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Coração Atormentado Tempting Torment

Jo Goodman

Falsos pretextos... Desesperada para escapar da Inglaterra e salvar a vida da criança que tem nos braços, Jessa Winter se casa às pressas com um homem mortalmente ferido, com intenção de fugir do país como sua viúva. Contudo, ela não contava com a vontade de Noah McClellan de viver, nem com a determinação dele de cumprir todos os votos matrimoniais. Mas o pequeno Gideon e seus próprios segredos ocultos precisam ser protegidos, mesmo que as apaixonadas exigências de Noah a deixem tentada a confiar tudo àquele homem: a verdade, sua vida e seu coração... ...Podem levar a uma paixão verdadeira! Noah está decidido a tirar o máximo proveito da astuciosa mulher que tentou fazêlo de tolo. Na viagem para os Estados Unidos, ele se vê dividido entre a indignação e a crescente ternura por aquela jovem encantadora que da noite para o dia se tornou sua esposa. O atrevimento de Jessa quase lhe custou a vida, mas apesar disso ele não consegue controlar o desejo de insinuar-se para ela e de persuadi-la a compartilhar com ele mais do que apenas o sobrenome...

Digitalização e Revisão: Projeto Revisoras


Jo Goodman - Coração Atormentado (CHE 359)

Querida leitora, Nesta história maravilhosa de Jo Goodman, Jessa Winter se casa com um homem que está à beira da morte a fim de sair da Inglaterra como sua viúva. Acontece que Noah McClellan tem uma recuperação milagrosa, e o casamento de Jessa acaba se tornando uma união de amor, esperança e confiança... Leonice Pompônio Editora

Copyright © 1989 by Jo Dobrzanski Originalmente publicado em 1989 pela Kensington Publishing Corp. PUBLICADO SOB ACORDO COM KENSINGTON PUBLISHING CORP. NY,NY-USA Todos os direitos reservados. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência. TÍTULO ORIGINAL: TEMPTING TORMENT EDITORA Leonice Pomponio ASSISTENTES EDITORIAIS Patrícia Chaves Silvia Moreira EDIÇÃO/TEXTO Tradução: Cristina Calderini Tognelli ARTE Mônica Maldonado MARKETING/COMERCIAL Andréa Riccelli PAGINAÇÃO Ana Beatriz Pádua Copyright © 2010 Editora Nova Cultural Ltda. Rua Butantã, 500 — 9 andar — CEP 05424-000 — São Paulo - SP www.novacultural.com.br Impressão e acabamento: RR Donnelley

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Prólogo

Janeiro de 1787 A chuva fria batia na janela. Edward Penberthy, parado com as mãos às costas, observava o berçário do outro lado do pátio interno até a luz ser apagada. Esperou Jessica se mover até o quarto contíguo, onde um segundo depois a luz foi acesa. Apertou os olhos tentando vislumbrar a silhueta, conforme ela caminhava defronte à janela. A chuva contínua dificultava a tarefa e, em frustração, um nervo começou a pulsar em seu maxilar. Quase agradeceu quando Jessica apagou a luz, pondo um fim à sua vigília. Em seguida ele desamarrou o laço que prendia a pesada cortina de veludo. — Você não respondeu à minha pergunta, Edward. A voz era petulante e exigente e as duas coisas enervaram-no ainda mais. Virou-se devagar, ajustando os punhos da camisa, e fitou a esposa com um sorriso nos lábios. — Não acredito que tenha feito uma pergunta, Barbara. Eu a chamaria de proposta. — Ainda assim requer uma resposta — disse ela, recusando-se a ser ignorada. Barbara Penberthy fixou o olhar gélido nas quatro marcas no rosto do marido. Os arranhados não eram grande coisa, ela considerou, mas o orgulho dele devia estar seriamente ferido. Ao ver as marcas pela primeira vez, soube que era hora de propor seu plano mais uma vez. Ele, por certo, apreciaria algum tipo de reparo, afinal não estava acostumado a ter seus avanços refutados. Edward se sentou de lado na poltrona, escondendo assim as marcas da face. — Pensei que já tivéssemos terminado esse assunto. Barbara parou de remexer no anel de esmeralda e cruzou as mãos sobre o colo. — Francamente, Edward, sua reticência não lhe cai bem. Custo a acreditar que tenha se afeiçoado ao menino. Sempre deixou claro que não tolera crianças. — Adam é meu primo. — Em terceiro grau. Você mal conhecia os pais dele. Não me venha com tolices de laços de sangue. Keyton e Claudia não o consideravam útil em vida. Agora, eles o forçam a ser o guardião desse pirralho e lidar com as propriedades e as finanças. Um sorriso tênue se formou nos lábios de Edward. — Não imagino que eles tivessem a intenção de morrer tão jovens. Barbara fez uma carranca com a interrupção. — Isso pouco importa. O fato é que eles morreram. E sem pensar muito bem nos cuidados para com o filho. Se o advogado deles não nos tivesse encontrado, a responsabilidade recairia sobre um desconhecido qualquer apontado pelo juiz. — Não entendo seu descontentamento, Barbara. Do que se lamenta? — Ele fez um gesto, abarcando o cômodo. — Tem alguma objeção quanto a viver cercada de luxo? — Nada disso é nosso — ela retrucou, indo direto ao ponto. — Temos toda a 3


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responsabilidade, mas nenhum benefício. Quando Adam chegar à maioridade, tudo passará para as mãos dele. Não é justo que sejamos descartados desse modo depois de anos de dedicação. — Está encontrando pelos em ovos. Adam só tem seis meses de idade. Quem haverá de saber como ele lidará conosco daqui a tantos anos? Nesse meio tempo é nosso dever criá-lo como um Penberthy merece. Isso não será nenhuma inconveniência. Afinal, se você foi ao quarto dele duas vezes desde que chegamos aqui é dizer muito. Adam tem uma ama de leite e uma babá. Daqui a alguns anos será mandado para o colégio. A meu ver, você usufruirá de muitos benefícios sem ter muitas responsabilidades. — Mas se algo acontecesse com Adam... Coisas acontecem com bebês, você sabe — Barbara acrescentou quando Edward a encarou. — Eles adoecem com facilidade. — Vou fingir que não ouvi isso, Barbara. Seria conveniente que guardasse tais pensamentos para si mesma. — Eu só estava falando de doenças infantis — ela se defendeu. — Estava abrindo uma porta para um assassinato. Sua sugestão é uma ofensa. — É por causa dela, não é? — Barbara deixou a cautela de lado. — Está disposto a tolerar o menino porque a deseja! Edward retirou um fiapo das calças. — Poderia ser mais específica? A quem está se referindo? Barbara levantou o queixo e pressionou os lábios. — Não finja ignorância. Você sabe muito bem que estou falando de Jessica Winter. Não me iludo acreditando que suas freqüentes visitas ao berçário sejam movidas somente por interesse pelo bebê. Suas tentativas de manter um caso com ela, debaixo do meu nariz, são patéticas, Edward Penberthy! Ela é uma criada, vinte anos mais jovem do que você. E é a babá do menino! Ele recostou a cabeça e fechou os olhos, lamentando ter testado a paciência de Barbara até o limite. Incansável, ela o atormentaria por causa de Jessica agora. — Fiquei sabendo por meio do advogado que a srta. Winter era muito estimada por Keyton e por Claudia. As circunstâncias envolvendo o modo como ela foi empregada são incomuns. Barbara não se importava com o passado da jovem, tampouco sentia piedade. — Não lhe devemos nada. Ela pode encontrar emprego em outro lugar. — Seria difícil para ela. A família tinha berço. Muitas pessoas se sentiriam intimidadas por tê-la em casa como criada. — E meus sentimentos pouco importam? Se ninguém mais a quer, ela bem pode voltar para aqueles amigos dela. São um estorvo de qualquer modo, sempre entrando a qualquer hora do dia. A cozinheira me disse que são criminosos. Contrabandistas. — A cozinheira deve estar certa. Portanto, não considero prudente despedir a moça. — É mesmo? E como acha que eles reagirão quando souberem que o patrão dela é um devasso? Edward pressionou os lábios e correu os dedos pelos arranhões na face. — Duvido de que a srta. Winter mencione isso. Como pode ver, ela mesma resolveu o assunto. Eu errei. 4


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O riso de Barbara não demonstrava humor algum. — Você tem medo dela e dos amigos! É por isso que não quer fazer nada a respeito de Adam. Não quer que a suspeita pela morte dele recaia sobre a garota. — Pare com isso, Barbara — ele disse, calmo. — Chega desse assunto. — Não. Não sou covarde. Você quer as mesmas coisas que eu, mas não tem a fibra necessária para ir atrás delas. Admita, Edward! Admita que quer o menino fora do caminho. Todas as portas se abrirão para nós. Pense! Não por sermos os guardiões da fortuna de Adam, mas por sermos os herdeiros. Tudo isso poderá ser nosso! Edward se levantou. — Vejo que não adianta argumentar com você. Acabará fazendo o que bem entender sem se importar com o que penso. Sugiro, porém, que tome cuidado a menos que pretenda terminar seus dias em Newgate. Edward estava dando sua permissão! Barbara sentiu o coração bater mais forte. Ela estava certa! Não importava que dissesse o contrário, ele também queria o menino e a babá fora do caminho... — Tomarei cuidado. Ninguém saberá de nada. Percebe que, depois que Adam se for, não há porque manter o emprego da srta. Winter. — Espero que os amigos dela não encontrem problemas com isso... nem ela. — Edward deu um passo em direção à esposa e a observou atentamente. A resolução no olhar dela era inconfundível. — Não quero mais discutir esse assunto, Barbara. Nunca mais. — Saiu do quarto, não sem antes ver o sorriso satisfeito da esposa. No corredor, depois de fechar a porta, enfiou as mãos nos bolsos. — Que Deus me perdoe. O que foi que eu fiz?

Capítulo I

Março de 1787 Noah McClellan afundou o chapéu sobre os olhos e se recostou no assento duro. Queria esticar as pernas, mas isso significaria encostar as botas enlameadas na batina do vigário. Todos na carruagem já o consideravam um colono rude, ou melhor, um americano mal-educado, por isso conteve-se. Estavam alertas, e na meia hora de trajeto, ninguém lhe dirigiu a palavra. Não que ele não tivesse dado motivos para tanto. Seu comportamento na estalagem só fizera confirmar os preconceitos em relação aos americanos. Fora rude e irascível. Por certo escolhera mal as palavras ao se dirigir ao estalajadeiro. Acomodando-se melhor, refreou uma risada de zombaria de si mesmo. Sem querer, resvalou no cavalheiro grisalho à sua esquerda e surpreendeu a todos, pedindo desculpas antes mesmo que o senhor se sentisse ofendido. — Seu animal ficará bem? 5


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Levou um minuto para que Noah percebesse que a pergunta fora feita a ele. Empurrou o chapéu para trás e fitou a mulher que lhe falara. O casaco e o vestido pretos indicavam que ela estava de luto. O chapéu, amarrado por uma fita de cetim, era tão rígido que o lembrou das viseiras usadas pelos cavalos. Seu olhar recaiu sobre o bebê. que ela segurava. Logo imaginou que nem o vigário, nem o lorde loiro com ar de enfado ao lado dela a acompanhavam. Noah chegou à infeliz constatação de que ela era viúva. Por isso a preocupação com a sua situação o comoveu. — Estou certo de que sim. Só torceu a pata dianteira. — Foi o que ouvi — disse ela com um leve sorriso e divertimento nos olhos acinzentados. — Machucou-se nestas malditas estradas inglesas, acho que foi o que você disse. Noah sorriu, ignorando o olhar severo que o vigário lançou à viúva por repetir as palavras dele. A jovem, porém, não pareceu se importar, apesar de ter ouvido a reprimenda no pigarrear do clérigo. No entanto, um leve rubor nas faces pálidas se fez ver. — Lamento meu comentário — ele disse. — Sabe muito bem que o estalajadeiro se ofendeu e se recusou a me vender ou alugar qualquer animal. — Imagino que ele estivesse duvidando de suas habilidades de cavaleiro. O amplo sorriso de Noah arrefeceu. Na verdade o estalajadeiro afrontara sua habilidade como cavaleiro, sua nacionalidade e até mesmo sua família. No fim, a discussão fora bem feia, e só não acabou se transformando numa briga porque a carruagem em que viajariam a Londres tinha chegado. Noah reconhecera, então, que não havia outra coisa a fazer a não ser deixar o cavalo sob os cuidados do homem e seguir viagem de carruagem. E tivera de pagar muito bem por esses privilégios. A soma exigida pelo estalajadeiro para cuidar de sua montaria bastaria para manter um estábulo cheio por um ano. O condutor, depois de uma breve conversa com o estalajadeiro, cobrara-lhe uma fortuna e até mesmo cogitara levá-lo no alto da carruagem junto com a bagagem a fim de não atrapalhar os demais passageiros. Nessa hora o sorriso cerrado e os punhos fechados ao longo do corpo de Noah vieram em seu socorro e o condutor, por fim, desistiu da idéia. Inclinando o corpo para a frente, espiou os demais companheiros de viagem. Além da viúva, do vigário, do senhor grisalho e do lorde loiro, a carruagem levava um dos soldados do rei, um fazendeiro circunspecto e um comerciante corpulento. Com exceção da viúva, nenhum dos outros viajantes pareceu querer conversar. — Ele disse alguma coisa como não confiar nem uma mula aos meus cuidados, quanto mais um dos belos cavalos. — Deu uma risada. — Será uma ótima história de viagem a contar para minha família. Ela o fitou, curiosa. — Aprendi a cavalgar antes de andar — ele explicou. — Criamos cavalos de raça. Um riso silencioso fez os ombros dela sacudir, e o bebê se remexeu em seus braços. A atenção da moça logo se voltou para a criança. O bebê se espreguiçou nas cobertas que o prendiam e bocejou. Houve um suspiro geral de descontentamento entre os passageiros, mas Noah não se importou quando a criança começou a chorar. O jovem lorde fitou o teto, amaldiçoando a má sorte nas cartas que o obrigaram a viajar naquelas circunstâncias. Levantando um lenço perfumado ao nariz, olhou para Noah de forma avaliadora. — Cavalos de raça, você disse? Para corridas? 6


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— Em grande parte, mas não nos limitamos a isso. Há muita procura por cavalos fortes para o trabalho no campo. O jovem lorde não conseguiu se conter, pois se considerava conhecedor de cavalos. — Então está aqui para avaliar novas linhagens — disse com confiança. — Levar sangue novo para seu tropel. Seria bom visitar o estábulo de Worthing, os animais dele são de primeira qualidade. Noah não gostou muito do ar condescendente do nobre. — Na verdade — disse arrastado —, foi um prazer entregar um garanhão árabe para lorde Worthing. Agora os animais dele são de primeira qualidade. Ou serão em breve. Envergonhado, o lorde enrubesceu. Desviando o olhar se dirigiu à viúva: — Senhora, faça alguma coisa para aquietar seu filho — disse, impaciente. A carruagem bateu numa raiz na estrada e todos se amontoaram para se equilibrar. O bebê, preso nos braços da mãe, gritou mais alto ainda. Ela o suspendeu e deu leves tapinhas no bumbum do bebê para confortá-lo. — Lamento, mas não há muito o que eu... — Permita-me. — Noah se inclinou e esticou os braços. A viúva somente o olhou com ceticismo. — Garanto que apesar do que possa ter ouvido, não comemos crianças na Virgínia. — Quando mesmo assim ela hesitou, ele acrescentou com humor: — Apesar de elas serem consideradas uma iguaria em Massachussetts. Os olhos risonhos contradisseram o tom severo que ela adotou: — É um homem terrível, sr... — McClellan. — É um homem terrível, sr. McClellan, mas, se conseguir acalmar meu filho, serei eternamente grata. — Entregou o bebê. — Assim como nós todos — o fazendeiro sussurrou. Noah pegou o bebê e o apoiou na coxa. Embora se ocupasse em soltar a manta, ainda fitava o belo sorriso da mãe. Ficou feliz que ninguém conseguisse ler sua mente. Seu caráter não seria muito bem visto, já que estava cativado pela curva dos lábios suaves da moça. Perdera o juízo, já que ela devia estar de luto pelo marido e ele tinha uma noiva do outro lado do Atlântico. Sentia-se um garotinho em vez de um homem no alto de seus trinta e três anos. Mesmo assim, aquele sorriso virou seu coração do avesso. — Qual é o nome? — ele perguntou. A viúva pareceu desconcertada. — Do bebê, quero dizer — esclareceu, educado, tentando saber se segurava um menino ou uma menina, — Gideon — respondeu ela com uma pontada de alívio. — Gideon — ele repetiu. — Chamado por Deus para libertar seu povo. Um vingador... Ela se mostrou surpresa. — Sim, é assim que eu o vejo, um vingador. Noah ouviu dor e raiva na voz da mulher e se sentiu compelido a examinar suas feições de novo, porém se segurou, pois seu interesse era impróprio. 7


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— Bem, ele por certo tem os pulmões para isso, não acha? — Seu comentário não suscitou a reação de ninguém, exceto do bebê que continuava a usar os órgãos a pleno vapor. — Foi Gideon quem usou uma corneta, quero dizer. Isso se estou me referindo à história correta da Bíblia. Os lábios do vigário relaxaram um pouco. — Sim, está certo. "Quando soar a cometa, eu e todos os que estiverem comigo gritarão: por Deus e por Gideon." Juizes, capítulo VII. — Relanceou para o bebê. — Está no Antigo Testamento. E de fato, o menino tem pulmões para isso... Noah balançou o menino nos joelhos e mexeu no queixo dele. As lágrimas escorriam pelas faces macias e rosadas. — Alguém tem alguma bebida? — Não está pretendendo oferecer bebida ao bebê?... — O vigário mostrou-se ofendido, — Tenho um cantil. — A oferta partiu do comerciante corpulento, que até o momento ficara quieto em seu canto, desejando não estar ao lado de um nobre. O perfume do sujeito era nauseante. Sem dúvida tinha os bolsos vazios, mesmo assim o janota desdenhava a ele e ao americano, com seu nariz aristocrático. Por isso simpatizou com o estrangeiro quando o colocou em seu lugar, algo que ele mesmo desejou fazer, sem ousar. — Aqui está. — Entregou o cantil, sem se importar com a censura do vigário. — Acho que Gideon é jovem demais para bebidas alcoólicas — a viúva se aventurou a dizer. — Não tenho a intenção de embebedá-lo. — Noah abriu o cantil e molhou a ponta do dedo. Depois esfregou a gengiva de Gideon que imediatamente parou de chorar e sugou seu dedo. Noah o afastou, molhou mais um pouco e deixou que o menino voltasse a sugar. — Está nascendo um dente — informou à mãe. — Dois, na verdade. Algumas gotas de bebida na gengiva de vez em quando podem ajudar. — Suspendeu o menino no braço enquanto fechava o cantil. — Este jovenzinho sabe sugar — comentou ao sentir a ponta da orelha queimar, imaginando que Gideon estava tentando mamar. Com certa dificuldade apagou tal imagem da mente e falou rápido para esconder seu embaraço. — Qual a idade dele? — Nove meses. — É um lindo bebê. — É, sim. E o senhor está muito à vontade com ele. Tem filhos, sr. McClellan? — Não — ele disse, rápido. — Não sou casado. — Noah ficou se perguntando por que não disse ser noivo, mas o momento passou. — Então é médico. — Não seja tola! — o lorde a interrompeu com rudeza. — Não o ouviu dizer que cria cavalos? — Na verdade é um empreendimento familiar — Noah informou, lançando um olhar gélido ao rapaz. — Sou advogado. Só entreguei o garanhão a lorde Worthing como um favor ao meu irmão Gareth e a meu pai. São eles os responsáveis pelos animais. Eu precisava vir à Inglaterra para resolver outros assuntos familiares e foi justo que eu me incumbisse disso também. — Enxugou os vestígios das lágrimas do rosto do bebê que o fitava com curiosidade. — Respondendo à sua pergunta — dirigiu-se à viúva —, tenho 8


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muita experiência com crianças por ter uma dúzia de sobrinhos. — Que bom para o senhor — ela respondeu com certa melancolia. Noah assentiu, fascinado pelo interesse demonstrado por Gideon. — É mesmo. Deus bem sabe o quanto eu os mimo. — Deve vir de uma grande família — o vigário comentou. — Nem tanto. Somos cinco irmãos: Salem, apelido de Jerusalém, é o mais velho. Depois vem Gareth. Eu venho em seguida, depois são minhas irmãs, Rahabe Leah. O vigário mostrou-se satisfeito com tantos nomes bíblicos. Talvez houvesse algo de bom naquele moço no fim das contas. — E seu nome é... — Noah. — Temos mesmo de nos sujeitar a isso? — o empertigado lorde reclamou. — A viagem já é enfadonha o bastante. — Pois eu estou interessada — a viúva disse, placidamente. Invejava a facilidade com que o americano conversava. Como seria viver sem segredos? — Conte-nos a respeito de seus sobrinhos... — Talvez seja entediante — Noah admitiu, olhando para os demais passageiros. — Eu gostaria de ouvir — disse o comerciante, mais para aborrecer o lorde. — Conte-nos — pediu o vigário, pensando que talvez nem todos os habitantes da colônia fossem hereges. — Não me importo em ouvir — juntou o soldado que polia um botão da farda. — É melhor do que ouvir o ronco desse aí — completou o fazendeiro, apontando para o cavalheiro grisalho. — Bem, Salem e Ashley têm três filhos: Courtney, Trenton e Travis. Gareth e Darlene têm Elizabeth e Jordan. Leah e Troy têm Edward, David, Michael e Jacob, todos uns malandrinhos — Noah disse com afeto. — Rae e Jerico têm três meninas: Elyse, Katie e Garland. — Fez uma pausa, conferindo mentalmente se mencionara todos. — Ah, quando eu voltar para casa é provável que o bebê de Ashley e Salem tenha nascido. Minha viagem está demorando mais do que previ. — Quais são seus negócios, precisamente? — o lorde perguntou, desviando do assunto familiar. — Eu não disse? Acho que não... Estou cuidando de assuntos das propriedades de meus cunhados. — Sua família tem terras aqui? — O lorde não conseguiu disfarçar a surpresa e esperou para ver como o americano enfrentaria sua segunda farpa. — A esposa de Salem é Ashley Lynne, sobrinha do falecido duque de Linfield. Mais precisamente sua única herdeira. Vocês, com certeza, conhecem a propriedade Linfield. Eu vinha de lá quando meu cavalo começou a mancar. — O lorde o encarava com maior respeito, não que Noah se importasse com isso. — Estou indo para Stanhope, que pertence a meu cunhado. Pelo que entendi esta carruagem passará por lá a caminho de Londres. — Não, você está equivocado — o lorde o corrigiu. — Sei que a propriedade de que fala pertence a lorde Hunter-Smythe, que está no continente há alguns anos. 9


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— Geoffrey Hunter-Smythe nunca foi ao continente até onde eu sei. Ele passou a maior parte da vida nos Estados Unidos, onde é conhecido como Jerico Smith. Ele é o marido de Rahab. — O senhor é praticamente um nobre — comentou o comerciante, insatisfeito com a reviravolta da história. — Nada disso. — Noah riu. — Tenho tanto interesse em títulos quanto Ashley e Jerico, ou seja, nenhum. Contudo, as propriedades precisam de supervisão e há problemas inerentes à manutenção à distância, por isso fui o escolhido para vir para cá. — Que... democrático — desdenhou o nobre. — A decisão foi unânime? — a viúva perguntou. Noah meneou a cabeça. — Não, houve um voto contra. O meu. — Bem, de algum modo eu suspeitava disso. Pronto, deixe-me Segurar Gideon. Obrigada. Não é nada fácil viajar com um bebê. — Não é fácil para ninguém viajar hoje em dia — comentou o fazendeiro. — As estradas andam cheias de bandidos. Noah entregou o menino a contragosto. — Seguramente, isso é um exagero — disse, tentando acalmar a viúva. — Há quinze dias uma carruagem foi assaltada nesta estrada — o comerciante interveio. — E os bandidos não foram pegos — completou o fazendeiro. — Tenho certeza de que o Senhor nos protegerá — disse o vigário. — O senhor confia em Deus. — O lorde suspirou alto. — Eu confio nisto. — Abriu a frente do casaco e deixou ver uma pistola. — E eu nisto. — O soldado deu um tapinha no sabre embainhado à cintura. — Ora, por favor, senhores! — suplicou a viúva, abraçando o filho. — Parem de ostentar suas armas. — Precisamos estar preparados para uma eventualidade, senhora. — O lorde fechou o casaco. — Não aprovo armas — emendou o vigário. — É mais fácil esconder o dinheiro — opinou o comerciante. — Exato — concordou o fazendeiro e fitou a corrente do relógio de bolso do nobre. — E seus pertences valiosos. A viuva se manifestou mais uma vez. — Ora, do modo como falam até parece que acreditam que seremos assaltados. — Deu um tapinha no bumbum de Gideon que voltara a adormecer. — De qualquer modo, o lugar mais seguro para objetos de valor é a manta de um bebê. Nunca ouvi dizer de bandidos revistando crianças. Noah riu da sugestão inusitada. Já podia imaginá-la enfrentando uma legião de bandidos antes de permitir que alguém tocasse no filho. — Acho que tem razão, senhora — ele disse. — Sim, acredito que sim — o lorde concordou. Puxou a corrente de ouro do relógio e o estendeu na palma. — Poderia guardar isto para mim até chegarmos? Noah arregalou os olhos. Não imaginava que a histeria pudesse cegar os 10


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passageiros. — Foi só uma brincadeira, milorde. — A viúva hesitou, fitando o relógio como se fosse levar uma picada. — Por favor — ele insistiu. — E estes anéis também. O seu comentário pode ter sido uma brincadeira, mas tem um fundo de verdade. Pelo que ouvi dizer, até os bandidos tem um código de honra. Meus pertences estarão mais seguros com a senhora. — Muito bem, mas acho que está exagerando. — Ela pegou o relógio e o escondeu sob a manta de Gideon. — Fique com alguns anéis, milorde, ou os bandidos poderão desconfiar. — Zombou, mas o janota pareceu não notar. O vigário pigarreou. — Tenho uma bolsinha de dinheiro que gostaria que chegasse intacta a Londres. A senhora se importaria? — Retirou um saco de dentro do bolso e colocou na palma. — Não acho que... — Eu ficaria muito grato — o vigário insistiu. — Bem, talvez fosse melhor se mantivesse algumas moedas no saco. — A viúva dobrou a manta do bebê. — Deposite as demais aqui. — Obrigado, senhora. — O clérigo não hesitou. — Sinto-me muito melhor agora. A viúva balançou a cabeça como-se não conseguisse compreender o que se passava. — Francamente, acho isso uma bobagem, porém... Mais alguém se sentiria melhor se Gideon guardasse suas posses? — Se a senhora não se importar... — disse o fazendeiro que se inclinou para retirar um dos sapatos. De lá saiu uma bolsinha, menor e mais leve que a do vigário. — Estava muito incômodo mesmo. Dando de ombros, o comerciante levantou o chapéu e tirou uma bolsinha pousada sobre a careca. Em seguida o soldado tirou umas moedas do cinto e fez o mesmo. J á que o cavalheiro grisalho continuava cochilando, todos olharam com expectativa para Noah, que levantou as mãos. — O condutor levou o que o estalajadeiro não me tomou. Eu lhes asseguro de que já fui roubado. A viúva riu. — Duvido de que a manta de Gideon consiga esconder um centavo a mais sequer. Noah se pegou apreciando o som do riso da viúva e desejou poder dizer algo divertido. Como sua família caçoaria dele se soubesse que estava interessado naquela mulher... Nenhum McClellan aprovava sua noiva. Não que fossem explícitos na desaprovação, eram mais sutis com comentários do tipo: Ela é adorável, Noah. Mas um pouco distante. Ou então: Ela é uma mulher adequada, Noah. Já a viu sorrir? Era o modo que encontraram de apontar que a consideravam fria e distante. A verdade era que ele passava boa parte do tempo protegendo-a de sua família. Embora nunca tivesse explicado sua escolha, dizia a si mesmo que Hilary Bowen era exatamente o tipo de mulher de que precisava. Não lhe ocorrera, porém, que fazia isso com certa freqüência. A família dela era exemplar, o pai era banqueiro e comandava uma empresa de prestígio na Filadélfia, cidade onde a conhecera. Seu único irmão morrera na guerra e Hilary era uma patriota ferrenha. Chegava a desdenhar de tudo o que 11


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fosse britânico a ponto de se mostrar obsessiva. Exceto pelo fato de ser menos do que cordial com seus cunhados, isso não o incomodava. Considerava-a a parceira ideal, ainda mais depois de ter sido escolhido para trabalhar na redação dos Artigos da Confederação. Como sua carreira no meio político começava a alçar, percebia que a união com Hilary era vantajosa. Noah notou que fitava a cabeça da viúva, imaginando qual seria a cor dos cabelos escondidos por baixo da touca. Olhou ao redor e viu que os demais passageiros pareciam absortos em seus pensamentos agora que se sentiam mais seguros. Com relutância, desviou os olhos da jovem senhora e do bebê. Se Hilary o estivesse acompanhando, ele não estaria perdido em pensamentos. Era mais fácil culpar a noiva do que examinar seus sentimentos. Se Hilary não tivesse sido tão teimosa, eles poderiam estar casados e em lua de mel. No entanto, a Inglaterra era o último país ao qual ela gostaria de ir. Tampouco queria se casar e ver o marido viajar em seguida. Visto que aquela viagem já estava programada fazia meses, não havia como postergá-la. Na verdade, a viagem tinha sido adiada diversas vezes na esperança de que um dos parentes se prontificasse a ir em seu lugar. Seus familiares sabiam como ele detestava pensar na viagem através do Atlântico. Contudo, ninguém mais conhecia os meandros da lei o bastante para resolver as pendências das duas propriedades. Por isso a tarefa coube a ele, que se rendeu por fim. Noah sabia, porém, do outro motivo pelo qual os familiares queriam, que ele fosse: a vontade de afastá-lo de Hilary era tão grande que chegava a ser palpável. Estava claro, porém, que não o conheciam tão bem assim, se acreditavam que a distância e o tempo fariam alguma diferença. Não era à toa que era um McClellan. Ele tinha a mesma teimosia de todos os outros. Noah saiu de seus devaneios, sentindo os olhos da viúva sobre si, que os desviou de pronto, envergonhada por ter sido pega em flagrante. Ele logo concluiu que a curiosidade que sentia era retribuída. O que será que ela enxergava quando o via? Ele sabia que algumas mulheres o consideravam atraente, mas talvez não fosse esse o motivo que a fazia encará-lo. Por certo não havia nada de especial em seus cabelos escuros. Os olhos, bem, tinha um par... Não eram nem cinza, nem verdes, nem dourados. Para seu desgosto, todas essas cores se misturavam, e ainda havia uma salpicada de marrom só como garantia. Por mais que as irmãs o invejassem pela espessura dos cílios, ele fazia pouco deles. Tinha, sim, o maxilar dos McClellan, firme e determinado, bem como a altura, o que valia dizer que costumava ser um palmo mais alto que a maioria dos homens. Talvez a viúva considerasse sua altura perturbadora, ou simplesmente lamentasse que ele não tivesse os mesmos traços refinados do lorde na carruagem. Noah sabia que não havia nada de delicado em suas feições, exceto os malditos cílios. O nariz era reto, forte, atrevido. A boca não era suavizada pelas covinhas dos McClellan. Os ossos proeminentes das faces conferiam um ar imponente nos tribunais, mas não eram necessariamente um atrativo quando ele tentava chamar a atenção de uma bela dama. Mas que coisa... Por que tinha de se importar com o que a viúva pensava? Sem dúvida ela o estava comparando ao marido e considerando-o abaixo dos padrões em todos os itens. Mesmo que isso não fosse verdade, nada demais poderia... O som de um tiro fez Noah se empertigar, afastando todos os pensamentos a respeito da viúva, exceto mantê-la a salvo. Outro tiro foi ouvido, conforme o condutor diminuía a velocidade. Havia gritos do lado de fora. Nada compreensível, porém, visto que no interior da carruagem o caos estava instalado. — Eu disse que estas estradas não eram seguras — disse o fazendeiro. — O que está acontecendo? — perguntou o senhor grisalho, acordando por fim. 12


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O soldado e o comerciante espiavam pelas janelas, gritando para que o condutor não parasse. Gideon berrava a plenos pulmões. O vigário começou a rezar. Noah somente esticou a mão e tocou no braço da viúva. — Tudo vai ficar bem. Ninguém vai machucá-la, nem ao seu filho. Ela balançou a cabeça e indicou o soldado e o nobre com o queixo. — Mas eles pretendem usar as armas. Noah logo compreendeu a aflição dela. Qualquer tipo de resistência poderia colocá-los em perigo, por isso pediu que os homens guardassem as armas. — Seu dinheiro está a salvo. Podem perder um pouco, mas o que é isso comparado a perder a vida? O jovem nobre ainda hesitou ao ver o soldado esconder o sabre. — Engraçado como nos fala em opções quando não tem nada a perder. Eu, por outro lado, ainda tenho alguns anéis valiosos nos dedos. Sou conhecido pela minha mira. Não há por que duvidar que eu consiga abatê-los. Noah decidiu não discutir. Os companheiros de viagem nem imaginavam que ele tinha chegado ao limite da paciência até vê-lo esmurrar o lorde, deixando-o inconsciente. Ele escondeu a pistola bem na hora em que abriram a porta da carruagem. — Todos para fora! — a ordem foi proferida aos gritos. Uma tocha iluminava a saída. — Fora! — Foi então que o bandido notou a condição do nobre. — Olha só... Desmaiou só de pensar em ficar pobre... — Riu e ordenou que os outros se apressassem. Os passageiros desceram e encararam os bandidos. Noah notou que havia mais dois a cavalo além daquele que estava perto da porta. Com os rostos cobertos com lenços e chapéus, eles tomavam o cuidado de não deixar que as tochas os iluminassem. Haviam escolhido um ponto onde a mata escondia a estrada nos dois sentidos. Sentindo a presença da viúva ao seu lado, Noah aproximou-se, determinado a protegê-la. Enquanto eram colocados em semicírculo, viram que o condutor fora alvejado na perna. — Acho que não há com o que se preocupar — Noah sussurrou —, o tiro parece ter passado de raspão. — Calados! — Um dos bandidos desmontou e se aproximou com o chapéu na mão. — Sua doação para os pobres será muito bem vinda. — Vou dar uma olhada no homem desmaiado — disse o outro ladrão. — Vi um anel que me chamou a atenção. Se não fosse pela viúva, Noah sabia que conseguiria dominá-los, visto que o ladrão que recolhia o dinheiro dos passageiros parecia mais preocupado com isso do que com a arma em sua mão. Nenhum deles disse nada ao ver o dinheiro separado ser levado. O bandido foi meticuloso, apalpando bolsos e pedindo para que tirassem os sapatos. Por isso agradeceram mentalmente a sugestão da viúva de guardarem seus pertences na manta do bebê. O bandido revirou a bolsa dela e cutucou os pertences com a bota. — Não consegue fazê-lo calar o bico? — perguntou, irritado, referindo-se ao bebê. Enquanto isso, vasculhava os bolsos de Noah e lhe tomava o chapéu. 13


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— Quer que eu segure Gideon? — Noah perguntou baixinho. A viúva ajeitou no menino no colo. — Não, eu consigo... — Deu uns tapinhas nas costas do menino que só serviu para irritá-lo ainda mais. — Nada de falar, eu já disse! — o único bandido a cavalo gritou, tentando conter a própria montaria e a dos companheiros. Noah percebeu que o choro contínuo de Gideon estava deixando a todos mais nervosos ainda. Sem pensar em nada a não ser acalmá-lo, enfiou a mão no bolso para pegar o cantil. Já segurava o objeto quando sentiu o cano da pistola em sua cabeça. Assustado, puxou a mão, a fim de revelar que não estava sacando nenhuma arma. O cantil de metal brilhou na luz da tocha e em seguida outro clarão surgiu, o de um tiro. Noah só notou o som ensurdecedor e o cheiro de pólvora antes de cair. — Oh, meu Deus! — a viúva exclamou. O grito de aflição cortou o silêncio seguido ao tiro. Até mesmo Gideon parou de chorar. — Você atirou nele! — Levantou o rosto e encarou o bandido. — Ele só queria ajudar meu bebê! — Colocou o menino no chão com cuidado e tateou o torso de Noah, logo encontrando a umidade viscosa do sangue. Com a outra mão procurou por sua pulsação. Estava fraca, mas ainda conseguia senti-la. — Vamos, dê-me seu lenço, preciso estancar o ferimento. — Não com eles me olhando. — Os olhos do bandido acima do lenço se arregalaram e ele gesticulou com a arma. Os demais passageiros se juntaram, contudo nenhum deles ofereceu ajuda à viúva. O bandido que ainda estava montado, ordenou que entrassem na carruagem. A viúva pegou o bebê no colo novamente e disse: — Ele não pode seguir viagem. Precisamos conseguir ajuda. Os três ladrões gargalharam ante a idéia. — Pode ficar com ele se quiser, moça — disse aquele que pegou os anéis do nobre. — Aliás é bom ficar mesmo. Com a gente. Assim esses homens pensarão duas vezes antes de chamar a polícia. — Pegou a tocha e a brandiu, ameaçador, diante do rosto do condutor. — Entendeu? Se alguém vier atrás de nós, a moça vai pagar. — Inconcebível — disse o cavalheiro grisalho. — Ela precisa ir conosco — opinou o comerciante, tentando abafar a ansiedade da voz. — Não pode ficar com ela e com o bebê. O homem que atirara em Noah aproximou-se da viúva e a segurou com firmeza. — Subam, agora! — Soltem-na! — o soldado ordenou, buscando a espada antes de se lembrar que a escondera. O bandido riu com escárnio e comandou. — Agora todos para dentro da carruagem! Rápido! O condutor subiu na boleia e praguejou: — Vá para o inferno, seu bastardo! A viúva perdeu o equilíbrio e se apoiou no ladrão. No entanto, o comentário obsceno que ele proferiu a fez se empertigar. — E quanto ao sr. McClellan? — ela quis saber. — Ele morrerá sem ajuda. 14


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— Não é problema nosso. — Então vou ficar — prontificou-se o vigário enquanto o comerciante subia na carruagem. — Ele tem direito aos últimos sacramentos. Uma pistola imediatamente foi erguida para o peito do religioso. — O senhor vai com os outros. Pálido, ele subiu na carruagem, olhando para a manta do bebê. — Não posso ir. A alma desse homem... — Sem querer deixou escapar sua real preocupação. — Meu dinheiro... — O que disse? — Nada! — O vigário engoliu em seco. Embora hesitantes, um a um os passageiros entraram. — Pelo menos nos deixem levar o bebê — o fazendeiro sugeriu. A viúva meneou a cabeça, horrorizada pela sugestão originada da avareza. — Não, Gideon fica comigo! — Mais uma vez ela se voltou para Noah. — Eles disseram que não me machucarão se vocês não avisarem as autoridades. — Ouviram? Somos do bem. Vamos deixá-la na floresta, ela encontrará o caminho de volta. — O ladrão fechou a porta da carruagem com força e ordenou ao condutor que partisse. Ninguém mencionou o dinheiro conforme a carruagem se afastava. — Acham que ela ficará bem? — o senhor grisalho perguntou. — Eu queria ter ajudado, mas não sabia o que fazer. O fazendeiro resmungou algo ininteligível. — O que disse? — o senhor grisalho perguntou. — Eu disse que ela está com o nosso dinheiro. O vigário pigarreou pouco à vontade. — Uma pena o que aconteceu com o americano. Duvido de que algum médico possa salvá-lo. Claro que levaremos um até lá. Temos de fazer isso, não importa o que os bandidos tenham dito. Todos concordaram que precisavam encontrar um médico, mas ninguém admitiu que fosse apenas uma desculpa para voltar ao local do crime e tentar recuperar o dinheiro. Cada um deles acreditava que a viúva estaria morta após ser violentada. Por isso se perguntavam que fim levaria a criança. E as jóias e dinheiro deixados com o bebê? Não, os bandidos não fariam nada com a criança. Esse tipo de crime vil dificilmente acontecia, pois costumava chamar a atenção da população. Mesmo assim, não seria a primeira vez. Nenhum deles precisou se esforçar muito para relembrar a história do pobre Adam Penberthy, seqüestrado pela própria babá, e encontrado uma semana mais tarde, morto nas terras próximas à propriedade. O pobre menino fora deixado na floresta e morrera pela exposição ao frio. Tal pensamento os fez decidir por voltar e levar os bandidos à Justiça. Duas horas mais tarde, chegaram ao local do crime com um médico e uma pequena força policial. Além de uma poça de sangue onde Noah McClellan caíra, não havia nenhum sinal do acontecido. Os bandidos tinham escapado, levado a viúva, a 15


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criança e, pelo visto, o americano também.

Capítulo II

Jessa tocou a têmpora de Noah com a ponta do indicador, afastando uma mecha úmida de cabelo. Os lindos olhos permaneciam fechados e, embora ele se agitasse muito, não tinha acordado ainda. Mergulhando um pano na bacia, ela umedeceu-o e retorceu-o, para banhar o rosto febril com a mesma suavidade que faria com Gideon. Gotas de suor brotavam no bu ço e na testa de Noah, apesar de seus esforços. Deixou o pano na bacia e verificou a bandagem na lateral do corpo. Pelo menos o sangramento estava contido. Havia apenas uma pequena mancha rósea no quarto curativo aplicado desde que eles tinham chegado ao chalé. Ela esperava que isso não fosse indício de que ele já perdera todo o sangue de que dispunha. Tal pensamento a deixou tão aturdida, que ela resolveu se manter ocupada, trocando as compressas frias de quando em quando. Vez ou outra, Noah balbuciava algo ininteligível, e ela se limitava a responder: — Fique calmo. Você não vai morrer... Horas mais tarde, já exausta, Jessa permitiu-se sair de perto do leito de Noah. Fechando cuidadosamente a porta do quarto, ela recostou-se no batente e cerrou os olhos. — É você quem parece estar morrendo. Jessa ouviu a observação, ignorando o tom de reprimenda motivado pela preocupação de Mary que, sentada perto da mesa, amamentava Gideon. — Quer que eu faça um chá? — Jessa perguntou. — Não seja tola, criança. Sente-se aí. — Mary empurrou a cadeira diante de si com a ponta do pé. — Assim que Adam terminar seu jantar aqui, eu faço o chá. Você não se sentou desde que os rapazes os trouxeram para cá. O problema é que ninguém me disse o que aconteceu até agora. Nem mesmo meu marido! Davey me deu um beijo, colocou Adam em meus braços e disse que voltará quando puder. O grosseirão! — Mary, não o chame assim! — Jessa a repreendeu, cansada, esfregando os olhos. — Davey? Ora, eu o chamo como bem entender! — Não. Eu me referia ao bebê. O nome dele é Gideon, não se esqueça. Ainda mais agora que temos o sr. McClellan no quarto ao lado. — McClellan. É esse o nome dele? — Sim, Noah McClellan. Ele é americano. — Ora essa! — Mary se mostrou surpresa com a novidade. — Não me parece 16


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justo ele ter se metido nessa história. Davey estava muito arrependido pelo que aconteceu. Claro que eu não sei exatamente o que aconteceu... — Olhou para Jessa na expectativa, com ar mais angelical que o de Gideon. O controle de Jessa sobre suas emoções se partiu e ela caiu no choro. Apoiando o rosto nos braços sobre a mesa, soluçou, desconsolada. Mary de pronto lamentou tê-la pressionado. — O que é isso, garota? Tenho certeza de que não foi culpa sua. — Quando o comentário não surtiu efeito, completou: — Está bem, chore. Depois você me conta tudo e juntas daremos um jeito nisso. Jessa levantou a cabeça e enxugou os olhos. — Oh, Mary! Saiu tudo errado! E eu acho que ele vai morrer. Nós seremos assassinos, então. Não suportarei viver com esse peso. Mary se inclinou para a frente e afagou a mão dela. — Não diga mais tolices. Não há porque falar em morte. O moço vai sobreviver. Você agiu bem, nem o dr. Gardner teria feito melhor. Nunca vi pontos tão bem dados... — Mas ele continua febril, Mary, e ainda está inconsciente. Oh, céus, não sei mais o que fazer! — Fez um gesto amplo com as mãos. — Talvez eu não devesse ter fechado o ferimento... Ele está tão fraco. A bala pode ter provocado mais estragos do que imaginei. A cabeça de Gideon pendeu e a boca se afastou do seio de Mary. — Pegue este mocinho aqui. Ele já dormiu. — Mary ajustou o corpete do vestido depois que Jessa pegou o menino no colo. — Vou preparar o chá. — Levantando-se, pegou a chaleira do fogão e serviu duas xícaras. — Ainda temos o cozido de coelho caso esteja com fome. — Não quero nada, obrigada. Só o chá. — Jessa apoiou o rosto na cabeça de Gideon. — Eu não conseguirei comer nada. E, por favor, pare de me tratar como criança. Já tenho vinte e um anos. — E eu sou quatro anos mais velha, apesar de parecerem décadas. Você não cuida de si mesma. Olhe só: magra como um graveto e seus olhos mal conseguem ficar abertos! Como vai cuidar do pequeno desse modo? Gideon precisa de você. Você é a única que pode ajudá-lo. Pense nisso. — É só no que consigo pensar — Jessa respondeu, cansada ao deitar o menino no berço perto do assento da janela. — Terá de dormir aqui, meu pequeno, já que nosso quarto está ocupado... — Fechou a cortina amarela e voltou para junto da mesa a fim de tomar o chá. — Eu dormirei perto da janela hoje — ofereceu Mary. — Você fica com a minha cama lá em cima. — Não. Quero espiar o sr. McClellan de tempos em tempos. Prefiro que você suba. Agora que Gideon dorme a noite inteira, você não precisa ficar subindo e descendo a escada. — Deixe que eu cuido do moço. Você precisa descansar. Jessa pousou a xícara sobre a mesa. — Não, o que preciso é me certificar de que ele ficará bem. Ele é minha responsabilidade, pois foi alvejado ao tentar ajudar a mim e a Gideon. 17


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Mary se surpreendeu com o tom resoluto da amiga. — Muito bem, eu subo, então. Não que vá conseguir dormir. Quando Davey está fora, nunca durmo sossegada. — Não acredito que ele fique afastado mais do que poucas semanas. Só até as autoridades suspenderem as buscas. Às vezes eles desistem depois de poucos dias. — Mas nunca antes alguém foi ferido por estas bandas. Pelo menos a ponto de ser considerado morto. — Eu não podia abandonar o sr. McClellan. Ele teria morrido se não o trouxéssemos. — Você fez a coisa certa, querida. Por que não me conta o que aconteceu? Jessa fechou os olhos e afastou uma mecha de cabelo do rosto. Ao falar, a voz estava carregada de dor. — Davey me levou até Topping como planejado. De lá caminhei até a hospedaria com Gideon e comprei as passagens para Londres. Todos se mostraram solícitos. Hank estava certo. Passar-me por viúva com um filho pequeno ajudou. — O irmão de Davey sabe das coisas... — Sim, e tudo pareceu correr bem. Ninguém na carruagem se mostrou falante, mas todos eram cordiais. Eu, porém, não estava me sentindo muito à vontade com a situação. — Já esperávamos por isso — Mary disse com empatia. — Nós sabíamos que seria difícil para você. Jessa ignorou o comentário, querendo chegar ao fim da narrativa. — A carruagem fez diversas paradas incluindo a de Hemmings, onde o sr. McClellan se juntou a nós. Ele teve uma série discussão com o estalajadeiro a respeito de seu cavalo e estava desesperado para sair de lá o quanto antes e seguir para Stanhope. Senti pena. Ninguém falou com ele. Acho que tiveram medo. Mas ele foi muito simpático. Quando Gideon começou a se agitar, o sr. McClellan o acalmou. Até mesmo me ensinou a usar bebida para aliviar a dor do nascimento dos dentes. Mary mal conseguia acreditar que Jessa tivesse simpatizado com um ianque. — Se não fosse por ele, não sei como eu teria abordado o assunto dos assaltos. Eu tinha pouco tempo e precisava encontrar um modo de incentivar os passageiros a entregar seus pertences aos cuidados de Gideon, mas eu não sabia como começar a conversa. Nada do que ensaiamos parecia adequado. — Você nunca foi boa em enganar — Mary a tranqüilizou. — Não há por que se culpar por não conseguir fazer isso. Jessa aceitou as palavras da amiga como um elogio. — De algum modo o sr. McClellan conseguiu com que todos começassem a falar e o assunto veio à tona naturalmente. Bem na hora, pois Davey, Hank e Will pararam a carruagem logo em seguida. O sr. McClellan até esmurrou lorde Gilmore por ele se mostrar disposto a lutar. — Gilmore é um tolo. — Mas também um excelente atirador. Ele poderia ter ferido Davey e os outros. — Nesse caso tenho de agradecer ao moço por isso. 18


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— Acho que ele não vai ficar muito satisfeito quando descobrir a verdade. — Jessa sorveu um gole do chá e aqueceu as mãos na xícara. — Saímos da carruagem assim que Davey ordenou. Ele se portou muito mal, quando... — Bandidos não são reconhecidos pelos bons modos, meu bem. — Mary refreou uma risada. — Bem, Will pegou os pertences de todos enquanto Davey retirava os anéis de lorde Gilmore na carruagem. Ele estava para subir e verificar a bagagem no compartimento de cima quando Will fez um comentário maldoso a respeito do choro de Gideon. Sei que ele estava fingindo ser mau, mas o sr. McClellan não sabia disso. Ele colocou a mão no bolso para pegar o cantil de bebida e Will entrou em pânico. — Will não sabia que o moço não estava armado. — Eu sei. Ninguém lamenta mais o tiro do que Will. O maior motivo pelo qual me juntei a esse plano foi para evitar a violência. Nenhum de nós queria isso. — Pobre Will. — Mary balançou a cabeça. — Não me admiro que ele estivesse tão pálido. Davey e Hank, com certeza, vão passar uma descompostura nele... — Ele merece — Jessa disse, seca. — Depois do tiro, Hank assumiu o comando, fez todos voltarem para a carruagem e seguir viagem. — Alguém suspeitou de que você fazia parte do plano? — Acho que não. Eles queriam ficar com Gideon, mas se por compaixão ou avareza não tenho como saber. Se o sr. McClellan não tivesse sido ferido, talvez eles se opusessem a me deixar para trás. Duvido de que suspeitassem que eu teria ficado de qualquer modo. Eles não tinham como saber que Gideon ficar com os pertences deles fosse parte de um plano. — Então só temos de esconder a verdade do sr. McClellan. — Mary sugeriu. — Não sei se foi uma boa idéia trazê-lo para cá... Jessa olhou para a amiga, aturdida. — O que mais eu poderia ter feito? Ele teria morrido se prosseguisse viagem. O seu chalé estava muito mais próximo. Improvisamos uma maca e Hank e Davey o carregaram. Acho que estamos seguros aqui. — Por um tempo. As buscas começarão assim que raiar o sol. Alguém vai aparecer fazendo perguntas. — Você pode cuidar disso. Eles não irão vasculhar o chalé. Não há motivos para fazê-lo. — Eu cuido dos soldados do rei, mas você precisa cuidar para que nem Gideon, nem o moço façam barulho. E eles também não podem vê-la. Jessa assentiu e colocou a xícara sobre a mesa. — Também sou procurada, não é mesmo? — Girou o pescoço para se livrar da tensão. — Estou tão cansada disso tudo, Mary. Se não fosse por você e Davey, eu e Gideon não teríamos para onde ir. — Virou o rosto e abafou um soluço, para que a amiga não a visse chorando outra vez. — Não sei o que está acontecendo comigo. Eu não costumo ser assim... Mary se levantou e deu a volta na mesa. As mãos eram largas e calejadas, mas a tocaram com infinita doçura. — Não se preocupe tanto. Adam... quero dizer, Gideon está bem. E não estaria se 19


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não fosse por você, Jessa. Nunca se esqueça disso. Os ombros dela relaxaram sob a compressão dos dedos de Mary. — Como pode estar tão calma? E ser tão boa comigo? Os sacrifícios que você fez são enormes, Mary... Mary parou a massagem por um instante. — Não havia nada a fazer pelo meu filho. Ele nunca foi saudável como Gideon. Sou grata pelo tempo que tivemos juntos, mas soube assim que ele nasceu que eu teria de me despedir antes que ele completasse um ano. Não há nada no mundo que substitua meu filho, mas não lamento que a morte dele tenha ajudado você e Gideon. Jessa fitou as mãos pousadas no colo e deixou a mente vagar para três meses antes quando Mary e Davey haviam depositado o corpo do filho num leito de pinhas na floresta. Mary se mostrara forte ante a perda. Davey, no entanto, chorara como um bebê. Gideon ficara estranhamente quieto durante a breve cerimônia de despedida e havia sido ela quem se ajoelhara e cobrira o pequeno corpo com folhas secas para protegê-lo dos animais. Mais tarde quando ele foi encontrado, todos presumiram que a criança fosse Adam Penberthy. Lady Barbara, que vira o menino somente duas vezes, identificou o pequeno corpo. Jessa sentia-se nauseada que os Penberthy confundissem o pequeno Davey com Adam. Só isso já demonstrava que pouco se importavam com o menino. Mary sacudiu os ombros da amiga e começou a desabotoar-lhe o vestido negro. — Lady Barbara não teria sossegado até encontrar Adam ou você. Agora ela a deixará em paz para sempre, já que acredita que Adam está no jazigo da família. Meu pequeno Davey teve um lindo funeral, Jessa. Ele está em paz. E você também precisa ficar. — Você sabe que ainda não estou livre. — Mas logo estará. Assim que conseguirmos tirar você e Gideon da Inglaterra. As coisas estão melhorando. Ninguém mais procura por você. — Terminando de desabotoar o vestido, disse: — Pronto, agora vista a camisola e descanse. O sol logo nascerá e o moço vai mantê-la ocupada. — Mary bocejou e se espreguiçou. — Também vou me deitar. Preciso estar pronta para receber os homens do rei. Jessa desejou ter a confiança da amiga. O marido e os cunhados estavam escondidos. O chalé havia sido transformado numa enfermaria para um homem ferido, num berçário e no esconderijo de uma fugitiva, e mesmo assim Mary enfrentava a situação como se nada estivesse acontecendo. Vestindo a camisola e apagando as velas, deitou-se no assento perto da janela, confortada pela proximidade de Gideon. — Acho que somos sobreviventes, Gideon. Não há como voltar atrás... Mesmo que tenhamos de viver com a culpa, pelo menos estaremos vivos... Fechou os olhos e no instante seguinte já dormia. Pouco depois, um baque surdo a despertou. Pensando que fosse Gideon, ela levantou-se, sobressaltada. No escuro, porém, tateou e percebeu que o menino dormia placidamente. O som se repetiu e ela notou que vinha do quarto contíguo. Descalça, acendeu uma vela e seguiu para lá. Ao entrar, viu que Noah estava no chão, enroscado nos lençóis e nas cobertas. A mesinha de cabeceira fora derrubada e a bacia de água, caída, ensopava o chão. Aproximando-se, Jessa endireitou a mesinha e colocou a vela ali. Tirando a bacia 20


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do caminho, passou a mão pela cabeça de Noah à procura de novos ferimentos. Por pouco ele não fora atingido, pela pesada bacia. Aliviada, afastou as cobertas para que ele não se molhasse e desvencilhou-o dos lençóis. — Precisa voltar para a cama, sr. McClellan — disse com suavidade. — A noite está muito fria para dormir no chão. — O comentário não teve resposta. — Mas imagino que não vá cooperar. Jessa puxou a bandagem e quase chorou ao ver que seu trabalho estava arruinado. Chorar, contudo, de nada adiantaria, mas esmurrar o chão aliviou sua frustração. Raiva ante a própria impotência deu-lhe forças. Ancorando os ombros dele, puxou-o até a cama. Mas infelizmente não calculou bem sua posição e acabou debaixo dele no colchão. Sua camisola rasgou na altura do ombro quando ela se contorceu para tirá-lo de cima de si, revelando o seio. A sensação da pele contra as costas de Noah a imobilizou. — Eu seria capaz de morrer de vergonha se você soubesse o que está acontecendo... — Conseguiu se desprender, mas quase foi imobilizada novamente pelos braços dele, quando ele rolou de lado. — Não, não... Preciso dar um jeito em seu ferimento de novo. Acho que seria melhor fazer uma cataplasma. — Dito isso, seguiu para a saleta a fim de buscar mais água fresca, leite e óleo para o remédio. Ao voltar, minutos depois, sentiu o ar preso nos pulmões ao ver Noah deitado, imóvel, no centro da cama. Só voltou a respirar ao notar o peito dele se elevar com a respiração fraca. Sentando-se a seu lado, depositou a bacia no chão e começou a limparlhe o ferimento. — Linda — ele murmurou. A mão de Jessa se afastou no mesmo instante, e ela levantou a cabeça. Que coisa para ele dizer! Não sendo nem um pouco vaidosa, pensou em olhar por sobre o ombro para ver se havia mais alguém no quarto. Mas, em vez disso, seguiu a direção do olhar dele e mortificou-se ao constatar que ele fitava seu seio. — Como ousa? — Logo tratou de ajeitar a camisola, amarrando-a de qualquer modo. Já estava pronta a repreendê-lo quando viu que seria perda de tempo. Ele fechara os olhos e parecia ter adormecido mais uma vez. Voltando a respirar normalmente, continuou a cuidar dele, porém não estava totalmente concentrada. Abalara-se com o comentário de Noah, pois durante toda a sua vida, recebera poucos elogios dessa natureza. As raras vezes em que acontecera, havia sido resultado de tentativas de algo mais. Pelo visto os homens tinham certas expectativas, como se ela devesse ser grata pelos elogios e mandar o decoro pelos ares, lançando-se nos braços deles. De fato, fora assim com Edward Penberthy. Jessa riu de seus pensamentos. — Esse não deve ter sido o seu caso, sr. McClellan. Está mais frágil que um bebê. Mas devo dizer que se acalentar esse tipo de idéia, seria melhor visitar lorde Penberthy. As cicatrizes no rosto dele, por certo, o convencerão do contrário... Tendo dito o que lhe ia pela cabeça, Jessa aplicou a cataplasma e virou Noah de lado a fim de passar a bandagem pela cintura. Trabalhava com eficiência, tentando não pensar no paciente. No entanto, o que ele lhe provocava a deixava sem jeito. Era difícil não notá-lo. Percebera-o ainda na hospedaria. Ele era o tipo de homem que as mulheres cobiçavam, ela concluíra ao ver que a esposa do estalajadeiro e as empregadas o fitavam interessadas. Para ser justa, Noah nada fizera para chamar a atenção delas, apenas 21


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entrara no estabelecimento. Sentiu-se ruborizar ao se lembrar do modo seguro com que ele caminhava. Levando as mãos às faces quentes, lembrou-se de ter fechado os olhos para que ninguém visse seu interesse. Depois que ele havia passado por sua mesa para falar com o proprietário, ela teria de se virar para observá-lo. Mesmo que não estivesse no papel de viúva enlutada, jamais faria uma coisa dessas, invejava as empregadas, que davam risadinhas ao observá-lo. Jessa escondera o rosto atrás da cabeça de Gideon ao ver que as moças piscavam, coquetes, depois de observá-lo por trás. Ela podia apostar que nenhuma delas havia escutado a conversa entre os dois homens. A voz de Noah chamara sua atenção de imediato. Era melodiosa e agradável, própria para canções de ninar. Ou pelo menos até ele se zangar. Na discussão que se seguira, logo depois, ele se tornara áspero e rude. Jessa afastou essa lembrança, não querendo imaginar o que seria ter a voz dele direcionada para si. Preferiu se lembrar da gentileza com que ele a havia tratado. — Acho que quando você saiu da hospedaria, as moças me invejaram — ela comentou antes de cobri-lo. — Elas teriam desmaiado se vissem tudo o que eu vi de voc ê esta noite. — Ajoelhou-se e recostou a cabeça no colchão. — Você é um homem excepcionalmente belo, Noah McClellan. — E depois rezou pra que ele sobrevivesse. Mary empurrou a porta com o quadril e levou a bandeja com chá e pão para dentro do quarto. Depositando a bandeja na mesinha, cutucou o ombro de Jessa. — Ficou aqui a noite inteira? Jessa levantou a cabeça, mas, sonolenta, mal a reconheceu. — Devia ter ao menos se sentado na cadeira de balanço. Assim ficaria menos desconfortável. — Nem me lembro de ter pegado no sono — ela disse, bocejando e se sentando na cadeira. — Que horas são? — Já passou das oito. — Oito! — Jessa se aprumou e teria se levantado se Mary não estivesse bloqueando o caminho. — Fique onde está. Está em minha casa agora e sou eu quem digo como as coisas devem caminhar. — Mary riu quando Jessa a encarou, firme. — Assim está melhor. Sente-se e relaxe. Fiz chá para você e para o moço. — Foi até a cama e pousou a mão na testa dele. — A febre já não está tão alta, mas ele ainda não está pronto para meu chá. — Abaixando as cobertas, verificou a bandagem. — Vejo que você colocou uma cataplasma. Quando fez isso? — Ontem à noite, não sei bem a que horas. — Jessa sorveu um gole do chá. — Ele caiu da cama e estourou os pontos. Pensei que isso seria melhor do que tentar remendá-lo de novo. Mary relanceou por sobre o ombro. — Não me diga que colocou-o na cama sozinha? — Bem, não foi tão difícil assim. — Até parece... Ele é bem grande e você deveria ter me chamado. — Não fique brava, Mary. O que está feito está feito. — Jessa fechou os olhos. — 22


