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MEDO DE AMAR THE HIGHLANDER'S BRIDE

Donna Fletcher

Escócia Impossível resistir! Cullen Longton fica estarrecido com a notícia de que tem um filho! Empenhado em encontrar a criança, que foi raptada por um inimigo vingativo, ele segue as pistas até um convento nas Terras Altas da Escócia, onde uma mulher linda e desesperada promete ajudá-lo em sua busca... por um preço... Sara McHern é uma prisioneira atrás dos muros do convento, onde deve permanecer até que o pai lhe encontre um marido. A chegada de Cullen é a resposta às suas preces, e ela o levará até o filho se ele concordar em desposá-la. Mas uma paixão inesperada floresce entre ambos, e o que era para ser um casamento de conveniência se transforma um relacionamento intenso e poderoso. Cullen nunca imaginara que entregaria seu coração àquela mulher temperamental, mas à medida que os dois tentam escapar da teia de intrigas que os rodeia, o amor talvez seja a única coisa que poderá salvá-los...

Digitalização e Revisão: Crysty


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Querida leitora. Sara é uma jovem corajosa, com um enorme senso de justiça e uma língua afiada. Enviada a uma abadia por recusar o marido escolhido por seu pai, ela vê suas preces ser atendidas quando o honrado Cullen surge em sua vida. Casados, eles partem em uma jornada rumo a um futuro incerto, sob a ameaça de um homem perverso. Aos poucos, vão derrubando as barreiras que os impedem de se entregar a um grande amor... Um romance sensível e envolvente... Leonice Pomponio Editora Copyright © 2007 by Donna Fletcher Originalmente publicado em 2007 pela HarperCollins Publishers PUBLICADO SOB ACORDO COM HARPERCOLLINS PUBLISHERS NY,NY-USA Todos os direitos reservados. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência. TÍTULO ORIGINAL: THE HIGHLANDER'S BRIDE EDITORA Leonice Pomponio ASSISTENTES EDITORIAIS Patrícia Chaves Paula Rotta Vânia Canto Buchala EDIÇÃO/TEXTO Tradução: Ercilia Magalhães Costa Revisão: Giacomo Leone ARTE Mônica Maldonado MARKETING/COMERCIAL Andréa Riccelli PRODUÇÃO GRÁFICA Sônia Sassi PAGINAÇÃO Gustavo Moura © 2009 Editora Nova Cultural Ltda. Rua Paes Leme, 524 — 10 andar — CEP 05424-010 — São Paulo - SP www.novacultural.com.br Impressão e acabamento: RR Donnelley

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CAPÍTULO I

Sara permaneceu na capela da abadia de Stilmere, ajoelhada no piso de pedra, rezando, durante quase uma hora. Estava desesperada. — Senhor, arranje-me um marido, por favor — pediu, confiante. O Senhor, tão bondoso, certamente iria atendê-la, pensou. Seu caso exigia atenção imediata e ela insistiu: — Preciso de um marido com urgência, Senhor. Neste momento. Meu pai não vai esperar mais. Envie-me um marido hoje. Depois de um profundo suspiro, Sara levantou-se e foi até o pequeno altar de madeira, coberto com finas toalhas de linho brancas, com uma linda cruz de ouro no centro. Teria de obedecer à ordem do pai e casar-se com o homem que ele escolhera para ela. Donald McHern, pai de Sara, era alto e forte, corpulento como um tronco de carvalho. Tinha o rosto magro, anguloso e fartos cabelos ruivos que pareciam arder como chamas quando ele se exaltava. Apenas os olhos claros, azuis, com um toque de verde, indicavam que ele possuía alguma gentileza. Os moradores de sua propriedade, no entanto, consideravam-no excelente senhor de terras; não se cansavam de elogiar seus atributos e de enaltecer-lhe as qualidades. McHern administrava bem o clã, era justo, cuidava de sua gente, promovia a paz entre todos, mas não hesitava em usar a espada sempre que necessário. Teresa, irmã mais velha de Sara, recebera do pai a mesma ordem: — Arranje um marido ou eu mesmo me encarregarei de encontrar um homem decente para desposá-la — sentenciara Donald McHern. Teresa, felizmente, já estava apaixonada por Shamus, um chefe de clã do agrado do sr. McHern, e ele aprovara a escolha da filha. Sara e o pai eram muito parecidos, tanto fisicamente quanto no que dizia respeito ao gênio. Ela era franca, autoritária, muito alta e tinha os mesmos olhos luminosos, azul-esverdeados do sr. McHern, bem como os flamejantes cabelos ruivos e a natureza impetuosa. Protestara ao ouvir a ordem do pai, alegando que jamais iria encontrar um homem digno dela. Exaltado, Donald McHern bradara que a filha era teimosa, rebelde e autoritária e que homem nenhum aceitaria por esposa uma mulher com gênio tão terrível. Portanto, cabia a ele, como pai, encontrar um marido para ela. Só de pensar que um dos candidatos que o pai tinha em mente era Harken McWilliams, Sara estremeceu. Ele não era feio, mas não se cuidava, andava sempre

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sujo e malcheiroso. Quando abria a boca mostrava os dentes tortos e estragados. Ele morava num clã vizinho e pretendia associar-se aos poderosos McHern. Para isso, nada melhor do que desposá-la. — Por nada neste mundo permitirei que esse homem podre me beije, muito menos que toque em mim — Sara dissera zangada, na frente do próprio Harken. Ele avançara em sua direção, tentando intimidá-la, mas ela não apenas o enfrentara como, levando a mão ao punho da adaga que levava sempre consigo, presa à cintura, havia-ameaçado cortar-lhe certos órgãos se ele se atrevesse a encostar nela um dedo que fosse. Chocado e trêmulo diante da ameaça, Harken dera um salto e mantivera-se atrás do sr. McHern. Este, por sua vez, tinha ficado vermelho de raiva e, como castigo, a mandara para a abadia de Stilmere, até que ela recuperasse o bom senso. Isso acontecera dois anos antes. No momento, Sara tinha vinte e dois anos e recebera do pai uma mensagem que a deixara desalentada. Ele apresentava a ela duas alternativas: fazer os votos perpétuos ou casar-se com Harken McWilliams, que a aceitaria por esposa, apesar de haver recebido dela palavras tão ofensivas. Nenhuma das opções a agradou, e ela compreendeu que só lhe restava pedir ajuda ao Senhor misericordioso. Afinal, não havia autoridade mais elevada do que a d'Ele. Só o Senhor tinha o poder de realizar o milagre do qual ela tanto necessitava. Mais uma vez, ajoelhou-se diante da cruz, juntou as mãos e voltou a fazer suas orações. Com voz suave e reverente, apesar de seu desespero, murmurou: — Tenho o maior respeito pela vida religiosa, mas tornar-me freira não é a minha vocação e não posso continuar aqui. Aprendi muito durante minha estada na abadia, mas não suporto esta reclusão. É por isso que estou aqui, Senhor, para implorar, mais uma vez: arranje-me um marido. Prometo não ser exigente. Aceitarei o marido que o Senhor me enviar. Mas, por favor, que esse homem não seja fedorento. — Sara deu um suspiro. — Bem, se o único homem disponível não tiver um cheiro agradável, mande-o assim mesmo. Eu me encarregarei de atirá-lo no primeiro rio ou lago que houver por perto. Nada como um banho para levar embora o fedor. Sara continuou a orar. Se o Senhor não se compadecesse dela e não a socorresse, ela não saberia o que fazer. As duas opções apresentadas pelo pai eram simplesmente inaceitáveis. Não suportaria viver com o fedorento Harken. E, que Deus a perdoasse, ela não podia fazer os votos perpétuos. A vida na abadia não era para uma pessoa com a sua natureza expansiva, com seu gênio rebelde. Por quanto tempo ficou ajoelhada orando, não saberia dizer. Estava tão imersa em suas preces que se sobres-saltou ao sentir um leve toque no ombro. Projeto Revisoras

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— Eu não quis assustá-la e perdoe-me por interromper suas orações — sussurrou a irmã Mary, em respeito ao lugar santificado. — A abadessa deseja vê-la imediatamente. Sara ergueu-se, ligeiramente apreensiva. Tentou lembrar se havia cometido alguma falta para merecer repreensão da abadessa. Por mais que se esforçasse, acabava sempre cometendo algum deslize. Isto servia para provar que ela não nascera para ser freira. Ajeitando o pesado xale de lã azul sobre a cabeça e os ombros, Sara saiu da capela na companhia de irmã Mary. O vento forte do fim de inverno deixou-as com as faces vermelhas. — Você sabe por que a abadessa mandou me chamar? — Não. Suponho que tenha a ver com o cavalheiro que está na sala com ela. Sara parou de andar abruptamente. Um cavalheiro! Teria ouvido bem o que a irmã acabara de dizer? Percebendo que Sara não estava mais do seu lado, a irmã Mary também parou de andar e olhou para trás. — Você está bem? — Muitíssimo bem — Sara respondeu. Segurou no braço da irmã e começou a andar depressa, praticamente puxando a freirinha. — Milagre, irmã Mary. Hoje aconteceu um milagre. O que acabara de ouvir foi um sério golpe para Cullen Longton. Sua longa busca não poderia terminar assim. Viajara tantos quilômetros sozinho, evitando as pessoas, para não ser reconhecido. Se alguém descobrisse que ele estava na Escócia, os soldados do rei viriam atrás dele imediatamente. Perdera Alaina, a mulher que amava; não podia ter perdido também o filho. — Lamento a perda de seu filho, sr. Longton — disse a abadessa. — Pelo menos o senhor tem o conforto de saber que o bebê teve um enterro cristão. A superiora da abadia não podia estar dizendo a verdade, Cullen pensou, relembrando o que acontecera pouco mais de cinco meses atrás. Nos últimos instantes de vida, Alaina lhe dissera que o filho de ambos nascera e que era um menino forte e saudável, mas fora arrancado de seus braços e ela nunca mais o veria. Com esforço, já respirando com dificuldade, ela havia implorado a Cullen que encontrasse o bebê e o protegesse. A partir daí, ele iniciara sua busca e chegara à abadia de Stilmere. Tinha planejado encontrar o filho antes de enfrentar o conde de Balford, o responsável pela morte precoce de Alaina. Observou a abadessa, alta e magnífica naquele hábito branco e impecável, Projeto Revisoras

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tendo ao peito uma grande cruz de ouro. Ali estava uma religiosa, uma mulher que dedicara a vida a Deus. No entanto, ele não acreditava nela. — Meu filho não pode estar morto. — Lamento, sr. Longton, mas essa é a verdade — tornou a abadessa com amabilidade. — O recém-nascido viveu apenas alguns minutos e morreu serenamente. Teve um enterro cristão e foi sepultado no cemitério desta abadia, em solo sagrado. — Quero ver a sepultura. — Perfeitamente. Compreendo que o senhor queira oferecer a Deus orações pela alma de seu filho. Cullen seguiu a religiosa por um longo corredor. Seus passos, decididos e pesados, ecoaram pelas sólidas paredes, produzindo um som lúgubre. Assim que deixara o navio do meio-irmão, Burke, no porto de St. Andrew, ele trocara as sandálias gastas por sapatos, e as roupas escocesas velhas por novas. Ele não sabia da existência desse meio-irmão, vindo da América. Burke era casado com a linda e delicada Storm, um anjo de mulher, injustamente acusada de um crime que não cometera, e considerada fora-da-lei. Não fosse por Burke e por Storm, Cullen teria apodrecido na prisão. O casal libertara-o, levara-o até Alaina, com o propósito de partirem todos para a América e começarem vida nova no Território de Dakota. Burke informara ao irmão que o pai de ambos havia deixado a família em excelente situação financeira e, no momento, Cullen estava em posse de uma fortuna. Nem sabia o que fazer com tanto dinheiro. Além de entregar-lhe boa quantia em moedas, Burke deixara à disposição dele o dinheiro de que precisasse e se oferecera para ficar na Escócia e ajudá-lo a encontrar o filho. Cullen agradecera, mas dispensara a ajuda do irmão. Encontrar o filho era uma missão que cabia a ele. Só a ele. Se ficassem sabendo que ele se encontrava na Escócia, algum caçador de recompensa o denunciaria. Soldados sairiam à sua procura e não descansariam enquanto não o encontrassem. Entretanto, não seria fácil reconhecê-lo, pois ele tinha agora outra aparência. Estava limpo, usava kilt de tecido de lã xadrez vermelho, preto e amarelo e camisa de linho creme, e tinha os cabelos castanhos, longos e brilhantes, trançados. Tudo nele proclamava que ali estava um homem de elevada posição e grande fortuna. Ao recebê-lo, a abadessa tratara-o respeitosamente, mas assim que ele lhe perguntara sobre o filho, Alexander, a religiosa mostrara-se ligeiramente inquieta, embora tivesse se mantido calma. Esse comportamento despertara a suspeita de que ela não havia sido inteiramente honesta com ele. Portanto, pretendia apurar toda a

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verdade envolvendo o desaparecimento do filho. A abadessa conduziu-o a um pátio que seguia paralelo aos arcos de pedra da galeria, na parte leste do prédio principal da abadia. As lápides e cruzes de madeira indicavam que era ali o cemitério. Ela continuou a andar por um caminho de terra e parou diante de uma sepultura que ficava no canto direito, nos fundos do pequeno cemitério. — É aqui — disse ela suavemente. Na pequena cruz branca, de madeira, Cullen leu o nome: Alexander. Notou que as letras estavam malfeitas, como se a pessoa que as escrevera não tivesse tido paciência ou houvesse realizado a tarefa de má vontade. Tudo aquilo lhe dava a impressão de que o pequenino Alexander fora jogado ali sem o menor cuidado. Esse pensamento causou uma profunda dor em seu peito; a respiração tornou-se difícil, e ele sentiu vontade de gritar e chorar. Era doloroso demais pensar que não pudera proteger o filho, que não o havia segurado nos braços logo que chegara a este mundo e que deixara sozinha, num momento tão trágico, a mulher a quem tanto amava. Porém, seus olhos permaneceram secos quando ele curvou a cabeça e fez uma oração pelo filho que nunca conhecera. Encontre nosso filho, Cullen. Prometa-me que irá encontrá-lo. As palavras ditas por Alaina antes de morrer ressoavam em sua mente. Ele não podia ignorá-las. Olhou para a abadessa, que mantinha a cabeça baixa como se estivesse rezando. Ou estaria ela com receio de encará-lo? De olhar para ele dentro dos olhos? Teria mais alguma coisa para lhe dizer? Haveria algo que ela não desejava que ele soubesse? — A senhora assistiu ao enterro do bebê? — Cullen indagou. — Eu... Eu... não... — Então a senhora não viu meu filho ser enterrado — ele concluiu sem rodeios. — Asseguro-lhe que ele teve um enterro cristão. — Isso a senhora já disse. — Cullen olhou novamente para a cruz de madeira onde fora gravado o nome do filho de modo tão descuidado. — Quero ver meu filho. A superiora indicou a cruz branca de madeira. — Aí está seu filho, como pode ver. Cullen balançou a cabeça devagar. — O que estou vendo é uma sepultura. Quero ver o corpo de Alexander. Enquanto eu não tocar... — Como? Este é um lugar sagrado. Respeite o descanso final de seu filho — Projeto Revisoras

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tornou a abadessa, chocada. — Quero ter meu filho nos braços — ele declarou com firmeza. A superiora endireitou os ombros. — Isso eu não permitirei. — O que a senhora pretende fazer para me impedir de abrir esta sepultura? Foi tão grande o espanto da superiora que ela não conseguiu dizer uma palavra. — Preciso de uma pá. — Não vou ajudá-lo a profanar este solo sagrado — replicou a abadessa, tendo encontrado a voz. Cullen deu um passo na direção da religiosa. Ele tinha um metro e oitenta e seis, uma altura que normalmente intimidava tanto homens como mulheres. — Se for preciso, abrirei esta sepultura com as mãos. Seja como for, quero ver meu filho, tocar nele. A abadessa manteve a expressão desafiadora. — Não profanarei este solo sagrado. Cullen dirigiu à religiosa um olhar dardejante e, em seguida, correu os olhos ao redor. Viu uma enxada encostada ao tronco da única árvore que havia no cemitério e ia pegá-la, mas a abadessa passou depressa na frente dele. Cullen não se abalou. Foi atrás dela e, simplesmente, tirou-lhe a ferramenta das mãos antes de voltar para a pequena sepultura. — Por favor, não viole a sepultura — ela implorou, correndo atrás de Cullen. — Deixe a alma de seu filho descansar em paz. — Minha alma não descansará em paz, se eu não me certificar de que meu filho foi enterrado aqui — replicou ele. — Está insinuando que menti para o senhor? Cullen começou a abrir a pequena sepultura. — Logo descobriremos se Alexander foi realmente sepultado aqui. Várias freiras tinham saído da abadia e se encontravam sob os arcos de pedra com os rosários nas mãos, rezando, agitadas. — Rezarei pelo senhor e pelo bebê — disse a abadessa apertando a cruz de ouro. Cullen continuou cavando em silêncio. Não demorou muito e viu algo enrolado num cobertor azul. Largou a enxada, curvou-se sobre a sepultura e, com o coração aos saltos e as mãos trêmulas, pegou o embrulho. Ficou parado por um instante, com medo do que poderia encontrar ali. Projeto Revisoras

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O embrulho era pequeno, e suas mãos tremiam ao erguê-lo com delicadeza. Porém, deteve-se por um instante. Havia algo errado. Ansioso, acabou de abri-lo e constatou, atônito, que ali havia apenas um saco de tecido grosseiro. Voltou-se para a abadessa, que também parecia atordoada. Rapidamente, olhou o interior do saco, estreitando os olhos por um momento, incerto do que iria encontrar. Em seguida, virou-o para baixo e sacudiu-o, despejando a areia que havia dentro dele. — Onde está meu filho? — inquiriu. — Eu... Eu... tenho... — Quem enterrou meu filho? Os olhos da superiora se arregalaram. Cullen jogou o saco no chão, esfregou as mãos para limpá-la da terra e ordenou: — Traga meu filho. Já. — Eu... — Traga-o para mim, agora! — ele gritou, furioso. Apesar da raiva, sentia um grande alívio. Uma esperança renascia em seu coração. Alexander, seu filho, estava vivo. A irmã Mary e Sara juntaram-se às freiras reunidas sob os arcos da galeria. Todas tinham os rosários nas mãos e seguravam as contas como se fossem armas. As preces eram para elas a forma de proteção que conheciam e na qual confiavam. Sempre que precisavam enfrentar um problema, permaneciam na capela, em vigília, orando. Aquela cena, entretanto, com quase todas as religiosas ali na galeria, desfiando nervosamente as contas de seus rosários, lembrava a Sara soldados preparando-se para um combate. Quem seria o inimigo? Ela afastou o xale da cabeça, mantendo-o sobre os ombros, deixando à mostra os cachos ruivos que brilhavam como chamas. Olhou para o local onde estavam a superiora da abadia e o cavalheiro alto, e compreendeu imediatamente a apreensão das irmãs. O escocês acabara de violar uma sepultura, procedimento inconcebível. O pior era que a sepultura em questão não era outra senão aquela onde, supostamente, fora enterrado o bebê, neto do conde de Balford, cuja história Sara conhecia bem. Endireitou os ombros, ergueu bem a cabeça e caminhou até onde estavam a superiora e o escocês. A cada passo que dava, sentia o coração pulsando com mais força. O homem alto e forte devia ter alguma ligação com a mãe do bebê. Aquela Projeto Revisoras

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pobre mulher, filha do conde de Balford, fora trazida para a abadia meses atrás para dar à luz, e sua história tornara-se conhecida das freiras e das noviças que ali viviam. O conde proibira a filha de se casar com um homem de posição social inferior à dela. Por isso, não aceitava o neto e iria mandar matá-lo assim que nascesse. Revoltada com uma situação tão injusta, Sara vira-se obrigada a tomar uma decisão, da qual, um dia, com toda a certeza, teria de prestar contas. Aparentemente, esse dia tinha chegado. Aproximando-se do escocês alto e forte, notou que ele estava com muita raiva. Parecia pronto para avançar nela assim que a viu. Apesar de furioso, ele era atraente, Sara observou. Os olhos castanhos eram um pouco mais escuros do que os cabelos longos e trançados. Tinha ombros largos, tórax, pernas e braços musculosos e, com a graça de Deus, dentes bonitos e saudáveis. Hum... Boa aparência e força considerável eram qualidades necessárias para um bom marido, ela pensou, lembrando-se do pedido feito a Deus enquanto estivera orando na capela. Restava saber se ele era casado. Não devia ser. Ela acreditava que Deus havia atendido às suas preces enviando-lhe, generosamente, aquele homem para seu marido. Sara parou do lado da abadessa e perguntou ao escocês: — O senhor deseja falar comigo? — Onde está meu filho? — indagou ele sem preâmbulos. — Perdi a mãe dele. Não vou perdê-lo também. O tom dele, que revelava um misto de dor e raiva, cortou o coração de Sara. Aquele homem já fora ferido demais, e ela não queria causar-lhe mais sofrimento. Iria dar o que ele desejava tão desesperadamente. Porém, ele teria de ajudá-la. — Foi você a encarregada de cuidar do enterro do recém-nascido — disse a abadessa em tom acusador. — Se tivesse havido um bebê para ser enterrado, eu teria providenciado para ele um enterro cristão. Mas o bebê estava vivo e era muito saudável. A abadessa ficou atônita. — Impossível. O bebê morreu pouco depois de nascer. — Não é verdade. O recém-nascido... — Estava morto e merecia um enterro cristão — afirmou a abadessa. — Quero saber o que foi feito com o corpo dele. Sara não era de ficar calada quando tinha certeza de alguma coisa. — A senhora deve ter ouvido os comentários... — Ouvi. Todos absurdos. Projeto Revisoras

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— A mãe dele não achava, então... — A mãe dele não estava em seu juízo perfeito... — Basta! — Cullen gritou. Os olhos escuros fixaram-se em Sara. — Por favor, explique-me. O que aconteceu? — Sara não está a par de nada — insistiu a abadessa. Cullen virou-se depressa para a religiosa e dirigiu-lhe um olhar glacial. — Ela vai responder à pergunta que fiz, e a senhora não deve interferir. — Ele voltou a atenção a Sara. — Explique o que aconteceu. — Não presenciei o nascimento do bebê. A maioria das freiras e eu ficamos apenas orando, ansiosas para darmos, pelo menos, uma olhadinha na criança assim que ela nascesse. A certa altura ouvi alguém dizendo que o bebê estava condenado. Não entendi por quê. Não fazia sentido que a criança estivesse correndo perigo. Um recém-nascido é inocente... — Nenhum bebê é inocente — cortou a abadessa. — Ele já chega a este mundo em pecado. — Por isso está condenado? — Sara questionou. — Alexander não tinha feito mal a ninguém. Entrou neste mundo cheio de vida, mas seu avô, o conde de Balford, planejava livrar-se dele. A abadessa não se conteve e repreendeu Sara. — Pare com essas mentiras. Ignorando a repreensão, Sara prosseguiu: — Vi a mãe de Alexander apenas quando ela chegou a Stilmere. Fiquei impressionada com sua beleza. — Ela era linda... e se chamava Alaina. E eu sou Cullen Longton. — Pois bem, quando o bebê nasceu, Alaina implorou aos que estavam no quarto que cuidassem da criança e não deixassem nenhum mal lhe acontecer. Mas arrancaram o filho de seus braços, indiferentes aos seus gritos e lágrimas. Notando o olhar de Cullen fixos nela, a abadessa defendeu-se depressa: — Ela está mentindo. — Por que a senhora acusa Sara de estar mentindo e insiste em dizer que meu filho está morto? A senhora viu quando ele morreu? — Não. Fui informada da morte dele — tornou a abadessa e olhou chocada para Sara. — Eu informei à superiora que Alexander tinha morrido — disse Sara com um sorriso. — Então você... mentiu para mim? — indagou a abadessa, perplexa. Projeto Revisoras

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— Tive pena do bebê. Ele não tinha feito mal nenhum para merecer um destino tão horrível. Por isso mandei-o para um lugar seguro. — Que lugar é esse? Onde está meu filho? — Cullen quis saber. Sara não respondeu de imediato. Precisava, antes de mais nada, conversar a sós com o sr. Longton para expor-lhe o que tinha em mente. Lamentava a perda que ele sofrera, mas, ao mesmo tempo, não podia desperdiçar a chance, talvez a única, de resolver seu problema. Na verdade, queria apenas um pequeno favor em troca do muito que ele iria receber, ou seja, encontrar o próprio filho. Ele só tinha a ganhar. Seria uma troca justa. Pelo menos, ela acreditava que sim. Ah, ela não podia deixar de esclarecer ao sr. Longdon, que o casamento não seria necessariamente para a vida toda. O importante era apresentar seu marido ao seu pai. — Quero muito vê-lo com seu filho, sr. Longton, mas preciso de sua ajuda. Acho melhor tratarmos do assunto em particular. A abadessa protestou, mas, como Sara esperava, Cullen rejeitou o protesto. Minutos mais tarde, ele e Sara foram levados até a capela. Na capela, Cullen permaneceu de pé, tenso, entre os bancos da frente e o altar. Não se sentia à vontade em igrejas. Perdera a fé havia muito tempo e, com a morte absurda de Alaina, tornara-se completamente descrente. Acreditava apenas na sua coragem e só contava com seu empenho e determinação para ter o filho de volta. Era o que mais lhe interessava na vida. Só depois iria acertar contas com o conde de Balford. Por enquanto, não pensava em vingança. Alexander exigia toda a sua atenção. Não podia ficar prostrado, refletindo sobre o que acontecera a Alaina e ao recémnascido. Estava disposto a tudo para encontrá-lo. Daria a Sara o que ela quisesse, aceitaria suas condições, desde que ela o levasse até onde estava Alexander. Afinal, se ela não tivesse se compadecido do bebê, se não o tivesse corajosamente mandado a um lugar seguro, talvez a criança já estivesse morta. Portanto, devia a ela a vida de seu filho. Preço nenhum seria alto demais para ter Alexander nos braços. Estava disposto a pagar-lhe o que ela exigisse. Ansioso para pôr um fim àquela provação, indagou: — Quanto você quer pela informação sobre o lugar onde está Alexander? — Quero que se case comigo. Por um momento, ele ficou imóvel e emudecido, apenas fitando-a. Por fim, encontrou a voz. — Como? O que você disse? — Você ouviu perfeitamente — tornou ela sem rodeios. — Preciso casar-me com urgência, e é o único homem disponível. — Ao perceber que ele olhava para seu ventre, completou: — Não estou grávida, se é o que está pensando. Nunca dormi

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com homem nenhum. Ao ouvir isso, Cullen arqueou as sobrancelhas. — Pense o que quiser a meu respeito. Isso para mim não importa. O importante é que aceite casar-se comigo. Meu pai quer que eu me case, mas não tenho pretendente nenhum. Por isso, ele escolheu um marido para mim. Se eu não aceitar esse pretendente, terei de fazer os votos e tornar-me freira. Como preciso de um marido e você quer que eu o leve até seu filho, pensei em entrarmos num acordo. Cullen andou devagar ao redor de Sara, avaliando-a. Dependia dela para chegar até o filho. Sara não tinha a beleza surpreendente de Alaina. Seus traços eram comuns. O que havia nela de extraordinário eram os cabelos ruivos. Cachinhos graciosos emolduravam o rosto e brilhavam como pequenas labaredas. Ela era muito alta para uma mulher e aquele conjunto marrom austero e mal cortado que ela usava impedia-o de analisar-lhe o corpo. Os olhos azuis com um toque de verde, entretanto, deixaram-no intrigado. Ele não saberia dizer por quê. A cor era comum, porém havia neles algo profundo que ele não conseguia identificar. Naquele breve contato com Sara, também percebera que ela era franca, direta e pouco se importava se as suas palavras iriam constranger ou chocar alguém. Na opinião dele, tal comportamento revelava falta de boas maneiras. O casamento tinha pouca importância para Cullen. Para ele, o importante era passar o resto da vida com a mulher amada. Isso não fora possível com Alaina, e ele sentia que sua capacidade de amar tinha morrido com ela. Não queria nem mesmo tentar amar novamente. Considerando a proposta de Sara, reconhecia que ela lhe pedia pouco para levá-lo até onde estava Alexander. Estava disposto a tudo para ter o filho de volta, são e salvo. Poderia facilmente aceitar o acordo. Depois, deixaria a impetuosa ruiva e, tendo o filho nos braços, iria para a América começar uma vida nova. — Como você ainda não respondeu, imagino que esteja considerando a minha proposta. — Nunca imaginei receber proposta semelhante — Cullen admitiu. — Aprendi que a vida é cheia de acontecimentos inesperados. — Sara encolheu os ombros. — Cada um deve fazer o que pode com o que tem em mãos.— E aconteceu que eu apareci na sua vida no momento em que você desejava encontrar um marido. — É verdade. Você foi enviado por Deus. Quanto mais falava com Sara, mais Cullen se surpreendia com sua franqueza, mas ele não podia censurá-la, pois estava sendo honesta com ele. — Se o seu pai escolheu um marido para você, por que não se casa com ele? Sara apertou o nariz e abanou-se com a mão. Projeto Revisoras

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— Ele fede! Cullen esboçou um sorriso, o primeiro depois de longo tempo. — É tão ruim assim? Ela revirou os olhos. — Se ele for colocado num campo de batalha, o inimigo batera em retirada assim que sentir seu mau cheiro. Desta vez, para sua própria surpresa, Cullen não conteve o riso. A cena que ela descrevera e seu modo de falar tinham muita graça. — E os dentes dele! — Sara prosseguiu. — Agradeci ao bom Deus quando vi que você tem dentes perfeitos. Você é uma jóia. — Então mereço a sua aprovação? — Digamos que eu seja grata aos céus por sua boa aparência. Além disso, você é o único homem disponível. Certamente vai aceitar a minha proposta, uma vez que tenho o que você quer. — Então você vai me dizer... — Só depois que nos casarmos. Essa mulher, além de franca, era astuta, Cullen pensou. Restava saber se podia confiar nela. Talvez nem estivesse falando a verdade. Ele também seria direto com ela. — Como posso ter certeza de que não está falando um monte de mentiras, apenas para sair daqui? Sara suspirou e abanou a cabeça. Cullen reparou nos cachinhos ruivos balançando ao redor do rosto dela. Aquele tom de vermelho lembrava o sol indo para o poente no fim do dia. Os olhos azul-esverdeados fixaram-se nos seus, e ele sentiu um estremecimento percorrer-lhe o corpo. Havia naquele olhar tamanha ternura e comiseração que o comoveram. Ele soube que ela não estava mentindo. — Eu disse a verdade. — Ela sorriu. — Tive seu filho nos braços. Era um bebê adorável e tinha cabelos castanhos como os seus. Acalmei seu choro cantando baixinho para ele quando o roubei durante a noite e levei-o a um lugar seguro. Senti grande alívio quando o deixei longe desta abadia. Eu tinha certeza de que ninguém iria encontrá-lo, pois todos acreditavam que estava morto e enterrado. Enchi um saco com areia e enrolei-o num cobertor azul. Cavei a sepultura, coloquei sobre ela uma cruz na qual escrevi propositadamente, sem muito cuidado, o nome "Alexander". Cullen sentiu vontade de aproximar-se de Sara e abraçá-la. Ela fizera pelo filho o que ele não pudera fazer. Salvara a criança arriscando a própria vida, pois se o conde de Balford algum dia descobrisse o que ela havia feito, mandaria castigá-la severamente. Entretanto, apesar de ser-lhe imensamente grato, Cullen também estava Projeto Revisoras

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aborrecido. Queria que Sara revelasse onde Alexander estava. Ansiava por ter o filho nos braços, por constatar que ele estava bem e com saúde. Depois disso, seguiria para a América, indo reunir-se ao meio-irmão. Lá ninguém poderia fazer mal a nenhum dos dois. — Agradeço-lhe o que fez por meu filho — disse Cullen. — Mas... — Sara suspirou. — Você gostaria de não ter de se casar comigo. — É verdade. Não quero me casar com você — Cullen respondeu com franqueza. — Se quer ver seu filho, não tem escolha. As palavras soaram como uma ameaça, deixando-o zangado. Mas ele controlou a raiva. A situação não lhe agradava, porém precisava de Sara. E se concordasse em se casar com ela por um breve período apenas? O casamento não significava nada. Tratava-se apenas de um acordo. Ele e Sara não se amavam. No fundo, era a idéia de casamento que o assustava. Sempre acreditara que se casaria com Alaina. Ela seria sua única e amada esposa. Não queria saber de nenhuma outra. Lembrou-se de que Alaina, antes de morrer, havia pensado apenas no filho. Ela sabia que não lhe restava muito tempo de vida e sua maior preocupação era com a segurança de Alexander. Arriscara-se para reunir-se a Cullen a fim de, juntos, procurarem o filho. Pagara caro por isso. Pagara com a própria vida. Agora Sara lhe propunha um acordo. Isso não era nada comparado ao preço pago por Alaina. Portanto, não tinha o direito de reclamar. Dirigindo a ela um olhar penetrante, declarou: — Eu me casarei com você. Os protestos da abadessa foram veementes ao saber que Sara e Cullen queriam se casar. Ela alegou que não era correto duas pessoas se casarem por razões impróprias. Firme em sua decisão, Sara foi inflexível ao apresentar seus argumentos. Por fim, vencida pelo cansaço, a abadessa acabou cedendo. Sara McHern e Cullen Longton casaram-se. A cerimônia foi rápida e simples. Para Sara, aquele casamento tinha apenas o propósito de livrá-la da pressão que o pai vinha fazendo para vê-la casada. Como muitas moças, tivera seus sonhos românticos. Havia esperado encontrar o amor, mas isso nunca acontecera e ela se conformara. O amor não era para ela. Desde bem jovem, recebera críticas dos rapazes. Eles caçoavam dela por ser tão alta e ridicularizavam-na por causa de sua excessiva franqueza. Isso lhe afiara a língua, tornara-a mais rude, de modo que bem poucos se atreviam a brigar ou discutir com ela. Graças à sua natureza insolente, ela granjeara poucos amigos e pouquíssimos Projeto Revisoras

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namorados. Nesses dois anos em que vivera na abadia de Stilmere aprendera alguma coisa, o que significava que sua estada entre as freiras não havia sido inútil. Agora voltaria para casa sem precisar submeter-se à vontade do pai. Contudo, receava que o escocês não ficasse contente quando descobrisse que o acordo feito entre ambos incluía mais coisas do que ele imaginava. — Vou buscar minha bagagem e iremos embora — declarou Sara assim que a cerimônia de casamento terminou. — Não será necessário — tornou Cullen. — Você irá para sua casa e eu seguirei meu caminho. Diga-me apenas onde está meu filho. Sara inspirou fundo e expirou com impaciência. — Em primeiro lugar, quero que meu pai conheça você e fique sabendo que estamos realmente casados. Depois iremos buscar seu filho. Vendo que o rosto e o pescoço do novo marido rapidamente tornaram-se vermelhos, Sara, prudentemente, deu um passo para trás. Cullen avançou na direção dela, mas Sara esticou o braço e colocou a mão espalmada sobre o peito dele, sentindo-o quente como brasa. — Seu filho está bem e em segurança — afirmou para tranqüilizar o ansioso pai. — Prometo levá-lo até Alexander assim que meu pai souber que estou casada. — Nosso acordo não foi esse. Você disse que teríamos de nos casar e estamos casados. — Não foi exatamente o que eu disse. — Você me enganou. — Não tive alternativa. Você aceitaria casar comigo se soubesse que eu esperava de você alguma coisa além da cerimônia de casamento? Exasperado, Cullen afastou-se dela. Quando voltou, pouco depois, o rosto e o pescoço tinham a cor normal. — O que mais você espera de mim? — indagou com a voz baixa. — Trataremos desse assunto mais tarde — Sara respondeu e olhou para a abadessa, que estava ocupada registrando o casamento. Todas as outras freiras tinham se retirado. — Diga-me agora — Cullen insistiu, chegando bem perto de Sara. — Quando estivermos sozinhos — disse ela com firmeza. Sem que Sara esperasse, Cullen segurou-a pelo braço e levou-a para fora. Ficaram ambos a um canto, protegidos por um dos arcos. Ali ninguém poderia ouvilos, muito menos vê-los. — Agora! — ele ordenou, soltando-a. Projeto Revisoras

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— Tente compreender minha situação. Meu pai precisa ter certeza de que estamos realmente casados. Só assim ele me deixará em paz. Não vou insistir para você continuar comigo. Um dia você simplesmente desaparecerá, irá embora. Haverá comentários por algum tempo, depois ninguém falará sobre o assunto. Levarei a minha vida, sozinha, você terá seu filho e irá com ele para onde quiser. — O que você quis dizer com "realmente casados"? A pergunta veio mais cedo do que Sara esperava, mas já que tinha sido feita, ela respondeu sem hesitar: — O casamento tem de ser consumado. Preciso que se deite comigo. Cullen ergueu as mãos e andou de um lado para o outro, abanando a cabeça. Sara prosseguiu. — Entendo que você ainda esteja guardando luto por sua amada Alaina. Pense que não há amor na nossa, união, apenas dever. Só isso. Ele resmungou algo que soou como um rosnado. — Repetimos os votos matrimoniais e votos devem ser confirmados. Não posso correr o risco de meu pai anular o casamento e obrigar-me a aceitar o marido que ele escolher para mim. Embora quisesse dizer mais alguma coisa, Sara ficou em silêncio. Achou melhor dar a Cullen algum tempo para refletir. Além disso, feria-lhe os sentimentos saber que o marido não queria deitar-se com ela. Oferecia-se a ele, e era recusada, como se ele a considerasse repulsiva. Observando os homens e fazendo perguntas ingênuas, aprendera alguma coisa sobre eles. Com base nos seus conhecimentos, entendia que os homens estavam sempre dispostos a aceitar uma mulher que se oferecesse a eles. Por que Cullen era diferente? Segurando-a mais uma vez pelo braço, ele encostou-a na parede de pedra e ficou na frente dela, quase a sufocando com seu corpo grande e forte. — Explique de uma vez tudo o que você quer de mim para, em troca, levar-me até meu filho. Sara conseguiu respirar. Aquele escocês não era fácil, e isso a agradava. Precisava de um homem assim, capaz de enfrentar seu pai e garantir-lhe a liberdade. — Deite-se comigo quando estivermos a caminho de casa. Então o apresentarei a meu pai para ele certificar-se de que estamos casados. Depois disso você estará com seu filho. — Quero ir até meu filho antes de conhecer seu pai. Sara compreendia que Cullen precisava de garantias, mas ela também queria ter certeza de que ele cumpriria sua parte do acordo. — Posso ter sua palavra de honra de que não serei abandonada depois que Projeto Revisoras

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você estiver com seu filho nos braços? — Honrarei nosso acordo assim que estiver com meu filho. — Quero que se deite comigo antes de... — Está bem. Eu me deitarei com você — ele interrompeu-a e afastou-se. Ela não entendia o motivo daquela relutância em consumar o casamento, uma vez que o acordo era vantajoso para os dois. Também estava surpresa por ter ficado tão aborrecida com a atitude dele. Talvez estivesse desapontada porque gostaria de despertar o desejo de um homem. E Cullen, ao que tudo indicava, longe de desejá-la, queria livrar-se dela o quanto antes. Bem, não era para menos. Desde muito jovem, ela se empenhara em manter, principalmente os rapazes, a boa distância dela. Com receio de ser magoada, protegera-se usando a língua afiada como escudo. — Vamos partir imediatamente. Pegue suas coisas — Cullen ordenou. Sara afastou-se depressa, ansiosa para ter uns momentos a sós e também para deixar a abadia. Rapidamente juntou o que lhe pertencia: duas saias de lã, duas blusas de linho, um par de botas e dois pentes entalhados, de osso, que tinham pertencido à mãe. Amarrou tudo no xale que estivera usando e vestiu o pesado casaco de lã, pois o inverno ainda não terminara. Antes de sair do pequeno quarto, olhou ao redor. Ali havia apenas uma cama de solteiro, um baú e uma cruz, tão solene contra a parede branca. Ela não iria sentir saudade daquele lugar nem das pessoas que viviam em Stilmere. Aquela vida solitária e vazia, o trabalho enfadonho e as obrigações não serviam para ela. Ansiava por viver plenamente, por conhecer as coisas boas e ruins, os sorrisos e as lágrimas, a felicidade e a tristeza; caso contrário, iria ter a sensação de que não vivera. Naquele dia, ela começaria a viver, iria experimentar tudo o que pudesse e apreciaria cada bocado. Fez com a cabeça um gesto de adeus, despedindo-se da antiga vida. Saiu do quarto sem nenhum sentimento de pesar, fechou a porta e caminhou ao encontro do seu destino. Cullen entregou à abadessa uma generosa quantia em pagamento pela provisão para a viagem e pelo cobertor extra para a esposa. Esposa. O som da palavra causou uma pontada em seu coração. Alaina devia ser a única esposa que ele teria na vida. Amara-a loucamente e, quando ela morrera em seus braços, sua capacidade de amar também se extinguira. Nunca amaria outra mulher. Em seu coração, só havia amor pelo filho. Para ele, apenas Alexander importava, e tudo o que queria era encontrá-lo e levá-lo para um lugar seguro. Havia planejado viver com o filho na América. Burke, seu meio-irmão, lhe contara sobre as vastas terras que possuía no Território de Dakota. Indo para a América, ele conheceria melhor o irmão e saberia mais coisas sobre o pai de ambos, que jamais tinha visto. Projeto Revisoras

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Como não conhecera o pai, Cullen queria evitar que o mesmo acontecesse a Alexander. Por isso, era para ele tão importante encontrar o garoto. Só depois do seu encontro com o meio-irmão, ficara sabendo que o pai não o abandonara. Pelo contrário. Logo depois da morte da esposa, muito preocupado com o filho ainda bebê, e justamente por pensar no futuro dele, o sr. Longton deixara-o aos cuidados da cunhada e partira para a América, para tentar fortuna. Infelizmente, quando havia retornado à pátria, fora informado de que a cunhada falecera, mas ninguém soubera lhe dizer para onde Cullen tinha sido levado. Segundo Burke, o sr. Longton jamais parara de procurá-lo. Em seu leito de morte, fizera o filho que tivera com a segunda esposa prometer que encontraria Cullen. O meio-irmão cumprira a promessa. Burke e Cullen tinham passado poucos dias juntos, mas esse tempo fora suficiente para que ele o pusesse a par de sua situação financeira e também falasse sobre o pai de ambos e sobre a vida na América. Burke partira, deixando-o ansioso para encontrar o filho e partir com a criança para o Território de Dakota, a fim de reunir-se ao meio-irmão e tomar posse do que era seu por herança. Tudo o que tinha a fazer era cumprir o acordo feito com Sara. Ele não se envolvera com ninguém depois da morte de Alaina. Suas feridas ainda não estavam cicatrizadas e doía-lhe o simples pensamento de tocar em outra mulher. Todavia... Ele era um homem viril e saudável, e o corpo tinha suas exigências. Uma parte dele era grata por ter a oportunidade de deitar-se com uma mulher; outra parte o advertia que uma união assim não lhe daria nenhum prazer. No final, ele iria sentirse mais vazio, mais sozinho, e a saudade de Alaina aumentaria. Ao mesmo tempo, reconhecia que não havia escolha e, pelo menos, era confortador saber que tinha um bom motivo para deitar-se com Sara. Ela era uma mulher com atrativos. Também era corajosa, tinha iniciativa e presença de espírito. Não podia negar que a admirava por essas qualidades. Qualidades que ela demonstrara possuir quando levara Alexander para um lugar seguro. Esse motivo já era suficiente para Alaina perdoá-lo por dormir com a nova esposa. E ele? Poderia perdoar-se? — Estou pronta. Ao ouvir a voz de Sara, Cullen sobressaltou-se. Estava tão imerso em suas divagações que não a viu aproximar-se. Observou-a. Era muito alta para uma mulher. Tinha um porte altivo, ombros retos e mantinha a cabeça erguida. O sol forte da tarde tornava os cabelos rebeldes mais vermelhos e brilhantes. O que havia nos olhos azul-esverdeados que os tornava tão intrigantes?

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— Você também está pronto? Cullen fez um gesto afirmativo com a cabeça. Em seguida, perguntou: — A viagem será muito longa? Teremos de ir a cavalo? — Você veio até aqui a pé? — Deixei meu cavalo numa fazenda a pouca distância daqui. — Se formos a cavalo, chegaremos ao castelo de meu pai em uma semana — Sara informou. — Ótimo. Quero estar com meu filho o mais depressa possível. — Você verá Alexander assim que conhecer meu pai. Foi o que lhe prometi, e minha promessa será cumprida. Também prometi ao bebê que o deixaria em um lugar seguro e onde ele seria bem cuidado. Sem dúvida, Sara era uma mulher surpreendente. Imagine, prometer alguma coisa a um recém-nascido... — Fale-me sobre meu filho. Cullen começou a andar, e Sara acompanhou-o. — Alexander era muito esperto para um recém-nascido. Quando eles transpuseram os portões da abadia, ela olhou para a capela, cuja torre estava envolta numa nuvem. Mas ao redor o sol brilhava, como se estivesse lhes dando uma calorosa despedida. — Esperto? Como um recém-nascido pode ser esperto? — Alexander se contorcia e se agitava quando certas pessoas o seguravam. Com outras, ele ficava quietinho. Era como se ele soubesse em quem podia confiar e quem não merecia confiança. — Ele se agitou quando esteve nos seus braços? — Não. — Sara sorriu. — Ficou quietinho como se me conhecesse. Durante todo o tempo em que ele ficou comigo, eu o tranqüilizei, disse-lhe que estava seguro e que seria bem cuidado. Na noite em que e o levei da abadia, pedi que ele ficasse em silêncio, e ele dormiu nos meus braços o tempo todo. — Você acha que ele a ouviu e entendeu o que você disse? — indagou Cullen, rindo. — É claro que sim — Sara afirmou com veemência. Olhou para Cullen como se ele fosse tolo para duvidar dela. — Eu já não disse que Alexander era muito esperto? Os dois alcançaram a estrada, por onde seguiram a passos firmes, mantendo uma conversa agradável. Em pouco tempo, deixaram para trás a abadia e os olhos que os observavam até que desapareceram de vista. Projeto Revisoras

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A abadessa escreveu rapidamente uma carta e, assim que a terminou, voltouse para o rapazinho da vila mais próxima, que costumava ser chamado à abadia para realizar pequenos serviços. Entregou-lhe o envelope e recomendou: — Leve esta carta ao conde de Balford e a deixe nas mãos dele. Nenhuma outra pessoa pode saber disto, só o conde. Entendeu? — Sim, senhora. — É muito importante que você faça exatamente o que estou pedindo. Vá diretamente até ele. Não se distraia nem pare no caminho por nada. Entregue-a somente ao conde. — Sim, senhora. — Muito bem. Pode ir. — A abadessa fez um gesto com a mão, dispensando o rapaz, e deixou-se cair pesadamente na cadeira de sua sala. O conde de Balford era o maior benfeitor dali. Sem a sua generosa contribuição, as portas da abadia de Stilmere teriam de ser fechadas. Ele planejara deixar a filha na abadia quando estivesse para dar à luz e, quando a criança nascesse... A abadessa fechou os olhos e balançou a cabeça. O que ela poderia ter feito na ocasião? Deixar de atender ao pedido do conde? Bem, ele não fizera um pedido. Na verdade, dera-lhe uma ordem. O bebê devia estar morto quando fosse entregue a Sara para que ela cuidasse do enterro. Porém, ela o pegara com vida. Ninguém podia saber daquele plano, mas não fora possível mantê-lo em segredo. Mesmo numa comunidade religiosa, os comentários corriam soltos. Quando ficara sabendo que o bebê tinha sido enterrado, a abadessa sentira um grande alívio. Sua provação tinha terminado. Ela abriu os olhos e suspirou. A ordem dele não fora cumprida. A criança estava viva. A provação acabava de recomeçar. Seria impossível prever que medidas o conde de Balford iria tomar quando soubesse que o neto estava vivo e que o pai viera à Escócia buscá-lo. O que a abadessa sabia era que tinha o dever de proteger a abadia a todo custo, ainda que isso pusesse outras pessoas em perigo. Cullen Longton e a nova esposa, Sara, estavam sozinhos e sem proteção. Que Deus os ajudasse. Era muito bom cavalgar novamente. Sara gostava de passear a cavalo, de andar pelos bosques e colinas, de pescar em riachos, de caçar na floresta, e sabia preparar qualquer peixe ou caça que apanhasse, isso sem mencionar o grande talento para trabalhar com agulha e linha. Na verdade, era muito habilidosa. Tendo tido poucos amigos, passava a maior parte do tempo sozinha. Dotada de uma curiosidade que raiava a obsessão, logo compreendera que tinha capacidade para aprender tudo o que quisesse e estivesse ao seu alcance. Entretanto, apesar de todo o seu conhecimento e habilidades, não conseguira Projeto Revisoras

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arranjar um marido. Que homem poderia querer uma esposa que montasse melhor do que ele e que o superasse nas caçadas? Como se não bastasse, ela era muito mais inteligente do que a maioria dos homens do seu clã e não tinha a menor paciência para ouvir observações idiotas. Teresa, três anos mais velha do que ela e, graças a Deus, defensora da irmã, sempre lhe dissera que um dia iria encontrar um homem capaz de reconhecer suas qualidades e de respeitá-la. Sara duvidava que isso fosse possível. Um homem teria de ser muito corajoso ou tolo para apaixonar-se por ela. Observou o marido, que seguia adiante, ambos tocando os cavalos a passo firme e regular. Cullen nada tinha de idiota e era mais corajoso do que a maioria dos homens que ela já conhecera. Para encontrar o filho, ele desafiara a ira de um conde poderoso. Sara tinha todos os motivos para admirar um homem com tanta bravura e desprendimento. Aceitando casar-se com ela, Cullen provara estar realmente disposto a tudo para ter o filho nos braços. A idéia de forçá-lo a desposá-la não tinha sido agradável, especialmente considerando-se que ele perdera havia pouco tempo a mulher que amava, mas, de certo modo, o acordo feito por eles mostrara-se vantajoso para os dois. Nem ela nem Cullen queriam realmente permanecer casados. Assim que seus objetivos fossem alcançados, o casamento terminaria. Simples assim: uma união perfeita com uma solução perfeita. Continuando com suas reflexões, ela lembrou-se de que também havia admirado o senso de justiça e a firmeza de Cullen ao negociar com o fazendeiro que abrigara seu cavalo. O homem concordara em vender-lhe uma égua, que seria usada por Sara. Cullen pagara pelo animal mais do que o preço exigido pelo fazendeiro, pois tendo ela sua própria montaria, a viagem seria mais rápida, mais agradável e menos cansativa. Sem dúvida, seu marido era um homem surpreendente e isso despertava sua curiosidade inata. Tinha grande interesse em conhecê-lo melhor. O pensamento sobressaltou-a. Não era bom deixar-se impressionar por um homem que mal conhecia. O que havia entre eles era apenas um acordo e, quando este fosse cumprido, ambos se separariam. De mais a mais, ela não estava nas boas graças de Cullen. O que iria acontecer quando ele se deitasse com ela? Estremeceu. Teria de manter em mente que se deitar com o marido era apenas uma parte do acordo feito entre ambos. Uma parte muito importante para ela, mas que terminaria assim que o casamento fosse consumado. Nem ela nem Cullen tinham a menor vontade de manter por mais tempo essa parte do acordo. Quando começou a escurecer, eles interromperam a viagem. Tinham de acampar antes de cair a noite. Durante todo o trajeto, haviam trocado apenas

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algumas palavras. Sara respeitou o silêncio de Cullen. Deduziu que, para ele, o dia não transcorrera como o esperado; afinal, não encontrara o filho e agora tinha uma esposa. Enquanto ele cuidava dos cavalos, Sara juntou galhos secos e gravetos e acendeu a pequena fogueira. Depois, em silêncio, cada um estendeu seu cobertor no chão, perto do fogo. Cullen dividiu com Sara o pedaço de queijo, o pão e o vinho que havia levado. Cansada de ficar calada, pois se mantivera durante dois anos em relativo silêncio, ela ansiava por conversar. Poderia haver pessoa melhor com quem prosear do que o marido? — Notei que você pagou generosamente ao fazendeiro pela égua — ela comentou, partindo um pequeno pedaço do queijo. Cullen deu de ombros. — Ele precisava do dinheiro, e eu da égua. Pude pagar o que ele pediu pelo animal. — Você deve ter dinheiro de sobra — observou Sara. Tinha notado as roupas novas de Cullen e o magnífico cavalo. — Tenho tudo de que preciso para viver com conforto. De fato, ele tinha riqueza, mas não um título. A ausência de um título o impedira de ser aceito como marido de Alaina. Um homem sem poder não merecia consideração. Isso era justo? O poderoso conde de Balford era conhecido por sua ligação com pessoas muito importantes e desejava para a filha um grande casamento. Movida pela curiosidade natural e pela incorrigível franqueza, Sara indagou: — Riqueza de família? Cullen dirigiu-lhe um olhar de censura antes de fazer com a cabeça um gesto afirmativo. Foi o bastante para Sara entender que ele não queria falar sobre sua vida pessoal. Não tinha importância. Ela sabia como fazer para descobrir o que desejasse sobre as pessoas sem que elas tivessem consciência disso. Escolheu falar sobre o assunto de maior interesse de Cullen: o filho. — A casa onde deixei Alexander não fica muito distante da minha. Ele a encarou. Os olhos escuros pareciam penetrar sua alma. Era o que ela queria para mantê-lo interessado numa conversa. — Alexander está bem e não corre nenhum perigo, como já lhe assegurei inúmeras vezes. Você o terá nos braços assim que o nosso casamento for consumado, cumprindo uma parte do nosso acordo — tornou Sara. Para não dar a ele chance de dizer alguma coisa sobre o assunto, perguntou depressa: — Como você conseguiu descobrir que seu filho poderia estar na abadia de Stilmere? Imaginei que o conde de Balford tivesse se empenhado para manter em segredo o que considerava uma Projeto Revisoras

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vergonha para ele e a família. — Algumas moedas de valor abrem bocas que estiveram seladas, especialmente se forem bocas famintas. Dinheiro, novamente, Sara pensou. Cullen devia ter um suprimento ilimitado de moedas. Subitamente, ele acrescentou, como se tivesse necessidade de explicar: — A princípio, não consegui informação nenhuma. Só depois que passei a distribuir moedas as pessoas começaram a falar, baixinho, é claro. Todos temiam a fúria do conde de Balford e como eu conhecia, melhor do que ninguém, os métodos violentos do conde, não quis pôr ninguém em perigo. Eu tinha o cuidado de ouvir uma coisa aqui, outra ali e, finalmente, cheguei a Stilmere. Fiquei perplexo ao constatar que o conde se dera o trabalho de montar um plano intrincado, um verdadeiro labirinto para esconder a filha, de modo que ninguém ficasse sabendo do nascimento da criança. Cullen inspirou fundo. Era visível seu sofrimento ao pensar em Alaina e lembrar-se de tudo o que ela havia passado. Pouco depois, voltou a falar com renovada veemência: — Eu nunca entendi o porquê de Alaina não me contar onde nosso filho tinha nascido. Mais tarde, descobri que nem ela sabia para onde a haviam levado quando estava prestes a dar à luz. — É verdade. Ouvi-a pedindo encarecidamente às pessoas que cuidavam dela para lhe dizerem onde estava — Sara confirmou. Ele cerrou os maxilares, e os olhos escuros brilharam de raiva. — Ninguém a ajudou. Por que foram tão insensíveis? — As irmãs não tiveram culpa de nada. Elas não são livres. Fazem voto de obediência e seguem, sem questionamentos, as ordens que lhes dão. — Você não obedeceu às ordens de ninguém, — Eu não era freira. Além disso, tenho meu modo de pensar e faço o que acho certo. Quando ouvi sussurros sobre a possibilidade de alguém querer livrar-se do bebê, decidi investigar. — Por que você não tentou ajudar Alaina? A pergunta tinha um tom de acusação, e isso não a surpreendeu. Se ela conseguira salvar o bebê, por que não ajudara a mãe da criança? — Você se culpa pela morte de sua esposa e também quer me culpar. Sara teve a impressão de que Cullen ia levantar-se, mas ele permaneceu sentado e rígido.

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— Você estava lá, eu não. — Eu fiz o que pude — Sara respondeu com acidez, sentindo o arrependimento tomar seu coração. Havia tentado desesperadamente encontrar um meio de ajudar Alaina, mas o conde colocara guardas tanto do lado de fora dos aposentos onde estava a filha, como espalhados por toda a abadia. Cullen não fazia a menor idéia de como fora difícil e perigoso para ela proteger o pequeno Alexander. Mas ela não vacilara um instante sequer. Estivera disposta a tudo para impedir que fizessem mal ao bebê, um inocente. Em sua mente, a melhor forma de ajudar Alaina seria levá-lo a um lugar seguro. Um dia, ela havia pensado, a mãe apareceria para saber do filho. Na ocasião, tinha sido esse o único modo possível de auxiliá-la. Fizera o que achara certo. Não precisava da aprovação de ninguém e não pretendia dar explicações a Cullen. — Agora você quer usar seu ato de generosidade para conseguir sua independência. Chego a pensar se você não teria salvado a vida de meu filho pensando em salvar a sua. A acusação foi como uma flecha direcionada ao coração de Sara, mas ela não se abalou. — Pense o que quiser, se isso aliviar o seu sentimento de culpa. Cullen cerrou os punhos. — Eu amava Alaina e teria feito tudo por ela. — Você não a amava o suficiente. — Como se atreve a dizer isso? Você não sabe nada sobre Alaina nem sobre mim. Também não sabe coisa nenhuma sobre o amor. Homem nenhum quer uma mulher como você. Você me obrigou a desposá-la. O golpe foi violento, mas, ainda assim, Sara não reagiu. Por que reagir, se o que ele acabara de dizer era verdade? Como argumentar contra a verdade? — Nosso casamento foi um acordo justo. Há muitos casamentos assim. — Fizemos um trato, uma troca, e isso é muito diferente de um casamento arranjado. Vou fazer o que for preciso para ter o meu filho, nada mais. — Não lhe pedi para cuidar de mim, para me proteger ou para me amar — Sara defendeu-se depressa. — Amei somente uma mulher, e ela será sempre a única no meu coração. Parte de Sara doeu por saber que o amor de Cullen por Alaina era tão grande que transcendia a morte. Era uma dor absurda, mas não pôde evitá-la. Sabia que nunca iria merecer amor semelhante de homem nenhum.

