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Emoções Selvagens Love's Wild Wager

Taylor Ryan

Uma paixão incontrolável! Falida e cheia de dívidas, por causa da imprudência de seu falecido pai, Amanda precisava urgentemente de um marido rico! Embora Thomas Eastmore – o solteiro mais cobiçado da região – estivesse interessado nela, havia um problema: ele era também o mais famoso “conquistador” da sociedade... O duque de Eastmore não desejava se casar tão cedo. Mas lhe parecia um crime a fascinante e impetuosa Amanda Victor ocupar o leito nupcial de outro homem. Pois os graciosos movimentos de Amanda provocavam em Thomas uma corrente de desejos primitivos, que percorria suas veias como uma espécie de fogo, a cada vez que a via se aproximar!

Digitalização e Revisão: Cris Yoshida


Copyright © 1995 by Taylor Robbins Publicado originalmente em 1995 pela Harlequin Books, Toronto, Canadá. Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma. Esta edição é publicada por acordo com a Harlequin Enterprises B.V. Todos os personagens desta obra, salvo os históricos, são fictícios. Qualquer outra semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência. Título original: Love's Wild Wager Tradução: Maria Albertina CG. Jeronymo


UM

O sol fraco da tarde de inverno filtrava-se pelas janelas da biblioteca da outrora elegante mansão de Victor Mall. Refletia-se sobre os cabelos negros de uma jovem que, compenetrada, verificava uma pilha de contas com um velho senhor. — Já cheguei à soma total, senhorita, como me solicitou. — O advogado colocou uma nova papelada à frente dela. A jovem estremeceu, como se não pudesse acreditar nos números que lia. O silêncio se prolongou desconfortavelmente até que desviou a atenção dos papéis para fitar o velho homem com atônitos olhos azuis. — Como foi possível que meu pai acumulasse dívidas tão terríveis sem que o senhor o detivesse? Não poderia ter argumentado com ele para que usasse o bom senso? — indagou ela, um tanto acusadora. O advogado empertigou-se com indignação, ficando pouco à vontade sob aquele olhar de censura. — Eu lhe asseguro, senhorita — começou ele, na defensiva. — Conversei com seu pai. Tentei aconselhá-lo... inúmeras vezes e... A jovem de cabelos negros, presos num coque, ergueu uma mão para silenciá-lo. — Tenho certeza que o fez. Imagino o quanto meu pai deve ter sido difícil. Bastante difícil, aliás. O velho homem apenas fez um ligeiro gesto de cabeça, concordando. Ela levou uma mão delicada à fronte, tentando desanuviar o cenho franzido em profunda preocupação. Tinha certeza que o advogado falava a verdade. Podia imaginar muito bem que seu pai não teria dado ouvidos a quem quer que se opusesse à sua vontade, especialmente após a morte do irmão dela, num acidente a cavalo. Tornou a verificar as somas minuciosamente, como se por algum acaso as houvesse lido de forma incorreta. — Sr. Vandevilt, o que devo fazer? — perguntou, sem erguer os olhos da papelada. — Ou melhor, o que devo vender para pagar todas essas dívidas? Não fazia idéia que o velho homem a estivera observando com uma expressão de compaixão em seu rosto bondoso. Agora ele fez um gesto vago antes de responder. — É uma soma tão alta, senhorita. Duvido que algum dos credores lhe conceda tanto tempo para levantar fundos. Você sendo uma jovem e, hã... sem pretendentes... Bem, eu receio que teria que vender tudo, se fosse o caso. A mansão de Vicroy House em Londres, a de Victor Mall, as fazendas, as terras, os estábulos... a menos que haja algum pretendente que eu desconheça? Um casamento em perspectiva talvez...? Ela empalideceu, um brilho desesperado destacando-se em seus intensos olhos azuis. Levantou-se da maciça escrivaninha do pai, aproximando-se de uma das janelas. Afastou uma das pesadas cortinas empoeiradas, ampliando a passagem do sol; os nós brancos de seus dedos no veludo traindo sua íntima aflição.


O sr. Vandevilt, um dos antigos donos da firma de advogados e contadores que vinha administrando os negócios da família Victor havia mais de setenta anos, assentiu com o coração pesado. Conhecia aquela encantadora jovem desde o tão festejado nascimento dela, há dezessete anos. E sacudira sua cabeça em silenciosa desaprovação pela forma como o pai, o visconde Victor, a abandonara depois da morte do filho, deixando-a crescer tão desamparada, tão livre e rebelde quanto uma das crianças do vilarejo. Não podia negar que ela era linda, mas suas maneiras pouco ortodoxas e seu jeito impróprio de se vestir o desconcertavam. Calças numa mulher eram um absurdo! Era de fato imperdoável que o visconde não houvesse olhado por sua filha, nem por sua esposa, em especial com a viscondessa sempre adoentada e exercendo pouca influência sobre a menina. Ele poderia ao menos ter arranjado um bom marido para a jovem. Agora... como a situação se encontrava... um casamento adequado seria praticamente impossível. A jovem virou-se da janela, as mãos nos bolsos das calças de montaria confiscadas do guarda-roupa de seu falecido irmão. — Temos que encontrar alguma solução — disse, ainda não derrotada. — Estas terras têm que continuar pertencendo aos Victor. Quanto à mansão em Londres, não me importo, mas esta propriedade é meu lar! E preciso ficar com as terras, pois sem elas... e as fazendas... não há chance para Victor Mall sobreviver. Há famílias aqui que têm vivido, trabalhado e morrido com os Victor... por gerações! Somos responsáveis por eles. Não podemos simplesmente deixá-los sem seu ganha-pão! A expressão de determinação no rosto dela era tocante para o velho homem. Como era jovem e ingênua... Ele sacudiu a cabeça. — Bem, senhorita... — Se vendermos a mansão em Londres... — Sinto muito, mas faz parte do morgado. Do contrário, seu pai, se me permite a impertinência, já a teria apostado no jogo há muito tempo atrás. Encolhendo-se na cadeira outra vez, ela perguntou: — Suponho que isso se aplique também ao conteúdo de ambas as casas? Até as obras de arte? — Quase como se seu bisavô tivesse previsto que algo assim pudesse acontecer, providenciou para que o conteúdo das casas também constituísse morgado. Assim, os tornou bens vinculados que não podem ser vendidos, mas apenas passados de geração a geração. Depois, seu avô também tomou suas providências para que fosse quase impossível vender qualquer coisa adquirida por ele... para preservar a história da família, compreende? — O sr. Vandevilt hesitou antes de acrescentar: — Há trezentos hectares de terras a oeste da propriedade que são herança de sua mãe... Os olhos azuis da jovem se iluminaram com esperança por alguns momentos, mas logo tornaram a se anuviar. — O vilarejo fica lá, assim como também um grande número de casas dos nossos colonos. Eu não poderia vender essas terras e correr o risco de que fossem despejados pelo novo proprietário.


— Minha firma e eu mesmo nos colocamos ao seu inteiro dispor para ajudá-la da maneira que pudermos. Eu gostaria de ter sido o portador de melhores notícias. Seu futuro... e o da sua pobre mãe parecem desoladores de fato. Com energia bruscamente renovada, a jovem de cabelos negros ergueu-se, estendendo a mão para o velho advogado. Ele apertou-lhe a mão estendida, esperando que sua hesitação não tivesse sido notada. A oferta de um aperto de mão o desconcertou por um momento. As maneiras dela às vezes tinham o ímpeto das de um homem. Como encontraria um marido? Qual seria seu destino? — Aprecio sua honestidade, senhor. Ao menos, estou consciente da minha exata situação. Vou analisar os papéis e as contas que teve a gentileza de me trazer. Devo, é claro, conversar com a minha mãe antes de tomar qualquer decisão. Obrigada por ter feito a viagem até Victor Mall em vez de solicitar minha presença em Londres... Eu... eu fico muito grata com sua atenção. O tom era definitivo, encerrando a conversa, e o sr. Vandevilt despediu-se, retirandose da mansão para a carruagem que o aguardava. Somente quando ficou sozinha, a jovem desabou na cadeira, exausta pela reunião. — Oh, papai, por quê? Com certeza a bebida e o jogo podem ter significado mais para você do que Victor Mall? Mais do que mamãe... e eu? Com um soluço, olhou com desespero ao redor. Pela primeira vez, via com clareza o valioso tapete que seu bisavô comprara no Oriente, agora gasto, os tons vibrantes de outrora desbotados pelo tempo e pela poeira. Tudo ali... as cortinas, a mobília... gasto e sem vida! Como pudera ser tão cega? Como não notara o número de criados diminuindo, até que os poucos que haviam restado mal conseguiam manter a mansão livre do pó? A mãe, por sua vez, já não notava nada há muito tempo, vivendo quase sempre confinada a seus aposentos. Tornou a olhar a papelada na mesa. Bens? Quadros de valor incalculável, peças de ouro e prata, jade e tapeçarias trazidos do Oriente, jóias, porcelanas, tudo do que havia de mais refinado. A lista do patrimônio dos Victor era interminável. Mas todos os pertences constituíam um morgado; estavam permanentemente vinculados por herança para assegurar que permaneceriam intocados para o futuro da família. — Um futuro de fome para os Victor! Maldição! — A voz dela soou alta no silêncio da biblioteca. — Sem significado! Coisas... apenas coisas sem significado colecionadas por pessoas mortas há muito tempo. Folheando freneticamente os papéis, encontrou logo o que estava procurando. A fazenda de criação de cavalos era um fracasso, apesar de todo o dinheiro que fora empregado no passado. Estava hoje com excedente de éguas, velhas, na maioria; havendo, portanto, poucas novas para cruzamento. Os cavalos podiam ser vendidos, claro. Mas, embora fossem animais magníficos, sua venda arrecadaria apenas uma fração mínima do montante vultoso que precisava para pagar as dívidas acumuladas por seu pai. A jovem soltou um profundo suspiro. Nascida quando seu irmão estivera com doze anos, a garotinha de cabelos negros, pele muito alva e intensos olhos azuis roubara depressa o coração de seu pai, que não fora capaz de lhe negar nada. Ela se transformara em sua sombra e, embora tivesse passado as


horas necessárias ao piano e com seus bordados, logo se tornara óbvio que os talentos da menina eram mais voltados às atividades físicas. Enquanto seu irmão fora meramente razoável, ela se excedera. Sendo alta, esguia e ágil, a pequena Amanda facilmente dominara as técnicas da equitação, ao passo que Sheldon costumara ser desajeitado e se cansar logo. A garotinha crescera precoce e impetuosa, seu comportamento voluntarioso, mas seu coração imenso. Fora venerada e mimada por todos na casa, incluindo seu irmão, o qual ela sempre protegera das críticas do pai. Se tivesse existido o menor traço de ciúme por parte do menino por causa das atenções que a irmãzinha recebia, jamais fora demonstrado. Os animais sempre haviam sido a grande alegria de Amanda, sua devoção especial pelos cavalos. Assim, com seus instintos e total ausência de medo, ela logo superara o irmão mais velho. Por mais que o pobre Sheldon Henry Victor se esforçasse, tinha verdadeiro pavor de estar na sela das enormes bestas. Afastando as dolorosas lembranças, a jovem largou a papelada numa gaveta e deixou a biblioteca. No amplo salão de entrada, inclinou-se para pegar um grande gato cinzento do chão de mármore e aninhou-o em seus braços. Sentando-se numa cadeira de brocado, correu olhos zombeteiros pelas paredes. Observava a opulenta decoração ao redor como se a estivesse vendo pela primeira vez. — Grady, meus ancestrais eram tolos! — disse ao felino, enquanto lhe afagava o pêlo. — Olhe só para este lugar! Frivolidade e desperdício! Nenhum verdadeiro valor aqui já que nada pode ser vendido. Ela olhou para a majestosa escadaria de mármore e para os ostentosos três andares acima, para o gigantesco lustre central, cujas inúmeras velas jamais tinham voltado a ser acesas, desde a morte de seu irmão, dez anos atrás... e da casa ter morrido com ele. Virando a cabeça devagar, procurou pelo retrato pendurado no primeiro lance das escadarias que davam para o imenso salão... a viscondessa Amanda Pearl Norview Victor, sua bisavó. Levantou-se, deixando o gato no chão, e subiu os primeiros degraus da escadaria. Num gesto inconsciente, como sempre fazia, endireitou os ombros ao se deter para contemplar o quadro... afinal, ela era a atual Amanda Pearl Norview Victor e devia se pôr à altura do passado e da ancestral de quem herdara o nome. Exceto pelas roupas, a pintura poderia ter sido um espelho, pois mostrava a mesma pele alva e perfeita, as maçãs do rosto altivas e salientes, os mesmos olhos de um intenso azul, adornados por cílios espessos. Os mesmos cabelos negros, embora os da Amanda de agora estivessem presos num coque afrouxado, feito por mãos impacientes, em contraste com os cachos elaborados de sua bela bisavó. Inevitavelmente, os pensamentos da jovem voltaram a girar em torno de suas lembranças do passado distante, fonte de suas atuais preocupações. Oh, seu adorado pai... como sentira sua falta quando ele partira! E o pobre, sensível e temeroso Sheldon... escondendo-se atrás de uma garrafa para fugir do fato de que nunca seria o homem que o pai esperava que fosse. Sempre jogando ao máximo, bebendo o quanto podia, cavalgando perigosamente, tentando provar... o quê? Que era tão corajoso, tão hábil e destemido quanto a pequena irmã; uma irmã mais nova que, não fosse uma menina, teria sido um filho perfeito? Ela se lembrava dos anos em que fora pequena, quando a mansão estivera sempre repleta de convidados e riso. Das vezes em que espiara pelo vão de alguma porta para os


bailes deslumbrantes que aconteciam lá, para as damas em vestidos maravilhosos, conduzidas por elegantes cavalheiros sob a mágica luminosidade do imenso lustre. Mal pudera esperar para crescer e juntar-se a esse mundo. Mas esse mundo saído de um conto de fadas morrera junto com Sheldon... Seu pai abandonara a casa e a família, mudando-se em definitivo para a residência de Londres, e ela nunca mais o vira. Sua mãe lhe dissera que ele se sentia culpado... que havia levado Sheldon a tantas atitudes insensatas. Mas a mãe não pôde lhe dizer que achava que ela... Amanda... agira de forma tão errada que o pai jamais voltaria para casa novamente. E agora ele estava morto. E tudo aquilo... seus olhos tornaram a percorrer o grandioso salão... estaria a seus cuidados. Tantas coisas de valor inestimável... e a fortuna para protegê-las havia sido perdida na jogatina. Sua raiva e sua impotência não lhe permitiriam sofrer pela recente morte do pai. Amanda baixou o olhar para a pontas de suas botas. Sabia que devia contar tudo sobre a situação em que se encontravam à mãe, mas não podia encará-la neste momento. Uma onda de fúria invadiu-a. Tornando a endireitar os ombros, encontrou os olhos azuis da primeira Amanda Pearl no quadro à sua frente e, com firme convicção, declarou: — Não vou perder minha casa! Eu juro que farei tudo que for necessário para proteger e preservar Victor Mall para os meus futuros filhos, netos e bisnetos também! Com essa promessa solene, deixou a mansão rumo aos estábulos. Montou abruptamente no seu magnífico garanhão preto e logo saiu galopando, desaparecendo em direção aos campos.

DOIS

O vento de janeiro, carregado de gélida umidade, soprava implacável nas janelas da saleta, fazendo-as balançar. Rajadas ocasionais batiam de encontro às frestas, agitando as cortinas de brocado desbotado. Lady Lillian Cromwell Victor, que enviuvara recentemente e estava na casa dos cinqüenta, já há muito tomara consciência das inconveniências de Victor Mall. Acomodada a uma poltrona, arrastada perigosamente para perto da lareira, cochilava sobre um livro de páginas gastas de tão manuseadas. De repente, despertou com o vento uivante, ajeitou melhor o xale ao redor de seus ombros e a touca que lhe cobria os cachos castanhos, entremeados de fios brancos. Após ter perdido duas filhas na tenra infância e, depois, seu adorado filho de quase vinte anos num acidente a cavalo, ela fora deixando a vida passar. Não chorou demais a morte recente do marido. Havia muito que ele a abandonara em busca dos próprios interesses, os quais ela concluíra haviam sido principalmente corridas de cavalos, bebida e


mulheres de reputação duvidosa. Assim, Lady Lillian passava dias longos e quase agradáveis dedicando-se à leitura de poesia romântica e cuidando de sua saúde delicada. Ergueu um pouco a cabeça da poltrona, virando-a para a escrivaninha ao lado, a fim de olhar para a filha que lhe restara, Amanda Pearl. Ela a amava imensamente, mas não podia evitar de se sentir desconcertada quando a filha insistia em certas atitudes impróprias para uma jovem. Tais como usar as roupas do irmão e se recusar a sequer cogitar uma temporada em Londres... embora Lady Lillian receasse que sua própria saúde frágil não lhe permitisse uma estada tão prolongada longe de casa. Além do mais, sua teimosa filha vivia anunciando que não tinha a menor intenção de se casar. Ela suspirou. O que uma pessoa podia fazer em sua vida se não se casasse?, perguntou-se. Viajar, como fazia sua irmã Adair? A idéia a fez estremecer de leve. — Está dormindo, mamãe? — Ao som da voz da filha, a mulher despertou dos pensamentos. Por entre os olhos semicerrados, tornou a observá-la sentada na escrivaninha. Parecia tão tensa. Mais uma vez desejou que ela se casasse. A necessidade de uma presença masculina forte naqueles tempos difíceis era evidente. Embora Amanda tivesse apenas dezessete anos, nunca era cedo demais para começar a receber propostas de casamento. As odiosas calças de montaria teriam que desaparecer, e nada mais de cavalgadas pelos campos naquele enorme cavalo preto, o mesmo que matara seu pobre Sheldon... Um monstro, na verdade, pensou Lady Lillian, mas a filha se recusara a se desfazer dele, alegando que a culpa pelo acidente não fora do cavalo. Quem teria pensado que uma menina de sete anos teria tanto poder? Oh, pobre e adorado Sheldon... Afastando uma lágrima imaginária, a mulher respondeu à filha. — Não, não estou dormindo, querida. Da escrivaninha próxima, Amanda esticou o braço, mostrando-lhe um relatório de contas. No momento tinha uma expressão cansada, sombras escuras sob os olhos azuis denunciavam preocupação e noites de insônia. Lady Lillian observou rapidamente as contas e devolveu-lhe o papel. — Ora, filha, você sabe que tivemos que gastar no funeral de seu pai. Não podíamos fazer feio ou parecer falidas. Pode-se dizer que o condado inteiro compareceu. Teria sido lastimável fazer um enterro que não fosse grandioso e ficarmos embaraçadas na frente dos amigos de seu pai. — Mas, mamãe, nós estamos falidas. E é tudo culpa de papai. As dívidas dele são espantosas! Uma fortuna por aquela carruagem que o juiz Dittle lhe vendeu. E todo aquele dinheiro apenas para abastecer a adega em Vicroy House... para suas noitadas lá! E essas são insignificantes se comparadas a todas as outras dívidas que deixou. Sem mencionar anos e anos de excessos pelo que pude observar pelos relatórios que o sr. Vandevilt me apresentou. O fato é que nós simplesmente não dispomos de nenhum capital! Como ele pôde ser tão egoísta? Não ter pensado um segundo sequer em como nos arranjaríamos... — Procure respeitar a memória de seu pai — pediu Lady Lillian, ignorando o fato de que ela mesma abominara o egoísmo do marido durante boa parte da vida de casados... quanto mais depois. Levou o lenço rendado aos olhos secos, enxugando lágrimas que não mais afloravam. — Se ao menos Sheldon estivesse vivo para assumir esse fardo.


— Sheldon! Você sabe bem que ele teria continuado a se refugiar na garrafa como, depois, fez papai! — Filha, por favor! Você sabe que seu irmão era apenas... sensível demais. Desejei tanto que seu pai simplesmente parasse de criticar o gosto de Sheldon pela música e pela poesia. Se seu pai não o tivesse pressionado tanto, seu irmão jamais teria enveredado por caminhos tão desregrados, nem se arriscado tanto. Nunca teria montado naquele cavalo... — Eu sei, mamãe. Sheldon faria qualquer coisa para provar que era o homem que papai esperava. E talvez até tenha obtido algum sucesso nesse sentido, ao trilhar esses tais caminhos. Imagino que tenha comprado grandes doses de admiração... admiração de certo tipo... daquelas mulheres de má reputação. E certamente nisso papai o teria aplaudido... até encorajado. — Já é o bastante! — avisou Lady Lillian, mas sequer foi ouvida pela filha furiosa. — Papai ficou viciado em mal comportamento. Receio que o gosto dele pelas mulheres não era melhor do que pelos cavalos. Criaturas vulgares... gordas, como leitoas. — Céus! Damas não falam esse tipo de coisa! Onde andou reunindo tais informações? — Dos falatórios dos criados, é claro. Pode-se aprender uma variedade de coisas dessa forma. — Oh... Virando-se para o rosto lívido da mãe, Amanda sentiu um aperto no coração. — Oh, mamãe, me perdoe. Não tive a intenção de ser tão insensível. —Você realmente precisa dosar essa sua crua franqueza. — Bem, já era tempo de alguém ser franco por aqui, não acham? — Uma voz brusca veio da porta de entrada, surpreendendo a ambas na sala íntima verde e dourada. — Lady Adair Cromwell, senhora viscondessa — anunciou Hastings, o velho mordomo, um tanto encolhido, quase oculto atrás da robusta visitante. — Tia Addie! — Amanda levantou-se e correu para os braços de sua mais querida parente. — Minha irmã, de que parte do mundo você surgiu desta vez? — exclamou Lady Lillian, saudando-a. — Pensamos que estivesse na África! — Deixe-me abraçar minha sobrinha e já lhes conto tudo. — Lady Adair observou a jovem dos pés à cabeça. — Céus, fiquei longe tanto tempo que a moda por aqui mudou? Espantoso, minha criança! Espantoso! — Oh, tia Addie. É sempre tão bom ver você aqui — disse Amanda, também estudando a tia. A semelhança com sua mãe era mínima; havia vigor e dinamismo na postura de Lady Adair. — Vim logo que pressenti sinais de problema. Na verdade, só desembarquei nesta semana. E fiz uma viagem terrível até o campo numa carruagem alugada... solavancos pelo caminho todo, eu lhes asseguro! — Adiantando-se pela saleta, ela removeu as luvas e sentou-se num sofá de tecido desbotado, avaliando a irmã. — Lillian, como está você?


— Não muito bem, como de costume. Você sabe o quanto minha saúde é delicada. — Bobagem! Você passa tempo demais fechada neste mausoléu. Uma boa caminhada de uns dois quilômetros por dia traria a cor de volta às suas faces! — Oh, céus, só de pensar já estou com um mal-estar. — Lady Lillian abanou-se com seu leque, e Amanda conteve um sorriso, enquanto sua mãe obviamente se decidia por uma retirada estratégica. — Acho que preciso de um pouco de repouso. Vocês perdoam minha ausência até o jantar? Vou me deitar no meu quarto até lá. Lady Lillian chamou sua dedicada dama de companhia, Bess, pedindo que lhe providenciasse seus sais. A criada recolheu seus livros de poesia, acompanhando-a até os aposentos. Quando ficou a sós com a sobrinha, Lady Adair sorriu-lhe, orgulhosa: — Você está mesmo linda, Amanda Pearl. Tenho certeza que centenas de homens maravilhosos vão pedi-la em casamento... em especial depois de a verem nessas calças — acrescentou ela, com uma risada irreverente. — Você nem deve se dar conta da figura atraente que faz, minha jovem. — Me pedir em casamento? A mim? Uma garota sem um vintém, com uma montanha de dívidas, uma propriedade caindo aos pedaços e, devo acrescentar, bem pouca inclinação para se casar? — Amanda começou a andar de um lado ao outro da saleta, em evidente agitação. A tia descobrira de imediato o assunto que lhe andava tirando o sono. — Eu logo imaginei que você ficaria com um fardo desses sobre seus ombros depois da morte de seu pai, minha criança. — Lady Adair retirou seu chapéu, colocando-o a seu lado no sofá. Seus cabelos grisalhos estavam presos num penteado refinado, revelando uma certa vaidade por parte da velha senhora. — Sabe, eu gostava de seu pai, querida. Ele era um dos homens mais fascinantes que já conheci, mas o problema é que era do tipo que nunca negava nada a si mesmo em sua vida. E quanto mais inatingível alguma coisa lhe fosse, mais ele a queria. E Lillian nunca foi firme o bastante com o marido. Agora... por que ainda não me ofereceram um xerez para afastar um pouco desse frio? — Oh, me perdoe! Vou buscar para você. Eu volto num minuto! — O que é isto? Onde foram parar todos os criados da casa se agora é você quem serve as visitas? — Os poucos que restaram têm muito o que fazer. Além do mais, não me custa nada ir buscar o vinho. — Bem, já que está indo, querida, traga a garrafa inteira! Dessa forma, teremos certeza que uma viagem só até lá será o bastante. Amanda voltou o mais depressa que pôde com o xerez, mal cabendo em si de contentamento em ter a adorada tia em Victor Mall. Sabia que não podia esperar ouvir as respostas que tanto precisava de sua frágil mãe, mas tia Addie era tão capaz e confiante. Sem dúvida, saberia orientá-la naquela situação tão difícil. De todo o bom senso na família, ela era tão excêntrica quanto sua história. Certa vez lhe contara que fora perdidamente apaixonada por um homem maravilhoso, mas ele escolhera outra. Depois disso, fizera sua própria vida, mas nunca se casara. Tendo uma situação financeira estável, começara a viajar pelo mundo.


Amanda serviu uma generosa dose de xerez à tia e sentou-se numa cadeira à sua frente. Contou-lhe sobre a visita do sr. Vandevilt e das dívidas exorbitantes que o velho advogado relevou terem sido acumuladas por seu pai. — O que acha que devo fazer? — perguntou, enfim. — Eu tenho que salvar Victor Mall! A tia estudou-a atentamente, enquanto sorvia seu xerez. — A solução é muito simples, minha querida. Você precisa de dinheiro. E para consegui-lo, tem que se casar. Com alguém muito rico. A resposta não foi do agrado de Amanda. Havia esperado por uma solução de outra natureza de sua sábia e experiente tia, mas tinha que admitir que a sugestão não era de surpreender. O problema era que não gostava da idéia. — Não pode estar falando sério! Seria algo degradante... me casar por dinheiro! — Bobagem, minha criança. Você sabe que é um estabelecido costume britânico reabastecer os cofres de uma família de tempos em tempos com um bom casamento arranjado. — Nem quero ouvir falar nisso! — Inquieta, Amanda levantou-se abruptamente numa nova movimentação pela saleta. — Pare de andar para cá e para lá e me escute. Estou lhe dizendo, se quer salvar Victor Mall e as pessoas que dependem do trabalho nesta propriedade, você tem que se casar... e muito bem. Você vem de uma família tradicional, é filha de um visconde. Tem um patrimônio, que embora não possa ser vendido, é muito valioso e só precisa de um investimento para ser salvo. Assim, não seria que se chama de uma caça-dotes, querendo aplicar o golpe do baú em alguém, compreende? E embora você goste tanto dessas atividades pouco ortodoxas para uma dama, como cavalgar e praticamente viver nos estábulos com suas adoradas éguas e cavalos, o fato é que você é linda demais para ter que trabalhar, por exemplo, como governanta. — Eu... — Amanda tornou a sentar-se e fitou a tia. A possibilidade de ganhar seu próprio sustento nunca lhe passara pela cabeça, nem tampouco as formas de fazer isso. — E se tivesse que se tornar uma criada, isso selaria o fatídico destino de Victor Mall e das pessoas que dependem daqui, certo? — prosseguiu Lady Adair, seu tom suavizando-se ante a expressão desolada da sobrinha. — Assim, considero o casamento um dever seu. Quando parar para refletir melhor a respeito, verá que tenho razão. Seu futuro marido lhe trará grande riqueza, e você poderá restaurar Victor Mall e fazer os investimentos necessários nas suas fazendas. — E como devo atrair esse homem rico e adequado se sequer possuo um vestido de baile decente? — Subterfúgios, minha querida. Subterfúgios... — Erguendo a taça de vinho para brindar à sobrinha, Lady Adair esvaziou-a. — Bem, primeiro me providencie um quarto onde não faça tanto frio quanto nesta gélida saleta. Depois discutiremos as estratégias. E preparese, pois o grande jogo da sua vida vai começar!


TRÊS

Apesar da chuva já começar a escorrer para dentro da gola de seu pesado sobretudo, Thomas Eastmore não se moveu. Montado em seu majestoso garanhão árabe, no alto de uma colina, continuou a estudar a vasta propriedade ao seu redor... Eastmore Park, a sua herança. Sentia um prazer tão imenso ao observar os jardins bem-cuidados, os pastos verdejantes, o gado saudável... Aquela era a imagem de uma próspera propriedade rural inglesa. Exatamente como lhe fora descrita pelos advogados de Londres. O falecimento do quinto duque de Eastmore não fora nenhuma surpresa para ninguém na região. Ele estivera quase na casa dos noventa e sofrerá com uma saúde debilitada por vários anos. A longa espera para que o sexto duque aparecesse acarretara um ano de certa inquietação. Contudo, a propriedade não sofrera, uma vez que não era por mera sorte que os administradores e advogados que cuidavam dos assuntos em torno dela eram extremamente capazes. Haviam sido contratados e treinados a demonstrar grande lealdade e eficiência na ausência do patrão; afinal, os Eastmore haviam sido, geração após geração, uma família de militares, preferindo muito mais os lugares longínquos e exóticos do que cuidar de suas fazendas. Fora por essa razão, possivelmente, que o velho duque nunca se casara, muito embora as matronas da sociedade com suas filhas casadouras houvessem batido à sua porta às dezenas. E, portanto, não era de admirar que tivessem estado em grande expectativa agora pelo aparecimento do sexto duque de Eastmore, para reclamar sua imensa fortuna. Thomas nascera nas areias quentes do Oriente Médio e fora o filho único de pais ingleses. Sua delicada mãe morrera em seu parto; o pai sempre o mantivera junto a si, não tornando a se casar. Ele crescera em meio a militares, e a combinação da rígida educação britânica que recebera de seus tutores e de sua natureza um tanto rebelde, tornara-o um jovem muito confiante de sua masculinidade. Numa certa época, ele fora, inclusive, fonte de desespero para seu pai. Tendo entrado para a vida militar e sem a obrigação de cursar a rígida Oxford, Thomas tivera uma boa dose de independência com pouca idade. Assim, não perdera tempo em experimentar as delícias de uma existência em maior liberdade. Sempre soubera que seria o herdeiro do título dos Eastmore, como seu pai fora tecnicamente antes dele, mas Thomas nunca havia pisado em solo britânico. Nem tampouco chegara a conhecer o tio-avô. Os tutores o haviam preparado muito bem para sua futura ascensão na sociedade britânica, mas como seu tio-avô vivera tanto, a tendência do jovem fora a de quase se esquecer que havia uma herança à sua espera. Quanto a seu pai, estivera tão envolvido com a nômade vida militar que nunca tivera a intenção de suceder o velho duque de Eastmore, deixando tal incumbência para o filho quando chegasse a ocasião. Assim, Thomas amadurecera presumindo que iria seguir os passos de seus ancestrais, com o serviço militar na índia ou Arábia. Mas nunca previra a epidemia de cólera que matara seu pai. Nem tampouco antecipara a promessa que ele lhe arrancara em seu leito de morte de retomar à Inglaterra, procurar seu tio-avô para conhecê-lo e preparar-se para a vida


como seu herdeiro. O pai também o fizera prometer que se casaria para, assim, assegurar a perpetuação do título de nobreza da família. Somente quando desembarcara em Londres, Thomas ficara sabendo da morte do velho duque. Assim, acabava de chegar ao país não como o futuro, mas como o atual duque de Eastmore. E o tratamento que vinha recebendo era régio desde que sua identidade fora estabelecida. Tinha que admitir que a idéia de ser um rico nobre era bastante agradável, embora seu espírito aventureiro ainda estivesse saudoso da vida militar. De qualquer forma, pretendia deixar a existência nômade no passado. Quanto à promessa de se casar, não se achava muito entusiasmado no momento. Apesar de estar com trinta anos de idade e da vasta experiência com as mulheres, sua convivência com as inglesas fora quase insignificante. Mas baseando-se nos exemplos que pudera ver, duvidava que uma pálida, frágil e assustada jovem britânica fosse capaz de lhe despertar algum interesse. Afinal, fora logo cedo iniciado na arte do amor pelas mulheres morenas e sensuais da Arábia, generosas, receptivas e extremamente experientes... educadas para descobrir e satisfazer cada desejo de um homem. Assim, Thomas pretendia deixar de lado a promessa de se casar, enquanto lhe fosse possível. Mas quando realmente se casasse, a fim de perpetuar o nome da família, desejava uma esposa que o completasse em todos os sentidos. Seu legado para os Eastmore seria uma geração de filhos fortes, saudáveis e seguros. E também pretendia se dedicar à criação de puros-sangues. Thomas começou a descer a colina sob a chuva que continuava a cair copiosamente. Deixaria seu belo cavalo árabe abrigado nos estábulos e trataria de providenciar um banho quente para si mesmo. Bem, a típica jovem inglesa não parecia se encaixar nas suas expectativas, ainda refletia ele. Mas se houvesse uma mulher na Inglaterra que compartilhasse de ambos esses sonhos, ele a encontraria quando chegasse o momento certo. Mergulhado na água quente da banheira, Thomas observava o luxo ao redor. A vida militar certamente o privara de tantas comodidades, portanto nunca vira nada assim. E pelo que já pudera notar na majestosa mansão, requinte e conforto não lhe faltariam ali. Sem mencionar um verdadeiro exército de criados. — Bem, a vida passa por suas mudanças... — Ele soltou um suspiro de contentamento. Um banho relaxante era exatamente o que um homem que passara tanto tempo no calor do Oriente precisava após um dia longo, frio e chuvoso com aquele. As luzes de um candelabro oscilavam sobre seu peito musculoso e ombros largos. Era alto e forte e tinha a pele bronzeada pelos anos de exposição ao sol. Os traços de seu rosto eram marcantes e bonitos, num estilo másculo e confiante. Tinha olhos castanho-claros, quase da cor do mel. Eram expressivos, penetrantes, parecendo enxergar através da alma das pessoas. Os cabelos eram castanhos e exibiam ligeiros reflexos dourados, deixados também pelo sol. — Aqui estou, Sua Graça. Já terminou seu banho? Se terminou, sente-se ali para eu lhe barbear o rosto. Beans, o antigo valete do seu falecido tio-avô, aproximou-se com a costumeira fala atropelada a precedê-lo. Era um homem franzino e devia ter uns sessenta anos. Segundo lhe


contara, trabalhara para o velho duque desde sua última campanha no Exército. Thomas, em vez de argumentar com o criado, deixou-se envolver por um robe, depois sentou-se na cadeira indicada, permitindo que o outro o barbeasse habilmente. — Meu tio-avô deve ter amado a Arábia tanto quanto eu — comentou ele, quando Beans fez uma pausa para limpar a espuma da lâmina. — Pelo que percebi, há muitas lembranças de lá aqui na mansão... — É verdade. Ele adorava o calor e a vida no Exército. Era um homem bom e foi um grande militar. Aliás, conversávamos a seu respeito. Um pouco antes de morrer, ele me disse: "Beans, cuide muito bem de meu jovem sobrinho-neto, ouviu bem?" E eu lhe assegurei que o faria. — O valete terminou de barbeá-lo com habilidade e aplicou-lhe um pouco de talco nas faces. — Será uma honra servi-lo, Sua Graça — prosseguiu. — Está planejando ir para Londres para a temporada? Estará procurando uma esposa? O velho duque disse que... Rindo, Thomas levantou-se da cadeira e ergueu a mão para deter a constante torrente de perguntas de Beans. — No momento, estou mais preocupado em comprar mais cavalos de caça que sejam de linhagem pura. Uma esposa virá mais tarde. Conduzido rapidamente ao quarto, Thomas tolerou a ajuda para ser vestido pelo eficiente e frenético valete. — Me fale sobre os Victor — pediu-lhe. — Pelo que entendi, nos recentes negócios que fiz, os melhores puros sangues de caça vêm das cavalariças deles. — Thomas pensou nas esplêndidas éguas de caça que havia comprado através de um agente em Tattersall antes de ter deixado Londres. Animais fortes e velozes, magníficos; exatamente do tipo que planejava procriar com seu garanhão árabe, de raça pura. A criação de puros-sangues sempre fora o sonho de seu pai e se tornara o seu também. — Não há muito a contar. — Beans deu de ombros, enquanto terminava de vesti-lo. — Eram os melhores cavalos de caça, mas não são mais. O velho visconde arruinou as linhagens cruzando-os com cavalos de corrida. A sua morte deixou a família na ruína... Ouvi dizer que pretendem se mudar para Londres. — O homenzinho tornou a dar de ombros, como se o assunto não fosse importante, depois deu um passo atrás e estudou seu jovem mestre. — Pronto. Um perfeito gentleman. Tenho certeza que todas as jovens da... Thomas rapidamente saiu para o corredor e fechou a porta atrás de si, bloqueando a tagarelice do velho valete. Sacudindo a cabeça, sorriu consigo mesmo por ter adquirido um bom camarada para criado pessoal. Tendo dado instruções para que um jantar leve lhe fosse servido diante da imponente lareira na biblioteca do velho duque, ele começou a descer as escadarias. Viera para casa, afinal. Como teria sido interessante e agradável encontrar o velho tio-avô ainda vivo. Os bons momentos que teriam tido, relembrando as grandes campanhas e trocando reminiscências enquanto bebericassem um fino conhaque após o jantar. Bem, algumas coisas simplesmente não foram destinadas a acontecer, disse a si mesmo. O que devia fazer agora era se concentrar no novo e próspero rumo que seu próprio destino lhe reservara.


QUATRO

Amanda caminhou lentamente pelos opulentos salões brancos e dourados, notando espaços vazios de onde móveis e obras de arte haviam sido removidos. Todos transportados para Londres... para Vicroy House... a fim de adornarem o palco para a encenação proposta por tia Addie. A remoção fora feita com a precisão de um exército em marcha. Tudo que podia se destinar à ostentação fora mandado na frente, sendo seguido um dia depois por uma autoritária Lady Adair, uma agitada Lady Lillian e um indiferente Grady, acomodado em sua cesta especial... os três acompanhados por uma ranzinza Bess. Amanda e Jamie Deal estariam seguindo agora, uma semana depois que o grupo partira. Ela se recusara terminantemente a passar seu tempo confinada à casa em Londres, enquanto as senhoras reorganizassem a mobília e fizessem mais compras. Os convites para eventos sociais não começariam a chegar até que a família Victor anunciasse sua nova residência oficialmente. E tão logo tal anúncio fosse feito, convites não faltariam. Lady Adair sempre fora uma favorita da sociedade londrina e Lady Lillian, tendo se isolado no campo por tantos anos, seria naturalmente uma grande atração. Além disso, haveria uma nova debutante sendo apresentada à sociedade. Com certeza, todas as matronas da cidade fariam questão de conhecê-la para avaliarem a possível competição entre Amanda e suas filhas casadouras. A mansão de Victor Mall estava fechada, por todas as razões práticas possíveis. Lençóis cobriam a mobília; grandes figuras brancas refletindo-se nos espelhos empoeirados. Apenas Emma, como governanta, e seu marido, como caseiro, haviam ficado, uma vez que todos os demais criados haviam sido dispensados por esse período. A propriedade teria que ser reconquistada dos ratos, aranhas e mato uma vez que Amanda obtivesse sua fortuna... e, claro, o marido para propiciá-la. A mera idéia fez com que ela tornasse a franzir o cenho. — Maldição! A vida não é justa. Se ao menos eu tivesse nascido homem, não seria forçada a essa situação odiosa. Bem, se fosse homem teria que se casar com dinheiro do mesmo jeito, ponderou. Mas um homem não abdicava de sua liberdade como uma mulher fazia. Ser subserviente a um homem, em especial a algum de personalidade inferior, lhe seria doloroso. Os últimos resquícios de liberdade tinham sido esses dias que haviam lhe restado em Victor Mall antes de partir. Liberdade para cavalgar de encontro ao vento, saltando por quantas cancelas lhe aprouvesse. Liberdade para se vestir como bem entendia, falar da maneira que queria. Depois disso, seria como se tudo que ela era, bem em seu íntimo, tivesse que ser negado. Teria que se comportar como uma graciosa, irrepreensível... e entediante... lady. Durante a última quinzena, sua mãe e a tia haviam martelado em sua mente todas as lições possíveis e imagináveis do refinado e apropriado comportamento que seria esperado dela. Amanda sentia-se como se estivessem tentando aprisionar sua alma numa minúscula caixa. Assim como os muitos espartilhos destinados a garantir a perfeita silhueta, base de seu novo guarda-roupa, cada aspecto de sua vida tornava-se confinante demais.


Deixando a mansão em direção aos estábulos, Amanda piscou os olhos algumas vezes, tentando conter as lágrimas. Não iria chorar pelo que não podia ser mudado, ou pulo que podia ter acontecido... nunca mais! — Menina, parece que há nuvens de tempestade se formando ao norte. Não vá se deixar apanhar pela chuva — avisou-lhe Jamie Deal, enquanto colocava a sela no dorso do garanhão preto. — Um pouco de chuva não vai me matar. — Ela esboçou um sorriso, mas seu semblante se entristeceu ao olhar para as fileiras de baias vazias no estábulo. Fora uma pena vender todos aqueles belos animais de caça em Tattersall, mas essa venda financiaria a temporada em Londres. Deteve-se em frente à baia de uma elegante potranca cinzenta. Dos puros-sangues, apenas ela e o garanhão negro haviam ficado. Ambos seriam levados para a cidade para ajudar a manter a pose da família Victor. Os demais que haviam restado eram os cavalos dos coches, os utilizados pelos criados e algumas éguas que, embora de raça pura, eram velhas demais para serem vendidas ou procriar. — Eu juro, Jamie Deal! — disse ela, de repente. A voz carregada de um misto de frustração e determinação. — Vamos reerguer estes estábulos! Mais uma vez os cavalos de caça de Victor Mall serão famosos em toda a Inglaterra. Os canis tornarão a ficar repletos de cães de caça, as colinas fervilhando de raposas, e organizaremos grandes caçadas, com toda a nobreza convidada. Você se lembra de como era? — Ora, menina... Não fique se torturando com o que não pode mais acontecer — aconselhou-a o velho homem, sacudindo sua cabeça grisalha ante todos aqueles sonhos. — Eu não gostaria de vê-la de coração partido. — Tem razão, meu bom amigo — murmurou ela e montou no grande garanhão negro. — Bem, teremos que partir amanhã, logo cedo. Por que não aproveita para ir até o vilarejo se despedir de seus amigos? Ficaremos longe por um bom tempo... Jamie assentiu, tentando animá-la com um sorriso. Mas com a mesma expressão sombria, Amanda saiu galopando em direção aos campos. Apesar do mau tempo, planejava desfrutar daquelas terras que tanto amava por mais algumas horas. No dia seguinte estariam de partida para uma longa estada em Londres... e para o que destino lhe reservasse... Sua Graça, Lorde Thomas Eastmore lançou um olhar contrariado para a mansão de aspecto deserto e depois para as formações de nuvens negras ao norte. Tornou a montar na sua majestosa égua para o percurso de três horas de volta à sua propriedade e ao jantar quente que o aguardaria. — Bem, garota, parece que não há mesmo ninguém em casa. — Ele guiou o animal pelas rédeas, começando a se afastar de Victor Mall. A bela égua castanha fora uma das recentes aquisições em Tattersall. Tendo ficado imensamente satisfeito com a linhagem da criação dos Victor, decidira visitar seus estábulos pessoalmente e comprar mais cavalos de caça. Assim, cavalgara por três horas até ali e qual não fora sua decepção ao encontrar o lugar deserto. A ansiedade em comprar mais puros-sangues fora tanta que o fizera tentar aquela visita à viscondessa Victor sem lhe enviar um aviso primeiro. Ponderou que, de certa forma, merecia a viagem perdida por não ter seguido o protocolo como deveria.


