados que tinha visto em sua vida. Quando por fim se permitiu olhar ao lugar que desejava estar por cima, esteve a ponto de perder o controle de si mesmo, coisa que nunca lhe tinha passado. O escuro triângulo de cabelo encaracolado na conjunção de suas coxas ocultava um tesouro maior do que teria podido imaginar. Pouco a pouco Morgan começou a despir-se. Luzia estava estremecida de pura confusão. Jamais tinha imaginado quão excitante podia resultar mostrar-se nua a um homem. Nem que ela mesma pudesse chegar a estar na situação de olhar o corpo nu de um homem. Queria afastar o olhar dele, mas não podia. Algo perverso em seu interior a empurrava a continuar olhando até saciar-se. Quando Morgan começou a tirar as calças, Luzia não pôde seguir suportando o torvelinho de tensão que lhe estava desencadeando por dentro, e baixou os olhos. Morgan a agarrou pelo queixo e lhe fez levantar o rosto. —Tem medo de me olhar, Luzia? —perguntou— Não afaste a vista. Quero que goste tanto como eu gosto de você. Seu corpo é a perfeição, exatamente como eu imaginava. Deixou cair às calças e Luzia, pela impressão, deu um pulo. Era a primeira vez em sua vida que via um homem excitado nu. Pareceu-lhe imponente. Pareceu-lhe temível. Pareceu-lhe muito grande. —Você sabe o que vou fazer, querida? — O apelido carinhoso surpreendeu a Luzia. Negou com a cabeça — Ninguém te explicou o que ia ocorrer no leito de bodas? —Ela voltou a negar com a cabeça— Jesus! Bom, pois relaxe, que lhe irei explicando sobre o que acontecerá. Deitou-se junto a ela, e a acariciou, e beijou seus seios. Lambeu-lhe os mamilos, e ela se agitou convulsivamente.

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—Os homens têm muitas formas de fazer com que uma mulher se excite — disse Morgan com tom lírico— Esta é só uma delas. Antes que acabe a noite exploraremos outras possibilidades. Nos olhos de Luzia havia um brilho de incredulidade. —E para que quer um homem que uma mulher se excite? Acreditei que só lhes interessava seu próprio prazer. Morgan soltou uma risadinha. —A alguns homens, pode ser que sim, mas a mim não. A metade do prazer consiste em levar a uma mulher, pouco a pouco até o clímax. Essas palavras a deixaram confusa fizeram-lhe dar-se conta do longe que estava de seu próprio ambiente. Também se deu conta de que tinha que fazer um último esforço para deter aquele Diabo que queria levar-la à perdição. —Eu não quero isso. Esse clímax de que fala. Isso é pecado. Me deixe partir e eu me encarregarei de que meu pai lhe pague o dobro do resgate que peça por mim. —É muito tarde, Luzia. Bom, por onde íamos? Ah, sim, o clímax. Quando o alcança, é como uma pequena morte. Assim o chamam os franceses. O que se sente é difícil de explicar, será melhor que o experimente por si mesma para entendê-lo. Inclinou a cabeça sobre seus seios, e desta vez, em lugar de limitar-se a lhe lamber e lhe beijar os mamilos, meteu um deles na boca e o chupou, enquanto lhe acariciava o outro com o polegar e o indicador. Luzia gritou, arqueando-se contra ele. Aquilo não podia estar acontecendo a ela. O único que ela tinha desejado sempre era ser monja. Como podia permitir que um pirata arrogante a seduzisse? A resposta era turbadora até o extremo, de repente, nada lhe importava exceto aquele homem e os pecaminosos sentimentos que despertava nela. E o clímax… queria experimentá-lo nos braços de Morgan Scott. O pirata. A perdição das mulheres. O professor do pecado e da sedução. Seu amante. Aqueles gritinhos estavam saindo de sua própria boca, ou ela estava sonhando? Era sua imaginação o relâmpago de fogo que a percorria enquanto ele fazia um 98


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banquete com seus seios, enquanto lhe devorava os mamilos? Esticou-se contra ele, assombrada das chamas que a estavam consumindo. Sentiu que se derretia até a medula dos ossos, sentiu que lhe fervia o sangue. E quando pensava que tinha experimentado o prazer máximo, ele acrescentou uma dimensão nova a sua tortura amorosa. Suas mãos riscaram atalhos de fogo líquido em seus lábios, seu estômago, por seus quadris, avançando inequivocamente para o lugar suave e úmido entre suas pernas. Seus dedos se separaram dela para deslizar-se ao longo de sua escorregadia fenda, comprovando que ela estava preparada. Morgan tomava fôlego pelo esforço que estava tendo em conter seu ardor enquanto punha Luzia pronta. Ela em resposta gemia, com um torvelinho de necessidade lhe brotando do centro de seu ser. —Não faça isso, não posso… não posso suportá-lo. —É tudo parte do jogo amoroso, querida. Supõe-se que devemos continuar até que esteja preparada. Luzia se agitou violentamente quando o dedo dele encontrou um ponto especialmente vulnerável escondido entre as úmidas dobras de sua feminilidade. —Preparada para que? Morgan soltou um suspiro. Que Deus lhe liberasse de virgens ignorantes. —Refiro-me a que esteja bastante úmida e bastante quente para que eu possa me introduzir dentro de ti. —A dura protuberância de meu sexo se apertava contra o estômago de Luzia, lhe proporcionando uma ideia exata de que parte de seu corpo era com a que pensava deflorá-la. —Deus, não! Isso é impossível! É muito… —Se ruborizou até a raiz do cabelo— É muito grande. Me irá matar. —Confia em mim. Para distrair sua mente daqueles pensamentos Morgan a beijou a fundo, imperiosamente, lhe introduzindo a língua na boca. Deus, pensou Luzia, sentiriam as mulheres decentes tão fortes emoções? Sem intervenção de sua vontade, seus dedos se enredaram no abundante cabelo de

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Morgan, e logo desceram por seus ombros tensos e musculosos. Sentiu sob os dedos a carne vibrante da vida, igual ao próprio homem. Que Deus me ampare, rezou, preparando-se para entregar sua virtude ao Diabo. Um instante mais e ele teria acabado com sua inocência, justificando o nome que tinha eleito em sua busca de vingança. O Diabo.

Capítulo 7

A língua de Morgan perambulava lenta e calidamente pela pele do estômago

de Luzia. Ela gemia e tratava de escapulir, para voltar a encontrar-se sem dar-se conta cada vez mais pega à tortura de sua boca. Tratou de negar os sentimentos que lhe brotavam de dentro, mas lhe falhou a vontade. Ele tinha as mãos entre suas coxas e seguia subindo, com os dedos úmidos nela. —O que está me fazendo? —gritou-lhe com desvario. A embriagadora sedução daquelas mãos e aquela boca estavam pulverizando seus sentidos, e a reconciliava com o fato de que Morgan estava decidido a sair-se com a sua. E inclusive quando já não podia conter um anseio estranho, seguiu tendo a curiosidade suficiente para querer inteirar-se de tudo o que lhe estava fazendo, de tudo o que estava passando entre os dois. Morgan soltou um grunhido e levantou o rosto. —Faz muitas perguntas. — E deslizou um dedo em seu interior, avançando com seus beijos quadril abaixo. 100


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—Morgan! O que esta fazendo? Diga-me isso. Ele suspirou profundamente. —Estou te preparando para mim. Quanto mais úmida esteja, menos dano te vai fazer quando me colocar por fim dentro de ti. É muito pequena, querida, tenta relaxar. Luzia afogou um sufoco. —Se não quer me fazer dano, então não me faça isto. —Isso é como me pedir que deixe de respirar. Sentiu a provocação dos beijos de Morgan entre as coxas. Suas carícias semeavam nela fogo líquido, tão íntimas, tão absorventes, que ficou tremendo. Ele começou a mover o dedo de dentro para fora, primeiro devagar, logo mais depressa. Ela gemia e se contorcia contra a ardente pressão de sua mão, aguilhoada por assombrosos fragmentos de êxtase. —Em seguida, querida, em seguida — disse ele com voz cristalina. Então encontrou com a língua aquele botão sensível escondido entre suas viçosas dobras e ela se avivou, gritando seu nome em ofegante súplica. Inominável era o esplendor que estava disparando nela— Agora — Morgan respirava entrecortadamente— Ah, sim, agora. Subiu nela, ela, contemplava seu rosto assombrada. —Vou colocar-me dentro de ti, Luzia. Pode que esta parte lhe doa, mas serei tão suave quanto possa. Ao princípio ela não entendeu o que dizia, mas assim que o fez sacudiu a cabeça com força. —Nãooooo! É muito… Eu sou muito… Isso não vai poder ser. —Confia em mim —a tranquilizou ele— Ocorre todos os dias. Há meninas que se casam com treze anos e sobrevivem a isto. A maioria acaba desfrutando disso. E agora, querida, me olhe: quero ver seu rosto enquanto a penetro. Uniu seu corpo ao dela, enquanto sua carne tensa e escorregadia se abria cuidadosamente. Seu olhar de prata se travou no de Luzia enquanto fazia enorme força entre as coxas desdobradas dela. Empurrou em seu interior a aguda

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protuberância de seu sexo, logo fez uma pausa e voltou a empurrar. Luzia ficou rígida, tratando de se desfazer do peso dele, desesperando-se por evitar aquele ajuntamento. —Relaxe, querida — sussurrou ele com os lábios pegos aos seus. Logo arqueou os quadris e voltou a empurrar, transpassando o pêlo púbico de Luzia— Já estou dentro! — exclamou exultante. Dor. Implacável. Prolongada. As lágrimas lhe amontoaram nos olhos. E tiveram sabor de sal. —P… para! Está me matando. — Esticou e arqueou o corpo em uma tentativa de tirar Morgan de cima. —Calma —murmurou ele— Calma. Prometo que não vai doer muito tempo. — Fez uns movimentos tentativos, e Luzia estremeceu. É que não havia forma de escapar daquela tortura? —Como dói, oh, Deus, como dói. —Agora não posso parar, querida. Afastou-lhe com a mão o cabelo moreno da testa úmida e a beijou com ternura, lhe dando tempo para que se acostumasse a aquela intrusão em seu corpo virgem. Seguiu beijando-a até que ela começou a relaxar e a lhe devolver os beijos, e então empurrou para dentro, devagar, e logo para fora. Ela gemeu, mas não opôs resistência a aquele balanço sutil. Estava assombrada pela suavidade de Morgan, do tenro cuidado com que a estava tratando. Duvidava que o homem ao que estava prometida tivesse sido tão carinhoso, tão atento com ela em sua noite de bodas. Sentia-se quase como se fosse a noiva de Morgan. Ao Morgan brilhava a testa de suor, do que também ia empapando o corpo em sua luta contra o impulso de penetrá-la até o final. Não deveria preocupar-se tanto pela comodidade ou o prazer de Luzia, disse a si mesmo. Deveria fazer o que lhe exigia o corpo e ao demônio com aquela mulher. Ela era espanhola. E era a filha do homem ao que ele tinha todos os motivos para desprezar. 102


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Mas também era uma doce inocente que estava utilizando para saciar sua sede de vingança ao mesmo tempo em que sua luxúria. Deus! Algumas vezes odiava a si mesmo. —Morgan? —exalou ela, devagar. Ele soube o que ela queria lhe perguntar. —Quero te levar ao clímax —lhe disse— Quero te agradar. Dói muito ainda? Ela sentia a plenitude de sua virilidade em seu interior e suportava aquele sutil movimento com o que ele ia penetrando mais a fundo. Tão lento, tão cuidadoso, tão suave. Tão sedutor. A dor lhe rondava ainda as margens da consciência, mas estava desvanecendo velozmente. —Já não me dói tanto, mas… não sei como chegar ao clímax. —Eu vou levá-la a alcançá-lo. Não resista a senti-lo, e virá. É de sangue quente, Luzia, suspeitei-o desde o começo. Se mova para mim. Ah, isso é —disse, segurando-a pelos quadris para cravar-se mais fundo — Segue te movendo, não pare. De repente, tocou algo dentro dela. Algo que ela não sabia que existia. Ela deu um pulo e se arqueou para ele, convidando a sua endurecida prolongação a entrar ainda mais, enquanto ele estremecia e se esticava, para dentro e para fora, uma e outra vez. Movia-se devagar, logo com desenfreio, logo outra vez devagar, penetrando e retrocedendo, ágil, seguro, magistral. Luzia se deu conta de que a dor tinha desaparecido, substituída por uma pontada nova, mais prazerosa. Uma pontada que a abrasava como fogo nas veias. Fechou os olhos e deixou que aquele sentimento a invadisse, transbordasse. Já lhe vinha. Estava perto, muito perto. Elevando-se, girando, formando redemoinhos. Um doce esplendor se elevou desde seu ponto de união em ondas concêntricas. Já lhe vinha… Gritou e estalou em uma explosão de algo que de tão incrível resultava indescritível. Chamá-lo sem mais de agrado teria sido não lhe fazer justiça. Então Morgan começou a empurrar com urgência, com a tensão tão a flor da pele que seus braços pareciam barras de aço. Levantou Luzia para ele, levando seus seios à boca. Parecia vagamente consciente de que lhe tinha ocorrido algo 103


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assombroso, mas agora estava enfocado em seu próprio prazer. Estremeceu-se contra ela e, em sua escorregadia umidade, voltou a estremecer-se e rendeu sua semente. Então ficou quieto. Sentiu que algo lhe empurrava, e soltou um grunhido. Sentia-se débil e necessitado como um gatinho. Surpreso ainda pelo mais incrível clímax que tinha chegado em sua vida, Morgan se precaveu de que seguia convexo em cima de Luzia. Reticente, saiu de seu corpo e se estendeu junto a ela. —Está bem? —perguntou-lhe, solícito— Te doeu muito? —Sim, tem-me feito mal — disse Luzia. O rosto lhe ardia de vergonha ao acrescentar — Mas… mas, a dor não durou muito. O que passou? Nunca havia sentido nada parecido. O que me tem feito? —Teria sido Dom Diego um amante tão tenro como Morgan? Tinha suas dúvidas. Morgan lhe dedicou um sorriso maroto. —Levei-te ao clímax. Não foi tão maravilhoso como te havia dito? Luzia ficou pensativa. —Foi… agradável. — Acabava de decidir que ele se passava de arrogante — Acontece com todas as mulheres? Poderia me levar a senti-lo qualquer homem? Morgan franziu o cenho. Só agradável? O pensamento de que outro homem, qualquer homem, pudesse agradar a Luzia lhe irritava. Não, enfurecia-lhe. Ele tinha sido o primeiro, e lhe pertencia. —Morgan… —Ah, sim, suas perguntas. Bom, todas as mulheres podem chegar ao clímax, mas isso não ocorre sempre. Depende em grande parte do homem. E sobre sua segunda pergunta, não sei. É possível que outro homem te possa proporcionar prazer. —Está me dizendo que em… nisto é melhor que outros homens? —Deus, que inocente é. —Já não — disse Luzia com pesar. —Não, já não. Nunca ninguém se queixou de minhas técnicas. Parece que à maioria das mulheres gostam de minha forma de fazer amor. Luzia não gostava de ouvir falar das outras mulheres com as que se deitou.

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—Me vai devolver agora a meu pai? Fez contato com ele para fixar meu resgate? —Ainda não, mas o farei muito em breve. Enquanto isso vou seguir desfrutando de ti enquanto progridem as negociações. Quando me tiver satisfeito a devolverei a seu pai. Luzia se incorporou bruscamente. —Fez o pior que me podia fazer. Perdi minha inocência. Para que te posso servir agora? Deixe-me voltar para casa e arrepender de meus pecados em paz e solidão. Já não posso me casar nem me retirar ao convento. Espero que meu pai me admita no santuário de sua casa para me arrepender ali de meus pecados. Morgan sentiu que a ira despertava em seu interior. —Seus pecados! Mas se você não tem feito nada. Não tinha nada que fazer contra mim. Sabia que era só questão de tempo que te fizesse minha. —O pecado foi meu. Eu não tinha que ter desfrutado. A tensão de Morgan se afrouxou. Um sorriso lhe rondava as comissuras dos lábios. —Você é inocente de verdade, Luzia. Não teve escolha. Eu estava decidido a te arrancar uma resposta, e isso tenho feito. Transbordando todas minhas expectativas. Lhe olhou duvidosa. Teria desejado que ele não a estivesse observando com aqueles olhos acordados e inteligentes. Tinha a habilidade de sondá-la no mais fundo para encontrar esse ponto vulnerável que nenhum homem antes havia tocado. E isso ela não podia suportar. Deliberadamente se voltou, lhe dando as costas. —Vai, me deixe medir meus pecados em privado. Aquilo fez que Morgan se zangasse. Obrigou-a a voltar o rosto para ele. —Não. A partir de agora e até que a libere, sua cama vai ser a minha, e comigo nela. Já tive o bastante dessas infernais rezas. Quero voltar a te amar. Agora. —É que não me tem feito mal suficiente? —Já lhe falei que não vai voltar a doer. —Não estou falando de dor física. Morgan pregou uma sobrancelha. —Não vai negar que te dei prazer.

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—Você não o entende, verdade? Sim, deu-me prazer, mas isso não é nada em comparação com o que tirou a minha honra. Para você não sou mais que um instrumento de vingança. Vai saciar de mim e logo me mandará longe. Prazer! Já! Nem que me desse prazer todas as noites poderia me compensar pelo que me arrebatou. —Dá um valor excessivo a sua virgindade. Nunca quis machucá-la pessoalmente. Mas é espanhola. — disse, como se isso o explicasse tudo. —Por que tem esse ódio aos espanhóis? O que lhe têm feito? Foi como se sua pergunta tivesse aberto um dique dentro dele. —O que me têm feito? Roubaram-me cinco anos de minha vida. Mataram a meus pais e a meus irmãos menores. Fizeram-me escravo, açoitaram-me e me mataram de fome. Desde o dia em que nos abordaram, minha vida se converteu em um inferno. O navio no que estive prisioneiro era da frota de seu pai. Luzia abriu os olhos com incredulidade. —Não! Ele não teria permitido uma coisa assim a bordo de um navio dele! —Mas que ingênua é.—grunhiu Morgan — Essas coisas ocorrem todo o tempo. Quer ver uma amostra do trabalho que me fizeram seus compatriotas? Voltou para ela as costas, lhe mostrando grossas cicatrizes que se entre cruzavam em um desenho que só um látego teria podido produzir. E tinha que ter sido em mais de uma ocasião. Luzia tampou a boca com a mão. —Deus! Não! —Olha-o bem, Luzia, para não ter que seguir se perguntando por que odeio os espanhóis. Incapaz de suportar a visão das costas severamente maltratada de Morgan, ela afastou os olhos. —Sinto-o muito. —Eu também. Crê que tenho culpa de querer te usar para castigar a seu pai? —Pelo que tem a culpa é de colocar a mim nessa vingança contra meu pai e meu país. Agora que já conseguiu me levar a perdição e humilhar a minha família, sugiro que me deixe partir.

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—Não. Ainda não. A vingança é só uma das razões pelas quais está em minha cama. Desejo-te. Desejei-te no momento em que a vi rezando de joelhos. Sei que você me odeia, mas não sou capaz de evitá-lo. Tem que ser uma bruxa para produzir esse efeito em mim. Ainda não chegou o momento de te devolver a sua casa, querida. Ela voltou o rosto para ele, com os olhos escuros cintilando emoção. —Equivoca-te, Morgan. Eu não te odeio. Compadeço-te. Posso entender o ódio que sente por meus patrícios e inclusive te perdoar, como faria Deus. Deste-me a provar a paixão, mas eu sigo desejando a paz e a harmonia do convento, onde os assuntos mundanos não conseguiam me tocar. A minha volta, possivelmente possa convencer meu pai de que faça uma generosa doação à ordem. Se o fizer, voltarão a me aceitar embora esteja em pecado. Vou rezar para que isso ocorra. Que lhe compadecia? Quão último Morgan queria dela era compaixão. —Você não é feita para o convento. —E para que sirvo? Surpreso por aquela pergunta, Morgan meditou com cuidado a resposta. —No momento, para ficar aqui em minha cama. O Vingador já está preparado para ir ao mar outra vez. Vou enviar o senhor Crawford no comando, enquanto eu fico em Andros me ocupando de meus negócios. Levará a seu pai o pedido de resgate e esperará que lhe faça entregar o pagamento por sua liberação. Não deve levar mais que um par de meses. —Morgan, eu… —Luzia, não há nada mais que dizer — Morgan não queria pensar no dia em que tivesse que mandar Luzia a sua casa. Sabia que esse dia ia chegar antes do que lhe tivesse gostado, e por isso preferia concentrar sua atenção na mulher que tinha em seus braços. Voltaria a fazê-la sua uma e outra vez, e quando o Vingador voltasse a enviaria a seu pai, bem usada. Luzia soltou um grito de protesto quando Morgan a puxou, fazendo-a apertarse contra ele. Emudeceu-a com a boca, beijando-a até deixá-la sem fôlego para negar-

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se a ele. E ela então respondeu a seus beijos, lhe correspondendo com um ardor renovado, emocionada de ver que ela mesma queria repetir aquilo. Morgan a tinha deixado entrever algo que nunca teria esperado chegar a experimentar. Tinha-lhe iniciado em um prazer que rasgava a alma. E um pouco mais profundo. Algo que ela estava receosa a reconhecer. Mas então todos seus pensamentos se detiveram, enquanto as mãos e a boca de Morgan riscavam signos mágicos sobre sua pele. Esta vez não sentiu dor quando ele se deslizou em seu interior e começou a mover-se com deliciosa suavidade. Não sentiu mais que o esplêndido despertar de seu corpo e um clímax explosivo que a deixou enfeitiçada. Stan Crawford e toda sua tripulação saíram ao dia seguinte no Vingador, deixando em terra Morgan e os que estavam acostumados a ficar na ilha atendendo a plantação. Dois dias depois de que o Vingador partiu de Andros, o Glorifica da Rainha zarpava para a Inglaterra carregado de madeira. Durante os longos e calorosos dias, Morgan trabalhava com os nativos, deixando a Luzia um tempo de solidão de sobra para pensar nele, e no prazer carnal que lhe proporcionava. Os pecados de Luzia eram muitos, mas, o mais grave de todos era que desfrutava passando as noites na cama de Morgan. Apesar do muito que ele odiava aos espanhóis, com ela não tinha sido brutal; mas o contrário. Era sempre cuidadoso e atento, e sempre se preocupava em lhe proporcionar prazer antes de procurar o seu próprio. Ela já não era quão inocente tinha sido um dia. Tinha aprendido muitíssimo sobre os beijos e a excitação e o clímax. Especialmente sobre o clímax, que, conforme tinha descoberto, era um estado ao que a maior parte dos homens e as mulheres aspiram por cima de qualquer outro. Odiava ainda ao Morgan? Algumas vezes sim, admitia-o. Mas, mais frequentemente, outro sentimento lhe deixava pouco espaço para o ódio. Um sentimento que a ajudava a compreender o intrincado das relações entre os homens

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e as mulheres. Deu-se conta de que o que sentia pelo Morgan estava em um plano mais alto que a satisfação física. Luzia preferia não lhe buscar nome. Além disso, que ódio podia sentir para um homem que tinha razões mais que suficientes para desprezar aos responsáveis pela morte de sua família. Ele tinha que ser muito jovem quando sua família foi assassinada e o agarraram como escravo. O ódio tinha enraizado nele tão profundamente para dedicar sua vida a vingar-se de seus inimigos. Fazendo amor com Morgan durante as noites cálidas e amaciadas de Andros, Luzia vislumbrava o paraíso. Mas depois, quando ele finalmente ficava dormido, deitado junto a ela, exausto de satisfação, ela sumia no pior inferno imaginável. Sabia que quando a devolvesse a seu pai ele a esqueceria como se nunca a tivesse conhecido. Ela não significava nada para ele. Estava-a utilizando para humilhar seu pai. E mesmo assim, quando ele se voltava para ela no escuro da noite, envolvia-se desejosa em seus braços, consciente de que ia ter por diante longos anos de solidão para poder arrepender-se.

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Capítulo 8 Cádiz, Espanha

—Nos dê um navio, pai, e lhe traremos a cabeça do Diabo metida em um cesto —jurou Arturo Santiago. —Sim, pai; fala-se que o pirata tem sua casa em Andros quando não está pelos oceanos, mandando navios espanhóis ao fundo do mar, ou na Inglaterra, alardeando de suas façanhas —disse Celestino, fazendo eco de seu irmão — Se o rei Felipe não estivesse ocupado em reunir, armar e aprovisionar uma grande armada para enfrentar a Inglaterra, já teria mandado uma expedição a Andros para liquidar a esse pirata. Por desgraça, nosso rei está amarrado de pés e mãos e não pode financiar mais que uma expedição. —Recuperaremos Luzia e seu dote sem a ajuda do rei Felipe, e nos encarregaremos pessoalmente de mandar o Diabo à perdição —prometeu Arturo. Os filhos de Eduardo Santiago eram espanhóis de sangue quente e estavam sedentos de luta. Acabava de chegar de Havana a notícia que o Santa Maria foi conquistado e Luzia tinha sido raptada pelo Diabo. Tanto Luzia como seu dote tinham desaparecido. Agora seus irmãos reclamavam acaloradamente o sangue de Morgan e a vingança. —Não nos precipitemos. Possivelmente deveríamos esperar que nos peça um resgate —sugeriu Dom Eduardo. —Não podemos esperar tanto —cuspiu Arturo— Enquanto nós estamos aqui sentados sem fazer nada, esse canalha está desonrando a nossa irmã. Dom Diego já não a quer, isso sabemos todos. —Certamente o pirata sabe quão valiosa é nossa irmã —disse Celestino, o mais judicioso dos dois irmãos— É possível que não lhe arrebate a virgindade, sabendo

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que com isso diminui o valor que ela tem para nós. Por isso devemos atuar com rapidez, e lhe atacar quando menos se espere. —Sim —concordou, impaciente, Arturo— Se nos dá um navio e cinquenta homens, resgataremos Luzia e a levaremos a seu prometido a Havana, com seu dote intacto —acrescentou. —E o que passa com sua reputação? —perguntou Dom Eduardo— Dom Diego poderia não querer Luzia, inclusive se por algum milagre o Diabo respeitou sua virgindade. As pessoas falarão, correrão rumores sobre seu sequestro que nem sequer o governador geral poderá cortar. —Duplique a soma do dote —aconselhou Celestino— e a levaremos conosco. Dom Diego é muito preparado para rechaçar semelhante oferta. —Estão seguros de que poderão encontrar a ilha de Andros? —perguntou Dom Eduardo, mordaz. —Nos dê um capitão que conheça essas águas e a encontraremos —lhe assegurou Arturo— Nos aproximaremos em uma noite sem lua, atacaremos quando menos o espere. —Isso poderia funcionar —murmurou Dom Eduardo, depois de refletir cuidadosamente sobre o assunto — Sim, devem pilhar Andros. Mas em lugar de matar a esse mal nascido, levem-no a Havana. Terá que reservar a Dom Diego o prazer de matá-lo. Luzia é sua prometida; ele é o mais prejudicado por seu sequestro. —Sim, pai, faremos como disse —assentiu Celestino — Tenho a certeza de que ele está ainda em Andros. Não terá enviado seu pedido de resgate ou ter recebido uma resposta. Quando partimos? —Vou fazer os preparativos. O Santa Maria está agora no porto. Me deem um dia e uma noite para aprovisioná-lo, encontrar os homens que necessitam e tirar de minhas arcas recursos adicionais para aumentar o dote de Luzia o bastante para que Dom Diego ache a oferta ainda apetitosa. —Não lhe falharemos, pai —prometeu Arturo— Resgataremos a nossa irmã e a depositaremos em mãos de seu prometido. 111


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Andros, Ilhas Bahamas Três semanas mais tarde Abrindo-lhe as coxas com os joelhos, Morgan apertou para o interior de Luzia, enchendo-a de sua força, e fazendo que um suave suspiro aparecesse em seus lábios. A boca dele tomou sua boca, enfebrecida, urgente, enquanto seus quadris se moviam em um sedutor convite. Luzia lhe respondia arqueando-se para ele, levando-o mais para dentro de sua melosa doçura. Morgan deixou escapar um grunhido; o sabor e o calor de Luzia lhe punham louco por liberar-se. Seus bronzeados ombros brilhavam de suor, e as diretas linhas que desenhavam seu rosto revelavam o alto grau de auto controle que estava exercendo. O que tinha Luzia que o fazia desejá-la com todas suas forças?, perguntava-se, e não pela primeira vez. Não se cansava nunca de penetrá-la, de fazê-la sua uma e outra vez. Não tinha mais que olhá-la para desejá-la. Depois que ele descobriu sua verdadeira identidade, tinha aceitado colocar sua própria roupa, muito mais bonita, e algumas vezes um espartilho que Lani lhe tinha dado. Ele gostava de vê-la com o espartilho, com os pés e os ombros descalços, os magníficos seios liberados de sua férrea armação. Inclusive com o cabelo curto, ela era uma grande beleza. E por mais que ele tratasse desesperadamente de negar o feitiço que ela desdobrava sobre seus sentidos, seu corpo reagia à mínima. Gemendo brandamente entre os dentes, Luzia se sentiu transportada em um redemoinho inverificado. Os lábios de Morgan foram de sua boca a seus seios, lambendo e chupando os mamilos, levando-a cada vez mais perto desse momento de êxtase para o que se debatia seu corpo. Já não tinha medo desse momento de esplendor suspenso em que explodiria em um clímax fulminante. Já não era tão

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inocente como tinha sido, porque sua virtude tinha ficado completamente comprometida. Morgan tinha se encarregado de que assim fosse. Apesar de sua inexperiência, a Luzia não cabia dúvida de que Morgan era um amante incrível. Um amante insaciável e exigente que a mantinha enfeitiçada nas redes de sua sedução. Morgan esbanjava tenros carinhos aos mamilos de Luzia, deleitando-se na forma em que ela gemia e se arqueava para ele. Levantou o rosto de seu suculento banquete e a contemplou intensamente. —Eu adoro seus mamilos — Em sua voz rouca proliferava seu desejo por dela— Tão grandes e rosados, como se reclamassem minha atenção. É deliciosa, Luzia, não poderia ter desejado uma amante melhor. — Introduziu-se mais a fundo, para retroceder logo, dentro, fora. O suor que gotejava de seu rosto caía sobre os seios dela— Agora, querida, agora! Luzia mal ouvia suas palavras. Estava tratando de alcançar aquele prazer a que só Morgan podia levá-la. Estava convencida de que nenhum outro homem tinha o poder de elevá-la a alturas tão impressionantes. Em algum ponto do caminho, o muito traidor de seu corpo tinha apunhalado seus altos ideais. Seu pecado se fazia mais grave cada vez que caía entre seus braços e voltava a deleitar-se com sua forma de fazer amor. Mas ela sabia que chegaria um dia em que teria que arrepender-se de seus pecados, e enfrentar o que Morgan a estava utilizando sem mais. Ele era um potente e sensual pirata que tomava às mulheres a seu desejo e logo, com a mesma facilidade, desprezava-as, como tinha descartado Rouge. De repente, os pensamentos de Luzia se dispersaram; os quadris de Morgan bombeavam vigorosamente, projetando-a mais além do limite. Agarrou-lhe com força os ombros e gritou. Seu corpo estremecia, percorrido por sucessivas ondas de puro prazer. Depois de espremer até a última gota de prazer, Morgan se precipitou para seu próprio clímax, vertendo sua semente em uma violenta corrida para o êxtase.

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Passaram alguns minutos antes que Morgan afrouxasse e se acomodasse ao lado de Luzia. Não falou; não era capaz. Como sempre, fazer amor a Luzia lhe afetava de uma forma que lhe resultava alarmante. Reconhecia que jamais, desde que se converteu em adulto, tinha tido uma mulher com tanta repercussão em sua vida. E, entretanto, por mais que fizesse recontagem das muitas formas em que Luzia lhe inspirava e lhe excitava, sabia que teria que deixá-la partir muito em breve. Stan Crawford voltaria com o resgate, e ele mandaria Luzia de volta com os seus. Por mais oceanos que os separassem, não ia esquecer nunca aquela mulher espanhola que, aspirando à santidade, tinha tido que conformar-se com o paraíso. Luzia sentiu que Morgan saía dela e se voltava de costas. Sentiu vivamente como um rechaço. Era o bastante aguda para dar-se conta de que se ele a desejava fisicamente era porque negava de plano o que ela era. Não havia nada que pudesse mudar sua ascendência espanhola, ou o fato de que era filha de seu pai. Decidiu não romper a precária paz que havia entre eles, e voltando-se de rosto à parede se entregou ao sono. Em algum momento da noite, Morgan se abraçou a seu corpo nu, segurando-a forte, como se temesse que a fossem arrancar das mãos. O Santa Maria entrou navegando na baía, ao abrigo da noite sem lua. A ilha de Andros jazia dormindo e quieta. Nenhum movimento na praia. O navio jogou a âncora a pouca distância da borda, e arriaram dois botes para que desembarcasse uma partida de homens armados. Com Arturo e Celestino à cabeça, a expedição se dirigiu a terra entre o deslizar silencioso dos remos pela água. Pararam os botes na praia, arrastando-os até pô-los a resguardo entre a praia e as árvores. Arturo conduziu a metade dos homens em uma direção enquanto outros seguiam Celestino em outra. Como era pouco o que se sabia de Andros, os dois grupos procuravam a guarida do Diabo. Os espanhóis não tinham encontrado nenhum navio na pequena baía, e isso podia ser bom ou mau sinal. Podia significar que o Diabo já não estava na 114


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ilha, o que seria mau se tinha levado consigo Luzia. Se tinham sorte, igual podia significar que o Diabo tinha despachado seu navio sem levá-lo ele mesmo e que o iriam encontrar em sua casa dormindo como um bendito. Que a praia não estivesse vigiada surpreendeu aos dois irmãos, mas não lhes impediu de seguir internando-se na ilha. Foi Arturo quem encontrou um caminho entre as árvores. Conduziu seus homens sem fazer ruído através da noite tenebrosa e se viu recompensado quando em uma clareira do bosque apareceu ante eles uma casa campestre. Não havia vigilantes à vista, e a Arturo pareceu uma estupidez por parte do Diabo não estar prevenido para uma invasão. Mas claro, como saberia ele que os Santiago eram capazes de assaltar sua ilha para recuperar o que lhes tinha roubado. Andros ficava longe de todas as partes e estranha vez passava por ali algum navio. Arturo encontrou a porta sem trancar e fez a seus homens um gesto para que entrassem, mofando-se outra vez daquela falta de cuidado. Subiu devagar as escadas, com seus homens lhe pisando os calcanhares. Andavam muito calados e com muito cuidado. O candelabro que Lani estava acostumada a deixar na mesinha que havia ao final da escada, lhes iluminou o caminho. Arturo abriu a primeira porta que encontrou e olhou para dentro. As dobradiças chiaram; ficou imóvel um instante. O quarto estava vazio, e seguiram adiante. Mais à frente, Arturo entreabriu outra porta do corredor e contemplou o interior. Ao ver na cama uma sombria figura, abriu de um golpe a porta com um estrépito terminante. Um de seus homens tinha pego um candelabro da mesinha do corredor e o introduziu no dormitório, lhe proporcionando luz suficiente para ver dois corpos nus intimamente entrelaçados na cama. —Que mal nascido! Que asqueroso mal nascido! Vai pagar por ter desonrado a minha irmã!

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Morgan se endireitou de um salto. Custou-lhe um instante esclarecer seus pensamentos, e quando o fez amaldiçoou a si mesmo por ter sido tão idiota. Tentou alcançar sua espada, que nunca deixava muito longe, mas já era muito tarde. Em um abrir e fechar de olhos lhe jogaram em cima mais homens dos que podia contar. Luzia soltou um grito e tratou de tampar-se com o lençol. Os intrusos a olhavam com lascívia, e o pânico se apoderou dela. Teriam invadido a ilha brutais piratas, ou nativos pouco amistosos? Deu um pulo quando reconheceu seu irmão, e supôs que o tinham enviado para resgatá-la. —Se cubra —grunhiu Arturo, lançando a Luzia um olhar violento e carrancudo — O que foi minha inocente irmã? E então aconteceu tudo tão rápido que Luzia mal teve tempo de pensar, e muito menos de falar. Os seguidores de Arturo investiram contra Morgan, e ao mesmo tempo Arturo arrastou Luzia para fora da cama. Teve que contemplar com horror crescente a surra que deram a Morgan até deixá-lo inconsciente. —Levem-na ao navio — ordenou Arturo a seus homens. Logo voltou a atenção para Luzia— Onde está sua roupa? —Há um baú em meu dormitório —assinalava para um quarto no fundo do corredor— O que vai fazer a Morgan? —Não se preocupe por ele, que não lhe voltará a fazer mal —disse secamente Arturo— Estará encadeado na adega até que cheguemos a Havana. O Diabo não voltará a corromper a nenhuma mulher. —A Havana! —Luzia parecia perplexa— Mas para que vamos a Havana? Eu quero voltar para o convento. —Isso nem se cogita. Aonde a levaremos é ao seu prometido. —Arturo entrecerrou as pálpebras e a fulminou com o olhar— Que demônios fez ao seu cabelo? —Cortei-o. Mas se esqueça disso agora. Sabe tão bem como eu que Dom Diego não vai me aceitar. — imaginou que sentiria uma vergonha espantosa pelo pecado

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que tinha cometido com Morgan, mas para sua surpresa não era assim— Me encontrou na cama de Morgan. Dom Diego vai me repudiar; é um homem de honra. —Não se colocou por seu gosto na cama desse pirata —disse Arturo. Sua expressão se voltou séria quando compreendeu o que teria que fazer para salvar a reputação de sua irmã. Ele e Celestino já tinham discutido o que ocorreria se de fato o Diabo tinha violado a sua irmã— Dom Diego terá em conta sua viuvez e a aceitará com uma generosa ampliação de seu dote. —Minha viuvez? Não… não te entendo. —Agora não há tempo para explicações. Vista-se. Temos que voltar para o navio antes que nos descubram. —Deixa Morgan em Andros —lhe suplicou Luzia— Já me tem, não há necessidade de seguir derramando sangue. —Quer que deixe aqui o Diabo? Te tornou louca? Celestino me cortaria a cabeça. Ofereceram uma substanciosa recompensa por esse pirata. Desonrou a ti, uma jovem inocente que ia ao encontro de seu prometido. O Diabo merece morrer por seus muitos delitos de pirataria contra a Espanha. Estou seguro de que Dom Diego lhe reservará uma morte lenta e dolorosa. A tirou do dormitório e a empurrou para dentro de seu quarto. —Ande depressa e vista-se. Eu fico aqui mesmo te esperando. Um de meus homens levará seu baú a bordo do Santa Maria assim que esteja preparada. Morgan voltou a si pouco a pouco, notando que lhe doía a cabeça e tinha o corpo machucado. Os homens de Santiago lhe haviam surrado até que perdeu o sentido e logo o arrastaram nu pelo navio e o encadearam a um tabique da fria, úmida e mofada adega. Estava escuro; ouviu a correria dos ratos e os sentiu roçando as pernas nuas. Lançou chutes ao ar, amaldiçoando com ferocidade quando um dos roedores lhe afundou os afiados dentes no tornozelo. Seu único consolo era que Luzia não estava sofrendo. Seu irmão nunca lhe faria mal.

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Por enésima vez, Morgan amaldiçoou sua própria falta de cuidado. Estava tão embevecido com Luzia que em nenhum momento tinha considerado a possibilidade de que Santiago enviasse seus filhos para assaltar seu forte em Andros. Antes de perder a consciência tinha ouvido alguém dizer que os cofres que continham o dote de Luzia tinham sido localizados em um armazém e foram transladados ao galeão. O ouro não lhe importava, e por ele podiam ficar com ele. O que de verdade lhe doía era perder Luzia sem ter tido ocasião de lhe dizer… Muito tarde. Endemoniadamente tarde. Enquanto Morgan lamentava seu destino, Luzia estava sentada no espaçoso camarote do capitão com a cabeça encurvada enquanto seus irmãos a repreendiam redundantemente. O padre encarregado de aconselhar Luzia depois do resgate permanecia de pé a um lado, com um gesto tão reprovador como o dos dois irmãos. Os três consideravam que sua atitude para o infame pirata era escandalosamente licenciosa. —Como pode pedir piedade para esse mal nascido, depois do que te tem feito? —encolerizou-se Arturo. —Porque ele te forçou, verdade? —inquiriu Celestino, mais razoável. —Ao princípio… não exatamente… foi mas bem como… sedução. —Colocou-se por sua própria vontade em sua cama? —trovejou Arturo— Está dizendo que você mesma se prestou a ser a amante do Diabo? —Não exatamente — se defendeu Luzia— Pelo menos ao princípio não, em todo caso. Supliquei-lhe que me devolvesse a casa. Inclusive me fiz passar por monja, mas ao final Morgan se saiu com a sua. —Deveria ter tirado a vida —disse severamente o padre, avançando até o círculo de luz— Mas o que já está feito não se pode mudar. Devemos retificar este terrível engano imediatamente. Luzia levantou os olhos, olhando diretamente ao padre.

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—Não desejava morrer por minha própria mão. Como você diz, o fato, feito está. Infelizmente, nada que não seja um milagre pode mudar o que já ocorreu. Se me aceitarem no convento, dedicarei o resto de minha vida a Deus. —Isso não vai ser necessário, Luzia —lhe assegurou Celestino— Esse miserável te seduziu, e nos vamos encarregar de que faça o que corresponde por ti antes de que morra. Está prometida a Dom Diego, e está em jogo a honra de nosso pai. Arturo e eu faremos o necessário para nos assegurar de que Dom Diego não tenha que buscar nenhuma outra noiva. Luzia arqueou as sobrancelhas. —Não o entendo. Como irá arrumar as coisas? Já nada é o mesmo. Dom Diego espera uma noiva inocente. Celestino e seu irmão trocaram um olhar cúmplice. —A honra de Dom Diego ficará muito mais inteira se se casar com uma viúva, em lugar de com uma virgem desonrada. As viúvas é normal que se casem. —Mas eu não sou nenhuma viúva. Dom Diego não vai acreditar em uma mentira tão flagrante. —Ah, querida irmã —a informou Celestino— A verdade é que sim será, assim que tenha se casado com o Diabo e o executem pelos malvados atos de pirataria que cometeu em alto mar. Uma viúva riquíssima, por certo. Luzia estava boquiaberta. —Isso é ridículo! Morgan não vai acessar a isso. E eu tampouco. O padre deu um passo adiante. —Está muito perturbada, pequena. Desgosta-me ver como a enganou esse pirata para fazê-la sua amante. Sua família não ficará satisfeita até que seu pecado contra ti fique reparado. A única maneira de arrumar isto é se casar com o Diabo. E assim que o pirata seja executado você poderá continuar com sua vida. Será uma respeitável viúva. Uma viúva rica. Dom Diego estará agradado. —Não necessitamos de seu consentimento, Luzia. — a acautelou Arturo— O pai Ricardo vai casá-la com esse pirata sem importar o quanto queira opor-se qualquer dos dois. Ele o fará porque é o que Deus quer. 119


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Pai Ricardo assentiu sagazmente com a cabeça. Celestino se aproximou da porta, abriu-a e chamou um marinheiro que estava ali perto trabalhando no equipamento de barco. Celestino tirou do bolso uma chave e a deu. —Nos traga o pirata aqui acima, Julho. Lhe dê um pouco de roupa; não queremos que ofenda à noiva no dia de suas bodas. —Deus — O rogo de Luzia se quebrou em um soluço— Se acessar a me casar com ele, perdoar-lhe-ão a vida? —Se o fizéssemos não seria viúva, sabe? —disse Celestino— Não tema, irmã, nós não mataríamos a nosso cunhado. Deixaremos essa desagradável tarefa a Dom Diego. A nosso pai agradará ver como arrumamos as coisas. Os dois irmãos eram parecidos de aspecto. Os dois morenos e arrumados, esbeltos de corpo e de feições elegantes. Arturo, que era o mais jovem e o de temperamento mais explosivo, era algo mais musculoso que Celestino, o mais razoável dos dois. Luzia os queria muitíssimo, mas naquele preciso instante teria sido capaz de lhes retorcer o pescoço. Morgan dava furiosos chutes ao ar cada vez que um de seus companheiros peludos lhe atacava diretamente. Puxou as cadeias que o segurvam, amaldiçoando a seus captores e a todos os espanhóis em geral. Em todos os anos que tinham passado desde que esteve cativo, jamais tinha chegado a imaginar que pudessem capturá-lo pela segunda vez. Jurou que, se conseguia sair daquela, não lhe voltaria a ocorrer nunca. De repente, Morgan ficou tenso ao precaver-se de que alguém se aproximava. Uma pálida luz se verteu pelo ralo que havia no alto da escada de mão. Ouviu um chiado, e ante sua vista apareceu um homem. Um marinheiro moreno que ficou olhando Morgan com evidente satisfação. —Já não é tão galo de briga, né, Diabo? —disse Julho em espanhol rápido. —Eu nunca o fui —lhe respondeu Morgan no mesmo idioma.

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Surpreso, o marinheiro lançou ao Morgan um olhar de admiração. —Já vejo que fala o nosso idioma. Melhor, porque assim poderá participar plenamente na cerimônia de matrimônio que vai celebrar em sua honra. Aproximou-se cautelosamente do tabique para soltar as cadeias de Morgan do lugar onde estavam presas a uma argola de ferro. Logo deu um passo atrás, lhe apontando com a espada desembainhada. Pouco depois, um segundo marinheiro apareceu pela escada com um fardo sob o braço. —Está aí abaixo, Julho? —Chegou bem a tempo, Mateo. Dê ao capitão a roupa. Não estaria bem que assistisse à bodas sem roupa adequada. Mateo desceu pela escada e estendeu a Morgan o monte de roupa trespassando-o na ponta de sua espada. Morgan duvidou um instante antes de aceitar o andrajoso par de calças e a camisa puída que lhe oferecia. Contemplou-os um momento; logo encolheu os ombros, olhando os pulsos e os tornozelos encadeados. —Me tirem as correntes. —Primeiro as das pernas —opinou Mateo— Não confio neste mal nascido. Julho se aproximou com cautela de Morgan. —Lhe ponha a espada na garganta, Mateo. É um homem perigoso. —Julho se aproximou de Morgan e, agachando-se, abriu-lhe os grilhões das pernas — Já está — disse, dando um passo atrás— já pode pôr as calças. Morgan vestiu aquelas deterioradas calças de lona que tão mal ficavam e atou os cordões da cintura. Assim que terminou, Julho voltou a lhe pôr os grilhões nos pés e lhe abriu os dos pulsos. —Agora a camisa —disse, cravando Morgan com a ponta de sua espada— E não tente nenhuma audácia. Estamos em alto mar; não têm escapatória. Morgan meteu a camisa pelos ombros. Era suave e folgada e se ajustava a sua estrutura muscular sem arrebentar pelas costuras. Quando esteve vestido, Julho

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voltou a lhe pôr os grilhões nos pulsos e, lhe cravando a ponta da espada, o fez subir a escada. —Requerem sua presença no camarote do capitão — disse com um sorrisinho — Uma mulher não pode converter-se em viúva até que se case como corresponde, e seu marido abandona este mundo pelo outro. —Para então, todos no navio estavam a par dos planos que os Santiago tinham para o Diabo. Morgan se arrastou a contra gosto escada acima, com o corpo machucado resintindo ao brutal tratamento que tinha sofrido. Com o impedimento das correntes, ia arrastando os pés lenta e pausadamente. Quando chegaram à coberta piscou repetidas vezes, quase cego pela forte luz. A luz da manhã se apresentou enquanto Morgan jazia inconsciente na adega, e lhe chegou o conhecimento de que estava a bordo de um navio com destino a Deus sabia onde. Emprurraram-no bruscamente pela coberta para o camarote do capitão. Ia dando tropeções com as cadeias, até que caiu de nariz ao chão. Quando levantou o rosto, viu luzia. Encontrou-a gasta, triste e exausta. —O que têm feito a Luzia? —espetou-lhes. Arturo foi se jogar em cima, mas Celestino o conteve. —Não temos feito nada a nossa irmã. É você quem a prejudicou. Violaste-a. Ela era inocente até que foi raptada por você e a fez sua amante. O olhar de Morgan posou de forma desconcertante em Luzia. —Ela te disse que eu a violei? —Não faz nenhuma falta. A encontramos em sua cama —respondeu Arturo— Vai pagar com sua vida, Capitão. Mas antes têm que reparar o que têm feito a nossa irmã. Se levante! Luzia tinha o coração posto em Morgan, sentia de forma aguda seu medo e sua confusão. Teria querido aproximar-se dele, ajudá-lo a levantar do chão, mas não se atreveu. Qualquer movimento que fizesse para ele teria o efeito de pôr seus irmãos ainda mais em seu contrário. Mais tarde, quando tivessem acabado de celebrar aquele matrimônio forçado e lhes tivesse esfriado um pouco o aborrecimento,

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tentaria encontrar a forma de liberar Morgan antes de que o entregassem a Dom Diego. A mera ideia de que pudessem matá-lo a punha fisicamente doente. Morgan se levantou, mesmo dolorosamente do chão, com as feições sombrias. —O que querem de mim? Para devolver a Luzia a inocência o que precisariam é de um milagre. Arturo voltou a equilibrar-se para Morgan, mas Celestino se interpôs entre eles. —Vai se casar com minha irmã, Capitão —lhe informou fríamente Celestino— O pai Ricardo estará encantado de celebrar a cerimônia. Morgan lançou a Luzia um olhar perplexo. —Me casar? Querem me casar com sua irmã? Por todos os demônios! —Vocês se casarão em seguida, Capitão —continuou Celestino com suavidade — Mas não tema porque as bodas não vai durar muito. E tampouco haverá viagem de bodas. Por sorte, para Luzia, quando lhe executarem em Havana ficará viúva, e assim Dom Diego e ela poderão casar-se segundo o plano original. Mas antes terá que fazer um testamento deixando todos seus bens mundanos a sua desconsolada viúva. Dizem os rumores que é imensamente rico. —Se o que querem é que me executem, para que se incomodarem em celebrar as bodas? —perguntou com calma Morgan. —Porque desonrou nossa irmã. A honra dos Santiago exige que lave a afronta que lhe têm feito. Eu acredito que lhe sentará bem ser viúva. A honra de Dom Diego ficará restaurada e tudo será como devia ser. Morgan lançou a Luzia um olhar depreciativo. —Terá que admitir que não lhe cai bem o negro. E o que passa se eu não aceito a me casar? —Aceitará, porque não têm escolha —lhe ameaçou Arturo, agitando o punho fechado ante o nariz de Morgan— Já sei que o bem-estar de Luzia não lhe interessa; mas ela merece ser feliz. Resultará muito mais fácil ficar viúva que admitir que era a rameira de um homem. Luzia empalideceu. —Arturo!

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Morgan pôs o rosto tenso de raiva. Chamar Luzia de rameira era uma blasfêmia. Se não estivesse preso teria feito aquele irmão dela tragar suas palavras. —É a verdade, Luzia —replicou Arturo— Todo mundo te considerará uma rameira. Se casar com este pirata antes de que o executem é único que pode fazer para lhe redimir. — E, dando um empurrãozinho a pai Ricardo acrescentou— Pode começar com a cerimônia, Pai. Luzia olhou a Morgan como lhe pedindo desculpas, mas ele seguiu fulminandoa com o olhar. Ambos eram meros bonecos no plano de seus irmãos para lhe devolver a respeitabilidade, e nenhum dos dois podia fazer nada para evitá-lo. Quando pai Ricardo lhe pediu que respondesse, ela o fez sem vacilar. Concordava em converter-se na esposa legítima de Morgan. A reticência de Morgan era evidente. Só quando Arturo lhe cravou com a ponta da espada disse, embora com voz áspera, que aceitava a Luzia como sua legítima esposa. No entristecedor espaço de um momento se converteu em um homem casado. Contemplou Luzia, surpreendendo-se ao comprovar que pouco se arrependia de havê-la feito sua esposa. Assim que terminou a breve cerimônia, obrigaram-lhe a assinar um testamento escrito por pai Ricardo, que fazia também de testemunha, o qual deixava todos os seus bens, a Luzia, sua amada esposa. —Não vai dar um beijo no noivo? —perguntou Morgan, dedicando um sorriso sardônico a Luzia. Celestino lhe lançou um olhar furioso; logo abriu a porta e chamou Julho. —Leve-no outra vez à adega e vigia-o bem. —Esperem! —gritou Luzia. Éassim que vão terminar as coisas? Como ela poderia viver sabendo que tinha a culpa da morte de Morgan? Preferia morrer com ele a casar-se com Dom Diego— Quero falar a sós com Morgan. —Impossível! —gritou Arturo— Esse mal nascido a desgraçou até um ponto que não tem perdão. Agradeça por termos devolvido sua reputação. —Morgan é meu marido —insistiu Luzia.

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—Não por muito tempo —replicou Celestino— Estamos cumprindo com nosso dever para ti, irmanzinha. Só queremos o melhor para ti. Aceita com elegância seu destino. Seu futuro está com Dom Diego. E uma vez que tenha despachado esse pirata ao inferno se esquecerá que existiu. A Luzia parecia que era improvável que pudesse esquecer Morgan. —Leve-no, —repetiu Arturo. Julho aproximou de Morgan a ponta de sua espada. Morgan duvidou um instante, lançou a Luzia um olhar abrasador por cima do ombro e saiu arrastando os pés. A Luzia sentia que lhe partia o coração que Morgan estivesse em uma situação absolutamente desesperadora. Desde quando se sentia invadida por aquelas emoções tão fortes? Perguntava-se, abatida. Em que ponto do caminho tinha deixado de pensar em Morgan como um odioso pirata? Quando tinha começado a lhe amar?

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Capítulo 9 Havana, Cuba

A profundidade da água no porto de Havana permitiu ao Santa Maria ancorar junto ao porto e estender a passarela diretamente ao mole. Ao longo dos anos, a população parecia ter sofrido abundantes ataques de piratas ingleses, franceses e holandeses. Em 1537, a cidade foi saqueada e incendiada e justo um ano antes de que tivesse passado meio século, em 1586, padeceu a ameaça do Sir Francis Drake. Não era de estranhar que o rei Felipe II da Espanha tivesse mandado construir a Fortaleza de La Ponta e o Castelo do Focinho para defender a cidade. Quando a população de Havana estava alcançando os três mil habitantes, a residência do governador geralpassou de Santiago de Cuba a Havana. De pé junto a passarela, Luzia viu a silhueta do Castelo do Focinho, que se elevava sombrio como um espectro contra o céu azul brilhante. Ainda não estava terminado, mas estava segura que, quando o estivesse, serviria para dissuadir aos piratas e aos invasores. Os ombros encurvados e o olhar sombrio davam fé da desolação de Luzia. Tinham passado quase uma semana em alto mar e ela tinha fracassado em sua intensão de encontrar a forma de liberar Morgan. Era seu marido. Fechou os olhos e apreciou o sabor da palavra em sua boca, até que recordou que os planos que tinha Dom Diego para Morgan a faria converter em viúva. Luzia não tinha encontrado o modo de ajudar Morgan. Arturo e Celestino a vigiavam como cães de caça. Só lhe era permitido sair à coberta em companhia de seus irmãos. Quão único tinha conseguido suplicando pela vida de Morgan era que a olhassem com desprezo.

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—Está pronta para baixar a terra? —perguntou-lhe Celestino quando chegou até onde ela estava. —Estou pronta, tudo o que sou capaz de estar, Celestino. Não há nada que possa dizer para te persuadir de que me leve de volta ao convento? Não quero me converter na esposa de Dom Diego. Nunca quis. —É para o seu próprio bem, Luzia. Arturo e eu queremos que seja feliz. Dom Diego cuidará bem de ti. —Cravou o olhar no vazio e suspirou com força—Assegurese de tampar a cabeça. O corte que fez no cabelo é uma vergonha. —Já contei por que os cortei —disse— Logo voltará a crescer. Não me disse o que ira fazer com Morgan. —Seu destino já está escrito. Sua morte a assegurará o futuro. Dom Diego não pode se casar contigo enquanto não seja viúva. Não se preocupe, tudo vai sair bem. Luzia olhou com angústia. —Não entende, verdade, Celestino? Eu… — mordeu a tenra carne de dentro do lábio —Amo Morgan. Celestino a olhou como se não estivesse bem da cabeça. —Esse canalha te destroçou a vida. Como pode amá-lo? Que ingênua é, Luzia, se pensa que importa a esse descarado. Deixa de tentar de se convencer de que você o ama. Dom Diego é um homem de mais idade e mais sábio; ele te guiará pelo bom caminho. —Não, eu… —Ah, já chegou Arturo. Ele a levará a Dom Diego. Eu os seguirei mais tarde com o prisioneiro. Reuniremo-nos na mansão do governador geral. Celestino se apressou a partir, ignorando as súplicas de sua irmã em favor do pirata. Sua irmã ainda era jovem. Não sabia nada das tribulações da vida, nem dos homens que se aproveitam de pessoas inocentes. Ele tinha certeza de que Dom Diego ia ajudar Luzia a esquecer o pirata e o que lhe tinha feito. Luzia já estava no mole com Arturo, quando Julho e Mateo subiram puxando pela força Morgan à coberta. Os grilhões que lhe tinham posto entrechocavan ruidosamente enquanto se arrastava penosamente escada acima até a coberta, onde 127


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Celestino o estava esperando. Mas a breve visão que teve de Luzia lhe deixou a satisfação de saber que ela estava bem. Era sua esposa. Aquele pensamento lhe brindou certa satisfação, apesar do improvável que resultava. Logo ia morrer, e ela seria sua viúva e a esposa de outro. Maldição! Obrigado a avançar com Celestino e seus homens, Morgan andou pelas ruas estreitas e abarrotadas até a mansão do governador geral, arrastando as correntes atrás de si. Era objeto de todo tipo de especulações por parte das pessoas que paravam para olhá-lo boquiabertos. Quando Julho proclamou orgulhoso que o prisioneiro que levavam, não era outro que o infame Diabo, elevou-se um protesto geral contra o cruel pirata que tinha estado saqueando o Virreinato de Nova Espanha, sem compaixão durante os últimos anos. —Não temam, boa gente —prometeu Celestino—O pirata será levado ante o governador geral. Tenho entendido que a Dom Diego não treme a mão na hora de impor duros castigos. Fará-se justiça. Luzia e Arturo foram conduzidos imediatamente ao despacho de Dom Diego. Ele os saudou efusivamente, sem deixar nem por um instante de examinar Luzia com seu olhar escuro e inteligente. Quando seu secretário lhe fez saber os nomes dos visitantes, custou-lhe dar crédito ao feito de que o infame Diabo tivesse deixado partir sua prometida e ela estivesse em Havana. Pois ele sabia, não tinha pedido nenhum resgate. Deu uma olhada em Luzia, soube por que o Diabo não pediu nenhum resgate. Luzia Santiago era de uma beleza deslumbrante. Que homem em seu são julgamento a deixaria partir por própria vontade uma vez que tivesse enchido sua cama de glória? —Arturo, quanto me alegro de voltar a lhe ver —disse Dom Diego enquanto lhe apertava a mão dando-lhe bem-vinda. Desviou o olhar de maneira quase insultante para Luzia— E você mudou muito, querida. 128


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—A última vez que nos vimos eu tinha dez anos —disse Luzia com amargura. —Sentem-se, sentem-se. Têm que me contar tudo. Não esperava os ver em Havana. Quando me inteirei de que o Santa Cruz tinha afundado e que o infame Diabo lhe havia raptado, perdi toda esperança de voltar a ver-te. Deve ter sofrido muito. Seu pai deve ter tido que desprender-se de uma fortuna para te recuperar. Arturo esclareceu a garganta. —Há muitas coisas que você não sabe, Excelência. Talvez o melhor fosse que Luzia vá descansar enquanto nós discutimos o assunto que temos entre mãos. —Me perdoe, querida —disse Dom Diego voltando-se para Luzia— Deve estar esgotada. —Puxou uma corda de badajo para convocar um lacaio que recebeu instruções de conduzir Luzia a uma das habitações de convidados e chamar uma faxineira para que atendesse suas necessidades. Quando Luzia se foi, Dom Diego voltou seu olhar negro e resplandecente para Arturo— Agora pode começar, senhor Santiago. Conte-me tudo. Arturo ficou contemplando Dom Diego, estudando-o em silêncio. Fazia anos que não via aquele homem, mas o encontrou pouco mudado pelo passar do tempo. De estatura média, sua figura aristocrática e esbelta e sua postura arrogante davam ideia de seu caráter volúvel e de sua natureza cruel. Só aqueles que tinham tratado com ele de perto conheciam seu lado escuro e vingativo. A boca, sob o fino bigode, mostrava seus dentes perfeitamente brancos e sua natureza interessada. A poucas pessoas lhes permitia conhecer o verdadeiro Dom Diego. Só mostrava de si mesmo o que favorecia a seus propósitos. Mas a Arturo, um homem mais conhecido por seu temperamento explosivo que por seu bom julgamento, Dom Diego lhe pareceu um cavalheiro digno e sensato, capaz de tratar com amabilidade a sua irmã. Quando chegou a essa conclusão, Arturo se lançou a relatar vividamente o resgate de sua irmã, sem mencionar o detalhe de que Luzia tinha sido descoberta na cama do pirata. Tampouco explicou os motivos das bodas precipitada a bordo do Santa Maria. 129


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—Nosso pai pensou que o melhor seria trazer Luzia e ao pirata diretamente a Havana —explicou Arturo ao chegar ao final de seu relato— Uma vez que tenha se encarregado da execução do pirata, Luzia estará livre para voltar a casar-se. —Arturo sorriu, penssando que tinha dirigido a situação com bastante sensatez na ausência de Celestino. Mas não era tão fácil enganar Dom Diego. —Por que consideraram você e seu irmão que era necessário obrigar ao Diabo e a Luzia a casar-se? —Tinha a expressão rígida, a voz tensa. —Pensamos que era necessário para sossegar os rumores que vão surgir em torno do sequestro de Luzia. Como logo vai ficar viúva, não acredito que isso vá causar nenhum problema. —Mmm… —disse dom Diego tamborilando seu escritório com os dedos— Pode ser que tenham razão. Mesmo assim, ainda não me disse o que realmente quero saber. — Olhou fixamente Arturo aos olhos— Manchou o pirata à mulher que me estava destinada? Arturo tragou saliva com visível dificuldade. Tinha a esperança de que esse assunto tão delicado não saísse à luz. Por desgraça, era algo que Dom Diego tinha direito a saber. —Temos boas razões para acreditar que sim. Mas, nosso pai se preparou para semelhante desgraça e tomou medidas. Já lhe falei que recuperamos o dote de Luzia em sua totalidade. O que ainda não mencionei é que, em vista do ocorrido, nosso pai, em sua generosidade, duplicou a quantidade que tinha acordado inicialmente com você. Todos os dobrões de ouro, todas as joias e todas as peças de prata estão, intactos, a bordo do Santa Maria. E tudo isso lhe pertencerá assim que case com Luzia. Os olhos de Dom Diego brilharam com prazer avaro. —Duplicou o dote? —repetiu, com o olhar turvo de emoção. O dote de Luzia já era generoso, antes de que seu ansioso pai o incrementasse.