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— Enquanto você for minha esposa eu cuidarei de você e a protegerei. Isso é obrigação de um marido — disse Cullen com orgulho. — Não se preocupe. Isso não faz parte do acordo. De mais a mais, não preciso dos cuidados nem da proteção de um marido. Sei me cuidar. — Sabe se cuidar tão bem que foi parar na abadia contra sua vontade. — Não estou mais na abadia — ela retrucou com um sorriso sarcástico. — Mas ficou lá por um bom tempo. — Valeu a pena ter sido paciente. Arranjei um marido que não fede. Cullen não conteve o riso, acabando com aquele clima desagradável. Ele sacudiu a cabeça. — Você sabe usar a língua. — Também sei manejar o arco e flecha com perfeição. — Há alguma coisa que você não faça com perfeição? — Não sei nada sobre a união entre um homem e uma mulher. — E quer aprender? — Está se oferecendo para me ensinar? — Nosso acordo não incluiu aulas. — Cullen estendeu-se no cobertor e apoiou a cabeça nos braços dobrados. — Vamos nos unir e pronto. — Ótimo, mas não esta noite. Eu direi quando estiver preparada — Sara respondeu. Por sua vez, deitou-se no cobertor e enrolou-se no casaco. —- Para mim, também está ótimo — Cullen concordou, bocejando. — Estou muito cansado esta noite. A raiva de Sara ferveu como uma chaleira deixada sobre as chamas por muito tempo. A consumação do casamento era apenas uma parte do acordo, mas ele não devia tratar do assunto com tamanho pouco-caso, como se fosse uma coisa insignificante. A bem da verdade, ela não podia considerar esse casamento e a união de ambos como importantes. Cullen talvez tivesse razão ao dizer: "Vamos nos unir e pronto". Olhando para ele, viu que estava acordado, embora mantivesse os olhos fechados. Tinha os lábios comprimidos e os maxilares cerrados, como se estivesse zangado. Com certeza, refletia sobre o que ambos haviam conversado. Ela era inexperiente, nada sabia sobre como seduzir os homens, mas já havia reparado nos ardis empregados pelas mulheres para despertar o interesse deles. Não lhe parecera difícil pôr tais recursos em prática e os homens, em geral, sucumbiam bem depressa. Não a tinham agradado nem um pouco aquelas duas frases: "Vamos nos unir e Projeto Revisoras

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pronto" e "Estou cansado esta noite". Ela sentira o orgulho ferido e, claro, iria agir. Tentaria usar seus recursos femininos para seduzir aquele bruto. Talvez não fosse fácil, mas ela não era de desistir diante de uma dificuldade. Portanto, por que não tentar? Nunca se casaria novamente; não poderia. Mesmo que o marido desaparecesse um dia, ela continuaria casada. Esta talvez fosse a única chance de unir-se a um homem, de experimentar o prazer conjugal, com liberdade, sem laços que possivelmente estragariam tudo, tirando a beleza e a espontaneidade da relação. Além disso, sendo sua a iniciativa, Sara continuou a refletir, Cullen não iria se aborrecer se ela quisesse mais dele. Não que ela estivesse querendo receber amor, todavia tinha esperança de que... Ela sacudiu a cabeça para afastar esses pensamentos que estavam causando dor em seu peito. Havia aceitado o fato de que jamais conheceria o amor. Por isso, teria de aproveitar o que a vida lhe apresentasse e considerar-se feliz. Pelo menos estava livre do confinamento da abadia e em breve também estaria livre das exigências do pai. Então teria a sua vida. Só de pensar nisso, encheu-se de alegria. — Por que você disse que eu não amava Alaina o suficiente? — Cullen perguntou, subitamente. A pergunta não a surpreendeu, pois sabia que ele estava acordado e refletindo sobre o que eles tinham conversado. — Isso não importa. — Importa para mim. Por um momento, a claridade do fogo mostrou os sinais de lágrimas recentes nos olhos castanhos. Teria Cullen chorado por Alaina? Era difícil imaginar esse escocês tão grande e rude chorando. Ele parecia um guerreiro capaz de suportar uma batalha sangrenta. Porém, talvez as batalhas do coração fossem as mais difíceis de todas. — Amei Alaina como... — Ele balançou a cabeça. — Não consigo explicar. Meu amor por ela causava-me uma dor no coração, um nó no estômago e enchia-me a cabeça de pensamentos... Alaina era, para mim, a causa e a solução de tudo. Com ela, tudo estava bem, tudo era certo e perfeito. Ela era meu amor, meu coração, minha vida. —- Tenho perguntado a mim mesma se vale a pena encontrar o amor — Sara comentou. — Já vi e ouvi como as pessoas sofrem quando o perdem, e imagino se essa dor vale a pena. — Amar vale a pena — Cullen afirmou com ênfase. — Eu não trocaria o tempo que estive com Alaina, mesmo sendo tão breve, por todo o dinheiro do mundo. E por isso que não entendi por que você disse que eu não amava Alaina o suficiente. Não faz sentido. Projeto Revisoras

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Sara encarou-o. — Se você a amasse tão intensamente quanto diz que a amava, teria se afastado dela. Seu amor, longe de protegê-la, colocou-a em perigo.

CAPÍTULO II

No dia seguinte, Cullen exigiu muito esforço dos cavalos. Estava ansioso para ter o filho nos braços, são e salvo. Depois disso, iria para o navio do irmão e se despediria para sempre da Escócia e das amargas lembranças. E quanto a Sara? Ele não tinha olhado para trás. Não queria vê-la montada na égua, seguindo-o. Não queria lembrar-se da presença dela. Já bastava tê-la visto pela manhã, bem cedo, falando sem parar desde que abrira os olhos. Só havia parado quando eles montaram os respectivos cavalos e puseram-se na estrada. Sara era bem informada e discorria com facilidade sobre qualquer assunto. O fato de achar os temas que ela abordava interessantes o deixara irritado. Tinha relutado em manter uma conversa com ela, mas a danada sempre encontrava um jeito de forçá-lo a responder às perguntas que ela fazia ou o induzia a opinar sobre determinadas questões. Como se não bastasse, ele estava muito inquieto, pensando o tempo todo no que Sara tinha dito na noite anterior sobre ele não ter amado Alaina o suficiente. Na verdade, concordava com ela. Se a amara com todas as forças do coração, por que não se afastara dela? Essa era uma pergunta para a qual ele não tinha uma resposta precisa. Havia tentado em várias ocasiões separar-se de Alaina, mas não conseguira. No fundo, acreditava que eles poderiam fugir para viverem juntos e felizes, apesar das dificuldades. Era grande sua fé de que, unidos, eles conseguiriam superar os problemas e de que o amor os tornaria fortes e capazes de escolher o melhor caminho a seguir. O fato de Sara ter sido tão perceptiva e franca o irritara, mas em sã consciência, ele reconhecia que a observação dela tinha valor. Se tivesse se afastado de Alaina, ela estaria viva. Entretanto, havia a considerar que a própria Alaina seria a primeira a alegar que a vida sem ele, seu grande amor, não valeria a pena. Ele pensava da mesma forma. A vida sem Alaina seria vazia e sem sentido. Projeto Revisoras

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Ambos haviam decidido ficar juntos, apesar dos riscos. Olhando para trás, Cullen podia dizer com o coração leve que cada minuto passado com a mulher que amava valera a pena. Ambos tinham sido imensamente felizes, haviam conhecido a verdadeira felicidade, o verdadeiro amor. E esse amor lhes deixara um filho. Depois da morte de Alaina, o filho era tudo o que importava para ele. Dedicaria a vida a Alexander, iria vê-lo crescer e se tornar um jovem belo, educado e inteligente, que encheria a mãe de orgulho se ela estivesse viva. — Parece que está se formando uma tempestade de neve — Sara gritou, de repente. Cullen olhou para o céu cinzento, sentiu o ar gelado e teve de concordar com ela. Sem dúvida, eles teriam mais uma tempestade de neve neste inverno, antes de surgirem os primeiros brotos da primavera. — Há algum lugar onde possamos nos abrigar, se for necessário? — ele perguntou sem olhar para trás. — Se começar a nevar à tarde, teremos tempo de chegar a uma casa de fazenda, abandonada, que fica a alguns quilômetros daqui. Cullen fez um aceno com a cabeça. Seria arriscado serem apanhados por uma tempestade de neve, especialmente no fim do inverno e começo da primavera. O vento forte, furioso, açoitava, e a neve se amontoava, aprisionando os viajantes, congelando-os. E Cullen tinha um bom motivo para manter-se saudável e vivo: seu filho. Poucos meses atrás, quando vira Alaina morrendo, o sangue jorrando do seu estômago, ele sentira vontade de gritar. Não era justo acontecer aquilo quando eles estavam tão próximos da liberdade. Cullen abraçara a mulher que amava e desejara morrer com ela. Tudo mudara quando Alaina, reunindo suas forças, lhe contara sobre o filho de ambos. Nós temos um filho... Alexander. Ele jamais esqueceria essas palavras. A partir daquele momento, ele desejara viver. Tinha de encontrar o filho, fruto do seu amor e do amor de Alaina. — Está nevando! O grito de Sara sobressaltou-o, mas a nevasca assustou-o ainda mais. Estava tão absorto que nem havia notado que o chão já estava branco. A neve caía rapidamente, e eles teriam de cavalgar algumas horas para chegar à casa da fazenda. — Temos de ir mais depressa — Sara gritou. Cullen virou-se e ficou admirado ao ver que ela havia enrolado o xale ao redor da cabeça e do pescoço para proteger-se da tempestade. Assim era Sara: resolvia rapidamente um problema, não pedia ajuda e seus conselhos eram sensatos. Ele ficou tranqüilo ao constatar que ela estava bem e Projeto Revisoras

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parecia disposta a aumentar a velocidade das montarias, embora já estivessem indo bem depressa. Quando os dois cavaleiros chegaram à casa abandonada, a tempestade estava forte e os animais, exaustos. Por sorte, havia na velha cocheira uma parte coberta, suficiente para abrigar o cavalo e a égua. Antes de Cullen se oferecer para cuidar dos animais e aconselhar Sara a entrar na casa, ela já havia desmontado e conduzia a égua para um canto bem protegido da cocheira semidestruída. Tão logo os dois animais ficaram abrigados, ele passou o braço ao redor dos ombros de Sara, e ambos correram abraçados para a casa da fazenda. Tendo alcançado a varanda, ele deu um empurrão na porta com o ombro, escancarando-a. Correram para dentro, e depois ele teve de lutar com o vento forte e as rajadas de neve para passar o trinco na porta. Os dois olharam ao redor. Estavam num cômodo pequeno, mas sólido. Mesmo estando abandonada, a casa apresentava pouca deterioração. A um canto do aposento havia uma mesinha sem uma das pernas e uma cadeira perfeita. Do outro lado, encostada à parede, à direita da lareira, estava uma cama estreita com colchão deformado. — Quebre a mesa. Vamos usar a madeira para acender o fogo — sugeriu Sara, esfregando as mãos geladas. — Temos de nos aquecer. Agachando-se, ela começou a tirar da lareira o lixo ali acumulado. Cullen meneou a cabeça. Que mulher! Era óbvio que ela estava acostumada a tomar a iniciativa, a dar ordens e a cuidar de si mesma, Mas, pelo menos, ela não fizera nenhuma objeção quando ele a abraçara para protegê-la ao trazê-la para a casa. Observou-a por um instante e, para sua surpresa, sentiu um agradável calor percorrer-lhe o corpo. Com um resmungo de desagrado, tirou o casaco de pele, pendurou-o num cabide do lado da porta e, indo até a mesa, arrancou uma das três pernas com um violento puxão. Fazia muito tempo que não tinha a companhia de uma mulher, o que explicava a reação de seu corpo ao observar Sara. E ela era sua esposa. Estremeceu diante dessa traiçoeira constatação. — Você se machucou? — Sara foi até ele, segurou-lhe a mão que estava livre e começou a massageá-la. Não houve tempo de impedi-la de fazer o que estava fazendo. Nem ele queria interrompê-la. Com os longos dedos, Sara pressionou cada pedacinho da palma de sua mão, e ele fechou os olhos, desfrutando da sensação exótica. Senhor, como aquilo era bom! Incrivelmente bom! Subitamente, ele abriu os olhos, puxou a mão que Sara segurava e afastou-se Projeto Revisoras

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dela. — Espere. Você deve ter uma farpa enterrada na palma. Deixe-me ver. — Você já examinou minha mão. — Não terminei de examiná-la. Vamos, dê-me a mão. — Não temos tempo. Se eu não acender o fogo, ficaremos congelados. Cullen distanciou-se. Não podia arriscar-se a continuar perto de Sara. Acabou de quebrar a mesinha, quebrou a cadeira e foi acender o fogo na lareira. Entretanto, um calor irradiava de seu corpo. Chegou a suar. E o que estava sentindo não era resultado de nenhum esforço físico. Como era possível um simples toque provocar nele semelhante reação? Tinha ficado sem contato com uma mulher por um tempo longo demais, era essa a resposta à sua pergunta. Precisava perder-se numa noite de intensa paixão e ficaria curado de sua carência. Ele jogou no fogo uma das pernas da cadeira. Não, não estaria curado. Tempos atrás, talvez saciasse seu desejo deitando-se com uma mulher, mas depois de Alaina tudo mudara. — O fogo já está crepitando. Agora quero ver sua mão — Sara insistiu. Cullen estava agachado e olhou para cima. Sara estava com as mãos na cintura e os cabelos ruivos encaracolados pareciam, ao clarão do fogo, pequenas chamas. Ele não conteve o riso. Aqueles cabelos revoltos certamente combinavam com o temperamento da mulher, e isso o intrigava. Por que ela despertava nele tanto interesse? Essa pergunta exigia uma resposta e, se ele fosse esperto, encontraria essa resposta bem depressa. — Está com medo de precisar tirar a farpa da mão? Cullen sabia que a provocação era intencional, e respondeu: — Sei me cuidar. — Não confia em mim? — Eu não a conheço. Sara abriu bem os braços e sorriu. — Sou a sua esposa. Ele atirou no fogo o último pedaço de madeira, esfregou as mãos e ficou de pé. Sara era quase da altura dele e encarou-o. Não moveu um músculo nem piscou quando ele chegou bem perto dela. — Você não é uma esposa obediente. Ela riu. Projeto Revisoras

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— Você conhece bem sua esposa. — Ainda não. — Ele apertou suavemente o nariz dela. — Mas vou conhecer. Ele imaginou que a insinuação iria deixar Sara nervosa, mas ela riu, como se o jeito dele a divertisse. — Sim, você vai me conhecer. — Ela empurrou o peito dele. — Mas quando eu permitir. Acabando de falar, deu as costas para Cullen. Ele quase a puxou pelo braço para beijá-la e tirar aquele riso irônico do rosto dela. Tinha certeza de que ela nunca tinha sido beijada ou, quando muito, teria recebido um beijinho inocente que não provocara reação nenhuma. Ela que esperasse para receber um beijo de verdade. Que surpresa teria. — Estou com fome. Cullen virou depressa a cabeça. Lá estava Sara com aqueles grandes olhos azul-esverdeados e um largo sorriso nos lábios. — Sobrou um pouco daquele queijo e do pão? Mentalmente, ele praguejou por estar tendo aqueles pensamentos impróprios e assentiu com um movimento de cabeça. — Temos queijo, pão e mais alguma coisa. — Ótimo. — Sara esfregou as mãos. — Faremos um piquenique na cama. Ele olhou para a cama. Iriam dormir juntos numa cama tão estreita? Em silêncio, jogou um dos cobertores para Sara, que o estendeu sobre o colchão deformado e sentou-se ali, Cruzando as pernas sob a saia. Pegando o embornal com a comida, Cullen deixou-o diante dela e acomodouse na outra extremidade da cama. — Você acendeu o fogo num instante — ela observou, oferecendo-lhe um pedaço de pão de centeio e um grande naco de queijo. — Tenho algumas habilidades — ele respondeu, aceitando o pão e o queijo. Também estava faminto. Não comera nada desde a noite anterior, ansioso para iniciar a viagem bem cedo. Depois, tendo a nevasca os surpreendido, não haviam tido tempo de comer. — Fale-me sobre essas habilidades. Ele encolheu os ombros. — Sei fazer o que qualquer outro homem faz. — Você tem uma grande qualidade. — Qual é? — A modéstia. Não se vangloria do que faz nem do que tem, não conta Projeto Revisoras

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vantagens. A maioria dos homens costuma dizer: "Posso fazer isto, posso fazer aquilo ou tenho isto, tenho aquilo". Sara engrossara a voz para imitar um homem falando, e ele riu. — É assim que você vê os homens? Acha que eles são gabarolas? — Também são orgulhosos e arrogantes. Deus do céu, não há um só homem que não tenha esses defeitos. — Um homem deve ter orgulho — Cullen apontou. — O orgulho na medida certa é dignidade, é virtude. Orgulho demais é arrogância, é defeito. — Concordo com você. — Ótimo. Então você tem talento para acender o fogo, é modesto e não é orgulhoso. Conte-me mais. — Já falamos muito sobre mim. Quais são as suas qualidades? O riso solto e divertido de Sara ecoou pelas velhas paredes. Cullen também riu. — Qualidades? Segundo meu pai, não tenho qualidade nenhuma. Subitamente, Cullen sentiu-se desconfortável por estar ali, sentado na cama, conversando como se fossem amigos. Lembrou-se de que ela não era sua amiga, e sim a mulher que o obrigara a desposá-la para, em troca, levá-lo até onde estava seu filho. — O que foi? Você está sério, com a testa franzida. Alguma coisa o preocupa. — Esta cena... — Cullen fez um gesto com a mão, indicando o quarto. — É esquisito estar neste lugar, sentado e conversando com uma estranha que é minha esposa. — Nosso casamento é apenas um meio de solucionarmos nossos problemas. Graças a este casamento, iremos conseguir o que queremos. Você quer seu filho e eu quero a minha liberdade. Não custa sermos gentis um com o outro. O acordo que fizemos é muito vantajoso para os dois. —Vendo por esse lado, eu diria que o sacrifício valerá a pena. — Nenhum de nós exigiu do outro coisas desarrazoadas. Ao ouvir isso, Cullen arqueou as sobrancelhas. Sara cruzou os braços sobre o peito. — O que foi? Diga. — Você ditou os termos do acordo desde o início. Não tive alternativa senão aceitar esses termos.

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— Se você considerasse o acordo como uma troca, ou como um negócio, veria que é favorável a nós dois. — Isso não muda o fato de que foi você quem ditou os termos. — É verdade. — Eu não gosto que me digam o que devo ou não devo fazer. Odeio imposições. — No seu caso, você não teve escolha. — Há sempre uma escolha. — Não desta vez. O ar afetado de Sara e seu tom desdenhoso foram como um soco no estômago de Cullen, e ele revidou: — Eu penso de modo muito diferente. — É mesmo? — Sara indagou, calma. — O que pretende fazer? Ele inclinou-se para a frente e encostou o nariz no dela. — Pretendo me deitar com você quando e onde eu quiser. Sara inclinou-se para trás e fez com a cabeça um movimento negativo. — A escolha será minha. Cullen deu uma risada de pouco-caso. — Tem certeza disso? — Por que duvida? Pretende me forçar? — Não será necessário. Sara sentiu ímpetos de esbofeteá-lo para tirar do rosto dele aquele sorriso malicioso. Mas se agisse assim, iria deixá-lo mais seguro de si e lhe dar vantagem. E claro que poderia deixá-lo no controle da situação para cumprir a parte do acordo que cabia a ele. Então, por que se mostrava tão obstinada? Por que não aceitava que o casamento fosse consumado quando e onde Cullen quisesse? Seria porque detestava ter tantas pessoas dando-lhe ordens? Porque queria ter pleno controle de sua vida? Tinha medo do que iria sentir quando se unisse àquele estranho? Medo de sua reação? — Por que você não cede? Entregue-se a mim e deixe tudo por minha conta. Será mais fácil. Ceder? Entregar-se a ele? Nunca. Não podia ceder. Tinha de cuidar da própria vida e isso significava

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que iria agir a seu modo e ditaria seus termos. Para isso precisava seduzir Cullen. — Reconheço que se um de nós ceder tudo será mais fácil. Tenho certeza de que você ficará muito feliz rendendo-se a mim. Cullen teve um ataque de riso. Era óbvio que ele jamais cederia. Sara sabia disso, mas estava achando divertido vê-lo tão seguro de si, rindo daquele jeito, cometendo a tolice de subestimá-la. Ela também riu. Segundos depois, ele pôs a mão no estômago e disse, tendo ainda nos lábios um risinho zombeteiro. — Há muito tempo eu não ria tanto. Senti doer-me o estômago. — Alegra-me saber que está se divertindo. — Estou. Você é muito divertida. — Nossa conversa serviu para alguma coisa. — Serviu para quê? — Agora sabemos que nós dois não gostamos de imposições; detestamos receber ordens. — Isso pode ser um problema. Sara sorriu. — Não necessariamente. — Estou surpreso. — Não está com medo? Cullen sacudiu a cabeça. — Não. Você acredita, realmente, que tudo será à sua maneira? — É claro que sim. Por outro lado, você também pode... — Sara viu que ele ia protestar e ergueu a mão, indicando-lhe que esperasse. — Como eu estava dizendo, você também pode acreditar que tudo será do seu jeito. — Preciso ter em mente que você é uma mulher A perspicaz. — Há muita coisa que você deve aprender sobre mim, uma vez que iremos conviver por um bom tempo. Por que você me trata como uma estranha? Eu já sei algumas coisas a seu respeito. — Hum... você parece persistente. Daria uma excelente guerreira. Sara ficou de pé e esticou as costas. — Sou guerreira. Lutei durante toda a minha vida. — Aí está. Acabo de saber alguma coisa sobre você. — Acaba de saber porque tive pena de você e lhe falei sobre mim. Sara havia saído da cama e se empertigara para mostrar a Cullen que era uma mulher segura de si. Nada melhor do que manter sua autoconfiança nas alturas para

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deixar a dele abalada. — Vou juntar todos os pedaços de informações que você quiser me fornecer. Não deixa de ser uma forma de conhecê-la. Era uma boa resposta, ela admitiu. Cullen estava calmo, parecia seguro de si. Com certeza, achava que tudo seria como ele quisesse. De repente, o barulho do vento forte prendeu-lhes a atenção. — A tempestade de neve piorou. Teremos de ficar aqui — Sara observou um pouco desapontada. Estava ansiosa por voltar para casa. Queria ver a irmã e mostrar ao pai que arranjara um marido e que iria, finalmente, viver como lhe aprouvesse. Também desejava levar Cullen até onde estava Alexander. O fato de unir pai e filho valia todos os riscos que ela havia corrido. Cullen também saiu da cama. Sara observou-o. Era alto e forte. Pelo tecido da camisa percebia-se o volume dos músculos. Passou pela mente dela que iria tocar aquele corpo e conhecer intimamente a musculatura rija. O pensamento excitou-a e deixou-a amedrontada. — Se a tempestade continuar por muito tempo, teremos de arranjar mais madeira para o fogo — disse Cullen, — É verdade. Restou pouca madeira da mesa. — Vou ver se encontro mais. Cullen pegou o casaco que estava no cabide e dirigiu-se para a porta. Sara acompanhou-o. — Tenha cuidado — recomendou. — Não se preocupe. Voltarei. — Eu sei que voltará — disse ela suavemente. Inclinando-se para a frente, roçou os lábios nos dele. Notando uma reação nos olhos escuros, alegrou-se e atreveu-se a dar outro beijo na boca morna e úmida. Surpreendeu-se ao sentir um agradável arrepio percorrendo seu corpo. Pensou que o jogo de sedução não era algo difícil. Ficou sem ar quando, de repente, Cullen tomou-a nos braços e deu-lhe um beijo arrebatador. As línguas se encontraram, o que fez o sangue correr como fogo por seu corpo, causando a sensação de que era clarão de luz e chamas. Foi tudo inesperado, rápido e, ao mesmo tempo, incrivelmente maravilhoso. Ela não queria que ele parasse. Queria mais, muito mais. Cullen interrompeu o beijo, pressionou os lábios num dos ouvidos de Sara e sussurrou:

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— Diga-me agora quem deve decidir quando e onde vamos nos unir. Sem esperar pela resposta, ele saiu do quarto, deixando-a ainda excitada, olhando para a porta que ele acabara de fechar. A rajada de vento gelado e os flocos de neve que entraram no cômodo no breve instante em que a porta fora aberta tinham congelado o fogo que parecia querer consumi-la. Ela estava com um problema. Um sério problema. Apoiou a mão na parede para equilibrar-se e poder avaliar a situação. Se um beijo a deixara completamente no ar, fora da realidade, Cullen ficaria no comando da situação e faria tudo à maneira dele. Mas se ela queria que o casamento se consumasse, qual era o problema? Como Cullen dissera, se cada um tinha de cumprir sua parte do acordo, o melhor a fazer seria resolver logo o assunto. Ela afastou-se da parede e sentiu as pernas surpreendentemente fracas e o corpo ainda trêmulo. Sentou-se na beirada da cama decidida a analisar a situação para ver como sair-se dela do modo mais vantajoso possível. Seja honesta, Sara, honesta consigo mesma. A idéia de deitar-se com o marido simplesmente para resolver uma parte do acordo ou para acabar logo com o assunto, não lhe parecia boa. Queria uma noite memorável, principalmente por causa de Cullen. Ele era um homem atraente, com dentes bonitos, boa cabeça e lhe agradava tê-lo como marido. Não se parecia em nada com Harken McWilliams, graças a Deus. Cullen também era bom e correto. Um homem assim era difícil de se encontrar. Considerando-se tudo isso, seria pedir demais querer que sua primeira noite de casada tivesse pelo menos alguma coisa especial? Poderia aceitar que a união deles fosse apenas um ato físico para cumprir um acordo? Não. Ela queria experimentar beijos e abraços, trocar carícias. Queria viver emoções. Queria guardar na memória os momentos de intimidade com o marido. Afinal, depois de Cullen não haveria outro homem na sua vida. E quando ele partisse, teria preciosas lembranças para aquecê-la nas noites solitárias e para povoar seus sonhos. Um sorriso brincou em seus lábios. Sentia-se confiante. Não teria problemas. Sabia que Cullen se aproximaria dela sem a necessidade de nenhum ardil para seduzi-lo. Ela experimentaria todos os beijos, todas as carícias que desejasse desde que... Seu sorriso apagou-se. Desde que se entregasse a ele só quando ela estivesse pronta. Sara passou a mão nos lábios, sentindo-os sensíveis e um pouco inchados, mas o tremor havia desaparecido. Se um único beijo provocara nela tamanha reação, quase a levando a entregar-se a ele, como conseguiria resistir a uma torrente de beijos? Projeto Revisoras

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Andou pelo cômodo, pensativa. Precisava de todo tipo de proteção. Tinha de ser algo que ela pudesse erguer como escudo quando estivesse prestes a render-se. Pense, Sara, pense. De repente, parou de andar e sorriu de novo. Sempre que se concentrava em alguma coisa que queria aprender, ficava tão absorta que não prestava atenção a mais nada, nem mesmo em pessoas ou coisas que estivessem bem perto dela. Sabendo disso, a irmã, Teresa descobrira um modo rápido de trazê-la de volta à realidade. A irmã simplesmente a beliscava com força. O beliscão doía, mas funcionava. Estava resolvido. Um forte beliscão evitaria que ela se rendesse antes da hora. Com o plano em mente e sentindo-se confiante, andou pela pequena casa procurando alguma coisa que lhes pudesse ser útil durante a estada naquele lugar. Encontrou dois tocos de vela, ambos com o pavio muito curto, mas suficiente para manter uma chama. Um pequeno caldeirão estava pendurado num canto, e ela colocou-o perto da lareira. Poderia servir para cozinhar ou esquentar água caso eles se vissem forçados a permanecer na casa por mais tempo do que esperavam. Uma tigela quebrada, de madeira, completou a lista dos poucos achados. Os últimos moradores da casa tinham levado tudo, deixando para trás apenas cacarecos. Sara olhou para a cama nada confortável e pequena para duas pessoas, especialmente sendo ela tão alta e Cullen um bruto escocês, tanto em modos como em tamanho. Teriam de se encolher para dormirem juntos naquele espaço tão reduzido. Imaginou-se deitada com ele, bem encostados um no outro, ambos com roupas, naturalmente. Estremeceu só de pensar no seu corpo em contato com o do homem que era agora seu marido, a respiração dele tocando-a no pescoço. — Quer que eu satisfaça sua curiosidade? Sara virou-se depressa agitando os braços e atingiu o queixo de Cullen, fazendo-o colidir contra a porta fechada. Ele cambaleou, mas recuperou o equilíbrio, não chegando a cair. Surpreendentemente não derrubou o feixe de lenha que segurava. Sara ficou chocada quando se deu conta de que havia estado tão absorta que não o vira entrar, não ouvira a porta se abrindo, tampouco sentira a forte rajada de vento gelado que penetrara na casa. — Que braço você tem! — Cullen exclamou, esfregando o queixo. — Desculpe. Você me assustou. — Sara pegou a lenha que ele segurava. — Eu não sabia que estava atrás de mim.

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Agachando-se, ela começou a empilhar a lenha perto do fogo para secar. Cullen pendurou o casaco no cabide e aproximou-se de Sara para ajudá-la. — Não tive a intenção de assustá-la. Ela virou-se. A neve que cobria quase totalmente a cabeça dele começou a derreter por causa do calor, tornando os cabelos castanhos reluzentes. As faces dele estavam queimadas do frio e os lábios, arroxeados. Um beijo aqueceria aqueles lábios. — Eu sei que você não quis me assustar. — Por um instante, eles apenas se olharam. Sara perguntou para quebrar o silêncio: — Como está a tempestade? — Continua forte, mas acredito que não dure a noite toda. Espero que amanheça com sol para derreter a neve. Assim ficaremos pouco tempo aqui. — A neve que cai no fim do inverno e começo da primavera em geral logo desaparece do chão. Cullen deu de ombros. — Pelo menos estamos abrigados. Não fosse esta casa, teríamos de ficar debaixo de alguma árvore. Aqui temos o calor do fogo e uma cama onde podemos dormir abraçados. Sara notou o meio-sorriso provocativo nos lábios dele, mas decidiu ignorá-lo. — Ótimo. Teremos uma boa noite de sono. — Ela ergueu-se e esfregou as mãos para limpá-las; em seguida, curvou-se de modo gracioso e pegou o caldeirão. — Voltarei logo. Cullen levantou-se depressa. — Não saia com este t... Ela deu um sorriso, acenou um adeusinho e saiu, fechando a porta. Era bom sentir no rosto afogueado a neve gelada, Sara pensou e inspirou fundo. Precisava manter boa distância entre ela e o escocês. Ele era calculista, esperto e não podia ser subestimado. Cullen não perdia a ocasião de observá-la. Queria descobrir seus pontos fracos para atacá-la, dominá-la, impor-lhe a vontade, ditar as regras. Por mais que desejasse experimentar alguns momentos de paixão, não podia arriscar-se a perder o controle da situação. Era forçoso chegar em casa, conversar com o pai e provar que estava casada. Um arrepio percorreu seu corpo. O vento diminuíra, porém a neve caía com mais força e havia enchido o caldeirão. Ela esperava que o marido estivesse certo. Se a tempestade passasse, o sol da manhã derreteria a neve, e eles seguiriam viagem. Ia entrar na casa, mas antes de tocar na maçaneta a porta escancarou-se. — O que deu em você para sair no meio de uma tempestade de neve? —

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Cullen gritou. — Veja. — Sara ergueu o caldeirão. — A neve derretida nos fornecerá água. Era uma boa desculpa, e Cullen não tinha como argumentar, ela pensou. Mas sentiu a mão dele fechando-se ao redor do seu braço. — Enquanto meu filho não estiver são e salvo nos meus braços, não vou permitir que você se exponha ao perigo. Fui claro? — Seu filho está sendo muito bem cuidado. Prometo levar você até ele, ainda que isso me custe. — Por quê? — Cullen soltou-a. Encarou-a desconfiado, estreitando os olhos. — Alexander não é nada seu. No entanto, você correu riscos e continua se arriscando para protegê-lo. Por quê? Ela sacudiu a cabeça, não acreditando no que acabara de ouvir. Não se daria o trabalho de responder àquele bruto. Levou o caldeirão para perto da lareira e tirou o casaco sem pressa. Impaciente, ele agarrou-a, levou-a até a cama e obrigou-a a sentar-se do lado dele. — Há nesta história alguma coisa que você não quer me contar. O escocês era, sem dúvida, perceptivo. — O que é? Vamos, conte-me! O que está escondendo? Sara jamais havia contado a alguém o que acontecera. Era um segredo muito bem guardado. — Não há nada para contar — respondeu com firmeza. Cullen segurou o queixo dela e obrigou-a a encará-lo. — Há, sim. Você esconde alguma coisa. Ela empurrou a mão dele. — Você quer ter seu filho e prometi levá-lo até ele. Estou fazendo a minha parte e você deve fazer a sua. — Já me casei com você, como me obrigou. Falta consumar o casamento. — Deixei claro que nosso casamento seria por um breve período. — Está certo. — Cullen assentiu com um movimento de cabeça. Levantou-se e tirou a camisa. — Vamos cuidar desse breve período e acabar logo com isso. — Se você quiser, pode me beijar, mas o casamento não será consumado esta noite — Sara declarou com um sorriso afetado. — Tem certeza do que está dizendo? Percebi que você não para de olhar para o meu peito — Cullen observou. Levantando-se, Sara passou a mão pelo tórax dele e contornou os músculos com os dedos.

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— Seu tórax é muito bonito, forte e musculoso. Posso sentir sua força. Por pouco, Cullen não empurrou a mão dela. Mas, se fizesse isso, estaria demonstrando que aquele contato o perturbava, e ele não estava disposto a dar a Sara esse gostinho. Também não estava gostando da reação do próprio corpo. Mas o que podia esperar? Era homem e não desfrutava de uma companhia feminina havia muitos meses. Mesmo assim, não imaginava que um simples toque feminino provocaria nele aquele fogo, aquele intenso desejo que o fazia sentir-se vivo e viril outra vez. Ao mesmo tempo, sentia que estava traindo a memória de Alaina. O amor de ambos progredira lenta e timidamente. O primeiro beijo fora hesitante, temeroso e acontecera de maneira natural, como parte do processo de conhecimento de ambos. Só depois eles tinham feito amor. Ela era virgem, ele fora paciente e gentil. Jamais esqueceria aquele momento mágico, de rara beleza. No momento, entretanto, não estava pensando em delicadezas, e muito menos em ser paciente. Sentia ímpetos de erguer a saia e a anágua de Sara, de atirar-se sobre ela e satisfazer sua luxúria, nada mais. Cumpriria sua parte do acordo e saciaria seu desejo. Ela andou ao redor dele, correu os dedos pelos ombros nus, desceu pelas costas, contornou a cintura e voltou para a parte superior do tórax; seu toque era brincalhão e ritmado. — Você é um belo homem — disse ela suavemente. — Há poucas marcas prejudicando a beleza de sua pele. Admiro sua força. Cansado daquela provocação, Cullen agarrou-a pelo pulso, jogou-a na cama e caiu sobre ela. Prendeu-a sob seu corpo, mantendo-a imóvel e observou-a, esperando ver o pânico impresso nos olhos azul-esverdeados. Mas ela sorriu e feriu-o bem no coração ao fazer-lhe uma única pergunta: — Com Alaina você também era tão grosseiro? Num segundo, Cullen saiu de cima dela, proferindo uma torrente de pragas. Pegou a camisa e vestiu-a. — Você não se parece nem um pouco com ela. — Não, não sou. — Sara sentou-se na cama e cruzou os braços. — É bom você ter sempre isso em mente. — A língua dela era suave! Não era ferina como a sua. — Você quer dizer que eu digo coisas que não lhe agradam e sou imprevisível. Você também não me acha atraente. — Para cumprir nosso acordo não há necessidade de existir atração física entre nós.

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— É verdade. Por outro lado, você não pode ficar preso à sua dor se quiser cumprir sua parte do acordo. Cullen ficou em silêncio, olhando para Sara. Sabia que ela estava certa, mas receava não ser capaz de livrar-se de suas lembranças, de sua dor por ter perdido a mulher que amava. — Fale-me sobre Alaina. Eu sempre quis saber o que tinha acontecido com ela depois que a levaram da abadia — Sara pediu com gentileza. Cullen não saberia dizer por que decidiu atender ao pedido dela. Talvez sentisse necessidade de falar sobre sua tristeza para desabafar. Sabia apenas que, se não repartisse seu pesar com alguém, poderia explodir. Sentou-se ao lado de Sara e começou sua narrativa. — Alaina ajudou-me a fugir de Weighton. —Weighton? — Ela arregalou os olhos, chocada. — Ouvi dizer que essa prisão é inexpugnável. Ninguém conseguiu escapar daquele lugar. — Eu consegui fugir, graças a meu irmão Burke e Storm, uma jovem fora-dalei. — Storm! — Sara exclamou, entusiasmada. — Ouvi muitas histórias sobre sua bravura e sua luta para salvar inocentes. — Storm é uma mulher pequenina, mas habilidosa e cheia de coragem. Meu irmão apaixonou-se por ela, e ela por ele. Burke a está levando para a América, onde ele tem terras. Lá ela estará segura. Alaina trabalhou com eles, conseguindo informações importantes que ajudaram muito no planejamento da minha fuga. — Alaina era muito corajosa — Sara comentou. — Muito mais corajosa do que eu poderia imaginar. Mas sua coragem custounos caro demais. — Cullen fez uma pausa. Lembrou-se do rosto risonho de Alaina, dos lindos olhos violeta, de suas maneiras gentis, do seu último suspiro. — Estávamos no fim da viagem, quase alcançando a liberdade quando fomos atacados por soldados do conde de Balford, fortemente armados. Durante a luta, perdi Alaina de vista. Quando tudo terminou, o terreno estava coberto de corpos ensangüentados, pairava no ar um mau cheiro de sangue e morte. Então avistei Alaina. Uma espada lhe traspassara o peito. Cullen inspirou fundo. O fedor da batalha parecia impregnado em suas narinas. Ele lutou contra as lágrimas. — Corri para ela — ele prosseguiu. — Sabia que estava morrendo. Mantive-a nos braços e ela, com esforço enorme, lutando para poder falar, disse que me amava, contou-me que nosso filho tinha nascido e me fez prometer que iria encontrá-lo. Em seu desespero, Cullen apertou a mão de Sara, sem ter consciência disso. Sentia apenas que naquele momento precisava de uma âncora. Precisava de algo que Projeto Revisoras

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o mantivesse firme e mentalmente equilibrado. Sara, com sua força e coragem, poderia fazer isso. Ela apertou a mão dele. — Alaina deixou-lhe o filho de vocês, que é uma parte dela. — Também deixou aqui uma parte de si mesma. — Cullen repousou sua mão e a de Sara sobre o coração. — Nunca a esquecerei. — Não há razão para esquecê-la. Com o tempo, a dor vai passar. — Você fala como se tivesse alguma experiência. — Não. — Sara abanou a cabeça. — Nunca tive a sorte de encontrar o amor. Mas sou observadora e já vi pessoas sofrendo por ter perdido um grande amor. Perder um amor não é fácil, mas a vida não é fácil. Temos de cumprir nosso dever, gostemos ou não. — Isso inclui o nosso casamento? — Nosso casamento trará benefício para nós dois. Portanto, por que está reclamando? — Você é muito prática. — Sou assim. O que posso fazer? Aprendi por tentativa e erro que há o momento de lutar e o momento de ceder. — Nesse caso, você vai saber quando será o momento de render-se. Ela riu. — Ouça o que eu disser, não o que você quiser ouvir. O vento forte sacudiu a porta e a janela, fazendo-os lembrar do mau tempo. Cullen levantou-se, abriu a porta e olhou para fora. Voltou para a cama depois de passar o trinco no ferrolho. — O vento continua, mas parece que a neve está bem fraca. Deve parar antes do amanhecer. — Boa notícia. Não vejo a hora de estar com minha família. Fiquei longe de casa durante muito tempo. — Você não está mais zangada com seu pai? — Não tenho mais motivo para continuar zangada. — Sara empurrou o peito de Cullen. — Arranjei um marido. Meu pai não me aborrecerá mais. — O que acontecerá quando eu for embora? Sara encolheu os ombros. — Isso não me preocupa. Aos olhos da Igreja, continuarei casada. Meu pai talvez fique furioso, mas acabará se conformando. Pelo menos ele não poderá obrigar-me a casar de novo. — Você tem irmãos? Projeto Revisoras

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— Uma irmã, Teresa. Éramos inseparáveis. Depois ela se casou com Shamus, por quem era apaixonada, e mora com ele numa fazenda. Por isso não pudemos mais passar tanto tempo juntas. — Você nunca falou sobre sua mãe. — Ela morreu quando eu tinha doze anos. Muitos dizem que sou parecida com ela, mas herdei de meu pai a obstinação, o gênio impulsivo... — Nesse caso, saberei o que esperar de seu pai quando chegarmos à sua casa. — Não sou igualzinha a meu pai. Ele é astuto, ardiloso, sabe ser dissimulado e é cheio de segredos. — Você não é assim? Sara mostrou-se ofendida. — Não posso acreditar que você teve coragem de me fazer essa pergunta. Cullen riu. — Perdoe-me. Ao mesmo tempo lhe agradeço pelas informações. — Se você acha que sou dissimulada, que tenho segredos, como pode confiar nas minhas informações? — Confio e acho que vou acrescentar na sua lista que você é manipuladora. — O que me diz da lista sobre você? Ela era rápida de raciocínio, Cullen admitiu. Não podia esquecer esse detalhe. — Trabalharemos na minha lista em outra ocasião. Acho que agora devemos dormir. Se a neve cessar antes do amanhecer, partiremos mais cedo. Cullen pegou o outro cobertor e deitaram-se na cama. Ambos só podiam ocupar espaço tão reduzido se ficassem deitados de lado. Ele manteve-se encostado à parede, esperou que ela se acomodasse na frente dele e abraçou-a para não deixá-la escorregar e ir para o chão. Tendo o rosto bem perto dos cabelos sedosos e encara-colados de Sara, ele podia sentir o perfume que lembrava flores primaveris. Também era agradável estar abraçado a uma mulher com o corpo macio e quente, embora preferisse que ela fosse Alaina. — Sente-se confortável? — ele perguntou. — Sim. Isso me surpreende. — Você gosta de dormir perto de mim. — Na verdade, estou achatada contra você — ela respondeu e agitou-se para acomodar-se melhor. Não satisfeita, fez mais um movimento inocente, porém íntimo demais, ficando seu corpo perfeitamente encaixado no de Cullen. Ele prendeu a respiração,

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abraçou-a com força e passou uma perna sobre a dela. — Pare de se mexer se não quiser que nosso casamento seja consumado agora — ele sussurrou ao ouvido dela. Sara ficou imóvel e tensa, comprimindo certa parte do corpo de Cullen, o que o excitou ainda mais e aumentou-lhe a agonia. Ele gemeu. Sara suspirou. No instante seguinte, ele sentiu a mão delicada tocando-o na perna até que os dedos delgados alcançaram... — Ai! — Sinto muito. Sinto muito. Eu não tive a intenção... eu não quis beliscá-lo — ela desculpou-se, agitada. — Não? Então quem você quis beliscar? Você mesma? — É... Sim... Pense o que quiser — Sara respondeu, confusa e com um gemido. — Prefiro não perguntar por que você fez isso — disse Cullen. — É bom não perguntar mesmo, porque não pretendo dar explicações — Sara retrucou, irritada. Como explicar sua reação? Sabia dizer apenas que estar nos braços do marido, tendo o corpo rijo colado ao dela, aspirando aquele excitante cheiro masculino, despertara nela sensações nunca antes experimentadas. Sentira um calor percorrendo seu corpo e um desejo tão intenso de ficar mais unida a ele que, se não o tivesse beliscado, num gesto involuntário, certamente o teria atacado. E o que ela menos queria era demonstrar que o desejava. Além disso, depois de toda aquela conversa sobre a trágica morte de Alaina, sentia-se culpada por tê-lo forçado a casar-se com ela. — Você é uma mulher estranha — Cullen murmurou. — Sou — ela admitiu com certo orgulho, pois percebeu que havia uma nota de admiração na voz dele. — Agora vamos dormir. Cullen bocejou. Não demorou muito, Sara percebeu que ele estava relaxado e ressonando. Ela, entretanto, permaneceu desperta, com a mente ocupada com pensamentos tumultuados. Havia apenas dois dias conhecera esse homem que se tornara seu marido. No entanto, sentia-se como se o tivesse conhecido muitos anos atrás. A cada hora que passava, ele tornava-se mais familiar e, quanto mais ela sabia sobre a vida dele, mais sua admiração e seu respeito por ele aumentavam. O sentimento de culpa continuava a pesar em seu peito. Cullen perdera a mulher que tinha sido o grande amor de sua vida, estava à procura do filho, e fora obrigado a casar-se com ela.

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Então, ele não tinha sido enviado por Deus? Ela havia rezado com desespero e fervor pedindo um marido. Cullen Longton não aparecera na abadia em resposta às preces que ela fizera? Quem era ela para questionar os critérios divinos? Provavelmente Cullen também havia rezado muito para encontrar o filho e acabara chegando à abadia, justamente onde ela estava e no momento em que se encontrava mais desesperada, esperando que suas preces fossem atendidas. Se Cullen aceitara as condições dela, se o acordo entre ambos tinha sido honesto, pois beneficiaria as duas partes, não havia motivo para ela sentir culpa, tampouco arrependimento. O que estava feito não podia ser desfeito. Sara acreditava que, se Alaina estivesse viva, aprovaria aquele acordo graças ao qual pai e filho ficariam reunidos, exatamente o que ela desejara que acontecesse. Uma série de pensamentos continuou a perturbá-la até que, exausta, ela mergulhou, finalmente, num sono pesado. Quando acordou, Sara estirou-se na cama e percebeu que estava sozinha, bem enrolada no cobertor. O fogo estava apagado, deixando o quarto muito frio. Ela passou a mão pela lã grossa do cobertor e ficou sensibilizada ao pensar em Cullen, que tivera a gentileza de deixá-la bem agasalhada antes de sair da casa. Depois de espreguiçar-se e bocejar, levantou-se, calçou as botas e começou a enrolar os cobertores. Sentia-se com ótima disposição, apesar das poucas horas de sono. Estava ansiosa para continuar a viagem e para chegar em casa. Só isso bastava para renovar seu espírito. Lavou o rosto com a água do caldeirão, correu os dedos entre os cabelos encaracolados, ajeitando-os como pôde, e alisou as roupas. Mal podia esperar para usar os vestidos e outras peças que deixara em casa. Estava cansada de vestir sempre saia e blusa, as peças básicas do seu guarda-roupa nos últimos dois anos. Antes de ir para a abadia, ela e Teresa costumavam passar os meses de inverno conversando, rindo e costurando roupas muito bonitas. Havia peças que ela não tivera ocasião de vestir e que usaria agora. Cullen entrou na casa, e Sara viu pela porta aberta que a tempestade havia passado. — O sol está brilhando e derretendo a neve. Acredito que até o meio-dia os sinais da nevasca terão desaparecido. — Ele pegou os poucos embrulhos. — Vamos partir imediatamente para aproveitar ao máximo a luz do dia. — Estou pronta. Vou pegar pão e queijo para comer durante a viagem. — Pegue uma porção para mim também. Vou preparar os cavalos. Poucos minutos depois, eles alcançaram a estrada. —Prefiro não forçar os cavalos, portanto viajaremos sem pressa. Faremos uma pequena parada na metade do dia para o descanso nos animais, depois continuaremos, até escurecer. O que você acha? Projeto Revisoras

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— Para mim está ótimo. Temos de seguir até aquela curva e então... — Conheço a estrada — Cullen interrompeu-a. — Lembro-me de que, anos atrás, fiz uma viagem com meu pai e passamos por ali. Ele foi entregar arcos para um tal McFurst. — O clã McFurst faz divisa com nossas terras, ao norte. — Recordo-me de meu pai ter falado sobre o clã McHern. Também me lembro de que passamos por um mercado e meu pai comprou doces para mim. Achei a viagem memorável. — Daqui até o mercado são dois dias de viagem. — Muito bem. — Cullen sorriu. — Comprarei doces para você. Sara comeu um pedaço de pão pensando no doce e sentindo agradável calor no peito. Não que ela estivesse com vontade de comer qualquer tipo de guloseima. O que a deixara feliz tinha sido o fato de Cullen oferecer-lhe doces. Homem nenhum jamais havia feito a gentileza de comprar alguma coisa para ela. Ao mesmo tempo, o bom senso a advertiu de que o gesto de Cullen fora o de simples atenção, mais nada. Além da curva, a estrada tornou-se mais larga, e Sara emparelhou a égua com o cavalo de Cullen. — Seu pai, o homem que o criou, fabricava arcos? — ela perguntou. — Ele fazia os melhores arcos e as melhores flechas que pode haver — Cullen respondeu com orgulho. — Também era excelente arqueiro. Meu pai costumava dizer que a paciência era o segredo para alguém se tornar um habilidoso fabricante de arcos e ótimo arqueiro. — Você é paciente? | — O que você acha? Sara não conteve o riso. — Na minha opinião, você pode ter, quando muito, paciência com um arco e uma flecha. Cullen também riu. — Se meu pai a ouvisse, concordaria com você. Aprendi muito com ele. — Você gostava muito dele, não? — Gostava. Ele foi o único pai que eu conheci. Eu tinha dez anos quando ele me adotou. Dele, recebi amor e bondade. Quando ficou doente, ele não queria que eu ficasse cuidando dele e aconselhou-me a cuidar da própria vida. Mas não achei justo abandonar quem me havia ensinado tudo que eu sabia e fora tão bom para mim. Só deixei a nossa cidadezinha depois da morte dele. — Fale-me sobre sua infância. Projeto Revisoras

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— Não há muito que dizer. — Então vou contar sobre a minha — Sara ofereceu-se. Em poucos minutos, Cullen estava rindo das histórias de uma garota irrequieta que só fazia o que lhe agradava. Perto do meio-dia, eles fizeram uma breve parada perto de um riacho para descanso dos cavalos. Enquanto os animais pastavam e matavam a sede, Cullen e Sara sentaram-se no cobertor, à sombra de uma árvore, e comeram pão, carne-seca e queijo. — Você gosta de conversar — ele observou. — Falou o tempo todo desde que saímos da casa da fazenda. — O que você esperava? Morei dois anos na abadia. Cullen riu e balançou a cabeça. — Pelo visto você não perdeu o hábito de tagarelar. — Como é possível alguém saber o que está acontecendo se não falar com outras pessoas? Não tem sentido ficarmos sentados sem fazer nada, sem participar da vida. Nem você nem Alaina viveram segregados do mundo. Eu a admiro por ter ido contra o pai para viver com o homem que amava. Se ela tivesse se acomodado jamais conheceria o amor com toda a sua grandeza. — Mas você disse que se eu amasse Alaina verdadeiramente teria me afastado dela para não expô-la ao perigo. Sara encolheu os ombros. — Acredito que o amor verdadeiro conspira a favor das pessoas que se amam e não quer vê-las separadas. Se elas, por algum motivo se separam, sempre encontram um jeito de se unir de novo, apesar das dificuldades. No seu caso, se você tivesse deixado Alaina, ela conseguiria, de algum modo, voltar para os seus braços. O amor de vocês não permitiria que se separassem. E não permitiu. Mesmo quando você estava na prisão, e Alaina era mantida presa pelo pai, o amor trabalhou em favor de ambos e os reuniu. Cullen esfregou o queixo, absorto. Observou pouco depois: — Pensei em afastar-me de Alaina. Afinal, eu devia protegê-la e a estava colocando em perigo. Eu me perguntava que tipo de homem era eu... — Um homem apaixonado. Você a amava o bastante para separar-se dela, mas ela o amava demais para deixá-lo ir embora. — Você é perceptiva. — Trata-se de lógica, não de percepção. — Pelo contrário, nada é lógico. Nada é racional.

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— Não tenho experiência, mas, pelo que já observei, o pior toma o lugar da lógica, da razão. — Seja como for, agora eu tenho de ser racional — Cullen disse com firmeza. Sara notou que havia preocupação no belo rosto. —Você está sendo racional. Casou-se comigo para poder encontrar seu filho. — Estou certo de que muitas pessoas considerariam a minha atitude idiota. Sara franziu a testa. — Pessoas que não se importam nem um pouco com seus filhos. Somente um pai ou uma mãe altruísta é capaz de sacrificar-se pelos filhos. Admiro sua coragem, — Um sorriso repentino apagou as rugas da testa de Sara. — E claro que também admiro sua rendição por um bem maior. — Você me diverte — disse Cullen, sorrindo também. — Melhor assim. Desse modo sua rendição será menos dolorosa — finalizou Sara com um riso provocativo. — Pode ter certeza disso. Com um gesto rápido Cullen segurou-a pelos ombros, deitou-a no cobertor e curvou-se sobre ela. Foi tudo tão inesperado que ela abriu a boca, surpresa. Ele aproveitou a chance e beijou-a com arrebatamento. Sua língua e a dela encontraramse e executaram movimentos frenéticos. Aos poucos, o ritmo diminuiu, tornando-se uma dança erótica que deixou Sara ofegante e contorcendo-se sob o corpo de Cullen. Incrível! Esse homem era exímio atirador. Bastara um tiro para derrubá-la. Agora estava à mercê dele. Com uma das mãos, ele contornou-lhe o seio, desceu até a cintura e subiu novamente, sempre a acariciando por cima da roupa, o que não a satisfez. Desejava carícias mais íntimas, mais ousadia. Preciso me beliscar! Querendo involuntariamente o pescoço de Cullen.

alcançar

o

próprio

braço,

atingiu

— Ai! — ele gritou. — O que foi desta vez? — Vamos. Temos de continuar a viagem. — Não precisava me beliscar para me dizer isso. — ele deu um risinho pretensioso, ficou de pé e ofereceu a mão para ajudá-la a levantar-se. — Bem que você gostou do beijo, não gostou? Diga a verdade. Ela ignorou o gesto dele e levantou-se sozinha. — Não foi mau. O riso de Cullen desapareceu.

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— Como? O que você quis dizer com isso? Para disfarçar sua agitação e o tremor das pernas, Sara abaixou-se e começou a dobrar o cobertor. — Foi satisfatório. Cullen tirou o cobertor das mãos dela. — Como pode avaliar um beijo se você nunca foi beijada? — Eu... — Sara abriu a boca para defender-se, mas parou. — Aha! Acertei. — Ele deu um largo sorriso. — Você nunca foi beijada. — Sim, você está certo — ela confirmou sem relutar. Por que negar a verdade? — Nunca fui beijada. — Então, como pode saber se um beijo foi bom, mau? Ou satisfatório? — Facilmente. — Ela puxou o cobertor das mãos dele, terminou de dobrá-lo. — Um beijo é avaliado de acordo com o que faz a pessoa sentir. Ou seja: é de acordo com a emoção provocada que se avalia a potência de um beijo. Cullen aproximou-se dela e segurou-a no queixo com firmeza. — Você tem coragem de me dizer que não sentiu nada quando a beijei? Um sorriso doce brincou nos lábios dela e nos olhos havia um brilho divertido. — Senti o suficiente para beliscá-lo. O comentário, apesar de na verdade ser um elogio, foi interpretado como ela havia esperado. Cullen cerrou os maxilares, irritado, e largou-a como se tivesse recebido outro beliscão. — Agora entendo por que seu pai estava ansioso para lhe arranjar um marido. Que destino o do infeliz. O sorriso de Sara tornou-se mais açucarado. — Está sendo cruel consigo mesmo, Cullen Longton, meu marido. Ele cerrou os punhos de raiva e resmungou algo incompreensível. — Hora de partir — disse secamente. — Concordo plenamente. — Sara entregou-lhe o cobertor bem enrolado e afastou-se depressa, indo pegar a égua. Uma vez na sela do animal, decidiu que seria mais proveitoso permanecer em silêncio, pelo menos até passar o aborrecimento de Cullen. Justamente quando já não suportava mais ficar calada, ouviu o som de cavalos se aproximando e sentiu o chão trepidar. Ambos refrearam suas montarias. Cullen fez-lhe um sinal, e ela seguiu-o. Os dois entraram na mata e Projeto Revisoras

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esconderam-se entre as árvores. Do lugar onde se encontravam puderam ver uma carroça carregada de barris descendo com estrondo a estrada cheia de buracos, sendo conduzida por um frade esquelético. Alguma coisa não estava certa, Cullen pensou. O frade suava demais, estava vermelho, muito nervoso, e tocava os cavalos como se perseguido pelo demônio. Cullen sinalizou para que Sara não se mexesse, ao que ela obedeceu de bom grado. Assim que o frade desapareceu de vista, uma tropa de soldados apontou na estrada, tocando seus cavalos a galope, os cascos dos animais estrondando como trovão. Gritos cortavam o ar, seguidos de gargalhadas. Depois que a tropa também desapareceu na distância e tudo ficou em silêncio, Cullen perguntou a Sara: — Há outra estrada para chegarmos à sua casa? Será arriscado seguirmos aqueles soldados. — Conheço caminhos menos trilhados de acesso ao mercado. Em certos trechos teremos de ir a pé e a viagem será mais longa. — Mas será mais seguro. — Há soldados atrás de você? — Não tenho certeza. Espero que o conde de Balford esteja convencido de que embarquei para a América com meu irmão. Entretanto, a esta altura ele já deve ter sido informado de que alguém esteve fazendo perguntas sobre o nascimento do neto dele. — Você acha que a abadessa mandou avisar o conde sobre o que aconteceu? — Certamente. A única coisa a nosso favor é que ela não sabe onde está o meu filho. Com isso ganharemos tempo, embora não seja muito. Você há de convir que não podemos nos arriscar nem confiar em ninguém. — Tem razão. Meses atrás, Sara escondera Alexander, salvando-o do destino cruel imposto pelo conde. Agora iria salvá-lo novamente. Desta vez estaria protegendo Cullen também. Queria de todo o coração ver pai e filho reunidos e viajando felizes para a América. A um novo sinal de Cullen, ela seguiu-o em silêncio. Por mais que quisesse continuar conversando, selou os lábios. Eles seguiram adiante, cavalgando devagar e, quando chegaram a uma bifurcação da estrada, viram de longe onde a carroça conduzida pelo frade havia parado. Alguns barris tinham rolado para o chão, quebrando-se, e o vinho que vazara deles tingia de vermelho a neve que ainda não derretera. Do frade magérrimo nem sinal. Sara não quis nem imaginar o que devia ter acontecido com o pobre religioso.