Mesmo com o galopar veloz da égua de caça, a meio caminho de sua jornada foi surpreendido por uma chuva torrencial. — Maldito tempo! Puxando as rédeas para deter o animal, olhou rapidamente ao redor a procura de algum abrigo. A sorte parecia de não tê-lo deixado de todo naquela tarde. Avistou por perto um antigo estábulo de aspecto abandonado. Enquanto guiava o cavalo nessa direção, uma forte rajada de vento arrancou-lhe a cartola da cabeça, fazendo-a voar para longe. Vendo-se obrigado a desmontar, ele praguejou e, sob a chuva copiosa, deteve-se para apanhar a cartola. Quando tornou a montar, a égua correu direto para o estábulo, parando antes de se chocar com a traseira de outro cavalo. Era um garanhão preto, que virou a cabeça e relinchou como que em reconhecimento da égua castanha. — Droga! — explodiu Thomas, cada vez mais mal-humorado. Passou a mão pelos cabelos molhados e pelo rosto para afastar as gotas da chuva. Suas roupas estavam ensopadas; na verdade, sentia-se encharcado até os ossos. — Estaria disposto a dividir seu abrigo seco com outro viajante? — perguntou em voz alta, dirigindo-se ao cavaleiro do garanhão preto, que ainda não pudera ver por perto. Não houve uma resposta, mas alguns ruídos vieram de uma das baias escuras. Desmontando com cautela, o duque aproximou-se para investigar os sons do que parecia uma luta. Ficou perplexo ao encontrar um jovem cavalariço tentando ajudar uma égua obviamente velha a dar cria. Logo ficou evidente para seu olhar experiente que a égua estava com problemas e exausta pelos esforços. Rapidamente tirou seu sobretudo, o colete e dobrou as mangas da alvíssima camisa de linho. — Me deixe passar. Vamos ver se conseguimos ajudá-la, ou a velha garota não vai agüentar. — Afastando o rapazinho para o lado, Thomas ajoelhou-se ao lado da égua. Amanda perdeu o equilíbrio e caiu sentada na palha. Soltou uma exclamação ultrajada. — Oras! Como se eu já não tivesse ajudado uma porção de éguas a dar cria! — Mas logo conteve seu protesto ao observar um par de mãos bronzeadas movendo-se pela barriga da égua. Parecia que o homem sabia o que estava fazendo. Talvez pudesse ajudar o pobre animal. — É um absurdo alguém deixar uma égua desta idade procriar — disse ele com raiva, condoendo-se da agonia da égua. — Não tenho certeza se posso salvá-la. Isto é um crime! Ela deve ter no mínimo uns vinte anos! Claro que merecia sua aposentadoria sem ter que parir mais este último potro. — Dezessete... Ela tem dezessete anos. E o cruzamento não foi intencional — sussurrou Amanda, um nó se formando em sua garganta. Lágrimas começando a rolar copiosas por suas faces. A velha égua era Victory Pearl e nascera no mesmo dia em que a própria Amanda Pearl também nascera. E em celebração ao nascimento da filha, seu pai a presenteara com a potranca e dera nome a ambas numa cerimônia cheia de pompa, numa grandiosa festa de caça em Victor Mall. Ainda recém-nascida, fora o primeiro presente que ela recebera de seu


outrora devotado pai. Prova de que um dia ele a amara de verdade. Um soluço sentido escapou-lhe dos lábios. — Garoto, saia desta baia, se não consegue parar de choramingar! Veja se consegue encontrar algo para enxugar este potro... se eu puder ajudá-lo a nascer vivo. Amanda obedeceu à ordem daquela voz zangada e autoritária. Seria importante secar o potro, se Victory Pearl não pudesse... Com a visão anuviada pelas lágrimas, apressou-se até os fundos do estábulo; começou a juntar palha. Já se preparava para carregar um grande amontoado que reunira, quando viu o estranho se aproximando. Trazia em seus braços bronzeados o filhote que acabara de nascer e depositou-o sobre a palha em frente a ela. — Enxugue-a bem. Vou ver como está a égua — ordenou ele, lançando-lhe não mais do que um breve olhar antes de se afastar. Amanda enxugou o animalzinho trêmulo com a palha, vigorosamente para aquecê-lo. Riu de suas primeiras tentativas para se levantar em suas pernas ainda sem firmeza. Enfim, quando a potranca estava limpa e seca, ajudou-a a erguer-se. Ela possuía a mesma cor castanha avermelhada da mãe. Vendo-a assim tão frágil, era difícil imaginar que cresceria forte e veloz, saltando obstáculos como se pudesse voar... Mas era, sem dúvida, um dos magníficos cavalos de caça de Victor Mall. — Vou chamar você de... Victory Flame! E, você, pequenina, será a primeira nas minhas novas cavalariças — declarou ela, passando a mão com carinho sobre o dorso castanho-avermelhado do animal. Virando-se com um sorriso ainda nos lábios, Amanda ficou perplexa ao ver o homem parado em frente à baia onde estava Victory Pearl. Acima das botas, o tecido das calças dele, molhado pela chuva, moldava-se a pernas e coxas musculosas. A camisa de linho estava aberta até a cintura, revelando um peito forte. O sorriso dela foi diminuindo, enquanto seus olhos lhe percorriam os ombros largos e se detinham no rosto dele. O estábulo estava escuro e não conseguia distinguir-lhe a expressão do rosto, mas a cabeça um tanto baixa denunciava que a égua não via sobrevivido. Com um gemido de profunda dor, Amanda ergueu-se da palha e correu até a baia. Queria ver a égua e, de alguma forma, fazer com que aquilo não fosse verdade. O estranho alto deteve-a, segurando-a perto de seu peito largo para que não entrasse na baia. Um acesso convulsivo de lágrimas dominou-a. — Acalme-se, sim? Você não pode mais fazer nada por ela. A égua lhe deu o melhor... a potranca lá adiante.Só não foi forte o bastante para sobreviver ao nascimento desta última cria. As palavras de consolo murmuradas próximas a seu ouvido, os braços fortes segurando os seus fizeram Amanda dar vazão a toda a dor que a consumia. Novos soluços angustiados escaparam de sua garganta. Sentia o coração em mil pedaços. De repente, ela abraçou o moreno pela cintura e, enterrando a cabeça em seu peito forte, chorou convulsivamente, seu corpo tremendo por inteiro. Precisava ser abraçada, confortada... e ninguém mais a abraçara há tanto tempo. Em toda a parte havia a morte, a desolação, começando com a de Sheldon há longos anos, o abandono de seu adorado pai... depois a morte dele, a de Victor Mall e agora a de Victory


Pearl, simbolizando para ela mais uma vez a morte do amor de seu pai. Enfim, aquilo tudo era demais. Não conseguia continuar sendo tão forte... — Ei, não fique assim, menino — disse Thomas, perplexo. — Eu... eu sinto muito... — Sem se afastar e, como uma criança, ela enxugou as lágrimas com as costas das mãos, incapaz de conter os soluços. O estranho lhe deu uns tapinhas desajeitados nas costas. O gesto fez com que o chapéu de Amanda lhe caísse da cabeça, e uma cascata de sedosos cabelos negros deslizou sobre as mãos dele. Subitamente, Thomas se conscientizou dos seios arredondados de encontro a seu peito quase nu, através do suéter molhado da garota que até há pouco julgara ser um jovem cavalariço. — Céus! — Ele a afastou o suficiente para estudar-lhe o rosto, em suas mãos fortes ainda deslizavam as mechas acetinadas dos cabelos negros e lisos que iam até a cintura dela. — Eu sinto muito — repetiu Amanda. Mas ao tentar se afastar, ele a segurou com firmeza. — O que está...? — Assustada, ergueu a cabeça para fitá-lo de forma inquiridora. Sua visão anuviada pelas lágrimas apenas distinguindo-lhe os olhos de um surpreendente castanho-claro no rosto bronzeado — Eu... estou bem. De verdade... Ver o rosto dela claramente pela primeira vez foi desconcertante para Thomas. Mesmo com os olhos e as faces abatidas pelas lágrimas, a beleza daquela jovem era estonteante. Fascinado, observou-lhe a pele perfeita e acetinada, as sobrancelhas escuras e delicadas e os incríveis olhos. Marejados, eram como algum profundo lago azul nas montanhas. Era um rosto de tirar o fôlego de um homem a um simples olhar. Sem sequer se deter um momento para pensar na inadequação daquilo, Thomas inclinou a cabeça e moldou seus lábios aos cheios e rosados dela, ainda trêmulos. Beijou-os com suavidade, deliciando-se com sua maciez. O beijo que começara gentil, que fora destinado apenas a consolar, logo se intensificou, tornando-se exigente, inquiridor. Amanda jamais havia sido beijada antes. E no frágil estado emocional em que se encontrava no momento, tal experiência pareceu-lhe das mais confortadoras e bem-vindas. Abraçou o homem com força pela cintura, estreitando-se de encontro a seu corpo protetor e, instintivamente, começou a retribuir ao beijo. Em sua inocência, não deu conta de que estava respondendo à silenciosa junta dele. Thomas ergueu-a em seus braços e deitou-a sobre um monte de palha. Sem deixar de beijá-la, inclinou-se por cima dela, cobrindo-lhe o corpo esguio com o seu. Amanda, tão carente do conforto e das atenções de alguém, não se esquivou quando o beijo se tornou sôfrego, faminto. Mas logo os lábios dele tornaram a se mover com gentileza, languidamente, embora ainda exigentes. Seguindo um primitivo instinto, ela entreabriu os seus, e suas mãos começaram a lhe afagar os cabelos molhados. Enfim, os lábios dele deslizaram por sua garganta, detiveram-se junto a seu ouvido, beijando-lhe o lóbulo. Depois retomaram a trilha de fogo por seu pescoço, beijando-o com ardor. Mantendo os olhos fechados, Amanda soltou um gemido abafado, arqueando-se de encontro ao corpo dele, ansiando por sua proximidade, por seu calor. As sensações desconhecidas e tão intensas que a invadiam a faziam vibrar por inteiro... a assustavam... mas não queria que parassem nunca mais.


Thomas jamais sentira paixão tão poderosa como a que a linda jovem em seus braços estava lhe despertando. A forma como ela respondia a seus beijos o enlouquecia, e seus gemidos abafados inflamavam-lhe o desejo. Erguendo-lhe o suéter de lã e a camisa de baixo de algodão até a altura do pescoço, ele deliciou seus olhos com a visão dos seios bem-feitos e arredondados. Ela soltou um pequeno grito de protesto quando se inclinou sobre um dos mamilos. Mas tão logo começou a sugá-lo, a jovem suspirou de prazer. Com toda sua paixão vindo à tona e encorajado pela maneira como ela reagia às suas carícias, Thomas abaixou-lhe as calças de montaria pelos quadris perfeitos. Livrou-a das botas depressa, acabando de despi-la. Excitado com a contemplação de corpo tão bem-feito, afagou-lhe a parte interna das coxas e começou a acariciá-la com intimidade. A primeira ousada carícia de seus dedos experientes a fez estremecer por inteiro. — Espere... — sussurrou Amanda, ofegante com a torrente de novas sensações. Tudo estava acontecendo tão depressa que lhe era impossível formar um único pensamento coerente. Com afagos demorados, ele estava explorando seus recessos mais secretos... até que a fez achar que não poderia mais suportar a doce tortura. Suas débeis tentativas de afastá-lo eram inúteis pois sentia-se como que empurrando uma sólida montanha. Sua força de vontade ia se esvaindo a cada carícia... — Isto está errado... — sussurrou, mas não conseguia se concentrar na realidade... as carícias tão ousadas produzindo-lhe sensações inebriantes. Inclinando-se, ele beijou-lhe o ventre esguio; com a ponta da língua cálida percorreu-lhe a pele acetinada, detendo-se num dos mamilos. Sugou-o, enquanto seus dedos experientes continuavam a acariciá-la com intimidade. O desejo em Thomas inflamando-se cada vez mais, mal podendo ser contido ante a paixão com que o corpo da jovem reagia a seu toque. — Por favor... pare — sussurrou ela de novo, seus suspiros de prazer negando suas palavras. — Apenas sinta, doçura... Não tente lutar contra mim. Apenas sinta... — sussurrou Thomas de encontro aos seios dela. Tornou a beijar-lhe os lábios com paixão, invadindo-lhe a boca macia com a língua. Ao mesmo tempo, ergueu-lhe uma das pernas desnudas até sua cintura, livrou-se do obstáculo de suas próprias roupas e a penetrou. peito.

— Oh... pare! Está me machucando! — gritou ela, recuando dele e empurrando-lhe o

— Droga! — murmurou Thomas para si mesmo. A garota havia sido uma donzela até há pouco! Permaneceu imóvel, cerrando os dentes ante o desejo contido, dando tempo a ela para relaxar. Quem teria imaginado... pela forma como seus beijos haviam sido bem-vindos! Seria necessário uma vultosa soma ao pai da jovem para contornar aquela situação. Maldição! Seu primeiro escândalo inglês! — Ouça... relaxe, doçura. Prometo que não vou machucá-la de novo. Lágrimas afloraram nos olhos ainda fechados de Amanda. O peito do homem pressionou seus seios, que arfavam com a respiração acelerada. Mas quando ele tornou a penetrá-la e começou a se mover devagar, ela o acompanhou no mesmo ritmo, na medida em que a dor inicial foi substituída pelo vibrante ardor de antes. Thomas beijou-lhe as lágrimas nas faces, sentindo-se enfeitiçado pela incrível beleza da garota quando o medo se dissipou de sua expressão. Agora em seu semblante delicado


havia uma inegável paixão. Beijou-lhe as pálpebras e os lábios outra vez, estimulando-os com gentileza. Foi terno e extremamente cuidadoso com ela, como teria sido desde o início se tivesse sabido que era virgem. Logo a sentiu retribuindo com volúpia a seus beijos, os quadris movendo-se como que por instinto, sob os seus, seguindo-o em sua cadência. Amanda sentia seu corpo em chamas, vibrando em todos os pontos sensíveis onde os lábios e mãos experientes a haviam tocado. Era dominada por uma espécie de urgência... uma deliciosa tensão crescendo em seu íntimo. Abraçou o misterioso moreno pela cintura, suas mãos percorrendo-lhe as costas sob a camisa, fascinadas com o contato quente de pele, com os músculos vigorosos que encontravam. Puxou-o ainda mais para si, continuando a mover seu próprio corpo, acompanhando-lhe o ritmo, agora freneticamente... Precisava dele, mais e mais próximo... De repente, ele soltou um gemido extasiado e não demorou a ficar imóvel. Mas o corpo de Amanda continuava em brasa, seu desejo ainda não saciado. Com um último beijo na fronte da jovem, Thomas ergueu-se e ajeitou suas roupas. Dando-lhe um momento de privacidade para que ela se vestisse, virou-se de costas. — Me diga onde você mora, menina. Vou lhe enviar um belo presente. Eu não teria sido tão impetuoso, se soubesse que era a sua primeira vez... Thomas caminhou até o fundo do estábulo, não querendo se virar até que a jovem criada tivesse tempo de se recobrar. Não desejava embaraçá-la e, na verdade, estava incerto sobre o que lhe dizer. Subitamente, ouviu um ruído próximo aos cavalos. Virou-se a tempo de ver a garota, seus cabelos negros e lustrosos esvoaçando-lhe pelas costas, montada no garanhão e galopando do velho estábulo em disparada. Apressando-se até a porta, Thomas ainda pôde ver o majestoso puro-sangue desaparecendo por uma colina. Um sorriso divertido desanuviou-lhe o cenho. Recolheu seu colete e o sobretudo, voltando até o final do estábulo, onde se achava a potranca recém-nascida. — Então, minha pequenina castanha-avermelhada, as camponesas da Inglaterra usam calças e desaparecem com a rapidez do vento? Bem, ela não vai ficar longe por muito tempo... Não enquanto eu tiver você. Vai ter que vir buscá-la, cedo ou tarde. — O duque ergueu o filhote nos braços e montou um tanto desajeitado na égua castanha. — Venha para casa comigo. Vamos lhe encontrar uma nova mãe. Será a minha refém. Depois, trocarei você por mais alguns doces beijos daquela fogosa jovem.

CINCO

— Amanda Pearl Victor! Por favor, preste atenção em mim quando estou falando! — Desculpe, tia. Minha mente estava vagando para bem longe... Como sinto falta do campo e de Victor Mall! — Amanda soltou um suspiro saudoso.


Lady Adair deixou a exasperação de lado e, de cenho franzido, interrompeu a revisão de uma pilha de convites para estudar a sobrinha. Ela viera para Londres estranhamente complacente e introvertida... — Francamente, querida, você devia demonstrar mais interesse. Em breve acontecerá a sua apresentação à rainha. A primeira aparição na sociedade é de extrema importância, já que pode estabelecer o seu lugar nesta temporada. Entendo que seja muito entediante para você não lhe ser permitido comparecer a nenhum evento até sua apresentação oficial à rainha Adelaide, mas... A tia fez uma pausa para observá-la, soava compreensiva, tentando animá-la. — Mas uma vez que isso seja feito... — prosseguiu, com gentileza. — E que, depois, você tenha obtido as recomendações necessárias para ser convidada ao concorrido Baile Dourado de Almack, poderá relaxar um pouco e a temporada se tornará bastante agradável. Agora... esta pilha de convites que estou revisando é enorme. Como sabe, a seleção de quem devemos convidar para a festa que Lady Standford vai lhe oferecer, na semana seguinte à apresentação, levou considerável tempo e habilidade. Como não recebesse nenhuma resposta, a velha senhora tornou a levantar os olhos para a sobrinha e limpou a garganta deliberadamente, para chamar-lhe a atenção. — Sim, tia Addie? — Oras, Amanda! Não parece nem um pouco entusiasmada com essa sua primeira festa. E quanto à apresentação, tem absoluta certeza do que será esperado de você na cerimônia? — Sim. Já ensaiei tantas vezes que poderia repetir tudo no meu sono. — Amanda tornou a suspirar. Levantando-se do sofá, segurou de leve as laterais da ampla saia de seu vestido e se inclinou numa gracioso cumprimento para agradar a tia. Não fizera segredo a ninguém que detestava todos aquelas fitas, laços e babados e que preferia continuar usando as calças de Sheldon. Mas obrigara-se a deixá-las de lado e a se vestir com feminina elegância, a se comportar adequadamente como uma lady, resignada com sua missão em Londres. De qualquer forma, era-lhe impossível conter seu turbilhão interior. Inquieta, encaminhou-se até a janela para espiar o dia nublado. Não estava chovendo, mas também não havia o menor sinal do sol. Havia meramente uma tonalidade cinzenta... sem variações. — Como eu gostaria de cavalgar... Estou tão ansiosa com toda essa espera... Começou a andar de um lado ao outro do luxuoso salão. Ali, ao menos, a negligência que o visconde Victor tivera para com sua casa não era aparente para um observador menos atento. Com a mobília e obras de arte trazidas de Victor Mall, as senhoras tinham conseguido dar um ar apresentável ao primeiro andar da mansão. E como a própria tia Adair colocara, ninguém iria "ultrapassar o palco para ir espiar a desordem dos camarins"... As reuniões a serem promovidas por elas se limitariam a chás da tarde. Não dando festas, nem hospedando convidados, a pose da família seria mantida, encobrindo sua verdadeira situação financeira. E ninguém estranharia tal moderação, já que o luto pela morte do visconde ainda era recente. O problema de um novo guarda-roupa refinado para Lady Lillian também foi assim contornado. Decidiram que ela continuaria usando suas discretas roupas pretas de viuvez, o que tampouco chamaria a atenção.


Detendo-se em frente ao quadro da primeira Lady Amanda Pearl Norview Victor, agora pendurado num lugar de destaque ali no salão principal de Vicroy House, ela estudou sua bisavó. Para complementar o novo guarda-roupa de Amanda, fora encomendada uma réplica do vestido vermelho do retrato às modistas. Embora ela achasse um desperdício de dinheiro, uma vez que às debutantes não eram permitidas cores fortes... Mas usando o tal vestido quando surgisse a oportunidade e com seus cabelos penteados no mesmo estilo, Amanda sabia que ficaria idêntica à ancestral. Claro que teria que ser sem o fabuloso colar de rubis e diamantes que sua bisavó usava na pintura, que já há muito este não se encontrava na família; devendo ter sido vendido ou perdido no jogo em alguma das gerações anteriores à sua. — Tia Addie, você acha que ela foi obrigada a se casar com meu bisavô? Ou que se casou por amor? — É provável que tenha sido um casamento de conveniências, mas pelo que se conta, parece que eles se entendiam muito bem. Sabe, casar por amor seria algo maravilhoso, minha querida, desde que uma mulher pudesse se apaixonar pelo homem ideal. Mas nem sempre é possível conciliar tudo... Você tem que admitir que, no momento, salvar Victor Mall deve ser a sua prioridade. Não há chance de ficar pensando na possibilidade de encontrar um amor de sonhos. — Talvez você tenha razão. — Amanda desviou o olhar da expressão bondosa da tia e esforçou-se para conter as lágrimas que ameaçavam aflorar em seus olhos. — Por que não vai passear um pouco no parque naquela potranca cinzenta que trouxe de Victor Mall? Um pouco de exercício vai lhe fazer bem. — Boa idéia. Mas detesto ter que tirar Jamie Deal de seu trabalho. Tem certeza que não posso cavalgar sozinha? Oh, esqueça! Não olhe assim para mim! Eu sei que uma moça educada deve estar acompanhada por um cavalariço. O problema é que Jamie Deal está fazendo o trabalho de três homens. Não apenas é meu lacaio, mas cocheiro e tratador dos cavalos. É um alívio só termos os quatro cavalos da carruagem, além da potranca e do garanhão. Do contrário, mesmo depois de todos esses anos, ele poderia ficar farto de tantas tarefas e me desertar! — Jamie Deal morreria por você. E é provável que aprecie escapar um pouco dos estábulos para andar a cavalo, tanto quanto você quer escapar das paredes desta casa. Agora, vá dar seu passeio. — Lady Adair tornou a dirigir sua atenção à pilha de convites. — Ah, e leve a potranca em vez de Black Victory! Não parece muito apropriado para uma jovem de boas maneiras montar naquele bruto. Depois que a sobrinha deixou o salão, a velha senhora pôs mais um convite de lado e refletiu sobre as conversas que tivera nos últimos dias com sua querida amiga Mary Standiford. Sendo uma amiga muito antiga, de sua estrita confiança, já lhe contara sobre a missão a que se incumbira pela sobrinha. Como estivera longe de Londres já há um bom tempo, Lady Adair pedira-lhe que a colocasse a par sobre os possíveis jovens candidatos a marido e suas fortunas. Assim, pôde começar a fazer uma espécie de triagem dos melhores partidos, o que a orientaria nos próximos contatos que a família Victor deveria fazer, dos círculos exatos a freqüentar. A amiga se oferecera, inclusive, para dar a primeira festa à sua sobrinha e a ajudara no preparo da lista de convidados. Um trecho de uma dessas conversas em especial a deixara intrigada.


Adair?

— Você certamente já deve ter ouvido falar sobre o novo duque de Eastmore, não é,

— Claro, o misterioso sobrinho-neto do velho duque foi o principal assunto durante jantares e festas por um bom tempo. Mas ele ainda é um sonho inatingível, ou já se materializou? — Oh, ele já chegou à Inglaterra, sim, mas, na verdade, poucos o viram. Reuniu-se com os advogados e contadores do tio-avô e se instalou na mansão no campo. Como você deve saber, suas propriedades são vizinhas a Victor Mall. Parece que está muito interessado na criação de puros-sangues, segundo os rumores. — explicara Lady Mary, enquanto sorvera seu xerez. — Cada matrona com uma filha casadoura vai estar no encalço dele. Afinal, é riquíssimo, jovem e extremamente bonito. Até as debutantes com suas próprias fortunas intactas vão tentar conquistar seu coração. Sem dúvida, ele será o solteiro mais cobiçado da temporada. Claro que dizem que é um conquistador. Assim, as mães vão ter que vigiar suas filhas bem de perto... Mas não vão deixar que a reputação de sedutor do jovem duque as faça desistir de casar uma filha com o que, sem exagero, deve ser o melhor partido do momento! Lady Adair esfregou os olhos cansados e tocou o sininho para chamar Hastings. Uma reconfortante xícara de chá lhe faria bem, algo quente para avivar sua mente enquanto refletia. Lorde Thomas Eastmore... Com tanta provável concorrência, as chances de Amanda, nas atuais circunstâncias, não seriam muitas, mas as semelhanças nos interesses de ambos não podiam ser ignoradas. E, pessoalmente, Adair sempre achara que os sedutores eram os que melhor sabiam agradar as mulheres. E uma vez domados, com seus corações conquistados, tornavam-se os maridos mais interessantes. Não tinha a menor dúvida que sua rebelde e obstinada Amanda Pearl poderia domar um! Enquanto aguardava o chá, ela deixou a escrivaninha e sentou-se num dos sofás, afagando o pêlo de Grady. Por falta de um confidente mais discreto para sua maquinação, queixou-se ao desatento felino: — Se pelo menos Amanda não estivesse se mostrando tão desanimada com tudo isto, eu trataria de arranjar os contatos certos para que fosse apresentada ao jovem duque. Assim, haveria naturalmente como convidá-lo para esta primeira festa. Mas... como as coisas estavam, pensou, com um suspiro, teria que esperar que o acaso os juntasse por tempo o bastante em algum evento para que seus interesses em comum viessem à tona. Amanda vagueou pela escura e empoeirada galeria de retratos dos Victor. Em contrário ao que dissera à tia, preferira não interromper Jamie Deal em seu já sobrecarregado dia de trabalho. Até teria lhe dado de bom grado uma mão com os cavalos, mas isso, certamente, produziria uma síncope em Lady Adair se descobrisse. Sem atividades ao ar livre, ela não conseguia deixar de se sentir deslocada. As incessantes conversas sobre vestidos de baile, futuros convites e bons partidos começaram a entediá-la já desde o primeiro dia que chegara. Estava acostumada a grande atividade física, e aquela vida plácida, em que o único exercício permitido para uma dama era a dança, lhe representava uma tortura. Também era torturada pelo tempo que tinha de sobra para pensar, para recordar e sentir...


Olhando distraidamente para os inúmeros e antigos retratos, deteve-se de repente, ao final do amplo corredor, onde havia um espelho. Observou seu reflexo atentamente. Seu rosto achava-se um tanto pálido. Será que estava diferente... agora que não era mais uma donzela?, perguntou-se. Fechou os olhos depressa, recusando-se a encarar sua própria imagem. Tantas conversas sobre como uma dama devia se comportar... O que sua tia diria se soubesse que ela entregara sua pureza de bandeja a um estranho num velho estábulo. Tola!, censurou-se. Amanda estremeceu, desabando numa cadeira próxima ao espelho. Sua mente regressou àquela tarde chuvosa pela milésima vez. O estábulo estivera escuro e até duvidava que sequer o reconhecesse se visse aquele homem de novo. Não chegara a encará-lo e, portanto, não tinha nenhum rosto para colocar na imagem... apenas uma impressão de incrível força e poder. Um homem de pele bronzeada... possivelmente até um estrangeiro... com palavras gentis e braços fortes que a haviam acalentado em seu pranto por Victory Pearl. Outras lembranças sobrepuseram-se a essa... Olhos quase tão claros quanto o mel a fitá-la com hipnótica intensidade, mãos experientes a acariciá-la... Sentiu sua face queimando. Não era ingênua a ponto de não saber como aquelas coisas aconteciam. Ao menos teoricamente algumas criadas de Victor Mall já haviam lhe explicado curtos detalhes de um... encontro romântico entre um homem e uma mulher. Mas o que experimentara com o estranho moreno superara quaisquer que pudessem ter sido suas inocentes expectativas. No momento em que a possuíra, houvera a esperada dor inicial, mas a perda total de controle de suas emoções fora uma completa surpresa. Como seu corpo pudera ter adquirido vontade própria, fazer suas incontroláveis exigências? Aquelas sensações se intensificando num crescendo... seu corpo acompanhando a cadência alucinante, até que o misterioso moreno, enfim, parará. Mas ela quisera mais... ansiara por algo inexplicável, uma espécie de necessidade para a qual ainda não tinha nenhum nome. Amanda tocou seus lábios trêmulos com as pontas dos dedos, lembrando-se vividamente dos primeiros beijos de sua vida. Recordava-se com desconcertante nitidez da paixão que aquele homem despertara dentro de si, das sensações tórridas que retornavam a cada vez que pensava nele. O brilho dourado daqueles olhos, a fitá-la como se pudessem enxergar através de sua alma... Ela se levantou, andando de um lado ao outro da galeria. Ao menos seu ato impensado não resultará numa gravidez. Ficara atormentada com aquela possibilidade até que a natureza não falhara e aliviara sua mente. E como se sentira humilhada quando ele lhe oferecera um presente! Mas nem mesmo tal humilhação conseguia aplacar a espécie de anseio que ainda a invadia... o desejo de experimentar aquelas sensações maravilhosas outra vez... de sentir os lábios dele se apossando dos seus novamente. Afastando tais idéias proibidas, repassou o pouco que sabia sobre o homem. Era obviamente um gentleman. Mas um não muito respeitável... sem ter a menor hesitação para possuir uma criada, como a julgara, seduzi-la até que se rendesse contra sua vontade... depois oferecer-lhe uma ninharia por sua virgindade! Mas um lorde seria tão habilidoso com o nascimento de um potro? A potranca! Sua Victory Flame, a esperança de recomeço para suas cavalariças... Que ironia... Amanda sacudiu a cabeça em nova humilhação. E pensar na forma como havia


abandonado a linda potranca castanha-avermelhada... Mas não soubera que outra atitude tomar a não ser correr daquele estábulo, fugir do constrangimento. Se ao menos o moreno tivesse sido terno em seguida, em vez de lhe dar as costas... fazendo-a sentir-se usada... como se não tivesse significado nada além de uma fugaz aventura. Ao final daquela tarde, ela ainda pedira a Jamie Deal que fosse até lá buscar a potranca, mas ele não encontrara nada além da égua morta. Como havia lhe pedido, o velho amigo ateara fogo no lugar, sepultando, assim, Victory Pearl. Enquanto revivia aquela tarde, uma outra lembrança veio-lhe à mente. A égua castanha na entrada do estábulo havia sido uma das do lote de Victor Mall que fora vendido em Tattersall. Provavelmente o estranho a comprara lá, mas o que ele estivera fazendo em sua propriedade? Oh, estava tão confusa... Sua cabeça latejava. Mas não sendo do tipo que se deixava dominar pela autopiedade, tornou a encarar seu reflexo no espelho. Aprumando os ombros, declarou para sua própria imagem: — O que está feito, está feito! O que de mais desastroso podia ter acontecido em tais circunstâncias... uma gravidez... não aconteceu. E se ele for um membro da nobreza e revelar aos amigos o que aconteceu e manchar a minha reputação, eu... Eu lidarei com a situação se esta vier! De cabeça erguida, deixou a galeria repleta dos retratos de seus ancestrais. — Vamos levar essa missão logo adiante, casar com uma fortuna, e voltar para o campo, onde a vida é de verdade... não uma encenação!

SEIS

Lady Mary Standiford não planejara uma festa grande para o primeiro evento de Amanda após sua apresentação oficial à rainha. A lista de convidados havia sido elaborada em conjunto com Lady Adair com um propósito específico em mente. Entre a elite da cidade cuja aprovação era desejada, foram incluídas as três viúvas de Almack, a fim de que Amanda pudesse obter suas necessárias recomendações e garantir sua participação no importante Baile Dourado que promoviam anualmente. Eram senhoras exigentes, pomposas, mas, com seus títulos nobiliárquicos, tinham grande influência na sociedade, podendo sua aprovação ou desaprovação ser decisiva para as futuras chances de uma jovem. Também foi convidado um grupo das debutantes daquela temporada, todas garotas loiras e insípidas para propiciar o contraste adequado com a exuberante beleza morena de Amanda. E, como não poderiam faltar, foram escolhidos a dedo alguns dos melhores partidos do momento. Era um formidável primeiro evento oferecido a uma jovem de dezessete anos, recémchegada do campo, argumentara Lady Adair, tentando animar a sobrinha. "Um verdadeiro triunfo!", assegurara. Mas para Amanda só havia a resignação em ver o show, enfim, se


iniciando. E seu único entusiasmo vinha na forma de ansiedade em começar logo aquela temporada, suportar sua duração e rezar para que terminasse o quanto antes. Agora, pegando a mão de sua homenageada com firmeza, Lady Standiford conduziu-a pelo último lance das escadarias até seu salão para as apresentações. Os convidados se viraram para observar aquela jovem vinda tão inesperadamente do campo. Murmúrios ecoaram no salão enquanto todos comentaram sobre a beleza de Amanda. Cachos elaborados e laços adornavam os cabelos pálidos das outras debutantes, mas Bess criara um estilo severo nos dela. Fazendo-lhe um coque um pouco acima da nuca, deixara-lhe todo o belo rosto à mostra; as sobrancelhas delicadas e negras em destaque; os cílios espessos emoldurando os olhos de intenso azul, bem definidos em contraste com a alvura acetinada de sua pele perfeita. Sua impressionante beleza logo trouxe um jovem nobre ao pé da escadaria, para ter a honra de primeiro da fila a lhe ser apresentado. O visconde Lewis Ottobon a contemplou com tanta admiração e ávido interesse que Amanda teve que se esforçar para conter seu desagrado. Aquela avaliação que se fazia de cada debutante, de sua beleza, perfeição de forma, as origens de família, sua fortuna ou falta da mesma... enfim, tudo aquilo lhe parecia perturbadoramente familiar com os leilões de Tatersall! Detestava ter que passar por tal inspeção. Mas feita a apresentação, Amanda dirigiu um sorriso amável ao visconde, admitindo para si mesma que não era justo descarregar seu descontentamento com suas circunstâncias no rapaz. Afinal, seus excessivos galanteios faziam parte daquele jogo em que todos na temporada tomavam parte. De qualquer forma, logo que teve oportunidade desculpou-se com um meneio gracioso e aproximou-se da mãe. Lady Lillian parecia radiante. — Tenho certeza que você vai brilhar nesta noite, querida! Da mesma forma como brilhou na sua apresentação à rainha. Foi um sucesso! Oh, você sem dúvida se destacou entre as outras. Um cisne em meio a todas aquelas patinhas! Amanda lembrava-se nitidamente de ter formado uma extensa fileira com as demais debutantes, todas vestidas de branco. — Me destaquei, pois sim! Bastava que alguém olhasse até a metade da fileira para já ter se esquecido da identidade das primeiras garotas. Estávamos tão idênticas. Se quer saber, aquele mais parecia um bando de gansos com vozes estridentes! — Minha filha, olhe suas maneiras! E você se destacou, sim. Viu a rainha conversando com alguém mais sem ser você? Viu a princesa Vitória sorrindo para alguma outra? Oh... veja! Lá está Emily Cowper! — Sabiamente, na ondulação de seda negra de seu vestido, Lady Lillian se foi antes que a filha tivesse chance de retrucar. — Estou feliz em ver mamãe se divertindo. Parece uma pessoa bastante diferente... aqui em Londres — murmurou Amanda para a tia que acabara de se aproximar. — Lillian sempre adorou a vida social antes de ter se retirado para o campo. Mas depois... com todos aqueles acontecimentos tristes na família... Bem, não vamos falar nisso! Apenas relaxe, querida. Desfrute dessa época da sua vida, pois nunca vai se repetir. A primeira festa... a primeira temporada são tão especiais quanto um primeiro beijo.


Amanda duvidava que a sociedade fosse assim tão... excitante. Logo desviou o olhar vagamente para os convidados do salão, como se seus pensamentos pudessem ser lidos e, que os céus a livrassem, compreendidos pela perspicaz tia. — Ora essa! — declarou Adair, virando a cabeça na direção da ampla porta de entrada. — Prepare-se! Vou lhe apresentar uma fera. Mas o filho é um excelente partido. — Lady Adair Cromwell, está de volta à cidade? — Uma mulher de baixa estatura, cabelos grisalhos e expressão determinada atravessou o salão, aproximando-se de ambas. Estava acompanhada de um rapaz alto, magro, de olhar hesitante. — Fico contente em vê-la também, Lady Ernestine Compton. Posso lhe apresentar minha sobrinha, srta. Victor? A viúva Lady Compton, minha querida... e seu filho, Lorde Barnaby Compton. Se o primeiro rapaz a que fora apresentada lhe parecera um tanto galante demais, este para Amanda era a própria timidez. Quase não o havia notado vindo atrás da mãe de tão apagado que era. Alto e magro, obviamente tímido ao extremo, o homem não podia sequer erguer os olhos do minucioso exame que fazia do chão de mármore para fitá-la. Vestido por inteiro no mesmo tom de marrom, praticamente quase desaparecia do raio de visão, o que, na certa, seria sua estratégia. Lady Compton logo se revelou antipática e uma mãe dominadora, o que talvez explicasse o retraimento do rapaz. Entre os comentários ferinos da velha mulher sobre tudo e todos, Amanda condoeu-se do introvertido lorde e tentou de alguma forma incluí-lo na conversa. A mãe logo fez questão de insinuar que ele estava a procura de uma esposa naquela temporada, acrescentando que seria provavelmente o melhor partido, sem nem perceber que o deixava ainda mais constrangido. Tia Addie obviamente o incluíra na lista de candidatos por sua grande fortuna, E embora Amanda estivesse consciente de sua necessidade de salvar Victor Mall, á perspectiva de um futuro marido tão patético não lhe pareceu das mais atraentes. De fato, a noite mal ia progredindo, e ela já sentia seu tédio aumentando, as têmporas começando a latejar. Em meio às finas iguarias e bebidas servidas pelos atarefados lacaios, os vários grupos de pessoas mantinham conversas animadas. Mas ela sabia que fofocas eram sempre a principal atração das rodas de convidados. Era uma prática comum os lordes e ladies sorrirem uns para os outros pela frente e alfinetarem-se pelas costas. Um jogo amplamente difundido em elevar a moral de uns, rebaixando a de outros. Outros que não pertencessem ao mesmo círculo, claro. A simples idéia de levar esse tipo de vida regada a frivolidades era insuportável para Amanda. A anfitriã logo apresentou Lady Lawrence, que se colocou ao piano para o entretenimento dos mais jovens. Já livre dos Compton, que haviam se misturado aos outros convidados, Amanda achava-se na companhia da mãe e da tia quando Lorde Ottobon se aproximou. — Srta. Victor? Gostaria de me conceder a primeira dança? As vozes das outras debutantes que estavam por perto soaram eufóricas com a música. Ela lançou um olhar para as jovens, facilmente identificando as que não tinham fortuna, já que pareciam mais desesperadas do que aquelas que não sofriam tanta pressão para arranjar um bom casamento. Perguntou-se se ela mesma pareceria assim tão desesperada. Tal idéia a fez rejeitar a oferta para dançar.


— Não planejo dançar nesta noite. — Ela sorriu para diminuir a chance de que sua recusa fosse tomada como uma ofensa. Não que houvesse antipatizado com o galante Lorde Ottobon. Embora não lhe despertando nada em especial, podia-se dizer que era um homem bonito, agradável. De estatura apenas um pouco maior que a sua, tinha traços clássicos, inteligentes olhos azuis e maneiras refinadas. Ele também se revelou espirituoso: — Posso lhe assegurar que sou um excelente dançarino. Bem, ao menos até hoje não pisei nos pés de ninguém. Amanda riu, mas se manteve firme na decisão de não dançar. Não se ofendendo, o visconde declarou que tampouco dançaria naquela noite já que não encontraria outro par à altura da beleza dela. Na companhia de Lady Lillian, ambos conversaram até que foi anunciado o jantar. A volta de carruagem a Grosvenor Square, à meia-noite, foi um imenso alívio para Amanda. Apesar das constantes atenções e galanteios de Lorde Ottobon, a primeira festa dela fora um longo e insuportável desapontamento. De cenho franzido, lembrou-se das palavras cruéis que ouvira por acaso de Margaret Vernill, uma das outras debutantes. Num momento em que buscara um pouco de paz numa das saletas de descanso reservadas às senhoras, Amanda ouvira a invejosa garota falando dela a uma amiga, era especial sobre a reputação de seu pai e a ruína financeira em que deixara a família Victor. Chocada e furiosa, ela se retirara antes que notassem sua presença. Fora uma dolorosa lição. Pudera constatar na prática que os sorrisos dos outros eram apenas uma fachada para as línguas ferinas que ocultavam. Mas não permitiria que a fizessem de motivo de riso! Apesar da tagarelice animada de tia Addie e de sua mãe, assegurando-lhe que ela fora um sucesso, Amanda ficou absorta em seus pensamentos, sem revelar o que ouvira da maledicente debutante. Pensou nos dois nobres que conhecera. Embora se qualificassem como bons partidos, era-lhe inevitável compará-los com as fortes impressões deixadas pelo estranho de olhos claros como o mel. Duvidava que Lorde Ottobon fosse capaz, algum dia, como seu marido, de lhe despertar tais sensações... quanto mais Lorde Compton... Céus, por que não conseguia tirar aquele misterioso moreno de sua cabeça? Nem sequer sabia seu nome... E o que isso importava? Não podia se permitir tais devaneios. Sua realidade era uma só. Mesmo que cada mais o fato lhe parecesse um sacrifício, tinha que dançar conforme a música e se concentrar em fazer um bom casamento. Afinal, era imprescindível trazer a dignidade de volta ao nome dos Victor! Felizmente, a chegada a Vicroy House pôs um fim ao turbilhão em sua mente. — Vou dar a volta na carruagem até os estábulos dos fundos. — disse às senhoras que desciam em frente à mansão. — Não se preocupem comigo. Depois Jamie Deal me acompanha a salvo até a entrada lateral da casa. — Não fique acordada até muito tarde, querida. Está frio e você precisa descansar — recomendou-lhe a mãe.


Amanda assentiu do interior da carruagem. Soltou um imenso suspiro de alívio, enquanto Jamie Deal a conduzia pela entrada em arco até os fundos. Logo que desceu, ela se aproximou da baia onde estava o garanhão preto. — Eu sei, Black Victory... Você se sente tão enjaulado aqui quanto eu. O que preciso é cavalgar bastante para clarear a mente e cansar o corpo. — Ele de fato está precisando se exercitar — concordou Jamie Deal, enquanto livrava os cavalos da carruagem de seus arreios. — Ao contrário destes, os dois puros-sangues não estão tendo chance de galopar. Uma expressão alerta surgiu no rosto de Amanda; uma que o velho amigo conhecia muito bem, pois já a vira em seu rostinho desde os três anos de idade quando fora designado para ingressá-la na arte da equitação. — Ora, menina não está tendo nenhuma idéia que vai nos colocar em apuros, está? — Jamie? Os tratadores de cavalos ainda costumam levar os puros-sangues para correr no Hyde Park ao amanhecer? — Sim. Mas não está pensando em... — Claro! Posso ajudar você a exercitar Black Victory e Victoire dessa forma. Sabe que precisa de ajuda. Além do mais, se eu não sair um pouco para andar a cavalo, vou ficar louca... — Ouça, menina... — Mas, Jamie, você não faz idéia de como está sendo difícil para mim... desfilar naqueles salões de baile como se estivesse num leilão de cavalos... Como em Tattersall... avaliada e julgada, com méritos e falhas contados e subtraídos... O coração do velho homem amoleceu ao ver-lhe a expressão desolada. Sacudindo sua cabeça grisalha, acabou sucumbindo. — Mas vai nos colocar em apuros... especialmente a você. — Ninguém vai saber que sou eu; aliás, nem que sou urna garota. Se puder me arranjar um suéter grosso, ainda tenho guardado um par de calças e minhas botas de montaria. Vamos correr no St. James Park... não no Hyde. Ninguém vai saber que estamos lá. Fique a minha espera aqui ao amanhecer. Sem lhe dar chance de argumentar e esquecendo sua promessa à mãe de ser acompanhada até a porta, Amanda ergueu a barra da ampla saia do vestido de baile e correu até a mansão. A expectativa de galopar contra o vento no dorso do veloz Black Victory na manhã seguinte trouxe-lhe um sorriso aos lábios e um pouco de calor ao seu oprimido coração.


SETE

Uma leve geada caíra durante a madrugada, deixando o chão prateado e as árvores cintilantes. Amanda manteve sua palavra a Jamie Deal. Um pouco antes do amanhecer, ela já o aguardava. Estava trajando suas calças de montaria, andando ansiosa de um lado ao outro do pátio da mansão, entrelaçando os dedos em suas mãos enluvadas. Um chapéu de lã ocultava-lhe os cabelos longos e, a menos que observada de perto, tinha certeza que seria confundida com qualquer um dos outros cavalariços exercitando os puros-sangues de seus mestres. Uma vez que as normas da cidade proibiam cavalgadas excessivamente velozes ou descuidadas pelas ruas, um grande número dos mais notáveis cavaleiros exercitavam seus próprios animais ao amanhecer, quando também faziam apostas em corridas e competições de saltos. Entre esses notáveis nobres, naquela manhã, estava o duque de Eastmore. Durante quase um mês, Thomas percorrera cada trecho de suas vastas propriedades e inspecionara as cavalariças, aprovando de imediato as instalações e as pistas para exercitar os animais em Eastmore Park. Instalara suas éguas árabes e iniciara, com a contratação de mais tratadores, um programa de cruzamento para as novas éguas compradas em Tattersall. Somente depois disso, ele achara que chegara o momento adequado para se aproximar de Londres e da temporada. Como seu tio-avô não tivesse mantido nenhuma residência na cidade, Thomas tomara providências para adquirir uma através de um agente. Assim, no momento, estava confortavelmente instalado numa pequena mansão perto de Pall Mall, com Beans e parte da criadagem de Eastmore Park. Assim que se mudara para Londres para passar ali a temporada, começara a sociabilizar com a nobreza a que pertencia, a fim de firmar sua posição. Freqüentando a academia real de esgrima e o clube de hipismo, logo fizera amizade com o expansivo Lorde Lewis Ottobon. E com Lorde Alfred Ellington, embora a forte inclinação desse cavalheiro pela bebida e sua fama de apostador inveterado e mau perdedor tornassem mais produtivo limitar tal amizade a contatos esporádicos. A despeito de suas muitas posses e título de nobreza, o jovem duque de Eastmore não era pomposo, nem frívolo. Apesar de seu ar de certa rebeldia e a reputação de sedutor, suas maneiras refinadas, sua aguçada inteligência e firme caráter logo foram tidos em elevado conceito pelos outros lordes. Sem mencionar que seu másculo charme não demorou a encantar as senhoras... Em suma, ele podia dizer que não tinha do que se queixar... seu valete dava um formidável nó em suas gravatas, sua amante era infinitamente desejável e seus cavalos do mais magníficos. Fora a extrema habilidade com os cavalos que lhe assegurara o rápido ingresso no exclusivo clube de hipismo. Assim, logo começara a tomar parte nas tradicionais cavalgadas ao amanhecer promovidas pelos sócios. E embora ele e os dois novos amigos costumassem cavalgar no Hyde Park, naquela manhã aconteceu de estarem exercitando os animais em St. James Park.


