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Romances Históricos Denise Lynn

Coração Domado

Realização: Romances Históricos Disponibilização/Tradução/Pesquisa: Ana Paula G. Revisão: Ana PaulaG. Formatação: Miss Bella

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Resumo

Marcada como a prostituta da rainha, Sarah de Remy devia se casar com William de Bronwyn. Um guerreiro poderoso e notoriamente perigoso, ele faz seu corpo tremer de medo e desejo com sentimentos que nunca experimentou. William sempre viveu na brutalidade. Ele não tem tempo para emoções. Mas é um choque, quando seu desejo e paixão são despertados pela bela Sarah. Muito pior foi descobrir que a dama em questão era inocente. Seu casamento é conveniente para William, embora ele logo descubra que não é nada fácil ter Sarah como esposa. Voluntariosa e desafiante, ele está disposto a domesticá-la começando as lições em sua cama! Com coragem, Sarah olhou para ele. Ele sorriu, com uma expressão que não tinha nenhum traço de humor. Ao invés, Sarah viu uma promessa que gelou seu sangue e a aturdiu. _ Deixe-me ir, William. _ Não. Eu não sou um de seus admiradores, que seguem todos os seus caprichos. Você se casou com um guerreiro, Sarah. Talvez seja a hora de perceber o que isso quer dizer...

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Capítulo Um

Tribunal da rainha Eleanor em Poitiers—maio de 1171

_ Você devia ser grata por sua liberdade. A dura advertência contida nas palavras da rainha Eleanor era inconfundível. Sarah de Remy sentiu o olhar da Rainha em suas costas, quando caminhou em direção a porta da câmara, sentindo calafrios na espinha, diante da dura ameaça contida. Uma voz em sua cabeça lhe dizia para deixar aquela câmara, abandonar tudo. Sarah se voltou e enfrentou a Rainha, que a observava com aquele olhar fixo e implacável. _ O casamento com esse bruto não vale a minha liberdade? _ Eu a conheço bem, Sarah. Um casamento temporário com Bronwyn será pior que apodrecer em uma prisão. Sarah tremeu a simples menção de seu nome. William de Bronwyn era enorme e assustador, seus ombros muito largos, seus modos muito bruscos. Ela fechou os olhos, vindo a sua mente a lembrança de terem sido flagrados nus, em sua cama. A tarefa atribuída para ela parecia tão simples. E, como em um pesadelo, tudo saiu errado, lembrou-se com amargura. Bronwyn e seu amigo, o Conde Hugh de Wynnedom estavam de alguma forma, envolvidos com o Rei Henry. Desde a morte do então Arcebispo Becket, no ano passado, a Rainha se tornou suspeita de qualquer coisa que acontecesse. Mesmo de coisas de que nem tinha conhecimento. Ainda mais que seus segredos eram muito suspeitos.

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O rei Henry tinha sido visto com Bronwyn e Wynnedom próximo ao castelo. Os três homens haviam se encontrado com um estrangeiro desconhecido e a Rainha queria saber o motivo. Infelizmente, as perguntas que fez ao Conde não produziram respostas apropriadas. De fato, a arrogância do homem era tão grande quanto sua resistência a fornecer as informações que Sarah procurava. Determinada a fazê-lo provar um bocado de sua própria arrogância, a Rainha armou um plano que o colocaria sob seu absoluto controle. O Conde seria flagrado, na cama, com uma de suas damas favoritas—Sarah. Eleanor sabia que a honra do Conde o faria desposar Sarah, fazendo dele um de seus aliados. A Rainha estava certa de que assim ele comparilharia seus segredos com ela. O Conde de Wynnedom seria um excelente informante, uma vez que se curvasse à vontade de Eleanor. Algo que Sarah sabia fazer muito bem. Como espiã da Rainha, ela completava, com sucesso, as tarefas que lhe eram atribuídas. A última missão não deveria ter sido diferente. _ Você me falhou, Sarah, e não me deixou nenhuma escolha. Às vezes, Sarah se perguntava se Eleanor podia ler sua mente. _ Eu não sabia que o Conde era casado com Adrienna, até ser tarde demais. _ Então você deveria ter descoberto isso, antes de estragar meus planos. E como ela teria feito isso? Já que Adrienna também era uma das damas da Rainha, a própria devia ter conhecimento deste fato, do passado daquela senhora. _ Ao invés disso, a encontro na cama com o amigo do Conde! A Rainha esbravejou, caminhando em direção dela. _ Sarah, você não tem mais como escapar. Se Bronwyn a forçou a fazer isso, pelo menos ofereceu o casamento como uma reparação. _ Casamento? Ele não ofereceu casamento. Depois que a Rainha ordenou que os quatro: ela, Bronwyn, Wynnedom e Adrienna deixassem seus aposentos, Sarah tinha sido obrigada a aceitar o pedido do bruto. 109


Eleanor, como sempre, não levava em consideração a vontade de ninguém, além da sua. _ Apesar de que a escolha não seja de seu agrado, o resultado já está decidido. Você se casará com Bronwyn. Sarah tinha estado com Eleanor tempo suficiente para saber que sua raiva não tinha diminuído a Rainha não via a razão quando isso ocorria. Por isso, Sarah tinha escapado de Brownyn, pensando em mudar os pensamentos de Eleanor. Porém, se deixasse tudo como estava, quem iria interceder por ela, frente à Rainha? _ Minha Rainha... _ Não - o grito de Eleanor abafou a reclamação de Sarah, antes que ela falasse. _ Se casará com ele. Consiga-me as informações que eu busco e então terá sua liberdade. A Rainha parou em frente a ela e perguntou: _ Me fiz entender, não? Incapaz de falar as palavras se amontoando em sua garganta, Sarah apenas acenou com a cabeça, afirmativamente. _ Agora vá. Quero você e seus novos amigos longe daqui, antes que amanheça. _ O que mais podia se esperar de prostituta da Eleanor? Ela está tendo o que merece. Sarah segurou sua lingua e caminhou apressada, para a capela. Ela ouviu as observações maliciosas das outras senhoras, elas não faziam questão de que não ouvisse. Mas Sarah sabia que, qualquer resposta que desse, só adicionaria mais veneno à língua daquelas víboras. Não era a primeira vez que ouvia este tipo de comentários em sua prolongada permanência na corte da Rainha. Então, por que isso agora lhe doía tanto quanto as bofetadas que seu pai lhe inflingia, quando a castigava? Sarah ergueu a cabeça. Ela não daria a ninguém a satisfação de testemunhar sua dor. Uma vez longe das alcovas e dos comentários, Sarah diminuiu o passo, buscando retardar sua chegada na capela privada da Rainha. Perguntou-se se era assim que se sentia um homem condenado à morte. Sentiria aquele frio horrível no estômago, ao ver seu executor? 109


Sentiria o sangue correndo em suas veias e se espessando lentamente, sentindo o medo e o terror dominarem sua mente? Não importava o fracasso em sua missão, isto não deveria estar acontecendo. Tinham lhe prometido mais—muito mais. Por meses incontáveis, Sarah imaginou um casamento grandioso, com um ilustre e rico nobre, conforme lhe tinha sido prometido. E agora seus sonhos transformavam-se em um pesadelo de destruição. Sarah sufocou um grito. Não era que não quisesse um casamento. Como toda menina jovem, Sarah veio para a corte da rainha Eleanor, sonhando com muitas coisas. Como as outras jovens, que eram enviadas à Rainha, Sarah sonhava com um marido. Não somente um marido, mas um senhor nomeado cavaleiro. Um homem ilustre, que gostaria dela, a protegeria, lhe daria filhos, um lugar para chamar de seu lar e uma vida próspera. Mas acima de tudo, ela agarrou, com unhas e dentes, aquela chance na esperança de fugir da língua venenosa e da ira de seu pai. E ficar livre da vida pobre, sempre trabalhando e servindo. Ela não podia e não queria retornar àquela vida de medo. Sarah descansou as mãos em seu colo. Ela tinha concordado em arruinar sua reputação, posando como a prostituta da Rainha? E para que? Um casamento desprezível? Seu acordo com a Rainha pareceu simples — se Sarah desejasse deixar a corte em circustâncias melhores do que quando chegou, ela só tinha que usar sua beleza e aparência inocente, e convencer alguns cavaleiros e senhoras a falar. Quaisquer informações respigadas eram então relatadas para a Rainha, que usaria o conhecimento em seu benefício. Em contrapartida, Eleanor tinha lhe prometido um senhor rico, como marido. Um que poderia lhe dar a segurança que Sarah nunca teve. Ao invés disso, a Rainha Eleanor estava lhe empurrando a um casamento com Bronwyn.

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As lágrimas sufocavam em sua garganta, tanto de medo de William de Bronwyn como de deixar a corte. Embora Sarah não tivesse mais motivos para acreditar na promessa mais recente da Rainha, se agarrava, desesperadamente, na esperança de que Eleanor ainda mantivesse sua palavra. O plano devia ter sido simples: Sarah precisava somente se casar com este homem, descobrir tudo que pudesse sobre ele e o Conde, e seu envolvimento com o Rei Henry. Uma vez que Eleanor tivesse essas informações, a Rainha jurou que Sarah se tornaria uma viúva respeitável, com ouro suficiente para atrair qualquer homem de sua escolha. Com passos hesitantes, Sarah caminhou para longe das sombras que escureciam o corredor e chegou à luz que cintilava fora da entrada de capela. Uma coisa era enganar um homem que não conhecia e não veria no dia seguinte. Mas ela veria este homem todo dia—e toda noite. Sarah fixou o olhar, desafiador, e seguiu pelo longo corredor. O pensamento de ser sua esposa, mesmo que por um período breve de tempo, a fez estremecer. William de Bronwyn não era só grande—o topo de sua cabeça apenas alcançava seus ombros—ele parecia construído de pedra sólida por baixo de sua carne. Ele podia facilmente matar ou mutilar, com apenas um sopro. Sarah se sentiu zonza. Seu destino não seria aquele homem. Todo medo que já experimentou com todas as memórias da crueldade de seu pai. Tudo isso Sarah já tinha enfrentado. Sentiu seu peito se apertar. Sarah lutou para respirar. Perguntou-se se assim não seria mais fácil, se sua respiração cessasse para sempre. _ Senhora Sarah. Ela parou fora de seu alcance, ignorando sua mão estendida. _ Meu lorde. Ela conseguiu manter a suavidade na resposta. No momento, era tudo o que podia fazer. _ Eu não estava certo que viria. _ Tive outra escolha? 109


Observando a carranca do cavaleiro, Sarah se perguntou se não estaria arrrependido de ter insistido naquele casamento. A esperança novamente voltou. Ela se inclinou, para sussurar. _ Não existe razão para que nos casemos. Se a Rainha não via motivo, talvez William de Bronwyn pudesse ser convencido a desistir daquele enlace. Para o desânimo de Sarah, ele discordou. _ Eu não a levarei daqui, sem nos casarmos. _ Por que não? Sarah buscou, desesperadamente, convencê-lo. _ Não precisa fazer isso, não com minha reputação. Você não pode ter feito nada para manchar o que já está arruinado. Já não tinha boa reputação antes de você chegar a esta corte. William agitou sua cabeça, antes de se dirigir para a porta da capela. _ Se depreciando não mudará minha decisão. Ele não se importava com sua reputação? William acreditava que havia se degradado e não se importava? As perguntas ficaram presas em seus lábios. Nenhum homem de valor, de boa vontade tomaria uma rameira como esposa. Ela não sabia nada deste Bronwyn, com exceção do fato que ele estava na corte. E, apesar de não possuir nenhum título, era amigo do Conde de Wynnedom. Pelo que a Rainha havia contado, ambos os homens eram envolvidos em algo com o Rei Henry. Disfarçadamente, Sarah o estudou. O homem era limpo, embora seu cabelo fosse longo, a luz dos candeeiros da parede refletiam nos fios, molhados recentemente. O cheiro que emanava dele era limpo, atiçando sentidos que ela não imaginava possuir. Ignorando o efeito que estava causando em Sarah, o guerreiro desviou o olhar. O couro da bainha da espada de William era novo. E o cabo era extremamente adornado para pertencer a um homem humilde. Oh, sim, este homem era cheio de orgulho, da cabeça aos pés. 109


Sarah observou seu rosto. Percebeu que ele também a estava estudando. Precisava ser cuidadosa, para não deixar transparecer nada. Essa podia ser sua última chance de convencê-lo a mudar de idéia. Abaixou a cabeça e o olhou, por entre os cílios. _ Meu senhor, eu não quero me depreciar. – assegurou Sarah, num sussuro. _ Eu desejo só advertir ao Senhor sobre o que falam a meu respeito. Sarah o olhou, se certificando que havia capturado sua atenção, _ Você é o homem do Conde. Como tal, casar-se com a prostituta da Rainha pode trazer um grande dano em sua condição. _ Condição? Eu não me importo com o que dizem. Em todos os seus anos na corte, ela nunca havia encontrado uma pessoa, homem ou mulher, que não se importasse com as opiniões dos outros. Tentou de novo. _ Você pode não se importar neste momento. Mas, um dia, vai se importar. Sarah colocou uma das mãos em seu tórax largo e estremeceu. O homem era muito atraente para seu bom senso. _ Iria você querer que seus filhos soubessem que a mãe deles era conhecida por ser uma rameira? Ele se empertigou, revirando os olhos, antes de dizer: _ Se todos os rumores fossem verdadeiros, eu seria um monstro vindo diretamente do reino de Hades. O olhar aterrado de Sarah o surpreendeu. Seguramente ela não acreditava em tal tolice? _ Senhora Sarah, não tema, sou somente um homem. Ela permaneceu muda e ele se perguntou se não havia feito um grande mal ao insistir naquele casamento. Ele queria que Sarah se sentisse segura com ele. Apesar de ela considerar este episódio um fracasso para William forneceu uma oportunidade que não podia deixar passar. 109


Ele queria uma mulher que transformasse sua casa em um lar e que lhe desse um filho. Seu sangue ferveu ante o pensamento desta mulher em sua cama. Ele ganharia mais que uma esposa. Também teria uma mulher que não era só agradável para seus olhos, mas uma companheira bem versada nas artes da cama. Não queria uma mulher que o temesse. Ele podia viver com o desdém e não ligava se nunca houvesse um amor terno entre eles. William tinha muito medo. Quando ele deixou Palácio de Sidatha com Hugh e os outros jurou deixar aquele período de sua vida para trás. Nunca mais iria sofrer. Não mais iria matar para ganhar comida de seus algozes. E nunca mais deixaria que alguém o temesse. Especialmente sua esposa. Uma das mulheres dentro da capela, que havia vindo para testemunhar a união, se levantou, verbalizando sua nada lisonjeira opinião. _ Muito justo que a prostituta receba por marido um bruto humilde! Outra mulher riu silenciosamente, então adicionou, _ Sua brutalidade não será nem a metade do que ela merece. O desejo de dar uma resposta àquelas mulheres se amainou, quando viu o olhar resignado de Sarah. Ela ouviu as palavras rancorosas e preferiu ignorar. Já não havia ouvido a mesma coisa várias vezes? O fato de Sarah ignorá-las solenemente, como se fosse um fato comum ser destratada daquela forma fez William presumir que a resposta para sua pergunta não verbalizada seria — muitas vezes. Mas algo… a palidez de seu rosto, o brilho estranho vislumbrado em seus olhos… disseram a ele que ela não era imune aquelas ofensas. William queria que aquele casamento desse certo. Não, ele não estava arrependido.