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A estrada que eles tomaram era malconservada, tinha pouco movimento e havia trechos em que eles eram obrigados a abrir nova trilha se não quisessem dar uma volta muito grande. Não tinham ido muito longe quando o frade saiu da mata, acenando as mãos. Mas, em vez do hábito de monge, ele usava roupas velhas, gastas e grosseiramente remendadas. — Tenham piedade de um pobre homem e ajudem-me! — ele implorou. Assim que viu o homem saindo do meio das árvores, Cullen, por instinto, desembainhou a espada que trazia pendurada na sela. Tocou o cavalo e fez com que o animal empinasse na frente do desconhecido, deixando-o propositadamente longe de Sara. — Não vou lhes fazer mal — o homem gritou depressa, o corpo descarnado todo trêmulo. — Aqueles soldados o perseguiam? — Cullen indagou, pronto para afastar-se do estranho. O homem abanou a cabeça depressa. — Não, não! Eles acharam que eu era um monge e não queria dividir meu vinho com eles. Por isso ficaram com a carroça e me deixaram a pé. Se eles soubessem que sou agricultor e tinha roubado o vinho, teriam me matado sem hesitar. Eu pretendia vender os barris de vinho para poder alimentar minha família, que está morrendo de fome. — Onde você mora? — Cullen indagou. Pretendia conversar com o homem para obter o maior número possível de informações sobre ele e saber se falava a verdade. — Arrendo um pedaço de terra a boa distância daqui. — O que você quer de nós? — Nada mais do que acompanhar vocês. É mais seguro viajar em grupo do que sozinho. Quero chegar são e salvo à minha casa onde tenho minha mulher e uma filhinha. Vocês serão bem-vindos e poderão passar a noite com a gente. Mas... não tenho comida para oferecer. Cullen olhou para Sara e notou que ela parecia desconfiada. De fato, era melhor ambos se mostrarem cautelosos em relação àquele estranho. Se, de fato, ele estivesse dizendo a verdade, Cullen pensou, iria ajudá-lo. Não deixava uma família passar fome se tivesse dinheiro para comprar-lhes o que comer. Entretanto, se o homem pretendesse roubá-lo, iria sentir no corpo esquelético a ponta de sua espada. Inclinando-se, Cullen estendeu a mão para o homem. — Você pode nos acompanhar. Meu nome é Cullen e... — Ele olhou para Sara. Projeto Revisoras

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— Esta é minha esposa, Sara. — Sou Jeremy — o homem apresentou-se e apertou a mão de Cullen. — Agradeço muito sua ajuda. O trecho da estrada por onde seguiam era cheio de pedras e valetas, e constituía um desafio para os animais, obrigando-os a seguirem devagar. Desse modo, Jeremy pôde caminhar do lado deles. Cullen continuou a conversar com Jeremy, enquanto Sara apenas os ouvia. Não sendo tola, ela percebera que a intenção do marido era descobrir o que pudesse sobre o estranho. — Como você conseguiu aqueles barris de vinho? — Cullen perguntou. — Saí de casa pensando em caçar nas matas para ter o que comer — Jeremy começou a contar. — Os donos de terra não têm protegido suas propriedades contra os ladrões. Nós, os arrendatários, não podemos sobreviver só com o que recebemos do dono das terras, pois eles tiram de nós mais do que seria justo. Somos explorados. Quando o tempo não ajuda e a colheita é fraca, nossa situação piora. Cullen era testemunha de que os pobres passavam necessidade, enquanto os ricos viviam no luxo e na fartura. — Eu ainda não tinha encontrado nada quando vi um velho frade levando na sua carroça alguns barris de vinho para vender no mercado — Jeremy prosseguiu. — Ele me ofereceu carona e aceitei. Na manhã seguinte, o velho não acordou. Vi que ele estava morto. Vesti o hábito dele por cima de minhas roupas e enterrei-o. Achei que eu tinha recebido um presente do céu. Se vendesse o vinho no mercado, teria dinheiro suficiente para alimentar minha família e talvez pudesse comprar passagens para sairmos da Escócia. — Você caça com que tipo de arma? — Com arco e flecha. — Onde estão essas armas? — Perdi tudo. Elas estavam na carroça com o vinho. Tive o cuidado de escondê-las entre os barris. Seria loucura tentar enfrentar os soldados com um arco e algumas flechas. Também seria estupidez deixar aqueles brutos descobrirem que eu tinha armas. Eles nunca iriam acreditar que um monge usava armas. — Tem razão. — Cullen balançou a cabeça, assentindo. O homem estava certo, claro. Frades, sendo homens de Deus, contavam com a proteção divina e não precisavam portar armas. Se os soldados descobrissem que Jeremy era um impostor, ele estaria perdido, Cullen pensou. Isto é... se a história que ele contara fosse verdadeira. O trecho seguinte da estrada era mais largo, e Cullen sinalizou para que Sara cavalgasse ao lado dele. Queria ouvir sua opinião sobre a história contada por Projeto Revisoras

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Jeremy. Quando as duas montarias estavam emparelhadas, Jeremy apressou o passo e caminhou alguns passos na frente do casai. — O que você acha dele? — Cullen perguntou em voz baixa. — Ele parece-me familiar, mas não me lembro de o haver encontrado em algum lugar — ela respondeu. — Não resta dúvida de que ele tem passado fome. — Foi o que pensei. Ele deve ter emagrecido bastante. Suas roupas estão folgadas. —Talvez ele as tenha roubado. Ele pode ser um ladrão. Eu gostaria de saber por que ele me parece tão familiar. — Dê tempo ao tempo. Você acabará lembrando. Por enquanto, o melhor a fazer é ficarmos atentos e cautelosos. Ambos mantiveram-se alertas, desconfiados, e não abaixaram a guarda. Cullen não queria correr riscos. O conde de Balford era um homem astuto, perigoso e poderoso. Não seria difícil ele ter descoberto que Cullen não havia embarcado para a América e já ter anunciado generosa recompensa para quem desse uma informação segura sobre seu paradeiro ou sua morte. Horas mais tarde, eles fizeram uma parada para descansar e comer. Jeremy aceitou um pedaço de pão, partiu-o ao meio e guardou a metade no bolso. — Minha família precisa comer — explicou. — Coma tudo. Temos mais — disse Cullen. Os olhos escuros de Jeremy brilharam, e ele quase engasgou com o pedaço que levou à boca. — Vocês vão repartir o que têm com minha família? — Certamente. — Você e sua família não pertencem a um clã? Não têm quem cuide de vocês? — Sara perguntou. Jeremy fez com a cabeça um gesto negativo. — Meu primo não é um bom chefe. Ele conta vantagens, faz promessas, mas não faz nada para melhorar a vida dos moradores do nosso pequeno clã. Ginny e eu esperamos poder um dia partir para a América. Ouvi dizer que lá as pessoas dispostas a trabalhar têm chance de progredir e conseguem ter seu pedaço de terra. Ginny e eu queremos oferecer uma vida melhor para nossa filha Gwen. — Ele esfregou as mãos para limpar as migalhas de pão e disse em outro tom: — Não quero apressar vocês, mas temos de voltar para a estrada para chegar à fazenda antes de escurecer. — Então vamos continuar a viagem — tornou Cullen, levantando-se e estendendo a mão para Sara. Projeto Revisoras

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Ele ficou um pouco surpreso ao vê-la aceitar a ajuda tão documente. Também havia notado que ela se mantivera mais calada e mais contida do que de costume. Passou-lhe pela mente que ela devia estar planejando alguma coisa ou então queria mostrar ao estranho que era boa esposa. O fato de ele ter notado a mudança de comportamento de Sara levou-o a considerar que, em tão pouco tempo, já se familiarizara com a nova esposa. Sara não era mulher de ser facilmente ignorada. Entretanto, não tinha uma beleza de chamar a atenção. Seus traços, simples e harmoniosos, lembravam os das estátuas que adornavam as igrejas. O que impressionava nela eram sua força, sua energia e confiança. Ela era uma mulher com quem um homem podia contar. Eles alcançaram a estrada novamente. Cullen olhou para Sara, que parecia distante, imersa em pensamentos. Era essa a razão de seu silêncio. Normalmente ela falava muito, mas abordava assuntos interessantes. Era uma mulher bem informada, voluntariosa e de opinião. E aqueles cabelos ruivos, rebeldes, os mais brilhantes que eleja tinha visto, eram parecidos com ela, comportavam-se como se tivessem vontade própria. Logo que Sara os penteava ficavam assentados, mas quase em seguida ou armavam-se de modo estranho, ou caíam suavemente ao redor do rosto e sobre os ombros. Tal imprevisibilidade Condizia perfeitamente com o temperamento de Sara. — Ele está sujo... — ela comentou, os olhos fixos em Jeremy, que caminhava apressado, vários passos à frente deles. — Eu sei que você não está criticando o pobre homem, que apenas fez uma observação. Por quê? O fato de ele estar sujo ajudou-a a lembrar por que ele lhe pareceu familiar? — É isso! — Sara exclamou, empolgada. — Você é um gênio. Amo você. Amo você. Alaina pronunciara as mesmas palavras com os lábios trêmulos, antes de morrer, Cullen relembrou com o coração apertado. Sabia que a intenção de Sara não tinha sido declarar seu amor, e sim expressar alegria por lembrar-se de algo que a estava deixando intrigada. — Jeremy! — ela gritou. O homem parou. Virou-se instintivamente e agachou-se como se precisasse defender-se de um ataque. — Está tudo bem, não se assuste — ela tranquilizou-o. — Quando você falou sobre o chefe do seu clã, fiquei curiosa para saber quem é ele. Talvez eu o conheça, pois já estive nesta região. — O chefe do clã é Harken McWilliams, meu primo. Mas acredito que uma pessoa distinta como a senhora não conhece gente como ele. Harken é sujo e relaxado. Eu sei que estou com péssima aparência, mas saí de casa há alguns dias. Ginny vai ter um ataque quando vir como estou imundo. Ginny é boa esposa e cuida bem das poucas roupas que temos. Elas estão sempre limpas. Sou um homem de sorte.

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— Você tem razão. Não conheço seu primo — Sara respondeu e olhou para Cullen com as sobrancelhas arqueadas. Ele entendeu a mensagem silenciosa. Evidentemente Sara não queria contar a Jeremy que era a mulher com quem Harken McWilliams pretendia casar-se para melhorar as condições de vida do seu clã. Não que ela estivesse achando que Jeremy ficaria aborrecido com ela. Era mais certo ele ficar aborrecido com o primo, por ter chegado a pensar que uma mulher como Sara iria dar atenção a um homem relaxado como ele. Inclinando-se para Cullen, Sara sussurrou: — Sinto-me em dívida para com Jeremy e sua família. Se Harken era mau chefe de clã e um idiota, a culpa não era de Sara, Cullen pensou. Entretanto, sabia que ela via a situação de modo diferente. Sentia-se responsável pela situação difícil de Jeremy porque tinha um coração generoso, além de coragem e confiança em si mesma para seguir suas convicções. Mais uma vez, Cullen lembrou-se de que o filho estava vivo graças a essas qualidades dela. Só tinha de agradecer a Deus por isso. — Vamos ajudá-los, com certeza — ele respondeu. Um sorriso iluminou o rosto de Sara. —Você é um bom homem. Tenho orgulho de chamá-lo de marido, mesmo estando juntos há pouco tempo. Essas palavras sinceras tocaram o coração de Cullen. Em seguida, ele zangou-se. Por que devia importar-se com o que ela pensava a respeito dele? Ela o obrigara a desposá-la e... Ele observou Jeremy. Pela primeira vez, reparou que o pobre homem usava roupas imundas, estava suado e sujo. De fato, sua aparência era horrível e ele fedia. Provavelmente quisera distanciar-se deles por vergonha. Cullen sentiu vontade de rir e cobriu a boca com a mão. Mas o motivo do riso não era Jeremy. É que, sem que ele pudesse evitar, havia pensado na reação de Sara quando o pai dela decidira obrigá-la a se casar com o sujo e fedorento Harken McWilliams. Ele já conhecia Sara o suficiente para imaginar, sem muito esforço, que a cena tinha sido tão tempestuosa que Donald McHern decidira mandar a filha para a abadia. Não muito à vontade, Cullen admitiu que Sara tivera um bom motivo para forçá-lo a casar-se com ela. E o acordo firmado entre ambos era justo. Afinal, ela não tinha exigido um compromisso duradouro. Ele virou-se ao ouvi-la bocejar. — Cansada? — Um pouco. — Ela bocejou de novo. — Não dormi bem ontem à noite. — Pensando em mim? — ele perguntou com um sorriso provocativo.

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Em vez de irritar-se, ela respondeu candidamente, sem risinho sarcástico e sem afetação: — Sim. Pensando em você. Droga, disse Cullen a si mesmo, sua nova esposa tinha admirável autoconfiança. Mas ele não iria desistir de provocá-la. — Se você perdeu o sono por minha causa, é sinal de que está prestes a render-se. — Isso, se meus pensamentos estivessem centralizados em sexo, o que, decididamente, não foi o caso — disse ela com franqueza. Como? Ela havia dormido colada a ele e não tinha pensado em sexo? Não era lisonjeiro para um homem ouvir isso, Cullen considerou. Uma resposta dessas representava não apenas um golpe no seu orgulho masculino, como também abalava a certeza de conseguir seduzi-la. — Se não pensou em sexo, em que pensou? — Fiquei muito tempo pensando na alegria e no alívio que você irá sentir quando estiver com Alexander. Também pensei em Alaina e imaginei que ela ficará em paz sabendo que você encontrou o filho de ambos, como era o desejo dela. O coração de Cullen deu uma cambalhota e seu estômago se contraiu ao ouvir a resposta sincera, dita sem a menor presunção. — O fato de lembrar-me de Harken, de quem me livrei, me fez pensar que sou uma pessoa de muita sorte por ter conhecido você e por estarmos casados. É gratificante saber que posso fazer alguma coisa para retribuir sua ajuda — ela continuou. — E não venha com essa história de que eu o obriguei a casar comigo. Fizemos um ótimo acordo e o que está feito não pode ser desfeito. — Você sabe o que eu penso... — Sei — Sara interrompeu-o. — Você acha que sou a melhor coisa que lhe aconteceu — ela concluiu com um sorriso. Sorriso convencido que ele teve ímpetos de tirar do rosto dela com um beijo. Não se enganara ao presumir que havia despertado nela o desejo sexual, ainda que ela não o quisesse admitir. Sara era inexperiente e estava ansiosa para ter sua primeira experiência sexual; também era previdente e fazia questão de que o casamento fosse consumado para que o pai não tivesse como anulá-lo. Ela estava convencida de que iria impor sua vontade, mas ele lhe reservava uma surpresa, Cullen continuou a refletir, tendo já em mente o que fazer para impor a vontade dele. Concordava com o que ela dissera sobre não poder desfazer o que estava feito, mas seria feito à maneira dele e quando lhe conviesse. Ele sorriu. — Acho que você está arquitetando alguma coisa — ela observou com um sorriso. Projeto Revisoras

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O riso dele alargou-se, mas o assunto foi interrompido, pois ambos tiveram de sair da estrada e apressar os cavalos se quisessem seguir Jeremy, que iniciara desabalada corrida e acenava as mãos agitadamente. A razoável distância, Cullen e Sara viram uma mulher magra e uma garotinha que vinham correndo ao encontro de Jeremy para dar-lhe as boas-vindas. Nada melhor do que estar de volta ao lar. Sara ficou bem impressionada com a ordem e a limpeza da casa de apenas dois cômodos, onde Jeremy morava com a esposa, Ginny, e a filha, Gwen. Ela notou também que Ginny e Jeremy privavam-se de alimentos e deixavam para a filha o que eles tinham de mais nutritivo. Gwen era uma garotinha esperta, de três anos. Tinha olhos verdes e brilhantes, e cabelos castanho-claros que mãe mantinha cuidadosamente trançados. Ginny era tão magra quanto o marido e suas roupas pendiam ao redor do corpo debilitado. A extrema magreza emprestava-lhe um ar doentio. Entretanto, ela era ativa, mostrou-se hospitaleira e ofereceu aos visitantes o que tinha preparado para o jantar: um caldo quente com verduras. A pequenina mulher quase chorou quando Cullen pôs sobre a mesa as sobras de pão e queijo. — Vocês são muito generosos — disse Ginny, segurando, ao mesmo tempo, o bracinho da filha que ia pegar um pedaço de pão que estava na extremidade da mesa. — É a nossa maneira de agradecer-lhes por nos dar pousada para esta noite — tornou Sara, pegando o pão e colocando-o na mão da garotinha. Gwen deu um largo sorriso e começou a comer o pão. Ginny agradeceu novamente e ocupou-se em arrumar a mesa com entusiasmo, como se aquele jantar fosse um acontecimento. Os dois casais comeram, beberam, conversaram e riram. Gwen participou da refeição e da alegria, sentando ora no colo de um, ora no de outro, beliscando o que eles tinham no prato. Ninguém falou sobre o confronto de Jeremy com os soldados para não deixar Ginny preocupada. A pobre mulher já tinha preocupações demais. Qualquer pessoa, mesmo não sendo muito observadora, podia notar a falta de brilho nos seus olhos e o esforço que ela fazia para sorrir. Por um breve momento, Sara sentiu uma pontinha de remorso por não aceitar casar-se com Harken. A união de ambos pelo menos serviria para melhorar a vida dos moradores do pequeno clã. Ao mesmo tempo, ela pensou, Harken não parecia ser um chefe que se preocupava com o bem-estar de sua gente. — Quero pagar pelo abrigo que vocês nos estão oferecendo — propôs Cullen, tirando algumas moedas da bolsa que trazia presa à cintura.

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Jeremy arregalou os olhos ao ver sobre a mesa a pilha de moedas brilhantes, mas respondeu: — Vocês repartiram sua comida conosco, e isso já basta. — Tolice. — Cullen empurrou as moedas para a frente de Jeremy. — Graças a vocês teremos um teto sobre a cabeça e uma cama para dormir. Isso merece uma recompensa. Portanto, não discuta, bom homem, e aceite o dinheiro. — Se é assim, como posso recusar sua oferta? — respondeu Jeremy, juntando as moedas. Ginny segurou no braço dele com os olhos escuros molhados de lágrimas. Em seguida, levantou-se. — Vou arrumar a cama para vocês. Antes de Sara protestar, Ginny foi para o quarto, seguida por Gwen. Sara compreendeu que a pobre mulher iria sentir-se melhor oferecendo a eles um pouco de conforto em troca das moedas. De mais a mais, ela estava exausta e ansiava por dormir em uma cama limpa, vendo Cullen e Jeremy conversando animadamente, para recostou a cabeça no espaldar alto da cadeira, fechou os olhos por um momento e deixou-se ficar ali, relaxada, sentindo o agradável calor da lareira. Sentia orgulho do novo marido. Cullen oferecera ao casal uma quantia mais do que generosa pela hospedagem, sem, no entanto, dar a impressão de que estava fazendo caridade. Ele também tinha sido extremamente carinhoso com Gwen, brincara com ela e a abraçara, quanto mais conhecia Cullen, mais o admirava. Por que não tivera a sorte de encontrar um homem com tantas qualidades quando estivera procurando um marido? Era muito fácil entender por que Alaina se apaixonara por ele. Cullen Longton tinha um coração terno sem, contudo, perder a força e a coragem. Ela o admirava por sua generosidade para com os menos favorecidos pela sorte. Prestando atenção à conversa que ele mantinha com Jeremy, pôde notar-lhe o desprendimento. — Lembro-me de você ter mencionado que gostaria de ir para a América — disse Cullen. — Um mero sonho — Jeremy contrapôs, pesaroso. — Há um navio que vai para a América. Talvez você possa embarcar nele. — Não tenho dinheiro para uma viagem dessas. — Deve haver um jeito de você pagar pela viagem. Sara deu um sorriso. Cullen era um homem inteligente. Estava oferecendo a Jeremy a oportunidade de sair da miséria em que se encontrava sem perder o orgulho e a dignidade. O interesse de Jeremy foi imediato. Ele inclinou-se para a frente e apoiou os braços na mesa. — Estou disposto a trabalhar por minha passagem e as passagens de minha Projeto Revisoras

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família. Não vou deixar Ginny e Gwen para trás. Conheço chefes de família que se aventuraram, deixando a esposa e os filhos, e nunca mais se reuniram. — Também conheço histórias assim — Cullen concordou, pensando no pai e nos anos perdidos em que tinham vivido separados. — Mas eu acho que não haverá problema. Vou escrever ao capitão, explicando que você e sua família querem embarcar para a América. O navio deverá chegar em breve. Eu lhe darei dinheiro suficiente para a hospedagem enquanto vocês esperam pela chegada do navio ao porto. — Não, não. — Jeremy sacudiu a cabeça com veemência. — Não posso aceitar mais nada. Ficarei lhe devendo pelo resto da vida. — Ouça a minha proposta. Tenho uma fazenda na América, no Território de Dakota. Você poderá trabalhar lá. Terá casa e um salário. Acredito que será suficiente para você e sua família viverem tranqüilos. Jeremy cocou a cabeça. — Como? Vai me pagar um salário, mesmo eu lhe devendo o dinheiro das passagens nesse navio? Cullen sorriu. — Certa ocasião uma pessoa muito especial me disse que toda boa ação nunca é perdida. Espero que alguém faça alguma coisa por mim quando eu precisar de ajuda. Jeremy estendeu a mão. — Tenho certeza de que isso acontecerá. Eles apertaram as mãos. Sara guardou na mente as palavras de Cullen. Não hesitaria um instante quando chegasse a hora de retribuir o bem que ele estava fazendo por ela e faria isso com alegria e profundo sentimento de gratidão. Subitamente, ela bocejou; não teve tempo nem de cobrir a boca com a mão. — Minha esposa está cansada — disse Cullen, levantando-se. — Acho que está na hora de irmos dormir. — Nem sei o que dizer. — Jeremy também ficou de pé. — Sua generosidade me deixou sem palavras. Nunca poderei lhe agradecer o suficiente. — Você gosta de trabalhar? — Cullen indagou com sorriso. Ginny aproximouse do marido, tendo a filha no colo. — Nós dois não temos medo do trabalho. — Nesse caso, todos nós trabalharemos juntos e teremos uma vida melhor — Cullen afirmou.

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CAPÍTULO III

Tão logo Cullen fechou a porta do pequeno quarto mobiliado apenas com a cama e um baú, e agradavelmente aquecido por uma lareira, Sara observou: — Você foi mais do que generoso. — Eu não podia deixá-los passando fome, principalmente tendo meios para ajudá-los — ele respondeu, tirando a camisa. Em seguida, bocejou e espreguiçou-se. Vendo, à luz da lareira, os músculos do tórax e dos braços dele se retesando, Sara teve a sensação de que seu cérebro tinha virado mingau. Não conseguia pensar com clareza e seria incapaz de lembrar sobre o que eles estavam conversando. Nem isso importava. Seu único pensamento estava naquele homem tão atraente. A reação de seu corpo foi imediata. Os mamilos endureceram e um calor percorreu-a, causando um tremor e uma umidade entre as pernas. Com receio de não poder manter-se de pé, sentou-se na cama e respirou fundo. Cullen foi depressa até ela e segurou-lhe a mão. — Sente-se bem? Você ficou vermelha de repente. — Estou ótima. — Ela puxou a mão. Ele afastou um cachinho que teimava em cair sobre a testa de Sara. Ela não ligava a mínima para cachos rebeldes, mas sentir o contato da mão dele em sua pele era outra história. Por um instante, ficou sem saber que atitude tomar. Devia resistir ou entregar-se ao marido? Não houve tempo de tomar uma decisão, pois sentiu os lábios dele roçando levemente os seus. Foi um beijo suave, delicioso, morno e rápido. Nem bem ela fechara os olhos, enlevada, esperando que o beijo se tornasse ardoroso, Cullen afastou-se. Sara abriu os olhos e não o viu em lugar nenhum. — Venha para a cama. A ordem sobressaltou-a. Olhou para trás e o viu debaixo das cobertas. As roupas dele estavam estendidas sobre a colcha de retalhos, na extremidade da cama. Era evidente que ele estava nu. Sara ficou parada, indecisa. Depois, tirou as botas para deitar-se, mas ouviu nova ordem. — Tire as roupas. A essa altura, ela perdeu a fala e não conseguiu se mover. Talvez fosse aquela expressão autoritária nos olhos castanho-escuros que a estivesse deixando tão insegura e com a garganta seca. Ou, provavelmente, fica-ta perturbada por causa das Projeto Revisoras

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batidas alucinadas de seu coração. Quem sabe, ainda, fosse a maneira como seu corpo correspondia tão ansiosamente às exigências do marido. Conseguindo controlar-se, replicou: — Não me sinto disposta. O casamento não pode ser consumado esta noite. — Quem falou em consumação do casamento? — Ao fazer a pergunta Cullen empurrou a colcha para baixo, o suficiente para Sara poder ver os pelos escuros na parte inferior do abdômen. — Venha. Você ficará quentinha debaixo das cobertas, com seu corpo encostado ao meu. Ela deu de ombros. — Prefiro dormir vestida e por cima das cobertas. — Covarde — Cullen acusou-a, rindo. — Pragmática. — Bem, se tiver coragem, tire as roupas e entre sob as cobertas. —- Eu já disse que não nos uniremos esta noite como marido e mulher. — Certo. Estou de acordo. O casamento não será consumado esta noite. Ele parecia sincero, Sara admitiu. No entanto, por que não acreditava nele? Como não era covarde, tirou a blusa e a saia. Pelo menos usava combinação de linho, branca e bem larga. Cullen abanou a cabeça. — Que combinação mais feia! Tire isso. — Não. — Está com medo de se despir na frente do marido? Por mais que gostasse de desafios, aquele, Sara não estava disposta a aceitar. Cullen jogou as cobertas para o lado. — Eu não tenho medo de ficar nu na sua frente. Um nó bloqueou a garganta de Sara, quase a sufocando. O homem era alto, forte, tinha ombros largos e era bem dotado... Oh... tão bem dotado, tão firme, tão rígido. Ela não conseguia deixar de olhar para o... corpo dele. Droga, ele a estava confundindo de propósito. Simplesmente olhar aquele corpo nu a deixara excitada. Se fosse realmente corajosa, aceitaria o desafio e entraria nua debaixo daquelas cobertas. Mas, infelizmente, era covarde, sentia-se insegura e tinha medo de não resistir e entregar-se a ele. Obviamente Cullen havia planejado a cena sedutora tendo a certeza de que ela aceitaria o desafio e se renderia facilmente. Bem, ele que aguardasse, pois iria ter uma grande surpresa. — Concordo em me deitar com você, mas não tiro a combinação. Projeto Revisoras

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— Como queira. — Ele sorriu, esperou que Sara se deitasse, puxou as cobertas sobre ambos e abraçou-a. — O que está fazendo? — Sara zangou-se e lutou para afastar-se dele. — Estou me aconchegando à minha esposa — ele respondeu e colocou a perna sobre ela para impedi-la de se debater. Ela virou-se e empurrou o peito dele. — Não pense que me engana. Sei muito bem o que está tentando fazer. O casamento será consumado quando eu quiser. — Você acha que será assim? — Acho, não. Será como eu quiser. Tenho certeza disso. — Pelo modo como você brinca com meu peito, só posso deduzir que está pronta. De imediato, Sara afastou a mão. Não tinha percebido que não estava mais empurrando o peito dele, mas o acariciando. — Hum, agora você ficou vermelha. Sinal de que está pronta para a ação. Estou disposto a cumprir a minha parte do acordo. Ela suspirou, exasperada. — Esta noite não quero saber de ação nem de acordo nenhum. Ignorando os protestos de Sara, Cullen curvou-se sobre ela e tocou um dos mamilos intumescidos. — Outro sinal de excitação. Você continua a negar que está pronta? — Mesmo estando pronta, não nos uniremos esta noite — ela sussurrou. Teria gritado, não fosse o receio de perturbar o casal que estava na sala ao lado. — Quer dizer que, por capricho, prefere sufocar seu desejo? — Não estou sentindo desejo nenhum. — Não?! — Ele riu e acariciou-a nos mamilos. Ela bateu na mão dele. — Pare com isso! — As evidências falam por si mesmas. Veja como você está excitada. — Posso estar excitada, mas não quero ter nada com você esta noite — Sara declarou e cruzou os braços sobre o peito. — Ah, você não quer ter de admitir que se rendeu à minha vontade. Se a iniciativa tivesse sido sua, você iria sentir-se dona da situação e estaria disposta a aceitar nossa união.

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— Cullen, quando eu estiver pronta... — Você está pronta. — Não desse modo... — De que modo então? Sara ficou pensativa. O que a impedia de unir-se a Cullen, seu legítimo marido? Que tipo de jogo tolo estava querendo inventar? Afinal, o que desejava, realmente, que o marido fizesse? O que esperava dele? Ou de si mesma? Quantas vezes ela insistira na consumação do casamento? Virou-se e encarou-o. — Não sei dizer... — Nesse caso, não questione. Entregue-se a mim e deixe, simplesmente, que eu faça o que deve ser feito — ele sussurrou com brandura. Ainda assim, ela hesitou. — Prefiro não me entregar. Quero ter pleno controle de minhas faculdades e emoções. Cullen mordiscou a orelha dela e, em seguida, murmurou: — Você perderá o controle de tudo no arrebatamento da paixão. Ao ouvir isso, ela ergueu a mão, porém Cullen virou o rosto depressa, livrando-se do tabefe. — Duvido que irá acontecer algo semelhante, pois não haverá paixão. Nós nos uniremos apenas para selar nosso acordo e tomar válido nosso casamento. Na manhã seguinte, Cullen alegrou-se ao ver Ginny atarefada, arrumando seus poucos pertences, ansiosa para embarcar numa vida nova. Gwen deu-lhe um grande abraço e um beijo lambuzado. Sem poder evitar, pensou no filho. Gwen e Alexander cresceriam juntos na América, livres da fome e da desesperança. Sara reuniu-se ao marido, e despediram-se de Ginny. Jeremy acompanhou-os até o estábulo onde estavam o cavalo e a égua que eleja havia selado. Jeremy recomendou ao casal que redobrasse os cuidados quando chegassem ao mercado. O lugar era freqüentado por ladrões, soldados e malandros. A recomendação levou Cullen a pensar que tinha sido cauteloso desde que desembarcara do navio de Burke. Não se expusera a nenhum tipo de perigo e mantivera sua identidade em segredo. Sempre que se vira obrigado a se aproximar de alguém para fazer perguntas ou obter informações, afastava-se da pessoa sem deixar pistas que pudessem ser seguidas. No entanto, quando tinha se casado com Sara, vira-se obrigado a assinar seu nome nos papéis do casamento. Ele deixou as divagações e voltou a atenção para a

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estrada. O terreno era irregular, cheio de buracos, galhos caídos, pedras e mato crescido. Inquietou-o o pressentimento de que devia viajar por outra estrada. Esta por onde ele e Sara seguiam tinha muitos obstáculos. Um desses obstáculos, ele considerou, era estar casado. Sara não era o tipo de mulher que ele escolheria para esposa, embora reconhecesse suas inúmeras qualidades. Ela era extremamente honesta, sincera e franca. Com ela, não havia subterfúgios nem segundas intenções. Na noite anterior, ela deixara claro que entre eles não haveria paixão. Eles simplesmente se uniriam para tornar o casamento oficial, nem mais nem menos. Cullen concordara com os termos do acordo e tudo lhe parecera perfeito e conveniente. Porém, em vez de sentir-se aliviado, ficara aborrecido. Fazia quase cinco meses que Alaina falecera, mas sua lembrança permanecia viva no coração e na mente dele. Desde então, ele não havia pensado em amar novamente. Daí ter concordado em casar-se com Sara. A união de ambos não envolvia amor. Então, por que o aborrecia o fato de haver entre eles um relacionamento envolvendo apenas sexo? Segundo o acordo que haviam firmado, cabia a ele consumar o casamento. Sendo assim, o que lhe importava saber quando, onde e como seria o ato sexual? O estrondo de um trovão assustou o cavalo, e Cullen interrompeu os pensamentos para controlar o animal espantadiço. Olhou para cima e notou que nuvens escuras cobriam o céu, prenunciando chuva iminente. — Temos de encontrar abrigo — Sara gritou. — Jeremy me disse que há alguns casebres abandonados a pouca distância da estrada — ele respondeu, virando-se para Sara, que o seguia de perto. — Em que direção? Cullen sentiu na cabeça os primeiros pingos. — Você escolhe. Sara deu um sorriso e conduziu a égua por um caminho estreito que mal podia ser visto por causa do mato e dos escombros. Ele seguiu-a e surpreendeu-se ao chegar a uma clareira onde havia uma casinha entre duas árvores frondosas. Rapidamente eles amarraram os animais ao tronco de uma das árvores e correram em busca de abrigo. A casa estava gelada e vazia. A lareira era tão pequena que não comportava mais do que um cepo. Cullen deixou no chão a bagagem que carregava e ofereceu-se para ir procurar lenha. Projeto Revisoras

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— Quando eu sair, feche a porta, mas deixe a janela entreaberta — ele recomendou. — Aqui dentro está muito escuro. Sara obedeceu-o. Ele juntou galhos quebrados e gravetos, sem disfarçar o aborrecimento. Não via a hora de ver seu filho e de abraçá-lo, e a viagem parecia interminável. Evitara pensar na criança, sabendo que a ansiedade só iria fazê-lo sofrer. De mais a mais, Sara tinha garantido que Alexander estava em um lugar seguro, e ele não duvidava de que ela tivesse dito a verdade. Agora sua preocupação era cumprir a parte do acordo que lhe cabia e dirigir toda a sua atenção ao filho. Queria estreitá-lo nos braços e nunca mais separar-se dele. Prometera a Alaina proteger a criança e manteria a promessa, custasse o que custasse. Voltou para a casinha, jogou o feixe de galhos e gravetos na lareira e começou a acender o fogo, resmungando. — O que foi? Alguma coisa o preocupa? —- Sara indagou, sentando-se com as pernas cruzadas no cobertor que estendera no chão de terra batida. — Esses atrasos — ele respondeu, irritado. — Atrasos são inevitáveis. — Ela pegou um dos gravetos, com o qual começou a brincar. — Anime-se. Amanhã chegaremos ao mercado. Cullen estendeu a mão para pegar o graveto que ela segurava, e seus dedos tocaram os dela. Ambos ficaram imóveis por um momento. Devagar ela pôs a mão sobre a dele. — Você é um homem forte. Ele puxou depressa o braço, sentindo um repentino calor percorrer seu corpo, indo deter-se na virilha. Essa reação imediata ao toque inocente de Sara deixou-o alarmado. Terminou de acender o fogo, embora não precisasse de nenhum tipo de calor. Droga, se um simples toque feminino provocara nele aquele incêndio, era sinal de que precisava mesmo se deitar com uma mulher. Quase deu um pulo quando Sara sentou-se junto dele, na frente da lareira, e os quadris de ambos se tocaram. — Que calor gostoso — disse ela, estendendo as mãos para as chamas. Ele concordou com um aceno de cabeça. Atirou no fogo o último graveto e inspirou fundo, arrependendo-se imediatamente. As narinas ficaram impregnadas do cheiro ativo de pinho, de terra molhada e de chuva que vinha do corpo de Sara. Como ignorar aquela mulher? Era evidente que era ardilosa e tentava atraí-lo com suas manhas. Então, por que não aproveitar a chance para assumir o controle da situação? Projeto Revisoras

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Virando-se, ele deitou-a no cobertor e curvou-se sobre ela para beijá-la. — O que está fazendo? — Sara inquiriu. — Vou lhe dar o que você deseja. — O que o levou a pensar que eu queria seus beijos? — Você sentou-se bem junto de mim... Sara empurrou-o para o lado. — Quando o vi tão aborrecido, imaginei que você estivesse precisando de conforto. — E aquela conversa sobre eu ser um homem forte? — A minha intenção foi lembrá-lo de que você é forte e sua força irá ajudá-lo. Nada mais. — Para me dizer isso e para me oferecer conforto você precisa me tocar, se aproximar de mim? Sara deu um sorriso provocante. — Eu não tive segundas intenções. Acho que você, simplesmente, não consegue resistir aos meus encantos, à minha presença... — O quê? — Cullen retrucou, zangado. — Você é uma mulher mandona, atrevida e irritante. Me obrigou a desposá-la e agora quer forçar-me a levá-la para a cama. Fique sabendo que resisto a você sem o menor problema. No mesmo instante, ele a viu empalidecer e arrependeu-se de proferir palavras tão cruéis. Tarde demais, reconheceu que ela apenas fizera uma brincadeira, enquanto ele tivera a intenção de magoá-la. Ela levantou-se. — Não precisa fazer sexo comigo. Tenho o papel provando que estamos casados, e isso para mim é suficiente. Espero que meu pai nunca descubra que nosso casamento não foi consumado. Seja como for, correrei o risco. Indo até a janela parcialmente fechada, Sara ficou olhando para a chuva que continuava caindo. Cullen não se perdoava por ter sido tão rude. Se os contratempos da viagem, a urgência de ver o filho e suas apreensões o estavam deixando exasperado, a culpa não era de Sara. Era verdade que no início ela o deixara furioso ao propor aquele casamento em troca de levá-lo até Alexander. Mas, uma vez que ele aceitara os termos do acordo, devia cumprir sua parte sem reclamar. Precisava admitir que para Sara também não estava sendo fácil ver-se casada com um estranho com quem não tinha nenhuma afinidade. Enfim, tanto ela quanto ele tinham de pagar um preço para alcançar o que desejavam, ou seja, ela queria sua liberdade e ele queria encontrar o filho.

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Foi até Sara, seus passos cuidadosos, tendo nos lábios um pedido de desculpa. — Poupe seu fôlego — ela disse antes de Cullen aproximar-se. — Ouvi pedidos de desculpas durante toda a minha vida e sei que valem pouco para quem os recebe. Eles servem para aliviar a culpa e o remorso da pessoa tola que cometeu a crueldade. — Eu estava... — Zangado consigo mesmo — ela terminou a frase. — Já ouvi isso inúmeras vezes. Meu pai me censurava, me dizia coisas ofensivas e depois se desculpava. Eu era boa filha e não tinha escolha senão ouvir suas desculpas esfarrapadas e aceitá-las. Mas agora tenho escolha. Estamos casados apenas no papel e continuará a ser assim. Você será meu marido apenas de nome. Leve-me para casa, fique algumas semanas comigo, depois vá embora. Meu pai ficará convencido de que você me abandonou por eu ser uma mulher autoritária. — Não foi esse o nosso acordo. Sara dirigiu-lhe um olhar gelado. — Agora é. — Cumprirei a minha parte, como combinamos — ele insistiu. — Não. — Sara fechou a janela. — A chuva parou. Vamos. Não temos tempo a perder. Cullen segurou-a pelo braço, mas ela empurrou a mão dele. — Apague o fogo. Vi um balde lá fora. — Vou buscá-lo... Sara ignorou-o e saiu da casa. — Droga — ele murmurou, passando os dedos entre os cabelos. Como poderia consertar o estrago que fizera? Seria conveniente tentar? Ou seria melhor manter-se distante de Sara e não pensar mais no assunto? Decidiu esperar que os ânimos serenassem. Depois eles conversariam. O que lhe interessava era ter o filho de volta. Ele aceitara o acordo, dera sua palavra. E se não cumprisse sua parte, Sara o levaria até onde estava Alexander? Nesse instante, ela entrou na casa carregando o balde pesado, cheio de água. Cullen foi depressa ajudá-la, mas ela protestou. Ele colocou a mão sobre a dela. — Deixe-me ajudá-la — ofereceu-se, seu tom sincero. — Não preciso de ajuda. Ele encostou o nariz no de Sara. — Mas vou ajudá-la assim mesmo. — Não. Sorrindo, ele deu-lhe um beijo rápido.

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— Sim. Ela também sorriu. Cullen ia erguer a cabeça, mas não teve tempo. Sara deixou o balde cair no chão e beijou-o avidamente. Tolo seria ele se não correspondesse àquele beijo com ardor e arrebatamento. Abraçou-a com força, querendo-a perto dele, querendo que aquele beijo se prolongasse, ansioso para saciar o desejo febril que parecia consumi-lo. Sara gemeu, excitando-o. Porém, sem que esperasse, ela empurrou-o e ficou diante dele, ofegante e com uma expressão de tristeza no olhar. O coração de Cullen contraiu-se. — Ontem à noite você quis consumar o casamento e fui contra a idéia. Fiquei então me perguntando por que eu relutava em me unir a você, meu marido? Compreendi que eu, muito tolamente, acreditava que talvez... eu pudesse sentir prazer, mesmo estando nosso casamento destinado a durar tão pouco tempo. Por que não experimentar prazer e outras emoções inerentes ao ato sexual? — Sara deu um sorriso triste. — Confesso que gostei de nosso debate sobre um de nós entregar-se ou render-se ao outro, mas... Bem, não interessa. O que eu quero deixar claro é que não vou obrigá-lo a deitar-se comigo, a consumar o casamento. Empregue o termo que quiser. Ela saiu da casa. Cullen pegou o balde e apagou o fogo. Era melhor assim, pensou. Não seria correto usá-la apenas para saciar seu apetite. Bem, pelo menos ela saberia como era o relacionamento íntimo de um casal. Jogando o balde num canto, ele saiu da casa. Ela já havia montado e esperava por ele. Sara, a mulher que o afligia, o exasperava. Ou seria melhor dizer que ela representava um desafio? — E então? Está pronto, finalmente? — ela provocou-o. — Claro. Estou — ele respondeu, montando o cavalo com grande destreza. — Ótimo. Vamos acabar logo com isso. — Sara tocou a égua e logo alcançou a estrada. Cullen seguiu-a. Ninguém podia estar mais interessado do que ele em terminar logo aquela viagem. Cumpriria sua parte do acordo, Sara cumpriria a dela e ele estaria livre para iniciar uma nova vida com o filho, na América. Tinha certeza de que Sara voltaria atrás e concordaria em consumar o casamento. Ela não haveria de querer dispensar a parte dele por pura tolice. Ele esfregou o queixo. Tudo havia começado de forma tão simples. Matrimônio. Consumação do casamento. Alexander de volta. Por que, de repente, as coisas tinham se tornado tão complicadas? Culpa de Sara, que amava desafios, que o provocara. Mas por que ele aceitara esses desafios e provocações? Por que permitira que a situação dela o afetasse? Por que não havia se mantido distante em vez de abrir o coração para ela? Projeto Revisoras

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Então, tudo ficou claro. Desde a morte de Alaina, ele ficara entorpecido, certo de que nunca mais iria sentir amor por outra mulher. Sara, essa vibrante e impetuosa jovem de cabelos ruivos, no entanto, conseguira agitá-lo, mexer com seus sentimentos. Observou-a montada muito ereta na égua. Ela era uma mulher altiva, determinada, corajosa. Não era uma florzinha delicada, e ele a admirava por isso. — Não precisa se preocupar em comprar um doce para mim — disse ela como se captasse que ele a observava e pensava nela. — Faço questão — ele declarou com firmeza. — Por quê? A resposta de Cullen foi simples: — Por que eu quero. — E se eu não aceitar? — Sara virou-se e olhou para ele. — Aceitará. — Ele riu. — Aqueles doces são irresistíveis. Como eu. Na manhã seguinte, depois de uma noite calma, Cullen e Sara deixaram a clareira onde haviam acampado e puseram-se na estrada. Ela manteve-se calada. Não tinha o que conversar com Cullen. Ele fora muito claro. Suas palavras a tinham magoado! Gostaria de não ter ficado ressentida, mas não conseguira evitar. E o que podia esperar? Que seu casamento fosse como o dos romances, em que o amor tudo vence? Sara esboçou um sorriso irônico. Havia pensado que os momentos de intimidade com o marido seriam prazerosos, mas se enganara. E por quê? Porque fora idiota e tinha cometido a tolice de achar Cullen Longton simpático e atraente. Até o amor imortal que ele sentia por Alaina a comovera. Então, dissera a si mesma que, apesar de tudo, valeria a pena experimentar um momento de prazer. Mas isso jamais iria acontecer; tinha sido um sonho tolo. Sonhos não eram para ela. Sendo uma pessoa prática por natureza, sabia que lhe restava fazer planos para viver sozinha no futuro e preencher a vida com atividades que valessem a pena. — Estamos perto do mercado. Devemos ser cautelosos — disse Cullen que a seguia de perto. — Eu sei — ela respondeu sem olhar para trás. — Acho melhor darmos a impressão de que somos um casal apaixonado. — Sei fingir quando é necessário.

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— Ah, você é como seu pai. Sara ignorou o tom sarcástico. — Sou. E, como ele, sei usar meus talentos quando tenho de enfrentar um inimigo. Para alívio de Sara, Cullen não respondeu. Ela não estava disposta a trocar farpas com o escocês. Queria simplesmente voltar para casa e retomar sua vida. Daria a ele a liberdade de ir para onde lhe aprouvesse, desde que representasse bem seu papel de marido feliz. Era só o que esperava dele, mais nada. Pouco depois, ele observou: — Faremos uma breve parada no mercado; o suficiente para comprar alimentos. Em seguida, continuaremos a viagem. Ela assentiu, acenando com a cabeça. Reconheceu que não deviam se expor. Em um lugar como o mercado, onde havia sempre muita gente, seria melhor passarem despercebidos, para ninguém se lembrar deles caso os homens do conde aparecessem à sua procura. Quando entraram em uma estrada mais larga, Cullen emparelhou seu cavalo com a égua que Sara montava. — A minha intenção não foi magoá-la — ele começou em tom de desculpa. — Você falou a verdade. Prefiro a verdade à mentira, mesmo que a verdade cause sofrimento. — Reconheço que fui cruel. —A verdade, em geral, dói — Sara observou secamente. Estava decidida a não sofrer mais. As palavras de Cullen tinham ficado ressoando em sua mente, levando-a às lágrimas e deixando-a vulnerável. Já fora rejeitada demais. Então, por que permitir que mais uma rejeição a aborrecesse? Já era hora de readquirir sua força. — Há uma fazenda ao lado do mercado onde podemos deixar nossos animais. Isso terá um custo, naturalmente. — Ótimo. E fique sempre bem perto de mim. Não vamos nos separar. — Pelo menos por enquanto — ela lembrou-o em tom mordaz. O sarcasmo intencional atingiu Cullen em cheio. Ele contraiu-se e ficou carrancudo. O restante da viagem foi feito em oportuno silêncio. Eles já tinham falado o suficiente. Nada mais precisava ser dito. Os olhos do velho fazendeiro encheram-se de lágrimas ao ver a generosa quantia de moedas que tinha na mão áspera e enrugada, como pagamento para Projeto Revisoras

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abrigar as montarias de Cullen e Sara. — Não pretendemos nos demorar. No máximo em duas horas estaremos de volta — previa Cullen. — Fiquem no mercado o tempo que for preciso e não se preocupem — tornou o homem, tendo em seguida um acesso de tosse. — Cuidarei muito bem dos animais. Dou a minha palavra. Cullen ficou satisfeito. Para a maioria dos escoceses, só restavam a palavra e a honra, e isso ninguém podia tirar deles. Sara compreendeu o orgulho do idoso. Pensava como ele. Ela dera sua palavra e iria mantê-la por mais que lhe custasse. Segurou na mão de Cullen e foram juntos para o mercado. Ela sorria e estava usando o xale em vez do casaco, pois o sol brilhava. O inverno e a primavera andavam em desacordo; um recusava-se a ir embora e a outra teimava em assumir o que era seu. De um modo ou de outro, não importava. Sara sentiu-se invadida por uma súbita alegria ao ver a movimentação e ao ouvir o barulho reinante no mercado. Fazia muito tempo que não ia àquele lugar. Estivera ali pela última vez com o pai, embora tivesse ficado a maioria do tempo sozinha, enquanto ele cuidava de negócios. — Não se afaste de mim — recomendou Cullen novamente e deu um beijinho no rosto dela. Sara gostaria de acreditar que ele se preocupava com sua segurança por ser um marido zeloso. Mas sabia que Cullen só estava interessado em protegê-la porque, se algo lhe acontecesse, ele nunca encontraria o filho. — Não vou fugir — ela respondeu, segurando com firmeza no braço dele. — Sei disso. Enquanto estiveram no mercado, eles lambiscaram, comeram e conversaram, mas mantiveram-se atentos, observando tudo por onde passavam. Havia ali alguns soldados, mas não prestaram atenção a um casal enamorado. Estavam interessados em mulheres desacompanhadas, especialmente naquelas ansiosas para lhes oferecerem seus serviços. Eles já tinham comprado mantimentos e algumas guloseimas quando Cullen parou perto de um senhor que esculpia objetos em madeira. Gostou de um cavalo e quis comprá-lo. O homem não o levou a sério. Porém, ao ver as moedas brilhando diante dele, vendeu-o. Cullen entregou o cavalinho a Sara e sorriu, todo orgulhoso. — Para meu filho. Ela também sorriu, e eles continuaram a andar. Detiveram-se numa barraca de tecidos. Sara viu aquelas lindas peças de seda, linho, lã, e teve vontade de comprar um presente para Teresa. Gostou muito de um corte de seda azul. A cor ficaria perfeita na irmã, que tinha cabelos loiros e era bem mais baixa do que ela. — Você gostou daquela seda? — Cullen indagou, passando o braço ao redor Projeto Revisoras

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da cintura de Sara. — Eu gostaria de levar um presente para minha irmã. — Então vou comprá-lo. — Depois eu pago você — ela disse depressa. — Não é preciso — ele respondeu e começou a negociar com o comerciante para conseguir um bom preço. Terminada a compra, ele puxou Sara pela mão e levou-a até uma barraca coberta com um toldo arredondado, na frente da qual havia grande número de pessoas. Ele deu um largo sorriso. — Bolos e doces. A fila era grande, e eles tiveram de esperar para ser atendidos. Finalmente, chegaram diante do balcão. Cullen comprou quatro puxa-puxas, deu dois para Sara e ambos foram comê-los do lado da barraca. Estavam deliciosos. Na barraca vizinha, vendiam-se pães de todo tipo: doces, salgados, claros, escuros, fofos, crocantes. Enquanto Cullen comprava alguns deles, Sara ficou ao seu lado, lambendo os dedos e observando as pessoas que passavam por ali. Depois ele levou-a a uma barraca e comprou para ela diversas fitas coloridas para os cabelos e um pente de marfim ricamente entalhado e muito caro. Ele fez questão de colocar o pente entre os cachos de Sara. Ela ia protestar, mas ele colocou o indicador sobre os lábios dela. — Perdoe-me por ontem — ele murmurou e deu-lhe um beijo suave. — Você é realmente uma linda mulher. Sara não soube o que dizer. O coração pareceu crescer no peito. O pedido de desculpa era sincero. Ele acrescentou. — Às vezes nós, homens, cometemos tolices. Eu sei que isso não justifica o meu comportamento rude, mas estou arrependido. Você sabe que estou dizendo a verdade. Por favor, perdoe a minha estupidez. Sara continuou calada. Levou a mão à cabeça, tocou o pente preso nos cabelos encaracolados e passou os dedos sobre os delicados entalhes. Aquele presente era um pedido de trégua, e ela devia aceitá-lo. Incapaz de falar, Sara fez com a cabeça um gesto afirmativo. Satisfeito, Cullen sorriu e beijou-a novamente. — Você valoriza esse pente. Quantos elogios ele podia fazer, e ainda parecer sincero? Ela deveria questionar a sinceridade ou apenas aceitar as lisonjas e deliciar-se com elas? A demonstração de afeto não parou por aí. Cullen deu-lhe a mão e roçou os lábios perto da orelha dela antes de dizer:

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— Vamos fazer mais algumas compras, depois iremos embora. — De acordo — ela respondeu, embora desejasse ficar ali mais algum tempo, um apreciando a companhia do outro. Era muito mais agradável estar no mercado com ele, seu marido, do que sozinha. Eles foram a outras barracas, onde Cullen comprou mais alguns artigos. Sara estava distraída quando viu um comerciante agarrar um menino aparentando oito anos e erguê-lo pela camisa, o laço ao pescoço quase o sufocando. — Não roubei nada — o garoto protestou. Enquanto Cullen fazia o pagamento do vinho que havia comprado, Sara aproximou-se do comerciante. A mãe do menino veio correndo defender o filho. — Patrick é um bom garoto. Ele nunca roubou nada. — Como não? Ele roubou um peixe — tornou o comerciante, sacudindo o menino. — Não. Não roubou. Estou dizendo que ele não é ladrão. — Pois então pague o peixe e o caso estará encerrado. — Não tenho dinheiro. — A aparência esfarrapada da mulher confirmava suas palavras. — Se não tem dinheiro o que veio fazer no mercado? — indagou o comerciante. — Troquei alguns objetos. — Então me dê o que recebeu nessa troca e não se fala mais nisso — disse o homem com pouco-caso. — Não, mãe, não! — o garoto gritou. A mulher abraçou a pequena trouxa junto do peito. Tinha os olhos sofridos marejados de lágrimas. Sara não esperou mais nada. A trouxa devia conter alimento que mal daria para sustentar a família da pobre mulher. Caminhou na direção do comerciante com passos decididos e desferiu: — Solte o garoto, seu bruto idiota! Ouviu-se um murmúrio coletivo de espanto, que Sara ignorou. Quase ficou sem ar ao chegar bem perto do brutamontes. Deus do céu, os homens não costumavam tomar banho? — Cuidado com a língua, mulher! — vociferou o comerciante e sacudiu o menino de novo, propositadamente. Sara não se intimidou, apesar de o homem ser alto. Mas ele tinha mais banha do que músculos. Ela confiava em si mesma e já enfrentara tipos como aquele. Projeto Revisoras

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— Não vou repetir o que eu disse — Sara declarou em tom ameaçador, colocando as mãos na cintura. Novos murmúrios de espanto, desta vez mais altos. O homem segurou o garoto com força. — Parece que ninguém lhe ensinou onde é o seu lugar, mulher. — Precisaria ser homem de fato para fazer isso. A provocação atingiu em cheio o alvo. O comerciante ficou rubro, cuspiu de raiva e tentou retrucar, mas não encontrou as palavras. Sara foi até ele e, com um puxão firme, libertou o garoto. Ele correu para junto da mãe, que o abraçou com força. O homem levou alguns segundos para reagir, tão estonteado estava. — Você me paga! — ele berrou e ergueu a mão pesada. Sara riu e saltou para o lado. — Você nunca me atingirá, seu idiota gorducho. As risadas do público serviram para enfurecer o homem. Ele ergueu o braço de novo, mas Sara desviou-se facilmente do golpe. Ela sabia que era um erro continuar insultando o comerciante, mas não conseguia ficar quieta. — Eu lhe disse que precisaria ser homem de fato para me ensinar alguma coisa. O comerciante avançou contra Sara, que se afastou, mas não foi tão rápida daquela vez. O punho gordo passou de raspão no seu queixo, fazendo-a cambalear. Ela endireitou-se depressa para desespero e frustração do homem; os olhos dele saltaram e o rosto tornou-se mais vermelho. Ele bateu os pés de raiva. Sara riu e fez um sinal para ele se aproximar. Sabia que suas provocações e bravatas iriam deixá-lo mais zangado e, ao mesmo tempo, um oponente menos cuidadoso. — Venha! Pode vir! Faça papel de idiota diante de todos. O homem investiu contra ela. Quando chegou bem perto, Sara estendeu o pé e ele tropeçou, levando um tombo. Os aplausos da multidão abafaram o som das pragas que ele pronunciava. Sara inclinou a cabeça, agradecendo a manifestação dos presentes. Sem que ninguém esperasse, ele tirou uma faca da cintura. Porém, não chegou a atirá-la em Sara porque um pé bem grande, calçado com sapatos pesados pressionou-lhe o ombro, mantendo-o preso ao chão. — Largue a faca! — Cullen ordenou. — Não tente atacar a minha esposai

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O homem largou a arma. Cullen tirou o pé, permitindo que o comerciante se levantasse. Seus modos eram mais contidos, embora ele continuasse a dizer que tinha sido roubado pelo garoto. Sara ficou do lado do marido, ouvindo as queixas do comerciante e se questionando que atitude Cullen iria tomar. Talvez decidisse pagá-lo para proteger o garoto. Mas, se agisse assim, ela não teria feito papel de tola? Quando o homem terminou de falar, Cullen perguntou a Sara: — O que você quer que eu faça com ele? A escolha é sua. O comerciante empalideceu. Sara ficou surpresa com a atitude do marido, além de muito grata. Desejou beijá-lo por ter sido tão atencioso e por compreender que para ela nada era mais importante do que manter seu orgulho. — Não quero que o garoto sofra. Embora eu não acredite que ele tenha roubado peixe nenhum desse idiota, acho que devemos pagar-lhe pelo peixe e encerrar o caso. Era evidente o brilho de contentamento nos olhos de Cullen. Ele balançou a cabeça, concordando com a decisão dela. Foi tudo acertado, a multidão se dispersou e Sara voltou-se para conversar com Patrick e a mãe. A mulher desmanchou-se em agradecimentos, enquanto o filho ficou repetindo que não tinha roubado nada. Cullen reuniu-se a eles e deu algumas moedas para a mãe de Patrick, apesar de ela protestar, afirmando que eles já tinham feito muito por ela e pelo garoto. Cullen estava ansioso para ir embora, uma vez que haviam atraído a atenção das pessoas sobre eles por causa do incidente. Segurou no braço de Sara, e afastaramse dali apressados, indo na direção da mata. Sara olhou para trás e viu uma tropa de soldados chegando à praça. — Quanto mais longe ficarmos do mercado, melhor — disse ele quando se viram protegidos pelas árvores. Sara carregava alguns embrulhos e tinha de andar muito depressa para se manter junto de Cullen. — Gostei da sua atitude. Você foi admirável — ela elogiou-o. Cullen riu. — Pensei em interferir, mas vi que você estava lidando muito bem com a situação. — Você estava nos observando?! — Como deixar de assistir àquela cena? Você fez aquele sujeito de idiota, atraindo a atenção de uma multidão. Todos apreciaram o espetáculo, inclusive eu. — Por que deixou que eu enfrentasse aquele homem? Projeto Revisoras

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— Vi que você estava se saindo bem. Mas me mantive alerta e preparado para ajudá-la se fosse preciso. Foi grande a surpresa de Sara. — Você estava tão confiante, achando que eu podia lidar com a situação? — Confiante? Bom Deus, todos os presentes foram testemunhas de que você intimidou o homem. Decidi esperar porque queria vê-la acabar com ele. Quando ele puxou a faca, tive de intervir. Eu jamais permitiria que ele a ferisse. O coração de Sara subiu às alturas. Seu lado prático, no entanto, lembrou-a de que não devia sentir-se tão eufórica. Todo o cuidado de Cullen devia-se ao fato de ele precisar dela. Bem, o importante, considerou, era que ele protegera a ela e ao seu orgulho. Portanto, devia louvar essa atitude. Cullen tinha sido, em essência, o seu herói. Até então jamais alguém a defendera. A pressa não permitia um contato maior entre eles, por isso, ela apenas tocouo no braço e agradeceu-lhe: — Obrigada. A resposta veio depressa, no momento em que ele baixava a cabeça para desviar-se de um galho muito baixo. — Você é minha esposa. Para Cullen, era simples assim. Ele pronunciara os votos matrimoniais e os levava a sério, ainda que tivessem sido feitos por causa de um acordo. Ele não iria permitir que algum mal acontecesse à sua esposa. Ali estava, sem dúvida, um homem de palavra; ela podia contar com ele. Cullen Longton era correto e seria um bom marido. Um bom marido. Subitamente, Sara sentiu um vazio no peito. Não o teria como marido durante muito tempo. Começava a escurecer quando Cullen e Sara pararam para acampar, ofegantes por causa da caminhada exaustiva. Estavam a boa distância do mercado e dos soldados. Cullen acomodou os cavalos e não ficou surpreso ao ver que Sara já se ocupava em acender uma fogueira. Ela era uma mulher de iniciativa. Não ficava sentada esperando que um homem fizesse o que ela podia fazer sozinha. Assumia responsabilidades, fazia o que devia ser feito, mesmo pondo a vida em perigo. Admitiu que ficara assustado ao vê-la enfrentando o comerciante do mercado. A princípio pensara em intervir, mas logo se divertira ao ver com que facilidade ela lidava com o tolo. Por isso, havia esperado e apreciara o espetáculo. Projeto Revisoras

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Ela era uma mulher notável, e ele a admirava cada dia mais por sua coragem, determinação e autoconfiança. Dando um suspiro de cansaço, Cullen deixou-se cair no cobertor, perto da fogueira. Viu Sara sentada, comendo pão e peixe seco. Ela havia deixado arrumadinha do lado dele uma porção de pão e peixe. Também parecia exausta. Os olhos azul-esverdeados tinham perdido parte da vivacidade e do brilho costumeiro, o que era de se esperar. Aquele tinha sido um longo dia. — Você está cansada. — Nós dois estamos exaustos — disse ela, lambendo a ponta dos dedos. — Precisamos de uma boa noite de sono. Dentro de três dias chegaremos ao castelo. Logo depois o levarei até seu filho. — Alexander está perto da sua casa? — Está. Em breve você o terá nos braços. Cullen sentiu uma pontada de culpa. Sara iria manter sua parte do acordo, mas ele não, pensou, aborrecido. Tinha dado sua palavra, e a protegera no mercado. Como poderia partir, deixando-a desamparada e vulnerável? Sim, havia o risco de o pai dela descobrir que o casamento tinha sido apenas no papel e que, portanto, poderia ser anulado. Se isso acontecesse, ela estaria correndo perigo novamente. Horas atrás, quando a vira defendendo o menino Patrick, tão corajosamente, ele compreendera que Sara não contava com ninguém, a não ser consigo mesma. Por quê? Provavelmente, fora obrigada a aprender como se defender sozinha. Não havia ninguém para ajudá-la. Acostumada a cuidar de si mesma, a resolver seus problemas sem a ajuda de ninguém, ela tornara-se forte e independente. Por isso, não havia pensado duas vezes quando salvara Alexander. — Não vejo a hora de estar com meu filho — Cullen observou, ao mesmo tempo ansioso e agradecido. — Alexander está com onze meses. Ele irá lembrar-se apenas de você como pai e esquecerá as outras pessoas que cuidaram dele no primeiro ano de vida. — Imagino que essas pessoas sejam bondosas. — Não pode haver pessoas melhores do que o casal que está cuidando dele — Sara declarou com convicção. Cullen ficou tranqüilo. Gostaria de obter mais informações, mas decidiu esperar. Confiava em Sara e agradecia a Deus por ter permitido que o filho fosse parar nos braços de uma mulher tão honesta, sensível e amorosa. Uma dúvida lhe ocorreu, e ele perguntou: Projeto Revisoras

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— O casal que está cuidando de Alexander não criará problemas quando eu aparecer para pegá-lo? — Não. Eles estão esperando que eu vá buscar o garoto. Cullen encarou-a de modo estranho. — Como? Você pretendia criar meu filho? — Naturalmente. Eu não o salvei para abandoná-lo. Só o deixei com esse casal enquanto estava na abadia. Na verdade, eu esperava que a mãe dele aparecesse algum dia para buscá-lo. — Você não pensou no pai? — Eu nada sabia sobre ele. Na ocasião eu me perguntei se o pai da criança teria realmente amado a mulher que dera à luz o filho dele ou apenas a teria usado? Decidi ser cautelosa caso viesse, algum dia, a conhecer esse homem. — E, sem dúvida, você foi cautelosa. — Claro. Eu não havia corrido tantos riscos a fim de protegê-lo para, no fim, deixar que alguém lhe fizesse mal — Sara respondeu e bocejou. — Você deve dormir. Ela deitou-se. — Você também. — É o que vou fazer. Cullen pensou em dizer mais alguma coisa, em agradecer a Sara por sua coragem e desprendimento, mas não se sentiu à altura dela. Considerava-se egoísta. Não tinha a mesma generosidade. Devia-lhe muito mais do que ela poderia imaginar. Observou-a e viu seus olhos se fechando, a respiração tornando-se calma e regular. O fogo iluminava seu rosto o calor tingia suas faces de rosa, conferindo-lhes rara Suavidade. Algo estranho, um sentimento forte, nunca experimentado antes, perturbou-o. Não sabia como lidar com aquilo. Estivera tão ocupado tentando encontrar o filho que não havia voltado a atenção para mais nada, especialmente para os próprios sentimentos. Estirou-se no cobertor e olhou para o céu pontilhado de estrelas. Alaina tinha sido o seu mundo e, quando a perdera, sentira-se igualmente perdido. Não fosse pelo filho, teria desistido de viver. Com o passar dos meses a dor diminuíra, graças à sua determinação de encontrar Alexander. Ele só pensava em sua busca e não desviava a atenção para mais nada. Assim que o encontrasse, deixaria a Escócia, mas antes vingaria a morte de Alaina.