Galopando velozmente em seus magníficos puros-sangues, os três pararam de repente, quase que ao mesmo tempo. Detiveram-se por longos minutos a contemplar um majestoso garanhão preto que corria pelo extenso parque. Amanda estava tão exultante por, enfim, poder cavalgar livremente que não prestou atenção a quaisquer outros cavaleiros ao redor. Agora Black Victory trotava e, como que consciente de sua beleza, erguia as patas dianteiras, parecendo ansioso para disparar a pleno galope outra vez. Enquanto Ellington apostava que o imenso garanhão negro iria derrubar a qualquer momento o cavalariço que o montava, Ottobon rebatia a aposta, argumentando que o rapazinho não teria tido permissão de seu mestre para exercitar o belo animal se não fosse capaz de dominá-lo. Thomas, por sua vez, estava absorto em pensamentos. Montado em sua égua castanha, observava o garanhão preto com a certeza de que o reconhecia. Se descobrisse a que cavalariças pertencia, talvez encontrasse a fogosa jovem que lhe escapara... galopando naquele mesmo cavalo na tarde chuvosa no campo. Tratava-se de alguém que, sem dúvida, gostaria de rever... uma criaturinha deliciosa! Presumira que, estando aquele velho estábulo situado nas terras de Victor Mall, a jovem devia ser uma criada de lá também. Mas ao retornar ao cenário da sedução no dia seguinte, ficara surpreso ao encontrá-lo destruído pelo fogo. Suas várias perguntas sobre uma jovem de longos cabelos negros, profundos olhos azuis, que sabia cavalgar como o vento, haviam sido em vão, pois todos os camponeses ligados a Victor Mall e habitantes do vilarejo haviam parecido cegos, mudos e surdos. Cada um respondera suas perguntas apenas sacudindo a cabeça ou dando de ombros. E ainda havia a questão da potranca de pêlo castanho-avermelhado que queria devolver a seu legítimo dono, ou comprá-la já que era de raça pura. Aliás, se pudesse comprar também o garanhão preto, seria uma excelente aquisição para cobrir suas éguas árabes. — Vocês sabem a quem pertence o garanhão? — perguntou aos amigos. — Tenho certeza de que nunca o vi antes — respondeu Lewis, ainda observando em fascínio. — Jamais o esqueceria! Mas aquela potranca cinzenta que o outro cavalariço está montando tem todas as características das famosas éguas de caça de Victor Mall — assegurou o jovem visconde, com a autoridade de especialista no assunto. Afrouxando as rédeas para que o ansioso Black Victory tornasse a galopar, Amanda saiu em disparada pelo parque. Jamie Deal seguiu logo atrás na sela de Victoire. — Ei, eu não falei que o rapazinho sabia dominar aquele gigante! — exclamou Lewis, entusiasmado. — Venham! — disse Thomas. — Vamos participar dessa corrida! Os três lordes seguiram atrás da potranca cinzenta e do garanhão, soltando exclamações de euforia. Ainda alheia aos demais cavaleiros, Amanda deliciava-se com o vento frio de encontro a seu rosto, o som dos cascos no chão. A incrível velocidade que Black Victory mantinha a libertou dos problemas da realidade, da tensão e ansiedade que a estiveram atormentando. Era como se estivesse cavalgando acima das responsabilidades, dos numerosos credores, das frivolidades da sociedade. Sentia-se como se a força e o poder do cavalo a invadissem, tornando-a igualmente invencível.


Sem se dar conta de que lançara um desafio a uma corrida, Amanda acabou desaparecendo por entre os arvoredos, deixando os competidores que sequer notara muito para trás. Retornou, eufórica, pelo mesmo caminho, longos minutos depois; agora galopando com menos velocidade. Somente, então, se deu conta dos três cavaleiros parados em suas montarias ao lado de Jamie Deal. Vendo que um deles era o visconde de Ottobon, procurou ocultar o rosto com a aba do chapéu. Maldição! Estava prestes a ser descoberta! Oh, se sua tia soubesse daquilo, nem queria pensar... Quando se aproximou do grupo, um dos cavaleiros dirigiu-lhe uma pergunta sobre o garanhão. Em pânico, ela fez um gesto na direção de sua garganta; gesto que Jamie Deal, felizmente, compreendeu. — Ele não pode lhe responder, senhor. É mudo o pobre rapaz. — disse o velho homem depressa, livrando Amanda da atenção dos demais. — O garanhão é de Victor Mall. Mas não creio que minha patroa queira vendê-lo. Sua residência em Londres, Vicroy House, fica em Grosvenor Square, a mansão branca de esquina. Mas, se me permite a opinião, tenho quase certeza de que ela não deseja vendê-lo. — Bem, perder viagens por causa de Victor Mall já está se tornando um hábito — declarou uma voz possante, mas seu tom não soou mal-humorado. — Já dei com a cara na porta certa vez em que estive lá e não encontrei viva alma. De cabeça baixa, Amanda só podia ver parte da lateral da égua castanha que vendera em Tattersall e uma coxa forte moldada pela calça de montaria. Sua mente ficou em turbilhão. Céus, era ele! Reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Seu choque foi tão grande que suas mãos tremeram e puxou as rédeas sem se dar conta, fazendo Black Victory erguer as patas dianteiras. — Ei, menino! Vá trotar um pouco com o garanhão para esfriá-lo! Não vê que ele ainda está agitado? — ordenou Jamie Deal com a desculpa perfeita para que ela se afastasse depressa do grupo. Agradecida, Amanda conduziu o garanhão para longe, trotando até um arvoredo próximo. Assim que se encontrou fora do raio de visão dos demais, sentiu sua sanidade de certa forma retornando. Então, o misterioso moreno era um lorde... e estava em Londres! O que significava que o veria nos mesmos círculos sociais... talvez até dançasse com ele. A idéia das mãos bronzeadas a tocá-la outra vez lhe produziu uma nova onda de pânico. Se ao menos tivesse tido a coragem de olhar para seu rosto. Preocupada, mordeu o lábio inferior. Sabia que o reconheceria pela voz, pelos incríveis olhos castanhos-claros, cintilando como mel em sua face bronzeada... mas e quanto a ele? Será ela que corria o risco de que reconhecesse a sirigaita criada de calças de montaria na refinada debutante em elegantes vestidos de baile? A tarde estava ensolarada e muito mais quente, uma breve promessa da primavera ainda por vir. Não importando que pretextos arranjasse, as senhoras exigiram que Amanda as acompanhasse num passeio pelo Hyde Park. Obviamente não podia lhes contar que galopara o bastante naquela manhã; que apenas ansiava por um pouco de privacidade para tentar ordenar seus pensamentos confusos. Usando um elegante vestido de montaria cinza-claro, os cabelos presos num gracioso chapéu adornado com uma pluma vermelha, ela rezava para não estar parecida em nada


com o cavalariço que correra em St. James Park pela manhã. Muito menos com a sirigaita no amontoado de palha do estábulo! Não havia nada que pudesse fazer para evitar novas surpresas, a não ser ficar de olho atento a uma possível aparição da égua castanha. Isso se o mis¬terioso moreno a estivesse montando naquela tarde. Trotando em seu admirável puro-sangue, a certa altura Lorde Ottobon avistou as senhoras na carruagem aberta e aproximou-se para cumprimentá-las. Dirigindo-lhes galanteios, o atraente visconde colocou-se ao lado da potranca cinzenta que Amanda montava. Os dois foram seguindo um pouco mais à frente da carruagem, e Ottobon comentou com ela que vira seus cavalariços com a potranca e o garanhão preto no outro parque naquela manhã. — Meu amigo está muito interessado no magnífico garanhão. Está ansioso para saber se o cavalo estaria à venda. — Oh, é mesmo? Eu... lamento desapontá-lo, mas não pretendo me desfazer de Black Victory. Não querendo que o secreto galope daquela manhã acabasse sendo descoberto pela perspicaz tia Addie, Amanda achou melhor afastarem-se ainda mais da carruagem. — Lorde Ottobon, meu cavalariço não pôde me acompanhar nesta tarde e... — "Claro", acrescentou para si mesma. Com o pobre Jamie Deal acumulando a função de cocheiro naquele passeio e o outro cavalariço não existindo... — Bem, se importaria em me acompanhar com o seu para um breve galope pelo parque? Este trote está demasiado entediante. Quando se afastaram o bastante da carruagem, Amanda não resistiu e colocou mais velocidade na potranca. Logicamente não se permitiu o excesso de voar como o vento, já que não seria adequado para uma moça educada. Bastou Lewis olhar para seu porte elegante na sela, a firme graciosidade e a absoluta confiança com que conduzia a potranca para saber que a jovem era uma excepcional amazona. As pessoas que a observavam com admiração das carruagens e caminhando por perto pareciam da mesma opinião. Quando ambos pararam no início de um arvoredo e viraram as respectivas montarias para voltarem pelo mesmo caminho, Amanda ria, entusiasmada. De repente, sua atenção foi desviada para um magnífico cavalo árabe. O homem que o montava o virou na direção dos dois. Ela notou que ele estivera trotando ao lado de uma linda ruiva numa luxuosa carruagem aberta, forrada de cetim rosa. Pela cor do cetim e pelo excesso de maquiagem nas faces dela soube tratar-se de uma daquelas mulheres de reputação duvidosa que atraíam os falatórios. O mesmo tipo de mulher fácil com quem seu pai esbanjara boa parte de sua fortuna, dando-lhe jóias, carruagens de luxo e esplêndidos cavalos! Assim que Amanda desviou seu olhar indignado da carruagem e observou o homem que se aproximava no cavalo árabe, sentiu-se gelar por inteiro. Parecia alto e forte e seu porte confiante a fez lembrar do sedutor moreno do estábulo. Os mesmos ombros largos, o rosto bronzeado... Seria ele? Antes de encará-lo, ela baixou o olhar para as mãos trêmulas nas rédeas de Victoire.


— Srta. Victor, deixe-me apresentá-la a Lorde Thomas, o sexto duque de Eastmore — dizia Ottobon. — Sei que suas propriedades no campo são vizinhas, mas uma vez que ele chegou recentemente da Arábia, imagino que ainda não se conheçam. Sua Graça, Lady Amanda Pearl Victor. Ela respirou fundo antes de levantar seu olhar e deparar com um inconfundível par de olhos castanhos-claros. Então, o momento do teste chegara! Certo, que viesse de uma vez por todas para enfrentá-lo e acabar logo com sua apreensão! Como aquele homem era bonito, notou. Seus olhos eram mesmo incríveis, quase da cor do mel; tinha os traços bem-feitos, mas a um estilo másculo e marcante. Sob a cartola, os cabelos castanhos tinham alguns reflexos aloirados, como se tivesse passado um bom período sob o sol forte. Claro, o sol tórrido do Oriente! Essa era a razão de sua pele bronzeada. Seus lábios cheios abriram-se num sorriso estonteante, revelando dentes perfeitos e alvíssimos em contraste com o bronze da pele. Como ela lhe estudasse os olhos castanhos e não visse nenhum sinal de reconhecimento, começou a duvidar de que fosse o mesmo homem. Afinal, tinha os cabelos tão mais claros... e não dava o menor indício de reconhecê-la. E aquele estábulo estivera tão escuro... Não chegara mesmo a encará-lo para ter a certeza. Parte de sua tensão dissipou-se, e Amanda retribuiu o sorriso. — Srta. Victor, é um prazer conhecê-la. Venho já há algum tempo querendo cumprimentar sua família por seus majestosos cavalos. Tive a sorte de comprar em Tattersall dez esplêndidas éguas de caça provenientes de Victor Mall — informou-a Thomas cortesmente. — Magníficos animais, sem dúvida. — Ele observou a jovem e pensou em perguntar-lhe sobre o garanhão preto, mas deduziu que essa Victor, com suas maneiras tímidas e refinadas de lady não devia entender de assuntos de cavalariças, muito embora montasse a potranca cinzenta com graça e confiança. — Oh... fico tão contente em saber q-que as adquiriu. Eu queria mesmo que fossem compradas por alguém que soubesse apreciá-las. Foi difícil vê-las deixando a fazenda. Representam tantos anos de aperfeiçoamento da linhagem... — A sincera dor nos belos olhos azuis dela e o brilho momentâneo de lágrimas pelas éguas das quais tivera que se desfazer deixaram Thomas intrigado. Aquela expressão melancólica lhe era familiar... — Lorde Eastmore e eu ficamos impressionados com seu garanhão preto. Ele deixou a todos nós para trás, conduzido pelo habilidoso jovem cavalariço nesta manhã. Nem meu cavalo de corrida, nem a égua castanha de caça do lote de Victor Mall foram páreo para o seu Black Victory — interveio Lewis, sentindo a perda da atenção da bela srta. Victor. Virouse de cenho franzido para Thomas, mas ele nem notou. Os dois pareciam absortos um com o outro e isso não lhe agradou nem um pouco. Jamais tornaria a apresentar nenhuma beldade ao duque! Aliás, um fato que lhe deixaria claro na primeira oportunidade. Aproximando um pouco mais sua montaria, tentou de novo. — Ah, e quanto ao garanhão preto... Amanda, incapaz de desviar seus olhos dos castanhos-claros, sentiu-se subitamente encabulada e infinitamente jovem sob o olhar de apreciação do fascinante duque. Então, este homem estivera em St. James Park naquela mesma manhã com Lorde Ottobon... na égua castanha! Isso significava que... só podia mesmo ser o moreno sedutor do estábulo! Sim, eram coincidências demais para que tentasse ignorá-las. A voz possante... E aqueles olhos da cor do mel... Poderia existir outro par de olhos assim tão penetrantes e hipnóticos?


Amanda sentiu seu coração disparando novamente. Percebendo que Victoire parecia um tanto inquieta, aproveitou para desviar o olhar para a potranca cinzenta e para dizer que algo que quebrasse o súbito silêncio constrangedor. — Eu... Me perdoe pelas estripulias dela. É muito nova ainda e às vezes quer sair trotando e saltando sozinha. O duque riu, compreensivo. — Eu entendo. Tenho uma potranca órfa nos meus estábulos em Eastmore Park. É muito bonita, de pêlo castanho-avermelhado e promete ser uma magnífica égua de caça, mas por enquanto ainda se diverte com as travessuras de filhote. O rosto de Amanda ficou vermelho, depois empalideceu de súbito. Em pânico, seus olhos azuis encontraram os castanhos-claros, mas antes que pudesse ler sua expressão, sentiu sua própria visão anuviada. Teve medo de cair desmaiada da sela de Victoire. O zumbido em seus ouvidos tornou-se ensurdecedor. — Srta. Victor, está se sentindo bem? — Lewis inclinou-se na direção dela, preocupado. Segurou-lhe o braço para firmá-la. — Acho melhor levá-la de volta a sua carruagem agora mesmo. — Sim... por favor... É uma... ligeira indisposição... — balbuciou Amanda, permitindo que o visconde guiasse a potranca cinza. Não conseguia fitar o duque, sabendo que seus olhos castanhos estariam brilhando de satisfação e de lembranças das respostas libidinosas dela naquele estábulo... — Sua Graça, me perdoe. Quanto ao garanhão preto... hã... falaremos numa hora mais oportuna, talvez... Pouco tempo depois, deitada em seu quarto em Vicroy House, Amanda permitiu-se refletir com clareza pela primeira vez desde que voltara do parque. Então, seu sedutor e o duque de Eastmore eram o mesmo homem! A potranca castanha-avermelhada estava viva! E nos estábulos de Eastmore Park. Uma constante lembrança para ele daquela tarde chuvosa... O duque de Eastmore... um conquistador. Todos falavam sobre ele. Um mulherengo, sem dúvida, pela forma como havia agido com uma criada indefesa, como assim pensara, num amontoado de palha. Sem mencionar a leviana ruiva que estivera escoltando no Hyde Park! Não, não era um gentleman, não devia ser honrado. Definitivamente não era o homem certo para ela. E pensar que não o tirara da cabeça! Mas por que sequer cogitar disso? Jamais iria querer um homem de tal comportamento! Mulherengo como o pai dela fora... Nunca! Será que ele a reconhecera desde o primeiro instante? Será que se lembrava da forma como respondera às suas carícias... Amanda afundou o rosto que ardia no travesseiro. Céus, como pudera não reconhecê-lo de imediato? Claro!, lembrou-se de repente. Os cabelos dele no estábulo haviam estado molhados pela chuva e, por essa razão, tinham lhe parecido negros na ocasião. Isso justificava sua momentânea confusão ao observar-lhe os reflexos mais claros no parque. Mas, ainda assim, havia todos os outros inegáveis detalhes...


E, enfim, houvera a menção à potranca órfa para pôr um fim a qualquer resquício de dúvida. Ela saltou da cama e começou a andar de um lado ao outro do quarto, sentindo-se confusa e acuada. Estava à mercê do duque de Eastmore. Se resolvesse acabar com sua reputação não havia nada que ela pudesse fazer a respeito. Talvez se fosse procurá-lo... suplicar por seu silêncio? Mas então o que aconteceria? Mesmo que ele decidisse não revelar nada a ninguém, ela ainda teria que encará-lo. Sustentar aquele olhar... enquanto a fitasse com perturbadora intensidade... dançar em seus braços fortes. Talvez até quisesse tocá-la novamente, conhecendo-a como nenhum homem jamais fizera. — Oh! — protestou ela, angustiada, detendo-se diante de um espelho. Havia um brilho torturado em seus olhos azuis, os lábios rosados tremiam. O duque de Eastmore... o homem mais cobiçado... Thomas. Quando proferiu seu nome, a voz soou como um sussurro rouco. — Thomas... Podia imaginar-se dizendo-o no auge da paixão, enquanto ele a beijasse, seus lábios sussurrando o nome sem parar enquanto a tocasse, incitando aquelas arrebatadoras sensações em seu íntimo. Lentamente, soltando as fitas na frente de sua camisola bordada, abriu-a. Olhou para o reflexo de seus seios desnudos e arredondados no espelho, imaginando o olhar ardente do duque a contemplá-los. Com a ponta do dedo tocou de leve o mamilo que ele havia sugado. Abruptamente cobriu o rosto com as mãos. — Oh... que os céus me ajudem...

OITO

Thomas permaneceu no mesmo lugar, montado em seu cavalo árabe por um longo tempo, observando a dupla que se afastava. Estreitou os olhos, deixando seus pensamentos fluírem. Então, era ela... Pensara naquela jovem apenas como uma mulher de extrema beleza tão logo a vira cavalgando com Lewis. Ele a vira conduzir a potranca cinzenta com admirável habilidade, rindo alegremente com seu acompanhante, Ottobon... o amigo dele. E, claro, como um dos deveres de um bom amigo era fazer apresentações a beldades, Thomas se aproximara de imediato do visconde para lhe dar a oportunidade de cumprir tal obrigação... Mesmo ante a ameaça de irritar Lady Louise Sinclair, vaidosa em sua carruagem revestida de cetim rosa, desculpara-se e a deixara prosseguindo o passeio sozinha para ser apresentado à jovem. Tivera intenção de perguntar-lhe sobre a potranca cinzenta, que reconhecera daquela manhã no outro parque e de descobrir mais sobre o garanhão preto, se possível. Mas quando ela erguera a cabeça e o fitara com aqueles incríveis olhos azuis, ele sentira... pela forma como ela estudara seu rosto, fitando-lhe os olhos com tão intenso


questionamento... que poderia ser a mesma garota. Afinal, como poderiam existir duas jovens que possuíssem olhos tão azuis? Tão azuis que pareciam tragar um homem com suas nuances profundas... Mas Thomas logo descartara a idéia como absurda, uma vez que ela era obviamente uma recatada debutante da nobreza... não podia ser a camponesa que o enlouquecera de paixão naquela tarde chuvosa. Porém quando a srta. Victor falara das éguas que tivera que vender em Tattersall, a angústia em sua voz, a dor tão visível em seu coração... só poderiam ter vindo da mesma jovem que chorara tão amargamente nos braços dele por causa da morte da égua ao dar cria. Para ter certeza, Thomas pensara em testá-la mencionando a potranca órfã, de pêlo castanho-avermelhado. A reação da jovem não deixara dúvida, fora prova o bastante de sua identidade. Lady Amanda Victor era a mesma garota que o abraçara com desespero em sua dor e, depois, correspondera com tanto abandono às suas carícias. De repente, o dia ensolarado lhe pareceu sombrio. Ainda não havia escapado de um possível escândalo. Embora a um homem fossem permitidas grandes liberdades, não era considerado nenhum mérito na sociedade sair por aí seduzindo jovens debutantes. E de um momento para o outro poderia se ver com uma noiva que não havia escolhido... A volta de Lewis em seu puro-sangue foi bem-vinda para afastar seus inquietantes pensamentos. Alfred Ellington também se aproximava, vindo do outro lado do parque. — E então? A srta. Victor se recuperou? — perguntou Thomas ao amigo visconde. — Sim, ela me garantiu que estava bem assim que saímos daqui. Meu cavalariço acompanhou a carruagem das senhoras até em casa, levando a potranca cinzenta. Você sempre desperta essas reações nas beldades? — O tom de Ottobon era bem-humorado. — Me conte, foi assim que conseguiu conquistar a voluptuosa Louise tão depressa? — Pelo que se comenta, Eastmore anda arrancando suspiros esperançosos de todas as debutantes — comentou Alfred, com certa inveja. — Pois nem lhe conto, Alfred, meu amigo. Num momento a srta. Amanda Victor estava rindo e obviamente desenvolvendo alguma simpatia por mim, e então Thomas aparece para estragar tudo. E numa questão de segundos, ele já a hipnotizava a ponto de fazê-la quase cair da potranca — elaborou Lewis teatralmente. O duque apenas sacudiu a cabeça, demonstrando por sua expressão inabalável o puro desdém pela antecipada notoriedade que já encontrara com sua chegada em Londres para a temporada. — Parem com as bobagens, vocês dois — disse ele, fingindo-se de ofendido, mas determinado a descobrir mais sobre a garota. — Me fale a respeito da srta. Victor, Lewis. Estive em Victor Mall, mas encontrei a propriedade deserta e em estado de abandono. E agora aqui esta ela circulando pela sociedade como se não tivesse a menor preocupação. — Deixe-me ver... — murmurou o visconde, enquanto os três começavam a trotar em suas montarias. — Esta é a primeira temporada dela, deve ter dezessete anos... dezoito no máximo. Seu pai herdou o título de visconde e uma das mais famosas cavalariças de caça da Inglaterra. Vivia em grande prosperidade, a fortuna era imensa... até que deu para apostar em cavalos de corrida, mergulhar na bebida, no jogo e se envolver com inúmeras amantes. Acabou perdendo tudo. Parece que foi o desgosto que levou o visconde Victor para tais caminhos tortuosos, por causa de um filho que morreu num acidente de cavalo, quando a


garota ainda era pequena. A mãe ficou irremediavelmente abalada e se retirou para o campo em definitivo. O pai jamais deixou a cidade... nem suas extravagâncias. — E o que aconteceu com ele? — O visconde morreu no ano passado. Caiu embriagado das escadarias de sua mansão e quebrou o pescoço. Claro que sei disso através de comentários, pois estive no exterior. Aliás, ouvi tudo de Freddy Portsmythe. Ele disse que vai tentar cortejá-la. Mas, afinal, o velho balofo tenta correr atrás de todas! — O que a srta. Victor está fazendo na cidade? — perguntou Thomas. Ansioso por contribuir em algo, foi Alfred quem respondeu: — Ouvi dizer que ela precisa de um marido rico. Ainda não a vi, mas parece que é bonita. E se a jovem provar ser também habilidosa entre os lençóis, quem sabe até eu possa almejar por sua mão... — Céus! Tenha um pingo de decência, homem! — Lewis sacudiu a cabeça desgostoso. — E é melhor olhar a maneira corpo fala de uma jovem que você sequer conhece. Não vou hesitar em zelar por seu bom nome, já que ela não tem pai ou irmãos que possam lhe fazer isso. — Thomas lembrava-se muito bem do pânico no semblante de Amanda quando se dera conta... quando o reconhecera no parque como o homem que lhe roubara a inocência. Não iria permitir que um sujeito sem caráter como Ellington sequer pensasse em falar algum mal dela. Intimidado com o aviso firme e ameaçador do duque, o outro apenas deu de ombros. Thomas despediu-se de Lewis e afastou-se em sua montaria. Ignorou que haviam combinado para logo mais uma noitada pela cidade. No momento estava mais propenso a passar ao menos uma noite em casa, com um bom conhaque em sua biblioteca, enquanto tentasse ordenar seus pensamentos. Tinha que admitir que ainda estava desconcertado com a inesperada descoberta daquela tarde. Então, a deliciosa criaturinha de cabelos negros e olhos azuis, que deixara imagens tão marcantes em seus pensamentos, agora tinha um nome... Lady Amanda Pearl Victor... Como planejara, após o jantar Thomas sentou-se em frente à lareira e pôde, enfim, refletir com serenidade. Amanda Pearl... Agora que estava a par dos fatos, deduzia que a tarde chuvosa em que a conhecera naquele estábulo devia ter sido um de seus últimos dias no campo. Ela perdera o pai recentemente, deparara com a fortuna da família dizimada e, na certa, aceitara com bravura o peso da responsabilidade no lugar de sua mãe incapacitada... tudo isso devia ter sido um terrível fardo para uma jovem. Thomas recostou a cabeça na poltrona e fechou os olhos. Era um homem conhecido pelo enternecimento em seu coração em relação aos animais, crianças e mulheres indefesas... Mas ele a seduzira. Como isso o incomodava! Tendo-a confundido ou não com uma criada, por causa de seus trajes, o fato era que deveria ter ficado solidário à sua dor, reconhecido seu profundo desespero. A reação dela a suas carícias não havia sido movida pela paixão, como pensara. A jovem simplesmente precisara de algo que sobrepujasse seu sofrimento. Thomas não conseguia deixar de se sentir como o pior dos canalhas. Quando tudo já havia sido tomado de Amanda, ele lhe


roubara algo também. E depois lhe oferecera um presente por sua virgindade! Não era de admirar que ela tivesse fugido de lá em disparada. Que ser insensível e aproveitador não devia estar parecendo aos olhos dela... Soltou um profundo suspiro e levou o copo aos lábios em seguida, sorvendo um pouco de conhaque. Mas admirava a firmeza dela. A força interior que devia possuir... Afinal, fora seduzida, além de todos os outros desapontamentos que devia ter enfrentado de uma só vez. Porém encontrara ânimo para se mudar para a cidade a fim de encontrar a fortuna que pudesse reerguer seu lar outra vez. E como ficara chocada quando o reconhecera! Era provável que agora estivesse pensando que suas chances de um bom casamento fossem nulas. O rumo dos pensamentos dele mudou. Como aquela garota sabia galopar! Que magnífica amazona. A habilidade que demonstrava com os cavalos... a afinidade que parecia ter com os majestosos animais eram impressionantes. Era como se pudesse enfeitiçá-los, deixá-los a seus pés, inspirando-lhes total confiança para a obedecerem cegamente como sua única dona. Que magnífico par Amanda Pearl e o garanhão preto haviam feito em St. James Park naquela manhã, pois agora não lhe restava nenhuma dúvida que fora ela e não um rapazinho que o montara. Um largo sorriso iluminou-lhe o semblante ao se lembrar da forma como o cavalariço de cabelos grisalhos a acobertara... Muda, pois sim! Lembrou da maneira como todos no campo a haviam protegido, quando ele saíra pelas terras e pelo vilarejo em Victor Mall, perguntando se alguém conhecia uma jovem criada que cavalgava num garanhão negro, em calças masculinas. A lealdade que ela recebera do povo em suas terras o deixou gratificado. Era algo que a fazia parecer menos sozinha no mundo. Qual seria o destino dela? Casar-se, claro. Com Ottobon? Com o cafajeste Ellington, ou com algum pomposo e detestável velhote feito Portsmythe? Estar aprisionada em saletas, promovendo chás da tarde e comparecendo a eventos sociais com queixosas e frívolas viúvas? Não conseguia enxergar Amanda em nenhum desses papéis. Só podia visualizá-la no dorso de um puro-sangue, galopando veloz como o vento. Totalmente livre para expressar todas as emoções que, sem dúvida, trazia em seu íntimo. Na verdade, trocara apenas meia dúzia de palavras com a jovem, mas sentia-se como seja a conhecesse... Era como se através daquele ato tão íntimo que haviam compartilhado tivesse desvendado alguns segredos de sua alma independente. Ao lembrar daquela tarde, Thomas sentiu uma renovada onda de desejo. Levantando-se, começou a andar de um lado ao outro da elegante biblioteca. Droga! Não conseguia tirá-la dos pensamentos. Repassava todas as cenas em sua mente até a daquela tarde no Hyde Park com incrível nitidez. Ao mesmo tempo, chegava a inevitáveis conclusões. Em primeiro lugar, numa sociedade educada, ele lhe devia seu nome por comprometê-la, por tirar vantagem de sua inocência... Era a atitude honrada a tomar. Tornando a sentar-se, ergueu seu copo de conhaque num brinde a si mesmo por ser um homem honrado. Além disso, precisaria mesmo de uma esposa. E, pelos céus, não conseguia imaginá-la ao lado de nenhum outro homem. Amanda era linda, adorável, vibrante... exatamente o tipo de mulher que jamais imaginara encontrar nas tímidas jovens inglesas. A isso também tinha que brindar.


Na manhã seguinte, na primeira hora decente, bateria à porta da srta. Victor e solicitaria uma visita. Pediria que o aceitasse, e à sua fortuna, em reposta aos problemas dela. Imaginava o quanto lhe ficaria grata... E com a mútua paixão de ambos por purossangues, que grandiosas cavalariças formariam, tanto em Victor Mall quanto em Eastmore Park. Que maravilhosa esposa ela seria... que belos filhos lhe daria. Lembrou-se mais uma vez de seu corpo escultural na penumbra do estábulo, de como respondera a seus beijos, de como acompanhara instintivamente a cadência de seu corpo... Thomas esvaziou o copo de conhaque de uma só vez e serviu-se de mais uma dose. Não, nada de um noivado longo. O casamento seria o mais breve possível. Ela seria sua Amanda Pearl... sua duquesa e reinaria sobre um verdadeiro império ao lado dele.

NOVE

Um sol fraco filtrava-se pelas nuvens espessas no céu, e aqui e ali trechos da estrada congelada iam derretendo. Março adentrava com ventos fortes, degelando a neve nos galhos das árvores, reduzindo as estradas que ainda não haviam sido pavimentadas a mares de lama. No pequeno parque cercado que formava o centro de Grosvenor Square, o tronco das árvores mais finas envergavam-se na direção do vento. Ainda mal eram dez da manhã, e o duque de Eastmore achava-se nos degraus de granito na frente de Vicroy House, tendo inclusive já enviado uma mensagem mais cedo solicitando uma visita para aquele horário. Estava vestido com o habitual esmero, desde de suas botas polidas, passando pelas pantalonas creme até a gravata de seda; além de cuidadosamente protegido do frio cortante por um pesado sobretudo. Tinha o cenho ligeiramente franzido, havendo exagerado um pouco no conhaque com que fizera seus entusiasmados brindes na noite anterior. Em suma, seu humor não estava dos melhores, ainda mais considerando a missão delicada que programara para si mesmo naquela manhã de intenso frio. Mas tudo mais nele irradiava elegância e estilo masculino; era a imagem do perfeito gentleman. Estava satisfeito em notar que Vicroy House parecia em melhores condições do que Victor Mall. Com uma imponente fachada de blocos brancos, de faces polidas, a construção possuía quatro andares, com uma majestosa escadaria de granito conduzindo ao segundo andar. Enquanto esperava ser recebido e anunciado, ele observava distraidamente seu tratador levar seu cavalo árabe por uma passagem em arco na lateral da propriedade, obviamente para os estábulos nos fundos. Um idoso mordomo de libre abriu-lhe a porta e, rapidamente conduziu-o ao salão principal, aquecido por uma grande lareira. Thomas correu os olhos pela mobília luxuosa e os deteve no quadro de Amanda Pearl.


Que jovem de beleza impressionante, pensou. Absorto, aproximou-se para contemplar a pintura. — Minha bisavó, a viscondessa Amanda Pearl Norview Victor. Ele virou-se de imediato ao som da voz suave, quase sussurrada. Ao fitar os incríveis olhos azuis da jovem, sentiu sem bom humor renovado. Sem dúvida, pedir sua mão não poderia ter sido decisão mais acertada. Notou que ela parecia um tanto tensa, mas sabia que assim que lhe revelasse a razão que o trouxera ali, a deixaria imensamente gratificada. — A semelhança é incrível. Pensei que fosse um retrato seu — disse, num tom casual. Observou-a atravessar o salão e lhe indicar que se acomodasse no sofá oposto ao que escolheu para si mesma. — Dei instruções a Hastings para que providencie um chá, Sua Graça. — Amanda esforçava-se para manter a voz inalterada, não se atrevendo a sustentar-lhe o olhar perscrutador. — Minha mãe pede-lhe desculpas, estando um tanto indisposta no momento. E minha tia, Lady Cromwell, deve se juntar a nós em alguns minutos. — Na verdade, a mãe desconhecia o pedido de visita do duque e, quanto à tia, só a avisara há pouco, ganhando assim uma meia hora para descobrir se aquele inesperado encontro seria tão desastroso quanto temia. — Bem, então vou direto ao assunto, srta. Victor. O que tenho a lhe dizer deve mesmo ser em particular. Uma onda de pânico invadiu Amanda, mas ainda assim obrigou-se o sustentar o olhar dele. Estava perdida, sem dúvida! Por alguns momentos, Thomas apenas a fitou. Observou-lhe o belo rosto com intensidade, os olhos de ar um tanto apreensivo, os lábios cheios... Oh, como gostaria de beijar aqueles lábios sensuais agora mesmo! Limpando a garganta, desviou o olhar antes que seus pensamentos prosseguissem para assuntos que devia reservar para depois. — Vamos falar com franqueza — prosseguiu. — Em primeiro lugar, lamento o incidente na sua propriedade... no campo. Sei que não agi como um cavalheiro. Tirei vantagem de sua inocência e estou preparado para reparar meu erro. Sou um homem honrado, srta. Victor, e vou pagar por minhas transgressões... Sem ação, ela apenas conseguia manter o olhar fixo no homem que lhe falava daquela maneira. Se ao menos não fosse tão extraordinariamente bonito, se não possuísse tamanho magnetismo, talvez ela conseguisse raciocinar com clareza e entender do que se tratava aquilo. — Reparar erros? Transgressões? — repetiu, nervosa. — Eu... não compreendo onde está q-querendo chegar. Thomas fitou-a com atenção. Pela expressão confusa que viu no adorável rosto, soube que ela não estava fazendo o papel de debutante ingênua. A verdade era que ainda não havia adivinhado as intenções dele. Procurou falar mais devagar, com mais paciência... o que não era tarefa fácil, já que poderiam ser interrompidos a qualquer momento. — Como deve saber, srta. Victor, recentemente herdei meu título... e tudo mais... de meu falecido tio-avô. Tenho planos para uma fazenda de criação dos melhores purossangues em Eastmore Park. Por tal razão, comprei em Tattersall as éguas de caça


provenientes de Victor Mall, Bem, onde estou querendo chegar é no fato de ser imprescindível que algum dia eu me case e tenha filhos, um herdeiro para o título, compreende? E sei quais são as suas atuais circunstâncias... seu pai... Puxa, garota! Estou pedindo a sua mão... em casamento! O que me diz? Seja breve, antes que sua tia entre aqui e comecemos a falar sobre amenidades durante o chá. Amanda levantou-se e aproximou-se do quadro de sua bisavó, detendo-se para observá-lo enquanto ordenava o turbilhão de seus pensamentos. Não tinha certeza de como se sentia... ou melhor, não entendia por que a única coisa que conseguia sentir no momento era... ultraje. Sim, sentia-se insultada e, logo, sua raiva crescia. Que homem mais arrogante! Virando-se abruptamente, os olhos faiscando, ela o encarou. — Se entendi direito, Sua Graça, está pedindo a minha mão em casamento para reparar o erro de ter me seduzido, uma donzela inocente, num amontoado de palha, num momento em que eu estava abalada pelo sofrimento. E também devo entender que esteve longe de ser um cavalheiro agindo daquela forma, certo? Ela erguia o queixo em desafio, seu olhar altivo encimado por sobrancelhas arqueadas. Sem compreender por que a jovem parecia tão zangada de repente, Thomas apenas assentiu com um gesto de cabeça, tornando a limpar a garganta. — Também, segundo entendi, está planejando criar puros-sangues a partir das excelentes éguas que comprou de Victor Mall, bem abaixo de seu valor, devo acrescentar, porque tive que vendê-las às pressas em Tattersall. E já que planeja usar os animais de Victor Mall como matrizes, também pretende comprar a filha da família para procriar a nova geração de Eastmore, certo? Especialmente porque já a... testou e ela seja aceitável. Será que o entendi bem, Sua Graça? — Minha cara srta. Victor... — Thomas estava perplexo com tal interpretação dos fatos. Ele com certeza não soubera conduzir o assunto da forma apropriada. Mas a jovem tinha que lhe dar a chance de defender sua posição. — Já que estamos falando às claras e com pressa... deixe-me explicar a situação melhor, Eastmore — prosseguiu ela, omitindo o título para enfatizar seu desdém. Aproximou-se mais, o olhar faiscante sustentando o dele bem de perto. — Não deve haver mal-entendidos sobre como me sinto a respeito da proposta que acabou de me fazer. — Amanda fez uma breve pausa, sua voz logo soando mais baixa e ameaçadora: — Enquanto seja a absoluta verdade que eu precise me casar por dinheiro, isso não significa que não possa fazer minhas escolhas. Quando me casar, não será com um homem que seduz donzelas em estábulos ou que desfile ao lado de mulheres levianas em parques públicos para quem queira ver. Estou bem informada, através do comportamento deplorável de meu falecido pai, de como os homens mantém suas amantes... das casas em que as instalam... como em Chelsea Road, por exemplo! E abomino a hipocrisia que têm para com suas esposas! E quanto àquela tarde no estábulo, não fique se vangloriando. O que tirou de mim não vai lhe custar. Ou seja, não está me devendo nada! Seguiu-se um prolongado silêncio. Um ligeiro sorriso sardônico curvou os lábios de Thomas ao observar a postura da jovem à sua frente, como se estivesse se preparando para uma luta corporal. Com gentileza pousou seu polegar na garganta dela, sentindo-lhe a pulsação alucinada ali. Viu que ficou surpresa com seu toque, mas não assustada. Amanda não recuou, seu olhar ainda faiscando em determinação.


— Cumpri o meu dever de honra da forma como vejo, senhorita. Se prefere atirar a proposta de volta na minha cara e não se preocupar com sua própria reputação, me permita ser o primeiro a oferecer meus préstimos... se desejar voltar a ser tão livre com seus favores no futuro. Eu até poderia ser induzido a instalá-la num desses lugares em Chelsea Road... se assim quiser, pois parece ser o rumo que está tomando. — Ora, seu... — Explodindo de raiva, ela tentou lhe esmurrar o peito. O duque segurou-lhe o pulso, os olhos frios a estudar-lhe a fúria estampada no rosto. Afinal, o que havia acontecido com a recepção emocionada e repleta de gratidão que havia esperado? Admitia que ficara um tanto divertido com a reação da geniosa jovem, mas também estava zangado o bastante consigo mesmo por ter se colocado em tal situação. — Me solte, Eastmore! — Não ainda. — Um brilho enigmático passou pelos olhos castanhos-claros de Thomas. — Sua pequena feiticeira... — disse, com suavidade, num tom perigoso. — Suponho que devo aceitar isso como elogio, vindo do tipo de homem como você... que só se delicia em ofender! — retrucou ela, furiosa, ainda tentando se libertar. — E o que sabe sobre homens como eu, menina? — V-você... não é o tipo de homem com quem devo me envolver! É traiçoeiro como uma serpente... De repente, Thomas puxou-a para si. Um braço impetuoso a manteve colada a seu peito. Perplexa, Amanda sentiu-lhe o hálito quente de encontro ao rosto. Por um momento, teve genuíno medo. — É aí que você se engana. Ofensas apenas? Não, eu me delicio com muito mais no que diz respeito a você. Ele inclinou a cabeça e se apossou dos lábios dela com impetuosidade. Amanda debateu-se, mas era impossível libertar-se dos braços fortes que a envolviam. Os lábios cálidos se apoderavam dos seus sem piedade. Ela sentia a mente rodopiando. Como que por vontade própria, seus lábios se entreabriram. O beijo tornou-se mais gentil, os braços que quase a sufocavam afrouxaram um pouco. A mão de Thomas percorreu-lhe a frente do vestido, afagando-lhe os mamilos rijos por sobre o tecido. Uma súbita onda de desejo percorreu-a por inteiro, e Amanda afastou-se abruptamente dos braços do duque, recuando alguns passos. A respiração estava tão ofegante que quase soluçava. — Você é abominável! — Aprecio a mistura perfeita de medo e raiva, menina. A chegada do chá impediu Thomas de puxá-la para si outra vez. Hastings limpou a garganta e depositou a bandeja numa ampla mesa de centro, ladeada pelos sofás. Enquanto começava a servir o chá, o velho homem lançava olhares desconcertados do rosto zangado de Amanda para a postura de desafio do duque. Somente então, Lady Adair entrou no salão. — Sua Graça! É um prazer imenso enfim conhecê-lo pessoalmente. — A velha senhora estava radiante em receber o candidato que secretamente julgava o mais ideal para a sobrinha. Que conversa irreal depois da cena de há pouco, pensava Amanda. Mas ergueu o queixo em desafio e sentou-se no sofá ao lado da tia para o chá. Não daria ao duque a


satisfação de vê-la escapando do salão em lágrimas, como tão desesperadamente gostaria de fazer. — Peço que me perdoe, Lady Cromwell — dizia o duque de Eastmore. — Mas vim assim tão cedo para... — Ele limpou a garganta. Ainda não estava preparado para inventar um pretexto plausível para a visita, quando para esta altura imaginara morangos e champanhe a fim de celebrarem a proposta de casamento. — Sua Graça veio nos visitar tão cedo, tia Addie... — Amanda Pearl fez uma pausa estreitando os belos olhos. Com um sorriso definitivamente maroto em seus lábios bemfeitos, prosseguiu: — ...para se oferecer como acompanhante para o Baile Dourado de Almack hoje à noite. Teria nos avisado com antecedência, claro... se tivesse recebido o comunicado de nossa nova residência. E seu gesto tão... gentil é para nos dar as boas-vindas a Londres. — Oh, que idéia maravilhosa! — exclamou Lady Adair, esfuziante. Que triunfo para sua querida sobrinha! Entrar no primeiro grande evento da temporada pelo braço do estonteante e quase lendário jovem duque de Eastmore! — Claro que expliquei a ele que já havíamos feito outros planos, sendo obrigadas a, lamentavelmente, dispensar sua companhia — prosseguiu Amanda, sem tirar os olhos do rosto dele, satisfeita em ver o primeiro sinal de desconforto em sua expressão. — Oh... Eu... entendo — murmurou a tia, embora fosse óbvio que não entendia nada. Lançou um olhar para o duque e depois para a sobrinha. Pela primeira vez, notou o semblante tenso dela, o que evidenciava que havia mais naquela visita do que lhe revelaram. Thomas estreitou de leve o olhar; um sorriso indefinível curvou-lhe os lábios quando decidiu entrar no jogo. — Mas, cara Lady Cromwell, eu me recusei a ouvir que quaisquer outros planos pudessem ser tão cômodos quanto os que ofertei. E, portanto, consegui persuadir a srta. Victor a me conceder o imenso prazer de acompanhá-las ao baile. — O sorriso dele se alargou ao ver a fúria contida nos belos olhos azuis de Amanda. — Apenas como uma forma de lhes dar as boas-vindas. — M-Mas... — começou ela, sendo logo interrompida. — Ah, sua adorável sobrinha prometeu, inclusive, dançar comigo. E também sentar-se a meu lado durante o jantar. Lady Adair estava confusa com aquela comunicação silenciosa entre o sorridente duque e sua aborrecida sobrinha, mas não deixaria escapar uma oportunidade daquelas. — Oh... esplêndido! Enquanto servia-se de mais chá, Thomas aproveitou a oportunidade para lançar um olhar significativo para a jovem sem ser notado pela velha senhora. Mas Amanda percebeu o brilho que podia definir como faminto naqueles penetrantes olhos castanhos-claros. Ele observou-a de alto a baixo, fazendo com que se sentisse nua, especialmente ao contemplarlhe a curva dos seios, realçada pelo decote do vestido. Apesar de sua raiva, ela sentiu uma estranha resposta dentro de si. Teve consciência de seus mamilos se enrijecendo de encontro ao tecido das roupas, da mesma forma como acontecera minutos atrás quando o duque a beijara. Ficou mortificada, as faces tingindo-se de vermelho.


Não era difícil para Thomas imaginar que a adorável jovem estaria querendo estrangulá-lo se pudesse. Os vividos olhos azuis o fuzilavam a cada vez que trocavam um olhar. Então, a gata arisca tinha garras! Ao que parecia, tivera razão... Aquela era mesmo uma garota de fibra. Só que no momento ela caíra em sua própria armadilha. E estava se mostrando uma deliciosa diversão. A tentação era grande demais para deixá-la se safar tão facilmente. — E como sua sobrinha insiste em retribuir — prosseguiu ele, dirigindo-se a Lady Adair —, ela concordou em me acompanhar num passeio de carruagem. Não amanhã, já que vocês estarão repousando do baile, mas no dia seguinte. Eu adquiri uma excelente parelha de puros-sangues que gostaria de lhe mostrar. Bem, com tudo combinado, não vou lhes tomar mais a manhã. — Antes de dar a chance a Amanda de recusar ou de explodir de raiva, correndo o risco de ficar em maus lençóis com a tia, Thomas levantou-se. Com seu sorriso mais encantador, despediu-se, prometendo retornar às nove da noite para buscá-las. Lady Adair o observou retirando-se, ainda boquiaberta. Amanda sabia que a tia estava realmente aturdida se não conseguia nem encontrar palavras. Quanto a si mesma, também estava surpresa; dividida, aliás, entre a raiva e outra emoção que não era capaz de definir. Poderia ser expectativa? Suas têmporas latejavam, a mente povoada de pensamentos confusos. O cobiçado duque de Eastmore acabara de pedir sua mão em casamento, e ela recusara, mesmo sabendo que precisava de um marido rico. Por que se sentira tão insultada quando ele lhe oferecera de bandeja o que ela viera até a cidade para conquistar? A salvação de Victor Mall estivera tão perto... Por outro lado, ficara tão furiosa quando Thomas Eastmore insinuara que sua única preocupação era... comprá-la e limpar sua consciência ao mesmo tempo! Mas, afinal, não estaria praticamente se vendendo ao arranjar um casamento de conveniências? Oh, estava tão desnorteada! E graças a sua pequena vingança impulsiva durante a conversa, agora ainda teria que dançar com ele no baile e acompanhá-lo num passeio! Tudo isso quando o que mais queria era não tornar a ver aquele arrogante jamais! — Ora, ora! — exclamou Lady Adair, enfim, encontrando a fala. — Quem diria! Eu nem sabia que você já havia sido apresentada ao duque de Eastmore. Quanto mais que tivesse tido tempo para desenvolver essa óbvia antipatia por ele! — Lorde Ottobon nos apresentou durante o passeio de ontem no Hyde Park — disse Amanda, evasiva. — Agora, se não se importa, tia, eu vou andar a cavalo. — Não estava disposta a falar sobre o assunto, não queria sequer pensar naquele homem! — Amanda, você devia repousar e guardar suas forças para logo mais. Ninguém sai trotando a cavalo no dia de um baile. O que os outros vão pensar? — Querida tia, não vou trotar! Planejo galopar, galopar e galopar até que me sinta em paz, a despeito do que os outros possam pensar! De cenho franzido, Lady Adair acompanhou a saída tempestuosa da sobrinha com um olhar preocupado. Céus, o que poderia tê-la deixado tão arisca? E após o triunfo de uma visita de Lorde Thomas Eastmore? Bem, o mais sensato seria não pressioná-la. Depois do Baile Dourado daquela noite, dançando nos braços do charmoso e estonteante duque, Amanda certamente saberia agradecer à sua sorte.