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Naquele preciso momento anunciaram a chegada de Celestino, que exigia audiência imediata com Dom Diego. O governador geral a concedeu. Lhe escureceu o semblante quando viu Morgan, que entrava na sala preso por Celestino e seus homens. —Assim, este é o infame Diabo —disse Dom Diego friamente e com desdém— O açoite do Virreinato de Nova Espanha. Agora já não parece tão perigoso, pirata. —Chama-se Morgan Scott— lhe informou Celestino—É cortesão da rainha da Inglaterra. —Lástima que vá morrer de forma tão pouco aristocrática em Havana. —Dom Diego sorriu levemente. Aquele infame Diabo ia ter uma morte lenta— Manchou minha prometida e se enriqueceu saqueando aos espanhóis. Quero ver este homem no inferno por tudo o que me roubou. Morgan, divertido, torceu o gesto com ironia. —Nenhum homem, incluído você, obterá de Luzia o que me deu por sua própria vontade. Se você, ou seus irmãos se preocupassem com o mínimo de seu bem-estar, devolveriam-na ao convento. Isso é o que ela quer. —Canalha! —Dom Diego dando a Morgan um brutal golpe à altura da cintura que lhe fez cambalear para trás— Tenho intenção de deixar Luzia viúva muito em breve, e vou casar com ela como Dom Eduardo e eu tínhamos planejado. Mas antes lhe vou fazer sofrer por ter manchado minha futura esposa. Uma morte rápida é pouco para o que merece semelhante mal nascido violador de espanholas. Antes que Morgan tivesse conseguido recompor-se, Dom Diego chamou os guardas e fez que o levassem aos calabouços situado perto do Porto, neles o ar rarefeito e sujo e a umidade amansavam rapidamente aos detentos mais recalcitrantes, se é que não adoeciam e morriam antes. Quando levaram Morgan da sala a rastros, Dom Diego se voltou como uma fera para encarar aos irmãos Santiago. —Não será que sua própria irmã se prestava de bom grau a ser a amante do pirata? Quero a verdade. 131


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Arturo se levantou disparado de seu assento, mas Celestino, sabiamente, reteve-o. —Nossa irmã foi forçada, Dom Diego. Luzia era uma inocente, criada como Deus manda em um convento. Confio que não estará pensando que ela incitou ao pirata que a violasse. —É obvio que não, não acredito que Luzia tenha nenhuma culpa —mentiu Dom Diego com diplomacia— É jovem. Não temam, ela e eu, vamos levar muito bem uma vez que entenda qual é seu lugar. E quanto ao dote —recordou ao Celestino— Trouxe-o com você? Não terá mentido, Arturo, ao me dizer que Dom Eduardo, em sua generosidade, duplicou a soma que tínhamos acordado? —Estava quase salivando. —Meu irmão disse a verdade. Nosso pai incrementou o dote de Luzia com a esperança de que essa pequena indiscrição seja mais fácil de se passar por cima. —É muito generoso —disse Dom Diego— Embora tampouco era necessário. Luzia é um tesouro. Foi uma sábia decisão casá-la com esse inglês. Isso aquietará às más línguas. Uma vez que seja viúva, as pessoas se esquecerão de sua desonra. Podem deixar Morgan Scott a meu cargo: será executado de maneira oportuna. Podem partir tranquilos de Havana sabendo que Luzia está agora sob meu amparo. —Obrigado, Dom Diego —disse Celestino— Nós temos que partir imediatamente. O rei Felipe necessita de todos os navios que possa conseguir para sua expedição. Está reunindo em Lisboa uma armada muito grande que logo ira navegar por águas inglesas. A Rainha herege será destituída pela glória de Deus. Com um pouco de sorte, o Santa Maria pode chegar a tempo para unir-se à armada. —Ande depressa, meus amigos. Vou enviar meus homens de mais confiança ao Santa Maria para descarregar o dote de Luzia e pô-lo sob minha custódia. Também vou autorizar meu secretário que lhes pague a recompensa por ter prendido ao infame Diabo. Lhes dará tudo o que necessitem para aprovisionar seu navio para a travessia.

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—Não deveríamos nos despedir antes de Luzia? —perguntou Celestino, não tão seguro de repente, das intenções de Dom Diego para sua irmã. Não tinha mencionado o matrimônio. Aquele homem era muito diplomático, muito frio e calculador. Estava começando a perguntar-se vagamente se Arturo e ele tinham feito bem em trazer Luzia a Havana. —Melhor será não acrescentar mais desgostos aos que já tem. Eu lhe comunicarei sua partida da forma mais amável possível. —Não sei —disse Celestino cheio de dúvidas— Luzia estará esperando encontrar-se conosco esta noite. —Dom Diego tem razão —apoiou Arturo, que tinha suas ânsias postas no dinheiro da recompensa— É melhor que deixemos Luzia com seu prometido. Ele se encarregará de fazer o que corresponde. Nós já cumprimos com nossa missão. Nosso pai pode estar satisfeito. Celestino não estava de tudo convencido, mas deixou suas dúvidas a um lado. Afinal de contas, Diego de Fujo era um homem honrado e respeitável. Dom Diego tinha posto a disposição de Luzia todo tipo de luxos e comodidades. Ela tinha agradecido poder tomar o banho que tanto necessitava, e depois tinha provado a comodidade da cama. Em seguida tinha dormido e, mais tarde, despertou a criada lhe dizendo que Dom Diego contava com sua presença no jantar. E que o jantar se servia às nove em ponto. Luzia queria estar o mais bonita possível, e escolheu um dos formosos vestidos de seu enxoval. A seda tinha um reflexo amarelo de um encanto especial e, quanto a sua forma, o pescoço se fechava em uma larga golinha que rodeava sua garganta e emoldurava a delicada beleza de seu rosto. A faxineira estalou a língua com desaprovação ante o corte tão pouco na moda do cabelo de Luzia; mas quando lhe colocou a mantinha de encaixe sobre o pente de prender cabelo azul turquesa no alto do cocuruto, sua falta de cabelo resultava apenas perceptível.

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Havia um motivo importante para que Luzia queria estar mais bonita que nunca. Ainda albergava a esperança de convencer seus irmãos e Dom Diego que salvassem a vida de Morgan. Era uma fraca esperança, mas uma esperança ao fim e ao cabo. Se fracassava, esperava convencê-los de que a deixassem passar o resto de seus dias em um convento para redimir seus pecados. Se Morgan ia morrer em plena flor da idade, não encontrava sentido à sua própria. Preferiria vê-lo com outra mulher antes que vê-lo morto. Ao dar as nove, Luzia baixou delicadamente pela curva que desenhava a larga escada para a planta de baixo. Dom Diego a estava esperando ao pé da escada. —Foi pontual, que agradável detalhe. —Percorreu-a dos pés a cabeça com um olhar penetrante que deteve a altura de seu rosto. A admiração brilhou nas profundidades vibrantes de seus olhos. Mas, por trás da admiração rondava outra coisa, algo profundo, escuro e perturbador. —Sempre sou pontual —murmurou Luzia. Lhe ofereceu seu braço e ela o aceitou com elegância, reprimindo um calafrio de repulsão. Acabava de conhecer aquele homem, mas já o tinha julgado severamente. Nenhum homem poderia ser comparado com seu arrumado pirata. Passaram a sala de jantar, e a luz das velas que havia nos candelabros mantinha em penumbra. Luzia observou a habitação e esteve a ponto de desmaiar ao ver que a mesa estava posta para dois. —Não vão jantar meus irmãos conosco esta noite? Ele pôs um brilho escuro nos olhos. O sorriso que lhe arqueou os lábios tinha um ar sinistro à luz das candelas. —Seus irmãos já voltaram para a Espanha. Estavam ansiosos por chegar a tempo para unir-se com o Santa Maria à armada do rei Felipe. — A fez sentar-se na cadeira que havia a sua direita e, em seguida, sentou-se à cabeceira da mesa. —Sem despedir-se de mim? Eles não fariam uma coisa semelhante. O que lhes têm feito? Dom Diego pareceu zangar-se ao ouvir aquilo. 134


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—Vai aprender a tomar cuidado com o que diz! Por que iria querer machucar seus irmãos, quando me hão devolvido a minha manchada futura esposa? Acaso não sou afortunado? —burlou-se— A esta hora, Havana inteira está murmurando que a prometida de Diego de Fujo é a amante do infame Diabo. Luzia retrocedeu, sobressaltada. —Se isso for o que sente, por que não me mandou de volta a Espanha com meus irmãos? Diego riu com malícia. —E ter deixado que seus irmãos devolvessem o dote a seu pai? Não sou imbecil, Luzia. Além disso, é uma mulher formosa e desejável. Teria sido uma tolice da minha parte não ficar com seu dote e deixar que me agradasse com esse corpinho tão tentador que tem. Estou desejando ver o que te ensinou esse pirata. Luzia sentiu um sentimento de inquietação. —Estavam meus irmãos a par de seus sentimentos? —Seus irmãos me consideram o cúmulo da amabilidade e da generosidade por haver tirado as misérias de cima de sua irmã. Poucos homens são tão indulgentes. E, além disso, a recompensa que receberam por capturar ao Diabo lhes afrouxou em gradende medida as consciências. Luzia se levantou desafiante. —Não vou casar com você. Pode ficar com meu dote. Volto para casa no primeiro navio que zarpe. —E arruinar minha reputação de homem honorável? Ah, não, querida. Faz muito que está planejada esta união. Seu pai a espera. —Ainda me quer apesar de… apesar de…? —…Apesar de ter sido completamente desonrada pelo Diabo? —terminou cruamente ele— Seu corpo me interessa, Luzia, isso não posso negar. Parece inocente, mas é só aparência, você tem fogo. Quero explorar esse fogo, querida. Mas nos casar? —Soltou uma risada amarga— As mulheres como você são dignas da cama de um homem, mas não de levar seu sobrenome ou lhe dar filhos. Vai ser minha amante. 135


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—Isso nunca! —saltou Luzia, indignada. Dom Diego a olhou de perto. —Pergunto-me —murmurou— se protestou quando o pirata a converteu em sua fulana. Ela levantou bruscamente com a intenção de sair de sua vil presença. —Sente-se, querida, não monte uma cena diante dos criados. —Ele agarrou o guardanapo, sacudiu-o e pôs sobre o colo— Já discutiremos depois do jantar. Não quero que me altere a digestão. —Eu já não tenho fome, Dom Diego. Se me desculpar, vou para o meu quarto preparar minha bagagem. Parto no primeiro navio que zarpe. Com um gesto brutal, ele a agarrou pela cintura, fazendo que a dor lhe arrancasse um grito dos lábios. —Hei dito que se sente. Luzia sentou de mau modo, esfregando a cintura no ponto onde os dedos lhe haviam arroxeado a carne. Ele sorriu. —Isso está melhor. Os serventes entraram desfilando e serviram a elegante janta com toda a pompa própria do status do governador geral. Comeram em silêncio, Diego a grandes bocados e Luzia com muita dificuldade. O mais surpreendente era que o medo de Luzia não era pelo que lhe pudesse passar a ela, a não ser a Morgan. Se ao Diego lhe importava tão pouco, como ia conseguir convencê-lo de que perdoasse a vida de Morgan? —Tomaremos café em meu quarto —disse Diego afastando a cadeira de Luzia. Luzia teria desejado estar em qualquer lugar onde não tivesse que ver-se a mercê de Diego. Como tinha podido seu pai lhe fazer uma coisa assim? —Vem, querida, há coisas que temos que esclarecer. Luzia lhe precedeu subindo as escadas, com o coração saindo do peito e os joelhos lhe falhando. Quão único queria esclarecer com Dom Diego era a liberação de Morgan. E para isso não necessitava a intimidade de seu quarto. O que ia fazer se

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ele pretendia colocá-la em sua cama aquela mesma noite? Não poderia suportá-lo! Não ia ser capaz. O salão do quarto de Dom Diego era pequeno e íntimo, decorado com ricos móveis escuros e muito sólidos. A noite era cálida e as janelas, que davam a um balcão, estavam abertas para que corresse a brisa do mar. Percebeu o aroma de flores que se elevava do jardim murado que havia debaixo. Sentou-se com cautela na borda do pequeno sofá, observando com preocupação como Dom Diego se sentava a seu lado. —Bom, por onde íamos? —retomou Diego— Ah, sim, já me lembro. —Pôs a mão na bochecha e a acariciou com o reverso do dedo. Luzia ficou tensa. Um gesto que devia entranhar ternura resultou, em troca, feio e mesquinho— Estarei encantado de que seja minha amante. —Dom Diego, não pode estar falando a sério. Meu pai confia em você. ficaria espantado se soubesse como está me tratando. —Dom Eduardo a deixou sob minha custódia, Luzia. Insultou meu orgulho ao me oferecer esse dote que não podia rechaçar. Ele suspeitava que estava arremesso a perder e quis se desfazer de ti para evitar a vergonha de seu lamentável comportamento com o pirata. O que eu faça agora contigo é meu assunto. —Isso não é certo! O que meu pai espera é que se case comigo, não que me humilhe. —Como vou humilhar a uma mulher que já é uma puta? Luzia envermelhou o rosto. Por desgraça, todo mundo teria a mesma opinião dela, igual Dom Diego. Apesar de tudo, sentia-se surpreendentemente pouco culpada por terse entregado a Morgan. Aquele momento de felicidade que tinha encontrado entre seus braços era, provavelmente, a única felicidade que ia conhecer na vida. Mas possivelmente, pensou astutamente, poderia tirar algo bom desta áspera paródia. —Se me converter em sua amante, concederia-me uma coisa em troca? — Aquela pergunta tão direta o pegou de surpresa. —Não está em situação de pedir nada, querida. 137


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—O que prefere: uma amante serviçal, ou uma que lute contra você com unhas e dentes? Ele ficou olhando. —O que é o que quer de mim? Bonitos trajes? Joias? Ouro? —Nada disso. Quero que libere Morgan Scott. Farei tudo o que me peça se não o mata. Diego lhe deu um olhar especulador. Logo se pôs-se a rir com tanta vontade que lhe saltaram as lágrimas. As secou com um lenço e sacudiu a cabeça. —Você goste ou não disso, penso em toma-la quando gostar. Quanto a esse seu infame Diabo, seu destino já está escrito. Amanhã assinarei os papéis para sua execução. Antes de que tenha passado esta semana, a Espanha terá um inimigo a menos. Luzia empalideceu, lutando por não desmaiar. —Quero ver Morgan antes de… antes de… Diego esboçou um sorriso desagradável. —Que tenro. Esse homem deve ser um amante espetacular. Mas eu sou melhor que ele. —Atraiu-a para seus braços, mas ela resistiu com todas suas forças. Então a agarrou e já se encaminhava com ela para o dormitório quando os chutes e os murros que ia dando acabaram por pô-lo furioso até o ponto de rugir de aborrecimento. —Caramba! Talvez me aprecie mais quando tiver enviado a esse teu pirata ao inferno. Sou um homem paciente, posso esperar. —Soltou-a, de repente, no chão— Vou daqui! Não estou de humor esta noite para lutar por seus favores. Luzia se levantou do chão e foi a tropicões até a porta. —Espere! —disse ele. Ela se deteve e voltou para olhá-lo. Ele entreabriu os olhos com gesto ardiloso— Mudei de parecer. Pode ver seu maldito pirata. Uma carruagem a estará esperando na porta amanhã às cinco da tarde. — Ele deu a volta e Luzia saiu fugindo da habitação. Morgan se revolvia incômodo sobre o duro chão de terra. Suas dores e pesares eram muitos variados, e o fedor repulsivo da palha sobre onde jazia o punha doente.

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A noite anterior, seus carcereiros se dedicaram a torturá-lo. As costelas lhe ardiam por culpa dos golpes brutais que lhe tinham dado, e tinha o rosto todo arroxeado. Em cima da sobrancelha direita tinha um corte que lhe gotejava sangue no olho. Encadeado e indefeso, nem sequer tinha podido proteger-se adequadamente. Quando os carcereiros deixaram de divertir-se a sua custa, ele ficou acurrucado e tratou de dormir. Levantou-se pela manhã sentindo-se como se tivesse quebrado todos os ossos do corpo. Mas não tinham utilizado o látego de nove pontas, e isso era muito para agradecer. Passava do meio-dia quando lhe serviram um rancho a modo de almoço que Morgan desprezou, enojado. Sabia que ia morrer, e preferia morrer com fome a comer semelhante porcaria. A morte. Que definitivo soava isso. Se se arrependia de algo era de como tinha tratado Luzia. Devia havê-la mandado de volta ao convento, como ela queria em lugar de tê-la utilizado naquele descabido ato de vingança contra os espanhóis. Ela não merecia a crueldade com que ele a tinha tratado. Ela era uma inocente até que caiu em suas mãos e se converteu na vítima de sua vingança luxuriosa. Lembrou das bodas apressada a bordo do Santa Maria. Luzia era sua esposa; dele até que a morte os separasse. Aquele pensamento o reconfortou um pouco. Rogou a Deus que o perdoasse por tê-la tomado contra sua vontade. Mas Deus sabia que não teria conseguido manter-se afastado dela nem que tivesse querido. Tinha-a desejado com toda sua alma, mais que a nenhuma outra mulher que tivesse conhecido. E ela também o tinha desejado. A forma apaixonada que teve de responder a seu amor demonstrava que ela também o necessitava. Quando ele já não estivesse, ela se converteria na esposa do governador geral de Cuba. Ele teria dado sua vida por salva-la de semelhante destino, mas ao parecer sua vida já não lhe pertencia. Logo a iriam arrebatar com a mesma facilidade com que se apaga uma vela.

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As divagações de Morgan sofreram uma abrupta interrupção quando ouviu o som de uns passos que se aproximavam de sua cela. Ficou de pé com dificuldade, gemendo do esforço que lhe custava. A porta se abriu de repente e entrou Dom Diego. Enrugou o nariz, como ofendido pelo fedor pestilento de Morgan combinado com o da palha suja. O estreito bigode que levava sobre o lábio tremeu de repugnância. Ficou olhando Morgan com manifesta hostilidade. —Boa tarde, Capitão. Dormiu bem? Morgan franziu sardônico os lábios. —Todo o bem que era de esperar. —Pois eu dormi extraordinariamente bem. É o que ocorre normalmente depois de ter uma noite satisfatória nos braços de uma mulher apaixonada. Devo lhe elogiar pelo bem que se desembrulha Luzia. Muito fogosa e, sobre tudo, muito criativa. Ensinou-a bem. —Seu canalha! —Morgan tratou de agarrar Dom Diego pelo pescoço, mas as correntes frustraram a tentativa. Dom Diego retrocedeu para ficar bem fora de seu alcance. —Comentei que Luzia é desde ontem à noite minha amante? Estou seguro de que você mesmo compreenderá que não posso me casar com ela depois de a ter manchado. Têm-na feito indigna de levar meu sobrenome. Mas vai ser uma amante maravilhosa. Quando encontrar uma mulher respeitável para me casar, entregarei Luzia a algum de meus homens, ou a enviarei a um bordel. Morgan sabia que De Fujo o dizia para lhe mortificar, e estava conseguindo. A ideia de que o espanhol pusesse as mãos em cima de Luzia lhe dava vontade de vomitar. —Luzia é muito boa para você. Diego sorriu. —Isso acredita? Talvez mude de opinião ao saber com que doçura me suplicou que lhe castigasse por fazê-la indigna de casar-se. Despreza-o por havê-la manchado,

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Capitão. Se não fosse por sua inoportuna intervenção, ela teria se convertido em minha esposa. Poderia ter tido tudo o que fosse capaz de desejar. —Luzia nunca quis casar-se com você. —Crê que não? Pode ser que Luzia venha em pessoa lhe dizer o muito que o odeia. Acha que iria me incomodar em lhe dar uma surra quando já está sentenciado a morte? Não, é Luzia quem pediu que o castiguem e o façam sofrer por todos os pecados cometidos contra ela. Agradou-me de tal modo ontem à noite que não lhe posso negar nada. Cortês, traz o látego! Na soleira da porta apareceu um homem com um látego de nove pontas. O alcançou e Dom Diego se colocou de lado. —Descubra as costas e enganche as correntes na parede! Cortês reagiu em seguida, rasgando a camisa de Morgan e lhe prendendo os braços acorrentados a uma argola que havia a meia altura da parede mofada, enquanto Diego brandia ameaçador sua espada, se por acaso Morgan resistisse. Morgan mal teve tempo de tomar fôlego antes de ouvir o látego assobiar pelo ar. Preparou-se para sentir sua mordida, mas sem prever a tortura que lhe sobreveio quando os cabos separados lhe cortaram a carne. Pôs o corpo rígido e mordeu os lábios para não gritar. Tinha as costas ardendo; sentia como jorrava o sangue até a cintura das calças. Diego sacudiu outro golpe desumano antes que Morgan pudesse se recuperar do primeiro. A partir daí perdeu a consciência de quando terminava um e começava o seguinte. De repente, cessou a flagelação. Morgan desabou, pendurado nas correntes, sem forças para levantar sequer a cabeça. Diego tirou um lenço de um branco imaculado e secou o suor da testa. —Parece-me que Luzia estará satisfeita por hoje com este castigo. Tampouco queremos que morra antes do tempo. Havana inteira está desejando que lhe executem amanhã. Declarou-se dia de festa. Se Luzia assim o deseja, amanhã voltarei

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a lhe visitar antes da execução para me assegurar de que se arrependa convenientemente, antes de ir se reunir com nosso senhor. As palavras de Diego levantavam faíscas no cérebro de Morgan. A dor da surra tinha espantado de sua mente todos seus pensamentos tenros sobre Luzia. Esta queria que o castigassem, ela era culpada daquela dor insuportável, odiava-o. Não lhe bastava o fato de que fosse morrer. Por todos os diabos, não! Aquela pequena bruxa sedenta de sangue desfrutava lhe fazendo sofrer. Se saía vivo daquela, o qual era altamente improvável, a ia fazer pagar por isso, e lhe ia sair muito caro. Quão último pensou antes de perder o conhecimento foi que, por mais que merecesse morrer pelo que tinha feito como pirata, não merecia sofrer semelhante tortura por culpa de uma mulher vingativa. Já lhe resultava graciosa, tinha começado a apaixonar-se por aquela pequena bruxa!

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Capítulo 10

Luzia atravessou a entrada ricamente ornamentada da mansão do governador

geral às cinco em ponto da tarde. O carro que Dom Diego lhe tinha prometido a estava esperando. O coração lhe saía do peito de medo e de emoção enquanto o chofer a ajudava a subir a suntuosa carruagem. Não viu Dom Diego em nenhum lugar, e isso a reconfortou. Queria falar com Morgan a sós. Poderia ser que aquela fosse a última vez que o via com vida. O trajeto até a prisão foi muito curto; Luzia se deu conta de que poderia ter ido perfeitamente a pé. O cárcere estava localizado em um edifício baixo, construído rudimentarmente com blocos de pedra. As únicas janelas que tinha estavam situadas no alto do muro, onde os detentos não pudessem ver a não ser um pedaço de céu. Soube o mal que devia sentir Morgan e isso fez que sua intenção de encontrar uma forma de ajudá-lo se intensificasse. O chofer abriu a porta e Luzia desembarcou da carruagem. Momentos mais tarde, a porta do calabouço se abriu quão grande era e Dom Diego saiu para recebêla. Luzia perdeu a compostura. —Tão pontual como de costume, querida —disse Dom Diego com um sorriso insosso. —O que faz aqui? —Estou interrogando ao prisioneiro —lhe aumentou o sorriso— O pirata está pondo isso difícil. Temo que meus homens e eu pusemos muito zelo em tratar de reduzi-lo. Luzia baixou o olhar para o látego que tinha enrolado na mão direita. Tinha-o tido escondido atrás das costas e não tinha deixado que ela o visse até que ele julgou oportuno. Dava a impressão de que atormentar Luzia com o que tinha feito ao Morgan produzia um prazer profano.

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—Deus! Pegaste-o! Como pôde fazê-lo? A voz de Diego adquiriu um tom ameaçador. —Como teria podido não fazê-lo? Roubou-me algo que nunca vou poder recuperar, antes de que vá amanhã à forca voltarei a pegar, e lhe pegarei uma e outra vez até que considere que sofreu o suficiente. Passa, querida, já terá recuperado de seu desmaio e deve estar preparado para seguir com seu castigo. —Por favor, não lhe pegue mais —suplicou Luzia— Acaso não sofreu o bastante? Diego apertou os dentes. —Não, nem por início. —Lançou a ela um olhar brutal e logo esboçou um sorriso mesquinho— Ajudá-lo é tua coisa. —Me diga o que tenho que fazer! Farei o que seja. O que seja. —Pois tem que dizer ao Diabo que se converteu em minha amante porque assim o quis. Que o odeia e que me suplicou que o castigasse por lhe haver manchado. Dirá que lhe alegra que vá morrer. A Luzia lhe fez um nó na garganta. —Não! Isso não é verdade! —Mesmo assim, lhe vai repetir tudo o que acabo de dizer. Se não o fizer, darãolhe uma surra a cada hora até que morra. É isso o que deseja que ocorra a seu amante? —Por que o faz? Que benefício pode obter de tudo isto? —Satisfação — disse Dom Diego, sério. — O que eu gostaria é esquartejá-lo lentamente, lhe arrancar as mãos, os pés e todos os membros para lhe fazer sofrer as penúrias do inferno pelo que tem feito a Espanha e a ti. Ao rei Felipe dá igual como morra, com tal que mora. Já estou sendo bastante clemente com ele. Luzia cambaleou perigosamente e esteve a ponto de desmaiar. Dom Diego era um desalmado muito ardiloso. Não sabia o que era a piedade. Mas sabia que ela não ia permitir que torturassem cruelmente Morgan, que diria ou faria o que fosse necessário para lhe evitar mais sofrimento. Que mentiria, inclusive. —Se fizer o que diz, libertará Morgan? Dom Diego ficou olhando como se estivesse louca. 144


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—Liberá-lo! Jamais! O que estou disposto a fazer é ordenar que deixem de lhe dar surras e lhe conceder uma morte digna. Um soluço se apropriou da garganta de Luzia. O que lhe oferecia era muito pouco. Asquerosamente pouco. Mas, como tal se conseguir que Morgan tivesse uma morte pacífica, estava disposta a mentir. E logo, antes de que Dom Diego a metesse em sua cama, ela seguiria Morgan ao mundo dos mortos. Viver sem Morgan já não era opção para ela. —Muito bem, farei o que me pede. Posso ver Morgan a sós? —Não confio em ti, querida. Vamos juntos — deu o látego a um dos guardas e conduziu Luzia para dentro do edifício. O fétido fedor da morte e do sofrimento assediou Luzia quando atravessou a sala de guardas para entrar nos corredores escuros, tão frios e úmidos, dos calabouços. As portas maciças de madeiras estavam trancadas por fora e grossas paredes de pedra separavam as celas umas das outras. Um ralo pequeno situado a escassa altura em cada uma das portas servia para que os guardas passassem a comida aos detentos. Dom Diego se deteve de repente ante uma porta fechada e um dos guardas apressou a correr o ferrolho. —Traz uma tocha —ordenou Dom Diego. A tocha chegou e abriram a porta de um chute. A luz revelou uma cena própria do inferno. Quando Luzia viu Morgan, um grito ficou suspenso na garganta. Ainda seguia encadeado à parede, tal e como Dom Diego o tinha deixado um momento antes. Tinha as costas feita em um desastre; tremendos vergões e abundantes cortes lhe percorriam profundamente os ombros e o tórax. Dom Diego deu a Luzia um apertão no braço como modo de advertência, e o grito que ela estava a ponto de soltar afogou violentamente na garganta. Morgan girou a cabeça lentamente para a luz. O corpo lhe abrasava e a cabeça palpitava. Envolto em um halo de dor aguda, viu luzia de pé ao lado de Dom Diego. Ela o olhou sem dizer nada e a dor se converteu em uma ira incandescente.

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Umedeceu os lábios tratando de reunir suficiente saliva para que lhe afrouxasse a garganta ressecada. —Para que trouxeste sua amante, De Fujo? Não acreditou em sua palavra quando lhe disse que fez o que ela tinha ordenado? Dom Diego esboçou um sorriso desagradável. —Adverti-lhe que não era um espetáculo agradável de ver mas ela insistiu em comprovar com seus próprios olhos que o castigo está feito tal e como ela o tinha desejado. —voltou-se para Luzia— Conta, querida, conte ao bom capitão o que pensa dele exatamente. Luzia fechou os olhos para reunir o valor necessário para dizer as coisas que deteriam a tortura de Morgan. —Odeio-lhe pelo que me fez, Capitão. —Venha, Luzia, não há nada mais que lhe queira dizer? —A mão de Dom Diego lhe apertou brutalmente o braço. Luzia fez uma careta de dor. —Sou a amante de Dom Diego. Graças a você, nunca poderei me converter em sua esposa. É um… é um amante maravilhoso. O último o acrescentou mais em benefício de Dom Diego do que a Morgan. Algo para apaziguar aquele monstro cruel e aliviar o sofrimento de seu amado. Dom Diego lhe deu um sorriso agradado. —Ah, querida, é um tesouro. Estou encantado contigo, na cama e fora dela. Parece que o Diabo sofreu já bastante por jogar sua vida a perder? —OH, sim —disse ela rapidamente, muito mais rápido do que teria gostado Dom Diego— Já estou satisfeita. Quão único desejo é que mora. O sorriso de Dom Diego se voltou amargo. —É muito boa, querida. Saiamos deste lugar imundo. Temos coisas melhores nas que empregar nosso tempo que conversar com um condenado. Quando o viu estender aquela mão fina, de unhas polidas, e acariciar o seio de Luzia, Morgan sentiu vontade de matá-lo. E logo vontade de matar

Luzia. Era

consciente de que merecia que o odiasse pelo asperamente que tinha desprezado sua inocência, mas acaso não dava conta de que ele se preocupava sinceramente por 146


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ela? Ele estava disposto a reconhecer que se valeu da sedução para ganhá-la, mas ela tinha participado também com muita vontade. Tinha acreditado que conhecia Luzia mas, evidentemente, não tinha chegado além da superfície de sua natureza perversa. Luzia esquivou da carícia de Dom Diego e pôs todo o coração no olhar que deu a Morgan, mas ele já havia tornado a cabeça e não a viu. Seu coração e sua mente a davam já por perdida. Não ficou mais remédio que deixar que Dom Diego a levasse fora daquela cela. Quando a porta deu uma portada ao fechar-se a suas costas, ela deixou escapar seu nome em um suspiro entrecortado. Dom Diego lhe tampou a boca com uma mão e a levou dali a rastros. Morgan levantou a cabeça de repente. Poderia ter jurado que tinha ouvido Luzia dizer seu nome, disse a si mesmo que a imaginação lhe devia estar jogando. Tinha-lhe parecido que Luzia lhe estava partindo o coração. Sacudiu a cabeça para desfazer-se dessas ideias tão absurdas. Pois, ela não tinha reconhecido que o desprezava e desfrutava de que lhe dessem surras e o torturassem? Tinha reconhecido por sua própria vontade que converteu na amante de De Fujo. "Tem graça", murmurou, sombrio; nunca pensou que fosse vir abaixo por uma mulher. Uma nave anônima entrou em Havana escondida sob um manto da escuridão e ancorou na profundidade do porto. Pouco depois, um bote partiu da nave e deslizou sobre a água para a costa. O bote alcançou seu destino e depositou os homens que levava a bordo no mole deserto. Cinco homens ficaram a bordo do bote enquanto outros dois se afastavam e desapareciam entre as sombras. Duas horas mais tarde, aqueles homens voltaram, cada um por seu lado, ao lugar onde tinham deixado o bote. Subiram a bordo e compartilharam com seu chefe a informação que tinham recolhido. —Conseguiu se inteirar de algo, Pierre? —perguntou Stan Crawford. Pierre, um francês de pele escura que falava perfeitamente o francês e o espanhol, cuspiu um palavrão tremendo. 147


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—O capitão está aqui, tal e como tinha suspeitado. E vão executá-lo amanhã. —Maldita seja! —O governador geral decretou dia de festa para que todos os cidadãos de Havana possam assistir à execução. Todo mundo fala do Diabo. Foi fácil inteirar-se de onde o vão pendurar. Você que averiguar com Ramón? —Deus, toda a maldita cidade está desejando vê-lo pendurado —revelou Ramón. Ramón era o único membro espanhol da tripulação de Morgan, e tinha bons motivos para odiar a seus patrícios. A Inquisição tinha estado a ponto de lhe tirar a vida— O capitão está no calabouço da cidade esperando que o executem. Stan observou a lua, calculando as horas que faltavam para o amanhecer. —Não é que nos sobre precisamente tempo para resgatar Morgan e voltar a bordo do Vingador. Você foi escolhido por sua capacidade de trabalhar sob pressão. Está comigo? —Sim, senhor Crawford —exclamaram os marinheiros ao mesmo tempo — Estamos com você. —E o que passa com a mulher? —perguntou Crawford a seus espiões— Algum dos dois se inteirou o que foi feito dela? Pierre acertou a água com um toco de tabaco. —Podemos nos esquecer dessa amante. Os rumores dizem que já

está

esquentando a cama do governador geral. É incrível o que se pode se inteirar em um botequim. O que não se fala é de bodas. —Dá no mesmo —disse Crawford com amargura— Teremos sorte se conseguimos tirar Morgan com vida, assim da mulher melhor nem falarmos. Onde está o calabouço? Um momento mais tarde, sete marinheiros armados atravessavam com sigilo a escuridão até o edifício que fazia as vezes da prisão. Andavam em fila indiana, passando a toda velocidade de um portal a outro. Crawford os guiava, com a mão obstinada ao punho da espada. Mandou parar o grupo quando teve os calabouços à vista, e ali se esconderam atrás de uns espessos arbustos, estudando a situação.

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Crawford contou dois guardas que estavam apoiados contra a porta com as armas pendurando preguiçosas das mãos. Depois de um sinal silencioso de Crawford, Pierre e Ramón se arrastaram às escondidas para os guardas distraídos. Se jogaram em cima, por trás e os deixaram fora de combate sem que se dessem conta. Então, arrastaram para os arbustos, onde trocaram de roupa com eles, e ocuparam seus postos. Crawford, com muito cuidado, abriu a porta da prisão e deu uma olhada dentro. A luz trêmula da única vela que havia, só lhe permitiu ver dois homens que estavam sentados em uma mesa jogando cartas. Tinha tudo perfeitamente calculado. Não havia dúvida de que outros guardas deviam estar fazendo a ronda e estes não esperavam companhia. E em caso de que aparecesse uma visita inesperada, os guardas postados diante da porta os despachariam. Crawford se deteve na entrada e fez gestos a seus homens para que o seguissem. Um a um foram penetrando pela porta na sala dos guardas. Crawford não precisava lhes dizer o que tinham que fazer, porque todos sabiam instintivamente o que se esperava deles. Os guardas sentados à mesa devem ter ouvir algo, porque deram um pulo e empunharam as espadas. Os homens de Crawford caíram em cima de imediato. A batalha foi selvagem mas de escassa duração. Os espanhóis foram rapidamente reduzidos, atados e amordaçados, e ali os deixaram, atirados no chão. Crawford encontrou um chaveiro pendurado em um prego na parede da sala dos guardas. Dois de seus homens se atrasaram, para o caso dos guardas ausentes retornarem enquanto outros seguiam Crawford. Morgan ouviu alguém correr pelo corredor, mas prestou pouca atenção. Sempre havia gente de todo tipo indo e vindo naquele lugar maléfico. Se vinham por ele, esperava que fosse para matá-lo e não para seguir torturando-o com o látego. Ou, pior até, para seguir atormentando-o com a ideia de que Luzia tinha ordenado

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que lhe dessem mais surras. Isso o rasgava ainda mais profundamente do que as correias de couro que lhe rasgavam as costas. —Pssst, Morgan, me responda se estiver aí dentro. Morgan conseguiu girar a cabeça para a porta trancada. Por um instante temeu que as duras surras que tinha suportado lhe estivessem provocando alucinações. Possivelmente o demônio tinha vindo buscá-lo. —Morgan, sou eu, Stan Crawford. Responde se puder. Pelos pregos de Cristo, homem, temos que sair daqui a toda pressa antes que nos descubram. —Stan? —Tinha a boca tão seca, que mal pode falar mais alto que um sussurro. Rezou para que alcançasse ouvi-lo— Aqui, Stan. Tem a chave? Stan se sentiu muito aliviado. Não tinha ideia de quando era a mudança da guarda nem quantas horas faltavam para que amanhecesse. —Sim, tenho a chave. —Levo grilhões, Stan. Espero que tenha também a chave que os abre. A porta se abriu com um rangido ensurdecedor. Stan sustentou em alto uma vela, esperando que seus olhos se acostumassem à escuridão. A vela esteve a ponto de cair da mão ao ver Morgan preso à parede, pendurado nas correntes com as quais estava preso. Stan conteve o fôlego ao ver a condição lamentável da carne rasgada de Morgan, o rosto torcido e o lábio partido. Tragou saliva com muita dificuldade. —Maldito seja, tem sorte de estar vivo. —Pois não me sinto muito afortunado, meu amigo. Tem a chave, Stan? Rápido, temos muitas coisas que resolver antes de poder voltarmos com o Vingador para casa. Provando uma chave atrás da outra, Stan por fim deu com a que abria os grilhões de Morgan. Assim que ficou livre, desabou sobre Stan, incapaz de aguentar seu próprio peso. —Pode andar? —sussurrou Stan— Te apóie em mim.

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Morgan cambaleou e apertou os dentes para aplacar a dor aguda de sua carne rasgada. Tinha um olho tão inchado que não o podia abrir, mas o olho bom o tinha firme e bem enfocado. Assentiu pesaroso. —Posso andar. —Então, vamos —Stan ficou em marcha. Morgan o seguia de perto. O corredor estava em silêncio. Quando chegaram à sala dos guardas, Morgan fez um gesto com a boca a modo de um sorriso ao ver que seus homens tinham a situação sob controle. Stan, Morgan e o resto da tripulação escapuliram pela porta e os dois homens que ficaram de guarda os seguiram. Crawford, sem duvidar nem um instante, dirigiu-os ao porto onde o bote os estava esperando. Colocou pressa a Morgan para que avançasse, mas este se negou, rechaçando o convite de Crawford de ficar a salvo. —Maldito seja, Morgan, o que acontece? Necessita ajuda? —Há algo que tenho que fazer antes —disse Morgan com uma voz tão carregada de rancor que Crawford se alegrou de não ser o alvo daquela ira. —Merda, Morgan, não pode chegar até De Fujo. Te esqueça desse mal nascido, não vale a pena que arrisque sua vida por ele. Morgan pôs um ar pétreo no olhar; tinha no rosto o reflexo de um sentimento que Crawford nunca tinha visto antes. —Não é De Fujo a quem quero. —Não é De Fujo? E a quem, se não? —De repente, lhe fez a luz— Não, te esqueça dela. Deixa que fique com seu amante. —Luzia é minha esposa, Stan. Não posso partir de Havana sem minha "amante" esposa —riu com aspereza ao ver a cara de assombro de Stan— Preparem o Vingador. Se não tiver retornado quando amanhecer, zarpem sem mim. —Quando se casaram Luzia e você? Segundo os rumores, De Fujo e ela são… —…Amantes. Já sei. Apesar de tudo, ela é minha esposa. Casou-nos um padre a bordo do navio de seus irmãos. Lhe contarei isso tudo quando voltar de minha missão de "resgate".

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—Essas surras lhe afetaram o cérebro, Morgan. A residência do governador geral está bem vigiada, não há maneira de que entre nela sem ser visto nem ouvido. Não está em condições de resgatar a ninguém mais que a ti mesmo. Morgan apertou os lábios com determinação. —Ainda sou o capitão, senhor Crawford. Vai obedecer minhas ordens? Crawford contemplou consternado a Morgan. Quanto mais tempo perdessem ali discutindo, maior seria o risco de que os capturassem. Mas se dava conta de que Morgan estava decidido, por não dizer algo pior. —Muito bem, Capitão, suponho que não posso te deter. Mas eu vou contigo. —Vou sozinho, senhor Crawford, ficou claro? —Perfeitamente —disse Crawford entre dentes. —Recorda, se não voltaar até o amanhecer, devem zarpar sem mim. me dê uma espada. Alguém lhe lançou uma espada ele a atou à cintura. —Por todos os demônios, espero que não tenhamos que chegar a isso — murmurou Crawford em voz baixa enquanto via como desaparecia Morgan ao dobrar a esquina de um edifício. Quando Morgan esteve fora de vista, se dirigiu brevemente a seus homens e saiu disparado atrás de seu capitão. Em nenhum momento parou para considerar as consequências de desobedecer suas ordens, porque pensava que Morgan tinha perdido o sentido comum. Qualquer homem na situação de debilidade de Morgan tinha que estar louco para ir sozinho provocar um inimigo tão forte. Mas Crawford estava mais louco ainda, e pensava que podia salvar a seu ofuscado capitão daquele suicídio. Luzia passou a tarde inteira rezando. Se Deus fazia o milagre de salvar Morgan, ela nunca voltaria a lhe pedir nada para si mesma. Aceitaria qualquer destino que lhe tocasse viver e estaria agradecida de que tivesse perdoado a vida de Morgan. Pelo contrário, se Deus permitia que Morgan morresse, rogava que lhe desse coragem para acabar com sua própria vida e reunir-se com ele na eternidade. 152


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Desde que ela retornou do calabouço, Dom Diego a tinha deixado tranquila em seus aposentos. Informou alegremente a Luzia de que tinha decidido reprimir sua luxúria até depois que seu marido tivesse sido executado. Uma mulher soluçando lhe arruinaria a libido. Luzia agradecia aquela pequena pausa e dedicou o resto da tarde a suas preces. Se por meio da simples oração pudesse salvar Morgan, este teria a redenção assegurada. Desgraçadamente, os caminhos do Senhor são misteriosos, e ela tampouco pretendia chegar a compreendê-los. Deus tinha feito que se apaixonasse pelo pirata, não? Fazendo caso omisso da bandeja de comida que lhe tinham levado a sua habitação, ao ver que não se apresentava para o jantar, Luzia seguiu ajoelhada até bem entrada a noite. Quando o cansaço fez que se cambaleasse, enjoada, e viu que corria o risco de desabar, deixou o genuflexório e atravessou, dando tombos, a porta que dava ao terraço de onde se via o jardim. Que aprazível parecia, pensou esticando os músculos intumescidos. Tinha as vísceras mais retorcidas que um saca-rolha; nem sequer a oração tinha conseguido dissipar a tensão que sentia. Mas, o pensamento demolidor da morte iminente de Morgan a fez voltar para o genuflexório. Morgan subiu pela taipa do jardim e caiu como um peso morto no chão ao outro lado. A dor lhe percorreu o corpo inteiro; sentia seu próprio corpo como se estivesse caindo ao pedaços. Apertou os dentes e se esforçou em ficar de pé e reunir as poucas forças que ficavam. Olhando para cima, viu uma fila de janelas escuras que davam a uma terraço no segundo piso. Supôs que a maioria daquelas habitações seriam dormitórios, e se perguntou como demônios ia encontrar o de Luzia. Se a encontrasse na cama com De Fujo ia ter a satisfação de matar aquele mal nascido. Rezou para ter forças.

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Seguia olhando fixamente as janelas do segundo piso quando uma pequena silhueta apareceu no terraço. Tomou fôlego com tal ímpeto que fez mal as costelas e piscou perplexo várias vezes, temendo que os olhos lhe estivessem jogando uma má peça. Luzia! Aniquilado, viu como ela se esticava, contemplava o jardim durante um instante e logo dava a volta e desaparecia dentro da habitação que havia justo atrás dela. Se Morgan tinha duvidado alguma vez da existência de Deus, jamais voltaria a duvidar. Morgan se aproximou sigilosamente à casa totalmente decidido, apreciando com satisfação a grossa hera que subia pela parede de tijolo da mansão. Parecia o suficientemente firme e forte para aguentar seu peso. Não duvidou nem considerou as possíveis consequências quando se agarrou à hera e subiu, com muita dor, sem dar-se conta de que Crawford o seguia de perto e tinha escalado a taipa do jardim a tempo de ver Morgan ascendendo cauteloso pela hera para o terraço do segundo piso. Crawford atravessou em sigilo o jardim, observando com o coração em um punho, como Morgan ficava a salvo ao chegar acima. Morgan saltou com delicadeza o corrimão para meter-se no terraço. Podia ver diretamente o interior da habitação em que tinha desaparecido Luzia. Um círio colocado aos pés de uma estátua da Santa Virgem iluminava com luz trêmula e tênue a figura ajoelhada de Luzia. Tinha os olhos fechados e a cabeça piedosamente inclinada. Se Morgan não a conhecesse bem, pensaria que era a mais Santa das mulheres. Deixou-se enganar uma vez, mas jurou que isso não ia voltar a acontecer. De maneira que monja, né?! O que era é uma bruxa em zelo incapaz de esperar para ter outro homem entre as coxas depois de ter sido liberada de sua virgindade. Tinha ficado na cama de De Fujo como uma ameixa amadurecida sem esperar sequer que seu marido estivesse morto. O ódio lhe percorreu o corpo inteiro como uma criatura

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viva que palpitava. Sentiu a tentação de retorcer esse pescoço tão adorável. Mas um sentimento que preferiu não enfrentar o dissuadiu de estrangular a sua esposa. Morgan entrou na habitação. Apesar do cansaço, sem ter em conta seu estado debilitado e seu corpo brutalmente ferido gravemente, foi dando passos ligeiros e silenciosos para aproximar-se de Luzia. Já estava tão perto dela que podia cheirar o doce aroma de sua carne e sentir que o calor que irradiava o ia devorar. A lascívia se apoderou dele, e teve que reprimir um grunhido. Aquela era a mulher que desejava sua morte, recordou-se. Aquela era a mulher que se jogou ansiosa aos braços de De Fujo. —Luzia —se agachou sussurrando seu nome. Luzia o ouviu e voltou a cabeça. Estava completamente aturdida. Soltou um bufido de assombro, com o rosto transbordando uma alegria incrível ao ver Morgan ali, de pé atrás dela. Ao dar-se conta de que não estava sonhando, de que era Morgan em carne e osso, agarrou-se a ele. —Morgan, como…? Morgan atuou com rapidez, antes que Luzia pudesse gritar para avisar De Fujo. Golpeou-a na mandíbula, e ela apagou como uma vela. Ele lamentava ter tido que recorrer à violência, mas não tinha escolha. Se Luzia o odiava, tal e como tinha declarado durante sua visita ao calabouço, não duvidaria em gritar pedindo auxílio. E ele não teria nada que fazer contra os guardas de De Fujo. Morgan soltou um grunhido de dor ao tomar Luzia ao ombro. Apesar de sua debilidade, a adrenalina lhe corria pelas veias, enchendo-o de uma força que necessitava desesperadamente. Deu-se conta muito tarde de que baixar pela parede de hera, com Luzia nas costas, nas condições nas que se encontrava, lhe ia minar o pouco vigor que ficava. Apoiando-se no corrimão do terraço, Morgan olhou para o jardim escuro que tinha debaixo, perguntando-se se teria a força necessária para chegar até abaixo com tanto peso. Já tinha passado uma perna por cima do corrimão quando dentre as

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sombras de debaixo do terraço saiu um homem. Por um instante, Morgan ficou preso do pânico. Então, reconheceu Crawford e se atreveu a voltar a respirar. Teria sido muito se seus homens tivessem seguido suas ordens, pensou, não sem alegrar-se imensamente de ver seu contramestre. —Passe-me ela, sussurrou Crawford, indicando a Morgan que deixasse cair Luzia em seus braços. Morgan não duvidou mais que um instante antes de passar o corpo inerte de Luzia por cima do corrimão e deixá-la cair com cuidado nos braços de Crawford. Ele mesmo a seguiu rapidamente, saltando o corrimão e desprendendo-se pela hera. —Você segue, que eu levo Luzia —sussurrou Crawford, assustado pela palidez de Morgan. Surpreendeu-lhe tudo o que Morgan tinha sido capaz de fazer depois das tremendas surras que tinha resistido. Devia ter muita força de vontade e uma fortaleza enorme. Chegaram à taipa do jardim e Crawford, juntamente com Morgan e a inconsciente Luzia, escalaram a tosca construção de pedra. Já tinha comprovado antes que a entrada estava firmemente fechada contra os intrusos, obrigando-os a partir pelo mesmo caminho que tinham chegado. Crawford chegou ao alto, amaldiçoou em voz baixa e voltou a baixar correndo. —Uma patrulha —sussurrou, rogando ao Morgan que fosse precavido enquanto o som dos passos se aproximava. Esconderam-se ao pé da taipa até que a patrulha passou. Então Crawford se levantou discretamente e subiu ao alto da taipa. Fazendo gestos de que já se foram, esticou os braços para que lhe alcançasse Luzia. Morgan passou sua delicada carga a Crawford, que esperou que Morgan chegasse até onde ele estava. Morgan chegou ao alto e se deixou cair ao revistimento do outro lado feito um novelo pela dor que o transpassava. Então, Crawford transferiu Luzia aos braços de Morgan para poder baixar ao chão ele também. Agora que estavam a salvo fora do jardim murado, os dois homens fugiram escondendo-se entre as sombras para o mole. Estiveram a 156


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ponto de ser descobertos e se viram obrigados a esconder-se quando o sereno lhes passou tão perto que tiveram que conter a respiração até que esteve fora de sua vista. Chegaram ao porto justo quando Luzia começava a retorcer-se nos braços de Morgan. Ela gemeu brandamente e ele lhe tampou a boca com a mão, acautelando-a. —Se gritar, torço esse seu pescoço sedento de sangue que tem. O bote estava esperando-os onde Crawford o tinha deixado. Todos tinham retornado sãos e salvos e estavam ansiosos para voltar para o Vingador. Assim que Crawford, Morgan e Luzia estiveram a bordo, os homens desatracaram. Todos sabiam que era questão de minutos que descobrissem a fuga de Morgan e dessem o alarme. Com os canhões de terra lhes apontando, o Vingador seria como um pato posado na água. Uma vez que estiveram a boa distância da terra, Morgan tirou a mão da boca de Luzia. Esta esfregou a mandíbula e ficou olhando-o. —Não precisava me bater. —Tinha que me assegurar de que não ia gritar para que seu amante não viesse lhe salvar. Se chegasse a encontrá-la na cama com De Fujo, o teria matado. —Deus santo! Por que eu ia avisar a Dom Diego? Teria vindo contigo por minha própria vontade se tivesse tido a cortesia de perguntar. —O olhar lhe abrandou ao olhá-lo— Rezava para que ocorresse um milagre, mas não o esperava. —Se não soubesse que é uma bruxa mentirosa, sentiria-me inclinado a te acreditar. O milagre de que fala, em realidade, não foi nenhum milagre. Não sei ainda como soube Stan onde me encontrar, mas tenho que lhe agradecer que chegasse justo quando chegou. —Se te interesso tão pouco, por que não me deixou ali, em lugar de arriscar sua vida para voltar a me buscar? —Não me diga que já esqueceu que é minha esposa. Minha esposa infiel — esclareceu— Demorou bem pouco para ir para a cama de De Fujo. Sabiam seus irmãos que ele não tinha nenhuma intenção de casar-se com você?

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—Jamais teriam ido se tivessem sabido quais eram as intenções de Dom Diego. Esse homem é um embusteiro dos bons e não tem escrúpulos. —Algo que você gostaria nele —insinuou cruamente Morgan. —Menti, Morgan, para te liberar de receber mais surras. Dom Diego me obrigou a lhe dizer coisas que não eram verdadeiras para te salvar da tortura. Tudo o que disse era mentira. —Incluído o que está me dizendo agora. —Morgan tinha o gesto pétreo, implacável, e uma voz fria e inexorável. De repente o bote se chocou contra o casco do Vingador. Vários homens começaram a subir a toda pressa pela borda do Vingador,

enquanto outros

seguravam o bote com umas amarras que lhes atiravam de cima. Quando não ficava ninguém mais que Morgan e Luzia no bote, içaram-no a bordo. Em pouco tempo, as velas se desdobravam para apanhar a brisa e o Vingador navegava livremente a favor do vento, afastando-se de Havana e do perigo. Pálidos

farrapos de cor malva

coloriam o céu da manhã, anunciando um novo dia. Morgan se agarrou as passarelas e ficou olhando a costa que retrocedia para o horizonte. Recordou vivamente sua curta estadia naquela ilha hostil. Se não fosse por Stan teria sido o último dia de sua vida. Seu corpo arroxeado e maltratado teria desfeito em pó e cinzas em chão estrangeiro. Mas a lembrança das palavras de Luzia lhe doía muito mais que a tortura que tinha suportado. Lhe havia dito que o odiava e que lhe desejava a morte. Converteu-se na amante de De Fujo. Seu sofrimento a tinha agradado enormemente. Soltando a passarela, voltou-se para Luzia com os olhos brilhantes de fúria. Quando as velas do Vingador se estenderam ao vento, Luzia tentou conservar a calma, na esperança de que Morgan, uma vez que lhe esfriasse o caráter, conseguiria ver as coisas com mais claridade. Como podia não saber que ela jamais havia sentido aquelas coisas tão irritantes que lhe disse? Não se dava conta de que ela teria feito e dito qualquer coisa para salvá-lo da tortura? Mas, quando ele deu a volta para olhá-la 158


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no rosto, tinha o fogo do inferno ardendo no mais profundo daqueles olhos de cor azul cinzenta. O coração lhe agitou de forma selvagem. O que iria lhe fazer? Agarrando Luzia pelo braço, Morgan a puxou violentamente para seu camarote e, ao chegar, jogou-a dentro. Ele entrou atrás e deu uma portada. O ódio inescapável que sentia por ela resultava um espetáculo assustador. Ela não merecia que a tratasse daquela maneira. —O… O que é o que vai fazer? —perguntou-lhe, retrocedendo para afastar-se de sua fúria implacável. —Ainda não decidi seu castigo. Quando decidir, será a primeira a sabê-lo. Nunca quis uma esposa, Luzia, mas agora que a tenho penso fazer tudo o que seja necessário para te manter a raia. Seus irmãos não nos fizeram nenhum favor ao empenhar-se em nos casar. —Então, já não fica nada entre nós, nada sobre o que possamos voltar a começar? Morgan lhe jogou um sonrisinho lascivo. —Fica a luxúria, Luzia. Isso não podemos negá-lo nenhum dos dois. —E, dando a volta, saiu feito uma fúria do camarote.

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Capítulo 11

Morgan estremeceu involuntariamente quando Stan Crawford, que lhe estava

limpando as costas rasgada, aplicou-lhe um unguento que tinha tirado do estojo de primeiro socorros. —Fica quieto, Morgan. Estou tratando de não te fazer dano. —Não está me fazendo mal, Stan. — A expressão pétrea de Morgan contradizia as palavras que acabavam de sair de sua boca— Me conte como soube onde me encontrar. —Esperava que a explicação de Stan lhe tirasse Luzia da cabeça, que estava em seu camarote esperando receber seu castigo— Quando retornou da Espanha? —Chegamos a Andros dois dias depois que Luzia e você fossem raptados. Lani estava desesperada quando chegamos. Viu sinais de uma batalha feroz e soube que não tinha ido por sua vontade com os que lhe raptaram. Quem eram, Morgan? Antes mencionou os irmãos de Luzia. —Sim, os irmãos de Luzia. Vieram em plena noite e nos pegaram dormindo. Crawford levantou uma sobrancelha de repente. —Juntos? —Sim, juntos. Foi absurdo por minha parte não pôr sentinelas ao redor da ilha. Supus que ninguém teria coragem de invadir Andros. —Deu com o pai de Luzia em Cádiz? —Engraçado—disse Crawford intrigado— Santiago rechaçou as negociações, e agora entendo por que. Já tinha despachado seus filhos para Andros. Nós voltamos o antes possível, mas em nenhum caso esperávamos encontrar semelhante panorama na ilha. —Essa velha raposa mal nascida… —disse Morgan apertando os dentes— E como soube onde me deixavam preso? Tremo em apenas pensar o que teria sido de mim se tivesse chegado umas horas mais tarde. Não estaria aqui para contá-lo.

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—Isso temos que agradecer ao marido de Lani. Ficou dormido na praia e despertou quando ouviu umas vozes. Os espanhóis passaram a escassos metros dele mas não chegaram a vê-lo. A noite estava escura, sem lua. Não entendeu o que disseram nada mais que um nome: Havana. O disse a Lani e ela viu tudo claro. Não ficamos em Andros mais que o tempo suficiente para carregar o fornecimento de água e pegar fruta fresca para a viagem. —Nunca poderei te pagar por me ter salvado a vida, meu amigo. Crawford sorriu. —Fiquei consternado quando insistiu em voltar para a mansão do governador geral para procurar Luzia. Eu teria pensado que estava como louco por tirar isso de cima. Segundo os rumores, converteu-se na amante de De Fujo. Não costuma querer as sobras de outro homem. Morgan ficou de pé repentinamente, fazendo esticar a camisa que Stan lhe tinha emprestado. —Luzia e eu temos assuntos por resolver. Não se repudia uma esposa tão facilmente. Quando tiver acabado com ela, vai se arrepender de ter suplicado a seu amante que me torturasse. Ela queria minha morte, mas agora nega categoricamente. Diz que se viu obrigada a me dizer aquelas coisas para evitar que me seguissem torturando. — passou os dedos pelo cabelo alvoroçado— Maldita seja, Stan, disse-me à cara que tinha sido ela que ordenou as surras! Parecia estar encantada de ser a amante de De Fujo. Que demônios supõe que tenho que acreditar? Crawford sacudiu a cabeça consternado. —Por que arriscou sua vida para separar Luzia de De Fujo? A não ser… — murmurou pensativo— que de verdade crê que a obrigaram a mentir. Morgan voltou deliberadamente as costas, para não revelar de sua alma mais do que ele queria. —Não sei o que pensar. Não posso confiar em meu sentido comum no que se refere a Luzia. Há algo entre nós, algo que nem eu mesmo entendo, algo profundo e 161


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inquietante. É minha. Um padre nos uniu em matrimônio e Por Deus que vai seguir sendo minha mulher. Crawford ficou atônito ante a inexorável determinação que demostravam as palavras de Morgan. Morgan Scott era um homem tenaz. Crawford quase sentiu lástima por Luzia, dado o enfoque mental de Morgan e seu temperamento imprevisível. —Não te contei o mais importante da viagem a Espanha —disse Crawford depois de um silêncio incômodo entre ambos. Morgan se voltou para olhar Crawford no rosto. —Do que se trata? —Está sendo reunido uma armada enorme diante da costa de Portugal. Vimos que estavam concentrando navios no porto de Lisboa, todo tipo de naves, galeões, galeras, navios de todos os tamanhos e tipos possíveis. Parece que o rei Felipe está financiando uma expedição contra a Inglaterra. —Assim que o monarca espanhol vai nos mostrar, por fim toda sua grandeza. A rainha Isabel sabia que havia algo sendo tramado, e inclusive expulsou da Inglaterra o embaixador espanhol ao inteirar-se de que estava conspirando contra ela. É hora de voltar para casa, senhor Crawford. Ponha rumo à Inglaterra. Luzia passeava incansavelmente de um lado ao outro pelo pequeno camarote. Tinha os nervos a flor da pele e estava fora de si. Doía-lhe pensar que Morgan acreditou em todas aquelas mentiras que lhe havia dito. Por mais que ela negasse tudo, por mais que lhe explicasse por que tinha feito, ele não parecia nada inclinado a aceitar sua palavra. Estava furioso. Contra ela e contra seus irmãos. Disso, em certo modo, não podia lhe jogar culpa. Tinha sofrido terrivelmente por causa dela. Não satisfeito, condenando-o a morte, Dom Diego se deleitou utilizando o látego contra Morgan. E logo tinha insistido em que Luzia assumisse a culpa das surras. Durante os seguintes dias, Luzia passou a maior parte do tempo sozinha. Não via ninguém exceto Stan Crawford, que lhe levava as comidas, e ao ajudante de 162


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cozinha que se ocupava de que o camarote estivesse limpo e de que Luzia tivesse água para banhar-se. Nenhum daqueles dois homens parecia inclinado a conversação. Não via nunca Morgan, quem se supunha estaria muito zangado ainda para poder consolá-la. Lembrou-se das lesões que ele tinha e temeu que suas numerosas feridas não estivessem sendo tratadas adequadamente. Quando tentou inteirar-se por Stan, ele se negou a contar do estado de Morgan, deixando-a mais intranquila que nunca com suas preocupações. Morgan foi informado das perguntas de Luzia a respeito de seu estado de saúde e não sentiu mais que desprezo por seu fingido interesse. Acaso esperava ganhar sua simpatia se fazendo de arrependida? Ele não era tão ingênuo. Por que, então, estava a evitando deliberadamente?, perguntou-lhe sua consciência. Porque ainda queria à feiticeira espanhola, respondeu sinceramente. Apesar de todas as mentiras que lhe tinha contado, ele se lembrava da doçura com a que tinha respondido a suas carícias e do aprimoramento com que tinha gemido e se retorceu debaixo dele; o calor e a ternura de seu corpo quando ele se afundava até o fundo nela. Maldita seja! Estava quase louco de desejo. Tome-a, apressava-lhe uma voz que tinha dentro. É sua. Ele tinha todo o direito do mundo de leva-la à cama como e quando quisesse. Não, advertia-lhe aquela mesma voz. Te vai enfeitiçar. Seu sangue espanhol o vai poluir. Vai te cativar com seu doce corpo e vai faze-lo cair na tentação com sua beleza sem mancha. —É minha mulher! —disse Morgan em voz alta, esquecendo-se de que estava ao leme de sua nave, onde outros podiam ouvi-lo. —Disse algo, Capitão? —perguntou-lhe um marinheiro que andava por perto. Sobressaltado, Morgan sacudiu a cabeça. —Perdoa, Stiles, estava falando sozinho. Você pode ir. Espera —o chamou quando o marinheiro já se ia— Busca Crawford e lhe diga que quero que fique ao leme. Tenho alguns assuntos que resolver em meu camarote.

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—"Assuntos que resolver"; é claro que sim — burlou Crawford ao agarrar a roda do leme, observando como Morgan saía disparado para seu camarote. Tinha a esperança de que Morgan já houvesse tornado a tomar as rédeas de seus sentimentos por sua esposa espanhola. Ou isso, ou que já se decidisse por um castigo adequado. Morgan abriu de repente a porta do camarote. Esta chocou contra a parede e ele a fechou de uma portada. Luzia ficou de pé de um salto. Tinha vindo Morgan por fim para castigá-la? Era o bastante forte para parti-la em dois se assim o desejava. Rogou a Deus que não o fizesse. —Morgan… —aquele nome lhe escapou dos lábios em um suspiro tremente. Ele sorriu tristemente. —Esperava a outro? Ela tinha a garganta seca como o pó. —Não te tenho medo; falei a verdade. Não fui a amante de Dom Diego. Eu mesma teria tirado minha vida antes de lhe permitir que… —Espera que creia nisso? —Me dá no mesmo se crê ou não; é a verdade. —Ah, Luzia, sempre tão orgulhosa e desafiante. Ainda quer ser monja? —Sim, se tivesse ainda alguma possibilidade. Mas como sou uma mulher casada, já não é possível. A não ser, claro, que lhes pague para te liberar de mim. —Seria uma péssima monja. —ficou mais perto dela, ainda mais perto, obrigando-a a levantar a vista para olhá-lo— Como eu ia poder castigá-la se a encerrar em um convento? Tocou o rosto de Luzia com muita ternura, mas ela percebeu o aço por debaixo de sua carícia. —Não tenho feito nada pelo que mereça ser castigada. Os olhos de Morgan adquiriram um brilho prateado. —E o que é que merece, monjinha? —Que me respeite. Sou sua esposa. —Minha esposa. — Por mais que fosse incapaz de reconhecê-lo, aquela palavra lhe deixava um sabor doce na boca— Não recordo ter desejado uma esposa. Se

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alguém me houvesse dito que algum dia teria uma esposa espanhola, o teria partido em dois com minha espada. E mesmo assim, por mais pesar que sinta, estou cheio de desejo por ti, minha ardente esposa espanhola. Luzia se aproximou dele com aqueles olhos sedutores cheios de promessas e esperanças. —E isso é mau, Morgan? Acaso meu sangue espanhol me incapacita para ser sua esposa? Isso não pareceu te importar quando me seduziu em Andros. —Os olhos lhe obscureceram pela dor do rechaço— Me seduzir não foi mais que um jogo para ti, verdade? —acusou-o— Um jogo que estava decidido a ganhar. Uma vez que me tirou a inocência, já podia se desfazer de mim. —Em Andros foi só uma refém, não minha esposa. —Tomou minha virgindade —arguiu Luzia. Morgan lhe jogou um sorisinho malicioso. —E desfrutei disso minuto a minuto. Igual a você, Luzia, admite-o. —Diferente de você, Morgan, eu não escondo a verdade. Jogou a vida por mim: não posso te ser completamente indiferente. Ela tinha se aproximado tanto que alcançou sentir como seu doce fôlego lhe acariciava a bochecha; levantava aquele queixo desafiante, lhe pondo os lábios o suficientemente perto para… Ele grunhiu, sucumbindo a doce sedução dos sensuais lábios de Luzia. Sua boca apanhou a dela, sua língua brincou zombadora com os lábios dela, sem intenção de fazer esse beijo mais profundo por medo a deixar nele a alma. Quando Luzia abriu a boca para receber o beijo, negou a Morgan a possibilidade de afastar-se antes que seus sentidos o abandonassem: deixou-se envolver no banho de sedução de Luzia tão profundamente como uma mosca quando fica apanhado em uma teia de aranha. O beijo dele se fez mais intenso, de uma intensidade quase selvagem, enquanto a rodeava com os braços. No momento em que seus lábios se roçaram, apoderou-se dele uma estranha loucura.