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Casamento não fazia parte de seus planos. Virou o rosto e olhou para a esposa. Ainda não se acostumara a chamar Sara de esposa. Entretanto, no mercado, seu instinto natural o levara a proteger sua esposa. Se ele tivesse desejado casar-se para ter uma companheira, não poderia haver escolha melhor do que Sara, uma mulher com tantas qualidades. Era confiável e seria uma boa mãe para Alexander. Ouvindo um gemido, ele virou-se de lado para poder olhar bem para ela. Sara contraiu o rosto, como se estivesse sentindo dor e começou a chorar baixinho, confirmando seu sofrimento. Estaria tendo um pesadelo? Ou sonhava com o futuro e sentia medo? Sara deu um grito, e ele ergueu-se depressa. Deitou-se do lado dela, abraçou-a e a manteve junto do peito. — Shhh... Está tudo bem — sussurrou-lhe ao ouvido. — Estou aqui. Você hão corre nenhum perigo. Ele ficou repetindo essas palavras até perceber que ela havia relaxado e estava confortavelmente aninhada em seus braços. Ocasionalmente, ela dava um suspiro entrecortado. Cullen achou muito agradável abraçá-la daquele modo protetor e sentir os cabelos encaracolados fazendo cócegas em seu rosto. Como desejara passar junto de Alaina momentos de doce intimidade. Mas eles haviam tido apenas poucos instantes roubados, cada um deles breve demais. Todos os seus planos, todos os sonhos haviam se tornado pesadelos depois da morte de sua amada. Logo que a perdera, ele raramente dormia. Tinha medo de fechar os olhos e reviver aqueles instantes finais da vida dela. Medo dos sonhos perturbadores. Medo de sonhar com Alaina e ver-se sozinho ao acordar. Puxou Sara para bem junto do corpo e abraçou-a com força. Não podia nem queria substituir Alaina, mas podia sentir o prazer de enlaçar a nova esposa, sentir seu calor durante toda a noite e ter a certeza de que iriam acordar juntos pela manhã. Mesmo não amando Sara nem sendo amado por ela, pelo menos eles não estavam sozinhos. Ela o ajudava a preencher um vazio dentro de si que o fazia sentirse em pedaços e, por algum tempo, ele queria sentir o prazer de abraçar uma mulher. E quanto a Sara? Será que ela não desejava ter com o marido momentos de intimidade, pelo menos para guardar dele alguma lembrança? Fechou os olhos. O acordo que eles haviam firmado e que lhes parecera tão simples, de repente tinha se tornado complicado. Ele sacudiu a cabeça. Não podia deixar que isso acontecesse. Antes, e acima de tudo, devia pensar no filho. Alexander tinha de ser seu primeiro pensamento, sua primeira ação, seu desejo maior,

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Ele inspirou fundo e sentiu um agradável aroma de pinho. Era um perfume muito leve e sutil, mas insinuante. Cocou o nariz e ergueu mais a cabeça para manter-se longe daqueles cachos ruivos perfumados que atormentavam suas narinas. O perfume ficou ali, teimoso, recusando-se a desaparecer. Ele pegou alguns cachos e brincou com eles, sentindo-os macios como seda. — Droga, droga, droga — murmurou enterrando o rosto nos cabelos sedosos. Pouco depois adormeceu. — Não! Não! Cullen acordou assustado, sentindo Sara debater-se em seus braços. Estava sonhando novamente, e ele procurou acalmá-la. — Shhh... fique quietinha. Está tudo bem. Ela não o ouviu e debateu-se com mais força. Se ele não a impedisse de agitar-se daquele jeito um dos dois poderia se machucar. Ele passou uma perna sobre ela e segurou-a com firmeza, enquanto falava suavemente para acalmá-la. Por fim, Sara abriu os olhos e, ao reconhecê-lo, demonstrou não sentir medo. — Você teve um pesadelo? Ela confirmou, acenando com a cabeça, e respirou aliviada. — Você esteve agitada desde que adormeceu. — Tenho esses pesadelos de vez em quando. — Quer falar sobre eles? — Não. Quero esquecer que eles existem. Acabando de falar, ela encostou a cabeça no peito dele e agarrou com força a camisa de linho. — Acalme-se. Você está segura — Cullen sussurrou. Ela murmurou algumas palavras ininteligíveis e continuou tensa. — Está tudo bem. Não vou permitir que nenhum mal aconteça com você — ele insistiu, ansioso para tranquilizá-la e afastar-lhe os temores, quaisquer que fossem eles. Sabia por experiência própria o que era acordar depois de ter tido um pesadelo e ver-se sozinho, sem braços confortadores. Pelo menos, pensou, poderia oferecer a Sara esse tipo de conforto, além de companhia. Os primeiros raios de sol afastavam a escuridão da noite, anunciando um novo dia, quando Cullen acordou. Sara continuava adormecida. Estava abraçada a ele; apoiava a cabeça no seu ombro e tinha o tornozelo sobre o dele. Cullen precisou de alguns segundos para lembrar-se do que tinha acontecido Projeto Revisoras

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para estar junto a ela. Logo a mente clareou, e ele se alegrou por terem passado a noite toda abraçados, ambos bem aquecidos e tranqüilos. Um gemido e os movimentos de Sara interromperam seu breve instante de paz. Sorriu ao vê-la assustar-se por estar abraçada a ele. — Bom dia — cumprimentou-a alegremente para deixá-la à vontade. Não funcionou. Ela ergueu-se e ficou sentada no cobertor, olhando para ele, parecendo confusa. — Você teve pesadelos, e eu tentei confortá-la — ele explicou. — Acabei dormindo. Para surpresa de Cullen, ela permaneceu calada. Estranho. A mulher tinha sempre o que dizer e nunca perdia a chance de argumentar. Certamente ainda estava sonolenta. Não. Havia alguma coisa mais. Sara parecia um animalzinho acuado, tremendo de medo. Ele estendeu o braço e segurou a mão dela. — Quando vi que você tinha ficado tranqüila e relaxada nos meus braços, também adormeci. A expressão de Sara mudou. As linhas do rosto suavizaram-se, o olhar enterneceu-se e ela respirou aliviada. — Obrigada. O agradecimento o surpreendeu. Esperava que ela o repreendesse por ter ido confortá-la. Imaginou ouvir o discurso de sempre: ela não precisava de conforto, nem dos cuidados dele. Nunca imaginou que ela iria agradecer-lhe. — Lembro-me de você ter perguntado se eu queria falar sobre meus pesadelos. — Sim, eu fiz essa pergunta. Ela continua de pé, caso queira desabafar. — Talvez em outra ocasião — Sara respondeu, tentando sorrir. — Quando quiser. Sou todo ouvidos. Sara riu. — Você não é todo ouvidos. Você é um homem atraente. Cullen também riu. — E você é uma linda mulher. Novamente Sara contraiu-se, voltando a parecer um animalzinho acuado. — Não sou linda. Ele apertou a mão dela carinhosamente. — Está me chamando de mentiroso? O tom provocativo da acusação levou-a a ficar em silêncio. Notando a Projeto Revisoras

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evidente incredulidade nos olhos dela e sua postura rígida, Cullen teve certeza de que ela não estava acostumada a ouvir elogios. Como era possível ninguém ver beleza numa mulher tão linda e especial? Continuando a segurar a mão dele, Sara perguntou: — Você me acha mesmo bonita? — Eu disse a verdade. Você é uma linda mulher. — Tem certeza de que você está completamente desperto? — ela indagou, rindo. — Seja ao amanhecer ou ao fim do dia, quando o sol se põe, sua beleza permanece a mesma. — Lindas palavras. É bom começar o dia ouvindo um elogio desses. — Finalmente você aceitou um elogio sincero — tornou Cullen, sacudindo de leve a mão dela, que se mantinha unida à sua. Não lhe passou despercebido o leve toque rosado no rosto de Sara, que o tornava mais suave e encantador. Continuou a fitá-la com admiração. Seu olhar persistente, no entanto, deixou-a encabulada. Sentindo o rosto queimar, ela virou a cabeça para esconder as faces agora rubras. Maravilhado por ter conseguido provocar tal reação, ele deu um amplo sorriso. O mais importante era que a estava conhecendo aos poucos. Compreendia que ela já havia sido muito magoada e decidira não se mostrar como era para proteger-se. — Estive pensando no nosso acordo — disse ele pouco depois. — Acho prudente consumarmos nosso casamento para garantir sua liberdade. Imediatamente ela soltou a mão dele. — Agradeço por estar preocupado comigo, mas a consumação do casamento não será necessária. — Dei a minha palavra — ele insistiu com uma nota de irritação na voz. Por que essa mulher teimava em discutir com ele? Por que não queria mais que o casamento fosse consumado, se isso só iria favorecê-la? Afinal, aquilo era parte do acordo e tinha sido exigência dela. Por que, de repente, deixara de ter importância? — Eu o libero dessa obrigação. — Um acordo é um acordo. — Eu propus o acordo, eu estabeleci os termos, a decisão foi minha e agora o desobrigo de sua parte — sentenciou Sara, levantando-se. Cullen pôs-se de pé e segurou-a pelo braço. — O acordo foi nosso, A decisão foi nossa. Projeto Revisoras

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Sara deu uma risadinha irônica, abanou a cabeça e disse, irritada: — Admita, escocês, que você está louco para se deitar comigo. Está interessado em sexo! Droga! E não é que ela estava certa? Mas o que ela esperava se durante todo aquele tempo eles estavam flertando um com o outro, trocando olhares e provocações? Como não esperar que algumas das faíscas liberadas por eles naquele jogo de sedução se tornassem chamas? Deus do céu, eles estavam casados e eram saudáveis! Era natural que sentissem desejo. Ele não desfrutava de companhia feminina havia muito tempo. Sara nunca se relacionara intimamente com um homem... A situação deles estava destinada a ter um fim explosivo. Cullen puxou-a para junto de si. — Sim, quero fazer sexo com você. E você quer fazer sexo comigo! — ele declarou. Sara quase explodiu de indignação, mas se controlou. Em seguida admitiu, embora relutante, que Cullen dissera a verdade. Ao propor o acordo, ela mesma exigira a consumação do casamento. Havia pensado de forma prática. Tendo a união sido consumada, seu pai não poderia obrigá-la a aceitar outro marido. Para ela, o mais importante era estar protegida. Porém, não havia previsto que iria achar a companhia de Cullen tão agradável. Tampouco imaginara que acabaria gostando tanto dele, a ponto de desejar tê-lo como marido permanentemente. — O que me responde? — Cullen indagou, seus lábios roçando perigosamente os dela. — Estou pensando no assunto. Ele riu, segurou-a pela cintura e rodopiou com ela. Depois, colocou-a no chão e beijou-a impetuosamente. Sara abraçou-o com força na altura dos ombros e colou o corpo ao dele. Não ofereceu a menor resistência quando Cullen intensificou o beijo e passou a acariciá-la. Pelo contrário, estava gostando de sentir o sabor de seus lábios, de experimentar aquele arrepio quando a língua dele e a sua se encontraram numa dança sensual. Quando ele terminou, encostou a testa na dela. — Fizemos um acordo que irá nos beneficiar igualmente. Não vejo por que você prefere que eu não cumpra a minha parte. Ele tinha razão. O tempo estava passando, e ela não podia continuar com aquele capricho tolo de não querer render-se a ele. Por que negar que o desejava? Por que não ser prática e aproveitar o tempo que lhes restava para ficarem juntos e felizes? — Está bem — disse ela antes de ser tentada a mudar de idéia. Projeto Revisoras

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— Ótimo. Se não houver mais impedimentos, teremos ainda três dias de viagem. Três dias só nossos para selarmos nossa união e apreciarmos a companhia um do outro. Depois, cada um terá o que deseja: você terá a sua liberdade, e eu terei meu filho. — Três dias — Sara repetiu. Três dias para viver com o marido e guardá-los na memória antes de ficar sozinha novamente. Eles deixaram o acampamento e cavalgaram sem problemas durante duas horas. Viram-se obrigados a desmontar num trecho em que o mato estava muito crescido e tiveram de puxar os animais pelas rédeas. — Vejo que você sabe lidar com um cavalo. É paciente e cuidadosa. Demonstra ter experiência — Cullen observou. — Sempre gostei de montar e de tratar de cavalos. Meu pai achava tolice uma mulher querer montar tão bem quanto um homem. Ele dizia que uma mulher não precisava ter essas habilidades. Mas de que adianta ter um cavalo se você não souber lidar com ele? — Seu pai deixava você fazer o que bem quisesse? — Por que uma mulher deve sempre pedir permissão ao pai ou ao marido para fazer alguma coisa que lhe agrade? Não concordo com isso. Então eu não posso ter minha própria escolha? Não sou idiota como certos homens e, no entanto, mesmo um homem idiota é livre para fazer suas escolhas. — Alaina pensava como você. — Você achava que ela estava certa? — Sara indagou e puxou a égua para o lado, onde o terreno era mais regular. — Nós conversávamos muito, procurávamos encontrar soluções para os nossos problemas. Não discutíamos para saber quem estava certo ou errado. O importante era ficarmos juntos. — Você a respeitava. — Muito. — Vocês tiveram sorte de se encontrar. — Sorte ou má sorte? — Cullen questionou, com tristeza no olhar. — Em sua opinião, Alaina teria trocado a vida dela pelo breve tempo que passou com você? — Nunca! — Sua resposta foi imediata, sem a menor hesitação. Você conhecia Alaina muito bem. Suponho que você considere pequeno seu sofrimento na prisão, comparado à felicidade de haver encontrado Alaina.

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— É verdade. — Invejo o amor que vocês tinham um pelo outro. Um amor assim é algo precioso. — Sem dúvida. É inestimável. Nunca irei conhecer amor igual. — Está sendo egoísta. Cullen ofendeu-se. — Como se atreve... — Calma. Eu quis dizer que você está sendo injusto para com a memória de Alaina — Sara explicou. — Ela o amou sem interesses, sem reservas e sem se preocupar com as conseqüências. Simplesmente o amou de todo o coração e o ensinou que era assim que você também devia amar. Portanto, é essa forma altruísta de amar que você deve passar adiante. Assim outras pessoas também conhecerão a beleza desse amor. — Você não sabe o que está dizendo — Cullen rebateu e parou de andar. Sara também parou. — Tem razão. Não tenho experiência, nunca amei nem fui amada. Mas eu adoraria saber como é viver um grande amor. Virando-se, ela continuou a andar, puxando a égua. O sol estava alto no céu quando eles fizeram uma parada à beira de um riacho para comer alguma coisa e dar água aos animais. Sara estendeu um dos cobertores perto do riacho, onde eles sentaram-se para comer pão e queijo e tomar vinho. A temperatura estava agradável. Parecia que a primavera, de repente, tinha chegado. —Você não sentirá saudade da Escócia quando partir para a América? — Sara indagou. — Sou escocês, mas não tenho boas recordações de minha terra natal. Além disso, penso em primeiro lugar na segurança de meu filho. Se eu ficar aqui, viverei preocupado, com medo de que o conde de Balford descubra a identidade de Alexander e queira matá-lo. Vou começar vida nova na América e com o dinheiro da minha herança poderei dar a meu filho boa educação e uma vida confortável. — Você é um bom pai. Está disposto a sacrificar-se pelo filho. — Você também não se sacrificaria? — E claro que sim. Se tivesse um filho, eu o protegeria com minha própria vida. — Você se arriscou para proteger Alexander. — Não pensei nos riscos que eu corria quando decidi salvá-lo. Os soldados que estavam na abadia eram uns idiotas e não me viam como uma ameaça. Eu era Projeto Revisoras

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apenas uma mulher rejeitada pela família. Que perigo eu poderia representar? Cullen riu. — Se eles soubessem... — Um deles tentou se aproveitar de mim, mas sentiu a minha ira. — Como? Um soldado atacou-a? Você não o denunciou para a abadessa? — Não. Ela sabia que eu estava interessada em arranjar um marido e iria me acusar de haver provocado o atrevido. Resolvi o problema do meu jeito. — Posso perguntar o que você fez? — Mostrei ao infeliz que tinha cometido um grave erro ao tomar liberdades com uma donzela destemida. Espetei-o numa região estratégica com a ponta da minha adaga. Cullen deu uma sonora risada. — A vergonha obrigou-o a ficar calado. — Ele nunca mais olhou para mim, nem os outros soldados, o que foi uma vantagem quando roubei seu filho. — Como você conseguiu pegar o bebê? Ah, que noite aquela!, Sara relembrou. Seus temores tinham sido enormes. Quantos pensamentos e pesadelos havia tido, com medo de seu plano fracassar e o bebê ter um destino trágico. Mas, felizmente, isso ocorrera apenas em maus sonhos e maus pensamentos. — Eu queria ver o bebê e tanto atormentei as irmãs que elas me levaram até a abadessa. Ela me informou que o recém-nascido estava mal e não teria muito tempo de vida. Eu sabia que isso não era verdade e decidi agir. Eu conhecia um casal que morava perto da abadia e estava desesperado por dinheiro. Entrei em contato com eles e prometi dar-lhes uma grande quantia se eles levassem em segurança o bebê ao lugar indicado por mim. — Como você sabia que essa pessoa a quem você mandou meu filho iria cuidar bem dele? — Conheço essa pessoa. É uma mulher maravilhosa. Eu tinha certeza de que ela atenderia ao meu pedido. O passo seguinte foi planejar o falso enterro do bebê. Apenas duas irmãs tinham permissão de cuidar de Alaina e do recém-nascido. Isso me ajudou muito porque eu as observava o tempo todo e procurava me aproximar delas sempre que possível. Via que elas choravam. Tinham pena de Alaina, do bebê e não estavam contentes com a situação. — Quer dizer que nem todas as irmãs estavam envolvidas no plano sórdido do conde de matar meu filho?

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— Oh, não! Num caso desses é preciso sigilo e muitas línguas não conseguem guardar um segredo. — Quem iria matar meu filho? — Cullen indagou, cheio de raiva. — É difícil dizer. As irmãs que cuidavam dele não queriam realizar essa tarefa. Eu sei que um dos guardas tinha sido encarregado de confirmar a morte do recémnascido. — Como você conseguiu passar pelos guardas levando Alexander, vivo? — Cullen perguntou com expressão de incredulidade. — Essa parte foi um sério problema. Eu tive medo de que os guardas quisessem vê-lo para certificarem-se de que ele estava morto. Então uma idéia me ocorreu. — Sara deu um largo sorriso e estufou o peito de orgulho. — Peguei umas frutinhas vermelhas e fiz marcas no rosto e no corpo de Alexander para parecer que ele tinha tido varíola. — Ele não chorou nem se mexeu quando você passou pelos guardas? — Ficou quietinho. Mas, para que os guardas não se aproximassem, comecei a agitar o bracinho pintado dele enquanto gritava: "Ele está morto. Teve varíola!". Cheguei bem perto dos guardas, sempre balançando o bracinho de Alexander e gritando. Foi até engraçado. Um dos guardas saltou para trás e ordenou que eu o enterrasse logo. Até as irmãs que tinham cuidado de Alexander mantiveram-se a certa distância, com medo de contrair a doença. — E você simplesmente saiu da abadia com meu filho? — Assim que passei pelos idiotas aterrorizados, levei Alexander para um lugar seguro. Tendo me certificado de que ninguém ousaria cavar a sepultura, pude executar meu plano. — Por que a abadessa não me contou que meu filho tinha tido uma doença contagiosa? Isso me impediria de abrir a sepultura. — Ela não ficou sabendo de nada. O guarda encarregado de confirmar que o bebê estava morto exigiu que as duas irmãs e eu não fizéssemos nenhum comentário sobre a doença do bebê. Ele teve medo de ser obrigado a ficar na abadia, de quarentena. — Todos vocês concordaram com uma mentira. — Uma mentira que muito me favoreceu. Cullen balançou a cabeça e sorriu. — De quantos ardis você lançou mão e quantos riscos correu para salvar meu filho! Tenho muito a lhe agradecer. Sara encolheu os ombros. Era bom ter o agradecimento de Cullen. Porém, ao mesmo tempo, sentia-se desconfortável. Projeto Revisoras

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— Seu filho merecia viver. Fiz o que achei necessário e o que minha consciência mandou. — Parece que você faz sempre o que julga necessário, e isso nunca é simples. — As decisões necessárias são simples; difícil é pô-las em prática. Acredito que você já tenha aprendido essa lição. — Ela levantou-se. — Está na hora de pegarmos a estrada. Cullen levantou-se mais devagar. — Temos de encontrar abrigo para esta noite. Sara protegeu os olhos por causa do sol e olhou para o céu. — Não há sinais de chuva. Podemos acampar novamente. Não vejo nenhum inconveniente em dormir sob as estrelas. — Por mim, tudo bem. Mas pensei que você preferisse passar a noite num lugar mais discreto. Nós poderíamos... — Não se atreva a terminar a frase! — Sara puxou o cobertor e sacudiu-o na frente de Cullen, atirando folhas de grama e areia no rosto dele. — Sei muito bem o que você pretende. Por que você não me deita no chão, ergue minhas saias e satisfaz seu desejo? — Você gostaria que a nossa união fosse assim? — ele inquiriu, calmamente, arqueando as sobrancelhas. Sara resmungou, zangada. Jogou o cobertor no chão, suspirou e afastou-se batendo os pés. Cullen foi atrás dela, cauteloso, medindo os passos, como se tivesse medo de pisar em alguma armadilha. Percebendo a aproximação dele, Sara virou-se e encarou-o. Ele ergueu as mãos, indicando que se rendia. — Não quero brigar. O que quer que eu tenha feito, me desculpe. Não tive a intenção de magoá-la. Sara deu um sorriso afetado. — Se você não sabe o que fez, por que me pede desculpa? — É simples. Eu jamais tive a intenção de ofendê-la ou magoá-la. Mas se, mesmo assim, magoei-a ou a ofendi, é justo que eu lhe peça desculpas para ser perdoado. Ela pôs as mãos nos quadris. — É essa a sua opinião? — Por que diz isso? Não estou perdoado? O que você quer que eu faça para consertar meu erro? Vamos, diga. Cullen havia segurado na mão de Sara e começou a acariciar-lhe a palma com Projeto Revisoras

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o polegar. O efeito foi mágico. Ela sentiu-se mais relaxada e seu humor melhorou. Ele não perdeu tempo. Beijou-a suavemente, depois a trouxe para junto dele sem parar de beijá-la. Os beijos foram se tornando mais possessivos e ávidos. Ele parecia um homem esfaimado. Não se contentando em beijá-la apenas na boca, mordiscou-a no pescoço, no lóbulo da orelha, beijou-lhe a nuca e voltou para os lábios. Sara sentiu que seu apetite era tão voraz quanto o dele e deliciava-se com cada bocado que ele tinha para lhe oferecer. Cullen encostou-se mais a ela, os corpos de ambos frementes de desejo. Sara correu os dedos pelos longos cabelos dele e puxou-lhe a cabeça para seus lábios ficarem mais juntos, ansiosa para nutrir-se deles. Os dois pareciam amantes enlouquecidos. Um dos animais relinchou alto, fazendo-os se separar. Ele levou depressa a mão à cintura, tirou o punhal da bainha e andou ao redor, examinando cuidadosamente a área. Sara fez o mesmo. Não viram nada estranho e voltaram para perto das montarias. Eles permaneceram de pé, um olhando para o outro. A respiração de Sara tinha voltado ao normal, porém o peito de Cullen ainda arfava. Não se contendo, Sara tocou os lábios dele e sentiu-os pulsando de encontro aos dedos. Ficaram em silêncio, lamentando a quebra do momento mágico que tinham vivido, querendo reatá-lo, mas cientes de que era hora de voltarem para a estrada. Cullen começou a recolher os embrulhos com o restante da comida, dobrou o cobertor, enrolou-o e prendeu-o na sela do cavalo. Sara não se mexeu. Sentia as pernas trêmulas e tinha medo de tropeçar se tentasse dar um passo. Continuou a olhar para o marido, a admirar aquelas costas largas, os braços musculosos e... Arregalou os olhos quando ele virou-se depressa e veio na direção dela com passos firmes. A determinação nos olhos escuros apertados quase a levou a correr na direção oposta. Mas se manteve no lugar. Quando ele se aproximou, segurou-a pelo braço e levou-a até as montarias. Ela tropeçou algumas vezes, mas não caiu, pelo que agradeceu a Deus, pois as pernas tremiam ainda mais do que antes. No momento seguinte, Sara estava montada na égua. Cullen entregou-lhe as rédeas e colocou as mãos no joelho dela. — Vamos resolver nossa situação — ele declarou. — Esteja certa de que tudo será feito de acordo com o que combinamos.

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CAPÍTULO IV

Havia muita coisa na mente de Cullen, preocupando-o. Tinha de pensar na segurança do filho, no seu plano de vingança, na viagem para a América, mas seu pensamento estava sempre voltado para Sara e para o muito que lhe devia por ter salvado a vida de Alexander. Pelo menos, ele tentava se convencer de que era essa a razão de não conseguir esquecer a mulher determinada e corajosa com quem estava casado. Conduzindo o cavalo pela estrada plana e desimpedida, sob o sol agradável de primavera, ele imaginou-se fazendo amor com Sara. Sacudiu a cabeça, esperando apagar as imagens sensuais formadas na mente, o que não funcionou, deixando-o aborrecido. Não fazia nem uma semana que estavam casados e fazendo aquela viagem. No entanto, parecia que tinham vivido anos juntos. Como isso era possível? Ao ouvir Sara contar como conseguira salvar Alexander, Cullen prendera a respiração, como se estivesse correndo os mesmos riscos que ela. A admiração que sentia por ela aumentara. Como não admirar uma mulher tão destemida? Sara não tivera medo dos perigos que a cercavam e arriscara a vida para salvar o filho dele. Na tarde anterior, no mercado, ela também defendera o pequeno Patrick, enfrentando a raiva do comerciante. Para arriscar-se desse jeito uma pessoa só podia ser muito corajosa ou tola, e de tola Sara não tinha nada. Além de admirá-la, respeitava-a e a compreendia. Não saberia explicar como era possível entender uma mulher tão complexa. O fato era que, pouco a pouco, mesmo sem perceber, ela revelava alguma coisa sobre si mesma. E quanto mais ele descobria, maior era seu carinho por ela e maior a sua alegria por tê-la conhecido. Não havia imaginado que iria sentir atração física e desejo por Sara, mas isso acabara acontecendo. A presença dela tomara-se tão necessária que lhe doía pensar que em breve teriam de separar-se. Isso o lembrou de que em três dias chegariam ao clã McHern; antes disso, o casamento teria de ser consumado. Era seu dever garantir a segurança de Sara. Quando fosse apresentado a Donald McHern como marido dela, não poderia haver nenhuma dúvida de que Sara era, sob todos os aspectos, sua esposa. Só depois de deixá-la segura e tranqüila na casa que seria dela, ele partiria para a América com o filho. A certa altura, a estrada tornou-se mais larga. A mata ficou para trás e a paisagem era constituída principalmente de prados e pastagens. Era muito mais

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agradável viajar naquela região cheia de cores, rica e fértil das Terras Altas, evitandose as charnecas tristonhas e pobres. Ele queria absorver e guardar na retina o brilho e a beleza daquele lugar para um dia poder descrever para o filho como era sua terra natal. Olhando para trás, acenou para Sara, chamando-a para cavalgar ao lado dele. Ela montava com graça, elegância, confiança, e tinha uma destreza encantadora. Cullen sentiu orgulho dela, sua esposa. Ele foi o primeiro a falar, iniciando uma conversa. — Nunca pensei em deixar a minha terra natal — disse com tristeza. — Aprendi desde cedo que é melhor contarmos com o inesperado. Assim a mudança não será tão difícil — Sara observou. — Esse é um modo prático de pensar. Mas não funciona quando o amor está envolvido. Ela encolheu os ombros. — Eu não saberia dizer se funciona ou não. O amor não faz parte da minha vida. — Você conformou-se em ter uma vida vazia. Aceitou a solidão, como se viver sozinha fosse inevitável. — O que o faz pensar que a minha vida seja vazia? — Sara perguntou. — Você acredita que minha vida será sempre vazia porque eu nunca amarei ninguém verdadeiramente? — A meu ver, o amor é uma força necessária que dá sentido à vida. Todos anseiam por encontrá-lo. — É verdade. Mas eu quero encontrar um amor precioso que dure para sempre, um amor eterno. Para mim, não serve um amor com gosto de oferta barata, que não significa nada. Como o primeiro é raríssimo, e só uns poucos escolhidos o encontram, prefiro ficar só. — Agora entendo por que foi tão difícil para você encontrar um marido. O que você esteve procurando, realmente, foi um homem para amar. — É claro que sim — ela admitiu sem a menor hesitação. — Como eu poderia pensar em passar a vida toda com um homem sem amá-lo? Eu teria que, pelo menos, respeitá-lo. Acredito que, se eu o respeitasse, haveria chances de esse respeito tornarse amor ou afeto. — E você não encontrou nenhum homem que correspondesse às suas expectativas? Nenhum deles tocou seu coração? Sara virou os olhos para o céu. — Oh, Senhor, não encontrei nem um sequer. Projeto Revisoras

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— Nem mesmo um candidato com algum potencial? — Nada. — Ela enfatizou sacudindo a cabeça energicamente. Cullen não resistiu e provocou-a. — E então você me encontrou. — Hum! Bem que você gostaria que eu o considerasse o homem dos meus sonhos. Ele sentiu a agulhada da rejeição e aquilo o irritou. — Quer dizer que eu não sou melhor do que nenhum dos seus pretendentes? Antes de responder, Sara analisou-o da cabeça aos pés, mantendo-se bem séria e com os lábios franzidos. Sem esperar pela avaliação, Cullen deu uma gargalhada. — Você precisa refletir e me olhar desse jeito para dar uma resposta tão simples? — O que descobri a seu respeito até agora é o bastante para colocá-lo quase no primeiro lugar da lista. — Por que não ocupo o primeiro lugar? — Reservei o topo da lista para o homem que eu amar. Talvez eu jamais o encontre, mas ele permanecerá sempre ali; será o primeiro no meu coração e no pensamento. — Que sorte a dele — Cullen observou em tom mordaz, sem entender o porquê da irritação. — Sorte dele e minha também — ela ratificou. — Então é igualdade que você busca em um marido? — Igualdade no que se refere ao respeito e à paciência. — Ela deu uma risadinha. — De acordo com o que tenho observado, grande parte do desentendimento e das brigas entre casais deve-se à falta de respeito e paciência entre eles. Sem isso, o casamento está condenado ao fracasso. — Você observa as pessoas tanto assim? — Sim, eu sou observadora. Faço questão de conhecer bem tanto os amigos como os inimigos. Dessa forma corro menos riscos de me ferir ou me decepcionar. Sara era, realmente, uma pessoa intrigante, Cullen reconheceu mais uma vez. Era muito mais inteligente do que a maioria das mulheres, o que a tornava confiante em si mesma. Bastava isso para atemorizar os homens, pelo menos aqueles sem muita personalidade ou inteligência. Não era de admirar que tivera dificuldade de encontrar um marido. Devia haver pouquíssimos homens que estivessem à altura dela. Projeto Revisoras

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— Observando as pessoas também aprendi muito sobre mim mesma — Sara acrescentou. Aquela conversa estava sendo muito agradável. Movido pela curiosidade, Cullen perguntou: — O que você aprendeu sobre si mesma? — Você pode não acreditar, mas descobri que às vezes sou teimosa. Ele levou a mão ao peito, num gesto teatral. — Não diga! Teimosa? Você? Sara riu. — Pelo menos eu admito que tenho esse defeito. E você? O riso alegre de Sara contagiou Cullen, e ele também riu. — Está insinuando que eu também sou teimoso? — Acho que somos igualmente teimosos. — Está bem. Isso eu posso admitir! Freqüentemente, ele encontrava força na própria teimosia. Sua obstinação levara-o a vencer incontáveis situações difíceis. Teimosia, obstinação, determinação eram para ele qualidades sem as quais não saberia viver. Por isso compreendia Sara e orgulhava-se de ser tão teimoso e obstinado quanto ela. — Você não sabe que também tem um coração generoso? Sara arregalou os olhos, surpresa. — Não... Nunca me disseram que eu tinha um coração generoso. Ao contrário, as palavras que mais tenho ouvido para me descrever são "fria" e "egoísta". — Obviamente quem lhe disse tais palavras não conhece você. Talvez essa pessoa tenha feito a descrição de si mesma. Uma sombra de tristeza empanou o brilho dos olhos de Sara, deixando o coração de Cullen pesado. — É gratificante ter alguém para me defender. — Você é minha esposa. E defender a verdade é muito fácil. — Quando chegarmos a minha casa você terá de defender sua esposa constantemente — Sara lembrou-o com a expressão muito séria. Pela primeira vez, Cullen reconheceu que não estava tão preparado como deveria estar para o encontro com o pai de Sara. Era tão pouco o que sabia sobre o homem e seu clã. Se ele e Sara quisessem convencer Donald McHern de que estavam gloriosamente felizes, ela precisaria dar-lhe mais informações e ambos teriam de ensaiar para se apresentarem como um casal apaixonado. Projeto Revisoras

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— Se é este o caso, conte-me tudo que eu devo saber sobre seu pai, sua casa e sua família. E já é mais do que tempo de começarmos a atuar como um casal em luade-mel. Sara suspirou. — Tenho pensado nisso. — Consumar o casamento será um bom começo... — Como assim? — A pergunta, feita de modo inesperado e repentino, soou mais como acusação. — A intimidade gera conforto e confiança entre os cônjuges. Se nos unirmos como marido e mulher, passará a existir entre nós um laço natural, uma cumplicidade, e seu pai não poderá duvidar de que estamos realmente casados. Sara deixou escapar outro suspiro e concordou, resignada. — Tem razão. Cada vez mais, Cullen percebia que Sara possuía uma rara capacidade de reconhecer a verdade. Ou talvez eles dois, simplesmente, vissem as coisas da mesma maneira. — Reconheço que você estava certa, desde o começo, quando mencionou que o casamento devia ser consumado. Assim seu pai não teria pretexto nenhum para querer anulá-lo. Portanto, pretendo cumprir minha parte do acordo. Sei que você cumprirá a sua. — É tudo muito simples. Entre nós existe apenas um acordo, mais nada. — Novamente o olhar de Sara tornou-se triste, deixando Cullen penalizado. — Quanto antes fizermos o que deve ser feito, melhor. Ele concordou acenando levemente com a cabeça, o coração pesaroso. Com Alaina havia conhecido o amor verdadeiro e vivera emoções nunca experimentadas antes. Agora ele perguntava a si mesmo se poderia sentir prazer com alguém que não amava, apesar de ter afeição por Sara. Ela era uma boa mulher e tinha um coração generoso, mas o que ele iria sentir quando fizessem amor? Não, eles não fariam amor. Como Sara bem havia lembrado, o relacionamento deles não envolvia amor. Envolvia apenas sexo. O casamento seria consumado e pronto. Visto dessa forma, o ato não lhe parecia prazeroso. O sol declinava no horizonte quando eles encontraram um riacho, à margem do qual decidiram acampar. Rapidamente prepararam o lugar onde iriam passar a noite. Já havia entre ambos um relacionamento confortável, embora não fosse íntimo, e Cullen sentia-se à vontade para dividir as tarefas com Sara. A noite trouxe uma queda de temperatura, e o casal sentou-se perto do fogo para comer. Cullen notou que Sara estendera os cobertores separadamente, em lados opostos da fogueira. Ao que tudo indicava, nessa noite não haveria intimidades. Será Projeto Revisoras

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que ela estava com medo? Não podia ser. Talvez ela fosse tímida... O pensamento quase provocou nele um acesso de riso "Tímida" não era uma palavra que usaria para descrevê-la. Ela era curiosa, ávida para aprender e conhecer coisas novas. Nada a impediria de experimentar alguma coisa que despertasse seu interesse. Nas poucas vezes que estivera com ela nos braços e a beijara, sentira-lhe o corpo pulsando de desejo e percebera sua natureza ardente e apaixonada. Sara era uma mulher que tinha paixão por tudo que fazia. Não duvidava de que ela se dedicaria ao sexo com o mesmo entusiasmo. Não ficou surpreso quando, em meio à refeição que eles faziam, ela falou sem rodeios: — Ainda não me sinto preparada para ter com você uma relação íntima. — Está bem. Eu compreendo. — Compreende? — Sara repetiu, atônita. — Naturalmente. Mal nos conhecemos e... — Não — ela o interrompeu, — Muitas pessoas se casam praticamente sem se conhecer. Acho que o problema é que agora eu o conheço. — E daí? Você não me acha atraente? — Cullen provocou-a. — Você é atraente, o que se torna outro problema. Cullen não entendeu e sacudiu a cabeça. — Explique. Sara esfregou as mãos para livrar-se das migalhas e suspirou. — Quando eu nada sabia sobre você, tudo era mais fácil. Para mim, você era apenas um homem que estava procurando o filho. — Sou esse mesmo homem. — Sim, mas agora eu sei que você é um homem apaixonado pela única mulher que amou, sei que você não medirá distâncias nem dificuldades para encontrar o filho e que é um homem de força e caráter. Alguém para ser respeitado. — Mas qual é o problema? — Você é um homem por quem eu posso me apaixonar facilmente. Eu não quero me apaixonar porque será difícil dizer-lhe adeus. Será doloroso saber que nunca mais voltarei a vê-lo. — Nós nos conhecemos há poucos dias. Como você pode saber se irá se apaixonar... — Quanto tempo você demorou para saber que amava Alaina?

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— Assim que a vi me apaixonei por ela e soube que aquela era a mulher da minha vida. — Então... — Nosso caso é diferente. Não seja tola. O que você sente por mim é gratidão. Você precisava de um marido, e eu apareci. É natural que esteja agradecida. Não confunda um sentimento com o outro. — Se o que eu sinto por você é apenas gratidão, por que gostei tanto dos seus beijos? A simples lembrança dos beijos deixou Cullen excitado, mas ele pensou rapidamente em outra coisa para não ver suas defesas ameaçadas. — E natural uma moça sentir-se enlevada quando um homem a beija pela primeira vez. — Estar nos seus braços foi uma emoção deliciosa. E eu senti prazer ao ter seu corpo colado ao meu. Irritado consigo mesmo por estar tendo aqueles pensamentos, Cullen quase praguejou. Precisava ter a mente clara e muita paciência para convencer Sara de que ela estava enganada quanto aos seus sentimentos. — Homem nenhum jamais lhe ofereceu conforto nem carinho. Por isso o meu abraço teve, para você, uma dimensão exagerada. Sou, na verdade, o seu primeiro homem. Você é virgem, inexperiente e está pronta para reagir ao menor estímulo. Isso vai passar. — Passará mesmo? — ela indagou com esperança. — Naturalmente. Além disso... — Você nunca poderá me amar. Sara tinha o dom de adivinhar seus pensamentos. Ele fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, ela o fitava com expressão triste. Já sabia o que ele ia dizer. — Só amei e sempre amarei Alaina. — Eu sei. — Você não me ama. O que sente por mim é gratidão. Acredite no que estou dizendo — tornou Cullen. Não queria magoá-la, mas precisava lhe dizer a verdade. Ela era a primeira a querer ouvir sempre a verdade. Com o tempo, entenderia a atitude dele. — Estou feliz porque você esclareceu minhas dúvidas seriamente. Não fez nenhuma brincadeira nem zombou de mim. — Eu nunca faria isso. Projeto Revisoras

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— O fato de você ter sido sempre sincero comigo deu-me confiança, o que me levou a dizer tudo o que eu disse. Você é um homem nobre, e nobreza é outra qualidade que gostaria de encontrar no homem que eu escolhesse para marido. — Sou o seu marido. — Cullen ficou de pé. — Estou pronto para selarmos nossos votos. Sara não se mexeu, tampouco impediu Cullen de deitar-se com ela no cobertor. Os poucos momentos de intimidade que tinham compartilhado e os beijos que haviam trocado deram-lhe tanto prazer que ela ficara imaginando como seria maravilhoso unir-se a ele completamente. Naquele instante, entretanto, não sabia se queria guardar essas lembranças. Elas, provavelmente, iriam persegui-la pelo resto da vida, fazendo-a sentir-se vazia e só. Não queria mais saber de solidão. Cullen segurou na mão dela e tranquilizou-a. — Não precisa ter medo. Ela puxou a mão. — Não tenho medo de unir-me a você. O que me assusta é o que irá acontecer depois... Quando você partir. Você perdeu a mulher que amava e sabe a que me refiro. — Sim, eu a perdi, mas estou feliz por ter amado alguém tão intensamente, embora por pouco tempo. É melhor do que não ter conhecido o amor. — Você é mais forte do que eu. Cullen riu. — Eu diria que sou mais tolo do que forte. Sara também riu. — Mas não são os tolos que amam com maior intensidade? Eles não deixam que o medo os impeçam de amar. Ele segurou novamente a mão dela. — Não somos tolos, e o amor nada tem a ver com o nosso acordo. Estamos agradecidos um ao outro e vamos fazer o que deve ser feito para conseguirmos o que desejamos. — Vagarosamente, ele traçou círculos na palma da mão de Sara. — Aproveite cada instante de nossa união e não pense em mais nada. Como poderia não pensar em mais nada, se o simples toque de Cullen provocava nela um tumulto, causando-lhe estremecimentos e arrepios? Ele inclinou-se para beijá-la e, por mais que ela desejasse corresponder àquele beijo, sabia que seria um erro pelo qual teria de pagar caro. Com pesar, afastou-se do marido. — Não posso fazer isso. — Mas não é melhor para você fazermos o que foi combinado? — Eu achava que sim quando propus o acordo. Mas agora a consumação do Projeto Revisoras

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casamento não importa tanto. — Por que essa mudança? — Cullen inquiriu, perplexo, com a testa franzida. Sara lutou contra o impulso de render-se ao desejo e deixar para sofrer as conseqüências mais tarde. Disse com determinação: — Talvez eu tenha dado importância exagerada ao fato de consumarmos o casamento. Ou então eu queria, simplesmente, sentir o que era a união física antes de impor a mim mesma uma vida vazia. Nunca imaginei que era o amor que eu buscava. Para mim, isso ficou bem claro quando eu o ouvi falar sobre seus sentimentos por Alaina. Então pude compreender a grandeza e a perfeição desse amor. Compreendi também que era algo assim grandioso que eu queria, e não apenas uma união carnal. Quero amor. Não quero apenas sexo. — No momento, você não tem muita escolha, uma vez que a sua intenção é provar a seu pai que já está casada, protegendo-se assim de um casamento indesejado. — A escolha é minha; assumo as conseqüências. — Não é mais possível. A observação deixou-a alarmada. — O que você está querendo dizer? — É simples. Você é minha esposa e levo a sério minhas obrigações de marido. — Desde quando, se você relutou em aceitar o acordo? — Desde que comecei a admirá-la. Cullen a admirava? Quando isso acontecera? Ele aceitara desposá-la somente para encontrar o filho. A partir de quando passara a olhá-la de modo diferente? O que teria ela feito para despertar nele alguma admiração, se continuava sendo a mesma de sempre? Bem, de sua parte tinha de admitir que não olhava para ele do mesmo modo que fazia quando o conhecera. No início, ele tinha sido somente um meio para atingir um fim. Porém, se transformara em algo mais, e não apenas pelo fato de ele ser atraente. Era um homem bonito, mas isso, para ela, não tinha tanta importância. Era no caráter dele que estava interessada. Estaria ele pensando a mesma coisa sobre ela? Ergueu a mão e colocou-a no peito dele para empurrá-lo, mas ao sentir a rigidez dos músculos, ficou toda arrepiada. Afastou a mão e tocou a covinha em seu queixo. Só então notou que, na posição em que ele se achava, curvado sobre ela, tendo o fogo iluminando-lhe o rosto, podia ver perfeitamente os contornos dele, as pequenas rugas, os vincos dos lados da boca, a testa larga... — Somos muito parecidos. Projeto Revisoras

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— Acho que sim — ela concordou, sentindo-se mais confortável. Era como se eles fossem dois velhos amigos, cada um conhecendo as qualidades e defeitos do outro, o que para eles não fazia diferença. Ambos sabiam que um sempre apoiaria o outro. Cullen beijou o dedo com o qual ela o havia acariciado no queixo. — Nunca a magoarei. Dou a minha palavra. — Creio que eu sempre soube disso. Logo que o conheci, eu disse a mim mesma que você era um homem honrado, digno da minha confiança. — Então você confia em mim? — Cullen indagou suavemente. — Confio — ela respondeu sem a menor hesitação. Ele tocou de leve os lábios mornos nos dela. — Nesse caso, por que não nos unimos como marido e mulher? Eu a protegerei. Sara relutou um instante, mas ao responder, foi firme. — Não posso. Ele colocou a mão dela sobre o coração. — Assim você me magoa. — E você me tenta além da razão. — Ela suspirou. — Por que você não se entrega? Os olhos dela brilharam. — Prefiro conhecer o gosto da vitória. — O que a faz pensar que não será vitoriosa entregando-se a mim? — Quando ocorre uma união de duas pessoas que se amam o vitorioso é sempre o amor. — Para mim, o amor morreu com Alaina — apontou Cullen, com tristeza no olhar. — Se morreu, foi porque você permitiu que morresse. Cullen virou-se e ficou sentado junto de Sara. — É claro que não. Não foi uma escolha minha. — Você deixou esse amor morrer — ela insistiu. Ele se levantou. — Você não compreende porque nunca amou. — Não conheci o amor que une um homem a uma mulher, mas sei o que é viver sem esse tipo de amor. Tudo parece tão vazio... Cullen ajoelhou-se junto de Sara, acariciou-lhe o pescoço e o rosto. — Deixeme preencher esse vazio.

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Seria tão fácil concordar com o pedido dele. Assim conheceria, sem complicações, a beleza e os prazeres proporcionados pelo relacionamento íntimo entre duas pessoas. O problema era que tinha medo de se apaixonar e sofrer quando ele a deixasse. Não queria mais expor-se a novos desapontamentos. — Não é uma boa idéia — respondeu por fim. — Por que não? — ele perguntou, beijando-a rapidamente no rosto. O menor contato com ele provocava em Sara uma reação imediata. O corpo estremecia, o coração batia mais forte. Conseguindo controlar-se, respondeu: — Já expliquei da melhor forma que eu pude. Vamos parar por aqui. Ele não disfarçou seu desapontamento. Também não se deu por vencido. — Ainda temos dois dias de viagem. — Pode ter certeza de que nada mudará nesses dois dias. Cullen levantou-se, foi até o outro lado da fogueira e estirou-se no cobertor que Sara havia estendido para ele. — Veremos — sentenciou. — Você poderia agir como um bom marido, independentemente de sexo. — Tenho tentado ser um bom marido. — Ele ergueu as mãos para o céu, impaciente. — Mas o que posso fazer se tenho uma esposa obstinada? — Uma esposa sensata — Sara corrigiu-o com um sorriso doce. — Desta vez, não está sendo sensata. — Nunca deixo de ser sensata. Cullen virou-se de lado. — Bem, vejamos... É sensata uma mulher que passa dois anos trancada numa abadia porque não quer obedecer ao pai; que força um estranho a desposá-la para poder sair da abadia; que faz pintas num bebê e mente dizendo que ele está com varíola? Deve ser bem longa a lista de suas ações "sensatas" às quais muitos atribuiriam outro nome. — O que posso fazer, se eu sou mais sensata e mais inteligente do que a maioria das pessoas? Nem todos entendem que vale a pena correr algum risco para se alcançar um bem maior. Cullen riu. — É assim que você justifica suas ações imprudentes? — Nunca tomei uma decisão insensata em minha vida. Recusar-me a aceitar a proposta de casamento de um homem sujo e fedorento foi prova de sensatez. Casarme com um estranho que nada iria exigir de mim também foi uma demonstração de bom senso. Quanto a proteger o bebê, foi uma promessa...

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— Promessa? — Cullen interrompeu-a e ficou de pé. Tinha o rosto contorcido, dando a impressão de que o demônio saíra das chamas do inferno. — Você prometeu o quê? E a quem? Esse era um assunto sobre o qual Sara não queria falar; pelo menos, ainda não. Além disso, não haveria nenhuma utilidade em mencionar aquilo. — Estou esperando sua resposta, Sara — Cullen insistiu, tenso. — Eu não pretendia contar-lhe isso. De que adiantaria você saber? Não iria ajudá-lo em nada. — Quero saber! — O tom dele foi ríspido. — Prometi a Alaina que iria cuidar do bebê e deixá-lo em um lugar seguro. — Você falou com Alaina e pretendia esconder isso de mim? Em nome de Deus! Por quê? — Como eu disse, não iria ajudá-lo em nada. — Achou que eu não iria querer ouvir o que ela disse a você? — Imaginei que você iria sofrer. — Não cabia a você julgar se eu iria sofrer ou não. Vamos, conte-me o que Alaina lhe disse. E como, em nome de Deus, conseguiu falar com ela? Você me disse que havia guardas na frente do quarto dela. Por que foi vê-la? — Bem, para todos os efeitos, o bebê de Alaina tinha sido enterrado, e ela não era mais mantida sob vigilância tão severa. Para conseguir falar com ela, atribuí uma tarefa à irmã que cuidava dela e outra tarefa ao guarda em serviço. Eles não estranharam, pois acreditavam que eu havia enterrado o recém-nascido. Assim que eles se afastaram, entrei no quarto e disse a Alaina que o filho dela estava em um lugar seguro e que mais tarde ela poderia buscá-lo. Os olhos de Cullen se arregalaram. — Foi por isso que ela me disse insistentemente que Alexander estava vivo. Ela sabia o que você tinha feito. — Era tudo o que ela sabia. Não quis mais nenhuma informação. Teve medo de ser questionada por alguém e acabar revelando onde Alexander estava. — Você não lhe disse o seu nome? — Não. Ela preferiu não saber. Disse apenas que voltaria para buscar o filho e saberia me encontrar. Cullen deixou-se cair pesadamente no cobertor. Estava tão triste, com os ombros curvados, que Sara foi até ele, sentou-se junto dele e abraçou-o. — Fiquei pouco tempo no quarto de Alaina. A minha maior preocupação era tranquilizá-la, dizendo-lhe que seu filho estava salvo. Eu tinha de fazer isso. Não Projeto Revisoras

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achava justo deixar uma mãe sofrendo e chorando pela morte do filho, sendo que eu podia aliviar seu sofrimento, revelando que seu bebê estava vivo. E dei-lhe a esperança de um dia reunir-se a ele. Fiz o que eu achei certo. — Tenho muito a lhe agradecer. — Cullen segurou a mão de Sara e apertou-a. — Você fez por Alaina e por meu filho o que achou certo e eu farei o mesmo por você. — Você já fez isso, casando-se comigo. — Mas eu quero protegê-la. — Não se preocupe. Eu serei independente e cuidarei de minha proteção sem nenhum problema. — Agora você tem o seu marido. Prometo deixá-la bem e inteiramente protegida antes de partir — disse ele com firmeza. Antes de partir. A frase ressoou claramente e bem alto no cérebro de Sara. Cullen iria deixá-la; ela ficaria sozinha novamente. Bem, não podia se queixar, afinal, tinha sido esse o acordo. Infelizmente, nos últimos dias acostumara-se a ter um marido, um bom homem. Ela até permitira que a mente vagasse de vez em quando, ainda que por pouco tempo, e se imaginara indo para a América como esposa de Cullen, no sentido exato da palavra, e como mãe de Alexander. Esses eram sonhos tolos que ela afastava para não sofrer. Seu lugar era ali, na Escócia, e o de Cullen era na América. Esse era mais um motivo para ela não querer um envolvimento sério com ele. Estando ambos casados só no papel seria menos doloroso dizer adeus. Ela até preferia que ele continuasse sendo um desconhecido, porém isso não era mais possível. Já tinham intimidade suficiente para se considerar estranhos um ao outro. — Eu sei que você me deixará amparada. Obrigada. Ela quis levantar-se, mas Cullen segurou-a. — Fique. — Estou cansada. Preciso dormir. — Durma comigo. Ela arregalou os olhos. — Fique — ele repetiu. — Eu só quero ter você junto de mim e poder abraçála. Ele não queria ficar sozinho e Sara também não. — Vou pegar o meu cobertor. — Não. Pode deixar que eu vou buscá-lo.