Oh, sim! Aquele seria o evento mais promissor de toda a temporada!

DEZ

Embora tivessem havido festas e outros eventos sociais antes daquele, o Baile Dourado que acontecia todos os anos em Almack era considerado a abertura oficial da temporada. Conduzida pelo braço do duque de Eastmore, Amanda conteve o fôlego ao contemplar o deslumbrante salão. Almack reluzia como o interior de um palacete de ouro sob os esplêndidos lustres de cristal. O dourado predominava na decoração, desde o brocado das cortinas que adornavam as imensas portas-janelas até os frisos resplandecentes no mármore que revestia o salão. Com suas ostentosas jóias, cada dama da sociedade exibia um magnífico vestido de gala dourado, como pedia a tradição. A entrada situava-se num piso elevado, acarpetado de vermelho, de forma que os casais que estivessem dançando pudessem contemplar cada recém-chegado. Foi assim, sob inúmeros olhares atentos que Amanda desceu os degraus pelo braço de Sua Graça, Lorde Thomas Eastmore, causando a prevista sensação. Alheia aos olhares invejosos das outras debutantes, ela deixou-se envolver pela música. Oh, como gostaria de dançar aquelas maravilhosas valsa pela noite adentro e desfrutar do clima de conto de fadas. Como teria aproveitado aquela magia se não houvesse o pesado fardo em suas costas... Com um largo sorriso e graciosos cumprimentos de cabeça em todas as direções, Lady Adair sussurrava freneticamente nos ouvido da sobrinha: — Lembre-se, nada mais de duas danças com um único par, não importa quem seja, e não dance até que tenha cumprimentado as três anfitriãs de Almack. — Creio que a primeira etapa de danças tenha sido prometida para mim, srta. Victor... Thomas abraçou-a pela cintura e conduziu-a ao meio do salão para uma valsa, deixando Lady Adair de boca aberta por um instante, antes de se recobrar e assentir em aprovação na direção de ambos. Conduzindo-a com leveza, Thomas provou ser um excelente dançarino. Seus olhos castanhos-claros, com um constante brilho caloroso, não cansavam de fitar Amanda. Ela sustentou-lhe o olhar tão carregado de magnetismo e foi se deixando conduzir ao ritmo mágico da valsa. Logo se viu retribuindo de maneira sonhadora ao sorriso do duque e sentiuse como se estivesse flutuando no ar. — Então, minha gata arisca está se divertindo. O comentário surpreendeu-a, mas Amanda manteve o sorriso inalterado. Determinada a não sucumbir ao falso charme daquele homem, retrucou com certa ironia.


— Não acha "apelidos carinhosos" um tanto inadequados depois de seu comportamento deplorável, Sua Graça? — Mas você é mesmo uma gata arisca, Amanda Pearl. A propósito, acho que não preciso lhe pedir permissão para chamá-la pelo primeiro nome, não é? Afinal, eu me sinto como se... a conhecesse tão bem. — Os olhos de Thomas cintilaram com ardor ao lhe apreciarem a curva dos seios acima do decote do vestido. Depois adquiriram um brilho divertido ao encontrarem o rubor nas faces dela. Amanda sentiu nova onda de exasperação. Nada em sua vida a preparara para a torrente de emoções conflitantes que aquele homem lhe evocava. Por um lado, havia a raiva, mas por outro era-lhe impossível não se sentir afetada pelo carisma do duque. Se ao menos o sorriso que ele lhe dirigia fosse autêntico, se não fosse destinado apenas a desconcertá-la... — Sabe — prosseguiu ele, enquanto a conduzia em seus braços fortes. — Você pode ter recusado a minha oferta, mas ainda estou no jogo. Embora esteja disposto a jogar pelas suas regras agora. Afinal, fui eu quem ditei as regras para o nosso primeiro encontro... se você se lembra com tanta nitidez quanto eu. Amanda desviou o olhar do brilho zombeteiro nos olhos de Eastmore. Qual seria a intenção daquele homem? Enlouquecê-la o bastante para fazê-la esquecer-se de seu objetivo ali? — Descobri os segredos de sua família — comentou o duque, para quebrar o silêncio prolongado entre ambos. — Embora com as extravagâncias de seu pai, não fossem de fato segredos. — Sempre se intromete nos assuntos pessoais de suas parceiras de dança, Sua Graça? Thomas sacudiu a cabeça, satisfeito em vê-la reagindo com aquela instigante lado genioso. — Apenas quando desejo torná-las parceiras de cama também. Desta vez, Amanda empalideceu e parou de dançar. O duque tornou a envolvê-la em seus braços, voltando a conduzi-la ao ritmo da valsa. — Ora, gata arisca, se tentar se esquivar outra vez, posso ficar impelido a beijá-la aqui mesmo enquanto está a minha mercê. — Não se atreveria. — Pois experimente... Amanda fitou-lhe o semblante másculo e bonito e sentiu uma indesejável seqüência de arrepios percorrendo-Ihe a espinha. A simples lembrança do beijo impetuoso que ele lhe roubara naquela manhã a fazia vibrar por inteiro. Nem queria pensar na possibilidade de ser beijada por ele outra vez. Aquele homem era, sem dúvida, perigoso. Um sedutor... Precisava lutar contra seus encantos para não ficar mesmo outra vez à sua mercê. — Está sonhando acordada comigo? — Thomas lançou-lhe um de seus sorrisos irresistíveis. Amanda riu. Thomas Eastmore era impossível! Talvez a sua melhor defesa contra ele fosse não levá-lo a sério demais, ponderou. Exatamente, dali em diante, não devia levar a sério uma palavra sequer de seus lábios.


— É um homem absolutamente ultrajante, Sua Graça, e não tem um pingo de boas maneiras. — É a pura verdade. Sou um tipo rústico se comparado ao resto dessa sociedade tão frívola. Até um tanto rebelde, eu acrescentaria. Mas me diga, minha gata arisca, você acredita no destino? — Talvez. — Pois eu acredito. E acho que você é o meu destino. Ela conteve uma nova risada. Nunca conhecera ninguém que a levasse a total fúria e depois a fizesse rir em tão pouco tempo... que ora a exasperasse até deixá-la à beira das lágrimas e ora lhe despertasse sensações ardentes com as quais sequer sabia lidar. Se ao menos pudessem ser amigos, esquecendo o começo conturbado. — Bem, parece ser da mesma opinião da minha tia. Tem uma bola de cristal para observar minha família, Sua Graça? — Estou a par da jogatina de seu pai, das amantes e da situação financeira em que deixou sua família, se é o que quer dizer. Mas, afinal, somos mais chegados do que a maioria dos casais recém-apresentados, não acha? O duque piscou-lhe um olho em cumplicidade, indicando o segredo compartilhado. Amanda sentiu-se empalidecendo mais uma vez. Apesar de sua resolução de não levá-lo mais a sério, o contentamento com sua proximidade dissipou-se. — Eu... tinha razão desde o princípio. Você realmente não é um cavalheiro. Desta vez foi longe demais! Ficar insistindo em mencionar a reputação de um pai que faleceu há tão pouco tempo. Os insultos de meu pai a mim e à minha mãe não livram você de seus próprios erros, seu... seu vilão! — Sou mesmo um vilão? — Sim! — Não, minha gata arisca. Sou apenas um homem cativado por sua beleza, por seu instigante temperamento. — Não passam de galanteios vazios! — Engano seu. Se você decidir se casar com outro, tratarei de torná-la a viúva mais jovem da história. Estou falando sério em tudo que lhe digo. Estou determinado a ter você, como esposa, ou como amante, mas eu a terei. Amanda o encarava num misto de raiva e incredulidade. Como ele ousava ameaçá-la! Como se atrevia a tomar decisões que a envolviam? — Solte-me! — Apenas quando a música cessar. E não me olhe dessa maneira. Não ficaria bem você sair correndo dos braços de seu parceiro. Acabaríamos chamando a atenção de todos. E se por um lado não me importo com o que essas velhas solteironas e fofoqueiras ao redor possam pensar de mim, não quero em absoluto abalar a sua reputação.


— Somente um homem grosseiro usaria um salão de dança apinhado para seus truques de gosto duvidoso, Sua Graça. — Amanda forçou um sorriso, mas continuava a fuzilá-lo com o olhar. — Se eu não fosse obrigada a manter as aparências de uma dama... — Da próxima vez, podemos escolher um lugar com mais privacidade. Quanto mais privacidade, melhor... — O sorriso deliciado dele contribuiu para inflamar a raiva dela. Para sua sorte, a primeira etapa de danças terminou duque a conduziu de volta para junto de tia Addie e de sua mãe. Antes de se afastar, fitou-a com um brilho divertido nos olhos castanhos-claros. — Volto à meia-noite para acompanhá-la à sala de jantar, como me prometeu. Amanda observou-o desaparecendo na multidão. Apesar da onda de raiva, surpreendeu-se em expectativa pela meia-noite. Todos os homens a rodeá-la, ansiosos por lhe serem apresentados e para preencherem seu cartão de dança lhe passavam despercebidos. Eram como meros vultos apagados em comparação com o extraordinariamente bonito, odioso e... excitante duque de Eastmore.

ONZE

A noite passou-se num turbilhão de danças, com inúmeros rapazes e homens mais velhos assediando-a pela chance de conduzi-la pelo salão de baile. Amanda tinha uma vaga impressão de luzes, perfume e luzes oscilantes de velas, além da crescente sensação de calor. Durante uma pausa que fez questão de se dar, graças a um par de dança felizmente trocado na confusão, ela permaneceu ao lado da mãe, observando a multidão dançante, satisfeita em estar afastada por alguns momentos para poder estudar o ambiente. Era a absoluta arrogância das três anfitriãs e a inquestionável aceitação dessa arrogância pelos elegantes lordes e ladies da sociedade... sim, era apenas isso que fazia o sucesso do Baile Dourado de Almack. Porque, se alguém olhasse de perto, veria que apesar das dimensões ostentosas do lugar, da reluzente decoração do salão principal de baile, os adornos eram um tanto ordinários. — Está sem par, srta. Victor? — A voz ríspida despertou-a dos pensamentos. — Barnaby, dance com a srta. Victor! Não podemos deixá-la embaraçada, sentada aqui Com as velhas senhoras. — Lady Compton prontamente empurrou seu filho encabulado para os braços de Amanda, que, num reflexo, estendeu-os para impedir que o desajeitado lorde perdesse o equilíbrio. — Sim, m-mamãe... — O jovem, com as faces vermelhas, fez uma reverência para Amanda. — Srta. V-Victor? Por um momento, ela pensou em recusar a ordem da outra mulher, afinal a atitude fora uma afronta, mas não haveria propósito para isso a não ser embaraçar ainda mais o rapaz. Assim, concedeu-lhe a dança. Para sua surpresa, Barnaby Compton até que dançava bem. Notando que ele não proferira uma só palavra, Amanda puxou a conversa, falando


sobre assuntos variados. Mas como o tímido lorde só assentia em resposta, limitando seus comentários a um eventual "sim", ela desistiu de alimentar a conversa. Enquanto dançavam, decidiu dirigir sua atenção aos demais casais ao redor. De repente, avistou o duque de Eastmore dançando com uma debutante de riso um tanto estridente. Droga! Era a maledicente Margaret Vernill a quem ouvira falando pelas suas costas na outra festa. Por que justamente ela?! Uma onda de ciúmes assaltou-a e foi com alívio que ela se deixou conduzir de volta pelo salão por Lorde Compton, quando a dança terminou. Sua próxima tribulação veio na forma de Lorde Freddy Portsmythe. Uma das anfitriãs, Lady Jersey, fez questão de apresentá-lo e, como não bastasse, sua própria mãe a encorajou a dançar com o velho homem. Não vendo saída, Amanda deixou-se conduzir até o meio do salão pelo lorde. Ele cheirava a charutos, tinha os cabelos ralos e pastosos e seu rosto redondo era avermelhado e repleto de finas veias azuladas. Ao menos a enorme barriga a mantinha a uma certa distância enquanto dançavam, pensou Amanda, quase nauseada. Mas o corpulento lorde logo deu sinais de cansaço e, após a primeira dança, praticamente se arrastou para fora da pista, deixando que Amanda encontrasse seu caminho de volta sozinha. Mas ela mal dera três passos do meio do salão e se viu nos braços de Thomas Eastmore. — Me concede esta dança? — disse ele, já a conduzi-la. — Eu devia ter voltado antes, mas não consegui penetrar pela multidão de seus admiradores. Espero não estar arriscando um conflito com alguém a quem você já tenha prometido esta dança... agora que você já quase matou Lorde Portsmythe de um enfarte, quero dizer. Nenhum? Sem exagero, pode-se dizer que você já dançou duas vezes com cada homem deste salão. — Pois eu me sinto como se tivesse mesmo dançado. Meus pés estão me matando. — Amanda soltou um profundo suspiro, surpreendendo-o com sua franqueza antes de contra-atacar: — Ora, mas não é de sua conta com quem eu tenha ou não dançado. — Ah, lá vem mais um rompante de seu provocador temperamento... Mostrando as garras outra vez, gata arisca? Talvez não seja a maneira mais indicada para agarrar um marido. — O homem que for esperto o bastante para me conquistar vai ter que me aceitar como sou. jantar.

— Eu imagino que sim! Venha, se bem recordo prometeu-me sua companhia para o

O duque conduziu-a em direção ao amplo salão de jantar, tendo soado o sino que anunciava o banquete da meia-noite. Pelo salão haviam sido distribuídas inúmeras mesas para duas, quatro, oito ou dez pessoas. Variadas iguarias cobriam fartamente duas compridas bancadas, ao longo das quais se achavam lacaios de libre, aguardando para servir os convidados. Acomodando Amanda numa mesa de canto para quatro, Thomas aproximou-se do bufê para preencher os pratos de ambos, fazendo uma seleção a altura de seu paladar refinado.


Enquanto aguardava em sua mesa, Amanda olhou no redor, observando a movimentação de convidados. Um casal em especial chamou-lhe a atenção. Já fora apresentada a ambos no início da noite e, confirmando sua primeira impressão, via que pareciam tão felizes e apaixonados. Ela desviou o olhar, um tanto melancólica. Era aquele tipo de respeito e afeição que almejava num casamento... Como que por vontade própria, seus olhos procuraram Thomas na multidão. Permitiu-se um suspiro desolado. Era uma pena que para ele não representasse mais do que uma companhia para o jantar, uma jovem ingênua em quem gostava de instigar a raiva e o desejo. Tornou a suspirar ao pensar numa felicidade conjugal que jamais teria. Deteve o olhar em Lorde Compton e em Lorde Portsmythe por alguns momentos e o pesar em seu peito foi profundo. Uma voz familiar despertou-a dos pensamentos. — Se a bela jovem tivesse concordado em jantar comigo e eu a flagrasse suspirando com tanta tristeza, juro que comeria minha gravata antes que a noite terminasse. — Lorde Ottobon! Estranhei quando não o vi no famoso Baile Dourado desta noite. — Amanda recobrou-se depressa para receber o cumprimento do elegante jovem visconde cuja companhia lhe agradava tanto. — Eu estive aqui o tempo todo, mas não pude deixar minhas obrigações até agora para cortejar a mais bela do baile. Amanda sorriu ante o galanteio, enquanto Lorde Ottobon sentava-se à mesa. Thomas aproximou-se com o semblante carregado. — Será que eu deveria trazer um terceiro prato? — disse ao amigo, erguendo uma sobrancelha. — Ou prefere ficar com o meu? Imperturbável pelo visível ar contrariado do duque, Lewis aceitou o prato, enquanto o outro era entregue a Amanda. — Thomas, meu caro, poderíamos ser os melhores amigos se seu valete não fizesse um laço tão perfeito na suas gravatas. Embora eu deva lhe dizer que nunca... nunca, entende?... vou perdoá-lo por ser tão mais alto do que eu. A inesperada resposta do visconde fez com que Amanda risse, e logo os dois amigos compartilharam de seu riso. — Sente-se, meu caro duque, vou buscar um prato para mim... se não se importa em dividir a companhia dessa adorável dama comigo. Não encontrando objeção, Ottobon encaminhou-se até o bufê. — Fico contente em vê-la se divertindo, srta. Victor — disse Thomas, enquanto se sentava. — Gosto da natureza espirituosa de Lorde Ottobon. Ele é capaz de comentários tão absurdos que me faz rir a valer. — Você deveria rir com mais freqüência. Seus olhos brilham e seus deliciosos lábios curvados ficam ainda mais tentadores. — O duque sorriu, seus olhos cintilando como puro mel.


Segura em saber que Lewis voltaria, Amanda sustentou-lhe o olhar intenso e apenas arqueou uma sobrancelha delicada em resposta. De qualquer forma, agora que a tensão se dissipara ficava ainda mais consciente do quanto aquele homem era bonito. Sim, seria-lhe necessário esforços redobrados para não tornar a sucumbir a seu másculo charme. Como previra, Lewis logo voltou e, ao menos por enquanto sentia-se a salvo. Se bem que tinha que admitir que mais do que o próprio duque, o que ela temia verdadeiramente eram suas próprias reações a ele. A conversa, então, girou sobre um assunto neutro, o garanhão preto. Thomas tornando a demonstrar seu interesse em comprá-lo. — Eu jamais pensaria em vendê-lo, nem mesmo se estivéssemos na absoluta miséria. Para mim, Black Victory é como um amigo. E, sem dúvida, um magnífico puro-sangue. — Envolvida com a fazenda de criação de cavalos de seu pai desde pequena, Amanda começou a explicar que a raça pura do garanhão não era apenas resultado do cruzamento exclusivo com animais de caça, como as éguas que o duque havia comprado em Tattersall, mas que sua linhagem também vinha dos velozes cavalos árabes. Lewis observava a bem-informada jovem com admiração. — De fato, aquele garanhão é o cavalo mais rápido que já vi — elogiou ele. Depois, com um sorriso maroto, acrescentou: — Quase tão rápido quanto o meu Denouncer. voz.

— Não é nem de longe tão veloz quanto o meu baio Thunderbolt! — interveio outra

Os três se viraram surpresos. Alfred Ellington havia se aproximado da mesa, insistindo em ser apresentado à srta. Victor. Contrariado com a rude interrupção, Lewis fez as apresentações o mais depressa que pôde. Com um simples olhar intimidante, Thomas logo conseguiu dispensar o inconveniente lorde. Aliviada em ver o homenzinho de cuja péssima reputação já ouvira falar se afastando, Amanda pôde retornar a atenção às saborosas iguarias e à agradável conversa. — Por que seu pai nunca inscreveu o garanhão nas corridas? — perguntou-lhe o duque, momentos depois. — Com essa velocidade toda ele... teria garantido o futuro dos estábulos de Victor Mall. Amanda deixou cuidadosamente os talheres de lado. Respirando fundo, decidiu que talvez fosse o melhor momento para, enfim, falar do delicado assunto. Talvez revelando como tudo acontecera ajudasse a terminar de cicatrizar a antiga ferida. — Você tem razão. Black Victory seria o futuro dos nossos estábulos. Ele tem toda a velocidade dos magníficos puros-sangues árabes aliada à incrível força e resistência das éguas de caça de Victor Mall. Era apenas um potro de dois anos e em treinamento quando, alcoolizado, meu irmão fez uma aposta de que o animal poderia saltar um muro de um metro e meio, embora fosse um cavalo de corrida... apostando que o sangue de caçador fosse mais forte. Infelizmente, nada pôde impedi-lo de selar o potro naquele mesmo minuto para provar que podia ganhar a aposta. Os olhos azuis dela adquiriram um ar desolado, lembrando-se daquela noite, há dez longos e dolorosos anos.


— Chovia muito e a noite estava tão escura... exceto quando os relâmpagos cortavam o céu por alguns instantes. Uma pequena multidão formou-se ao longo de uma das pistas de treinamento perto dos estábulos. Havia um muro de pedras por lá. Sheldon levou o potro até a extremidade oposta, preparado para saltar sob o olhar do grupo de amigos baderneiros. Ninguém sabe o que de fato aconteceu, mas posso ver em minha mente... e em meu coração... porque conheço o tamanho do próprio coração de Black Victory. — Amanda, não precisa continuar... — disse-lhe Thomas, com gentileza, mas ela parecia distante, perdida em lembranças... vendo aquela noite como se a tivesse presenciado. — Sheldon não era um cavaleiro habilidoso nem quando estava sóbrio. Posso imaginá-lo galopando no potro na direção do muro, sob a chuva... Black Victory estaria Com uma surpreendente velocidade para o salto. Estaria lutando contra o freio preso às rédeas que lhe estaria castigando a boca, pois Sheldon sempre o puxava muito... para se manter no controle do pobre animal. O potro devia estar mais concentrado na dor em sua boca do que no que encontraria à frente na escuridão. Imagino que de repente... um relâmpago tenha cortado o céu... e o muro surgiu... bem à sua frente... sem que ele sequer tivesse sabido que o encontraria. Tarde demais para parar... O potro tentou saltar assim mesmo... do chão molhado e escorregadio. Mas com a cabeça tão presa pelo lírio... nenhum cavalo poderia dar aquele salto. Ele tropeçou com as patas dianteiras no muro e caiu do outro Lado. Ao mesmo tempo, o embriagado Sheldon era arremessado da sela, caindo debaixo do pesado animal. — Céus! Eu sinto muito, srta. Victor. — O rosto de Lewis estava pálido, a história acionando sua própria imaginação. — Carregaram o corpo do meu pobre irmão para dentro de casa, acordando a todos. Minha mãe desmaiou... Sheldon estava todo coberto de sangue... Meu pai ficou irado com o potro, e o teria matado com um tiro se tivesse conseguido encontrá-lo. — O potro fugiu? — perguntou Lewis, enquanto Thomas colocava uma taça de champanhe na mão gelada dela, esperando distraí-la das terríveis lembranças. — Não. Tão logo eu ouvi meu pai ameaçando de matá-lo, corri para os estábulos. Black Victory fora para lá, até Jamie Deal. A boca dele sangrava, onde Sheldon o castigara puxando o freio, tinha uma das patas dianteiras muito ferida, e tremia tanto que mal conseguia se manter em pé. Jamie Deal me ajudou a escondê-lo. Nós o levamos até um celeiro distante, ao norte da propriedade. — Amanda dirigiu um olhar angustiado para o duque. — Foi uma longa jornada... na chuva... com ele machucado e mancando. Levou horas, mas quando voltei para casa, ninguém havia notado a minha saída. Então, enfrentei papai... Eu era bem pequena, tinha sete anos, mas consegui fazer com que ele prometesse que não maltrataria Black Victory. Após o funeral de Sheldon, papai partiu... e nunca mais voltou. — Sinto muito por ter perguntado. Não tive a menor intenção de fazê-la pensar em lembranças tão terríveis — sussurrou Thomas, inclinando-se por sobre a mesa e pegando-lhe as pequenas mãos entre as suas. Amanda fitou-lhe os olhos castanhos-claros e mais uma vez viu o homem bondoso e gentil, que fora tão terno com uma égua agonizando ao dar cria. Esse era o homem que queria na vida dela para sempre. — Senhores? Vocês planejam manter minha sobrinha à mesa do jantar pelo resto da noite? — Lady Adair havia se aproximado com um sorriso pelo salão de jantar que já


começava a se esvaziar. — A música recomeçou e ela tem um cartão de dança todo preenchido para cumprir. — E quero ser o primeiro, já que ainda não tive a honra de tirá-la para dançar nesta noite — disse o visconde Ottobon, galante. Quando os quatro retornaram ao salão de baile, Thomas não teve escolha senão ver sua bela jovem sendo conduzida numa valsa pelos braços de outro homem.

DOZE

Abotoando todo seu casaco para se proteger de alguma ocasional rajada de vento mais fria, Amanda pegou Grady e passou pelas portas-janelas, atravessou o terraço e desceu os degraus rumo ao jardim abandonado dos fundos. O sol brilhava, e o dia estava provando ser um dos mais perfeitos para aquela época do ano. E ela se deliciava com a oportunidade de estar ao ar livre. Deixando o gato num dos caminhos, começou a andar vagarosamente por entre o emaranhado de plantas. Ainda era cedo para que Eastmore chegasse para buscála no horário combinado, e a urgência para sair do confinamento da mansão era forte demais para ser ignorada. Seus pensamentos voltaram-se para a perspectiva de casamento com algum dos vários homens que preenchiam sua lista de candidatos. A maioria nem era para ser levada em conta. E alguns, como Freddy Portsmythe, eram simplesmente odiosos demais para que sequer desperdiçasse tempo pensando a seu respeito. E outros, como Lorde Compton, eram aceitáveis com certas restrições. Ele era muito pacato, sem iniciativa, apagado mesmo. E a pedra no sapato era aquela mãe controladora... De alguma forma, Amanda sentia-se protetora em relação a Barnaby, como se fosse um menino. O que, aliás, sempre seria para ela... um menino mais velho. Podia até imaginá-lo tornando-se mais e mais apático e complacente conforme os anos fossem passando. E ela acabaria sendo a controladora no casamento. Administrando os negócios do marido e criando os filhos, bem possivelmente tornando-se tão autoritária e severa quanto Lady Compton era hoje em dia. O último pensamento a fez abrir um sorriso. Nunca! Ela amaria seus filhos, não os educaria feito alguma tirana. Criaria crianças fortes, dinâmicas, livres no campo... todas brincando com bichinhos de estimação, pôneis. A idéia de filhos associou-se de repente à de fazer amor, produzindo-lhe um inevitável rubor nas faces. Isso, caso se casasse com Barnaby, aconteceria provavelmente com a freqüência que ela determinasse e se restringiria a rápidos encontros sob o refúgio da escuridão do quarto. Nada prazeroso, mas tolerável. — Grady, e o que você acha de Lorde Ottobon? — perguntou ao gato, se bem que no momento a atenção do felino se dirigisse mais a uma extensa trilha de formigas à sua frente. — Sabe, confesso que simpatizo com Lewis. É interessante, espirituoso... Um casamento com ele até que seria agradável. E quando os filhos viessem, deixaria que eu os criasse no campo. Mas receio que ele sempre manteria sua movimentada vida na cidade...


Os pensamentos dela enveredaram por um rumo melancólico. Lembrou-se da evidente felicidade daquele casal que vira no baile. Por alguma razão, não conseguia se imaginar assim feliz nem mesmo ao lado do extrovertido Lewis. Como com qualquer outro, seria também um casamento de conveniências... E afinal, seria pedir tanto assim a sorte de se casar por amor? Bem, receava que nas suas circunstâncias não teria muita escolha... E quanto ao duque de Eastmore?, perguntou-se de repente. O que sentia a seu respeito? Um suspiro escapou de seus lábios. Aquele homem a confundia tanto... Sua reputação de conquistador, seu atrevimento deveriam fazer com que corresse dele como o diabo da cruz. Mas mesmo sabendo que devia evitá-lo, por que se sentia tão ligada a ele? E por que achava que não precisava manter a pose de jovem inocente com Thomas? Era possível que aquele homem compartilhasse de tantos de seus segredos? Ou era o simples fato de ter recusado a sua proposta de casamento que havia diminuído a necessidade de impressioná-lo? Amanda ergueu seu rosto para os reflexos quentes do sol. Não. Sentia a existência daquela espécie de elo porque sabia que em algum lugar do paradoxal comportamento dele havia a bondade, a ternura. E quando a segurava em seus braços, não havia outro lugar onde ela quisesse mais estar... Mas, ainda assim, ele tinha aquela reputação de conquistador... Era muito pior que o galanteador Lewis. Na certa, o duque devia ser tão mulherengo quanto o próprio pai dela havia sido! Com seu charme e másculos encantos seria bem capaz de partir seu inexperiente coração... se lhe desse a chance. — Não! Me recuso a viver da forma que mamãe,viveu, com um marido voltado para seus constantes excessos... E assim seria a vida ao lado do duque. Mas não com o tímido Barnaby... Com ele estaria a salvo dessas humilhações. Sua recusa à proposta de casamento fora sensata. O duque de Eastmore não era o homem certo para ela! Mas e como amigo?, ponderou subitamente. Sim... Nada impedia que fosse seu amigo. Com o coração um pouco mais aliviado, Amanda pegou Grady do jardim e entrou na mansão. Logo o duque chegaria, e essa seria a perfeita oportunidade para definir as coisas entre ambos de uma vez por todas. Na metade da manhã, Amanda desceu os imponentes degraus de Vicroy House em direção à luxuosa carruagem aberta. Olhou com admiração para a parelha de puros-sangues cinzentos que iam à frente. Sorriu da expressão satisfeita em Thomas por vê-la aparecendo tão prontamente. Ele retribuiu seu sorriso... os dentes alvíssimos destacando-se na pele bronzeada, o sol cintilando em seus olhos cor de mel... Amanda sentiu o coração disparando, Rias tratou de afastar o olhar. Estava decidida a pôr seu plano em prática. Amigo e nada mais do que isso... lembrou-se, enquanto se sentava a seu lado na carruagem. Com Jamie Deal como cocheiro e cicerone, iniciaram o passeio pelas ruas de Londres.


— Srta. Victor, já que não levo a parelha para correr há dois dias — declarou Thomas — espero que não se oponha se deixarmos as ruas apinhadas para seguirmos por uma estrada rumo ao campo. — Eu adoraria, Sua Graça. Seguindo as instruções do duque, Jamie Deal foi deixando o tráfego lento das ruas londrinas. Abrindo caminho com paciência por entre as demais carruagens, tílburis e cavaleiros em suas montarias, o velho cavalariço chegou, enfim, a uma parte mais tranqüila. Minutos depois, seguia por uma estrada deserta. Amanda respirou fundo, deliciada com o ar puro, o sol banhando seu rosto. Como era bom deixar a agitação da cidade para trás! Thomas observou-a absorta na paisagem ao redor. Era tão jovem, tão cheia de vida, e o fazia sentir-se da mesma forma. Ela deparou com o olhar intenso do duque a admirá-la e sentiu uma seqüência de arrepios percorrendo-lhe a espinha. Não, não podia pensar nele nesse sentido, pois tomara sua decisão e trataria de levá-la adiante. Sabia que era a coisa certa a fazer... a despeito da reação de seu tolo coração. — Jamie Deal, ponha velocidade nesses cavalos! — pediu ao velho amigo, buscando algo que desviasse sua atenção. — Se Sua Graça não fizer objeção, claro. — Objeção nenhuma. Jamie Deal assentiu e instigou os puros-sangues a correrem pela estrada de terra. Com um suspiro de contentamento, Amanda sentia o vento fresco de encontro ao rosto; as fragrâncias dos bosques que agora ladeavam a estrada inundando-lhe os pulmões. Puxa, como era maravilhoso sentir a natureza assim tão próxima outra vez... Longos minutos depois, quando Jamie parou numa bifurcação para descansar um pouco os cavalos, ela exclamou, radiante: — Oh! Foi esplêndido! E esses puros-sangues são mesmo admiráveis! Sem esperar pela ajuda de nenhum dos homens para ajudá-la a descer, Amanda saltou do banco e aproximou-se da magnífica parelha. Sem o menor medo, passou a mão pelo dorso dos animais e deu um passo atrás para observá-los melhor. — Oh, um deles perdeu a ferradura! Thomas e Jamie Deal, que também já haviam descido, aproximaram-se para verificar o problema. — Teremos que providenciar outra. — O duque indicou uma das estradas da bifurcação. — Há uma estalagem aqui perto. Bastante respeitável. Amanda mordeu o lábio inferior. Uma estalagem de beira de estrada... sem uma dama de companhia? Tia Addie não aprovaria. Mas, ainda assim, não seria certo deixar o puro-sangue sem a ferradura. Lançando um olhar preocupado para Jamie Deal, ela hesitou por mais alguns momentos antes de assentir, sob o olhar divertido de Thomas. A Hogshead era, de fato, uma respeitável estalagem. Situada estrategicamente perto de Londres, tinha um ambiente refinado e acomodações espaçosas, destinando-se em especial aos nobres que costumavam passear nas imediações em suas luxuosas carruagens. Dispunha também de um grande estábulo para acomodar seus animais de raça.


O grupo do duque foi recebido com um sorriso efusivo de boas-vindas. Enquanto Jamie Deal cuidava dos puros-sangues e o proprietário da estalagem providenciava para que um dos cavalariços fosse buscar um ferreiro, a atenciosa filha dele conduzia Thomas e Amanda para o melhor salão para que tomassem um chá. Na falta de seu cavalariço, Amanda pediu à jovem que lhes fizesse companhia. Lisonjeada e ante a perspectiva de uma boa gorjeta, a garota que se chamava Nancy sentouse numa mesa na outra extremidade da salão. — Satisfeita, minha gata arisca? — perguntou Thomas, um sorriso provocador curvando-lhe os lábios. — Bastante. Obrigada. Ambos sentavam-se próximos a uma aconchegante lareira, em cadeiras opostas na pequena mesa retangular. Notando que mais uma vez o charmoso duque a fitava com intensidade, ela afastou o olhar. — Quanto tempo acha que vai demorar para que o cavalo receba a nova ferradura? — perguntou, um tanto nervosa. — Não mais do que uma hora ou duas, dependendo da disponibilidade do ferreiro. Está desconfortável na minha companhia? Posso me retirar para outra sala, se desejar. — Não é necessário, enquanto a filha do proprietário possa ficar aqui. — Amanda não podia lhe sustentar o olhar, sentindo-se subitamente encabulada. — Devo proteger minha reputação, como sabe. — Bem, talvez devesse ter pensado nisso antes do nosso passeio começar. Se achou que sua reputação pudesse estar em perigo comigo, não devia ter vindo sem sua dama de companhia. — O leal Jamie Deal veio para olhar por mim, mas então houve o tal contratempo com a ferradura. Ela estudou-lhe o semblante másculo e bonito e considerou por um momento o passo que estava prestes a dar. Precisava tanto de um amigo. Alguém com quem pudesse contar, que a ouvisse com simpatia naqueles tempos atribulados. Já que não tivera mais confidentes mulheres desde a morte de sua babá há vários anos, parecia natural para uma menina que crescera no meio de cavalariços recorrer a um homem bom e franco como amigo. E não conhecia nenhum com a franqueza de Eastmore. Mas seria uma decisão sensata? Seria esse um risco que não deveria correr? Bem, ela nunca fora de fugir dos riscos por medo das conseqüências. Ter a amizade desse homem, que já lhe provara ser perigoso, certamente era um risco. Thomas poderia destruir sua reputação com apenas meia dúzia de palavras nos ouvidos certos. Mas isso ele já poderia ter feito antes... Não, apesar de toda a fama de sedutor, o duque já provara que não desejava difamá-la perante a sociedade. E esse podia ser um bom exemplo de sua integridade. — Sua Graça... — começou ela, decidida a pôr seu plano em prática. — Nós desenvolvemos este relacionamento a partir de um início tumultuado... Mas simpatizo com você, apesar do que... do que aconteceu entre nós. — Amanda escolheu as palavras com cuidado, mantendo os olhos baixos para não ver as possíveis expressões nos olhos dele antes de deixar seu propósito claro. — Acho que


podemos concordar que fomos... impulsivos. E que se as circunstâncias tivessem sido outras, teríamos nos comportado de forma... bem diferente. Thomas ergueu as sobrancelhas espessas em perplexidade, já que mais uma vez aquela mulher-criança o pegava de surpresa. Depois de todos os seus protestos, agora era ela mesma quem tocava no assunto? — Talvez — respondeu, abstendo-se de quaisquer comentários para não desencorajála. — E acho que já ficou provado que não nos daríamos bem com trocas de farpas constantes, certo? Quanto à idéia de um casamento deve mesmo ser esquecida, pois ambos sabemos que sua proposta sé originou exclusivamente no seu senso de dever. Assim sendo... — Ela levantou os olhos para fitá-lo. Continham um ar de tamanha vulnerabilidade, parecendo suplicar por uma resposta aberta e sincera, que Thomas sentiu-se tocado... — Acha que poderíamos ser amigos? Amanda conteve a respiração por alguns momentos, como se de repente tivesse medo de ouvir uma negativa. O fato era que sentia uma inexplicável necessidade de estar ligada àquele homem... ainda que pelos únicos possíveis laços da amizade. — O que me diz? Verdadeiros amigos, da forma como Jamie Deal e eu somos? Amigos, não importa o que aconteça ou o que seja dito? Thomas correu os olhos pelo adorável rosto dela, cativado por sua beleza antes de responder. Um delicado rubor subiu às faces acetinadas ante sua aberta contemplação. Ele tinha que admitir para si mesmo que desejava muito mais do que apenas a amizade daquela imprevisível e apaixonante jovem, mas se esse fosse um ponto de partida para começarem a construir um relacionamento, não havia razão para discordar. — Sim. Eu gostaria muito de ser seu amigo — respondeu ele com suavidade, em idêntico tom solene. Ficou deliciado ao ver-lhe os incríveis olhos azuis cintilando em pura alegria. — Oh, esplêndido! Agradeço-lhe do fundo do meu coração. E concordamos que não haverá mais cogitações sobre um casamento entre nós, certo? De fato não combinamos muito, você sabe. — Como me ofende! Pensar que uma mulher adorável como você me implora para que eu não a corteje... — Thomas encenou uma expressão magoada, fazendo-a rir. — Bem, e o que mais quer que eu faça? — Voltando a falar sério, o que eu quero é que... — Basta dizer. Acredite, levarei nossa amizade da forma mais séria. — Obrigada, Thomas. Bem, como amigos de verdade, ou lhe peço que aquele... episódio do estábulo nunca mais seja mencionado, está certo? E nossas futuras confidências serão protegidas por um código de honra. Combinado? — Ela estendeu a mão para selar o compromisso. — Tem minha honrada palavra. — O duque apertou-lhe a mão delicada, resistindo à vontade de levá-la aos lábios. — E agora no que posso ajudá-la como amigo? Qual seria a primeira confidência que devo levar para o túmulo?


— Bem, eu gostaria de seu conselho e pretendo segui-lo, já que é muito mais entendido nesses... assuntos do que eu. — O semblante dela relaxou, mas Thomas pareceu surpreso. A chegada do chá, acompanhado de bolos, biscoitos e pães recém-assados, prolongou sua espera por uma explicação até que lhes fosse servido. Contrariando as convenções, Amanda levou uma xícara fumegante para a silenciosa Nancy, na mesa do lado oposto do salão. Voltou e tornou a sentar-se sob o olhar de deliciada incredulidade de Thomas. Enfim, bebericando de sua xícara, ela começou a narrar sua história ao duque. Contou sobre a real situação financeira de sua família, a drástica redução no número de criados, as dívidas astronômicas deixadas pelo pai, as cartas constantes do sr. Vandevilt com a pressão dos credores. Concluiu explicando sobre a estratégia elaborada por sua tia para arranjar-lhe um marido rico naquela temporada em Londres. Mencionou que fora obrigada a vender as éguas que lhe eram tão preciosas em Tattersall para financiar a estada na cidade e camuflar a quase falência. Desta vez, ela permitiu que Thomas visse toda a dor em seus olhos por perder aquilo que lhe era mais valioso. — Não pensei que a situação tivesse chegado a esse ponto tão crítico... — comentou o duque, num tom solidário. — Eu acho odiosos todos esses verdadeiros rituais da sociedade para que uma debutante arranje um marido... mas por nada neste mundo quero perder Victor Mall... nem decepcionar as pessoas que dependem de mim. — Amanda tornou a preencher sua xícara de chá, um ar desesperado surgindo em seu rosto. — Por isso preciso de sua ajuda. Eu... tenho que saber. Por favor me diga... Oh, maldição! Pode me mostrar como atrair um homem? Como fazê-lo se interessar por mim? Para que eu acabe com esta tortura, para que me case logo, comece a reerguer Victor Mall e possa escapar desta... infernal temporada! — Céus, menina! — exclamou Thomas, chocado, quase se engasgando com seu chá. — Faz idéia do que está perguntando? — Claro! Quero saber sobre os segredos da conquista. Preciso da sua orientação para pular todo esse período ridículo de cortejos que sempre são feitos até que alguém possa me dar uma resposta direta a uma pergunta honesta. Quero sua ajuda para que um homem me leve logo ao altar — forçou-se Amanda a dizer, seu corpo tenso, o olhar duro. — E quem seria esse homem a ser fisgado tão depressa? — Eu... não tenho certeza. Talvez Barnaby Compton... Há vários que poderiam servir, mas... não tenho certeza de como atraí-los ao casamento. Só sei que isso levaria toda a temporada, e eu não suportaria. Mas se não conseguir me casar com ninguém... Bem, não agüentaria perder Victor Mall, Black Victory e as cavalgadas matinais ao lado de Jamie Deal, a vida no campo... — Eu sabia que só podia ter sido você galopando no garanhão naquela manhã em St. James Park. Você naquele esplêndido cavalo é uma visão de tirar o fôlego de um homem. Amanda apenas deu de ombros em resposta ao elogio,


— Talvez tirasse o fôlego de Ottobon, mas receio que Compton ficaria chocado se me visse correndo em Black Victory, como a maioria da sociedade. — Ela sacudiu a cabeça, com um olhar desorientado. — E de fato não sei como agir... O que acha que eu deveria fazer para que ele pedisse minha mão? — O que ainda não entendi é o que você pode ter visto em Compton. Certamente, ele dispõe de uma imensa fortuna, porém é um tipo tão patético... parece temer a própria sombra. Mas se insiste, basta observar a forma como ele se comporta com a mãe para saber como agir. — Pensei em Compton porque dos "candidatos em potencial" ele é o único que ainda não demonstrou inclinações para... mulherengo. — Amanda não pôde evitar e lançou um olhar significativo ao duque. — É evidente que ele não é em nada como meu pai. Não vai apostar no jogo o pão do sustento de seus futuros filhos, nem tirar o que é de sua família para comprar jóias para dar a amante! — acrescentou, indignada. — Me diga, se os homens gostam desse... tipo de mulher... por que não se casam com elas? Assim, poupariam muita humilhação às suas esposas. Você... que tem essa reputação de não se contentar com as... atenções de uma única mulher... teria uma resposta para a razão desse comportamento? Seguiu-se um prolongado silêncio. De repente, Jamie Deal veio informá-los que o cavalo já estava com a ferradura nova e que ele esperaria na carruagem para partirem quando desejassem. — Bem, vou levá-la de volta a Grosvenor Square. E, sim, tenho uma resposta para você — disse, enfim, Thomas enquanto se preparavam para sair. — Mas seria muito longa para o pouco tempo que dispomos. Ele a fitou com intensidade, com aquele olhar penetrante que parecia enxergar-lhe através da alma. — Sim, minha Amanda Pearl, prometo que algum dia você terá essa resposta.

TREZE

O dia seguinte destinou-se a ser "em casa" para a família Victor. As três damas achavam-se no vistoso salão principal, adequadamente trajadas para receber os visitantes que já haviam enviado as prévias mensagens de praxe, programando tais cortesias. Assim, como previsto, logo no início da tarde, Hastings anunciou a chegada de Lady Compton e de seu filho. Após os devidos cumprimentos, Lady Lillian instruiu o mordomo para providenciar o chá. Desejando manter-se longe dos costumeiros comentários ferinos que a ofensiva Ernestine Compton parecia adorar distribuir a cada ser vivo sobre a face da terra, Amanda sentou-se num sofá a uma certa distância das outras senhoras. Dirigiu o olhar para o homem


alto e muito magro sentado na beirada de uma cadeira próxima. No presente momento, ele parecia ocupado num compenetrado exame de seus sapatos. Como já acontecera antes, ela tentou puxar conversa, mas a cada corriqueira pergunta que lhe fazia, Barnaby ia corando cada vez mais, suas orelhas ficando vermelhas, parecendo ainda maiores. De repente, Amanda lançou um olhar para a severa Lady Compton e teve um inesperado entendimento. — Barnaby, sente-se direito e relaxe! E por favor... olhe para mim quando estou falando com você — ordenou-lhe, num tom um tanto rígido que lembrava um pouco o da mãe dele. De imediato, o rapaz endireitou as costas na cadeira, desentrelaçou os dedos e ergueu seus pálidos olhos azuis para fitá-la. — Assim é melhor. — Amanda prosseguiu no mesmo tom, satisfeita com a reação dele. — Me diga uma coisa, você me acha bonita? —- Oh, s-sim, claro. Minha m-mãe acha sua beleza impressionante... — Mas e quanto a você? O que acha? — Eu... Eu acho você a... Acho que é a m-mulher mais bonita que já vi na v-vida — balbuciou Barnaby, ficando ainda mais vermelho. — Por favor, olhe para mim! — ordenou ela outra vez. Quando os tímidos olhos azuis tornaram a encará-la, sorriu-lhe docemente e agradeceu: — Obrigada, Lorde Compton. Para sua surpresa, o rapaz retribuiu o sorriso. Num tom um tanto conspirador, revelou: — M-Minha mãe vai oferecer um jantar em breve e viemos convidar sua família. Ela está b-bastante impressionada com você e... e eu t-também. Amanda tornou a lhe agradecer, presenteando-o com um novo sorriso. Estava satisfeita em vê-lo tão receptivo a seu comando. Se sempre fosse assim tão fácil guiá-lo na direção que ela queria ir, talvez sua permanência naquele maldito "mercado de casamentos" fosse bem curta. Era uma mera questão de tempo até que o induzisse a pedir sua mão. Sim, Barnaby estava se mostrando bem maleável... graças à dica de Thomas de como tratá-lo. — Barnaby! Quer prestar atenção quando estou falando com você! — Lady Compton havia se levantado e dirigia-se num tom ríspido ao distraído filho. — Temos outras visitas a fazer e devemos ir agora. Depois que os dois partiram, Amanda não pôde evitar mais uma onda de compaixão pela forma autoritária e até humilhante com que a mãe o tratava. Jamais seria capaz de chegar a tal ponto, ponderou. Os próximos visitantes mostraram-se bem mais agradáveis e divertidos. Lorde Ottobon, com seus eternos galanteios espirituosos viera acompanhado do baixinho Lorde Ellington. Para surpresa das damas, este também estava se mostrando galante e polido, negando com o exemplar comportamento dessa tarde a má reputação de grosseiro e beberrão que adquirira. Tinham vindo convidá-las para assistirem a uma ópera logo mas à noite, convite que Lady Adair aceitou pelas três efusivamente. Durante a conversa, os comentários absurdos e as constantes interrupções que um fazia ao outro os fez permanecer em Vicroy House até um segundo chá lhes ser servido, com Thomas Eastmore também se reunindo ao grupo.


