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Coração de Leão

Suzanne Barclay

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Coração de Leão

Suzanne Barclay

PRÓLOGO As Terras Altas Escocesas Julho de 1358 O sol despontava no horizonte, atravessando 'nuvens pesadas e jogando pálidos raios de luz sobre o castelo Curthill. Embora fosse cedo, os soldados se alinhavam sobre os muros da fortaleza construída séculos antes no alto de um penhasco, o qual formava uma barreira natural contra ataques. — Olhem com atenção, rapazes. Logo eles vão aparecer — resmungou o capitão de Curthill. Com um ombro apoiado contra as paredes da torre, Archie Sutherland esfregava os olhos que doíam devido à noite de vigília quando... — Ali. É um navio! — avisou o sentinela. O cansaço de Archie desapareceu. Era a hora. O momento que aguardavam desde que souberam que Lionel Carmichael seguia para o norte com um navio de guerreiros. Olhou para o mar e localizou o pequeno ponto negro que em menos de uma hora se transformaria em ameaça real. — Atirem uma flecha flamejante para alertar O Falcão — ordenou ao imediato. — Toquem o aviso de batalha. Vou informar milorde de que o navio foi avistado. O som agudo e sobrenatural das gaitas convocando os Sutherland abafou a batida da ponte levadiça sobre o solo, através da qual Archie se retirou do castelo a cavalo. Com a pressa suplantando o bom senso, percorreu a trilha íngreme que circundava o penhasco levando até a vila no sopé. Portas e venezianas se abriam enquanto passava pelas casas de pedra e madeira, mas ignorou as vozes implorando por notícias do inimigo que já atacara duas vezes nos últimos dez meses. Não parou quando alcançou a faixa estreita de praia rochosa onde os barcos dos pescadores eram abrigados à noite. Ao se aproximar, cerca de trinta homens uniformizados com vestes de combate das Terras Altas olharam atentos. Puxando as rédeas, desmontou e foi até o líder que se aquecia junto a uma pequena fogueira. — O navio de Carmichael chegou, milorde — informou Archie. — Ah. — A ansiedade transpareceu nas feições ardilosas do líder. Alto e esguio, usando uma armadura de estilo francês, apesar de sua origem escocesa, voltou-se para o mar. Estreitando os olhos claros, 2


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procurou até encontrar a sombra escura se avolumando contra o céu que clareava rapidamente. Sua pulsação aumentou, cadenciada com a batida das águas na praia. Logo, Carmichael e seus seguidores estariam dormindo o sono eterno, um fim apropriado para qualquer um que ameaçasse seus planos. — Avisou meu navio? — perguntou a Archie. — Sim. Tudo foi feito como o combinado, milorde. Os arqueiros já estão prontos no alto. Assim que Carmichael entrar na baía, O Falcão vai sair do abrigo e atacar por trás. Um sorriso frio e breve foi a resposta. — Dando a Lionel Carmichael a surpresa de sua vida? — Será como flechar um peixe num barril. — O riso asqueroso do capitão se juntou ao do líder. — Prometeria ajudar no próximo arrasto só para ver a cara de Carmichael quando perceber que Curthill não é nenhum vilarejo de pescadores desprotegido. — Não. É muito mais que isso — concordou o líder, olhando por sobre o ombro para as pequenas cabanas que escondiam tanto... os aldeões e o trabalho que realizavam na calada da noite. — O esquema está funcionando perfeitamente bem — murmurou, quase para si mesmo. — Mas não vai continuar assim se Carmichael cumprir sua promessa de nos inalar a todos. — O capitão advertiu e cuspiu no chão. — Por que ele não se satisfaz com nossa afirmação de que a morte de seu filho um acidente de caça? — Os Carmichael são osso-duro. É provável que não faça diferença para o velho se a morte de Lion foi acidente ou não. Ele quer sangue... sangue Sutherland... em pagamento pela morte do filho amado — desdenhou o líder. — Bem, é melhor acabarmos com ele de uma vez por todas. Ainda bem que O Falcão Negro já chagou com um carregamento de saque, ou teríamos que nos defender só com o efetivo do castelo e os mercenários. — De acordo. Não podemos tolerar Lionel Carmichael navegando para cá todos os meses, estragando nossos planos. Se não acabarmos com ele desta vez, vou reclamar junto ao rei. Sua Majestade recebeu um amplo relatório sobre a morte do pobre Lion. Ele sabe que lamentamos o incidente — observou o líder, satisfeito por ter eliminado o jovem cavaleiro que se tornara um problema sob dois aspectos... nos negócios, e no âmbito pessoal. — O rei David ficou tão tocado com nosso pesar que disse que renegaria os Carmichael se Lionel persistisse na vingança. — E se o rei mandar homens para cá? 3


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— E o que eles encontrariam? — indagou o líder, dando um sorriso maquiavélico que provocava a aversão de muita gente. — Alguns aldeões levando a vida honestamente com seu trabalho. — E um depósito abarrotado de mercadorias de que o rei não tem conhecimento. O líder desdenhou. — Está falando como uma velha. Já estamos nisso há dois anos, e ninguém sabe de nada. Nem mesmo Megan Sutherland, que acha que sabe tudo o que se passa no castelo Curthill e na aldeia. — Ela foi enganada como todos os outros. Não tem a mínima noção do que se passa aqui — resumiu Archie. — O jovem Lion, entretanto, desconfiava de alguma coisa. — Desconfiava. Nunca chegou perto o suficiente para descobrir nada até que o apagamos. E faremos o mesmo com todos aqueles que vierem xeretar por aqui, querendo estragar nosso negócio rendoso — grunhiu o soberano de Curthill. Archie riu, maldoso. — Sim, milorde.

CAPITULO 1

Terras Baixas Escocesas Castelo Carmichael — Lorde Lionel voltou — comunicou delicadamente Owain de Llangollen a seu senhor, que mesmo assim ergueu a cabeça rápido do livro que estivera estudando. — Meu pai está ferido? — perguntou Ross Carmichael, os olhos azuis brilhantes de repente obscuros. — Está inteiro — Owain deu mais um passo no escritório. — Mas não está tão altivo quanto quando saiu para caçar. — Caçar. Meu pai não foi atrás de veados vermelhos quando seguiu para o norte — grunhiu Ross. — Foi atrás de Sutherland. — E provável — concordou o galês. — Que droga. E se o rei ficar sabendo disso? 4


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— Ainda não. Leva umas duas semanas em marcha forçada das terras Sutherland até Edimburgo. — Mas só quatro dias de navio... o meio utilizado por meu pai, já que foi e voltou tão rápido. — A expressão de Ross ficou sombria. — Por que ele não desiste dessa vingança? — Atirou o livro sobre a mesa e pulou da cadeira em rara demonstração de raiva. — Ele prometeu a mim e à minha mãe que não iria lá de novo. Olhando pela fresta construída para atirar flechas e que servia de janela para a sala, Ross pousou a mão na parede de pedra. Os últimos raios do sol poente banharam seu semblante orgulhoso, testa ampla, nariz aristocrático, maxilar determinado. Seu corpo alto e musculoso estremecia na tentativa de controlar a raiva. O jovem senhor era frio e lógico — para um Carmichael. Por isso Owain deixara o País de Gales para servir a Ross. Mas a obsessão de Lorde Lionel em punir os Sutherland pela morte de Lion, seu primogênito e herdeiro, tirava a paciência de Ross mais que tudo. — Um pai tem o direito de vingar a morte do filho — opinou Owain, com sabedoria galesa. Mas Ross não concordava. — Se o rei souber disso, vai punir a todos nós... como já ameaçou da última vez que meu pai foi caçar Sutherland. Owain grunhiu em concordância. Não temia por si mesmo, mas pela mãe, seis irmãos e os membros do clã. Ross assumira suas responsabilidades como herdeiro muito seriamente, sem se importar por têlas recebido de forma inesperada, à morte de Lion, dez meses antes, no castelo Curthill, aonde fora para se casar com Siusan Sutherland. — Talvez se for ao rei... e explicar-lhe que... — Explicar o quê? — ralhou Ross, voltando-se para o assistente, lembrando os rompantes de raiva do pai. — Que meu pai não acredita que foi acidente? Que, apesar do que as testemunhas dizem, ele acha que Eammon Sutherland matou Lion e não vai descansar enquanto o mar não ficar vermelho com o sangue Sutherland? Mesmo que isso signifique banir todo o clã Carmichael? — Suspirou profundamente, passando a mão pelos grossos cabelos negros que herdara do pai. — Talvez, depois dessa derrota, ele permita que mande alguém a Curthill espionar os Sutherland e descobrir a verdade. Ross desdenhou. — Meu pai põe de lado toda sugestão minha. — Aquilo magoava, mas não tanto quanto já estar de volta do País de Gales havia 5


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quatro meses e o pai ainda não tê-lo designado como herdeiro. — Meu pai não está interessado na verdade, só em matar tantos Sutherland quanto possível. — Sim. A dor muitas vezes traz esse tipo de insanidade. — Deveria acorrentá-lo na cama até a raiva passar, ou essa sede de vingança vai nos levar a todos mais cedo para a sepultura — grunhiu Ross, dessa vez levando as duas mãos aos cabelos. — Assim que me certificar de que ele está bem, vou eu mesmo a Curthill. Owain atravessou a sala ligeiro, a agitação evidente ao agarrar Ross pelos ombros, quase sacudindo-o. — A loucura deve ser contagiosa. O que espera ganhar se arriscando dessa forma? — questionou. — A verdade. — A verdade. — Nos lábios de Owain soou como praga. — Acha que Lorde Lionel vai se satisfazer se trouxer o desgraçado que atirou a flecha que foi parar nas costas de Lion? — Espero que sim. Owain balançou a cabeça. — Duvido que seja assim tão simples. O dor de Lorde Lionel é grande e monstruosa. Grande e infinita como seu amor por Lion. Ross suspirou profundamente. — A verdade é que isso é tudo que posso lhe oferecer. Se não for suficiente para aplacar a insanidade, então, eu o trancarei na torre. — Ross Carmichael, como se atreve? — exclamou uma voz jovem. Ele se virou para ver a irmã de onze anos, parada junto à porta, braços cruzados sobre o peito chato, os olhos violeta, que ela e Lion haviam herdado de Lionel, flamejantes de fúria. — Elspeth, você não entendeu — começou ele, erguendo uma mão apaziguadora. — Vim contar que papai chegou e o encontro planejando contra ele. Traidor! — Ela se voltou e saiu correndo. Ross soltou o ar dos pulmões. — Agora, coloquei mais lenha na fogueira. Acho que devo ir atrás dela antes que o boato fique ainda pior. — Mesmo assim, encontrou tempo para guardar os livros de contabilidade e de produção das terras no cofre. Manter as contas era seu trabalho desde os onze anos, pois nem o pai, nem Lion, tinham tempo nem cabeça para as tarefas clericais. — Não devia ir correndo atrás dela? — perguntou Owain. 6


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Não quero chegar ruborizado como um garoto que foi pego roubando maçãs. — Tinha orgulho. Orgulho demais. Suspirou novamente e pensou na melhor forma de diluir a raiva do pai. Ross deixou a parte antiga da fortaleza que servia como seu apartamento e chegou ao pátio interno. Muitos dos membros do clã sorriram e assentiram em saudação, mas outros que haviam saído com seu pai franziram o cenho e desviaram o olhar. Quando foi na direção deles, Andrew Carmichael grunhiu alguma coisa e cuspiu no chão. Não podia deixar a reação do cavaleiro que fora o segundo em comando de Lion passar despercebida, senão pareceria fraco. — Tem algo a me dizer, Andrew? — inquiriu. — Disse que é muito fácil ficar em cima dos livros enquanto nós vamos à luta — resmungou ele. — É bom mesmo eu cuidar dos negócios — disparou Ross. — Porque de outra forma não haveria dinheiro suficiente para sustentar essas viagens de caça. — Lançou um olhar reprovador a Andrew, que fora seu amigo e mentor antes da morte de Lion, observando depois o grupo de feridos, com curativos sujos de sangue. Se esses homens tinham se machucado numa caça, ele... ele comeria o próprio cavalo. — Presumo que o Lorde esteja no salão — comentou, e foi nessa direção. — Mas nós fomos mesmo caçar — bradava Lionel Carmichael quando Ross chegou à porta. Oh, pai. Por que não podemos esquecer isso tudo? Sabia a resposta. Era porque o valente e tempestuoso Lion fora o coração da família. Sem ele, viviam nas sombras. Para sempre nas sombras. — Os Sutherland devem ser punidos — berrava Lionel. Elspeth estava a seu lado. Quando avistou Ross, segurou o braço do pai, mas a atenção dele estava totalmente voltada para a pequena mulher que o olhava de cima. — Vai ser uma fraca vitória se o rei nos banir — relembrou Carina Carmichael. Apesar da desvantagem corporal, fazia frente ao marido com bravura.Tinha os mesmos olhos de Ross, e legara a ele também a frieza e lógica de raciocínio. — Tenho o direito de vingar meu filho — reclamou Lionel, com os olhos violeta faiscando. Amava a mulher e ensinara aos filhos que as mulheres deviam ser protegidas e valorizadas, não desdenhadas e castigadas, como alguns homens faziam. — Lion era meu filho também — respondeu Carina, a voz baixa, angustiada. Lionel deixou os ombros cair. Oh, pai. Ross queria confortar o pai, mas —

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sabia que ele não aceitaria nem simpatia, nem dó... muito menos dele. De Ross, só aceitaria um coisa... uma luta que aliviasse sua dor. O salão estava lotado de comensais que assistiam à discussão com interesse. — Tem é medo da verdade — disparou Ross. — Por isso não quer que eu mande alguém a Curthill descobrir que foi mesmo um acidente e que os Sutherland que já atacou foram vítimas inocentes! — Lionel, Ross... para cima, no meu solar, onde podemos ter privacidade — decretou Carina. Lançando um olhar reprovador a Ross, Lionel levantou-se e saiu, levando Elspeth consigo. — Por que o trata assim? — perguntou Carina ao filho, enquanto subiam as escadas. — Porque preferiria ir a Curthill descobrir o que realmente aconteceu a Lion. Talvez então possamos continuar nossas vidas — explicou Ross, antes de desviar o olhar. — Ross, deve parar de se culpar. — Como posso? Se não tivesse sido tão determinado em honrar meu compromisso de lutar contra os galeses, teria acompanhado Lion... talvez evitado que ele fosse morto. — Lion teria sido morto, mesmo com você lá — esclareceu Carina, mas Ross apenas encolheu os ombros. A angústia do filho lhe despedaçava o coração. Será que errara ao ensinar ao filho predileto que havia outras coisas na vida além de lutas e caçadas? Não. Tratava-se de um homem refinado. Valente e leal, compassivo e inteligente. Inteligente o suficiente para saber que, por mais que quisesse vingar a morte do irmão, não haveria ganho em ir contra o edito do rei. — Pai, Ross ameaçou matá-lo — anunciou Elspeth. Carina não deu importância. — Tenho certeza de que ele não disse isso. — Ha! Então ele seria o Lorde mais cedo — deduziu o pai, a expressão cínica e dura. — Elspeth — preveniu Ross, estreitando o olhar. — Vai falar a verdade, ou vou sacudi-la até sair. — Oh, está bem — obedeceu ela, emburrada e revoltada. — Elspeth, que vergonha — criticou a mãe. — Não é culpa dela — declarou Ross. — As mulheres são naturalmente mentirosas. — Discordo. — Carina passou uma taça de vinho ao filho — As mulheres não mentem mais do que os homens. Lionel fez uma careta. 8


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— Preferia que me desafiasse a um combate aberto a me trancar na minha própria torre — resmungou, olhando para Ross. — Não podemos continuar assim, pai... — É nosso direito vingar a morte de seu irmão — inter rompeu Lionel. — Mesmo que você não tenha peito para isso. Ross suspirou fundo. Não era questão de bravura, sabia disso; o pai, lá no fundo, sabia também. — Precisamos saber o que realmente aconteceu a Lion enquanto ele estava com os Sutherland — começou Ross. — Bah. — Lionel sorveu o vinho. — Acho que está contente por ele estar morto — bradou ele. — Sempre teve inveja por ele ser o herdeiro! — Oh! Co... Como pode dizer tal coisa de Ross na minha frente — ofendeu-se a mãe. — Pare com isso. Está nos dividindo. — Ah, Carina. — O senhor dos Carmichael se ajoelhou junto à esposa, arrependido. — Não chore, meu bem. Sabe que não suporto quando você começa. — Não estou chorando — replicou ela, erguendo os olhos úmidos. — Não exatamente. Mas não aguento isso. Ross atravessou a sala em três passos, indo se ajoelhar junto aos pais. — Pai. Juro do fundo da alma... juro por mamãe, se acha que não tenho mais alma... que nunca quis o que era de Lion. — Ha! Você sempre gostou do castelo, das terras. — Não vou negar — declarou Ross, embora soubesse que provavelmente deveria. — Mas nunca cobicei nada. Eu tinha meus próprios planos. — Lionel, não vê que Ross quer o que é direito... — Direito! É direito meu filho estar morto? — Nosso filho, Lionel — corrigiu Carina, suave. — E não, não é direito ele estar morto. Mas matar Sutherland inocentes e banir nosso clã tampouco é. —Não conheço outra forma — proferiu o Lorde, rígido. E esse, pensou Ross triste, era o x da questão. As antigas leis pediam olho por olho, mas o rei David passara os últimos doze anos preso na Inglaterra e trouxera noções civilizadas. Ross admirava o ideal, concordava que era errado exterminar os Sutherland pelo acidente. Caso a morte de Lion tivesse sido acidente... — O que precisamos é de provas para mostrar ao rei. Pelo menos me deixe... 9


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— Não! Quero a morte de Eammon. Ele fez a filha desgraçada escravizar meu filho e iludi-lo para a morte. Eu o quero morto! E foi a palavra final. Hunter entrou afobado na sala, muito vermelho, os cabelos ruivo-escuros desgrenhados. — Pai. Você voltou. — Ele se apoiou sobre o pai ajoelhado com a energia de seus dezesseis anos. — O que estão fazendo? Perderam alguma coisa? — Um grande negócio — explicou Ross, erguendo-se devagar, observando o pai ajudar a mãe a se erguer. — Por que não me disse que foi atrás dos Sutherland? — exigiu Hunter. — Teria ido junto. — Eu também —juntou-se Elspeth, achegando-se ao pai. — Você é só uma garota — desdenhou Hunter. — Cavalgo tão bem quanto você, segundo sir Andrew! — Alguém está com fome? — cantarolou Averly, de catorze anos, que já estava noiva e se casaria no outono. — Agora que ela vai casar com Simon, anda praticando ser a senhora do castelo — balbuciou Hunter, com a boca cheia de pão. — E você, Ross? Quando vai pedir Anne em casamento? Nunca. Depois da traição de Rhiannon, ele não permitiria que outra mulher dominasse sua vida. — Não há necessidade de me casar. Tem herdeiros sufi cientes, caso algo aconteça comigo. A expressão de Lionel tornou-se sombria. —Então, Andrew estava certo. Aquela galesa o deixou com medo de mulheres também. Bem, acho melhor superar isso logo — resmungou Lionel,ante o protesto de Ross e a risada aberta de Elspeth. — Não voltarei a ser jovem e não quero morrer sem segurar meu neto. Mas preferiria que fosse filho de Lion e não meu. Um mensageiro bateu na porta, abriu-a e introduziu a cabeça calva na sala. — Há uma mensagem do rei — informou. Os seis Carmichael se entreolharam, temerosos. Carina deu permissão para que o mensageiro entrasse, a fim de manter as notícias secretas, por enquanto. Sua preocupação foi justificada, pois o homem entrou na sala e estendeu uma pasta de couro ao lorde do castelo. Após examinar o selo, Lionel grunhiu: — Já fez o seu trabalho. Vá lá para baixo e os criados vão providenciar comida e alojamento. — Quando o mensageiro saiu, passou o rolo a Carina. Com as mãos trêmulas, ela rompeu o selo, leu o conteúdo e olhou 10


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atônita para Ross. — Oh, meu Deus. — O quê? — Dando um passo à frente, Ross tomou o papel. Passou pelas saudações e foi direto ao corpo da carta. — O rei já sabe sobre o último ataque contra os Sutherland. Ele vai me punir por... — Mas você nem estava comigo... — grunhiu Lionel. Ross engoliu em seco. — Ele quer um laço de sangue entre as famílias — informou. — Devo me casar com Megan Sutherland. — Só no inferno! — blasfemou Lionel. — Impossível. Não quero a escória de Eammon Sutherland na minha família. Seria como ter uma víbora debaixo do meu teto! — Sim — concordaram todos, os rostos demonstrando repugnância. — Concordo. Mas que escolha temos? — Voltando-se para não ter que encarar a família, Ross foi até a janela e observou os membros de seu clã nas atividades diárias. O que aconteceria se fossem banidos? — Não tenho escolha. Vou a Curthill, obedecendo às ordens do rei. — Não. — O pai se aproximou, agarrando-o pelos ombros. — Não vou mandar outro filho meu para o norte para ser morto por aqueles bastardos. Embora apreciasse a preocupação do pai, sabia que uma afronta direta às ordens do rei seria o fim dos Carmichael. — Posso cuidar de mim mesmo. — Se acabaram com Lion, que melhor sorte você teria? — lamentou o pai, com a típica desconfiança. — Vou levar tantos cavaleiros quanto possa me ceder. — Não vou receber essa cadela aqui. Ross assentiu. — Disse que vou a Curthill. — Iria descobrir a verdade sobre a morte de Lion. — Mas juro, pela alma de Lion, que não estabelecerei laço de união com a família que o assassinou. **** — Seu dinheiro ou sua vida - gritou o ladrão. — Vai ter é a ponta de minha espada. — A dama tirou uma pequena espada e espetou o ladrão, emitindo um som característico. O ladrão fugiu. A dama o espetou de novo. As crianças riram ruidosamente. Megan Sutherland sorriu enquanto saía de trás do barril que servia de palco, um boneco na mão direita batendo no da mão esquerda até que o 11


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ladrão pedisse misericórdia. — Agora, nos conte aquela da lady Fiona andando por todo o castelo, reunindo cavaleiros para salvar a colheita — pediu Janet, a filha da cozinheira, os olhos castanhos excitados. Megan sorriu, satisfeita com o entusiasmo da audiência. Como seanachaidh ou contista do clã Sutherland, era sua obrigação manter vivas as lendas e mistérios antigos. Cedo aprendera que os bonecos de luva era imprescindíveis para manter o interesse dos mais novos nas pequenas histórias que lhes montava e também nos contos mais longos, sobre os ancestrais, cavaleiros e heróis. Seanachaidh não era uma função normalmente delegada a mulheres. Mas o fato de o pai tê-la nomeado ainda a aquecia e incentivava, apesar da negligência dele nos últimos dois anos. Mas conseguia disfarçar a mágoa. Afinal, contar histórias era a sua vida. — Está ficando tarde — declarou. Erguendo-se desajeitada, aliviou a perna esquerda do peso do corpo. Como sempre, permanecer em uma posição sempre forçava os músculos fracos, sua própria lembrança do dia da morte do irmão. Sem pensar, massageou a coxa, com o boneco ainda na mão. — Aí está você, Meg — chamou uma voz doce, da porta do estábulo. Fechando a porta, a prima Chrissy avançou, muito vermelha, as tranças louras balançando sobre o busto farto. — Agora chega. Está na hora do jantar e suas mães já estão chamando — acrescentou, dispersando as crianças, gentil, mas com firmeza. Quando se foram, olhou excitada para Megan. — Chegou notícia da aldeia. O navio dele chegou, e vai vir para cá direto. — Ross Carmichael? — Ao rápido assentimento da prima, Megan levou os dois bonecos ao coração para acalmá-lo. — Ele veio. Eu... eu não tinha certeza de que ele... depois do que aconteceu a Lion. — Pobre Lion. Pobre Siusan. Sentia um nó na garganta sempre que se lembrava do casal malfadado... a adorável irmã mais nova e o cavaleiro bonito que a amou tão fielmente. Agora, Lion estava morto... e Siusan poderia estar, também. — Ele está aqui. Só espero que tudo corra melhor desta vez. — A prima removeu uma palha dos cabelos loiros de Megan. — Venha. É melhor você se arrumar. Mesmo sabendo que devia trocar a roupa modesta que vestira pela manhã para ajudar a mãe no jardim, Megan se deteve. — Mal posso acreditar que ele queira se casar comigo. — Por que não quereria? Tem um rosto de anjo e uma alma que 12


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combina. Ele é que tem sorte de tê-la — declarou Chrissy, segura. — Não foi o que quis dizer. — Sabia muito bem que não era nenhum anjo. Tinha a boca muito cheia, os olhos grandes demais para um rosto pequeno, e era muito apimentada...de acordo com a própria mãe... mas não era com isso que se preocupava. Gesticulou para a perna esquerda, escondida pelas saias, mas ambas sabiam a aparência. — Acha que lhe contaram sobre isso? Chrissy hesitou, percebendo o medo e a esperança naquela que recebera tanto ao nascer e fora cobrada com igual exigência. — Provavelmente, sim — murmurou. Na cerimônia do quarto, Megan ficaria nua para a inspeção do marido. Certamente, o rei não iria querer que Megan fosse humilhada, se Lorde Ross a repudiasse por sua imperfeição. Não, os homens não eram tão bondosos. Mas o rei David queria mesmo esse laço de união entre as duas famílias, então, era provável que soubesse sobre Megan. — Tenho certeza de que Lorde Ross sabe. Não teria feito essa longa viagem se não planejasse se casar com você. A preocupação sumiu instantaneamente dos olhos castanhos de Megan. — Lion disse que o irmão ficaria louco por mim. Lembra-se? — Não tenha tantas esperanças — aconselhou Chrissy, cautelosa. Megan sorriu com mais intensidade. — Tarde demais. Já estou contando com que ele se apaixone perdidamente por mim. E você não precisa se preocupar com Ross me magoando. Lion disse que ele é um perfeito cavaleiro, bonito, forte, corajoso, esperto e gentil. — Nenhum homem é tão perfeito. — Lion disse que ele nunca levanta a voz quando está zangado. Acredita nisso? Mesmo papai grita quando fica irado. —Ou, ao menos, costumava gritar. Agora.. .Da última vez que o pai descera da torre, permanecera tão quieto e distante que mal o reconhecera. — Aposto que Ross já me ama tanto quanto eu a ele. — Oh, Meg. Não conte com isso. — Tarde demais. Mas não se preocupe. Ross vai me querer... mesmo não sendo perfeita. — Ele tinha que querer. Porque ela contava com Ross para assegurar seu futuro e salvar a vida de Siusan. Mas isso era preocupação para depois. Hoje, seria bem mais simples. — Mas andei praticando caminhar sem mancar. Veja... — Fechou a mão nos bonecos e deu um passo, e então, outro. — Se for devagar... e me concentrar. Chrissy sentiu um nó na garganta ao ver a prima. Lembrava-se do 13


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acidente e de como a retiraram de debaixo do cavalo e a carregaram para casa. A perna estava quebrada em dois lugares, o quadril também. Ninguém acreditava que ela voltaria a caminhar, mas lady Mary cuidara dela dia e noite e, graças à habilidade da mãe e às sua própria perseverança e valentia, Megan conseguira se levantar e caminhar. Mas os músculos da coxa nunca voltaram a ganhar força completa. Vendo-a andar pelo chão coberto de palha, Chrissy queria chorar. — Está... está indo muito bem — conseguiu incentivar, quando Megan olhou por sobre o ombro. — E espero que Ross Carmichael aprecie. — Ele vai. Não é o tipo que vai me repudiar por meu defeito. — A exemplo de Comyn, seu ex-noivo, que a abandonara quando ela estava em recuperação.Ros stinha que querê-la. Simplesmente tinha. Não só porque ela se apaixonara pelas histórias de Lion sobre o irmão mais novo, como também por ser ele sua última esperança de ter um lar e filhos. — Meg? Você gemeu. Está tudo bem? Megan esboçou um sorriso. — Claro — mentiu ela, com a facilidade da longa prática. Não era exatamente uma mentira; esconder dos outros seus próprios problemas constituíam sua segunda natureza. — É melhor entrarmos e nos vestirmos para o jantar. — Chrissy empurrou a pesada porta do estábulo e as duas saíram... direto para o caminho dos cavaleiros. — Cuidado! — gritou alguém. Cavalos relincharam; homens praguejaram, puxando as rédeas enquanto tentavam desviar das duas mulheres. Megan tentou sair do caminho, mas a perna esquerda falhou e ela caiu no chão de terra batida, sem fôlego. Confusa, viu o cavalo avançar. Era como reviver seu acidente. Sentiu a boca seca de medo e permaneceu deitada, esperando o cavalo esmagá-la. O momento horrível do impacto. A dor que escureceria sua visão e não cederia... Gritando, o cavaleiro desviou o cavalo, que se agitava fogoso, arfando e balançando de um lado para o outro. Trêmulas, Megan suspirou devagar. Uma leve camada de poeira obscurecia sua visão; o caos de ordens gritadas e animais se afastando ecoava em seus ouvidos, mas ela estava ilesa. Um homem vestido em bela armadura de repente se materializou. — Você está bem? — indagou uma aflita voz masculina. Achando que era Comym, Megan instintivamente se encolheu. — Que droga. Não quis machucá-la. — O homem ergueu o visor do 14


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capacete e o retirou, passando-o a um auxiliar. — Você está bem? — perguntou novamente, afastando do rosto bronzeado os cabelos negros e úmidos. Lion, foi o primeiro pensamento de Megan. Não. Este homem tinha os olhos azuis. Ross Carmichael. Megan ficou sem ar. Nossa, ele era lindo como um anjo baixado à terra! Cachos negros se lhe colavam à testa, emoldurando um rosto determinado e forte. Ele tinha preocupação no semblante, e não desviava os olhos dela. Olhos quentes e claros como o céu de verão... brilhantes, inteligentes. Um homem inteligente? Bem, Lion disse que ele era diferente. E precisaria disso para ajudá-la a salvar Siusan. — Pode falar? — perguntou ele, com tal gentileza que ela imaginou se ele era real. Megan se estendeu para tocá-lo, mas percebeu que ainda tinha as luvas de bonecos nas mãos e tentou escondê-las. Só que ele foi mais rápido e lhe agarrou os pulsos com os dedos enluvados. — O que é isso? Algum tipo de luva das Terras Altas? Oh, que droga. — É... lady Fiona. — Ela estava mais vermelha que um tomate. O sorriso dele a deixava ainda mais embaraçada. — Um boneco? — Eu., eu divertia as crianças... — Minhas irmãs gostariam disso. Tinha quatro irmãs, lembrou-se Megan. Sentiu a esperança crescer em seu peito. Imaginava como seria viver no sul, perto de uma cidade grande como Edimburgo, num castelo cheio de pessoas que a repudiariam pela morte de Lion. Agora, via uma forma de fazê-los gostar dela... — Ficaria feliz em... — Oh, Meggie. — A multidão de curiosos deu passagem para Chrissy, que se colocou a seu lado. — Está ferida? — Você é Megan? — perguntou Ross. — Megan Sutherland? Ela assentiu, e ele largou sua mão como se fosse uma pedra quente, levantando-se. Seus os olhos azuis de repente se mostraram mais frios que um lago no inverno. Virando-se, grunhiu: — Deixe que os Sutherland cuidem dos seus — e saiu a passos largos. Megan gemeu e fechou os olhos. — Onde se machucou? — quis saber Chrissy. — No coração... ele está despedaçado. 15


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Chrissy se voltou. — Pare de fingir — ralhou. — Gostaria de estar fingindo. — Megan se sentou e observou Ross se afastar. — Por algum motivo, acho que ele não me ama — murmurou. — Uma suposição — concedeu Chrissy. — Sim. — Megan endireitou os ombros. Não adiantava ficar sentada, esperando e desejando que o problema se resolvesse por si só. — Vou ter que convencê-lo de que está enganado. — Boa sorte. — Chrissy estendeu a mão para ajudá-la a se levantar. — É uma tarefa difícil — acrescentou, sombria. — Mas não impossível. — Ou assim esperava. Rogava.

CAPITULO 2

Maldito seu pai por atacar de surpresa; maldito o rei por se intrometer! E maldita Megan Sutherland, também!, pensou Ross, enquanto escovava Zeus. Malditos olhos castanhos ardentes, a timidez, o sorriso perturbador, e seus... seus bonecos. Quem já ouvira falar de uma mulher adulta brincando com bonecos? Parou, franzindo o cenho. Seria meio retardada? Estaria Eammon tentando fazê-lo de idiota? Escovou com mais força, sentindo-se agitado. Bem podia tratar-se de um plano para castigar os Carmichael pelos ataques. — Me forçar a casar com sua filha parva e dar origem a uma linhagem de imbecis, poluindo nosso sangue — resmungou, esquecendo-se de que não tinha intenção de se casar com a garota de jeito nenhum. — Acho que Zeus não gosta de ser o alvo de sua raiva— 16


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observou Owain. Ross piscou, surpreso em ver o garanhão olhando para ele. O cinzento cavalo de guerra, criado pelos seus primos ingleses, não merecia tal tratamento só porque ele estava zangado com Megan Sutherland. Não, era com ele mesmo que estava nervoso, pensou, lembrando-se da dor que sua rejeição causara nos grandes olhos castanhos de Megan. Naquele instante, ficara tentado a confortar a mulher que deveria desprezar. Porque ela era linda. Linda, não... encantadora. Seus olhos amendoados erguiam-se nos cantos de um jeito provocador, sob sobrancelhas finas que davam um ar sensual a seu rosto delicado. Os olhos fogosos levavam um homem à loucura, atraindo, fazendo-o esquecer-se de seus deveres e honra para se perder na luxúria daquela promessa. Sentiu o encanto se manifestar em seu corpo, abaixo do cinto, enrijecendo seus músculos. Luxúria. Antes de saber quem ela era, desejaraa. Terrivelmente. A manifestação do desejo o surpreendera sem defesas, chocando-o. Depois do que acontecera com Rhiannon, jurara controlar esses rompantes de paixão, reforçando a lógica e a serenidade. Aparentemente, porém, não tinha mais controle sobre isso do que tinha sobre a cor de seu cabelo. —A praga Carmichael — resmungou entre os dentes. Fora assim com seus pais e com Lion quando ele conheceu Siusan e aquele clã maldito. O irmão desafiara o pai, ignorara o conselho do irmão e partira ao encontro da morte. Tudo por uma garota com olhos de veludo e boca... Estremecendo, Ross se enrijeceu para resistir, lembrando-se de que Megan era igual à traiçoeira Rhiannon. Embora fisicamente fossem bem diferentes, sabia que eram irmãs por baixo da pele. Feiticeiras no coração... determinadas a ludibriar os homens para seus próprios fins. Não desta vez. — Os Sutherland estão esperando-o para jantar — informou Owain. — Deixe-os esperar. Fazia horas que haviam chegado e Ross ainda não pisara no interior de Curthill. Balançou a cabeça para desfazer a imagem do rosto cativante de Megan e voltou a trabalhar em Zeus. — Não vai cear com eles? — Não estou ansioso. Embora tema que lorde Nigel logo esteja no salão para me ver — comentou Ross. 17


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A importância que o rei dava a essa união se atestava no fato de ter designado um tio bastardo, Nigel, para escoltar o noivo até Curthill. Durante a viagem para o norte, o velho tentara lhe passar um sermão sobre as qualidades da noiva, mas Ross tapara os ouvidos a essas bobagens. Não iria se casar; portanto, não havia motivo para saber nada sobre ela. — Estranho foi lorde Eammon não estar na doca para nos receber — comentou Owain. — Foi meu primeiro sinal de sorte. — Apesar de todas as suas palavras sobre arranjar provas, a ideia de se avistar com o homem fazia o sangue de Ross ferver. — Não sei nem como reagiria. Owain ergueu as sobrancelhas diante da veemência rara, mas não fez comentários. — Por que Eammon mataria Lion depois de concordarem unir seu clã de pescadores com os poderosos Carmichael? Era uma pergunta que Ross se fizera milhares de vezes nesses últimos meses. O que Eammon esperava ganhar? — Deve ser louco também. Nenhum homem em sã consciência quereria briga com Lionel Carmichael. Talvez Wee Wat tenha resposta para isso — acrescentou. Depois da campanha desastrosa no País de Gales, Ross se habituara a testar o solo antes de pisar. Assim que soube que iria a Curthill, enviara Wee Wat na frente para obter informações. — Quero falar com Wee Wat antes de jantar com o inimigo. Como que se materializando ante o desejo de Ross, o espião surgiu. — Aqui estou eu, milorde. — Que bom vê-lo, velho amigo — cumprimentou Ross. Wee Wat era o tipo comum, do povo, e passava por viajante em qualquer lugar sem despertar suspeitas. — Teve problemas? — Um pouco. — Wat deu uma olhada em redor. — Aqui não é bom. — Estamos sós. — Nunca se pode ter certeza. Correm rumores de que Eammon anda um pouco instável. Ross se arrepiou ao seguir o homem pelo pátio, na escuridão. O castelo não estava em boas condições de conservação. Mesmo sob fraca iluminação via-se o desleixo. Se o pai tivesse conseguido aportar, não teria tido dificuldade em invadir o castelo. Era a primeira viagem de Ross tão para o norte, mas as histórias sobre a gente das Terras Altas viver como bárbaros certamente eram verdadeiras. Como Lion pudera escolher um mulher criada ali para governar o castelo esplêndido que os pais haviam construído com tanto afinco? Felizmente, ele não corria o risco de cair naquela armadilha. 18


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Sedutora que fosse, Megan Sutherland poderia ter os dons de Circe e mesmo assim, ele resistiria. Se ficasse tentado, bastaria se lembrar do que lhe causara a paixão por Rhiannon. Agora, sentia-se controlado e moderado. E precisaria disso ali. Pararam junto aos muros, o som do marulho abaixo abafando-lhes as vozes. — Quais são as novidades, Wat? — Quando Lion chegou aqui no ano passado, lorde Eammon se recusou a deixá-lo se casar com lady Siusan. — O quê? Por que ele... — Mudou de ideia. Correm rumores de que isso passou a acontecer com frequência, depois da morte do filho, há dois anos. Isso o arrasou. Eammon se tornou um recluso. Raramente sai da torre, onde vive com uma prostituta, e não tem interesse pelo bem-estar dos membros do clã. Ross sabia muito bem o quanto a morte de um filho podia transtornar um pai; entretanto, não sentia empatia pelo inimigo. — Conhecendo Lion, ele deve ter lutado pela mulher. Esse pode ser o motivo de Eammon tê-lo matado. — Talvez. Mais algumas moedas e soube que Lion nem estava junto com o grupo principal da caçada quando morreu. — Os homens se separam na caçada — ponderou Owain. Wat assentiu. — Dizem que Lion foi ludibriado por uma mensagem. — Ludibriado? Pode provar isso? Não. O aldeão disse que um caçador viu que, assim que o veado foi localizado, um menino se aproximou de Lion e sussurrou algo em seu ouvido. Lion sorriu e partiu sem dizer nada a ninguém. Infelizmente, o menino que passou a mensagem partiu. — Partiu. — Ross sentiu o coração pesar. — Está morto? — Não. Duas semanas depois da morte de Lion, o menino deixou a vila. Ross franziu o cenho. — Quem é esse menino misterioso? — Lucais era pajem de lady Megan e lady Siusan. O pai dele é alfaiate na vila, mas quando parei lá para fazer perguntas, o homem se fechou como uma ostra; Então. Havia alguma coisa. E, como lorde, Eammon era responsável... direta ou indiretamente. Ross sentiu vontade de sacar a espada e ir atrás de —

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Eammon. — Há alguma indicação de que Eammon é responsável pela morte de Lion ou pelo desaparecimento do menino? — Nenhuma. — Wat cuspiu. — Eammon é imprevisível como a luz do verão, mas ele é o senhor aqui. — E, por isso, quase um Deus. — Entretanto, as pessoas realmente cantam as qualidades de lady Megan — acrescentou o homem, olhando de soslaio para Ross. — de acordo com os rumores, estará levando um anjo de esposa. Ross desdenhou. Uma feiticeira, com certeza. Uma feiticeira bonita e misteriosa. — Não vou me casar com ela. — Declarou, ignorando a surpresa de Wat. — Acha que Eammon matou esse Lucais para silenciá-lo? — Se o menino estivesse morto, ali estaria a prova. — Não há nenhuma indicação disso, mas alguma coisa estranha está acontecendo em Curthill. Posso apostar. Não estou aqui tempo suficiente para especificar, mas, sinto que alguma coisa está... errada. Sabe? — Sim. — Ele também tivera essa sensação antes... no País de Gales. Sabia que alguma coisa estava errada, mas confiara nas informações de Rhiannon.—Acho que vamos dar um passeio na aldeia esta noite. Owain, providencie... — Ah, Ross, aí está você — chamou lorde Nigel, enquanto erguia seu corpanzil sobre os últimos degraus. — Estão esperando você para jantar. — Gordo e preguiçoso demais para lutar, vivia as custas do irmão na corte. — Sei que não morre de amores por essa união, mas, pelo menos, a menina é tão bonita quanto nos informaram. E você não tem escolha. Veremos. Tudo o que Ross tinha a fazer era encontrar Lucais e convencer o tio gorducho de que Lion fora morto, de modo que não teria que se casar. — Tenho que instalar meus homens — improvisou. A ideia de cear com Eammon tirava-lhe todo o apetite, apesar de estar comendo ração havia quatro dias. — Certamente, o capitão pode fazer isso por você. — Lorde Nigel olhou para o pátio cheio de lixo. — Não tenho vontade de me demorar aqui. Quero que estabeleçam o contrato depois da ceia e que se casem daqui a três dias. — Três dias! — resmungou Ross, percebendo que não teria muito tempo para investigar. — Vamos, vamos, rapaz, está se comportando como uma virgem. Virgem. Provavelmente, ela não era virgem. Qualquer mulher que chegava à idade de dezoito anos solteira tinha alguma coisa errada. Se 20


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descobrisse sua imperfeição, a repudiaria. — E o que diz minha noiva dessa correria? — Por que perguntaria a ela sua opinião? — racionalizou lorde Nigel. — Até onde sabemos, lorde Eammon está ansioso para encerrar o assunto. É só isso que conta. Aposto como ele está ansioso. — Não tenho estômago para sentar à mesma mesa com o homem — grunhiu Ross. — Ótimo, mas lady Mary preparou a mesa, e Eammon não vai descer de qualquer forma. Está indisposto. Essa tal de Félis deve ser muito laboriosa para manter seu interesse por dois anos — comentou lorde Nigel, voltando-se para descer. — Já que não vai se sentar à mesa, desça para assinar o contrato. O pároco já testemunhou a marca de Eammon. Três dias, ponderou Ross. Três dias. Não era muito tempo, mas teria que ser suficiente. Encontraria Lucais. E daria um jeito de se livrar desse maldito casamento. — Acha que ele não vai vir? — perguntou Megan, ansiosa. Sua mãe se estendeu sobre a cadeira vazia, reservada para Ross, e deu um tapinha confortador na mão de Megan. — Provavelmente está se lavando e se trocando das roupas de viagem. — Estavam só as duas à mesa ornamentada, à espera dos homens. — Ele recusou o banho preparado para ele. A voz de Megan revelava dor e ressentimento. Ficara uma hora no banquinho diante da lareira do melhor aposento de hóspedes, levantando-se ocasionalmente para esticar a perna e acrescentar um pouco de lenha no fogo, para que o ambiente estivesse aquecido quando o noivo chegasse. Ele não aparecera. Enquanto a água esfriava nos baldes de madeira que os servos haviam levado pelas escadas da torre, o nervosismo inicial quanto a banhar seu primeiro homem dera lugar ao tédio e, então, à irritação. Uma centena de tarefas a cumprir, e lá estava ela à mercê da vontade de um homem. Como sua mãe, que continuava à disposição do marido, embora Eammon a ignorasse — bem como a todo mundo — nos dois últimos anos. Finalmente, Megan mandara uma serva lá embaixo perguntar ao senhor quais eram seus desejos, só para saber que ele estava ocupado com o cavalo e não subiria para se banhar. Nenhuma desculpa por mantê-la esperando. — Rude, selvagem... — Quem, querida? — perguntou a mãe. 21


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Megan engoliu a resposta e improvisou: — Os sulistas se banham? — A maioria se banha de vez em quando — assegurou-lhe lady Mary. — Me conte mais uma vez como foi criar-se nas Terras Baixas. A mãe sorriu, gentil, devolvendo ao rosto a beleza que um dia tivera, antes que Eammon Sutherland a desprezasse, despedaçando seu coração. — A vida era diferente em Peebles. As pessoas eram mais gentis, e as terras também. As colinas verdes se estendiam gradualmente, não abruptamente,como aqui nas Terras Altas, mas não era perfeito. Os homens governavam sozinhos, como aqui — acrescentou, com um amargor que Megan lamentou. Megan se lembrava do tempo em que a vida em Curthill era doce, o senhor um homem amável com riso fácil, não o recluso cujas ordens contradiziam tudo em que um dia acreditara. Fora antes dos tempos ruins, antes do acidente que aleijara Megan e vitimara seu único irmão. Se pelo menos Ewan estivesse vivo, as coisas seriam diferentes. O pai não teria mudado. Lion poderia não estar morto, e Siusan não precisaria estar se escondendo nas Terras Altas esperando, temendo por sua vida. É sua culpa Ewan estar morto. Megan estremeceu. — Não se lamente, querida. Lembre-se de que Lion disse que o irmão era um homem inteligente e compassivo. Com olhar de gelo. Megan estremeceu novamente. — Ele foi em meu socorro diante do estábulo. — E se divertira com seus bonecos... a princípio. Tal homem não poderia ser ruim. De algum modo,ela ultrapassaria sua frieza. Tinha que alcançá-lo. Lady Mary suspirou. — Sei que não é sua característica, mas sinto que não tenha podido se tornar freira. Antes enclausurada do que escrava de um homem. — Estou muito satisfeita em me casar com lorde Ross — declarou Megan, forçando um sorriso, tomando a mão da mãe, que sacrificara tanto pelos filhos. Sentiria o mesmo instinto maior de protecção com os filhos? imaginou. — Vou ser uma boa esposa. Se ele me permitir — acrescentou, suave. — Ele não tem escolha senão se casar com você. — Prefiro que ele queira se casar comigo. — Vendo a mãe franzir o cenho, Megan se apressou: — Começou quando conhecemos Lion na reunião dos clãs e ele descreveu a família. Eu... eu comecei a me apaixonar por Ross nesse momento. E quando o vi... — Oh, Meggie. 22


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— Ele tem a aparência que eu achava que teria — mur murou Megan, perdida nas lembranças de seu primeiro e desastrado encontro. — É o cavaleiro mais forte e bonito do mundo. E tem os olhos mais azuis. A mãe choramingou. —Ele vai tomar o seu amor e pisoteá-lo. Vai despedaçar seu coração e esmagar suas esperanças. Megan piscou e olhou para o rosto aflito da mãe. — Sinto que papai tenha magoado você, mamãe. Ele era um bom homem antes da morte de Ewan. — Lamento por Ewan também, mas mesmo a morte de um filho não justifica as coisas que seu pai tem feito comigo. Alojando a amante em minha própria casa — declarou, amarga. — Ou a forma com que deu as costas aos membros do clã Sutherland. — Ele pode não estar ligado a eles como antes, mas esse negócio no comércio que conseguiu trouxe mais trabalho e mais renda para os membros,mais do que dava a pesca — ponderou Megan. — Sim, e essas rendas vão para os membros do clã? Ou para as reformas no castelo? Não, não vão. Megan acariciou a mão de lady Mary. A mãe não entendia o mundo além da cozinha e do jardim. Já ela tentava preencher o vazio deixado pela morte de Ewan e pelo declínio do pai visitando a vila, ouvindo os problemas dos aldeões e pescadores, oferecendo conselhos e soluções sempre que possível. — Papai explicou que as rendas devem ser reinvestidas em mais bens, no momento. — Archie explicou... Eammaon não podia sequer se afastar daquela mulher tempo bastante para explicar à nossa gente por que continuam tão pobres. E olhe o salão. — Ela fez um gesto que englobava o ambiente e os homens rudes que o ocupavam. — Gastei anos transformando Curthill num lugar fino e bonito como meu lar de infância, mas sem um senhor para manter a ordem, os homens abusam e se com portam como selvagens. Megan suspirou. Que dizer? — Lamento o dia em que Comym MacDonnel trouxe Félis para cá. — Não foi culpa de Comym. Pedi-lhe que trouxesse uma curandeira de Edimburgo para me ajudar depois do seu acidente. Ninguém poderia adivinhar que Félis se insinuaria na cama de Eammon. Durante as noites de vigília da mãe à sua cabeceira, Megan sentiu remorso. Não obstante, se fosse capaz de dirigir a palavra àquela mulher, pedir-lhe-ia algumas lições sobre sedução. Certamente, a ruiva era especialista nisso. — Megan, o que está planejando? — perguntou a mãe de repente. 23


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Na... nada, mamãe. — Conheço esse olhar, mocinha. Era assim que fazia quando estava preparando alguma traquinagem, quando criança. Megan suspirou. Depois de crescida, tornara-se hábil em esconder os pensamentos, mas a mãe às vezes ainda conseguia lê-los. — Estava pensando em como seduzir lorde Ross — revelou, honesta por uma vez. — Megan! Só pense no que aconteceu à pobre Siusan. Mas estava pensando na irmã, forçada a fugir de casa de medo e desgraça para proteger seu segredo. Para ajudar Siusan, precisaria de uma tropa de guerreiros e um cavaleiro para liderá-los. Alguém em quem pudesse confiar totalmente. — Não planejava ir tão longe — respondeu Megan. Só queria envolvê-lo de tal forma que casasse com ela por gosto e ajudasse sua família. — Os homens não são tão fáceis de controlar quando se trata disso — comentou a mãe, áspera. — Quando decidem, tomam o que querem e partem sem dizer nada. — Do jeito que as coisas vão, é mais provável que Ross me rejeite. A mãe pareceu aliviada, mas só porque não sabia o quanto Megan estava determinada a ser bem-sucedida nesse assunto. Parecia desesperada o bastante para tomar uma atitude drástica, embora não soubesse como proceder. Era questão de escolher a erva certa para curar um paciente, ou a história adequada para entreter um grupo. Ela se valeria de seu entusiasmo confiante de sempre, mas... Megan olhou para a saia do vestido vermelho. O corte era mais justo que o seu estilo usual, mas não tão provocante quanto os das prostitutas que frequentavam as tavernas na vila. Com sorte, seria sedutor o suficiente para chamar a atenção de Ross. Era mestra em esconder o que não podia mudar; entretanto, a ideia de desafiar a fria indiferença do prometido a fez estremecer, apesar do calor do salão. — Não tenha medo, benzinho — a mãe acalmou-a, sentindo seu tremor. — Com a ajuda de Deus, tudo vai dar certo. Megan assentiu, mas o frio no estômago não passou. Mordendo o lábio inferior, ergueu o olhar para o salão ruidoso. Parecia que todo o clã Sutherland estava ali, com sua melhor roupa. Haviam acendido o dobro de tochas. — Bem, lá está lorde Nigel, finalmente! — exclamou a mãe. Megan olhou para o homem grisalho que passava pelas mesas, com uma corrente de ouro cara balançando sobre a barriga redonda. — Ah, lady Mary, que bom vê-la novamente — saudou ele, 24


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enquanto tomava seu lugar, o grande nariz vermelho farejando o vinho. — E quanto a lorde Ross? — perguntou lady Mary. — Não vai vir. — O quê? — berrou Megan, chamando a atenção. Lorde Nigel repetiu o que acabara de dizer, mergulhando novamente nas guloseimas. — Onde ele está? — exigiu Megan. Desta vez, lorde Nigel baixou a taça de vinho e limpou a boca com as costas da mão. — Comendo com seus homens. Megan cerrou os punhos na saia que vestira com tanta esperança. — Que falta de consideração. Ele não sabe que estamos aqui esperando? — Acho que ele está cansado da viagem — apaziguou a mãe. — Não quer fazer a refeição com os Sutherland — disparou lorde Nigel. — Parece que ele também acha que o irmão foi assassinado. Megan mal conseguia respirar com a dor que sentia no peito. Só a teimosia a mantinha ali, ouvindo que o noivo não viria se juntar a eles. — Mas ele assinou o contrato. Se casam em três dias, como o rei determinou. — Lorde Nigel sorriu como se tudo estivesse resolvido. — Estou farejando rosbife? — Não, é a minha paciência que está se esgotando. — Deixando de lado o guardanapo, Megan se voltou para Chrissy- — Quando vir lorde Ross da próxima vez, pretendo dar-lhe uma aula de boas maneiras. Sabia que isso ia acontecer — resmungou Archie Sutherland, junto ao muro que separava a vila da praia. — Ross Carmichael não está nem há três horas em Curthill e O Falcão Negro chega. Ao se aproximar da primeira fileira de construções, um vulto saiu das sombras. — Milorde. — Archie deu um passo para trás. — Não o esperava aqui esta noite. — Cheguei antes do que pretendia, mas recebi notícia de que O Falcão chegou. — Sim... má sorte. — Concordo que não era a melhor hora, mas é um problema pequeno. — O senhor pousou a mão sobre o cinto de prata. — Diga aos homens que descarreguem O Falcão esta noite. — Douglas fez uma boa colheita... a arca está cheia. Vai levar pelo —

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menos duas noites para descarregar tudo — advertiu Archie. — Use todos os nossos homens, mas descarregue o navio. Quero tudo escondido pela manhã — grunhiu o senhor. — E quanto ao carregamento que conseguimos vender? — Mande Douglas chegar com O Falcão amanhã à noite... bem depois da meia-noite. Vamos carregar o que der, e ele volta quantas vezes for preciso para acabarmos a tarefa. — Deu meia-volta. Archie se endireitou nervosamente. — Mas... — O que é agora? — Voltando-se, o senhor mostrou o descontentamento. — E se Ross ficar curioso? — resmungou Archie. — Vier xeretar na aldeia ou no depósito? — Faça os homens de Douglas o levarem de volta ao castelo. Tem que receber uma lição, mas não precisa matá-lo. — Não ainda. Não enquanto não planejasse um meio de fazê-lo sem chamar a atenção. — Mas e se lorde Nigel ficar sabendo que houve confusão? — Não vai ser surpresa se Ross for atacado na vila, o pai dele provocou um incêndio não faz nem três semanas. Archie rejuvenesceu. . — Sim. Tem razão. E o jovem lorde é bem o tipo de aparecer aqui, arranjando briga conosco, os bárbaros das Terras Altas. — Sim. Ele precisa de uma lição. Só providencie para que nenhum de nossos homens seja reconhecido ou questionado. Entendeu? — Perfeitamente. Tudo será feito como deseja, milorde. O sorriso do senhor diminuiu ao se lembrar de que parte de seu plano falhara. Siusan escapara. Acabaria encontrando-a, mas, após dez meses, sua paciência já se esgotava. Megan sabia onde se escondia a irmã, disso estava certo. Oh, ela negara, hábil em disfarçar a verdade, tanto quanto em contar uma história. Felizmente, também era sentimental. Não resistiria a uma última visita à irmã antes de deixar as Terras Altas rumo ao castelo Carmichael. Quando ela tentasse entrar em contato com Siusan, ele estaria lá.