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Fogo. A sacudida de um incêndio líquido e abrasador acendeu completamente Morgan. Sentiu-se como novo, mais vivo do que nunca havia tornado a sentir-se depois da última vez que esteve assim com Luzia. Queria gritar de puro prazer de ter o corpo dela pego ao dele e amoldando-se perfeitamente. Luzia se apertou contra Morgan, degustando seu sabor e sentindo cada parte dele. A boca de Morgan emanava calor, persuasão e exigência. Ele seduzia e conquistava, coagia e tomava, mas também dava. Luzia

estremeceu de desejo

enquanto os lábios dele devoravam os seus. O calor do corpo dele e a força de seu desejo transbordavam seus sentidos. —Bruxa —lhe sussurrou Morgan nos lábios— Bruxa espanhola. —Agarrou-a pelos braços e a depositou sobre o beliche— Me deixa sem vontade para resistir a ti. Luzia pegou sua mão e a levou ao peito, colocando-a de tal modo que ele pudesse sentir os batimentos selvagens de seu coração acelerado. —Se eu for uma bruxa, então você é um bruxo, porque me faz tremer de ânsia. —Mas você me odeia —lhe recordou Morgan. —Não, jamais! Bom —corrigiu ela—, talvez durante um tempo. —Desfrutou de meu sofrimento. —Isso era mentira! —Deitou-te com Diego de Fujo. —Deus! Mas se você é o único homem que conheço na intimidade. Ele queria acreditar. —É espanhola. —Sim. E você é inglês. Isso não vai mudar nunca. —Maldita seja! É que não te dá conta do que me está fazendo? Os olhos de Morgan brilhavam perigosamente quando pôs uma mão em seu pescoço, fazendo um pouco de pressão. Luzia abriu os olhos como pratos, esperando ver que fazia a seguir. Podia matála com toda facilidade. Tirou a mão da garganta e, lenta e deliberadamente, foi movendo para baixo até ter o seio dela na palma da mão. Luzia exalou um brusco suspiro, sem ter se dado conta de que o estava contendo. —Pensou que iria matá-la? 166


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—Me passou pela cabeça. Ele, docemente, explorou a forma de seu seio, deixando que seu dedo polegar brincasse com o mamilo. —Jamais, em toda minha vida, matei uma mulher e não tenho intenção de começar agora. —Maldito seja por sua atitude intransigente! —Luzia se separou dele, com os olhos acesos de raiva—Acreditou em tudo o que Diego queria que acreditasse. Por que resulta tão difícil acreditar em mim? —Quero sinceramente confiar em ti, Luzia, mas no momento não é isso o que mais me importa. Desejo-te. —Atraiu-a contra o duro extremo de sua necessidade, deixando-a sentir o muito que a desejava— Me vai ajudar a te tirar a roupa ou tenho que fazê-lo sozinho? Os largos dedos de Morgan tremiam enquanto puxava bruscamente e cheio de impaciência as fitas, os laços e os botões que fechavam o vestido de Luzia. Lhe olhou o rosto um momento antes de lhe afastar os dedos e terminar por si mesma o trabalho. —É o único vestido que tenho, não quero que me danifique isso. Ele a ajudou a baixar o vestido até os quadris e dirigiu sua atenção às anáguas e ao sutiã. Tocou-lhe a coxa nua e um forte desejo se apoderou dele. Em questão de segundos, ela estava gloriosamente nua; um tentador festim se estendeu ante os olhos de Morgan, que de repente queria saborear cada luxurioso centímetro do corpo dela. Sua espada caiu com estrépito sobre o assoalho. Sua roupa seguiu à espada. Luzia o observou. Alto, largo de costas e musculoso, irradiava uma sensação de poder, de força e de vigor masculino. Seus traços tinham sido modelados com audácia e originalidade. Não havia nele a menor delicadeza, e só um pingo de refinamento. Parecia um pirata, dos que estão dispostos a tomar o que querem e a lutar com as consequências. Era seu marido. Luzia estremeceu ante a ideia de lhe pertencer.

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Tinha medo de que, se ele não conseguisse superar seu ódio pelos espanhóis, esse era o único vínculo que ficasse entre eles. A luxúria… Por mais que amasse desesperadamente a Morgan, dava-se conta de que só com isso nunca iria conseguir que ele superasse o ódio que sentia para ela e seus patrícios. Mas podia tentá-lo, Deus, podia tentá-lo. Pegou-lhe o rosto entre as mãos e o beijou com uma paixão selvagem e doce que lhe fez encher-se de um desejo palpitante. Notou o sexo dele grosso, duro, totalmente ereto, que lhe apertava a coxa e dava fé do poder, por efêmero que fosse, que ela tinha sobre ele. Ele grunhiu e agarrou a sensual curva de suas nádegas, esfregando-se contra ela em um arrebatamento de necessidade. A boca de Morgan voltou a encontrar a de Luzia, lambendo-a e saboreando-a como se toda a essência melosa dela não fosse bastante para ele. Sua língua explorava todos os lugares sensíveis do interior da boca, fazendo-a perder a cabeça. Abandonando sua boca, os lábios dele se deslocaram por seu corpo para baixo e se fecharam em torno do mamilo rosa. O chupou com delicadeza. Luzia chiou, agarrando-se aos ombros dele e arqueando-se contra seu corpo. Ele sorveu o seio dela para meter-lhe mais cheio na boca, chupando-o vigorosamente enquanto ela se retorcia e tremia debaixo dele. —Morgan… quero tê-lo dentro. —Vou saborea-la, Luzia. Cada centímetro de sua carne deliciosa. Vou dar o que quer, mas não será até que eu esteja preparado. Ele deixou escorregar sua boca para baixo, acendendo um caminho de fogo sobre os seios e o ventre de Luzia. Fez uma parada na sensual viagem para explorar o doce entrante da cintura, a elevação dos quadris, e para lamber e beijar o interior acetinado das coxas dela. Seus dedos passearam pelo triângulo escuro de pêlo que havia onde lhe juntavam as pernas, aproximando-se mais evitando deliberadamente o lugar onde ela mais desejava que a tocasse. Ela sentiu uma quebra de onda de ânsia

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enquanto a língua chegava desesperadamente perto, para logo afastar-se bruscamente. Percebeu o acre aroma de seu próprio desejo e sentiu a umidade que avançava por entre as pernas. Alarmada pelo rumo que estavam tomando os lábios de Morgan, Luzia gritou, protestando. —Morgan, o que está fazendo? Não pode… não irá a… meu Deus, isso é pecado. Lhe separou as pernas e a tocou delicadamente com a gema dos dedos. Estava como gostava: úmida e quente. As mãos dela se aferraram brandamente aos ombros dele. Penetrou-a com o dedo; ela se abraçou a ele com força, abrasando-o no fogo que irradiava. Ele baixou a cabeça para abrir caminho nela com a língua. Encontrou o que andava procurando e fechou os lábios ao redor da pérola sensível e coberta de orvalho que ela tinha escondida entre as pernas. Luzia chiou e esteve a ponto de tentar tirar-lo de cima. —Morgan, Por Deus! —Te relaxe, monjinha —lhe disse brandamente— Nada do que faça um marido e sua mulher é pecado. Voltou a tocar com a língua aquele lugar tão sensível entre suas pernas e ela esteve a ponto de desfazer-se em pedaços. Saboreou-a com descaramento enquanto sua língua e sua boca riscavam sua magia sobre a pele dela e com os dedos a seguia atormentando. —Não posso suportar! Ele levantou a cabeça. —Já sei. Não te reprima. Está quente, úmida e no ponto. Agora, te renda a mim. Então, ele seguiu atormentando-a com as mãos, com a boca, com a língua, tudo ao uníssono para voltá-la louca. Ele não mostrou compaixão e exigiu sua resposta, seu corpo e o mais profundo de sua alma. Luzia sentia que estava formando por dentro uma pressão enorme que exigia ser liberada. Um prazer intenso a

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percorreu e, de repente, ali estava, caindo vertiginosamente em um clímax arrebatador. Um grito estrangulado escapou de seus lábios enquanto seu corpo sacudia e vibrava ao compasso que marcava ao penetrá-la com a língua Morgan. Uma espécie de resplendor que nem todo mundo tinha o privilégio de experimentar a percorreu por dentro, e lhe pareceu estar morrendo um pouco. Morgan estava crispado pelo imperioso de sua necessidade. Sua fome era profunda, estava desesperado por meter-se a toda pressa dentro da mulher que se retorcia extasiada sob seu corpo, por empurrar-se e culminar. Deslizou para cima pelo corpo molhado de Luzia, ofegando como se tivesse de correr uma distância enorme enquanto colocava seu grosso membro na úmida abertura de seu corpo. O aroma embriagador do desejo dela brincava com ele, enchendo-o de luxúria e deixando-o encantado. —Luzia, me olhe. Luzia voltou lentamente a si, ainda drogada pela poderosa resposta que Morgan lhe tinha arrancado. Ouviu que a chamava como se estivesse muito longe e abriu os olhos. —Me vou colocar agora dentro de ti, e quero que saiba quem está te fazendo o amor. Te concentre, Luzia. Quero que chegue ao clímax comigo. Agarrou-a pelos quadris e, levantando-a da cama, deslizou-lhe dentro a dura proeminência de seu sexo. Apertou os quadris e empurrou para diante, enchendo-a daquela força incrível. —Mova-se comigo — insistiu com voz rouca enquanto seu membro entrava e saía do tenro envoltório que lhe oferecia. O compasso acelerado de suas entradas e saídas fez que lhe rebrotasse o fogo nas veias e a obrigou a mover os quadris para lhe seguir o ritmo. —Bem, muito bem —grunhiu Morgan, esquecendo-se de tudo menos de como reagia seu corpo ante a mulher que tinha debaixo.

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Durante um breve instante, já não lhe importou que Luzia fosse espanhola, que tivesse jazido ou não com Diego De Fujo nem que o odiasse tanto para desejar sua morte. Luzia se precipitava para outro clímax explosivo. Ou, mais que precipitar-se, voava. Ia tão rápido que não era capaz nem de respirar. Levantou a vista para olhar Morgan, sentindo-o tão cativo da paixão como estava ela, e naquele momento não teria podido amá-lo mais. —Morgan, sinto… meu Deus, sinto! Aquelas palavras catapultaram Morgan além do limite. Liberou-se em uma explosão violenta, endurecendo-se e gritando o nome de Luzia enquanto derramava sua semente dentro dela. Luzia se agarrou com força a ele e fluíram juntos até o paraíso… e além. Quando Luzia voltou a si, encontrou que o agradável peso de Morgan se deslocou e que estava agora convexo a seu lado. Sentiu o calor de seu olhar e se voltou para olhá-lo. Tinha uma expressão indecifrável; os olhos brilhavam como se fossem moedas de prata reluzentes. —Estive a ponto de acreditar que… —Morgan deixou a frase pela metade, temendo despir muito seu coração. —O que é o que esteve a ponto de acreditar, Morgan? Ele duvidou um instante e disse: —Que de verdade sente algo por mim. Ninguém poderia fazer amor assim sem senti-lo. —A Luzia lhe encheu o peito de esperanças. Mas as seguintes palavras de Morgan as jogaram por terra— É uma atriz extraordinária, Luzia. Sabe exatamente o que tem que fazer e dizer para que eu te deseje. Vim com a intenção de te castigar e terminei te fazendo amor. Sou consciente de que tem muitos motivos para me odiar, mas tinha a esperança de… chegou a me cativar de verdade em Andros. Mas agora vejo claramente o que é. —E o que sou, Morgan?

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—É uma feiticeira espanhola que não tinha tido a menor consciência de sua própria sexualidade até que eu a desvelei. Mas, desde que te liberei de sua virgindade, já nada te parece o bastante. Você… Uma cólera avermelhada explodiu no cérebro de Luzia. Já tinha suportado muitos insultos por parte de Morgan. Jogou a mão para trás e lhe deu uma bofetada tremenda. Ao Morgan foi a cabeça para um lado pela força do impacto. Quando ia dar outra bofetada, ele ficou de pé e se tornou para atrás, lhe segurando as mãos à cama por cima da cabeça. Baixou a vista para olhá-la com o rosto transpassado de fúria. —Não volte a fazer isso! —Sabe que eu era inocente até que te conheci —o acusou Luzia— Você me ensinou a desfrutar de coisas pecaminosas que jamais teria aprendido no convento. Sei que ainda acredita que me deitei com Dom Diego, mas está equivocado, terrivelmente equivocado. Luzia saiu da cama de um pulo, atravessou o camarote até a cômoda e abriu uma gaveta atrás de outra, até que encontrou o que estava procurando. Voltou aonde estava Morgan com o rosto aceso pela injustiça de seus insultos. Morgan a observava cuidadosamente, disposto a reagir violentamente se fosse necessário. Relaxou ao ver o que ela trazia na mão. Era uma Bíblia. Tinha pertencido a sua mãe e ele tinha adotado o costume de levá-la consigo a qualquer lugar que fosse. Deu-se conta de que Luzia tinha ocupado seu camarote durante o tempo necessário para familiarizarse com o que havia nele. Gloriosamente nua, com as bochechas rosadas do amor que lhe tinha feito Morgan, Luzia voltou até o beliche e ficou de joelhos. Segurou a Bíblia sob o nariz do pirata e pôs a mão direita em cima. —Escuta bem, Morgan Scott. Juro sobre o livro sagrado que tudo o que te disse em Havana era mentira.

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Morgan a olhou com ar divertido, tirou-lhe a Bíblia das mãos e a jogou a um lado. Logo, agarrou-a em braços e a sentou sobre seu colo. —Mentiste-me tantas vezes no passado que já não sei no que acreditar. Deixame os miolos feitos migalhas e me tenta a perdição. Infelizmente, não está em minha mão te castigar, porque sempre que o tento termino te fazendo amor, e seu castigo se converte em um prazer para mim. —Apertou-lhe as nádegas, levantou-a um pouco e empurrou para cima para penetrá-la— E me frustra saber que sou capaz de desejar a uma feiticeira espanhola que me enrola e me seduz. —meteu-se nela até o fundo, puxando ela para baixo ao mesmo tempo— Maldita seja! Ela o envolvia palpitante, quente e úmida, e Morgan soube que quão único podia fazer para manter a prudência e não sucumbir às artimanhas da bruxa espanhola, com a qual se casou contra sua vontade, era não deixar que afetasse seus sentimentos. Empurrou para cima outra vez, lhe arrancando um gemido da garganta. Sim, isso era o que ia fazer, fingir indiferença. Mas mais tarde, não agora. Ah, Deus, agora não. Levantou a cabeça e meteu um seio dela na boca; seu gemido de prazer eclipsou o dela. Chupou-o com esforço enquanto seu pênis se embalava das coxas dela. Não faça a tolice de cair em seu feitiço, repetia-lhe seu cérebro enquanto seu corpo reagia impetuosamente à mulher que se retorcia em cima dele. Não te deixe enganchar pelo prazer que te dá seu corpo. Serviria-te igual qualquer outra mulher, disse a si mesmo. Voltou a empurrar para dentro dela mais rápido, mais forte, freneticamente, assediando com a boca os mamilos. Sentiu-se a ponto de alcançar o clímax e gemeu contra seus seios. Então voltou a meter-se até o fundo e perdeu a capacidade de pensar. Luzia sentiu o primeiro jorro da semente do pirata e se rendeu à magia do amor de Morgan. Precipitando-se ao prazer, jogou para trás a cabeça e exalou um grito. Morgan a agarrou pela mandíbula e correu atrás dela. Quando tudo acabou, ele

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com cuidado a moveu para um lado e

saiu. Já se via até onde chegava sua

determinação, pensou compungido. —De verdade pensa isso que me disse, Morgan? —perguntou Luzia duvidando ao ver que ele não estava disposto a conversar. —O que é o que te disse? Os homens podem dizer muitas coisas no fragor do prazer. —Disse que prefere me amar que me castigar. Disse que meu castigo é um prazer para ti. —Isso disse. —Para mim também é um prazer. Morgan deu a volta bruscamente para encarar-se com ela. —Então, não deveríamos deixar que volte a acontecer, verdade? —Por que não? Sou sua mulher. —Sim; minha mulher espanhola. —Vai me abandonar? Não deve ser muito difícil invalidar nosso matrimônio, dado que nos obrigaram a nos casar. —Demos o sim diante de um padre. É perfeitamente legal, monjinha. Não faça fantasias de que não o é. Luzia o olhou perplexa. Dava-lhe a impressão de que ele se alegrava de que estivessem casados. —E não podemos viver como um matrimônio normal? Poderíamos ser felizes em Andros. —Nossa relação não tem nada de normal. Você é minha inimiga —depois daquela declaração turbadora, fez uma pausa momentânea. As pessoas não desfrutavam de fazer amor com seu inimigo, ou sim? Deixou de lado aquele pensamento que o confundia e continuou— Não tenho a mínima ideia de como vão reagir meus amigos da Inglaterra quando lhe virem? A rainha vai se pôr furiosa comigo por me casar sem seu consentimento. Sempre desfrutei dos favores da rainha, e não estou disposto a perdê-los agora. Luzia não ouviu mais que a palavra "Inglaterra".

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—Se está pensando em me levar a Inglaterra, que saiba que não penso ir! Prefiro viver em Andros. —Andros está fora de questão neste momento. Ele saiu da cama e recuperou sua roupa, que estava pulverizada pelo chão, tal e como a tinha deixado na pressa por fazer amor a sua esposa. vestiu-se depressa, ajustando a espada firmemente em seu lugar. —Acredito que o melhor vai ser que nos evitemos mutuamente no futuro. Darei-te o que necessite, mas não vamos compartilhar a cama. Odiei aos espanhóis durante muito tempo para que você me faça mudar agora. O que não disse foi que tinha medo do que tinha feito ela a sua prudência. Luzia o olhou surpreendida. —Não vamos compartilhar a cama? Mas você gosta do sexo, Morgan Scott. Ele encolheu de ombros. —Há mulheres em abundância. —E homens em abundância —raciocinou Luzia com calma. Morgan de repente deu meia volta, a ponto de asfixiar-se em sua própria raiva. — Mas se você tiver um amante, o mato. E pode ser que a ti também. Luzia apertou o queixo, desafiante. —Bem, mas se você coloca a outra mulher em sua cama, a mato eu. E pode ser que a ti também. Morgan franziu os lábios divertido. —Acredito que seria capaz, minha fogosa monjinha espanhola. É claro que sim que seria capaz. Soltou uma gargalhada que seguia ressonando muito depois de que se foi.

Capítulo 12

A decisão de Morgan o abandonou ao cabo de uns poucos dias. O mero

pensamento de que tinha Luzia dormindo em sua cama o enchia de um sentimento feroz de desejo. O navio era sua prisão e seu inferno. Não havia maneira de escapar 175


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aos encantos mágicos dela. Chamavam-no, tentavam-no, enchiam-no de luxúria, e lhe faltava a força necessária para resistir a seu magnetismo. Tinha liberado uma batalha gigantesca, e tinha perdido. Luzia ouviu que se abria a porta do camarote e soube que era Morgan antes de vê-lo. —Maldita seja, Luzia, enfeitiçaste-me! —Morgan entrou na habitação enfurecido como um touro bravo ao que lhe disparam as aletas do nariz ante o aroma de uma fêmea. Tirou a espada, e quando chegou ao beliche já estava nu. O colchão tremeu por seu peso e as botas golpearam o assoalho quando as lançou pelo ar ao tirá-las. Quando se meteu na cama ao lado dela, a temperatura de seu corpo lhe fez acender dos pés à cabeça ao abraçá-la. —Como tenho feito isso —sussurrou Luzia tremendo em resposta a essa autoridade sua genuinamente masculina. Deus, bastava que Morgan a tocasse para que começasse a arder em chamas. —Tentei resistir a ti com todas minhas malditas forças, mas este navio não é o suficientemente grande para poder fugir de meu desejo por ti. Fraqueja-me a vontade no que se refere a você. É uma enfermidade que tenho que purgar de meu corpo. Antes de que cheguemos a Inglaterra espero me haver satisfeito de ti. Luzia sorriu para si mesma. Se não estivesse apaixonada por aquele pirata arrogante, teria encontrado forças para resistir. Mas que Morgan fraquejasse a vontade lhe deu quase lástima, porque ela sentia o mesmo. Abriu os braços e o recebeu ansiosa, faminta. Eram marido e mulher; ela ia conseguir que ele a amasse. Depois do encontro apaixonado de ambos, a Luzia foi concedida a liberdade de perambular pela coberta. A tripulação sabia que estava proibido aproximar-se dela e, entre Morgan e o senhor Crawford, raramente ficava sem vigilância. O clima tinha começado já a ser mais frio agora que estavam em águas setentrionais; era dezembro e os fortes ventos sopravam com chuva e neve. Os homens iam forrados de roupa até as sobrancelhas e havia dias em que Luzia tinha que permanecer no camarote para 176


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não passar frio. Era difícil acreditar que fazia uns poucos dias tinha estado nos trópicos, desfrutando do sol e de brisas cálidas. Fazia um tempo horrível e chuvoso poucas semanas depois, quando passaram navegando por diante de Plymouth e entraram no Canal da Mancha. Luzia estava de pé em um lugar resguardado na coberta olhando consternada o enorme contingente de navios reunidos no porto de Plymouth. Estava a ponto de ir procurar Morgan para lhe perguntar o que faziam quando ele apareceu a seu lado. —O que crê que fazem todos esses navios no porto? —perguntou-lhe Luzia cheia de curiosidade. Morgan duvidou em lhe dizer a verdade e decidiu que não poderia lhe fazer dano. —Suspeito que a rainha está reunindo forças para enfrentar à armada que seu rei enviou para atacar a Inglaterra. Luzia o olhou com cautela. —Se o rei Felipe tiver enviado uma armada, será para resgatar à rainha católica Maria Estuardo. —Já é muito tarde, e bem sabe. A rainha Maria foi executada em Fotheringhay em fevereiro deste ano. Luzia empalideceu. —Executada? Que selvagens. Que tipo de mulher é sua rainha? —É uma mulher precavida e sábia no que aos costumes mundanos se refere — replicou Morgan. O que não lhe disse foi que também era uma mulher vaidosa e possessiva. Queria ter a seus cortesãos constantemente a seu redor e lhes exigia sua completa atenção, amor e devoção. Nenhum dos cavalheiros que orbitavam em torno da mais brilhante das estrelas teria levado a sua esposa a corte a menos que a própria rainha o ordenasse. Inclusive chegou a exigir que seus cortesãos a acompanhassem nos próprios carros que viajava de imóvel em imóvel, visitando seus domínios. E pobre do

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que se casasse sem seu consentimento. A reação de Isabel a seu próprio casamento inesperado ia ser uma dura reprimenda, pensou Morgan para si. —Se a rainha Maria da Escócia já morreu, duvido que o rei Felipe esteja considerando um ataque contra a Inglaterra. Morgan lhe deu um olhar reprovador. —Sabe muito pouco de política, Luzia. Estou desejando chegar a Londres e me inteirar do que se está acotecendo ali. Isso de passar semanas e meses no mar às vezes tem seus inconvenientes. —Pensei que havia dito que íamos atracar em Portsmouth. —Durante um de seus arrebatamentos mais comunicativos, Morgan tinha revelado que iriam desembarcar em Portsmouth e que viajariam por terra até sua casa, em West Sussex. —E isso é o que vamos fazer. O senhor Crawford ficará com o navio e navegará para Londres com a parte que corresponde à rainha de nossa conquista. Teve a precaução de embarcá-lo a bordo do Vingador antes de sair de Andros. Quando tiver te acompanhado a minha casa de campo, partirei a Londres a toda pressa para me apresentar ante a rainha. Admito que estou impaciente por saber o que está passando entre a Espanha e a Inglaterra e por pôr meu navio ao serviço da Inglaterra. —Vai me deixar em West Sussex? —Luzia tragou uma baforada de pânico— Eu… eu não conheço ninguém ali. O que vou fazer? —Fará o que fazem outras esposas em sua situação. Ficará em casa fiscalizando os criados e a cuidando da propriedade. E criando nossos filhos, se algum dia os temos —acrescentou, pensando no miseravel que tinha fracassado em sua tentativa de manter-se afastado da cama de Luzia. Podia ser que naquele mesmo instante levasse já seu filho em seu interior. Aquele pensamento lhe deixou um sabor amargo na boca. Jamais, nem em seus piores pesadelos, teria imaginado que seus filhos teriam uma mãe espanhola. Estando Luzia em West Sussex e ele em Londres, resultaria-lhe mil vezes mais fácil esquecer-se de que tinha uma esposa e, mais ainda, uma esposa espanhola.

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Havia uma infinidade de cortesãs de sangue quente que não iria desperdiçar ocasião de o aliviar da solidão. Antes que Luzia desse uma resposta adequada, chamaram Morgan de fora, e a deixou pensando em silêncio. Acaso Morgan pretendia deixá-la morrendo de aborrecimento em sua casa de campo enquanto ele ia com a melhor das disposições atender os bailes de sua rainha? E o que seria dela durante aqueles meses que ele tinha que ficar no mar, saqueando navios espanhóis pela glória da Inglaterra? O que ia ser dela naquele país hostil, sem amigos nos que apoiar-se? O navio atracou como que não quer a coisa. Antes de que Morgan e Luzia baixassem a terra, Morgan enviou Crawford para alugar uma carruagem que os levasse até Haslemere, em West Sussex. Luzia pode se inteirar que não se encontrava a grande distância de Portsmouth. Quando Morgan reapareceu a seu lado, embelezou-se à última moda com meias ajustadas, bombachos acetinados curtos e um espartilho bordado. Estava realmente arrumado, pensou ela enquanto admirava suas largas pernas torneadas. Mas lhe gostava muito mais com suas calças de sempre, a camisa branca ao vento e as botas altas, que era o que usava a bordo do Vingador. Por desgraça, seu próprio traje deixava muito a desejar. E não havia nada que pudesse fazer para arrumar o cabelo tosquiado. Embora já lhe tinha crescido, ainda o levava indecentemente curto, lhe emoldurando o rosto e toda a cabeça com uma massa descontrolada de cachos ébano. Tremendo por baixo de uma das volumosas dobras da capa de Morgan, Luzia acurrucou no assento ao lado de seu marido enquanto o carro que tinham alugado estralava por aquele caminho de cabras. Advertindo que estava incômoda, Morgan a colocou entre os braços, muito consciente de que, uma vez que tivessem chegado a sua casa, toda intimidade entre eles devia necessariamente terminar. Luzia estava se voltando muito imprescindível para seu bem-estar; tinha que dar certa perspectiva a

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aquele casamento forçado. Uma vez que estivesse na corte, entre os seus, esperava que o poder que tinha Luzia sobre ele diminuísse. —O que opina do inverno inglês? —perguntou Morgan em uma tentativa de que seus pensamentos se afastassem do corpo morno que levava acurrucado no seu colo. —Eu não gosto —disse Luzia com toda sinceridade. Olhou pela janela a paisagem que corria para trás. Os pastos estavam secos e marrons e as árvores tinham perdido sua elegante folhagem. Uma garoa brumosa obscurecia sua visão do terreno e uma umidade que impregnava os ossos lhe tinha posado em cima como se fosse uma funesta cortina cinza. Era muito deprimente. Suspirou cheia de melancolia. —O clima da Espanha é muito mais acolhedor. E Andros é um paraíso comparado com isto. Morgan riu. —Sinto-me inclinado a cocordar com você. Mesmo assim, esta é a terra que me viu nascer, e devo informar periodicamente a minha rainha e vigiar minhas propriedades. —O que vai ser de mim quando voltar ao mar? —perguntou Luzia preocupada com o pouco que a valorava como esposa. Morgan franziu o cenho. Sério, o que vai ser dela?, perguntou a si mesmo. Maldita seja, que confusão. Ele não pensava casar-se até que estivesse preparado para deixar a vida a bordo e sentar a cabeça. Para então, tinha planejado fazer a ronda por aqueles aborrecidos eventos sociais e encontrar uma noiva entre as jovens promessas do mercado do matrimônio. Ele tinha pensado encontrar a uma que fosse rica, que se conformasse estando confinada no campo, criando seus filhos enquanto ele atendia à rainha e tivesse uma amante em Londres para manter o aborrecimento a raia. Por desgraça, tinham-no obrigado a casar-se contra sua vontade com uma espanhola de muito caráter, cujo feroz temperamento e cuja beleza arrebatadora o 180


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tinham em constante contradição. A pura realidade era que a queria, mas a pergunta que lhe tinha feito o inquietava. —Quando voltar ao mar, você ficará na Residência dos Scott. Luzia abriu a boca para protestar, mas Morgan a deteve com um beijo. Não pôde evitar. Os lábios dela, ligeiramente umedecidos e resplandecentes, estavam-no tentando. Tão perturbadores mas tão irresistíveis como a fruta proibida. A subiu ao colo e acoplou a boca sobre a dela em um beijo capaz de lhe parar o coração. Os lábios dele foram tudo menos delicados quando foi abrindo a boca com a língua para poder saborear a doce essência dela. Adorava seu sabor, e o sentimento de tê-la entre os braços, porque era sólido, quente e reconfortante. Era quase como se ela… Não, não ia pensar nisso. Sua vida já era bastante complicada sem perguntar-se se Luzia sentia algo especial por ele. Desejo sexual, isso seguro; mas não se atrevia a contemplar outras coisas. É obvio, sua própria ânsia de sexo para sua fogosa esposa espanhola tampouco era questionável. Sua debilidade por Luzia era motivo mais que suficiente para pôr distância entre ambos, antes que perdesse irrevogavelmente o sentido. Seu ressentimento contra os espanhóis fazia impossível cuidar dela, acaso não era isso certo? Mas, com Luzia retorcendo-se provocadora sobre seu colo, resultava-lhe difícil lembrar-se dos sentimentos amargos de vingança. As mãos dela lhe agarravam pelos ombros e puxavam ele para apertar-se mais enquanto sua boca tomava por assalto a dela. As choramingações de prazer afogadas que soltava Luzia quase o fizeram enlouquecer. Desprendeu-se do beijo e ficou olhando-a. Os olhos dela eram tão escuros e estavam tão cheios de promessas eróticas que se atirou de cabeça dentro daquelas profundidades sem lhe importar as consequências. —Bruxa — sussurrou com aspereza, sinceramente convencido de que ela o tinha enfeitiçado. Como podia lhe haver feito perder o norte daquela maneira, se não efosse ma bruxaria? 181


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—Não sou uma bruxa, Morgan —replicou Luzia suspirando sem fôlego— Sou só uma mulher que… —Se mordeu a língua. Não ia ganhar nada lhe dizendo que o amava, em troca, podia perdê-lo. Antes de admitir tal coisa, tinha que convencê-lo que não era sua inimiga. —…Uma mulher, de sangue quente e natureza tempestuosa, que satisfaz certa necessidade que eu tenho —terminou Morgan. Voltou-a a beijar com a boca quente e cheia de exigências enquanto lhe levantava o vestido até as coxas, dando via livre a seus mais ferventes desejos. —Você gosta do que te faço, meu amor. —A mão dele encontrou o suave ninho entre suas pernas e lhe acariciou com os dedos a carne tenra e úmida de suas partes mais íntimas. Afundou a cabeça no seio, deixando um círculo molhado no tecido do sutiã— Eu também o desfruto. Luzia tomou fôlego e o reteve. As carícias íntimas que lhe estava fazendo a estavam deixando aturdida. —Sua arrogância é entristecedora. Ele avançou com dedos certeiros para o doce calor de seu sexo, e soltou um grunhido quando o membro lhe endureceu tanto, que por pouco lhe arrebenta o laço das calças. —Maldita roupa desenhada por homens sem perspectiva —murmurou, retorcendo-se

para acomodar aquela ereção de enorme proporção.— Como

pretender que nos demos prazer com todo este impedimento de capas e mais capas, e de roupa apertada. Luzia gemeu de decepção. Morgan a ouviu e riu. —Isso não quer dizer que não te possa agradar. —Empurrou o dedo para dentro e Luzia se sacudiu convulsivamente. Uma vez que recuperou o pulso normal, começou a apertar-se contra os dedos que a acariciavam, lhe obrigando a coloca-los ainda mais dentro. Quando o polegar dele encontrou sua pérola palpitante de sensibilidade, ela entrou na erupção de um

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violento clímax. Ele continuou com ela até que o último tremor abandonou seu corpo. Então, subiu-lhe todo o vestido e a abraçou com força. —Gostou, meu amor? Luzia ruborizou, avivada. —Já sabe que sim. Mas, e você, o que? —Colocou-lhe a mão, decidida a fazer por ele o mesmo que ele acabava de fazer por ela. Morgan pigarreou quando a mão dela se fechou em torno de seu pênis, ainda dolorido pela ereção, ainda palpitante. O auto controle de Morgan pendia de um fio muito fino. Faltava bem pouco para unir-se ao êxtase de Luzia. Fazendo provisão de forças, afastou-lhe bruscamente a mão. Decidiu que aquele era um momento, tão bom como qualquer outro, para pôr a prova sua força de vontade e demonstrar que podia resistir aos encantos tão sedutores de Luzia. Ia ser a maior provação de toda sua vida. Quando abriu a boca, sua voz era uma estrangulada paródia de frustração e desejo contido. —Não, Luzia! —as palavras lhe saíram com maior aspereza do que tinha calculado. Luzia afastou a mão como se queimasse. —Não tinha intenção de… te ofender. Queria te agradar. As pesadas pálpebras de Morgan desceram para esconder sua angústia. Não podia permitir que Luzia soubesse o difícil que lhe resultava proteger o coração contra ela. Bruscamente, a arrancou do colo e a sentou no assento que tinha ao lado. —Passaremos a noite em uma hospedaria —disse Morgan friamente— A viagem de Portsmouth até minhas propriedades, não é muito longe, mas saímos do Vingador quando já era tarde, de modo que precisamos fazer uma parada. Eu não gosto de estar no caminho de noite e sem escolta. Os bandoleiros abundam por estas paragens. Já mandei gente na frente para que nos reservem habitações e resolvam a comida e o banho. Luzia observava Morgan consternada. O que ela havia dito ou feito para que ele mudasse de parecer tão bruscamente? Transformou-se de amante, em

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desconhecido em um abrir e fechar de olhos. Apesar do breve interlúdio de uns instantes, pareceu-lhe que Morgan estava desprezando deliberadamente a possibilidade de continuar com essas intimidades. Tinha chegado a lhe dizer que ia deixá-la no campo enquanto ele perseguia seus interesses em Londres e revoava alegremente pela corte. Bom, Luzia admitiu que não eram exatamente essas as palavras que ele tinha utilizado, mas ela sabia ler entre linhas. A escuridão se abatia sobre o fio do entardecer quando a carruagem entrou fazendo grande estrondo no pátio da hospedaria de A Ferradura e a Pluma. O hospedeiro saiu para recebê-los, secando as mãos no sujo avental. —Bem-vindo, Capitão —o saudou efusivamente, satisfeito com a visita de Morgan— Não estamos acostumados a ter frequentemente clientes tão distinguidos em A Ferradura e a Pluma. Sentem-se enquanto minha mulher lhes prepara um bom jantar. Tudo é pouco para o Diabo e sua senhora esposa. Voltou-se para Luzia e o sorriso lhe apagou do rosto. —Desculpe, Capitão Scott, acreditei que viria acompanhado de sua esposa. Luzia retrocedeu e se pegou a Morgan. Evidentemente, aquele homem esperava uma delicada donzela inglesa de tez clara, em lugar de uma senhorita espanhola morena e sedutora. Acaso era aquele o perfeito exemplo da reação que ia encontrar na Inglaterra ante seu casamento? —Está certo, hospedeiro —disse Morgan um pouco zangado— Esta é, de fato, minha esposa. —Mas… mas é espanhola, Capitão. Pensei, quero dizer, toda a Inglaterra sabe que… —Maldita seja! —balbuciou Morgan ao ver o ar indignado do rosto de Luzia. Apesar do que ele mesmo sentisse para os malditos espanhóis, não gostava de ver que seus patrícios ofendiam a Luzia. —Importa-me bem pouco o que opine todo mundo na Inglaterra a respeito de meu matrimônio. Ninguém tem nada que opinar neste assunto. Estou morto de fome. Minha esposa e eu gostaríamos que nos servissem o jantar imediatamente.

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—Sim, Capitão —disse o hospedeiro fazendo uma reverência servil. Sabia que tinha excedido os limites da cortesia, mas tinha ficado tão estupefato ante a visão da mulher espanhola do Diabo que não tinha podido conter a língua. —Não faça conta, Luzia —disse Morgan uma vez que se sentaram em uma mesa reservada junto ao fogo. Luzia ficou olhando as chamas que dançavam e sentiu que o calor chegava aos ossos congelados. Depois de uma longa pausa de contemplação silenciosa, voltou-se para Morgan. —Não tem que se desculpar por seus patrícios. Ficou muito claro. Sentem o mesmo que você por meu país. Mas estão equivocados. O rei Felipe jamais mandaria uma armada contra sua rainha. Não há duvida agora que a rainha Maria Estuardo morreu. —Isso ainda veremos —disse Morgan secamente. Chegou a comida e a conversa ficou interrompida enquanto ambos se concentravam no alimento que ltinham a diante. Quando Luzia deixou o garfo, bocejou amplamente. Advertindo que estava esgotada, Morgan estalou os dedos. O hospedeiro apareceu como por arte de magia fazendo reverência. —Leve minha esposa a sua habitação —disse Morgan— E se encarregue de ter uma banheira preparada para que possa tomar um banho antes de retirar-se. O hospedeiro, um homem baixinho e rechuncho de olhos azuis muito vivos, voltou-se muito tenso para Luzia. —Faça o favor de me seguir, Lady Scott. Minha mulher se encarregará de seu banho. —Obrigado —disse Luzia amavelmente. Antes de seguir o hospedeiro, perguntou a Morgan: —Vai vir?

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—Vou ficar contemplando o fogo durante um bom momento e vou terminar o conhaque. Mas não tem que se preocupar que possa despertar quando for dormir, porque tenho minha própria habitação. Luzia o olhou atônita. —Pediu habitações separadas? Ele ficou olhando o fogo de mau humor. —Pensei que ia ser o melhor. —Já vejo —disse ela com um deixe de rancor— Boa noite, Morgan. Negando-se a lhe mostrar sua profunda decepção, seguiu ao hospedeiro pela estreita escada com a cabeça bem alta apesar de ter o ânimo no chão. Assim que tinha pisado em chão inglês, Morgan tinha mudado. Mal reconhecia aquele estranho tão distante. Não fazia a menor graça ter que passar a vida confinada no campo enquanto o homem que amava procurava outros prazeres longe dela. Aquele pensamento lhe obscureceu uma imponente fúria no olhar. Morgan ficou sentado olhando o fogo, até passada a hora em que devia ter se retirado. Sentia aquela debilidade que entrava em tudo o que se referia a Luzia, e renovou sua promessa de manter o mais estrito dos controles ao tratar com sua esposa. Ele era um homem forte, esperava firmemente ganhar a árdua luta de conter seus desejos por Luzia, sem lhe importar o preço que tivesse, que pagar com o coração. Uma vez que tivesse deixado de necessitar a zorra espanhola, seria livre para viver o tipo de vida ao que se acostumou antes de ver-se obrigado a casar-se. O hospedeiro soltou um sonoro suspiro de alívio quando Morgan, por fim, foi refugiar em sua cama. Tinha o olhar impreciso quando passou por diante da porta de Luzia. Não se deteve, mas sim seguiu até sua própria habitação, agradado por sua capacidade de ignorar os batimentos de seu coração. À manhã seguinte, Morgan estava esperando Luzia quando ela baixou as escadas. Estava um pouco pálido e lhe tremiam as mãos enquanto sustentava uma jarra de densa cerveja. Luzia tratou de passar por cima da atitude amarga com que a

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recebeu. Lhe incomodava a indiferença dela, estava bem empregado em havê-la ignorado deliberadamente a noite anterior. Ela tomou o café da manhã, consistente em cordeiro frio, queijo, pão e leite fresco, em silêncio, preocupada com o modo em que Morgan a observava com os olhos injetados em sangue. Por que a estaria olhando daquela maneira? Perguntouse tratando de manter a dignidade enquanto ele a atravessava com o olhar. Moveu-se incômoda várias vezes antes de que Morgan se desse conta de que a estava olhando. Deus, que bonita é, pensava ele desmoralizado. Aquela beleza escura e arrebatadora resultava exótica e inocentemente sedutora. Pensou que ela levava sua herança espanhola com orgulho. Com aquele pensamento instrutivo, Morgan ficou em pé. —Está preparada, Luzia? —Sim, Morgan —disse e se levantou com gesto elegante. Ele a acompanhou até a carruagem que os estavam esperando e se foram pelo caminho. Morgan dormiu até chegar ao povo de Haslemere. Então, despertou de repente, como se dormir não tivesse sido mais que um pretexto para evitar comunicar-se com ela. Luzia se perguntava como fazia para ser um homem quente durante um minuto e frio durante o minuto seguinte. —Já quase chegamos à Residência dos Scott —disse ele com uma impaciência que a deixou surpreendida—Você vai gostar. É um imóvel precioso com uma horta, um bosque e um riacho que a atravessa. Meus pais adoravam este lugar, e cada vez que volto me dou conta por que gostavam tanto. —Se você tanto gosta, como é capaz de passar meses inteiros tão longe? Ele ficou calado durante um momento que Luzia pensou que não a tinha ouvido. Quando por fim se pronunciou, fez-o em um tom distante, como se estivesse pensando em outra coisa. —A intriga social e política de Londres me diverte e o imóvel requer grande parte de meu tempo, mas depois de uma breve estadia em terra, o mar sempre me

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atrai. Formei um lar em Andros, um entorno bem afastado de Londres e de sua sociedade extravagante. Luzia guardou silêncio. Era evidente que Morgan não necessitava de uma esposa. Estava casado com o mar. O fato de que ela fosse espanhola de nascimento só servia para piorar as coisas entre eles. Seus irmãos lhe tinham feito um fraco favor insistindo que Morgan e ela se casassem. Mas, claro, o que eles não imaginavam era que Morgan iria viver para reclamá-la como esposa. E seu próprio engano tinha sido se apaixonar pelo pirata. Luzia observou com agrado a aprazível mansão de tijolo que se erigia imponente sobre uma colina na pradaria. Estava rodeada de uma vasta extensão de grama bem cuidada e jardins deliciosos. Havia uma horta que se estendia do extremo ocidental dos jardins até o rio, que internava plácidamente no bosque que ficava mais atrás. Luzia pensou que quem quer que cuidasse do imóvel de Morgan em sua ausência, fazia um trabalho de manutenção magnífico. O lugar conservava uma elegância apesar das longas ausências de Morgan. —É preciosa —disse Luzia. Morgan se viu extranhamente agradado por sua sinceridade. —É um pouco pequena —disse Morgan enquanto o carro parava diante das altas e finas colunas que guardavam a entrada dianteira— Só tem trinta habitações, mas acredito que se sentirá cômoda aqui. Pode redecorá-la como quiser, se gostar. Mudaram muito poucas coisas desde que meus pais viviam aqui. A porta da carruagem se abriu e Morgan desceu. Para economizar tempo, tirou luzia de dentro e a pôs a seu lado. Tirou bruscamente suas mãos da cintura quando a porta principal se abriu e um homem alto, gasto e sombrio vestido de rigorosa librea negra saiu para recebê-los. —Capitão —disse, fazendo uma leve reverência— Em nome da servidão e no meu próprio, agrada-me lhes dar a bem-vinda a seu lar —cravou o olhar em Luzia — nos informaram que vinha para casa com sua esposa.

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Aquele homem, servente ou não, lhe intimidava, e Luzia deu um passo atrás, chocando-se com Morgan. Lhe pôs as mãos sobre os ombros para segurá-la. —Forsythe, velho resmungão —riu Morgan dando aquele homem uma palmada nas costas— Me alegro de ver-te. Não trocaste nada. Ainda me lembro do dia que me deu uns açoites no traseiro por me levar mal com minha irmã. O rosto de Forsythe fez uma careta que poderia ter passado por um sorriso. —E bem que mereceu isso, Capitão. —Seu olhar voltou a posar em Luzia como se a tivesse julgando e a tivesse achado em falta. —É justo que seja o primeiro em conhecer minha esposa —prosseguiu Morgan — Luzia, este indivíduo com cara de asco é Forsythe. É o que se encarrega da casa com mão de ferro e sempre o tem feito, desde que meus pais o conheceram quando era jovem. Fez tudo referente à casa, a coloca em ordem desde que eu era um guri. Não saberia o que fazer sem ele. O semblante sombrio de Forsythe se encheu de orgulho. E de amor. Luzia se deu conta de que o mordomo sentia algo mais que afeto por aquele tremendo Diabo. —Obrigado, Capitão —se inclinou ante Luzia— Encantado de lhe conhecer, senhora Scott —a voz de Forsythe era friamente diplomática mas claramente reprovadora, muito distinta do que Luzia teria podido esperar como bem-vinda ao lar de Morgan, caso fosse uma esposa inglesa. Sentiu-se fortemente rechaçada. Luzia murmurou uma resposta apropriada enquanto Morgan franzia o cenho. —Por favor, convoca ao resto da servidão no saguão. Quero que conheçam sua nova senhora —ordenou Morgan a Forsythe com um ar de censura. —Em seguida, Capitão —disse Forsythe sem retroceder em sua atitude enquanto partia para levar a cabo as instruções de Morgan. Morgan se dispôs a segui-lo para o interior, mas Luzia lhe tocou brandamente o braço. Ele se deteve e a olhou receoso. —Não gosta de mim—disse Luzia tremendo— Todos seus criados vão ter motivos para me odiar. Todos seus amigos me vão desprezar, porque desconfiam de

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qualquer um que seja espanhol. Até você me odeia! —gritou, deixando-se levar cada vez mais pelo pânico. —Luzia, deixa de imaginar coisas. Forsythe não está em posição de que goste ou lhe desgoste de sua senhora. Cumprirá suas ordens porque me é fiel, e aos meus. Morgan podia adiar quanto quisesse, mas era suficientemente ardiloso para dar-se conta de que iria ser dificil a Luzia encaixar naquela casa inglesa tradicional. Mas não ficava outro remédio. Todo mundo estava ciente do grande ódio de Morgan para os espanhóis. Maldita seja! Como iria explicar-lhes o fato de ter trazido para casa uma esposa espanhola? Luzia entrou no saguão, intimidada pelo enorme grupo de criados que havia ali reunidos para recebê-la. Para sua desgraça, não havia entre eles nenhum só rosto amigo. O que encontrou foi curiosidade, hostilidade e frio desdém. Forsythe apresentou primeiro à cozinheira; uma mulher corpulenta envolta em um avental imaculadamente branco que olhou Luzia com o nariz levantado, mostrando seu desprezo. Depois veio o turno dos ajudantes de cozinha e dos empregados. As donzelas, todas jovens e bonitas, fizeram-lhe reverências com mais ou menos a mesma condescendência que a cozinheira. Eram doze criados no total, e todos eles, cada um a sua maneira, fizeram patente sua falta de respeito pela esposa espanhola do patrão. Para Morgan, o que mostraram foi amor, respeito e uma lealdade irrepreensível. As donzelas riam como tolas e o comiam com os olhos sem o menor pudor. Até lhe piscavam. Se Morgan dava conta do descaramento com o que o olhavam, preferia ignorá-lo. Uma em concreto, uma jovenzinha insolente chamada Daisy, olhava Morgan insinuando-se com uma desfarçatez que desgostou Luzia profundamente. Depois de ter apresentado a todo mundo, menos ao administrador, aos jardineiros, aos moços da cavalariças e aos choferes, a quem conheceria ao seu devido tempo, Morgan surpreendeu Luzia escolhendo Daisy como sua donzela 190


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particular. De todos os criados, Daisy era a última que Luzia teria eleito para si. Quando lhe disse que seguissem, foram-se como uma maré de aventais, cochichando entre eles como fazem os criados. Luzia sentiu uma frieza tão sólida que teria podido cortá-la com uma faca. Morgan falou com Forsythe a sós, durante um instante, e logo se reuniu com Luzia ao pé das escadas. —Amanhã terá tempo suficiente para conhecer à casa. Recomendo que descanse uma hora ou duas. Logo, pela tarde, virá a costureira da vila para tomar as medidas para te fazer vestidos novos. Não posso permitir que minha mulher vá feita uma camponesa. Aqui se janta pontualmente às oito. Estarei esperando ao pé das escadas. —Ofereceu-lhe seu braço— Vou mostrar sua habitação. Daisy te ajudará a se despir. Lhe peça tudo o que desejar. Se tiver fome, poderá lhe trazer um lanche para que aguente até o jantar. —Morgan, falando de Daisy, não poderia ser qualquer outra para ser minha donzela? —O que tem Daisy de mau? —Nada, na realidade. É só que a achei muito lançada e descarada. —Como pode dizer isso sem sequer conhecê-la? Lhe dê uma oportunidade, Luzia. Se não gostar dela, pode escolher outra. Tudo será muito mais fácil se aprender a levar bem com os criados durante minha ausência. Luzia se deteve de repente. —Não estará pensando já em partir? —Sim. De fato, parto amanhã. Quero estar presente quando o Vingador atraque em Londres. Agora, vou consultar o administrador, Clyde Withers. Ele saberá ocupar-se de tudo em minha ausência. Luzia se entristeceu ao saber que Morgan estava desejando abandoná-la logo. Evidentemente, não podia esperar para gozar da emocionante vida noturna londrina nem para unir-se à dissoluta corte da rainha Isabel. Depois de todo o tempo que levava no mar, devia estar morto de vontade de mergulhar na intriga política.

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Morgan saiu dali bruscamente, deixando Luzia com o nefasto sentimento de que a abandonava.

Capítulo 13

Para Luzia seu quarto pareceu muito agradável. Era luminoso e bem ventilado e

tinha sido mobiliado por uma mão delicada e feminina, lhe dando a impressão de que já tinha pertencido antes a uma mulher. Havia uma porta que dava a um vestidor que ainda não tinha explorado. As janelas davam a um jardim de rosas que, no verão, devia ficar espetacular, com mil cores florescendo. Mais à frente ficava a horta, cujos majestosos ramos lhe davam um ar de tesouro frutífero. Um fogo lhe crepitou alegremente em seu coração e fez Luzia sentir-se muito agradecida. Aquele clima inóspito fazia que lhe congelassem os ossos. Nunca ia conseguir acostumar-se ao mau tempo que fazia na Inglaterra, refletiu afligida. 192


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Luzia ainda estava contemplando aquelas chamas dançarinas quando Daisy entrou na habitação sem sequer preocupar-se de bater na porta. —O capitão Scott disse que vou ser sua donzela. —Olhou o cabelo e a vestimenta de Luzia com desagrado— Se seus baús chegaram, vou desempacotando e lhe escolho uma roupa mais apropriada para que use esta noite. Mas duvido que se possa fazer algo com seu cabelos. Usa-se assim na Espanha? Como boa espanhola, é toda renegrida, e têm um acento atroz. Não posso acreditar que o capitão Scott se casou com alguém como você. Luzia se armou de todo seu orgulho. Não se envergonhava de ser espanhola. —Pois sim, sou espanhola. Nasci em Cádiz. E quanto a meus baús, não tenho nenhum. Não tenho mais que o que vê. Se quer fazer algo, pode pegar este vestido que tenho posto e fazer que fique apresentável até que me possam fazer outros. De meu cabelo já me ocupo eu, estou acostumada a me arrumar sozinha. Em lugar de ajudar Luzia em seu asseio, Daisy ficou de pé com os braços cruzados observando-a com desprezo. —Os criados apostam que é a puta do capitão, e não sua esposa. Todo mundo na casa, ou na Inglaterra inteira, melhor dizendo, sabe o muito que despreza aos espanhóis. Luzia saltou para trás como se a tivesse golpeado. —Como se atreve! Saia daqui e não volte mais. Daisy fez uma ameaça de reverência ante Luzia e saiu. Não se arrependia de suas palavras. Não fazia outra coisa que repetir o rumor que circulava de forma generalizada entre os criados. O que passava era que ela era a única com o descaramento suficiente para enfrentar à espanhola em seu papel de senhora da casa do amo. Apressou-se a baixar as escadas e deu contra Morgan, que justo acabava de entrar na casa. Ele a rodeou com os braços para evitar que ambos caíssem. —Daisy, tem que ter mais cuidado —a acautelou Morgan enquanto a ajudava a recuperar o equilíbrio.

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Embora estava distraído, deu-se conta de que ela tinha as bochechas ruborizadas e os olhos brilhantes. —Aconteceu algo? Não terá sido com a senhora, verdade? Como se fosse uma atriz consumada, Daisy começou a tremer e apertou as mãos com angústia fingida. —Temo que tenho feito zangar à senhora. Despediu-me e há dito que não volte. —Com todo o descaramento do mundo, apertou-se contra Morgan e obteve que lhe saísse uma lágrima do olho— Tenho feito tudo o que pude para agradá-la, Capitão. —Levantou o olhar e ficou a pestanejar com aquela cortina de largas pestanas douradas. Daisy sabia que era muito bonita e que tinha uma figura atrativa, e tirava todo o partido possível a seus encantos para flertar abertamente com Morgan. Morgan franziu o cenho perguntando-se que demônios teria feito Luzia para desgostar a jovem faxineira. Daisy tremia como uma folha entre seus braços e parecia verdadeiramente angustiada. Lhe deu umas torpes palmadas nas costas. —Não se preocupe, Daisy, eu falarei com a senhora. Enquanto isso, te encarregue de indicar à costureira quando chegar a que habitação tem que ir. Minha esposa necessita com urgência de roupas adequadas, e quanto antes comece a costureira, melhor. —Encarregarei-me disso, Capitão —disse Daisy luzindo a bonita covinha que tinha na bochecha— Se houver algo mais que possa fazer por você, o que seja — enfatizou, lhe fazendo graça abertamente— faça-me saber. Será um prazer estar a sua disposição para o que possa desejar. Ao princípio Morgan não tinha captado as segundas intenções de Daisy, porque estava muito aborrecido por quão mau estava Luzia entre os seus criados. Mas quando ficou claro que lhe estava insinuando, ficou olhando surpreso. Daisy viu como acendia ao Morgan o semblante e baixou a vista com acanhamento. Então, fez uma

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reverência e saiu correndo a contar ao resto da casa como tinha sido seu encontro com a esposa do senhor, se é que de verdade era sua esposa. Morgan ficou olhando o vaivém dos quadris de Daisy enquanto esta se afastava, rindo divertido. Como lhe teria passado pela cabeça que aquela garota podia lhe interessar, quando ele tinha a alguém como Luzia? A costureira chegou a sua hora, e antes de ir prometeu que o primeiro dos vestidos de Luzia o teria preparado ao dia seguinte. Luzia estava muito agradecida de que a mulher houvesse trazido muitas amostras de veludo e de lã, porque os dias de inverno prometiam ser os mais frios, que ela tivesse conhecido em toda sua vida. Escolheu o veludo vermelho intenso, a lã azul escura e outros dois trajes de tecidos igualmente sólidos. Morgan, de antemão, já tinha indicado à costureira que incluísse as camisolas oportunas, algumas capa forradas de pele e outras capas mais leves. Também tinha o encargo de incluir luvas e anáguas de várias cores. Se aquela costureira faladeira tinha algum sentimento negativo para a esposa espanhola do capitão Scott, foi bastante prudente para não exteriorizá-lo. Os negócios na pequena aldeia de Haslemere não eram nada do outro mundo, e o comércio de Morgan era muito apreciado por ali. Mesmo assim, Luzia não pôde evitar dar-se conta do estranho modo em que a senhora Cromley e de sua jovem ajudante a olhavam quando acreditavam que Luzia não as via. Quando a senhora Cromley e sua pequena e tímida ajudante partiram, Luzia escovou e sacudiu seu traje e o estendeu sobre a cama, preparado para usa-lo no jantar. Por um instante desejou ter algo elegante, até que recordou que não fazia tanto tempo tinha estado bem satisfeita com seu hábito cinza e sua touca branca, que lhe tampava tudo menos o rosto. Morgan a tinha transformado em tantos aspectos que não era capaz nem de enumerá-los sequer. Embora, segundo seu ponto de vista, nem todas as mudanças tinham sido para melhor. 195


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Aos poucos, os criados apareceram com uma banheira, e Luzia tomou um banho com toda a calma do mundo. Depois se vestiu e passou uma escova pelos cachos tosquiados. Daisy não voltou, o que deixou Luzia bastante indiferente. Não necessitava daqueles criados presunçosos de Morgan que criticavam sua forma de falar e a comparavam com as mulheres inglesas. Quando o relógio do vestíbulo deu as oito, Luzia começou a descer pelas escadas. Esteve a ponto de parar o coração quando viu Morgan esperando-a no patamar de baixo. Pareceu-lhe que estava escandalosamente bonito, de um modo muito masculino, com aquelas feições tão duras e descaradas bronzeadas pelo sol e o vento e aquele corpo tão ágil e musculoso, tonificado pela atividade física. Ia vestido de maneira informal, com meias, bombachos e um colete. Se

tivesse posto seus

melhores ornamentos, a teria deixado em ridículo com seu vestido todo desgastado. Quando chegou ao último degrau, lhe estendeu o braço. —Tinha pensado que o melhor seria um jantar informal na biblioteca com umas bandejas diante do fogo —disse Morgan— O salão é uma sala muito grande que intimida um pouco. Podem jantar ali cinquenta pessoas facilmente. Luzia o olhou através de uma cortina de pestanas azeviche. —Obrigado Morgan, agradeço sua consideração. Na Espanha não somos tão formais como você, os ingleses. Na casa de meu pai, quando fazia bom tempo, jantávamos frequentemente no terraço ou no pátio. Entraram na biblioteca, uma sala acolhedora iluminada por um fogo crepitante. As paredes estavam forradas de estantes de livros, todas cheias de volumes encadernados em couro. Inspirou para apreciar o aroma do couro e dos móveis encerados, e decidiu que por mais elegantes que pudessem ser as demais habitações, aquela ia ser sempre sua preferida. Morgan a conduziu até uma das poltronas estofadas que estavam colocadas uma ao lado da outra e a ajudou a sentarse. Logo, aproximou duas mesinhas e se acomodou na poltrona que havia junto a ela.

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Como se tivessem estado esperando justo esse momento, os criados entraram e serviram o jantar. O que lhes serviram era a típica comida insípida inglesa, da que Luzia comeu bem pouco, fazendo baixar com um vinho delicioso. Morgan bicou de sua comida mas bebeu copiosamente, sem afastar o olhar dos olhos entreabertos de Luzia. Luzia, com descaramento, olhou-o aos olhos, e encontrou neles um olhar silencioso cheio de raiva, pena e desejo. —Daisy me disse que a recusou —começou a dizer Morgan uma vez que o jantar tinha sido recolhido e os criados se retiraram— Te desgostou de algum jeito? Quer que escolha outra donzela? Talvez deveria despedi-la. Quão último queria Luzia era dar aos criados um motivo mais para que a odiassem. —É que eu estava tensa e cansada. Por mim, não faz falta que a despeça. Morgan assentiu, pormenorizado. —Isso foi justo o que pensei. Como já disse antes, deve aprender a levar bem com os criados. Se não lhe respeitarem, vai conseguir que façam muito pouco. Todos vêm de boas famílias inglesas e são de confiança. Nem sempre vou estar aqui para intermediar entre a servidão e você. Se surgirem problemas, terá que se arrumar sozinha. A ideia de ficar só, produzia a Luzia um sentimento de queda livre. —Morgan, talvez deveria me mandar de volta a Espanha. Eu não sou daqui. Você não me quer e sua gente me odeia. Por que insiste em semelhante tortura para ambos? O azul dos olhos de Morgan se cristalizou em dois diamantes. —Estamos casados, ou já se esqueceu? Não vou permitir que parta, Luzia; esqueça. —Pois não o compreendo. —Ela estava profundamente confundida. —Nem eu —replicou Morgan, observando sem muito afã o ardor das chamas. Sua franqueza a surpreendeu— Bruxaria pura —disse para si— Mas, apesar de tudo —continuou, já mais claramente—É minha, e vai seguir sendo minha. De verdade

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pensa que seu pai quer que volte depois de ter abandonado seu prometido? —riu com amargura— Eu não acredito. Pelo menos, aqui posso tê-la a salvo e saber que não vai faltar-lhe nada. Exceto seu amor, pensou Luzia em silêncio. Não sera capaz de me dar seu amor, e isso é quão único quero de ti. Luzia se levantou de repente com a intenção de partir, mas Morgan a segurou pelo braço e a obrigou a ficar sentada. —Dá-me sua palavra de que vai tratar de levar bem com os criados? Luzia assentiu. Morgan, satisfeito, soltou-a. Tocá-la era uma autêntica tortura. Sentia-se miserável a cair na teia de sua sedução, e suas anteriores experiências com Luzia lhe tinham demonstrado que não era suficientemente forte para resistir ao poder arrebatador que ela exercia sobre seus sentidos. Lembrar-se de que Luzia era espanhola e evocar seu ódio por todos aqueles que levassem sangue espanhol não lhe servia para sossegar o desejo imperioso que sentia de sua sensual esposa. O que mais desejava era ser capaz de deixá-la partir e esquecer-se dela. Porque teria sido muito fácil mandá-la de volta com seu pai ou enviá-la a um convento que não tivesse receio na hora de admití-la na ordem. Uma caldeira fumegante de ressentimento fervia Morgan nas vísceras. Estava-lhe passando algo que não gostava e que não era capaz de controlar. —Vou pela manhã, Luzia. Não sei quando voltarei. Londres não está tão longe da Residência dos Scott. Estarei em contato com Withers e com Forsythe, e assim eles poderão me manter avisados se estiver bem. Se necessitar algo, peça ao Withers; amanhã o conhecerá. Pode ir fazer compras na aldeia, se assim o desejar. Pode gastar tudo o que deseje da minha conta. Aquelas palavras soaram frias e impessoais. Acaso todos os maridos e mulheres da Inglaterra tinham vidas separadas? Ela não sabia nada sobre o matrimônio. Será que Morgan não se dava conta do muito que ela o amava? Estava segura de que ele se sentia atraído por ela. Como fazia-lhe amor com tanta ternura se não sentisse

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nada por ela? Ele a queria; ela via como ele se desesperava por tê-la, nas ardentes profundidades de seus olhos azuis e no calor tórrido que emanava por todos seus poros. E lhe acontecia o mesmo. Deus! Se por apenas olhá-lo fazia água na boca. —Desejo-te boa viagem, Morgan —essas palavras frias traíam o ressentimento que fervia a ela por dentro— Estará aqui no Natal? O olhar de gelo de Luzia deixou Morgan maltratado. Maldita seja, resistir lhe custava, toda sua força de vontade. —Vai pra cama, Luzia —balbuciou, lutando pela sobrevivência de sua alma. Se perdia a batalha, perderia para sempre a vida que sempre tinha conhecido e a que se acostumou— Não temos nada mais que falar. Quanto ao Natal, é pouco provável que deva passar as férias. —É um imbecil, Morgan Scott —vaiou Luzia entre os dentes apertados— Me evitar não vai servir de nada, e mentir a respeito do que sente é uma falta de honradez. Não engana a ninguém mais que a ti mesmo. Morgan fechou os olhos sofrendo o impacto das acusações de Luzia com uma calma pétrea. Deus, como podia ela saber tudo isso? Quando abriu os olhos, Luzia já tinha partido. As palavras de Luzia tocaram a senssibilidade de Morgan. Maldita seja! Acaso o estava fazendo sentir-se como um imbecil de propósito? Seu olhar posou no conhaque e os copos que Forsythe precavidamente tinha colocado sobre o escritório e serviu a si mesmo de uma dose generosa. Bebeu tão brandamente que se serviu de outro tanto. Quando terminou a terceira taça, estava dando tropeções e compadecendo a si mesmo. Maldita seja! Sua vida tinha dado um giro inesperado. Ele nunca tinha pedido uma esposa, e agora que a tinha não sabia o que fazer com ela. O que sabia era que aparecer na corte com uma esposa espanhola a seu lado era expor-se a uma catástrofe. Teria sido uma tolice pensar que a rainha ia dar a bemvinda a Luzia sem pôr inconvenientes. Ao Morgan ia custar explicar a Isabel sobre Luzia. Já devia estar a par do seu casamento, e estaria esperando com impaciência

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que lhe desse uma explicação. Durante sua última visita a Londres, a rainha tinha insinuado que estava procurando alguma jovem aristocrata apropriada para que se casasse com ele. Morgan suspirou. Naquele momento tinha o coração gravemente ferido para pensar na possível reação de Isabel ante seu repentino casamento. Levantou-se com dificuldade e foi procurar refúgio em sua cama. Luzia se despiu até ficar de combinação e subiu à cama. Tratou de dormir, mas tinha o coração muito atormentado e a mente apressada por problemas e, apesar do fogo da lareira, estava tremendo de frio. A vida no convento era tão simples e sem complicações, suspirou, lembrando-se daqueles tempos nos que tinha sido mais feliz. Por que Deus não a tinha encontrado digna de deixá-la ali, a viver em paz? Por que a tinha mandado a um mundo de brigas e confusão, e a tinha feito apaixonar-se por um homem tão irritante como Morgan Scott? Se Deus tinha querido que amasse Morgan Scott, por que não tinha feito que Morgan também se apaixonasse por ela? Tudo lhe resultava muito confuso. Recostou-se na cama e observou o banho de luzes e sombras que havia no teto. Em algum lugar longínquo, ouviu um som de algo que se arrastava, mas não prestou muita atenção. Em uma casa tão grande como aquela, sempre havia atividade de algum tipo, inclusive a noite. Luzia não teria sabido assinalar em que preciso momento se deu conta de que não estava sozinha. incorporou-se sobre um cotovelo e observou a porta. Nada. Girando o pescoço, olhou para o vestidor. A porta estava entre aberta. Morgan estava de pé, iluminado por um feixe de luz que vinha de um abajur que havia a suas costas. Custou-lhe dar-se conta de que a habitação de Morgan comunicava com a sua através do vestidor. Atrás dele, podia ver sua habitação. O nome de Morgan saiu dos lábios de Luzia com um suspiro tremente. Não lhe via o rosto, já que a luz atrás deixava tudo às escuras menos sua silhueta musculosa.