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Eu não podia deixá-lo no chão, estava muito frio. — Então achou melhor você mesma ficar ali. — Mary sabia ser incansável. Pegando uma manta do baú, envolveu-a pelos ombros. — Só faltava você ficar doente. Isso não vai ajudar o bebê... Jessa só percebeu o quanto estava cansada porque ainda não havia se lembrado de Gideon. — Oh, Deus! Não o ouvi esta manhã — disse, abrindo os olhos. — Ele não está doente, está? — Ele está ótimo. Sarah passou cedinho para buscá-lo. — Por quê? — Porque ela tem três filhos e pode fazer de conta que é mãe de quatro para disfarçar. Foi idéia de Hank. — Hank não me disse nada sobre isso ontem. — Jessa, resmungou. Se bem que fazia sentido que Hank tivesse visto a esposa antes de se esconder. — Ele pediu a Sarah que o fizesse logo cedo. Assim é mais seguro para Gideon — Mary assegurou. — Ela se aborreceu com o que aconteceu? — Não, Sarah é como eu, aceita as coisas como elas são. Além disso, nós conhecíamos os homens com quem aceitamos nos casar. — Davey e os irmãos eram apenas contrabandistas quando vocês se casaram — Jessa a lembrou. — Não é uma ocupação das mais nobres, mas a maioria das pessoas faz de conta que não sabe. — No mar ou na estrada, ainda é roubo, não se esqueça. Jessa se surpreendeu com as palavras da amiga. — Eu sei, mas eles não teriam de ter ido para a estrada se não fosse por mim. — Jessa suspirou. — Gideon e eu temos sorte por termos amigos como vocês. — Beijou Mary no rosto e saiu do quarto, arrastando a manta. Mary pegou as roupas manchadas de Noah e as levou para fora junto com os lençóis molhados. Sentiu o coração apertado ao pensar na falta de sorte da amiga no último ano. — É melhor deixar a porta aberta. — Jessa avivava o fogo da lareira. — Está muito frio no quarto, esse fogo deve ajudar. Eu deveria ter pensado nisso na noite passada. — Guardou o atiçador e pegou suas roupas e o berço de Gideon. — Acho bom guardar estas coisas. — Coloque o vestido preto no baú — Mary pediu ao deixar a roupa suja na tina. — Não queremos que os soldados vejam alguma coisa que nos ligue ao assalto. E deixe o berço ao pé da cama escondido com uma coberta. — Mas você disse que os soldados não revistariam a casa. — É só por precaução. Isso se eles vierem. — Mary sorriu, procurando tranquilizala. Jessa sabia que os soldados viriam. E sabia também que colocara Mary e a família em perigo ao levar Noah para lá. Bastaria um pequeno indício para incriminar a todos e Noah não era nem um pouco pequeno. Ele mal cabia na cama... Ela se impacientou com seus próprios pensamentos. Não gostava do que aquele 23


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homem provocava nela. Mary levantou o olhar da panela e a fitou. — O que foi? — Nada — Jessa respondeu rápido demais. — Vai fazer mais cataplasma? — O quê?... Ah, sim, vou. Agora. — Não acha melhor se trocar antes? Jessa olhou para si mesma e sua expressão de espanto divertiu Mary. — Depois que eu preparar a cataplasma — ela respondeu em desafio. Mary a encarou com ar de quem sabia o que acontecia. — O moço é bem bonito. Jessa ficou na ponta dos pés para pegar o óleo de linhaça da prateleira. Assustada com o comentário, quase derrubou o jarro. — Acho que sim — disse, distraída, evitando o olhar da amiga. Depositou o jarro na mesa e colocou uma concha de leite morno numa tigela. Depois misturou tudo vigorosamente ao juntar o óleo. Não levantou o rosto quando Mary lhe passou as ervas curativas. — Ele é bem alto — disse com casualidade. — Minha cabeça não chega ao ombro dele. — Como só o vi deitado, não foi nisso que reparei. — Mary não se deixou enganar pelo ar de pouco-caso da amiga. — O sr. McClellan tem uma boca bonita. — Mary! — Não há mal algum em olhar. Pelo menos é o que Davey diz quando eu o pego observando Margaret Wilson. Jessa mexia o preparado com mais vigor ainda, para divertimento de Mary. — E ele tem cílios longos. Como eu gostaria que os meus fossem assim... — Piscou os cílios ruivos de brincadeira. — Fico imaginando qual a cor dos olhos dele. Devem ser azuis. — São verdes. — Oh, verde é bonito. — Bem, não são verdes exatamente — Jessa disse, perturbada com aquela conversa. — Eles são salpicados de cinza e dourado. E um pouco de marrom. — Estou surpresa que tenha notado tudo isso — Mary zombou. — Você está criando caso, isso sim. Não havia como não notar. Ele estava sentado diante de mim na carruagem. Nós conversamos e ele me ajudou com Gideon. Sei quantos irmãos ele tem, de onde vem e para onde vai. Sei até quantos sobrinhos ele tem. Que mal há em lembrar a cor dos olhos dele? — Nenhum! — Mary defendeu-se. — Agora, veja meu Davey por exemplo. Você o conhece quase há tanto tempo quanto eu, já que ele foi cavalariço do estábulo de seu pai. Qual a cor dos olhos dele? Jessa parou de estender os panos na mesa e pensou. 24


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— Marrom. — A risada de Mary a certificou de que seu palpite estava errado. — Bem, eles são escuros. — Tentou consertar. — São azuis. Claros! Jessa terminou de preparar a cataplasma, pegou tudo e anunciou: — Vou levar isto para o quarto. — E disparou para lá, fechando a porta para não ouvir a risada da amiga. Ao ouvir o gemido de Noah, ela se pôs a trocar as bandagens por outras com suavidade. Seus devaneios não eram culpa dele. Banhou-o no rosto e pescoço, depois tentou oferecer-lhe um pouco de chá. Mas ele não tomou nada. — Homem teimoso — reclamou, ajeitando as cobertas. — Não sei... Parou no meio da frase, sentindo as paredes do chalé vibrar pela aproximação de cavalos a galope. Rapidamente apagou as velas e sentou-se na beirada da cama, cruzando as mãos no colo, a espera do que estava por vir. Mary também ouviu a aproximação dos soldados. Aprumando-se, ela deu um longo suspiro e abriu á porta. — Meu Deus, que manhã fria para cavalgar! — disse, abraçando-se na cintura. — Estão perdidos? O comandante da pequena tropa desmontou e entregou as rédeas a um soldado. — Bom dia. Sou o sargento White — apresentou-se ao se aproximar. — Estamos a serviço do rei, srta... — Shaw. Sou Mary Shaw. — Ela não o corrigiu quanto ao seu estado civil. Era melhor que o homem acreditasse que ela fosse solteira, ainda que tivesse notado pela postura dele que seus encantos de nada serviriam. O mais prudente seria usar a cabe ça. — Como posso ajudá-lo? — Tenho ordens para vasculhar a área. Houve um assalto na estrada ontem à noite. — Céus! Que coisa horrível! — ela exclamou de olhos arregalados. — Atiraram num homem, e uma mulher e seu filho foram seqüestrados. Mary se apoiou no batente da porta e esfregou os braços. — Terrível mesmo, mas o que fazem por aqui? — São ordens. Com licença, precisamos revistar o terreno e a casa. Estamos fazendo uma varredura da região desde a aurora. — O sargento virou-se e distribuiu ordens aos soldados. — Eu mesmo vistorio a casa. Dessa vez o choque de Mary não foi fingido. — Não tem esse direito, senhor! O que espera encontrar aqui? O sargento estava impaciente. Queria sair do frio e conhecia o povo local o bastante para saber que não descobririam nada se um deles estivesse envolvido no incidente. — Não espero encontrar nada, moça. Como disse, só estou seguindo ordens. Com licença, deixe-me entrar, assim eu a deixarei em paz mais rápido. Assim que o sargento entrou, Mary fechou a porta. — Não entendo o que procura — ela disse, levantando a voz. — A minha senhora 25


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não vai gostar nada disso. O homem parou e olhou ao redor. O ambiente estava arrumado e limpo, mas não parecia o lar de alguém que tivesse uma criada. — A sua senhora? Pensei que estivesse sozinha. — Eu não disse isso, disse? E o senhor também não me perguntou. O sargento reparou nos pratos e xícaras velhos e díspares, na cortina gasta e na mobília antiga. — Sua senhora vive aqui? — perguntou, cético. Mary bateu o pé, nervosa. — Claro que não! Eu mantenho o lugar para que ela possa usar de vez em quando. — Lançou um olhar sugestivo para o quarto fechado. — Se é que me entende... Então aquele era um chalé para encontros fortuitos! Aquilo não estava cheirando bem. Esfregando a testa, o sargento perguntou: — Quem é a sua senhora? — Acha que eu vou dizer? Ela me demite num piscar de olhos. Não quero que o nome dela esteja nos lábios dos fofoqueiros. — Suponho então que ela não esteja sozinha agora. — Não sou eu quem vai dizer isso... — Mary estava adorando torturar o homem, mas manteve a expressão impassível. — Vou verificar lá em cima. Fingindo não se importar, ela se virou e mexeu no ensopado da panela. Instantes depois, ele voltou. — Decidi que vou olhar o quarto. Mary deu de ombros. — Isso é por sua conta. Não pode dizer que não o avisei. Mas sabe como está difícil encontrar trabalho hoje em dia. — Não posso me preocupar com seu emprego. — Eu estava pensando no seu — ela disse, franca. — A minha senhora é uma mulher influente. O sargento hesitou de novo. E se Mary Shaw estivesse mentindo? Ela podia estar escondendo os bandidos. — Tenho de ver por mim mesmo. Mary apertou as mãos nas saias e prendeu a respiração. Uma das mãos do sargento segurou a maçaneta, a outra se apoiou na pistola em sua cintura. A mão que segurava a pistola pendeu assim que ele se deparou com a cena de dentro do quarto. Na luz tênue que entrava pelo cômodo principal, o sargento viu o delinear dos corpos intimamente ligados. Por alguns instantes o casal pareceu alheio à intrusão. O homem estava deitado com a mulher sobre si à altura da pélvis. A transpiração o cobria no rosto e no peito nu. Acima dele a mulher se movimentava, com a cabeça inclinada para trás, expondo a curva do pescoço. Os seios, maiores do que se suporia numa mulher tão delicada, estremeciam na direção do amante. As pontas curvas dos longos cabelos o tocavam nas coxas. Mentalmente amaldiçoou as ordens que o levaram até lá, depois se amaldiçoou por não acreditar em Mary Shaw. Até tentou sair, mas seus pés pareciam cravados no chão. Atrás de si, ouviu Mary se aproximar e mesmo assim não conseguiu dar as costas para a 26


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cena. Mary espiou por sobre o ombro do sargento e quase arfou com o que viu. Era como se Jessa e o moço estivessem próximos do êxtase. Em vez de rir, ela cutucou o homem. Nesse momento, Jessa se virou e demonstrou choque e surpresa ao vê-los. No entanto, ela não precisou dizer nada. O sargento recuou tão apressado, que quase atropelou Mary. A porta estremeceu ao ser fechada. Com as mãos no quadril, Mary o confrontou. — Eu avisei! E se disser uma só palavra do que viu aqui, ela vai acabar com o senhor... O sargento assentiu, devagar, ainda estupefato pelo que testemunhara e esperando que seu pesado casaco disfarçasse seu estado de excitação. — A-acho melhor eu ir embora, srta. Shaw. Ficarei muito grato se não mencionar meu nome. — Só se isso não significar a perda do meu emprego. — S-sim, bem, eu... — Pálido, fitou a porta fechada. — Se pudesse convencê-la de que eu apenas seguia ordens. Mary estava adorando presenciar o desconforto do homem. — Veremos — disse, dando de ombros. — Mary! Mary! Venha já aqui! — Ouviu-se do outro lado. Mary indicou a porta com o queixo. — Está vendo! É melhor eu atender. Não há porque ofender uma nobre além da conta. — Ela riu ao ver que nem precisava ter gastado saliva. Assim que Jessa a chamou o sargento já saía pela porta da frente. — Eles já foram — disse ao entrar no quarto. — Não precisa mais usar esse tom. Jessa já estava vestida e de pé ao lado da cama, inclinada na direção de Noah. — Oh, Mary, acho que eu o machuquei! Mary tocou-o na testa. Noah ardia em febre. — Você não tem nada a ver com a febre, sua tola. Davey deve ter bebida em algum lugar por aqui. Vamos fazer uma compressa de água com álcool para abaixar a temperatura. — A respiração dele é tão superficial... — Jessa mordia o lábio inferior, em sinal de preocupação. — Talvez ele não esteja acostumado a ser cavalgado tal qual um garanhão — Mary brincou. — Mas eu não fiz nada... Não de verdade. — Não foi o que pareceu. — Virando-se, Mary disse: — Vou pegar o álcool. — Ele vai morrer, não vai? — Jessa perguntou quando a amiga voltou. — Não sei dizer. — Mary estendeu-lhe um pano. — Molhe o rosto e o pescoço, eu cuido do peito. — Olhando-a de esguelha, afirmou: — Fez o que precisava ser feito. Por certo convenceu o sargento. — Ainda não acredito no que fiz... Ouvi o que disse a ele e se eu estivesse perto 27


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de você seria capaz de estrangulá-la. — E o que mais eu poderia dizer? Minha história quase o deteve, sabia? Foi muito engraçado quando ele saiu, o pobre-coitado nem sabia para que lado ir... — Ah, nem me lembre. Não quero mais pensar nisso. — Eu mesma fiquei chocada. — Mary riu, divertida. — Nunca pensei que fosse capaz de tal desempenho. — Mary! — Como você sabe desse tipo de coisa? Jessa molhou a testa de Noah com certa brusquidão. — Eu vi — retrucou em desafio. — Quando tinha uns doze anos vi uma criada com um dos cavalariços no estábulo. E não, não era Davey! Fiquei e olhei, está bem? Sei que não foi certo, mas fiquei... fascinada, não sei explicar. Primeiro pensei que um estivesse machucando o outro, depois percebi que eles estavam gostando daquilo. — Há dor e prazer misturados nisso... — Eu não saberia dizer — Jessa disse pudica. — Eu só estava fingindo. — O que importa é que os soldados não irão voltar. Acho que tudo saiu perfeita. Jessa não tinha tanta certeza, mas nada disse. — E quanto ao sr. McClellan? O que vamos fazer com ele? — Estamos fazendo tudo o que podemos, srta. Jessa. Andei pensando no assunto. Se o moço acabar piorando só há uma coisa que resolveria boa parte dos problemas. — O quê? — Case-se com ele.

Capítulo III

Noah sabia que estava morrendo. Era a única explicação para a presença do padre. Tentando se desvencilhar do nevoeiro que tomava conta de sua mente, pretendia dizer que não tinha intenção alguma de morrer. Abriu a boca, mas as palavras não saíam. Os olhos não conseguiam permanecer abertos. As palavras do padre saíam arrastadas e um tanto guturais, e Noah não as entendia. Sem falar que o clérigo rescendia a álcool. Outra voz, mais suave, falava. Noah a reconhecia, mas não sabia de onde. A escuridão ameaçava envolvê-lo de novo. De algum modo percebeu que o padre se inclinava em sua direção, murmurando algo ainda incompreensível. Não vou morrer, ele queria lhe dizer. Eu quero viver... Forçando as palavras pela boca, disse: — Eu quero... — Noah deu-se por satisfeito com essas palavras, imaginando que o 28


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padre o compreenderia, e se deixou levar pela inconsciência. — Pronto — Mary interrompeu com um sorriso satisfeito. — O senhor o ouviu. Eu disse que ele quer se casar. Nós todos o ouvimos concordar. — Cutucou a cunhada com o cotovelo. — Ouvimos sim! — Sarah concordou, rápido. Em seus braços Gideon gorgolejava contente. O padre se endireitou, segurando-se na coluna da cama para se equilibrar. A bebida feita de milho que Mary lhe servira era mais forte do que parecia no início. Relanceou para Jessa do outro lado da cama, segurando a mão de Noah. — Muito bem — balbuciou, fechando o livro. — Eu os declaro marido e mulher. — Balançou a cabeça, tentando desanuviá-la. — Muito estranho... Mary escorregou a mão debaixo do braço do clérigo, sustentando-o até a porta. — Mas é legal, não? — Sim, é legal. — O padre se mostrou afrontado. — A licença foi assinada e será registrada na Igreja. Mesmo assim, tudo isso é muito estranho. Ela o ajudou a vestir o casaco e estendeu-lhe a bengala. — Sarah o levará de volta à igreja na charrete. — Pegou o menino do colo da cunhada e a beijou de leve na face. — Você foi de grande ajuda. Sarah vestiu o casaco e enrolou um cachecol na parte inferior do rosto, deixando os olhos castanhos de fora transmitir exatamente o que ela achava daquele plano sórdido. — Vou levá-lo para a igreja e garantir que ele registre o casamento. Duvido de que ele se lembre de alguma coisa pela manhã. Mary ficou na soleira, protegendo Gideon do frio e acenou em despedida. — O que acha de tudo isso, Gideon? — O menino riu quando ela coçou seu queixo. — Ah, não precisa dizer, eu sou esperta, não? Agora vamos até a sua mãe. Aposto como ela está duvidando se fez a coisa certa. Jessa estava sentada na cadeira de balanço defronte à cama de Noah. Tomou o menino nos braços, que logo pegou ponta de sua longa trança e a colocou na boca. — Oh, Mary, o que fizemos? — Encontramos um modo de tirar você e seu filho da Inglaterra — a outra disse de modo prático. — Sabe que foi pelo bem de Gideon. — Mas a que preço, Mary? — Gideon reclamou quando ela o apertou forte demais. Jessa relaxou os braços e tirou o cabelo da boca do menino. — Se o sr. McClellan sobreviver, ele nunca me perdoará. Se morrer, eu nunca me perdoarei. Noah virou o rosto na direção do pano úmido. Na testa, sentiu o leve resvalar de dedos que afastavam uma mecha de cabelos. O peso sobre as pálpebras parecia finalmente ir embora. Abriu os olhos devagar e focou no rosto perto dele. A boca bem desenhada estava ligeiramente entreaberta. Ele via a ponta rosada da língua passar pelos dentes claros conforme ela se concentrava na tarefa. Notou em seguida que ele era o objeto da preocupação dela. E gostou muito de saber disso. Deteve o olhar na coroa trançada no alto da cabeça e finalmente teve a resposta para sua pergunta na carruagem. Os cabelos eram claros como palha de milho. Fios acetinados emolduravam o belo rosto. Parecia tão perfeito, que Noah se perguntou por que duvidara de que ela fosse loira. Uma olhada para as sobrancelhas castanhas e para os c ílios ainda 29


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mais escuros o lembrou por que a imaginara morena ou até mesmo ruiva. Agora percebia que nenhuma das alternativas combinaria com ela. Fechou os dedos no colchão a fim de conter o impulso de tocar os fios macios. Ela estava tão concentrada que seu movimento a assustaria. Era melhor assim, pois se ela fixasse aqueles olhos cinzentos nele, ele seria capaz de voltar para o nevoeiro que o envolvera nos últimos dias. Jessa removeu a bandagem com cuidado e trocou a cataplasma. Já não tinha esperanças de que aquilo funcionasse, mas não sabia o que mais fazer. Parecia um milagre que Noah tivesse sobrevivido às últimas setenta e duas horas. Mary insistia em dizer que fora o casamento a trazê-lo de volta ao mundo dos vivos. Era bem possível, mas Jessa imaginava que ele começava a se recuperar apenas para ter a chance de se vingar. — Você tem mãos gentis. As mãos gentis se afastaram de pronto quando ela ouviu tais palavras. Jessa começou a se levantar, mas Noah a segurou pelo pulso. Com força surpreendente para alguém que estivera à beira da morte. — Vem cuidando de mim? — A falta de uso tornara a voz rouca. Ela assentiu e abaixou o olhar. — Acho melhor ir chamar Mary. — Jessa tentou se soltar, mas Noah não permitiu. — Quem é Mary? — Minha amiga. Ela tem me ajudado. — Com a mão livre, Jessa afastou uma mecha de cabelo. — Não deveria estar falando tanto. — Ou me segurando, ela completou em pensamento. — Seria melhor voltar a descansar. — É tudo o que venho fazendo — Noah contestou. — Há quanto tempo estou aqui? — Uns seis dias. — Ela o fitou e viu que ele estava pensativo, mas não alarmado. — Não parece surpreso. — Na verdade, pensei que fosse mais tempo. Lembro de algumas coisas que marcaram a passagem do tempo. — Do que se lembra? — Jessa procurou disfarçar a apreensão. Noah não falaria das fantasias eróticas, pois elas eram bem detalhadas e não podiam ser repetidas em voz alta, pelo menos não na presença da mulher que as protagonizara. — Pessoas entrando e saindo. Devem ter sido você e Mary. Ah, também me lembro de um padre. — Lembra-se dele? — O coração de Jessa batia descompassado. — Foi muito generoso de sua parte chamá-lo para encomendar minha alma, mas demonstrou pouca confiança na minha recuperação. — Os olhos dele brilhavam de divertimento. Jessa, porém, não estava achando graça nenhuma. Não conseguia pensar em nada para falar além da verdade, mas não o considerava apto a ouvir o que de fato se passara. Por certo ela não estava pronta para contar. — Como vim parar aqui? E exatamente onde estou? Dessa vez quando Jessa puxou o braço, conseguiu se soltar. Levantou-se, segurando a bacia tal qual um escudo diante de si. 30


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— Lembra-se dê ter sido alvejado? — Vividamente. — Ele passou a mão pela lateral do cobertor até chegar ao ferimento. Virou-se de lado para fitá-la melhor, sem conseguir conter um espasmo de dor. — Conte-me o que aconteceu depois disso. Ela se deixou cair na cadeira de balanço, preparando-se para a teia de mentiras que começaria a contar. — Os salteadores ordenaram que todos voltassem para a carruagem. Todos menos você, eu e Gideon. Eles não achavam que você sobrevivesse e eu... Eu não quis deixá-lo. — Deixaram-na ficar comigo? Estou surpreso. — Eles... Eles ameaçaram machucar a mim e a Gideon se os outros voltassem rápido demais com socorro. Depois que a carruagem partiu, barganhei com eles. Prometi pagar uma boa quantia se nos trouxessem para cá. Não sei bem por que concordaram, mas aceitaram o acordo. — É porque você tem o rosto de um anjo — Noah disse, solene. Jessa quase engasgou, nunca se sentira menos angelical. — Eles nos trouxeram para o chalé de Mary, que não fica muito longe da estrada, e eu entreguei tudo o que estava com Gideon. — Portanto eles roubaram tudo no fim das contas. — Sim. — Ela hesitou. — Acha que agi mal ao dar o que não era meu? — Quem sou eu para julgá-la? O que fez salvou minha vida. Sou muito grato por isso. A gratidão dele a fazia sentir-se pior ainda. — Você estava tentando me ajudar quando foi ferido. Eu estava em dívida. — Bem, ela já foi mais do que paga. — Ele bem que gostaria de continuar a conversa, mas seu corpo pedia atenção. — Eu queria saber se... Isto é, há algum urinol aqui? Jessa enrubesceu. — Ah, sim, claro! — Pegou o penico da prateleira baixa da mesinha de cabeceira. — Vou deixá-lo à vontade. Noah riu e fez uma careta de dor. — Sim, acho melhor. Saberei me virar. — Ao girar as pernas para fora da cama, Jessa já tinha saído. Gideon se debateu nos braços de Mary assim que a viu. — Ma... Ma... Ma... O coração de Jessa inflou e naquele momento todas as mentiras que havia contado valeram a pena. — Eu ouvi bem? Ele me chamou de mamãe? Mary riu alegre e decidiu que não era hora de contar que o menino estava chamando tudo de mama aquela tarde. — Quer dar comida para ele? Tenho cereal pronto. Ela se sentou e pegou o menino no colo. 31


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— O sr. McClellan está acordado. Mary retomou o conserto das calças do marido. — Faz tempo que ele acordou? — Não muito. — Jessa limpou a boca e o queixo de Gideon. Sem se intimidar, pegou outra colher, sacudiu na frente do menino e quando ele abriu a boca para rir, ela se aproveitou e enfiou uma colherada. — Ele fez algumas perguntas. Eu contei a história que combinamos antes. — Ótimo. Um pouco da verdade, um pouco do outro. — O outro se chama "mentira", Mary. Nada de bom pode vir disso. Mary deixou o comentário passar e terminou de remendar o joelho da calça. — Não acha melhor ir dar uma olhada nele? Não era algo que Jessa quisesse fazer. Não estava preparada para continuar a conversa. Usando Gideon como desculpa, sugeriu que a amiga fosse até o quarto ver como ele estava. Mary aquiesceu, mas encontrou-o dormindo de novo. Voltando com o urinol nas mãos, levou-o até o banheiro do lado de fora. Depois de recolocar o penico no lugar, encontrou Jessa diante do fogão com o menino ancorado no quadril. — Aquela pode ser sua tarefa daqui por diante — Mary anunciou. — Parece-me que não estou mais a serviço da sua família, portanto não preciso mais fazer esse tipo de trabalho... — Você nunca limpou os urinóis enquanto trabalhava conosco. E nem tente me convencer do contrário. Mamãe costumava reclamar que você não tinha sido feita para o trabalho doméstico. — Lady Anne estava certa. E ela ficou tão feliz em me ver partir quanto eu estava em ir embora. — Senti tanto a sua falta. Mamãe pode não ter gostado de nossa amizade, mas eu teria me perdido sem ela. A satisfação pelas palavras de Jessa fez Mary corar. Servindo sopa para ambas, Jessa colocou Gideon sobre uma colcha estendida no chão antes de se sentar para comer. Durante a refeição, as duas conversaram sobre um pouco de tudo, menos Noah, assunto recorrente desde o assalto. — Acho que este andarilho lhes pertence. Jessa e Mary se surpreenderam com a interrupção da voz masculina. Noah se apoiava casualmente na porta do quarto. Estava de calças, mas sem meias, e a camisa tinha o colarinho aberto e não estava toda arrumada dentro da calça. Estava claro que Gideon invadira o quarto enquanto ele se vestia. O que chamou a atenção das duas foi constatar que ele não parecia incomodado pela interrupção. A masculinidade dele em nada ficara comprometida por estar com um bebê no colo. Mary o considerou extremamente másculo. Jessa preferiu não pensar. — Eu fico com ele — Jessa disse, cruzando o cômodo. — Não devia ter ido até lá, mocinho — repreendeu o menino. — Desculpe, sr. McClellan. Mary e eu nem percebemos que ele havia saído. Oh, isso não soou muito bem, não? Normalmente fico atenta, mas... — Está tudo bem. — Noah sorriu. — Ele só estava testando sua liberdade. Assim como eu. — Olhou por cima da cabeça de Jessa e saudou Mary. Caminhou até a mesa e se apresentou. Os passos estavam inseguros, marcados pela dor, mas ele escolheu não 32


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pensar muito naquilo. Mary ficou boquiaberta e mal conseguiu balbuciar seu nome. — É um prazer, Mary Shaw. Fiquei sabendo que é amiga de minha salvadora. Estou agradecido por seus cuidados. Jessa revirou os olhos diante do embaraço da amiga, sempre tão despachada. — Sr. McClellan — Jessa disse firme —, acha que é sábio sair da cama? — Muito sábio. — Mas seu ferimento... — Estou me recuperando. — Ele se virou para Mary. — Posso comer alguma coisa? — Claro! — Mary levantou as mãos. — Já vou servi-lo. O que deve estar pensando de meus modos? — Correu para o fogão. — Suba e pegue um par de meias de Davey, Jessa. Os pés dele devem estar frios. Ignorando o protesto de Noah, Jessa colocou Gideon de volta na manta e subiu as escadas, encontrando um par de meias grossas no baú da amiga. Ao descer, perguntou: — Consegue calçá-las? Por causa do ceticismo dela, Noah resolveu mostrar que conseguia se vestir sozinho. Ao se dobrar, porém, teve de conter uma careta de dor. — Prontinho — disse ao terminar. Mary serviu sopa e pão fresco. Noah agradeceu e a elogiou logo nas primeiras colheradas. — Está uma delícia! Por favor, sentem-se. Eu não quis interromper a refeição de vocês. — Tudo fica uma delícia quando se passa uma semana só a base de chá de ervas... — Mary disse com modéstia. Noah mergulhou um pedaço de pão na sopa. — Não, isto está... — Parou de falar e inclinou a cabeça na direção de Gideon. — Lá vai ele de novo. Suspirando dramaticamente, Jessa se inclinou e o tomou nos braços. — Ma... Ma... Ma... — Quem é Davey? — Noah perguntou ao observar o modo como Jessa lidava com o filho. Ocorreu-lhe, então, que poderia ser o falecido marido. — É meu marido — Mary explicou. — Está procurando trabalho em Lunnen agora. Jessa não se cansava de admirar a facilidade com que Mary mentia. — Ah, então vocês estão sozinhas. — Tenho família por perto. Há sempre alguém disposto a ajudar quando precisamos. — Que bom. Mesmo assim não deve ter sido fácil. Agradeço mais uma vez o sacrifício que fizeram por mim. — Não foi um sacrifício — Jessa intercedeu. — Eu só estava retribuindo um favor. — Fiquei me perguntando por que não avisaram ninguém nem em Linfield nem em 33


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Stanhope. Acho que mencionei esses locais enquanto viajávamos juntos. Alguém poderia ter vindo me buscar. Jessa engoliu em seco. Noah McClellan não era nada tolo. — Eu nem pensei nisso. De qualquer modo, o senhor não estava em condições de ser removido. Mary se levantou e disse: — Acho que vou até a casa de Sarah fazer uma visita. Vou levar Gideon para brincar cornos filhos dela. Jessa sentiu-se abandonada à própria sorte. Mary percebeu sua intenção de acompanhá-la. — Por favor, Jessa. Fique e explique tudo ao sr. McClellan. — Noah — ele interrompeu. — Podem me chamar de Noah. E o que há para explicar? Mary se ocupou de agasalhar Gideon. Jessa tinha esperanças de que a tal explicação pudesse esperar. Em dois minutos, Mary já saía, deixando-a a sós com ele. — Como pôde fazer isso comigo?— Jessa indagou ao acompanhá-la até a porta. — Seu cérebro derreteu no instante em que o viu, foi isso? — Tolice. Conte tudo do jeito que planejamos. Tenho certeza de que ele não vai se importar. Notei o modo como ele a olha. — Como assim? — Jessa gaguejou, indo para fora da casa. — Acho que foi o seu cérebro que derreteu! Ele está interessado em você, garanto. Está praticamente babando... — Mary! — Entre. Ele deve estar se perguntando o que você faz aqui no frio. — Mary deulhe um leve empurrão e começou a caminhar na direção do chalé da cunhada. — Mary... — Quando a amiga não se virou, ela acabou recuando para dentro do chalé, esbarrando em Noah. — Oh, desculpe. — Virou-se rapidamente. Seus olhos ficavam à altura do colarinho aberto dele. Piscando rápido, perguntou: — Eu o machuquei? — Não. — Noah levantou os braços ao lado do corpo de Jessa e empurrou a porta, prendendo-a. Os olhos fixos carregavam uma centelha de divertimento, pois a conversa sussurrada das duas era mais engraçada que misteriosa. — Eu gostaria de ouvir aquela explicação agora. Jessa escapou por debaixo do braço dele e foi limpar a mesa. — Jessa... Sem olhar para ele, ela replicou: — Não dei permissão para me chamar assim. — É o único nome que sei — ele disse, sensato. — E só descobri através de Mary. — Mary fala demais. Noah foi até o assento perto da janela e esticou as pernas ao se recostar. Tirou a manta de Gideon do chão, dobrou-a e a apoiou nas costas. 34


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— Parece que ela a abandonou, não? Mas o que de tão terrível você teria para me contar? Jessa bem que gostaria de arrancar aquela expressão complacente do rosto dele, mas a.complacência devia ser melhor do que se seguiria depois que contasse o que havia feito. Mergulhou as tigelas na tina com água para lavar mais tarde e foi para trás da mesa. Sentia-se mais protegida com aquela barreira entre eles. — Nem sei por onde começar. Já nos perguntou por que não chamamos ninguém. — E sua explicação não me convenceu muito. — Bem, há um fundo de verdade, mas há outro motivo, um mais importante, pelo qual não informei ninguém do ocorrido. — Ela tirou um pelo invisível do corpete do vestido marrom. — Quando nos encontramos na carruagem, eu estava fugindo. — Levantou os olhos cinzentos, suplicantes. — Eu não pude contar a ninguém sobre seu paradeiro ou acabariam me encontrando. Noah se endireitou. — Estava fugindo de quem? — Da família de meu falecido marido. Robert morreu perto do Natal. — Lágrimas brilharam em seus olhos ao mesmo tempo em que Jessa concluía que arderia no inferno por suas mentiras. — De influenza. Os médicos não conseguiram fazer nada. Foi tão repentino... — Respirou fundo. — Morávamos em Grant Hall com os pais dele desde que nos casamos. Robert era filho único, portanto o herdeiro. Hoje Gideon é o herdeiro, e os avós o querem. Noah não sabia como confortá-la. — Isso não pode ser tão ruim assim. Meus pais, por exemplo, adoram os netos. — Contudo seus pais não devem dizer que não querem saber das noras. — Claro que não — ele disse, começando a entender o problema. — Foi isso o que aconteceu com você? Jessa assentiu e fungou. Pegou um lenço da manga do vestido e se recompôs. — O duque e a duquesa de Grantham não me querem na mansão e deixaram isso muito claro. Nunca foi segredo o fato de refutarem nosso casamento. — Por que eles eram contra? — Sendo americano, talvez não entenda... — Talvez sim. Jessa fingiu ter dúvidas e com isso prendeu a atenção dele. — Não agreguei nada ao casamento. Eu era dama de companhia de lady Howard quando Robert me conheceu na temporada de Londres. E não cai bem aceitar essa posição quando alguém tem berço... Meu pai era um barão. Não é um título tão grandioso quanto o de um duque, mas permitia que meus pais circulassem dentro da sociedade. Eles adoravam festas e bailes. Não estou sugerindo que eram desregrados, mas simplesmente apreciavam as coisas belas da vida sem pensar no futuro... Nem no meu. — Eles tinham dívidas — Noah concluiu, imaginando como as coisas haviam acontecido. Ela assentiu. — A situação poderia ter se arrastado indefinidamente. Não é algo incomum. Papai 35


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pagava um pouco aqui, outro acolá e todos ficavam satisfeitos. Ele cativava a todos. Nossa propriedade produzia o bastante para nos mantermos sem preocupações. E eu não sabia que havia problemas. — E depois? — Depois veio o incêndio. — As lágrimas embaçavam a vista de Jessa. — Há dois anos, no meio do inverno. Mamãe e papai morreram. A casa e os estábulos foram destruídos. Will, o irmão mais jovem de Davey Shaw, me carregou para fora da casa. Eu tinha caído nas escadas tentando fugir. Quando recobrei a consciência, não havia mais nada. — Ela remexia no lenço. — Desculpe, deve estar se perguntando por que contei tudo isso, mas é que perguntou por que os pais de Robert me repudiavam. Bem, tudo de valor se perdeu no incêndio e a propriedade foi vendida para pagar os credores. Alguns ainda ficaram a ver navios. Noah abaixou as pernas e apoiou os cotovelos nos joelhos. — Imagino que não tenha parentes. — Nenhum. Foi por isso que comecei a trabalhar como dama de companhia. Tive sorte por conseguir a posição. Não há muita gente disposta a me pôr sob o mesmo teto. As pessoas se sentem pouco à vontade. — Porque você os fazia lembrar que a fortuna e a posição deles podiam sumir de uma hora para outra... Jessa voltou a guardar o lenço e dobrou os braços sobre a mesa. — Então entende como os pais de Robert se sentiam. Meus pais foram tolos o bastante ao me deixar sem perspectiva e, mais importante, eu trabalhava para viver. Robert tentou aplacar os ânimos, até vivíamos numa ala separada da casa, mas nunca me senti à vontade lá. Pensei que me aceitariam melhor depois que fiquei grávida, mas as coisas só pioraram. Lorde e lady Grantham tinham tantos planos para meu filho... E nenhum deles me incluía. Robert disse para que eu não me preocupasse, mas até ele se viu enredado nos planos deles. Noah ficou feliz em ouvir aquilo, pois tinha quase certeza de que Robert Grantham fora um santo. No mesmo instante lamentou o curso de seus pensamentos. Não tinha o direito de imaginar o que se passava entre Jessa e o marido. Fechando os olhos, tentou imaginar o rosto da noiva, mas a imagem que se formou foi vaga e indistinta. Quando olhou para Jessa de novo, seus olhos estavam soturnos. Jessa se perguntou o que teria causado aquela expressão. Sem saber a resposta, ela prosseguiu: — Assim que Gideon nasceu, os avós tomaram conta. Eu me sentia uma égua parideira cuja missão fora cumprida e, portanto, já não era mais necessária. — Fora Mary quem sugerira aquelas palavras. — Poucos meses depois, Robert adoeceu e depois de sua morte, fui afastada da vida de meu filho. Se eu ia até o quarto dele, estava sendo super-protetora. Se brincava com ele, tornava-o muito dependente de mim. Nada do que eu fazia estava certo. — Por isso decidiu partir. — Mary era a única pessoa que poderia me ajudar. Antes de ela e Davey se casarem, ambos trabalharam para meu pai. — Na noite do assalto estava vindo para cá? — Sim, mas não pela primeira vez. Eu já vivia aqui há alguns meses. Eu tinha levado Gideon para um médico em Hemmings. Não estávamos há muito tempo na 36


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estalagem quando você chegou. Ele cruzou as pernas na altura dos tornozelos e a observou. — Não precisa temer. Entendo o motivo que a levou a me contar tudo, visto que eu poderia deixar algo escapar inadvertidamente. Mas não precisa ficar tão apreensiva. — Sorriu encantador. — Por certo não lhe dei a impressão de ser um ogro. — Não. — Mas então ela se lembrou da discussão com o estalajadeiro. — Bem, seu comportamento na estalagem não foi dos melhores. Ele riu, esquecendo-se do ferimento por um momento. A mão cobriu o machucado de imediato. — Dificilmente vou me portar daquele modo com você. — Ainda não sabe tudo. — Jessa encarava as mãos unidas. — E o que mais pode ter acontecido? — ele perguntou, vivaz. Mordiscando o lábio, ela se armou de coragem. — Os Grantham estão a nossa procura. Se nos encontrarem, vão me trancar no manicômio. — Vendo a descrença nos olhos de Noah, insistiu: — Eles são capazes disso, sr. McClellan, e têm poder para tanto. Por que acha que fugi? Eles já pensavam em fazer isso. Planejei minha fuga assim que descobri os planos deles. — Ela abria e fechava os dedos. — É por isso que tenho de partir da Inglaterra. Gideon e eu não estamos seguros aqui. Mas não temos recursos. Mary e Davey foram muito generosos, mas não têm como me emprestar o dinheiro da viagem. Ela lhe contou que Davey está procurando emprego. Ele está fazendo isso para me ajudar. Noah levantou as mãos e a interrompeu. Seus olhos mostravam compaixão. Ele poderia ter se levantado e a amparado, mas não tinha esse direito. — Espere, Jessa. Não tem mais por que se preocupar com dinheiro. Ficarei muito feliz em ajudar a você e Gideon. É esse o motivo? Teve medo de me pedir ajuda? Entendo como a situação deve ser difícil, mas seu pedido é pequeno dadas as circunstâncias. Você salvou minha vida. Como ela desejava que Noah parasse de repetir aquilo. Agitada, levantou-se e apoiou a mãos na mesa. Falou rápido, querendo por um fim àquilo de uma vez por todas. — Aprecio sua oferta, sr. McClellan. Eu sabia que era um homem generoso. O que eu não tinha como saber era se viveria para mostrar essa generosidade. Foi por isso que não pude arriscar. Eu precisava de sua proteção e pensei que estivesse morrendo. — Jessa viu que ele se mostrava confuso. Respirando fundo, concluiu: — O padre de quem se lembra não veio aqui para lhe dar a extrema-unção. Ele veio para nos casar. E ele nos casou. — Sentou-se a espera da explosão, que demorou tanto que ela começou a imaginar se teria de repetir tudo para que ele entendesse. Fagulhas douradas e verdes cintilavam nos olhos de Noah. Ele a imobilizava com a força do olhar. — Aquele padre nos casou? — Sim. — Faz alguma idéia do que fez? — ele exigiu saber. — Eu disse que pensei que você estivesse morrendo. — Ela ergueu o queixo, altiva. — Não acha que eu queria me casar, acha? Noah piscou repetidas vezes. Aquela mulher estava tentando deixá-lo na 37


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defensiva. Seria capaz de quebrá-la ao meio com as mãos. Mas uma parte de sua mente, aquela que não estava raciocinando muito bem, admirava a coragem dela. — Minha senhora, pouco me importo se queria ou não. O fato é que o fez. — Balançou a cabeça. — Não. Não estou raciocinando. Quero provas. Tem alguma? — Tenho a licença. E há o registro na igreja. — Deixe-me ver essa licença — ele pediu, cansado. Jessa foi até o baú e retirou o papel de dentro da Bíblia. — Eu lhe asseguro que o casamento é válido. — Que tipo de padre celebra uma cerimônia assim? — ele resmungou enquanto ela atravessava o cômodo depois de lhe entregar o papel. — Um muito bêbado. Noah então se lembrou do cheiro de álcool e olhou para a licença. — Esta não é a minha assinatura. — Estou certa de que não se parece com a sua assinatura, mas foi a sua mão quem assinou. — Com a ajuda de alguém, aposto. — Sim, mas o padre testemunhou. — Não importa. Acabou de admitir que ele estava embriagado. — Mas você disse seus votos. Disse sim! — ela insistiu quando, viu que a boca de Noah se curvava em genuína descrença. — Eu jurei ficar ao seu lado na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza? — Não, claro que não. Estava doente demais para dizer tudo isso. — Conte então, por favor, o que foi que eu disse? — Você disse "eu quero". Todos o ouviram: Mary, Sarah, o padre, até Gideon! — Gideon não ê uma testemunha confiável. — Desculpe, foi tolice minha dizer isso. — Pouco importa. Estou começando a rever minha opinião quanto a você. Sua observação combina bem com toda essa estupidez. — Ele jogou a licença sobre a mesa e prendeu o olhar magoado de Jessa. — Conte-me, quais eram suas intenções caso eu morresse? — Pensei que fosse óbvio. Eu me apresentaria em Stanhope ou Linfield como sua viúva. Diria que seu último desejo era que eles me mandassem para os Estados Unidos. Tenho certeza de que alguém acreditaria em mim. — Esse seria o último de seus problemas — disse ele com absoluta convicção. — Alguém teria colocado você e Gideon no primeiro navio para a América. — Era isso o que eu esperava. — Meu Deus! Inacreditável a sua audácia! — Você perguntou e eu respondi! — Os olhos cinzentos estavam gélidos como o vento do inverno. Noah lutava para se acalmar. A dor do ferimento não era nada se comparada ao latejar de sua cabeça. 38


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— Vamos então discutir o que acontece agora que estou vivo. Deve ter imaginado que isso fosse possível. — Não. — Jessa balançou a cabeça. — Mas não queria que você morresse — acrescentou rapidamente. Noah suspirou e massageou as têmporas. — Não, se me quisesse morto, teria conseguido isso sem muito esforço. Tal afirmação acalmou Jessa um pouco. Pelo menos ele entendia que ela não planejara matá-lo. — Não precisa ser um casamento de verdade, sr. McClellan. — Não acha que dadas as circunstâncias, poderia me chamar de Noah? — Noah, então — concordou ela, sem querer perder tempo com tolices como formas de tratamento. — Como eu ia dizendo, seria apenas um casamento de conveniência. — Ou de inconveniência. — Só preciso de sua proteção enquanto estivermos na Inglaterra. Podemos anular o casamento nos Estados Unidos. — Podemos anulá-lo aqui — ele disse, seco. — Oh, não, por favor! Esse tipo de coisa não se resolve às escondidas e os Grantham me encontrariam. — Estou começando a acreditar que seu lugar é no manicômio — Noah disparou, cruel. — Que coisa horrível de se dizer! — Jessa arfou. — Não estou com vontade de ser cortês — ele resmungou. — O que a faz acreditar que será mais fácil obter a anulação nos Estados Unidos? Como vou explicar isso à minha família? Ou melhor, sra. McClellan, como vou explicar isso à minha noiva? — Noiva?! — Jessa levantou a cabeça. — Mas na carruagem você disse que... Ou melhor, não disse... — A voz dela sumiu enquanto os olhos de Noah se estreitavam. — Acho que disse coisas demais na carruagem. Ou não o bastante. Pensou em tudo isso enquanto viajávamos? — Claro que não! Tal coisa jamais passou pela minha cabeça! Mas algo parecido passara pela mente de Noah e ele não estava muito satisfeito consigo mesmo. Se fosse honesto saberia que parte da raiva dirigida a Jessa servia para apaziguar seus pensamentos andarilhos. — Então o que digo a Hillary? — perguntou, sério. Jessa inclinou a cabeça. Nunca cogitara uma noiva. Por que ele não mencionara o fato? Afinal, falara de todo o resto... — Não sei — admitiu. — Eu não teria feito nada disso se soubesse da existência dela. — Seus escrúpulos de nada servem agora. — Desculpe. — E suas desculpas menos ainda. — Não sei o que mais dizer. 39


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Noah se recostou no parapeito da janela e esticou as pernas. — Por incrível que pareça, nem eu. Os dois levantaram os olhos ao mesmo tempo e se fitaram longamente. Foi Jessa quem desviou o olhar primeiro. Noah se levantou e oscilou o peso sobre os pés. — Vou me recolher. Se precisa de alguma coisa do quarto, é melhor pegar agora. Sendo franco, prefiro não vê-la mais hoje. Ainda estou cogitando se devo ou não colocá-la sobre meus joelhos. — Você não ousaria! Ele caminhou até a mesa e a suspendeu pelos braços com facilidade. Sentado ou de pé, ele era imponente. Esperou que ela levantasse o olhar e, quando o fez, ele disse com suavidade, mas cheio de propósito: — Se ainda lhe resta um mínimo de massa cinzenta, sugiro que não fale assim no futuro. Como acabou de me explicar, sou seu marido. E posso fazer qualquer coisa com você... E para você. Jessa deu alguns passos para trás quando ele a soltou e girou sobre os calcanhares. O tremor que a trespassou combinou com o tremor da porta fechada com força. Abraçou-se para se livrar do frio que vinha de dentro. Deveria estar aterrorizada, mas não. Noah McClellan podia ser intimidador, mas duvidava de que ele fosse violento. O que era mais fácil de acreditar estando ele em outro cômodo. Diante dela em toda a sua altura e com a força daquele olhar, ele parecia capaz de tudo. Decidindo que de nada adiantava remoer o assunto, pôs-se a trabalhar. Lavou os pratos, tirou o pó, limpou o chão e levou água fresca para os animais no estábulo atrás do chalé. Horas mais tarde, uma rajada de vento entrou junto com Mary e Gideon. Ela bateu os pés enlameados no capacho e entregou o menino a Jessa. — O que aconteceu? Onde está Noah — Ele foi descansar. — Jessa levou Gideon para perto da lareira e esfregou o. corpinho dele para aquecê-lo. Gideon riu de contentamento e ela o beijou na testa. — Com isso quer dizer que ele está mal-humorado. — Pode culpá-lo? Tente imaginar como ele se sente, Mary. — Foi até a janela onde pegou a manta da criança e a estendeu no chão. — Ele não me escolheu para esposa, nem Gideon para filho. Não pode esperar que ele fique contente. Os olhos castanhos de Mary se arregalaram. — Suponho que a conversa não tenha sido fácil. Engraçado — pensou em voz alta —, eu podia jurar que ele enfrentaria melhor a situação. — Bem, isso não aconteceu. Ficou indignado, e como todo o direito. Ele tem uma noiva, Mary! — Noiva?! Oh, Deus, isso não é muito bom, é?— Mary colocou a chaleira no fogão e duas xícaras na mesa. — Teria sido bom saber isso antes... O que ele vai dizer a ela? — Não faço idéia. Nem ele. — Jessa levantou a tampa do baú que ficava perto da janela e pegou dois blocos que Davey fizera para o filho. Jogou-os no chão perto de Gideon. O menino pegou um, levou à boca, depois o jogou na direção de Jessa. Ela riu e 40


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jogou de novo. Gideon rolou de lado quando abriu os braçinhos para pegar o bloco. Havia lágrimas nos olhos de Mary enquanto ela observava a brincadeira de Jessa e do filho. — Mary! O que houve? — Sinto saudades do meu menino. — Ela deu um sorriso triste, mas refreou as lágrimas. Jessa se levantou e a abraçou. Segurou-a calada, pois não havia palavras que a confortassem. Foi Mary quem se afastou primeiro, enxugando os olhos. — Não ligue para mim. Ando chorosa nos últimos tempos. Desconfiada, Jessa perguntou: — Você está grávida? Mary assentiu. — Que maravilha! Por que não disse nada? — Não queria que você se preocupasse comigo. Sei que se preocuparia, é de sua natureza. E já tem muito no que pensar. — Oh, Mary! —Jessa suspirou, triste. — Você se preocupa demais comigo. Eu vou conseguir me virar. Davey já sabe? — Não. — Mas... Deixe estar, já entendi. Se ele soubesse, ele não teria ido se esconder. — Nem se juntado aos irmãos na estrada. Mas fazer o quê? Precisávamos do dinheiro. — Eu precisava do dinheiro. — Dá no mesmo. — Mary deu de ombros. — Você e Gideon são da família. Jessa sabia que seria inútil contestar, por isso tomaram o chá em silêncio, observando o menino bater os blocos. O entusiasmo de Gideon era tão grande que as duas se pegaram sorrindo. Pouco depois se aprontaram para dormir e Jessa se sentiu muito solitária. Ela adormeceu perto da janela e não soube se horas ou minutos mais tarde acordou com um barulho. Instintivamente soube o que era. Ajustando a visão à escuridão, viu Noah passar diante da lareira. Ele estava todo vestido, exceto pelas botas que carregava uma em cada mão. Jessa deduziu que uma delas havia caído produzindo o som que a despertara. Com os olhos semicerrados, observou-o abrir a porta e sair clandestinamente. Era orgulhosa demais para detê-lo. Queria, porém, ter a coragem de lhe dizer que ele poderia fazer tanto barulho quanto quisesse, pois ela não o deteria, implorando para que ficasse. Mas nada do que dissesse faria diferença. Ele se fora. Jessa afundou o rosto no braço e chorou. — Droga, Drew! — Noah exclamou. — Tome cuidado. A bandagem está grudada na pele. Veja, está sangrando de novo. Drew Goodfellow bufou, descartou o pano sujo de sangue e tratou de colocar uma nova bandagem. As mãos cheias de artrite tornavam os movimentos desajeitados, mas 41


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ele tinha paciência e persistência. — Estou com vontade de mandá-lo de volta para a viúva. Não há nada no contrato com seu cunhado que diga que eu tenha de bancar a enfermeira. Eu cuido de tudo para Jerico e Rae aqui em Stanhope e até agora não ouvi reclamações. Noah fechou e esfregou os olhos. Vinha testando a paciência do administrador. — Desculpe. — O que disse? Relutante, Noah deixou um sorriso escapar. — Você ouviu muito bem. Não há nada de errado com seus ouvidos. — O sorriso sumiu ao abrir os olhos e fitar o teto. Lá estava ela de novo. O rosto de Jessa. Os olhos cinzentos o assombravam a todo instante. A imagem dela o atormentava até durante o sono. — O que ela fez foi inconcebível. Drew não precisou perguntou sobre o que ele falava, pois desde que chegara havia uma semana, Noah só falava da viúva, e continuava a conversa de tempos em tempos, e ele descobriu que Noah não esperava uma resposta. Por isso apenas ouvia e concordava. — Que diabos, Drew, ela não tem ninguém para ajudá-la! Mas por que eu? Eu a protegi na carruagem e veja como ela retribuiu! Preciso clarear a mente. Pensar na convenção da Filadélfia. É isso o que me espera quando eu voltar. A oportunidade de moldar um governo! A última coisa de que preciso é de uma mulher e uma criança em meus calcanhares atrapalhando minha carreira política. Drew assentiu. — Sabe, se ela estivesse sozinha, eu não pensaria duas vezes, eu a deixaria sem remorso. Eu nem teria de contar para minha família, muito menos para Hilary. Eu tocaria a vida como se nada tivesse acontecido. — Poderia... — Se ao menos fosse tão fácil — Noah se contradisse. — E quanto a Gideon? Que tipo de vida aquela mulher pode oferecer a ele? — Parou de falar e imaginou-a de novo. — Mas ela ama o filho — sussurrou. — Disso não há dúvidas. Drew assentiu de novo. — Mas isso não lhe dá o direito de arruinar minha vida! — Noah massageou a testa, tentando aplacar a pressão que sentia atrás dos olhos. — Já lhe disse que ela se parece com um anjo? — Não esperou pela resposta. — Como alguém com a imagem da inocência pode ser tão astuta? Eu jamais poderia dar as costas para ela, Drew. — Puxou as cobertas quando o administrador terminou com a bandagem. — Você tem de ser cauteloso. — Não, não preciso, por que não vou levá-la comigo. Não tenho de cuidar do filho dela. — Não é seu dever. — E mesmo que fosse, eu não teria de morar com eles. Posso anular o casamento. Foi ela mesma quem sugeriu. Eu poderia oferecer-lhe dinheiro e depois lavaria minhas mãos. 42


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Drew se afastou e deu as costas para que Noah não visse seu sorriso. — Não vejo motivo para não levá-los comigo. Que mal haveria? — Nenhum. — E não há por que não aproveitar a viagem... Drew franziu o cenho. — Isso mesmo. — Noah sorriu, malicioso. — Sinto pena dela, Drew, pelas circunstâncias que a trouxeram até mim, mas isso não vai sustentar minha generosidade nas tediosas semanas no Atlântico. Já que vou lavar as mãos, não há por que mantê-los em minha mente...

Capítulo IV

Abril de 1787 — Olhe, Gideon! Uma flor! — Jessa se abaixou para que o menino visse o botão amarelo. — É a primeira flor da primavera. Não é linda? Gideon balbuciou e tentou apanhá-la, mas Jessa o afastou. — Não pode pegá-la, meu pequeno, senão ninguém mais conseguirá admirá-la. Sé o sol firmar, ela abrirá as pétalas. — Gideon abriu os braços. — Isso mesmo. E você acha que também é uma flor, mocinho? É isso o que quer ser? Sabe que não é possível... O menino rapidamente perdeu o interesse pela flor e agarrou a trança de Jessa com tanta força, que ela dobrou o pescoço. Desvencilhando os dedinhos dos cabelos, ela o admoestou com fingida seriedade: — Você não é muito gentil, rapazinho. Venha, vamos entrar. Já vimos a vaca, o cavalo e as galinhas. Mas elas não gostaram muito de você, não é? Isso por que você ri delas... Dentro do chalé, Mary servia três tigelas. — Olhe, Mary já preparou o almoço. Que sorte a nossa. Mary revirou os olhos. — Você faz idéia de como fica tola conversando assim com ele? Jessa não se ofendeu nem um pouco. — Gideon adora nossas conversas. — Colocou o babador e sentou-o no colo. Em seguida riu quando conseguiu enfiar uma colherada de sopa na boca que bocejava. — Nos divertimos muito lá fora. Mary bateu a concha na mesa. — Como pode estar tão animada? Prometi a mim mesma não dizer nada, mas não sou de ficar calada... Já faz três semanas! Não vai atrás dele? — Já disse que não — Jessa murmurou com fingida calma. — Ele já deve estar a meio caminho de casa. — Ofereceu mais uma colherada ao filho. — Acho que podemos nos tranqüilizar. Noah não deve ter alertado as autoridades. Essa era a nossa única 43


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preocupação, portanto, deixe estar, Mary. Mary resmungou e começou a comer, embora estivesse tão zangada que não conseguia sentir o gosto da comida. — Davey partiu cedo hoje. — Jessa mudou de assunto. — Aonde ele foi? — O marido de Mary havia retornado uma semana depois da partida de Noah. Mary nada disse, e Jessa suspirou. — Por quanto tempo ainda vai ficar brava? Por que se for mais do que dois minutos, vou levar Gideon para passar o dia na casa de Sarah. — Jessa... — A voz e os olhos de Mary suplicavam. — Já está, feito, Mary. Ele não nos quer! Assustado com o tom de voz da mãe, Gideon bateu as mãozinhas na mesa e derrubou a tigela. A sopa formou uma poça no tampo e desceu até o chão. — Droga! — Jessa praguejou. Tirou o babador do menino e começou a limpar a sujeira, ao mesmo tempo examinando as mãos do pequeno para ver se não tinham se queimado. Vendo que ele estava bem, deu vazão à frustração: — Droga, droga! — Doga! — Gideon a imitou bem alto. — Doga, doga! A tensão entre as mulheres sumiu instantaneamente e as duas trocaram olhares surpresos. Em seguida começaram a rir até as lágrimas enquanto Gideon repetia a nova palavra. Foi a batida à porta que as trouxe de volta ao normal. — Você atende, enquanto eu limpo essa sujeira — Mary sentenciou. Não reconhecendo a carruagem diante da janela, Jessa hesitou por alguns instantes, mas por fim abriu a porta. — Sra. McClellan? — perguntou o homem encurvado e apoiado numa bengala. Os olhos pousaram no menino no colo dela. — Claro que sim. O rosto de um anjo foi o que ele disse. E esse deve ser Gideon. — Pegou uma bola de tecido colorido do bolso e a ofereceu ao menino que em seguida a levou à boca. — Eu sabia que ele ia gostar... Posso entrar? Sou Drew Goodfellow e venho de Stanhope. O coração de Jessa bateu apressado. — Sim, por favor, entre. Gostaria de me dar seu casaco? Ele balançou a cabeça, olhando o interior do chalé. — Obrigado, mas não. Sinto frio por causa do reumatismo, sabe. — Fitou Mary. — Você é a esposa de Davey Shaw? — S-sim — ela murmurou, desconfiada. — Ele fez bem. Você é uma bela mulher. — O senhor conhece Davey? — perguntou Mary entre lisonjeada e pouco à vontade. — Conheço mais o pai. Eu e ele contrabandeamos juntos algumas vezes no passado. Essa informação a tranqüilizou e ela se mostrou mais amigável. — Sente-se, por favor. Estávamos tomando sopa. Aceita um prato? Drew se sentou, mas recusou a refeição. 44


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— Não posso demorar. — Virou-se para Jessa. — O sr. McClellan pediu que eu a apanhasse sem demora. — Apanhar-me! — Jessa ofegou, indignada. Mary apertou as mãos e praticamente dançou pela sala. — Oh, que maravilha, Jessa! Ele mandou buscá-la! — Segurou os ombros da amiga e a sacudiu. — Não ouse recusar! Se ele a quer, você precisa ir e agradecer a boa sorte que tem. — Mas... Drew as interrompeu. — Mary tem razão, sra. McClellan. O Clarion parte de Londres em poucas horas. — Em poucas horas! — Jessa protestou. — Não posso partir tão rápido assim! — Por que não? — Mary perguntou. — Não tem tantos pertences para por no baú. Jessa se virou para Drew. — Sr. Goodfellow, o senhor se importaria se eu trocasse uma palavrinha em particular com Mary? — Sem esperar pela resposta, marchou para o quarto e mal esperou a porta se fechar antes de exclamar: — Mary; perdeu o juízo?! Como vou alimentar Gideon? — Ele já está praticamente desmamado — Mary respondeu com praticidade. — Ele ainda vai precisar de leite. Como vou consegui-lo no meio do oceano? — Tenho certeza de que Noah pensou nisso. Ele não teria concordado em levá-la se não tivesse providenciado o bem-estar de Gideon. Portanto, você vai ou não? — Não quero deixá-la aqui, Mary... — Que coisa mais ridícula de dizer! Está pensando nessa criança ou não? Ele tem berço, assim como você. Não adianta fingir que vocês ficarão bem comigo e com Davey. Esta vida nos cai bem, mas não serve para vocês, lady Jessa. Sim, posso voltar a chamála assim, agora. Você é uma dama, assim como o menino é um lorde. Isso pode não ser importante aonde vocês vão, mas é importante aqui! Durante o discurso de Mary, Jessa foi recuando e, defronte da cama, dobrou os joelhos e se sentou. — Está bem. Nós vamos. Mary refreou as lágrimas e a vontade de abraçá-la. — Então vá avisar Drew, enquanto eu preparo o baú. Não demoro nem um minuto. Jessa andava de um lado para o outro com Gideon no colo, quando Mary abriu a porta, arrastando o baú. — Vamos devagar que consigo ajudá-la — Drew se ofereceu. — Não sou inútil, sabe... — Acho que estão com pressa de nos despachar... — Jessa disse a Gideon quando foram deixados para trás. Pegou a manta dele e vestiu o casaco. Saiu do chalé sem olhar para trás, temendo desistir se não saísse depressa. — Preciso de meu chapéu, Mary. Você o colocou no baú? — Mas o dia está tão lindo. Por que não aproveita e... — Por favor, pegue-o para mim. Mary olhou para o rosto pálido da amiga e notou os lábios trêmulos. Entendeu que 45


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Jessa tentava manter a compostura, por isso ela mesma abriu o baú e pegou a peça. — Aqui está. Nem amassou. Drew olhou para trás já acomodado em seu assento e viu o chapéu duro. — Seria preciso um martelo para amassar isso aí. Jessa esboçou um sorriso e sentou Gideon na charrete, enquanto amarrava o chapéu ao pescoço. Depois se sentou ao lado do filho. Segurando a mão de Mary, disse: — Diga adeus a Davey por mim. Agradeça a todos, por favor. Diga o quanto sou grata por tudo o que fizeram. — Claro que digo. — Mary abraçou-a. — Vai escrever de vez em quando, não? — Você não sabe ler, Mary... — A risada saiu tensa. — Não importa. Davey lê um pouco, senão arranjo alguém que leia para mim. — Então escreverei. — Ótimo. — Mary soltou-a e pegou Gideon para beijá-lo. — Obedeça sua mãe, mocinho. Não há ninguém no mundo que o ame mais do que ela. — Devolveu o menino à mãe e desceu da carruagem com o rosto banhado de lágrimas. — Adeus! — Drew chicoteou o cavalo e o veículo começou a se movimentar. — Vou querer saber a respeito do bebê! — Jessa exclamou. Mary não respondeu. Somente assentiu e acenou. E continuou acenando até a carruagem sumir na curva da estrada. Para afastar Noah e o encontro iminente da cabeça, Jessa conversou com Gideon durante o trajeto. Logo o balançar da carruagem e o ritmo suave de sua voz fizeram-no adormecer. Ela levantou o rosto e apreciou o calor do sol. Foi então que viu que Drew parava a carruagem numa hospedaria. — Por que estamos parando? Londres fica ainda a alguns quilômetros daqui. Fitando-o na expectativa de uma resposta, viu que ele desviou o olhar para a porta da hospedaria, por onde Noah passava. Ele se movia exatamente como ela se lembrava: com graça e confiança. Bem-vestido e com uma cesta na mão, caminhava relaxado e com um sorriso nos lábios. — Pensei que ele fosse nos esperar no navio — Jessa murmurou. — Como a senhora pode ver, ele está aqui. — Drew tocou no chapéu para cumprimentá-lo. — Boa tarde, Noah. Como estamos de tempo? — Devemos chegar ao navio com meia hora de sobra. Onde estão Mary e Davey? — Ele não estava lá quando cheguei e Mary decidiu ficar. Essa era uma novidade para Jessa, pois não sabia que haviam convidado Mary. — Tudo bem, Drew. Eu só queria que eles tivessem uma opção. — O sorriso reservado para o condutor se apagou assim que ele se virou na direção de Jessa. Passou os olhos pelo chapéu rígido, o casaco e o vestido negros. Subiu, colocou a cesta no chão e se sentou de frente para ela, dando as costas para Drew. — Podemos ir. — Sem desviar o olhar, disse seco: — Vestiu isso para me desafiar? — Isso o quê? — ela perguntou, surpresa. 46