CAPITULO 3

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- Deviam rebatizar esta maldita aldeia maldita como Purgatório! — resmungou Ross, enquanto acompanhava Wee Wat pelas passagens estreitas que chamavam de ruas. Faltavam poucos minutos para a meia-noite, e uma tempestade se aproximava rapidamente. O ar pressionava como um cobertor quente e úmido, tornando a respiração difícil; o cheiro de peixe tornava cada inspiração uma experiência asquerosa. Ross detestava peixe. Detestava o cheiro e detestava comer peixe. A Quaresma era mesmo uma época de sofrimento. Tapando as narinas, continuou. Não havia tochas iluminando o caminho ao longo das moradias à base do rochedo que levava ao castelo de Curthill. Apesar disso, não eram os únicos a sair naquela noite escura e ameaçadora. Sons distantes, vozes abafadas chegavam até eles, ecoando entre as casas e lojas. — O que acha que está acontecendo? — sussurrou Owain. — Contrabando... ou pior. — Ross dera uma olhada rápida no salão de Curthill e ficara atónito ao vê-lo totalmente mobiliado, as paredes cobertas de tapeçarias. Tinha algumas teorias sobre como o lorde do castelo conseguira todas aquelas riquezas. Mas isso ficaria para mais tarde. Esta noite estava a procura de alguém... Lucais. — Chegamos — sussurrou Wee Wat. Ross parou e deu uma olhada no corredor estreito que levava à casa de George, o alfaiate, pai de Lucais. Estava escuro demais para se distinguir detalhes, mas, a julgar pela lua fraca à janela, ainda não estavam dormindo. Aliás, era estranho estarem acordados até tão tarde. — Owain, espere aqui com seus homens enquanto nós... — Andrew pode esperar. Vou para os fundos, caso nossa presa resolva fugir — completou Owain, com a tranquilidade da longa experiência. Ross assentiu. A sugestão se encaixava em seus próprios planos. — De acordo, seus galeses enxergam como gatos, embora sejam independentes demais — comentou, sem rancor. — Uma característica que nos convém — murmurou Owain. Ross ainda sorria quando deu ordens aos homens. De todos os que o serviam, Owain lhe era o mais chegado. Quando o contratara pela primeira vez para guiá-lo pelas florestas galesas, Lionel o chamara de louco por confiar no inimigo. Mas Owain também estava em guerra com Rhys ap Dolgollen e ansioso por ajudar Ross... por um preço. A espada de Owain por dinheiro para recuperar as terras de seus ancestrais. A barganha se transformara em amizade. 27


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Ross sentiria muito sua falta quando ele tivesse que partir. — Está trancada — sussurrou Andrew, um bigode grisalho sobre os lábios finos. Ross assentiu. — Devia entrar arrebentando, mas não há necessidade. Davey — chamou a um jovem cavaleiro que entrara recentemente à sua guarda, — bata na porta. Diga que tem uma mensagem do castelo. Quando abrirem, entramos todos. O plano foi perfeito, mas, quando entraram na cabana, só encontraram uma velha sentada junto ao fogão e um homem igualmente velho à porta. — Davey... procure no local — comandou Ross, antes de se virar e ver Andrew pressionando o homem contra a parede. — Estamos procurando o homem que matou Lion Carmichael — grunhiu Andrew, antes que Ross interviesse. O homem arregalou tanto os olhos que eles quase saltaram das órbitas. Temeroso frente à lâmina de Andrew, balançava a cabeça vigorosamente, os cabelos brancos dançando. — Não fui eu. — Solte-o — ordenou Ross, olhando de tal forma que o cavaleiro baixou a faca e recuou um passo. — Sei que seu filho, Lucais, estava lá no dia em que meu irmão foi morto — informou Ross ao homem trémulo. — Sim. Mas... mas Lucais não o matou, milorde. — Acredito em você. — Ross diminuiu a distância entre eles, mantendo a expressão calma. — Gostaria de fazer algumas perguntas a Lucais. Só isso. Sabe onde posso encontrá-lo? — Não — insistiu o velho, com voz insegura. Obviamente, o casal esperava o pior, pois a mulher estava rezando. Ross se sentia enjoado pelo medo deles. Detestava aquilo; entretanto, não podia permitir que vissem sua fraqueza. — Vou levá-lo para fora e dar-lhe uma lição — sugeriu Andrew, agarrando o homem pelo braço e começando a arrastá-lo para fora. — Pare... espere — implorou a mulher. Ela se jogou aos pés de Ross, mas foi ele que se curvou. — Não sabemos onde Lucais está. Ele saiu de Curthill faz meses e não voltou. Não sabemos aonde ele foi ou por quê. A última era mentira. Ross soube pelo olhar que a mulher trocou com o marido. Mas suspeitava de que o resto fosse verdade. — Não vou fazer mal ao garoto — assegurou Ross. — Mas gostaria de falar com ele. Me diga onde ele está. Juro que vou manter isso 28


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em segredo. Não contarei nem a lorde Eammon. — Lorde Eammon? Por que ele se importaria? Ele não aparece na vila, nem se interessa por nós há dois anos. Só manda os homens cobrarem... — Janet! — bradou o homem. — Não dê importância ao que ela diz — acrescentou, enquanto a esposa baixava a cabeça. Que diabo era isso tudo? Ross passou a mão pelos cabelos, irritado. Aquele lugar ia deixá-lo louco, pensou. Eammon podia ter usado um intermediário para envolver Lucais em seu esquema, mantendo as mãos limpas, mas não se podia provar nada sem Lucais. — Lucais partiu sozinho? — perguntou Ross. — Sim — choramingaram os velhos, em coro. Ross sabia que mentiam. Praguejando baixinho, observou-os. — Me digam a verdade e não os machucarei... — Deixou a ameaça se sedimentar. — Não podemos contar mais do que sabemos — clamou Janet. — Ele nos acordou certa noite, disse que tinha que partir, e... e não o vimos mais deste então. — Enterrando o rosto nas mãos, começou a chorar baixinho. Ross suspirou e deu as costas à cena lamentável, cansado da tortura. Provavelmente não conseguiria mais nada do casal. — Me deixe interrogá-lo — pediu Andrew. Quando Ross balançou a cabeça, o cavaleiro praguejou. — Não precisa presenciar se não tem estômago para o trabalho de homem. — E isso vem do homem que me ensinou a não julgar o homem pelo tamanho de sua espada, mas pela consciência com que a usa — desdenhou Ross. Quando o velho cavaleiro ruborizou, acrescentou em francês: — Podem saber por que Lucais partiu, mas acho que não sabem para onde. Vamos deixar alguém vigiando a casa. — Sim — submeteu-se Andrew, relutante. Feito isso, Ross se virou, ainda confuso por saber que Eammon mandava homens recolher impostos. O que poderiam levar de um alfaiate? Roupas? Moedas? Franzindo o cenho, estudou o ambiente que só vira de relance quando entrou. Agora, via com novos olhos, notando o tecido luxuoso sobre a mesa, agulhas e retalhos. Obviamente, eram os apetrechos de um alfaiate; contudo, algo o intrigava. Não sabia dizer exatamente o que... Era quase como um instinto. O mesmo sentimento que Wee Wat mencionara. O sentimento se intensificou ao ver uma arca sobre a mesa. Havia 29


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umidade sobre o tampo de carvalho... como se tivesse acabado de chegar do mar. Ah. Encaixava-se na ideia de que ele era... — Ninguém saiu daqui — informou Owain, em galês, entrando pela porta dos fundos. — E não tem ninguém à espreita. Mas alguém veio aqui faz pouco tempo, havia marcas de botas. Ross assentiu. — Deixe um homem observando quem entra e sai — ordenou, na mesma língua, embora pudesse ter dado a ordem em francês, para não ser entendido por aquelas pessoas humildes. Uma vez fora da casa, Ross ordenou a Andrew e metade dos homens que fizessem uma busca silenciosa pela vila, enquanto o resto acompanhava Wee Wat até a praia. Lá, tochas permaneciam acesas e um guarda vigiava enquanto dois homens armados se colocavam junto a barcos que haviam sido recolhidos para a noite. Uma vigilância reforçada para uns poucos barcos de pesca, estranhou Ross, mas o que o intrigava eram os atracadouros vagos, indicando que várias embarcações haviam saído. Com aquele tempo? Ergueu o olhar para o mar, agitado e revolto, mesmo na baía protegida. Um segundo navio estava ancorado junto àquele que o trouxera de Edimburgo; na superfície, podia distinguir vários barcos menores. O que estava acontecendo? Sentiu os cabelos se arrepiarem, mas não era a brisa que provocava essa reação. Traição. Perigo. Chegavam com o vento, tão decididos quanto a chuva que cairia a qualquer momento, fazendo o ar estalar intensamente, assim como os relâmpagos que rasgavam os céus. Um dos guardas avançou para se confrontar com Ross. — Fique longe. O lorde não permite ninguém por aqui à noite. — Certamente ele não inclui o futuro genro. — Você é um Carmichael? — O nome saiu como uma praga, e os outros homens logo se colocaram junto ao primeiro, os semblantes sérios sob as tochas. Que droga. Como pudera esquecer-se do recente ataque do pai a Curthill? Ross notou um corte acima do olho de um dos homens. Oito Carmichael se postaram atrás dele, sedentos por batalha. Por um momento, lamentou ter deixado trinta de seus homens no castelo. —Sim. Sou Ross Carmichael... vim para me casar com Megan Sutherland — anunciou, com voz segura e calma — O rei quer paz entre nossos clãs, e eu também. O oponente grunhiu e olhou para os companheiros, enquanto Ross prosseguia: — Houve perdas de ambos os lados. — Lion!, gritou sua alma, mas 30


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agora não era hora de culpa ou arrependimento. — Mas vamos esquecer tudo e continuar a vida. — Como se fosse possível, agora que suspeitava de que Lion fora assassinado. — Não prefeririam dormir com uma garota ao invés das espadas? Isso trouxe comentários de assentimento, as mãos sobre as bainhas das espadas relaxaram. — Não começamos a contenda — grunhiu o capitão. Assim diz você! Um brado de pura raiva parou na garganta de Ross. Estremecendo, controlou-se. — Então, vamos terminar aqui. O capitão assentiu, com relutância. — Excelente! — exclamou Ross, como se estivesse muito satisfeito com o acordo. — Bem — acrescentou, olhando em redor com curiosidade disfarçada. — Esse passeio limpou a minha mente. Vou para a cama. — Espreguiçando-se e bocejando ruidosamente, deu as costas aos soldados, consciente de que o movimento às suas costas era de Owain. Pedras se soltaram quando seus homens se dispersaram. Eles observariam os Sutherland atentamente enquanto ele percorria a praia. — É um covil de ladrões esse em que aportamos — comentou Owain, quando subiam os degraus que saíam das águas. — Humm — murmurou Ross. — Em qualquer outro lugar, concordaria. Mas o que poderiam estar roubando nas Terras Altas? Até onde sei, não criam ovelhas suficientes para ameaçar o comércio de lã. Não consigo pensar em nada que produzam em abundância... — Exceto mentirosos selvagens — colocou Owain. — Acho que são saqueadores — acrescentou Davey. — Sim. — Passando o dedo sobre o lábio inferior, Ross olhou pensativo para o mar. O céu foi cortado por outro relâmpago, iluminando o trio de barcos que vinham do navio em direção à praia. — Se for isso, é provável que Lion tivesse descoberto e que isso o tenha matado. — Suspirou profundamente. Estava cansado. Não dormira decentemente desde que o haviam mandado se casar com uma Sutherland. Nem dormiria bem enquanto não descobrisse o assassino de Lion e não se livrasse do noivado indesejado. Sentira-se mal ao assinar o contrato que o unia àquela... àquela Sutherland sedutora. — Devo deixar um homem vigiando aqui também? — perguntou Owain. Ross afastou o cansaço e a lembrança indesejável dos olhos de feiticeira de Megan. — Dois. Um para vigiar. Um para seguir e ver para onde levam a 31


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mercadoria que estão descarregando. — Não gosto de reduzir o nosso número. — Será por pouco tempo — argumentou Ross. — Nós vamos nos juntar a Andrew e aos outros à base do rochedo do outro lado da vila. — Olhou para a rua escura, ao longo da qual deveriam andar em fila, e se sentiu apreensivo de repente. —- Guardem as espadas, mas mantenhamnas à mão — sussurrou, tomando a frente. A tempestade se aproximava. O vento percorria as ruas estreitas enquanto eles venciam o caminho, açoitando-lhes os rostos, abafando o som de seus passos e também — pensou Ross, sombrio — os de seus possíveis perseguidores. — Fiquem atentos. — Deu uma olhada nos seis que o seguiam. Um relâmpago seguido de perto pelo trovão rasgou o céu. As rajadas de chuva castigavam as casas, todas assombras e formas pareciam pular para cima deles. Logo, seus olhos doíam de procurar assaltantes. — Mantenham-se juntos — murmurou Owain. A boca seca, os nervos latejando, Ross tocou na espada. De repente, ouviu o som de botas. — Cuidado! — gritou Owain. — Emboscada! Ross se voltou na direção do grito. Com o canto dos olhos, viu o brilho de uma lâmina quando um homem se lançou contra ele, saindo de uma porta escura. Só o treino e o reflexo o salvaram. Dando um passo para o lado, desembainhou e espada e rapidamente desviou o golpe. Contra-atacou, dando três golpes, sorrindo sombriamente quando o oponente caiu. O triunfo foi breve. Dois assaltantes o alcançaram em seguida, um ameaçando com uma espada, o outro com uma adaga. Ross se defendeu, mantendo-os a distância com a espada... por algum tempo. Usou os segundos para chamar Owain. — Quantos são? — Muitos. — A resposta encerrou-se com um grunhido de dor. — Menos um — informou Owain. — Mas ainda há dois ou mais. Nos instantes seguintes, Ross se manteve ocupado com os dois que o atacavam. Os inimigos eram menos habilidosos, mas a superioridade numérica acabaria suplantando-o e a seus homens. Além disso, lutavam em terreno conhecido, e no escuro. Sua única esperança era que Andrew ouvisse os sons e os socorresse antes que fosse tarde demais. Um trovão forte saudou Megan quando ela saía da cabana onde acabara de realizar um parto. 32


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— Vá na frente, Chrissy, se esperar por mim, vai se molhar. — Não vou derreter — respondeu a prima. Megan suspirou e arqueou as costas para aliviar a dor de ficar horas ajoelhada junto ao leito da pobre mulher. — Tivemos sorte em salvar o bebê e a mãe. — Não foi sorte. É tão habilidosa quanto sua mãe quando se trata de curar. — Chrissy tomou-lhe o braço para apressá-la. — Venha, agora, não quero ficar ensopada na volta. — Foi tolice minha me recusar a cavalgar. O acidente foi há tanto tempo, e eu cavalgava junto ao penhasco, mas... — Deixe disso. Tem razões de sobra para ter medo de cavalos — declarou a prima. — Odeio ter medo... de qualquer coisa — comentou Megan, enquanto dobrava a esquina de uma rua escura, num caminho tão familiar quanto os corredores do castelo. — O medo é tão... limitante. Se não tivesse medo de cavalos, poderia fazer tantas coisas. — Como cavalgar com os cabelos esvoaçando ao vento? — Humm. — Megan ergueu a cabeça, sorrindo ante as lembranças. Siusan, Ewan e ela cavalgando, apostando corridas. O sorriso cessou quando se lembrou da última cavalgada. O terrível relinchar de seu cavalo que, de repente, parou e disparou. O grito apavorado de Ewan, que foi atrás dela. O penhasco se aproximando. Então, amazona e montaria estavam voando, para o vazio. E os gritos, os dela e os de Ewan juntando-se ao relinchar dos cavalos. E o sangue... — Meg! Estremecendo, Megan afastou as imagens, e se viu numa rua lamacenta, os braços ao redor da cintura, lágrimas correndo por seu rosto. — Não tive intenção de fazê-la se lembrar — sussurrou Chrissy, limpando o rosto de Megan com a ponta da capa. Sem dizer nada, Megan assentiu. — Um dia, vou conquistar esse pesadelo. Vou montar num cavalo e cavalgar novamente. Sabe onde irei primeiro? — perguntou, ainda um pouco trémula. — Vou ver Siusan. — Agora, o bebê que ela e Lion tinham concebido devia estar com três meses. Tinha um sobrinho ou sobrinha que nunca vira. Como doía, senhor, como doía. Siusan deveria estar com Lion, não nas montanhas lamentando sua morte, assustada e sozinha. — Pensei que não soubesse onde Siusan estava. Megan fez uma careta. Que droga. E se achava boa nesse negócio de mentira. 33


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— Não sei. Mas é pouco provável que a encontre, sentada no castelo Curthill, não é? — Suponho que sim — concordou Chrissy, olhando-a incrédula. Oh, detestava mentir para Chrissy, chegadas como eram, mas não se atrevia a revelar o segredo de Siusan. A irmã insistira, fizera-a jurar pela alma da avó que não contaria por que ela deixara Curthill, nem para onde fora. — Mudando de assunto, por que acha que lorde Ross não quis jantar conosco? Megan se encolheu, não querendo discutir esse assunto, tampouco. — Parece que ele não está muito ansioso pelo casamento. — Porque ele acha que seu pai matou Lion? —Papai não faria tal coisa. Chrissy sorriu, tristonha. —Tem que admitir que, desde que os tempos ruins começaram, o lorde não é mais o mesmo. Ora, faz semanas que ele não aparece no salão e, quando vem, não olha para mais ninguém a não ser Félis. Era verdade. — Mas ele não tinha motivo para querer a morte de Lion. — Bem, mas Lion pintou e bordou quando chegou e soube que o lorde mudara de ideia sobre permitir que Siusan se casasse. — Mas Siusan tinha certeza de que papai acabaria permitindo o casamento se eles esperassem e não o pressionassem. — Acho que a morte de Ewan abalou seu cérebro. E a única explicação para seus atos. Sei que adora seu pai desde pequena, mas é pura teimosia não admitir que ele mudou. Megan suspirou. Pobre papai. Era a única que acreditava nele? — Eu sei, mas... — Mas assassinato? A ideia do pai louro e sorridente matando alguém a atormentava. Com os ombros encolhidos, estreitando o olhar nas ruas escuras, seguia ao lado de Chrissy. Megan estava acostumada a andar por ali à noite, pois era quando um enfermo resolvia ter uma crise ou quando um bebê resolvia nascer, mas havia alguma coisa naquela noite que a fazia se apressar, a pele se arrepiando de medo. A qualquer momento, esperava... Um trovão soou logo acima de suas cabeças, fazendo as casa tremerem. Em seguida, um grito na noite. Megan parou, voltando-se para o eco. — O que foi isso? — Só Deus sabe — Chrissy pousou as mãos sobre os ombros de Megan, tentando reconfortá-la e apressá-la ao mesmo tempo. 34


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— Ouvi comentários de que O Falcão chegaria esta noite. Megan estremeceu, bem como a prima. Mas o grito não era de marujos bêbados. — Acho que ouvi espadas. — Mais um motivo para sairmos daqui. — Não. — Megan fincou pé, voltando-se para o som das lâminas se entrechocando. — Podemos pelo menos ver o que está acontecendo. — Megan, não há nada que possamos fazer para ajudá-los. A mente sabia disso, mas o coração se rebelava. — Tenho que ir ver. Chrissy resmungou uma palavra que Megan não imaginava que ela soubesse, mas a acompanhou em direção do local da briga. O que viram quando dobraram a esquina as fez estacar. Um relâmpago iluminou a cena de homens lutando em combate mortal com suas espadas. Megan só tinha olhos para um. O cavaleiro alto com capa preta e vermelha. — É Ross Carmichael — sussurrou, as mãos junto ao coração palpitante. — Oh, Chrissy... — inconscientemente, aproximou-se. — Meggie! Não pode ir até lá. Megan contemplou a luta e então encarou a prima. — Temos que fazer alguma coisa. — Os olhos brilhando, o queixo erguido, as tranças ao sabor dos ventos, ela parecia um retrato de seus ancestrais vikings. Só Deus sabia de onde vinham tanta coragem e otimismo eterno, pensou a prima. — Meg, o que podemos fazer? — Vá até o castelo e traga homens... os homens de lorde Ross. Provavelmente ele não confiaria em nós. — Olhou novamente para o homem que mantinha dois adversários sob controle e sentiu uma forte necessidade de ajudá-lo, proteger seu homem... mesmo que ele se recusasse a reconhecê-la como dele. — Não vou deixá-la aqui — gritou Chrissy. — Não vou ficar aqui... exatamente. — Megan observou as casas que formavam o cenário para esse drama sangrento. — Vou de mansinho até o outro lado e esperarei na loja de Lang Gordy. — Mas eles estão lutando na porta dos fundos dele. — Vou pela frente. — Ela forçou um sorriso. — Desse jeito, se os homens se ferirem, estarei bem perto para ajudar. — Não vai fazer nada disso. Vai vir comigo... Megan balançou a cabeça. 35


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— Eu só a retardaria. Apresse-se — ordenou, enxotando a prima. — Eles parecem estar em menor número, e não importa que Ross tenha sido rude comigo esta tarde, não vou ficar viúva antes mesmo de casar.

CAPITULO 4 Ross grunhiu quando o oponente passou a lâmina por sob sua guarda e através da malha de ferro, atingindo-lhe o ombro esquerdo. Não sentiu a dor. Estava ocupado demais tentando eliminar o último homem. O calor da batalha separara-o dos outros, e estava ansioso para se reunir aos companheiros que enfrentavam a massa de atacantes. O primeiro homem que Ross subjugara se erguera e fugira, mas ele ainda não conseguira despachar o outro oponente. Seu braço doía e seus pulmões queimavam devido ao esforço, mas se empenhou ainda mais. Investindo contra o homem, deslizou a espada sobre a lâmina do outro. A batida de aço contra aço cortou o ar, o oponente bradou, e Ross pensou ter ouvido um trovão. Quando se voltou para procurar Owain, viu uma carroça impedindo a passagem. — Ross! — gritou Owain. — Eles o isolaram. — Estou vendo! — Ross correu, arma na mão, pronto para destruir a carroça. Houve um explosão de chamas pouco antes de ele alcançá-la. A força do impacto o atirou no chão. Embora confuso, conseguiu se levantar. Ouvia os brados de Owain, tentou ultrapassar as chamas, mas o calor e a fumaça impediram-no. Protegendo-se com o braço, olhou para a cena infernal. Por entre as chamas, viu que Owain o procurava. — Não! — gritou Ross. — Fique aí. Vou dar a volta... derrubo uma porta se for preciso! A esquerda, alguém caiu. Esperando que fosse a salvação, virou-se, viu os movimentos espasmódicos, o brilho da lâmina banhada de sangue. Reforços! Em poucos momentos, seria o seu sangue naquela lâmina. Ross tomou o único caminho disponível. Em meio à fumaça, rastejou até chegar a uma viela que dava num beco sem saída com uma porta bem ao fundo. Quando trombou com a porta de madeira, esta cedeu um pouco. Sem precisar de mais convite, empurrou-a e foi entrando. Com a garganta seca, 36


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sem ver direito devido à fumaça, ajoelhou-se, procurando a tranca. Tinha que trancar. Tinha que impedir a passagem pela porta. — Deixe que eu faço isso — sussurrou alguém. Ross se voltou para a voz quando a porta se fechou barrando a iluminação alaranjada das chamas do lado de fora. O som da barra se posicionando pareceu a morte. Teria escapado de uma armadilha para cair em outra? No chão, pronto para pular, Ross posicionou a espada, defensivo. Silenciosamente, tentou avaliar o local, mas não conseguia ver nada, não ouvia nada. O local cheirava a madeira e óleo... alecrim e limões. Alecrim e limões? Ross franziu o cenho. Onde é que cheirara... — Milorde? Ross procurou a voz, agarrou um punhado de tecido e puxou com força. Um som abafado do oponente caindo sobre seu tórax se confundiu com seu lamento de dor. Apesar do ombro ferido, procurou o pescoço vulnerável do desconhecido e o agarrou. — Quem é você? — inquiriu. — Me... Megan Su... Sutherland. Chocado, Ross relaxou a pegada... por um segundo. Então, temendo que ela pudesse denunciá-lo, apertou novamente. — Que diabo está fazendo aqui? — So... socorrendo-o — respondeu ela, trêmula, mas atrevida. — Está começando a se repetir, milorde. Devíamos estar nos afastando da porta — acrescentou, com uma sagacidade que em outra circunstância ele teria apreciado. Estava distraído com seu rosto quando alguma coisa bateu contra a porta do lado de fora. —Ele deve ter entrado aqui! — gritou uma voz rude. — Há outra saída? — perguntou ele. — Sim — respondeu sua pretensa salvadora. — Este é o depósito de Lang Gordy. A loja fica na frente. Soltou-se dele, surpreendendo-o mais uma vez quando pegou em sua mão e o puxou para cima. — Vou tomar a frente — grunhiu ele, como de hábito, e tentou deixá-la para trás. — Pode ser perigoso. Ela o empurrou com o cotovelo. — Não seja tolo, não conhece o caminho como eu. Embora valorizasse a lógica, Ross odiava a dela. Seguiu-a reclamando, a espada em punho, os músculos tensos. Preocupou-se por quatro passos 37


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quando ela chegou a outra porta e a destrancou. Era uma carpintaria. — Está bem familiarizada com o local — resmungou ele, largando sua mão. — Lang Gordy sofre de gota e eu venho aqui sempre para cuidar de seu pé. — Onde ele está? — Dormindo, roncando tanto que poderia acordar os mortos. Ele bebe um pouco. — Ela fechou a porta, posicionando uma viga para trancá-la. — Isso deve detê-los. — Limpou as mãos. Ele tentou não apreciar a bravura dela, certo de que havia algum propósito malévolo. — Está muito segura de si, senhorita — resmungou, desconfiado. — Ajudaria se eu gritasse e desmaiasse? — Não. — Apesar de tudo, Ross riu de leve. — Obrigado por sua ajuda — concedeu. — Embora fira o seu orgulho ser salvo por uma mulher. — Que droga, tinha que ser parecida com a mãe. Ross se controlou muito para ignorar o comentário. — Não disse isso. Ela revirou os olhos. — Não precisava. — Já disse que estou agradecido — disparou ele. —E gracioso também. — Seu sorriso provocante tirou-lhe o ar dos pulmões. — Não se preocupe. Agora, o que temos a fazer é esperar... — Esperar, que droga. — Ross foi indo à porta da frente. — Meus homens estão encurralados naquela viela. — Mas, milorde. Não pode sair para lá. — De algum modo, ela conseguiu se colocar entre ele e a porta. — Fique de lado — grunhiu ele, a desconfiança ressurgindo. Ela balançou a cabeça e pousou a mão trémula em seu tórax, os olhos arregalados, suplicando: — É perigoso demais. Há homens armados por todo lado e... — Qual é o seu jogo? — desdenhou Ross. — Jogo nenhum. Se esperar pela volta de Chrissy... —Ah, quer me manter aqui enquanto ela traz mais Sutherland. Megan piscou, abatida por sua veemência. 38


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—Não. Chrissy foi até o castelo para chamar os seus homens. —Não acredito em você. — E começou a colocá-la de lado. Megan retirou a mão. — Milorde. Estamos tentando salvá-lo — irritou-se. Homens... mesmo esse de quem ela esperava coisas melhores... eram ingénuos como ovelhas. — Por que iria contra seu pai me salvando? — Meu pai? — exclamou ela. — Certamente, não acredita que meu pai esteja por trás disso? — Viu pela expressão dele que era exatamente isso. Megan riu, o que fez Ross franzir ainda mais o cenho. — Ora! Meu pai não é tão bobo. Por que atacaria o homem que vem nos trazer a paz... — Ele matou meu irmão — vociferou Ross, fúria e angústia na voz. — Não. Juro que meu pai não teve nada a ver com... — Mentiras. Lion descobriu o que seu pai estava tra mando, e por isso ele negou permissão para o casamento e por isso ele matou meu irmão. — Tramando? Não sei do que está falando. — Não sei ao certo o que se passa em Curthill, mas tantos móveis luxuosos... vindo para essa cabana perdida nas Terras Altas... Megan piscou. — Vieram para cá através do comércio. — Comércio? Que tipo de comércio? —Meu pai compra mercadorias danificadas, a nossa gente conserta e então as revendemos — explicou ela, orgulhosa. Ele desdenhou. — Mentiras. Mas não esperava outra coisa de uma Sutherland. — Mas é a verdade — insistiu ela. — Bah. Por que fico aqui enquanto meus homens estão em perigo? — Ele agarrou-lhe o braço para tirá-la da porta. Ela agarrou-lhe o ombro para impedi-lo. Ele gemeu quando seus dedos tocaram o ferimento. Ela olhou para o sangue. — Oh, milorde. Está ferido. Sente-se. Me deixe ver. Ross removeu sua mão. — Não há tempo para isso. Não aceitaria a sua ajuda nem que estivesse morrendo... — Morrendo! Não, não pode estar. — Ela pousou as mãos sobre seu tórax com força surpreendente, fazendo-o recuar dois passos e colidir com uma cadeira, na qual caiu sentado abruptamente. 39


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— Onde mais está ferido? - exigiu ela, passando as mãos delicadas por seu tórax e pescoço. — Me deixe — reclamou ele, embaraçado com a facilidade com que ela o manipulava. Furioso, tentou se levantar, mas ela estava de pé bem entre suas coxas, e ele não poderia se mexer sem derrubá-la, montando em cima dela. Uma ideia tentadora. — Pare de me tocar. — Como posso saber onde está machucado? — racionalizou ela, num tom normalmente usado com crianças. — Estou vendo que foi só o ombro. Mas nós vamos cuidar disso. — Sorriu e deu um tapinha em sua mão. Um tapinha. — Chega, mulher! — gritou ele. Isso chamou-lhe a atenção. Ela o fitou, arregalando os olhos magníficos. As lágrimas viriam em seguida. Ele se preparou para resistir. O lábio inferior estremeceu, mas ela se controlou, cerrando os dentes muito alvos. Os esforços para se recompor tocaram-no mais do que se ela simples mente tivesse começado a chorar. Fazia-o se sentir um monstro por ter gritado com ela. Afinal, ela fora em seu socorro na viela. — Não queria gritar com você, mas... — Ha! Os homens vivem berrando, mas esperava mais de você, pois Lion me contou que você nunca se enraivecia como os outros homens. Mesmo assim — ela foi para cima dele —, não vai adiantar. Sou imune a gritaria e muito determinada. Vou cuidar do seu ferimento. Apesar das palavras valentes, aproximou-se tímida, os olhos castanhos, muito escuros, misteriosos, cônscios da pouca distância que os separava. Ele sentia sua respiração. Alecrim e limões. Doce. Sedutora. Ross respirou profundamente, sentindo a maciez de sua pele, a textura dos cabelos, a cor da língua que despontou para umedecer os lábios. Como seria tocá-la... sentir seu gosto? O ar ficou pesado, mas não era a tempestade que se aproximava, era desejo. Uma necessidade de transformar seu sangue em fogo, seu corpo em pedra. Todos os ruídos desapareceram. Só havia ele. E ela. E um desejo forte, poderoso. Ele a procurou. A pele era sedosa contra sua mão. Mais suave do que ele imaginava. Ela baixou os cílios e entreabriu os lábio ao mesmo tempo que ele ia a seu encontro para experimentar o que ela oferecia. — Megan, Megan, eu... O barulho de madeira cedendo assustou a ambos. A porta dos fundos veio abaixo. Ross hesitou apenas por um instante. — Temos que sair daqui. — Com agilidade, agarrou Megan e 40


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foram para a porta da frente. Com a espada na mão direita, a mão esquerda ao redor da cintura dela, parou só o suficiente para ver que a rua estava deserta. Ela hesitou quando ele deveria ter virado para a esquerda. — Há mais cobertura por aqui — informou ela. Não tinham andado muito quando ele notou que ela mancava. — Machucou sua perna? — Não é nada. Posso acompanhá-lo. Fez mais que isso, mostrou o caminho. Depois de passarem por várias ruelas, Ross ordenou que parassem. Ele voltou a cabeça para ouvir melhor. Passos, vozes. Muitos homens correndo. Procurando. —Podem ser meus homens. Megan balançou a cabeça. —Estão vindo do lado errado. —Certo — concordou ele, e continuou andando. — Devemos dar a volta e encontrar Chrissy, foi onde combinamos. — Quando Ross hesitou, querendo saber se ela dizia a verdade, ela comentou: — Não tema, milorde. Estou decidida a me casar e vou sair daqui com você inteiro. — É sempre assim tão atrevida? — reclamou ele. — Sempre que posso. — Quando Megan recomeçou a andar, tropeçou e teria caído se Ross não a segurasse pela cintura. — Sua perna piorou. Você aponta o caminho e eu faço o trabalho. — Ele a agarrou com o braço esquerdo, mantendo-a bem junto a seu corpo. Como ele era forte, pensou Megan. Seu pés mal tocavam o solo, andando com energia, parando só para receber suas instruções sussurradas. Ele os manteria a salvo. Em seus braços, não sentia medo, embora estivesse ouvindo os gritos de homens que os caçavam como coelhos. — Você é uma garota e tanto. — Seu sorriso alvo se destacava nas feições sombreadas. Megan sentiu o coração pulsando, e sob a mão podia sentir a reação dele também. — Você também não é tão ruim, milorde — respondeu ela, no lugar do eu te amo que cantarolava em suas veias. De repente, ele deixou de sorrir. Ela esperava que ele a soltasse. Ao invés disso, ele traçou a linha de sua espinha por sobre o vestido de lã. A trilha deixada por seus dedos era semelhante à energia dos relâmpagos que rasgavam os céus sobre suas cabeças. Sob a iluminação brilhante, ela ergueu o 41


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rosto, estudou seu semblante, os músculos tensos, os olhos azuis muito escuros, misteriosos e espantados como a noite. — Meg — sussurrou ele. E mais nada. A palavra resumia todo o desejo. — Sim. — A voz dela saiu como um suspiro. Ela o queria, queria sentir seu toque, seu beijo. A respiração junto à sua pele foi o único aviso que recebeu antes que ele inclinasse o rosto para o contato íntimo. O primeiro beijo foi tudo o que Megan sonhara e mais... muito mais. Os lábios firmes e quentes, a pressão gentil de carne contra carne, incendiando seu corpo. Gemendo levemente, ela se ergueu na ponta dos pés, as mãos procurando seu rosto, trazendo-o para mais perto. Em resposta, um gemido ecoou no corpo dele enquanto dava-lhe o que ela queria, aprofundando o beijo, apartando-lhe os lábios com a ponta da língua. Ela deu boas-vindas à invasão sensual, glorificada com o tremor que o sacudia, a urgência feroz que explodia em seu interior, deixando-a alheia a tudo, exceto à onda selvagem de sensações. Cedo demais, ele ergueu a cabeça, a respiração ofegante. — Oh, Deus. Como isso aconteceu? A rouquidão na voz a fez se aninhar junto dele. — Sabia que seria assim entre nós — sussurrou ela. — Não. Não pode ser. — Ele começou a afastá-la, mas ela manteve as mãos entrelaçadas, prendendo-o. — O que foi? Por que nega seus sentimentos? — Meu irmão morreu com uma flecha Sutherland nas costas, e ainda pergunta por quê? — grunhiu ele. Removendo seus dedos. — Megan! — gritou uma voz feminina estridente. — Meg, você está bem? Trouxe os homens de milorde. Onde está você? Ross ergueu a cabeça. — É a sua prima? Confusa, Megan conseguiu pronunciar, fraco: — Sim. — Já não era sem tempo. — Ele conseguiu se soltar e recuou. A perda de contato fez Megan estremecer. — Não. Não pode acabar assim — lamentou seu coração ferido. Não depois da proximidade da aventura em comum. — Não pode acabar de outra forma — grunhiu Ross. — Andrew? Owain? —chamou, correndo para a viela. — Aqui é Andrew. — logo apareceu um guerreiro seguido por um jovem carregando uma tocha. — Eu o ensinei a ir ao campo inimigo com poucos homens? — censurou o cavaleiro, como se Ross 42


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fosse um garotinho. Ross se enrijeceu e Megan achou que ele iria golpeá-lo pela aspereza. — Deixe disso — retrucou Ross. — Temos que encontrar Owain e os outros. — Estamos aqui. — O galês alto se aproximou, e Ross perguntou rapidamente sobre feridos e prisioneiros. — Sofremos danos menores, mas não conseguimos prender ninguém. Um coro de vozes masculinas saudou o balanço da batalha. Andrew era o mais entusiasmado, mas Ross apenas suspirou e começou a passar ordens. Todos a seu redor se mexeram para atendê-lo. Como ele era calmo e capaz, pensou Megan, enquanto Chrissy corria para seu lado. Por dentro, era uma massa de emoções contraditórias. Dor, confusão e tristeza angustiante. Ela e Ross eram perfeitos um para o outro. Ela suspeitara disso havia um ano, quando Lion lhe falara pela primeira vez do irmão. Agora, a fuga, o beijo, deram-lhe a certeza. Ross Carmichael era o homem para ela. O único homem. Em Megan, o desespero deu lugar a determinação implacável enquanto o observava dirigir seus homens. Como ele era controlado. Era preciso um homem forte para comandar aqueles homens. Era preciso o seu homem. Foi invadida por um sentimento de orgulho possessivo. — Ele não é maravilhoso? — sussurrou a Chrissy. Reprimindo lágrimas de alívio, a prima olhou para o círculo de homens. — Ele é um homem, como todos os outros. Não, ele é especial, pensou Megan, mas sabia que não havia maneira de descrever a ligação que surgira entre eles, unindo-os enquanto escapavam da morte. Respeito, camaradagem, paixão, ele sentira tudo isso naqueles breves momentos. Embora negasse, o beijo que partilharam era prova cabal. Ele me quer, pensou Megan, aquecida pela nova maneira com que ele a via, como se ela fosse uma fruta saborosa que ele queria devorar. Ela queria mais que isso; queria que Ross a amasse tanto quanto ela o amava. Mas já era um começo. Durante todo o caminho de volta ao castelo, planejou e arquitetou situações para levar a razão a seu noivo relutante. Inquieto como um leão enjaulado, Ross foi até a janela com vista para o mar. A tempestade passara, deixando o ar frio e limpo, mas preferiria uma pousada na vila ou um quarto no inferno àquele aposento maldito no castelo Curthill. 43


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O veludo vermelho sobre a cama lhe lembrava o sangue esparramado do irmão; as cadeiras luxuosas, a prataria o lembravam de que Eammon devia andar fazendo pirataria, mas não havia jeito de provar. Por que achara que gostaria do desafio? Mesmo assim, não era tolo o bastante para sair novamente à noite à procura de respostas. Tivera sorte em escapar quase sem nenhum arranhão. —O que o faz pensar que os homens que nos atacaram não eram do castelo Curthill? — inquiriu ele a Owain. Sentado do outro lado da sala, os pés estendidos na direção do calor da lareira, cerveja sobre o estômago, Owain resmungou: — Gostaria que houvesse mais alguém para ver esse seu ombro. — Cuido dos ferimentos de milorde há anos — declarou Davey, o escudeiro. — Não está tão ruim — acrescentou. — A lâmina deslizou pelo colo. O corte foi extenso, mas não profundo. Ross fez uma careta. A despreocupação do subordinado contrastava com os cuidados de Megan. Os temores dela por sua saúde não deviam tocá-lo, mas tocavam. Mesmo agora, aquecia-o lembrar-se como ela o fizera sentar-se na cadeira e passara a mão por seu corpo procurando outros ferimentos. Luxúria. Seu castigo, disse a si mesmo, para espantar essas imagens. Verdade fosse dita, a dor em sen ombro não era nada comparada à frustração que crescia a cada instante. — Sobre o ataque. Owain se endireitou. — Giles e os outros vigiaram junto aos muros de Curthill com atenção. Ninguém saiu depois de nós. —Podiam ter ido à vila antes — murmurou Ross. Uma batida na porta e os três homens procuraram suas espadas. Davey atendeu, e Ross sentiu o pulso se acelerar quando viu Andrew com o galês que fora deixado para vigiar os barcos. O galês falou com Owain num dialeto que Ross não conseguiu entender, e esperou enchendo uma taça de vinho. Para seu desgosto, Davey se antecipou, provando-o primeiro. — Não precisa — informou Ross, e sorveu um grande gole. — Eammon não é tão estúpido a ponto de me envenenar enquanto o tio do rei ainda está por aqui. — Saqueadores — sentenciou Owain. Tal fato não era como o nó que sentia no pescoço, pensou Ross. Dentro de três dias, seria forçado a se casar com Megan. Muito pior que a morte, dissera a si mesmo, durante a viagem até ali. Depois daquela noite, sabia quão fundo era o poço. Ele a queria. Mais do que jamais 44


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desejara ninguém antes. Mais do que a Rhiannon. Não, não podia. Se ela soubesse, usaria esse conhecimento para escravizá-lo... — As mercadorias não foram trazidas ao castelo? — perguntou Andrew, trazendo Ross de volta ao perigo mais imediato. Owain balançou a cabeça. — Não. Foram distribuídas entre os artesãos da aldeia. Lembrando-se do que Megan dissera, Ross se manifestou: — Não poderiam estar sendo trazidas para cá apenas para consertos e reformas? Andrew desdenhou. — Na calada da noite? — Talvez os aldeões façam isso sem o conhecimento do senhor — sugeriu Davey. — Vamos pegar um e interrogá-lo. — Andrew apalpou a adaga. — Me dê uma hora... — Andrew! Está falando como um tolo! — exclamou Ross. — Lady Megan me falou sobre esse negócio com muito orgulho. — Milorde? — O espião galês se manifestou, saindo da parede onde estivera se apoiando. — Há uma contradição...uma cabana na vila. Não tem janelas e só uma entrada, onde dois homens montam guarda. Pareceu-me... — franziu o cenho —, ... que entraram mercadorias demais para uma construção daquele tamanho. — Ah, é? — Ross irritou-se. Megan não lhe contara tudo; só o suficiente para aplacar suas suspeitas. Maldita a feiticeira mentirosa. Franziu os lábios e podia jurar que ainda sentia seus lábios traidores. Amaldiçoou-se, então, por ter sucumbido a seus artifícios de sedução.