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Ainda que ela o temesse agora, Sarah estava só, sem um amigo, um campeão para defendêla. Ele tinha sido um cativo toda a sua vida de adulto. Sabia o que era estar só no mundo. Tornado cativo antes de ter uma chance de experimentar a mocidade, logo aprendeu a se manter por sí. Rapidamente aprendeu a não contar com ninguém, além dele mesmo. William permaneceu a seu lado e lhe ofereceu o braço. _ Venha, Senhora Sarah. Ordenaram-nos partir antes do amanhecer. Mas antes de nos econtrarmos com a Senhora Adrienna e Hugh, temos um casamento a realizar. Ela olhou fixamente para seu braço. _ Eu não desejo me casar com o Senhor. _ Eu sei. _ Senhor William, nós não estamos vestidos de acordo com a ocasião. Quer se casar vestido desse jeito? _ Não vestidos de acordo? Eles estavam bem vestidos, em sua opinião. A ela foi dada a escolha de uma cela ou deixar a corte imediatamente. Sarah precisava de alguém para protegê-la. Uma mulher só não sobreviveria longe daquelas muralhas. Independente de sua vinda, aquela corte era uma pequena prisão, onde cada um fazia o que lhe era ordenado fazer. _ Nós estamos bem vestidos, Senhora Sarah. E se você se recorda, eu a escolhi. _ Isso não foi nada além de um capricho de momento. No futuro, ão terá fundamento. _ Minhas decisões não são baseadas num capricho de momento. Quantas vezes ele havia escapado da morte, num fugaz momento, do homem com o qual lutava? Nunca se baseou em caprichos, mas em um raciocínio rápido. Mas ele não iria explicar aquilo para uma mulher que já demonstrava sinais de que o temia. _ Nosso casamento não foi orquestrado por estranhos. Isso não conta? _ Não. Sua resposta era um mero sussuro. William, severamente, lembrou a ela da escolha que Eleanor ofereceu: 109


_ É isto, ou uma cela. Ele não podia imaginar Sarah na escuridão de uma cela úmida e abafada. Ratos, os gritos dos outros prisioneiros, fome e frio iriam rapidamente cobrar seu preço de uma dama, acostumada ao luxo da corte. Seu belo cabelo logo estaria encardido. O vestido iria apodrecer em seu corpo. Como ela perderia peso pela falta de comida adequada, a vestimenta se penduraria em seu corpo, em farrapos. Seus olhos cintilantes perderiam o brilho, seus belos lábios logo esqueceriam como sorrir. _ Você não aguentaria. Sarah olhou fixamente para ele. O claro azul de seus olhos, parecendo enormes em seu rosto pálido. William prendeu a respiração. _ Você pensa que eu ficaria melhor com você? A vista da mulher, adorável e desejável, William estremeceu e sua voz se tornou áspera quando respondeu: _ Comigo, pelo menos, estará livre. Ela hesitou alguns segundos mais, fazendo William se perguntar se concordaria ou não. Mas finalmente, ela deu um suspiro, que a ele soou como uma derrota, e colocou sua mão trêmula em seu antebraço. William a levou corredor abaixo, parando ante do clérigo, que os esperava. Porque a Rainha havia insistido que seus votos fossem testemunhados pela Igreja o confundia. Legalmente, eles não precisariam fazer nada além de pronunciar seus votos e viver como marido e mulher. No máximo, a formalidade da Igreja poderia ter sido satisfeita mais tarde. À ele, isso não tinha a menor importância. Mas William reconhecia que não estava em posição para discutir com Rainha Eleanor. O coração de Sarah batia ruidosamente, parecia retumbar em seus ouvidos, ela mal podia ouvir as palavras do clérigo. 109


Duas coisas martelavam em sua cabeça — o comentário da mulher sobre o tratamento rude de Bronwyn não ser severo o suficiente para ela, e o modo como ele disse que, com aquele enlace, pelo menos ela se manteria com vida. Um calafrio serpenteou abaixo de sua espinha. Seu pai tinha, freqüentemente, usado seus punhos para exigir obediência de todos, especialmente quando sua mãe era viva. Sarah perdeu a conta das vezes que testemunhou homens usando força física para controlar suas esposas e crianças. Para todos, aqueles atos agressivos pareciam normais… quase esperados. Mas desde que haiva vindo para a corte da Rainha, nunca havia testemunhado aquele tratamento. Agora, aquele tipo de agressão não mais lhe parecia normal. Naqueles anos, ninguém havia levantado a mão para ela. Sarah não conhecia o homem com quem ia se casar. O havia encontrado pela primeira vez horas antes. E, agora, seria seu marido. Ele a possuíria, tão seguramente como possuía suas roupas, seu cavalo... Sua garganta se apertou, e outro tremor de medo a agitou. Bronwyn apertou sua mão. Ele teria sentido seus calafrios traiçoeiros? Sarah afastou o temor. A formalidade passou num instante. Ela silenciou, quando o clérigo perguntou se ela, de livre vontade, tomava este homem como marido. Só a memória da ameaça da Rainha de uma cela, ou algo pior, incitou Sarah a responder, - Sim. Finalmente, era sua esposa. O homem havia se tornado seu marido. A luz das tochas, na parede lançava cores em seu rosto, fazendo reluzir o escuro de seus olhos. Sua enorme mão engolfou a de Sarah e ela rezou para permanecer calma. Uma coisa era William saber que ela não o queria por marido. Mas se o deixasse perceber seu medo, daria a ele poder demais. Ela sabia bem o poder que daria a ele, se o deixasse perceber seu temor.

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As mulheres que estavam na capela privada da Rainha para testemunhar a união, se calaram. Suas vozes silenciaram e só se ouviam murmúrios, parecendo ecoar no silêncio que caiu sobre todos, ao final da bênção. Sarah vacilou, lembrando de suas línguas ferinas. Isto era uma coisa da qual ela não sentiria falta. Estas mulheres não a conheciam, haviam formado suas opiniões baseadas em coisas que ouviram, em boatos. Tão diferentes de Adrienna, que havia visto por trás das aparências... A maior parte delas veio para a corte de Eleanor pela mesma razão que ela achar um marido. A única diferença entre elas eram as terras e o ouro que trariam para o casamento. Coisas que Sarah não podia oferecer a um pretendente. O padre passou por eles, deixando claro que a cerimônia estava encerrada. Ele não iria beijá-la? _ Eu sinto muito. William se desculpou, fazendo Sarah se perguntar se ele havia se dirigido a ela ou ao clérigo. Tudo que ela sentiu foi que William havia se inclinado, repentinamente, e roçado seus lábios, com uma suavidade surpreendente para um homem com a fama de bruto. A capela novamente se agitou, com sussuros e risinhos, e Sarah soube que as mulheres riam dela e do homem, que agora a possuía. Mas ela se recusava a se deixar abater por aquelas víboras. Queria tanto provar a injustiça de suas suposições! Pelo fato de estar em uma capela, sua resposta ao beijo foi suave, apesar de não ter resistido a se encostar-se no tórax de William, de uma forma um pouco mais audaciosa. Seus lábios eram mornos, e surpreendentemente gentis. Diferente de outros homens que Sarah havia beijado, ele não buscou devorar sua boca. William apenas movia seus lábios contra os dela, e um calor líquido se arrastava por suas veias. O que tinha sido oferecido como nada além de um toque puro, para selar seus votos, havia se tornado uma promessa não dita de desejo compartilhado. 109


O enfraquecido dos sussurros maliciosos em seus ouvidos, a fez perceber que estava perdendo a noção de onde estava. Não sentiu repulsa. Confusa, Sarah se afastou,interrompendo o beijo. Para esconder sua incerteza, deu um sorriso deslumbrante, especialmente dirigido às mulhers. Olhou uma por uma, com uma estranha sensação de satisfação. Pela primeira vez, ela não sentia vergonha de algo que estava fazendo.

Capítulo Dois

A voz de William foi quase um sussuro, em seus ouvidos. _ É hora de partir. Sarah se voltou, com ele em direção às portas duplas. William tomou sua mão, perguntando, _ Ou quer ofertar uma festa de casamento? Uma resposta curta estava na ponta de sua língua, e ela o olhou fixamente. Mas o estremecimento no canto de seus lábios, e um brilho travesso em seus olhos, fez Sarah perceber que ele estava brincando com ela. Ele ouviu os sussurros e os risos das mulheres? Teria ele percebido o quanto as palavras maldosas a machucavam? Ela se inclinou para ele, e falou por sobre os ombros largos, alto o suficiente para ser ouvida: 109


_ Não. Eu penso que não é o momento. William deslizou o braço por sobre os ombros de Sarah, de uma forma quase íntima, antes de se voltar para as mulheres, surpresas. _ Eu lhe disse que não dê atenção a pessoas que não a merecem. Ele elevou sua voz o suficiente para ser ouvido, e seu tom duro foi rapidamente compreendido. Sarah não sabia quem estava mais surpresa, se ela, com a defesa de William ou as mulheres, que mostravam nos olhos expressões que iam do choque a vergonha. William olhou para ela, e Sarah teve a sensação de se afogar em seus olhos castanhos, com pequenas manchas douradas. Sentiu a respiração presa em sua garganta. Pior que isso era o retumbar desordenado de seu coração e uma emoção intensa que tomava conta de seu corpo, uma emoção que ela temia nomear. Sarah não conhecia aquele homem, não confiava nele. Não queria ser sua esposa e não devia sentir nada por ele. Nada. Quando deixaram à capela, Sarah se afastou de seus braços. Precisava manter uma distância segura dele. E precisava lembrar-se que William não era nada mais que um caminho para completar esta última tarefa para a Rainha. William notou aquele súbito afastamento de sua esposa, uma vez que eles estavam longe do olhar das mulheres. Ele perguntou-se porque Sarah havia correspondido ao seu beijo, e agora sabia que aquela cena havia sido montada para as mulheres e não por sentir qualquer desejo por ele. Por que aquele conhecimento causou uma sensação de perda? O ato de terem trocado votos não mudava nada entre eles, a não ser que o gosto dos lábios de Sarah havia feito com que William desejasse mais. _ Sarah. William tomou a delicada mão entre as suas, por um breve momento. Depois que Rainha Eleanor havia concordado com o casamento, Sarah havia sumido.

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William estava certo de que ela havia perseguido Eleanor, tentando convencer a Rainha a mudar de idéia. Obviamente a tentativa tinha sido um fracasso. Sarah tentou livrar sua mão, mas antes dela poder dizer qualquer coisa, uma mulher se dirigiu a ela, outra das damas da Rainha, provavelmente. _ Senhora Sarah, isto é da parte da Rainha. A mulher deu a Sarah uma bolsa pequena. Sua esposa abriu a bela bolsa adornada, para olhar dentro. Seus olhos se arregalaram, quando viu ouro suficiente para viverem com conforto por um bom tempo. Quando Sarah tentou devolvê-la, a senhora agitou a cabeça, recusando. _ Devolva a Rainha. _ Não, é seu. A rainha Eleanor deseja que vocês façam uma viagem segura. A mulher olhou William e Sarah. _ Eu lhes desejo o mesmo. - afirmou a dama, com um sorriso. Sarah olhou surpresa, e sorriu. _ Agradeça à Rainha - Sarah pediu e então, prosseguiu incerta _ eu desejo a Senhora tudo de bom e que sua permanência na corte seja agradável, Senhora Elise. Elise sorriu. Antes de sair, acrescentou: _ O amanhecer chegará daqui à uma hora. Vocês precisam tomar o caminho. William movimentou a cabeça, reconhecendo a advertência contida nas palavras da dama e se dirigiu a câmara que compartilhava com o Conde. Mas Sarah o puxou e o arrastou em outra direção. _ Por aqui é mais seguro. Ela conhecia o castelo muito melhor que William, e desde que sua liberdade também estava em jogo, ele confiaria em Sarah. _ Por aqui. - disse Sarah. Ela o conduziu por um semi-iluminado corredor, que desembocava em cima do enorme corredor principal. William olhou por sobre as grades, o enorme corredor abaixo. Sua respiração ficou presa na garganta. 109


Richard de Langsford e Stefan de Arnyll estavam imersos numa conversa, sem perceberem o movimento acima de suas cabeças. Sem pensar, William agarrou Sarah. Ele ignorou seu recuo e a arrastou para uma pequena alcova. A visão de Langsford não o assustou. Aquele homem era nada além de um tolo bêbado, um inútil cortesão da Rainha, que havia tentado conquistar Adrienna, a fim de aborrecer o Conde. Mas Arnyll era outro assunto. O que aquele filho do demônio estava fazendo ali? Como William, Arnyll também tinha sido capturado e viveu em escravidão. Quando Hugh ganhou sua liberdade e as vidas de três outros amigos, ele solicitou que Arnyll fosse incluído na barganha, só porque o homem era um compatriota. William reconheceu a perseverança de Arnyll, quando este fora jogado,anos atrás, no calabouço de Sidatha. Havia ensinado Arnyll como usar velocidade e agilidade para vencer seus oponentes. Haviam frequentemente lutado juntos nos longos anos de escravidão. Lutado literalmente, de costas um para o outro, uma forma de combate em que um defendia a retaguarda do outro. Porém, Arnyll logo mostrou seu caráter verdadeiro. Provou ser tão ruim e sem honra, ou até mesmo pior que o mestre dos escravos, Aryseeth. A memória de um cachorro esquelético que William e alguns outros salvaram da panela do cozinheiro, inundou sua mente. Ele lutou para não estremecer frente a essas memórias. Eles esconderam o faminto animal por meses, até Arnyll, nums atitude de despeito, por uma dose extra de vinho amargo, que foi dada a outro escravao, contar a Aryseeth do animal. Logo eles aprenderam quão fútil tinha sido a tentativa de preservar a vida do cão. Os passos dos homens soaram mais próximos. Eles estavam tão compenetrados na conversação que não notaram William e Sarah. William sentou-se em um banco de pedra, no canto escuro da alcova, e puxou Sarah para seu colo.

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Na maioria das vezes, era quase impossível esconder seu corpo enorme. Com um pouco de sorte, o aparecimento de dois amantes, escondidos numa escura alcova, poderia trabalhar a seu favor. Poderia também fornecer a oportunidade perfeita para ouvir a conversa dos dois homens. Quando ela empurrou seu tórax, em uma tentativa inútil de escapar, William a envolveu com seu enorme manto. Certo de que Sarah não permaneceria muda por muito tempo, William a puxou pelos cabelos e a beijou. Ela ofegou contra seus lábios, e ele sussurrou, _ Fique calada. Eu não prejudicarei você, mas Arnyll sim. Sarah se enfureceu, Arnyll? Apenas algumas horas haviam se passado, e William havia o chamado de Stefan. Ela havia visto o ordinário do Richard com Stefan no corredor, e testemunhou a reação confusa de William. Se estes homens haviam causado tamanho temor num homem enorme como seu marido, seria prudente ela seguir o bruto e acatar suas ordens. Sussurando, ela o advertiu, _ Isto é apenas para despistá-los, não leve a sério. Sarah o sentiu sorrindo, contra seus lábios, quando ela ergueu seus braços e enlaçou o pescoço forte de William. Ela estreitou seus olhos, desejando que pudesse ver seu rosto na escuridão. Por uma razão que não podia nomear, Sarah teve o pressentimento que o sorriso de William era de satisfação. Infelizmente, estava ficando cada vez mais claro que não havia se casado com um homem sem imaginação. Isso podia ser um impedimento a mais em sua tarefa e um perigo para ela, se não conseguisse ocultar suas intenções. Acima de tudo, William nunca poderia descobrir que ela ainda estava sob as ordens da Rainha.

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Ele não entenderia. Nenhum homem confiaria em uma mulher sabendo disso, não importando seus votos. Para os homens, uma esposa devia responder somente a eles, seguir apenas as ordens de um marido. O som da conversa de Richard e Stefan ia se elevando, conforme se aproximavam do local onde estavam. Sarah podia ouvir trechos da conversa. Parecia que falavam de um plano mal sucedido. Só alguém como ela, envolvida nas intrigas da corte, poderia entender o que estavam ouvindo. Eles falavam da Rainha e outros nobres, mas Sarah duvidava que William conseguisse juntar os fios da conversa, para fazer algum sentido. Ela apurou os ouvidos. Porque a tarefa sobre a qual os dois homens discutiam, era, sem dúvida, a missão na qual ela falhara. Eles fizeram sua parte, seqüestraram Adrienna, avisando Sarah pra entrar em contato com Wynnedom, e embora nenhum deles soubesse sobre o casamento dos dois, estavam cientes que o par era visto juntos, constantemente. Desta forma, o sequesto havia sido necessário, como uma forma de pôr Sarah na cama com o Conde. Mas algum resquício de moral havia feito com que Sarah procurasse Adrienna e a libertasse. Assim, havia descoberto a verdade do antigo casamento de Adrienna com o Conde de Wynnedom. Sarah não estava certa se Richard ou Stefan haviam descoberto que fora ela quem libertara Adrienna. Nem se sabiam de seu casamento com Bronwyn. Sarah gemeu, de uma forma que só seu marido pode ouvir, e se apertou ainda mais contra seu tórax. Era tudo que ela podia fazer para não suspirar de prazer, quando William relaxou o abraço e começou a traçar gentis carícias em suas costas. Talvez a Rainha Eleanor estivesse certa. Afinal William era só um homem. E talvez, como outros homens da corte, podia ser facilmente levado. 109


Ela aprendeu cedo que um sorriso suave, um olhar, um delicado toque no peito de um homem, eram uma forma muito eficaz de convencê-los a ver as coisas do seu modo. Sarah raramente havia sido forçada a fazer promessas de deleites mais íntimos. Mesmo porque não as mantinha.

Quando Richard e Stefan pararam em frente da alcova, seu coração bateu tão forte, que Sarah pensou que seria ouvida. Ela rezou que eles não fizessem caso dos dois amantes entrelaçados. Temia que William descobrisse que ainda era a espiã da Rainha, mas temia muito mais aqueles dois homens. William aumentou a pressão em sua nuca e cobriu sua boca. Sua pulsação corria tão rápido que Sarah sentiu-se subitamente zonza. Não havia nada de gentil no toque dele. William a beijava de tal forma, que afastou de sua mente todos os pensamentos sobre a Rainha, os homens que se aproximavam. Ela não conseguia pensar em nada, exceto no calor que corria por todo o seu corpo. A única coisa que encheu sua mente, a única coisa ela podia se concentrar era naquela boca, no toque mágico que fazia todo o seu corpo se derreter. Quando William interroumpeu o beijo, Sarah deveria ter se afastado. Ao invés disso, se agarrou nele, seus seios apertados contra o tórax largo, suas mãos, como por vontade própria, se agarraram nos ombros dele. Rapidamente, se deu conta do que estava fazendo e se ergueu de seu colo, buscando uma maneira de acalmar a furiosa tempestade que tomava conta de seu corpo. Nunca um beijo havia lhe afetado tanto. Ela corrigiu sua idéia de que William podia ser facilmente levado. A rainha estava errada. William de Bronwyn não era só outro homem, que podia ser facilmente conduzido pela luxúria. _ Acho que eles se foram. A respiração de William correu quente contra sua orelha. Ele se aproximou mais, de uma forma muito íntima, e sussurou: 109


_ Tem certeza de que não há nada de real neste beijo? Sarah se afastou mais, perguntando-se se não havia se casado com um sedutor. William se levantou do banco e roçou nela quando passou, fazendo Sarah tomar consciência do quão próximo haviam estado. _ Venha, nós precisamos encontrar Hugh e a Senhora Adrienna, e deixar a corte. Ainda incerta sobre aquele homem e suas reações a ele, Sarah o conduziu pelo corredor, ao encontro de seus amigos.