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— O chapéu. Esse vestido. Suas roupas de viúva, pelo amor de Deus! Se queria que esse arranjo começasse bem, enganou-se redondamente. — Sr. McClellan... — Noah — ele a corrigiu com um resmungo. Jessa se recostou e enfrentou o olhar frio. — Noah — recomeçou no que considerou um tom razoável —, não tive tempo para pensar, quanto mais mudar de roupa. Garanto que não vesti estas roupas com o intuito de ofendê-lo. Eu já estava com este vestido quando o sr. Goodfellow chegou. Longe de se acalmar, Noah só aumentou a carranca. — Depois que zarparmos, quero que se livre dele. Não é o tipo de roupa que uma recém-casada veste. Jessa aquiesceu, mas disse: — Devo avisá-lo, contudo, de que não tenho muitos vestidos. E não acho que os outros o agradarão. — Qualquer coisa será melhor do que o que está usando agora. — Ele inclinou-se para a frente. — Dê-me seu chapéu. — Mas só tenho este! — É horrendo. Tire-o. — Seria bom dizer: por favor — ela contrapôs, seca. Quando ele sustentou seu olhar, ela cedeu. — Muito bem. Mas se eu soubesse que você seria tão grosseiro, eu não teria... — Não teria o quê? — Noah riu sem humor. — Não teria se casado comigo? Não sabe como desejei ter lhe mostrado esse meu lado antes! Fervendo de raiva, Jessa desfez o laço do chapéu e o jogou no colo dele. — Pronto! Pode dá-lo ao cavalo se quiser. — Nem o cavalo o aceitaria. — Noah o jogou pela janela da carruagem. Jessa o viu ser jogado fora pelo canto do olho. — Meu rosto vai queimar. — Seu rosto está pálido demais. — Ele se recostou no assento e esticou as pernas. Tirou o chapéu e levantou o rosto para o sol, exatamente como ela fizera pouco antes. Ela o fuzilou com os olhos. Noah se comportava como um brutamontes! Não lhe dirigira sequer uma palavra gentil desde que tinham se reencontrado. Virando o rosto, apoiou a bochecha nos cabelos de Gideon, ajustando a manta para melhor protegê-lo do sol. Como Mary tivera a coragem de incentivá-la a se juntar àquele ogro? Olhou para o vestido. Será mesmo que Noah acreditava que ela o vestia só para desafiá-lo? Ele certamente achava que ela ainda amava o marido. Sentiu vontade de rir, mas a teia de mentiras era tão enredada que ela achou por bem se calar. Por que Noah se importaria se ela amasse o fictício Robert Grantham? Noah não a amava mesmo! E ela tampouco nutria algum sentimento por ele. Ele sabia que amor não tinha nada a ver com os motivos que a levaram ao casamento apressado. Por certo não tinha nada a ver com a decisão dele em mantê-la por perto. Arriscou um olhar para o marido. Provavelmente o único que teria em toda a vida. 47


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Ele ainda tinha os olhos fechados e os lindos cílios repousavam contra a pele dourada. Parecia relaxado com os lábios ligeiramente afastados. Ele não tinha de se preocupar em proteger a pelo do sol, era bronzeado não só no rosto, mas em todo o corpo, segundo ela se lembrava... Pare, Jessa! Se ele abrisse os olhos, enxergaria o curso de seus pensamentos no rubor de suas feições. Cerrando os dentes, fixou o olhar nas costas de Drew. Seus pensamentos eram mais do que inoportunos. Não havia lugar para atração naquele casamento, mesmo unilateral. Pegando a trança desarrumada e pegajosa por conta dos dedos e boca de Gideon, desejou ter tido tempo de arrumar os cabelos. Nem considerara a idéia de que Noah desejasse que sua aparência fosse a de uma noiva feliz. Suspirando, jogou a trança para trás. Não havia nada a fazer no momento, mas jurou que no futuro, tomaria mais cuidado. Noah se preocupava com a fachada do casal ante os outros e ela deveria se contentar. Só esperava que isso fosse indício de que ele a trataria com mais respeito na presença de outras pessoas. — No que está pensando, Jessa? — Sem parecer, Noah a observara. Lamentava as palavras rudes que havia dito, mesmo enquanto elas jorravam de seus l ábios. Todavia era teimoso demais para mudar o curso no meio do caminho. Parecia adequado estabelecer a autoridade desde o início. Se Jessa suspeitasse com que facilidade ele podia ser manipulado, ele não teria mais paz. Aliás, já lhe dera provas disso. Ela estava ali, não? Mais do que surpresa por ele ter lhe dirigido a palavra, foi o tom tranqüilo que a pegou desprevenida. Desviando o olhar, Jessa procurou esconder alguns de seus pensamentos. — Eu estava me perguntando por que você me chamou. Pensei que nunca mais voltaria a vê-lo. — Mudei de idéia. Aquilo era óbvio, mas o que o levara a isso? Incerta quanto ao temperamento dele, decidiu não insistir. — Foi gentil de sua parte convidar Mary e Davey. — Aventurou-se em dizer. Ele deu de ombros. — Bem, eu só queria que soubesse que, se mudar de idéia quanto a levar a mim e Gideon, eu entenderei. Quero dizer, ainda há tempo. — Antes de zarparmos, é o que quer dizer? — Sim. Noah se endireitou no assento e a encarou. — Se eu mudar de idéia no meio do Atlântico, também não será tarde demais. A boca de Jessa ficou semiaberta. — Mas onde... quero dizer, o que eu faria? — Nadaria. — Ele ignorou as lágrimas que reluziram nos olhos de Jessa e se abaixou para pegar uma coxa de frango da cesta, oferecendo uma para ela. Ela recusou com um gesto e refreou as lágrimas, jurando não chorar diante daquele homem. 48


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— Não estou com fome — afirmou, quando ele ofereceu uma maçã. — Que seja — disse ele, mordendo o frango. — Mas deveria comer. Acredito que um vento um pouco mais forte seria capaz de carregá-la. — Estou surpresa que não tenha encomendado um vento assim, então. Noah riu e continuou a comer. Secretamente aplaudiu a audácia dela. A viagem seria muito enfadonha caso ela não respondesse às suas farpas. Jessa teve de admitir que não o compreendia. Num minuto ele era extremamente rude, no instante seguinte parecia gostar de sua companhia. A viagem seria muito desgastante caso não o desvendasse. Noah viu as emoções passar pelo rosto dela: assombro, confusão, incerteza. Estava tudo ali, na curva das sobrancelhas castanhas, na pressão dos lábios. Pousou o olhar no perfil delicado enquanto ela observava a estrada. Mechas loiras escapavam da trança e ele desejou enrolar uma no dedo. Jamais negara que a considerava uma mulher adorável. Embora ela parecesse imperturbável, ele não estava. Podia estar vulnerável pela atração que sentia. Porém havia certo poder em conhecer as próprias fraquezas. Teria de lidar com Jessa numa posição de controle. Gideon acordou bem quando se aproximaram da periferia de Londres. Chorando, molhado e faminto. Noah pediu a Drew que parasse para que Jessa pudesse trocá-lo, e ela ficou agradecida a Mary por ter colocado as roupinhas dele por cima de tudo no ba ú. Desculpou-se pela gritaria do filho, mas Noah não se mostrou preocupado. Pouco depois, quando Drew recolocou a carruagem em movimento, ele pegou o menino no colo. — Seus braços devem estar cansados. Estavam, mas ela não imaginava que Noah fosse pensar nisso. Gideon só se mostrou parcialmente contente por estar seco, pois ainda tinha fome. Noah enfiou a mão na cesta e pegou um cantil metálico. Tirou a tampa enquanto sacolejava o menino no joelho. — Não! — Jessa gritou, alarmada, quando ele inclinou o cantil na boca do menino. — Ele não pode beber isso! — Gideon agarrou o cantil quando Noah o aproximou e uma gota de leite caiu em seu queixo. — Oh! Poderia ter me dito o que havia aí dentro. — E perder a demonstração de instinto protetor materno? — Em seu colo, Gideon bebia, contente, o leite do cantil, que ele mantinha inclinado. — Achei que não quisesse amamentá-lo durante a viagem a céu aberto. — O olhar recaiu sobre os seios dela. — Nunca o amamentei. — Ela fechou o casaco. — Por que não? — Os lábios dele se curvaram num sorriso. — Por que lady Grantham não permitiu — ela inventou. — Ela dizia que era algo muito ordinário. Por isso Gideon tinha uma ama de leite. — Mas você fugiu quando ele ainda era pequeno. Como... Jessa sentiu-se enrubescer, — Eu já não tinha como amamentá-lo naquela ocasião, se é o que está se perguntando. — Aquela conversa estava passando do limite aceitável. — Mary o amamentou. O filho dela tinha acabado de falecer quando fui para lá. — Lamento muito — ele disse, solene. — Deve ter sido muito difícil para as duas. — Foi. — Ela crispava os dedos no colo. — Mary estava desmamando o filho. 49


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— Bem, já que Mary não está conosco, Gideon já teve sua última mamada — constatou prático. — Ele está se saindo bem com o cantil. Ops! Falei rápido demais... — Jessa já colocava um, pano debaixo do queixo do menino. — Acho que está satisfeito. — Fechando o cantil, ergueu o menino e o encostou em seu ombro para que ele arrotasse. Jessa o fitava, aturdida, e Noah riu de sua expressão. — Eu lhe disse que tenho uma dúzia de sobrinhos. Impossível não saber certas coisas em meio a tantas crianças. Quanto ao problema do suprimento de leite, que você tentava abordar com certa delicadeza, já está tudo resolvido. O Clarion está transportando gado além da carga costumeira. — Isso deve ter custado uma fortuna. — Está tentando descobrir se sou rico? — ele indagou, com um olhar de divertimento. — Pois saiba que não sou! Por certo não pelos padrões de seu marido. — Eu não quis... — O Clarion pertence à minha família. Ele já fez várias viagens da Virgínia até Londres desde a minha chegada. Depois que concluí meus negócios em Stanhope foi só uma questão de esperar pelo seu retorno. — Gideon arrotou, e ele o colocou no colo. — Portanto, o único preço que paguei pela sua passagem é a minha liberdade. Jessa cerrou os dentes em silêncio. Não havia como conversar civilizadamente com aquele homem! Mentalmente lançou uma dúzia de imprecações. Alheio ao que se passava na mente dela, Noah conversava com Gideon, mostrando o tráfego intenso das ruas movimentadas da cidade. Nada, porém, fascinava o menino mais do que o som da voz do homem e o seu rosto. Os olhos azul-claros não despregavam de Noah. Drew foi quem primeiro viu a carruagem desgovernada que vinha na direção oposta. As pessoas corriam e gritavam para não ser atropeladas. O condutor parecia não ter controle sobre os cavalos. Drew, com destreza, levou seu animal para o lado a fim de abrir caminho e imaginou que tivesse evitado a colisão, mas a roda traseira do outro veículo acertou a carruagem em que estavam. Embora tivessem sacolejado, foi Jessa quem levou a pior, quase sendo lançada para fora. Ela sentiu as mãos de Noah em sua cintura quando ele a puxou para seu lado no assento. — Você está bem? — ele perguntou. — Jessa?... Ela assentiu, mas não afastou a cabeça do ombro dele, nem relaxou os dedos que seguravam Noah. As pessoas começavam a se agrupar e ela não queria olhar para ninguém. — Estamos bem, Drew — Noah afirmou. — Fique aqui. Vou falar com aquele condutor eu mesmo. — Afrouxando os dedos dela, entregou Gideon que, apesar de chorar copiosamente, estava bem. Jessa foi para o canto do banco e abraçou o menino enquanto Noah descia. Ao vêlo caminhar na direção do outro veículo, viu que o condutor descia para abrir a porta. — Oh, não! — ela exclamou ao ver o brasão dos Penberthy na porta. — Noah! — chamou-o com urgência. — Noah, por favor, volte! Noah parou e se virou. — Drew pode ajudá-la? — Noah! Por favor. Preciso de você. Agora! 50


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Atraído pelo pânico na voz dela, ele voltou para a carruagem. — O que foi? — perguntou, vendo o rosto pálido e os lábios trêmulos. — Por favor — ela sussurrou. — Quero sair daqui. — Relanceando por sobre o ombro dele, viu quando Barbara Penberthy saiu da carruagem. Edward surgiu em seguida. Segurando a mão de Noah, apertou-a e suplicou com o olhar. — Precisamos ir! Aquela carruagem... Ela não precisou dizer mais nada. Noah reagiu de pronto, pedindo que Drew pusesse o veículo em movimento. Jessa estava sob sua proteção agora, pensou ao passar o braço pelos ombros dela. Drew chicoteou o cavalo e as pessoas abriram caminho. — Depressa... Por favor, depressa — ela implorou com os olhos fechados. Noah olhou para o casal ao lado da carruagem quebrada. Os dois olhavam estupefatos na direção de Jessa. O homem começou a vir naquela direção, mas parou ao comando da mulher. Jessa só abriu os olhos quando fizeram uma curva. — Eles me viram? — Acredito que sim. Eram os Grantham? — O quê? — Ela não conseguia pensar com clareza. Quase se esquecera das mentiras contadas. — Não, não. Eram amigos dos Grantham. Lorde e lady Penberthy. — Na mesma hora arrependeu-se do que disse. E se Noah tivesse ouvido falar do seqüestro de Adam? Estremecendo, abraçou-se ao menino. — Acha que eles nos seguirão? — Não. A carruagem está com uma roda quebrada. Lorde Penberthy tentou vir atrás de nós. Jessa detestou ouvir aquele nome nos lábios de Noah. Ele não o esqueceria. — É mesmo? — Sim, mas a esposa o chamou de volta. Ele obedeceu como um cãozinho treinado. — Assim como eu, Noah pensou ressentido. — O navio partirá logo? — ela quis saber. — Em poucos minutos. Já estamos quase no porto. Vou dispensar Drew tão logo descarregarmos seu baú, assim eles não conseguirão nos localizar. — Obrigada. — Controlando a respiração, Jessa levantou o olhar e sorriu de leve. — Você foi muito... Noah abaixou a cabeça e capturou a boca de Jessa. O beijo foi leve. Uma prova apenas. Sem paixão porque ele assim o quis. Ao se afastar, viu que um pouco de cor voltara para o rosto dela. Os lábios estavam úmidos onde ela passou a língua. Examinoua criticamente. Chegou à conclusão de que seus beijos lhe caíam bem, mas não sabia se isso seria uma coisa boa. Teria de pensar melhor a esse respeito. Drew parou a carruagem perto do Clarion, sem se dar conta do que acabara de acontecer. Alguém saudou do navio e ele devolveu o cumprimento. Noah a soltou e deu um tapinha na cabeça de Gideon antes de descer. Atordoada, Jessa aceitou a mão que ele lhe estendia. Por que ele a beijara? Ele a enlouqueceria se continuasse a mudar de humor a todo momento. Ao fim da viagem, ele bem poderia interná-la em alguma instituição mental daquele país. Depois de seis semanas na companhia de Noah McClellan, ela iria de bom grado. Ficou de lado 51


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enquanto ele se despedia. Noah apertou a mão enrugada do condutor. — Jerico disse que você era um homem confiável. Obrigado por me ouvir nestas últimas semanas. Drew olhou para a mulher e para a criança. — Está fazendo uma boa ação. As coisas vão se resolver. — As coisas são temporárias, Drew. — Noah o lembrou. — Nunca fingi ser santo. Vai continuar se comunicando com Jerico quanto à propriedade? — Como sempre. Se algo acontecer, eu avisarei. Vou prestar atenção a fim de saber se o incidente de hoje traz alguma conseqüência. — Obrigado. — Noah soltou a mão e chamou alguém do navio para ajudá-lo com a bagagem. Depois que haviam embarcado o baú, ele pegou Jessa pelo braço e a conduziu juntamente com o filho para a prancha de embarque. Parou por um momento e voltou-se, acenando para Drew. Jessa pisou no convés oscilante do navio e se virou contente para Noah. — Gideon vai adorar isto! É uma enorme cadeira de balanço! Noah empalideceu e o sorriso que tocou seus lábios era sem humor. — Igualzinho... Venha, vou apresentá-la ao capitão e acompanhá-la até a cabina. Um homem baixo e magro gritava com um marujo, mas se endireitou ao sentir a presença de Noah e estendeu a mão para cumprimentá-lo. — Marujo novo — ele disse. — O nome dele é Booker. Preciso ter uma conversinha com Porter. Não sei onde ele arranja esse tipo de homem. — Soltou a mão de Noah e curvou-se ligeiramente diante de Jessa. — Jessa, eu gostaria de apresentar o capitão Jackson Riddle. Jack, esta é minha esposa e nosso filho. — Sr. Riddle — Jessa o cumprimentou amavelmente, radiante pelo modo como Noah os apresentara. — Muito prazer em conhecê-lo. — O prazer é meu, sra. McClellan. E que lindo rapazinho. — Oscilando o peso entre os pés, Riddle fitou Noah. — Bem, se precisar de algo, é só me dizer. Foi um prazer conhecer a mulher que arrebatou Noah da srta. Hillary Bowen. Ela vai ficar furiosa. — Já basta, Jack — Noah o interrompeu e virou-se para Jessa. — Vamos nos acomodar. — Segurou o cotovelo dela sem cerimônia e a conduziu até a saída para o pavimento inferior. — Lamento muito, Noah. — É bom mesmo — ele concordou ao descer os degraus estreitos. — Se não fosse por você, eu... — Parou quando Jessa tropeçou. — Droga, deixe-me segurar Gideon antes que você quebre o pescoço. — Bem, você não há de querer isso, não é mesmo? Isso acabaria com seu gostinho de fazê-lo por si próprio... — Guarde essa língua afiada dentro da boca, sra. McClellan, ou posso fazê-lo agora mesmo. — No fim do corredor, empurrou uma porta. 52


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Jessa o seguiu, hesitante. Quando entrou na cabine, ficou boquiaberta e se sentiu observada. — Oh, é lindo, Noah! Grandioso. — Salem comprou o Clarion logo depois da guerra de olho no conforto — ele explicou. — Não queria deixar de navegar, mas também não desejava se afastar de Ashley e das crianças todas as vezes que viajasse. Por isso, modificou esta parte do navio de acordo com suas necessidades. O lugar era do tamanho do chalé de Mary. Um tapete oriental delimitava a sala de estar com duas poltronas confortáveis afixadas no chão e uma mesinha laqueada de preto no centro. Uma mesa de jantar oval ficava do outro lado com um candelabro afixado no tampo. Um armário de mogno imenso estava à direita de Jessa e ao lado, havia uma mesinha para o urinol. Sobre o tampo, uma bacia de porcelana e um jarro de água com um espelho na parede e uma prateleira com toalhas de linho. Num dos cantos, um pequeno fogareiro, por certo para afastar o frio da travessia do Atlântico. Atrás dela, dos dois lados da porta, prateleira com mapas, livros e manuais. Logo adiante uma janela sobre um assento acolchoado. À esquerda duas portas fechadas. Jessa não se interessou em saber o que havia ali, pois algo no centro do quarto capturou sua atenção. Uma cama enorme. Ela sentiu um arrepio subir pela nuca e se virou para Noah a fim de ver se ele a observava. Sim, ele a fitava. Voltando a atenção para a cama, tentou manter uma postura casual, afinal, não teriam de dormir juntos. Ela se contentaria muito bem com o assento debaixo da janela. — Venha, vou lhe mostrar o quarto de Gideon. — A voz de Noah estava rouca. Ele também tinha reparado na cama. — Por aqui. — Abriu a porta mais próxima. O quarto em forma de "L" era pequeno, mas tinha duas caminhas, um berço e uma cômoda onde ela poderia trocar o bebê. — É perfeito! — ela exclamou. — Seu irmão pensou em tudo. — Salem é minucioso. E Ashley também opinou. — Ele apontou para Gideon e perguntou: — Acha que ele vai chorar se eu o colocar no berço? — É provável, mas tudo bem. Ele perdeu o soninho da manhã e só cochilou na carruagem. Deve estar exausto. Noah o colocou no berço e Gideon, com os olhos pesados, ficou quieto. Porém, assim que fecharam a porta, ele começou a chorar. Noah fez menção de entrar, mas Jessa o deteve. — Não, deixe estar. Ele ficará bem. Noah estava cético. Acostumado com o papel de tio solteiro que mimava os sobrinhos, não sabia agir como pai, mesmo que temporariamente. — Tenho mais um cômodo para mostrar. Jessa o seguiu até a outra porta. O cômodo também era em forma de "L". Tinha duas tinas de madeira presas ao chão e uma chaleira de bronze pendurada num gancho. Diversos baldes estavam acondicionados num canto. — É aqui que Ashley lava a roupa da família. Água fresca é somente para o consumo. Para o banho e para as roupas é usada água salgada. Esta, porém, seca a pele e pode irritar Gideon. Ashley teve problemas com os filhos menores. — Tenho certeza de que ficará tudo bem — Jessa garantiu, contente por ter um 53


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lugar onde lavar as fraldas de Gideon. Suspeitava de que passariam um bom tempo ali. — Como consigo a água? — Alguém a trará para você. Vou falar com Jack a esse respeito. — Posso fazer isso. Estou acostumada a tirar água do poço, não me importo. — Eu me importo — ele replicou. Virou-se e voltou para o cômodo principal. — Vou para o convés ver o que fizeram com seu baú. Quando o trouxerem para cá, faça alguma coisa a respeito desse vestido. Enquanto eu estiver fora, tranque a cabina. — Testou a tranca para ver se funcionava. — Conheço a maioria dos homens a bordo, mas não todos, e você será a única mulher que eles verão nas próximas seis semanas. Não há porque provocar o destino. Jessa deu alguns passos e viu que o chão se movia ao encontro de seus pés. O navio já havia zarpado. — Posso ir com você? Só para me despedir da Inglaterra? Sei que não quer que me vejam neste vestido, mas... — O vestido não tem nada a ver com isso, Jessa. Eu a trouxe a bordo nele, não? Pode dar adeus por ali. — Apontou a vigia e em seguida saiu do aposento. Jessa olhou para a porta por onde ele havia saído e a trancou com raiva. — Merece ficar do lado de fora! Sentou-se perto da janela e pousou o rosto sobre o braço. Ficou feliz quando ouviu batidas à porta. Não esperava ficar tão triste ao ver Londres se distanciar. O rapaz que arrastava o baú não devia ter mais que treze anos. Ele tirou o boné e o retorceu nas mãos, esperando por mais ordens. Era tão magro, que Jessa sentiu o coração apertar. Pediu que colocasse o baú ao pé da cama, refreando o desejo de ajudálo. O menino, contudo, parecia orgulhoso demais para aceitar. — Obrigada. — Se isso for tudo, senhora, é melhor eu ir... — Ele se apressou. — Espere. — Jessa pousou a mão no ombro dele. — Qual o seu nome? Desviando-se da mão dela, o menino respondeu: — Cameron, senhora. Preciso ir. O capitão não quer que eu demore. Nem o sr. McClellan. Jessa suspirou. Devia ter desconfiado de que Noah fosse o responsável pela pressa do garoto. — Mais uma vez, obrigada. Ele enfiou o boné na cabeça e saiu. Parou no corredor até que ela trancasse a porta. A moça era linda, ele pensou. Não era de se admirar que o sr. McClellan tivesse ordenado que todos mantivessem distância. Ao se virar, Noah o deteve pelo colarinho. — Levou o baú? — Sim, senhor! — E ela trancou aporta depois que você saiu? — Sim, senhor! Nem precisei lembrá-la, senhor! Noah assentiu e o soltou. — Sabe alguma coisa sobre bebês, Cam? — Bebês? — Cam franziu o nariz, mas resolveu ser sincero: — Tenho quatro 54


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irmãos e três irmãs, senhor. Sou o mais velho. Acho que sei alguma coisa sobre bebês, sim. — Ótimo. Pode ajudar minha esposa com Gideon quando preciso. Os ombros do garoto penderam. — Mas, senhor, eu vim para o mar para fugir dos pequenos. Noah riu, mesmo que o som tenha saído cansado. — Cam, acho bom que você aprenda que nem sempre conseguimos fugir ao nosso destino. — O menino o fitou de modo estranho. — Esqueça... Encontre alguma ocupação antes que Jack o coloque nas velas. — Sim, senhor. Quando Cam se afastou, Noah se apoiou na amurada, com os olhos fixos no horizonte. — Imaginei que fosse encontrá-lo aqui em cima — o capitão disse, apoiando-se ao seu lado, mas de costas para o mar. Cruzou os braços sobre o peito e observou a tripulação enquanto conversava. — Não conseguiu ficar lá em baixo, não é mesmo? Noah balançou a cabeça. — Não. A viagem está apenas começando. — Você não toma jeito... Noah nada disse, apenas gemeu. Seu estômago começava a embrulhar. — Como a sra. McClellan está enfrentando a situação? — Acho que bem. Disse que o navio parece uma imensa cadeira de balanço. — O mar acalenta os navios como se fossem bebês. Balançando... Rolando... E balançando. Noah olhou para o capitão com o cenho franzido. — Pode se divertir, Riddle. Lembre-se, porém, que vou ter a minha vingança quando você menos... Jackson Riddle se afastou no instante em que Noah se curvou sobre a amurada e se livrou dos restos do café da manhã e do almoço. — Você não tem jeito mesmo. Batizado em homenagem àquele que enfrentou a pior tempestade da raça humana, mas não consegue deixar de ficar verde assim que enfrenta a maré. — Afastou-se, assobiando. — Deveria ter fixado o olhar no horizonte...

Capítulo V

— Você deveria ter perguntado quem era — Noah disse, rudemente, quando Jessa abriu a porta. Entregou-lhe a cesta de vime que levara na carruagem e, sem dizer mais 55


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nada, foi direto para a cama. Deitado de costas, amparou a cabeça nas mãos e fitou o teto. O rosto estava um tanto pálido e os lábios pareciam descorados. — Está tudo bem? — Jessa segurava a cesta diante do corpo. Noah sentia-se como se tivesse levado repetidos coices no estômago. — Está — respondeu por entre os dentes. — É que você demorou tanto a voltar... Eu estava preocupada, pensando que tivesse acontecido alguma coisa. Algo acontecera. Fizera papel de tolo diante da tripulação. E não importava que isso tivesse acontecido antes. Geralmente aceitava a ironia de seu nome de batismo não combinar com seu ânimo ao viajar de navio. Mas isso fora antes de Jessa. Ele não achava nada engraçado parecer um idiota diante de uma mulher. — Estou bem — repetiu, esforçando-se para sorrir. — Eu quis vir antes, mas... Estava ocupado. Jessa pôs a cesta sobre a mesa começou a olhar seu conteúdo. — Quer comer alguma coisa? Vejo que ainda temos bastante carne e frango. Que bom, sobrou um pouco de leite. Gideon logo vai estar com fome. Vou desfiar um pouco desta carne para ele. — Jessa... — Sim? — Deixe isso de lado. Cam logo chegará com o jantar. — Mas esta comida vai acabar estragando. — Guarde a fruta. Dê o restante para Cam. — Você está achando que já estragou... Hum, acho que tem razão. A carne tem uma ponta esverdeada e o frango... Noah pulou da cama e saiu para o corredor antes que Jessa terminasse a sentença. Atrás de si, ouviu a risada suave. Maldição! Ela sabia muito bem o que havia de errado com ele e ficara falando de comida só para provocá-lo. Quando ele retornou à cabina uma hora mais tarde, Jessa colocava os pratos na bandeja que Cam segurava. Gideon estava no tapete, segurando a bola que Drew lhe dera, mas largou-a e bateu as mãozinhas assim que o viu. — Está melhor? — Jessa perguntou. Quando ele assentiu, ela se virou para o garoto. — Pode levar a bandeja agora, Cam. Obrigada por ter trazido água também. Ah, e quando o cozinheiro puder dispensá-lo, peço que traga chá e torradas para o sr. McClellan. Cam assentiu e saiu. — Arrumei a cama para você — ela avisou. — Cam disse que você costuma dormir nos primeiros dias de viagem. — Cam fala demais. — E você de menos. Da próxima vez que eu perguntar se está tudo bem, é melhor dizer a verdade. No começo pensei que fosse seu ferimento que o estivesse perturbando. Noah se sentou na beirada da cama e tirou os sapatos. Também tirou o paletó e o colete e os jogou sobre o baú. 56


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— Já sarei. — Eu não sabia. — Agora já sabe. — Deitou-se, emburrado. — Posso fazer alguma coisa por você? — Não. — Ele fechou os olhos e massageou as têmporas. Jessa pegou Gideon no colo e foi para o outro lado da cama. — Posso fazer isso por você — ofereceu baixinho. — Minha mãe costumava ter enxaquecas e eu a massageava. Ela dizia que meu toque era suave. Noah a fitou. Os olhos acinzentados estavam arregalados, mas demonstravam sinceridade. Ele se lembrava das mãos suaves dela. — Está bem. Jessa deu a volta na cama, colocou o menino no centro do colchão, que logo engatinhou para Noah e bateu em sua coxa. Jessa se apressou em retirá-lo da cama, mas Noah a pegou pelo pulso. — Não. Pode deixá-lo. Eu não me importo. — Depois conduziu a mão dela para a cabeça. Depois que Jessa se acomodou, Noah pousou a cabeça em seu colo e fechou os olhos assim que ela tocou-lhe o couro cabeludo. — Mudou de roupa — disse baixinho, mas com uma ponta de cansaço na voz. — Fico feliz. — O vestido cinza-escuro que ela usava ainda o lembrava do luto, mas como combinava com a cor dos olhos dela, tolerou-o. Também notou que ela tinha escovado os cabelos e refeito a trancas. — Suas ordens foram bem específicas. — Ordens? Fui tão exigente assim? O que seria aquilo? Remorso? — Foi um verdadeiro tirano. — Ela viu que Gideon havia colocado a mão gorducha na palma de Noah e estava preparado para brincar com os dedos que remexiam para atiçá-lo. — Hum. Isto está bom... — Ele elogiou a massagem. — O que fez com o preto? — Entreguei a Cam para que o usasse como pano de limpeza. Achei melhor fazer isso antes que você o atirasse ao mar. — Ela fazia círculos suaves nas têmporas. — Noah, por que não foi me buscar no chalé? — Eu não queria forçá-la a tomar uma decisão. — Surpreendeu-se ao me ver quando chegamos à hospedaria? — Não fiquei tão surpreso quanto você ficou ao me ver. Imagino que esperasse me encontrar somente no navio. — Fez uma careta quando Gideon mordeu seu polegar. — Ei, garoto! O que está fazendo? — Gideon! Pare com isso! — Ela tirou o menino de perto de Noah e o afastou. Gideon engatinhou de volta e se acomodou entre as pernas dele, colocou o dedo na boca, fechou os olhinhos e começou a chupar. — Eu deveria colocá-lo no berço — disse em tom de desculpas. 57


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— Não. Ele está bem. Eu estou bem. — Noah esticou o braço e levou a mão dela de volta à sua cabeça. Os dois estavam bem, mas Jesse se sentia pouco à vontade. Noah não era sua mãe, e tocá-lo provocava sensações completamente diferentes do que massagear a mãe. Por isso, procurou algo para dizer. — Fiquei surpresa em ter notícias suas. Pensei que já tivesse voltado para casa. — Eu ainda tinha alguns negócios em Stanhope. Se está se perguntando por que demorei tanto para procurá-la... — Não. Quero dizer, está tudo bem... Não me importo. — É porque só me decidi esta manhã — ele concluiu, frio. — Quando você não foi me procurar em Stanhope, percebi que estava me dando uma chance. Ou talvez tivesse se arrependido de seu esquema. Abatida, Jessa percebeu que ele não poderia deixar mais claro o que pensava a seu respeito. — Pensei que já tivesse tomado sua decisão ao sair do chalé. — Eu também. Jessa se perguntou o que teria acontecido para que ele mudasse de idéia, mas resolveu não perguntar. Tampouco Noah ofereceu uma explicação. Continuou a massagem, seguindo até a nuca e os ombros, mesmo depois de ele ter adormecido. Quando Cam entrou com a bandeja de chá e torradas, ela levou o dedo aos lábios, indicando os dois "homens" adormecidos. Cam deixou a bandeja sobre a mesa e saiu na ponta dos pés. Pela primeira vez desde que saíra de casa, sentia saudades dos braços da mãe. Quando teve certeza de que Noah dormia profundamente, Jessa tirou a cabeça dele do colo. Pegou Gideon e o levou para o berço. Havia cobertas extras e ela improvisou uma cama no assento perto da janela. Dobrou o vestido e o deixou em cima do baú. Não ficaria à vontade colocando-o ao lado das roupas de Noah no armário. Antes de se deitar, cobriu-o, maravilhada que ele pudesse aparentar tanta inocência quando estava adormecido. Sussurrando um agradecimento, tocou-o de leve na fronte. Apagou a luz e se deitou. E quando finalmente dormiu, trazia um sorriso nos lábios. Noah não estava na cabina quando ela despertou. A cama estava arrumada e a bandeja de chá não estava mais lá. Ele já devia estar se sentindo melhor, concluiu. Afundou a cabeça no travesseiro, que, em algum momento, fora colocado ali, e abafou um bocejo com a mão. Espreguiçando-se, virou de lado. Ao olhar pela vigia, viu que dormira além da conta. Gideon não estava mais no berço e ela suspirou, aliviada. Noah certamente estava com a criança. Ao passar pela mesa, viu que uma tigela tinha metade de mingau. Sorriu, imaginando a cena de Noah alimentando seu bebê. Lavou o rosto, penteou e trançou os cabelos. Estava no meio do quarto, descalça e de camisola, procurando pelo vestido, quando Noah entrou na cabina. Jessa não sabia para que lado ir e correu para a caminha improvisada, cobrindo-se com a coberta. — O que está vestindo é recatado o bastante — ele disse. Os olhos passaram pelo seu corpo, com uma ponta de interesse, e ele fechou a porta atrás de si. — Mesmo assim, eu gostaria de me vestir. 58


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— Ainda não. — Noah desejava mantê-la insegura para a conversa que teriam. — Como assim? Não pode me impedir! — Sabe onde está seu vestido? — Pego outro — ela retrucou, olhando para o baú. — Suas roupas não estão mais aí. E se der um passo na direção do armário, eu a puxo de volta. Já que na noite anterior provou sentir repulsa por ficar ao meu lado, suponho que não queira que eu a toque. Confusa, Jessa se afastou do armário. Do que ele estava falando? Os olhos dele brilhavam perigosamente e a boca estava fechada numa linha firme. Era evidente que estava bravo, mas por quê? Por ela ter dormido perto da janela? Não era aquele o acordo que tinham feito? Ou não?... — Sente-se. — Ele apontou para a cadeira perto da mesa. , — Não! — Ela o desafiou. — Onde está meu filho, sr. McClellan? O que fez com Gideon? Noah deu um passo para a frente. Jessa manteve-se firme no lugar. Ele se surpreendeu por ela não recuar. Jessa, por outro lado, estava assustada demais para se mexer. Noah a pegou pela cintura e a segurou sobre o ombro e antes que ela pudesse reagir, foi colocada na cadeira indicada. Ele empurrou a cadeira, encurralando-a contra a mesa. — Fique aí! Jessa se agarrou ao tampo e sentiu as pernas trêmulas. — Sempre desprezei homens que usam força em vez da razão. — Sempre desprezei mentirosos — ele rebateu. Deu um tranco na cadeira para não estrangulá-la. Estava surpreso com sua reação, mal se reconhecia. Na família, era tido como o ponderado. Até então, aceitara essa definição, acreditando-se um homem racional, lógico e tranqüilo. Duvidava, porém, de que Jessa o descrevesse desse modo. Puxou a cadeira à esquerda dela e se sentou. Ao voltar a falar, a voz aparentou maior tranqüilidade. — Gideon está com Cam na cabina do capitão. Ele sabe cuidar de crianças e nos chamará caso seja preciso. Jessa assentiu de leve, mas continuou a olhar para as mãos. — Precisamos acertar algumas coisas entre nós — Noah começou —, e eu não queria que o bebê nos distraísse. — Coisas? Que coisas? Ele pegou um objeto do bolso do colete. — Este é o primeiro assunto. — Abriu a mão e mostrou o relógio do janota que viajara com eles na carruagem antes do assalto. — Você o reconhece? — perguntou, colocando-o sobre a mesa. Como ela não respondeu de pronto, continuou: — Encontrei outros objetos em seu baú. Anéis, moedas. Quer que os mostre? Talvez ajudem a reavivar sua memória. — Começou a se levantar, mas a voz de Jessa o deteve. — Pertenceu a lorde Gilmore. 59


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— Ah, outro mistério solucionado. Eu não sabia o nome do almofadinha. Vejamos se consegue encaixar outra peça do quebra-cabeça. Lembro-me de que você disse ter oferecido os pertences dos passageiros da carruagem aos bandidos para que a ajudassem a me levar até o chalé de Mary. Como isso foi parar em seu baú? — Mary deve ter colocado tudo ali. — Naquele instante, ela seria capaz de esganar a amiga, mesmo sabendo que Mary tivera boas intenções, por imaginar que estaria sem recursos ao aportar no novo país. — Não sei nada sobre isso. Noah refletiu. Jessa parecia muito boa em contar meias verdades. — Bem, isso não explica como Mary obteve os objetos. E quanto aos ladrões? — Obviamente eu menti quanto a entregar os objetos a eles — ela disse, séria. — É isso o que quer ouvir? — O que quero ouvir é a verdade, Jessa. — Ergueu o queixo dela com a ponta do dedo. — Toda a verdade. Se não os entregou aos ladrões, como conseguiu a cooperação deles? E, por favor, não me diga que implorou e eles concordaram. Não sou tão estúpido assim. — Soltou-a e a viu abaixar o olhar. Meia dúzia de mentiras surgiu na mente de Jessa, mas ela sabia que nenhuma delas serviria. — Estou esperando, Jessa. Você fazia parte da quadrilha? Ela assentiu e Noah expeliu um longo suspiro. — E Mary? — Ela não estava ligada diretamente, mas Davey e os irmãos eram os salteadores. — Entendo. Então Davey não estava fora procurando trabalho. Não me admira que Mary tenha recusado minha oferta. A consciência deve ter pesado. Embora não possamos dizer o mesmo ao seu respeito, não? — A pergunta era meramente retórica. — Foi Davey quem atirou em mim? — Não. O irmão mais jovem, Will. — Ela levantou um olhar perturbado. — Era somente a segunda vez dele na estrada. — E quanto a você, Jessa? Quantas vezes fez o papel de pobre viúva para ganhar a confiança das pessoas? — Só aquela vez, juro! Concordei em participar para evitar que houvesse violência. Acredite, a última coisa que queríamos era que alguém saísse ferido. Não somos assassinos. — O condutor foi ferido. — Foi um acidente. Davey ficou deveras chocado por ter acertado. Ele é um contrabandista. — Ah, bem, essa é uma função muito mais aceitável... Jessa ignorou o comentário. — Nós não o abandonamos. Você teria sangrado até morrer se não o tivéssemos levado ao chalé. — Eu não teria sido ferido se você e seus amigos não estivessem na estrada aquela noite — ele a lembrou. Os olhos de Jessa imploravam que ele a compreendesse. — Sabe por que estávamos lá? Precisávamos do dinheiro. Davey, Hank e Will 60


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tentavam me ajudar para que eu viajasse até os Estados Unidos. — Seus motivos não a eximem de seus crimes. Jessa sentiu um calafrio percorrer seu corpo. — O que vai fazer comigo? Noah a encarou. Ela estava genuinamente assustada, completamente derrotada. O que achava que ele faria? Daria meia-volta no navio para levá-la de volta à Inglaterra e entregá-la às autoridades? Devia ser isso. Bem que ele gostaria de deixá-la se preocupar, porém tinha outro assunto em mente. Mesmo assim não se esqueceria daquele assunto pendente. Jessa estava tornando a situação mais fácil. Quando chegasse a hora de lavar as mãos, não seria nada difícil. — Não vou fazer nada, Jessa — disse com suavidade. Suavidade demais até. — Eu gostaria que você tivesse me contado a verdade no início. Não sei dizer se isso mudaria minha decisão quanto a trazê-la comigo, por isso não adianta discutir o assunto. Estamos aqui. Estamos juntos. E pela duração desta viagem, estamos casados. Jessa ainda estava contente com a generosidade dele quando percebeu o curso que as palavras tomavam. — O q-que quer dizer com isso? Noah brincou com o relógio de lorde Gilmore, distraidamente. — Enquanto estivermos neste navio, pretendo que o casamento seja real, Jessa — disse, prendendo-a pelo olhar. — Deveria ter me avisado... Dito algo antes que o navio zarpasse. Forçou-me a fazer uma escolha sem me revelar tudo. — Estamos quites, então. Você fez o mesmo comigo. — Sim, mas... Isto é diferente — ela concluiu de modo pouco convincente. — Concordamos que este seria um casamento de conveniência. — Não, você o rotulou assim. Eu não disse que concordava. E está se esquecendo de que conveniência não exclui... amizade. Amizade? Ele estava falando disso! — Sim — ela concordou alegre e aliviada. — Eu gostaria se pudermos ser amigos. — Ou respeito mútuo — Noah continuou, analisando-lhe a expressão conforme expandia o assunto. — Ou lealdade... honestidade... atração... paixão... — P-paixão?... Ele assentiu, estreitando o olhar. Estaria ela ainda tão apaixonada pelo marido que não conseguia se imaginar com outro homem? Ou ela o considerava tão repulsivo que não via nada acontecendo entre eles? — Quer que partilhemos a cama? — Pelo menos isso. Não quero que você durma perto da janela de novo, Jessa. Tampouco espero que se abra para mim de pronto. Ela arfou diante da grosseria. — O que espero — Noah continuou antes que ela objetasse, colocando-se de pé —, é que baixe a guarda o suficiente para que possamos nos conhecer. Não sou insensível ao fato de que você perdeu seu marido recentemente. Imagino que esteja vendo isso como uma traição à memória dele. Contudo, espero que não seja insensível 61


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ao fato de que você está, para todos os efeitos, casada com um homem de carne e osso. Tenho certas expectativas quando ao nosso acordo. Seria bom que o honrasse. Ou seja: fez a cama, agora vai ter de se deitar. Jessa se sentia em desvantagem. De pé, ele parecia uma torre. Não soube dizer de onde arranjou a coragem, mas empurrou a cadeira e se levantou. Deu um passo para trás, para conseguir fitá-lo. De costas e ombros aprumados estava pronta a mostrar que não aceitaria o açoite da língua de Noah McClellan. Noah não pareceu perturbado pelo olhar acusador, em vez disso, seu olhar recaiu sobre os dois montes não muito bem escondidos pela camisola que ele antes considerara recatada. De repente, sentiu-se bem sortudo. — Quer fazer o favor de olhar para mim? — Acho que estou olhando. — O sorriso dele era malicioso. Agitada, ela bateu o pé, sem querer balançando os seios. Viu que os olhos dele se arregalaram e ela cruzou os braços sobre o peito. Noah suspirou e levantou o olhar, não parecendo nem um pouco arrependido. — Tem minha total atenção. Foi o sorriso afetado dele que a descontrolou. Estava tão brava que não havia palavras que expressassem como se sentia. Empurrou-o com força e se afastou. Quando Noah recuperou o equilíbrio, ela já estava perto da janela, enrolada na coberta e de costas. Lágrimas começaram a correr pelas faces. Quando Noah a abraçou por trás, ela não teve forças para repeli-lo. Sentindo a breve trégua, ele a puxou e a fez se recostar em seu peito, apoiou o queixo no alto da cabeça e sentiu a maciez dos cabelos claros pela primeira vez. — Sabe, sempre desprezei as mulheres que usam a força em vez de a razão. — Ele não viu, mas sentiu o sorriso fraco dela. — Quase conseguiu me derrubar. — Você mereceu. — Acho que sim. — Estava caçoando de mim. — Acho que sim. — Quer tudo a seu modo. Era verdade, mas Noah não queria admitir. — O que você quer, Jessa? — Quero dormir perto da janela. — Não. — Quero que você durma perto da janela. — Não. — Então tem de prometer que não tocará em mim! — Não! — Não pode querer dividir a cama comigo — ela argumentou. — Sabe que sou uma criminosa e uma mentirosa. Esses não são pequenos pecados... Ele não precisava ser lembrado disso. 62


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— Não posso ser uma esposa para você, Noah... Não podemos ter intimidades. Visto que estavam abraçados e ele já conhecia as curvas do corpo dela, tal declaração não podia ser levada a sério. Entretanto, estava disposto a demonstrar um pouco de paciência. — Veremos. Lembre-se de que será somente durante a viagem — enfatizou para que ela entendesse bem os termos daquele acordo. — Não! — Ela se soltou com brusquidão e se virou. — Estou falando sério, Noah. Não posso ficar com você! Nem agora, nem nunca! — Oh, Deus, e se ele a forçasse? Como explicar que era virgem? — Jessa — ele disse, calmo —, você parece ter a impressão de que tem escolha. Posso ser razoável até certo ponto, mas seria bom não me pressionar. Duvido de que aprecie as conseqüências. Estamos entendidos? Calada, ela refletiu sobre tudo o que queria dizer, mas por fim só assentiu. Satisfeito, Noah sorriu. — Ótimo! Por que não se troca? Vou trazer Gideon de volta. Cam já deve estar cansado do diabínho. — Na soleira, virou-se. — Estou sendo razoável e concedendo-lhe um tempo, mas ainda quero que durma comigo. O lugar perto da janela está fora de questão. Ela olhou para a cama enorme depois que ele saiu. Talvez nem o notasse ali. — Mentirosa — sussurrou. — Você o notaria mesmo que ele estivesse há um quilômetro de distância. O armário estava dividido em duas partes. À esquerda estavam as roupas de Noah, todas muito elegantes. Não era à toa que ele detestava seu antigo chapéu. Do outro lado estavam seus vestidos... E os tantos de outra mulher. Jessa sentiu o coração pesado diante de tanta beleza: cores alegres em tecidos nobres. Anáguas, laços e meias. Não teve dificuldade em encontrar seus sapatos gastos em meio a tantos pares novos. Nem as meias remendadas. Seu vestido cinza parecia apagado ao lado dos outros. Mal tinha acabado de se vestir quando Noah voltou trazendo Gideon. Cam vinha logo atrás com uma bandeja. — Não trancou a porta — Noah reclamou. Jessa o ignorou e esticou os braços para pegar o filho. O menino balançou a cabeça e agarrou a camisa de Noah. Ela sentiu como se tivesse levado um murro no estômago e se virou de pronto para esconder o desconforto. Noah pediu a Cam que colocasse a bandeja sobre a mesa e levasse o que sobrara de seu café com Gideon. Quando o rapaz se foi, ele disse com suavidade: — Sou uma novidade, Jessa. E ele é só um bebê. Não quer dizer nada. É a primeira vez que ele se recusa a ir para o seu colo? Ela assentiu, embora a contragosto. Sentou-se e ajeitou o guardanapo. Seu sorriso estava rígido demais para ser sincero. — Suponho que eu tenha de ficar agradecida por conseguir fazer uma refeição tranqüila. Noah percebeu que ela estava magoada e sentiu uma fisgada de piedade. Que tipo de vida ela poderia levar com o menino nos Estados Unidos? Estaria pensando em voltar 63


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a roubar para sustentá-los? Colocando Gideon no tapete, ofereceu-lhe a bola. O menino a viu rolar, depois se colocou de joelhos e engatinhou na direção do brinquedo. Noah riu, o que provocou um sorriso verdadeiro em Jessa. — Cam preparou isto para ele. — Ele mostrou um cordão com bolas de madeira. — Gideon pode ficar com elas? — O couro está bem amarrado? Ele seria capaz de engolir essas bolinhas em vez de brincar com elas. — Notei o oposto no café da manhã, — Noah testou o nó e reforçou-o, depois pendurou o brinquedo no dedo. Gideon bateu com a mão, mas ele o afastou. Continuaram nessa brincadeira até o menino ficar frustrado, batendo os pés. — Doga! Doga! — balbuciou como se soubesse o exato sentido da palavra. Jessa ficou mortificada, e Noah, surpreso, mas não perturbado. — Vou pedir a Cam que modere o vocabulário perto dele — disse, desculpando-se. — A culpa não é de Cam. — Jessa remexeu os ovos com o garfo. — Ele aprendeu isso comigo. Com as sobrancelhas arqueadas, Noah a fitou com renovado interesse. — Você praguejou na frente dele? — Fingiu estar horrorizado. Jessa sabia que ele zombava. — Bem, agora conhece mais um pecado meu. Gideon começou a gritar para ter o brinquedo. — Vou fazer uma lista deles — Noah disse, seco, e ela ficou sem saber se ele falava a sério. — Aqui, Gideon. Estou entregando isto porque foi um presente de Cam, não porque você está fazendo birra. Noah deixou as bolinhas cair, Gideon bateu palmas de contentamento, e Jessa meneou a cabeça. — Não acha que ele entendeu isso, acha? — Nem um pouco. Mas a culpa foi minha. No próximo escândalo, veremos o que fazer. — Levantou-se, sacudiu as pernas e se sentou à mesa. — Seu café da manhã está a contento? — Sim. — Ela engoliu uma garfada de ovos mexidos. — Obrigada por ter cuidado de Gideon de manhã. Não costumo dormir até tarde. Não percebi que estava tão cansada. — Duvido de que tenha dormido bem. O assento da janela não deve ser confortável. De novo falavam sobre esse assunto? — Você não come muito — ele observou ao ver o bolinho deixado de lado. — Eu me viro. — Coma! — Sr. McClellan! Se esse é o tom que usou com Gideon, estou surpresa que ele tenha comido alguma coisa. — Se me chamar de sr. McClellan de novo, meu tom será outro! 64


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Atrás deles, Gideon deixou de brincar, atento às vozes dos adultos. Cientes da platéia, diminuíram o tom de voz. — Você é insuportável! Sua noiva não sabia o que estava pensando ao dizer "sim"! Ela deveria me agradecer por... Noah se levantou de repente, derrubando a cadeira sem se importar com o grito do menino. — E seu marido deve ter ficado agradecido quando o fim chegou! — Saiu às pressas da cabina e exclamou: — E tranque esta maldita porta! Jessa se recostou no espaldar da cadeira e jogou o guardanapo em cima da mesa. — Ora, Gideon, fique quieto! O menino ficou calado de pronto e ela sentiu remorso. Endireitou a cadeira e se agachou ao lado dele, com o cordão de bolinhas na mão. — Não sei o que fazer — disse baixinho. Noah ficou fora o dia inteiro. Cam entrou e saiu, levando comida, água, e pegando as bandejas. Jessa gostou da companhia do rapaz, mesmo que fosse breve. Lavou as roupas de Gideon, leu um livro e quando viu um buraco na camisa de Cam, conseguiu que ele parasse o bastante para remendá-lo. Contudo, ela ficou entediada, e por causa disso, preocupou-se com a demora de Noah. Quando ele voltou, seus nervos estavam em frangalhos. Não levantou os olhos do livro e se preparou para a reprimenda por não ter trancado a porta mais uma vez. Como a bronca não veio, ela se preocupou ainda mais. — Gideon já está dormindo? — ele perguntou ao se sentar e tirar os sapatos. Era como se nunca tivessem dito palavras horríveis um para o outro. Ela fez um gesto de cabeça em assentimento. — Vou acordá-lo se for espiar? — Acho que não. Eu o coloquei no berço há algum tempo. Noah caminhou silencioso até o quarto do menino, entrou, espiou e ajeitou a coberta sobre o corpinho dele. Ficou um bom tempo olhando para o menino e pensando antes de voltar para junto de Jessa. Sentou-se na outra poltrona e esticou as pernas. — Encontrou alguma coisa interessante para ler? Jessa fechou, o livro e o colocou na mesinha. — Não. Ele pegou o livro e leu o título: Tratado da Indústria dos Peregrinos no Mundo Novo. Depois o deixou de lado. — Não parece muito interessante mesmo — disse, alegre. — Por favor, pare com isso — Jessa pediu. — Vou enlouquecer se você continuar como se nada tivesse-acontecido. — Está reclamando porque não estou brigando com você? — ele perguntou, incrédulo. Posto daquele modo, Jessa entendia que parecia ter menos modos do que Gideon. — Desculpe. Por tudo... Pelas coisas que disse hoje cedo... Foi imperdoável. Você 65


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tem sido muito generoso com Gideon... Tão paciente. Eu não tinha o direito de... — Mas não com você — Noah a interrompeu com uma nota de autodesprezo. — Não venho sendo nem generoso, nem paciente com você. — Não tem problema — ela murmurou com sinceridade. — Eu o enganei, menti, você quase morreu por minha causa. Compreendo como se sente. Ocorreu a Noah dizer-lhe que ela não sabia nada a respeito de seus sentimentos. Em vez disso, disse: — Se eu fosse você, não procuraria oportunidades de me lembrar de sua perfídia. Jessa se assustou pelo tom reservado. — Vou tentar não ser um espinho em sua vida — prometeu. Noah não tinha certeza se gostava daquilo. — O espinho é o preço que se paga por ter pegado a rosa — disse sem o distanciamento de antes. Pega de surpresa pelas belas palavras, Jessa gaguejou: — Rosa... eu? — Sim, uma delicada rosa branca. — Vendo que ela corava, ele completou: — Agora está me deixando confuso quanto à cor. — Levantou-se para se sentar no tapete diante dela, recostando as costas na poltrona dela. Esperou para ver se Jessa entendia o que ele queria e não precisou esperar muito para sentir as mãos suaves massageando-o. — Por que não usou um dos outros vestidos hoje? — Só tenho três. Avisei que meu guarda-roupa era limitado. — Tinha fugido da mansão dos Penberthy com o essencial, e os vestidos escuros eram da época em que mantivera o luto pelos pais. Eram sombrios se comparados aos demais do armário, mas perfeitos para manter o anonimato durante a estada com Mary. — E quanto aos outros? Não gostou deles? As mãos dela se detiveram um segundo. — Os outros? Pensei que fossem um presente para sua... — Para Hilary? Pode dizer o nome dela, Jessa. Não podemos pisar em ovos nas próximas seis semanas. E não, os vestidos não são para ela. Primeiro, Hilary é mais alta que você e mais... — Ele não sabia muito como completar. — Majestosa? — Jessa sugeriu. Sem pensar, pressionou os dedos nos ombros dele. — Sim. — Era verdade, Hilary era mais encorpada do que Jessa, mas Noah não conseguia tirar da cabeça que Jessa se recostara em seu peito e que a camisola delineara os seios bem formados. A lembrança provocou certo desconforto c ele mudou de posição. — E a segunda coisa? — Em segundo lugar, não tenho por hábito comprar roupas para minha noiva. Não se faz esse tipo de coisa. — Mesmo para seus ouvidos, ele soou esnobe. — Então por que... — Mesmo neste navio temos de manter as aparências. Acho estranho ter de lembrá-la que é minha esposa, já que foi você quem precipitou tal situação. A iniciativa fora de Mary, mas ela sabia que de nada adiantaria contar isso. 66


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— Os vestidos são lindos. Confesso que os admirei antes. — Experimentou-os? — Não! Não pensei que fossem para mim! — E isso a confundia, afinal Noah lhe dissera que só resolvera levá-la na manhã anterior. Era preciso tempo para confeccionar aquele tipo de roupa. Ele devia ter mudado de opinião diversas vezes nas últimas semanas, por isso resolveu que não lhe daria muito crédito, afinal, ele não a deixava se esquecer de que a situação era temporária. — Bem, eles são seus — ele finalizou um tanto rabugento. — Encontrou as coisas de Gideon? — Está se referindo às roupas nas gavetas sob o berço? — Sem querer Jessa encontrara as gavetas repletas de artigos de bebê, mas jamais imaginou que fossem para Gideon. — Claro que sim. Não vá me dizer que pensou que elas fossem para Hilary! Com grande ousadia, ela deu um tapa na cabeça dele. — Não seja tolo! Pensei que fossem para os filhos de Ashley. — Ah! — Isso mesmo. Não tenho por hábito pegar coisas que não são minhas. Isso fez com que ele se virasse, levantando a sobrancelha de modo irônico. — Posso enumerar alguns camaradas que negariam o que acabou de dizer. Lorde Gilmore, por exemplo. — Eu devia saber que você mencionaria o assunto — Jessa acusou, brava consigo mesma por ter dado a brecha. — Já disse que fiz isso só uma vez. A ponta de ironia no olhar se foi, e ele a observou, placidamente. Voltando a se virar, recostou as costas nas pernas dela. — Vista o rosa amanhã. — Fez uma pausa e se lembrou de que o mel chama mais as moscas do que o vinagre. — Por favor. Ela ficou se perguntando o quanto aquele pedido educado lhe custara. — Está bem. — Sem pensar, passou os dedos pelos cabelos dele e traçou as linhas das orelhas. Um tremor percorreu a coluna de Noah. Jessa estava enganada se achava que conseguiria mantê-lo afastado com aquele tipo de provocação. Pelo visto, ela não sabia o que queria. Mas ele sim. Por isso emitiu um bocejo sonoro antes de dizer: — Vou para a cama. Você vem comigo? Jessa era uma estrategista. Se queria ganhar aquela guerra, teria de ceder algumas vezes, no entanto ele desconfiaria se ela cedesse com tanta facilidade. Portanto, como resposta, disse: — Agora não. Eu gostaria de escrever uma carta para Mary. Noah não gostou da protelação, mas a aceitou. Começou a se preparar para deitar, enquanto ela escrevia a carta. Jessa nem sabia o que escrever. Sua mente estava repleta de Noah. Ele circundou a cabina uma vez, apagando as lamparinas e deixando só a da mesa onde ela escrevia. Pelo canto do olho, ela o viu tirar a camisa, as meias e as calças. Ele afastou as cobertas e foi para a cama só com as roupas de baixo. Onde estava o pijama dele?, ela se perguntou sem se dar conta que escrevera a pergunta. 67


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Envergonhada de seus pensamentos, rabiscou a linha. Ficou mais quinze minutos escrevendo, acreditando que Noah a pressionaria para se apressar, mas toda vez que ela o espiava, ele tinha os olhos fechados, dando a impressão de que estava mesmo disposto a dormir. Isso lhe deu a confiança de que precisava para se preparar para dormir. Tirou o vestido e o guardou no armário, junto com as meias e os sapatos. Lavou o rosto e apagou a última lamparina antes de colocar a camisola. Afastando a coberta, deitou-se de lado na ponta do colchão. — Vai acabar caindo — Noah comentou com voz sonolenta. Jessa se sobressaltou de tal modo que poderia ter caído. — Estou bem. — O corpo dela estava tão rígido quanto o de um cadáver. O riso dele soou meio rouco. — Jessa, há bastante lugar para nós dois nesta cama. Não é preciso ficar aí na beirada. — Enquanto eu poderia estar abraçada a você? — Estou chocado com o modo como sua mente funciona. Nunca pensei em tal coisa. — Ao não ser atingido por um raio, ele virou de barriga para baixo e fechou os olhos. — Boa noite, Jessa. Bons sonhos. Jessa mal acreditava em seus ouvidos. Por mais que não acreditasse que ele fosse forçar a sua vontade, jamais poderia imaginar que ele simplesmente dormiria. Pensou que ele a tomaria nos braços e... Basta! Estava farta de sua própria confusão. Brava consigo mesma, afastou-se, fechou os olhos e cerrou os dentes. Bons Sonhos! Hah! Como se fosse possível! Mas ela não tinha controle sobre seus sonhos, e aquele do qual despertou era de fato muito agradável. E não deixava nada a dever à realidade. O colchão de trevos no qual se deitava era a cama fofa. O feixe de sol que a aquecia era o braço de Noah que a circundava numa atitude de posse. O farfalhar das asas da borboleta que sentia na face nada mais eram do que os dedos dele que a acariciavam de leve. Jessa abriu os olhos. — Antes que faça um escândalo — ele disse, suave — , saiba que não fui eu quem começou isso. — Ele estava apoiado num cotovelo e a encarava sério. E continuava a acariciá-la. O luar entrava pela janela e iluminava o rosto dela. Ele a observava havia um bom tempo e já conhecia cada traço e ângulo de seu rosto. A perna esquerda estava presa entre as dela. Talvez Jessa conseguisse ver que era ela quem o prendia e n ão o contrário. — Você se enroscou em mim como uma gatinha... — Oh, eu... Você... Quero dizer, nós... — Não. Achou mesmo que eu fosse me aproveitar de você enquanto dormia? Ela balançou a cabeça. Os olhos de Noah estavam mais dourados. Olhos de felino, que a prendiam mais do que o braço ao redor da cintura. Ela não conseguia desviar o olhar. — Quero você — ele murmurou —, mas não sou egoísta a ponto de tomá-la dessa forma. — Você... Você disse que queria que nos conhecêssemos melhor antes... antes de... 68


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— Eu disse isso, não foi? — Ele abaixou um pouco a cabeça. — Há diversos modos de se conhecer uma pessoa. — Não havia hora melhor para demonstrar como queria que as coisas acontecessem. Num piscar de olhos, capturou-lhe a boca. O beijo foi suave, cativante. Não a pressionou mesmo quando ela não ofereceu resistência. Os lábios tocaram o canto da boca, a face, o maxilar. Levantou a cabeça e a fitou. — Não foi tão terrível, foi? — N-não — ela balbuciou. — Você é minha esposa, Jessa. Eu estaria dentro dos meus direitos se a tomasse quer você me repelisse ou me aceitasse. Sabe que essa é a verdade. Ela assentiu e abaixou os olhos, orgulhosa demais para deixá-lo ver seu pânico. Noah ergueu seu queixo para fitá-la. — Olhe para mim. — Quando ela obedeceu, ele prosseguiu: — Mas não é o que quero agora. — Ele quase acreditou em suas palavras. — Vamos falar de aprendizado e não de tomar o que de direito. É preciso haver um começo. Este foi o nosso. Quero segurá-la. Quero conhecer seu toque e quero que você conheça o meu: — Os olhos esverdeados a prendiam. — Nada contra a sua vontade — disse confiante de que sua vontade prevaleceria sobre a dela. Acariciou-a no lábio com o polegar. — O que me diz? Jessa sentiu o bom-senso se dissolver com a voz sedosa de Noah e entreabriu os lábios, tocando a ponta do polegar com a língua.