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CAPITULO 5

 Já viu coisa assim? — resmungou Davey para Ross. Atrás deles, os cavaleiros Carmichael se erguiam para ter uma melhor visão. O salão estava em estado lamentável, cheio de pessoas, restos de comida por todos os lados, cheiro de cerveja, as tochas acesas desprendendo fumaça, que irritava os olhos. — Bárbaros infernais das Terras Altas — grunhiu Andrew, franzindo os lábios enquanto trocava olhares com Giles Kennedy. — Essas pessoas parecem... parecem maltrapilhos — desdenhou o mais rabugento dos homens de Ross. — Nenhum está usando um traje que combine. Ross assentiu. Como era costume, usavam meias coloridas por baixo das túnicas. Ficavam... ridículos. Pior ainda eram os que usavam trajes ingleses, sem as meias, com botas de cano alto. — Parece que alguém jogou uma pilha de roupas no meio da sala e cada um pegou a primeira que serviu — comparou Giles. — Exatamente — disparou Ross. As roupas também eram refugo, como as mercadorias que saqueavam. A confirmação de suas suspeitas só reforçaram sua decisão de achar um modo... qualquer modo... de não se casar com Megan. — Não vamos ficar aqui parados — incentivou lorde Nigel. — Já estou vendo lady Mary providenciar nosso desjejum. — Acho que perdi o apetite — resmungou Davey.  Pensei que fosse só eu — respondeu Ross. Se não tivesse tão pouco tempo, preferiria ter ficado na cama até o meio-dia. — Não os esperávamos tão cedo. O pão está saindo dos fornos, mas o restante ainda não está pronto. — A rapidez com que a mulher fez a mesura fez parecer que suas pernas haviam falhado. Lady Mary, decidiu Ross, notando a semelhança com Megan. Apesar da decisão de manter distância dessa gente, inclinou-se e pegou em sua mão, erguendo-a. — Está tudo bem. Não precisamos de muita coisa — declarou, tão gentil quanto teria sido com a própria mãe. Lady Mary olhou para ele, meio confusa, e só então ele percebeu que falara em francês. — Me desculpe — apressou-se, em gaélico. — Eu... 46


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— Oh, tudo bem, milorde. Fui criada nas Terras Baixas e aprendi a língua da corte quando criança, mas acho que estou meio enferrujada, tendo apenas Megan e Chrissy para praticar. — Lady Megan fala francês? — Sim, e lê e escreve também — informou a lady, orgulhosa. — Ensinei a todos os meus filhos, e Megan, depois do acidente e tudo, teve muito tempo para estudar. Megan sofrera um acidente? Não, não queria saber. O conhecimento inspiraria cuidados. E ele se preocupava mais do que devia. —Livros são caros e devem ser difíceis de trazer para cá — comentou. —Não, embora lorde Eammon não dê valor, os livros às vezes vêm com as outras mercadorias. — Megan contou sobre esse comércio. Alguém na vila também conserta livros? — Não, isso é trabalho dos monges. Nós os aproveitamos como eles chegam... úmidos e um pouco esfarrapados. Porque foram dar na praia após o naufrágio. — Mas Megan sabe mais sobre o comércio do que eu — afirmou ela. Aposto que sabe. — Fico ocupada demais tentando manter a ordem no salão sem ninguém para sustentar a minha autoridade — prosseguia, amarga. Por que Eammon não sustentava sua autoridade?, imaginou Ross. Então, lembrou-se de Félis. Ross quase sentiu pena da mulher. Quase. Seguiua com o entusiasmo de um homem rumo ao cadafalso. Enquanto passavam pelas fileiras de mesas, olhou para o palanque no fim do salão, meio temeroso, meio esperançoso quanto a ver Megan esperando à mesa alta. Não estava. Estaria ainda na cama, recuperando-se da aventura? A ideia de vê-la nua por baixo de lençóis enrijeceu cada músculo abaixo de sua cintura, e ficou feliz em estar usando uma capa longa sobre a calça. Que droga. Não iria desejá-la. Cerrando os dentes, lutou contra as lembranças do beijo e de sua reação traidora. — Sente-se aqui, milorde. Ross rapidamente tomou a cadeira que lady Mary lhe indicava. Davey serviu-lhe vinho e, antes que ele levasse a taça aos lábios, apressou-se para prová-lo primeiro. — Davey — protestou Ross, tentando colocar a taça de lado. O rapaz não se deixou enganar, tomou um longo gole e limpou a boca com um guardanapo. — Owain e eu não acreditamos que tentem envenená-lo com lorde Nigel aqui, mas... 47


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Tomando a taça de Davey, Ross ergueu a taça recebendo a saudação de Owain: — A sua saúde, milorde! Ao erguer a taça, sentiu dor no ombro ferido na noite anterior. O fato não passou despercebido a lorde Nigel e lady Mary, e ele improvisou uma história, sem mencionar a presença de Megan na vila. — Oh, isso é terrível — lamentou lady Mary, quando ele acabou sua história fantasiosa. — Quando cheguei a Curthill como noiva, também achei o lugar selvagem e melancólico. Mas logo comecei a valorizar essa gente. São independentes a ponto da rebelião às vezes, mas bravos e honrados ao extremo. Honrados? Ross quase engoliu a língua. Do outro lado do salão, uma briga entre dois grandalhões causava confusão. Ha! Esses Sutherland não são honrados nem com eles mesmos, pensou Ross, franzindo os lábios. Os Carmichael não se comportavam assim. — Como está vendo, a disciplina entre os membros já sente a ausência de Eammon no salão — lamentou lady Mary. — Ainda tenho que conhecer o lorde. — Que Deus o castigue. — Onde ele está? — Fora, saqueando? Lady Mary ruborizou e depois, empalideceu. — Ele está... indisposto. Não é mais o mesmo depois da morte de nosso filho há dois anos. Fica em seus aposentos e raramente desce. Ross se amaldiçoou por continuar espetando. — Lorde Eammon não lidera mais o clã? — Oh, ele ainda comanda, não me interprete mal. Archie traz as ordens de Eammon e leva as notícias com fé de Moisés. O comércio que Eammon idealizou trouxe trabalho à nossa gente. Embora ainda não tenhamos alcançado a prosperidade — explicou ela. — Archie diz que chegará a época em que as pessoas poderão manter as riquezas ao invés de reinvestir na compra de mais mercadorias. — Archie? — É o capitão aqui. Mas ele também, como Eammon, com exceção do comércio, nos deu as costas. — Eu lamento — murmurou Ross, sentindo pena da mulher. — Megan também está passando por um período difícil. O pai desafiou as tradições e a fez seanachaidh do clã Sutherland, responsável pelas lendas e histórias, mas agora não lhe dá mais atenção. Parece que só se preocupa com Félis e Siusan. Não passa uma semana sem que ele não mande homens atrás dela. Por amor, ou porque Siusan sabia demais?, imaginou Ross. Na noite 48


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anterior, tentara juntar as poucas peças do quebra-cabeças tentando construir uma imagem lógica. Lion adorava caçar, não teria abandonado uma presa já localizada. Mas se Siusan mandasse Lucais com um convite para encontrá-la em algum lugar isolado, ele teria largado tudo com um sorriso no rosto, como informara Wee Wat. Então, os homens de Eammon poderiam tê-lo assassinado, pois ele sabia demais sobre o comércio. A única pergunta era se Siusan fora parte do esquema. — Onde está Siusan agora? — Partiu — declarou a mãe, miseravelmente. — Foi sem dizer nada. — Fugiu com o pajem — interpôs uma voz, e Ross ergueu o olhar para encontrar um cavaleiro elegantemente vestido, que passaria por nobre na corte em Edimburgo. — Comyn! — exclamou lady Mary. — Prima. — O homem fez uma mesura. — Posso me juntar a vocês? — perguntou, educado. Quando ela assentiu, ele tomou a cadeira ao lado de Ross e se apresentou: — Nunca nos encontramos, mas deve ser Ross Carmichael. Sou Comyn MacDonnel . — Comyn veio morar aqui conosco há nove anos... depois que seu pai, um primo distante, perdeu suas terras — explicou lady Mary. — É como um filho para Eammon... especialmente após a morte de Ewan. E um grande conforto para mim, também. — Sorriu-lhe. — Meus sentimentos pela morte de Lion — consolou ele a Ross. A expressão condoída em seu rosto corado, e os olhos castanhos solidários, deram a impressão de que estava sendo sincero. — Nós havíamos nos tornado amigos na reunião dos clãs, quando ele conheceu Siusan. — Sorriu de leve. — Eu o superei na corrida de cavalos e ele retaliou a minha melhor apresentação na luta com espadas. — Parece mesmo a descrição de meu irmão. — Enquanto Comyn contava histórias sobre Lion. Ross achou que podia fazer perguntas a esse homem e obter respostas honestas. — Ah, aí vem a nossa noiva! — exclamou Comyn, gozador. Apesar de sua decisão de permanecer indiferente, Ross virou a cabeça. Ficara imaginando como seus cabelos ficariam soltos. Agora sabia. Gloriosos. Um rio caudaloso dourado e castanho, caindo sobre seus ombros e descendo pelas costas. Sentiu vontade de passar as mãos por aqueles fios sedosos, sentir a maciez e o peso, beijar a coluna do pescoço de mármore que se sobressaía do vestido vermelho simples. Sentiu a boca seca ao ver de relance os seios repuxando o tecido do vestido. Ela deu um passo à frente, quebrando o encanto. Trêmulo devido à fantástica visão, Ross notou que ela se detinha por um instante toda vez que 49


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pousava a perna esquerda. Devia ter-se machucado indo em seu socorro na noite anterior. Instintivamente, levantou-se para ir ajudá-la. — Milorde? O que foi? — perguntou Davey. Que droga. Ross se sentou abruptamente, cerrando os dentes, sentindo a dor no ombro. Era bom mesmo, por ser tão estúpido. Um olhar para Megan e esquecera a promessa que se fizera quanto a evitá-la. Ela o enfeitiçara. Como Siusan a Lion. Não era uma comparação reconfortante. — Comyn, o que está fazendo aqui? — Megan pousou a travessa sobre a mesa e franziu o cenho. — Ora, vim para seu casamento — respondeu ele, sorrindo. — Não é bem-vindo. Se tiver dignidade, não vai ficar para a cerimônia. — Seus olhos faiscavam de raiva. — Meg! — exclamou a mãe. — Peça desculpas imediatamente. — Tudo bem, prima Mary. Já me acostumei à aspereza de Megan. Por que Megan queria banir um homem tão educado quanto Comyn? foi a primeira ideia de Ross. — Mas eu não me acostumei à sua falta de sinceridade — disparou Megan. Um sonoro engasgo dos comensais ao redor, e olhos atentos se voltaram para o embate verbal, exceto os de lorde Nigel, que continuava atacando seu frango como se ele fosse sair voando. Megan fungou e dispensou o primo com um movimento de cabeça. —Milorde, desculpe não estar aqui quando desceu — pediu, docemente, a Ross. — Mas estava preparando este prato especialmente para o senhor. — Ela retirou a coberta da travessa de prata e colocou-a à sua frente. — Peixe — lamentou ele. — Peixe assado... pescado ontem mesmo. É um dos meus favoritos, e pensei... Ele ia enjoar. Ross engasgou, engoliu em seco e procurou a taça de vinho. — Milorde? — chamou Megan, hesitante. — Pode ser meio cedo para peixe para quem não cresceu junto ao mar — comentou Comyn, tirando o prato de perto de Ross e passando-o a lorde Nigel, que não protestou. — Obrigado, Comyn. — Ross olhou para ela, desculpando-se. Megan estremeceu. Então, ele ia ser pouco comunicativo. — Acordei cedo para prepará-lo especialmente para o senhor. — Não conseguia esconder a mágoa. — Só como pão e cerveja de manhã. Por que me punir pelo que acha que papai tenha feito? Ela queria 50


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chorar; o orgulho a manteve. — Novamente rude, pelo que vejo. — Ela se virou tão rápido que seus cabelos derrubaram a taça dele. Um som seco. Líquido se espalhando. E ele tinha o colo todo molhado de vinho. Ross engasgou enquanto o líquido se infiltrava por suas vestes. Lady Mary gritou por panos; as servas se apressaram. Davey perguntou se ele não queria trocar de roupa. Ross balançou a cabeça, as orelhas queimando de indignação, os olhos em Megan. Ela mantinha o olhar baixo. —Peça desculpas a lorde Ross — ordenou a mãe. —Eu... eu peço perdão — veio a voz baixa, arrependida. —Está perdoada — proferiu Ross, querendo apenas saber mais sobre Siusan e voltar para seus aposentos. Megan sentou-se a seu lado, lançando-lhe um olhar que o tirou de suas ilusões. Ela estava quase rindo, controlando os lábios para não rir abertamente. A pequena feiticeira. — Fez de propósito? — disparou ele. — Foi um acidente, mas... se tivesse se visto ali, cerimonioso como um bispo, e então, quando a taça virou, e pareceu tão... — Não conseguiu continuar. Ross fechou os dedos no braço da cadeira. Como ela se atrevia a rir dele? O momento teve fim quando alguém anunciou a chegada de Archie. O homem se achava grande coisa, pensou Ross, quando Archie parou diante da mesa deles. — Lorde Eammon não vai descer para cear com os senhores — anunciou ele, com voz autoritária. — Ele está... indisposto. Ross sentiu pena ao ver lady Mary abafar um soluço e esconder o rosto no guardanapo. Megan também estava trêmula, o rosto ruborizado. — Ele disse se estará disposto para comparecer a meu casamento? Archie sorriu arrogante, os lábios mostrando dentes amarelados. — Vou ver se descubro. — Depois de fazer a refeição, vou visitar Eammon e ver como ele está. — Comyn afastou a cadeira à esquerda de Ross. Rapidamente, Megan se ergueu, agarrando a cadeira. — Não. Esta é a cadeira de papai. — Tenho certeza de que ele não vai se importar se Comyn se sentar nela — declarou Archie, trocando um sorriso com Comyn. 51


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— Bem, eu vou — disparou Megan. Comyn estreitou o olhar. —Viajei muito esta noite e estou com muito apetite. —Ótimo. Coma, mas não pode se sentar na cadeira de papai. Isso significaria que quer tomar o lugar dele... e a vida dele. —Superstições sem sentido — desdenhou Comyn. —Crenças tradicionais — corrigiu Megan. — Como seanachaidh do clã Sutherland, tenho o dever de mantê-las. Comyn fez uma careta e olhou as pessoas em redor. Se ele se sentasse na cadeira, seria uma declaração de intenção. Como ela parecia valente, de pé ali, defendendo os direitos do pai, pensou Ross. Na noite anterior, já tivera uma amostra de sua coragem. Podia-se ouvir um grampo cair enquanto todos os membros do salão aguardavam o desfecho. — Venha, milorde — grunhiu Archie. — Vamos aos aposentos de Eammon. Ele não vai se importar com sua interrupção. Esta manhã mesmo, estava perguntando sobre você. Comyn sustentou o olhar de Megan por mais um momento, e então se virou, saindo a passos largos, acompanhado de Archie. Se não tivessem ido falar com Eammon, Ross teria ido atrás deles para perguntar a Comyn sobre Siusan. Um suspiro coletivo soou no salão, seguido por risadas nervosas. Gradualmente as conversas foram retomadas. — Desculpe sobre o peixe... e o vinho. Posso servir-lhe mingau? — Não. Já comi o bastante. — Ele se levantou abruptamente, e ela soube que ele não estava farto da comida e sim dela. — Podíamos nos sentar numa das janelas panorâmicas — ofereceu ela, rápida, apontando para o local num dos cantos do salão. — Não — repetiu ele, olhando para a frente como se a visão dela fosse pior que a do peixe. — Preciso lhe falar — improvisou, ela rápido, pois senão só se veriam no dia seguinte. Ross foi claro: — A morte de meu irmão e o paradeiro de sua irmã são os únicos assuntos que me interessam. — Lançou-lhe um olhar duro e sem compromisso. — Certo. Vou responder às suas perguntas sobre a morte de Lion. — Tantas quantas forem possíveis, sem colocar os sobreviventes em perigo. — Me encontre na praia — propusera ele, após a oferta dela de informação sobre a morte de Lion. 52


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— Na praia? Ora por que... — Há menos probabilidade de sermos ouvidos lá — resmungara ele, franzindo o cenho para os membros do clã dela. — A praia não é um bom local. A areia está cheia de... — Na praia! — insistira ele. Então, ela concordara, mesmo sabendo o que provavelmente aconteceria. Não vai ser bonito, concluiu, repreendendo a consciência. Mas os homens pareciam aprender melhor experimentalmente, e um homem tão cerimonioso sem dúvida merecia uma lição de humildade. — Não está atrasada — espantou-se, aproximando-se. — É uma qualidade surpreendente numa mulher. — Faz uma fraca figura de todas as mulheres ou só de mim? — O estreitar dos olhos dele foi sua única resposta. — Vai ver que sou diferente das outras mulheres — desafiou. — É verdade. Nenhuma mulher que conheço derramaria vinho sobre mim. — Nem salvaria sua vida — contra-atacou ela. Logo viu que ele não fora sozinho: seis homens tomavam posição de guarda. — Pensei que seria uma conversa particular — protestou. Ele encolheu os ombros, fazendo uma careta. Então, seu ombro ainda doía. Tomara a decisão certa em trazer os medicamentos e novos curativos. — Meus guardas levam o trabalho a sério — informou ele. Aproximouse, mostrando-se muito alto acima dela, que estava sentada sobre uma coberta estendida na areia. — Não me olhe assim — reclamou ele. Megan sorriu. — Não posso evitar. Você me lembra o Deus celta, Luga Lamfada... alto e bonito, com o rosto jovem e glorioso como o sol poente. Ele ficou mesmo da cor do sol poente. — É sempre tão atrevida? — Atrevida? — Ela franziu os lábios, pensativa. — Não pensei que fosse atrevimento falar a verdade. — Verdade? — Ele ergueu uma sobrancelha, desdenhoso.  Se importaria em sentar-se? Meu pescoço já está doendo. Ele se agachou sobre a coberta, ficando o mais longe possível dela, sem se sentar na areia. Contemplou o horizonte no mar, como se ali estivesse a resposta para suas perguntas. — É tão tranquilizante ver o mar. — Megan retirou copos e várias 53


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trouxas com comida de uma cesta. — Onde está sua irmã neste momento? — Ross foi direto ao ponto. Megan tentou uma fuga pela lateral. — Não sei... exatamente. — Siusan estava com a tia Brita, mas em que quarto exatamente, não sabia... — Não faça jogos de palavras comigo, mocinha. — Seu olhar a prendeu como uma borboleta na rede. Ela sorriu para informá-lo de que não se intimidara e ofereceu-lhe uma taça de vinho. — Por que está tão ansioso em encontrá-la? — Quero perguntar a ela sobre a morte de Lion. — Não foi papai — afirmou Megan. — Como pode chamá-lo assim? O homem ignora o clã todo e faz sua mãe infeliz! — exclamou ele. — Papai mudou depois da morte de Ewan. Se ele está frio comigo, é porque mereço. — Megan se ocupou em desamarrar os guardanapos de linho. — Eu desafiei Ewan para uma corrida. Houve... houve um acidente, e meu irmão morreu. — Sua mãe mencionou o acidente. Não sabia que se culpava. — Ross suspirou, e então, suavemente, dolorosamente, confidenciou: — Lion me pediu para vir com ele para se casar com sua irmã, mas eu participava de uma guerra no País de Gales. — Seu pai o culpa pela morte de Lion? — Não mais do que eu mesmo. — Ele olhou para o mar. — Você nem estava aqui quando Lion morreu... — Se estivesse, ele poderia não ter sido assassinado. — Então, voltamos ao assunto. — Sempre, até que saiba a verdade. Lion foi flechado nas costas depois de ter sido enganado por uma mensagem de sua irmã. — Acha que Siusan queria a morte dele? Não — choramingou Megan — Siusan quase morrera depois de Lion, sem dormir, nem comer. Ela o amava tanto quanto ele a amava. — Se não é culpada, então, por que ela partiu? — Não posso lhe contar. — Ela e Lucais eram amantes? É isso? Megan riu, mas não era de alegria. — Lucais só tem treze anos, e ela dezesseis. Acho que está querendo achar alguém que pague pela morte de seu irmão. Me senti assim também quando Ewan morreu. — Quisera culpar Comyn, mas ele não estava lá quando aconteceu. 54


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— Então, por que eles fugiram? Que droga. Fugiram quando Siusan descobriu que estava grávida de Lion; fugiram para proteger o bebê. — Lucais foi junto para escoltá-la. — E para onde foram? Seria tão bom poder dividir esse peso com ele, mas não, ainda não. — Não sei de nada. Seu ferimento está doendo. Me deixe limpá-lo e trocar o curativo. — Não. Não tenho nenhum desconforto, exceto aquele causado pelas mentiras de sua família. — Devia confiar um pouco em mim. Vamos nos casar depois de amanhã, e... e deve haver confiança entre nós. — Não pode haver confiança entre Sutherland e Carmichael — disparou ele, quase acabando com todos os seus sonhos. — Então, por que veio? — Para salvar meu clã de ser banido pelo rei, embora duvide de que uma Sutherland entenda tal sacrifício. Oh, ela entendia bem sobre sacrifícios. Suspirou. Eram mesmo muito parecidos, ela e Ross, embora ele discordasse. — Droga, alguma coisa está me mordendo — grunhiu ele, levantandose e coçando através da calça, acima da linha dos joelhos. — Pulgas. — Pulgas! — exclamou ele. — Devia saber que minha cama estava infestada, mas elas não me incomodaram na noite passada. — Pulgas da areia — esclareceu ela. — Era por isso que não queria conversar aqui. — Por que elas não mordem você também? — Passei poejo. — E não passou para mim? — trovejou ele. — Sutherland mentirosa e traiçoeira — grunhiu, virando-se e correndo da praia. A dignidade de seu andar só se quebrava ante mais uma coçada na perna. Os homens que o acompanhavam também estavam praguejando e se coçando. Megan suspirou. O pouco terreno que ganhara salvando a vida dele na noite anterior fora perdido com a brincadeira estúpida. Como pudera se esquecer de como os homens eram orgulhosos? Pior, pensou, enquanto refazia o cesto, perdera a oportunidade de fazer o curativo no ombro, que suspeitava estar se infeccionando. O segredo de Siusan ainda estava seguro, mas Megan sentia que tinha perdido algo ainda mais sagrado... o respeito de Ross.

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CAPITULO 6

O som das ondas batendo nas rochas abaixo do castelo Curthill ultrapassavam fracamente as espessas paredes da torre que abrigava os aposentos de Eammon. Estendido numa cadeira de espaldar alto, as botas estendidas na direção das chamas da lareira, o homem que dominava Curthill resmungava: — Soube que houve confusão na vila ontem à noite. Archie secou sua caneca de cerveja e limpou a boca com as costas da mão. — Sim. Como temíamos, Carmichael e seus homens foram ao alfaiate e na praia xeretar. — Quero crer que não descobriram nada. — Nada até onde sabemos. Os homens de Douglas os mantiveram ocupados. Lutaram como o diabo. Douglas perdeu seis homens. — E quanto ao carregamento? — Correu tudo bem... o melhor que já tivemos. O navio que Douglas atacou estava saindo de Calais para Londres, cheio de veludos franceses e móveis italianos. O que foi danificado está com os artesãos e o resto está no depósito. Douglas já passou a lista de mercadorias que conseguiu vender. — Excelente. Providencie tudo para mandar para Londres. Pegue Douglas para essa tarefa, não quero que o vejam lá pelo depósito enquanto Ross Carmichael e seus homens estiverem em Curthill. — Lorde Ross parece tê-lo aceitado tão bem quanto o irmão — riu Archie. — Acho que ele não suspeitou de nada até que o viu na clareira naquele dia e percebeu que ia morrer. —Não. Não suspeitou. — Um leve sorriso surgiu nos lábios de Comyn, fazendo seus olhos brilharem de satisfação. — Nunca soube porque morreu. — Comyn quase desejou tê-lo desafiado 56


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abertamente pela mulher que ambos queriam, Siusan. Mas ela deixara claro que só se casaria com Lion. Comyn se tornara hábil nas artes da traição, mentira e assassinato. Mesmo após dois anos, ninguém desconfiava de que ele, e não Eammon, é que realmente dirigia os Sutherland. — Fomos longe demais para permitir que Ross Carmichael estrague tudo agora — resmungou Comyn. — Se ele ameaçar nossos planos, nos livraremos dele. — Se outro Carmichael morrer por aqui, o rei vai mandar tropas e o nosso negócio vai por água abaixo — advertiu Archie. — Se for necessário nos livrarmos de Ross, vou planejar as coisas de tal forma que haverá um culpado para Lionel Carmichael tirar a desforra. — Milorde — saudou Félis, muito sedutora, voluptuosa. — Ele acordou. — E está coerente? — perguntou Comyn, sentindo-se atraído pelo charme de Félis, que tinha um seio à mostra. — Venha ver você mesmo — convidou ela, olhando-o cheia de promessas. Infelizmente, após dois anos, seu repertório já era previsível. Ele só queria Siusan. — Não tenho tempo, Félis. Me diga logo, qual é o problema? — Já estou cansada de ficar aqui. — Divirta-se com Archie — ofereceu Comyn. — Ah. Não gosto de você. — Ela o dispensou. — O homem está decaindo rápido. Tem febre e a pele está cinza. Estou dando o pó, mas... — Preciso dele vivo por mais alguns meses — declarou Comyn, erguendo-se da cadeira. Até encontrar Siusan e acabar as reformas em Shurr More, seu castelo. Ao se aproximar da cama, porém, ficou pensando se a patética figura debaixo das cobertas sobreviveria mais uma noite. — Megan Sutherland, o que está tramando? — exigiu Chrissy. Megan se assustou e tentou esconder o véu de linho nas costas. Tarefa mais difícil seria explicar as roupas de criada que estava usando. — Eu... eu ia jardinar... — Não ia não — disparou a prima. — Deixe ver. Megan suspirou. — Ross pediu um banho e eu...

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— Não me diga que estava pensando em se esgueirar até os aposentos dele como criada! — Bem... — Sua mãe vai ficar sabendo. — Depois de amanhã, estaremos casados — lembrou Megan, determinada a levar o plano adiante. — E ele vai esperar que eu o banhe então. — É desonesto — sentenciou Chrissy, cruzando os braços. — Está tão ansiosa para dar uma olhada nele? — Chrissy! Sabe que não. — Mas Megan ruborizou porque queria mesmo dar uma olhada em Ross sem as roupas. — Oh, Megan. Desculpe por tê-la assustado sobre a noite de núpcias. De verdade, a dor não é tão ruim. — A dor e eu somos velhas amigas. Se sobrevivi a um cavalo caindo sobre mim, ouso dizer que sobreviverei a Lorde Ross sobre mim. — Meg. Não é hora para brincadeiras. — Não foi brincadeira. — Megan tinha certeza de que Ross era diferente dos outros maridos. — Amo Ross e estou ansiosa para me casar comele, mas ele não me admira muito no momento. — Oh, Meggie. O que fez desta vez? Megan fez uma careta e contou sobre o episódio da praia. — Vou aliviar as mordidas colocando um pouco de poejo na água do banho, mas quero ver o ferimento no ombro. Como sei que ele não vai permitir que Megan Sutherland chegue a menos de cinqüenta metros, então... — Vai entrar disfarçada de criada. — Sim — confirmou Megan. — É algo que tenho que fazer. — Porque o amo. Sentiu o coração disparar e mordeu o lábio para aplacar o tremor. De algum modo, tinha que ultrapassar sua frieza e fazê-lo se apaixonar por ela. — Bem, não adianta ficar aqui sonhando. Temos que providenciar um banho — declarou Chrissy. Megan piscou, surpresa, mas aceitou prontamente a ajuda. Amarraram seus cabelos, cobrindo-os com o véu, e também completaram o disfarce com um avental. Megan pegou o cesto de medicamentos e foi em frente. Rindo como crianças, elas tomaram vários corredores e escadas até os aposentos de Ross numa das torres, chegando exatamente quando o último dos servos saía com o balde de água. Apesar dos risos, Megan hesitou. Ela realmente teria coragem de invadir o banho de Ross? Se ele rejeitasse a ajuda, ela morreria. Mas a saúde 58


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dele vinha em primeiro lugar. Bravamente, abriu a porta. — Espere, Megan. E se ele estiver sem... — Chrissy se interrompeu quando a porta se abriu e a cena superou todas as fantasias mais particulares de Megan. Ele estava nu. Ou quase, fazendo Megan arregalar os olhos e emitir um suspiro abafado. Nossa, ele era... magnífico. Estava com apenas um pano de linho em volta do corpo, na altura das coxas, de costas para ela, conversando com Lorde Owain. A luz que vinha das janelas brilhava em seus ombros, e costas, mostrando músculos torneados e firmes, e dando uma nuance avermelhada aos pêlos que cobriam levemente todo o seu corpo. Vapores subiam da banheira de madeira, acrescentando um clima etéreo à cena. Ele parecia um guerreiro pagão, pronto para participar de algum ritual antigo, pensou Megan. De repente, quis fazer parte daquilo. Queria ir até ele, queria tocar naqueles músculos, sentir aqueles braços a seu redor... — Desvie o olhar. — Chrissy a agarrou pelo braço, virando-a de maneira que as duas ficaram de costas para a porta. — Por que fez isso? — resmungou Megan. —Para evitar que faça papel de tola — sussurrou Chrissy. — Não é certo que o veja assim. — Não vi nada... particular — insistiu Megan. Mas sentia o rosto queimando. Pela primeira vez na vida, queria... — A que se deve essa invasão? — exigiu Owain, aproximando-se delas. Megan começou a responder, mas Chrissy tomou a frente. — Estamos aqui para auxiliar no banho de milorde — começou Chrissy, mas ele não quis saber. — Lorde Ross não precisa de seus serviços — disparou o galês. — Nem de platéia — completou, dirigindo-se aos outros homens que ocupavam o aposento. Um por um, os homens de Ross começaram a sair. Ela lançou um olhar desesperado a Chrissy. — Não posso ir embora — falou, baixinho. Chrissy assentiu, pegou Lorde Owain pelo braço e fez com que ele ficasse em tal posição que não podia ver Megan. O que quer que ela tenha dito, fê-lo franzir o cenho. Ross também não estava vendo. Entrara na banheira e descansava a cabeça na borda com os olhos fechados, em repouso 59


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absoluto. Certamente, era um bom presságio, um sinal das fadas. Megan se ajoelhou e foi para baixo da cama como um caranguejo, levando o cesto de medicamentos consigo. O pó acumulado ameaçava fazê-la espirrar. Oh, não. Um espirro e ela se denunciaria. Viu Chrissy se afastar, seguida de Owain, que foi até a banheira e disse: —Acho que alguém devia dar uma olhada nesse seu ombro. Alguém vai... assim que você sair. — Aprecio a sua preocupação — agradeceu Ross, com a voz fria e controlada. O homem nunca baixava a guarda, nem mesmo com a sua gente? — Mas o que preciso mais do que tratamento é um jeito de me livrar daquela maldita mulher. Maldita! Ela? Sentiu lágrimas nos olhos, em parte por lutar contra a vontade de tossir, mas principalmente pela dor que as palavras dele provocaram. — Bem, a lady é bonita e não é idiota... como supôs a princípio, quando a viu com os bonecos — observou Owain. Idiota! A raiva ativou a vontade de tossir. — Deve haver algum modo de me sair dessa. — Ele se mexeu na banheira, espalhando água. — Algum defeito ou imperfeição que me desse motivo para repudiá-la. Ele não sabia sobre sua perna. — Nenhum homem pode ser forçado a aceitar uma mulher aleijada — ponderou, esperançoso. Não sou aleijada, quis gritar. Era uma pessoa ativa e útil. Mas os homens não viam isso. Até seu pai se recusara a ver sua perna machucada. Mas ela sobrevivera à indiferença do pai, e à culpa pela morte do irmão e herdeiro do clã. E conseguiria conquistar seu coração. Deu uma olhada em seu prêmio. Seria a melhor esposa para ele. — Está vigiando o depósito? — perguntou Ross. — Sim. E o alfaiate também, caso o jovem Lucais retorne. Ross esqueceu seus problemas pessoais. Se Lucais voltasse e caísse em suas mãos, o esconderijo de Siusan seria revelado. Owain foi para a porta. — Quer que mande Davey subir? — Em um quarto de hora — respondeu Ross, a voz cansada e sem energia. — Vou tirar esse curativo e dar tempo a mim mesmo. — Tem guardas aí fora, é só chamar. — Acha que esses Sutherland loucos vão subir pela parede e entrar pela janela? — brincou Ross. 60


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— Nunca se sabe — proferiu Owain, saindo do aposento e fechando a porta. Qual era a melhor forma para se aproximar? — Atchimm! — Quem está aí? — exigiu Ross. — Saia ou vou até aí. Que droga. Que droga. Megan saiu devagar debaixo da cama. — Você! — exclamou ele, assim que a viu. — Deixe o cesto e venha até aqui. — Milorde? — sussurrou ela, os olhos baixos como convinha a uma serva. — O que está fazendo aqui, Megan? — exigiu ele. — Pensei que já tivesse deduzido tudo — disparou ela. — Já que me introduzi aqui, deve estar claro que vim para matá-lo. Ele piscou e então franziu o cenho. — Não seja petulante. — Já que não confia em mim, como sabe que não vim para matálo? — Você não é uma assassina. — Só uma mulher maldita... uma idiota para ser repudiada? — Megan disparou essas palavras movida pela raiva. — Era uma conversa particular — desconversou ele, ruborizando. — Não quando o assunto sou eu. — Megan afiou a língua. — Que vergonha, milorde. Pensei que quisesse a verdade entre nós. — Ele ruborizou ainda mais e ela suprimiu um riso. Oh, isso era divertido — A verdade é que nós já assinamos o contrato de casamento, e nos desejamos. Negue e acrescente outra mentira à sua consciência — disparou, quando ele ficou boquiaberto. — Tímida posso ser, mas não sou estúpida. Não foi aversão o que senti naquele beijo. — Um casamento é mais do que apenas luxúria. E quanto ao amor? gritou seu coração. O orgulho evitou que as palavras viessem ao mundo. — E que tal paz? Paz para os nossos clãs é um preço alto demais para pagar? — Sabe que não, ou não estaria aqui. Megan franziu os lábios. — De fato, mas o motivo principal, acho, foi provar que papai matou Lion. — Sem se deter pelo franzir de cenho ela se ajoelhou ao lado da banheira. — Quero a verdade também. Tudo o que peço é que não condene meu pai por antecipação. — Tem também o desaparecimento de Siusan. 61


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— Não posso comentar nada sobre isso — desconversou ela. — Talvez depois do nosso casamento. — Se estava tão ansiosa para ter um marido, por que não se casou antes? — disparou Ross. — Estava esperando por você. — Era verdade. — Você nem me conhecia — grunhiu ele. — Eu... Lion me falou de você, sempre com muito orgulho. — Falou? — Ele pareceu espantado. — Se eu tivesse vindo com ele, talvez ele não estivesse morto. — A culpa surgiu em seus olhos. — Bem, se sair agora... — Não. Vou fazer um curativo. — Ela pousou os dedos sobre os músculos de seu tórax e sentiu que ele reagia. A lógica dizia-lhe que desejo somente não era suficiente para ganhar um homem tão complexo para todo o sempre. Para conseguir isso, deveria conquistar sua mente e seu coração, bem como seu corpo. — Meg — sussurrou ele, os pensamentos confusos como os vapores que saíam da água, misturando-se com seu cheiro de alecrim e limões. Ela estava tão perto que ele podia distinguir as pupilas em seus olhos escuros, ver como se dilatavam de desejo, ver a boca se partindo. — Não devíamos estar assim. — Mas eu o quero. — Suas palavras o atingiram como uma carícia, fazendo sua pele se arrepiar ao seu toque. — Oh, Meg. Jurei que não faria isso novamente — murmurou ele, o polegar acariciando seu rosto. — Por favor. — Ela fechou os olhos com um leve gemido que fez sua pulsação crescer ainda mais. — Não devia desejá-la assim. — Me beije mais uma vez. — Era um pedido e uma ordem. — Nós dois precisamos disso. Ele gemeu quando ela se aproximou ainda mais, esfregando os lábios nos dele, o perfume sedutor, tentador. — Eu não posso... não podemos — começou ele, a voz grave, rouca de desejo e controle. — Que mal pode acontecer com um beijo? — Ela pressionou levemente os lábios nos dele, num beijo até infantil, que não devia dar ignição, mas deu. Gemendo, Ross cedeu a forças além de seu controle, e a puxou pela nuca, selando suas bocas. Ela entreabriu os lábios quando ele provocou com a língua. Doce, tão doce. — Eu quero você — murmurou ele. — Isso, abra sua boca para mim 62


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— grunhiu, devorando-a, a língua simulando o que viria. Logo. Logo. Não podia esperar mais. Ross se movimentou para ficar sobre ela. O braço escorregou, e o ombro esquerdo bateu na banheira. — Que droga — praguejou ele, silvando. — Amaldiçoe a mim — murmurou ela, o rosto ruborizado de paixão. — Me deixei levar pelo beijo e me esqueci completamente por que vim em primeiro lugar. — Para me seduzir? — grunhiu ele, tentando evitar seu toque. — Humm. Foi bom, mas tenho que ver seu ferimento. Fique quieto agora — ordenou ela, retirando o curativo velho. — Como suspeitava. Está infeccionado. Se não for tratado logo, pode até perder o braço. — Não — reclamou ele. — Me deixe ajudá-lo. Posso curar isso — pediu ela. — Parece que não tenho escolha. — Já o machuquei antes? Ross ergueu a sobrancelha. — Que tal as pulgas? — Não foi para machucá-lo. Acho que sou implicante. De várias formas. Com o corpo ainda trêmulo de desejo frustrado, ele lutou contra a vontade de agarrá-la e retomar o beijo. Que droga, estava perdendo rápido a batalha de resistência a ela. — Não seja tão teimoso. Vai se arrepender se não me deixar ajudá-lo. — A cautela em seus olhos expressivos era clara. Ele a viu andar pelo quarto atrás do cesto de medica mentos, mancando mais acentuadamente. — Sua perna ainda dói? Ela estacou, virando-se devagar. — Sim. — Pela primeira vez, mantinha os olhos baixos. — Lamento que tenha se machucado por minha causa na noite passada. — Não foi nada. — Ela passou o pé sobre o tapete, tentando parecer casual. Sua Megan, sem jeito? Não, ela não era assim. — Alguém viu essa perna? — resmungou ele. — Está preocupado comigo. — O sorriso dela rivalizava com os raios de sol que entravam pela janela. A adoração aberta dela o deixava embaraçado. — Pensei que quisesse refazer o curativo do meu ombro. — Sim. Naturalmente. — Ela agarrou o cesto e voltou, quase sem mancar, os olhos brilhando de ansiedade. 63


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— Não fique com medo — cantarolou ela. — Nunca perdi um paciente. —Não estou com medo — resmungou ele. Ela riu. Riu. — Prometo não implicar com você, se prometer não gritar comigo. Ross surpreendeu a ambos, concordando. Era a risada dela, seu maldito sorriso no rosto, apesar da hostilidade, que o intrigava. Sim, para um homem que vivera nas sombras durante o último ano, sua disposição cheia de energia era uma dádiva. E, igualmente, um perigo. — Nós realmente temos alguma coisa em comum, não concorda? Ambos valorizamos a família. Sofremos perdas de um ente querido e... — Somos muito diferentes — interrompeu ele, para aplacar o calor que crescia em seu peito. Ela o assustava como poucas coisas na vida. Megan Sutherland não era mais só um sentimento restrito à carne. O sorriso diminuiu. — Não sou tão valente quanto você... — Ha! — exclamou ele, apesar de sua promessa de se manter indiferente. — Depois da noite passada, diria que você é mais valente do que seria inteligente. — Você é o valente. Forte e valoroso como os heróis das lendas. Ele fez uma careta, obviamente embaraçado com o novo status. A risada dela foi recompensada com um sorriso naquele rosto querido. — Ah, está brincando de novo. Ele parecia um menino, feliz e sem compromissos. Ela faria tudo para que ele sempre se sentisse assim. — Brincar é... divertido, às vezes — comentou ele. — Prefiro achar que sou determinada. — Determinada a se casar com ele; determinada a ganhar seu amor. — Determinada a convencê-lo de que somos gente honesta. Que tal se fôssemos até o depósito para ver o que há lá dentro? — De todas as idéias tolas... e perigosas... — Minha gente nunca iria me negar entrada em qualquer casa... — Suponha que os homens que nos atacaram ontem ainda estejam por lá. Ou que tal a guarda do prédio? E então? — Naturalmente — suspirou Megan. — Os marujos do navio O Falcão foram os responsáveis. Temos que achar a cabana e fazer planos para capturá-los. — Levantou-se rápido, indo para a porta. — Espere. — Ao se erguer, Ross percebeu que estava nu e sentouse rápido. — E o meu ombro? — Qualquer coisa para trazê-la de volta. 64


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O olhar certeiro, a rapidez com que corrigiu a direção o fizeram balançar a cabeça. Ela era impaciente como seu pai... como Lion fora. Lion. Sentia a falta do irmão, de repente, e desejou que o pai de Megan não o tivesse matado. Por causa dela, esperava que tivessem sido os marujos do Falcão. Outro sinal de que ela já o enfeitiçara.

CAPITULO 7 — Tente demonstrar que não espera que alguém surja com uma adaga para atacá-lo — sugeriu Megan, enquanto conduzia Ross num passeio supostamente sem objetivo pela vila, uma hora depois. — Foi exatamente isso o que aconteceu ontem à noite — afirmou Ross. — Nos deixa com jeito suspeito. — Eu sou suspeito. — Bem, tente não parecer um caçador de ladrões. — A voz era firme, mas sua pulsação estava tão rápida quanto a dele, a mão delicada sobre seu pulso à maneira da corte. Os homens que lutaram com eles na noite anterior teriam se escondido? — Devia ter trazido mais homens — resmungou Ross. — Dez homens são mais do que suficientes. Ora, costumo vir aqui sozinha ou com Chrissy. Não quer que os Sutherland achem que meu noivo é covarde, não é? — Lançou-lhe um olhar maroto, inclinando-se para sussurrar: — Se continuar com essa cara carrancuda, ninguém vai acreditar que se apaixonou por mim, milorde. — Foi isso o que aconteceu comigo? — Sim. Por que outro motivo um Carmichael e uma Sutherland estariam passeando de braços dados, olhando um para o outro como Tristão e Isolda? Por quê? A resposta era tão complexa quanto o que começava a sentir por Megan. Desejo, com certeza. Respeito, com relutância. Mas amor? Não, 65


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o amor que tinha fora desperdiçado com Rhiannon. A traição matara toda a suavidade dele. O que sentia agora era apenas luxúria. Isso, podia controlar. Mais difícil e perigoso era controlar a forma sutil com que Megan atordoava seus sentidos. — Humm — grunhiu ele, descartando. Que homem rude. — Não admira você achar... essa encenação tão fácil, você é a seanachaidh. O comentário magoou, mas Megan não se deixou abater. — Ótimo, aí vai uma história então. Nós nos apaixonamos à primeira vista e estamos ansiosos para nos casar. — O que era verdade, para ela. — Estou mostrando-lhe a vila e você está contente em conhecer os membros do clã. Ela era boa. Muito boa, concedeu Ross, cínico. Nem um traço de desonestidade surgiu em seu rosto impecável, provando que ela era mestra naquilo que ele mais desprezava... a mentira. Obviamente, os aldeões acreditaram no que viam, pois surgiram em grande número para saudar a lady e seu pretendente. Ross sorriu contrariado, cumprimentou e aceitou canecas de cerveja da gente humilde e até beijou uma criança ou duas. A pequena comitiva finalmente atingiu o outro lado da vila. — Aquela é a cabana em que o nosso homem viu colocarem as mercadorias — informou Owain, apontando para uma construção do outro lado da rua. Ross avaliou. Perfeito para esconder frutos de roubo. A porta se abriu e surgiram dois homens grandes, com camisas de ferro e espadas à cintura prontas para atacar. — Bom dia — cantarolou Megan, surpreendendo todos os homens. — Sou Megan Sutherland. Não me lembro de tê-los visto antes. Os dois homens se entreolharam, certamente não tinham recebido instruções para lidar com a lady de Curthill. — Não tem ninguém doente por aqui — grunhiu o mais velho. — Estou mostrando a vila a meu noivo — continuou Megan, e então, de repente, gemeu, como se estivesse sentindo dor, e começou a cair. Aconteceu tão rápido que Ross quase nem teve tempo de segurá-la antes que caísse na lama. — Megan! — Ross a mantinha bem perto, junto ao coração palpitante. — O que foi? O que está sentindo? — Eu desmaiei, seu bobo — sussurrou ela, olhos fechados, quase sem mexer os lábios. — Preciso ser levada para dentro e reanimada. Ross franziu o cenho, mas continuou a encenação. — Owain, milady adoeceu. Abra a porta e eu a carregarei para dentro. 66


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— Enquanto seguia a passos largos para a cabana, Ross passou pelos dois guardas atônitos. — Você aí, traga vinho, panos frios e a curandeira da vila. — Ross, Megan e Owain já estavam dentro da cabana quando os dois homens tentaram recuperar o controle da situação. — Mantenha-os fora — murmurou Ross a Owain. — Ouviu o senhor, vá buscar a curandeira! — gritou Owain. Para os Carmichael, ordenou: — Não queremos ser perturbados. Quando Owain fechou a porta e colocou a trave, Ross soltou o ar dos pulmões e gentilmente pousou Megan no solo. — Viu o que eu disse? Não tem nada aqui — concluiu Megan, olhando ao redor de si mesma. — O que é isso? — Ross foi até uma prateleira de madeira junto à parede oposta à porta. — Vamos ver o que tem atrás. — Ross e Owain tentaram empurrar o móvel, sem sucesso. — Está preso no chão? — perguntou Megan. — Parece que está preso é na parede. — Ross passou a mão pela borda e bem no alto, encontrou a chave que ativava um mecanismo que afastava o móvel. — Ora, ora! — exclamou Owain. Oh, senhor, não permita que encontremos nada ruim, rogou ela. — Ah, tochas. Que conveniente. — Havia uma caverna atrás da porta, e a fraca iluminação das tochas revelava seus segredos. Um verdadeiro tesouro. Não apenas móveis, mas tonéis de vinho e sal. Mais ao fundo, encontraram especiarias, madeira e grãos, baús com ouro e prata, junto com sedas, veludos e samito, um tecido de seda. — Isto vale uma fortuna — sussurrou Owain. — Sim — respondeu Ross, sombrio, o estreitar de olhos refletindo os medos mais profundos de Megan. — Não entendo. — Mas ela entendia. — Essas mercadorias não podem fazer parte do comércio. Não são o tipo de objetos que podem ser reformados ou consertados pelos artesãos da vila. — Exatamente. São produtos de pirataria. Aposto minha vida nisso. — Não. — Megan sentiu um nó na garganta, ao mesmo tempo que lágrimas vinham a seus olhos. — Não tem nada a ver com meu pai. Não. — Então, voltou-se, saindo da caverna aos tropeços. Ross a agarrou junto à porta, mas ela lutava com força, pois naquele momento só queria ir até o pai e esclarecer todo esse mal-entendido. — Me solte ou eu grito. Juro que... 67


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Ele interrompeu as ameaças pousando a mão grande sobre sua boca. Ela cravou os dentes nele. — Que droga! — Ross cerrou os dentes para aplacar a dor. — Pense no que vai acontecer se sair daqui agora... desse jeito. — Eu... eu preciso vê-lo — murmurou ela. — Tenho que saber a verdade. — Ela olhou novamente para a caverna cheia de tesouros. A luta pareceu drenar suas forças e ela se deixou ficar em seus braços. Ah, Megan. Se ao menos pudesse poupá-la disso. Então, ela se recobrou, endireitando os ombros. Pura Megan. — Papai não é responsável por isso. Enquanto ele estava ocupado com Félis, os marujos transformaram o negócio honesto nisto. — Nossa, como você é teimosa — reclamou Ross. Valorizava a lealdade, mas a dela excedia qualquer lógica. — Nenhum marujo tem tanto poder para isso. — Então, deve ser Douglas ou Archie. Ou Comyn. Sim, foi ele quem trouxe o navio de Douglas aqui primeiro — convenceu-se ela. — Comyn passa a maior parte do tempo em Shurr More. Só porque não gosta dele não é razão para ir acusando-o. — Não o conhece como eu... — Ele me repudiou quando eu estava morrendo. — Ele é estrábico. Homens assim são ladrões por natureza. — Superstição tola. Não ganhamos nada ficando aqui. Vamos colocar tudo no lugar e voltar ao castelo como se nada tivesse acontecido. — Mas... — Paciência — aconselhou Ross. Embora a dele já estivesse se esgotando. Sabia o valor do planejamento, das ações calculadas. — Sabe onde seu pai mantém os registros? — Sentiu que ela ainda estava emocionalmente abalada. — Pode chorar. — Abraçou-a, confortando-a gentilmente. — Não. Lágrimas não vão limpar o nome de meu pai. — Respirando com dificuldade, ela ergueu a cabeça e perguntou pelo que estavam procurando. Bravo. Nunca conhecera uma mulher tão brava e leal. — Os registros que dizem de onde essas mercadorias vieram. — A listagem dos navios saqueados, mas Ross não teve coragem de ser tão claro. — Mamãe mantém as contas do castelo, já que papai não sabe ler. Duvido que ele tenha documentos nos aposentos. Espere... — Ela pousou a mão sobre o peito. — Douglas é o homem. Ele comanda o navio, carrega as mercadorias para lá e para cá. Foram os marujos dele que o atacaram. Além disso, ele é grande e tem olhos cruéis e traiçoeiros. 68