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Tão logo os cobertores foram arrumados, eles se deitaram abraçados. — Obrigada por você ter dado tranqüilidade a Alaina — Cullen sussurrou ao ouvido de Sara e beijou-a na testa. Ela não conseguiu responder. Tinha um nó na garganta e, se continuasse a falar sobre Alaina e a lembrar-se do que acontecera, acabaria derramando lágrimas. Desde criança ela via-se impelida a fazer o que achava certo. Gostava de aliviar o sofrimento de quem quer que fosse, inclusive o seu. Também amava sonhar. Os sonhos para ela eram miraculosos. Sonhava que podia fazer coisas extraordinárias e, na maioria das vezes, conseguia encontrar um meio de tornar seus sonhos realidade. Tinha sido assim que ela aprendera a cavalgar melhor do que muitos homens e a manejar um arco e flecha com grande perícia. Havia sonhado com o casamento, desejara ter um bom marido. Conseguira até isso, mas não iria manter nem o marido nem o casamento. O nó na garganta tornou-se maior, e ela mudou depressa o rumo dos pensamentos. Cullen, no entanto, continuou a invadir seus devaneios e não demorou muito ela estava formando na mente uma cena familiar feliz com Alexander, ela e Cullen. O pensamento trouxe-lhe tanta alegria que ela continuou a alimentá-lo. Deu asas à imaginação e viu-se indo para a América com os dois. Cullen logo adormeceu e começou a murmurar sons ininteligíveis. Sara deduziu que ele devia estar sonhando com Alaina e Alexander. Devia ter sido muito difícil para ele superar a dor de não ter conseguido salvar a mulher que amava nem proteger o filho, Sara considerou. Agora ele iria lutar para ter de volta o bem mais precioso que duas pessoas que se amam podem ter: o filho, fruto desse amor. Ela o levaria até Alexander e os ajudaria a deixar a Escócia e ir para a América, onde teriam vida nova e segurança. E ela? Teria seus sonhos. *** A expressão sombria de Cullen era um reflexo do céu cinzento e, por mais que tentasse, ele não conseguia livrar-se da sua angústia. Levantara-se havia duas horas e desde então não dissera uma palavra a Sara. Quando eles se puseram na estrada, ela tinha tentado iniciar uma conversa, mas ele mantivera-se calado, e ela desistira. A causa de seu mau humor, Cullen admitiu, era o sonho que ele havia tido. Sempre sonhava com Alaina e esperava ansioso por esses sonhos, nos quais a imagem dela era tão real que ele tinha a sensação de poder tocá-la. Na noite anterior, entretanto, ele não sonhara com sua amada Alaina, e sim com Sara. O estrondo de um trovão bem traduziu a raiva surda que oprimia seu peito. Projeto Revisoras

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Era uma sensação ruim que fervia sob a superfície, prestes a irromper. Contudo, ele não poderia afirmar quem é que incitava a sua ira. Não, Cullen disse a si mesmo. Mentira. Estava furioso consigo mesmo por ter tido um sonho erótico com Sara, traindo a memória de Alaina. Ele contraiu-se ao pensar na traição. Quase no mesmo instante, sem que pudesse evitar, cenas do sonho voluptuoso permearam-lhe a mente. Sara entregarase a ele e tinha sido sincera ao demonstrar seu desejo, tornando o relacionamento de ambos um momento mágico. Essas lembranças excitaram-no, e ele se controlou para não murmurar uma praga. Doía-lhe a consciência admitir que também sentia desejo por Sara. Era um desejo muito mais forte do que o que sentira por Alaina. E isso lhe parecia fora de propósito. A única justificativa que encontrava para seu comportamento sensual era a sua carência; não se deitava com uma mulher havia muito tempo. Recriminou-se por dar tanta importância a um sonho. Ele era homem e precisava de uma mulher. Claro e simples. Cullen olhou de relance para Sara, que cavalgava do lado dele. Achou-a ainda mais bonita do que quando a conhecera. Mas naquele momento, na abadia de Stilmere, ele nem havia prestado atenção a ela. Na verdade não queria saber de mulher nenhuma. Tinha sido obrigado a conhecer Sara e agradecia a Deus por isso ter acontecido. Olhou novamente para ela e sorriu. Os cachos ruivos escapavam dos grampos, não paravam onde ela os colocava, esvoaçavam livres e pareciam perfeitamente naturais. E estavam em harmonia com o rosto dela, com a pele clara, perfeita, sem manchas, tendo apenas pequeninas e graciosas sardas na parte superior do nariz. Mas eram os olhos que mais o haviam intrigado, desde o início. A princípio ele imaginara que era a cor azul-esverdeada que mais lhe chamara a atenção, mas havia muito mais do que isso. Presa nas profundezas daquele olhar estava a essência do caráter de Sara, tão rica e vital que não podia ser ignorada. Com receio de continuar olhando para ela e não controlar seu desejo, fixou a atenção na estrada. Mas a imagem dela continuou a perturbá-lo. Não podia negar que a achava atraente e sensual. Como ansiava por explorar cada curva daquele lindo corpo! Ele sacudiu a cabeça. Precisava de uma mulher, tornou a refletir. Precisava saciar seu desejo. Somente assim teria tranqüilidade e tudo ficaria bem. Por que uma coisa tão simples tornara-se um problema? Se ele e Sara estavam casados, se ela estava ali, disponível, por que não consumavam o casamento, como tinha sido combinado? Reconhecendo que estava sendo egoísta, pois não devia pensar apenas em si mesmo, ele resmungou. Entretanto, não conseguia afastar aqueles pensamentos. Projeto Revisoras

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— Você está bem? — Sara perguntou inesperadamente. — Notei que tem resmungado, murmurado coisas e suspirado desde que deixamos o acampamento, horas atrás. Converse comigo. Conte-me o que o preocupa. Ele quase deu uma risada ao pensar em dizer que desejava arrancá-la daquela sela, deitá-la na relva, levantar-lhe as saias e possuí-la como um homem carente de sexo. Sexo. Uma satisfação dos sentidos. Mas Sara queria muito mais. Queria o que ele não tinha para oferecer. — Não tenho nada. — Cullen esfregou o ombro tenso. — Acordei malhumorado, nada mais. — Quer que eu acredite nisso? —- Acredite no que você quiser. Sara sacudiu os ombros. — Se você prefere continuar de mau humor, não serei eu quem irá perturbálo. Dizendo isso, ela tocou a égua e afastou-se, ficando alguns metros na frente do marido. Mais uma vez, ele censurou-se por ter sido rude. Porém, não tinha condições de falar sobre seus sentimentos. De mais a mais, Sara tinha um jeito de fazer com que as pessoas acabassem contando particularidades, mesmo numa conversa casual. Quando a pessoa dava por si já estava fazendo confidencias, como se estivesse se abrindo com uma amiga íntima. E ele não se sentia disposto a contar-lhe que havia sonhado com ela, muito menos que tipo de sonho tinha sido aquele. De repente, o chão estremeceu e, em seguida, eles ouviram o barulho de um tropel de cavalos. Cullen fustigou o garanhão e, antes de alcançar Sara, ela virou-se para ele e gritou: — Bandidos se aproximam! Cullen olhou ao redor procurando um lugar onde pudessem ficar escondidos. Mas ali perto só havia árvores esparsas. A mata ficava mais distante e não havia tempo de eles chegarem até lá. — Vamos! Depressa! — Cullen chamou-a e virou o animal. Mas um grupo de homens esfarrapados já surgia na curva da estrada. — Não adianta. Eles nos viram. Corra e esconda-se em algum lugar. Cuidarei deles. Rapidamente, ele pegou o arco que trazia preso à sela com as flechas e armouo. Aqueles homens deviam ser ladrões ou mercenários. Ambos eram perigosos, sendo os últimos muito piores. Praticavam todo tipo de crime para quem lhes pagasse mais. Perto deles ninguém estava seguro, fosse homem, mulher ou criança. Vendo que o bando galopava na direção dele, Cullen esperou um pouco para disparar as flechas. Se acertasse dois dos bandidos e se enfrentasse dois com a espada, teria chance de vencê-los. Fez pontaria e disparou a flecha, atingindo o peito Projeto Revisoras

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de um dos homens, derrubando-o do cavalo. Com grande rapidez, disparou a flecha seguinte e derrubou outro cavaleiro. Porém, assim que desembainhou a espada, viu que um dos bandidos cavalgava na direção da mata, em perseguição a Sara. — Vou me divertir com ela — gritou o miserável. Cullen quase foi atrás dele, mas raciocinou depressa e compreendeu que, antes de mais nada, tinha de enfrentar o outro homem. Confiava na habilidade de Sara para defender-se até ele poder alcançá-la. Cheio de coragem, enfrentou o outro bandido. Enquanto brandia a espada, só pensava em Sara. E se não conseguisse salvá-la a tempo? E se o bandido a maltratasse? E se a violentasse? E se ela morresse? Tudo isso passou pela mente dele, fazendo-o lutar como um louco. A raiva que sentia dos bandidos e sua preocupação com Sara redobraram-lhe as forças, e ele desferiu golpes violentos, dos quais o homem conseguia desviar-se. Finalmente, enterrou a espada no estômago do infeliz, que tombou para um lado. Cullen esticou a perna e empurrou o peito do homem para arrancar sua espada. Em seguida, viu-o cair do cavalo, morto. Fustigou sua montaria e voou na direção da mata onde tinha visto Sara desaparecer. Rezou o tempo todo, pedindo a Deus que a protegesse. Quando se aproximou da mata, teve de diminuir a velocidade porque o terreno era acidentado e a vegetação começava a tornar-se densa. Não demorou muito, ouviu um grito e sentiu um aperto no peito. Outro grito, desta vez agudo, levou-o a desmontar e correr entre as árvores e arbustos, a andar entre as pedras, a desviar-se de galhos até chegar a uma pequena clareira e parar. Cullen mal pôde acreditar no que estava presenciando. Viu o bandido sentado no chão, gemendo e olhando cheio de ódio para Sara, que estava de pé, segurando uma espada ensangüentada. — Estou morrendo... — lamentou-se o bandido. — Está mesmo — Sara confirmou. — Não era isso que você queria fazer comigo? — É diferente — retrucou o homem apertando a mão no tórax de onde o sangue jorrava. — Não acho. Você teve o que merecia e morreu pelas mãos de uma mulher — Sara declarou. — Você está bem? — Cullen quis saber. — Estou, como pode ver. E os outros? — Cuidei de todos. — Você... acabou comi... — Sem terminar a frase, o homem caiu morto. Projeto Revisoras

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— É um alívio saber que você está sã e salva. Sara encostou a ponta da espada no corpo do bandido. — A ignorância dele matou-o. — Você está querendo dizer que ele subestimou-a. — Pois é. O idiota riu quando eu desembainhei a espada. Ele me provocou, fingiu que tremia de medo de mim, mas quando demonstrei que eu sabia manejar a espada, ele ficou furioso e avançou estupidamente na minha direção. — E enterrou o peito na sua espada — Cullen concluiu. — Exatamente. Não cheguei nem a suar. O idiota praticamente se matou. Cullen abraçou-a. — Você é uma jóia preciosa, Sara. Só tenho a agradecer a Deus por vê-la sã e salva. Indo até o homem morto, Sara limpou a espada nas roupas dele. — Você deve ter ficado muito apreensivo quando viu o bandido vindo em minha perseguição. Se eu morresse, você não saberia onde encontrar seu filho. Cullen ficou surpreso, não por causa da observação de Sara, mas porque esse pensamento nem lhe passara pela cabeça. Sua preocupação tinha sido unicamente com a segurança dela. Naquele momento, nem se lembrara do filho. — Não se preocupe com Alexander, Prometi a Alaina cuidar do filho dela até que ela voltasse para buscá-lo. Mas o entregarei a você, desejando que sejam felizes na América. Assim terei cumprido minha promessa, e Alaina poderá, finalmente, descansar em paz — Sara concluiu. Cullen deu-lhe um afetuoso abraço de agradecimento. Em seguida, eles arrastaram os bandidos mortos para a mata. Quanto aos quatro cavalos, ambos decidiram que seriam ótimos presentes para Donald McHern, e jogaram as selas fora. De volta para a estrada, eles continuaram a cavalgar como se nada tivesse acontecido. No céu as nuvens escuras os acompanhavam. Cullen permaneceu em silêncio, mais pensativo do que antes, tentando entender o que se passava com ele. Em primeiro lugar, não havia sonhado com Alaina, e sim com Sara. Depois, quando ambos tiveram de enfrentar os bandidos, ele havia ficado apreensivo, temendo pela vida dela. Não havia pensado no filho. Essas evidências levaram-no a concluir que a determinada Sara McHern começava a afetálo. Mas por quê? Provavelmente, isso estava acontecendo porque ele sentia desejo e, assim que consumasse o casamento, voltaria a ser o mesmo Cullen Longton de antes, fiel a Alaina, apaixonado por ela. Lembrou-se de que desde que a conhecera só pensava nela; ela estava nos seus sonhos e não saía dos seus pensamentos. Por pouco, ele não Projeto Revisoras

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praguejou. Entendia que Alaina não saía dos seus pensamentos porque estava apaixonado por ela. Mas, se ele não estava apaixonado por Sara, por que pensava nela constantemente? Olhando por sobre o ombro, viu que ela parecia aborrecida e deduziu que a causa do seu aborrecimento era o fato de ter sido obrigada a matar um homem. No momento, ela mostrara-se controlada, senhora de si, mas isso não queria dizer que havia passado incólume por uma situação de intenso desgaste físico e emocional. — Aquele bandido foi o primeiro que você matou? Ela assentiu, balançando a cabeça, sem fitá-lo. — Nunca houve motivo para eu ter de acabar com a vida de alguém... — É natural. Os homens são guerreiros, as mulheres, não. Sara virou-se depressa para ele e encarou-o. — Ocasionalmente, somos chamados para lutar, seja em defesa de nossas crenças, de nossos bens, dos que nos são caros, ou para nos proteger. Por uma razão ou outra, a necessidade nos torna guerreiros. Ela estava certa, Cullen admitiu. Compreendeu que no fim, a necessidade obrigara Alaina a lutar para defender os que amava. Por amor a ele e ao filho de ambos havia lutado com bravura. Estranho que agora uma mulher quase desconhecida ensinasse coisas sobre o amor, logo a ele que se considerava grande conhecedor desse sentimento. Achava que aprendera tudo com Alaina, mas constatava agora que seu aprendizado tinha sido apenas superficial. O pouco tempo que havia passado com Alaina não fora suficiente para que eles se conhecessem bem. Seus encontros eram breves interlúdios, momentos roubados em que se acariciavam, trocavam beijos ardentes, sequiosos e tinham pouco ou nenhum tempo para falar sobre si mesmos. Apesar de tudo, eles tinham se apaixonado perdidamente, e ele iria cultuar esse amor até a eternidade. Tendo uma vez conhecido o amor, quem sabe agora ele pudesse compreender melhor seus aspectos, pensou, e obter do amor mais do que algum dia imaginara ser possível. A idéia chocou-o, e ele afastou-a depressa da mente. Não havia necessidade de pensar em amor. Tinha de pensar em assuntos mais importantes, sendo o principal encontrar o filho. — Você defendeu-se muito bem. É corajosa e sabe manejar uma espada — comentou. — Obrigada — Sara agradeceu sem entusiasmo. — O que há? O que a preocupa? Pode dizer, somos amigos. Depois de um instante, ela confessou: — Você nem imagina como tive medo. Projeto Revisoras

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— Também tive medo de enfrentar aqueles bandidos. Um guerreiro que entra numa batalha sem medo é um rematado tolo. — Nesse caso, posso me considerar uma boa guerreira. —- Para mim, será uma honra ter ao meu lado, numa batalha, uma guerreira como você. — É muita generosidade de sua parte dizer isso. — A verdade deve ser dita. Não concorda comigo? — Sim. Alegra-me sermos amigos. — Também estou feliz por ter você como amiga — Cullen declarou. Ser aceito por Sara como amigo era para ele mais importante do que ser visto como marido. Sendo amigo, conquistaria mais depressa sua confiança, sua simpatia seu coração. O pai adotivo lhe ensinara que se podia contar sempre com um amigo. Amigos lutavam lado a lado e ajudaram-se sem questionamentos. Amigos não indicavam o caminho; percorriam juntos esse caminho. Sara era sua melhor amiga, Cullen concluiu, sentindo grande bem-estar. Subitamente outro pensamento assaltou-o. Alaina e ele nunca tinham sido bons amigos. Aquele trecho da viagem fora, além de cansativo, o mais perigoso até o momento. Cullen e Sara abrigaram-se em uma casa deserta para passar a noite. Felizmente, teriam apenas mais um dia na estrada. Depois de dois anos de ausência, Sara estaria de volta ao castelo, acompanhada do marido, e a longa luta por sua liberdade chegaria ao fim. Cullen olhou ao redor da pequena sala onde se encontravam. — Esta casa deve estar abandonada há muito tempo. Sara concordou com ele. O cômodo cheirava a mofo e ali não havia móvel nenhum nem objetos pessoais. Por que teria a família ido embora? O que levava as pessoas a abandonar suas casas? Falta de trabalho? Falta de oportunidade? Desespero por não terem como sustentar a família? Quantas famílias tomavam decisões extremas porque não tinham escolha? Tempos difíceis exigiam escolhas extremas. Ela própria fizera uma escolha difícil. Todavia não estava arrependida. — Convém acamparmos lá fora — Cullen sugeriu, entregando a ela os cobertores enrolados. — Vou acender o fogo. Automaticamente, Sara pegou o volume. Eles haviam criado uma rotina, e nascera entre os dois uma camaradagem e um entendimento confortáveis, o que tornava tudo mais fácil. Ambos sabiam que podiam contar um com o outro em quaisquer circunstâncias. Uma grande prova disso tinha sido o modo como haviam Projeto Revisoras

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reagido ao serem atacados pelos mercenários. Ambos tinham lutado, cada um pensando na própria proteção, mas também preocupado em proteger o outro. Era estranho como haviam estabelecido uma promessa tácita e tranqüila entre eles. Sara poderia pensar que isso acontecera porque, sendo casados, Cullen se julgava no dever de protegê-la. Mas não era apenas isso, era algo maior. Eram amigos, e um vínculo espontâneo surgira entre eles. Juntos, tinham um objetivo: encontrar Alexander. Uma criança inocente era responsável pela união do casal. Sara estendeu o cobertor perto da pequena fogueira e bocejou. Cullen colocara sobre um pedaço de papel o jantar deles: peixe defumado e pão. — Você está exausta — disse ele, sentando-se no cobertor do lado de Sara. — Somente mais um dia e estaremos em casa. Eu dormirei na minha própria cama. — Nós estaremos na sua casa e dormiremos juntos na sua cama — Cullen corrigiu-a. — Será assim durante algumas semanas. Era verdade, mas a observação deixou-a sobressaltada. Como iria dormir com ele nas próximas semanas e não esperar que acontecesse alguma coisa? Balançou a cabeça como se precisasse pôr em ordem os pensamentos confusos. Certamente havia planejado dormir com o marido, consumando assim o casamento. Porém, tinha mudado de idéia e agora isso representava um problema. — Vejo que você ficou surpresa, como se não tivesse pensado em dormir com seu marido. — Um largo sorriso brilhou no rosto bonito de Cullen. — Só há pouco pensei nisso como sendo um problema — ela respondeu com franqueza. — Mas iremos tirar o máximo proveito da situação. O sorriso de Cullen tornou-se malicioso. — Espero que sim. Sara também sorriu e apontou o indicador para ele. — Não fique tão esperançoso. — Esperança é tudo que me resta — ele provocou-a. Sara riu e deu uma mordida no peixe. — Você tem sempre uma resposta pronta. Mas não conseguirá me convencer a dormir no seu cobertor esta noite. — Só quero protegê-la. Os olhos de ambos se encontraram e, por alguns segundos, mantiveram-se firmes, desafiadores. Por fim, Sara retrucou no habitual tom resoluto: — Estou perfeitamente protegida.

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— Sabe que não está — Cullen discordou com veemência. — Estará protegida tornando-se minha mulher, como combinamos. Nada mais fácil do que se entregar ao marido, fazer o que ele acabara de sugerir. O que iria perder? Seu coração. Era uma tolice pensar que poderia apaixonar-se por um homem que mal conhecia. No entanto, devia admitir que o conhecia melhor do que a qualquer outra pessoa. Cullen e ela tinham os mesmos interesses, as mesmas opiniões e eram ambos corajosos. Ele reunia as qualidades que ela procurava encontrar em um homem. Por isso, como poderia unir-se a ele intimamente para depois perdê-lo? — Posso cuidar de mim mesma — assegurou. — Sim, pode, mas não precisa fazer isso. Você tem um marido para protegê-la. Que maravilha pensar que não estava sozinha, que alguém podia cuidar dela! Mas isso não era real. Era uma fantasia, que estava prestes a terminar. Ela ficaria só novamente. Por que se torturar com lembranças passageiras? Era melhor não ter nenhuma. — Você não é meu marido de verdade — Sara alegou. — Serei, assim que você permitir que eu seja. Ela pôs a mão no braço dele. — Nós nos conhecemos de modo tão incomum e, no entanto, não o considero um estranho. Você é um homem bom. — Sou melhor ainda como marido amoroso. Sara não se conteve e riu. — Você não desiste de me tentar. — Será que estou conseguindo? — Esqueça, Cullen. Ele curvou a cabeça e beijou-a suavemente. — E se eu disser que desejo você, faz alguma diferença? Os olhos de Sara arregalaram-se. Homem nenhum jamais a desejara, e ela sentiu-se lisonjeada. Entretanto, sua natureza desconfiada levou-a a se questionar se Cullen estava sendo sincero ou se queria apenas convencê-la a deitar-se com ele. — E se eu disser que eu quero mais do que sexo, faz alguma diferença? — ela sussurrou ao ouvido dele. Cullen beijou-a outra vez e encostou o rosto no dela. — Só posso oferecer o que eu tiver para dar. Sara reconheceu a honestidade de Cullen. Ele não lhe prometia o que não estava ao seu alcance e seria egoísmo da parte dela não aceitar o que ele

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generosamente oferecia. Mesmo assim, ela mostrou-se relutante. Já havia feito muitas coisas contra sua vontade porque precisavam ser feitas, e ela achava que não teria dificuldade de unir-se intimamente a Cullen. Mas o que fazer com aquele anseio de amar e de ser amada? — Deixe-me amar você — pediu Cullen. acariciando rosto de Sara. — Ah, se você pudesse me amar... — Só por esta noite. — Os lábios dele roçaram os dela, roubando-lhe um beijo e a respiração. — Pense em nós dois nos unindo e nada mais. Dois estranhos se amando, se acariciando, curando suas feridas, e depois... partiremos sem arrependimentos ou queixas, só com boas lembranças. Não era isso, exatamente, o que ela temia? — Não pense — Cullen advertiu-a brandamente, num sussurro. — Deixe acontecer. Sinta a beleza e o prazer do momento. Ele deslizou a mão até a nuca de Sara para mantê-la firme junto dele. Ela perdeu-se num beijo devastador que lhe roubou a razão e incendiou seus sentidos. Pensou em protestar, mas não fez o menor gesto para impedi-lo de deitar-se no cobertor junto dela. Também não reclamou quando ele desamarrou os laços da blusa de linho para introduzir a mão sob o tecido e acariciá-la nos seios. — Isto é perfeitamente correto. Como? Ele precisava justificar suas ações? Sara não pensou em mais nada. Suas apreensões foram desaparecendo a cada toque do marido. Não podia negar que estava gostando daquelas carícias. A mão dele, apesar de grande, tocava-a com delicadeza. Executando movimentos circulares com o polegar, ele excitou os mamilos que imediatamente se enrijeceram. — Correto e muito bom — ele acrescentou, seus lábios tocando novamente os dela. — Por que você está dizendo que isto é correto? — Sara indagou, afastando-se um pouco de Cullen. Precisava respirar e também combater as chamas da paixão que se espalhavam por todo o corpo. — Por quê? Porque estamos casados e devemos consumar o casamento. Você terá proteção e independência. E também porque eu quero você. — Mas eu não quero. Ele levantou-se. — Seja razoável. — Oh, mas eu sou razoável.

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— Se fosse, você pensaria em consumar o casamento para não correr o risco de seu pai querer anulá-lo. — Ser razoável, para mim, é sentir respeito por mim mesma ao amanhecer. — Querer consumar nosso casamento é falta de respeito? Isso dói, Sara. — É para doer mesmo. — Somos casados! — Precisamente. A certidão de casamento me basta. Não preciso de mais nada de você. Cullen pensou em argumentar, mas desistiu e foi para o outro lado da fogueira. — Muito bem. Seja como você quiser. — Desde o começo tudo foi como eu quis. — Tem razão. Mas preste atenção: se o seu plano não der certo, não será por minha culpa. Eu irei embora com meu filho. — Claro. Você encontrará seu filho, e eu terei a minha liberdade. — Não quero mais discutir. — Ele esticou-se no cobertor. — Porém, devo lembrá-la de que todos estarão esperando que nos comportemos como recémcasados. Isso quer dizer demonstrações de afeto como beijos, abraços e troca de olhares apaixonados. — Pelo menos nos primeiros dias conseguiremos convencer as pessoas de que somos um casal feliz. Pouco depois, os sinais de desentendimentos começarão a aparecer. Ninguém irá estranhar se os problemas conjugais surgirem bem cedo. Acredite em mim — Sara expôs com um suspiro. — Por quê? — No clã todos duvidam que eu seja capaz de segurar um marido. Mesmo tendo meu pai dobrado o valor do meu dote, poucos rapazes se interessaram por mim. Aqueles que chegaram a falar com meu pai, perderam o interesse quando perceberam que... — Que você não seria uma esposa dócil — ele concluiu, dando uma risadinha. — Eram todos uns moleirões. Homens sem coragem... — Nenhum deles teve coragem de enfrentar você — Cullen provocou-a. — Você teve, pois casou comigo. Cullen riu. — Hum... Um casamento feito às pressas... Já estou imaginando os comentários correndo soltos. — Não há a menor chance de eu estar grávida, entendeu?

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— Ainda bem, porque eu jamais abandonaria nosso filho. — Eu muito menos! Se eu tivesse um filho seu, jamais deixaria que você o levasse embora. Também não iria querer que você ficasse comigo por causa dele. Eu o educaria sozinha! A discussão foi encerrada. Ficando em silêncio, Sara refletiu que não havia pensado que poderia engravidar se o casamento fosse consumado. Mais um motivo para não querer fazer sexo com Cullen. Amava crianças e gostaria de ter muitos filhos, mas não estava disposta a criar um filho sem pai. — Há mais alguma coisa que eu precise saber sobre seu pai? — Cullen perguntou. Depois de um instante pensando nas qualidades e defeitos do pai, Sara respondeu: — Acredito que ele me ame, embora ele raramente demonstre seus sentimentos. Ele prefere me elogiar para alguém quando não estou por perto. Na verdade, nunca entendi meu pai. Todos falam muito bem dele, dizem que é justo e generoso, mas comigo... — Sara balançou a cabeça. — Nós somos parecidos. Eu o provoco muito. Creio que ele perdeu a paciência comigo quando recusei o pedido de casamento de Harken McWilliams. — Então você admite que sempre o deixava irritado? — Sem dúvida — Sara confirmou, lembrando-se das suas muitas aventuras e desventuras. Cullen cocou a cabeça. — Ainda não conheço seu pai, mas, pelo que me contou e tendo convivido com você, sinto pena dele. — Reconheço que já lhe dei um pouquinho de trabalho. — Um pouquinho? — Talvez um pouco mais do que seria normal. Aos cinco anos, comecei a subir em árvores muito altas, depois não conseguia descer, para desespero dele. — Era ele quem tirava você de lá? — Sim. Era sempre ele. Eu não tinha medo. — Ele não se zangava? — Claro. Dizia que, se eu subisse em árvores novamente, não precisava chamar por ele, porque ele não iria me acudir. Mas isso era da boca para fora. Reconheço que ele tinha razão de perder a paciência comigo. Mas não me lembro de ele mandar outra pessoa para me tirar dos apuros. Ele ia pessoalmente resolver a situação.

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— Sinal de que a amava. Essas palavras ficaram ressoando no cérebro de Sara. Lembrava-se do pai sempre zangado com ela. No entanto, ele jamais deixara de socorrê-la. Com esse pensamento, ela adormeceu. No meio da noite, Sara acordou assustada, com os olhos arregalados e o corpo trêmulo. Rapidamente olhou ao redor. Cullen despertou ao perceber que ela havia se movimentado. — O que foi? — perguntou baixinho. Ela pôs a mão no peito, tentando acalmar o coração que batia aceleradamente. — Acho que tive um pesadelo. Levantando-se, Cullen foi até ela e abraçou-a. Mais do que depressa, Sara agarrou-se a ele e ficou juntinho dele, sentindo seu calor e o agradável contato com os músculos rijos. Não queria sair dali. O pio de uma coruja levou-a a dar um pulo e a esconder o rosto no peito de Cullen. Foi tranquilizador ouvir o coração dele batendo de forma ritmada, sinal de que ele não sentia medo, o que era bom, pois ela estava aterrorizada. Apesar de não ser uma pessoa que se assustava facilmente, o sonho a havia deixado trêmula dos pés à cabeça. — Não quer me contar o sonho? — Cullen inquiriu. Ela sacudiu a cabeça. Tudo o que queria era continuar no aconchego dos braços do marido. — Está bem. Mas lembre-se de que foi apenas um pesadelo. Não foi real. Você está protegida. — Sim... — ela murmurou. Não tinha coragem de contar o sonho a Cullen para não alarmá-lo. Tinha sido um sonho tão claro. Parecera real. — É melhor você dormir comigo — ele sugeriu. — Sim. Sim — ela repetiu enquanto balançava a cabeça. Cullen continuou abraçado a ela, e ambos se deitaram perto do fogo. — Durma. Estou aqui. Você não corre nenhum perigo — ele sussurrou. Ela duvidava de que iria conseguir dormir um segundo que fosse. Nem queria dormir com medo de o pesadelo voltar a persegui-la. Mesmo com os olhos abertos, cenas do sonho passavam-lhe pela mente. Ela e Cullen corriam dentro de um bosque, fugindo de soldados. Alexander estava nos braços do pai. Ela sabia que tinha de fazer alguma coisa para salvá-los. Prometera a Alaina salvar o filho dela. Subitamente, um homem surgira na frente dos três com a espada em punho. Cullen e ela não tinham arma nenhuma. Disposta a tudo para salvar pai e filho, Sara Projeto Revisoras

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pusera-se na frente do atacante e dissera a Cullen para fugir com Alexander. Tinham sido suas últimas palavras, pois o homem transpassara-a com a espada. Ela perdera a vida, mas salvara Cullen e Alexander. Teria o sonho sido premonitório? Seria uma visão do futuro? Não havia resposta para essas perguntas.

CAPÍTULO V

Cullen e Sara deixaram o acampamento ao alvorecer. Ele cavalgava do lado dela, e os quatro cavalos o seguiam, amarrados a uma corda. Sara havia passado a noite nos braços dele, muito agitada. Praticamente não dormira nem o deixara dormir. Uma noite insone não o afetava. Sua preocupação era com Sara. Por que aquele sonho a havia deixado tão perturbada? Por que ela se recusava a falar sobre o assunto, se em geral lhe contava tudo? Até o silêncio dela era revelador; indicava que alguma coisa séria a inquietava. Depois de longo tempo cavalgando em silêncio e observando-a discretamente, Cullen teve certeza de que algo a afligia. Porém, o que quer que fosse, ela pretendia guardar para si mesma. Portanto, não iria mais preocupar-se. Sara tinha feito sua escolha e iria cumprir o que prometera. Para ele, era isso que interessava. Durante a noite, quando a tivera aninhada nos braços, ele ficara feliz de poder oferecer-lhe conforto. A verdade era que sentia uma irresistível vontade de protegêla. Isso acontecera quando vira o mercenário perseguindo-a. Mesmo sabendo que ela era capaz de se defender, tinha sido para ele uma agonia não estar junto dela naquele momento difícil. Queria mantê-la sempre fora de perigo. Também desejara o mesmo para Alaina. O fato de estar comparando o que sentira por Alaina ao que estava sentindo por Sara assustou-o. Disse a si mesmo que isso não significava que ele amava Sara como tinha, amado Alaina. Pensava em Sara como amiga e queria que ela soubesse que ele não hesitaria em defendê-la sempre que fosse preciso. Sara era uma amiga. Boa amiga. E bons amigos não eram fáceis de se achar. A amizade entre eles surgira da necessidade, mas florescera e tornara-se profunda porque ambos se respeitavam.

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Cullen sabia que ela iria ajudá-lo, independentemente do acordo que haviam feito. Se alguma coisa acontecesse a ele, Sara cuidaria de Alexander. Se ele lhe pedisse para levar o garoto até o tio Burke, ela o faria, por mais que lhe custasse. O laço de amizade que os unia tornava-se cada vez mais forte, ele considerou. Não seria fácil dizer adeus. Estranho, iria sentir saudade dela. — Se continuarmos nesse passo, chegaremos ao castelo ao anoitecer — Sara assinalou. — Não seria melhor chegarmos amanhã cedo? O que você acha de passarmos mais esta noite sozinhos, acampados? — Cullen indagou. Ele tinha certeza de que Sara iria entender o sentido das perguntas. Ou seja, ele estava sugerindo que, se ela quisesse consumar o casamento, ainda havia tempo. Mas a decisão era dela. — Quero chegar em casa o mais depressa possível — ela respondeu, fustigando a égua. Cullen não gostou da resposta. Por mais que tentasse se convencer de que desejava consumar o casamento para deixá-la protegida quando partisse, uma voz interior dizia que ele queria fazer amor com ela. Queria não apenas dar-lhe aquela noite de amor pela qual ela ansiava, mas também satisfazer seu próprio desejo. Isso o perturbava, pois ele achava que ao querer outra mulher estava traindo Alaina. Por que a situação tornara-se tão complicada? No início da viagem, tudo parecera tão simples... Ele iria encontrar o filho, voltaria para o porto de St. Andrew, onde Burke os estaria esperando, e eles iriam para a América. Nunca havia imaginado que uma mulher iria mudar seus planos completamente. Ele não queria saber de outra pessoa em sua vida. A ferida deixada pela perda de Alaina era recente e ainda sangrava. Entretanto, Sara conseguira entrar em seu coração. Como amiga, naturalmente, nada mais. Uma amiga que você quer levar para a cama. Droga de voz que tirava sua paz! Droga de sentimentos! Ele devia agradecer a Sara por ser sensata e manter a decisão de não querer se deitar com ele. Devia, mas o que tinha em mente era outra coisa. — Por que não acabamos logo com isso? — ele resmungou, irritado. — Você disse alguma coisa? — Sara perguntou olhando-o rapidamente. — Eu não disse nada. Você está bem? — Estou ótima — ela respondeu em voz alta e, na opinião de Cullen, com excessivo entusiasmo. Sara não havia conversado com ele durante toda a manhã e, de repente, falava com aquela falsa alegria na voz. O que estava acontecendo?

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— Vamos fazer uma parada. Nós e os cavalos precisamos descansar — ele gritou. Cullen percebeu que ela passou a mão nos olhos antes de virar-se para ele. Estaria chorando? — Mais tarde. — Agora! Não há um riacho a pouca distância daqui? Lembro-me de que certa vez meu pai e eu paramos nesta região, perto de um riacho. — Há, sim, um riacho que desce da colina e banha estas terras. Sua água é bem fria e cristalina. — É justamente do que precisamos. Sem esperar mais nada, Cullen conduziu sua montaria e os outros cavalos por uma pequena trilha. Sabia que, mesmo contrariada, Sara iria atrás dele. Aquela parada era importante para os dois. Ele não descansaria enquanto não descobrisse o que se passava com ela. Deixando os animais perto do riacho para matar a sede e pastar, Cullen sentou-se com Sara no cobertor que ela acabara de estender debaixo de uma árvore. Estava faminto, mas ela não parecia interessada no pão e no queijo que tinha acabado de tirar do embornal. — Não está com fome? — Cullen perguntou, servindo-se do pão e de um bom pedaço de queijo. —- Não muita. Ela sentou-se com as pernas cruzadas na beirada do cobertor e ficou olhando para o riacho. — Conte-me o que a está perturbando. — O tom de Cullen foi tão autoritário que ela virou-se depressa para ele. — Não perca seu tempo me dizendo que não é nada. Eu a conheço bem. — Conhece mesmo? — Eu sei que esse silêncio não é natural. Alguma coisa a preocupa. Portanto, diga logo do que se trata e acabemos com isso. Sara deu um suspiro. — Não sou obrigada a dividir meus problemas com você. — Mas deve fazer isso — ele insistiu, sorrindo amavelmente para ela. — Você sabe que me preocupo com o seu bem-estar. Sou seu marido e levo minhas responsabilidades a sério. Além disso, somos amigos e não quero vê-ia magoada. Também quero ajudá-la. Fique sabendo que não sairei daqui enquanto você não me disser o que está acontecendo. Sara estava pronta para protestar, e Cullen acrescentou:

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— Não perca seu tempo me apresentando uma série de argumentos. Não quero ouvi-los. — Foi o sonho — ela respondeu, cabisbaixa e com os ombros caídos. — Fale-me sobre ele. O modo como Sara enrolou os dedos nos cachinhos ruivos e balançou o corpo de um lado para o outro revelou claramente sua relutância. Cullen segurou a mão dela e esperou. Reparando nos sinais de lágrimas nos olhos azul-esverdeados, ficou aborrecido por ela estar sofrendo, e preferir sofrer sozinha. — Deixe-me ajudá-la, Sara. Talvez eu possa aliviar seu sofrimento. — Não tenho nada. Só fiquei impressionada com o pesadelo. — Se você me contar como foi esse pesadelo, quem sabe, juntos, poderemos analisá-lo e entendê-lo. Cullen continuou a observá-la e notou, pela mudança de expressões no seu rosto, que ela considerava se devia ou não revelar o sonho. Por fim, as linhas na testa e ao redor dos olhos se suavizaram, o queixo relaxou e ela deu um suspiro. Ele soube que ela decidira se abrir. — O sonho parecia tão real... — ela começou. — Tive sonhos assim. — Teve? — Alguns. Certa vez, sonhei que eu estava na prisão de Weighton e um rapaz apareceu para me libertar. — Ele deu de ombros. — Mas quem me libertou não foi um rapaz e sim uma jovem usando roupas masculinas. Contando essa história Cullen pretendia diminuir a tensão de Sara, mas o efeito foi o oposto. Ela contraiu-se de novo. O olhar tornou-se sombrio. — Então o sonho tornou-se realidade. Imediatamente, ele entendeu que Sara tivera um sonho horrível e estava aterrorizada, receando que o pesadelo se realizasse. Indo para bem perto dela, ele abraçou-a. — Conte-me o sonho. Ela repousou a cabeça em seu peito. — Você, Alexander e eu estávamos cercados por soldados. Não tínhamos como escapar e não portávamos armas. De repente, um homem surgiu entre nós com uma grande espada e ia atacar você e Alexander, que estava nos seus braços. Eu saltei na frente dele e recebi o golpe da espada. Mas vi você e Alexander correr para um lugar seguro antes de... Cullen sentiu um aperto no coração e no estômago. Demorou alguns segundos Projeto Revisoras

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para se controlar. — Isso jamais acontecerá. Não permitirei que você dê sua vida pela minha — ele asseverou com ímpeto. — Escolhi salvar sua vida e a de Alexander, arriscando a minha. -- Foi uma decisão repentina e imprudente, tomada num momento de pânico. — Fiz o que era preciso fazer. De outro modo, como você e Alexander se salvariam? — Eu teria encontrado um jeito de salvar a todos — Cullen afirmou. — Bem, meu primeiro pensamento foi salvar você e seu filho. — Você não pensou em si mesma? — A minha vida não era tão importante como a sua e a de Alexander. Diante dessa resposta, Cullen afastou-se de Sara e sacudiu a cabeça. — O que acaba de dizer é um absurdo. Como sua vida não é importante? — Naquele momento, eu achei que não era. — Engano seu! — Cullen quase gritou. — Era um sonho. E no sonho foi o que eu decidi! — Que decisão mais idiota. — Ora, optei por salvar sua vida e a de seu filho e você considera minha decisão idiota? — O que eu quero dizer é que não permitirei que você se sacrifique por mim. Entendeu? — Farei o que eu achar certo. — Sara, cabe a mim protegê-la. Eu devo cuidar da sua segurança. — Certo. Mas e se você não puder fazer isso? — Sara encostou o rosto no dele, depois lhe deu um beijo suave nos lábios. Imediatamente veio à mente de Cullen a imagem de Alaina morrendo em seus braços. Uma raiva tempestuosa tomou conta dele, deixando-o incapaz de falar. Precisou de um instante para recuperar o ritmo da respiração e sua capacidade mental para ter coragem de retomar a conversa. Apertou carinhosamente o queixo dela. — Darei um jeito. Não duvide de que eu seja capaz de protegê-la. — E se eu disser que farei o mesmo por você? — Tolice. Aí está uma coisa com a qual você não tem de se preocupar. Esqueça o pesadelo. Eu a defenderei. Confie em mim. Projeto Revisoras

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— Confio em você. O problema não é esse. — Sara estremeceu. — Fiquei impressionada porque o homem que apareceu no sonho era a personificação da maldade. Eu sabia que ele estava disposto a tudo para acabar com você. — Isso não quer dizer nada. Era um sonho. — Sim, era um sonho. Mas... e se for um aviso? E se o pai de Alaina estiver à sua procura? Se ele souber que você esteve na abadia, acabará chegando à minha casa. É só uma questão de tempo. Era verdade, e ele havia pensado nisso desde que deixara a abadia. Com toda a certeza, a abadessa comunicara ao conde que o bebê não tinha morrido. Como Sara dissera, era só uma questão de tempo... O conde iria encontrá-los, determinado a acabar com a vida deles. — Você e Alexander não ficarão seguros aqui na Escócia por muito tempo. Como a abadia fica isolada, acredito que levará um mês ou, no máximo, dois, para o conde receber a carta da abadessa e descobrir o nosso paradeiro. Não podemos nos arriscar. Antes disso, nosso casamento deve estar terminado. Cullen apertou levemente o ombro dela. — Podemos consumar nosso casamento antes de nos separarmos. Os olhos de Sara perderam um pouco do brilho, mas ela sorriu. — Para um homem que relutou em aceitar nosso acordo, você agora está apressado demais para torná-lo válido. Cullen apossou-se dos lábios de Sara e deu-lhe um beijo ardente e sequioso antes de dizer: — Isso foi antes de conhecê-la. Sara passou a língua nos lábios sensualmente inchados, deixando-o enlouquecido com o gesto. — E antes de experimentar meus beijos — ela acrescentou. — Gosto muito de beijá-la — ele admitiu. Roubou mais alguns beijos que, a princípio tórridos e vorazes, foram aos poucos se tornando suaves e demorados, mas não menos excitantes. — Também gosto de beijá-lo — Sara assentiu quando Cullen parou. — Nesse caso, vamos continuar — tornou ele, inclinando a cabeça. Sara torceu o corpo e afastou-se dele. — Eu gostaria de chegar em casa antes do anoitecer. — É a nossa última chance, Sara — Cullen insistiu. Ela levantou-se e ficou olhando para ele. Vendo que ela relutava, Cullen fez um gesto, convidando-a para sentar-se no cobertor novamente. Os olhos dela perderam aquele brilho combativo, o Projeto Revisoras

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rosto suavizou-se e ela parecia mais relaxada. Percebeu que ela estava prestes a capitular. Subitamente começou a soprar um vento forte, agitando a ramagem das árvores, como se os estivesse enxotando dali. Um galho passou bem perto do rosto de Sara, quase a atingindo com força. Ela deu um salto, assustada. — Temos de ir embora — disse ela e correu para pegar a égua. Cullen murmurou algumas pragas. Sara quase se rendera. Não fosse o maldito vento, ela não tardaria a cair nos braços dele e ambos se perderiam num torve-linho de paixão. Dentro de algumas horas chegariam à casa dela e não teriam a chance... Ele deu um largo sorriso. Quando chegassem ao Castelo McHern, aí sim, teria chances de conquistá-la. Eles iriam dormir na mesma cama todas as noites e não demoraria muito para viverem seus momentos de intimidade. Porém, em primeiro lugar, ele teria de saber onde Alexander estava. As cores do crepúsculo dominavam a região quando Sara e Cullen entraram na vila do clã McHern. Tendo ficado dois anos longe de casa, Sara observou o lugar com atenção e notou que pouca coisa havia mudado. O armazém que o pai planejara antes de ela partir já estava pronto e várias casas graciosas com teto de palha tinham sido construídas. Mas, no aspecto geral, a vila parecia a mesma, próspera, bonita, bem cuidada. Poucos moradores estavam fora de casa no momento, pois era hora do jantar. Aqueles que viram Sara chegar olharam espantados para ela e seu acompanhante, e correram para espalhar a notícia de que a filha do chefe do clã estava de volta. Cullen não perdeu tempo e fez questão de mostrar a quem os visse que ele e Sara eram marido e mulher. Manteve suas montarias emparelhadas, segurou firme na mão dela e ficou sorrindo como um recém-casado, ansioso para ter a noite de núpcias. Essa atitude não era fingida, Sara pensou, uma vez que Cullen estava realmente ansioso para consumar o casamento. Eles chegaram ao Castelo McHern, que ficava no fim da vila, situado entre duas colinas. Obviamente, o pai de Sara recebera a notícia de que a filha estava de volta e, naquele momento, ele descia apressado os degraus de entrada, seguido de alguns criados e um grande número de guerreiros. — Espero que este homem que a trouxe até aqui seja mesmo seu marido, garota, ou ele a levará de volta para a abadia — declarou o sr. McHern em tom severo, parando na frente dos cavalos e cruzando os braços musculosos sobre o peito enorme. Cullen desmontou e foi imediatamente até Sara. Segurou-a pela cintura, tiroua da montaria, colocou-a no chão, deu-lhe um beijo na boca e abraçou-a.

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— Sara é minha legítima esposa. Sinto-me orgulhoso de estar casado com ela. — Estendeu a mão para McHern. — Cullen Longton, sir. Embora soubesse que aquelas palavras não eram verdadeiras e que ele apenas representava um papel, Sara sentiu o coração encher-se de alegria ao ver a satisfação no rosto do pai. — Donald McHern, chefe do clã McHern. — Ele apertou a mão do genro. — Como posso saber se você está legitimamente casado com minha filha? Cullen afastou-se de Sara, tirou a certidão de casamento que estava na bolsa de couro, presa à sela do cavalo, e apresentou-a ao pai dela. — Aqui está. Tem o selo e a assinatura da abadessa. McHern desenrolou o documento com espalhafato e, à medida que ia lendo a página, arregalava os olhos e sorria. Sara, que o observava, notou que ele envelhecera naqueles dois anos. Tinha mais rugas nos cantos dos olhos, as rugas antigas estavam mais profundas e os cabelos, ruivos como os dela, tinham agora grande número de fios prateados. Os olhos, no entanto, não haviam mudado. Notava-se no fundo deles um toque de bondade. — Seja bem-vindo, meu filho — disse McHern, terminando de ler o documento. Passou os braços enormes ao redor de Cullen, apertou-o, depois o soltou e deu-lhe um tapa nas costas. Dirigiu-se então a Sara. — Parece que você, finalmente, fez uma coisa certa. McHern voltou-se novamente para o genro. — Entre, filho. Temos muita comida e muita cerveja. Cullen estendeu a mão para Sara. — Obrigado, McHern, mas vou entrar com minha esposa. Quero Sara perto de mim o tempo todo. Donald McHern riu e deu outro tapa nas costas dele. — Coisas de recém-casados. Isso vai mudar logo, logo. — Os quatro cavalos são para o senhor, meu sogro. — disse Cullen antes de entrarem no castelo. — É uma forma de agradecer-lhe. Sua filha é maravilhosa. McHern olhou para Sara e assentiu com um lento aceno de cabeça. — Muito bem. Um jovem cavalariço levou os animais para o estábulo e todos entraram num salão. Na maioria dos castelos e fortalezas das Terras Altas, havia no salão uma plataforma com um lugar reservado para o chefe do clã, mas Donald McHern não gostava de ficar isolado. Tinha na ponta da lareira sua mesa favorita, com bancos, à qual ele Projeto Revisoras

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sentava-se com seus guerreiros como companhia. Nessa noite, pela primeira vez, Sara sentou-se à mesa favorita do pai, ao lado do marido, sentindo-se honrada. Cullen segurou a mão dela e ocasionalmente a levava aos lábios para beijá-la. Sempre que podia, encostava o ombro no dela. Para todos, eles pareciam um casal apaixonado e, enquanto durou a refeição, Sara sentiu-se uma esposa amada. Aquela sensação era muito agradável, e ela decidiu que devia aproveitá-la ao máximo, pois não iria durar para sempre. Enfim, nada nesta vida era para sempre. Cullen e McHern conversaram animadamente, mal dando a Sara a oportunidade de dizer uma ou duas palavras sobre cada assunto do qual tratavam. Cullen demonstrou grande habilidade ao lidar com o sogro, mas não deixou de ser atencioso com a esposa. Elogiava a comida e insistia para ela experimentar um ou outro prato, chegando a pôr em sua boca um pedacinho para que provasse. Não demorou muito, McHern decidiu interromper aquele namoro. — Sara, as criadas a atenderão nos aposentos do segundo andar — disse à filha. — Suba. Quero conversar com seu marido. — Prefiro subir mais tarde — Sara argumentou. Não queria deixar o pai e Cullen a sós. — Vá, agora — o pai ordenou, seu tom firme. — Quero ficar só mais um pouco. Donald McHern sacudiu a cabeça. — Você perderá um bom marido bem depressa, caso não aprenda a obedecer às ordens de um homem. — Eu sou o marido dela e, como minha esposa, ela deve obedecer às minhas ordens, não às suas — Cullen contrapôs, a voz forte cortando o ar como uma faca. — Então, faça com que ela o obedeça — McHern exigiu. Cullen virou-se para Sara, ajeitou um cachinho dos cabelos rebeldes, colocando-o atrás da orelha dela. — Vá e aprecie a volta ao lar. Não me demoro. Sara não resistiu ao impulso e beijou-o, deixando o pai e as outras pessoas à mesa chocados. Levantou-se e atravessou o salão com a cabeça erguida e satisfeita com Cullen. Ele conseguira fazer com que ela mantivesse sua dignidade, ao mesmo tempo em que mostrara a McHern sua força, deixando claro que concederia ao sogro apenas um tempo razoável antes de ir se juntar à esposa. Sim, ela escolhera um ótimo marido. Só gostaria que ele continuasse sendo seu marido para sempre. Sara despiu-se è quase se jogou na grande tina que as criadas tinham enchido com água quente. Não havia espaço suficiente para ela esticar as pernas compridas, mas não se importou; queria sentir o calor da água para tirar a dor de todos os músculos do corpo exausto. Molhou a cabeça e ensaboou-a sem pressa com sabonete de lavanda. Depois Projeto Revisoras

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de enxaguados, os cabelos ficaram com um agradável perfume; ela apoiou a cabeça na borda da banheira, fechou os olhos e ali ficou, apreciando aquele calor até a água esfriar. Era tão bom estar em casa. Guardava boas e más lembranças daquele lugar. A mais triste, sem dúvida, havia sido a da morte da mãe, tão repentina. Na época, tinha doze anos. A mãe ficara doente durante alguns dias e não resistira. Perdendo a esposa, Donald McHern perdera também uma parte de si mesmo. O casal era inseparável. Ambos se apaixonaram ainda jovens, casaram-se e foram muito felizes. Sara havia sonhado encontrar um amor duradouro, mas nem o tempo nem a sorte haviam estado a seu favor. Bem, isso não era inteiramente verdade, ela pensou. Encontrara Cullen, um homem correto, por quem poderia apaixonar-se facilmente. Tratava-a com respeito, queria protegê-la e honrava sua palavra. Ela suspirou. De que adiantava sonhar com o que nunca iria acontecer? Ver suas esperanças destruídas só iria machucá-la, e ela não tinha tempo para sentir pena de si mesma. Era muito importante levar Cullen até onde estava Alexander, cumprindo assim sua parte do acordo. A partir daí, pai e filho iriam para a América, e ela teria de adaptar-se à sua nova vida. Pretendia fazer tanta coisa, queria ter novas experiências, encher seus dias de aventuras de modo que à noite estaria tão cansada que se deitaria na cama e adormeceria em seguida. Estaria tão ocupada que não teria tempo de pensar em Cullen nem em como sentia sua falta. Guardaria dele boas lembranças. Jamais se esqueceria do modo como ele a abraçara e a confortara na noite em que tivera o pesadelo. Seu abraço causara-lhe a sensação de estar num agradável casulo, agasalhada, aquecida, segura, livre de todos os perigos. Era triste saber que nunca mais teria semelhante conforto. Ela sentiu respingos de água no rosto. — A água esfriou. Você vai ficar gelada. Sara abriu os olhos e ia pular para fora da banheira, mas lembrou-se de que estava nua. Vendo Cullen ajoelhar-se perto dela, tentou cobrir a nudez com as mãos. Ele riu. — Sou seu marido. E não adianta tentar esconder certas partes do corpo com as mãos. Estou vendo que você tem um corpo lindo. Sara ficou chocada. Abraçou-se para esconder mais os seios e cruzou as pernas. — Não deve haver intimidade entre nós — respondeu. — Desculpe, mas discordo. — Ele estendeu o braço e pegou a toalha que estava sobre um banquinho. — Como seu marido, preciso ver seu corpo por inteiro. Projeto Revisoras

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Você pode ter um sinal de nascença ou uma cicatriz que seja do conhecimento de seu pai. E se ele me fizer alguma pergunta sobre o assunto? — Não tenho marca nenhuma que você precise conhecer. Cullen ficou de pé, segurando a grande toalha aberta na frente dele. — Talvez eu deva examiná-la para ter certeza disso. Sara ficou de pé e saiu da banheira, agitada, derramando água no piso de pedra. Tinha pressa de enrolar-se na toalha, não por causa do frio, mas para não ficar nua diante do marido. Porém, ele não soltou a toalha; enrolou-a ao redor de Sara e abraçou-a. — Precisa se aquecer. De nada adiantava protestar, ela pensou, uma vez que estava tremendo e com a pele toda arrepiada. Quando ele começou a massageá-la devagar, mas com firmeza, os dedos pressionando cada centímetro das costas, ela sentiu um calor percorrer seu corpo. Cullen passou a acariciar-lhe o pescoço, até deixá-la relaxada, entregue nos braços dele, encantada com seu toque mágico. — Seu cheiro é divino — ele sussurrou, encostando o nariz nos cabelos dela. — E o gosto é delicioso — completou, mordiscando-a na orelha e no pescoço, provocando nela arrepios e suspiros. Antes de ela poder reagir, ele carregou-a para a cama sem parar de beijá-la, de deliciar-se mordiscando-a, ao mesmo tempo em que as mãos realizavam mágica pelo corpo dela, apertando-a, acariciando-a, excitando-a. Deitando-a na cama, sentou-se junto dela e curvou-se para beijar-lhe as faces e os lábios, onde se deteve. Aplicou ao redor deles muitos beijinhos, como se executasse uma dança erótica feita de toques e sussurros excitantes. Presa sob ele, enrolada na toalha, o desejo aumentando, prestes a entregar-se, Sara tentou reunir coragem para dizer a Cullen que se afastasse dela. A custo murmurou um patético "pare", quase inaudível, que soou como um miado. Com um pouco mais de esforço, embora relutante, pronunciou o verbo com clareza. — Por quê? — ele indagou, desapontado. — Porque é melhor assim. — Acredito que não — contestou e beijou-a com paixão, deixando-a trêmula e com os lábios ardendo. — Eu sei que é melhor assim — ela insistiu, lutando contra o desejo de continuar os beijos e entregar-se ao marido.

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Ele sorriu. — Tenho tempo de sobra para convencê-la. — Eu não contaria com isso. Levantando-se, ele começou a despir-se. — Veremos. Sara sentou-se na cama e ficou enrolada na toalha, tendo o cuidado de cobrir bem os seios. Disse a si mesma para ignorar Cullen. Entretanto, não conseguia afastar os olhos dele. Acompanhava todos os seus movimentos. — Tentando me impressionar? — Será que isso ajudaria a convencê-la? — Ele havia tirado a camisa e tirou o kilt. Sara analisou-o da cabeça aos pés e teve de admitir que estava muito impressionada. Cullen era bem-dotado, perfeitamente proporcional, todo músculo. Céus, o homem, de fato, impressionava! E claro que ela não ia demonstrar o que estava sentindo. Deu de ombros e preferiu não falar, com medo de a voz traí-la, pois sentia a garganta apertada. Levantou-se e afastou-se dele. — Eu sei que a impressionei — ele declarou. Passou por Sara e foi até a lareira. Ela o viu de costas. Os ombros eram largos, as nádegas firmes. Ele pegou o grande caldeirão com água quente, tendo o cuidado de enrolar a alça com uma toalha de rosto para não queimar as mãos. Seus gestos e o modo de andar eram os de um homem forte e determinado. Ele foi até a banheira e jogou dentro dela a água quente. — E meu filho? — Cullen quis saber quando já estava na banheira. Sara aproveitou a oportunidade para vestir uma camisola de linho, fechada até o pescoço, e enfeitada com fitas azuis. Em seguida, sentou-se na cadeira, perto do fogo e começou a pentear os cabelos. — Vou levá-lo até seu filho amanhã. — Ele está aqui perto? — A ansiedade de Cullen era indisfarçável. Vendo que ele começara a ensaboar a cabeça com o sabonete de lavanda, Sara riu. — Você vai ficar cheirando como eu. Ele piscou para ela. — Ótimo. Você não resistirá a mim. A resistência de Sara já estava vencida. Se ele se aproximasse dela perfumado, estaria perdida. Dando m puxão no pente, ela arrancou um monte de cabelos, esperando que a dor afastasse a paixão que excitava seus sentidos. — O casal que cuida de Alexander mora a menos de uma hora daqui, a cavalo Projeto Revisoras

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— ela informou, procurando pensar só em Alexander. — Como ele chegou a essa casa, tão perto de sua família? Sara levantou-se e pegou a jarra com água morna que estava na frente da lareira. Depois, indo até Cullen, jogou a água sobre a cabeça dele e explicou: — Eu quis que ele ficasse aqui perto. Achei que era mais seguro. Paguei uma boa quantia ao casal para trazer o bebê e, quando eles voltaram para a casa deles, que é perto da abadia, dei-lhes outro tanto de moedas. — Como você ficou sabendo que meu filho chegou mesmo a essa casa? — Recebi a confirmação. — De quem? — De minha irmã Teresa. Ele parou de esfregar as pernas, surpreso. — Sua irmã está com meu filho? Sara deixou uma toalha perto da banheira e foi para a cama, entrando sob as cobertas. Ocorreu-lhe que eles iriam dormir ali, juntos, durante várias noites, mas não haveria nada entre eles. Cullen saiu da água e enxugou-se vigorosamente. Depois foi até a cama, ficando propositadamente nu diante de Sara, determinado a tentá-la. Duvidava que ela resistiria. Mesmo sentindo um formigamento entre as pernas, ela ignorou a sensação. — Eu sabia que Teresa iria cuidar bem de Alexander. — Ela cuida de outras crianças abandonadas? — Cullen terminou de enxugarse e deitou sob as cobertas, do outro lado da cama. — Não. Ela está cuidando só de Alexander. — E por que ela aceitou cuidar do meu filho? — Teresa acha que Alexander é meu filho. Cullen fitou-a, perplexo. Sabia que ela dizia a verdade. Quanto mais descobria o sacrifício que ela havia feito, os riscos que tinha corrido e as dificuldades que tivera de enfrentar para proteger o filho dele, mais a admirava e lhe era grato. — Você não se preocupou com a sua reputação? Deixou Teresa pensar que você tinha tido um bebê no convento? — Achei que era o melhor modo de proteger Alexander. Eu sabia que minha irmã cuidaria muito bem dele. Ela é discreta e jamais revelaria de quem ele era filho. Todos acham que o bebê foi abandonado e que ela decidiu adotá-lo. — Você se arriscou demais.