Hastings o anunciou, e Amanda acompanhou sua entrada no salão principal com um olhar atento. A impecável elegância do duque, o porte confiante, o sorriso charmoso de fato impressionavam. Foi preciso um esforço consciente para lembrar a si mesma que não poderiam compartilhar de mais do que amizade. Ao longo da conversa, ela sentiu um íntimo contentamento com os discretos olhares de cumplicidade que trocavam, pelo segredo do recente pacto que haviam feito. Por mais que tentasse, era-lhe impossível deixar de compará-lo aos outros dois lordes, que pareciam desaparecer com sua presença. Era bem mais alto que Ottobon... sem mencionar o baixote Ellington... e possuía um físico imponente, uma certa postura militar. A fina xícara de porcelana parecia ainda mais frágil em sua mão forte, os lábios bastante sensuais, enquanto bebericava seu chá... Lábios que evocavam beijos ardentes... Atraído pelo prolongado silêncio de Amanda, Thomas desligou-se de um episódio que Ellington contava, no qual se vangloriava como de costume, e virou-se para fitá-la. Seus olhares se encontraram, e ele abriu um discreto sorriso para sua gata arisca. Ela tinha os lábios um tanto entreabertos... tão macios e convidativos. Os belos olhos azuis exibiam um brilho sonhador. Amanda notou o ar divertido nos olhos do duque quando a flagrou a observá-lo com inconfundível apreciação. No momento em que seus olhares se encontraram, sentiu uma espécie de calor expandindo-se por seu corpo. De repente aqueles olhos da cor do mel pareciam lhe transmitir tanto... em forma de promessas silenciosas... Thomas soube que se estivessem sozinhos no momento poderia beijá-la com ardor sem encontrar a menor resistência. Ela parecia tão embevecida pela imaginação... Ele próprio não pôde deixar de pensar em como seria despir-lhe aquele vestido, expor-lhe as esculturais formas a seu olhar fascinado, cobrir-lhe o corpo sedutor de beijos e carícias... Notando o brilho faminto no olhar do duque, Amanda se recobrou de imediato, como que despertando de um transe. Com o coração disparado, olhou ao redor. Felizmente todos continuavam conversando com animação e ninguém parecia ter percebido a viagem de sua mente. Baixou o olhar para as mãos em seu colo, tentando controlar o turbilhão de emoções que a dominava. Embora a visse agora naquela aparente serenidade, Thomas notou o quanto as mãos dela tremiam. Ajudá-la a procurar um marido? Que tarefa mais ingrata... Tarefa que ele não tinha a menor intenção de sequer levar em conta. "Marque minhas palavras, minha gata arisca, você vai pertencer a mim e a mais ninguém", pensou, determinado. "Pelo seu amor, deixarei todos esses vícios obscuros que você condena em mim e que, na maioria, são apenas frutos da sua inocente imaginação. E será você a me seduzir desta vez, pois seu corpo e seu coração se rendem a mim, quer deseje admitir ou não." Enquanto os lordes, enfim, anunciavam sua partida e se despediam na habitual enxurrada de galanteios, Thomas beijou por último a mão de Amanda e sussurrou-lhe para que apenas ela escutasse: — Minha querida, terá que aprender a ser mais discreta em público, ou me fará perder o controle por completo. Não seria decente se eu a agarrasse aqui, não acha?


Sem palavras, ela o observou retirando-se com a entusiasmada dupla. Assim que todos se foram, desculpou-se com a mãe e a tia e subiu para seu quarto. Não tinha mais condições de receber visitas por hoje. Tão logo fechou a porta atrás de si, permitiu que as lágrimas de frustração rolassem livremente por suas faces. Céus, não entendia mais nada! O duque não era o homem a quem devesse desejar... Ele só lhe traria desgostos... na certa partiria seu coração. — Não! — exclamou para as paredes silenciosas do quarto. — Não vou desejá-lo! À noite, embora estando sem a menor disposição para eventos sociais, Amanda teve que admitir que estava apreciando a ópera. Para o sofisticado camarote, Ottobon também havia convidado Lorde Leonard Melton, um elegante e refinado senhor com quem Lady Lillian pareceu logo simpatizar. Ao contrário do que receara, o duque de Eastmore não estava acompanhando o grupo. Então, por que em vez de se sentir aliviada, não conseguia evitar a ponta de decepção em não vê-lo ali naquela noite?, perguntava-se Amanda. Num dos intervalos, Alfred Ellington pediu a ela que lhe fizesse companhia para passearem pelos corredores, costume que tornava a ópera um evento quase tão badalado quanto os bailes. Foi durante esse intervalo que ela, enfim, avistou Thomas no amplo e apinhado saguão do teatro. Ficou extremamente desapontada em ver que estava acompanhando uma bela ruiva. — Quem é a dama com Lorde Eastmore? Acho que não a conheço — perguntou a Alfred, no que esperava ser um tom dos mais casuais. — Aquela é Lady Louise Sinclair. Duvido que lhe tenha sido apresentada. É a esposa de um velho homem que não... lhe dá, digamos, a devida atenção... — comentou o lorde com um quê de malícia. — Ela é... como direi... uma dessas lindas... — Já compreendi, Lorde Ellington. — De repente Amanda se lembrou da mulher. Era a mesma ruiva a quem vira o duque escoltando numa carruagem naquela tarde no Hyde Park... Sua amante, sem dúvida! Ela não pôde deixar de notar como Thomas sorria para a voluptuosa mulher. Para seu constrangimento, o atraente casal começou a se aproximar por entre as pessoas. Ela tratou de desviar o olhar. Somente quando o duque parou próximo o bastante, Amanda se atreveu a encará-lo. Ele a observou com um sorriso um tanto divertido que a fez sentir-se quase infantil. Mas nada conseguia fazer com que ela contivesse a onda de ciúmes que a invadiu. Como ele se atrevia a sequer olhar em sua direção de braço dado com aquela mulher? Antes de prosseguir pelo meio da multidão, Thomas acenou-lhe com a cabeça, e Amanda o fuzilou com o olhar. Oh, o desprezível! Aparecia em público de braço dado com uma... com uma leviana e ainda lhe lançava um sorriso cínico para provocá-la, para inflamarlhe ainda mais a raiva! Quando o casal, enfim, se afastou pelo saguão apinhado, Amanda se deu conta de que Ellington estivera falando pelos cotovelos, sem que ela lhe prestasse a menor atenção. Para seu horror, descobriu que havia acabado de concordar em acompanhá-lo a um jantar na noite seguinte, na casa de uma certa Lady Dover, a quem não conhecia.


Começou a elaborar uma recusa graciosa, alegando que talvez o convite fosse impróprio. Mas o lorde insistiu, dando até ligeiras mostras de seus característicos acessos de raiva. Não aceitando não como resposta, disse-lhe que iriam na companhia de uma tal baronesa de Wellington e de seu irmão, o que significava que ela nem teria que se preocupar em levar uma dama de companhia. — Bem, não precisa se exasperar. Se minha tia aprovar esse convite, considere-o aceito. Mas quando retornaram ao camarote, o intervalo não terminara e encontraram Lady Lillian sozinha. Com uma enxurrada de galanteios, Ellington persuadiu-a a dar sua permissão para que a filha o acompanhasse no jantar da noite seguinte. Assim, Amanda não teve mesmo como escapar. Ela conteve um suspiro contrariado e sentiu-se ainda mais deprimida ante a perspectiva de um jantar na companhia do homenzinho temperamental. Por que tia Addie não estivera ali para ajudá-la a sair daquela? Não prestou mais atenção ao restante da ópera, seus pensamentos concentrados no duque de Eastmore e em sua acompanhante. Embora não pudesse vê-los no teatro escuro, podia imaginá-los num dos inúmeros camarotes... trocando sussurros íntimos e... Oh, não havia a menor dúvida agora! Thomas era exatamente o tipo de mulherengo que o visconde Victor havia sido! Fora a melhor das decisões... prova de seu bom senso... que ela houvesse selado o relacionamento de ambos como amigos e nada mais. O porquê de não encontrar consolo nesse pensamento, Amanda não sabia.

CATORZE

A residência de Lady Dover era uma mansão espaçosa numa rua escura, a uma breve distância de Picadilly. De decoração um tanto extravagante, era forrada do chão ao teto de brecados e afrescos, possuindo imensos lustres que se refletiam em numerosos espelhos de molduras douradas. Amanda chegava um tanto contrariada. A noite já ameaçava ser desastrosa, tendo começado com a chegada atrasada de Ellington para buscá-la em Vicroy House; bem depois de sua mãe e sua tia já terem saído para um sarau na mansão da amiga Mary Standiford. Depois tinham vindo as apresentações à baronesa de Wellington e ao irmão, cujo nome Amanda ainda não guardara. Os dois a haviam deixado com uma certa inquietação, embora não soubesse por quê. Tinha certeza que tia Addie não teria aprovado essas pessoas se as houvesse conhecido. A baronesa maquiava-se com um certo exagero e seu vestido tinha um decote profundo demais para os padrões adequados. Bem, ao menos Ellington estava sóbrio. E Amanda sentia-se capaz de se livrar de qualquer situação desagradável, até correr dali se fosse preciso... A idéia de correr de Ellington, em seu elegante vestido de tafetá verde, as saias enroscando em suas pernas, fez com que um sorriso brotasse de seus lábios, deliciando o cavalheiro em questão, que o interpretou erroneamente como um sorriso em sua direção.


O jantar provou ser um verdadeiro banquete de deliciosas iguarias, mas ela mal provou a comida, achando difícil relaxar naquele ambiente. Estava cada vez mais convencida, pelos generosos decotes e pelo exagero na maquiagem, além da familiaridade dos cavalheiros com as damas, que jamais as vira ou veria nos círculos que freqüentava. O vinho corria solto, mas ao menos Ellington parecia controlado, mostrando-se galante e atencioso. Após o jantar, Amanda ficou perplexa quando todos se retiraram para um grande salão no andar de cima, repleto de mesas de jogos e roletas era, sem dúvida, um cassino particular. Logo seu acompanhante ficou totalmente absorto na jogatina, fazendo apostas altas, rindo e vibrando quando ganhava, ansioso para fazer logo outra jogada quando perdia. A baronesa de Wellington, que supostamente faria companhia a ela, havia bebido demais e acabara de se retirar para um quarto no terceiro andar da mansão, para um duvidoso repouso. Olhando ao redor do salão barulhento, apinhado por homens e mulheres que seguiam o exemplo de Ellington, Amanda refletiu que essa era a vida que seu pai havia levado. Era bem provável que tivesse até jogado nessa mesma casa, apostando a fortuna que Victor Mall tanto precisara para sobreviver. Tais pensamentos reavivaram-lhe a antiga raiva e exigiu que Ellington a levasse de volta para Vicroy House naquele instante. Mas o homenzinho ignorou seu pedido, dizendo que se achava em meio a uma importante jogada. A essa altura, já estava bêbado, chegando inclusive a ser grosseiro. Chocada e ressentida com tal tratamento descortês, ela decidiu retirar-se daquele lugar, que certamente era um antro. — Já é meia-noite e estou indo embora, Lorde Ellington! Se não chegar à porta de saída no mesmo instante que eu, irei para casa sozinha na sua carruagem. Depois mande alguém buscá-la se quiser! Descendo depressa ao primeiro andar, Amanda pediu a um lacaio que mandasse preparar a carruagem. Enquanto aguardava, andava de um lado ao outro do vestíbulo, furiosa. A audácia do homenzinho! Trazê-la para aquele lugar... O beberrão... cafajeste! Seu nome não apenas seria banido da lista de pretendentes em potencial, como também de sua memória! Nunca ficara tão zangada consigo mesma por ter se deixado envolver em situação tão deplorável. Como obviamente Ellington não aparecesse para levá-la embora, ela desceu os degraus de granito rumo à carruagem dele, que já estava à espera na entrada lateral da mansão. Foi somente quando Amanda já ia subindo na carruagem que o sujeito apareceu. — Ei, espere um minuto! — disse-lhe, com a voz pastosa. — Nenhuma mulher vai me largando dessa maneira! Está querendo me embaraçar? E na frente dos meus amigos? Todos lá em cima riram de mim quando você saiu! Como se não bastasse eu já ter perdido uma fortuna na roleta! Furioso, Ellington segurou-a pelo braço, impedindo-a de subir na carruagem. — Me solte! Amanda esquivou-se abruptamente e, quando o homenzinho embriagado quase perdeu o equilíbrio, encarou-o com altivez e desprezo, o que o deixou ainda mais colérico.


— Está querendo me provocar! — esbravejou ele, tentando sacudi-la pelos ombros. Como fosse de menor estatura e franzino, não conseguindo sequer movê-la, Ellington surpreendeu-a, apelando para um violento empurrão. Amanda cambaleou para trás, batendo na lateral da carruagem. Mas recobrou-se depressa; com extrema agilidade, arrancou o chicote das mãos do boquiaberto cocheiro. Com um movimento rápido, desfechou um golpe com o chicote no chão, perto das pernas de Ellington. — Nunca mais ouse encostar um dedo em mim, ouviu bem! Atreva-se a tentar me levantar a mão de novo e eu o chicotearei até que implore por clemência! — avisou ela por entre dentes, continuando a golpear o chão ao redor dele. — Eu vou lhe ensinar a não... Oh, sua... sua ordinária! Não estando disposta a ser difamada em público e cansada de observar o homenzinho dançado em círculos para se esquivar, ela inverteu o chicote depressa. Com o cabo, deu uma pancada no estômago dele. Ellington cambaleou para trás e caiu de costas; a embriaguez impedindo-o de levantar-se. Exclamações efusivas ecoaram da pequena multidão de cocheiros e cavalariços que se reunira ao redor. Todos aplaudiram a eficiência com que a valente jovem imobilizara o desagradável lorde, que era bastante conhecido por sua crueldade com os animais e criados. — Dando espetáculos na porta de antros de jogo agora, minha cara srta. Victor? O comentário irônico a fez virar-se depressa e deparar com um novo adversário. Vendo o elegante Eastmore recostado despreocupadamente a uma carruagem, com um sorriso um tanto tenso no rosto, ela não pôde evitar um ligeiro riso divertido. — Bem, se estiver disposto a participar, ainda não descarreguei toda a raiva que aquele beberrão me despertou. — Na verdade, acho mais sensato que desapareça de mansinho, antes que as autoridades apareçam para prendê-la por desordem — gracejou o duque, o sorriso de humor duvidoso ainda em seus lábios. — Me permite levá-la em casa? Minha carruagem está logo mais adiante na alameda. Thomas manteve a fachada espirituosa durante o percurso até Grosvenor Square, já que Amanda estava de ótimo humor após sua merecida desforra. Vendo a mansão iluminada e tendo o fato confirmado por Hastings de que sua mãe e sua tia ainda não haviam retornado do sarau de Lady Standiford, ela convidou o duque para conversarem um pouco no salão principal. — Quando me aproximei dos cavalariços que começavam a formar uma roda, cheguei a tempo de ver você arrancando o chicote das mãos daquele cocheiro... e qual não foi o meu espanto! Bem, devo admitir que nunca vi uma debutante com tamanha habilidade com um chicote... Mas que diabos deu em você para ir até aquela casa? E desacompanhada! Sentada no sofá oposto ao que Thomas ocupava, Amanda contou-lhe sobre como o ardiloso Ellington havia induzido sua aérea mãe a lhe dar o consentimento para levá-la ao tal jantar na casa de Lady Dover. — Aquela mulher não é uma lady! — exclamou o duque, enfim demonstrando sua total contrariedade. — Aquele antro de jogo não é lugar para uma debutante. E alguém com a má reputação de Ellington certamente não é a companhia mais adequada!


— Eu não fazia a menor idéia de que tipo de lugar era aquele — argumentou Amanda, explicando-lhe como tentara partir, depois que vira o salão de jogo, e como Ellington tentara impedi-la. — Mas, de qualquer forma, provei que sou capaz de cuidar de mim mesma, não acha? — concluiu. — Você, minha gata arisca, pode ter arruinado sua reputação de uma vez por todas. O que aconteceu nesta noite vai com certeza se espalhar por todos os cantos da cidade. Duvido que a história de que você fez um membro embriagado da nobreza dançar sob ameaças de chicote, derrubando-o, enfim, no chão... após ter saído do infame estabelecimento da sra. Dover... será vista com bons olhos pelas matronas da nossa sociedade. E imagine o que dirá sua tia! — Como ousa falar comigo assim? — revidou ela, com raiva. Levantando-se do sofá caminhou, inquieta pelo salão. Detendo-se de costas para o retrato de sua bisavó, pôs as mãos na cintura, fitando o duque com altivez. — E se o lugar é assim tão infame, o que você estava fazendo lá? — Sou um homem de trinta anos, srta. Victor, adulto e responsável por meus atos... —Ele também se levantou e venceu o espaço que os separava. Seus olhos castanhos-claros a fitá-la com um brilho perigoso — ...enquanto você é uma jovem ingênua, cujo temperamento, como ficou provado nesta noite, pode colocá-la em sérios apuros. Essa é a diferença. — A diferença é que um homem tem a permissão para fizer o que quiser, onde e com quem bem entender. Já uma mulher é obrigada a manter a obsessiva vigilância por sua reputação. Felizmente, sempre que era dominada pela fúria, Amanda mantinha a voz baixa e fria. Do contrário, os vizinhos em Grosvenor Square teriam sido testemunhas da discussão mais surpreendente de que se tivera notícia entre um casal solteiro da nobreza, após a meianoite, ambos desacompanhados e a menos de um passo um do outro. Não apenas uma, mas várias indiscrições que os obrigariam a um casamento imediato se alguém os estivesse observando. — Obviamente. Um homem prefere ter a certeza de que seus herdeiros são de seu próprio sangue quando se casa com uma mulher! — retrucou Thomas, o rosto muito próximo ao dela, o olhar faiscante. — Então, ele deve esperar que sua mulher engravide na primeira semana do casamento! Afinal, é uma prática comum nesta sociedade hipócrita que uma esposa arranje um amante para distraí-la nas tardes solitárias, enquanto seu "devotado" marido está cobrindo a própria amante de presentes, em troca de suas atenções! Ao menos uma mulher consegue conquistar um amante sem endividar a família, enquanto que para arranjar a sua um homem precisa pagar um bom preço, chegando a tirar até de seus próprios herdeiros. Tenho certeza que você se identifica com ambas as situações... a de amante e a de "protetor"! O duque ficou aturdido com as palavras acusadoras, mas logo se recobrou. Quando tornou a falar, sua voz soou glacial: — Você, minha cara, tem uma boca ferina, por mais atraente que esta seja. Se está interessada em aprender a arte da conquista, deixe-me cumprimentá-la pelo que já sabe por


instinto, tendo sido eu o primeiro a provar de seus encantos! — Ele segurou-a pelos ombros, puxando-a de encontro a seu corpo consumido pelo desejo e encarou-a. As faces de Amanda coraram violentamente, depois empalideceram de súbito... uma expressão familiar para Thomas, que demonstrava o quanto estava chocada. — Oh, como você é injusto! Havíamos c-concordado que aquele episódio jamais tornaria a ser mencionado. E agora... você tira proveito da situação onde nenhum... amigo de verdade tiraria. V-Você não é um cavalheiro! Quebrou sua palavra. — Amanda correu para as escadarias e, com o rosto banhado pelas lágrimas, sussurrou para que só o duque ouvisse: — Odeio você, Eastmore! Odeio, ouviu bem? Depois que ela se foi, Thomas esmurrou com força o mármore de um aparador. E, então, ergueu um olhar torturado para a mulher no retrato, que era tão parecida com sua Amanda Pearl. — Droga! E eu, minha geniosa dama, estou perdidamente apaixonado por você!

QUINZE

Era início de tarde. Lady Adair e Lady Lillian ainda não haviam descido de seus aposentos devido ao retorno tardio do sarau de Lady Standiford na noite anterior. Amanda achava-se sentada à elegante escrivaninha no salão principal. A cabeça repousava preocupada numa das mãos, enquanto verificava uma grande pilha de papéis. Tratavam-se de contas e documentos que lhe haviam sido enviados através do sr. Vandevilt. Ela evitara a papelada por mais de uma quinzena, uma vez que os credores estavam se tornando insistentes e o velho advogado queria boas notícias para lhes dar; algo encorajador referente às tentativas dela de ganhar mais tempo para perseguir seus objetivos. Sua mão livre vagava, alisava a saia de musselina dourada, torcia os dedos distraidamente pelo tecido. — Perseguir meus objetivos! Eu só gostaria de saber quem está perseguindo quem nesta temporada maluca! — murmurou ela, contrariada. Na verdade, sentia-se a parte perseguida. Talvez como uma raposa fugindo dos cães e caçadores em busca de seu sangue. Com um profundo suspiro, pegou uma folha do papel de uma gaveta e preparou-se para escrever uma carta ao sr. Vandevilt. Pretendia explicar que, como a temporada mal começara, ainda não podia mandar boas notícias, mas que ela e sua mãe... blá, blá, blá! Sua mão deteve-se o suficiente para que, da pena da caneta, escorresse tinta, formando uma grande mancha no papel. Rapidamente amassou a folha e jogou-a na direção da lareira. — Céus. O que posso escrever para amolecer o homem por um pouco mais de tempo? Se ao menos eu pudesse lhe enviar esta escrivaninha e a cadeira! Ambas valem muito mais num leilão do que minha falta de inspiração no momento.


salão.

— Deu para falar sozinha agora? — observou Thomas, enquanto se aproximava pelo

Sobressaltada, Amanda virou-se para fitá-lo. Deparou com o cenho franzido do duque e a ameaça de novo sermão. — Achei que tivesse dado instruções a Hastings para dizer que não estou em casa para você, nem hoje nem nunca mais! — declarou com extrema frieza, procurando controlar a tremedeira em suas mãos. — Persuadi Hastings do contrário. — Thomas atravessara o salão, aproximando-se com o semblante anuviado. — Acha que há algum criado... alguma porta ou tranca... que poderiam me impedir de me aproximar de você, se eu quisesse? — O que quer aqui, afinal? — Vim em nome de sua boa reputação e da nossa amizade. — O tom do duque suavizou-se. — Vá se preparar para um passeio a cavalo. Ottobon e Ellington estão a nossa espera para irmos ao Hyde Park nesta tarde. — Ellington! Não quero vê-lo nem pendurado numa forca! — revidou ela, entre perplexa e furiosa. — Eastmore, deve estar fora de seu juízo para sequer cogitar que eu aceitaria a companhia de um de vocês dois. — O que é isso? Estamos sendo rejeitados? — Lewis aproximou-se pelo salão, juntando-se a eles. — Vamos lá, srta. Victor, meu Denouncer está ansioso por uma boa corrida. cenho.

— Lewis... — Ela pareceu radiante ao ver o visconde, o que fez Thomas franzir o

— Virá conosco, senhorita — concluiu ele, erguendo-a da escrivaninha pelo braço, num gesto firme, mas gentil. — Agora vá se trocar depressa... ou devo-lhe oferecer minha ajuda? Irritada, Amanda libertou seu braço. Pôs as mãos na cintura e encarou o duque com olhar faiscante. — Desista dessa idéia absurda! Por que eu concordaria num passeio a cavalo ao lado daquele desprezível? — Srta. Victor, não percebe? — interveio Lewis, apaziguador. — Para deter quaisquer rumores que possam se espalhar. Tem que resguardar sua reputação. Thomas coversou com o cocheiro de Ellington, mas o homem detesta o rude patrão, e o episódio de que foi humilhado por um chicote na mão de uma valente debutante será-lhe divertido demais para que não o espalhe. Mas quem irá acreditar numa história dessas, especialmente se a jovem em questão for vista passeando de forma cordial com o tal cavalheiro no dia seguinte? — E nada de mostrar as garras! — alertou-a Thomas. Nem de revides impulsivos para não provocar um novo incidente. Agora vá se trocar, ou juro que eu mesmo a carregarei lá para cima e a ajudarei a se vestir... depois de despi-la! — Pois atreva-se! — exclamou Amanda numa falsa bravata, enquanto se dirigia às escadarias.


— Puxa, meu amigo, não acha que exagerou um pouco? — perguntou Lewis quando ficou a sós com o duque. Parecia chocado com a familiaridade dele com a debutante. — Eu lhe digo, às vezes não há forma melhor de se lidar com a teimosia de uma mulher... Venha, esperemos lá fora. Em apenas quinze minutos, Amanda Pearl descia casualmente os degraus da frente de Vicroy House, num vestido azul de montaria. Tia Addie já descera de seus aposentos nesse intervalo, tendo-a assim informado de seu passeio com os cavalheiros. Jamie Deal saudou-a com um sorriso de orelha a orelha, já sabendo por trechos da conversa entre o duque e o visconde da merecida lição que ela dera no covarde Lorde Ellington. O cavalariço achava-se junto ao garanhão preto e a uma eufórica Victoire, enquanto Thomas e Lewis comparavam os prós e os contras dos dois belos animais. Um enfezado Ellington permanecia em sua montaria. — Vou montar em Black Victory nesta tarde — anunciou Amanda. — Vai montar na potranca e evitar falatórios, senhorita! — exclamou Thomas entre dentes. Pegando-a pela cintura esguia, depositou-a na sela de Victoire. Depois de fuzilar o duque com o olhar, ela se virou para Ellington com ensaiada polidez. Forçou-se a cumprimentá-lo... pois, afinal, podia ser magnânima após sua vitória. O homenzinho lançou-lhe um olhar ressentido. Amanda surpreendeu-se ao ver uma mancha arroxeada ao redor de um dos olhos dele. Lançando um olhar inquiridor para Thomas, deparou com uma expressão significativa em seu semblante. Não havia dúvida que ele devia ter dado uma lição no homenzinho. E, considerando a força de Eastmore, Ellington podia se considerar com sorte por ter aparentemente levado um único soco. Ao chegarem ao parque, Amanda sentiu seu bom humor retornando. Estava uma linda tarde de primavera, e era com genuíno contentamento que trotava na graciosa Victoire. Em seu magnífico cavalo árabe, Thomas mantinha uma expressão muito séria, seus olhos castanhos-claros indefiníveis. Ela procurou ignorar aquele olhar intenso e concentrou-se em galopar na potranca. Admirou a excelente forma de Black Victory, conduzido por Jamie Deal, e fez um grande esforço para resistir ao impulso de montar no garanhão preto. Afinal, tinha que se comportar como uma dama. Após o lamentável episódio da noite anterior na saída da casa de jogo, tinha que admitir que devia se sentir grata ao duque por ter providenciado aquele passeio para abafar possíveis rumores... por mais que abominasse a presença de Ellington. Por volta das cinco da tarde, porém, ela achou que seu temperamento explosivo poderia colocar tudo a perder novamente... Céus, por que Eastmore insistia em provocá-la daquela forma?! Uma ostentosa carruagem havia parado na rua pavimentada, e o duque acabava de deixar seu grupo para cumprimentar a mulher que a ocupava. — Ah, Lady Sinclair... — suspirou Alfred, lançando um olhar zombeteiro para Amanda. Vendo-a contrair o semblante, não hesitou em continuar a alfinetá-la. — A adorável Louise, a preferida de Eastmore... — Ellington — começou Lewis num tom contrariado.


Mas Alfred preferiu ignorá-lo e continuou a dar as informações que Amanda tentava não querer ouvir. — ... deixa o idoso e adoentado marido no campo e vem para a cidade a cada temporada. Ao que dizem, o velhote está praticamente em seu leito de morte... E parece que ela cativou mesmo Eastmore, primeiro como seu amante oficial deste ano... depois, quem sabe, como substituto do velho Sinclair, quando tiver esvaziado seus cofres. — Ellington, é o bastante! — avisou o visconde de Ottobon. Quando Thomas se despediu da ruiva e tornou a se reunir ao grupo, Amanda fez questão de encará-lo, despejando-lhe com um único olhar faiscante toda a sua desaprovação. Não pôde deixar de se sentir furiosa. E pensar que chegara mesmo a se sentir gratificada por tê-la trazido até ali, para suportar a companhia do detestável Ellington e, assim, colocar panos quentes no desentendimento entre ambos. Pois sim! Agora não toleraria mais aquela hipocrisia. De repente, toda sua fúria voltou-se para a língua ferina do homenzinho. Não bastara ver o duque se desmanchando em galantes sorrisos com sua leviana ruiva bem diante de seus olhos e ainda tivera que tolerar as alfinetadas do outro! — Sabe, lorde Ellington — disse-lhe ela com incontrolável sarcasmo —, acho que tem uma língua grande demais para o seu tamanho. Se eu fosse um homem, não hesitaria em lhe dar outra lição e... — Srta. Victor, acho melhor levá-la para casa — interrompeu-a Thomas, antecipando a nova discussão. — Pois acho que descobri uma ótima maneira de acertarmos nossas diferenças! — revidou Ellington: — Já que adora se vangloriar de seus cavalos, eu a desafio a uma corrida! O meu garanhão baio contra o seu preto! Mil libras de aposta e o vencedor também fica com o cavalo do perdedor. — Já é o bastante! — disse o duque. — Vocês parecem duas crianças. — Lewis, leve Ellington daqui, enquanto acompanho a srta. Victor. — Essa não é uma aposta justa — declarou Amanda, com frieza — Uma que sabe que não posso aceitar. Pois não tenho dinheiro para isso! É mesmo um ser humano pequeno em vários aspectos, Ellington. Alfred praguejou de raiva, lutando contra as rédeas numa tentativa inútil para tirá-las das mãos de Ottobon. Alguns curiosos começaram a se juntar por perto. — Já basta! Estão dando um espetáculo. E você, Ellington, estou lhe avisando para não insultar a senhorita, se não quer ficar com o outro olho roxo! — A voz de Thomas soava baixa e fria, tentando pôr um fim ao desentendimento antes que a notícia se espalhasse por todo o parque, estragando seus planos de evitar falatórios. — Quanto a você, srta. Victor, acho que já o desafiou o bastante, não? Lançando um olhar faiscante para o duque, ela manteve um tom educado que destoava de sua expressão furiosa; uma atitude que não o surpreendeu nem um pouco. — Perdoe-me, Sua Graça, por meu lamentável comportamento — disse, irônica e altiva. — Deixo-o com seu amigo bufão, uma vez que não acho nenhum de vocês dois dignos de minha companhia. Tenham um bom dia! Lorde Ottobon, minhas desculpas.


Com essas palavras graciosas e com o máximo de dignidade que sua raiva lhe permitiu, Amanda afastou-se do grupo e cavalgou em Victoire, com Jamie Deal logo no encalço. Alfred fez a mesma retirada abrupta, galopando na direção oposta. Lewis sacudiu a cabeça, com um inevitável sorriso. — Puxa, a srta. Victor é mesmo imbatível. Mas que temperamento! Está bem, Eastmore, agora me conte o que há entre vocês dois. — Da minha parte, apenas preocupação por uma donzela desprotegida que parece insistir em querer destruir sua boa reputação a cada instante. — Thomas começou a trotar em sua montaria em direção ao clube. — Duvido! — Lewis logo o alcançou. — Está mentindo, meu caro! A linda e geniosa jovem cativou seu coração, não é mesmo? — Não me aborreça, Ottobon. Minha raiva já foi provocada demais durante está tarde. Lewis ergueu uma sobrancelha e estudou o amigo por alguns segundos antes de desatar numa gargalhada. — Como eu suspeitava, Eastmore! Você está caído por ela! Confesse. — Ottobon... — Thomas tentou manter a exasperação, mas, apesar de toda a contrariedade, acabou rindo com o amigo. Estava mesmo irremediavelmente enfeitiçado por uma certa diabinha geniosa... e a perspectiva não lhe parecia tão má.

DEZESSEIS

As especulações acerca de um incidente que ninguém vira, mas sobre o qual todos tinham ouvido falar, dissiparam-se rapidamente. Afinal, todo mundo ouviu uma versão diferente do ocorrido e quaisquer perguntas foram recebidas com alegações de desconhecimento do assunto ou negativas veementes por parte do estranhamente machucado Lorde Ellington. Claro, ninguém teve a audácia de tentar se aproximar de Amanda para descobrir algo sobre o episódio do chicote... exceto a tia, e esta acabou endossando, de pés juntos, as negativas da sobrinha. Mas, de qualquer forma, os falatórios trouxeram a jovem beldade de cabelos negros ao centro das atenções. Embora nunca tivesse sido considerado de bom tom falar sobre uma lady na sociedade, parecia que o assunto sobre a coragem de Amanda Victor era abordado em qualquer outro lugar pelos jovens, em especial no clube de hipismo. Alguns, inclusive, descobriram, da forma mais intimidante, que quaisquer falatórios sobre ela não eram tolerados pelo duque de Eastmore. Lewis também tomou o partido dela prontamente. Ficou evidente pelo concorrido cartão de dança de Amanda, pelos inúmeros visitantes ilustres que surgiam em Vicroy House com convites para jantares, teatros e festas que havia se tornado a jovem mais popular da temporada, mesmo endividada como estava.


Também foi notado e amplamente discutido que várias danças eram sempre reservadas ao tímido Lorde Compton. Mas para Amanda tamanha popularidade não significava nada. Todos aqueles eventos sociais obrigando-a a dormir de madrugada, as manhãs acordando bem tarde para recuperar o sono e tornar tais noites suportáveis, a pompa excessiva, a formalidade... enfim, tudo aquilo estava desgastando sua natural vitalidade. Ela precisava desesperadamente de uma pausa, mas conforme Lady Adair lhe avisou, saindo de cena, logo seria esquecida. Assim, devia continuar empenhada em seu objetivo. Para seu alívio, as cartas do sr. Vandevilt haviam cessado, uma vez que devia ter percebido que pressão adicional no presente momento não resolveria nada. Se bem que ela sabia que se não pudesse lhe mandar notícias positivas logo sobre a perspectiva de um bom casamento, certamente as cartas recomeçariam. Nas raras vezes em que Amanda avistava o duque de Eastmore em algum evento, estava quase sempre de braço dado com a exuberante Louise Sinclair. E parecia que a havia interpretado literalmente quando, na discussão do parque, Amanda dispensara de vez a sua companhia. Com remorsos, imaginava que a interrupção na amizade de ambos seria definitiva. Era evidente que desta vez seu comportamento fora tão deplorável, que Thomas não pudera desculpá-la. Inúmeras vezes, recriminou a si mesma por ter causado cena tão desagradável no parque, após os vários esforços do duque para que o episódio na casa de jogo não se espalhasse. De qualquer forma, não deixava de culpá-lo por tê-la obrigado a passear a cavalo com o detestável Ellington bem no dia seguinte! Sem mencionar a ligação indecorosa com a tal ruiva! Pois Thomas que evitasse a sua companhia à vontade! Embora ela lamentasse perder um amigo de quem precisasse tanto, achava-o desconcertante demais para tê-lo por perto. Devia ter seguido sua intuição, sempre a alertá-la que aquele não era homem em quem pudesse confiar... talvez nem mesmo como amigo. Era o responsável por lhe evocar emoções fortes demais... emoções com as quais não sabia lidar. Amanda decidira levar adiante os planos para conquistar Barnaby, julgando-o de fato o candidato mais adequado a seu marido. O problema era que, com a excessiva insegurança e timidez do rapaz, ficou provado que ela teria que lhe dar um pouco de tempo e conduzi-lo com extrema paciência a fim de alcançar seus objetivos. O jantar para o qual haviam sido convidadas no Castelo de Compton, situado a duas horas de Londres, mostrou-se dos mais cansativos. Amanda teve que se desdobrar em tolerar as indelicadezas da anfitriã, enquanto refletia sobre uma forma de persuadir o rapaz a se soltar um pouquinho das rédeas da autoritária mãe. Estava disposta a aceitar uma proposta de imediato se Barnaby prometesse deixar a mãe no castelo para morar com ela em Victor Mall quando se casassem. Mas, durante todo o jantar, Barnaby mal proferiu duas ou três palavras, sendo a maioria das perguntas que Amanda lhe dirigiu, respondidas pela exasperante Lady Compton. Ficava evidente que a mulher ansiava por casar o patético filho com alguém que o aceitasse. Entretanto, ao mesmo tempo, fazia insinuações a respeito da situação dos Victor, como se Amanda não estivesse a altura do rapaz, mas ele, de qualquer forma, estivesse disposto a desposá-la.


Enfim, após o jantar, a mãe praticamente empurrou Barnaby para que fosse mostrar sua coleção de borboletas a ela e, com imenso alívio, Amanda deixou a sala de jantar. Aborrecidas, Lady Lillian e Lady Adair permaneceram na companhia da altiva Ernestine Compton, para um chá no salão principal. Amanda ficou desapontada em ver tantas belas borboletas sem vida, apenas para o entretenimento do retraído rapaz. Após um prolongado silêncio, Barnaby pigarreou, despertando-a dos pensamentos. Tirou uma caixinha do bolso, as mãos tremendo. — Srta. Victor, eu... q-quero pedir-lhe... O que quero dizer é... — Ele abriu a caixinha, revelando um grande anel de rubis e diamantes. — Aceitaria este presente como símbolo do nosso... hã, noivado? Ela olhou para o anel com os pensamentos em turbilhão. Ali estava o momento pelo qual esperara. Enfim, a proposta que jurara a si mesma que aceitaria. Virando-se de repente para olhar pela janela do sombrio castelo, ela tentou lutar contra a urgência de inventar alguma desculpa e pedir tempo para pensar. Qualquer coisa para adiar a decisão que determinaria o resto da sua vida. — É uma grande lisonja, Lorde Compton. Fico satisfeita com o fato de achar que sou a esposa adequada para você. — P-Passei a pensar em você se tornando no futuro uma das minhas inestimáveis posses, srta. Victor. V-vou colocá-la num pedestal e venerá-la para o resto da minha vida. Será para mim como uma obra-prima viva. — É dessa forma que me vê? — Ela pensou nas pobres borboletas... veneradas, também. Inertes, apenas parecendo tão belas e cheias de vida... mas mortas! — S-sim, é c-claro... Amanda respirou fundo, tentando reprimir a súbita desolação que oprimia seu peito. — Barnaby, se nos casássemos, poderíamos morar em Victor Mall e deixar sua mãe vivendo aqui? Sabe, estaríamos sozinhos, lá... Eu poderia cavalgar e reconstruir meus estábulos, enquanto você se dedicasse à sua coleção de borboletas... — M-Minha mãe não iria gostar disso. Ela já disse que... que se nos casarmos, teremos que morar aqui no castelo — declarou ele. Sua voz continha uma ponta de pânico ante a mera possibilidade de enfrentar a mãe com tal sugestão. Amanda se condoeu da expressão do rapaz. Era tão vulnerável. Um casamento entre ambos poderia representar a liberdade dele também. Mas também podia ver que Barnaby não faria nada para ganhar essa liberdade sem séria persuasão. Tomou-lhe uma das mãos magras entre as suas. — Me diga, não gostaria de estar... sozinho comigo no futuro? Ela afagou-lhe a mão, e o rapaz ficou vermelho e ainda mais nervoso. — Oh, s-sim, eu gostaria muito! — De repente, ele parecia mais determinado. Num gesto um tanto compulsivo, estendeu-lhe outra vez a caixinha com o anel. — Não ainda. É... muito cedo. Talvez depois que a temporada tiver terminado. — M-Minha mãe quer que nos casemos no final deste ano, no Natal.


— Sim... sim, talvez no Natal. Poderíamos fazer uma festa na ocasião e anunciar o nosso noivado. — Não, o casamento! — insistiu ele, tornando a lhe oferecer o anel. Amanda soltou-lhe a mão, baixando as suas. Aceitar o anel tornaria a situação definitiva e, de repente, não se sentia preparada para aquele passo mais sério. Seria algo decisivo demais para tantas coisas ainda não resolvidas. Ainda tinha que obter a declaração de independência da parte dele, o que ela mais precisava antes de aceitar sua proposta. — O trajeto de volta a Londres é longo, e acho melhor irmos partindo. Por favor, pense no que eu lhe disse e fale com sua mãe. Se pudermos viver em Victor Mall, só nós dois, eu lhe darei minha mão... e meu coração... em casamento. Mas não de outra maneira, você compreende? — Ela o fitou com intensos olhos azuis, fazendo-o ficar como que embevecido por sua beleza. — Teremos um grandioso casamento no Natal... E, depois, poderemos ficar sozinhos em Victor Mal. Seremos livres... realmente livres! — S-Sim... Acho que seria bom, s-só nós dois. P-prometo falar com e-ela. Desta vez, ele atreveu-se a segurar a mão que ela lhe estendeu, depositando-lhe um beijo hesitante. Amanda não pôde deixar de pensar que o rapaz era como um bichinho de estimação, fácil de ser treinado. Sabia que Barnaby nunca seria forte o bastante para enfrentar a mãe sozinho. Mas ela teria uma arma para rebater qualquer poder que a dominadora Lady Compton exercesse sobre o filho. A promessa de seus encantos femininos! E não hesitaria em tê-lo na palma de sua mão se isso significasse a salvação de Victor Mall. Por alguns momentos, não deixou de se sentir péssima por usá-lo daquela maneira, afinal Barnaby não era mau. Mas logo tratou de afastar o peso na consciência, pois se a situação corresse a seu favor, planejava ser uma boa esposa para ele e uma mãe devotada a seus filhos. No longo percurso de volta a Londres, longe do castelo sombrio, indesejáveis pensamentos povoaram-lhe a mente. Amanda olhou para sua própria mão com uma expressão desolada. Era impossível não pensar na diferença dos beijos voluptuosos de Thomas e no hesitante de Barnaby...

DEZESSETE

Era início de manhã. Uma pálida luminosidade tentava valentemente brilhar sobre o leste. Mas nenhum raio de sol conseguiria penetrar pelas grossas nuvens que carregavam o céu; assim, a pouca luz cinzenta dava um ar desolado ao dia. Uma chuva constante caía, e Thomas apressou o trote de sua égua castanha pela St. James Street. Voltava para casa sentindo-se estranhamente insatisfeito após a noite memorável, se não agradável, que passara com a voluptuosa Lady Sinclair. Planejava atravessar o St. James Park em direção à sua mansão seca e aquecida, em Pall Mall. O clima frio e úmido da Inglaterra era a única coisa à qual duvidava que algum dia iria se acostumar. Em dias como aquele ansiava pelo sol


tórrido do Oriente Médio. Nem mesmo a cartola e o pesado sobretudo impediam que a chuva fina lhe gelasse os ossos. O frio e a aborrecida conversa com Louise naquela manhã, quando ele decidira pôr um fim ao relacionamento de ambos, deixavam-no de péssimo humor. A primeira luz do dia ainda o encontrara entre os lençóis de Lady Sinclair e o despertara para aquela imensa insatisfação. Era uma sensação de vazio... uma gradativa conscientização de que, em sua vida, queria muito mais de uma mulher do que o mero prazer físico, que satisfazia momentaneamente, mas que não contribuía em nada para preencher aquela necessidade que surgia em seu íntimo. Também percebera que fora a parte menos admirável de seu caráter que se deixara atrair por Louise. Um lado de si mesmo do qual se orgulhava cada vez menos. De repente, um cavalo veloz chamou sua atenção, despertando-o dos pensamentos. Passou numa travessa mais a frente, galopando em direção ao St. James Park. Como viera da direção de Grosvenor Square, algo lhe disse que conhecia a identidade do suposto cavaleiro... Esquecendo-se do frio e de seu humor sombrio por completo, um inesperado sorriso a iluminar-lhe o semblante, Thomas colocou-se na "perseguição". Seguiu pelo passeio principal do parque e logo tornou a avistar o cavalo. Sim, era Black Victory... O cavaleiro havia diminuído o galope e agora trotava graciosamente, parecendo se divertir com a chuva. Thomas colocou mais velocidade na égua castanha até se aproximar o bastante por entre um arvoredo. Apesar de masculinas, as roupas molhadas colando-se a curvas perfeitas logo lhe deram a certeza de quem se tratava. — Amanda... Sem saber que estava sendo observada, ela tirou o chapéu e deixou seus longos cabelos negros cascatearem pelas costas. Abriu os braços e ergueu o rosto para a chuva, rindo como uma menina. Fascinado, Thomas continuou contemplando o belo par sem revelar sua presença. Como admirava a exuberância dela pela vida. Que mulher-criança mais adorável! Ansiava tanto por compartilhar daquela natureza apaixonante de Amanda... por saber apreciar as alegrias da vida encontradas nos mais simples dos prazeres como ela fazia. Que outra mulher que conhecia, ou conhecera em toda a sua vida, se levantaria ao nascer do dia para saudar com entusiasmo a chuva da manhã? Nenhuma, claro. Certamente não a frívola dama, a quem ele acabara de deixar aninhada em lençóis de cetim. Ele comparou a pulseira de diamantes, o presente de despedida com o qual adornara o pulso da gananciosa sedutora ruiva da noite anterior, com a pureza e o frescor das brincadeiras de Amanda sob a chuva. Descobriu que os diamantes não tinham tanto brilho. A alegria quase infantil dela mudou por completo a idéia que Thomas fazia da chuva e do frio. Talvez fosse por essa pureza... pela sinceridade das emoções que Amanda parecia possuir que ele estivera ansiando; como um homem buscando um oásis no deserto escaldante. Decidiu se aproximar antes que ela retomasse o galope. — Está chovendo — disse-lhe, ao sair detrás do arvoredo. — Já pensou se fosse alguém menos discreto do que eu a presenciar suas travessuras?