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— Pensei nisso. Não na bobagem sobre os olhos — acrescentou ele, cínico. — Quando acha que O Falcão vai voltar? — Normalmente demora um pouco. Ross adotou uma expressão preocupada. E se Douglas não voltasse até depois do casamento? O casamento em si já não o incomodava como antes, mas, assim que estivessem casados, não haveria motivo para permanecer em Curthill e procurar pela verdade sobre a morte de Lion. — Vamos voltar e apresentar todos esses fatos a meu pai. Ross balançou a cabeça. — Não temos provas suficientes para acusá-lo. Talvez, quando ele descer para o salão, um homem meu possa fazer uma busca em seus aposentos. — Não quero acusá-lo. Quero que ele nos ajude. Além disso, ele não desce há semanas. De repente, Ross se sentiu ansioso por ver o homem que relutara tanto em conhecer. O lorde fantasma. Algo diabólico ocorria em Curthill, e tinha a estranha sensação de que o tesouro fazia parte disso. Sentiu um frio na espinha. — Tem que me prometer que vai me deixar agir a meu modo. — Não se achar que está moroso demais. — E um negócio perigoso... negócio de homens — disparou ele. — E negócio da minha família — contra-atacou ela. — Meu Deus, é melhor fecharmos a porta e sairmos antes que os guardas fiquem mais desconfiados — interrompeu Owain. Ross assentiu, mas não tirou os olhos de Megan. Seu destemor o assustava. — Você é minha esposa, e, sob minha autoridade, vai fazer o que mando e ficar fora disso. — E você vai aprender que as mulheres das Terras Altas não são tão dóceis quanto as das Terras Baixas — disparou ela, antes de dar as costas e sair. **** — Parece que ganhou outra partida — concedeu Comyn. — Foi difícil, a jogada não saiu senão no final — respondeu Ross, recostando-se na cadeira. Estavam sentados diante da janela, caneca de cerveja à mão para combater o calor do sol da tarde. Do outro lado da sala, junto à lareira, Megan pensou seriamente em bater com a caneca na cabeça de Ross. Que droga! O que ele estava esperando? Estavam ali havia horas e a única coisa que ele fizera fora 69


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perguntar a Archie se o pai dela desceria para o jantar. Archie se erguera, lançando um olhar a Comyn. — Não sei. Mas direi que perguntou. Megan olhou para Ross. Parecia um gato preguiçoso ao sol, fazendo sala a alguém que... na sua opinião... era altamente suspeito. Por dentro, Comyn não era uma boa pessoa. Se fosse, não a teria desprezado quando ela estava de cama... sofrendo depois do acidente, receoso de que ela nunca mais voltasse a caminhar. Douglas não era de Curthill. Se ele estivesse saqueando navios e estocando as mercadorias na vila, precisaria da ajuda de alguém conhecido e respeitado nas redondezas. Alguém como Comyn. Sim, tinha certeza de que Comyn tiraria vantagem da dedicação do pai a Félis e prepararia o próprio ninho. O pai deveria tomar conhecimento disso tudo e, talvez, esquecesse a prostituta e voltasse a se preocupar com o clã e com a esposa. Se saísse de fíninho e fosse lá para cima... Megan se assustou quando percebeu que Ross a olhava intensamente, ameaçador. Desafie-me e a puxo pelos cabelos. Satisfeito por Megan ter captado a advertência, Ross voltou-se para Comyn novamente. — Suas terras ficam longe daqui? Comyn fez uma careta. — Tenho uma torre minúscula numa terra ruim que Eammon me deu — resmungou, arrumando as peças do jogo de xadrez. Ross entendia o amargor de Comyn... não porque, como segundo filho, ele não fosse herdar nada, mas porque ele, Ross, herdaria as terras que ele amara desde a infância. O fato cruel era que isso acontecera à custa da morte do irmão. Achava o preço alto demais. — Vai me dar uma revanche? — perguntou Comyn, e Ross assentiu, embora já tivesse ganho duas vezes e MacDonnel, nenhuma. O xadrez era uma boa maneira de avaliar o caráter de um homem, pensou Ross. Quanto mais jogavam, mais certeza tinha de que Comyn não estava envolvido com o negócio de pirataria. Ele jogava bem, o jogo permanecera equilibrado até o último momento, até que Comyn ficara impaciente e cometera o erro fatal de interpretar mal sua estratégia de jogar meio estupidamente. Comyn atacara, expondo-se e caindo na armadilha que ele preparara muitas jogadas antes. Mas Comyn controlava a raiva. Se Megan fosse assim também, pensou Ross, dando uma olhada para onde ela estava sentada, concentrada num pergaminho, escrevendo, 70


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colocando no papel as lendas, sem dúvida. Parecia uma tarefa inútil. Escrever mentiras para corromper as gerações futuras. — E um adversário mais desafiador do que Megan — comentou Comyn, chamando a atenção de Ross de volta ao jogo. — Xadrez não é um jogo de mulheres. — Mas Megan não era comum sob vários aspectos... nenhum deles ruim. — Eammon a ensinou quando era criança, tratava-a como o filho que ele achou que nunca teria. — Devo confessar que não estava ansioso por conhecer Eammon, mas sua ausência contínua me deixou curioso. Acha que ele vai descer para jantar? Comyn moveu uma peça para atacar Ross. — Quem sabe? Ele ficou... imprevisível. O que quer saber sobre ele? Ross encolheu os ombros. — Nada. Tudo. É bom conhecer o inimigo — respondeu, com menos candura que o usual. De fato. Comyn avaliou o semblante de Ross. Quanto ele vira no depósito da cabana? Encontrara o esconderijo? De acordo com os guardas, Megan e Ross ficaram pouco tempo e não mexeram em nada. Mesmo assim, tinha a estranha sensação de que eles sabiam de alguma coisa. O que Comyn aprendera, jogando com Ross, era que ele fazia um jogo cautelosamente letal. — Se Eammon é seu inimigo, por que se casar com Megan? — Para o rei não banir o meu clã. Que nobre. Comyn franziu os lábios. Mas, claro, Ross podia ser nobre; era o herdeiro dos vastos domínios de seu pai, não um órfão, forçado a viver da caridade dos outros. Ross não se apaixonara pela irmã mais nova enquanto se comprometia com a mais velha. — Vai achar Megan insuportável — comentou. Ross franziu o cenho, deixando Comyn surpreso. — Infelizmente, uma língua ferina não é motivo para repudiar uma esposa — murmurou Carmichael. Não, mas uma perna aleijada é, pensou Comyn, e então, percebeu que ele não sabia. Como poderia usar esse fato? Por mais que quisesse Ross e Megan fora de Curthill, se ela desejasse esse casamento, seria divertido tirar-lhe esse prêmio. Devia-lhe isso por manter o paradeiro de Siusan em segredo. — Comyn, o que foi? Comyn voltou a atenção para Ross, que franzia o cenho. Ross não merecia saber sobre Megan... não ainda. Não, a menos que visse alguma 71


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forma de usar essa informação a seu favor. — Não, só estou planejando minha próxima jogada. — E era verdade. — Milorde! Lady Megan foi ver o pai! Ross virou rápido a cabeça para ver o lugar de Megan junto à lareira vazio. — Que droga! — Erguendo-se, ele saiu apressado do salão. Dois Carmichael o seguiram, uma lembrança de quão bem era guardado. Que droga de Megan, juntou-se Comyn. Vendo anos de trabalho ameaçados, foi atrás de Ross. — Duvido que Eammon a queira ver. — Félis tinha sido bem instruída para se livrar de visitas indesejáveis. Ao chegarem mais perto da torre nova, a voz de Megan chegou clara a seus ouvidos: — Saia da frente! Não tem o direito de me deter! Comyn chegou logo após Ross e viu Megan encarando dois soldados Carmichael e um de seus próprios mercenários. — Mas eu tenho, Megan! — bradou Ross, mãos nos quadris. Comyn se assustou ao ver a semelhança com Lion nesse momento de raiva. Tipicamente, Megan não se intimidou. — Me deixe passar. — Não. — Vou fazer o que for preciso para salvar o meu clã — disparou ela, e, nesse instante, Comyn soube que eles tinham descoberto o tesouro. — De todas as estúpidas, infantis... — Ross estremeceu, punhos cerrados. — Fique contente em não ser minha esposa ainda. Eu... eu a deixaria roxa por sua impertinência! Megan estremeceu e logo endireitou o corpo. — Não vai botar a mão em mim. Nem agora, nem quando estivermos casados. Há maneiras de punir os excessos dos maridos. — Bruxa — respondeu Ross. — Envenene minha comida e vai ter mais que hematomas. Agora, volte para o salão. — Tentou agarrá-la pelo braço, mas ela se desviou e subiu correndo as escadas. Que garota rápida, pensou Comyn, sombrio. O que evitaria que ela e Ross vissem Eammon? — O que está acontecendo? — chegou uma voz feminina, fazendo Megan estacar e Ross parar a perseguição. Félis. — Ora, é a pequena Megan — balbuciou Félis, descendo outro degrau, revelando pernas formosas, joelhos com covinhas. — Seu pai achou que era a sua voz nos perturbando. — Outro passo. O ambiente estava tão 72


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silencioso que se podiam ouvir as coxas nuas roçando uma na outra. Estaria Félis completamente nua? Que criativo, pensou Comyn, enquanto Megan engasgava e recuava, o rosto mais pálido que os topos nevados das montanhas. Os guardas esticavam os pescoços para ver o que a curva da escada ia revelar. Mesmo Ross parecia hipnotizado pela apresentação de Félis. Ela não estava nua, mas quase. Comyn a viu surgir inteira, as formas amplas emolduradas por cabelos ruivos compridos e uma camisa curta junto ao peito. Os mamilos estavam à vista através do tecido transparente, expondo igualmente as coxas. Estúpida que fosse, Félis sabia pintar uma cena carnal. Comyn sorriu e relaxou um pouco. — Oh, nossa. — Os lábios de Félis eram carnudos. — Todos vocês vieram para ver Eammon? Temo que ele esteja... dormindo. Estivemos muito ocupados esta manhã. — Pelos cílios, os olhos verdes exóticos avaliavam cada homem, parando em Ross. — Entende, milorde, quando a paixão segue quente e doce... — Sua voz era baixa e rouca. Se ele não entendesse, havia meia dúzia de homens com a língua de fora, pensou Comyn, sorrindo de leve. Félis ganhava uma porcentagem dos lucros, mas agora, estava valendo cada centavo. — Eu entendo perfeitamente — disparou Megan. — Os homens são estúpidos e manipuláveis como qualquer outro animal, quando estão no cio. Diga a meu pai que volto depois. — De cabeça erguida, desceu as escadas e partiu, batendo a porta de ferro atrás de si. — Se me desculpam... — A saída de Félis foi tão sensual e graciosa quanto a chegada. Ross limpou a garganta. — Pelo menos, ela deixa suas intenções bem claras — grunhiu, e saiu da torre. Comyn coçou o queixo, pensativo. Megan não tinha exatamente ameaçado envenenar o noivo, mas serviria. Era o modo perfeito de se livrar de Ross e Megan... sem se incriminar, nem a Archie. Tudo o que precisava fazer era encontrar a cesta de medicamentos de Megan e escolher o que queria. Ela seria a única culpada e ainda poderia dar um jeito de responsabilizá-la pela morte de Lion também, seria perfeito.

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CAPITULO 8 Megan entrou no salão para o jantar uma hora depois, muito nervosa. — O que foi? — perguntou Chrissy. Não queria incomodar a prima com suas preocupações, pois ela já sofrera bastante com um marido cruel, dois bebês mortos e, então, a viuvez. — Só estou nervosa. — Relaxe — sussurrou Chrissy em seu ouvido, enquanto caminhavam entre as mesas lotadas rumo à principal. — Provavelmente lorde Ross já esqueceu o incidente desta manhã com as pulgas de areia. Para dizer a verdade, Megan também já esquecera. O encontro na praia parecia ter acontecido havia tempos, e a irritação com as pulgas não se comparava ao perigo que encaravam agora. E ela só piorara as coisas tentando ver o pai. — Espero que ele possa perdoar todas as minhas transgressões de hoje. — Como foi o seu dia? — perguntou a mãe, enquanto Megan se sentava. — Ótimo. — Megan estava orgulhosa em conseguir esconder toda a preocupação. — E o seu? — Fiquei ocupada com os preparativos para o casamento. — Lady Mary suspirou, a expressão severa ao observar o salão. — Fora isso, meu dia foi tranquilo. A mãe também estava mentindo, percebeu Megan, de repente. E não era a primeira vez. Não eram mentiras maliciosas, mas meias-verdades que disfarçavam algum assunto desagradável ou doloroso... em nome do amor e do desejo de proteger o outro. Não me importo que seu pai mantenha uma amante, repetia a mãe vez ou outra, embora a dor fosse visível em seus olhos. Estou contente em ser a seanachaidh do nosso clã e não preciso de marido ou filhos, dissera Megan, quando, na verdade, cada bebê que ajudava a vir à luz lhe atiçasse o desejo de ter os seus próprios. Megan sempre encarara essas ficções como uma gentileza. Por que 74


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preocupar mamãe? pensara, negando que a perna ruim doía. Mamãe vai me achar desleal se disser que sinto a falta de papai, racionalizara, escondendo a tristeza. Agora, imaginava se Ross estaria certo sobre o inferno de vida construída sobre meias-mentiras. — Ouviu sobre nosso encontro com Félis? — perguntou, abruptamente. — Megan! — engasgou a mãe, pousando a mão no coração. — Nunca fale daquela... aquele nome odioso em minha presença. — Mas ela existe — declarou Megan, gentil. — Talvez se falarmos sobre ela, sobre o que nos aconteceu depois que ela veio... — Você acha que é culpa minha ele ficar com ela. — O lábio inferior da mãe tremia. — Sei que o idolatrava, sempre me achei muito rígida e fria. Mas não sabe como foi deixar tudo para trás e vir para cá. Curthill era muito pior do que agora, cheia de gente meio selvagem. Não havia damas nem para eu conversar, nada além de homens que viviam da pesca, caça e lutas. Seu pai me amava na cama e me ignorava o resto do tempo. Se fiquei fria foi porque ele não me deu a atenção devida. — Mamãe! — exclamou Megan, chocada com o desabafo. Por nada no mundo admitiria que houve época em que culpara a mãe pela situação. — Sei como papai pode ser irritante. — Irritante? — desdenhou a mãe. — Mesmo quando ele se digna descer, olha para mim como se eu não estivesse aqui. Oh, mamãe. Megan queria abraçar a mãe e dizer-lhe que tudo ficaria bem, mas essa seria a maior mentira de todas. A menos que um milagre acontecesse, suas vidas nunca seriam as mesmas. — Eu sinto muito mesmo, mamãe. — Pelo que papai fez, e por ter levantado esse assunto. Ross estava errado. A verdade não era melhor que a mentira. — Eu... eu quase acabei de listar os provérbios antigos — comentou, arrependida. Qualquer coisa para mudar de assunto. — Ah, boa tarde, senhoras. — Lorde Nigel se deixou cair sobre a cadeira à direita de lady Mary. Pelo rosto vermelho e pela mão incerta à procura da taça de vinho, concluía-se que passara o dia todo bebendo. — O lorde não vai descer para jantar — acrescentou, antes de levar a taça à boca. — Falou com ele? — perguntou lady Mary, espantada. — Não. Archie me disse — balbuciou lorde Nigel. — Ah, Comyn, seja bem-vindo. Sente-se aqui a meu lado. Concordando, Comyn olhou para Megan. Ele estava tramando alguma coisa, percebeu ela. Mas como provar? — Oh, Meg — sussurrou Chrissy. — Lorde Ross parece... 75


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— Pronto a roer as unhas ou o meu couro — murmurou Megan. Não podia deixar de comparar a entrada dele com a de Comyn, que parecia um rato. Embora fosse um estranho ali, Ross dava passos como um conquistador, forte, gracioso e comandante. A capa preta e vermelha fazia o contraste perfeito com seus cabelos negros e a pele bronzeada. Como ele era bonito... e zangado. De algum modo, tinha que lançar aquela energia contra Comyn. — Lady Mary. — Ross inclinou a cabeça e tomou seu lugar, evitando olhar para Megan. Megan sentiu ira instantânea. Pegando uma pequena faca, enterrou a ponta sobre a mesa bem próxima à mão de Ross. — Por tudo que é sagrado! — Ele retirou a mão, flexionando os dedos. — Por que fez isso? — Não vou ser ignorada em meu próprio salão. Ele arregalou os olhos. — Você é louca? — Queria a verdade entre nós, milorde — declarou ela, baixinho, só para ele. — E essa é a verdade. Ele abriu a boca e então fechou-a. Os lábios se franziram como que suprimindo um riso. — Você é esperta e tem a língua ferina. — Disse-lhe que nós combinávamos. — É mesmo? — Ele deu um sorriso enigmático, que suavizou suas feições. Gentileza. Ternura. O que acontecera para que ele escondesse esses sentimentos de si mesmo? E como poderia ela curá-lo do que o incomodava? Talvez com a verdade que ele tanto valorizava. — É mesmo. — Megan soltou um suspiro. — Peço desculpas — sussurrou — por querer ver meu pai esta tarde. Mas... — Com você, sempre tem um "mas". — Ele balançou a cabeça, desanimado. — A sua imprudência nos põe em perigo — grunhiu, baixo e áspero. — Vou dar um jeito nisso. — Nós daremos um jeito. — Megan. — Por baixo da toalha de mesa, ele agarrou sua mão. Pelo remexer do maxilar, ela esperava que ele tentasse esmagar seus dedos. Ao invés disso, ele entrelaçou suas mãos. — É um trabalho perigoso e difícil. Essas pessoas são assassinas. — Mas eu posso ajudar. — Ela apertou a mão dele, seu sorriso nunca conseguindo tirar o franzir de cenho dele. — Conheço as pessoas, eu... 76


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— Tolinha, acha que quero a sua morte na minha consciência também? — censurou ele. — Nem eu a sua, mas... — Vinho, milorde? — perguntou o escudeiro de Ross. — Vamos continuar essa discussão depois — decidiu ele, e pegou o vinho. — Milorde, eu ainda não experimentei — reclamou o escudeiro. — Pare de me tratar feito bebê. — Ele tomou dois goles, baixou a taça e fez uma careta. — Que droga, isso está mais azedo que o meu humor. Arranje alguma coisa mais doce. — Enquanto o escudeiro se apressava, Ross voltou a atenção para Megan. Os olhos azuis a fitavam intensamente, num desejo disfarçado que ela mesma não reconheceria, não tivesse sentido o toque em sua mão. De repente, sentiu vontade de testar o limite do controle dele. Olhando-o com os cílios baixos, murmurou: —Como vai o seu ombro? Sentiu que ele estremecera. — Não olhe assim para mim — advertiu, apertando carinhosamente a mão sobre a dela. Megan sorriu. — Queria a verdade. Me importo com você... — Não. Vai acabar se machucando. — E então mais baixinho: — Não tenho nada para lhe dar. Uma negativa desesperada parou na garganta dela, mas, antes que ela pudesse pronunciá-la, ele tremeu e soltou sua mão. — De repente não ficou frio aqui? — reclamou ele, abraçando o próprio corpo. — Está quente, milorde — respondeu o escudeiro, chegando por trás deles. — Sente-se mal? — Nunca fico doente. — Ross passou a mão pela testa. — Mas estou com sede. Onde está o vinho? Megan ergueu o olhar e pediu água ao escudeiro. A pele dele estava pálida; entretanto, gotas de suor se acumulavam em seu lábio superior. O que o acometera? Quando entrou no salão, estava robusto e cordial, no comando, como sempre. Agora, parecia... horrível. Ross gemeu de repente, afastando a cadeira e se dobrando, agarrando o estômago. — Owain! Andrew! — gritou o escudeiro. — Ross está doente. — Veneno! Ela o envenenou como ameaçara esta tarde. — bradou Andrew, saltando de sua cadeira numa mesa próxima e indo até o 77


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palanque. Não o envenenei — gritou Megan. Entretanto, todos os pensamentos quanto a provar sua inocência desapareceram quando Ross gemeu de novo. Estendeu-se para ajudá-lo, mas mãos firmes a detiveram. — Fique longe. Deixe-o sozinho — berrou Owain. — Mas eu posso ajudá-lo. — Ela forçou passagem, mas foi impedida com tanta violência que caiu na cadeira. Não intimidada, levantou-se, mas dessa vez foi Chrissy que a deteve. — Não, Meggie. Eles vão machucá-la. — Não me importo — gritou Megan. — Tenho que ajudá-lo. Sua voz foi abafada pelo pandemônio que se estabeleceu no salão. Os homens de Ross formaram um círculo protetor ao redor do lorde desmaiado, ergueram seu corpo pelos ombros e o levaram para os aposentos. O coração de Megan foi com ele. Se fosse veneno, ela poderia nunca mais vê-lo. —

— Façam alguma coisa! — gritou Andrew aos outros três homens que se juntavam ao redor da cama onde Ross estava deitado, tremendo, debaixo de vários cobertores. Seu rosto estava mais branco que o travesseiro, os olhos encovados e sombreados. — Não sei o que fazer — gritou Owain, fechando e abrindo os punhos. — Água — pediu Ross. — Estou... com... sede. — Tome. — Davey rapidamente levou um copo aos lábios de Ross, mas ele engasgou. — Nem pode engolir. — Está morrendo — sussurrou Giles. — Temos que fazer alguma coisa. Owain estremeceu. — O quê? Me diga o que fazer, e eu... — Me deixem entrar! — A porta se abriu e Megan entrou, seguida de perto por um soldado Carmichael. — Não consegui impedi-la — informou o soldado. —Assassina! — desafiou Andrew do canto do quarto. Megan estremeceu, mas se manteve firme, certa de que ele desistiria do ataque antes de alcançá-la. Ele parou. Mas não por escolha própria. Fora impedido por sir Owain. Seu corpo enorme estremecia de raiva e ódio e ameaçou: — Se Ross morrer, eu a mato. — Ótimo. — Megan ergueu o olhar para a montanha de músculos à 78


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sua frente. — Tudo o que peço é que me deixem ajudá-lo. Se ele não sobreviver, eu também não quero mais viver. — Belas palavras, mas pode salvá-lo? — perguntou Owain, cauteloso. Não sei. Escondeu o medo e a incerteza. — Sim. Estamos perdendo tempo. Se eu o quisesse morto, não faria nada e esperaria que o veneno o reclamasse. — Então, admite que ele foi envenenado — vociferou Andrew. — Até um cego pode ver isso. — Ross se debatia na cama, gritando de dor, enquanto Davey tentava em vão confortá-lo. — Mas pelo menos, sei o que deram a ele. Procurei em meu cesto de medicamentos e vi que está faltando o açafrão de outono em pó. —Ha! O veneno era seu — acusou Andrew. Chrissy tomou as dores de Megan. — Qualquer um no castelo poderia ter pego o pó — esclareceu. — Meg não fez isso. — Chega de conversa — disparou Megan. — Pode ficar ali com uma faca no meu pescoço, mas eu sou sua única esperança. — Deixe-a vê-lo — ordenou Owain, e o caminho foi aberto. — Quer que faça alguma coisa? — perguntou Davey, rouco. Megan ia recusar, então percebeu que ela e Chrissy não seriam capazes de segurar um homem tão grande e forte quanto Ross enquanto o tratavam. — Amarre-o na cama — ordenou ao escudeiro. Houve protesto, mas Megan não parou para explicar o porquê do procedimento. Meramente, esclareceu: — Ele vai se machucar se continuar se debatendo. — E não apreciaria os procedimentos a serem tomados para salvar-lhe a vida. Ross virou a cabeça sobre o travesseiro ensopado de suor. Seus olhos escureceram de fúria ao vê-la. — Bruxa — grunhiu. Megan se endireitou, com medo de que ele ordenasse que ela saísse e seus homens, por estupidez, o atendessem. — Depressa — pediu ela aos cavaleiros empalidecidos. Ela se ocupou dos medicamentos enquanto eles removiam suas roupas. Chrissy levou a panela com as ervas para ferver na lareira. O mais importante agora era retirar o veneno do estômago. — Segure a cabeça enquanto eu o faço beber essa mistura — ordenou Megan, quando Ross já estava decentemente debaixo dos lençóis. Conforme o previsto, ele se esquivou, lutando tanto quanto podia. Embora o sofrimento dele fizesse seu coração doer, ela não esmoreceu. 79


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Fechando suas narinas, abriu sua boca e despejou o líquido. Ele engasgou, engoliu e ficou olhando para ela. — Chrissy segure a bacia perto da boca. Davey fique pronto para segurar a cabeça sobre a bacia quando ele vomitar. — Isso vai salvá-lo? — perguntou o escudeiro. Megan suspirou. — Espero que sim. Se tivéssemos tratado com mais rapidez, a probabilidade seria maior. Como está... — ela suspirou mais uma vez. — Vamos fazer o que pudermos e deixar o resto com os deuses. As ervas ministradas agiram rapidamente. — Bruxa — grunhiu Ross novamente ao vomitar. Depois, fitou-a com os olhos vermelhos enquanto repousava sobre os travesseiros. — Não vou perdoá-la por isso. — Suas pálpebras estremeceram e se fecharam, e ele pareceu adormecer. — E eu não vou me perdoar se perder você. — Megan estremeceu ante a possibilidade, mas continuou trabalhando. — Rápido. Temos que ministrar a infusão de ervas. Isso vai manter seu coração batendo forte quando as convulsões recomeçarem. — Como sabe tanto assim sobre esse veneno? — exigiu Andrew. — Não é veneno em pequenas quantidades — informou Chrissy, com seu atrevimento usual. — É usado para tratar de gota e também para abortar. Às vezes, uma mulher resolve se tratar sozinha e toma demais. Há um ano, uma de nossas servas tomou açafrão de outono demais. Quando eu e Megan chegamos, era tarde. Owain olhou para Ross. — E quanto a Ross? — Não saberemos por algumas horas ainda — respondeu Megan, gentil. Horas longas e terríveis de sofrimento, se a experiência passada era uma amostra. Por mais que qui sesse remover o suor da testa de Ross, resistiu, não querendo perturbar seu descanso. — Essa calmaria é momentânea — murmurou ela. — Ele vai ter cólicas estomacais, convulsões, dificuldade com a respiração e ataques de febre antes que o veneno saia completamente. — Se sair. Aconteceu tudo o que Megan previra e mais. Ross se castigou pela morte de Lion e por Rhiannon. Até que parou e adormeceu de fato. — A... acho que a febre cedeu — sussurrou Megan. Sentado do outro lado da cama, Owain assentiu: 80


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— Não gostaria de passar outra noite assim. — Vocês dois deviam dormir — sugeriu Chrissy. — Vá em frente — murmurou Megan, esfregando a coxa esquerda sem pensar. — Vou ficar aqui mais um pouco para ter certeza. — Mas está exausta — declarou Chrissy. Na verdade, ela queria estar ali quando Ross abrisse os olhos. — Vá dormir, Chrissy. — Um momento. Vou acompanhá-la — ofereceu Owain. — Então, vou até lá embaixo para informar aos homens que Ross está fora de perigo. Megan sorriu levemente. — Obrigada por sua ajuda. — Eu fiz pouco. Ross estaria morto sem seu tratamento. Davey está adormecido ao lado da porta, se precisar dele. Megan olhou para o paciente. — Não, milorde está dormindo de verdade agora. Não vai acordar nas próximas horas. Megan suspirou. Ross não parecia tão forte e autoritário agora. Apesar do contorno escuro nos olhos que enfatizava a palidez da pele, seu semblante estava relaxado. Ele parecia anos mais jovem do que o homem sério e zangado que chegara a Curthill dois dias antes. Tão forte, e no momento, tão vulnerável. Sabendo que ele estava fora de perigo, ela sentiu prazer ao imaginar que ele estaria fraco como um bebê nos próximos dias, e ela aproveitaria para reforçar a ligação entre eles. Por um momento, ele a fitou, os olhos claros e desprotegidos pela primeira vez. E ela soube que ele era seu par, sua alma gémea, seu amor... —Você — suspirou ele, a fala era difícil. — O que aconteceu? —Salvei sua vida. — Pouco modesto, mas verdadeiro. E ela precisaria de toda vantagem... razoável ou quase... para ganhá-lo. Ele franziu o cenho. — Papai sabe que encontramos a caverna e me envenenou. Megan suspirou profundamente. — Quem quer que o tenha envenenado queria assegurar uma morte lenta e dolorosa. — Parece que lhe devo minha vida uma segunda vez. — Meu vestido de noiva está pronto e pretendo usá-lo daqui a dois dias. — Megan, não queria magoá-la. —Mas o rei ordenou que nos casemos, e nos desejamos... 81


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Ele a queria. Deus, como ele a queria. Mas se sentisse algo além de ódio por uma Sutherland, sentiria imediatamente culpa, a qual certamente deterioraria todo o amor. — É necessário mais que paixão para um casamento — balbuciou ele. — É preciso respeito e... — Confiança — completou ela. — Salvei sua vida... pela segunda vez, e o levei àquela caverna maldita. Que mais preciso fazer para ganhar o seu respeito e a sua confiança? Nada. Ele é que não a merecia. Seu desejo por Megan traía sua família, seus valores, sua honra. — Meg, é muito complicado... — Não, acho que é muito simples. Você nos nega um futuro juntos porque me culpa pela morte de Lion. — Não! — Ross se esforçou para respirar. — Você não matou Li... — Mas você acha que sou responsável pelos pecados de meu pai. — Sim. —E vai continuar achando, mesmo após o padre celebrar nosso matrimónio? — perguntou ela. Ross sentia a mesma agonia dela. — Mesmo se aprendesse a confiar numa mulher, mesmo se conseguisse viver com minha culpa, minha família nunca aceitaria a filha do assassino de Lion. — Por quê? Não fiz nada a seu irmão a não ser amá-lo por ele mesmo. — Megan foi tomada por desespero. — E essa Rhiannon? Sentese culpado porque preferia casar-se com ela? — disparou. Ele a fitou, o olhar sombrio. — Onde ouviu esse nome? — Você o chamou várias vezes quando estava febril. — Nunca mais o pronuncie. O que ela é para você? Mas Megan engoliu as palavras, com medo do que ouviria. Talvez Chrissy pudesse descobrir por intermédio de Owain. — Estou cansado. — Ross virou a cabeça para a parede e adormeceu. Megan sentiu um estremecimento. Se se casassem, sua vida poderia ser a repetição da de sua mãe.

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CAPITULO 9 — Milorde? Aonde está indo? Que droga. Ross parou e voltou-se para o frio que descia as escadas atrás dele. Owain, Davey e Sim, o guarda que ele ordenara expressamente para ficar. — À latrina — disparou ele, visivelmente impaciente após um dia inteiro nos aposentos. Os três homens pararam e trocaram olhares. — Lady Megan disse que não devia sair da cama — informou Davey. Owain assentiu. — Lady Megan disse que está fraco, pelo ferimento no ombro e pelo veneno. — Não estou. — Bem, só um pouco, mas porque fora forçado a ficar na cama o dia todo. — Já se esqueceu do que aconteceu ontem? — pressionou Owain. —Eu me lembro — murmurou Ross, pensando em Megan. Ela o amava. Vira em seus olhos ao acordar depois das terríveis convulsões. E seria muito fácil corresponder a esse sentimento. Então, a fria razão entrou em cena. O que ele tinha a lhe oferecer? A família a desprezaria; ele se sentiria culpado toda vez que a tivesse nos braços. Megan merecia mais que isso. Ross se virou e saiu para o pátio, seguido pelos três homens. Acabara de anoitecer e a luz no alto da torre nova estava acesa. — Eammon desceu? — perguntou ele. — Não. — Owain se endireitou, desconfortável. — Não gosto disso. — É estranho, mesmo para um homem embriagado pela amante. — Claro que ele o evitava para esconder a culpa — interpôs Davey. 83


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— Teve notícias de nossos homens enquanto estive doente? — Nada. Nenhum sinal do navio — começou Owain. — Ninguém esteve perto da loja do alfaiate ou do depósito, exceto os dois homens que fazem a guarda. — Suspirou. — Amanhã é o casamento e não encontramos nenhuma ligação entre Eammon e a morte de Lion, tampouco prova de que ele é um saqueador. O que vai fazer? — Me casar com ela. Que escolha eu tenho? — Chrissy diz que a prima é um anjo, dedicada a curar os doentes e às tradições. Chrissy diz... — Chrissy, é? — Ross ergueu uma sobrancelha. — Já está nesse tratamento com a pequena camponesa loura? — Chrissy não é camponesa — corrigiu Owain. — E você sabe que não posso me casar enquanto não recuperar as terras de minha família. — Está pensando em casamento, Owain? — Não posso, embora ela seja tão doce quanto as galesas. — declarou ele, muito orgulhoso. — Depois que minha Ellen faleceu, não tive mais vontade de amar. — Um leve sorriso surgiu em seu rosto. — Mas as mulheres Sutherland têm um jeito de se esgueirar para dentro do coração de um homem... — Owain. — Ross engasgou, incapaz de acreditar no que ouvia. — Pense no que aconteceu a Lion... e no que aconteceu conosco desde que chegamos aqui. Dois atentados à minha vida em dois dias! — E todas as vezes a sua senhora o salvou. — Ele riu. — Ela tem o coração de um guerreiro... de uma leoa. — Ela é teimosa, impetuosa e... e tão imprevisível quanto o vento. Ela transformaria a minha vida num inferno. — Ou no paraíso. Não. — E ela saiu perdendo no acordo. — Ross estremeceu. — Meu pai vai descontar o ódio nela. — Você se importa com ela — observou Owain. — Senão, não se importaria com seus sentimentos. — Só estou agradecido porque ela salvou a minha vida duas vezes. — Ross Carmichael! — berrou uma voz que não tinha nada de angelical. Antes que ele pudesse fugir, Megan se materializou saindo da escuridão. — O que está fazendo aqui? — inquiriu, mãos nos quadris, cabeça erguida, olhos faiscantes. Magníficos, pensou ele, a princípio. — A latrina. Vai me seguir até lá também? — Se quiser — retrucou ela, encolhendo os ombros e dando um 84


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leve sorriso. — Mas é melhor nos apressarmos ou o seu jantar esfria. Ross se sentiu enjoado. — Não estou com fome. — Que homem teimoso. Precisa recuperar suas forças. — Ela deixou de sorrir. — Trouxe pão e mingau que vão acalmar o seu estômago, e Sir Andrew ficou o tempo todo a meu lado para se certificar de que eu não envenenaria a comida. — Como Andrew foi capaz disso, depois de você ter salvo minha vida na noite passada? — perguntou Ross, indignado. — Ele ainda está lá guardando a comida. Agora, se se apressar com seu... assunto. — Ela ergueu uma sobrancelha delicadamente, fazendoo ruborizar. Que droga. Nenhuma mulher jamais o fizera ruborizar. — Davey, fique com lady Megan — grunhiu Ross. Ela era mais feiticeira do que anjo, pensou, enquanto ia à latrina com Owain nos calcanhares. No dia seguinte, ele se casaria com uma mulher a quem desejava, mas a quem nunca amaria, e deixaria Curthill com a morte do irmão ainda mais envolta num mistério mais impenetrável do que a torre sombria que o lorde ocupava. Passava da meia noite quando Comyn saiu pelo portão dos fundos de Curthill em direção à praia. — Já não era sem tempo — reclamou Douglas. Comyn ergueu a cabeça. — Os homens de Carmichael estão vigiando. Levei tempo para escapar — explicou. — Pensei que tivesse dado um jeito nele. — Algo deu errado. — Megan. Outro ponto perdido para ela, mas ele ainda se vingaria. — Carmichael se casa com ela amanhã e logo irão embora. Megan não deixaria Curthill sem ver a irmã. Comyn colocara homens vigiando-a dia e noite, e logo ela o levaria até Siusan. — Vem uma tempestade aí — informou o capitão. — Preciso carregar o navio esta noite... e sair com a maré se tenho que chegar a Londres dentro do prazo. — É arriscado demais. Carmichael tem homens em toda parte. Sabe sobre a caverna. O navio fica enquanto Ross não partir, e Lorde Nigel junto com ele. 85


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O Falcão é meu navio. Eu digo quando navegar e quando não — disparou Douglas. — E só receberemos se entregarmos no prazo. — Não me importo em perder dois pedidos. Vamos esperar. — Espere o quanto quiser... Eu vou navegar. Ficaram se enfrentando silenciosamente por segundos.. — Pelo menos espere até amanhã... quando a atenção de todos estiver voltada para o casamento. — Comyn odiava o tom de imploração. Depois que os MacKay tinham exterminado sua família, jurara que nunca desceria tão baixo novamente. Douglas desdenhou e cuspiu na areia. — Quando? — O casamento está marcado para as cinco da tarde. — Ótimo. Vou começar a carregar e parto com a maré da meianoite. — Meu único problema é fazer Eammon comparecer ao casamento. — Meu conselho é de que não dê ópio nenhum hoje. E só um pouco amanhã, só o suficiente para deixá-lo alerta, mas não doido. Comyn assentiu. Douglas era o especialista nesse assun to; fora ele que conhecera o ópio no Oriente e sugerira seu uso para seus propósitos, e também o fornecia. — Estamos de acordo, então. —

— Ainda acho que devia usar o azul — opinava Chrissy, gentil enquanto erguia o vestido para Megan inspecionar. — O dourado da borda favorece os seus cabelos louros e o azul deixa sua pele cremosa como o leite. — É adorável, mas... — Sentada num banquinho junto à lareira, Megan franziu o cenho. — Me deixe ver o vermelho novamente. — Suspirou. — Por que tudo está demorando tanto hoje? Por que nada está dando certo? Chrissy olhou para a cama de Megan. Sobre a colcha, havia uma profusão de cores brilhantes, em seda e em veludo, dezenas de vestidos experimentados durante horas desde que tinham acordado. Todos jaziam agora, rejeitados por não serem suficientemente especiais. — Só está nervosa, querida. — Não estou nervosa. Só com frio. — Tremendo, Megan cruzou os braços sobre a blusa de linho fino, que era a única peça que usava. — Acha que Ross já viu o meu presente? — Janet voltou há uma hora e disse que o entregou nas mãos do 86


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escudeiro — respondeu a mãe, gentil. — Talvez não sirvam. — Megan mordeu os lábios lá vermelhos. — Ou ele não goste. — Megan. Precisa escolher um vestido — declarou Chrissy, antes que a mãe da noiva começasse a lamentar a ingratidão dos homens. Já era ruim Megan achar que Ross não queria se casar com ela. Por outro lado, Owain dissera que o lorde estava muito mais encantado com Megan do que admitia... até para si mesmo. — Voto no azul. O que acha, tia? Lady Mary piscou, saindo de seus pensamentos, e assentiu. — Eammon podia ter a decência de comparecer hoje — resmungou lady Mary só para Chrissy. — Se decepcionar Megan em seu casamento, nunca o perdoarei. Assentindo, Chrissy olhou para o outro lado da sala, onde Megan sorria com os olhos brilhando. — Ela ama lorde Ross. — Sim. E isso dá pena, pois ele não a ama. — Mas pode vir a amar algum dia. De acordo com Owain, lorde Ross está confuso sobre seus sentimentos. — Todo homem quer filhos... para continuar sua linhagem — Oh, tia. Havia me esquecido sobre aquilo. — Na verdade, queria esquecer todo o episódio do acidente. — Vai contar a ela? Lady Mary balançou a cabeça e desviou o olhar. — Eu... eu sou tão covarde. Já comecei uma dezena de vezes, mas ela tem tão pouca alegria, e tem sido tão forte, eu... eu simplesmente não pude... — O que as duas estão cochichando? — protestou Megan — Mamãe. O que foi? — Pediu para a criada parar de pentear seu cabelo. — É papai? Ele não vai vir para o casamento? — Na... não — disfarçou a mãe. — Quero dizer, espero que ele venha. — Então é Ross. Ele fugiu? — Não — declaram as duas. Alguma coisa estava errada. — Mamãe. Me diga o que... Uma batida na porta encerrou o interrogatório. — Meg. É da parte de lorde Ross. Megan abriu uma caixa cuja tampa e laterais eram de coradas com entalhes complicados. Dentro, era forrada com veludo vermelho, a embalagem perfeita para um colar tão fino e delicado quanto uma teia de aranha. 87


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Veja, a pedra no centro é âmbar — sussurrou, atônita e

encantada. — Sinal de boa sorte. — Chrissy a beijou no rosto. — Estou tão surpresa que Ross tenha me comprado al guma coisa, sabendo como se sentia quanto aos Sutherland e ao casamento. — Owain acha que vai dar tudo certo. — Oh, Chrissy, de verdade? — Houvera um momento no dia anterior quando ela juraria que ele... que ele se importava com ela. E então tiveram toda aquela conversa sobre culpa e sobre Rhiannon. — Owain contou alguma coisa sobre ela? Chrissy balançou a cabeça. — Owain disse que Ross mesmo devia contar essa história. — Naturalmente — aceitou Megan, voltando-se para ter o cabelo arrumado. Finalmente, as gaitas chamando todos para o casamento soaram. — Pensei que nunca chegaria a hora — resmungou Megan. Desceu as escadas da torre apressada, cruzando o pátio com Chrissy e a mãe nos calcanhares. Quando chegou à capela, estava sem fôlego de excitação. Mas onde estava o noivo, que deveria estar na porta para saudá-la? — Você o está vendo? — perguntou Megan, ansiosa, ficando na ponta dos pés para ver sobre os presentes. — Talvez ele tenha entendido mal e esteja esperando dentro. — Erguendo a saia, pensou em entrar. Chrissy a agarrou pelo braço. — Dá azar cruzar a porta sem o noivo. — Oh, ora. — Megan recuou dois passos. — Como podia, a mantenedora das tradições, ter-se esquecido? Pode procurá-lo? Não foi necessário. Ross se materializou junto à porta, muito bonito com uma capa preta de veludo que acentuava o azul de seus olhos, que se arregalaram satisfeitos com a imagem dela. — Você está encantadora — murmurou ele. — O... obrigada pelo colar — murmurou ela, de repente tímida. Ele sorriu e parecia que o sol estava dentro dele. Dentro dela. — A roupa me serviu bem. Venha. — Ele agarrou sua mão. Confusa, Megan começou a ir, mas estacou. — Se sair e me conduzir... — Por quê? — É um de nossos costumes. — Que droga, ela não queria arruinar um bom começo por causa de superstição. Atrás dela, as pessoas riam, chamando-a de noiva relutante. 88


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— Há um velho ditado que diz que a noiva que atravessa a porta da capela sozinha vai viver a vida de casada sozinha — esclareceu Comyn, que acabara de chegar. — Quero agradá-lo, milorde, mas... — Acho que lhe devo um favor ou dois — declarou ele, voltando atrás, tomando-a pelo cotovelo e conduzindo-a para dentro. — Mudou de ideia sobre querer se casar? — sussurrou ela. — Aqui está um homem sábio que sabe quando deve parar de lutar. — Lógica fria, mas seu olhar ardente a aquecia completamente. Finalmente estava acabado. O irmão Simon os declarou marido e mulher. — Pode beijar a noiva — permitiu o religioso. Megan esperava um beijo frio, um gesto público. Ao invés disso, lábios quentes pousaram nos seus, movendo-se possessivamente, deixando-a sem fôlego. — Oh — suspirou, quando ele ergueu a cabeça, instantes depois. Acabara tão rápido. — Nunca disse que não a queria. — Os olhos dele brilhavam de desejo. — Venha, sua gente está à espera. Megan assentiu, incapaz de falar, sentindo um nó na garganta. Tinha a visão borrada quando se voltou para a congregação e viu o pai sentado nas sombras no fim da primeira fila. — Papai! — Ela teria corrido se Ross não a detivesse. Ainda bem, pois percebeu que Félis estava ao lado dele. — Como ele se atreve... — Ele é o lorde aqui — lembrou-a Ross. — Mas um homem capaz de desgraçar a mulher e a filha pode fazer coisas muito piores. — Acho que devo ficar agradecida por ele ter vindo. — Eu certamente estou. Não o deixe ver que a magoou. — murmurou Ross, junto ao ouvido de Megan. Megan piscou, encantada com sua preocupação. — Ele não pode mais me magoar. Só você tem esse poder. As palavras de Megan o assombraram enquanto iam para o salão. Pouco depois, durante o banquete, Ross viu Owain e Wee Wat se retirarem. Pelas expressões, achava que tinham des coberto alguma coisa e ele estava morrendo de vontade de saber o que era. Davey se inclinou para servir vinho e sussurrou no ouvido de Ross: 89


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— Wee Wat encontrou alguns papéis... e disse que vão ficar até depois da festa. Ross assentiu. Olhou para o rosto feliz de Megan, e sentiu um nó na garganta. Não queria magoá-la. Ouviu-se um grito anunciando a chegada da comida. — O que é isso? — perguntou ele, apontando para um pudim. — Gelatina. — Megan mergulhou uma colher e ofereceu-a a ele. — Não é peixe — garantiu. — É alga, fervida com leite. Ciente da presença do cozinheiro ali perto, Ross experimentou um pouco, engolindo duas colheradas. — Delicioso — elogiou, com esforço. — Viu? Nem você deixa de dizer uma não verdade para proteger os sentimentos de alguém — comentou Megan, quando o cozinheiro se afastou. Ross quis negar, mas então, suspirou. — Há alguns dias você chamaria de gentileza, não fal sidade. — Riram juntos e os demais também se divertiam à medida que os pratos iam se sucedendo acompanhados de vinho. Logo pediram para que Megan contasse um história. Sua presença cénica era fantástica, pensou Ross. Ela prendia a atenção de toda a audiência de tal forma que não se ouvia nada além de sua voz, transportando-os para outro tempo, quando os deuses interagiam com os homens. Ao encerramento, seguiram-se aplausos e batidas de pé animados. Ross se ergueu para ir até ela no centro do salão, mas várias moças chegaram antes, ornamentando seus cabelos com flores. — É algum tipo de ritual pagão, não é? — murmurou Ross. — Não aprova? — perguntou lady Mary. — Não cresci com tais... — Bobagens, quase disse, mas não parecia mais assim. — Crenças. — Era bem melhor. — As lendas mantêm o povo forte e unido — completou lady Mary. — É verdade — comentou Ross. — Quase podia gostar desses Sutherland selvagens e impetuosos. — Milorde. Se puder ter uma palavra em particular — pediu Owain. Agradecido pela oportunidade, Ross se levantou, fez uma mesura a lady Mary e desceu do palanque. Enquanto atravessavam o salão, Ross instintivamente tentou avistar a cabeça loura da esposa, estranhando sua ausência. Já no pátio, Ross respirou fundo o ar frio e salgado. — Fico imaginando se os Sutherland lutam tão bem quanto brincam. 90


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Owain franziu o cenho. — Teremos a oportunidade de descobrir. — Descobriu alguma coisa? — Talvez — Wee Wat saiu da noite para responder. Rapidamente, narrou a rápida busca que efetuara nos aposentos da torre de Eammon. Retirou um pergaminho da túnica. Ross desenrolou o documento e viu uma lista de mercadorias. — Devem despachar esses itens com destino a Londres em uma semana — resumiu Wee Wat. — O navio que vimos no porto. Nossos homens juram que não foi carregado naquela noite. — Ah. — Ross estreitou o olhar. — Se Douglas não sair logo, não chegará a tempo para realizar o negócio em Londres. — Ele deve partir esta noite, — concluiu Wee Wat — enquanto todos celebram no castelo. — Temos homens vigiando a cabana? — Owain assentiu. Ross passou a mão pelos cabelos. — Mande alguém lá. À praia também. Eu iria, mas temo que sintam a minha falta aqui. — Sim. A cerimónia nupcial deve ser em breve. — Owain riu. — Vão querer você lá nessa hora. Ross encolheu os ombros e sentiu os órgãos se enrijecerem ao pensar que logo estaria na cama com Megan. — Se descobrir alguma coisa, me avise — acrescentou ele. — Isso é importante o suficiente para interromper minha noite de núpcias. — Vamos lhe dar uma hora ou duas — brincou Owain. Ouvindo as gozações de Owain, Ross foi em busca de Megan, ansioso para passar para o estágio seguinte da festa. A cerimónia nupcial. Aquilo em que pensara desde o instante em que ela cruzara o caminho de Zeus. Passou pelo salão e foi à cozinha, onde ela devia estar. Estava. De costas para ele, as mãos agitando-se nervosamente. Ross se enrijeceu, querendo protegê-la de quem quer ou o que quer que... Megan se enrijeceu de repente, expondo a pessoa com quem estivera conversando. Um garoto, ruivo, com o maior nariz que Ross já vira... Não, já vira aquele nariz antes... no rosto de George, o alfaiate. Este, portanto, era o misterioso Lucais. O garoto que tinha o segredo do assassinato de Lion.