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Carinhosamente, Cullen tentou afastar do rosto de Sara um cachinho ruivo, mas o cachinho rebelde recusou-se a obedecê-lo. Com cuidado, ele colocou-o atrás da orelha dela. Assim que afastou a mão, o cachinho voltou para o lado da têmpora. Cullen sorriu. Os cabelos de Sara eram tão teimosos e imprevisíveis quanto ela. — Foi um risco necessário. Se eu deixasse seu filho aos cuidados de qualquer pessoa, o que seria dele, caso me acontecesse alguma coisa? Entretanto, entregando-o a Teresa, eu sabia que ela iria criá-lo como se fosse filho dela. Ele estaria protegido e seria amado. — Você fez muito por meu filho. — E você fez muito por mim. Firmamos um acordo listo e cada um cumpriu a sua parte. Amanhã você estará com Alexander. Cullen pensou em discordar, mas reconheceu que seria tolice. Sara havia tomado uma decisão e não voltaria atrás. Com ele era diferente. Empenhara sua palavra e fazia questão de honrá-la. Cumpriria integralmente o que fora combinado. Sim, relutara em firmar o acordo, mas isso fora no início. Os dias de viagem haviam servido para que eles se conhecessem. Descobrira que ela era uma mulher especial, por quem sentia forte atração. O acerto entre eles não envolvia amor nem compromisso duradouro. Sara era compreensiva e entendia que ele jamais poderia amá-la. Por isso, não precisava se preocupar em magoá-la quando a deixasse e embarcasse com o filho para a América. Tudo isso Cullen considerou racionalmente. Entretanto, outro pensamento persistente insistia em importuná-lo. Por mais que o expulsasse para o escaninho mais oculto da mente, ele voltava à consciência. Sem ter alternativa, Cullen decidiu analisar o que o estava perturbando. Reconheceu que Sara, além de excitá-lo, despertava nele outros sentimentos, como vontade de protegê-la, de proporcionar-lhe conforto e de acariciá-la. A princípio, ele tentara se convencer de que sentia por ela somente atração física. Porém, constatara que estava enganado, especialmente quando vira McHern ordenando que ela se recolhesse. Sara era sua esposa e ele, como seu marido, não permitiria que ninguém, nem mesmo o pai dela, lhe dissesse o que devia ou não fazer. — Sobre o que você e meu pai conversaram? — ela perguntou, levando a mão à boca para abafar um bocejo. — Você está cansada. Deixemos para falar sobre isso amanhã. — Ele não deve ter dito nada importante, senão você me contaria — Sara murmurou, sonolenta e puxou o cobertor até a altura do pescoço. — Não foi mesmo nada importante — Cullen confirmou. Inclinando-se, beijou-a no rosto, feliz por haver entre eles confiança e compreensão. — Eu tinha certeza de que você causaria boa impressão. Escolhi um bom

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marido. — Foi exatamente o que seu pai disse. Sara estava de olhos fechados, e Cullen ficou por um momento observando-a. Era uma linda mulher e tinha um coração maravilhoso. Era bondosa, compassiva e não media esforços para fazer o que julgava necessário e, mais ainda, o que achava certo. Até o momento, ele não havia pensado na possibilidade de apaixonar-se por ela, mas estava convencido de que seria fácil amar uma mulher com tantas qualidades. Deitou-se e suspirou. Não podia pensar em Sara, não tinha esse direito. No dia seguinte, ele iria cumprir a promessa feita a Alaina. Teria o filho nos braços e o protegeria sempre. Jamais tivera dúvidas de que esse dia iria chegar. Estava disposto a mover céus e terras para encontrar o filho, mas nunca havia imaginado que estaria fazendo isso com sua esposa. Ouvindo gemidos, virou-se e viu que Sara se agitava. Estaria ela tendo um pesadelo semelhante ao que havia tido durante a viagem? Se fosse isso, devia tranquilizá-la, dizer-lhe que nenhum mal aconteceria a ela. Não conseguira proteger Alaina, mas não deixaria de proteger Sara. Pensou no conde de Balford, de quem iria vingar-se. Não descansaria enquanto não vingasse a morte sem sentido de Alaina. Também cabia a ele garantir a segurança de Sara antes de partir para a América. Se ele deixasse a Escócia sem fazer isso, a vida dela estaria ameaçada. Assim que a descobrisse, o conde mandaria matá-la. Isso se não a torturasse primeiro. Outro gemido de Sara levou-o a passar o braço sob o pescoço dela e fazê-la apoiar a cabeça em seu peito. Seus movimentos foram cuidadosos para não acordála. Ela abraçou-o e colocou uma perna entre as dele. Era surpreendente como se encaixavam tão bem, Cullen pensou, satisfeito. Logo sentiu um peso na consciência. Alaina, sim, era seu par perfeito. No entanto, ele estava feliz porque tinha a esposa confortavelmente adormecida junto dele, seu corpo moldado perfeitamente ao dela. Isso fazia sentido? Sentia por Sara mais do que desejo? Se gostava dela, como pretendia deixá-la? As perguntas o confundiram até que, finalmente, ele entregou-se ao conforto proporcionado pela cama macia e por ter Sara aconchegada a ele, e adormeceu. Cullen acordou, espreguiçou-se para espantar o sono e sentou-se na cama. Só então notou que Sara não estava do seu lado. Levantou-se, vestiu-se depressa e penteou os longos cabelos. Terminava de amarrar as tiras do sapato ao redor da perna quando ela entrou no quarto, orgulhosa e sorridente, carregando uma bandeja

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com comida. — Na vila só falam em você — ela anunciou, colocando a bandeja sobre a mesa que havia perto de uma das janelas. — Todos concordam que fiz bem em me casar, mas ninguém acredita que nosso casamento será duradouro. Os homens afirmam que você se cansará de mim por ser muito franca e teimosa. Algumas mulheres pretendem conquistar sua simpatia, uma vez que você em breve estará procurando outra esposa. — E você está feliz com isso? — Cullen perguntou, aborrecido. — Parece tão alegre! — Esses comentários interessam a nós dois. Quando começarmos a discutir e a brigar, e você for embora, como planejamos, os moradores da vila não ficarão surpresos. Subitamente, Cullen detestou aquela idéia ridícula de separação. Pouco se importava com o que eles haviam planejado. O que menos queria era deixar Sara ser ridicularizada por não conseguir segurar o marido. Ela não merecia isso. — Pão, mel, ovos, mingau, carnes, frutas... Coma à vontade — Sara ofereceu, indicando a bandeja. Ela sentou-se numa das cadeiras e Cullen ocupou a outra. De repente, ele perdeu a fome. Não lhe agradava pensar no sofrimento que imporia a ela. Não era justo. Sara era uma pessoa generosa e merecia tudo o que houvesse de melhor. Depois de comer um pouco, ele levantou-se. — Estou ansioso para ver meu filho e não quero começar uma discussão. — Curvando-se, ele beijou-a no rosto. Ela tocou de leve o lugar onde ele a beijara. — Nem eu. — Ótimo. Então vamos aproveitar o lindo dia. Finalmente, terei meu filho nos braços. Mas, primeiro... — Ele foi até o móvel onde deixara a bolsa de couro e pegou seu plaid, um xale retangular bem comprido, de tecido xadrez, e entregou-o a Sara. Ela levantou-se, aceitou o xale e perguntou: — O que é isto? — Meu plaid para minha esposa usar. Os olhos de Sara se encheram de lágrimas. Logo ela deu um lindo sorriso. Colocou rapidamente o xale vermelho, preto e amarelo atravessado sobre a blusa e prendeu-o no ombro, deixando as pontas soltas. — Obrigada por permitir que eu use o xale com o padrão do seu clã. Meu pai ficará ainda mais feliz e o clã McHern muito bem impressionado. Cullen pensou em dizer que o xale era para ela, sua esposa, e não para Projeto Revisoras

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impressionar quem quer que fosse, mas conteve a língua. Não estava disposto a argumentar. Limitou-se a elogiá-la. — O plaid lhe caiu muito bem. Você enobrece as cores do clã de meu pai. Sara ficou emocionada e sem palavras. Foi a vez de Cullen sorrir. Aproximou-se da esposa e beijou-a. Fez com que entreabrisse os lábios, e sua língua dançou com a dela, provocou-a e saboreou-a. Por fim, roçou os lábios levemente nos dela antes de dizer: — Está na hora. — Segurando-a pela mão, levou-a ainda emudecida para a porta. Eles entraram no salão, de braços dados e sorridentes, e Donald McHern saudou-os com alegria. — Acredito que não terei de esperar muito para ganhar um neto. A maioria das mulheres ficaria vermelha ao ouvir isso, Cullen pensou, mas não Sara. Ela retrucou: — Este é um assunto que diz respeito apenas a mim e meu marido. Agora quero que ele conheça minha irmã. McHern balançou a cabeça. — Imaginei que você quisesse apresentá-lo a Teresa. Mas amanhã Cullen e eu iremos dar uma volta por aí. Quero ver se ele é tão bom caçador como diz ser. — Não duvide do que ele disse, papai. Cullen é melhor do que o senhor ao manejar um arco. — É o que veremos. Ah, Sara, quero conversar com você. Procure-me quando voltar do passeio. — Está bem, papai. Cullen não gostou de ver o brilho nos olhos de Sara diminuir. Foi uma mudança sutil, que só notou porque a conhecia bem. Sentiu uma pontada no peito. Segurou na mão dela e, enquanto caminhavam para a porta, disse a McHern: — Se a minha esposa voltar muito cansada, o senhor conversará com ela amanhã. Sem esperar pela resposta, puxou Sara, e ambos saíram para o pátio banhado pelo agradável sol de primavera. — Você representa seu papel muito bem — Sara observou quando eles caminhavam para o estábulo. — Você é minha esposa, minha responsabilidade. Seu pai tem de entender isso — tornou ele em tom severo. — Esteja preparado porque meu pai vai discordar de você. Projeto Revisoras

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— Mesmo que discorde, ele terá de nos respeitar. Cullen não ficou surpreso ao ver que os cavalos estavam prontos, esperando por eles. Logo entendeu que Sara tinha dado ordens para selarem os animais, pois sabia que ele esperava ansioso para ver o filho, e nada poderia atrasar a viagem. Eles demoraram a alcançar a estrada porque tiveram de atravessar a vila e foram detidos pelos habitantes, que saíram à rua para parabenizá-los e desejar-lhes boa sorte. Cullen apreciou o sossego do campo quando as casas ficaram para trás. Apesar de ansioso para ver o filho, estava apreensivo. Não tinha experiência com bebês e não sabia como iria lidar com Alexander. Será que ele já estava andando? Já aprendera a balbuciar algumas palavras? — Seu filho vai precisar de algum tempo para se acostumar com você — Sara advertiu-o, sabendo o que se passava na cabeça dele. — A menos que seja uma daquelas crianças amigáveis que não estranham pessoas desconhecidas. — E se Alexander não gostar de mim? Sara sorriu. — Não se preocupe. Acredito que vocês dois vão se dar bem. Minha irmã Teresa irá deduzir que você é o pai do bebê e deixará vocês sozinhos por algum tempo. — É natural que ela imagine que sou o pai dele, uma vez que sou o seu marido. — Chega a ser irônico, não? Quando mandei Alexander para Teresa, eu nada sabia sobre você... E agora estamos casados. Bem, por enquanto convém mantermos a versão de que Alexander é meu filho. — Concordo com você. Ninguém deve saber a verdade. Será menos arriscado. — Foi o que pensei. O conde de Balford pode aparecer no meu clã fazendo perguntas... — Sara estremeceu. — Temos de nos apressar. Leve Alexander para o navio do seu irmão o quanto antes, e deixem a Escócia o mais depressa possível. — Farei isso assim que me encontrar com o conde. Sara virou depressa a cabeça na direção de Cullen. — O que está querendo dizer? — Pretendo vingar a morte de Alaina. — Você quer cometer a loucura de matar o conde? Não pode estar falando a sério. — Ele merece morrer. — Reconheço que ele é mau, violento e desprezível. Mas é tolice pôr a sua vida e a de seu filho em perigo.

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— Deixarei meu filho no navio com meu irmão antes de executar meu plano — Cullen declarou, confiante. — E se o plano fracassar? — Meu filho estará na América e será educado por meu irmão. Sara sacudiu a cabeça. — Não acredito que você possa ser tão egoísta e tão estúpido! Cullen franziu a testa. — Não sou nem egoísta nem estúpido. Vou fazer o que acho certo. Sara puxou as rédeas do cavalo. — Você acha que Alaina concordaria com esse plano idiota? É claro que não! Ela iria querer que você, o pai de Alexander, o educasse. Cullen teve vontade de dizer a Sara que ela ficava mais bonita ainda quando se agitava. As faces tornavam-se coradas, os olhos brilhavam como a superfície de um lago refletindo a luz do sol e sua postura era a de uma mulher determinada e corajosa. Ela era notável e conseguira, de certa forma, conquistar-lhe o coração sem que ele percebesse. O pensamento assustou-o, e ele gritou: — Você não sabe o que Alaina iria querer para nosso filho. Sara não se abalou. — Toda mulher digna quer proteger o homem a quem ama e o filho. E eu sei que Alaina era digna. — Certamente. É esta a razão de eu querer vingar sua morte. — Ele ergueu a mão, num gesto de impaciência. — Nem mais uma palavra. Já decidi o que fazer e não voltarei atrás. Não falaremos mais no assunto. — É o que veremos — Sara rebateu, fustigando o cavalo. Cullen seguiu-a, mas, por segurança, manteve entre eles uma distância razoável. Não queria discutir com ela. Eles tinham pontos de vista diferentes e nunca chegariam a um acordo. Ele iria fazer o que devia ser feito, ela gostasse ou não. Entretanto, não podia negar que o fato de ela mostrar-se preocupada sensibilizou-o. Levou-o também a refletir que Sara gostava muito dele, só não queria admitir. E, se relutava em consumar o casamento, era porque a intimidade criaria entre eles um forte vínculo afetivo, tornando a separação bem mais difícil. Mas ele não se chamaria Cullen Longton se não tentasse vencer a resistência dela! O restante da viagem foi feito em silêncio. Cada um mergulhou nos próprios pensamentos, opiniões e planos. Ficaram muito surpresos quando avistaram uma Projeto Revisoras

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linda casa no alto de uma colina, cercada de campos arados, prontos para o plantio. Tocaram os cavalos mais depressa e viram um garotinho andando na frente da casa, sem muita firmeza. Uma mulher o acompanhava, pronta para pegá-lo, se fosse preciso, para evitar um tombo. A mulher pegou a criança depressa assim que viu o casal que se aproximava a cavalo. Logo reconheceu Sara, que acenava com entusiasmo. Acenou-lhe de volta e depois ergueu o bracinho da criança para dar as boas-vindas aos visitantes. Sara mal refreou o animal, escorregou da sela e correu para abraçar a irmã e o garotinho. Cullen já esperava que houvesse uma torrente de lágrimas quando as irmãs se encontrassem. O que o surpreendeu foi a própria reação ao ver o filho. Sentiu um nó na garganta e um tremor de emoção. Alexander era uma cópia do pai em miniatura; olhos, nariz e aquele queixo determinado. Aquele era, sem dúvida, seu filho, e ele desejou ter Alaina ali, naquele momento, para agradecer-lhe por ter dado a ele uma criança tão linda. Assim que viu-o desmontar, Alexander mexeu-se, impaciente, nos braços de Teresa. Ela colocou-o no chão e o garotinho caminhou ao encontro de Cullen, com seu andar vacilante. Parou diante dele, inclinou a cabeça para trás, ergueu os bracinhos rechonchudos e balbuciou: — Pa... Lágrimas rolaram pelas faces de Sara ao observar Cullen pegar o filho e erguêlo bem alto. O garotinho riu e pôs o dedinho nos dois lados do rosto do pai. O contentamento de Cullen era indisfarçável. Ele sorria de orelha a orelha e os olhos brilhavam. Sara já o conhecia bem e pôde perceber como ele estava aliviado. Sem dúvida, ele esperara por aquele momento desde que tinham se conhecido na abadia. Ter nos braços aquele bocado de felicidade era o cumprimento da promessa feita a Alaina e a razão de ele continuar vivo depois de ter perdido a mulher que amava. — Dê-lhe um beijo, Alexander — Teresa gritou para o garotinho. Alexander abriu a boca e deu um beijo molhado no rosto do pai. Cullen sorriu e devolveu o beijo, mas apenas tocou os lábios na bochecha rechonchuda do filho. — Alexander não nega que é filho dele — Teresa comentou. — Mas o garoto tem a sua determinação e teimosia, Sara. Sara enxugou as lágrimas e sorriu, desejando ser mesmo a mãe de Alexander, como Teresa acreditava que ela fosse. Como seria maravilhoso se ela, Cullen e Alexander formassem verdadeiramente uma família. Cullen juntou-se a Teresa e a Sara, tendo o filho seguro nos braços. Alexander brincava com o xale que o pai tinha atravessado sobre o peito e repetia a todo

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instante: "pa!". — "Pa" foi a primeira sílaba que Alexander aprendeu, e ele a repete cheio de orgulho — Teresa explicou. — Parece que ele a aprendeu na hora exata. Embora Teresa tivesse reconhecido Cullen como pai de Alexander assim que o vira, Sara fez as apresentações. — Teresa, meu marido, Cullen Longton. Cullen, minha irmã, Teresa. Cullen estendeu a mão, que Teresa segurou, sorrindo. — É um prazer conhecer o marido de minha irmã. — Sinto-me honrado de ser o marido de Sara e lhe agradeço, Teresa, por cuidar do nosso filho. Tendo apertado a mão de Teresa, Cullen passou o braço ao redor da cintura de Sara, ainda segurando a criança no outro braço. Alexander inclinou-se e deu um beijo molhado no rosto de Sara, deixando-a emocionada. Seguindo o exemplo do filho, Cullen também a beijou, e ela quase se debulhou em lágrimas novamente. — Muito obrigado — ele murmurou. O modo como as palavras foram ditas tiveram para Sara um significado e uma força além de um simples agradecimento. Elas traduziam a emoção e a felicidade que ele estava sentindo ao receber do filho aqueles beijos molhados, ao segurar nos braços aquele pequenino ser que ele já amava tanto. — Tudo valeu a pena — ela respondeu, tendo compreendido o que ele quisera expressar. Teresa sorriu. — Agora ela pode dizer isso serenamente porque a dor não é mais do que uma pálida lembrança. Cullen apertou Sara junto do peito. — Ela é uma mulher corajosa; orgulho-me dela. — Querida irmã, seu marido é um homem bom — disse Teresa. — Muito bom — Sara concordou, sentindo o coração apertado. Como desejava que aquilo tudo fosse real! — Está um lindo dia. Por que você e seu marido não levam Alexander para um passeio? Vocês podem chegar até o riacho, jogar pedras na água, rir... — Teresa sugeriu. — Vou pôr a mesa aqui fora. Shamus logo chegará para o almoço. Depois teremos tempo de conversar para pôr as notícias em dia. Sara hesitou. Fazia dois anos que não via a irmã e queria passar mais tempo com ela. Teresa percebeu sua indecisão e insistiu: — Vá. Acompanhe seu marido e seu filho. Alexander precisa conhecer o pai e Projeto Revisoras

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a mãe. Cullen e Sara caminharam pela relva na direção indicada por Teresa. Alexander sorria, balbuciava "pa... pa..." e se agitava nos braços do pai. — Sua irmã é muito compreensiva — Cullen observou. — Agora entendo por que você entregou meu filho aos cuidados dela. — Ela fará o possível para Alexander não estranhar quando você levá-lo embora. Afinal, Teresa e Shamus são os pais que ele conheceu até agora. Sara sorriu para o garotinho. Ele era uma criança adorável, a imagem do pai. Tinha os mesmos cabelos castanhos; Teresa os havia trançado para evitar que caíssem em seu rosto. Ele usava uma roupinha azul-clara, um suéter azul-escuro e estava descalço. — Este garoto é forte. Veja como ele segura o plaid — Cullen comentou. — É como o pai. Forte e determinado. Alexander começou a empurrar o peito do pai com o dedinho enquanto repetia, como se cantarolasse: "pa, pa, pa". — Mal posso acreditar que estou carregando meu filho. Tenho medo de deixálo escapar dos meus braços. — Para ele o lugar mais seguro é a casa de Teresa. — Eu sei, mas... — Você não quer separar-se dele, agora que o encontrou — Sara concluiu, sabendo em que ele estava pensando. — Posso imaginar o que está sentindo. — Certo. Quero ficar com meu filho. Para sempre. — Você não precisa mais separar-se dele. Demorou tanto a encontrá-lo. — Pa! Pa! —Alexander gritou, com a mãozinha apontada para o riacho, e depois bateu no peito do pai. Cullen ergueu-o bem alto e colocou-o no chão, provocando gostosas risadas no garoto, que imediatamente começou a procurar pedrinhas na areia. Sara juntou-se a ele na procura e seguiu-o até a beira do riacho. Ele jogou uma pedrinha na água, bateu palmas e gritou de alegria quando ouviu o barulhinho da pedra caindo na água, provocando borrifos. Depois estendeu a mão para Sara, pedindo outra pedra. Ela sentou-se perto dele. Cullen fez o mesmo. Mostrou para Alexander um punhado de pedras e os dois se divertiram, atirando-as na água. Sara encantou-se com a cena e descobriu que estava apaixonada pelo pai e pelo filho dele. O bom senso levou-a a refletir que não podia apaixonar-se por quem mal conhecia. Não funcionou. O cérebro não mandava nas coisas do coração. E seu Projeto Revisoras

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coração era todo daqueles dois. Na verdade, apaixonara-se por Alexander no instante em que o carregara nos braços e lutara para salvar-lhe a vida. Ele era um precioso e pequenino embrulho, indefeso, dependendo somente dela para continuar naquele mundo novo e desconhecido. Era natural que ficasse perdida de amor pelo bebê, por quem se tornara responsável. Com o pai, a história tinha sido diferente. Não se apaixonara por ele à primeira vista. O amor desenvolvera-se aos poucos, brotara da admiração e do respeito que sentira por ele. Havia encontrado nele o que vinha procurando: um homem digno, que merecesse ser amado. Ela riu das gracinhas de Alexander e de si mesma. Que tolice pensar em apaixonar-se por Cullen, sabendo que não havia chances de ficarem juntos. Tampouco havia lugar para o amor na vida e no coração dele. Devia contentar-se com o que ele tinha a lhe oferecer: amizade e gratidão. Amizade e gratidão. Alexander atirou-se no colo dela e deu um grito agudo. Ela abraçou-o, beijouo, e ele aninhou-se em seu peito. — Ele está cansado — Sara afirmou, mais por instinto do que por experiência. Ajeitou o garotinho nos braços e balançou-o suavemente. Os olhos dele fecharam-se e em segundos ele estava adormecido. Cullen passou a mão na testa do filho. — Sou muito grato a você. Devo-lhe muito. — Não me deve nada. Fiz o que achei certo. — Não. A maioria das pessoas acharia loucura correr tantos riscos. Além disso, quem se preocuparia em salvar um bebê? Sara abraçou Alexander. — Uma criança é uma dádiva preciosa de Deus e não pode ser menosprezada, muito menos descartada a bel-prazer. Uma criança deve ser protegida a todo custo. — Estou feliz por você pensar assim, por não medir esforços para fazer o que é certo. — Eu sabia que você me compreenderia. — Seria impossível não compreendê-la. Você é admirável. Uma jóia rara, Sara Longton. O coração de Sara deu um salto ao ouvir Cullen enfatizar o sobrenome de casada. Ela nunca havia pensado em si mesma como Sara Longton. Não era mais uma McHern. Pertencia a Cullen, e ele a ela... Por pouco tempo. O pensamento arrefeceu-lhe o entusiasmo de segundos atrás. Porém, não iria perder a oportunidade de alegrar-se com seus dois amores. Seria tolice desperdiçar Projeto Revisoras

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um tempo precioso sentindo pena de si mesma. Cullen esticou as pernas e suspirou. — Não me lembro de haver sentido este tipo de contentamento. Sara exultou ao ouvir isso. Também sentia uma felicidade imensa por gozar aquela paz, em companhia de Cullen e de Alexander. Era como se o sonho longamente acalentado, de estar casada e feliz com sua família, se tivesse tornado realidade. — É muito bom mesmo estar aqui — ela concordou. — É como se uma vida nova estivesse começando, Como gostaria que isso fosse verdade, Sara pensou. Uma vida nova para eles três. Entretanto, seria uma vida nova para os dois: pai e filho, ela disse a si mesma, e teria de aceitar essa realidade. — Alexander apegou-se a você imediatamente — comentou Cullen, observando com ternura o filho adormecido. — Ele é um garoto afetuoso. — Talvez ele se lembre de você e do que fez por ele. — Não é possível. — Não podemos saber. Penso muitas vezes que o instinto é mais forte do que imaginamos. O instinto me diz que você será uma boa mãe. — Eu gostaria de ser boa mãe. Cullen tocou-a delicadamente no rosto. — Será. Tenho certeza disso. Sara gostava dos agrados de Cullen, especialmente daqueles toques suaves, simples. Eles faziam-na sentir-se vibrante, despertavam seus sentidos, acendiam-lhe a paixão. Ela sentia-se mulher, uma mulher desejável. — Antes de partir, vou deixá-la protegida e bem cuidada. O entusiasmo de Sara desapareceu. O coração sofreu um baque. Não queria pensar na partida do marido nem imaginar que nunca mais teria Alexander nos braços. O vazio que sentiu não se comparava a nada que tivesse experimentado antes. Era um sentimento de perda, de nostalgia e saudade que chegava a doer. Separar-se dos dois iria ser difícil e doloroso demais. Mas ela não queria pensar nisso. De que adiantava sofrer por antecipação? —Acho melhor levarmos Alexander de volta para ele dormir confortavelmente no berço — ela sugeriu. Cullen concordou e ficou de pé. Curvando-se, deu um beijo afetuoso em Sara.

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— Obrigado, mais uma vez, por salvar meu filho. Ela lutou para conter as lágrimas. Cullen ergueu-a facilmente sem perturbar o garoto adormecido e, juntos, caminharam devagar para a casa , de Teresa e Shamus. A mesa estava posta sob os ramos de um grande pinheiro. Uma brisa agradável agitava as pontas da toalha de linho azul-clara. Teresa havia terminado de colocar os talheres, os pratos de estanho, os canecos e as taças quando Shamus chegou e abraçou a esposa. A cena encantou Sara, que se aproximava da casa com Alexander no colo e Cullen a seu lado. Uma cena perfeita que ela invejou. Apressou o passo, disposta a aproveitar o dia sem pensar no amanhã. Teresa acenou para a irmã e separou-se do marido. Vendo Alexander adormecido, entrou na casa com Sara e foram ambas colocar o garotinho no berço. Shamus estendeu a mão para Cullen. — Sou Shamus. — Sou Cullen. Minutos depois, quando as duas irmãs apareceram na varanda, viram Shamus e Cullen tomando cerveja, conversando e rindo, e reuniram-se a eles. — Você acabou de conhecer o grande amor da vida de minha irmã — Sara declarou. O cunhado abraçou-a com força. Sara o amava como se fosse um irmão. Shamus não era muito alto, mas era forte, musculoso e inteligente. Também era bonito. Tinha cabelos e olhos escuros e um sorriso cativante. Porém o que mais a encantava era o fato de ele tratar a esposa como se fosse uma princesa. Fazia tudo por ela, até mesmo criava o filho da cunhada como se fosse dele. Shamus chegou por trás de Teresa e enlaçou-a pela cintura. — Você tem razão, Sara. Sou o amor da vida de Teresa. — E eu? O que sou para você? — Teresa quis saber. — Você... — Shamus esfregou o nariz no pescoço dela. — Você é o meu mundo. Cullen ergueu o caneco de cerveja, saudando-os. — Vocês formam um casal perfeito. Sara pegou uma taça, serviu-se de vinho e também brindou: — Ao casal perfeito. — Quero expressar meu agradecimento, com algum atraso, a esse casal tão generoso — Cullen acrescentou. Projeto Revisoras

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— Não precisa nos agradecer — tornou Shamus. — E agora vamos almoçar. Estou faminto. Durante a refeição, eles conversaram alegremente. Uma hora depois, quando ouviram o choro de Alexander, Teresa e Sara foram atendê-lo, apressadas. — Por que você não troca a fralda de seu filho? — Teresa perguntou. Sara imediatamente aceitou a tarefa. — Eu sei que alguma coisa não está bem — Teresa começou, deitando Alexander na toalha que estendera sobre a cama. — Não precisa me contar toda a história se não quiser. Mas vejo que está preocupada. — Você sempre foi muito perceptiva. — Somente no que diz respeito a você. Sara desejava abrir-se com a irmã, mas tinha medo de colocá-la em perigo. Teresa colocou a mão no ombro de Sara. — Conte-me, Sara. Nunca houve segredos entre nós porque confiávamos uma na outra. — Mas nossos segredos não poderiam nos causar dano nenhum. Teresa sorriu. — Agora você aguçou a minha curiosidade. Por favor, conte-me o que a preocupa. Sara não precisou de mais estímulo para repartir com a irmã o peso que carregava. Deu um profundo suspiro e começou a contar tudo o que acontecera desde que tinha salvado Alexander até o casamento com Cullen. Falou também da inevitável partida dele com o filho para a América. Quando terminou, pediu: — Por favor, não conte nada a Shamus. Vocês estarão mais seguros se ele ignorar essa história. Teresa ficou em silêncio, pensativa. Sara receou que ela não quisesse esconder do marido o que acabara de saber. Entretanto, a resposta da irmã surpreendeu-a. — Você não tem escolha, querida. Embarque para a América com Cullen e o filho dele. Cullen olhou enternecido para o filho, que dormia no berço. Era um lindo garoto e, quando sorria, lembrava muito Alaina. A não ser isso, ninguém poderia negar que aquele garotinho era filho dele. Não fosse a coragem de Sara, ele o teria perdido. Alexander era o legado de seu amor por Alaina. Ela continuaria viva no filho. Curvando-se sobre o berço, Cullen deu um beijo de despedida no garoto. Doía-lhe separar-se dele; queria ficar ali olhando-o, ouvindo sua respiração,

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esperando que ele acordasse ansioso pelo colo do pai. Infelizmente, ele e Sara tinham de voltar para o castelo. — Alexander está muito bem conosco. Vocês o levarão assim que estiverem prontos para revelar que ele é seu filho e de Sara — disse Shamus a Cullen assim que ele saiu do quarto. — Agradeço tudo o que vocês fizeram. Mas eu quero cair nas boas graças do meu sogro antes de lhe contar sobre Alexander. Espero poder ver meu filho muitas vezes. Era mentira. Ele não pretendia contar a ninguém sobre Alexander. Simplesmente desapareceria com o garoto. O que o incomodava era deixar Sara para trás, tendo de agüentar as conseqüências. Mas ela já lhe dissera repetidas vezes que teria independência e não seria obrigada a fazer um casamento indesejado. — Venham nos visitar sempre que quiserem, pois serão muito bem-vindos — Shamus enfatizou. Feitas as despedidas, Cullen e Sara puseram-se na estrada. Cavalgaram bem depressa, pois queriam chegar ao castelo antes do anoitecer. Durante a viagem não foi possível conversarem, o que alegrou Cullen. Não podia pensar em mais nada, pois estava concentrado no filho e. na tormenta que estava sendo ter de ficar longe dele. Sabia que Alexander estava sendo muito bem cuidado e que não poderia estar em lugar mais seguro do que na casa de Shamus e Teresa. No entanto, queria tê-lo nos braços naquele momento, a todo instante e para sempre. Já bastava o que tinha sofrido quando perdera Alaina. Não podia perder o filho. Viajando a galope eles chegaram à vila ao escurecer. McHern os esperava. — Bem, minha filha, temos de conversar. Agora. Era uma ordem. McHern apenas olhou para alguns dos homens, e eles se levantaram da mesa. Cullen segurou com firmeza a mão de Sara. — Esta noite, não, sr. McHern. Sara está cansada. — Esperei por vocês durante muito tempo — McHern reclamou e dirigiu à filha um olhar dardejante. — Por que você demorou tanto na casa de Teresa, sabendo que eu precisava falar com você? — Com todo o respeito, sr. McHern, Sara é minha esposa e deve obediência a mim. McHern deu um murro na mesa. — Tudo bem, meu filho, gosto de você. — Ótimo. O senhor conversará com minha esposa amanhã... — A hora do desjejum. — Sara vai dormir até tarde, pois está cansada. Será melhor que conversem Projeto Revisoras

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depois da nossa caçada. Boa noite. — Então, ergueu a esposa nos braços e carregou-a para fora do salão, ouvindo a sonora risada de McHern. — Pode me pôr no chão — Sara pediu quando chegaram ao corredor. — Não quero. Está tão bom ter você nos braços. — Sou muito pesada para você subir a escada me carregando. Cullen riu. — Você fere meu orgulho. — Sou alta e grande para uma mulher. — Querida, você não é grande. E perfeita. — Cullen beijou-a no rosto. — Se eu não o conhecesse, diria que você está tentando me agradar. Ele empurrou a porta do quarto com o ombro e colocou-a de pé. — Ainda bem que você me conhece e sabe que sou um homem de palavra — disse Cullen e inclinou-se para beijá-la. Sara pôs as mãos no peito dele. — Só um beijo, nada mais — ele pediu. — Não é uma boa idéia. — Por que não? Ela foi até a lareira, que ficava longe da cama. — Até agora você foi meu defensor. Nunca ninguém fez por mim o que você tem feito. — Ela inspirou fundo. — Você me tenta... — Isso é ruim? — Cullen perguntou, aproximando-se da esposa com cautela, receando que ela fugisse dele. — Na situação presente, sim. Não posso me apaixonar. Você, melhor do que ninguém, deveria entender isso. Cullen refletiu um instante antes de responder: — Você não pode estar querendo dizer que me ama! — Não posso afirmar que o amo. Mas será muito fácil eu me apaixonar por você e por seu filho. Eu o conheço há pouco tempo e, no entanto, sinto como se fôssemos velhos conhecidos. Parece que você tem sido parte da minha vida. Cullen teve de admitir que sentia a mesma coisa. Só não entendia como era possível amar uma mulher que conhecera havia apenas oito dias, uma vez que ainda amava Alaina com todas as forças do coração. Aquilo não fazia sentido. — Você deve me achar ridícula. Eu mesma tento me convencer de que me apeguei a você por estar sozinha. Mas tudo ficará bem quando você for embora. Esta

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loucura temporária irá passar. — Loucura? Sara encolheu os ombros. —É melhor eu me considerar temporariamente louca do que temporariamente apaixonada. — Paixão ou amor é sinônimo de loucura, mas não pense que são emoções temporárias. — Não? Achei que a minha loucura iria passar. — Enganou-se. Nunca termina. O amor continua a nos perseguir como uma loucura incessante. — Não quero isso para mim. Recuso-me a... — Amar? — Cullen sussurrou ao ouvido dela. — Sim. — Não se pode recusar o amor. Ele acontece sem o nosso consentimento e chega sem ser convidado. — Saberei livrar-me dele. — Tolice. Ele retornará com força e a lançará nas profundezas da sua loucura. Cullen estava tão próximo de Sara que percebeu o tremor dos lábios dela. Desejou beijá-los, mas se conteve. Queria que ela lhe oferecesse os lábios. — Não posso amar você. Não posso. Não posso. Não posso... A litania cessou, e ela roçou os lábios nos dele. Cullen permitiu que ela o beijasse timidamente, de leve, com cuidado. Mas antes que ela se arrependesse do que estava fazendo, assumiu o comando. Já havia conseguido o que queria. Sara tinha tomado a iniciativa de beijá-lo. Enlaçou-a pela cintura e inseriu com gentileza a língua entre os lábios dela, dando início a uma dança sensual e febril. Era um beijo nascido de um anseio desesperado, de um desejo ignorado por um tempo longo demais, de uma paixão não totalmente compreendida, mas impossível de ser contestada. Havia em Sara o mesmo desespero. Ela enterrou as unhas nos braços musculosos do marido, sem pensar em mais nada, a não ser na emoção daquele momento. Eles renderam-se à magia do beijo. Para Cullen, no entanto, era estranho desejá-la com tanta intensidade. No fundo, suspeitava que sentia por ela mais do que desejo físico. Senão, como explicar as emoções que ela despertava nele? Não podia trair Alaina, entretanto, Sara preenchia-lhe a alma. Projeto Revisoras

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Não sabia como lidar com essa dualidade, mas no momento isso não importava. Sabia apenas que queria estar ali, abraçando e beijando a esposa e, por Deus! estava louco para fazer amor com ela. De repente, Cullen interrompeu o beijo e encostou a testa na dela. — Quero você — declarou, tendo recuperado o fôlego. Não houve resposta. Ele afastou a cabeça para olhar bem a expressão no rosto de Sara. O brilho extraordinário nos olhos azul-esverdeados dizia que o desejo lutava contra sua natureza pragmática. Ele teve medo de que ela seguisse a cabeça e não o coração. — Não negue este prazer a si mesma, Sara. Ela separou-se dele. — Estarei negando a mim mesma instantes de prazer ou evitando um futuro sofrimento? — Isso você só descobrirá se concordar em fazer amor com o homem com quem se casou e que a deseja ardentemente. — Um homem que não me ama e nunca amará. Um homem que só amará Alaina. — Quanto a isso, nunca a enganei. — Sim, você sempre foi honesto e não tem culpa de não me amar. Reconheço que eu tenho sido tola por esperar receber o que você não pode me dar. Esta é a parte mais triste de nossa história. — Lembre-se de que tudo começou como um jogo de desafios. Se isso a faz sentir-se melhor, saiba que me rendo à sua vontade. Rendo-me sem reservas e com o maior prazer. — Isto não é mais um jogo. E você não se renderia verdadeiramente. Quero amar um homem que se entregue a mim por inteiro, como eu me entregarei a ele. Não quero que nada se interponha entre nós. Quero conhecer o amor, sentir o gosto do amor, viver o amor. Não aceitarei nada menos do que isso. Cullen permaneceu em silêncio. Entendia Sara. Ele também desejara a mesma coisa, mas com Alaina. Não tendo sido possível conseguir isso com ela, não desejava viver esse tipo de emoção tão intensa com mais ninguém. Então, como explicar a vontade de estar com Sara, de tocá-la, de beijá-la, de unir-se a ela? Não se tratava de desejo apenas, era uma necessidade de protegê-la, dividir tudo com ela, rir com ela, de confortá-la. Irritado, disse asperamente: — Você aceitou casar comigo. — Nosso casamento foi um meio para eu alcançar um fim — Sara corrigiu-o. — Não inteiramente. Cullen aproximou-se, colocando-se diante dela. Não havia outro lugar para o qual ela pudesse ir, a não ser na direção da cama. Projeto Revisoras

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— Inteiramente, sim — ela o contradisse e tentou ir para o outro lado do quarto. Ele puxou-a e abraçou-a. — O que faço com você, Sara Longton? Você é muito teimosa. Ela pôs a mão no rosto dele. — Você também é. Somos teimosos. — Discordo — ele murmurou e beijou-a com carinho. — Mas é verdade — ela afirmou, tentando se afastar dele. — Fique comigo. Eu quero você. — Não, você... — Sara, não venha me dizer o que eu penso — ele interrompeu-a bruscamente. — Você não tem idéia do que estou sentindo neste momento. — Então me diga. Quero saber. — Estou queimando de desejo. É como uma dor que cresta, que não posso extinguir e que aumenta quando você está perto de mim. — Ele esfregou os lábios nos dela. — Os beijos amenizam essa dor por um momento, depois o calor aumenta muito, e eu quero ter você inteirinha. Só você pode saciar meu desejo. Só você. — Oh, Cullen, se eu pudesse... — Ela suspirou. — Pode, sim. — Beijou-a novamente e fundiram-se um no outro, apreciando aquele momento. Cullen moveu-se com Sara até a cama, onde se deitaram, com os lábios colados, ambos arfantes. Ele rolou sobre ela para deixá-la perceber o quanto era intenso o desejo que o consumia. Ouvindo-a dar gemidos sensuais, ficou ainda mais excitado. Queria senti-la nua sob seu corpo e perder-se dentro dela, queria, com beijos ávidos, capturar-lhe os gemidos de prazer, queria experimentar a delícia que seria fazer amor com ela. — Quero vê-la nua — ele sussurrou, quase sem ar por causa dos beijos ardentes. — Quero tocar todo o seu corpo. Apesar de ansioso para ajudá-la a despir-se, ele aguardou que a respiração dela se normalizasse. Mas ela colocou a mão no peito dele e empurrou-o. — Sara! Não faça isto! — Cullen pediu, relutando em deixá-la levantar-se — Você vai se arrepender. — Já me arrependi — ela respondeu.

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CAPÍTULO VI

Sara levantou-se, esperou que o pai e o marido saíssem para caçar, e só então deixou o castelo. Não tinha conversado com Cullen porque, quando ele despertara, ela fingira estar dormindo. Não queria vê-lo. Havia passado horas acordada, bem enrolada nas cobertas, o corpo palpitante, ansiando pelas carícias do marido. Não sabia como conseguira reunir força e determinação para afastar-se dele, se ambos estavam loucos de desejo. Ela suspirou. Havia tomado a decisão certa. Tinha sido melhor assim. Estava ficando cada vez mais acostumada com a presença do marido e muito apegada a ele. Como iria sentir-se quando ele a deixasse, dentro de um ou dois meses? Como conseguiria dizer-lhe adeus, depois de dormir com ele todas as noites, de acordar junto dele todas as manhãs, de rir com ele, de beijá-lo, de andarem de mãos dadas? Se essas lembranças já seriam dolorosas, como suportaria guardar lembranças mais íntimas? Sara desmontou, deixou o cavalo no estábulo e caminhou para a casa de Teresa. Chutou uma pedra que havia no caminho para desafogar a raiva. Considerara genial a idéia de propor casamento a Cullen para sair do exílio representado pela abadia. Ele tinha sido a resposta às suas preces e chegara no último instante para salvá-la. Agora, no entanto, sentia-se mais presa do que nunca, numa armadilha montada por ela mesma. — Idiota — murmurou. — Você ou Cullen? — Teresa perguntou. Sara olhou para o lado e viu a irmã sentada em um cobertor, à sombra de um grande pinheiro. Teresa colocou um dedo sobre o lábio pedindo-lhe silêncio e indicou Alexander adormecido junto dela. — A soneca da manhã — ela explicou em voz baixa quando Sara se aproximou. Sentando-se ao lado da irmã, Sara perguntou, também abaixando a voz: — Quanto tempo levou para você descobrir que estava apaixonada por Shamus?

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— Apaixonei-me por ele quando o vi pela primeira vez. — E o amor pode acontecer assim tão depressa? — Somente um amor forte, verdadeiro e inabalável. — Como é possível saber se o amor é verdadeiro e inabalável? — Só o tempo é capaz de dizer. — Então temos de nos arriscar? — Se você não correr riscos, talvez nunca encontre o amor. — O amor me confunde completamente. Teresa riu. — Nesse caso, você já está apaixonada. Sara olhou para Alexander, adormecido. — Seria muito fácil amar Alexander e o pai dele. — Não seria mais correto você dizer que já ama pai e filho? Sara contraiu-se. — É assim tão óbvio? — Achei que você e Cullen estavam apaixonados assim que os vi. Fiquei muito surpresa quando me contou a verdade sobre a situação. — O amor que você vê em Cullen não é por mim. É pela falecida mãe de Alexander. É um amor imortal. Ele nunca se apaixonará por nenhuma outra mulher. Você amaria outro homem se perdesse Shamus? Teresa sentiu um calafrio e esfregou os braços. — Só de pensar em perder meu marido sinto gelar-me os ossos. Eu não saberia viver sem ele. Amo-o demais. Acho que as perguntas deviam ser: Shamus gostaria que eu me casasse novamente, se eu ficasse viúva? Ele gostaria de se casar novamente, se ficasse viúvo? — Então, responda: Você ficaria contente se Shamus se casasse de novo? — Admito que dói pensar no homem que eu amo casado com outra mulher. Mas acho muito mais triste pensar nele sozinho pelo resto da vida. Quem ama não quer o sofrimento da pessoa amada, quer vê-la feliz. Esse é o verdadeiro amor. — Seria tão bom se Cullen e eu pudéssemos ficar mais tempo juntos antes de nos separarmos. Quem sabe o amor sorriria para nós. — Você não pensou nem um instante sequer no que eu lhe disse sobre ir para a América com seu marido e Alexander? — Preferi não pensar nisso. Cullen nunca falou sobre o assunto. Não serei eu quem irá se oferecer para embarcar com ele e o filho.

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— Está sendo obstinada. Converse com ele. — Cullen repete o tempo todo que antes de partir quer me deixar protegida. Quaisquer que sejam seus planos para viver na América, eu não faço parte deles. Lembre-se de que nosso casamento foi um simples meio de alcançarmos determinado objetivo. Conseguimos o que queríamos. Fim. — Isso foi antes de vocês começarem a se apaixonar. — Mal nos conhecemos. — Já deixamos claro que o tempo não conta quando se trata do amor. De mais a mais, você e seu marido ficarão ainda alguns dias juntos. Empreguem bem esse tempo. Usem-no com sabedoria e a seu favor. Não sejam obstinados. — Cullen está louco para consumar o casamento — Sara desabafou, sentindose aliviada. — Vocês são casados. — Teresa deu uma risadinha. — Casamento inclui intimidade. Você e seu marido têm de saber se ambos são compatíveis. Shamus e eu somos perfeitamente compatíveis. — Compatíveis?! — Vocês devem descobrir se irão se dar bem na cama. Se o relacionamento íntimo será harmonioso e agradável. Coisas assim. — Então sexo é uma coisa boa? — Sara indagou, apreensiva. — Com o homem certo é maravilhoso, sublime. — Não sei... Tenho medo de me envolver e as lembranças me torturarem, me perseguirem. — Boas lembranças ou más? Boas lembranças só nos fazem bem. É muito triste não ter nada para recordar. — Teresa segurou a mão da irmã. — Nestes poucos dias, você precisa descobrir muitas coisas e pensar seriamente em ir para a América com seu marido, quer ele queira ou não. Receio que você corra perigo quando a verdade for descoberta. — Cullen pretende eliminar tudo o que possa representar uma ameaça à minha segurança. — Sempre haverá alguém procurando vingar-se. Quando souberem o que você fez, não estará mais segura aqui na Escócia. Embora a idéia de não vê-la mais me corte o coração, pensar que poderão matá-la é muito mais doloroso. Na América, pelo menos, você terá chances e, quem sabe... — Teresa encolheu os ombros. — Quem sabe Shamus e eu iremos visitá-los um dia. Alexander mexeu-se. — Ele vai acordar faminto. Vou deixá-la dando comida para ele enquanto preparo alguma coisa para nós.

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— Teresa apertou a mão de Sara. — Pense no que eu disse. — Vou pensar. Você sabe que é para mim uma grande alegria ter uma irmã como você? Teresa riu. — Sorte sua ter uma irmã como eu. Nestes anos todos a livrei de tantos problemas que perdi a conta. — Pa... pa! — Alexander exclamou, interrompendo a conversa. Nas horas seguintes, Sara e Teresa conversaram e brincaram com o garotinho. Ele estava ficando cada vez mais apegado a Sara, conquistando-lhe de vez o coração. As duas levaram-no até o riacho para atirar pedras na água, molhar os pés e brincar na grama. Ele era, realmente, uma criança feliz, calma e risonha. — Tenho de voltar para o castelo — disse Sara, pesarosa. — Papai quer conversar comigo, e Cullen quer ver Alexander novamente. — Então por que você não fica esperando por seu marido? Papai tem de entender que você agora está casada e deve dar atenção a Cullen em primeiro lugar. — Papai não pensa assim. Ele me considera uma pedra no seu sapato e insiste em me fazer lembrar isso. — Isso acontece porque você e ele são muito parecidos. Tenho certeza de que ele a admira e só não quer demonstrar. — Pelo menos, tem demonstrado que gosta de Cullen. Imagino qual será a reação dele quando meu marido me abandonar. — Talvez não seja o caso. — Teresa viu Alexander bocejar e pegou-o no colo. — Hora do cochilo. — Você se importa se eu não acompanhá-la? Quero ficar aqui, sozinha, mais um pouco. — Fique à vontade. Sara sentou-se na beira do riacho. Tinha passado horas tão agradáveis, livre de preocupações e dos pensamentos que a perseguiam com freqüência. Entretanto, eles estavam de volta e, embora preferisse ignorá-los, não tinha escolha senão enfrentálos. Ainda não entendia como um plano simples tornara-se tão complicado, mas, ao firmar o acordo com Cullen, não imaginara que o amor iria entrar na história. Dividir com a irmã sua inquietação havia ajudado muito, mas agora teria de fazer escolhas, e ainda não se sentia preparada para isso. Outra coisa que não compreendia era sua indecisão. Problemas de ordem prática requeriam soluções práticas, pelo menos era assim que ela pensava. Costumava agir diretamente e fazer o que devia ser feito. Com objetividade. No Projeto Revisoras

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entanto, a presente situação, embora lhe parecesse de ordem prática, a estava deixando confusa e indecisa. Isto porque, era evidente, o coração estava interferindo. Ela sentiu um cheiro familiar e levantou-se depressa, certa de que a pessoa que se aproximava era Harken McWilliams. — O que você quer, Harken? Ele sorriu, o que foi um triste erro, uma vez que Sara detestava aquele sorriso que exibia os dentes amarelos e estragados. — Fiquei sabendo que você voltou e vim dar-lhe as boas-vindas — Harken respondeu, aproximando-se dela. Instintivamente, Sara recuou. O fedor da camisa manchada de suor e do plaid imundo causou-lhe náuseas. — Estou casada, Harken. — Eu sei. Sara não confiava naquele homem. O brilho nos olhos escuros não era sinal de boa coisa. Entretanto, ele não parecia zangado. Mesmo sabendo que Harken costumava se exaltar, principalmente quando as coisas não eram como ele queria que fossem, Sara não se sentiu ameaçada. Já o havia enfrentado antes e o enfrentaria novamente, se necessário. Porém, preferia não tocar nele. — Feliz no casamento? — ele indagou. A pergunta deixou-a alerta. — Por que está me perguntando isso? — Ouvi alguma coisa e pus-me a pensar... — Ele sacudiu os ombros e ficou brincando com um graveto. O que ele poderia ter ouvido? Ela e Cullen só conversavam sobre a situação deles quando estavam sozinhos. — Seu pai queria que você fizesse um bom casamento e conseguiu isso. E deve ter sido difícil arranjar um homem disposto a casar e permanecer do lado de uma mulher atrevida, impertinente, mandona e feia. Sara deu uma boa risada. — Pelo menos não sou fedorenta. — Você se julga melhor do que eu, não é? Se é tão superior a mim, por que seu pai não conseguiu encontrar um único homem para casar com você? Ninguém a quis, nem mesmo tendo um generoso dote. Só eu fui corajoso para aceitar por esposa uma megera como você. Essas palavras e as lembranças que Sara guardava daquela época machucaram-na. Nunca se sentira tão menosprezada. Mas isso era passado. Agora tinha um bom marido e o pai não podia obrigá-la a se casar com Harken McWilliams.

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— Harken, entenda que eu jamais aceitaria para marido um homem sujo, fedorento e ignorante como você. — Pode zombar de mim à vontade. Mas quero ver você sofrer quando aquele seu marido for embora, deixando-a sozinha, e seu pai descobrir a verdade... — Harken deu um amplo sorriso, o que a fez estremecer. — Seu pai vai obrigá-la a aceitar um novo marido. Finalmente Sara entendeu tudo. — Seu miserável! Você esteve escondido atrás dos arbustos e ouviu a conversa entre mim e Teresa aqui, perto do riacho. — Que diferença faz? — Ele deu de ombros. — Tenho certeza de que seu pai gostará de ouvir o que eu descobri. A não ser... — Ele não acreditará em você. — Acreditará quando seu marido abandoná-la. Sou um homem paciente. Sei esperar. Ele a surpreendera, Sara considerou. Tinha abaixado a guarda e fora apanhada. Nunca imaginou que poderia haver alguém por perto, muito menos Harken. E nunca tinha pensado nele como uma ameaça. Agora ali estava ele, ameaçando estragar seu casamento. Como lidar com um tipo assim? Um tipo assim merecia morrer, pensou. Com ele morto, o problema estaria resolvido. Mas ela só havia matado um homem e tinha sido em legítima defesa. No mesmo instante, ocorreu-lhe que não estava sozinha e não se deixaria amedrontar por um idiota ordinário como Harken McWilliams. Cruzou os braços sobre o peito e sorriu. — Por que não discutimos o assunto com meu marido? Convém ouvirmos o que ele tem a dizer. — Não tenho medo do seu marido — Harken bravateou, mas estremeceu. — Devia ter. Ele não costuma ser gentil com quem ameaça sua esposa. — Falsa esposa — devolveu Harken com sarcasmo. — Que provas você tem do que está dizendo? — Sara questionou, rindo. Ele ergueu o braço, tendo o punho cerrado. — Zombe de mim e irá se arrepender. Sara deu dois passos na direção de Harken, e ele recuou depressa. — Lembra-se do que aconteceu da última vez que você me ameaçou? Ou quer que eu refresque sua memória? — Você tinha sido prometida a mim! Tenho o direito de querer o que é meu — ele argumentou em tom hostil. — Sara é minha esposa! Projeto Revisoras

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Harken ficou mortalmente pálido e seus olhos quase saltaram das órbitas ao ouvir a declaração feita em tom trovejante. Sara sentiu o coração se agitar ao ver o marido. Cullen passou o braço ao redor da cintura dela, dirigiu-lhe um olhar indicando que estava ali para protegê-la e só então se voltou para Harken. — Explique-se. O homenzinho parecia pronto para correr. Tinha perdido toda a valentia. — Sou um homem paciente — disse, olhando para Sara, e saiu correndo. — Qual a razão de tudo isso? — Cullen quis saber. Sara olhou para o marido, tão bonito, limpo, cheiroso e deu um suspiro. Queria abraçá-lo e nunca separar-se dele. Beijou-o, não apaixonadamente, mas com carinho, demonstrando seu reconhecimento. — Nada importante. Vamos ver seu filho — respondeu. Não queria que Cullen percebesse que a ameaça de Harken a deixara preocupada. — Alexander está dormindo. Não vamos a lugar nenhum enquanto você não me disser o que aconteceu aqui. Sara hesitou. Devia contar ao marido ou seria capaz de resolver a situação sozinha? A julgar pelo tremor e pela palidez de Harken ao ver Cullen, ele não se arriscaria a aparecer na frente dela tão cedo. Depois da partida de Cullen, ela saberia cuidar de si mesma. Afinal, sempre resolvera seus problemas sozinha. — Harken está zangado porque perdeu a oportunidade de juntar-se ao clã McHern — ela respondeu sem faltar à verdade. — Antes de partir, cuidarei dele. Pode ter certeza de que ele não a aborrecerá novamente. — Não será necessário. Ele não vai me aborrecer — Sara assegurou, seu tom casual, o coração pesaroso. Eles caminharam para a casa de mãos dadas. O sol brilhava num céu límpido, e o ar, naquele início de primavera, não podia ser mais agradável. Um dia perfeito, um momento perfeito. Ah, se fosse real... Na manhã seguinte, Cullen acordou e virou-se na cama. Estava sozinho. Encostou o rosto no travesseiro e aspirou o aroma impregnado nos tecidos de linho, uma agradável mistura de lavanda e pinho associada ao cheiro incomparável de Sara. Jogou a colcha para o lado e levantou-se, inquieto com o fato de apreciar tanto o perfume de Sara e nem sequer lembrar-se do cheiro de Alaina. Nesse instante, teve consciência de que, a cada dia que passava, a imagem de Alaina tornava-se mais apagada em sua memória. Antes conseguia vê-la claramente, mas agora sua figura aparecia indistinta, como se obscurecida por uma névoa. Projeto Revisoras

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Tudo culpa de Sara. Quando a conhecera, começara a pensar nela. Depois, ela tinha invadido de vez seus pensamentos e seus sentidos. Seria ela que não queria deixá-lo em paz ou ele que não conseguia afastá-la da mente um único segundo? Vestiu-se depressa, prendeu o xale no ombro, calçou os sapatos e pegou o pente da esposa. Ao ver nos dentes os fios ruivos enrolados nos castanhos, imaginou seu corpo entrelaçado ao de Sara. Balançou a cabeça e correu o pente pelos cabelos com impaciência, murmurando pragas. Olhou de relance para a camisola de Sara, que estava dobrada sobre uma cadeira e ia pegá-la, mas parou. — Idiota — resmungou. Virou-se para sair do quarto, mas, não resistindo ao impulso, pegou a camisola e encostou-a no rosto. O cheiro delicioso e tentador o excitou. Ele atirou a peça na cadeira e saiu do quarto irritado. Desejava a esposa loucamente e não conseguia fazer amor com ela. Fracassava de forma lamentável na realização de uma tarefa tão simples. Os pensamentos conflitantes o estavam deixando maluco. A culpa que sentia por trair a memória de Alaina devorava-lhe o coração, enquanto o corpo ardia de desejo por Sara. Ele não tinha idéia de como seria possível acabar com esse tormento. Se pudesse, iria embora com o filho naquele dia mesmo. Contudo, queria ficar mais tempo com a esposa. Essas eram outras reflexões conflitantes, sem o menor sentido. Não fazia nem duas semanas que Sara e ele se conheciam e, no entanto, ele estava agindo e sentindo como se ela tivesse sempre feito parte de sua vida. Quando entrou no salão, viu-a sentada à mesa, muito ereta, enquanto o pai andava de um lado para outro, na frente da lareira, com as mãos cruzadas às costas. McHern era um homem de maneiras rudes, mas Cullen já havia percebido que ele tinha afeição pelas filhas, especialmente por Sara, a mais parecida com ele. Ambos eram determinados e ousados, mas bondosos e honestos. Por isso, ele exigia da filha o que exigia de si mesmo: coragem, força e prontidão para fazer o que fosse necessário. Observando a esposa, Cullen deduziu que ela não estava concordando com o pai. — É uma casa ótima — disse McHern em tom severo. — Mas é perto demais do castelo — Sara argumentou. Quando McHern o viu, parou de andar e sorriu. Cullen logo entendeu que o sogro esperava contar com ele como aliado. Mas ele olhou para Sara querendo assegurar-lhe que a apoiaria sem reservas. Não ficou surpreso ao notar que ela não precisava de apoio. Parecia calma, perfeitamente controlada, senhora de si, enquanto McHern suava. — Cullen, precisamos de sua ajuda — disse McHern, acenando para o genro. — Não precisamos, papai — Sara o contradisse. Cullen aproximou-se da

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esposa, colocou a mão no seu ombro e deu-lhe um beijo no rosto. — Qual é o problema? — Estou oferecendo a Sara e a você uma ótima casa... — Muito perto do castelo — Sara terminou a frase. — Que mal há nisso? — McHern gritou. — Quero privacidade — ela alegou. — Quero a casa e o terreno que ficam entre o castelo e a casa de Teresa. A propriedade que pertenceu a Katie. — É muito longe. E o seu marido? O que ele quer? — O que Sara quiser para mim está perfeito. — Pensei em ter vocês perto de mim — McHern queixou-se. Cullen entendeu claramente o raciocínio de Sara. Sabendo que iria ficar sozinha, não queria ninguém interferindo na sua vida. As palavras do pai, no entanto, sensibilizaram-na. Havia carinho nos seus olhos, bem como nos do pai. — Papai, a casa que o senhor está nos oferecendo é muito pequena — ela explicou. McHern deu um amplo sorriso. — Então vocês querem ter muitos filhos? Sabendo que Sara não queria continuar mentindo para o pai, Cullen respondeu por ela: — Tantos quantos Deus nos conceder. McHern esfregou as mãos. — Eu sabia que você faria o que é certo pelo bem do clã. Orgulho-me de você. Sara sentiu um peso no peito, e seus ombros caíram um pouco. Cullen percebeu que ela estava se sentindo mal por ter de enganar o pai. Mas tendo visto Harken, ele entendeu que aquela mentira era necessária. — Você tem um ótimo marido, Sara. Cuide bem dele — McHern aconselhou. — E eu? — Sara ergueu bem a cabeça. — O senhor não vai dizer a ele para cuidar bem de mim? — Controle-se. Não ponha as garras de fora. Você não quer afugentar um bom marido, não é mesmo? — Eu? Afugentá-lo? — Sara ofendeu-se. — Ele que trate de me fazer feliz ou eu o abandonarei. — Não ameace seu marido, minha filha — McHern advertiu-a. Cullen permaneceu calado, certo de que Sara já estava pondo seu plano em ação. Mas era evidente a mágoa em seus olhos. Ele soube que devia protegê-la. Contornou a mesa e pôs-se na frente de McHern. — Não erga a voz para minha esposa, meu sogro. McHern balançou a cabeça. Projeto Revisoras

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Parecia mais aborrecido do que irritado. — Você precisa ter pulso firme ou ela o dominará. — Sara não fará isso. Eu a amo — Cullen declarou sem a menor hesitação. — Muito bem, meu filho. Mas lembre-se sempre do que eu disse e ficará livre de problemas no futuro. Cullen ouviu o conselho do sogro, mas estava mais atento a Sara, que olhava para ele com expressão de espanto. Não era possível que ela tivesse acreditado naquelas palavras. Ele não havia planejado anunciar que a amava. A seu ver, andar de mãos dadas com ela, beijá-la ocasionalmente quando estivessem na vila, passar o braço ao redor de sua cintura seriam suficientes para dar a impressão de que estavam enamorados. — Sara, sirva o desjejum para seu marido e depois vá com ele conhecer a nova casa. — McHern deu um sorriso de satisfação. — Podem mudar para lá quando quiserem. — Obrigada, papai — Sara agradeceu, não muito à vontade. Era difícil para McHern aceitar a gratidão da filha, e para ela também não era fácil demonstrá-la. Ele apenas deu de ombros e saiu do salão. — Você não deixa seu pai demonstrar que a ama, não? — Cullen observou, sentando-se à mesa do lado de Sara e servindo-se de uma grossa fatia de pão de mel. — E você declara seu amor com a maior facilidade — Sara respondeu em tom cortante. — Faz parte do nosso acordo demonstrar que estamos casados e felizes, não é mesmo? Sara ficou de pé. — Aprecio a honestidade acima de tudo. Não havia necessidade de você dizer uma mentira tão deslavada. Podia ter escolhido melhor as palavras. Ela girou o corpo graciosamente e saiu do salão sem dar a Cullen tempo de piscar. Essa mulher podia ser às vezes irritante, muitas vezes impossível, mas nos intervalos era adorável. Ela era um enigma, e isso o intrigava desde que a conhecera. Decifrar esse enigma poderia levar anos e, mesmo assim, talvez ele não encontrasse a resposta. Pena não ter tanto tempo. O pouco que lhe restava devia ser empregado em garantir a segurança da esposa. Ele partiu outra fatia de pão de mel, saboreou-a e levantou-se. Convinha fazer o papel de bom marido no tempo limitado de que dispunha. Se bem que desempenhar esse papel lhe dava o maior prazer, mesmo quando Sara se ouriçava. A simples companhia dela era agradável e sua conversa nunca era enfadonha. Ela possuía incrível vivacidade, raciocínio rápido, e a língua, embora igualmente ligeira e ativa, Projeto Revisoras

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não era um instrumento de vingança. Sara era uma boa alma repleta de boas intenções e uma mulher linda. Entretanto, nem todos viam sua beleza porque ela intimidava a maioria das pessoas que encontrava. Sua altura, a natureza dominadora e os cabelos ruivos chamavam a atenção antes mesmo de alguém notar a bondade no olhar, a perfeição da pele e... aqueles lábios feitos para beijar. Ele sacudiu a cabeça para afastar o devaneio e foi ao encontro da esposa, consciente de que representava o papel de bom marido. Cullen não ficou surpreso quando uma das criadas lhe disse que Sara tinha ido ver a nova casa. Ele montou o cavalo e na vila encontrou várias mulheres ansiosas para indicar-lhe o caminho da propriedade. Assim que chegou à linda casa coberta de palha, uma cadeira quebrada voou pela porta da frente. Pelo jeito, Sara já estava começando a faxina. O jardim era grande, mas estava coberto de ervas daninhas. Ele desmontou e deixou o cavalo ir até onde estava a égua de Sara, bebendo água em um cocho, à sombra de uns carvalhos. Caminhou na direção da casa com cuidado, pronto para desviar-se, caso mais algum objeto saísse voando porta afora. — Sara! Ela apareceu à porta imediatamente, com as mãos nos quadris. Ele sorriu ao ver o rosto dela sujo, os cabelos presos no alto da cabeça, os olhos cintilando. Teria chorado? Impossível. Sara não costumava chorar. — O que você quer? — Ajudar. — Não preciso da sua ajuda. Arranjo-me muito bem sozinha. Virando-se, ela entrou na casa. Ele seguiu-a e viu-se numa sala grande bem iluminada pelas janelas abertas. Uma lareira com a cornija de carvalho ocupava quase toda a parede em frente à porta. No outro cômodo, havia apenas uma cadeira de balanço com o encosto torneado, uma mesinha e uma cama com o colchão deformado. — Sara, eu a magoei? — ele perguntou, estendendo o braço para segurar a mão dela. Ela afastou-se. — De onde tirou essa idéia? — Você falou rispidamente comigo. Sara ficou de pé, na frente da lareira, com os braços cruzados. Projeto Revisoras

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— Acho que estou mal-humorada hoje. Cullen aproximou-se dela devagar. Ela não se mexeu. Não iria demonstrar fraqueza ou medo. Ele sabia que era esse o modo de Sara esconder seus ferimentos mais profundos: com ar de desafio. — Você está com o rosto todo sujo — disse e limpou o queixo dela com o lenço. Sara permaneceu imóvel enquanto ele limpava todo o seu rosto. Por fim,- ao ver que os olhos azul-esverdeados suavizaram-se, ele a beijou. Um beijo simples, apenas um leve roçar dos lábios para dizer-lhe que podia contar com ele, mesmo que estivesse zangada. Mas como parar depois de sentir aquele sabor? Sara era deliciosa como um doce preferido que não se pode recusar. E ele saboreou-a, sendo correspondido. Pareciam dois seres famintos que, se não se saciassem, morreriam de inanição. Ele mordiscou o longo pescoço, e ela inclinou a cabeça para trás para permitirlhe maior acesso àquela parte do corpo. Ele não precisou de outro incentivo. Continuou a mordiscar, a beijar e a lamber a pele sensível até sentir que ela estremecia em seus braços. — Quero você — ele murmurou e mordeu-lhe o lóbulo da orelha. Depois, beijou-a na boca sofregamente, determinado a não ouvir nenhuma objeção. Quando ela sacudiu a cabeça e empurrou-o, ele a segurou. — Não negue que você também me deseja. — Isto não tem sentido. Ele não afastava os olhos dos lábios dela, vermelhos por causa dos beijos. — O que não tem sentido é estarmos casados sem consumar o casamento. Eu sei que você me deseja tanto quanto eu a desejo. Admita isso. — Admito que sinto desejo por você. Mas não posso negar que tenho medo de me apaixonar. — Sara empurrou-o e correu na direção da porta. Ele adiantou-se, bateu a porta e, segurando o braço de Sara, puxou-a e encostou-a na parede, mantendo-a presa sob seu corpo. — Não faça isso — ela advertiu-o. — Só você resiste ao desejo que está sentindo. A maioria das mulheres se entregaria ao prazer. — Não sou como a maioria das mulheres. — Agradeço aos céus por isso. — Ele curvou-se para beijá-la, mas ela virou a cabeça. — Por que deve agradecer?