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Estava em equilíbrio sobre as pontas dos pés, com os músculos em tensão e os punhos apertados. —Você tem razão, Luzia, sou um imbecil —balbuciou ele arrastando as palavras. A Luzia lhe disparou o coração, mas as seguintes palavras que ele disse fizeram desvanecer suas esperanças— Sou um cretino por permitir que me influa de um modo que não sou o bastante forte para resistir. —Entrou na habitação e Luzia tragou saliva com dificuldade. Estava nu. Total e gloriosamente nu, com a dignidade ereta em toda sua magnitude. A Luzia lhe secou a boca e passou a língua pelos lábios. —Não era isso o que eu queria dizer. Chamei-o de imbecil porque nega o inevitável. O que nós dois queremos. É que não vê além de seu nariz? Não te dá conta de que eu lhe a…? —deixou a pergunta sem acabar. Do que ia servir que soubesse que ela o amava? Ele era incapaz de ver além do ódio que sentia por seu sangue espanhol. —Eu não tive nada a ver com a morte de seus familiares. Morgan tratou duas vezes de voltar para sua habitação, e as duas vezes fracassou. Luzia e sua cama o atraíam como o aroma do mel atrai aos ursos, que se desesperam pelo doce manjar apesar do risco que suportava. A recompensa prometida valia o esforço. Quando Morgan cambaleou ligeiramente, Luzia se deu conta imediatamente de que não estava sereno. —Está bêbado! Morgan soltou uma risada. —Não muito. A cama acusou o peso dele. Dedicou a Luzia um sorriso pouco firme e arrancou suas roupas. O tecido puído cedeu em seguida, e os jogou a um lado. Abraçou Luzia deixando-a sentir o extremo erguido de seu desejo. —Pelo menos isto sempre nos sai bem —declarou—Me perder em seu doce corpo faz que me esqueça de quem é e de quem sou eu —grunhiu enquanto lhe

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esfregava a ereção pelo ventre e afundava o rosto entre os seios. Deus santo, que bem cheirava! —Eu sou uma mulher, e você é um homem —apontou Luzia. Seu corpo não necessitava muita provocação para responder ao tato de Morgan— E somos marido e mulher. Só que deixou de… Ele interrompeu seu discurso com um beijo abrasador. Não queria ouvi-la. Negava-se a atender ao que seu coração lhe dizia. Se fizesse caso a Luzia e a seu coração, logo deixaria de ser o Diabo, e ainda não estava preparado para isso. E talvez nunca chegasse a está-lo. Pelo bem de sua prudência, precisava recordar todo momento que ele era um homem que se guiava pelo ódio por seus inimigos espanhóis. Tinha a intenção de seguir sendo esse homem por muito tempo. O processo mental de Morgan veio abaixo por completo quando o desejo desenfreado por sua esposa espanhola se manifestou no doloroso endurecimento de seu pênis. Maldita seja. Luzia fazia que lhe disparasse o pulso e punha a prova sua capacidade de dominar-se. Com apenas olhá-la, desejava-a com o calor das chamas do inferno. Deveria tê-la mandado de volta com seu pai depois de lhe ter tirado a virgindade, em lugar de ter ficado de forma egoísta para seu próprio regozijo. Ou, melhor até, deveria ter dado um simples olhar a seus olhos inocentes e não havê-la tocado absolutamente. Embora, se a sorte estava de seu lado, aquela mesma noite se saciaria dela e iria a Londres com a mente limpa e o corpo agradado. Na atmosfera da corte da rainha Isabel, tão carregada de tensão sexual, seria-lhe fácil esquecer que tinha uma esposa, disse a si mesmo. Incapaz de esperar nem um segundo mais, Morgan se lançou a separar as pernas de Luzia, apertou os quadris e empurrou com força. No instante que sentiu o calor escorregadio dela a seu redor, esqueceu-se de seus escuros pensamentos e deixou que o prazer se apoderasse dele. Era um tipo de prazer que só Luzia sabia lhe dar. Agachou a cabeça e lhe chupou os mamilos.

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Luzia ofegava e gritava, querendo desesperadamente ser para Morgan algo mais que um corpo quente. De repente, lhe desvaneceram os pensamentos. A corrida para o êxtase era muito arrebatadora, e explodiu em um clímax violento. Quando ele obteve tudo o que ela tinha para lhe dar, agarrou-a pelo traseiro e empurrou de forma selvagem. Sua própria explosão não foi menos turbulenta que a de Luzia. Luzia voltou a si pouco a pouco, sentindo-se profundamente saciada. Olhou a Morgan e viu que parecia estar tão transbordado como ela. —Morgan… Ele abriu os olhos lentamente, muito confundido, como se a estrutura inteira de sua vida desmoronou-se, e ele acabasse de dar-se conta de algo muito preocupante para compartilhá-lo. —Maldita seja! —Saltou da cama e ficou olhando como se todo seu mundo estivesse vindo abaixo— Tenho que partir daqui! Arrancou-me a alma do corpo. Já não me reconheço! —Mas Morgan, o que passa? —Vou, Luzia, vou agora mesmo. Seguiremos em contato por meio de um mensageiro. Passou os dedos pelo alvoroçado cabelo loiro e deu meia volta, murmurando entre os dentes algo sobre esposas e de feitiço. Foi por onde tinha vindo, pelo vestidor, dando portadas a seu passo. Pouco depois, ouviu um repicar desbocado de passos que baixavam as escadas e se deu conta de que Morgan tinha falado a sério. Era certo que tinha intenção de partir na metade da noite, sem lhe importar os bandoleiros nem outros perigos que pudessem espreitá-lo no caminho a Londres. Deus santo! Era como se aparecesse o inferno e estivesse fugindo para salvar-se. À manhã seguinte, Luzia dormiu até tarde. Ficou acordada durante horas com a esperança de que Morgan mudasse de parecer e voltasse, mas pelo visto o final lhe

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sobreveio o sono. O débil sol da manhã entrava pelas janelas quando Daisy a despertou bruscamente de um sono profundo. —O capitão se foi —a acusou Daisy cheia de recriminações— É estranho que um recém casado abandone a sua esposa tão logo. Resulta evidente que não o agrada. O sorriso petulante desapareceu dos seus lábios e ficaram os olhos como pratos ao ver as roupas rasgadas de Luzia atirados no chão a um lado da cama. Tratou de ocultar sua surpresa enquanto recolhia o objeto rasgado e o pendurava de um braço. —Não quererá que os costure? Luzia bufou, irada: —É uma descarada que não conhece o respeito. —Se não conseguia pôr Daisy em seu lugar, nunca ia poder controlar a nenhum dos criados— É obvio que quero que me costure isso. E quero que me devolva isso antes de uma hora. —Terá que falar com mais claridade —a provocou Daisy— seu inglês resulta difícil de entender —lhe disse e saiu tão alegre pela porta, meneando com seu garbo os quadris. Luzia estava que jogava faíscas de impotência e de raiva. Nunca tinha se sentido tão insultada. E por hereges ingleses, nada menos. Se por acaso fosse pouco, Daisy a fez esperar quase duas horas antes de lhe devolver as roupas remendadas. Depois do café da manhã, a costureira chegou com o primeiro de seus vestidos. Quando Luzia recebeu ao administrador de Morgan, tinha um aspecto arrebatador com aquele traje de veludo vermelho intenso que lhe acentuava as esbeltas curvas com grandiosa elegância. Clyde Withers não era como Luzia tinha esperado. Era bastante jovem, não muito maior que Morgan, que o tinha contratado pouco depois de voltar de Londres, depois dos anos que passou no cativeiro. A rainha havia devolvido a Morgan suas propriedades quase imediatamente, e necessitava alguém que se encarregasse delas enquanto ele andava por aí saqueando galeões espanhóis. Withers era um homem 204


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intenso, fornido e capaz, um loiro de aparência agradável e de natureza séria. Não parecia ter mais interesse que nos negócios, quando foi recebido por Luzia na biblioteca, que era a única habitação além de seu dormitório em que se sentia a gosto. —Seu marido me deu instruções muito específicas antes de partir, senhora Scott —disse Withers com ar coibido— Se necessitar de algo, deve ir a mim e eu me encarregarei do que seja. —Disse meu marido quanto tempo vai passar em Londres? —Irritava-lhe ter que perguntar a um desconhecido o que devia ter sabido por boca de Morgan. —Não, mas prometeu que estaríamos em contato através de um mensageiro. Estou seguro de que está em curso. O capitão estranha vez fica no campo quando está na Inglaterra. A rainha é uma soberana exigente que insiste que seus cortesãos a encham de cuidados. —Isso tenho entendido —disse Luzia com amargura— Há algo mais que devesse saber? Clyde Withers sentiu uma pontada de lástima pela adorável mulher espanhola com que Morgan Scott se casou. Estava a par dos rumores que circulavam entre os criados. Se falava que era um marido renegado mas, depois de conhecer por fim à esposa de Morgan, não lhe custava entender a fascinação de seu patrão pela beleza arrebatadora de Luzia. Duvidava muito que Morgan se casasse com uma mulher espanhola que não tivesse realmente querido. Apesar disso, percebeu em Luzia uma tristeza profunda, como se estivesse a ponto de vir-se abaixo. Tinha um aspecto frágil e vulnerável. Algo devia ir desesperadamente mal em seu matrimônio, deduziu Withers. —O capitão Scott mencionou que poderia chegar a ter problemas com os criados. Às vezes podem atuar com soberba ante os forasteiros. —De repente, ficou vermelho, dando-se conta do que acabava de dizer— O sinto, senhora Scott, não quis dizer que… Estarei encantado de resolver as dificuldades que possa vir a ter. 205


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Luzia riu com modéstia. —Não me ofendi, senhor Withers, já estou acostumada. A seu modo de ver, sou uma forasteira. Me alegro de saber que posso contar com você, mas tenho que aprender a lutar com os criados sozinha. A admiração de Withers por Luzia aumentava por momentos. Perguntava-se como tinha podido Morgan abandonar a uma mulher tão irresistível, que parecia frágil mas emanava segurança em si mesma. —Agradecerei se me informar cada vez que chegue um mensageiro de Londres com notícias de meu marido. —É obvio —concordou Withers— Ah, quase me esqueci de lhe dizer que o capitão Scott deixou a calesa para que dela disponha. Me faça saber se deseja ir a aldeia, ou visitar as outras propriedades, e eu me encarregarei de que a tenham preparada. A entrevista concluiu naquele ponto, e Luzia quase sentiu tristeza ver aquele homem tão afável partir. No momento, era a única pessoa de toda a casa que tinha sido agradável com ela, e lhe tinha mostrado o respeito devido como à esposa de Morgan. Durante os seguintes dias, Luzia aprendeu a andar pela residência. Sabia instintivamente que os antigos habitants daquela casa a tinham querido muito. Havia pouco, se é que havia algo, que queria trocar. As habitações eram amplas, bem ventiladas e cheias dos fantasmas da família feliz que uma vez tinha percorrido aquelas salas tão majestosas. Percebia que se ouviam muitas risadas naquele lar. Mas, por cima de tudo, estava triste porque ela nunca ia pertencer sinceramente a aquela casa, nem ao homem que agora era seu dono. Luzia sentia falta de Morgan desesperadamente. Embora não tinha recebido nenhuma mensagem diretamente dele, sabia que estava em contato com Clyde Withers, já que ele a informava oficiosamente cada vez que recebia uma mensagem.

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Parecia morrer de calor cada vez que se via forçado a admitir que Morgan não tinha incluído nenhuma mensagem específica para Luzia. Chegou o Natal com muito pouca pompa. Luzia mandou decorar a casa com a esperança de que Morgan voltasse para passar as férias. Em lugar disso, mandou um mensageiro com um presente. Um presente! Do que lhe ia servir um presente se o que ela queria era Morgan? Olhou o caro colar de esmeraldas sem nenhum entusiasmo, e em seguida o deixou de lado. Nem sequer tinha tido a delicadeza de incluir uma felicitação com o presente. A princípios de janeiro chegou um mensageiro com um pacote enorme de papéis para Withers. Luzia esperava com ânsia que Withers lhe dissesse se Morgan tinha incluído uma mensagem para ela. Nem dizer que não, o tinha feito e a decepção que levou foi um gole muito amargo. Decidiu passar por cima de seu orgulho e interrogar ao mensageiro, com a esperança de que lhe contasse o que era, além da rainha, que ocupava as horas de Morgan. Um homem de sangue quente como Morgan, não era propenso a negar a si mesmo, a comodidade que uma mulher lhe podia oferecer, e a ideia de que Morgan estivesse entre os braços de outra a destroçava. Encontrou o mensageiro na cozinha, rodeado pelos criados da casa. Luzia ouviu que estavam falando e fofocando entre eles, e se deteve diante da porta quando ouviu que mencionavam o nome de Morgan. Entreabriu a porta e entrou. O mensageiro estava sentado à mesa e era o centro das atenção. O que lhes estivesse contando devia ser fascinante, porque lhe prestavam a maior atenção. —O capitão é o homem mais famoso da corte entre as senhoritas —balbuciou o mensageiro entre bocado e bocado de pão com queijo— Se derretem tudo por seus ossos. —Nos conte mais, Tom —o animou a cozinheira subornando-o com uma grossa fatia de carne assada— Qual dessas mariposas acredita de que gosta a nosso capitão?

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—Gosta de todas —disse Tom dando-se importância— mas, quando não está com a rainha, lhe viu principalmente acompanhado da jovem senhorita Jane Taruga, um salgadinho de nata, toda olhos e peito. E se por acaso for pouco, é uma rica herdeira. A velha Isabel faz que se encontrem sempre que pode, e nosso capitão não é dos que deixa passar uma oportunidade, não sei se me explico —riu como um porco. Risinhos e sorrisos de cumplicidade aconteceram por toda a cozinha, enquanto Tom arrancava um pedaço de carne suculento e o mastigava com visível deleite. —Nos conte o que disse a rainha Isabel quando se inteirou de que o capitão se casou sem o seu consentimento —perguntou Daisy entusiasmada. —Os rumores contam que ficou furiosa —revelou Tom— Lhe disse que podia anular o matrimônio ou conseguir o divórcio. Que queria enviar a essa rêmora espanhola de volta a Espanha e lhe entregar Lady Jane como recompensa por ter enriquecido suas arcas com o ouro espanhol —riu com muito estrondo. —Sabia! —exultou-se Daisy— Logo nos desfaremos dessa puta espanhola! Luzia apoiou a cabeça com muita debilidade contra a parede. Aquele modo dilacerador de pô-la em ridículo fez que ficasse fisicamente doente. As lágrimas ameaçavam sair e a amarga bílis lhe subiu pela garganta. Não era nenhum segredo que Morgan não a apreciava como esposa, e agora sabia o pouco que significava para ele. Com Lady Jane esperando impaciente que Morgan pusesse fim a seu matrimônio, era só questão de tempo que saísse da vida de Morgan de uma vez por todas. Se voltasse para a Espanha, seu pai a despacharia a Havana, de volta com Dom Diego. Não era mais que um boneco de pano nas mãos dos homens. Sufocando um soluço, deu meia volta e partiu. Se tivesse ficado escutando o que disse Tom a seguir, teria se animado. —Não conte em se desfazer da senhora tão depressa. Diz-se que o capitão Scott ainda não respondeu à rainha se vai tramitar a anulação ou não. Podem acreditar nisso? Estando tão caramelado com a senhorita Jane, todos tinham pensado 208


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que estaria encantado de aproveitar a ocasião de tirar-se de cima a uma mulher com a que lhe forçaram a casar-se. —Forçaram-lhe a casar-se! —várias vozes se uniram para expressar sua surpresa. —Sim, isso é o que se diz. Os detalhes não sei, mas estou seguro de que devem ser muito saborosos. —levantou-se de repente, deu uns tapinhas na barriga e arrotou — Bom, é hora de voltar para Londres. Só em sua habitação, Luzia andava de uma ponta a outra. Esse libidinoso mal nascido, balbuciava em voz baixa. Como se atrevia Morgan a passear pela corte com outra mulher? Como se atrevia a fazer dela o bobo de sua rainha e de toda a Inglaterra? Nem morta ia ficar no campo para que a ridicularizassem e desprezassem os criados. Ah, não, jurou. Ia fazer que Morgan Scott e sua amante se arrependessem de pular a suas costas. Sabia exatamente o que tinha que fazer, e estava o bastante zangada para fazêlo.

Capítulo 14

Era já meados de março quando Luzia conseguiu pôr em marcha seu plano.

Durante as semanas que precederam tinha feito um tempo de cães, convertendo em impossível sua ideia de fazer uma viagem por aqueles caminhos enlameados e cheios de sulcos. Luzia tinha estado várias vezes na aldeia aquele inverno, mas ainda não lhe tinha chegado o momento de viajar a Londres.

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—Outra vez está pensando em ir a aldeia? —perguntou Forsythe em tom glacial. —Sim. Informe por favor ao chofer de que quero que tenha o carro amanhã às dez em ponto. —Têm algum motivo em especial para querer ir ao povo? Luzia elevou as sobrancelhas e lhe lançou o olhar mais condescendente que pôde esboçar. —É que necessito um motivo? —Certamente que não. —Forsythe

agitou

nervosamente

a

mão,

desesperançado— Daisy a acompanhará como de costume. —Isso não vai ser necessário —disse Luzia com firmeza— Ponha um lacaio se lhe parecer que há algum perigo. —Senhora, simplesmente não posso deixar sair desta propriedade sem uma donzela que lhe acompanhe. Luzia lhe dedicou um olhar frio. —Me dá no mesmo se lhe parece correto ou não. Se ocupe de que o carro esteja esperando amanhã às dez em ponto exatamente. — E, voltando-se bruscamente, saiu dali muito decidida, deixando-o com a palavra na boca. Esse mesmo dia, mais tarde, quando Clyde Withers chegou à casa, Luzia se resignou a liberar outra batalha. Era evidente que Forsythe tinha recorrido à ajuda do administrador para dissuadí-la de sua ideia de ir a aldeia sem uma acompanhante. —No que posso lhe ajudar, senhor Withers? —perguntou Luzia ao capataz ao encontrar-lhe na biblioteca. Withers limpou a garganta, visivelmente incômodo por ter que expor uma questão tão delicada. —Forsythe me informou que quer ir ao povo. Não tenho nada que objetar a isso, mas não podemos permitir que vá sozinha. Não seria correto. —Não necessito nenhuma acompanhante —insistiu secamente Luzia— Não me levo bem com nenhuma das criadas, e não gosto de passar tempo com elas. —Com qualquer uma delas pega aos pés, todos seus planos iriam ao brejo.

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Withers se ruborizou. Durante os longos meses que o capitão levava em Londres, não tinha escrito nenhuma só nota a sua esposa. Ao Withers dava pena aquela pobre mulher; não conseguia entender porque se casou seu chefe com aquela beleza espanhola para logo não lhe fazer o menor caso. Se tivesse que acreditar nas notícias que chegavam de Londres, o capitão Scott estava passando bem na cidade, sempre com Lady Jane Tarruga e aproveitando da vida cortesã. Ele sabia que a esposa do capitão se sentia sozinha, mas não podia fazer nada para remediar essa situação. —Não tenho nada contra que saia — disse Withers— Quer alguma outra coisa? —Eu não gosto de sair com o moedeiro vazio —disse Luzia, dedicando ao Withers um sorriso agradável. —Pode comprar na conta tudo o que queira, como têm feito as outras vezes. —Não tem previsto meu marido alguma atribuição mensal para mim? —Só me disse que lhe dê tudo o que peça. —Pois necessito um pouco de dinheiro para levar na bolsa. Withers lhe lançou um olhar inseguro, mas logo encolheu os ombros e se dirigiu ao escritório. Tirando do bolso uma chave, abriu com ela uma das gavetas e tirou uma caixinha metálica. Luzia, ouvindo o tinido de moedas, aproximou-se para olhá-la melhor. Estava cheia até acima de moedas de ouro e de prata. Withers contou umas quantas moedas de prata e deu a Luzia um olhar inquisitivo. —Igual também um par de moedas de ouro —sugeriu ela, sagaz— Morgan quererá que tenha dinheiro suficiente para comprar umas poucas bagatelas sem ter que as carregar em sua conta. É obvio que para algo de mais importância farei que chegue a fatura a meu marido. Sempre sensível a um sorriso agradável de mulher, Withers concedeu de boa vontade, lhe estendendo umas quantas moedas de ouro e outras quantas de prata. Não tinha ideia de que seu chefe fosse um homem miserável, assim pensou que não teria nada contra estabelecer uma quantidade mensal para sua esposa. Se ele tivesse sabido o que Luzia tinha em mente, não teria atuado de forma tão cega. 211


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À manhã seguinte, Luzia saiu da casa exatamente às dez em ponto e encontrou o carro esperando-a na porta. — A que hora voltará, senhora? —perguntou-lhe Forsythe enquanto a ajudava a meter-se no carro. —Pode que vá visitar os imóveis vizinhos quando terminar na aldeia. Não se alarme se não voltar antes de que escureça. Faz um dia excepcionalmente bom, e estou cansada de estar encerrada em casa. Por toda parte há sinais da primavera, e gostaria de desfrutar. Luzia se despediu alegremente com a mão enquanto o carro se afastava estralando. Fazia vários dias que não tinha chovido, e a maior parte dos atoleiros do caminho se evaporaram. A Luzia lhe esponjou o espírito; aquele tempo magnífico também ajudava. Tinha levado muito tempo e longas reflexões para decidir o que devia fazer e como fazer. As semanas se converteram em meses, sem que lhe chegasse carta de Morgan. O pouco que sabia dele tinha tido que ir extraindo das fofocas dos criados. Inteirou-se de que em Plymouth se reuniam mais navios, e de que a Inglaterra se preparava para a previsível chegada da Expedição Espanhola a suas costas, estabeleceu-se um sistema de balizas que deviam acender para dar o alarme ao longo da costa e para o interior de cada comarca assim que a frota espanhola estivesse à vista. Solicitou-se toda peça de artilharia disponível para fortificar a costa sul e as comarcas orientais. Os fossos das cidades se limparam e se fizeram mais profundos, repararam-se as gretas das muralhas das vilas e os muros exteriores se reforçaram com areia, em previsão de possíveis descarga de artilharia. Apesar de tudo isso, Luzia seguia se negando a acreditar que estava a ponto de produzir um ataque espanhol. A rainha católica Maria da Escócia, depois de conspirar durante dezenove anos para arrebatar a sua prima Isabel, o trono da Inglaterra, tinha sido julgada por conspiração

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contra a coroa, declarada culpada e executada. E agora que já estava morta, não parecia haver motivo para uma invasão. A aldeia apareceu ante seus olhos, e o carro foi diminuindo a marcha para adaptar-se ao fluxo crescente de pessoas e carros. Era dia de mercado, e as hordas de granjeiros se reuniam na cidade. Aquele evento imprevisto se ajustava perfeitamente aos planos de Luzia. A um sinal dela, o chofer freou os cavalos e saltou da boléia para lhe abrir a portinhola. —Está bem aqui, senhora? —Aqui está perfeito —respondeu Luzia com um sorriso adulador— Pode ir com o lacaio ao botequim, se gostar. Eu tenho várias horas. —Direi ao lacaio que a acompanhe para levar os pacotes, Lady Scott. —O chofer tinha ordens do senhor Withers de não perder de vista à senhora, porque era a primeira vez que se aventurava a sair sem a companhia de uma criada. Luzia torceu o gesto. Nem necessitava, nem queria um guarda-costas, mas compreendeu que era inútil contradizer aquele leal servidor de Morgan. Acessou cortesmente, revisando a toda pressa seu plano. Andou daqui para lá sem muito propósito, até que encontrou a oficina da costureira. Pediu ao lacaio que a esperasse na porta, porque provavelmente ia passar um bom tempo encarregando ornamentos, e entrou na loja, que por ser um dia de mercado estava cheia de visitantes. A senhora Cromley estava ocupada com outra cliente e não viu entrar Luzia. Ela escapuliu para uma porta tampada por uma cortina e penetrou por ali, encantada de encontrar-se em um armazém com uma porta que dava a um beco. Tudo estava indo tão bem que mal podia acreditar. Era quase como se Deus estivesse olhando por ela. As moedas iam tilintando de um modo reconfortante em seu moedeiro de rede enquanto abria caminho entre aqueles becos sujos. Despitar ao lacaio tinha sido fácil, mas encontrar um veículo que a levasse a Londres ia ser mais difícil. Mas, uma vez mais, a sorte estava de sua parte. No beco tropeçou com um repartidor de vinho

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que estava descarregando sua mercadoria junto à porta traseira de um botequim. Ouviu como dizia ao taberneiro, que tinha saído para lhe pagar, que voltava para Londres para carregar mais vinho na adega. Luzia esperou que se despedissem, antes de se aproximar do repartidor, que estava estendendo uma lona pelo fundo da carreta. —Pareceu-me que o ouvi dizer que se dirige a Londres, cavalheiro —lhe disse, enquanto o tipo subia ao carro. O repartidor a olhou com curiosidade. —Sim, empregada, sim, disse isso. Por que o pergunta? —Recompensarei-lhe bem se me levar com você. O repartidor cuspiu, depreciativo. —O que é, uma rameira? Eu sou um homem casado, e fiel a minha esposa. Tenho uma filha que é maior que você. Mais te vale buscar a outro. Luzia se encrespou, indignada. —Certamente que não, senhor; não sou nenhuma puta. Somente necessito uma forma de chegar a Londres, e estou disposta a pagar, em dinheiro, pela viagem. O repartidor escrutinou a Luzia com os olhos entre abertos, encontrando altamente suspeito o acento com que falava o inglês. —É estrangeira? Não será uma espiã? —Sou espanhola, mas pode estar seguro de que não sou uma espiã. Por favor —lhe suplicou Luzia—necessito desesperadamente chegar a Londres. —Espanhola! Eu não levo espanhóis em minha carreta. Sinto-o muito, empregada, mas vai ter que buscar outra forma de chegar ali —fustigou com as rédeas a garupa de seus cavalos, e a carreta deu um puxão para diante. Pouco disposta a aceitar um não por resposta, Luzia esperou que o repartidor estivesse entretido tratando de abrir passo pela estreita ruela, para subir ao carro e arrastar-se até debaixo da lona antes de que o tipo alcançasse a dar-se conta de que levava uma passageira. Quando o carro conseguiu sair da abarrotada avenida, Luzia estava já comodamente instalada sob a lona. Com o calor relaxante do sol e o som monótono dos cascos dos cavalos, em seguida ficou adormecida.

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Londres Março de 1588 A Câmara de Audiências da rainha era um fervedouro de homens e mulheres elegantemente embelezados de sedas, cetins e brocados. Tanto uns como outras iam suntuosamente engalanados com perucas empoeiradas, anéis em todos os dedos e escarpines com fivelas de pedraria. Mas a estrela que mais brilhava na grande sala era a rainha, que reinava entre seus cortesãos e suas damas. Estava flertando descaradamente com um cortesão em particular, um homem alto e largo de ombros cujo semblante torrado dava mudo testemunho de largas horas suportando o sol deslumbrante e o açoite do vento. Resultava evidente que acabava de celebrar-se alguma cerimônia, porque a sala estava cheia de dignatários e conselheiros privados. —"Sir Morgan Scott." Soa bastante bem, não lhes parece, Sir Scott? —dizia a rainha, dando ao pirata um picar de golpes no ombro com seu leque. Esperando, mas sem perder o brilho, Isabel tinha debilidade por todos os homens arrumados de sua corte. Mas, se

desviavam de seu caminho ou a

contrariavam, tinha muitas e muitas diversas formas de demonstrar sua contrariedade, e nenhuma era prazeirosa. Morgan dedicou à rainha um sorriso genuinamente cálido. Isabel lhe tinha mostrado uma gratidão ilimitada quando lhe fez a entrega de sua parte do ouro espanhol. Em consideração a sua lealdade, tinha outorgado o título de cavalheiro a Morgan, que agora era Sir Morgan Scott. Sua perseguição diligente e implacável das embarcações espanholas estava fazendo engordar as arcas reais. —Sua Majestade é muito generosa —respondia Morgan— Não mereço tanto. —Pode que tenham razão. Estamos muito satisfeitos com sua contribuição a nossas arcas, mas mesmo assim muito desgostados por seu desastroso matrimônio.

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Mudou de opinião sobre nosso oferecimento de dissolver seu matrimônio com essa espanhola? Casaram-lhes sob coação, se não me equivoco. Lady Jane faria melhor casal com um dos heróis mais queridos da Inglaterra. Morgan se revolveu incômodo sob o olhar insistente de Isabel. A rainha não estava agradada com aquele lamentável matrimônio dele, e não tinha demorado para manifestá-lo. Depois que Morgan lhe explicou como lhe tinham obrigado a casar-se com uma espanhola, a rainha lhe ordenou que solicitasse a anulação do matrimônio, insistindo que não era legal. Mas algum duende perverso de seu interior lhe impedia de fazê-lo. Essa resistência de Morgan esteve a ponto de fazer que a rainha mudasse de opinião e não lhe outorgasse o título do Sir. Mas como o clamor popular estava do lado de Morgan, ao final a rainha lhe concedeu essa graça. —Lady Jane é encantadora —admitiu Morgan— seria uma honra para qualquer homem tê-la por esposa. Na realidade, Morgan considerava Lady Jane uma moça louca, muito pouco alheia às paixões masculinas. Embora a rainha vigiava com zelo a suas damas de companhia, não podia passar com elas todas as horas do dia, e muitas vezes não estava à par de seu reprovável comportamento. Isabel lançou a Morgan um sorriso agradado. Incomodava-lhe profundamente pensar que um de seus favoritos se casou com uma espanhola, mas tinha a segurança de que com os incentivos adequados Morgan chegaria a ver as coisas como ela. —Não é Lady jane a que está sentada aí, do outro lado da sala? Parece que está sozinha, por que não vai com ela? Nós prometemos ao Sir Drake uma audiência em privado. Este assunto dos espanhóis está começando a ficar difícil. Não temos nem ideia por onde pensa atacar a frota espanhola, nem de quando partirá de Lisboa, se é que o faz. Sir Drake e os almirantes querem sair com nossa armada e acabar com eles antes de que tenham a tiro, mas não vemos razão para precipitar. Preferiríamos mil vezes arrumar as coisas mediante uma negociação pacífica.

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—Falei com Sir Drake —disse Morgan— e estou de acordo com ele. Nossos informantes dizem que nossa frota está melhor armada e melhor provida do que esteve em muito tempo. Se atacarmos primeiro, poderíamos destruir sua frota antes de que abandone Lisboa. —Devemos ser precavidos —recomendou primeiro Isabel —vamos falar com o Sir Drake, e logo decidiremos que rumo convém tomar. —Meu navio está a seu serviço, Majestade —ofereceu generosamente Morgan — Só espero suas ordens. —Conhecemos bem sua lealdade, Sir Scott, tirando essa sua obstinação no que se refere a seu matrimônio. Agora pode ir; Lady Jane está ansiosa de sua companhia. Morgan fez uma reverência e se separou da rainha, mas não foi até Lady Jane. Saiu discretamente por uma sala de espera aos jardins que havia mais à frente, evitando deliberadamente à pertinaz Lady Jane. Desde o dia em que chegou a Whitehall, Lady Jane lhe tinha pego igual a sanguessuga sedenta de sangue. Se ele procurava a companhia de alguma outra mulher, era para ver o ciumenta que ficava Jane. Já tinha perdido a conta das vezes que lhe tinha convidado a sua cama, e uma ou duas delas chegou a pensar em aceitar, tão descarado convite. Deus sabia que não lhe faltava vontade. Mas, para desgosto dele, algo que estava além de seu controle lhe impedia de procurar alívio entre as pernas brancas de Jane. Luzia. Seu nome lhe demorava nos lábios como uma preciosa lembrança. Luzia. Luzia. Em suas primeiras semanas em Londres Morgan tinha estado muito ocupado, e isso lhe tinha deixado pouco tempo para pensar em Luzia. Ele e Stan Crawford se reuniram quase todos os dias com a rainha e seu conselho privado, que escutavam com avidez a descrição que Stan fazia da grande armada que tinha visto congregar-se em Lisboa. E quando Morgan não estava dançando ao som que tocava a rainha, achava-se de consulta com notáveis como Sir Francis Drake e Lorde Burleigh. A situação com a Espanha

estava se pondo imprevisível, e a rainha atrasava

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deliberadamente o aprovisionamento de sua frota. Sir Drake não deixava de lamentar-se de não poder estar já navegando para Lisboa para bloqueá-los ali, em lugar de ficar parado com a armada em Plymouth. Antes que Morgan pudesse dar-se conta chegou o Natal. Teve a presença de ânimo suficiente para enviar um presente a Luzia. Na agitação daquelas semanas, Morgan chegou a acreditar que tinha conseguido tirar Luzia da cabeça, e por isso não entendia o que lhe estava impedindo de anular seu matrimônio. Dizer que à rainha desgostava aquela união era dizê-lo com palavras muito suaves, embora ao inteirar-se das circunstâncias se acalmou um tanto. Mesmo assim, seguia molesta com que Morgan

resistisse

a seus

esforços

por

liberar

daquele

desafortunado

emparelhamento. Foi então quando Isabel ofereceu Lady Jane como recompensa por seus serviços a Inglaterra; e era um prêmio suculento. Quão único Morgan tinha que fazer para recebê-lo era desfazer-se de sua atual esposa. Morgan o esteve considerando, chegando até o extremo de fazer a corte a Jane, mas logo começou a encontrar desculpas para evitá-la. Sua pálida beleza loira podia resultar apetitosa para outros, mas Morgan se deu conta de que ele preferia a sensualidade morena das mulheres de traços exóticos, olhos vivazes e lustrosos cachos de ébano, por desgraça tosquiados. Passou dezembro e vinha janeiro com sua ronda de bailes e celebrações, e de aborrecidos musicais nos que a principal figura era alguma diva italiana que cantava desafinada. Morgan visitou antros de perversão com amigos que bebiam até ficar inconscientes e despertavam nos braços de rameiras. Morgan podia frequentar os piores lugares de Londres e beber em excesso, mas não se sentia capaz de tontear com rameiras. Apostava sem medida, perdendo às vezes, embora ganhando com mais frequência, grandes quantidades de dinheiro. Fevereiro veio e se foi, e Março trouxe consigo a primavera. As duas únicas vezes que se sentiu tentado a visitar uma 218


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casa de encontros de alta categoria, terminou jogando às cartas no piso de baixo enquanto seus amigos se deleitavam com as rameiras mais finas e mais caras de toda Londres. E uma e outra vez amaldiçoava sua própria estupidez. Não podia negar que necessitava uma mulher. O que lhe punha furioso era não poder satisfazer-se com qualquer delas. Em seu afã de liberar-se da imagem de Luzia, tinha dançado e flertado em todas as festas da temporada londrina. Sabia que Luzia estava bem, porque Withers lhe mantinha informado do bem-estar de sua esposa. E, com tudo aquilo, em Londres Morgan se deu conta de um fato importante: tinha compreendido que Luzia nunca poderia encaixar naquele tipo de vida. Sua beleza exótica e morena delatava sua ascendência espanhola. Não a aceitariam, nem seus amigos, nem a rainha. Se em lugar de espanhola fosse francesa teria sido distinto, mas não o era. O fato de que Luzia levasse em suas veias o sangue daqueles a quem ele tinha dedicado sua vida a destruir lhe resultava imperdoável. Era um defeito fatal que convertia seu matrimônio em uma espécie de brincadeira. E mesmo assim não podia negar que os braços lhe doíam de vontade de abraçá-la, que estava desejando ouvir seus gemidos suaves enquanto a conduzia ao êxtase. Gostava, insuportavelmente, de sua doce forma de lhe corresponder, em que não havia manha, nem fingimento. Se não fosse porque sabia a que atentar, teria pensado que fossem um para o outro. Morgan sacudiu a cabeça para limpar tão perturbadores pensamentos. Desejar Luzia só lhe complicava a vida. Isabel lhe estava apressando a solicitar a anulação, e imaginava que teria que acabar cedendo e casando-se com o Lady Jane, ou com alguma outra igualmente apropriada. Recordou os tempos em que Luzia lhe suplicava que a mandasse de volta ao convento. Provavelmente estaria contente se o fizesse agora. Não podia estar gostando da circunstâncias em que se encontrava, abandonada entre serventes hostis e desatendida. Fixaria uma soma de dinheiro para ela e a deixaria escolher entre vários destinos. Ou possivelmente, pensou abatido, ela 219


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preferisse voltar com seu antigo prometido. Esse era um pensamento muito pouco agradável. Mas não é isso o que você quer, recordava-lhe uma voz interior. —Em todo caso, farei o que seja melhor para todos —disse em voz alta. —Com quem diabos fala, Morgan? O que faz aqui fora sozinho? —O sorriso se desvaneceu de seu rosto, substituído por um feio cenho— Não terá chamado aqui alguma outra mulher, verdade? —Ofende-me, Jane —protestou Morgan, galante— Só procurava um pouco de ar fresco. Já sabe que você é a única mulher que me interessa. —Deus, quanto lhe fatigavam as absurdas sutilezas que impunha a sociedade. Teria preferido mil vezes poder repantingar-se na coberta do Vingado; a estar ali dando de presente frases sonsas aos ouvidos daquela mulher. Jane sorriu e se aproximou um pouco mais. Seu cabelo loiro sem empoeirar tinha reflexos leonados e dourados à luz minguada. Elevou o rosto, com os lábios separados como um convite, consciente de que havia poucos homens capazes de resistir a sua beleza. Por desgraça para ela, o imponente Morgan Scott estava demonstrando ser um desses poucos. Ele não era como a maior parte dos homens. Para Jane, o fato de que já estivesse casado logo que mudava as coisas, porque sabia que a rainha Isabel lhe estava pressionando para que obtivesse a anulação ou o divórcio; e que homem teria a coragem de desobedecer a uma rainha vingativa. Mas Morgan se fazia de difícil a propósito. Uns poucos beijos e umas poucas carícias eram quão único tinha conseguido lhe arrancar, por muito que em mais de uma ocasião tentasse atrai-lo a sua cama. Segundo os rumores, tinham-lhe obrigado a casar-se, assim Lady Jane não imaginava sequer que pudesse estar apaixonado por sua esposa. Morgan estranha vez falava da espanhola; entretanto, Jane não conseguia explicar o misterioso desejo que tinha descoberto em seus olhos. Mas isso tampouco lhe preocupava: estava convencida de que nenhuma mulher de pele escura podia comparar-se, nem de longe com sua própria beleza dourada. 220


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—Conheço um lugar onde podemos estar sozinhos, se te incomodar que aqui haja tanta gente —disse a Morgan em um sussurro gutural— Não está longe. — Agarrou-lhe a mão— Vêm, lhe mostrarei. Morgan não pensou mais que um instante. Por que demônios não ia agarrar o que Lady Jane com tanta liberdade lhe estava oferecendo? Necessitava uma diversão, e a necessitava já. Necessitava alguém que substituísse Luzia em seus pensamentos. Jane era bonita, tinha boa figura, e não era nenhuma virgem pacata. Para dizer de um modo singelo, Morgan precisava descarregar sua frustração sexual nas suaves carnes de uma mulher. Ia quase pisando Jane os calcanhares, quando ela o conduziu a um caramanchão afastado, situado na zona mais longínqua do jardim. Observou que estava um pouco desvencilhado, sinal confiável de que pouca gente passava por aquele lugar solitário. Pouca gente entre as que podia contar, provavelmente Jane e a seus diversos amantes. E agora estava a ponto de acrescentar Morgan à lista de suas conquistas. —Não estará sentindo sua falta, a rainha? —perguntou ele, entrando no caramanchão atrás de Jane. Constatou sem muito interesse que no interior havia vários bancos cheios de colchonetes descoloridos, e muito poucos móveis mais. As varandas estavam protegidas com tendas de lona, que podiam baixar-se para assegurar a intimidade. —A rainha foi reunir-se com

Sir Francis Drake —disse Jane enquanto

desenrolava as lonas, sumindo o lado em um mundo de sombras que convidava a intimar— Não me sentirá falta. Temos muitas horas para poder nos divertir juntos. — E, lhe dando um sorriso coquete, recostou-se em um dos bancos e estendeu os braços para ele. Morgan a contemplou entreabrindo as pálpebras antes de aproximar-se dela e tomá-la em seus braços. Jane soltou um suspiro feliz. Tudo a fazia pensar que muito

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em breve ia ser a esposa daquele arrumado pirata que se converteu em um dos heróis da Inglaterra. Estremeceu, delicada, antecipando-se desejosa à rudeza de suas mãos. Um homem que saqueia e arbusa por prazer não pode ser um amante suave, e ela estava disposta a converter-se em sua escrava. Não sonham todas as mulheres sendo violadas por um arrumado pirata? Pouco a pouco Morgan despojou Jane do vestido, despindo rendas de um branco níveo. Fez uma careta de desgosto, encontrando Jane pálida e pouco atraente em comparação com a beleza de pele dourada de Luzia. Obrigando-se a continuar, Morgan lhe desatou a anágua e o sutiã e colheu com a mão um de seus seios brancos. Jane gemeu e lhe agarrou a cabeça, empurrando-lhe para seus seios. Morgan correspondeu metendo o mamilo na boca e lhe passando a língua ao redor. Esteve a ponto de dar uma arcada. A pele de Jane tinha um perfume forte. Adocicado, enjoativo e lhe oprimia, muito pouco sedutor para seu gosto. Ou possivelmente era a mulher em si a que não lhe atraía. Voltaria algum dia a lhe atrair alguma, depois de Luzia? Ele tentava. Deus sabia que tratava de tirar da cabeça Luzia. Mas até quando estava acariciando e chupando os seios de Jane, permanecia indiferente a seus gemidos e seus voluptuosos rebolados. Sentia-se distante do que estava fazendo, como se o estivesse contemplando de fora. —OH, Morgan, por favor, vêm dentro de mim —ofegou Jane abrindo as pernas e estendendo-se para ele. Mas quando seus dedos ansiosos se fecharam em torno dele, sobressaltou-se e o olhou completamente confundida— Não está a ponto. O que posso fazer para te ajudar? Morgan se tornou para trás, enojado. Não havia nada que Jane pudesse fazer para pô-lo a ponto para ela. Como ia ele forçar-se a fazer algo que seu corpo não desejava. Aquilo nunca lhe tinha ocorrido até então, e não gostou. Que tipo de feitiço lhe tinha jogado a bruxa espanhola? Sempre havia sentido orgulho de sua boa disposição para o sexo. Sua capacidade sexual nunca lhe tinha suscitado a menor

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duvida, e com frequência tinha alcançado e proporcionado satisfação várias vezes em uma noite. Mas tampouco teria sido justo jogar a Lady Jane a culpa daquela carência dela; provavelmente lhe teria ocorrido o mesmo com qualquer mulher que não fosse Luzia. —Isto é um engano —disse Morgan, tratando de desprender-se das garras de Jane. Mas ela não o consentia. Pinçou-lhe entre a roupa até dar com sua flácida dignidade. Antes que Morgan pudesse dar-se conta do que pretendia, o tirou da calça e o meteu na boca. —Por todos os infernos! —Ele estremeceu intensamente, elevando-se e endurecendo-se imediatamente— Onde aprendeste esses ardis de rameira? Quanto mais diligencia punha Jane em trabalhar mais se encolerizava Morgan. Não lhe manipulava ninguém sem sua permissão, e não estava disposto a consentir que aquela pirralha metida o fizesse. Agarrou-a pelos ombros e a afastou sem olhar. Jane caiu de traseiro e abriu os olhos com incredulidade. Sua surpresa se transformou em seguida em raiva. —Mas que tipo de homem é você, Morgan Scott? Ou é que nem sequer é um homem? Estava quase a ponto. Preferiria fazê-lo pela força? Ao fim e ao cabo é um pirata, e ouvi que tratam de um modo brutal às mulheres. Se prefere me violar, por mim fico encantada. Tome com toda a rudeza que queira, seja todo o brutal que goste, que não vou protestar. — só de pensar a deixava sem fôlego de pura ânsia. O semblante de Morgan adotou uma expressão fria enquanto se levantava do banco e alisava apressadamente a roupa. —Eu não gosto de fazer mal às mulheres. Como te dizia antes, isto foi um engano. Jane se revolveu contra ele, com o rosto atravessado de raiva. —É assim como pensa me tratar quando estivermos casados? Não vou poder suportar, Morgan. O que te tem feito essa rameira espanhola?

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—Oxalá soubesse —murmurou Morgan, distraído— Quando você e eu nos casemos, se é que nos casamos, não terá nenhuma queixa de meu rendimento. Jane sorriu com paquera. —Então vêm e me demonstre isso. O senti endurecer em minha boca; sei que me desejaste. —Bom, sou humano —replicou Morgan— Mas este não é nem o momento, nem o lugar. Sou tão orgulhoso que quero ser eu quem escolhe o momento e o lugar. Possivelmente seja melhor que voltemos para a Câmara de Audiências antes de que nos sintam falta. Nossa boa rainha pode converter-se em uma leoa se descobrir que uma de suas damas perdeu a compostura. Comigo já está desgostada. Não há necessidade de que você também ganhe sua ira. —Não se teria aborrecido contigo se tivesse aceitado a deixar a sua esposa espanhola para poder se casar com uma mulher inglesa —resmungou Jane, irritada. Morgan soltou um profundo suspiro de fartura. Tudo aquilo já tinha ouvido antes. E não só da rainha. Também de seus amigos. —Não comecemos outra vez com isso. Meu matrimônio não é tema de debate público. Está pronta para voltar para a festa? —Pareço uma louca—se queixou Jane, tentando sem êxito voltar a colocar o cabelo como o tinha antes de entrar no caramanchão. Ao final desistiu e se conformou lhe dando um aspecto ordenado. Quando ela e Morgan entraram na Câmara de Audiências da rainha, dava a impressão de que acabavam de retornar de um encontro ilícito. Luzia permaneceu ao bordo da multidão. Fazia só um momento que tinha chegado a Whitehall. O lacaio que lhe disse que era Lady Scott a encaminhou para a Câmara de Audiências, informando-a de que a rainha acabava de fazer Sir a Morgan Scott e de que ali se encontrava reunida a corte inteira para celebrar a cerimônia em honra de seu marido. Quando Luzia chegou, a sala estava abarrotada de gente, todos ricamente embelezados com todo tipo de ornamentos cortesãos. Sentiu-se 224


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insignificante e desconjurada com sua saia de veludo enrugada da viagem e seu cabelo sem empoeirar. Esquadrinhou a estadia procurando Morgan, mas não o encontrou. Pegou um bom susto ao sentir que alguém lhe punha a mão no ombro. Voltando bruscamente, levou uma surpresa ao ver a negra silhueta de um padre jesuíta sobre ela. —Perdoa que te tenha assustado, minha filha, mas não pude evitar me dar conta de que é espanhola. O que está fazendo tão longe de sua terra? Neste momento a corte da rainha Isabel não é lugar para uma espanhola. Estão esquentando os nervos, cada vez mais contra os seus patrícios. —O fluído espanhol do jesuíta soava como música nos ouvidos de Luzia. —Vêm da Espanha? —perguntou-lhe, esperançada. —Sim. Enviaram-me a Inglaterra com uma delegação de jesuítas para convencer à rainha herege de que deixe de oprimir à população católica da Inglaterra. Também trazemos garantias do rei Felipe e do Papa de que a Espanha não tem intenção de tomar represálias pelo assassinato de Maria Estuardo, por mais que o condene, uma separação tão flagrante da justiça e um ato tão reprovável aos olhos de Deus. E o que está fazendo você aqui, minha filha? —É uma longa história, Pai —disse Luzia com um suspiro. —Parece perdida. Vem comigo. Apresentarei-a ao resto de nossa delegação, e assim nos conta o que te trouxe para este país. É melhor que permaneçamos todos juntos nesta corte imoral. De repente Luzia vislumbrou Morgan, e o fôlego lhe afogou dolorosamente na garganta. Viu-o entrando na sala por uma porta que havia no outro extremo, acompanhado de uma formosa mulher que se agarrava possessivamente de seu braço. Uma moça, loira, régia, com a encantadora cabeleira alvoroçada de um modo inconfundível. Os olhos de Luzia voltaram a posar-se em Morgan, que tinha aspecto de haver-se vestido depressa e correndo. Levava a roupa torcida, e parecia

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incomodado. Luzia pensou que tinha visto essa expressão de seu rosto muitas vezes… depois de fazer amor. Apertou os punhos. Deus, queria matar aquela mulher! —O que passa, filha? —perguntou-lhe o padre, seguindo o olhar de Luzia até Morgan e Lady Jane. —Quem são esses? —inquiriu Luzia, assinalando com um gesto da cabeça para onde estava Morgan. O padre franziu com força o cenho. —Esse é o feroz pirata Morgan Scott e sua puta, Lady Jane Tarruga. Ele mandou mais galeões espanhóis ao fundo do mar que nenhum outro homem na história. Dizem que tinha encontrado a morte em Havana, mas recentemente apareceu na Inglaterra, vivinho e abanando o rabo. Causou sensação na corte. A rainha sente predileção por ele. Hoje lhe outorgou o título do Sir por sua lealdade para a Inglaterra. A Luzia caiu a alma aos pés. Deram o titulo de Sir a Morgan, e ela nem sequer se inteirou. Estava claro que ele tinha decidido esquecer-se de que tinha uma esposa. Ela não era mais que um estorvo para ele. Quando viu que Lady Jane sussurrava ao ouvido de Morgan algo que lhe fez rir, teve que conter um soluço. —Esqueça-se desta gente ímpia, filhinha. Vem conosco. Rezaremos juntos pela conversão da Inglaterra ao catolicismo. Muito desconsolada para opor-se, Luzia seguiu docilmente ao padre fora daquela sala, longe de Morgan e sua amante.

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Capítulo 15 —Ah, aqui estamos, filha —disse o padre enquanto abria a porta de seu alojamento e guiava Luzia para dentro— É pequeno mas suficiente. Estamos acostumados a prazeres singelos. Luzia entrou na estadia, e outros três padres deixaram de rezar para voltar-se para olhá-la. —Sente-se, filha —disse o padre, assinalando a única cadeira que havia no quarto— Eu sou o pai Pedro e estes são os pais Juan, Bernardino e Rafael. Luzia os saudou um por um. —Eu sou Luzia Santiago, de Cádiz. —A filha de Dom Eduardo? —perguntou o pai Pedro— Conheço muito seu pai. Um benfeitor de nossa ordem. Ouvimos dizer que te tinha casado com Dom Diego de Fujo, governador geral de Cuba. Mas Por Deus santo, o que está fazendo na Inglaterra? —Estou aqui com meu marido —se explicou Luzia, recordando que tinha ouvido seu pai falar do pai Pedro e de sua ordem. Os padres se alvoroçaram e ficaram a cochichar entre eles. Por fim o pai Pedro se voltou para Luzia e disse: —Não tínhamos ideia de que Dom Diego estivesse na Inglaterra. Devemos falar com ele imediatamente. —Está claro que não viram o meu pai ou a meus irmãos, nem falaste com nenhum deles em muito tempo. Eu estou casada com Morgan Scott. Nunca tinha visto Luzia amostra de sobressalto semelhante a que expressavam os rostos dos jesuítas. —O Diabo, o pirata? Meu Deus! —benzeram-se e olharam Luzia como se de repente lhe tivessem saído chifres.

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—Como pôde ocorrer semelhante farsa? —perguntou o pai Juan, reservando o julgamento até ter ouvido toda a história— Seguro que tudo isto tem alguma explicação. —Não estou segura de por onde começar… —disse Luzia, receava despir seus mais recônditos segredos ante os padres. —Pelo princípio —apontou o pai Bernardino brandamente— E logo, se lhe parecer, ouvirei-a em confissão e te darei a absolvição. Pode começar, minha filha. Luzia tragou o nó que lhe tinha feito na garganta e começou contando seu sequestro em alto mar e como tinha adotado o aspecto de uma monja para proteger sua castidade. Os padres trocaram olhares de compreensão quando ela admitiu que o pirata se precaveu de sua mentira. Sem entrar em detalhes íntimos, explicou a maneira em que seus irmãos a tinham resgatado e como tinham insistido em uma repentina cerimônia nupcial. Os jesuítas ficaram consternados quando descreveu a fuga de Morgan de Havana na véspera de sua execução e seu próprio rapto da casa de Dom Diego. —Pobre menina —disse pai Pedro, movendo a cabeça em sinal de consideração —Viveste um inferno. Como deve detestar esse pirata pelo que

te tem feito.

Rezaremos por ti. Está ciente que seu marido anda cometendo adultério com mulheres imorais? Desde que estamos na corte vimos com frequência ao capitão Scott e a Lady Jane juntos. Dizem os rumores que se casarão logo, que a rainha está pressionando para que se celebre as bodas. Mas seguro que nem a estes hereges lhes permitem ter duas esposas; ou sim? —O mais provável é que Morgan anule nosso matrimônio e me envie de volta ao convento. —Aos olhos de Deus está casada. Não pode celebrar nenhum matrimônio herege sem que o Santo Pai tenha aprovado a anulação. O que Deus uniu não pode separar o homem —citou Pedro com unção— Você quer retornar a Espanha, filha?

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Luzia franziu o cenho. O que ela de verdade queria era arrancar um a um, de Lady Jane, os dourados cabelos de sua majestosa cabeça. Mas se Morgan queria desfazer-se dela, contentaria-se passando o resto de seus dias em um convento. Um único amor em toda uma vida era quão máximo Luzia era capaz de suportar. —Isso poderia ser o melhor para todos —admitiu. —Nós abandonaremos a Inglaterra logo que a Armada Espanhola apareça pelo horizonte à vista do chão inglês —confiou o pai Juan, baixando a voz a um sussurro— Não deve falar disto a ninguém. Se nos pegarem na Inglaterra quando chegar a grande armada é muito provável que nos encarcerem ou nos executem. —Por que estão aqui suas Armadas? —perguntou Luzia com curiosidade. —Fomos enviados pelo rei Felipe e o Senhor de Parma para averiguar o que pudéssemos sobre as defesas da Inglaterra e as intenções da rainha. —São espiões! —murmurou Luzia, horrorizada. O pai Pedro se agitou, incômodo. —Esse é um termo muito duro, filha. Nós estamos em missão de paz. Se deseja voltar para a Espanha a levaremos conosco, e eu em pessoa me encarregarei de que se reúna com seu pai. Estamos confiando nosso segredo, mas não deve contar a ninguém o que acabamos de te revelar. Rezamos juntos pelo bom fim da expedição? Os jesuítas ficaram de joelhos, unindo-se com suas preces ao pai Pedro. Luzia ficou de joelhos imediatamente, mas sua cabeça não estava em suas orações. Perguntava-se se Morgan se dava conta do pouco que faltava para que a armada se fizesse ao mar, e se a frota da rainha sairia ou não a seu encontro. Tinha visto a frota em Plymouth, mas a impressão que tinha tido era que não estavam fazendo nenhum preparativo para irem logo ao mar. Depois de um longo intervalo de oração, Luzia se levantou para partir. —Estaremos em contato, filha —disse o pai Pedro— Se quer abandonar a Inglaterra deve estar preparada para partir assim que chegue o aviso. Enquanto isso, pode prestar um grande serviço a seu rei e a Deus nos fazendo chegar algo de importância que averigúe por seu marido. Quando atracarmos a Espanha, nós lhe

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ajudaremos a conseguir que o Papa declare inválido seu matrimônio com esse pirata herege. Luzia deixou a estadia dos jesuítas com o ânimo confuso. Ficou assombrada ao saber que aqueles jesuítas eram espiões espanhóis, e ainda mais estupefada quando o pai Pedro lhe tinha pedido que espiasse a seu próprio marido. Pode ser que Morgan fosse desumano e lhe faltava escrúpulos, mas ela não podia forçar a si mesma a lhe espiar. Em primeiro lugar, duvidava que Morgan fosse revelar a ela algo que tivesse importância. Em segundo, ele ia se zangar tanto ao vê-la em Londres que a devolveria imediatamente à Residência dos Scott. Sua presença na cidade sem dúvida dificultaria sua atividade com as senhoras, em particular com Lady Jane. Tomara que fosse assim, pensou ela com um pingo de malícia. Luzia vagou corredor abaixo, com pouca ideia de onde ia, e ainda menos interesse. Depois que a rainha abandonasse a Câmara de Audiências, a multidão começou a dispersar-se. Aborrecido como tinha chegado a estar de Lady Jane e de seu caráter possessivo, Morgan se desculpou com correção. —Aonde vai, Morgan? —perguntou Jane, sem querer lhe soltar o braço. —A minhas habitações, minha senhora. E logo a Billingsgate me reunir com meu primeiro oficial a bordo do Vingador. —Pode me acompanhar ao meu dormitório —sugeriu Jane com picardia— Posto que a rainha não me chamou, sou livre para fazer o que me agrade. Como não lhe ocorria nenhuma desculpa, Morgan lhe ofereceu seu braço e saíram andando juntos. Tinham que passar por diante do dormitório de Morgan para chegar ao de Jane. Quando chegaram ao dormitório de Morgan, Jane se deteve bruscamente e lhe arrastou para a porta. —Mostre-me seu quarto, Morgan. —Estou pensando que é melhor eu… —Esse é seu defeito, que pensa muito. 230


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Morgan grunhiu consternado quando Jane levantou o trinco e se meteu dentro. A Morgan não ficou mais remédio que seguí-la. Não havia modo de desanimar a aquela pirralha em zelo? Ele já estava farto de tanta intriga cortesã e tanta mulher calculadora, e estava desejando ver-se a bordo do Vingador, em vez de perder seu tempo cortejando a uma mulher que não lhe importava, ou em West Sussex com Luzia, que o deixava bastante bem para dissipar seu aborrecimento. —Isto não é sensato —disse Morgan, esforçando-se em desanimar Jane— Pensa em sua reputação. —Desde quando importa a ti a reputação das mulheres? —perguntou Jane com voz rouca— Estamos na intimidade de seu quarto, e ninguém pode impedir que desfrutemos um do outro. Que melhor lugar que aqui e agora? A rainha espera que nos casemos; não há razão para esperar. —Provavelmente não —admitiu Morgan— se não fosse porque estou com pouco tempo. Devo partir muito em breve para me reunir com o senhor Crawford a bordo do Vingador. Não tenho o tempo que você e eu merecemos para estar juntos. Se tiver que me deitar contigo, prefiro fazê-lo como é devido. —Acariciou-lhe os seios, com a esperança de que essa carícia íntima a convencesse de sua sinceridade. Suas palavras pareceram apaziguar Jane, que se esfregou apaixonadamente contra ele. —Quando? —perguntou sem fôlego— Estou que não posso esperar. Quero que me faça tua. A Morgan por pouco lhe escapa um bufido de desgosto. Pensou em todos os outros homens que tinham feito sua a Jane. —Muito em breve —prometeu com toda a veemência que conseguiu reunir. E seria antes, inclusive, do que ele teria querido se consentisse que a rainha saísse com a sua. Luzia seria então seu passado, e Lady Jane seu futuro. —Me dê um beijo de despedida —disse Jane, pegando-se ao firme muro de seu peito.