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CAPITULO 10 — Lá está ela! Megan se virou. No pátio, viu uma horda de mulheres animadas aproximando-se apressadamente. — Chegou a hora! Chegou a hora! — alardeavam. Da cerimónia nupcial. Instintivamente, ela tratou de tirar o garoto de vista, ordenando: — Esconda-se entre as mesas. Eu... eu volto assim que puder e nós combinamos como ajudarei minha irmã — sussurrou, por sobre o ombro. — Mas, milady... Certamente não pensa em trazê-la e ao bebê sem proteção. Precisamos de uma guarda. — Meu novo marido tem homens, guerreiros treinados. — No dia anterior, não confiaria em Ross para ajudá-la. Mas agora era diferente. Ele se mostrara tão... tão gentil, tão descontraído e amigável. Ele a ajudaria. Tocou no amuleto que fora seu presente de casamento. — Vá, Lucais, esconda-se. Na cerimónia nupcial, quando ela ficaria nua para a inspeção do marido, suas cicatrizes seriam finalmente expostas. Ele se importava o bastante com ela para ignorá-las? Bom Deus, por favor, faça com que ele não me repudie. Logo, as senhoras chegaram ao aposento nupcial... e então, gritos e batidas de pés chegavam pelas escadas. — Estes são os homens — choramingou Chrissy. Com gracejos e algum resmungo sobre a falta de agilidade das mãos, as mulheres começaram a tirar a roupa de Megan. Despiam-na da blusa de linho fino quando os brados e risadas dos homens anunciaram a chegada de Ross. Megan espalhou os cabelos para esconder o máximo da nudez. A porta 92


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se abriu e Ross apareceu carregado nos ombros dos bêbados. Tinham lhe tirado a capa e a túnica e estavam tirando sua calça, determinados em entregá-lo tão nu quanto a esposa que o aguardava. Imediatamente, ele a localizou, os olhos azuis brilhantes se escurecendo de desejo. Megan sentiu o impacto, seus músculos se liquefazendo quando ele percorreu seu corpo com o olhar. Era isso. O momento pelo qual esperara, cheia de desejo. Balançando, ela afastou os cabelos, e ele arregalou os olhos, maravilhado, admirando seus mamilos, descendo o olhar. Mais para baixo. Ele estava olhando para seu quadril. Oh, Deus. Ela moveu as duas mãos para a lateral, tentando esconder as cicatrizes terríveis. Mas era tarde demais. — O que foi isso? — indagou Ross. Franzindo o cenho, livrou-se dos companheiros e avançou na direção de Megan. Oh, era pior do que ela imaginara. Indiferente aos sons atónitos das mulheres, ela recuou até se sentar sobre a cama. — Você... você se machucou assim na outra noite? — A preocupação dele deu-lhe coragem para falar. — Não, eu... foi há muito tempo, e... — E tentei superar. Por favor, não me repudie. — E por isso que manca? E eu me senti culpado. Pensei que fosse responsável por algum ferimento, e esse tempo todo... outra mentira. — Eu poderia repudiá-la por isso. Lorde Nigel abriu passagem entre a multidão. — Ela só manca um pouquinho. Ainda vai lhe ser útil. Vai dar um punhado de filhos. Megan conseguiu discernir um lamento de Chrissy. Que droga. Ela era um ser humano, não água ou outra mercadoria. Endireitando os ombros, olhou bem para Ross. — Se planeja me repudiar, então repudie. Vou pegar um resfriado se continuar assim aqui na frente de seus amigos. — Deixem-nos a sós — grunhiu ele, dispensando a multidão com um movimento de mão. — Vai repudiá-la? — perguntou Lorde Nigel, ansioso. Ross suspirou profundamente. — Darei a resposta amanhã. — Não. — Megan bateu o pé descalço. — Não sou uma égua para você testar para ver se gosta do galope, e então... — Tenho certeza que gostarei do seu galope — desdenhou Ross. — Mas já que você mente bem, talvez eu nem seja o seu primeiro cavaleiro. 93


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— Oh! — indignou-se Megan. — Ouça aqui. Minha filha está tão pura quanto no dia em que nasceu — defendeu lady Mary. — Como se pudesse acreditar em alguém por aqui — desdenhou Ross. — Um grupo de mentirosos que espero não encontrar no purgatório. — Isso é muito irregular — resmungou Lorde Nigel. — Mas o rei está ansioso para um laço de sangue, e Ross concordou em ignorar a deficiência, se ela for virgem.Que assim seja — decretou. — Pela manhã, se o lençol estiver limpo e Ross assim desejar, poderá rejeitá-la. — Saiam do aposento — ordenou Ross. Lady Mary pôs Megan na cama, reclamou da atitude rude e sem coração dos homens e fechou as cortinas do dossel. Megan permaneceu quieta, cada célula do corpo tentando adivinhar o que o executante tinha em mente, mas o aposento fora das cortinas estava silencioso, exceto pelo crepitar do fogo na lareira. Sem aviso, a cortina foi aberta. — Então, sobre o que mais mentiu? — desdenhou ele, amarrotando o veludo da cortina com as mãos. — Sobre o negócio ilegal de seu pai? Sobre a morte de Lion? — Não — assegurou ela. — Não acho que meu pai esteja envolvido, e a... acho que a morte de Lion foi um... Ele começou a andar pelo aposento, as mãos nos quadris. — Em princípio, pensei que soubesse sobre a minha perna — começou ela. — Quando percebi que você não sabia, queria tanto ser sua esposa e achei que você... você se importava comigo, também. Pensei... — Não dou a mínima importância à sua deficiência. — O franzir de cenho diminuiu levemente. — Exceto que você deve ter sofrido muito. Se tivesse me contado desde o início... — Você teria me repudiado antes... — Talvez. — Ele voltou a franzir o cenho e passou a mão pelos cabelos já revoltos. — Todas as mulheres parecem ser naturalmente mentirosas, e vocês, Sutherland, parecem ter feito disso uma arte. Mas quero a verdade, agora. — Aproximou-se dela, ameaçador. — Juro que não vai sair deste aposento antes de me contar tudo... começando pelo paradeiro de sua irmã. Ela está escondendo o nome do assassino. — Está enganado. — Mas Megan sabia que a irmã guardava algum segredo que não ousava contar nem a ela. — Ha! Estou no caminho certo. — Não sei onde ela está. — Mas Lucais sabe. Alivie sua consciência de outra mentira — 94


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desdenhou ele, quando ela ficou boquiaberta. — Eu a vi esta noite com ele. — Minha pobre irmã não sabe de nada. — Não vamos sair daqui enquanto eu não souber onde ela está. — Ele foi até a lareira, deixando-se ficar numa cadeira. Mesmo zangado, ele era bonito, forte e leal à sua família. — Acha realmente que eu não sou virgem? — perguntou ela, após um longo silêncio. — Isso importa? — Para mim. Mais do que posso dizer. — Megan olhou para as mãos, brancas de tanto apertar as cobertas. — Há uma maneira de provar a você — comentou, tímida. — Espera que durma com você? —Estava bem ansioso por isso antes. Ele ficou mais zangado. — Como Rhiannon, você me iludiria com a luxúria. Mas não desta vez. — Vai voltar atrás com sua palavra? — Nunca disse que dormiria com você. — Sim, disse... quando trocamos os votos. E amanhã, quando as mulheres vierem inspecionar os lençóis e o encontrarem limpo. Vão... vão achar que eu não era pura. — Deixe que pensem. Tudo o que me importa agora é encontrar sua irmã e arrancar a verdade dela. — Ele agarrou a garrafa de vinho e levou aos lábios. Megan gelou e desistiu da ideia de confiar nele. Não, era responsabilidade dela, agora. O medo que sentia não tinha nada a ver com a jornada até o castelo de tia Brita e sim com a perspectiva de ter que cavalgar novamente.

— Milorde? Ross despertou e viu o rosto curioso de Owain. — O quê? — Bati na porta e o senhor não atendeu. Ross grunhiu. A dor latejante na cabeça indicava que bebera demais na noite anterior. Franziu o cenho, tentando se lembrar do que o levara ao... Casamento. As mentiras de Megan. Grunhindo novamente, virou a cabeça para ver seus grandes olhos castanhos, mas o lugar estava vazio. 95


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Megan? — resmungou. — Ela não estava aqui quando entramos — informou Davey. — Por tudo o que é sagrado, se ela fugiu... — Sentando-se, ele afastou os lençóis. Estava nu, mas não se lembrava de ter tirado a roupa. Pior, uma mancha vermelha estava sobre o lençol. Sangue. Oh, Deus. Ele ficara bêbado e dormira com a esposa que jurara não tocar. Droga. Droga. Ficou zangado consigo mesmo; a visão daquele sangue... sangue demais... o alarmou. E se ele a tivesse machucado em seu ódio e paixão irracionais? — Levante-se. Temos trabalho — bradou Andrew, fazendo Ross voltar a atenção novamente aos três homens que o aguardavam. — O que foi? — Estão carregando o navio. — Davey já trazia suas roupas. — Finalmente a sorte nos sorri! — exultou ele. — Depois que o deixamos mais cedo, fomos até a vila — explicou Davey. — Os dois homens que deixamos de vigia estavam mortos — grunhiu Andrew. — Esperamos várias horas até que vimos o navio navegar e percebemos que ele estava a caminho — acrescentou Owain. — Quando foi isso? — Ross soube que fazia umas duas horas. — Por que não me chamaram? Os três homens olharam para a cama. — Achamos melhor dar-lhe o máximo de tempo possível. Se tivessem chegado antes... pensou Ross, sombrio. — Tudo está pronto. Nossos homens deixaram o castelo em pequenos grupos e estão guardando a vila e a praia. Wee Wat está esperando com um bote para nos levar até O Falcão Negro. — Ótimo. Vamos, então. — Prendendo o cinto da espada, Ross saiu sem olhar para trás. Era provável que Megan tivesse ido procurar conforto com a mãe. Wee Wat e Owain remaram com habilidade até o porto. — Parece que chegamos a tempo. Agora, só precisamos encontrar provas — murmurou Ross, quando se aproximaram do navio. — Vamos amarrar o bote na corda da âncora. E eu... — Você vai ficar aqui — decretou Owain. Ross balançou a cabeça. — Não. Sou o único que lê em francês e inglês. — Aquilo silenciou Owain, temporariamente. Subiram pela corda. Ao chegar à amurada, Ross viu que os homens 96


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estavam de costas, ocupados com o embarque de mercadorias. Subiram e se esconderam num canto escuro. Ross avaliou a distância que precisaria percorrer até a cabine do capitão. Vendo um tonel de vinho por perto, virou-o e o empurrou em direção dos marujos. — Cuidado — gritou, enquanto o vinho espirrava em todas as direções. Alguns marujos tentavam tapar as aberturas e outros aproveitavam para molhar a garganta. Rindo, Ross subiu as escadas e abriu devagar a porta da cabine. Vazia. Uma vela queimava sobre a mesa onde estavam pousadas duas canecas. O capitão estivera ali, recentemente... com companhia. O recluso Eammon Sutherland? Ross foi até a escrivaninha e revirou os papéis que estavam espalhados. Não encontrou nada suspeito. Vasculhou as gavetas. Encontrou uma pequena arca onde havia a descrição da carga do Fleur de Brittany, saído de Calais com destino a Londres. Ross leu a lista em voz alta. — Espere.. Algumas dessas mercadorias estavam na lista que achei no aposento de Eammon. Estão vendendo os saques aos próprios donos originais. Ross encontrou também o diário de bordo do navio. Lia-se por último: Sob ataque pirata. Não têm bandeira, mas o navio é O Falcão Negro. A quem encontrar este diário, saiba que meus homens lutaram com bravura. Piratas. O Falcão agia longe de Curthill, trazia as mercadorias para serem restauradas e revendidas... aos proprietários originais ou a algum outro nobre insuspeito na longínqua Londres. Lion morrera para que aquele negócio escuso continuasse. Mas os assassinos não permaneceriam impunes por muito mais tempo. — De algum modo, vamos vingar a morte desses marinheiros — murmurou Ross, enquanto selava a pasta de couro com cera de vela. Passos pesados subiram as escadas e a porta se abriu. — O que está acontecendo? — exigiu uma voz rude. — Vou ensinálo a não roubar de Bardolph Douglas. Ele fechou a mão sobre o pescoço de Ross, erguendo-o e balançando-o como um cão faz com um rato. Ross esperneava, chutava e batia, mas não conseguia se soltar. Os pulmões queimavam, estava perdendo a luta... — Ach! — Douglas estremeceu, gritou mais uma vez, dando dois passos antes de cair com a adaga de Wee Wat enterrada nas costas. — Eu o queria vivo — declarou Ross, massageando o pescoço. — Desculpe. Mas foi a única maneira que encontrei para detê-lo. 97


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— Obrigado. — Ross suspirou. — Precisava da confissão dele. — Não conseguiria isso dele — declarou Wee Wat, limpando a adaga na roupa do capitão. — Vamos. — Sim. — Ross escondeu sob a capa os documentos encontrados e desceu a escada na frente dos companheiros. — Precisamos inutilizar o navio. — Mataram o capitão! — berrou alguém. Ross e Wee Wat não perderam tempo. — Espero que saiba nadar — gritou Ross, com os perseguidores se aproximando. — Aposto que aprendo. Lançaram-se ao mar. Ross afundou e depois emergiu, confuso, mas conseguiu agarrar Wee Wat pela túnica. Felizmente, Wee Wat não entrou em pânico, e Ross, com esforço, apesar do ombro ferido, do cansaço e do temor, conseguiu se afastar um pouco do navio. — Precisamos encontrar Owain e o bote. Logo, Owain surgiu entre eles e o navio, resgatando-os. Remaram rápido para fora do alcance das flechas. Chegaram à praia e Giles, mais vinte homens, se aproximaram para recebê-los. Ross levou Owain, Davey e uma guarda de dez homens de volta ao castelo. Passando pelo salão, localizou Lorde Nigel. — Ora, aí está o noivo — gritou o Lorde, erguendo uma caneca. — Milorde, tenho algo muito importante para mostrar-lhe. — informou Ross. — Não é noite para caçar bandidos -— resmungou o Lorde, acenando para Comyn na cadeira próxima. — Tenho notícias muito graves — declarou Ross. — Temo que Lorde Eammon seja um pirata, contrabandista e assassino. — O quê? — engasgou Comyn. — Tenho provas. — Ross mostrou o documento que trouxera do navio em embalagem lacrada. — Parece muito grave — considerou Lorde Nigel. — Amanhã cedo decifraremos esses documentos. — Não — protestou Ross. — Se demorarmos, os bastardos vão fugir. Meus homens estão na vila. Quando os quiser... Comyn emitiu um som incrédulo. — Lamento preocupá-lo. Sei que Eammon praticamente o criou, mas a justiça precisa ser feita. — Cla... claro. — Comyn se levantou e Ross percebeu que ele estava vestido para sair. 98


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— Aonde vai à essa hora da noite? — Nada melhor do que cavalgar numa noite como esta. Com uma tempestade se aproximando? Que gente estranha. — Vou me confrontar com Lorde Eammon agora — declarou Ross a Lorde Nigel. — Gostaria que me acompanhasse... caso ele se oponha. — Oh, muito bem — concordou Lorde Nigel. — Vou também — ofereceu-se Comyn. — Se ele me vir junto pode se tranquilizar. — Você é mais gentil do que ele merece — elogiou Ross. Partiram para a torre nova e arrombaram uma porta que estava barrada. Um som veio do corredor que levava aos aposentos, a respiração, os gemidos inconfundíveis de pessoas fazendo amor. Essa Félis realmente o mantinha ocupado a noite inteira. Ross ordenou a três guardas que invadissem o aposento. Félis estava por cima, completamente nua, mas não se espantou ao ver as pessoas entrando. — Não se mova, Lorde Eammon — bradou Ross. Mas não era Eammon Sutherland. — Archie... faça alguma coisa — reclamou Félis. — Que diabo! — exclamou Ross, olhando para Owain. —Ross, veja aqui — chamou Wee Wat, erguendo as cobertas num canto da cama. Um homem jazia ali, encolhido. Os olhos abertos, mas vidrados e parvos. — Está morto? — perguntou Ross. Wee Wat balançou a cabeça. — Morto para este mundo, mas ainda vivo. — Quem... — Ora, este é Eammon — exclamou Lorde Nigel. — Parece morto. — Não falta muito — opinou Wee Wat. Ross pressionou a lâmina contra o pescoço de Archie, fazendo um pequeno corte. — O que está acontecendo? — interrogou. — Não! Não vou ser enforcado sozinho! — O homem jogou Félis contra Ross. Enquanto tentava se livrar das pernas e braços nus da prostituta, Ross viu que Archie se esgueirava para a borda da cama. — Detenham-no! — gritou, jogando Félis para o lado. Comyn chegou primeiro e recebendo Archie com a própria espada, fazendo-o recuar. 99


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Bastardo... — blasfemou Archie, as duas mãos no peito tentando estacar o fluxo de sangue. — Nunca devia ter confiado... — Tombou sobre o tapete. — Que droga, eu o queria vivo — reclamou Ross. — Disse que queria que o detivéssemos — corrigiu Comyn. Ross atirou a cabeça para trás e grunhiu de frustração. Tão perto de solucionar o crime e punir os culpados, e então perdia os dois responsáveis. Lady Mary entrou com trajes de dormir, viu Archie estendido no chão e então o homem encolhido na cama. Ajoelhou-se a seu lado e, ternamente, passou a mãos por seus cabelos grisalhos. —Oh, Eammon. O que eles fizeram com você? — Provavelmente foi mantido drogado com ópio — esclareceu Wee Wat. — Já vi homens assim em minhas viagens. — Ópio! — exclamou Ross, comovido com as lágrimas de lady Mary, que enterrava o rosto nas mãos. Ross piscou tentando juntar todas as peças. — Então, Eammon não estava por trás disso tudo. Archie o mantinha prisioneiro e deixava o castelo inteiro pensar que ele estava enfeitiçado pelos encantos de Félis, enquanto todo o tempo ele governava em nome do lorde. — Pegue a prostituta e veja o que descobre dela — or denou ele a Owain. — Meu lugar é com você — reclamou o galês. Comyn passou por cima do corpo de Archie. — Deixe comigo. É um débito que devo a Eammon — acrescentou ele, sombrio. Os berros de Félis ficaram mais aterrorizados à medida que Comyn se aproximava. Ela tentou fugir, mas ele lhe deu um soco que a fez desmaiar. Pegou-a pelo braço e prometeu que só voltaria quando tivesse extraído toda a verdade dela. Ross cerrou os dentes. Não gostava de ver mulheres sendo tratadas dessa forma. Falando de mulheres... onde estava Megan? Por que ela não estava ali? Eammon não podia ter assassinado Lion. Não, Archie e Douglas eram os vilões. Mas eles não importavam. Nada nem ninguém importava, somente Megan. Megan Carmichael. Sua esposa. Agora poderia levar Megan para casa, e viver em paz... e com amor. Poderiam viver juntos agora, como ela quisera desde o começo. Ele a desejava em seus braços, em seu coração, de corpo e alma. —

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— Megan? — Ross procurou pelo aposento nupcial. Deus, ele a machucara tanto assim na noite anterior a ponto de ela não poder caminhar? — Chrissy? Lady Mary? Onde está Megan? — Ela... ela partiu há poucas horas — informou lady Mary, hesitante. — Partiu? Partiu para onde? — indagou Ross, alarmado. — Siusan adoeceu. Megan foi lhe fazer companhia. Foi tudo o que nos disse. — Vocês a deixaram ir sozinha! — bradou ele. — Lucais está com ela. Megan disse que não podia confiar em mais ninguém. Não podia confiar em ninguém. Era culpa sua. Mas ele se desculparia... nem que levasse o resto da vida. — Para onde ela foi? — perguntou Owain, enquanto Ross contornava a cama e saía apressado do quarto. — Vou encontrar Megan. — Atrás dele, os homens trataram de se aprontar com rapidez. Ross só tinha uma necessidade... encontrar Megan o mais rápido possível. Owain o alcançou na porta do estábulo. — Seja razoável. Precisamos de rastreadores, e... — Providencie, então — grunhiu Ross. — E rápido, porque eu... — Milorde. — Um Carmichael saiu da escuridão do estábulo, ensanguentado. — A sua senhora... — O que tem ela? — Ela... ela e um rapaz saíram antes da primeira luz. Estava a caminho para lhe contar, mas... mas alguém me bateu e... e eu não soube de mais nada. Ross sentiu um frio no estômago. Mais alguém estava atrás de Megan e Lucais. Mas quem?

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CAPITULO 11 —Alguém está nos seguindo — sussurrou Lucais. — Tem certeza? — indagou Megan, e lamentou quando o garoto confirmou. Devia ser Ross. Era tudo de que ela precisava. Já era ruim estar aterrorizada ante a possibilidade de cair do cavalo, agora tinha essa outra ameaça com que se preocupar. — Talvez possamos andar mais rápido e nos esconder naquela floresta adiante — ofereceu Lucais. — A cavalo?! — exclamou Megan. Um dia, já se divertira apostando corridas. Mas isso foi antes; agora, era diferente. Estremeceu. — Vá na frente. — Monte na minha garupa e eu levo o seu cavalo — propôs Lucais. — Assim, poderemos ir mais rápido. Megan concordou. Seus joelhos doíam de tanto se agarrar ao lombo da égua e mal suportaram seu peso quando desceu da sela. Praguejando contra a própria fraqueza, montou no cavalo de Lucais, com a ajuda dele. — Segure na minha cintura — instruiu ele. Era engraçado receber ordens do seu antigo pajem, mas Megan obedeceu. Um ano longe de casa e duas viagens pelas Terras Altas pareciam ter amadurecido Lucais além de seus treze anos. — Segure firme, milady. Deixaram o litoral para trás, subindo pequenos morros que marcavam 102


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o início das Terras Altas. Megan cerrava os dentes a cada passo do animal pela ladeira, o estômago tão enjoado que deu graças por não ter tido tempo de comer nada antes de deixar Curthill. E o chão... Nem se atrevia a olhar, temendo que as rochas a tragassem. Ross chamaria isso de superstição. Ross. Megan sentiu o coração palpitar, mas não por medo do galope esforçado do cavalo. Era como se nunca mais fosse vê-lo. Ele já teria tomado o navio para casa quando ela e Lucais estivessem de volta com Siusan. Com sorte, conseguiriam ir a Peebles e encontrariam abrigo junto aos parentes da mãe, muitas léguas distante do castelo Carmichael. Não que fosse provável que Ross fosse atrás dela, mas... talvez ele já estivesse. Arriscou um olhar para trás. Embora visse cavaleiros atingirem o primeiro platô, a distância era grande demais para discernir detalhes, mas sentia que Ross estava em seu encalço, decidido a encontrá-la. — Vamos fazer uma volta à esquerda, longe da trilha que deveríamos seguir, e então, voltamos quando o caminho estiver limpo — planejou Lucais, ao entrarem na floresta. Estava frio entre os carvalhos e pinheiros. — Podemos passar a noite aqui? — perguntou Megan. — Não é seguro. — E precisamos alcançar Siusan o mais rápido possível. — finalizou Megan. — Me conte novamente como ela estava quando a deixou. — Muito pálida, e não muito forte. — As ervas que trouxe vão ajudá-la a espantar a febre e fortalecer o sangue. — Que assim fosse. A irmã já sofrera tanto... Usando passagens tão estreitas que não passavam de trilhas de animais, Lucais adentrou a floresta. Ao redor, os arbustos se fechavam, rasgando as roupas de Megan, deixando arranhões em seus braços. A perna ruim protestava a inatividade; sentia-se resfriada, cansada e desolada. E, pior que tudo, sentia dor no coração sempre que pensava em Ross e no que poderia ter sido. Se ao menos... Passaram-se horas. A luz fraca que atravessava as árvores diminuiu até Megan imaginar se Lucais sabia para onde estavam indo. —Nós escapamos? — sussurrou ela em seu ouvido. — Acho que sim — veio a resposta suave. — Cortamos caminho e estamos quase na trilha de subida das montanhas. — Vamos continuar? — perguntou ela. Lucais negou balançando a cabeça, e ela ficou tentada a dar-lhe um beijo na nuca. — Eu... eu poderia continuar mais um pouco, se for necessário. — De algum jeito. — Os cavalos precisam de descanso e nós também. Aqui é um 103


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lugar tão bom quanto outro qualquer. — Ele desmontou e levou os cavalos até uma pequena clareira, não maior que um aposento. Para Megan, parecia o paraíso. Com um gemido aliviado, deixou-se escorregar da sela. Seus pés tocaram o chão, mas seus joelhos tremeram e ela teria ido direto ao encontro das agulhas dos pinheiros se Lucais não a tivesse segurado pelos braços. Ele meio a carregou, meio a arrastou até uma árvore. — Me machuquei em lugares que nem sabia que existiam. — Ela se recostou num tronco enorme. — Vou ajudá-lo com os cavalos num minuto — prometeu, exausta. — Cuidar dos cavalos é trabalho de homem. — Ele parecia muito bem, apesar da cavalgada, e desgraçadamente lhe lembrava Ross. Parecia que estava cercada de homens arrogantes. — Acha que é esse lorde Ross que está nos seguindo? — Não vejo por que meu ma... — Não, devia parar de pensar nele como marido. Ele deixara claro que não a queria. A dor no peito se intensificou. — Lorde Ross provavelmente está em Curthill esperando o jantar. — Suponho que sim. Parece que ninguém percebeu a nossa partida. — Exceto Chrissy e mamãe. — Ela fora forçada a notificá-las quando voltara ao aposento para pegar roupas para a viagem e a mãe a surpreendera. — Senti que alguma coisa estava errada. Tenho pensado em Siusan nos últimos dias — comentou. — Era como se ela estivesse... estivesse me procurando, entende? — Bem demais. Não era como uma segunda visão, exatamente, mas os laços Sutherland eram fortes, e, desde tenra idade, Megan fora ensinada a ouvir seus sentimentos interiores. Em parte, foi por isso que recusara a companhia das primas e da mãe. Eram piores amazonas do que ela. A última coisa que Lucais precisava era ser atormentado por três mulheres. A mãe a abraçara e então permitira sua partida, enxugando as lágrimas na manga do robe. — Lorde Ross foi... gentil a noite passada? — indagara a mãe. — Sim — mentira ela, conseguindo dar um sorriso para esconder a dor. — Quando... quando voltar, há algo que preciso lhe contar. Devia ter contado há muito tempo, mas eu... eu temo que tenha sido uma covarde, e... — Não, mamãe, você tem um coração de leão — protestara Megan. — Só espero que, se um dia passar por suas provações, eu me 104


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comporte de maneira igualmente valente. — Você é valente, querida. — A mãe a abraçou nova mente. — Veja o quanto já superou em sua curta vida. E quando ainda teria que superar. Oh, Ross. Se as coisas pudessem ser diferentes entre eles. Se ao menos... Megan observou Lucais se sentar a seu lado, trazendo uma bolsa com seu livro e roupas. Ela não era valente. Se fosse, não estaria com medo do amanhecer, quando teria que montar no cavalo e enfrentar outro dia de miséria. — Está se sentindo bem? — perguntou Lucais. — Você deu um gemido. Megan lutou contra o desejo de se lançar ao chão e chorar. — Estou bem — respondeu, trémula. — Só cansada. — E magoada, assustada e de coração partido. — E com fome, também, aposto. — Lucais se levantou. — Não devemos arriscar acender um fogo, mas roubei um pouco de comida da cozinha esta manhã. — Pegou-lhe a mão, pousando uma fatia de pão com um pedaço de frango. —Temos água e vinho também — acrescentou. Surpresa, Megan percebeu que estava mesmo com fome. Recostandose no tronco, mastigou com força. Estavam envoltos pelos sons da mata, o vento assoviava entre as árvores, os pássaros arrulhavam antes de se instalar nos galhos para a noite. Megan sentiu uma estranha sensação de contentamento junto com o calor do vinho que bebeu quando o pão acabou. Aceitando o cobertor que Lucais lhe passava, estendeu-se no chão, inconscientemente massageando os músculos da coxa. Em três dias, quatro no máximo, prometera Lucais, reunir-se-ia à irmã. Então, os quatro partiriam para as Ter ras Baixas e para uma nova vida. Megan ouviu o som de um tapa e o alarme dos pássaros antes de sentir um corpo grande e musculoso puxá-la com rudeza, colocando-a de pé. — Lucais! — gritou Megan, mas, pelos ruídos, achava que ele também tinha sido atacado. — Ross? — gaguejou — Me solte neste instante! O cheiro do corpo e do hálito do homem chegaram às suas narinas. Não era Ross. Ela lutou com força, esperneando e gritando por socorro. Ross mal notou a paisagem do litoral até que alcançaram as primeiras elevações marcando as Terras Altas. Não importava quão rápido cavalgasse, não era rápido suficiente. A cada curva nos rochedos, esperava encontrar 105


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Megan estendida no meio da trilha, coberta de sangue. Cerrou os dentes com força. O peito lhe doía de tanto prender a respiração. A alma também lhe doía ante a culpa. Nunca se sentira tão... tão desesperado quanto à vida de outra pessoa. — Modere — aconselhou Owain. — Ou vai matar os cavalos. Ross se espantou, sentiu a respiração forçada de Zeus entre as pernas e puxou as rédeas, passando para trote e então caminhada. — Não adianta correr, está quase deixando os rastreadores para trás desse jeito — ponderou Owain, à frente do trio de galeses que reconheciam as marcas dos cavalos que Megan e Lucais haviam tirado do estábulo de Curthill. — Estão umas três horas à nossa frente — avaliou Ross. — Não devíamos ter perdido tempo arrumando provisões. — Isso não retardou nossa partida — observou Owain. De fato, no minuto em que Ross gritara suas intenções, os homens se mexeram como engrenagens num moinho bem lubrificado. Muitos eram veteranos das campanhas no País de Gales, cada um sabia suas tarefas. Enquanto alguns aprontavam os armamentos e cavalos, outros enchiam as sacolas com aveia, carne seca e água. — Precisamos da comida — admitiu Ross. — Mas as barracas não eram necessárias. — Gostaria que lady Megan dormisse no chão e na chuva? Ross suspirou. — Ela não merece mais que isso, tendo sido idiota a ponto de ir atrás da irmã sozinha. — Mas era sua própria estupidez que amaldiçoava. Subestimara o desespero e a determinação dela. Um erro que não repetiria. — Vamos encontrá-la — murmurou Owain. Pela primeira vez, o encorajamento do galês não reconfortou. — Logo, espero. Estamos em solo desconhecido com uma tempestade se aproximando — observou Ross, preocupado com as nuvens carregadas no céu.—É melhor achar Megan antes que a chuva apague as pegadas. — Não devemos estar muito longe deles agora — observou Owain. Tiraram um pouco o atraso ao atravessar o platô, mas a trilha junto à floresta era rocha maciça e os rastreadores perderam a pista. Ordenando que tochas fosse acesas, Owain conclamou os homens a prestarem mais atenção. — Devem ter ido direto para a frente — racionalizou Andrew. — Ir pela floresta os teria atrasado. 106


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— De acordo. Apesar das objeções de Owain, Ross ordenou que continuassem, na esperança de reencontrar a pista. O vento se intensificou, trazendo as primeiras gotas de chuva. Voltava-se para retirar a capa da bolsa quando um grito ecoou na escuridão, à esquerda. Megan. O medo afastou qualquer cautela. Ross deu a volta e esporeou Zeus em direção da mata. — Espere. Pode ser uma armadilha — gritou Owain, indo atrás dele. — Megan precisa de ajuda — bradou Ross, como se isso justificasse o abandono de seu controle habitual. As árvores escureciam ainda mais o local, ao que parou para adaptar a visão. Seus ouvidos captavam gritos abafados de briga. Tocando na barriga de Zeus, afrouxou as rédeas, confiando em que o garanhão encontrasse o caminho entre as árvores. Os galhos rasgavam as roupas de Ross como mãos tentando detê-lo. Megan tinha que estar bem. Ele tinha que encontrá-la a tempo. As palavras pulsavam ao ritmo do galope. O grito se repetiu, mais próximo, alto, exigindo pressa de Ross. — Megan! — gritou ele, quando Zeus atingiu uma pequena clareira. Ross saltou e correu. Espada em punho, praguejou à escuridão que reduzia a cena de batalha a umas poucas sombras rolando pelo chão. — Meg! Onde você está? — bradou ele. — Aqui... — veio uma voz abafada à esquerda. Quando Ross se virou, os outros homens chegaram trazendo tochas que espantaram a noite. Viu Megan deitada com as roupas amarfanhadas e uma figura escura sobre ela. — Demónio! Você a matou! Entoando seu grito de guerra, Ross agarrou o bandido pelo pescoço, derrubando-o e colocando-o de lado; antes que pudesse ir até Megan, porém, o sujeito sacou a espada e atacou. — Mate-os! — exclamou o homem. Uma névoa vermelha obscureceu a visão de Ross enquanto ele se desviava um golpe que tinha como alvo seu coração. Nunca sentira tanta vontade incontrolável de violência. Queria matar esse homem e todos os outros pela morte da esposa. De sua mulher. — Não tenham dó! — ordenou Ross, eliminando o homem com dois golpes certeiros. Então, se virou para enfrentar o próximo. —

Ross! Ross! Baixe a arma. Acabou. 107


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— Acabou? — Estremecendo levemente, Ross olhou para o corpo a seus pés. Lançou a cabeça para trás, as imagens se borrando... Owain, Andrew e uma dúzia de outros, observavam-no a distância. — Estão todos mortos? Espantados, os homens assentiram ao mesmo tempo. — Ótimo. — Ross baixou a espada. O braço lhe doía e a garganta estava seca, mas a dor no coração era o pior. —Quero ver Megan — declarou, desanimado. — Estou aqui. — Ela deu um passo atrás de Owain, mas não chegou mais perto. — Havia sangue em seu rosto, e manchas na saia. — Está machucada. — Ross fez menção de ir até ela, e se sentiu culpado quando ela recuou, assustada. Então, viu que sua mão estava vermelha... suja de sangue até os cotovelos. — Sangue? — Não o dela. Dê sua espada a Davey — sugeriu Owain, calmo. — Precisa ser limpa, e você também. Ross olhou para o chão. Homens. Dois, três, quatro. — Eu... eu fiz isso? — Quase sozinho — respondeu Andrew, orgulhoso. — Não me lembro... exceto de que estava muito zangado. — Muito zangado — corrigiu Owain. — Mas isso é passado. Conseguimos poupar um... — Antes que você o matasse, seria o complemento. — Posso interrogá-lo, se quiser, enquanto você se limpa e cuida de lady Megan. — Megan... — Ross se voltou para a única pessoa que importava ali. — Estava com tanto medo... não sabe o quanto — gaguejando, beijou-a no pescoço, na orelha, nos cabelos. Queria fazer muito mais que aquilo. Queria... Deus. — Oh, minha Meg. — Estou aqui — murmurou ela. Ele a abraçava com tanta força que a armadura a machucava. Não que estivesse reclamando. — Você está bem? — grunhiu ele ao seu ouvido. — Um pouco abalada. — Quando a vi ali deitada e pensei que estivesse morta... Pela primeira vez, senti ódio. — Eles teriam nos matado se você não tivesse aparecido. — Megan lançou a cabeça para trás. — Vou compor um verso, não, uma história inteira sobre este incidente. — Por eu ter perdido o controle? — Ele arregalou os olhos. — Não, não vai não. — Sua expressão ficou mais séria. — Megan. — Aproximou-se, procurando-a. — Há coisas que preciso lhe contar... mas não aqui. 108


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— Milorde. A barraca está erguida — anunciou Davey. Ross assentiu. — Vá com ele, Megan. Já, já estarei lá. E então o quê? Aonde iriam dali? Assim que ela entrou na barraca, a chuva começou. Não havia água suficiente para lavar os cabelos; então, Megan só se limpou com uma toalha e soltou os cabelos para escová-los. Foi para baixo das cobertas levando uma taça de vinho e o livro, embora não pretendesse ler naquela semi-escuridão. O livro dava-lhe forças. Quando acabou o vinho, se recostou junto aos travesseiros. Esta noite, não era uma mulher aleijada e desprezada numa busca solitária pela irmã; era a amada esposa de um belo e valente cavaleiro como aqueles das Cruzadas. Os longos anos de separação iriam acabar numa noite de amor que os uniria para todo o sempre. Com roupas limpas e os cabelos ainda úmidos de um mergulho num riacho gelado, Ross foi para as cabanas, mal visíveis através do nevoeiro. — O bastardo que capturamos disse que foi Archie que o mandou atrás da pobre lady Megan — grunhiu Andrew, com os dentes cerrados. — Ele não sabia por que, só que devia capturá-la e levá-la a um lugar combinado ao norte daqui. — Ele queria usá-la para chegar à irmã — racionalizou Ross. — O que deve significar que Siusan realmente presenciou a morte de Lion. — Estranho ela não ter contado nada a lady Megan ou à mãe — comentou Owain. — Seguindo o padrão Sutherland, provavelmente foi para protegêlas. — É difícil dizer como estava há um ano, mas hoje Eammon não parece em condições de assassinar ninguém — declarou Owain. — Sim. Deve ter sido Archie — concluiu Ross. Ross não poderia estar mais agradecido. Todos os seus problemas tinham sido resolvidos... bem, exceto que teria que passar um sermão em Megan por seu comportamento na noite anterior. Tudo o que precisava fazer era ir às Terras Altas, interrogar Siusan, trazê-la de seu exílio temporário e navegar para casa com sua noiva... sua esposa. Quando ia apressado à barraca onde Megan estava, viu Lucais encolhido perto do fogo. — Levou a mensagem a meu irmão no dia em que ele foi morto, não levou? 109


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Lucais assentiu. — De quem era? — La... lady Siusan, mas ela não queria nenhum mal a ele. Ela o amava. Ross soltou o ar que estava prendendo no pulmão. — Ela queria que ele fosse encontrá-la? — Sim. Mas ele nunca chegou ao vale onde ela o aguardava. — Quem sabia onde ela estaria? — Qualquer um que tivesse olhos. Quando o lorde proibiu o casamento, eles começaram a se encontrar às escondidas. Então, Lion não conseguiu ficar longe da garota. Até três dias antes, Ross não teria entendido tal sentimento. — Lady Siusan estava com Lion quando ele morreu? — Não, mas ela o encontrou logo depois. Quando ele não chegou ao local combinado, ela foi atrás dele. Lorde Lion... morreu em seus braços. Como nenhum dos dois voltava para o castelo, lady Mary mandou procurá-los. Eu... eu a encontrei, ainda com a cabeça dele aninhada em seu peito, embalando-o. Ela... ela o amava tanto. Tiveram que carregá-los juntos, um nos braços do outro. — Lady Siusan contou alguma coisa sobre o que aconteceu naquele dia? — Disse que foi culpa dela. — Quando Ross se espantou, ele esclareceu: — Não, não foi ela que atirou a flecha, mas contou a lady Megan que, se não tivesse sido tão tola, teria visto o perigo e salvado a vida de Lorde Lion. — Quer dizer, ela viu quem o matou? — Não posso dizer. Mas ela sabe de alguma coisa. — Contou a lady Megan? — Ross sentiu raiva. Megan mentiria sobre isso? — Lady Siusan negava que soubesse de alguma coisa... — Mentindo... por uma boa causa. Ela devia ter descoberto que Archie era o poder de fato em Curthill, e sabia que ele encontraria um modo de matá-la também, se ela o acusasse da morte de Lion. Graças a Deus ela não contara nada a Megan. — Quanto tempo depois da morte de Lion lady Siusan deixou Curthill? — Uma semana depois mais ou menos — informou Lucais. — Por que o assassino de Lion a ameaçava? — Havia mais uma coisa. — O menino se endireitou. — Mas prometi a lady Siusan e lady Megan que não diria nada a ninguém. — 110


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Aninhou-se na coberta. Esses Sutherland eram tão leais uns aos outros quanto os Carmichael, pensou Ross, sorrindo levemente. — Obrigado por esclarecer o que podia, rapaz. Vou deixá-lo descansar. Ross se levantou e foi em direção da barraca. Tinha seu próprio júri para enfrentar e esperaria até a manhã para acalmá-lo.

CAPITULO 12

Ansioso que estava para ver Megan, Ross hesitou ante a barraca, indeciso entre anunciar a chegada e ir entrando, como era seu direito como marido. Que os direitos se danassem. Naquele momento, estava mais para mendigo em seu portão. O que deveria dizer? Informá-la de que seu pai não era um assassino seria o mais fácil, naquelas circunstâncias. E seria um prazer dizer-lhe que ela agira certo ao confiar em Eammon. Mas como se desculparia da violência da noite anterior? Um ataque de insanidade? — Megan? — chamou, suavemente, abrindo o pano que fechava a barraca. Encantamento e não hesitação fizeram-no estacar. Ela estava linda, a luz das velas iluminavam-na intensamente, com uma aura dourada, aninhada nos travesseiros. Tinha a expressão serena, uma mão encurvada sob o rosto como um bebê. A curva dos seios se sobressaía contra os lençóis, confirmando que seu corpo era de mulher. Sua mulher. Sua esposa. Sentiu o desejo tomar seu corpo, agravado pelos dias de abstenção, só de observá-la, sem tocá-la. Ao aproximar-se, percebeu que sua necessidade ia além de fatores carnais. Não, o que sentia por Megan era mais forte, mais 111


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poderoso que mero desejo. Como um fogo selvagem, esse sentimento aplacava suas dúvidas, tornava suas lembranças de Rhiannon meras cinzas. Esta era Megan, valente, inteligente, leal, bem-humorada. Como um imã, ela o atraía para ajoelhar-se junto a seu leito... o leito que dividiriam. Queria afastar aquelas cobertas que a escondiam de seu olhar, acomodar-se sobre ela e sentir cada célula daquela pele junto à sua. Como se sentisse o desejo se acumulando nele, ela despertou, entreabrindo os lábios para o beijo que tremia em seus lábios. Ele obedeceu. — Ross... — As pálpebras dela estremeciam. — Senti saudade. — Passou os braços ao redor de seu pescoço, faixas esguias de seda que puxavam seu rosto para outro beijo. Devagar. Sombrio, Ross lembrou-se de que devia ir devagar, mas, quando ela entreabriu os lábios, seu controle diminuiu um tanto. Gemendo, aceitou o que ela lhe oferecia e introduziu a língua para senti-la, explorá-la, envolver-se com ela enquanto ela correspondia a seus comandos. A honestidade da reação dela humilhava-o; o toque dos dedos em seus cabelos, procurando trazê-lo para mais perto, ameaçava suas boas intenções. Gemendo, Ross afastou-se, fechando os olhos enquanto lutava para controlar o arroubo de desejo que se apoderava dele. Nunca sentira nada assim. Mas não era hora de se deixar dominar. Ela fora abusada na noite anterior e estava exausta, certamente merecia mais do que ser tomada por um homem que viraria animal a qualquer instante. — Ross...? — Ela abriu os olhos, sonhadora de sono e paixão. — Venha, deite-se comigo. Ross não precisou de mais incentivo para tirar a túnica, a calça e as botas. Gemendo de puro prazer, introduziu-se por baixo das cobertas, atónito ante o suspiro insinuante quando ela se pressionou contra ele, macia, quente e convidativa. De que valiam as palavras se suas ações poderiam redimir a noite anterior? pensou. Cerrando os dentes contra a vontade de consumar o desejo, controlou-se, bem quando ela se ajeitou e fez uma careta. — O que foi? Está ferida? — Faz anos que não cavalgo. — Sua perna? — arriscou ele, e ela assentiu. — Me deixe massageá-la. Ignorou as tentativas de evasão e, segurando-a pela cintura, massageou a parte superior de seu quadril. Ela sus pirou. Quando ele passou para a curva da coxa, o suspiro transformou-se em gemido. Ele dobrava os dedos com firmeza, extraindo um gemido de prazer a cada 112


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movimento. — Bom? — amolou ele. Ela não respondeu, mas a forma com que arqueava o corpo a cada esfregão era suficiente. Era tortura vê-la, tocá-la, senti-la estremecer sob sua mão, mas ele merecia. Era o paraíso, pensou Megan. Como o ritual que a mãe e Chrissy tinham repetido centenas de vezes desde o acidente podia ser tão... tão maravilhosamente desempenhado por ele? Porque ele era seu companheiro, seu destino. — Megan? Está dormindo? A respiração dele a atingia atrás da orelha. Ela queria que ele a beijasse ali. Ele entendeu, e ela sentiu o corpo incendiar-se em chamas. Oh, que alegria. De algum modo, entre a noite anterior e esta, ele se rendera a ela, tornara-se o homem de suas histórias, de seus sonhos... um amante delicado e ardente. — Ross... oh, Ross. — Humm? — Num movimento ágil, ele estava sobre ela, os olhos obscurecendo-se ante a promessa sensual. Ela queria que se completassem; entretanto, de repente, ficou tímida. — Não sei como lhe contar. — Você, sem palavras? Megan lambeu os lábios, repentinamente secos. A forma com que ele observou esse seu gesto encorajou-a. — E-eu preciso de você. — E eu de você, mas você está com dores. A sensação na perna não se comparava à que sentia no ventre. — Preciso de você. E você precisa de mim também. — Mais do que entendia. Lá no fundo, ele carregava cicatrizes piores do que as dela. Juntos, poderiam curar uma o outro. Se ao menos ele pudesse deixá-la... — Eu realmente preciso de você. — Ante as palavras dele, ela sentiu um arrepio agradável na espinha. — Mas talvez não seja a melhor hora... Megan pousou os dedos sobre os lábios e balançou a cabeça, ganhando força com o estremecimento dele. — Agora, definitivamente é a hora. Eu te amo — declarou. — Meg... — Ross gemeu, enterrando o rosto na palma da mão dela. — Como pode dizer isso depois do que lhe fiz? A forma como a machuquei? — E ela nem sabia sobre o pai. — Meg, eu... — Shush... Você me curou também. — Ele não a ter repudiado por causa da perna significava mais do que ela podia expressar. As unhas 113


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arranharam a barba por fazer quando ela alisou seu maxilar. — Era como o homem em si, áspero por fora, suave por dentro. — Já houve violência, sangue e ódio demais. Venha, vamos encontrar a paz um no outro. Uma olhada na esperança que floresceu naquele rosto iluminado e ele não teve coragem de contar sobre o pai. Decidiu trancar a verdade... por enquanto. — Ardentes que estamos, é mais provável que queimemos a barraca do que acertemos um tratado de paz — comentou, espirituoso. Foi recompensado com um sorriso feminino que refletia o fogo em seu olhar. — Sonhei com isso. — Megan atirou os braços ao redor do pescoço dele e o puxou para si. Quando suas bocas se encontraram, sentiu uma certeza que trouxe lágrimas a seus olhos. — É ainda melhor que em meus sonhos — murmurou, um instante antes de ele tomar conta do beijo. Profundo, ardente, autoritário. O beijo era diferente de todos os outros que já haviam partilhado. Megan se entregou sem medo, sentindo prazer na forma como ele a acariciava nas costas através da coberta, encaixando seus corpos. — Não! — Ross retirou a boca abruptamente, mas, ao invés de se afastar, enterrou o rosto em seus cabelos. Devia deixá-la, devia ficar fora, nomeio da chuva até controlar o animal dentro dele. Mas não podia. Talvez, se não a tivesse quase perdido naquele dia, se não tivesse sentido a maciez de sua pele, se não estivesse cercado pelo aroma de ervas e da mulher que era unicamente Megan, tivesse forças para resistir, para deixá-la descansar. — Ross. Oh, Ross. E tão bom... — O quê? — resmungou ele. — Seus braços ao meu redor. — Ela se aninhou mais um pouco, o quadril roçando sua parte sensível. — Acha gostoso também? — Gostoso demais — improvisou ele. — Tolinho, não existe algo gostoso demais. — Ela riu, o som refrescante atingindo-o, atiçando a paixão como mais nada podia, lembrando-o de que, apesar de todas as tristezas pelas quais passara, ela ainda podia sorrir. Aquela dádiva lhe era tão preciosa quanto ela mesma. Não lhe roubaria isso com sua pressa. Ela merecia muito mais. — Gostoso demais — repetiu ele, mas desta vez com voz abafada, pois procurava seu pescoço esguio. — Oh — gemeu Megan, enquanto ele percorria sua pele até o colo e mais abaixo, lambendo um mamilo enquanto ela arqueava o corpo. Os mamilos retesaram-se, querendo, aguardando. Depressa. Por favor, depressa, pediu, silenciosamente, enquanto ele afastava os lençóis que os separavam. Ela lançou as pernas com energia, tentando aplacar o 114


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desconforto que crescia entre suas coxas. — Linda — sussurrou ele. Megan sentiu a respiração dele sobre o seio antes que ele agarrasse o mamilo com a boca, surpreendendo-a. — Calma. Vai gostar disso. — Ele lambeu mais um pouco, observando-a com prazer. — Bom? — Sim. Oh, sim. — Ela sentiu o corpo se incendiar, os sentidos se aguçarem, a pulsação crescer com uma urgência que não conseguia descrever. Gemendo, enterrou os dedos nos cabelos negros dele. O gemido virou um lamento abafado quando ele lhe sugou o mamilo, trazendo sensações ardentes que pareciam se canalizar para a região entre as coxas. Ela queria. Como queria. Exatamente o que, não tinha certeza, mas ele parecia entender sua necessidade, pois passou a mão mágica por seu corpo, encontrando pontos de prazer que ela nem sabia que existiam, atiçando-os e levando-os ao ponto da ebulição. E gritou quando os dedos dele encontraram o foco de seu tormento, tateando, acariciando. Ross ecoou seu grito quando Megan arqueou o corpo contra ele, as mãos trazendo sua cabeça mais para junto do seio, o quadril se movimentando num ritmo tão antigo quando a própria humanidade. Com mãos trémulas, ele retirou a única peça do vestuário que o separava dela. Queria aquelas pernas ao redor de si, queria que ela se projetasse contra ele à medida que ia a seu encontro, no mesmo local que os dedos tatearam. Sabia que ela também queria, com a mesma paixão inocente que a dele. Inocente. Olhos fechados, Ross se controlou com esforço por causa dela. — Calma, amor. Calma. — Ele passou a mão por sua coxa, sentindo a cicatriz. A perna. Como se esquecera? — Posso machucá-la desse jeito. — Só se parar. — Ela sorriu, mas o lábio tremeu. Se ele parasse agora, ela acharia que ele não a queria. Mencionasse a perna, ela acharia que esse era o motivo. — Eu quero você. — Como prova, ele comparou o vazio dela consigo mesmo. — Mas sou grande demais. — Diria que uma égua é maior que seu quadril, milorde. Se consigo cavalgar, não vejo problema. — Oh, Meg. — Ele despejou beijinhos em seu nariz, nas pálpebras, na testa onde os cabelos eram tão claros e finos quanto os raios de luz do sol. — O que vou fazer com você? Ela lhe lançou um sorriso provocativo. — Esperava que soubesse. 115


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Ele riu. Ele já fizera sua parte... mais vezes do que pudera contar, mas de repente não conseguia se lembrar de nenhuma mulher que conhecera... nem mesmo Rhiannon. — Estranho, mas parece novidade para mim também. — Vamos encontrar o caminho juntos. — Ela se achegou, beijou-o no queixo, estremecendo quando seus seios roçaram o tórax peludo. Ele gemeu e fechou os braços ao redor dela com tanta força que removeu o ar de seus pulmões. Sem fôlego, tomada de felicidade e desejo, ela ousou explorar. Passou as mãos com ansiedade sobre os braços musculosos, sobre os ombros extraordinariamente largos e pelo tórax. Tão forte. Tão sólido e seguro. Era isso que queria. Ela se deteve, surpresa com as sensações que a tomavam. Paixão, certamente, mas mais, muito mais. Sentia-se desejada. Desejada e protegida. Quando ele a soltou um pouco, reclamou: — Não. Não me deixe assim. — Não vou... nunca — sussurrou Ross contra sua boca antes de dar-lhe um beijo terno. Ela se abriu para ele, doce como uma flor oferecendo néctar, um prelúdio do momento mais intenso que viria. — Ross! — gritou Megan. Gemendo, Ross rolou para o lado direito, poupando-lhe a perna esquerda. Ela afastou as coxas, procurando abertamente o companheiro que considerava seu desde o primeiro instante em que se viram. — Ross! — gritou ela mais uma vez, de puro prazer quando ele se encaixou novamente em seu calor. A dor que acompanhava a iniciação foi esquecida enquanto sentia a potência daquele corpo. — Agora, eu sou verdadeiramente sua — sussurrou. — Minha — repetiu ele várias vezes, enquanto se moviam juntos, devagar a princípio e então mais rápido, até combinar com a pulsação de seus corações. — Foi para isso que nasci — declarou ela, num gemido. — Sim. Preciso de você da mesma forma que preciso de ar. — Ele espalhou beijos por todo seu corpo. De repente, ela não conseguia estar perto o suficiente. Lançando as pernas ao redor da cintura dele, trouxe-o mais para o fundo. E ele a puxou mais para cima. O fogo da paixão fundiu seus corpos. Nunca mais vou estar sozinha, foi o último pensamento coerente de Megan antes que as ondas de paixão a assolassem. E a ele também. Ross gemeu e mergulhou nos espasmos que se seguiram, entregando-se a Megan de corpo e alma. Exaurido, saciado, Ross permaneceu com a sensação de tremor de 116


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após o ato. Sentia o perfume dos cabelos, a respiração dela contra sua pele. Nunca imaginara experimentar tal prazer. Era um milagre, pensou. Um milagre de nome Megan. Abraçou-a, possessivo. — Humm. — Ela chegou mais perto, a cabeça protegida debaixo do queixo, um braço sobre o tórax dele, suas pernas entrelaçadas. — Vamos ficar assim, desse jeito, o resto de nossas vidas. Ross riu e deu um beijo no topo de sua cabeça e nos cabelos, apelando: — Durma, garota. Teve um dia e tanto. — Um que começou ruim, mas acabou... — ela o beijou no pescoço — ... maravilhosamente bem. Gosto de ser sua esposa. — E eu gosto de tê-la como esposa. — Ross diminuiu um pouco o sorriso, ciente de que deixara certos assuntos para depois. Perto do pôr-do-sol do pior dia de sua vida, Comyn saiu de Curthill. Destruídos. Anos de planejamento cuidadoso e armações destruídos em poucos minutos por um homem que considerara idiota demais para encontrar o próprio caminho. A meio caminho da floresta, parou para ver uma luz no castelo onde lady Mary e aquele anão, Wee Wat, se ocupavam em recuperar Eammon do vício do ópio. — Má sorte para vocês — desejou. — Pediu alguma coisa? — perguntou um de seus homens. — A morte de Ross Carmichael — grunhiu. — E a de Megan também. — Olhou para os vinte mercenários que o acompanhavam. Mais dez se juntariam a eles... trazendo Megan e Lucais. — Vamos, temos um encontro marcado. — Comyn pôs o cavalo a trotar, mas este estacou de repente, assustado com um animal que cruzou a trilha. — Devemos encontrar o animal e matá-lo — declarou um dos homens, supersticioso. — Senão, vai dar má sorte. — Não temos tempo. Pago o dobro para aqueles que continuarem. Apesar dos protestos sobre as consequências desastrosas, todos os vinte homens continuaram. —Um prêmio especial para aquele que encontrar o local combinado primeiro — incentivou Comyn.