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— Porque você é uma mulher de grande paixão. Você aproveita o momento, corre riscos, despreza o que é vulgar, defende os desamparados, luta para ter uma vida de acordo com as suas convicções e... porque é linda. — Você me acha linda? — Sara perguntou com expressão de dúvida. Cullen encostou sua boca na dela. — Muito mais linda do que você possa imaginar. Ela abaixou-se e fugiu dele. — Não posso. — Pode — Cullen a contradisse, frustrado, e tentou segurá-la novamente. Mais uma vez, ela evadiu-se, inquieta, mas ele notou nos olhos nublados a dor de uma paixão insatisfeita. Imediatamente seu corpo reagiu, o desejo tornou-se intenso, inflamou-o e ele sentiu-se como um guerreiro vigoroso preparado para a batalha. Rapidamente investiu sobre ela, não lhe dando tempo de escapar, e prendeu-a nos braços. — Desta vez não a deixarei fugir de mim. — Não me entregarei a você. — Vejo desejo nos seus olhos. Você negou os próprios sentimentos por um tempo longo demais. — Eu não... — Você me deseja. — Eu... — Quero você — ele declarou, já capturando os lábios dela em um beijo ardente. Cullen ergueu-a, e ela cruzou as pernas ao redor dos quadris dele. Esse contato deixou-o muito excitado, prestes a explodir. — Vamos fazer amor, aqui e agora, a não ser que você não queira — disse ele, com dificuldade para respirar. Ela encostou a testa na dele. — Quero você. Que Deus me ajude! Quero você. Cullen sorriu. Não podia estar mais contente. Estava prestes a levar Sara para a cama quando eles foram chamados. — Sara! Cullen! Sou eu, Teresa. Alexander e eu viemos ajudá-los. Sara sentou-se no cobertor com as pernas cruzadas, ao lado de Teresa, tomando o sol da manhã, enquanto Cullen brincava de pega-pega com Alexander. Toda vez que ele pegava o filho e o erguia bem alto, o garotinho dava gargalhadas e gritava de alegria.

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Na cabeça de Sara havia um tumulto, e ela não sabia o que fazer. Desejava Cullen, mas o amava verdadeiramente? Como podia sentir por ele um desejo tão intenso se não o amava de fato? Por que seu coração doía tanto toda vez que pensava que iria perdê-lo? Seria ela apenas uma mulher tola ansiosa para ser amada? Por que se preocupava com o amor? Não seria bem mais simples se eles satisfizessem seus desejos e pronto? Por que ela era tão teimosa? Tentou encontrar respostas para essas perguntas, inutilmente. Em vez disso, era perseguida por novas perguntas. Quase tinha se entregado ao marido antes de Teresa aparecer. Ceder ao desejo seria uma atitude correta? Como saber o que era certo ou errado em se tratando de emoção? — Você vai se arrepender se não acompanhar seu marido e Alexander — Teresa insistiu. — Cullen não me quer. Era doloroso saber que não fazia parte dos planos do marido, mas doía ainda mais admitir isso em voz alta. Teresa sorriu. — Ele está tão confuso quanto você. Não sabe o que quer e não está pronto para tomar decisões importantes. — Não sei... Fui impulsiva e inconseqüente durante anos. É natural que agora as coisas não dêem certo. — Acho que Deus pôs a pessoa certa no seu caminho. — Teresa fez um movimento com a cabeça, indicando Cullen. — E Alaina? Ele nunca a esquecerá. — Ela será sempre uma lembrança, mas você é real, está aqui com ele, agora. Isso faz toda a diferença. Ele e Alexander precisam de você. Você já plantou as sementes do amor. Dê-lhes tempo de criarem raízes e fortalecerem. Sara olhou para Cullen, que brincava com o filho, provocando suas risadas. — Não temos tempo. — Cullen é seu marido e Alexander agora é seu filho. Por que não podem viver juntos, a vida toda, como uma família? — Firmamos nosso acordo movidos pelo desespero. Não quero um casamento nessa mesma base. — Então consumem o casamento. Verifique por si mesma se não há amor nessa união. A conversa foi interrompida quando Cullen e Alexander se juntaram a elas. O garoto quis pedacinhos de queijo, e Sara pegou-o no colo. Quanto ao pai, também demonstrou igual apetite. Não demorou muito, os dois estavam bocejando. Projeto Revisoras

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— Convém tirar uma soneca com seu filho, Cullen — Teresa sugeriu. — Que energia tem o garoto. Não para um segundo — ele falou com orgulho. — É verdade, mas, para uma mãe, cuidar de um filho nunca é trabalho. E alegria e prazer — Teresa apontou. Sara teve vontade de beliscar a irmã. Teresa não tinha nada que insinuar ao cunhado que Alexander precisava de cuidados maternos. Cullen ficou por um momento olhando para o filho, que estava confortavelmente sentado no colo de Sara. Ela desejou saber em que ele estaria pensando. Quanto a ela, sentia-se como se fosse esposa de Cullen e a mãe verdadeira de Alexander. O garoto bocejou novamente e esfregou os olhos. — Hora do cochilo — Teresa anunciou. Cullen deitou no cobertor e estendeu as mãos para o filho. Alexander saiu engatinhando do colo de Sara, foi ara os braços do pai e acomodou-se junto do peito largo. Lágrimas brilharam nos olhos de Teresa. — Não há como negar que ele sabe instintivamente quem você é. Cullen puxou o garoto para bem junto dele. — Alexander é meu filho e sempre o protegerei. Sara levantou-se num salto. — Durma com seu filho. Teresa e eu temos trabalho à nossa espera lá em casa — disse ela e afastou-se, contendo as lágrimas com dificuldade. O coração tinha de se acostumar com aquele vazio, aquela dor que lhe comprimia o peito. Inventara aquela farsa. Portanto, devia esperar o fim da mesma com resignação. Pelo menos tinha a consciência tranqüila; conseguira reunir pai e filho e constatara que os dois se amavam. Fizera sua parte. Mas esperar ter o amor de Cullen seria querer demais. Era melhor não perder tempo pensando em semelhante tolice. Iria deixar sua casa pronta para viver nela com liberdade depois da partida dos dois. Uma liberdade que muito lhe custara. Nas horas seguintes entregou-se ao trabalho árduo para esquecer suas preocupações e angústias. Varreu a casa, esfregou o chão e fez pequenos consertos. Quando terminou, mal pôde erguer o braço para dar um adeus a Teresa e Alexander. Alegrou-se quando Cullen, que estava com o filho no colo, se ofereceu para acompanhar a cunhada até sua casa. Sara queria voltar para o castelo e tomar um banho demorado que levasse embora seu cansaço e a dor no corpo. Quem sabe teria tempo de cochilar alguns minutos antes do jantar. Seus planos desmoronaram ao ver o pai e Harken McWilliams aproximandose a cavalo. Sara suspirou alto, mas ergueu a cabeça, endireitou os ombros e foi ao Projeto Revisoras

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encontro dos dois assim que desmontaram. Se Harken pretendia intimidá-la, iria ter uma surpresa e talvez levasse um ou dois murros. Deus, como desejava acertar um bom soco no queixo daquele gambá ranhento! — Cullen está? — indagou McHern sem ao menos cumprimentar a filha. — Não. Ele foi levar Teresa e Alexander para casa. — Ótimo — tornou McHern com um firme aceno de cabeça. — Quero falar com você, em particular. — Então por que ele veio até aqui? — Sara inquiriu causticamente apontando um dedo para Harken. — Ele contou-me certas coisas que me deixaram apreensivo e decidi apurar a verdade — o pai respondeu, indicando a casa. Sara ficou na frente dele. — Não quero tipos como ele sujando a casa que acabei de limpar. Diga aqui mesmo o que o deixou tão apreensivo. — Harken me disse que ouviu você contando a Teresa que seu casamento é uma farsa e que seu marido irá deixá-la. Quero saber a verdade, minha filha. Você fez Cullen de tolo, com a intenção de mandá-lo embora? — Harken está despeitado porque já o recusei duas vezes, e o senhor vai logo acreditando no que ele diz, duvidando de sua filha? — Uma filha teimosa que se recusa a obedecer ao próprio pai ou a qualquer outro homem — Harken rosnou como um cão raivoso. — Você não respondeu à minha pergunta! — McHern vociferou. Sentindo-se como se estivesse sendo perseguida por uma matilha, Sara decidiu atacar primeiro. — Como o senhor ousa pensar que eu poderia fazer uma coisa dessas? Como o senhor pode acreditar num covarde ranhento como Harken McWilliams? — Não sou covarde! — Harken gritou. — E por que não me enfrentou em vez de vir ameaçar minha esposa, às minhas costas? Harken, McHern e Sara viraram-se depressa e viram Cullen se aproximando. Ele foi para junto de Sara, enlaçou-a pela cintura e beijou-a. — Encontramos Shamus no caminho — disse ele, explicando seu retorno tão repentino. McHern respondeu por Harken. — Ele me disse que você não sabia do plano de minha filha.

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Cullen dirigiu a Harken um olhar que o fez tremer. — Ele também lhe disse que se aproximou de minha esposa quando ela estava sozinha e que a ameaçou? McHern virou-se para o homem, carrancudo. — Isso é verdade? — Eu... eu... o-ouvi... — Harken gaguejou. Cullen interrompeu-o com uma risada sarcástica. — Você não ouviu nada. Seu mentiroso. Se andar por aí inventando mentiras sobre minha esposa, terá de acertar contas comigo. A reação de Harken condenou-o. Ele fechou a boca e deu um passo para trás. — Suma da minha frente! — McHern berrou. — Se aparecer por aqui sentirá na carne o fio de minha espada para aprender a não falar mal da minha filha. Harken montou seu cavalo e fugiu apavorado. Sara não conteve o riso. Um problema a menos, pensou. Livrara-se de Harken facilmente, graças a Cullen. Encostou a cabeça no ombro dele e murmurou palavras de agradecimento. Ele estreitou-a nos braços e esfregou o nariz no dela. — Faço tudo por você, querida. — Aceitem minhas desculpas. — McHern olhou diretamente para Sara. — Mas você deve entender que sempre foi teimosa, sempre quis fazer tudo à sua maneira, custasse o que custasse. Por isso, acreditei naquele idiota quando me disse que o casamento de vocês era uma farsa. — O senhor devia ter conversado conosco para esclarecer o assunto — disse Cullen em tom de censura. McHern sacudiu a cabeça. — Harken convenceu-me de que Sara estava usando você para conseguir o que queria. Cullen deu uma gargalhada. Quando parou de rir, perguntou: — Ora, McHern, o senhor me considera tão tolo a ponto de ser enganado por sua filha? — Pois é, papai, o senhor não pode negar que meu marido tem um ótimo argumento. — Você está certa, filha — ele concordou. — O que o senhor disse? Eu, certa? McHern riu. — Não pense que vou repetir o que acabei de dizer só para agradá-la. Já era Projeto Revisoras

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mais do que tempo de você fazer alguma coisa certa pelo clã e por seu pai. — Ele montou seu cavalo. — Eu os verei no castelo. Tão logo McHern se afastou, Cullen observou, muito sério: — O tempo está passando. Acho melhor começarmos a demonstrar que nosso casamento não está dando certo ou seu pai, com toda a certeza, irá questionar o meu desaparecimento. O coração de Sara sofreu um baque, mas ela não o demonstrou. — Quando você pretende partir? — Planejamos ficar juntos durante dois meses, mas acredito que será mais seguro reduzir esse tempo para seis semanas. Quanto menos chances eu der a Balford de me encontrar, melhor. Era um raciocínio sensato, com o qual Sara teve de concordar. Era a primeira a não querer expor a vida do marido e de Alexander a maiores riscos. Em menos de quatro semanas, ele sairia de sua vida para sempre; nunca mais iria vê-lo nem veria Alexander. Sentiria falta de ambos. Deus, que saudade sentiria, pensou com o coração contraído. Ela agiu da melhor forma para esconder sua dor: mascarou-a com um sorriso. — Até lá estarei muito bem instalada e segura na minha casa. Mas agora acho melhor voltarmos para o castelo. Estou cansada e precisando de um belo banho. — Poderíamos ficar um pouco mais aqui, sozinhos — Cullen sugeriu, mas Sara já estava indo pegar a égua. Ela não quis nem olhar para trás, com medo de fazer alguma coisa da qual poderia se arrepender, como atirar-se nos braços do marido e pedir que fizesse amor com ela todas as noites que lhes restavam. — Não. É melhor voltarmos. — Está com medo Sara? — De você, não. — De quem, então? De você? Ela olhou fixamente para ele; tão forte, tão bonito, provocando-a, querendo que ela admitisse que o desejava tanto quanto ele a queria. — Eu o desejo — ela confessou. — Isso faz você sentir-se melhor? Isso torna a situação diferente? — Deixe-me amar você — Cullen insistiu. — Já falamos sobre isso. Você não me ama, enquanto eu acredito que estou me apaixonando por você. Quer complicar a situação ainda mais?

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Ele cocou o queixo, pensativo. — É um risco que não me importo de correr. As palavras de Teresa vieram à lembrança de Sara: "Deus pôs a pessoa certa no seu caminho". Cabia a ela reconhecer Cullen Longton como o marido enviado por Deus em resposta às suas preces. — O que você decidiu? — ele indagou. — Vou dar um mergulho no riacho. Quando eu voltar encontro-o em nossa casa. Sara demorou muito no riacho. Esfregou-se da cabeça aos pés, deixando a pele rosada. Cullen esperava por ela. Finalmente, rendera-se a ele. Isso queria dizer que cedia aos apelos dos sentidos ou entregava-se ao amor? Não saberia dizer, tampouco queria se aprofundar no motivo que a levara a decidir fazer amor com o marido. Uma nuvem encobriu o sol, tornando, de repente, o dia quente e ensolarado em frio e cinzento. O começo da primavera costumava ser imprevisível. Entretanto, ela considerou se aquela mudança teria alguma coisa a ver com a sua decisão. Afastou o pensamento absurdo e foi para a casa, determinada a não hesitar ou demonstrar agitação. Fizera uma escolha e iria até o fim, por mais apreensiva que estivesse. Ao chegar à porta, tocou na maçaneta e hesitou. Iria encontrar Cullen na cama, esperando por ela, já despido? Haveria necessidade de ela despir-se na frente dele? O que ele esperaria que ela fizesse? Mesmo sendo inexperiente, sabia que essas apreensões eram tolas. — Vamos acabar logo com isso — murmurou e abriu a porta. Respirou aliviada quando viu Cullen do lado da lareira acesa. Ele mantiverase ocupado acendendo o fogo para afastar a umidade e a friagem da grande sala. Ele sorriu e estendeu-lhe a mão, que ela segurou, sendo puxada imediatamente para junto dele. Cullen começou a beijá-la. — Você tem o cheiro e o frescor da primavera; cheiro de flores que desabrocham ou de frutinhas maduras e doces. Ela sorriu e inclinou a cabeça para trás, expondo o pescoço para os beijos do marido. — Senhor, como eu queria sentir o seu gosto... saboreá-la por inteiro. Imagens formaram-se na mente de Sara, provocando-lhe estremecimentos. Nesse instante o estrondo de um trovão ecoou na distância. — Os cavalos precisam estar bem amarrados e protegidos antes de a

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tempestade desabar — Cullen lembrou. — Você tem uma escolha. Eu adoraria despi-la, mas você pode ficar me esperando na cama, nua, se quiser. — Cullen beijou-a e dirigiu-se à porta. — Não demore a decidir. Logo estarei de volta. Assim que a porta se fechou atrás dele, Sara tirou as roupas. Queria o marido, mas foi assaltada por dúvidas. Ele havia declarado que o cheiro dela era divino, mas o que diria sobre seu corpo? Apesar de não ser pequena, tinha um corpo bemproporcionado, com curvas bonitas. Bem, pelo menos era o que ela achava. Teria ele a mesma opinião? Ela bendisse a irmã, que a havia presenteado com roupa de cama limpa, e entrou sob a colcha azul, puxando-a até o queixo. Pensou melhor e decidiu que estava parecendo uma tola. Não precisava ser tão recatada. Então deixou a colcha cobrindo-a até a altura dos seios. A porta abriu-se, e ela prendeu a respiração ao ver o marido entrando no quarto. Ele era um homem tão bonito e forte; tinha ombros largos, e os olhos escuros brilhavam de paixão. Cullen tirou a roupa, sacudiu os respingos de chuva e deixou as peças no chão. Aproximou-se da cama e ficou parado, nu. Sara não se surpreendeu. O marido já se havia despido na frente dela. Além disso, era como se ele estivesse anunciando que não tinha nada a esconder. Queria mostrar-lhe tudo, dar-lhe tudo e, de um modo estranho, isso a acalmou. Afastou a colcha, convidando-o a deitar-se junto dela. Ele aceitou o convite com um sorriso. — Não temos nada a esconder um do outro — disse ele, empurrando a colcha para baixo. — Quero ver sua beleza. Sara ia protestar, mas ele selou seus lábios com um beijo e começou a acariciála nos seios. — Você é linda, Sara Longton. Sara demorou apenas alguns segundos para conhecer o despertar da paixão. Estendeu as mãos, ansiosa para explorar o corpo do marido. Eles se acariciaram, brincaram e riram, familiarizando-se um com o outro. Era como se já se conhecessem e tivessem ficado juntos muitas vezes, mas, tendo sido obrigados a se separar, agora se uniam novamente. Nada parecia estranho entre eles. As mãos hábeis de Cullen percorreram todos os contornos de seu corpo, provocando seus gemidos de prazer, e suspiros quando os toques tornaram-se mais ousados. Depois, ela fez o mesmo com ele. Era grande a harmonia entre ambos. Pareciam ser parceiros de longa data, que se conheciam intimamente. Quando ele mordiscou seus seios e depois os sugou, Sara soube que havia Projeto Revisoras

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esperado por Cullen, e por ninguém mais, para proporcionar-lhe tanto prazer. Ele ergueu a cabeça e fitou-a com os olhos ardendo de desejo. — Isto é tão bom... Ela murmurou algo, indicando que concordava com o marido e que sentia o mesmo. Havia esperado viver uma experiência sem igual quando fizesse amor com Cullen, mas jamais imaginara que seria algo tão sublime. Não teve mais dúvidas de que o destino os unira e de que tinham sido feitos um para o outro. Esses pensamentos serviram para aumentar o prazer que sentia, e ela puxou-o para mais perto, desejando-o, querendo que ele a possuísse. Não podia esperar mais. Precisava dele naquele instante. — Não posso mais esperar — declarou, acariciando-o, sentindo o contato dos pelos macios. — Ainda não a saboreei totalmente — ele sussurrou. — Deixe isso para mais tarde. — É uma promessa? — Tem a minha palavra — ela afirmou, beijando-o. Cullen deitou-se sobre ela e, com o joelho, entreabriu suas pernas. Ela gemeu ao senti-lo penetrá-la, a princípio suavemente, depois com mais firmeza, e logo começar a se mover dentro dela. Sara teve a sensação de estar na crista de uma onda, que se tornava cada vez mais alta. Extremamente excitada, enterrou as unhas nas costas dele, acompanhando o ritmo dos movimentos. Sentia-se nas alturas, experimentando o prazer supremo de estar intimamente unida a ele. Por fim, a onda pareceu romper na praia, em um clímax que a deixou sem fôlego. Permaneceu deitada sob o corpo forte, trêmula ante a intensidade das sensações, desejando que ele não se afastasse. Ficaram assim por alguns instantes. Depois, Cullen deitou-se e abraçou-a. Com a cabeça recostada no peito dele, Sara murmurou: — Foi lindo. — Mais lindo do que eu imaginei que pudesse ser — ele completou. — Você achou que iria ficar desapontado? — Não. De jeito nenhum — ele disse depressa. — Nunca pensei que... seria tão... perfeito. Os lábios de Sara abriram-se num luminoso sorriso de felicidade. — Para mim também foi perfeito. Senti-me tão bem... Parecia que nos conhecíamos desde sempre. Mais uma vez, ela refletiu sobre isso. Casara-se com um completo estranho, Projeto Revisoras

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um homem que surgira diante dela quando estava desesperada para encontrar um marido e, no entanto, sentia-se à vontade junto dele; ele lhe parecia tão familiar... Como uma coisa dessas era possível? As palavras da irmã ressoaram em sua cabeça: "Deus pôs a pessoa certa no seu caminho". Ela havia rezado pedindo um marido, e Deus a atendera. Agora estava nos braços dele. Seria esse o lugar onde devia permanecer, mantendo o casamento? Teria, finalmente, encontrado o amor que sempre buscara? O pensamento assustou-a. Por que não assustaria? Se havia encontrado o amor, como conseguiria deixá-lo escapar de suas mãos? O estrondo de um trovão levou-a a agarrar-se ao marido. Eles tinham estado tão absortos, amando-se que não perceberam que a chuva estava forte. — Será que os céus estão zangados conosco? — Sara perguntou, sentindo um tremor. Cullen apertou-a junto do peito. — Eles só podem aprovar o que fizemos. Não tenha medo. Não deixarei que nenhum mal lhe aconteça. Sim, ele a protegeria enquanto estivesse com ela, Sara pensou. Mas o que aconteceria quando ele partisse? Subitamente, ela desejou ir para o conforto de sua casa. Mas ali onde se encontrava com o marido era agora sua casa, seu novo lar. Tinha de acreditar nisso. — Temos de voltar para o castelo assim que a chuva passar — disse ela. — Pensei em dormirmos aqui. — Não temos comida. — Você não deve ter reparado que Teresa deixou-nos uma cesta cheia de coisas gostosas. Temos tudo de que precisamos. — Cullen abaixou a voz ao acrescentar: — Temos um ao outro. E no castelo ninguém sentirá a nossa falta. — Meu pai... — McHern vai deduzir que resolvemos ficar em nossa casa. Ele deve estar feliz da vida, imaginando que estamos muito ocupados nos dedicando para lhe dar o neto tão desejado. — Isso é verdade — Sara concordou, rindo. — Precisamos deste tempo só para nós, Sara. — Por quê? — Não tenho certeza... Sei apenas que as próximas semanas são muito importantes e decisivas. Projeto Revisoras

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— É o que eu penso. Afinal, é o tempo que nos resta... — Tenho refletido sobre nós, sobre o modo como nos conhecemos e acho tão estranho... — Talvez o destino tenha determinado que nos encontrássemos daquele modo tão inusitado. — Você acredita que o destino nos uniu? — Bem, precisávamos um do outro e nos encontramos. Desde então temos nos sentido à vontade juntos. É como se nos conhecêssemos há muito tempo e não há apenas poucas semanas. Parece que não faz sentido, não é mesmo? — Acho melhor esquecermos essas indagações e aproveitarmos o tempo que nos resta. O tempo que nos resta. A idéia da separação era sempre dolorosa. Lágrimas turvaram os olhos de Sara, e ela escondeu o rosto no peito do marido. — Sara? Olhe para mim. Quando ela levantou a cabeça, Cullen viu os olhos marejados de lágrimas. — Raramente a vi com lágrimas nos olhos — observou. — Nem iria ver agora se me deixasse quietinha — tornou ela em tom acusador. Cullen afastou com o polegar uma lágrima que brilhava no canto de seu olho. — Conte-me o que a aborrece, Sara. — Nada me aborrece — ela respondeu prontamente. — Mas você está chorando. Não me sinto bem vendo você chorar. — Por quê? Ele sentiu-se desconfortável, esforçando-se para procurar um motivo. — Você não sabe explicar por que, não é mesmo? — Preocupo-me com você. Sinto afeição por você. E natural que não me agrade vê-la triste. Também lhe devo muito por ter salvado a vida de meu filho. Cullen lhe era grato, nada mais, Sara pensou, desapontada. Havia acalentado a esperança de que ele sentisse por ela mais do que simples afeto. Quanto a ela, descobrira que estava cada vez mais apaixonada pelo marido. E agora que tinham feito amor, era-lhe intolerável a idéia de deixá-lo partir e passar o resto da vida sem ele. O fato de se unirem de forma tão perfeita e harmoniosa provara que existia algo especial entre eles. Cullen surgira na vida dela como um presente do céu. Como Projeto Revisoras

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negar isso? Ela havia rezado pedindo um marido, e ele lhe fora apresentado imediatamente. —Vamos aproveitar nosso tempo ao máximo, Sara — disse Cullen acariciando seu rosto. Ela sorriu para esconder sua frustração e cutucou o peito dele. — Você é um marido maravilhoso, Cullen Longton. — Estou feliz por satisfazê-la, Sara Longton. — Que tal me proporcionar mais prazer, caro marido? — Eu tinha certeza de que você não faria o papel de donzela tímida, acanhada, e muito menos medrosa — ele declarou com um sorriso afetado. — Você preferiria ter uma esposa tímida, recatada e medrosa? — Sara perguntou, cutucando-o novamente para provocá-lo. — Quero você assim, exatamente como é, destemida, ardente, ansiosa para fazer amor comigo. — Inclinando a cabeça, ele beijou-a com paixão. — É o que eu sou — disse ela, quando pôde falar. — Então, o que estamos esperando? Sentado num tronco, perto do castelo, Cullen observou a esposa, que estava conversando com duas mulheres da vila; elas pareciam animadas, sorriam e riam. Logo entendeu por que os habitantes do clã tratavam Sara com certa reserva. Eles tinham grande respeito tanto por ela como pelo pai. Era um respeito que beirava a veneração. Sara era digna, distinta, confiante, não hesitava em oferecer ajuda a quem precisasse dela e tinha sempre uma solução para qualquer problema. Era uma líder nata, e todos sabiam disso, inclusive o pai. Embora suas observações francas e honestas raramente ofendessem, por certo chocavam e deixavam os moradores da vila desconfiados, receosos de se aproximarem dela. Sara podia não lhes dizer o que gostariam de ouvir, mas ouviam a verdade e a verdade, ele sabia, nem sempre era fácil de ser aceita. Nos últimos dias, desde que ele e Sara tinham feito amor, Cullen estivera observando mais a esposa e refletindo sobre seus sentimentos. Ela era incomparável. Sua beleza natural, a altura incomum, os cabelos ruivos flamejantes, sua postura altiva, a pele sem uma única mancha, o corpo bem-feito, sua inteligência, sua coragem e a paixão que ela dedicava a tudo o que fazia tornavam-na uma mulher digna de ser amada. E ele estava a cada dia mais apaixonado por ela. Chutou uma pedra, mas refletiu que seria mais apropriado receber um chute no traseiro. De que adiantava reconhecer seu grande e inesperado amor pela esposa Projeto Revisoras

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se não sabia como lidar com seus sentimentos? O que fazer quando chegasse o momento de partir com o filho? Como poderia separar-se de Sara? Esses pensamentos atormentavam-no. Ao mesmo tempo, ele se questionava se o amor por Sara era verdadeiro ou um simples sentimento para substituir o vazio deixado por Alaina. Não, isso não era possível. Sara e Alaina nada tinham em comum. Sendo assim, ele continuou a refletir, o que tinha a fazer era certificar-se de que seu amor por Sara era real para não tomar uma decisão da qual poderia arrepender-se pelo resto da vida. Olhou novamente para ela, cheio de admiração. Estava corada por causa do ar frio, e isso o fez lembrar que despertara naquela manhã sentindo a mão de Sara acariciando-o. Eles não conseguiam ficar com as mãos paradas quando estavam perto um do outro. E bastava um toque para desencadear a paixão. Eles tinham se amado intensamente, mas sem pressa, desfrutando de cada instante em que podiam ficar juntos. Nos momentos de paixão, Sara podia ser um furor ou um anjo, e ele gostava desses contrastes. Fazer amor com ela nunca era monótono. Pelo contrário, era uma sucessão de infindável prazer. Tão diferente de Alaina. Fazer amor com Alaina tinha sido algo lindo. Fazer amor com Sara era algo extraordinário e inesquecível. Baixou a cabeça, irritado. Não podia nem devia comparar Sara com Alaina. — Essa ruga na testa me diz que alguma coisa o aborrece — Sara observou, parando na frente do marido. Ele puxou-a para perto, prendeu-a entre as pernas e passou os braços ao redor de suas nádegas. — Hoje eu ainda não lhe disse que está linda, minha querida. Ela afastou-se dele. — Isso não vai nos ajudar em nada. Cullen olhou para ela surpreso, sem entender aquela reação. — Não se faça de tolo. E não fale comigo enquanto não pedir desculpas. Dizendo isso, ela afastou-se, resmungando. Ele demorou um instante para entender o porquê daquele comportamento. Pela manhã, antes de eles saírem do quarto, ela havia sugerido que começassem a encenação de que o casamento não ia bem, como tinha sido combinado. Cullen gostaria de ter mais tempo, porém concordara com ela. Teria de partir. Se demorasse na Escócia mais do que o previsto, poderia ser encontrado, pondo em risco sua vida, a do filho e a de todo o clã McHern. Projeto Revisoras

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Levantou-se e foi depressa atrás da esposa. — Quero falar com você — disse, segurando-a pelo braço. — Agora, não. — Ela puxou o braço. — Não? — Cullen deu um sorriso afetado. Ergueu Sara e jogou-a no ombro. — Agora, sim, vamos conversar. Ele não se surpreendeu ao constatar que a reação dela foi desfiar uma lista de palavras venenosas. Entendeu que isso fazia parte da representação combinada, uma vez que havia pessoas observando-os. De fato, quando eles chegaram ao bosque, longe dos olhares curiosos, Cullen colocou Sara no chão e viu que ela estava rindo. — Foi perfeito! — Ela ajeitou o xale azul-escuro e passou a mão no rosto para afastar dos olhos os cachinhos rebeldes. — Mais algumas cenas como esta e os comentários correrão soltos pela vila. — Não gosto de brigar com você. — É necessário. — É mesmo? — O que mais podemos fazer? Você tem outra idéia? Ele segurou a mão de Sara e beijou cada um dos dedos. — Não sei. Mas não me sinto confortável tendo de brigar com você, seja uma briga real ou mera encenação. Não me parece certo nem natural. Acredito que nós não teríamos esse tipo de comportamento, mesmo se brigássemos de verdade. — Realmente, é estranho — Sara admitiu. — Mas você terá de partir em breve. — Posso partir alegando que tenho de resolver um assunto de família. Mais tarde, você receberá a notícia de que sofri um acidente e morri. — Isso me tornaria uma viúva, e meu pai insistiria para eu me casar novamente. — Tem razão — Cullen concordou. Não queria nem pensar que outro homem pudesse tocá-la. — Eu posso desaparecer. — Sem motivo? Se você fizer isso, meu pai sairá à sua procura e poderá descobrir a verdade a seu respeito. Mas se acreditar que você me abandonou por causa do meu gênio, ele me deixará em paz, e isolada para não envergonhá-lo perante o clã. Sara estava certa, o que não facilitava as coisas. Mas quem tornara a situação mais difícil, senão ele? Tudo culpa de seus sentimentos confusos. Se não tivesse se envolvido com Sara e permanecesse fiel ao acordo que haviam firmado, estaria livre do atual problema.

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Ele estava muito envolvido com ela e queria continuar assim. Naquele exato momento, desejava levá-la para casa, fazer amor com ela, esquecer seus problemas, satisfazer sua paixão. — Temos de seguir o que planejamos — Sara observou sem muita convicção. — Vamos ver meu filho — ele sugeriu. A casa de Teresa era o único lugar onde podiam ser eles mesmos. Nada de brigas. Sem conversa sobre separação. Somente ele, Sara e Alexander. Teresa na maioria das vezes os deixava sozinhos. Sara sorriu. — Alexander é tão alegre e está cada vez mais apegado a você. É bom vocês passarem bastante tempo juntos. Ele irá facilmente com você quando chegar a hora da partida. Ele quase perguntou a Sara se ela também iria facilmente com eles, mas conteve-se e censurou-se por alimentar pensamentos tão tolos. Alexander era sua prioridade. Não tinha de pensar em outra coisa que não fosse levá-lo para o navio de Burke e partirem para a América, onde ele poderia oferecer ao filho uma vida rica, confortável e tranqüila. — Vamos. Podemos entrar na vila discutindo. Depois cavalgaremos separadamente. Isso dará ao povo bastante assunto para mexericos. — Não. — Cullen abraçou a esposa e cobriu-a de beijos. — Chega de brigas por hoje. — Mas... Um beijo possessivo impediu-a de protestar. — Hoje não vamos mais brigar — ele repetiu. — Hoje vamos nos amar. — Está bem. Só por hoje vamos nos amar. Um dia apenas seria suficiente? O pensamento sobressaltou Cullen, e ele afastou-o depressa da cabeça. Estendeu o braço e puxou Sara pela mão. — Vamos aproveitar o dia. Ele não se preocupou em dizer-lhe que receava ser aquele o último dia para se amarem sem pensar no futuro. Alexander correu para os dois assim que os viu, e o pai ergueu-o nos braços com medo de que ele tropeçasse. O garotinho riu feliz e deu um beijo molhado no rosto de Cullen. — Ele já se acostumou com você e o ama — Teresa observou. — Você irá sentir falta dele, não? — disse Cullen, brincando com o filho risonho que não parava quieto em seus braços. Projeto Revisoras

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Teresa olhou do cunhado para a irmã, tendo nos lábios um sorriso radiante. — Sentirei muita falta. Mais do que posso dizer. Mas Alexander me ensinou muito e lhe sou grata, especialmente agora que... — Ela parou de falar, emocionada, e pôs a mão no ventre. — Você está grávida! — Sara exclamou. Teresa confirmou, acenando com a cabeça. As irmãs se abraçaram e riram, embora estivessem com os olhos rasos de lágrimas. Cullen forçou um sorriso. Estava feliz por Teresa, mas a notícia da gravidez levou-o a pensar que Sara também poderia estar grávida. Se isso acontecesse, o que ele faria? Estranho nunca ter pensado nessa possibilidade. Prestou atenção à Conversa das duas sobre nomes de bebês, fraldas e roupinhas de recém-nascidos. Um pouco mais tarde, quando elas pararam de conversar, Sara e Cullen quiseram levar Alexander até o riacho. Teresa preparou-lhes uma cesta com lanche e pegou um edredom para eles se sentarem. Alexander gastou grande parte de sua energia procurando pedrinhas, atirando-as na água e correndo de um lado para outro. Só depois de o garoto adormecer, Cullen e Sara puderam ter algum tempo apenas para si mesmos. Ele não se conteve e fez à esposa a pergunta que o estava inquietando: — Sara, e se você também estiver grávida? Ela arregalou os olhos, e Cullen viu neles um lampejo de felicidade que logo desapareceu. — Se eu estiver grávida, o que você pretende fazer? — Você irá comigo — ele respondeu sem hesitar. — Jamais deixaria um filho seu crescer sem pai. — Talvez seja melhor nós não... — Já sei o que você vai sugerir. Não devemos fazer amor, convém não sermos tão íntimos, é melhor não nos perdermos nos braços um do outro. — Cullen balançou a cabeça. — Sugestão não aprovada. — Consumamos o casamento. Não é mais necessário... — Não quero saber se é ou não necessário. Quero você. Sara sorriu. Ele amava vê-la sorrindo. Os olhos faiscavam, as faces ficavam coradas e os lábios orvalhados, prontos para serem beijados. — Achei que devíamos ser práticos. — Para o inferno com a praticidade. Quero ser mau. — Adoro quando você é mau... — Você também pode ser malvada — disse Cullen em tom provocativo, Projeto Revisoras

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passando um dedo sobre os lábios úmidos de Sara. Sentiu-os quentes, convidativos e a reação de seu corpo foi imediata. — Conheço esse olhar — observou Sara com a voz sensualmente acariciante. — O que lhe diz esse meu olhar? — Que você está excitado, me desejando — ela respondeu sem rodeios. — Como pode ter certeza disso? Sara pôs a mão sob o kilt e tocou o marido. — Não preciso nem fazer pressão com os dedos para sentir a força do seu desejo, Cullen Longton. — Pode pressionar. Eu insisto. Sara passou a língua nos lábios, provocando-o. Sentiu-o se enrijecer e apertou seu membro. Ele sobressaltou-se ao experimentar aquele prazer. — Hmm... estou quase sentindo você dentro de mim... — ela murmurou. Cullen beijou-a e mordiscou-a. — Quase posso sentir-me dentro de você. Ele gemeu quando ela movimentou os dedos, apertando-o um pouco mais. — Quero você... — Eu também... — As carícias dela tornaram-se mais rápidas e intensas. — Se continuarmos assim... — Logo teremos de nos deitar no edredom do lado de Alexander — Sara completou. — Não podemos acordá-lo. — Termos de ser rápidos. — Nós dois parecemos... — Amantes alegres e inconseqüentes? — Isso. E rápidos. — Concordo. Cullen beijou a esposa sofregamente enquanto erguia a saia dela. — Pa... pa! Ele e Sara viraram-se. Alexander aproximara-se, engatinhando. Em seguida, ficou em pé e caiu sobre eles, rindo, feliz.

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CAPÍTULO VII

Cullen e Sara continuaram por mais algum tempo à beira do riacho. Sara notou que a paixão continuava a transparecer nos olhos escuros do marido. De repente, começou a ventar, a temperatura baixou, o céu cobriu-se de nuvens e eles voltaram apressados para a casa de Teresa. Cullen sentou-se com Alexander na frente da lareira e ambos começaram a brincar com o cavalinho de madeira comprado no mercado. Teresa e Sara foram para a cozinha preparar vinho quente de maçã para espantar o frio. Ao contrário do que Sara esperava, sua paixão também não diminuiu. Toda vez que chegava perto de Cullen, ele passava discretamente a mão sob sua saia e acariciava-lhe as pernas. Numa das vezes, chegou até a tocá-la intimamente. Ela estremeceu e quase deu um gritinho de prazer, mas conteve-se, sorriu, e afastou-se depressa. Quando chegou perto dele novamente ouviu-o murmurar: "covarde". Ela balançou a cabeça, indicando que concordava com ele. Pouco depois o vento tornou-se mais forte e Shamus entrou em casa, ofegante porque havia corrido. — Parece que um temporal está se formando — ele anunciou. — Tudo indica que sim. Temos de ir embora antes que a tempestade desabe — disse Cullen, ficando de pé, tendo o filho nos braços. O modo como ele olhou para Sara falou-lhe de uma tempestade de paixão por muito tempo adiada. Sara pegou Alexander para abraçá-lo antes de ir. — Vocês podem passar a noite aqui — Shamus convidou-os. — Temos de voltar — Cullen respondeu sem dar explicação. Teresa pegou Alexander e passou-o para os braços de Shamus. — Se preferem ir, acho melhor se apressarem — ela os aconselhou. Piscou para a irmã e entregou-lhe um embrulho. — Para vocês comerem mais tarde. Com rápidas despedidas, Sara e Cullen correram até onde haviam deixado os cavalos. Eles voltaram para casa a galope, enfrentando a fúria da natureza e tentando manter sob controle o desejo que os consumia. Um desejo que se avolumava com um simples pensamento e provocava neles arrepios e tremores. Sara estava sem fôlego, não apenas devido ao vento feroz, mas principalmente por causa da paixão avassalaProjeto Revisoras

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dora que fazia com que o coração batesse alucinadamente. Senhor!, queria amar o marido, ficar com ele para sempre. Queria que esse amor nunca tivesse fim. A chuva açoitava o chão quando eles entraram correndo em casa, tendo deixado os cavalos abrigados. Mal Sara correu o trinco da porta, Cullen agarrou-a pela cintura e beijou-a com desespero, não lhe dando tempo para respirar, para refletir, para reagir. Nem ela precisava disso. Tudo o que queria era entregar-se ao marido, saciar o intenso desejo que permanecera com ela e a atormentara durante todo aquele dia. Os beijos de Cullen eram urgentes, ávidos, originados de um desejo tão forte que não podia ser reprimido. Sem parar de beijá-la, ele a ergueu. Sara envolveu-o com as pernas, enlaçou-o pelo pescoço e correspondeu aos beijos com sofreguidão. Aquilo era tão bom... O gosto de Cullen era delicioso, e ela queria mais, muito mais, pois sabia por experiência que o marido podia fazê-la sentir uma torrente de emoções que ela nunca imaginara ser possível. — Quero você — ele sussurrou numa pequena pausa para que ambos respirassem. Voltou a beijá-la e, ao levá-la para o quarto, ergueu sua saia e apertou-lhe as nádegas, fazendo-a emitir gritos de prazer. — Não temos tempo para tirar as roupas — disse ele, deitando-a na cama e livrando-se em seguida do kilt. Sara sorriu, concordando, e ele logo se deitou sobre seu corpo. — Sara, adoro este teu jeito de amar, de se entregar a mim. — E você, marido, é o melhor amante... — Melhor e único que você terá — ele completou, voltando a beijá-la. — Sou ou não sou uma mulher de sorte por ter o melhor? — Sara indagou, rindo. Ela ondulou o corpo e recebeu com um grito feliz o membro rijo dentro de si. Daí em diante, entregou-se completamente ao marido. Ele penetrou-a com ímpeto, fazendo-a agarrar-se a ele, e iniciaram uma deliciosa cavalgada, numa busca frenética do prazer. Sara experimentou uma sensação mágica e indescritível da qual iria lembrar-se enquanto vivesse. Em segundos, ela atingiu o clímax, mas Cullen não se interrompeu. Suas arremetidas eram mais profundas, seu ritmo cada vez mais acelerado, provocando gemidos, despertando nela uma paixão que a fez gritar. E então ele começou de novo até que espasmos de prazer sacudiram seus corpos. A última coisa de que Sara se lembrava foi de ter gritado o nome dele repetidas vezes até, finalmente, ser envolvida Projeto Revisoras

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pelos braços fortes, esperando a respiração e as batidas do coração se normalizarem. — Não foi o suficiente, você sabe disso — ele sussurrou, as roupas suadas grudadas no corpo. Sara deu um breve sorriso. — Terei algum tempo para descansar? — Só um momento. Eles riram e permaneceram deitados um do lado do outro, recuperando-se dos momentos de intensa paixão. — Este é ainda o nosso dia. Temos a tarde e a noite só para nós — disse Cullen beijando Sara. — Não há passado nem futuro, só o instante que estamos vivendo... só você e eu. — E amanhã... Cullen colocou um dedo sobre os lábios dela. — Shhh... Eles se olharam cheios de desejo, a chama da paixão acesa novamente. Precisariam de uma vida inteira para satisfazer seu apetite. Porém, o tempo de que dispunham era aquele dia e a noite. Por isso, iriam aproveitá-los, vivê-los intensamente. — Não vou deixá-lo dormir — Sara provocou o marido. — É um desafio? — Uma promessa. — Então vou começar a despi-la. Ele não deixou Sara tirar uma peça sequer. Fez tudo sozinho, sem pressa, beijando-a, acariciando-a, excitando-a. Quando terminou, ela estava se contorcendo, o corpo fremente, esperando ansioso pelo dele. Eles se uniram, amaram-se febrilmente, querendo saciar aquele apetite incontido, esquecidos de tudo. Era noite fechada quando, por fim, descansaram. Minutos depois, enrolaram-se nas cobertas e sentaram-se na cama, famintos, para comer o lanche preparado por Teresa. — Deus abençoe sua irmã — disse Cullen, servindo-se de queijo e pão. — Ainda bem que ela está grávida. Graças a esse filho ou filha ela sofrerá menos quando Alexander partir — tornou Sara passando geleia numa fatia de pão. — Seria bom se você também engravidasse. — Por quê? — Eu a levaria para a América comigo e Alexander. Projeto Revisoras

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— E se eu não engravidar? — Eu... eu... — Não sabe o que dizer, não é mesmo? Admita que não pode me amar. Você amou Alaina, só ela. — Você sabe o que eu sinto em relação a ela. Não posso lutar contra esse sentimento. — Você se recusa a viver. Recusa-se a amar novamente. — Não é isso. Ela morreu há apenas... — Alaina se foi para sempre. Você está vivo. — O amor não desaparece com a morte. — Não desaparece nem morre, mas se transforma e não impede que você ame novamente. — Como você sabe disso, se nunca amou? — Tem razão. Eu não sei. Só sei o que sinto por você. Eu o amo e, ao mesmo tempo, me pergunto: Como posso amar alguém que mal conheço? Não faz sentido, não é mesmo? — Desde que a conheci, nada parece ter sentido para mim — Cullen concordou. — Mas, me diga por que você me ama? — Preciso de motivo para amar você? Cullen sorriu. — Deve haver um motivo, talvez dois ou três. — Deixe-me ver... — Precisa pensar para responder a essa pergunta? Você não sabe por que me ama? — Hum, posso dizer que você é um homem honesto, bom pai, é corajoso... — Muito bem. — Mas falta alguma coisa. — O que é? Ele estava ansioso, Sara notou. Mas como explicar-lhe? Achava difícil expressar com palavras o que sentia. — Sinto o amor. — Ela pôs a mão no coração. — O amor está ali quando olho para você, quando você sorri para mim, quando você me toca... De repente, Sara interrompeu o que estava dizendo, fitou-o e perguntou: — Por que estamos falando sobre isso? Você não disse que este dia era todinho nosso?

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— Disse. — Então vamos continuar nos amando até amanhecer. Amanhã será outro dia, mas hoje é só nosso. Eles se entregaram nos braços um do outro e deram início a uma noite de amor memorável. Depois da noite inesquecível e dos momentos de ardente paixão, Cullen reconheceu que a situação entre ele e Sara tornara-se mais complicada do que havia esperado. Imaginara, ao aceitar aquele casamento de conveniência, que não teria problema nenhum quando chegasse a hora de partir para a América com o filho, deixando a esposa na Escócia. Agora, entretanto, estava confuso. O coração lhe dizia que iria sentir muita saudade dela. Seria isso um sinal de que estava se apaixonando por Sara? Eles quase conversaram desde que haviam saído de casa, na cavalgada em direção ao castelo. Cullen tinha o pressentimento de que alguma coisa mudara entre eles ou estava na iminência de mudar. Era uma sensação vaga que ele não conseguia apreender, e isso o inquietava, pois não sabia que atitude tomar. Nuvens cobriam o céu, mas ocasionalmente o sol surgia entre elas, afastando o frio e prometendo um dia agradável de primavera. Assim que eles entraram na vila, Cullen notou que havia algo estranho no ar. Os habitantes olhavam para ele e Sara e sussurravam. Quando eles estavam bem próximos do castelo, um dos guerreiros de McHern atravessou o grande pátio correndo e pouco depois Donald McHern apareceu, com o rosto vermelho, os olhos saltados de raiva. Cullen desmontou, ergueu a esposa pela cintura, tirando-a também da sela, e sussurrou-lhe: — Alguma coisa está errada. — Concordo com você — ela murmurou, olhando em seguida para o pai. — Como você teve coragem de atrair a ira do conde de Balford para o nosso clã? — McHern esbravejou, apontando um dedo acusador para a filha. — Você sabia que seu marido era um homem procurado quando se casou com ele, não sabia? Sara manteve-se altiva, calma e confiante. — Sim. Também estou sendo procurada. Eu o amo. McHern agitou o pulso na direção dela. — Nesse caso, você irá com ele quando os soldados do conde vierem prendêlo. Cullen deu um passo para a frente.