— A chuva só aumenta minha disposição. — Ela ficou surpresa em vê-lo, embora procurando manter-se impassível. — Mas já está preparando um novo sermão sobre meu comportamento deplorável por me flagrar aqui, Sua Graça? — Achei que usaríamos de menos formalidade quando a ocasião permitisse. — Reservo esse direito aos meus amigos. E você não se mostrou um amigo confiável. — Amanda sustentou-lhe o olhar, seu lábio inferior um tanto trêmulo. Não fora assim que imaginara a primeira conversa de ambos depois de todo aquele tempo. Por que ele sempre tinha que provocá-la? No momento, sua existência já se achava confusa o bastante para incluir alguém que insistia em enumerar suas falhas, não importando o quanto desejasse têlo em sua vida. — Eu havia entendido que o papel que havia me reservado era o de conselheiro e professor — declarou ele, insatisfeito com o rumo da conversa. Não tinha intenção de discutir com sua gata arisca nessa manhã, como sempre acabava acontecendo. — Papel do qual logo se esqueceu, Sua Graça. Já tive mostras de suas lições e seria uma tola se permitisse que me instruísse mais! — Você torna difícil que a trate de outra forma. — A raiva de Thomas crescia ante a intransigência dela. — Você é teimosa e mimada, mas alguém tem que ajudá-la a fisgar um marido antes que você se arruíne com esse seu comportamento genioso. — Eu lhe garanto, Lorde Eastmore, que tal ajuda não lhe será mais solicitada. Acabei de receber uma proposta concreta e admirável de Lorde Barnaby J. Compton. E estou pensando seriamente em aceitá-la! — Compton? — repetiu Thomas, atônito. — E ficar sob o domínio daquela arrogante e controladora mãe dele? Posso lhe assegurar que ela não vai permitir que você fique brincando na chuva com seu grande cavalo negro. Nem vai aprovar que desfile por aí em calças compridas! — Não tenha dúvida de que serei eu a controlar o meu marido, não a mãe dele! — retrucou ela, lutando contra as lágrimas. — Além do mais, não é da sua conta. Agora, com licença. Já estragou o meu passeio matinal, obrigada! Amanda saiu a pleno galope no garanhão preto, desaparecendo por entre os arvoredos. — Compton! — exclamou o duque, entre dentes. Começou a trotar devagar na direção de casa, ignorando a chuva copiosa. — É um crime desperdiçar uma jovem tão vibrante e cheia de vida com aquela mosca-morta! Thomas estivera se mantendo afastado, dando algum tempo a ela para se recobrar da raiva antes de continuar a cortejá-la, mas ao que parecia havia esperado demais. Se ao menos ambos não produzissem tantas faíscas a cada vez que se encontravam... E o que havia consigo mesmo? Sempre parecia atirar na cara de Amanda as exatas coisas que mais gostava nela. Seu constante desdém às frívolas convenções... e aquela estimulante espontaneidade. Fora um tolo em se manter afastado... Afinal, ela pensava que precisava continuar correndo contra o tempo para achar um marido e liquidar as dívidas do pai.


Mas agora agiria depressa! Antes que a jovem decidisse se entregar de bandeja para o filhinho da mamãe num absurdo casamento... e a acabasse perdendo para sempre. Amanda cavalgara diretamente para casa e se recolhera ao quarto pelo resto da manhã. Estava tão farta de continuar negando a si mesma o que lhe suplicava seu coração... Não, não estava pensando em Thomas Eastmore, assegurou a si mesma. Estava com saudades de Victor Mall e mal podia esperar para retomar sua vida no campo. Era por isso que ansiava... Algo que a afastasse de uma vez daquela cidade e todos os dissabores que já enfrentara. Fazia um mês desde a noite em que jantara no castelo de Compton, quando impusera suas condições a Barnaby, para poder aceitar a proposta de casamento. Mas não obtivera nenhuma resposta. Alguns vagos comentários haviam sido feitos sobre a ausência da cáustica viúva e de seu obediente filho nos eventos sociais dos últimos trinta dias, embora ninguém lhes sentisse a falta. Amanda podia imaginar Ernestine Compton trancando o filho em algum calabouço do sombrio castelo, a pão e água, por ter se atrevido a sequer sugerir que desejava viver longe, em Victor Mall com sua futura esposa. Ou seja, caso o rapaz houvesse tido a coragem para tocar no assunto... Era provável que depois que ela e sua sedutora beleza haviam saído do raio de visão do pobre Barnaby, a velha bruxa conseguira exercer seu poder sobre ele outra vez. Bem, não era exatamente como se estivesse sem pretendentes. Na verdade, contando com a proposta de Compton, onze lordes já haviam pedido sua mão em casamento naquela temporada, inclusive o visconde de Ottobon, há poucos dias. O problema era que nenhum se adequava a seus planos. Uma parte deles não dispunha da fortuna necessária para salvar Victor Mall; outros simplesmente não haviam lhe despertado a menor simpatia e outros ainda, como Lorde Ottobon, sem dúvida continuariam se dedicando à dupla vida boêmia na cidade com a qual ela não desejava competir. Felizmente, Lewis compreendera, concordando em continuar sendo apenas seu amigo, a quem tinha na mais alta estima. E ainda houvera aquela primeira proposta de Eastmore... Não, não queria pensar naquele homem! Ele já provara não lhe ser de nenhuma ajuda e só sabia enumerar seus defeitos! O arrogante duque que fizesse bom proveito com sua amante ruiva. O melhor era que se mantivesse mesmo longe de sua vida... Não precisava dele, nem mesmo como amigo!

DEZOITO

O mês de setembro ainda encontrava abandonado o pequeno jardim atrás de Vicroy House. As plantas mais teimosas desabrochavam com suas pequeninas flores desoladas, embora competindo por luz solar e espaço com mato e ervas daninha. As que conseguiam florescer misturavam suas fragrâncias a da macieira, perfumando o ar ainda frio. Amanda adquirira o hábito de vaguear por ali, buscando privacidade sempre que sentia a necessidade de escapar. As regras da alta sociedade eram tão rígidas, tão sufocantes... E para uma jovem


acostumada a passar tanto tempo sozinha, sua nova vida movimentada tornara-se uma tortura. Como ansiava pela serenidade do campo, pela colorida beleza da primavera. Agora, numa tentativa de abrandar a terrível inquietação que a invadia, incumbia-se da tarefa de cuidar um pouco do jardim tão negligenciado. Lady Adair repousava num banco, à sombra da macieira. Franziu o cenho enquanto observava a sobrinha ajoelhada junto ao jardim, as mãos enluvadas arrancando as ervas daninhas numa espécie de fúria. Estava preocupada com a jovem, mas ainda não conseguira discernir a fonte de tal preocupação. Vinha percebendo que havia algo diferente em Amanda ultimamente. Não fora apenas a mudança do campo para a cidade que obviamente a entristecera, tirando-lhe parte da costumeira energia e entusiasmo. Havia algo mais recente incomodando sua sobrinha. O problema era que Lady Adair não fazia a menor idéia do que poderia ser. E a jovem não parecia muito propensa a confidências nos últimos tempos. — Você está torcendo e arrancando esse mato com a raiva de quem estrangula alguém, menina! — Nem me dei conta... — respondeu Amanda, com um profundo suspiro. — Por que não sai um pouco desse sol e vem sentar aqui ao meu lado? Ela deu de ombros em resignação e retirou as luvas de jardinagem, sentando-se ao lado da tia. Pareceu pensativa por alguns momentos e, então, explodiu: — Oh, essa temporada está me esgotando! E tudo tão rígido e formal... — A sociedade é sempre formal, mas há o seu lado divertido. O problema é que você está sob muita pressão para conseguir desfrutar dos bailes e dos outros eventos. — Aliás, estou mesmo querendo lhe falar... — Amanda baixou o olhar para as mãos. — Receio que eu esteja sendo um fracasso e desapontando você... Quero dizer, apesar de todo o seu empenho para me ajudar, já rejeitei tantas propostas e... — Bobagem, querida. Você tem feito um enorme sucesso. Procure não se preocupar. Tenho certeza que Lorde Compton virá procurá-la. O rapaz está encantando com você. — Já faz tanto tempo que eu o pressionei a aceitar meus termos para que vivêssemos em Victor Mall se nos casássemos. Duvido que a mãe o deixe sair de debaixo de suas asas novamente. — Pois tenho certeza que tornaremos a ver os Compton muito em breve. Aposto que não deixarão de comparecer ao baile de aniversário da princesa Vitória. Sem dúvida, você terá a resposta dele lá. — Talvez fosse mais fácil eu aceitar uma das propostas que recebi de algum dos mais abastados. Na maioria são mulherengos, mas, quem sabe, eu não conseguiria pôr algum na linha. — Deixemos essa possibilidade de lado por enquanto. Acho que ainda não precisa apelar. — Lady Adair fez uma pausa, estudando a sobrinha com atenção. — A menos que você tenha desenvolvido um interesse especial por alguém... A fisionomia de Amanda se alterou, mas logo procurou mantê-la serena. O duque de Eastmore veio-lhe instantaneamente aos pensamentos. Sim! Havia desenvolvido um interesse especial por alguém. Não havia mais como negar. Alguém que ela queria... precisava... e desejava acima de qualquer outra coisa. Mas ainda assim, também queria,


precisava e desejava que ele fosse um tipo bem diferente de homem daquele que aparentemente era. Assim, como podia admitir um interesse por alguém que não correspondia a uma parcela importante de suas expectativas? A situação era desoladora demais para que a analisasse... quanto mais para tentar explicá-la à tia Addie! — Não se trata disso. Simplesmente não vejo a hora que isto acabe. É que me sinto como se estivesse sendo levada pelas circunstâncias e contra minha vontade a tomar a decisão mais importante da minha vida. E eu que nem pensava em me casar tão cedo! — Ela fitou a tia com um quê de melancólico no olhar. — Você não acha que, dada a escolha, seria bem mais gratificante amar o homem com quem se vai compartilhar dos detalhes mais íntimos da vida? — Claro, minha querida. Mas, como já lhe expliquei, nem sempre se consegue conciliar tudo. Você se pergunta, como encontrar o marido adequado? Comparando gostos, afinidades, fortunas e personalidades... equilibrando todas essas coisas. Vou lhe dar um exemplo. Seu pai se casou com sua mãe por amor. E o amor de ambos durou até a que trágica realidade interferiu. Após a morte da segunda filha de ambos, sua irmã, Lillian se desligou de tudo, recusando-se a tomar parte nos compromissos sociais com seu pai em Londres. Ela já havia se refugiado no campo desde então. E juro, se na época seu pai não fosse passar algumas temporadas em Victor Mall, Sheldon e você nem teriam nascido... — Tia Addie! Você é impossível! — Amanda, ao contrário de sua mãe, você é muito forte. E a menos que consiga encontrar um homem com incrível força de caráter e uma generosa capacidade para o amor e a devoção, é melhor você se casar com alguém emocionalmente dependente como Barnaby. Amanda assentiu, sabendo que seria o mais sensato. Mas em seu íntimo, não conseguia deixar de ansiar por algo mais. Outra vez, a imagem de Thomas povoou-lhe a mente... pensou em seu sorriso iluminando-lhe o rosto bonito e bronzeado, na cumplicidade e no companheirismo que existira entre ambos nas ocasiões em que haviam rido e conversado. Mas esses eram sonhos impossíveis... Afinal, mais doloroso do que uma existência tediosa ao lado de um marido a quem não amasse seria o ato de entregar seu coração a um homem que não pudesse lhe dar o dele em troca, por inteiro.

DEZENOVE

O Palácio de Kensington cintilava com suas luzes brilhantes na noite do baile de aniversário da princesa Vitória. Centenas de carruagens enfileiravam-se na alameda de acesso, aguardando para deixarem à porta os lordes e ladies elegantemente trajados. Duas tediosas horas se passaram até que a carruagem da família Victor se emparelhasse com as imponentes escadarias do palácio. Amanda pensou que teria sido muito mais simples se tivessem descido antes e caminhado pela pequena distância, mas absteve-se de qualquer


comentário. Com certeza, as senhoras teriam ficado horrorizadas ante tal idéia. Assim, conteve sua impaciência o melhor que pôde. Por solicitação de Lady Lillian, o atencioso Lorde Melton era o acompanhante delas naquela noite, acrescentando ainda mais dignidade ao pequeno grupo. Observando sua mãe agora, lançando olhares furtivos para o lorde por detrás de seu leque, Amanda esboçou um sorriso divertido. Parecia que a senhora iria ter um noivado para anunciar antes da própria filha... Vários salões e saletas, interligados ao opulento salão principal por amplas passagens, estavam abertos para o baile. Em cada salão havia uma orquestra, e milhares de velas distribuídas pelos magníficos lustres de cristal refletiam-se nos espelhos que adornavam as paredes, dando ao lugar uma incrível luminosidade. A multidão era imensa, e Amanda sentiu-se desconcertada quando lhe pareceu que cada rosto se voltou para a entrada no momento em que seus nomes foram anunciados. Mas das três, ela foi a única a se sentir pouco à vontade. Lady Lillian adiantou-se orgulhosamente em seu vestido novo de tafetá bronze e negro, acompanhada pelo distinto Lorde Melton. A cabeça de Lady Adair ergueu-se com altivez enquanto parecia flutuar pelos degraus da escadaria em seu luxuoso vestido azul. Amanda acompanhou-a, a saia longa de seda de seu vestido salmão ondulando e sobrepondo várias camadas de tule. A parte de cima era rebordada com discretos fios dourados, seu colo adornado por um belo colar de família em ouro e brilhantes. Admiradores circundaram Amanda como abelhas num pote de mel, e logo seu cartão de dança foi preenchido com os melhores partidos. Para desapontamento geral, ela preferiu deixar as valsas em aberto, para o caso de Barnaby aparecer. E, embora não querendo admitir, não pode evitar que seus olhos corressem constantemente pela multidão, a procura de um par de ombros largos em especial, sobre os quais ela gostaria de apoiar suas mãos ao menos durante uma dessas valsas. Conforme as horas do baile foram avançando, com um parceiro de dança mais charmoso do que outro para sua sobrinha, Lady Adair deixou-a na companhia de Lady Lillian e retirou-se para uma sala anexa com um grupo de amigas. Lá haviam sido distribuídas mesas para inocentes jogos de cartas, para entretenimento dos convidados que não desejassem dançar. Até a primeira etapa de valsas, Amanda ainda não avistara Barnaby e já começava a perder suas esperanças de uma resposta às condições que lhe impusera. Para seu maior desagrado, Lorde Freddy Portsmythe tirou-a para dançar, obtendo um assentimento de sua distraída mãe. O obeso homem transpirava sem parar e parecia um tanto alcoolizado. Em pleno salão, começou a ser inconveniente, implorando por sua mão em casamento ali mesmo. Amanda recusou da forma mais graciosa que lhe foi possível e foi com imenso alívio que viu o duque de Eastmore se aproximando. Mais uma vez salvou-a do desagradável Portsmythe com toda a classe. — Bem, creio que esteja lhe devendo mais essa, Sua Graça — disse-lhe Amanda, com uma ponta de ironia, enquanto começava a ser conduzida em seus braços fortes. — Parece que adora atrair problemas, senhorita. Lá vinha aquele homem de novo com as censuras, pensou, contrariada.


— Pois não precisa se sentir obrigado a me salvar de todas as situações. Não quero lhe representar esse fardo! — Exasperada, ela libertou-se dos braços de Thomas antes que a valsa terminasse. O salão estava apinhado e a custo foi conseguindo abrir caminho entre os casais. Olhando para trás, achou que conseguira despistar Eastmore na multidão. Mas em vez de voltar para o sofá onde deixara a mãe e correr o risco de ser obrigada a dançar com mais algum admirador, deteve-se diante de amplas portas-janelas que conduziam a um dos vários terraços. Ansiando por alguns momentos de solidão, decidiu sair para o ar fresco da noite. Fechou as portas-janelas com suavidade atrás de si. Aproximou-se de um canto escuro do terraço e recostou-se na mureta. Observou a lua cheia, o céu estrelado, o amplo jardim abaixo. Respirou fundo, o ar refrescante clareando um pouco sua mente. Mas, ainda assim, as têmporas latejavam e sentia-se tão confusa. Tinha que saber ao certo quais eram os seus sentimentos por Eastmore. E se essa espécie de atração pelo irritante homem fosse verdadeiro amor? E se recusando sua proposta, sendo intransigente com ele, ela possivelmente o tivesse perdido para sempre? Mas estaria disposta a enveredar por um casamento onde ele lhe jogaria seu amor de volta na cara a toda hora, através de ligações com outras mulheres? Não! Pois se Thomas agisse assim, com certeza acabaria por odiá-lo... e amar e odiar ao mesmo tempo seria insuportável. As portas-janelas se abriram, sobressaltando-a. Depois de fechá-las, um homem alto e forte se aproximou pelo terraço. Embora estando escuro ali, não foi difícil reconhecê-lo por seu porte confiante. — Achei que isto lhe faria bem. — Thomas entregou-lhe uma taça de champanhe. — Como me encontrou aqui? — Do meio da multidão, avistei você saindo. Como achei mesmo que um intervalo viria a calhar e como não é recomendável que esteja aqui sozinha... — E estou mais segura com você aqui, Sua Graça? — O revide dela foi respondido com um ligeiro riso, como Uma recusa dele em entrarem numa nova batalha verbal. — Está cansada de dançar? — Estou cansada de ficar em exibição, sendo conduzida pelo salão por homens que não podem fazer nada para salvar Victor Mall, mas adoro valsas. — Ela sorveu um pouco do champanhe. — Está me fazendo quebrar uma das regras da minha tia, sabe. Só tenho permissão para uma taça por baile, e esta é a minha segunda. Amanda sorveu mais um gole e sorriu. De repente, o champanhe estava maravilhoso; fazia com que se sentisse alegre, eufórica. Os acordes da música chegavam até o terraço através das portas-janelas fechadas; mágicos e convidativos... uma valsa. — É sempre você quem ignora as convenções, se bem me lembro. Gostaria de dançar? — Pegando-lhe a taça da mão com gentileza, Thomas depositou-a na mureta. Em seguida, estreitou Amanda em seus braços, sem esperar por uma resposta. Ela sentiu o calor do corpo dele, a fragrância de sua colônia amadeirada invadindo-lhe os sentidos. — Oh, não, por favor! Preciso voltar ao salão. — Mas seu protesto soou fraco.


— Aqui temos a pista toda para nós. — Já não está mais preocupado com a minha reputação, Sua Graça? — Ninguém pode nos ver aqui. E é improvável que alguém saia para este terraço. Amanda tinha que admitir que não queria se afastar daqueles braços. Lançando um último olhar para as portas-janelas iluminadas, entregou-se à magia da música, deixando-se conduzir ao ritmo romântico da valsa. Era algo insensato a fazer, mas se permitiria mais aquela última dança nos braços do duque de Eastmore e depois teria que esquecê-lo para sempre. Para sua própria sanidade, devia apagá-lo de seus pensamentos e de seu coração, pois não era o homem certo para ela. Uma inevitável lágrima rolou por sua face, enquanto Thomas continuava a conduzi-la pelo terraço. Enfim, a valsa terminou. Ele parou, mas não a soltou. Fitou-a com incrível intensidade, apenas o brilho de seus olhos castanhos-claros evidenciando-se na escuridão do terraço, em seu rosto másculo e bonito refletindo-se os raios de luar. Ela sentia-lhe ainda o calor do corpo, seus seios arfantes roçando-lhe o peito musculoso. Quando a música recomeçou, fez apenas menção de entrar, mas o sussurro de Thomas a fez permanecer imóvel, seu hálito quente tocando-lhe a face como numa sedutora carícia. — Não me deixe. — Preciso voltar ao salão. — Mas Amanda ainda não se moveu. O duque pousou a mão em suas costas delicadas, puxando-a mais para si. Foi inclinando a cabeça devagar, até que lhe roçou os lábios com os seus. Ela sabia que devia ter tentado se desvencilhar, mas era impossível resistir. O beijo era doce, como os primeiros que haviam trocado. Perdendo o medo de serem flagrados, Amanda entreabriu seus lábios, permitindo que a língua cálida invadisse sua boca numa lânguida exploração. Entregando-se às sensações tão abrasadoras, ela o abraçou pela cintura, estreitando-se mais de encontro ao corpo forte, sucumbindo por completo aos lábios que se apoderavam dos seus. Nem teve forças para resistir quando a mão forte deixou sua face, deslizando numa trilha de fogo por sua garganta, até se deter num dos seios. Quando ele encontrou o mamilo rijo sob o decote acentuado do vestido, afagando-o com todo o vagar, Amanda não pôde conter um suspiro de prazer. — Amanda, meu amor, fique comigo — sussurrou-lhe o duque de encontro aos lábios. — Diga que sim... Ela não conseguia pensar com clareza. Todo seu ser queria aquele homem. Se tal sentimento fervoroso era mesmo amor, então era bem-vindo... com a mesma vontade que recebia o toque de Thomas, que estimulava seu corpo, despertando-lhe tantas exigentes sensações. Viveria um dia de cada vez e enfrentaria os problemas que sabia estarem no futuro de ambos quando estes viessem. Pois nada podia tirá-la dos braços dele no momento. Ou assim pensou. Conduzindo-a para o canto mais escuro do terraço, Thomas recostou-a na parede, seu corpo forte protegendo-a de qualquer vestígio de luz proveniente do salão. Tornou a beijarlhe os lábios com ardor. Depois baixou-lhe a frente do vestido salmão, expondo-lhe os seios. Os mamilos pareceram-lhe deliciosamente convidativos, suspensos pela pressão do corpete, que também baixara. Ignorando-lhe os protestos murmurados, fechou os lábios sobre um dos bicos rosados e sugou-o. Estimulou-o com a ponta da língua úmida, trilhando círculos ao


seu redor. Enquanto se dedicava ao outro seio, na mesma doce tortura, e a segurava pela cintura com uma das mãos, deslizou a outra até as pernas dela. Logo lhe erguia as várias saias do vestido, expondo-lhe as coxas bem-feitas. Abrindo caminho pelas várias camadas de roupas, enfim começou a afagá-la com intimidade. A mente de Amanda estava inebriada por incríveis sensações, os lábios e a língua cálida continuando a estimular seus seios, impedindo-a de racionar. Ao mesmo tempo, Thomas continuava a afagá-la com carícias cada vez mais ousadas. Ela sentia a cabeça girando, um delicioso calor a percorrer seu corpo por inteiro, os pontos mais sensíveis vibrando. Novamente aquela sensação desconhecida que experimentara nos braços de Thomas, na primeira vez no estábulo, voltava; aquele anseio que não fora satisfeito parecia se apoderar por inteiro de seu ser. Amanda não pôde conter um gemido e os lábios do duque tornaram a se apossar dos seus, num beijo ardente. Para ela era como se seu corpo estivesse em brasas, num crescendo de emoções. Subitamente, sentiu-se dominada por uma seqüência de deliciosos espasmos, as pernas fraquejaram e se apoiou nos ombros dele. — Oh, Thomas... — suspirou, extasiada. — Eu am... — Thomas? Querido, é você? — Uma estridente voz feminina interrompeu o sussurro dela. — Thomas! Estive a sua procura em todos os cantos...— A mulher fechara as portasjanelas atrás de si e detivera-se no meio do terraço escuro. Seu tom soou divertido: — Oh, eu devia saber que você estaria seduzindo alguma mulher aqui na escuridão! Ora, querido... essa parece ser apenas uma debutante. — A voz tornou-se sarcástica. — Como ela pode esperar satisfazer um... — Basta! — ordenou o duque, continuando a ocultar Amanda da visão da outra com seu corpo. — Volte para dentro e feche as portas, Louise! Estarei lá num minuto. — Estou a sua espera para a valsa que me prometeu. E depois... Oras, você sabe que minha cama é bem mais quente que este terraço. Com uma nova risada, a mulher retornou ao salão. — Amanda, eu... — Thomas a teria estreitado em seus braços novamente, mas ela se esquivou. Deu-lhe as costas, ajeitando rapidamente as saias do vestido e o decote por cima dos seios. — Me deixe em paz! — A voz soou-lhe fraca, desapontada e embargada pelas lágrimas da humilhação. — Não, meu amor, não desta maneira... — Ele virou-a para si, estreitando-lhe o corpo trêmulo em seus braços. — Não! Me solte... — Thomas! — soou a voz de Louise por entre as portas-janelas fechadas. — Estou farta de esperar. Amanda esquivou-se de imediato dos braços dele. — Droga! Falo com você amanhã, Amanda. — Com um beijo em sua fronte delicada, o duque afastou-se, fechando as portas-janelas atrás de si. Amanda cobriu o rosto com as mãos, num acesso convulsivo de lágrimas. Que grande tola! Ela amava aquele homem, com todas as suas forças. Agora reconhecia o sentimento. Estivera prestes a dizer que o amava, quando a amante de Thomas interrompera. A amante!


Céus, por que seu corpo era tamanho escravo das sensações que o duque de Eastmore lhe evocava que a fazia permitir com que ele a tivesse humilhado mais uma vez? Abruptamente, afastou as lágrimas de seu rosto, uma dor imensa em seu coração. Ficaria naquele terraço apenas o suficiente para se recobrar e depois sairia para procurar Barnaby. Se ele estivesse no baile, o levaria a aceitar as suas condições e aceitaria sua proposta de casamento. Seria mais seguro estar casada, ficar sem opções. Sim, antes que os desejos de seu próprio corpo a levassem a maiores problemas. O duque de Eastmore era perigoso demais. Precisava ficar longe de seu alcance, pois do contrário seria pura agonia. Nesse momento, Thomas puxava Louise pelo braço em meio à multidão, rumo à saída do palácio. Furioso, segurava-lhe o pulso com força, ignorando-lhe os protestos. Apenas limitou-se a dizer-lhe que, com quem quer que ela tivesse vindo ao baile, a deixaria na porta da casa para terem uma conversa derradeira. Até que conseguiu que sua carruagem estivesse pronta e que largou Louise em casa, duas horas inteiras haviam no passado. Deixou-a à porta com o explícito entendimento que o relacionamento de ambos estava irremediavelmente terminado. Sendo uma mulher prudente e experiente, ela assentiu de imediato à ordem furiosa, sem mais protestar. Thomas seguiu para sua própria casa, ainda faiscando de raiva. Sua vida tornara-se uma total confusão de um minuto para o outro. As esperanças de dissolver o mal-entendido com sua Amanda Pearl pareciam nulas. Por que Louise tivera que se meter onde não fora chamada? Já não lhe deixara tão claro na última noite que haviam passado juntos que o relacionamento acabara? Dera-lhe até a tal pulseira de diamantes como um presente de despedida, como um gesto de amizade. Naquela manhã em que pusera um fim ao relacionamento, ela até que parecera compreensiva. Ou estivera tão deslumbrada com a pulseira que mal prestara atenção às suas palavras? Talvez devesse ter sido ainda mais específico sobre o fato de não querer revê-la! E justamente no baile de aniversário da princesa Vitória, um evento no qual ele pretendera conquistar de vez a teimosa srta. Victor, Louise tivera que surgir do nada, suplicando-lhe que a tirasse para uma dança. Para não ser indelicado, prometera-lhe uma valsa, mas na verdade, acabara esquecendo, aguardando a primeira chance de se aproximar de Amanda. O que o deixava mais furioso eram as insinuações que Louise fizera no terraço, como se ambos ainda estivessem juntos. Bem, mas agora com ela fora de sua vida de uma vez por todas, Thomas recostou-se na sua carruagem e concentrou-se na sua mais importante preocupação. Logo a imagem da bela jovem de cabelos negros, que fora obrigado a deixar num dos terraços do Palácio de Kensington, ocupou-lhe a mente. Soltou um suspiro ao lembrar-se da deliciosa retribuição a seus beijos. Seu corpo ainda permanecia em brasa com o desejo não saciado. Seus sentidos estavam todos em alerta com as lembranças dos lábios dela, de seu perfume, de sua beleza. Amanda era tão inocente e, ainda assim, tão receptiva a seu toque. Como a queria! E pensar que faltara pouco para conduzi-la de volta àquele salão até a mãe e a tia, a fim de anunciar o noivado de ambos para todos os convidados, num compromisso que manteria sua amada a seu lado para sempre. Fora sincero em tudo que dissera a Louise na manhã em que terminara o relacionamento. Pretendia ser fiel à sua futura esposa em todas as maneiras. Pois tinha


certeza que era esse o seu destino... e que nunca seria cumprido com nenhuma outra mulher que não fosse Amanda Pearl. No dia seguinte, planejava acertar aquela confusão. Ou Amanda aceitaria sua proposta, ou a carregaria por sobre o ombro, esperneando e gritando, direto até o altar!

VINTE

Amanda, enfim, deixou o terraço, passando pelas portas-janelas e deteve-se por alguns momentos no salão, permitindo que a música e o calor a envolvessem. Sentia-se zonza e incerta, como se tivesse sido transportada de um determinado tempo para o outro. Procurando se recompor, começou uma metódica busca pelos salões iluminados. Precisava encontrar Barnaby, caso estivesse lá. Ela resolveria o assunto do noivado naquela noite, depois retornaria para Victor Mall, onde se sentia segura. Estava farta de Londres, da temporada, e do turbilhão em seu íntimo. Uma hora depois, ainda procurava o jovem lorde pela multidão. Havia tantos convidados... e quase a mesma quantidade de salões e saletas anexas! Sentia uma súbita ansiedade, um quase desespero. Os risos, a música, os casais dançando ao redor... tudo contribuía para aumentar o latejo em suas têmporas. Na verdade, o que mais queria era ir para casa, trancar-se em seu quarto e se desmanchar em lágrimas de raiva. Várias vezes parou em sua busca, porém fazer essas pausas era o mesmo que atrair um enxame de esperançosos, assediando com galanteios e cobrando as danças já assinaladas mas ignoradas por ela. Sua paciência foi se esgotando, a frustração aumentando. Seria imprudente perguntar se alguém vira Barnaby, ou enviar seu exército de admiradores a procura; pois, do contrário, já teria apelado para isso. Duas vezes, durante sua "peregrinação" pelos salões, avistou sua tia ainda nas mesas de cotas. E notou que sua mãe estava se divertindo, dançando com Lorde Melton. Não havia o menor sinal de Thomas. Podia imaginar que havia se retirado para a cama aquecida de sua amante ruiva, pensou ela, com amargura; na certa, estaria aplacando as chamas em que o deixara! Finalmente, quando já começava a se desesperar, avistou Lady Compton numa das saletas anexas, afastada da movimentação do baile e conversando com um grupo de senhoras. Barnaby, o filho sempre obediente, achava-se de pé ao lado do sofá. Na certa, estariam ali há horas, desde que haviam chegado. Para sua perplexidade, o rapaz a avistou e, dizendo algo a mãe, aproximou-se pelo salão. Timidamente e com o rosto muito vermelho, tirou-a para dançar. — Senti sua falta, Barnaby... — Eu... t-também. M-Minha mãe esteve doente. F-Ficou acamada durante o mês inteiro.


Sentindo-se emocionalmente esgotada com os eventos daquela noite, Amanda ignorou o fato de que Barnaby não dera notícias por um mês. Esqueceu-se das convenções e decidiu ir perguntando à queima-roupa: — Você falou com ela a respeito de nos casarmos e vivermos em Victor Mall? Parecendo aliviado em vê-la tomando o controle, Barnaby acalmou-se um pouco, balbuciando menos. — S-sim. Minha mãe acha que devemos nos casar, sim, mas que temos que morar no Castelo de Compton. — Estou ciente da opinião de sua mãe. Mas qual é a sua? Você lhe contou o que nós queremos? Você a pressionou para que o deixasse fazer o que tem vontade? — N-Não... Eu não pude. — Barnaby apressou-se a prosseguir numa súbita urgência em fazê-la compreender. — Temi pela vida dela. Q-Quando lhe falei tudo, ficou tão encolerizada que quase teve um ataque. Depois ficou adoentada, de cama... E eu não podia ser o responsável pela morte da minha mãe. — Claro que não — disse-lhe ela, numa nova onda de compaixão pela opressão em que o pobre rapaz vivia. Com um suspiro resignado, apelou para uma nova tentativa. Afinal, situações desesperadoras exigiam medidas desesperadas. E precisava terminar logo aquilo. Erguendo sedutores olhos azuis para ele, umedeceu os lábios rosados com a ponta da língua, ao mesmo tempo em que se estreitava um pouco mais de encontro ao corpo do rapaz, enquanto dançavam no meio da multidão. — Afinal, você quer mesmo se casar comigo, Barnaby? — sussurrou-lhe. — Oh, sim! — exclamou ele, enfático; os olhos quase esbugalhados, parecendo hipnotizados pelos dela, o rosto ainda mais vermelho com o contato do corpo macio que apenas roçava o seu. — Sim... mais do que tudo! — Eu devo viver em Victor Mall, querido. Significa tanto para mim... para ficarmos... sozinhos. Por favor, Barnaby, me dê sua palavra de honra que viveremos lá, que poderei reconstruir o lugar, e que sua mãe continuará morando no castelo. — Eu... eu dou minha palavra — disse ele, enfim, quase como se estivesse em transe. — Oh, fico tão feliz! — Amanda sabia que não fora muito louvável o fato de praticamente arrancar uma promessa do influenciável rapaz, mas não lhe restara escolha. De qualquer forma, já o conhecia o bastante para saber que era honrado e que sua palavra seria sagrada. — Vou contar a minha mãe e a tia Addie. Venha nos visitar amanhã! Amanda deixou-se conduzir pelo aturdido rapaz e separou-se dele perto da saleta em que se achava Lady Compton, para que lhe contasse as novidades. Seguiu sozinha pelo salão e avistou Lady Lillian já sentada no sofá, rodeada de amigas. Lady Adair também se reunira ao grupo. Antes de se aproximar, deteve-se junto a uma majestosa coluna de mármore e sorriu consigo mesma. Ao que parecia, já estava se tornando uma especialista na arte da sedução. Afinal, estava aprendendo com o próprio mestre... o sedutor Eastmore. O pensamento a entristeceu e a fez lembrar da forma como ela mesma se deixara seduzir. E pensar que estivera prestes a entregar seu coração a um homem que o não merecia. Por que ele não podia ser um homem honrado, por que tinha que ser um mulherengo, devasso? Oh, como


seu desavisado coração clamara por ele e seu corpo se entregara a seus desejos... Que perigoso poder Eastmore exercia sobre ela... O triunfo da rendição de Barnaby parecia tão vazio agora que havia admitido para si mesma o seu amor pelo duque... Recompondo-se, Amanda endureceu seu coração. Poderia não ter amor nesse casamento de conveniências que faria, mas teria todo o dinheiro que precisava para salvar as coisas que lhe eram tão preciosas. Tornou a olhar para o grupo animado da mãe e da tia e achou melhor contar-lhes as novidades depois. Mal podia esperar para sair daquele lugar. Decidiu mandar um bilhete para a tia, dizendo que estava indo para casa e que mandaria Jamie Deal de volta com a carruagem pura buscá-las. Minutos depois, enquanto aguardava no saguão que um lacaio fosse levar o bilhete para Lady Adair e que outro providenciasse para que sua carruagem fosse trazida para recebê-la à saída, ouviu Lewis a chamá-la de um dos corredores. — Srta. Victor! Felizmente a encontrei! Sobressaltada, Amanda virou-se para responder-lhe. Mas apenas ergueu as sobrancelhas em surpresa ao vê-lo acompanhado de Lorde Ellington e de vários integrantes do clube de hipismo. — Temos uma proposta para você! — exclamou Lewis, entusiasmado. Pegando-a com gentileza pelo braço, levou-a para um canto do saguão, afastando-a do grupo. — Aliás, é a solução para todos os seus problemas, minha querida amiga. Lembra-se da aposta que Alfred lhe sugeriu? Uma corrida com o garanhão preto e mil libras?! — Nitidamente. — Bem, ele pensou em algumas modificações nessa aposta. Seria uma corrida aberta a quem tivesse o dinheiro para se inscrever. Black Victory disputando-a com vários outros puros-sangues. Cada participante aposta duas mil libras e os respectivos certificados de propriedade dos cavalos que vão correr. Assim, o vencedor leva todo o dinheiro e fica com os cavalos! — exclamou o visconde, triunfante. Os demais lordes no saguão assentiram em confirmação e sorriram. — Você perdeu o juízo, Lewis? Sabe muito bem que não tenho essa quantia para apostar. — Essa é a parte interessante da aposta, srta. Victor — declarou Alfred, altivo, aproximando-se dos dois para explicar as condições. — Em vez do dinheiro, você terá que apostar outra coisa, algo tão valioso para alguns... embora não para todos... quanto dois mil dólares. Amanda estremeceu com a insinuação. Por um momento, o olhar zombeteiro de Alfred a assustou. Será que sua reputação havia afundado de tal maneira? Mas ficou mais tranqüila ao perceber que os demais homens ficaram contrariados com o comentário. O apoio do grupo evidenciava que antipatizavam com o rude lorde Ellington e tinham a srta. Victor em alta estima. Lewis logo interveio, pedindo que o outro se afastasse.


— Ouça — suplicou-lhe. — Se você vencer, ganhará todo o dinheiro... até agora já temos oito inscritos... além dos cavalos para reerguer seus estábulos. Mas se você não vencer a corrida, perderá Black Victory para o vencedor, assim como sua mão em casamento. Essa é a sua aposta! A sua mão em casamento. — Mas se está com medo... — acrescentou Ellington, num tom de provocação. Amanda correu os olhos pelo grupo de lordes. Conhecia a maioria e já havia recusado suas propostas, mas todos tinham fortunas mais do que o bastante para resolver seus problemas financeiros. Se bem que havia o detestável Ellington... Mas que maneira melhor de derrotá-lo de uma vez por todas num jogo que ele mesmo escolhera? Havia muito dinheiro envolvido, além dos puros-sangues que ficariam com o vencedor. Sabia que apesar de já ter doze anos, Black Victory estava em plena forma. Oh, seria tão maravilhoso ser livre e ter o dinheiro para reconstruir seu lar! E quanto a Barnaby? Bem, poderia se casar com ele se ainda a quisesse, mas apenas para fugir do amor impossível que nutria por Eastmore. De qualquer forma, o dinheiro da aposta bastaria para pagar suas dívidas e garantiria alguma relativa independência, caso Lady Compton se mostrasse mesmo irredutível. Vendo-a ainda hesitante, Lewis explicou-lhe todas as condições da corrida, a distância, o local e falou-lhe um pouco sobre os cavalos dos competidores interessados. — Eu concordo com a aposta! — declarou Amanda, com súbita convicção. — Só lhes peço que os termos da corrida referentes a minha participação fiquem somente entre nós. Todos asseguraram que estavam de acordo com o pedido, exceto Ellington. Ottobon precisou insistir até lhe arrancar um assentimento. — Bem, tem nossa palavra de honra — assegurou, enfim, o jovem visconde. — E eu mesmo vou cuidar dos detalhes da corrida, para que seja justa. Um lacaio anunciou que a carruagem de Lady Victor estava a espera, e ela se retirou rapidamente. Exausta, recostou a cabeça no assento e soltou um profundo suspiro. Se perdesse... Não, não queria pensar nisso! A distância da corrida seria longa, mas Black Victory era forte. Além do quê, ao contrário do que todos haviam deduzido, Amanda não confiaria a missão de jóquei a ninguém mais. Ela mesma correria!, pensou, determinada. Não podia deixar a sua sorte nas mãos de mais ninguém.

VINTE E UM

A primeira luz do dia trouxe, com muita trepidação, a enormidade do que Amanda havia feito. As vividas lembranças de suas atitudes produziram-lhe tamanho horror que ela contraiu o semblante, num esforço inútil para afastá-las. Numa tentativa de justificar suas ações, pôs de início a culpa no fato de ter sido mais uma vez seduzida por Thomas. Fora levada ao desespero por tal humilhação! Até a forma condenável como manipulara o pobre Barnaby fora responsabilidade do duque, aquele desprezível! Mas, então, ela baixou a cabeça e admitiu para si mesma que a lamentável situação não fora nada além do resultado


de seu próprio e reprovável temperamento impulsivo. Agira outra vez sem considerar as conseqüências. Com seus atos impensados, transgredira as regras da mesma sociedade que freqüentava. Tais atos não apenas afetariam sua posição nessa sociedade, mas também a de sua mãe. Provavelmente, devido à sua natureza excêntrica, tia Addie suportaria o baque. Mas quanto à sua mãe, acabaria se recolhendo à solidão do campo outra vez, humilhada e excluída por suas novas amizades. E justamente agora que saíra de seu luto e atraíra as atenções do respeitável Lorde Melton. Amanda virou-se na cama, afundando o rosto no travesseiro. Como iria sobreviver a essa última confusão em que se metera, ao iminente escândalo? Certamente, o vil Ellington não perderia a chance de espalhar aos quatro ventos a história da aposta. Céus, por que ela sempre tinha que criar um caos por onde quer que se aventurasse? Se ao menos pudesse voltar no tempo e reparar seus erros... Enumerando a série de episódios desastrosos em sua vida, só nesse último ano, não tinha certeza exatamente de quanto precisaria voltar no tempo para tornar sua existência tão descomplicada quanto gostaria. Apenas um ano? Ou dez? Talvez devesse voltar o suficiente para impedir Sheldon de fazer aquela absurda aposta numa noite tão escura e chuvosa. E ali estava de novo! O futuro dos Victor prestes a ser determinado por uma aposta num cavalo. A história estava apenas se repetindo... esperava que com resultados menos trágicos desta vez. Para sua contrariedade, os pensamentos começaram a girar em torno da cena no terraço do palácio. Jamais havia imaginado que pudesse existir semelhante êxtase de sensações... Os deliciosos espasmos que haviam se apoderado de seu corpo, a impressão de estar flutuando... Um prazer incrível produzido pelas carícias ousadas das mãos de Thomas, dos lábios cálidos em seus mamilos. Então, era assim que culminava um ato de amor? Aquele arrebatamento final fora o que ficara faltando no primeiro encontro do estábulo; fora por aquilo que estivera ansiando sem mesmo saber do que se tratava? Tal resultado avassalador teria sido o mesmo naquela tarde distante se Thomas houvesse mantido a cadência de seu corpo? Os instintos lhe diziam que sim. E, com certeza, o fato de estar apaixonada devia ter intensificado ainda mais as sensações. Se ao menos fidelidade fizesse parte do vocabulário do duque... Mas seria melhor viver sem ele do que passar sua vida num Inferno de ciúmes. A primeira hora da tarde, Hastings anunciou a chegada de Lady Compton e de seu filho. Amanda já prevenira a mãe e a tia sobre a visita, revelando-lhes apenas que, na certa, receberia a esperada proposta de casamento. Preferira ainda não contar sobre a aposta e imaginava que tais escandalosas notícias tampouco tivessem chegado aos ouvidos dos Compton. De qualquer jeito, era realmente imperdoável a forma como ela podia ter arruinado sua chance de fazer um bom casamento e salvar Victor Mall... Mas, para espanto e desespero de Amanda, as novidades sobre a aposta foram trazidos para sua mãe e tia através da própria Lady Compton. Indignada, a mulher fez questão de dizer que não se falava de outro assunto pelas ruas. Não se esqueceu de enfatizar que, na certa, sua própria família sofreria humilhantes efeitos, embora, felizmente, o anúncio oficial do noivado de seu filho com a rebelde jovem não tivesse sido feito. Deu total vazão à sua língua ferina, lançando olhares rancorosos a Amanda e levando a mão ao peito em gestos teatrais. — Sempre tive minhas dúvidas sobre você, mas deixei que sua popularidade e os equivocados sentimentos do meu filho a seu respeito anuviassem meu natural discernimento sobre o caráter das pessoas! Instigando meu filho contra mim... Se quer saber,


nunca achei que fosse boa o bastante para o meu menino. Pois pode desistir de uma vez por todas das tentativas de fisgá-lo! Céus, quem teria imaginado que uma moça de família apostaria sua virtude numa corrida de cavalos! Amanda não toleraria ser insultada na sua própria casa. Olhou para a atônita tia Addie, depois sentiu uma dor no peito ao ver como sua mãe ficara chocada com a notícia. Céus, mais um de seus erros... Devia ter previsto uma cena daquelas e contado a história à sua família antes e com mais tato. Uma renovada onda de raiva dominou-a. Já se preparava para dizer umas boas verdades à maledicente Lady Compton, quando Barnaby, numa inesperada presença de espírito, interveio. — M-Mamãe, vai acabar passando mal com tanto nervosismo. Eu lhe d-disse que não deveria ter vindo. Vou levá-la de volta para casa agora mesmo. — Ele ajudou a mãe a levantar-se e conduziu-a em direção à porta de saída. Para surpresa geral, o rapaz correu de volta até Amanda. — Srta. Victor, não é sua culpa — disse-lhe, apressado. — Ela sempre teve um coração frágil. Não posso dizer que aprovo o que aconteceu, mas não é sua culpa. — Obrigada, Barnaby. Você é um homem muito especial — declarou Amanda, tocada. Embora corando até a raiz dos cabelos, Barnaby inclinou ligeiramente a cabeça numa mesura. — Talvez um dia eu ainda venha reclamar um lugar no seu coração, srta. Victor. Boa tarde, senhoras. Com a retirada dos Compton, Lady Lillian, enfim se manifestou: — Jamais vou perdoar você, Amanda Pearl! Como pôde fazer uma coisa terrível dessas? Nunca mais poderemos aparecer na sociedade outra vez! Aos prantos, a mãe anunciou que se recolheria aos seus aposentos e saiu amparada por uma aturdida Bess e seus sais. — Estou muito desapontada com você — declarou Lady Adair à sobrinha, demonstrando a raiva que estivera contendo. — Já não havia me dito que se sentia péssima, com a impressão que estaria se vendendo num desses casamentos de conveniências? Pois, receio que tenha feito algo pior. — Black Victory vai vencer! Eu sei que vai! — E o que isso significa? Com o dinheiro você conseguirá pagar as dívidas de seu pai, mas terá arruinado sua reputação. Jamais conseguirá um bom casamento. Ganhar essa corrida não vai resolver todos os seus problemas, não percebe? Como pôde ser tão tola! — Erguendo as mãos no ar em exasperação, a tia também se retirou do salão. Amanda, então, permitiu que as lágrimas rolassem por suas faces. Tinha que admitir... Sem poder explicar a ninguém seu estado emocional da noite anterior, a aceitação da aposta parecia mesmo horrível... A repentina voz do velho mordomo sobressaltou-a. — Sua Graça, Lorde Eastmore! — Hastings mal o havia anunciado, e Thomas adentrou, furioso, pelo salão.