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Megan acordou sobressaltada. — Aonde vai? — perguntou ela, sonolenta. — O sol já nasceu faz tempo — informou Ross, acariciando seus cabelos. — Nós devemos... oh, eu a fiz sangrar novamente. Megan olhou para a mancha. — Não novamente de fato. — Vendo-o franzir o cenho, ela explicou: — Na noite de núpcias, peguei sangue de galinha da cozinha e derramei sobre a cama para que as criadas vissem e não achassem que eu não era pura... ou que você não me queria. Ele suspirou e deixou a raiva passar. — E quanto à noite passada? Você não chorou... — A dor foi pouca comparada ao prazer que nós nos demos. — Ela notou que ele não retribuiu seu sorriso. — O que foi? — Meg... preciso lhe contar uma coisa. — Ela sentiu um frio na espinha. — Muitas coisas aconteceram depois que você partiu. -— Ele narrou todos os fatos ocorridos. — Pirataria! — Ela estreitou o olhar. — Sabia que era Douglas. — Bem, ele está morto. E Archie também. — Archie está morto? Por quê? Como? — Ele era o mentor desse esquema diabólico. Megan desdenhou. — Archie não tem cérebro para se desviar de um buraco num dia ensolarado. — Bem, ele foi pego com a mão na massa. — Ross relatou os acontecimentos na torre nova, quando pensavam que Eammon fosse o responsável. — ... e encontramos Archie nos braços de Félis. — Oh, mamãe deve ter ficado contente. Onde meu pai estava enquanto tudo isso acontecia? Ross engoliu em seco. — Ele... ele estava escravizado pelo ópio. Trémula, Megan perguntou: — Ele vai morrer? —Ninguém sabe. Sua mãe é uma curandeira habilidosa. — Ele acariciou suas costas. — Desabafe. Chore e, quando não tiver mais lágrimas, veremos o que vamos fazer. Megan balançou a cabeça. — Já chorei bastante com a morte de meu irmão e meu destino. E nada se modificou. Oh, pobre papai, sabia... devia ter feito alguma coisa. Devia... 118


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— Shush... Não se culpe. — Quero saber detalhes. Como Archie morreu? — Ele nos pegou de surpresa. Comyn teve que... — Comyn — interrompeu ela.—Naturalmente... tinha que ser Comyn por trás disso. Sabia que ele me repudiou depois do acidente? — Repudiou? — Ross piscou. — Estava noiva dele? — Sim. Percebo por que seu amigo não lhe contou nada. — Nem você — acusou ele. — Conversamos sobre isso depois. Bem, podemos ficar aqui o quanto quiser e depois voltar a Curthill. Andrew e alguns de meus homens podem ir com Lucais buscar a sua irmã. — Não — protestou Megan, rápido. — Por mais que queira ver meu pai, sei que Siusan precisa mais de mim. Sei que a febre puerperal é traiçoeira. Além disso, como podem trazer uma mulher doente e um bebê? — Ela teve um bebê? — Ele parecia que ia engolir a língua. — De quem? — De Lion, é claro. E não precisa ficar zangado. — Zangado! Zangado! — Ross começou a andar pela barraca para dissipar energia. — Meu irmão gerou um bebê e você nunca me disse? Mesmo sabendo o quanto significava para mim... para meus pais. Como pôde guardar uma coisa dessas de nós? — De repente, parou e olhou para ela. — Talvez não seja de Lion. — Canalha! — Megan se levantou, enrolando-se nos lençóis com dignidade. — Pode ir embora, então. Lucais e eu vamos continuar sozinhos. — Não vai, não — grunhiu ele.— Quero ver o bebê com meus próprios olhos, e então decidirei o que será feito. — O que quer dizer? — Se o bebê for de Lion, eu o trarei de volta para ser criado entre os Carmichael. E quanto a Siusan? E quanto a mim? — Não entendeu o quanto era perigoso saberem do bebê... — Entendo sim. Outra mentira Sutherland. — Ele pronunciou o nome como se fosse uma blasfémia. — Apronte-se, partiremos assim que tomar o desjejum. — Com isso, vestiu uma capa sobre a túnica e saiu da barraca. — O que ele vai fazer? -— sussurrou ela. E, mais importante, o que ela podia fazer para salvar Siusan e o bebê dessa nova ameaça?

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CAPITULO 13 — Vai começar a chover novamente — alertou Andrew. O ânimo de Ross fechava como o tempo. Na noite anterior, pensara que Megan e ele haviam dado um primeiro passo, mas ela pusera tudo abaixo com a revelação de mais uma mentira. As primeiras gotas de chuva começaram a cair e, perversamente, sua primeira preocupação foi com Megan. — Vamos parar aqui — gritou ele. — Aqui? — gritou Owain. — Impossível. Não há nada que possa nos abrigar. Lucais levou seu cavalo até perto de Ross e sussurrou em seu ouvido: — Não podemos ficar aqui, logo vai descer um rio das encostas. Há uma cabana a um quilómetro daqui. A velha senhora que mora lá disse que sempre que precisasse podia ficar lá, ela estando ou não. Ross assentiu. — Tome a frente, garoto. Vou ver como Megan está. — Sim, milorde. Seria melhor levá-la em seu cavalo — sugeriu Lucais. — Depois do acidente, ela ficou com medo de cavalgar.

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Medo de cavalgar. Ela pedira para ir com Lucais e ele não permitira, com medo de que os dois fugissem. Ignorando o olhar assustado de Megan, tomou-lhe as rédeas e puxou sua égua. Desceram uma colina escorregadia. Um cavalo perdeu o pé e escorregou, levando o cavaleiro na enxurrada que descia a colina. Não havia como ajudar o pobre homem. — Por aqui, Megan — gritou ele, gesticulando para a esquerda. De repente, o cavalo dela se assustou. — Megan! — gritou, mas o vento apenas trouxe o nome de volta. Foi pior que um pesadelo. Megan se agarrou ao pescoço da égua, com todas as suas forças, enquanto o animal corria descontrolado em direção à floresta. — Calma, menina! — Megan se endireitou e passou a mão sobre o pescoço do animal, tentando acalmá-lo, e sentiu algo estranho. — Sangue? — O toque hesitante fez a égua relinchar. Continuavam em disparada, os galhos das árvores rasgando-lhe as roupas e machucando-lhes os braços e pernas. Tentou se manter sobre a égua, mas um galho mais baixo a tirou da montaria. Caída no chão, ficou sem ar por alguns instantes. De repente, tudo escureceu... — Megan! Megan! — Uma voz insistente e familiar a trouxe de volta à realidade. — Está machucada? Ela gemeu. — Em todo lugar... Ross tateava seu corpo, verificando os ferimentos. — Abra os olhos, amor. Ela ergueu as pálpebras lentamente, vendo uma sombra, então encolheu-se. — Não... não deixe o cavalo cair sobre mim. — A égua sumiu. Ela estava viva e coerente. Ross engoliu em seco, mas o medo não foi embora. Ela se ensopava, tremendo incontrolavelmente, e só Deus sabia o quanto estava machucada. Precisavam chegar a um lugar seco e quente rápido. — Vou erguê-la. Com Megan desmaiada em seus braços, colocou o cavalo Zeus em passo lento, retomando o rumo da cabana. Andaram por um bom tempo, e ele já perdia a direção, quando Zeus estacou e olhou para a esquerda. — O que foi, rapaz? — Esperava que o garanhão tivesse ouvido 121


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Owain procurando por eles, mas não se desapontou quando viu a pequena cabana. Estava vazia. Ross relaxou e guardou a espada, pousando Megan sobre o leito ao lado da lareira. Acendeu o fogo e foi buscar as provisões no cavalo. — Volto já para cuidar de você — garantiu ao cavalo, afagando seu pescoço. Cortou as roupas de Megan e viu seu corpo roxo de frio. Não sabia o quanto ela estava machucada. Com dor no coração, enxugou-a com a coberta que encontrou na cabana. Após secar seus cabelos, sob a fraca iluminação, tentou desembaraçá-los. — Au! — Ela abriu os olhos, reprovadora. — Megan! Você está bem? Ela piscou. — Onde estou? — Numa cabana. Tirei-a da chuva e... — Eu... eu não posso me mexer. — Oh, Meg. — Ross sentiu um frio no estômago. —Algum tolo me embrulhou como um cadáver — resmungou Megan, mexendo-se para se soltar. Ross olhou para o cobertor, aliviado. —Não se mexa, quero ter certeza de que não quebrou nada. — Desajeitadamente, começou a tateá-la. Ela fez uma careta. — Oh, meu Deus. Você quebrou o braço? — Não. Mas se afrouxar o cobertor saberemos com mais certeza. Ele obedeceu. Embora sentisse o corpo todo dolorido, não encontraram dano mais grave. — De repente, fiquei com frio — murmurou ela, batendo os dentes. — Vou pegar mais cobertas. — Estou com frio por dentro —esclareceu ela. — Preciso beber alguma coisa quente. — Alguma coisa quente — repetiu ele, voltando-se, como se esperasse encontrar algum servo para atendê-lo. Homens. Mesmo o mais forte deles às vezes parecia inadequado. — Se houver água naquela panela, coloque-a no fogo. Talvez a dona da cabana tenha ervas para chá. Ross encontrou vários potes, mas não sabia o que continham. — Não há nada escrito. Não sei o que são. — Duvido que a mulher saiba ler ou escrever. Vai ter que cheirá122


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las. Ambas as sobrancelhas escuras se ergueram. — Deixe comigo. Traga os potes aqui. Ela escolheu camomila. — Está melhor? Consegue dormir? — perguntou ele. Megan assentiu, embora ainda sentisse dor na perna e soubesse que não conseguiria dormir antes que amainasse. Fingiu que dormia e, quando Ross saiu, conseguiu se livrar das cobertas e se levantar. Sabia que a única maneira de aliviar os músculos da perna seria andando, colocando o peso sobre a perna. Foi até a mesa e, devagar, transferiu algum peso à perna esquerda. — Oh. — Lançou a cabeça para trás de dor. A porta se abriu e Ross entrou com uma rajada de vento e chuva. — Que diabo! — Ele avançou, agarrando-a nos braços e levando-a de volta ao leito. — Talvez haja alguma coisa aqui para aliviar a dor. — Não, não vou tomar nenhum ópio — protestou ela. Ele massageou a perna. — Não quero que tenha pena de mim. —Eu sei. Tenho orgulho, sei o que passou e sei que superou grandes dificuldades. Ele sorriu, confortador. — Quando isso passar, vou partilhar minhas cicatrizes com você. — Feriu-se numa batalha? — De certa forma. A expressão misteriosa dele desviou a atenção de Megan de seus próprios problemas.

CAPITULO 14 —Bem? — perguntou Comyn. 123


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—Nenhum sinal de Carmichael ou da lady — grunhiu um dos homens. — Juro que a flecha atingiu o animal, mas para onde foram depois que ele animal disparou ninguém sabe. — Que praga — resmungou Comyn. — Quero acertar as contas com aqueles que mataram os companheiros que deviam ter-se encontrado conosco — declarou o homem, pousando os dedos sobre a bainha da espada. — Encontrem Megan e Lucais para mim, e poderão fazer o que quiserem com os Carmichael — prometeu Comyn. Já devia estar a meio caminho de Shurr More levando Siusan. Em vez disso, escondia-se como um foragido, com frio, sentindo-se miserável e faminto. — Lorde Ross foi tolo em deixar alguns homens em Curthill. São trinta e cinco contra nossos cinquenta. Vai ser como flechar um peixe num barril. Ross abriu os olhos para ver o aposento ainda envolto nas sombras; o fogo diminuíra, restando só brasas. Faltavam poucas horas para deixarem o ninho e ir procurar Owain e os outros. Não querendo que a noite acabasse, abraçou Megan, sentindo-lhe as pernas macias contra as suas, musculosas. — Ross? — A cabeça sobre seu peito se ergueu. — O que foi? — perguntou ela, piscando confusa. — Nada. — Ele a beijou no nariz. — Volte a dormir. — Humm. Não quero. — Ela passou os dedos sobre seu peito. — Você é tão peludo... e quentinho. Quente. Estava ficando ainda mais quente. — Não. Não podemos — criticou ele. — Você é nova nisso e não quero machucá-la. — Sobrou alguma cerveja? — Sim. — Aliviado, ele a recompensou com um beijo que a aqueceu da cabeça aos pés e levantou-se. Gracioso como um gato, pensou Megan, observando-o despejar um pouco de cerveja numa caneca, aparentemente indiferente à própria nudez. Isso a fascinava. Nunca imaginara que olharia para um homem tão gulosa, devorando-o desde os ombros largos até o quadril. — Olhe para mim desse jeito e vai estar brincando com fogo — grunhiu Ross, enquanto voltava para o leito. Megan se sentou para tomar a cerveja, esquecendo completamente a dor na perna, pois a dor que sentia no ventre era mais pungente. — O fogo é muito reconfortante — murmurou ela, olhando-o 124


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provocadora. — Feiticeira. — A voz era baixa, rouca, livre de censura. — Oh, não posso ser feiticeira, não teria sobrevivido ao fogo que você me atiçou na última noite. — Encolhendo os ombros, ela pôs a caneca de lado, deslocando o cobertor que a cobria, expondo os seios ao olhar dele. — Meg. — Ele se estendeu, esfregando um mamilo com as costas dos dedos, sorrindo quando ela gemeu e apoiou-se contra seu corpo. — Você é o fogo, minha linda esposa. — Mergulhou num beijo enquanto as mãos moldavam a carne macia. — Você me põe fora do controle. — Oh, Ross. Eu te amo — revelou ela, o orgulho totalmente suplantado pelos sentimentos que tomavam seu coração. — Eu sei. — Ele queria dizer mais, mas tinha medo, percebeu ela. — Oh, Meg. — Passou os dedos por seus cabelos, tomando-a pela nuca, cobrindo-a de beijos que silenciosamente substituíam as palavras... informando-a do quanto ele se importava. Bastava... por enquanto. Megan arqueou o corpo para encontrá-lo. — Quero senti-lo quente e sólido sobre mim — murmurou ela. Mas quando tentou agarrá-lo para que ficasse sobre si, ele resistiu. — Não quero machucá-la... — As palavras terminaram com um gemido enquanto ela lambia seus lábios. — Tentação — sussurrou Ross, percebendo que ela estremecia à medida que aprofundava o beijo. Ela tinha gosto de cerveja e paixão crescente. Ao passar a mão por seus quadris para erguê-la, esbarrou na cicatriz. Megan parou instantaneamente, estremecendo, o coração descompassado como o de um coelho. — Calma, amor — murmurou ele. — Sua pele é macia e firme mesmo onde está machucada. Ela relaxou. — Mamãe passou banha de ganso todos os dias. — Já sei de quem herdou a dedicação para curar os doentes. — Ele passou a ponta dos dedos até seu joelho, subindo pela perna, sobre o ventre, sentindo o próprio desejo crescer à medida que os músculos delicados latejavam sob a pele quente. — Estou machucando você? — perguntou, quando ela gemeu. — Sabe que não poderia — sussurrou Megan. Arqueou o corpo contra sua mão, fazendo os dedos penetrarem fundo. — Oh — engasgou, quando ele chegou ao ponto que ansiava por seu toque. — Desta vez, vamos devagar e tranquilos — prometeu ele, deslizando o dedo para explorar e tentar. — Devagar — repetiu, baixando a boca até o seio, sugando gentilmente enquanto ela enterrava as mãos em 125


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seus cabelos, mantendo-o nessa posição. — E com calma. Ross a atiçava com palavras provocativas e carícias luxuriantes. Beijou-a por todo o corpo, dando especial atenção aos pontos que extraíam gemidos de prazer dela, fazendo-a se contorcer e ir em busca dele. — Agora, me ame — implorou ela, baixinho e rouca, as mãos delicadas se fechando nele, afastando o controle sobre as ações que ele mantinha. — Meg — gemeu ele, rendendo-se, mas vitorioso quando ela o guiou. As planícies suaves de seu corpo se ergueram para encontrar as planícies rígidas dele, atiçando-o abertamente. Gemeu novamente. — Meg. Oh, minha Meg. — Ela realmente o amava. O amor obscureceu seus olhos castanhos. Ele provou seu beijo, sentiu quando ela se entregou inteira a seu abraço, confiando completamente nele, instigando-o a confiar também. Nessa mulher. Nesse momento. O lamento para a consumação pôs de lado seu comedimento como mais nada podia. Ele se deu de maneira que ia além do ato físico. Para Megan. Para a mulher que o fizera sentir, ter esperança e sonhar novamente. Quando finalmente voltaram ao mundo, Ross gradualmente tomou ciência da perna direita ainda em torno de sua cintura e se mexeu. — Não se mova — pediu ela. — O que foi? Está machucada? — preocupou-se ele. — Não. Mas não quero que saia agora. — Nem eu de você, mas estou amassando a sua perna. — Não. — Ela se achegou mais um pouco. — Gosto de sentir seus braços a meu redor, e dizem que uma mulher que mente após fazer amor tem maior probabilidade de ficar grávida. Ele desdenhou. — Bobagem. — Talvez, mas por que muitas das velhas viúvas são mães? — Mal comecei a me acostumar a ser marido e você já quer me fazer pai. Megan virou a cabeça para estudar a expressão dele. — Com certeza, quer bebês... filhos para segui-lo? — Agradaria a meu pai, coisa que tenho tido pouca sorte em fazer no último ano. — Como ele pode não ter orgulho de você? — questionou Megan. Minha defensora valente, pensou Ross, sorrindo de leve. Era estranhamente agradável ter uma, mais agradável ainda do que estar ali acariciando suas costas enquanto ela se achegava mais. 126


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—Ele é um guerreiro que não aprecia algumas das mi nhas qualidades menos militares. — Como ler e escrever? — Entre outras coisas. — O tom frio suscitou outro mistério. Megan franziu o cenho. Lion falara do pai com um amor e respeito que beirava a veneração. Haveria problemas entre Lorde Lionel e o segundo filho? imaginou e, rapidamente, pensou em como poderia curar a separação entre eles. — Durma, Meggie. Temos uma longa cavalgada amanhã. Megan fechou os olhos, mas bem depois que a respiração de Ross indicou que ele adormecera, ela permanecia acordada, ponderando sobre sua nova vida. Com a morte de Lion esclarecida, ela estaria em paz, mas ainda havia obstáculos a vencer. A saúde de Siusan... e a do pai. Pensar em seu pobre pai a fez lembrar da conversa que teria com a mãe. Que segredos teria para desviar o olhar e se chamar de covarde? Provavelmente não era nada, pensou Megan, não querendo estragar a recémdescoberta felicidade. Mas o nó no estômago se recusava a afrouxar. De repente, sentiu frio e aninhou-se junto a Ross. Sua presença sólida e reconfortante espantaria qualquer mal. Assim esperava. — Se tivemos sucesso a noite passada, estaremos até os joelhos de bebês antes do final do ano — comentou Megan, na manhã seguinte enquanto faziam o desjejum com pão de aveia e maçãs secas. Ross desviou o olhar, não querendo estragar sua felicidade com preocupações. As mulheres morriam nos partos. Bem, lembrava-se dos temores do pai sempre que a mãe entrava em trabalho de parto de outro Carmichael. Acabara de encontrar Megan. Ainda tinha que conhecer uma hora de paz para saborear a alegria e o encantamento que ela trouxera à sua vida. — Falando de bebês, Lucais disse que Kieran é forte e saudável, tem pulmões para rivalizar as marteladas dos ferreiros. Ross ergueu o olhar do alimento que saboreava. — Quantos meses tem o bebê de sua irmã? — O filho de Lion tem três meses. — Ponto — concedeu ele, mas não acreditaria que era filho de Lion antes de vê-lo. Megan sabia disso. Franzindo o cenho, ela foi ficar em seu colo. — Ross, Siusan era fiel a... — Sua perna a está incomodando essa manhã. 127


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Foi a vez de Megan se enrijecer. — Está tudo bem. Ross suspirou e passou a mão pelo cabelo. —Não pode se ressentir toda vez que menciono sua perna. — Não vou me fazer de coitadinha por causa disso. Não posso fazer nada... — Sei que pode —incentivou Ross, gentil.— Já provou diversas vezes, mas não suporto vê-la com dor, Meggie. — Apesar da fachada forte, ela se sentia diminuídada por causa da perna. Ele curaria isso. — Você é muito importante para mim. Não sabe o que senti a noite passada. — Ele a abraçou com mais força. — Vou ensiná-la a controlar um cavalo antes de montar novamente. Megan ergueu a cabeça, tomando-lhe o queixo. — Gostaria de ver alguém controlar um cavalo que foi atingido por uma flecha. Ross parou, esfregando o queixo. — O que quer dizer? — Alguém flechou minha égua no pescoço ontem. — Impossível. Estava escuro, chovendo, deve ter imaginado... — Não posso imaginar uma flecha saindo do pescoço do animal. — Não podia ser um galho... — Um galho com penas? — Megan cruzou os braços, indignada. — Por que sempre duvida da minha palavra? — Acredito que esteja dizendo a verdade. — Conforme a entendia. — Mas quem atiraria em você no meio da tempestade? E por quê? — Para me capturar e me forçar a levá-lo até Siusan. — Archie e Douglas estão mortos. — Comyn não. — Comyn está em Curthill ajudando Giles a manter a ordem — disparou ele. — E eu acho que ele não está! Acho que ele está em algum lugar aí fora, nos observando. Mas você não quer acreditar em mim. — Megan se virou. — Meggie. — Ross pegou em seu queixo, forçando-a a encará-lo. — Que razão ele teria para... — Ele quer mais que a pequena torre que papai lhe deu. E por vingança também. Ficou ressentido por papai não ter atacado os MacKay, que mataram sua família e queimaram seu castelo. — Posso compreender — declarou Ross. 128


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Não, não entende. Os membros do clã de Comyn andavam roubando gado e coisas assim, provocando os membros de outros clãs. Quando chegavam numa aldeia desprotegida, violentavam as mulheres, matavam os homens e destruíam tudo, os MacKay revidaram. Ross assentiu. — Foi crédito de seu pai não continuar nessa escalada de violência — concluiu ele. — Mas isso não significa que Comyn seja cruel ou diabólico. — Oh! — Megan o golpeou no peito e levantou-se. — Você é que é teimoso, incapaz de ver Comyn por causa... Zeus relinchou alto lá fora, interrompendo os protestos de Megan. Ross voltou a cabeça para o som. — Visitantes. — Ele se levantou, tomando a espada. Voltou logo depois, quando Megan já se preparava para ir protegê-lo. — Onde pensa que vai? — bradou ele, zangado. — Bem... — Megan! Conversamos depois. Quero que conheça nossa anfitriã. — Ah, ser jovem e estar apaixonada — comentou a senhora antes de se apresentar. — Sou Dame Islã Sutherland. — Sou Megan Sutherland de... — Megan Carmichael — corrigiu Ross, tomando-a possessivamente pela cintura. — Ah, a seanachaidh. — Islã fez uma mesura em respeito. — O jovem Lucais a elogiou muito quando passou por aqui. Talvez possa nos contar histórias esta noite no castelo. — Oh, ficaria honrada — concordou Megan, mas viu a expressão preocupada de Ross. — Precisamos localizar Owain e meus homens e nos apressar — racionalizou Ross. — Mas agradecemos a hospitalidade, podemos recompensar.... — Há homens na floresta — interrompeu Islã, preocupada. Sorrindo, Ross esclareceu à mulher: — Meus homens. Com certeza estão nos procurando. — Acho que não são seus homens. — Seu olhar continha uma advertência que assustou Ross. — Têm sede de sangue, são cruéis e desordeiros. — Ela parecia uma dessas pessoas com a segunda visão. — Venha, Meg — chamou ele, áspero. — Quanto mais cedo deixarmos este lugar e encontrarmos meus homens, melhor. — Espere. Levem esta erva. Vai atrair bons fluidos. — Obrigada — declarou Megan, séria, estendendo-se para pegar o —

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galho. Mas Dame Islã colocou o galho no cinto que prendia a adaga de Ross. — Ele vai precisar disso enquanto não acreditar. — Acreditar? — Ross olhou para a mulher, incrédulo. Ela sorriu. — Estou vendo que é das Terras Baixas e não acredita nas nossas crenças, mas a erva funciona mesmo assim. A tempestade passara, deixando o ar frio e úmido. Uma camada de nevoeiro pairava sobre o solo. Assim que a floresta começou a ficar menos fechada, Ross puxou as rédeas. — Por que estamos parando? — sussurrou Megan. — Estávamos ali quando a égua disparou... Megan só podia pensar que a égua tinha sido flechada. A falta de confiança dele a entristecia. — Não vejo sinal dos homens — comentou ela. — Não. A tempestade foi forte e eles não puderam ir a nossa procura... pelo que sou grato. — Ele a pressionou levemente. — É provável que saiam para procurar agora. — Lucais poderia tê-los levado à cabana — ponderou Megan. — Talvez, nos separamos deles na floresta — comentou ele, calmo, mas a acariciou, protetoramente. Megan estremeceu. — Quem flechou minha montaria poderia ter pego Lucais. — Megan... — Ele já estava desanimado, mas não tanto quanto ela. — Certo. Certo. Não acredite em mim. — Ela sentia uma dor no coração. — Vamos voltar? Ross assentiu, manobrou Zeus e começou a trilhar pela floresta. — Não é que não acredite em você, Megan — comentou ele, após um longo silêncio. — Talvez tenha confundido esta vez com seu acidente. Megan franziu o cenho. — Não teve flecha daquela vez. — Na noite passada me disse que houve. — Disse? Mas... mas... — As lembranças do dia do acidente voltaram com estranha clareza. O belo dia, a égua cinzenta, o vento. De repente, uma mancha de sangue, uma flecha de madeira. — Oh, meu Deus. — Megan sentiu os lábios tremerem e levou os dedos à boca para acalmá-los. — Não me lembrava até agora... — Confusa, 130


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horrorizada. — Havia uma flecha. Eu... eu a vi atingir a minha égua. Ela disparou, e estão, estávamos voando no penhasco. Até que aterrissamos. — Soluçando, escondeu o rosto no peito de Ross. — Tudo bem, amor. Tudo bem. — Ele a abraçava apertado. — Não vou deixar que nada lhe aconteça. De repente, ela ergueu a cabeça, orgulhosa. — Posso ter esquecido o que aconteceu há dois anos, mas não confundi os dois incidentes — declarou, enxugando o rosto no cobertor. — Estava claro no dia do acidente e a égua era cinza. Ontem, estava escuro e chuvoso, e eu vi a flecha se protuberando no pescoço do animal. Não estou enganada. Ross a encarou, surpreso com a convicção e a angústia dela. Podia negar-lhe a confiança? — Acredito em você. Megan soltou um suspiro. — Obrigada — murmurou ela. — Deve ter sido um dos homens de Comyn que... — Megan. Pare de culpar Comyn por tudo. É provável que um dos homens que Archie mandou para capturá-la ainda esteja agindo. — Já perdera a paciência mais vezes desde que a conhecera do que em toda a sua vida. — Gosto dele. Lion gostava dele... que droga, todo mundo gosta dele. — Todo mundo menos eu. — Megan segurou o cobertor com dedos trémulos, o coração e a mente alterados. Podia estar enganada a respeito de Comyn? Podia seu sexto sentido estar equivocado dessa vez? Não. — Isso tudo é culpa daquela Rhiannon... — Meg — grunhiu Ross. — Já lhe disse antes... — Que não quer discutir esse assunto. E este não é o lugar. Mas quando estivermos em casa novamente, com toda essa aventura encerrada, acho que me deve a verdade. Ross respirou fundo, soltando o ar devagar. — Veremos — declarou ele, apaziguador. — Primeiro, temos que encontrar Owain e os outros. — Estamos voltando para a cabana? — Não, para a vila onde Islã Dame comentou que se abrigou da tempestade ontem. Ross olhava para frente, observando cada árvore, cada rochedo, esperando que os inimigos saltassem a qualquer momento. Pareceu levar uma eternidade percorrer os três quilómetros até Larig. A aldeia não era nada acolhedora. As cabanas tinham sido erguidas tão próximas umas das outras que pareciam uma parede de rocha. As janelas estavam fechadas e as portas eram reforçadas com ferro. — Não gosto daqui — sussurrou ela. 131


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— Nem eu. — A estrada fazia uma curva depois da última cabana de pedra. Fazendo o contorno, deram com uma estrutura de madeira que bloqueava a passagem para o outro lado da montanha. Estavam encurralados.

CAPITULO 15 Praguejando, Ross tentou desviar Zeus. Tarde demais. Uma dúzia de homens armados surgiu, bloqueando a trilha. Seriam os tipos de que Islã Dame falara? Alguma coisa no ar devia ter-lhe roubado a lógica. Aqueles homens eram das Terras Altas, trajando saias e envoltos com xales de um metro e oitenta de lã azul. Os xales serviam como capa durante o dia e de coberta à noite. — O que significa isso? — exigiu Ross em gaélico. O líder, um cabeludo que devia ultrapassar Ross em altura por uns trinta centímetros, avançou. — Se planeja passar, deve pagar uma tarifa, milorde. Megan inclinou-se para a frente. — Ouça, nós somos... — Hush — grunhiu Ross em seu ouvido. Para o guerreiro disse: — Não estou invadindo, portanto, não lhe devo nada pela passagem em suas 132


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terras... se forem suas terras. — Precisa pagar para passar pelo estreito de Larig. — Dei o dinheiro que tinha à mulher na cabana pela noite que passei lá — informou Ross. — Fico com o cavalo então — declarou o gigante. Os homens riram e avançaram para pegar o prêmio. Ross fez sinal a Zeus para que atacasse como fora treinado. Os aldeões gritaram e recuaram para trás da barricada. — A mulher então — gritou o gigante. Ross sentiu Megan estremecer. — Vou mantê-la a salvo, nada tema. — Para o ladrão bastardo, bradou: — Esta é a minha esposa. Toque-a e morrerá. — Oh, calem-se — disparou Megan. — Não sou um osso para vocês dois ficarem brigando. — Sentindo o espanto de Ross, tirou a coberta da cabeça e declarou: — Eu sou Megan, seanachaidh de Eammon Sutherland. — É o que diz — resmungou o gigante, mas um homenzinho a seu lado puxou-o pela manga. — Dame Islã disse que ele estava com uma poetisa, Jock. Jock cofiou a barba amarela. — Como sabemos que você é ela? — Vou provar contando uma história. Que tal, um conto antigo pelo direito de passagem? — Não temos tempo para histórias — resmungou Ross. — Mas temos tempo para um batalha — rebateu Megan. — Se meu pai souber disso, estou acabado — resmungou ele. — Ah, seria melhor que morresse lutando — disparou Megan. — Meg — advertiu Ross. — Ela é Meg Sutherland, sim — bradou uma mulher. — Lady Siusan, que era a imagem dessa moça, se abrigou com Dame Islã há um ano e falou com orgulho da irmã, Megan, a poetisa de Eammon Sutherland, de Curthill. — Ele é das Terras Baixas, Mairi — respondeu rápido o gigante. — Mas é casado comigo, o que o faz um Sutherland. — E Sutherland não tomam dinheiro de seus membros — concluiu a ruiva alta. — Nobres sentimentos para um grupo de salteadores — resmungou Ross. 133


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Jock franziu o cenho. — Não nos chame de ladrões. Vocês das Terras Baixas cobram pela passagem pelas estradas e pontes. É apenas o que estamos tentando fazer aqui. Era verdade, mas Ross não cederia. — E se não pudermos pagar? — Entre membros do clã não é necessário o pagamento. — resmungou Jock. — Obrigada. — Megan lançou um olhar conhecedor a Ross. — Estranhos passaram por aqui ontem? Jock balançou a cabeça. — Não temos tido movimento. — Ouvi homens na floresta esta manhã — declarou um homem. — Quantos homens? — apressou-se Ross. — Para onde foram? — Não sei. — Mais perguntas revelaram que o homem morava ao norte da floresta e ouviram duas tropas passarem, uma logo após a outra. — Owain e meus homens — murmurou Ross. Mas eram os perseguidos ou os perseguidores? E onde estavam os outros? — Bem, nós vamos continuar. Nesse instante, um homem chegou correndo avisando que vira tropas armadas com cavalos de batalha. — São os meus homens! — exclamou Ross. — Se puder me levar à cordilheira — pediu a Jock. — E mantenha minha esposa a salvo. Megan protestou em alto e bom tom quando ele a tirou do cavalo e colocou junto às mulheres Sutherland. — Me leve com você! — choramingou ela, tentando ir até ele, no que foi impedida por Mairi. — Um campo de batalha não é lugar para mulheres — sentenciou ele, áspero. Ross não resistiu e deu uma última olhada para Megan, de pé no centro de Larig junto às mulheres do clã. Por favor, não a deixem fazer nada imprudente, rezou, antes de voltar os pensamentos para a luta que viria. Ross levou menos de quinze minutos para atingir a cordilheira. Ao se aproximar do cume, ouviu as batidas de aço contra aço e parou. Sentiu o sangue ferver enquanto desmontava e se esgueirava para um rochedo perto. O que viu fez seu sangue gelar. 134


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Seus homens estavam de costas para um precipício, cercados dos três lados por homens cabeludos e vestidos para batalha. Voltou-se contra a rocha para refletir um pouco. Estava sozinho, se chegasse com o cavalo teria a vantagem da surpresa por alguns minutos somente. Se tivesse alguns homens... seis ou oito armados fariam total difer... Zeus relinchou e Ross se voltou, espada na mão. Uma dúzia de cavalos comuns se aproximavam com homens da aldeia de Larig, armados e sorrindo abertamente. Ross baixou a arma e escorregou pelo rochedo para ir ao encontro deles. — Por que estão aqui? Jock desmontou. — Viemos para lhe dar uma mão, milorde. Um brado abafado de concordância foi dado pelos outros homens, que agitaram as lanças de dois metros. Ross varreu a assembleia com o olhar, admirando a bravura. Os escoceses das Terras Baixas usavam armaduras. Esses homens usavam suas saias, botas de couro, capacetes cónicos e tubos circulares como proteção. — A ajuda de vocês é bem-vinda — declarou, esperançoso pela primeira vez desde que vira a situação do outro lado do cume. — Meus homens estão em menor número. — Nós, Sutherland, lutamos com a força de dois homens. Ross sorriu. — Vamos até eles, então. — Um momento — Jock se voltou, chamando o último homem do grupo, e Ross percebeu que alguém estava na garupa. — E melhor deixarmos a poetisa aqui — opinou. — Megan! — exclamou Ross, quando ela apareceu por trás do homem. — Que diabos... — Vim para socorrer os feridos — informou ela. Nossa, como ele estava zangado. Fora pelo mesmo motivo pelo qual não deixara a cabeceira de sua cama quando ele fora envenenado. Sabia... no fundo do coração... que se ele ficasse longe de seus olhos, morreria. — De todas as coisas estúpidas... — Ross retirou o ca pacete e avançou contra ela, tão alterado que a fez recuar um passo. — Se não estivesse com tanta pressa, eu... eu... Ele a amaria. Megan entendeu aquilo em seu olhar e se encheu de coragem para permanecer no lugar. Ficando na ponta dos pés, beijou-o rapidamente nos lábios. Ele realmente a amava. 135


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— Vá com Deus, meu amor — sussurrou ela. — Estarei aqui, a salvo, nas rochas, esperando por você, rezando para que volte a salvo. — Megan, ordeno que se esconda atrás das rochas e fique lá até que eu volte. Serei inútil nessa luta se meus pensamentos estiverem em você. — Prometo por tudo o que é sagrado. — Isso pareceu satisfazê-lo, pois ele assentiu e voltou-se para os Sutherland. — Venham, vamos fazer uma surpresa a esses bastardos. — Sim — responderam os homens decididos. Megan se assustou ao ouvir o brado de Ross ao partirem para a luta. Apesar da promessa, permaneceu encostada num rochedo e assistiu ao desenrolar do drama. Assustados pela chegada, os atacantes ficaram confusos e se voltaram para avaliar a nova ameaça, esquecendo a batalha original. Um brado dos Carmichael chamou novamente a atenção dos atacantes. Pegos entre duas forças, o inimigo gritou e desistiu, saindo da cena em completa desordem. Os dois homens que lideraram a retirada chamaram a atenção e Megan. Um era bem mais alto que o outro, que estava muito bem trajado. Comyn, foi seu primeiro pensamento. Comyn e aquele mercenário dele. Qual era mesmo o nome? Haken ou Hakor ou algo assim. Geralmente, ficava em Shurr More durante a ausência de Comyn. Gostaria de alertar Ross, pois seria a única forma de fazê-lo acreditar que Comyn estava por trás de tudo. Com sabedoria, Ross não permitiu que os homens fossem atrás dos retirantes, para evitar uma armadilha, e, ao invés disso, concentraram-se naqueles que ainda permaneciam em combate. Com a batalha ganha, Megan voltou o olhar para as montanhas distantes, identificando a montanha alta que era o seu objetivo. Siusan aguardava ali, solitária e vulnerável, confiando nela para salvá-la. Entretanto, não conseguia livrar-se da sensação de que o tempo estava se acabando... para Siusan... para Ross e para ela mesma. — Está calmo — observou Owain, quando Ross se juntou a ele junto ao fogo. — Calmo demais. — Havia soldados Carmichael por todos os lados, com tochas e atentos ao menor ruído. — Matamos um bom número — informou Owain. — Sim, mas também não saímos ilesos. — Ross olhou para a barraca onde Megan cuidava dos enfermos. — Sete homens sofreram ferimentos menores, Lucais ainda está inconsciente, e o braço de Andrew tem um corte até o osso. Davey diz que está feio. 136


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— Ah, Deus... — Owain franziu o cenho, olhando para o fogo. — Se tivesse chegado antes — sussurrou Ross. — Não devíamos tê-los atacado como fizemos. Tentei convencer Andrew de que era bobagem, mas sabe como ele é. — Impaciente. Ansioso em empatar o jogo. — Estavam muito bem equipados. Estilo inglês, e o bruto que os liderava tinha armadura de aço. Tinham espadas e protetores, não machados e lanças, como os aldeões. — Eram mercenários, portanto. — Mas quem os contratara? Olhou para o único prisioneiro que tinham feito. Mas, como o pobre Lucais, ele ainda tinha que se recuperar. — Me conte tudo o que aconteceu. — Lucais nos levou à caverna. Esperamos por você. Como não apareceu, quis sair à sua procura, mas Lucais me convenceu de que você provavelmente tinha ido à cabana. — Foi isso mesmo — confirmou Ross. Owain se aproximou do fogo. — Assim que amanheceu e a chuva parou, peguei Lucais e os homens para procurar por vocês. Na floresta, achamos a égua de lady Megan. Estava morta... com uma flecha no pescoço. — Megan disse que vira... — Você não quis acreditar porque isso significaria que alguém estava atrás de nós na tempestade. Envergonhado pela falta de fé em Megan, pediu que Owain continuasse. — Mal tínhamos tirado a sela do animal quando nos atacaram. Andrew ouviu o barulho e veio em nosso socorro, e os atacantes fugiram. Quando atingiram o platô, pedi a Andrew que ficasse, pressentindo uma armadilha, mas... Mas ele não aprendera a amarga lição no País de Gales. — ... eles nos colocaram contra o penhasco e foi quando você chegou. — Os homens que os atacaram eram de Curthill? — Mais homens de Archie? Não, não reconheci ninguém, mas com capacetes e armaduras, todos os homens se parecem. — Por isso, guerreiros usavam o emblema do clã e carregavam bandeiras para distinguir amigos de inimigos. Ross contou que MacDonnel fora noivo de Megan. — ... e ela insiste em que ele é culpado... diz que ele é estrábico. Mais uma de suas tolas superstições, mas... — Cresci com tais crenças — interpôs Owain. — Não que tenha 137


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notado nada em lorde Comyn. — Nem eu. Não fez nada de suspeito, exceto não ter me contado que foi noivo de Megan. — Ele matou Archie — comentou Owain, coçando o queixo. — E Wee Wat matou Douglas — rebateu Ross. — Wat agiu assim para salvar sua vida. Já Comyn não precisava usar a ponta da espada para evitar que Archie fugisse do aposento. E também não sabemos o que aconteceu com Félis. — Está acusando Comyn de tê-la assassinado? — Ross fez uma expressão de desgosto. — É tão maldoso quanto Megan, vendo o mal onde não há. — E você a chama de teimosa. — Owain balançou a cabeça. — Quem quer que tenha nos atacado, queria Lucais, embora ele não valha muito para pedido de resgate. Ross olhou para a barraca onde o menino estava. — Queriam que ele os levasse até Siusan. O que nos leva de volta ao princípio: Quem está nos seguindo? Homens enviados por Archie? Ou salteadores? Ou... Um grito de agonia varreu o acampamento. O lamento se repetiu, vindo da barraca-enfermaria. Ross correu para lá, espada na mão. Quando entrou, a cena o fez estacar. Andrew jazia no centro da barraca, com o peito nu, ensopado com o próprio sangue, remexendo-se para se livrar das duas pessoas que tentavam controlá-lo. — Não fique aí parado — reclamou Megan. Ela pressionava um pano contra o braço ferido. — Temos que acalmá-lo antes que sangre até morrer. Ross guardou a espada, chamando Owain e Davey com um gesto. — Ela vai cortar o meu braço! — berrou Andrew. — O quê? — Ross ergueu a cabeça. — Meggie? — questionou. — Vou salvá-lo, se puder. Mas ele se recusa a tomar o remédio contra a dor. E não posso fazer nada enquanto ele se agita. — Ela vai cortar o meu braço! — Se Meg diz que não vai, ela não vai — garantiu Ross. — Dei motivo para ela não gostar de mim — murmurou ele. — Não foi o único — refletiu Ross. — Mas, felizmente, Megan tem um coração de ouro. Você cometeu menos crimes do que eu, e ela me salvou do envenenamento. — Andrew relaxou. — Davey, prepare outra dose e ajude-o a tomar. Megan sorriu para Ross, agradecida. — Faça o melhor, amor. É tudo o que podemos pedir. 138


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Davey e Ross permaneceram a seu lado durante toda a operação de sutura do corte que ia do ombro ao cotovelo. Quando acabou, ela se deixou ficar no abraço de Ross, mas logo enrijeceu-se. — Tenho que cuidar de Lucais — Ela trocou o curativo da pancada na cabeça, mas ele não recuperara os sentidos. Temia que nunca fosse recuperar. — Davey vai ficar aqui — assegurou Ross. — Já fez tudo o que podia por esta noite. — Mas... — Ela tentou se desvencilhar. Ross a segurou com firmeza. — Se não descansar agora, não vai poder ajudar ninguém depois. Ela suspirou, cedendo à lógica. — Está certo. Já deitados na barraca, Megan passou a mão por seu maxilar determinado. — Obrigada. Por sua ajuda. Por sua confiança. — Sou eu que tenho que agradecer, Meggie. — Ele a ergueu, alinhando seus corpos de tal forma que se tocavam do peito aos joelhos, masculinidade e feminilidade. — Oh, Meggie. Eu... — Eu te amo. Ele a amava, entretanto, não ousava dar-lhe tal poder sobre ele. Com a boca escondida em seu pescoço, recuperando o fôlego, estremeceu como um cavalo que correra uma grande distância, rápido demais. Megan lançou os braços ao redor de seu pescoço e apertou. Ele a amava. E ela sabia disso, sentia o tormento do coração junto ao seu, sentia a mão trémula quando acariciava suas costas e brincava com seu cabelo. — Oh, Meg. — Ele ergueu a cabeça, o olhar suave como o céu de verão, a expressão de encantamento. — Eu... eu... — Você me ama. — Envolvendo o rosto com as mãos, ela o beijou na boca com vontade, saboreando surpresa e medo. — Uma lady geralmente espera ouvir tais declarações — resmungou ele, quando ela parou para respirar. — Não sou conhecida por minha paciência. — Ela lhe lançou um olhar matreiro. — Não tinha certeza de quanto tempo levaria para esquecer aquela tal de Rhiannon e admitir que me ama. Ele se enrijeceu e ela amaldiçoou a língua ligeira. — Eu não queria... — Falar dela, eu sei — completou Megan, suavemente. — Não pode me dizer o que ela lhe fez para que odiasse todas as mulheres? 139


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Ele respirou profundamente, a angústia em sua expressão a fez querer retirar a questão. —Conheci Rhiannon alguns dias depois de cruzarmos as montanhas para lutar no País de Gales. Ela... — Era muito bonita? — perguntou Megan, lamentavelmente. Um sorriso cínico surgiu em seu rosto. — Ela era morena, exótica e hábil como uma aranha em ludibriar idiotas como eu em sua teia. Foi por intermédio dela que aprendi que a igreja está certa, as mulheres são naturalmente mentirosas. — Eu discordo — bufou Megan. — As mentiras que contei foram para poupar outras pessoas. — Não existe isso de boa mentira, mas Rhiannon foi a pior de todas. Ela me fez confiar nela e então me traiu com meus inimigos — grunhiu ele, com os dentes cerrados. — Você não pode esquecer...? — Esquecer que as mentiras dela nos levaram a uma armadilha que custou a vida de uma centena de meus homens? — desdenhou ele, angustiado. — Ross. — Ela puxou sua cabeça e pressionou o rosto contra o dele. — Que horrível para eles... para você. Gostaria de aliviar a dor. — Você aliviou. De várias formas. — Ele a beijou várias vezes, suavemente. —Vez e outra, você veio em meu socorro, pequena guerreira. Embora quisesse puni-la por se arriscar, se não tivesse trazido os Sutherland hoje, meus homens e eu teríamos perecido. — Foram os membros do meu clã que o salvaram — respondeu ela, pois não era gratidão o que ela queria. — Sim, tenho um débito com eles, mas... — Ele a beijou na ponta do nariz. — Seu coração valente os orientou. Naquele momento, Megan não se sentia valente, sentia que iam tirar o solo sob seus pés. — A-ainda ama Rhiannon? — Amor. — Ross desdenhou e ela se soergueu para encará-lo melhor. — O que quer que sentisse por ela, acabou sob os gritos de meus homens e foi enterrado com ela. Não, eu não a matei — acrescentou, ao tremor de Megan. — Foi o comandante galês com quem ela me traíra. Rhys ap Dolgollen decidiu que ela não tinha mais utilidade, e a deu a seus homens. — Oh, Ross, que terrível. — Megan se abraçou a ele, não conhecendo outra forma para aplacar a dor. — Sim... — Megan era como um bálsamo rejuvenescedor. Não 140


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importava o quanto esse assunto era doloroso para ela também, sua primeira preocupação era com ele.— Isso é passado e já superei. Ela lançou a cabeça para trás, os olhos brilhando com lágrimas que não vertiam e tornavam a cor deles mais magnífica. — Pode superar? Ele soltou o ar dos pulmões, aliviando a tensão. — Com você, acho que já dei início. — Ele esperava um sorriso, mas sua pequena guerreira imediatamente começou a chorar. — Não lamente, garota. Como meu pai, não suporto ver minha esposa em lágrimas. — É-é q-que estou t-tão feliz — conseguiu dizer, soluçando. — Shush... — Sentindo também vontade de chorar, com um ternura que também lhe era nova, ele a despiu e a levou para baixo das cobertas, mas ela não sossegou enquanto ele não tirou a roupa e foi se juntar a ela. — Durma — disse ele, suave, acariciando seu rosto. — Me abrace forte — pediu ela, apertando com força extraordinária, considerando tudo por que passara nos últimos dias, e não se satisfez enquanto ele não foi até onde ela queria. — Ah... — Suspirou, quando ele a penetrou combinando seus desejos ardentes. — É aqui o nosso lugar — sussurrou ela, estabelecendo um ritmo que o fez gemer em concordância, trémulo e gritando seu nome enquanto o mundo girava ao redor. Ali era o seu lugar.

