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Dominados Pela Paixão A Knight’s Passion

CANDICE KOHL

Inglaterra, 1164 Corações seduzidos Por decreto real, Raven e seu irmão Peter devem se casar com as primas Pamela e Roxanne, do País de Gales, para garantir a segurança da fronteira. Embora Raven não deseje se casar, o senso de dever fala mais alto, e pelo menos sua noiva Pamela é dócil e cordata, ao contrário da temperamental e rebelde Roxanne. Inconformada com a ordem do rei, Roxanne não aceita a imposição do casamento e decide fugir. Raven vai atrás dela, determinado a trazê-la de volta e obrigá-la a honrar o compromisso com seu irmão. A hostilidade inicial entre Raven e Roxanne se transforma numa atração e num desejo poderoso. O problema é que Roxanne está prometida a Peter, e Raven deve desposar Pamela... Agora, ele se vê diante de um triplo dilema, pois além de decidir entre contrariar o rei e viver o grande amor de sua vida, terá também de enfrentar Pamela e Peter, e deixar a noiva e o irmão saberem que ele e Roxanne foram feitos um para o outro! Digitalização e Revisão: Crysty


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Querida leitora, Muito antes que Raven e Roxanne compreendam que a hostilidade que sentem um pelo outro se transformou numa atração irresistível, você vai perceber que eles foram feitos um para o outro! Transporte-se, no tempo e no espaço, e viva com os personagens encantadores deste livro uma excitante aventura medieval, repleta de surpresas e emoções indescritíveis! Leonice Pomponio Editora

Copyright © 2000 by Candice Kohl Originalmente publicado em 2000 pela Kensington Publishing Corp. PUBLICADO SOB ACORDO COM KENSINGTON PUBLISHING CORP. NY, NY - USA Todos os direitos reservados. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou moitas terá sido mera coincidência. TÍTULO ORIGINAL: A Knight’s Passion EDITORA Leonice Pomponio ASSISTENTE EDITORIAL Patrícia Chaves EDIÇÃO/TEXTO Tradução: Débora Guimarães Revisão: Luiz Chamadoira ARTE Mônica Maldonado ILUSTRAÇÃO Hankins + Tegenborg, Ltd. MARKETING/COMERCIAL Silvia Campos PRODUÇÃO GRÁFICA Sônia Sassi PAGINAÇÃO Dany Editora Ltda. © 2007 Editora Nova Cultural Ltda. Rua Paes Leme, 524 - 10 andar - CEP 05424-010 - São Paulo - SP www.novacultural.com.br Premedia, impressão e acabamento: RR Donnelley Moore

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Capítulo I

Palácio de Westminster, Londres, Final do inverno, 1164. — Lucien! Lágrimas de Deus, é bom ver você novamente depois de tanto tempo! Henry II, ainda jovem, ruivo e cheio de sardas no rosto, cumprimentou Lucien de Eynsham ao vê-lo entrar nos aposentos privados do rei. Levantando-se de sua cadeira sobre as pernas ligeiramente arqueadas, ele abraçou o jovem lorde como a um irmão. — Como vai, Vossa Majestade? — perguntou Lucien, sentando-se diante do rei. — Muito bem. E como vai sua família? — Adrienne e Lilith são belas e encantadoras. Minha esposa espera nosso segundo filho para qualquer momento. Minha mãe prevê que ela terá gêmeos. O que me leva a indagar, senhor, que assunto me traz aqui a sua presença. Seja qual for, gostaria de resolvê-lo rapidamente. Se for possível, prefiro não estar longe de Adrienne por mais tempo do que é necessário. — Não se preocupe com ela, Lucien. Há séculos as mulheres têm seus bebês sem a ajuda dos homens. Quero dizer, não quando os pequenos estão, de fato, fazendo sua primeira aparição. Mas você fala na possibilidade de gêmeos, e isso nos remete diretamente ao centro da questão que o trouxe aqui, seus irmãos mais novos, Peter e Raven. — Ah, sim? — Sim. Eu os vejo freqüentemente quando estou desse lado do Canal, embora reconheça que Raven visita a corte com mais assiduidade do que Peter. Sem esposa e filhos, Peter, como você, considera investir bem seu tempo administrando a propriedade. Enquanto isso, Raven se aborrece com a condição de nobre. Ele gosta de se entreter com as beldades que servem minha esposa real. Como eu também — Henry acrescentou com uma piscada. Lucien assentiu e esperou, preferindo não se comprometer. Henry prosseguiu: — Pensei muito no assunto, Lucien, e acho que é hora de seus irmãos se casarem. Desejo que eles desposem duas jovens donzelas postas sob minha proteção. Lucien controlou um sobressalto e assentiu mais uma vez. Considerava uma grande tolice o costume de qualquer monarca assumir a guarda de jovens súditas sem pai, mais ainda no caso de Henry II, mas, aparentemente, Henry não tinha ocupações suficientes, nem mesmo com suas investidas contra Gales, e era isso que o levava a meter sua colher no pudim dos outros.

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— Meus irmãos podem ser gêmeos, senhor, mas são muito diferentes. Creio que Peter poderá concordar com sua proposta, mas Raven é um patife. Até hoje, nenhuma mulher, seja ela uma dama ou criada, conseguiu capturar sua atenção por mais de quinze dias. — Um casamento não exige o envolvimento do coração, nem mesmo uma simples atração física. Exceto, é claro, em uniões raras como a sua com Adrienne. Quando esteve na companhia de Raven pela última vez? — Não o vejo desde Yuletide. Mas creio que ele não tem a intenção de tomar uma esposa antes de estar velho demais para saciar a interminável procissão de mulheres que reclama sua atenção todos os dias. — Raven de Stonelee não terá escolha. As palavras frias do rei convenceram Lucien de que o assunto não estava sob consideração, a decisão já havia sido tomada. — Não, percebo que não, Majestade. Vossa Majestade pode me dizer quem são essas donzelas que escolheu para serem minhas irmãs por casamento? São conhecidas na corte? — Não. A casa dos pais localizava-se em estradas raramente percorridas, por assim dizer. Lucien pegou a jarra de vinho deixada sobre a mesa mais próxima de sua cadeira e serviu-se de uma taça. — As meninas são primas — continuou o rei. — As mães eram princesas. Ceridwen e Rhiannon. — De Gales? — Surpreso, Lucien errou a borda da taça e deixou cair o líquido vermelho sobre a mesa. — Exatamente Os pais das jovens donzelas, Arthur e Cedric, eram descendentes de lordes menores de Warwick, homens enviados para lutar pela conquista das fronteiras. As baronias governadas por Arthur e Cedric eram propriedades vizinhas do Dique de Offa, a oeste. — O Dique de Offa! — Ignorando o vinho derramado, Lucien terminou de encher a taça e bebeu alguns goles revigorantes. As tais donzelas, agora compreendia, eram herdeiras de fortalezas poderosas cujo domínio o rei considerava crucial, uma vez que era sua intenção trazer Gales para o seu domínio. — Arthur e Cedric eram condes — ele concluiu. — Exatamente — confirmou o soberano. — O lote de Arthur é chamado de Angleford. O de Cedric é Bittenshire. Arthur e Ceridwen não tiveram filhos. Apenas uma filha. Lady Pamela nasceu muitos anos depois do casamento. Mal entrara em sua segunda década de vida quando ficou órfã. Não me opus quando Cedric e Rhiannon a adotaram. Rhiannon, irmã da mãe dela, era parente de Pamela por laços Projeto Revisoras

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de sangue, e Cedric administrava Angleford com competência e a protegia pela força de seus homens. — Mas agora lorde Cedric e a esposa também morreram. — Sim. — E a filha deles? Sua segunda protegida? — É a mais nova de uma prole totalmente feminina. Por Deus, Lucien! — O rei se recostou na cadeira e riu. — Parece que esses dois fortes cavaleiros que tomaram princesas galesas por esposas não podiam mesmo conceber homens! Lady Rhiannon teve dez meninas, todas lindas. Sei disso porque as vi com meus próprios olhos. Com exceção da caçula, Roxanne, todas se casaram bem. — Talvez as princesas galesas tenham amaldiçoado seus maridos normandos, fadando-os a nunca ter uma linhagem masculina de descendentes. — Duvido. Muitos normando-ingleses, em Gales, misturaram seu sangue ao dos nativos. Lady Pamela foi certamente uma bênção para seus pais. E lady Roxanne... Bem, ela parece ter sido mimada, já que passou alguns anos da idade em que muitas jovens se casam. Ela é dois anos mais velha que Pamela, mas o pai nunca a obrigou a fazer os votos sagrados. Lucien assentiu, contendo observações ainda mais céticas. — Preciso casar essas duas donzelas, Lucien, e depressa! Arthur e Cedric eram meus súditos leais. Quando o senhor de Angleford morreu, Ceridwen manteve sua herança segura. Quando ela também faleceu, Cedric de Bittenshire assumiu o comando dos bens e do povo de Angleford, preservando o dote de Pamela. Mas chegou a hora de um senhor assumir o comando daquela propriedade. Angleford deve ser protegida dos galeses. Se houver alguma demora, um dos tios da donzela, todos de Gales, pode coagir lady Pamela a se casar com um galês, alguém que, devo dizer, não tem seu rei em alta estima. Não posso permitir tal coisa, Lucien. Estou tentando ampliar meu reinado e tomar Gales, mas seria inútil conquistar aquelas terras se não puder ter aquela que foi comandada por décadas por um lorde March, um homem cuja lealdade foi jurada ao rei. Lucien digeria tudo que o rei acabara de contar. — Entendo que a filha de Arthur precise de um marido, um homem que possa comandar a propriedade que foi de seu pai. Mas a situação é distinta com a outra donzela. — Lady Roxanne. — Sim, Roxanne. Ela tem nove irmãs casadas, a julgar pela história que relatou. — E verdade. — Henry tocou sua barba vermelha e aparada. — Uma delas, a mais velha de Òedric, já reside em Bittenshire com o marido e os filhos. Mas não se Projeto Revisoras

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preocupe, Lucien. Lady Roxanne tem um bom dote. O irmão que não vai conquistar terras pelo casamento terá outras compensações oferecidas por seu rei. Segurando a taça logo abaixo do queixo, Lucien olhou com ar especulativo para o soberano. — Meu senhor, bem posso entender por que deseja casar essas donzelas que estão sob sua proteção. Mas por que com meus irmãos? Ambos são cavaleiros e estão satisfeitos com as propriedades que deu a eles há anos. Nenhum dos dois vai apreciar a idéia de se envolver com terras e bens nas fronteiras de Gales. — Minha decisão é irrevogável! — O rei anunciou com tom ríspido, levantando-se da cadeira para encarar o súdito que ousava questioná-lo. Lucien calou-se, reconhecendo que havia sido presunçoso interrogar seu soberano. Ele e Henry eram velhos amigos, mas não podia tratá-lo como um igual. — Peço que me perdoe, Majestade. Não foi minha intenção questionar a propriedade de sua decisão. Foi só uma pergunta curiosa. Encolhendo os ombros para indicar que o desculpava, o rei se sentou novamente. — Continue, Lucien. O que mais quer saber? Ele hesitou, mas decidiu aproveitar a oportunidade. — Senhor, por que eu estou aqui, em vez de meus irmãos? O assunto diz respeito a eles diretamente. — Lucien, a resposta é simples. Um dos irmãos, ou até mesmo os dois podem se ressentir contra minha ordem. Nenhum deles tem alternativa, mas conhecendo-os, especialmente aquele que agora chama a si mesmo de Corvo, sei que podem protestar à exaustão. Achei melhor protegê-los da própria tolice. Lucien levantou uma sobrancelha, e Henry explicou: — Entenda: se desse diretamente a eles minha ordem, um deles poderia se opor e, tomado pela ira, ofender-me. Nesse caso, as conseqüências seriam sinistras. Sendo assim, para evitar tal possibilidade, achei melhor convocá-lo para ser meu mensageiro. Se eles quiserem gritar e protestar, só você poderá ouvi-los. — É um rei muito sábio e precavido, Majestade. Henry sorriu. Cruzando as pernas, apoiou um tornozelo sobre o joelho. — Quero também que proteja as donzelas, Lucien. Elas já estão aqui, no palácio, prontas para viajar. Eu o encarrego agora de levá-las a seus irmãos e entregálas a eles em segurança. — Qual? — Qual?

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— Qual donzela deve ser entregue a qual irmão? — Ah, isso. Conhecendo Raven como conheço, acredito ser melhor que ele assuma o comando de Angleford e a proteção de sua senhora. Lucien de Eynsham cavalgava pelo campo frio e cinzento. Em sua bagagem havia duas cartas do rei Henry. Em sua companhia viajavam duas damas de Gales. Ele se sentiu incomodado quando, puxando a rédea da montaria, olhou para as propriedades de seus irmãos, já delineadas no horizonte. Aquelas eram duas das últimas fortalezas licenciadas por Henry, e pareciam incomuns. Não no estilo arquitetônico, mas porque as estruturas haviam sido erigidas muito próximas, quase encostadas uma na outra sobre um par de elevações naturais. A fortaleza de Peter ficava de frente para o vento que circundava as colinas; a de Raven se voltava para o lado oposto. Sendo assim, a primeira era conhecida como Stoneweather, e a última como Stonelee. Houve um tempo em que essas fortalezas vizinhas haviam formado uma única baronia chamado Eye. O rei Henry oferecera a terra a Lucien e seus irmãos como recompensa pela assistência por eles prestada ao trono. Mas só os gêmeos aceitaram a oferta, já que Lucien, o mais velho, dedicava-se a comandar Eynsham, as terras que herdara do pai. Peter e Raven dividiram a propriedade e construíram as fortalezas vizinhas. As estruturas de pedras pareciam tão idênticas quanto os gêmeos. Mas cada uma se voltava para uma direção distinta, oposta, e isso refletia também as personalidades dos irmãos de Lucien. Com um suspiro cansado, ele se virou sobre a sela e olhou para trás. Apoiado na alça, olhou para as mulheres que se detinham logo atrás dele. — Chegamos — ele apontou para a frente. — Contemplem Stonelee e Stoneweather. Nenhuma das duas teceu comentários. Pamela olhou para as fortalezas com ar pensativo. Roxanne parecia indiferente. Lucien endireitou-se na sela, determinado a cumprir sua missão e voltar quanto antes para Adrienne, na Fortaleza Eynsham. O cavalo retomou o trote. As duas damas o seguiram. — Lorde Lucien! — O chefe dos serviçais em Stonelee exclamou ao ver o trio passar sob a arcada interna da baronia de Raven. O homem, Niles, estava em pé no alto da escada que levava ao principal portal da fortaleza. — Não sabia que era esperado. — Não sou. E, como pode ver, trouxe convidadas. — Lucien parou o cavalo a alguma distância da escada e desmontou, entregando as rédeas a um menino do estábulo. Olhando para as duas damas que o seguiam, ele viu que outros

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empregados as ajudavam. — Trago comigo lady Pamela de Angleford e lady Roxanne de Bittenshire. — Sejam bem-vindas, miladies. — Niles desceu a escada para ir receber cada um dos recém-chegados com uma mesura respeitosa. — Encontramos um servo de Stoneweather na estrada, e eu o mandei alertar meu irmão, Peter, sobre minha chegada. O guarda informou-me que lorde Raven está em casa. — Sim, ele está em casa, milorde. Lucien conduziu as duas jovens para o interior da fortaleza e as seguiu. Niles ia logo atrás do trio e, no grande hall da imponente construção, Lucien virou-se para encará-lo. — Creio que seja melhor eu mesmo ir procurá-lo. Onde posso encontrá-lo, Niles? — Ah, lorde Raven está... em seus aposentos. — A esta hora do dia? — Ah... Lucien não deu tempo para Niles fabricar explicações. Impaciente, subiu a escada saltando os degraus. — Levante-se! Você tem visitantes! — ele informou Raven da porta do dormitório. Batendo com força, perguntou: — Por que diabos está na cama? Esteve bebendo e se entretendo com meretrizes até o nascer do sol? Lucien surpreendeu-se quando, ao entrar no aposento, não encontrou o irmão, mas uma jovem de rara beleza e flamejantes cabelos vermelhos sentada na cama desarrumada. Os cobertores de pele mal lhe cobriam o quadril, mas ela não parecia incomodada com a presença do estranho que olhava boquiaberto para seus volumosos seios de mamilos rosados. — Quem é você? — perguntou curiosa a desconhecida. — Lucien. — E quem está procurando? — Percival — ele respondeu, tão aturdido com a visão que nem se deu conta de estar usando o nome de batismo do irmão. — Percival? — Sim, o senhor desta fortaleza. O homem em cuja cama você se encontra. — O nome dele é Percival? — A mulher riu. Depois gritou: — Raven! Já terminou de esvaziar sua bexiga? Você tem aqui um visitante que diz se chamar Lucien. Projeto Revisoras

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— Lucien. — Raven aproximou-se do irmão e bateu em seu ombro. — É bom vê-lo, mas, como pode notar, estou nu como um recém-nascido. Se não sair da porta, não posso entrar para ir me vestir. Lucien afastou-se para permitir a entrada do irmão. Apoiado ao batente, ele esperou impaciente que o rapaz vestisse meias e calça. — Não acredito que o tenha encontrado nesse estado — Lucien queixou-se. — Por que está — ele apontou enfático para a mulher nua — na cama, no meio do dia? Raven riu e recolheu do chão uma túnica, que vestiu sem pressa. — Não é meio do dia. Alguns diriam que já é meio da tarde. Que melhor hora para...? — Debochado, ele imitou o gesto do irmão apontando para a mulher. Depois, subitamente sério, olhou para ela e ordenou: — Fora daqui, Lydia. Meu irmão exige minha atenção. — Seu irmão? — Lydia repetiu surpresa, estudando os cabelos castanhodourados e os olhos verdes de Lucien. Ela deslizou uma perna para fora da cama, usando o pé para procurar alguma coisa no chão. — Não é nada parecido com o irmão de Raven. — Eles são gêmeos — Lucien explicou irritado, referindo-se a Raven e Peter. — Eu não tenho de ser idêntico aos dois. Lydia levantou-se e vestiu-se. — Feche a boca, Lucien — Raven avisou. — Você é casado e pai. E você, Lydia. Dê-me um beijo que me mantenha satisfeito até nosso próximo encontro. A jovem atendeu ao pedido. — Agora chega! — Lucien perdeu a paciência. Lydia saiu apressada. Raven sorriu com uma mistura de orgulho e satisfação. Lucien ia ficando cada vez mais aborrecido. — Espero que esse beijo o mantenha satisfeito por muitos dias. Principalmente porque, para você, esses beijos ardentes e com sabor de liberdade acabaram aqui. — Do que está falando? — Raven estranhou. — Não tenho muito tempo, meu irmão. Sendo assim, peço que ouça com atenção. — Assunto importante, então? — Muito, Raven. Assunto do rei. — Estou ouvindo. — Termine de se vestir. Mandei chamar Peter, e você tem hóspedes esperando na sala. Eu mesmo as trouxe até aqui a pedido do rei. É melhor descermos imediatamente. Projeto Revisoras

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Os dois irmãos saíram do quarto a caminho do salão. — Quem está lá embaixo? E por que Henry mandaria, hóspedes à minha casa, se não tenho... — Espere. Já vai entender tudo. Quando chegaram ao fim da escada, Peter entregava seu pesado manto de pele a um dos criados de Stonelee. — Lucien! — Ele sorriu ao ver o irmão mais velho. O sorriso logo se apagou. — Algum problema em Eynsham, ou com Adrienne? — Não. Não tenho nenhum problema pessoal. — Então, o que o traz aqui? — O rei Henry mandou-me. Trago aqui duas damas. — Damas? Aqui? Por quê? — É o que quero saber, também — Raven interferiu irritado. — Vão se casar conosco por ordem do rei. Os três homens olharam para a dama que acabara de falar. Nenhum deles ouvira seus passos, porque o grande salão estava tomado por criados que se moviam arrumando a mesa para a refeição do final do dia. Sua presença surpreendia os lordes gêmeos de Stonelee e Stoneweather, e até Lucien estava espantado com a atitude de Roxanne. Como a prima, ela fora apresentada a ele em roupas de viagem. Só a vira envolta no volumoso manto de pele com seu capuz pesado e escuro. Percebera, desde o início, que a jovem era alta. Como ela viajara montada em um cavalo muito forte e poderoso, e por ter preferido montar como um homem, Lucien vira os tornozelos bem-feitos cobertos por meias masculinas. Mas só agora, já na companhia dos irmãos, ele podia apreciar plenamente a figura impressionante da jovem dama. Ela era curvilínea e tinha seios fartos, dando a impressão de ser tão suculenta quanto um melão maduro. E os cabelos! Eram tão negros quanto os dos gêmeos. Livres do confinamento do capuz, os caracóis revoltos caíam sobre seus ombros numa cascata sedosa e brilhante. As sobrancelhas largas e arqueadas também eram negras, como os longos cílios. Os olhos luminosos que de início haviam parecido azuis eram, agora ele constatava com espanto, cor de violeta, como seu vestido. Parecia impossível que nenhum deles houvesse notado a impaciência com que ela esperava para ser apresentada. Sua presença era impressionante mesmo agora, quando não cavalgava mais o animal de grande porte. — Devemos desposá-las? — Raven repetiu incrédulo.

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— Só um de vocês vai se casar comigo — Roxanne explicou, como se já houvesse decidido que o senhor de Stonelee era obtuso. — O nome de meu prometido é Peter. Peter a encarou perplexo. Seus olhos escuros estudavam a interessante figura da jovem dama. — Eu sou Peter — ele informou depois de um instante. — E hoje me sinto feliz por isso. — Por favor, permitam-me apresentar lady Roxanne de Bittenshire — Lucien anunciou. — Se Henry decidiu que lady Roxanne deverá desposar meu irmão Peter, quem, então, será minha esposa? — Eu, milorde — Pamela apresentou-se, surgindo do fundo do salão. — Sou... lady Pamela de Angleford. — Ela se inclinou numa reverência formal. Raven estudou-a. Peter e Lucien também olhavam para ela. Lucien surpreendeu-se mais uma vez com a beleza da jovem. Livre do pesado manto de pele, ela lembrava uma borboleta recém-saída do casulo. Pamela tinha uma aparência fresca e jovem, ombros estreitos, cintura fina e quadril delgado. Os seios também eram modestos. Os olhos eram lindos, de um tom dourado que lembrava a melhor cerveja do castelo Fortengall, ou o mais rico âmbar. E os cabelos eram da mesma cor, ainda presos em suas grossas trancas. — Você vai ser minha esposa? — Sim. — Pamela baixou os olhos com modéstia. — Ou melhor, presumo que sim. O rei Henry explicou-me que as terras que herdei requerem um... um... — Ela se deteve e ergueu os olhos para fitar Raven com grande timidez — um senhor de grande força, inabalável determinação e mãos de ferro para garantir a paz. E ele disse que o cavaleiro mais adequado seria lorde... lorde... Pamela olhou para Roxanne, que pronunciou o nome com ar altruísta e generoso. — Percival. — Percival! — Raven explodiu. — Sim. Não é esse seu nome? — Meu nome é Percival, mas ninguém me chama assim há anos. Hoje sou conhecido por Raven. — Uma escolha mais do que propícia — Roxanne declarou com sinceridade debochada. — Percival é um nome que não desperta muito respeito, não é? Suspeito que seja um nome escolhido para um filho caçula que se pretende ofertar à Igreja, alguém que passe seus dias na companhia de outros filhos caçulas, andando por bosques pacíficos e arrastando seus mantos longos sobre os pés calçados por sandálias. Era isso que seus pais esperavam de você? Projeto Revisoras

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Ele a encarou furioso. — Por Deus, nunca fui direcionado para essa vida de estudos e devoção religiosa, sua...! — Raven! — Lucien chamou sua atenção, temendo que ele usasse algum impropério para ofender a noiva de Peter. Raven olhou para a beldade de cabelos negros. — Pode me chamar de lorde Raven. — Ah, sim? Bem, como seremos parentes, acho que irmão é um tratamento mais adequado. Raven emitiu um grunhido que todos souberam interpretar com precisão. Afastando os olhos do rosto de Roxanne, ele encarou o irmão mais velho. — Por Deus, o que está acontecendo aqui? — Qual é o problema? Não entende o francês de nosso rei? — Roxanne interferiu novamente. Com os braços cruzados e uma sobrancelha arqueada, ela parecia decididamente entediada. — O Angevin que reina sobre a Inglaterra determinou que você deve se casar com minha prima Pamela. Seu irmão se casará comigo. É claro que nós duas temos dotes consideráveis. Como filha única, Pamela levará para o casamento tudo que o pai possuía. Seu marido comandará a propriedade e os bens como seu legítimo senhor. Meu dote é menor, considerando que tenho irmãs mais velhas, por isso o rei oferece lucros de natureza menos significante para compensar meu marido. — Lucien? — Raven olhava para o irmão pedindo uma explicação. — Como pode ser? Por que Henry pensaria em nos impingir essas duas... — Raven — Peter falou com voz baixa, mas firme. — Talvez as damas queiram se refrescar antes da refeição. — O quê? — Raven piscou confuso. — Ah, sim. É claro. — Distraído, ele caminhou até o fundo do salão e agarrou um dos criados pela manga da túnica. Contrariado, resmungou algumas orientações para o serviçal, — Por aqui, miladies — chamou o criado, apontando para a escada e esperando que as jovens damas o seguissem. — Mantemos um quarto sempre pronto para eventuais hóspedes. Obediente, Pamela seguiu o criado escada acima. Roxanne, porém, parou no terceiro degrau e olhou para baixo, para os três cavaleiros que permaneciam no salão. — Lorde Lucien — ela se manifestou com voz firme e polida —, apreciarei um breve repouso e uma refeição quente, mas espero que a jornada dessa noite nos leve rapidamente ao nosso destino, seja ele qual for. — Como? Projeto Revisoras

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— Não pode pretender deixar-nos com esses homens que ainda não são nossos maridos. Especialmente porque, como vejo, não há outras damas na residência. Com um sorriso tão ensaiado quanto seus movimentos, Roxanne finalmente se virou para seguir a prima e o criado de Stonelee. — Jesus! — Lucien resmungou. — Estava tão ansioso para resolver tudo isso e voltar para Adrienne, que não me detive para considerar a propriedade da situação. — Ela é uma bruxa! — Raven resmungou. — Não esqueça que está falando de minha futura esposa. — Não pode estar falando sério, Peter! Vai se curvar a Henry? — Ele é meu rei. Raven caminhou furioso até o centro de seu salão. — Lucien, conte-nos tudo. Agora. Por que Henry fez isso conosco? E por que não nos mandou chamar diretamente? Por Deus, se estive com o rei há um mês! Por que ele... — Vou contar tudo que sei, se puder esperar um momento. Primeiro, preciso de um cavaleiro. Ele deve ir até o castelo Fortengall. A noite é clara hoje. Mamãe poderá viajar até aqui sem demora. — Vai mandar buscar nossa mãe? — Quem melhor do que Lucinda de Fortengall, esposa do conde, para assegurar a virtude dessas jovens damas até que se casem com elas? — Recuso-me a casar com elas! — Você só vai ter de se casar com lady Pamela — Peter lembrou. — Não vou me casar com lady Pamela. Estou falando sério, meu irmão. Não vou me casar com ela. — Roxanne, você foi horrível! — Não fui. — Indignada, ela se sentou na única poltrona do quarto e apoiou os pés no único banco disponível, deixando a prima sem lugar para descansar. — Apenas respondi às perguntas do idiota. — Roxy! Seu noivo não é idiota! — Eu estava falando do seu noivo. Pamela balançou a cabeça, mas não disse nada. Enquanto lavava o rosto e as mãos, ela pensava nos dois lordes. Um deles seria seu marido. Recordava os cabelos ondulados, as barbas escuras e bem-aparadas, os olhos inteligentes e atentos. Os

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dentes eram brancos e alinhados, e os corpos não eram gordos ou magros, mas esguios e dotados de músculos definidos. Peter e Raven, senhores de Stoneweather e Stonelee, formavam uma bela dupla. Ela e Roxanne não teriam encontrado nada melhor, se tivessem tido a oportunidade de vasculhar o reino e escolher os próprios maridos. Porém, suspeitava de que Roxanne se oporia à escolha do rei Henry. — Por que se comportou daquela maneira? — Pamela perguntou enquanto secava o rosto com uma toalha. — O que foi que eu fiz? — Agiu como se precisássemos de damas de companhia. Não temos ninguém desde que deixamos Gales na companhia dos homens do rei. — É uma questão de princípios. Somos damas, Pamela. Sem pais ou maridos, por enquanto, mas não somos pobres coitadas para sermos despejadas na soleira desses cavalheiros como se não tivéssemos nenhum valor. — Não pode lutar contra isso. Lorde Peter será seu marido, porque o rei assim decidiu. — Ele não é meu rei! — Ele é. E é seu padrinho de batismo, também! — Mentira! — Não minto, Roxy. Sua própria mãe, lady Rhiannon, falou-me sobre seu batismo. — Deve ter entendido mal, então. — Mesmo que tenha havido algum mal-entendido, o que não ocorreu, você descende de uma longa linhagem de Normandos, todos ingleses. Deve demonstrar lealdade ao rei inglês. — Mas minha mãe, como a sua, era uma princesa de Gales. Eu, como você, nasci em Gales! Além do mais, Pamela, embora nossos pais tenham sido leais à Coroa Inglesa, alguma vez os viu ou soube que tenham se curvado a alguma autoridade superior à deles? Eram condes das Guerras! Eles eram a lei em Bittenshire e Angleford. Ninguém, além de Deus, podia se colocar acima deles. Pamela olhava para Roxanne e mordia o lábio inferior num gesto ansioso. — Agora tudo é diferente, Roxy. Somos apenas mulheres. Devemos cumprir as determinações do nosso guardião. E, por Deus, nosso guardião é o maior rei que o mundo já conheceu! Roxanne não respondeu. Sua prima podia se submeter ao rei por sentimento de dever e obrigação, mas não ela, Roxanne de Bittenshire. Assim que tivesse uma chance, cavalgaria para o norte e depois seguiria para o oeste, para a fronteira, para a Projeto Revisoras

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terra de maravilhas que era Gales com suas montanhas cobertas por pinheiros aromáticos, com seus vales cortados por riachos e adornados por flores. Apesar do tamanho, Daffyd, seu animal de montaria, era capaz de atravessar as trilhas rochosas e sinuosas que ligavam Bittenshire e Angleford a Penllyn, onde Ballin vivia. Iria procurar Ballin, o único homem que jamais havia cogitado chamar de marido.

Capítulo II

A refeição noturna foi tediosa, com a tensão marcando cada minuto levado para o consumo de todos os pratos. Felizmente para Lucien, ele se sentou à ponta da mesa e não Se sentiu compelido a promover a conversação que os outros se negavam a manter. — Mãe! — os gêmeos gritaram de repente em uníssono. Assustado, mas aliviado, Lucien virou-se e viu Lucinda de Fortengall entrando no grande salão de Stonelee, tão bem-vinda quanto o sopro de ar gelado que a seguia, refrescante como o ar enfumaçado e estagnado do castelo. Ansiosos, os gêmeos se levantaram para ir recebê-la, enquanto Lucien os seguia com menos pressa. — Peter. Raven. Lucien! — Os olhos verdes de Lucinda ganharam um novo brilho quando ela viu o filho mais velho. — Fiquei surpresa quando o mensageiro informou que você estava aqui, na fortaleza de Raven. Adrienne e minha neta estão bem? — Sim, mãe. Adrienne se queixa um pouco de desconforto, mas está muito bem. — Logo ela não terá mais do que se queixar. Por que a deixou, agora que os bebês estão para nascer? Lucien apontou para as duas jovens sentadas à mesa. — Mãe, quero que conheça lady Roxanne de Bittenshire e lady Pamela de Angleford. A pedido do rei Henry, eu as trouxe aqui como prometidas de meus irmãos. Suas palavras provocaram um silêncio profundo no qual Lucinda estudou as duas jovens com olhar penetrante.

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— Devia tê-las levado para o castelo Fortengall — Lucien reconheceu um pouco incomodado, notando que o padrasto, que entrara no salão pouco depois de Lucinda, colocava-se ao lado da esposa. — Mas, como elas já estão aqui, pensamos em chamá-la para assegurar a honra e a virtude das duas damas. Lucinda assentiu e deu alguns passos para aproximar-se das jovens que, finalmente, punham-se em pé, mas mantinham-se ao lado da mesa. Com um sorriso de boas-vindas, ela se apresentou: — Sou lady Lucinda de Fortengall. Vamos ver se adivinho quem é quem. Você é lady Pamela. Você é lady Roxanne. Alguém a chama de Roxy? — Às vezes, milady. — Mas você é sempre Pamela. Certo? — Completamente. — Encantada com a intuição da recém-chegada, Pamela sorriu com sinceridade. — Onde estão minhas maneiras. E as de meus filhos! Lucien as apresentou, mas não explicou quem somos nós. — Ela estendeu a mão para o marido, que a aceitou sorrindo. — Minhas caras, este é o conde de Fortengall, meu marido, lorde Ian. Ele é padrasto dos três lindos cavalheiros aqui presentes. — É um prazer conhecê-las — Ian anunciou. O conde era um homem alto e forte, mas de atitude simpática e doce, como a de sua esposa. Nenhuma das duas jovens se sentia intimidada. — Milorde — Roxanne cumprimentou-o. Pamela imitou a prima e se curvou numa reverência. — Não imaginam como essa notícia me enche de entusiasmo! — Lucinda exclamou sorrindo. — Lembre-me, Ian de mandar uma palavra ao rei agradecendo por sua generosidade em promover essas duas uniões. Já me preocupava com a possibilidade de meus gêmeos mais velhos permanecerem solteiros até estarem senis. —Tem outras filhos gêmeos, milady? — Pamela indagou curiosa. — Oh, sim! Ian e eu temos três filhos, o primogênito de nossa união, herdeiro de seus bens e propriedades, e os gêmeos. Mas são todos ainda muito jovens. Agora me digam: Qual é a região de origem de vocês, e como foram tomadas sob a proteção do rei? Roxanne resumiu as circunstâncias que as levaram até Stonelee. Lucinda ouviu com atenção. — Você ama os pântanos de Gales, é evidente. Sinto também que não aprecia a Inglaterra.

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— Nossas famílias são leais ao rei Henry! — Pamela protestou horrorizada. — É certo que sim — Lucinda sorriu para acalmá-la. — Muito bem, qual das duas vai se casar com meu filho Peter? — Eu — disse Roxanne. — Sim. Tudo indica que me casarei com lorde Peter porque seu rei se sente inclinado a fazer de lorde Percival o conde de Angleford. — Raven, querida — Lucinda a corrigiu com um sorriso, ignorando o olhar debochado que a jovem Roxanne lançava na direção daquele sobre quem falavam. — Meus filhos sempre se ressentiram contra meu hábito de abreviar ou modificar seus nomes. Agora que um deles descobriu que pode ficar feliz com um nome que combina com sua personalidade, faço questão de fazer a vontade dele. Sugiro que faça o mesmo, meu bem. — Por quê? Não vou me casar com ele. Posso me referir a ele simplesmente como "seu filho", ou "seu irmão", e ainda assim, só quando for necessário mencionálo. — Por alguma razão, minha querida, creio que não será o bastante — Lucinda completou com uma certa desconfiança no olhar. E virando-se para o filho, disse: — Raven, onde estão os criados? Alguém precisa pegar meu manto. E providencie uma caneca de vinho para seu padrasto. Já mandou preparar um quarto para essas damas? Sim? Então, vamos subir. Venham comigo, meninas. Prometo que sua virtude estará segura aqui em Stonelee. — Ela sorriu para os filhos antes de subir a escada. — Porém, ao amanhecer, lorde Ian e eu as levaremos para o castelo Fortengall. Lá terão mais conforto enquanto esperam pelo dia das núpcias. O salão mergulhou no silêncio. Apesar da presença dos criados, os três irmãos e o padrasto agiam como se não houvesse ninguém ali com quem conversar. Ian cruzou os braços. — Muito bem, rapazes. Que história é essa? — O rei escolheu noivas para nós — Peter exclamou. — Ele chamou Lucien a Londres e ordenou que ele as trouxesse até aqui. Não posso dizer que a surpresa me desagradou. Roxanne de Bittenshire é uma linda dama. — Uma linda megera — Raven resmungou. — Você vai se arrepender. — Bittenshire e Angleford — Ian comentou quando os quatro se aproximaram do fogo que ardia na lareira do salão. — Baronias de Gales. — Sim — Peter confirmou, ajudando Raven a pegar cadeiras e trazê-las para perto do fogo. — Será uma grande responsabilidade para vocês dois. Terão de assumir os deveres e as honras de Senhores de Guerra. Hoje em dia, a Inglaterra é, em comparação, um lugar muito tranqüilo. Mas Gales... — Ian estremeceu, sentando-se numa cadeira sólida e confortável. — Não é tarefa fácil manter a harmonia entre Projeto Revisoras

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desbravadores ingleses e nativos celtas, mesmo que sejam apenas os moradores das baronias. E também terão de conter ataques dos residentes das Colinas. — Receio que essa responsabilidade recaia apenas sobre Raven — Peter contou ao padrasto, enchendo novamente as taças de todos com o vinho que pegou sobre a mesa. — De acordo com Lucien, Bittenshire já tem um senhor que administra e defende a baronia. — Ele explicou a situação como ela havia sido relatada. — Creio que minha esposa vai ter de viver satisfeita em Stoneweather. Peter e os outros olharam para Raven, que se mantinha altivo e desafiante em sua cadeira. — Não sei se quero ser senhor das terras de lady Pamela — ele admitiu. — A bem da verdade, gosto de Stonelee. E como disse nosso caro lorde Ian, a Inglaterra é atualmente um lugar de paz. E minha propriedade, vizinha à de Peter, garante a todos nós, senhores e servos, abrigo e boa alimentação. O que me faria desejar ser um estrangeiro nas difíceis terras de Gales? Tenho aqui tudo de que preciso. E tenho paz. Lucien olhou para os dois irmãos. Não havia esquecido a justificativa do rei para fazer dele o portador da notícia, considerada má por alguns. — Não estamos falando de nada que não tenha acontecido a muitos outros homens, Raven. — Ian lembrou. — E quando um rei decreta um casamento, é sensato acatar a ordem. — Mas eu não sou um camponês miserável! Henry não podia ter feito isso comigo. Conosco! Gostaria de poder escolher minha esposa. — Você jamais se casaria — Peter retrucou com tom calmo, sentado confortavelmente em sua cadeira. — Tem adiado a decisão com a intenção de adquirir aquela faixa de terra vizinha à sua propriedade. — Do que está falando? — Lucien quis saber. — De uma aposta tola. Se Raven permanecer solteiro até o solstício de verão desse ano, eu prometi a ele uma faixa de terra que é fronteiriça à propriedade de meu caro irmão. Por isso nosso belo Raven aqui presente permaneceria solteiro, se pudesse escolher. — Por isso, e por pessoas como uma certa Lydia — acrescentou Lucien com ironia. Raven franziu a testa, mas não negou as acusações dos irmãos. Em vez disso, resmungou: — Como vamos saber? — O quê? Raven olhou desconfiado para Peter.

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— Como Peter e eu vamos saber que o rei está realmente por trás de toda essa história? Temos de acreditar no que você diz? Ou no que as duas damas afirmam? Tudo isso pode ser uma brincadeira de mau gosto! Uma piada! Os olhos de Lucien ganharam um brilho intenso. — Ora seu... arrogante, ingrato e... — Ele não concluiu a frase, porque se levantou de um salto e saiu. Assustados, os outros o viram subir a escada com passos largos e apressados. — Não devia ter feito uma insinuação tão ofensiva — Peter censurou o gêmeo. — Nosso irmão não mentiria para nós. — Por que não? Eu disse que ele poderia estar fazendo uma brincadeira. — Lucien nunca faria tal coisa! Acha que ele deixaria Adrienne a dias de ter o segundo filho, só para nos pregar uma peça estúpida? Francamente, Raven! Você é um cabeça-dura insuportável! E a maneira como tratou suas hóspedes é prova disso. — Peter levantou-se aborrecido. Raven o encarou sério antes de pôr-se em pé e parar diante do irmão, encarando-o com hostilidade. — Não fiz nada com lady Angleford. E se disse palavras ríspidas a lady Roxanne é porque ela é uma bruxa, uma megera da mais alta ordem. Para seu próprio bem, rezo para que tudo isso seja mesmo uma piada. Se não, e se for tolo o bastante para tomá-la como esposa e acatar a ordem caprichosa de Henry, lamento por você. Mas não pretendo me deixar levar às cegas para o matadouro! — Está dizendo que sou tolo por obedecer a meu rei? — Sim. É o que estou dizendo. Os dois irmãos se encaravam como se pudessem trocar golpes físicos a qualquer momento, mas nenhum dos dois levantou a mão. A voz de Peter soou carregada de emoção. — Não acredito que seja realmente o louco perigoso que parece ser, meu irmão. Ian está certo. Desobedecer às ordens de Henry pode ser desastroso, especialmente porque, como bem deve lembrar, foi o próprio rei quem nos deu as terras onde hoje vivemos. Mas você ousaria desafiar o rei, o mesmo soberano a quem jurou ser fiel, simplesmente porque... Por quê? Para gabar-se das mulheres que entram e saem de seu quarto? Por Deus! Lady Pamela é uma jovem doce e inocente, cheia de confiança e sonhos. Qualquer um com um mínimo de inteligência pode ver que ela seria a mais honrada esposa para um homem. Mas não para você, Raven de Stonelee. Você é como um sabujo que sente o cheiro de uma cadela. Precisa de novas aventuras todas as noites. Assim, em vez de pensar com a cabeça, deixa seu... deixa outra parte de seu corpo decidir por você. Caso ainda não tenha percebido, meu irmão, só uma cabeça do homem é capaz de raciocinar! Projeto Revisoras

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— Peter, estou avisando, cuidado com suas palavras! — Por quê? É alguém a quem devo temer, por acaso? Raven respondeu empurrando-o. Peter perdeu o equilíbrio, mas reagiu rapidamente. — Chega! — Ian gritou, segurando o braço de Peter antes que ele pudesse desferir o soco que preparava. — Virgem Santíssima, o que deu em vocês? Ficaram malucos? Por alguns segundos, a única resposta foi o silêncio. Depois... — Ele começou — os gêmeos afirmaram ao mesmo tempo, como era comum. Ao ouvir a voz do irmão, ambos piscaram assustados. Quando olharam para o padrasto e viram a expressão de incredulidade em seu rosto, eles riram. Em pouco tempo os gêmeos gargalhavam, os olhos cheios de lágrimas e os rostos vermelhos. — Jesus! — exclamou o conde. — Ouço meus filhos gêmeos usando essa mesma expressão dezenas de vezes por dia. Esperava que isso desaparecesse com a maturidade, que eles deixassem de apontar o dedo um para o outro, mas não... Agora vejo seus irmãos mais velhos, dois adultos, fazendo o mesmo! — Pois eles não vão apontar seus dedos acusadores na minha direção por muito mais tempo — Lucien disse ao entrar no salão. Ele levava um rolo de pergaminho em cada uma das mãos. — Aqui, notem o selo real nas mensagens — disse, entregando a cada irmão um papel. Os dois homens analisaram os documentos, mas nenhum dos dois ousou insultar o irmão, ainda mais rompendo o selo real que os mantinha enrolados. — Perdoe-me, Lucien — Raven pediu arrependido. — Sei que não inventaria essa história. Não preciso de provas. Não há justificativa para o meu comportamento, exceto pelo espanto que me causou toda essa situação. Sinto-me como se houvesse sido atropelado por um touro, e minha disposição tem sido sombria, devo confessar. — Raven olhou para Peter. — Aceita meu pedido de desculpas, também? — Sim. — O irmão gêmeo de Raven o abraçou. — Tenho de voltar para Eynsham — Lucien anunciou. — Adrienne está para dar à luz. Posso confiar em vocês? Saberão se curvar ao desejo de Henry? Tomarão por esposas as damas que eu trouxe a esta casa? Não há propósito em se opor. No final, a vontade dele prevalecerá, o que quer que façam, a menos que fujam para terras estrangeiras. — Por Deus! — Raven exclamou. — Se nos casarmos com essas damas, seremos enviados para terras distantes por causa de seus dotes. Lucien deu um passo na direção dele. — Não desafie o rei, Raven. E, pior ainda, não me desafie.

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— Foi uma brincadeira, Lucien! Juro! Somente uma brincadeira! — Ele sorriu como costumava fazer quando queria fazer derreter o coração de uma mulher. — Desposarei lady Pamela e seguirei para Gales, e empunharei minha espada para manter a paz naquele lugar. Mas não ficarei lá para sempre, cuidando das terras de minha esposa, porque Stonelee é meu lar. — Isso não me interessa. O que importa é que vai se casar com ela. E você, Peter? Tem alguma queixa? — Nenhuma. — Ótimo. — Lucien se voltou para o conde. — Confio em você e em minha mãe para que a ordem do rei seja cumprida, porque é certo que Adrienne e eu não poderemos retornar para a cerimônia. O castelo do conde nas terras de Fortengall ficava a noroeste de Stonelee e Stoneweather, e era possível percorrer a distância em tempo razoável quando se viajava a trote ou galope; porém, naquele ritmo lento, a jornada era muito mais demorada. Nesses tempos viajar era fácil. Todos, exceto Lucien, que deixara Stonelee às pressas para voltar à Fortaleza Eynsham, cavalgavam sem pressa para o castelo Fortengall. Muitos se ocupavam de conversas amenas, como se estivessem sentados à mesa, não sobre selas duras. Ian guiava a procissão, apontando locais de interesse espalhados pelo caminho. Roxanne não dava atenção ao homem. Oriunda de uma terra que tinha seus próprios chefes, entre eles seu pai, ela demonstrava evidente desdém pelos contos heróicos do conde, reação que ficava ainda mais óbvia para quem olhasse para o rosto carrancudo e beligerante. Raven não podia ver o rosto de Roxanne. Logo atrás dela, observava furtivamente a jovem que viajava montada em um garanhão negro e murmurava palavras incompreensíveis. Seu irmão havia sido amaldiçoado. Viver ao lado da megera seria um castigo eterno. Como décima e última filha, ela havia sido criada para ocupar o lugar do herdeiro que jamais nascera. Cavalgava como um homem, falava com a firmeza e a ousadia de um homem, era arrogante, altiva e excessivamente confiante. Raven aproximou-se, posicionando sua montaria ao lado da de Roxanne, mantendo uma distância segura entre os animais. Era impossível desviar os olhos do tornozelo perfeito visível de onde ele estava. Bem, pelo menos ela mantinha algum senso de decência, porque calçara meias masculinas antes de erguer as saias para montar. Era mais provável que a atitude tivesse o simples propósito de protegê-la contra os elementos. Mesmo assim, para poder montar daquela maneira, ela devia ter levantando também os saiotes. Não fosse pelo manto de pele que a envolvia, ela estaria exibindo também as coxas para qualquer cavalheiro que quisesse vê-las!

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Balançando a cabeça numa desaprovação silenciosa, Raven olhou para a frente. Sua mãe, que cavalgava ao lado do conde, olhou para trás e acenou, antes de falar com o marido. Raven acompanhava toda essa movimentação, mas só conseguia pensar nas pernas longas e torneadas de Roxanne. Talvez ela usasse calça masculina para cavalgar no verão, ou, considerando o próprio conforto, abria mão delas e montava sem nenhuma proteção para sua modéstia. A imaginação do lorde de Stonelee ganhou vida própria. Podia quase ver a pele branca e macia das coxas contra o corpo forte do cavalo. E acima delas, partes mais íntimas e delicadas... — Jesus... — ele grunhiu, sem perceber que arfava. — Falou comigo? — Roxanne indagou ríspida, só então revelando que tomara conhecimento de sua presença. — É pouco provável. — Melhor assim. O comportamento da megera ultrajava Raven. Odiava pensar no que o irmão teria de suportar ao lado de tão detestável dama. Podia entender por quê, naquela idade, ela ainda não se casara nem tivera filhos. O que não entendia era como, mesmo com a idade que tinha, a mulher não considerava as mais básicas noções de propriedade e recato para membros de sua classe e gênero. Deliberadamente, ela desafiava os costumes e se exibia vaidosa, e ainda expressava opiniões e sentimentos mesmo quando ninguém queria saber o que ela pensava ou sentia. Raven olhou para trás, para o irmão e para aquela que seria sua esposa. Se era mesmo forçado a desposar uma mulher escolhida por Henry, estava aliviado por essa mulher ser Pamela, uma jovem tímida e recatada. Pobre Peter. Raven balançou a cabeça tomado por uma onda de piedade. Não seria fácil conviver com uma criatura como Roxanne! — Milady, sente-se confortável? — Peter perguntou a Pamela. — O quê? Oh! — A jovem dama exclamou, assustada por ver o irmão de seu prometido tão próximo, falando diretamente com ela. — Sim, estou. — De verdade? — Bem... não — Pamela confessou depois de alguma hesitação. — Sei que não é educado ser tão franca, mas devo admitir que sinto dores no... em uma parte mais castigada de meu corpo. Não cavalgo por tanto tempo desde o ano passado, quando viajei para atravessar a fronteira da Inglaterra. Peter sorriu penalizado. — Também passei longos e incontáveis dias sobre a sela quando era um mercenário a serviço de outros senhores. Usava malha e armadura, empunhava Projeto Revisoras

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espada e carregava escudo. Posso entender perfeitamente essa dor que diz estar sentindo. Pamela corou. Mesmo assim, vencida pela curiosidade, ela o encarou e perguntou: — Já foi cavaleiro, senhor? Nunca imaginei que fosse possível. Afinal, é dono de sua própria fortaleza... — Raven e eu ganhamos nossas terras — Peter explicou. — Até mesmo Lucien, o primogênito, teve de reclamar Eynsham, a propriedade que foi de nosso pai, porque ela havia estado nas mãos de outro senhor por anos. Foi o rei Henry quem recompensou a mim e a meu irmão Raven por nossos feitos. — Deve ser uma história interessante. Não quer contá-la? Instintivamente, Peter respirou fundo, ergueu os ombros e abriu o peito. — Raven e eu, filhos mais novos, e Lucien, desprovido de terras, ganhávamos nosso dinheiro em torneios e vendendo nossos braços armados para senhores de terras. Mas, com o casamento de nossa mãe com lorde Ian, passamos a trabalhar para o rei, porque o conde e Henry são velhos amigos. Após uma batalha particularmente longa e difícil contra várias baronias que se haviam unido contra o rei, conquistamos uma vitória memorável. Henry decidiu recompensar nós três com uma grande extensão de terra, que nós sugerimos que fosse dividida em três lotes menores. Raven e eu aceitamos alegremente a recompensa, mas Lucien a recusou, determinado como estava a recuperar as terras perdidas de sua herança. Felizmente, ele as recuperou. — Devem ter feito algo extremamente importante nessa batalha contra as baronias, ou o rei não os teria escolhido para receber tão grande recompensa. O que aconteceu exatamente? Entusiasmado com o interesse da jovem, Peter se dedicou a produzir um relato mais detalhado. Pamela ouvia atentamente, exclamava, ria e o interrompia com perguntas que ele respondia pacientemente. Raven ouvia algumas palavras aqui e ali, estranhando que o irmão estivesse regalando sua noiva com histórias sobre força e valentia. Não teria se incomodado se Peter não falasse como se fosse um deus viking dotado de poderes mágicos. E a história nunca terminava! Alguém podia acabar imaginando que se falava ali de uma guerra de cem anos, não de um único dia de batalha. Mais uma vez, ele se virou na sela e tentou ignorar a megera de cabelos negros a seu lado, ou, mais precisamente, a perna que permanecia visível atormentando-o e enfurecendo-o. Quando se virou, ele descobriu que Peter e Pamela cavalgavam tão próximos, que as saias de sua noiva roçavam as botas de seu irmão. Concentrados um no outro, eles nem notaram que Raven puxava as rédeas. Na verdade, quase o atropelaram. — Raven! — Peter exclamou. — Por Deus, o que pensa estar fazendo? Projeto Revisoras

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— Nada de especial. E você, o que fazia? — Eu... relatava a lady Pamela aquela batalha que travamos ao lado do rei Henry. Aquela que resultou em nossa compensação. Por aquela vitória recebemos as terras onde hoje estão Stonelee e Stoneweather. — Eu ouvi. Devia estar ressaltando seus feitos heróicos para sua noiva. Peter olhou para a estrada. A mãe, o padrasto e Roxanne se distanciavam, uma vez que, por obra de Raven, haviam sido forçados a parar. — Talvez esteja certo, meu irmão. Não devia negligenciar lady Roxanne. — Ele olhou para Pamela. — Com sua licença, milady. — Certamente — ela respondeu com um sorriso compreensivo. — Agora, você pode contar a sua noiva sobre seus feitos heróicos — Peter comentou rindo antes de se afastar para alcançar Roxanne. Raven seguiu viagem ao lado de Pamela. Mas a dama olhava para a estrada e se mantinha calada, pensativa. Raven não podia culpá-la, porque também não era capaz de pensar em nada para dizer. Era irônico, porque Pamela de Angleford era exatamente o tipo de mulher que sempre pretendera desposar, se e quando se casasse. Quieta, recatada, obediente, simpática, cordata... — Por Deus... — Disse alguma coisa, milorde? — Nada importante. — Outro silêncio incômodo caiu sobre eles. — Fale-me sobre Angleford — ele pediu, sem realmente estar interessado, mas contente por ter conseguido pensar em algum assunto, afinal. — Não há muito a contar. É uma fortaleza de desenho normando construída para suportar os ataques dos nativos de Gales. Não que alguém tenha atacado Angleford desde que me conheço por gente. Meu pai e tio Cedric mantinham a paz com pulso firme. — Soube que a fortaleza fica nos pântanos. Onde, exatamente? — Ao sul fica Bittenshire, a casa de Roxy. Ao norte, Angleford faz fronteira com Penllyn, o principado de Gales onde minha mãe e a mãe de Roxy nasceram. — São parentes pelas duas famílias, então. Angleford deve ser um lugar muito pacífico, apesar de localizar-se nas fronteiras. — Sim, é — Pamela confirmou distraída. — Milorde, o que é aquilo? Raven virou-se na direção por ela apontada. Um grande edifício de pedra se erguia no horizonte. — É nosso destino. Projeto Revisoras

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— Atenção todos! — Ian gritou de repente, apontando para o mesmo local que Pamela havia indicado pouco antes. Dirigindo-se às duas damas galesas que cavalgavam atrás dele, o conde explicou: — O castelo Fortengall localiza-se a pouca distância daqui! — É grande, milorde — Pamela comentou ao aproximar-se do conde e de sua esposa. — Monstruoso — Roxanne resmungou. — Sim, é uma fortaleza formidável — confirmou Ian. — E assim é porque o castelo cresceu com cada um dos senhores que teve. Um de meus antepassados escolheu o lugar da fortaleza há séculos. Ele era um dinamarquês chamado Joukahainen. Roxanne virou os olhos. — É ainda maior do que a Fortaleza de Angleford — Pamela declarou. — Então, Raven vai ter de se dedicar à construção. Não é verdade? — O conde sorriu amistoso para o enteado. — Certamente — respondeu com tom seco o jovem cavaleiro. — É tudo que quero fazer, agora que finalmente terminei de construir Stonelee. — É responsabilidade do proprietário e senhor melhorar suas fortalezas — Peter lembrou. — além do mais, quando estiver casado, não vai mais poder desperdiçar seu tempo com as atividades de lazer a que tem se dedicado recentemente. Projetar e construir servirão para mantê-lo ocupado de um jeito que não incomodará sua jovem esposa. — Ele piscou para Pamela. Ela respondeu com um sorriso. Raven olhou de um para o outro e franziu a testa. — Os cavalos vão apreciar um bom galope — Lucinda sugeriu. — Todos estão de acordo? Assim chegaremos mais depressa. Sem dizer nada, Roxanne partiu num galope frenético, deixando para trás a família do conde e sua prima. Raven ficou olhando por um momento, fascinado com a imagem dos cabelos negros voando como uma vela soprada pelo vento. De repente sentia o sangue ferver. Num impulso, ele também irrompeu num galope alucinado. — Vamos! — Ian chamou os que restavam. Imediatamente, todos partiram, mesmo sabendo que não poderiam alcançar os dois cavaleiros que já abriam grande distância do restante do grupo. — Detenha-se, mulher! — Raven gritou para Roxanne quando já se aproximavam do fosso que cercava a fortaleza. — Não é fácil entrar ou sair do castelo de Fortengall. Ninguém vai abrir os portões para você!