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Morgan acessou, consciente de que esse era o único modo de livrar-se de Jane sem alvoroço. Era verdade que precisava encontrar-se com Stan, e estava ansioso por partir. Baixando a cabeça, posou seus lábios sobre os dela, sombriamente consciente de que seu beijo resultava morno comparado com o que teria sido se em seus braços estivesse Luzia. —Anda perdida, senhora? Possivelmente eu possa lhe indicar onde estão suas habitações. Luzia se deteve bruscamente. Distraída por seus pensamentos, quase se dá de nariz com um bonito cortesão. —Ai, sinto muito, senhor. Não lhe tinha visto. —Estes corredores são bastante complicados e é fácil equivocar se a pessoa não está acostumada a eles. Acredito que não nos conhecemos. Sou Dennis Burke, Visconde de Harley, para lhe servir. —Fez uma graciosa reverência— E você é…? —Luzia… de Scott —disse Luzia, tropeçando com aquele sobrenome que agora era o seu pela graça do matrimônio. —Céu santo! É você a esposa espanhola de Sir Morgan Scott. Perguntávamonos quando ia Scott apresentar sua esposa a corte. Agora entendo sua inapetência. É uma beleza, minha senhora. Eu também lhe custodiaria zelosamente se fosse minha. Me permita que lhe acompanhe às habitações de seu marido. Ou preferiria lhe buscar na Câmara de Audiências? Perdeste a cerimônia? Não recordo de lhe haver visto antes ali. —Preferiria esperar Morgan em seu dormitório, senhor —disse Luzia— Venho fatigada da viagem, e não estou vestida adequadamente para assistir a um ato solene. Meu marido não sabia que eu vinha a Londres. Luzia pensou que o Visconde de Harley era bastante elegante, embelezado como ia com meias que ressaltavam suas bem formadas pernas, bombachos de cetim e casaca de brocado. Parecia suficientemente cortês, e inofensivo. Aceitou-lhe o braço enquanto a guiava por um labirinto de corredores. 232


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—Certeza que seu marido vai se surpreender ao vê-la em Whitehall —disse Harley com dissimulado regozijo. A flagrante aventura de Morgan com Lady Jane era popular, e Harley se perguntava como se desembrulharia o pirata em semelhante situação. A rainha queria dissolver seu matrimônio e despachar a Espanha sua esposa, deixando livre Morgan para casar-se com a rica herdeira inglesa. Harley não aguentava de vontade de propagar entre seus amigos a notícia da chegada de Luzia. Luzia não respondeu a aquela observação do bonito lorde inglês. Ninguém melhor que ela conhecia a magnitude do caráter de Morgan. Seu próprio caráter podia ser igual se a provocava. E Deus sabe que Morgan lhe estava dando toda aula de razões para aborrecer aquela vida dissoluta e licenciosa que ele levava na corte. Os corredores pareciam não ter fim, pensou Luzia, mas se via que Lorde Harley sabia aonde ia. Conversava excessivamente durante sua caminhada, sem esperar resposta e sem recebê-la tampouco. Por fim se detiveram ante uma porta, e Lorde Harley soltou o braço de Luzia com notável desinteresse. —Aqui estamos, minha senhora. Não acredito que o ferrolho da porta esteja jogado, porque aqui em Whitehall é desnecessário. Possivelmente nos vejamos mais tarde —murmurou, levantando a mão dela e beijando-lhe com muita doçura. Luzia observou como ia andando muito estirado pelo corredor, e lhe pareceu que era todo um figurino. Luzia pensou em bater na porta antes de entrar no dormitório de Morgan, mas decidiu que não era necessário. Morgan provavelmente estava ainda na Câmara de Audiências. Além disso, ela era a esposa dele, e tinha todo o direito de entrar em seu dormitório quando quisesse. A porta se abriu sem ruído de dobradiças e ela passou dentro. A cena com que tropeçou sua vista levou a seus lábios um grito de consternação. O som fez que os ocupantes do dormitório se separassem de um salto.

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—Quem é você? —perguntou Jane, indignada pela intrusão— Como se atreve a entrar sem chamar no dormitório de Sir Scott? Terei que falar com Sua Majestade para que lhe desaloje de Whitehall. É uma fresca desavergonhada. —Luzia… —Morgan estremeceu ao ver o que se passava. Dedicando a Jane uma olhada glacial, o olhar de Luzia se chocou com o de Morgan. O silêncio entre eles

foi estirando enquanto Jane contemplava com

desgosto crescente como reagiam um e outro. Nesse patético silêncio Luzia viu como a expressão de Morgan ia mudando da fúria à incredulidade assombrada e logo a uma satisfação contida. —Quem é esta mulher, Morgan? —exigiu saber Jane. Mas tanto Luzia como Morgan pareciam ignorar sua presença. —Morgan, responde a minha pergunta. —Jane começava a ter uma ligeira suspeita de quem era aquela beleza morena, e só necessitava a confirmação de Morgan. Ao final Morgan não pôde seguir ignorando por mais tempo Lady Jane. —Nos deixe, Jane. —O que? —A raiva de Lady Jane era ilimitada. Voltando-se para Luzia anunciou com audácia— Eu sou a noiva de Morgan. Que direito têm você a nos importunar em um momento íntimo? Murmurando com desagrado, Morgan se deu conta da forma desavergonhada e ruidosa que tinha Jane de lhe perseguir; e não porque o tivesse sabido todo o tempo. Até então não lhe tinha importado até o ponto de lhe incomodar. Ao ver agora Luzia lhe tinha transportado de um aborrecimento cortês até a mais crua consciência. Sentiu-se enojado de ter aguentado durante todos esses meses o afã de posse de Jane. Além disso, seu próprio comportamento na corte tinha sido indiscreto e descuidado. Tinha jogado, tinha flertado, tinha bebido em excesso e tinha visitado os clubes para cavalheiros de pior reputação com um imprudente desprezo às consequências. Havia dito a si mesmo que estava se colocando por caminhos dissolutos em um esforço por apagar Luzia de sua mente e de seu coração, mas não 234


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tinha resultado. E por algum milagre Luzia estava ali, e o único em que podia pensar era em lhe fazer amor durante longas e gozosas horas. Arrancando seu olhar de Morgan, Luzia se voltou para Lady Jane com olhos hostis e furiosos. —Você pode ser a noiva de Morgan, mas eu sou sua esposa. E se não partir imediatamente lhe vou arrancar o coração e o jogar aos porcos. — Para dar mais força a seu aviso, avançou ameaçadora para Lady Jane, que deu um chiado de consternação e fugiu cheia de terror para salvar a pele. Quando ficaram sozinhos, Luzia se voltou contra Morgan cheia de raiva. Morgan sentiu que se intimidava ante aquela cólera. —E te digo o mesmo, Morgan. Sua deslealdade é horrorosa. Te vou arrancar o coração com tanta facilidade como a sua amante. Morgan se esforçou em conter seu regozijo, mas fracassou. A risada saiu rodando de seu peito enquanto olhava Luzia assombrado. —Estou convencido de que o faria, minha pequena e feroz esposa. —Logo seu regozijo terminou tão rapidamente como tinha começado— Que demônios está fazendo você em Londres? Dei ordens de que ficasse na Residência dos Scott. Luzia lançou um olhar contrariado. —Pensava que ia ficar ali enquanto você pulava desavergonhadamente na corte com sua amante? Se está pensando em dissolver nosso matrimônio, Morgan, faça-o agora, mas não me envergonhe se colocando nessas aventuras tão escandalosas enquanto ainda somos marido e mulher. —Olhou-lhe fixamente— Ainda somos marido e mulher, não é assim? —Ainda estamos casados, Luzia —disse Morgan tranquilamente. Luzia relaxou visivelmente. —Ainda não me disse o que está fazendo em Londres nem como chegaste aqui. Assombra-me que Clyde Withers te tenha deixado partir depois de que lhe ordenei que não saísse de West Sussex. Como não queria pôr Withers em dificuldades, Luzia declarou:

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—O senhor Withers não teve nada a ver com que eu esteja em Londres. Vim por meus próprios meios. Aborrecido, Morgan abriu a boca de par em par. —Por todos os infernos, mulher de Deus, dá-te conta do perigo ao que te tem exposto por viajar sem compania? O que te deu de repente para sair correndo dessa maneira? —Os rumores viajam bastante depressa, e os criados fofocam. Acreditava que não ia me inteirar de sua conduta licenciosa na corte? Por que não me escrevia, Morgan? Não soube nada diretamente de ti desde que deixou a Residência dos Scott. O faminto olhar de Morgan devorava literalmente a Luzia. Estava encantado de que tivesse chegado até Londres sã e salva, mas ainda estava aborrecido com ela por viajar sozinha. Só de pensar no perigo com que poderia ter topado lhe fazia tremer de espanto. Arriscou-se a toda classe de desgraças, e mais sendo uma estrangeira na Inglaterra. Que tivesse sido capaz de chegar sã e salva até Whitehall dizia muitíssimo de seu valor e de sua capacidade de valer-se por si mesma. —Mantive-me em contato através de Withers e de Forsythe. Não lhe informavam quando chegavam minhas mensagens? —Withers tinha a deferência de me informar, mas eu teria preferido que me escrevesse alguma mensagem pessoal. Deixou-me no campo com o propósito de poder ser libertino na corte. Sua amante tem pinta de ser bastante entretida. Morgan avermelhou, incapaz de negar as acusações de Luzia. Merecia seu ressentimento. Mas, verdade seja dita em seu favor, ele realmente não tinha feito Jane sua amante. Tinha tido a esperança de que o velho ditado "olhos que não veem, coração que não sente" funcionaria assim que ele se separasse de sua influência perturbadora, mas a coisa não tinha resultado assim. A ausência prolongada lhe tinha feito dar-se conta que com desespero desejava a Luzia. Lady Jane, com sua pálida beleza inglesa, não tinha nem ponto de comparação com sua vibrante esposa. Luzia

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lhe comovia de um modo misterioso. Havia algo profundo e perturbador nela; algo indescritivelmente tentador. Ele a necessitava. E tê-la só em sua habitação o fazia tremer de espera. —Não tenho nenhuma amante —disse ele sem mentir. Luzia soprou com ironia. —Apesar do que você pense, eu não sou tola. Vi você e Lady Jane antes, quando chegavam de Deus sabe onde, à Câmara de Audiências. Só um cego não teria dado conta de que vinham com o cabelo revolto e a roupa deslocada. Resultava vergonhosamente evidente que tinham estado ocupados em algum assunto ilícito. E o que me diz de agora mesmo, que entro em seu quarto e vejo a dama em seus braços? Dava a impressão de que dispunha a lhe levantar as saias e fazê-la tua. —Você pensa o que queira, Luzia, mas estou dizendo a verdade. Não me deitei com Jane nem com nenhuma outra mulher desde que te conheci. Não estou orgulhoso de minha situação de celibato, nem do fato de não ter sentido atração por nenhuma das damas da corte. Posto que estou sendo sincero, posso admitir também que a causa de meu sofrimento é você. Não consigo parar de pensar em ti durante o tempo suficiente para me deitar com outra mulher. Deveria lhe castigar por vir a Londres sem minha permissão, mas de repente me vejo faminto do sabor de seus beijos. Desejo-te. Quero estar dentro de ti, rodeado por ti. E, que Deus me ajude, não quero que este sentimento se detenha. Luzia abriu a boca para lançar uma réplica corrosiva, mas Morgan a cortou sem esforço tomando-a em seus braços e capturando seus lábios com desesperada pressa. O quente de sua língua pela comissura de seus lábios enviou pelas veias uma quebra de onda de cãibras de prazer puro. Ela levava tanto tempo tendo saudade que seus sentimentos estavam a flor da pele. O contato dele tinha a magia de voltá-la vulnerável a sua sedução erótica. Fundiu-se com ele e abriu para ele sua boca. Apesar

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de suas mentiras sobre suas numerosas infidelidades, Luzia era incapaz de resistir ao homem que amava mais que a sua vida. O beijo de Morgan se fez mais profundo; sua língua se batia em duelo com a dela em uma troca apaixonada que deixou Luzia sem fôlego. Ela gemia sem fôlego, enquanto ele a beijava profundamente, brutalmente, agarrando-a pelas nádegas e puxando-a mais firmemente contra seu sexo, cada vez mais duro. Com inconsciente abandono ela se entregava a seus abrasadores beijos, impregnados do sabor de sua fome e seu irracional desejo. Com lentidão deliberada pregou sua boca com a dela, empurrando profundamente com sua língua enquanto lhe acariciava os seios. Luzia cedeu a sua paixão deixando que a rodeasse como um halo brilhante e faiscante. Enjoava-a o aroma da excitação de Morgan, forte e acre e imensamente masculino. Tinha desatado algum impulso primitivo no mais fundo dela, e encaixou os quadris contra ele em lasciva resposta. Aquilo não era simples luxúria; aquela loucura chegava mais longe, era mais duradoura. O que ela sentia pelo Morgan era amor, desse que só se encontra uma vez na vida. —Bruxa —murmurou Morgan enquanto se ocupava com frenesi de soltar os laços de trás no traje dela— Bruxa sedutora. —O doce sabor da rendição lhe excitava além do suportável. —Não sou nenhuma bruxa —desafiou Luzia enquanto seu sutiã escorregava de seus ombros— Sou sua esposa, Morgan. A feitiçaria é pecaminosa e maligna. —Sim, meu amor, é minha esposa —assentiu Morgan enquanto seus lábios se deslizavam pela esbelta coluna de seu pescoço para abaixo, chovendo suaves beijos sobre a parte alta de seus seios— Minha malvada e pecadora esposa. A ela lhe escapou um som de afogado prazer quando lhe tirou o sutiã e a camisa e meteu um mamilo em sua boca. Estava já ofegando quando ele arrancou a puxões de seu corpo, os objetos que ficavamm e se ajoelhou ante ela, lhe acariciando o traseiro com consumada ternura, beliscando e lambendo seus mamilos

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estremamente sensíveis. Quando teve satisfeito a fome que sentia por seus seios, sua boca riscou um rego de fogo através de seu estômago. Antes de seguir seu caminho para baixo, levantou a vista e lhe lançou um olhar perverso. Logo levou sua boca ao reluzente ninho de cachos de ébano que encontrou abaixo. Luzia se estremeceu violentamente, lhe agarrando fortemente a cabeça em um esforço por deter a pecaminosa penetração de sua língua. —Morgan, não! —Sim, meu amor, me deixe que te faça isto. —Segurando-a com força contra ele, Morgan lhe separou um pouco as pernas e inseriu um dedo em seu escorregadio sexo. Luzia pensou que ia morrer de êxtase quando lhe roçava com os lábios e a língua o mais sensível de sua carne ao tempo que criava uma pressão deliciosa ao lhe colocar e lhe tirar o dedo em seu íntimo canal. Sentiu-se à deriva, elevando-se em um redemoinho sem freio, e de repente suas pernas já não podiam sustentá-la. Morgan notou o momento em que a dominava a debilidade, e a levantou ao colo. Luzia gritou ao sentir-se privada das mãos e boca dele, mas lhe cantarolou brandamente ao ouvido, lhe dizendo que não ia deixá-la, que ia lhe dar todo o prazer que ela ansiava. Então a colocou na cama e arrancou sua própria roupa. Uniu-se a ela antes que Luzia pudesse apreciar por inteiro a beleza masculina de seu corpo excitado, mas o sentiu, pleno, firme e quente, quando a apertava contra o colchão. Seus braços lhe rodearam, desejou-lhe dentro dela, levantou os quadris para lhe facilitar a entrada, mas ele ignorou seu rogo silencioso, deslizou por seu corpo para baixo e pendurou em seus ombros os joelhos dela. Baixou então a cabeça e deu estalo nela com audazes golpes de língua enquanto suas mãos vagavam exigentes por suas coxas, seios e nádegas. Ela se retorcia com frenesi, mas Morgan a segurava com firmeza, ancorando-a contra sua boca quando ela se movia contra ele. Agitava-se em

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soluços suaves. Lambeu-a profundamente, implacavelmente, até que ela anunciou gritando seu orgasmo. Liberando seus joelhos, olhou-a no rosto. A boca dela estava aberta, seus olhos frágeis, seu corpo comprometedor em rendido êxtase. Com o que ficava de perspicácia, Morgan se deu conta de que eles compartilhavam algo extraordinário. Se não fosse pelo sangue espanhol que ela levava em suas veias, lhe teria resultado muito fácil pôr nome a esses sentimentos. Luzia olhou a Morgan aos olhos e notou seu desconcerto. Mas viu algo mais. Algo profundo, honesto e pormenorizado. Sorriu sonhadora e lhe abriu os braços. —Entra em mim, Morgan. —Seus dedos se fecharam sobre o dilatado membro, levando-o até a entrada de sua suavidade. Morgan, grunhindo de impaciência, levantou-lhe os quadris e se deslizou quão comprido era dentro dela. O prazer era um puro martírio. Era grosso e duro, e pulsava. Notou que o incrível calor que lhe espremia e rodeava, notou que ela adiantava os quadris para que pudesse chegar mais fundo, notou que lhe agarrava e segurava, e ele se entregou à magia de sua união. Seguiu movendo-se para dentro e para fora até que ela se esticou, pronta para estalar de vibrante prazer. Os sentidos de Luzia se alagaram de êxtase quando de repente Morgan mudou as posições, afundando-se ainda mais dentro dela ao colocá-la em cima dele. —Me cavalgue, doce Luzia —apressou, empurrando dentro dela com fúria selvagem. Ela soluçava com deleite; jogou atrás a cabeça e deixou que seus instintos a guiassem. O calor e o roce combinaram para levá-la inexoravelmente a outro potente orgasmo. Aquilo era o céu, era o inferno, era o paraíso mais perfeito que Luzia jamais tinha conhecido. O amor como nunca o tinha imaginado emanava de seu coração ao compasso dos gemidos e gritos de Morgan, contente como estava por lhe dar o mesmo tipo de êxtase que estava dando a ela. Movia-se ansiosa contra ele, oferecendo seus doloridos seios a quente posse de sua boca. Ele lambeu e chupou

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com desejo, degustando o paraíso. E de repente ele se elevou, liberando-se de suas ataduras terrestres, levando Luzia com ele enquanto entrava nela com fundos e fascinantes impulsos. Ela gritou seu orgasmo. Ele aspirou o som com sua boca, somando seus próprios gritos dilaceradores à melodia do amor. As lágrimas nublaram a visão de Luzia. A forma de amar de Morgan a tinha emocionado profundamente, e temia que ele não sentisse o mesmo por ela. Com um sombrio sentido da realidade, Luzia se recordou que Morgan não podia aceitar seu amor. A vingança era como um veneno lento que enchia o coração dele de ódio e ressentimento. Por Deus! É que não havia esperança para eles? Olhou Morgan querendo lhe perguntar se sentia por ela algo mais que luxúria, mas com medo de que não gostasse da resposta. Ainda estavam intimamente unidos; Morgan a segurava firmemente contra si, como resistente a soltá-la. De repente abriu os olhos e se encontrou com o olhar escrutinador dela. Afastou-lhe uma mecha de cabelo escuro da testa empapada e lhe mostrou um sorriso irônico. —Te senti falta. Luzia soltou um bufo de incredulidade. —E por isso me enviou tantas mensagens carinhosas? —Tratou de desconectar seus corpos, mas Morgan parecia contente de a ter descansando em cima dele. —Certamente não pode entender o que é o que me empurra, nem imaginar a dor que padeci na mãos de seus compatriotas. Viu as marcas que tenho nas costas. Não é uma visão agradável. —Morgan, eu… Ele continuou como se não a tivesse ouvido. —Pensa que é fácil contemplar como uns assassinos mal nascidos insensíveis ao sofrimento humano exterminam a toda sua família? Uns mal nascidos espanhóis, Luzia. Você é a primeira pessoa espanhola que hei sentido algo que não seja ódio profundo. Te desejar como a desejo me confunde e me zanga. Bem sabe Deus, que me esforcei ao máximo em te eliminar de meu pensamento. Admitir minha 241


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debilidade por ti resulta excessivamente doloroso. Eu não gosto de me sentir assim com nenhuma mulher. Sempre pensei que alguma vez teria filhos, mas ter filhos com sangue espanhol me dá náuseas. Não queira Deus que te apresse a me dar um filho, porque não sei se eu poderia aceitá-lo. Essa é uma das razões pelas quais a deixei no campo. Olhos que não veem, coração que não sente. Morgan não tinha ideia de quão fundo suas palavras machucavam a Luzia. Também ela queria filhos, mas em sua imaginação os retratava como miniaturas de Morgan. Se ele não queria que ela tivesse seus filhos, não via futuro para os dois. Depois daquela sincera confissão de Morgan, Luzia se deu conta de que o melhor era que se casasse com Lady Jane. Anular seu matrimônio parecia ser a única solução, porque ela não podia tolerar a ideia de que Morgan repudiasse a um filho de sua união. Tinha que deixar Morgan. Se ficava, um filho seria o resultado das ânsias que sentiam um pelo outro. Luzia pensou que era um milagre que não levasse já dentro um filho dele. Com grande esforço, recompôs os pedacinhos de dignidade que ficavam, desprezando seu sonho de um futuro com Morgan. —Olhos que não veem, coração que não sente —repetiu lúgubremente— Tenho que te abandonar, Morgan. A expressão de Morgan se endureceu. O jogo da luz da janela fazia de seu rosto uma sinistra paisagem. —E um corno! Você não vai deixar-me, nem agora nem nunca. Seus braços se esticaram, e empurrou dentro dela com renovado vigor. depois de uns minutos de repouso, a desejava de novo. Todos seus sentimentos em conflito estavam perversamente brigados uns com os outros, mas sobre uma coisa estava seguro: quando estava sepultado no mais fundo dentro dela, a ideia de deixá-la ir era a negação do desejo de seu coração. Sua dolorosa necessidade de ter Luzia estava aberta e sangrava, e nenhuma mulher poderia curá-la salvo sua esposa.

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—Mas e se… —Não fale, amor; sente, só sente. Luzia sentia. Sentia a dor do rechaço e de sua necessidade dele. E rezou para que não fizessem um filho.

Capítulo 16 A noite ainda era jovem. Luzia seguia dormindo na cama de Morgan quando este se vestiu e partiu para atender a sua entrevista com Stan Crawford a bordo do Vingador. Enquanto Morgan e Stan estavam sentados no camarote do capitão compartilhando uma garrafa de conhaque, Morgan anunciou: —Luzia está em Londres. —Enviou a procurá-la? —perguntou Stan, sobressaltado por aquela revelação de Morgan— À rainha não vai gostar. Pensei que estava considerando a proposta da rainha de dissolver seu matrimônio e te casar com Lady Jane. —Raios, não, eu não mandei procurar Luzia! Além disso, a anulação do matrimônio é ideia da rainha Isabel, não minha. Tentei fazer as coisas segundo as normas da rainha. Não tem nem ideia de como me aborrece andar com cortesãos cúmplices e afetados. Não pertenço a este ambiente, Stan. O papel de cortesão não vai. Ter que estar seguindo o jogo da rainha não é a ideia que eu tenho de uma vida proveitosa. Por todos os infernos! Por que não podia Luzia ter ficado no campo? Agora estou obrigado a apresentá-la em sociedade e me manter, sem remédio, calado

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enquanto a rechaçam e a põem em ridículo. Seu sangue espanhol a converte em pessoa non grata. —Poderíamos partir

—sugeriu Stan— O Vingador está completamente

abastecido e preparado para zarpar. —Me prova, Stan, mas não posso ir enquanto a Inglaterra necessite de meu navio. Você e eu sabemos que a Expedição Espanhola é uma realidade, e uma ameaça iminente para as costas inglesas. —E o que passa com Luzia? —Vai ficar em Londres —disse Morgan, lacônico— A vou apresentar à rainha, e espero que as coisas vão o melhor possível. Crawford escrutinou o rosto de Morgan, perguntando-se se seu capitão sabia que estava apaixonado por sua própria esposa ou se era muito teimoso para dar-se conta disso. Ao Crawford parecia que Morgan era um perfeito idiota por deixar que a linhagem espanhola de Luzia destruísse o que poderia ser um matrimônio feliz. —Ainda crê que foi Luzia quem ordenou que lhe dessem aquelas surras em Havana? Porque se acreditasse que chegou a te odiar tanto para procurar sua morte, duvido muito que a seguisse desejando. O perdão não é uma de suas virtudes. —Virtudes tenho poucas, como você bem sabe, Stan. —Morgan deu um saudável gole de conhaque antes de seguir— Mas acerta ao acreditar que já não penso que Luzia se fizesse amante de De Fujo, nem que fosse ela quem ordenou que me dessem aquelas surras. Se o pensasse já teria ocorrido um castigo ajustado ao delito. Para ser sincero… —suas palavras se quebraram, e olhou fixamente o líquido ambarino em seu copo— Que Deus tenha piedade de mim. Dediquei toda minha vida adulta a odiar aos espanhóis. E de repente me vejo duvidando dos motivos de minha vingança, de minha própria prudência. Sei que Luzia e eu somos um casal insólito, que aterrisamos juntos por acaso, mas nenhuma outra mulher me satisfaz como ela. Levantou-se de seu assento, envergonhado de ter revelado tanto de seus mais íntimos sentimentos. Estranha vez se soltava falando de assuntos do coração.

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—Agora tenho que ir. Luzia já estará acordada, e eu ainda tenho um algo que fazer. Luzia partiu da Residência dos Scott sem bagagem, e terá que encher seu guarda-roupa antes de que possa ser apresentada a corte. —Não se preocupe com o Vingador, Morgan. Está preparado para fazer-se ao mar assim que você o esteja. —Não dê mole aos marinheiros—lhe recomendou Morgan— Não nos viria nada bem que estivessem nos botequins abarrotando-se de bebidas quando os necessitarmos. Luzia despertou sentindo-se dolorida, embora extranhamente contente. Esticou-se languidamente e sorriu, recordando as horas de êxtase que tinha passado fazendo amor com Morgan. Depois de um momento de contente lembrança, de repente franziu o cenho ao recordar como Morgan tinha renunciado cruelmente a qualquer filho que pudessem conceber. Saltando da cama, caiu de joelhos e rogou com ardor que não concebesse nenhum filho em seu tempestuoso encontro. Depois de um longo intervalo de oração, levantou-se insegura e começou a vestir-se, contemplando todo o tempo seu sombrio futuro. Não tinha ideia de quando tinha deixado Morgan a cama nem de quanto tempo tinha dormido, mas seu estômago queixou-se, recordou que não tinha comido desde que deixou a Residência dos Scott. Tinha escurecido enquanto dormia, mas Luzia supôs que não era tarde porque podia ouvir retalhos de música penetrando pelos corredores. Tinha ouvido dizer que a corte da rainha Isabel era um lugar frívolo onde se celebravam bailes, e coisas assim, quase todas as noites. Era aí onde ia Morgan?, perguntou-se. A dançar com sua amante e fazer o galã? Desfrutava saltando de cama em cama? Outro forte ruído surdo recordou a Luzia que tinha o estômago vazio, e decidiu procurar um criado que a orientasse para a comida. O corredor estava vazio quando

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saiu da habitação; nenhum criado à vista. Seguiu o som da música, com a esperança de encontrar alguém que pudesse atendê-la. —Lady Scott, que maravilhoso é voltar a lhe ver tão logo. Procura seu marido? Não me diga que não retornou a seu dormitório. Luzia deu um violento pulo, mas logo se tranquilizou ao reconhecer Lorde Harley. —Lorde Harley, me assustou. Vi Morgan, mas parece que se esfumou outra vez. —Bem, pois então —disse Harley, com olhos faiscantes de malícia— Me permita que lhe acompanhe. —Ai, não, não é necessário —declarou Luzia, retrocedendo alarmada— Só estava procurando algo que comer. Possivelmente você possa me orientar. Com algo que me sirva. —Certamente que não —disse Harley indignado— Como vai valer algo para você, minha senhora. Uma mulher com sua grande beleza e seu encanto merece algo digno de uma rainha. Venha —disse, lhe oferecendo o braço— Conheço um lugar privado onde podera desfrutar de uma comida. Conduziu-a a uma sala de espera pequena por um corredor deserto. Estava mobiliada com uma mesa, cadeiras e um divã de brocado. A luz ardia alegremente na lareira, convertendo aquela salinha em um acolhedor refúgio para apaixonados. Ignorante das astúcias de Harley, Luzia viu aquilo simplesmente como uma estadia tranquila onde não intervinha a frivolidade da corte. —Espere aqui, minha senhora, volto em seguida com uma bandeja de comida. Luzia pensou que Lorde Harley era um homem decididamente agradável, e serviçal, além disso. Lhe ocorreu que Morgan a tinha deixado sem pensar nenhum momento em seu bem estar, enquanto que Lorde Harley parecia muito solícito quanto a isto. Morgan deveria haver-se interessado por suas necessidades em lugar de saciar sua luxúria e abandoná-la, pensou zangada.

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Lorde Harley retornou levando uma bandeja repleta de comida, mais da que Luzia teria podido comer. Tinha incluído também uma garrafa de rico vinho tinto e dois copos. Posou a bandeja na mesa com uma reverência e olhou faminto a Luzia, com os olhos brilhantes de espera. Quando retornava com a comida não tinha podido resistir a parar dois de seus amigos e fanfarronear de sua entrevista íntima com a esposa espanhola de Sir Morgan Scott. Nem pôde reprimir-se de dar descrição poética sobre sua sedutora beleza e seus exuberantes encantos, deixando a seus amigos cheios de inveja por sua conquista. —Eu já comi, mas compartilharei o vinho com você —disse a Luzia— É de uma colheita excelente. —Serviu um copo para cada um e saudou levantando o seu. —Tudo parece delicioso —disse Luzia, lhe devolvendo o brinde. Tomou um sorvo de vinho, deu-se conta de que tinha sede, e bebeu o resto de um gole. Harley lhe preencheu o copo enquanto Luzia comia da comida. Cada vez que seu copo estava vazio, Harley o preenchia, descuidando seu próprio copo vazio. Queria ter as ideias claras quando desfrutasse daquele bocado espanhol. Quando Luzia terminou de comer, a garrafa de vinho estava vazia e sua cabeça navegava. Se não fosse pela copiosa quantidade de comida que tinha consumido, teria estado bêbada como uma Cuba. —É uma mulher formosa, Lady Scott —murmurou Harley com voz rouca— Venha se sentar a meu lado no divã. A diferença de seu marido, eu vou estar muito atento a suas necessidades. De repente Luzia se deu conta da incorreção de estar a sós com um homem que mal conhecia. Tinha que estar louca, ou verdadeiramente morta de fome, para ter permitido que chegasse a produzir uma situação tão íntima. Pensou que sua ignorância das intrigas da corte e sua inexperiência tinham permitido que caísse nesta situação. —Está tarde —objetou Luzia— Devo retornar às habitações de meu marido. Obrigado de novo por me atender. 247


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—Seu marido não lhe merece —disse Harley agarrando-a pela cintura e arrastando-a para o divã— Você é o bastante inteligente para saber que ele e Lady Jane são o par da temporada. Não é nenhum segredo que Jane se derrete por seus ossos. Derretia-se pelos meus faz algum tempo, mas resultou que eu não era o bastante rico. Luzia fez uma careta de dor. Lorde Harley só estava pondo voz ao que era de domínio público, mas mesmo assim doía. Deixou vagar a mente e de repente se encontrou meio deitada no colo de Lorde Harley e levemente bebada. —Lorde Harley, me solte agora mesmo. Pensei que fosse meu amigo. —Ah, sou-o, Lady Scott, sou-o. Vou demonstrar-lhe o fiel amigo que sou, assim que consiga lhe tirar a roupa. Luzia tinha que admitir que Lorde Harley se arrumava bem com a roupa das mulheres. Logo que lhe afastava as mãos de alguma parte de sua anatomia, já estava ele manuseando-a por outra, tratando de lhe tirar a roupa. É que todos os homens eram uns porcos libidinosos como aquele? Morgan abriu a porta de sua câmara, esperando encontrar Luzia dormindo ainda. Levava uma bandeja de comida que tinha furtado do mostrador do salão, preocupado caso ela não tivesse comido ainda. Tinha terminado suas tarefas na vila e estava preparado para enfrentar com os, ao parecer, insalváveis problemas que tinha. Seu dormitório estava às escuras, e Morgan posou a bandeja e acendeu uma vela. Amaldiçoou em voz alta, e muito, quando descobriu que Luzia se foi. Saiu da habitação de má maneira em um acesso de raiva. Ela em realidade não conhecia ninguém na corte e podia meter-se em sérios apuros. Luzia era uma mulher bela, mas perigosamente inocente quanto aos usos mundanos. Qualquer dos homens ou mulheres sem escrúpulos da corte quereria aproveitar-se dela sem pestanejar. Sentiu que lhe brotavam asas nos pés enquanto voava pelos corredores em busca de sua esposa.

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Parecia que Luzia se esfumou, porque Morgan não pôde encontrá-la em nenhum lugar do palácio. Seu maior temor era que se foi tão misteriosamente como tinha aparecido. A ideia de que Luzia andasse vagando sozinha pelas ruas de Londres lhe encheu de terror. Transbordava correndo a Câmara de Audiências quando lhe fez gestos um conhecido com o que tinha passado muitas horas bebendo e jogando. —Morgan, né, por que não havia dito que sua esposa estava na corte? E resulta que é uma beleza deslumbrante. Morgan se deteve em seco. —Viu-a, Pierce? —Não, mas Harley fala maravilhas dela. Certamente não me importa que seja espanhola. Todas as mulheres são iguais sob os lençóis —disse, piscando um olho sem recato— Agora mesmo invejo ao Harley. De repente o controle de Morgan cedeu com um estalo. Como se atrevia aquele tipo a falar de Luzia como se fosse uma vulgar fulana. Agarrando Pierce pelas lapelas, levantou-o até que tiveram os narizes pegos. —O que passa com Harley e minha esposa? Sabe você algo que eu não saiba? Pierce gaguejou com temor. —Olhe, eu não queria ofender vendo Lady Jane e a ti tão a gosto, pensei que Lady Scott era peça disponível. Todo mundo sabe que o teu foi um matrimônio forçado. Não foi uma união por amor, ou seja, onde está o problema? —O problema é que Luzia é minha esposa —disse Morgan apertando os dentes —Onde estão? Pierce tragou saliva visivelmente. —Estão jantando em privado na sala de espera pequena que há no corredor oeste. —Essa que se está acostumada a usar para encontros amorosos privados? — perguntou Morgan. Seu domínio de si mesmo saltou em pedaços, e atirou Pierce a um lado como se fosse um boneco de trapo. Foi direto a aquela salinha que tinha razões para conhecer bem. Frequentemente tinha encontrado ali com Lady Jane para falar em privado, embora ela teria preferido que fosse para outra coisa. Mas ele sabia 249


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que aquele lugar se usava para mais, muito mais, que conversar, e o mero pensamento do que ia encontrar quase lhe destroçava. Uma inocente como Luzia seria igual a massa nas mãos de um mulherengo como Harley. Luzia, em uma confusão de braços e pernas, brigava naquele momento para sair do colo de Harley. Tratando desesperadamente de se limpar do efeito do forte vinho, caiu ao chão com uma sacudida que lhe fez chiar os dentes. —O chão é uma excelente ideia, Lady Scout —riu Harley, ficando de joelhos ao lado dela—O divã é muito estreito para o que eu me proponho. — Com um sorriso de ave de rapina se agachou até ficar em cima dela. Protestando violentamente, Luzia escapou de debaixo dele e tratou de incorporar-se. Harley a agarrou por um tornozelo e puxou ela para baixo. —Não! Me deixe partir! —Já a ouviste, Harley, solta a minha esposa. Harley subiu até ficar de pé, enquanto que, com o rosto desprovido de toda cor, tratava de aplacar Morgan. —Eu não estava fazendo nada que Lady Scott não desejasse —disse fracamente — Veio aqui de muito bom grau. Morgan dirigiu a Luzia um olhar fulminante. —É isso certo, Luzia? —Fui de sua habitação porque estava morta de fome. Lorde Harley se ofereceu a me trazer uma bandeja de comida e sugeriu que comesse aqui, longe da multidão. Não me ocorreu que pudesse… aproximar-se, me… São todos os ingleses assim grosseiros? —Saia daqui, Harley —disse Morgan entre dentes. Harley não esperou a uma segunda ordem. Saiu voando do quarto como se o Diabo o perseguisse. Um Diabo chamado Morgan Scott. O olhar de Morgan não se afastou nem um instante de Luzia, mas pareceu saber desde o momento que Harley já não estava com eles. —Está bem? A cabeça de Luzia se bamboleou de cima abaixo.

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—Morgan, não tinha ideia de que Harley fosse tratar de aproveitar-se de mim. Sou tão ingênua que não sei quando estou em perigo? As monjas não me ensinaram como comportar-se na corte, onde a esposa de um homem é peça disponível para homens sem escrúpulos. —Por que saiu de minha habitação? —Já lhe disse, estava morta de fome. Pensei que já não queria nada comigo depois de que fizéssemos… —…De que fizéssemos amor? —completou Morgan— Por que iria fazer isso? —Possivelmente Lady Jane… —Lady Jane me importa um cominho. Pensei que já o tinha deixado claro. Tinha que ver Stan Crawford a bordo do Vingador. Retornei logo que pude, esperando te encontrar tranquilamente adormecida em minha cama. Quase me ponho fora de mim quando encontrei a habitação vazia. Como conheceste a Lorde Harley? —Quando cheguei a Whitehall ele teve a amabilidade de me guiar até suas habitações. Pensei que era encantador e…, e… —É um descarado, igual aos outros figurinos da corte. Mantenha-se separada deles, Luzia. Você não está preparada para te entender com essa estirpe. A Luzia lhe resultava difícil enfocar Morgan. Via-o em dobro. Além disso o vinho lhe estava fazendo estragos no equilíbrio, e lhe resultava endemoniadamente difícil mantê-lo. —E para me entender contigo estou preparada, Morgan? —De sobra, bruxa —grunhiu, apertando-a fortemente contra si— Mantenha-se afastada de outros homens, ou não respondo. Sua resposta foi um soluço borbulhante que fez disparar para cima as sobrancelhas de Morgan. —Está bêbada, Luzia? —Inspecionou a garrafa de vinho vazia e grunhiu— Por todos os infernos, o muito mal nascido tentou te embebedar! —Morgan, acredito que vou vomitar. —Por todos os demônios! —E, tomando-a em braços, tirou-a pela porta e a levou a toda pressa pelos serpenteantes corredores até sua habitação.

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A Luzia não acabava de passar a risada frouxa, enquanto Morgan a despia. Quando por fim se liberou de um chute de seu último objeto, caiu adormecida sobre a cama antes que Morgan pudesse colocá-la nela. Ele retrocedeu e a olhou, assombrado do ardil que a vida lhe tinha jogado. O matrimônio com uma beleza espanhola não tinha sido nunca parte de seus planos de futuro, e entretanto nada, a não ser a morte, poderia lhe convencer de romper com Luzia. Sua debilidade lhe confundia, e resultava tão excitante que só de olhá-la fazia sentir-se duro como uma rocha e cheio de apetite. Morgan não tinha ideia do que lhe reservava o destino, ou sequer se teriam um futuro juntos. O mais provável era que o destino estivesse rindo dele nesse momento. Seus lábios se torceram com ironia quando seu olhar vagou até o suave nimbo de cachos escuros que se amontoavam ao redor das têmporas e do pescoço dela. Estava-lhe crescendo o cabelo, logo voltaria a ser comprido. Recordou o muito que lhe tinha impressionado a primeira vez que viu suas mechas tosquiadas. Estava acostumado a vê-la como estava agora, e se dava conta que para ele, ela sempre seria bela, sem que importasse o que ela fizesse para parecer pouco atrativa. Sempre recordaria aquele olhar sonolento, voluptuoso, a exuberante curva de seus vermelhos lábios inchados e de cor mais intensa, seu doce sorriso depois de que lhe fizesse amor. Deus, ela era magnífica! A desgraça era que fosse espanhola. Com obstinada perversidade se deu conta de que, a menos que quisesse filhos com o sangue espanhol de sua mãe, teria que afastar as mãos dela. Cada vez que a tocava sua ânsia de vingança o abandonava, só desejava a sua mulher. Mas Morgan tinha persistido em sua vingança contra a família Santiago durante muito tempo para parar agora. Seu apetite por Luzia era incontrolável, e entretanto a excitação de chegar ao final só era

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parte da necessidade que sentia por ela. Seus sentimentos era uma brincadeira para seu nome de Diabo. A falta de outra ideia, podia pensar que amava Luzia. Gemeu como se tivesse alguma dor. Se amor queria dizer essa agonia que lhe rasgava as tripas por apenas pensar em renunciar a Luzia, ele não queria ter nada a ver com isso. —Acorda, Luzia, que há muito que fazer antes de que possa ser apresentada à rainha. Morgan deu a Luzia uma cotovelada não muito suave, mas ela só grunhiu e se amassou ainda mais sob as mantas. —Luzia, a rainha Isabel sabe que está aqui, e dispôs que lhe seja apresentada esta tarde. A última frase de Morgan provocou uma resposta imediata de Luzia. Sacudindo o enjoo, abriu os olhos e olhou a Morgan. —Preferiria não vê-la absolutamente. Morgan sacudiu a cabeça e afastou os lençóis, expondo seu corpo nu ao ar fresco. Ninguém, simplesmente, rechaça à rainha. —Em pé, a costureira chegará daqui a uma hora, com um sortido de trajes que algumas de suas clientes não podiam pagar e não lhe reclamaram. Deveríamos encontrar um adequado para te pôr que não requeira muito ajuste, pedi uma banheira e água quente para que te banhe. Luzia se sentou na cama, advertiu que estava nua, e jogou mão da manta. Os magníficos olhos de Morgan se deslizaram ao longo de seu corpo nu enquanto ela tratava de cobrir-se. Gostava muito de ver como os olhos dele mudavam de azul a cinza, segundo o humor que estava. Podiam estar em penetrante vigília, lânguidamente entreabertos, ou em calma. Esses olhos agudos esfumavam seus ásperos traços agora que seu olhar se tornava fumegante de desejo. —Não me encontro bem —protestou Luzia— Me dói a cabeça e tenho o estômago revolto. Morgan franziu a boca com desagrado. 253


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—Agora que está na corte vai ter que aprender em quem pode confiar e em quem não. É tão ingênua por não ter se dado conta do que queria Lorde Harley? Ou é que provocou seus cuidados? Os olhos de Luzia se contraíram de fúria. —Pensa o que queira, Morgan, é o que deseja fazer. Por que sempre tenho que te dar explicações? Provavelmente ainda me culpa pelo que te ocorreu em Havana, embora eu o tenha negado uma e outra vez. Pois, para que saiba, eu não solicitei os cuidados de Lorde Harley, ou pelo menos se o fiz não foi de propósito. Admito que os costumes da corte ultrapassam minha escassa experiência. O gesto de Morgan suavizou enquanto se deixava cair junto a Luzia, com cuidado de não tocá-la, pois se o fizesse iria passar o resto da manhã na cama com ela. —Nestes meses tive tempo de sobra para pensar e cheguei à conclusão de que você não é capaz dessas coisas que De Fujo te acusou. Faz já muito que a absolvi de qualquer maldade em Havana. Quanto a seu comportamento ontem à noite com Lorde Harley, a culpa é desse abutre por acreditar que era peça disponível. Você não teve mais culpa que a de confiar em quem não devia. Não deixe que volte a passar isso nunca, Luzia. É minha esposa, e eu guardo o que é meu. Ou seja, que não ocorra utilizar suas mutretas femininas com esses cortesãos de Isabel. Os olhos de Luzia aumentaram, aturdidos pelas palavras de Morgan. —Se pensa assim, por que anda cortejando Lady Jane? Morgan procurou o rosto de Luzia, pensando em sua pergunta. Merecia uma resposta, mas não lhe ocorria nada que pudesse aliviar a verdade. Ela já sabia como ele se sentia referente ao sangue espanhol que corria por suas veias. —A rainha Isabel se zangou muito comigo, por me casar contra seus desejos, e agora me pressiona para que solicite a anulação aduzindo que nosso casamento foi obrigado. Lady Jane seria minha recompensa. Ofereceu-me a mão de Lady Jane como

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prêmio por minha obediência. Lady Jane é rica e com título e está ansiosa por ser minha esposa. Luzia tragou saliva apesar do nó que tinha na garganta. —Todo mundo sabe. West Sussex não está tão longe de Londres para que não cheguem os falatórios à Residência dos Scott. Se for desejo da rainha que se desfaça nosso matrimônio, por que não o tem feito? Os olhos de Morgan se escureceram com uma emoção que Luzia não reconhecia. —Isso mesmo, me pergunto. Seus olhares chocaram e se entrelaçaram, igual quando Morgan lhe fazia amor com os olhos. Luzia estremeceu. A intensidade de seu reluzente olhar fazia que lhe endurecessem os mamilos e lhe formigasse a pele. Sentia como se ele a tivesse acariciado intimamente sem tocá-la em realidade. Ao cabo de uma dúzia de batimentos de seu coração, Morgan soltou um juramento e olhou para outro lado. —Maldita seja, Luzia, como posso deixar que vá se ainda te quero? Ficou de pé bruscamente, como sobressaltado pelo que acabava de admitir. —Em seguida chegarão os criados com seu banho. A costureira, quando chegar, te ajudará a escolher um vestido adequado para sua audiência com a rainha. Voltarei para te buscar exatamente às três em ponto. Antes que Luzia recuperasse o fôlego, Morgan tinha partido. Ele podia ter pouco claro seus sentimentos por ela, mas ela sabia exatamente o que sentia por seu exasperado esposo. Mas de pouco servia que ela o amasse enquanto ele seguisse negando o que havia em seu coração. E ante a possibilidade de que chegasse um bebê, estremeceu ao pensar no que teria que sofrer seu pobre filho, com um pai que o desprezava por seu sangue espanhol. Embora seus taciturnos pensamentos se dispersaram ao chegar os criados com seu banho, não pôde evitar a sensação fugaz de que seu primeiro dia na corte estava sendo algo menos prometedor.

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Morgan contemplou com gravidade Luzia e assentiu com a cabeça, satisfeito. Com o traje de brocado amarelo, adornado com muitas varas de encaixe, que tinha posto, eclipsaria qualquer das damas da corte que ele conhecia. Morgan confiou que não eclipsasse também à rainha, porque Isabel gostava de ser o centro da atenção no meio da revoada de beldades que orbitavam a seu redor. Ninguém ousava luzir com mais brilho que Isabel se queria ganhar seu favor. —Está preciosa, Luzia —disse Morgan, com sinceridade— Vamos lá, a rainha está esperando. Os corredores ainda confundiam Luzia, mas Morgan parecia saber aonde ia enquanto a guiava através do labirinto de corredores. Surpreendida ao encontrar vazia a Câmara de Audiências, Luzia olhou Morgan com receio. —Isabel está esperando em sua Câmara de Confidências. Prefere encontrar-se contigo em privado. Um lacaio os anunciou, e Luzia notou que os joelhos se afrouxavam ao entrar na estadia de braço com Morgan. Gostou de sentir a força que lhe transmitia, pois descobriu que em realidade não estavam sozinhos. A sala estava abarrotada de espectadores, a maior parte de damas e cortesãos. Será isto o que a rainha entende por "privado"? Perguntou-se. Logo seus pensamentos se dispersaram quando se abriu um corredor e viu a rainha sentada em um carregado assento lavrado em um extremo da Câmara Privada. A rainha era uma mulher miúda, advertiu Luzia, mas sua estatura se via realçada por seu majestoso porte. Levava a cabeleira vermelha arrumada em um complexo penteado, e sua roupa engomada punha em relevo, sua chamativa pele branca. Nada na rainha era ordinário. Luzia se deu conta imediatamente de que Isabel tinha nascido para o papel de soberana e o desempenhava até o final. —Majestade —disse Morgan, executando uma profunda inclinação. Luzia imediatamente se inclinou em uma graciosa reverência. Isabel lhes pediu que se elevassem e ofereceu sua mão a Morgan. Ele a agarrou e a levou aos lábios, e logo 256


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apresentou Luzia. Isabel a olhou desconcertada, consciente imediatamente das razões de Morgan para resistir firmemente a seus esforços por dissolver seu matrimônio. A rainha pensou que aquela mulher espanhola era uma beleza excepcional, mas esse pensamento não chegou a influir em sua forma de ver o concernente ao matrimônio de Morgan. Sir Morgan Scott merecia uma mulher inglesa por esposa, não uma espanhola que não contribuía nada ao matrimônio. —Não convocamos a sua esposa a corte —disse Isabel com frieza— Não estou agradada, Sir Morgan. Conhece nossos desejos a este respeito. Chegou a nosso conhecimento que sua esposa proferiu ameaças contra uma de nossas damas de câmara. Luzia queria que a tragasse a terra. A rainha era desalentadora, e quando viu Lady Jane escrutinando-a com o olhar, Luzia soube que a mulher tomou sua ameaça a sério. Sem querer, Luzia apertou o queixo. Negava-se a deixar-se intimidar por aquela soberana desumana que tinha ordenado a morte de sua própria prima, rainha Maria. Morgan grunhiu baixo. Maldita fosse Lady Jane por ir correndo à rainha com seus contos. É que não se dava conta de que a ameaça de Luzia tinha sido pura contenda? —Devem perdoar a minha esposa, Majestade. É forasteira na Inglaterra e ainda não está à corrente de nossos usos. Em realidade não pensa machucar a ninguém. Isabel dirigiu seu altivo olhar a Luzia. —O que diz você, Lady Scott? Sua ameaça de assassinato era mentira? Fazendo provisão de valor, Luzia olhou fixamente aos olhos à rainha e disse: —Reafirmo tudo o que disse. Vou arrancar a Lady Jane o coração, a navalhadas e o vou jogar de comer aos porcos, se não deixe em paz meu marido. Um grito afogado coletivo brotou dos que estavam bastante perto para ouvir. Nenhum som mais que o de Morgan. Por isso se perdeu a breve faísca de admiração que passou pelos olhos da rainha.

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—Já vimos e ouvimos o suficiente de sua esposa espanhola, Sir Morgan —disse Isabel em tom desdenhoso— Queremos lhes recordar que seu matrimônio não nos agrada. Pensávamos em outra pessoa para você. —Sei, Majestade, e tomarei em consideração seus desejos com a máxima diligência. —inclinou-se e retrocedeu até sair da câmara, arrastando Luzia com ele. Assim que estiveram onde não podiam lhes ouvir deu meia volta a Luzia e a olhou fixamente. —Tinha que repetir essa ridícula ameaça a Isabel? Maldita seja, Luzia, o que vou fazer contigo? Não sei por que não me desfaço de ti e me caso com Jane como quer a rainha. —Não sabe? —perguntou Luzia provocativamente— Pois pensa nisso, Morgan. Mas ele, maldita seja, já tinha pensado nisso.

Capítulo 17 Durante as semanas seguintes, Luzia se reuniu em segredo com os jesuítas, que estavam ainda na corte aguardando que a Armada Espanhola entrasse em águas inglesas. Moviam-se pela corte como espectros sombrios, tolerados pela rainha em um esforço para manter a paz entre a Inglaterra e os poderosos países católicos do sul. No Flandes espanhol se observava com olho belicoso ao Duque de Parma, de quem se dizia que estava reunindo na costa flamenca tropas para a defesa da Espanha.

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Chegou Abril, que não contribuiu com mudanças para Luzia na corte hostil de Isabel. A considerava ainda sob suspeita. Morgan estava muito atarefado com os preparativos para a batalha naval que se aproximava e durante o mês de Maio se ia frequentemente a Plymouth para consultar com Sir Francis Drake por parte da rainha. Isabel estava tomando com muita calma seus preparativos para uma invasão espanhola. Se tivesse forçado as coisas enviando a sua frota ao mar para destruir a armada, antes de que partisse de Lisboa, a batalha teria terminado antes de começar. Durante as longas ausências de Morgan no mês de Maio, Luzia foi pegando cada vez mais confiança com os jesuítas. Já que eram as únicas pessoas na corte que apreciavam sua companhia, encontrava-se a gosto com eles. Como tinha crescido em um convento, parecia-lhe muito natural procurar a companhia dos sacerdotes. Morgan continuava, para desgosto de Luzia, tratando-a com frio desdém quando aparecia por ali o tempo suficiente para, embora só fosse, fixar-se nela. Embora não queria acreditar que Morgan fosse casar-se com Lady Jane, tampouco podia estar segura. Não dava nada por definitivo no que concernia a Morgan. Se estava disponível, acompanhava-a à mesa do salão de noite, mas com bastante frequência ela preferia que lhe levassem a comida a sua habitação. Quando tratava de fazer amizade com algumas das damas da corte suas tentativas se viam imediatamente desprezadas. Só os homens lhe ofereciam uma aparência de amizade, mas ela já sabia para onde podia conduzir isso. Em alguma ocasião o puro aborrecimento a tirava de suas habitações, e até uma vez se atreveu a aventurar-se pelas ruas de Londres. Morgan lhe chamou a atenção por sua insensata escapada. Não ficaria na corte, nem na Inglaterra tampouco, só havia para ela um modo seguro de ir só a Espanha. Qualquer duvida que ela e Morgan pudessem compartilhar, tempos atrás, chegou a ser quase inexistente agora que Morgan estava mais profundamente

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enredado na intriga política. Raramente dormia ele em seu dormitório, e quando o fazia chegava tão tarde e estava tão esgotado que caía dormido imediatamente. Luzia se preocupava excessivamente por ele. Sabia que se propunha embarcar com a frota inglesa quando se encontrassem com a armada, e temia que pudesse perder a vida na batalha. Mas ele recusava falar disso, como se ao contar os planos da Inglaterra a uma mulher espanhola traísse, de algum modo a sua pátria. A razão da distância de Morgan, não era difícil de entender para Luzia. Ele ainda a desejava, mas era evidente que seu medo que concebesse seu filho congelava seu ardor o suficiente. O mês de Junho elevou as tensões da corte até um ponto crítico. Corriam os rumores. Sussurrava-se que a armada já tinha zarpado. Alguns diziam que os navios transportavam cem mil soldados providos para invadir a Inglaterra. Só Luzia sabia que eram os jesuítas que tinham difundido esses rumores. E então, um dia ensolarado de Junho, Morgan apareceu em sua câmara no meio da tarde. Luzia se sobressaltou muito quando ele irrompeu na habitação em um estado de grande agitação. —Morgan, o que ocorre? Avistaram à Armada Espanhola?. —Isso possivelmente você saiba melhor que eu. Luzia retrocedeu como se a tivesse esbofeteado. —O que está dizendo? —Esteve reunindo-se com espiões a minhas costas? Luzia se ergueu indignada. —Certamente que não! —Me tem feito ver que está ficando muito tempo com esses padres espanhóis que foram enviados aqui para espionar para o rei Felipe. Se não fosse pela boa disposição de Isabel nunca teriam sido admitidos em nossa terra. —Seus olhos se contraíram em gesto acusador— Te tornaste uma espiã, Luzia? —Não tenho feito nada disso! É tão estranho que eu prefira a companhia de meus? Esses ingleses de sangue-frio me detestam. Pelo menos os frades falam comigo, não como você, que parece se esqueceu que existo. Estava tentando fazer o

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melhor que pude, em manter-me separada da rainha e de seus acompanhantes, já que tanto os desgosto. Morgan franziu o cenho mas não disse nada. Embora ela não soubesse, ele a tinha defendido uma e outra vez ante a rainha Isabel, que seguia opondo-se energicamente a que um de seus cortesãos favoritos estivesse casado com uma espanhola. Lady Jane se apressou a somar seu próprio rechaço ao da rainha. Aferrava-se à esperança de que muito em breve ia ser a esposa de um herói nacional. Os meses passados tinham sido tão difíceis para Morgan como para Luzia. Morgan teria gostado de agradar Isabel no referente a seu matrimônio, mas suas emoções não se deixavam forçar. Seu coração estava dividido entre o dever para com sua rainha e a crescente ternura de seus sentimentos para sua esposa. Sua cabeça sabia que o sangue espanhol de Luzia seria sempre uma barreira entre eles, mas seu coração lhe dizia que tinha chegado o momento de esquecer o passado e dar descanso à lembrança de sua família. O ódio tinha sua própria forma de retorcer e endurecer o coração dos homens, e ele tinha levado essa carga muito longe. A vingança era uma amante muito egoísta. —Morgan, por que me olha dessa forma? Morgan lhe dirigiu um meio sorriso. Acabava de esquecer o que queria lhe dizer. Olhar Luzia lhe fazia esquecer até seu próprio nome. —É formosa. O cabelo está crescendo, chega quase aos ombros. Curto eu gostava muito. —Posso voltar a cortar. —Só por cima de meu cadáver. — aproximou-se mais dela, e ainda mais, até que sentiu o ar de seu suave fôlego lhe cruzar a bochecha— As coisas não estão sendo fáceis para ti, verdade, meu amor? À rainha Isabel não gosta que a contrariem, e quando isso ocorre, o desgosto pode se converter em crueldade. Talvez seria melhor voltar a te mandar ao campo, longe da corte e de todo este barulho.

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—Por que desobedeceste à rainha, Morgan? E não pense sequer em me mandar ao campo, porque voltarei. Seus criados gostam ainda menos de mim, que seus amigos da corte. Possivelmente —disse pensativa, com tristeza— fosse melhor que eu retornasse a Espanha. —Claro que o seria, meu amor, mas desde quando tenho feito o que é melhor? Deixar que fosse seria como perder meu braço direito. Nem o entendo, nem me faz nenhuma graça, mas é a verdade. Morgan tinha passado os últimos dez anos exercitando-se em odiar aos espanhóis, e em uns poucos e curtos meses, Luzia lhe tinha ensinado que na vida há algo mais valioso que a vingança. Tinha-lhe provocado alegria abrasadora, angústia feroz, doce arrebatamento… e muito calor. Sentiu que o muro que tinha levantado ao redor de seu coração se derrubava. Sua boca atacou a dela, cálida e exigente, enquanto sua língua explorava sua doçura. Gemeu e agarrou sua nádegas, puxando ela até a aresta cada vez mais endurecida de seu desejo. Não podia nem começar a entender por que negou a si mesmo todas estas semanas, quando teria dado sua alma para ter em seus braços o corpo nu de Luzia e lhe fazer amor como seu próprio corpo lhe exigia. Durante meses tinha tratado de acatar os desejos da rainha em vez de escutar a seu próprio coração. Tinha permitido que sua ânsia de vingança destruísse a única coisa importante de sua vida. Ocorreu a Morgan que podia viver muito a gosto sem a rainha, mas duvidava seriamente que fosse capaz de viver sem Luzia. Luzia sentiu a rápida e sensível ascensão desse calor que lhe enroscava nas vísceras, tenso e cru e tão brilhante como o sol ao amanhecer. As palavras de Morgan tinham sido um bálsamo para seu devastado ânimo. Lhe importava, isso o sentiu no fundo de sua alma, mas ele interpunha entre eles seu ânimo de vingança como um muro que ela não podia derrubar por muito forte que golpeasse nele.

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—Doce Luzia —gemeu Morgan apertando-se contra sua boca— Pode que não seja uma feiticeira, mas está condenadamente perto de sê-lo. O que me faz é pura bruxaria. —O que você me faz é pura magia —respondeu Luzia sem fôlego— E pensar que eu queria ser monja… Se nunca o tivesse conhecido teria perdido a alegria de estar contigo. Ai, Morgan lhe am… As palavras não chegaram a sair de sua boca porque os lábios de Morgan saqueavam sem piedade os dela e suas mãos riscavam caminhos de fogo por sua pele. Quando a levantou e a levou a cama, Luzia sentiu a classe de felicidade que se tem uma só vez em toda a vida. E agora, com Morgan próximo a admitir que a amava, podia por fim confiar um segredo que só tinha suspeitado nas últimas semanas. Estava segura de que levava o filho de Morgan, mas tinha temido muito sua resposta para dizer-lhe. As vezes que lhe havia dito que ele não queria um filho meio espanhol, eram muitas para as contar, mas de repente sentiu confiança no amor dele por ela. Em breves instantes estavam ambos nus, adorando um ao outro com mãos, lábios e boca, seus corpos retorcendo-se de necessidade de consumar este novo princípio. Morgan foi despertando devagar, brandamente, com grande cuidado e perícia, levando-a ao bordo do êxtase, negando-se a deixá-la livre. Luzia aproximou timidamente a boca a sua dureza de veludo, provando, saboreando, surpreendida de encontrar grato ao paladar o ligeiro sabor salgado de sua essência. Morgan se arqueou violentamente e chiou os dentes. —Maldita seja! Para, meu amor, para… Imobilizou-a contra a cama, deslizando-se por seu corpo, aplicando sua boca a seu canal íntimo. Sua língua explorou profundamente, saboreando o aroma a almíscar de sua excitação. Com determinação implacável a levou ao orgasmo. Luzia gemia e cavalgava para o topo de um êxtase primário. Esperou que ela recuperasse o fôlego, e começou então a excitá-la de novo, até que estava quente e úmida com pérolas de orvalho, até que lhe suplicou que entrasse nela. Miserável agora pelo 263


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apresso de seu corpo, colocou sua tensa ereção no portal de seu sexo e empurrou vivamente para diante. Quase perdeu a cabeça quando a suavidade dela se fechou em torno dele, mas apertou com força a mandíbula e dobrou o talhe, sepultando sua palpitante extensão até o punho. Ela sentiu como a rudeza de seu corpo empapado em suor tremia contra o seu, como se o esforço por dominar-se lhe estivesse custando muito. —Deixe ir comigo, meu amor —lhe murmurou ele roucamente ao ouvido— Deixe ir comigo… já! Gritando o nome dele, Luzia ficou quase esmagada pelo êxtase demolidor de seu segundo orgasmo. Morgan emitiu um grito rouco, empurrou uma vez, duas vezes, e logo se afastou e derramou sua semente nos lençóis. Luzia ficou olhando com horror como terminava com a mão até que o teve drenado tudo. Logo caiu a seu lado e fechou os olhos. Embora aturdida, ainda pela paixão, Luzia tampouco estava desorientada, para não saber que acabava de fazer Morgan era antinatural. Quando sua respiração foi acalmando até um ritmo regular, voltou-se de lado e ficou olhando-o. —Por que fez isso? —perguntou-lhe em tom de queixa. Morgan abriu os olhos e lhe dirigiu um olhar que era mais sombrio que de desculpa. —Refere-se a me haver retirado? É uma das maneiras para evitar ter filhos. Tivemos sorte até agora, mas nossa sorte não pode durar sempre. Suas palavras tiveram o efeito de dar fim ao louco sonho de Luzia de formar uma família com Morgan. Por mais que ele a desejasse carnalmente, acabava de deixar claro que aborrecia a ideia de ter um filho, que levasse o sangue espanhol dela. Esse implacável rechaço dos filhos que Luzia pudesse conceber, lhe produziu uma dor tão forte que se agarrou o estômago e deu meia volta, para que Morgan não visse com quanta crueldade a tinha ferido.

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Se Morgan soubesse o grau de desolação que suas palavras produziu a ela, não as teria pronunciado nunca. Se o fez foi por motivos muito diferentes e muito mais simples, que a interpretação que fazia Luzia. Ele queria filhos, que homem não os queria? Já era hora de superar o assassinato de sua família e seguir adiante com sua própria vida. A vingança tinha sido a força que empurrava sua vida durante tanto tempo que tinha acabado excluindo dela todo o resto, inclusive o amor. Mas agora sim queria amor. O amor de Luzia. E queria ter filhos com ela, mas não ainda. Logo ia se incorporar à frota inglesa, e ia entrar em batalha com os espanhóis. E se perdia a vida e deixava atrás Luzia com um filho em seu ventre? Conhecendo a inclinação da rainha à represália rápida contra aqueles que não gostava, Morgan não podia estar seguro sequer de que suas propriedades fossem passar a Luzia se ele perdia a vida no mar. Em outras ocasiões, Isabel expropriou os bens de quem contrariou seus desejos, assim Luzia bem podia acabar na indigência, com um filho que criar. Não podia correr esse risco. Certamente tudo teria sido muito mais fácil se ele, simplesmente, se mantivesse fora da cama dela, mas sua natureza apaixonada fazia impraticável semelhante medida. Mas bem impossível, pensou sarcasticamente Morgan. Não podia seguir reprimindo-se por mais tempo, mas podia ser muito cuidadoso para evitar que sua semente ficasse dentro dela. —Não me dê as costas, Luzia —disse Morgan puxando-a para que se voltasse para ele— Não posso seguir negando meus sentimentos para ti. Ao diabo com a rainha. Ao diabo com Lady Jane. Trata-se de minha vida, e penso fazer com ela o que me agrade. —Tocou-lhe o rosto e advertiu suas lágrimas— Por que chora, meu amor? Luzia não encontrou razão para dizer a Morgan que levava nas vísceras um filho dele. Até era possível que ele quisesse obrigá-la a desfazer-se de sua criatura. Tinha ouvido dizer que essas coisas ocorriam. —Ouviste-me, Luzia? O que acontece?