Capítulo Três

Um breve reflexo que passou pela densidade das árvores do bosque, alertou os sentidos de William do perigo. Uma rápida olhada pelo local não o fez ver o que havia sucitado aquela repentina sensação. William havia aprendido muito cedo a dar ouvidos à sua intuição, e apesar de não ter visto nada, tinha certeza de que estavam sendo seguidos. Depois de verificar que Hugh e Adrienna os seguiam a uma distância pequena atrás deles, ele observou sua esposa. Parecia tão cansada como quando haviam deixado o castelo de Eleanor. William duvidava que as reações de Sarah se devessem unicamente ao casamento forçado ou à resposta aos seus beijos. Uma resposta que prometia mais que palavras poderiam expressar. William ouviu os rumores sobre Sarah ter sido a prostituta da Rainha. Como poderia não ouvir? 109


Os rumores eram sussurados, frequentemente, na corte. Ele não exigiria nada deste casamento. Havia oferecido à Sarah sua proteção e com isso, ganharia uma esposa. Pareceu um bom acordo para os envolvidos. Ela seria poupada dos horrors de uma prisão e dos perigos de uma vida fora das muralhas do castelo da Rainha. Ele teria o benefício de uma esposa, sem qualquer ligação romântica. Além disso, ganharia uma mulher experiente na cama e não uma virgem assustada. Talvez o aparecimento de Langsford e Arnyll tivesse sido uma benção. Deu a ele a oportunidade para testemunhar a experiência de Sarah, em primeira mão, em vez de assistir de longe. Ele ouviu as vozes dos homens, conforme se aproximavam da alcova. Embora William tenha sido incapaz de entender suas palavras, a reação de Sarah lhe deu mostras de que ela sim, as entendeu. A princípio, a resposta dela à sua proximidade tinha sido desencorajadora. Mas, quanto mais os homens se aproximavam da alcova e mais altas suas vozes se tornavam, Sarah começou a corresponder de uma forma lasciva e apaixonada. Por alguma razão, Sarah sentiu que aquela reação era necessária, para nublar seus sentidos e certificar-se de que William não entendesse o que os homens comentavam. Ele não era um parvo cortesão, que Sarah podia manipular como quisesse. William sabia que ela devia ter segredos horríveis, que fazia questão de esconder, mas sua resposta aos beijos e a tentativa de manipulá-lo o tinha divertido mais que aborrecido. _ O que foi? - a pergunta de Sarah o surpreendeu, tirando-o de seus pensamentos. _ Nada. _ Ah, então você também mente. Certo de que não a havia escutado corretamente, ele olhou para ela, perguntando: _ O que quer dizer com isso? _ Eu não vivi este tempo todo na corte, sem aprender a ler as expressões das pessoas. Sarah o estudou, atentamente, como se procurando por algo, e então explicou:

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_ Sua expressão está tensa, está olhando para o bosque, como se procurando alguma coisa, tudo isso me diz que há algo errado. _ Não é nada que lhe interesse. Sarah sacudiu uma das tranças pousadas em seu ombro. _ Não, claro que não. Ela sorriu e piscou os cílios, antes de adicionar: _ Sou apenas uma simples mulher, sem conhecimento nenhum do mundo, sem um pensamento em minha cabeça inútil. Eles não estavam no castelo; já haviam se afastado da corte de Eleanor. Não havia necessidade de Sarah se comportar daquela forma coquete, ou se zangar com ele. William havia percebido que Sarah sempre seguia dois caminhos: a sedução ou um insulto. No momento, sedução seria bastante difícil. Ele olhou duramente para ela e disse: _ Simples mulher? Não. Eu estou achando que você tem todos os atributos para se tornar uma megera. Em vez de ficar envergonhada ou zangada, como William esperava, Sarah riu alto, sua gargalhada ecoando no bosque e assustando os pássaros, que revoaram das árvores em volta. _ Você poderia ter descoberto isso antes de insisitr que eu me tornasse sua esposa. Não era a resposta que William esperava, mas ela estava certa. _ Eu imagino que há muitas coisas que eu poderia ter descoberto sobre a senhora, se tivesse tido tempo para isso. _ Não coloque a culpa em mim. Não foi minha a idéia do casamento! _ Não, mas também não objetou, quando foi descoberta na cama comigo. Um leve rubor cobriu o rosto de Sarah, mas ela não o encarou. _ Sabe que eu tinha uma missão, que me foi dada pela Rainha. Que escolha tive? Ela poderia não ter tido uma escolha antes, mas agora as tinha. _ Eu acho que não vale mais a pena discutirmos sobre isso. - disse ela 109


Sarah apertou as rédeas, e perguntou, calmamente: _ Não acha? _ Mesmo depois que Eleanor a ordenou que sumisse de sua vista, não a encontrei em parte alguma. Presumo que foi buscar refúgio na Rainha. Por que fez isso? _ Eu quis que ela impedisse este casamento. - Sarah tocou levemente o ombro de William. _ Não é nada pessoal, William. Eu simplesmente não desejava um casamento forçado. Ele olhou para sua mão, e bruscamente, Sarah a afastou constrangida. _Tornar alguém sua esposa é algo muito especial. _ Não precisa ser. _ Em alguns casamentos, talvez. Mas este aqui não será especial. _ Por que não? William dobrou suas mãos sobre a cela. _ Eu sabia o que diziam de você e mesmo assim, quis este casamento. _ Quis? Ela se debruçou ligeiramente e olhou fixamente para ele. _ Você nunca quis se casar comigo. William encolheu seus ombros. _ De qualquer forma, eu tomei você como esposa, sabendo que você era a prostituta da Rainha. _ Eu tentei fazê-lo ver que um casamento comigo seria um erro. Ignorando-a, ele continuou: _ Em retorno, eu espero pouco de você. _ Então é disso que se trata. William apertou as rédeas, tentando controlar seu temperamento, que já estava em ebulição. Por alguma razão, Sarah estava querendo discutir. Se ela não fosse um pouco mais cuidadosa, poderia conseguir mais do que procurava.

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_ Você está só neste mundo, Sarah, não existe ninguém para cuidar de você, ou para protegê-la, exceto eu. Se você deseja segurança, precisa aprender a confiar em mim. Não tem escolha. William capturou seu olhar. _ Me diga, como pode duas pessoas compartilhar uma vida, uma casa, um nome e uma cama e isso não ser pessoal? _ Nós não compartilhamos nem um casamento e muito menos uma cama! - ela adicionou, enfrentando seu olhar: _ Nem tenho a mínima vontade de fazê-lo. _ Oh? O desafio direto o surpreendeu. Sarah pensava que ele ignoraria isto? William teve ganas de lhe dizer que um dia ela estaria mais que disposta a vir para sua cama. Mas não fez o comentário. Finalmente, ele perguntou: _ O que a faz pensar que não compartilharemos uma cama? Toda cor deixou o rosto de Sarah, ante o pensamento de que William poderia forçá-la a se submeter. Sarah se virou, empertigada e afastou o olhar. _ Você não me forçaria! William não acreditava que teria que forçá-la. Mas por que a simples idéia a assustava tanto? Sarah tinha medo. Ele conhecia as reações do medo, por experiência própria. Podia ver seu medo na dureza de seu porte, na palidez de seu rosto e no timbre hesitante de sua voz. A necessidade de aliviar as preocupações de Sarah, o levaram a se inclinar e erguer a mão para levar os dedos de Sarah a seus lábios, num delicado beijo. _ Eu duvido que a força fosse necessária, minha lady. Sarah o empurrou com sua mão livre. _ Você se tem em muito alta conta, meu lorde. 109


_ Talvez. Mas não existe ninguém que negaria minhas habilidades. _ Eu não as neguei. _ Não? Então, pensa, verdadeiramente, que me enganou? Ante o olhar confuso de Sarah, ele explicou: _ Seu ardil é tão antigo quanto o tempo. Uma mulher experiente, diz a um homem que não comparilhará sua cama, sabendo que isto soa como um desafio difícil de resistir. Você não fez segredo disso. Todo homem sabe que uma mulher faz isso intencionalmente, Sarah, querendo com isso que não lhe dêem escolha. Ela abriu a boca, como se fosse dizer algo, e, a seguir, cerrou firmemente os lábios. A reação o deixou confuso. Ele esperava outros argumentos dela. William suspirou. Sua esposa era uma encrenca ambulante, embrulhada em belas roupas. William emparelhou seu cavalo com o de Sarah, que seguia calada. Um homem em sua posição nunca se imaginaria casado com alguém tão adorável quanto lady Sarah. Ela o olhou, de soslaio e ele escondeu um sorriso de diversão. Nenhuma batalha lhe havia provocado aquele nó no estômago ou o súbito calor que se espalhava por seu corpo. E agora, aquele pequenino pedaço de mulher lhe causava sensações que nunca havia sentido antes, somente com um olhar. E quando Sarah se afastou, um frio varreu seu corpo estranhamente lhe roubando todo o calor. William suspirou. Que espécie de tolice romântica era aquela que estava acontecendo com ele? Depois de uma vez mais inspecionar a área, e não achando nada, William perguntou-se se havia imaginado aquela sensação de perigo. Talvez sua saída precipitada da corte de Eleanor, combinada com seu casamento, houvessem lhe embotado os sentidos. Suas armas estavam à mão, e Hugh também estava bem armado. Então, no momento, William não tinha motivos para se preocupar. 109


Querendo uma distração mais aprazível, ele se concentrou uma vez mais em sua esposa. As mulheres na igreja tinham motivos para ter ciúmes. Apesar do nariz levemente torto e uma fina cicatriz que lhe atravessava uma das sobrancelhas, Sarah era belíssima. Além de seus cabelos de um rico tom de dourado, a primeira coisa que William notou quando olhou para ela a primeira vez, foram seus límpidos olhos azuis que se destacavam contra sua pele clara e perfeita. William perguntou-se quantos homens haviam desejado se afogar naqueles olhos. Com sua atenção concentrada nela, William admitiu que ele mesmo havia desejado o mesmo. Teria sido por isso aquele temor que Sarah sentia em relação a ele? _ O que está olhando agora? _ Você. _ Como? Ela passou a mão em seu rosto. _ Algo errado? _ Não, tudo está em seu lugar. Eu estava só admirando sua beleza. Sarah arregalou os olhos e em seu rosto desenhou-se uma máscara de desprezo, Aquilo não o aborreceu. William havia testemunhado aquela mesma expressão no rosto de Sarah, várias vezes, na corte de Eleanor. Havia visto vários homens se encolherem e se afastarem ante aquela demonstração de desprezo, mas ele não seria intimidado facilmente. _ Eu não posso acreditar que nunca lhe falaram sobre sua beleza. _ Aye, eles o fazem. Quando querem algo de mim ou estão cheios de vinho, e não tem mais nada para dizer, os homens fazem isso frequentemente. _ Eu sei exatamente o que eu estou dizendo, e eu já possuo tudo o que desejo. _ E o que seria? _ Você. Com sua resposta Sarah estacou, chocada. _ A mim? – Sarah se agitou surpresa. 109


_ Nós mal nos casamos e o senhor já me considera como uma possessão? William não gostou daquela idéia. Ele sabia o que era ser uma possessão de outra pessoa. _ Isto não é o que desejo: que se considere como uma posse minha. _ Mas não é isso que é uma esposa? - Ela perguntou, respirando profundamente, antes de adicionar: _ Só outro artigo para adicionar aos seus bens? _ Meus bens? William agitou sua cabeça diante daquela declaração absurda. Todos os seus bens estavam ali: suas armas, sua armadura, o cavalo, e a promessa de ouro do Rei Henry. Com os bens que, no momento, estavam com ele, podia contar. A promessa, porém, não era nada além de palavras. William ainda não tinha visto uma moeda vinda do Rei. Ele manteve a voz dura, quando respondeu à Sarah: _ Oh, aye, Senhora Sarah, isto é tudo que uma esposa representa para mim. Simplesmente outra possessão para ser usada como e onde eu bem entender. Uma névoa vermelha nublou a vista de Sarah. Ela abriu a boca, pensando em vomitar todo o tipo de maldições sobre ele. Então, viu um vislumbre de humor em seus olhos, e imediatamente soube que William a estava provocando. Sarah fechou a boca, dirigindo a ele seu olhar mais feroz e observando como o safado mal continha o riso. Quando se acalmou, disse: _ Você tinha este objetivo! Ele arqueou uma sobrancelha, e perguntou, _ Eu? _ Sim, você, William de Bronwyn. _ Talvez eu tenha feito. Mas acredito que minha esposa é incapaz de esconder segredos de seu marido. 109


William segurou seu queixo antes dela poder se virar. _ Você não concorda, Sarah de Bronwyn? Ela desesperadamente quis desviar seu olhar, tentando se proteger da desconfiança que via nos olhos dele. Mas fazer isso era afirmar sua culpa. Ela não podia fazer aquilo, ainda não. A bolsa que a Senhora Elise lhe entregou continha mais que moedas de outro. Uma carta breve havia sido incluída. Uma que só confirmou a importância de conseguir as informações que Eleanor queria. Sarah inspirou, profundamente, tentando parecer tranquila. Não seria a primeira vez que era forçada a mentir; ela só podia rezar para que fosse a última. No momento, a única coisa que Sarah podia fazer era parecer calma. _ Está me acusando de algo? – Sarah perguntou. _ Você estava com tanto medo de que eu ouvisse o que aqueles homens comentavam que tentou me distrair com suas habilidades. Uma distração perigosa considerando que você não se sente segura em meus braços. Não pode negar isso. O homem era extremamente perspicaz. Sarah pensou que, de fato, William era excelente em suas deduções. Se ela não se cuidasse, ele descobriria que seu disfarce de prostituta era nada além de um disfarce. Ela não temeu que William descobrisse a verdade, porque duvidava que ele ficasse ofendido ao descobrir que sua esposa não era uma rameira. Mas o instinto a advertiu que a reação do homem seria bem diferente se ele descobrisse que Sarah continuava a trabalhar para a Rainha. Forçando-se a manter um tom firme, ela perguntou: _ Negar o que? _ Que você está escondendo algum segredo de mim. _ Eu posso negar, é claro. O que eu ganharia com isso? 109


_ Eu não sei. Eu estou esperando que você me diga. – ele se debruçou novamente sobre a cela, como se estivesse esperando uma resposta. Ele esperaria por muito tempo. Sarah não lhe diria nada. Ela afastou seu olhar, fingindo observar algo no bosque. William riu, suavemente. _ Você pode me ignorar agora, Sarah. Mas nas noites que virão no escuro… - ele acariciou sua bochecha com a ponta dos dedos _ …depois que tivermos saciado o fogo que nos queima… - ele abrandou sua voz, causando um estranho formigamento em Sarah _ …e nós estivermos entrelaçados um no outro… _ William se debruçou sobre ela _ …você me dirá.

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Capítulo Quatro

A fogueira do acampamento crepitou, fornecendo luz e calor a pequena clareira onde passariam a noite. Depois das semanas no burburinho da corte, William e o Conde resolveram passar a noite em um local quieto. Tinham feito um pequeno acampamento ao lado da estrada, preferindo aquele lugar que buscar abrigo em algum povoado próximo. Depois de horas em cima de um cavalo, Sarah teria preferido o conforto de uma cama. Mas ela não iria dar a William a satisfação de vê-la reclamando. Pegou um cobertor e o estendeu no chão duro. Acomodada em um tronco, próxima ao fogo, Sarah estirou suas pernas e saboreou o calor. Sem aparentar muito interesse, Sarah começou a prestar atenção nos dois homens e em sua conversa sobre Arnyll. O conde Hugh quebrou um graveto e o lançou nas chamas. _ Eu estou surpreso que não o tenha matado. William deu de ombros. _ Matá-lo ali poderia me causar problemas com a Rainha. _ Verdade. Hugh concordou, rindo. Adrienna, acomodada em um tronco próximo a ela, perguntou: _ Lembra-se da reação da Senhora Waltrop ao descobrir o corpo daquele homem velho no Grande Hall? Embora o falecimento inesperado do velho não tenha sido engraçado, Sarah sorriu da lembrança. 109


_ A rainha Eleanor pensou que a Senhora Waltrop morreria de choque. Adrienna estourou em risos. Quando Adrienna se controlou, admitiu: _ Penso que teria reagido da mesma forma, se encontrasse um homem morto, com os olhos vidrados, parecendo me fitar enquanto me dirigisse para tomar meu café da manhã. Hugh perguntou: _ Como ele morreu? _ Ninguém sabe. – Sarah explicou. _ Ele parecia ser desconhecido e não havia sangue ao redor. _ Eu não pude ajudar e lamento por isso. Adrienna meditou, e então perguntou: _ Ninguém descobriu sua identidade? _ Eu não lembro de seu nome, mas ouvi comentários de que ele tinha sido um dos guardas da Rainha, quando mais jovem. Quando ficou velho e não tinha para onde ir, ela o manteve sob seu serviço, em coisas pequenas, como provar sua comida entre outras coisas. Os três olharam fixamente para Sarah, fazendo com que ela interrompesse sua explicação. _ Como sabe disso? Ninguém conhecia a identidade do morto! Adrienna perguntou: _ Então, como você sabia? O olhar de William a queimou como fogo. _ É um pouco estranho você saber destes detalhes, Sarah. _ Estranho? Como assim? O conde Hugh disse: _ A posição de um homem, sua riqueza ou a falta dela, não é algo que a Rainha discutiria abertamente com suas damas. _ Oh. Sarah engoliu uma maldição. Como podia ter sido tão descuidada? Ela depressa buscou uma explicação. _ Eu disse a vocês que tinha agido como uma espiã para a Rainha. Ela deve ter mencionado este homem para algum de seus defensores, quando eu estava presente. 109