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Ela puxou as rédeas do cavalo. — Não mesmo? — Havia em seu sorriso um desafio, uma provocação debochada. — Não — Raven respondeu. — Odo! Os portões! — Ian ordenou atrás do enteado. — Sim, milorde — respondeu o guarda. De repente, Raven e Roxanne foram cercados pelo restante da família. Feliz com a oportunidade de libertar-se de sua odiosa presença, ele se adiantou e, liderando o grupo, penetrou na fortaleza. Roxanne ficou para trás. — É magnífico, não? — Pamela perguntou à prima quando percorriam o túnel que ligava o portão ao pátio interno. As duas estavam sozinhas, uma vez que o conde, sua esposa e os dois enteados pareciam ansiosos para desmontar e, por isso, seguiam em velocidade moderada. — Não é — Roxanne respondeu mal-humorada. — É grande, reconheço, mas é velho e deve estar caindo aos pedaços. Fortengall não passa de um amontoado de pedras empilhadas no fim do mundo, no meio do nada, — Não diga tolices! Estamos no inverno, Roxy. Mesmo em Gales, tudo que se vê é uma imensidão cinzenta e marrom. Quando a primavera trouxer de volta o verde da relva e das folhas, tudo aqui será lindo. Roxanne olhou para a prima como se ela houvesse desenvolvido chifres. — O que deu em você? Entendo que esteja perturbada por se ver obrigada a desposar esse homem rude e horrível que o rei Henry escolheu para ser seu marido, mas agora parece estar sob algum tipo de encantamento! Por que mais se sentiria tão fascinada por algo tão... inglês? — Eu sou inglesa, Roxy. Como você. — Eu sou Cymry. Sou descendente dos antigos celtas de Gales. Sou filha da princesa Rhiannon. — E é filha de sir Cedric, cujos ancestrais tinham raízes em Warwick. — Cedric, lorde de Bittenshire! — Roxy, você às vezes é muito irritante. Todos, inclusive o rei Henry, têm sido muito generosos conosco, mas você insiste em ser um constante aborrecimento. Honestamente, não pode negar que esses dois lordes são bons partidos. Qualquer fina dama sacrificaria um ou dois dedos para ser chamada de esposa por um deles. Conforme-se com seu destino. Não é tão terrível, e poderia ser muito pior.

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Boquiaberta, Roxanne não conseguiu pronunciar uma palavra sequer. Quando finalmente saíram do túnel e atravessaram o pátio dominado pelo agradável caos que era a vida dentro das muralhas de uma baronia, ela recuperou a capacidade de falar. — Não foi o destino que me trouxe até aqui, Pamela — ela disse, notando que Raven e Peter já haviam desmontado e se aproximavam delas a pé. — Foi o desprezível rei inglês. Mas, como ele não é meu rei, não tenho que... — O que não tem de fazer? — Raven indagou. Roxanne mordeu a língua. — Nada — resmungou irritada, descendo da montaria. Peter apressou-se em ajudá-la. — Estava falando de alguma coisa, certamente — Raven insistiu, revoltado com a maneira familiar com que o irmão tratava a megera. Teria ficado menos alarmado se visse Peter acariciando uma vespa. Roxanne o encarou furiosa, mas, antes que pudesse responder, uma voz masculina interrompeu a conversa. — Sejam bem-vindos, milorde, milady. Os quatro olharam na direção da entrada principal da fortaleza, onde um homem bem-vestido e de meia-idade recepcionava seus senhores. Roxanne aceitou o braço de Peter e o acompanhou, enquanto Raven, lembrando tardiamente de agir como um cavalheiro de boas maneiras, tratou de ajudar Pamela a desmontar. Mas, antes que ela se equilibrasse inteiramente, ele já se dirigia apressado para o grupo reunido nos degraus de pedra. Pamela o seguiu, temendo ser deixada para trás. — Minhas encantadoras jovens — Ian disse, dirigindo-se às duas damas galesas. — Este é Frederick, senescal do castelo e um dos meus mais antigos amigos. Se precisarem de alguma coisa ou tiverem alguma dúvida, procurem-no. Ele conhece cada nicho e cada recanto desse velho castelo. E os criados o obedecem com maior presteza do que demonstram em atender o próprio conde de Fortengall. Frederick, estas são lady Roxanne de Bittenshire e lady Pamela de Angleford. Roxanne foi recentemente ofertada em matrimônio a Peter, e Pamela vai se casar com Raven. — Noivos! Essa é uma boa notícia! — O senescal sorriu e fez uma reverência. — Os garotos vão adorar saber disso. Eles acompanharam a aproximação do grupo da janela de seus aposentos. Todos seguiram Frederick ao interior do castelo, em direção ao salão nobre. Três meninos desciam a escada aos saltos, gritando e rindo, trocando empurrões e golpes, como filhotes rolando uma encosta. Mas, quando chegaram ao pé da escada e perceberam que havia estranhos acompanhando os membros da família, eles ficaram em silêncio. — Meus queridos! — Lucinda abaixou-se com os braços abertos.

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O mais alto dos três, um garoto de olhos azuis, cabelos claros e sem os dentes da frente, ergueu o queixo e endireitou os ombros. Caminhando determinado para a mãe, ele parou pouco antes de se deixar abraçar. — Minhas caras damas, este é nosso mais velho, Hugh — Lucinda explicou. — Hugh, essas lindas jovens, lady Roxanne e lady Pamela, em breve serão esposas de seus irmãos, Peter e Raven. Hugh considerou cada uma das visitantes com ar cauteloso. Depois, com uma reverência cortês e elegante, ele deu um passo à frente. Tomando primeiro a mão de Pamela, depois a de Roxanne, ele as levou aos lábios como se fosse o Cavaleiro Templário. — É um prazer, milady. Roxanne limpou a mão no vestido assim que o garoto a soltou. Pamela, porém, curvou-se diante do galante pequeno lorde. — E quem são esses seres tão belos atrás de você? — ela perguntou. — Os bandidos com cabelo de cenoura são meus segundos gêmeos — Lucinda relatou rindo. — James e John. — Bom dia, lorde James e lorde John — Pamela os cumprimentou com formalidade, repetindo a reverência. — É um prazer descobrir que me uno a uma família de homens tão belos. Os pequenos gêmeos piscaram seus olhos verdes. — Você também é bonita. O elogio sincero tornou o sorriso de Pamela ainda mais largo. — Eles falaram ao mesmo tempo! — Como nós estamos sempre fazendo — disse Peter. — Parece que todos os gêmeos têm esse hábito — Ian comentou. — Pode me chamar de Jamie — um dos pequenos sugeriu, aproximando-se de Pamela. — Quer vir conhecer nossa raposa? — sugeriu John, o outro irmão. — Nós a encontramos abandonada quando ainda era recém-nascida. Ela tem uma coleira de couro trançado feita pelo sr. Frederick. — Sim, e nós a chamamos de Willie. — Pamela irá conhecer Willie mais tarde, meninos — determinou o pai deles. — Depois de se acomodar em seus aposentos. Ela e a prima devem estar cansadas e com fome. Talvez depois do almoço, está bem? — Sim, depois do almoço — Pamela confirmou.

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— Está bem — Jamie e John aceitaram em uníssono. — Agora vão — Lucinda comandou. — Duvido que já tenham terminado as lições matinais. Os três meninos subiram a escada protestando ruidosamente. — Parece que lady Pamela conquistou novos admiradores — observou Peter. — Tem um jeito todo especial com crianças, milady. — É verdade — confirmou Roxanne, impedindo a prima de responder. — Há sempre um pequeno exército de filhos de trabalhadores, colonos e serviçais domésticos, atrás das saias de Pamela. — Mas você não gosta delas... — Raven deduziu com desdém, arqueando uma sobrancelha ao olhar para a jovem dama. — Não. E nem tenho jeito para tratá-las. — É uma pena. — Raven olhou para Peter. — Tudo seria mais fácil se ela tivesse instinto maternal, já que pretende ter filhos com ela... — Raven, tenha modos — Lucinda o advertiu, acenando para uma criada e a orientando para levar as hóspedes para seus aposentos. — Tenho certeza de que os filhos de Peter serão fáceis de educar e muito dóceis. Já os seus... — Roxanne acrescentou com sarcasmo e em voz baixa, empregando um tom que só Raven podia ouvir. — Será melhor afogá-los no nascimento, como se faz com uma ninhada de gatos! Altiva, ela se virou e seguiu a criada escada acima. Pamela sorriu para os lordes gêmeos antes de acompanhar a prima. — Não vai dar certo — Raven declarou carrancudo antes que a mãe pudesse dizer alguma coisa. — Nenhum de nós poderá ser feliz com essas mulheres que Henry escolheu para nossas esposas.

Capítulo III

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Estavam em Fortengall há dois dias, e Roxanne empregava todos os artifícios de que dispunha para fugir da família que o governante inglês lhe impunha. Odiava a eterna discussão sobre as cerimônias que uniriam em matrimônio ela e Peter e Pamela e Raven. Se tivesse de ouvir lady Lucinda fazendo mais uma sugestão sobre esse evento, que pretendia evitar a qualquer preço, acabaria por esganá-la! Temia enlouquecer. Pensava constantemente em fugir, buscar a liberdade. Se chegasse em Gales, ótimo. Se não, se tivesse de passar o resto de seus dias vagando pela floresta, escondida como um animal acuado, que assim fosse. Qualquer coisa seria melhor do que a convivência forçada com esses ingleses! Mas Pamela parecia estar encantada com eles! Era espantoso. Uma coisa era resignar-se com o próprio destino, por mais miserável que fosse, mas abraçá-lo com euforia? Entusiasmar-se com a perspectiva de tornar-se esposa de um homem como Raven de Stonelee? Se fosse Peter o prometido de Pamela, Roxanne poderia até entender seu entusiasmo. Mas Raven? De repente, uma surpreendente constatação a encheu de pavor. Quando se casassem, eles voltariam juntos a Gales, para a fortaleza de Angleford. Talvez por isso Pamela estivesse tão animada com esse casamento. Sim, fazia sentido! Voltar para casa seria a recompensa por aceitar um marido tão rude e grosseiro! Mas ela, Roxanne de Bittenshire, não teria a mesma recompensa por desposar Peter. Se acatasse as ordens do Angevin, seria para sempre a mulher de um lorde inglês, uma dama sem lar, além de Stoneweather, uma fortaleza naquela terra amaldiçoada chamada Inglaterra! Comparado ao irmão, Peter era agradável e educado. Mas era doméstico demais, e essa era uma característica que Roxanne julgava debilitante. Até mesmo o conde, um homem que exibia cicatrizes deixadas por incontáveis batalhas, parecia cegamente devotado à esposa e aos filhos. O acontecimento mais excitante, em um dia rotineiro do lorde, era uma discussão com Lucinda ou uma guerra de brincadeira com os filhos pequenos. Esses ingleses eram todos muito confortáveis e complacentes em sua terra pacífica, Roxanne resumiu com os olhos perdidos no horizonte, apreciando, do balcão de seus aposentos, no castelo, a última luz do dia. Os raios rosados se desmanchavam num fundo escuro que ia cobrindo toda a paisagem e trazendo a noite. Era como seu futuro: sombrio e desconhecido. — Onde estão as damas? — Peter perguntou ao irmão quando eles passaram pela escada do castelo. — Lady Pamela está na cozinha com nossa mãe. Parece que elas têm em comum a paixão por receitas culinárias. Pamela está preparando um doce que despertou a curiosidade de nossa mãe.

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— E minha noiva? — A megera galesa? Lá fora, provavelmente. — Lá fora? Está escurecendo! E nevando! — Não se preocupe, Peter. Ela não vai sucumbir às intempéries. Duvido que sucumba a um exército de sanguinários guerreiros nórdicos! — Por que tem de ser tão indelicado? — Não é falta de delicadeza. Eu apenas a vejo como ela é. E o que ela é não serve para você. — Eu decido o que serve para mim. Você devia se ocupar de mostrar algum interesse por sua noiva. Raven fez uma careta e se dirigiu à cozinha. Peter cobriu-se de um manto que encontrou no cabide ao lado da porta e saiu. — Viu lady Roxanne? — ele perguntou ao primeiro guarda que encontrou. — Sim, lorde Peter. Ela está no alto da muralha. Peter seguiu a orientação dada pelo guarda e encontrou a noiva observando o céu cinzento. Com a cabeça descoberta, ela nem parecia notar a neve que caía. Era como o capitão de um navio olhando para o mar, observando a amplidão que outros jamais notariam. — Roxanne? — Peter chamou enquanto se aproximava. Assustada, ela se virou e o viu a seu lado. — Virgem Santíssima! Não ouvi seus passos! — Estava distraída. — Não. Foi... o vento. — Ah, sim, o vento. — Peter concordou, embora houvesse apenas uma suave brisa. — O que faz aqui? Minha mãe e sua prima estão na cozinha. — Eu sei. Mas, se preparasse alguma coisa na cozinha e você comesse, não haveria casamento. Você morreria antes. — O quê? Está tão desgostosa assim com o casamento? Seria capaz de aproveitar a chance e envenenar-me? — Já tive a chance, mas preferi ficar aqui, em vez de ir para a cozinha preparar poções letais. — O que prende sua atenção aqui em cima? — Estou tentando localizar a estrada para Bittenshire. Gostaria de estar nela. — Entendo. Bem, estará. Em breve. — Ah, é? — Roxanne olhou esperançosa para aquele que deveria ser seu marido. Projeto Revisoras

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— Quero lhe fazer uma promessa, milady. Assim que o tempo melhorar, iremos à sua casa para uma visita estendida. — Oh... — Sei que não quer o nosso casamento. Entretanto, como não há nada que possamos fazer senão acatar a vontade do rei e cumprir sua ordem, quero que saiba que farei o possível para garantir seu contentamento. Será meu maior tesouro, milady. Ela o fitou surpresa. Era evidente que as promessas do noivo a tocavam, Esperando ter encontrado uma brecha na armadura emocional, ele tocou seus cabelos tentando tirar proveito máximo da situação. — O que está fazendo? — Ah, eu... Por quê? Fui muito ousado? Queria apenas remover os flocos de neve. Se não se livrar deles, vai ficar com os cabelos ensopados quando retornar ao castelo. Roxanne riu. O som agradou Peter. Raven a chamava de megera, mas ele sabia que a jovem escondia um lado mais doce e suave. Estava feliz por poder vislumbrálo. — Por que está rindo? — Seu cabelo está ficando branco. — Ela estendeu a mão para despentear as ondas cobertas de flocos de neve. — Ah, devia ter deixado a neve! Assim saberia qual vai ser sua aparência quando ficar velho. — Não posso permitir! — Ele balançou a cabeça para livrar-se dos flocos. — Se pudesse me ver como um velho grisalho e encurvado, talvez preferisse Raven a mim. Roxanne virou-se. — Continua procurando pela estrada para Bittenshire? — Sim. E espero que não se ofenda por isso. — De jeito nenhum. Conheço essa necessidade de se sentir ligado a alguém ou alguma coisa muito querida. Pode parecer peculiar, mas tenho esse tipo de ligação com Raven. Estivemos juntos no útero materno, e passamos boa parte da vida próximos. No entanto, quando estamos separados, seja por grandes distâncias ou pelas paredes de um aposento, sei que permanecemos conectados. E sei que ele tem o mesmo sentimento por mim. É comum sabermos o que o outro está pensando ou sentindo. — Mãe de Deus! Tenho pena de você. — Você e ele não se deram muito bem, não é? — Não. Se vocês não fossem tão idênticos em aparência, eu chegaria a acreditar naquela velha história sobre mulheres que geram gêmeos terem dormido Projeto Revisoras

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com dois homens. Você e Raven são tão diferentes em temperamento e espírito, que teria sido fácil acreditar que são filhos de pais diferentes. — Esteja certa de que minha mãe é uma esposa fiel. Desde Gundalf, pai de Lucien, Raven e eu. E ele não era o tipo de homem que inspira lealdade em uma esposa. — De fato? Seu pai era um homem desleal? — Digamos que ele tinha defeitos que poucas mulheres perdoam. Mas essa é uma história para outro dia. Quanto à busca, lady Roxanne, está olhando na direção errada. Venha comigo — ele a convidou, segurando sua mão. — Vamos olhar da muralha do outro lado do castelo, e ainda poderá ver a estrada para Gales e os pântanos antes de a escuridão cobrir a terra com seu manto. Roxanne aceitou o convite e se deixou levar pela mão de Peter, que a conduzia cuidadoso na jornada ao longo da muralha. — Lá — ele apontou. — Aquela é a estrada que nos trouxe a Fortengall. Ela prossegue para o norte. Com a chegada da noite e a neve, está quase desaparecendo em meio às árvores, mas é movimentada, mesmo no inverno. Homens de várias regiões precisam vir a Fortengall para falar com o conde, e o povo dos vilarejos vem ao castelo sem se importar com a época do ano. Assim, apesar da neve, logo a trilha será um veio lamacento outra vez, e será possível vê-la mesmo de longe. Espero que não esteja planejando percorrê-la tão cedo, milady. — Não. É claro que não. Como disse, tudo não passa mesmo dessa necessidade de me sentir conectada ao lar, às origens. A estrada é como um laço com Cymry. — Entendo. Bem, a noite se aproxima. Venha, vamos descer. Roxanne virou-se para descer do parapeito atrás da muralha, mas, na escuridão, perdeu o equilíbrio e teria caído, não fosse a agilidade e a presteza de Peter; que a segurou pela cintura. — Machucou-se, milady? — Não. — Tenha cuidado. Vá mais devagar. Ela assentiu. Lentamente, os dois caminharam na escuridão pelo piso escorregadio e coberto de neve. — Eu... não consigo ver os degraus! — A escada está bem na sua frente. Só mais alguns passos. Continue andando. Roxanne deu mais um passo. E outro. O terceiro passo promoveu o contato de seus pés calçados por chinelos macios com mais uma faixa de neve. O escorregão foi inevitável, e ela se desequilibrou novamente. Os dois pés saíram do chão e ela caiu

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para trás, chocando-se primeiramente com o peito de Peter, depois com o chão gelado. Roxanne gritou, assustada e constrangida. — Deve estar pensando que sou uma desajeitada! Eu... Chocada, ela olhou em volta e constatou que Peter não estava ali. Havia desaparecido! O pânico a dominou. Como poderia sair dali sozinha? — Roxanne! Peter não podia dizer mais nada. Estava apavorado. Não sabia se Roxanne já havia percebido, mas ela estava sentada sobre a mureta da escada. Um movimento em falso, e cairia no vazio. Mas Roxanne não era uma mulher fraca ou covarde. Rápida, ela analisou a situação, avaliou o perigo e, movendo o corpo para o lado oposto à mureta, apoiou-se sobre os joelhos e as mãos, afastando-se do abismo escuro. Com o impacto provocado pela queda, Peter havia sido jogado para trás, e agora era ele quem estava pendurado na mureta, as pernas balançando no ar gelado e as mãos agarrando o parapeito.. — Roxanne! — ele repetiu. Não poderia soerguer-se sozinho, porque os pés não encontravam apoio na parede escorregadia e coberta de neve, e as mãos não tinham a força necessária para sustentar o peso do corpo. O frio começava a entorpecer-lhe os membros. A queda era uma questão de tempo. Pouco tempo... De repente, dedos firmes agarraram os dele. — Força, Peter! Ajude-me, por favor! — Roxanne dizia, mantendo os pés contra a mureta e usando o peso do próprio corpo para tentar erguê-lo. Mas era inútil. Não poderia sustentar um homem adulto usando apenas os braços! — Ajude-me! — ela pediu aflita. — Estou colocando meu tornozelo sobre a mureta. Agarre-se nele. Enquanto isso, vou puxar sua outra mão com meus dois braços. Vou manter o pé contra a mureta para ganhar mais força. Tente usar minha perna como uma alavanca. Agora! Mas Peter não fez como ela dizia. Sabia bem que poderia puxá-la para baixo quando caísse. E a queda era mais do que certa. — Roxanne, solte-me! Eu consigo sozinho... — Não! É impossível! — Eu consigo! Vou... Roxanne se negava a soltá-lo, mas, de repente, segurava apenas uma luva de couro. Os dedos de Peter haviam desaparecido de dentro dela. Não havia mais peso. Um silêncio terrível era seu único companheiro na escuridão.

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— Peter! — ela gritou, identificando ao longe o baque do corpo se chocando contra o chão. De joelhos novamente, apoiando-se na mureta com as mãos, ela olhou para o pátio lá embaixo. Estava escuro demais para enxergar alguma coisa. Tudo que via eram sombras densas e nebulosas em meio aos flocos de neve. — Socorro! Socorro! Lorde Peter caiu da muralha! — ela gritou. E então, impelida pelo desespero, mesmo sabendo que também poderia cair, Roxanne levantou-se e correu para a escada que levava ao interior do castelo e ao pátio muitos andares abaixo. — Posso experimentar? Pamela virou-se ao ouvir a voz de Raven atrás dela. — Não, milorde, não pode. Ainda está quente. — O cheiro é delicioso! O que é isso? — Não tem nome. É só uma receita que inventei em uma tarde de ócio. — Você vai adorar, Raven — Lucinda garantiu. — A massa folhada é recheada com maçãs, groselhas e mel. — Sua mãe teve a gentileza de providenciar os ingredientes, que são raros nessa época do ano. — Tem certeza de que não posso provar? Paciente, Pamela cortou uma pequena fatia do doce para oferecer ao noivo. Raramente tinha sua atenção, e agora que a conquistara, não desviaria o olhar corando como uma menina tola. Peter era fácil de conviver, mas Raven a perturbava com aquele olhar penetrante e ousado, com os sorrisos insinuantes e os comentários diretos, mais do que francos. Se agisse com timidez, logo ele perderia o interesse por sua companhia, e isso era algo que ela não deixaria acontecer. Na verdade, a jovem senhora de Angleford não era sempre uma alma tímida. Era quieta, apenas. E desde que fora viver com os parentes, compreendera que Roxanne precisava ser mais ousada que ela. Se tivesse a impressão de amparar e proteger a prima, Roxanne poderia encontrar alguma compensação depois de ter vivido por tantos anos como a caçula preterida da prole Bittenshire. — E então? O que achou da receita, milorde? — Deliciosa! Creio que devemos dar um nome ao prato. — Que nome? — Delícia de Pamela. A donzela não desviou o olhar, apesar de reconhecer na sugestão uma maliciosa insinuação sexual. E na presença de lady Lucinda! Projeto Revisoras

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— Fora daqui! — Lucinda ordenou com firmeza ao filho. — A cozinheira está ocupada com a refeição da noite, e estamos atrapalhando seu trabalho. Ela não precisa de você aqui, no meio do caminho, ocupando todo o espaço. — Está bem, eu me retiro — ele concordou sorrindo, mantendo o olhar fixo no de Pamela. — Mas quando o doce for servido à mesa, insisto em ser alimentado pelas mãos de minha prometida. Só assim poderei lamber de seus dedos até a última gota de mel. — Não seria apropriado — ela murmurou com decoro, reconhecendo nas palavras do noivo uma provocação debochada. — Nesse caso, pode alimentar-me em algum lugar mais privado. — Fora! — Lucinda exclamou com tom severo. Assim que Raven saiu, ela explicou rindo. — Ele é um desregrado. Esse meu filho precisa de uma mulher que o conduza pelos caminhos da gentileza. Não entendo de onde Henry tirou essa idéia... — Ela suspirou. — Ah, bem, ele é o rei. Pode fazer o que bem entender. Sendo assim, recai sobre seus ombros, minha querida, a responsabilidade de fazer esse casamento dar certo. — Não se preocupe comigo, milady. Tenha certeza de que sou capaz de desempenhar com coragem e eficiência qualquer tarefa que me seja proposta. Lucinda sorriu. — É uma alegria ouvi-la falar assim. E não se deixe assustar por minhas palavras, Pamela. Quero apenas que todos sejam felizes. Um casamento ruim é o inferno na terra. Além do mais, todos os meus filhos são bons. O próprio Raven é um ser especial. Mas ele vai ter de aceitar a idéia do casamento. Agora vamos, minha cara. Já ficamos no caminho da cozinheira por muito tempo. Vá encontrar Raven e os outros no salão. Beba uma caneca de vinho aquecido e converse um pouco. Afinal, você é hóspede em Fortengall. — Vai me deixar ajudar quando eu for a esposa de seu filho? — Oh, sim! Vou fazer você trabalhar até esfolar os dedos! — Lucinda exclamou rindo. Pamela dirigiu-se ao salão tomada por uma súbita alegria. Gostava da mulher que logo seria como uma mãe para ela. Gostava também de lorde Ian, de Peter e os filhos mais novos do casal. Só lamentava não se sentir tão à vontade com Raven. Teria de passar mais tempo com ele. Conhecê-lo melhor. Por isso, foi com animação que ela identificou o senhor de Stonelee em um canto do salão, cercado por guardas que esperavam pela última refeição do dia. Um batalhão de criados preparava a mesa principal, ocupada pela família, e as mesas menores usadas pelos leais seguidores e guardas do castelo.

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Infelizmente, Raven não estava sozinho. Com um dos braços, ele enlaçava uma criada pela cintura e a mantinha bem perto de seu corpo. — Ah, Bess, minha querida — ele disse num suspiro preguiçoso. — Por onde tem andado? — Estive em Wilkeshire — respondeu a serviçal que, Pamela notou, era farta de dotes físicos e possuía belos cabelos castanhos. — Meu pai envelhece na pobreza e sem saúde, por isso decidi permanecer ao lado dele até vê-lo melhor das enfermidades que o acometem. Graças aos santos, agora ele está melhor. — Fico feliz com isso. Retornou há pouco? — Sim, há algumas horas, pouco antes do cair da noite. O que o traz a Fortengall, milorde? Cautelosa, Pamela buscou a proteção das sombras para continuar ouvindo a conversa sem ser vista. — Vim para revê-la, minha adorável camponesa. — Ousado, Raven usou uma das mãos para acariciar um seio farto de Bess. — Há muito tempo não nos deitamos juntos... Pamela estava boquiaberta. — Caso tenha esquecido, milorde, durante um tempo tive um marido que assumiu esse dever. — Mas o pobre homem foi encontrado pela morte, e agora você tem em sua cama um espaço que precisa ser ocupado. Raven aproximou a boca da orelha de Bess. Pamela jamais saberia o que ele havia sussurrado. Mas não era tão ingênua que não pudesse supor. E a suposição a enfureceu a ponto de ter de cerrar os punhos. Bess riu e, jogando a cabeça para trás, uniu as mãos na nuca de Raven. As fitas que deveriam manter sua túnica seguramente fechada se abriam frouxas, expondo rosadas porções de pele que Raven acariciava com os dedos. Pamela estava muito aborrecida com o comportamento do noivo, mesmo sabendo que não tinha esse direito. Os nobres eram assim; sempre procuravam se divertir com outras mulheres, além daquela que tinham em casa. E ela ainda nem era esposa de Raven. Na verdade, mal se conheciam. Viram-se pela primeira vez três noites atrás, apenas. E, como lady Lucinda a prevenira pouco antes, Raven teria de ser conduzido com sabedoria e cautela, persuadido a aceitar o casamento e encontrar contentamento nele. Era sua responsabilidade contentá-lo, mas não antes do casamento. E preferia que ele nem soubesse que o estivera espionando. Pamela se preparava para voltar ao extremo oposto do salão, quando Raven levantou a cabeça e olhou em sua direção.

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Assustada, ela parou para esperar pela reação explosiva, mas o lorde olhava por cima de seu ombro, para algum ponto atrás dela. — Peter... O movimento de seus lábios foi fácil de decifrar, embora nenhum som brotasse deles. — O que disse? — a criada perguntou confusa. — Peter está ferido! — Raven exclamou, deixando-a para correr na direção da entrada do castelo. O grito atraiu a atenção dos presentes. — Raven disse alguma coisa sobre Peter? — Lucinda indagou intrigada, aproximando-se de Pamela. Cavaleiros e guardas corriam para fora do salão. — Sim, creio que sim, lady Lucinda. Ele disse o nome do irmão e correu para fora. — Onde está Peter, lady Pamela? — Não sei. Não o vi, senhora. A pesada porta do salão rangeu em suas dobradiças. Sapatos batiam contra as pedras do piso, e vozes se erguiam na passagem externa. Lucinda correu para a porta. Pamela a seguiu. Uma voz masculina anunciava: — Milorde, seu irmão caiu da muralha! — Tochas! — Raven exigiu. — Precisamos de luz aqui! — Pamela e Lucinda o seguiam atravessando o mar de gente que se espremia no túnel de ligação entre o pátio e a porta. — Peter! — Raven chamou, caindo de joelhos ao lado do irmão. — Peter! — Não tente movê-lo! — Roxanne o advertiu. — Receio que milorde tenha fraturado uma perna. — Não me diga o que devo fazer para ajudar meu irmão! E o que, em nome de Deus, você tem a ver com isso? — Eu... estava lá. Na muralha. Percebemos tarde demais que a noite caía, e tentávamos descer quando o acidente aconteceu. Raven olhou para o irmão. — Está consciente, Peter? Pode me ouvir? — É claro que sim. Está gritando como um louco. Raven riu, aliviado por constatar que o irmão estava vivo e consciente. — Acha que fraturou a perna? — Tenho certeza disso. Projeto Revisoras

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Lucinda ajoelhou-se ao lado do filho. — Mon petit, isso vai causar dor ainda maior, mas preciso encontrar a fratura — ela avisou. — Preciso de luz! Homens se aproximaram portando tochas. A luz das chamas era refletida pela neve que se acumulara na entrada do túnel, criando uma imagem sobrenatural. Peter gritou: — Pelo amor de Deus! Mãe, o que fez? Consertou meu osso? — Não. Só localizei onde ele se partiu. E é uma fratura considerável, meu filho. — Ela se levantou e limpou o vestido na altura dos joelhos, notando que a neve o deixara molhado. Olhando em volta, ela encontrou o marido com os três filhos menores e Pamela. — Ian, mon petit tem uma perna fraturada. Isso é tudo que sei por enquanto. Precisamos levá-lo para dentro. O conde assentiu e começou a dar ordens, ainda mais autoritário que Raven. Em poucos momentos, Peter foi carregado para o interior do castelo. A família o seguiu como um entourage real. No quarto destinado a Peter, Lucinda se preparou para colocar as partes do osso fraturado em seus devidos lugares. Pamela a ajudava com o material necessário para o curativo, evitando olhar para as pernas nuas do lorde e, mais precisamente, para aquela região misteriosa sob o final da túnica, abaixo do ventre. Uma donzela modesta não devia se deixar conspurcar pela curiosidade. Foi mais difícil, porém, desviar o olhar do ferimento causado pelo tombo da muralha. Um fragmento de osso rasgara a carne de dentro para fora, e toda a perna de Peter inchava ferozmente, adquirindo um tom avermelhado que sugeria problemas sérios. — Ian, vamos precisar de talas — Lucinda disse ao marido, que saiu apressado para ir atender ao pedido.— Pamela, você e Raven precisam me ajudar segurando-o. Vamos ter de empurrar os fragmentos de osso de volta aos seus lugares, e Peter é um homem forte. Vai tentar resistir. — É claro que não, mãe — Peter protestou. — Estamos falando de instinto, meu filho. É incontrolável. Aqui... — ela disse, abrindo um frasco e despejando em uma colher de madeira parte do líquido nele contido. — Isto vai ajudar. Peter abriu a boca e aceitou a poção com uma careta. — Se essa é a ajuda que pode me dar... — O sabor é ruim, mas vai me agradecer por tê-lo conhecido. Muito bem... Percival, segure os ombros de seu irmão contra a cama. Pamela, mantenha os tornozelos dele bem firmes sobre o colchão. A dor será maior do que a da queda...

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— Acredito no que diz, mãe. Não senti dor quando a fratura aconteceu. Só depois, quando tentei me mover. — Além de devolver o osso ao seu lugar, vou ter de suturar o ferimento externo, também. É profundo demais e... — Mãe, não precisa dizer o que vai fazer. Faça! Pamela olhou assustada para Raven, estranhando que ele, não Peter, houvesse dado a ordem aflita. Lucinda começou a trabalhar. Peter resistia corajosamente, apesar dos movimentos espasmódicos que ameaçavam arrancar os tornozelos das mãos de Pamela. Raven praticamente empurrava os ombros do irmão contra a cama. Mas ele não emitia nenhum som. Pamela admirava a coragem com que ele suportava tudo em silêncio. E não havia nenhum progresso, a partir do empenho de Lucinda. Depois de várias tentativas, a perna permanecia fraturada num ângulo grotesco. — Isso exige força bruta — declarou Ian, que havia entrado sem ser notado. — Você posiciona os ossos, Lucinda. E eu os empurro. Assim vai ser mais fácil. Lady Pamela? Ela se retirou para deixar o conde segurar os tornozelos de Peter. Tentando ajudar, ela se aproximou da cama para segurar a mão do homem ferido e pálido. — Seja forte — ela sussurrou para encorajá-lo. — Pode apertar meus dedos, se quiser, milorde. E não se preocupe. Sou mais forte do que parece. Não vou quebrar. Peter até poderia ter respondido, mas, sem aviso prévio, Ian puxou a perna fraturada, enquanto Lucinda empurrou o osso de volta para o lugar de origem. O pobre homem fechou os olhos e apertou a mão de Pamela, emitindo um gemido sufocado que quase ninguém ouviu, porque o grito de dor de Raven soou muito mais alto. Estava feito. Num piscar de olhos, a extremidade que podia ser vista rasgando a carne de Peter havia desaparecido, empurrada de volta para dentro do corpo castigado pela dor. — Pronto, milorde — Pamela avisou com voz suave, usando a manga ampla da túnica para limpar a transpiração de sua testa. — Agora, sua mãe e eu vamos costurar a ferida, e depois... — Não! Minha mãe é capaz de cuidar disso sozinha. Fique comigo, milady, por favor! — Certamente, milorde. Deixe-me apenas ir buscar mais uma dose daquela poção. Ela o ajudará a dormir. Peter piscou, e ela correu até onde havia deixado o cesto com as ervas.

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— Em qual poção está o beleno? — Naquela — Lucinda apontou para um frasco. — O frasco tem uma fita verde — ela acrescentou, atenta às talas que prendia nas laterais da perna do filho. Pamela despejou uma pequena medida do líquido em uma taça contendo vinho. Girando o recipiente para misturar bem as duas substâncias, ela serviu a mistura imediatamente, aproximando o copo dos lábios de Peter. Sentado ao lado dos travesseiros, Raven segurava a cabeça do irmão para facilitar a ingestão da bebida. — Milorde, vai se importar se eu ficar ao lado de seu irmão até ele adormecer? — Pamela perguntou ao noivo. — Não. Por favor, cuide bem dele. Enquanto isso, vou resolver outros assuntos. Ele se levantou e caminhou para a porta. Ao segui-lo com os olhos, Pamela percebeu pela primeira vez que Bess estivera ali o tempo todo, no quarto. Sem dúvida, esperava ser chamada para uma coisa ou outra. Agora que a crise passava, ela se encaminhava para a saída, esperando apenas que Raven saísse para segui-lo. E de repente a razão de sua permanência tomava-se clara, porque ela não perdeu tempo em segui-lo. — Você vai sobreviver, Peter — Lucinda garantiu sorridente. — Eu sei. Ninguém que sente essa dor pode estar perto da morte, mãe. — Vai levar longas semanas, mas sua perna vai ficar boa. Quero dizer, o osso vai se emendar. Vamos torcer para que não haja nenhuma conseqüência, como mancar, por exemplo. — Impossível. Estou usando talas feitas por um conde, mãe! Lucinda olhou para o marido com ar espantado. — Você fez as talas? — Foi o que você me mandou fazer, milady. — Por Deus, o que deu em mim? Estamos cercados por criados, e eu o obrigo a desempenhar tarefas tão... ínfimas! — Por que agiria diferente de todos os dias? — Ele riu. — Agora, venha, milady, vamos deixar nosso jovem lorde repousar. E você precisa de algum alimento substancioso e de uma boa taça de vinho. Espero que a cozinheira tenha guardado comida para nós! — Comida! Pelos céus! As crianças jantaram? — Sim, e todos os outros moradores do castelo. — Ah, melhor assim. Não tenho fome, Ian. Devo ficar aqui e... Projeto Revisoras

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— Nem pense nisso. Conheço você, minha esposa, e não vou permitir que adoeça. Ninguém vai se beneficiar disso. Especialmente Peter. Vai jantar agora, e vai comer no salão, fora deste quarto. Pamela, será que pode ficar aqui por um tempo? Sei que minha esposa aceitará com mais tranqüilidade a necessidade de afastar-se sabendo que há alguém aqui para olhar por Peter. — E um prazer ajudar, milorde. — Ian, não! — protestou Lucinda. — Está decidido — ele respondeu firme. — Muito bem. Pamela, se meu filho precisar de alguma coisa, se você precisar de alguma coisa... — Ian a levava para a porta, mas ela continuava falando. — Manteremos um pajem do lado de fora, no corredor. Vou ordenar que alguém lhe traga o jantar aqui em cima. E voltarei quanto antes para ver como você está, Peter. — Não se apresse, lady Lucinda. Ficarei aqui com Peter pelo tempo que for necessário. O conde saiu levando a esposa pelo braço. No segundo seguinte, a porta do quarto se fechou. Peter olhou para a mão que ainda segurava com força. — Tenho até medo de perguntar — ele disse. — Acha que quebrei seus dedos? — Posso afirmar que se esforçou muito para isso, mas, como disse, sou mais forte do que pareço. — Ela exibiu os dedos inteiros. — Sua mãe é muito habilidosa. Nunca vi fratura tão grave quanto a sua. Mas estou certa de que ela e seu padrasto fizeram um excelente trabalho. — Também tenho certeza disso. E sabe de uma coisa? Minha mãe me chamou de Peter. — Esse é seu nome, não é? — Sim, mas ela sempre me chamou de mon petit. Meu pequeno! Como se eu ainda tivesse a idade de Jamie e John. Quando está perturbada, minha mãe costuma agir dessa maneira... embaraçosa. — Ela também chamou Raven de Percival. Eu ouvi. — Ele teve sorte por não ter sido Percy. Raven teria tido um ataque de fúria. Peter ficou quieto. As pálpebras pesadas se fecharam. Pamela ficou sentada ao lado dele na cama, segurando sua mão e pensando no homem a quem fora prometida. Ele não havia sofrido nenhuma fratura, mas experimentara uma dor intensa. Passara pelo mesmo tormento que Peter conhecera nas últimas horas. E a dor que Raven havia sentido era a mesma de seu irmão gêmeo. Pamela sabia disso.

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Capítulo IV

Deixada para trás quando os outros levaram Peter para o quarto, Roxanne recolheu-se aos seus aposentos. Sentia-se muito mal, e a culpa era de Henry, o maldito arrogante! Peter não era detestável ou repugnante. Não. Se não fosse obrigada a desposálo, poderia ser sua amiga, certamente. Mas o rei havia determinado o casamento, e a demonstração de autoridade a ressentia sobremaneira. Além do mais, nunca poderia se casar com um homem que não fosse Cymry. Ballin era Cymry. Mas isso não significava que queria algum mal a Peter. Ele estava ferido, e tudo porque decidira se aproximar dela, conquistá-la. Conquistá-la! Como se fosse necessário. Como se Henry não houvesse decretado o casamento. Como se houvesse alguma chance desse casamento se realizar. — Maldito seja esse Angevin cabeça-dura! — Roxanne resmungou, andando pelo quarto como um animal enjaulado. — Maria, mãe de Jesus, não permita que Peter perca a perna. E não deixe que nenhum outro mal o tenha acometido, porque ele nada fez para merecer castigo! Como ela e Pamela também não mereciam seus destinos. Pamela nem percebia que estavam sendo usadas pelo rei da Inglaterra, mas Roxanne estava disposta a resolver essa terrível situação. Fugiria... e levaria a prima com ela. Não poderiam ir buscar refúgio nas fortalezas que haviam pertencido aos pais delas, mas sabia que Ballin a protegeria e a amaria, e esperava que ele estendesse essa proteção a Pamela. Raven abriu a porta do quarto de Roxanne sem bater antes, sem se anunciar. O lugar havia sido preparado para assegurar o conforto da hóspede. Havia um fogo aconchegante ardendo na lareira, velas perfumadas acesas sobre o mantel e muitas cobertas sobre a cama, já pronta para seu repouso. Para o repouso da megera que quase conseguira matar seu irmão! — O que é isso? O que faz aqui? — Roxanne indagou surpresa e indignada. — Aconteceu alguma coisa com Peter? Ele...? — Ele vai sobreviver, apesar de você! — Furioso, Raven bateu a porta e caminhou para o centro do aposento. — Então, foi só... a perna fraturada?

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— Só? Só! Devia sentir o que meu irmão sentiu! Teria sido horrível enfrentar aquela dor em batalha ou por algum acidente, mas o fato de você ter causado esse tormento... — Eu não causei nada! Foi um acidente! — Não foi. Não quer desposá-lo, por isso tentou matá-lo. — Não! Como ousa acusar-me de tão terrível feito? — Ela o encarou com os olhos iluminados por um brilho metálico, frio. — Ah, agora entendo de onde vem essa idéia. Você, filho do odioso solo inglês, teria sido capaz de uma atitude egoísta, mentirosa e cruel como a que descreve. Acusa-me daquilo que você mesmo faria, se julgasse necessário! Devo prevenir minha prima, ou ela pode se ver em situação de extremo perigo. — Bruxa! — Ele a segurou pelos braços. — Bastardo! — Roxanne libertou-se, mas foi um processo doloroso, difícil, e de manhã ela teria manchas escuras na pele deixadas pela força daquelas mãos. — Saia daqui! Não o convidei a entrar em meus aposentos! — Não são seus aposentos. Você não passa de uma hóspede. E uma hóspede que nem foi convidada! — Nesse caso, somos ambos hóspedes. Este castelo pertence ao Conde de Fortengall, e você não é esse cavalheiro. Raven respirou fundo. A discussão não os levaria a lugar nenhum. Fora até ali imbuído de um propósito, e não podia perdê-lo de vista. — Se pudesse decidir, você sairia daqui imediatamente. Morta, se fosse preciso. Não hesitaria em tomar atitudes extremas, se a considerasse uma ameaça. — Você me considera uma ameaça, ou não me acusaria de ter tentado matar seu irmão. — Não, milady. Penso que era uma ameaça. Mas seu plano falhou, você foi desmascarada, e agora não poderá ameaçar mais ninguém aqui. — Como ousa! Roxanne levou as mãos à cintura numa atitude beligerante. O gesto a fez erguer o queixo, enquanto a respiração arfante chamava a atenção para seus seios. Raven notou como a luz fazia brilhar seus olhos cor de violeta, como o colo palpitava ofegante sob o decote do vestido. Conhecedor da beleza feminina, ele foi forçado a desviar o olhar, ou se perderia na contemplação daquele regaço pálido e sedoso. — É como estou dizendo, milady. Eu a teria expulsado daqui. — Sim, eu sei, milorde. — Roxanne sorriu com ar debochado, negligente. — Mas não é você quem decide. Fui prometida a Peter, seu irmão.

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— Saber disso é meu maior consolo. Porém, não deixarei que meu irmão, um homem confiante e ingênuo, marche para a morte por suas mãos, como um cordeiro levado ao sacrifício. Não. Antes você estará morta! — Se tivesse a oportunidade de pôr fim à vida de um dos gêmeos, Peter não seria a vítima de minha ira. — Bruxa maldita! — Raven a segurou pelos braços e quase a tirou do chão com a força de sua revolta. Ele a sacudia como a uma boneca de pano, esperando ver a cabeça de cabelos abundantes e revoltos cair do pescoço delgado. Mas a cabeça permanecia em seu lugar, os olhos cuspiam fogo, e de repente um joelho entrou em contato com a região sensível entre suas pernas. Foi um golpe preciso, violento. Raven gemeu e soltou os braços de Roxanne, cambaleando para trás. Era difícil controlar o impulso de levar as mãos à área atingida. A dor se espalhava por todo seu corpo como uma onda assassina, incontrolável. — Nunca mais se atreva a me tocar, ou será a sua vida que terá um fim prematuro! Lívido, ele agarrou Roxanne pelos cabelos, puxando sua cabeça para trás. Com a outra mão, ele atraiu o corpo para o seu. A jovem dama estava arqueada, expondo a coluna branca do pescoço e o colo convidativo. Apesar da ira, Raven se sentia tentado a tocá-la de maneira mais íntima, talvez até possuí-la pela força bruta. Tal degradação imporia limites ao comportamento atrevido dessa mulher. Mas nunca tivera de impor-se. Todas as mulheres com quem se deitara o aceitaram de bom grado, até com um certo entusiasmo. Não desejava violentar uma mulher, nem mesmo para acovardar e humilhar uma megera que o desprezava. — Atrevo-me a tocar quem eu quiser, quando eu quiser. — De fato? E isso inclui a esposa de seu irmão? — Você não é e nunca será a esposa de meu irmão. Está ouvindo? — Raven soltou-a e a empurrou para trás, jogando-a sobre a cama. — Não pedi para ser esposa dele! Seria terrível tomar por esposo um inglês e levá-lo para viver comigo em Cymry, mas... casar-me com um estrangeiro e viver com ele em solo inglês? Não. Foi o seu rei quem ordenou que fosse assim. Ela dizia a verdade. Raven sabia disso. E desafiar o decreto de Henry seria desastroso. Além do mais, Peter parecia satisfeito com sua donzela galesa. O que poderia fazer para proteger seu ingênuo irmão? Só havia uma coisa a ser feita: continuar com suas ameaças vazias. Roxanne de Bittenshire era uma criatura selvagem das colinas de Gales. Não importava se o pai dela havia sido um lorde de sangue normando-inglês, um homem corajoso que mantivera por toda uma vida a segurança de uma baronia que seus ancestrais

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haviam criado a partir da terra vazia. A última filha do lorde de Guerra ainda era jovem, e era mulher. Jamais poderia enfrentar e vencer lorde de Stonelee! — Não vai se casar com Peter! — ele repetiu, tocando o cabo da adaga que levava presa à cintura. — Não permitirei esse casamento. E farei com que você mesma traga a solução para esse dilema. E quando você cair, megera, não vai fraturar apenas uma perna, mas o pescoço! Dito isso, Raven saiu e bateu a porta com violência, deixando para trás uma Roxanne abalada, furiosa e ainda mais determinada que antes. Odiava o rei inglês por tê-la posto naquela situação. E se ele acreditava que se curvaria a seus caprichos, estava enganado! Jamais acataria as ordens desse odioso soberano inglês. Nunca! Por outro lado, Peter ficaria ofendido com sua desobediência ao rei. Pior, estaria fazendo justamente o que Raven de Stonelee, um porco detestável, queria que ela fizesse. Mas não havia alternativa. Tinha um destino próprio, e ele não incluía o casamento com um lorde inglês e a vida diária sob as ameaças de um cunhado que a odiava. Não. Seu destino estava em Cymry. Já era tarde, mas Roxanne deixou seu quarto e, na ponta dos pés, foi até o quarto da prima. Há horas observava para ter certeza de que a encontraria lá, e finalmente via luz por baixo da porta. — Roxanne! — Pamela exclamou ao vê-la. — Como está Peter? — Dormindo, mas não muito confortável, receio. Lady Lucinda e o conde conseguiram devolver os pedaços do osso fraturado ao lugar de origem, mas ele terá de enfrentar semanas de dolorosa recuperação, até que a solda se complete. Por que não foi vê-lo? Como sua noiva, devia ter demonstrado alguma preocupação, mesmo que não goste muito dele. — Não desgosto de Peter. Pelo contrário, aprecio sua natureza doce. Mas você viu como a família se desdobrou por ele. Raven me acusou de tê-lo empurrado da muralha! Não pensei que seria bem-vinda no quarto de Peter. — Ele a teria recebido bem. Está dizendo que Raven a acusou...? Não, Roxy. Deve ser um mal-entendido. Ninguém pode culpá-la pelo acidente. — Não deviam mesmo me culpar! Eu não fiz nada! Não foi de propósito! — Eu sei. De qualquer maneira, creio que teremos de adiar as núpcias até Peter estar recuperado, porque... — Não vai haver núpcias. — O que disse?

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— Você ouviu. Não vou me casar com Peter. E não posso permitir que você se case com aquele... aquele... — Raven? — Sim. Raven. — É claro que vou me casar com ele! O que está dizendo? — Ele esteve em meu quarto. — Raven? Por quê? — Para me ameaçar de morte, caso eu não desista do casamento. — Não! Roxanne, escute, vou conversar com Raven. Ele deve estar perturbado com o acidente! Devia ter visto como ele sofreu com a dor do irmão, como se ele mesmo houvesse fraturado a perna e... — Ótimo! Pena não ter sido realmente ele. — Roxanne, esse homem de quem está falando é meu noivo! — Não pode unir sua vida à dele. Raven de Stonelee ameaçou minha vida, caso eu obedeça à ordem do rei Henry e me case com seu irmão. Como pode desposar um homem que ameaça matar sua prima? — Ele não pode ter falado sério. Estava perturbado, só isso, e... — Foi sério! Cheguei a temer que ele me matasse ali mesmo, naquele quarto! Ele é cruel, brutal, implacável... — Tem medo dele? — Sim, confesso que o temo. Preciso sair daqui antes que ele arranje um acidente fatal. E você deve vir comigo, se não quiser ser vítima de sua brutalidade. — Ele não seria capaz. Seria...? Peter é tão gentil! — Peter é gentil, mas o irmão dele é cruel! São opostos, entende? Peter é bom, mas Raven é mau na mesma medida. — Não. Está enganada, Roxy. Olhe em volta! Lady Lucinda, lorde Ian, os meninos... Lembra-se de lorde Lucien? Só pensava na esposa e no filho que estava para nascer. Não é possível que haja um fruto tão amargo nessa árvore. Raven agiu levado pela emoção, porque o irmão estava... — Não seja idiota! O próprio Peter já insinuou que o irmão é um homem perverso! Ele não mentiria! Além do mais, não conhecemos o pai deles. Raven pode ter herdado as características desse homem. — Não! Não! Raven pode ser diferente de Peter, mas ele não é cruel.

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— Não se deixe enganar, Pamela! Se aceitar esse casamento, será uma esposa negligenciada, na melhor das hipóteses. Prefiro nem pensar no que pode acontecer de pior. — Roxanne, o rei ordenou que eu me casasse com Raven. E uma questão de honra. Não prejudicarei o bom nome de meu pai desobedecendo a uma ordem real. — Tola! Case-se com ele, então, e morra jovem. Mas não se esqueça de que tentei preveni-la. — Roxanne caminhou para a porta, mas, antes de sair, declarou: — Tem o direito de ficar e sacrificar-se, se quiser, mas eu tenho o direito de tentar me salvar. Fugirei ainda esta noite, antes da chegada do novo dia. E espero que não me delate. — Não vou dizer nada. Mas Peter... — Cuide dele por mim. Diga a ele que sinto muito por tudo... pela queda, pelo casamento... tudo mesmo. — Ao menos sabe como chegar em Bittenshire? — Sim, eu sei. — Ela sorriu. — Peter teve a gentileza de me mostrar onde fica a estrada por onde chegarei a Cymry. — Então... — Pamela correu para a prima e a abraçou. — Vá com Deus! Roxanne não questionou a facilidade com que todas as suas ordens foram acatadas pelos serviçais. O cavalariço preparou seu cavalo sem fazer perguntas, enquanto o guarda na torre abriu os portões assim que ela gritou a ordem para tal. Ansiosa para escapar, lady de Bittenshire galopou para fora do castelo e para a liberdade, tentando deixar para trás o medo que sentira nas últimas horas. No alto da torre, ao lado do guarda, Raven a via afastar-se. E ela galopava na direção certa, apesar da luz difusa e da neve que encobria a estrada. A imagem de Roxanne galopando com os cabelos negros ao vento, contrastando com a neve, era simplesmente impressionante. Inesquecível. Entretanto, ele não era como Peter. Não se deixaria envolver pelas aparências. Levava no peito um coração endurecido, imune à beleza de certas mulheres. — Que vá em paz... e para bem longe — ele murmurou sorrindo. — Disse alguma coisa, milorde? Raven olhou para o guarda com quem dividira a torre. — Sabe quem acabou de sair do castelo? — Ah, eu... não sei ao certo, milorde. Mas parecia... — Esqueça o que parecia. Você não sabe. Se alguém perguntar, se for interrogado sobre uma certa dama que se hospedava no castelo de Fortengall, você nunca a viu. Projeto Revisoras

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— Sim, milorde — o guarda concordou com sabedoria. Exatamente como o cavalariço concordara anteriormente. Quase todos estavam reunidos no quarto de Peter. A mãe mantinha-se ao lado da cama e tocava sua testa com freqüência, incapaz de esconder a ansiedade. Ian esperava sentado no parapeito da janela, sempre indulgente, enquanto Pamela permanecia perto da porta, temendo atrapalhar. Os irmãos mais novos de Peter corriam de um lado para o outro e brincavam, tentando alegrá-lo. Pamela viu Bess entrar no quarto carregando uma bandeja. Ela passou por Raven e, como se nem o visse, levou o alimento e a jarra com cerveja até a cama de Peter, deixando a bandeja sobre suas pernas. Ela se retirou em seguida. Pamela estranhou o comportamento da jovem. Seria discrição ou indiferença? Discrição, certamente, porque Bess já havia se mostrado igualmente reservada na noite anterior, ao deixar aquele mesmo quarto atrás de Raven. — Pelo amor de Deus! — Raven exclamou de repente. — Jamie, Hugh, John... parem com isso! Peter está sofrendo! Os dois gêmeos e o pequeno Hugh se detiveram assustados. Solene, Hugh respondeu: — Nossa mãe disse que ele não vai morrer. — E acha que, por isso, ele não precisa de um pouco de sossego? — Deixe-os — Peter interferiu. — Prefiro o barulho à solidão. Por sorte não quebrei a perna era Stoneweather, ou estaria padecendo de tédio e tristeza sem ninguém para conversar. — Você não teria quebrado a perna em Stoneweather. — Talvez não — disse Ian, levantando-se e acenando para os três filhos. — De qualquer maneira, o barulho está excessivo. Venham comigo, meninos. Está na hora de levar os homens para o campo de prática. Querem vir comigo? — Sim! — Os três pulavam entusiasmados. O conde saiu levando os pequenos. — Assim está melhor — disse Raven, aproximando-se da cama para encarar o irmão. — Como foi sua noite? Dormiu bem? — Melhor do que você, pelo que parece. — A preocupação causou-me insônia. Confesso que nem cheguei a ir para cama. Surpresa, Pamela estudou o rosto do noivo com olhar crítico. Ele parecia cansado. Como acabara de confessar que havia passado a noite fora da própria cama, bem podia imaginar onde ele estivera deitado.