— Céus, garota! O que deu em você para fazer algo tão absurdo quanto apostar sua virtude numa corrida de cavalos? Amanda enxugou as lágrimas antes de virar-se para enfrentá-lo. — Mal podia esperar para vir me condenar, não é? — revidou ela, logo que o mordomo os deixou a sós; a raiva e o desafio tentando encobrir a mágoa em seu coração. — Um garanhão de doze anos contra alguns dos cavalos mais velozes da cidade... e muito mais novos! — prosseguiu Thomas, igualmente dominado pela raiva. — Sabia que já estão até fazendo apostas no clube de hipismo? Apostas sobre quem vai ganhar a sua virgindade! Que grande ironia... — Mantinha a voz baixa para ninguém o ouvisse, seu olhar faiscante: — São uns tolos, desperdiçando seus melhores puros-sangues, mais duas mil libras cada um, por algo que eu já tomei há vários meses. Como seria hilariante ver as caras pasmadas deles caso eu lhes contasse! Ela empalideceu e apoiou as mãos no encosto de um dos sofás, mas desta vez a preocupação do duque não venceu sua ira. — Ellington... — Não, Amanda, não foi Ellington quem meteu você nessa confusão! Foi você mesma, com sua criancice, com sua impulsividade! Você se arruinou. E não há nada, nada que eu possa fazer para salvá-la desta vez. Ninguém a apoiaria? Ninguém? Abalada, Amanda refletiu que jamais se sentira tão sozinha em toda a sua vida. Erguendo a cabeça, forçou-se a não perder a compostura. — Sua Graça, não estou lhe pedindo nada. Nem sua ajuda, nem suas incessantes críticas. Como já lhe disse, meus assuntos não lhe dizem respeito. Assim, por que não volta para a cama quente de sua querida Louise Sinclair? Saiba que eu o desprezo! Agora retire-se, por favor. Thomas aproximou-se mais e tomou o rosto dela entre as mãos. — Tem certeza que me despreza? — Não me toque! — É desprezo o que sente por mim quando a estreito em meus braços, quando seu coração bate de encontro ao meu? — Os olhos castanhos-claros a fitavam com desconcertante intensidade, sua expressão indefinível. — Me fale. É isso que sente? — Me solte! Estreitando-a de encontro ao corpo, Thomas cobriu-lhe os lábios com um beijo faminto. Quando a língua ávida começou a explorar a maciez de sua boca, Amanda soltou um suspiro, não podendo resistir. Ao sentir-lhe a rija masculinidade de encontro a seu ventre, por sobre as roupas, ela teve consciência da reação que também era desencadeada em seu íntimo; como se lava incandescente a estivesse percorrendo por inteiro. Aquela era apenas uma pequena prova de como um relacionamento entre ambos poderia ser maravilhoso, se as circunstâncias fossem outras. Esquecendo-se da razão, abraçou-o pela cintura, afagandolhe as costas. No momento, não havia lugar para a realidade... apenas para a necessidade de amá-lo e de ser amada.


Quando o beijo terminou, Thomas mordiscou-lhe o lóbulo da orelha com sensualidade. Ela era tão doce, tão cheia de paixão e, ainda assim, sabia que o combateria a cada oportunidade. Droga, Amanda preferia colocar-se em sério perigo do que se casar com ele! — Eu já disse antes, gata arisca. Nada que puder dizer ou fazer vai me impedir de conseguir o que quero de você — sussurrou-lhe ao ouvido. — Aqueles tolos! Apostando em algo que eu tomei. Algo que considerei como minha posse daquele dia em diante. Ainda pode dizer que sente desprezo por mim e pelas coisas que faço com você? Amanda afastou-se daqueles braços como se as palavras tivessem sido uma bofetada. Mesmo agora ele precisava deixar claro seu triunfo por tê-la conquistado, por torná-la uma escrava de seus desejos? Nada de palavras ternas ou carinhosas... prova de que não sentia nada profundo por ela. — Sim, desprezo! -— exclamou, num novo acesso de fúria. — Agora me deixe em paz, Eastmore. Saiba que... não me deu mais prazer do que outros homens já me deram! Não tem nada do que se vangloriar. E eu escolho com quem e onde experimento esse prazer. Saia daqui e nunca mais apareça na minha frente! O semblante de Thomas endureceu. Estudou o rosto pálido e contraído dela. Estaria falando a verdade quando lhe jogava outros supostos amantes na cara? A lembrança da pureza daqueles olhos azuis, da ingenuidade de mulher-criança que tanto gostava em Amanda passou como um lampejo pela mente do duque, a favor dela, dando-lhe a momentânea certeza de que o que acabara ouvir era mentira. Contudo, perturbado demais naquele instante para lidar com a remota mas assustadora possibilidade de que fosse verdade, ele achou melhor se retirar. Perplexa, Amanda o observou saindo de Vicroy House. O absoluto silêncio dele lhe deu uma sombria certeza. Thomas estava saindo de sua vida para sempre... Desta vez, ambos haviam desconcertado demais um ao outro. Ele acreditou em sua mentira! Uma mentira dita na hora da raiva e da dor. E agora o duque a odiava. Da mesma forma que deveria odiá-lo... mas não conseguia. Afundando num sofá, ela cobriu o rosto com as mãos. — Oh, céus, o que fui fazer! O que fui fazer!

VINTE E DOIS

Durante a quinzena seguinte o mundo de Amanda tornou-se um imenso vazio, povoado apenas pelas marcas profundas deixadas por escândalos e falatórios. Ninguém mais lhes fez visitas; nada mais de convites. De repente, era como se a família Victor não existisse mais para a sociedade. Ao menos, não pela frente delas. Para além de Vicroy House, o sobrenome Victor estava nos lábios e nas mentes de todos. Toda a linhagem era abordada até o ancestral mais distante que podiam se lembrar... as versões das histórias mudando, conforme as pessoas que as iam passando adiante. Escândalos eram deturpados de velhas lembranças, ou inventados. Mas não importando qual


fosse o episódio, o falatório sempre terminava no mais recente... a corrida de cavalos e a virtude apostada da donzela. Nunca um incidente produzira tamanho alvoroço numa temporada. Lady Lillian passava seu tempo recolhida a seus aposentos, com Bess lhe fazendo companhia. Longos dias eram novamente preenchidos com doenças imaginárias e queixas. Embora Lorde Melton tivesse insistido em vê-la, ela se recusara terminantemente a recebêlo. Repetidas vezes, por entre as lágrimas de olhos fatigados e vermelhos, ela implorava à velha dama de companhia que lhe dissesse onde havia errado como mãe e não falava em outra coisa senão em se recolher ao campo, após a famigerada corrida, qualquer que fosse o resultado. Enquanto ela passara a evitar a filha que "as humilhara perante a sociedade", negando-se a sequer lhe falar, Lady Adair, por sua vez, não se mostrou tão severa. O que estava feito, estava feito, dizia, e planos de emergência deviam ser elaborados. Assim, ia procurando preparar o espírito da preocupada sobrinha para qualquer que fosse o resultado. Segundo seu ponto de vista, ela jamais tornaria a ser aceita na sociedade novamente. E caso perdesse a corrida, havia até a possibilidade de que o vencedor nem quisesse sua mão em casamento, o que a levaria a apelar talvez para alguma medida desesperada como se casar com Freddy Portsmythe. Quando não podia mais tolerar as previsões práticas, mas sombrias da tia, Amanda se refugiava no jardim dos fundos, ansiando por um pouco de solidão. A ausência de visitantes ou de eventos sociais era-lhe indiferente, mas o que mais a oprimia era o fato de estar como uma prisioneira em sua própria casa. Tinha tempo demais para pensar nos últimos tumultuados acontecimentos e em como afastara o duque de Eastmore para sempre... Ela teria se ressentido da ausência do bom amigo Ottobon, caso não soubesse que ele se encontrava na sua propriedade no campo. O visconde estava acompanhando de perto o treinamento de seu cavalo e acertando todos os detalhes da corrida, que havia sido marcada para acontecer em Glendale Course, hipódromo situado fora de Londres. Com o peso da culpa e das recriminações em seus ombros, a vida só parecia ter alguma alegria para ela no amanhecer. Antes mesmo do nascer do dia, cavalgava com Black Victory no parque, acompanhada do leal Jamie Deal. Era nesses momentos em que galopava a toda a velocidade na sela do garanhão que sua alma vibrava e não conhecia fronteiras. Somente nesses instantes não tinha dúvidas da força e do poder de seu cavalo, e um raio de esperança abrandava a opressão um seu peito. Os dias também estavam sendo longos para Thomas. Longos e preenchidos com dúvida, incredulidade, depois condenação e raiva, e, então, dúvida e incredulidade novamente. Quando os pensamentos se tornavam insuportáveis tentava ignorá-los com exaustiva atividade física. — Céus, homem, não estamos apostando uma corrida agora! — Lewis alcançou o veloz cavalo de Thomas, e ambos retomaram o trote pela vastidão da propriedade do visconde no campo. — Você parece mesmo agitado ultimamente. Me diga, o que existe de verdade entre você e a bela srta. Victor para tê-lo deixado tão atormentado quanto o tenho observado. — E por que acha que ela tem algo a ver com isso?


— Porque não sou cego, nem surdo. — O visconde lançou um olhar de simpatia ao amigo. — Além do mais, você anda mais transparente do que água, meu caro. — Bem, admito que estou aborrecido com a jovem e com essa situação em que se meteu. O que pode tê-la feito tomar parte nessa corrida quase suicida? Lewis desviou o olhar para as rédeas de sua montaria. Embora o duque soubesse que estava cuidando dos detalhes da corrida, não seria sensato no momento revelar-lhe que ele em pessoa levara a idéia de Ellington àsrta. Victor. Não imaginara que uma simples corrida geraria tanto escândalo e sua intenção fora mesmo a de ajudar a jovem. — Bem, talvez ela tenha se sentido como se não tivesse outra escolha — limitou-se a dizer. — A situação financeira da garota é, no mínimo, preocupante. Procure não ser tão severo. — Como assim, não tinha outra escolha? E quanto a todas as propostas de casamento que ela recusou? Inclusive a sua, segundo você me contou! E a minha... Lewis estudou a raiva no semblante do amigo e conteve um sorriso. O que seria preciso para fazer aquele cabeça-dura admitir os sentimentos pela jovem? — Bem, você sabe, que a srta. Victor, com sua incrível beleza e com sua personalidade fascinante, tornou-se a debutante mais popular e mais cobiçada da temporada, concorda? Levou até solteirões convictos como eu a pensarem em abdicar da liberdade por sua mão. E, se quer saber, não creio que ela tenha recusado a todos em favor do patético Compton. Bem, cheguei à óbvia conclusão... e vou lhe dizer isto com as melhores e sinceras intenções de que vocês dois se entendam de uma vez por todas... O que quero dizer é que de fato acredito que, no fundo, foi por amar você que ela recusou minha tentadora proposta, assim como as de todos os outros. — Por me amar... Ora, deve estar maluco! — Thomas virou-se para fitar o amigo em incredulidade. — Se Amanda me ama, então por que vem recusando minhas propostas repetidamente durante toda a temporada? — Repetidamente, você diz? Hummm... embora eu desconheça os detalhes dessas recusas, pelo que pude observar, não teria isso acontecido pela maneira como você a abordou? Satisfaça a minha curiosidade... O seu tom por acaso foi zangado como tem sido ultimamente? Se foi, não entendo por que Amanda tem rejeitado suas juras de amor e admiração, Quero dizer, a coragem da menina! O que mais ela podia esperar? Galanteios e flores? Ternura? Promessas de eterna devoção? Ou talvez uma simples declaração de amor... Ah, as mulheres! São lindas, adoráveis, mas por que têm que ser tão pouco razoáveis em suas exigências? O duque pareceu subitamente absorto; alheio ao divertimento nos olhos de Lewis, enquanto este observava as expressões de surpreso entendimento em seu rosto torturado. Em sua mente, Thomas repassou todas as vezes em que revidara, censurando o espírito livre que ele tanto admirava em Amanda, despejando-lhe insultos que, na certa, teriam matado do coração qualquer mulher mais fraca... e ainda se aproveitara do lado sensual dela. Mas a inocente Amanda estivera além de qualquer experiência que ele já tivera com outras mulheres. Donzelas desinformadas não haviam estado entre as últimas conquistas de sua maturidade, e ele parecera não ter o menor tato para lidar com a jovem que, enfim, conseguira roubar seu coração.


Por que lhe fora tão difícil entender que ela não tinha a experiência para rebater seus assaltos impetuosos, exceto com medo e ultraje? Que as bravatas da garota não passavam disso, apenas bravatas? Amanda estivera totalmente sem armas para lidar com ele. Nada na sua vida a havia preparado para as sensações desconhecidas em seu corpo, para a paixão que sequer soubera ter dentro de si. Não havia a menor dissimulação nela; disso Thomas tinha certeza. A jovem era pura como a mais cristalina das águas. O que sentia, demonstrava com sua contagiante franqueza. Sim, ela só havia lhe jogado a insinuação de outros supostos amantes na cara como uma medida desesperada para magoá-lo, para se defender; apenas inventara essa história. Sabia que Amanda não era livre com seus favores, exceto com ele, e precisava admitir que os tomara, em vez de pedi-los. Não podia culpá-la por condená-lo pela maldita reputação de conquistador. Lewis tinha razão... Afinal, o que fizera para provar-lhe que o que sentia por ela era diferente de tudo que já sentira por qualquer outra mulher? perguntou-se, angustiado. Dissera-lhe que a amava, que pretendia lhe ser fiel e devotado pelo resto da vida? Não... Mais uma vez, agira como um cafajeste. — Maldição! — explodiu de repente e tornou a sair com o cavalo em disparada. Lewis observou-o de sua montaria e sacudiu a cabeça. Esperava que agora que parecia, enfim, ter conciliado seus sentimentos, seu amigo duque fosse para a etapa seguinte: elaborar um plano de ação para carregar a amada para o altar e tirá-la do alcance de futuros escândalos.

VINTE E TRÊS

O hipódromo de Glendale Course fervilhava em agitação e expectativa, a corrida tendo se tornado a sensação da temporada. Uma verdadeira multidão apinhara o local desde cedo; inúmeros piqueniques acontecendo por perto, aromas variados de comida pairando no ar, crianças correndo e brincando. Uma banda estivera tocando num dos gramados, a música animada misturando-se à cacofonia de vozes. As arquibancadas logo ficaram repletas de gente, encobertas do sol da manhã pelo mar de sombrinhas multicoloridas das damas. Havia uma empolgação no ar, nos rostos de todos. Nas bancas de apostas, os homens comprometeram seus salários recentes e os futuros também. Muitos apostaram no majestoso Black Victory. Até mesmo os de espírito menos romântico ficaram instigados pelo famoso e velho cavalo, travando a heróica batalha por sua dona. Teriam ficado ainda mais impressionados se soubessem que a própria jovem de ar tão delicado iria montar o imenso cavalo negro. Nos minutos que antecediam a largada, Amanda posicionava-se com Black Victory ao lado dos demais competidores. No momento da aparição do garanhão preto, a multidão aclamou entusiasmada; a maioria torcendo pelo cavalo que iria disputar a fortuna que a jovem dona precisava para salvar seu lar.


A menos que alguém observasse bem de perto, Amanda parecia com qualquer outro jóquei, mantendo assim em segredo a sua identidade. Mais uma vez recorrendo às calças de montaria do irmão, completara o traje com botas e uma camisa masculina, branca e folgada; os cabelos longos ocultos pelo chapéu. Ela lançou um último olhar paras as elegantes carruagens que se enfileiravam próximas ao gradil; num largo caminho entre as arquibancadas laterais e a pista de corrida. O povo e a elite achavam-se ali em peso. Apesar de contrariadas, sabia que sua mãe e sua tia também estavam lá, acreditando na desculpa de que ela teria ficado apreensiva demais para sair de seu quarto e certas de que seria Jamie Deal a montar no garanhão. Provavelmente, Thomas também estaria numa daquelas carruagens. O vazio em que a última discussão de ambos a deixara era insuportável. Como fora tola em alfinetá-lo com uma mentira tão absurda... Pois agora era certeza que não haveria volta. Não havia como ignorar a dor que haviam impingido um no outro. Por que ela simplesmente não se jogara nos braços dele e lhe pedira que a amasse? Na sua raiva, o havia perdido para sempre... Talvez fosse melhor assim, pensou, tentando consolar seu dilacerado coração. Não podia dividi-lo com uma amante e não podia amar um homem que a seduzia a seu bel-prazer e depois despejava-lhe acusações. Ficava provado que não podiam viver sob os termos um do outro. Então, era melhor parar de desejá-lo em seu coração, corpo e alma. Assim sendo, sua decisão de mandar de volta a carta que ele tinha lhe enviado no dia anterior fora a mais sensata. O orgulho a impedira de abrir o lacre e ver o conteúdo. O que Thomas poderia querer? Pedir-lhe desculpas? Ou enviar-lhe uma nova censura? Não, naquele momento tão crucial de sua vida não pudera se permitir nenhuma distração. Se ele estivesse naquele hipódromo, na certa seria só para não perder a chance de assistir a sua humilhação. Ao que parecia, o duque não tinha nenhum cavalo inscrito na corrida, como ela pedira a Jamie Deal para verificar repetidas vezes durante a última semana. Amanda tratou de afastar os pensamentos e reunir toda a concentração que precisava. Mais uma vez olhou para os outros competidores, lembrando-se das instruções que Jamie Deal havia lhe dado. Falara-lhe sobre cada participante, tendo a maioria optado por jóqueis experientes, e alertara-a para ter cautela com o ardiloso Ellington, um dos poucos que montaria seu próprio cavalo. Seriam quinze corredores ao todo e, segundo seu velho amigo lhe assegurara, só teria que se preocupar com o garanhão baio de Ellington e com uma égua árabe malhada, não sendo os animais restantes tão fortes ou velozes. O temido Denouncer de Ottobon não estaria correndo, tendo sido substituído por um cavalo inferior, conduzido por um jóquei. Ela lançou um olhar para Thunderbolt e franziu o cenho. Céus, o garanhão parecia veloz até mesmo parado. Era uma pena que pertencesse ao cruel Ellington! Depois, procurou a égua malhada sobre a qual Jamie Deal a avisara. Estava mais próxima, e Amanda pôde ver o rosto do jóquei com nitidez. Não o conhecia, mas o homem a cumprimentou com um gesto de cabeça. Como se o tempo tivesse ficado em suspenso, um súbito silêncio reinou no hipódromo. Amanda afagou o pescoço do agitado Black Victory e sussurrou-lhe, tentando acalmar a ambos. Seu próprio coração pulsava com violência. O disparo de uma pistola anunciou a largada. A multidão voltou a se manifestar no momento em que os cavalos começaram a correr, cada apostador incentivando o seu.


Amanda olhou para frente e viu a égua malhada ganhando rapidamente a liderança, Thunderbolt seguindo a de perto. Os demais corredores haviam ficado bem mais atrás, lutando na pista pela terceira posição... e ela se achava entre eles. A corrida seria de duas voltas pelo circuito de um quilômetro e meio. E foi nessas exatas posições que os competidores venceram a primeira volta. Aos poucos, Black Victory foi deixando o grupo para trás, mas ainda se achava a uma grande distância dos líderes. E ainda assim, Amanda não o estava pressionando. Era por isso que os apostadores do garanhão preto gritavam-lhe em desespero. Mas ela sabia que o que quer que Black Victory tivesse para lhe oferecer em seu coração, seria dado quando lhe pedisse. Já o conhecia mais do que o bastante para saber que ele também estava esperando pelo supremo esforço. E, assim, permanecia quieta. Não estava exatamente tensa. Era uma emoção muito mais poderosa que a dominava... uma conscientização de que estava disputando para manter a posse de tudo que lhe era mais caro. Não demorou muito a se aproximarem mais e mais dos líderes. Amanda sabia que o páreo era injusto; dez anos atrás o garanhão já teria derrotado a todos aqueles potros facilmente. Perguntou-se se ele teria algo mais a dar quando chegasse o momento decisivo, a não ser a força em seu coração. Não demoraria a saber. Quando a distância entre ela e os dois líderes diminuiu consideravelmente, viu Ellington virando a cabeça para trás e, então o baio aumentou a velocidade, a égua malhada logo ao lado. O público delirava. Enfim, Amanda soube que era o momento e Black Victory atendeu seu chamado. O aumento abrupto da velocidade foi como cair de uma grande altura. Logo ela estava alcançando Thunderbolt e a égua. Inconformado, Ellington fez seu cavalo diminuir um pouco e moveu-o para o lado, bloqueando a passagem do garanhão preto. Com isso, o desequilibrou, fazendo com que ficasse mais atrás; a égua malhada já à frente de ambos. O truque sujo fez com que boa parte da multidão gritasse ultrajada. Furiosa, Amanda teve vontade de estrangular o homenzinho se pudesse. Será que Black Victory conseguiria se recobrar? Poderia dar tudo de si de novo? Ela o incentivou, e o garanhão fez um tremendo esforço. A linha de chegada estava cada vez mais próxima, o público vibrando. De repente, Amanda teve a certeza que venceria, o garanhão quase alcançando os líderes outra vez. Para a revolta de todos, Ellington apelava para um novo golpe baixo. Começou a desviar Thunderbolt de novo, de forma que tornasse a desequilibrar o ritmo do garanhão preto. Mas estando prevenida desta vez, Amanda agiu a tempo. Tirou rapidamente o seu chapéu e bateu no dorso do baio com ele para afastá-lo. Pelo hipódromo, soou uma nova e alvoroçada exclamação coletiva, não pela manobra inteligente do jóquei de Black Victory para impedir a trapaça do outro, mas pela cascata de longos cabelos negros que deslizou de seu chapéu e cobriu suas costas, esvoaçando ao vento. Ellington olhou para trás em perplexidade. Seus olhos se arregalaram em instantâneo reconhecimento e, em seguida, estreitaram-se numa terrível expressão de ódio.


— Sua maldita! — Gritando numa incontrolável raiva, ele desfechou um golpe no rosto dela com seu açoite. Um jorro de sangue e lágrimas cegou Amanda. Seu grito de dor e a contração de seu corpo foi como um impulso no coração do garanhão preto. Num último e grandioso esforço, o leal cavalo deu tudo de si. Ellington praguejava e impiedosamente fustigava seu baio com o açoite, arrancando sangue do pobre animal, mas acabou ficando para trás. Nada podia deter Black Victory agora. A distância entre ele e a égua malhada foi sendo vencida com bravura, até que o valente garanhão também a ultrapassou e, com grande esforço, levou sua dona para a segurança, cruzando em primeiro lugar a linha de chegada. Terminada a corrida, Black Victory foi diminuindo pelo próprio instinto e só parou próximo aos estábulos. O público ficara em polvorosa, gritando o nome de Amanda sem parar. Todos queriam se aproximar e foram pulando as cercas, invadindo a pista, formando um denso aglomerado. As pessoas ansiavam em chegar perto do heróico garanhão e de sua corajosa dona, no momento desacordada. Em vão, Jamie Deal tentava abrir caminho pela multidão, até que de repente, ouviu-se o disparo de uma pistola. — Saiam todos da frente! Enquanto uma passagem se abria instantaneamente entre as pessoas em resposta à ordem esbravejada, um homem alto surgiu, com seu porte intimidante guiando Jamie Deal através do corredor humano. O velho cavalariço foi avançando com desespero até chegar ao garanhão agitado. Embora exausto pela corrida, Black Victory relinchava e pinoteava furioso na direção da multidão, tentando proteger a pequena figura caída a seu lado. — Calma, Black Victory... Calma, rapaz... — Jamie Deal agora aproximava-se com toda a cautela. Temia que o garanhão pisoteasse Amanda acidentalmente em sua agitação. Mas Black Victory moveu-se para o outro lado de bom grado com o velho amigo, enquanto o homem alto se inclinava para erguer sua dona do chão. Assim que vira Amanda deslizando desfalecida da sela, quando o garanhão enfim parara, Thomas ficara aterrado. Com desespero, forçara passagem entre a multidão. Mas nada o assustara mais do que vê-la caída perto das patas do cavalo, pálida e inerte. Quase com medo de tocá-la e de ver seus piores temores concretizados, inclinara-se para erguê-la do chão. Com imenso alívio e lágrimas marejando seus olhos, ele sentiu-lhe a pulsação estável. Resistindo a urgência de abraçá-la de encontro ao corpo e cobri-la de beijos, passou suas mãos pelos braços e pernas dela. Ao constatar que não havia nenhuma fratura aparente, carregou-a depressa para o interior do estábulo e depositou-a sobre um amontoado de palha. Do lado de fora, os vários guardas conseguiam restabelecer parte da ordem. Afastavam a multidão delirante, enquanto Jamie Deal conduzia Black Victory em segurança até um dos currais e cuidava de seu necessário esfriamento. Com mais calma, Thomas tornou a se certificar de que Amanda não tinha nenhum ferimento mais grave. A visão do vergão avermelhado que lhe atravessava os olhos e o nariz delicado enfureceu-o. Prometeu a si mesmo que não descansaria enquanto Ellington não pagasse por tê-la açoitado tão covardemente.


Os cavalariços lhe trouxeram água e, com gentileza, ele limpou o sangue do rosto dela. Seu semblante se contraindo a cada vez que passava o lenço úmido pelo vergão e este vinha manchado de sangue. Enfim, a dor do machucado acabou despertando-a do desmaio. — Oh... o que aconteceu? — murmurou ela, fazendo uma débil tentativa de se levantar. Sem conseguir abrir OS olhos, tentou tocá-los para determinar a causa. Uma mão gentil segurou a sua e fez com que tornasse a se deitar. — Oh... minha cabeça? Jamie Deal, nós vencemos? Onde está Black Victory? — Calma, querida. Está tudo bem. Sou eu, Thomas. Você venceu a corrida, e o garanhão está a salvo com Jamie Deal. Há um vergão impedindo-a de abrir os olhos... Mas vai ficar bem. — Maldito Ellington! Maltratou o pobre baio e me atingiu com o açoite... — Amanda interrompeu-se, dando-se conta da mão de Thomas afagando seus cabelos. — Conseguiu me trazer para a palha outra vez, não é, Eastmore? — Não me provoque agora — disse ele, suspirando aliviado ao vê-la recobrando o senso de humor tão depressa. Nenhuma lesão na cabeça, por certo. Sentindo aquele toque tão terno em seus cabelos, Amanda teve um vago pensamento de que realmente não era importante que não se casasse com Barnaby, porque Thomas estava ali e era a ele que sempre quisera. Mas acabou perdendo os sentidos antes que pudesse fazê-lo entender que ela havia mentido sobre supostos outros homens e que o duque era o seu único e verdadeiro amor. — Barnaby... — murmurou antes de perder a consciência. Thomas contraiu o semblante, uma súbita dor oprimindo seu peito. Afastando-se para o lado, para que um médico que se apresentou no estábulo lhe examinasse o ferimento, ele passou a mão pelos cabelos num gesto de desespero. Seus pensamentos num turbilhão. Como ela podia chamar por aquele palerma? Seria possível que Amanda amasse Compton? Será que estava iludindo a si mesmo achando que teria alguma chance, que se deixara influenciar pela opinião de Ottobon a respeito dos sentimentos dela? Afinal, quantas vezes a jovem o rejeitara, nunca fazendo segredo de sua obstinação em se casar com Compton? E se Lewis estivesse certo... se Amanda amava a ele, Eastmore, por que, então, devolvera sem abrir a carta que lhe enviara no dia anterior? A carta revelando e explicandolhe sobre seu imenso amor? Talvez fosse o tolo naquela situação, interpretando as sensações que evocara na inocente garota como o despertar do amor por ele. De qualquer forma, continuava a ter certeza de que ela não distribuía seus favores com outros como quisera levá-lo a crer. Claro, isso só podia ter sido uma tentativa desesperada de afastá-lo, de igualar a desvantagem por sua falta de experiência. Talvez a decisão mais sensata que pudesse tomar por ambos, por mais dolorosa, fosse afastar-se da vida dela de uma vez por todas, como Amanda tanto lhe suplicara. — Onde está minha sobrinha? — A voz aflita e impaciente de Lady Adair, tentando abrir caminho por entre os guardas despertou-o dos terríveis pensamentos. Logo a viu se aproximando, com Lady Lillian e a dama de companhia vindo logo atrás.


— Ela está ali, sendo atendida pelo médico, Lady Cromwell — mostrou ele à mulher. — Está com um vergão feio, mas não haverá dano permanente. Recuperou a consciência por alguns momentos, mas tornou a perder os sentidos. Enquanto as outras duas mulheres se aproximavam de Amanda, Thomas ainda deteve Adair por alguns momentos. — E ela perguntou por Compton — disse-lhe com o semblante anuviado. — Me diga, o que há entre eles? Ao deparar com a expressão torturada nos olhos do duque, Lady Adair, enfim, compreendeu. Então, como suspeitara, havia mesmo um sentimento muito forte entre sua sobrinha e Eastmore. Achou melhor usar de toda a franqueza. — Amanda havia decidido aceitar a proposta de Lorde Compton. Mas, então, ele... quero dizer, a mãe dele a retirou por causa desta corrida. — Num tom de desafio, ela acrescentou: — Talvez ainda volte a haver a conversa sobre um casamento entre ambos no Natal. O que pretende fazer a respeito? — Por um instante, a mulher acreditou que o duque falaria honestamente acerca dos sentimentos por Amanda, estampados de forma tão claro em seu rosto bonito, mas ele tornou a endurecer o semblante e o momento passou. — Não há nada que eu possa fazer, se é Compton que ela quer. No momento, tenho que acertar umas contas com Ellington. — Lançando um último olhar para o rosto adormecido de Amanda, Thomas retirou-se com uma mesura. Lorde Ottobon, que acabara de chegar, tornou a sair rapidamente em sua companhia. Comum olhar entristecido, Lady Adair o observou se afastando, depois dirigiu sua atenção para a sobrinha. Então, era assim... Sacudindo a cabeça, soltou um profundo suspiro ante certas tolices do amor da juventude. "Mas é a você, Sua Graça, que tenho certeza que Amanda quer acima de tudo, de corpo e alma. O problema é que ela parece ainda não poder admitir o fato."

VINTE E QUATRO

Amanda perdeu a consciência apenas por alguns minutos e, ao recobrá-la, foi como se mil tambores primitivos retumbassem em sua mente. A dor em sua cabeça e o ardor em seus olhos a fizeram soltar um gemido abafado. Havia uma tremenda confusão de vozes do lado de fora do estábulo, acentuando o zunido em seus ouvidos. Novamente tentou abrir os olhos. Achando o esquerdo inchado demais para conseguir mexê-lo e apenas entreabrindo de leve o direito, começou a ficar assustada. Um medo que aumentou de proporção ao ouvir sua mãe chorando e soluçando ao seu lado. — Oh, minha criança! O pranto e os lamentos de Lady Lillian eram acompanhados pelos de Bess, com súplicas aos céus para que nada de grave tivesse acontecido.


— Saiam já daqui, vocês duas! — A ordem irritada foi dada por Lady Adair. — Ninguém consegue pensar direito com tantos choramingos! Doutor, por favor providencie um calmante ou algo assim para elas, para que deixem a garota ao menos respirar sossegada. — Tia Addie? — Lutando para se erguer para uma posição sentada, Amanda pousou a mão numa das têmporas que latejavam, tomando o cuidado de não tocar nos olhos. — Estou aqui, querida. Isso, evite tocar seus olhos. É só um vergão. Um médico acabou de examiná-la e disse que o ferimento foi superficial e que você só precisa de repouso. Quando chegarmos em Londres, chamaremos outro para uma consulta mais minuciosa. Agora o importante é sairmos logo do meio desta balbúrdia. — Me diga o que está acontecendo? Não podemos sair ainda? — Por enquanto não. Você deixou este lugar em polvorosa ao vencer. Sem mencionar a surpresa quando todos viram seus cabelos esvoaçando e perceberam que era você... — Onde está Black Victory? E Jamie Deal? Maldito Ellington! Não consigo enxergar. — Está tudo bem. Procure se acalmar. — A tia ajudou-a a deitar-se sobre a palha novamente. — A carruagem está sendo trazida para perto e sairemos assim que possível. — Oh, Black Victory venceu! — exclamou Amanda, incapaz de conter sua alegria. — Sim, querida. Essa é a razão do alvoroço. A multidão ainda está aclamando a sua vitória. — Onde está Thomas? Ele esteve aqui agora há pouco, não é? — Esteve, mas saiu com Ottobon. Parece que foram atrás de Ellington. Agora, procure se acalmar. Logo estaremos em casa. Como a tia prometeu, a carruagem não demorou a ser trazida. Amanda deixou o estábulo amparada por um preocupado Jamie Deal. Logo que saiu, ela fez questão de tocar Black Victory, afagando-lhe o focinho. — Leve-o para casa tão logo puder, Jamie. Guardas formavam um cordão de isolamento, afastando a multidão que ficara ainda mais eufórica com o surgimento da jovem. Mesmo sem poder abrir os olhos, ela sorriu e ergueu as mãos acima da cabeça, acenando-as, o que fez o povo vibrar. — Vitória! Vitória! Vitória! — aclamava o coro de vozes. Quando a carruagem dela partiu, escoltada por inúmeros cavaleiros, a triunfante aclamação ainda a acompanhava. Tarde daquela noite, Lady Adair, enfim, deixava os aposentos da sobrinha adormecida em direção a seu quarto, quando um desnorteado Hastings surgiu de repente no alto da escadaria. — Céus, homem, quase me mata de susto! — Não pude impedi-lo, senhora! Eu... Degraus abaixo do esbaforido mordomo, avançava o duque de Eastmore, uma expressão determinada em seu rosto.


— Eastmore! O que está acontecendo? — exclamou ela, boquiaberta. — Não pode ir invadindo assim a casa. Explique-se, sim? — Boa noite, Lady Cromwell. — Ignorando as inúteis tentativas de Hastings de barrálo, o duque subiu ao corredor e cumprimentou a senhora com uma galante mesura, como se estivessem num salão de baile. — Vim para ver Amanda. E não sairei daqui antes disso! — Hastings, obrigada. Pode deixar que eu resolvo o assunto com Lorde Eastmore. O velho homem assentiu, mas manteve-se por perto caso sua assistência fosse solicitada. Satisfeita, Lady Adair tornou a virar-se para o duque. — Agora, Eastmore, queira se explicar melhor, por favor. — Eu gostaria de me certificar de que Amanda está bem... Quero dizer... — Thomas fez uma pausa, sentindo-se subitamente ridículo por ir invadindo a mansão assim no meio da noite. Não soube como prosseguir, exceto com sinceridade. — Adair, por favor. — Amanda está dormindo. Outro médico veio vê-la e lhe deu um forte sedativo. Na certa, só acordará pela manhã. — Para enfatizar, Lady Adair soltou um suspiro cansado. Fora um dia cheio. Mal haviam chegado do hipódromo, e uma multidão se formara ao redor de Vicroy House, aclamando sua sobrinha pela vitória. Buquês de flores e cartões de cumprimentos haviam chegado às dezenas e parecia que, apesar da insensatez de Amanda, ao menos a família Victor estava reconquistando seu prestígio. Enfim, fora a custo que conseguira fazer a jovem parar de acenar pela janela e repousar com a ajuda do remédio. — Prometo que não vou demorar. Só quero vê-la — insistiu Thomas. A velha senhora estudou-o por alguns momentos. Os olhos dele pareciam conter um brilho de... súplica? Possivelmente. Com um novo suspiro, ela decidiu que não haveria veria nenhum mal em atender-lhe o pedido, já que lhe era de tão óbvia importância. — Está bem. Lady Adair conduziu-o até o quarto da sobrinha, acendendo a vela de um castiçal ao lado da cama. Depois, afastou-se para um canto, para que o duque se aproximasse da jovem adormecida. Se ao menos houvesse um jeito de unir aqueles dois turrões!, pensou, ao observá-los. Era evidente que haviam sido feitos um para o outro. Com um sorriso sonhador, ela observou o duque sentando-se na beirada da cama e manteve-se atenta. Thomas contraiu o semblante ao ver o vergão atravessando as pálpebras de Amanda. Com extrema gentileza, afastou-lhe uma mecha negra da. fronte acetinada, contemplandolhe o rosto por longos momentos. Depois, pegou-lhe a pequena mão que repousava acima das cobertas. Virando-a com delicadeza, inclinou a cabeça e depositou um beijo terno na palma macia. Fechou-lhe os dedos devagar, como se quisesse reter o beijo até o momento em que ela acordasse. Moveu os lábios num sussurro, e Lady Adair esforçou-se para ouvir. — Adeus, meu amor. Abruptamente, Thomas levantou-se e deixou o quarto. Tão rapidamente quanto aparecera, deixou a mansão; a imagem de sua amada a acompanhá-lo pela noite escura.


VINTE E CINCO

Alguém abrira as janelas, permitindo que o sol se filtrasse para o interior do quarto; o canto melodioso de pássaros lá fora parecendo no momento insuportável para têmporas que latejavam. Vários gemidos de protesto ecoaram do meio das cobertas até que, finalmente, Amanda despertou por completo. — Já era tempo de você voltar a este mundo! — A voz de Lady Adair vinha de uma cadeira ao lado da cama. — Oh, por que minha cabeça parece que vai explodir? — Láudano! O médico insistiu em fazê-la sorver algumas gotas quando, enfim, colocamos você na cama. — A tia sacudiu a cabeça. — Tentei lhe dizer que não era necessário, que você era tão forte quando o cavalo do qual havia caído, mas ele insistiu. Agora vejo que eu tinha razão. A droga não era necessária. O homem é mesmo um tolo! Um débil sorriso brotou nos lábios de Amanda. Fez menção de afastar as cobertas como se fosse se levantar. — Preciso ir ver se Black Victory... — Nada disso! — declarou Lady Adair, tornando a ajeitar-lhe as cobertas. — Jamie Deal está aí fora, andando de um lado ao outro há horas, esperando você acordar. Ele mesmo vai poder lhe assegurar que o cavalo está bem. A velha senhora abriu a porta do quarto, revelando um preocupado Jamie Deal. Estava parado no corredor com o chapéu nas mãos e o cenho franzido. — Venha falar com ela, Jamie. Ou nunca vou conseguir mantê-la quieta nessa cama. O cavalariço aproximou-se timidamente. — Céus, menina! — exclamou, sem poder ocultar a perplexidade assim que viu o rosto de Amanda. De imediato, ela levou a mão à face, apavorada. — Me dê um espelho, tia Addie! — Vai haver tempo o bastante para isso depois. — Então, eu mesma vou me levantar para arranjar um. — Oh, está bem! — exclamou a tia. — Apenas se lembre, o ferimento parece um pouco pior do que é na realidade... Recostada nos travesseiros, Amanda pegou o pequeno espelho redondo e examinou seu reflexo. O que viu foi a face machucada de uma estranha. Um gemido escapou de seus lábios, mas não disse nada. Seus cabelos negros haviam sido afastados por uma fita, revelando um rosto pálido com dois grandes olhos, sombreados por manchas arroxeadas. Atravessando as pálpebras e o nariz, havia um vergão inchado, entremeado aqui e ali por


cortes que haviam sangrado. A fronte, as maçãs do rosto, a boca e o queixo, embora muito pálidos, não haviam sido atingidos. Ela soltou um suspiro trêmulo e pousou o espelho sobre as cobertas. — Bem, é ótimo que agora eu esteja abastada de dinheiro, pois pelo jeito, receio que tenha perdido minha boa aparência. — O comentário espirituoso tentou encobrir o quanto Amanda estava chocada com o que vira. — O médico assegurou que tão logo o inchaço passe e os ferimentos superficiais sarem, não ficará nenhuma marca em seu rosto — disse-lhe a tia, com gentileza, enquanto pegava o espelho de volta. — Puxe uma cadeira, Jamie, e tranqüilize-a sobre aquele cavalo. Vou descer para providenciar o café da manhã para ela. Não jantou ontem e já é quase meiodia sem comer nada. Lady Adair retirou-se, e o velho cavalariço sentou numa cadeira próxima à cama. — Menina, aquela foi a corrida mais empolgante que já vi na minha vida! Amanda o lembrou de sua principal preocupação. — Black Victory está esgotado? — Imagine, ele parece pronto para disputar outra corrida. Descansou na baia, mas hoje de manhã já estava ansioso para galopar se lhe eu desse a chance. — Oh, felizmente! Eu estava tão preocupada. — Ela relaxou com as boas notícias. — Black Victory foi mesmo maravilhoso, não? — E como! — Nem as trapaças do maldito Ellington conseguiram segurá-lo! Mas vou fazê-lo pagar pelo que me fez! — Eastmore tentou ir atrás dele, mas não conseguiu encontrá-lo. Ellington fugiu largando o baio na pista, esgotado e com as marcas do açoite... — Que maneira horrível de tratar um animal! Aquele garanhão deu o melhor de si. E acabou sendo mal-tratado e abandonado! — Mas não vai ser mais. Agora o baio pertence a você. E vai sarar dos ferimentos, assim como você. Um brilho entusiasmado iluminou o semblante de Amanda. — Nós ganhamos tudo... o dinheiro e os cavalos! Estamos a salvo agora, não é? — Sim. Mas fiquei com muito medo no momento em que vi o desgraçado... me perdoe, menina... ao vê-lo atingindo você com o açoite. E quando o garanhão passou com você pela linha de chegada, tornei a ficar entusiasmado com a corrida. Mas depois, ao tentar me aproximar e ver o cavalo com a sela vazia... meu coração quase parou. — Depois que Ellington me atingiu, não pude enxergar mais nada. Só me agarrei firme em Black Victory. Tinha o rosto como que em fogo e podia ouvir a multidão. Enfim, acabei perdendo os sentidos. — Deve ter desmaiado quando Black Victory parou, após ter cruzado a linha de chegada. Deslizou da sela até o chão, caindo próxima aos cascos. A multidão estava tentando


chegar até você, mas o garanhão mantinha a todos afastados. Então, ele deixou que eu me aproximasse, e Eastmore carregou você até os estábulos. — Sim, ele estava lá quando despertei — disse ela, pensativa. — O duque parecia muito preocupado. Depois vi a expressão furiosa dele quando saiu atrás de Ellington, como se quisesse matá-lo pelo que fez a você. O homem estava com o coração apertado por sua causa, menina, isso eu posso dizer. — Você é meu velho amigo, Jamie. Por isso vou lhe fazer esta pergunta e esperar que me responda com toda a sinceridade. Acha mesmo que Thomas se importa comigo, ao menos um pouquinho? — Sabe que é como uma filha para mim e que eu jamais mentiria a você. Um homem só fica naquele estado em que vi Eastmore, por sua causa, quando sente algo de muito profundo por uma mulher em seu coração. Duas lágrimas rolaram pelo rosto abatido de Amanda, e o velho homem prosseguiu, apesar do súbito aperto no peito. — Falei com o jóquei da égua árabe malhada, depois que trouxeram você para casa. Ela foi inscrita na corrida por Eastmore, embora não soubéssemos. O homem disse que o duque a colocou na corrida para olhar por você. Sabia o quanto era veloz e que, se você não conseguisse ganhar, ele venceria. O jóquei estava preocupado porque havia recebido ordens rigorosas de seu mestre para olhar por você, para não deixar que nada de mal lhe acontecesse. Estava morrendo de medo por ter falhado em zelar por sua segurança. — A égua malhada pertence a Eastmore? — Amanda estava perplexa com o que acabara de ouvir. — Não mais — sorriu o cavalariço. — Ela agora também é sua. Aliás, Ottobon se ofereceu para providenciar o transporte de todos os cavalos que você ganhou para Victor Mall. Lady Adair voltou ao quarto, trazendo uma bandeja com o café da manhã para a sobrinha. Vinha seguida de Lady Lillian. Jamie Deal retirou-se para deixá-la fazer a refeição e repousar mais. Lady Lillian sentou-se na beirada da cama. — Filha, lamento tanto pela forma como tenho agido com você. Oh, quando a vi caindo daquele cavalo, temi que estivesse morta e que nunca pudesse lhe dizer o quanto a amo. — Um acesso de lágrimas ameaçou se apoderar dela. — Lillian, você prometeu! — censurou-a a irmã. — Mamãe, eu sei que me ama. E teve toda a razão para ter ficado furiosa comigo. Agi de forma imperdoável! Não sei o que me acontece... Simplesmente não consigo raciocinar, até que já me vejo metida em alguma confusão! Mas vou tentar melhorar. Prometo a vocês. — Trate de comer — ordenou-lhe a tia. — Tudo o que importa é que você está bem. Sabe, tem havido uma verdadeira parada diante da porta da frente. Inúmeros jovens lordes passando por aqui para perguntar como você está. Pensei em instruir Hastings a dizer aos visitantes que não estávamos em casa, mas já que tantos deles estavam trazendo vultosos cheques de duas mil libras cada, mudei de idéia por completo, decidindo receber a todos!