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Felizmente Luzia não teve que inventar uma resposta. Uns golpes fortes na porta interromperam o que podia ter sido um transe muito embaraçoso para ela. —Maldita seja! Quem pode ser? —Calçando os bombachos, Morgan abriu de repente a porta, e se surpreendeu ao ver Stan Crawford de pé na soleira. —Stan! O que acontece? Aconteceu algo ao Vingador? —Te tranquilize, Morgan, o Vingador está perfeitamente. A Armada Espanhola deixou Lisboa faz algumas semanas. Ficou maltratada e dispersa pelas tormentas e o infernal tempo que tem feito, mas se reagrupou em La Corunha e agora vem a caminho. Foi avistada nas costas da França. —Como sabe? —Chegou uma mensagem do homem que enviou para espiar à armada. Imagino que a rainha terá recebido o mesmo relatório. —Tenho que me reunir com a rainha imediatamente —disse Morgan, animado por poder dar fim a aquele longo período de inatividade— Me reunirei contigo no Vingador diretamente. Chama todos os homens que estão de licença em terra para que acudam. Morgan fechou a porta atrás de Crawford e se voltou para Luzia. —Ouviu? Ela assentiu fracamente. —Parte. —Logo que tenha falado com a rainha. Estou seguro de que ela tem a seu próprio serviço de espionagem solicitando informação, mas preciso conhecer seus planos agora que temos certeza da invasão. —

Vestiu-se rapidamente, e logo se

voltou para Luzia. —Temo que já não há tempo para te mandar de volta ao campo agora. Se te deixar aos cuidados da rainha, não se atreverá a deixar que te ocorra nada. —Atraiu-a agarrando-a pelos ombros e a beijou com força. A garganta lhe doía, e logo que podia falar— Luzia, há coisas que queria te dizer, mas terá que esperar. Te cuide muito, meu amor.

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—Tome cuidado, Morgan. Rezarei por ti. Você que… —começou a dizer que lhe queria, mas pensou melhor. Seria melhor que ele a odiasse pelo que ela ia ter que fazer. A rainha passeava de cima abaixo por sua Câmara Privada presa da agitação. Rodeavam-na os membros de seu conselho privado e assessores, incluído Morgan. —Chegaram informes que indicam que a Expedição Espanhola tropeçou com o mau tempo, mas se reagrupou em La Corunha e se aproxima de nossas costas —lhes confiou— Ordenamos que se providencie provisões e fornecimentos a nossa frota, e ditamos instruções seladas que autorizam Howard, Drake e Hawkins a interceptar à armada antes de que alcance nossas costas. —Meu navio está preparado para zarpar —lhe informou Morgan. —Podem levar nossas ordens seladas à frota? —perguntou-lhe Isabel. —Sim, Majestade. —Meu tabelião lhes dará isso. Desejamo-lhes boa navegação e feliz caçada, Sir Scott. Morgan vacilou. —Posso falar livremente, Majestade? —Há algo mais que queira tratar? —Sim. É sobre minha esposa. Sei como pensa a respeito dela, mas a deposito sob sua custódia durante minha ausência. Confio em que olharão que esteja a salvo. As sobrancelhas da Isabel se dispararam para cima. —Sua audácia é ilimitada, Sir Scott. Pensam que Nossa boa disposição não tem limite no que a você respeita? Homens de fila mais alta que você, se arrependeram quando exigiram muito de nós. —Dou-me conta de que posso estar excedendo meus limites, e, se for assim, suplico sua indulgência. Luzia é inocente em muitos aspectos, e somente lhes peço que a tome sob seu amparo até que eu retorne. Isabel dava golpes impaciente com o leque no queixo.

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—Contribuiu generosamente a nossos cofres, assim atenderemos a seu pedido. Mas não esperem muito de Nós. —Obrigado, Majestade —disse Morgan, agradecido por qualquer amparo que ela oferecesse a Luzia. —Vão com Deus, Sir Scott —disse Isabel, pondo fim a sua conversa. Sentindo falta de oração e consolo, Luzia se vestiu e correu à estadia dos jesuítas. Encontrou-os com os seus empacotados e escassos pertences. O pai Pedro a saudou com um ar de ausente preocupação. —Entra, filha, entra. Chegou-nos o momento de partir. Hoje mesmo recebemos aviso de que a armada já avistou terra inglesa, e de que a frota da rainha está ainda amarrada em Plymouth. —A rainha agora se moverá com rapidez —conjecturou Luzia. —A rainha é uma velha idiota indecisa —disse o pai Bernardino com desdém— Mas nós devemos ir imediatamente. Há um navio em Dover esperando para cruzar o Canal até Calais. Dali seguiremos viagem em carro até Brest e embarcaremos rumo a Lisboa. —Deve vir conosco, filha —apressou o pai Juan—Sabemos que foi forçada ao matrimônio e que jamais poderia amar a um inglês. Não estará segura na corte uma vez que seu marido parta para incorporar-se à frota inglesa. Deve confiar em nós, igual nós confiamos em ti. Luzia lhe olhou com assombro. —Como sabem que Morgan parte? —Ah, temos nossos meios, minha filha. Sabemos que seu marido vai levar ordens seladas da rainha à frota. Esperamos que a frota se desloque logo ao encontro da armada. —Também sabemos algo que a rainha não sabe —confiou o pai Juan— A armada, uma vez que entre no Canal da Mancha, deterá-se em Dunquerque. O Duque de Parma acumulou vinte e cinco mil soldados dos Países Baixos espanhóis, que se somarão aos vinte e cinco mil soldados, que já estão instalados a bordo dos 268


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navios na Espanha. Nossas tropas levam armas e pólvora suficientes para que a vitória seja segura. Luzia ficou consternada pelas cifras que pai Juan acabava de manifestar. —Tanto? —A magnitude das forças envoltas e a natureza de seu armamento não têm precedentes, nem na história espanhola, nem na inglesa —exagerou o pai Pedro—A Espanha sairá vitoriosa, porque Deus está de nossa parte. Luzia gelou o coração. O número de navios, homens e armas era incrível. Mas ainda mais aterrador era o fato de que Morgan pudesse estar precipitando-se para uma morte segura. Sabia ele o que enfrentava a frota inglesa? Tinha que dizer-lhe antes que deixasse Londres. Sabia que nada lhe ia fazer mudar de opinião, mas aquela informação podia ser extremamente valiosa. O amor de Luzia por seu marido ultrapassava em muito a seu amor pela pátria. —Quando têm que abandonar Londres? —perguntou Luzia. —Amanhã —disse o pai Pedro— Seu martírio está a ponto de zarpar. Emprestarei-te um de meus hábitos, ninguém te reconhecerá com um traje de frade. Logo me porei em comunicação contigo para ultimar os detalhes. —Devo fazer a bagagem —disse Luzia, ansiosa por ir ao encontro de Morgan e lhe dizer o que acabava de averiguar. —Vá em paz, minha filha —disse pai Pedro— Logo desfrutará do bem estar da casa de seu pai. Luzia se apressou pelos corredores, que lhe tinham feito bastante familiares nas semanas que tinha passado na corte, até chegar à Câmara de Audiências sem fôlego. A câmara estava abarrotada e, por isso pôde ouvir os retalhos de conversa que alcançou a ouvir, falava-se muito da armada que se aproximava. Sua inspeção visual da câmara não revelou traços de Morgan. Então viu Lady Jane e, tragando o orgulho, aproximou-se com a testa bem alta à mulher. —Viu meu marido, milady? Lady Jane fez a Luzia um gesto desdenhoso.

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—Morgan não a tem em seus planos? Todo mundo sabe que partiu, para incorporar-se à frota na enseada de Plymouth. —Sua voz era fria e condescendente— Me pediu que lhe esperasse. Disse que tinha tomado uma decisão importante sobre seu matrimônio e que estava ansioso por me contar, por desgraça não teve tempo para entrar em detalhes. Suas palavras tiveram em Luzia o efeito desejado. Ela sabia que não tinha que acreditar em Lady Jane, porque provavelmente falava levada pelo ciúmes, mas ainda assim aquilo lhe doeu. Além disso, podia ser a verdade. —Não vim discutir sobre Morgan. Só quero saber se o viram nos últimos minutos. —Chegou muito tarde —a informou Lady Jane— Partiu faz mais de uma hora. Dando um grito de consternação, Luzia deu meia volta e saiu correndo. Quando chegou à porta principal interrogou a um lacaio que estava ali postado. Seus piores temores se confirmaram quando o lacaio lhe disse que Morgan partiu fazia algum tempo. Era inútil lhe seguir, porque, de acordo com Stan Crawford, o Vingador só esperava para içar velas que Morgan pusesse o pé a bordo. Não ficava a Luzia mais que rezar. Se Deus era clemente, Morgan voltaria são e salvo. Ela tinha que ter fé que assim fosse, porque nunca ia poder sabê-lo com certeza. Morgan e ela não tinham nenhum futuro juntos. Lady Jane sim que podia lhe dar o que ela não podia: um herdeiro cujo sangue inglês fosse tão puro como o de Morgan. Por mais que o filho que Luzia levava dentro não fosse o que Morgan desejava, ela pensava cuidar com esmero desse pedaço dele, que certamente era o único que ia ter na vida. Ao dia seguinte, cinco sacerdotes jesuítas foram vistos abandonando Whitehall. A rainha esteve contente de livrar-se deles. A verdade é que respirava com mais desafogo sabendo que partiram. Se não fossem por sua própria vontade teria tido que lhes pedir cortesmente que abandonassem o país. Quando passaram em fila

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pelos corredores de Whitehall, saíram pela porta e subiram ao carro que os esperava e os levaria a Dover, os cinco levavam os capuzes bem impregnados sobre a cabeça. Luzia vacilou antes de entrar no carro, a ponto de mudar de ideia. Deixar Morgan era a coisa mais difícil que jamais se viu obrigada a fazer, e possivelmente a mais nobre. Seus motivos eram puros, só procurava o melhor para Morgan e o filho de ambos. Não podia suportar a ideia de criar a seu filho em um ambiente hostil. Rezou para que tivesse podido juntar suficientes lembranças de Morgan, para que lhe durassem toda uma vida. A ideia aterradora de que não fosse assim lhe trouxe um momento de pânico, e ficou paralisada. Uma vez que abandonasse Londres sua relação com Morgan ficaria irrevogavelmente acabada. Não haveria volta atrás. —Se apresse, filha minha —a apressou o pai Pedro— O navio não vai esperar sempre. Luzia vacilou. Aquele passo final era tão doloroso que ficou paralisada, incapaz de raciocinar, incapaz de seguir adiante. A decisão foi arrebatada quando pai Juan e pai Bernardino, que esperavam dentro do carro, agarraram-na pelos braços e de um puxão a colocaram dentro. O pai Pedro entrou rápido atrás dela e fechou de repente a portinhola. O carro deixou atrás Whitehall em um repique de cascos e rodas. —Seu lugar não está entre estes hereges —disse pai Pedro quando Luzia começava a protestar— Seu pai se sentirá agradecido por te ter a salvo em casa. Pode que o bastante agradecido para fazer um donativo a nossa ordem. Muito aturdida para replicar, Luzia olhou pelo guichê com nostalgia, recordando com quanta ternura lhe tinha feito Morgan, amor no dia em que se foi. Tudo tinha parecido maravilhoso por um momento, até ele manifestar seu desprezo por ela, ao verter sua semente nos lençóis. Aquela ação tão simples tinha terminado com sua relação tão eficazmente como se ele a tivesse cortado com sua espada. Morgan tinha deixado mais que claro que odiaria ao filho que tivessem. Suspirando

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com resignação, dirigiu seus sombrios pensamentos para o futuro, por muito lúgubre que pudesse ser sem Morgan Scott em sua vida. Morgan chegou a Plymoufh com as ordens da rainha e as entregou aos almirantes. Dois dias depois, após uma rajada de mau tempo, brotou do nordeste um vento bom e fresco. Os almirantes detiveram a carga de provisões e mandaram que saísse a frota para em um salto rápido, interceptar à armada. O Vingador se uniu aos noventa navios armados e grandes que compunham a aguerrida e valorosa frota inglesa. Cinco dias depois estavam de volta na enseada de Plymouth. Quando se achavam no meio do Golfo de Vizcaya, o vento se pôs a rolar obstinadamente ao sul, e se viram forçados a retornar. Durante toda a semana seguinte a frota teve dificuldades com a mesma classe de tempo adverso que tinha afligido à Armada espanhola. Alguns dos navios mercantes se forçaram em excesso e tinham estado em vias de afundar, e outros precisavam reparar os paus e o cordame. E como na maioria dos navios que levam muito tempo em alto mar, havia muitos doentes. Durante aquela pausa os capitães fizeram o que era possível fazer no pouco tempo que tinham, reabastecendo seus navios com água, equipamento, munições e mantimentos. Morgan se consumia de impaciência. Estava vendo que os atrasos resultavam desastrosos para homens e navios. Morgan queria derrotar à Armada Espanhola o mais rapidamente possível, correr para casa com Luzia e lhe dizer que a amava. Nem sequer a desaprovação da rainha podia lhe convencer de renunciar a Luzia. Nem por todas as Lady Janes da Inglaterra. Justo quando começava a circular o rumor de que a Armada Espanhola tinha desistido da expedição por aquele ano, o Cierva de Ouro, um dos navios destinados a patrulhar pelo Canal, atracou para informar que um numeroso grupo de navios espanhóis tinha sido avistado perto das ilhas Scilfy, com as velas recolhidas,

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aguardando a que parecia que chegasse o resto da frota. Enviou-se imediatamente notícia disso à rainha, e finalmente, em 19 de Julho, deu-se a ordem de que o exército principal se reunisse em Tilburi e o segundo exército se dirigisse a Saint James com o propósito de proteger a integridade da rainha. Aquela noite às dez, a frota de assalto inglesa zarpou de Plymouth. Ao dia seguinte o vento refrescou do sudoeste, e a frota, incluído o Vingador, começou sair rumo ao alto mar para impedir que o inimigo a apanhasse na costa. A armada invasora, algo dispersa mas ainda apressando-se, rodeou para poente para conseguir espaço para manobrar. Morgan se manteve ao leme do Vingador, seguindo pela luneta o avanço da armada. —Meu Deus, Stan, olha-os! —disse, alcançando a luneta a seu contramestre. —Nunca vi nada como isto. Mantendo seu rumo Canal acima, a armada de mais de cento e trinta navios tomou forma à vista. Diante navegava a força principal de combate, em linha frontal; atrás dela os navios mais pequenos e menos defensáveis; e em cada um dos flancos e um pouco atrás avançava um esquadrão de combate mais reduzido. —Não posso acreditar que a armada tenha sobrevivido intacta, visto o tempo inclemente com que tropeçaram estas últimas semanas —comentou Morgan, assombrado. —Em que lugar pensa que infiltrarão? —É difícil dizê-lo. A última mensagem de Drake dizia que devíamos deixar que os espanhóis cheguem até seu destino. E então lhes daremos com tudo o que tenhamos. Durante sete impressionantes dias, o exército flutuante avançou a passo lento para sua meta imaginária, continuamente perseguido pela frota de Drake, mas sem ser definitivamente detido por seus ágeis inimigos. Dois dias mais tarde, em 23 de Julho, na altura da Ilha de Wight, desatou-se a ação. A armada invasora se dirigiu à costa oposta, ancorando em Calais, na espera de estabelecer contato com o Duque de Parma e seu prometido exército. Aquilo resultou ser sua perdição. A frota inglesa 273


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atacou, dispersando-os ao longo de muitas milhas pela costa. Daquele dia resultou ser a batalha decisiva da campanha. O Vingador estava no meio da refrega, fazendo frente por sua conta à poderosa armada. Tinha sofrido danos menores e tinha perdido a alguns bons ingleses, mas em geral tinha saído virtualmente ileso. Nem Morgan nem Crawford tinham resultado feridos. Quando a armada espanhola tentou escapar a um porto amigo, só encontrou costa hostil. Não ficava outra opção que voltar derrotados. Resultava evidente que retornar pelo caminho do Canal estava fora do possível, porque a frota inglesa teria podido trespassar um por um, aos maltratados navios. Em uma iniciativa desesperada, os almirantes tomaram a única rota que ficava aberta, para o norte, rodeando a Escócia e Irlanda. Menos da metade dos navios da armada espanhola, e possivelmente um terço dos homens, conseguiram retornar para casa. E muitos dos sobreviventes morreram mais tarde das feridas ou por enfermidade, depois de ter suportado tudo e não ter obtido nada.

Capítulo 18 O Vingador remontou o Tâmesis e atracou em Billingsgate, em 15 de Agosto, depois de vários dias de batalhas navais nas quais a armada espanhola, enquanto fugia, tinha sido sistematicamente perseguida pelos navios ingleses, que seguiam sua esteira como cães de caça. Mas uma vez que se fez evidente que a armada estava rota e tomava rumo norte em retirada, a frota inglesa retrocedeu e retornou a seu porto de origem para celebrar sua vitória. O país inteiro estava transbordante de

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júbilo. Aclamava-se à força naval e seus comandantes como heróis, e a popularidade da rainha alcançou cotas sem precedentes. Apesar de se sentir feliz por ter participado da gloriosa vitória, o que Morgan mais esperava era um contente reencontro com Luzia. Tinha-a tratado terrivelmente mal. Tinha passado no mar perto de seis semanas, e boa parte desse tempo, mais esperando ao inimigo que metido em combate, até os últimos dias de Julho e primeiros de Agosto, quando a frota inglesa e a Armada Espanhola chocaram repetidamente. A derrota da armada tinha sido uma sensacional vitória pessoal para Morgan. Seu triunfo decisivo sobre seu inimigo de toda a vida desterrou de uma vez por todas seu desejo de vingança contra os espanhóis. Pela primeira vez em muitos anos se sentiu em liberdade para obedecer a seu coração. Seu futuro com Luzia nunca lhe tinha parecido mais luminoso. Sentia-se em paz com sua decisão e capaz de aceitar com absoluta sinceridade a ascendência espanhola de Luzia. Amava-a. Tinha-a amado durante muito tempo, mas tinha o coração fechado a tudo o que não fosse seu afã de vingança. Rogava para que Luzia lhe perdoasse os muitos pecados que contra ela tinha cometido, e tinha a esperança de que algum dia lhe quisesse tanto como ele a queria. Por algum milagre ele tinha escapado ileso do combate, e já estava imaginando com deleite a vida e os filhos que Luzia e ele fossem criar juntos. Stan Crawford se aproximou de Morgan silenciosamente, contrariado por ter que interromper seus sonhos mas acreditando-o necessário. O casco do navio já tinha atracado, e Crawford esperava instruções. Pigarreou, esperando que Morgan advertisse sua presença. Morgan lhe ouviu e se voltou bruscamente. —Está o navio em ordem, senhor Crawford? —Está, meu capitão. Em ordem, e à espera de instruções.

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—Dê licencia para ir a terra aos homens, a todos exceto os precisos para manter um mínimo da guarda. O merecem. E olhe que se cuide dos feridos. —E o que passa com os danos que sofreu o Vingador no combate? —Faz uma relação de danos. Voltarei depois de ver luzia. Enquanto isso pode ir contratando carpinteiros e veleiros para começar com as reparações. Morgan chegou a corte em meio de uma jubilosa celebração da derrota da Armada Espanhola, a maior frota naval da História. Só o tamanho e a magnitude da enorme armada eram incomparáveis. Se as coisas tivessem ido conforme o planejado e o mau tempo não tivesse sido um fator determinante, a Expedição Espanhola podia ter triunfado. Os que tinham tripulado os navios eram conscientes disso, mas a maioria dos ingleses não tinham chegado a compreender o perigo tão real que tinha ameaçado suas costas. A rainha Isabel, com sua régia silhueta embelezada de negro destacando no meio do colorido pavoneado de seus cortesões e damas, mantinha audiência na sabida Câmara de Audiências. Morgan esquadrinhou a sala procurando Luzia, mas sem êxito. Estava a ponto de partir da câmara para seguir procurando-a quando Lady Jane o viu e o chamou por seu nome. Todas as cabeças se voltaram para lhe olhar, e Morgan se encontrou rodeado de portadores de parabéns que lhe felicitavam pela vitória e inquiriam detalhes. Atraiu tanta atenção que a rainha o divisou e enviou um pajem para lhe chamar. Morgan franziu o cenho com desgosto. A rainha e seus figurinos de corte eram a última gente que desejava ver naquele momento. Queria encontrar Luzia. Queria tomá-la nos braços, lhe fazer amor, lhe contar quão idiota tinha sido ao renegar o que seu coração tinha sabido sempre. Mas quando a gente era requerido pela rainha, não podia recusar. A multidão lhe abriu passo conforme ia aproximando do trono esculpido de Isabel. Lady Jane se agarrava tenazmente de seu braço.

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Antes que Morgan tivesse podido liberar-se já tinham alcançado o estrado. Executou uma reverência e a rainha lhe dirigiu um sorriso luminoso. —Estamos muito agradada com você, Sir Scott. Como o estamos com todos nossos valentes marinheiros e seus almirantes. Fostes o primeiro em retornar. Nos contem o que aconteceu. Como não encontrava forma de escapar garbosamente, Morgan passou a seguinte hora relatando os detalhes dos combates mantidos e da rota de fuga da armada inimiga, que lhes obrigaria a rodear Escócia e Irlanda. —Esses espanhóis não o vão passar bem —predisse Isabel— Nesta parte do ano o mais seguro é que encontrem com tempo perigoso nas águas do norte e ao longo da costa irlandesa. A predição da rainha resultou ser muito acertada. Soube-se depois que grande número de navios se destroçaram contra as rochosas costas irlandesas com poucos sobreviventes. —Recebemos informes que nossas perdas foram escassas comparadas com as do inimigo. Temos que dar graças a homens valentes como você. Pensaremos em uma recompensa adequada —disse Isabel solenemente. —Não desejo mais recompensa —disse Morgan— que devolvam a minha esposa e poder me retirar a minhas terras. Isabel fez uma careta de desagrado, e na estadia se fez um silêncio pouco natural. Morgan teve uma premonição sombria e lutou contra a vontade de ir procurar Luzia para levar-lhe a toda pressa de Londres. Esperou que Isabel falasse e soube instintivamente que não ia gostar do que ia ouvir. —Lamentamos que essa é a única coisa que Nós não podemos lhes conceder. Sua esposa já não reside na corte. Morgan soltou um grito afogado de indignação e incredulidade. —Expulsou Luzia?

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—Ora, não a expulsamos. Desapareceu um ou dois dias depois de que zarpassem a reunir com a frota. Não sabemos exatamente quando se foi, só que já não está entre nós. —É assim como cumprem suas promessas? —espetou-lhe Morgan— Disse que protegeriam Luzia. O que lhe têm feito? —Não lhe temos feito nada! —disse a rainha cheia de indignação. Não estava acostumada que se dirigissem a ela de forma tão desrespeitosa, e seu caráter relampejou perigosamente— Lhes sugiro que segure a língua e recorde com quem está falando. —Morgan, por favor —apressou Lady Jane— Não siga. Está incorrendo na ira da rainha, e isso não é prudente. Morgan se sacudiu da pegajosa sujeição de Jane, com expressão dura e ressentida. —Onde está minha esposa? Você e suas damas lhe estiveram fazendo a vida impossível, e seus cortesões a consideravam peça disponível para suas abjetos cuidados. Isabel se levantou majestosamente de seu trono, com uma raiva assustadora. —Foi muito longe, Sir Scott. Não sabemos aonde foi sua esposa e não tivemos nada a ver em seu desaparecimento. Tínhamos intenção de cumprir a promessa que lhes fizemos. Quando se advertiu seu desaparecimento, enviamos um mensageiro à Residência dos Scott a inteirar-se por ela. Mas ela não estava ali. Nossa opinião é que retornou a Espanha. —Sozinha?— burlou-se Morgan— Luzia não tinha dinheiro; não conhecia ninguém em Londres a quem pedir ajuda. Como poderia ter ido a Espanha? —Os padres —disse Isabel com altivo desdém— Os jesuítas partiram ao dia seguinte que você zarpou. Embora não há forma de comprová-lo, Acreditamos que sua esposa os acompanhava. Melhor assim. As mãos de Morgan se fizeram punhos, com vontade de golpear a alguém ou algo.

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—Irei imediatamente a Espanha e a trarei de volta. Luzia não teria partido sem uma boa razão. Morgan sentia que ele mesmo era tão responsável como Isabel do desaparecimento de Luzia, mas não podia ocultar o feroz rancor que sentia para a corte inglesa. Todos na Câmara de Audiências lhe tinham ouvido afrontar à rainha, e aguardavam espectadores que Isabel exigisse o justo castigo. —Não, vocês não deixa a Inglaterra —declarou a rainha estampando o pé no chão para dar ênfase a suas palavras— Essa mulher espanhola está onde lhe corresponde. Olhe Lady Jane como consolo, será uma esposa digna de seu nome. Tomamo-nos a liberdade de pedir ao bispo que disponha os documentos da anulação. Esperam sua assinatura. Morgan exalou lentamente. —E se me nego? —Seus bens serão confiscados e será encarcerado na Torre até que recupere o bom sentido, É esse seu desejo? —Vê-se que meus desejos não têm nenhum peso neste negócio. —Isto é o que mais lhes convém, Sir Scott. Sabe que nunca nos agradou seu matrimônio. Não somente foi forçado a tomar uma esposa totalmente inadequada a sua posição, mas sim, além disso, as bodas foi oficiada por um sacerdote papista, o qual já é razão suficiente para a anulação. Lady Jane lhes vai contribuir com sua enorme riqueza e suas numerosas fazendas. É nosso mais íntimo desejo que nosso querido herói se una em matrimônio a Lady Jane. Têm muito que perder se negando a nossa demanda e tudo que ganhar aceitando-a: como mínimo, uma encantadora esposa que está apaixonada por você. —Suas palavras soaram a ameaça, e Morgan jamais se rendia de bom grau às ameaças. Depois de despachar seu ultimato, a rainha se reclinou graciosamente em seu trono, esperando com displicência que Morgan se submetesse a seus desejos. Não ia aceitar negativas; nunca o tinha feito. —É essa a última palavra de Sua Majestade? 279


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—Sim, é minha última palavra neste assunto. —Então não tenho escolha —concedeu graciosamente Morgan. Para ele era uma autêntica façanha conter o gênio e manter a compostura enquanto por dentro estava fervendo de rancor e de raiva, mas seja como for conseguiu compor-se, por mais que a rainha tentasse imaginar, nunca chegaria a saber o quanto lhe custava e seu orgulho. —Ah, Morgan, não o lamentará —chiou encantada Lady Jane. Morgan lhe dedicou um olhar invernal— Sabia que tomaria a decisão acertada, e por isso me antecipei com os planos para nossas bodas. Casaremo-nos daqui a uma semana, com assistência de toda a corte. Podemos passar nossa lua de mel em minha remota propriedade de Cornualles. Já mandei recado para que esteja preparada para nossa visita. — Pensaste em tudo —observou Morgan friamente. — Fizeram uma escolha acertada, Sir Scott —disse a rainha, mais que agradada com a capitulação de Morgan. Poucos de seus súditos eram tão parvos para atreverse a frustrar seus desejos. —Pois, que seja —disse Morgan, impaciente por livrar-se da rainha e de Lady Jane— Se me desculparem, Majestade, é muito o que devo fazer antes das bodas. Tenho ainda um navio avariado e homens feridos que atender. Tenho que enviar notícias à Residência dos Scott e prover adequadamente meu guarda-roupa para honrar a minha esposa. Isabel fez um gesto imperioso com a mão. —Estão desculpado, Sir Scott. As semanas que passastes no mar com nossa frota vitoriosa devem ter lhes deixado esgotado. Morgan se retirou com toda a gentileza que foi capaz de mostrar. Não chegou a precaver-se de que Lady Jane saía atrás dele até que a sentiu a seu lado. —Estou esgotado de verdade, Jane —se desculpou com ela— Melhor seguimos falando de nossos planos amanhã.

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—Não é falar o que quero —sua voz tinha um sedutor tom de promessa— Não há razão para reprimir-se, já. Nossas bodas só necessita a cerimônia para que seja legal. Sua esposa te abandonou, e eu já me sinto tua esposa. Me faça amor, Morgan. Morgan chiou os dentes de desgosto. Maldita Isabel e maldita Jane por lhe empurrar a algo que ele não desejava. Ainda tinha uma semana e se propunha fazer bom uso dela antes de… —Agora não — escapuliu Morgan— Irei esta noite a sua câmara. De pouco te vou servir se caio dormido no instante em que minha cabeça toque o travesseiro. Estou sujo e necessito um banho. E agora, por favor, me desculpe. Jane fez uma graciosa careta. —Ajudarei a te dar um banho. Quem sabe o que pode acontecer assim que te tenha refrescado. —Eu sei: que vou dar uma longa sesta. —Morgan, estou começando a pensar que está tratando de evitar me fazer amor —sua voz adquiriu um matiz duro— Não teria mais que insinuar à rainha que pretende te liberar do casamento para que ela exproprie todos seus bens e te encerre à Torre até que volte para o redil. —Ah, Jane, estou seguro de que você adoraria fazê-lo —disse Morgan com suavidade, com uma suavidade excessiva que fez que disparasse um calafrio por toda a longitude das elegantes costas de Lady Jane. Morgan a agarrou em seus braços, beijando-a com força, bruscamente, descarregando todo seu aborrecimento na violenta posse da boca dela. Jane estremeceu, aceitando seu beijo brutal com fome predadora. —Morgan, ai, Morgan, sim, eu gosto assim —gemeu inconsciente contra sua boca, ofegante de expectativa— Não me importa o excitado que ponha. Um ruído de desgosto ferveu no fundo da garganta de Morgan. A boca de Jane estava úmida e frouxa sob a sua. Suspeitou que teria podido tomá-la no chão, no corredor mesmo, sem que ela protestasse. Mas nem a desejava, e nem a ia desejar nunca. Luzia era a única mulher que ele desejava, e teria que conseguir desfazer-se 281


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de Jane, sem desfazer-se de sua própria vida. Dispor de tempo era essencial. Só tinha uma semana para pôr seus assuntos em ordem, e isso ia ser endemoniadamente difícil com Jane resfolegando atrás dele. Como diabos ia tê-la satisfeita sem deitar-se de verdade com ela? —Esta noite —lhe sussurrou Morgan na boca. Dando a seu seio uma incitante carícia que prometia longas horas de êxtase, deu a volta e se afastou dando pernadas com viveza. —Morgan… —Jane estampou um pé contra o chão com aborrecimento, enquanto seu corpo ainda vibrava de desejo não recompensado— Maldito homem — murmurou sem fôlego. Se desta vez não cumprisse sua promessa lhe ia afundar o céu em cima. A família de Lady Jane era uma força poderosa na Inglaterra. E ela em pessoa se encarregaria de que Morgan Scott ficasse sem um penique se a decepcionava. Quando tivesse acabado com ele não teria nada, nem sequer esse seu navio ao que parecia dava tanto valor. Girando sobre seus saltos, retornou à Câmara de Audiências. Pouco momento depois Morgan se deslizou fora por uma entrada lateral, chamou um cavalo de ponto que passava e chegou a Billingsgate pouco tempo mais tarde. Crawford lhe estava esperando a bordo do Vingador. —A coisa não te levou muito tempo, Morgan. —Seus olhos faiscaram com brincadeira— Pensei que foste passar mais tempo com Luzia, sabendo o ansioso que estava por vê-la. —Luzia partiu —disse Morgan lacônico. —Partiu! Aonde demônios foi? —Minha ideia é que a Espanha. Acredito que em companhia de um grupo de sacerdotes jesuítas que voltaram para a Espanha pouco depois que zarpamos. —Esta seguro? A expressão de Morgan se alterou sutilmente, revelando sua incerteza.

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—Não. Ninguém a viu partir. Isabel já se assegurou de que não estava na Residência dos Scott. Não há nenhum outro lugar aonde ela pudesse ir. Além dos jesuítas, não tinha a ninguém a quem ir na corte; o resto da gente a ignorava, e eu estava muito ocupado ou muito teimoso para me levar como um marido com ela. Tenho que ir procurá-la para lhe suplicar que me perdoe. —Quando? —Como está avariado o navio? —Não muito gravemente. Nossos carpinteiros podem reparar o leme e o equipamento de barco, e nossos veleiros podem remendar os rasgões nas lonas sem dificuldade. Não deveria lhes levar mais de duas semanas. Morgan lhe dirigiu um olhar sombrio. —Não disponho de duas semanas. Tem que fazer-se tudo em seis dias como muito. —Seis dias! O que pede é um milagre, Morgan. —Sim. Pode fazê-lo? —O que acontece se te digo que não é possível? —Que serei forçado a me casar com Lady Jane, ou perderei todos os meus bens em proveito da coroa e passarei o resto de meus dias na Torre. Deixarão-me na indigência, Stan. Nem sequer terei um navio que me leve de volta a Andros. —Na indigência tampouco exatamente, meu amigo. Esqueceste o tesouro que tem escondido em Andros? —Não o esqueci, mas é insignificante comparado com o que guardo no banco em Londres. —Que planos tem?— perguntou Crawford, prevendo outra aventura. —Vamos a Espanha —confiou Morgan— mas antes… —E em voz baixa esboçou a Crawford seu plano. Crawford lhe escutou atentamente, assentindo com entusiasmo enquanto Morgan ia desdobrando seu plano. —Poderia resultar, mas e se Luzia não está disposta? E se não quer ter nada que ver contigo? E seus planos, no que afeta a Lady Jane, como pouco são arriscados. Está claro que quer te ter na cama antes da cerimônia. E por último, embora não seja 283


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o de menos, tem em contra à rainha. Como a deixa plantada certamente não lhe perdoará jamais. Prenderão-lhe e encarcerarão. —Já tive tudo isso em conta, Stan, e me dá risada se o comparar com uma vida sem Luzia. Todas as riquezas do mundo não me servem de nada se não tiver Luzia para as compartilhar comigo. —Isso é muito forte para que diga um homem que não pode suportar aos espanhóis. A monjinha te agarrou, não? —Sim —admitiu Morgan, —Mais do que posso expressar. Se não fosse assim, cumpriria com meu dever com a rainha por muito desagradável que fosse. Mas agora preferiria apodrecer na Torre antes que me converter no boneco da rainha e ter que assinar todos esses malditos papéis da anulação. Mas necessito sua ajuda. Crawford riu. —O que me está pedindo é pouco ortodoxo. —Os tempos desesperados demandam medidas desesperadas. Se não tiver coragem para fazê-lo… —Não é isso —arguiu Crawford, ainda sorridente— Mas a dama não pode deixar de notar a diferença… —…A menos que aproveite a vantagem que te dá a escuridão. Somos de traços e porte bastante parecidos para não levantar suspeita. Você só te assegure de fazer como corresponde o condenado trabalho. Não quero dúvidas sobre minha virilidade. Tenho uma reputação a manter. Crawford soltou uma sonora gargalhada. —Tão presumido como sempre, já vejo. Não se preocupe, meu amigo, renderei honras à dama com o mastro bem alto. Compartilhamos mulheres muitas vezes ao longo dos anos, mas esta é primeira e a última vez que o vou fazer em seu nome. —Ponha aos homens para fazer as reparações, Stan. Há muito que fazer antes de que icemos as velas. Verei-te mais tarde esta noite em minhas habitações de Whitehall. Morgan partiu, indo diretamente do Vingador ao escritório de seu advogado. Morgan tinha contratado Sylvester Thornhill pouco depois de retornar a Inglaterra 284


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quando era jovem, depois de escapar da escravidão. Thornhill tinha acreditado sua valia uma e outra vez durante os anos em que Morgan tinha navegado mar adentro em busca de ouro espanhol. Era digno de confiança, discreto e, por cima de tudo, capaz de ocupar-se em todos os aspectos dos assuntos de Morgan. E Morgan confiava que Thornhill não divulgaria nada do que acontecesse nas paredes de seu escritório. —Têm algum reparo em fazer mo que lhe peço? —inquiriu Morgan uma vez que teve exposto seus planos ao advogado. —Deixe-me ver se entendi bem —disse Thornhill lentamente— Deseja despedir com uma pensão a seus criados da Residência dos Scott e lhes dar uma indenização generosa. Pensa fechar a mansão para sempre? —Vou abandonar o país, possivelmente para sempre —lhe confiou Morgan— Serei honrado com você, Thornhill, porque você merece isso. É provável que a coroa vá expropriar meus bens. Não quero que meus criados passem mau, especialmente Clyde Withers. É um homem bom, e leal. Thornhill pôs os olhos redondos. —Mas você é um herói, Capitão, por que teriam que ser confiscados seus bens? —É uma história longa, e certamente lhe contarei isso, mas primeiro, está disposto a seguir minhas instruções? —Certamente, tinha duvidado? Que mais posso fazer por você? —Muito. Vou converter todos meu ativos em ouro e os vou transladar ao Vingador. Se pode achar um comprador para a Residência dos Scott em uma semana, bem, mas se não, não tem importância. —Pode ser difícil, mas não impossível. Já me ocorreram várias possibilidades. Isso é tudo? —Não. Desejo que continue sendo meu agente em Londres para os carregamentos de madeira que envie por mar de Andros. Tome seus honorários dos benefícios e ingresse o resto no banco em nome de meu primeiro oficial, Stan Crawford. Ele estará em liberdade de entrar e sair da Inglaterra quando queira.

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Thornhill escrutinou o rosto de Morgan. —Isto parece com que vai cortar laços com a Inglaterra, capitão Scott. Está seguro de que isso é o que quer? —As circunstâncias o fazem necessário. Não teria eleito este caminho se a rainha não me tivesse feito impossível ficar na Inglaterra. —ficou de pé— O tempo escasseia, e ainda fica muito o que fazer. Me envie recado ao Vingador quando tiver terminado as tarefas que lhe encarreguei. Nada é privado na corte, e quero manter em segredo meus planos. —Logo terá minhas notícias, capitão Scott. Mais tarde naquele dia, Stan Crawford abriu passo sem muita dificuldade até a habitação de Morgan. Seu discreto repique de nódulos foi respondido imediatamente, e deslizou dentro no momento em que se abriu a porta. —Peço a Deus que isto funcione —disse Stan, com um sorriso travesso— embora siga dizendo que deveria fazer você seu próprio trabalho sujo. Morgan lhe cortou com o olhar. —Tampouco, será prazeirosamente recompensado pelo trabalho desta noite. Crawford arqueou uma bem formada sobrancelha. —Já te contarei depois. Está seguro de que é isto o que quer? —Preciso conseguir tempo, Stan, e certamente não quero ir à cama com Lady Jane. Não poderia tocá-la sem pensar em Luzia a cada instante que estivesse com ela. Não quero trair minha esposa. Esta é a única forma que me ocorre de aplacar Jane e não trair meus votos matrimoniais. Jane é uma pirralha mimada. Acredito que vai desfrutar com ela. Estive muito tentado de prová-la em mais de uma ocasião, mas sempre houve algo que me deteve. —É um truque sujo, mas o compreendo. Não se preocupe, não decepcionarei à dama. —Só uma coisa mais, Stan —lhe recordou Morgan— Não quero que deixe Jane com um pirralho na tripa quando nem você, nem eu, vamos estar para nos fazer cargo. Não quero ferí-la, não é uma pessoa perversa, só um pouco caprichosa. Não é

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virgem, ou seja, que tampouco lhe estará roubando nada que ela não tenha entregue já. Só te assegure de que lhe dá o suficiente prazer para deixá-la satisfeita. Os corredores estavam desertos. Era mais de meia-noite, era esse momento em que as horas mais negras da noite estendem seu manto sobre o mundo dormido. Stan e Morgan saíram da habitação deslizando-se sigilosamente e andaram pelo corredor até o dormitório de Lady Jane. Detiveram-se na porta por um muito breve instante, e então Morgan se voltou para Stan e lhe pôs um dedo sobre os lábios. Stan se fez a um lado, quando Morgan abriu a porta e se introduziu dentro. Uma solitária vela, consumida quase até o cabo, fazia parecer porto seguro para amantes a estadia iluminada de sombras. A chama piscante parecia perigosamente a ponto de extinguirse. —Morgan, é você? O que é o que te tomou tanto tempo? Passei horas esperando. —O tom queixoso de sua voz revelava sua irritação. —Sim, sou eu, Jane. —aproximou-se da cama, parando uns segundos perto da vacilante luz da vela para que Jane pudesse lhe contemplar a fundo. —Se apresse, meu amor —ofegou entrecortadamente ela— e pelo que mais queira, fecha a porta. Voltando-se com rapidez, Morgan se assegurou de levantar a seu passo brisa suficiente para apagar a moribunda vela. A estadia sumiu na escuridão. —Morgan, o que passa? —Nada —a tranquilizou Morgan— A chama se apagou. Tampouco necessitamos luz. Assim que feche a porta estou contigo. Foi até a porta, deslizou à sala de espera, e se afastou para que Stan ocupasse seu lugar. Assim que Stan esteve dentro da estadia, Morgan fechou a porta. —Estou esperando, Morgan —disse Jane com chateio— Poderia acender a vela? Quero ver-te. A cama se afundou e Stan se acomodou sob os lençóis junto a Jane.

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—Esqueça da luz, agora prefiro ver-te com as mãos. —Sua voz tinha um áspero fio de expectativa, e por isso Jane não suspeitou da ligeira mudança de tom. Tinha experiência suficiente para reconhecer a brusca impaciência da paixão do homem. Stan não decepcionou a Jane, nem sua conduta no ato menosprezou a reputação de Morgan. Se acaso a virilidade de Morgan ficou realçada pela magnífica atuação de Stan como amante. Stan soube imediatamente que Jane estava familiarizada de sobra com a paixão, porque a atuação deixou a ele sem fôlego. Para quando teve excitado Jane até o limite, já estava ele benzendo ao Morgan por lhe haver encarregado tão agradável tarefa. Stan não só agradou a Jane excepcionalmente bem, mas também o fez mais de uma vez. A diferença de Morgan, não havia outra mulher em sua vida, e desfrutou de Jane a fundo, sem esquecer a advertência de Morgan de que não lhe fizesse um filho. Saiu com sigilo de sua cama justo antes do amanhecer, quando Jane tinha caído em um sono exausto. Stan foi de novo ao encontro de Morgan, que dava largos passos por sua própria habitação com notória falta de paciência. —Bom, como foi a coisa? Jane suspeitou algo? Por Deus que ficaste ali tempo suficiente. Stan se esticou e bocejou. —Lady Jane não é mulher a que alguém possa despachar facilmente uma vez que tenha em sua cama. Por todos os infernos, Morgan, esteve condenadamente perto de me esgotar de tudo. Morgan conteve um sorriso. —Está se queixando? —Nem por indício. E não tem que preocupar-se de nada, meu amigo: puseramnos a melhor nota. Sua reputação com as mulheres vai florescer depois de ontem à noite. Morgan soltou uma sonora gargalhada. —É modesto, né? Em qualquer caso, estou-te agradecido. Para mim não há mais que uma mulher, Stan, e está na Espanha.

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—Tenho que voltar já ao navio —disse Stan, olhando com nostalgia para a cama. Não tinha dormido nem o que dura uma piscada— Se voltar a precisar de meus serviços, faça-me saber. Será um autêntico prazer lhe prestar isso. —Isso sim que é um amigo de verdade —lhe disse Morgan rindo— Mas confio em não ter que recorrer a semelhante engano nunca mais. Agora que já cumpri com ela, Jane não poderá me acusar de esquivar sua cama. —OH, sim, é um amante assombroso —se burlou Stan, fingindo o tom de voz— Bom, vou. Instruções…? —Que os homens sigam trabalhando no navio. Escapuliremos de Billingsgate com a maré da tarde, a véspera do dia de minhas bodas. Enquanto isso, farei todas as gestões necessárias e tratarei de evitar Jane. Todos os dias vão chegando arcas com o grosso de minha fortuna. Vá estivando-as na adega com o carregamento. Mais tarde, aquele dia Morgan tratou de escapulir de Whitehall sem que ninguém o advertisse. Como estava escrito que ocorresse, ouviu Lady Jane chamá-lo quando ele se aproximava da porta principal. Como tinha vindo correndo para apanhá-lo, ofegava sem fôlego quando o alcançou. Morgan não pôde deixar de advertir como lhe faiscavam os olhos; tinha os lábios um pouco inflamados e avermelhados, sem dúvida por seus atos noturnos. Stan não tinha exagerado, o aspecto de Jane era o de uma mulher que acaba de pegar um queda em toda regra. —Morgan, aonde vai? —Negócios, Jane —respondeu Morgan. As comissuras dos olhos lhe enrugaram divertidas quando se inclinou para olhá-la e sussurrou— Está descontente comigo? —Descontente? Deus, não! Encheste com acréscimo minhas expectativas. Esteve magnífico, Morgan, nem sei por onde começar a te contar o muito que me agradou. Vai voltar esta noite? —É insaciável, verdade? Tenho assuntos urgentes em West Sussex. Não espere ver-me até a véspera das bodas.

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—Mas Morgan, a rainha diz que não assinaste ainda o documento da anulação. E o que passa com as celebrações pré nupciais? —Voltarei com tempo demasiado para assinar o documento e assistir às celebrações, Jane. Salvo que me retenha aqui conversando e atrasando minha viagem. —Date pressa em voltar, carinho —disse Jane, agarrando sua cabeça e baixando-lhe para lhe dar um beijo animal. Lady Jane ficou na porta até que Morgan subiu a um cavalo de ponto que estava à espera. Quando por fim se voltou, deu-se com Lorde Harley. —Aonde vai seu prometido? —perguntou Harley com curiosidade. —A West Sussex. Harley a olhou com uma careta maliciosa. —E se propõe ficar muito tempo em West Sussex? Lady Jane inclinou a cabeça, lhe olhando com interesse. —Bastante tempo. O que é o que está pensando? —Você devia estar te casando comigo, como bem sabe. —Eu não faço mais que acatar os desejos da rainha. Possivelmente ela encontre outra dama para ti. —Não te parece que possivelmente poderia ter piedade de um pobre pretendente rechaçado? —O que é o que quer dizer?— perguntou Lady Jane timidamente. Não tinha nada contra Harley. Era um bom amante; embora não tão bom como Morgan, mas resultava que Morgan não estava ali, verdade? —Esta noite —sussurrou ele com urgência— depois de que a rainha te libere de seus encargos. Se encontre comigo na pérgola, que estará deserta a essa hora tão tardia. Executando uma cortesã reverência, estampou um beijo em sua palma voltada para cima e se despediu. Harley sabia que Jane iria a seu encontro. Suas relações passadas tinham sido de natureza apaixonada, e ele tinha aprendido que ela era uma hedonista que conseguia obter grande prazer dos encontros sexuais. Além disso,

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pensava Harley, conforme se afastava andando e assobiando uma alegre melodia, ia dar toda a satisfação de ser o instrumento para pôr chifres a Morgan Scott.

Capítulo 19 Morgan se dirigiu apressadamente pelo mole para o Vingador, no que, desde que deixou Whitehall, levava seis dias vivendo. Só se aventurava pelas ruas de Londres quando lhe era necessário resolver algum negócio. Teria sido perigoso arriscar-se a que alguém o reconhecesse, quando se supunha que estava na Residência dos Scott. Fez uma viagem relâmpago à Residência dos Scott para reunirse com o Clyde Withers, e havia retornado no mesmo dia. Quando explicou a seu fiel administrador o apuro no que se achava, Withers se apressou a lhe pedir, e a obter dele, um beliche a bordo do Vingador, expressando que preferia embarcar à aventura com Morgan a ficar em terra e ter que buscar um novo chefe. Durante sua curta visita à Residência dos Scott, Morgan reuniu umas quantas lembranças de família e algumas pinturas das que não era capaz de separar-se e enviou tudo ao Vingador. Quando voltou para Londres, encontrou-se com uma 291


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mensagem urgente de Thornhill, seu advogado. Tinha encontrado um comprador para suas terras, e a escritura de transmissão estava só pendente de que ele a assinasse. A pesar do amor que sentia pela Residência dos Scott, Morgan mal sentiu remorsos por vendê-la, porque sabia o pouco feliz que Luzia tinha sido ali. Como não achava razão para atrasar o inevitável, Morgan mandou chamar Thornhill imediatamente. Ao pouco a transação estava resolvida para satisfação de todos, e os documentos correspondentes estavam em segurança no bolso do colete de Morgan. Agora que tinha vendido sua casa e tinha mandado carregar todo seu ouro no Vingador, Morgan sabia que não podia seguir atrasando a volta a Whitehall. Se não aparecia dentro do tempo estimado, a rainha se daria conta em seguida do que Morgan pretendia e despacharia a guarda do palácio a Billingsgate para lhe prender. Morgan não queria que a rainha, nem nenhuma outra pessoa, soubesse que o Vingador estava se aprovisionando de mantimentos para uma viagem muita longa. O que Morgan não podia imaginar era que já havia alguém que sabia. Lorde Harley e Lorde Bainter, que tinham saído para dar uma volta, tinham-no visto saindo do escritório do advogado. Como ambos os cavalheiros eram naturalmente curiosos, decidiram lhe seguir. Harley sabia que Morgan tinha que estar nesse mesmo dia de volta em Whitehall para atender a seus festejos pré-nupciais, e achou curioso saber que estava ainda dando voltas pela cidade. Quando o cavalo de aluguel de Morgan foi em direção a Billingsgate, eles o seguiram em seu próprio veículo. Contemplaram como Morgan subia a passarela do navio e desaparecia em seu camarote. —A ti o que parece que está fazendo? —perguntou Harley. —Que me crucifiquem se sei —disse Bainter — Mas eu gostaria de averiguá-lo. — Me espere aqui —disse Harley, descendo do carro de um ágil salto— Parece que está havendo muita atividade ao redor do navio de Scott. Harley se aproximou de passo ligeiro a um grupo de estivadores e ficou olhando-os em silêncio enquanto carregavam provisões e munição no Vingador. 292


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Quando viu o suficiente para despertar suas suspeitas, aproximou-se de um dos estivadores. —Parece que o Vingador se prepara para uma longa viagem, né? O homem olhou Harley. —Me pagam por carregar navios, não por responder perguntas. —Sabe aonde se dirige o Vingador e quando vai partir? —Já lhes disse, amigo, me pagam por… —Já sei, por carregar navios, não por responder perguntas —disse Harley como um eco— E que tal se eu lhe pagasse por fazê-lo? Poderia ser um pouco mais explícito, ou não? Aquilo captou finalmente o interesse do estivador. —E não! Quanto está oferecendo? Harley tirou um punhado de xelins do bolso e os passou ao homem por debaixo do nariz. —Bastará com isto? O homem passou a língua pelos lábios em gesto de avareza. —O que é o que quer saber? —Quando vai partir o Vingador? —A verdade é que ninguém nos disse, mas o que se diz por aí é que vai partir esta noite quando subir a maré. As provisões têm que estar todas a bordo e estivadas antes de que anoiteça. —Que interessante —murmurou Harley— Uma coisa mais. Para onde se dirige o Vingador? O estivador arranhou a cabeça meio calva. —Não sei. O capitão não disse nada. A atenção de Harley se agitou. —O capitão? As ordens vieram do capitão diretamente? —Em realidade nunca falei com ele; as ordens nos dá o contramestre. Mas entendo que procedem diretamente do Diabo. Levo toda a semana vendo o capitão ir e vir a qualquer hora do dia ou da noite. —Toda a semana? Está seguro? —Sim, senhor, pela parte que me toca estou seguro. Parece-lhe que está perseguindo espanhóis outra vez? Não vai ficar um só desses mal nascidos quando nossa frota os disperse até o inferno. 293


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Harley dissimulou um sorriso. —Sim que está perseguindo espanhóis. Ou seria melhor dizê-lo em singular, a menos que me equivoque. Muito obrigado, amigo. —E, jogando as moedas aos pés do estivador, voltou para o carro. —Espero que esteja satisfeito —bocejou Bainter quando Harley tomou assento a seu lado— Podemos voltar já? Prometi a Lady Camila um baile na festa desta noite, e necessito uma boa sesta para poder confrontar esse suplício. É uma má cadela, embora não o faz de todo mal na cama. A festa a dá a rainha para celebrar o próximo matrimônio do Sir Scott e Lady Jane, já sabe. —Sei, e por todos os demônios, me vou assegurar de que o reticente noivo não tire os pés do vaso. A Whitehall —lhe respondeu Harley, com um sorriso de orelha a orelha— Não perderia a festa desta noite nem por todo o ouro das arcas da rainha. Morgan retornou a Whitehall ao anoitecer, quando terminou de fiscalizar como subia a bordo e se estivava sua carga. Não queria que nada saísse mau. Ia nisso seu futuro inteiro, e não tinha a menor intenção de passar encadeado a Lady Jane. Já tinha uma esposa, uma a que sim amava, e ninguém, nem sequer a rainha da Inglaterra, ia separá-la dele. Surpreendeu-lhe encontrar-se com que Lady Jane lhe estava esperando em seu próprio dormitório. Ao lhe ver se jogou em seus braços. —Morgan, querido, menos mal que retornaste! Tinha-me preocupada e desesperada. —Não deveria estar aqui. Jane. Não teria que ir preparar-te para a festa desta noite? —É obvio que sim, mas queria te esperar aqui para te saudar assim que chegasse. —Lançou-lhe um olhar ardente— Depois do que ocorreu em minha cama a outra noite, pensei que te alegraria de ver-me. Foi tudo bem na Residência dos Scott? —Tudo bem, Jane, mas está tarde. Melhor será que te dê pressa. Vá e te ponha bonita em minha honra.

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—OH, Morgan, claro que sim, já vou! —E lhe mandando um beijo com a mão se esfumou do dormitório de Morgan. Morgan deixou escapar um suspiro de alívio. Mas pouco lhe durou, porque quase imediatamente a rainha o mandou chamar. Requeria sua presença na Câmara de Confidências, imediatamente. Morgan tinha uma ideia bastante aproximada do que podia querer Isabel, e albergava a esperança de escapar. A sua chegada à câmara da rainha, um calafrio o percorreu as costas ao ver lorde Harley conversando animadamente com a rainha. Quando entrou Morgan, Isabel se voltou para ele com o olhar cintilante de ira. —Mandou-me chamar Sua Majestade? —perguntou em tom neutro. —Alegramo-nos de que tenham retornado de West Sussex a tempo de assistir à festa por seus esponsais. Mas vá, não lhes ocupastes de assinar o documento de anulação que lhes preparou nosso bispo. É nosso desejo que o assinem agora mesmo para que não haja nenhum problema legal amanhã. O secretário da rainha se aproximou de Morgan e lhe entregou o documento. —Têm tinteiro e pluma no escritório —lhe indicou Isabel. Morgan agarrou o papel e, dirigindo-se como quem não quer para o escritório, desenrolou-o cuidadosamente. Estendeu-o na lisa superfície da mesa, afundou a pluma na tinta e o assinou com uma assinatura. Logo voltou a enrolá-lo com muito cuidado e o devolveu ao secretário, que, fazendo uma reverência à rainha, saiu do gabinete. —Bem feito, Sir Scott —disse Harley, sarcástico— Agora possivelmente possa nos explicar por que mentiste sobre sua visita a West Sussex. Sei que ficou a bordo do Vingador, última semana. Nem sequer passou por West Sussex, verdade? Morgan lançou a Harley um olhar de intensa antipatia. —Pode comprová-lo se quiser, mas o que averiguarão é que sim fui a West Sussex e lá me reuni com meu administrador. Retornei um dia antes do previsto, e fiquei no Vingador para me assegurar de que todo o trabalho que encarreguei que se fizesse fica resolvido a meu gosto. 295


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—Está carregando provisões no Vingador —acusou Harley— Lhe vi a bordo do navio quando se supunha que estava visitando suas terras. —O meu contramestre, e eu nos confundem frequentemente, um com o outro. Parecemo-nos o bastante. O senhor Crawford está a cargo do Vingador em minha ausência. Têm algum problema com isso? Do que me acusa? —Parece que Lorde Harley acredita que têm intenção de deixar à noiva plantada no altar —apontou a rainha— Nos entristeceria sobremaneira que tentassem fazer uma estupidez semelhante. —Nada mais longe da verdade, Sua Majestade —mentiu Morgan— E agora, posso me retirar? Isabel escrutinou o rosto de Morgan, aparentemente satisfeita ao ver que falava a sério. Depois de um silêncio tenso, despediu-o com um gesto da mão. —Veremo-lhes esta noite, Sir Scott. Desgostaria-me que pareça que não deseja esta bodas, quando têm tanto a perder se não lhes prestam a celebrá-la. Aquela ameaça ligeiramente velada pôs os cabelos de Morgan em pé. Não tinha ideia de como se inteirou Harley dos planos do Vingador, mas a fuga da Inglaterra lhe ia resultar mais difícil do que tinha previsto. Tinha que encontrar a forma de escapar nessa noite da festa, que se dava em sua própria honra, antes de que subisse a maré, tinha que chegar até o Vingador e levantar âncoras antes que alguém se desse conta. Os festejos daquela noite puseram a prova o auto controle de Morgan. Jane lhe seguia tenazmente, e a rainha lhe olhava com a intensidade de uma ave de caça. Apesar disso, ele se mostrou como o mesmo de sempre, conversando, flertando e atendendo com toda cortesia a Lady Jane. Quando chegou o momento em que devia escapulir da festa, esperou que chegasse a ocasião precisa. Foi quando Lorde Harley tirou Jane para dançar. —Estarei na sala de jogos —disse, enquanto Harley levava Jane. Quando o casal dava seus primeiros passos na pista de baile, Morgan se encaminhou pausadamente 296


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para a sala de jogos. Mas não se deteve ali. Saiu pela outra porta à sala de espera e deslizou com cautela para o corredor. Aos poucos minutos saía à rua por uma porta lateral, onde tinha tido a previsão de dispor que lhe esperasse uma carruagem preparada para partir. O atento chofer avançou com a carruagem para o portão e Morgan saltou dentro, indicando que o levasse a Billingsgate. Chegaram ao porto sem contratempo, apesar da noite estar escura e as ruas, escorregadias de chuva, e Morgan desembarcou de um salto. A carruagem se afastou estralando, tinha-lhe pago com antecipação. Correu para o mole onde estava amarrado o Vingador. Não tinha dado mais que uns poucos passos quando se deteve bruscamente. Levou uma boa surpresa ao ver que o Vingador tinha largado amarras e estava ancorado mais à frente, no meio do Tâmesis. Mas ainda se surpreendeu mais quando viu o guarda do palácio patrulhando pela zona. —Maldita seja Isabel e sua desconfiança —balbuciou entre dentes, e se escondeu atrás de um montão de barris que havia à porta de uma adega. Resultava evidente que a rainha suspeitava que ia tentar escapar de seu compromisso. Não sabia por que motivo Stan Crawford tinha afastado o navio até o Tâmesis, mas teria podido jurar que tinha algo a ver com a patrulha de guardas. O cérebro de Morgan trabalhava a toda velocidade. Crawford era um homem ardiloso. Provavelmente tinha pensado que seria mais fácil escapar de seus vigilantes se esperava com o navio ancorado no meio do Tâmesis, aonde seria mais difícil chegar os guardas da rainha. Além disso, assim ficava fora do alcance dos disparos de mosquete. O único inconveniente era que Morgan tinha que encontrar a forma de chegar ao navio antes de que a maré lhes pusesse contra. De repente, os cascos de um cavalo ressonaram pelo pavimentado e o cavaleiro chamou o capitão da guarda. Estiveram um bom momento falando, e quando o cavaleiro se foi, o capitão reuniu seus homens para lhes dar novas

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instruções. Morgan sabia, sem necessidade que o dissessem, que sua ausência de Whitehall tinha sido advertida, e que Isabel tinha suposto certeiramente que se dirigia a Billingsgate, a seu navio. De repente a patrulha se dispersou e começou a procurar minuciosamente por todo o mole. Morgan soltou uma violenta maldição. Se não fizesse algo rápido, iriam agarrá-lo como um rato em uma armadilha. Não tinha mais escolha que tentar escapar como fosse e confiar em sua sorte, se é que não queria passar o resto de seus dias na Torre de Londres. Esperou que passasse uma nuvem por diante da lua para sair arrastando-se de detrás dos barris. Correu como se o demônio lhe pisasse nos calcanhares. O som de suas botas contra os paralelepípedos ressonava com força na escuridão, e esperou atemorizado que se elevasse uma voz de alarme. Já quase tinha chegado ao extremo do mole quando foi descoberto. —Aí está, peguem! Ouviu-se um trovejar de pisadas a suas costas e assobiaram projéteis por cima de sua cabeça e a seu redor. Antes de chegar ao final do mole se desprendeu de sua casaca e mergulhou nas águas fétidas e cheias de resíduos. As balas sacudiram furiosamente o ponto no que se inundou bem fundo. Mas não o bastante fundo. Uma bala lhe acertou na coxa. Ouviu um desagradável estalo e logo a dor o sacudiu. A água congelada lhe impediu de desmaiar. Apertando os dentes para vencer seu sofrimento, pôs-se a nadar para o navio. Por sorte, estava já fora do alcance dos mosquetes. Mas quando se voltou para olhar atrás viu a patrulha na ribeira procurando um bote. Esforçando-se em não fazer caso do abrasador martírio de sua ferida e o peso morto de sua perna inutilizada, Morgan esticou os braços e nadou para escapar dali com vida. Uma das vezes que tirou a cabeça para puxar ar viu um titilar de luzes no Vingador e imaginou se a tripulação tinha ouvido o alvoroço do mole. Então ouviu um salpicar de remos a suas costas e compreendeu que seus perseguidores tinham

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encontrado um bote e vinham rapidamente a sua retaguarda. Nadou com mais força. Na ponte do Vingador apareceram uns faróis. —Morgan, onde está? —bramou Crawford para a escuridão da água. Morgan gritou em resposta, surpreendendo-se de quão débil soou sua voz. Mas Crawford devia tê-lo ouvido, porque fazendo alto-falante com as mãos ao redor da boca uivou: —A âncora, Capitão! te agarre à cadeia da âncora e lhe içaremos a bordo! Morgan, quase exausto, chegou até o navio e encontrou a cadeia da âncora. Pendurou-se desesperadamente no frio metal, consciente de que à tripulação não dava tempo de arriar um bote com a patrulha da rainha lhe perseguindo. Agora seus perseguidores estavam tão perto que se ouviam suas vozes. Supôs que ficariam outra vez a disparar, e se preparou para o brutal impacto de outra bala. Sem pressa, mas sem pausa, a âncora começou a elevar-se, tirando Morgan daquelas águas poluídas. Logo sentiu que várias mãos o içavam pela amurada enquanto os marinheiros andavam daqui para lá, assegurando a âncora e desdobrando as velas. Um agradecido sopro de vento inchou a lona, e a ascensão da maré levou o Vingador pelo Tâmesis até o Canal. Da distante arremata, os guardas da rainha agitavam os punhos e lançavam maldições à presa que lhes escapava. A rainha não ia estar nada agradada. —Esteve… muito perto —disse Morgan, tremendo pela dor e a debilidade. —Está bem? Movemo-nos ao Tâmesis quando vimos a guarda do palácio patrulhando pelo mole. Imaginei que estavam te procurando, e esperava que encontraria a forma de chegar até onde estávamos. Parecia a única possibilidade que tínhamos de escapar. Temia que a patrulha subisse a bordo e nos impedisse de nos fazer ao mar. —Sabia… que podia contar contigo —grunhiu Morgan, ao tempo que tentava levantar-se. Lançou um agudo grito de dor e desmoronou sobre a coberta. Crawford correu para lhe ajudar— Acredito… que tenho… a perna ferida. Essas foram suas últimas palavras antes de desmaiar. 299


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Cádiz a Espanha Julho de 1588 Luzia brincava nervosamente com o laço que adornava seu vestido enquanto seu pai dava passeios circulares pela elegante sala. O pai Pedro permanecia junto à porta com as palmas das mãos religiosamente juntas sob as amplas mangas de sua túnica. Luzia tinha chegado a casa no dia anterior e se colocou imediatamente na cama, exausta da tormentosa travessia da Inglaterra. Seu pai parecia encantado de vê-la, mas se mostrou emocionado quando lhe disse que vinha da Inglaterra e não de Havana. Ele levava todos esses meses convencido de que Luzia se casou com Dom Diego e ao Morgan o tinham despachado ao outro mundo. —E diz que esse filho da Grã-Bretanha te raptou do palácio de Dom Diego? — repetiu Dom Eduardo com incredulidade— Não posso acreditar que tivesse a audácia de tentar sequer algo semelhante. É um homem do mais surpreendente —admitiu com inapetência. —É certo que Morgan é um homem surpreendente, pai —concordou Luzia—A rainha da Inglaterra lhe pressionou para que anulasse nosso matrimônio e se casasse com uma aristocrata inglesa, mas não estou segura de que ele o fizesse. —Isso dá igual —interrompeu o pai Pedro— Tenho assuntos que tratar em Roma, e quando estiver ali apresentarei uma súplica em tua mediação ao Santo Pai. —Estarei-lhe eternamente agradecido, pai Pedro —disse Dom Eduardo, veemente— Estou em dívida com você por ter trazido minha filha desde odioso país. —Sacudiu a cabeça com ar pesaroso— E eu que todos estes meses pensava que era a esposa de Diego de Fujo… —Eu vou retirar-me, Dom Eduardo. Tenho que informar a meus superiores antes de empreender viagem outra vez.