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— Não, mãe! — Peter protestou. — Chega de poções! — Ele estendia um braço como se quisesse deter o avanço de Lucinda e sua horrível colher de madeira. — Acabei de dizer que dormi bem. O que não me surpreende, considerando que me entorpeceu com suas ervas! — Tem certeza, meu filho? Repouso é preponderante na sua condição. Sem dormir, não vai se curar tão cedo. — Não há mais nada que eu possa fazer se não descansar, mãe. Passarei as próximas semanas confinado ao leito! — Então, coma. — Ela deixou de lado a colher e o frasco com a poção e apontou para a bandeja. — Precisa se fortalecer. — Eu vou comer. Mas onde está a doce donzela que me ajudou a cear ontem à noite? E Roxanne, minha noiva? Por que ela não está aqui? Pamela se sentiu importunada pela culpa. Roxanne não havia estado uma única vez nos aposentos do noivo. Sua ausência era a confirmação de que já havia deixado o castelo. Mas como Roxanne conseguira? E onde estaria agora? Na metade do caminho para Gales, talvez? — Roxanne deve ter ficado perturbada com tudo que aconteceu, Peter — Lucinda sugeriu. — Ontem à noite, quando terminei de cuidar de sua perna e desci, perguntei por ela e fui informada de que lady de Bittenshire já havia se recolhido. Mandei levar uma bandeja para ela, mas não a vi hoje de manhã. — Mãe, não foi procurá-la? Não falou com ela? A pobrezinha deve estar se culpando pelo acidente, como se tivesse alguma responsabilidade pelo gelo que a fez escorregar. E se tem sido ignorada por toda a família desde ontem, agora deve achar que todos aqui a culpam! — Que absurdo! Sei que devia ter ido vê-la, mas confesso que depois de tudo, nem pensei nisso. Passei boa parte da noite aqui, velando seu sono, até que Ian finalmente me arrastou para a cama. Não é verdade, Pamela? — Sim, milady, é... — Não importa... Raven e Pamela falaram ao mesmo tempo. O lorde se calou, e ela prosseguiu: — Sua mãe e eu, todos aqui ficamos muito preocupados, milorde. É compreensível que ninguém tenha tido tempo para ir conversar com Roxanne. — Mas certamente a viu desde então, não? — Sim, eu... falei com Roxanne pouco antes de me recolher. Não se preocupe com ela. Minha prima sabe que não é responsável por sua queda. — Pamela olhou para Raven e desviou o olhar rapidamente. — Ela jamais aceitaria um fardo que não tivesse o dever de carregar.

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— Melhor assim. Ela não deve sentir culpa por esse episódio. Mesmo assim... Esperava que minha noiva viesse me visitar esta manhã. Pamela hesitou, sentindo os olhos de Raven fixos nela. Pela terceira vez em poucos minutos, ela o fitou e desviou o olhar, mas não tão rapidamente quanto nas vezes anteriores. Vivia um dilema. Devia ou não revelar o que sabia? Os olhos frios de Raven a fizeram decidir pelo silêncio. Pelo próprio bem e pelo bem de Roxanne. — Ela estava muito... abalada. Sei que Roxanne ficou devastada com esse acidente. Se ela não houvesse subido à muralha, milorde não a teria seguido e, por conseqüência, não teria caído. Acho melhor deixarmos Roxanne quieta, pelo menos por enquanto. Ela sempre se retrai quando passa por alguma experiência desagradável. — É mesmo? — Oh, sim! Mas ela me pediu para dizer que sente muito por tudo que aconteceu. E também me pediu para cuidar de milorde em seu lugar. — Outra tolice! — Lucinda protestou. — Posso ter sido relapsa deixando de ir confortar Roxanne na noite passada. Ela devia estar chocada, assustada... Mas não posso permitir que ela fique trancada em seus aposentos. Vou falar com ela imediatamente, Peter. Em breve sua noiva estará aqui. Raven segurou a mãe pelo braço antes que ela chegasse à porta. — Não! Não faça isso. Se a moça deseja estar sozinha, que assim seja. — Mas... — É melhor assim, milady — Pamela concordou apressada, trocando um olhar com Raven. — Por que é melhor? Roxanne é hóspede em Fortengall. É noiva de Peter. Não devia passar o dia fechada no quarto como se fosse prisioneira na torre! Com ou sem perna quebrada, temos de discutir os planos para os casamentos! — Mãe, não insista! — Raven irritou-se. — Pamela conhece a prima melhor do que nós. Se lady de Bittenshire deseja ficar sozinha, que mal há nisso? Afinal, as núpcias ainda nem foram marcadas! E graças ao ferimento de Peter, talvez tenham de ser adiadas por mais tempo do que prevíamos. — Não fale como se eu nunca mais fosse sair desse quarto! — Peter queixouse. — Mas você tem razão. Roxanne não é tão fria ou indiferente como quer nos fazer acreditar. Se ela deseja privacidade e solidão, que assim seja. Pelo menos até esta noite. Se até lá ela não vier me visitar, alguém terá de ir tirá-la do quarto. — Milady — uma criada chamou da porta entreaberta. — É dia de lavar as roupas e... — Sim, sim, já estou indo — Lucinda respondeu. — Peter, precisa de alguma coisa? Projeto Revisoras

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— Não. — Então, vou cuidar de meus afazeres. Coma — ela lembrou, plantando um beijo carinhoso em sua testa antes de sair. Pamela também se preparou para deixar os dois irmãos. — Devo me retirar agora. Lady Lucinda pode precisar de ajuda... — Pamela, você é hóspede em Fortengall. Não é uma serviçal — Peter lembrou. — Porém, se puder me ajudar limpando as migalhas que caem sobre meu peito... Não tenho muita habilidade para comer deitado. Pamela sorriu, lisonjeada por Peter gostar de sua companhia, mas relutante em oferecê-la. — Milorde, é possível que seu irmão queira conversar com um pouco de privacidade. — Não — Raven declarou. — Não há necessidade de trocarmos confidencias nesse momento. Na verdade, eu já devia ter ido para o campo de prática com Ian. Não posso negligenciar meus treinos, ou não estarei preparado para proteger a Fortaleza Angleford dos guerreiros de Gales. Com licença, Peter. Pamela... Raven se retirou sem esperar pelas respostas. — Seu irmão parecia assustado, milorde. — Nada assusta, Raven. Exceto o casamento, talvez. — Por quê? — Não sei ao certo. Talvez por ter levado uma vida muito boa nos últimos anos. A idéia de mudá-la acrescentando uma esposa e filhos é preocupante, pelo menos para Raven. — Mas essa mesma perspectiva não o preocupa... — Não. Preciso de uma senhora para Stoneweather. E preciso de herdeiros, também. Para atender a essas duas necessidades, preciso de uma esposa. Creio que o rei me prestou um grande serviço escolhendo para mim uma mulher como Roxanne. — Lorde Raven também precisa de uma esposa para cuidar das coisas em Stonelee e garantir seus herdeiros. — Sim, ele sabe disso. Mas seu coração é surdo para a voz da razão. — Coração? Tenho a impressão de que é outra parte de sua anatomia que repudia a idéia de ser fiel a uma única mulher. — Ah, minha doce lady. — Peter riu, bebendo um pouco de cerveja depois de comer um ovo cozido que Pamela havia descascado. — É uma criatura imprevisível! Jamais esperei ouvir tal piada de seus lábios castos! É delicioso descobrir que meu irmão nem suspeita do problema que tem nas mãos! Projeto Revisoras

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— Está insinuando que sou um problema? — Dos mais deliciosos. — Acredita que ele se sentirá assim... encantado? — Estou certo disso. — Duvido que aconteça. — Por quê? —Porque ele nem se dá ao trabalho de tentar me conhecer. — Ele acabará por conhecê-la, milady. Raven não tem escolha. — As vezes as pessoas insistem em escolher, mesmo quando, aparentemente, essa possibilidade não existe. — Sim, eu sei. Às vezes lutam contra o inevitável — ele concordou. — Mas, no final, se o inevitável é o que deve ser feito, elas são obrigadas a se curvarem. O pronunciamento de Peter a consolou. Que importância tinha se Roxanne resistia à ordem do rei? Se fugia tentando retornar a Bittenshire? A palavra do rei era a lei, e a irmã de Roxanne, Aggie, insistiria em trazê-la de volta para Londres. Se ela não o fizesse, seu marido, Thomas, cuidaria disso. Então, Roxanne seria rapidamente unida a Peter em matrimônio, com ou sem protestos. Como ela também logo estaria casada com Raven, apesar de seus olhos... e outras partes de seu corpo buscarem outras mulheres. — Se bem o entendi, milorde, a ordem do rei é como ferrugem atacando rapidamente as roldanas da vida de lorde Raven. Peter ergueu as sobrancelhas. — É exatamente isso, milady. Sua perspicácia me surpreende. — Nesse caso, o que pode me contar sobre esse homem com quem vou me casar? Quero azeitar as juntas... por assim dizer. Acredito que lorde Raven será mais receptivo ao casamento se compreender que posso tornar sua vida melhor, em vez de arruiná-la. — É uma mulher muito astuta. Muito bem, posso lhe dizer tudo que desejar saber. Mas, em troca, vai ter de falar sobre sua prima. Como é evidente que ela recebe a idéia do casamento com o mesmo entusiasmo de meu irmão, eu também quero azeitar as juntas... Pamela assentiu, apesar da ansiedade que oprimia seu peito. Pobre Peter! Preso ao leito por uma grave lesão, certo de que a noiva estava bem ali, a poucas portas de distância... Quando soubesse que ela o abandonara, ficaria magoado. Mas não por muito tempo. Roxanne seria forçada a retomar, e quando isso acontecesse, ela descobriria que Peter poderia ser um bom marido, afinal. Projeto Revisoras

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— Certo, sua proposta é justa — ela respondeu. — O que quer saber? — Como é a família dela? Como era lady Roxanne na infância? Pamela respondeu a essas e outras perguntas de Peter, que, por sua vez, também forneceu muitas informações sobre o irmão gêmeo, seu passado e sua personalidade. Enquanto conversavam, Peter esvaziou a bandeja e eles dividiram a cerveja. Foi uma manhã agradável e relaxante, como o tempo que se passa com velhos amigos. Ou, melhor ainda, como se fossem o irmão e a irmã que cada um jamais tivera.

Capítulo V

Pamela estava tensa. Passara a manhã toda conversando com Peter e, durante aquelas horas tivera a sensação de que o mundo deixara de existir além daquele quarto, apesar do peso que oprimia seu peito. Mas, agora, sentada na cama no quarto que Roxanne ocupara, um fardo enorme esmagava-lhe os ombros. Não devia ter ido até ali. Agora, as confidencias que guardava e o desastre que poderiam causar preenchiam completamente seus pensamentos. — Você... Ela se virou ao ouvir a voz de Raven. Pamela o viu parado na porta. Apesar das histórias que Peter havia contado sobre Raven ainda menino, ela o via agora apenas como um guerreiro sombrio e perigoso. — Sabia que era eu — ela respondeu. — Eu sabia? Pelo que ouvi, lady Roxanne se refugiava aqui. — Bem sabe que ela partiu. — Você também sabia e, no entanto, não disse nada. Por que não alertou a todos sobre a fuga de sua prima? — Porque prometi a Roxy que guardaria segredo. Além do mais, lorde Peter vai ficar magoado com essa notícia. Não quero causar sofrimento antes do necessário. — Quanta consideração! Mas não creio que ele vá ficar magoado. Desanimado, talvez, com o orgulho um pouco ferido, mas... Magoado? Não. Não mais do que já deve estar com essa tentativa de homicídio.

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— Roxy nunca teve a intenção de matá-lo! E ele sabe disso! Seu irmão me contou que a queda foi um acidente. Por que não acredita nele? — Porque senti o cheiro daquela megera assim que a vi pela primeira vez. Ela é mortal! — Milorde, lamento ter de dizer que penso o mesmo a seu respeito — Pamela respondeu ultrajada. Raven a encarou surpreso. — Acha que sou mortal? — Sim. Sei que ameaçou matar Roxanne, caso ela não abandonasse seu irmão antes do casamento. — Ela disse isso, não? — Furioso, Raven a segurou pelos braços e levantou, obrigando-a a olhar para cima para encará-lo. — E quando planeja contar a meu irmão sobre minha participação nisso? — Nunca. — Ótimo! É bom saber que é sábia o bastante para não fazer acusações contra seu marido. — Eu não me calaria em seu ou meu benefício. Decidi me calar apenas para poupar Peter. — Meu irmão já tem sido poupado, milady. Primeiro pelo destino, que o salvou de ferimentos mais graves naquela queda da muralha. E depois por mim, que consegui enviar aquela sua prima infernal para o fim de mundo que ela chama de lar. — Oh, sim? E quem, se não eu, vai poupá-lo de saber que você, seu próprio irmão gêmeo, ameaçou pôr fim à vida de sua prometida, caso ela insistisse em dizer os votos? Como acha que ele reagiria, se soubesse que você teve a presunção de interferir? Acredita que ele não se importaria por saber que ameaçou a integridade física da mulher com quem ele quer se casar? A culpa passou brevemente pelo rosto de Raven antes de ele soltar Pamela e virar-se de costas. — Julga-me maldoso, não é? — Não. — Seja sincera comigo, milady. — Ele a encarou novamente com aquela expressão dura. — É surpreendente. Não teme dizer a verdade quando sente que é necessário ser franca. Pois bem, eu lhe dou licença para ser honesta agora. Pamela respirou fundo.

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— Não o considero maldoso, milorde. Sei que é um lorde, um cavaleiro sagrado, senhor de sua propriedade e de todas as pessoas que o servem e atendem a suas necessidades. — Por alguma razão, sinto que macula meu caráter com essa descrição. — Não. O que acontece freqüentemente é que homens como milorde demonstram pouca ou nenhuma preocupação com outras pessoas. Suas vontades e desejos estão sempre acima de tudo. — Homens nascidos na nobreza têm o destino de comandar, milady. Lembrese disso. E mulheres nascidas na nobreza têm o dever de servir seus maridos. Não se esqueça disso. — Conheço meu lugar. — Eu sei que sim. Por isso fiquei satisfeito ao saber que o rei a escolheu para mim. Pamela fechou os olhos. No instante seguinte, sentiu os dedos tocando sua face. Não acreditava nas palavras de Raven. Ele se distraía facilmente com Bess e outras mulheres. Não podia ter um interesse verdadeiro por ela. E da mesma forma que havia condenado prontamente sua prima Roxanne, devia ter dúvidas sobre ela também. Mas Raven de Stonelee podia ser encantador e envolvente quando queria, e agora, de repente, ele a beijava. Era um beijo duro, possessivo, exigente. Não era uma demonstração de desejo, mas um aviso. Pamela o encarou assustada quando o beijo chegou ao fim. Raven se virou para sair, mas deteve-se antes de passar pela porta. — Não deve falar com ninguém sobre esses assuntos que discutimos há pouco, minha querida. Esta noite o desaparecimento de sua prima se tornará conhecido por todos, mas quero lidar pessoalmente com minha mãe e Ian. E com Peter, principalmente. Não deve dizer a eles nada do que sabe ou pensa saber. Fui claro? — Sim. O lorde sorriu. — Estou realmente satisfeito por ter sido você a escolhida para mim. Sozinha, Pamela se deixou cair na cama. Roxanne tinha razão. Os dois lordes gêmeos de Stonelee e Stoneweather eram opostos. Mas não como sua prima explicara. Não. Peter era direto e despretensioso, enquanto Raven era um homem complexo de emoções intrigantes. Seria trabalhoso conquistar a lealdade desse cavaleiro sombrio e fazer dele seu parceiro na vida. Mas ela não desistia de seus propósitos. — Ian, Roxanne se foi.

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Pamela estava sentada no chão diante da lareira, fazendo um jogo de rimas com os três filhos menores do conde, mas ouviu perfeitamente a voz de Lucinda. Ela e o marido conversavam perto da porta do salão. — O que está dizendo? — Ela se foi! — Lucinda repetiu aflita. — Como não a vi o dia todo e é quase hora do jantar, decidi ir conversar com Roxanne em seus aposentos. Ela não está lá. E algumas de suas coisas também desapareceram. — Roxanne não pode ter ido muito longe. Nós a encontraremos. — Ian olhou para o outro extremo do salão. Para Pamela. — Minha querida — ele disse, aproximando-se com passos largos — parece que sua prima não está no castelo. Sabe aonde ela pode ter ido? Pamela levantou-se, abandonando o jogo com as crianças. — Eu... não a vi o dia todo — respondeu, aliviada por não ter de mentir. — Não? — Lucinda indagou intrigada juntando-se a eles. — Por que não? — Bem, eu... Como disse a lorde Peter hoje de manhã, Roxy sempre preferiu ficar sozinha quando está aborrecida ou perturbada. E ela ficou muito abalada com o acidente, embora não o tenha causado pessoalmente. — Sabemos que ela não foi responsável — disse Ian. — Mas Lucinda afirma que Roxanne não está em seus aposentos. Se queria privacidade, para onde ela pode ter ido? Pamela fitou os olhos do conde e sentiu que devia ser honesta com ele. Mas não podia. Por Peter, não podia falar. Olhando para Lucinda, ela teve certeza de que seria compreendida. Lucinda não promoveria voluntariamente o sofrimento dos filhos. E faria tudo que pudesse para impedir esse sofrimento. — Não posso dizer, milorde. Não conheço Fortengall. Não tenho idéia de onde Roxy poderia ir. Ian olhou para a esposa. — Já falou com Peter? Raven? — Não. Só agora constatei o desaparecimento. Interroguei vários criados, e todos disseram que não a viram o dia todo. Parece que ninguém a vê desde a noite de ontem, pouco depois de Peter ter sido levado para seus aposentos. — Estive com ela depois disso, milady. Creio ter comentado que conversamos um pouco antes de nos recolhermos. Roxy parecia estar bem. — E ainda está, com certeza — declarou Ian. — Mas ela não devia se sentir deslocada aqui, entre aqueles que em breve serão seus parentes. Frederick! — Ian gritou, chamando seu senescal. — Viu lady Roxanne hoje? — Não, milorde. Não a vi. Aconteceu alguma coisa? Projeto Revisoras

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— Duvido que seja algo grave, mas a jovem não foi encontrada até agora. Mande homens vasculharem o castelo e toda a área em volta dele. Converse com os guardas e com todos os criados. Alguém deve ter visto lady Roxanne. — Sim, milorde. — Venha comigo, minha querida esposa. Temos de informar Peter sobre o desaparecimento de sua noiva. — Você também, Pamela. Venha conosco. Nervosa, Pamela torcia o tecido da saia entre as mãos enquanto os seguia pela escada. — Acham que é mesmo oportuno? Lorde Peter pode se sentir culpado pelo desaparecimento de Roxy. E ele não deveria ser perturbado agora, quando ainda está em recuperação. — Peter é um homem forte. — o conde respondeu. — Além do mais, não estamos sugerindo que ela caiu da muralha ou deixou a baronia. Logo Roxanne aparecerá ou será encontrada. Garanto. — Ian está certo — concordou Lucinda. Ela já abria a porta do quarto do filho. — Peter, temos algo para dizer. — Quero saber onde está minha noiva. Ela não aparece desde a noite de ontem, quando aconteceu o acidente. — É sobre isso que queremos falar, meu filho. Roxanne desapareceu. — O quê? Lucinda resumiu os fatos relacionados a sua descoberta. — Mandei Frederick reunir alguns homens para uma busca — Ian avisou. — Alguém deve ter visto Roxanne. Ela não pode ter ido muito longe. — Por Deus! Ontem à noite, quando conversávamos na muralha, tive a sensação de que começava a conquistar a confiança de minha prometida. Você a conhece, Pamela. A armadura que Roxanne pensa usar não é mais do que uma frágil ilusão. Tudo ia bem, até que caí, quebrei a perna e... Oh, maldição! Alguém deve ter dito alguma coisa a ela. — O quê? — Lucinda perguntou intrigada. — Há pelo menos uma pessoa entre nós que não tem sido gentil com minha futura esposa. — O que está sugerindo, Peter? Acha... que alguém a acusou de tê-lo empurrado de cima da muralha? Meu filho, não posso acreditar! Sei que ela pode se sentir culpada, porque escorregou no gelo e o empurrou involuntariamente ao cair, mas ninguém a acusaria de ter causado a queda intencionalmente.

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Lucinda ouviu passos na porta e, ao se virar, viu o outro filho entrando no quarto. — Raven! Já soube do desaparecimento de Roxanne? — Ela não pode estar muito longe — Raven respondeu sem se abalar. — Ainda hoje, milady aqui explicou que a prima prefere ficar sozinha quando está perturbada. Peter olhou para o irmão. — Por que Roxanne estaria perturbada? — Você bem sabe. E possível que a jovem dama não tenha muito interesse em tomá-lo por marido. — Raven! — Lucinda exclamou. — É verdade, mãe. Ela nos fez saber que não estava feliz por ter sido arrancada de Gales para vir se casar com um lorde inglês. — É possível — Peter aquiesceu. — Mas conheço Roxanne de Bittenshire. Sei que ela não é o tipo de pessoa que foge de um problema, Raven. E não creio que julgue a idéia de se casar comigo tão desagradável quanto você afirma. Raven encolheu os ombros e apoiou urna das mãos sobre os ombros de Pamela. Ela sentiu o peso como se estivesse sob garras de ferro. — Por que ela partiu não importa, não é? Temos de encontrá-la e fazê-la entender que é bem-vinda aqui — Lucinda anunciou decidida. — Não imaginava que estar aqui entre nós a desagradava tanto. — Não é isso, mãe — Peter opinou. — É exatamente isso — protestou o gêmeo. — Pare com isso, Raven! — Peter tentou se levantar sobre os cotovelos, mas o dor o fez desistir e fechar os olhos. Pamela desejava ir confortá-lo e ajudá-lo a reencontrar algum conforto, mas os dedos de Raven sobre seu ombro a imobilizavam. — Foi você — Peter decidiu. — Disse alguma coisa a ela, Raven! Acusou-a de ser culpada pelo acidente. Não foi isso? — Não. — Conheço você. Está mentindo. — Pergunte a ela quando a vir, Peter. Porque você a verá em breve. Ela não pode ter deixado a área das muralhas sem ajuda. E quem a ajudaria a fugir? Quem? Pamela? — Não! Eu não a ajudei!

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— Pois é... Raven parecia satisfeito, pronto para tirar proveito da declaração impulsiva da noiva, quando Frederick entrou no quarto. — Milorde, achei melhor vir pessoalmente — o senescal disse ao conde. — O cavalo de lady Roxanne desapareceu do estábulo. — E ela, Frederick? — Nenhum sinal, milorde. Ninguém a viu. — Mãe de Deus, ela desapareceu! — Lucinda se desesperou. — Mantenha a calma, minha querida. Não temos certeza de nada. — Como não? Se ela houvesse cavalgado no interior das muralhas, alguém a teria visto! — O que disse o cavalariço? — quis saber o conde. — Nada. Ele nada viu, milorde. Nem notou o desaparecimento do animal. Foi outro serviçal, um pajem, que examinou todas as baias e notou a ausência do animal. — Descubra quem é esse pajem. Se tenho um garoto tão brilhante assim aqui em Fortengall, quero saber quem é. Já falou com os guardas na torre? — Os que estavam de sentinela ontem afirmam que nenhuma dama passou pelo portão principal. Talvez ela tenha usado um dos portões menores nas laterais da muralha. — Impossível — Peter argumentou. — Todas as saídas são bem escondidas, invisíveis a olho nu, exceto quando se sabe onde procurar. Roxanne não sabia. E mesmo que houvesse encontrado um desses portões, não poderia ter passado por ela com aquele cavalo tão grande. — Frederick, vá buscar o capitão da guarda. E diga a ele para trazer o sentinela da noite, também. — Sim, lorde Ian. — Lucinda, venha comigo. Temos de falar com os criados da casa e com os zeladores da propriedade. Não sei quantos visitantes tivemos nesse último dia. Precisamos saber se Roxanne saiu com um deles. Lucinda assentiu e olhou para o filho deitado sobre a cama. — Perdoe-me, querido. A culpa é toda minha. Devia ter ido falar com Roxanne imediatamente após o acidente, mas não imaginei que ela estivesse tão abalada. Confesso, porém, que não esperava esse comportamento de uma mulher como ela. Os senhores de Fortengall deixaram o quarto. Peter nem esperou que a porta estivesse completamente fechada antes de acusar o irmão: — Agora vai permitir que nossa mãe assuma toda a culpa? Projeto Revisoras

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— Eu não fiz nada! — Ian e nossa mãe não estão mais aqui. Fale com honestidade, Raven. Confesse o que fez. O que disse a Roxanne? — Ele... não disse nada — Pamela interferiu. — Como sabe? — Conversei com Roxy ontem à noite, antes de nos recolhermos. — Sim? — O que seu irmão diz é verdade, milorde. Ela estava determinada a evitar esse casamento. A expressão de Peter tornou-se subitamente vazia. Pamela viu a dor, o sofrimento em seus olhos, e odiou-se por causar tais sentimentos. Pior ainda era a acusação naquele olhar penetrante. Estava certa de que ele se sentia traído por seu silêncio, por não ter revelado antes a disposição de Roxanne em evitar o matrimônio. Pamela decidiu que era hora de revelar tudo. Tinha de contar como seu noivo obrigara Roxanne a fugir para salvar a vida. Peter não poderia culpá-la ou a Roxanne, se confirmasse as suspeitas sobre o irmão gêmeo. Assim que entendesse como a vilania de Raven havia... A mão que antes segurava seu ombro agora lhe afagava as costas. Não podia falar. Roxanne teria fugido mesmo sem a provocação de Raven. O comportamento impetuoso da prima era mais do que conhecido na família. Além do mais, sua fuga de Fortengall e da Inglaterra causaria toda forma de caos. A confusão já havia começado, e não tinha o direito de torná-la ainda maior. E logo Raven seria seu marido. Não conquistaria afeto e consideração voltando-se contra ele antes mesmo de proferirem os votos. E Raven era irmão gêmeo de Peter. Recusava-se a ser a lâmina que cortaria os laços invisíveis entre essas duas almas. — Roxanne pode ter fugido simplesmente para evitar o casamento a que estava sendo forçada. — Está ouvindo, Peter? Até a prima dela pensa como eu. — É o que ela está dizendo — Peter respondeu, mantendo os olhos fixos nos de Pamela. — Não deve tomar as atitudes de Roxy como uma ofensa pessoal. Não era o casamento com milorde que a perturbava. Era a idéia de se casar com um lorde inglês! Roxanne considera-se apenas Cymry. Detestou ser trazida para a Inglaterra, ser tirada para sempre de seus adorados pântanos. Cheguei a propor que ela ficasse com Angleford, sabendo que Roxy jamais poderia ter Bittenshire, sendo a caçula de nove irmãs. Imaginei que minha prima poderia se casar com um cavaleiro desprovido de terras. Então, ele governaria Angleford como seu senhor, e lá ela seria feliz. Eu desposaria um nobre com terras próprias. Tudo estaria resolvido. Roxanne Projeto Revisoras

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ficaria na terra que tanto ama, e eu... Bem, eu não me importo muito com a terra na qual vou viver, desde que... Desde que haja nela abrigo, calor, um lar e um homem que me ame. — Suponho que alguém já lhe tenha explicado que esse seu arranjo é impossível — Peter comentou. — Não pode ofertar sua herança a Roxanne. — Sim, eu sei. Lorde Cedric, meu tio, destruiu a ilusão. Ele disse que Angleford pertenceria a mim até o casamento, e depois passaria a ser propriedade de meu marido, a menos que o rei decretasse de outra forma. — É evidente que você ama Roxanne. Tem certeza de que não a ajudou a fugir? — Não colaborei com a fuga, Peter. Tentei fazê-la entender que tudo daria certo, se ela acatasse a ordem do rei, mas minha prima é teimosa. — Teimosa é pouco — Raven murmurou. — Irmão, saia daqui. Quero ficar sozinho. — Como quiser. — Espero que me perdoe, Peter — Pamela pediu. — Eu devia ter avisado. Nunca tive a intenção de permitir que Roxy o fizesse sofrer. — Não se incomode — Raven a interrompeu. — A mágoa é um preço pequeno a ser pago. Peter já tem uma perna quebrada. Deus sabe que tudo podia ter sido bem pior. Peter não respondeu. Raven saiu levando a noiva pelo braço e, no corredor, disse em voz baixa: — Agiu muito bem, milady. O elogio não causou satisfação. — Acredite em mim, foi melhor assim. Meu irmão seria tão infeliz quanto sua prima com esse casamento. Você sabe disso. — Você parece saber. Eu apenas acato o que diz, milorde. — Uma decisão sábia. Um criado aproximou-se deles no alto da escada. — Milorde, lorde Ian deseja vê-lo imediatamente. A conversa é particular. Sem dizer nada, Raven seguiu o criado. Sozinha, Pamela o observou pensando em como era diferente esse homem do cavaleiro bem-humorado e gentil que Peter descrevera naquela manhã. Esperava que Percival, o cavaleiro afetuoso e generoso, ainda existisse na essência daquele que preferia ser chamado Raven. Raven, que ousara ameaçar a vida de Roxanne e manipulara sua noiva.

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Pamela olhou para a porta do quarto de Peter. Também tinha esperanças para ele. Sabia que a raiva de Peter era justa, mas seu silêncio também era honrado. Não tinha o direito de se colocar entre dois irmãos! Porquê, se tivesse de reconhecer o anseio por um deles, era Peter de Stone-Weather que começava a ganhar espaço em seu coração. Raven entrou em um dos aposentos retangulares do grande hall principal. Como em todos os outros aposentos, havia também neste, grandes janelas com vista para o salão nobre, logo abaixo. Descobrir as cortinas fechadas só alimentou o mau pressentimento. Era evidente que o conde e sua mãe desejavam preservar a privacidade, ou não estariam ali sentados, silenciosos, escondidos dos olhos de todos os moradores do castelo. Em vez de convidá-lo a sentar, Ian levantou-se ao vê-lo entrar e o encarou sério. — Roxanne partiu a cavalo hoje cedo, antes dos primeiros raios de luz — ele disse. — Sob ordens suas. Raven olhou rapidamente para a mãe, que permanecia sentada, antes de encarar o conde. — Eu não ordenei nada disso. — Mandou meu sentinela abrir o portão e esquecer que vira a jovem saindo. Rangendo os dentes, Raven praguejou mentalmente contra a deslealdade do guarda. Por Deus, o cavalariço mantivera a palavra, mas o cavaleiro não fora capaz de se calar! — Herbert serve a mim, Raven. Não a você — Ian apontou como se lesse seus pensamentos. — Ele até poderia ter guardado silêncio se ninguém o questionasse sobre o assunto. Mas, interrogado, ele não ousaria mentir para mim. — Por que fez isso? — Lucinda quis saber. Raven desviou o olhar. Ver a decepção no rosto da mãe despertava nele um intenso sentimento de culpa. — Não fiz. Ela escolheu partir porque não queria se casar com Peter. — Mas você a ajudou! — Sim, mãe. Ajudei. Para proteger Peter. — Peter não precisa de proteção. Especialmente contra uma jovem dama como Roxanne. — Como pode dizer tal coisa, mãe? A megera estava tão desesperada para escapar do casamento, que o empurrou do alto da muralha! — Raven! Então a acusou realmente, como seu irmão suspeitava!

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— Não foi necessário acusá-la. Ela é tão culpada quanto Eva no Éden! — Mãe de Deus... Não só sabia sobre a fuga de Roxy, como a forçou a fugir! Raven não negou a acusação. O silêncio foi mais eloqüente que uma confissão de culpa. — Por que fez isso? — Porque o tolo pensa que a vida do irmão está em perigo — adivinhou o conde. — Foi esse seu maior erro. Entretanto, não podemos acusá-lo de estar totalmente errado, já que foi impelido por bons sentimentos. — É verdade. Não podem me acusar, porque a vida de Peter está realmente em perigo. — Nunca pensei que diria tal coisa sobre você, Raven, mas é um mentiroso. Ele olhou para a mãe boquiaberto. — Você deve se redimir — Lucinda exigiu. — Revele por que obrigou essa moça a fugir. Diga a verdade, Raven. — Não sou mentiroso, mãe. Roxanne de Bittenshire é má. Tem a língua afiada e não hesita em usá-la para expressar seu dissabor, seu desconforto e sua natureza geralmente desagradável. É atrevida e ousada... Devia ter nascido homem. Viu como ela cavalga? Se tivesse espada e escudo, a mulher não hesitaria em ir para o campo de batalha! E, por outro lado, ela exibe a própria feminilidade como uma meretriz, mostrando as pernas sem pudor ao montar, vestindo-se para atrair o olhar masculino, preferindo os cabelos soltos... Mãe, seria mesmo capaz de unir seu adorado Peter a uma meretriz como aquela megera de Gales? Se ele conseguir escapar da morte pelas mãos dela, certamente enfrentará situações ainda piores! Anos de humilhação e vergonha causados pelo convívio com uma mulher sem recato ou propriedade. — Raven, vá atrás dela. Você a fez partir e ajudou na fuga. Agora, deve redimir-se indo buscar a jovem. — Não. — Sim — Ian interferiu com firmeza. — Apesar de serem gêmeos, você e Peter são indivíduos, Raven. Homens adultos e capazes de cuidar de suas vidas sem interferência externa. Não tinha o direito de banir essa donzela de nosso convívio, e ainda pode provocar graves conseqüências desrespeitando uma ordem real. Henry os quer casados com as primas galesas. Nem mesmo Deus poderá protegê-lo, se insistir em desacatar uma imposição do rei. — Eu desafiaria o rei para salvar a vida de Peter, milorde. — A vida dele não está em perigo — Lucinda insistiu impaciente. — Ainda não percebeu seu erro? A queda de Peter foi um acidente. Ele já recebeu os cuidados

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necessários. Acabou. Agora, resta reparar seu terrível engano indo buscar Roxanne e trazendo-a de volta. Raven olhou para a mãe em silêncio. Estava ofegante, furioso, mas não ousava enfrentá-la. Podia desafiar o rei da Inglaterra, mas nunca desafiaria abertamente a própria mãe. — Muito bem, tentarei encontrá-la, mas não posso prometer que a trarei de volta. — Você a trará, Raven — Ian ordenou. — Tenho certeza de que a trará. Com uma reverência formal para os pais, Raven deixou a sala. Lucinda esperou que a porta se fechasse para retomar o assento. — Não se aborreça, minha querida — consolou-a o marido. — O orgulho fará com que Raven traga Roxanne de volta antes que possa haver ainda mais danos. — É o que espero. — Estou surpreso com a confusão causada pela ordem de Henry. Raven e Roxanne se comportam como se nunca antes houvesse existido um casamento arranjado! Graças a Deus por Henry não ter decretado que esses dois se casem. Por que acha que ele antipatiza tanto com a jovem de Bittenshire, minha querida? Lentamente, Lucinda ergueu os olhos para encarar o marido. — Acha mesmo que é antipatia? Roxanne sentia-se como as antigas heroínas Cymry, Helie ou Arianrod, até mesmo como a rainha de Cymry dos tempos do rei Arthur. A rainha que podia mudar de forma e enganar os inimigos. Sentia-se forte, invencível. Acima de tudo, sentia-se livre. Deixar o castelo Fortengall havia sido fácil. Quase como um toque de mágica. E a sorte permanecia a seu lado, porque o tempo era claro, quente, facilitando a viagem. Cavalgar nunca havia sido difícil para ela. Passara tanto tempo sobre uma sela quanto o filho de qualquer barão, e cavalgava tão bem quanto qualquer cavaleiro treinado. Nunca usara uma armadura, porque seu pai jamais teria permitido, mas montava um animal forte, leal e imponente que a obedecia sem desafiá-la. Não se preocupava com a possibilidade de ser seguida. Sabia que Pamela não alertaria o conde, sua esposa ou Peter. Quando descobrissem que ela havia fugido, Raven, o arrogante, se empenharia em retardar qualquer tipo de atividade de busca. Teria pelo menos dois dias de vantagem sobre qualquer um que saísse em seu encalço. E ter dois dias de vantagem era quase como não ser perseguida. Quando alcançasse Cymry e suas montanhas, seria praticamente invisível aos ingleses. E estaria sob a proteção de Ballin. Projeto Revisoras

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Havia uma coluna de fumaça se erguendo para o céu no horizonte. Roxanne sabia que se aproximava de um vilarejo. Precisava de provisões. Felizmente, levava uma bolsa com moedas inglesas dadas pelo rei. Compraria dos camponeses todos os bens de que necessitava, evitando ao máximo o contato com a nobreza local. Depois seguiria em seu caminho para o norte, um caminho no qual permaneceria por muitos dias até chegar em casa. Mal podia esperar por isso. Raven sentia dores no corpo todo. Não confessaria o desconforto a ninguém, mas não passava tantas horas sobre uma sela desde que fora sagrado cavaleiro por lorde Harold de Becknock, seu pai. Depois, ele e os irmãos haviam partido em busca de apoio para a intenção de recuperar a Fortaleza Eysham, tirada do pai pela força. Naquele tempo era muito mais jovem, pouco mais que um menino. Agora, além de ter envelhecido muitos anos, habituara-se ao ócio que dominava a vida de um senhor de propriedades. Cavalgava apenas por esporte, ou para praticar com a lança, o escudo e a espada, caso precisasse lutar. Ia a Stoneham, o vilarejo de artesãos que sustentava sua propriedade, e visitava amigos, parentes e vizinhos próximos. Algumas vezes acompanhava a corte real de Henry e Eleanor em viagens pela área rural, mas era só isso. Não cavalgava mais como um soldado. E dois dias sobre a sela haviam causado tantas bolhas em seu traseiro, que cada movimento do animal sob seu corpo arrancava-lhe gemidos do peito. Maldita megera de Bittenshire! Por que ela entrara em sua vida? Henry não ordenara que se casassem, mas, desde que a conhecera, vivia em total miséria. Francamente! Nesse momento devia estar cortejando a doce lady de Angleford. Apesar de ser um casamento forçado, Pamela era agradável e adequada. Parecia ser uma mulher leal, obediente e pacata, e embora não esperasse encontrar nela uma boa amante, jamais teria de se inquietar por conta de sua presença. Pamela jamais ousaria contradizer uma ordem do marido, e poria sempre seu conforto acima do dela. Certamente, fingiria não notar quando ele fosse procurar mulheres mais ardentes e capazes de satisfazê-lo. Ele seria um excelente marido para a jovem galesa. Não a importunaria no leito conjugal, a menos que fosse necessário assegurar herdeiros. Não faria exigências absurdas. E a trataria com respeito, desde que Stonelee fosse mantido limpo e houvesse sempre boa comida à mesa. Raven sorriu, satisfeito com suas boas intenções. Depois franziu a testa, estranhando o desconforto causado pela imagem de Roxanne de Bittenshire. Ah, quando a alcançasse... Seria difícil resistir ao impulso de torcer seu pescoço. E talvez não resistisse, ele pensou com um sorriso frio. Posteriormente, diria ter encontrado o corpo no chão, por certo derrubado por aquele animal gigantesco que ela insistia em montar. Todos sabiam que uma mulher não era capaz de dominar uma besta daquele porte. Seria fácil convencer Peter de que ela sofrer um acidente. Projeto Revisoras

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Até lá, seguiria cavalgando sem pressa. Adiara a partida de Fortengall até a manhã seguinte à ordem da mãe e do conde. Não tinha mesmo nenhuma intenção de encontrar a megera. Portanto, não precisava suportar a agonia de um galope. O trote já causava dores quase insuportáveis. Daria a Roxanne o tempo suficiente para que ela atravessasse a fronteira para Gales e se perdesse nas montanhas. Assim, Peter se veria livre da megera sem que ele tivesse de sujar as mãos com seu sangue galês!

Capítulo VI

Raven tocou a testa suada. Pela milésima vez, desde que pusera os olhos na megera de Bittenshire, ele a amaldiçoou. Era noite. Ele alimentou o fogo com mais gravetos. Sentia frio e fome. Podia espantar o frio aproximando-se do fogo, mas a fome era mais difícil de aplacar. Já havia comido o coelho que conseguira abater antes do cair da noite, mas o animal era magro, mais pele e osso do que carnes, e seu estômago ainda roncava. Deixara o castelo levando apenas pão e pedaços de queijo, e os suprimentos não serviram para alimentá-lo por mais de um dia. Não planejava cavalgar até Gales. Considerara antes visitar amigos e passar o tempo cercado de conforto para, posteriormente, retornar à casa da mãe alegando ter sido incapaz de encontrar a maldita mulher. Mas um instante de reflexão o fizera desistir desse plano. Sabia que a mentira seria fácil de desmascarar. Sendo assim, partira atrás da megera certo de que a encontraria logo. Mas não havia sido assim. E só um monastério na estrada o recebera com uma cama dura e um prato de comida. Era obrigado a dormir no chão e ao relento, como um soldado qualquer. Pior, tinha de obter o próprio alimento, e não levava flechas ou lança, porque saíra do castelo tão furioso que nem pensara em armas. Levara apenas o que julgava ser necessário para o caso de encontrar Roxanne: a espada com a qual separaria a cabeça do corpo tentador e uma adaga para arrancar do peito aquele coração traiçoeiro. Infelizmente, tais lâminas eram inadequadas para a caça. Assim, ele improvisara uma funda e montava acampamento ao entardecer, determinado a caçar um animal qualquer enquanto ainda havia luz para isso. O cavaleiro ajeitou o manto sobre os ombros e deitou-se no chão, usando a sela como travesseiro. A umidade da terra penetrava o tecido espesso do manto, da

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camisa e da calça. Sentia até os ossos úmidos. E odiava a megera galesa de cabelos negros, olhos cor de violeta e colo de alabastro. Felizmente, contemplar suas inúmeras falhas de caráter o fez adormecer. O ruído de galhos partindo o acordou. Numa reação instintiva, ele se apoiou nos joelhos, pronto para pôr-se em pé, e agarrou a espada. Mas era tarde demais. Eles o atacaram como feras, dois pelas costas, um do alto, saltando das árvores e brandindo um pedaço de pau, girando-a num arco que o acertaria bem no meio da cabeça. A ponta da arma improvisada roçou sua testa, mas Raven esquivou-se a tempo de evitar o pior. Rolando para o lado, fez o agressor perder o equilíbrio ao acertar o ar. Já em pé, empunhando a espada, ele sentiu alguma coisa passar zunindo bem perto de sua orelha. Raven virou-se e constatou que por pouco não fora ferido por uma flecha. Ultrajado, avançou contra o atirador. Mas, antes de dar o segundo passo, um grito desviou sua atenção. Outro bandoleiro brandia uma espada antiquada. Deixando de lado o arqueiro, Raven concentrou-se nesse novo atacante. Eles pareciam ter a mesma idade, mas esse outro dava a impressão de ser mais habilidoso na cozinha do que em combate. Era um homem forte e ágil, e sua espada enferrujada era tão perigosa quanto a de qualquer cavaleiro. Eles atacavam. Raven escapou de um golpe, e o bandoleiro caiu de joelhos com a força do próprio movimento. E, antes que pudesse tirar proveito do momento, o outro agressor usou novamente sua estaca, girando-a às cegas. A dança mortal prosseguia. Raven e o oponente arfavam, mas o bandoleiro se mostrava mais cansado e suava muito. Quando ele levantou um ' braço para limpar o suor da testa com uma das mangas, l Raven o cortou do ombro esquerdo ao quadril direito. Era uma ferida extensa, mas superficial. De qualquer maneira, agora um dos agressores tinha a túnica rasgada e sangrava muito. Ele piscou incrédulo e, soltando a velha espada, 'caiu de joelhos. O lorde de Stonelee teve pouco tempo para recuperar o fôlego. Outra flecha cortou o ar, dessa vez raspando seu ombro. Agradecendo a todos os santos por ser atacado por um arqueiro tão ruim, ele se virou para encarar o atirador inepto. — Considere-se um homem morto! — Rápido, Raven aproximou-se do desconhecido e o acertou com um violento soco no queixo, derrubando-o. Só então conseguiu olhar realmente para o rosto do bandoleiro. Praticamente um menino, quase jovem demais para fazer a barba. E estava inconsciente. Por isso ele se abaixou para pegar o arco da mão gelada e flácida. — Ahhhhhhhh...! O homem gritou e se atirou sobre ele antes que pudesse ficar em pé, enrascando as pernas em suas coxas e puxando seu queixo para trás com as mãos.

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— Solte-me... — Raven girou sobre os calcanhares e acertou as costelas do agressor com o cotovelo. O homem teve de apoiar os pés no chão, mas as mãos apertaram seu queixo com mais força. Raven mordeu seus dedos. Enojado com o gosto de terra, suor e gordura, ele cuspiu. Mas pelo menos conseguira se libertar do agressor. Furioso, Raven agarrou um pedaço de pau e bateu na cabeça do desconhecido com a arma improvisada, usando toda a força que tinha. Foi uma queda espetacular. Ofegante, olhou em volta, estudando os corpos caídos. Dois permaneciam inconscientes, mas o terceiro, justamente o que havia sido ferido com maior gravidade, mantinha os olhos abertos. Raven o encarou e prometeu: — Não vou tirar sua vida, ladrão bastardo. Se limpar essa ferida, não vai morrer por causa dela. No entanto, se cruzar o caminho de lorde de Stonelee novamente, saiba que não serei tão generoso. Ele se virou e caminhou até bem perto da fogueira, tocando uma das têmporas enquanto andava. Os dedos estalavam sujos de sangue. — Maldita Roxanne de Bittenshire! — Recolhendo os poucos pertences que levava na viagem e o arco e as flechas do ladrão desfalecido, ele jogou a sela sobre o cavalo. — Por sua causa, passei fome e frio, e agora minha cabeça dói! Podia estar morto! Morto! Levado desse mundo antes do meu tempo. Não haverá mais demora, mulher! E quando a encontrar, creio que farei um favor ao mundo banindo-a dele! Roxanne viu o homem e hesitou. Ainda haveria luz por muitas horas, mas os suprimentos estavam se esgotando. Além do mais, estava cansada de dormir ao relento envolta em um manto. Queria uma cama, mesmo que fosse uma cama dura e estreita no chão sujo de uma choupana. Ela deixou a proteção das árvores e surgiu no meio da estrada como uma aparição, atraindo os olhares curiosos de todos que por ali passavam. — Sou lady Roxanne de Bittenshire e estou a caminho da fortaleza de meu pai. Preciso de comida e acomodações. — Meu nome é Elmo, milady — um camponês apresentou-se falando em francês, como ela, embora com menos desenvoltura. — Onde está seu acompanhante? — Morto. Elmo olhou para os companheiros e falou com eles, dessa vez em bom e velho saxão, o idioma do povo do campo na Inglaterra. Eles reagiram com diferentes medidas de surpresa e compaixão, e Roxanne relatou uma história que não foi difícil inventar. Projeto Revisoras

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— Meu irmão e eu viajávamos pelas estradas do rei, cuidando de nossos assuntos, quando encontramos um estrangeiro. Um homem grande demais, mesmo para um cavaleiro. Escuro e sombrio como o demônio em pessoa, com cabelos e barba negros e olhos mais escuros que a meia-noite. Ele me amedrontou. — Ela prosseguiu, esperando que Elmo traduzisse esse trecho da conversa. — E meu querido irmão não gostou da aparência e do jeito daquele desconhecido. Trocamos algumas palavras e seguimos nosso caminho. Meu irmão não notou, mas aquele homem olhou-me com olhos de luxúria. Mesmo depois de nos afastarmos, eu estremeci muitas vezes recordando aquele olhar de desejo e ousadia. Enquanto sua narrativa era traduzida, ela via as mulheres tremerem de medo. Os homens manifestavam revolta, como se suas esposas e filhas houvessem sido assediadas pelo sombrio cavaleiro. — De qualquer maneira, acreditei que estávamos seguros, porque o forasteiro seguiu em direção oposta à nossa. Quando meu irmão e eu paramos para descansar, à noite, ele surgiu do meio das árvores e atacou! A multidão estava dividida entre o horror e o ultraje. Roxanne se esforçava para conter o riso. — O cavaleiro do inferno usou sua espada suja de sangue para enviar meu irmão, meu adorado... Feliz... para a casa do Senhor! Ao vê-lo morto, ele saltou de sua sela e... e... Elmo aproveitou a pausa para traduzir mais um trecho do relato. Enquanto isso, Roxanne enxugava falsas lágrimas com a manga da túnica. — Milady, não precisa dizer mais nada — Elmo anunciou. — Já entendemos tudo. Mas como... Como conseguiu escapar de um cavaleiro tão forte e perverso? — Ele era mesmo forte e cruel, mas também estúpido. Eu o enganei. Quando acreditou que eu estava segura e sujeita ao seu... seu... enfim, aos seus instintos primitivos, acertei a cabeça dele com uma pedra do tamanho de um melão. Depois... roubei seu cavalo e fugi. Por um momento, todos ali reunidos a encararam com ar estupefato. Algumas pessoas olhavam para Daffyd, o cavalo, certos de que pertencia mesmo a um cavaleiro. Elmo foi o primeiro a falar: — Milady, a casa de nosso senhor fica perto daqui, a oeste. Ele pode oferecer melhor comida e cama mais quente do que encontrará aqui entre nós. Roxanne não desejava conhecer outro nobre inglês. Tudo o que queria era uma cama modesta, e qualquer uma seria melhor do que o chão úmido da floresta, e uma refeição substanciosa e quente.

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— Estou muito cansada, meu bom homem. Se pudesse imaginar o medo que senti cavalgando às cegas por essas estradas, temendo ser alcançada por aquele cavaleiro sem honra ou moral... Se tiver de cavalgar, mesmo que seja só por mais alguns metros, não suportarei. Qual de vocês vai ter a generosidade de me deixar dormir no chão perto da lareira? E quem tem um pedaço de pão para me nutrir? É tudo que peço. Elmo estendeu a mão para ajudá-la a desmontar, convidando-a a abrigar-se em sua humilde casa. Ele garantiu que todo o vilarejo a receberia de braços abertos, e Roxanne pediu que a hospitalidade daquele povo fosse estendida também ao pobre cavalo, que precisava de água e aveia. — Estou disposta a pagar por isso — ela concluiu. Antes que Elmo pudesse traduzir a oferta, um menino de aproximadamente dez anos estendeu a mão para pegar as rédeas de Daffyd. — Eu cuido dele, milady. — Ora, mas você... — Elmo não é o único a falar a língua dos normandos por aqui. Nós que trabalhamos na propriedade do senhor deste vilarejo temos de aprendê-la. — Entendo... — Ela tirou da bolsa em sua cintura uma moeda que entregou ao garoto. — Ganhará outra moeda se escová-lo agora e deixá-lo pronto com a sela ao amanhecer. — Muito bem, milady. — Também vou precisar de um arco e flechas. Pago bem pela arma. E antes que me pergunte para que quero um arco, saiba que sei atirar tão bem quanto qualquer homem. — Acredito no que diz, milady, mas o povo de Twinttenham a protegerá do Cavaleiro Negro como protegeria qualquer mulher do lugar. Roxanne respirou fundo, contendo o ímpeto de gritar com o menino. Nenhum cavaleiro negro, especialmente lorde de Stonelee, a perseguia. Não precisava da proteção desse povo. Só queria a arma para caçar e se alimentar. Não tinha a menor intenção de colocar-se novamente à mercê de camponeses ingleses ou, pior, de nobres ingleses. — Todos aqui são muito generosos, mas devo seguir viagem, e estarei sozinha quando partir. Vou me sentir mais segura se tiver como me proteger. — Entendo, milady. E devo admitir que é uma mulher de grande sabedoria e coragem. Prometo que vou encontrar o melhor arco do vilarejo e, com flechas afiadas, armarei seus braços para a jornada. O menino se afastou levando Daffyd.

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— Se quiser hospedar-se comigo e com minha esposa, dispomos de um quarto extra em nossa casa — Elmo convidou. — Nossos filhos já cresceram e saíram de casa. Somos só nós agora. — Obrigada. Todos vocês são muito gentis. O camponês a levou para sua casa, e ela notou que o grupo já se dispersava. As crianças seguiam o rapaz que levava Daffyd para um merecido descanso, enquanto as mulheres se reuniam em grupos para conversar. — O que está acontecendo? — ela perguntou intrigada. Elmo sorriu, revelando várias falhas e alguns dentes que brados. — Vamos fazer uma festa para celebrar sua visita, milady. Estamos assando um leitão e preparando doces. Comeremos muito mais tarde, mas garanto que, quando a refeição for servida, poderá se fartar. Roxanne suspirou novamente. Às vezes se perguntava se algum dia conseguiria atravessar a fronteira para Cymry. Resignada, ela se preparou para a festividade e até se divertiu com ela. O conforto era pouco, o lugar e as pessoas eram humildes, mas tudo ali era mais agradável do que passar a noite encolhida sob uma árvore, tremendo de frio e ouvindo o estômago roncar de fome. — Ele vem vindo, Kip! — anunciou um jovem residente de Twittenham, puxando a manga do irmão mais velho, o garoto que ganhara duas moedas cuidando do cavalo da graciosa lady. — Quem vem vindo? — ele perguntou distraído, preparando mais um fardo de galhos para alimentar o fogo na casa da família. — O Cavaleiro Negro! — O quê? — É verdade, Kip! Pelo menos três moradores o viram saindo do bosque. Eu vi! Ele tem a cabeça machucada onde ela o acertou com uma pedra. Kip largou o fardo de galhos e correu para a cidade. Notando que o irmão o seguia, ele perguntou: — Em quanto tempo acha que ele estará aqui? — Não muito, mas... Kip, a lady partiu ontem de manhã. Por que está tão preocupado? — Se ele matou o irmão de lady Roxanne, um cavaleiro como ele, e depois tentou fazer... aquilo com ela, o que acha que vai fazer com o povo de Twittenham? O pequeno ainda pensava na pergunta quando o irmão emitiu um grito de alarme. — O que é isso? — Elmo aproximou-se assustado.