Capítulo VI

O gemido de Noah nasceu do desejo que o pegou de assalto por aquela bela mulher que não passava de uma desconhecida. O som foi capturado pela boca de Jessa quando ele a beijou. Noah traçou o contorno dos lábios com a língua e, quando ela arfou, ele aprofundou o beijo. A boca era doce, a reação dela, tímida. O que o surpreendia, já que ela não fora tão recatada durante o sono. A língua acariciava, brincava, experimentava, e ele sentiu que ela seguia seu comando. O braço atravessado sobre a cintura fina desceu e a palma pousou sobre o quadril arredondado, à espera da reação dela. A boca se afastou por um momento, então a recapturou. Noah sentiu a panturrilha dela roçar ao longo de sua perna. Jessa gostava de beijar, mas ainda estava assustada. A única comparação para os beijos de Noah foi o que Edward Penberthy a forçara fazer no quarto de Gideon. Contudo não sentia vontade de unhá-lo como fizera com o lorde inglês. Uma parte de sua mente dizia que aquilo era perigoso, mas que escolha ela tinha? Se fingisse ceder um pouco, talvez a promessa do que estava por vir o mantivesse em xeque. Só havia um problema: aquilo não parecia fingimento. Sentia seu íntimo virar de ponta-cabeça. Era a experiência mais confusa de sua vida. Com muita gentileza, Noah empurrou o quadril dela até que Jessa estivesse de costas, agora era a sua perna que segurava as dela. 69


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— Pode me tocar, Jessa. Ele se pegou imaginando se ela o comparava ao falecido marido e se aborreceu. Desde que despertara com Jessa nos braços, sequer se lembrara de Hilary. Por isso o beijo seguinte foi carregado de raiva. Queria banir Hilary e Robert Grantham da memória. E isso aconteceu no instante em que Jessa aceitou aquele beijo como todos os anteriores, com avidez e paixão. Jessa circundou os ombros largos com as mãos, segurou-o pela cabeça, começando a se sentir segura, afinal ele dissera que somente se tocariam. Por saber que não iriam até o fim, decidiu que queria descobrir tudo o que acontecia antes. Passou as mãos pelo peito largo, sentindo o calor da pele nas palmas. Os braços eram firmes e musculosos. A mão de Noah subiu até a curva de um seio. Ele ansiava por senti-lo sem a camisola e sugá-lo. Os seios eram fartos e estavam túrgidos pela força do desejo dela. O mamilo ficou rígido ao ser acariciado, o tecido entre eles acrescentando uma abrasão enlouquecedora. Beijou-a em todo o rosto até as bocas se encontrarem numa explosão de calor. Assustada, Jessa se afastou. Noah mencionara o aprendizado, o reconhecimento, mas estava claro que, se não pusesse um fim àquilo, chegariam ao fim. Empurrou-o pelos ombros, aterrorizada por sua reação ter sido de total abandono. Já não se sentia mais segura. — Não. Isso é errado. Noah respirou fundo e a soltou. O que acontecera? — Noah? — Preocupada com o silêncio dele, Jessa o tocou. Ele se desvencilhou da mão no ombro e se deitou de costas, com a respiração entrecortada. Só depois de se controlar, disse: — Posso presumir que você não pretende terminar o que começamos. Como ela hesitava, ele insistiu; — Jessa? — Não... Eu não posso. Tentando se controlar, pensou em Hilary e em como a estava traindo com aquela mulher. — Tudo bem — disse por entre os dentes. Era apenas uma questão de tempo antes que Jessa cedesse. Pelo menos, agora ela o via como homem, não um protetor da época medieval em seu cavalo branco. E Hilary... Bem, Hilary não precisava saber daquilo. Achou mais fácil culpar Jessa pelo seu impasse. — Está zangado? — ela perguntou, tímida. Ainda sentia a pele formigar e teve vergonha ao perceber que seria capaz de se esfregar nele a fim de aliviar a press ão que sentia entre as pernas. Em vez disso, pressionou as coxas e notou que seus pensamentos tinham se tornados devassos desde que o conhecera. Como seu corpo reagia daquela maneira quando ela nem sabia se gostava dele? Como pôde procurá-lo em meio aos seus sonhos? Envergonhou-se ao perceber que tinha pouco controle. — Zangado? Não. — Raiva não descrevia o que ele sentia. Debaixo da coberta, procurou a mão dela e afagou o pulso, depois a apertou. — Seria bom pensar bem antes 70


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de provocar um homem dessa maneira. — Provocar? — perguntou, surpresa. — Mas eu... — Esqueceu-se de que foi você quem me procurou? — Depois de um instante, disse: — Acho melhor dormirmos agora. Jessa soltou a mão e começou a se afastar. Como ele ousava acusá-la? Afinal tinha sido ele a fazer promessas que não pretendia cumprir. — Aonde você vai? — Dadas as circunstâncias, não acha melhor eu dormir perto da janela? — Que circunstâncias? O tom a fez se acautelar. — Pensei que... Quero dizer... Rápido como um raio, ele a segurou pela cintura e a puxou de volta. Virando de lado, aninhou-a contra o corpo. — Se eu quiser sofrer — disse-lhe ao ouvido —, então vai me deixar sofrer. — Você é louco. — Não havia como Jessa compreendê-lo. Não em seis semanas. Nem mesmo em seis vidas. Ainda bem que não ficariam juntos tanto tempo assim. Noah não lhe deu escapatória a não ser ficar ali. Jessa não conseguiu se afastar do calor e da rigidez do corpo dele. E os dois levaram um bom tempo para dormir. — O vestido lhe caiu bem — Noah opinou. Jessa se virou. Nem havia notado que ele entrara até ele falar. — Lamento quanto à porta, Noah. Cam acabou de sair e não tive tempo de trancála. Noah caminhou até perto dela, segurou-a pela mão, levantando-a e depois a inspecionou novamente. — Acabei de lhe fazer um elogio. Não tem nada mais a dizer além de mencionar a porta? Ela ergueu os olhos, encabulada. Ele era uma surpresa constante. Ao acordar pela manhã, não sabia o que encontraria. Noah, contudo, depositara-lhe um beijo na testa, saíra da cama e começara a conversar enquanto se vestia antes de subir para o convés. — Obrigada. Fico contente que tenha gostado do vestido. — Gosto do vestido em você. — Fitou-a nos olhos um instante, depois desceu para o colo. — Não passei as medidas certas para a modista, passei? — O tecido se esticava sobre o busto, e os seios não estavam completamente cobertos. Pigarreando, disse: — Não teria um lenço, uma echarpe, algo assim? Envergonhada, ela cruzou os braços, mas em vez de esconder o busto, ressaltouo. Felizmente, Gideon escolheu aquele instante para sair engatinhando de uma das poltronas, pedindo sua atenção. Infelizmente, quando o pegou no colo, ele imediatamente enfiou a mão gorducha em seu decote. — Gideon! Noah chegou a engasgar de tanto rir e levantou as mãos afirmando: — Juro que não fui eu quem ensinou isso a ele! — Seu tolo! — ela o admoestou, reprimindo a vontade de rir também. Tentou tirar a mão do filho de dentro do decote, mas ele não ajudou muito. — Pode segurá-lo, por 71


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favor? Noah o suspendeu no alto e brincou: — Ah, Gideon, como eu o invejo! — Noah! Que coisa para se dizer! — Ele não entendeu nada e, de qualquer modo, senti inveja mesmo. Jessa se virou e escondeu o sorriso, ajustando o corpete o melhor que pôde. — Para seu governo, vou ajustar os vestidos, soltando o acabamento do decote. — De todos os vestidos? — Noah se sentou e balançou o menino no joelho. — Sim, não sou tão magra quanto imaginou. Ele arqueou uma sobrancelha de modo malicioso. — Com uma, não, duas exceções... — Você é incorrigível. Virando-se para o menino, ele disse: — Ouviu isso? Ontem eu era insuportável, hoje sou incorrigível. Estou fazendo progressos. Jessa levantou as mãos num gesto de rendição. Ignorando o riso dele, foi até a mesa e se serviu. — Já tomou café da manhã? — Sim, e Gideon? — Alimentei-o antes de me vestir. — Então sua comida já deve estar fria. Consegue fazer alguma refeição quente? — De vez em quando — ela respondeu, curiosa quanto ao bom humor dele. Era como se a noite anterior nunca tivesse acontecido. — Coma agora, então. Vim buscá-los para um passeio pelo convés. Venha, Gideon, vamos procurar alguma coisa no armário para deixar a sua mãe com uma aparência mais maternal. Ou pelo menos mais respeitável. — Posso voltar a usar meus vestidos. — Eu disse respeitável, não desleixada. — Depois de procurar alguns minutos sem nada encontrar, ele pegou o casaco. — Isto terá de servir. Esqueci que precisaria de uma peliça. — Noah, você foi mais do que generoso. Meu casaco está ótimo. É uma peça perfeitamente respeitável. Não era o que você queria? — Ela me pegou — ele murmurou para o menino. Passearam várias vezes ao longo do convés, segurando Gideon alternadamente. Conversaram e, por mais que Noah detestasse o mar, ele parecia saber muito a respeito de navegação. Pelo menos aos ouvidos de Jessa, ainda que ele pudesse estar inventando uma série de bobagens. Assim como Gideon, ela simplesmente se deleitava com o timbre de sua voz. O sol brilhava e o mar salpicou o rosto dela ao se deter na amurada. — Não é uma delícia, Noah? Dá para sentir o gosto do ar! — Quando olhou por sobre o ombro, porém, viu que o olhar sombrio havia voltado. Não podia nem perguntar o que acontecera, visto que sua posição precária não permitiria tal intromissão. 72


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Pior, não entendia o que ele queria dela. Se ainda a desejava, ela não tinha como saber, visto que, naquela noite e na quinzena que se sucedera, ele somente a abraçara, sem dar indício algum de que desejava a repetição do que havia acontecido na primeira vez em que tinham partilhado a cama. Ele nunca a beijava. Nem a tocava, a não ser para mantê-la ao seu lado. E os elogios eram menos freqüentes ainda. Ela bem poderia ficar aliviada, mas como era preocupada por natureza, inquietouse. Uma rotina fora estabelecida. Ela cuidava de Gideon, e Noah ficava grande parte do dia na cabina do capitão, estudando os livros legais, respondendo cartas recebidas ainda na Inglaterra e se preparando para a reunião da Filadélfia. Quando não estava trancafiado, trabalhando, ficava com Jessa e Gideon. Jessa adorava vê-los juntos. Às vezes, juntava-se à brincadeira deles, outras somente observava a relação especial entre os dois. Gideon, pouco acostumado à atenção masculina, encarava Noah com ar de posse. Ela, contudo, também esperava ansiosa pelas horas em que o filho cochilava e Noah entrava inesperadamente na cabina, que ela nunca trancava, para passarem um tempo juntos, conversando ou fazendo uma refeição tranqüila. Nesses momentos, acalentava a esperança de que ele não a abandonasse ao fim da viagem. Claro que jamais pediria para que a mantivesse ao seu lado, nem mesmo por Gideon ela faria tal coisa. Mas e se ele mudasse de idéia? Seria tão terrível assim continuar casada com Noah McClellan? — No que está pensando? — ele perguntou. Estavam deitados na cama, os cabelos loiros espalhados pelos ombros. Jessa, perdida em pensamentos, enroscava uma mecha no dedo. Noah se virou de lado, afofou o travesseiro e fitou o perfil delicado. Ressentia-se por ela estar sempre tão bela, pois sentia um aperto na virilha constante, e aquele momento não era uma exceção. Ela virou o rosto para ele com ar de quem não ouvira a pergunta. — Perguntei sobre o que está pensando. Está excepcionalmente calada hoje. — Está me chamando de tagarela? — Nem um pouco. — Nas duas semanas passadas quase que exclusivamente na companhia um do outro, ela pouco revelara sobre sua vida. Por outro lado, era uma excelente ouvinte. Pegou-se discursando sobre leis e o futuro trabalho com a Constituição, bem como a extensa família. Ainda que Jessa não entendesse sobre política, conversar com ela tornava possível ordenar seus próprios pensamentos. — Está mudando de assunto. O que houve? — Estou pensando no que disse a respeito do seu trabalho. Você vai para a Filadélfia, não vai? — Logo depois de aportar. Vou viver lá até a delegação chegar a um esboço factível dos artigos. Depois disso, dividirei meu tempo entre meu escritório em Richmond e a política na Filadélfia. Pensei que você já soubesse disso. — Acho que sim. Só não pensei muito nisso antes. De algum modo achei que fosse passar mais tempo com sua família. — Minha vida é em Richmond, Jessa. Não vivo mais com eles desde o fim da guerra. Se você os conhecesse, entenderia por quê. — Mas como? Eles parecem maravilhosos — ela objetou, escondendo a mágoa. Não tinha como culpá-lo por não querer apresentá-la à família, mas ele precisava jogarlhe isso na cara com tanta facilidade? 73


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— Eles são, e somos muito ligados. A questão é que são tantos... É sufocante quando todos os McClellan se reúnem para alguma festividade. Rae e Jerico, por administrarem a plantação, são os únicos que moram lá o ano inteiro. Meus pais adoram a bagunça. Eu também, só que em doses menores. Em meu lugar, você sentiria o mesmo. Depois de alguns dias, ficaria grata em partir. Jessa duvidava disso. Sendo filha única, sempre caminhara na ponta dos pés pela casa, a fim de não atrapalhar a mãe, com suas constantes enxaquecas, e o pai, em suas freqüentes ressacas. — Se me levasse até lá como sua esposa, como explicaria a situação para eles? — Está pensando em mudar os termos de nosso relacionamento, Jessa? — Não — ela respondeu, rápido. — Só estou curiosa. — Desde que seja só isso. Não estou preparado para assumir mais responsabilidade no que se refere a você. — Sei disso. — Ótimo. A verdade é que meus pais provavelmente aceitariam o que quer que eu dissesse, mesmo a verdade. Coisas mais estranhas aconteceram em nossa família. — É mesmo? Noah meneou a cabeça. — Quem sabe outra hora eu lhe conto? — Os olhos pousaram nos lábios, ainda entreabertos por conta da última palavra. — Tenho outra coisa em mente agora. — Inclinou a cabeça e beijou-a. Jessa surpreendeu a ambos ao aceitar o beijo. Desprevenida, cedeu à pressão dos lábios. Todas as preocupações sumiram, a clareza de pensamentos foi banida pela onda de desejo. O seu corpo ecoou a predisposição da mente. Circundando os ombros de Noah, trouxe-o para perto, exigindo mais. Sabia que não tinha lugar no futuro dele, mas tinha o presente e queria aproveit á-lo. Também sabia que o amor nada tinha a ver com aquilo. Podia corresponder aos beijos dele sem amá-lo. O amor só a magoaria. Mesmo que só se entendesse daquilo agora, Noah sabia disso desde o começo. Segurando-o pelos cabelos, aprofundou o beijo e capturou o gemido dele enquanto as línguas se debatiam. Noah chutou a coberta, afastando-a a fim de poder senti-la por inteiro. Trouxe-a para perto enquanto descia a boca pelo pescoço até a curva dos ombros. Uma perna se insinuava entre as coxas, subindo a camisola. A mão desceu para o seio, suspendendo-o para a boca. Jessa arqueou as costas ao sentir o mamilo sugado. Os dentes mordiscavam-na e ela sentiu uma onda de calor seguir até a ponta dos pés. Passou as mãos dos cabelos para os ombros dele quando a boca seguiu para o outro seio. E quando ela acreditou que não suportaria mais, Noah a soltou. A respiração era rápida e superficial, as pupilas estavam dilatadas e, por um tempo, ele não disse nada. Por fim, perguntou: — Jessa?... Ela não entendeu a pergunta, mas sabia que não queria falar. Queria sentir a boca dele de novo. As mãos em seu corpo, acariciando-a e fazendo-a se sentir querida. Estava protegida de seu próprio egoísmo pela sua inocência. Não levou em conta as necessidades de Noah ou o fato de que talvez quisessem coisas diferentes. Não 74


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percebeu, quando o beijou, que ele tomaria aquele gesto como uma resposta positiva. Beijou-o e, mesmo quando sentiu o calor e a rigidez ao encontro de seu quadril, não ficou com medo. Noah a acariciou nas coxas, subiu a mão, sentindo a umidade pronta a recebê-lo e desatou a ceroula. Só quando sentiu a pressão da masculinidade de encontro ao seu ventre foi que o pensamento voltou a clarear. Não se perguntou como permitiu que tivessem ido tão longe. Não havia tempo. Por isso disse a única coisa capaz de detê-lo, a única coisa capaz de ferir o orgulho dele e de manter seu segredo a salvo. — Robert... O nome pairou sobre eles. Noah retraiu-se como se tivesse levado um soco, mal conseguindo se afastar com bastante rapidez. A pele empalideceu e os olhos refletiram uma raiva fria. Jessa empurrou a camisola até os pés, a respiração entrecortada e as mãos trêmulas. — Desculpe, Noah. — Seu remorso não era pelo que dissera, mas por enganá-lo. Se ele a desprezasse não seria tanto quanto ela se desprezava no momento. — Eu não quis... — Não diga mais nada — ele disse por entre os dentes. Virando, vestiu as ceroulas e saiu da cama. — Eu devia ter esperado isso de você. Às vezes você é tão óbvia que sinto vontade rir. Achou que eu a levaria para a casa de minha família em troca de alguns favores? Era isso o que tinha em mente, não? Comprometimento da minha parte? — Nem lhe deu chance de negar. — Pois errou feio! Deveria saber separar seus amantes. — Encontrou as calças e vestiu-a. — Noah, aonde você vai? — Para o convés! Vou deixá-la com seu fantasma. Não há, espaço para três nessa cama. Jessa viu-o sair, sem coragem para chamá-lo de volta. — A menos que você estivesse pensando em Hilary — disse baixinho para a porta fechada —, sempre houve só duas pessoas nesta cama. — Pressionando os joelhos ao encontro do peito, fitou a lua pela vigia. Quando Noah retornou para a cabina, Jessa havia se mudado para o assento perto da janela. Ele ficou parado perto da figura adormecida por um bom tempo, tentando decidir o que fazer. Por fim, pegou-a no colo e a carregou de volta para a cama e se deitou ao lado dela. Dessa vez, porém, foi ele quem ficou na beira do colchão. O mal-estar entre eles, daquele ponto em diante, tornou-se palpável. Noah passava a maior parte do dia na cabina do capitão, e Jessa, sozinha, se sentia uma prisioneira, embora apreciasse a companhia dele cada vez menos. Passara a trancar a porta a fim de que ele não entrasse sem aviso. Gideon se tornara irritadiço junto deles, sentindo a tensão no ar. Pelo fato de Noah parecer gostar verdadeiramente do menino, Jessa começou a se manter ocupada enquanto eles brincavam. Cam era o visitante freqüente e se tornou o salva-vidas de Jessa. Pouco mais do que uma criança, ainda assim ele era a única pessoa com quem ela conseguia conversar. Mesmo durante os passeios pelo convés à tarde, a tripulação parecia relutante em se aproximar. Possivelmente por Noah tê-los desencorajado a fazer amizade. Ele, pelo visto, não pensou em dar o mesmo conselho a Cam. Talvez o tivesse feito caso se lembrasse 75


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como o primeiro amor podia ser doloroso. — Onde está sua sombra hoje, garoto? — o capitão Riddle perguntou a Cam ao encontrá-lo sem Jessa. Assustado com a interrupção, Cam parou sua tarefa e bateu a cabeça no mastro em que se recostava. — Minha sombra, senhor? — Ele começou a se levantar e ficou ainda mais surpreso quando o capitão acenou para que ficasse onde estava e se agachou ao seu lado. — A sra. McClellan. Você não costuma acompanhá-la num passeio a esta hora? — Ela não está se sentindo muito bem... — Está com o mesmo problema que costuma afligir Noah? Já que o mar estava tranqüilo, Cam não acreditava nisso. Ainda mais que notara os olhos inchados e vermelhos dela. — Não, capitão, não é enjôo. — Que bom. — Não disse mais nada, porém continuou a observar o garoto. — Eu não a trataria com tanto descaso se ela fosse minha esposa. — Cam deixou escapar. Jackson ficou mais que surpreso, pois não se lembrava de ouvi-lo se manifestar com tanta veemência. Arrependido, viu que abrira uma verdadeira caixa de Pandora. Não esperava que o estado contemplativo do garoto estivesse ligado a Jessa McClellan. — O que acontece entre marido e mulher não é de sua conta, entendeu? — O que quero dizer é que, se o sr. McClellan não tomar cuidado, vai acabar perdendo-a. Jack deu uma risada e zombou: — Vai levá-la com você? Cam sabia que estava sendo caçoado. O capitão não acreditava que ele representasse uma ameaça para Noah. Com o orgulho ferido, deixou de contar ao capitão que havia outros homens no navio que expressavam pensamentos semelhantes. Certa dia, até testemunhara uma briga entre Ross Booker e Henry Alder, pois o primeiro insinuara que ela devia estar sentindo falta de um homem na cama, já que o marido passava as noites no convés. Comentário que o segundo respondera com um soco no estômago, avisando que não se referisse a ela naqueles termos novamente. Desde então, Cam tomava ainda mais cuidado ao deixar a cabina, parando no corredor para se certificar de que ela trancava a porta. — Preciso de leite para o mingau de Gideon, Cam — Jessa disse e riu ao ver o garoto suspirar. Ele era tão bom com Gideon, que ela lamentou encaminhá-lo para mais uma tarefa. Estavam a dez dias do fim da viagem e podia apos tar que Cam ficaria contente em se livrar deles. — Pegue-o. — Colocou o filho nos braços finos do garoto. — Eu busco o leite e você fica com ele. — Não, sra. McClellan. — Ele tentou devolver o menino, mas ela recuou. — Não pode ir até o compartimento de carga. O sr. Noah não vai gostar. — O sr. Noah não ficará sabendo se você não contar. Acha mesmo que não sei fazer isso, Cam? Sei onde a vaca está e sei ordenhar. — Pegou a caneca de Gideon. — Volto em cinco minutos. 76


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Jessa foi para o corredor e desceu as escadas até chegar onde a vaca, o garanhão de Noah e algumas galinhas haviam sido guardados. Franziu o nariz ante o cheiro dos animais confinados, mas colocou a caneca na cerca e pegou o banquinho. Deu um tapinha no flanco do animal e se sentou. — Hum, parece que foi negligenciada esta manhã. Está quase explodindo... — Esse é o meu serviço, senhora. Jessa ficou tão assustada com a intromissão que quase caiu do banquinho. Tinha uma vaga lembrança daquele homem, pois ocasionalmente cruzava seu caminho nos passeios ao lado de Cam no convés, mas nunca chegaram a ser apresentados. — Estou pegando leite para o meu filho — explicou sem necessidade. Ross Booker mal acreditava na própria sorte. Fazia dez meses que não ficava tão perto de uma mulher. Seu lar em boa parte desse tempo fora Newgate, e depois de sair da prisão, seguira para o cais do porto atrás de diversão. Em vez disso, acabara arranjando aquele emprego no Clarion e decidira que a diversão podia esperar até cruzar o oceano. No trajeto, porém, havia mudado de idéia. Não que pudesse fazer muito a respeito, pois as coisas que dissera a Henry Alder eram só conversa fiada. Entretanto não contava encontrar com Jessa McClellan desacompanhada. — Pode deixar que cuido disso, sra. McClellan. — Bloqueou o caminho. — O-obrigada. — Ela soube de pronto que não gostava daquele homem. Era até bonito, mas havia algo estranho em seus olhos. E o modo como a fitava com malícia enquanto ordenhava, definitivamente, não melhorou sua impressão. — Só preciso de uma caneca. Ross deu de ombros, detendo o olhar no busto dela. — Não custa terminar o que comecei. — Vou pegar a caneca. — Ela refreou a vontade de ajustar o agora modesto decote do vestido, a fim de não chamar ainda mais a atenção. Ao tentar passar, teve o caminho bloqueado, pois o marujo arrastou o banquinho para trás, impedindo sua passagem. Se tentasse passar, teria de tocá-lo, e essa era a última coisa que pretendia fazer. Ele levantou e pegou o balde. — Leite doce e gostoso... Sua pele tem a mesma cor... — Com uma mão tocou-a no rosto. —E tão suave. Jessa virou o rosto e bateu na mão dele. — Não faça isso! Ross a segurou pelo queixo. — Não precisa empurrar. Não fiz nada. — Deixe-me passar, por favor. Prometo que não contarei nada a meu marido. — Não há nada a contar. — Ele se aproximou e deixou o balde no chão. — Mas se eu a beijasse, então algo teria acontecido, não é mesmo? — De repente, empurrou-a num canto e pressionou a boca na dela. Jessa se sentiu nauseada e, levantando as mãos, puxou o cabelo dele. Antes que ele entendesse o que acontecia, ela pegou o balde e derrubou todo o leite nas cal ças dele, para, em seguida, sair dali. Assim que se viu fora da baia, por ém, ele a agarrou pela cintura e a derrubou no chão. Assustada, ela notou o alvoroço das galinhas e o nervosismo do cavalo. A agitação os perturbara. Empurrou os ombros do ofensor, tentando se soltar. 77


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— Noah o matará! — Todos sabem que seu marido não se importa com você — Ross riu. A voz que os interrompeu era áspera e ameaçadora: — Então todos estão errados. — Noah se inclinou e o agarrou pelo colarinho, empurrando-o contra o portão da baia. — Está ferida, Jessa? Ajoelhada e arfando, Jessa viu Cam na porta. — N-não. O aperto dele na garganta de Ross não afrouxou. — Volte para a cabine com Cam e com seu filho. Fique em seu lugar! — Noah... — ela falou, tímida, temendo o que ele estava para fazer. — Você vai... — Vá, Jessa! Agora! Jessa correu até a cabine, com Cam em seus calcanhares. — Gideon está no berço, sra. McClellan. Ela assentiu de costas, pois não queria que o rapaz visse seu rosto marcado por lágrimas. — Pode ir, Cam. E obrigada. Fez bem em ir buscar Noah. Depois que ele saiu, Jessa despiu o vestido e desejou tomar banho, mas Gideon chorava e levaria muito tempo para pegar a água, por isso somente se esfregou na bacia, tentando apagar o toque de Ross de sua pele e as lágrimas do rosto. — Você vai ter de comer seu mingau seco mesmo — disse ao filho quando o pegou no colo e se sentou à mesa. As lágrimas ameaçavam voltar e ela piscou para afastá-las. — Mamãe não conseguiu seu leite. — Não! Não! — Gideon virou o rosto quando ela aproximou a colher. Em outra hora, Jessa teria adorado a novidade, mas não naquele instante e especialmente não aquela palavra. — Por favor, meu querido, coma alguma coisa... Faça isso por mim. — Levou a colher para a boca do menino. Em resposta, ele fechou a cara e a boca. — Não faça isso, meu bem. Preciso que você seja um bom menino... Coma seu mingau. — Quando ele abriu a boca, ela se aproveitou e enfiou uma colherada. — Viu, não é tão ruim assim, é? Gideon cuspiu o mingau, sujando o babador e a blusa. Jessa jogou a colher na mesa e o sacudiu, provocando seu choro. Depois de um segundo ela se juntou a ele. Foi assim que Noah os encontrou, soluçando e sem conseguir confortar um ao outro. Logo assumiu o controle, pegando Gideon nos braços e balançando-o de leve. Limpou o queixo do menino e o levou para o quarto para trocar a camisa e a fralda. Jessa lavava o rosto quando ele retornou com uma criança muito mais calma nos braços. Com um sorriso trêmulo, ela afastou-se e se sentou perto da janela. Dobrando as pernas, abraçou os joelhos. Noah pegou uma manta ao pé da cama e a colocou ao redor de seus ombros. Se aquele fosse um casamento real, seriam os braços dele ao seu redor, mas Noah tinha receio de tocá-la, sem saber como ela reagiria. 78


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— Ele, a machucou? — Não. — Ela balançou a cabeça. — Não do jeito que está pensando. Sofri apenas alguns hematomas, mas você chegou a tempo. As promessas feitas de se sensibilizar pelo estado frágil no qual ela se encontrava desapareceram. Seu medo, a inadequação em confortá-la, as terríveis conseqüências de sua negligência e a rejeição de Jessa eram sentimentos misturados em seu íntimo, e ele só conhecia uma forma de escape: raiva cega. — Maldição, Jessa! No que estava pensando quando deixou a cabina desacompanhada? Não se importa com minhas vontades? Nem com sua segurança? Queria ser estuprada? — Gideon choramingou, e Noah percebeu que o segurava forte demais. Deixou-o no tapete com a bola e se voltou para Jessa, ligeiramente mais controlado. Ela estava pálida. — Não tem nada a dizer? Não? Então me deixe explicar o que vai acontecer agora. Você vai se vestir, e eu trarei Cam para cuidar de Gideon. Em seguida nós dois vamos para o convés onde todos terão se agrupado para testemunhar a punição de Ross Booker no mastro principal. Ela levantou a cabeça, a pouca cor no rosto desaparecendo por completo. — Não! — Você não tem escolha. Vai nem que eu tenha de carregá-la! — Por que quer me torturar? Não quero ver as costas de um homem ser chicoteadas! E não olhe para mim assim! Sei que está pensando que se de fato não fiz nada para encorajá-lo, eu apreciaria ver o castigo. Bem, eu lhe asseguro de que não o encorajei, mas ainda, assim não quero ver a punição. — Ross já contou outra versão ao capitão. Ele disse que você flertou com ele e o provocou, que se beijaram, mas quando ele quis mais, você mudou de idéia. Tem de admitir que a história é familiar. Você o confundiu com Robert também? — Você é um escroto, Noah McClellan! — Ela arquejou. — Acredite no que quiser! Coloque toda a culpa em mim, meus ombros são largos e suportam esse peso, mas jamais aceitarei isso aqui. — Apontou para a cabeça. — Meu corpo me pertence, Noah, e tenho o direito de dizer quem e como pode usufruí-lo! Repito: não encorajei aquele homem! O que ele tentou foi vil, uma violação! E sim, quero que ele seja punido, só não quero servir de testemunha! Todos lá em cima estarão pensando como você. Se não aceito a sua censura, o que o faz acreditar que aceitarei a deles? Noah ficou aturdido com a veemência dela. Nunca a vira com tanta raiva, tampouco a ouvira falar com tanta convicção. Seu discurso não tinha a espontaneidade de alguém que acabara de pensar no assunto, ela devia ter refletido muito a respeito, o que o levava a acreditar que alguém já tentara forçá-la antes, excetuando-se ele mesmo. Respirou fundo e disse: — Eu nunca disse que acreditava nele. Só mencionei que a versão dele me soou familiar. — Diga-me uma coisa — ela o desafiou. — Se acreditasse nele, e eu o tivesse provocado, ainda assim gostaria que ele fosse punido? Noah demorou a responder. Nunca pensara na questão do estupro pela ótica de Jessa. Era da opinião de que a mulher o procurava ou não. E o ônus da prova recaía sobre ela. Se o ataque fosse sem provocação, o resultado era evidente, mas dúvidas quanto aos motivos ou ações da mulher em questão complicariam a história. 79


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— Sim — respondeu por fim. — Eu ainda assim gostaria que ele fosse punido. Jessa se mostrou cética quanto à sua resposta e demonstrou isso em nos olhos e no contorno da boca. — Por quê? Por que sou sua esposa e, portanto, um ataque contra mim refletiria em você? Seria uma afronta ao seu orgulho, sua honra? — Não — ele disse, sério. — É pelo que acabou de dizer. Você tem direitos quanto à sua pessoa. — Percebendo o olhar acusatório e frio, continuou: — Não me pressione, Jessa. Há uma diferença entre Ross Booker e eu. Quando se casou comigo, cedeu-me alguns direitos. O fato de estar se esquivando deles faz de você uma criminosa, não a mim. Admito que sair da cabina desacompanhada não significa um convite de sua parte, tampouco deixar a porta destrancada, mas não cometa o erro de confundir minhas ações com as dele, as de seu marido ou de qualquer outra pessoa. — Complementou em seguida: — Lamento ter perguntado se queria ser violentada. Foi um comentário abaixo de qualquer crítica. — Estou contente que perceba isso. — Mas sair sem proteção mostrou uma alarmante falta de juízo, Jessa — ele prosseguiu, determinado a fazê-la entender seu ponto de vista. — Não ordenei que ficasse aqui à toa. Reconheci o perigo e agi de acordo. Você não. Isso não significa que mereça o que aconteceu. Só estou dizendo que desconsiderou a responsabilidade pela sua própria segurança. Os dedos de Jessa se retorceram na ponta da trança e ela assentiu com o olhar baixo, aceitando a verdade na declaração dele. Noah a estudou por um instante, sabendo que o que diria a seguir afastaria o ar submisso dela. — Quero que se vista agora. Terá de me acompanhar até o convés. Os olhos acinzentados se ergueram cheios de desespero. — Por favor, eu imploro, não me obrigue a ir! Ele se manteve firme, embora fosse penoso encará-la. — Esperam que você testemunhe a punição. Ficar aqui em baixo seria admitir a culpa. — Mas não sou culpada! — Eu sei — Noah assentiu, devagar. — Eu a pouparia se pudesse, mas foram ordens do capitão e a palavra dele é ordem neste navio. Ele não acreditou na história de Booker, mesmo antes de Cam e Henry Adler se adiantarem e contarem o que sabiam, e decidiu puni-lo. E também decidiu que você teria de presenciar o castigo. — Foi até o armário e pegou o vestido cinza. — Vista este, vou subir para... — Ao ouvir a batida à porta, terminou: — Acho que não preciso ir chamar Cam no fim das contas. A tripulação já deve estar reunida. Terá de se vestir rápido. Ele foi até a porta e conversou com Cam, olhando por sobre o ombro para ver se ela se aprontava. Quando ela terminou, deixou que o rapaz entrasse para tomar conta de Gideon. Estendeu a mão para Jessa e acompanhou-a até o convés, com uma expressão sombria como se estivesse se encaminhando para o próprio castigo. Os homens enfileiraram-se ao lado do mastro principal onde Booker estava amarrado sem camisa. Noah o viu se debater e relanceou para Jessa, rígida de tensão, mas com a expressão composta. Percebeu então que o olhar dela era vago, sem se fixar 80


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em nada do que acontecia. Ela se protegia de tudo e de todos. Acompanhou-a até o lado do capitão e acenou, dando permissão para que a punição tivesse início. — Vinte chibatadas! Conte em voz alta! — ordenou Jack. O marujo só gritou depois da terceira chibatada e no fim, mal conseguia se manter de pé. No entanto, quando Noah e Jessa se viraram para descer, ele a encarou e esbravejou: — Vou vê-la no inferno por conta disso, sua vadia! Noah teria pegado o chicote ele mesmo se Jack já não tivesse ordenado que ele fosse amarrado novamente ao mastro. — Mais vinte para refrear a língua dele! — Jack ordenou. Jessa, contudo, não o ouviu. Assim que a mão de Noah relaxou em seu braço, ela escorregou até o chão. Três homens se adiantaram para socorrê-la, mas Noah foi mais rápido, apoiou-se num joelho e suspendeu-a nos braços, carregando-a até a cabina antes que a primeira chibatada fosse desferida. — Abra a porta, Cam! O rapaz o atendeu, carregando Gideon nos ombros. — Gideon! Meu cabelo! Por Deus, o que aconteceu com a sra. McClellan? — Ela desmaiou. — Noah a carregou até a cama. — Pode, por favor, tirar a criança da sua cabeça e pegar um pano e a bacia de água? Cam se abaixou e colocou o menino no chão. Suspirando, Noah se sentou na beira do colchão e a segurou pela mão, com a outra afastou a franja da testa dela. — Jessa? — Estou bem — disse ela sem emoção, apertando os dedos dele. — Não me comportei muito bem, não? — Foi mais valente do que se esperava. O castigo foi brutal e... E a amea ça dele não foi muito agradável. Noah a fitava com preocupação. — O que acontecerá com ele? —ela quis saber. Noah percebeu, então, que ela não ouvira a segunda ordem do capitão e decidiu não mencioná-la. — Ele ficará trancado até o fim da viagem, depois levado de volta para Londres ou algum outro lugar longe de você. Não precisa se preocupar. — Ainda bem. Ele estava tão zangado. Eu morreria de preocupação... Acho que ele falou sério. Ele pousou um dedo sobre os lábios dela. — Shhh. Não pense mais nisso. Ninguém vai feri-Ia, quanto menos Ross Booker. — O dedo se afastou e os lábios o substituíram no beijo delicado. Não significava nada, ele disse a si mesmo. Jessa estava tão fragilizada que ele não conseguiu deixar de demonstrar um pouco de delicadeza. Depois de falhar em protegê-la, podia se dar o luxo de ser magnânimo. Noah teria dado um segundo beijo, mas ouviu Cam entrar no quarto, trazendo água 81


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fresca. — Esvazie o balde no barril, Cam e traga um copo. Obrigado — agradeceu depois que ele serviu Jessa. — Cam? Eu ficaria grato se engatinhasse debaixo da poltrona de novo e recuperasse Gideon. Você não o ensinou a morder a mobília, ensinou? — perguntou enquanto ajudava Jessa a beber. — Sim, senhor... Quero dizer, não, senhor. — Depois de pegar o menino, perguntou: — O que devo fazer, senhor? — Bem, não o coloque na cabeça de novo. Isso quase me deixou de cabelos brancos. — Noah afastou o copo quando Jessa engasgou, — Não precisa se preocupar — disse, dando-lhe um tapinha nas costas. — Gideon não estava na cabeça dele, só nos ombros. E ele estava firme. Não Cam. Gideon. Cam provavelmente o teria derrubado de cabeça. Não na cabeça dele, na do outro. Quero dizer, Gideon teria caído de cabeça, e não Cam. Jessa se endireitou e descobriu que sorrir não era tão difícil assim. Apreciou os esforços de Noah em alegrá-la, ainda que desconfiasse de seus motivos. — Acho que entendi. — Afagou a mão de Noah como se ele estivesse seriamente perturbado. — Traga-o para cá, Cam. O menino se acomodou junto do peito dela. — Comeu alguma coisa hoje, meu bem? Foi por isso que começou a roer a mobília? É isso o que o papai está achando. — Lançou um olhar culpado na direção de Noah. — Desculpe, eu não deveria ter dito isso. — Tudo bem. — Ele não pôs inflexão alguma na voz. — Gideon é novo demais para entender. — Virou-se de repente para que Jessa não visse que se emocionara ao pensar em ser o pai do menino. A troca de palavras confundiu Cam, que achou melhor fingir não ter ouvido nada. — Gideon comeu um pouco de mingau comigo. Ele não gostou muito, mas eu insisti. — Obrigada, Cam. — Sim, obrigado — Noah agradeceu, recompondo-se. — Jessa, se não se importar, eu gostaria de subir com Cam. Há algumas coisas que eu preciso discutir com Jack. — Eu não me importo. — Estava feliz por ele ter perguntado. — Acho que Gideon e eu vamos tirar um cochilo. — Tem certeza? — Pode ir, vou ficar bem. Eu estou bem. Noah pegou o copo e se levantou, deixando-o na mesa, depois seguiu Cam até o corredor, onde esperaram até a porta ser trancada. Lamentou que isso fosse de fato necessário. Jessa se deitou é adormeceu quase que imediatamente, acordando somente depois que Gideon puxou sua trança repetidas vezes mais tarde. Cam voltou pouco depois com leite para o menino. — O sr. McClellan ainda está com o capitão? — ela perguntou. Cam desviou o olhar. — Sim, senhora. Ele e o capitão ainda estão... bem, estão juntos, sra. McClellan. — Ele achou melhor não revelar que os dois tinham passado a tarde bebendo, ou melhor, 82


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para cada copo do capitão, o outro tomava dois. Horas mais tarde ele voltou com o jantar e deu a mesma resposta, lamentando em seguida quando o capitão pediu sua ajuda para levar Noah até a cabina. Já podia imaginar como seriam recebidos, pois vira a mãe mais de uma vez dando vassouradas no pai quando chegava em casa daquele jeito...

Capítulo VII

— Você está bêbado! — Foi a única coisa que Jessa conseguiu dizer ao abrir a porta e se deparar com um Noah cambaleante, suspenso pelo capitão e por Cam, que, aliás, mais pareciam duas cabeças nascidas debaixo das axilas dele. Noah olhou para ela e ainda teve á graciosidade de parecer envergonhado, dando um sorriso de lado. — Acho que sim. Boa noite, cara esposa. — Tentou se curvar num cumprimento, praticamente derrubando os que o sustentavam. Jessa não conseguiu se conter. Desatou a rir e abriu caminho. — Por favor, levem-no até a cama. — Minha mulher me quer na cama — Noah disse aos companheiros, erguendo as sobrancelhas numa paródia de malícia. — Mas não me quer quando estou lá. As pontas das orelhas de Jack enrubesceram. — Não ligue para o que ele diz, sra. McClellan — ele disse quando ela levou as mãos às faces afogueadas. — No meio da tarde quase que o recompus, mas bem... Como vê ele não quis ficar sóbrio. Isso não acontece sempre, senhora. Na verdade, é a primeira vez que o vejo assim sem a companhia de um dos irmãos. — Simultaneamente, os dois deram um empurrão e Noah caiu sobre o colchão. Ele gemeu e rolou de costas, cobrindo os olhos com as mãos. — Não consegue encontrar águas mais calmas, Jack? O capitão revirou os olhos. — Não é o mar o responsável pela sua cabeça girar — falou sem empatia. Virou-se para Jessa antes de sair. — Preciso ir. Se quiser, Cam pode ficar e ajudar. Uma vez que o garoto já estava a caminho da porta, Jessa declinou a ajuda. — Estou certa de que saberei cuidar de meu marido, capitão. Meu pai era dado a beber além da conta. Esta não é uma situação nova para mim. Obrigada por trazê-lo de volta. E o senhor, capitão, parece que também precisa de ajuda para retornar à cabina. Jack procurou aprumar os ombros e se defendeu: — Não me pareceu certo deixá-lo beber sozinho. — Apoiando-se em Cam, se despediu: — Boa noite, senhora. 83


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— Até amanhã. — Jessa trancou a porta antes de se voltar para Noah. — E o senhor, que coisa bonita de se ver... — Suspirou. — Eu sou? — Noah levantou o antebraço uma fração. — Pensei que estivesse dormindo. — Bem que eu queria. Outra dose cairia bem... — Tentou se livrar dos sapatos, chutando-os. — Mais uma e você desmaia. — Jessa sentou-se na cama. — Deixe-me ajudá-lo. Está com a coordenação de um novilho. — Senhora, seus elogios vão subir à minha cabeça. — Tolo... — Tirou os sapatos e as meias. — Vai me despir? — Não, se não quiser. — Ficou com as mãos paradas. — Dormirá mais à vontade sem elas, porém. — Oh, Jessa — ele riu —, eu quero. Eu quero. Longe de se ofender ou de se intimidar pelo que Noah queria de fato, Jessa se pegou sorrindo, pois ele parecia mais inofensivo do que um garoto na idade de Cam. — Comporte-se ou não serei responsável pelas minhas ações. — Sim, senhora — ele balbuciou. Com dificuldade, ela conseguiu tirar a calça, o paletó e o colete, virando-o de um lado para o outro. Mas a camisa tinha de passar pela cabeça. Por fim, Jessa montou sobre ele e pediu: — Levante as mãos. Ele as suspendeu para o ar. — Não assim! — Segurou os pulsas e os levou para cima da cabeça. Inclinada, os seios pairavam a centímetros do rosto de Noah. Debaixo dos cílios semicerrados, ele tevê uma visão privilegiada do que havia debaixo do corpete do vestido. — Hum. Igualzinho ao meu sonho — disse com voz arrastada. — Até melhor... Jessa se levantou tão rápido, que ele arfou quando ela apoiou o peso em seu quadril. — O que disse? — perguntou, ajustando o decote. Noah, com o olhar vago, respondeu: — Meu sonho... Quando eu estava ferido... Sonhei que você e eu... Que nós... Fizemos amor. Assim... — Oh, meu Deus! — Ela se afastou da cama com o coração acelerado. Ele se lembrava. Mas o que importava? Para ele, o acontecido no chalé de Mary era apenas um sonho. — Obrigado — ele murmurou quando ela se aproximou para desvencilhá-lo da camisa. — Deixe aí... — disse quando a viu pegar e dobrar a roupa. — Está bem. — Ela deixou tudo no chão, feliz por contentá-lo. — Tente dormir, vai passar por maus bocados amanhã. — Depois de espiar Gideon, sentou-se perto da vigia e retomou a costura de antes. 84


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— Venha para a cama, Jessa. — Noah estava deitado de lado, abraçado ao travesseiro com uma expressão de garoto perdido. — Por favor. Não consigo dormir quando você não está aqui. — Mas não estou cansada. — Podemos conversar. — Se me permite a franqueza, você não está em condições de conversar. — Então podemos fazer outra coisa. — É isso mesmo o que quero evitar. Noah suspirou de modo dramático. — Você me magoa. — Agarrou-se mais ao travesseiro. — Pensei que pudéssemos ficar abraçadinhos... Jessa se concentrou no trabalho. — É a bebida falando. Há semanas que você não toca em mim. — Ainda bem, acrescentou em pensamento. — Não é a bebida — ele protestou e balançou a cabeça, arrependendo-se em seguida. Gemeu ao sentir náusea. Fechando o coração, Jessa não desviou o olhar da costura para não incentivá-lo. Só quando ouviu a respiração profunda se despiu para se deitar. Apagou a lamparina e puxou a coberta. Noah, porém ocupava o centro da cama, com as pernas e braços afastados. Empurrou-o para ter espaço. — Decidiu ficar abraçadinha? — ele perguntou, sonolento. — Ainda não dormiu? — ela indagou, surpresa. — Tirei uma soneca... Esperei por você. Como é que vou dormir com você me empurrando assim? — Você ocupou a cama inteira! Chegue para lá. Noah obedeceu, ficando de lado, mas ainda no centro da cama. Deu um tapinha no colchão. — Pode dormir bem aqui. — Para o caso de ela ter outra idéia, puxou-a pelo pulso. Desequilibrada, Jessa acabou se encontrando com ele, ficando frente a frente. — Não havia necessidade disso — ela criticou, tentando se soltar. Ele relaxou os dedos, e ela se afastou. — Viu? — perguntou como quem acaba de provar um ponto. — No instante em que a solto, você se afasta. Você não gosta nem um pouco de mim, Jessa? — Está dizendo tolices, Noah. Ele pousou a mão no quadril de Jessa e começou a acariciar-lhe a coxa, subindo e descendo. Ela deu um tapinha de leve na mão dele, desejando que ele não se zangasse. — Tão cruel... — Ele levou a mão ao coração num gesto teatral. Jessa não se conteve diante de tanta tolice, riu e o cutucou no peito. Quando ele a deteve, segurando a mão, ela não se afastou, sentindo o calor da pele e o coração bater ao encontro da palma. — Está completamente embriagado, sr. McClellan. — Hum... — ele murmurou com um sorriso no canto da boca. — A sensação é 85


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maravilhosa. — É o que parece. — O polegar dele a acariciava no pulso. — Isto também é maravilhoso. — O tom estava mais sério e ele tinha o olhar fixo em seu rosto. — Não respondeu à minha pergunta. Não gosta nem um pouco de mim? — Essa é uma pergunta ridícula. — Não é ridic... ridic... tola. — Esperou um segundo, e depois insistiu. — E então? — Gosto o bastante na maioria das vezes. — Ah... — Noah resolveu que poderia se satisfazer com aquilo. E o que gostar tinha a ver com o que queria fazer com ela? Foi o que dissera a Jack depois de várias doses de rum. — Já lhe disse que tem lindos seios? — Noah! — Ela puxou a mão, só para ter as pernas presas entre as dele. — É verdade — ele insistiu, inclinando-se sobre ela. Um braço relaxado por sobre a cintura. — Esta conversa é absurda. Acho que já disse que você não está em condições de conversar. Pode me soltar, por favor? — Empurrou-o, mas ele não cedeu. — Noah! Acho que você não sabe o que está fazen... — Parou de falar no meio da frase. Seria verdade? Pela manhã, ele não se lembraria de nada? E caso se lembrasse, estaria em condições de saber exatamente o que tinha feito? Será que se lembraria de ter feito amor e de que ela era virgem? Jessa sentiu a m ão dele no seio, mas dessa vez não o afastou. O toque era desajeitado, faltava-lhe a destreza e a habilidade erótica com que a teria tratado se estivesse em completo controle de suas ações. Com isso, tomou uma decisão. Suportaria as carícias dele e, sem saber, ele a livraria da única evidência que poderia condená-la. Agindo de acordo, abraçou-o e trouxeo para perto. Quando a boca de Noah a tomou, ela mudou de idéia: talvez não tivesse de suportar nada aquela noite. Supôs que a boca dele estivesse amarga, mas não, havia um toque de menta junto ao sabor do rum. Sorriu com os lábios colados aos dele. Noah tentara disfarçar o sabor da bebida com bala de menta? Só podia ser idéia de Cam, que sempre tinha uma no bolso. Ficou feliz com isso. O beijo era doce. A boca de Noah capturou o suspiro de Jessa. A língua acariciou o lábio superior enquanto ela o marcava com as unhas nas costas. O polegar acariciava o mamilo, intumescendo-o debaixo da camisola. — Gosta disso, não? — perguntou ele num fio de voz. Embaraçada, ela escondeu o rosto na curva do pescoço dele e assentiu. O riso de Noah arrepiou sua nuca um segundo antes de ele beijá-la ali. Com surpreendentes dedos ágeis, começou a destrançar o cabelo dela. Jessa sentiu um arrepio de medo ao perceber que ele parecia mais consciente do que imaginava, mas, quando estava prestes a se afastar, ele enroscou os dedos sem conseguir se soltar. Rindo, ela o ajudou e comentou: — É por isso que o mantenho preso. Meu cabelo tem vontade própria... Os olhos de Noah se refestelaram na cascata loira que a emoldurava. Ele sentiu a força da beleza etérea banhada pelo luar como um soco no estômago. Por um instante, foi difícil até respirar. Com cuidado, segurou a ponta de uma mecha, o dorso da mão resvalando um seio. Havia certa reverência no toque que a tomou de surpresa. Segurou-o pela mão e 86


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levou-a aos lábios. Quando a ponta da língua tocou o polegar, ouviu-o arfar e sentiu o desejo trespassá-lo. Não sabia que tinha o sorriso de uma sereia, nem que os olhos emitiam o convite de uma feiticeira. Mas quando ele a beijou, ela entendeu que era isso mesmo o que desejava. No início a pressão foi suave, com apenas uma ponta da paixão que ele sentia, mas quando Jessa retribuiu, Noah aprofundou o beijo e libertou o desejo reprimido. Jessa o abraçou, acariciou-lhe os cabelos, desceu pela nuca e costas. Insinuou os dedos pelo cós das ceroulas, sentindo o calor das nádegas. Tocou-o como havia muito ansiava, libertada da timidez por saber que ele de nada se lembraria. Desenhou em suas costas, sentiu à força dos músculos dos braços e pernas. Adorava a fragrância de Noah, a mistura de menta, rum e do cheiro másculo característico somente dele. Gemendo, ele interrompeu o beijo, levantando a cabeça uma fração. Segurou-a pelo rosto e vasculhou seu olhar. — Quem sou eu, Jessa? Mesmo surpresa com a pergunta, ela não hesitou em responder num sussurro: — Noah. — O lindo rosto estampava o desejo que ele não escondia. A boca úmida com os beijos trocados era um convite. — Você é Noah, meu marido... E eu quero você. — As mãos desceram pela lateral do corpo e vendo que ele não a ajudaria, desatou as ceroulas. Noah se soergueu, deteve as mãos dela e disse: — Eu não vou suportar se estiver apenas me provocando, Jessa. — Não, não estou provocando. — Uma ponta de medo voltou, pois apesar da fala ligeiramente arrastada, ele parecia mais sóbrio. De novo sua preocupação foi deixada de lado quando ele se enroscou nas ceroulas. A expressão encabulada provocou uma pontada em seu coração. Por isso ela se sentou e ajudou-o a se livrar do bolo formado nos tornozelos. Ele lançou a peça pelos ares e riu, vitorioso quando ela caiu no chão. O riso dela cessou quando, ao fitá-lo, encontrou-o alerta, sério, atento. — Agora você. — Eu? — Sim, sua camisola. A boca de Jessa ficou seca. No instante em que ele observou que era sua vez de ficar nua, ela o fitou e não conseguiu mais afastar o olhar. Noah parecia completamente à vontade com a ereção evidente. Jessa não sabia fingir, tampouco respirar, engolir ou piscar. Sabia que o encarava como uma tola e, se não parasse com aquilo, Noah perceberia que nunca tinha visto um homem excitado antes. Mesmo assim não conseguia desviar o olhar. A simples mecânica do ato sexual a sobressaltava. Seu corpo jamais acomodaria... aquilo! Noah quebrou o feitiço cobrindo o quadril com a ponta do lençol. Inclinando-se, tocou no queixo dela e levantou o rosto. — Vou tomar isso como um elogio. — Sorriu de lado. — Mas gostaria de retribuí-lo. Tire a camisola, Jessa. Quero vê-la. Ela se sentou sobre os joelhos e levantou a barra da camisola com dedos trêmulos. Revelou as coxas lentamente, não para provocá-lo, mas por timidez. Noah a ajudou e a 87


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roupa passou pelo quadril, tronco e cabeça, fazendo os cabelos descer como uma cascata ao mesmo tempo em que ele a abraçou e beijou. A tensão deliciosa não diminuiu quando ele a deitou de costas, cobrindo-a com o corpo. Nem arrefeceu com os murmúrios ao pé do ouvido e os lábios no lóbulo de sua orelha. — Você é linda, Jessa. Acho que não sabe disso... Doce, tão doce. — Beijou-a nas pálpebras, nas têmporas. A boca seguiu pela curva do pescoço, mordiscando. Os seios preenchiam as mãos até que a boca sugou um deles. Ouvindo um suspiro, ele passou para o outro. Jessa sentia uma chama se espalhar e não se retraiu quando foi acariciada nas coxas e entre elas. Em vez disso, seguiu o ritmo imposto, sem temer recebê-lo em seu íntimo. Era ali que o queria. — Por favor, Noah — sussurrou. — Agora. Quero que me ame, agora. Noah hesitou um instante, querendo afagá-la mais um pouco até que ela estivesse tão pronta quanto ele, mas ao ouvir a súplica, descontrolou-se. Escorregou por entre as coxas convidativas, segurando-a pelas nádegas. — Ajude-me, Jessa. Coagida pelo instinto mais sábio que a razão enevoada, Jessa o guiou para dentro de si, sem pensar nas conseqüências. Foi ela quem, engolindo o grito de dor, empinou o quadril, fazendo-o passar pela barreira da virgindade. Noah apoiou o peso nos cotovelos com a boca pairando a milímetros da dela. — Eu a machuquei? — perguntou, vasculhando sua expressão. Ficou imóvel, permitindo que ela se acostumasse ao seu contorno, mesmo que isso estivesse lhe custando muito. Jessa o sentiu quente e rígido, pulsando dentro de si e a dor gradualmente diminuiu. — Não, você não me machucou. — Vai ficar tudo bem, ela pensou. — Mas você é tão pequena... — Tão estreita, completou em pensamento. Moveu o quadril automaticamente em resposta ao que a mente imaginava. — E... Deus, tão doce... — Era uma agonia ficar imóvel. — Tem certeza? — Sim, é que faz tanto tempo. — Toda a minha vida, pensou. — Robert e eu... sabe, quando descobrimos que eu estava grávida, nós não... E depois de Gideon nascer, ele ficou doente. — Olhou-o ansiosa, perguntando se tinha ido longe demais mencionando o marido fictício. — Desculpe, eu não deveria ter falado o nome de... — Shhh. — Ele a tocou nos lábios com carinho. — Está tudo bem. Fico feliz que tenha me contado. Tomarei cuidado. — E começou a se movimentar. Jessa teria sido capaz de chorar naquele instante. Teria aceitado aspereza e carícias rudes com mais facilidade do que aquela ternura, pois só aumentava sua culpa. Não queria sentir desejo, mas Noah não permitiu que fosse de outro modo. Ele foi paciente e a acariciou até que a pressão se avolumasse em seu íntimo. Nada do que acontecia parecia real. Jessa nunca experimentara nada parecido, era como se ele tivesse a chave que abria a porta para todas aquelas sensações. Fachos de luz colorida explodiam atrás de suas pálpebras conforme o calor se espalhava pela pele. A tensão estalou com uma força que a deixou sem fôlego. E depois ela sorriu do doce calor de prazer que banhou seus membros. 88


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— Olhe para mim, Jessa — ele pediu com o corpo tenso, ansioso pela libertação final que refreava para poder fitá-la nos olhos, para que ela soubesse quem recebia em seu corpo. Ele, e não Robert. Com as pupilas dilatadas, ela sussurrou: — Noah... — Jessa... — ele rugiu, soerguendo-se de leve. — Obrigado... — Os movimentos finais foram rápidos e superficiais e mesmo que ela tivesse pronunciado o nome do falecido, ele não teria sido capaz de parar. No entanto era seu nome que pairava no ar, ecoando em seus ouvidos enquanto arqueava as costas e fechava os olhos. Nenhum dos dois se moveu de imediato. Jessa passou as unhas pelas costas e nuca de Noah, com os olhos fechados para esconder os olhos úmidos. Não sabia se estava triste ou feliz. Quando Noah se afastou, sentiu uma solidão pungente e mesmo quando ele os cobriu com o lençol e a colcha, ela pensou que preferia o calor do corpo dele. Desejou que ele dissesse algo. Ou ele esperava que ela falasse? As pessoas conversavam depois de partilharem aquilo? Pelo visto, não, compreendeu ao ver que Noah apoiava a cabeça sobre o braço esticado e dormia profundamente. Ele tinha conseguido o que queria. Por mais estranho que pudesse parecer, ela também. Virou de lado e o tocou no rosto, suavemente. — Amanhã de manhã — ela sussurrou — pode ser que não se lembre de nada. Tudo bem. Eu terei lembranças o suficiente por nós dois. — Fechou os olhos e deixou que o sono a levasse também. Noah acordou na primeira luz do dia e lembrar-se do ocorrido foi o menor de seus problemas. Recordava-se de tudo com uma clareza que só fazia aumentar o latejar em sua cabeça. Teria mesmo rolado de lado e dormido como um adolescente inexperiente? Sim. Sentou-se, virou as pernas para fora da cama e amparou a cabeça nas mãos. Deus! Como ela deve ter se sentido! Inferno, já tratara criadas de taverna com mais consideração! E a tomara cedo demais. Sabia disso também. Ela ainda não estava pronta, mesmo que não admitisse. Deveria ter entendido que ela sentiria dor após tanto tempo de abstinência. E ela era pequena... justa... e tão doce. Gemeu alto. Lembrou-se de ter dito isso. Nunca falava com as mulheres daquela maneira, não importava que o álcool ou a paixão soltassem sua língua. Sentiu-se mal por perder o controle de tal forma. Fazer amor não deveria ser especial com ela. Ele só estava cobrando pela sua proteção. Ela apenas, e finalmente, pagava o preço. Por que tinha de se importar pelo que dissera ou fizera com ela? Levantou-se e vestiu as ceroulas. Caminhou até a bacia e lavou o rosto. Depois de se livrar do gosto estranho de rum e menta da boca, barbeou-se. O rosto que via no espelho estava menos perturbado do que o esperado. Uma noite de bebida e devassidão haviam deixado marcas, concluiu zombando de si mesmo. O latejar na cabeça, porém, era outra coisa. Ao ouvir o movimento no quarto ao lado, ficou feliz por ter algo para fazer além de se torturar. Trocou a fralda de Gideon, pegou os brinquedos dele e levou-o para o cômodo principal, sussurrando: 89


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— Não acorde sua mãe, garoto. Cam logo vai chegar trazendo seu leite. — A mãe dele já acordou — Jessa disse, sonolenta. Bateu no colchão ao seu lado. — Traga-o para cá. Vamos esperar Cam juntos. Noah se aproximou e viu a camisola dela no chão. Debaixo dos lençóis ela estava nua, e ele se lembrava de todos os seus contornos, das curvas, de tudo. Engoliu em seco. — Acho que seria bom vestir alguma coisa, Jessa. Ou Cam vai ver o que não quer. — E se reduzir a um idiota balbuciante como eu, acrescentou em pensamento. Jessa estava se acostumando a querer se enfiar debaixo das cobertas. Até aquele instante, esquecera-se de que estava nua e por que estava assim. Pelo visto, ele não. Noah a observava atentamente. Podia estar sacolejando Gideon e murmurando palavras doces no ouvido do menino, mas os olhos estavam cravados nela. Esperando. E ela n ão sabia o quê. Desconsolada, esticou-se para pegar a camisola, segurando o lençol ao encontro do peito, e se vestiu debaixo das cobertas. Gideon riu por causa de Noah, que se divertiu com o esforço que ela fazia para se vestir em seu esconderijo improvisado. Ele, porém, não se importou com o olhar furioso que o encarou quando ela terminou a tarefa, pois sabia muito bem que era exagerado. Também compreendeu, pelo breve instante que a encarou antes de se esconder, que ela não lamentava a noite anterior. Os olhos acinzentados lhe contaram isso. Por isso, acreditou que o restante da viagem até a Virgínia seria muito recompensador. Colocou Gideon perto dela e se sentou de pernas cruzadas ao pé da cama, — Você não estava tão tímida ontem à noite — observou com um meio sorriso. — Reticente, talvez, mas não tímida. — Aquilo foi... diferente. — Ajustando o decote da camisola, Jessa completou: — Gideon não estava aqui — disse, cheia de recato. — Pode arranjar desculpa melhor do que essa. — Noah riu. Olhando para o filho, Jessa percebeu que ele não prestava atenção à conversa. — Estava escuro ontem à noite. Os olhos de Noah brilhavam de bom humor. — Costuma ser. Quero dizer, a noite é escura. — Sabe o que quero dizer. — Acho que não. Se acha que não a vi porque era noite, está enganada. Vi tudo. — Os olhos se escureceram ao passear pelo corpo dela. — Você vestia luar e luz de estrelas. A única coisa que não sei é a cor de seus mamilos. — Fez uma pausa. — Rosa? Jessa pegou a bola de Gideon e a jogou na direção de Noah, que se esquivou. Não que tivesse surtido algum efeito atirar uma bola de tecido. Um martelo de ferreiro talvez... — O que está tramando? Ela piscou surpresa pela perspicácia dele. — Como soube? — Seu rosto é expressivo. — Ele deu de ombros. — Acho que não sabe dissimular muito bem. Seus olhos e sua boca a denunciam sempre. 90