— É mesmo? Oh... — Amanda começou a erguer as sobrancelhas, em surpresa, mas a dor a fez parar e soltar um gemido. — E isto chegou também — disse Lady Lillian, entregando-lhe um envelope em expectativa. — Por um mensageiro especial! E acompanhado por um imenso buquê de flores. Amanda quebrou o lacre dourado do envelope e abriu-o, lendo o cartão em voz alta: "Com os sinceros votos de uma pronta recuperação, seu sempre amigo, Barnaby." — Oh, dele... — exclamou a mãe, em evidente desapontamento. — Pensei que fosse do du... Oh, Adair, você me cutucou! A irmã ignorou o protesto, comentando: — Bem, esse cartão mostra mais coragem e bom senso do que o rapaz jamais deve ter tido em seus trinta anos de idade! Podem apostar que a mãe de Barnaby não teria aprovado que mandasse flores nem para os nossos túmulos! Assim sendo, talvez haja a chance de... Quero dizer, para o caso de não haver outro preten... — Chega dessa história de pretendentes — interrompeu Amanda. — Vamos fazer planos de outro tipo. Você disse há pouco que as apostas começaram a ser pagas, não é? — Aliás, todas já foram pagas, exceto a de Ellington. E duvido que ele torne a aparecer na cidade. Mas Lorde Ottobon disse que a indignação pública vai forçar os administradores dos bens de Ellington a honrar a aposta e pagar você. Depois de ter saído daqui ontem à noite, imagino que Eastmore tenha pensado em tratar desse assunto também. — Ele esteve aqui? — Sim. Às altas horas. Não sossegou enquanto não o deixei ver você. Assim, eu o acompanhei até seu quarto. Ele sentou-se na beirada da sua cama por alguns momentos, apenas observando você dormir. Depois... — Adair pegou a mão da sobrinha, indicando-lhe a palma — ...o duque beijou você bem aqui. Então... — nesse ponto, a velha senhora soltou um suspiro sonhador — ...Eastmore disse: "Adeus, meu amor". E foi embora. — Foi embora? — Oh, tão romântico! — exclamou Lady Lillian, da mesma forma como fazia a cada vez que pedia que a irmã lhe repetisse a história. — Para onde ele foi? — A voz de Amanda soou embargada pela ameaça de lágrimas. — Não sei, querida. Mas um dos lacaios disse que a carruagem a espera dele estava repleta de bagagem. A tia afagou-lhe os cabelos negros. — Mas tente não se preocupar com isso agora. O tempo vai explicar tudo. Agora que já comeu, procure repousar, sim? Antes que a mãe e a tia se retirassem, Amanda lhe fez mais um pedido. — Por favor, envie uma mensagem ao sr. Vandevilt para que venha falar comigo o mais breve possível. E diga a Jamie para preparar os cavalos. Assim que eu puder tirar os assuntos de negócios da cabeça, vamos voltar para casa. Oh, como sinto saudades de Victor Mall! Lady Adair assentiu, fechando a porta atrás de si. Tão logo ficou a sós, Amanda afundou-se nos travesseiros. Enfim, voltar para casa... para curar todas as suas feridas. A dor


em seus olhos era insignificante se comparada a que dilacerava seu coração. Thomas estivera ali para vê-la... Maldito remédio que a fizera dormir tão profundamente! Ele estivera ali, mas apenas para lhe dizer adeus. Para onde teria ido? Será que pensava que ela poderia se casar com algum outro... depois de se dar conta que ele a amava? Sim, Thomas a amava! Jamie Deal praticamente dissera isso. E sua tia também... "Adeus, meu amor..." Sim, ele a amava! Mas por que, então, a deixara? Será que não a amava com a mesma febril intensidade com que ela o amava? Enfim, as lágrimas rolaram por sua face. Se ao menos estivesse se sentindo bem o bastante para se levantar daquela cama! Iria atrás dele até o fim do mundo para lhe fazer tais perguntas. Incapaz de conter as lágrimas, levou a palma aos lábios, como se assim pudesse retribuir o beijo de seu amado. Onde quer que ele estivesse. Atendendo prontamente à solicitação, o sr. Vandevilt achava-se na biblioteca de Vicroy House às onze horas da manhã seguinte. Passado o efeito prolongado do remédio que a deixara na cama no dia anterior, Amanda se levantara bem-disposta para recebê-lo. Da reunião estava participando apenas sua tia, já que Lady Lillian saíra para visitar uma amiga. Após garantir ao velho homem que de fato estava se sentido bem e agradecer sua preocupação, ela passou para os negócios. Com uma imensa sensação de alívio, colocou à frente dele, por sobre a escrivaninha, uma considerável pilha dos cheques nominais a ela. — É por isto que queria vê-lo, sr. Vandevilt. Quero pagar todas as dívidas de meu pai. Depois, veremos a quantia que sobra para as futuras despesas e para investir um pouco em Victor Mall, se possível. — Não compreendo, senhorita. Eu realmente ouvi sobre essa, hã... aposta, como na certa todo mundo ouviu. E como administrador dos negócios da sua família, esperava que entrasse mesmo em contato comigo quando as notícias do seu... triunfo chegaram à firma. Mas, srta. Victor, pensei que soubesse, quero dizer, quando não mais entrei em contato, que... — Céus, homem! Soubesse o quê? — perguntou Lady Adair, impaciente. — Ora, que todas as dívidas já foram pagas! Aliás, há dois meses! — exclamou ele. — Tudo, desde as dívidas deixadas pelo visconde Victor até as contas mais recentes da modista de vocês. — Tudo pago? Mas por quem? — indagou Amanda, atônita. — Não estou autorizado a revelar. O lorde, hã... quero dizer, a pessoa que pagou as dívidas me pediu que seu nome nunca fosse revelado. Por uma questão de ética, devo manter tal sigilo, embora tenha achado tal pedido estranho na ocasião. De qualquer forma, presumi que a senhorita já soubesse de algo a esse respeito. — Sr. Vandevilt, tem que me dizer o nome desse cavalheiro, Para que eu possa pagálo de volta. — Mencionei essa possibilidade, mas ele me garantiu que ao pagar tais dívidas não estava pensando nessa quantia como um empréstimo. Disse que era um presente, não havendo portanto sequer a cogitação de um futuro reembolso. Assim, como vê não há mesmo porque revelar sua identidade. Portanto, a soma total destes cheques e toda sua para usá-la como lhe aprouver, senhorita.. Vou depositá-la, claro, na sua conta e aguardar suas futuras instruções.


— Entendo... — murmurou Amanda, boquiaberta com o novo rumo dos acontecimentos. Depois que o velho advogado se retirou para cumprir sua agenda de compromissos, ela virou-se para a tia; o olhar de ambas se encontrando em mútua incredulidade. — Será que foi Barnaby? — perguntou Lady Adair. — Não! — exclamaram as duas num pronto uníssono que as fez rir. — Oh... Só pode ter sido Thomas! Ele foi o único a quem falei, certa vez, sobre a existência do sr. Vandevilt e dessas dívidas de papai. — Amanda levantou-se de detrás da escrivaninha, andando de um lado ao outro da biblioteca. — Também acho que só pode ter sido o duque, querida. — Tia Addie? — Ela lançou um olhar para a sábia senhora que a observava de uma das cadeiras. — O tipo de homem capaz de um gesto desses, de dar um presente sem revelar a identidade, sem esperar gratidão... Alguém capaz de um gesto assim jamais poderia ser um... devasso, não é? — Claro que não! O que está querendo dizer? Acho que Thomas Eastmore é um cavalheiro dos mais íntegros. E se quer saber, acho que só um homem apaixonado faria uma coisa dessas e, ainda por cima, insistindo em ficar incógnito. E eu lhe digo, se o que Eastmore sente por você não for amor... — Acha mesmo? Oh, tia Addie. Cheguei tão perto de ter o amor mais perfeito de uma vida e... Oh, acho que estraguei tudo como meu orgulho... com esta maldita teimosia! — Mas por que essa dúvida sobre o caráter de Eastmore, afinal? — É que eu o vi com a amante... Louise Sinclair, mais de uma vez! — Lágrimas afloraram aos olhos de Amanda. — Oh, minha querida, não chore. — A tia levantou-se e conduziu-a pelos ombros até um dos sofás. Enxugou-lhe os olhos com um delicado lenço rendado. — Agora, me escute. Você sabe que não me envolvo com esse tipo de mexericos, mas já que tocou no assunto, fiquei sabendo de algo que talvez a tranqüilize. Durante o baile de aniversário da princesa Vitória, ouvi por acaso de uma roda de matronas fofoqueiras que o duque de Eastmore havia terminado o romance com essa tal amante. Segundo as ouvi comentando, parece, inclusive, que a tal Louise havia ficado inconformada e praticamente lhe implorara para que ele tirasse para dançar durante o baile. — Oh... — Amanda ficou aturdida com á revelação. Então... ao surpreendê-los no terraço, Louise devia ter ficado com raiva e fizera questão de dar a impressão que ainda tinha algo com o duque! — De qualquer modo, os homens... em especial os solteiros da idade de Eastmore, têm lá suas amantes. É um fato na natureza. — Não apenas os solteiros! Veja o exemplo de papai! — Infelizmente, isso é verdade. Mas não condene Eastmore pelos erros dos outros. Ele é um homem experiente, viajado, vários anos mais velho que você. Pense bem. O duque até levantaria suspeitas sobre sua virilidade na nossa sociedade se não aparecesse de vez em quando com uma namorada ou duas, não acha?


Tal lógica deixou Amanda perplexa. Céus, será que ela punira Thomas pelos pecados de seu pai? — Tem razão. Mas é que eu queria tanto ser a única mulher na vida de um homem... Não queria ser ignorada por meu marido, como minha mãe foi. Não poderia suportar tal humilhação. — Minha querida, você é forte, determinada. Não é nada como sua complacente e frágil mãe. Nenhum homem em seu juízo perfeito poderia ignorar você. Eu lhe digo, o homem que se apaixonar por você, não terá sequer olhos para nenhuma outra. Acredite. E se quer saber, acho que Eastmore é esse homem. — A tia fitou-a com uma expressão solene ao acrescentar: — Da próxima vez que o vir, e não duvide que tornará a vê-lo, receba-o de braços abertos, em vez de com medos em forma de julgamentos apressados. — Oh, tia Addie! E o que farei. Pode ter certeza. Se tornar a vê-lo... Não! Quando tornar a vê-lo, é o que farei — prometeu Amanda; embora seu próprio comportamento tendo sido tão deplorável, ela temesse que o duque de Eastmore jamais quisesse vê-la outra vez.

VINTE E SEIS

Era véspera de Natal. Grandes flocos de neve haviam começado a cair logo pela manhã, cobrindo tudo com uma espessa camada branca. Agora um sol fraco saíra, suficiente para transformar a tarde num palácio de cristal cintilante. Victor Mall tinha uma nova roupagem que transformara os contornos familiares e tornara a alameda de acesso num caminho encantado, como que recoberto por uma extensa passadeira alva. Já havendo saído várias vezes para a neve naquele dia, Amanda jamais se sentira tão jovem e tão livre do peso da preocupação. Sem tolerar mesmo nenhum confinamento à casa, decidiu, enfim, levar Victoire para um passeio. Galopou a valer pela neve, para aquietar o espírito de ambas. Como de costume, a corrida terminou no curral em que se achavam as companheiras da potranca. Havia tão poucos cavalos agora na fazenda, mas os que haviam ficado estavam a salvo. Ela se inclinou sobre a cerca e observou o garanhão preto trotando no chão coberto de neve. Com excesso de peso, mas vaidoso, estando de volta em casa por todos esses longos meses, corria livre com as poucas éguas ainda na idade de procriar... dando de bom grado mais uma contribuição para o reinicio da criação de puros-sangues em Victor Mall. A égua malhada estava com ele também. Talvez tivesse sido um erro deixá-la cruzar com Black Victory, uma vez que não encarava a égua como verdadeiramente sua; não após ter descoberto a generosidade de Thomas em pagar as dívidas dos Victor. Black Victory aproximou-se da cerca, e ela afagou-lhe a cabeça com carinho. — Meu bom amigo... Está desfrutando da sua merecida aposentadoria, não é?


Amanda ainda se deteve por longos momentos junto ao curral, deixando-se dominar pelo contentamento em simplesmente estar ali no campo, com seus animais, em seu lar. Depois tornou a montar em Victoire e sair a pleno galope pelos campos. Aquela tarde estava de fato sendo perfeita para sentir a alegria de viver. Cavalgou até que percebeu que o sol não demoraria a se pôr. Decidiu levar Victoire de volta aos cuidados de Jamie Deal nos estábulos e começou a galopar de volta à mansão. A meio caminho, porém, não resistiu a tentação de parar e fazer um anjo na neve. Aquela paisagem era tão convidativa! Correu para perto de um arvoredo e, olhando ao redor para ter certeza que estava sozinha, jogou-se de costas sobre a neve fofa e começou a agitar os braços para cima e para baixo, a fim de formar os contornos das asas do anjo. Rindo alto de sua própria tolice, não ouviu que alguém se aproximava atrás de si. Só quando viu uma sombra cobrindo seu rosto, ergueu a cabeça abruptamente. Sobressaltada, deparou com um par de botas, pernas fortes... um pesado sobretudo e, enfim... o rosto sorridente do duque de Eastmore! — Ei! Quase me mata de susto! — exclamou ela, tratando de se levantar depressa e readquirir a compostura. — Nunca deixa de me surpreender, srta. Victor. O que encontro aqui? Um anjo desenhando outro anjo na neve? — A voz possante era a mesma da qual ela vinha se lembrando nos últimos dois meses, desde a última vez que a ouvira. — Hum... vejo que voltou galante, Sua Graça. —Amanda fitou-lhe o rosto másculo e adorado, mal cabendo em si de felicidade. — Aliás, talvez essa seja a primeira vez que não se dirige a mim zangado. — Raiva seria a última coisa que passaria pela minha cabeça no momento em que, enfim, revejo você. — Thomas a fitava com incrível intensidade, os olhos da cor do mel cintilando com um brilho indefinível. — Está mesmo tentando me lisonjear... Sabe perfeitamente da péssima opinião que sempre teve a meu respeito e que não hesitou em demonstrar — provocou-o ela, um sorriso radiante iluminando-lhe a bela face. — Exceto uma vez. Você era um homem totalmente diferente depois da corrida. E lhe fiquei muito grata por sua ternura. — Já que mencionou o assunto, aproveito para me desculpar pelo meu comportamento incivilizado de muitas ocasiões. Dedicarei minha a vida a me redimir com você. — Ele retribuiu o sorriso, continuando a fitá-la com intensidade. — Talvez para começar, um presente de Natal possa ser um tipo de oferta de paz, como também um pedido de desculpas. Está lá na mansão. — Ele se virou para a potranca. — Vamos indo, antes que Victoire fique com as patas congeladas para sempre no chão. Sua mãe me mandou atrás de você. Vê? Está começando a nevar outra vez. — Oh, já esteve na mansão? — perguntou ela, seguindo-o até a potranca. — Oh, sim. Claro, ao chegar de viagem estive primeiro em Eastmore Park... para resolver uns assuntos. E cheguei aqui há pouco. Aliás, já convidei a mim mesmo para passar o Natal com vocês. Thomas ergueu-a pela cintura, preparando-se para sentá-la na sela da potranca. Detendo-se a fitar-lhe os surpreendentes olhos azuis, estava satisfeito em ver que nenhuma marca do açoite cruel de Ellington ficara no rosto dela. Os lábios rosados curvavam-se num


delicioso sorriso, nos lindos olhos havia um brilho radiante. Depois desses longos dois meses, ele mal podia esperar pelo tão ansiado momento de beijá-la, mas forçou-se a esperar mais um pouco. Ao sentá-la na sela de Victoire, afastou as mãos de sua cintura esguia e pousou a palma na coxa bem-feita de Amanda, por sobre a calça de montaria. Os dois trocaram um olhar ardente; um olhar de um desejo contido há tanto tempo, repleto das coisas que ainda não haviam sido ditas, transbordando de promessas. Afastando-se um pouco, Thomas deu um tapinha no lombo da potranca cinzenta, dirigindo-a para casa. — Agora vá, minha gata arisca. Meu cavalo vai alcançar Victoire antes que vocês galopem por menos de vinte metros. Desafiada, ela saiu galopando em disparada pele neve. Mas por mais rápido que a potranca corresse, o coração de Amanda pulsava ainda mais depressa. Thomas voltara! De onde quer que tivesse estado nesses longos dois meses, havia retornado para ela! Não cometeria erros estúpidos dessa vez, prometeu a si mesma, nem faria jogos tolos. Trataria de fazê-lo entender, de uma vez por todas, que ela o amava de todo o seu coração. E enfatizaria que esperava dele sua total atenção, e nenhuma outra maneira serviria. Pois desta vez, sua intenção era a de que Thomas Eastmore fosse só seu e nunca mais a deixasse.

VINTE E SETE

A tradição em Victor Mall sempre ditara que os presentes para a criadagem fossem distribuídos na véspera de Natal, evento seguido de um tranqüilo jantar para a família e uma festa para os criados em suas dependências. E, então, o dia de Natal ficava reservado para as comemorações da família, feitas com toda a pompa e cerimônia. Este seria o primeiro ano em muitos em que a tradição poderia ser, enfim, retomada. Agora, descendo as amplas escadarias devagar, atrás da mãe e da tia, Amanda se deliciava como farfalhar de seda vermelha de seu vestido, ondulando ao seu redor. Estava frio nas escadarias de mármore, mas não se apressou, nem jogou seu xale por sobre os ombros. De alguma forma, isso teria quebrado a magia. Observou, abaixo, a renovação do majestoso salão de entrada; depois levantou os olhos para o imenso lustre de cristal, enfim, com todas as suas velas acesas como no distante e glorioso passado. Embora cautelosa com as finanças, ela tornara a empregar em Victor Mall o número original de criados. Apesar de ter investido a maior parte do dinheiro ganho na corrida nas fazendas, aviários e leiterias, que sustentariam a propriedade; e, para decepção de Lady Lillian, ter gasto bem pouco na redecoração da mansão, ela providenciara para que o lugar passasse por uma limpeza geral. Com um exército apropriado de criadas e lacaios, cada canto, cada objeto e lustre da propriedade haviam sido esfregados, lavados ou polidos.


Durante os últimos seis meses, houvera grande atividade em Victor Mall, que agora resplandecia em riso e vida pela primeira vez em mais de uma década. Era por todas essas razões que Amanda estava orgulhosa em hospedar Thomas em seu lar. Sentia-se confiante em poder lhe oferecer acomodações limpas e confortáveis e à sua altura. Sozinha nas escadarias, virou-se com um sorriso para o retrato de sua bisavó, novamente pendurado em seu lugar de origem. Trajada na réplica do vestido vermelho da pintura e com seus cabelos arrumados por Bess no mesmo penteado elaborado, era como se a primeira Amanda Pearl tivesse voltado à vida. — Consegui, viscondessa! Como prometi, salvei meu lar para os meus futuros filhos. — Conseguiu mesmo, Amanda Pearl. — Ao som da voz possante, ela virou-se devagar, assumindo a mesma pose da mulher no retrato. Thomas achava-se, ao pé da escadaria, contemplando-a com um olhar fascinado. — O que me diz, Sua Graça? — perguntou ela, observando-o subir os degraus lentamente em sua direção. — O retrato está vivo? — Eu digo que gostaria de lhe dar seu primeiro presente de Natal aqui nas escadas. — Está mais quente no outro salão, com a lareira, mas seja como preferir.— Amanda ergueu um pouco a cabeça e fitou-o por entre cílios negros e espessos. — Oh... querida. Um homem adora uma mulher complacente. Será que amoleceu na minha ausência, ou é apenas uma pequena encenação? — Isso lhe permanecerá um mistério a desvendar, Sua Graça. Só posso lhe adiantar que contei cada dia até seu retorno. Virando-a com gentileza para observá-la em comparação ao retrato, ele comentou: — Está tão parecida com ela esta noite, exceto pelo colar. — Sim — suspirou Amanda, levantando os olhos para a pintura. — Vendido ou perdido no jogo há muito tempo, quem sabe. Parado atrás dela, Thomas inclinou-se para sussurrar-lhe ao ouvido. — Nesta noite, tudo que pertence a Victor Mall estará de volta. Amanda teve um ligeiro sobressalto quando sentiu algo sendo colocado em seu pescoço. Baixando o olhar depressa e tornando a erguê-lo para o retrato, viu que era o mesmo colar que sua bisavó usava. Surpresa, virou-se para fitar o duque. — Oh, Thomas! É o mesmo! Ele passou as pontas dos dedos pelo colar, que agora adornava o colo acetinado dela, tocou os rubis e os diamantes, cravejados em ouro reluzente; os dedos, enfim, roçando-lhe a curva acima dos seios, fazendo-a estremecer. — Estava certa quando mencionou que talvez o colar tivesse sido perdido no jogo. E, pelo que descobri, meus ancestrais deviam saber trapacear melhor nas cartas do que os seus. — Oh, mas você já me deu tanto, aliás a nós... já nos deu demais.


— Não. Nunca será o bastante. — Thomas segurou-a pelos ombros com gentileza e começou a inclinar a cabeça. — Você merece tudo que há de maravilhoso neste mundo — murmurou-lhe de encontro aos lábios. Beijou-a com suavidade antes de soltá-la. Num gesto instintivo, ela inclinou-se na direção dele, desejando mais. O som distante de canções natalinas chegou aos ouvidos de ambos, enquanto os criados se encaminhavam pelos corredores dos fundos até o salão onde Lady Lillian e Lady Adair aguardavam. Amanda pensou que mal cabia em si de tanta felicidade. Quando entrou no salão de braço dado com Thomas, causou sensação. O silêncio reinou, pares de olhos voltaram-se para ver a querida Amanda Pearl tão deslumbrante. Lady Adair observava a sobrinha e o par obviamente apaixonado com uma expressão radiante, como se a união de ambos tivesse sido obra sua e de mais ninguém. A um canto do salão, achava-se uma imensa árvore de Natal; além das velas com fitas coloridas nos aparadores, guirlandas naturais enfeitavam os espelhos acima da lareira, complementando o clima festivo. Conduzida pelo braço do duque, Amanda aproximou-se das senhoras. Lady Lillian ficou boquiaberta ao ver o magnífico colar no pescoço da filha. — Nossa! Esse... esse colar... — Sim, mamãe. É o mesmo do retrato. — Tomei a liberdade de antecipar um presente de Natal à sua filha, viscondessa. Achei que seria apropriado devolver o colar ao lugar onde pertence — explicou Thomas. — Descobri-o por acaso. Uma referência a ele, quero dizer. Eu a vi nas memórias de meu falecido tio-avô. Ao que parecia, o pai dele trapaceava com as cartas e muito bem. Assim, ganhou o colar dos Victor no jogo, por meios duvidosos. Procurei em todos os porta-jóias dos Eastmore, até que o encontrei. Me pareceu um presente apropriado, já que pertence de direito aos Victor... embora não seja nem de longe tão bonito quanto a jóia a que está adornando. Amanda corou, baixando o olhar; Lady Lillian estava comovida, e Lady Adair exibia um sorriso satisfeito. Os criados preencheram o salão com seus cantos natalinos e festividades. Brindes foram feitos à saúde de todos e de Victor Mall. Lady Lillian organizou a distribuição dos presentes, complementados por uma cesta de guloseimas, que cada família levaria para sua casa. Era uma festa barulhenta, animada e feliz. Amanda sentiu os olhos marejados. — Não há razão para lágrimas, querida. — Thomas afastou-a do grupo para enxugarlhe os cantos dos olhos com seu lenço. — O Natal é uma comemoração. — É que estou tão feliz! — O lábio inferior dela tremia. — Todas essas pessoas são minha família. — Eu sei que são. A administração de uma propriedade se torna como uma família, porque ficamos responsáveis por aqueles que nos servem. — É algo que vai muito além disso. Emma ali, com o xale azul nos ombros, foi como uma mãe. Cuidou de mim, quando minha própria mãe se fechou em si mesma. Cassy... aquela com a criança loira em seus braços, me explicou como os bebês são concebidos. Oh e Jamie Deal, ele me colocou no meu primeiro pônei, me amparou na minha primeira queda e ainda vem fazendo isso. Você entende? Essas pessoas, ao me incluírem em suas vidas, me


ajudaram a ser a pessoa que sou hoje. Porque eu era como uma órfã, sozinha nesta imensa casa vazia. — Você teve sorte. — Como assim? — Olhe ao seu redor. Tantas pessoas que a amam. Devia ter visto como tentaram protegê-la quando vasculhei cada canto desta propriedade para descobrir quem era você, logo que nos conhecemos. Nem riqueza nem título, nada os intimidou a me darem alguma informação. Amanda olhou ao redor do salão para os rostos familiares e teve uma nova percepção. Thomas tinha razão. Ela passara tantos anos se sentindo carente que nem prestara atenção a tudo que tivera. Tantas mães querendo abraçá-la e ajudá-la a dissipar seus medos e acalentar suas mágoas. Tantos pais ansiosos para educá-la. Sua infância fora maravilhosa! Por que sofrera com a falta de atenção de um pai legítimo, que de tão absorto pela própria dor não tivera nada a lhe oferecer... e de uma mãe doente de tanto desgosto, quando tivera a devoção de tantas outras pessoas para preencher tal vazio com seu amor incondicional. — Oh, como tenho sido egoísta. Nunca disse a essas pessoas que as amo, o quanto significam para mim. — Querida, você irradia amor por todos os poros desse seu lindo corpo. Sua própria alma é feita de amor, e todos sempre souberam disso. — O duque enxugou-lhe a última lágrima que rolava por sua face. — Agora volte para festa e deixe que a vejam feliz. Esse é todo o agradecimento que querem de você. — Amanda presenteou-o com um sorriso, quando, na verdade, queria beijá-lo mais do que qualquer coisa no mundo. A festa prosseguiu pelas escadarias abaixo, terminando nas dependências dos criados, para só se encerrar nas altas horas da madrugada. Uma mesa requintada fora arrumada na sala de jantar para a família e seu hóspede. As iguarias servidas e o jantar iniciado, a conversa girou em torno da corrida e dos acontecimentos seguintes, conforme esperado. — Oh, quase desmaiei quando me dei conta de que era Amanda montada naquele cavalo! — exclamou Lady Lillian. — O mesmo que o pobre Sheldon... Oh, nem quero pensar. — Eu tinha certeza que ela mesma iria correr. — Thomas tornou a preencher seu copo com o excelente vinho. — Sabia que não confiaria a missão a ninguém mais. Assim, coloquei Ramsey na corrida na minha égua malhada com a intenção de ajudar Amanda, mas ele não foi capaz de protegê-la... — Achou mesmo que ele fosse me ajudar, correndo quase o tempo todo na liderança, enquanto eu ficava para trás com os demais? — Amanda riu. — A propósito, espero que não tenha intenção de colocar a égua nas corridas na próxima primavera. — Corridas? Não havia pensado nisso. Por quê? — Ele ergueu uma sobrancelha na direção dela, mas Amanda apenas deu de ombros com um sorriso maroto. — Além do mais, ela é sua agora. — Não posso ficar com a égua. — Por que não? É uma égua forte, saudável. Sei que não é das mais bonita, mas...


— Não é isso. Estou liberando você da aposta. Só a inscreveu para me ajudar. Não teria arriscado a perdê-la do contrário. — Bobagem. Eu a inscrevi para que ganhasse, caso você não pudesse. Mas você venceu. Nada mais justo que ela seja sua, conforme as normas da corrida. — O tom de Thomas era gentil, mas definitivo. — A propósito, eu soube que Ottobon substituiu seu Denouncer no último minuto por um cavalo menos valioso. — Sim. Ele admitiu que sabia que Black Victory era mais veloz e não quis se arriscar a perder o seu. O ardiloso! — gracejou ela. — Mas Lewis foi de tão grande ajuda reunindo os cavalos que ganhei e os transportando para cá que o perdoei de imediato. — O que fez com todos eles? Parece que eram dezoito, não? — Eu os vendi; a maioria de volta aos respectivos donos que os haviam perdido na aposta. Quanto ao baio que era de Ellington, está sendo treinado para mim nos estábulos de Lewis, para ser inscrito em corridas. A égua malhada tem ficado no pasto com Black Victory e duvido que estará... em forma para correr na próxima primavera... — acrescentou ela, com um sorriso que dizia tudo. — Nos conte — pediu Lady Lillian — você chegou a encontrar Ellington naquela noite? — Infelizmente, não. Quase o alcancei nas docas, mas já ia muito à minha frente. Conseguiram receber a parte dele da aposta através dos advogados? — Sim. Eles a enviaram para nós — respondeu Lady Lillian. — Graças a você. — Mais graças a Ottobon. Ele se incumbiu de cuidar dessa parte. — Pobre Ellington — disse Amanda. — Agora que tudo terminou, quase sinto pena do homenzinho de caráter tão fraco. — Pois eu jamais o perdoarei — declarou Lady Lillian e deixou seu guardanapo no prato. — Bem, meus caros, agora peço que me desculpem. Estou tão fatigada. Um dia tão longo e tanta festividade. E um outro igual pela frente amanhã. Com um sorriso nos lábios, Amanda observou a mãe se retirando. Estava satisfeita em vê-la disposta e feliz novamente. Na certa, estaria em grande expectativa pela vinda de Lorde Melton para o almoço de Natal, no dia seguinte. Enquanto a irmã se recolhia a seus aposentos, Lady Adair sugeriu que fossem tomar um excelente licor que descobrira na biblioteca. Depois que ela e Amanda haviam se acomodado em confortáveis poltronas próximas à lareira, Thomas preencheu três cálices sobre a bandeja preparada por Hastings com antecedência. Entregou-os a elas com gentileza e também se acomodou numa poltrona. — Mas nos diga, Eastmore, por onde andou nesses últimos dois meses? — perguntou Lady Adair, casualmente. — Como eu disse, não consegui alcançar Ellington naquela noite. Na verdade, levei boa parte dos dois meses seguintes para tentar encontrá-lo. Ele foi escapando rapidamente de um lugar para o outro, mas comigo sempre em sua pista. Enfim, eu o localizei em Paris e... bem...


— Thomas! Você não o... Quero dizer... — Amanda interrompeu-se, receando traduzir seus pensamentos em palavras. — Não. Eu não o feri. Simplesmente o "persuadi" a acompanhar um magistrado de volta a Londres para enfrentar as queixas contra ele nas transgressões que fez durante a corrida. — O duque fez uma pausa, olhando de maneira significativa para Amanda. — Depois disso, achando que minhas chances aqui eram nulas, receei não ter nenhuma boa razão para eu mesmo voltar à Inglaterra. Amanda estudou o homem atraente e charmoso sentado à sua frente. Os trajes elegantes não escondiam seu físico forte. Ela suspirou, sonhadora. Então, ele seguira Ellington para se certificar que seria punido, por sua causa. Isso devia significar que a amava de verdade. Lady Adair continuou a pressioná-lo. — E o que o trouxe de volta? O duque esboçou um sorriso absorto, pensando na interessante carta que recebera de um veemente Ottobon, exigindo sua volta, para que se incumbisse da "endiabrada" de cabelos negros, uma vez que ela seria a única mulher no mundo perfeita para ele. — Eu tinha um... problema não resolvido com uma criaturinha de cabelos vermelhos que não me saía dos pensamentos — respondeu ele, lançando um sorriso conspirador para Lady Adair. Amanda sentiu-se congelando por inteiro, a despeito do calor da lareira. Logo a imagem da ruiva Louise Sinclair veio-lhe à mente. Uma dor lancinante expandiu-se por seu peito. O duque não voltara por sua causa, mas por sua amante de cabelos vermelhos, com quem devia querer reatar! Uma súbita fúria dominou-a, uma vontade de sair correndo dali... para longe daquele homem! Como sua tia podia continuar ali sentada, rindo com ele? Deixando seu cálice de lado, ela encenou o que esperava ser um bocejo convincente. — Acho que também vou me recolher ao quarto. Com sua licença. — Levantando-se, foi se encaminhando até a saída da biblioteca, forçando-se a andar com naturalidade. O que queria mesmo fazer era esbofetear o rosto risonho de Eastmore com toda a força e sair correndo dali! Com grande esforço, conseguiu retirar-se e subir as escadarias com a dignidade de uma dama. Mas, uma vez em seu quarto, começou a andar de um lado ao outro em crescente fúria. Mais uma vez se deixara enganar por aquele homem. Quando já estava acreditando que ele não a magoaria, o duque lhe jogava a amante ruiva na cara! E o que estaria fazendo em sua casa, afinal? Se voltara para Louise, por que estava ali, na véspera de Natal? Provavelmente porque a ruiva em questão devia estar passando o feriado com o velho marido! De repente, a lembrança da promessa que fizera a si mesma para evitar erros estúpidos através de julgamentos apressados alimentou sua resolução. Não deviam haver mais mal-entendidos. Iria simplesmente perguntar a ele! O duque não se atreveria a alguma mentira deslavada. Furiosa, abriu a porta do quarto e avançou pelo amplo corredor. Lady Adair, tendo decidido se recolher, encontrou a zangada sobrinha no alto da escadaria.


— Amanda? Ei, me ouça por um instante! Ela deteve-se alguns degraus abaixo e virou-se para a sábia tia com faíscas em seus olhos azuis. — Pare e respire fundo algumas vezes antes de entrar feito uma desvairada naquela biblioteca para lançar acusações sobre a cabeça dele. Abra sua mente, menina, e seu coração! Perplexa, Amanda sentiu sua raiva se dissipando um pouco. Com um pensativo gesto de assentimento, continuou descendo as escadarias mais devagar. Entrando na biblioteca, entrou o duque de Eastmore servindo-se de um novo cálice de licor. — Thomas... — Ela se deteve, incerta sobre como prosseguir. — Sim? — Ao vê-la indecisa, ele conduziu-a pelo braço até uma das poltronas. Depois que a fez sentar-se, ocupou uma poltrona à sua frente. Olhando para aquele rosto adorado, iluminado pelas chamas da lareira, Amanda sentiu seu coração derretendo. Desviou o olhar abruptamente para resistir à tentação de sucumbir ao charme do duque. — Thomas, lembra daquele passeio na sua carruagem, quando um dos cavalos perdeu a ferradura e tivemos que esperar na estalagem pelo ferreiro? — Sim, muito bem — respondeu ele com serenidade para lhe dar coragem, aguardando pacientemente que ela dissesse o que, afinal, a afligia tanto. — E que lhe pedi na ocasião para ser meu amigo? — Sempre fui seu amigo. Amigo... e nada mais?, perguntou-se Amanda, com o coração pesado. Mas tratou de prosseguir antes que sua resolução se dissipasse por completo. — Também lhe perguntei naquele dia, por que os homens não se casam com suas amantes, se mulheres desse tipo os atraem tanto, lembra? Você me disse que me responderia isso algum dia. Acho que deveria ser agora, se não se importa. — Fico pensando se conseguirei lhe explicar algo assim... — O duque franziu o cenho, intrigado. O que estaria passando pelo coração dela para lhe fazer tal indagação? — Bem, existem algumas diferenças entre as mulheres que passam pela de um homem. — Que diferenças? — Bem, há certas mulheres que um homem admira por sua beleza física e aprecia sua companhia, mas são como um ardor passageiro, não lhe despertam a necessidade de um relacionamento duradouro. Um brilho magoado passou pelos olhos azuis de Amanda. Antes que os desviasse para a lareira, o duque o identificou e apressou-se a continuar. — Deixe-me terminar. Chega o inevitável momento em que um homem procura uma esposa e uma mãe para seus filhos. Quando é jovem demais e idealista, ele tem certeza que vai achá-la logo numa das belas mulheres que o atraem. Mas só com o passar dos anos, quando se dá conta de anseios mais profundos, é que acaba encontrando a pessoa ideal e se estabilizando.


Será que Thomas não a achava à altura de ser sua esposa e mãe dos seus filhos?, perguntou-se ela. Se não, então deveria ter vindo até ali para desfrutar de algum tempo com ela, como uma das tais mulheres passageiras, para depois descartá-la! Mas que ousadia! — Agora acho que entendi muito bem. — Amanda levantou-se, encaminhando-se até a saída da biblioteca. — Agradeço por ter me explicado. A voz dele deteve-a a meio caminho. — O que está acontecendo? Por que parece tão ressentida? — Apenas queria saber quais eram as suas intenções para vir até aqui — respondeu ela, virando-se para fitá-lo; raiva e mágoa endurecendo sua voz. — E agora entendo o papel que destinava a mim na sua vida, o qual julgo inaceitável. Preferiria morrer a ser usada dessa forma e depois descartada como alguma... — Céus, não estou entendendo nada! Se importaria em ser clara? — O que estou dizendo, da forma mais clara que posso, Sua Graça, é que me recuso a ser um joguete nas suas mãos. Volte para sua dama de cabelos vermelhos, com ou sem o tal problema não resolvido. E me deixe em paz! — Como? Que dama de cabelos vermelhos... Oh, pelos céus! — O duque estava cada mais confuso e irritado. — Aquela amante ruiva que você teve a audácia de atirar na minha cara na conversa de há pouco. — A voz dela soava baixa e rouca pela raiva. — Louise Sinclair, eu presumo. Thomas estreitou os olhos castanhos-claros numa expressão pensativa e, de repente, arregalou-os. Largou o cálice na mesinha mais próxima, levantou-se e adiantou-se até ela abruptamente. Pegou-a pelo pulso, sobressaltando-a. Levou-a até o corredor e olhou ao redor, como que a procura de algo. — Ora, me solte, ou eu... — Amanda tentava se desvencilhar, mas seus esforços eram em vão. — Ah! — exclamou ele, puxando-a em direção ao salão. Avistou o xale dela sobre uma cadeira e pegou-o, enquanto Amanda continuava a se debater. — Não lute comigo — avisou-a, entre dentes. — Ou usarei mais força para aquietá-la do que vai gostar. Conseguindo intimidá-la com sua fúria, colocou-lhe o xale ao redor dos ombros e continuou a levá-la pelo braço até o terraço. — Maldição de tempo! — exclamou ao deparar com a neve espessa que caía, acompanhada de forte ventania. Erguendo Amanda rapidamente em seus braços, deixou o terraço em direção aos estábulos. Carregando-a com facilidade, praguejou por causa do chão escorregadio, mas não parou até que abriu a porta do estábulo. — Thomas... Depositando-a no chão, ele apontou-lhe um dedo ameaçador; seu tom soou severo. — Nem pense em se mover daí por um centímetro sequer. Afastou-se, acendendo um lampião a querosene que pendia do teto, sua expressão furiosa sob a súbita luminosidade.


— Agora venha aqui. — Não! Não vou receber ordens no meu próprio estábulo. — Ela cruzou os braços em desafio. — Você não tem o direito... — Não me provoque mais, Amanda Pearl! — Thomas tornou a pegá-la pelo pulso. — O que quer de mim aqui, a esta hora da noite? — Algum dia, você vai aprender que há pessoas neste mundo em quem pode confiar. E vai corresponder a uma pessoa dessas com caridade no seu coração e com as garras recolhidas. Lá está a criaturinha de cabelos vermelhos que mencionei. Feliz Natal! — Ele apontou para uma baia atrás dela antes de se virar em direção à saída do estábulo. — Agora, se me der licença, estou gelando até os ossos. Vejo-a pela manhã! E até lá, espero um sincero pedido de desculpas! Amanda teve um sobressalto quando ele saiu batendo a porta. Ajeitando melhor o xale ao redor dos ombros e estremeceu. Virando-se para a baia indicada, deparou com um par de olhos brilhantes e inquiridores. Empolgada pela companhia inesperada, a potranca ergueu e agitou a cabeça, fazendo sua crina flutuar como ondulações de fogo vermelho. — Victory Flame! É você! — sussurrou Amanda. Tinha a voz embargada pela emoção ao reconhecer de imediato a potranca que Thomas ajudara a nascer naquela tarde chuvosa e longínqua. Abriu a portinhola da baia e passou suas mãos geladas pelo pêlo castanhoavermelhado da potranca como se, assim, pudesse aquecê-las. — Bem, Flame, ele disse que tudo que pertence a Victor Mall seria trazido de volta. E com você aqui, foi mesmo. Agora o que vou fazer? — Ela lutava contra as lágrimas que ameaçavam assaltá-la. — Mais uma vez, agi de forma deplorável. Fiz o que a tia Addie me aconselhou a não fazer. Eu o acusei injustamente. Agora Thomas está possesso comigo. Com um último afago no pêlo da potranca, fechou a portinhola e caminhou devagar até a saída, apagando o lampião. Talvez uma boa noite de sono ordenasse o turbilhão de seus pensamentos. Atravessou a neve o mais depressa que pôde de volta à mansão e rumou para seu quarto. Batendo os dentes de frio, livrou-se do vestido vermelho, dos saiotes e roupas debaixo e enfiou-se numa grossa camisola de flanela. Deteve-se diante do fogo que quase se extinguia em sua lareira e praticamente afundou os pés nas cinzas ainda quentes. Foi desmanchando o penteado elaborado, até que suas longas mechas negras começaram a lhe cair pelos ombros. Pensativa, ergueu a cabeça de repente e em seus olhos azuis havia um brilho perigoso que Jamie Deal teria reconhecido. O que a tia havia lhe dito? Receber Thomas Eastmore de braços abertos, em vez de temor? Ela não tinha medo do duque, nem desconfiava mais dele. Sabia que o amava de todo o coração e passaria o resto de sua vida demonstrando-lhe o quanto. Não tinha a intenção de informá-lo sobre isso logo de manhã? Então, que diferença faria se antecipasse a notícia em algumas horas? Adiantando-se até a porta, forçou-se a parar antes de abri-la, seu corpo tenso com o desejo há tanto contido.


— Pense! Ao menos uma vez em sua vida, pare para pensar! — ordenou a si mesma, em voz alta. — Aproximando-se do toucador, começou a pentear os cabelos lustrosos. — Há a minha reputação a considerar — disse para sua imagem no espelho. — Convenções que devem ser mantidas, falatórios de criados a serem evitados. Não devo fazer nada para envergonhar meu nome. — Virando-se devagar, olhou para a cama meticulosamente arrumada. Deixou a escova de lado. Em seguida, pulou na cama e desarrumou-a um pouco, como se tivesse dormido ali. — Pronto, isso vai enganar as criadas! — Logo Amanda saía para o corredor e percorreu-o nas pontas dos pés. Lady Adair, acordada e lendo na sua cama, ouviu o leve ruído passando por sua porta e, com um sorriso, suspirou para si mesma. — Bem, Grady — disse para o gato aninhado a seu lado. — Acho que, afinal, teremos mesmo um casamento neste Natal. Sem bater, Amanda entrou depressa no antigo quarto de Sheldon e fechou a porta atrás de si. As velas de um candelabro ainda estavam acesas no criado-mudo, e Thomas achava-se recostado nos travesseiros, lendo um livro. As chamas oscilantes produziram um brilho dourado em seus olhos castanhos-claros quando os dirigiu à porta. — Amanda! Mas que diabos...? — Estou me convidando para compartilhar de seu calor, Sua Graça — disse ela, num tom maroto, encaminhando-se devagar até a cama. — O fogo na minha lareira se apagou e a culpa é sua por eu estar congelando. Portanto, é seu dever aquecer-me. O duque deixou o livro de lado sem tirar os olhos do adorável rosto dela, um ligeiro sorriso surgindo em seus lábios sensuais. Essa era Amanda a quem amava e queria em sua cama e em sua vida para sempre, a mulher vibrante, provocadora. — Não chegue mais perto, ou não deixará este quarto ou esta cama antes do amanhecer. — Sua Graça... — Ela levou as mãos às fitas que lhe fechavam o decote da camisola — Não tenho a menor intenção de deixar este quarto... nem esta cama... antes do amanhecer. — Estou falando sério — sussurrou ele, observando-lhe com fascínio as mãos delicadas que desfaziam laços. — Eu também, Lorde Eastmore... E não fique tão preocupado. — Num instante, a camisola deslizava pelo corpo alvo e desnudo de Amanda até seus pés. — Pois pretendo me casar com você antes que a semana termine. — E eu vou me certificar para que não me escape, futura duquesa de Eastmore. Amo você, querida. — Também amo você — sussurrou ela. Os olhos de Thomas percorreram-lhe o rosto ligeiramente corado, a perfeição dos seios arredondados, os mamilos rosados e rijos pelo frio, a cintura esguia, as coxas firmes e bem-feitas. O corpo de Amanda respondia ao olhar ardente como se fossem as mãos dele que a estivessem tocando. Levantando-se da cama, Thomas ergueu-a em seus braços e deitou-a sob as cobertas. Despiu-se rapidamente, permitindo-lhe uma rápida visão de seu


corpo viril e musculoso, e deitou-se ao lado dela, puxando-a para si. Com um sobressalto, exclamou surpreso. — Céus, mulher! Seus pés estão um gelo! Amanda riu. Aninhando-se mais no calor do corpo dele, sussurrou-lhe sensualmente de encontro aos lábios. — Depressa, me aqueça. E me ame. Me ame... — Sempre, minha Amanda Pearl! — prometeu Thomas, beijando-lhe os lábios com paixão e languidez, com a intenção de nunca mais deixá-la.

TAYLOR RYAN é apaixonada por trilhas solitárias nas montanhas, céus carregados de nuvens agitadas e devaneios em tardes chuvosas. Tais predileções a levaram a trocar um apartamento de cobertura e a atarefada vida urbana pela rústica costa noroeste dos Estados Unidos, onde se dedica à sua paixão por romances históricos. Ela recebe o apoio de Lou e Joe, que ronronam e lhe dão sua total aprovação... no que quer que seja.

Profile for Patrícia Martins Fonseca

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