Adrienna relaxou, mas disse: _ Deve ser um alívio ter se livrado de tais tarefas vis. Sem conseguir encarar Adrienna, Sarah sentiu que William estava muito atento à conversa. Ela podia sentir seu olhar queimar através da distância. Sarah estava ciente que ele sentia que algo estava errado. William estava esperando que ela cometesse um erro para juntar as peças do quebracabeça. Sarah deu de ombros e suspirou. _ Oh, sim, era um enorme inconveninte. Não sei o que era pior, se espionar para Eleanor ou ter a reputação de prostituta. Antes de Sarah continuar, William disse: _ Reputações não causam dano físico a ninguém. Mas espionar para seu mestre pode prejudicar muitos e terminar em morte. Sarah se sentiu gelar. A Rainha insinuou a morte de William, como uma forma de Sarah se libertar e tornar a se casar. E, apesar de não desejar continuar casada com ele, tampouco desejava a sua morte. Ela girou seu olhar para ele. _ Eu não prejudiquei ninguém. E posso assegurar a você que ninguém morreu por causa das poucas informações que passei a Rainha. _ Como pode você saber disso, com tanta certeza? Com toda honestidade, ela não podia saber realmente. Mas ao ver a expressão feroz de William e a tensão na linha de sua boca, ela não tinha coragem de admitir isso. _ Não eram informações de grande importância. _ Até um pequeno fragmento de informações, nas mãos erradas, se torna perigoso. William afirmou taciturno. O Conde Hugh colocou uma mão em seu braço, como se o estivesse confortando. Enquanto Sarah se perguntava o motivo daquela reação sentimental de William, a Senhora Adrienna trouxe a conversação de volta a Rainha. _ Você disse que a Rainha permitiu a seu guarda, de idade avançada, permanecer na corte? Quando Sarah agitou a cabeça, afirmativamente, Adrienna comentou: 109


_ Não imaginava que a Rainha fosse tão sentimental nestes assuntos. Sarah respondeu: _ Ela freqüentemente trata de seus assuntos com mais generosidade que muitos podem imaginar. _ Oh, sim. - William olhou fixamente para ela. _ A compaixão da Rainha é visível para todos. _ Eu freqüentemente ví compaixão em suas decisões. - Sarah encolheu os ombros. _ Ela sempre me tratou com justiça. William notou a vacilação de Sarah. Teria sido justiça a palavra certa? _ Justiça? Para sua surpresa, a Senhora Adrienna tocou em Sarah, perguntando: _ Como pode você dizer isso? Se sempre a usou como espiã, para obter informações, então eu verdadeiramente sou grata a ela, visto que nunca julgou conveniente me tratar com justiça. Sarah franziu o cenho, quando se virou para Adrienna. _ Ah, mas você veio para a corte como uma mulher adulta, com ouro nas mãos e perspectivas de um bom casamento. Eu vim como uma criança não desejada, com nada além de vestes maltrapilhas. A rainha Eleanor deu a mim um lugar para dormir, suficiente comida para matar minha fome, e me deu a oportunidade de aprender a ler e escrever. Sarah arrancou da saia de seu vestido um ornamento, nada adequado para uma viagem. _ Devo tudo à Rainha. Até a roupa que agora estou usando. Ela levantou uma mão para as pequenas jóias que adornavam suas tranças. _ E até mesmo essas pequenas quinquilharias que, para você, não significam grande coisa. _ Eu sinto muito. Adrienna tocou o braço de Sarah. _ Eu não. Sarah se afastou do toque de Adrienna. _ Eu não estou buscando sua piedade. Eu não tenho nenhuma reclamação sobre meu modo de vida. Eu busquei apenas explicar por que sou tão grata à Rainha. William se manifestou, levantando-se do local onde estava próximo a Hugh. _ Você está errada, Sarah. 109


Depois de ajudar Adrienna a se erguer, William tomou seu lugar no tronco. _ Aqueles dias estão terminados. Você não é obrigada a fazer mais nada por ela. A Rainha Eleanor não é mais seu mestre. _ Mestre? Sarah perguntou. _ Que modo estranho de se referir a Rainha. Não era como se ela fosse minha dona. _ Então como descreve isso? Hugh perguntou _ Você dependeu dela para comer, para ter um abrigo e roupas. Em retorno ela usou você como quis. Não é essa a relação de um escravo com seu mestre? _ Não. Eu prestei services a ela, em troca de sua generosidade ao longo destes anos. _ Desde que ela aceitou você em sua corte, posso presumir que ela fez uma promessa a seu pai de que iria tratá-la bem. _ Eu suponho que sim. Sarah encolheu os ombros. _ Eu não falei com meu pai desde que ele me deixou com a Rainha. William perguntou: _ Quanto tempo faz que mora na corte? _ Mais ou menos doze anos. Eu não tinha sete anos de idade quando meu pai me trouxe para a corte. Ele fez muito, já que não tinha dinheiro suficiente para me arrumar um dote e um bom casamento. Sarah não sabia, mas eles tinham mais em comum do que ela imaginava. Ela tinha estado sob as ordens da Rainha quase o mesmo tempo que William tinha sido cativo. William se moveu para o lado, se inclinando sobre ela. _ E sua mãe? Sarah olhou fixamente o fogo por alguns momentos antes de responder, num sussurro: _ Eu mal me lembro dela. _ Seu pai a matou? _ Não exatamente. Sarah pegou um ramo e o quebrou em pequenos pedaços. William olhou para Hugh e Adrienna. Eles se sentaram um de frente para o outro e conversavam baixinho. Ele chamou a atenção de sua esposa. Ela apertava as mãos, nervosa. 109


William perguntou: _ Que aconteceu? Sarah se encolheu. Pondo um braço sobre seus ombros, ele a forçou a se recostar contra ele. _ O que aconteceu, Sarah? _ Eu a matei. – sua voz era apenas um sussurro triste. _ Aos seis anos de idade? Duvido muito, Sarah. Quem, em seu juízo perfeito, convenceria uma criança de um absurdo tão vil? _ Como fez para matá-la? Por alguns momentos, William pensou que ela não responderia, mas finalmente, Sarah disse: _ Eu estava brincando com minha boneca, nos degraus, quando minha babá me chamou para preparar-me para ir para a cama. Sarah sentiu o coração se apertar, ao lembrar do incidente. _ Mais tarde, naquela noite, fui acordada por um grito da minha mãe. Ela tropeçou na boneca que eu deixei nos degraus e caiu. William a abraçou. Ele abaixou sua cabeça e sussurrou em seu ouvido: _ Não foi sua culpa. _ Sim, foi. Meu pai a levou. Depois que ela morreu, nos braços dele, meu pai lançou a boneca em mim, gritando que eu havia matado sua esposa e a criança no seu ventre. Ele então me ordenou que pegasse meu brinquedo amaldiçoado e sumisse de sua vista para sempre. William se enterneceu pela criança que Sarah havia sido. Ele podia imaginar seu medo e confusão. _ Ah, Sarah, ele não quis dizer isto. Suas palavras foram motivadas pela dor. Ela se agarrou em seu peito, ofegando. _ Eu não posso respirar, deixe-me ir. Ele relaxou seu abraço, mas não a soltou. Quando sua respiração se acalmou, Sarah disse: _ Meu pai quis dizer exatamente o que ele disse. Eu me escondi em um quarto da torre, e comi apenas quando alguém se lembrou de me procurar. 109


Sarah tocou em seu nariz, levemente torto. _ E eu depressa aprendi a ficar fora das vistas do meu pai. William emudeceu, imaginando como um pai podia tratar uma criança desta forma. Permaneceu calado. A responsabilidade do pai de Sarah tinha sido protegê-la, gostar dela, não a colocar em perigo. William sentiu o sangue bombear em sua cabeça, no íntimo ele gritava de fúria. Ela era apenas uma criança! Como um pai podia ter feito semelhante barbaridade? Sentiu o leve toque de Sarah em seu rosto, trazendo-o de volta a realidade. A vontade dele era matar aquele miserável com as próprias mãos. _ William, não faça isso. Ele agitou sua cabeça, tentando afastar os pensamentos malignos de vingança. _ Não faça o quê? _ Não se enfureça pela criança. Ela sobreviveu. Sobreviveu? Ele sabia exatamente o que era sobreviver. Ele o fez, diariamente, por anos e anos, usando sua mente e seu enorme corpo. Como uma criança, ela não levava nenhuma destas vantagens. Ela merecia mais que simplesmente sobreviver. William cobriu a pequena mão com a sua. Roçou a palma da mão de Sarah, num leve beijo, então perguntou: _ Como veio parar na corte da Rainha? _ Os homens de meu pai acharam mais seguro me levar para a abadia. Mas quando ele soube que teria que pagar para me manter lá, ele se recusou. Depois disto, eles quase o obrigaram a me trazer para o Rei e a Rainha. Acharam que, talvez Henry ou Eleanor fossem capazes de encontrar uma família para mim. _ A Rainha a manteve na corte, em vez de achar uma família para você. Por qual motivo? _ Eu não sei. - Sarah encolheu os ombros. _ Isso nunca me importou. Eu aprendi a não me importar. Se eu fizesse o que me era ordenado, tinha comida e abrigo. O que mais podia querer? 109


Comida e abrigo! Ele estava pasmo que uma criança de seis anos achasse natural viver como um animal. _ O que aconteceu com seu pai? _ Eu não o vi nunca mais, desde o dia em que me deixou na corte. Sarah deu a ele um meio sorriso. _ É provavelmente seja melhor assim. Ele agora entendia porque Sarah considerava que a Rainha havia lhe tratado com justiça. Sua esposa se sentiria grata a qualquer um que lhe mostrasse outra coisa, que não a raiva. Ele traçou, delicadamente, o contorno de sua cicatriz. Incerto do que dizer, ou fazer. William só quis oferecer a ela um pouco de conforto. Sarah fechou seus olhos, quando sentiu a respiração morna tão próxima de seu rosto. Não esperava que William entendesse as coisas que fez, ela havia falado demais, dito mais que pretendia. Pior, ela deu a ele a impressão de que queria sua compaixão, sua piedade, quando não queria nada disso. Antes dele se incliner para beijá-la, Sarah colocou uma mão contra seu tórax e o afastou. _ William, pare. Ele se afastou mais, confuso, estreitando os olhos. _ Eu... _ Não. Não lamente por mim. Eu não sou mais aquela criança. O que aconteceu com ela não tem nenhuma importância na minha vida hoje. Eu não preciso e não quero sua piedade. _ Nenhum importância? Ele retirou os braços de seus ombros: _ Tem impacto em suas ações até hoje. _ Você entende que eu não vejo a Rainha Eleanor, ou seus pedidos, do mesmo modo que os outros veêm? Apesar de Sarah não saber o que era o esfolar de ferros nos tornozelos, ou o peso das correntes, ela tinha sido tão escrava quanto ele. _ Eu posso entender, Sarah, mas não concordo que a Rainha tivesse direito de fazer o que fez. Ela usou as circunstâncias contra você. 109


Viu a confusão no rosto de Sarah. _ Não está usando a outra pessoa neste momento? Não é a maior parte dos contratos de casamento firmados com base de cada um dos cônjuges traga algo para a união? Não é essa a forma dos homens manterem fortalecidas suas posições? Eu não entendo o que você pensa que a Rainha Eleanor fez. _ Não tenho as palavras certas para discutir com você. Mas, Sarah, agora que você está longe do controle da Rainha, achará que sua vida pode ser diferente daquela conheceu até agora. Mas ela não estava longe do controle da Rainha. Sua vida sempre seria a mesma. Mas não podia dizer isso a William. Ao invés, ela olhou por cima de seus ombros e disse: _ Nós não devemos... Ele se debruçou ligeiramente ao seu lado, ficando em sua linha de visão. William a deixaria perceber que havia notado seu ardil. A maioria das pessoas não percebia que, apesar de ter o rosto voltado para elas, Sarah não as estava olhando. Erguendo-se William disse: _ Eu a verei daqui há pouco. - se debruçou sobre ela e a beijou. _ Então nós poderemos nos preparar para a noite. Ela não disse nada. Mas depois que ele partiu, Sarah observou, nervosamente, o céu, que já escurecia. Normalmente ela dava boas-vindas a escuridão e a solidão que trazia. Não importando a estação, ela vagava pelas ameias do castelo de noite. O brilho das estrelas era a única companhia que ela exigia. O cair da noite lhe trazia quietude quando todos dormiam e ela era deixada só com ela mesma, com seus sonhos e desejos. Muitas vezes, sentiu como se ela fisicamente pudesse se entrosar com os corpos celestiais. Mas hoje à noite… hoje à noite ela temia o surgir da lua e as perguntas que ela lhe traria. A culpa a estava corroendo. Tudo lhe dizia que revelasse a verdade para William. Por outro lado, já que não ia permanecer com ele por muito tempo, ficava receosa. Sarah sentiu um frio no estômago. Embora não fosse permanecer casada, ele estava sendo tão amável. E no dia anterior, ele havia acendido um desejo desconhecido em Sarah, apenas

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com um beijo. Ele a perturbava. Não de um modo cruel. William a fazia dar risadas mesmo quando se divertia lhe atirando observações maliciosas. Mais que isso, ele fez com que ela falasse e a escultou. Até quando se horrorizou com o que tinha acontecido com Sarah, ele não a interrompeu. De alguma maneira, antes de ser muito tarde, ela teria que convencer seu coração a não ser tolo. Estes atos de generosidade não eram suficientes para construírem uma vida juntos. As lembranças do conforto que William lhe dera, corriam por sua mente, mas não era nada além de um sentimento de piedade pela criança que ela uma vez fora. Sarah sentiu uma pontade de remorso, por aquela criança que ela havia afogado dentro dela. Se continuasse com este sentimento, logo se sentiria imersa na autopiedade. Precisava de alguns minutos para se controlar. Ela saltou de cima do tronco, onde estava sentada e foi se afastando deles. William a obervou atentamente, mas não disse nada. O Conde gritou: _ Senhora Sarah, não vagueie para longe. Antes de Sarah conseguir ir muito longe, William estava ao seu lado. Ele olhou para ela, uma pergunta não dita em seu rosto. Logo a escoltou para um local mais distante, no bosque. William se afastou, então, deixando-a sozinha e permanecendo de guarda mais adiante. Ela olhou para o pequeno lago, logo adiante. Abaixou-se na margem, espirrando água em seu rosto. Se isso não a acalmasse, pelo menos diminuiria o queimor em suas faces. _ Sarah, vamos. Ela segurou um comentário azedo sobre o fato dele se comportar como um cão leal do Conde e o seguiu calada, alguns passos atrás de William. Quando retornaram ao acampamento, Hugh e Adrienna estavam juntos, enrolados em um cobertor mais distante do fogo. Sarah começou a se apavorar, olhando William passar por ela, começando a estender um cobertor no chão durto, improvisando uma cama. 109


William se sentou em um tronco, tirou as botas e estendeu o enorme corpo na cama improvisada. Ele olhou fixamente para ela e estendeu seu braço, convidando-a para vir para ele, dando a ela uma escolha. Sarah não queria ir embora. Ela queria cair em seus braços. Ela não queria mais esconder, nem dele nem de sí mesma o que era na realidade. Numa demolidora indecisão, os sentimentos colidiam dentro dela. Ela era uma mentirosa, uma espiã, a prostituta da Rainha! Ouvira isso tantas vezes, que agora as vozes faziam eco em seus ouvidos. Nunca poderia escapar do que era, do que tinha se tornado. Sentiu os olhos nublados de lágrimas. Sarah escondeu o rosto dele, um grito de angústia se formando em sua garganta. William amaldiçoou. Antes de Sarah poder se mover, ele se sentou e a puxou para a cama. Sarah praticamente caiu em seu colo, se afastando logo em seguida. Com um braço firmemente em volta de sua cintura, William a subjugou. _ Foi um longo dia. Eu maltratarei você, mesmo sem querer. Tem que dormir. Aliviada por saber que William não a incomodaria com perguntas, Sarah deitou-se. Mas o sono não vinha. Sentia o corpo sólido dele tão próximo do seu corpo, seu calor... A proximidade dele aumentava sua culpa, William lhe havia oferecido sua proteção, sem saber dos planos da Rainha. Se ela traísse a Rainha Eleanor, era provável que perdesse a vida. E, se traísse William, nunca conseguiria se perdoar. A menos que Sarah conseguisse convencer a Rainha a não prosseguir com seus planos de matar William. Longe de Eleanor, Sarah não tinha como mudar o modo da Rainha ver as coisas, mas talvez, em um futuro próximo, pudesse convencê-la. Era sua única esperança. A dor em suas têmporas era quase insuportável. E a tensão de conter as lágrimas ameaçava sufocá-la. William afastou o braço de sua cintura, e roçou um dos dedos em sua face, enxugando uma lágrima, que ela não conseguiu conter. _ Descanse tranquila, Sarah, eu não vou machucar você. 109


Ela suspirou e disse: _ Eu sei que não. Sarah queria dizer mais, falar de tudo que lhe corroia a alma, mas se calou. William se debruçou sobre ela. _ Então, por que está chorando? _ Chorando? O que está dizendo? Eu não estou chorando. Por que eu iria chorar? Não existe nenhuma razão pra isso. Estou bem. Vá dormir. As palavras saíram tão rápidas de seus lábios que ate Sarah se espantou. Encostando os lábios em sua orelha, William sussurrou. _ Deve saber que as informações que me deu expõem muito da sua vida. Já que ele não havia feito uma pergunta direta, Sarah não disse nada. Sentiu os lábios de William deslizar na carne sensível de seu pescoço. Seu toque gentil a excitava e comovia. Antes de Sarah ter chance de acalmar seus sentidos, ele recuou e lhe sussurrou: _ Eu tinha pensado… que você era boa nisso… mas é muito melhor. Entre as palavras, os lábios de William novamente desciam por seu pescoço, enviando ondas excitantes a seu corpo. Sem pensar, ela respondeu: _ Mas não será você a comprovar. William riu. O safado tinha feito aquilo de propósito. Sarah o empurrou, tentando livrar-se do abraço, mas ao invés disso, só conseguiu que ele a derrubasse na cama improvisada. _ Ah, Sarah, fugindo assim, como conseguia ser bem sucedida em suas espionagens para a Rainha? Essa era uma pergunta que ela já se tinha feito muitas vezes, sem obter uma resposta. Os poucos homens dos quais tivera que se aproximar o suficiente para usar esses jogos de sedução, não tinham conseguido entorpecer seus sentidos da forma como William fez. Seu coração não bateu daquela forma desordenada, seu sangue não correu rápido nas veias... Nas sombras que a fogueira lançava Sarah só podia divisar sua sombra. Ainda se sustentando em seu cotovelo, William se debruçou sobre ela. _ Você parece uma fraude. 109


Ele afastou o cabelo de seu rosto, antes de percorrer, suavemente, os dedos por sua face, chegando aos lábios. Seu toque deixou uma trilha de fogo em sua pele. William se inclinou e a beijou no canto da boca. _ Eu me pergunto quanto existe de verdade nos rumores sobre você, Sarah. William não comentou mais nada, mas quando Sarah quis afastar-se dele, jogou uma das pernas sobre as suas, prendendo-a sob ele e impedindo qualquer fuga. Sarah sentiu todos os músculos tensos e esperou o que ele ia dizer ou fazer. Depois de longos momentos, lembrou-o: _ Você disse que não me machucaria. _ Machucar você? – novamente, estava acariciando seus lábios, traçando várias vezes a mesma trilha. _ Lhe fiz algum machucado? Sarah suspirou, cansada. _ Por favor, eu só quero dormir. William a trouxe para perto, novamente. _ Um beijo, então você pode dormir. Sarah, rapidamente, ergueu a cabeça e deu-lhe um rápido beijo, mal tocando seus lábios. _ Pronto, já teve seu beijo. _ Oh, chama isso de beijo? Sua pergunta a atordoou. _ Sim, eu... William depressa, cobriu a boca dela com a sua, cortando sua resposta. E, pela primeira vez, desde que era criança, Sarah sentiu-se gelada de terror. Sua pulsação corria rápida. Isto era perigoso. Ela tinha que fazê-lo parar. Tinha que achar um modo de trazer William à razão. William moveu seus lábios mais firmemente contra sua boca. Sarah quis erguer seus braços para empurrá-lo para longe, quebrar aquele encanto que havia descido sobre ela, deixandoa em chamas.