CAPITULO 16 Ross sentia-se muito menos satisfeito na manhã seguinte quando o jovem Lucais abriu os olhos e viu Megan. — Oh, milady. Temi que estivesse morta — foram as primeiras palavras do pajem. — Vi a flecha no pescoço da égua e... — Ha! — Megan olhou para Ross. — Disse-lhe que o animal tinha sido atingido. Por que está grunhindo? Que droga. Era por isso que nunca mentia, pensou, aborrecendo-se com o seu franzir de cenho. — Alguém me contou sobre a égua. 141


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E você não partilhou a verdade comigo? — Você não me perguntou e estive ocupado com outras coisas desde ontem quando Owain me contou sobre o... — Humph. — Ela voltou a olhar para Lucais. — Como se sente? O menino admitiu sentir-se como que pisoteado por uma boiada; Ross sentia-se pior. Andrew já estava alerta e Davey permanecia a seu lado ministrando ópio segundo as prescrições de Megan. Ao terminar sua ronda pelos enfermos, ela saiu da barraca e caminhou até as rochas que ficavam nos limites do acampamento. Perdido em seus pensamentos desagradáveis, Ross a seguiu. Embora tivesse optado por ficar ali por alguns dias, sabia que era perigoso. — Podíamos deixar seus homens aqui e partirmos sozinhos? Só nós dois? — perguntou Megan, voltando-se tão abruptamente que Ross abalroou-se contra ela. Ele a tomou pelos ombros para equilibrá-la. — De jeito algum! — exclamou ele. — Nós os espantamos ontem, mas não significa que tenham desistido. Devem estar cuidando dos feridos, quando voltarem quero já estar longe. Megan juntou os lábios. — Entendo. Mas não vê que eles vão nos seguir até Siusan? — Sou capaz de proteger mais uma mulher — bufou ele. — E o bebê? Ross imaginou a cena. — Vou pagar aos homens de Larig para irem conosco, e comprarei mais homens se for necessário. — E os feridos? Andrew não pode viajar. — Concordo. Vou deixá-lo com as mulheres de Larig. Quando voltarmos com sua irmã, ele já estará recuperado. — Não estamos enfrentando ladrões comuns — observou Megan, sombria. — Já tentaram capturar Lucais e eu duas vezes. — Posso protegê-la. A guerra é trabalho de homem. Deixe comigo. — Não duvido de suas habilidades — declarou ela, irritada e assustada. — Mas o seu orgulho pode ser o fim para Siusan e Kieran se Comyn nos seguir... — Comyn! — exclamou Ross, passando as duas mãos pelos cabelos. — Lamento que nosso prisioneiro tenha morrido esta manhã. Por mais que deteste, eu o teria torturado até que nos desse o nome do líder! — Comyn. — Na primeira oportunidade que tivesse, pegaria Lucais e... —

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E não tente escapar sozinha — grunhiu Ross, sacu dindo-a pelos ombros de leve. — Me prometa que não vai nem tentar. — Não tem medo de que eu prometa e depois quebre a palavra? — disparou ela, antes de dar-lhe as costas. Ele a abraçou por trás, apesar de seus esforços para resistir. — Acredito que vai honrar qualquer promessa que me tenha feito. — Ele a alojou contra seu corpo, pousando o queixo sobre sua cabeça. — Você é como esta terra, minha Megan, selvagem, linda e difícil de conquistar. Estremecendo, Megan voltou-se para abraçá-lo, enterrando o nariz na túnica de lã. — Se alguma coisa acontecer a Siusan ou ao bebê, nunca vou me perdoar. — Não tenha medo. Vou mantê-los a salvo. — Ele a beijou no topo da cabeça para selar a promessa, e Megan sabia que ele falava a sério. Mas havia coisas que estavam fora de seu controle. Comyn, por exemplo. Ele ainda estava lá, observando e esperando. Megan sentia isso no fundo da alma. Tudo o que podia fazer era permanecer forte e vigilante sozinha... e rezar para que quando o confronto final tomasse lugar, o bem triunfasse. —

— Vejam. Lá está Kilphedir — anunciou Lucais. Abraçada a Ross, Megan assentiu e soltou um suspiro de alívio. Já era tarde e temia que não chegassem à torre da tia antes do escurecer. — É fácil ver por que a chamaram Kilphedir, a rocha — resmungou Owain, chamando a atenção de Megan para a torre. A torre se erguia de uma escarpa como um punho negro apontando para o céu. A medida que se aproximavam, Megan viu que a fortaleza era uma ilusão. A defesa real de Kilphedir estava no fato de não haver portas ou janelas ao nível do solo. Está vendo por que estava preocupada? — perguntou Megan com o olhar. Veremos — respondeu ele, igualmente silencioso. Exceto por luzes distantes nas janelas, parecia que Kilphedir estava em repouso. Ao se aproximarem do muro, cabeças com capacetes surgiram lá em cima. — Digam seu nome e assunto — exigiu uma voz áspera. Ross deu seu nome e posição social. Antes que suas palavras se perdessem, carregadas pelo vento, quatro homens surgiram nas janelas superiores, e mais outra dúzia se materializou às suas costas. 143


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Cansada de toda essa paranóia, Megan se pronunciou: — É Megan, tia Brita. Instantaneamente, dois homens foram postos de lado e uma cabeça grisalha surgiu na janela. — Megan! Não fique aí parada; seus grandes tolos, dei xem a moça entrar — berrou Brita. Ross ergueu uma sobrancelha. — Uma mulher formidável, a tia Brita. — Não se arre pendeu quando a mulher veio ao seu encontro, descendo as escadas. Ela tirou Megan do cavalo e a abraçou antes que ele pudesse piscar. — Olhe para você — censurou ela, sacudindo-a com energia. — E quem é esse? — voltou a cabeça grisalha para Ross. — M-meu marido. — Ross Carmichael — anunciou ele, desmontando e fa zendo uma mesura à senhora. Ela o olhou como a um garanhão que se compra na feira. — Bonito como o pecado e duas vezes mais forte, aposto. Provavelmente, o diabo na cama também, como o meu que rido Dugan — acrescentou: — Dê ordens a seus homens enquanto eu providencio comida para todos. — Quero ver Siusan — começou Megan, mas a tia nem queria ouvir sobre isso até que tivessem se alimentado. Alguma coisa estava errada, pensou Ross, enquanto via a tia levar Megan pelas escadas, dando ordens à direita e à esquerda. — É melhor controlar suas maneiras — ponderou Owain, rindo. — Diria que todos nós devíamos. — Ross franziu o cenho à torre. Em breve, estaria cara a cara com a mulher que... ao menos inadvertidamente... fora responsável pela morte de Lion e com quem ele tivera um filho. Teria ainda muito tempo para se preocupar com isso, pois Siusan não se juntou a eles para jantar. Ao som do falatório de tia Brita sobre o finado esposo, Ross procurou a mão de Megan. Ela se assustou, mas não protestou quando ele entrelaçou seus dedos. — Me desculpe, minha Meggie. — Desculpe? — sussurrou Megan. — Por gritar com você esta manhã. Prometo corrigir isso quando estivermos a sós. — Deu uma piscadela. Ela ponderou. — Está flertando? — Acho que estou — admitiu ele, tão surpreso quanto ela. 144


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Tal comportamento não era característica sua, mas... quando faziam amor era de forma tão explosiva e energética quanto uma tempestade de verão. Ela sentia a mesma coisa, percebeu Ross, quando ela ficou sem fôlego e enrubesceu. — Pergunte à sua tia onde é o nosso quarto — murmurou Ross, olhando lascivo para a curva de seus lábios. Megan deixou de sorrir. — Não. E-eu preciso ver Siusan primeiro. — Para decepção dele, puxou a manga da tia. — Onde ela está? Onde está Siusan? Tia Brita também deixou de sorrir. — Pensei em aguardar até amanhã cedo, quando já estiverem descansados e... — O que aconteceu? — Megan se agarrou ao braço rechonchudo da tia. — Ela não está morta — respondeu Brita rápido. — Mas... — Quero vê-la. — Ainda não acabou sua refeição — observou a tia. — Não posso comer mais nada. — Sem perceber que Ross a acompanhava, segurando sua mão, Megan subiu as escadas seguindo a tia e entrou no aposento muito assustada. Um fogo crepitava na lareira e velas afastavam as sombras dos cantos do aposento. Megan olhou direto para a mulher deitada na cama com dossel. O rosto de Siusan estava tão pálido quanto o linho dos travesseiros sob a massa de cabelos louros. O corpo moldado pelos lençóis mostrava o grau de enfraquecimento. Uma mão delicada estava sobre as cobertas. — Oh, Sius... — Megan tomou sua mão. — Meggie? — Siusan piscou e sorriu fraco. — Sabia que viria... — A voz falhou enquanto ela voltava os olhos para Ross, arregalando-os. — Lion... — sussurrou, a voz cheia de esperança, encantamento. Uma mão forte e bronzeada pressionou levemente os ombros de Megan. — Não, este é Ross. — Ross. — O sorriso de Siusan cessou. — Ele está morto. Eu... eu não pude salvá-lo... cheguei tarde demais. A dor naquelas palavras dissipou qualquer dúvida de Ross. Siusan amara seu irmão. — Hush. Não foi culpa sua. Siusan estremeceu. — Devia saber que ele estaria em perigo. — Ela se as sustou, olhando ao redor no aposento. — Veio sozinho? 145


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— Trouxe meus homens — esclareceu Ross. — Mas não papai... nem Comyn. — O medo se intensificou, os olhos se obscureceram, a mão ficou trémula. — Me diga que não os trouxe aqui — implorou. Ross se endireitou, desconfortável, e trocou um olhar expressivo com Megan. Ela estaria certa sobre MacDonnel afinal? — Não. Eles estão em Curthill. — Graças a Deus. — Siusan fechou os olhos. — O que foi? Um deles matou Lion? — perguntou Ross, mesmo sabendo que aquela não era hora de forçá-la, mas queria tanto saber a verdade... — Ross! — exclamou Megan. — Não está vendo que ela está... doente? — Está tudo bem — declarou a irmã, fraca. Morrendo. Ocorreu a Ross que Siusan Sutherland estava morrendo. E ela sabia disso. Estava claro no olhar que ela lançou a Megan. Não, Ross sentiu o coração lamentar pelas duas. — Está tudo bem — repetiu Siusan, mais suave ainda. — Quero estar com Lion. Eu... eu só esperei que você viesse. Preciso que cuide de Kieran, que o proteja como se ele fosse seu. — Protegerei. Prometo — afirmou Megan, os olhos brilhantes de lágrimas. — Mas assim que se mudar para um clima melhor, você vai... Siusan virou a cabeça. — Tarde demais... desde que Lion... desde que Lion morreu em meus braços. Não há alegria para mim. — Soltou a mão da de Ross e acariciou o rosto de Megan. — Quero ir... preciso estar com Lion. Mas detesto deixar Kieran... — O olhar angustiado se voltou para o berço. — Tio Dugan fez o berço há muitos anos para os bebês que tia Brita perdeu. Pensei que fosse perder Kieran também, mas ele é forte como o pai. — Siusan olhou para Ross. — Ele é tudo que restou de Lion e mim. Vai mantê-lo a salvo por nós? — Sim. Farei qualquer coisa pelo filho de Lion — foi o que Ross conseguiu dizer antes que o nó na garganta se apertasse. Lion tivera um filho que jamais conhecera. A gravidade da situação fê-lo ir até o berço. Sentiu as pernas fracas quando olhou e viu um ser humano pequenino ali, de cabelos escuros. — O filho de Lion. — Ajoelhando-se, tocou a cabecinha, hesitante. O bebê se mexeu, erguendo cílios negros, voltando os olhos violeta tão familiares para Ross, que sentiu um aperto no coração. Quanto isso significaria para seus pais, agora que Lion deixara uma parte de si para 146


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trás. — Por que não nos avisou? — Estava com medo. — A voz de Siusan era tão fraca que mal chegava a todos os pontos do aposento. — Com medo de que, se ele soubesse que eu estava carregando o filho de Lion, nos mandasse matar. — Ele? Sabe quem matou Lion? — exigiu Ross, incapaz de reprimir a pergunta que o atormentava havia um ano. Assustado com sua alteração, o pequeno Kieran começou a chorar. Megan deixou a cama como um gato escaldado. Passando por Ross, pegou o sobrinho nos braços. — Ei, ei, fofinho. Tia Meg está aqui. Não vou deixar o homem bravo machucá-lo. Isso pode esperar até Siusan ficar mais forte — censurou ela. Ross olhou para Siusan e temeu que ela nunca fosse ficar mais forte. — Vou deixá-las então. Podemos conversar sobre isso amanhã. — Em horas assim é que sinto falta de meu Dugan. Oh, sou capaz de proteger o que ele me deixou quando morreu há cinco anos. — Brita olhou para os homens que descansavam sobre o assoalho no fim do salão. — Mas seria bom ter um homem forte para cuidar disso. Ross assentiu, olhando para o fogo, mas pensando em Megan. — Ouvi dizer que foi forçado a se casar com Megan. Ainda se sente forçado? — Não — declarou Ross, voltando a cabeça para encarar a matrona. — A princípio, sim — admitiu, relutante. — Mas, acabei... — Se apaixonando — completou ela, daquela forma irritante. — Ela vai sofrer ainda mais do que já sofreu quando Siusan se for. — Teria vindo antes, mas elas não me contaram a verdade. — Por uma boa razão. — Nunca há uma boa razão para mentir — desdenhou ele. Brita franziu os lábios. — Quando tiver vivido tanto quanto eu, vai descobrir que às vezes uma mentira é mais gentil que a verdade. — Quando ele fez uma careta, ela acrescentou: — Nunca foi forçado a adaptar a verdade para poupar um ente amado de dor? — Nunca. Mentiras são desonrosas. — Ainda assim, às vezes o que uma pessoa não sabe não a magoa. A verdade é que a sua família não receberia bem a filha de Eammon Sutherland. Não é o clima frio e úmido, nem a febre puerperal que está levando Siusan. Ela está presa a seu homem. — Ela está querendo morrer? — perguntou ele, chocado. — Siusan não tem a força física ou de vontade de Megan. Quando 147


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se apaixonou por Lion, foi para a vida toda. Ela lhe deu o coração e, quando ele morreu, levou-a consigo. Ela deve seguir junto. — Mas e quanto à sua responsabilidade para com Kieran? — Ela sabe que Megan vai tomar conta dele. Desde o dia em que mandou Lucais atrás de Megan, ficou apenas aguardando... assim, poderia ir para Lion. Não, Ross quis gritar, mas sabia que era verdade. — Pelo menos, os responsáveis pela morte de Lion pagaram com as próprias vidas. — Pagaram? — surpreendeu-se Brita, mas ficou desanimada quando Ross contou sobre Douglas e Archie. — Não faz sentido. Eles nem estavam lá quando Lion morreu. — O que quer dizer? Brita baixou o tom. — Quando Siusan chegou até Lion, ele estava... estava morrendo. Ao aninhá-lo em seus braços, ela pensou ter visto dois homens nas sombras da floresta. — Foram os que mataram Lion? — Naquela hora ela estava muito transtornada para racionalizar qualquer coisa, mas ele estava tão gravemente ferido que ninguém poderia tê-lo salvo, segundo Mary, mas... — Ela reconheceu esses dois homens? Brita suspirou. — Sim, mais tarde, quando voltou a si, ela percebeu que eram Eammon... e Comyn. — Os dois? — Ross suspirou. — Mas quem matou...? — Ela não sabe quem matou Lion, talvez nem Lion, pois foi morto pelas costas. — Mas quando voltou a Curthill ela não inquiriu o pai e Comyn? — Não, em princípio estava muito abatida pela morte de Lion. Passou uma semana de cama lamentando. — Brita limpou a garganta. — Megan suspeitava de que Siusan estivesse grávida de Lion. Isso pelo menos tirou Siusan momentaneamente de sua miséria. Ela perdera seu amor, mas carregava o filho dele. — Isso teria confortado meus pais também... se soubessem — censurou Ross. — Se ela tivesse vindo a nós... Brita desdenhou. — De alguma forma não posso imaginar um homem que tenha desafiado o rei atacando Eammon recebendo Siusan. Era verdade. E agora, ele receberia Megan quando soubesse que um 148


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Sutherland estivera na cena do crime? De alguma forma, precisava descobrir quem realmente matara Lion. — Eammon ou Comyn ameaçaram Siusan? Foi por isso que ela deixou Curthill? — Não. De acordo com o que Siusan me contou quando chegou aqui, ela estava com muito medo. Não podia nem ver o pai ou Comyn. E também temia que, se soubessem que ela desconfiava de alguma coisa, tentassem matá-la e ao bebê. — Megan sabia disso tudo? — perguntou Ross. A rápida negativa da mulher, sentiu-se aliviado. — Chegadas que eram, por que Siusan não confiou na irmã? — Se pergunta isso é por que não conhece Meg muito bem. Por mais que amasse o pai e odiasse Comyn, ela teria se confrontado com os dois imediatamente. — Sim. — Ross massageou a nuca. — Se quer a verdade, acho que Comyn é culpado. Ele olhava de forma estranha para Siusan quando achava que ninguém o observava. Ross ficou atónito. — Se ao menos houvesse um modo de ter certeza. Uma criança berrou na torre de Kilphedir. Escondido nas sombras, Comyn observava uma mulher na janela do segundo piso andar de lá para cá com algo no colo. Uma criança em Kilphedir? Não era das servas, pois aquela era a ala dos senhores. Percebeu que podia ser um Carmichael. Desova de Carmichael. O ato devia ter acontecido na reunião dos clãs. Cerrou os dentes, o ódio crescente, imaginando Siusan nua nos braços de outro homem. Planejara durante meses a morte do rival. O crime perfeito. Só que não fora suficientemente rápido. O bebê berrou mais uma vez, e a expressão de Comyn se endureceu. Quando Siusan estivesse com ele, afogaria o bebê. Andando junto aos muros, foi para a parte de trás, pois haveria menos guardas ali, justamente por ser a parte menos vulnerável. Lançando uma corda com gancho, conseguiu passar para dentro do castelo, escondendo-se entre as ovelhas. Até ali fora brincadeira de criança. Comyn aguardou até ter certeza de que estava tudo bem. Escondeu a corda e o gancho num canto escuro. A disposição dos aposentos era similar à do castelo em que crescera e não teve dificuldade em encontrar o quarto que procurava. 149


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Megan inclinava-se sobre o berço quando ele abriu a porta. — Como entrou aqui? — espantou-se, arregalando os olhos. Comyn encolheu os ombros, ignorando-a. — Comyn! — exclamou Siusan, aterrorizada. Parir um filho de Lion a deixara assim, pensou Comyn. — Vim para levá-la daqui. — Não — protestou ela, erguendo a mão fraca para mantê-lo afastado. — Siusan. Nós devemos ficar juntos... — Você... você matou Lion. — Ele não morreu pela minha mão — esclareceu Comyn, indignado. — Deixe-a. Deixe minha irmã em paz — Megan avançou chutando e arranhando como uma gata selvagem. Ele simplesmente a golpeou na cabeça e ela caiu desmaiada no chão. — Oh, Deus. Você a matou também. Ótimo. Megan merecia isso mesmo. — Ela só está atordoada — mentiu ele. — Venha, temos uma longa caminhada à nossa frente. — Não. — Siusan estava muito fraca, mas conseguiu se pôr entre Comyn e o bebê. — Podemos levá-lo conosco se quiser — grunhiu ele, tentando acalmá-la. Poderia livrar-se do bastardo depois. — Vai gostar de Shurr More. Ela balançou a cabeça. — Não toque em mim. — Siusan, eu amo vo... Sempre ame... — Ele desistiu de argumentar e a tomou nos braços, percebendo o quanto ela estava magra. — Lion! — gritou ela. Seus olhos se reviraram e ela deixou de lutar. Não. Não podia ser, Comyn a deitou no chão. Com as mãos trémulas, afastou os cabelos de seu rosto. — Siusan? — Lion... — O sussurro terminou com um suspiro. A expressão do rosto relaxou e ela se foi.

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CAPITULO 17

— Oh, Deus! Ela está morta! Megan sentiu mãos calejadas acariciando seu rosto. A angústia na voz masculina familiar a fez querer abrir os olhos, dizer a Ross que estava tudo bem, mas as pálpebras estavam pesadas, a dor na cabeça tão aguda... — Ela está viva. Tia Brita. Pobre mulher. Primeiro Siusan ficava doente e agora, a outra sobrinha estava desmaiada. Megan se mexeu, querendo alcançar e reconfortar a tia. — Meggie! Fale comigo. Diga alguma coisa... qualquer coisa! — Era Ross. — Mas... — amolou ela. Ele não riu. Erguendo-a do chão, abraçou-a com tanta força que suas costelas estalaram. — Nossa, me deu um susto. O que aconteceu? — Foi Comyn. Ele esteve aqui... neste aposento. — Ela apertou os dedos nos ombros de Ross, ansiosa para que ele acreditasse. — Não está vendo?Ele deve estar por trás dos ataques. Você o prendeu? E Siusan e Kieran? — Esticou a cabeça para ver a cama além do corpanzil dele. Ele a pousou, olhando para a tia. — Meggie... — É Siusan, não é? — Ao assentimento, ela gemeu, enchendo a boca com os nós dos dedos para não gritar. — Comyn... — Acho que o coração desistiu — informou Brita, gentil. — Ela está com Lion agora. Megan começou a soluçar incontrolavelmente. — E-ela queria mais do que tudo. Mais do que ver seu filho se tornar homem. — Virou-se para o berço. — Pobre Kieran. Está sozinho agora. Traga-o, por favor. — Estendeu os braços para que Ross trouxesse a criança. Ross ficou ainda mais sombrio. — Quando chegamos aqui, Kieran já não estava mais — contou. — Os guardas ouviram um choro de criança e al guém saindo pelo muro na parte de trás. — Comyn o levou? Não! — Megan se sentou e balançou tonta. — Precisamos ir atrás dele. 151


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Ross a abraçou, embalando-a. — Meus homens já estão se preparando para a jornada. Você vai ficar aqui com... — Não. Vou também — Megan apoiou-se, ignorando a dor na cabeça. — Vai precisar de mim para cuidar de Kieran. Ross balançou a cabeça. — Você está cansada, ferida. — Prometi a Siusan que cuidaria dele, mas Comyn o roubou. — É minha culpa — admitiu Ross, chocando-a com essa afirmação. — Se tivesse acreditado em suas acusações, Siusan poderia estar viva e Kieran, são e salvo. — Oh, Ross, não quis culpá-lo. — Eu culpo a mim mesmo. Não vou arriscar você também. Você fica aqui onde sua tia pode cuidar de você. — À tia, pediu: — Apreciaria se pudesse ceder um guia que conhecesse estas montanhas. — Eu vou. — Megan se levantou, mas desta vez quem a deteve foi a mão larga da tia. — Eu cuido da menina — declarou Brita. — Vinte de meus melhores homens vão indicar o caminho e ajudarão se houver luta. Provavelmente, ele foi para Shurr More, cerca de setenta quilómetros a oeste daqui, mas passando pela parte mais selvagem das Terras Altas. Ross assentiu. — Não importa se tiver que passar pelo inferno, devo alcançá-lo antes que chegue à torre. — Ou senão ele vai se fechar e nós nunca mais conseguiremos Kieran.— Cuide-se — foi tudo o que disse antes de sair apressado do aposento. — Não posso deixá-lo ir sozinho — insistia Megan, agarrando-se ao braço da tia. — Sei que algo ruim vai acontecer se eu não estiver lá quando ele enfrentar Comyn. — Ele é como o meu Dugan — divertiu-se a senhora. — Forte, honrado e orgulhoso demais para seu próprio bem. — Soltando-se de Megan, ergueu-se. — Venha, temos muito a fazer e pouco tempo antes que seu cavaleiro saia atrás de Kieran. Megan concordou, submetendo-se ao curativo que a tia habilmente fez em sua cabeça, e vestiu-se para a jornada com uma túnica de couro e calça de lã xadrez. — Eu as usava quando era mais jovem e mais elegante — confidenciou tia Brita. — Sobre Siusan... — As servas a levaram para o seu aposento. 152


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A tia a acompanhou até lá. Siusan parecia em paz e feliz pela primeira vez em um ano. Usava o vestido que fizera para o casamento, de veludo vermelho escuro que acentuava o dourado de seus cabelos e dava um tom rosado à sua pele. — Oh, Sius... Tia Brita abraçou Megan, oferecendo conforto, força e calor humano. Queria ficar ali, mas já ouvia os gritos de Ross lá fora, pedindo o cavalo. E em algum lugar na escuridão, Comyn corria com seu prêmio. — Vou enterrá-la no morro, com Dugan e nossos bebês. — prometeu a tia, as lágrimas rolando sobre o rosto. Megan deu-lhe um beijo e olhou pela última vez para Siusan. — Vou sentir sua falta, doce irmã — sussurrou. — E juro pela sua alma que vou encontrar Kieran e criá-lo como se fosse meu próprio filho. Pararam uma vez para dar água aos cavalos num riacho. Megan aceitou uma caneca que lhe passaram, mas não desmontou, sentindo que não poderia se sustentar em pé se o fizesse. Ross estava longe, conversando com Owain, e não queria chamar sua atenção. Fechou os olhos por um instante, cansada de procurar por algum sinal de Comyn no horizonte. E de Kieran. Ele era tão pequeno, tão vulnerável. Por favor, Deus, mantenha-o a salvo até o encontrarmos. Imaginou a batalha que se seguiria. Homens, mesmo tão dedicados quanto Ross, concentrar-se-iam primeiro em se defender do inimigo, sem lembra-se quão frágil era uma criança. Aos três meses, Kieran era pequeno demais para evitar as patas dos cavalos se caísse no chão — supondo que sobrevivesse à queda — ou fugir dos golpes, ou... Por isso viera. Para manter o bebê de Siusan a salvo mesmo daqueles que tinham ido resgatá-lo. Ross deu ordem para que continuassem. No horizonte, já amanhecia. Ross estava quase tão cansado quanto Megan, os músculos tensos para cavalgar mais rápido, ver mais longe. Até imaginou ouvir o choro do pequeno Kieran. Que droga. Se tivesse colocado mais fé nas suspeitas de Megan, o bebê não estaria em perigo mortal agora. Já era dia claro quando um dos rastreadores voltou informando que tinham pego a pista. — Passaram há pouco! — exclamou o capitão Sutherland. — E devemos estar há uns dois quilómetros de Shurr More. — Em frente — ordenou Ross. — Tentem cercá-los, cortar o acesso 153


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à torre. Ao ultrapassarem a montanha, avistaram os homens de Comyn pegando outra subida, à frente deles, a encosta que levava a Shurr More. Inescrutável. Para o inferno com a cautela, velocidade era essencial. Se Comyn chegasse à fortaleza, não conseguiriam que saísse por anos. E só o diabo sabia o que ele pretendia fazer com Kieran. Atrás de si, ouvia os homens esforçando-se para acompanhá-lo. Os homens de Comyn também ouviram. Mas o elemento surpresa estava com Ross. Alcançou o primeiro homem da retaguarda, espada na mão, gastando energia para separar-lhe a cabeça do corpo. Nem uma vez voltou-se para ver se seus homens tinham conseguido acompanhá-lo. Tinha confiança, quando foi atrás de Comyn. Mais dois homens. Mais um. De repente, estava pescoço a pescoço com Comyn. Como se o pressentisse, o vilão olhou por sobre o ombro, estreitando o olhar, irado. Por que não percebera a violência em potencial daquele homem? imaginou Ross. Sim, Megan tinha razão, confiara em Comyn à primeira vista porque tinha mais fé em homens do que em mulheres. Forçou Zeus a uma última arrancada e ergueu a espada, aproximandose. Talvez pudesse acabar tudo ali e naquele instante... Comyn estacou. As pregas da capa revelaram que Kieran estava numa bolsa bem junto a seu pescoço, só com o rosto de fora. A cada galope, a bolsa batia no peito de Comyn. — Bastardo — acusou Ross, com os dentes cerrados. — É o que ele é — devolveu Comyn. — E assim será tratado — acrescentou, cruel. — Ergueu o olhar, sem dúvida avaliando a distância até a torre e à segurança. — Só sobre meu cadáver. — Ross jogou Zeus contra o cavalo de Comyn. Kieran continuava a chorar, e Ross sentiu o coração apertar pelo bebê. Com ele ao peito, era difícil para Comyn manejar a espada. Xeque-mate. Praguejando, Comyn puxou as rédeas, tentando escapar, mas, ao comando de Ross, Zeus abalroou o cavalo dele novamente. Comyn percebeu que estava num impasse. Atrás deles, os mercenários se rendiam aos cavaleiros Carmichael e Sutherland. — Ataque, Hakon! — gritou Comyn. — Pago em dobro! O líder dos mercenários grunhiu: — Homens mortos não podem gastar nada. Além disso, a sorte está contra nós... depois que aquela raposa cruzou o nosso caminho! 154


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Outra superstição das Terras Altas, constatou Ross. Comyn não ia desistir sem luta. — Idiotas! — Tirando uma adaga do cinto com a mão esquerda, segurou-a junto ao pescoço da criança. — Me deixe ir ou o bebê morre. — Deixo você ir e ele morre também. — Ross mascarou o temor que sentia ante a lâmina na pele macia de Kieran. — Não! — gritou uma voz feminina. — Ele é um bebê, não um prêmio para vocês dois se digladiarem! — Megan! — exclamaram Ross e Comyn juntos. — Sim. — Ela tirou vantagem da surpresa de Comyn para girar o cavalo ao redor do dele e buscar a adaga. Por instinto, ele a tirou do alcance dela, direto para as mãos de Ross. — Largue — Ross agarrou o pulso de Comyn. — Não. — Encararam-se e Ross aplicou mais pressão, vendo o oponente franzir o rosto de dor. Quando sentiu os ossos se deslocarem, soltou a adaga, que caiu no chão. O brado de vitória de Ross teve vida curta. — Afaste-se ou eu torço o pescoço dele — ameaçou Comyn, a mão direita no bebê. — Ross — murmurou Megan. Seus olhos obscurecidos de medo imploravam que ele salvasse o filho da irmã... o filho de seu irmão. Já era bem ruim ter que se preocupar com a segurança de Kieran, agora, tinha que se preocupar com ela também. — Faça o que ele diz — ordenou ela — ou ele vai machucar Kieran. Ela o achava estúpido demais para não perceber isso? — Xeque-mate — desdenhou Comyn, rindo. Só se eu deixar, pensou Ross. Lançou um olhar severo a Megan. Mantenha a boca fechada, não importa o que faça ou diga, advertiu-a silenciosamente. A Comyn disse: — Leve a criança então. Comyn ergueu a sobrancelha amarela. — Vai desistir do filho de Lion? — É filho dele? — Ross tentou parecer não convencido. — Tem os cabelos escuros! — exclamou Comyn, mas relaxou um pouco enquanto tentava ver o rosto do bebê. — Não se parece com a minha Siusan. — Talvez o bebê seja de Lion então — concedeu Ross, encolhendo os ombros. — Se não tem certeza, por que veio atrás dele? — Porque Megan quer criá-lo, e você sabe como ela é teimosa 155


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quando mete alguma coisa na cabeça. Comyn não contra-argumentou. — Tenho meus próprios planos para ele. O que Comyn pretendia? Esforçando-se para manter a voz calma, Ross ofereceu: — Por que não acertamos esta disputa como cavaleiros? — O que quer dizer? — exigiu Comyn. — Um combate. Você e eu. — De acordo. — Comyn sorriu, cruel. Obviamente, as dúvidas de Andrew sobre suas habilidades na luta deviam ter chegado a seus ouvidos. — Oh, Ross — lamentou Megan, erguendo a mão como que para deter a batalha. O medo em sua voz alargou o sorriso de Comyn. — Hush, mulher — advertiu Ross, severo. — Eu sei o que estou fazendo. Deixe-a segurar o bebê, e... — Ha! — Comyn insistiu que Hakon fizesse as honras. Ross exigiu que fosse outro homem, um que estivesse desarmado e ficasse no campo aberto, longe da torre e das tropas de Comyn. Enquanto os homens desmontavam e se preparavam para a contenda, Ross foi até Megan. — Fique fora disso, Meg — grunhiu ele, erguendo-a da sela. Ela se dobrou assim que tocou o chão e ele a sustentou. — Meg? — A raiva foi substituída por preocupação. — É a sua perna? — Quando ela assentiu, ele a tomou nos braços. — Tolinha, o ritmo foi forçado demais para você. Owain... — Não. Você vai precisar dele para fazer a retaguarda. — sussurrou a supostamente dolorida esposa. — Meg? O que está tramando? — perguntou ele, sem se deixar enganar. — Quero só ajudar. — Eu sei. E eu quero levá-la de volta ilesa e... — Minha perna! — berrou ela. — Me ponha no chão. Ross foi em direção de Owain e Davey, mas um puxão de cabelo por baixo do capacete chamou sua atenção. — Me deixe perto daquele sujeito que está segurando Kieran. —disparou Megan. Ele não estava entendendo? Parecia que não, pois insistia em não deixar os dois membros mais vulneráveis juntos, e a passou para Davey. Literalmente. Estremecendo de frustração e indignação, Megan esperou que Ross e Owain se afastassem. — Davey — sussurrou ela ao escudeiro que a carregava. — Aqui é 156


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muito rochoso. Me leve até ali. — Apontou para o local onde o homem de Comyn estava de pé junto a Kieran, pousado no chão. Quando o rapaz hesitou, acrescentou: — Não poderemos ver a luta de outro modo. O mercenário a avaliou e logo se esqueceu dela, pois não a considerou ameaça. A perna doía e ela a massageou através da calça de lã, olhando para a criança agora tranquila na relva a pequena distância, ao mesmo tempo que olhava para Ross e Comyn, que tomavam seus lugares. Comyn era mais alto e mais forte que Ross. O que significava que Ross teria que ser mais esperto e mais rápido para vencer. Muito mais rápido. Para poupar Zeus, ele deixara a armadura e usava apenas a malha de ferro sob a capa de lã. Comyn sabia disso e tentou atingi-lo por trás. Ross se afastou. Os brados dos homens e principalmente de Megan estavam distraindo-o. Fechando-se para todos os estímulos externos, exceto o oponente, Ross se abaixou para evitar um ataque de Comyn e virou-se por trás dele. Comyn o seguiu como um urso treinado. Estavam apenas se testando, como no jogo de xadrez. Ross se desviava dos ataques, não permitindo ao oponente adivinhar que seus pensamentos já estavam várias jogadas adiante. Ross permaneceu na postura defensiva, avaliando o estilo de Comyn, procurando pelas fraquezas que Andrew assegurara que todo homem tinha. E lá estava. O maior pecado que um cavaleiro pode cometer... confiança em excesso. Assumindo que o oponente era lerdo, não cuidadoso, Comyn ficou mais descuidado. As espadas se cruzaram, Ross torceu o ataque, desarmando o oponente. A espada de Comyn aterrisou a alguns metros de distância. — Xeque — pronunciou Ross, afastando-se. — Vou levar meu sobrinho agora. — Não vai, não. Estrangule a criança! — berrou ele. — Seu desprezível... — Ross olhou para onde Kieran estava mesmo sabendo que nenhum de seus homens estava em condições de chegar lá em tempo. Mas Megan já estava lá. Puxando Kieran por entre as pernas do mercenário, ela o pegou no colo e saiu correndo, com o inimigo atrás dela. Ela não vai conseguir. Oh, Deus. Ela não era rápida o suficiente. Gritando seu nome, Ross partiu em sua direção. Comyn também correu atrás dela. Antes que pudessem alcançá-la, ela tropeçou, rolando para não cair em cima de Kieran, e ficou de costas no chão. O mercenário a alcançou antes que pudesse se erguer. Tirando uma adaga da bota, ele a ajustou em seu pescoço. 157


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— Não se mexa! Ross estacou, baixando a espada. Comyn lançou a cabeça para trás e riu enquanto tomava a adaga de seu homem. — Megan não me interessa. Pode pegá-la e levá-la embora. Mas o rebento fica comigo. — Não! — protestou Megan. — Não vou deixar Kieran. — Aconchegou ainda mais o bebê. — Vai precisar de mim para cuidar dele, Comyn — argumentou. — Meg! — gritou Ross, atónito, avançando em sua direção. — Fique onde está — advertiu ele. — Só quero o rebento. Megan virou um pouco a cabeça para encarar Comyn. Ele estava louco. Só um homem louco tentaria descontar num bebê as desavenças que imaginava ter com Lion. — Acha que vai ser divertido torturar um bebê de três meses? — arriscou ela. Comyn piscou, obviamente chocado com sua sinceridade. — O que... Os momentos que se seguiram foram de mensagens silenciosas entre ela e Ross. Incompreensão, desapontamento, traição, raiva. Ela encarou Comyn. — Ele é jovem demais para sentir os sofrimentos a que vai submetêlo por causa de seu pai. — Perdão, Kieran, Lion, Siusan. — E não vai crescer sem o cuidado de uma mulher. — Deu um adeus silencioso a Ross e cruzou o portão do purgatório. — Precisa de mim para mantê-lo vivo... Em seu colo, Kieran se mexeu, o pequeno punho gelado procurando o calor de sua pele. Balbuciou, virando a boca sobre seu seio procurando alimento. Megan de repente tomou ciência dos instintos que não sabia que possuía. Ele era seu. Estava sob seus cuidados por desejo da irmã querida. Sangue de seu sangue. Não lhe daria as costas, não deste lado do inferno. E estava com medo de que fosse o inferno seu destino final, e o de Kieran.