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— Mick viu o Cavaleiro Negro cavalgando para cá. — Por Deus, então... logo ele estará aqui! Mulheres, para suas casas com seus pequenos! Não acendam velas, mantenham o fogo baixo e travem suas portas. Homens, venham comigo. Depressa! Não temos tempo a perder. O vilarejo parecia deserto. Essa foi a primeira coisa que Raven notou ao se aproximar. A estrada que cortava o povoado era uma via direta para Gales, seu destino, e ele seguiu em frente. Galopando. De repente, as pernas do cavalo se dobraram. O animal caiu. Ele foi atirado longe e voou alguns metros antes de atingir o solo com um impacto violento. Tonto, com o pescoço e os ombros queimando de dor, Raven olhou em volta. Alguma coisa havia provocado o tombo de Rolf, seu cavalo. Porém, antes que pudesse se sentar e identificar o obstáculo, uma chuva de pedras se abateu sobre sua cabeça. — Mas o quê, em nome de Deus... Rolf também era castigado pelas pedras arremessadas por dezenas de mãos e fundas improvisadas. Assustado, o garanhão se levantou e irrompeu num galope frenético. Intrigado e incrédulo, ele tentou identificar quem eram os autores do crime cruel, mas, antes que pudesse ver alguma coisa, um golpe feroz o atingiu nas costas, jogando-o no chão. Outros golpes, alguns com pedaços de pau, outros com pedras, o castigaram até lançá-lo no escuro poço da inconsciência. Raven acordou com o dia claro. Piscando para o céu cinzento e nublado, ele se sentiu tão confuso que nem conseguiu entender de imediato por que sentia tantas dores. Então lembrou... e se obrigou a soerguer o corpo sobre os cotovelos para depois se sentar, apesar da dor. A relva marrom e seca feria suas mãos. Olhando em volta, sentiu ao mesmo tempo alívio e desânimo, porque não sabia onde estava, mas via Rolf pastando bem perto dali. Não sabia quem o atacara, mas compreendia que havia sido enviado para bem longe do local onde ocorrera o ataque. Alguém o colocara sobre o cavalo. Então, mesmo que conhecesse o vilarejo onde havia sido agredido, dificilmente poderia voltar lá. E nem tentaria. Tempo era um fator crítico, sabia, e agora podia estar mais longe dos pântanos do que no dia anterior. E a fronteira era o lugar para onde havia fugido aquela que estava por trás do ataque de que fora vítima. Raven levantou-se devagar e analisou seu corpo. A túnica estava rasgada em vários lugares, mas não via sinal de sangue recente. A adaga permanecia presa ao cinto e a espada ainda estava na bainha presa à sela. Pelo menos os loucos que o

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atacaram não haviam cometido a sandice de roubar suas armas, pois assim teriam corrido o risco de atrair sua vingança. Assim, ainda dispunha de meios para cortar a cabeça da megera e arrancar seu coração. Com um sorriso gelado, Raven deliciou-se imaginando o momento em que faria tudo com isso com a bela e maliciosa Roxanne. — Eu fico com isso. — O quê? — Bess franziu a testa ao ver Pamela no corredor, atrás dela. — A bandeja que vai levar para lorde Peter. Eu cuido disso. — Mas, milady... Pamela não ouviu o protesto da criada, nem se deu ao trabalho de justificar seu ato. Tomando a pesada bandeja das mãos da jovem, passou por ela a caminho do quarto e, sem bater, empurrou a porta com um ombro, fechando-a com um pé depois de entrar. — Ei! Você não é Bess — Peter comentou sorrindo. — É claro que não. — Esperava que ela me trouxesse a refeição. — Bem, eu... estava subindo a escada e a liberei da tarefa. — Por quê? Sim, por quê? Pamela adiantou-se e pôs a bandeja sobre as pernas de Peter. Não sabia por que estava agindo assim, mas sabia que não gostava de Bess. Se ela agia com liberdade excessiva com Raven, seria capaz de fazer o mesmo com Peter. Não estava em condições de proteger o próprio noivo, mas podia resguardar a moral do prometido de sua prima. — Por nenhum motivo específico. Mas, se está incomodado, posso levar sua comida de volta e enviar Bess com a bandeja. — Não — Peter riu. — Mas devia ouvir o que minha família está sempre dizendo, Pamela. Não é uma criada do castelo de Fortengall. — Gosto de manter-me ocupada. Quando minha mãe era viva, havia sempre muita atividade em Angleford. Sinto falta desse tempo. — Imagino que sim. Notei que está sempre procurando uma ou outra atividade. O que fez hoje? — Sua mãe e eu discutimos os planos para o casamento. Ela fez uma lista com os nomes de seus amigos e vizinhos e outra com os amigos e vizinhos de Raven, e incluiu nelas os nobres que lorde Ian deseja convidar por cortesia. Projeto Revisoras

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— E os seus amigos? Os de Roxanne? Seus parentes? — Roxanne é a única família próxima que tenho. As irmãs dela e seus maridos e filhos não chegariam aqui a tempo de testemunhar o matrimônio. Talvez possamos organizar um banquete quando eu voltar para Angleford com Raven. — Sim. E talvez algumas irmãs de Roxanne a acompanhem em sua volta a Fortengall. — Acha que ela vai conseguir chegar em Bittenshire antes de Raven alcançála? — Já se passaram alguns dias. Sua prima tem uma certa vantagem sobre meu irmão. Não me surpreenderia se ela chegasse a Bittenshire antes de ser alcançada. — E então ele terá de convencê-la a voltar. — Acredita que será difícil? — Não! Quero dizer, não por sua causa. Se Roxy se negar a voltar será por seu amor por Gales. — Então, ela é muito apegada a terra... — Mais do que pode imaginar. Quase como se fosse parte dela, das montanhas e dos vales. Ela ficou desesperada quando os cavaleiros do rei chegaram em Bittenshire para informar que deveríamos acompanhá-los a Londres para ver Henry. Sabíamos o que isso significava: maridos ingleses. E, para Roxy, essa era uma situação impossível. Mas ela vai se conformar. Eu sei que vai, Peter. Quando o conhecer melhor, vai se sentir feliz por tê-lo por marido. Ela o amará, e então não terá importância se estarão em Gales ou na Inglaterra. Além do mais, você prometeu levála de volta para visitas prolongadas... — Sim, eu prometi. Mas você não se sente como ela. Por quê? — Não sei. Talvez... Roxy ama a terra. Eu amo... o povo. As pessoas. — Que boa sorte para Raven. — Por quê? Comigo, ele terá um pedaço de Gales que não deseja ter. — Da mesma maneira que tem certeza de que Roxanne vai acabar se conformando com seu destino, eu também acredito que Raven, com o tempo, vai se sentir feliz como lorde de Angleford. — Acredita mesmo nisso? — Certamente. E conheço meu irmão gêmeo melhor do que você conhece sua prima. Além do mais, eu... — Peter parou e arregalou os olhos. — O que foi? — Pamela assustou-se. Ela acompanhou a direção de seu olhar e notou que o lorde observava uma parte de sua perna. O vestido se erguera quando

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ela se sentara na beirada da cama para acomodar a bandeja, expondo parte de um ferimento pouco acima do tornozelo. — O que é isso? — Ah — ela respondeu constrangida, baixando a saia. — Eu estava lá fora ontem, brincando com seus irmãos menores, e tropecei em um arbusto. Só isso. — Minha mãe já viu isso? — É claro que não! — Então, você mesma limpou a área e fez o curativo? — Não! É só um arranhão! — Pamela, há muitos arbustos venenosos por aqui. — Não pode estar pensando que vou morrer por causa de um ridículo arranhão! — Não vai, porque vou examinar o ferimento para ter certeza de que não há indícios de infecção. — Absurdo! Pamela tentou levantar-se, mas Peter a segurou pelo pulso. — Fique quieta, lady Pamela. Quero ver esse ferimento. Mortificada, Pamela suportou em silêncio a humilhação de ter suas saias erguidas e parte da perna exposta. — Não há nada de anormal aí — ela argumentou depois de alguns instantes. — Sei que está vendo um vermelhão, mas o arranhão aconteceu ontem. É normal... — Peter! Pamela! O que estão fazendo? Pamela olhou para a porta e se deparou com Lucinda. — Nada! — Baixando as saias, ela praticamente pulou da cama para ficar em pé. — Nada? — Lucinda olhava para o filho. — Pamela se feriu em um arbusto, mãe, e eu insisti em verificar o ferimento para ter certeza de que não há sinais de infecção. Felizmente, não há nada de anormal e o arranhão já começa a cicatrizar. — Eu disse! — Pamela reagiu aliviada. — Melhor assim. Vim ver o que estava acontecendo, porque Pamela demorava a descer para o jantar e... — Ah, eu sinto muito, milady. Trouxe a bandeja de Peter e... — ia dizendo.

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— Temos criados para isso. — Sim, eu sei! Encontrei Bess na escada e me ofereci para vir, uma vez que já estava mesmo a caminho e... — E? — Peço desculpas pelo gesto ousado, milady. Queria apenas fazer companhia a Peter... Lorde Peter... Mas, agora que está aqui, vou para meu quarto. — Não vai jantar? A cozinheira preparou uma bandeja. Peça a uma das criadas para levá-la aos seus aposentos, se preferir. — Não, obrigada. Não tenho fome. Acho... que vou me deitar. Estou cansada. — Entendo. Durma bem, Pamela. Até amanhã. — Boa noite, milady. Milorde... — Muito embaraçada, ela saiu de cabeça baixa para esconder o rosto vermelho. — Pamela tem passado muito tempo com você, não é, Peter? — Lucinda perguntou quando se viu sozinha com o filho. — Roxanne pediu a ela para cuidar de mim. Pamela está apenas atendendo ao pedido da prima, minha noiva. — Duvido que Roxanne tenha sugerido que a prima se sentasse em sua cama e levantasse as saias. — Mãe! Já disse que ela se feriu e eu estava examinando o ferimento! Afinal, ela tem ajudado a cuidar de mim desde o acidente. É razoável que eu retribua de alguma forma. — Sim, querido. — Mãe, por favor! Não me trate como criança, sim? Estou preso a esta cama, impaciente e sem nada para fazer... Não piore as coisas. — O que foi que eu fiz? Estou concordando com você, Peter. Só isso. — Ela se aproximou da cama e pegou a bandeja. — Quer mais alguma coisa? Peter resmungou alguma coisa incompreensível. Lucinda saiu e fechou a porta. Em vez de levar a bandeja à cozinha ou chamar uma criada para isso, ela hesitou no corredor. Pamela de Angleford era uma jovem inocente. Sabia disso, porque passara boa parte da última quinzena em sua companhia. E Peter nunca mentia. Mas isso não anulava a possibilidade de graves problemas se formando. — Meu bom Deus... — De onde Henry havia tirado a idéia de casar Peter e Roxanne e Raven e Pamela? Tudo mergulhara no caos desde que Lucien chegara com a notícia e as duas jovens damas, Peter estava ferido e acamado; Roxanne fugira para Gales; Pamela fora abandonada por Raven e passava tempo demais na companhia de

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Peter; e Raven... Raven! Lucinda olhou para cima e balançou a cabeça. Raven estava dominado por sentimentos intensos e dolorosos. Com um suspiro, Lucinda se virou para descer a escada. Não havia nada que pudesse fazer. Era melhor guardar em segredo seus pensamentos inquietantes. No final, a vida seguiria seu curso como o destino programara. — Lucinda. — O conde estava no salão nobre com seu senescal e, intrigado, a viu entrar séria e pensativa. — O que houve? Encontrou Pamela? — Sim. Ela estava... entretendo Peter. — É bom que eles se dêem bem, considerando que ambos foram abandonados pelos noivos em circunstâncias... pouco convencionais. Se a jovem dama é capaz de estabelecer tão boa relação com Peter, certamente vai se dar bem com Raven, também. Não concorda comigo, minha querida? — Oh, sim — ela assentiu, olhando com ar paciente para o velho amigo Frederick. — Concordo, meu querido. Afinal, Peter e Raven são gêmeos e muito parecidos...

Capítulo VII

Raven estava no salão de Bittenshire. Havia viajado muito para compensar o tempo perdido, e a jornada por Gales era sempre dura e difícil. O território era montanhoso, e como ainda estavam entre o inverno e a primavera, a paisagem era tão sombria quanto o terreno era inóspito. Havia se perdido várias vezes. Os nativos que encontrara pelo caminho falavam um idioma incompreensível e rústico. Seu francês de nada servira. Sendo assim, tivera de contar com recursos próprios para orientar-se, e acabara fazendo uso do sol para encontrar o norte e o noroeste. Havia sido quase impossível chegar a algum lugar, porque a região batida por ventos gelados raramente era banhada pelo sol. Na maior parte do tempo, o que havia era céu encoberto e chuva, desde uma garoa fina e intermitente a temporais pesados e repentinos. Depender do sol e das estrelas para determinar o curso a seguir era quase uma futilidade. Felizmente, sempre tivera um bom senso de orientação. Chegara em Bittenshire quando os senhores do lugar estavam fora, mas um criado providenciara banho quente, uma refeição nutritiva e uma cama confortável. Projeto Revisoras

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Descansado, limpo e alimentado, agora Raven se sentia mais próximo do homem que realmente era. Esperar para conhecer uma irmã de Roxanne e seu marido era um teste de paciência. Demonstraria gratidão pela hospitalidade dos donos do lugar, mas também exigiria saber onde haviam escondido a megera. Faria questão de levála para longe dali e esfolá-la viva! — Lorde Raven? Um homem de cabelos loiros e tamanho avantajado havia entrado no salão. — Lorde Thomas? — Sim, sou eu. Conde de Bittenshire, graças à minha esposa e ao rei Henry. E você é o homem com quem o rei decidiu casar Roxanne. — Ah, eu... — Uma voz feminina o interrompeu. — Milorde... — Ah, Aggie! — Thomas estendeu a mão para a esposa. — Venha conhecer o noivo de Roxy. — Encantada, milorde. Meu nome é Agatha, mas todos me chamam de Aggie. Onde está minha irmã? — Ela não está aqui? — Raven estranhou. — Roxy em Bittenshire? Não. É claro que não! Pensei que a encontraria em sua companhia, milorde. — Por favor, vamos nos sentar para que eu possa explicar tudo. É uma longa história. Todos se acomodaram em bancos diante da lareira. — Sou Raven, lorde de Stonelee. O rei determinou que devo me casar com sua prima Pamela. É meu irmão Peter, lorde de Stoneweather, quem deve desposar Roxanne. — Então, o que faz aqui? — indagou Aggie. — Não tiveram notícias de Henry ou Roxanne? — Recebemos uma mensagem do rei — Thomas contou — dando conta de que ele já havia encontrado maridos adequados para Roxanne e Pamela. — Sim, ele incluiu seu nome e o de seu irmão, mas não esclareceu quem se casaria com quem. Sua Majestade também não determinou a data das núpcias. — Nós mesmos devemos tomar essas decisões sobre quando e onde será a cerimônia. Assim que Roxanne e Pamela chegaram à Inglaterra, nós nos reunimos na propriedade de meu padrasto, o castelo Fortengall. Minha mãe tem cuidado pessoalmente do planejamento das núpcias, e Pamela e eu pretendemos nos mudar

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para Angleford depois do casamento. Terei de tomar todas as providências para que o lugar seja bem administrado mesmo quando não estivermos por lá. — Fala como se não pretendesse viver em Angleford — Thomas apontou. — Tenho terras na Inglaterra. Estão mesmo certos de que nada sabem sobre Roxanne? O conde e sua esposa balançaram as cabeças. — Por que acha que teríamos notícias dela? — Porque ela veio para Gales, milady. — Não! Por que Roxy viria para Gales, se você... ou seu irmão... — Peter sofreu um... acidente. Ele quebrou uma perna e está preso à cama durante o período de recuperação. Lamento informar que sua irmã aproveitou esse confinamento do noivo para fugir e voltar à terra natal. — Ela não ousaria tanto! — Ousaria — Thomas contradisse a esposa. — Sua irmã é muito teimosa. — Há algum problema com seu irmão, milorde? — ela perguntou. — Alguma... deformidade? — Não! Quero dizer, a menos que esse acidente o deixe manco, não há nada de errado com Peter. Somos gêmeos idênticos. — Então... — Aggie baixou a cabeça e olhou para as mãos unidas sobre as pernas. — É Ballin — Thomas deduziu. — O que disse, milorde? — Ballin de Penllyn. Roxanne acredita estar apaixonada por ele. Raven ficou tenso. Fosse ele o noivo abandonado, não teria se sentido mais ultrajado. — Quem é Ballin? Onde fica Penllyn? — Ballin é nosso primo — explicou Aggie. — Filho do irmão de nossa mãe. Penllyn é um principado muito antigo que nenhum dos lordes de Guerra jamais conquistou. Na verdade, não houve uma única tentativa de conquista nos últimos trinta anos, desde que minha mãe, lady Rhiannon, se casou com Cedric e a irmã dela, lady Ceridwen, desposou Arthur de Angleford. Elas eram princesas de Penllyn. Quando se casaram com lordes de Guerra, todos os condes ingleses das fronteiras decidiram deixar Penllyn em paz. Vivemos lado a lado como vizinhos pacíficos. — Ballin é agora príncipe de Penllyn — Raven deduziu. Ao ver Aggie assentir, ele perguntou: — O principado fica perto daqui?

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— Não dista muito — Thomas respondeu. — Bittenshire faz fronteira com Angleford, que por sua vez faz fronteira com Penllyn. Eu mesmo o levarei até lá ao amanhecer. — Não — Raven recusou. Encontrara sozinho o caminho para Bittenshire, e encontraria também o caminho para Penllyn. Além do mais, não queria testemunhas quando pusesse as mãos na megera. Uma coisa era fugir para voltar ao seio da família. Outra era correr para os braços de um príncipe de Gales. — Não? — repetiu o conde intrigado. — Não. Roxanne é uma mulher orgulhosa. Vai se sentir humilhada quando for encontrada e levada de volta a Fortengall para se casar com Peter. Creio que será mais sensato manter essa humilhação em sigilo tanto quanto for possível, ou ela pensará em fugir novamente para reafirmar-se. É melhor que não saiba que a família tem conhecimento de suas ações tolas e do preço que pagará por elas. — Vejo que conhece bem minha irmã, milorde. Bem demais, ele pensou. Mas limitou-se a encolher os ombros. — Todos a conhecemos muito bem — anunciou Thomas, levantando-se de seu assento. — Exceto nosso rei. Temo que ele tenha tomado uma decisão insensata forçando-a a se casar e ir viver na Inglaterra. Aggie, você conhece os sentimentos de sua irmã por Gales. E como ela não tem esperança de ser a herdeira de Bittenshire, o rei deveria ter tido a perspicácia de uni-la a um lorde de Guerra, um senhor dos pântanos e das fronteiras. Aggie suspirou resignada. — Como já deve ter notado, lorde Raven, Roxy é mimada, rebelde e impossível. Ela deseja permanecer em Gales, e por isso fará tudo que puder para ficar aqui. Desafiará o rei, mesmo sabendo que vai causar problemas a outras pessoas, e não demonstrará nenhum remorso por isso. É como sempre digo: ela nasceu em um momento em que meus pais já estavam cansados da tarefa de educar filhos. Roxy não teve a atenção devida. Meus pais a deixaram livre, correndo pelos campos como uma órfã, sem obrigações, sem responsabilidades... Agora ela ousa nos cobrir de vergonha fugindo do homem que o rei escolheu para ser seu marido. E Henry! Por Deus, ele deve estar furioso! — Henry não sabe de nada, milady. Quando descobrimos que sua irmã não estava no castelo, Pamela insinuou que ela poderia ter fugido para não se casar com um inglês, e eu vim buscá-la em nome de meu irmão que, como disse, está acamado. Vou levá-la de volta, garanto, e ninguém terá de saber sobre o ocorrido. Nem mesmo o rei. — É muita bondade sua, lorde Raven — Thomas declarou agradecido. — E Pamela? Projeto Revisoras

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— Pamela é perfeita — Aggie afirmou. — Generosa, doce e submissa, ela é a esposa ideal para qualquer nobre. Não concorda comigo, milorde? Raven assentiu, tentando disfarçar a surpresa causada pelo tom cáustico de Agatha. Alguns criados entravam no salão preparando a mesa para a refeição da noite. — Lorde Raven — Thomas disse — duas das irmãs de Agatha estão aqui em visita acompanhadas de seus maridos e filhos. Sei que vai se casar com Pamela, mas somos parentes das duas damas. Permita-me apresentá-lo à família. — Ele se retirou para ir reunir a família. Enquanto isso Agatha tomou a palavra. — Roxanne não é mimada — ela confidenciou em voz baixa. — Longe disso. Minha irmã mais nova é, na verdade, negligenciada. Não deliberadamente, é claro, mas porque nasceu por último depois de muitas filhas. Até Pamela vir morar conosco em Bittenshire, Roxy estava quase sempre sozinha. Ela usava essa liberdade para correr pelos campos e fazer amizade com os camponeses e moradores do vilarejo. Afinal, eles tinham tempo para ela. Se Roxanne tornou-se voluntariosa e independente, milorde, foi porque sempre teve necessidade de depender apenas de si mesma. E, essa mesma qualidade fará dela uma companheira leal e forte para o homem com quem se casar. — Devia dizer tudo isso a meu irmão. — Não. Lorde Peter descobrirá tudo a tempo. Mas você, milorde, precisa conhecer Roxy agora. — Por quê? — Porque está aqui, e ele está lá. Vai procurá-la e encontrá-la, e então... — Sim? — O que vai ver pode causar-lhe desagrado, milorde. — O que acha que verei? — Uma mulher que luta pelo direito de fazer as próprias escolhas. Ela ainda não compreendeu que as mulheres raramente gozam desse privilégio. Sendo assim, suplico, milorde, que não a julgue com severidade. Seja paciente, tolerante, e não a denuncie a seu irmão. Thomas retornou acompanhado por dois casais, e Aggie calou-se. As irmãs de Roxanne eram todas muito parecidas, mas nenhuma tinha a beleza da caçula do clã. Nenhuma mulher jamais poderia ser tão bela quanto Roxanne e seus olhos cor de violeta, Raven pensou furioso. Roxanne deteve o cavalo e olhou para a Fortaleza Bittenshire. O coração parecia ser grande demais para estar confinado no peito. Havia nele muita dor, tristeza e saudade. Como gostaria de poder deixar o esconderijo das árvores, onde se Projeto Revisoras

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mantinha oculta da visão aguçada dos guardas! Queria aproximar-se, anunciar-se e ver a ponte levadiça cobrir o fosso que a separava da porta imponente. Queria abraçar Aggie e o cunhado. Mas tais desejos não se realizariam. Roxanne sabia que nem devia estar ali, tão perto de casa, porque a qualquer momento um bando de cavaleiros ingleses a serviço de Stoneweather ou Fortengall poderia aparecer. Se a vissem, a missão estaria cumprida. Seria levada de volta para Peter. Pior, para Raven. O homem que poria fim a sua vida na primeira oportunidade. Até esse momento, nunca chegara a sentir medo realmente de Raven de Stonelee. Havia sido apenas uma tola, um papel que desempenhara por julgar conveniente. As ameaças do lorde haviam sido a justificativa perfeita para ela explicar a Pamela seu desaparecimento furtivo de Fortengall. Mas, de repente, lembrava as ameaças de Raven e sentia medo. Porque ele não estivera representando. A noite caía. Havia tochas acesas no interior de Bittenshire. A luz dourada se derramava por entre as frestas de portas e janelas. Cautelosa, Roxanne olhou por cima de um ombro, temendo ver dezenas de cavaleiros ingleses liderados por Raven de Stonelee surgirem atrás dela como uma aparição, uma imagem de pesadelo. Mas estava sozinha. — Preciso de proteção — ela disse para si mesma. — E Ballin poderá me proteger. Movendo as pernas sobre o cavalo, ela manobrou o animal. Tinha pela frente mais um dia de cavalgada antes de alcançar Penllyn, mas buscaria abrigo para essa noite na casa de Hywella, sua querida amiga. Alguns acusavam a mulher de bruxaria por ela viver sozinha em uma cabana reclusa, distante dos vilarejos e de seu povo nas montanhas. Mas Roxanne conhecia a verdade. Hywella perdera o marido e os filhos por causas variadas, e agora evitava a companhia humana, preferindo uma vida solitária. Mas a receberia de braços abertos, como sempre fizera. E essa noite, Roxanne precisava de alguém que pudesse sorrir ao vê-la. Roxanne voltou à choupana que Hywella chamava de lar. Saíra logo depois de acordar para aliviar-se e agora dava um passeio relaxante, enchendo os olhos e os pulmões com as imagens e os aromas de Cymry. A primavera se aproximava, e a natureza anunciava a mudança de estação. Era uma alegria estar ali para ver esse momento. Toda estação tinha seus méritos, mas a primavera e o verão em Cymry eram insuperáveis. Tremia em pensar que quase fora afastada de tudo isso. Não suportaria ter de viver longe do lar que tanto amava. Murcharia e morreria como uma flor sem água. — Está de volta... Roxanne sorriu ao ouvir a voz de Hywella e a língua que era música para seus ouvidos. Projeto Revisoras

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— Sim, aqui estou. — O mingau de aveia ainda está quente. É melhor encher a barriga, menina, se vai mesmo passar o dia cavalgando. — O sorriso acentuava as rugas no rosto emoldurado por cabelos brancos. Roxanne serviu em duas tigelas de madeira o mingau preparado em um caldeirão suspenso sobre a fogueira ao lado da choupana. As duas amigas entraram e se sentaram em bancos para comer, e ainda comiam quando Hywella anunciou: — Ele está no seu encalço. — Quem? — Roxanne, assustada, quis saber. — Um cavaleiro de lorde Ian? Um homem do rei Henry? — O homem com quem vai se casar. Ele procura por você. Eu o vi em um sonho. Roxanne suspirou aliviada. Estava segura. Mas... por que Hywella fizera tal comentário? Suas previsões justificavam as acusações de bruxaria, mas, pessoalmente, Roxanne sempre acreditara que ela só dizia essas coisas para incomodar aqueles que iam vê-la em sua casa. Como não desejava companhia, a mulher fazia de tudo para afugentar intrusos. As profecias eram pura fantasia. Então, por que dizia sandices agora? Se a recebera com alegria genuína na noite anterior, e sabia que ela partiria em breve... — Por que está dizendo isso? Hywella encolheu os ombros. — Porque é verdade. Eu sonhei... — Quem está atrás de mim? — O mingau pesava em seu estômago, e ela perdera o apetite. — Já disse, Roxy. O homem com quem vai se casar. — Peter de Stoneweather? — Não... Acho que não. Não foi esse o nome que ouvi no sonho. — Então... — Roxanne sorriu entusiasmada. — Você o viu! Um homem jovem, forte, viril... — Sim, isso mesmo. — Devo me apressar, então! Se ele me procura, não quero desapontá-lo. Roxanne levantou-se, e Hywella a encarou séria e preocupada. — Tome cuidado, Roxy. Não é como está pensando. Ele não sabe que você será sua esposa. — Sim, eu sei que ele não tem conhecimento disso. Ainda não. Mas quando souber que o caminho está livre para a nossa união, certamente ficará tão feliz quanto eu! Projeto Revisoras

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Minutos depois, Roxanne se despedia da velha amiga e partia rumo às montanhas. Ballin de Penllyn a procurava! Ou melhor... só podia ser Ballin. Mas ele não sabia que ela havia fugido do noivo escolhido pelo rei Henry e que voltava para Cymry. Por outro lado, se a amava, ele devia pensar nela e sentir sua falta. Devia estar esperando, vigiando... Não foi difícil para Roxanne imaginá-lo no topo da montanha, olhando para o horizonte, esperando vê-la. Seu coração se encheu de amor enquanto, cansada, ela cavalgava impelida por essa animadora imagem de seu amado príncipe. Raven sentia-se pouco confortável sobre o animal bem menor que seu imponente garanhão. Lorde Thomas havia afirmado que o cavalo seria mais adequado para a trilha sinuosa da montanha, e por isso ele aceitara a oferta. Mas insistira em levar Rolf, que cavalgava logo atrás dele como um mero animal de carga. Estava certo de que chegaria em Pennlyn antes do cair da noite. O que não sabia era o que encontraria no principado. Roxanne estava lá, não tinha duvidas disso. O príncipe tentaria escondê-la? Ou seria razoável e a mandaria de volta para a Inglaterra para se casar com Peter? Era tudo muito confuso. Seu plano inicial havia sido bani-la de Fortengall para impedir o casamento de Peter com a megera, protegê-lo da morte nas mãos de uma mulher cruel e egoísta. E agora que conseguira seu intento, tinha de se ocupar de um príncipe que nem conhecia, mas que poderia impedi-lo de cumprir uma ordem do rei. — Loucura — ele resmungou. — Isso tudo é uma grande loucura! Olhando em volta, ele notou pela primeira vez a paisagem de primavera e admitiu que Gales não era uma terra tão feia e inóspita, afinal. Não com a luz do sol se derramando sobre as árvores e as encostas das colinas, com os carvalhos e asbestos se preparando para desenvolver as primeiras folhas da nova estação. Faminto, Raven parou o cavalo em uma clareira para deixá-lo pastar enquanto ele mesmo fazia uma refeição frugal de pão e carne preparada pela cozinheira de Bittenshire. Encostado a um tronco de árvore, ainda estava terminando de comer quando percebeu um movimento ao longe. — Por Deus! É a megera! — Raven levantou-se de um salto. — Pelos santos, a bruxa de língua ferina vai cavalgar diretamente para os meus braços! Roxanne olhou novamente por cima de um ombro. Penllyn estava mais perto. Ballin a esperava. Mas, atrás dela, podia haver homens de Peter ou de lorde Ian de Fortengall enviados para levá-la de volta à Inglaterra.

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Não. Não via ninguém. Nem mesmo um coelho ou um esquilo. E também não via muito à frente. Conhecia tão bem o caminho para a casa de Ballin que teria sido capaz de encontrá-lo à noite e com os olhos vendados. Por isso ia distraída, perdida em pensamentos, antecipando o reencontro com o príncipe amado. De súbito, ela gritou. Um grito agudo e aterrorizado. Como podia gritar, se tinha o coração na garganta? Não era o coração. Alguma coisa a impedia de respirar. Um bandoleiro saltara de um galho sobre seu cavalo! Ele a agarrou pela cintura, e, quando o cavalo empinou, os dois foram jogados no chão. O homem rolou, imobilizando-a sob seu corpo. — Fique quieta, ou não verá outro dia, mulher! — Raven ordenou. — Aiiiiii! Roxanne erguera um joelho e o acertara em cheio na região genital. Dominado pela dor, Raven soltou-a para agarrar a área que parecia estar em brasa. Roxanne não tentou fugir. Continuou deitada no chão de terra, com a respiração ofegante, tentando recuperar a capacidade de reação. De repente tudo fez sentido. Ela reconheceu o rosto pálido e contorcido pela dor. Raven de Stonelee! O gêmeo cruel, sombrio e detestável. O homem que havia jurado matá-la. Desesperada, ela se levantou para correr, mas não teve tempo para ir muito longe. Raven a agarrou pelo cabelo e a derrubou a seu lado. — Tire as mãos de mim, seu... porco imundo! Recuperado, ele se colocou sobre seu corpo, imobilizando-a. Dessa vez, Raven tomou o cuidado de prender-lhe as pernas entre as dele e segurar os cabelos com força. Ele os puxava, fazendo-a gemer de dor. — De jeito nenhum! Não depois de tudo que enfrentei tentando encontrá-la. Você vai voltar comigo! — Não! — Não me provoque, mulher. Já me agrediu duas vezes! Não vai ter chance de me atingir novamente! — Você fez por merecer. Se eu chutasse suas partes íntimas todos os dias até o fim de sua vida, o sofrimento ainda seria insuficiente, comparado ao que merece! Era difícil controlar o impulso de esbofeteá-la. Jamais agredira uma mulher, porque, na infância, vira o pai, Guldulf de Eynsham, bater em todas que o cercava, criadas, filhas e até sua esposa, lady Lucinda, que muitas vezes fora surrada até quase desfalecer. Mas Roxanne era uma mulher que pedia um espancamento! Ela parecia ler seus pensamentos.

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— Vá em frente! — Provocou. — Bata em mim! É isso que quer fazer, não é? Vai se sentir mais viril ferindo e marcando uma mulher indefesa? Não é isso que quer fazer, Percival? — O nome que me foi dado por minha mãe não me ofende, milady. Mas o nome que outros me deram combina melhor comigo. Pode me chamar como quiser. Não me importo. Mas sugiro que pare de se debater e economize suas forças, porque a viagem de volta a Fortengall será tão longa quanto foi de lá até aqui. Se quer viajar confortavelmente em seu próprio cavalo, é melhor colaborar. Caso contrário, vai me obrigar a amarrá-la e jogá-la sobre meu cavalo como um fardo qualquer. — Voltar... para a Inglaterra? Por que me levaria de volta? Foi você quem me convenceu a sair de lá. Você quem me ameaçou para impedir meu casamento com Peter. Por quê...? Raven compreendia a pergunta, mas não tinha uma resposta razoável. — Levante-se — ele disse, pondo-se em pé e puxando-a sem nenhuma gentileza. — Não! — Dobrando os joelhos, ela caiu para trás como um peso morto. — Em pé! — Dessa vez, quando a pôs em pé, ele a puxou contra o peito. O contato entre os corpos foi inevitável, e, apesar do profundo desgosto que sentia pela dama, Raven sentiu que seu corpo respondia imediatamente e de forma intensa. Roxanne estava aliviada por não ter de dizer nada. Sentia a garganta seca desde que os braços de Raven enlaçaram sua cintura. Nunca antes sentira o corpo de um homem como Raven de Stonelee. Na verdade, não tinha experiência alguma além de Ballin, e ele não era como Raven. E o que estava sentindo? Um encaixe perfeito, como se os dois corpos fossem metades de um todo. Os lábios dele poderiam tocar sua testa, caso ele se inclinasse. O peito roçava o dela, e abaixo da cintura já podia sentir o volume de uma ereção pressionando sua pélvis. Era como se houvessem sido criados um para o outro. Roxanne julgava esse pensamento tão repreensível, que retomou a luta contra os braços que a imobilizavam. Apoiando as mãos no peito de Raven, ela o empurrou. Não conseguiu se libertar, mas pelo menos colocou alguma distância entre eles, entre os seios pulsantes e o peito largo e musculoso. — Por quê? — ela repetiu em tom desesperado. — Porque fui vencido por uma força superior.

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Capítulo VIII

Raven retirou a sela do animal de pequeno porte, colocou-a em seu cavalo e, com um tapa, enviou o cavalo de lorde Thomas de volta a Bittenshire. Sabia que ele encontraria o caminho. Depois de prender o cavalo de Roxanne a um tronco de árvore, ele a colocou sobre a sela, porque seria impossível para ela montar sozinha com as mãos amarradas como estavam. Calada, ela o viu prender seus pulsos à sela do cavalo. Não fazia nenhum movimento nem tentava reagir, e permaneceu imóvel até que, inadvertidamente, os dedos tocaram sua perna. Como de costume, usava meias masculinas para esconder as pernas, mas, ainda assim, não daria ao cavaleiro o benefício da dúvida. — Nunca mais se atreva a me tocar! Raven piscou assustado, arrancado de um lugar distante para onde os pensamentos o haviam levado. — Receio não ter escolha — disse. — Não acredito que vai me seguir até Fortengall por vontade própria. Sendo assim, devo mantê-la amarrada. E duvido que, mesmo sendo exímia na arte de cavalgar, consiga subir no cavalo e descer dele com as mãos amarradas e os pulsos presos à sela. — Minhas pernas não estão amarradas! — ela gritou ao vê-lo se dirigir ao cavalo. — Mas estarão, se não ficar de boca fechada. — Ele ameaçou sem olhar para trás, prendendo ao próprio pulso uma corda cuja outra extremidade estava amarrada ao cavalo de Roxanne. — Imagine quanto vou ter de tocá-la se chegarmos a esse extremo. Roxanne imaginava. Enquanto ela se entregava a pensamentos que alimentavam sua fúria, Raven a conduzia de volta à Inglaterra. Odiava esse inglês, esse cavaleiro de sangue normando-britânico que servia ao rei Henry. Ele havia sido rude e desagradável desde o início. E era cruel, também. Ameaçador. Agora arruinava sua vida levando-a de volta a Fortengall, mesmo sabendo que, com isso, arruinaria também a vida do irmão. Nada fazia sentido. Por que Raven de Stonelee, o homem que a convencera a fugir para Cymry, fora buscá-la? E por que... por que sentia línguas de fogo lambendo, seu corpo cada vez que ele a tocava? Eram toques intencionais, porque sabia que Raven a odiava tanto quanto ela o detestava. E isso tornava tudo ainda pior, porque agora Roxanne guardava um segredo, um desejo vergonhoso... O desejo de ser tocada novamente por Raven.

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Ele mantinha os olhos no caminho, atento ao terreno acidentado e aos dois animais que manobrava com habilidade e destreza. E Raven agradecia aos santos por ter com que ocupar os pensamentos. Se pudesse pensar em qualquer outra coisa além dos perigos da jornada, temia se descobrir dominado por idéias vergonhosas e muito perigosas. A mente seria invadida por imagens de uma certa mulher de madeixas negras e seios fartos, de cintura fina e quadril arredondado. Por isso, pensava apenas nos perigos oferecidos pela trilha sinuosa e cheia de buracos. E o perigo tornou-se ainda maior quando a chuva começou a cair, primeiro fraca, depois mais intensa e pesada, fria. Aborrecido, mas resignado com a intempérie, Raven se virou para verificar a prisioneira. Era difícil ver Roxanne, apesar da proximidade entre as duas montarias. Apreensivo, ele abriu a boca para se informar sobre seu bem-estar, mas, antes que pudesse pronunciar a primeira sílaba, o cavalo relinchou e dobrou as patas dianteiras. Alarmado, Raven ainda tentou controlar o animal, mas era tarde demais. Rolf caiu de lado, as pernas traseiras imóveis, as da frente se debatendo no ar. Estavam em uma encosta inclinada, e o cavalo escorregava para baixo. Batendo com o ombro no chão, Raven sentiu o peso do animal sobre uma das pernas. Numa reação instintiva, ele soltou a rédea e puxou a perna, libertando-a. Em seguida, soltou a corda que unia o cavalo de Roxanne ao dele, mas era tarde, porque a queda de Rolf já havia ocasionado a queda do outro animal, também. O segundo garanhão despencou sobre o primeiro, provocando o aumento imediato na velocidade da queda. De repente, os cavalos interromperam a queda vertiginosa. Rolf levantou-se rapidamente, abrindo as patas num retângulo de base bem larga para sustentá-lo no lodo. O cavalo de Roxanne também tentava se levantar, debatendo-se sobre o corpo daquela que até pouco antes estivera em cima dele. — Roxanne! — Raven removeu a adaga da cintura para cortar a corda que mantinha seus pulsos presos à sela. Livre do fardo, o animal se levantou. — Roxanne! Raven correu para ela, tomado por um pânico surdo. Sabia que, se ela estivesse com as mãos livres, teria rolado para o lado a fim de não ser esmagada pelo peso do animal ou atingida pelos cascos. Mas, imobilizada, acabara presa sob o animal. E estava silenciosa, sem gritar ou chorar, sem acusá-lo pelo desastroso acidente. Roxanne estava imóvel. Ela o encarava de um jeito estranho, peculiar. Não piscava. Raven temia que estivesse morta. A idéia o desesperou. Em nenhum momento ele pensou que sua reação era estranha, considerando que devia estar feliz com essa perspectiva. Se a megera morresse, Peter estaria livre dela para sempre. E ninguém poderia culpá-lo de nada. Se ela insistia em montar um animal grande

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demais para o seu tamanho, se fugira para Gales por estradas sinuosas e estreitas, se percorria montanhas inóspitas sob um clima imprevisível... Bem, ninguém além dela mesma poderia ser culpada por seu amargo destino. Mas Raven não pensava assim. De fato, não tinha nenhum pensamento coerente, porque o coração disparado dominava todo seu corpo. — Roxanne! Roxanne, está me ouvindo? Mais alguns segundos de imobilidade e silêncio quase o levaram à loucura. Então, de repente, ela piscou. E espirrou. E aspirou uma enorme quantidade de ar, como se houvesse estado submersa e de repente voltasse à superfície. Raven percebeu que a jovem dama havia sofrido um impacto tão violento, que ficara sem ar por alguns instantes. A dor nos pulmões causada pela falta do ar a deixara em choque, imóvel, mas, agora que se enchia mais uma vez de oxigênio, ela enxergava claramente o homem diante de seu rosto. A água da chuva encharcava seus cabelos e escorria pela barba. Ele parecia forte e totalmente implacável, e nesse momento ela teve a impressão de jamais ter visto homem mais belo. Mais belo que Ballin, mais desejável que Peter. — Covarde! Cretino! Cabeça-dura! — Apoiando um cotovelo nas costelas de Raven, ela girou o corpo e se apoiou sobre os joelhos. Usando as mãos como alavanca, conseguiu se levantar sem dificuldade. — Você não conhece essa terra, e por isso quase sacrificou duas excelentes montarias! Ainda insiste em me conduzir pelas montanhas onde nasci? Ficou maluco? Quase me matou! Raven fitou-a de onde estava, ajoelhado no chão. Os cachos haviam desaparecido de seus cabelos negros, porque a chuva os deixava pesados e lisos. As roupas também estavam ensopadas e sujas de lama. E mesmo assim... Ignorando a explosão temperamental, Raven concentrava-se apenas em sua aparência. Não era surpreendente. Desde os doze anos de idade ele notava os atributos femininos. E Roxanne era uma mulher de muitos atributos. Raven desprezava-se por desejá-la. A mulher quase pusera fim à vida de seu irmão! Devia ser punida com a morte! E, além disso, ela havia sido prometida a Peter. Seria sua irmã por casamento. Sua cunhada. Não tinha o direito de cobiçá-la. Ele se levantou. Sem dizer nada, caminhou para os dois cavalos e estudou-os com atenção, tentando encontrar algum ferimento. Satisfeito por Rolf e Daffyd nada terem sofrido, ele entregou as rédeas de Daffyd a Roxanne e segurou as de Rolf. — Comece a andar — ordenou. Roxanne resmungava reclamações e pragas, mas ele fingia nada ouvir. Lembrava-se de ter visto uma cabana abandonada no caminho, talvez uma choupana de caçador. Já era tarde. A tarde caminhava para o fim, e ele se sentia miserável nas roupas molhadas. Passariam a noite abrigados e seguiriam viagem no dia seguinte. Projeto Revisoras

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Roxanne parou de resmungar bem antes de chegarem ao abrigo. Estava furiosa, mais por ter se deixado alcançar do que pelo lamentável estado em que se encontrava. Sentia-se feliz, porém, por ver a choupana, embora não pretendesse confessar seu alívio a ninguém, muito menos ao senhor de Stonelee. Cavalheiro, ele havia removido a sela dos dois cavalos, embora se sentisse tentado a deixá-la cuidar da própria montaria, especialmente quando a vira largar as rédeas e caminhar de cabeça erguida para a cabana abandonada. Mas não era capaz de tamanha grosseria, mesmo porque ela ainda tinha as mãos amarradas. Quando Raven entrou na choupana carregando as duas selas e os arreios, objetos que deixou em um canto sem nenhuma cerimônia, ele olhou em volta e comentou: — Bem, pelo menos está seco. — Quer dizer que não há muitas goteiras — Roxanne o corrigiu. Raven ouviu o som inconfundível de água pingando do teto. — Sim, há uma goteira bem ali, naquele canto. — E outra ali. Ela estava certa. — Vamos ter de nos acomodar no centro do aposento, então. Vou acender um fogo. Vai nos ajudar a secar as roupas e aquecer o corpo. — Ah, sim! E o que vai usar para acender esse fogo, milorde? Folhas molhadas? Galhos encharcados? E como vai alimentar esse fogo acolhedor que secará nossas roupas e nos manterá aquecidos durante a noite? Toras molhadas? Irritada, ela caminhou até as duas selas para pegar a comida e as roupas que enrolara em seu manto de viagem e amarrara ao cavalo. — Será que pode me soltar? Não consigo fazer nada com as mãos amarradas. — E por que acha que devo facilitar as coisas para você? — Por que não? Para onde acha que eu fugiria em uma noite como essa? Só quero pegar minhas coisas porque... — Sim? Por quê? Está pensando em trocar de roupa, milady? — Exatamente. Ele sorriu. — Não seria desagradável vê-la sem essas roupas encharcadas. Melhor ainda, eu faria qualquer coisa para ajudá-la a tirá-las. — Obrigada — ela respondeu se afastando. — Não preciso de ajuda. Além do mais, logo estará escuro. Eu posso esperar. Esteja certo de que não verá nada que possa ser considerado impróprio. — Como quiser. Se prefere se resfriar esperando pelo anoitecer... Espero que morra de frio. Seria uma bênção para o mundo. De minha parte, não pretendo ficar Projeto Revisoras

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aqui congelando até o cair da noite. Vou mudar de roupa enquanto ainda posso ver o que estou fazendo. Roxanne encolheu os ombros, afastou-se ainda mais e fingiu ignorá-lo. Esperava que Raven estivesse enganado, que não faltasse mesmo meia hora para o anoitecer, pois só então poderia se livrar das roupas molhadas que pesavam sobre seu corpo e ameaçavam congelá-la. O retângulo de luz cinzenta se desintegrava rapidamente na janela da choupana. Diante dela, Raven começava a se despir. Ele já havia tirado as botas, e agora arrancava a túnica. Mesmo pálida, a luz brilhava sobre a pele exposta. Roxanne notava músculos bem definidos e pêlos espessos sobre essa pele nua. Raven abriu o cinto, deixou de lado a adaga e a espada, e preparou-se para despir a calça. A visão era tão intrigante que ela não conseguia desviar o olhar. A água que pingava do teto e formava poças no chão não podia competir com o corpo forte de lorde de Stonelee se despindo, Por isso ela olhava, curiosa e fascinada com a forma masculina seminua. Raven desamarrou as fitas que mantinham no lugar a calça e a ceroula. O choque devia tê-la feito cobrir seus olhos de donzela. Mas Roxanne não se chocava facilmente, e mantinha-os bem abertos enquanto, despreocupado, ele ia descendo a calça e a ceroula. Chutando para o lado as peças molhadas, ele parou por um momento. Se ele olhasse em sua direção, Roxanne não saberia. O sol às suas costas deixava o rosto de Raven nas sombras. Além do mais, ela não estava olhando para o rosto dele. Olhava para a região do corpo que parecia ser apontada pela fileira de pêlos escuros que descia pelo abdome. Para o enorme apêndice de sua masculinidade. Roxanne não estava surpresa, porque vira outros homens nus na fortaleza do pai, embora sempre por acidente. Mas nenhum outro se assemelhava a Raven em sua gloriosa masculinidade. Seu suspiro foi tão alto e prolongado, que ele olhou na direção dela. — Algum problema, criança? — Não sou uma criança! Sou uma dama! — Essa é uma afirmação discutível — Raven respondeu enquanto vasculhava uma de suas bolsas e praguejava irritado. — Qual é o problema? — Minha calça. O outro par é o melhor que tenho. Não posso correr o risco de arruiná-la cavalgando por esse país miserável. — Cymry não é miserável! — Mais uma vez, essa afirmação é discutível.

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Raven levantou-se e sacudiu a calça molhada, pendurando-a entre dois ganchos na parede da choupana, esticando-a para secar. Ele parecia despreocupado, como se estivesse sozinho, não na companhia de uma jovem criada entre a nobreza. Roxanne admirava sua confiança, mesmo sabendo que era fruto da arrogância. Também admirava a metade posterior de seu corpo, embora tivesse de se inclinar para a frente para poder enxergá-lo. O esforço era mais do que compensado pela visão. — Procurando alguma coisa? Ela ergueu os ombros e endireitou a postura. Tinha o rosto em brasa, mas, felizmente, sabia que ele não podia vê-la. Como não podia ver o dele, embora imaginasse que ele se virará para fitá-la. — Ah, não! Por Deus! Raven havia retornado à pilha de objetos que derrubara no chão. Aparentemente, tropeçara em uma das selas. Na escuridão, ela adivinhava seus movimentos e imaginava que lorde de Stonelee conseguira encontrar uma túnica seca. Também tinha a distinta impressão de que ele se sentara. E ouvia um som que sugeria que ele mastigava alguma coisa. — O que está fazendo? — Comendo. Não vai tirar essas roupas molhadas e comer alguma coisa do que tem no alforje? O homem era tão rude que nem se oferecia para compartilhar o que estava comendo! E despir-se daquela maneira diante de uma dama também havia sido indelicado. Ele se exibira como se estivesse diante de uma mulher sem sensibilidade. E agora, ele a deixaria passar fome enquanto enchia a própria barriga. Sem esconder o desprazer com a atitude insolente do lorde de Stonelee, Roxanne foi pegar o alforje preso à sela. Infelizmente, Raven se sentara ao lado do objeto, e ela tropeçou em seu pé. Ele a pegou antes que caísse. As mãos tocavam suas costas, e a parte interna dos braços servia de apoio para os seios. Desesperada, Roxanne tateou o chão com uma das mãos, tentando recuperar o equilíbrio sem a ajuda de Raven. Os dedos encontraram não a terra fria, mas um volume quente envolto em algodão suave. Se tivesse a intenção de tocar seu membro, não o teria encontrado com tanta facilidade. — Não sabia que estava interessada — ele murmurou com tom rouco e provocante. — Maldita seja sua alma até as profundezas do inferno, não estou! E você é... é...

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— O quê? Podia pensar em uma dúzia de coisas diferentes para acusá-lo, mas, infelizmente, nenhuma das palavras que desfilavam por sua mente eram apropriadas para os lábios de uma dama. E todas eram lisonjeiras. Ou ela as considerava lisonjeiras para um homem como Raven. — Vil! Desprezível! Você é mais baixo que o ventre de uma serpente! Preciso continuar? — Só se quiser tirar essas roupas molhadas. — É o que vou fazer. Mas, como disse antes, você nada verá. Furiosa, ela se dirigiu ao canto mais seco da choupana e, arrastando o alforje, deixou-o no chão para despir as roupas molhadas, trocando-as imediatamente por outras secas. Não podia substituir as meias masculinas que usava para cavalgar, porque só possuía um par, e também não conseguia encontrar a comida. Deixara os alimentos em outra bolsa que envolvera no manto. Devia tê-la perdido quando Daffyd rolara encosta abaixo. Agora não tinha nada para comer, mas preferia passar fome a pedir alguma coisa ao detestável lorde de Stonelee. Não havia nada a fazer além de dormir. Bufando de raiva e fazendo muito barulho, ela estendeu o manto no chão e se deitou sobre ele. Algumas partes estavam secas porque, enrolado, ele não havia sido inteiramente exposto à chuva. Mas era difícil alinhar o corpo todo com uma área seca do manto. Além do mais, não tinha nada com que se cobrir, e fazia um frio intenso. Roxanne se encolheu no que agora considerava sua metade da choupana, encolhida e tremendo. O estômago roncava, mas os pensamentos não estavam voltados para comida. Só conseguia pensar no homem que descansava do outro lado do modesto cômodo. O homem cruel e desconfiado que a acusava de ter tentado matar seu irmão e a ameaçara de morte, caso não desaparecesse. O homem que saltara de uma árvore e a surpreendera. O homem que quase a matara amarrando suas mãos e colocando-a sobre um cavalo que escorregou numa trilha lamacenta e íngreme. Um homem que se despira e se exibira diante dela como se ela fosse uma meretriz qualquer, não uma dama. O inglês que desprezava Cymry. O homem que... ...que tinha algo de especial. Algo totalmente diferente de sua habitual pompa e de seu desdém furioso. Não tinha uma palavra para descrever essa sensação, essa impressão, mas era algo que a atraía. Raven tinha algum segredo, um encanto sensual, uma força que era como um ímã a atraí-la. Era como se, sutilmente, ele tentasse enfeitiçá-la, trazê-la para perto, aproximar-se o suficiente para... para... O quê? Roxanne estremeceu. Raven de Stonelee era sombrio. Sua natureza era misteriosa. Mas, de alguma forma, não havia nada de negativo ou maldoso nisso. Era... sedutor.

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— Pegue... A voz dele a assustou. Intrigada, Roxanne se virou para fitar a silhueta escura que se debruçava ao lado de seu manto no chão. — O que é? — Um figo. Tenho mais. E pão e queijo, também. E um cantil com vinho, se tiver sede. — Não tenho sede, obrigada. — Apoiada sobre um cotovelo, Roxanne considerou a oferta de comida. — Não vai comer? — Não estou com muita fome. Ela ainda não havia concluído a frase quando ouviu o estômago roncar. Alto. Sabia que Raven também ouvira. Ele riu. — Coma. Garanto que está segurando um figo seco, não um verme gordo que esmaguei com minha bota. E não está envenenado. Coma. Desconfiada, Roxanne levou a fruta aos lábios e provou-a com a ponta da língua. Mais segura por constatar que ele dissera a verdade, ela enfiou o figo inteiro na boca e o devorou rapidamente. Raven ofereceu mais figos. Depois foi buscar pão e queijo. — Tem certeza de que não quer vinho? Ela adoraria, mas não podia correr o risco de se deixar embriagar. — Não, obrigada. E sou grata também pela comida. — Vá mais para lá. — O que disse? — Não seja tola, Roxanne. Estava com fome, e eu lhe dei alimento. Ainda está com frio. Posso ouvir seus dentes batendo. Deite-se mais para lá, e dividiremos seu manto e o meu. — Não! — Por Deus, mulher! Não sinto nenhum desejo por você, e não teria sentido mesmo que o rei não a houvesse prometido a meu irmão. Agora, deite-se mais para lá e vamos nos aquecer! Roxanne refletiu por um segundo antes de encolher-se na beirada do manto estendido no chão. Raven deitou-se a seu lado e estendeu o manto sobre seus corpos gelados. Ele não a desejava. Roxanne não conseguia pensar em mais nada. Desejava-o ardentemente, apesar do temperamento azedo, mas não admitiria esse desejo nem

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sob tortura. Sempre teve certeza do desejo de outros homens por ela, e agora não era boa o bastante para despertar seu interesse! O canalha arrogante! Raven já respirava profundamente quando, exausta, Roxanne conseguiu adormecer. Horas mais tarde, ela acordou, e ele ainda dormia. Só uma coisa mudara. Enquanto dormiam, ela e o maldito lorde inglês haviam mudado de posição. Ele mantinha um braço sobre seu corpo, na altura da cintura, e ela apoiara uma das mãos no ombro de Raven. Pior, as túnicas se haviam erguido, expondo parte do corpo de ambos sob o manto. A masculinidade de Raven descansava bem perto da junção de suas coxas, como se esperasse o momento mais apropriado para obter acesso a outras partes mais íntimas e resguardadas de seu corpo. Mortificada, Roxanne sufocou um grito. Tentou afastar-se sem despertá-lo, mas o movimento de seu corpo provocou uma reação no dele. Uma ereção! Paralisada, ela notou que a chuva cessara. O céu se abrira e agora o luar se derramava sobre a terra, penetrando pela janela da choupana. À luz da lua, ela constatou que Raven de Stonelee não parecia tão assustador quando dormia. Os cabelos em desalinho e a barba por fazer conferiam ao rosto relaxado um ar mais primitivo e selvagem, diferente do que vira naquele primeiro encontro. Mais uma vez, mesmo sem querer, ele a atraía. Era difícil resistir à tentação de tocar seu rosto, acariciá-lo. De repente, ela começou a analisar as mudanças que até então só registrara de maneira inconsciente. A chuva cessara. Havia luar. Então, a noite era mais do que adequada para retomar a cavalgada. Podia buscar refúgio em Penllyn. Com cuidado, ela se esgueirou para fora da área delimitada pelo manto e encontrou seus sapatos. Não ousava levar mais do que a sela e os arreios de Daffyd. Mesmo assim, foi com grande temor que saiu da choupana na ponta dos pés e preparou a montaria. Quando conduziu o cavalo para a área de arbustos atrás da cabana e de lá para uma trilha secundária, ela ainda não tivera nenhum sinal de que Raven tivesse acordado. Estava livre. E não pretendia perder a liberdade. Nunca mais. Não para Raven de Stonelee, certamente, que a ameaçara de morte e, pior, que não a considerava uma mulher atraente! Pamela subiu a escada do castelo de Fortengall, ansiosa para dar a notícia a Peter. Lucinda há pouco confidenciara que não via nenhum mal se, ao final daquela semana, o filho começasse a se movimentar um pouco. Porém, quando alcançou o quarto, ela notou que a porta estava encostada e ouviu vozes familiares do outro lado. Uma delas era do próprio Peter. A outra pertencia a uma mulher que Pamela conhecia bem. O lorde e a criada conversavam animadamente. E riam muito.