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— Quando o senhor acha que eles chegarão aqui? — De acordo com a mensagem que recebi de um clã vizinho, em dois dias, no máximo. Mandei uma mensagem, prometendo aos soldados que vocês estariam aqui. Portanto, nem pensem em fugir — tomou McHern ameaçadoramente. — O senhor pretende nos entregar a eles? — Sara indagou, perplexa. O rosto de McHern brilhou como brasas acesas. — Você quer que eu ponha em perigo todo o clã, por causa de vocês? — Ele sacudiu a cabeça. — O clã McHern sobreviveu e prosperou porque travei batalhas sabendo que iria sair vitorioso. Ninguém pode derrotar o conde de Balford. Ele tem forte ligação com o rei. Vocês puseram o clã em risco. Agora tratem de nos livrar do perigo. Sara ia protestar, mas Cullen segurou-a pelo braço e declarou: — Esteja certo, McHern, que faremos tudo para proteger o clã. — Ora, o que vocês podem fazer? — McHern gritou e entrou no castelo com passos pesados. Cullen e Sara foram para seus aposentos seguidos por inúmeros olhares acusadores. Mesmo depois de fechar a porta, eles conversaram em voz baixa, receando ser ouvidos. — Partiremos esta noite. Levaremos pouca bagagem, visto termos Alexander conosco. Sara assentiu com um gesto de cabeça. — Teresa providenciará comida para você e Alexander. Meu pai não deve saber que você levou seu filho. — Para mim e Alexander? O que está querendo dizer? Você irá conosco. — Por quê? — Se você for apanhada antes de eu chegar até o conde, ele mandará torturála até conseguir as informações que deseja, e depois a executarão. Mesmo que eu o mate sem que você tenha sido apanhada, você continuará correndo perigo. Os soldados de Balford o vingarão. Você irá comigo e Alexander para a América. — E se eu não quiser ir? — perguntou Sara em tom desafiador. Cullen deu um largo sorriso e puxou-a para junto dele. — Não tem escolha, querida esposa. Você irá conosco. Comece a arrumar suas coisas, lembrando-se de levar só o necessário. Vou deixar os cavalos preparados para esta noite. Não poderemos avisar Teresa de nossos planos. Seu pai não nos deixará sair daqui. — Tenho certeza de que Teresa nos ajudará. Projeto Revisoras

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— Não duvido disso. — Lembre-se de que os soldados estão a caminho... — Viajaremos nos limites das terras de seu pai, sempre nos mantendo longe das vilas dos arredores. Acredito que os soldados já anunciaram que estamos sendo procurados e deixaram claro que se alguém nos ajudar sofrerá as conseqüências. — Estamos sozinhos. — Temos um ao outro, querida esposa — disse Cullen abraçando-a. Sara ficou sozinha no quarto quando Cullen foi ver os cavalos. Ela havia sonhado em ir para a América com o marido e Alexander, mas achava que isso não passava de uma esperança vã. Um mero sonho. Agora via a possibilidade de o sonho tornar-se realidade. Ela afastou o pensamento. Não havia tempo a perder. Precisava reunir o que iria levar consigo e preparar-se para deixar a Escócia, sua casa, a família, as quais, provavelmente, nunca mais iria rever. A presente situação era uma faca de dois gumes. Realizaria seu sonho, mas teria de deixar a irmã que tanto amava e o pai. Era verdade que, se ficasse, o pai iria entregá-la ao conde de Balford, mas isso não queria dizer que ele não a amava. Sara estava certa de que ele estava sofrendo por ter de tomar essa decisão, mas tinha de pensar no bem do clã em primeiro lugar. Era triste não poder se despedir do pai, não poder dizer que ela jamais havia pensado em causar algum mal ao clã. Só lhe restava pedir a Teresa que explicasse a ele a situação. O coração de Sara doeu quando ela pensou em dizer adeus a Teresa. Para distrair-se, ocupou-se em guardar numa maleta algumas peças de roupa e objetos pessoais. Quando terminou de arrumar a pequena bagagem, estava escurecendo. Em breve, deixaria aquele castelo, talvez para nunca mais voltar. Por mais que sentisse vontade de chorar, conteve as lágrimas. Tinha de estar preparada para partir, mesmo que lhe doesse deixar para trás coisas e pessoas queridas. Cullen escovou os cavalos, alimentou-os e verificou se as selas estavam em ordem. Fez tudo sem pressa, dando a quem o visse a impressão de que ali estava um homem imerso em pensamentos. — Pretende ir a algum lugar? — McHern perguntou, aparecendo no estábulo. — É bom manter as mãos ocupadas para esquecer as preocupações — Cullen respondeu. — Deve estar preocupado, mesmo — o sogro concordou, sentando-se num banquinho. — Não gosto desse Balford, um homem desonesto e perverso, que sente prazer em maltratar as pessoas. Projeto Revisoras

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Cullen fitou-o, desconfiado. — É dever de um líder proteger seu clã. Todos de seu clã — McHern continuou. — E proteger o clã às vezes significa não revelar a verdade a ninguém, para a segurança de todos. Assim, caso um bastardo queira torturar alguém para obter informações, ninguém tem nada a esconder. — Um líder deve ser sábio e corajoso. — E também ter o coração frio — McHern completou. — Não, sir, deve ter um coração valente. McHern levantou-se e estendeu a mão para o genro. Cullen apertou-a. — Cuide bem de minha filha. Ela é muito parecida comigo. Que Deus a proteja. — Eu... McHern acenou os braços, impedindo que o genro continuasse. — Não quero ouvir nada. Não quero saber de nada. Esteja preparado para a chegada de Balford. — Estarei. Ele dirigiu-se para a porta, mas voltou-se antes de sair do estábulo. — Faça o que deve ser feito. Não me desaponte, filho. — Confie em mim, sir. — Muito bem. Vou lembrar-me disso... para sempre. Cullen não se surpreendeu com a atitude do sogro. McHern amava e admirava a filha, muito mais do que deixava transparecer. O sogro deixara bem claro que esperava que ele protegesse a esposa, fugindo com ela. Porém, não podia dizer isso claramente. Sendo assim, havia declarado diante do clã que a filha e o genro tinham de permanecer no castelo e aceitar o destino que o sonde de Balford lhes reservasse. Ocultar sua real intenção dos moradores do clã era uma forma de protegê-los. Apesar de voltar para o castelo com os passos pesados, a cabeça baixa, os ombros caídos, parecendo um homem cheio de preocupações, Cullen sentia-se aliviado. Agora sabia que o sogro não iria colocar guardas extras para impedir que ele e Sara fugissem à noite. Uma vez na estrada, sua preocupação seria fugir dos soldados de Balford, pois McHern não mandaria seus guerreiros persegui-los. Cullen encontrou a esposa sentada numa poltrona diante da lareira. — Você está bem? — perguntou, ajoelhando-se diante dela. — Estou. Já deixei tudo pronto. — Sara pôs a mão sobre a do marido. — Papai mandou uma das criadas me avisar que acha melhor nós não descermos para jantar Projeto Revisoras

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com ele. Ele deve me odiar. — Pelo contrário — Cullen ressalvou, contando-lhe, em seguida, a conversa que tinham tido no estábulo. Lágrimas brilharam nos olhos de Sara. — Ele disse mesmo que sou como ele? — Disse. E também sente orgulho de você. — Você não sabe como é maravilhoso ouvir isso. Sempre achei que eu o desapontava. — Não. Acredito que seu pai desejava ter feito mais por você, mas viu-se tolhido porque você era filha, e não um filho. — Sempre achei que ele desejasse que eu fosse homem. Mas estou feliz por ir embora sabendo que ele me ama e que guardará boas lembranças minhas. — Ela suspirou. — Só há uma coisa. — O que é? — O que faremos esta noite enquanto esperamos a hora de partir? — Temos de descansar. — Mas não estou cansada. Cullen riu e ergueu-a, abraçando-a com força. — Prometo deixá-la exausta. *** Horas depois que todos haviam se recolhido, Cullen e Sara deixaram o castelo silenciosamente. Não viram nenhum movimento nem ouviram barulho algum. Pegaram os cavalos, puxaram-nos pelas rédeas até o bosque e só então os montaram e partiram. Sara virou-se para trás e lançou um último olhar ao castelo onde nascera. — Nunca mais o verei, não é mesmo? — perguntou, tristonha. — Acredito que não. Você terá outro lar, comigo e Alexander. O restante do trajeto foi feito em silêncio. Eles acordaram Teresa e Shamus, explicaram que era chegado o momento de levarem Alexander e acrescentaram que, para a própria segurança deles, era melhor não fazerem perguntas. Teresa arrumou depressa a pequena bagagem de Alexander, pôs num embornal frutas, pão, queijo e outros alimentos para a viagem. Foi então ao quarto do garoto, tirou-o do berço, ainda adormecido e abraçou-o apertado. Em seguida, entregou-o a Shamus, que também o abraçou e, por sua vez, passou-o para os braços de Cullen, que já estava montado.

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Sara e Teresa se abraçaram. — Estou feliz por você ir com eles — Teresa observou, passando a mão no rosto para afastar uma lágrima. — Vou sentir muita saudade — tornou Sara, emocionada. As irmãs abraçaram-se novamente. — Está na hora. Convém vocês partirem — disse Shamus, ajudando Sara a montar. Cullen olhou para o casal que havia cuidado de seu filho com tanto amor. — Não há palavras que possam expressar minha gratidão pelo que fizeram por Alexander — ele declarou com sinceridade. — Serei eternamente grato a vocês. Se algum dia quiserem nos visitar ou deixar a Escócia e ir para a América, cheguem até o porto de St. Andrew e perguntem por um navio, o Longton. Vocês terão a passagem e, chegando à América, serão levados para a nossa casa, no Território de Dakota. — Obrigado — Shamus agradeceu, abraçando a esposa, que não conseguia conter as lágrimas. Cullen tocou o animal, sabendo que Sara queria ficar para trás, acenando para a irmã e o cunhado até perdê-los de vista. Tendo o filho adormecido bem aconchegado junto do peito, Cullen pensou em Alaina. Tenho nosso filho nos braços, são e salvo, Alaina. Perdoe-me, minha querida, mas acho que me apaixonei. Eu não esperava amar outra mulher além de você, mas não posso lutar contra meus sentimentos. Tenho certeza de que não haverá melhor mãe para Alexander do que Sara. Perdoe-me e saiba que sempre a amarei. Para Cullen tudo estava perfeito. Eles chegariam ao navio e partiriam para a América. Bem, mas antes disso, tinha uma última tarefa por cumprir: matar o conde de Balford. A noite não tinha sido feita para viajar, porém, graças à claridade da lua, eles conseguiram afastar-se da propriedade dos McHern. Na situação em que se encontravam, a distância era necessária, bem como o sono. Eles não podiam continuar a viagem se estivessem exaustos. Por isso, Cullen decidiu fazer uma parada numa clareira para dormirem durante algumas horas. Como seria arriscado acender uma fogueira, Cullen e Sara mantiveram-se deitados bem juntos um do outro, tendo Alexander entre eles. Sara sentiu que os três formavam uma família. Adormeceu assim que esticou o corpo cansado, más não teve um sono tranqüilo porque despertava toda vez que Alexander se mexia. Como se não bastasse, foi importunada por pensamentos sombrios sobre o futuro imediato. Eles eram forçados a viajar por estradas péssimas, mas não era o terreno que a Projeto Revisoras

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deixava apreensiva. Era o ódio que o conde de Balford sentia por Cullen Longton, seu desejo obsessivo de matá-lo e também de matar o próprio neto. Homens poderosos como o conde sempre conseguiam o que queriam, por bem ou por mal. Sara imaginava que Balford não a considerava importante, mas nem por isso devia subestimar um homem traiçoeiro e perverso como ele. Testemunhara o que ele tinha feito com a própria filha, Alaina. — Durma — Cullen aconselhou-a, tendo percebido que ela estava acordada. —Já dormi um pouco — ela respondeu, vendo que ele também não conseguira dormir. — Não foi o suficiente. — Estou bem, não se preocupe comigo. O marido acariciou-lhe o rosto. — Eu não poderia deixá-la na Escócia, pois iria sentir muito sua falta. A emoção de Sara foi evidente, e ela não pôde falar. Estaria ele tentando dizer que a amava? — Casei-me com uma mulher maravilhosa, que será para o meu filho a melhor mãe que pode haver. Desta vez, o coração de Sara sofreu um baque. Sua esperança tivera pouca duração. Para Cullen, ela nada mais era do que uma boa mãe para o filho dele. — Não tenha dúvida disso — ela confirmou. — Quero muito beijá-la. Agora. O marido a desejava, gostava dela, queria protegê-la, Sara considerou. O momento era impróprio para ela pensar se ele a amava ou não. Sua maior preocupação agora devia ser com a segurança dele e do filho. Mais tarde, se empenharia em fazer com que o marido a amasse ou então aceitaria o que ele lhe pudesse oferecer. — Eu quero mais de um beijo — disse ela de modo provocativo. — Cuidado com o que você pedir. — Sei exatamente o que eu quero do meu marido. Quero amor além da razão. — Você gosta realmente do modo como nos amamos? — Tem alguma dúvida? — Não. Eu só queria ouvi-la dizer. — Amo seu modo gentil de me acariciar, suas atenções, sua impetuosidade, seu desejo de me proporcionar prazer... Enfim, amo o seu cheiro, seu sabor. — E um prazer saber disso. Pena o momento e o lugar não serem apropriados para este tipo de conversa. — Cullen apertou a mão de Sara. — Durma.

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— Você acha isso possível? — Está querendo dizer que me deseja tanto quanto eu a desejo? Agora? — Um forte desejo. — Em breve. Prometo satisfazê-la em breve. — Vou lembrá-lo dessa promessa. — Não será necessário. Eles fecharam os olhos simultaneamente e adormeceram. Sara teve receio de que Alexander ficasse assustado ao acordar fora de casa e ver Cullen e ela em lugar dos pais que sempre conhecera. Felizmente, os dias de con vivência com o garoto salvaram a situação. Assim que Alexander abriu os olhos, Cullen ergueu-o nos braços e fez umas gracinhas para distraí-lo. O garoto olhou ao redor e quis chorar, mas o pai mostrou-lhe o cavalinho e Sara começou a alimentá-lo. — Alexander irá se acostumar — Sara afirmou. — Eu sei, mas corta-me o coração fazê-lo sofrer desse jeito. — Ele é muito pequeno e nem se lembrará deste período de sua vida. — Graças a Deus. Eles voltaram para a estrada. Tinham de cavalgar muitos quilômetros, sempre atentos, com os ouvidos aguçados e a mente alerta. Não podiam perder tempo com inquietações ou conversas. A viagem até St. Andrew iria demorar pouco mais de uma semana, e imprevistos poderiam ocorrer. Por isso, era imperioso que eles se mantivessem cautelosos e em silêncio. A presença de Alexander tornava a viagem mais difícil. Eles eram obrigados a parar com freqüência e o medo de que o garoto chorasse ou fizesse barulho tornara-se uma preocupação constante. Dois dias se passaram sem nenhum incidente. No terceiro dia, quando se aproximavam do mercado onde teriam de comprar suprimentos para a viagem, Cullen disse a Sara: — Você fica aqui com Alexander enquanto eu vou ao mercado. — Que idéia absurda — Sara discordou. — Por quê? Você acha melhor ir às compras enquanto eu cuido de Alexander? — Claro. Quem está sendo procurado pelos soldados do conde é você, não eu. Ninguém irá reparar em mim. Serei apenas mais uma mulher indo ao mercado. —Você tem razão. Mas detesto expô-la ao perigo. E se você precisar de ajuda? — Serei cautelosa. Confie em mim. Não haverá nenhum problema. — Você não vai perder tempo com bobagens? Projeto Revisoras

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— Essa pergunta é inteiramente desnecessária. — Em se tratando de você, é necessária. — Só por causa disso não lhe trago doces! — Pa... — Alexander balbuciou e apontou para o pai. — Isso mesmo, filho, diga a ela que seu papai quer doces. Alexander riu e bateu no peito do pai. — Está bem, trarei os doces — disse Sara, rindo também. — Tenha cuidado. Não quero perdê-la. O coração de Sara saltou dentro do peito só de pensar que o marido se preocupava com ela. Talvez até a amasse à maneira dele. — Fique tranqüilo. Não irei a lugar nenhum. — É claro que sim. Você irá para a América comigo e com Alexander. Sara beijou o marido e o garotinho. — Amo vocês dois. Cullen segurou as rédeas do cavalo dela. — Volte para mim sã e salva, minha esposa. — Farei a sua vontade, meu marido. — E segure a língua, hein? — Agora você está pedindo o impossível — tornou Sara, fustigando ò cavalo e partindo. Chegando à praça, deixou o cavalo aos cuidados do fazendeiro que já conhecia e entrou no mercado, onde era grande o movimento. Notou que havia ali mais soldados do que de costume. Eles estavam atentos aos homens ou casais que entravam no mercado. Mas não deixavam de olhar com interesse para alguma mulher que lhes dirigiam olhares provocantes. Sara não teve problema nenhum. Andou pelas barracas sem chamar a atenção, como qualquer dona de casa atrás de pechinchas. Fez rapidamente as compras necessárias com o dinheiro que o marido lhe dera e escolheu até um cãozinho de madeira para Alexander. Quando chegou à barraca de doces, feliz por estar terminando as compras, começou a agitação. Um soldado segurava com força uma moça, que chorava e gritava por socorro. Os que tentavam ajudá-la eram ameaçados por outros soldados. Sara não pôde ignorar os gritos aflitos da jovem. Não achava certo o que os soldados estavam fazendo e iria confundir aqueles brutos imbecis. Ainda bem que não prometera ao marido conter a língua. Projeto Revisoras

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Comprou os doces e encarou o soldado que zombava da moça por se debater, querendo livrar-se dele. — O que é que você está olhando? — indagou o soldado. — Você sabe quem é ela? — Sara perguntou. — É uma camponesa — o soldado respondeu asperamente. — Sim, mas tem quem a proteja — Sara apontou e virou-se para sair do mercado. — Quem é seu protetor? — o soldado perguntou à moça. Ela ficou em silêncio. Ele gritou, chamando Sara. — Ei, você! Espere! Sara virou-se. — Quem a protege? Ela deu de ombros. — Isso não cabe a mim dizer. O soldado colocou a moça na frente de Sara. A pobrezinha tremia, apavorada. Sara não teve medo do soldado, um baixinho que ela poderia mandar para longe com apenas um bom soco no estômago. Mas ela sabia que os outros soldados iriam defender o colega. — Diga! — O baixinho engrossou a voz e ergueu o punho. Sara quase riu da ameaça ridícula. Mas ficou séria. Devia impressionar aquele idiota. Tinha de convencê-lo de que o protetor da moça era alguém importante. Só assim ele a libertaria. — Realmente, não posso dizer. Ela também não pode. — Sara fez um gesto negativo, baixando a cabeça. — Uma das duas tem de me dizer quem é ele. Agora! — o soldado gritou. — Nós duas preferimos enfrentar a sua raiva, soldado, à ira desse protetor — Sara respondeu, estremecendo. Ela não esperava receber um tapa na boca e, ao sentir o gosto de sangue, ficou furiosa. Mas teve o bom senso de conter-se. Estavam em jogo a segurança da moça, a de Cullen e a de Alexander. Abaixando-se, ela juntou os pacotes que tinham caído de seus braços e encarou o soldado. — Como é? Preciso fazer a pergunta novamente? Sara sacudiu a cabeça e estremeceu. — Não me atrevo a revelar o nome dele. Pode me fazer o que quiser, mas não direi quem é ele. A moça, finalmente entendeu o jogo de Sara. Projeto Revisoras

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— Ela tem razão. O nome dessa pessoa não pode ser revelado, nem mesmo sussurrado. O soldado nanico empurrou a moça como se ela tivesse uma doença contagiosa. — Suma da minha frente. A moça dirigiu a Sara um olhar de gratidão e desapareceu. O soldado aproximou-se de Sara e propôs-lhe com ar atrevido: — Você pode me fazer companhia em vez dela. — Se você não tiver medo de pegar varíola... O homenzinho deu um pulo para trás. — Desapareça daqui. Se eu tornar a ver sua cara, mandarei prendê-la. Sara baixou a cabeça e saiu do mercado imediatamente. Foi buscar o cavalo e quando deixou a praça, teve o cuidado de olhar para trás para ver se não estava sendo seguida. Embora achasse estimulante vencer alguém pela inteligência e não pela força, reconheceu que não devia ter-se arriscado daquele jeito. O lábio machucado estava sangrando, o que a preocupou. Cullen iria zangarse com ela quando lhe contasse o que tinha acontecido. Mas como poderia ignorar o pedido de socorro da moça? Cullen tinha de entender que ela jamais deixava de ajudar pessoas indefesas. Fizera o mesmo por Alexander. Ela costumava andar de cabeça erguida e não se curvava servilmente para ninguém. Para ela, todos eram iguais. Ninguém era melhor, nem superior, nem mais santo do que ninguém. Pelo que ouvira dizer sobre a América, iria ajustar-se muito bem àquele modo de vida. Nuvens formavam-se no céu e trovões ribombavam ao longe, prometendo chuva para breve. Ela puxou o capuz do agasalho sobre a cabeça para proteger-se do vento frio e também para esconder parcialmente o rosto. Tocou o cavalo mais depressa e logo chegou à clareira onde tinham passado a noite. Encontrou Cullen já montado, tendo Alexander nos braços. — Encontrei uma gruta aqui perto para nos abrigarmos da chuva — ele anunciou ao vê-la. — Ótimo — Sara aprovou, sem encarar o marido. Virou o cavalo para segui-lo, mas ele chamou-a. — Sara? — Temos de nos apressar — disse ela, tocando o cavalo. Cullen alcançou-a e puxou o capuz para baixo, deixando-a com a cabeça descoberta. Ele notou imediatamente o lábio inchado que, felizmente, tinha parado de sangrar. Projeto Revisoras

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Sara prendeu a respiração ao ver nos olhos escuros um brilho feroz. Cullen engoliu a raiva. Pressentindo a fúria do dono, o cavalo empinou, nervoso. — Comprei doces para nós. — Sara estendeu a mão, oferecendo o embrulho para o marido. — Doces que lhe custaram muito caro — ele resmungou, tendo cerrado os dentes. Começou a chover, e Alexander chorou alto, assustado. — Vamos nos abrigar na gruta. Lá você me explica o que aconteceu — Cullen rosnou. Seu mau humor não diminuiu com o gesto delicado de Sara ao oferecer os doces. Esperava que o corte no lábio não tivesse nada a ver com aqueles doces. Entretanto, como conhecia bem a esposa, tinha certeza de que ela lhe devia uma longa explicação. Chegando à gruta, Sara estendeu a um canto o cobertor e sentou-se nele com Alexander enquanto Cullen amarrava os cavalos a uma árvore. O garotinho riu feliz quando ela lhe deu o cãozinho de madeira. — Pa... pa... — ele gritou. Cullen reuniu-se a eles, esquecendo a raiva por um momento para poder brincar com o filho. — Esse corte no lábio precisa ser tratado — disse ele. — Eu cuido disso. — Sara quis levantar-se, mas o marido segurou-a. — Fique quieta. — É um machucado de nada. Basta limpá-lo. Posso muito bem fazer isso. — Eu sei que pode, mas eu quero cuidar de você. Sara olhou para ele. — Espere um pouco, depois você me conta o que aconteceu. Cullen levantou-se, foi até a entrada a gruta, molhou um lenço com a água da chuva e voltou para perto de Sara. Alexander estava distraído, brincando com os brinquedos de madeira. — Agora comece a contar como se machucou — ele pediu enquanto limpava com cuidado o corte no lábio da esposa. Sara contou sua história. Cullen acompanhou a narrativa imaginando a cena, entendendo claramente o que ela havia passado para defender outra pessoa. — Eu não podia ficar surda aos pedidos de socorro da pobre moça — ela justificou-se.

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Cullen teve vontade de sair a galope à procura do bastardo covarde que tinha batido em Sara. Mas isso não era possível. Tal reação iria satisfazer seu desejo de vingança, mas poria em risco a segurança deles três. — Compreendo a sua reação, mas você não devia arriscar-se dessa maneira. Eu poderia tê-la perdido. Ela deu um amplo sorriso. — Nunca me perderá. Você faz parte de mim. Cansado de brincar sozinho, Alexander engatinhou até o pai, agarrou-se na camisa dele para ficar de pé e apontou o dedo para o lábio de Sara. — Ah... Ah... Sara abraçou-o, ele riu, e ela rolou no cobertor com o garotinho nos braços. — E o papai? — Cullen reclamou, rindo também e rolando com eles. Alexander e Sara eram a sua família. Tinha de aceitar esta nova alegria em sua vida em vez de sofrer pela mulher que se fora para sempre. Agora estava casado com Sara, uma mulher maravilhosa, com qualidades que ele admirava e respeitava. Uma mulher por quem se apaixonara. Como, onde e quando o amor nascera em seu coração, só o Senhor sabia. Bem que ele havia tentado entender a lógica desse amor, mas desde que conhecera Sara nada parecia ser coerente. O importante era que tinha encontrado o filho, amava a esposa e iria começar vida nova na América. Infelizmente, tinha uma coisa a mais para resolver, uma coisa que representava um risco para seu futuro, mas tinha de ser feita. Exausto por causa do desconforto da viagem, Alexander adormeceu mais cedo do que de costume, deixando o pai e Sara com mais tempo para si mesmos. — Venha cá. — Cullen puxou-a para bem perto. — Quero sentir seu sabor. — Com o maior prazer, meu marido. Ele começou a acariciá-la no pescoço, excitando-a com beijos e leves mordidas. À medida que ia descendo pelo colo e seios, afastava as roupas que a cobriam, para deixar expostas as partes que desejava explorar, proporcionando a ela maior prazer. Mordiscou e sugou um mamilo, depois o outro, deliciando-se com o gosto dela, com seu cheiro e a textura de sua pele. Ergueu-lhe a saia e continuou a saboreá-la, até alcançar a região mais íntima. Sara conteve-se para não gritar e gemer, receando acordar Alexander. Logo, ele acomodou-se entre as pernas de Sara, penetrando-a com força, encontrando-a quente e úmida. Começou a movimentar-se com ímpeto e paixão, enlouquecendo-a, até ambos se perderem num mundo de sensações incríveis, explodindo de prazer em meio a uma orquestra de sons, um arco-íris de cores translúcidas e raios de luz... Quando, por fim, descansavam nos braços um do outro, Cullen abordou o Projeto Revisoras

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assunto que tinha evitado até então. — Havia soldados extras no mercado? — Muitos — Sara respondeu. — Balford cobriu bem a área, como eu imaginava. — Sinal de que ele está determinado a aprisionar você e seu filho. — É claro que ele não há de querer que o filho bastardo de Alaina continue vivo para um dia herdar as terras e a fortuna do avô. — O conde não irá desistir enquanto não encontrar você. — E você, não? — Eu não represento nenhuma ameaça para ele. — Está enganada. Você salvou o neto bastardo dele, o que a tornou uma inimiga declarada. Pode ter certeza de que Balford planeja castigá-la. Para ele, é um prazer assistir ao sofrimento de suas vítimas. Apaixonei-me pela filha dele e paguei caro por isso. — Você se arrepende? — Nem um pouco. Mas o tempo passou e nós temos de viver o presente. — Alexander é o que importa. — Ele é nosso. Podemos dar a ele muitos irmãos e irmãs. Você quer ter filhos, não quer? Ao fazer a pergunta, Cullen desejou que Sara, da mesma forma que ele, sonhasse com uma família numerosa. Ele queria deixar a vida antiga para trás e começar uma vida nova. Poderiam fazer isso na América. — Sempre desejei ter muitos filhos — Sara respondeu com entusiasmo. — Então eu lhe darei muitos filhos. — Cullen colocou a mão sobre o ventre da esposa. — Talvez nosso filho já esteja dentro de você. Sara cobriu a mão dele com a sua e suspirou. — Seria maravilhoso. Alexander teria um irmão ou uma irmã para brincar, e eles cresceriam juntos. — E mais irmãos e irmãs continuariam chegando. — Você pretende me manter ocupada — tornou Sara, rindo. — O tempo todo. — Ele beijou-a no pescoço e ia beijar-lhe a boca, mas parou. — É revoltante ver seu lábio machucado. — Valeu a pena. — Eu devia dizer que você cometeu uma tolice, mas de nada adiantaria. Eu a

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conheço bem. Você faz o que acha certo, em qualquer circunstância. E não tem medo de dizer a verdade, doa a quem doer. — Isso o aborrece? — Preocupa-me, mas apenas enquanto estamos na Escócia, pois temos de enfrentar um inimigo poderoso e perverso. Devemos nos unir e fazer tudo de comum acordo até que Alexander e você estejam em segurança no navio de meu irmão. — Alexander, eu e você — Sara frisou. — Eu me reunirei a vocês só depois do meu encontro com Balford. — Esse ajuste de contas é realmente necessário? Cullen não queria discutir com ela. A decisão era sua, e ele não desistiria enquanto não fizesse o que devia ser feito. E isso agora era mais necessário do que nunca. — Balford é um homem impiedoso, implacável — ele respondeu. — Cullen, nós vamos embora. Deixaremos a Escócia... — Mas a sua família permanecerá aqui. Sara virou-se nos braços do marido. — Balford perseguirá a minha família? — Não tenha dúvidas. Ele sentirá necessidade de descarregar seu ódio em alguém, seja essa pessoa culpada ou inocente. Balford tem sede de vingança. Se nós formos embora, sua fúria se voltará para as pessoas mais próximas a nós. Como não tenho parentes aqui... — A vingança recairá sobre minha família — Sara completou. — Pode contar com isso. — Entendo que seu encontro com o conde de Balford seja mesmo necessário. Mas não gosto disso. Temo pela sua segurança e quero ajudá-lo. — Lamento, mas resolverei isto sozinho. Sara empurrou o peito dele. — Não, senhor. — Não vamos discutir, Sara. — Concordo. Nada de discussão. Eu o ajudarei. Está decidido. Cullen ficou em silêncio. Sara não iria ouvi-lo mesmo. Ela era obstinada e queria tudo resolvido à sua maneira. Mas ele não estava disposto a perder tempo com discussão desnecessária. Tinha um plano em mente e o executaria no momento certo, sem a participação da esposa. Não iria permitir que Balford tocasse um dedo nela. O conde era assunto dele, e só ele iria enfrentá-lo. — O seu silêncio me diz que terei de abrir os olhos e manter-me alerta para Projeto Revisoras

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não permitir que você dê um jeito de agir às escondidas e fazer alguma tolice. — Não sou eu quem está com o lábio inchado. — Se depender de mim, você não terá ferimento nenhum. Cullen deu uma boa risada. — Duvido que alguém possa impedi-la de dizer o que você quiser dizer. — Pode rir à vontade, marido. Eu sei que, no final, tudo será à minha maneira. — Veremos. — Cullen beijou-a no rosto. — Não pense que pode me distrair com um beijo. — Distraí-la? Isso nem me passou pela cabeça. Ele continuou a beijá-la suavemente até perceber que ela havia relaxado. Seguiram-se alguns bocejos; ela, por fim fechou os olhos e adormeceu com o rosto encostado no peito dele. Cullen também estava exausto. Encontrava-se naquele estágio entre o sono e a vigília, e as palavras de Sara ressoavam em sua cabeça, aumentando sua preocupação. Obstinada como era, ela iria fazer o possível e o impossível para acompanhá-lo quando ele fosse ao encontro de Balford, arriscando a própria vida. Ele não podia perder outro amor. Não podia perder Sara. Agora tinha certeza de que ela era especial para ele e estava apenas esperando o momento certo de se declarar. Esse momento devia ser perfeito para que ela não tivesse dúvidas de ele que a amava. Depois de uma semana exaustiva e inquietante, Cullen, Sara e Alexander chegaram, finalmente, ao porto de St. Andrew. Mas a viagem cheia de percalços não acabara, uma vez que eles não puderam nem sequer se aproximar do navio de Burke. A cidade portuária estava cercada de soldados. Quase todos estavam à procura de Cullen Longton e seu filho. Nenhum homem, mulher ou casal com uma criança estava livre de suspeita. Todos eram detidos, tinham de provar sua identidade e só depois eram liberados. Cullen e Sara viram-se obrigados a dar uma volta enorme e, graças a muito esforço, resistência física e esperteza, passaram pelos soldados sem que os vissem e esconderam-se atrás de um prédio, entre pilhas de caixotes e barris, a poucos metros de distância do navio. Naquele momento, eles conversavam sobre a situação difícil em que se encontravam. — Os soldados estão alertas. Ninguém passa por eles carregando uma criança sem ser questionado — disse Cullen, tendo nos braços o filho adormecido. Projeto Revisoras

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— O modo relativamente mais fácil de chegar ao navio é fazer alguma coisa bem excêntrica para distrair os soldados — Sara sugeriu. — Posso distraí-los enquanto você corre para o navio — Cullen ofereceu-se. Sara conteve-se para não esmurrá-lo, tão zangada estava. — Ficou maluco? — Não. Mas se é esta a única saída... — Vamos pensar em outras possibilidades — Sara apontou. Admitiu que estava com muito medo. Olhou para o marido, exausto, mas que se mantinha tão determinado. Ele lutaria até o fim para manter Alexander e ela a salvo. O que ele não entendia era que ela amava pai e filho e também estava disposta a arriscar a própria vida para protegê-los. — Não há outras possibilidades — Cullen alegou. — Lembre-se de que tenho meu encontro com Balford. — Eu sei. Vamos deixar Alexander no navio e iremos nós dois cuidar do conde de Balford. — Você sabe que não permitirei que você me acompanhe. — Imaginei que você fosse dizer isso. — Sara deu um profundo suspiro. — E assim que deve ser. Numa situação delicada como a nossa, temos de ser sensatos. Os soldados estarão tão ocupados com a minha captura que você e Alexander poderão ir para o navio sem que os vejam. — E se os soldados decidirem revistar o navio? — Acredito que eles já fizeram isso. Mas se não fizeram, meu irmão tem onde esconder vocês dois. — Vejo que você planejou tudo sem esquecer nenhum detalhe. — Esta luta é minha, não sua. — Engana-se! Sou sua esposa, portanto esta luta é nossa. — Já era minha antes de você surgir na minha vida. — Tornou-se minha também depois que nos casamos. — Não podemos perder tempo com discussão. Alexander logo irá acordar faminto e chamará a atenção. Temos de ir para o navio imediatamente. — Você está absolutamente certo! Cullen sorriu. — Eu sabia que você usaria seu bom senso e acabaria concordando em fazer o que deve ser feito. — Sou uma mulher sensata. Por isso me casei com você. Na ocasião, o

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casamento representava a solução do meu problema, apesar de eu não ter contado com o fato de me apaixonar por você. — Ainda bem. Estou feliz porque meu filho terá uma mãe amorosa e forte que o protegerá. Sara não gostou do modo como o marido disse aquilo. Ele praticamente declarara que cabia a ela cuidar de Alexander e mantê-lo fora de perigo. Então era esse o motivo de ele querer que ela fosse para a América! Se alguma coisa acontecesse com ele, seu filho seria amado e protegido. Cullen Longton amava Alaina e nunca deixaria de amá-la. No coração ferido dele não havia lugar para ela. Pensando nisso, Sara soube o que devia fazer. Beijou o rosto do marido. — Amo você e lhe agradeço por mostrar-me como seria ter a minha própria família. Sempre me lembrarei do tempo que passamos juntos com imenso carinho — disse ela e afastou-se. — Sara! — Cullen gritou. — Cuide bem de Alexander e sejam felizes. Ela foi para a frente do prédio com o coração partido, mas prometeu a si mesma não derramar uma lágrima. Decidira casar-se com Cullen e acabara se apaixonando. Mas se ele não a amava, era melhor separar-se dele. Fazia isso também por si mesma, por amor. Começou a correr na direção de um soldado e a gritar. Ele agarrou-a pelo pulso. — Sei onde está Cullen Longton, o homem que vocês estão procurando — ela declarou. — Venha depressa, me siga ou ele conseguirá escapar. O soldado chamou outros colegas e continuou seguindo Sara. — Como posso saber que você está falando a verdade? — indagou o soldado que a havia agarrado, parando um instante. Os outros colegas os cercaram. — Você devia me perguntar o que o conde de Balford irá fazer com vocês se eu estiver dizendo a verdade e vocês deixarem Cullen Longton fugir. A essa altura, havia inúmeros soldados ao redor de Sara, todos alvoroçados, conversando entre si em voz baixa. — Eu já disse que vocês devem se apressar ou ele irá fugir. — Se você nos enganar, o conde vai fazer você pagar caro por isso — ameaçou o primeiro soldado. — Eu sei onde está Cullen Longton. Se isso não é verdade, por que eu teria Projeto Revisoras

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chamado você, seu tolo? O soldado ofendeu-se e deu um coque em Sara. — E então? Onde ele está? — Por aqui! Sara fingiu ter tropeçado justamente para poder olhar para trás e ver Cullen subindo a prancha de embarque, carregando Alexander. Levantou-se e começou a andar depressa, afastando-se do navio. Quando a porta da cabine fechou-se atrás de Cullen, Alexander começou a chorar. — Burke! Storm! Vocês ainda estão aqui? — Cullen indagou, surpreso. — Imaginei que estivessem na América. Storm estendeu os braços. — Deixe-me ver seu filho. Cullen entregou Alexander para a cunhada. Usando aquelas roupas masculinas fora de moda ela ficava mais parecida com um rapaz do que com a linda moça que era. Em seguida, ele olhou para o meio-irmão, esperando uma resposta. — Storm quis ir para a França, onde temos outro navio — Burke explicou. — Voltamos para cá e ficamos esperando por você, caso precisasse de ajuda. Cullen apertou a mão do homem que mal conhecia e que, no entanto, era muito parecido com ele, embora não tão alto. Burke também era igualmente corajoso, forte e leal. Ver o meio-irmão deixou Cullen muito feliz e aliviado. — Realmente, preciso de ajuda — Cullen afirmou. — Minha esposa entregouse aos soldados de Balford para que eu e meu filho pudéssemos chegar a este navio. — Esposa?! — Burke e Storm perguntaram ao mesmo tempo. — Pa! — Alexander gritou e estendeu os braços para o pai. Cullen pegou-o e não ficou surpreso ao ver o garotinho olhar ao redor da cabine com lágrimas nos olhos, querendo chorar. — Alexander está à procura de Sara, minha esposa. Ela brinca com ele, dá-lhe de comer, acalenta-o... — A voz de Cullen ficou embargada. — Vamos trazê-la de volta, meu filho. Eu prometo. — Vocês precisam comer e beber alguma coisa — disse Storm. — Depois você nos conta como encontrou essa esposa e nos diz o que podemos fazer para ajudá-lo a trazê-la de volta. — Como é bom ter uma família e poder contar com a sua ajuda. — Cullen sorriu, aliviado. — Acho ótimo ter a chance de enfrentar Balford e fazê-lo pagar por todo o Projeto Revisoras

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sofrimento que infligiu a tantas pessoas inocentes — Storm expôs e tocou no punho da espada que pendia do cinto preso à cintura. — Você está se oferecendo para ajudar meu irmão? — Burke perguntou à esposa. — Ele não espera que você entre nessa luta. — Burke tem razão — Cullen concordou. — Já basta minha mulher estar envolvida no acerto de contas que tenho com Balford. Não preciso de outra. Burke riu. — Irmão, sua esposa é igual à minha? Teimosa, quer tudo à sua maneira e não ouve conselhos? Finalmente, tenho alguém capaz de me compreender. — Já gosto de sua esposa, cunhado. Conte-nos como é ela — disse Storm. — Não há tempo. Tenho de ir atrás de Sara. — Nada disso. Alimente-se, descanse e trace um plano de ação antes de sair por aí, desatinado — Burke ponderou. Cullen quis argumentar, mas sabia que o irmão estava certo. Sair correndo e agir impensadamente só iria pôr a sua vida e a de Sara em perigo. Isto sem levar em conta que ele estava exausto por causa da longa viagem, além de faminto. Ele e Sara tinham comido muito pouco no dia anterior. — Traçaremos um plano juntos. Vamos contratar quantos homens forem necessários para trazer sua esposa até o navio e partiremos para a América — Burke disse. A mesa foi posta e, enquanto comia, tendo Alexander no colo comendo também, Cullen contou tudo o que tinha acontecido desde que vira o irmão e a cunhada pela última vez. — Tenho de salvar minha esposa. Ela fez muito por mim. Não fosse por sua coragem, meu filho não estaria aqui agora. Ela arriscou-se para salvá-lo e acaba de fazer o mesmo novamente. — Vejo que você a admira. Mas a ama também? — Burke perguntou. — É evidente que sim — Storm declarou, oferecendo um pedaço de bolo ao cunhado. — Os olhos dele brilham e o rosto se ilumina quando ele fala sobre a esposa. Meu marido também tem essa reação quando fala sobre mim. Apesar de você e Burke serem meios-irmãos, são muito parecidos. — Storm está certa. Amo Sara, mas ainda não me declarei. — Sente-se culpado, por causa de Alaina, é isso, não é? — Storm indagou. Cullen sorriu. — Você é tão direta quanto a minha Sara. — Posso imaginar o que você esteja sentindo porque aconteceu o mesmo Projeto Revisoras

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comigo. Senti-me culpada quando me apaixonei por seu irmão. Eu achava que, se amasse outro homem, estaria traindo Daniel, meu falecido marido. Levou algum tempo para eu compreender que sempre amaria Daniel, mas tinha o direito de amar novamente. Um novo amor não iria diminuir meu amor por ele. — Estou feliz por ouvir alguém falar sobre o que estou sentindo. Eu nunca esperei amar outra mulher, especialmente tendo perdido Alaina há tão pouco tempo. Quando compreendi que estava apaixonado por Sara, fiquei muito surpreso. — Não temos controle sobre o amor — Burke assinalou. — Eu, pessoalmente, acho melhor que seja assim. Jamais esperei apaixonar-me por uma escocesa baixinha e fora-da-lei. Mas, eu lhe digo, irmão, estou muito feliz com ela. — Tenho de trazer Sara de volta... — Cullen apertou o filho contra o peito. — Ah, o conde nunca mais há de causar sofrimento a ninguém. — Balford quer você, e Sara servirá de isca. Ele espera que você apareça para resgatá-la — Storm observou. — Preciso salvar minha esposa. Sei o que é ficar prisioneiro numa masmorra. O conde tem prazer de torturar seus prisioneiros. Conheço Sara. Ela não sabe ficar de boca fechada, e isso desencadeará a ira dele. Portanto, temos pouco tempo. Se nos demorarmos, ela estará perdida. — Então vamos ao nosso plano de ação. Em primeiro lugar, temos de descobrir para onde a levaram — disse Burke. — Vamos contratar homens para vasculhar a área... — Não. Isso levará muito tempo — Cullen discordou. — Farei isso enquanto você descansa — Burke insistiu. — Ao amanhecer, iremos resgatar sua esposa e à noite partiremos para a América. Deixe tudo por minha conta. Você não pode sair do navio mesmo, pois é um homem procurado. — Está bem. E muito bom ter um irmão como você. De fato, não devo me arriscar. Sairei daqui somente quando formos salvar Sara. Então eu enfrentarei Balford. — Venha comigo. Vou mostrar-lhe onde você poderá esconder-se caso os soldados resolvam revistar o navio novamente. Eles fizeram isso pela manhã e só encontraram os tripulantes. — Como sairemos do navio sem que nos vejam? — Trajados como marinheiros. Se representarmos bem nosso papel, soldado nenhum nos aborrecerá. Agora trate de dormir. Vai precisar de suas forças. — Quem tomará conta de Alexander quando sairmos do navio? — O capitão cuidará dele. Não se preocupe. Burke saiu para dar início à primeira parte do plano, Storm distraiu Alexander Projeto Revisoras

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com os brinquedos de madeira e Cullen desceu para o último convés, querendo ficar algum tempo sozinho. Não podia tirar do pensamento a imagem de Sara dizendo-lhe adeus. Ela se sacrificava por amor a ele e a Alexander. O que o angustiava, acima de tudo, era o fato de jamais ter-lhe dito o quanto a amava, e ele queria que Sara soubesse disso. Queria que ela tivesse certeza de que ele iria salvá-la. Era para Cullen uma agonia pensar que, naquele momento, sua querida Sara devia estar pensando que tinha o destino selado. Que estava sozinha, e que sozinha enfrentaria a morte. Esses pensamentos deixaram-no gelado e enfurecido. Ele esmurrou uma trave acima da cabeça e sentou-se num barril. Era desesperador ficar ali sem poder fazer nada. Mas no momento só lhe restava esperar pela volta de Burke para entrarem em ação. Cullen ergueu a cabeça, endireitou os ombros e gritou: — Sara, me escute! Eu te amo! Saiba disso em teu coração e na tua alma. Saiba também que irei te salvar! Sara sentiu na boca o gosto de sangue. O corte no lábio abrira-se novamente. Todo o corpo doía, tinha esfolados, arranhões e hematomas nas pernas, nos braços e no rosto. Os soldados a haviam arrastado, dando-lhe pontapés e socos ao descobrirem que tinham sido enganados. Estava sofrendo, porém sentia-se vitoriosa. Conseguira distrair os soldados, e Cullen entrara no navio com Alexander, sem nenhum problema. O sacrifício valera a pena. Gostaria de acreditar que o marido viria salvá-la, mas receava que isso não fosse acontecer. Era melhor não alimentar falsas esperanças e se convencer de que estava sozinha, tendo de contar consigo mesma. Se fosse cuidadosa e usasse a inteligência, conseguiria sair da situação difícil em que se encontrava. Para onde iria ao ver-se livre, era uma questão para ser considerada mais tarde. Uma coisa era certa: não podia voltar para o clã para não comprometer a segurança de sua família. Cullen, naturalmente, desejava ardentemente vingar-se de Balford, mas tinha de pensar no filho. Como já estava a bordo do navio do irmão e podia partir para a América, por que iria arriscar a vida enfrentando o conde? Por certo ele não queria deixar o filho órfão. O barulho da porta de ferro da pequena cela se abrindo interrompeu os pensamentos de Sara. A luz de uma tocha fez com que ela apertasse os olhos já acostumados com o escuro. Permaneceu imóvel. Quando se movimentava, as correntes e algemas que a prendiam esfregavam na pele esfolada, causando muita dor. Projeto Revisoras

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Os soldados soltaram as correntes presas à parede e levaram-na para fora da cela imunda, depois pelo corredor. Ela não abriu a boca para reclamar ou para xingar aqueles estúpidos, nem mesmo quando eles arrastaram-na para cima, suas nádegas, costelas e pernas batendo nos degraus de pedra. Fora da masmorra, ela recebeu no rosto a brisa amena de primavera e viu que amanhecera. Na cela escura perdera a noção das horas. Não saberia dizer quando era noite ou dia. Ela ainda não fora levada à presença do conde de Balford e imaginou que a haviam tirado da cela com esse fim. Quando os soldados arrastaram-na para o solar do conde, Sara notou que as pessoas olhavam para ela com pena ou simpatia, certamente porque sabiam como ele tratava suas vítimas. Ignorou os olhares e pensou em Cullen e Alexander. Os dois estavam salvos, e ela não revelaria onde eles se encontravam, nem mesmo sob tortura. Se, finalmente, a matassem, sua morte não teria sido inútil, pois servira para proteger pessoas que amava. Puseram-na de pé e forçaram-na a subir alguns degraus e a entrar numa sala ricamente mobiliada, com o piso reluzente, tudo muito limpo. Ela estava suja, machucada e com algemas. Mas ergueu a cabeça, e manteve o orgulho intacto. Um homem elegantemente trajado, de olhar astuto, entrou na sala e, ao passar pela prisioneira, levou ao nariz empinado o lenço arrematado com renda. — Eu tinha me esquecido de que a masmorra agride os sentidos mais delicados — ele queixou-se. Sara encolheu os ombros. — O senhor é responsável por isso. O conde arqueou as sobrancelhas. Sara percebeu que o tinha deixado surpreso. Certamente, o grande homem esperava que ela se encolhesse de medo e pedisse clemência. Mas ela o atacara primeiro. Era a esposa de um guerreiro e não iria manchar seu nome. Manteria seu orgulho, sua honra e lutaria até o fim com aquele homem perverso e arrogante. — Estou surpreso de Cullen Longton ter escolhido uma esposa como você — o conde observou. — Minha filha era muito mais bonita e muito mais educada. — Ele não me escolheu. Eu o escolhi. Portanto, perde seu tempo se está pensando que ele tentará me salvar. Nosso casamento não foi nada mais do que um acordo. Ele cumpriu sua parte e agora está livre para fazer o que bem entender. O conde sentou-se numa poltrona com revestimento de seda amarela e cruzou as pernas. O aristocrata estava de acordo com o ambiente: era pretensioso, extravagante, fútil. Esse era um homem pusilânime que mandava outros combaterem suas batalhas e fazia alianças com poderosos para receber deles proteção. Era falso na aparência, na maneira de ser e jamais poderia merecer a confiança de alguém, fosse amigo ou inimigo. Projeto Revisoras

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— Não importa. Cullen Longton virá salvá-la — o conde afirmou. Sara riu. — Está enganado. Eu sou um estorvo na vida dele. Por que ele arriscaria a vida por mim? Era doloroso ter de pronunciar essas palavras, Sara pensou. Mas era verdade. Não havia no coração de Cullen lugar para nenhuma outra mulher além de Alaina. Ela gostaria que fosse diferente, mas não era. Não podia mudar os sentimentos dele. Nem os dela. Amava o marido e iria proteger aqueles que amava. — Cullen Longton é um homem tolo, mas honrado. Ele virá resgatar a esposa — o conde insistiu. — Tolo é o senhor se acredita nisso. O conde ficou vermelho de raiva. — Terei o maior prazer de cortar sua língua, mas antes quero ouvi-la implorar a minha misericórdia. — Pode esperar sentado... — Veremos. Mas, voltando a Cullen, se ele não vier até aqui para salvá-la, virá para me enfrentar. Um guerreiro faz questão de vingar-se. Isto é ponto de honra, e Cullen é um homem honrado. — Sim, ele é uma pessoa nobre e corajosa, como Alaina. Já o senhor é um homem perverso e traiçoeiro. Balford inclinou-se para a frente. — Cale-se! Você não passa de uma camponesa ignorante! Sara ergueu mais a cabeça. — Esta camponesa ignorante conseguiu enganar seus soldados, frustrando assim seu plano hediondo de acabar com a vida do próprio neto. — Todos os envolvidos no seu plano irão pagar caro — o conde rosnou. — Todos? Apenas eu planejei tudo e executei o plano sozinha. Como está se sentindo ao saber que foi derrotado por uma única mulher, uma simples camponesa ignorante? O conde saltou da cadeira e esbofeteou-a. O pesado anel que ele usava cortoulhe o rosto. Ela cambaleou, mas não caiu e ignorou o sangue que escorria pela face. — Nunca fui derrotado! — Balford berrou, furioso. — Não mesmo? Alaina derrotou-o quando se uniu a um guerreiro das Terras Altas e lhe deu um filho. — A derrotada foi ela, uma prostituta! — Não, não. O filho dela é a prova de sua vitória. A risada gutural do conde

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deixou Sara gelada. — Esse bastardo irá encontrar a mãe dele no inferno, juntamente com o pai. — O único a ir para o inferno será o senhor! — Sara quase cuspiu as palavras no rosto do conde. Os lábios de Balford alargaram-se num sorriso de puro prazer, — Vou adorar assistir ao seu castigo. Quero vê-la açoitada, espancada e talvez eu até me deite entre suas pernas para lhe mostrar a minha força, e quem, afinal, é vitorioso. A mente de Sara trabalhou depressa. Iria provocar o conde, deixá-lo tão furioso e descontrolado a ponto de perder o raciocínio. Nesse caso, quem sabe, ele mudasse os planos, e ela ganharia mais algum tempo. Deu uma risadinha e disse com escárnio: — Olhando para essas perninhas secas, posso imaginar a sua força e o seu desempenho. Afinal, teve apenas uma filha e, quem pode garantir que ela era mesmo sua filha? Talvez o senhor não tenha sido bastante homem para sua esposa e ela tenha encontrado prazer na cama de outro. Balford ergueu o braço, e uma voz estrondou na sala. — Toque na minha esposa e morrerá! O conde ficou paralisado. Sara desejou poder esfregar os olhos, pois julgou estar vendo uma miragem. Cullen estava diante do conde, o lindo rosto inflamado de raiva, mas nos olhos escuros havia doçura ao fitá-la. Nesse instante, Sara imaginou ter visto um vislumbre de amor por ela. Balford recuou, assustado. — Vou fazê-lo pagar por tudo o que fez à minha esposa, Balford — Cullen vociferou e gentilmente limpou o sangue do rosto de Sara. — Você não devia ter vindo. Você e seu filho estavam livres — disse Sara. — Eu não seria livre sem você. Eu a amo como nunca pensei que fosse possível amar alguém. Preciso do seu amor. — Ah, que comovente — Balford zombou. Sara não o ouviu. Ainda não estava acreditando que o marido acabara de fazer-lhe a mais bela e profunda declaração de amor. Teriam seus sonhos se tornado realidade? Suas preces tinham sido ouvidas? — Você parece estar em dúvida — tornou Cullen. — Creio que terei de passar o resto de nossas vidas convencendo-a de que a amo. — O resto de suas vidas será uma semana mais ou menos — o conde declarou, Projeto Revisoras

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confiante. — É esse o tempo que reservei para fazê-los sofrer, antes de matá-los. Cullen viu lágrimas nos olhos de Sara e confortou-a. — Não chore, meu amor. Não deixarei que ele lhe faça mal nenhum. — Não estou chorando de medo e sim de alegria porque você me ama! Você acha que vou permitir que esse homem desprezível nos impeça de vivermos felizes, por muitos anos? — Esta é a minha Sara, corajosa e confiante — Cullen exclamou. — E idiota como você — o conde acrescentou. — Querida, tenho de cuidar deste homem odioso, depois partiremos. — Cullen deu-lhe um beijo no rosto. — Faça-o sofrer bastante — Sara o incentivou. — É o que ele merece pelo mal que fez a tanta gente. Especialmente a Alaina. — Idiotas! Vocês serão torturados! — Balford gritou. — E Alaina mereceu o fim que teve por entregar-se a um plebeu, um homem sem... — Cullen Longton é um guerreiro! — Sara bradou. — Ele tem coragem, integridade e honra, qualidades que o senhor não conhece! — Acredito no poder e na influência. Ambos me trazem vantagens. Se minha filha tivesse me obedecido, não estaria morta. Ela morreu por causa de sua estupidez. Pelo mesmo motivo, vocês enfrentarão a morte. — E o que me diz da sua morte? — Sara questionou. — Minha cara, o que você pode fazer se está acorrentada? Cullen deve ter passado por um guarda ou dois, mas há muitos deles a meu serviço para impedir que vocês saiam daqui. De mais a mais, o que a faz pensar que seu marido poderá defendê-la, se não foi capaz de defender Alaina? — Ele já está aqui para me proteger. — Além de idiota, é confiante. — Balford balançou a cabeça. — Idiota é esta conversa — Sara replicou. — Estou ansioso e impaciente para cortar sua língua afiada. — Você não está com ele nem há uma hora e ele já quer cortar a sua língua? Esta é a minha Sara — disse Cullen rindo, orgulhoso. — Chega! Guardas! — Balford berrou. Vendo que a esposa estava prestes a desmaiar, Cullen enlaçou-a pela cintura e beijou-a no rosto. — Em breve você estará livre. — Guardas! — Balford berrou novamente e recuou vários passos. Projeto Revisoras

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— Você superestimou seus guardas ou talvez tenha me subestimado. Todos os seus guardas estão ocupados no momento e continuarão assim por um bom tempo. Sara olhou para a mulher pequenina, trajada de homem, que acabara de entrar na sala, com a espada em punho. Já ouvira histórias sobre Storm, a famosa fora-dalei. Balford agitou o punho, emitiu uns sons ininteligíveis e finalmente conseguiu dizer: — Você! — Exatamente. Não achou que eu iria fugir de medo deixando-o impune, não é mesmo? Eu adoraria me vingar de você, mas vou deixar essa tarefa a quem merece mais do que eu ter esse privilégio. — Vou matá-la! — Balford gritou. — Não vai não — disse Burke, aparecendo à porta. Sara soube imediatamente que o homem que estava entrando na sala era o irmão de Cullen, pois ambos eram muito parecidos. — Ouviu isso, Balford? — Storm perguntou. — Você irá morrer. Nós continuaremos vivos. Burke dirigiu-se ao irmão. — Sabe, Cullen, lembrei-me de que seu filho é o único herdeiro das terras e da fortuna do avô. — Nunca! Um bastardo nunca herdará a minha fortuna! — Balford protestou. Cullen deu um sorriso enquanto desembainhava a espada. — Você não estará aqui para contestar. Storm aproximou-se de Sara e amparou-a, conduzindo-a para fora da sala. Burke voltou-se para o irmão. — Esperamos por você — disse ele, seguindo a esposa e a cunhada. Cullen sabia que os três ficariam por perto, juntamente com os vinte homens que tinham sido contratados, para prestar-lhe assistência, caso fosse necessário. Porém, ele fazia questão de enfrentar Balford sozinho. Devia isso a Alaina, mas antes tinha algo a dizer ao conde. — Estou desarmado. Imaginei que você fosse um homem honrado — Balford declarou. Cullen desembainhou a espada que trazia presa às costas, colocou-a encostada numa cadeira e afastou-se. Balford pegou-a e riu.

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— Você é um rematado idiota. Não sabe que manejo muito bem uma espada? — Estou disposto a me arriscar. Nem bem acabou de pronunciar essas palavras, Cullen recebeu o ataque de Balford. Aparou o golpe com a espada, impressionado com a força do inimigo. O conde demonstrava ser um oponente respeitável. Não demorou muito, ambos estavam empenhados num combate furioso, de morte, que já os deixara com alguns ferimentos e molhados de suor. Estimulado pela luta, Balford tornava-se mais agressivo e perigoso. Desferia um golpe após o outro, cortava e esmagava peças do mobiliário. Sentia-se poderoso, imbatível, vencedor. Acreditava que estava prestes a desferir o golpe final e derrotar Cullen Longton. Cullen, ao contrário, defendia-se, mantendo-se frio e cauteloso. — Você sabe, Balford, que encontrei o homem que estava comigo na prisão de Weighton? Fomos libertados no mesmo dia por Alaina e... — Não me interessa — Balford cortou, dando mais um golpe, do qual Cullen se desviou. — Devia interessar. — Por quê? — Enraivecido, o conde desferiu um golpe violento e atracou-se com o oponente. — Ele me contou a história dele. Falou-me sobre a mulher por quem tinha se apaixonado. O marido dela era um homem perverso e exigia que ela lhe desse filhos. — É dever da esposa dar filhos ao marido. Balford estava ofegante, mas não interrompia suas investidas, cada vez mais furiosas. Cullen limitava-se a esquivar-se e defender-se. — Sim, mas o marido cruel não conseguia engravidar a esposa e a castigava. — A culpa devia ser dela. Portanto, merecia ser castigada. — Foi o que você fez com a mãe de Alaina? Castigava-a todas as noites porque ela não engravidava? — Ao fazer a pergunta, Cullen atacou Balford com ódio. O som das espadas se chocando ecoava pela sala. — O castigo funcionou. Ela me deu uma filha. Cullen deu uma gargalhada. — Está enganado. A filha era do amante. O rosto do conde tornou-se rubro. — Que mentira está dizendo? — Alaina não era sua filha. Sua esposa tinha um amante. — Mentira! — o conde rugiu. — Ela e o amante planejavam fugir com a filha, mas você internou a mãe de Projeto Revisoras

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Alaina num hospício. — Ela era louca. — Você queria livrar-se de sua esposa e internou-a. Quando um estranho apareceu para perguntar onde ela estava, você mandou-o para a prisão. Balford ficou parado, vermelho, o suor empapando-lhe as roupas desalinhadas. — É claro que você se lembra desse homem — Cullen prosseguiu. — Pois bem, ele é o pai de Alaina e está esperando no navio, no qual seguirá para a América, onde verá o neto crescer. No momento certo, ele voltará para ajudar Alexander a reivindicar suas terras, e todos os seus bens, caro Balford. — Bastardo nenhum herdará o que é meu! — Balford berrou e avançou em Cullen, enlouquecido. Cullen alegrou-se por ter conseguido manter-se calmo. Soube nesse instante que seria vitorioso. Vingaria Alaina, a mãe dela e Alexander. Deu dois golpes rápidos e o conde caiu de joelhos, segurando no punho da espada de Cullen, que lhe rasgara o estômago. — Não pode ser... — murmurou. — Está derrotado, Balford. A vitoriosa aqui é Alaina — Cullen declarou, puxando a espada. O conde tombou para a frente, com a boca aberta e os olhos arregalados, ciente de que seu poder e influência não puderam servi-lo. Cullen esperou um momento. Certificando-se de que não havia mais vida naquele homem cruel, murmurou: — Terminou, Alaina. Nosso filho está livre. — Não, Sara. Você não vai sair dessa cama — Cullen ordenou, agitando o dedo para a esposa. — Não posso ficar aqui, presa — Sara protestou. — Todos estão no convés vendo as praias de nossa terra natal ir aos poucos desaparecendo de vista. Quero fazer o mesmo. — Você está machucada, exausta e... — Ansiosa para ver a Escócia pela última vez — Sara insistiu e atirou o cobertor para o lado. Imediatamente Cullen pegou o cobertor. — Você precisa descansar. — Tenho a viagem toda para descansar. Estou bem. Tudo terminou. Não corro mais perigo. Projeto Revisoras

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Donna Fletcher - Medo de Amar (CHE 326)

— Tive tanto medo de perdê-la. Fiquei apavorado, receando chegar tarde demais. — Admito que cheguei a pensar que você não iria me salvar. E nunca esperei ouvir aquela declaração de amor maravilhosa. — Eu estive cego. Cego de coração. Você me ensinou a ver novamente. Ensinou-me a sentir; ensinou-me que se pode amar sem culpa. Amo muito você, Sara. — Eu também o amo, Cullen. Mais do que você possa imaginar. O marido enlaçou-a com delicadeza, para não lhe causar dor. — Agora podemos ir para o convés? — Sara sussurrou ao ouvido dele. — Você é persistente. — Foi por isso que você se casou comigo. — Graças a Deus. Agora tenho uma linda esposa e mãe admirável para Alexander. Sara abraçou o marido com força e gemeu. — Você deveria estar na cama — ele ralhou, afastando-se dela. — Um toque e você sente dor. — Primeiro, vamos para cima — Sara insistiu, tomando-lhe o braço. Cullen caminhou com ela até a porta. — E então voltaremos para a cabine e você me fará esquecer toda a dor. Ele sorriu. — Não sentirá mais nem uma pontada de dor depois que eu acariciá-la por inteiro. — Promete? — ela sussurrou. Tocando-a no rosto, ele respondeu: — Prometo. — Então, vamos logo. Acabo de perceber que há algo que vai me agradar muito mais do que dar adeus à Escócia.

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Medo de amar  

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