CAPITULO 18 — Ele ficou louco — sussurrou Davey Owain. — Ver aquele bastardo levar lady Megan e o bebê o deixou louco. Owain suspirou e lançou um olhar preocupado a Ross. Ele 158


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permanecia longe de todos no centro de um brejo, a cabeça baixa de dor e desespero, a espada pendendo esquecida na mão, parado como uma estátua. Sim, e calado como uma também, pois ignorara a oferta de Davey de comida e bebida, bem como as tentativas de Owain para que começassem a planejar o próximo passo. Qualquer passo. — Não podemos continuar assim. — Owain foi até Ross, parando a seu lado, tocando gentilmente em seu braço. — Ross... — Me deixe! — gritou o calmo e lógico herdeiro dos Carmichael. — Ross, seja razoável... — Razoável! — Ele se voltou para Owain, o corpo trémulo, os olhos vermelhos de angústia por baixo do capacete. — Como posso ser razoável quando ele tem os dois. Vil, bastardo louco, ele tem os dois e não há nada que eu possa fazer. Deus, só posso ficar aqui quando cada músculo do meu corpo quer subir aquele morro e derrubar os muros daquele castelo maldito... só com as mãos se for preciso. — Estava ofegante como um dragão. — Ótimo — concordou Owain, indiferente. — Nós iremos com você. Cinquenta pares de mãos devem acabar com o serviço mais depressa. Ross piscou,, balançando a cabeça como um homem emergindo de um sonho... ou um pesadelo. — Mas é inútil, estúpido... — Mesmo assim, se acha que é a melhor maneira de libertar lady Megan e o bebê, nós iremos com você. Ross olhou para Owain, a confusão em sua mente diminuindo. — Não faça isso por mim, galês. Não me faça responsável por eu não estar raciocinando direito. — Vai fazer o que for melhor para sua senhora — respondeu Owain, a pulsação se regularizando ao perceber que Ross estava voltando ao normal. — Melhor! — Ross virou a cabeça para a sombra escura contra o céu da noite. — O melhor seria se a mulher tola tivesse ficado em casa, aonde pertence. — Entretanto, graças a ela, o bebê não está sozinho lá dentro, sem amor e sem cuidados — lembrou Owain gentilmente. — Não, graças à imprudência dela, Comyn tem os dois para torturar. — Ross desviou o olhar da fortaleza. — Ele a odeia. Bom Deus, por que não percebi? Por que não acreditei nela? —Porque Rhiannon havia envenenado sua mente. — Pequeno conforto — disparou Ross. — É culpa minha ela estar 159


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lá. — Respirou com dificuldade. — Mas lamentações não vão mudar o que aconteceu. — Endireitando os ombros, guardou a espada. — Venha. Mande os homens montarem. Vamos cavalgar. — Cavalgar? — exclamou Owain, mas falou ao vento. A estátua ganhara vida e se apressava em direção aos cavalos. — Mas... mas não podemos deixar lady Megan e o bebê — protestou, trotando ao lado de Ross. —Não podemos fazer nada aqui. E ficou assim. Opulência. No momento em que fora introduzida em Shurr More, Megan se viu envolta nisso, chocada por isso. Não suportava ver as finas tapeçarias cobrindo as paredes do aposento em que Comyn a instalara havia poucas horas. Não suportava se sentar nas cadeiras entalhadas que ladeavam a lareira, ou se deitar na imensa cama com dossel no outro lado do aposento. O produto dos saques piratas. Então, andava da janela à porta e de volta. As solas das botas que tia Brita lhe dera emitiam um som abafado sobre os tapetes. O movimento constante ofendia sua perna, mas não aplacava seus medos. Estava sozinha. Mais sozinha do que quando barganhara nesse jogo terrível. Ross e seus homens partiram... deixando-a à mercê de Comyn. Megan gemeu e pressionou a testa contra o vidro frio da janela, uma raridade mesmo em Edimburgo, pela qual Comyn devia ter pago o mesmo que todos os outros luxos. Mas seus pensamentos não estavam com seu carcereiro, estavam com o homem que permanecera fora até poucas horas antes. O homem que ela amava de todo o coração. O homem que dizia que a amava e que, entretanto, não confiava nela. Com o olhar, ela implorara sua compreensão quanto ao que ela fizera e por quê. Kieran era importante para os dois. Certamente, ele devia saber que ela não poderia deixar o bebê entrar sozinho na fortaleza de Comyn. O som da chave virando na fechadura tirou Megan de seus devaneios mórbidos. Voltando-se, sentiu os cabelos da nuca se arrepiarem quando Comyn entrou. Atrás dele, uma criada trazendo água, fraldas e mingau de aveia para Kieran. Limpo e alimentado, o bebê logo adormeceu na cama. — Vejo que notou o lábio cortado e o olho roxo da criada — bufou Comyn. — Ela vai apanhar mais da próxima vez que desafiar as minhas ordens e ajudá-la a cuidar do bastardo. — A criança não vai viver muito tempo se não cuidar dele — 160


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observou Megan. — Desculpe — murmurou à criada, que evitou seu olhar, pousou a bandeja na mesa de carvalho e saiu. — Quero que ele viva... mas não em conforto. — Comyn olhou para o aposento, tocando num candelabro de prata, o pregueado de veludo das cortinas. Finalmente, pôs-se ao lado da cama, olhando para o bebê adormecido. A expressão selvagem fez Megan correr para junto da criança, as mãos estendidas para protegê-lo. Comyn afastou-lhe as mãos, empurrando-a contra um dos postes do dossel. —O bastardo de Carmichael não merece conforto. Esta era a cama de Siusan. Não o quero aí. Mantenha-o fora da cama e longe da minha vista. Se eu o vir ou escutar o choro, chuto-o escada abaixo. — Ele parou, passando a mão pelo queixo. — Um escravo aleijado pode não ser rápido, mas seria divertido vê-lo mancar como você. Megan ignorou a malícia. — Mas onde ele vai dormir? — Ele vai ter um cesto na cozinha... como um cachorro. E, quando for mais velho, vai brigar pelos restos das mesas como eles também. — Mas... ele vai morrer de fome... — Não. Não vai. Eu sobrevivi das sobras que seu pai me deu. Megan se enrijeceu, a indignação superando o medo, dando-lhe forças. — Papai o abrigou, deu-lhe um lugar à mesa, valorizava-o mais que ao próprio filho. E você o traiu. — Fiz o que tinha que fazer para sobreviver. Eammon era um covarde. Recusou-se a me ajudar a punir os MacKay por roubarem o que era meu de direito, recusou-se a entrar no esquema que montei para nos deixar ricos. Oh, papai, lamentou Megan silenciosamente. Se não estivesse tão envolvida em seus esforços para voltar a usar a perna, poderia tê-lo salvo do ópio. — Ele me deu uma torre miserável, eu a transformei num castelo adequado a um rei. — Pago com o sangue daqueles cujos navios você afundou. — Eles não eram nada para mim. Olho por olho, diria. Recuperei o que os MacKay e o seu pai roubaram de mim. Daqui, comando meu reino. — Reino? Você só tem cinquenta mercenários. — E servos cujo comportamento indicava que o senhor usava de crueldade. Previsível, mas a audácia das palavras seguintes de Comyn tiraram a sua respiração. — Tenho dinheiro suficiente para comprar um exército com o qual recuperarei o que é meu... e muito mais. Primeiro as Terras Altas, então... — 161


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Ele sorriu, os olhos sombrios. — Poderei estar em posição de ameaçar o rei. Mas vou começar com os Sutherland. Primeiro Brita, por esconder Siusan de mim. Então, acertarei as contas com os MacKay. Depois, Curthill. Eammon já deve estar morto... — Não. Não pode estar. — Há dois anos é viciado em ópio. De acordo com o que Douglas me contou, Eammon não vai sobreviver à falta da droga. — Ele alargou o sorriso. — E é uma morte nojenta. Oh, papai. Horrorizada, Megan se sentiu mal, mas se controlou. A mãe salvaria seu pai. Precisava acreditar nisso... ou enlouqueceria. — E então há o que devo a você. — A mim? O que fiz para me odiar tanto? Ele franziu os lábios. — Sua simples existência foi um obstáculo para mim. Se não fosse você, podia ter-me casado com Siusan há anos. —Ele passou a mão pelos cabelos. — Você nem teve a decência de morrer quando devia. — Você. Você flechou o meu cavalo — deduziu Megan, arrepiandose. Um riso nojento foi a única resposta, mas a verdade estava clara em seus olhos malevolamente brilhantes. — E Ewan? — E Ewan. Um simples acidente me trouxe tudo... uma punição para seu pai, Siusan como esposa, Curthill como base para meus negócios. Demónio. Sentiu um amargo na boca, mas tinha que mantê-lo falando, tinha que encontrar um modo de fugir com Kieran. — Por que ninguém encontrou a flecha no cavalo? — Porque Hakon se ofereceu para recolher os animais e o corpo de Ewan. Ele retirou a flecha nessa hora. — Comyn cruzou os braços sobre as correntes de ouro sobre seu peito. — Você precisa pagar, percebe — comentou, com a calma de quem compra um tecido. —Ficar aqui trancada na sua fortaleza já é tortura suficiente — rebateu ela, com astúcia. — Se pudesse induzi-lo a dar-lhe a liberdade de andar pelo castelo, poderia encontrar um meio de escapar. — Não é o suficiente. — Comyn pousou a mão no queixo, as luzes das velas intensificando a loucura em seu olhar. — Você é uma prostituta orgulhosa. Poetisa do clã Sutherland — desdenhou.— Umas poucas noites nas barracas com meus homens vão baixar seu orgulho. — Não. — Megan sentia o coração batendo tão forte que mal podia ouvir a risada de Comyn. Protegeu-se atrás do poste do dossel. Ele foi até ela, a expressão ameaçadora, predatória. — Talvez eu a use primeiro. —Esboçou um sorriso de lobo. — Lembra-se da vez que me pegou atormentando os cães? Seu pai não 162


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acreditou na sua história, mas ele ficou pensando como um cão podia se perder. Não são apenas cães que gosto de amarrar, Meg. Vai aprender coisas em minha cama que nunca imaginou na de Ross. Megan avaliou a distância até a porta. Longe demais para sua perna manca. Nem poderia levar Kieran. Foram salvos pelo toque de sinos. — Que diabo! — Comyn foi até a janela, abriu-a e pôs a cabeça para fora. — Fumaça, da cozinha e dos estábulos. Isso é coisa de Ross. Achei que ele desistiu depressa demais, mas ele não vai incendiar tudo aqui como os MacKay fizeram com meus pais. Voltarei para terminar nosso assunto — disparou, antes de sair apressado. O som da barra de ferro sendo posicionada ecoou pelas paredes de pedra do aposento. Estremecendo, Megan se deixou afundar no canto da cama. Escapar era seu primeiro instinto, mas como? Estava sozinha, no terceiro andar da torre dentro da fortaleza do inimigo, com a porta trancada pelo lado de fora. Sairia pela janela. Megan se levantou, tomou Kieran e foi até a lareira. Pousou o bebê no chão a uma distância segura do fogo, tirou os lençóis da cama e os amarrou, produzindo uma corda. Devia ser o suficiente para atingir o chão. Se Ross invadisse Shurr More, ele a encontraria mais rapidamente se não tivesse que procurar no castelo inteiro. Que inferno! Megan estava saindo pela janela! Ross segurou a espada com mais força enquanto olhava pela janela para o comprimento da corda de lençóis que dava no telhado abaixo. Estava escuro, mas as chamas dos prédios se incendiando transformavam a noite num tipo infernal de dia. No estábulo abaixo, viu pessoas andando para lá e para cá, tentando apagar o fogo, tentando afugentar os Carmichael e os Sutherland que seguiram Ross até os muros de Shurr More. Mas nenhuma mulher assustada com um bebê estava no telhado. — Por que ela não esperou ali para ser resgatada, como qualquer mulher normal? Franzindo o cenho, Ross afastou-se da janela. — Fique de guarda lá em cima e mate qualquer homem que tentar resgatar a lady! — Comyn. Assim que o guarda entrou para ver o que tinha acontecido no aposento, Ross desceu um candelabro de prata em sua cabeça. Sem perder um minuto, foi até a janela e, nó após nó, desceu pela corda de lençóis, imaginando como Megan conseguira descer com um bebê ao colo. — Lá está ele — gritou Comyn da janela. 163


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Ross pulou os últimos metros, dobrando os joelhos para absorver o impacto, deslizando sobre o telhado e indo até a borda. Entrou na capela, uma sombra o acompanhou, balançando sem perigo do lado de fora do capacete enquanto ele se agachava ao lado de um túmulo. Uma segunda batida mais forte de trás o ensurdeceu. Praguejando, ele apareceu e agarrou a figura traiçoeira, colocando-a contra a pedra da capela. — Renda-se — grunhiu. — Com prazer — veio a resposta suave e apaziguadora. — Meggie? — Ross sentiu as mãos trémulas enquanto acariciava seus cabelos e rosto. — Oh, minha Meggie. — Ross. Está zangado comigo? — Furioso. Quando ouvi que você ia se colocar nas mãos daquele louco, eu... eu... — Obviamente as palavras lhe faltaram. — Não podia deixar Comyn levar o pequeno Kieran sozinho — esclareceu ela, apressada. — Podia ter confiado em mim para salvá-la e ao bebê. — Mas... — Chega de mas. Não desta vez. Onde está Kieran? — Aqui. — Megan se afastou para soltar as faixas que prendiam o bebê a seu corpo. — Ele é tão bonzinho — sussurrou, afastando um canto do cobertor para que ele o visse dormindo. — Assim como você não é. Vai parar de agir assim e nunca mais vai se arriscar novamente — grunhiu ele. — Meggie, pensei tantas coisas quando você se foi com ele. — Senti o mesmo quando pensei que você tinha me abandonado. — Nunca. — Ele a beijou. — Deus, acho que estou começando a raciocinar como você, achei que era melhor recuar, e então voltar escondido, achei que seria melhor se Comyn não pensasse que você era tão importante para mim. — Ross, não basta tirar a mim e Kieran daqui, temos que deter Comyn. — Ela repetiu brevemente o que Comyn contara sobre seus planos de expansão. Ross fechou os punhos, os lábios curvados em puro desgosto. — Há fim para a perfídia do homem? — Não. Ele confessou ter participado da morte de meu irmão e tenho quase certeza de que ele matou Lion também. — Pelo sentimento que nutria por Siusan, é provável. Mas não é hora para especulações. — Ross cobriu gentilmente o rosto de Kieran e tirou Megan da capela. — Quando estiverem a salvo, voltarei para lidar com 164


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Comyn. — Como entrou no castelo? — Quando ele roubou Kieran, deixou uma corda com um gancho na ponta. Pareceu ser de grande utilidade, então, trouxe-a comigo. Com isso, conseguimos escalar o muro dos fundos. Megan parou. — Veio sozinho? — Não. Owain e os outros estão por aí, subjugando os mercenários de Comyn. Mantendo-a a salvo atrás de si, Ross a conduziu para fora da torre, pelo ferreiro, até o muro dos fundos. As poucas pessoas que encontraram eram servos. Ainda assim, não relaxou enquanto não avistou o objetivo. — Lá está o portão dos fundos. — Ross deixou de sorrir quando alguém saiu de uma reentrância da parede da cozinha, uma figura negra bloqueando seu caminho. Comyn. — Corra, Meg! — gritou Ross. Não teve tempo de ver se ela obedecera, pois Comyn já vinha atacá-lo. A sua frente estava o portão e a liberdade. Consciente da preciosidade que carregava junto ao peito, Megan queria desesperadamente aproveitar a oportunidade que Ross providenciara. Mas... Viu Ross lutar pela vida, por eles. Lembrava-se bem da falta de lealdade de Comyn. E se ele tentasse algum golpe baixo? Ela devia ficar ali para ver, para avisar Ross. Mas... Kieran se mexeu e começou a chorar. O que deveria fazer? A quem devia mais lealdade? Ao homem que amava ou à criança que amava como se fosse sua, depois de jurado à irmã que cuidaria de seu filho? — Fuja, Meggie! — gritou Ross, e ela percebeu que sua presença era um perigo para ele. Segurando o amuleto que ganhara de Ross como presente de casamento, sussurrou: — Cuide-se, amor. — Voltou-se e saiu pelo portão, sem se importar, pela primeira vez, se estava mancando. Ross ouviu Megan partir e sentiu um grande alívio. Agora, podia aplicar suas energias totalmente em derrotar o inimigo. Ah, doce vingança. Alguns minutos de luta para Ross perceber que Comyn continuava menosprezando o oponente. Para provar o ponto. Passou por baixo da espada de Comyn e mirou o ombro. A ponta rasgou a capa de seda, mas escorregou pela malha de ferro que ele usava por baixo. 165


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— Forçado a usar a malha de ferro mesmo no próprio castelo? — Achei que você desistiu rápido demais. — Meu irmão desistiu rápido demais? Comyn tropeçou e gemeu quando Ross o atingiu na coxa esquerda, rasgando o couro e cortando a carne. — Não matei o seu irmão. — Siusan disse que você estava lá quando ele foi assassinado. — Não tinha certeza de que ela me vira. — Comyn franziu os lábios. — Ela ficou meio doida quando ele morreu. — Ver alguém que se ama morrer provoca essa reação. — Amor! Odiava vê-los juntos, odiava saber que ele a tocava. — Ross aguardava a fúria fazer efeito no manejo da espada. Lá estava a oportunidade. — Por Lion — declarou Ross, suave. Mirando o cotovelo, afastou a espada de Comyn e atingiu-lhe a carne. Comyn praguejou e largou a espada, o sangue pingando pelo cotovelo. — Ha. Não é um golpe fatal — desdenhou. — Não, prefiro vê-lo levado a Edimburgo para encarar a justiça do rei — comunicou Ross, satisfeito. — Vou vê-lo pagar pela morte de Lion. — Eu? — Comyn riu. — Mas eu não matei o seu irmão... foi Eammon. Eu disse a ele que Lion tinha o ópio. Disse que, se ele quisesse a droga, teria que matar Lion. Que boa pontaria tem o velho, considerando suas condições. — Eammon matou Lion? Não. Não podia ser. — Não poderia ir a Siusan com as mãos sujas do sangue de Lion. Comyn aproveitou que Ross se distraíra para tirar vantagem. Puxando uma adaga do cinto, pulou para cima dele. Rolaram os dois no chão, a adaga junto ao pescoço de Ross. — Agora, vai pagar... Ross segurou sua mão e procurou a própria adaga. Lembrou-se de que a usara para silenciar um vigia. Mas... havia alguma coisa. Um pedaço de madeira liso e fino. O galho que Dame Islã lhe dera. Por sorte. Ross acertou Comyn no olho. Ele gritou, surpreso. Então, soltou o ar e morreu. Ross imaginou ter ouvido as portas do inferno se abrirem para abrigar outro demónio. Um cujos atos se refletiriam além túmulo, perturbando os vivos.

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CAPITULO 19 — Lá está! Estou vendo Curthill no horizonte! O grito excitado de Davey fez Megan erguer o olhar do rosto do rebento dormindo em seu colo. Endireitando-se, deliciou-se à visão familiar das torres de pedra, as narinas se inflando para sorver o cheiro do mar. Lar. — Estamos em casa — murmurou, voltando-se para encarar o homem que os trouxera a salvo através das paisagens selvagens das Terras Altas. De dia, os braços de Ross a envolviam e a Kieran, protegendo-os do frio e do mal; à noite seu grande corpo os aquecia enquanto dormiam. — Estamos a salvo. — Sim. — Ele ergueu o visor do capacete para revelar um rosto tão tenso e vigilante quanto quando ainda estavam nas montanhas. Embora os mercenários de Comyn MacDonnel estivessem presos em Shurr More sob guarda Sutherland, animais e errantes ofereceram ameaça real durante a viagem. Mas não mais. Assim, por que...? — É Andrew? — Ela virou a cabeça para ver a linha de cavaleiros. O velho mestre ainda fazia cara feia por estar no meio da tropa com alguém pajeando-o, mas estava ereto na sela. Espiando Megan, ergueu a mão esquerda e se adiantou. Megan gemeu e olhou para a frente. — Oh, aí vem ele. — Milady, precisa de alguma coisa? — perguntou Andrew. — Não. Estava apenas dando uma olhada. — Se precisar de alguma coisa... qualquer coisa, só tem que pedir, lady Megan. — Olhou para o braço direito, espesso devido às bandagens, preso firme contra o peito, mas inteiro e sarando. — Precisa falar com ele... fazê-lo perceber que não me deve nada — comentou Megan a Ross quando Andrew voltou para trás. — Todos nós somos seus devedores — afirmou Ross, rígido. O que está errado com você? quis gritar Megan. — Lamento que tenha tido que matá-lo — arriscou ela. 167


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— Comyn merecia morrer. — Mas não pela sua mão. — Melhor pela minha do que pela de outro. — Ross! Converse comigo... Ele olhou para ela e para Kieran. — O que quer que eu diga? — É papai? — perguntou ela, sentindo um frio no estômago. — Tem medo de que ele esteja morto? — Morto? — Isso não tinha lhe ocorrido. — Não, eu... ah, aí vem Giles. Megan deixou de lado as próprias preocupações para saudar a tropa que vinha de Curthill, com Giles exuberante à frente. — Estava a ponto de mandar homens atrás de vocês — informou o belo cavaleiro, parando ao lado de Ross. — Está tudo bem? — perguntou Ross ao homem sorridente. Giles deixou de sorrir. — Lorde Comyn desapareceu. Tive medo de que ele tivesse sido pego pelos piratas, mas não encontramos nenhuma evidência de... — Comyn teve um fim adequado — grunhiu Ross. — É uma longa história e vai ter que esperar até minha lady estar em casa. Megan sentiu que Ross estremeceu ao atravessarem a ponte para Curthill. O que havia lá para fazer um homem desses estremecer? Uma olhada pelo pátio a fez esquecer a questão. — Está tão limpo e arrumado quanto costumava ser antes dos tempos ruins — murmurou. Até Ross sorriu. — Giles, você fez milagres. — Não foi trabalho meu. Quando os Sutherland souberam que seu lorde estava aprisionado e eles não sabiam de nada, ficaram tão envergonhados que correram para arrumar tudo. No salão, as mudanças tinham sido ainda mais dramáticas. Os amigos fanfarrões de Archie desapareceram. O local estava imaculadamente limpo e cheirando a ervas aromáticas. — Meg! — Lady Mary parou junto à porta, ergueu a saia e correu com agilidade extraordinária. — Ele está vivo. Seu pai está vivo! — Vivo! — Ela estava com medo de perguntar. A mãe a abraçou com força. Preso entre as duas, Kieran acordou e protestou alto. — O que é isso? — Lady Mary recuou um passo, arregalando os olhos enquanto Megan soltava o bebê. — Oh, mas é um bebê. 168


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— O filho de Siusan. Não consegui salvá-la — informou Megan, e os três choravam agora. O som atraiu Chrissy e as outras mulheres, que começaram a chorar também. — Nossa, é ensurdecedor — resmungou Lorde Nigel. — Com Eammon fora de perigo, esperava sorrisos. O que foi agora? — Estão lamentando — esclareceu Ross. — Chrissy, pode cuidar de Kieran? — pediu lady Mary. — Vou levar Megan para ver o pai. Acho melhor não falarmos de Siusan até que ele esteja mais forte — acrescentou. — Sabe o que é melhor, mamãe, mas, se ele perguntar por ela, não vou mentir — declarou Megan, devagar, os olhos fixos em Ross. — Já estou farta de mentiras. — Venha conosco. Quero que conheça papai. — Ela o agarrou e levou pelo pátio em direção à torre que o pai ocupava. — Ele está vivo. — Começou a subir as escadas. Ross se deteve, sem saber se queria encarar o assassino do irmão. — Está tarde. Talvez devêssemos esperar até amanhã para visitálo... — Preciso vê-lo. — Ela se voltou, a expressão séria. —Preciso vêlo com meus próprios olhos e, quando for a hora certa, contar sobre Siusan. Ver Eammon Sutherland era uma provação, mas não aquela que Ross imaginava. O velho homem na cama com dossel parecia mais um fantasma, o rosto tão branco quanto o travesseiro sob sua cabeça. — Oh, papai — engasgou Megan. Apertou a mão de Ross até seus ossos estalarem em protesto, mas ele não a largou, não querendo que ela enfrentasse essa luta sozinha. — Meggie? — Eammon ergueu levemente as pálpebras. — Ah. Você é um colírio para esses olhos cansados. — Olhou para Ross. — Lion? — Esboçou um leve sorriso. — Que bom vê-lo, rapaz. Tive um sonho terrível... pensei que alguma coisa ruim tivesse acontecido. Não podia suportar aquilo. Chegue mais perto... — Ergueu a mão, que caiu novamente sobre a cama. — Preciso... pedir um favor. Piratas. Piratas malditos. Tente pará-los... Fracassei. Não fui forte o bastante. Mas você é. — Novamente a mão se ergueu. Por instinto, Ross se estendeu e tomou-lhe a mão, pressionando-a ternamente. — Está tudo bem, senhor. — Não. Não vai estar tudo bem enquanto eles não pararem. Diga que vai... pará-los, pelo meu povo — implorou Eammon, os olhos lacrimejantes. 169


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— Considere feito — declarou ele, gentil. — Ah. — O velho homem relaxou na cama. — Soube no momento em que o vi que era o homem para minha Siusan... o homem para salvar minha gente.— Fechou os olhos.—Negócio ruim... não posso pensar em como começou. Cansado... cansado demais para lutar com Comyn. — Shh — pediu Megan. — Está tudo bem agora. Deve se concentrar em melhorar. — Tenho... minha Mary diz que vai me matar se eu não melhorar. O pai voltou a dormir, Megan se voltou e enterrou o rosto na túnica de Ross. —Obrigada por fingir que era Lion. Amanhã, se ele estiver mais forte, vamos contar a verdade. Verdade. A palavra atingiu Ross como uma lâmina em brasa. — Vamos esperar ele melhorar — ofereceu ele, suave, acariciando suas costas. Se contasse a verdade, arriscaria machucar Eammon, que fora tão vítima quanto Lion, arriscaria machucar lady Mary e todo o resto do clã que agora se esforçava para recolocar a vida em ordem. E quanto a Megan? A vida em comum estava apenas começando. Como podia manchar aquela esperança brilhante? E quanto ao pequeno Kieran? Sua família aceitaria a criança, sabendo que em suas veias corria o sangue do assassino de seu pai? Se pelo menos não tivesse ouvido a confissão de Comyn. — Ross. Você está tremendo de frio e cansaço — percebeu lady Mary. — Pedi um banho para o aposento que você e Megan dividiram na noite de núpcias. Vá na frente. Eu... eu preciso conversar com ela. Sem perceber que a sogra estava preocupada com alguma coisa, Ross ficou agradecido pelos minutos de privacidade que teria para refletir. — Mamãe, estou contente em vê-la, e gostaria de conversar com você, mas preciso ver se Ross quer alguma coisa. E Kieran, embora ele tenha aceitado bem toda essa agitação, pode estar assustado com tantos rostos estranhos. — Megan fez menção de sair. A mãe passou-lhe uma taça de vinho. — Por favor, sente-se um minuto... aqui, junto ao fogo. Megan tomou uma cadeira. — Alguma coisa está errada. — Bem. — A mãe engoliu em seco e desviou o olhar. — Mamãe, essa confusão toda me ensinou a valorizar a verdade. Deve me contar o que a aborrece para podermos ver como vamos lidar com isso. Lady Mary olhou para as mãos. 170


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— Existe a possibilidade de você não poder ter filhos. — O quê? — Chocada, Megan gelou no mesmo instante. Ajoelhouse diante da mãe. — Como pode ser? — perguntou, confusa, magoada. Ouviu as explicações e só conseguia entender que seus sonhos estavam desmoronando. — Ross — foi a primeira preocupação de Megan. — Ele vai ficar arrasado. — Por que contar a ele? — perguntou a mãe. — Ele pode repudiála por isso. — Ele tem o direito de saber que a esposa é uma... es... es — Não conseguia nem pronunciar. Estéril. Por que isso, depois de tudo? Por que isso, quando todos os problemas pareciam ter ficado para trás? — E-eu preciso contar a ele. — Mas como? O sino da capela soou chamando para o jantar. Relutante, Ross abriu os olhos e se sentou na banheira. Megan teria que se apressar se quisesse se lavar antes de descer para comer. O sino tocou novamente, mais alto, mais estridente. Quando o som se perdeu, chegaram a seus ouvidos passos no corredor. — Ross! — Owain entrou de supetão, a espada numa das mãos, o capacete na outra. — Um navio! Um navio estranho está vindo, traz uma bandeira com o nome O Falcão Negro e está atirando na vila. Ross saiu apressado da banheira e se enxugou rapidamente, enquanto fazia perguntas a Owain. Estava mais ou menos vestido quando Davey trouxe sua armadura. O resto dos homens esperava embaixo. Quem estaria atacando? Ross deu ordens gerais e saiu com os homens. Metade da vila estava em chamas quando chegaram. As pessoas corriam para o castelo. As ruas estavam cheias de mulheres, crianças e homens confusos tentando salvar seus lares. Com as forças divididas entre eles, Owain e ele mesmo, Ross se dirigiu à praia. O sol tinha acabado de se pôr, mas a fumaça negra que saía do navio tornava o céu do porto escuro como a noite. Os que estavam a bordo extinguiam o incêndio. — Virem os botes — gritou Ross. — Protejam-se das flechas! Dali a pouco, uma chuva de flechas, algumas com chumaços incandescentes, chegou à praia. — Recolham as flechas e mandem de volta — berrou Ross. — Vamos ver se eles gostam de ficar num navio em chamas. Muitas flechas não atingiram o objetivo, caindo na água, mas algumas 171


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atingiram as velas, incendiando-as. O capitão gritou, mandando homens cuidarem do pior pesadelo dos marujos. A voz era estranhamente familiar. Owain também achou. Olhando para Ross, ele comentou: — O líder tem um berro igual ao de... — Meu pai. — Ross tomou a frente. Que droga ele ir se afobando sem saber o que acontecera. — Como vamos avisá-lo de que somos nós antes que ele nos mate? — gritou Owain debaixo de um tronco, protegendo-se das flechas. Ross resolveu o problema assim que a chuva parou. Protegendo-se, emitiu o brado de guerra e deixou que os homens repetissem o brado. Quarenta vozes responderam. — Um Carmichael. Um Carmichael. — Os Sutherland se juntaram, assim, o grito criou uma onda, ricocheteando nos penhascos abaixo do castelo e rolando sobre as águas. Ross ergueu a mão, e a onda diminuiu, caindo em total silêncio. Se fosse seu pai e achasse que era armadilha? E se não fosse, o inimigo tentaria iludi-los? Então, chegou o som que ele não pensara em ouvir pelo menos por uma semana. — Ross? É você, garoto? Garoto? Quantos homens chamavam seus filhos de vinte e cinco anos de garotos? — Sim, pai! — gritou de volta. — Sou eu! — Você está bem? — indagou o velho, com um estremecer no final que fez Ross sorrir. — Você partiu há tanto tempo que pensamos que estivesse morto. — Estou vivo, pai, mas com fome e cansado. Se pretende nos conquistar, corra, assim posso voltar ao meu banho. — Já, já estamos aí — veio a resposta esperada. Ross esperou o navio baixar as velas e lançar âncora antes de um bote ser lançado às águas. Veio direto a Ross, o pai de pé na proa. Assim que o bote bateu na pedra, Lionel foi para a praia, ainda totalmente vestido para a batalha, menos o capacete, os longos cabelos negros grudados de suor. — Ross! — O patriarca lançou os dois braços ao redor do filho e o apertou até retirar todo o ar dos pulmões. — O que está fazendo aqui? — engasgou Ross, as costelas estalando. —Sua mãe estava preocupada. — Lionel largou Ross e recuou, olhando-o de cima a baixo, crítico. — Perdeu peso e não está com uma cor 172


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muito boa. Não admira. — Estive em perseguição nas Terras Altas. — E não dormia desde a revelação de Comyn. O pai resmungou, deu uma olhada nas torres iluminadas de Curthill. — Pegou o bastardo que matou Lion? — Sim. — Devagar, com dor. Podia não ser a verdade, mas era o certo. — Ah. — O pai sorriu, as linhas duras em seu rosto se aliviando. Fechou os olhos momentaneamente. Quando os abriu a paz brilhava nas profundezas violetas. — E a mulher? Ross se abraçou. — Me casei com ela. — Ah. Então devo ter netos antes do fim do ano — apreciou ele. — Bom trabalho... é o que conta. — Bateu em Ross no ombro. — O que foi? Por que fez uma careta? — Um velho ferimento — respondeu Ross. — Lionel Carmichael! Como se atreve a me deixar naquele barco? Ross se espantou. — Mamãe? Trouxe mamãe numa incursão de guerra? — Trazer? — Lionel revirou os olhos. — Eu trouxe Hunter. Sua mãe e Elspeth se infiltraram — resmungou. — Acredita nisso? — Com facilidade — respondeu ele, pensando em Megan. — Ross. Oh, Ross. — A mãe atirou os braços sobre ele. — Oh, você emagreceu. — Recuou um passo. — E está um horror. — Acontece que acabo de voltar a Curthill e fui tirado do primeiro banho em semanas pelo alerta de que O Falcão Negro estava atacando a aldeia. — Agora, onde está minha nora? — grunhiu Lionel. — E você mencionou comida? Não comemos nada além de comida fria, dormindo em cama dura nas últimas semanas. — Megan e a comida aguardam em Curthill, mas há uma terceira surpresa. — As lágrimas que se seguiram depois da novidade da existência de Kieran selaram a sua decisão. Agora, finalmente, haveria paz. — Se foi? O que quer dizer com Megan se foi? — exigiu Ross de lady Mary. — Cansada como estava, se ela foi à vila cuidar da gota de Lang Gordy, eu... eu... 173


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— Ela... ela teve que partir — respondeu a lady. Ele seguiu seu olhar até a lareira onde sua família brincava com Kieran. — Tem alguma coisa a ver com o bebê? Lady Mary balançou a cabeça, mas empalideceu mais ainda. — Se me contar sem rodeios por que e para onde Megan fugiu, eu irei atrás dela e a trarei de volta ou esperarei até que ela volte. — Ela... ela foi embora porque ela não pode lhe d-dar um bebê. — Que loucura é essa? Casada por uma semana e já teme ser es...? — E-ela é estéril. — A sogra desmoronou em prantos. Quando se controlou, Ross tomou-a pelos ombros. — Por que teve que contar a ela? Nunca se pode ter certeza nesse assunto. — Porque ela insistiu em saber a verdade. A verdade. Ross voltou os olhos para o teto. Então, essa era sua punição por sua obsessão pela verdade. — Me diga para onde ela foi? — exigiu ele. Assim que obteve a informação, ele pegou um cavalo do estábulo do castelo, não Zeus, que estava exausto da viagem, e partiu para a vila. Minutos depois já estava na cabana de George. — Quem está aí? — perguntou o alfaiate, tímido. — É Ross. Quero falar com Megan. Sei que ela está aí, portanto, me deixe entrar — exigiu, com sua melhor voz de dono-do-castelo. — Um momento — respondeu George. Vários minutos se passaram e, quando a porta se abriu, somente George, a esposa e Lucais estavam na cabana. Megan fugira. — Onde ela está, garoto? E fale rápido. — Eu... eu não posso lhe dizer. Ross foi até a mesa e pegou o livro de histórias de Megan. — Tenho que encontrá-la... agora. Ela está ferida, garoto, e precisa de mim para curá-la. Lucais sorriu. — Com Lang Gordy, milorde. E boa sorte na busca. Quando saiu da cabana, Ross viu um arbusto igual ao do galho que Dame Islã lhe dera. Parecia tolo pegar um galho e colocar no cinto. Para dar sorte. Mas só um tolo ignoraria algo que funcionara no passado. Enquanto passava pela porta da carpintaria, pensou que fora ali que tudo começara. Estava tudo quieto, exceto pelo roncar ritmado de Gordy chegando do quarto. A única luz vinha do fogo fraco no fogão. Sob a iluminação dourada, viu Megan deitada num leito no canto. 174


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— Meggie. — Deixando o livro de lado, Ross tocou em seu cabelo. Ela abriu os olhos. — Ross. — Ela o procurou para um abraço e então lembrou-se. Com um gemido angustiado, tentou se afastar. Ross não permitiu. — Meggie... — Ela começou a chorar e tentou se soltar. — Calma, garota. Vai se machucar. — Como ela não desistia, ele passou uma perna sobre seu corpo, prendendo-a, gentil. Ela finalmente se cansou. — Ma-mamãe lhe contou. — Sim, contou. — Que mulher, ela não podia ter mentido só desta vez? Megan evitou o seu olhar. — Então sabe o que deve fazer. Sim. Sabia. Suplicar-lhe. — Ross, pare de sussurrar em meu ouvido e ouça — ordenou ela, sem convicção. — Não, não podemos — lamuriava-se, fracamente. — Nós temos... você tem que me repudiar. — Tarde demais. Você me enfeitiçou. — Não posso lhe dar filhos. Ele ergueu a cabeça, sorrindo-lhe encantadoramente. — Já me deu Kieran. — Mas... mas ele não é seu. Sem deixar de sorrir, ele declarou: — Ele é o bebê do meu coração. Dos nossos corações, precioso para nós, porque nós amávamos seus pais e temos medo de ter faltado com eles. Vamos amar Kieran como os amamos. Vamos criá-lo como se fosse nosso. — Oh, Ross — emocionou-se ela. Ele a beijou, quente, possessivo e depois infinitamente terno. — Eu te amo — murmurava, entre um beijo e outro. — Seu estúpido. Por que não entende que é melhor ar ranjar alguém que... — Acha que posso amar outra mulher? Não, me recuse e vai me condenar a uma vida eterna de miséria. Megan piscou, sentindo a intensidade de seu amor. Ele a soltou, estendendo-se a seu lado, mão atrás da cabeça. — Você me ensinou a sonhar, a ter esperança, a amar. Venha comigo e me ensine mais. Quer saber da verdade? Não quero arriscar perdê-la para febre puerperalou algo assim. Kieran vai mantê-la bem 175


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ocupada, sem falar nos doentes e feridos, e sempre aparecem órfãos na soleira do castelo Carmichael. Você podia adotá-los. — Não... não é a mesma coisa. Eu queria... sonhava em ter os meus próprios filhos. — Eu sei. Mas teremos um ao outro, e Kieran. Não pode ser o suficiente? — Acho que vai ter que ser — concordou Megan, triste. Ross beijou-a no nariz. — Me sinto como último prêmio. — Oh, nunca diga isso. Você é o único homem que já quis. — Ela lançou os braços ao redor de seu pescoço. — Ele esperava um "mas"; ao invés disso, ela declarou: — Eu te amo. — E eu te amo, minha Meggie. — Ele colou a testa à dela e suspirou. — Com sorte, poderemos ir de mansinho aos nossos aposentos enquanto nossas famílias se distraem com Kieran. — Não quer que eu conheça seus pais? — Depois. — Ele a beijou, com o coração no olhar. — Muito depois. Antes quero fazer amor com minha esposa numa cama. Numa cama de verdade. Megan sorriu. — Não pode ser tão melhor. Mas...

EPÍLOGO Trinta de setembro, um dia depois da festa de são Miguel, amanheceu claro e brilhante; algo no ar anunciava que o verão estava mesmo acabado e logo o inverno lançaria seu manto. Ross respirou fundo, soltando o ar devagar. Geralmente, não gostava dos longos meses de inatividade, quando o inverno rigoroso mantinha o homem dentro de casa com pouco a fazer, mas a ideia de ficar no castelo Carmichael com aquela que era sua esposa havia dois meses tinha apelo. — Cansado, rapaz? — perguntou o pai, enquanto caminhavam pelo portão com dentes de ferro que guardava os pátios internos do castelo Carmichael. — Sim — admitiu Ross, mas era um tipo de cansaço agradável que vinha após longas horas supervisionando a colheita. E fora uma boa safra. A despensa estava abarrotada de frutas, 176


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castanhas e maçãs. Havia barris cheios de aveia e cevada; a cerveja fermentava em grandes tonéis. Os animais considerados prontos já tinham sido abatidos, salgados e defumados. O restante iria para engorda com os restos da colheita que permaneciam nos campos. — Fez muito bem em instalar o moinho — admitiu Lionel. Então, por que ainda não me declarou seu herdeiro? Por mais que valorizasse a verdade, Ross temia a resposta àquela questão. Simplesmente tomou a iniciativa que cabia ao próximo chefe do clã Sutherland e tentou ignorar a dúvida da sua gente. No dia anterior, quando todos os Carmichael de perto e de longe se reuniram para celebrar a colheita, ficara na expectativa... ou melhor, tivera esperança mesmo, que droga, de que o pai fizesse o anúncio. — E muito bom ver o clã reunido — comentou o pai, desviando a atenção de Ross para o pátio externo. A fortaleza fora construída sobre uma colina; assim, do ponto vantajoso, cobria todo o campo que se estendia ao redor. Dentro dos muros resistentes do castelo, havia estábulos, ferreiro, alojamentos e campo de treino. Ali os visitantes do clã haviam se instalado, com as cores preta e vermelha e a insígnia pessoal de cada líder. Ross encheu o peito de orgulho. — Pensei que eles já tivessem começado a se arrumar para voltar agora. — Festejaram até tarde ontem, devem estar com as cabeças pesadas. Foi um noite de muita dança, bebida e histórias. Falando nisso... — Lionel deu uma olhada pelas barracas e nas pessoas bem vestidas. — Onde está a nossa Meg? Nossa Meg. Ross se sentiu duplamente feliz. Sua família se afeiçoara a Meg muito rapidamente. Claro que só podia ser assim, ela era esperta, alegre e adorável. Seu otimismo inabalável, sua tremenda capacidade de curar haviam se espalhado pelo castelo Carmichael como um vento refrescante, levando embora a dor e a culpa que os dividiram após a morte de Lion. Sim, fora acertado não revelar o que realmente ocorrera, pensou Ross. A cada dia, o peso da mentira diminuía. — Geralmente fica fácil localizá-la pelo seu traço. Lionel riu. — Traço de alegria. Acho que ela já se recuperou por não poder... — Pai. É desejo do senhor — sentenciou Ross, severo. Nessas horas, lamentava ter sido honesto com os pais. Só fizera isso para que o pai não ficasse sempre tocando no assunto de bebês, magoando-a. 177


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Lionel resmungou e então, alegrou-se de novo. — Ah, lá estão as mulheres. — Ele foi andando rápido para onde as mesas haviam sido postas para a festa de São Miguel. Ross se apressou para acompanhá-lo, surpreso ao ver que as fogueiras para cozinhar alimentos estavam sendo acesas novamente. — Em que mamãe está pensando? Não é preciso festejar de novo hoje, todo mundo deve estar partindo até o meio-dia. — A gente precisa comer — contornou o pai, os olhos brilhando de excitação. O pai estava tramando alguma coisa. Antes que Ross pudesse descobrir, porém, os dois alcançaram as mulheres. — Ah, lá está minha fadinha! — exclamou Lionel, sor rindo para Megan, que estava numa mesa próxima. Uma dúzia de crianças sentadas em círculo ouviam enquanto ela contava histórias com bonecos. — Ela está contando como Loarn e seus irmãos estabe leceram o reino antigo de Dalriada — resumiu Elspeth, a irmãzinha de Ross. — Foram guerreiros fortes, e acho que descendemos deles. — Pode ser. — Lionel se virou para abraçar Carina, que voltava da fogueira dos cozinheiros. — O que você me diz, querida? Temos sangue de Loarn em nossas veias? — Alguns de nós, sim. — Ruborizada, os olhos brilhando, Carina olhou para o círculo de Carmichael, parando em Kieran, que dormia nos braços da babá. Deixou de sorrir por um instante e declarou: — Ross com certeza tem. — Eu? — Ross desviou a atenção do bebê para a mãe, ciente do barulho dos membros do clã que se aproximavam. Esperou por um esclarecimento do pai, que não veio. Ao invés disso, Lionel comentou: — Tenho uma história para contar. Uma história? Lionel Carmichael era um homem de ação, um homem cujos feitos se tornaram lenda, mas que raramente ouvia às canções que as celebravam. Ross olhou para Megan, encontrou-a olhando-o tão intensamente que temeu que alguma coisa pudesse ter acontecido. — O que foi? — exigiu ele, dando um passo, mas a mãe o impediu, passando-lhe uma taça de vinho e fazendo-o se sentar sobre uma coberta que alguém havia estendido no chão. Na verdade, parecia que todo o clã Carmichael circundava Megan, taças à mão, os rostos iluminados de ansiedade. — Certamente estão todos esperando por essa história — resmungou ele, enquanto Andrew se ajoelhava a seu lado. 178


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— E por que não? — afirmou o velho cavaleiro. — Sua mulher tem a língua de prata e o coração de anjo. Ross ergueu uma sobrancelha. Elogios em profusão, até do admirador mais ardente de Megan... quase tão ardente quanto ele mesmo. Dois meses de casados e ele estava mais apaixonado do que nunca. Mas ele a conhecia. — Ela tem o coração de uma leoa, e está tramando alguma coisa. — E fosse o que fosse, esperava que não estragasse a surpresa que ele lhe reservara, para logo após a partida dos hóspedes. — Gostaria de ouvir a história de como Ross matou Comyn MacDonnel — berrou Lionel, aplacando os apupos. — Não. O olhar assustado de Ross encontrou o olhar calmo de Megan. O sorriso seguro não aliviava o frio no estômago. Não podia reviver aquele dia terrível, não podia. No entanto, quando fez-se silêncio e ela começou a falar, Ross percebeu que a história tinha sido adaptada nos fatos essenciais e que novos itens tinham sido acrescentados. Na narrativa, Comyn era duas vezes mais diabólico do que fora na verdade, e suas tentativas de enganar Ross tomaram tal forma que só foram suplantadas por sua bravura e vontade honradas de descobrir o que acontecera com seu amado irmão. O triunfo de Ross, o lance final que fez o amuleto da sorte ser o instrumento da destruição de Comyn recebeu gritos de aprovação da audiência. Não havia olhos secos no pátio quando Megan contou como Kieran fora salvo da morte das mãos do ensandecido que o deixara órfão. — Ross! Ross! Ross! — cantou a assembleia de Carmichael. Ruborizado de constrangimento, mesmo assim emocionado às lágrimas, Ross se levantou e acenou para sua gente. Então foi até Megan, sem saber se queria beijá-la ou sacudi-la. Andrew tirou a decisão de suas mãos, agarrando-o pelo braço. — Venha. Temos alguns assuntos para resolver. — A multidão abriu passagem enquanto o cavaleiro levava Ross para o extremo do campo de treino. Ross sentiu o coração palpitar quando viu sua armadura sobre a relva e Davey esperando para ajudá-lo a vesti-la. — Não vou lutar com você. — Já houve bastante luta — concordou Andrew. — Então, o que...? — E um tipo de cerimónia — sussurrou Megan, passando a mão sobre ele, reconfortando-o. — E coisa sua? — exigiu ele, cauteloso. 179


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— Realmente mencionei sobre isso quando conversava com seu pai, mas... — Vista a armadura — bradou o pai. — O pessoal já está cansado de ficar em pé com as pedras. Ross piscou, percebendo que cada um dos Carmichael tinha uma grande pedra, na mão ou junto aos pés. — Vão me atirar pedras? — Tolinho. — Megan o beijou no rosto e se retirou enquanto Davey, Owain e Andrew o ajudavam com a armadura. — Bem? — exigiu Ross quando acabaram, sentindo-se um tolo com a armadura completa de batalha. O sentimento continuou até que o pai carregou uma rocha de verdade uns doze passos, pousando-a à sua frente. — Eu, que plantei a semente, coloco a primeira pedra — declarou o senhor, solene. — Permita que seja a fundação da qual o próximo senhor dos Carmichael comandará um dia. Os raios de sol brilharam nas lágrimas de Lionel, que se afastou indo para junto da esposa. Os outros homens rapidamente imitaram o gesto, pousando pedra após pedra até construírem uma estrutura da altura do ombro, de forma triangular. Por último, Megan tomou a frente com Kieran nos braços. Na mão, ele carregava uma pedrinha, que ela ajudou a soltar, juntando-a às outras. — Por Kieran, que será o herdeiro de Ross — declarou ela, a voz rouca de emoção. Se os Carmichael acharam estranho que Ross designasse o filho do irmão para sucedê-lo ao invés de um seu próprio que um dia teria, não ficou claro nos brados de aprovação. Em seguida, os homens ergueram Ross nos ombros e o colocaram acima das pedras. Giles e Davey ficaram dos lados para sustentá-lo enquanto Andrew passava a espada que Lionel levava para a batalha. — Que seja conhecido que, deste dia em diante — gritou o pai, a voz atingindo os muros do castelo — Ross Carmichael é meu herdeiro reconhecido,e será o chefe do clã depois de mim. — A alegria tomou conta da assembleia de Carmichael. Tomado pela emoção, Ross balançou e teria caído se Andrew não o sustentasse. O mar de rostos ficou borrado, todos exceto um. Megan ergueu o olhar com amor, as lágrimas correndo pelo rosto. Ela ainda estava lá, segurando Kieran e sorrindo, quando os membros do clã o baixaram de volta. — Vai me pagar por todo esse constrangimento — disparou Ross, beijando-lhe a testa para amainar a dureza das palavras. Na 180


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verdade, estava mais tocado do que podia externar sem se desequilibrar emocionalmente. — Não culpe a moça — censurou o pai, batendo-lhe nas costas. — Ela só mencionou que uma cerimónia assim é realizada nas Terras Altas para confirmar o herdeiro e eu... Agarrou-se a isso como uma truta faminta, pensou Megan, abraçando mais um pouco Kieran de felicidade. A cerimónia fora uma maneira graciosa para Lionel reconhecer Ross como seu herdeiro sem admitir que devia ter feito isso havia um ano. E Ross... O sorriso encantado, a serenidade no olhar, azul e límpido como o céu outonal, fez seu esquema valer a pena. Mas... havia mais alguma coisa naquele olhar, toda vez que se encaravam, que a estava deixando preocupada. Quando a refeição terminou, Ross já tinha sido saudado por cada Carmichael com idade superior a dez anos. As sombras se alongavam, o ar estava definitivamente mais frio quando Megan caminhou pelo castelo para ver se estava tudo bem com Kieran. Olhando para seu rosto doce, os cabelos negros emoldurando bochechas cheias levemente rosadas pelo sol, sentiu o coração se apertar. Oh, Siusan. — Não se lamente por eles, amor — sussurrou Ross, abraçando-a pela cintura e trazendo-a para mais perto. — Eles estão juntos, como queriam, e nós vamos manter Kieran a salvo. — Sim, vamos — reafirmou Megan, suave. Virando-se, lançou os braços ao redor do pescoço dele. — Está zangado comigo? O sorriso de Ross dissipou quaisquer dúvidas. — Como poderia, já que você me deu a segunda coisa que eu mais queria na vida? — Foi obra de seu pai — esclareceu ela. — Mentirosa — repreendeu ele, gentilmente e sem censura. — E além disso não posso reclamar demais, já que tenho uma surpresa para você. — Tem? — Megan riu e se aninhou em seu abraço. — Gostei do que me deu esta manhã — murmurou, os olhos umedecidos pela lembrança de como acordara, sentindo seus dedos acariciando-a intimamente, roubando-lhe a razão. — Não é esse tipo de surpresa. — Que mal. — Ela passou os dedos por seu tórax. — Foi um belo modo de acordar. — Posso imaginar um ainda melhor. — Impossível. 181


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— Que diria de alguns dias em Edimburgo? — propôs ele. — Meu pai tem uma casa lá, e me lembrei de ir lá ver... só nós dois. — Ergueu as sobrancelhas, fazendo-a rir novamente. Mais que tudo, queria fazê-la feliz, espantar os fantasmas que apareciam em seu olhar toda vez que se lembrava do que lhe fora negado. — E Kieran? — Kieran tem a babá, minha mãe e três irmãs para atendê-lo. Além disso, você vai estar ocupada na cidade. — Vou? — perguntou ela, claramente intrigada. — O Falcão deve chegar de Curthill com um carregamento de mercadorias para ser vendidas, e vou precisar de sua ajuda para verificar a listagem.—O comércio tinha voltado. Desta vez, como Eammon pretendia originalmente, com os Sutherland trazendo produtos honestos dos mercados do sul. Ross concordara em atuar como um fiscal nas trocas. — Vamos ter notícias de papai, então. — A recuperação de Eammon era lenta, mas eficaz. Embora ele nunca mais pudesse recuperar a força total, ao menos voltara para a família. — E, se ele estiver melhor, Chrissy poderá vir nos visitar. — Owain vai ficar quase tão satisfeito quanto você. Megan se entristeceu um pouco. — Acha que eles vão se casar um dia? — O tempo dirá — declarou Ross, embora ele duvidasse de que isso acontecesse até que Owain reconquistasse suas terras. Lamentou as palavras assim que as pronunciou, pois Megan estremeceu e desviou o olhar. Que droga. Ele usara essa mesma frase quando o assunto sobre sua esterilidade surgiu. — Há outro motivo para você estar ocupada em Edimburgo — completou. — Oh. — Ela relaxou um pouco, erguendo o cenho, questionando. — Um membro do clã que mora lá escreveu a meu pai contando que perdeu a irmã e o cunhado num incêndio. A filhinha deles foi poupada, mas... — Oh, ela se queimou? — lamentou Megan. — Sim. Nas costas, pescoço e num lado do rosto — de talhou ele, emocionado com a reação de Megan. — O médico diz que não adianta tentar salvá-la, pois ficará marcada para o resto da vida e... — Médicos. — Megan emitiu um som rude. — Eles não sabem de nada. — Desvencilhou-se de seus braços e foi para a sala. — O que está esperando? É melhor nos apressarmos. — Owain e Giles já estarão com a guarda pronta quando 182


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acabarmos de nos vestir, e já mandei as criadas prepararem nossas bagagens há uma hora — respondeu Ross, caminhando para tomar suas mãos. — O bebê pode não sobreviver, mas, se conseguir, vai precisar de um lar, de cuidados especiais... — E muito amor. Sei como as pessoas tratam aqueles que têm... um defeito — informou Megan. — Qual o nome dela? — Flora... florzinha. Megan franziu o cenho. — Não vai se importar em recebê-la, quero dizer... —O chefe do clã é pai de sua gente — definiu Ross, sério. Na viagem de volta de Curthill, prometera que lhe daria tantos filhos para amar quanto pudesse, legítimos ou não. — Não quero todos eles vivendo conosco, mas... — Sempre cabe mais um. Oh, obrigada. — Megan puxou-lhe o rosto e o beijou sonoramente. — Eu te amo — murmurou, quando ele se ergueu em busca de ar. — E eu amo você — confirmou Ross, abraçando-a, sentindo o coração bater junto ao seu. — Juntos, guiaremos nosso clã... — E criaremos nossos bebês. — Ela ergueu os olhos, sem sombra de dor, brilhantes de esperança pelos dias que viriam. E assim seria. Fim!

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