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A raiva desabrochou em seu peito. Bess preparava mais um de seus truques! Se Roxanne estivesse ali, certamente a agarraria pelos cabelos e jogaria para fora do quarto de Peter. Mas, como Roxy não estava ali, cabia a ela tomar uma atitude. Pamela abriu a porta e parou na soleira. Diante de seus olhos, a dupla parecia paralisada numa atitude que só inflamava sua ira. Bess ameaçou se levantar, mas ainda estava meio ajoelhada ao lado da cama; apenas um de seus pés estava apoiado no chão. Com as saias erguidas, ela expunha um joelho que apoiava na cama. Debruçada sobre o enfermo, ela roçava os seios no rosto de Peter enquanto segurava alguma coisa entre as pernas dele. O abdôme plano e as pernas musculosas de Peter estavam expostos, porque sua túnica fora erguida até o meio do peito. A visão dos membros desnudos teriam sido suficientes para chocar Pamela, mas o restante da cena quase a fez desfalecer. Ele segurava o próprio membro, apontando-o para a vasilha de duas alças que Bess segurava. — Pamela! — Peter exclamou, interrompendo repentinamente o jato de urina. Enquanto isso, Bess se mantinha na mesma posição, segurando a vasilha e olhando para a intrusa. — O que está fazendo? — Pamela indagou indignada, avançando contra a criada. — Estou ajudando milorde a urinar. — Ele não quebrou os braços! — Pamela tirou o recipiente das mãos dela e o colocou sobre o baú aos pés da cama, usando força desnecessária. — Pode muito bem urinar sozinho! — Mas... — Mas coisa nenhuma! Se lorde Peter precisa se aliviar e seu pajem não está por perto para ajudá-lo, você deve dar a ele o recipiente e fechar as cortinas da cama para assegurar sua privacidade. Não tem noção de propriedade? Não tem vergonha? Bess finalmente se levantou e começou a caminhar para a porta. — Não tive a intenção de criar problemas, milady. Não creio que tenha sido errado o que fiz. Não é como se nunca houvesse visto um membro masculino antes. Especialmente de lorde Pe... — Chega! — ele interferiu. Bess o fitou espantada. — Mas, milorde, eu... — Saia — ordenou Pamela, caminhando para a porta com ar determinando, obrigando a criada a recuar. — Pamela.

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Ignorando o chamado de Peter, ela continuou andando até sair do quarto atrás da criada. Do lado de fora, Pamela agarrou Bess pela manga da túnica e praticamente a arrastou escada abaixo. Ela só a soltou quando alcançaram a galeria no andar de baixo, para empurrá-la para um cômodo menor e desocupado. — Não vou mais admitir! — Pamela começou furiosa. Bess tinha a testa franzida. — O quê? — Suas... intimidades com lorde Peter. São inaceitáveis, e não vou tolerá-las. — Ele não pode se levantar da cama e precisava urinar. O que esperava que eu fizesse? — Já disse o que devia ter feito. É esse o seu problema, Bess? É surda? Ou não entende as palavras que ouve? — Não entendo sua preocupação, lady Pamela. Não fiz nada. Além do mais, conheço lorde Peter e os irmãos dele há muitos anos. São todos como irmãos para mim. — Não minta! Você nunca se deitou com seu irmão, mas sei que dorme com meu futuro marido! Vi vocês juntos na noite em que retornou ao castelo. Ele a abraçou, beijou e... tocou-a com intimidade. Bess corou. E, antes que ela pudesse protestar ou justificar a intimidade, Pamela aproximou-se ainda mais e baixou a voz para um sussurro. — Dessa vez lorde Raven está afastado, mas saiba, Bess, que não vou mais tolerar essa sua relação com meu futuro marido. Nem mesmo antes do casamento. Se esse é seu plano, é melhor desistir dele. Quanto a lorde Peter, ele é noivo de minha prima. Pode pensar que o caminho está livre, porque ele ainda não se casou e minha prima se ausentou do castelo, mas está enganada. Eu estou aqui, e farei tudo para proteger os interesses de Roxanne. — Milady, não precisa se preocupar — Bess respondeu sustentando o olhar de Pamela. — Não me relaciono com lorde Peter há anos, desde que me casei. O que disse sobre lorde Raven e eu... Bem, é verdade, houve uma reaproximação desde que voltei da casa de meu pai, onde cuidava de sua saúde, mas foi só isso. Não vejo lorde de Stonelee desde aquela noite em que lorde Peter sofreu o acidente. Além do mais, assim que soube que estava noivo, decidi não mais me deitar com ele. Antes ou depois do casamento, não importa. E o mesmo vale para lorde Peter. Não precisa me ameaçar, lady Pamela. Lady Lucinda me esfolaria viva, se soubesse que me deitei com um de seus filhos agora, quando ambos estão noivos. Amo muito a senhora deste castelo. Jamais faria qualquer coisa que pudesse aborrecê-la. Pamela estudou a criada por um instante. Depois olhou para a porta.

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— Saia. Se lorde Peter precisar de assistência de natureza intima, chame alguém para ajudá-lo. Se o pajem não estiver por perto, pode me chamar. Tenho o dever de ampará-lo na ausência de minha prima. — Sim, milady. — Bess fez uma reverência respeitosa e saiu do aposento na galeria. Ela nem viu Lucinda parada no alto da escada, porque terminou de descê-la para o salão e, de lá, para a cozinha. A esposa do conde não tivera a intenção de ouvir a conversa entre as duas jovens, mas havia sido inevitável. Pamela tinha razão em colocar Bess em seu devido lugar, se tivera motivos justos para crer que a criada tomara liberdades com um de seus senhores. Ela e seus gêmeos mais velhos eram próximos há anos, desde que se conheceram ainda meninos, e os jogos que faziam não eram exatamente infantis. Se continuavam se divertindo com esse tipo de entretenimento, Pamela estava correta ao decretar o fim das intimidades. Porém, era impossível não questionar a preocupação de Pamela de Angleford com o comportamento de Peter. Sentia que a fúria da donzela não era causada apenas por estar defendendo os interesses da prima. Com um suspiro apreensivo, ela se virou e voltou ao quarto antes que Pamela surgisse na galeria e a visse ali parada. Seria ótimo poder compartilhar suas dúvidas com o marido, mas Ian saíra com os filhos menores para ir visitar um amigo, Neville de Kurth. Era tudo muito confuso. Raven estava em Gales perseguindo a noiva de Peter, que ele dizia desprezar, mas que, ela, como sua mãe, sabia ser diferente. Peter estava acamado e tinha por principal companhia a noiva de Raven, e Pamela tomava para si a responsabilidade de cuidar de Peter, embora não fosse seu dever cercá-lo de cuidados. Os fios da tapeçaria que o rei havia tecido tão apressadamente e sem cuidados começavam a se desfazer. Peter baixara a túnica e cobrira o corpo com um cobertor. A entrada repentina de Pamela e a maneira como ela o surpreendera, nu na companhia de Bess, o deixara profundamente envergonhado, mesmo tendo sido uma necessidade fisiológica a razão da cena. Sentia-se como se a jovem lady de Angleford o houvesse surpreendido na cama com a criada. Era tolice. Urinar era uma coisa tão natural. E como poderia atender aos chamados da natureza, se estava preso à cama? Precisava de ajuda! E por que Bess não podia ajudá-lo? Já conheciam tudo que havia para ver um no outro, e muitas vezes! E nessas ocasiões haviam mesmo trocado intimidades. Porém, agora, desnudar-se diante dela para aliviar uma necessidade física, não tinha nenhuma conotação sexual. Mesmo que a própria Bess houvesse segurado seu membro, nada teria mudado. Nas condições em que se encontrava, nada o teria despertado. Quem melhor para servi-lo do que uma criada de confiança, uma velha e boa amiga? O que Pamela esperava que ele fizesse? Ela estaria disposta a deitar os olhos

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virginais em suas partes íntimas para ampará-lo? Teria a ousadia de lavar seu corpo, tocá-lo e ajudá-lo a atender a certos chamados da natureza? Peter não precisava levantar a coberta para saber o que estava acontecendo. Podia sentir a reação física. E quanto mais tentava banir da mente a imagem de Pamela segurando seu membro, mais clara era a visão. E mais intensa era a ereção. Por que pensava em Pamela? Lady de Angleford não era sua noiva. Ela pertencia a Raven! Seria sua cunhada, na verdade, ela já agia como a irmã que nunca tivera. Sentava-se a seu lado quando estava entediado, tentava distraí-lo com jogos quando estava aborrecido... Conversavam muito, por horas a fio, trocando histórias sobre a infância, falando sobre sonhos e crenças. Ela o questionava sobre Raven, sobre o caráter e os hábitos de seu irmão, e ele também buscava informações sobre Roxanne. Pamela era uma boa companhia. Jovem, solene, inocente e recatada, sim, mas divertida, também. E sentia falta dela quando não estavam juntos. Outra companhia não o satisfazia. William, o pajem, era ignorante e tolo demais para diverti-lo. Os irmãos menores eram ruidosos e inquietos, tanto que temia que caíssem sobre sua perna e prolongassem o período de imobilidade. Sua mãe... Oh, morreria por lady Lucinda, mas ela se tornava uma verdadeira tirana quando alguém da família adoecia. Mas Pamela de Angleford... Ela tinha o toque perfeito. Mimava-o quando julgava justo e censurava-o quando devia. Era inteligente e espirituosa, e sabia rir na hora certa. E era linda. No geral, Pamela era a perfeita... Irmã. E lá estava ela parada na porta do quarto, sem saber como agir. — Milorde... — Não precisa ser tão formal. Logo seremos parentes e... Bem, já viu em mim mais do que deveria ter visto. Acho que isso nos coloca em situação de igualdade. — Muito bem. Nesse caso, Peter, posso entrar? — Mas o que é isso, agora? Desistiu de se divertir invadindo os aposentos de outras pessoas sem se afazer anunciar? — Eu sei que errei. Não tinha o direito de entrar aqui como entrei. Por isso voltei. Para me desculpar. — Esqueça. — Não me perdoa, então? — Você não fez nada que deva ser desculpado. — Invadi seus aposentos, censurei sua criada... Bess realmente se comportou de forma inconveniente e imprópria, mas não cabia a mim reprimi-la.

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— Eu não devia ter pedido a ajuda de Bess para aquela... tarefa em particular. Devia ter mandado chamar William, ou devia ter exigido privacidade, no mínimo. Sei que viu uma cena grotesca que pode ter parecido... Pamela corou e baixou os olhos. — Por favor — Peter pediu. — Sente-se aqui perto de mim. Deve haver um banco em algum lugar. Pamela fechou a porta e aproximou-se da cama, mas preferiu permanecer em pé. — Não importa o que parecia. Não era da minha conta — ela insistiu. — Se Roxy deseja certificar-se de que o noivo não vai ser seduzido por uma das criadas do castelo, ela deve ficar por perto e interferir quando for necessário. — Seduzir-me? — Bem, talvez seduzir seja um termo forte demais — ela concedeu. — Mesmo assim, não sou eu quem deve se ocupar disso, mas minha prima. — É verdade. Mas Roxanne partiu, e Raven também se ausentou. E pensei que fôssemos amigos... — É claro que somos amigos! Conheço-o melhor do que conheço seu irmão, e vou me casar com ele. Talvez por isso tenha reagido tão intensamente quando vi Bess tocando... tocando... — Incapaz de concluir a frase, ela baixou os olhos e se calou. — Qualquer dama de respeito teria ficado perturbada ao se deparar com aquela cena. Na verdade, considero-me um felizardo por ter sido você, não minha mãe. Pamela sorriu. — Sim, suponho que tenha sido sorte sua, mesmo. Depois do que viu neste mesmo quarto há algumas noites, quando nos surpreendeu juntos, ela o julgaria um caso perdido! De qualquer maneira, mesmo sendo sua amiga e noiva de seu irmão, se eu decidisse flertar com um dos cavaleiros de Fortengall, sei que não me questionaria nem desafiaria o cavaleiro para defender minha honra. — Não? — Não. Eu jamais faria tal coisa, mas, se fizesse, seria um assunto só meu. De seu irmão, talvez. Mas não seu. Peter franziu a testa. Uma dama que se envolvia com um homem sempre interessava a mais alguém... O pai, o tutor, o marido. Como Pamela podia pensar diferente? Ele respirou fundo. — Em defesa de Bess, devo esclarecer que nos conhecemos há muito tempo. Ela já me viu nu em outras ocasiões. Por isso não pensei que poderia parecer Projeto Revisoras

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imprópria pedir sua ajuda naquele momento. Felizmente, você apontou o erro em nosso julgamento. — Não está zangado comigo, então? — Com você? É claro que não. — Bem... — Pamela sorriu aliviada. — Acho melhor me retirar e deixá-lo repousar. — Ela se virou, mas, antes de dar o primeiro passo, exclamou: — Oh! — O que é? Pamela olhou novamente para Peter. — Esqueci de dizer por que vim antes. Tenho notícias. Boas notícias. Sua mãe disse que em dois dias você poderá deixar a cama com o auxílio de muletas. Não vai poder descer para ir ao salão, é evidente, mas poderá cuidar sozinho de suas necessidades físicas. — Ah, é uma alegria saber disso. Aborreço-me por ficar tão feliz nessas circunstâncias, quando uma bela dama me traz essa notícia. — Pense na situação da seguinte maneira: Bess não vai mais poder tentá-lo oferecendo ajuda nesses momentos de... constrangimento. Poupado dessa tentação, não será tão difícil manter-se fiel à sua prometida. Peter não respondeu. Pamela já se retirava, e não havia muito que dizer. Estava pensativo. Roxanne de Bittenshire está longe, Deus sabe onde, provavelmente com meu irmão. Como ela me deixou, não creio que ousaria exigir explicações para o meu comportamento. Duvido que se importe com o que faço, ou com quem faço. E Pamela não se importa, também. Ela mesma disse. Mas não acreditava na declaração de desinteresse da jovem dama. E sentia-se mais do que satisfeito por saber que a donzela de Angleford se incomodava por suspeitar de possíveis intimidades entre ele e outra mulher, mesmo que fosse só uma criada. Mas algo o incomodava. Interrompido pela invasão de Pamela, não terminara de esvaziar a bexiga, e agora ela o informava de que a necessidade era premente. — William! — Peter gritou, esperando que o rapaz irresponsável estivesse em seu posto no corredor. Pamela havia fechado a porta ao sair. Não podia vê-lo. — William, preciso de você aqui! Agora! O pajem não respondeu ao chamado, e Peter respirou fundo. Os travesseiros não estavam bem arrumados. A perna doía. Experimentava um total desconforto e uma profunda irritação. Olhando para a mesa de cabeceira, ele viu o frasco de poção ao lado da colher de madeira. O medicamento deixara de ser usado há dias, desde que a dor no osso fraturado cessara. Erguendo o corpo sobre um cotovelo, ele tentou alcançar o recipiente de argila. Os dedos apenas roçavam o rótulo. Era inútil se esforçar. Projeto Revisoras

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— William! Maldição, menino, quero que venha me atender agora! Imediatamente! Onde ele poderia estar? Na cozinha, comendo? Brincando no estábulo? Ou em algum recanto discreto, fazendo o que ele mesmo devia estar fazendo? Segurando o próprio membro e urinando em pé, como cabia a um homem de verdade? — William! — Dessa vez o grito soou estridente, furioso. A porta do quarto finalmente se abriu, e o menino entrou correndo, ofegante. — Milorde? — ele olhava assustado para seu senhor. — Preciso de uma vasilha para urinar, preciso daquela maldita garrafa sobre a mesa, preciso... Ele parou, percebendo que ia anunciar uma necessidade à qual não tinha nenhum direito. Ia dizer que precisava de Pamela.

Capítulo IX

— Como estão Neville e Beatrice? — Peter perguntou ao padrasto, referindose a lorde e lady de Kurth, o casal que Ian visitara recentemente. — Bem. No entanto, os filhos de sua filha parecem estar adoecendo de alguma enfermidade, razão pela qual Beatrice aconselhou-me a voltar para Fortengall com os meninos. Abreviamos nossa visita. — Minha mãe deve estar feliz com esse retorno prematuro. Ela nunca fica à vontade quando se ausenta, milorde. — Sim, eu sei. — Ian apoiou os cotovelos sobre os joelhos, inclinando o corpo para a frente a fim de se acomodar melhor no banco em que estava sentado. — Lucinda sempre presume que estar longe de Fortengall é estar exposto ao perigo. Ela se recusa a entender que deixei de ser um cavaleiro mercenário quando nos casamos. Também não considera que a Inglaterra vive em paz desde que o Henry substituiu o rei Stephen no trono. Não. Ela acredita que ultrapasso as muralhas da baronia para ir engajar minha espada em uma luta de uma ou outra natureza, simplesmente por entretenimento. A mulher se nega a me ver como o velho que sou. — Ele sorriu. — Crê que ainda tenho em mim a paixão pelo combate, como se algum dia houvesse sentido tal coisa.

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— Ela o ama como jamais amou outro, e preocupa-se com seu bem-estar Alegre-se, milorde, por minha mãe ainda o ver como um homem viril e belo, embora se sinta diferente. Sei que ela o verá dessa mesma maneira, até o dia de sua morte. Ian assentiu, e os dois ficaram em silêncio. — Sabe de alguma jovem donzela que o considere belo e viril? — o conde perguntou ao enteado com tom hesitante. — Alguma mulher que o ame o bastante para vê-lo dessa maneira até estar velho e alquebrado? — Duvido, Ian. Se essa mulher existe, ela ainda não se declarou. — E Pamela? — Pamela? — Peter encarou o padrasto com o cenho franzido. — Sim. Desde que Raven deixou o castelo para ir buscar a prima dela, Pamela tem passado muito tempo em sua companhia. O que pensa dela? — Bem, ela é muito... agradável. — Só isso? — Sim. E, é claro, ela é atraente, também. E é uma companhia encantadora. Creio que será uma excelente esposa para Raven. — Então é isso que pensa! — Ian sorriu. — Disse isso a sua mãe. Você e Pamela têm se dado tão bem, que é impossível ela não se dar bem com Raven, também. — Minha mãe está preocupada? — Não exatamente. Quero dizer, não mais do que costuma se preocupar com seus filhos. — Por quê? — Por quê? Peter, acredito que Lucinda notou o tempo considerável que você e Pamela passam juntos. Ela tem se perguntado se, talvez, isso não seja prejudicial a um, a outro... ou aos dois. Afinal, você está noivo de Roxanne, e Pamela foi prometida a Raven. — Não é bom para nós? — Peter estava sério. — Como pode ser ruim a presença de Pamela a meu lado, e justamente quando estou preso a esta cama, sem nada para fazer senão ver o tempo passar lentamente? É claro que é bom para mim! Garanto que é! — Não se agite tanto, rapaz — o conde pediu apreensivo. Mas Peter já estava agitado. E aborrecido. Não gostava de falar sobre Pamela, e o fato de Ian o estar questionando sobre a jovem donzela era extremamente peculiar. Certamente, sua mãe enviara o marido nessa missão depois de tê-lo surpreendido a sós com Pamela em seu quarto.

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Havia sido tudo tão inocente! Vira o arranhão na perna da jovem e se preocupara em examiná-lo. Por que a mãe tinha de criar confusão por tão pouco? — O que sente por Roxanne? — O que acha que devo sentir? — Peter devolveu irritado. — Não sei — Ian admitiu encolhendo os ombros. — Seria compreensível se estivesse zangado com ela por ter fugido. — Se fosse verdade que ela fugiu simplesmente por não suportar a idéia de se casar comigo, suponho que estaria zangado. Mas não duvido de que meu irmão, Raven, tenha mais do que uma pequena participação nisso tudo. E não posso culpála se ele for realmente o responsável pela fuga da donzela de Bittenshire. — E Raven? Por acaso o culpa? Suspirando ruidosamente, Peter lamentou não estar em pé e diante do irmão, porque assim poderia demonstrar fisicamente toda a revolta que o inundava. Precisava de uma expressão brutal e explosiva para tanta frustração, e Raven e sua maldita língua comprida precisavam de ajuda para se manterem em seus devidos lugares. Alguém tinha de meter bom senso naquela cabeça-dura! — Sim, eu o responsabilizo pelo que está acontecendo comigo. Já é lamentável estar acamado, mas, além disso, por causa dele, minha noiva desapareceu. E ele também sumiu, porque partiu para ir atrás dela! Entretanto, reconheço que as atitudes de Raven, sejam elas quais forem, originam-se sempre de preocupações fraternais. Sendo assim, não posso culpá-lo por seus atos. — E bom ouvir isso. — Ian levantou-se. — Sua mãe e eu odiaríamos ver um desentendimento entre vocês dois. Compreendemos que a ordem real alterou repentinamente sua vida e a de seu irmão, mas não é como se o rei os houvesse atado a duas mulheres horríveis e miseráveis. Henry parece ter se esforçado para favorecêlos com essa situação. Aposto que, em um ano, estarão lembrando esse momento com humor. Peter fez uma careta. — Acredita mesmo nisso? — Sim. — Ian já se encaminhava para a porta. — Tenho certeza de que será tão feliz com Roxanne, quanto sente que Raven será com Pamela. Agora vou deixar você repousar. Quer que eu mande William para ajudá-lo em alguma coisa? — Está dizendo que o moleque infernal está aí fora, no corredor? O conde olhou para fora e encarou novamente o enteado com um sorriso divertido. — Sim, ele está em seu lugar. Precisa dele? — Não. Francamente, prefiro ficar sozinho, milorde.

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Era mentira. Preferia estar sozinho com Pamela. Como um raio de sol, ela abrilhantava seus dias cinzentos. Como poderia continuar ali deitado, esperando ocioso e impotente que Raven retornasse com Roxanne para, juntos, resolverem tudo e se casarem, se não tivesse a doce lady Pamela e suas histórias para distraí-lo? Não podia, Peter decidiu. E nem tentaria. — Ian, o que disse Peter? Lucinda o esperava na porta do quarto. Ao vê-lo, segurou-o pelas mangas da túnica e fez a pergunta. — Muito pouco. O suficiente para contentá-la, minha querida. — O conde levou a mulher para o interior do aposento. — O que perguntou a ele? E como ele respondeu? — Peter tem uma opinião muito favorável sobre Pamela acredita que ela será uma ótima esposa para Raven. Ele está aborrecido com as últimas atitudes de irmão, mas não guarda ressentimento. Quanto a Roxanne, ele não a culpa por ter fugido, pois sabe que Raven fez alguma coisa para instigar essa fuga. Ian sentou-se em sua poltrona favorita, tirou os sapatos e jogou-os para o lado. Depois se reclinou, estendeu as pernas e movimentou os dedos dos pés. — Só isso? — Lucinda insistiu. — Tanto tempo de conversa, e ele não disse mais nada? — O que mais poderia ter dito? — Não sei. Você passou um bom tempo no quarto de Peter. Ele deve ter falado mais coisas. — Bem, falamos sobre minha visita à Fortaleza Kurth, sobre você... — Sobre mim? — Sobre seu amor por mim, se quer mesmo saber. Sobre como ainda me deseja... — Ian, esse assunto é muito sério! — Não tem com que se preocupar, Lucinda. Sim, é verdade que o pronunciamento do rei e essas duas donzelas galesas mudaram repentinamente a vida de seus filhos, mas para melhor, na minha opinião. Peter também acredita nisso, ou disse acreditar. Por que não aceita as coisas como são? — Porque Roxanne fugiu! E Raven foi atrás dela! — Peter não poderia ter ido, minha querida. Está preso à cama com uma perna quebrada, lembra? Além do mais, eles devem estar voltando. E quando voltarem, se casarão como determinou nosso rei. — Não acha que é perigoso todo esse tempo que Pamela passa com Peter?

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— Não — Ian respondeu sorrindo. — Peter aprecia a companhia da jovem dama. O pobre coitado deve estar aborrecido, e estaria ainda mais entediado se não tivesse Pamela para entretê-lo. — Mas, Ian... Eu o surpreendi tocando a perna dela! E Pamela tinha as saias levantadas e... — Você mesma disse que ele apenas examinava um ferimento na perna de Pamela. De que outra maneira ele poderia examinar a área, se ela não erguesse as saias? — Você não entende... — Não, minha querida, é você que não entende. Peter e Pamela são amigos. Melhor serem aliados do que adversários, como Raven e Roxanne. Agora, esqueça isso. — Muito bem. — E não faça essa cara de zangada. Pediu minha opinião, não foi? Agora me acusa por ter falado o que penso? Se não queria saber o que Peter sente, por que me mandou ir falar com ele? — Não estou zangada. Nem o acuso de nada. Ah, está bem... Se insiste em dizer que é só isso, aceito o relacionamento de Peter e Pamela como uma simples amizade. Mas você mencionou Raven e Roxanne. Os dois estão fora há dias! Não imaginei que demorassem tanto a retornar. — Essa jovem dama é esperta e muito determinada. Deve ter dificultado a tarefa de Raven. Mas é praticamente certo que ele já a encontrou, minha querida. — Sim, eu sei... Mas não consigo nem imaginar o que pode ter acontecido depois disso. Raven e Roxanne têm temperamentos voláteis, Ian. Temo que... — Não vai haver nenhum problema, Lucinda. Na pior das hipóteses, Raven a trará de volta ao castelo de Fortengall amarrada ao cavalo, como se fosse uma prisioneira de batalha. E ela deve estar furiosa, se é assim que tudo está acontecendo. Mas, no final, tudo vai acabar bem para todos. — Como? — Ela vai ficar tão feliz por se ver livre de Raven, que tomará Peter por seu marido sem reclamar ou protestar. — Rezo para que esteja certo, Ian. Espero que nada mais aconteça para adiar as núpcias. — Não vai acontecer nada. Eu sou o conde aqui. E determino que seja assim. Pamela sentou-se em um banco em seus aposentos, vestida para dormir, desfazendo as longas trancas com movimentos lentos e cuidadosos. O couro Projeto Revisoras

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cabeludo cocava, e ela se inclinou para a frente para cocar a cabeça, deliciando-se com a liberdade de poder atender a necessidades tão simples. Sorrindo, ergueu os ombros, jogou os cabelos para trás e suspirou. Deixara a mesa de lorde Ian pouco antes, e estava mais do que satisfeita com a refeição saborosa depois de um dia repleto de atividades. Desde a morte da mãe, nunca mais havia sido convocada para desempenhar tantas tarefas domésticas. Gostava de manter-se ocupada, mas, ainda assim, estava intrigada. O que poderia ter induzido lady Lucinda a pedir sua ajuda, em vez de rejeitá-la como fizera nos dias anteriores? Talvez fosse a preocupação com os três filhos pequenos. Enquanto jantava com lorde Ian e seu senescal, Pamela soubera que lady Lucinda estava cuidando dos meninos, que não se comportavam com a agilidade e o dinamismo habituais. Desde que voltaram para casa com o pai depois de terem ido visitar uma família amiga, os garotos estavam mais quietos e até um pouco desanimados. Pamela sentia falta de Peter. Com exceção da breve visita que fizera ao quarto naquela manhã, antes de Lucinda encontrá-la e sugerir uma dúzia de tarefas nas quais poderia ajudá-la, não voltara a ver seu amigo acamado. Demorara-se à mesa depois do jantar, conversando com lorde Ian e seu senescal, e não tivera tempo para ir desejar uma boa-noite ao amigo. Ele devia estar entediado e triste, sentindo-se negligenciado. Culpada, Pamela pegou uma vela e, num impulso, abriu a porta do quarto. O corredor parecia vazio e estava silencioso. Não fosse pelas tochas presas aos aros nas paredes e pelo aroma das carnes cozidas na cozinha, fragrâncias domésticas que ainda pairavam no ar do castelo e chegavam ao andar de cima, poderia pensar que o lugar estava deserto. Confiante de que não seria notada andando pelo castelo em trajes de dormir, ela caminhou na ponta dos pés para o quarto de Peter. Ele a ouviu chegando. Odiava admitir, mas passara o dia todo atento aos ruídos no corredor. Os passos eram silenciosos, mas ele ouvira os pés descalços sobre as pedras antes mesmo de escutar a voz melodiosa na porta. — Peter? Ainda está acordado? Podia ficar quieto e fingir que dormia, e seria um castigo merecido por ela o ter mantido sozinho o dia todo. Mas não resistia à oportunidade de vê-la. — Sim — respondeu. A porta se abriu e ela surgiu na soleira segurando uma vela. — Incomodo? — Não. Ela se aproximou da cama, e Peter a espiou por uma estreita abertura entre as cortinas que o cercavam. Sentia seu cheiro. Pamela era como um anjo com seus longos cabelos soltos e aquelas mangas largas cobrindo metade de suas mãos. A faixa

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do robe em torno da cintura enfatizava a silhueta delicada, mas, fino e leve, o tecido aderia ao corpo e realçava o colo empertigado. Peter fechou os olhos e sufocou um gemido. — O que foi? Está doente? — Não. Estou bem, obrigado. Na verdade, nada me faria mais feliz nesse momento do que sair para uma longa e revigorante cavalgada. — Está falando de um jeito estranho... Pamela parou pouco antes de tropeçar no pajem, que dormia em uma esteira ao lado da cama. — Deixe-o — Peter sugeriu. — Ele não vai acordar. — Mas estamos falando... — Nada pode penetrar as orelhas sujas desse menino. William tem um sono tão pesado, que nem uma trombeta o acordaria agora. Pamela saltou por cima do rapaz e deixou a vela sobre a mesa. — Está zangado comigo, não é? — Não. — Nesse momento, os sentimentos de lorde de Stoneweather por Pamela de Angleford eram muitos e variados. E nenhum deles estava remotamente ligado à raiva. — Sim, está zangado. E tem todo o direito de estar — ela insistiu, afastando as cortinas e passando por elas para se sentar sobre a cama. — Desde que Roxy e Raven deixaram o castelo e você foi confinado à cama por esse ferimento, venho lhe fazer companhia sempre que posso. Mas hoje não estive com você. Sinto muito. — Por que não veio? — Estive ocupada. Peter, sua mãe pediu minha ajuda — ela revelou com um sorriso de puro contentamento. — Tantas vezes implorei a ela para me deixar ajudar em pequenas tarefas rotineiras, e ela sempre recusou minhas ofertas. Mas hoje me procurou, como se já me considerasse sua filha! — Ela fez isso? Pamela assentiu. — Lady Lucinda me fez correr o dia todo de um extremo ao outro do castelo, do solar ao porão e de volta... — E hoje à noite? — Ah, bem, à noite... — Ela baixou a cabeça. — Lorde Ian e mestre Frederick me pediram para sentar à mesa, e fui convidada a permanecer entre eles mesmo depois de terminada a refeição. Com Roxanne longe daqui e sua mãe ocupada com outras coisas, creio que o conde sentiu falta de um pouco de companhia feminina.

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Peter sentiu no ar o cheiro de vinho aquecido. Pamela havia bebido durante o jantar — Minha mãe está interferindo... e conta com a ajuda de Ian! — Interferindo... em quê? De que suspeita, Peter? — Como já expliquei antes, Pamela, o castelo pode funcionar perfeitamente sem sua ajuda e sem minha mãe ter de se ocupar diretamente das tarefas domésticas. Temos aqui muitos criados para cuidar de tudo. Além do mais, minha mãe devia ter estado à mesa fazendo companhia ao marido. Por que não estava? — Temo que seus irmãos menores não estejam muito bem. Ela teve de ausentar-se para cuidar deles. — Ah, sim? — Sentia-se culpado. Se Hugh, James e John estavam enfermos, era justo que a mãe se dedicasse a eles. Sendo assim, a ausência de Pamela podia não ser resultado de um plano ardiloso, afinal. Ela assentiu e sorriu. Peter esqueceu tudo ao ver aquele sorriso. Com as cortinas fechadas em torno da cama, era como se estivessem em uma tenda. Sozinhos em uma tenda, cercados pela noite escura, tendo apenas um fino crescente de lua para dispersar a total escuridão. Os olhos estudavam seu rosto, o pescoço, sua... O robe se abria para revelar uma estreita faixa de pele em seu colo. Peter foi invadido subitamente por um calor intenso e abrasador que se espalhou em todas as direções, atingindo principalmente as regiões mais baixas de seu abdôme. Pamela é como uma irmã! ele dizia a si mesmo, fechando os olhos para resistir à beleza inocente. Minha irmã por casamento. Quase minha cunhada. E já é minha amiga. Só isso. Ela nunca será mais que isso... — Peter, tem certeza de que não está doente? Ele ouviu as palavras de Pamela, mas, mais do que isso, sentiu seu hálito morno e úmido ao lado do rosto, perto da orelha. Abrindo os olhos de repente, deparou com os dela. Dois preciosos âmbares. Dois poços profundos que pareciam atrair e sugar toda a luz do ambiente, adquirindo brilho próprio. De repente ele sentiu uma enorme vontade de beijar-lhe as pálpebras. — Asseguro-lhe que não, milady. Nenhuma enfermidade me aflige além da perna fraturada. Amanhã, quando tiver minhas muletas, pretendo subir e descer as escadas do castelo até me sentir cansado e poder dormir. — Duvido que seja assim. Mas vai poder se movimentar um pouco, isso é certo. — Ela ajeitou com ternura as cobertas sobre o peito de Peter. — Agora, creio que é melhor tentar dormir. Não tinha a intenção de perturbá-lo a essa hora da noite. Só queria explicar minha ausência e dizer boa-noite. Projeto Revisoras

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Ela se virou para afastar as cortinas e sair, mas Peter a segurou pela mão. — Cante para mim — pediu. — Não posso! Minha horrível falta de afinação acordaria William. — Sua voz é bela. E me acalma. Por favor, cante até eu adormecer. Se está mesmo preocupada com a possibilidade de acordar esse pajem imprestável, deite-se a meu lado e cante em meu ouvido. Ela hesitou por um momento. Depois, movendo a cabeça em sentido afirmativo, concordou. — Muito bem — murmurou, encolhendo-se ao lado dele com todo o cuidado, temendo bater na perna machucada. Depois de respirar fundo, Pamela começou a cantar em galês. Peter nada entendia, mas teria ouvido a voz melodiosa a noite toda, se pudesse. Mas não foi possível, embora permanecesse acordado. Em poucos minutos, Pamela adormeceu a seu lado, e ele pode contemplar com liberdade o contorno delicado de seu rosto encantador. Quando o lorde também pegou no sono, a jovem dama ainda ressonava a seu lado. A casa do príncipe Ballin não era um castelo ou uma fortaleza, mas um hall como os que o rei Henry obrigava seus nobres a construírem nesses tempos. Uma estrutura baixa e larga de pedras e vigas, com cabanas e outros galpões externos a cercá-la. Em outro lugar, o conjunto teria sido cercado por altas muralhas de proteção. Mas Penllyn Hall não precisava dessas barreiras para se manter imune aos inimigos, porque se localizava no alto de uma encosta. Ninguém podia subir a montanha sem ser notado pelas torres de vigia. E os que estavam no interior do hall tinham vantagem sobre os invasores, porque os arqueiros galeses eram os melhores do mundo. Tinham os melhores arcos, os braços mais fortes, a mira mais precisa e as flechas mais afiadas e leves. Por isso conseguiam atirá-las num vôo descendente, em vez de fazê-las subir ao céu para depois caírem. Roxanne sabia que seria esperada. Não porque Hywella assim dissera, mas porque sabia que fora vista pelos homens do primo muito antes de começar a subida da montanha, última etapa de sua jornada. Apesar da pressa de chegar, Roxanne parou ao lado do curso de água que usara como guia até Pennlyn Hall. Sobre o cavalo, ela olhava para o riacho banhado pelo sol que se erguia por trás dos cumes ao leste. A luz dourada aprofundava as frágeis tonalidades de cor que eram refletidas pela água, acentuando o brilho do riacho. Esse lugar, o coração de Pennlyn, podia ser o mais lindo do mundo. Talvez fosse o mais lindo, e só os sentimentos insistiam em colocar Bittenshire em lugar mais

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alto. Mas Roxanne sabia que poderia viver feliz ali para sempre, como esposa de Ballin e mãe de seus filhos. Esse pensamento a fez prosseguir. Quando ela viu os estandartes com seus dragões vermelhos, o mais antigo emblema de Cymry, dançando no alto das torres, seu coração flutuou com a leveza do tecido utilizado para criar esses símbolos. Daffyd obedeceu ao comando de sua senhora e entrou no riacho para seguir viagem, respingando água nas pernas, nas saias e no corpete de Roxanne. Ela sorriu feliz. — Lady Roxanne? — O primeiro guarda montado perguntou no idioma nativo. — Sou eu, Gawain, retornando daquela terra amaldiçoada que chamam Inglaterra! — Lorde Ballin disse que viria. Ele saiu para cuidar de um assunto importante, mas não deve demorar. E me pediu para recebê-la e dar-lhe as boasvindas. Roxanne sentiu o coração saltar dentro do peito. Talvez Hywella fosse mesmo uma bruxa! — Há quanto tempo ele sabe que eu estava a caminho? Gawain encolheu os ombros. — Desde que o vigia a viu e o informou. Ele mesmo subiu à torre para certificar-se, enquanto o cavalariço preparava sua montaria, e depois me procurou com as instruções que já mencionei antes. E saiu para cuidar de alguma questão premente. Roxanne ignorou a decepção que ameaçava dominá-la. — Estou muito feliz por estar em casa! — Em casa? — Em Cymry, Gawain! Toda essa terra é meu lar, não apenas Bittenshire. Estavam se aproximando da entrada frontal, e ela desmontou e entregou as rédeas de Daffyd a um criado. — Melwyd está em casa? — Ao ver Gawain assentir, ela correu ao encontro da prima, irmã de Ballin. — Roxy! É você! — Melwyd beijou-lhe as faces e tomou as mãos dela entre as suas. — Ouvi rumores de que havia sido vista cavalgando para Penllyn Hall. Cheguei a duvidar dos olhos do sentinela. Por que não está na Inglaterra? Não é lá que devia estar?

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Roxanne olhou para Melwyd, cujos cabelos loiros e olhos azuis eram muito parecidos com os de Ballin. — Eu fugi. Escapei. — O quê? Por que fez isso? O que aconteceu? — Prometo contar tudo depois de comer. Melwyd ordenou que criados providenciassem comida e bebida para sua prima, e as duas damas se sentaram à mesa de tábuas. Enquanto se alimentava, Roxanne oferecia à prima um relato resumido sobre tudo que havia ocorrido desde que o rei ordenara que ela e Pamela fossem levadas para a Inglaterra. — Não posso acreditar no que ouço — Melwyd declarou desanimada. — Compreendo por que o rei inglês se sentiu obrigado a encontrar maridos para você e Pamela. Os senhores de Bittenshire e Angleford sempre foram normandos, e sempre estiveram ligados por uma ou outra obrigação ao monarca inglês. O soberano estrangeiro deve cuidar do bem-estar dos súditos órfãos, especialmente das donzelas solteiras. Mas por que ele as uniria a lordes ingleses? Deve haver homens solteiros em Gales, filhos de outros lordes de Guerra, homens de sangue mestiço, herdeiros de terras em Cymry... — O bastardo Angevin reina sobre a maioria do mundo cristão! E ele espera dominar também toda a ilha antes de morrer, e se isso acontecer, Cymry será absorvida pela Inglaterra. Ele não reconhece nossa independência, não sabe que nem todos aqui descendemos de saxões ou normandos. Ignora que a maioria aqui é composta por filhos de celtas com um idioma próprio e costumes muito antigos. Melwyd, não tenho dúvida de que ele decidiu casar Pamela e a mim com aqueles dois irmãos gêmeos para ver-se livre de nós. Ele não nos conhece, não se importa conosco. Não faz diferença para ele se vamos ser felizes ou miseráveis vivendo ao lado desses lordes em solo inglês. — Disse que são gêmeos? — Melwyd perguntou pensativa antes de sugerir. — Beba um pouco mais de vinho. E , acalme-se. Agora você está segura, Roxy. Mas e Pamela? Por que não veio com você? — Porque está resignada com seu destino. Além do mais, se ela se casar com Raven de Stonelee, eles terão de voltar para Angleford de forma que ele possa assumir seu papel de senhor da propriedade. Eu, porém, seria forçada a viver para sempre na fortaleza de Peter, um lugar horrível ao sul da Inglaterra. Stoneweather. — Disse "se" Pamela se casar... Se está resignada, por que ela não se casaria? — Porque Raven me seguiu! O miserável a deixou para vir atrás de mim! Agora, quem sabe o que vai acontecer? — Mas eu pensei... Roxy, estou confusa. Pensei que o noivo escolhido por Henry para você a tivesse seguido até aqui.

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— Não. Peter de Stoneweather sofreu uma fratura na perna ao cair da muralha do castelo. Raven acusou-me de ter empurrado seu irmão, e eu não tive alternativa se não deixar o castelo de Fortengall, a fortaleza dos pais deles. Não poderia ficar depois de tão grave acusação. Então, fugi no meio da noite e voltei para casa. Mas o prometido de Pamela me seguiu. — Por quê? — Não sei por quê! Só sei que ele me seguiu. Não faz sentido para mim, também, mas ele não se mostrou muito inclinado a me dar satisfações de seus atos. — Raven de Stonelee, noivo de Pamela, é o homem com quem você passou a última noite em uma choupana abandonada? — Sim, é ele. — Roxy! — Não vejo por que o choque! A idéia não foi minha. Eu... nós... não tivemos escolha. Chovia muito, era noite, estava escuro e frio... Foi sorte encontrarmos algum abrigo. — Mas... sozinha com um homem que não é seu marido, não é sequer um parente... Ele é velho? É feio? Roxanne nada disse, mas seus pensamentos iam longe. Raven, feio? Velho? Ele estava tão longe desses adjetivos quanto Ballin. No entanto, estava tão longe de Ballin quanto Deus do inferno. — E então? Esse lorde Raven é velho ou feio demais para satisfazer uma mulher, especialmente uma esposa jovem? É tão feio que se torna penoso de olhar, como se pudesse causar tamanho susto a uma mulher que mataria um bebê em seu ventre? Qual é o problema com ele? Roxanne não respondeu, porque nesse momento o príncipe entrou no salão. Sem sequer se dirigir ao grande grupo de criados e parentes ali reunidos, ele se aproximou da mesa onde a irmã e a prima conversavam. — Ballin! — Roxanne levantou-se e se atirou em seus braços. Por um momento ele ficou sem ação, mas, superado o choque inicial, abraçoua sem grande entusiasmo. — Ballin, é uma grande alegria vê-lo! Estou muito feliz por estar aqui! Confesso que cheguei a temer nunca mais vê-lo ou pisar em Cymry! — Pensei que Henry a houvesse casado. — Ballin recuou e a segurou pelos ombros. — Ela se recusou a desposar um lorde inglês — disse Melwyd. — Fugiu. — O quê?

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Roxanne olhou para o rosto do belo príncipe e viu uma expressão endurecida, fria. — É como você ouviu. Mas fui induzida pelo irmão do homem com quem Henry decidiu casar-me. Ele ameaçou minha vida, caso eu ousasse me casar com seu irmão gêmeo. E embora ele tenha sido escolhido para se casar com Pamela, o bastardo me seguiu até Cymry! — Por que ele a seguiria, se a queria longe de sua família? — Ela não sabe — Melwyd interferiu novamente. — Mas passou a última... A jovem não terminou a frase, porque Roxanne a silenciou com um chute no tornozelo. — Lorde Peter, com quem eu deveria me casar, sofreu um acidente. Está impossibilitado de viajar. Suponho que tenha enviado o irmão, Raven, atrás de mim. Raven de Stonelee não teria me seguido por nenhuma outra razão. Ele me odeia tanto quanto eu o odeio. Roxanne injetou todo o entusiasmo de que era capaz na declaração, mas, aos próprios ouvidos, as palavras soavam menos que enfáticas. Ballin não parecia notar a incerteza em sua voz. Com os olhos baixos, ele se mostrava pensativo, preocupado. — O que está acontecendo, Ballin? Pensei que ficaria feliz por me ver voltar ainda solteira. — Onde está Pamela? — ele indagou com tom seco. — Na Inglaterra, em um lugar chamado castelo de Fortengall. Lá residem os pais dos dois irmãos gêmeos com quem Henry deseja nos casar. — Ian de Fortengall é pai de seu noivo? — Ele não é meu noivo. Você... — Ela se calou ao ver nos olhos de Ballin um brilho novo, desconhecido. — Sim, o conde é padrasto de lorde Peter e lorde Raven. — Pelos deuses de misericórdia! — O que é? Por que está tão nervoso? — Não é nada. — Está mentindo. O príncipe ergueu uma sobrancelha numa reação ameaçadora. — Ou então... não está me contando tudo — Roxanne persistiu com tom mais contido, estudando o rosto de Ballin, em busca de algum sinal de alegria causada por sua presença. Mas Ballin mantinha a testa franzida.

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— Por que Pamela permanece na Inglaterra com o noivo e a família dele, em vez de ter vindo com você para Penllyn? — Pamela não quis vir — Melwyd informou ao irmão. — Roxy diz ter aceitado seu destino, apesar desses dois irmãos gêmeos serem ambos velhos e horríveis. — Melwyd! — Roxanne a censurou. — Não podem ser tão velhos — Ballin opinou. — Se são filhos da esposa do conde de Fortengall... Devem estar no auge da juventude. E se Pamela ficou e vai se casar com o lorde que o rei escolheu para ela, os dois virão morar em Angleford. Francamente, Roxy, quanto tempo acha que vai levar até que eles cheguem à fortaleza de Arthur? — Será que nenhum de vocês está ouvindo o que eu digo? Henry decretou que devo me casar com Peter de Stoneweather, que agora está no castelo de Fortengall preso a uma cama com a perna quebrada. Pamela é noiva de Raven de Stonelee, mas ele não está na Inglaterra, planejando o casamento com nossa prima, porque está me perseguindo com a firme intenção de levar-me de volta para a Inglaterra e para o casamento com seu irmão! A ruga desapareceu da testa de Ballin e ele piscou, como se visse Roxanne pela primeira vez. — Isso é bom. O casamento vai ser adiado pelo menos até ele... Lorde Raven, você disse? Até ele voltar. E um homem sozinho... A que distância acredita que ele está de você? — Perto. — Um dia de cavalgada? Dois? — Dois, imagino. Ele está perdido em Cymry e monta um cavalo totalmente impróprio para a região das montanhas. — Poucos cavalos são maiores que o seu, Roxy. — Sim, mas Daffyd nasceu aqui. Conhece a terra. E o cavalo de Raven é muito maior, acredite em mim. — Vamos torcer para que esse animal caia, quebra uma pata e esmague o maldito lorde sob seu corpo — sugeriu Melwyd. — Depois vocês dois podem se casar e... — Fique quieta! — Ballin ordenou impaciente. Ele a encarou por um instante como se quisesse transmitir uma mensagem silenciosa. Depois desviou o olhar, buscando o de Roxanne. — Conversaremos melhor sobre essa sua aventura, mas não agora. Estou muito ocupado. Voltarei para a refeição da noite. Falaremos então. Ballin beijou a testa da prima. Era menos do que ela esperava, mas a jovem escondeu o desapontamento. Projeto Revisoras

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— Melwyd, providencie água quente para o banho de Roxy. Ela está precisando. — Não se incomode. Em Cymry, a água do riacho pode me servir tão bem a qualquer outro habitante. Ballin sorriu. — Essa é minha Roxy — disse. O coração de Roxanne saltou dentro do peito. Ele ainda amava. Raven chegou em Penllyn Hall no meio da tarde. Estava furioso, mais com ele mesmo do que com Roxanne. Como a deixara escapar? Dormira tão profundamente depois de se aquecer ao lado da megera, que só acordara tarde demais, quando o frio deixado por sua ausência o despertara com um arrepio. Não podia saber há quanto tempo ela havia partido. Acordara com os primeiros raios de luz do novo dia e partira apressado, mas não pudera alcançá-la. Não tinha importância. Sabia para onde ela se dirigia. E Thomas de Bittenshire havia traçado um mapa para guiá-lo. Ele também o aconselhara a se aproximar da casa do príncipe Ballin a pé, utilizando uma rota circular. Assim, conseguira subir a montanha pela parte de trás de Penllyn Hall. Ao ver o lugar desprovido de muralhas ou fossos, ele entendeu por que o chefe galês não precisava desse tipo de fortificação. Um homem sozinho e a pé podia, com grande esforço e lentamente, chegar bem perto do topo da montanha e descer pelo outro lado. Mas um exército não poderia. Um exército teria de marchar diretamente até a porta principal de Penllyn, e os guardas, armados com seus arcos letais, impediriam os guerreiros invasores de se aproximarem. O sol, que para surpresa de Raven havia brilhado o dia inteiro, estava quente demais para aquela hora da tarde. Combinado à subida extenuante e ao esforço de muitos dias na estrada, ao peso que carregava desde que desmontara, o calor produzia um efeito desesperador. Estava suado, desconfortável e com muita coceira em todo o corpo. Ao identificar o som de água corrente descendo pela encosta da colina, ele se dirigiu para o riacho. Não havia ninguém por ali. Cauteloso, ele se despiu e cobriu a espada com a camisa, deixando-a na margem do rio. Então, com a adaga presa entre os dentes, ele caminhou para a correnteza. A água gelada causou um choque desagradável, mas, mesmo assim, ele lavou os braços, o peito, as costas e até a cabeça. Sentia-se tão refrescado, que quase esqueceu as circunstâncias que o levaram àquela terra amaldiçoada. Risadas. Vozes. Sons femininos. Raven aguçou os ouvidos como um lobo e olhou em volta, buscando a origem dos sons. Não conseguia ver as mulheres galesas que conversavam naquele idioma

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estranho que jamais entenderia. Mas sabia que estavam perto. Com cuidado, Raven saiu do rio tentando reduzir ao mínimo o barulho que fazia ao caminhar. Imediatamente, ele se vestiu e prendeu a espada na cintura. A brisa devia ter transportado as vozes das mulheres de muito longe, porque havia uma certa distância entre o riacho e o local onde, Raven agora podia ver, elas se encontravam. Eram duas, e uma delas, uma jovem dama, estava sentada na margem. Seus cabelos eram dourados como a luz do sol, e ela se vestia com roupas mais finas do que qualquer camponesa de Gales. Era evidente que era uma dama. Raven suspeitava de que fosse parente do príncipe de Penllyn. Mas a outra mulher cativava sua atenção. Com água até a altura dos joelhos, Roxanne de Bittenshire era como uma aparição. Ela estava nua. Finalmente, Raven tinha uma chance de determinar se sua cintura fina realçava as curvas de seu corpo tentador, ou se ela era realmente mais exuberante que a maioria das donzelas de sua idade. Abaixado entre os arbustos, ele a viu jogar água na outra jovem sentada na margem do riacho. Ajoelhada, Roxanne lavava os seios e os ombros, saltando e rindo enquanto, erguendo as mãos causava uma chuva que lavava também seus cabelos. Raven temia enlouquecer. Se continuasse ali escondido, espiando Roxanne no banho, acabaria derramando sua semente no solo de Gales. E que homem seria diferente? Ele continuou olhando enquanto Roxanne se estendia sobre a superfície e boiava de costas, terminando de lavar-se. Alguns minutos mais tarde, ela saiu da água e retornou à margem. Era estranho... Não detestava tanto aquele idioma rústico quando o ouvia na voz de Roxanne. Combinava com ela. De fato, a região montanhosa e selvagem e o banho gelado sob o sol escaldante combinavam com ela. Roxanne era selvagem, robusta ê vigorosa como a terra que ela tanto amava. Mas ia tirá-la de lá. Era necessário. Não por Peter. Nem pelo rei Henry. Por ele mesmo. — Foi bom esperar para se banhar — Melwyd comentou ao entregar a toalha à prima. — Os dias estão ficando mais quentes agora, mas só em certos horários. Se viesse até aqui hoje de manhã, teria congelado. Roxanne gargalhou. — Qual é a graça? — Não há nenhuma graça. Estou feliz, só isso. — Por ter voltado a Cymry? Roxy, nunca a vi tão alegre antes. — Escapei das garras do diabo! Não estaria feliz no meu lugar? — Estou feliz por não ter de me preocupar com isso. — Melwyd olhou para a prima e sorriu. — Ballin permitiu e abençoou meu casamento com Owain.

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— Owain! — Roxanne terminou de amarras as fitas laterais da túnica. — Que notícia maravilhosa! Melwyd sorriu. — Logo ele virá me encontrar aqui. — Então... por que não me avisou antes? Eu ali, me divertindo na água como uma sereia no mar... Ele poderia ter me surpreendido nua! — Owain só tem olhos para mim. — Mesmo assim, acho melhor me retirar antes da chegada de seu amado e prometido. Sei que vão querer alguma privacidade. Ballin sabe que vocês têm esses... encontros? — Não. E espero que não diga nada a ele. Meu irmão acredita que todos os nossos encontros são devidamente supervisionados. — Sugiro que realizem logo esse casamento, antes que um bebê os obrigue a apressar a cerimônia. — Nós não... Eu nunca... Não é como está pensando, Roxy! — Talvez ainda não seja, mas pode ser, se continuarem se encontrando em segredo. — Era difícil aconselhar a prima sem pensar no que sentira durante aquele tempo em que estivera deitada ao lado de Raven. — Vai demorar? — Estarei de volta antes do jantar. — Até lá, então. — Roxanne subiu a encosta da margem do rio e caminhou na direção de Penllyn Hall. Raven não seguiu Roxanne. Sabia que ela voltaria à casa do príncipe Ballin, e considerava a excelente oportunidade que a outra donzela oferecia sozinha à margem do riacho. A situação era precária, cheia de potencial, repleta de perigos, por isso ele não formava um plano. Mas tinha em mente a semente de uma idéia, por isso ainda estava ali. Mas suas tênues esperanças foram destruídas quando um jovem chegou e se juntou à donzela. Avesso à idéia de assistir a uma cena erótica, ele se sentiu aliviado quando as intimidades do casal não foram além de alguns beijos mais ardentes e carícias desajeitadas. O casal conversava em galês, por isso ele não conseguia determinar suas identidades. Mas estava certo de que a jovem era bem-nascida. Talvez nobre. Com um pouco de sorte, ela podia ser parente de Ballin. Alguém que o príncipe de Gales não sacrificaria por Roxanne, nem mesmo se amasse loucamente a donzela de Bittenshire.

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Capítulo X

Ballin juntou-se a Roxanne na mesa do jantar. Era difícil esconder a apreensão por Melwyd. A prima devia ter voltado para casa, mas ainda não dera o ar da graça desde que se despediram na margem do rio. — Onde está minha irmã? — Qual delas? Ele olhou para Roxanne. O salão estava repleto de irmãs de Ballin, todas mais novas, mas ambos sabiam a quem ele se referia. — Melwyd, é claro. Não revelaria a verdade. Não arruinaria os poucos momentos que tinha a sós com Ballin, e Melwyd e Owain tinham direito de aproveitar também esses preciosos momentos. — Creio tê-la ouvido falar sobre uma dor de cabeça. Talvez esteja deitada. Quer que eu vá verificar? Os olhos de Ballin buscaram as cortinas que dividiam o salão de outros aposentos no mesmo piso. — Não. A hora da refeição é sempre muito ruidosa aqui. Se ela está com dor de cabeça, ficar na cama vai ajudar a reduzir um pouco o desconforto, apesar do barulho. Pratos e terrinas eram passados de mão em mão ao longo da mesa do senhor de Penllyn. Ballin e Roxanne estavam sentados próximos. Todos comiam com gosto e havia muita conversa, mas não entre eles. — Onde foi hoje? — Roxanne finalmente perguntou, já no final da refeição. — Roxy... Escute, vamos conversar sobre o que me afastou do hall por todo o dia, mas antes preciso saber quais são suas intenções — Ballin anunciou sério. — Minhas intenções? — Exatamente. Com relação ao decreto do rei. Ele já declarou que a quer casada com o lorde inglês. — O nome dele é Peter de Stoneweather. — Sim, eu sei. Mas você fugiu desse homem. E agora o irmão dele a persegue com a intenção de levá-la de volta. — E daí? — A ansiedade formava um nó em seu peito.