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Mas seus braços se recusaram a obedecer, e ao invés de afastá-lo, ela o cercou em um abraço, e o puxou, fazendo-o se deitar sobre ela. William interrompeu o beijo, com um gemido rouco e tocou sua fronte com os lábios. _ Isso é um beijo. Em seguida, a puxou para ele, fazendo as costas de Sarah se colar no corpo forte. _ Vá dormir. Sarah olhou fixamente para ele, perguntando-se quando seu coração ia parar de bater alucinadamente. Assim não conseguiria dormir.

Capítulo Cinco

Sarah estava debruçada sobre a murada do navio, com medo de, novamente, passar vergonha. Ela nunca viajava bem em navios e estava odiando atravessar o canal. Mas, pelo menos, não estava só neste desconforto, pois Adrienna pareceu estar enfrentando a mesma dificuldade. A única diferença era que o Conde estava ao lado de Adrienna. _ Vocês sempre passa mal a bordo de navios? Saltou ao ouvir a pergunta de William. Ele apareceu do nada, surpreendendo-a. _ Sim. E eu juro que se eu nunca mais tiver que andar num navio, ainda será pouco. William esfregou suas costas e Sarah descansou sua fronte na murada, aceitando o conforto. _ Levante a cabeça e abra seus olhos. William se debruçou próximo a ela, na grade. 109


_ Se não olhar para a água, não passará tão mal. Ela observou o modo como às ondas se moviam, e respirou fundo. _ Mas a água é tudo o que existe para olhar. _ Olhe para o céu. Sarah fechou os olhos. _ Eu prefiro não olhar para lugar nenhum. _ Você não pensa ou faz isso por teimosia? Seu estômago estava totalmente embrulhado. Como podia ficar pior? _ Como disse? Ele se moveu, atrás dela. _ Se você olhar para a água, só verá as ondas girando... Vai ficar muito pior. Ela não podia discutir com aquela argumentação. William a puxou contra seu tórax, forçando-a a levantar a cabeça. _ E se você fechar seus olhos, ainda às verá girando. Sarah gemeu em resposta. _ Deixe-me em paz! Ele a abraçou mais forte. _ Não. Olhe para o céu. Permaneça olhando. Muito fraca para discutir com ele, ou lutar contra seu abraço, Sarah se aquietou, descansando a cabeça sobre seu ombro e olhando o céu, sem nuvens. Quando o navio balançou, furiosamente, entre as ondas, William afastou as pernas, firmando os pés para impedir o movimento que os levaria ao chão. Para seu assombro, ele a segurou, com firmeza, contra o corpo. E para seu espanto, o mal estar começou a diminuir. _ Por que está sendo tão gentil? _ Porque você está se sentindo mal. Ela se apertou mais contra ele, sentindo seu calor. _ E se eu não estivesse? Contra sua orelha, ele sussurrou: _ Eu não estaria segurando você em meus braços. 109


Sua resposta fez Sarah se calar. Ele não estava sendo amável porque se importava com ela, mas porque se sentia na obrigação de cuidar de seu bem-estar. Não que importasse. Sarah não queria que William se importasse com ela. Mas, por alguma razão que não queria dissecar agora, aquilo a deixou magoada. _ Já que não estou mais me sentindo mal, você pode ir. Sem uma palavra, os braços que a seguravam se afastaram e o calor que a confortou desapareceu.

William lançou um olhar à sua esposa e reprimiu o desejo de puxá-la através da distância que os separava. Queria trazê-la para junto dele. Mas o silêncio de Sarah, desde que haviam desembarcado, o fez acreditar que aquilo seria inútil. Assim que a deixou só, Sarah novamente se trancou naquele silêncio, uma barreira que havia erguido em torno dela. Ela só falava quando lhe faziam uma pergunta direta, e nunca sobre qualquer assunto de natureza pessoal. Ela pareceu feliz por dormir próximo a ele na noite passada e aceitar sua ajuda, enquanto cruzavam o Canal. Então por que agora montava ao seu lado, em absoluto mutismo? Desde que não deu a ela nenhuma razão para agir desta maneira, William sabia que seria um tolo, se pensasse que isso era uma reação normal. Seus anos em cativeiro poderiam não ter lhe dado muitas chances para compreender as mulheres, mas ele teve bastante tempo e oportunidade para estudar as pessoas em geral. Muitas vezes, sua vida dependeu de sua habilidade de ler a mente do oponente, a linguagem do corpo, ou até mesmo as nuances mais sutis de um olhar. Depois do longo cativeiro, ele veio a entender que uma generosidade súbita, ou uma atenção suspeita significava desastre—se não a morte.

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Quando um carcereiro repartia comida extra, permitia a um homem relaxar em seu treinamento, ou demonstrava um interesse em determinado escravo, aquele homem tinha sido escolhido para morrer na arena. Por outro lado, quando os guardas, intencionalmente, privavam um homem de comida, este homem também era um candidato a morrer. Em um ou em outro caso, a morte nunca vinha de uma maneira rápida, ou fácil. Para preservarem a vida, os prisioneiros manipulavam uns aos outros e aos guardas. Se um homem começava a lhe dispensar mais atenção, ou, subitamente, começasse a querer ajudar, na verdade, estava tentando descobrir suas fraquezas. Uma vez que essa fraqueza fosse descoberta, seria usada contra você na batalha. Mas às vezes as intenções eram mais pervertidas. Stefan de Arnyll se divertia em quebrar o espírito de um homem. Ele só ajudava no intuito de descobrir informações para seus carcereiros. As informações, que seriam usadas pelos carcereiros para dominar determinado escravo, mentalmente, podiam transformar um homem forte num fraco, fazendo-o ser facilmente morto. Devido a Arnyll e sua vilania, William aprendeu que suas fraquezas deviam permanecer no fundo de sua mente. Porém, ele também descobriu que, às vezes, quanto mais martirizassem um homem, isso não o debilitava, pelo contrário, o tornava mais forte. Ele olhou novamente sua esposa. Ela tinha sido enfática, tentando fazê-lo entender por que aceitava espionar para a Rainha. Muito enfática. Ao mesmo tempo, ela não demonstrava qualquer alívio por aqueles dias terem acabado. O que levou William a se perguntar se, de fato, estavam. Eleanor aceitou sua oferta para se casar com Sarah muito facilmente. Ele não tinha dinheiro ou títulos de nobreza. Se houvesse feito àquela oferta de casamento fora da corte, seria motivo de risos. A Rainha era experiente nas intrigas das cortes. Especialmente, nas da sua corte. Ela não era uma simples participante das intrigas—William tinha quase certeza de que a Rainha as formentava.

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Então, o que havia por trás de sua aceitação fácil ao casamento com Sarah, já que esse enlace não traria nenhum benefício? Ele nunca esteve na mira da Rainha. Mas Hugh, sim. Era possível que Sarah estivesse vigiando o Conde através dele? Mas, neste caso por quê? Ela devia saber que William não deixaria nada acontecer com Hugh. Mais que amigos, William, Hugh e Guy de Hartford compartilharam mais que uma cela. Em um lugar onde a amizade freqüentemente trazia a morte, eles compartilharam lealdade. Inúmeras vezes sentiram a mordida atroz da fome e dos ferimentos causados pelos castigos dos feitores. William amaldiçoou. Ele teve suficiente disso. Agarrou as rédeas do seu cavalo, incitando-o adiante. Antes de Sarah poder dizer qualquer coisa, ele gritou para Hugh: _ Me reunirei com vocês em breve. Sarah agarrou as rédeas. _ William, o que está fazendo? Ele a ignorou, e girou seu cavalo, incitando-o pelo caminho de volta. Os homens do Conde estavam por perto. Eles os tinham seguido, protegendo seu senhor, desde o navio que os levara pelo canal. Os homens estavam familiarizados com William, então ele não se preocupou em distraí-los. Eles poderiam ficar curiosos, mas mesmo assim, ficariam perto do Conde, deixando William a sós com Sarah. William os levou a uma pequena distância, desmontou, e amarrou as rédeas dos cavalos. Sarah estava desmontando, quando William, num acesso de fúria, a puxou, com brutalidade, para o chão. _ O que está fazendo? – ela empurrou seu peito. _ Me solte. Ele podia não saber muito sobre como lidar com mulheres em geral, mas havia aprendido uma coisa ou duas sobre sua esposa. Com uma mão trançada em seu cabelo e a outra segurando Sarah, firmemente contra ele, a beijou. 109


William sabia que Sarah estava furiosa, mas no momento, isso não importava. Foi a melhor saída. De nenhum outro modo, conseguiria afastar Sarah dos outros. E se não soubesse nada mais sobre ela, sabia que Sarah se perturbava com seu beijo. Naquele momento, pareceu a arma perfeita. Em verdade, pareceu a única arma. Ela se debruçou contra ele, suas mãos em seus ombros, correspondendo plenamente. William temeu que aquela arma fosse uma faca de dois gumes. Ele quis deixar os sentidos de Sarah em chamas, para desarmá-la, deixá-la desorientada. William sentiu um estranho retumbar nos ouvidos. Seu sangue corria quente por suas veias. E seus sentidos incendiaram. Um beijo não era suficiente. O mero movimento dos lábios macios de Sarah contra os seus, seu corpo suave apertado contra seu peito e a dança erótica das línguas se buscando, não contribuíam em nada para acalmar o desejo crescente. Ele a queria. E era homem suficiente para admitir desejar que Sarah sentisse o mesmo. William também reconhecia a raiva que borbulhava sob seu desejo. Eles estavam casados, e, apesar de Sarah odiar reconhecer, ela era sua. Ele afastou seus lábios e a advertiu: _ Você não tem nenhum direito, nenhum motivo para isso, Sarah. Ela olhou fixamente para ele, seus olhos luminosos e grandes contra o rosto pálido. _ O quê? Eu não tenho nenhum direito de que? _ Nenhum direito de se negar a mim. Até quando ouviu a própria voz, William soube que sua alegação soava como uma reclamação insignificante. Mas ele não podia mudar o modo como soou, não mais do que podia modificar o que aquela recusa lhe causava. Ela piscou, antes de perguntar: _ Isto é porque eu não quero compartilhar sua cama? _ Não. – William esbravejou. Que mentira! _ Sim. E essa era a verdade. 109


_ Também isso me incomoda. Você se afasta de mim de todos os modos. Pensa que não noto sua frieza, sua completa falta de atenção? Você fala comigo só o que é estritamente necessário! Sarah não podia acreditar no que estava ouvindo. Mas William esperava uma resposta, a ira contida em seu tom, e a intensidade de seu olhar duro a fez ciente da seriedade de sua acusação. Realmente, Sarah o havia ignorado, na esperança de que ele a deixasse só, com seu desgosto. Mas aquele comportamento havia se voltado contra ela. William não era homem que aceitasse ser ignorado. Ele estava zangado—e sua ira estava além da simples raiva. Por que ela não havia notado? Como tinha sido tão cega? Sarah fechou seus olhos, e escondeu o rosto em seu peito. Ela não tinha notado porque tinha estado muito absorvida em sua própria miséria. Na noite passada, olhando para o fogo, ela decidiu se proteger, não queria deixar William se aproximar demais. Então novamente, naquela manhã, a bordo navio, suas atenções com ela só reforçaram esta decisão. Era o único modo de não sentir culpa, quando tivesse completado a missão que a Rainha lhe dera. Infelizmente, sua tática de ignorá-lo havia sido errada. Sarah havia percebido seus olhares, seguindo-a. Devia ter sabido que William não era o tipo de homem que se podia deixar de lado. Ela devia ter parado antes de ir longe demais. Sua tática tinha sido egoísta e infantil. E onde a tinha levado? Sarah levantou a cabeça, olhando-o nos olhos e quase ofegou na fome descarada que viu em seu rosto. Respirou fundo, antes de sussurrar: _ William, eu... Novamente, ele abafou suas palavras com os lábios. E tudo que Sarah pode fazer foi se agarrar em seus ombros, caso contrário ela temia que suas pernas trêmulas não suportassem.

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Uma parte dela perguntou-se que tipo de feitiço William havia tecido, para deixá-la daquele jeito. Como podia um beijo roubar sua vontade, sua força e fazê-la sentir a sensação de que ia desfalecer? E como era possível, que enquanto Sarah temia que isto fosse uma espécie de feitiçaria, ainda assim, desejasse mais? Sarah sabia que, naquele momento, William poderia facilmente deitá-la no chão e fazer dela sua esposa, no verdadeiro sentido da palavra. Também sabia que ela não o impediria. _ Por que tem que fazer isso? Surpresa, Sarah saiu do transe, sentindo sua respiração quente contra sua orelha. Só naquele momento, Sarah percebeu que William havia afastado seus lábios. Não sabendo o que dizer, murmurou: _ Eu não sei, William. Eu não faço intencionalmente. Quando ele arrastou seus dentes ligeiramente, ao longo de seu pescoço, antes de seguir a mesma trilha com os lábios, Sarah sentiu calafrios da cabeça aos pés. Arqueou seu corpo, oferecendo a ele mais de sua carne para atormentar. _ Ah, Sarah, eu não quero mais suas meias-verdades e mentiras. Como William havia descoberto? O que ele quis dizer com mentiras? O que pretendia? As perguntas se enfileiravam em sua mente. Mas antes de Sarah poder ordená-las, ele novamente a beijou. O tempo não mais existia. Ele parecia determinado a lhe roubar a habilidade de pensar, ou formar qualquer pensamento racional em sua mente. Sarah se apertou mais íntimamente, contra ele e enlaçou seus braços no pescoço de William. Ele passou as mãos por seus seios, abarcando-os, seu toque apenas alisando as pontas dos mamilos, sobre o vestido. Ela gemeu suavemente, seus sentidos entorpecidos. Quando ele a segurou mais firmemente, acariciando-a de uma forma possessiva, Sarah abandonou qualquer pensamento racional. _ Ah, Sarah. Ele murmurou seu nome contra sua orelha. O calor da respiração de William só atiçou ainda mais o desejo. 109


_ Que jogo você está fazendo quando deixa que eu a toque assim? Incapaz de formar qualquer resposta coerente, ela agitou sua cabeça. _ Ainda é a espiã da Rainha? Antes de poder responder, ele separou seus lábios, lambendo-os. William sorriu, brevemente, contra sua boca quando ela ofegou. Ele repetiu o movimento e então perguntou: _ Ainda é, Sarah? _ Sim. Eu... - quando ouviu seu próprio sussurro, ofegante, ela congelou, deixando a frase inacabada. O desejo sumiu de seu corpo, deixando no lugar uma sensação aterradora. William a empurrou e se afastou. Apavorada de olhar para a raiva em seu rosto, ela se virou. Ele não a queria. William não se importava que ela o tivesse ignorado. Ele queria respostas e a seduziu, para consegui-las. E Sarah se apaixonou por ele, como uma menina crédula e tola. Se tivesse seguido o conselho sábio da Rainha, isto não aconteceria. Ela só podia culpar a sí mesma. _ Explique-se. – a voz de William cortou, como uma espada afiada. _ Explicar-me? - ela encolheu os ombros. _ O que eu posso dizer a você? Que eu provavelmente, morrerei velha e a serviço da Rainha? Que não há nenhuma fuga para mim? _ Sua fuga estava à mão quando você deixou a corte, como uma mulher casada. Você não tinha mais que servir à Rainha Eleanor. Então por quê? Só diga a mim por que, Sarah? _ Eu... _ Pelo menos, tenha a decência de olhar para mim. Sarah cerrou seus lábios. Ela não queria olhar para ele. Não queria ver o desgosto em seus olhos — isso era o mais difícil de suportar. E ela não queria que William testemunhasse sua vergonha. Ele a puxou pelos braços, erguendo seu rosto, não dando à Sarah nenhuma forma de evitálo. 109


_ Eu disse que me olhe. Mesmo estando tão próximos, Sarah manteve seus olhos firmemente fechados, o tom severo de sua voz lhe produzindo calafrios. Ele seria implacável, E por sua própria culpa. Depois de respirar fundo, ela abriu seus olhos e olhou para William. O que viu a fez prender a respiração. Em vez da ira ou desgosto, que Sarah estava certa que veria, o que viu escondido no olhar de William foram dor e confusão. A confusão era compreensível, mas a dor? Com certeza, estava imaginando isso. Ela cerrou os lábios, tentando afastar a culpa que tomava conta de sua alma. Queria ser capaz de falar, sem afundar em autopiedade, _ Eu... Os gritos dos homens e o bater de cascos de cavalos cortaram sua explicação. William a agarrou e as rédeas dos cavalos, ao mesmo tempo. Ele depressa a colocou em cima da sela, girou o cavalo na direção do caminho por onde o Conde e Adrienna seguiram, e ordenou: _ Vá. O medo de que os homens que vinham em direção deles pudessem ser os da guarda da Rainha, a fez estremecer. Sarah não havia obtido nenhuma informação para Eleanor, e não queria perder sua vida ou a de William, por essa falta. Abaixou-se sobre a cela, junto ao pescoço do cavalo. Acima da batida ensurdecedora de seu coração, ela ouviu o mortal silvo de uma espada sendo tirada da bainha. Quando ela ergueu sua cabeça para olhar para trás, William gritou: _ Não. Continue, vá! Não estando em posição de discutir, Sarah incitou o cavalo a galopar. Ela voou através de árvores e arbustos, tão depressa que sentiu o estômago embrulhar. Agarrou-se, loucamente, à esperança de que aquele homem a protegeria de qualquer perigo, conforme havia prometido.