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Ela bem que gostaria de contar algumas coisas que o surpreenderiam. Noah não sabia tanto quanto acreditava. — É mesmo? — perguntou com doçura. — Hum-hum. Um segundo atrás estava tramando um assassinato. Agora está pensando que há coisas que não sei. Ela não foi muito rápida em esconder sua surpresa. — Existem, é? — Estou certo de que sim. — Inclinou-se atento para não atrapalhar a brincadeira de Gideon e beijou-a nos lábios. — A cor de seus mamilos, por exemplo. — Levantou a cabeça e perscrutou-a. — Cuidado com seus segredos, Jessa — avisou. — Não os use para me atormentar. Posso ser implacável ao tentar desvendá-los. Jessa empalideceu, mas nada disse. Noah se sentou e bagunçou a colcha para brincar com Gideon que riu e se lançou sobre o tecido, mas ao falar, se dirigiu a Jessa: — Fiquei pensando sobre o que aconteceu ontem à noite. — Pensou? — Ela não queria discorrer sobre aquilo. — Não agi muito bem. Bebi demais, forcei minhas atenções quando prometi não fazer isso e depois desmaiei. — Não forçou nada — ela objetou, perguntando-se onde ele queria chegar. — Eu não disse "não". Ele balançou a cabeça. — Pelo que me lembro, disse, sim. Diversas vezes. Ansiosa, notou que a memória dele não fora afetada. — Você foi mais persistente do que de costume. Noah não se mostrava, disposto a aceitar aquela desculpa. — Eu a machuquei. Nunca quis fazer isso. — N-não. — O que ele diria se soubesse que a ajudou a se livrar da única prova que destruiria seu futuro junto de Gideon? Ele, na verdade, a libertara para pertencer a outro homem, alguém que a amasse e que ela pudesse amar. Nunca mais teria de temer que descobrissem que Gideon não era seu filho. — De qualquer modo, foi culpa minha... Eu... eu estava muito ansiosa. — Abaixou os olhos, envergonhada. Prestes a dizer que considerava a ansiedade dela excitante, Noah ficou calado. O olhar recaiu sobre o lençol que Gideon descobrira brincando com a colcha. Estava manchado de sangue. Afastou mais a colcha e viu que havia diversas manchas. — Oh, Senhor, Jessa... Por que não me disse nada? Ela pensou que fosse desmaiar ao ver que sua farsa fora descoberta. Nem pensara nas marcas que revelariam a perda da virgindade. Havia mulheres que se orgulhariam de ostentar tais evidências, algumas chegavam a dissimular para dar tais provas. E lá estava ela, na manhã seguinte de sua noite de núpcias, tentando encontrar uma razão que pudesse explicar aquilo. Havia três possibilidades: a verdade, e essa não poderia ser usada; aceitar que ele a machucara na penetração, e ela não queria usar isso. Por motivos que nem ela sabia determinar, não queria que Noah se sentisse culpado. Foi a terceira explicação que saiu 91


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de seus lábios: — Meu fluxo, Noah... Não percebi. Oh, Deus! — Levou as mãos para o rosto. — Desculpe. É possível desmaiar de embaraço? — perguntou, esperançosa. Nem o tom, nem a expressão dela eram fingidos. Noah cobriu as manchas com a colcha e colocou Gideon em cima para que ele não a afastasse novamente. — Não quis embaraçá-la. Pensei que eu tivesse... Não sei, feito alguma coisa. —: Levantou as mãos, levemente encabulado. — Posso pegar alguma coisa para você? Não entendo muito disso... — Por favor, não continue. — Ela espiou por entre os dedos. Ele estava corado! — Se eu puder ter um pouco de privacidade... Que tal se fosse procurar Cam e perguntasse sobre o nosso desjejum? Noah se levantou rapidamente e pegou as roupas antes que ela terminasse de falar. — Ei, não estou com lepra! — Ela escondeu um sorriso enquanto ele se apressava em vestir as calças. — Nem preciso ficar sob quarentena. — Sei disso. — Noah abotoou a calça e relanceou por sobre o ombro. — Está caçoando de mim? — Um pouco. Não tive a intenção de expulsá-lo daqui. — Ela pegou o filho no colo e o acariciou nos cabelos. — Não estou apressado — negou, colocando a camisa. — Você queria privacidade, não? — Calçou os sapatos sem as meias, mas, só para mostrar que não tinha pressa, inclinou-se e deu-lhe um beijo demorado, que só foi interrompido pelo punho gorducho de Gideon em seu queixo. Afastou-se e beijou-o na cabeça. — Espere só, mocinho, quando você quiser beijar uma bela mulher... Também não vai querer ser interrompido. Ele já estava na porta quando Jessa recobrou a voz: — Noah?... Ele se virou e abriu a porta às costas. — Sua camisa está ao contrário. E do avesso. Noah escapou rápido, mas parou no corredor para ajeitar a roupa e ouviu as risadas musicais de Jessa e de Gideon. Nem tentou suprimir o sorriso que surgiu naturalmente em seus lábios. Deparou-se com Cam na escada que levava ao convés. — Bom dia, sr. Noah. — .Aonde vai com tanta pressa? — Avisar o capitão que Ross Booker foi levado a bordo do Sargus. — Como assim? — Quando avistamos o outro navio, o capitão perguntou se eles poderiam levá-lo. Eles sinalizaram que poderiam e agora ele está a caminho da Inglaterra. O capitão ainda não sabe, pois está na cabine com dor de cabeça. — Cam parou e o examinou. — O senhor não parece tão mal quanto ele, se não se importa que eu diga. Percebendo que a dor de cabeça sumira, Noah sorriu. 92


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— Só não conte isso a ele. Cam sorriu e já se afastava quando Noah o chamou: — Quando tiver dado a mensagem, pode levar o desjejum de Gideon e Jessa, por favor? — E quanto ao senhor? — Vou comer alguma coisa com a tripulação. Ao dar as costas, percebeu que sentiria falta do garoto ao término da viagem. Se estivesse levando Jessa e Gideon para a Filadélfia, poderia levá-lo junto. Refreou o pensamento assim que este se formou. No que estava pensando? Jessa e Gideon na Filadélfia? Que absurdo! No convés, seguiu direto para a amurada onde encontrou diversos marujos atendendo ao chamado da natureza. Ignorou as zombadas de que ele estava t ímido de fazer tal coisa diante da esposa. Deixou que eles caçoassem, pois falavam com ele e não com Jessa. Nada, pensou ele, interferiria em seu bom humor naquela manhã. Segundos mais tarde, enquanto ajustava as roupas, notou manchas de sangue no membro, e soube que estava errado. Atordoado pela descoberta, fechou as calças e caminhou pelo convés, sentando-se num monte de cordas ao lado do mastro da popa. Fixou o olhar adiante, mas só enxergava o rosto de Jessa, tentando entender o que acontecera. Já não acreditava que o sangue fosse do fluxo mensal. Era improvável que ela tivesse menstruado exatamente enquanto a penetrava. E ela teria percebido, não? Teria se prevenido. Tinham vivido juntos por tempo suficiente para saber que ela era zelosa em seus cuidados pessoais. Contando os dias para trás, chegou à conclusão de que não era hora ainda de o fluxo acontecer novamente. Passou a mão pela testa massageando a dor que voltara com força total. O sol tinha desaparecido atrás de uma nuvem, combinando com seu estado de espírito. Então ela mentiu. Por quê? Por que não admitiu que ele a machucara... A menos que... A menos que essa também não fosse a explicação. Mas então... Não, a ideia era absurda! Massageou a têmpora como se assim apagasse seu último pensamento. Mas não conseguiu, e Noah se viu discutindo os dois lados da questão. Ela era virgem. Não, seu tolo, ela foi casada. Ela disse que foi casada. Mas tem um filho. Ela diz que Gideon é filho dela. Claro que é. Consegue ver o amor que ela sente pelo menino: Não há como negar que ela o ama, mas será ele seu filho? Sim. Sim. Gideon é de Jessa. Então ela não era virgem. — Droga, ela era virgem! Aturdido por ter falado em voz alta em meio aos marujos, cerrou os dentes e continuou a pensar. Lembrou da insistência dela para que o casamento fosse de conveniência, o fato 93


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de não querer consumá-lo. Maldita, ela não estava em luto por causa do marido, estava somente se protegendo! Por que cedeu ontem à noite, então? Porque ele estava tão embriagado que nunca perceberia a verdade. Era isso. Lembrou-se do olhar pasmo diante de sua ereção. Lembrou-se da resistência, de como ela era apertada e como escondera isso, se mostrando afoita. Pela manhã, justificara-se dizendo que estava ansiosa. Em retrospecto, Noah entendeu que era desespero e não ansiedade que a motivara. Se não fosse pelo sangue e pela mentira rapidamente construída, ele jamais saberia ã verdade. Não que compreendesse tudo. Todavia as mentiras e a verdade convergiam num ponto: Gideon. Quem era ele? Pergunte para Jessa. Eu até poderia, mas ela mentiria. Não confia em mim. Ainda não. Isso pode mudar. Ela não sabe falar a verdade. Prefere ter segredos. Terá de ganhar a confiança dela. E por quê? Quero estrangulá-la. Escolhas, escolhas... Zombava sua voz interior. Começando a temer por sua sanidade, Noah parou o diálogo interior. Poderia voltar à cabina e confrontá-la. Mas de que serviria? Tudo o que ela fizera, todas as mentiras serviram a um propósito: manter Gideon ao seu lado. Por quê? Quem era aquela criança? Parecia claro que não era seu parente. Caso fosse, ela poderia ter dito logo no início que era tia, ou prima do bebê, no entanto, mantivera a farsa da viúva mesmo depois de ele ter descoberto sobre o assalto. Era muito importante, de algum modo, ela passar-se por mãe do menino. Diabos! E se aquela história do manicômio tivesse um fundo de verdade? Seria ela louca? Seqüestrara Gideon acreditando que ele fosse seu filho de verdade? Alguma coisa a respeito da noite anterior o incomodava, mas ele não sabia o quê. Tampouco acreditava que ela fosse de fato louca. O que quer que estivesse aprontando, só podia ser para proteger o menino. Por que Gideon precisava de proteção? Noah deu-se conta de que tinha mais perguntas do que respostas, mas algumas coisas estavam mais claras. Jessa não era louça. Descontando a participação no assalto, também não era uma criminosa. Ela não seria capaz de fazer algum mal de propósito, mas isso não significava que estivesse agindo estritamente dentro da lei. Podia apostar sua reputação de que o que ela aprontava era infinitamente mais sério e potencialmente mais perigoso do que imaginava. Sendo assim, como lavar as mãos? Como se livrar da verdade dolorosa de que fora um acessório em qualquer que fosse o plano dela? Afinal, levara-a consigo. A fim de se proteger e resguardar seu nome e sua carreira, teria de tolerar aquele casamento por mais tempo. Era a única coisa a fazer. O divórcio ou a anulação significavam que ela poderia testemunhar contra ele. Se fosse pega, sem dúvida era vingativa o bastante para ir à forra. Decisão tomada, Noah se afastou do mastro e se levantou. Se ganhar a confiança 94


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de Jessa era o único modo de saber toda a verdade, então era o que faria. Para se garantir, porém, escreveria para Drew, pedindo que ele descobrisse qualquer informação. A resposta levaria meses para chegar, visto que sua carta só seria enviada depois que chegassem à Virgínia. Mesmo assim, se sentiria melhor escrevendo já. Talvez ajudasse a ordenar os pensamentos e decidir como agir. Jessa o usava, confiava na proteção de seu nome, e ele se opunha veementemente a isso. Ele não era nem generoso nem clemente a ponto de não fazê-la sofrer pelo engodo. Ela levara as mentiras para a cama. Chamara-o de Robert de propósito para manter seu segredo e sua virgindade intactos. De todas as coisas que ela havia dito ou feito, aquilo era o que mais doía. Teria de ganhar a confiança dela para saber a verdade, mas que a maldição caísse sobre si se ela fechasse essa nova armadilha sem sofrer um pouco também.

Capítulo VIII

Noah só retornou à cabina quando Cam lhe disse que havia levado o jantar. Antes disso, não teve condições de enfrentar Jessa. Conforme escrevia a carta para Drew, alternava o humor, ora querendo esfolá-la viva, ora simplesmente desejando-a. Ficava mais do que incomodado por se sentir tão atraído mesmo ela o tendo usado desde haviam se conhecido. Atraído era uma pobre descrição para como se sentia. Intrigado, Ávido. Faminto. Durante toda a manhã, essas emoções lutaram com seu orgulho, deixando-o amargo, ressentido e irado. Por fim, conseguiu abafar essa confusão de sentimentos para poder encará-la. A ideia de ficar frente a frente agora que sabia alguns de seus segredos, deixara-o com um curioso tipo de prazer que não estava preparado para se negar. Ficou no corredor esperando que ela abrisse a porta e, quando ela lhe deu passagem, pensou que não era justo que ela estivesse tão bonita. O vestido azul tornava os olhos acinzentados quase safira. Os cabelos luminosos estavam amarrados na base do pescoço, mas uma mecha caía pelas orelhas, emoldurando o lindo rosto. Pousou os olhos sobre os lábios trêmulos que se entreabriram num sorriso de boas-vindas. Que Deus o ajudasse, mas queria beijá-la. E foi o que fez. Aos poucos o leve toque se intensificou e ela acabou se agarrando à sua camisa. Jessa desviou o olhar quando ele a soltou, incomodada pelo olhar minucioso. A expressão dele era reservada, escondendo tudo o que lhe ia pela mente. — O jantar está esfriando — ela disse, relanceando para a mesa. Noah estava zangado, e excitado. E zangado por estar excitado. Não queria desejá-la. Queria usá-la, aproveitar sua companhia, comandar sua confiança e depois exigir o corpo dela como pagamento pela proteção oferecida, mas não queria desejá-la... Ao responder, conseguiu esconder tanto a excitação quanto a raiva da voz. — Num instante. Gostaria de me lavar antes. — Foi até a bacia e jogou um pouco 95


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de água do jarro. — Onde está Gideon? — perguntou, lavando as mãos e o rosto; — Debaixo da mesa. Olhando pelo espelho, ele viu que o menino mordia a perna de uma cadeira. Gideon, por fim, arrancou-lhe um sorriso. — Parece que ele começou o jantar sem nós. — Gideon! — Jessa o pegou nos braços, recriminando-o ao mesmo tempo. — Ele arruinou a mobília, Noah. Eu não fazia idéia de que quatro pequenos dentes pudessem fazer tamanho estrago. Noah forçou um sorriso, pois sabia que isso era o esperado, e puxou a cadeira para ela antes de se sentar. — Duvido de que as marcas sejam todas dele. Não se esqueça de que os filhos de Salem usaram este navio antes. — Levantou a tampa da travessa e gemeu. — Arroz e animal. — O quê? — Arroz e animal — ele repetiu, apontando para a travessa. — É como chamávamos esse tipo de comida durante a guerra. Às vezes tínhamos somente arroz, mas outras, com sorte, dispúnhamos de bocados de carne. — Um sorriso torto surgiu em seus lábios. — Mas como não sabíamos que tipo de carne era, chamávamos de "animal". — Acho que perdi o apetite — disse ela, olhando para os pedacinhos misturados ao arroz. Noah a serviu com uma generosa porção. — Ora, deixe de bobagem! É carne de porco salgada, Jessa. — Tem certeza? — Absoluta. — Está bem, mas você colocou muito em meu prato. — Coma o que puder — ele disse, passando os olhos do rosto para o busto dela. — Estou ciente de que não está desnutrida. Ruborizando, Jessa começou a alimentar o filho enquanto Noah servia o vinho. Gideon mantinha um monólogo incompreensível enquanto ela conseguia vez ou outra enfiar uma colherada na boca dele. — Sabe — Noah começou como que casualmente —, percebi que ele não se parece com você. Puxou ao pai? Jessa quase deixou a colher cair, e Gideon reclamou quando ela o acertou no queixo. Limpando-o, ela procurou se recompor. De onde vinha aquela pergunta? — É... ele é parecido com o pai — respondeu, pensando em Kenyon Penberthy. — Cabelos escuros e olhos azuis. — Quantos anos ele tinha quando morreu? — Noah perguntou sem qualquer inflexão na voz. — Vinte e sete. — Jessa continuou a alimentar o menino, tentando encontrar um modo, de desviar o rumo da conversa. Percebeu que Noah mesmo lhe dera a abertura. — E você, quantos anos tem? — Estranho como sabemos tão pouco um do outro, não? — Ele deu uma leve risada. — Trinta e três... não, trinta e quatro. Meu aniversário foi há pouco tempo. 96


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— Quando? — Depois que iniciamos a viagem. Dezesseis de abril. — E você não disse nada! Ele deu de ombros. Antes de saber o segredo de Jessa, tal interesse o teria lisonjeado, mas agora sabia que era só mais uma manobra de evasão. — Incomoda-se que eu seja muito mais velho que seu falecido marido? — Nunca pensei nisso. Mas também não sou tão jovem. Completo vinte e dois anos em agosto. — Tão velha... — ele brincou e apontou para o prato dela. — Coma, Jessa. — Empurrou o prato vazio e pegou Gideon no colo sem cerimônia. — Deixe que eu termino de alimentá-lo. Embora fingisse se concentrar na comida, Jessa viu como Noah se comportava com Gideon. Era extremamente gentil e ficava à vontade com o menino no colo, brincando e adulando, mas sem mimá-lo. Apoiado no braço dele, Gideon mostrava-se contente. — Você gosta dele, não? — De Gideon? É mais do que gostar. — Essa era a verdade, e Noah não se sentia mal em confessar. Não era amargo a ponto de descontar os erros de Jessa na criança. — Você duvidava disso? Jessa balançou a cabeça. — Poucas pessoas se interessariam pelo filho de outro homem. Filho de quem, exatamente?, Noah refreou a pergunta com grande dificuldade. Devagar, aconselhou-se. — Eu não a teria trazido se não quisesse ajudar Gideon — disse com seriedade. — Desculpe, não quis... Noah desconsiderou o pedido de desculpas com um gesto. — É evidente que você o ama acima de tudo e de todos. — Sim, eu o amo. — Mais do que todos? Perguntou-se se isso ainda era verdade. Teria de ser. A alternativa não merecia contemplação. Com os dedos trêmulos e o olhar distante, sorveu um gole de vinho. — Jessa? — Noah cobriu o topo do cálice e o empurrou para a mesa. — Há algo errado? — O quê? — Ela percebeu, então, que tinha ficado com o copo na mão, sem beber. — Não, não. Eu só estava pensando. Noah quase gemeu quando a ponta da língua dela umedeceu os lábios. Desejou saborear o vinho que estava naqueles lábios e, em seu íntimo, maldisse a situação injusta. Não era certo que ela o confundisse tanto com um simples gesto inconsciente. Inconsciente? Jessa devia calcular tudo como o mais perfeito mercador de Londres! — Algo que queira partilhar? — perguntou, amaldiçoando a rouquidão da voz. — Não, nada. Gideon começou a se contorcer no colo dele, então Noah o colocou no chão. O menino engatinhou até a mesinha entre as poltronas, levantou os braços, se apoiou e se 97


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levantou. — Desde quando ele faz isso? — Noah perguntou ao vê-lo ficar de pé um instante, depois cair de bumbum no chão. Destemido, o menino repetiu a ação. Ela se virou para ver o que ele fazia. — Começou hoje. Olhe só, ele não sabe como se abaixar e fica de pé até as perninhas não agüentarem mais. Eu o ajudei uma vez, mas ele reclamou, então decidi deixá-lo resolver o assunto sozinho. Foi só o que ele fez hoje, levantou e caiu dezenas de vezes. — O sorriso arrefeceu e ela ficou mais pensativa. — Não há nada mais corajoso do que uma criança... Noah desviou o olhar de Gideon para o perfil delicado dela. — Você não é corajosa? — Eu?... —Ela se levantou e começou a arrumar os pratos e travessas. — Apanhei tantas vezes que descobri que às vezes é melhor não se levantar. Ela não podia estar falando sério... — Você me surpreende. — Por quê? — O modo como falou ontem depois do ocorrido com Booker... Não foi a declaração de uma mulher covarde. — Ah, isso? Eu só estava brava. — E fugiu dos Grantham — insistiu ele como se acreditasse naquela história. — Foi preciso coragem. — Eu estava assustada, não foi coragem. Por quê? Quem a atemorizou? — Participou de um assalto — ele a lembrou. — Sabia que seria perigoso. Isso requer coragem. — Foi só fruto do desespero e nada mais. — Ela riu. — Pare de procurar qualidades onde não existem, Noah. Ela devia estar desempenhando o papel de viúva desamparada. Fisicamente Jessa podia ser frágil e delicada, mas, no que se referia a Gideon, não se curvava diante de nada. Tinha uma espinha de aço e não recuava, não se importando quem comprometesse. Se não fosse a vítima, Noah seria capaz de admirá-la. Do jeito que as coisas se apresentavam, porém, queria vingança. — Ma... Ma... Ma... — Gideon interrompeu os pensamentos de Noah. De algum modo ele conseguira subir na mesa. — Ele quer você. — Noah se apressou em resgatá-lo. — Não, ele só queria descer. — Jessa pegou-o nos braços e colocou-o no chão de novo. Parou um minuto para observá-lo engatinhar, depois voltou a arrumar a mesa. — Deixe isso de lado. Quero falar com você. — Noah correu a mão pelo braço dela de modo casual e depois a segurou pelo pulso. Vendo que a perturbava, puxou-a para o colo ao se sentar na poltrona. — Eu queria ter lhe contado antes: Booker foi transferido para outro navio hoje cedo. Não precisa mais se preocupar. Era difícil racionar quando ele a tocava daquele modo. Jessa tentou se afastar, mas se viu presa nos braços dele, Ele a prendia, mas de modo carinhoso. — O que acontecerá com ele agora? 98


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— Será solto no porto em Londres. — Não acredita que eu tenha flertado com ele, acredita? — Não, mas também não acredito que tenha sido a primeira vez que algo assim acontece com você. — Sentindo-a retesar, viu que estava certo. — Foi? — Não foi nada importante — ela respondeu, sem, no entanto, olhar para ele. Pelo ponto de vista de Noah, ela só estava resguardando seus segredos. Jessa teria de ceder e ele achou bom começar por ali. — Acho que é. Não consegue confiar em mim, Jessa? — Prendeu o fôlego, perguntando-se se podia acreditar no que ela lhe contasse. — Isso não é justo. Confiei tudo a você. A vida de Gideon. A minha. Noah não disse nada, apenas continuou a fitá-la. — Sim, já aconteceu antes — ela confessou, resignada a contar meias verdades. — Há quanto tempo? — Depois da morte de Robert. Noah quase a chacoalhou. Por Deus, não havia marido algum! Pelo menos não um que a tivesse deflorado. Foi difícil, mas engoliu em seco. Não conseguia imaginar alguém se casando com ela sem desejar partilhar intimidades. Afinal, tinha experiência própria para se basear. Portanto, as identidades de Gideon e a de Jessa permaneciam incógnitas. — Quem foi? — Lorde Penberthy, O homem da carruagem em Londres. Lembra-se? — Muito bem: — Noah nunca duvidara de que o pânico dela naquele dia tivesse sido verdadeiro. Se os Grantham não eram uma ameaça, os Penberthy eram. Tentou se lembrar do que ela lhe contara sobre o casal. Era difícil discernir a verdade da mentira. — Disse que ele era casado. — Ele é, mas acho que não se preocupou com os votos matrimoniais ao me encurralar. — Onde aconteceu? — No quarto de Gideon. Lorde Penberty foi prestar suas condolências. — Vendo o ceticismo nos olhos dele, ele completou: — Noah, eu não o encorajei, juro! — Sei que não. — Ele hesitou, depois desfez o laço que prendia o cabelo dela. — Ficou ferida? — Não do modo como imagina. Ele não... Sabe, ele não... — A violou — Noah terminou por ela. Sabia melhor do que ninguém que Penberthy não fizera nada daquilo. — Como o deteve? — Gideon acordou com um barulho e chorou. Lorde Penberthy levantou a cabe ça e eu o unhei. — Ele a beijava. — Noah apertou os dedos nos cabelos volumosos. — Algo assim... — Ela o enlaçou pelo pescoço, onde sentiu a pulsação rápida. — Quero dizer... o beijo dele não foi como o seu. Noah prendeu à respiração. Jessa era uma feiticeira. Mas desde que soubesse o que ela era, que mal havia aproveitar? Talvez ela não tivesse se insinuado para lorde 99


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Penberthy, mas por certo era o que fazia no momento. Jessa continuou a falar, percebendo o que acabara de dizer: — Ele não acreditou que eu não estivesse interessada antes disso, mas minhas unhas o convenceram. Noah soltou-lhe os cabelos e pegou a mão dela. As unhas eram curtas. Mas também, depois de meses no chalé de Mary e no navio lavando roupa com água do mar, elas deviam ter enfraquecido. Apele estava áspera, contudo teve de admitir que as mãos ainda eram delicadas, bem esculpidas, capazes de prover grande prazer. Suspendeu-a e beijou dedo a dedo. Jessa sentiu o coração disparar. Quando Noah a soltou, achou natural abraçá-lo pelo pescoço e erguer o rosto para beijá-lo. Sentiu o desejo se espalhar ao perceber a reação dele. Ele a abraçava e acariciava nas costas e cabelos. De repente, ela se afastou. Mesmo através do vestido, sentia a ereção dele. Não seria justo continuar com aquilo. — Desculpe. Eu não deveria ter feito isso. Nós não podemos... — Não me esqueci. — Ele estava preparado para que ela usasse o fluxo mensal como desculpa para não seguir adiante, mas resolveu que lhe daria algo para pensar. Trazendo-a para perto, beijou-a com sofreguidão. Uma... Duas... Três vezes. Quando viu que ela se entregava por completo, soltou-a e suspendeu-a. Jessa tinha as pernas mais bambas do que Gideon. — Acho que está na hora de eu levar Gideon para a cama — disse rouca. Ao voltar uma hora mais tarde, Noah já estava deitado. Só a lamparina perto do lavatório estava acesa. Foi para lá e começou a se preparar. Se ao menos Gideon tivesse dormido mais rápido... Queria ficar com Noah. Em seus momentos mais fantasiosos, imaginava poder ter uma vida ao lado dele. Escovou os cabelos e, como de costume naquele período do mês, foi se trocar no outro cômodo. Ficou satisfeita por ter se precavido, pois assim que se deitou, Noah a abraçou pelas costas e se encostou. Ele teria notado se ela não estivesse usando nada debaixo da camisola. Segurando-a pelo quadril, ele emitiu um gemido baixinho. — Você sempre finge estar dormindo? — ela perguntou, olhando por sobre o ombro. — Gosto de observá-la quando acredita que não estou. Jessa não sabia se gostava disso. — Por quê? — Porque você é linda de se olhar. — Havia mais verdade naquilo do que ele queria admitir. — Ninguém nunca lhe disse isso? Sem pensar, ela balançou a cabeça em negativa. — Nem Robert? Ela desejou não se esquecer que deveria ter sido casada antes. — Robert não era muito... expressivo. Noah se divertia com a capacidade que ela tinha em mentir. — Quanto tempo ficou casada, Jessa? — Quase dois anos. 100


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— Foi feliz? — S-sim. — Você o amava? — Por que temos de falar sobre Robert? Não vê que isso me perturba? Foi há tanto tempo... Quero deixar isso para trás. Não consegue fazer o mesmo? — Só acho estranho que mal mencione seu marido — ele disse com casualidade, querendo provocá-la. Jessa percebeu que não poderia ficar na defensiva. — Por quê? Afinal, o que representamos um para o outro? Sou só a mulher que você quer na cama porque Hilary não está aqui. Pode enfeitar a coisa e dizer que sou sua esposa... — Você é minha esposa — rebateu ele. Como ela ousava trazer Hilary à tona? A voz da consciência, que não tinha sido totalmente sufocada, dizia que a raiva que sentia não era só provocada pelas palavras de Jessa. A raiva vinha da culpa, pois não pensara em Hilary mais do que um punhado de vezes nos últimos meses. Por algum motivo, era Jessa quem ocupava seus pensamentos. — Nós dois sabemos que este é um arranjo temporário — ela prosseguiu. — Honestamente, eu não quero que seja diferente! Estava tão furiosa com Noah que acreditava no que acabara de dizer. Era como se suas fantasias nunca tivessem existido. Noah também se convenceu de que ela dizia a verdade e, com um prazer perverso, disse: — Que pena, mudei de idéia. — O quê? — Você ouviu bem. Mudei de idéia. Os eventos de ontem me convenceram de que o nosso casamento peculiar pode funcionar. — Sentiu-a se retesava. Não se importava que ela imaginasse que o casamento perduraria baseado em interesse físico. De certo modo, ela não estava longe do alvo. — Você me enoja! — Ela se contorceu, tentando se soltar. — Solte-me. — Quando eu estiver pronto. — Noah fez uma pausa. — Jessa, isso vale para agora e para o futuro. — Quero a anulação. — Não. — O divórcio, então. — Quando eu quiser. — E quanto à sua família? O que eles vão pensar? — É lamentável que eu tenha de ir até lá antes de seguir para a Filadélfia, mas não há por que eles não saberem da verdade, ou parte dela. — E quanto a, Hilary? — Jessa perguntou, desesperada. — Como pode fazer isso com ela? O que vai dizer? — O que eu decidir dizer a ela é preocupação minha, não sua. — Hilary o apoiaria 101


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porque se importava com sua carreira política e saberia esperar até que ele eliminasse a ameaça que Jessa representava. — Ela vai me esperar — concluiu, presunçoso. — Seu porco arrogante! Sinto pena dela. Fico pensando o que ela vai dizer quando souber que você veio atrás de minha saias. — Jessa não tinha como saber que estava bem perto do alvo e com isso enfurecia Noah. — Maldita! — Empurrou-a de costas no colchão e prendeu-a pelos pulsos. — Você mesma admitiu que não a forcei a nada ontem! Levantou as saias como qualquer meretriz de Londres! Jessa sentiu o ataque verbal como se fosse físico. — Pode ter certeza de que não vai voltar a acontecer! — Mordeu os lábios para não contar tudo. O que ele faria caso soubesse a verdade a respeito de Gideon? A resposta veio rápido e selou seus lábios: ele a deixaria no meio do Atlântico por torná-lo cúmplice no seqüestro do menino. Noah a soltou, esquecendo-se de que planejara ser galante para conquistar-lhe a confiança e descobrir todos os seus segredos. Amaldiçoando a ela, a si mesmo, esmurrou o travesseiro. No momento só queria lembrá-la quem dava as cartas. — Quanto tempo seu ciclo dura? — perguntou, usando as mentiras dela como uma arma. A antecipação seria uma agonia para ela. Uma vida inteira, era o que ela desejava responder. — Quatro dias. — Então tem quatro dias para se acostumar com a idéia de que no quinto eu a tocarei novamente. — Vou furar seus olhos! — Não me confunda com Edward Penberthy. Jessa tremia de raiva. — Eu o desprezo! O riso de Noah era desprovido de humor. — Deveria ter considerado que terminaríamos assim quando se casou comigo. — Já disse que me casei por pensar que você estava morrendo. — Lamento não ter feito sua vontade — ele praticamente rosnou. — Bastardo! Percebendo que haviam chegado ao ponto de impropérios, Noah conteve a raiva. — Vá dormir, Jessa. — Exausto, virou para o outro lado. Todavia teve dificuldades para seguir o próprio conselho. Ainda estava acordado quando, por fim, Jessa adormeceu depois de tanto chorar. Naquele instante, ele teve a certeza de que a vingança era uma faca de dois gumes. Noah quase não parava mais na cabina. Levantava-se cedo e ficava fora o dia todo. Caso viesse para jantar era para ralhar do pouco que Jessa comia. À noite fingia ler, enquanto ela fingia costurar. Ele nunca lia mais do que algumas páginas, e ela refazia os mesmos pontos todas as noites, nunca satisfeita com o trabalho realizado. Os círculos escuros sob os olhos dele eram prova das noites mal dormidas e eram cópias das marcas sob os olhos de Jessa, um testemunho das noites que ela passara olhando pela vigia enquanto ele se remexia na cama. Quase não discutiam. As palavras cruéis e as acusações estavam lá, nas pausas e 102


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nas raras trocas educadas de palavras. Noah estava mais magro e a pele adquirira um tom pálido. A boca permanecia numa linha tesa, enquanto o maxilar pulsava quase que constantemente, o único sinal visível de que mantinha a raiva em rédea curta. Na presença de Noah, a expressão de Jessa era neutra. Ela não sorria. Os olhos continuavam velados, vagos, quase como espelhos que refletiam o olhar penetrante dele, resguardando sua alma. Embora seu humor combinasse mais com cores sóbrias, ela continuou a usar os novos vestidos. A ironia do contraste a divertia porque irritava Noah a ponto de ele manter os dentes cerrados. O pequeno Gideon, por sua vez, parecia alheio à tensão entre eles. Isso se devia à atenção individual recebida. Por estarem sempre se evitando, o menino era o centro da atenção e, ao fim do quinto dia, estava completamente mimado. Com os nervos à flor da pele, Jessa voltou para o cômodo principal depois de colocá-lo no berço e começou a preparar a cama perto da janela. Conseguiu estender a coberta antes que Noah recobrasse a voz. — Que diabos está fazendo? — Ele estava sentado na cama, apoiado no travesseiro. Jessa se virou, segurando o travesseiro como um escudo. A voz era calma, mas os olhos se fixaram num ponto acima do ombro dele. — Pretendo dormir aqui. — Está deliberadamente tentando me provocar? — Não. — Então vai dormir aqui, como nas últimas semanas. — Não. — Acho que não ouvi direito. — Como se fosse possível, a boca tornou-se ainda mais séria. — Eu disse que não vou dormir nessa cama, não enquanto você estiver nela. Deixou muito claro o que espera desta noite. Estou lhe dizendo agora: não estou com vontade. — Andou afiando as garras nos últimos dias, Jessa? — ele perguntou, estreitando os olhos. — Sim. — Considero-me avisado. Já me arranhou antes, gatinha, e não me lembro de ter reclamado. A boca de Jessa secou. A lembrança das unhas cravando as costas de Noah era vivida demais e ela Sentiu uma onda de calor. Colocou o travesseiro sobre a coberta e se virou, seguindo até o armário, onde pegou a camisola. Tirou os sapatos e as meias, depois o vestido, consciente de que o menor movimento poderia ser considerado como insinuação. De costas, passou a camisola sobre a cabeça e debaixo dela despiu a combinação. Lavou o rosto e escovou os cabelos. Quando terminou, apagou a última luz e se moveu para perto da janela. A voz dele era baixa e, como a escuridão, levemente intimidante: — Não faça isso, Jessa. Ela parou e olhou por sobre o ombro. — Por favor, Noah, deixe-me em paz. 103


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— Você é minha esposa. — Sou uma conveniência. — Dificilmente — ele tentou brincar. — Não há nada de conveniente no arranjo que está propondo, Ignorando-o, Jessa prosseguiu. Atrás de si, ouviu Noah afastar as cobertas. Fechou os olhos, preparando-se para o ataque. Quando ele demorou a chegar, ela se virou. Porém foi um erro. Noah estava na sua frente e ela se deparou com o peito largo. Olhando para baixo, viu que as ceroulas pendiam no quadril estreito. Mordendo o lábio inferior, ela levantou o rosto. Não havia desafio, nem rebeldia em seus olhos. Nada em sua postura indicava que o desafiava, mas pouco importava. A recusa fora pronunciada dias antes e, a menos que um deles cedesse agora, o conflito seria inevitável. — Não pode me desprezar mais do que já despreza. — Noah chegara à conclusão de que não tinha nada a perder. Sem dar a oportunidade de ela negar, segurou-a pela nuca e pela cintura e a puniu com um beijo. Jessa fechou os lábios até que ele os forçasse com a língua. Mesmo então ela não lutou, simplesmente cerrou os dentes. Ele a pressionava com a boca e dor era algo que ambos sentiam. Jessa o conhecia e sabia que ele não estava aproveitando o beijo. Foi só quando ele a ergueu e carregou para a cama que ela começou a se debater. Inútil, pois Noah conseguiu imobilizá-la com uma única mão, e evitar chutes, subindo em seu quadril. Ele a estudou por um longo tempo. Jessa voltara a se recompor, apesar dos lábios inchados pelos beijos e pela respiração entrecortada. Quando falou, a voz estava rouca: — Não fui eu quem quis este casamento, Jessa, mas de certa forma aceitei-o. É mais do que posso dizer a seu respeito. Nunca se preocupou comigo ou em saber o que eu queria em troca de proteção. Vou lhe dizer agora. Há duas coisas que quero deste casamento: o privilégio de cuidar de Gideon, independentemente da nossa situação e... E o uso do seu corpo. Hoje. Amanhã. Quando eu quiser. — Fez uma ligeira pausa. — Do jeito que eu quiser. Ela não conseguiu ficar feliz por ele querer cuidar de Gideon. Pela primeira vez, o bem-estar do menino não estava em primeiro lugar em seus pensamentos. — Você quer uma prostituta — concluiu sem emoção. — Sim, acho que tem razão. Só quero que seja minha meretriz. A garganta dela se fechou para evitar o choro. — Então faça o que tem de ser feito. Nesse aspecto não sou filha de meu pai. Honro minhas dívidas. Noah saiu de cima dela e se deitou, apoiando a cabeça nas palmas da mão. — E então? Confusa, ela se sentou, massageando os pulsos. — O que você quer? — Prazer, Jessa. As prostitutas cuidam do prazer dos homens sem se importar com o seu. — Maldito! Uma das sobrancelhas de Noah se ergueu numa demonstração de interesse. 104


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— Renegando a dívida tão cedo assim? — Não! — Ela respirou fundo. — O que devo fazer? — Pode começar acendendo uma lamparina e tirando a camisola. Estremecendo de raiva, Jessa saiu da cama e acendeu a lamparina, lançando somente uma luz tênue pelo cômodo. Voltou e ficou de pé perto dele. — A camisola. Quero ver seus seios e não apenas imaginá-los. Jessa desamarrou os laços sobre os ombros e o tecido escorregou até o chão. — Meu Deus, como você é linda — ele sussurrou, lentamente. Ela não notou-a reverência na voz dele, apenas sentiu o olhar em seus seios, passeando pelo corpo em seguida. Precisou se controlar para não se cobrir com as mãos. Sentou-se na beira da cama, dobrando as pernas para o lado, enquanto o cabelo escorregava pelo torso. — Não sei o que espera que eu faça — admitiu. — Nunca desempenhei esse papel. — E eu nunca tive de instruir ninguém. Use a imaginação. E foi o que ela fez, usando as mãos, unhas, boca e língua até que Noah começasse a massagear seus seios. Jessa desprezou seu corpo por reagir ao toque dele e começou a se retrair para um lugar secreto em seu íntimo onde Noah não conseguia alcançá-la. Era como se ele estivesse acariciando o corpo de outra mulher, pois ela não sentia conexão alguma com a pele que ele massageava e excitava. Noah não percebeu seu retraimento. Passou a língua pela orelha dela, pela curva do rosto e buscou a boca. As pernas de Jessa foram afastadas pela insistência de seu joelho. Numa voz profunda e rouca, exigiu que ela lhe desse atenção. — Olhe para mim. Ela obedeceu, fixando o olhar nele sem, contudo, enxergá-lo. Satisfeito com a reação dela, vendo as pupilas dilatadas como indicativo de desejo, Noah se posicionou. A investida a fez se retrair, mas ela sufocou um grito. Noah já se movia ritmadamente quando percebeu que o olhar dela era vago e não excitado. Praguejando baixinho, começou a se afastar, mas Jessa o segurou com as pernas. — Termine logo — disse sem emoção. — Não quero nada de você. — Maldita seja, Jessa! — Havia pausas entre as palavras conforme o controle de Noah se desfazia nas investidas. Mesmo assim, ela ergueu o quadril para encontrar os movimentos dele e passou as mãos pelas costas, mas Noah odiou. O prazer estava ali: o calor se espalhando, chamas desenrolando-se em seu íntimo, mas era superficial. Era da carne, não da alma. Até então ele não sabia que isso era tão importante. Seu corpo estremeceu com a força do clímax e ele escondeu o rosto na curva do pescoço de Jessa. Ela não o empurrou, tampouco o tocou. Os dedos seguravam o lençol e ela fechou os olhos, esperando que ele se movesse. Quando Noah se virou, ela saiu da cama e foi para o lavatório. Sem sequer esconder o que fazia, Jessa se esfregou como depois do ataque de Booker. Sem nem perceber que o insultava pela falta de recato, pela postura orgulhosa, e por cada passada de pano na pele. Ela só se importava em se sentir limpa novamente. 105


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Noah havia requisitado uma meretriz, e Jessa achava que conseguiria desempenhar o papel pelo tempo que ele quisesse. Até admitiu que havia certo poder em incitar respostas do corpo dele sem sentir nada. Mas não era isso o que queria. Olhou-se no espelho, procurando por algum sinal do que havia se tornado. Ficou surpresa em ver que nada mudara. Talvez com o tempo... E depois? Depois que aportassem, seria o fim. Achou estranho o súbito brilho no olhar ao pensar nisso, e piscou antes que as lágrimas destruíssem sua determinação. O quer que Noah lhe fizesse agora não importaria depois que chegassem. Quando fosse possível, ela o deixaria, levando Gideon consigo. Era a única coisa a fazer para torná-lo feliz. Ele parecia não entender o quanto mudara e o quanto a odiava, o quanto abominava desejá-la. Ela não lhe devia o uso de seu corpo, devia-lhe paz de espírito. E deixá-lo seria o modo mais seguro de lhe dar esse presente.

Capítulo IX

— É logo ali depois da curva do rio — Noah disse. O Clarion atravessava as águas claras do rio James passando pelas margens verdejantes. A brisa era fresca, sem o sabor do sal do mar. As fragrâncias perceptíveis por Noah agora eram de pinho, de tabaco, do solo fértil e do suave perfume da mulher diante de si. — Não conseguirá ver a casa a partir do rio, mas já estamos dentro dos limites das propriedades dos McClellan. Em outras circunstâncias, Jessa teria sorrido ante a excitação juvenil de Noah. Mas não naquele dia. Tinha medo, tanto medo a ponto de se recostar nele em busca de apoio. Às mãos largas a afagavam nos braços, e ela se perguntou se ele teria sentido seu medo ou se aquilo fazia parte do plano por ele batizado de "Estratégia para Convencer os Outros quanto à Felicidade Conjugal". Acreditando ser essa a explicação, estremeceu a despeito da tarde ensolarada. Noah inclinou-se e sussurrou perto de seu ouvido: — Não há nada a temer, Jessa. Contanto que siga minha orientação, minha família jamais desconfiará do que representamos um para o outro, Para um observador casual, como os tantos no convés, Noah parecia solícito. O modo como a segurava e sussurrava em seus cabelos, os olhos que a procuravam, tudo fora cuidadosamente calculado para dar a impressão de marido devoto. As palavras carregadas de desgosto, porém, contavam outra história. Jessa olhou para Cam que trazia Gideon numa rede improvisada às costas. O menino se entretinha em puxar-lhe os cabelos em vez de prestar atenção às conversas. — Faço o que você pedir — Jessa disse. O riso de Noah foi curto e, para seus ouvidos sensíveis, desprovido de humor. — Assim como hoje de manhã. 106


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Somente as mãos em seus braços conseguiram mantê-la de pé. As pernas dobraram com a lembrança dolorosa trazida à tona. Quatro dias antes, ela havia se tornado a meretriz particular de Noah e as noites subsequentes tinham sido uma repetição da primeira. Mantendo a mente distante, ela concentrava-se somente no prazer dele, a ponto de conhecer o corpo masculino melhor que o seu. Nunca diziam nada um para o outro. Na escuridão ele esticava a mão e ela cedia seu corpo sem se opor, protegendo a alma ao não pensar no que as mãos e o corpo faziam. Beijava-o profundamente, mas pensava em vestidos. Acariciava-o, planejando um modo de fugir. Recitava poesia, contava até cem de três em três, imaginava-se em qualquer outro lugar, menos na cama dele. Até aquela manhã. Antes do amanhecer, fora despertada pelas carícias de Noah e não houvera como bater em retirada. Ele não permitira. Toda vez que a sentia se afastar, descrevia em detalhes eróticos o que pretendia fazer e como esperava que ela reagisse. Afagando e acariciando, impossibilitara que ela se negasse ao prazer. A boca e a língua a atormentavam, o desejo dele a provocava, inflamando-a por dentro a ponto de não esconder nem dele, nem de si mesma o calor que se espalhava. Tornara-se vulnerável, cedendo a todas as vontades dele, inclusive confessar que o queria. Noah a tomara com uma força que a deixara sem fôlego, mas não tinha sentido dor, somente a necessidade irrefreável de se agarrar a ele e sé mover no mesmo ritmo enlouquece-dor até gritar seu nome. E depois ela havia chorado. Dando-lhe as costas, ela escondera o rosto no braço e libertara toda a angústia e a culpa provocadas por aquela posse. A sensação de poder havia sumido. Em seu lugar, a certeza da total vulnerabilidade e do autodesprezo por essa fragilidade. Depois de terminado, ela não o odiara um décimo do que odiava a si mesma. Respirando fundo, Jessa tentou se afastar da balaustrada, mas Noah bloqueava sua passagem. Segurava-a pela cintura e apoiava o queixo em seus cabelos, movendo-o para frente e para trás com suavidade. — Não está chorando, está? Ela negou com a cabeça, desejando que ele não fingisse preocupação. — Não se preocupe, não o envergonharei. Noah sabia que merecia aquilo, mas ainda assim castigava sua consciência. Não que ela percebesse isso. Jessa devia acreditar que nada do que dissesse ou fizesse pudesse magoá-lo. Ele a humilhara, não uma vez, mas repetidamente nos últimos quatro dias... e noites. Toda noite a procurava, esperando que ela finalmente cedesse e sentisse prazer. Ela se afastara emocionalmente, porém, dando sem receber. Jessa havia se comportado como a prostituta que ele alegara querer, e ele não conseguia confessar que não estava satisfeito com o arranjo. Havia tentado, portanto, transmitir isso de outras maneiras; com as mãos, a boca, todo o corpo. Era como se o corpo dela estivesse insensível ao seu toque. Ela permanecia distante, inalcançável, tornando seu próprio desejo algo insuportável. Algumas vezes desejara se juntar a ela no lavatório, quando ela se livrava dos vestígios de seu toque. Todas as vezes ela o satisfazia além do imaginável, e todas as vezes o deixava na solidão. Uma solidão nunca sentida antes. Durante o dia era um pouco mais fácil. Noah desenvolvera a "Estratégia para Convencer os Outros quanto à Felicidade Conjugal" pára que Jessa se acostumasse ao seu toque. Ela estava distante e seus segredos mais ainda. Quanto mais ele insistia, mais 107


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ela se retraía. Estava claro que outro plano teria de ser colocado em ação, isso se ele conseguisse controlar seu temperamento. Com calma e paciência, explicara a ela que, para que a família a aceitasse, seria necessário convencê-los de que aquele era um casamento fundamentado no amor. Ainda que se mostrasse cética no início, Jesse terminara por aceitar. Noah, mais do que preocupado com a aceitação dela, queria evitar a interferência deles. Era provável que a aceitassem muito melhor do que a Hilary. Porém, mantendo segredo disso, começara a atacar seus sentidos. Havia retomado os passeios pelo convés, segurando-a pelo braço, sussurrando em seu ouvido. Insistira apesar da resistência e, como tempo, ela começara a relaxar em vez de se retesar toda vez que ele "acidentalmente" a tocava. Tinha voltado a ficar mais tempo na cabina, mesmo que, sem se opor, ela parecesse descontente com o arranjo. Encontrara pequenos motivos para se fazer útil: abotoando-lhe o vestido nas costas, caminhando pelo quarto com Gideon no colo quando ele se mostrava inquieto, levando água para a roupa ser lavada mesmo quando Cam estava disponível. E ainda assim, ela não se abrira, mostrando-se desconfiada e atenta, com todo o direito. Afinal, ele lhe dera inúmeros motivos para levantar aquelas barreiras invisíveis. Naquela manhã, porém, acordara e vira que ela ainda dormia, recostada nele, desarmada e exposta. Surpreendera-se ao perceber que ela ainda instilava seu senso de proteção. E algo mais. Com muito cuidado, começara a despertá-la ao mesmo tempo em que procurava excitá-la, coisa impossível de fazer com ela desperta. E ele havia conseguido... e também havia falhado. A reação dela fora além do esperado. Ela revivera em seus braços, retribuindo suas carícias de modo verdadeiro, não deixando dúvida de que o desejava, de que precisava dele. Quando ela se dera conta do que acontecia, completamente desperta, já era tarde para voltar atrás. Lembrou-se das coisas eróticas e maliciosas sussurradas com voz rouca, encorajando-a a retribuir, acariciando-a até que ela confessasse que o queria. Praticamente obrigou-a a isso, não para humilhá-la, mas porque precisava ouvir tal declaração. Compreendeu o quanto isso custou ao orgulho dela no instante em que Jessa se virará e começara a chorar. Se a tristeza dela fosse um pouco menor, talvez ela tivesse notado a tortura em seu olhar, a culpa na tensão do maxilar. — Sei que não vai me envergonhar — respondeu, por fim, ao último comentário dela. Em silêncio concluiu que ele mesmo era capaz de fazer isso. — Alguém estará esperando por nós? — Dificilmente. Quando paramos em Norfolk, resolvi não mandar ninguém adiante para avisar de nossa chegada. Acho melhor você chegar sem que minha família em peso a ataque. Faremos uma surpresa, assim teremos uns cinco ou seis segundos de completo silêncio antes que o caos se instaure. Como já disse antes, depois que os conhecer, você vai agradecer esses raros segundos se quietude. Jessa não acreditava nele. Embora a vida de Noah tivesse virado de cabeça para baixo desde que os vira pela última vez, ele tinha saudades. — Foi gentileza sua pensar em mim. Afinal, poderia estar me apresentando como sua meretriz. Atrás dela, Noah fez uma careta de desgosto. Jessa sabia desferir golpes certeiros naquela voz calma e melodiosa. — Jessa — começou, numa última tentativa de equilibrar as coisas entre ambos 108


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antes do fim da viagem. — Sei que fiz... — Olhe, sra. McClellan! — o grito exultante de Cam o interrompeu. — Chegamos! Veja a doca! E lá está a srta. Courtney! — Começou a acenar freneticamente para chamar a atenção da garota. — Cuidado, Cam. Ainda está com Gideon nas costas. — Noah suprimiu o riso ao ver que o garoto praticamente dançava no convés. O rapaz enrubesceu e olhou suplicante para Jessa. — Pode pegá-lo agora, sra. McClellan? Quero dizer... A srta. Courtney vai rir de mim se me vir assim. — Claro! — ela respondeu, pegando o filho no colo e corou quando Noah a abraçou novamente. A menina se esforçava na doca para ver quem estava no navio e, no momento que começou a pular e gritar, ficou claro que tinha reconhecido os passageiros. De soslaio, Jessa viu que Cam não desviava os olhos da sobrinha de Noah e suspirou. Noah ouviu e entendeu o motivo. — Acho que você foi substituída na afeição dele. — Nunca o encorajei. — O fato de você ter negado tão rápido me faz pensar... — Não, Noah. Por favor, não comece. Eu não posso... Sentindo o desespero dela, ele resvalou os lábios em sua têmpora porque pareceu o mais natural a fazer. Por um segundo foi como se a animosidade entre eles tivesse desaparecido. Contudo, o sorriso forçado dela para a tripulação o lembrou do contrário. O Clarion apoiou a prancha de desembarque na doca quinze minutos mais tarde, e Noah a acompanhou pela passagem estreita. Courtney falava animadamente com Cam, ainda no convés. Assim que ele colocou os pés na doca, ela correu na sua direção. — Devagar! Vai acabar me derrubando na água! — ele exclamou com a sobrinha nos braços. — Senti tanto a sua falta! Como estava Londres? E a viagem? Passou muito mal? Sentiu saudades de mim? — Ela parou para respirar e notou Jessa e Gideon pela primeira Tez. — Quem são eles? Noah a recolocou no chão e bateu no nariz dela com a ponta do dedo. — Tudo a seu tempo, mocinha. Courtney mordeu o lábio, desapontada, mas em seguida se aproximou de Jessa. — Olá, sou Courtney McClellan. O bebê é menino ou menina? — Menino. Seu nome é Gideon. — Ele respondeu e sorriu. — Acho que isso quer dizer que ele ficou feliz em conhecê-la. — Todos os bebês gostam de mim. — A menina sorriu. — É uma maldição. — Pirralha... — Noah aproximou-se delas. — Por que não nos conduz e nos conta tudo a respeito de sua irmãzinha? Ou seria irmãozinho? — Irmão — Courtney disse, amuada, e começou a caminhar depois de se despedir de Cam. — O nome dele é Christian, ele é rechonchudo e quando chora fica todo enrugado e vermelho. 109


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— Foi assim que eu descrevi você — Noah disse, com os olhos cintilando. — Tio Noah! Que coisa horrível de se dizer! — Ela se virou para Jessa. — Ele adora provocar... Seus cabelos são lindos, Eu adoraria que os meus fossem assim. — Cuidado, Court — Noah a interrompeu. — Por que não anda olhando para a frente? A garota se virou e se deparou com uma árvore. — Onde estão seus sapatos? — Na varanda. Isso se Tildy já não os encontrou. — Tildy é nossa cozinheira — Noah explicou a Jessa. — E quando encontra coisas fora do lugar, pega e nunca mais devolve. Ela ainda deve ter o meu melhor estilingue. — Mesmo? — Jessa perguntou, rindo. — Juro! Ela sentiu o coração saltar e riu porque a expressão no rosto dele pedia tal reação. Diversas vezes nos últimos dias lembrara-se de como ele a cativara com a fala mansa e a afabilidade com que conversaram na carruagem. Com o tempo seria capaz de confiar naquele homem. Hoje, porém, tomava cuidado para não devanear com tais pensamentos, preferindo se lembrar das vezes em que ele se mostrara menos cordial. Obrigando-se a se lembrar de uma dessas vezes, comentou secamente: — Então tomarei cuidado. Noah estranhou a mudança no tom dela, mas preferiu se concentrar na sobrinha. — Por que você estava pescando sozinha, Court? Onde estão todos? — Jantando. — E por que não está com eles? — Porque não gosto de carne de veado e disse isso à mesa. Papai me considerou rude e disse que eu deveria providenciar meu próprio jantar. — Respirou fundo. — Era por isso que eu estava pescando, mas os peixes não estão mordendo hoje. — Espero que goste de veado — disse ele, relanceando para Jessa que sorria para a menina. — Eu não ousaria reclamar, mesmo que me servissem arroz e animais — ela comentou em tom de brincadeira. Noah inclinou a cabeça para trás ao dar uma sonora risada. — Jessa, você é incrível! Os olhos acinzentados se iluminaram com o elogio. Nos calcanhares da alegria, no entanto, veio a desconfiança. — Deixe-me segurar Gideon — Noah ofereceu-se ao chegarem ao gramado. — Eu o levo no restante do caminho. A casa fica depois desta subida. — Está bem — ela concordou depois de um segundo. Sentia-se mais segura com o filho nos braços. — Se não quiser... — Não — disse rápido, vendo que ele ficara magoado com a hesitação. Por pior que a tratasse, Noah sempre fora muito carinhoso com o menino. — Meus braços estão doendo, eu ficaria muito grata. 110


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Num lampejo, Noah entendeu por que ela hesitara. Segurou o menino e pousou a mão livre nas costas dela. — Não há por que temer desde que sigamos meu plano. Jessa ficou surpresa ao ver a enorme casa de tijolos aparentes. Não criara expectativas quanto à casa da família dele, pois não lhe dizia respeito, por mais que o desejasse. A residência era impressionante, mas não imponente. Quatro colunas brancas sustentavam o pórtico, e o telhado branco refletia a luz do sol. Acostumada às pedras cinzentas das casas da Inglaterra, considerou os tijolos vermelhos quentes e acolhedores. Quatro chaminés expeliam fumaça, rivalizando com os carvalhos altos que tentavam alcançar o céu límpido. Do lado leste duas varandas se abriam para o jardim bem cuidado. — Não fique tão encantada — disse ele um pouco distante. — Não vamos nos demorar aqui. Um pouco da alegria dela arrefeceu; não tinha a intenção de parecer tão óbvia. — Sim, eu sei. — Vamos nos apressar antes que Court acabe com a surpresa — ele insistiu ao ver a menina se adiantar. — Jessa, andei pensando bastante. É muito importante para mim que eles acreditem que somos felizes. — Já falamos sobre isso, mas acho que é injusto com eles. Seria melhor se você me mandasse embora de uma vez. — Quando eu estiver pronto — replicou ele, sustentando seu olhar. Noah e Jessa alcançaram Court na entrada, calçando os sapatos. Ela liderou o caminho, entrando na casa com o dedo nos lábios, pedindo silêncio, e um olhar travesso. Abriu as portas duplas da sala de jantar o bastante apenas para passar a cabe ça e esperou que a notassem com uma expressão penitente. Ashley McClellan a viu de imediato e cutucou o marido com o cotovelo. Salem ergueu o olhar e refreou um sorriso, dirigindo-se a ela com pouco-caso. — Está pronta para se juntar a nós, Court? — Sim, papai — ela respondeu, solene, — Pesquei meu jantar. — Um peixe grande? — Enorme! — Espero que o tenha entregado a Tildy, pois sua avó não há de querer vê-lo aqui. Court percorreu a sala com o olhar, contente por ter a atenção de todos. — O problema é que não sei que peixe é. Não sei se posso comê-lo. — Atrás dela, Noah sorria. — Pensei que poderiam me ajudar... — Muito bem. — Suspirou Charity, a avó. — Mas fique com ele ai na soleira. Só quero que ele entre numa travessa... Sorrindo, ela abriu as portas e deu um passo para o lado. Noah colocou a mão na parte baixa das costas de Jessa e deu um passo à frente. Sorrindo travesso, contou os segundos até que eles se manifestassem e parou no cinco. — Tio Noah! — Trenton exclamou, pulando da cadeira. Em seguida todas as crianças o imitaram, e Noah se viu circundado pelos sobrinhos, 111


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— Courtney — Salem a chamou, sério. — Definitivamente esse peixe não é comestível. Jerico se levantou e pegou as filhas, levando-as de volta para a mesa. — Sugiro devolvê-lo para o rio. — Viu o que tenho de suportar? — Noah perguntou a Jessa. Levantando-se e incitando os sobrinhos a se juntarem aos pais, disse com orgulho: — Eis a minha família. E por mais que queiram me jogar no rio, não vão fazê-lo até satisfazer a curiosidade. Jessa sorriu timidamente, suportando os olhares-curiosos. — Prazer em conhecê-los. A incerteza na voz dela provocou o riso geral. — Não sei como pode dizer isso — murmurou Ashley. — Lembro-me muito bem da sensação de conhecer todos os McClellan assim que aportei. — Virou-se para o cunhado. — Pode deixá-la mais à vontade, por favor? — Muito bem. — Noah saiu do lado de Jessa e caminhou até a mesa. — Esta é minha mãe, Charity McClellan. — Inclinou-se e beijou-a no rosto. Em seguida apresentou a todos: os sobrinhos, Ashley e Salem, o pai e Jerico, explicando que Gareth, Darlene, Leah e Troy estavam ausentes. — Eu sabia que você ia aprontar, Noah! — Uma ruiva exclamou, pondo-se de pé e abraçando-o com o mesmo entusiasmo das crianças. Rindo e retribuindo o abraço, depois de colocá-la no chão novamente, Noah explicou: — Esta é minha irmã Rahab, mas todos a chamamos de Rae. Menos Jerico que a chama de Red, por motivos óbvios. — Já chega! — Rae bateu o pé e cutucou o irmão nas costelas. — Fomos muito pacientes, mas deixe de ser mal-educado. — Puxou uma cadeira e a ofereceu a Jessa. — Sente-se, por favor. Não deve ser muito confortável ficar aí parada enquanto Noah cumprimenta a todos. Agradecida, Jessa se sentou. — Imagino que estejam surpresos por Noah ter trazido uma hóspede. Dois, na verdade. — Virou Gideon, que Noah lhe devolvera pouco antes, para que todos o vissem. — Conte logo — Salem foi falando para o irmão. — Espero ouvir o que quero ouvir... Noah se colocou atrás de Jessa e pousou as mãos em seus ombros. — Esta é Jessa... McClellan. Minha esposa. E o filho dela, nosso filho, Gideon. Houve um breve silêncio antes que todos começassem a falar ao mesmo tempo, parabenizando-os com alegria. Jessa ficou mais do que surpresa com a aceitação sem reservas. Ela não sabia, assim como Noah, que isso se devia em parte pelo alívio por ele não ter desposado Hilary. — Será que ele vem comigo? — Charity estendeu os braços, querendo segurar 112


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Gideon. — Acredito que sim. Gideon foi para os braços da nova avó sem reclamar. — Oh, ele é tão lindo... Adoro bebês. Ashley chamou a filha, parada perto da porta e pediu que ela levasse os irmãos e primos para brincar. Salem liberou-a do castigo, permitindo que a cozinheira preparasse algo para ela em seguida. Rae voltou para seu lugar e ergueu a taça. — Acho que devemos brindar os novos membros da família. A saúde de Jessa e Gideon McClellan! Bem-vindos! — Bem-vindos! — todos repetiram. Por baixo da mesa, Noah segurou a mão dela e apertou-lhe os dedos num aviso. Viu que ela estranhara o modo caloroso com que fora recebida, e a sinceridade das boasvindas o incomodavam. Por que gostavam tanto dela quando mal suportavam Hilary? Seria ele o único a enxergar Jessa pelo que ela era? Mas por ser necessário agir assim, deixou tais pensamentos de lado e levou a mão de Jessa aos lábios. — Eles estão sendo sinceros, Jessa. Bem-vinda. — Obrigada. — Ela fitou o olhar dele, não havia como confundir o aviso nos olhos esverdeados. — Obrigada a todos. Não esperava que fossem tão gentis. — Arfou e corou ao perceber o que disse. — Quero dizer, eu sabia que seriam gentis, mas não que fossem tão acolhedores. Sei a respeito de Hilary e deve ser um choque para vocês que Noah tenha se casado comigo estando noivo dela. — Nada disso — replicou Salem. — Sua presença indica que finalmente meu irmão recobrou o juízo. Estou falando em nome de todos... — Menos no meu. — Noah fitou sério o irmão. — Prefiro não discutir Hilary. Salem deu de ombros, se virou para Jessa, e a observou atentamente. — Como conheceu meu irmão? — Viajávamos na mesma carruagem a caminho de Londres. — Sorveu um gole de vinho, rezando para que Noah interviesse. — Viajou de carruagem! — Rae exclamou. — Pensei que enjoasse como no navio. — Não foi tão ruim assim. — Noah esticou as pernas debaixo da mesa. — E não tive escolha. Meu cavalo começou a mancar a caminho de Stanhope. Como não consegui outro para substituí-lo, peguei a carruagem. Jessa e Gideon estavam entre os passageiros. Jerico, você conhece algum lorde Gilton... Gilly... Gil... — Gilmore — Jessa o corrigiu. — Um almofadinha — Jerico o descreveu. — Joguei cartas com ele certa vez. Se o pai não o tivesse afastado da mesa, teria perdido uma fortuna. Não me diga que ele estava na carruagem também? — Acho que os bolsos dele mais uma vez estavam vazios — Noah concluiu. — Embora ele tivesse um lindo relógio. — De esguelha viu Jessa tomar mais um gole de vinho e sorriu, fazendo-a ver que estava retribuindo o fato de ela ter mencionado Hilary. — Entretanto o pobre perdeu-o quando fomos assaltados na estrada. Deixem-me terminar — pediu quando todos se mostraram dispostos a interromper. — Fomos assaltados e fui alvejado. Estou bem, mãe... Pode agradecer a Jessa. Depois do assalto foi ela quem cui113


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dou de mim e me roubou das garras da morte. — Terminou dramático, fazendo todos sorrirem. Fez uma pausa e concluiu: — Ela também roubou meu coração. Jessa quase acreditou no que ele dizia e, espiando ao redor, concluiu que a família acreditava piamente. O falso sorriso de felicidade ameaçou sumir com as palavras seguintes: — Sabem, ela é uma ladra bem-sucedida. Fui forçado a me casar, senão perderia meu coração para sempre. Se pudesse chutá-lo sem que os outros desconfiassem, ela o teria feito. Ele se achava tão esperto, dando duplo sentido às palavras... Terminou o vinho com as mãos trêmulas. — E agora também tenho um filho — Noah disse ao ver que Gideon brincava com os laços do vestido de sua mãe. Robert, o pai, pigarreou e disse pouco à vontade: — A esse respeito, filho... — Imaginando se ele fora a causa de um divórcio ou coisa assim. — Eu era viúva — Jessa respondeu e o desconforto de Robert passou. — Meu marido faleceu pouco depois do nascimento de Gideon. — Vocês conheceram Robert Grantham? — Noah perguntou, olhando para Ashley e Jerico. Claro que não conheciam o homem imaginário, mas era muito divertido ver Jessa aflita. — Não me lembro de nenhum Grantham. — Ashley ficou pensativa. — Mas isso não me surpreende, visto que conheci poucas pessoas enquanto vivia em Linfield. — O nome não me é familiar — respondeu Jerico. — Seu marido gostava de jogar? — N-não — Jessa gaguejou. — Então nunca, o vi. A breve parte de minha vida na Inglaterra foi perto das mesas de jogo. — Lamentamos muito a sua perda — disse Charity —, mas saiba que estamos felizes por Noah estar com você agora, e, portanto, conosco também. — Franziu o cenho e pôs a mão no bumbum de Gideon.— Ora, ora, alguém precisa ser trocado. Não, fique onde está. Preciso mesmo me levantar para pedir que o quarto seja preparado para você e para Noah. Cuido de tudo. — Saiu da sala, conversando com o menino no colo. Ashley sorriu ao ver a emoção refletida no rosto de Jessa. — Ela é ótima com crianças. Depois que alguns dias, você vai se perguntar como sobreviveu sem à ajuda dela. — Acredito que Jessa não terá oportunidade de se acostumar — Noah disse antes que Jessa pudesse responder. — Viemos para cá porque prometi dar um relato das visitas às propriedades, na Inglaterra, mas preciso ir para a Filadélfia. Lembram-se da convenção? — Mas já? Acabaram de chegar! — Rae protestou. — Quanto tempo acha que vai ficar lá? — Não faço idéia. Algumas semanas, talvez. Ashley se levantou e cruzou as mãos diante do corpo. — Não quero interromper a conversa, mas gostaria de oferecer algo para 114


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comerem. Está com fome, Jessa? — Morrendo... — ela respondeu com sinceridade, fazendo com que todos sorrissem. — Ótimo. E você, Noah? — Essa carne de veado me parece boa. — Não há por que comerem algo frio. Vou ver o que Tildy pode arranjar. Qualquer coisa menos arroz e animais, certo? — Menos isso! — ele concordou, grato por ela ter se lembrado. Rae começou a juntar os pratos sujos e perguntou: — Jessa, já sabemos por que Noah se casou com você, mas o que mais me importa é saber como ele a persuadiu. — Obrigado, Rae — Noah zombou. — Acho que tenho algumas qualidades. — Não as enumere, por favor. Quero ouvir sua esposa falar. Jessa, como Noah a convenceu a se casar? — Na verdade — ela lançou um olhar rápido para o marido —, fui eu quem o pediu em casamento. Salem gargalhou e foi acompanhado pelo pai. Até mesmo Noah deu uma risada. Jessa ficou atônita com o olhar de pena que Rae lhe dirigiu. — Acho que Noah não lhe contou... Tão típico. Veja bem, Jessa, foi mamãe quem pediu papai em casamento, assim como Ashley fez com Salem. Os McClellan s ão conhecidos pela relutância em propor casamento. Até mesmo Darlene teve de dobrar o braço de Gareth! Fez bem em agir assim, ou levaria meses até ele recobrar o juízo. O sorriso de Jessa era sutil. Se ao menos tudo fosse tão simples... Jessa duvidava muito de que Ashley e Charity tivessem feito o pedido depois do casamento... Noah enroscou os dedos nos dela, mas só Jessa sabia a pressão que eles faziam. — Eu lhe disse certa vez que coisas estranhas já aconteceram em minha família. — Não vamos tocar nessas histórias agora — Robert interrompeu. — Jessa, estamos muito felizes por tê-la aqui conosco. Acredite. Foi muito gentil em suportar nossos maus modos. Antes que ela pudesse responder, Charity e Ashley entraram com bandejas. Ela sentiu a boca salivar com o aroma delicioso. — Não fique tímida, coma o quanto quiser. Diga isso a sua esposa, Noah. Sei que não vai poupar esforços! Noah só sorriu antes de encher o prato de Jessa. — Salem, precisa dar um jeito no cozinheiro do Clarion. Comi melhor no tempo da guerra. A bufada de Salem indicou sua descrença. — Além da comida, como foi a viagem? — Sem tempestades. Jessa comparou o navio a uma imensa cadeira de balanço. — Ele revirou os olhos. — Gideon adorou. — E você ficou mais enjoado do que... Noah levantou a mão, interrompendo-o. 115


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— Não me lembre. — Gideon é um amor — Charity mudou de assunto. — Ele estava um pouco incomodado lá em cima. Eu gosto de usar um pouco de bebida para acalmar as gengivas doloridas. Noah quase engasgou. Engolindo, disse: — Da última vez que tentei isso levei um tiro, mãe. — É verdade — Jessa confirmou quando todos olharam para Noah. E explicou o ocorrido no assalto. — E depois — Noah terminou, erguendo uma sobrancelha de modo malicioso —, ela me levou para casa e não me deixou sair da cama... Nem depois de eu ter me recuperado. — Noah! — a mãe exclamou. — Está embaraçando Jessa. — Estou brincando. — Ele levantou as mãos num gesto de rendição. — Jessa sabe disso. — Só Deus sabia como ela resguardara sua castidade. Jessa achou que ele escarnecia, e não brincava, e sua aflição ficou aparente mesmo depois de ele se desculpar. Depois disso, ela só fingiu comer, beliscando a comida. Robert fitou a esposa com perguntas no olhar. Os outros também pareciam intrigados, mesmo que Noah continuasse a comer como se nada tivesse acontecido. Jerico rompeu o silêncio perguntando sobre Stanhope. Noah respondeu às perguntas e conversou a respeito de Linfield com Ashley e Salem. — Podemos conversar mais depois. Agora, se me permitem, eu gostaria de mostrar o berçário e nosso quarto para Jessa. Ele já está pronto, mãe? — Por certo. Está arejado e a bagagem já foi levada. Vá em frente, Noah, Jessa parece cansada. Jessa teria protestado, mas estava de fato cansada. Noah afastou a cadeira e se levantou. No mesmo instante, oscilou e quase derrubou a cadeira de Jessa ao se apoiar. — Noah? O que foi? — Ela se levantou de pronto e passou a mão pela cintura dele. — Está doente? — Estou bem, só me dê um minuto. — Ele nem tentou se sustentar sem a ajuda dela. — É enjôo de terra firme — Salem explicou. — Depois de tanto tempo no mar, algumas pessoas sentem dificuldade para se equilibrar sem o balanço das ondas. Outras nem se incomodam com isso. — Mas eu sou diferente — Noah concluiu, infeliz. — Pensei que não fosse acontecer desta vez. — E imediatamente se arrependeu de tudo o que havia comido. Robert olhou para o filho com piedade. — Salem, Jerico, ajudem-no a subir. — Não sou nenhum inválido — Noah ralhou, afastando-se de Jessa. — Isso já vai passar. As sobrancelhas do pai se curvavam diante da resposta malcriada, mas imaginou que ele estivesse incomodado por sua fraqueza diante da esposa. Com um gesto, indicou 116


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ao filho e ao genro que se sentassem novamente. — Eu consigo levá-lo para cima — Jessa disse como que se desculpando. — Ele não tem a intenção de ser insuportável. — Não para a família, pensou. Noah gemeu e esfregou as têmporas. — Obrigado pela defesa, cara esposa — disse sarcástico. Pegou-a pela mão com força bastante para fazê-la recuar. — Venha, Jessa. Eu me desculparei pela minha falta de educação depois que me livrar desta dor de cabeça.