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— Se não retornar antes que o rei tome conhecimento de sua atitude, a situação pode prejudicar sua família. Henry é implacável. Roxanne não havia pensado nisso. Nem uma vez. Pensara apenas em si mesma, em como não poderia se casar com um lorde e viver em solo inglês. Em nenhum momento havia considerado como Henry poderia punir duramente suas irmãs e o restante da família, caso desacatasse seu decreto. — Eles... podem me deserdar. Não foi minha família que me obrigou a fugir desse homem. Além do mais... — Sim? — Foi o irmão de Peter quem me mandou fugir! Acusou-me, falsamente, ressalto, de tentar matar Peter e ameaçou atentar contra minha vida, caso eu insistisse em seguir com as núpcias. O idiota que reina sobre a Inglaterra seria capaz de culpar e punir minhas irmãs por eu ter fugido nessas circunstâncias? Acha que ele poderia me culpar por isso? Ballin assentiu pensativo, empurrando para o lado o prato com o que restava de sua refeição. — Ainda assim, presumindo que possa explicar ao rei os motivos que a levaram a fugir, e presumindo que ele aceite sua explicação e a considere válida, Henry ainda se sentiria obrigado a encontrar outro marido para você. — Outro lorde inglês? Não! Eu me negaria! Além do mais, você e eu... Ballin levantou-se de repente e a segurou pelo braço, colocando-a em pé. — Venha comigo — ele exigiu. Roxanne havia sonhado com esse momento desde que deixara para trás as muralhas do castelo Fortengall, mas, agora que a realidade se apresentava, ela a considerava insuficiente, pobre. Mesmo assim, ela e Ballin atravessaram o salão repleto até alcançarem a porta principal. Do lado de fora, seguiram caminhando até estarem bem longe dos galpões externos e do brilho das tochas que iluminava a área externa do hall. Se não houvesse tantas estrelas no céu, Roxanne nem poderia ver o rosto do príncipe, mesmo estando diretamente na frente dele. — Roxy — Ballin começou —, você sabe que a amava quando ainda era um menino. Sempre quis fazer de você uma princesa, como foi Rhiannon, sua mãe, que já nasceu coroada. O coração de Roxanne batia depressa. A música de uma harpa dedilhada no hall chegava até eles, e a melodia primitiva e pungente a envolvia como uma aura de doçura. De repente, a noite adquiria uma atmosfera romântica. — Ainda amo você, Ballin.

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— Eu sei. Mas meu pai morreu, como minha mãe antes dele, e agora sou o governante em Penllyn. Tudo mudou. As palavras destruíram sua ilusão de romance. — Mudou? Como...? — Tenho hoje preocupações muito maiores do que no passado, quando era apenas o herdeiro escolhido. Não posso mais colocar minha vontade pessoal acima de tudo. Devo antes considerar as necessidades de meu povo. O coração de Roxanne continuava batendo depressa, mas agora era de medo. — Acredita que, como sua esposa, eu não poria o povo de Penllyn em primeiro lugar? Ballin! Pamela está sempre dizendo que tenho sangue inglês nas veias, mas é mentira! Sou filha de Cymry! — Não faça isso. — Ballin ergueu os olhos para o céu. Roxanne percebeu que ele preferia não fitá-la. — O que não devo fazer? Amar você? Roxanne o enlaçou pela nuca. Surpreso, Ballin abaixou a cabeça para encará-la e, tirando proveito desse momento de espanto, ela se ergueu na ponta dos pés. E beijou-o apaixonadamente, forçando a passagem entre seus lábios com a ponta da língua. Por um momento, Ballin não reagiu. Permaneceu imóvel, rígido entre os braços que o enlaçavam. Mas o ardor de Roxanne finalmente o afetou e, com um gemido sufocado, ele a abraçou. Apesar do entusiasmo tardio do príncipe, faltava alguma coisa ao beijo. O sabor dos beijos de outrora já não se fazia presente nesse beijo. Beijá-lo era só um desafio, e a recompensa, a paixão que conseguira despertar, nem era tão satisfatória. Ballin encerrou o beijo, soltou-a e se virou, dando as costas para ela. — Preciso pensar — disse. — Confesso que sempre acreditei que governar seria mais fácil do que é. — Por que não fala comigo? Conte-me seus problemas. O que está acontecendo? Prometeu me dizer onde havia passado o dia. Onde esteve, Ballin? — Reunido com os líderes de meu exército. — O quê? Que exército? — Ela se colocou na frente dele. — Uma força composta por guerreiros de Pennlyn. — Guerreiros? Refere-se a pastores e agricultores que empunham trombetas e armas e descem a encosta para irem atacar os lordes de Guerra? Esse tipo de guerreiro? — Sim. Precisamente. Projeto Revisoras

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Roxanne recuou um passo. A mente estava tomada por pensamentos e lembranças de comentários aleatórios feitos por Ballin desde que ela ali chegara. — Penllyn é um principado pacífico há muitos anos, Ballin. Desde que minha mãe se casou com Cedric, e a mãe de Pamela se casou com Arthur, nenhum lorde inglês da fronteira ousou atacar Penllyn. E nem vai haver um ataque. De quem tem medo? — De ninguém. — Então... quem planeja atacar? Ballin fitou-a nos olhos e ficou em silêncio por um momento. Roxanne soube qual seria a resposta antes mesmo de ouvi-la, porque só havia uma baronia de importância fazendo fronteira com o território de Penllyn. — Angleford. A resposta fez ferver o sangue em suas veias. — O quê? — Roxanne o atacou com os punhos cerrados. — Seria capaz de tirar de Pamela sua herança? — O primeiro senhor de Angleford roubou a terra do príncipe de Pennlyn! — ele reagiu, segurando-a pelos punhos. — Agora é o momento perfeito para recuperála. A fortaleza é muito bem guardada. Será de grande utilidade para o príncipe de Penllyn. — Seu... Seu... Está fazendo tudo isso por glória! Vai pôr em risco a paz e as vidas de gente de seu povo só para tornar-se eminente! — Não. Faço isso por meu povo. — E Pamela? Nossa prima? Meus pais guardaram aquela terra para que ela pudesse recuperá-la depois de casada. Angleford pertence a ela, Ballin. E, no entanto, você está aí parado, informando que vai tomar tudo que ela tem! — Ela não vai se importar, Roxanne. Você conhece Pamela melhor do que eu, e até eu sei que ela estará contente onde quer que o marido decida mantê-la. Pamela não é como você; não tem um grande amor pela terra. Além do mais, se ela se casar e voltar a Angleford, não será mais a legítima dona do lugar. Angleford passará às mãos do marido dela, aquele mesmo lorde inglês que você diz odiar. Roxanne respirava com dificuldade. A cabeça parecia girar. Sabia que Ballin dizia a verdade. Porém, era errado tirar Angleford de Pamela e obrigá-la ao exílio na Inglaterra. — Quando? — ela quis saber. — Quando pretende tomar a fortaleza? Antes de Pamela retornar com seu marido cavaleiro? — Sim, é claro. Por todos os deuses, Roxy, não quero pôr a vida de Pamela em perigo! Por isso fiquei feliz em saber que o casamento dela será adiado até esse lorde

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inglês, o tal Raven de Stonelee, voltar à terra natal. Ela não porá os pés em Angleford até que a fortaleza tenha deixado de ser dela. — Quanta generosidade — Roxanne murmurou com sarcasmo. — É o máximo de generosidade que posso dedicar a alguém, especialmente a Pamela de Angleford! — Pamela de Stonelee, você quer dizer. Porque é lá que ela terá de viver, naquela maldita Inglaterra! — Roxanne olhou para Ballin e se perguntou se, afinal, ele era mesmo tão agradável de olhar. — De qualquer maneira, não pode estar pensando que Raven não vai atacá-lo, ainda que consiga arrancar Angleford dos cavaleiros empregados para guardá-la. Ele vai atacar, mesmo que tenha de morrer tentando! — Percebo que o tem em grande conta. — Sim. Não. Não sei! Sei que ele é um homem duro, alguém que não vai ficar quieto enquanto um galês rouba o que pertence à esposa dele. — Pois que lute, então. Não me importo. Mas chegou o momento de realizar minha conquista, enquanto não há nenhum lorde residindo no local, nenhum senhor para defender a propriedade. O marido de sua irmã, Thomas, está se deliciando com a novidade de ser o novo senhor de Bittenshire. Mais tarde, defenderei Angleford como faço com Penllyn. — Ballin, Raven de Stonelee está em Cymry nesse momento! Não pode estar a mais do que um dia de cavalgada daqui! — Eu sei. Você já disse. Por isso preciso de você, Roxy. — De mim? Para quê? — Para afastá-lo daqui antes que ele alcance Penllyn. Deixe o lorde capturá-la e levá-la de volta ao irmão. — O quê? — E um plano perfeito. Quero dizer, tão perfeito quanto é possível nas atuais circunstâncias, considerando que sua chegada inesperada praticamente trouxe o inimigo à minha porta. Se estiverem na estrada de volta à Inglaterra, o noivo de Pamela nem suspeitará do que vai acontecer com Angleford. Não até ser tarde demais. A confusão nos pensamentos de Roxy começou a se dissipar. De repente ela via tudo com surpreendente clareza. — E eu? Você me mandaria de volta para casar com um lorde inglês? Ballin assentiu. O gesto sutil e silencioso acendeu uma iria cega no coração de Roxanne. Ele não a amava! Não e casaria com ela! E, pior, era capaz de sacrificá-la no altar de um lorde inglês!

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— Seu... Seu... Incapaz de encontrar um adjetivo suficiente forte para expressar o que pensava de Ballin, ela se virou para correr, dessa vez pretendendo fugir do homem que acreditara amar por toda uma vida. Mas ele a segurou pelos ombros. O gesto bruto rasgou sua túnica. Quando Ballin a tomou nos braços, uma das mangas escorregou de seu ombro, expondo quase todo um seio. O príncipe a segurava contra o peito. Com uma das mãos na parte mais baixa de suas costas, ele a beijou com ardor. — Se me ama, Roxy, vai fazer isso por mim — ele murmurou, interrompendo o beijo apenas para pronunciar essas palavras. Raven se aproximava do hall com a jovem galesa colada ao peito, o rosto voltado para o alto da colina. Ela nem se atrevia a tentar qualquer movimento de fuga, porque tinha uma faca encostada no pescoço. Surpreendera-a com o amante e o amarrara antes de levá-la como refém. Agora que a escuridão descera sobre a montanha, ele a levava ao príncipe com a intenção de trocá-la por Roxanne de Bittenshire. Ainda não sabia quem ela era, mas estava disposto a arriscar. Porém, ao ver o objeto de sua missão na companhia de um homem alto e loiro, Raven se deteve. O casal estava em uma área isolada. E se abraçavam. Mantendo a jovem prisioneira calada sob a ameaça da adaga, ele observou o homem e a mulher que não notavam sua presença. Jamais havia sentido nada parecido com o que experimentava ali, espionando Roxanne e o galês. Ele já começava a despi-la! O ódio que desabrochava em seu peito era perigoso, porque ameaçava o controle de que tanto necessitava. E nem sabia quem odiava: Roxanne ou Ballin? Sim, porque era ele o homem que abraçava lady de Bittenshire. Tudo que sabia era que não podia permitir a continuação do encontro amoroso. Se o visse despir Roxanne e possuí-la, temia não ser capaz de sufocar o impulso assassino. — Solte-a! — Raven gritou. Ballin e Roxanne se viraram assustados. Roxanne tentava libertar-se, mas o príncipe a segurava por um braço. Braço que, como um seio., estava desnudo. — Raven! — ela exclamou. Era impossível determinar se estava chocada, ultrajada ou meramente surpresa. Raven informou ao príncipe galês: — Ela vem comigo. — Ah, sim? — Ballin respondeu em francês, o idioma de Raven. — Sim, ou serei obrigado a levar esta outra jovem em seu lugar.

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— Ballin, por favor — Melwyd suplicou em galês. — Ele é inglês! Deve ser o noivo de Pamela! O que veio buscar Roxanne! Se não conseguir levá-la, ele certamente me matará! — Ele não vai atentar contra sua vida. — Prometeu o irmão confiante. — Raven não mataria Melwyd! — assegurou Roxanne. — Não precisa... De repente ela parou. Passara tanto tempo certa de que Ballin a protegeria, que quase chegara a esquecer seu engano. Agora, quando o príncipe se transformava de herói amado em inimigo desprezível, ela só podia contar com Raven como aliado. — Parem de falar nesse idioma ridículo! — Raven exigiu, empurrando Melwyd para frente de forma a exibir a faca que mantinha encostada em seu pescoço. — Raven, não — Roxanne pediu em francês. — Não — Ballin repetiu no mesmo idioma. — Roxanne o seguirá. Ela sabe que deve ser assim. Sabia. Mas a dor e o choque da traição cometida por Ballin ainda rasgava seu peito. Raven notou o olhar de Roxanne para o príncipe, e a raiva queimou mais forte em seu peito. Esse era o homem que ela amava... um homem que a entregava sem luta aos cavaleiros do rei. Um cavaleiro que poderia matá-la sem nenhum esforço, como ameaçava matar a jovem que mantinha refém. Como Roxanne podia ser tão tola? — Solte minha irmã — Ballin ordenou com tom neutro. — Já disse que Roxy o acompanhará de volta à Inglaterra, e assim será. Ela não vai tentar resistir. Não é assim, prima? Ballin olhou para Roxanne com um sorriso significativo. Roxanne soltou-se, puxando o braço violentamente. — Sim, eu irei. E de boa vontade, pode estar certo disso! — Puxando a túnica para cobrir-se com decência, ela cambaleou na direção de Raven. — Liberte Melwyd — Roxanne pediu com tom gentil. — Ela não fez nada. E Ballin diz a verdade. Eu vou com você. — Por que devo acreditar no que diz? — Raven posicionou a lâmina da adaga bem no meio do pescoço de Melwyd. Ela gemeu, e as primeiras lágrimas começaram a correr por suas faces. — Porque estou lhe dando minha palavra, e minha palavra é tão valiosa para mim quanto o solo de Cymry sobre o qual agora tenho meus pés.

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Raven fitou Roxanne nos olhos. Por um momento ele a encarou em silêncio, tentando ler seus pensamentos, sua alma. Finalmente, ele removeu a adaga do pescoço de Roxanne e a empurrou para a frente. Ballin a amparou nos braços. — Fique tranqüilo, lorde de Stonelee — o príncipe disse com jovialidade. — Respeito a vontade do rei Henry. Não enviarei ninguém para segui-lo. Juro. — Infelizmente, tenho de aceitar sua palavra. Mas, se estiver mentindo, Roxanne pagará com a vida. E o que digo também é um juramento. — Percebo que acredita no que diz minha prima. Pergunte a ela, então. Roxy conhece a verdade. Roxanne engoliu em seco e olhou para Raven. — Ele não vai mandar ninguém atrás de nós. Tem boas razões para nos deixar ir. A pé, sem seu cavalo, Raven não tinha alternativa se não aceitar as afirmações dos galeses mentirosos que o cercavam. Assumindo o risco, ele se virou silencioso. Sem olhar para Roxanne, estendeu a mão para segurar a dela e começou a caminhar. O casal deixou as terras do príncipe pela estrada sinuosa que contornava a montanha. Raven mantinha-se atento ao som de passos ou patas de cavalos, e a mão livre permanecia sobre o cabo da espada. Não devia ter guardado a adaga; se os galeses atacassem, poderia usá-la para tirar a vida da megera nos preciosos segundos que antecederiam sua morte. Agora, com os dedos apertando o cabo da espada, tinha a impressão de que seu último e desesperado ato seria para protegê-la. Por quê, em nome de todas as coisas mais sagradas, consideraria a possibilidade de proteger essa criatura vil? Eles prosseguiram pela noite silenciosa. Quando julgou ter percorrido uma distância segura, Raven puxou Roxanne para fora da estrada, buscando a proteção das árvores. Roxanne caminhava sem nenhuma dificuldade, favorecida pelo conhecimento do terreno. Seus pensamentos estavam ocupados com outras coisas. Por exemplo, sabia que impressão Raven tivera ao vê-la nos braços de Ballin, descomposta. Se a história tivesse se desenvolvido conforme suas presunções, ele até teria razão. Mas nada transcorrera como esperara, e Raven não podia sequer começar a entender o que realmente se dera. Não entenderia que o teria seguido por vontade própria, mesmo que ele não houvesse capturado Melwyd. Mas, enquanto caminhavam por entre as árvores, ela se ressentia contra o julgamento. Peter teria esse direito, caso ali estivesse e a visse com Ballin, mas não Raven. Além do mais, ele havia exigido que ela deixasse o castelo Fortengall e abandonasse seu irmão. O que ele esperava? Que ela fosse buscar refúgio em um convento?

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Indignada, Roxanne caminhava sem falar. Sabia que teria de dizer algumas coisas antes de Raven tentar levá-la de volta à Inglaterra. Pelo bem de Pamela, teria de revelar a mentira de Ballin, apelar para a honra de Raven, se é que ele tinha alguma, para proteger a Fortaleza Angleford do príncipe Cymry. Ele lutaria por Angleford, não por Pamela, mas por si mesmo. Nenhum cavaleiro se arriscaria a perder uma fortaleza como aquela sem uma boa luta. Raven de Stonelee lutaria. Mas ela adiava o momento de fazer seu pedido. Determinada, Roxanne guardava silêncio, jurando nada dizer até Raven tomar a iniciativa. Então confiaria nele. Mas não antes. Horas depois eles chegaram ao local onde Raven deixara seu cavalo. Aliviado por vê-lo, o lorde afagou a crina do animal e abaixou-se para soltar os arreios usados para prender suas patas. — Roxanne, venha até aqui depressa — ele a chamou. —, ainda temos um longo caminho a percorrer esta noite. Roxanne? Nada. Uma onda de ansiedade inundou seu peito. Se ela houvesse fugido novamente, poria fim a sua vida quando a encontrasse e resolveria o assunto de uma vez por todas. — Eu... Eu... Ao ouvir a voz dela, ele a localizou encolhida na margem do rio, tremendo. Os braços seguravam os joelhos colados ao peito. A cabeça era mantida baixa. — O que houve? Não se sente bem? — ele perguntou enquanto se aproximava levando Rolf pela rédea. — Não. Estou apenas... cansada, só isso. Eu... dormi pouco na última noite. — Posso imaginar. Bem, não vai ter de continuar caminhando. Monte. Não temos tempo a perder. Peter deve estar aflito. Somos esperados em Fortengall há dias, e ainda estamos nessa terra maldita, longe da fronteira. Roxanne aceitou a mão que Raven estendia, pois precisava de ajuda para levantar-se. Mas a mão que ele segurou não era a mesma que segurara nas últimas horas. Agora a pele era fria como gelo. — Por Deus! Está congelando, mulher! — Caso tenha esquecido, nossa partida foi muito repentina. Deixei todos os meus pertences em Penllyn. E meu manto ficou com você. Raven começou a tirar alguma coisa que levava presa à sela de Rolf. — Não sentiria tanto frio se sua túnica a cobrisse decentemente. Ouça um conselho, mulher: se vai se despir para um homem, lembre de desamarrar os laços primeiro. Rasgar-se num frenesi de paixão é sempre muito destrutivo.

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Era impossível interpretar a expressão de Roxanne quando, com seu manto na mão, ele se virou para cobri-la. Mas Raven suspeitava de que havia malícia nos olhos dela. Durante todas essas horas, ela estivera segurando os pedaços da túnica com uma das mãos, mas agora, ansiosa para aquecer-se, soltou o tecido, expondo um braço e um seio. A visão causou uma resposta imediata no corpo do lorde. Devagar, ele ergueu a mão direita, quase sucumbindo ao impulso de aquecê-la acariciando a pele nua, mas, antes de tocá-la, olhou para o rosto pálido e descobriu que ela o encarava. Séria. Firme. Determinado, ele a cobriu com o manto e escondeu a tentação. Segurando as rédeas, Raven montou e estendeu a mão para Roxanne, ajudando-a a fazer o mesmo. Quando a viu pôr o pé no estribo para apoiar-se, o lorde notou a ausência das meias masculinas. Ignorando o calor que o invadia, ele explodiu. — Cavalgou até Penllyn Hall usando nada sob as saias? — Como deve saber, as mulheres nunca vestem nada sob as saias. — Sim, mas também não cavalgam como você, montada como um homem sobre um garanhão monstruoso! — Minhas meias estavam molhadas quando o deixei na cabana. — Nesse caso, não devia ter partido! Ele a puxou para cima do cavalo, acomodando-a contra o peito, em vez de deixá-la montar na parte de trás do animal. Roxanne não protestou. Pelo contrário, parecia bem satisfeita enquanto cavalgavam; tanto que, aninhada em seu peito, ela cochilou. E depois de um tempo acordou assustada. Ainda estava escuro, o que tornou ainda mais difícil a tarefa de orientar-se. Quando percebeu que estavam novamente na cabana abandonada, Roxanne perguntou: — Vamos parar aqui? — Sim. — Raven ajudou-a a desmontar e desceu do cavalo. Imediatamente, ele começou a remover os fardos presos à sela. — Podemos dormir um pouco antes de prosseguir. — Raven, não podemos ir. — Por todos os anjos, mulher! — Impaciente, ele a segurou pelos ombros com tanta violência que quase a derrubou. — Até agora só me causou desgosto e aborrecimentos! Henry não decretou que devia me casar com você, mas sou eu que carrego o fardo de suas ações impensadas e de seus planos maldosos! Estou avisando, mulher, não me dê mais motivos para desejar sua morte, ou esse meu desejo pode ser realizado! — Ballin vai atacar Angleford. — O quê? Projeto Revisoras

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— Ballin planeja atacar Angleford. Agora, antes de você retornar com Pamela como o novo senhor de Angleford. Imediatamente, enquanto não há nenhum lorde residente para liderar os cavaleiros numa defesa imbatível. — Mas ainda estou em Gales, perto da propriedade de Pamela. Esse príncipe acredita que não irei a Angleford para lutar contra ele? — Ele espera que eu o siga de volta à Inglaterra. Está certo de que você estará longe quando o ataque acontecer. Ballin acredita que seus planos não serão conhecidos até que estejam realizados. Nesse caso, Angleford voltará a integrar o território de Pennlyn. Raven usou um dedo para tocar seu queixo e encará-la. — Por que ele acha que vai guardar segredo, agora que já sabe de seus planos? Afinal, Angleford é o dote de sua prima. E você é leal a ela. — Sim, eu sou. Por isso digo que devemos ficar aqui e defender o lar de Pamela. Raven estava muito próximo dela, tanto que seu hálito morno aquecia-lhe a face. — Entendo o que diz. O que quero saber é por que ele não conta com essa delação. Por que espera que seja mais leal a ele do que a Pamela. Por que é um príncipe? — Não. — Sua voz era suave. O olhar era firme. — Porque ele acredita ingenuamente que ainda tem o meu amor. Pamela acordou assustada. Sentia-se confusa, desorientada, sem saber onde estava e por quê. A primeira coisa que lembrou foi que agora residia no castelo Fortengall, não mais em Angleford ou Bittenshire. Mas algo ainda não estava claro. Um ronco a assustou. Saltando para a beirada da cama, com os olhos cheios de alarme, ela virou a cabeça e, tarde demais, compreendeu que estava na cama de Peter, não na dela. — Doce Mãe Maria — ela sussurrou, levantando-se com cuidado para não acordar o homem que dormia a seu lado. Devagar, ela girou o corpo tentando passar pela barreira formada pelas cortinas. Havia muito mais luz do que quando fora visitá-lo na noite anterior, apesar de todas as velas terem derretido. Podia ver trechos do céu além da janela. Como uma pérola negra, a escuridão parecia conter uma luminosidade cintilante trazida pelo amanhecer do novo dia. Ajeitando a faixa do robe em torno da cintura, ela olhou ara o pajem que ainda dormia no chão.

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— Obrigada, Senhor — murmurou numa prece rápida, aliviada por constatar que o menino não a vira ali. Saltando por cima dele, Pamela correu para a porta e saiu. Vozes. Passos. Portas que se abriam e fechavam. Seria tão tarde que os criados já estavam acordados? Lady Lucinda, sempre madrugadora, já estava fora da cama? Passos na escada. Descendo. Em pânico, Pamela buscou refúgio no banheiro do corredor. Precisava mesmo se aliviar. Mas estava tão ansiosa, que duvidava de que pudesse. Por isso ficou no espaço reservado, tentando ignorar o cheiro ruim e ouvindo as vozes que soavam na escada e no corredor. — Quantos no vilarejo? — Lucinda perguntou ao passar por perto do refúgio de Pamela. — Um número considerável de crianças — respondeu mestre Frederick —, mas meia dúzia de adultos, também. — E em Tysdale? — Muitos mais, de acordo com o homem que mandei até lá. — Tysdale fica perto de Kurth. Estou certo de que foi lá que os meninos contraíram a enfermidade. Ian relatou que os netos de Neville pareciam doentes quando ele, Hugh e os gêmeos estiveram lá. — Vai ver como Peter está? — Frederick perguntou. Pamela deduziu que eles estavam diante da porta do quarto de lorde de Stoneweather. — Sim. Ele nunca teve as pústulas vermelhas. Raven e Lucien também escaparam da doença na infância, não sei como, mas ambos estavam fora de Fortengall quando a praga surgiu. Estou preocupada com Peter. Havia uma praga! Pamela esqueceu rapidamente as preocupações anteriores de ser surpreendida no quarto de Peter. Mais importante agora era o flagelo que invadira esse pacífico recanto do reino. Lady Lucinda precisaria de ajuda, toda que pudesse conseguir, e Pamela pretendia oferecer assistência. Por isso, ela saiu do espaço privado e abordou a senhora do castelo. — Pamela! Por que está acordada tão cedo? Sente-se doente? — Não, milady, não se preocupe. Estou muito bem. Mas ouvi quando falava com mestre Frederick sobre uma epidemia em Fortengall e nas redondezas. Lucinda balançou a cabeça enquanto o senescal, depois de realizar uma rápida reverência para as duas damas, deixou-os para descer a escada.

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— Aquela maldita erupção vermelha está mostrando a cara novamente. Hugh e os gêmeos estão na cama cobertos por manchas vermelhas e ardendo em febre. — Sinto muito, milady. As crianças são sempre as mais acometidas. Mas é comum que se recuperem. — Sim, especialmente se são bem alimentados e estavam saudáveis antes de contrair a doença. Eu mesma sofri com essa praga quando era menina. Ian afirma que também passou por isso. — Mas seus três filhos mais velhos não tiveram a doença? — Não. — Ela suspirou apreensiva. — E como deve saber, quando homens e mulheres adultos contraem a enfermidade, o quadro é muito mais grave do que com os pequenos. Alguns adultos não se recuperam. — Ela franziu a testa como se lembrasse algo importante. — E você? Teve a doença? —Não. Lucinda fechou os olhos. — Depois de tudo que já aconteceu desde que você e Roxanne chegaram aqui, espero que não caia doente. — Não vai acontecer, milady. Sou muito saudável. — Não vem ao caso. Ninguém sabe como essa pestilência se espalha. — O poço foi contaminado? As despensas já foram verificadas para sabermos se há vermes ou outros bichos? — A água do poço está como sempre, e já mandei os criados verificarem os estoques de comida. Mas, como já vivi o suficiente para ter visto vários surtos dessa doença, suspeito de que não fomos contaminados por comida ou água. O vermelhão sempre aparece nessa época do ano, quando aparece. Creio que simplesmente estar perto de um doente é suficiente para fazer alguém adoecer. — Porém, nem todos os que convivem com um enfermo adoecem. — Tem razão, nem todos. E os que a contraem e sobrevivem nunca mais caem com o mesmo quadro. Mas isso de nada serve no seu caso e no de Peter. — Lucinda abriu a porta do quarto do filho e baixou a voz para um sussurro. — Espero não encontrá-lo febril. Com os ossos ainda em recuperação, ele não está tão forte como deveria estar. Se ele adoecer agora, o vermelhão pode levá-lo ao túmulo! — Peter não está doente, milady. Ele dormiu como um bebê ontem à noite... Detendo-se ao perceber seu deslize, ela se calou repentinamente. Em vez de criar uma mentira que poderia explicar sua certeza sobre a saúde de Peter, ela optou pelo silêncio. Pamela seguiu Lucinda para o interior do quarto e a viu abrir as cortinas que cercavam a cama. Ela se encolheu ao ver o homem adormecido. Com um braço sobre Projeto Revisoras

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a testa, ele empurrara a coberta até a metade do peito, expondo a parte da cama onde era possível ver nitidamente a marca deixada por um corpo. Era como ver um ninho sem a ave que o ocupara até pouco antes. Pamela preparou-se para as inevitáveis acusações, mas, para sua surpresa e grande alívio, Lucinda nem parecia notar os sinais óbvios. Ela já tocava o ombro do filho para acordá-lo. — O quê...? — Peter despertava devagar. Ao abrir os olhos e deparar-se com a mãe e Pamela ao lado da cama, ele se espantou. — O que é isso, mãe? Aconteceu alguma coisa? — Receio que sim. — Mãe, sou um homem adulto. — Eu sei, mas isso não faz a menor diferença nas atuais circunstâncias. Preciso falar com você sobre um fato muito importante. — Que fato é esse, mãe? Lucinda resumiu os últimos eventos e o surgimento da doença que varria o castelo e as cidades próximas. — Isso é terrível — ele opinou. — Gostaria de poder fazer alguma coisa para ajudar. Sei que vai acabar adoecendo tentando cuidar de todos por aqui, mas com essa perna... — Peter, como se sente? — Eu... Bem, exceto pela perna... — Não tem febre? — Ela tocou sua testa. — Nenhuma mancha? — Lucinda examinou seus braços. — Não, nada. Mãe, o vermelhão é uma doença infantil, não é? Se não a tive na infância, duvido que a tenha agora, já adulto. — Não se pode saber ao certo. Essas doenças não discriminam... E, ao contrário de muitas crianças, boa parte dos adultos que são acometidos não sobrevivem. — O que está dizendo? — Ele olhou para a donzela que acompanhava Lucinda. — Pamela, está doente? — Não. — Mas ela também não teve a doença na infância — explicou Lucinda. — O quê...? Milady? — Uma voz sonolenta atraiu a atenção de todos para o chão. William havia acordado. Sentado entre as cobertas, ele esfregava os olhos. — William! — Lucinda saiu de perto do filho para ir levantar a túnica do garoto e examinar-lhe o peito. — Teve o vermelhão quando era criança? Projeto Revisoras

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— O quê? — Ainda sonolento, ele reagia confuso à comoção que o cercava. — Uma doença infantil que provoca manchas vermelhas. Já teve? — Oh, sim! Minha irmã e eu ficamos doentes juntos. Foi na primavera, se não me engano, e odiei ficar na cama dia e noite me cocando, quando todas as crianças brincavam do lado de fora de suas casas. — Graças ao céu! — Lucinda agarrou o menino pela gola da túnica e o levantou. — Muitos no castelo estão doentes, William. Por isso, preciso daqueles que estão saudáveis para cuidar das tarefas que são dos enfermos. Vá para a cozinha, faça seu desjejum e me espere no salão. Descerei mais tarde para dizer o que você deve fazer. — Não quero ter aquela horrível coceira outra vez, milady. — Não vai ter, prometo. Agora vá! Obediente, o rapaz saiu. Pamela sugeriu ansiosa: — Também posso ajudar a cuidar dos enfermos. Especialmente das crianças. — Você não vai nem chegar perto dos enfermos — Lucinda determinou com firmeza. — Como Peter, também não teve o vermelhão na infância. Os dois terão de ficar confinados. Não posso permitir que se arrisquem a contrair essa pestilência e, pior, morrer dela. Pamela trocou um rápido olhar com Peter antes de perguntar a Lucinda: — O que espera de nós, então? — Não há nada que possam fazer. Peço apenas que permaneça em seus aposentos. Peter também terá de ficar aqui. — Você enlouqueceu? — Peter explodiu. — Mãe, hoje é o dia em que vou pegar minhas muletas! Nada, nem mesmo a praga vai me fazer ficar nesta cama. — Não ia mesmo dançar ou sair andando pelo castelo, encontrarei alguém para ajudá-lo a se levantar e caminhar um pouco pelo quarto. — Quem? — Pamela perguntou. — Quem? — Lucinda tocou a testa distraída. — Não sei. Melhor que seja um homem forte. E melhor que seja um criado que já teve a doença. — Melhor que seja eu — Pamela sugeriu. Lucinda a encarou séria e silenciosa por alguns instantes. Depois indagou em voz baixa: — Você?

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— Sim, lady Lucinda. Eu. Vai precisar de todos os criados para ajudá-la, e mais gente cairá enferma. Por que desperdiçar a valiosa ajuda de um criado forte e saudável, se pode contar comigo? — Não. Absolutamente não. — Por favor, ouça o que digo, milady! Pretende manter-me confinada, isolada daqueles que podem estar doentes. E quer que Peter também fique isolado. Melhor manter-nos isolados juntos, porque assim poderei cuidar dele. Essa é a atitude mais razoável. — Não é. Você é hóspede nesta casa. Não é uma serviçal. — Gosto de ser útil, milady. Apreciei ajudá-la ontem. — Não devia ter abusado de você. — Não foi abuso. — O que Pamela diz é razoável, mãe. E ela diz a verdade — Peter afirmou. — Ontem à noite ela me contou sobre a alegria que sentia por ter sido útil e ainda ter ocupado o tempo. — Mas... cuidar de você, Peter, é muito diferente de selecionar aves gordas e prontas para a panela ou cortar ervas para o tempero. — Tem razão, milady, eu não ficaria entediada, como certamente me sentiria se tivesse de ficar sozinha em meu quarto. — O mesmo vale para mim, mãe — Peter concordou. — Não imagina quanto é cansativo ficar aqui sozinho. — Mesmo assim, não posso permitir. — Pode, mãe. Pamela e eu nos damos muito bem, e ela é muito habilidosa nos cuidados com os enfermos e inválidos. Como não vai permitir que ela cuide dos enfermos do castelo, deve ao menos permitir que ela cuide de mim, um inválido. — Peter, Pamela é noiva de Raven. Se ele souber que estiveram juntos durante todo o tempo necessário para superarmos essa epidemia, pode pensar... — Meu irmão viaja sozinho com minha futura noiva. E não estou aqui suspeitando dele... ou fazendo suposições maldosas. — Lady Lucinda — Pamela insistiu —, fiquei órfã ainda muito jovem, mas fui criada para ser boa e temente a Deus. Jamais faria qualquer coisa que pudesse envergonhar Raven, eu mesma ou a memória de meus pais, que Deus os tenha em Sua Glória. Porém, e o que digo é verdade, milady, se minha mãe soubesse que não me empenhei ao máximo para ajudá-la nesse momento de necessidade, certamente se envergonharia de mim. Lucinda a estudou por um instante antes de olhar para Peter.

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— Você está ansioso para se levantar da cama, e Pamela é uma jovem delicada e frágil, incapaz de tirá-lo daí e colocá-lo apoiado nas muletas. Se ela for sua única enfermeira, terá de passar pelo menos outra quinzena preso à cama. Ou mais. — Lady de Angleford é tão forte quanto minha mãe. Não duvido de que ela possa me dar toda a assistência e o cuidado que necessito. Lucinda respirou fundo e, por fim, assentiu concordando com o plano. — Pamela, há um aposento vago ao lado, do de Peter. É muito menor do que aquele que está usando, mas, se insiste em cuidar de Peter, a mudança vai tornar tudo muito mais fácil. — Muito bem, milady. Vou buscar minhas coisas imediatamente. — E eu vou descer ao salão. Ian e eu temos de fazer a contagem dos doentes. O dia já está claro, e imagino que muitas pessoas que foram dormir bem estão despertando com febre. — Mãe, minhas muletas! — Peter lembrou ao ver as duas mulheres saindo do quarto. — Vou buscá-las — Pamela ofereceu antes que Lucinda pudesse responder. — E vou providenciar alguma comida, também. Não se inquiete, milady. Prometo que não me aproximarei dos aposentos dos enfermos, mas cuidarei de todas as necessidades de Peter. Peter esperava ansioso pelo retorno de Pamela. Durante sua ausência, ele lavou o rosto e ajeitou a barba e os cabelos. — Aqui estou, milorde — Pamela disse ao abrir a porta, adequadamente vestida e trazendo nas mãos uma bandeja. Depositando a refeição sobre as pernas de Peter, ela saiu apressada. Quando voltou, alguns minutos depois, Pamela carregava um par de muletas. — Não são muito altivas ou elegantes — ela comentou sorridente, deixando-as apoiadas contra a parede. — Tem tudo o que precisa? Está confortável? — Sim, estou. Não pretende fugir outra vez, não é? — Preciso terminar de levar minhas coisas para o outro quarto. — Mais tarde. Acho que precisamos conversar. — Muito bem, então... — Pamela sentou-se em uma banqueta ao lado da cama. — O que estava fazendo com minha mãe àquela hora da manhã, tão cedo? — Estava no corredor quando a ouvi descendo a escada. Fui me esconder no banheiro.

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— Que lugar mais desagradável! — Ele riu. Depois, novamente sério, admitiu: — Quando acordei e a vi debruçada sobre mim, a seu lado... Confesso que esperei o pior. Mas presumo que não tenha sido encontrada dormindo em minha cama. — Não. Acordei pouco antes do amanhecer. William ainda dormia profundamente. Imaginei que toda a criadagem ainda estivesse na cama, mas não foi bem assim. A doença que assola o castelo perturbou a rotina doméstica. De qualquer maneira, Peter, não devia ter me deixado dormir aqui. Por que não me acordou? — Não pensei que fosse necessário. Você dormia tão bem... E, além disso, também adormeci em seguida. — Não foi correto ficarmos tão próximos. — O que está dizendo? — Peter, eu me deitei em sua cama! Pode imaginar o que sua mãe teria pensado, se entrasse aqui e nos encontrasse? Só pela graça de Deus eu despertei um pouco antes de lady Lucinda vir despertá-lo. — Você tem razão. Mas não fomos descobertos, então... Não vamos nos ocupar disso. — Muito bem. Agora coma. Precisa se fortalecer, se quer mesmo usar as muletas. — Ainda está disposta a me ajudar? — É evidente que sim. Não sou muito grande, mas, como você mesmo ressaltou, sou forte. — Delicada e forte. Uma combinação perfeita... para uma enfermeira. — Espero que esteja certo, porque preciso provar a sua mãe que ela fez a escolha certa. Ela precisa estar certa de que sou digna. — Digna de quê? — De fazer parte de sua família. Ela ficou muito aborrecida naquela noite em que me encontrou aqui com você, sentada em sua cama com a saia erguida, e hoje verbalizou a preocupação com o que Raven pode pensar se souber que passamos tanto tempo juntos. — Raven? Ele está sempre no centro dos seus pensamentos? — Certamente. Ele vai ser meu marido, lembra? — Ah, sim. Seu marido. Mesmo estando em algum lugar de Gales com minha futura esposa! — Ele não teve escolha. Minha prima fugiu, você não podia ir atrás dela... Raven não teve alternativa.

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— Acha mesmo que não? Acredita que meu irmão nada teve a ver com tudo que aconteceu? Constrangida, Pamela olhou para o chão e fingiu ajeitar as saias. — Não sei. Tudo que sei é que espero que eles retornem logo ao castelo. — Eu não. Pamela o encarou perplexa. — Não? — Estamos vivendo um momento difícil aqui. O início de uma calamidade. A pestilência sempre piora muito antes de melhorar. Não sei se Roxanne já teve o vermelhão na infância, mas meu irmão não teve. Não quero que ele volte antes disso acabar. Por mais que ele me enfureça, não quero que ele adoeça e, principalmente, não quero que morra. — Não se preocupe com ele. Se Roxy e Raven se aproximarem de Fortengall no futuro próximo, tomarão conhecimento da situação e não voltarão enquanto não for seguro. Quanto a você, eu o manterei em segurança. Nós dois vamos ficar bem longe dos infectados. Cuidarei das suas necessidades até ser capaz de se cuidar sozinho e, no final, tenho certeza, tudo vai acontecer como o rei decretou. Peter fitou-a em silêncio por um instante. Depois perguntou: — Tem mesmo tanta certeza assim? Pamela assentiu devagar, sem parar para questionar a própria atitude. Não podia correr esse risco.

Capítulo XI

— Detenha-se e identifique-se! Raven segurou as rédeas do cavalo e, parado diante do fosso de Angleford, sentindo o calor do corpo de Roxanne atrás dele, gritou: — Sou lorde Raven de Stonelee, seu futuro senhor por decreto real do rei Henry! O guarda na torre debruçou-se sobre o parapeito para enxergar melhor. — Nada sabemos sobre esse decreto, milorde!

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— Não foram informados de que o rei enviou um representante para acompanhar lady Pamela e lady Roxanne de Bittenshire à Inglaterra com o propósito de casá-las? Sou o escolhido do rei para lady Pamela; portanto, em breve, Angleford será minha fortaleza! — Traz provas do que diz, senhor? Tudo pode ser como relata, mas não ouso aceitá-lo no interior das muralhas sem provas! — Santa Mãe de Jesus! — Raven resmungou furioso. — O idiota está prestes a ser atacado, mas discute comigo, seu senhor e comandante! — Devia estar contente por ele ser cauteloso. Caso contrário, agora estaria pedindo a cabeça do pobre homem. Roxanne inclinou-se para o lado a fim de ser vista pelo guarda. — Llewellyn, é você? Sou eu, lady Roxanne de Bittenshire! Deixe-nos entrar, eu vos rogo! — Lady Roxanne? — Sim, é a notável, honorável e muito amada lady Roxanne, filha do finado conde Cedric de Bittenshire! — Raven explodiu. — Agora, baixe a ponte e abra os portões! — Sim, milorde. — Llewellyn desapareceu por um instante, e logo a ponte levadiça cobria o fosso e dava acesso aos portões, que eram abertos por um serviçal. Raven conduziu Rolf pela ponte até o interior das muralhas, onde parou. Roxanne não perdeu tempo e desmontou apressada, esperando que Raven entregasse as rédeas ao cavalariço mais próximo para, ansiosa, puxá-lo pela mão. Ela o levou à escada que conduzia à fortaleza. Enquanto a seguia, Raven ia analisando tudo em volta, surpreso com o tamanho do vilarejo que cercava a habitação principal. No interior, no salão principal repleto de tochas e forrado por um espesso tapete de pele, havia uma grande mesa cercada por bancos. Tudo parecia muito familiar a seus olhos. Tudo muito... normando. — Lady Roxanne. — Uma criada aproximou-se sorrindo e fez uma reverência. — Annie, onde está Mestre Félix? — Tenho certeza de que o senescal está a caminho, milady. Mas vou procurálo e pedir que se apresse. Annie saiu, e Raven segurou a manga da túnica de Roxanne. — Annie? Félix? Por que essas pessoas não têm aqueles malditos nomes que não consigo pronunciar? A criada falou francês! — Estamos nos pântanos, Raven. Aqui os lordes são ingleses de tradição normanda. Metade ou mais do povo que aqui vive e trabalha tem origem inglesa. Mas não tema, lorde Raven — ela debochou —, logo vai ouvir os nomes que julga tão Projeto Revisoras

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estranhos e a língua que não consegue entender. Muitos Cymry também vivem e trabalham em Angleford. Ali, no ambiente que lhe era familiar, Roxanne voltava a se comportar com a desenvoltura anterior, mas, na noite anterior, na cabana abandonada, ela se aninhara em seu peito e dormira como uma frágil criança. — Bittenshire é muito parecida com Angleford, não é? Não que eu tenha tido tempo ou interesse para aprender os nomes dos criados, mas lembro-me de que se dirigiram a mim no francês empregado pelo rei. — O quê? Esteve lá? — Sim, presumi que houvesse ido para lá ao deixar o castelo. Como não a encontrei, passei algum tempo com lorde Thomas e sua irmã. Foi o novo senhor de Bittenshire quem me disse onde poderia encontrá-la e como poderia chegar lá. Roxanne nada disse. Furiosa, olhou para Raven com um misto de ressentimento e ira, mas conteve os insultos que gostaria de ter dito, ou por julgá-los impróprios, ou porque, nesse momento, Félix entrou no salão interrompendo a conversa. — Milorde... Raven, pois não? Raven de...? — Stonelee. E Angleford. Ou melhor, serei o senhor de Angleford quando me casar com a prima da donzela aqui presente, lady Pamela. O homem assentiu e olhou para a jovem parada ao lado de Raven. — Lady Roxy! O que faz aqui? Quero dizer, não devia ser lady Pamela retornando com o noivo? — Ela permanece na Inglaterra em um lugar chamado Fortengall. Lá espera pelo retorno de seu... — Roxanne olhou de soslaio para Raven. — Desse senhor que será seu marido. O senescal não precisava saber de nada, mas ela ofereceu uma versão resumida dos fatos que a levaram a Angleford na companhia de Raven. Enquanto esperava pelo fim da história, lorde de Stonelee analisava as vestes de Félix, roupas simples e desbotadas muito diferentes daquelas usadas por Frederick, o senescal do castelo de seu padrasto. Apesar da natureza doméstica de seus deveres, ele se apresentava tão armado quanto Raven, um cavaleiro. Não havia dúvida de que o homem era um guerreiro. De repente, ele percebeu que Roxanne e Félix falavam galês, o que o impedia de compreender o que diziam. — Chega! — Raven interrompeu impaciente, lamentando não saber o que ela havia dito. — Já sabe o que nos trouxe a Angleford, mestre Félix? — Não. Lady Roxy nada revelou, milorde.

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— Trata-se de questão de grande gravidade. Providencie uma refeição quente e vinho, e chame o capitão da guarda para juntar-se a nós. Falarei com os dois, porque há planos a serem traçados. Planos urgentes. Criados serviram a refeição sem demora, enquanto Félix ia buscar o capitão. — Aqui está sir Edwin, milorde — Félix anunciou ao entrar no salão acompanhado por dois homens. Os três subiram à plataforma onde ficava a mesa e se juntaram a Roxanne e Raven. — Edwin é capitão da guarda. Gruffydd, aqui, é seu subordinado direto, o segundo na hierarquia. Raven notou imediatamente que ambos, embora ainda jovens, tanto quanto ele, ostentavam tantas cicatrizes quanto Ian, seu padrasto. Os elos de metal que compunham a malha eram retorcidos e castigados como os dedos nas mãos deles. Aquelas cicatrizes não eram lembranças de meros treinos nas florestas de Gales. — Raven de Stonelee. — Ele se apresentou, convidando-os a se sentarem à mesa. — Lorde de Stonelee é noivo de lady Pamela — explicou o senescal. — Algumas questões trouxeram lady Roxanne de volta a Gales, e como seu noivo, o irmão de lorde Raven, está preso à cama por um grave ferimento, foi o próprio lorde Raven quem a acompanhou. O capitão da guarda cumprimentou Roxanne. —Milady... Perdoe-me por ter me sentado sem reconhecer sua presença. O comportamento do cavaleiro era adequado, mas havia em seu olhar uma familiaridade que aborrecia Raven. — Não precisa se desculpar, Edwin — ela respondeu sorrindo. E Raven ficou ainda mais irritado. Incapaz de conter-se, disparou com tom seco: — Deixe-nos agora, milady. Nós, os homens, temos assuntos importantes para discutir. Ela o encarou boquiaberta, lívida, mas nada disse. O olhar penetrante de Raven foi um aviso mais do que eloqüente e suficiente para fazê-la calar. Furiosa, Roxanne levantou-se e saiu do salão. Raven concentrou a atenção nos homens sentados a sua frente. — Ballin — ele disse. — Príncipe Ballin? De Pennlyn? — indagou Félix. — Sim. Ele pretende atacar a fortaleza. — Atacar Angleford? — Edwin exclamou incrédulo. — Por que o príncipe faria tal coisa, milorde? Quem lhe disse isso?

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— A dama que acaba de retirar-se. Era com ele o assunto urgente que lady Roxanne precisava tratar. — E ele contou a ela sobre sua intenção de invadir Angleford? Disse que pretendia tomar a herança de lady Pamela? Félix estranhou. — Exatamente. — Mas não estava... Não estava com ela? Acompanhou lady Roxanne a Gales, não? Por que o príncipe faria confidencias em sua presença? Ballin não sabe que será o próximo senhor de Angleford depois do casamento com lady Pamela? Raven não podia divulgar os detalhes do que havia acontecido em Pennlyn. Não conhecia esses homens. Além do mais, precisava liderá-los na defesa da baronia e de seu povo. Correr o risco de conquistar seu desprezo não estava entre as opções desse momento. — O príncipe Ballin não sabia que eu acompanhava lady Roxanne a Gales e Pennlyn. Ela precisava de privacidade, por isso me ausentei durante o encontro entre os dois. Ballin não tem idéia de minha presença em território galês. E seu plano, se bem entendi, é arrancar Angleford das mãos daqueles que a protegem antes da chegada de lady Pamela. — Por quê? — Gruffydd ainda estava confuso. — Porque o vale no qual se localiza a fortaleza já pertenceu a Pennlyn, pelo que sei. Ballin deseja retomá-lo e, assim, alargar suas fronteiras. — Milorde, Pennlyn sempre viveu em paz com seus vizinhos — argumentou Félix. — E Ballin é parente de Pamela. O pai dele era irmão da princesa Ceridwen, mãe dela. Como Ballin pode pensar em roubar a herança da prima? — Ele alega que o primeiro senhor de Angleford roubou-a de um antigo príncipe de Pennlyn. Como príncipe regente, ele se sente no direito de retomá-la. Com relação a Pamela, sua prima, ele pretende protegê-la de qualquer risco atacando a fortaleza antes de sua chegada, enquanto ela ainda está na Inglaterra para se casar comigo. O que ele não sabe é que eu já estou aqui, pronto para enfrentá-lo. — É irônico... — comentou Edwin. — Sempre esperamos por ataques violentos de outros lordes de Guerra, nunca de um vizinho pacífico. — Bem, o que nunca imaginaram é agora realidade. Estou certo de que Ballin estará aqui em poucos dias para tentar o cerco. — Milorde, os nativos não fazem cerco — Félix explicou. — Não? Seria a atitude mais astuta. Angleford, como Bittenshire, localiza-se em um vale profundo. Se os homens de Pennlyn nos cercassem, poderiam se manter no mesmo local por meses, até nos matar de fome. E sem ter de disparar uma única flecha. Projeto Revisoras

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— Eles gostam das flechas — revelou Gruffydd. — Nós, os galeses, somos os melhores arqueiros do mundo. E antes que possa duvidar de minha lealdade a Angleford, afirmo que meu nome é tão galês quanto o do príncipe Ballin, mas minha mãe era inglesa, filha de um artesão que foi trazido para cá para exercer sua arte criando armaduras. Quase todos os homens que vivem e trabalham nas fronteiras para os lordes de Guerra têm sangue mestiço, galês, inglês e normando, como os próprios lordes. Portanto, nossa lealdade pertence ao nosso senhor, não a uma variedade de parentes por sangue. — Gruffydd está correto — concordou Félix. — Não encontrará traidores em Angleford, e os guerreiros de Pennlyn descerão a colina às centenas, gritando e tocando suas trombetas. — E daí? — Raven reclinou-se na cadeira. — Tribos de soldados sem treino específico correndo montanha abaixo, gritando e tocando trombetas... Qual é o grande problema? Vamos manter os portões fechados e a ponte erguida. Nada poderá atingir os que vivem dentro das muralhas de Angleford. O capitão da guarda, seu subordinado e Félix trocaram olhares apreensivos. — Eles atacarão o vilarejo, milorde. Não deve ter passado por ele, pois veio cavalgando de outra direção. O povoado fica a oeste, numa linha reta partindo do fundo da fortaleza. E os guardas de Angleford teriam de defendê-lo. Raven encarou-o como se o homem fosse demente. — Sabendo que um ataque é iminente, trarei os moradores do vilarejo para dentro das muralhas, simplesmente, e os manterei aqui em segurança. — É uma idéia razoável, mas a fortaleza não pode abrigar tanta gente por tanto tempo. Além disso, não estamos falando de pouca gente. O vilarejo abriga artesãos e mercadores, todos homens de posse e bens. Ninguém vai querer abandonar o que possui para vir se esconder dentro das muralhas. — Acha que preferem morrer? — Sim — Edwin confirmou sério. — Muitos preferem morrer. Milorde não preferiria a morte a deixar sua casa desprotegida para ser pilhada e destruída? Raven não respondeu; não era necessário. Sabia que devia pedir conselhos ao capitão, porque o cavaleiro era chefe da guarda e responsável pela segurança da Fortaleza Angleford. Edwin conhecia bem o lugar e o terreno. E considerando sua aparência, ele também era familiarizado com uma boa briga. Mas Raven não gostava de pedir conselhos. Era o senhor ali, se não oficialmente, ao menos em espírito. Amava verdadeiramente um único lugar, Stonelee, mas logo seria o legítimo dono e senhor de Angleford, e não abriria mão de sua propriedade em benefício de Ballin de Penllyn, que para Roxanne era...