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Mais adiante, viu o Conde e Adrienna também montandos, galopando velozmente. Quando o Conde girou sua cabeça e a viu, atrás deles, tomou a iniciativa, se atrasando e pondo as mulheres no meio, com William vindo na retaguarda. Hugh desmontou, mais adiante, como William ordenava, aos gritos. _ Para as árvores. Depois de ajudarem as mulheres a desmontar, levaram seus cavalos para fora da estrada e entraram no bosque. Sarah empurrou um pequeno arbusto, para observar a estrada. _ Eu não os ouço mais. Por que nós estamos deixando a estrada? _ Só porque não os ouve, ou vê, não significa que não estão lá. - William explicou. _ Então, estamos nos escondendo de alguém que não pdemos ver ou ouvir? William caminhou ao lado dela e disse: _ Se você prefere esperar por eles aqui, pode fazer isso sozinha. O tom irritado em sua voz fez Sarah ver que não estava para brincadeiras. Ela negou. _ Não. Eu ficarei com você. Ele levantou uma sobrancelha, mas não disse nada. Era bom que ela estivesse preocupada. Já tinha tido o suficiente por aquele dia. Eles caminharam lentamente, em silêncio, atrás do Conde e Adrienna pelo que lhe pareceram horas. Cansados e famintos, Sarah não estava mais certa de nada. William pegou em seu cotovelo e diminuiu a velocidade de seus passos, pondo uma pouco mais de distância entre eles e o outro par. Depois de alguns momentos, ele parou. Sarah prendeu a respiração. Seguramente, ele não iria continuar aquela discussão agora? _ Nós precisamos conversar. Ela lançou um olhar de relance em direção a Hugh e Adrienna, antes de se fixar em William. _ Agora? William enxugou algo em sua face, hesitante, antes de afastar sua mão. _ Não. Percebo que não será fácil descobrir o que quero. Então, obviamente, vou precisar de mais isolamento do que este bosque pode proporcionar. 109


No brilho de seus olhos e no sorriso sensual que se desenhava em sua boca, Sarah soube exatamente o que ele planejava. O conhecimento a fez querer gritar. Suspirando, perguntou: _ Você pretende o que? Controlar meu corpo, fazendo-o trabalhar contra mim? William levou a ponta de seu dedo, ligeiramente junto aos lábios de Sarah. Sentindo um calafrio involuntário, Sarah se encolheu e ele deu de ombros. _ Parece que já está trabalhando. _ Por que você.... - Sarah ficou lívida ante aquela atitude fria, não conseguia encontrar palavras vis o suficiente, para dizer a William. Ela respirou profundamente e estreitou os olhos. _ E como saberá se estou mentindo ou não? William tomou seu rosto entre as mãos. Quando ela se afastou para evitar seu toque, ele simplesmente enrolou seus dedos nos cabelos de Sarah, mantendo-a presa. _ Porque eu perguntarei à você uma vez… - ele se debruçou sobre ela _ …e mais uma vez… - William abaixou sua cabeça para sussurrar contra sua boca _ …e de novo... Sarah odiava o que ele fazia com ela. Odiava William. Odiava sua debilidade, que a colocava indefesa, em seus braços. Cerrou os olhos, na expectativa de um beijo. Quando não veio, Sarah abriu seus olhos e fixou em William, que ostentava o olhar duro como aço. Ele pensava que Sarah era um brinquedo, que podia usar como bem entendesse? Ela ergueu a perna e pisou, com toda a força, num dos pés de William. Sarah sentiu uma leve satisfação, ao ver sua careta de dor. No momento em que William relaxou o abraço, Sarah o empurrou. Limpou a boca com a mão, querendo apagar qualquer vestígio do beijo. _ Fará isso toda vez que quiser me coagir ou castigar? Por um momento, William achou a pergunta injusta, mas logo se deu conta que merecia a reprimenda. Mas não ia se justificar ou implorar perdão. Não queria seu perdão. Queria honestidade. Era pedir demais em um casamento? Em vez de se desculpar, ele a alfinetou: _ Se é isso que preciso fazer para ter uma resposta honesta, então sim. 109


Sem esperar Sarah responder, ele acenou uma mão em direção a Hugh e Adrienna. _ Pode ir, agora. _ Posso ir? Com seus punhos cerrados, Sarah ergueu seu rosto quase ao nível do peito de William. _ Vai me dar ordens, como se eu fosse um cãozinho obediente? Se Sarah tivesse visto antes o furioso faiscar dos olhos azuis, ela fecharia sua boca e sairia correndo atrás do outro par, o mais rápido possível. Sarah tinha certeza de que o único motivo para William beijá-la era para coagi-la ou castigá-la. William amaldiçoou. Jamais ergueria uma mão para ela, mesmo que estivesse furioso. Ele antes cortaria seu braço fora a sequer pensar na possibilidade de bater em Sarah. Uma vez que ela se acalmasse perceberia isso. Enquanto isso, que mal haveria em se divertir com sua confusão? _ Gosta de agir como um cão obediente? - Sarah perguntou, irada. _ Não. Mas um cão enxerga muito mais que certas pessoas.. . As maldições e pragas que saíram de sua boca o surpreenderam. Ele não pensou que lábios tão delicados pronunciariam palavras tão sujas. Mas, se calou, à medida que ela recuperou as rédeas do seu cavalo e se afastou, pisando duro, em direção ao outro par. William agitou sua cabeça e a seguiu. Hugh devia estar pensando que ele havia perdido o pouco de bom senso que Deus lhe deu. E talvez estivesse certo. Mas no momento, qualquer atitude que fizesse Sarah confiar nele parecia razoável. Não importava o custo. Mesmo que, com isso, provocasse a ira da dama, ou a sua própria. Mais cedo ou mais tarde, ele ganharia esta batalha. Ela cometia pequenas indiscrições, quando tomada pela luxúria, e isso o fez perceber que Sarah não tinha tanta determinação em manter seus segredos como William tinha em descobri-los. Ele também sabia que assim que ganhasse aquela batalha, ele teria que se esforçar muito para ganhar novamente sua confiança. O casamento deles podia ter sido forçado e muito rápido. Mas seria até que a morte os

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separasse. E William não tinha nenhuma intenção de passar o resto de sua vida em constantes conflitos com sua esposa. O som do estalar de gravetos, à sua direita, entre as árvores, chamou sua atenção. Silenciosamente, William pegou suas armas, deixando-as ao alcance das mãos, pronto para um possível ataque.

Capítulo Seis

Quando o primeiro homem surgiu, William embainhou sua espada, suspirando de alívio. Ele reconheceu os homens do Conde, que se aproximavam. Havia presumido que eram os homens que os haviam atacado na estrada. William apressou o passo e juntou-se a eles, da mesma maneira que Hugh, que apresentava seus homens à Adrienna. _ Nós temos doze guardas que viajam conosco. _ Onze, meu lorde! Alain, o homem que os comandava, corrigiu. O olhar de William percorreu rapidamente o grupo, enquanto perguntava: _ Quem perdemos? Alain voltou-se para ele. _ Osbert tomou uma flechada fatal. Sem pensar, William disse: _ Pelo menos, não foi capturado com vida. O rapaz era muito jovem e frágil para resistir aos rigores do cativeiro. William verificou os cavalos. 109


_ Nós precisamos procurar o corpo do rapaz, para enviá-lo para sua família. _ Sir. Outro homem se aproximou, trazendo o que parecia ser uma enorme trouxa, em cima do cavalo. _ Nós o trouxemos. Ele está aqui. William ouviu ao ver Sarah abafar uma exclamação, horrorizada, e chegou mais junto dela. Não queria que ela fizesse uma cena, nem deixá-la assustada. Para seu assombro, Sarah praticamente, se grudou nele. William olhou o estranho embrulho, sobre a cela, e disse: _ Bom. A mãe do rapaz agradecerá você. Naquele momento, William, repentinamente, se deu conta de que estava tratando os soldados do Conde como se fossem seus homens, ultrapassando os limites da amizade e autoridade. Ele voltou sua atenção para Hugh. _ Meu senhor, eu... _ Não. Hugh acenou uma mão em direção aos homens: _ Por favor, continue. William voltou sua atenção para os soldados. _ E o grupo que nos seguiu? Eram Arnyll e seus homens? _ Aye. Mas ele agora tem três homens em vez de quinze. Alain se vangloriou do triunfo, enquanto outros gritaram suas próprias vitórias. _ Usamos arcos, como sugeriu, William, em vez de espadas, trabalhamos bem. William suspeitou que Arnyll os tivesse seguido. Por sorte, Alain havia seguido seu conselho, com respeito à escolha das armas. Os arcos provaram ser a melhor opção. Um homem não precisava ser um grande arqueiro para acertar um oponente. Dessa forma, tinham conseguido matar a maior parte dos homens de Arnyll, sem se colocar ao alcance das lâminas de suas espadas. William levantou uma mão, pedindo silêncio. _ O que houve com Arnyll? _ Ele seguiu para a estrada do norte. Nós não conseguimos pegá-lo. Então, achei melhor retornar. _ Muito bem. - Hugh concordou. 109


_ Talvez depois de uma boa noite de sono, façamos algum progresso. Alain apontou em direção ao oeste. _ Existe uma cabana vazia e uma estrada por ali, meu senhor. Alguns dos homens podem ajudar a montar um acampamento, enquanto o resto de nós tenta caçar alguma coisa. William seguiu, levando Sarah com ele. Como Alain disse, existia uma cabana vazia… mas, que tipo de cabana! Chamar aquilo de habitação seria um exagero. A única janela estava voltada para o leste. A luz do sol devia entrar durante a manhã, mas, ao entardecer, a cabana estava totalmente às escuras. William empurrou a porta, com o ombro, para abrir, e acabou desabando no chão imundo. As camadas de pó flutuaram ao seu redor. Sarah saltou, quando um animal passou pelo interior da cabana e pulou pela janela, desaparecendo no bosque tão rápido que William não estava certo se era um arminho ou uma doninha. Sarah observou o interior da habitação e disse: _ Você primeiro. Depois de escorar a porta contra uma parede, William perscrutou a escuridão. Não viu ou ouviu qualquer coisa, mas até que tivessem acendido alguma tocha que iluminasse aquele breu, não lhe agradava ser, acidentalmente, encurralado por qualquer coisa que possuísse garras e dentes. William deu a volta na cabana, procurando algum local onde pudessem acender uma fogueira. Adrienna juntou-se a Sarah, que se sentou em uma pedra, fora da cabana. William e o Conde voltaram, com madeira suficiente para manter a fogueira acesa pela noite adentro. Hugh se voltou para William: _ Os homens parecem apreciar seu comando. William fez uma careta. Ele tinha tentado se manter afastado dos soldaddos. _ Eu não quis passar por cima da sua autoridade. Às vezes, eu esqueço que você agora é um Conde e eu sou... _ Meu amigo. - Hugh disse _ Não foi por isso que mencionei o episódio. Ele olhou, brevemente, as mulheres. 109


_ Eu preciso de um capitão para minha guarda. Alguém capaz de treiná-los para o combate. _ Você, de repente, esqueceu como se faz? William chutou uma tora para a pilha de madeira. _ Eu posso ser melhor que você. - provocou Hugh. _ Nunca foi antes. - William se empertigou, olhando o Conde de cima: _ Isto é algo que eu poderia gostar de ver. _ Escolha a arma. William ficou zangado, imaginando aquela idéia absurda. Finalmente, sugeriu: _ Clava. Hugh agitou sua cabeça. _ Não. Seu alcance é longo. Outra arma. _ Lança. _ Não. Outra. _ Machado. _ Não. - Hugh suspirou: _ Que tal uma arma que daria a nós chances iguais? Desde que Hugh estava tentando manter um tom de humor, William estalou seus dedos. _ Bocha! - Wiliam procurou explicar sua escolha: _ Existe espaço suficiente. Nós somente precisamos achar algo que possamos usar como bolas. _ Um jogo? - Hugh cruzou seus braços contra seu peito: _ Isto é tudo que você pode sugerir? _ Se isto é muito duro para você, talvez eu tenha alguns dados, em minha sela. _ Eu me rendo! - Hugh levantou suas mãos. _ Se não consigo ganhar uma batalha de palavras de você, certamente não vou me arriscar em jogos de azar. William levantou uma pilha de madeira, perguntando: _ Então, o que quer, realmente, discutir? _ Não é óbvio? _ Um pouco. - ele sorriu. _ Você tende a gracejar, antes de chegar ao ponto crucial.

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_ Piedade! Você me conhece bem, William. - Hugh disse com os braços carregados com madeira para a fogueira. _ Eu preciso de um capitão. E ficaria muito agradecido, se aceitasse este posto. _ Por que eu? _ Porque eu confio você. _ Eu não tenho nenhuma experiência em comando. Hugh soltou sua pilha, próxima ao fogo. Ele esperou que Wiliam fizesse o mesmo. _ Nem pense em mim. Não seria melhor se encontrasse um homem com experiência? _ Meus homens já sabem como seguir ordens. Eu preciso de alguém que os ensine a combater. _ Eles vão ouvr você, Hugh. E se eles não o fizerem, alguns terão seus crânios rachados, até aprenderem a prestar atenção. William omitiu que o Rei Henry havia mencionado a William uma fortificação, próxima à fronteira gaulesa, que precisava ser ocupada. Mas o Rei sugeriu que ele esperasse até ter homens em suficiente número para fazer a jornada árdua com ele. Da forma como o Rei Henry descreveu a área e seus habitantes, William sentiu o desânimo, imaginando que não seria só a viagem que seria árdua. Ele olhou em direção à Sarah. Fazia muito tempo que ela tinha vivido com guerreiros. Na época, era apenas uma criança. Se acostumar à dura vida de um soldado, depois de ter provado os luxos de uma corte, seria duro para ela. Ele havia jurado protegê-la e mantê-la em segurança. Poderia fazer isso em uma torre, contruída para a guerra e não para o conforto? Mais importante, podia ele reconstruir a fortaleza e treinar os homens? William não estava certo de que isso fosse possível. Porém, sabia que não seria justo arrastar Sarah por infinitas batalhas por meses… ou anos. Talvez o posto de capitão que Hugh lhe ofereceu não fosse tão ruim. Não teria algo seu. Mas treinaria os homens do Conde e, com o tempo, treinaria seus próprios homens. _ Se eu aceitar sua oferta, teria que morar, temporariamente, em suas terras. _ Sim. - Hugh concordou. _ Eu sei disso. Ficaria conosco por um ano, mais ou menos. 109


William desejou que, treinar os homens do Conde não tomasse um ano inteiro de sua vida. Ainda tinha outro receio. _ E, se eu aceitasse esta oferta, você seria… meu lorde? Hugh adotou o mais inocente dos sorrisos, antes de perguntar: _ Você não acha que o Senhor Hugh tem sido bom para você? _ Depende. _ Como? William, rapidamente, passou o pé e varreu as pernas de Hugh, fazendo-o desabar no chão. Ajudando Hugh, que agora o amaldiçoava, ele respondeu: _ Não sei mais se você consegue treinar seus homens. Está se tornando muito lento... Hugh pegou sua mão. Se apoiando em William, ele desafiou: _ E, ao fim de um ano, nossas posições serão invertidas, meu amigo. Com uma risada, William aceitou o desafio e a oferta. _ Boa. Eu farei o possível para que eles tenham a sua rapidez. - zombou William. _ Então você aceitará a posição? William xingou, de uma forma amistosa. _ Parece que eu devo. Você, certamente, não está em forma para treinar seus homens. Ele olhou para Adrienna. _ Deve ter coisa melhor para fazer, agora que está casado. _ Falando de ser casado… _ Não! - William levantou uma mão. _ Não vamos falar disso! _ Se você não ainda não levou a mulher para a cama, pode facilmente se livrar dela. - a sugestão de Hugh lhe provocou uma fúria que há muito não sentia. Repentinamente, teve vontade de esmurrar o Conde. _ Eu não tenho nenhum desejo de me livrar dela. _ Você só casou com ela, por que acha que deve proteger os mais fracos. Não havia necessidade de tal sacrifício de sua parte. Eu deixaria que você se livrasse dela. _ Você deixaria? O desejo de esmagar algo — qualquer coisa—crescia, incontrolável. William apertou os punhos. 109