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—Diga a seus superiores que vou fazer uma doação a sua ordem em agradecimento por sua ajuda. Além disso, lhe recompenssarei pessoalmente pelos serviços que me emprestastes. Me mantenha, por favor, informado das conversações que tenha com o Santo Pai sobre o assunto de Luzia. —Bom, Luzia —disse Dom Eduardo, quando o jesuíta se foi— parece que te colocaste em um bom apuro. Arturo e Celestino acreditavam que

tinham

solucionado tudo te casando com esse pirata, sem suspeitar que viveria para te reclamar como esposa. —Onde estão meus irmãos? —perguntou Luzia. —Partiram com a armada —disse com orgulho Dom Eduardo— Logo que tivemos notícias sobre a marcha da expedição, mas suspeito que já devem ter se reunido com as tropas de terra do Duque de Parma e estarão em chão inglês. Luzia calou sobre o que opinava. Pelo que ela tinha visto, a frota inglesa era uma força muito considerável e não ia resultar fácil derrotá-la. —Mas estamos aqui para falar de você, querida. No que a ti respeita sinto perdido. O que devo fazer contigo? Possivelmente Dom Diego aceite ainda casar-se contigo quando tivermos arrumado a anulação. Os olhos de Luzia se acenderam de ira. —Dom Diego é um porco libidinoso, pai! Enganou a meus irmãos para que acreditassem que ia se casar comigo, mas o que queria era que fosse sua amante. Dom Eduardo ficou espantado. Era dificil acreditar que um homem tão destacado como Dom Diego pudesse atuar de maneira tão vil. —Seguro que não entendeu bem o que pretendia. —Não, pai, entendi perfeitamente. É exatamente como lhe digo. Não me casarei com Dom Diego por mais que se anule meu matrimônio com Morgan. Preferiria me retirar ao convento e dedicar minha vida à oração. Luzia se absteve deliberadamente de falar com seu pai de sua gravidez. Tinha medo de que se empenhasse em que renunciasse a ele; mas pressentia que assim que tivesse sido aceita no convento, e fora de sua vista, seu pai se esqueceria dela

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por completo. Era um homem muito ocupado, estava muito imerso em sua própria vida para andar preocupando-se com ela. Rezou para que pudesse lhe convencer de que contribuísse com uma quantia generosa para sua manutenção, porque assim as boas irmãs a deixariam viver anonimamente entre seus muros. —Vou mandar o mais veloz de meus navios a Havana para pôr a Dom Diego à corrente dos últimos acontecimentos. Ainda tem o dinheiro de seu dote. É possível que não queira desprender-se dele. Suspeito que esse é o motivo de que não me tenha escrito uma só palavra sobre seu rapto de Havana —disse sagazmente Dom Eduardo. —A mim o dote não interessa. Dê às monjas se lhe devolver isso; elas lhe darão bom uso, e me proporcionarão um teto para o resto de minha vida. —Vamos chegar a um acordo, filha. No momento pode ir ao convento, e eu me encarregarei de compensar às monjas por fazer-se cargo de ti. Entretanto, se seu matrimônio esteja disolvido, e Dom Diego ainda te querer, te entregarei a ele. Mas não para que seja sua amante, filhinha, disso me encarrego eu. Terá que casar-se contigo por poderes, ou se não em pessoa como está mandado, antes de que eu te permita agarrar um navio para Havana. Tem que ser tudo legal e vinculante. Não te vai fazer sua amante. —Mas eu não gosto de Dom Diego. É um calhorda. —Julga-o com muita dureza, filhinha. Lembre-se que o que ele esperava era uma noiva virgem. Estou seguro de que teria cumprido com a sua promessa. Teria sido conveniente que Dom Diego te tivesse feito viúva assim que chegassem a Havana. Por isso agradeço e, mais que nenhuma outra coisa, por que não concebesse um filho desse pirata. Não teria podido suportar semelhante insulto. Minha dignidade teria ficado para sempre destruída. —Partirei amanhã, pai. Acredito de verdade que o convento é o melhor lugar para mim. Os pensamentos de Dom Eduardo foram já por outros roteiros.

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—O que? Pode que tenha razão, querida. Disporei os preparativos para sua marcha e direi à Reverenda Mãe que te trate como convidada. Nunca quis que se fizesse monja. —Obrigado, pai. —E, beijando-o na bochecha, Luzia se foi rapidamente. Um torvelinho de pensamentos a assaltou assim que deixou seu pai. Levando como levava um menino dentro dela, já não lhe era facil fazer-se monja. Sempre se tinha levado bem com a Reverenda Mãe, e Luzia sabia que protegeria seu segredo. Não era a primeira vez que uma mulher casada procurava refúgio entre os muros do convento. Em ocasiões era o próprio marido o que enviava sua mulher a um convento se pensava que lhe tinha sido infiel. Tampouco seria o seu, o primeiro menino nascido em semelhantes circunstâncias. Luzia tinha toda a intenção de pôr à Reverenda Mãe à par de sua gravidez assim que chegasse o momento. Em uns poucos meses não teria já eleição. Quando tivesse nascido o menino decidiria se o criava na aprazível atmosfera do convento, ou se empreendia uma vida por sua conta. E como era o suficientemente preparada para compreender que tinha que pensar no futuro, levaria todas as joias de sua mãe, que por lei, lhe pertenciam, escondidas entre seus pertences. Era possível que um dia decidisse abandonar o convento com seu filho e deixar de depender de seu pai. Aquelas valiosas joias bastariam para mantê-los sem luxos. Mas Luzia se equivocava ao pensar que seu pai ia se esquecer dela. Não tinha passado uma hora desde sua conversa quando Dom Eduardo tinha escrito uma carta a Dom Diego de Fujo e a tinha despachado a Havana no mais veloz de seus navios. Se aquela missiva não conseguia trazer Dom Diego de Havana, nada poderia fazê-lo. Dom Eduardo conhecia bem ao que devia ser seu genro. Diego de Fujo não ia devolver tão facilmente um dote tão suculento como o de Luzia. Ilha de Andros

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Agosto de 1588 Morgan se revolvia inquieto na cama revolta. Seu corpo enfebrecido e seus olhos injetados em sangue davam lúgubre testemunho de quão doente estava. Uma bala de mosquete lhe tinha feito pedacinhos um osso da coxa, e logo lhe sobreveio uma infecção feroz por culpa da contaminação das águas do rio. Manteve-o prostrado na cama várias semanas. A bordo do Vingador tinham conseguido lhe extrair a bala e lhe tinham colocado o osso, mas não se pôde fazer nada para impedir o acesso da febre que lhe deu quase imediatamente. Stan Crawford tinha tomado a decisão de levar Morgan a Andros, onde Lani poderia cuidar dele, em lugar de navegar diretamente para Cádiz. O estado de gravidade de Morgan conferia a Stan autoridade para variar o rumo; mas quando Morgan se recuperou o bastante para compreender que estava em Andros, ficou lívido. —Por todos os infernos, Morgan, não estava em condições de ir a Espanha. Se nem sequer pode andar. —A tentativa que fez Stan de aplacar Morgan foi acolhido com uma esplêndida demonstração de temperamento. —Maldito seja, Stan! Já me recuperarei. —Na tensa mandíbula de Morgan se via mover um nervo. Por mais que ele resistisse a admiti-lo, a dor do osso quebrado era insuportável, e a ferida infectada estava demorando para curar-se. —É um bobo —disse Stan, sacudindo a cabeça— Luzia te esperará. Deveria estar agradecido de que Lani tenha devolvido-lhe à vida. Essa medicina dos nativos que lhe deu é muito eficaz; no navio não tínhamos nada comparável. Logo iremos a Espanha quando tiver a perna bastante curada para andar, pode ser que dentro de cinco ou seis semanas. Morgan reconhecia as palavras de Crawford, mas não era capaz de as aceitar de qualquer jeito. Cada dia que passava prostrado na cama era um dia mais sem Luzia.

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Perguntava-se desanimado onde estaria ela agora. Estaria feliz? lembraria-se dele, embora só fosse um pouco? Amaldiçoou seu destino por lhe ter negado um momento propício para dizer a ela que a amava. Para ele esse sentimento era tão novo, tão absolutamente assombroso, que lhe era difícil expressá-lo. Tinha falhado a Luzia, e isso não ia poder se perdoar nunca. Teria partido ela, da Inglaterra, acreditando que não lhe importava o mínimo? Ele era o primeiro a admitir que não tinha sido o melhor marido do mundo. Tinha tentado cumprir com seus deveres para a rainha, e nessa tentativa tinha perdido à mulher que amava. Por todos os infernos! Havia-lhe sido dificil acostumar-se à ideia de que estava apaixonado por uma espanhola. Levava tanto tempo odiando os espanhóis, nem sequer era capaz de lembrar-se de quando ainda não os odiava. Estar com Luzia tinha sido para ele uma lição de humildade. Sua ânsia de vingança era agora uma carga terrível para ele. Luzia era doce e generosa, e incapaz de cometer atrocidades como as que ele tinha experimenado à mãos de seus compatriotas. A contra gosto teve que admitir que nem todos os espanhóis eram como os que tinham matado a sua família e o tinham feito escravo. Certamente que o navio no que ele passou cinco tristes anos de condenação pertencia ao pai de Luzia, mas Morgan tinha tomado a revanche muitas vezes. Tinha saqueado mais navios da frota dos Santiago do que de nenhuma outra. E agora tinha chegado o momento de esquecê-lo e seguir adiante com sua vida. Sua mais corrosiva inquietação era que Luzia se negasse a deixar atrás o passado e ser sua esposa para o resto de sua vida. Aquela monjinha não tinha nascido para converterse em Santa. Tinha dentro muita paixão e muito fogo para empalidecer e murchar enclausurada entre altos muros. Ele a necessitava; morria por ela; por ela chorava seu coração. A felicidade conjugal. Morgan quase põe-se a rir alto ante semelhante estampa. Juntos, Luzia e ele resultavam explosivos. Tanto na cama como fora dela. A vida não 305


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seria jamais aborrecida se tivesse a sua veemente esposa consigo. Onde outros homens podiam achar aborrecido o matrimônio, ela o mantinha enfeitiçado. É obvio que teriam filhos, entusiasmou-se. Amaldiçoou sua própria estupidez quando compreendeu como tinha ferido Luzia ao lhe dizer que não queria nenhum filho dela. Oh, um porco arrogante que tinha sido. Nunca o perdoaria se aquelas palavras desalmadas lhe acabavam custando a sua esposa. As semanas passavam rápidas. Preso a cama por causa de sua ferida, Morgan amaldiçoava sua debilidade e sua incapacidade de ir de Andros. Não podia ir a Espanha e reclamar sua esposa, e tinha medo de que no ínterim Luzia lhe esquecesse; e teria perdido a sua espanhola para sempre.

Capítulo 20 Cádiz, Espanha Outubro de 1588

—Vou baixar contigo a terra, Morgan, por muito que proteste. Já sei que acredita que tem a perna curada, mas ainda não recuperou sua capacidade de movimento. Necessita-me para que o recolha quando, e se cair. Morgan lançou a Stan um olhar desesperado. —Por todos os demônios, Stan, se não fosse por esta claudicação, tenho a perna curada quão posso chegar a tê-la. Não necessito nenhum enfermeiro. —Fala o que quiser, que vou contigo igualmente. Não falo espanhol tão bem como você, mas te deixarei falar. Se Luzia não está em sua casa com seu pai, pode que tenhamos que viajar até o convento. E você não sobe em um cavalo desde que quebrou a perna. 306


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—O navio… —Não há nenhum perigo. Içamos a bandeira espanhola, e Withers tem capacidade para controlar à tripulação se chegar o caso. Temos suficiente homens que falam espanhol para evitar despertar suspeitas caso se metam com as autoridades portuárias. Além disso, como resultado da falta da expedição contra Inglaterra, Espanha está sumida em tal caos que ninguém vai se fixar em um navio a mais no porto. —Muito bem —disse Morgan, impaciente por desembarcar. Aquela peste de suas feridas já lhe tinham feito atrasar-se muito— Vamos. Luzia olhava taciturna pela janela de sua minúscula cela. Os dias estavam voltando mais frios, mas entre os altos muros de pedra sempre fazia fresco e um pouco de umidade. Amassou-se no xale que levava nos ombros. O pensamento desviava para suas proibidas lembranças de Morgan. Tinha rezado longa e intensamente para extinguir as persistentes brasas de sua paixão por ele, mas seus rogos tinham tido um resultado bem escasso. O bebê que albergava junto ao coração era um aviso constante do amor que sentia pelo pai desse filho. Não tinha previsto que esse amor intenso lhe contribuiria essa pequena vida que ia depender em tudo dela. Nos três meses que levava no convento, sua gravidez se fez notar da maneira mais básica. Com a ajuda de Renalda, tinha aumentado quase todos seus vestidos. A Reverenda Mãe se assustou quando lhe contou que estava grávida, mas o tinha aceito de bom grado, como Luzia estava segura de que faria. E, como ela tinha previsto, seu pai não foi visitá-la, e nem perguntou como se encontrava, embora continuou contribuindo com a sua manutenção. Seus irmãos sim, que a tinham ido ver, pouco depois de retornar a Espanha, com os restos da armada destroçada. Sua inexplicável derrota à mãos dos ingleses tinha sido um golpe para sua moral, e contaram a Luzia que iriam embarcar 307


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imediatamente para o Novo Mundo, onde, conforme tinham ouvido, havia ouro até debaixo das pedras. Quando lhe descreveram o que tinham sofrido e os ventos adversos que sopraram para sua desafortunada expedição, Luzia pensou que tiveram sorte de ter podido voltar para sua terra com vida. Depois dessa visita, Luzia caiu em um aborrecimento agradecido, dedicando seus dias a rezar, embora nem as rezas conseguiam curar a dor de seu coração. Então se fez amiga de uma mulher a quem seu pai tinha banido ao convento. Renalda tinha nascido no seio de uma família rica e poderosa. Logo que nasceu a tinham prometido em matrimônio ao um homem de sua mesma posição social, e teria casado com ele ao cumprir os dezoito se não tivesse cometido o imperdoável engano de apaixonar-se por Antonio, o filho de um vaqueiro. Em uma busca desesperada pela felicidade, escaparam juntos, com a intenção de encontrar um padre que os casasse em algum povoado onde ninguém os conhecesse. Mas seu pai e o homem ao que estava prometida os tinham seguido. Antonio tinha morrido ao derrubar sua carruagem durante a perseguição. Por sorte ou por desgraça, Renalda só sofreu alguns machucados. Como Antonio e ela tinham dormido uma noite juntos, foi rechaçada por seu prometido, e seu pai lhe deu uma surra e a mandou ao convento. Renalda, como Luzia, não era nem monja nem noviça. Mas ao contrário de Luzia, que estava ali por própria vontade, Renalda se sentia prisioneira entre os muros do convento, do que não podia sair sem a permissão de seu pai. Luzia por sua parte sabia que nunca ia voltar a apaixonar-se, e por isso preferia ficar com as irmãs religiosas. Uns golpes na porta despertaram Luzia de seus pensamentos. Quase imediatamente a porta se abriu, e apareceu na soleira uma jovem magra de cabelo negro e brilhante, olhos escuros e uma cútis tão transparente como a porcelana fina. Luzia saudou Renalda com um sorriso, e com um gesto a convidou a entrar.

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—Necessita algo antes de que me retire? —perguntou-lhe Renalda com preocupação. Tinha medo de que Luzia não estivesse comendo o suficiente para alimentar a si mesma e ao filho que levava dentro. —Nada, muito obrigado —respondeu Luzia— a menos que goste de ficar um momento aqui comigo. Renalda a olhou com olhos nostálgicos. —Sente falta do pai de seu menino. —Era uma afirmação, não uma pergunta. —Tenho que aprender a viver sem Morgan —disse Luzia com voz rasgada. Com todo o tempo que tinha passado, ainda lhe resultava doloroso falar do homem que amava— Se eu lhe importasse teria vindo me buscar. Já o tinha feito outras vezes, correndo maiores riscos ainda —sacudiu a cabeça com tristeza— Não, Renalda; Morgan já deve estar casado com Lady Jane. Isso é o que sua rainha queria que fizesse. Renalda tomou a mão de Luzia entre as suas e a apertou. —Quando tiver nascido o menino poderá partir daqui e encontrar um novo amor, enquanto que eu o mais provável é que morra velha sem ter podido pôr um pé fora destes muros. —Se resolver partir te levarei comigo —lhe prometeu Luzia. Renalda suspirou desanimada. —Temo que isso é impossível, mas sua amizade é tudo para mim. É o único que me ajuda a manter a prudência. Pelo menos, você terá um menino que a recorde de seu amor, enquanto que eu… —Se encolheu expresivamente de ombros—Tenho que ir. Prometi à irmã Maria fazer a massa do pão para amanhã. —Boa noite, Renalda, vá com Deus. —Subornar ao criado de Dom Eduardo foi uma jogada magistral, Morgan — disse Stan enquanto foram deixando atrás Cádiz— É um homem açoitado e puseram preço a sua cabeça. Se tivesse revelado sua identidade a Dom Eduardo, seguro que te teria denunciado às autoridades.

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Depois de averiguar que Luzia estava vivendo no convento, tinham passado a noite em uma estalagem aos subúrbios de Cádiz e se puseram a caminho no dia seguinte ao despontar a alvorada. Morgan conduzia uma calesa de aluguel. Para seu desgosto, sua perna era ainda incapaz de suportar a prova de montar um cavalo. Stan ia sentado na calesa a seu lado, e atrás tinha amarrado um cavalo que lhe levaria de volta ao Vingador quando Luzia ocupasse seu lugar no carro junto a Morgan. —Por isso preferi falar antes com os criados. A maior parte das pessoas fariam algo por certa quantidade de dinheiro. Quão único quero é encontrar

Luzia,

convencê-la que me importa e irmos embora deste diabólico país o quanto antes possível. Morgan pensou que era uma tarefa imensa, mas não o disse. Luzia e ele levavam tanto tempo separados que o mais provável era que ela acreditasse que a tinha esquecido. Ia ter que fazer uso de todos seus recursos se queria convencê-la de que era a única mulher a que tinha querido. Renalda suspirou de cansaço enquanto colocava um tecido limpo por cima da última sesta de massa. Quando amanhecesse estaria pronta para colocá-la no forno. Uma de suas tarefas preferidas era ajudar na cozinha. Manter-se ocupada a ajudava a esquecer o aborrecimento daqueles dias sempre iguais. A irmã Maria já tinha sese retirado, e ela se dispôs a fazê-lo. Os corredores estavam escuros e solitários. As irmãs se levantavam cedo, e estavam acostumadas a recolher-se imediatamente depois das orações vespertinas. Renalda estava desejando deitar-se em sua própria cama, porque só em sonhos era capaz de esquecer do jovem que tinha morrido por sua causa. Renalda tinha sentido por Antonio um amor sincero, mas eram os dois muito jovens. Nunca poderia esquecer seu encantador sorriso e a suavidade de seu caráter. Ser a causa de sua morte lhe tinha resultado muito traumático. O convento lhe

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pareceu ao princípio um céu aberto, mas em seguida se converteu em um cárcere. Ela era jovem, sentia o desejo de viver fora do confinamento daqueles muros. Rezava diligentemente para que seu pai cedesse por fim um dia e viesse procurá-la, pondo fim a seu isolamento. Era sua única possibilidade de sair do convento antes que a morte viesse liberá-la. De caminho para sua cela, os passos de Renalda ressonavam nitidamente pelo corredor silencioso. Levou um susto tremendo quando ouviu ruídos na entrada. Aquelas horas da noite era estranho que chegassem visitantes, e mais ainda que os deixassem entrar. Quem quer que estivesse batendo na porta, o fazia com muita insistência. Como não parasse logo, ia despertar de má maneira à Reverenda Mãe e a todas as irmãs. E Renalda não queria que isso ocorresse. Com a única preocupação de manter a paz entre os muros do convento, Renalda abriu de um puxão o pesado portão de carvalho e correu para a entrada. A noite estava fresca, e se estremeceu. De repente se deu conta de que não estava tremendo de frio, mas sim de espera. Nunca havia sentido nada parecido, e se aproximou com um sentimento de predestinação. Ou era medo o que sentia? Era um sentimento que não conseguia definir. A porta trancada era de carvalho maciço. No centro tinha uma portinha que se abria de dentro e permitia à irmã porteira dar um olhar aos visitantes. A Renalda tremiam as mãos quando abriu a mira e escrutinou a escuridão do exterior. À luz da lua cheia vislumbrou entre as sombras ao alto cavalheiro que havia do outro lado da porta. —O que quer? É tarde, todo mundo está na cama. Não se permitem visitas depois de que anoiteça. Em espanhol fluido, Morgan respondeu: —É imprescindível que veja minha esposa. —Sua esposa? Então é um engano. Não há ninguém aqui que… —A Renalda falharam as palavras. A única mulher casada que havia naquele momento no

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convento era Luzia. Seria possível que aquele homem fosse seu marido? Que o arrumado cavalheiro que queria entrar fosse o pirata ao que chamavam o Diabo? Mãe do amor formoso, não era de se estranhar que Luzia se apaixonasse por ele. —Sei que Luzia está aqui. Luzia Scott, minha mulher. Possivelmente a conheçam por Luzia Santiago. —Você é o pirata de Luzia? Morgan sorriu com gesto divertido. —Sim. Vai abrir a porta? —Não. Isso não muda nada. É muito tarde para visitas. A Reverenda Mãe não admite visitantes uma vez que anoiteceu. Terá que voltar amanhã. —Possivelmente possamos encontrar estalagem no povo para passarmos a noite, e voltar aqui amanhã —sugeriu Stan dando um passo para diante e ficando à vista de Renalda. Até que Stan fez notar sua presença, Renalda não se deu conta de que Morgan tinha companhia.

Ficou olhando Stan na penumbra, encontrando-o quase tão

arrumado como o marido de Luzia. Nenhum deles parecia tão temível como pintavam os rumores. —Não, eu não vou —disse Morgan com firme determinação— Quero ver luzia, e quero vê-la agora. Deixe-nos entrar, Irmã, ou tenho que escalar o muro? Renalda tragou saliva nervosamente. Seu instinto lhe advertia que nada poderia deter o inglês que se empenhava em entrar. Mas precisava assegurar-se de que abrir a porta ia ser o melhor para Luzia. —Para que quer ver luzia? Eu sou amiga dela, e não quero que lhe faça mal. —Olhe, Irmã… —Não sou monja. Estou aqui como convidada, igual a Luzia. —Muito bem, senhorita… —Renalda. Renalda Cortês. —Senhorita Renalda. Minha mulher não tem nada aqui. Onde tem que estar é comigo. Vim procurá-la para levá-la para casa. —Para casa? A Inglaterra? Morgan e Stan se olharam significativamente.

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—Não. A Inglaterra não. Eu já não sou bem-vindo ali. Levarei Luzia à ilha de Andros, nas Bahamas. E agora, senhorita, deixe-me entrar? Renalda se sentiu dividida. Sabia que Luzia seguia apaixonada por seu pirata inglês, mas, segundo lhe tinha contado, Morgan odiava aos espanhóis e não queria nenhum filho de sangue espanhol. Debateu-se entre deixar entrar o inglês sem permissão de Luzia e insistir em que voltassem no dia seguinte. —Senhorita, se o que lhe preocupa é que possa fazer algum dano a minha esposa, pode se tranquilizar. Luzia me importa no mais fundo. Não sei o que lhe terá contado ela, mas mudei muito. Por um capricho do destino ela é minha esposa, e eu… —lhe resultava difícil despir sua alma ante uma desconhecida, mas queria que a amiga de Luzia compreendesse a profundidade do que sentia por sua mulher— a amo. Se ela me perdoar, penso dedicar o resto de minha vida a fazê-la feliz. A sinceridade de Morgan impressionou Renalda. Algo na expressão do pirata lhe disse que seu amor por Luzia era dos que não se apagam com o tempo. Se a amasse assim um homem, seria a mais feliz das mulheres. —Muito bem, senhor, deixarei-lhe entrar e ver luzia, embora o mais provável é que por isso ganhe um severo castigo da Reverenda Mãe. Empurrou a um lado a pesada tranca e abriu a porta de par em par. Morgan entrou, com Stan atrás. —Como se chega ao quarto de Luzia? —perguntou Morgan. Levava tanto tempo esperando esse dia que com muita dificuldade conseguia conter a excitação. Renalda o escrutinou entreabrindo as pálpebras. De repente, a aparição de Morgan lhe pareceu um sinal de Deus. Sua acordada mente viu naquilo sua via de escape da insustentável situação que lhe tinha imposto seu pai. Seus olhos brilharam desafiantes na escuridão, e elevou o queixo para enfrentar Morgan. —Não lhe vou dizer isso. E não poderá averiguá-lo por você mesmo sem despertar a todo o convento. Os corredores são um labirinto de pequenas celas, todas ocupadas por irmãs e noviças.

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Morgan franziu encolerizado os olhos. Agarrou Renalda pelos ombros e lhe pegou uma violenta sacudida. Renalda tremeu, mas se manteve obstinadamente calada. —Para que me deixou entrar se não pensa me dizer onde está Luzia? —Morgan, não lhe faz mal —advertiu Stan. Dirigiu-se a Renalda em tom suave — Me chamo Stan Crawford. Deve ter alguma razão para negar a Morgan o que lhe pede. —Falava o espanhol titubeando e não tão bem como Morgan, mas ao que parecia, Renalda lhe entendeu. Mas Renalda tinha a boca seca, era incapaz de formular uma resposta. —Entende-me, Renalda? Por que não leva Morgan onde está Luzia? —Irromperei em todos os quartos do convento se for necessário —ameaçou Morgan. Renalda ficou lhe olhando. Teve que umedecer os lábios com a ponta da língua para poder falar. —Só lhe direi onde está se me prometer me levar com você. —Como! Sem dúvida está brincando. —As palavras de Morgan estavam cheias de estupefação— O que diria sua família? —Para minha família estou morta —disse Renalda com tristeza— Cometi um pecado terrível. Repudiaram-me e me mandaram aqui como castigo. Provavelmente vou passar o resto de minha vida atrás destes muros. —Jovem do jeito que é. Que terrível pecado é o que cometeu? —perguntou Stan. Renalda baixou a cabeça, envergonhada. Não conseguia encontrar as palavras para contar a aqueles autênticos desconhecidos a causa de que sua família tivesse renegado dela. —O que importa agora meu pecado. Só lhe peço que me leve com você. Luzia e eu somos amigas. Eu posso ser de grande ajuda para ela. Vai necessitar dos cuidados de uma mulher. Morgan parou em seco. —O que quer dizer?

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Renalda ficou calada. Não era ela a quem correspondia dizer a Morgan que estava a ponto de ser pai. —Por todos os demônios! Só me diga onde posso encontrar Luzia. Levá-la conosco não podemos, é impossível. —Pois eu digo que sim a levemos —disse pausadamente Stan. Naquela jovem havia algo que lhe tinha chegado ao mais fundo. Se Renalda estava tão desesperada por escapar do convento, Stan não encontrava razão para não ajudá-la. Morgan entreabriu os olhos. Nunca tinha visto Stan tão empenhado em ajudar a uma mulher em apuros. —Não penso carregar essa responsabilidade. Puseram preço a minha cabeça, e nos espreitam mil perigos neste país estrangeiro. Disse ao Stan em inglês; Renalda olhava a um e logo ao outro, desejando ser capaz de entender o que diziam. Era evidente que estavam falando dela. —Eu me faço responsável por ela —aduziu Stan. Morgan não tinha tempo, nem vontade de ficar ali falando com Stan. A impaciência o estava incomodando. Estava tão perto de alcançar seu objetivo que teria acessado ao que fosse. —Muito bem, mas te assegure de que não cause problemas. No caminho para cá, vi uma estalagem na vila de Lebrija. Que deem habitações para todos nós. Eu irei com Luzia assim que possa. —Obrigado, Morgan. Não sei por que, mas tenho a sensação de que isso é o que devemos fazer. —voltou-se para Renalda e lhe explicou com suavidade—Vamos levá-la conosco. Nos olhos de Renalda brilharam lágrimas. Até a chegada daqueles ingleses, tinha tentado encontrar uma maneira de escapar do convento. Sentiu-se tão agradecida que abraçou Stan, lhe molhando a casaca. A impaciência pôde mais que Morgan. —As indicações que ia me dar, senhorita Renalda. Como posso encontrar Luzia?

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Renalda secou os olhos e lhe deu explicações precisas de como chegar à sóbria cela de sua esposa. —A porta não está fechada com chave, senhor —lhe disse— Não nos permite muita intimidade. Morgan assentiu secamente e, girando sobre seus pés, internou-se na escuridão, enquanto Stan cruzava com Renalda a porta do convento, levantava-a a seu cavalo e montava a sua vez atrás dela. —Aonde vamos? —perguntou ela, sem fôlego. —Vamos a aldeia, onde esperaremos Morgan e Luzia —lhe explicou Stan. Seu braço se curvou possessivamente sobre a cintura de Renalda, e súbitamente sentiu que desejava aquela mulher. Endureceu-se imediatamente, perguntando-se se Renalda seria ainda virgem, ou se acaso seu "terrível" pecado teria tido por resultado a perda da inocência. Morgan percorreu sigiloso os corredores desertos, seguindo ao pé da letra as indicações de Renalda. Tudo estava escuro, salvo pelas velas que ardiam em cada intercecção, que iluminavam Morgan o suficiente para girar onde tinha que girar e para ir contando as portas que havia a cada lado dos largos corredores. Quando por fim chegou onde Renalda lhe tinha indicado, deteve-se puxando o ar para tranquilizar-se e girou o trinco. A porta se abriu sem ruído e ele entrou. Um brilhante raio de lua derramava pela janela. Como já tinha a vista feita à escuridão, não necessitou nenhum ajuste para ver Luzia junto à cama, envolta do pescoço até os pés em uma ampla camisola branca. Embebida em suas preces, Luzia não tinha ouvido o rangido da porta ao abrirse nem o som dos passos de Morgan ao aproximar-se. Hipnotizado pelos jogos da luz de lua sobre a cabeça inclinada de Luzia, Morgan ficou absolutamente imóvel, olhando-a com incontível desejo. Notou com alegria que lhe tinha crescido o cabelo, e agora lhe cobria os ombros como uma cortina negra. Estava descalça, e seus

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perfeitos e delicados pés eram a única parte visível de seu corpo, além das mãos e o rosto. Consumido por essa visão, Morgan parecia incapaz de mover-se, e até de pensar. Luzia rezava ferventemente, conforme tinha costume de fazer sem falta todas as noites antes de deitar-se. Rezava para que Morgan estivesse bem e feliz em qualquer lugar que estivesse, para que seu filho nascesse são, para que Renalda fosse algum dia liberada de seu encarceramento forçoso. Embora Luzia se resignou a uma vida austera, sabia que Renalda desejava algo mais. De repente, sentiu que não estava sozinha. O primeiro que pensou foi que era outra vez Renalda. —Me alegro de que tenha vindo passar um momento, Renalda —disse sem voltar-se— Termino em um instante. Suas palavras fizeram que os membros paralisados de Morgan relaxassem, e este se aproximou sem fazer ruído à cama a cuja beira estava Luzia ajoelhada. Sorriu ao recordar como passou de joelhos quase todo o tempo naqueles primeiros dias que passaram juntos. Ficou de pé atrás dela, tão perto que teria podido tocá-la com apenas alargar a mão. Seu aroma especial, docemente sedutor, mas sutilmente evasivo, deslumbravalhe além do suportável. Tremia-lhe a mão quando a posou com a maior suavidade sobre o ombro direito de Luzia. Sentiu o momento exato em que ela se dava conta de que era ele, e não Renalda, que tinha entrado em seu quarto: o corpo se pôs tenso e lhe acelerou a respiração. Então se voltou lentamente, com o nome de Morgan lhe acariciando os lábios em um suspiro estremecido. Luzia também foi consciente do preciso instante em que se deu conta de que Morgan estava em seu quarto, com ela. Sentiu o poderoso encanto de sua presença, percebeu o calor de seu corpo. Inspirou o embriagador aroma do couro, dos cavalos e de algo mais que só ele tinha. Sentiu a descarga elétrica de sua pele, e soube que não

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estava sonhando. Enquanto dava a volta, piscou assombrada pela sede que ardia no mais fundo dos olhos de Morgan. —Luzia… —Ajudando-a a levantar-se, ele cravou em seus escuros e inquisitivos olhos nos seus, levemente úmidos. Mas não tentou abraçá-la. No momento. Primeiro queria saber o que ela sentia por ele— Graças a Deus que te encontrei. Vivi um inferno desde que foi. Por que? Por que me deixou? Luzia tragou saliva com esforço. Como podia Morgan lhe fazer semelhante pergunta quando a corte inteira sabia que tinha estado perseguindo Lady Jane como se fosse um homem livre? A voz lhe saiu amarga. —Onde esteve todo este tempo, Morgan? Ainda estamos casados? Já fez Lady Jane sua nova esposa? A rainha deve estar entusiasmada. Lady Jane me disse que queria anular nosso matrimônio para poder se casar com ela. O que faz aqui? Acreditava que lhe tinha feito um favor ao partir. —Um favor! —esteve a ponto de gritar Morgan— Estava doente de preocupação por ti. Durante todas essas semanas que tive que passar prostrado na cama imaginava todo o tipo de coisas horríveis que lhe podiam ter passado. —Esteve doente? Feriram-lhe no mar? OH, Morgan, como o sinto. —Passou-lhe as mãos pelos ombros, pelos braços, pelo peito, procurando indícios de alguma ferida. Não encontrou mais que firmes músculos, e deixou escapar um comovido suspiro. Não teria podido suportar que estivesse ferido gravimente. —Alcançou-me uma bala de mosquete —disse Morgan sem entrar em detalhes — Não é nada, já está curado… Bom, quase —acrescentou, pensando naquela claudicação, que nem sabia se curaria algum dia. —OH, Morgan, para que veio? O que aconteceu com Lady Jane? —Importa-me um cominho Lady Jane. Nunca a quis. Você é a única mulher a que quis. Luzia desejava lhe acreditar, desejava-o de verdade, mas ficavam por resolver muitos assuntos que lhes impediam de ser felizes. E tinha o filho que ele não estava disposto a aceitar… 318


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—Eu sempre serei espanhola, Morgan —lhe recordou. —Isso já não me importa. Carreguei muito tempo com esse ódio, e chegou o momento de deixar para trás o passado, e me concentrar no futuro, em nosso futuro. Deste-me um prazer incrível cada vez que temos feito amor, Luzia, mas era um prazer culpado. Por causa de minha ânsia de vingança contra os espanhóis, lhe amar feria o meu orgulho e me enchia de angústia. Desejava-te desesperadamente, mas sentia que estava traindo a minha família, e a mim mesmo. Graças a Deus, já não tenho esse tipo de sentimentos. Agora meu coração é livre para te amar como você merece, Luzia. Quero-te, minha vida. Poderá me perdoar por todas as coisas terríveis que te fiz e que te disse? Luzia o contemplou estupefata. —Quer-me? Ama-me? —Sempre a quis. O que tenho que fazer ou dizer para lhe demonstrar isso. Não tem confiança em mim? —No momento em que essas palavras saíram de sua boca, Morgan achou-se um idiota. Que confiança podia ter Luzia nele, que não tinha feito nada para ganhá-la Luzia decidiu que a confiança era uma carga tremenda. Especialmente quando afetava a um filho inocente. O que sentiria Morgan por um filho ou uma filha deles que levassem sangue espanhol? —Maldita seja, Luzia, necessito-te! Me deixe levá-la comigo a Andros. Vou deixar o mar para sempre. A necessidade de tê-la em seus braços, de sentir sua calidez fundindo-se com sua própria firmeza, converteu-o em uma fogueira que lhe abrasava por dentro, depois de havê-la reprimido até que se fez impossível. Seus braços rodearam Luzia e com seus lábios encontrou os seus; beijou-a apaixonadamente, afundando até o mais recôndito de sua boca. Amoldando as mãos a seu redondo traseiro, atraiu-a para si, consciente de cada uma das sensuais curvas de seu fértil corpo…

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Nesse momento Morgan piscou, confuso. A memória lhe devia estar falhando, porque notou curvas que Luzia antes não tinha, curvas que… Lhe cortou a respiração, e cravou nela os olhos com expressão aturdida. Deslizou as mãos para baixo. Quando chegou ao vulto inconfundível de seu ventre, deixando-as tremendo. Sua garganta proferiu um som de estrangulado deleite; mas Luzia o confundiu com desgosto e tratou de desprender-se de suas mãos. —Por Deus santo, está esperando meu filho! Luzia obteve por fim liberar-se. Deu um passo para trás e lhe olhou, desafiante. —Já sei que não queria meu filho, Morgan, mas não o lamento. Eu quero a este menino, embora você não o queira. Nestas circunstâncias, o melhor é que fique no convento. Morgan exalou com força. Ninguém mais que ele mesmo tinha a culpa de que Luzia acreditasse, equivocadamente, que ele não queria seu filho. Pelos pregos de Cristo! Ia ser pai, e Luzia nem sequer pensava dizer-lhe. Se não tivesse vindo a Espanha provavelmente nunca teria sido informado. O mero pensamento resultava espantoso. Rezou para que pudesse encontrar as palavras para convencer Luzia de que sim queria seu filho. De que o ia querer tanto, como queria a ela. —Me escute, Luzia, é verdade que não queria te deixar grávida antes de sair com meu navio ao encontro da armada. Mas era porque tinha medo de que me matassem e você ficasse sozinha em uma terra estranha e com um menino que criar. Com isso não queria dizer que nunca fosse querer ter filhos contigo. — Luzia fez um som gutural para expressar sua incredulidade. Morgan acrescentou rapidamente— Não vou negar que houve um tempo em que sentia isso, mas já não sou o mesmo homem de quando nos conhecemos. De muitas das coisas que disse me arrependi logo, meu amor.

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Luzia lhe tocou o rosto, os olhos, a boca, passando amorosamente as gemas dos dedos por suas queridas feições. Lhe agarrou a mão e a levou a boca, lhe depositando na palma um beijo e lhe fechando os dedos ao redor dele. —Luzia, venha comigo agora. É minha mulher. Leva dentro a meu filho. Necessito desesperadamente aos dois. O Vingador nos espera no porto de Cádiz. Quanto mais nos atrasemos, mais perigoso será. Beijou-a outra vez, com lábios delicadamente persuasivos. Ela saboreou seu desespero, sentiu sua necessidade, e respondeu com as suas próprias, rodeando seus lábios aos dele com profundo desejo. Quando por fim ele se desprendeu do beijo, Luzia tinha a respiração acelerada. Amava-lhe! Deus, amava-lhe. —Me diga que vem agora mesmo comigo, meu amor —suplicou Morgan—Me Diga que me quer. Você e meu filho são o único que fica no mundo e que ainda significa algo para mim. Sua sinceridade tocou um ponto do coração de Luzia onde tinha sobrevivido uma magra esperança. O brilho úmido dos olhos dele e aquela declaração tão de coração a convenceram de que os milagres existem. —Amo-te, Morgan. Já faz muito tempo que te amo. Fui porque não queria te fazer carregar um filho que você não queria e que não podia aceitar, que fui embora. Pensei que foste ser mais feliz com Lady Jane. —Não posso ser feliz com ninguém mais que contigo. Agora, vista-se, que Stan está nos esperando na aldeia. —Não posso ir sem dizer à Reverenda Mãe —objetou Luzia—Cuidou muito bem de mim. E a Renalda. É uma amiga minha. Prometi-lhe que a levaria comigo quando me fosse daqui. Quero… —À Reverenda Mãe lhe deixe uma nota —a interrompeu Morgan— Quanto a Renalda, está com Stan. Irá vê-la em seguida. Date pressa, porque quando descobrirem que estou aqui vai se montar um bom tumulto. Na Espanha sigo sendo um homem procurado pela lei. —E na Inglaterra também, pensou, mas não o disse. Luzia ficou olhando estupefata. 321


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—Stan raptou a Renalda? Por que? Morgan lhe lançou um sorriso malicioso: —Suspeito que pela mesma razão pela que eu raptei a ti, só que Stan não teve que recorrer à força. Renalda estava desejando partir. Luzia sorriu. —Nunca deixará de me surpreender, Morgan Scott.

Capítulo 21 A pequena vila de Lebrija dispunha de uma única estalagem. Stan Crawford pediu três habitações, ganhando um olhar desconfiado do hospedeiro por seu imperfeito espanhol. Mas, dado que Stan oferecia pagar em moedas de ouro, o hospedeiro, a contra gosto, estendeu as chaves ao estranho. Renalda se revolvia inquieta, perguntando-se o que esperaria dela aquele pirata inglês em troca de ter a ajudado a escapar do convento. Fosse qual fosse o

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preço, o teria pago satisfeita por ter a ocasião de experimentar a vida fora dos muros do convento. E poderia estar com Luzia; só isso já lhe infundia valor. E não porque Stan Crawford não fosse de seu gosto. Além disso, estava já tão lançada ao pecado que não importava um mais, se disso se tratava. Rezou para que não se tratasse disso. Ela não era uma prostituta, e esperava que o pirata se desse conta. O fato de que tivesse pago três habitações lhe dava esperança. —Levarei-lhe a seu quarto; deve estar esgotada —disse Stan, conduzindo Renalda escada acima— Eu ficarei no salão esperando Morgan e Luzia. O suspiro de alívio de Renalda foi tão sonoro que Stan esteve a ponto de soltar uma gargalhada. Estava claro que ela pensava que tinha intenção de deitar-se com ela, e estava inquieta com isso. E tampouco foram tão errados os seus pensamentos, admitiu Stan com certo sentimento de culpa, mas aquele não era ainda o momento. Antes queria que ela confiasse nele e se sentisse cômoda a seu lado. Stan abriu a porta a Renalda e lhe estendeu a chave. —Passe a chave —lhe aconselhou— Despertarei pela manhã. Se ainda deseja vir conosco, a levaremos a bordo do Vingador. Se mudar de opinião, procurarei um carro para que lhe devolva ao convento. —Não vou mudar de opinião —prometeu Renalda, decidida. —Então lhe desejo boa noite. Stan esperou ouvir a chave girar na fechadura antes de afastar-se. A mera presença daquela gatinha de olhos escuros lhe produzia uma dolorosa ereção. Não recordava ter sentido antes semelhante urgência, semelhante desejo transbordante de fazer sua a uma mulher. Os insondáveis olhos negros de Renalda, seu valor na hora de mudar sua situação, sua predisposição a encomendar-se ao destino, seduziam-lhe e lhe cativavam. Lhe atraía de tal modo que lhe deu medo. Tanto lhe teria gostado de levar-lhe à cama que tinha tido que lhe dar a chave para que o encerrasse fora de seu quarto. À margem de quanto a desejasse, nesse momento era muito vulnerável para

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aproveitar-se dela. Sabia por aqueles olhos expressivos que Renalda tinha sofrido muito, e o último que queria era aumentar essa aflição. Convento da Mãe de Deus Quando Morgan e Luzia se deslizaram pelo corredor e saíram pela porta principal ao jardim do convento, ninguém despertou para detê-los. Luzia tinha deixado uma nota para a Reverenda Mãe, e logo tinha recolhido sua roupa, da que Morgan com um lençol fez um saco que levava debaixo do braço. O portão permanecia ligeiramente entreaberto, e Morgan o fechou a seu passo sem fazer ruído. Quando andavam já para a calesa, Luzia de repente se deu conta de que Morgan ia coxeando. Parou em seco. —O que acontece? —perguntou Morgan, alarmado, ao ver que se detinha de repente. —Está coxeando. A ferida que lhe fizeram foi mais grave do que deste a entender. —A bala de mosquete me fez pedacinhos um osso da perna. Já o tenho curado, mas a claudicação pode que fique para sempre. Você não gosta? —Que coxeie? O único que me importa é que deve te doer muito e eu não estava ali para aliviar seu sofrimento. Como ocorreu? Morgan enrugou o cenho. Não tinha chegado o momento de revelar o dado de que lhe tinham ferido os próprios ingleses quando tratava de escapar da Inglaterra. —Contarei-lhe isso mais tarde, meu amor. Neste momento o mais importante é que nos reunamos com Stan na aldeia. Venha, eu te ajudo a subir a calesa. Ao cabo de uns poucos minutos trotavam pelo caminho para a vila de Lebrija. Luzia não se arrependia de ter deixado o convento.

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Para ela tinha sido um paraíso de segurança quando acreditou que Morgan não a queria, mas agora que sabia que seu marido a amava e queria a seu filho estava desejando lhe seguir aonde ele quisesse levá-la. Chegaram à estalagem na metade da noite. Luzia tinha ficado dormida com a cabeça apoiada no ombro de Morgan. Ele, rodeando-a com o braço, segurava-a estreitamente; sentia seu doce fôlego que lhe roçava a bochecha, e seu estômago volumoso que se apertava contra ele. Ainda não se recuperou da impressão: um menino! Luzia levava dentro um filho dele. Imaginou que ia ser uma menina de cabelo moreno e encaracolado e olhos vivos como sua mãe. Morgan deteve a calesa no pátio da estalagem. Um moço de quadras meio dormido se levantou e saiu dando tropeções para recebê-los, esfregando o sono dos olhos. Depois de dar ao menino instruções sobre o cuidado de seus arreios, Morgan agarrou cuidadosamente em braços a Luzia e a levou ao interior da estalagem. O hospedeiro já tinha se retirado a sua cama, deixando um rescaldo de fogo na lareira e Stan Crawford esperando. No momento em que abriu a porta, Stan despertou de uma sacudida e se levantou para ir saudar Morgan. Esboçou um amplo sorriso ao ver a mulher dormida que seu amigo levava nos braços. —Estava começando a pensar que tinham tido alguma dificuldade —disse Stan — Puxa, deixe que eu agarre a Luzia. Levarei-a ao piso de cima. Pela claudicação que traz se nota que a perna te está doendo. —A perna a tenho bem —disse parcamente Morgan, embora a verdade é que a perna tremia do esforço— A minha mulher levo eu. Você só me diga qual é nossa habitação. —Acompanho-te até ali —disse Stan, mais que disposto a ir a sua própria cama — Está entre a minha e a de Renalda. —Ah, sim, Renalda —disse Morgan, lembrando-se de repente da mulher que Stan tinha insistido em que levassem com eles— Ainda está decidida a abandonar o convento? 325


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—Sim, mais decidida que nunca. E eu estou igualmente decidido a levá-la conosco; digo-o se por acaso tem algo contra. Morgan não pôde lhe responder, porque nesse momento Luzia, revolvendo-se em seus braços, abriu os olhos. —Onde estamos? —Na estalagem, meu amor. Stan está conosco, e Renalda também está aqui. Vai vê-la muito em breve. Luzia, satisfeita, voltou a amassar-se em seus braços. Stan abriu para Morgan a porta da habitação e lhe passou a chave. —Não é grande coisa, mas está limpo. Cuida bem de sua mulher, Morgan. Parece que está esgotada. —É o que penso fazer. Não quero que passe nada a Luzia e ao menino. Stan abriu muito os olhos. —Luzia vai ter seu filho? Por todos os demônios, parece que chegamos bem a tempo, ham? É um cão com sorte, Morgan Scott. Algum dia espero ter também um filho. Boa noite, amigo. Que durma bem. Stan deu meia volta. Pela primeira vez no que sua memória recente alcançava, teve inveja de Morgan. Invejava sua felicidade, o menino que tinha concebido com Luzia e o amor que evidentemente havia entre eles. Mais tarde, convexo em sua cama com a vista fixa no teto, a única mulher que conseguiu imaginar como mãe de seus filhos foi uma beleza de cabelos de azeviche com uns sensuais olhos negros e a pele tão branca como uma pétala de margarida. Morgan depositou cuidadosamente Luzia sobre a cama e se voltou para acender uma vela. Ouviu-a suspirar, e ao olhar para ela se surpreendeu ao encontrála lhe olhando, com os olhos resplandecentes do amor que por ele sentia. —Está acordada. Dorme outra vez. Luzia lhe dedicou um sorriso cativante. —Já não estou cansada. Vim dormindo todo o caminho até aqui. —Estendeu os braços para ele— Me faça amor, Morgan. Passou tanto tempo… Suas palavras lhe produziram uma avalanche de calor instantâneo pelas veias, e sentiu como se engrossava e se endurecia. Apesar do convite dela e da avultada 326


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necessidade cuja tensão e dureza seguia crescendo entre as pernas, resistiu a fazê-la sua, temeroso de ferí-la, a ela ou ao menino. —Não está em condições —raciocinou— O bebê… —Ao bebê não lhe vai fazer mal. Não é que eu entenda muito disto, mas não acredito que os maridos e as mulheres deixem de amar-se quando esperam um filho. Pelo menos até o último mês de gravidez ou por aí. Por favor, Morgan, necessito-o. Seu rogo fez vibrar o debilitado domínio de si mesmo. Desatou-se a espada e deitou junto a Luzia, aferrando-se a ela com lacerante desespero. —Põe-me doente pensar no perto que estive de perder a ti e ao menino. —Não vai nos perder nunca, Morgan. Nunca voltarei a te deixar. Quero-o muito. Ele fechou os braços em torno dela, e sua boca se pegou à sua com um grunhido de crua necessidade. Beijou-a com ânsia, e sua reticência foi evaporando à medida que ia despojando da roupa para recrear-se na suculenta carne que escondia. Luzia gemeu, apertando-se contra ele, tocando-o e acariciando-o, arqueando-se contra a inflamada aresta de sua virilidade com licencioso abandono. Quando não pôde seguir suportando a barreira da roupa que se interpunha entre eles, começou a rasgá-la com frustração. Morgan emitiu um fundo gemido gutural e arrancou os objetos em questão, as atirando ao chão junto às dela. A fresca pele de Luzia absorveu sua calidez enquanto se apertava contra ele, e se deu conta de que estava para perder o limite. Ele apertou os dentes enquanto lhe acariciava com reverência os ombros, o seio, o estômago, e ao seu sexo; oh, aquela pele, tão suave e tão sedosa, e ao mesmo tempo firme e inquebrável como o aço. Quando fechou a mão ao redor dele, ele se moveu violentamente contra sua palma. Apareceu uma gota, e Luzia baixou a cabeça para lambê-la com delicadeza. Estava ligeiramente salgada e deliciosa. —Por todos os Santos, Luzia! —gritou ele, fora de si— Basta! Está me matando. Deite-se de barriga para cima e me deixe te amar.

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Cobriu os seios com suas mãos e baixou a boca, jogando a estimular-lhe por turno até que se ergueram em rígidos botões. Suas hábeis mãos vagaram pelo corpo de Luzia acariciando-a com amorosa ternura. Ela soltou um agudo suspiro quando os lábios de Morgan seguiram o mesmo caminho, descendo por seu ventre e beijando a pele estirada que albergava a seu filho. Depois de adorar absolutamente seu monte de Vênus, deslizou para mais abaixo, e mais abaixo ainda, sondando e estimulando com as mãos e a língua as escorregadias dobras de sua feminilidade. Luzia gemia brandamente e se movia ao compasso, retorcendo-se contra a úmida calidez da boca de Morgan, suas mãos inconscientes estendendo-se para ele, que tão diligentemente passeava a língua pela sensível fonte de seus prazeres. A paixão foi acendendo-se em Luzia enquanto os lábios e a língua de Morgan a acariciavam. Era um abandono cego, primitivo. Era pura magia. Era render-se. A liberação chegou com a força de um enfurecido tornado, levando seu espírito e lhe roubando a alma. Respirando agitadamente, Luzia voltou para a realidade. Morgan a contemplava com um brilho mais brilhante que a prata nos olhos. —Está bem? —Suas palavras mostravam um sincero interesse, e Luzia sorriu, lhe fazendo sentir-se grandemente mais tranquilo— Agora vou me colocar dentro de ti, meu amor. Vou ser tudo quão delicado possa, mas estou tão duro que tenho medo de te fazer dano. —Não me faz mal —murmurou Luzia— Te quero dentro de mim. Morro de vontade de voltar a te sentir dentro. Erguendo-se e colocando-se em cima dela, suas mãos acharam sua abertura e seus dedos a penetraram, preparando-a para sua entrada. Morgan arrastou a avultada ponta de seu membro contra o rocio das dobras dela enquanto com o polegar lhe acariciava o capuz de carne que ocultavam. Foi excitando pouco a pouco, com suavidade e a consciência, e quando a teve ofegando e retorcendo-se debaixo

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dele se deslizou em sua úmida e lubrificada calidez, balançando-se logo brandamente de trás adiante para meter-se mais profundamente com cada movimento. —Me valha Deus, isto é o mais perto que se pode chegar a estar no paraíso — sussurrou entrecortadamente. Luzia levantou as pernas para acoplar-se, elevando desejosa os quadris para ele cada vez que a penetrava. Ele arqueou as suas para introduzir-se mais dentro, movendo-se cada vez mais rápido e perdendo a capacidade de controlar-se à medida que a apertada vagina de Luzia ia sugando para o mais fundo de seu interior. Esfregou-se contra ela, lhe agarrando as nádegas e levantando-lhe a cada penetração. Querendo prolongar aquele prazer, agarrou-lhe o rosto e a beijou apaixonadamente. Notou como a tensão ia crescendo nela enquanto ofegava contra seus lábios. Sentindo que ela estava perto do limite, levou-a rapidamente ao clímax antes de perder por completo o controle de si mesmo. Luzia, alagada de sensações, respondia aos beijos de Morgan enroscando sua língua na dele e adiantando o corpo ao encontro de seu crescido membro. De repente, um raio a alcançou em pleno acalorado centro, ante seus olhos explodiram estrelas e o êxtase a percorreu, estremecendo-a. Ao Morgan o final chegou de forma tão violenta que esteve a ponto de perder o sentido. Entre ofegos e gemidos, lançou sua semente no mais fundo das vísceras de Luzia. Logo, temeroso de esmagá-la, estendeu-se de costas na cama e se apertou contra ela, resistente a deixá-la partir. —Isso foi… espetacular —disse timidamente Luzia. Morgan soltou uma gargalhada. —Só espetacular? —de repente ficou sério— Não te terei feito mal. —Que dano poderia me fazer algoo tão… espetacular? Deste-me um prazer muito grande, Morgan, e você sabe. Fazia tanto tempo que já quase tinha esquecido de quão maravilhoso pode chegar a ser. No convento tentava não pensar nisso,

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porque estava segura de que nunca ia voltar a experimentar este tipo de prazer tão aditivo. —Teria vindo antes para te buscar, mas minha maldita perna quebrada e a febre que me sobreveio me tiveram prostrado muito mais tempo do que esperava. Se não fosse pelas artes curandeiras de Lani não estaria aqui agora. —Lani? Esteve em Andros? Não entendo… —É uma longa história, amor. —Conta-me, pois não tenho nada de sono. Acomodando-se junto a ela, Morgan lhe explicou as circunstâncias em que lhe tinham ferido. —Sobrevivi à batalha naval sem um arranhão. Igual à maior parte de minha tripulação. —Então como…? —Fui ferido por um dos guardas do palácio. A rainha não me tinha dado exatamente permissão para fugir da Inglaterra a véspera de minhas bodas com Lady Jane. Luzia cravou nele um olhar cauteloso. —Iria se casar com Lady Jane? —Os olhos lhe empanaram— Devo entender então que você e eu já não estamos casados? Morgan sorriu e lhe beijou a ponta do nariz. —Seguimos estando totalmente casados, meu amor. O documento de anulação não o assinei com meu nome de verdade: assinei "O Diabo", com a esperança de que ninguém comprovasse a assinatura. Aí estive preparado, não lhe parece? —Mas que necessidade tinha que andar com subterfúgios? —quis saber Luzia — Se não queria pôr fim a nosso matrimônio, tinha que haver deixado claro à rainha. —Isso, amor, é mais fácil de dizer que de fazer. Desafiar deliberadamente à rainha é buscar a ruína. É coisa mais que sabida que quem não a agrada acaba na Torre de Londres. Me ameaçou colocar na prisão e confiscar tudo o que possuo se não acessava me casar com Lady Jane. E não suporto os lugares fechados. Planejei

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com muito cuidado a fuga, mas não tive em conta o detalhe de que Lorde Harley estava me espiando. —Fez tudo isso por mim? —Por nós. Como iria me casar com Jane estando apaixonado por ti? Você me pôs isso bastante difícil ao partir tão de repente da Inglaterra. Se tivesse ficado e me houvesse dito sobre o bebê, é possível que a rainha tivesse acabado cedendo. Luzia olhou Morgan com tal ar de remorso que lhe deu vontade de beijar seus doces lábios até que as comissuras lhe elevassem em um sorriso. Fez-o, e não só colheu o desejado sorriso mas também um suspiro de satisfação. —Poderá voltar algum dia a Inglaterra? —A Inglaterra já não me prende. Vendi a Residência dos Scott e retirei todos os meus recursos do banco. Tudo que possuo está agora em Andros. —Vendeu a Residência dos Scott? OH, Morgan, quanto o sinto. Sei o muito que amava esse lugar. —Mas te amo mais —disse ele, com tanta veemência que Luzia não achou razão para duvidar— E também amo Andros. Antes de que passe muito tempo vamos ter vizinhos. Alguns de meus marinheiros me expressaram seu desejo de casar-se e estabelecer-se na ilha. O povo crescerá, e logo haverá meninos para que nossos pequenos possam jogar com eles. De repente, uma sombra cruzou o olhar de Luzia. Morgan não pôde evitar notar a mudança. —O que te ocorre, meu amor? —Seguirá o Diabo sulcando os mares em busca de navios espanhóis para saquear? —Esses tempos já passaram, Luzia. Minha vingança contra os espanhóis terminou no dia que me casei contigo. Me dei conta que na vida há coisas mais importantes que a vingança. Eu era um homem amargurado porque vivia com ódio, e até que te conheci não tinha sabido o que é o amor. Mas de agora em diante vou me concentrar em minha plantação. A Inglaterra ainda necessita a madeira que exporto

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em meus navios. Meu advogado londrino acessou encarregar-se de meus negócios na Inglaterra. E duvido muito seriamente que a rainha vá nos incomodar em Andros. Já não é tão jovem. O mais provável é que seu sucessor promulgue uma anistia para as pessoas que como eu a desejem. —Não me importa onde vivamos, Morgan, enquanto estejamos juntos você e eu. E o que passa com Stan Crawford? —Conhece minha decisão de me retirar de meu trabalho de pirata. Ainda não me disse se pensa retomar ele no ponto em que eu o deixei ou se prefere sentar a cabeça. Ofereci-lhe um de meus navios se por acaso ainda tem vontade de sair ao mar à aventura. E, certamente, tem dinheiro suficiente para retirar o que deseja. —A respeito de Renalda: não vai se arrepender de ter deixado ela vir conosco. É minha amiga. Eu me ocuparei dela. Morgan soltou uma risada. —Te adiantou Stan. Já decidiu que se faz responsável por ela. De fato, parece que está bastante afeiçoado com ela, e ela com ele. Mas esquece-o; estou faminto por ti outra vez. Cada um dos dias que passei sem ti foi uma eternidade. Quero te amar outra vez… se não estiver muito cansada —acrescentou esperançoso. —Isso é justo o que quero eu —suspirou Luzia, apertando-se contra ele em patente convite. Morgan tomou seu tempo para excitá-la, lhe beijando os lábios, o rosto, os seios, lhe pulsando as tenras dobras dentre as pernas. De repente girou sobre si mesmo para ficar convexo de costas, colocando-a em cima dele. Baixou-lhe o rosto até o seu, segurou-a com uma mão pela nuca e a beijou com ânsia. Desceu com os lábios por sua garganta. Ela em resposta estremeceu. —Deus, Morgan… —Lhe entrelaçou os dedos no cabelo, agarrando-se a ele com inconfundível urgência enquanto seu sexo vibrava contra seu estômago. Ele rodeou um de seus doces seios com a mão e lhe acariciou o turgente mamilo com o

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dedo. Ela soltou um gritinho quando

meteu o mamilo na boca e chupou

brandamente. —Se coloque dentro de mim! —Essa súplica fez que Morgan se inflamasse e se endurecesse até extremos quase doloroso. Obedecendo a seus mais ferventes desejos, Luzia se incorporou ligeiramente, agarrou em toda sua extensão o sobressalente sexo e o conduziu para seu interior, inclinando-se para ele ao mesmo tempo. Incapaz de permanecer passivo, Morgan empurrou para cima, entrando por completo. Ondas de prazer sacudiram Luzia, que se deleitava em cada um dos matizes daquele amor que o fazia: seus magros quadris contra o interior de suas coxas, a sensação de suas mãos fortes lhe abrangendo as nádegas, imobilizando-a cada vez que empurrava para cima para penetrá-la. O palpitante calor dele em seu interior, grande e duro, rodeado de sua própria umidade, a sensação de sua carne tenra e musculosa sob suas mãos. Nunca se cansaria da magia de seu amor com Morgan. De repente se sentiu leve e sem forças, e se deixou levar pela inconsciência enquanto o êxtase se agitava nela. Chamou Morgan por seu nome, mas ele estava muito embebido em seu próprio clímax para responder. Movendo-se de um modo frenético, Morgan puxou ela para baixo e procurou seus lábios, lhe penetrando com a língua a boca em perfeita harmonia com a penetração de mais abaixo. Ficou rígido e exalou um grito rouco quando o vaivém lhe fez perder o controle. Ao cabo de um longo intervalo, Morgan atraiu Luzia para seus braços. —Durma, meu amor. Luzia suspirou com satisfação e, relaxando-se em seu abraço, entregou-se ao sono. Morgan despertou cedo e baixou ao salão da estalagem, onde descobriu que Stan e Renalda tinham tomado o café da manhã e estavam esperando a Luzia e a ele. —Onde está Luzia? —perguntou, preocupada, Renalda— Se encontra bem, verdade?