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— Mande o alerta — ele ordenou a Félix. — Quero que todos sejam informados, desde os habitantes da fortaleza até o povo do vilarejo. Amanhã à noite todos deverão estar no interior das muralhas. Félix assentiu. — Certamente, milorde. Os homens se levantaram, e Raven caminhou entre o capitão e Gruffydd na direção da saída, para o pátio. Roxanne o viu sair. Fingira trancar-se no quarto de Pamela e até batera a porta, mas, na verdade, havia permanecido no alto da escada, ouvindo a conversa. E estava furiosa! — E pensar que fui obrigada a confiar nesse cabeça-dura! — ela resmungou mais tarde, imersa no banho que Annie havia preparado sob protestos, porque, em sua opinião, um corpo não devia ser lavado com tanta freqüência, ou acabaria contraindo doenças graves. — Ele só quer se esconder atrás das muralhas e esperar que Ballin e seus homens se cansem e desistam. Como se um Cymry desistisse antes de vencer ou morrer! A raiva de Roxanne ganhou força com o passar do dia. Em vez de aproveitar o tempo para planejar a estratégia de defesa de Angleford, como julgava que deveria ser, ela examinava as coisas da falecida lady Ceridwen em busca de roupas que pudesse vestir. Mesmo enquanto se dedicava à tarefa tão feminina, os pensamentos reviam aqueles minutos em que Ballin confessara seus verdadeiros sentimentos. Eram tão diferentes do que ela havia esperado! Apesar de ter mencionado amor, ele não a amava. Apenas exigia que o amasse e que, por conta desse sentimento, obedecesse cegamente a suas ordens. Sentada em uma banqueta do quarto que Pamela ocupara na infância, esperando que Annie terminasse de arrumar seus cabelos, Roxanne lutava contra as lágrimas. Jamais se sentira tão traída antes. Nunca como se sentira por Ballin. E agora estava presa a Raven. Raven! Pensar nele era suficiente para poder ver seu rosto e sentir seu cheiro. Para anular o efeito das lembranças que eram como um poderoso encantamento, ela se obrigou a pensar em todas as queixas que tinha contra o lorde. Uma a uma, ia contando suas lamentações, desde a cruel acusação ainda no castelo de Fortengall até os planos covardes e estúpidos para defender Angleford. — Está pronto, milady — Annie anunciou satisfeita, terminando de ajeitar sobre a cabeça de Roxanne um fino véu preso por uma tiara de pedras cintilantes. — Parece mesmo uma princesa! Quase como lady Ceridwen. Ou como sua mãe, lady Rhiannon. Roxanne fitou-se no pequeno espelho de mão oferecido pela criada e ficou satisfeita com o que viu. Não sabia se Raven de Stonelee a julgaria atraente, mas... Projeto Revisoras

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Bem, depois de tê-la visto apenas coberta de lama e molhada de chuva durante a miserável cavalgada, era certo que ele notaria a diferença. E por que estava pensando nisso? Ela deixou o espelho sobre o toucador. Raven pertence a minha prima! Lamento pela má sorte de Pamela, mas é ela quem vai se casar com o detestável lorde! Peter é o melhor dos dois irmãos, e ele pertence a mim. Não Raven. Nunca Raven! Eu o odeio! Não estaria aqui em sua companhia se não fosse por Pamela, e não devia pensar se sou ou não desejável aos olhos de seu noivo. Não o quero. Não o aceitaria nem que ele suplicasse. — Annie, estas roupas pertenciam a tia Ceridwen, e agora são de Pamela. Eu não devia vesti-las. — Não seja tola! As roupas são grandes demais para lady Pamela, e ela é uma alma generosa. Certamente desejaria que fizesse uso delas. Precisa estar adequadamente vestida para presidir o jantar no salão. — Não me sinto em posição de presidir o jantar. Não estou recebendo convidados, Annie. O novo lorde de Guerra pode ocupar esse lugar à cabeceira da mesa. Ficarei aqui, nos meus aposentos. Traga-me uma bandeja com a comida, por favor. A mulher balançou a cabeça. — Milady, não pode estar falando sério! É justo que fique no lugar de lady Pamela. — Farei o que desejar! — Roxanne exclamou, irritada com a impertinência da serviçal. — Agora, deixe-me em paz. E só volte com a bandeja. — Mas, eu... eu... Muito bem, milady — Annie finalmente concordou, embora parecesse confusa com o comportamento estranho da jovem senhora. Obediente, a criada saiu e fechou a porta sem fazer barulho. Raven estava muito aborrecido. De seu lugar à cabeceira da mesa, com uma cadeira vazia a seu lado, ele examinou o salão mais uma vez, constatando que Roxanne não estava mesmo entre os comensais. — Onde está lady Roxanne? — ele indagou ao rapaz que depositava um leitão assado sobre a mesa. — Não a vi, milorde. Furioso, ele se levantou e subiu a escada saltando os degraus. O objetivo de vida dessa mulher era incomodá-lo. Era atrevida e ousada demais para uma donzela, falava sempre o que pensava, em vez de calar-se, e agia com o simples propósito de alcançar fins bem estabelecidos, sem nunca considerar as ramificações de suas atitudes arrojadas. Roxanne jamais seria uma dessas mulheres que um homem pode domesticar e esquecer nos cantos de sua casa. E não era feia, o que teria tornado tudo mais fácil. Projeto Revisoras

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Pelo contrário, ela era atraente a ponto de enfeitiçá-lo, a ponto de fazer um homem desejar aquilo que sabia não ser correto ou decente. Raven tocou a maçaneta da porta. Sabia que Roxanne ocupava o quarto de Pamela. No futuro, entraria ali centenas de vezes e encontraria sempre a doce e meiga dama que seria sua esposa. Frágil, obediente... Então, por que não antecipava a experiência com alegria? Por que se sentia mais ansioso para ver Roxanne, sempre tão rebelde e irritante? Ele abriu a porta. Roxanne estava sentada em uma banqueta, pensativa, mas levantou-se sobressaltada ao vê-lo. Nesse momento, Raven teve certeza de que a desejava como jamais desejara outra mulher. Pior... Amava-a. — Como ousa invadir meus aposentos? Pode achar que não tenho direito à privacidade em Angleford, mas saiba que aqui estou em meu território! — Por quê? — Raven bateu a porta e aproximou-se para segurá-la pelos braços. — Porque estamos na propriedade de minha prima! Eu... cresci aqui. Angleford é meu segundo lar! — É mesmo? Pensei que seu segundo lar fosse Pennlyn Hall! O rubor culpado no rosto dela incendiou ainda mais a ira de Raven. — Fortengall pertence a minha mãe e ao marido dela. Angleford me pertence. Não tem direitos aqui, Roxanne. Nem mesmo à privacidade. Ela piscou e o encarou assustada. — Angleford ainda não é sua — ela argumentou indignada. — Não se casou com Pamela. — Meu casamento nada tem a ver com isso. É uma questão de honra! — Tire as mãos de mim, seu... seu... — Cuidado com o que vai dizer. E tirarei as mãos de você quando e se eu assim decidir. Lembre-se, eu sou o senhor aqui. Se não para sempre, pelo menos por esta noite. Minha vontade prevalece. E qual era a vontade de Raven? O que ele desejava? Raven viu a expressão insegura no rosto de Roxanne. Viu o brilho nos olhos, os lábios macios e entreabertos... E ele soube: Roxanne correspondia aos seus sentimentos. A descoberta o encheu de um calor envolvente e incontrolável, um calor que aquecia regiões normalmente deixadas de fora de conversas ditas civilizadas. Adoraria explorar seus atributos tentadores, mas não ousava ceder ao desejo. Se perdesse o controle, poria tudo a perder.

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Cauteloso, soltou seus braços e deslizou as mãos até a altura dos cotovelos da donzela. Roxanne oscilou como se perdesse o equilíbrio, e ele aproveitou a oportunidade para puxá-la de encontro ao peito como se quisesse apenas ampará-la. — Não deixaria que nenhum mal a atingisse — ele murmurou, deslizando os lábios pelo pequeno queixo de Roxanne, enquanto as mãos, habilidosas e experientes, soltavam as fitas do vestido. Ela sabia bem o que ele estava fazendo, e não resistiu, exceto para dizer, sem a altivez que gostaria de demonstrar: — Lembro-me de que prometeu atingir-me com suas próprias mãos. — Eu prometi? — ele a beijou nos lábios. — Creio que havia para isso uma condição que, se não me engano, deixou de cumprir, milady... — Ele baixou as mangas do vestido de Roxanne, deixando-o cair ao chão. — Na verdade, como me preveniu sobre o risco que corre a Fortaleza de Angleford, devo considerá-la minha... aliada. — Ele ia soltando também os laços da túnica que ela usava sob o vestido. — Não estou certo? É minha aliada? — Ohhh... — ela gemeu, afetada pela língua que deslizava por seu pescoço deixando uma trilha quente e úmida. A túnica caiu sobre o vestido. Restava apenas uma fina camisola de linho, as meias e os calçados delicados, além do véu que adornava sua cabeça. Roxanne parecia uma deusa celta, e Raven lamentou não poder recuar para apreciar com calma toda a beleza daquela imagem. Mas não podia. Estava ereto, completamente excitado, e precisava dela da maneira mais íntima e primitiva que um homem pode necessitar de uma mulher. Raven beijou-a, dessa vez com ardor e ousadia, inserindo a língua por entre seus lábios entreabertos. Não podia deixá-la pensar, ou ela o rejeitaria e fugiria. Depois de remover o ornamento de sua cabeça, ele a tomou nos braços e carregou para a cama, onde a deixou. — Sou seu servo, milady. — Ele prometeu com sinceridade, removendo um dos delicados calçados para beijar-lhe os pés. Quando ergueu sua perna, Raven pôde ver uma pequena porção da parte mais íntima de seu corpo de mulher, clara e úmida, e a visão quase o levou ao clímax. Ainda de joelhos, ele terminou de despi-la, encantado por não encontrar nenhuma resistência. Pelo contrário, Roxanne erguia os braços para auxiliá-lo. Ela também o desejava. Queria deixar de ser virgem, e queria que esse homem a iniciasse nas artes do amor. Raven havia se despido e já se deitava sobre seu corpo. — Eu... eu... — Não diga nada, milady. Juro que não vou machucá-la. — Oh... Projeto Revisoras

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As mãos a tocavam. Os lábios a beijavam. O calor aumentava. A reação dela não o surpreendia. Sabia que ela era ardorosa, e sempre apreciara essa qualidade em uma mulher. Determinado a provar que nenhum homem jamais poderia dar a ela mais prazer do que teria em seus braços, Raven a acariciou até ouvi-la gemer e suplicar. Roxanne de Bittenshire o desejaria como nunca desejara outro. Especialmente, ela o desejaria como nunca havia estado sequer perto de desejar o maldito príncipe de Gales, Ballin de Pennlyn! Raven só não esperava descobrir que a mulher que ele possuía com tanta paixão era virgem. Porém, superada a surpresa inicial e a dor provocada pela penetração, eles escalaram juntos uma espiral de prazer que os levou a um clímax violento e explosivo. E, nesse momento, ambos souberam que seriam amantes para sempre. Annie bateu na porta. Duas vezes. Não obteve nenhuma resposta. A preocupação a fez mais curiosa do que de costume, e ela entrou carregando a bandeja que lady Roxanne ordenara. Não podia vê-lo além das cortinas que cercavam a cama, mas a voz era inconfundível. Lorde Raven de Stonelee. E apesar de também não poder ver a mulher com quem ele se deitava, a dedução era óbvia. Assim, antes que a noite chegasse ao fim, todos na fortaleza foram informados da mais picante e inesperada novidade de Angleford: Raven, lorde de Angleford e noivo de lady Pamela, deitara-se com Roxanne de Bittenshire. Pamela sentou-se perto da janela do quarto de Peter. Ele dormia desde que ali entrara, e chegara a pensar em retornar aos seus aposentos. Mas sabia, mesmo ele nunca tendo admitido, que Peter ficava perturbado quando dele se afastava. E ela partilhava esse sentimento, embora também se sentisse muito perturbada quando estava perto dele. Porque alguma coisa em Peter de Stoneweather mudara recentemente, e não era só o fato de agora ele se movimentar com o auxílio das muletas. Acamado, ele havia sido um homem diferente. Diferente do irmão gêmeo despertara nela um sentimento de segurança, tanto que nem considerava o fato de ser um homem. No máximo, tivera-o como um irmão, e nenhuma mulher usa palavras como viril e atraente para descrever um irmão. Mas Peter de Stoneweather era viril. Tivera essa impressão ao conhecê-lo, mas depois esquecera o sentimento durante o período em que ele ficara preso à cama. E agora, bastara Peter levantar-se, ainda com o auxílio das muletas, para sentir novamente aquela aura de masculinidade que a inebriava. Suspirando, Pamela olhou para o tecido esquecido sobre o baú. Era um corte cor de ametista que Lucinda e Ian haviam dado de presente a ela para confeccionar o vestido de casamento. Já havia sido cortado para se adequar ao seu tamanho. Devia Projeto Revisoras

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estar costurando, mas não tinha nenhuma vontade de entreter-se com atividades dessa natureza, especialmente porque o traje serviria para vesti-la em seu casamento com Raven. — Vê alguma mancha? — O quê? — Pamela assustou-se com a voz de Peter e virou-se, descobrindo-o acordado. — Algum sinal do vermelhão? — Não! Por quê? Encontrou alguma mancha em você? — Não. Só perguntei porque parecia preocupada. — Ah, eu... estava distraída. — Em que pensava? — No vestido de casamento. E no casamento propriamente dito. — Com Raven. — Sim. Com quem mais? — De fato, quem mais? Bem, vá em frente. Não há muito mais o que fazer aqui, neste quarto. Quantos jogos se podem inventar em um dia? Entregue-se a sua costura e prepare-se para receber meu irmão. — Não. Você é minha principal responsabilidade no momento. — Não sou sua responsabilidade! Há dias tenho as malditas muletas. Sou perfeitamente capaz de usá-las. Sinta-se à vontade para retornar aos seus aposentos, milady, se assim preferir. — Não prefiro — ela respondeu, tentando entender como a amizade divertida e leve se transformara em uma reação tão tensa, tão volátil. — Por que não treina um pouco mais com as muletas? Estarei a seu lado, se precisar de apoio, —Não. Eu... — Peter balançou a cabeça, mas, de repente, sua expressão ganhou uma nova suavidade. — Está bem. Mais uma repentina mudança de humor, dessa vez para melhor, felizmente. Pamela pegou as muletas e aproximou-se da cama com a mão estendida para ajudálo a levantar-se. — Obrigado. — Sorrindo, ele aceitou a mão estendida e começou a se levantar. Pamela tentou ignorar o calor gerado pelo contato entre seus dedos e os dele. Não era uma sensação incomum, mas por ela passara a evitar o contato físico sempre que possível. No entanto, não podia evitá-lo agora. Fingindo não se incomodar com a onda de calor, ela o sustentou enquanto acomodava a muleta sob seu braço, esperando até

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ter certeza de que Peter estava bem equilibrado para só então soltá-lo e repetir a operação com a outra muleta. — Quer ir até a janela? — Não. Hoje quero ser mais ousado. Por que não vamos ao seu quarto? — Podemos ir, se quiser. Mas o que deseja fazer lá? Meus aposentos são pequenos... — Quero sair deste quarto! Qualquer lugar serve. Qualquer coisa é melhor do que essa cama. — Muito bem. Vá na frente, então. Estarei bem atrás de você, amparando pela cintura. — Eu já imaginava. Ele piscou e sorriu, e o efeito foi devastador. Pamela quase suspirou Mas não podia se entregar a tais frivolidades, porque Peter já se dirigia à porta, forçando-a a segui-lo. — Está indo muito bem — Ela o encorajou — Eu disse que havia dominado a arte. Acho que vou tentar andar usando apenas uma muleta — Peter, não. Não vai conseguir. — Eu vou, se puder me apoiar com um ombro. Pamela queria recusar a sugestão, mas contentar Peter era sua única ambição nesse período de tédio e apreensão Por isso ela assentiu. Peter apoiou uma das muletas contra a parede do corredor e passou o braço em torno de seus ombros, puxando-a para mais perto. Era estranho, mas no lugar da ansiedade esperada, Pamela sentia apenas segurança e conforto. Num impulso, ela o enlaçou pela cintura. Os primeiros passos foram cautelosos — Sente-se bem — ela perguntou Para sua surpresa, Peter beijou a ponta de seu nariz antes de responder. — Sim, muito bem Peter a beijara. Um beijo inocente, sim, quase um carinho de irmão, mas um beijo. Pamela sentia-se alegre, eufórica, mas conteve as emoções respirando fundo. — Tome cuidado — ela disse, adiantando-se para abrir a porta de seu quarto e deixá-lo entrar.

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— Ajude-me a ir até a janela — ele pediu — Creio que a vista daqui é mais interessante que a de meu quarto. — Diferente, talvez, mas não interessante. Se debruçar sobre o parapeito e olhar para leste, talvez consiga ver a campina. — A campina! Que delícia de visão! — Apóie-se no parapeito enquanto vou buscar uma cadeira. — Não! Quero ficar em pé. — Não acha que será cansativo demais? — Estou ferido, Pamela. Não tenho nenhuma enfermidade letal. Sou tão forte quanto Raven, caso não tenha notado. — Eu sei. Ele se apoiou à parede sob a janela e, com a cabeça na abertura, deixou o vento brincar com seus cabelos. — Ah, isso é maravilhoso! Venha, Pamela. Junte-se a mim! Ela aceitou o convite. A janela não era larga o bastante para que houvesse espaço entre eles, e Pamela tinha consciência da presença máscula a seu lado. Não devia notá-la. Peter era noivo de sua prima, e isso devia ser suficiente para não ter sentimentos tão perigosos. O problema desses sentimentos era que não se podia controlá-los. — Sinto o cheiro da primavera no ar — Peter comentou. — Só porque o vento mudou. Hoje cedo, a única coisa que se podia sentir perto das janelas era o cheiro do estrume no pátio. Ele riu. — Não há poesia em sua alma, linda lady Pamela? Pensei que todas as moças fossem românticas por natureza. — Quando é apropriado, milorde, entrego-me a devaneios. — Entendo. Não considera apropriado falar de poesia ou romance em minha presença. — De fato, não é. Quando estivermos casados com... Oh! Peter perdeu o equilíbrio e, numa reação instintiva, apoiou-se nela. Pamela o segurou. Para não cair, Peter a enlaçou pela cintura. Com muito esforço, ela conseguiu arrastá-lo até uma cadeira e, depois de acomodá-lo, censurou-o. — Santa Mãe de Deus! Você mal se levantou da cama! Mal consegue ficar em pé sem ajuda! — Tem razão. — Ele reconheceu contrito. — Acho melhor voltar para a cama.

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— Não. Vou ficar aqui sentado apreciando a vista. — Se acha que é conveniente... — Eu acho. Sente-se aqui comigo. — Não há outra cadeira. — Não importa. — Peter segurou a mão dela e puxou para sentar-se sobre seus joelhos. Assustada e desanimada, ela tentou se levantar, mas os braços dele eram fortes e a impediram de sair. — Isso não é apropriado, Peter. Se sua mãe entrar... — Ela não virá. Está cuidando de Hugh e dos gêmeos, e de todos os outros que estão sofrendo com essa maldita pestilência no castelo. Além do mais, como eu poderia desfrutar dessa bela paisagem sabendo que você é privada dela ou permanece em pé? Por favor, faça-me um gosto, querida. Sente-se e aprecie a paisagem comigo. Ele a chamara de querida. Uma forma de tratamento adotada por amantes. Seu coração batia descompassado. Peter tocou seu queixo para que ela o encarasse. — Pamela? Algum problema? — Não, eu... eu... — Veja, aquele deve ser o primeiro pássaro da primavera! — Sim, mas... O pátio está quieto, silencioso... — Porque a doença castiga Fortengall. Muitas crianças estão enfermas, e há entre os adultos um grande número de casos. — Sim, foi o que disse sua mãe. Pelo menos seus irmãos se recuperam bem. E se essa é uma enfermidade que afeta mais aos pequenos, era de esperar que houvesse mais gente trabalhando entre as muralhas de Fortengall. — Os pais estão em casa cuidando de seus pequenos. — Entendo... — Era hora de encerrar a visita a seus aposentos. Podia sentir algo sob suas pernas, como um objeto volumoso que a incomodava, e pelo pouco que sabia sobre os homens, podia bem imaginar que volume era aquele. Olhando boquiaberta para o homem sobre cujas pernas estava sentada, ela esperou por uma confirmação constrangida ou um pedido de desculpas, mas Peter apenas sorria. Mortificada, ela tentou se levantar, mas, para sua humilhação, o movimento só tornou a situação ainda pior. Rígida, ela declarou:

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— Deve soltar-me, milorde. Não há de ser bom para sua perna sustentar todo esse peso... — Bobagem. A fratura se localiza abaixo do joelho. Por que está tão agitada, minha doce lady Pamela? — Eu... não estou. — Bem, parece estar constrangida, perturbada... — Insisto na necessidade de... — Disso? — Ele roçou os lábios nos dela. Incapaz de resistir, Pamela fechou os olhos e entregou-se à doce sensação provocada pelo beijo, de início suave, mais ardoroso e ousado na medida em que ela ia permitindo o prosseguimento do contato. Sua consciência exigia que interrompesse a indecente intimidade, mas o pulsar do sexo entre suas pernas e a respiração ofegante prejudicavam o raciocínio. Foi com pesar que ela sentiu a língua de Peter deixando sua boca. Tentando prolongar o prazer até então desconhecido, ela mordiscou a ponta úmida a fim de retê-la, sugando-a com os lábios. Peter retomou o beijo com ousadia ainda maior, e Pamela pensou que poderia desmaiar com a força das sensações. As mãos dele se moviam. Uma tocava-lhe o colo, aumentando o desconforto, despertando nela o desejo de sentir os dedos sobre a pele nua e febril. O volume sob seu corpo parecia maior, e agora pulsava. Instintivamente, sabia que, se Peter a despisse, aquele apêndice encontraria o caminho para sua gruta secreta, apesar de ainda ser virgem e de estar nos braços de um homem temporariamente incapacitado. Por mais que seu corpo clamasse por isso, não podia permitir tal desfecho. Relutante, ela se soltou dos braços que a envolviam e levantou-se de um salto, antes que Peter pudesse detê-la. — Pamela! Era inútil. Ela já corria para a porta. Pamela parou ao chegar no corredor e, arfante, encostou-se à parede. Havia agido como uma pecadora e, pior, pecara com o noivo da prima, irmão de seu prometido! Precisava encontrar o sacerdote do castelo. Era indispensável que se confessasse! — Pamela? Lucinda caminhava em sua direção, e ela respirou fundo para recompor-se. A esposa do conde estava pálida, e havia círculos escuros em torno de seus olhos. Mas Pamela não registrava as implicações de sua aparência, porque o encontro só aumentava o pânico que a castigava.

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— Algum problema? Está doente? Peter...? — Não... Não, milady, estamos bem. — Então, o que houve? Porque é certo que algo aconteceu. — Eu... Eu... Precisava sair um pouco, só isso. — Sair? De perto de Peter? Ele fez alguma coisa que a aborreceu? — Não. Nada que tenha sido deliberado. Mas... Isso é difícil, milady. Passar tanto tempo confinada tendo apenas uma pessoa por companhia... Preciso... — Do que precisa? —Ar... — Aflita, Pamela correu para a escada, esquecendo todas as precauções que tomara até então para evitar o contágio da pestilência que assolava o castelo. Passando pelos guardas, ela abriu a porta e correu para o pátio. Lucinda não a seguiu. Recolhendo a muleta que encontrou abandonada no corredor, chamou pelo filho e foi seguindo o som de sua voz até encontrá-lo sentado diante da janela no quarto de Pamela. — O que aconteceu? Por que Pamela o deixou aqui sozinho, sem amparo? Vocês discutiram? — Sim, mas... Não foi nada sério, mãe. Apenas... Bem, estamos confinados há muito tempo, e mesmo com toda a amizade que nos une, começamos a nos sentir... perturbados. — Perturbados? Bem, lamento que essa amizade tenha sofrido o primeiro golpe, mas, felizmente, não terão mais de passar tanto tempo juntos. O isolamento já se encaminha para o fim. Hugh, Jamie e John já melhoraram muito, e hoje não há novas vítimas do vermelhão. Se tudo continuar assim, logo você poderá descer ao salão. Até lá, Raven e Roxanne estarão de volta. — É bom saber disso — Peter respondeu sem nenhum entusiasmo. — Quer voltar ao seu quarto agora? — Não. Vou passar mais algum tempo sentado aqui. — Nesse caso, virei buscá-lo mais tarde. — Precisa descansar, mãe. Suplico que se deite um pouco. E não se preocupe comigo. Pamela virá me buscar. — Virá? Tive a impressão de que ela pretende se manter afastada por algum tempo. Parece que cuidar de você a afetou intensamente. — Não foi nada sério, mãe. Nem chegamos a discutir. Logo ela estará de volta. — Talvez esteja certo. Pamela de Angleford é muito responsável, e estou grata por sua assistência. Mas ela é jovem, Peter. Não abuse de sua natureza dócil, eu suplico. Raven já se encarregou disso. Projeto Revisoras

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— Eu jamais abusaria da senhora de Angleford, e me ofendo com sua insinuação sobre eu ser capaz de tamanho egoísmo. Quanto a meu irmão, ele terá de prestar muitas contas quando voltar ao castelo. Lucinda assentiu cansada e se retirou sem dizer mais nada. Sozinho, Peter sorriu satisfeito. Pamela havia fugido, mas não por se sentir ofendida ou amedrontada. Não, ela fugiu porque me deseja tanto quanto eu a desejo! Não há mais como negar o que é óbvio. Nossa atração é forte demais para ser ignorada ou superada. Peter sabia que muitos problemas ainda decorreriam dessa atração, desse sentimento que se ergueria como um monstro emergindo de um lago profundo ameaçando destruir os bons sentimentos que o uniam a Pamela. Mas pretendia enfrentar a besta e vencê-la, tivesse ela o rosto de Raven ou do rei Henry. Pensativo, Peter olhou pela janela. Quando viu Pamela caminhando pela campina além das muralhas do castelo, seu coração se encheu de anseios inconfessáveis. Talvez ela ainda não soubesse disso, mas ele, Peter de Stoneweather, já estava mais do que certo de que a doce e meiga lady de Angleford estava destinada a ser dele.

Capítulo XII

— Lucinda! — Ian agarrou o braço da esposa e a levou para a mesa do salão. — Você vai se sentar e vai comer! — Ian! — ela protestou cansada. Mas foi inútil. Muito maior do que ela, Ian a levou até o banco e sentou-a, esperando que a esposa retirasse a faca de alimentos de uma bainha presa ao cinto. Já havia diante dela um prato com comida quente. — Não devia ser tão ruidoso — Lucinda o censurou, olhando para os corpos adormecidos em esteiras espalhadas pelo salão. — Vai acordar os criados. — Eles estão exaustos. Não vão acordar por causa de meia dúzia de palavras. Você os está levando ao limite. E está se exaurindo, também. Dorme pouco, come mal... Se continuar assim, vai acabar doente. — Não posso adoecer, Ian. Você sabe. Sofri com o vermelhão quando era criança.

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— Não me refiro a essa pestilência, minha querida. Falo de trabalhar até esgotar as energias. Não vou permitir. Os meninos contraíram a doença há dez dias e já estão em pé. Outros também estão curados, retomando a vida. A epidemia perde força. Em mais uma quinzena, restarão poucos acamados. — Mas ainda há muitos. — Todos com amigos e famílias para cuidar deles. Devia se alegrar. — Não posso. — Por que não? — Porque penso nos doze que perdemos. Entre eles o velho Jimson e o bebê de Mary. — Sim, eu sei, mas Jimson já tinha mais de setenta anos, e o bebê havia acabado de nascer. Se formos realistas contaremos poucas perdas, minha querida. — Talvez, se eu me houvesse dedicado mais... — Chega, Lucinda! Você fez tudo que podia. Devia estar aliviada com o fim próximo dessa pestilência. Já não está livre para assumir os deveres que Pamela tem desempenhado ao lado de Peter? — Oh, sim! Peter, você me fez lembrar... Tenho visto muito pouco aqueles dois. Cheguei a esquecer em que circunstâncias eles têm vivido. — Esqueceu? Lucinda, pensei que já se preocupasse com a amizade entre eles desde antes desse surto começar! E você diz que esqueceu...? Milady, deve estar mais fatigada do que eu imaginava. — Não estou. Porém, há alguns dias, encontrei Pamela muito perturbada no corredor dos quartos, e ela se afastou correndo antes de me dar muitas explicações. Aparentemente, Peter a aborrecera de alguma maneira, e ela afirmava precisar de ar. — Então... eles não estão tão contentes quanto Raven e Roxanne na companhia um do outro? Lucinda pensou por um instante. Depois empurrou a cadeira e se levantou. — Preciso ir ver Pamela e explicar que o perigo acabou. Ela pode retornar ao quarto de antes, se quiser, e William pode retomar seu posto ao lado de Peter. Eu... — Ela parou, acometida por uma súbita vertigem, e só não caiu porque Ian a amparou. — Isso pode esperar até amanhã. Você vai para a cama e vai dormir até estar totalmente descansada. — Ian! — Não discuta comigo, mulher! Não vai fazer diferença se falar com Pamela e Peter agora ou amanhã, mas sua saúde sofrerá graves conseqüências se não repousar imediatamente.

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Ian estava enganado. Peter estava sentado em uma cadeira, com as muletas ao alcance da mão, pensando. Pamela estava no quarto ao lado, evitando-o. Evitava-o desde a tarde em que ele quase a seduzira. Sempre disponível quando era necessária, ela nunca se recusava a ajudá-lo quando era solicitada. Mas conseguia sempre se manter fora do alcance de suas mãos, usando uma banqueta em vez de sentar-se na cama, como antes, e retornando aos aposentos em vez de permanecer em sua companhia o dia todo. A sedução parecia agora quase impossível. A qualquer momento, Peter sabia, sua mãe anunciaria o fim do surto que assolava o castelo, Pamela retornaria ao antigo quarto, e ele desceria para ir partilhar da companhia de outros homens no salão. E Roxanne retornaria com Raven a qualquer instante, e o panorama ficaria ainda mais confuso. O tempo passava depressa demais. Pamela o mantinha afastado. Mas não adiaria mais a decisão. Não permitiria que o destino interferisse em seu futuro. Sons do lado de fora o distraíram. Lucinda e o marido se recolhiam. O dia chegava ao fim. Em breve todos os moradores do castelo estariam em suas camas. Sem hesitação, Peter levantou-se com o apoio das muletas. Desenvolvera mais habilidades do que Pamela podia suspeitar. E em breve ela descobriria que também era habilidoso em outras esferas da vida. Em campos que ela nem ousava imaginar. Com cuidado, ele se aproximou da porta e saiu. Iria ao encontro de Pamela em seus aposentos. Ela se despia. Não era tão tarde que não pudesse ir propor um jogo qualquer a Peter. Mas não se atrevia. Passar o dia na companhia de lorde de Stoneweather já era difícil; passar a noite com ele era perigoso, considerando o estado em que estavam seus nervos. Nunca sentira tanto medo quanto naquele dia em que ele a estreitara entre os braços e a beijara. Estar com um homem e apreciar a companhia não a apavorava. Lady Ceridwen havia preparado a filha para experimentar essas emoções que provocavam o ato sexual propriamente dito. Em sigilo, Pamela antecipava a experiência com certa ansiedade. Mas esperava conhecê-las com o marido, não com o irmão de seu prometido! Sentindo a pele quente, ela a resfriou com uma esponja úmida. A porta do quarto estava encostada. Como ela era ingênua, Peter pensou sorrindo satisfeito. Se tivesse alguma noção dos pensamentos que o consumiam, se pudesse imaginar do que ele era capaz, teria fechado a porta e usado um ferrolho para assim mantê-la! Mas ela se julgava segura naquele pequeno quarto. Tolice dela... sorte dele.

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Peter aproximou-se e espirou pela fresta entre a porta e o batente. Seu coração disparou diante daquela visão. Pamela estava de costas para ele, de frente para a mesa sobre a qual ficava o conjunto do lavatório. Lânguida, erguia um braço e deslizava uma esponja úmida do pulso até o ombro. Levando a mão à cabeça, ela lavava também um seio. — Doce Mãe de Jesus... — ele murmurou. Adoraria poder banhar aquele corpo tentador, mas com a língua. Ela jogou os cabelos para trás, deixando-os cair sobre as costas nuas como um manto, e se abaixou para lavar as pernas. Peter quase enlouqueceu imaginando-se atrás dela, segurando seus seios delicados e puxando-a de encontro ao peito. Sabia como seria a sensação... Ele vestia apenas um robe preso por uma faixa em torno da cintura, e a liberdade conferida pelo traje de quarto permitia que o corpo reagisse ainda mais intensamente. Um movimento descuidado, e sabia que seu apêndice ereto surgiria entre as duas metades do robe. Ele gemeu. Pamela o ouviu. Surpresa, ela se virou cruzando os braços sobre o peito para cobrir-se, mas o gesto proporcionava pouca modéstia, pois deixava à vista o triângulo escuro entre suas pernas. Peter caminhou para ela sem nenhuma hesitação, dominado pelo desejo. Ao entrar, ele fez o que a jovem devia ter feito antes: fechou a porta com um ferrolho. — Peter! Você... — Ela tentou alcançar o robe que deixara sobre a cama, mas, antes que pudesse vesti-lo, o cavaleiro a deteve, não com as mãos, mas com uma palavra. — Minha querida, não. Quero vê-la... Ela parou atordoada, visivelmente aterrorizada. Peter aproximou-se. Diante dela, jogou uma das muletas para o lado e usou o braço livre para enlaçá-la pela cintura. — Peter, não! É errado! Não devemos... — Precisamos! — E ele a beijou com paixão. — É o que eu quero — murmurou entre um beijo e outro. — O que você quer. O que deve ser. Pamela sucumbiu à força do desejo que a incendiava. Apoiado em uma muleta, Peter aproximou-se da cama, onde se deitou e tirou o robe, revelando toda a força de seu desejo. Por um momento, Pamela ainda hesitou, mas não resistiu ao chamado silencioso daqueles olhos brilhantes e cheios de paixão. — Pamela... — ele murmurou ao tocá-la. — Eu a amo! Precisamos um do outro... Projeto Revisoras

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— Mas... Fui prometida a Raven, e Roxanne... — Não falemos deles agora. Esse momento é nosso. Sua prima e meu irmão nada têm a ver com o que sentimos ou fazemos. — Como pode dizer tal coisa? Vai se casar com Roxy, e eu vou me casar com Raven! — Nunca! — O rei... — O rei que apodreça no inferno! Você vai ser minha mulher, Pamela de Angleford! Não permitirei que se case com outro homem que não seja eu. Incrédula, ela o encarou por um instante sem saber como reagir, até que, sentindo os dedos em seu seio, esqueceu a realidade e se deixou envolver pelo calor da paixão. — Oh, Peter... — Sim, é assim que deve ser, minha doce Pamela. Nós dois... — Jamais seremos um só! O rei, sua mãe, minha prima, seu irmão... Eles não permitirão que nosso sonho se realize! Então, não me torture! — Tortura? — Peter sorriu. — Minha querida, é você quem me tem atormentado! E se não puder unir meu corpo ao seu nos próximos minutos, receio embaraçar-me diante de seus olhos. — Mas nós... Somos noivos... — Já disse que vou me casar com você! E se formos homem e mulher no sentido mais amplo da palavra antes de tornar conhecido nosso amor, ninguém poderá desfazer essa união. — Está sugerindo o impossível, Peter... — Nada é impossível se desejamos de verdade, minha querida. Não quer ser minha esposa? — Sim, quero, mas... — Então, está acertado. Não precisamos nem proferir os votos, porque essa é a lei há anos; duas pessoas podem se casar sem sacerdote ou testemunhas, desde que assim o desejem e não haja impedimento para as núpcias. Você sabe que não há impedimentos, ou o rei não teria decretado que vocês, primas, se casassem conosco, irmãos gêmeos. — Mas o rei decidiu que você deve se casar com Roxy, e eu devo me casar com Raven. Ele vai ficar furioso se não acatarmos a ordem. — Por você, não hesito em desacatá-lo e me expor à ira real!

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— Mas não quero que seja morto! Oh, Peter! — Ela o abraçou chorando. — Prefiro amá-lo em silêncio, à distância, sabendo que está vivo e casado com Roxanne, a tê-lo comigo por pouco tempo só para vê-lo cair morto por ordem de Henry! — Não vai ser esse meu destino, minha querida. — ele a ergueu para poder fitá-la. — Fugiremos, se for preciso. Iremos viver em um recanto distante do mundo, um lugar onde nem Henry consiga nos encontrar. Viria comigo, não? — Oh, sim! Não importa onde vou passar o resto da minha vida, desde que tenha a meu lado o homem que amo! — Eu a amo! E estarei para sempre a seu lado. A começar por esta noite. Eu, Peter de Stoneweather, aceito você, lady Pamela de Angleford, como minha legítima esposa, e prometo ser fiel todos os dias de minha vida e assegurar que, com nossos filhos, viva em segurança, abrigada e bem-alimentada. Jamais amarei outra. Pamela sorriu. — Eu, lady Pamela de Angleford, aceito você, lorde Peter de Stoneweather, como meu legítimo marido. Chego a você virgem e juro nunca tomar outro homem enquanto nós dois formos vivos. Todos os meus filhos serão seus, não duvide. E cuidarei de você e deles até o dia de minha morte. Amo você, Peter. — Não mais do que eu a amo. Peter olhou para a própria mão e retirou do dedo um anel com um brasão em ônix tão escuro quanto seus olhos. Tomando a mão de Pamela, ele colocou a jóia em seu dedo. Pamela encarou-o emocionada. — Somos mesmo marido e mulher? — Tanto quanto se houvéssemos nos casado em uma catedral com um bispo rezando a missa e a realeza por testemunha. Ela riu, e as lágrimas que verteram de seus olhos eram de alegria. — Venha, esposa. Agora vamos consumar essa união. Vai sentir dor nessa nossa primeira vez, porque ainda é virgem, mas juro que nunca mais a farei sofrer depois disso, por nenhuma razão. Pamela realmente sentiu dor ao ser penetrada, mas o prazer que ela experimentou em seguida foi tão intenso e explosivo que, ao se deitar saciada ao lado de Peter, ela nem se lembrou mais do incômodo do início da relação. Peter... Seu marido... — Agora somos um só — ele murmurou. — Somos marido e mulher, e ninguém mais poderá separar-nos. Nunca.

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Roxanne acordou no meio das cobertas amarrotadas, sentou-se e estendeu os braços para cima. Sentia-se muito bem, mas naqueles primeiros momentos de vigília ela não conseguia identificar a fonte de tanta euforia. Uma dor persistente, embora leve, entre as pernas trouxe de volta lembranças da noite anterior e do cavaleiro com quem se deitara. Roxanne olhou para o espaço vazio ao lado dela. — Está acordada? — Raven indagou, afastando as cortinas da cama para vê-la. Ele estava vestido. Ela não. Ainda assim, Roxanne não tentou cobrir sua nudez. — Sim — ela assentiu casualmente, esperando parecer composta. Não sabia como os amantes se comportavam na manhã seguinte, mas não deixaria transparecer sua inexperiência. — Está com fome? — Raven perguntou. Mais uma vez, ela respondeu movendo a cabeça em sentido afirmativo. — Eu já imaginava. Não jantamos ontem à noite. Notei uma bandeja de comida sobre a mesa quando me levantei, mas... Diga-me, já estava lá quando eu...? — Não. Annie deve ter vindo trazê-la depois que nós... Roxanne também não concluiu a frase, mas ela e Raven chegaram à mesma conclusão ao mesmo tempo. — Não se preocupe, Roxy. Afinal, estamos falando de uma simples criada... Era verdade, a criada de Angleford não tinha importância. Porém, era evidente que ela sabia o que havia acontecido na noite anterior, e saber disso constrangia Roxanne. — Raven... Ele se sentou na cama, ao lado dela, e calou-a com um beijo, acariciando-lhe um seio. — Confesso que também estou faminto — ele disse ao soltá-la, levantando-se com grande determinação. — Vou descer para fazer o desjejum. Teremos um dia cheio antes que Ballin chegue com seus guerreiros para atacar a fortaleza. — Raven... — Depois, Roxy. Depois. Ele saiu e fechou as cortinas da cama. Roxanne ouviu os passos de Raven deixando o quarto e, segundos depois, o barulho da porta sendo fechada. Uma fúria súbita a invadiu. Ballin a mandara para longe depois de um beijo frio, dominador. Agora Raven a desprezava depois de ter maculado seu corpo, roubado sua virgindade. Era muita ousadia!

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Ela jogou longe as cobertas e se levantou. Roxanne de Bittenshire não era uma meretriz para ser usada e descartada como uma mulher de taverna de um vilarejo. Se Raven não percebia isso sozinho, tinha de fazê-lo entender as conseqüências de seu comportamento descuidado. Vestindo-se com as roupas que ele havia tirado dela na noite anterior, Roxanne ajeitou os cabelos com os dedos e desceu. As primeiras pessoas que viu no salão foram duas criadas que serviam a mesa. Elas sorriram com malícia ao vê-la, mas ficaram sérias e assustadas quando, irritada, Roxanne ordenou que voltassem ao trabalho. Mas não havia dúvida de que elas sabiam sobre sua noite com Raven. Ele estava em pé ao lado da mesa, falando com Félix. Roxanne ergueu as saias e atravessou o salão com passos apressados, disposta a chamá-lo. Mas, quando se aproximou de Félix, ela parou aturdida. — Quase todos sabem, milorde. — O senescal estava dizendo a Raven. — Os criados da casa, os guardas da baronia, os cavaleiros e os arqueiros... É... lamentável. — Não, mestre Félix. E não é da conta deles! Por que devo me importar com o que os criados desta fortaleza pensam a meu respeito? Sou o senhor de Angleford! E eles não têm nenhuma importância. — Não é verdade, milorde. Não nesse caso. Ainda não se casou com lady Pamela e, por isso, não tem nenhuma autoridade sobre Angleford. E antes que o príncipe Ballin ataque, vai precisar da lealdade de todos aqui, especialmente dos guardas. Nenhum homem arrisca a vida por um senhor em quem não confiam. Especialmente por um lorde a quem não respeitam. Raven ficou tenso. Roxanne podia ver a rigidez em sua postura. — Não fiz nada para desmerecer o respeito desses homens. Como você mesmo disse, Felix, não estou ainda comprometido com essa baronia, mas, ainda assim, disponho-me a arriscar a vida para defendê-la. O que mais eles podem esperar de mim? Félix encolheu os ombros e olhou para o chão. — Suponho que esperem que honre sua senhora, Pamela de Angleford. Roxanne encolheu-se como se houvesse sofrido um golpe físico. Raven riu desdenhoso. — O que é isso, mestre Félix? O povo dessa baronia é ingênuo o bastante para supor que um nobre não tome amantes? Lorde Arthur nunca dormiu com outra mulher que não fosse sua esposa? Roxanne baixou a cabeça. A dor que sentia era tão aguda, que ela buscava instintivamente por uma ferida. Mas não havia sangue em seu vestido; o corte era invisível.

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Félix estava agitado, mas continha-se com grande esforço, mantendo-se em seu lugar. — O povo de Gales sabe como são as coisas entre homens e mulheres. Não somos menos sofisticados que os ingleses, milorde. Não posso dizer se Arthur teve ou não outras mulheres além de lady Ceridwen, mas posso afirmar que, se as teve, ele foi muito discreto. — Lady Roxanne e eu fomos discretos. Uma criada não devia entrar nos aposentos de seus senhores sem pedir permissão. E, depois de ter cometido esse grave erro, a criada em questão não devia ter saído pelo castelo contando histórias. Se eu fosse de fato o senhor no comando desta propriedade, já a teria mandado embora... ou pior. Como senescal, talvez deva pensar em tomar alguma atitude contra essa serviçal. — Talvez esteja certo, lorde Raven, mas não é esse o assunto que discutimos aqui. Não se deitou com uma criada qualquer. Passou a noite com lady Roxanne, parenta consangüínea de sua noiva. Algumas pessoas, aquelas que se sentem especialmente ligadas a lady Pamela por laços de afeto, podem sentir que a traiu. — E quem seriam essas pessoas? Você, Félix? Pois é melhor se preparar, porque, se parar para pensar em tudo por um momento, vai perceber que a situação pode ser ainda pior. Não só dormi com a prima de minha noiva, como me deitei com a noiva de meu irmão. Roxanne é essa pessoa. Roxanne sentiu uma nova onda de fúria invadi-la. Raven era muito pior do que Ballin. Pelo menos seu primo, o príncipe, simplesmente a rejeitara. Mas o inglês a seduzira por razões egoístas e tivera a ousadia de gabar-se do abuso. Com os punhos cerrados, ela tentava se conter, apesar de ter sido publicamente humilhada. Ainda era Cymry, e seu povo mantinha a dignidade mesmo quando era humilhado, de forma que, mais tarde, pudesse vingar-se. — Esse não é um argumento em favor de sua causa — Félix comentou. — Não preciso argumentar com ninguém. Não nessa baronia! Estou aqui para preveni-los, todos vocês, para oferecer minha ajuda e colocar-me na liderança da defesa dessa fortaleza. Não precisava ter vindo. Tenho uma excelente propriedade em uma terra que me agrada muito mais do que esse lugar úmido e selvagem que chamam de Gales. Não me interesso pelo dote de Pamela. Se ela o perdesse para o príncipe Ballin, nada me faria subir as montanhas geladas e úmidas para lutar para recuperá-lo. Não preciso estar aqui. Mas estou. E ficarei até esse conflito com o príncipe de Gales estar terminado. Mas não ouse me reprimir, senhor. Não é da sua conta se me deito com uma criada, com a esposa de meu irmão ou com a própria rainha Eleanor! Roxanne sentia-se esculpida em pedra. Estava pesada, com os pés colados no chão. Só conseguia pensar em como poderia matar Raven. Teria de cortá-lo em mil

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pedaços agora, não só porque a usara, mas porque assim ele jamais seria um lorde de Guerra em Angleford. Ansiava por vingança, certamente, mas sentia-se obrigada por dever de honra, depois do deslize cometido, a poupar Pamela de tornar-se a esposa do demônio sombrio. — Milordes, o vilarejo está sob ataque! Cymry desceram as encostas gritando. O príncipe Ballin de Penllyn os lidera! Todos os olhos na sala se voltaram para o homem que entrava correndo e gritando a notícia. Roxanne virou-se, porque o mensageiro estava bem atrás dela, mas não foi tão rápida quanto Raven, e os olhos dele encontraram os dela por um momento. Raven estava vestido para o confronto, em malha e armadura. Ele não usava capacete, mas puxara o capuz de couro sobre a cabeça e empunhava a espada enquanto caminhava para o portal principal, gritando ordens por onde passava. Ninguém questionava sua autoridade, dentro ou fora da casa, ou no pátio onde ele montou Rolf, já preparado com sua sela. Até Félix, também armado com sua espada para defender aqueles que permaneciam entre as muralhas, assentia obediente ao ouvir as instruções. Raven passou pelo portão cavalgando ao lado de Edwin, e um contingente de homens armados os seguia a pé. Ele ia pensando na expressão de Roxanne. Sabia que ela ouvira cada palavra do que dissera a Félix, e sabia também que ela não tinha consciência de que ele mentira. Mas o que importava era que havia quebrado o juramento feito na noite anterior, o voto de nunca feri-la. Machucara Roxanne como só um homem é capaz de ferir uma mulher, e não fora essa sua intenção. O estrondo de cascos e pés calçados sobre a ponte de madeira era ensurdecedor. Edwin apontou a direção do vilarejo e tomou a frente do grupo para orientá-los. Mas o lorde de Stonelee nem notava o barulho ou o curso que seguiam, porque seus pensamentos permaneciam com lady de Bittenshire, a mulher que ficara na fortaleza de Angleford. Eu teria explicado, se houvesse tempo. Mas não foi possível, e Roxanne devia saber como são essas coisas. Prometi falar mais tarde, e mais tarde falaremos sobre o passado e o futuro. Mas não enquanto Angleford e seu povo não estiverem seguros da ganância violenta de Ballin. Temporariamente convencido, Raven voltou toda a atenção para o ambiente que percorria com o capitão. Como um cardume nadando pela correnteza, eles iam pela trilha de terra em sentido contrário ao dos moradores, que já deixavam suas casas a caminho da fortaleza. Cores, formas e sons passavam por ele num emaranhado de movimentos e cheiros. Ouvia o som metálico de espadas e armaduras. Sentia o coração pulsando no peito e o sangue correndo nas veias, promovendo uma descarga de força que ia dominando seus membros e alimentando a antecipação da batalha. Projeto Revisoras

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Raven quase se deixou envolver pelo momento. O perigo, o ritmo, a agitação. Porém, de repente, ele vislumbrou o rosto de Roxanne. Seus olhos eram duros e frios como ametistas. Não ordenara que ela permanecesse no interior das muralhas da fortaleza. E também não designara um guarda para protegê-la. Deixara-a sem uma palavra sequer. Raven sabia que esse havia sido um grande e terrível erro. No interior das muralhas, a atividade transformava-se rapidamente em pandemônio. Os cavaleiros e arqueiros encarregados de defender a fortaleza ocupavam suas posições nas torres e próximo do portão. Mas a fortaleza não podia ser trancafiada por causa do povo do vilarejo, incluindo crianças e bebês, gente que chegava em grupos cada vez maiores. Gruffydd, encarregado do comando das forças no castelo, ordenara que a ponte fosse mantida baixa e os portões abertos, de forma que as pessoas de Angleford pudessem entrar sem demora no santuário representado por aquelas muralhas. Nos primeiros momentos que se seguiram à partida de Raven e suas forças, Roxanne desistira de executar sua vingança sangrenta. Recolhida aos aposentos de Pamela, despira as finas vestes que haviam pertencido a lady Ceridwen e trocara-as pela túnica de tecido mais grosso que usara na viagem desde a Inglaterra. Embaixo delas, calçara as meias masculinas que Raven havia devolvido com seus outros pertences e, por cima de tudo, pusera a túnica de lã grossa que os cavaleiros usavam freqüentemente no lugar de armaduras. Todas as camadas eram presas à cintura por um cinto, e esse mesmo cinto também servia para segurar sua adaga. Ao lado dela, Roxanne ancorou uma espada curta e leve. Não era muito habilidosa com a arma, mas ainda tinha o arco e as flechas adquiridos em um vilarejo inglês. Era uma excelente arqueira, treinada desde a infância para atirar com precisão e acertar alvos muito distantes. Porém, esperava não ter de recorrer à lâmina para se defender. Quando retornou ao grande salão, Roxanne tinha os cabelos presos por uma tira de couro e ia armada como qualquer cavaleiro. Mesma assim, ela se dedicou a ajudar mulheres e crianças a encontrarem o caminho para as áreas mais vazias do pátio. Estava lá quando ouviu os gritos. Olhando para cima, para os guardas no alto das muralhas, ela os viu disparando flechas, mas era impossível ouvir o zumbido característico dos tiros com o estrondo causado pelos golpes no portão. Homens e mulheres gritavam, e ela viu os corpos ensangüentados dos vilarejos perto do túnel de entrada. Correndo para descobrir o que acontecia, Roxanne ouvia o som de metal de espadas e armaduras e os gritos desesperados. A batalha chegara às muralhas de Angleford. Homens de Ballin corriam pela ponte na direção do portão, pisoteando o povo local que ainda tentava alcançar o oásis de segurança.

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— Subam a ponte! Subam a ponte! — Gruffydd ordenava gritando. Sua ordem foi imediatamente acatada, mas era tarde demais. Com os portões fechados, as forças do príncipe já não podiam invadir a fortaleza sem antes escalar as muralhas, porém, muitos guerreiros já estavam lá dentro. Como loucos, eles gritavam e gritavam, mais nus do que vestidos empunhando seus arcos mortais. Roxanne ouvia o zunido das flechas cortando o ar, e sabia que nem todas partiam dos arcos dos homens de Penllyn. Muitos arqueiros de Angleford agora se voltavam para o interior da fortaleza, gritando contra os invasores e tentando derrubá-los. Roxanne logo percebeu que estava vulnerável aos dois lados da batalha. Rápida, ela correu para perto de uma muralha e buscou proteção em sua sombra. Retirando uma flecha da bolsa presa em suas costas, ela preparou o arco. Flexionando os bíceps, puxou a corda mirando as costas de um guerreiro. E atirou. No momento seguinte, o homem caiu com o rosto voltado para o chão. A estaca de madeira fincada em suas costas ainda tremulava como uma bandeira. Roxanne repetiu o gesto várias vezes, nem sempre com o mesmo sucesso. Não se considerava uma assassina, especialmente quando o inimigo era seu próprio povo, mas concentrava-se no que tinha de ser feito. Havia poeira ofuscando a visão, gritos ensurdecedores, corpos que caíam... E havia muitos cavalos, animais que ela nem sabia de onde vinham. Os camponeses de qualquer território quase não os tinham, e os Cymry que viviam nas colinas possuíam ainda menos, porque o terreno não era apropriado para esse tipo de montaria. No entanto, agora havia muitos cavalos na área delimitada pelas muralhas, pequenos pôneis relinchavam e erguiam as patas dianteiras demonstrando agitação. Ela viu o garanhão negro pelo canto do olho, e a imagem quase a fez perder o fôlego. Incrédula, observou o animal trotando em sua direção enquanto seu cavaleiro movia a espada em grandes arcos, atacando tudo que se movesse em seu caminho. Era Daffyd, seu amado cavalo, que fora obrigada a deixar em Penllyn Hall. Agora ele transportava Ballin, o príncipe. O governante galês viu Roxanne ao mesmo tempo em que ela o viu. Ele puxou as rédeas e deteve o animal diante dela. Jamais vira antes aquela expressão no rosto do primo. — Traidora — ele grunhiu com desdém. — Devia ter levado o bastardo inglês para o outro lado da fronteira. Ele não devia estar aqui no momento do ataque. Mas contou a ele, não é, Roxy? E agora luta contra mim! Para impedir a mim, o príncipe de Cymry, de retomar esse pedaço de terra dos pântanos e reintegrá-lo ao território de Penllyn. Cadela! — ele gritou furioso. — Sempre acreditei que amasse sua terra, que me amasse... — Você? — Roxanne deu um passo à frente. — Arrisquei-me a sofrer a ira do rei inglês para vir encontrá-lo e tornar-me sua mulher! Mas seu único propósito era Projeto Revisoras

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usar-me. Esperava que eu sacrificasse minha vida, minha felicidade, para ajudá-lo a alcançar seus fins. Se sou uma traidora, Ballin, é só porque você me traiu primeiro! Ballin sorriu com frieza e desprezo. — Sabe, Roxy, cheguei a lamentar ter de abrir mão de você. Mas agora sei que nada perdi com isso. Não se dispõe a fazer sacrifícios pelo povo de Cymry, e não é orgulhosa o bastante para evitar esse papel de amante ressentida. Feliz estou por saber quem você realmente é. Feliz estou por perceber como havia me enganado. Roxanne piscou confusa. Ele estava certo, então? Ela era a egoísta, a traidora ignóbil que provocara o confronto somente para castigar um homem que se preocupava mais com o povo que governava do que com ela, a mulher que dissera amar? Não! Sentia-se arder de revolta e raiva. Erguendo os ombros, ela o encarou desafiante e disse: — O verdadeiro erro em seu pensamento, Ballin, foi acreditar que tinha algum direito às terras de nossa prima. Pamela nasceu de uma princesa Cymry, como você. Da mesma forma que você herdou Penllyn, Angleford pertence a ela! — Engana-se, mulher! E não tenho tempo para prosseguir com essa conversa agora. A batalha está longe de ter terminado. Quando isso acontecer, eu serei o vencedor. O som de pesadas correntes e dobradiças gigantescas os distraiu. Olhando para o portão, Roxanne o viu se abrir e ouviu o estrondo da ponte sendo baixada sobre o fosso. Cascos batiam furiosos contra as pranchas de madeira. Antes que Ballin pudesse reagir, dois cavaleiros surgiram galopando na área delimitada pelas muralhas. Um deles era Edwin, capitão da guarda. O outro era Raven, senhor daquela fortaleza. Atrás deles via-se um batalhão de cavaleiros armados, os defensores de Angleford. Os guerreiros se prepararam para o combate. Havia sangue em seus olhos e fúria nos gritos selvagens que emitiam. O ar se encheu com o som de trombetas, espadas se chocando e flechas cortando o espaço. Enquanto isso, Raven e Ballin se encaravam como se fossem os únicos ali, como se nada acontecesse em torno deles. Era um desafio silencioso; o perdedor poderia encontrar a morte. Alguém derrubou Roxanne no chão. Ela se levantou, abandonando a relativa segurança da muralha para melhor poder enxergar o confronto entre Raven e Ballin. Ambos empunhavam espadas, e ela, quase sem perder, imitou-os. Daffyd, menor e menos treinado que o cavalo de guerra utilizado por Raven, comportava-se com maestria obedecendo aos comandos de seu cavaleiro. Mas, de

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repente, Raven acertou um golpe que fez Ballin sangrar e perder o equilíbrio. O príncipe caiu da montaria. Um instante mais tarde, o lorde inglês desmontava para ir encontrar seu oponente no chão. Instintivamente, Roxanne assobiou como sempre fizera para chamar Daffyd, e ele atendeu sem nenhuma hesitação, mesmo em meio ao caos que os cercava. Sussurrando palavras que o acalmariam, ela montou empunhando a espada, mantendo os olhos fixos em Raven e Ballin. Os dois lutavam numa espécie de dança de vida ou morte. Corpos e escombros jaziam na poeira do chão, mas nenhum dos dois ousava olhar onde pisava. E nenhum deles caía, não realmente, embora tropeçassem e até se desequilibrassem ocasionalmente. Roxanne surpreendeu-se pensando na ironia daquela doce e divina justiça: dois homens egoístas, arrogantes e frios se enfrentavam... e só um deles permaneceria vivo, pelo que via ali. De repente, um dos homens de Ballin agarrou sua perna e tentou puxá-la de cima do cavalo. Assustada, ela hesitou empunhando a espada. O guerreiro feriu o cavalo superficialmente com a ponta de uma flecha, o que o fez empinar. Roxanne segurou-se com todas as forças, e quando o cavalo voltou ao chão, ela sentia uma raiva tão intensa e incontrolável, que investiu contra o guerreiro Cymry, rasgando seu peito ao meio. Com um grito de dor e espanto, ele cambaleou para trás e soltou a arma para levar as duas mãos ao ferimento. Roxanne olhou em volta com um misto de ira e desespero, tentando encontrar os dois homens que amara com tanta insensatez. Agora eles se enfrentavam no centro do pátio. Podia ouvi-los, mas não conseguia vê-los no meio da multidão que os cercava. Roxanne cavalgou com habilidade, desviando dos corpos caídos e das pessoas que corriam e gritavam, bloqueando o caminho até os dois líderes. Raven estava ferido. Havia caído sobre a ponta de uma lança, dando uma boa vantagem ao príncipe. Antes, quando Ballin caíra da montaria, Raven dera a ele a oportunidade de levantar-se e continuar a luta. Mas agora o galês não se mostrava tão magnânimo. Pelo contrário. Vendo o inimigo caído, tentou perfurá-lo com sua lâmina, mas, habilidoso e ágil, Raven rolou a fim de escapar do golpe, e conseguiu sair apenas com um arranhão no ombro. Com o sangue manchando-lhe as vestes, Raven ergueu sua espada como um escudo e moveu-se com rapidez espantosa, de um lado para o outro, bloqueando os golpes de Ballin. Roxanne tinha a impressão de que o coração já nem batia mais. Era como se a terra, o sangue, o barulho e todas as outras pessoas desaparecessem atrás de uma cortina mágica. Tudo que restava, tudo que ela percebia, eram Raven e Ballin. E sentia medo por Raven. Sentia um pavor que jamais imaginara poder sentir.