_ Como é benevolente, meu lorde! Hugh arregalou os olhos, ao ouvir o tom violento, presente na voz de William. _ Eu só pensei em libertar você de uma esposa que não queria. _ Você fala de Sarah como se ela fosse uma enfermidade, que eu preciso mandar embora de minha vida. _ Não é? _ Não. - William olhou na direção de Sarah. _ Ela está longe disso. _ Ah! Então é isso? - Hugh se aproximou, sorrindo. _ Por que não a leva para a cama e põe aquela diaba em seu lugar? _ Como você fez? - Ele voltou sua atenção para Hugh: _ Eu notei que, depois que se deitou com sua esposa, tem estado muito mais fácil de se tratar. - Hugh sacudiu os ombros. _ Touché! O casamento com mulheres obstinadas é uma cruz que devemos carregar. Obstinada não era exatamente como William descreveria sua esposa, mas ele não iria discutir. Perguntou: _ Estamos nos dirigindo a Wynnedom? _ Você e os homens irão para lá. Eu estou levando Adrienna para ver seu pai. William sabia que Hugh estava indo para Hallison, para concretizar a vingança contra o pai de Adrienna. Não que ele o culpasse. Hallison devia muito à Hugh, já que o tinha vendido como escravo, anos atrás. Porém, William sabia que a jornada podia ser perigosa. _ Não vá soziho! _ Oh! Agora você pensa me dizer o que devo ou não fazer? Eu o convidei para ser o capitão de minha guarda, não minha babá! _ Está zangado por que estou pensando na segurança de sua esposa? _ Chega. O que sugere, então? William queria que Hugh levasse todos os seus homens, mas sabia que sua idéia não seria aceita. _ Eu levarei três dos homens comigo, para Wynnedom. _ Eu tenho uma distância menor para percorrer. Você leva sete homens. _ Não. - William teimou. 109


Hugh cravou os olhos nele e teimou: _ Seis. Eu não deixarei você viajar para Wynnedom com menos. Assim, restariam apenas cinco homens para acompanhar Hugh. William sorriu. Alain tinha muita experiência em batalhas, valia por dois. Assentiu, concordando: _ Mas Alain vai com você. _ Nós podíamos ficar a noite toda discutindo e não chegaríamos a um entendimento. _ Isso seria bom para mim. William concordou, sorrindo e indicou a esposa de Hugh. _ Mas sua dama está se embrenhando no bosque—sozinha. Hugh se voltou a tempo de ver Adrienna desaparecer entre as árvores. O Conde soltou uma imprecação, e, rapidamente, concordou em levar Alain e quatro outros com ele. _ Eu conversarei com Alain e depois, veremos o curso que tomam as coisas. William assistiu o Conde partir, apressado, e voltou-se para Sarah. Ela sustentou seu olhar, quando o viu caminhando em direção a ela. Sentando-se próximom no tronco, perguntou: _ Está com fome? _ Sim. Sarah fez um gesto em direção aos homens, que assavam uma caça, próximos a eles. _ Mas nisso, logo darei um jeito. Sarah o observou, por entre os cílios. _ Sobre o que você e o Conde discutiam? _ Discutimos? _ Você o derrubou no chão. E ergueu os punhos para ele. Isso não é discutir? _ Não, para falar a verdade, não. Esse é o modo como nos tratamos. Sarah meneou a cabeça. _ Então, deveria fazer isso em particular. _ Por que acha isso? _ Pelo amor de… - Sarah se controlou e continuou: _ Ele é um Conde, William. Um Conde. Você demonstrou uma grande falta de respeito quando agiu daquele modo. 109


Primeiro Hugh queria dizer a ele o que fazer com sua esposa. E agora sua esposa queria ensiná-lo como tratar Hugh? William sufocou uma risada de descrença. _ Ele nem sempre foi um Conde, Sarah. _ Mas, agora é. _ Já que isso a aborreceu tanto, eu juro que, enquanto estivermos em Wynnedom, farei o possível para me controlar em público. _ Nós estamos indo para Wynnedom? Seu tom soou agudo. Sarah percebeu a carranca de William. _ Eu concordei em treinar os homens do Conde, por algum tempo. Então, estamos levando alguns deles para Wynnedom, enquanto Hugh e Adrienna vão com os outros para Hallison, ver o pai dela. _ Não! - Sarah saltou de cima do tronco. Parando em frente dele, Sarah exclamou: _ Você não pode fazer isso! William se voltou, perguntando: _ E por que não posso? Em sua pressa, Sarah quase tropeçou. Tentando formular uma resposta coerente, ela afirmou: _ Porque não é seguro. Nós devíamos voltar todos juntos. Sarah estava quase gritando e alguns dos homens se viraram para olhar para ela. William levantou de sua cadeira e a puxou através da clareira, em direção à cabana. Os homens limparam os escombros do lado de fora da cabana e colocaram as madeiras no chão. Um fogo pequeno surgiu da cova. William empurrou Sarah para um dos catres e foi escorar a porta, através da abertura. Quando ela fez um movimento para se levantar, ele ordenou: _ Fique ali! _ O que você está fazendo? _ Eu vou ter uma discussão com minha esposa, e não quero ser interrompido. _ Eu vou gritar, se me obrigar. 109


William desafivelou o cinto que prendia sua espada e o soltou no chão. Sua túnica seguiu o mesmo caminho. Os olhos de Sarah se arregalaram, brilhando, intensamente, nas parcas luzes que vinham da fogueira acesa fora da cabana. _ Você não iria... Ele parou de pé, ao lado dela, no catre. Sarah o empurrou, desajeitada. William a pegou pelos pulsos com uma mão e com a outra, agarrou a bainha do vestido. Teve que libertar seus braços, por um momento, para passar as mangas do vestido. No momento que William a soltou, Sarah pensou em correr para fora, mas o tirano a deixou apenas de meia-calça, sapatos e a camisa de baixo. Ele jogou seu vestido de lado e perguntou: _ Eu não iria o que? Sarah agarrou um cobertor firmemente contra o corpo. _ Você disse que não iria... William puxou a coberta de suas mãos e riu de sua tentativa inútil para se cobrir. Veio por cima dela, forçando-a para trás. _ Eu juro, Sarah, se você disser mais uma vez que eu vou machucar você.... _ Você está me assustando! Sarah tentou escapar de seu alcance. _ Me deixe só, William. _ E você está me deixando louco! William se deitou sobre ela. _ Eu nunca abandonarei você, Sarah. Ela estremeceu, sussurrando: _ O que você quer? Wiiliam traçou a linha de seu queixo, a pele macia sob seu toque: _ Você sabe o que eu quero. Sim, sabia o que ele pretendia. Queria que Sarah traísse o voto que tinha feito a Rainha. E, apesar de uma parte dela querer fazer isso, outra parte, temia que isso significasse a morte. 109


Raciocinando, Sarah imaginava que o que devia temer era aquele homem, que estava sobre ela, com nada além do frágil tecido os separando. Seu toque, a respiração morna e o peso da coxa dura, descansando entre suas pernas, não a assustavam menos. O calor que tomava conta dela não era medo. Ela reconhecia aquele calor, e sabia que, mais uma vez, seu corpo a iria trair. Desafiante, ela empurrou seu peito. _ Saia de cima de mim. Ele suavemente riu sedutor, contra sua orelha. _ Não agora. _ Desprezo você. - Silenciosamente, amaldiçoou a falta de firmeza em sua voz. Ele aninhou o rosto ao lado de seu pescoço, fazendo Sarah sentir calafrios. _ Isso será uma bela coisa para dizer às nossas crianças! _ Crianças? - Sarah riu com voz trêmula, tentando fazer com que parasse aquela tortura. _ Nunca teremos crianças! _ Oh, e por que acha isso? - William estava rindo dela, enquanto tentava erguer delicada camisa que ainda a cobria... _ Porque eu digo que não. Sarah ofegou, quando sentiu o ar frio da noite em suas pernas. William alisou suas coxas com os dedos. Uma vez mais ela tentou fugir de seu toque. Mas esta manobra só o ajudou a tirar a última peça de roupa que estava entre eles. Antes de Sarah se dar por conta, ele havia lhe tirado a camisa. William separou suas coxas, uma perna quieta entre as suas, olhando fixamente para ela. A luz instável do fogo pareceu arder, com uma promessa sobrenatural, em seus olhos. Sarah cruzou os braços para esconder os seios, desnudos. _ William, por favor... _ Por favor, o quê Sarah? - William afastou seus braços e os ergueu, seguros acima de sua cabeça. Inclinado sobre Sarah, perguntou: _ Não foi você quem me disse que uma esposa não era nada além de outra possessão?

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_ Sim. - Sarah fechou seus olhos e rezou para que o coração parasse de bater daquela forma frenética. Mas ele a ignorando, retumando em seu peito, com expectativa, esperando pelo toque de William. E quando aquele toque veio não foi como Sarah esperava. A mão calosa deslizou por seu corpo, da barriga até o quadril, como uma trilha de fogo em seu corpo. _ O que vai fazer para eu parar de tratá-la como nada além de outra coisa que possuo? Sarah abriu a boca para responder, mas William colocou um dedo contra seus lábios. _ Pense antes de falar, Sarah. Ela o olhou. A fome em seus olhos não era de alguém que queria reinvindicar apenas outra possessão. Aye, que era fome. Mas de um tipo que buscava mais que breves momentos de prazer. Era amável, buscava o contato, a ternura. O tipo de fome que buscava um toque demorado, que pedia muito mais que uma apressada procura na escuridão. A fome de William refletia a sua própria. Quando ele segurou seu rosto e deslizou o dedo contra sua bochecha, Sarah se entregou ao seu toque e sussurrou: _ Parará por você mesmo, William. _ As pessoas acham que por causa de meu tamanho eu não tenha controle. Tenho mais controle que qualquer homem que conhece ou conhecerá. Não me veja como um grosseirão, Sarah. Eu não sou tolo nem estúpido! Sarah sentiu as faces ardendo com suas palavras. Havia pensado isso sobre ele. _ Você está nua debaixo de mim. Não há nada que pudesse fazer se eu resolvesse atacá-la. Nada! Nenhum homem, fora desta cabana, responderia a seus gritos. Ninguém viria lhe ajudar, Sarah, ninguém mesmo! E Sarah sabia que por sua culpa. Entendia que sua reputação a colocava nesta situação. O que não entendia era por que ele a estava advertindo de tudo que podia fazer. Ela colocou uma mão em seu braço e perguntou: _ Por que está fazendo isso? _ Quero que confie em mim. Ele se inclinou.

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_ Confie em mim, Sarah! Você está nua debaixo de mim, mas eu não a ataquei. Eu não te dei motivos para me temer. Não importa o que aconteça, está segura comigo. Confiança! Era uma palavra tão pequena. Ela podia confiar em William? E, depois de tudo, ele confiaria nela? Sarah respirou fundo. Finalmente, quando seu coração se acalmou, ela admitiu: _ Sim, estou espionando para a Rainha. Ordenou que descobrisse tudo que possa sobre você e o Conde. Sarah esperou seu grito. Que despejasse sobre ela sua fúria. Ao invés disso, William cerrou os dentes, e se ergueu. Ele pegou sua espada e começou a colocá-la no cinto. Apontou as roupas de Sarah, jogadas pelo chão. _ Se vista e venha comer. Antes que Sarah pudesse dizer alguma coisa, ele se foi.

Capítulo Sete

William cruzou a área do acampamento e dirigiu-se à clareira, longe da cabana. Em cada passo que dava, sentia o coração apertado. E seu estômago se revolvia como sempre acontecia quando sua ira ameaçava dominar seu controle. Passou os dedos pelo cabelo, surpreendido, ao ver as mãos trêmulas. O que ele tinha pensado? _ Senhor William!

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Olhando, de relance, o guarda que o chamou, William levantou sua mão e agitou sua cabeça. Esperava que o homem entendesse seu pedido mudo para ficar só. A última coisa ele queria, neste momento, era ser forçado a pensar racionalmente. Além da lembrança luxuriante de Sarah, do belo corpo nú, ele tinha muito poucos pensamentos — nenhum deles muito racional. Sabia que devia se preparar para a jornada até Wynnedom. Arnyll ainda estava lá fora, livre para atacar novamente. Ele falhou uma vez, e William duvidava que repetisse o engano. Precisava cuidar da segurança dos homens do Conde e de Sarah. Ah, Sarah… tão suave, a carne pálida, o estômago plano, os quadris cheios… as visões giravam em sua mente, até que pensou que enlouqueceria com a necessidade de possuí-la. Devia estar bravo com ela e estava… por um motivo! Sarah, finalmente, confessara o que ele já sabia — sim, ela ainda estava sob as ordens da Rainha Eleanor. O pensamento o adoeceu. Claro que a Rainha ordenou que Sarah descobrisse tudo que pudesse sobre ele e o Conde... Por que outro motivo ela iria estar disposta a aceitar o casamento apressado e o afastamento da corte? Se estivessem perto de Poitiers, ele poderia ser tentado a mandá-la de volta - quisesse a Rainha ou não. Mas, agora, isso não era mais possível. E não havia homens suficientes para garantir uma escolta adequada. William não a mandaria de volta, sem homens suficientes para protegê-la. Não estava nele ser tão cruel. Uma mulher só nas estradas enfrentaria perigos piores que a morte. Não teria aquela mancha em sua alma! Além disso, quisesse ou não, ela era sua esposa. E, na verdade, ela o encantou. William era honrado o suficiente para admitir que esta fosse uma fascinação puramente física. Não podia negar a luxúria que sentia por esta mulher. Nem queria — não por muito tempo. Mas, no momento, ele tinha que achar um modo de se concentrar na tarefa que tinha. Os homens do Hugh lutaram bem contra Arnyll. Estavam em menor número, não tinham experiência e, mesmo assim, venceram a batalha.

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Mas Arnyll não esperava um ataque. Os guardas de Wynnedom não tinham estado na Normandia com seu senhor, então, provavelmente, Arnyll nem sabia da existência deles. Mas agora, sabia. E não cometeria o engano de ser pego desprevenido novamente. Isto, claro, se Arnyll os estivesse vigiando. Uma vez que o grupo se dividiu dois, qual ele seguiria? Quem era o melhor em combates? Ele ou o Conde? William estreitou os olhos, observando o local onde estava Sarah. Poderia encontrar uma resposta para aquela pergunta? Sarah. Estaria disposta a compartilhar informações com ele? William duvidava disso, especialmente depois de ter ferido a sensibilidade da dama. Passou a mão pelo rosto, tentando raciocinar, perguntando-se se devia tentar a mesma manobra contra ela. Não acreditava que Sarah seria facilmente seduzida uma segunda vez. A expressão, em seu rosto, quando ele deixou a cabana tinha sido assassina. Quase podia ver Sarah usando seu próprio punhal contra ele, se fosse tolo o suficiente para tentar algo assim, novamente. Um sorriso se desenhou em seus lábios, no pensamento de um desafio tão tentador. Apesar de ser injusto usar tal tática contra ela, pelo menos havia quebrado a monotonia da jornada. Com as lembranças de seu corpo, seu suspiro de rendição e sua sensualidade crua inundando sua mente e seu corpo, William se enfureceu. Pelo visto, sua tática não havia provocados efeitos apenas em Sarah. Por que era tão difícil de lembrar que teve que usar tais medidas extremas para arrancar a verdade dela? Qual era o feitiço que aquela mulher lançou, para fazer com que ele agisse com tanta determinação? Havia se casado com Sarah por muitas razões — nenhuma delas relacionada à ternura. Desde que o Rei Henry deu a ela uma fortaleza, precária como fosse William soube que precisava começar a pensar em filhos. Uma vez que a fortaleza estivesse segura, precisaria de uma senhora.

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Acima de tudo, havia pensado em Sarah: ela precisava de alguém que a protegesse. Sarah preisava de proteção? Ele usou sua própria paixão contra ela, de uma maneira fria e calculísta. Talvez, Sarah precisasse de proteção contra ele.