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—Está perfeitamente —sorriu Morgan— Só que exausta. Acredito que lhe conviria passar o dia descansando. — E, voltando-se para Stan, acrescentou— Renalda e você podem ir adiante e nos esperar a bordo do Vingador. —Está seguro, Morgan? —perguntou Crawford, inquieto— É perigoso ficar muito tempo em um país hostil. —Conforme me disse Luzia, ela é livre de deixar o convento quando queira. Ainda somos marido e mulher, e ninguém pode me impedir que leve o que é meu. —Muito bem, então Renalda e eu partiremos imediatamente. Se em vinte e quatro horas não se reunir conosco, voltarei a lhes buscar. Morgan sorriu amplamente, dando-se conta de quão afortunado era por ter um amigo tão leal como Stan Crawford. —Luzia e eu lhes seguiremos amanhã a primeira hora da manhã. Prometo que nos reuniremos dentro do tempo previsto. Despediram-se uns dos outros. Antes de voltar para o piso de cima a ver sua adormecida esposa, Morgan encarregou que lhes levassem o café da manhã a sua habitação. Luzia agradeceu a atenção que Morgan lhe prestava. Era verdade que estava exausta. Ter tornado a ver Morgan, inteirar-se de que ele a queria e haver passado a noite anterior a largas horas fazendo amor com ele eram muitas emoções para uma dama grávida. Ultimamente parecia que se cansava facilmente. Morgan não teve que insistir muito para convencê-la de que passasse o dia na cama; também ela agradeceu essa ocasião de passar um dia inteiro a sós com Morgan sem nenhuma interferência. —Me conte de Renalda —inquiriu aquela noite Morgan enquanto compartilhavam o jantar na habitação— Disse que seus pais a tinham repudiado. Mentiu-nos? —Não, é verdade —lhe assegurou Luzia— Renalda se apaixonou por um jovem vaqueiro, e seu pai lhe proibiu o ver. Estava a ponto de casá-la com um tipo ao que a tinha prometido quando era menina. Renalda e seu vaqueiro fugiram, com intenção 334


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de casar-se, mas o noivo o mataram antes de que o tivessem obtido. Quando se soube que Renalda e Antonio tinham dormido uma noite juntos, o prometido dela se negou a cumprir com o matrimônio. A família de Renalda se zangou muito com ela. Tinha-os desonrado, e por isso naquele mesmo instante a desterraram ao convento. —E se não era feliz ali por que não escapou? —Você não compreende nossos costumes. Aonde teria ido? O que teria feito? Não tinha dinheiro, nem família que queria ocupar-se dela, nem forma alguma de manter-se. Não é uma puta, nem seria capaz de sê-lo jamais. É muito pouco o que uma jovem pode decidir de seu futuro; não é mais que um peão no esquema da vida. Suponho que quando Stan e você apareceram, Renalda viu em vocês uma via de escape e quis aproveitá-la. —Espero que Stan não tente aproveitar-se de Renalda —murmurou Morgan— Parece que está prendado nela, e pode ser muito agressivo quando quer. —Por que não deixamos que as coisas sigam seu próprio curso —aconselhou Luzia— Ainda não falei com Renalda, mas sei que é uma mulher que sabe o que quer, e que não lhe assusta correr riscos. Se Stan passar a linha da decência, Renalda o chamará o ordem. A menos —acrescentou— que ela pense igual a Stan. —Então não me preocupo mais por ela —concluiu Morgan— Terminou de jantar? Deveríamos nos retirar cedo, porque amanhã vai ser um dia muito longo. Prometi ao Stan que nos reuniremos com eles no Vingador antes de que passem vinte e quatro horas, e não quero que nos atrasemos e tenha que preocupar-se. —Morgan, poderia me despedir de meu pai antes de irmos de Cádiz? É provável que não volte a vê-lo nunca. Ele fez o que pensava que era melhor para mim, embora eu não estivesse de acordo. Lamento que fosse um navio de sua frota o que afundou ao que levava a sua família, mas isso ocorreu faz muito tempo. Eu gostaria que meu pai soubesse que vou dar-lhe um neto. A Morgan aquilo não parecia boa ideia, mas Luzia se mostrava tão esperançosa que não teve coração para negar-lhe

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—Se tão importante for para ti, meu amor, faremos essa parada. —Obrigada, Morgan. Agora sim estou pronta para ir à cama. —Em seus olhos brilhou um resplendor escuro com toques de malícia e de desejo… sobre tudo de desejo. —Tem que descansar, Luzia —lhe advertiu Morgan, esforçando-se em conter a ereção que lhe apertava a barguilha. —Para descansar teremos todo o tempo do mundo quando estivermos a bordo do Vingador. —esticou-se para ele, e Morgan se deu por perdido. Fizeram amor com delicadeza, com ternura, conscientes de que iriam ter muitos dias para amar um ao outro durante o resto de sua vida. E pode que ainda mais na outra vida. Um ressonar de passos pelo corredor ao que dava sua habitação despertou Morgan. Procurou com a mão sua espada, amaldiçoando violentamente ao dar-se conta de que estava do outro lado da habitação, em cima da pilha de roupa que tinha jogado precipitadamente, e logo tinha deixado sem nenhum cuidado, em cima do gasto tapete. Incorporou-se na cama de um salto, agradecendo por ter tido a precaução de fechar a porta com chave. Mas antes de que pudesse levantar-se, a porta se abriu de um golpe e vários homens irromperam na habitação. O susto despertou Luzia de seu sono profundo; dando um chiado, cobriu-se até o nariz com o lençol. Tinha o pânico nos olhos, o coração lhe pulsava furiosamente. —Meu engano foi não lhe matar em Havana —disse com desdém um dos homens, lançando um olhar depreciativo à cama revolta e ao despenteado casal que a ocupava. Luzia escrutinou aos dois homens que permaneciam na soleira da porta, e ficou lívida quando conseguiu reconhecê-los. —Pai! Dom Diego! O que estão fazendo aqui? —Por lodos os infernos —murmurou entre dentes Morgan.

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Nunca tinha tido boa sorte, mas aquilo já era o cúmulo. Como demônios lhe tinham encontrado? Quem lhes havia dito que estava na Espanha? E que fazia De Fujo que não estava em Havana?

Capítulo 22 Morgan não gostou do giro que estavam tomando as coisas. Atrás de Dom Diego e Dom Eduardo vinham dois seguidores armados. Morgan deu um olhar a Luzia e voltou a amaldiçoar entre dentes. Estava pálida, e tremia como uma folha. —Lamento que não tenhamos chegado a tempo de impedir que este pirata lhe tenha feito mal outra vez, filhinha —disse Dom Eduardo, convencido de que de 337


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verdade estava salvando a sua filha das garras do Diabo— O pai Pedro voltou de Roma faz uma semana. O Santo Pai nos concedeu a anulação de seu matrimônio. Estava me preparando para me deslocar aqui a te contar a boa nova quando chegou Diego. —Morgan não me tem feito mal, pai —protestou Luzia— E agora nos deixem, por favor. Morgan mantinha a vista fixa em De Fujo, que tinha a mão direita apoiada no punho da espada. Parecia-lhe que a expressão irada do espanhol não pressagiava nada bom. Deu um olhar nostálgico a sua própria espada, sem nenhuma esperança de recuperá-la. Sem ela e sem sua roupa se sentia tão indefeso como um bebê recém-nascido. Estava em uma desvantagem mais que evidente. —Diego veio de Havana para te fazer sua esposa. Está desejoso de esquecer-se de suas passadas indiscrições com este inglês. Antes de que vão da Espanha me encarregarei de que te case como Deus manda com Diego. Os olhos de Luzia arderam de indignação. —Por que está todo mundo empenhado em acabar com meu matrimônio? Eu não quero a anulação. Dom Diego é um homem sem escrúpulos. Não me quer, o que cobiça é meu dote. Faria qualquer coisa para ficar com ele. —Equivoca-se comigo, Luzia —disse Dom Diego com ar contrito— Me senti aborrecido quando vi que já não era a noiva virgem que eu esperava, mas teria cumprido com meu dever contigo assim que minha ira se dissipasse. Me desculpei profundamente com seu pai, por isso é que vim a Espanha. Daremo-nos o sim antes de nos embarcar para Havana. A cólera de Morgan tinha ido acendendo-se à medida que Dom Diego debulhava suas mentiras. Não havia documento que pudesse dissolver de qualquer jeito o que havia entre Luzia e ele. Jamais permitiria que aquele canalha embusteiro pusesse uma mão em cima a sua mulher, nem a seu filho. Sem fazer caso de sua

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nudez, Morgan saiu de repente da cama e avançou ameaçadoramente para Dom Diego. —Fora daqui todo mundo! Luzia é minha mulher, e vai seguir sendo. Diego esboçou um sorriso desagradável e se fez a um lado para permitir que seus guardas entrassem na habitação. Morgan, apertando a mandíbula, fez uma finta desesperada para tentar agarrar sua espada. Mas não o conseguiu. Os homens de Dom Diego se jogaram em cima imediatamente. Embora lutou corajosamente, viu-se superado quando Dom Diego se somou ao grupo proporcionando a Morgan um terrível golpe na cabeça com o punho da espada. Luzia chiou ao ver que Morgan desabava no chão. —Matamos-o, patrão? —perguntou um dos guardas, apertando a ponta de sua espada contra a desprotegida garganta de Morgan. Dom Eduardo olhou a sua desesperada filha, e concedeu: —Luzia tem razão, Diego. Não é nossa coisa matar a este pirata. Leve-no a Cádiz e entrega-o às autoridades. Oferecem uma generosa recompensa por sua captura. Luzia e eu lhes seguiremos quando tiver se tranquilizado um pouco. Veem para casa amanhã para que façamos os planos para as bodas. Luzia chorava quietamente, desejosa de aproximar-se de Morgan, mas incapacitada por sua nudez para fazê-lo. —Não lhe façam mal, por favor. Feriram-lhe recentemente e ainda não está totalmente recuperado de suas feridas. —Encontraremos um calabouço bastante cômodo para ele —se burlou Dom Diego— Amarre-no bem —ordenou. quando seus homens terminaram, Morgan estava começando a despertar— O levem. —Esperem, lhe deem sua roupa —suplicou Luzia— Deixe um pouco de dignidade. Dom Diego não lhe fez o menor caso, mas Dom Eduardo recolheu a roupa de Morgan e a estendeu a um dos guardas. —Levem-no ao corredor e lhe ajudem a vestir-se.

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—Ora, é muito brando —lhe espetou Dom Diego— As autoridades o vão pôr ante o pelotão de fuzilamento em menos de vinte e quatro horas. Dom Eduardo nunca se considerou um homem especialmente sensível, mas ao ver a consternação de Luzia teve de repente um sentimento de culpa. E se sua filha de verdade amava aquele pirata? Recordou o que era estar apaixonado. Quando a encantadora mãe de Luzia morreu, ele perdeu algo muito precioso. Mesmo assim, o Diabo levava muito tempo sendo a pior cruz dos navios espanhóis para deixá-lo livre. Além disso, se ele não tivesse começado por raptar

Luzia, nada daquilo teria

ocorrido. —O que façam as autoridades com o Diabo não é nossa coisa —disse Dom Eduardo— Não vou jogar sua morte sobre minha consciência. Agora vai, Diego. Eu levarei Luzia para casa. No momento em que Dom Eduardo lhes voltou as costas, Dom Diego lançou a Luzia um olhar que fez que lhe arrepiasse o cabelo da nuca. Era um olhar cáustico que refletia o furioso desprezo que sentia por ela. Tinha que estar cego para não darse conta de que estava nua debaixo do lençol, e só um inocente teria pensado que Morgan e ela não tinham feito outra coisa que dormir. Dom Diego não era um nem outro. A habitação cheirava a sexo, e os lençóis revoltos davam mudo testemunho da atividade a que se esteve entregando o casal. Aquilo transbordava os limites do suportável, e era um golpe mortal para o orgulho de Dom Diego. —Até manhã, Luzia —disse Dom Diego com uma voz que mostrava sua ira. Sim, ia se casar com a puta do pirata para ficar com seu enorme dote, mas não pensava renunciar a nenhuma de suas amantes. Assim que Luzia lhe desse um herdeiro ou dois, desterraria-a a um convento e se esqueceria sem demora dela. Luzia chorava em silêncio, incapaz de deter as lagrimas que lhe rodavam pelas bochechas. Parecia que até Deus estava contra Morgan e dela. Por sorte, guardava um segredo que esperava que faria mudar as coisas a seu favor. Quando Dom Diego

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se inteirasse de que estava grávida de Morgan não ia querer casar-se com ela. É obvio, havia algum ponto escuro. Ainda não tinha pensado de que modo poderia ajudar a Morgan revelando sua gravidez. Morgan ia já de caminho ao calabouço, e Dom Diego se encarregaria de que caísse sobre ele todo o peso da lei. —Vista-se, filha —lhe disse amavelmente dom Eduardo— Te espero no corredor enquanto se veste e recolhe suas coisas. Pode que na cozinha nos deem um café da manhã decente antes de voltar-mos para Cádiz. Eu não gosto de vê-la desgostosa. —Como não vou estar desgostosa, pai, se o homem ao que amo se enfrenta à morte? Dom Diego o tem jurado. Que garantia tenho de que Morgan vá chegar com vida a Cádiz? —Diego é um cavalheiro. Não se meteria com um homem desarmado. Já se encarregarão as autoridades de lhe fixar um castigo. Luzia lançou um áspero som de desgosto. —Não conhece Dom Diego se pensa isso. Dom Eduardo se limitou a encolher-se de ombros e saiu rapidamente dali. Não lhe dava nada bem as mulheres histéricas. Assim que esteve sozinha, Luzia levantou da cama e se vestiu a toda pressa. Resgatou sua roupa, uma capa e se envolveu nela, escondendo cuidadosamente seu volumoso estômago entre as generosas dobras. Ainda não tinha chegado o momento de dizer a seu pai que levava dentro um filho de Morgan. Quando tiraram Morgan a empurrões ao corredor, atordoado e desorientado pelo tremendo golpe que lhe tinham dado na cabeça, embutiram-lhe as meias e o arrastaram escada abaixo. Se o hospedeiro sentiu o mínimo de compaixão, preocupou-se de esconder aquela expressão insossa enquanto Dom Diego mandava dispor uma carreta para levar Morgan até Cádiz. Aos poucos minutos o jogavam no fundo de uma carreta, preso como um ganso de Natal e sangrando por uma ferida na cabeça. Um dos guardas se meteu dentro com ele, enquanto o outro saltava à boleia 341


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e se fazia com as rédeas. A um sinal de Dom Diego, a carreta deu um puxão para diante, fazendo que Morgan se estrelasse violentamente contra um dos lados. Uma dor insustentável lhe percorreu a perna machucada, subindo pela medula espinhal até a cabeça. E isso foi quão último soube. Luzia olhou a comida que havia em seu prato com desinteresse. Como ia poder comer se nem sequer sabia se Morgan estava ferido gravimente? E se Dom Diego tinha decidido tomar justiça por sua mão e tinha matado Morgan antes de sair da estalagem? —Já sei que acredita que está apaixonada por esse pirata, Luzia, mas Diego fará que se esqueça dele brevemente, prometo-lhe isso. Vai ser para você um bom marido. Muito em breve poderá deixar de pensar em todo este assunto tão desagradável. —Como vou esquecer de Morgan se estou apaixonada por ele, pai? Não penso em me casar com Dom Diego jamais, aconteça o que acontecer. Dom Eduardo lhe deu uns torpes tapinhas no ombro. —Confia em que eu sei o que mais te convém. —Mandou procurar Dom Diego? Por que veio a Espanha? Dom Eduardo afastou o olhar. —Escrevi-lhe uma carta o dia que voltou da Inglaterra. Explicava-lhe que o pai Pedro foi a Roma para solicitar ante o Papa a anulação de seu matrimônio. Disse-lhe que era urgente que viesse imediatamente a Espanha se ainda te queria. E que se não, ficava pendente que me devolvesse seu dote na íntegra. Luzia esboçou um sorriso muito pouco alegre. —Não pensaria que iria devolver o dote, verdade? Não, já vejo que não o pensava. —Diego partiu de Havana imediatamente depois de receber minha carta. A sua chegada a Cádiz o levou uma grande alegria ao inteirar-se de que já era uma mulher livre. Viemos os dois juntos para lhe comunicar a boa notícia. Não tínhamos ideia de que Morgan Scott estava aqui. 342


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—Como deram conosco na estalagem? Quando se inteiraram de que Morgan estava na Espanha? —Por pura sorte, filha. Paramos na estalagem para saciar a sede que nos consumia; vínhamos cavalgando de longe, e o hospedeiro, um homem falador, contou-nos que tinha estrangeiros alojados na estalagem. Diego escutou com interesse que havia um homem loiro dormindo com uma mulher espanhola no piso de cima, mas tampouco tinha nenhuma razão para suspeitar de nada. Saímos com pressa para o convento, e ali nos inteiramos de que você e outra mulher tinham partido sem permissão a noite anterior. Só tivemos que juntar as informaçoes, e voltamos para a estalagem. Pura sorte para Dom Diego e para meu pai, mas pura má sorte para mim e para Morgan, pensou Luzia afligida. —Posso ver o documento da anulação, pai? —perguntou-lhe, estendendo a mão para ele. —É totalmente legal, Luzia. —Por favor, pai. Com visível reticência, Dom Eduardo extraiu de seu bolso o documento e o estendeu a Luzia. Lhe tremia o pulso quando o desenrolou e leu seu conteúdo. Estava chegando quase ao final quando deixou escapar um grito afogado mas audível. A excitação a percorreu. —Pai! Têm lido isto? Dom Eduardo franziu o cenho. —Certamente que sim. É que há algo que não entenda? —Diz que se eu resultasse estar grávida de Morgan Scott esta anulação ficaria sem efeito. E acrescenta além que o filho de ambos seria considerado legítimo, posto que as bodas foi celebrada por um padre e portanto é legal aos olhos de Deus. É isso verdade? —Tenho entendido que se incluíram essas precisões por desejo do Santo Pai. Mas, não havendo nenhum menino que venha a nos complicar as coisas, a anulação é

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coisa feita. —deu a Luzia um sorriso ardiloso— Graças a Deus, não tenho nada que temer a esse respeito. Se esse patife a fecundou neste último par de dias, será impossível saber se o menino é dele ou de Diego, porque suas bodas com o governador geral de Cuba vai se celebrar imediatamente. Luzia lhe devolveu o sorriso, só que o dela era mais radiante que um amanhecer. Ficou torpemente de pé e desabotoou devagar a capa que pôs para dissimular seu estado. Deixou-a cair ao chão e se manteve com orgulho ante seu pai. Não havia confusão possível com a avultada redondez de seu abdômen. Dom Eduardo ficou de pé imediatamente. —Mãe de Deus! Mas quem te tem feito isso? Luzia lhe sorriu. —Ninguém do convento, pai. Eu já suspeitava que estava grávida de Morgan quando saí da Inglaterra. Dom Eduardo soltou uma violenta maldição. —Mas no nome de Deus, por que abandonou ao pirata se estava grávida dele? —Por um mal-entendido. Eu acreditei que Morgan não queria a nosso filho. A rainha lhe estava pressionando para que anulasse nosso matrimônio, e eu não queria ser uma carga para ele. Quando se está apaixonado, nem sempre se vê com claridade, nem se distingue o que está bem, e o que está mau. Eu tomei uma decisão errada, mas graças a Deus Morgan me encontrou e pôs as coisas em seu lugar. Estamos apaixonados. E Dom Diego e você acabaram com todas as nossas possibilidades de achar a felicidade. Dom Eduardo não podia afastar a vista do volumoso estômago de Luzia. Com muito cuidado lhe tirou o certificado de anulação da mão e o rasgou em pedacinhos. Nenhum homem em seus cabais iria querer casar-se com uma mulher em avançado estado de gestação de outro homem. Sem dúvida, nenhum homem orgulhoso como Diego de Fujo, sem importar o substancioso dote de Luzia.

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—Pai, têm que fazer algo —lhe suplicou Luzia— Morgan mudou. abandonou sua vingança; o Diabo já não vai voltar a saquear navios espanhóis. Se me quiser, ajude Morgan. Dom Eduardo se encolheu de ombros, impotente. —E o que posso fazer? A sorte de seu pirata está agora nas mãos de Deus. —Não! Tem que haver algo que possa fazer. Morgan me ama o bastante para ter arriscado sua vida por mim. Veio a Espanha sabendo o perigo que corria. Quer ver como o pai de seu neto morre de uma morte indigna? —abraçou o ventre com gesto protetor—Pode que este seja seu único neto. Meus irmãos poderiam não voltar nunca de suas aventuras. E se voltarem, não é provável que se assentem durante o tempo necessário para formar uma família. Preferirão seguir navegando pelo mundo em busca de ouro e riquezas. Dom Eduardo era consciente da verdade que havia nas palavras de Luzia. E com a sólida estirpe da mãe espanhola e a coragem inglesa de seu pai, aquele seu neto ia ser forte, flexível e valente. Mas de verdade não via forma de ajudar ao marido de Luzia, por mais que quisesse. —Sinto muito, filha. Morgan Scott é agora prisioneiro de Diego, e Diego é um homem vingativo. —Temos que impedir que entregue Morgan às autoridades. Se nos dermos pressa, podemos alcançá-los. —Embora o fizéssemos, Diego não o deixaria partir. Se resigne, filha. Não há forma de liberar o Diabo. Assim que Diego se inteire de que está grávida do pirata, sua ira vai transbordar. Vai se sentir enganado, e se vingará com o culpado de tudo isto. —Lhe diga que pode ficar com meu dote por todas as moléstias que lhe causei —sugeriu Luzia— Acaso minha felicidade não o vale? Ao longo dos anos, meu bemestar não foi uma preocupação para você, até que chegou o momento de organizar meu matrimônio com Dom Diego. Pedi-lhe poucas coisas, e menos ainda me deu.

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Suas palavras tiveram o efeito desejado. Era verdade que Dom Eduardo se ocupou muito pouco de sua filha e muito de seus filhos, mas sempre tinha querido muito a Luzia, apesar de suas fogosas saídas. O que nunca tinha sabido era como tratá-la, e tampouco tinha tido tempo de aprender. Ele tinha acreditado sinceramente que casá-la com Dom Diego era o melhor para ela. —Verei o que posso fazer —prometeu, embora não tinha muitas esperanças de poder salvar a vida do pirata. Diego de Fujo era um homem poderoso, com mais influência política que a família Santiago. Dom Eduardo não o deixou parecer a Luzia, mas em sua opinião Morgan Scott se podia dar por morto. Rudemente sacudido para que voltasse a si, Morgan tomou consciência de cada uma das insuportáveis dores que afligiam a seu machucado corpo. Soltou um gemido, tratando de mudar de posição para estar menos incômodo. Quão único conseguiu com esse esforço foi que lhe dessem um chute nas costelas. Por cima da borda da carreta pôde ver de Fujo que cavalgava ligeiramente diante deles. Morgan amaldiçoou aquele homem com um ódio cru e urgente. —O que aconteceu a minha esposa? —perguntou ao brutal guarda que parecia achar um grande prazer em lhe maltratar. O homem soltou uma risada desagradável. —Refere a sua puta? Seu pai se fez cargo dela. É uma lástima que Dom Diego tenha que casar-se com essa zorra para ficar com seu dote. Morgan se debateu impotente contra suas ataduras, jurando que ia obrigar aquele homem a tragar suas palavras. —Aonde me levam? —Dom Eduardo pensa que vamos entregá-lo às autoridades, mas não acredito que chegue ali com vida. —Soltou uma risada desagradável como um latido e lançou ao Morgan outro chute no estômago. Morgan o viu vir e fez um novelo para proteger as partes vulneráveis. A bota do guarda se chocou com a perna doente de Morgan, e ele teve que morder os lábios para não soltar um grito de dor. 346


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A dor podia suportar, mas o pensamento da futura vida de Luzia com De Fujo era para ele um tortura ainda pior. O que vai passar quando se inteirar de que Luzia está grávida? perguntava-se com desespero. Tinha a esperança de que seu pai fosse bastante forte para protégê-la da violência de De Fujo. Sua própria morte era capaz de aceitá-la, mas não podia suportar o pensamento de que nem Luzia nem seu bebê sofressem por sua causa. Depois de anos negando que existisse sequer um Deus, Morgan fechou os olhos e ficou a rezar. Rezar era o que dava forças a Luzia, e Morgan tentou que as desse a ele também. Mas outro chute cruel, desta vez na cabeça, voltou a deixá-lo inconsciente. —Não estou seguro de que isto seja acertado —disse Clyde Withers enquanto ia sentado junto a Stan Crawford de caminho a Lebrija— Nenhum de nós fala espanhol o suficientemente bem para evitar nos colocar em confusões. E o que passa com nossos homens? —perguntou, assinalando aos quatro marinheiros armados que levavam na parte de trás da carreta alugada— Não há forma de pensar que são nada mais que o que são, curtidos marinheiros. E o ridículo que vamos fazer quando cruzarmos pelo caminho com Morgan, e ele e Lady Scott estejam tão felizes e tão alegres. —Do momento em que os deixamos na estalagem tive esse mau pressentimento —disse lentamente Stan— Estava tentando ignorá-lo, mas esta manhã me deu mais forte que nunca. Mais vale ir sobre seguro que ter que lamentálo. Se os encontrarmos e estão bem, não se terá perdido nada. Mas se lhes ocorreu algum imprevisto, estaremos preparados. —Fez uma pausa para situar-se— Se Morgan e Luzia saíram dali esta manhã, nós deveríamos encontrar com eles muito em breve no caminho.

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Mas à medida que avançava a manhã sem que cruzasse em seu caminho, com a calesa que devia levar Morgan e Luzia, o persistente temor de Stan ia aumentando. Já tinham percorrido quase a metade da distância para Lebrija quando ouviram um repicar de cascos que se aproximavam. Aos poucos minutos apareceu ante sua vista um cavalo, seguido de uma carreta que estralava para eles pelo estreito caminho de terra. Stan não reconheceu ao homem que ia contra eles ao lombo de um cavalo. —Saem do caminho, camponeses! —ordenou-lhes com arrogância— Deixem passo! Stan entendeu aquelas ásperas palavras em espanhol e com toda cortesia afastou seu cavalo para um lado do caminho, indicando por gestos a Withers e à carreta que fizessem o mesmo. Não queria problemas com os dignatários locais. Diego passou ante eles sem dedicar um segundo olhar aqueles homens, dando por feito que eram vis camponeses indignos de que lhes prestasse atenção. Quando, continuando, passou sua carreta, Crawford esteve a ponto de cair do cavalo do susto tão grande que levou. Withers viu o corpo machucado de Morgan feito um novelo no chão da carreta quase ao mesmo tempo que Crawford. Trocaram olhares de assombro. Breves instantes depois, os quatro marinheiros que os acompanhavam estavam também a par da situação, e esperavam as ordens de Stan. A carreta que levava Morgan passou estralando ante eles. A um gesto sem palavras de Stan, os marinheiros saltaram de sua própria carreta e correram para alcançar a que levava Morgan. Empregaram-se em reduzir aos dois espanhóis que levavam as rédeas, enquanto Stan e Withers galopavam atrás do chefe, que trotava por diante sem se inteirar da luta que se organizou a suas costas. A luta foi rápida e sangrenta. Superados em número, os condutores da carreta sucumbiram muito em breve ante os marinheiros ingleses. Um deles morreu no ato, e o outro jazia agonizante sobre a erva. Os marinheiros desataram rapidamente Morgan, que não

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dava o menor sinal de estar recuperando a consciência. Enquanto isso, Crawford e Withers se aproximavam de Dom Diego por trás. Dom Diego não se precaveu da situação em que estava até que foi muito tarde. Como lhe irritava quão devagar andava a carreta, adiantou-se um bom trecho, e não tinha ouvido a curta batalha que se travava a suas costas. Soltou um feroz juramento quando Crawford e Withers o alcançaram, emparedando-o entre os dois e lhe arrancando as rédeas das mãos. Tentou tirar a espada, mas já era tarde. Duas pistolas carregadas apontavam a sua cabeça. —O que significa isto? —vociferou quando obrigaram a deter-se seu cavalo— É que não sabem quem sou? Sou Diego de Fujo, governador geral de Cuba. O rei irá cortar suas cabeça por isso. —Que demônios está dizendo? —perguntou Withers. —Que me crucifiquem se sei, além de que se chama Diego de Fujo e é o governador geral de Cuba. —de repente, Crawford compreendeu tudo— Este é o mal nascido que esteve a ponto de matar Morgan a golpes em Havana! Pergunto-me o que estará fazendo na Espanha. —E o que crê que pode ter ocorrido a Lady Scott? —perguntou Withers, preocupado. —Igual nos pode dizer isso Morgan —sugeriu Stan. Aproveitando que a atenção de Stan se afrouxou por um instante, Dom Diego viu sua ocasião de sair correndo. Afundou cruelmente as esporas nos flancos de seu cavalo, e o pobre animal saltou disparado para diante. —Filho de cadela…! Que não nos escape esse mal nascido! —gritou Stan. Os dois homens elevaram as pistolas, apontaram e dispararam. Dom Diego caiu ao chão, e ali ficou imóvel. —Você crê que está morto? —perguntou Withers. Stan desceu de seu cavalo e se ajoelhou junto ao espanhol caído.

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—Ainda respira. Será melhor que larguemos rápido deste maldito lugar. Espero que Morgan nos possa dizer o que foi de Luzia, porque é muito perigoso seguir perdendo o tempo aqui. Quando voltaram a carreta, Morgan seguia inconsciente. —Mas que demônios lhe têm feito? —perguntou-se Withers. Stan lhe fez um exame rápido e encontrou a feia ferida da cabeça, além de uns quantos hematomas em várias partes do corpo. —Esses malditos filhos de cadela. Levem Morgan a nossa carreta —ordenou— Tome cuidado, ainda não sabemos se é muito grave suas feridas. —E o que passa com De Fujo? —perguntou Withers. —Deixemo-lo e vamos daqui o quanto antes. —E o que passa com Lady Scott? —Não temos ideia de onde está, assim não podemos fazer nada até que Morgan recupere a consciência e nos diga isso. É evidente que De Fujo tampouco está em condições de nos dizer algo. Dois vigorosos marinheiros saltaram ao interior da carreta com Morgan e o seguraram para que não se golpeasse com os tombos que ia dando a carreta por causa dos buracos do caminho de terra que lhes levava a Cádiz, onde o Vingador os estava esperando.

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Capítulo 23 Luzia e seu pai saíram de Lebrija na calesa que Morgan tinha alugado em Cádiz. Dom Eduardo atou à parte de trás seu cavalo, colocou dentro o saco de roupa de Luzia e a espada de Morgan, que tinha ficado ali, e arrancou pelo caminho de Cádiz. Mas toda velocidade resultava pouca para Luzia. Era a vida de Morgan o que estava em jogo. Ela não confiava o mínimo em Dom Diego, e temia que o matasse antes de chegar a seu destino. —Se acalme, filha —a apressou Dom Eduardo— Já te disse que vou fazer tudo o que possa por seu pirata. —Meu marido, pai. Morgan é meu marido. —Sim, Luzia, por mais que me resulte difícil me fazer à ideia de que seu marido seja esse inglês. Luzia escrutinou ansiosamente o horizonte. Dom Diego levava um bom par de horas de vantagem, mas ela sabia que a torpe carreta rústica em que viajava Morgan era muito mais lenta que sua ligeira calesa. —Não deveria faltar pouco para que os encontremos, pai? Não pode ir um pouco mais rápido? —Estou indo com cuidado pelo delicado de seu estado, filha. Não quero que aconteça nada a seu menino. Luzia se revolveu impaciente. —Não acredito que… —As palavras se detiveram em sua boca quando vislumbrou algo no caminho— Olhe, pai! Não é essa a carreta? Sim, estou segura de

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que é. E esse que está aí pastando é o cavalo de Dom Diego. Por que terão detido? — Um horrível pressentimento lhe percorreu a espinha— Pai, pare a calesa! Sem ter em sua conta a avançada gravidez, Luzia saltou da calesa sem esperar que se detivesse e correu torpemente para a carreta. O grito que lhe escapou fez que Dom Eduardo corresse a seu lado. —O que passou, filha? —Olhe! —murmurou ela, assinalando o corpo que jazia na parte de trás da carreta. O coração lhe encolheu dolorosamente, até que se deu conta de que não era Morgan. Dom Eduardo subiu à carreta e se agachou para examinar ao homem. —Está morto. —Há outro homem aí atirado na erva —exclamou Luzia. Dom Eduardo desceu da carreta e rapidamente constatou que o segundo indivíduo estava além de toda intervenção humana. —Este também está morto. Pergunto-me o que terá sido de Diego. Encontraram-no atirado perto de seu cavalo, a poucos metros dali. —Está morto? —perguntou Luzia. —Parece que tem uma ferida leve na cabeça. A bala deve ter lhe roçado. Suspeito que de um momento a outro voltará a si e nos contará o que passou. Quem teria pensado que esse teu pirata ia poder com três homens nas condições que estava —murmurou pensativo. —Não pôde ser ele —replicou Luzia— Isto é coisa de outra pessoa, e acredito que tenho ideia de quem foi. Rápido, pai, têm que me levar a Cádiz sem mais demora. —Muito bem, Luzia, logo que suba Diego a nossa calesa. Necessita que veja um médico. Luzia lhe agarrou o braço, afastando o de Dom Diego. —Não, pai, não podemos levá-lo conosco. É que não vê? Se o fizéssemos, iria informar às autoridades. Temos que deixá-lo aqui até que passe alguém e o recolha ou consiga chegar por suas próprias forças a Cádiz. É a única possibilidade de que Morgan escape da Espanha e de uma morte segura. 352


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Dom Eduardo ficou olhando a sua filha com consternação. —Mas filha, Diego é meu amigo. Não posso deixá-lo aqui. —Você mesmo disse que a ferida que tem não é grave. Se tivermos sorte, chegaremos ao Vingador antes que tenha tornado a si. Por favor, pai, faça isto por meu filho. Necessita um pai que o queira e que o cuide até que se faça adulto. Dom Eduardo se sentia dividido. Era verdade que Dom Diego provavelmente não tinha nada pior que uma leve contusão, mas sua honra exigia que ajudasse a seu compatriota. Mesmo assim, Luzia, que era sua própria carne e seu próprio sangue, suplicou-lhe com tanto empenho que não teve coração para lhe dizer que não. Já tinha ignorado uma vez seus desejos, e olhe o que tinha ocorrido. Agora era a esposa de um pirata inglês e esperava um filho dele. Se a tivesse deixado fazer-se monja, nada daquilo teria acontecido. —Está bem, Luzia, vou fazer o que você me pede. Mas temos que nos dar pressa se queremos chegar a Cádiz antes que Diego. Assim que volte a si irá nos perseguir. Seu cavalo é muito rápido, e nos alcançaria em pouco tempo. —Então temos que levar seu cavalo —disse Luzia com firmeza— Temos que nos assegurar até a menor oportunidade de escapar. Rápido, amarre o cavalo de Dom Diego à parte de trás da calesa. —Mas Luzia, isso não é o que eu faria… —Mesmo que foste um pai severo e inflexível, eu sempre lhes quis —disse Luzia, cada vez mais desesperada— E sempre soube que você me queria. Agora pode demonstrar isso. Deixe que Dom Diego fique aqui. Tampouco é que o esteja deixando abandonado. Pode ir conduzindo a carreta até Cádiz, que tampouco está tão longe. —Vou fazer o que me pede, embora não me pareça bem. Aos poucos minutos foram já trotando pelo caminho com o cavalo de Dom Diego preso à parte de trás da calesa, junto ao de Dom Eduardo. Estava já anoitecendo quando a carreta que transportava Morgan chegou serpenteando pelas ruas de Cádiz até o mole. Morgan havia tornado a si umas

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quantas vezes, mas não conseguiu dizer nada coerente sobre a sorte que tinha deslocado Luzia, nem sobre como tinha acabado caindo prisioneiro de Dom Diego. —Tomem cuidado com ele, companheiros —advertiu Stan enquanto localizava a toda pressa o bote que tinham deixado amarrado no embarcadoro, custodiado por um par de homens— Poderia ter alguma lesão interna. Acomodaram Morgan no bote, escorando-o contra Withers. Dois homens ficaram aos remos, enquanto outros empurravam o mole. Stan soltou um suspiro de alívio quando viu o bote cortando brandamente as ondas em direção ao Vingador. A sua chegada o içaram a bordo com o habitual sistema de polias, e em pouco tempo Morgan estava convexo em seu beliche, esperando que o cozinheiro, que fazia também as vezes de médico a bordo, viesse lhe curar as feridas. —Dá-me a impressão de que tem alguma costela quebrada —disse o cozinheiro quando teve examinado as contusões de Morgan— Na cabeça, saiu-lhe um galo do tamanho de um ovo, e parece que lhe feriram no mesmo ponto da perna que quebrou. —É grave? —perguntou Stan cheio de ansiedade. —A perna não a tem quebrada, só machucada. O capitão é um homem duro, curará como é devido, acredito eu, se é que não trata de fugir da cama muito logo. Vou administrar-lhe uma dose de láudano. —Não, láudano não —a voz de Morgan soou fraca mas firme— Necessito meus cinco sentidos para resgatar Luzia. —Onde está? —perguntou Crawford, inclinando-se para Morgan. —Esta em casa com seu pai —conjeturou Morgan— Não recordo quase nada. O que passou com De Fujo e seus seguidores? O que faziam naquele caminho, quando se supõe que tinham que estar no Vingador, me esperando? —Tinha uma intuição da que não conseguia me desprender. Graças a Deus que lhe fiz conta. Que demônios está fazendo De Fujo na Espanha? —Isso é algo que eu tampouco entendo —disse Morgan. A dor o atravessava; seu corpo inteiro era uma enferma massa de carne e ossos. Estava sofrendo de tal

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maneira que com muita dificuldade podia falar. Mas lutou contra a dor com cada fôlego que tomava. Não podia render-se a ela até que tivesse Luzia a salvo a bordo do Vingador. Tentou levantar-se, lutando contra o negrume que se fechava sobre ele, e seu rosto se pôs branco como um lençol. —Por todos os infernos! O que pretende fazer? —perguntou Stan, irritado ante a teimosia de Morgan— Não está em condições de se levantar da cama. —Me ajude, Stan, tenho que encontrar Luzia antes de que a agarre De Fujo. —Não se preocupe por De Fujo —replicou Crawford— Seus seguidores estão mortos, e ele não vai poder viajar nos próximos dias. —Matou-o? —Não, ou pelo menos não acredito. Ainda respirava quando fomos dali, mas duvido que se sinta em condições de viajar durante um tempo. —Não subestime a esse mal nascido, Stan. Me ajudará a me levantar? —Não. —Não? Como seu capitão te ordeno que obedeça minha ordem. —Não. Morgan se sentiu tão impotente que esteve a ponto de gritar de frustração. —Poderia mandar que ponham os grilhões por insubordinação. —Tente —desafiou Stan. Morgan se voltou para Withers. —Suponho que então corresponde a ti, Clyde. Do senhor Crawford me ocuparei mais tarde. Me prepare o bote, que vou baixar a terra. Withers sacudiu pesaroso a cabeça. —Sinto muito, Capitão, mas eu estou de acordo com o senhor Crawford. —Muito bem, pois então o farei só. — Custou-lhe três tentativas, mas ao final conseguiu sustentar-se sobre seus pés. Uma sacudida áspera de dor lhe obrigou a dobrar-se sobre si mesmo, mas em seguida recuperou o domínio e se endireitou. Suas próprias feridas não lhe importavam. Tinha que salvar sua mulher e seu filho que ainda não tinha nascido das garras de De Fujo. Withers e Crawford se olharam com preocupação, e logo se aproximaram reticentes para ajudar Morgan.

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—Está bem, Morgan —disse Crawford— O ajudaremos. Sempre foste um cabeça dura. Mas tenho sérias dúvidas de que possa chegar a terra sequer. Não se preocupe, Clyde e eu iremos procurar Luzia. Eu sei onde vive Dom Eduardo. —Não, o marido de Luzia sou eu. Ela é minha responsabilidade. —Morgan se movia devagar, com muito esforço— Vós só me levem a terra e me encontrem um cavalo. E me deem uma espada e uma pistola. —Maldito idiota teimoso —murmurou entre dentes Crawford— Lhe ajudaremos, mas eu vou contigo diga o que diga. Withers for procurar a espada e a pistola enquanto Crawford ajudava Morgan a chegar à coberta e a meter-se no bote. —Não vai se liberar de mim tão facilmente —disse Withers, saltando com Crawford dentro do bote— Ajudarei com os remos. —entregou a Morgan a espada e a pistola e deu instruções aos marinheiros para que baixassem o bote à água. Crawford observava atentamente a Morgan. Não tinha ideia de como conseguia manter-se direito. As graves feridas que tinha sofrido teriam obrigado a qualquer um a guardar cama durante dias. Mas Morgan não era qualquer um. Apesar de tudo, Crawford duvidava muito seriamente que Morgan pudesse sobrepor-se à dor de montar um cavalo. Tinha todas suas esperanças postas em o arrastar de volta ao navio inconsciente. Mas não pensava falhar ao Morgan. Jurou que encontraria Luzia custasse o que custasse. Dom Diego voltou a si ao pouco que Luzia e seu pai, o abandonassem a sua sorte. A cabeça lhe palpitava dolorosamente, e lhe levou uns minutos recordar o que tinha passado. Levantou-se aturdido, aproximou-se dando tropeções à carreta e soltou uma violenta maldição quando descobriu seus guardas mortos. Tinha sido um estúpido ao não fixar-se melhor naqueles camponeses, porque estava claro que não eram absolutamente camponeses, a não ser marinheiros do Diabo. A emboscada tinha tido êxito; sua falta de vista lhe tinha saído cara. O Diabo tinha fugido com seus

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homens, e Dom Diego compreendeu que tinha que chegar a Cádiz antes se queria evitar que o pirata lhe escapasse uma vez mais. A cólera de Dom Diego se transbordou quando, ao procurar seu cavalo, viu que não estava. Era um cavalo que trouxe de Havana e ao que tinha domado ele mesmo. Sabia que por si mesmo não se afastaria dele; alguém tinha que ter o levado. Que estúpido e que crédulo tinha sido. Mas não podia tolerar aquele atraso. Era imprescindível que chegasse a Cádiz e alertasse ao corpo de dragões antes que o navio do pirata zarpasse. Dom Diego contemplou o pangaré que estava enganchado à carreta com evidente desagrado. Aquele cavalo já não estava precisamente na flor da vida, mas cavalgar para em lombo até Cádiz lhe pareceu como mínimo melhor ideia, que ir arrastando uma carreta cheia de homens mortos. Para o excelente cavaleiro que era Dom Diego, montar sem cadeira não supunha problema algum. Por sorte, ele conhecia aquela zona, porque tinha vivido ali em sua juventude, e sabia um atalho para chegar à cidade através dos campos de olivas. Dom Diego aguardou um instante a que lhe aplacasse a contundente dor que sentia na cabeça, e logo desenganchou da carreta o cavalo e subiu nele com facilmente. Segurando as rédeas, esporeou os fracos flancos daquele pangaré e partiu cruzando os campos de Cádiz. Quando Luzia e seu pai chegaram a Cádiz se dirigiram diretamente ao porto. Luzia se estremeceu de alegria quando viu o Vingador ainda ancorado na baía. Tinham-no conseguido! Muito em breve Morgan e ela estariam juntos para sempre. —Um bote, pai, preciso encontrar um bote para chegar até o Vingador. Dom Eduardo suspirou com resignação. —Já me ocupo disso, Luzia. Você me espere na calesa. Seguro que encontro a alguém que queira te levar remando até o navio. —Não, pai, eu vou com você. —E, agarrando seu fardo de roupa e a espada de Morgan, esperou que seu pai a ajudasse a baixar. 357


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De repente, a atenção de Luzia se concentrou em um bote que estava descarregando passageiros no mole. Do mar chegava uma espessa névoa cinza que ocultava as silhuetas em uma bruma envolvente. A névoa e a luz minguante do dia impediram Luzia de reconhecer aos dois homens que saltaram do bote ao mole. Mas quando esses homens se inclinaram para ajudar a um terceiro a sair do bote, Luzia deixou cair seu saco de roupa e a espada, gritou o nome de Morgan e pôs-se a correr. Dom Eduardo recolheu aquelas coisas do chão e a seguiu o mais rápido que pôde. Ir sentado no bote havia prejudicado Morgan o inexprimível. Perguntava-se como demônios ia poder montar um cavalo sem cair, mas estava decidido a obtê-lo ou morrer na tentativa. Luzia lhe pertencia. Ela e seu filho eram tudo para ele. Sem eles não havia futuro. —Está bem, Morgan? —perguntou-lhe Crawford com ansiedade. —Perfeitamente —respondeu Morgan com um bufido de dor— Só necessito um cavalo. Os cavalos e a carreta que tinham alugado estavam ainda enganchados por ali perto. Ninguém se tinha ocupado de devolvê-los às cavalariças, porque naquele momento sua única preocupação era pôr a salvo Morgan a bordo do Vingador. Withers desenganchou um dos cavalos e o segurou de forma que Morgan pudesse montar. Tinha sérias dúvidas sobre a capacidade de Morgan de subir a um cavalo, mas fez o que seu capitão lhe ordenava. Morgan se sentia como se tivesse dentro da cabeça mil demônios com seus mil tridentes lhe cravando para sair. O corpo lhe ardia, e na perna lhe palpitava uma dor incrível, mas conseguiu levantá-la até o estribo sem ir para o chão. Preparou-se para sentir o candente suplício de ser içado até a cadeira. Quando viu que nem Crawford nem Withers faziam nada por lhe ajudar, olhou por cima do ombro para interpelá-los pelo atraso e encontrou com que os dois homens estavam olhando para o outro extremo do mole. 358


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Ouviu-a gritar seu nome antes de vê-la, com voz de desespero mas também de júbilo. E então a viu emergir dentre a névoa, com a capa flutuando ao redor e o cabelo revolto, alvoroçado pelo vento, ondulando em desordem ao redor de suas pálidas feições. —Luzia! —Morgan gastou suas últimas forças em baixar o pé do estribo e encaminhar-se para ela. Desabou nos braços de Luzia quando se encontraram no mole a meio caminho. Dom Eduardo, soprando pelo desacostumado esforço, chegou junto a eles a tempo de ajudá-la a segurar o corpo desvanecido de Morgan. Crawford e Withers chegaram instantes depois. —Está bem? —perguntou-lhes Luzia, fora de si de pura preocupação— O vejo muito pálido. —Morgan sofreu feridas graves —a informou Crawford— Agora que você está aqui já podemos levá-lo de volta ao navio e à cama, que é onde tem que estar. Insistia em ir te buscar ele mesmo. Estava louco de preocupação e não atendia a razões. Graças a Deus que vieste. Aqui estamos rodeados de perigos. Cheiro-o. —E olhou com remorso a Dom Eduardo. —Meu pai foi quem me trouxe até aqui —explicou Luzia— Não nos vai impedir de partir. —Devem andar depressa —apressou Dom Eduardo— É possível que Dom Diego nos tenha vindo seguindo. Assim que tinha pronunciado essas palavras quando um estrondo procedente do outro extremo do mole invadiu a noite incerta. Luzia estremeceu de consternação ao vislumbrar a Dom Diego que com uma patrulha armada de dragões carregava para eles pelo caminho pavimentado. —Detenham! Detenham o pirata! —gritou Dom Diego, hasteando a espada como se fosse uma tocha de guerra. —Depressa, ai, por favor, depressa —exortava Luzia sem fôlego enquanto os homens levavam Morgan, meio puxando, meio carregando, para o bote.

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Luzia ia dando tropeções, entorpecida por sua gravidez. Sem atrasar-se nem um segundo, Withers a recolheu em seus braços e a depositou no bote. Logo ajudou Crawford e Dom Eduardo ajudou a acomodar Morgan junto a ela. O bote se afastou do mole sem perder um instante. A Luzia lhe correram lágrimas pelas bochechas naquela apressada despedida de seu pai. —Quero-lhe, pai. Sempre será bem-vindo em Andros. Quero que meu filho conheça seu avô. —Irei, filha —lhe prometeu do porto, Dom Eduardo— Pode que nem sempre lhe tenha demonstrado isso, mas eu também te quero. O bote se internou deslizando-se na densa bruma justo no momento em que Dom Diego e os dragões chegavam ao final do mole. Dom Diego afastou sem olhar a Dom Eduardo, amaldiçoando aquela névoa espessa e cinza que tão bem vinha ao pirata para escapar. —Se detenham! —gritou Dom Eduardo, tratando desesperadamente de proteger sua filha. Lhe fazendo caso omisso, os dragões prepararam os mosquetes e dispararam às cegas; voltaram a carregar e a disparar até que se fez evidente que sua presa estava já fora de seu alcance. —Mas o que têm feito! —gritou Dom Diego, voltando-se contra Dom Eduardo. —Pela primeira vez em minha vida, tive em conta a felicidade de minha filha — respondeu ele, tragando um soluço— Está grávida do inglês; você não a teria aceito nessas condições. Com quem tem que estar é com seu marido. Luzia me deu sua palavra de que no futuro o Diabo não voltará a ser um perigo para as embarcações espanholas. —E acreditou? —espetou depreciativamente Dom Diego. —Sim, acreditei. Deixa-os em paz, Diego. Como consolação por sua perda pode ficar com uma generosa parte do dote de Luzia. Busca uma mulher digna de sua categoria. Dom Diego se deu conta de que estava derrotado e tratou de tomar o melhor que pôde. 360


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—Têm razão, Eduardo. Por muito que tivesse gostado de agarrar a esse pirata e lhe oferecer sua cabeça ao rei, conformarei-me com o que me oferece. Meu orgulho me impede de querer uma mulher que está grávida de outro homem. A menos que o Diabo volte a fazer das suas no mar, darei este assunto por resolvido. Dom Eduardo reprimiu um sorriso. —Vêm comigo a casa, vamos fazer um brinde por sua saúde e sua prosperidade. Sem parar de retorcer as mãos, Luzia estava tão em cima de Morgan como uma galinha chocadeira, esperando que recuperasse a consciência. Crawford, Withers e Renalda se mantinham atrás dela, lhe dando seu apoio. —Ficará bem, Luzia —lhe assegurava Renalda— Diz Stan que este teu Morgan é um homem forte e que saiu de outras piores. Luzia deu a Renalda um sorriso choroso. Tinha estado tão angustiada que nem sequer tinha saudado como Deus manda a sua amiga, mas já celebrariam o reencontro assim que ela tivesse a certeza de que Morgan estava fora de perigo. Luzia se dirigiu a Renalda em um espanhol rápido que sabia que nem Withers nem Crawford eram capazes de seguir. —Não te arrepende de ir da Espanha, Renalda? Já sei que não era feliz no convento, mas a decisão de abandonar o país em que nasceu não teve que ser fácil. Aqui segue estando sua família. Renalda sorriu, melancólica. —Quero muito a minha família, mas os conheço bem. Nunca deixarão de renegar a mim. Me teriam deixado envelhecer e morrer no convento antes que dar seu braço a torcer. Você e seu pirata me deram a ocasião de ter um futuro. E vou agradecer isso sempre. Espero que não esteja zangada comigo por ter pressionado Morgan para que me deixasse vir. Não tenho dinheiro, nem nenhum outro lugar ao que ir.

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—Estou encantada, Renalda; é justo o que eu queria. Um dia não muito longínquo Andros estará cheio de povos e de gente, e você vais encontrar um homem de que te apaixonar. Disso estou segura. —Eu também estou segura —disse Renalda, lançando um tímido olhar a Stan. —O que estão murmurando vocês duas? —perguntou Stan, colocando o braço sobre os estreitos ombros de Renalda. O gesto foi tão possessivo que a ninguém ficou dúvida de quais eram os sentimentos de Stan para a senhorita espanhola. —Do futuro —lhe disse Luzia—De repente parece que nos sorri. —Sim —coincidiu Stan, rodeando o braço ao redor de Renalda. Surpreendialhe dar-se conta de que queria tê-la em seus braços. Pode que Renalda e ele encontrassem a felicidade juntos. Pouco depois, Morgan abriu os olhos e sorriu a Luzia. Quando lhes fez evidente que Morgan não tinha olhos mais que para seu mulher, outros se desculparam e saíram sem fazer ruído. Morgan pegou amão de Luzia e a levou aos lábios. —Como chegou até aqui? —Isso temos que agradecer a meu pai. Em realidade não é o demônio que você crê que é. Quando se inteirou de que estou grávida de ti e de que não poderia ser feliz com outro homem, cedeu. Seguimos sendo marido e mulher, Morgan. Li o documento de anulação. Dizia que não terá validade nenhuma no caso de que eu estivesse grávida de ti. —Não importa; teria casado contigo outra vez. —Lamento que fosse de meu pai o navio responsável que matou a sua família e lhe fizessem escravo, mas te rogo que deixe isso para trás e que tente lhe perdoar. Tampouco é justo jogar a culpa do que tenham feito todos e cada um de seus navios em suas muitas viagens. —Não quero falar agora de seu pai, meu amor —murmurou Morgan— Estou desejando que o passado, passado seja, se é que ele está de acordo. Ele te trouxe

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aonde eu estava, e isso o tenho que agradecer. Pareceu-me ouvir disparos antes de desfalecer… —Sim, Dom Diego apareceu com o corpo de dragões, mas a névoa e a escuridão estavam do nosso lado. Agora estamos a salvo. Stan pôs rumo a Andros. Ainda não posso acreditar que tenham vindo a Espanha para me buscar, com o perigo tão grande que supõe para ti e para seus homens. Meus patrícios não têm precisamente motivos para te querer. Morgan ficou olhando a Luzia como se fosse louca. —Como não ia vir? Me teria sido impossível, apaixonado como estou por você. Você me pertence. Já arrisquei a vida por ti várias vezes antes, e voltarei a fazê-lo se for necessário. Quando se quer a alguém como eu te quero, todo sacrifício é pouco. E agora quererei também a nosso filho. — Apoiou com ternura a mão no ventre avultado de Luzia— Quero a este menino tanto como você, meu amor. Por fim vou ter minha própria família. Até que te conheci, o que me pulsava no peito era uma coisa dura e amarga que nem sequer podia chamar-se coração. A vingança governava minha vida, e o ódio aninhava em minha alma. Em troca agora estou tão cheio de amor, e em meu coração não cabe nenhum outro sentimento. Os olhos escuros de Luzia faiscaram, maliciosos. —Há coisas que não mudou, querido. Segue sendo o arrumado descarado que entrou em minha vida como um furacão e me raptou. Se não fosse por você, eu nunca teria sabido que semelhante coisa existia sequer. —Se mal me recordo, você o que queria era ser monja —disse Morgan lhe piscando um olho. Luzia sorriu sem pudor. —Naquela época eu não sabia até que ponto ia me derreter por ti. —agachouse para lhe beijar nos lábios— Agora quão único quero é seguir sendo sua mulher para sempre.

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—Reconheci desde o começo essa paixão tua que tanto se empenhava em negar. Até quando se ajoelhava para rezar, seus sedutores olhos negros transmitiam um desejo infinito que só esperava liberar-se. Amo-te, Luzia. A Luzia lhe brilhavam os olhos de felicidade. —Eu também te amo, Morgan. Assim que fique melhor vou demonstrar o quanto. —Deite-se a meu lado —a apressou Morgan, afastando as mantas— Preciso te abraçar. —Não quero te fazer mal. —Ainda não posso te fazer amor como é devido; só quero te ter entre meus braços. A urgência que havia em sua voz a empurrou a decidir-se. Sentou-se com cuidado na borda da cama, preparando-se para meter-se junto a ele. —Não, assim não. Tire a roupa. —Morgan… não acredito que seja boa ideia. Precisa descansar. Morgan lhe deu um sorriso perverso. —É uma ideia estupenda. Quero sentir como se move meu filho a meu lado enquanto durmo. Luzia não resistiu quando ele a despiu amorosamente e lhe fez lugar no beliche. Ao rodear com seu corpo machucado o corpo dela, Morgan se sentiu percorrido por um renovado vigor; voltou a sentir-se inteiro.

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Epílogo Ilha de Andros 1592

—Não parece espetacular, Morgan? —suspirou Luzia enquanto contemplavam como o sol se afundava lentamente sob o brilho da água. Luzia tinha a cabeça apoiada no ombro de Morgan e o céu ia passando de um laranja vivo a um dourado apagado e à malva, para desdobrar logo um manto de deslumbrantes diamantes sobre o plácido mar que se estendia ante eles. —Todos os entardeceres me parecem espetaculares quando estou contigo — respondeu Morgan, abraçando-a estreitamente— Se arrepende de ter vindo a Andros comigo? —Eu adoro este lugar —lhe respondeu Luzia com ar sonhador— É como sempre imaginei que seria o paraíso. E o povo está crescendo a passos largos. Richard tem um montão de meninos com que jogar. A filha de Stan e Renalda só tem um ano menos que nosso filho, e Renalda está grávida outra vez. —Incomodou-te que Clyde Withers trouxe Rouge a Andros? —quis saber Morgan— Reconheço que foi uma surpresa saber que a tinha conhecido em uma de suas viagens e tinha perdido a cabeça por ela. Quer que a mande partir? —Parece que estão apaixonados de verdade um pelo outro —concedeu Luzia— Enquanto a Rouge não ocorra te pôr a vista em cima, que seja bem-vinda.

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Morgan riu. —Disso não tem que preocupar-se, quem está apaixonado de verdade sou eu, e ela sabe. Mas acredito que Rouge encontrou o verdadeiro amor em Clyde. Luzia assentiu com a cabeça, voltando seus pensamentos para o outro amigo. —Me alegro de que tenha feito Stan co-proprietário do negócio da madeira — disse, perdendo rapidamente o interesse por Rouge e Clyde— Renalda e ele foram uns amigos estupendos conosco durante estes anos. Não te parece uma ironia que dois homens que odiavam todo espanhol tenham acabado casados com duas espanholas? —Coisas mais estranhas se viram. Eu nunca pensei que pudesse estar feliz sem a coberta de um navio sob os pés —arguiu Morgan— Richard e você fazem de cada dia uma aventura; já não me sinto miserável a vagar pelos mares. Que tal a passagem de seu pai aqui de visita? Ontem me deu a impressão de que lhe custava partir. —Muito. Já sei que você ainda não se sente cômodo com ele, mas ele ficou tão bem com seu neto, que pensa em voltar dentro de uns meses. A próxima vez trará com ele Celestino e Arturo. A última vez que foram em casa lhe disseram que tinham vontade de conhecer seu sobrinho. —Tenho assumido o feito de que seu pai e seus irmãos são parte de nossas vidas. —E não lamenta, Morgan, que o tenham proibido se aproximar das costas inglesas? —Nem um pouco —disse ele com veemência— Algum dia, as Bahamas estarão muito mais povoadas do que possamos imaginar. Estas ilhas foram mais ou menos ignoradas desde que foram descobertas, mas estou vendo que chegará um dia em que haverá muitos querendo vir a este paraíso particular nosso. A Inglaterra possivelmente possamos voltar algum dia, de visita. A rainha está abrandando. Meu advogado me informou que mandou perguntar em seu escritório se eu estava bem. Tenho a impressão de que nos daria a bem-vinda a Inglaterra se quiséssemos voltar. Luzia enrugou o nariz. 366


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—Eu não gosto da Inglaterra. Morgan soltou uma gargalhada. —E eu não sou bem recebido na Espanha. Parece que temos o melhor dos dois mundos aqui em Andros. Voltamos para casa e resgatamos nosso filho das mãos de Lani? O míma muito. Luzia lhe lançou um sorriso provocador. —Ainda não. Agarrou-lhe a mão e o levou pela praia até um apertado grupo de palmeiras cujos pés a erva estava espessa e amaciada. Puxou Morgan para que se deitasse a seu lado. —No que está pensando, esposa? —Em que faz muito que não fazemos amor sob o balançar das palmeiras em uma noite tão agradável como esta, me faça amor, Morgan. Nos olhos de Morgan brilhou um resplendor escuro. —A um convite como esse é difícil resistir. Seus lábios procuraram os de Luzia, satisfazendo-se com a fome de sua resposta. Tinha mudado muito dos tempos em que era uma menina assustada que não aspirava na vida mais que a ser monja. Apertou-a contra o musgo; foi despindo-a devagar e logo ele. Uniram-se em uma paixão esplendorosa, com os corpos nus como recipientes sagrados aos que rendiam culto com mãos, lábios e línguas. Um grito afogado de júbilo fez que os dentes de Luzia se afundassem no ombro de Morgan enquanto ele a fazia sua apaixonadamente. —Meu Deus, que loucura —ofegou Morgan, sentindo como o fogo dela o envolvia— Te sigo desejando tanto como há cinco anos. Doce monjnha, tiveste-me enfeitiçado no momento em que pus a vista em cima. —Não fale, Morgan. Quando te tenho dentro de mim não posso pensar com claridade. Só posso sentir. Ele empurrou com os quadris para meter-se ainda mais dentro. Ela se arqueou para cima, deleitando-se na fome, a paixão desbocada e o crescente engrossamento

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de Morgan. Um arrebatamento profundo interrompeu a respiração e os pensamentos de Luzia, e a fez gritar de prazer. Lhe tampou a boca com a sua, sentindo suas convulsões ao redor dele. O frenesi do clímax de Luzia lhe fez precipitar-se para sua própria tempestade, transpassado de uma satisfação absoluta. Com suas bocas ainda pegas uma à outra, Morgan se deitou junto a ela. Envolveu-a em seus braços enquanto a última pulsação de prazer o percorria em um calafrio. —Pode que esta noite tenhamos feito um menino —sussurrou a Luzia ao ouvido. Tentou não soar muito esperançoso, mas seu filho já tinha mais de três anos, e em sua opinião já era hora de dar a Richard um irmão ou uma irmã. —Isso é impossível —lhe respondeu Luzia, bem segura do que dizia. Morgan tentou dissimular sua decepção. É que Luzia não queria ter outro filho com ele? Renalda já estava esperando seu segundo filho. —Por que diz isso? Como pode estar tão segura? Luzia lhe acariciou o rosto com uma ternura deliciosa. Logo lhe agarrou a mão e a passou por seu ventre plano. —É impossível que tenhamos feito um menino hoje porque estou grávida de seu segundo filho. Um lento sorriso curvou os lábios de Morgan. —Está segura? —Todo o segura que posso estar. —Não recordo ter sido tão feliz nunca em minha vida. —Nem eu tampouco —assegurou Luzia— Vamos para casa, meu amor, que nosso filho nos está esperando.

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SOBRE A AUTORA: A escritora norte-americana Connie Mason, começou a escrever fazem mais de vinte anos. Conta com mais de cinqüenta novelas românticas escritas, com um contexto histórico. Seu trabalho foi reconhecido em múltiplas ocasiões no Romantic Teme, que lhe outorgou vários prêmios, : «Connie Mason é uma das escritoras com maior êxito dentro do gênero romântico. Sabe chegar ao leitor como ninguém, com suas cenas cheias de sensualidade e paixão» É autora de mais de cinqüenta novelas e histórias curtas que ocuparam o topo na lista de vendas. Foi escolhida Autora do Ano pela associação Romantic Teme em 1990, além de obter o prêmio da melhor autora de novelas ambientadas no Oeste, em 1994. Atualmente, Connie reside em Tarpon Springs, Florida, com seu marido Jerry. Antes de publicar seu primeiro livro em 1984, Connie era dona-de-casa em tempo integral. Como leitora ávida deste tipo de novela, escrever sempre foi o sonho de Connie. Em 1995, a autora apareceu em um programa da CBS dedicado à indústria da novela romântica, além de ser mencionada em um artigo publicado pelo jornal National Inquirer. Além de escrever e viajar, Connie gosta de contar a quem quiser ouvir, histórias de seus três filhos e nove netos, e compartilhar suas lembranças de quando viveu

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na Europa e รsia. Em seu tempo livre gosta de ler, danรงar, jogar bridge e pescar com seu marido.

Para entrar neste grupo, enviar e-mail para moderacaogrh@yahoo.com.br

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