Capítulo X

— Não vai dizer nada? Reclamar do meu comportamento? — Noah perguntou. Os dedos de Jessa cessaram os movimentos circulares nas têmporas dele. Com a cabeça sobre seu colo, os cabelos pareciam ainda mais escuros em contraste com o rosa pálido do vestido. Os olhos estavam fechados, mas Jessa não se enganava, pensando que ele estivesse relaxado: a colcha estava presa nos dedos crispados ao longo do corpo. Apoiada na cabeceira da cama, ela se recusou a comentar e continuou a massageá-lo, mesmo sem se concentrar na tarefa, os dedos eram hábeis e seguros. Os olhos, porém, analisaram o quarto, enxergando-o pela primeira vez desde que fora arrastada para lá. Era alegre e colorido, um verdadeiro contraste com o humor do marido. Seus devaneios foram interrompidos quando ele a chamou de novo. — O que quer, Noah? Que eu ralhe com você pelo seu comportamento? Sei que está se sentindo mal. Se eu consigo desculpar sua atitude, imagino que sua fam ília também possa. Desculpe-se bom eles hoje ou amanhã e tudo ficará bem. Eles devem estar acostumados às suas mudanças de humor. — Não estão — ele replicou —, pois sou o McClellan centrado e racional, o pacificador. Mais uma razão para Jessa deixá-lo. Era óbvio que ela conseguia trazer à tona o pior comportamento de Noah, deixando-o irreconhecível não só para a família, mas para si mesmo. — Então tomarei cuidado perto dos outros — ela respondeu, azeda. — Eles deviam estar se controlando hoje. Se você é o centrado, só posso imaginar como eles sejam... Noah abriu os olhos e perscrutou seu rosto. — Venho provocando uma briga, não? — Não é nenhuma novidade. Talvez não, mas ele deveria estar tentando, conquistar a sua confiança, e não lhe dar motivos para erguer mais barreiras. Soltou a colcha ao começar a relaxar. — Seu toque é dos mais gentis — ele comentou, fechando os olhos. 117


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— Está se sentindo melhor? — O quarto já não gira mais. — Quando uma das mãos dela pousou sobre seu tórax, ele a segurou. — Lamento tê-la arrastado da sala de jantar daquele modo. Estou surpreso que ninguém tenha se prontificado a resgatá-la. É o tipo de coisa que eles adoram fazer. — Duvido de que alguém, além de mim, tenha suspeitado de suas intenções homicidas. — Machuquei sua mão? Sei que a segurei com força. — Está tudo bem, não há nenhuma marca. — Isso não significa que eu não a tenha machucado. — Fez uma pausa, virou um pouco o rosto, enquanto a mão livre dela continuava a massageá-lo. — Gostou do quarto? Jessa hesitou. Tinha adorado, mas acreditava que ele se zangaria se ela admitisse tal coisa. Noah não se mostrou muito contente quando ela demonstrou apreciação pela casa. — É bonito — ela admitiu num tom neutro. — Quero que se sinta bem enquanto estivermos aqui, Jessa. Nosso quarto na Filadélfia é parecido com este, só um pouco maior. Mas ela não o acompanharia. Para Jessa, isso era uma certeza. — Este sempre foi seu quarto? — Desde que saí do das crianças. Se procurar na tábua do assoalho perto da porta, verá meu nome gravado. Salem e Gareth me desafiaram a escrevê-lo e, assim que o fiz, me denunciaram. — E o que aconteceu? — Mamãe logo desconfiou de meus irmãos, pois eles viviam fazendo esse tipo de coisa, por isso me parabenizou por eu ter escrito corretamente meu nome, depois nos fez limpar todas as esquadrias de madeira da casa. — Muito justo. — Nenhum de nós pensou assim na época. — Ela foi muito boa com Gideon. — Nunca duvidei disso. Não precisa se preocupar, pensando que ela vá tentar excluí-la da criação dele. Ademais só ficaremos pelo tempo suficiente de ela o mimar incondicionalmente. — Importa-se se eu for dar uma espiadinha nele agora? — Jessa perguntou depois de um instante. Precisava afastar-se dele. As reminiscências de infância de Noah a deixou pouco à vontade. Era o tipo de coisa que ele faria caso ele se importasse com ela de verdade, mas não se permitiria ser enganada de novo. Noah queria que ela ficasse. Jessa sentiu como se tivessem começado a se aproximar outra vez. Mas talvez, houvesse mais por trás de lhe conceder um pouco de liberdade. — O quarto das crianças fica duas portas à esquerda. Quer que eu a acompanhe? — Não — ela se apressou em dizer. — Acho que consigo encontrá-lo sozinha. Fique aqui e descanse, logo vai se sentir melhor. 118


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Levando a mão dela aos lábios, Noah resvalou nos nós dos dedos. Sabia ser o responsável pela desconfiança de Jessa, afinal vinha mudando de humor de um minuto para o outro. E não era mais para perturbá-la. Ele já não conseguia mais controlar as próprias reações. Se ele mesmo não entendia o que estava acontecendo, como ela poderia? Ashely olhou para a porta quando ela foi aberta devagar. — Entre, por favor. Vou gostar de ter companhia adulta. — Conduziu o bebê de volta ao seio e recomeçou a balançar a cadeira. — Tem certeza? — Jessa perguntou. — Absoluta. — Apontou para a caminha do outro lado, mas Gideon não estava nela. Estava debaixo, brincando com bolas de pano colorido. — Tentei chamá-lo, mas ele preferiu ficar ali. Rindo, Jessa o tirou de lá e, pegando as bolas, jogou-as em direções diferentes. Gideon imediatamente começou a engatinhar atrás dos brinquedos. — Alguém dorme aqui com as crianças? — ela perguntou ao ver uma cama maior no cômodo. — Ruth fica aqui. Sendo neta de Tildy, é naturalmente protetora e mandona. — Dando tapinhas nas costas do bebê que terminara de mamar, perguntou: — Como está Noah? Os dedos de Jessa ficaram imóveis na crina do cavalo de brinquedo que examinava ao responder: — Melhor. — Abaixou-se, pegou uma das bolas e a rolou na direção de Gideon. — Massageei as têmporas e ombros dele, o que pareceu ajudar. — Fico feliz em ouvir isso. Nunca o vi tão estranho. Ele costuma encarar seu malestar com bom humor junto aos outros. É uma das piadas da família. — Talvez tenha se cansado disso. — Jessa sentou-se num banquinho diante da cama do filho. — Não deve ser muito agradável apresentar essa fraqueza. Não com seu obstinado orgulho masculino. — Mais um traço dos McClellan... — Ashley suspirou, balançando a cabeça. — Espero que tenha mais sorte do que eu. Em doze anos de casamento, não consegui mudar isso em Salem, ainda que tenha conquistado algumas vitórias. — Não me vejo conseguindo isso com Noah. — Jessa deu um leve sorriso. — Ah, um homem apaixonado é muito vulnerável... Jessa se segurou antes de confessar que ele não era apaixonado por ela. — Nunca pensei nele como sendo vulnerável. — Voltou a atenção para Gideon a fim de não enfrentar o olhar analítico da cunhada. — Como você o vê? — Ashley perguntou, sem conter a curiosidade. — Ele adora Gideon, por isso me parece gentil e generoso. — Claro. Noah adora crianças. Preocupávamo-nos que ele ainda não tivesse filhos. Mas não respondeu minha pergunta. — Não sei o que quer saber. Noah é... Noah. — Desculpe. — Ashley se levantou e fechou as cortinas. — Não quis me intrometer. Mas é que vendo vocês dois na sala de jantar, Salem observou que você 119


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parecia ter um pouco de medo de Noah. — Ele disse isso? — Jessa engoliu em seco. — Estranho. Por que eu haveria de temer meu marido? Ashley assentiu, mas não se deixou enganar. — Entendo. Quem poderia temer Noah? Ele tem um efeito calmante em todos nós. Não me lembro de ele ter levantado a voz mais do que duas ou três vezes, ainda que seja destemido no tribunal. E no quarto, Jessa queria dizer. Era lá que ela era julgada. — Precisa dizer ao seu marido que ele está enganado. Colocando Christian no berço, Ashley pegou Gideon no colo. — Vou procurar Ruth e pedir que ela leve este rapazinho num passeio pela propriedade? Acho que Noah não vai se importar se eu fizer isso no lugar dele. Jessa olhou para o relógio de parede. — Prometi que não demoraria — inventou, sem querer confirmando as suspeitas do cunhado. — Se Noah estiver dormindo, poderei ir com você. — Está bem. Dez minutos mais tarde, Ashley encontrou Jessa no vestíbulo. — Noah está dormindo? — Estava, mas acabou acordando quando entrei no quarto. Pediu que o esperássemos enquanto se refresca. Você não se importa, não? — Claro que não. Aliás, se ele está bom para se levantar da cama, talvez queira ele mesmo fazer o passeio pela propriedade. Antes que Jessa pudesse responder, Noah chegou, descendo as escadas. — Parece-me bem mais disposto. — Ashley comentou. — Não me lembro de tê-lo visto se recuperar tão rápido. Noah sorriu e passou o braço pela cintura de Jessa. — Isso porque nunca ninguém cuidou de mim tão bem quanto Jessa. Ela tem dedos de fada. — Eu estava dizendo que, como se levantou, você há de querer mostrar as terras para ela. Embora Noah e Jessa a convidassem ao mesmo tempo para acompanhá-los, Ashely viu mensagens diferentes em cada olhar. Os de Jessa imploravam para que ela fosse, os de Noah suplicavam para que os deixasse a sós. Sentiu pena da moça, mas conhecendo Noah havia tanto tempo, confiava nele cegamente. — É muito gentil da parte de vocês, mas lembro-me bem do início do meu casamento. Era quase impossível ter alguma privacidade. Aliás, se não se importam, vou ver se encontro meu marido... Passando o braço no de Jessa, Noah a conduziu pela escadaria, até o caminho de pedras. O sol começava a se pôr. — Venha, quero lhe mostrar os estábulos. Havia dois, na verdade. Um com os animais e veículos usados na fazenda e o outro com os da criação. Nesse segundo, Jessa não escondeu a admiração e ofereceu 120


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maçãs aos animais, conversando com eles e afagando-os no pescoço. — Sabe cavalgar? — Noah perguntou, contente com o entusiasmo dela. — Não faço isso há bastante tempo, mas nunca vi animais tão belos. — Então encontraremos uma boa montaria para você. Gostaria de passear amanhã cedo? — Se você quiser. — Desde quando ele se importava com o que ela queria? Quase pediu que ele parasse com tanta gentileza. Parecia mais fácil lidar com a aspereza dele. — Sim, eu quero. — Noah desceu o braço pelas costas dela com naturalidade e a conduziu, mostrando os outros animais, bem como os locais de armazenamento do tabaco. Ao se aproximarem da casa novamente, ouviram vozes na varanda de trás. Noah a deteve, virando-a, pois queria ter mais tempo a sós. — Aonde vamos? — A lugar nenhum. Estamos apenas passeando. Ela fincou os pés no chão e ele teve de parar. — Quero voltar para a casa. Por favor, Noah. Seus pais ficarão desapontados se não voltarmos logo. — Está bem. — Apagou da cabeça a imagem da trilha que conduzia ao rio bem como seus planos de sedução. — Mas vamos entrar pela frente, pois quero que conheça o restante da casa. Só então nos juntaremos aos outros. A última parte do passeio foi rápida demais, na opinião de Noah. Jessa pensava diferente. Ela sabia muito bem o que ele estava pensando ao se aproximarem da casa, e ficar sozinha com ele de um cômodo para o outro a deixava cada vez mais perturbada. O toque casual das mãos na biblioteca, o modo com os dedos afastaram um mecha de seu cabelo na sala de música, a maneira como ele ficava próximo mesmo sem tocá-la... Tudo isso a deixou cornos nervos à flor da pele. Não havia ninguém presente para impressionar, e ela começou a achar que ele fazia: o papel de marido devotado apenas para atormentá-la. Ao chegarem à varanda, seu sorriso nada tinha de genuíno. Robert, Jerico, Salem se levantaram assim que Jessa se aproximou, oferecendo uma cadeira, mas ela preferiu se sentar no degrau ao lado de Courtney. Noah estava pronto para se sentar ao lado dela quando foi abraçado por trás com força. — Garoto! Pensei que não fosse me dar um alô! Virando-se, Noah abraçou os ombros largos de Tildy e beijou-a no rosto. — Onde você estava? — No quarto das crianças vendo aquele seu lindo filho! — Afastou-se e alisou a frente do avental, pousou as mãos nos quadris e olhou para ele ansiosa. — E então? Vai me apresentar a ela, ou não, pirralho? — Como consegue fazer com que eu me sinta um colegial de novo, Tildy? — Anos de prática. Noah esticou a mão e segurou a de Jessa, suspendendo-a. — Jessa, esta é Tildy, a mulher que conseguiu me fazer confessar o roubo das 121


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mais deliciosas tortinhas. Tildy, minha esposa Jessa. — Que coisinha delicada. — Tildy a fitou de alto a baixo. — Menor ainda do que a sra. Ashley. Estou com medo de abraçá-la e parti-la ao meio. — Não sou tão frágil assim — Jessa assegurou. — Prazer em conhecê-la, Tildy. Todos dizem coisas maravilhosas a seu respeito. — Duvido. — A criada sentiu-se corar. — Gostei dela, sr. Noah. Seja bom para ela. — Sem nem mais uma palavra, deu as costas e saiu. — Acabou de conquistá-la, querida — Charity comentou. — Mas como? Mal conversamos. — Tildy tem um modo de vasculhar a alma das pessoas com apenas um olhar — Rae disse. Noah quase gemeu alto. Costumava respeitar a opinião de Tildy, mas dessa vez, ela errara. Jessa dava uma boa primeira impressão, mas ao conhecê-la é que as coisas mudavam de figura. — Além disso, já contamos a ela que você salvou a vida de Noah — Jerico acrescentou. — E ela se apaixonou por Gideon — Ashley completou. — E você não é Hilary Bowen! — Courtney exclamou. — Courtney! — todos a admoestaram. — Teve chance de conversar com Cameron? — Jessa perguntou para a menina. Mesmo no lusco-fusco do anoitecer, era evidente o embaraço da garota. — Só por um instante, Ele foi para Norfolk com alguns membros da tripulação. — Salem — Noah disse —, estive pensando em levá-lo para a Filadélfia comigo. Ele nos ajudou muito com Gideon. Jessa refreou um protesto. Cam seria mais do que bem-vindo se ela tivesse a intenção de ir para lá com Noah, mas não tinha como dizer nada sem revelar suas intenções. — É ele quem decide. Sempre tive a impressão que ele saiu de casa para se livrar da incumbência de cuidar dos irmãos. — E de um pai abusivo e bêbado — Jessa contou. Quando todos a fitaram surpresos, acrescentou: — Conversamos bastante enquanto Noah trabalhava. É fácil conversar com ele... Além disso, tínhamos algo em comum: meu pai também bebia além da conta. Não que judiasse de mim, apenas me ignorava. — Sentiu a carícia dos dedos de Noah em seus cabelos e, naquele instante, se ele a puxasse, ela se dei xaria abraçar. — Parece autopiedade, não? Desculpe. Eu só queria que soubessem que minha família não era como esta. — Não há muitas por aí — disse Robert, o rosto se iluminando ao acender um charuto. Os dedos de Noah puxaram um pouco os cabelos dela. Jessa estava prestes a sentir a ferroada de mais uma de suas mentiras. — Imagino que Jessa se sinta compelida a se explicar, pois os pais de seu falecido marido não a aceitavam devido ao seu passado. Jessa desejou retirar suas palavras. Não se importava que os McClellan 122


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soubessem de sua família, mas se desprezou quando ouviu Noah mencionar os fictícios Grantham. De algum modo, imaginou que as mentiras pudessem ficar somente entre eles dois. — Pior para eles — Charity comentou. — Ora, Noah, você devia ter esclarecido que não nos importamos com tolices como linhagem. Jerico se inclinou, apoiando os cotovelos nos joelhos, com um vinco na testa. — Sabe, Jessa, você me lembra alguém... Só não sei... Desde que foram apresentados, Jessa temia isso. Sendo um jogador, era provável que ele tivesse conhecido seu pai. Noah nunca se interessara pelo seu nome de solteira, mas agora mais uma parte de seu passado seria revelada. — Deve ter conhecido meu pai — ela o interrompeu. — Barão... — Winter! — Jerico concluiu, triunfante. — Claro, lorde Winter. Meu Deus, você tem os mesmos cabelos, os olhos! Não sei como não percebi de pronto. Sim, joguei com ele em diversas ocasiões. — Isso não deve ter sido muito bom para ele. Noah me contou que voc ê é um excelente jogador. Jerico se recostou e esticou as pernas. — Isso foi há muito tempo. Quase não jogo hoje em dia. Conte-me, Jessa, o que seus sogros podiam ter contra você? Se bem me lembro, seu pai era um homem benquisto, tinha um título e considerável fortuna. — Meu pai faleceu. Mamãe também. Um incêndio os matou e destruiu tudo. — Desculpe, eu não sabia — Jerico gemeu baixinho. — Não teria como saber — Jessa desconsiderou o pesar dele. — Sim, ele era benquisto e tinha um título, mas engana-se quanto à considerável fortuna. Não restou nada depois do incêndio. Era a isso que eles se opunham. — Como sobreviveu? — Ashley perguntou. — Não deve ter sido fácil para você. — Foi... constrangedor — Jessa respondeu, pensativa. — Fui trabalhar como dama de companhia em Londres. Conheci os Pen... Robert lá e nos casamos em seguida. — Preocupada que Noah tivesse percebido seu lapso, ficou feliz com a interrupção de Courtney. — E essa senhora era intratável e pomposa? Ela a escravizava? Jessa se surpreendeu com a pergunta. — Por que acha isso? — Porque seria romântico se seu marido a tivesse salvado desse tipo de vida. — Lamento desapontá-la, mas lady Howard era muito gentil comigo e eu não precisava ser resgatada. — Courtney, francamente! — Salem reclamou. — Não entendo como sua cabeça funciona! A menina se levantou e disse na defensiva: — Todos sabem como o senhor salvou mamãe daquele tio malvado em Linfield. E Jerico salvou, tia Rae de morte certa naquela taverna tomada por ingleses. 123


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— Não há nada de romântico nisso tudo — Jerico interveio. Ashley se levantou e puxou a filha. — Venha, mocinha, acho que está na hora de você ir dormir. Vamos conversar a respeito dessas suas idéias de romantismo. Boa noite a todos! Jessa estava intrigada com a interação da família. O riso era contagioso, o senso de humor ultrajante, é toda vez que alguém se mostrava chocado com alguma coisa, era logo lembrado de algum abuso cometido. Charity acalmava os ânimos. Robert mostravase orgulhoso. Noah tanto cutucou quanto foi cutucado, e Jessa percebeu que era a única deixada de lado. Por isso sentiu-se só. Noah se recostou na grade da varanda e, de algum modo, conseguiu trazê-la para o meio das pernas, apoiando a cabeça dela de leve em seu ombro. Os patriarcas trocaram um olhar cheio de significado quando Jessa entrelaçou os dedos nos dele. Não era um gesto para o benefício dos outros, apenas uma maneira de evitar que mãos curiosas vagassem pelo seu corpo. Aos poucos as histórias de família e o riso foram diminuindo e passaram para assuntos mais sérios como os negócios da família e a política nacional. Quando os ânimos começaram a se exaltar, Tildy chegou trazendo rum. — Chegou na hora — Robert declarou. — Estávamos... — Sei o que estava acontecendo — ela o interrompeu. — Como alguém pode se concentrar na Bíblia com tanta conversa? — Ignorando as risadas, serviu-os sempre reclamando. Vinte minutos mais tarde, Noah pegou o cálice quase caindo dos dedos relaxados de Jessa. Acomodou-a melhor ao ver que ela tinha adormecido. — Acho que ela não puxou ao pai quanto à tolerância a bebida — Jerico comentou. Portanto, essa parte da vida dela era verdade, Noah concluiu. — Noah — Rae interrompeu, baixinho —, sei que não quer tocar nesse assunto, mas vou arriscar sua ira de qualquer modo. O que contou a Jessa sobre Hilary? — Pouco, por quê? — É que você se mostrou arredio sobre esse assunto. Acho estranho... — Não há nada de estanho no fato de eu pedir que não falem mal de minha exnoiva — disse, seco. — Até conhecer Jessa, eu tinha toda a intenção de me casar com Hilary. — Precisou se conter para não dizer que ainda pretendia fazer isso. — Ela não merecia esse tipo de tratamento de minha parte. — Ela já sabe que se casou? — Não. Uma carta chegaria praticamente ao mesmo tempo em que eu, e, francamente, acredito que esse assunto mereça mais consideração. Não entendo sua preocupação. É com Hilary ou com Jessa? — Jessa — a irmã respondeu. — Sei que não quer ouvir isso, Noah, mas Hilary tende a ser... malévola. — Ridículo. — É verdade. Eu teria lhe contado antes se achasse que me daria ouvidos. Ela é uma mulher venenosa debaixo de todo aquele verniz de refinamento. Só estou lhe contando isso agora para que possa proteger Jessa da língua afiada dela. — Não reconheço a mulher que está descrevendo. Rae levantou as mãos para o 124


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alto, exasperada. — Salem, conte para ele! Se não o fizer, eu mesma conto! Então, mesmo a contragosto, o irmão mais velho contou que em uma visita da moça, pressentindo que algo ia mal entre ele e Ashley, ela se oferecera. Quando Noah se mostrou cético, Jerico confirmou que Hilary não prestava, pois o abordara quando se viram a sós no escritório. Rae, que não era de deixar por menos, a confrontara. Depois disso, decidiram não contar nada, pois Hilary se defendera dizendo que não fora sua intenção traí-lo, só queria se vingar de todos os ingleses pela morte de seu irmão na guerra. — Por que estão me contando isso agora? — Não é óbvio? Em poucos dias você vai para a Filadélfia e vai contar que se casou com uma inglesa — Rae enfatizou. — Consegue imaginar como ela vai reagir? — Vai ficar magoada e com todo direito. — Ficará furiosa! E se acha que ela não vai tentar se vingar, não ouviu uma palavra do que lhe contei! Escolhendo bem as palavras, Noah disse num tom de voz baixo. — Acho que está sendo melodramática, Rae, contudo aceito o fato de você ter levantado essa questão movida pela preocupação. A interferência de vocês, porém, já provocou conseqüências profundas em minha vida, estou farto disso. Eu quero... — Interferência? — Charity perguntou. — Está se referindo à viagem à Ingl... — Que conseqüências? Robert interrompeu: — Deixem-no terminar. — Obrigado, pai. — Respirando fundo, Noah completou: — Quero que saibam que amo todos vocês. Imagino que esse sentimento seja retribuído, ou não teriam me dito todas essas coisas. Lamento, contudo, que não tenham sido honestos desde o começo. Eu sabia que não aprovavam Hilary, mas ninguém se dignou a me contar por que não a aprovavam. Trocavam olhares e comentários quando achavam que eu não notava. Conspiraram pelas minhas costas. Manobraram-me a fazer uma viagem que eu não queria para cuidar de problemas que qualquer advogado local teria resolvido. — Mas não teria conhecido Jessa — Ashley observou com doçura. — Não, Ashley, eu não a teria conhecido — disse sem emoção. Fez uma pausa, ergueu Jessa nos braços e se levantou, equilibrando-se. — E podem concluir o que quiserem com isso. — Com um aceno curto, entrou na casa. Ninguém na varanda disse nada por diversos minutos. O silêncio da noite era rompido somente pelos sons de grilos no jardim. — Acho que nunca vi Noah tão bravo. — Salem passou os dedos pelos cabelos. — O que acha que ele quis dizer quando se referiu a conhecer Jessa? — Ashley perguntou, mordiscando o lábio. Robert acendeu outro charuto e tragou. — Acho que qualquer especulação de nossa parte será inútil. Noah foi deliberadamente vago e, dada a experiência dele como nossa interferência, ele fez bem. Sugiro que deixemos isso de lado. 125


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No quarto, Noah colocou Jessa na cama, despiu-a e colocou-a debaixo dos lençóis. Ressentia-se por ela continuar a dormir, sem se importar com sua dor, seu desapontamento, sua frustração. Não que ela devesse se importar. Dera-lhe motivos para não se preocupar com seus problemas. Ainda assim, ressentia-se. Despiu-se e apagou a lamparina. Deitou-se, apoiando a cabeça nas mãos e fitou o teto, tentando entender quando perdera o controle da própria vida e como conseguiria lidar com tamanha solidão. Sentiu os olhos rasos de lágrimas e sussurrou: — Jessa? O nome sussurrado conseguiu o que toda a movimentação para despi-la não fez: Jessa despertou. — Sim? Noah se ouviu dizer as palavras que jamais imaginou dizer, e com absoluta sinceridade: — Preciso de você, Jessa. Por favor... Preciso de você. E ela o interpretou mal. — Está bem. — Mal sabia onde estava, tão cega de sono, mas ele dissera no navio: quando e onde ele quisesse. Aproximou-se apoiando o corpo ao dele, esfregando o rosto no peito nu, estranhando quando ele se retesou. Mas Noah dissera que precisava dela e, não sabendo o que mais ele poderia querer senão seu corpo, insistiu, tirando a camisola e resvalando os seios no tronco despido. De nada adiantou. O que ele queria? Noah a segurou pelos braços e a afastou. — Você me enoja — disse, amargo. — Saia de perto de mim! Ferida, ela foi para a beira da cama e se cobriu com a colcha. Encarou-o, tentando entender de onde vinha tanto desprezo e raiva. Noah se levantou e vestiu as calças. Foi para junto da janela e comprimiu a testa e as mãos no vidro frio. — Eu me enojo... — murmurou para si mesmo. Virou-se e encarou-a. Passou os dedos pelos cabelos e disse: — Vou para a Filadélfia amanha de manhã, Jessa. Acho que seria melhor se você ficasse. Preciso me concentrar no trabalho que tenho a fazer. Jessa abraçou os joelhos e fechou os olhos, tentando entender por que não se alegrava. Não era aquilo o que queria? Já não decidira deixá-lo? Por que se sentia tão vazia ao pensar que ele procuraria Hilary? — Volto dentro de algumas semanas — Noah continuou —, e então poderemos discutir como prosseguiremos. Falei sério quando disse que gostaria de prover o sustento de Gideon. Não precisa se preocupar com isso. Tampouco estou decidindo a favor do divórcio agora. Preciso de algum tempo para pensar. Pelo ponto de vista de Jessa, ele já tinha se decidido. Ela também, não? — É bem-vinda aqui, Jessa. Direi aos meus pais que preciso fazer algumas modificações na casa antes de levar vocês dois. Ninguém estranhará isso, já que passamos as últimas seis semanas sozinhos. Jessa não duvidava de que seria bem recebida, mas como poderia ficar? Durante todo o tempo em que Noah estivesse ausente, sabia que ele estaria com Hilary e que, na volta, romperiam. Como ficar com a família dele, sentindo-se parte dela, só para depois ter de se afastar? Estava cansada de tantas mentiras. 126


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Noah enfiou os polegares no passante da calça. — Há um quarto vago no fim do corredor. Vou passar a noite lá, mas volto de manhã e ninguém saberá de nada. Boa noite, Jessa. — Na soleira da porta, parou. — Se serve de consolo, lamento o que aconteceu esta noite. Eu deveria ter percebido que você acharia que eu só preciso de uma coisa de você.

Capítulo XI

Pouco antes da aurora, Noah voltou para o quarto e se recostou à porta, sem expressão alguma no rosto ao ver o quarto e a cama vazios. Jessa tinha ido embora. Somente as roupas de antes do casamento tinham sido levadas. Ela deixara o baú, levando uma das valises de Gideon. O relógio de lorde Gilmore, as moedas de ouro e outros itens do assalto tinham sido levados, mas os pertences de Noah estavam l á. Num impulso, ele abriu o baú e viu que estava vazio, sendo que o forro havia sido rasgado. Isso o fez pensar. Só pôde concluir que algo estava escondido ali. Mas o quê? Esfregando a testa, fechou o baú e sentou-se sobre o tampo. Tinha de ir atrás dela. Parecia bem o tipo de coisa que Jessa faria: fugir em vez de discutir os termos da dissolu ção do casamento de ambos. Ele não deixara bem claro que sustentaria Gideon? Noah se levantou e lavou o rosto, mas não parou para fazer a barba. Colocou uma prática roupa de montaria e penteou os cabelos com os dedos, ajeitando a gravata ao seguir para o quarto das crianças. Ruth e Christian ainda dormiam, mas, como era de se esperar, Gideon não estava lá. Fechou a porta com cuidado e desceu as escadas de dois em dois degraus, depois de verificar cada cômodo no caminho da cozinha, só para se certificar de que Jessa não estava lá. A cozinha, no entanto, não estava vazia. Esqueceu-se como o dia começava cedo ali. O pai, o irmão e o cunhado estavam sentados à mesa, tomando café enquanto aguardavam o desjejum. Foi Tildy quem o viu antes e resmungou algo, balançando a cabeça. Salem parou no meio de uma frase ao ver que ele havia chegado. — Bom dia. Ficamos nos perguntando quando você acordaria. Se é que dormiu em casa. Sua cara está péssima. — Há quanto tempo ela saiu? — Noah perguntou sem preâmbulos. A manhã estava fria e cinzenta. A estrada do rio estava tomada por um denso nevoeiro que combinava com seu humor. — Sua besta! — resmungou Noah depois de alguns quilômetros tentando controlar 127


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o garanhão nervoso, já que não controlava nada mais em sua vida. — Quero quebrar o pescoço dela, não o meu! — O cavalo diminuiu a velocidade quando ele segurou firme as rédeas. Estimou que tivesse prosseguido uns quinze quilômetros quando viu a carroça equilibrada em três rodas na beira da estrada. Balançou a cabeça ao ver que esta estava abandonada. Como Jessa esperava prosseguir viagem a pé, carregando uma valise e um bebê estava além da sua compreensão. Contudo, a determinação de se afastar dele era inquestionável. — Vamos, General. Eles não podem estar longe — disse, cansado e infeliz. O nevoeiro ainda estava denso e não fosse pelo choro de Gideon, ele não os teria encontrado. Fez o cavalo voltar e desceu a ribanceira da estrada, encontrando-os atrás de uma árvore. Em vez de descer, posicionou a montaria, bloqueando o caminho. — Pelo visto Gideon não está com tanta vontade de ir embora quanto você — Noah disse num tom glacial. — Ele está com fome. — Não trouxe nada para ele comer? Jessa sacudiu a cabeça e levantou os olhos,baços para ele. — Pensei que já estaríamos em Richmond a esta hora. Eu não sabia que ficava tão longe. — Se tivesse me perguntando, saberia que fica a setenta quilômetros daqui e que precisaria atravessar um rio. Jessa se encostou no tronco da árvore, amparando Gideon, que tendo colocado o polegar na boca, parará de chorar, acomodado à curva do peito da mãe. — Onde está sua égua? — Ela fugiu. — Hum... Jessa franziu o cenho e mordiscou o lábio. — Não entendo por que não está zangado. — Ora, Dorey acaba aparecendo — ele respondeu, fingindo não entender a preocupação dela. — Onde está sua valise? — Estou sentada nela. — E a pistola? — Dentro da valise. Acho que o cavalariço lhe contou o que aconteceu. — Na verdade foi Jerico quem me contou. Billy só confirmou quando fui buscar o cavalo. Não foi muito gentil de sua parte envolvê-lo nesta história. — Se ele não tivesse tentado me deter, eu não teria feito o que fiz. — Mas apontar-lhe uma pistola... — Noah balançou a cabeça em desaprovação. — Acho que não conquistou um amigo. — Ela não estava carregada. Acha mesmo que eu seria capaz de atirar em alguém? — Jessa — disse ele, suspirando —, eu francamente não sei mais do que você é capaz. — Desmontou num movimento único e fluido e se agachou diante dela. — Dê-me 128


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a valise. Eu a prendo à sela do General. Lamento, mas teremos de caminhar de volta, pois ele não conseguirá levar nós e não confio nele para levar você com Gideon. — Esticou a mão para ajudá-la a se levantar, mas ela se esquivou. Noah então a apoiou no joelho. — Deixe-me segurar Gideon, então. Não vai conseguir carregá-lo até em casa. — Não vou voltar, Noah — disse ela, baixinho. — Se não fosse pelo choro de Gideon, você não teria nos encontrado. Deixe-nos em paz. — Jessa, mesmo que eu não me importasse com você, eu não deixaria que o levasse. — Ele tentou controlar a voz e falhou miseravelmente. — Você não pode levá-lo! Não vou permitir! Não vim até aqui para perdê-lo agora! — Maldição! Preste atenção. Vocês dois estão com frio, pelo menos um está com fome e esta estrada não é mais segura do que aquela que leva a Londres. Se não se preocupa consigo, pelo amor de Deus, pense em Gideon! De todas as coisas absurdas que passaram pela sua cabeça, esta foi a pior. Mal posso acreditar no seu egoísmo! — Meu egoísmo? Noah se levantou e segurou as rédeas de General que tentara se afastar. — Sim, egoísmo! Arriscar a vida de Gideon nesta viagem tresloucada só porque me odeia não é o ato de uma mãe dedicada! — Como ousa? — Trêmula de frio e ódio, Jessa se levantou e o enfrentou. — Como ousa sugerir que não me importo com Gideon? — Ouso porque é a verdade! Por que não o joga no rio logo, pois ele não sobreviverá a mais demonstrações de afeto como esta! Com lágrimas nos olhos e sem pensar nas conseqüências, ela o esbofeteou. A palma da mão formigou, mas nada se comparou à dor nos olhos de Noah. Ele a fitou por um longo momento, sem se mexer, sem retaliar, e quando ela começou a acreditar que ele daria as costas, Noah soltou as rédeas e pegou Gideon dos braços dela. Pega de surpresa, Jessa se desequilibrou e se apoiou na árvore. Gritou quando ele se virou e começou a caminhar, segurando as rédeas até a estrada. Embora ele segurasse o bebê com cuidado, o polegar saiu da boca do menino, que recomeçou a chorar. Jessa suspendeu as saias e correu atrás dele. — Devolva meu filho! Você o está machucando! Noah parou só para fitá-la cornos olhos gélidos. — Como você mesma afirmou, ele está com fome. Pretendo resolver isso em casa. Se quiser, pode vir. A escolha é sua. — Ele retomou a caminhada. — Sugiro que venha, pois depois que eu o tiver levado para casa, vou voltar para buscá-la. E se você não estiver aqui, vou ficar mais irado do que já estou. — Por favor, Noah, não faça isso! — Ela o puxou pela manga corri os olhos suplicantes. — Deixe-me ficar com Gideon. — Não está pensando com clareza, Jessa — ele disse, desvencilhando-se dela. — Se quiser vir conosco, pegue a valise. Eu espero. Jessa sabia que ele tinha razão. Até a noite anterior, sua principal preocupação fora Gideon. Chegara a se iludir quanto a isso mesmo enquanto se preparava para deixar a propriedade. Noah a fez perceber o contrário. Arriscara a vida do menino porque ela precisava se afastar. Arrasada pela própria insanidade, enxugou as lágrimas. 129


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— Está bem — disse num fio de voz. — Só um instante. Quando ela retornou com a valise, Noah a instruiu em como amarrá-la na sela, depois ficou calado. Gideon mais do que compensava pelo silêncio entre ambos. O choro partia o coração de Jessa, que não precisava olhar para Noah para saber que ele a culpava pela infelicidade do garoto. Ela mesma se culpava por isso. — Não sei se vou agüentar ouvi-lo chorar até em casa — Noah disse ao alcançarem a carroça. — Ele está com fome e com a fralda molhada. Está úmido demais para trocá-lo ao relento. — Ajustou a manta e o gorro do menino. — Acho melhor levá-lo a cavalo enquanto você espera aqui. Não demoro mais do que uma hora para voltar. Jessa assentiu e estendeu os braços para segurar o filho, enquanto ele montasse, mas Noah se recusou e montou de qualquer modo. — Esteja aqui, Jessa — ele ordenou seco e depois incitou General a caminhar. Desolada, ela ficou sozinha no meio da estrada até vê-los desaparecer, em seguida se sentou no assento da carroça, apertando mais o manto ao redor dos ombros e esperou. Arrependeu-se de tê-lo deixado levar a valise. Não se importava com a pistola. Noah sabia de sua existência. Eram os papéis que a preocupavam. Tomara tanto cuidado ao pegá-los da Mansão Penberthy, mas agora estavam lá, para quem quisesse lê-los, em meio às roupas de Gideon: o testamento de Kenyon, a página rasgada da Bíblia da família com toda a linhagem dos Penberthy e a carta que Claudia lhe escrevera, pedindo que ela aceitasse ser a babá de Adam. A carta era a chave do seu relacionamento com Claudia, Kenyon e Adam, mas Noah entenderia a situação? Os documentos poderiam condená-la, mas não tinha como não levá-los consigo. Quando Gideon chegasse à maioridade, aquelas seriam as únicas provas de sua identidade a fim de retomar o que lhe pertencia por direito. Havia momentos de dúvida em que temia que Gideon desacreditasse de suas boas intenções, recriminando-a por tê-lo afastado de seu direito de nascença em vez de crer que o fizera para protegê-lo. — Oh, Deus! — Suspirou. — Depois de hoje, qualquer um pode suspeitar que pouco me importo com o bem-estar de Gideon... — Tomada pela exaustão, deixou as preocupações de lado e adormeceu. Noah subiu na carroça com cuidado e se abaixou do lado oposto de Jessa. Havia tirado a jaqueta de couro e a camisa branca tremulava na brisa suave. Ela ainda estava encapotada em seu manto, e uma fina camada de suor cobria-lhe o buço e a testa, prova de que a manhã já não era mais fria. A névoa se dissipara e o sol brilhante indicava que a tarde seria bem quente. Velar o sono de Jessa era uma das coisas mais serenas que ele já fizera na vida. Ela lhe parecia tão jovem com a expressão tranqüila e confiante. Os lábios ligeiramente entreabertos pediam um beijo. Se ao menos ele pudesse fazer isso sem assustá-la... Ou ela esbofeteá-lo. Sorrindo de leve, levou a maça face que recebera o tapa. As mãos dela eram delicadas se comparadas com as dele, mas ele havia sentido os dentes se chocarem com a força do golpe. Da próxima vez se lembraria disso, não para revidar, mas para se esquivar. — Sei que está acordada, Jessa. — O divertimento ampliou seu sorriso. — Eu a vi espiar. — Chegou faz tempo? — Endireitando a cabeça, ela massageou o pescoço. 130


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— Não. Ela piscou e esfregou os olhos. — E Gideon? — Ele está bem. Quando saí, Ruth, Tildy e mamãe estavam brigando para saber quem cuidaria dele. Deve saber que ninguém está muito satisfeito com você, não é? Jessa assentiu e mordeu o lábio. — Jerico é o mais transtornado, pois está se culpando por não ter vindo atrás de você. — Noah explicou melhor ao ver que ela não entendia. — Quando Billy conseguiu se soltar e avisar que você tinha ido embora, esqueceu-se de contar que tinha levado Gideon. Jerico nem pensou em perguntar. Ele me procurou e quando não me encontrou no quarto, acordou papai, que achou melhor não interferir. Só me disseram que direção você havia tomado, mas nem imaginavam que você tivesse trazido Gideon. Para mim, era óbvio que você o levasse. Eles, por outro lado, jamais pensariam que você fizesse tamanha... — Estupidez. — Eu ia dizer insensatez. — É a mesma coisa... Noah via que ela estava se punindo com mais severidade do que ele faria, por isso achou que era hora de tomar, uma parcela de responsabilidade para si. — Se isso a faz se sentir melhor, saiba que nem eu estou sendo visto com bons olhos pela família. Foi dito em alto e bom som que uma esposa não abandona o marido sem motivos. Meus pais estão se perguntando como puderam criar tamanho tolo. Salem quer acabar com a minha raça. Rae e Ashley me consideram um ogro e, quando Jerico parar de se autoflagelar, serei seu próximo alvo. — Isso não... me faz... sentir melhor... — ela balbuciou, lutando contra as lágrimas que apertavam a garganta. — Não quero que o machuquem. A culpa... é minha... — Jessa — Noah disse, triste. — Não vamos falar de culpa. — Levantou-se, balançando a carroça de leve ao descer. Deu a volta e a segurou pela cintura, com pouco esforço a fez descer, amparando-a enquanto ela soluçava. Os soluços partiam seu coração e ele sentia a umidade das lágrimas na camisa. — Vai acabar adoecendo se continuar a chorar assim. — As palavras gentis tiveram o efeito oposto, pois ela chorou ainda mais forte. Noah esperou pacientemente que Jessa se acalmasse, acariciando-a nas costas como se estivesse confortando uma criança. Entretanto, as curvas ao encontro de seu corpo não pertenciam a uma criança e ele não se sentia nada paternal Afastando-se e fungando, Jessa pegou um lenço e enxugou as lágrimas. — É melhor voltarmos agora. Sua família já deve estar se perguntando onde estamos. — Não, pois eu os avisei de que precisávamos conversar para acertar os ponteiros. Eles sabem que isso não se faz em poucos minutos. — Levantou o queixo dela e apontou na direção de algumas árvores. — Deixei General na fazenda e peguei outra montaria. Também trouxe Willow para você. A égua da carroça, aliás, já voltou para casa. Que tal se déssemos umas voltas enquanto conversamos? Mas antes temos um problema para resolver: café da manhã. — Indicou uma cesta coberta ao lado do garanhão castanho. 131


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— Está com fome? Ela assentiu. — Ótimo. Tildy preparou um banquete para nós. — Abaixou a mão do rosto dela. — O rio fica perto daqui por entre as árvores. Trouxe uma manta. Podemos nos sentar perto da margem, assim nenhum passante nos incomodará. Por que não deixa o manto sobre a sela de Willow? Não vai precisar dele agora, já está bem quente. E isso não foi uma ordem, apenas uma sugestão. Ela tirou e dobrou o manto, depois o colocou na sela da égua. — Pegue, seu grampo estava caindo — ele disse ao entregar o acessório. — Ou melhor, deixe seu cabelo assim. — Tirou os outros grampos antes que ela pudesse objetar. — Não fica mais confortável com a trança solta em vez de sustentar todo aquele peso na nuca? Ficava, mas Jessa estava desnorteada com os cuidados dele. Quando ele começou a caminhar, ela ficou para trás. Noah pegou a cesta e a manta. — Você não vem? — Por que está fazendo isso, Noah? — Isso o quê? — Tudo isso. — Ela apontou para os cavalos, para a cesta, para a manta. — Por que está sendo tão... atencioso? — Entendo porque isso possa parecer estranho para você — ele respondeu depois de refletir um instante. — Mas a verdade é que isso se parece muito mais com meu jeito de ser do que o que você viu nas últimas semanas. Prefere que eu me mostre zangado? — Sim... Não... Não sei! É que depois que eu me acostumo e acho que você vai permanecer gentil, você se zanga e fica furioso. Não consigo mais passar por isso. Prefiro que não finja mais para mim. — Não estou fingindo, Jessa. Não pensei num piquenique à margem do rio para em seguida afogá-la. Tampouco pensei em seduzi-la. Imagino que tenha pensado nessas duas alternativas. Ela desviou o olhar, revelando que havia de fato pensado assim. — Logo vi. A verdade é que estou com fome, portanto, a cesta. Também tive esperanças de podermos conversar. O rio tem um efeito calmante, e teremos privacidade. Tive bastante tempo para pensar esta manhã, Jessa, e minha mãe está certa num ponto: você não teria partido se não tivesse um bom motivo. Não depois de eu ter prometido que conversaríamos quando eu voltasse. Eu gostaria de saber por que tanta pressa. Ela deu alguns passos na direção da mata e o olhou com curiosidade. — Pensei que fosse óbvio. — Venha, pode me contar tudo enquanto comemos. — Virou-se e começou a caminhar, na esperança de que ela o seguisse. Jessa se apressou e o alcançou, pegando a manta para ajudá-lo. Noah diminuiu as passadas para que ela conseguisse acompanhá-lo e esse pequeno gesto a animou mais do que ele podia imaginar. Ao chegarem perto das árvores, Noah apontou para uma área onde a margem do rio era reta, debaixo de uma sombra, salpicada pela luz que atravessava as copas. Ela estendeu a manta e esticou as pontas só para ter o que fazer e acharia 132


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engraçado se soubesse que Noah estava tanto ou mais nervoso do que ela. — Acho que já está bom, Jessa. — Noah sentou numa ponta, cruzando as pernas. Colocou a cesta no centro e Jessa se sentou a uma distância segura. Levantando a tampa da cesta, deu uma espiada e enumerou o conteúdo: — Temos ovos cozidos, pão fresco, manteiga, dois tipos de geleia, fatias de presunto, maçãs, queijo, coxas de frango e... nada de copos. — Relanceou para ela. — E um cantil de vinho, se não se importar em dividir... — Tudo bem. Se não notou, não consigo beber muito. Fico sonolenta. — Notei, sim. Conseguiu dormir apesar de uma contenda familiar. Jessa pegou um ovo e começou a descascá-lo. — Não perdi, não. Ouvi quando discutiram política. Tildy só trouxe o rum depois disso. Noah relaxou e vasculhou a cesta. — Discutir política é um esporte familiar. Você dormiu enquanto discutíamos de fato. — Pegou um pedaço de frango. — Fico feliz que não tenha nos ouvido. Há coisas que prefiro que saiba por mim. Ela arregalou os olhos, sem saber se gostava daquilo. — Agora não — ele apressou-se em dizer. — Primeiro quero saber por que se sentiu compelida a partir no meio da noite. Pode acreditar que seus motivos sejam óbvios, mas não são. Não para mim, pelo menos. Jessa engoliu uma porção do ovo e pigarreou. — Diga-me por que você acha que eu fui embora. Deve ter alguma idéia. — Está bem. Tratei-a de modo abominável, sujeitei-a a meu incrível mau humor por mais vezes do que consigo me lembrar. Eu a critiquei, atormentei, magoei. Acho que s ão motivos suficientes para fazê-la partir. — São — ele murmurou, enquanto lágrimas voltaram a umedecer seus olhos. — Mas não foi por isso que parti. Acha que não sei que me trata diferente do que trata as outras pessoas? É extremamente paciente com Gideon, é firme, mas nunca rude. É gentil com Cam. Conquistou o respeito do capitão Riddle. Foi atento com Drew, educado com Mary. Na carruagem, enquanto eu ainda lhe era estranha, foi solícito e amigável. Não me esqueci disso. — Descartou o ovo e começou a puxar a grama. — Teria sido melhor se não tivesse sido tão gentil comigo no início. Deus bem sabe que nada mais foi como devia ser para você depois daquilo. — E quanto a você? Ela deu de ombros e fixou o olhar num ponto acima do ombro dele. — Não importam os meus sentimentos. O que quer que tenha acontecido fui eu mesma quem procurou por isso. — Você se responsabiliza demais. E nem tem ombros tão largos assim. — Por favor, Noah, deixe-me terminar. — Ela o fitou por tempo bastante para suplicar. — Este casamento não aconteceu porque eu quis. Eu me preparei para receber a sua proteção, mas nos meus termos, não nos seus. Não fui justa, e eu não deveria ter me surpreendido quando você deixou claras as suas objeções. Dia após dia eu o vi mudar, ficando cada vez mais amargo e triste. Agiu de modo estranho para si mesmo, e eu conseguia ver em seu rosto que você estava alarmado com tudo o que acontecia, até 133


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mesmo envergonhado. E então... Naquela noite em que disse que queria uma meretriz... Entendi que teria de deixá-lo. Odiei o que me tornei. Odiei no que o transformei. Jessa jogou longe um pedaço de grama e puxou outro. — Ontem à noite pareceu o momento ideal para partir. Você disse que precisava de mim, mas não me quis. Eu o enojei. — Ouviu-o gemer baixinho como se sentisse dor. — Eu não entendi, e ainda não entendo o que aconteceu, mas depois você contou que pretendia ir sozinho para a Filadélfia então compreendi que ficaria com Hilary. Que é o que deve acontecer já que a ama — acrescentou, rápido. — Sempre concordamos que nosso casamento seria temporário, apesar de não chegarmos a um consenso quanto a como e quando terminá-lo. Eu não conseguiria ficar lá, sabendo como as coisas estavam entre nós. Poderia ter esperado que partisse, mas pareceu-me injusto com sua família. Pensei que fosse melhor se você ainda estivesse por lá para explicar porque parti. Noah ficou em silêncio por um bom tempo. Seus olhos seguiam o progresso de uma tartaruga ao longo da margem do rio, e ele desejou que sua vida fosse simples como a dela. Em seguida, retirou o desejo, pois ficaria entediado em uma semana. — Quer que nosso casamento termine, Jessa? — perguntou por fim, jogando o restante do frango e limpando os dedos num guardanapo. — Olhe para mim, por favor. Preciso de sua honestidade agora. — Em silêncio, rezou para que ela não mentisse. — Quero que você seja feliz novamente. — Ela o fitou. — Do modo como era quando nos conhecemos. — E acredita que a dissolução do nosso casamento consiga isso? — Sim. — Franziu a testa, pensativa. — Não conseguiria? — Não. — Não? — Não — ele repetiu com firmeza. Desde manhã cedo, aquilo se tornara claro como água. — Quero ser feliz com você, Jessa. Ela não disse nada a princípio, limitou-se apenas a ficar olhando para as próprias mãos. — Não vejo como isso seja possível. — Você me odeia? — ele perguntou de repente. — N-não — ela balbuciou, pega desprevenida. — Isto é, algumas vezes sim. Mas não sempre. — Isso, pelo menos, já é alguma coisa. Embora não entenda por que não me odeia o tempo todo. Díga-me, acha que eu a odeio? — Odiar, precisamente, não. Acho que me despreza. Guarda rancor pelo modo como o usei. E sempre haverá Hilary entre nós. — Ela não precisa estar entre nós. Não acha que houve momentos que senti o mesmo quanto a Robert? — Noah suplicava com os olhos que ela se aproveitasse de sua abertura e contasse a verdade a respeito do marido inexistente. Alguns segundos se passaram antes que ele aceitasse que ela não tinha porque confiar nele. E tinha todo o direito de se sentir assim, dadas as circunstâncias. — Senti ciúme. Pronto! Confesso. — Inclinou-se um pouco, apoiando os cotovelos 134


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nos joelhos. — Jessa, não faz idéia do ciúme que senti dele. Sabe o que é lutar contra um fantasma? Um verdadeiro santo? A precaução deteve a língua dela. A confissão de Noah a surpreendia e confundia. — Ele não era um santo. — Você fazia parecer que sim. Às vezes eu queria que você ficasse pensando em Hilary. — E fiquei. — Portanto, posso ter esperanças de que houve vezes, mesmo que poucas, em que você gostou de mim o bastante para sentir ciúme? Ela estava tão atordoada que não sabia que caminho seguir. Só conseguiu abaixar os olhos e assentir calada. — Bem — disse ele num tom de triunfo —, estabelecemos que você nem sempre me odeia e que já sentiu ciúme. Eu admiti que sou extremamente ciumento. Acho que isso não é necessariamente uma coisa ruim. Estamos fazendo progresso a meu ver. — Esta é uma maneira estranha de decidir o destino de um casamento. Noah refletiu a respeito enquanto voltava a vasculhar a cesta. De repente sentiu-se faminto. Isso porque Jessa, a despeito das palavras, o fitava esperançosa. Encontrou uma maçã e mordeu-a. — Talvez seja, mas temos um punhado de coisas mal-entendidas para resolver. Acho que só temos a ganhar discutindo-as, não acha? O nó no estômago dela também começou a desatar. — Está bem. Quero que me diga o que queria de mim quando me acordou ontem à noite. — Pegou uma fatia de pão e espalhou manteiga e geleia, enquanto Noah se esticava na manta e pensava em como responder. — Eu queria o que estamos fazendo agora. — O sol batia nos cabelos escuros e ele tinha a boca relaxada e o olhar pensativo. — Conversar. Eu precisava que você me ouvisse. Não a culpo por me interpretar mal, esse é outro assunto a resolver. Depois que adormeceu na varanda, minha irmã me contou algumas verdades a respeito de Hilary. Parece que Salem e Jerico, em momentos distintos, tiveram de se esquivar dos avanços dela. Hilary deliberadamente tentou destruir o casamento de ambos, inventando histórias tanto para Ashley quanto para Rae. Não acreditei no início, acho que por pensar que as ações dela se refletissem em mim: — Mordeu a maçã e ficou pensativo. — De qualquer modo, talvez para resguardar meu orgulho ou porque é a verdade, convenceram-me de que as investidas de Hilary eram movidas pelo desejo de vingança. — Por quê? Não estou entendendo. — Hilary detesta os ingleses, Jessa. Não importa o motivo. Ashley e Jerico têm propriedades na Inglaterra, portanto, ela decidiu prejudicá-los. Pelo menos foi o que me disseram. — Você ainda não está completamente convencido — Jessa concluiu, perspicaz. — Acho que não. Ontem me senti traído e magoado pelo que ela fez. O estranho foi perceber que já não a amava há algum tempo. Minha mãe me perguntou certa vez se eu não estava decidindo me casar com ela somente com a razão. Respondi que não na época; hoje penso diferente. O que descobri não mudou meus sentimentos em relação a Hilary, só confirmou que eles já haviam mudado. Senti pena dela. — A risada curta foi de zombaria. — Isso é revelador, não acha? Senti pena dela porque ela ia me perder... 135


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— Foi por isso que veio me procurar? Já que Hilary não lhe convinha mais, eu serviria para preencher a lacuna? — Não — ele respondeu, sério. — Não foi... Não é assim. — Lançou um olhar oblíquo ao dizer: — Estou começando a achar que Hilary tem de suspirar aliviada por ter se livrado de mim e que você deveria estar correndo sem parar. Está claro que tenho um sem número de características pouco desejáveis. — Orgulho não é sempre indesejável. Sei do seu desde o começo. Mas não faz mal tê-lo ferido esporadicamente. Isso nos torna humanos. — Então estou me sentindo bem humano. — Noah suspirou, mordendo de novo a maçã. Jessa não comentou, só tirou as migalhas do vestido e pegou um pedaço de queijo. — Por que ninguém lhe contou o que Hilary fez na ocasião? — Isso é mais fácil de entender. Nós, os McClellan, somos assim. Todo desafio requer uma estratégia. — Como na "Estratégia para Convencer os Outros quanto à Felicidade Conjugal"? — Exato — ele admitiu, mortificado, terminando a maçã. — Ninguém aceitou que a verdade serviria, em parte para me poupar, depois por considerarem que talvez eu os chamasse de mentirosos. Imaginaram que eu só precisaria de tempo e espaço para enxergá-la como eles. Portanto, a viagem para a Inglaterra. — Passou os dedos pelos cabelos, pensativo. — Deixei claro o que achava da intromissão deles e, por isso, papai e Jerico mostraram-se relutantes em intervir quando você foi embora. — Você queria me contar tudo isso ontem à noite. — Sim. — Ele cruzou as pernas nos tornozelos, apoiou-se num cotovelo e a fitou. — O que nos leva ao assunto pendente. Jessa, por favor, não olhe para o outro lado. Sei por que me interpretou mal. Você agiu conforme nosso acordo, mas não acho que isso seja o que queremos. A pergunta é, então: o que vamos fazer a respeito? Ela deixou que as palavras fluissem: — Não posso continuar a ser a sua meretriz, Noah. Pensei que pudesse, mas não consigo. No começo, doeu, mas depois a dor foi embora. Fiquei vazia, oca, morta... e suja. — Arfou, demonstrando tristeza nos olhos. — Que bom que eu não o odeio sempre e que seu ressentimento tenha diminuído de certo modo, mas o que nos resta? Sei que tenho de cumprir certas... obrigações conjugais, mas talvez consigamos continuar se você... Bem, se você buscar seu prazer em algum outro lugar. Se quiser ter filhos, bem, podemos discutir isso. Não me oponho a... dormir com você para conceber um filho. Mais do que isso, porém... Oh, Deus, isso está se mostrando tão difícil!... — Ela mexia, nervosamente, na barra da saia. — Noah, me ajude, sabe do que estou falando. Ele se sentou e removeu o cesto para que não se interpusesse mais entre eles. Pegou em uma das mãos dela e deu um aperto. — Sei, pois acho que se expressou muito bem. — Concorda, então? — Não. Jessa franziu o cenho. Soltando a mão dela, Noah se deitou de lado, apoiando-se sobre um cotovelo. 136


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— Não quero... buscar meu prazer fora do casamento, no entanto, estou tão insatisfeito com nosso arranjo quanto você. Não me orgulho do que se passou como amor entre nós. Há muitas coisas que disse e fiz que lamento, mas não tanto quanto exigir intimidade contra a sua vontade. Não houve satisfação nisso. — Mas... — Os olhos dela se arregalaram. — Não estou falando de satisfação física, Jessa — ele a interrompeu. — Isso você me deu, e qualquer prazer que tenha sentido foi contra sua vontade. Não pensei que isso fosse me incomodar. Pensei que poderia usá-la, pois você me devia algo. Eu estava errado, porém. Foi só ontem de manhã quando você se afastou de mim e chorou humilhada pelo prazer que sentiu que eu entendi. Não houve satisfação alguma nisso, nem nas vezes em que deu sem receber nada em troca. — Não sei, não. — Jessa não conseguia encará-lo. Em vez disso, ficou brincando com a ponta dos cabelos. — Uma vez você me disse que... que meu prazer não era importante. Agora me diz isso. Duvido que você mesmo saiba a verdade. — Eu lhe dei motivos para pensar assim, mas sei exatamente o que quero. Sempre soube, embora não admitisse. Jessa soltou o cabelo e o encarou, com uma pergunta no olhar. — Afeição — Noah completou. — Partilha. Comprometimento. — Fez uma pausa. — Confiança. Essas coisas são possíveis entre nós? Quando Noah sorria daquele modo, encorajador e cheio de esperança, Jessa acreditava que tudo fosse possível. Mesmo assim, relutava em ceder. — Suponho que elas possam vir com o tempo — disse, cautelosa, — Seriam importantes se nosso casamento fosse mais do que o teatro que é hoje. — Acho que sim — ele concordou. — Também me importo com a sua felicidade, Jessa. Você seria feliz comigo? — Por favor, diga sim, implorou mentalmente. — Às vezes eu acho que sim. O coração dele deu um salto. Já era um começo. — Nós ainda discutiríamos, sabe. — Eu sei. — É possível que nos magoemos vez ou outra. — Mas não intencionalmente — ela disse, rápido. — Jamais. Jessa pensou um minuto. — Então não seria tão ruim. Noah se deitou amparando a cabeça e olhando para as nuvens. — Por tudo o que passamos, acho que estamos começando bem, não? Ela assentiu, um tanto incerta. — Não preciso mais me preocupar com uma fuga no meio da noite? — Não. Quero dizer, acho que não. Não era o que ele queria ouvir, mas pelo menos era algo sincero. — Suponho que haverá situações em que eu a provocarei — ele brincou, fazendo o papel do advogado do diabo. — Suponho, então, que eu tenha de fincar os pés. 137


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— Deus, Jessa! — Suspirou ele com sentimento. — Espero mesmo que faça isso. Quero este casamento... Quero ser o seu marido. Jessa estava tocada pela evidente sinceridade das palavras dele, porém tinha muitas dúvidas ainda. — Como pode, Noah, quando eu só fiz complicar a sua vida? — Descobri que gosto de complicações. Algumas, pelo menos. — Quer dizer Gideon. — Em parte. Tem de entender que eu o amo e vou continuar a amá-lo mesmo que tenhamos outros filhos. — Abriu os olhos apenas para ver o sorriso sonhador dela. Ela, claramente, não sentia repulsa em ter filhos seus. Talvez não se sentisse repelida pelo que tinham de fazer para ter filhos, afinal... — Você quer ter filhos, não? — perguntou, voltando a fechar os olhos. — Oh, sim! Uma dúzia deles! Noah se sentiu definitivamente encorajado. — Pensei em um para começar, mas seu entusiasmo foi anotado. Jessa enrubesceu. — Está caçoando de mim. — Acho que sim. Importa-se? — Não. — Bom. — Ele bocejou e virou de lado. — Eu não me oporia a um cochilo antes de voltar para casa. Não dormi bem ontem. Imagino que você também esteja cansada. — Estou — ela admitiu, olhando para o espaço ao lado dele na manta com apreensão. Noah sentiu a hesitação. — Só dormir, Jessa, nada mais. Não há nada a temer. Como ele podia saber do que ela tinha medo se nem ela mesma tinha certeza? Sem dizer nada, afastou a cesta de piquenique e se deitou ao lado dele, de costas, apoiando a cabeça sobre um braço. Noah não tentou diminuir o espaço entre eles, e ela ficou desapontada. Desejava ser abraçada. Esperou até ouvir a respiração ritmada dele para se aproximar. Movendo a mão para baixo, pegou o braço Noah e o colocou sobre sua cintura, enroscando os dedos nos dele. Não viu o sorriso de contentamento de Noah, tampouco soube que adormeceu antes do que ele.