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A cortina mágica se rasgou repentinamente, e outros invadiram seu campo de visão. Três homens de Penllyn carregavam maças e se aproximavam de Raven pelas costas. Abaixado, ele não os via e tentava se defender de Ballin e pôr-se em pé. Sem ajuda, certamente cairia diante do príncipe. Com a espada pronta, Roxanne preparou o arco com uma flecha que tirou da bolsa presa às costas. — Raven, atrás de você! — gritou, disparando a flecha. A flecha atingiu o ombro direito de Ballin. Poderia tê-lo ferido no coração, mas, no último instante, alterara a mira para poupá-lo da morte. O príncipe gritou e caiu, derrubando a espada e agarrando o ombro ferido. Roxanne não sentia pena. Na verdade, nem notava seu sofrimento. Tudo que via era Raven. Ele havia se virado ao ouvir o grito de alerta e agora encarava o trio de guerreiros seminus. Tinha as costas seguras, quase como se o irmão gêmeo estivesse ali para guardá-lo. Mas era Roxanne de Bittenshire quem o defendia, salvando-o da morte certa. Raven os derrubou com golpes certeiros da espada. Depois, cansado, com o sangue jorrando de inúmeras feridas, ele a encarou. — Muito obrigado, milady. Devo a você minha vida. Roxanne não sabia o que dizer. E nem teve tempo para pensar em uma resposta, porque Félix corria na direção deles. — Lorde Raven! — ele gritava ofegante, plantando-se sorridente diante do lorde de Angleford. — Vencemos! Os galeses que esperavam além das muralhas estão recuando, e os que aqui permanecem foram derrotados, embora ainda resistam em admitir. — É do meu conhecimento que os nativos costumam recuar quando encontram firme resistência, mas atacam novamente determinados a vencer de qualquer maneira. — Sim, milorde, é assim que acontece, mas só quando há alguém para liderálos. E vejo que derrotou o líder do povo de Penllyn. Asseguro-lhe que não retornarão. Raven olhou com desdém para o príncipe ferido. — Já que lidamos com um príncipe, creio que deve providenciar para que ele seja tratado e tenha algum conforto. Mande um ou dois criados levarem-no ao interior da fortaleza. A ferida deve receber o tratamento apropriado. — Raven encarou Roxanne, que permanecia montada. — A menos que queira ter esse privilégio, milady... Ela não reagiu ao comentário. Calma, olhou para o braço de Raven, que ainda sangrava. — A única ferida que pretendo tratar é do meu animal de estimação.

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Com isso, ela puxou a rédea de Daffyd e o levou para o estábulo.

Capítulo XIII

Para total mortificação de Annie, Roxanne banhara-se novamente. A água morna a acalmara, mas agora que jazia exausta na cama de Pamela, tinha a sensação de ter sido atropelada por um veículo puxado por bois. Há muito não usava o arco tantas vezes em tão pouco tempo, e a espada que brandira com tanto vigor havia sido pesada demais para seu porte físico. Deitada, ela olhava para o nada e tentava manter a mente vazia, presumindo que a fadiga a ajudaria nesse esforço, mas os pensamentos insistiam em se atropelar como flechas, impedindo-a de dormir. Amava Raven. Era impossível, mas era verdade. Descobrira o sentimento no momento em que percebera que ele poderia ser morto pelos homens de Ballin. Quando, com sua ajuda, ele abatera os galeses guerreiros, quase desfalecera de alívio. Mas, depois, o bastardo havia insinuado que ela gostaria de ir cuidar de Ballin. Depois de tudo que fizera, não esperava um comentário tão desdenhoso e frio. Mas, entorpecida pelo amor, acabara esquecendo outros comentários que o mesmo Raven havia feito anteriormente. E agora, com os olhos pesados, ela não dormia, porque chorava de tristeza e desespero pensando em como seria doloroso viver abrigando no peito um amor que jamais seria correspondido. Raven suportou com paciência a tortura de ser costurado por uma agulha tão cega quanto um velho. Depois, descobrindo um robe no quarto do senhor da fortaleza, ele se vestiu e seguiu até os aposentos de Roxanne. Abriu a porta e entrou sem sequer se anunciar. Ela dormia... e ele podia ver claramente as marcas de lágrimas em seu rosto. Seu coração sofreu um espasmo. Pouco antes, Roxanne lutara como uma rainha viking brandindo sua espada e disparando flechas certeiras, abatendo inimigos como uma guerreira implacável, atacando até mesmo aqueles a quem mais amava, como Ballin, por exemplo. Mas agora parecia delicada e frágil, uma menina solitária e jovem que precisava de conforto, de proteção. Precisava dele.

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Certo de que Roxanne dormia, Raven deitou-se a seu lado na cama. Por um tempo ele apenas a fitou, deixando-se invadir por sua presença e sentindo a alma aquecida por seu calor. — Roxy... O sussurro a fez abrir os olhos. Ela não dormia, afinal. Sabia que ele estava ali, mas evitara reconhecer sua presença enquanto pudera. — Está ferida? — Oh, sim. Profundamente... — Ela não elaborou a resposta, mas os olhos fixos nos dele eram claros, eloqüentes. — E você? Alguém cuidou do seu ferimento? — Sim. — Ballin...? — Quer saber o que aconteceu com seu... amante? — Ele não é meu amante, e você bem sabe! Sabe que nunca tive amantes antes de... — Ela se levantou furiosa, apoiando o corpo nos cotovelos. — Antes de mim. — Raven segurou-a pelos pulsos e deitou-a. — Não consegue dizer? Tem tanta vergonha de ter me levado para sua cama ontem à noite? — Sim, eu tenho, porque você me usou. E não fui eu que o levei para minha cama. Você invadiu meus aposentos como acaba de fazer e... seduziu-me! — Creio que foi exatamente o oposto — Raven sorriu, segurando-a com força para impedir que se soltasse, apesar do esforço. — Não foi? — Não, não foi, seu... bastardo de coração duro! — Bem, quem quer que tenha sido o autor da sedução, toda a fortaleza sabe que somos amantes. Sendo assim, é melhor admitir, milady. — Não! Se for para a cama com uma criada do estábulo, isso faz dela sua amante? Nunca! Serão apenas fornicadores! E isso é tudo que sou, uma fornicadora que traiu a própria prima e o noivo! Como você também traiu Pamela e Peter! Raven aproximou-se até quase beijá-la nos lábios. — Somos amantes! — disse. — Lamento que isso possa prejudicar pessoas que amamos, mas não vai negar o que vivemos ontem à noite. Não foi só uma fornicação, Roxy, e você sabe disso! — Eu sei? Ouvi o que disse ao senescal. Sei que não significo para você mais do que você significa para mim. É certo que não... me ama. Era horrível saber que Roxanne escutara tudo o que ele havia dito a Félix, mas pior ainda era ver o medo em seus olhos, como se ela o julgasse capaz de usar de violência para castigá-la por sua petulância. Projeto Revisoras

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Sem saber como expressar todos os sentimentos que inundavam seu peito, ele a beijou. Roxanne suportou o beijo sem resistir ou corresponder. Mas, depois de alguns instantes, tudo mudou. Raven tornou-se mais sedutor, menos possessivo, e as mãos que antes a seguravam pelos pulsos passaram a acariciá-la com ternura. Solta, ela poderia tê-lo empurrado e encerrado o momento de intimidade, mas, em vez disso, abraçou-o e beijou-o com paixão. — Eu amo você, minha querida — Raven confessou. — Amo desde que a vi pela primeira vez. E amo ainda mais desde ontem à noite. E você? Também me ama? Ela hesitou. — Eu não teria... você sabe. Ontem à noite, nesta cama... Com nenhum homem. Não se não estivesse apaixonada. Se não o amasse, teria deixado Ballin matá-lo. Raven sorriu. — Aposto que o teria ajudado, se tivesse uma chance. Depois do que ouviu... — Confesso que senti vontade, milorde. E talvez fosse justo tirar-lhe a vida. Mas não pude. Quando o vi caído, com Ballin debruçado sobre você... — Ela fechou os olhos para lutar inutilmente contra as lágrimas que rolavam por suas faces. — O que vou fazer? Não posso me casar com seu irmão e ser sua amante! — Você não é e nunca será minha amante. Roxanne de Bittenshire, você é minha amada, e logo será minha esposa. — Mas... Pamela... e Peter! E o rei! Raven desviou os olhos dos dela e suspirou, como se estivesse muito cansado. — Pamela é uma jovem doce e inexperiente, e não a farei sofrer por nada, se puder evitar. Mas ela vai ser mais feliz se não se casar com um homem que ama outra mulher, e considero-a sensata o bastante para saber disso. Quanto a Peter... Bem, diferente de mim, ele raramente perde a calma. Porém, quando se enfurece, ninguém que o conhece fica por perto. Sim, terei de suportar sua ira, porque ele vai ficar furioso. Mas temos sido duas metades de um todo desde que nascemos. Há muitas coisas entre nós, Roxanne. Sei que meu irmão não me desprezará para sempre. — E... Henry? — Ah! O rei tem um temperamento pior do que o meu. Deve ser o cabelo vermelho. Mas somos bons amigos há anos. Deve haver um meio de contornar esse seu decreto. Que interesse ele pode ter em vê-la casá-la com Peter, e não comigo? — Bem, ele pode ter o interesse de saber que sua decisão foi acatada. A palavra de um rei é a lei. Se nos casarmos, nós o desobedeceremos. E desobedecer ao comando de um rei pode nos levar à morte.

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— Não vamos morrer. Nenhum de nós. Não por ordem de Henry. Se preciso for, fugiremos para algum recanto do mundo onde nem mesmo o poderoso monarca inglês poderá nos encontrar. Não se inquiete. Você vai ser minha esposa, e passarei o resto de meus dias cuidando de você, se me aceitar. — Eu o aceito — ela sussurrou antes de beijá-lo. Raven não estava tão seguro do futuro quanto queria parecer. Mas a declaração da dama e a resposta a sua proposta enchiam seu coração de uma alegria que só os apaixonados podem conhecer. Havia deixado de cumprir outra promessa que fizera a Roxanne, a de não feri-la, mas esse voto ele manteria. Sentia-se forçado a isso, porque, além de amá-la, agora sabia que também era amado por ela. — Peter! Pamela! Vão gostar da notícia que trago... Lucinda de Fortengall parou na porta do quarto do filho. Não havia ninguém ali. Tomada por um pânico súbito, ela correu ao quarto de Pamela e tentou abrir a porta, mas ela estava fechada por um ferrolho. — Peter! Pamela! — Um minuto, por favor — pediu Peter do outro lado. Lucinda se sentia arrasada. Não precisava invadir o aposento para saber o que havia acontecido entre as pessoas que o ocupavam. Seus piores temores se concretizavam. A porta foi aberta. Apoiado em muletas e vestindo o robe de quarto, Peter a recebeu silencioso. Pamela estava deitada na cama, os olhos ansiosos e tímidos fixos na visitante. Lucinda não se moveu. — Mãe, entre. Veio nos trazer uma notícia? — Sim, mas... não creio que tenha alguma importância agora. — E Raven? Ele chegou, ou mandou notícias? — Não. Vim avisar que a pestilência está deixando o castelo, afinal. Sinto que é seguro... a noiva de Raven retornar aos seus aposentos. Tive a impressão de que ela estava ansiosa por isso, mas agora... — Mãe, há algo que precisa saber — Peter anunciou com firmeza. — A mulher que divide a cama comigo não é mais Pamela de Bittenshire, mas Pamela de Stoneweather, minha esposa. — Sua esposa...? Peter, o que está dizendo? Como você e Pamela podem ter se casado? Estão reclusos há mais de uma quinzena. Padre Simon não esteve visitando o

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castelo, porque passou todo esse tempo cavalgando pelos vilarejos de Fortengall, auxiliando os enfermos. Quando...? — Ontem à noite, milady — explicou Pamela. — Trocamos nossos votos em sigilo ontem à noite. Eu não teria... me entregado a Peter... se não fosse sua esposa. Lucinda olhou para o casal por um momento. Depois seus ombros caíram como se ela estivesse cansada. — Ontem à noite eu pretendia dizer aos dois que Pamela já podia deixar esse quarto com total segurança, e que daquele momento em diante os criados se encarregariam de servi-lo. Mas Ian insistiu em me fazer descansar. Se eu tivesse vindo... — Mãe, mesmo que tivesse vindo nos dizer que Pamela podia deixar o quarto, teríamos casado ainda assim. Nada do que dissesse nos teria dissuadido. — Mas seu irmão... — Eu sei. Vou ter de me entender com ele e restaurar a paz entre nós, embora ainda não saiba como. Ele é meu irmão. Somos gêmeos. Vamos acabar chegando a um acordo. — Pode ser. Mas e Henry? Ele aceitará esse casamento? E mesmo que aceite... Nem quero imaginar as conseqüências que poderá sofrer por esse ato. — O rei vai aceitar nosso casamento, mãe, porque é verdadeiro e duradouro, apesar da falta de testemunhas. Seja qual for a reação do rei, nós a enfrentaremos. — Ah... — Lucinda suspirou, notando como o filho segurava a mão de Pamela. — Ser jovem, destemido e estar apaixonado... — Ela balançou a cabeça. — É melhor ir informar Ian. Lucinda saiu e fechou a porta, e Peter olhou para Pamela. Ela estava pálida e muito perturbada. — Peter, o que foi que fizemos? — ela perguntou assustada. — Ontem à noite, no escuro, tudo parecia certo e perfeito. Mas quando vi o rosto de sua mãe... E o que o rei fará conosco? E com Roxy e Raven? Eles não participaram da nossa decisão, mas nosso casamento os impede de cumprir o decreto real. O rei certamente os culpará também. Não é justo! — Você mesma disse, minha querida, que Roxanne não estava feliz com a perspectiva de tornar-se minha esposa. E Raven nem pensa em ser marido de alguém. Não acredito que Henry os possa responsabilizar por nossa desobediência, e por termos poupado nossos queridos de um casamento que nenhum dos dois desejava, julgo que fizemos um bem aos dois. Pamela não concordava. O silêncio e o ângulo obstinado do queixo transmitiam ao marido essa mensagem.

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— Sinto que quer me dizer alguma coisa. Fale, Pamela. Agora que somos marido e mulher, não devemos ter segredos um com o outro. — Bem... é verdade que minha prima ficou muito revoltada quando soube que teria de se casar com um inglês. Ela sempre pensou que se casaria com nosso primo Ballin. Em Gales não somos submetidos às rígidas regras dos ingleses que restringem a união entre parentes. — E daí? — Deixei você pensar que Roxanne fugiu porque não queria se casar com você, mas não foi por isso que ela deixou o castelo de Fortengall. — Por que ela partiu? — A voz de Peter era subitamente tensa. Pamela hesitou. — Devia ter dito imediatamente, mas não queria me colocar entre você e Raven. Se houvesse falado, se você soubesse que Roxy realmente o tem em grande conta, não teria se casado comigo. Teria esperado por ela. — Pamela, fale de uma vez! Foi meu irmão que a fez fugir, não foi? — Sim. Ele a acusou de causar sua queda e o ferimento uma tentativa frustrada de matá-lo. Foi como você suspeitou. Mas, Peter, é ainda pior do que isso. Raven ameaçou matar Roxy se ela ousasse seguir em frente com o casamento. Por isso ela foi forçada a fugir. Para salvar a própria vida. — E você sabia. — Sim. Mas Roxanne me fez jurar segredo. Quando soube que eu conhecia a verdade, Raven também me fez prometer que eu nada diria. — Ele também a ameaçou? — Não! Ele não chegar a me fazer ameaças. Guardei o segredo de Roxy por causa do nosso parentesco. Além do mais... estava protegendo você. — Protegendo-me? De quê? — De mais problemas. Já estava ferido, havia sido abandonado por sua noiva... Como eu poderia revelar que seu irmão a obrigara a partir? Você e ele são tão próximos... Vi o rosto de Raven se contorcer de dor na noite em que você fraturou a perna. Vocês são como duas metades de um todo, e eu não suportei a idéia de ser responsável pelo corte dos laços que os unem. — Você não é responsável — Peter declarou sério, desviando os olhos dos dela. — Raven é o culpado. — Peter, o que vai fazer? — Não sei ao certo. Mas quando meu irmão retornar, terei pronto meu plano de vingança contra ele.

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— Não! Peter, você sabe que ele só agiu motivado pelo amor que tem por você! Raven de fato acreditava que Roxy tentara matá-lo, por isso a expulsou daqui. Para salvar sua vida! E pensando bem... — Ela estendeu a mão para tocar o rosto do marido. — Se Roxy não houvesse fugido... Se Raven não a houvesse ido atrás dela... se as acusações de seu irmão não houvessem precipitado toda essa situação... nós nunca teríamos nos apaixonado. E jamais teríamos nos casado! Peter encarou-a por um instante contemplando seus belos traços. Depois, lentamente, ele sorriu. — Está sugerindo, milady, que devo ser grato a Raven pelo que ele fez? — Sim. Eu sei que sou. Ele pode nem ter idéia sobre os eventos que precipitou, mas, se Raven houvesse agido de outra maneira, nós não estaríamos juntos agora. Não estaríamos casados. Peter balançou a cabeça, mas seu sorriso tornou-se ainda mais largo. — Você tem razão, é claro. Sou grato a Raven... e tenho pena dele, também. Porque sua estupidez o fez perder o tesouro que agora me pertence. Nada perturbou os recém-casados naquela manhã. Como se ainda estivessem forçados à reclusão, eles encontraram uma bandeja na frente da porta. Pamela não abriu a porta para pegá-la até o sol estar alto no céu, e foi nesse momento que, atrás dela, Peter gritou de dor. Ela se virou e, assustada, viu o marido pálido e com o rosto contorcido, segurando um ombro. Esquecendo a bandeja, Pamela correu para perto de Peter. — O que o incomoda, meu querido? Pela Virgem! Devo chamar sua mãe? — Sim... — Depois de respirar fundo, Peter deixou cair a mão sobre o colchão e encarou Pamela. Seus olhos já não expressavam dor. — Quando a encontrar, diga a ela que Raven foi ferido. Peter e Pamela mudaram-se para um aposento na galeria, onde foi posta uma cama. Com alguma assistência, Peter conseguia subir e descer os poucos degraus que separavam a galeria do salão. Era ali, naquele aposento amplo, que ele passava os dias na companhia da esposa e de todos que circulavam pelo castelo. E era ali, também, que ele e o restante da família esperavam com crescente impaciência por notícias de Raven e Roxanne. Em uma tarde de primavera, um mensageiro chegou renovando as esperanças, mas o sentimento teve curta duração, porque o portador levava notícias de Lucien e dos bebês que haviam nascido. — É uma boa notícia — Lucinda comentou sorrindo. — Adrienne teve dois meninos saudáveis, apesar da demora.

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— O mensageiro demorou a chegar por causa da idade do cavalo que monta, mas agora sabemos que tudo aconteceu como você previa, minha querida. Temos na família um terceiro par de gêmeos, Arnulf e Ranulf — Ian acrescentou satisfeito. O silêncio invadiu o salão. Todos pensavam em outro par, Raven e Roxanne. O conde pigarreeu e declarou sério como se alguém houvesse mencionado os nomes: — Muito bem, penso que é hora de irmos procurar seu irmão, Peter. E Roxanne também. Eu mesmo vou liderar o grupo que partirá imediatamente para a fortaleza de Bittenshire. — Oh, Ian! — Lucinda exclamou aflita. — Peter afirma que Raven está ferido. Acha que aconteceu alguma coisa? — Nada posso dizer, minha querida. A viagem até lá é longa e difícil, mas Raven é um cavaleiro experiente, e Roxanne não é uma criatura indefesa. Ela cavalga tão bem quanto um homem e... — Mãe! Pai! Todos olharam para o garoto que entrava correndo no salão. Seguido pelos irmãos, Hugh tinha os olhos brilhantes e as faces coradas. — O que é? — Lucinda levantou-se e caminhou na direção do filho. — Raven foi visto na estrada! Em breve ele estará aqui! — O quê? Mas antes que o menino pudesse falar, um dos guardas de Farleigh entrou no salão confirmando o relato. Todos ficaram quietos, mas dessa vez o silêncio continha uma expectativa impaciente e uma forte tensão. Todos estavam aliviados com a certeza de que o casal estava bem e logo estaria entre a família, mas todos, Peter e Pamela em particular, temiam a confissão a ser feita e o inevitável confronto que dela resultaria. Quando Raven entrou removendo a capa coberta de poeira, todos se levantaram, inclusive Peter. Os pequenos foram os primeiros a se manifestarem. — Raven, você voltou! — gritou Hugh, correndo para ir abraçar a perna do irmão mais velho. — Todos se preocupavam, mas eu sabia que tudo estava bem. Você sempre está bem! — É verdade, Hugh — ele sorriu, afagando os cabelos do garoto. — É bom saber que confia em mim. — Nós também — declararam os gêmeos. Raven os abraçou com carinho.

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Superada a etapa de euforia promovida pelas crianças, Raven levantou-se e olhou para os adultos em pé ao lado da mesa. Todos estavam silenciosos e imóveis como estátuas, e o sorriso desapareceu de seu rosto. — Pelo céu — Lucinda gemeu com um misto de aflição e alívio. — Vejo que traz o braço coberto por uma bandagem. Peter nos alertou... Ele sabia que você estava ferido. É grave? — Não. Já me recupero do ferimento, mãe. — Onde está Roxy? — Pamela perguntou ansiosa. Raven estudou o rosto da jovem dama. Depois olhou para Peter, cuja expressão era tão impenetrável quanto a dele. Finalmente, ele se virou para a porta e chamou: — Roxanne... Ela apareceu e aceitou a mão do lorde, segurando-a para, a seu lado, penetrar no salão. — Saudações — Roxanne disse séria a todos, embora o olhar se demorasse mais sobre Peter e Pamela. — Chegam em boa hora — disse o conde. — Eu já começava a organizar um grupo de busca para ir procurá-los. Temíamos que algo de grave tivesse ocorrido. Demoraram muito a voltar... — Muitas coisas aconteceram, todas sérias e importantes, mas antes... — Raven olhou para o gêmeo. — Antes, há algo que quero revelar. — Meninos! — Lucinda disse aos filhos pequenos. — Vão brincar lá fora. — Mas, mãe... Raven acaba de chegar! — Hugh protestou. — Queremos ficar e ouvir as notícias! — Saiam! — Ian disse com firmeza. O trio se retirou cabisbaixo, mas obediente. — Raven — Peter começou —, antes de contar as novidades, também tenho algo importante para dizer. — Por favor, deixe-me falar primeiro. — Raven olhou para Pamela. — Contou a Peter sobre como eu obriguei Roxanne a fugir daqui antes do casamento? — Sim, mas não antes de... — Ótimo! Peter, lamento por tudo isso. Mas não lamento nada do que fiz. — Ele olhou para Roxanne, e os dois trocaram um sorriso radiante. Peter não parecia notar. — Raven, eu... Nós... Temos uma confissão a fazer. Suplico que nos escute...

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— Não! — Raven enlaçou a cintura de Roxanne e a segurou junto ao corpo, mantendo a mão dela sobre seu peito. — O que tenho a dizer só alimentará sua ira contra mim. Prefiro enfrentá-la uma única vez, Peter, a sofrer várias vezes o castigo de sua revolta. Pamela viu o anel de Raven no dedo de sua prima. — Estão casados! — ela exclamou surpresa. — O quê? — Ian e Lucinda reagiram perplexos ao mesmo tempo. — Sim, é isso mesmo — Raven confirmou. — Milady, nunca foi minha intenção prejudicá-la ou magoar meu irmão, mas teria sido muito pior para vocês dois se nos casássemos como Henry ordenou. Não era para ser... — Jesus! — Lucinda gemeu, deixando-se cair sobre uma cadeira. — Pela Virgem! — Ian exclamou. Mas, antes que pudesse dizer mais alguma coisa, um guarda parado na porta chamou sua atenção. Ele se dirigiu ao serviçal sem fazer alarde. — Santa Maria! — Pamela murmurou incrédula, olhando para a prima e buscando o apoio do braço do marido. Não sabia se rir seria apropriado, mas era difícil conter-se. Peter tardou em reagir ao anúncio do casamento entre seu irmão e a dama de Bittenshire. E quando o fez, foi com uma sonora e explosiva gargalhada. O ataque de riso parecia interminável. — O que é isso? Não consigo entender... — Raven comentou confuso. — O que é tão engraçado? — Nós também nos casamos. Pamela e eu — Peter conseguiu explicar entre uma gargalhada e outra. Antes que lorde de Stonelee pudesse responder, sua esposa deixou escapar um grito de alegria. Abrindo os braços, ela correu para a prima. — Pelos santos, isso tudo é inacreditável! Mas estou muito feliz — Roxanne confessou. — Desde o início pensei que Peter seria um excelente marido para você. Ele é, não é? — Sim. Mas Raven...? Roxy, ele ameaçou matá-la! Pensei que o detestasse, que ainda tivesse esperança de se casar com Ballin! — Tudo ocorreu como diz, minha prima... Mas tudo mudou. Revelarei os detalhes mais tarde. Rindo, também. Raven se aproximou do irmão, e agora os dois estavam frente a frente. — Você se casou com a dama que me havia sido prometida sem antes discutirmos o assunto? Projeto Revisoras

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— Sim. Exatamente como você fez com a minha prometida! — Peter respondeu rindo. — Não é a mesma coisa! Roxy e eu não nos teríamos casado sem antes falar com você e Pamela, não fosse a premência dessa necessidade. Se quer mesmo saber, comprometi a honra de milady. Sendo assim, o casamento não podia ser adiado até nosso encontro, Peter. Mas você! O que pode tê-lo forçado a se casar com tanta pressa? Peter apoiou todo o peso do corpo na muleta, acomodando-se melhor. E ele ainda ria. — Somos muito parecidos, caso ainda não tenha notado. Pelo menos em alguns aspectos. Confesso que não cheguei a comprometer a honra de Pamela, mas só porque fizemos nossos votos em segredo antes disso. Momentos antes... — Momentos antes? Roxanne não podia mais conter o riso. — Ah, pare com isso, marido! Não tem nenhum direito a essa indignação! Não pode se comportar como se fosse a parte ofendida. Sinta-se feliz, como eu estou, por Peter e Pamela terem se encontrado! Não viemos apreensivos desde Angleford, sem saber como eles reagiriam à notícia do nosso enlace? — Ela sorriu para Peter. — Sempre soube que você e minha prima formariam um belo par. E como estão realmente juntos, parece que nos preocupamos por nada! — Sou forçado a discordar — o conde interferiu com tom duro, retornando ao salão. — Hoje é o dia das notícias. Primeiro seu irmão, que é pai de gêmeos, depois Raven e Roxanne... e agora o rei. — Ele exibiu um pergaminho. — Onde ele está? O que diz? — Lucinda perguntou ansiosa, correndo para perto do marido. — Ele se encontra na hospedaria de Basil de Hedgewick. E se admira por ainda não ter tido nenhuma notícia nossa. O rei quer saber o que está acontecendo aqui. Presumo que ele queira ter certeza de que suas ordens foram acatadas. A alegria do momento se desfez, porque a vitória inesperada do amor era sobrepujada pelas implicações da ira do monarca. A família do conde conversou durante muitas horas sobre tudo que havia acontecido, até todos estarem informados de quase todos os detalhes. A refeição da noite foi servida e a mesa foi retirada. Ian retirou-se e Lucinda subiu para ir pôr os filhos menores na cama. Os dois casais finalmente se viram sozinhos. Roxanne olhou para o marido. — Aqui estamos nós, todos casados e felizes. Mas agora temos de enfrentar Henry. Imagino que o orgulho de Curtmantle não o deixará ser brando conosco.

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— Roxy, além de ter sangue inglês nas veias, você agora é esposa de um lorde inglês — Pamela lembrou. — Não devia falar sobre o rei nesse tom jocoso. É desrespeitoso. E se pensarmos que ele pode ser seu... — Cale-se! Não quero mais ouvir essa tolice! É simplesmente impossível! — O que é impossível? — Peter perguntou. Mas ele foi ignorado. — Creio que devemos falar com o rei imediatamente — opinou Raven. — A hospedaria de Hedgewick fica a dois dias de cavalgada de Fortengall, mas, por causa da perna de Peter, levaríamos três dias para percorrer o trajeto em uma carruagem. Sugiro que nossa partida se dê amanhã mesmo, bem cedo. Se as coisas não acontecerem como desejamos, o rei pode nos mandar prender e despachar para Londres, onde seremos levados à forca. Nesse caso, vocês duas terão de decidir o que fazer. Ian prometeu ajudá-las. — Raven de Stonelee, você prometeu que fugiríamos para o fim do mundo, se fosse necessário! — Minha querida, o que sugeri num momento de paixão pode não ser possível, afinal. — Mas você também me fez essa promessa! — Pamela exclamou revoltada, olhando para o marido como se quisesse espancá-lo. Ele segurou sua mão e beijou-a. — Estamos todos considerando o pior, mas estou certo de que Henry não fará mais do que retomar as terras que cedeu a Raven e a mim. Ele nos deixará casados, porque seria trabalhoso demais desfazer nossos votos. E também não creio que nos mande prender ou matar. — Peter, nossos votos foram feitos sem a presença de testemunhas ou de um clérigo — lembrou Pamela. — Se o rei julgar melhor agir como se nunca os tivéssemos proferido, ele assim o fará. — Suas terras? — Roxanne gemeu aflita. — Bittenshire nunca será minha, e como não se casou com Pamela, como determinou o rei, também não terá Angleford. Raven, se perder Stonelee, o que terá de seu? O rei não pode tirar sua propriedade! — Prefiro que ele me tire as terras à vida. — E eu abriria mão de Stoneweather por você com grande alegria — Peter anunciou sorrindo para Pamela. — Sendo assim, vamos viajar até a hospedaria de lorde Basil e tentar aplacar a ira de Sua Majestade com pedidos de desculpas e promessas de lealdade. Se o rei insistir em retomar o que nos deu, cederemos sem protestar. São só terras, afinal. — Como pode dizer tal coisa? — Roxanne inquietou-se. — Só terra! Por Deus, é seu lar, e um dia será o lar de seus filhos, de seus netos... A terra nunca é só terra se é sua por direito. Devia amá-la, fazê-la fértil, morrer por ela! Projeto Revisoras

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— Não quero que Peter morra por causa alguma, especialmente por ter me tomado por esposa! — Pamela argumentou. — Também não quero que Raven morra. E nem ele deve ser forçado a devolver suas terras ao monarca. E, para isso, tenho uma idéia... — Que idéia, Roxy? — Bem, Raven e Peter são gêmeos idênticos. Seu rei Angevin seria capaz de diferenciá-los? — O que está sugerindo? — Peter indagou, embora o tom de voz e sua expressão indicassem que já sabia. — Quando o rei falar com você, Peter, pode responder como Raven. E Raven pode fazer o mesmo ao se dirigir ao soberano. — Isso pode dar certo! — Pamela exclamou animada. — Se fingirem ser o outro irmão, o rei jamais saberá de nada! — Está sugerindo que Raven e eu troquemos de identidade? — Peter perguntou à esposa. — Iremos para Angleford, onde eu assumirei o comando de tudo em nome de Raven, enquanto ele ficará na Inglaterra fingindo ser eu? Pamela franziu o cenho. — Parece absurdo posto dessa maneira. É mesmo impossível. — Não, não é — Roxanne insistiu. — Mas é demais pensarmos nessas implicações agora. Devemos antes lidar com o seu soberano. Temos de sobreviver à audiência com o rei. Mais tarde decidiremos como seguir adiante. — Precisamos...? Você não vai conosco! — Raven declarou determinado. — Peter e eu viajaremos sozinhos. — De jeito nenhum! Como suas esposas, temos o direito e o dever de acompanhá-los — Pamela declarou antes que Roxanne pudesse pronunciar uma única palavra. — Todos desobedecemos ao decreto do rei. Portanto, Roxy e eu devemos estar presentes quando ele decidir qual será nosso destino. — Ela tem razão — reconheceu o marido. Roxanne acrescentou: — Além do mais, acredito que a presença feminina pode ser benéfica. Até mesmo os reis tornam-se mais cordatos quando se vêem diante de mulheres jovens e belas. — Roxanne, está pensando em se apresentar no papel da doce sedutora aos olhos do nosso rei, um homem cujo nome você nem se digna a pronunciar? — Raven perguntou enciumado. — Sim, milorde. Por você, sou capaz de ser doce e subserviente até mesmo diante do detestável rei da Inglaterra.

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Raven beijou-a. — Espero que consiga enfeitiçar Henry como fez comigo — ele murmurou. Aos outros, Raven anunciou: — Temos tudo acertando, então. Partiremos juntos ao amanhecer. A hospedaria de Basil Hedgewick era um lugar rústico construído com madeira e pedras. Aninhado no centro de um pequeno parque e cercado por uma exuberante floresta, parecia ser habitado exclusivamente por homens. — Onde estão as mulheres? — Pamela sussurrou para o marido quando pararam no grande salão, ainda em trajes de viagem, esperando para serem anunciados ao rei. — Henry e seus confederados vieram até aqui em busca de paz e repouso. Por isso não trouxeram suas mulheres. — Ou elas o mandaram para cá a fim de terem um pouco de paz e descanso — Roxanne resmungou com sarcasmo. — Milady, você prometeu ser doce e cordata. Só por isso permiti que viesse. — Peter jamais me trataria com tanta rispidez. Não se esqueça de que agora é Peter de Stoneweather, milorde. Raven a encarou com ar irritado. Ela respondeu com um sorriso. — Sua Majestade os receberá imediatamente, milordes. — O homem que fora buscá-los os conduziu a uma porta do outro lado do salão. Antes de segui-lo, Raven segurou a esposa pela manga da túnica e sussurrou a todos: —Estou pensando que teria sido melhor se não houvessem nos acompanhado, afinal. — Por quê? — Pamela indagou preocupada. — Fizemos planos... — Sim — concordou Roxanne. — Nosso futuro está em jogo aqui. Não vamos alterar nossa estratégia agora. E tarde demais. O grupo seguiu o homem que os levou à presença do rei. — Vossa Majestade, lorde e lady de Stoneweather e lorde e lady de Stonelee. Como ordenou, majestade, mandarei servir comida e vinho imediatamente — o homem avisou antes de retirar-se e fechar a porta. O rei olhou para os recém-chegados e fez um gesto para dispensar o garoto que se mantinha a seu lado. — Saia, Henry — ele ordenou ao filho. — Tenho assuntos a discutir com meus mais leais súditos. — Suas palavras vertiam sarcasmo. O príncipe saiu, e o rei sorriu com benevolência. Projeto Revisoras

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— Presumo que tenham feito como ordenei, não? Roxy e Pamela se casaram com os filhos de lady Lucinda, como determinei? As duas mulheres piscaram. Nenhuma delas ousava mover a cabeça ou falar. Henry dirigiu-se a uma cadeira de encosto muito alto diante de outras quatro, todas vazias. Ele se sentou e determinou: — Sentem-se. Especialmente você, Peter. Não estamos numa reunião formal. Deve ser cansativo ficar pendurado nessa muleta. Pamela empalideceu; Roxanne ficou gelada. O rei reconhecia os gêmeos, afinal. Seria impossível levar adiante a farsa que haviam planejado. Em silêncio, eles se sentaram trocando olhares confusos e temerosos antes de olharem novamente para o soberano. Raven rompeu o silêncio fazendo a pergunta crucial. — Como soube que era Peter quem tinha a perna fraturada, Majestade? — E não você, quer dizer? Bem, sei tudo que preciso saber, Raven. Sei, por exemplo, que Peter caiu da muralha do castelo de Fortengall. Houve mais um momento de silêncio tenso no aposento. O rei observava seus convidados com atenção. — O que não sei é por que você, lady Pamela, está tão perto de lorde Peter, e por que sua prima Roxy segura o braço de Raven. Pamela tentou falar, mas o marido foi mais rápido. — Majestade, nosso irmão, Lucien de Eynsham, informou-nos sobre seu desejo de unir-nos, Raven e eu, a essas donzelas órfãs de Gales. Acatamos sua determinação e as tomamos por esposas, porém... — Ele parou, pigarreou e olhou para Pamela, que assentiu a fim de encorajá-lo a prosseguir. — Porém, eu, Peter de Stoneweather, casei-me com lady Pamela. Meu irmão, lorde de Stonelee, desposou lady Roxanne. A confissão promoveu outro silêncio prolongado e tenso. Os dois casais esperavam aflitos. — Oh...? — Henry manifestou-se finalmente. Pamela mal conseguia respirar, mas Roxanne adiantou-se com a coragem costumeira. — E isso mesmo — ela confirmou, jogando os cabelos para trás e erguendo o queixo. — É o que ouviu. Sou esposa de Raven, agora, e minha prima Pamela casouse com lorde Peter. E estamos todos muito felizes com o arranjo. — Sim, muito felizes, Majestade — confirmou Pamela. — Somos gratas por ter escolhido tão belos e galantes cavaleiros para serem nossos maridos. — Eu os escolhi?

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— Não, milorde — Peter respondeu. — Mas esperamos que não se aborreça por eu ter tomado a esposa que destinou a Raven, ou por ele ter feito o mesmo com a mulher que deveria ter sido minha esposa. — Não me aborrecer? — o rei repetiu incrédulo. — Vossa Majestade, suplico que nos permita explicar. De início, pretendíamos fazer como ordenou e desposar aquelas que nos impôs. Porém, circunstâncias adiaram as núpcias, e nesse tempo todos nós nos apaixonamos por aqueles com quem nos casamos. — Amor! Esse sentimento raramente está presente em casamentos da nobreza! — Mas, no nosso caso, foi diferente — Raven interferiu. — Sabíamos que estávamos nos arriscando a atrair sua ira, Majestade, mas agimos de maneira consciente. — De fato... — Com licença, Majestade — pediu um criado na porta. Ele se fazia acompanhar por outro, e entre os dois carregavam pratos com frutas, queijo e pães, além de taças e vinho. — Podemos servir, Majestade? — Fora! Os criados deixaram tudo sobre a mesa mais próxima da porta e saíram apressados. — Sim, Majestade — Roxanne respondeu ao rei —, agimos com consciência. Um casamento pode durar toda a vida, e optamos por não viver na infelicidade. Não acreditamos que poderia desejar isso para nós. — Santa Mãe de Jesus — Raven resmungou. — Não está colaborando com a nossa causa. Henry balançou a cabeça. — Roxy não é conhecida pela capacidade de guardar a língua dentro da boca, não é, milady? — Reconheço que prefiro a verdade à mentira. — Eu prefiro obediência — declarou Henry. — Majestade, não tivemos a intenção de desobedecer a sua ordem. Como disse Peter, circunstâncias alheias à nossa vontade interferiram em nossos planos e frustraram nossas intenções. Mas o que foi feito não pode ser desfeito. — Não?

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— Não deve ser — Roxanne declarou. — Não há impedimentos para os nossos casamentos, Majestade, e Pamela e eu não temos a menor intenção de desistir de nossos maridos e... Ai! Discretamente, Raven pisou no pé da esposa a fim de silenciá-la. — Roxy, Roxy, Roxy... — O rei a tratava como se ela fosse uma criança recalcitrante. — Vejo que precisa de um marido de pulso para ensiná-la a ser obediente. Não estou certo de que lorde Raven está preparado para esse esforço. — Majestade, reconheço que essa mulher pode me levar ao limite da paciência, mas não desejo uma esposa dócil que acate todas as minhas vontades como se não tivesse alma. — Com licença... Creio que estão se afastando da questão principal — Peter interferiu. — Majestade, Raven e eu bem sabemos que haverá conseqüências para nossos atos. Estamos dispostos a desistir de tudo que possuímos se aprovar nossas uniões com essas damas. — Tudo que possuem? Stonelee, Stoneweather... e Angleford, também? — Sim, Majestade — Pamela respondeu sem hesitar. — Tudo que pedimos é que seja compreensivo conosco e aceite nossos casamentos. O rei se levantou. Os quatro o imitaram. Apressado, Peter teria caído da muleta se a esposa não o amparasse. Henry a viu ajeitar a muleta sob o braço do lorde e considerou a atitude em silêncio. — Não pode pretender tirar Angleford de Pamela! — Roxanne reagiu incrédula. — Aquele é seu lar, seu dote, seu pequeno pedaço de Cymry! — Não me importo, Roxy — Pamela virou-se da prima para o rei e suplicou:— Por favor, Majestade, deixe-nos ir viver com nossos maridos, e abrirei mão de Angleford sem me queixar! — Digo o mesmo por Stoneweather — declarou Peter. — E eu por Stonelee — disse Raven. — Stonelee? — Roxanne repetiu incrédula e irritada. — Como pode abrir mão do que é seu sem ao menos demonstrar resistência? Por Jesus, não consigo entender os ingleses! — Roxanne, feche a boca, ou serei obrigado a silenciá-la pela força de meu punho! — Raven ameaçou. Ela recuou um passo. — Você não ousaria. — Diga mais uma palavra, e pedirei ao rei para dissolver nosso casamento. Manterei Stonelee e me livrarei de você!

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— Bem, talvez esse casamento deva ser anulado, afinal — o rei comentou com tom calmo. — Não! — Roxanne explodiu. — Não tenho a impressão de que possam se entender. — Nós nos damos bem! Não dê ouvidos a meu marido. Ele me ama mesmo quando me odeia! — Verdade? — Henry estudava a expressão da filha de lorde Cedric. — Lady Pamela se dispõe a desistir de suas terras em Gales para ficar com o marido. Peter corresponde a esse desejo abrindo mão de Stoneweather pela esposa. Seu marido afirma que não tentará enfrentar-me, caso eu exija a devolução de Stonelee em troca da aceitação desse casamento. Mas você, Roxy... Sacrificaria terras em sua adorada Gales para ser esposa de Raven? — Nada tenho para entregar. Bittenshire agora pertence a Aggie e Thomas. E se algo acontecer com eles, meus sobrinhos e outras oito irmãs herdarão a propriedade antes que eu possa herdá-la. Nada tenho para sacrificar por Raven. — Mas se tivesse? A insistência do soberano a fez perder a cabeça completamente. A única coisa que poderia tê-lo feito calar eram os punhos do marido, mas ele não ergueu a mão, apesar da ameaça, nem mesmo quando Roxanne começou a gritar exasperada: — Não interessa o que eu faria se tivesse alguma coisa, porque não tenho nada! Nem terras, nem fortaleza! Tomando por marido esse inglês, perdi toda e qualquer chance de retomar parte de Cymry como meu lar. E, já que estamos na hora da verdade, por que insiste em chamar-me de Roxy. Só minha família usa esse apelido! — Por Deus, Roxanne, cale a boca! — Raven reagiu finalmente, segurando-a pelos ombros. — Como ousa questionar Sua Majestade Real? Ele tem o direito de chamá-la como quiser! — Raven olhou para o rei e baixou a cabeça. — Imploro por seu perdão para a impertinência de minha esposa, Majestade. Reconheço que tem razão quando questiona minha capacidade de conter essa mulher. — Por favor, não se zangue com minha prima, Majestade — Pamela interferiu respeitosa. — Ela está muito perturbada. Todos nós estamos. Mas ela não é capaz de esconder o que sente. — Eu sei — Henry sorriu. — É dever de um padrinho conhecer o temperamento de sua afilhada. — O que disse, majestade? — Pamela perguntou perplexa. O comentário do rei deixou Raven atônito, sem ação.

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— Não pode ser — Roxanne protestou. — Era apenas uma... uma criança quando fui batizada! — Asseguro-lhe, milady, que eu já era um homem, embora não tivesse idade suficiente para ser sagrado cavaleiro. Como minha mãe já se dedicava à campanha por meu direito ao trono inglês, e como seu adorado pai não nutria grande amor por Stephen de Blois e seu filho bastardo, Cedric tornou-se meu aliado e eu tornei-me padrinho de sua última filha. Roxanne ficou boquiaberta por um instante, mas recuperou-se depressa e a fechou. Henry riu. — Está vendo, Raven? Consegui silenciar sua esposa, embora você não o tenha feito. — Majestade, vai permitir que ela siga sendo minha esposa, embora não a tenha escolhido para mim? — Quem disse que não foi ela minha escolha para você? — Quem...? Lucien disse! — Peter declarou confuso. — Quando levou as duas damas a Stonelee, ele anunciou que eu deveria me casar com Roxanne, enquanto Raven deveria se casar com Pamela. — Sim, e ele apresentou documentos com o decreto real. — Raven completou. — Um pergaminho. Vocês o leram? Raven tentou lembrar. Quando olhou para Peter, ele viu o irmão balançando a cabeça. — Não — admitiu lorde de Stonelee. — Tivemos uma discussão, e quando Lucien apresentou o documento para provar que dizia a verdade, não quis irritá-lo ainda mais. Aceitei a palavra de meu irmão sem romper o selo de sua missiva. — Foi o que fiz também — Peter declarou. — Disse que discutiram? — Henry ria como se a situação fosse engraçada. — Eu já esperava. Por isso falei apenas com Lucien e o escolhi para conduzir as duas jovens damas até suas portas, em vez de chamá-los a Westminster. Não queria dar a você, Raven, a oportunidade de manifestar seu desprazer em minha presença. Se assim fosse, as conseqüências para você e Peter teriam sido terríveis. — E quais serão as conseqüências agora? — perguntou Peter. — Nenhuma. — Nenhuma? — Não fizeram nada que possa produzir conseqüências.

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— Mas... acabou de dizer que mandou Lucien transmitir sua vontade de forma que não pudéssemos desafiá-la! E nós o desafiamos. Sem maldade, é claro, mas o desacatamos desposando outras mulheres que não aquelas que escolheu para nós. — Não, Peter. Você tomou a esposa que eu considerava ser adequada para você, como seu irmão. Os gêmeos trocaram um olhar confuso. Roxanne e Pamela também estavam perplexas. — Eu... não entendo — confessou Pamela. — Como seus maridos não leram as cartas que enviei por seu cunhado, lorde Peter e lorde Raven jamais souberam que determinei que eles se casassem com duas primas galesas, lady Pamela de Angleford e lady Roxanne de Bittenshire. Mas em nenhum momento determinei que Peter deveria se casar com Roxanne e Raven com você. — Quer dizer... que nos deixou livres para escolher? — Peter deduziu. — E como sabia que não leríamos a missiva? — acrescentou Raven. — Conheço você, Raven. Imaginei que jogaria o pergaminho ao fogo e declarasse a quem quisesse ouvir que ninguém, nem mesmo seu rei coroado, poderia forçá-lo a fazer votos de casamento se você assim não desejasse. Raven corou. — Então, queria mesmo que eu me casasse com Peter? — Pamela perguntou. — Sim, de fato eu desejava — confirmou Henry —, embora tenha deixado a escolha para vocês. Poderia tê-la unido a Peter com uma única palavra, certamente, e teria feito o mesmo com esses dois, mas sabia que se ressentiriam contra minha interferência, e ainda viveriam ressentidos um contra o outro em função do casamento forçado. Sendo assim, acabei convencendo Lucien de Eynsham a crer que eu queria casar Raven e Pamela e Peter e Roxy. Sabia que Raven e Roxy acabariam se sentindo atraídos, nem que fosse apenas pelo desejo inconsciente de contrariar uma ordem. — Majestade, confesso que cheguei a odiar essa mulher. No início eu a chamava de megera por sua língua ferina e... — Raven, não diga mais nada — Roxanne o preveniu. Dessa vez Henry gargalhou. — Admita, Roxy, que também não gostou de Raven quando o viu pela primeira vez. — Não foi assim, Majestade. Levei algum tempo para começar a odiá-lo. — E depois descobriu que o amava, conforme eu imaginava que seria.

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— Como podia saber? — Eu sabia porque seu pai, meu amigo, manteve contato comigo. Cedric sabia que, como seu padrinho e seu rei, eu seria o responsável por seu destino, caso ele perecesse. Eu escolheria seu marido. Como seu pai nunca conseguiu encontrar um homem adequado ao seu temperamento, ele me pediu para indicar alguém. Ao longo dos anos, Cedric me manteve informado sobre seus gostos e sobre as coisas que abomina, milady, sobre suas paixões e seu jeito de viver. Decidi que Raven de Stonelee seria seu par ideal. — Majestade, está dizendo que todos nós fizemos exatamente o que esperava de nós, e que não devemos temer punição? — Peter indagou rindo. — É exatamente o que estou dizendo. Você continua sendo lorde de Stoneweather, e seu irmão continua sendo lorde de Stonelee. Mas, Pamela, devo repetir minha pergunta sobre sua intenção com relação a Angleford. — O quê? Oh, sim, milorde, se é mesmo necessário... Ele se aproximou e beijou-lhe a mão. Depois olhou para Peter e perguntou: — Vai lamentar se não puder ser lorde de Angleford, além de ser lorde de Stonelee? — Não — ele respondeu sinceramente. — Então, Pamela, ofereço valores em troca de seu dote e o transmito a Roxanne. E, Roxy, a partir de agora, Angleford passa a pertencer a você e a seu marido. Ela protestou assustada. — Majestade, não! Angleford pertence a Pamela! — Não me incomodo — Pamela repetiu. — Lembra-se de que uma vez, há muito tempo, cheguei a oferecer-lhe a propriedade? Seu pai me explicou que eu não podia dar Angleford a ninguém, porque teria de entregá-la ao homem com quem me casasse, a menos que o rei decidisse diferente. Agora Sua Majestade decidiu. Angleford pertence a você. — Roxanne, lady de Stonelee — Henry fitou-a sorrindo —, eu a conheço muito melhor do que pensa. Sei de seu amor por Gales e de sua necessidade de viver lá, pelo menos alguns meses por ano. Pamela ficará contente em Stoneweather com o marido e os filhos. Peter também será feliz lá, eu sei. Porque costuma ocupar-se da plantação e do gado, tanto que raramente visita minha corte. Ao contrário do irmão, seu marido. Você, minha querida, é capaz de enfrentar o mundo com seu arco e suas flechas, caso a fortaleza seja atacada. E sei que já agiu assim. Angleford precisa de uma mulher com sua força e coragem, e você precisa de Angleford para ser feliz. E esse cavaleiro que já salvou Angleford de um ataque também precisa de um lugar como aquele. Defendê-lo o manterá ocupado e longe da corte e das damas que atendem a rainha. Projeto Revisoras

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— Ele não ousaria, mesmo que fosse um cavaleiro sem terras! Mesmo assim, sou muito grata, Majestade, por sua generosidade. E por ser meu padrinho, também. Com lágrimas nos olhos, ela abraçou Henry, que correspondeu ao abraço e sorriu. — Bem, agora tratem de se lavar e vestir roupas adequadas. Já ordenei a Basil que preparasse um banquete em comemoração ao duplo casamento. A propósito, eu os convido a permanecerem aqui por alguns dias. A caça é abundante, e já estamos sentindo falta da alegria da companhia feminina. Sei que vão aceitar o convite porque, afinal, todos são súditos leais e obedientes. Henry saiu e fechou a porta. Peter virou-se para o irmão. — Não acredito na facilidade com que o rei nos manipulou! — Não acredito na facilidade com que o rei nos manipulou! — Não está aborrecido? — Pamela perguntou. — Pareço estar? — Não. — E você, Raven? — quis saber Roxanne. — Por Deus, estou furioso com você! — Por quê? Despreza Cymry tanto assim? — E claro que não! Estou zangado com seu comportamento, Roxanne. Prometeu que seria doce e submissa diante do rei, no entanto... — Henry entendeu. Ele é meu padrinho, não é? — Henry? Agora ele não é mais o maldito rei inglês? — Quieto, Raven! Alguém pode ouvi-lo e delatá-lo ao rei! Não devemos afrontar nosso soberano. — Nosso soberano? Agora também é inglesa? — É claro que sou inglesa! E sou casada com um lorde inglês. Mas ele também é um lorde de Guerra da fronteira. Seus filhos nascerão em solo Cymry, e isso faz de mim uma feliz e satisfeita mulher inglesa. Raven sorriu e beijou-a. Depois olhou para o irmão. — E você, Peter? Também está feliz? Como marido de Pamela, deveria ser o senhor de Angleford! — Eu não menti quando manifestei minha vontade diante do rei. Não me interesso por Angleford. Além do mais, com você em Gales pela maior parte do ano, vou ter de proteger também Stonelee, além de Stoneweather. E como perdeu a

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aposta, não vou ter de entregar aquele pequeno trecho de terra na fronteira entre nossas propriedades. Sim, estou feliz. Muito feliz. — De que aposta está falando, Peter? — Esqueça — disse Raven. — Houve um tempo em que me empenhava em conquistar um determinado prêmio. Mas o prêmio que tenho agora, em meus braços, supera todos os outros.

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