Capítulo XII

Algo roçou na face de Jessa. Sonolenta, ela virou a cabeça e se escondeu no travesseiro. Um travesseiro um tanto desconfortável. E o pior é que a coceira continuava. 138


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Enrugou o nariz e fez, uma careta. Foi o riso de Noah que a acordou. — Você me lembra um coelho quando faz isso com o nariz — ele disse com voz rouca. — Está até meio rosado. Jessa despertou aos poucos e percebeu que o travesseiro era o ombro de Noah e que ela tinha um braço atravessado sobre o peito dele. O que provocava a coceira era a ponta de sua trança com a qual Noah acariciava sua pele. — Rosa? — perguntou sem se mover. — A sombra nos desertou enquanto dormíamos. Ela se espreguiçou e abriu os olhos, vendo que a saia havia subido até as coxas e que uma das pernas tomava posse das de Noah. Levantou-se, sem-graça, desvencilhando a trança dos dedos de Noah, que gemendo, sacudia o braço. — Ele adormeceu junto com o resto do corpo, parece. Vendo que era-aquele sobre o qual dormira, ela disse: — Oh, desculpe! Devia ter me afastado. — Isso jamais passou pela minha cabeça. — Ele levantou uma sobrancelha, demonstrando sua descrença. — Gosto de tê-la em meus braços. Não sabia disso? Em vez de responder, ela começou a desfazer a trança, só para arrumá-la melhor, mas Noah a segurou pelo pulso, detendo-a. — Gosto mais quando ele está solto. Deixe-o assim. — Encabulado como um colegial, ele desviou os olhos. — Por favor. Ela ficaria mais refrescada com o cabelo preso, porém resolveu atendê-lo porque havia muito tempo não fazia de bom grado algo que ele quisesse, a ponto de se contentar com isso. Abaixou as mãos e comentou: — Está quente. — Por que era tão difícil iniciar uma conversa? Talvez fosse por ter se abandonado nos braços dele. — Bastante. — Ele se virou de repente, com uma animação no olhar. — Quer nadar? — N-nadar? Eu não sei nadar. — Não? — Isso sequer passou pela cabeça dele, que aprendera a nadar ao mesmo tempo em que a cavalgar. — Então precisa aprender. Não é difícil. — Levantou-se e puxou-a. — Venha, pode ficar de combinação. Ela balançou a cabeça. — Talvez outro dia. Vá você. Eu fico aqui olhando. Noah olhou para o rio por sobre o ombro. — Não se importa? — Claro que não, pode ir. Ele não precisou de mais encorajamento, embora estivesse desapontado por Jessa não acompanhá-lo. Pulou num pé enquanto tirava uma bota, depois repetiu o gesto com a outra. Em seguida despiu-se até ficar de ceroulas. Jessa se esforçou para não prestar atenção em certas coisas conforme ele se encaminhava para o rio, como a largura dos ombros e as ceroulas que delineavam as nádegas e coxas. Seria muito pior quando ele saísse... Estava tão ocupada com seus pensamentos que nem reparou quando ele mergulhou. 139


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— Jessa! — ele a chamou. — Precisa pelo menos molhar os pés para se refrescar. A água está esplêndida. — E você é um esplêndido mentiroso, Noah McClellan! Estou vendo seus lábios roxos e os dentes batendo. — Riu quando ele mergulhou, mas começou a andar rio abaixo quando ele não reapareceu em seguida. — Não repita isso! Não faço a mínima ideia de como salvá-lo se desaparecer de novo. — Mais uma razão para aprender a nadar — ele insistiu, dando braçadas vigorosas contra a correnteza. — Não tenho vontade de virar comida de peixe. — Covarde. — Grande novidade! Eu mesma lhe disse isso. Noah se perguntou se ela conseguia ver o brilho do seu olhar ali da margem. Aparentemente sim, pois conforme ele se aproximava, ela começou a retroceder, com uma risada nervosa, procurando uma rota de fuga ao esticar a mão numa pose defensiva enquanto ele saía do rio. — Noah, não chegue mais perto! Ele a ignorou. Jessa correu para o cesto e, observando o avanço dele, enfiou a mão lá dentro e pegou um ovo. — Pare onde está, Noah! Ou jogarei isto em você! — Você não teria coragem. — Ele parou com um largo sorriso estampado no rosto. — Tenho sim! — O que aquele sorriso fazia com as suas entranhas... Passeou o olhar pelo corpo dele, acompanhando as gotas que escorriam pelo tronco até as ceroulas que se equilibravam precariamente no quadril. Acompanhando a direção dos olhos dela, Noah apertou o tecido, espremendo água e amarrou a peça mais firme. — Melhor assim? — Não sei do que está falando. O abdômen bem delineado de Noah sacudiu com a força da gargalhada. — E você me chama de mentiroso? Acho que merece um mergulho por isso. Ela recuou mais alguns passos, erguendo a mão com o ovo. — Prometeu que não me jogaria no rio! — Mudei de idéia. — Avançou e abaixou a cabeça quando o ovo foi atirado. Jessa percebeu que estava se divertindo pois não temia as ameaças dele. — Volte a mudar, Noah! — avisou, pegando uma coxa de frango. Sentiu-se tão ridícula com aquilo na mão que logo a atirou. No mesmo instante, ele avançou e a suspendeu sobre o ombro. — Ponha-me no chão! — Deixou a cesta cair e começou a bater nas costas dele. — Noah! Está levando isto longe demais! Está me levando longe demais! Pare! Você não ousaria me jogar na água, não é? Há coisas ai dentro! — Que tipo de coisas? — ele perguntou, rindo. — Peixes e cobras e tartarugas... Oh, estou vendo uma coisa perto do seu tornozelo! Visto que seria impossível ela enxergar qualquer coisa, ele a ignorou. Mudou a 140


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posição dela, segurando-a nos braços, amparando-a pelas costas e debaixo dos joelhos. De imediato ela o abraçou pelo pescoço, com os olhos bem fechados. Quando nada aconteceu, ela arriscou espiar. — Vai me derrubar? — Ainda testou pensando nisso. — Ah, e quando vai tomar uma decisão? Os braços dele relaxaram um pouco, abaixando-a para perto da água. Ela o segurou ainda mais forte e fechou os olhos de novo. — Não me apresse. Isto requer muita reflexão. — Lembre-se de que fez uma promessa. — Também prometi não seduzi-la, mas sinto dizer que isso me passou pela cabeça. — Ela não deveria parecer tão beijável. Jessa sentiu o coração inflar. Indo contra a razão, desejava-o. Ali, sob a luz do sol, no calor do dia, às margens do rio. — Ah, isso — disse, distraída. — Não vou obrigá-lo a isso. Só não me jogue no rio. Noah ficou tenso, sem acreditar no que ouviu. — Jessa, está falando sério? Como resposta, ela se ergueu nos braços dele e tocou a barba crescida com os lábios. — Sim — murmurou contra a pele áspera. — Mesmo que eu não estivesse suspensa sobre a água, eu estaria falando sério. Noah virou o rosto e a beijou. Os lábios de Jessa se abriram, e ele aceitou o convite, beijando-a profundamente. Os dedos dela se enroscaram nos cabelos molhados, trazendo-o para perto, retribuindo com abandono. Sem saber com que forças, ele conseguiu voltar para a margem. As pernas, estavam bambas e Jessa deve ter sentido algo assim, pois o fitou com certo al ívio ao colocar os pés no chão. — Esse seu olhar não foi muito elogioso. — Ele afastou uma mecha de cabelo da face dela. Jessa se pôs na ponta dos pés e o beijou, pressionando o corpo contra o dele. Quando se afastou, as pupilas estavam dilatadas de desejo. — Por outro lado — ele disse com suavidade —, este olhar é bem elogioso. — É? — Sim. — Mostre-me. Noah ficou muito satisfeito em demonstrar o que aquele sorriso de sereia provocava nele. Segurando-a pelo rosto, imobilizou-a enquanto a atormentava com beijos por toda sua pele. Mais tarde, Jessa sentiu o frêmito transpor o corpo dele até chegar ao seu. Noah era parte dela mesma. O prazer dele era o seu. O que partilharam daquela vez n ão se comparava a nada experimentado antes. Da primeira vez, ela estava nervosa demais. Depois se sentira usada. E na manhã anterior, chorara por achar que estava sendo 141


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manipulada contra a vontade. Aquele dia era o começo de uma nova fase e ela guardou essa sensação no fundo do coração. Noah rolou de lado para que pudessem ficar frente a frente. — Jessa? — Traçou a boca bem delineada Com o indicador; — Hum? —Ela capturou o dedo com os dentes. — Não quero que entre em pânico, mas... — Pânico? Porque... — Está ouvindo este som? Só para agradá-lo, ela parou para prestar atenção: a brisa na folhagem, o canto de um pássaro, o barulho da correnteza do rio... E o som de algo se desfraldando ao vento; Arregalando os olhos, sentou-se e abraçou os joelhos. Logo adiante uma escuna com dois mastros descia o rio e, no convés, boa parte da tripulação parada olhava para a margem. Agarrando a camisa de Noah, ela correu para a relativa privacidade da mata. — Era pára você não entrar em pânico! — Noah exclamou, vestindo as calças. Os gritos vindos da escuna eram bem explícitos, mas ele não conseguiu sentir vergonha. A situação era engraçada demais. Acenou para a embarcação e foi atrás de Jessa. Encontrou-a agachada atrás de uma árvore, com a cabeça baixa e os ombros tremendo. Ele se abaixou e a tocou de leve. — Por favor, não chore, Jessa. Sinto muito, eu deveria ter tomado mais cuidado. — Não precisava se curvar — ela replicou. — Foi como se estivesse agradecendo depois de um espetáculo. — Não me curvei, apenas acenei — ele se defendeu. Prestou mais atenção ao som por ela emitido e perguntou. — Está chorando ou rindo? Jessa levantou o olhar, tentando fazer uma carranca, mas sem sucesso. Limpou as lágrimas do canto dos olhos cintilantes. — Sei que eu deveria estar mortificada, mas... Foi tão ridículo... Por favor, me diga que não conhece nenhum daqueles homens. — Nenhum. — Ele reconheceu a escuna como sendo dos Fleming, mas não seria tolo de contar aquilo. — Tem certeza? — Juro! — Noah cruzou o coração com uma expressão grave. Ela se levantou e sacudiu a camisa dele. — Não vou sair daqui até estar totalmente vestida. Vai ter de trazer minhas coisas até aqui. — Noah se ergueu, mas, fora tirar um graveto dos cabelos dela, nada disse. — Por que está olhando para mim assim? — Assim como? — Desse jeito engraçado. Estou com o nariz sujo? — Automaticamente, ela levou a mão ao rosto. — Eu te amo, Jessa. — Por que se for uma... — Ela piscou e o fitou. — O que disse? 142


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— Eu te amo. Ela se apoiou na árvore logo atrás. — Ama? — Sim, eu amo. — Noah apoiou as mãos no tronco atrás dela, se inclinou e roubou um beijo. — Não diga nada — disse, baixinho. — Não espero nada em troca. Só achei que seria bom que soubesse como me sinto. — Afastou-se e, sem dizer mais nada, foi buscar as roupas dela. O retorno até a propriedade foi feito basicamente em silêncio. Vez ou outra Noah apontava para alguma coisa que achava interessante, e Jessa respondia monossilabicamente. Então ele a deixou com suas reflexões. Gideon estava brincando com a filha caçula de Rae na varanda sob a supervisão de Courtney e de Charity, que a ensinava a bordar. — Parece que estão com as mãos cheias — Noah comentou ao dar a volta na casa. Subiu na varanda e pegou Gideon no colo. — Fofo como um bolinho, é o que você é — disse ao menino que gorgolejou ao vê-lo. — Tem alguma coisa a dizer, mãe? Parece prestes a ter uma apoplexia. — Courtney, leve Garland para o quarto. As coisas que tenho a dizer não foram feitas para ouvidos tão jovens. Lançando um sorriso de solidariedade, a menina se afastou com a prima. — Não precisava mandá-la entrar — Noah disse ao fazer cócegas na barriga de Gideon: — Jessa está lá em cima, se é por isso que pretendia me passar um sermão. Ela entrou pela porta da frente, pois precisa de um tempo. Ashley me disse onde encontrar Gideon. — Ao som de seu nome, o menino arregalou os olhos. — Sim, você é Gideon. Consegue dizer seu nome? Hein? Consegue? O rubor das faces da mãe diminuiu um tanto. — Posso saber por que ela precisa de tempo? — Primeiro porque está um pouco apreensiva em enfrentar a família depois do que fez. Segundo, ela precisa trocar de roupa... As delas ficaram um tanto... amassadas. E terceiro, há pouco mais de uma hora revelei que a amo, e ela não sabe o que fazer com isso. — Beijou a testa da mãe e, antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, entrou na casa com Gideon. O jantar não foi tão constrangedor quanto Jessa imaginou que seria, nem quando Charity conduziu todos até a sala de música para um vinho após a refeição. Se estavam curiosos, conseguiram manter a discrição. Noah a levou até um dos sofás de canto e a abraçou. Ela se perguntou se ele estava tão contente quanto parecia, ou se os nervos dele estavam em frangalhos como os seus. Os sons suaves do cravo tornaram-se pano de fundo para seus pensamentos acerca de Noah, enquanto ele ocupava todos os seus outros sentidos. O toque, a fragrância, o som do riso pediam toda a sua atenção. Aos poucos começou a relaxar, não por causa do vinho, mas por causa do efeito calmante do marido. Quando Ashley fez uma pausa, Charity se dirigiu ao filho: — Precisam mesmo partir amanhã? — É necessário. A viagem será mais demorada por causa de Jessa e de Gideon. E de Cam, caso ele queira nos acompanhar. 143


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— Use o Clarion — Salem sugeriu. — Ele ainda vai demorar a cruzar o Atlântico. Noah revirou os olhos. — Não, obrigado. Papai já me ofereceu uma das carruagens. Henry será o condutor e também vou levar General. — Leve Willow também — Robert ofereceu. — Não é o único a querer apreciar parte da viagem cavalgando. Não recomendo deixar Jessa montar em General até que ele se torne mais cordato. Jessa corou de prazer ao pensar em ter a própria montaria. — É muita gentileza sua. Eu adoraria. — Olhou para Noah. — Isto é, se estiver tudo bem para você. Antes que ele conseguisse responder, Rae bufou ante a hesitação dela e perguntou: — Noah bateu em você hoje de manhã? — Rae! — todos exclamaram ao mesmo tempo. Dando de ombros, ela desconsiderou a censura familiar. — Sei que meus modos deixam muito a desejar, porém ninguém mais vai perguntar, ainda que estejam tão curiosos quanto eu. Noah a arrastou de volta ou você voltou porque quis? — Não precisa responder isso — Jerico intercedeu, lançando um olhar sombrio para a esposa. — Não, está tudo bem. Na verdade eu estava me perguntando por que ninguém disse nada. Fiquei pisando em ovos, porém imaginei que Noah tivesse dito alguma coisa. — Ele ficou de bico calado — a irmã disse — e com um ar muito convencido. — Isso porque nada disso é da sua conta — ele interveio com uma voz melosa. Jessa o cutucou nas costelas, dizendo: — Não me importo com a preocupação de Rae. A verdade é que Noah não me arrastou. Eu quis voltar. Não sei o que ele teria feito caso eu não quisesse vir, mas não chegamos a tanto. Conseguimos, como posso dizer... acertar algumas de nossas diferenças. É aqui que quero estar. Noah antecipou a pergunta seguinte da irmã e disse: — Não pergunte quais eram as nossas diferenças, Rae. Basta dizer que vocês estavam certos quando sugeriram que Jessa tinha motivos para partir. Eu lhe dei uma série deles. Vocês terão de se satisfazer com isso. — Estamos, satisfeitos. — Jerico apertou o braço da esposa. — Não estamos, Rae? — Bem... Sim, estamos — ela concordou depois que o aperto se intensificou. Jessa observou a interação entre marido e mulher e, sem indicar que se divertia com a capitulação da cunhada, perguntou: — Ele bate em você? — Que idéia! — Jerico exclamou. Todos riram quando Rae teve a graciosidade de parecer contrita. Comum olhar encabulado, disse: 144


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— Touché... Eu mereci isso. — Parabéns. Você se saiu muito bem — Noah sussurrou ao ouvido de Jessa. — Acho melhor voltar a tocar, Ashley. Jerico parece estar considerando os méritos de bater na esposa. Aquiescendo, a cunhada voltou a tocar, e o restante da noite transcorreu com muito bom humor. Ainda envolvida numa aura de felicidade, Jessa cantarolou até o quarto e depois começou a acender velas e.a fechar as cortinas. Entretido, Noah a observou, recostado à porta. — Você se divertiu esta noite, não? — Demais — concordou ela, sentando-se na beira da cama para tirar os sapatos. — Não me lembro da última vez em que ri tanto: — Eu lembro. Foi hoje quando estava se escondendo dos... — Você é muito malvado por me lembrar disso. — Talvez eu seja. — Ele saiu de perto da porta. — Lidou muito bem com Rae. — Gosto dela. Ela é tão... — Curiosa? Irritante? — Alegre — ela o corrigiu. — Gosto da sua família. Lamento deixá-los. Noah foi até o armário, tirou o paletó e o pendurou. Estava de costas ao dizer: — Prefere ficar aqui por algumas semanas? Posso aproveitar para deixar a casa em ordem até que... — Parou de falar ao sentir os braços dela rodeando-o. Nem a ouvira atravessar o quarto. A pressão do rosto às suas costas era reconfortante. — Quero ir com você. E Gideon também quer. Ele se virou e a observou. — Tem certeza? Ela assentiu. — Vou sentir saudades deles, mas sentiria mais a sua se eu ficasse. Abaixando a cabeça, ele a beijou de leve. — Isso me deixa muito feliz. Era estranho querer agradá-lo. Ela sorriu e abaixou as mãos. — Pode me ajudar com o vestido? — Rodopiou e lhe deu as costas. Noah o desabotoou e entregou-lhe a camisola. Quando ele terminou de se aprontar, ela já estava no centro da cama, debaixo dos lençóis. Ele apagou a última vela e se deitou. A escuridão proveu a coragem, que Jessa procurava. Assim que ele se ajeitou, ela o tocou no braço. — Noah? Quero falar com você a respeito do que me disse esta tarde. — Eu disse muitas coisas. — Ele sentiu um aperto no peito. Tinha quase perdido as esperanças de que ela tocasse no assunto. Os pensamentos de Jessa se mostraram um mistério desde que haviam deixado o rio. — Está se referindo a algo em particular? — Por favor, não torne isso ainda mais difícil para mim. — Ela suspirou. — Sabe do que estou falando. Noah mudou de posição, trazendo os joelhos para junto do peito. 145


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— Jessa, se o que tem para me dizer é tão penoso assim, talvez não esteja pronta. Fui sincero quando disse que a amo. Por mais que eu queira ouvir essas palavras vindas de você, reconheço que pode não retribuir o sentimento ou sequer acreditar em mim. Só posso esperar que um dia isso mude. — Você não entende — disse, tristonha. — Não quero falar sobre como me sinto, mas como você, se sente, Noah. Não pode me amar. Aquela era uma reviravolta inesperada, Noah pensou ao arquear as sobrancelhas. — Não posso? — Bem, pode, mas seria errado. — Por quê? — Porque seria desonesto de minha parte. Não quero que me ame, Noah. Pensei que quisesse, mas não. Pelo menos acho que não. — Respirou fundo. — Não estou me explicando muito bem, estou? — Nada bem. — Ele rolou de lado e acendeu uma vela. — Melhor assim. Não quero tentar entendê-la sem ver seu rosto. — Ao se virar, viu que ela tinha se escondido embaixo da colcha. — Jessa! — Riu. — O que deu em você? A voz dela saiu abafada. — Não adianta, Noah. Eu menti a respeito de tantas coisas que você vai acabar me odiando, por isso não posso falar. Mas também não quero que me ame, porque isso não seria justo, e eu não sei mais o que fazer. Noah se apoiou num cotovelo e puxou a colcha. — Que mentiras, Jessa? Ela balançou a cabeça e implorou com o olhar. O sorriso dele sumiu. A princípio pensou que ela tivesse se escondido de brincadeira, agora via que o medo dela era genuíno. — Confia em mim? — Não sabe o quanto eu quero, mas sou uma covarde. Tenho medo do que possa acontecer. Ele afagou os cabelos espalhados pelos travesseiros. — Digamos que me conte tudo. O que acha que pode acontecer? — Além de você me odiar? — Além disso. — Não posso dizer, pois isso me entregaria. — Entendo. — Não entende, não. Esse é que é o problema. E não sei como consertar. Noah ficou calado por um tempo, e depois disse: — Talvez eu consiga facilitar para você se eu lhe disser algumas coisas antes. — Que coisas? — Ela o fitava esperançosa. — Eu não a amava ao convidá-la para se juntar a mim no Clarion. — Pousou um dedo nos lábios dela quando ela fez menção de interrompê-lo. — Eu sentia piedade e... atração. Essas emoções são tão compatíveis quanto fagulha e pólvora. Eu a desejava e 146


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me desprezava por tirar vantagem da necessidade que a trouxe para mim. Ninguém, muito menos você, poderia me obrigar a aceitar um casamento que eu não quisesse, mesmo que temporário. Escolhi esconder isso de você porque não queria expor minha vulnerabilidade. Eu tinha medo que a usasse para me enganar de novo. Afinal de contas, você só queria um meio de fugir da Inglaterra. — Então descobriu minha participação no roubo. Ele assentiu. — O mais sensato seria endurecer meu coração. Infelizmente, foi um plano mais facilmente concebido do que executado. Você me atraiu de um modo inédito, Jessa. Eu me apaixonei apesar das mentiras que me contou. Precisa saber disso porque o que quer que me conte agora não vai mudar o modo como me sinto. — Não diga isso, Noah. Você não sabe o que aconteceu... — Sei mais do que imagina. — O que quer dizer? — Ela arregalou os olhos. — Sei que Gideon não é seu filho — disse, observando-a. — Sei disso há bastante tempo, mas queria que você me contasse. — Você sabe? — Jessa se sentou, abraçando os joelhos. — Como isso é possível? — Não importa como descobri. — Se você sabe mais alguém pode... O riso suave dele a interrompeu. — Impossível. — Continuou ao vê-la desconfiada. — Descobri por causa da sua virgindade, Jessa. Sei o que me disse na época, mas depois de um pouco de reflexão e cálculos, soube que a sua versão era fajuta. — Mas você não revelou que sabia. — Eu disse que queria que você me contasse. Hoje foi o mais perto que chegou disso. — Sentou-se e a encarou, colocando o travesseiro no colo. — E, na verdade, dei a entender que sabia. — Alisou a fronha. — De muitas formas. Fiquei furioso com você. Senti-me traído novamente. Foi esse um dos motivos que me fez exigir certos direitos. Eu precisava me sentir no controle, me vingar. A única coisa que consegui, porém, foi magoar a ambos e afastá-la de mim, tornando mais difícil sua revelação. Jurei nunca mais confiar em você. — Balançou a cabeça e suspirou. — Quero que isso mude. Quero acreditar em você... Nunca me senti tão desolado como hoje de manhã quando percebi que tinha, finalmente, expulsado você da minha vida. — Eu não entendo você — Jessa disse, remexendo nos cabelos. — Confiança não pode ser algo unilateral. Hoje a tarde fingiu ter ciúme de Robert Grantham. Mentiu para mim também, pois já sabia que ele não existia. — Eu não estava fingindo — Noah negou. — Não completamente. Houve um tempo em que acreditei na existência dele. Você usou o nome dele para que não fizéssemos amor. Pode imaginar como o odiei naquela noite? Você falava dele como se ele fosse real. Passei a considerá-lo um herói ou coisa assim. Você sempre foi muito convincente. Chegou até a descrevê-lo! — Como posso contar alguma coisa para você? Nem ouviu o que tenho a dizer e já está exaltado! Isso nunca vai funcionar. Noah inspirou fundo e soltou, o ar lentamente. Saiu da cama e se sentou na cadeira de balanço. A distância ajudaria. 147


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— Já vai desistir? O que aconteceu quanto a "fincar o pé"? — Você faz tudo parecer tão simples. — Do que tem medo? Que eu mande você e Gideon de volta para a Inglaterra? Ela assentiu. — Isso não vai acontecer. — Inclinou-se para a frente na cadeira. — Sei que está fugindo de alguma coisa, Jessa. Mas não vou mandá-la de volta, não importa o que tenha feito. — Não pode prometer isso, pois não sabe... — Sei que não vou lhe dar as costas. Sei que quero ajudá-la. Pediu minha proteção. Se não pode me permitir nada mais, deixe-me dar ao menos isso. — Por que quer fazer isso? — Porque te amo. Jessa não acreditava no que estava ouvindo. — Isso não faz sentido... Um dos cantos da boca dele se ergueu num sorriso. — Bem, pode não fazer sentido, mas é a pura verdade. — Levantou-se da cadeira e se sentou na beira da cama, cruzando as pernas. — Aliás, faz muito sentido. Há muito a seu respeito para se amar, mais do que pensa. Você é corajosa e gentil ao mesmo tempo, impetuosa e vulnerável. Sabe agir de acordo em cada situação. Adapta-se, sobrevive e se fortalece. Nem sempre eu quis amá-la, Deus bem sabe disso. Lutei contra o que me acontecia. No fim, minha luta foi em vão. Eu te amo, Jessa. — Eu não mereço você. — Ela forçou as palavras a passarem pelo nó na garganta. — Já não tem essa escolha. Quer queira quer não, já me tem. — Noah levantou a ponta da colcha e ofereceu-a para que ela enxugasse os olhos. — Agora me conte a respeito de Gideon. Ela se recompôs e se perguntou como poderia revelar todas as suas mentiras. — O nome dele é Adam Penberthy. Eu era sua babá. — Penberthy? Como aqueles da carruagem em Londres? — Ele estreitou o olhar. — Não me disse que Edward Penberthy foi quem a encurralou? — Sim, ele fez isso, mas na Mansão Penberthy. A maioria das coisas que lhe disse é verdade, mas claro que Edward não foi consolar uma pobre viúva, mas sim tirar vantagem de alguém a seu serviço. — Edward é o pai de Gideon... De Adam? — Não o chame assim, e não, Edward não é o pai, mas um primo distante. Ele foi nomeado seu guardião depois que os pais dele morreram num acidente. Kenyon e Claudia contrataram-me semanas depois do nascimento de Gideon. Eles me conheceram em Londres. Eram conhecidos de lady Howard. — Portanto, você foi mesmo dama de companhia? — Sim. Sei que tem motivos para desconfiar de tudo o que lhe disse, mas há menos mentiras do que imagina. Mary me ajudou a inventar minha nova hist ória. Ensaiamos juntas. Ela me avisou de que se eu me afastasse muito da verdade, acabaria me contradizendo. 148


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— Excelente conselho — Noah comentou, sério. — Não está tornando as coisas muito fáceis. — Ela fez uma careta ante o tom dele. — Desculpe, não foi muito gentil de minha parte. Posso concluir que o que me contou a respeito da sua família é verdade? — Sim. — E que o que me contou sobre os Grantham é mentira? — Exato. Eles não existem. — Está bem, prossiga. Estava me dizendo que os pais de Gideon a contrataram... — Sim. Claudia requisitou minha presença, ela solidarizava com minha situação. Em Londres, eu me deparava sempre com lembretes de como minha vida poderia ter sido se meu pai tivesse agido diferente. A Mansão Penberthy ficava isolada, mas próxima da casa de Mary, e ninguém se opunha a que eu recebesse visitas da família dela. Era como se eu tivesse minha família de volta. — E depois os pais de Gideon morreram. — Isso mesmo. Foi horrível para todos. Os criados lamentando a morte dos patrões, sem saber o que aconteceria. Ninguém foi nomeado guardião de Gideon porque o testamento de Kenyon não havia sido específico nesse ponto. Tudo levava a crer que a criadagem fosse reduzida a um mínimo. A mansão e as propriedades continuariam a pertencer a ele, mas era improvável que ele fosse criado ali. No meio a tantas incertezas, o sr. Leeds, o administrador de Kenyon, encontrou Edward. Ele e a esposa retornaram do continente e se instalaram na mansão. Por um tempo, todos suspiraram aliviados. — Jessa alisou o tecido da camisola. — Isso, porém, não durou muito. Lady Barbara era uma mulher difícil, eternamente insatisfeita, muitas vezes cruel. Tive pouco contato com ela, pois não demonstrou interesse por Gideon. Até o marido começar a se interessar por mim, ela praticamente desconsiderava minha presença. — Ela sabia que Edward estava interessado em você? — Sim. E deve ter percebido antes de mim. Eu era ingênua o bastante para pensar que ele gostava de Gideon. Até que ele começou a sinalizar que Barbara queria me despedir, mas que se eu fosse boazinha, ele salvaria meu emprego. Ele não acreditou em meu desinteresse até a noite em que o arranhei. Pensei que estivesse tudo resolvido, então. — Mas é claro que não ficou. — Longe disso. Certa noite, lembro-me de que chovia torrencialmente, ele entrou em meu quarto e cobriu minha boca com a mão. Pediu que eu não gritasse, pois queria ajudar. Ele me soltou e disse que a esposa planejava assassinar Gideon e que ele, de fato, lhe dera seu consentimento. Com a morte de Gideon, Edward, como parente mais próximo, herdaria tudo. — E você acreditou nele? — Noah perguntou, depois de praguejar baixinho. — Sim, claro que sim. Eu não teria seguido o conselho dele e fugido se não tivesse acreditado. — Entendo... — Noah assentiu, pensativo. — Ele a ajudou a fugir? — Não. Ele apenas me encorajou. — Ele sabe para onde você foi? 149


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— Não! Acreditei no que ele me contou, mas não confiei nele a ponto de revelar para onde eu ia. Pelo contrário, levei-o a acreditar que não aceitaria seu conselho. Precisei de vários dias para deixar tudo em ordem, e Davey Shaw e os irm ãos me ajudaram a fugir. — Não percebe que ao fugir, deixou tudo de bandeja para o casal? O resultado foi o mesmo. Por que não procurou as autoridades? — O resultado não foi o mesmo. Eles conseguiram a fortuna, mas Gideon está vivo. E como eu poderia procurar as autoridades? Eu não tinha provas. Seria a palavra de Edward contra a minha. Minhas acusações representariam a minha demissão e Gideon ficaria desprotegido. Talvez ele ficasse bem, mas com o passar dos anos, quando a polícia tivesse se esquecido do assunto, ele acabaria envolvido em algum acidente. Não havia saída, por isso fugi. — Como os Penberthy explicaram o desaparecimento de Gideon? — Disseram que eu o raptei, o que foi verdade. Houve uma vasta busca. — Ela ficou pensativa. — Não sei como você não ficou sabendo do caso, estava em todos os jornais de Londres. — Quando foi que você fugiu? — Em janeiro. — Eu estava em Linfield nessa época. — Pensou um pouco antes de dizer: — Lembro-me de alguma coisa a respeito de um bebê... Uma criança não foi abandonada na floresta? — Sim. Aquele era o filho de Mary e Davey, que morreu poucos dias depois que fui para lá. Ele nunca foi uma criança saudável... — Ela não conseguia parar de torcer as mãos. — Por favor, tem de acreditar que não pedi para que eles fizessem isso. Foi idéia de Mary deixar o corpo do pequeno Davey na propriedade dos Penberthy. Ela o colo cou no chão, com as roupas e a manta de Gideon, e quando ele foi encontrado, lady Barbara o identificou como sendo Adam. Talvez Edward tenha desconfiado, mas nunca disse nada publicamente. — Então agora você é considerada uma assassina — ele concluiu com um peso na voz —, e Edward Penberthy herdou tudo legalmente. Ela assentiu. — Fiz uma confusão, não fiz? — Um verdadeiro nó górdio. — Mas acredita em mim? — Sim — respondeu ele sem hesitar. O alívio tirou um peso dos ombros de Jessa. — Então entende por que tive de me casar com você? E por que criei Robert Grantham e todas as outras mentiras? Noah fechou os olhos brevemente, comprimindo-os com os dedos. A verdade fora revelada por fim, mas era tão complicada quanto as mentiras. Sempre acreditara ser capaz de enfrentar o que quer que fosse, mas se tivesse descoberto tudo isso a bordo do Clarion, era possível que a deixasse a deriva. — Não estou preparado para compreender tudo de uma vez. Sei o quanto ama Gideon e isso explica muitas de suas ações. 150


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— Mas... Ele levantou a mão, interrompendo-a. — Falaremos sobre isso pela manhã, Jessa. Temos uma longa jornada pela frente e suspeito que entenderei tudo até chegarmos à Filadélfia. — Inclinou-se na direção da mesinha de cabeceira e assoprou a vela. — Tem razão — ela anuiu, serena, fitando a escuridão. — Esta provavelmente não é uma boa hora para dizer que também te amo. — Esticou-se e se cobriu com o lençol. — Isso pode esperar.

Capítulo XIII

Noah permaneceu num estado de felicidade confusa pelos oito dias seguintes. O tédio da viagem e o tempo deram-lhe a oportunidade de colocar as coisas contadas por Jessa na perspectiva certa. Passou a entender como os eventos tinham se desenrolado sob o ponto de vista dela, e o impacto desse novo conhecimento foi abalador. Reconheceu a profundidade do medo de Jessa e como ela arriscara o próprio bem-estar a fim de proteger a identidade de Gideon. Sua bravura, ainda que por vezes insensata, não podia ser questionada. Noah tinha de admitir que fingir não era nada natural para ela. Jessa aceitara os vestidos por ele comprados com relutância; a culpa a mantivera calada no tocante à sua noiva; ela detestara falar sobre Robert, pois assim se afundava cada vez mais em mentiras, e sentira-se compelida pelo remorso a recusar sua declaração de amor. A natureza fundamentalmente honesta de Jessa fora abusada pela necessidade de mentir e seus nervos foram testados ao limite. Conquanto Noah fosse capaz de reconciliar seu juízo a respeito das ações de Jessa, ajustar-se ao fato de que ela o amava era outra coisa completamente diferente. Por vezes se sentia zonzo e se pegava sorrindo sem motivo aparente. O coração saltava quando ela o tocava casualmente. Ele ria com mais freqüência, na maioria das vezes por coisas tolas. Estava estupefato e inequivocamente feliz. Mais do que isso, sentia-se abençoado. A carruagem passou pelas ruas pavimentadas da Filadélfia num ritmo tranqüilo. O sol forte fazia os telhados reluzir. Cam, sentindo-se muito importante, viajava ao lado de Henry no assento do condutor. Dentro da carruagem, o rosto de Jessa parecia o de uma criança, grudado à janela, enquanto Noah balançava Gideon sobre o joelho, sem disfarçar o divertimento pelo entusiasmo da esposa. Diminuíram a velocidade na Chestnut Street e pararam diante de uma fila de casas de tijolos aparentes de três andares. Jessa se afastou da janela quando Cam desceu para abrir a porta. Ele a ajudou a sair e ela esperou na calçada, um tanto nervosa, enquanto Noah descia com Gideon. — Por aqui — disse ele, mostrando a chave. À porta, parou e virou-se para Jessa. — Considere-se avisada. Arranjei para que a casa fosse limpa periodicamente em minha 151


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ausência, mas não há como saber o que encontraremos. Os temores de Noah eram justificados. Enquanto Henry e Cam entravam carregados de malas e baús, Noah a conduziu pelos cômodos do primeiro andar. A mobília da sala fora coberta por lençóis, mas a poeira era evidente nos fachos de luz que entravam pelas frestas das janelas. Jessa notou os passos marcados no pó do assoalho de madeira. O escritório de Noah, a sala de jantar e a cozinha não estavam em melhores condições. A suíte principal com um quarto de vestir ocupava boa parte do segundo andar. O quarto menor seria de Gideon. No terceiro andar havia aposentos para Cam e os demais criados que Noah pretendia contratar assim que tivesse tempo. De volta à sala de estar, Noah consultou o relógio de bolso e acertou o da cornija da lareira. Jessa estava sentada na única cadeira que se achava descoberta, enquanto Gideon arrastava o bumbum pelo chão. — Não precisa contratar ninguém — disse ela, apontando para o filho. — Ele está bem contente em polir o chão para nós. — Não está desapontada, está? — Noah perguntou, ansioso. — Longe disso. Eu não poderia estar mais satisfeita. Não há nada com a casa que não possa ser resolvido com ar fresco e baldes de água e sabão. Noah se sentiu aliviado e, cruzando o cômodo, deu-lhe um beijo. — Vou ajudar Cam e Henry a trazer a mobília do quarto de Gideon. — Você não precisa ir à Sede do Governo? Pensei que os trabalhos começariam hoje. Você já deve estar atrasado. — A resposta é sim para as duas afirmações, mas não posso deixá-la minutos depois de chegarmos. — Por que não? Não há nada a fazer aqui que não consigamos fazer nós mesmos. Se deixar dinheiro, peço a Henry que vá ao empório comprar comida. Cam e eu começaremos a arejar a casa. — Ela sorriu ao ver que ele abria a boca para protestar. — Muito bem, Noah, discuta por cinco minutos, depois siga seu caminho. Sei o que pensava enquanto acertava o relógio. — Não percebi que estava sendo tão óbvio. — Ele riu. Ela lhe mostrou a palma da mão e, suspirando, Noah pegou a bolsa de dinheiro de seu colete e o depositou na mão dela. — Agora que me separou de meu dinheiro, mulher, vou saindo. — Gideon o puxou pela perna. Ele se abaixou e bagunçou o cabelo do menino. — Vou passar pelo banco para falar com o sr. Bowen antes de seguir para a reunião. A pequena criadagem que eu tinha antes da viagem foi trabalhar para ele como um favor. Talvez eu consiga persuadi-lo a me devolver Sally e a sra. Harper. Jessa se concentrou apenas em parte do que ele disse. — Bowen? É parente de Hilary? — Charles é pai dela. — Noah levantou-se, limpando as mangas. — Tenho de me encontrar com ele cedo ou tarde. Com Hilary também. Você entende, não? Ela assentiu, tomando cuidado para manter a expressão impassível a fim de não demonstrar toda a sua insegurança. — Vai procurá-la hoje à noite? — Acho melhor. Não quero que ela saiba sobre o casamento por meio de outra 152


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pessoa. A casa dela fica a poucas quadras daqui e os boatos correm nesta cidade. Eu não ficaria surpreso se os vizinhos já soubessem que cheguei acompanhado. — O sorriso tentava mostrar uma despreocupação que ele não sentia. Jessa se levantou, enganchou o braço no dele e o acompanhou até a porta. — Está certo em dizer que é você quem precisa contar sobre o casamento. — Ficou na ponta dos pés e o beijou no rosto. — Você é um bom homem, Noah McClellan, e eu te amo. O abraço que Noah tinha em mente foi abortado pela chegada tempestuosa de Cam, que trazia uma mala debaixo de cada braço. Ele olhou de soslaio e murmurou suas desculpas antes de subir as escadas. — Eu o espero para jantar. — Jessa deu um leve empurrão para que o marido saísse. Depois que Noah saiu, ela mergulhou na tarefa de arrumar a casa. A primeira providência era arranjar um lugar em que Gideon pudesse ficar sem se machucar e sem atrapalhar. Com a ajuda de Henry, a mobília da sala de estar foi ordenada de modo a formar um cercadinho no qual o menino foi colocado. Gideon logo demonstrou seu descontentamento, chorando por minutos seguidos até ver que seus lamentos não seriam atendidos e que o melhor era se contentar com seus brinquedinhos ali colocados. Jessa subiu para mudar de roupa, colocando também um lenço na cabeça e. um avental Depois ordenou a Henry que fosse comprar suprimentos enquanto Cam, a contragosto, se conformava em ajudar nos trabalhos domésticos. Abriram todas as janelas, varreram o cão e espanaram a mobília. Um tempo depois, ouviram uma batida à porta. Jessa, vendo que seu estado não estava nada apresentável, pediu a Cam que fosse atender, na esperança deque fosse a ajuda providenciada por Noah. Ela ouviu uma conversa indistinguível à porta, mas foram os lamentos de Gideon que pediram sua imediata atenção. Na entrada, porém, viu que a jovem com quem Cam conversava não era uma das criadas. A mulher linda e elegante no vestíbulo, intocada pelo calor, só podia ser uma pessoa: Hilary Bowen. — Posso ajudá-la? — Jessa perguntou, dando um passo à frente. — Cam, por favor, vá ver o que aconteceu com Gideon. O rapaz titubeou um instante, hesitando em deixá-la sozinha com a moça, mas obedeceu. — Que bom! — ela exclamou. — O rapaz não me entendia. Sou a srta. Bowen, noiva do sr. McClellan.. Talvez possa me dizer onde encontrá-lo? Jessa tomou cuidado em refrear o riso nervoso. Se Cam não conseguia responder uma pergunta tão simples, ele devia estar se passando por um completo imbecil. — Ele foi à Sede do Governo. Hilary repetiu sem demonstrar se estava desapontada ou satisfeita com a informação. Entretanto, não escondeu que a avaliava. — Papai mandou um recado para casa, dizendo que Noah pediu que Sally e a sra. Harper viessem para cá imediatamente, mas não entendo por que ele precisa de mais criados. Você parece ter tudo sob controle. — Cam e eu começamos a arrumar, mas adoraríamos se tivéssemos ajuda. 153


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— Eu já a vi antes? — Hilary estreitou o olhar. — Na propriedade da família dele, talvez? O grito de Gideon fez com que Jessa se esquivasse da pergunta. — Com licença. — Correu para a sala e tirou o menino do cercado. — O que aconteceu com ele, Cam? Como ele conseguiu esta marca na testa? — Acalentando-o no colo, Jessa tentava acalmá-lo enquanto aguardava a resposta. Cam mudou de posição e olhou para a porta, onde Hilary apareceu. — Gideon ficou com a cabeça presa entre o assento e o braço da poltrona — disse ele, apontando para uma Chippendale no chão. — O danadinho estava tentando sair. Ele se machucou? — Não, só está um pouco assustado. — O que fizeram com a mobília? — Hilary exigiu saber, batendo a ponta da sombrinha no chão. — Isto é um ultraje! O sr. McClellan estima essas peças. Onde exatamente Noah a encontrou? Hilary devia ser cinco ou seis anos mais velha do que Jessa, ainda assim conseguia fazer com que ela se sentisse uma colegial. — Na Inglaterra — ela respondeu, enxugando os olhos do filho. — Isso é evidente, mas não consigo imaginar no que ele estava pensando... — Colocou a cesta de frutas que carregava na mesa. — Bem, não sei a quem servia antes, mas duvido que seus patrões permitissem que você rearranjasse a mobília desta maneira. Posso apostar que seu pirralho tenha babado nos assentos. Ele é seu, não? Jessa levantou o queixo. — Sim, ele é meu filho. Mas prefere morder as pernas das cadeiras em vez de babar nos assentos. Hilary arregalou os olhos ante a resposta insolente. — Cuidado com a língua. Cam se endireitou e se colocou entre as duas, tentando proteger Jessa. — Veja, srta. Bowen, precisa entender... Colocando a mão no ombro dele, Jessa o silenciou. — Está tudo bem, Cam. — Por mais que a atitude e palavras de Hilary fossem descabidas, Jessa não podia sentir nada além de piedade. Estava claro que ela ainda não sabia sobre seu casamento com Noah. — Pode levar Gideon para a cozinha? Vi que Henry trouxe leite. Ofereça uma caneca para ele e tome uma você também, se quiser. Cam, feliz em sair dali, quase correu evitando o olhar de desdém de Hilary. Jessa começou a arrumar a mobília assim que se viram sozinhas. — É lastimável que tenha vindo agora, srta. Bowen. Lamento que tenha mal interpretado quem eu sou. Entenda que... Hilary bateu a sombrinha no chão, impaciente. — Não faz diferença para mim se é a encarregada dos criados ou a cozinheira. Sei que há esse tipo de distinção na Inglaterra, mesmo entre os criados. Aqui, no entanto, isso pouco importa. Descobrirá que sou justa com a criadagem. Em troca, espero que o trabalho seja satisfatório. Isto — disse ela, apontando para a sala — não é satisfatório. — Com sua licença, srta. Bowen — Jessa começou com calma dignidade —, mas 154


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não faço parte da sua criadagem. E me parece que há sim divisão de classes ou não se dirigiria a mim com tamanha falta de educação quando nada disso lhe diz respeito. — Como ousa! Não pense que vou deixar isto assim. Tenha certeza de que falarei com o sr. McClellan. Descobrirá, então, que sua posição nesta casa é de minha conta! Jessa ficou pasma que a raiva de Hilary só acentuasse sua beleza. Somente a voz aguda e o tom superior eram repulsivos. Vendo que conseguira por fim silenciar Jessa, Hilary girou sobre os calcanhares. — Consigo encontrar a saída sozinha, obrigada! Jessa piscou depois que a porta se fechou. Balançando a cabeça, sem acreditar no que acabara de acontecer, foi até a cozinha. — Ela já foi? — Cam perguntou, desconfiado. — Sim. Bem... Isso não foi muito agradável, foi? Pode me dar Gideon. Se puder trazer água para esquentar, eu gostaria de dar um banho nele. Ele está mais sujo do que você e eu juntos, e isso quer dizer alguma coisa, não? — Indo para a porta dos fundos, perguntou: — Henry, já terminou de depenar a galinha? Prometi a Noah que o jantar estaria pronto quando ele chegasse. Com o largo sorriso desdentado, Henry respondeu: — Já terminei, sra. McClellan. Estou descascando as batatas antes de debulhar as ervilhas. — Sabe cozinhar, Henry? — Tildy acha que não, mas sei, sim. Jessa riu. — Bem, teremos a oportunidade de desvendar esse mistério hoje, não acha? Isso se eu puder contar com a sua boa vontade em preparar o jantar? — Fico feliz em ajudar. — Obrigada — Jessa agradeceu, aliviada. O banho de Gideon foi postergado porque Cam precisou sair para comprar carvão e madeira para o fogão. Nesse meio tempo, Sally Boley e a sra. Harper chegaram. Jessa teria sido capaz de gritar de horror quando elas chegaram, encontrando a dona da casa mais parecida com um limpador de chaminés, pois elas não esconderam a surpresa ao descobrir que ela era a nova patroa e não mais uma criada. No entanto, esquecida a surpresa, mostraram-se mais do que felizes em servir, voltando à casa de Noah. Henry acabou sendo dispensado do jantar e foi mandado para o terceiro andar com a bagagem das recém-chegadas. Em seguida foi cuidar dos cavalos e da carruagem. Cam retornou logo depois que Henry saiu, um tanto atordoado com a atividade na cozinha. Sally batia tampos de panela enquanto procurava o que precisava, e a sra. Harper cortava batatas, deixando-as na água buscada para o banho de Gideon. — Mais água? — Cam perguntou a Jessa. — Por favor — respondeu ela, afastando-se da parede. — Vou levá-lo para cima comigo. Leve a água lá para mim, sim? Prometo que não precisará levantar um dedo sequer amanhã. Poderá dormir até o meio-dia ou pescar no Delaware... — Sem aulas? — ele perguntou. Desde que haviam saído da Virgínia, ela vinha 155


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ajudando-o a ler e escrever. — Nada de aulas. — A velocidade com que ele saiu não era reconfortante. — Vamos recomeçar depois de amanhã! — exclamou quando ele saiu. *** Noah se sentou na beira da cama e puxou o lenço da cabeça de Jessa com cuidado. Ela ainda tinha o rosto sujo e um ar cansado. — Preguiçosa... — chamou-a, sussurrando antes de depositar um beijo atrás da orelha. — Hum? — Jessa. — Ele a tocou no ombro. — Detesto acordá-la, mas você gostaria ainda menos se eu não o fizesse. Bocejando, ela esfregou os olhos. — O jantar já está pronto? — Querida, todos já jantaram, menos você. Eu trouxe uma bandeja. Ao se sentar, ela olhou ao redor sonolenta, e perguntou: — Onde está Gideon? Eu o trouxe para cá para o banho. — Gideon já está dormindo. Quando Cam chegou trazendo a água, você dormia e Gideon estava ocupado reorganizando as roupas da cômoda. — Oh, Deus!... — Ela suspirou. — Eu não devo ter fechado bem a gaveta, Ele poderia ter se machucado caso o móvel caísse sobre ele. — Não se preocupe. Cam o resgatou e deu banho nele. Lembrando-se de que ela ainda estava suja, tentou limpar o rosto com o avental. — Nem se dê o trabalho. — A mão de Noah segurou seu pulso. — Estão esquentando água para seu banho, mas antes, você precisa jantar. — Pegou a bandeja de sobre a mesinha de cabeceira. — Sente-se mais reta. Assim está melhor. — Colocou a bandeja no colo dela. — De qualquer modo, você está adorável. — Mentiroso. Mas é gentileza sua dizer isso. — Pegou um pedaço de batatas e o. levou à boca. — Que horas são? — Quase oito. — Oito! — Não se agite. Você merecia descansar. Cheguei às seis numa casa praticamente imaculada e cometi o erro de parabenizar a sra. Howard e Sally que me passaram, uma descompostura por não ter informado a nossa chegada antes. Ficaram muito satisfeitas em me contar que você e Cam tinham limpado quase tudo e em me chamar de marido negligente por voltar à cidade antes de a casa estar preparada. — Elas não disseram isso... — Garanto que foi o que pensaram... Uma consciência pesada não precisa de um acusador. Mordiscando um pedaço de carne, ela disse: — Não tem do que se culpar. Noah bufou. — Mentirosa. — Pegou um pãozinho, partiu-o ao meio e passou manteiga para ela. 156


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— Cam me contou que receberam uma visita. — Ainda não se encontrou com Hilary? — Não. Vou até lá daqui a pouco. O que aconteceu enquanto ela esteve aqui? Cam não soube, ou não quis me dizer. Enquanto comia, Jessa contou sobre a visita. — Foi um equívoco natural. — Ela procurou apaziguar os ânimos. — Foi melhor assim. Não sou eu quem deve contar que sou sua esposa. — Mas tentou explicar a situação? — Sim, mas ela não me deixou falar. — Bem, então ela só pode culpar a si mesma pelo mal-entendido. Lamento que tenham se encontrado dessa maneira. Quando falei com o pai dela no banco, ele me disse que ela passaria a tarde fora. Pelo visto retornou mais cedo e descobriu que eu tinha chegado. — Como o sr. Bowen reagiu à notícia? — Naturalmente ficou aborrecido ao saber. Lívido é a palavra que melhor o descreveria. Mas ele também é um homem prático e sabe que não há nada a fazer. Expressou seu pesar e pediu que eu fosse gentil com Hilary e, ao se despedir, me desejou felicidades. — Que mudança de comportamento. — Todos sabem que Charles fica em cima do muro. Como banqueiro, não pode se indispor com ninguém. Ele foi sincero ao me parabenizar, mas também estará sendo sincero ao consolar a filha, dizendo que mereço ir para o inferno por fazê-la passar por isto. — Vai ser gentil com ela, não? — Tentarei, ainda que não entenda por que você quer isso. Mesmo que você fosse uma criada, não mereceria o tratamento de hoje. — Eu tenho você, ela não — Jessa falou com suavidade. — Posso me dar o luxo de ser generosa. Noah se inclinou e a beijou. — Não tem nem um pouquinho de ciúme por eu me encontrar com ela? Afinal, tomei banho, troquei de roupa, e estou muito elegante, mesmo que você não tenha notado. — Eu notei. — Ela o fitou de cima a baixo. — Mas se consegue me beijar quando tenho a aparência de uma pedinte, não fico preocupada. — Bateu na mão dele quando ela subiu perigosamente pelo seu braço. — Conte-me como foi a convenção. Foi tudo bem? Noah lhe contou os eventos do dia enquanto ela jantava. Depois se levantou e retirou a bandeja. — Vou pedir para Cam subir com a água. Acho que um bom banho vai ajudá-la a dormir bem. Não espere acordada; não faço idéia de quanto tempo demorarei. Não quero ficar mais do que uma hora, mas não posso prometer. — Eu entendo — Jessa disse, séria. Noah lançou um sorriso encorajador e saiu do quarto. Como a noite estava 157


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agradável, resolveu caminhar, mas ao perceber que tentava postergar o inevitável, apressou o passo.

Capítulo XIV

O mês de junho passou rapidamente. Os dias de verão estavam incrivelmente quentes e as noites, úmidas. Por mais que o tempo abafado abatesse os moradores da Filadélfia, Jessa não se sentia assim. Sua vida nunca fora tão viva e alegre. Gideon por fim tinha aprendido a andar. O menino passava apressado pela casa, nunca engatinhando quando podia andar, e jamais andando quando podia correr. Em seu primeiro aniversário, em julho, ele se lambuzou todo com os doces que Noah trouxera. Os parentes da Virgínia enviaram presentes, e Jessa se emocionou com as lembranças entregues por Cam, Henry, Sally e pela sra. Harper. No entanto foi quando o cavalo de balanço foi entregue que ela chorou copiosamente nos braços de Noah, dizendo o quanto ele era generoso. Ele teve de lembrá-la de que o cavalo era para Gideon. Mas naquela mesma noite presenteou-a com uma aliança de ouro e passaram a noite toda fazendo amor. Nasceram mais quatro dentes em Gideon, que parou de morder a mobília e aprendeu a dizer "não", mantendo a palavra. Atendia quando o chamavam pelo nome e aprendeu a pôr e tirar brinquedos de uma caixa. Adorava barulho; amava fazer barulho. Enquanto as conquistas de Gideon, pequenas ou grandes, marcaram os dias de Jessa, havia outros momentos igualmente importantes criados somente por Noah. Como o solitário piquenique num domingo no qual reencenaram os momentos mágicos daquele de meses antes. Sem escuna, nem interrupções. Nos dias em que chegava cansado dos infindáveis debates dos delegados na Sede do Governo, Noah resmungava que deveria ir embora como a maioria dos enviados pelo Estado de Nova Iorque. Ele reclamava porque, apesar do calor, Ben Franklin ordenara que as janelas permanecessem fechadas para manter o sigilo das reuniões. As discussões em casa podiam ser mais acaloradas do que na Assembléia, mas o entendimento, quando atingido, era infinitamente mais satisfatório. Jessa, segura do amor de Noah, aceitou que sempre haveria desentendimentos, até mesmo brigas. Nunca, porém, pensou em fugir. Os momentos infelizes eram suplantados pelos felizes e os dois se ajustavam à vida de casados. Naquele verão, ela guardou na memória momentos para uma vida inteira de lembranças. Passeavam ao anoitecer, caminhavam vendo vitrines, assistiam a peças de teatro e recebiam amigos em jantares em casa. Conversavam na sala, planejando o futuro. Riam de alguma graça feita por Gideon. Jessa freqüentemente escrevia para Charity e Robert, contando da felicidade encontrada com o filho deles. — Dê uma olhada nisso, Jessa — Noah disse, entrando no quarto. Ela se afastou da cabeceira e apertou os olhos para enxergar uma diminuta 158


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mancha verde na gravata branca. — O que é? — perguntou, voltando a se recostar e abanar com o leque chinês que ele lhe comprara. — Pode abrir a janela, por favor? — É ervilha — ele resmungou, enquanto empurrava a veneziana. — É possível... — Sei que está caçoando de mim, mas saiba que não estou gostando. — Claro que não — disse serena. — Nenhum homem gostaria. — Ah! Que homem gostaria de receber meia dúzia de convidados em sua casa, com ervilhas na gravata? Deveria ter me contado. — Eu teria se tivesse percebido. — Ben Franklin percebeu. — E mesmo? Por certo explicou que você e Gideon se envolveram numa pequena batalha durante o jantar. — Ela riu. — Contou quem foi o vencedor? — Ele adivinhou pelo estado da minha gravata — Noah disse, tendo dificuldades para reprimir o riso. — Recuso-me a entregar uma colher ao nosso filho até ele dar sinais de seu primeiro bigode. O danado simplesmente não é confiável. — Tirando o paletó e o colete, sentou-se na cadeira de balanço e tirou sapatos e meias. — O que acha? — Acho que daqui a uma semana vai tentar de novo e, quando ele conseguir comer sem se sujar, você vai se pavonear todo orgulhoso do filho bem-educado que criou. — Você me conhece bem demais — Noah riu. Suspirando, esticou-se na cadeira. — Está exausto. Por que não vem se deitar? — Daqui a pouco. Estou sem forças sequer para isso. De fato, estou surpreso por encontrá-la acordada. Quando se despediu horas atrás pensei que viesse dormir. O leque esvoaçava as mechas loiras soltas ao redor do rosto dela. — Não consegui. Está quente demais. Espero que seus convidados não tenham se ofendido. — Não — Noah balançou a cabeça —, só ficaram desapontados. Ben, em especial... Ele gosta muito de você. Nós a cansamos demais, Jessa? — De modo algum. Eu sabia que estavam ansiosos em discutir estratégias para o debate de amanhã. Achei melhor me retirar para que pudessem fazer isso. — Foi o que eu disse a eles. Mas agora me pergunto se isso é verdade. Você parece cansada ultimamente. — É o calor. Ainda estou encontrando dificuldades para me ajustar. Na Inglaterra nunca é tão quente assim. Noah se mostrou pensativo com as sobrancelhas erguidas e o olhar perscrutador. — Há alguma coisa que não me disse, Jessa? Algo... que não sei? Jessa se apiedou porque ele parecia ansioso e, ao mesmo tempo, na expectativa. Entretanto aquele não era o cenário imaginado por ela. Pensou em contar a novidade num piquenique ou num jantar romântico, mas definitivamente não com ele exausto largado na cadeira de balanço. — Está estragando minha surpresa... 159


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Noah se levantou e foi para a cama. — Surpresa? — Sim, minha surpresa. Embora não deveria ser já que nós... Bem, sabe do que estou falando. — Você consegue ser irritantemente indireta às vezes, Jessa. Poderia ser mais clara, por favor? Ela dobrou o leque e deu um tapinha na mão dele. — Sabe muito bem ao que estou me referindo. Estou esperando um filho seu, Noah. — Mesmo? De verdade? — ele perguntou, feliz demais com a notícia. Abrindo o leque, Jessa balançou-o à frente do rosto dele. — Claro que sim. O calor afetou seus miolos? — Ela riu quando ele a pegou pelo pulso, jogando o leque de lado e a trouxe para junto de si, parando a cent ímetros de seus lábios. — Ah, vejo que acredita em mim. Noah a beijou, com reverência no começo, depois com adoração. — Há quanto tempo sabe? — perguntou, segurando-a pelo rosto. — Há alguns dias. Eu queria ter certeza antes de lhe contar. — E agora tem? — Sim, passei em consulta com o dr. Markum, que ficou muito contente em dizer que meu cansaço, meu choro e a náusea tinham uma explicação plausível. — Está sentindo enjôo matinal? — Não, vespertino... O médico disse que também é normal. — Não notei que anda chorosa. — Isso porque costumo chorar quando você não está por perto. É um aborrecimento, Noah. Começo a chorar sem motivo algum. Acho que a sra. Harper desconfia do meu estado, ainda que não tenha comentado nada. — Está com quantas semanas de gravidez? — Umas dez. Noah digeriu a informação. Deixou o olhar pousar sobre o abdômen dela para ver se havia alguma mudança. Adivinhando-lhe os pensamentos, Jessa levou sua mão à barriga. — Ainda está lisinha — comentou ele, desapontado. — Dê-nos tempo. — Ela riu. — E aproveite enquanto pode. Vou ficar mais gorda do que uma vaca. — Impossível — ele zombou. — Está feliz com o bebê, Jessa? — Sim, muito. E você? — Acho maravilhoso. Jessa apertou a mão dele, ansiosa. — Esta criança não vai fazer diferença, vai? — Diferença? De que modo? 160


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— Em como você se sente a respeito de Gideon. — No mesmo instante, percebeu que suas dúvidas o magoaram. — Desculpe, sei que o ama. Só não quero que isso mude quando tivermos nossos filhos. — Gideon é nosso filho — Noah declarou. — Não me vejo amando-o menos e não sei como posso amá-lo ainda mais. Terei uma dívida para com ele a vida inteira. — Que dívida? — Jessa inclinou a cabeça. — Ele é o responsável por estarmos juntos. Ela riu. — E todo esse tempo eu pensei que deveria agradecer seu cavalo manco. Ele provou do riso nos lábios dela. — Ele também. — Beijou-a de novo. Dessa vez, passando o braço pela cintura. — Noah? — Hum?... — Está quente demais... — Quando ele se afastou, ela pegou o leque novamente. — Se conseguisse arranjar um modo de fazer amor sem nos tocarmos, eu adoraria parti cipar. Antes de você chegar, eu sonhava com tempestades e nevascas. Pensei seriamente em me jogar no rio. Noah puxou a camisa que, úmida, se agarrava à pele. — Entendi. — Pegando o leque das mãos dela, ordenou: — Recoste-se. Agora levante o queixo um pouquinho. — Sentiu-se tentado a beijar a curva do pescoço, em vez disso abanou-o. — Melhor? — Ah, maravilha! — Suspirou ela, de olhos fechados. — Sabe, o rio não é má idéia. Podemos dar um mergulho... — Já passa da meia-noite! Teríamos de acordar Henry para preparar a carruagem e Cam ou a sra. Harper para pedir que ficasse atentos a Gideon. Acho melhor ficarmos aqui e você continua a me abanar para sempre. Ou até eu dormir. Noah depositou-lhe um beijo no ombro e quando ela conseguiu energia para abrir um olho e fitá-lo brava, ele conseguiu produzir um ar contrito. — Desculpe, não resisti. Segure o leque. Tive uma inspiração. — Aonde vai? — Jessa perguntou quando ele saiu. — Não foi isso o que pedi... Alguns minutos mais tarde, ele voltou equilibrando quatro baldes até o quarto de vestir. — Mais uma viagem. A segunda vez foi mais rápida. Ele encheu a banheira, acendeu algumas velas e depois a pegou no colo. — Um banho para madame — anunciou, colocando-a de pé. — Água fresca, devo dizer. Jessa colocou os dedos do pé na água. — Água fria, eu diria. — Fria demais? Levantando a camisola, ela balançou a cabeça. — Eu me acostumo. 161


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— Ótimo. — Noah tirou a camisa, a calça e as ceroulas. — Noah! O que está... Não há espaço para... Noah encostou as costas na curva da banheira e as pernas nas laterais. Jessa estava sentada em frente, com os joelhos ao encontro do peito. Conseguia sentir os dedos dele cutucando suas nádegas. — Você dizia... — ele começou, alegre. — Acho que eu estava errada. Temos espaço para convidados, se quiser. — Jogou água nele. Pressionando os lábios, ela bem que tentou se fazer de séria, mas seus esforços seriam desperdiçados em Noah, que sorria, feliz. — Acho que o bebê aumentou seus seios — disse ele, puxando conversa. Jessa pensou em jogar a esponja de banho nele, mas imaginou que era isso o que ele queria. — Como pode afirmar isso? — Os joelhos dobrados cobriam-lhe os seios. — Eles estão se derramando... Olhando para baixo, viu que ele tinha razão. — Mas não é por causa do bebê. É porque você me espremeu na banheira tal qual peixes num barril. — Está desconfortável? — ele perguntou, já colocando as mãos na lateral para se levantar. — Sente-se! — Ela riu. — Estou bem. — Inclinando-se, passou a esponja pelo rosto dele, descendo pelo pescoço. — Está triste por não termos ido até o rio? — Flexibilidade é uma das minhas virtudes. Fazendo uma pausa, Jessa percebeu o modo como ele estava dobrado dentro da banheira. — De fato. Espiando debaixo dos cílios, viu que ela admirava seu corpo. — Eu estava me referindo à flexibilidade de pensamento, não do corpo — disse, fechando os olhos e percebendo que a água fresca em nada diminuía seu calor interno. Se Jessa movesse a mão um tantinho mais para baixo... — Sim, percebo o que diz — ela comentou, pensativa. — Seu corpo não é tão flexível como imaginei. Na verdade... algumas partes são bem... rígidas. — A mão deslizou para baixo da água e os dedos delicados o envolveram. — Acho que nós... hum, aqui na água? A resposta de Noah foi um sorriso lânguido. — Hum, aqui na água? Sua proposta pede esclarecimentos. Tente ser menos ambígua, sim? Jessa se moveu, sentando-se sobre os joelhos entre as pernas dele. Apoiou as mãos nos ombros largos e se inclinou, sussurrando algo no ouvido dele. — Jessa! — E arqueou as sobrancelhas. 162


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— Você pediu clareza — ela se defendeu, corando. — Bem, você conseguiu. E pensar que quer tudo isso aqui na água... Fico confuso. Isso requer semanas de estudo. — Tolo — disse ela, calando-o com um beijo. — Leve-me para a cama. — Com prazer. Não chegaram tão longe. De comum acordo decidiram que o chão do quarto de vestir serviria. O mundo cor-de-rosa de Jessa durou até o jantar do dia seguinte. Gideon já havia jantado quando Noah voltou para casa, portanto os dois tinham a sala de jantar s ó para eles. No centro da mesa, um lindo vaso de flores frescas, e a sra. Harper entrando e saindo com um sorriso nos lábios conforme os servia. Noah olhou para a esposa por sobre a borda da taça de vinho. — O que deixou a sra. Harper tão feliz? Acho até que a ouvi cantarolar. — Ela o considera um homem maravilhoso. — Jessa tocou a taça na dele. — Assim como eu. Ele sentiu o sorriso diminuir aos poucos. — Você contou sobre o bebê, não foi? — A voz não foi tão casual quanto ele pretendia. — Não pensei que fosse segredo. — Os olhos acinzentados mostraram preocupação. — Eu lhe disse que ela já suspeitava. Então só confirmei. — Eu queria que não tivesse feito isso. — Noah pegou o garfo e a faca e começou a atacar a carne. — Quem mais sabe? — Sally. Henry. Cam. Escrevi aos seus pais, mas ainda não enviei a carta. Por que quer que ninguém saiba? Tem vergonha? — Essa é, talvez, a sugestão mais ridícula que já ouvi. Claro que não tenho vergonha. Em outras circunstâncias eu anunciaria sua gravidez no centro da cidade. — Que circunstâncias impedem que você faça isso? — Hilary — Noah disse, sucinto. — Não quero que ela saiba. Jessa não entendia os motivos, mas aceitava o fato. — Está bem, não contarei a ela. Porém não sei como eu contaria visto que, quando me vê, ela atravessa a rua. Na coleção de lembranças do verão, Hilary era uma das poucas que Jessa gostaria de apagar. Não que ela espalhasse boatos aos quatro ventos, mas as mentiras contadas como se tivessem escapado sem querer de seus lábios, eram muito piores. Hilary dera a entender que Gideon era o bastardo de Jessa que ludibriara Noah, obrigando-o a se casar. Também deixara escapar que, ao retornar, ele tinha ido procurá-la, pedindo que fosse sua amante. Jessa ficou bem conhecida durante esses meses, pois tais histórias correram soltas. Ela preferiu não comentar nada, para não piorar a situação, esperando que os boatos perdessem força. E quando Hilary foi para a casa de campo na Vila Alemã para cuidar do avô doente, as fofocas deixaram de existir. — Eu não sabia que ela havia voltado. — Jessa reparou na testa franzida do marido. 163


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— Ela chegou hoje. Não se lembra? O avô dela morreu há uma semana. — Lamento muito, mas esta é a primeira vez que ouço isso. — Eu lhe disse que Quincy Hearn havia falecido. A sra. Harper e Sally foram ao funeral. — O que se esqueceu de mencionar, e talvez intencionalmente, foi que o sr. Hearn era avô dela. Como eu haveria de saber se os sobrenomes são diferentes? — Ele era avô materno. — Entendo isso agora — ela replicou, adotando o tom de voz dele. — Diga-me, então, como vou evitar que ela saiba da minha gravidez? Mesmo as mentes mais obtusas perceberão em alguns meses. Percebendo o tom de sarcasmo dela, Noah se deu conta que se comportara mal, sem que Jessa soubesse que sua rispidez se originava no medo e não na raiva. — Bom Deus — suspirou ele —, desejo não ficar muito mais tempo aqui. Espero que em três ou quatro semanas possamos ir embora. — Abaixou o garfo e tocou no pulso dela. — Desculpe, Jessa, comportei-me muito mal. Sem nem olhar para o marido, ela desvencilhou-se de seu toque. — Sim, se comportou, e não entendo por quê. O que importa se Hilary souber que estou grávida? — Não deveria, mas acho que importa. Acha que ela vai receber bem a notícia? — Às fofocas dela não precisam nos afetar. — Isso já aconteceu antes. E a novidade vai afetá-la novamente. Perturbada com aquela conversa, Jessa sorveu um gole de vinho. — Não achei que se importasse mais com o que ela pensa ou sente. — Está entendendo mal, Jessa — ele se apressou em dizer, os olhos procurando os dela. — Só estou antecipando como ela vai reagir à notícia. Ela se esforçou em convencer as pessoas de que eu a queria para amante. Ela me seguiu, provocou encontros fortuitos quando eu estava só ou com poucos amigos, como se eu estivesse indo atrás dela... — Você não me contou isso — Jessa o interrompeu, de modo acusatório. — Talvez eu devesse. Mas na época eu não queria que isso complicasse nossas vidas. Não queria mencionar o nome dela em nossa casa e deixar que aquela língua ferina nos envenenasse. Depois que ela foi cuidar do avô, não vi mais motivos para fazêlo. — Será melhor ela saber sobre o bebê, Noah, assim perderá qualquer esperança de tê-lo de volta. Ele meneou a cabeça. — Se ao menos eu pudesse acreditar nisso... Mas acho que a novidade só a deixará com cara de tola. Hilary delicadamente inferiu que eu e você não éramos íntimos, que nosso casamento era de aparências somente. Já que eu não podia fazer amor com você no meio da praça, ela pôde se deliciar com esse tipo de mentira sem ser descoberta. Acho que ela não imaginou que você pudesse engravidar. — Já que ela nunca engravidou — Jessa completou o pensamento com suavidade. — Correto — ele concordou, desviando o olhar. 164


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Jessa demorou a falar, tocando as pétalas das rosas do centro de mesa, pensativa. — Não consigo deixar de sentir pena, Noah. Depois de tudo por que passou, não posso condená-la pelo que ela faz. Ela sofreu muito, e não só em suas mãos. Talvez não seja justo, mas culpo o pai dela pelo que ela se tornou. E se bem me lembro, voc ê também pensava assim ao retornar da casa dela naquela noite. No entanto seus sentimentos mudaram com o tempo. Isso por que imagina que ela tenha atingido a mim e a Gideon? — E não atingiu? — Gideon não está nem um pouco preocupado com tudo isso, não acha? — ela indagou, sorrindo. — Quanto a mim, a mágoa é ínfima. Preocupo-me mais com a sua reputação. — Endireitou os ombros e prosseguiu um tanto mordaz: — Acho incrível que qualquer pessoa, conhecendo sua inteligência e astúcia, acredite que eu o tenha ludibriado a se casar comigo. As sobrancelhas de Noah se ergueram e os lábios se curvaram num sorriso. — Ouviu o que acabou de dizer? Se Hilary soubesse como chegou perto da verdade! — Bem, nós sabemos a verdade, o fato de alguém aceitar essa tolice está além da minha compreensão. Não me importo se me consideram uma manipuladora, mas isso se reflete mal em você. A lógica de Jessa às vezes o pegava de surpresa. — Está dizendo que Hilary só a magoou por minha causa? — Sim. — E ela me magoou ao dizer essas coisas ao seu respeito. Jessa assentiu. — São só palavras, Noah. Nós é quem decidimos se somos afetados por elas ou não. — Acha que estou dando importância demais ao retorno dela, não? — Sim. Hilary ficou semanas longe daqui; teve tempo para refletir. E mesmo que ainda se importe, não há nada que possamos fazer. Noah bem que gostaria de estar tão confiante e despreocupado quanto Jessa. O fato era que os pequenos atos de vingança de Hilary haviam dissipado todo e qualquer sentimento que pudesse ter por ela. — Pode ter razão, mas não vejo a hora de voltar para a Virgínia. — Ah! Quase esqueci! — Num pulo, Jessa saiu da mesa, retornando em seguida com uma carta nas mãos. — Chegou hoje, mas como estava endereçada só para você, não a abri. A letra não é de seu pai. — É de Jerico. — Noah abriu o envelope. — Há mais cartas aqui dentro... Uma de mamãe e outra de Courtney para você. Há também uma carta de Drew Goodfellow. — Drew? — Ela se inclinou na direção de Noah, enquanto ele desdobrava o papel. — O que ele conta de novo? — Ah, está curiosa? — zombou, afastando o papel ao perscrutar a carta. — Tudo o que posso lhe dizer, sra. McClellan, é que fez bem em confiar em mim meses atrás, pois acabou de ser descoberta. — O quê? 165


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— Acalme-se, querida. Não é o que está pensando. Drew não contou nada a ninguém. Ainda a bordo do Clarion, escrevi uma carta a ele, pedindo que a investigasse... Não fique brava, eu tinha meus motivos, lembra-se? Ao que parece Drew descobriu sua identidade sem maiores problemas: Will Shaw solta a língua quando bebe. — Will! Eu deveria tê-lo esganado depois que atirou em você! Noah continuou a ler. — Drew conta que os Penberthy ofereceram uma recompensa para quem levasse informações a seu respeito. Foi só quando ele recebeu minha carta e falou com Mary e Davey que ele ligou os fatos. — Verificando a data, Noah prosseguiu: — Ele escreveu logo depois de ter recebido minha carta, há algumas semanas. Não há indícios de que os Penberthy tenham recebido informações quanto ao seu paradeiro. — E se Will falar com eles? — Acho improvável. Drew conquistou a confiança de Will por ter contrabandeado ao lado do pai dele no passado. De acordo com Drew, quando Davey descobriu, ameaçou cortar a língua de Will. Jessa fez uma careta ao imaginar a cena. — Como Davey descobriu que Will tinha dado com a língua nos dentes? Noah dobrou a carta e a guardou no bolso. — Drew contou, pois queria se certificar de que Will não se deixasse enganar com tanta facilidade novamente. Acho que Drew é seu defensor, Jessa. Ele manda lembranças e pede que eu... Como ele disse? Ah, que eu pudesse perdoá-la, pois suas mentiras foram provocadas pelo excesso de devoção à criança. Bonito, não acha? Jessa nem pensou nas palavras, apenas perguntou: — Conseguiu, Noah? Você me perdoou? Noah tirou as cartas amassadas das mãos dela e a puxou para o colo. — Não havia nada a perdoar. Alguns minutos mais tarde quando a sra. Harper voltou trazendo a sobremesa, acabou fechando a porta apressada, pensando que certos apetites deveriam ser saciados no quarto.

Capítulo XV

Setembro de 1787. Não foi coincidência eles se encontrarem. As intenções eram as mesmas, bem como os objetivos. Estavam motivados por um único propósito. Que, seus caminhos se encontrassem era inevitável e não uma surpresa. Mesmo assim, no primeiro encontro, Hilary mostrou-se desconfiada. 166


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— Perdão — disse ela, friamente, segurando firme os pacotes de compras. — Falou comigo? O homem que tirava o chapéu era belo de uma maneira rústica. — Sabe que sim — disse ele de pronto, balançando o peso do corpo nos pés. Hilary se virou para sair dali. Era uma pena que o homem não falasse educadamente. Que ele também fosse inglês era insuportável. O forte sotaque lhe doía os ouvidos. Ross Booker começou a andar ao seu lado. — Não está interessada no que tenho a dizer? — Seria capaz de apostar tudo o que lady Barbara lhe dera nisso, ao ver uma centelha de interesse naqueles olhos. A residência dos Porter ficava ao norte da cidade e a fachada imponente ladeava o rio. A música do salão recepcionava os convidados ainda nas carruagens no largo caminho de entrada. Jessa e Noah se misturaram aos demais convidados quando Anne e Harrison Porter deram início à dança. Depois disso Jessa sentiu como se não tivesse parado um minuto sequer. Depois da primeira valsa, Noah logo imaginou que não teria oportunidade de voltar a dançar com ela. Pegou uma taça de vinho de um dos criados que passava, conforme seus olhos acompanhavam os movimentos graciosos da esposa. — Não seja tão óbvio — Anne brincou, batendo no braço de Noah com a ponta do leque. — Seus olhos a estão devorando. As pessoas vão comentar. — Elas já comentam — disse ele, olhando de lado para a anfitriã. — Sim, mas vão acabar espalhando que está apaixonado por ela se continuar a olhá-la desse modo. — Eu a amo. Anne riu e fechou o leque. — Convide-me para dançar, Noah, e me conte tudo. Ele deixou a bebida de lado e estendeu o braço. — Metade da cidade está aqui, Anne. Você se superou. — Obrigada. — Ela era uma bela mulher, e quando sorria como naquele instante, ficava radiante. — Imagino que esteja se divertindo. — Muito. — E Jessa? — Ela me pediu que não a desertasse esta noite. Pelo visto eu deveria ter arrancado o mesmo tipo de promessa dela. — Noah riu. — Tenho certeza de que está se divertindo. — Fico feliz em ouvir isso. Descobri que gosto dela. — Parece surpresa. — Talvez sim. Sabe, eu estava preparada para não gostar dela... Por causa de Hilary. Que horrível dizer isso! — Balançou a cabeça com tristeza. — Espero que entenda como a situação foi delicada. Lamento que tenha havido tanta amargura entre você e ela. 167


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— Em grande parte, a amargura foi de Hilary. — Percebi isso desde o falecimento do avô dela... Hilary vem agindo... Não sei se consigo explicar. Muda de humor de uma hora para outra e anda tão cheia de segredos. É como se eu não a conhecesse mais. — Relaxe o semblante, Anne. As pessoas vão pensar que estou pisando nos seus pés. Vamos falar de outra coisa? — Claro, me perdoe. — Ela sorriu. — Estou tirando vantagem de nossa amizade e esquecendo os bons modos. — Perdeu o passo ao olhar por sobre o ombro dele. — Oh, Deus, não olhe! — Levantou o olhar ansioso para Noah. — Hilary acabou de chegar com o pai. Noah, por favor, não a menospreze publicamente. — Como sabe que... — Porque foi o que Harrison disse que faria se estivesse em seu lugar. Meu marido perdeu a paciência com Hilary e pediu que a cortasse da lista de convidados, mas não pude fazer isso. Ela me ajudou imensamente no planejamento da festa. De fato, insistiu para que eu convidasse você e Jessa, prometendo se comportar. Oh, Deus!... Harrison foi cumprimentá-los. Acho melhor eu me juntar a eles. Terá de encontrar uma nova parceira. Ele a acompanhou até a beira do salão. — Não há mulheres disponíveis. — Noah apontou para um canto do salão onde Ben Franklin se sentava rodeado de mulheres, a maioria delas com um quarto da idade dele. — Franklin conquista a simpatia delas reclamando de gota. — Então se junte a eles — Anne aconselhou antes de se afastar. Noah conseguiu recuperar Jessa antes que a música seguinte começasse. Ela estava corada e com os olhos cintilando de alegria. — Já lhe disse que está estonteante? Ela o olhou de soslaio por debaixo dos cílios. — Lembro-me de tê-lo persuadido a me dizer isso... Dançaram uma vez mais antes que ela pedisse para descansar. — Poderia me trazer uma taça de ponche, por favor? — Espere por mim perto de Franklin — ele sugeriu. Em seguida encaminhou-se para a mesa de refrescos. Charles Bowen estava lá e ao vê-lo mostrou indecisão quanto a ficar ou sair. — Boa noite, Charles — Noah o cumprimentou com afabilidade. — Ah, sim, boa noite — respondeu pouco à vontade, vasculhando o salão à procura da filha. Vendo que ela dançava, relaxou. — E um prazer voltar a vê-lo. Que bela festa, não? Noah aceitou a taça de cristal oferecida por um criado. — Permita-me expressar meus pêsames pelo falecimento de seu sogro, Charles. Eu o admirava muito e teria ido ao funeral, mas dadas as circunstâncias... — Sim, claro. Como eu queria que Hilary estivesse enfrentando melhor essa situação... 168


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— Refere-se à morte do avô? — Não, não. Quanto a isso não há problemas, ela está cuidando de tudo, até dispensou os criados, pois quer cuidar dos pertences dele pessoalmente. Acho que está planejando ir morar lá já que recebeu a propriedade de herança. — Charles levou a taça aos lábios. — Eu me referia ao rompimento do noivado. Ela não está... se recuperando como pensei que deveria. Ultimamente... — Interrompeu a sentença ao vê-la se aproximar. — Ora, papai, faz parecer como se eu estivesse doente — Hilary o provocou, alegre. — Garanto que nunca me senti mais animada. Noah, que bom vê-lo aqui. — Estendeu a mão, forçando-o a decidir se a tomava ou ignorava. Educadamente ele a segurou e levantou, sem, no entanto, fazer menção de beijá-la. — Semanas atrás disse a papai que não aceitaria o convite de Anne de pronto, pois temia que você e sua esposa não viessem se soubessem que eu viria. E eu queria muito vê-lo aqui, querido. Noah refreou a resposta cáustica que lhe veio a mente. Viu Anne fitá-lo, angustiada, e percebeu que ela não era a única pessoa que Os observava. — Anne me disse que você insistiu para que eu e Jessa fôssemos convidados. Por quê? — Porque quero mostrar a todos que posso ser civilizada no que se refere a você e a ela. Fiquei sabendo que há motivos para parabenizá-lo. Logo terá seu primeiro filho. — Se quer jogar conversa fora, podemos falar sobre o tempo. O sorriso dela falseou um segundo antes de ela se recuperar. — Oh, esqueci, você já tem um filho, não é? Um menino. Qual o nome mesmo? — perguntou, pensativa, mas continuou antes que Noah respondesse. — Algo do Antigo Testamento... Vocês, McClellan, têm certa inclinação por nomes bíblicos, não? Adam? Não, não é isso... Gideon. É isso. Gideon. — A saia do vestido rodopiou conforme ela se virou para o pai. — Pode nos dar licença, papai? Quero dançar com Noah. Charles não conseguia esconder o embaraço. Noah empalideceu e Hilary sorria triunfante como se tivesse marcado um ponto. — Claro, querida. Vejo George Garret... Preciso... A voz de Noah soou baixa e o sorriso era forçado ao dizer: — Não deixe seu pai sair, Hilary, a menos que queira ficar plantada aqui sozinha na frente de todos os convidados. Vou voltar para junto de minha esposa com este ponche. — Começou a se mover, mas a mão dela o deteve pelo cotovelo. — Solte-me ou não respondo por mim. Ela riu como se tivessem lhe contado algo engraçado e o soltou. — Venha, papai, dance comigo. Noah não quer fazer as pazes. — Hilary flanou para a pista sendo seguida pelo pai. Os olhos de Jessa traziam uma pergunta quando ele se aproximou do grupo. — Com licença — disse ele a Franklin e ao grupo que a cercava. Ofereceu o cotovelo para que Jessa o segurasse e a conduziu para a sacada. — O que houve? — perguntou ela do lado de fora. — O que Hilary lhe disse para que ficasse assim? — Ela sabe. — Sabe o quê? 169


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— Sobre Gideon. A taça escorregou dos dedos de Jessa e ela sentiu os joelhos tremer. — O que ela lhe disse exatamente? Depois que Noah lhe contou sobre a troca de nomes, ela afirmou: — Ela pode ter se confundido apenas. — Nem pensar. Acha que eu a preocuparia com isso se não tivesse certeza absoluta? Hilary sabe e queria que eu soubesse disso. — Não faz sentido algum, Noah. Como ela pode ter descoberto? — Não faço idéia. Jessa começou a andar de um lado para o outro e pediu: — Quero voltar para casa. — Acha bom sairmos agora e deixá-la ver que nos abalou? Eu não deveria tê-la trazido aqui para fora. Não temos como escapar dessa. Se ela for a público, não há nada que possamos fazer exceto dizer a verdade. — Oh, Deus! — Jessa fechou os olhos. — Perderemos Gideon. Você ficará arruinado. — Nem pense nessas coisas. — Noah percebeu que ela não poderia voltar ao baile naquele estado. — Venha comigo. Você espera na carruagem enquanto volto para pegar seu xale e me despedir dos Porter. — Não. Você tinha razão. Não podemos sair agora. Só me dê um minuto. Noah se surpreendeu com a determinação da esposa ao ver que ela conseguia se recompor a ponto de enfrentar os convidados novamente. Passou-se uma hora antes que os primeiros começassem a ir embora e fosse seguro para eles ir também. No caminho de volta não disseram nada, apenas ficaram de mãos dadas dando apoio um ao outro. Ao chegarem, a casa estava escura. — Sally e Cam devem ter ido dormir — disse ele, tentando esconder a apreensão, visto que, costumeiramente, alguém sempre os esperava acordado. Henry desceu da carruagem e abriu a porta da frente para eles. — Esperem aqui, vou entrar e acender uma vela. — Após poucos passos, ele tropeçou e torceu o tornozelo. — Inferno danado! Noah e Jessa apressaram-se para dentro de casa. — Henry? O que aconteceu? — Caí em cima de uma cadeira. Cuidado, sra. McClellan — disse ele. — Gideon deve ter mexido na mobília. Jessa tateou no escuro a procura do candelabro, mas nem encontrou a mesinha. — Noah, nada está onde deveria. Gideon não é o responsável por isto. — Abaixouse e começou a procurar pelas velas. — Ah! Uma mão! Sally?... Acho que é Sally! Noah se aproximou e a afastou. — Espere aqui. Não se mexa. — Ajoelhado, encontrou a mão caída e, tateando, reconheceu os cabelos da empregada. — É Sally. — Continuando a inspeção, encontrou um calombo na cabeça da criada, mas viu que ela tinha pulsação. — Ela vai ficar bem, Jessa, não se preocupe. 170


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— Ela caiu? Noah não respondeu. Em vez disso, encontrou o candelabro no qual ainda havia algumas velas presas e as acendeu. Segurando-o no alto, percebeu que a sala inteira estava desarrumada. Amparando a chama com a mão, virou-se para Henry. — Fique com Sally. Preciso encontrar Cam. Jessa, espere aqui. Ela o ignorou e subiu as escadas, apressada, chamando por Cam e Gideon. Noah a alcançou e entregou uma vela, dizendo: — Fique atrás de mim. Não sabemos se há alguém mais aqui. — Preciso encontrar Gideon! Noah não disse nada para encorajá-la, pois ele mesmo estava desesperançado. Nada do que vira indicava que se tratasse de um mero assalto. Abriu a porta do quarto de Gideon com cuidado, enquanto Jessa erguia a vela atrás dele. Cam estava no chão, com um hematoma na lateral do rosto e vestígios de sangue seco no canto da boca. A bacia usada para banhar o menino fora derrubada. Cam estava ensopado e não havia nem sinal de Gideon. Refreando um grito, Jessa se abaixou ao lado de Noah. — Ele vai ficar bem? Cam gemeu quando Noah o tocou no ombro, depois piscou confuso. — Cam? Sou eu, Noah. O que aconteceu? Onde está Gideon? Cam dobrou os joelhos e amparou a cabeça. Os lábios tremiam ligeiramente enquanto procurava respirar. — Ouvi Sally gritar e fui colocá-lo no armário. — Ele começou a se levantar, mas foi detido pela mão de Noah. A esta altura, Jessa já abria as portas. O armário estava vazio. — Oh, Deus! — Cam soluçou quando viu Jessa pálida. — Pensei que ele fosse ficar seguro aí. Eu... não sabia, o que fazer... Henry chegou mancando no quarto. — Sally acordou. Ela está meio tonta. E o garoto? — Cam vai ficar bem. — E Gideon? — Não sabemos onde ele está. — Noah se virou para Cam, apesar de ver o estado precário de Jessa encostada no armário. — Conte-nos o que aconteceu. — Eu estava colocando Gideon na cama quando ouvi alguém à porta. Não prestei muita atenção até Sally começar a gritar. — Ele olhou com os olhos suplicantes para Jessa. — Foi tão rápido. O barulho, a gritaria e de repente ficou tudo em silêncio. Eu não sabia o que fazer. Ouvi alguém subir as escadas, então coloquei Gideon no armário para protegê-lo e fui para baixo da cama. Só que Booker me viu e me puxou e... — Booker?... — Noah perguntou, ríspido. — Ross Booker? — Ele mesmo. Eu chutei e tentei me soltar... Mas ele me socou e depois afundou minha cabeça na bacia de Gideon. Continuou me segurando e eu não conseguia me soltar. Então fingi, prendi o fôlego... Até ele pensar que eu tinha morrido. Foi então que ele me soltou. É só o que sei porque depois tudo ficou escuro. 171


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Jessa se afastou do armário e deu dois passos. Em seguida, desmaiou. Quando recobrou os sentidos, Henry estava na cadeira de balanço ao seu lado. — Onde está Noah? — Ele voltou para a casa dos Porter, sra. Jessa, para falar com a srta. Bowen. Ela se sentou, recusando o copo de água que ele lhe oferecia. — Há quanto tempo ele saiu? — Há alguns minutos. Ele a pôs na cama e saiu. Foi direto para o estábulo pegar o General. Disse para a senhora ficar aí onde está — acrescentou quando ela pôs os pés no chão. — E Cam? — Desceu para ajudar Sally — Então Noah foi sozinho... Henry aquiesceu, mas não disse que ele levara a pistola que mantinha guardada desde a época da guerra. — Não fique preocupada, senhora, não faz bem em seu estado. — Henry — ela se levantou, sem atentar para as preocupações dele —, quero que sele Willow para mim. — Vendo o tornozelo inchado dele, corrigiu-se: — Deixe para lá. Eu mesma faço isso. — Antes de descer, apoiou o pé do homem num banquinho. — Cam — disse ao encontrá-lo nas escadas —, pode me ajudar? Quero ir atrás de Noah. Ele não deve estar longe. Pode trazer Willow para mim? — Não — respondeu o garoto, que trocara de camisa. — O sr. Noah vai ficar bravo. — Eu vou ficar se não fizer o que estou pedindo. Mesmo esticando-se, ela ainda era um palmo mais baixa que o garoto. E, no entanto, foi ele quem recuou. — Nem sabe para onde ele foi — ele disse, seguindo-a escada abaixo. — Henry me contou. — Ela parou. — Vai me ajudar ou não? Cam hesitou um segundo antes de segurá-la pela manga do vestido. — Não vou selar Willow, mas podemos ir com a carruagem. Eu conduzo. — Seu olho está inchado, mal pode abri-lo. — Eu vou. — Jamais a deixaria ir sozinha. — Gideon era minha responsabilidade. — Está bem, mas eu dirijo! Depois de alguns minutos, ele relaxou ao ver que ela sabia conduzir os cavalos. — Por que estamos seguindo o sr. Noah? — Porque temo o que ele fará com Hilary quando a encontrar. — Henry não deveria ter lhe dito sobre a pistola... — Percebendo ter dito o que não deveria, continuou a falar: — Ainda não entendo: por que ir atrás da srta. Bowen? Eu disse que foi Ross Booker quem levou Gideon. — Sim, mas Noah não sabe onde encontrá-lo enquanto a srta. Bowen deve saber. Ela sabe uma coisa, Cam... Não posso explicar, você terá de confiar em mim. Hilary e Ross estão em conluio. Só pode ser isso... Nada mais faz sentido. — Mas o que Booker está fazendo aqui? Ele não devia estar na Inglaterra? 172


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Jessa se lembrou do alívio ao saber que ele estava a caminho da Inglaterra. Se Booker não tivesse voltado, não teria ficado sabendo do sumiço de Gideon. De algum modo ele descobrira sobre o prêmio oferecido pelos Penberthy. Talvez ele não tivesse certeza de sua identidade como Jessica Winter, mas por certo, logo ligou os fatos. E agora estava ali. Machucara Sally, que não podia identificá-lo, e tentara matar Cam, que podia. — Ele veio para tomar Gideon de mim para... — Não conseguiu completar a frase. Gideon só fora seqüestrado, não podia estar morto. — Ele lhe disse alguma coisa? — Ele murmurou alguma coisa como não ter me visto nessas três semanas. Foi como se estivesse vigiando a casa esse tempo todo. — Pode ser isso mesmo. — O que significava que ele tivera tempo de conhecer Hilary e se mancomunar com ela, mesmo que isso lhe parecesse impossível. Não havia outro modo de ela saber o verdadeiro nome de Gideon. — Contou isso ao sr. McClellan? Cam negou com um gesto. — A senhora desmaiou e ele andou de um lado para o outro distribuindo ordens. Tentei contar a outra coisa que ouvi Booker dizer, mas ele não parou para ouvir. — Que outra coisa? — Ele ficava perguntando onde o bebê estava, mas eu não contei, mesmo quando estava com a cabeça debaixo d'água. Bem, não sei se ouvi direito, mas ele disse que nunca chegaria a tempo na Alemanha. — Alemanha? Não pode ser. — Eu sei. — Cam suspirou. — Mas e se ele está planejando viajar hoje à noite? Estamos indo na direção errada! Precisamos ir para o porto. Jessa parou a carroça e se virou para o garoto. — Ele pode ter dito Vila Alemã? Pense, Cam... — Acho que sim. Faz mais sentido, não? — Total sentido! — Ela o abraçou e beijou antes de pegar as rédeas de novo. Cam se segurava no assento com a cabeça cheia de perguntas. — Onde estamos indo? — Para a Vila Alemã. Confie em mim, Cam, sei para onde Ross levou Gideon. Havia ainda muitos convidados na festa quando Noah chegou procurando por Hilary. Encontrou o pai dela em vez disso. — Com licença — abordou-o. — Preciso falar com você. — Noah! O que está fazendo aqui? Pensei que já tivesse ido embora! — Preciso falar com você, Charles — ele repetiu. — É urgente. Desculpando-se com os amigos, o banqueiro o seguiu. — O que foi? Confesso que não me parece bem. — Onde está Hilary? — Noah perguntou sem preâmbulos. — Não a vejo no salão. — Ela foi para casa — Charles respondeu, surpreso com os modos do outro. — Logo depois de você. Por que está procurando por ela? Sua esposa... 173


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— Cale a boca, Charles! Não há tempo para suas tagarelices agora. Quero que me ouça. Hilary está envolvida em algo pelo qual pagará muito caro. Hoje, enquanto eu estava no baile, meu filho foi seqüestrado. Sua filha sabe de alguma coisa e juro que vou ter a confissão dela e meu filho de volta antes que a noite acabe. Caso se importe com o bem-estar dela, sugiro que me acompanhe, pois não posso garantir a segurança dela se eu for sozinho. A boca de Charles abriu e fechou várias vezes antes de ele conseguir, falar: — Ouça, Hilary esteve aqui a noite inteira. Como ela poderia... — Eu não disse que ela o pegou, mas que está envolvida. Você ouviu o que ela me disse antes. Hilary alguma vez lhe deu motivos para acreditar não saber o nome do meu filho? — Com isso viu confusão trespassar a expressão do homem. — Não, quero dizer... — Sob o olhar observador de Noah, confirmou: — Não sei por que ela disse aquilo. Ela não fala do garoto com freqüência, mas sabe o nome dele. — Eu sei por que ela fez isso — Noah rangeu os dentes. — Hilary é vingativa e tinha de provar sua superioridade. O cúmplice dela não vai gostar nem um pouco disso. — Cúmplice? — Agora não, Charles. Se vier comigo, eu lhe conto tudo no caminho. — Sem dar tempo para que ele respondesse, Noah se virou para sair. Na saída, Charles disse para Noah que se adiantava na direção da cidade: — Está indo para o lado errado. Não posso ter certeza, mas estamos mais perto da casa de meu sogro. Lembra-se de que eu disse que ela tem passado bastante tempo ali? Sugiro irmos para lá primeiro. Noah agradeceu e virou o cavalo, galopando na direção certa, obrigando o homem mais idoso a segui-lo no mesmo ritmo. — Encontramos a casa da srta. Bowen — Cam disse quando a carruagem parou alguns metros antes da casa do sr. Hearn —, mas o que fazemos agora? — Afastou a mecha loira dos olhos. — Se Gideon estiver aqui, como vamos recuperá-lo? Bem que Jessa gostaria de saber... Ou ter a pistola consigo... E saber atirar... — Alguma sugestão? — perguntou, notando que algumas das janelas da mansão estavam iluminadas. — Posso espiar pelas janelas. As do primeiro andar não devem ser muito difíceis. — Elas ficam muito longe do chão. Não conseguirá ver o interior da casa nem na ponta dos pés. E se eu o levantar? Cam bufou. — Que tal se eu a levantar? — Tudo bem. Tarde demais Cam percebeu que caíra numa cilada, pois o que queria era sugerir que ela ficasse na carruagem esperando. — E se virmos alguma coisa? O que vamos fazer? A expressão de Jessa estava neutra, mas a voz saiu dura: — Cam, se eu vir Gideon ali dentro, saberei o que fazer. — Assim que saiu da carruagem livrou-se das anáguas, enquanto o garoto dava-lhe as costas. — Estou pronta. 174


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Em uma das janelas Cam a suspendeu, amparando o pé dela com as mãos. Espiaram por três outras antes de serem recompensados pela insistência. — Hilary está aqui — ela sussurrou. — Está conversando com alguém. — Quem? — Não sei. — Ela se esticou e se esforçou para ver as extremidades delimitadas pela janela. — Não adianta, Cam, não consigo ver mais nada. Pode me abaixar. — Já no chão, olhou para a treliça com roseiras apoiada na parede. — Acha que consegue subir nisso? — Deve ser mais fácil do que subir nas cordas do Clarion. Só não sei se a madeira agüenta meu peso. — Só saberemos se você tentar. Cam aproximou-se da treliça e testou sua resistência. — Acha mesmo que Gideon está aí dentro? — Sim. — Colocando o pé na última barra da treliça, Jessa ouviu um barulho, — Talvez seja melhor eu subir. — É muito perigoso. Sem falar que talvez não consiga abrir a janela ao chegar lá. — E se a janela estiver trancada? Ele pegou um canivete no bolso. — O velho amigo dos marinheiros... Posso forçar a tranca. — Vou segurar a treliça para você. Segurando o canivete aberto entre os dentes, Cam subiu rapidamente. Lá em cima, espiou e viu que se tratava de um quarto deserto. A janela estava fechada, mas com o canivete conseguiu abri-la. Acenando para Jessa, indicou que entraria. Depois de vê-lo desaparecer, a resolução de ficar esperando se foi. Levantando a barra do vestido, começou a subir. No meio do caminho viu que não era fácil subir e segurar o vestido ao mesmo tempo, sem falar que a madeira rangia. Soltou o vestido para poder se segurar com ambas as mãos. Em seguida a treliça começou a balançar violentamente. Ela gritou ao perder o apoio do pé. Logo depois, ouviu palmas. Olhando para baixo, viu que Ross Booker aplaudia de modo insolente. — Gostei mais da vista quando tinha a saia levantada. — Deu uma sacudida na treliça. — É melhor descer. Não queremos que caia. Não havia o que fazer a não ser obedecer. Seguir até a janela de nada adiantaria, aliás, poderia colocar Cam em perigo. — Encontrou alguém? — Hilary perguntou da varanda. — Sr. Booker? — Temos visita! — Ele empurrou Jessa na direção da entrada. — Por aqui, sra. McClellan. Deveria ter entrado pela frente. Não que assim fosse bem recebida, mas teria sido mais seguro. Jessa não respondeu. Apenas seguiu, tentando evitar ser tocada. O choque de Hilary foi imenso ao vê-la. — Meu Deus! Mas como... — Lá dentro, Hilary — Ross ordenou. — Siga-a, Jessa. Hilary liderou o caminho até a sala de estar, e Booker bateu a porta atrás de si. 175


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— Isto é loucura — Hilary disse assim que ele entrou. — Você me assegurou de que ninguém saberia de nada! Acha que ela veio sozinha? Noah pode estar por aí! — Calma! Não havia mais ninguém lá fora. O marido não permitiria que ela subisse a treliça se estivesse junto. Jessa tomou cuidado para não demonstrar seu alívio. Se Gideon estivesse na casa, Cam o encontraria. Por isso prestou atenção à conversa, atenta a qualquer oportunidade de semear a discórdia entre eles. — Terá de fazer alguma coisa com ela agora — Hilary sugeriu. — Quer que eu a mate? Jessa se retraiu ante o olhar gélido da mulher. — E por que não? A presença dela muda tudo. Veja bem, sr. Booker, esse seu plano está indo de mal a pior. Fiz minha parte: convenci Anne Porter a convidar Noah e essa vagabunda para a festa, até aconselhei quanto à data, escolhendo o dia que a sra. Harper costuma visitar a irmã. O senhor só precisou lidar com Sally, aquele garotinho infeliz e um bebê. Nunca mencionou a intenção de trazê-lo para cá. Não foi o que combinamos. Disse que o levaria para longe, pois havia pessoas interessadas em comprá-lo. Gideon estava vivo! O alívio de Jessa era tão grande que ela quase começou a chorar. Ross balançou a cabeça e olhou para ela. — Ela está tornando cada vez mais difícil que eu não a mate... Já ouviu alguém falar tanto assim? Bem, você, por outro lado, está calada demais. Não sei, por exemplo, o que a fez vir para cá. E nem pareceu surpresa em me ver. Isso me faz perguntar o que sabe e quem lhe contou. Jessa permaneceu calada, não poderia revelar que Cam estava vivo. — Onde está seu marido? — Não sei. — Ela está mentindo — Hilary replicou, agitada. — Quieta! Fique de pé ou sentada, mas pare de andar de um lado para o outro! — Virando-se para Jessa, repetiu: — Onde está seu marido? — Não sei. — Pensando rápido, inventou: — Ele saiu de casa assim que encontramos Cam... morto. E Gideon tinha desaparecido. Imagino que ele tenha ido procurar a srta. Bowen. — Por quê? Jessa cruzou as mãos sobre o colo. — Ele foi procurá-la por causa de uma coisa que ela disse no baile a respeito de Adam. Ross levantou a mão, mas golpeou Hilary. — Sua vadia estúpida! Lágrimas umedeceram os olhos dela, que o enfrentou com fúria: — Nunca mais toque em mim, seu bastardo! Sei quem você é, Ross Booker, e não hesitarei em chamar as autoridades se me bater de novo! 176


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— Não me ameace! Está tão afundada nesta história quanto eu. Queria a sua vingança! Bem, foi o que conseguiu, mas foi sua língua solta que a trouxe até aqui. E o marido não deve demorar a chegar. Hilary não se deixou intimidar com facilidade e, mesmo tendo se afastado até a janela, empertigou os ombros. — Por que não pergunta por que ela veio sozinha e não está surpresa em vê-lo? — Acha que isso importa? Temos de sair daqui. — Não vou a parte alguma. Leve-a! Leve o bebê! Mas vá sem mim! Conseguirei lidar com Noah. É com ela que você tem de se preocupar! — Não de todo — Booker disse, calmo. — Não deveria ter me ameaçado antes, Hilary. Sinto-me obrigado a fazer algo a seu respeito. Jessa sentiu a bile subir à garganta quando ele avançou na direção de Hilary. A meio quilômetro da casa, Noah parou General assim que fez a curva. — Esta é a minha carruagem — disse ele quando Charles se aproximou. — O que ela está fazendo aqui? — Sr. Noah? — Uma voz o chamou de dentro da carruagem. — Cam? É você? O garoto afastou a cortina e pressionou o rosto no vidro. Noah desmontou e seguiu para a porta. O interior da carruagem estava escuro, mas não havia dúvidas quanto ao som que o recebeu. Era Gideon chorando. Charles, ouvindo o choro, se aproximou. — Meu Deus, Cam! — Noah exclamou, pegando o filho no colo. — Como... Onde... — Ele não conseguia falar tamanha a emoção. — Papa... — Gideon balbuciou contente, tentando se levantar no colo dele. Abriu os braçinhos para abraçá-lo pelo pescoço. Noah o abraçou forte até o menino protestar. — O que está fazendo aqui, Cam? Onde o encontrou? — Por favor, sr. Noah — ele disse com urgência. — Precisa ir buscar a sra. Jessa. Acho que eles a encontraram. — Eles? — Noah ficou rígido. — Booker e a srta. Bowen. Estão lá na casa. A sra. Jessa e eu fomos até lá. Desvendamos tudo depois que o senhor saiu. Ela estava determinada a vir aqui e eu não podia deixar que viesse sozinha. Cam falava tão rápido que era difícil entender o que ele dizia. — Devagar, Cam. Respire fundo e se explique. Quero que Charles ouça isso. Cam contou tudo até a parte em que encontrou Gideon dormindo e desceu a treliça com ele. — Pensei que ela tivesse voltado para a carruagem quando não a encontrei lá. Mas isso já faz tempo. Ela deve estar em apuros. — Está tudo bem. Fique aqui com Gideon. Charles e eu vamos até a casa. — Sim, senhor. 177


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— Tem alguma dúvida agora? — Noah perguntou ao banqueiro. — Sua filha está mais envolvida do que pensei. Os passos rápidos de Noah deixaram o homem sem fôlego. — Talvez esse tal de Booker a tenha forçado a manter a criança aqui. Você não conhece todos os fatos e não pode acreditar em tudo o que esse garoto disse. — Esse garoto quase morreu hoje e salvou a vida do meu filho — Noah disse, seco. — Confio mais nele do que em você. — Correu até a casa, só parando na varanda para sacar a pistola. Jessa gritou, o que bastou para assustar Booker. Ele hesitou um segundo, dando a chance de Hilary desviar e se proteger atrás de uma poltrona, olhando ao redor na esperança de encontrar algo que servisse de arma. Jessa não hesitou, pulando nas costas dele, que lutou e se contorceu, conseguindo se livrar com uma cotovelada. Booker a segurou pelos pulsos e a jogou na poltrona que servia de escudo para Hilary. — Se eu não quisesse tomar o que me deve, eu a mataria neste instante — ele ameaçou. — E com você não será diferente — disse para Hilary. — Não direi nada a ninguém — Hilary jurou. — Leve Jessa e a criança. Não vou contar nada... Booker gargalhou. — É assim que você a recompensa? Ela tentou salvá-la. Jessa não prestava atenção, tentando parecer inofensiva. Suas mãos, contudo, fechavam-se como numa prece. A cintura dele estava na altura de seus olhos. Ela mal acreditava no que estava planejando. — Estou falando sério — Hilary continuou. — Você mesmo disse que estou envolvida desde o início. Não posso dizer nada sem me incriminar também. Booker se aproximou, afastando as pernas, e Jessa se aproveitou para golpeá-lo com força. Empurrou-o e se afastou enquanto ele se dobrava sobre os joelhos. — Fuja, Hilary! — Jessa jogou um banquinho na direção dele. — Faça alguma coisa! — Afaste-se, Jessa! Era a voz de Noah, calma e controlada. Ela não hesitou em obedecê-lo, indo para o outro lado da sala. — Gideon está aqui, Noah. O sr. Booker queria vendê-lo. Noah não olhou para ela. — Gideon está a salvo com Cam na carruagem. — Com a pistola apontada para o peito de Booker, disse: — Hilary, afaste-se até a janela. — Faça o que ele pediu, Hilary — Charles ordenou ao entrar. — Papai! — Hilary deu um passo à frente, sem se preocupar com Booker. — Não, Hilary! — Todos exclamaram ao mesmo tempo em que Booker a agarrou quando ela se aproximou. Os dois caíram, mas como ela servia de escudo, Noah não pôde atirar. Noah deixou a pistola nas mãos trêmulas de Charles e partiu para a briga, separando Hilary de Booker. 178


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— Mate-o, papai! — Hilary gritou enquanto os dois rolavam pelo chão. — Não, preciso dele vivo! — Noah gritou. Mas isso era a última coisa que ela queria, pois vivo Booker era uma ameaça. Ele jamais manteria segredo de sua participação no esquema dos Penberthy. Morto, ela poderia inventar qualquer coisa sem que ninguém pudesse contradizê-la, exceto Jessa, que tinha tanto a perder com a verdade quanto ela. Por isso, pegou a pistola do pai e mirou. — Hilary! Não faça isso! — Jessa podia jurar que ela não tinha um alvo perfeito, pois os dois continuavam lutando no chão. — Dê-me a pistola — Charles pediu. Hilary afastou a mão que o pai colocara em seu ombro. — Quero que ele morra! — Lágrimas amargas turvavam sua visão. — Ele pode me atingir, papai. Vai contar mentiras terríveis... Num último esforço, Noah o imprensou contra o chão, imobilizando-o ao mesmo tempo em que o deixou inconsciente com um soco. — Abaixe a pistola, Hilary. — Noah ofegava. — Acabou. — Levantou-se, protegendo o corpo inerte de Booker da mira dela. — Devolva-a para mim — pediu com gentileza ao perceber que os belos olhos azuis tinham perdido o foco. Era como se ela olhasse através dele. — Por favor, Hilary. Ela abaixou a mão e soluçou. Olhou para todos os ocupantes da sala e saiu correndo com o rosto banhado de lágrimas. — Oh, Deus! Eu lamento tanto... Noah começou a segui-la, mas Charles o impediu. — Deixe-a. Ela precisa de mim agora. Sei que falhei no passado, mas não agora. Ficarei ao lado de minha filha. Noah inclinou a cabeça e esticou o braço para que Jessa se aproximasse. Abraçou-a e esfregou o rosto nos cabelos dourados. — Espero que esteja sendo sincero, Charles. Ela precisa de ajuda para enfrentar o que vem pela frente. Hilary não... Um tiro o silenciou. Em seus braços, sentiu Jessa se retesar. Charles Bowen envelheceu em questão de segundos. Nenhum deles disse o que pensava: Hilary havia decidido não enfrentar o futuro.

Epílogo

Maio de 1788 Culpada! Jessa se levantou da cama num pulo. Ainda conseguia ouvir o 179


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pronunciamento claro como no tribunal. As mãos tremiam ao abraçar os joelhos de encontro ao peito. Olhou para Noah ao seu lado. Ele nem se mexeu. A cadência da respiração continuava suave e controlada. Sentiu vontade de acordá-lo, mas deteve-se, sabendo que seus medos eram infundados, e deixou que o som das ondas contra o casco do Clarion a acalmasse enquanto voltavam para casa. Como era bom voltar. Haviam ficado muito tempo na Inglaterra e as lembranças dolorosas do julgamento não eram facilmente apagadas. Nem conseguia se lembrar do tempo em que imaginar-se na Virgínia só trazia medo do desconhecido. Parecia que tinha dividido aquela cabina com Noah em outra vida. Balançou a cabeça ao fitar o assento perto da janela. Como pudera dormir lá em vez de partilhar a cama com Noah? Saindo da cama, acendeu uma vela e foi para o quarto ao lado. A noite estava fresca, mesmo assim Gideon se descobrira. Jessa arrumou a manta ao redor do corpo dele, desapontada por ele não ter acordado. Ficou parada, observando-o. A mão gorducha contra a face, torcendo o nariz de um jeito engraçado, a boca parcialmente aberta para acomodar o polegar. Tocou-o nos cabelos escuros, depois se afastou para perto do berço, onde Bethany dormia profundamente, somente uma mecha loira aparecendo debaixo da coberta. Jessa descobriu-lhe o rosto e acariciou o contorno da orelha. Não ouviu quando Noah se aproximou, apenas sentiu os braços envolvendo sua cintura e o queixo se apoiando, em sua cabeça. Recostando-se no peito largo, segurou os braços dele. — São lindos, não? — ela perguntou. — Nunca canso de olhar para eles... — O conde e a princesinha — ele disse com voz sonolenta. — Um tem sangue azul, a outra acha que tem. Isso não é estranho, considerando-se que assinei um documento republicano há menos de oito meses? Era exatamente o tipo de comentário que conseguia arrancar um sorriso seu. — Fico pensando como conseguiremos viver todos debaixo do mesmo teto — ela murmurou. — Teremos de dar um jeito, pois não abro mão de ninguém. O que faz aqui? — Pensei ter ouvido uma das crianças. Noah sorriu ao encontro dos cabelos dourados. Não acreditou nem por um segundo na explicação. — Mentirosa. Jessa não se ofendeu, pois detectou carinho na voz dele, e não acusação. — Vamos para a cama — ela o convidou. Deitados e abraçados, Noah a acarinhava. — Teve um pesadelo? Jessa tinha a cabeça pousada sobre o ombro dele e uma perna prendia as duas. — Sonhei com o julgamento de novo — admitiu. — O veredicto ecoou em minha mente mesmo depois que acordei. — Oh, Jessa! — Suspirou ele. — Esse veredicto foi para os Penberthy. — Eu sei. A razão sabe disso, mas meu coração... Não consigo deixar de sentir culpa. 180


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— O júri não pensou assim — ele a lembrou. O julgamento levara meses para ser preparado e durara sete dias. O veredicto, contudo, havia sido decidido em vinte minutos. Jessa estremeceu e se aproximou mais. O resultado teria sido bem diferente se o júri tivesse acreditado nas mentiras de Barbara e Edward Penberthy. Nos depoimentos, eles haviam dito que tinham contratado Ross Booker para recuperar Gideon. Lady Barbara parecera tão convincente que Jessa temera que os jurados esquecessem que esse relato contradizia os testemunhos de Cam, do próprio Booker e do enlutado Charles Bowen. — É irônico que o suicídio de Hilary tenha ajudado a desacreditá-los. Foi como uma admissão de que ela ajudava Booker em algo mais do que devolver Gideon à Inglaterra. — Eu sei — Noah concordou, ainda pensando se poderia ter feito alguma coisa para evitar o fim trágico. A lógica nem sempre ajudava a consciência. — Mas não pode se culpar pelo que Hilary fez. Além do mais, não acho que tenha sido isso o que ajudou o júri a se decidir. — Não? — Você fez a diferença, Jessa. O fato de ter levado aqueles documentos antes de fugir provou sua intenção de proteger Gideon e sua herança. Seu testemunho foi magnífico. Nunca teríamos obtido a guarda de Gideon de outro modo. — Acha mesmo? — Sim. Também ajudou o fato de os Penberthy não terem notificado as autoridades quando souberam que Gideon estava vivo. O silêncio deles os condenou tanto quanto tudo o que você disse. Suspeito de que lady Barbara achará as acomodações em Newgate menos do que satisfatórias. Pelo menos Edward e Booker terão a companhia um do outro. Eles se merecem. — Noah a acariciou nos cabelos. — Ainda se surpreende por terem acreditado em você, não? — Continuo esperando acordar um dia e descobrir que esta realidade é um sonho e que meus pesadelos são reais. Foi por isso que fui ver as crianças. — Poderia ter me acordado. — Noah sorriu. — Eu sou bem real. — Você estava dormindo e eu tive esperanças de que um deles acordasse. Eu queria um abraço. — Mas fui eu quem acordou. Que desapontamento... — Na verdade — disse ela, abraçando-o —, você abraça melhor. Gideon se retorce e Bethany chuta tanto quanto quando estava na barriga. Noah pousou a mão no ventre liso. — Ela estava impaciente para nascer — disse ele. A menina nasceu, três semanas antes do esperado num dia frio de fevereiro. — Foi um milagre ela esperar o julgamento terminar. — Minhas lembranças são bem diferentes — ela replicou. — O trabalho de parto começou antes de o júri se retirar. Se tivessem deliberado por mais tempo, nossa filha teria nascido em pleno tribunal. — E eu me lembro que você não mencionou esse fato. — Não é verdade — ela objetou. — Sussurrei para você, dizendo que o bebê ia 181


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nascer. Noah riu e rolou, deitando-se sobre ela antes de depositar um beijo no canto da boca. — Minha querida, isso eu sabia. Você só se esqueceu de me dizer que seria naquele dia. Já lhe disse antes que tem certa inclinação para a ambigüidade. — Tentarei ser mais clara no futuro — disse ela, solene, ao passar os braços pelo pescoço. — Eu gostaria que me beijasse agora. Ele a recompensou pela franqueza. Beijando-a sentiu a reação imediata de Jessa. — Você é uma contradição, meu grande amor. — Os olhos dela o prendiam. — inocente. Sedutora. Tímida. Atrevida no instante seguinte... Jessa riu e colocou um dedo sobre os lábios dele. — Pode expor esse tema mais tarde, Noah. Agora quero você. A ponta da língua dele a tocou no dedo e o sorriso de sereia o cativou. Ela afastou a mão quando ele abaixou a cabeça. As bocas se encontraram. O beijo se aprofundou e os corações bateram em uníssono quando os corpos se uniram. Foram altruístas ao dar prazer, gananciosos em receber, e saciados depois de se amarem. Para deleite de Noah, Jessa adormeceu em seguida, aninhada em seus braços, sem ouvi-lo sussurrar que ele amava suas contradições. Tampouco o ouviu enumerá-las. O sorriso suave no lindo rosto estava ali porque ele a abraçava, envolvia e protegia, tornando únicos e inseparáveis seus sonhos e sua realidade.

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bestse//er Romances Consagrados

Leia na edição 170

Ladrão de Sonhos

Londres, 1813 - Sullivan Waríng só deseja duas coisas: a herança que é sua por direito, e vinganca contra o homem que a roubou dele. Durante o dia. Sullivan é o mais respeitado criador de cavalos da Inglaterra: à noite, ele entra nas residências mais ricas e luxuosas, em busca dos lindos e valiosos quadros pintados por sua falecida mãe. Sua missão transcorre sem problemas... até a noite em que é surpreendido por Isabel Chalsey Vestida numa camisola transparente. Isabel é uma tentação maior do que qualquer outra obra de arte, e é impossível resistir a roubar-lhe um beijo... Surpreendida por um homem mascarado em sua própria casa. Isabel deveria estar tremendo de medo. Em vez disso, no entanto, a visão do atraente Sullivan a faz tremer de excitação. Quem e aquele homem, e por que está tão empenhado naquela busca? Isabel adora um desafio e está disposta a tudo para desvendar o segredo de Sullivan, mas ela corre o risco de convencê-lo de que ela é a maior de todas as recompensas...

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Coração atormentado  

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