Confiar em William? Sarah vestiu sua roupa pela cabeça, soltando uma maldição. Quando ele havia dado razões para confiar nele? Ela juntou seu cinto do chão, amarrando ao redor de sua cintura, e então endireitou a saia de seu vestido. Com um suspiro cansado, Sarah afundou no catre. Essa era a razão porque Sarah sempre havia evitado envolvimentos físicos e emocionais. Até quando criança, podia sentir a fome, a necessidade, bem no fundo, de ser amada, desesperadamente, que alguém gostasse dela... E não ter ninguém. Ela havia aprendido há muito tempo que essa necessidade não valia o risco que se corria. Seu pai não a havia abandonado? Quando começou a olhar mais como uma mulher do que uma criança, não viu as outras meninas se afastando dela, enciumadas? Não viu os rapazes jovens a cobrindo de elogios e declarações de amor, só para lhe virar as costas, quando ela informava que não compartilharia sua cama? Até a Rainha, que cuidou dela quando criança exigiu seu pagamento, assim que Sarah cresceu e se tornou uma bela mulher. Não, o risco de confiar em William não valia o preço. Por que havia esquecido a dor que vinha com o preço? Como podia confiar nele, quando não confiava em sí mesma? Sarah tinha consciência de suas fraquezas. Era capaz de controlar o desvario do desejo que corria por suas veias, com seu toque. O problema era que, aquele toque, acordou seus sentidos. Uma vez acordado, a necessidade parecia arranhar dentro dela. Clamando de forma voraz, pedindo uma satisfação, e, por algum motivo que não queria pensar, naquele momento, ela tinha estado disposta a correr o risco. O que William lhe tinha feito? Sarah sentiu um aperto no peito e um peso, quase insuportável esmagando seu coração. 109


Não culpava William. Ele foi só o instrumento que causou sua dor. Sarah permitiu de boa vontade, abrir a porta e deixar a dor entrar. Agora, de alguma forma, ela tinha que descobrir como fechar aquela porta. _ Sarah, pensei que você estava dormindo! Dormindo? Agitando sua cabeça, para se libertar da névoa que nublava sua mente, Sarah olhou para Adrienna. _ Não. _ Está com fome? _ Eu não quero comer nada. Realmente, temia que, se pusesse algo no estômago, ficaria mais enjoada do que já estava. Adrienna se deitou no outro catre. Se inclinando para Sarah, ela perguntou: _ Algo errado? _ Não. Tudo está bem. _ Tem certeza? Você parece nervosa. Sarah se esforçou para não rir. _ Que razão eu teria para estar nervosa? _ William conversou com você, há pouco? Oh, ele fez mais que conversar com ela, mas Sarah não ia admitir sua tolice para Adrienna. _ Sobre Wynnedom e os guardas? Sim, ele me disse. _ O que você acha desta idéia? Era óbvio, pelo tom de voz de Adrienna, que ela não estava nada contente com a idéia. No momento, Sarah não tinha nenhuma opinião formada sobre isso. Aquela situação tornaria praticamente impossível cumprir a missão que a Rainha lhe dera, pelo menos, no momento. Sarah não poderia completar a tarefa, até o Conde e Adrienna juntarem-se a eles, em Wynnedom. Apesar de ser uma breve demora, Sarah conhecia a Rainha e sabia que devia estar enfurecida. Aquilo devia assustá-la, mas simplesmente, não se importou. Afinal, o quê de pior Eleanor faria com ela? Matá-la? 109


A idéia repentina de que aquilo não mais a assustava, era bastante intrigante, assustadora, de certo modo… _ Sarah! Ela agitou sua cabeça, tentando afastar os pensamentos que inundavam sua mente. _ Ele fará o que quiser. Que diferença faz se eu concordo ou não? Depois de alguns momentos, Sarah quebrou o silêncio. _ Eu posso ver que algo está errado. Há alguma coisa que posso fazer para ajudá-la? _ Por que iria querer me ajudar? _ Porque você me ajudou a fugir de Richard. Eu posso ver que está infeliz! _ Infeliz? Porque eu seria infeliz? Só porque nada saiu como o planejado? Adrienna se sentou no catre. _ Eu sei que você deveria casar com Hugh. Sarah piscou surpresa. Quase havia se esquecido daquele pequeno detallhe. Pelo homem, não se importava Mas deveria estar casada com um homem com um título, com riquezas. E agora, não tinha nenhum dos dois. _ William é um bom homem. Adrienna cobriu a distância e tocou o braço de Sarah. _ Talvez, com o tempo, você venha a gostar dele de outra forma. _ Com o tempo? - Sarah afastou-se do toque de Adrienna: _ Ele é meu marido, nada mais. Sarah ignorou o aperto no estômago e adicionou: _ Não importa o que sentimos um pelo outro. _ Não importa? Não seria melhor se você… - Adrienna hesitou um momento antes de terninar sua pergunta _ …gostasse dele de outra forma? _ Está falando sobre atração ou amor? Sarah revirou os olhos, demonstrando sua descrença. _ Você imagina que existe o amor de que falam os trovadores? É um ideal, não algo em que fundamentar um casamento! _ Não pode o casamento ser algo diferente do que as riquezas e títulos que duas pessoas trazem para uma união? 109


_ Para as pessoas que não possuem nada, pode ser. Sarah encolheu os ombros. Ela duvidou da veracidade de sua declaração. Todos possuíam alguma coisa, fosse tangível ou não. _ Mas para aqueles com título, ouro ou terras, não acredito. Com um suspiro, Adrienna disse: _ Eu lamento por você, Sarah. Não querendo a piedade de ninguém, Sarah afirmou: _ Não há necessidade. Eu não tenho medo de ver o que tenho ou o que não tereei. Você, por outro lado, faria a você mesma um grande favor se parasse de me falar de suas noções tolas. Não desperdice seu tempo, ou seu coração, procurando por algo que nunca vai encontrar! Antes de Adrienna poder responder, Sarah deixou à cabana. Sarah não tinha idéia de para onde estava indo. Com sorte, ela poderia achar um lugar onde pudesse ficar só. Infelizmente, seu marido viu sua saída da cabana e imediatamente a abordou. Com uma maldição, Sarah começou a correr, em direção à estrada. Ela não estava com disposição para se defender de William. _ Sarah, pare! William parou em sua frente, lhe impedindo a fuga. _ Nós devemos conversar. _ Não. Nós conversamos o suficiente, por hoje, graças a você. _ Se você estiver esperando por uma desculpa pelo que aconteceu... Ela olhou para ele, cortando suas palavras: _ Que novo jogo é esse? Que tática ele estava empregando agora? _ Jogo? Isto não é nenhum jogo. Ela não pode evitar rir, baixinho. O comentário de William e toda aquela situação estavam longe de ser engraçadas. Sarah tinha vontade de chorar de frustação. 109


_ Certo. Eu aceito suas desculpas. Agora, deixe-me sozinha! _ Desde que não fiz nada errado, eu não vou me desculpar. William a deixou passar e então, foi seguindo Sarah, pelo caminho. _ E eu não irei deixar você sozinha. Eu não posso fazer isso. _ Claro que pode! Sem parar, ou olhar para ele, Sarah disse: _ É muito fácil, William. Dê a volta e vá ficar com os homens, junto ao fogo. _ Você não entende. _ Eu entendo o suficiente. Sarah tropeçou em uma raiz e se afastou, quando William tentou ajudá-la. _ Entendo que está usando outra tática para obter mais informações, ou... - Sarah parou e se voltou para enfrentá-lo, perguntando _ ...você deseja me atormentar um pouco mais? Gostaria que eu mesma tirasse meu vestido, desta vez? Quando ele não respondeu, Sarah continuou caminhando, se embrenhando cada vez mais dentro do bosque. _ Devíamos procurar um local mais isolado para isso? Ela pegou a barra da saia de seu vestido. _ Ou aqui está bom para você, William? Algo em sua postura, o enrijecimento de seus músculos, a rigidez de seus ombros, a advertiu que tinha ido longe demais. Sarah deu um passo para trás. O instinto a avisou que corresse. Mas o brilho feroz que viu nos olhos de Wiliam a encantou. Sem conseguir ordenar a suas pernas que se movessem, fugissem para longe do perigo que ela mesma provocou Sarah retroceu, de novo. Quando ela se voltou, para começar a correr, William agarrou seus braços e a puxou contra seu peito. Qualquer esperança de fuga se evaporou, mas soube que era melhor não demonstrar a ele o medo que estava sentindo. Se esforçando para demonstrar coragem, olhou para ele. _ Sim, você é muito maior, e mais forte, que eu. Nós já não sabemos disso? Ele sorriu, sem nenhum humor, para Sarah. 109


Ao contrário, ela viu uma promessa que gelou seu sangue e fez seu coração disparar. _ Deixe-me ir, William. _ Não. Eu não sou um dos cavaleiros da corte da Rainha, que você manda e desmanda como quer. Você casou-se com um guerreiro, Sarah, endurecido por muitas batalhas. Talvez seja hora de descobrir o que isso significa! Pouco disposta a se acovardar, mesmo sabendo que aquela era uma batalha perdida, ela sustentou seu olhar e perguntou: _ Então o que você pretende fazer, guerreiro? Usar força bruta para me ensinar qual é o meu lugar? Sem tocar nela, William se moveu, cada vez mais perto, forçando Sarah a dar um passo para trás. _ A idéia tem seu mérito! Você não iria me desafiar mais. E, para uma mulher que me considera tão vil, seria a atitude ideal. Eu pergunto-me o que fará, quando descobrir o seu erro. Talvez, esteja enganada sobre mim, novamente, Sarah. Sarah estremeceu. Até aquele momento, ela não achava que existia, verdadeiramente, uma razão para ter medo de William. Será que estava enganada? _ Você disse que não importa o que acontecesse, eu estaria segura com você. Sarah lembrou a ele sua promessa: _ Mentiu para mim? _ Estar segura não significa que pode dizer ou fazer o que quiser. Você é minha esposa, Sarah, e já é hora de agir como tal. Ela soube exatamente o que William quis dizer, mas preferiu ignorar, de propósito, aquela advertência. _ Agir como tal? Isto significa o quê, William? Que devo ser submissa e obediente? É isso? Eu devo obedecer todas as suas ordens, correr para satisfazer todos os seus desejos? _ Seria um bom começo. _ O que? - Sua pergunta ecoou pela noite, mais alta do que ela pretendia. Sarah respirou profundamente, então perguntou, tentando controlar sua fúria e manter o tom de voz sem mais alterações: _ Certamente, não está falando sério, não é? 109


Ele parou de caminhar e a abraçou. _ Nós descobriremos logo. Vá para dentro. Dentro do que? Confusa, ela olhou ao redor e estacou chocada, quando viu uma barraca, tosca, erguida a alguns metros da cabana. Uma tocha, acesa próxima, deixava ver a estrutura, feita de cordas e cobertas, fornecendo isolamento, ao mesmo tempo em que os mantinha perto dos guardas. _ Não. - Sarah se negava. _ A cabana é perfeita para passarmos a noite. _ O Conde e sua esposa estão compartilhando a cabana. William segurou a entrada da barraca, para lhe permitir entrar. _ Além disso, eu não perguntei a você. Vá para dentro, Sarah. Ela tentou protelar: _ Não seria mais seguro com os outros? _ Eles não estão longe. Entre! Sarah o observou, com cautela. _ Nós não estamos indo para… você não vai… nós... Ele a puxou para a barraca. _ Nós não vamos o que? Consumar este casamento? Já está em tempo, você não concorda? Sarah tentou se afastar da barraca, mas ele bloqueou sua retirada. _ Pode entrar por vontade própria, ou eu arrastarei você. A escolha é sua. Escolha, que escolha tinha? Sarah lutou contra os tremores, que deixavam suas pernas bambas. Sabendo que William cumpriria sua ameaça, ela rastejou para dentro da barraca e se ajoelhou na cama. William entrou e soltando a coberta, mergulhou a barraca na escuridão, iluminada só pelo oscilar das tochas, na parte de fora. Ele removeu suas botas e a túnica, antes de deitar, próximo a ela. Acenou para Sarah: _ Venha para cá! Sarah rodeou o peito com os braços, numa atitude de proteção, e agitou sua cabeça. Mas William ignorou a recusa óbvia, e, facilmente a puxou, sugerindo: _ Vamos tentar algo diferente, desta vez. 109


Sarah não queria tentar qualquer coisa — diferente ou não. Mas ela tinha certeza de que ele não lhe deixaria nenhuma escolha. Com seus braços cruzados firmemente contra o peito, ela se segurou tão rígida, quanto possível, e se abaixou, longe do calor do corpo de William. William roçou a mão em seu pescoço, antes de descansá-la em seu ombro. Seu toque tido sido gentil, quase calmante. _ Veja se você consegue fingir que ser casada comigo não é a pior coisa que já aconteceu em sua vida. Era isso que William pensava? _ Eu nunca disse isso. _ Não é preciso dizer, você demonstra isso sem palavras. _ Que diferença faz para você? Forçou-me a aceitar este casamento. Não é como se compartilhássemos qualquer sentimento um pelo outro. William riu, suavemente. Sua respiração morna agitou os fios soltos do cabelo de Sarah. _ Depois de hoje à noite não fará qualquer diferença! Depois de hoje à noite? Sarah estacou, apavorada. _ Por que diz isso? Não que ela não tivesse se feito essa pergunta várias vezes. William arrastou uma ponta do dedo para cima e para baixo em seu braço, enviando calafrios ao corpo de Sarah. _ Eu sou seu marido apenas no nome. Sarah fechou os olhos: os pensamentos se aglomerando em sua cabeça. Tudo o mais virava em nada quando sentia as mãos calosas contra sua carne, o toque de seus lábios, sempre que William tentava persuadi-la a concordar com a consumação daquele casamento. Como se lendo seus pensamentos, William a deitou de costas e a puxou, segurando-a pelos braços, acima de sua cabeça. _ Você não tem nenhum comentário, nada a dizer? Calada, Sarah amaldiçoou o calor lânguido que se espalhava por seu corpo à medida que sentia cada músculo do corpo de Wiliam, colado ao dela. _ O que eu teria para dizer? 109


Seus lábios deslizaram pela carne macia de seu pescoço. _ Decida-se. Sim ou não? William começou a dar suaves mordidas em seu queixo. _ Diga-me para ir… Os lábios dele, seu toque, provocavam um estranho formigamento por onde passavam _ … ou… diga-me para ficar.

Capítulo Oito

Novamente, William estava lhe dando uma escolha. Se tornar realmente sua esposa, ou cumprir sua promessa, acreditando que depois de cumprida sua missão, a Rainha a deixaria livre. Sarah não soube que escolha fazer. Mordeu os lábios, incerta. A rainha Eleanor não a deixaria livre. Não agora. Não quando descobrisse que os dois homens se separaram, retardando Sarah ainda mais, dificultando com isso, descobrir as informações que a Rainha queria. Mas, se mandasse William embora agora, iria ter outra chance? Incerta, ela titubeou: _ Não sei o que fazer. _ Então me deixe ajudá-la a se decidir. Sua voz soava doce contra a sua orelha. O tom fundo estremecia seu corpo, afugentando qualquer raiva, qualquer medo de que William a estivesse usando, empregando outra tática para ganhar as informações que procurava. E quando ele segurou seus seios, roçando seu dedo através do mamilo sensível, ela não mais se importou. Sarah se entregou ao seu toque. Ela se odiaria pela manhã.

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William levantou as saias de seu vestido. O ar frio da noite subiu por suas pernas, mas ele afugentou o frio com suas mãos. Ela se odiaria e se preocuparia… amanhã. Lentamente, ele deslizou as mãos grandes pelas pernas dela, acima de seus quadris, empurrando seu vestido para cima, até que, finalmente, arrastou a peça de roupa, tirando-a pela cabeça. Hoje à noite… hoje à noite, Sarah sabia que estava se colocando em perigo... William se inclinou para ela e capturou seu suspiro trêmulo de rendição com os lábios. O que começou como um beijo suave, gentil, subitamente, se tornou feroz, arrastando qualquer pensamento coerente. Ela deslizou suas mãos por baixo de sua camisa e alisou suas costas. Sua pele era tão quente... Seus dedos localizaram as inúmeras cicatrizes que cobriam os duros músculos. Brevemente, ela perguntou-se o que teria causado tantas marcas, mas ele a distraiu de seus pensamentos, acariciando seus quadris. Para seu assombro, ele aceitou a exploração de seu corpo, sem comentários. Sarah se maravilhou com os poderosos músculos dos quadris, que ondulavam sob seus dedos, conforme ele se movia. E, conforme se tornava mais audaciosa, começou a percorrer o peito de William, acariciando, em círculos, os mamilos sensíveis, provocando-o, até ele enterrar o rosto em seu pescoço, com um gemido. Achando que tinha feito algo de errado, Sarah tirou as mãos de dentro da camisa dele. William a colocou em seus joelhos e quase arrancou a camisa antes de colocar as mãos dela de volta em seu peito. _ Não pare! O tom rouco de sua voz levou para longe suas preocupações e ela avidamente retomou a sua exploração. Onde ela era suave, ele era duro. Onde seu corpo era curvilíneo e arredondamento, o de William possuía somente músculos. Sua carne tremia sob seu toque, e o mesmo acontecia com ele. Seu coração batia tão rápido quanto o dele. E suas respirações ofegantes soavam juntas. Ela lhe provocava a mesma fome? Essa descoberta a fez mais voraz, mais feroz em suas reações. Sarah ansiava por algo mais, algo que pararia o pulsar incessante entre suas coxas. Arqueando o corpo, ela passou as mãos em suas costas e gemeu de frustração. 109


Os ombros de William se agitaram sob suas mãos, antes dele colocar os joelhos entre suas pernas. _ Você sabe o que quero Sarah. Sim ou não? Atordoada, levou alguns momentos para formar um pensamento coerente. O homem acreditava que ela era uma prostituta, que tinha experiência suficiente para saber o que ele queria. Embora, na teoria, sabia como acontecia o ato físico, na prática não tinha sabia o que fazer. O que devia dizer? Como ela devia corresponder? _ Sarah? Ela olhou para ele. William sustentou seu olhar, quando deslizou a mão por suas costas e a descansou abaixo de seu ventre. Se alguém passasse uma tocha em sua pele, Sarah duvidava que teria queimado tanto quanto seu toque. Até que ele deslizou mais abaixo. Então ela soube o que era queimar e o que satisfaria a fome que a corroía. _ Sim! - Sarah respondeu, surpreendida com o tom estranho de sua própria voz. Ela fechou os olhos, esperando que William tirasse o resto de suas roupas e possuísse, sem se importar com qualquer coisa. Sarah quase gritou, quando a boca de William seguiu o mesmo caminho de sua mão. Seus sentidos se incendiavam com seu toque, ateando um fogo líquido entre suas coxas. As mãos de William apertavam seus quadris, os dedos enterrados na carne suave, segurando-a. De repente, num momento de lucidez, o desejo de fazer William parar, de se proteger, tomou conta dela. Medo e tensão se apossaram de sua vontade, e Sarah quis clamar que ele parasse. Mas esse desejo desapareceu do mesmo modo como veio sob o seu toque sedutor. O calor a consumia, enviando a fome e necessidade furiosa para além de qualquer controle. Incapaz de aguentar as torturantes sensações, Sarah gemeu. William se inclinou sobre ela e pediu: _ Beije me.

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Nervosa sobre o que estava por vir, Sarah obedeceu. Ele a acalmou, com seu beijo gentil, então moveu sua boca mais firmemente, roubando seus pensamentos e preocupações. Sua respiração ficou presa em sua garganta. Sarah enlaçou seus braços ao redor do pescoço de William, se apertando contra o corpo sólido, buscando um contato ainda mais íntimo. Ele a segurou, firmemente, contra seu peito. Algo não estava certo. Ela era muito hesitante, a surpresa em seus olhos, extremamente… sem experiência. Ele disse a ela, uma vez que, se todos os rumores sobre ela fossem verdadeiros, ele seria um monstro vindo diretamente do reino de Hades. Aqueles rumores teriam um fundo de verdade? De repente, William duvidava disso. Se sua esposa fosse virgem, então tudo o que ele foi levado a acreditar, não era nada além de mentiras. Um estranho sentimento o incitava a parar, a não descobrir a resposta naquela noite. Seu desejo furioso se rebelou contra aquela decisão. William sentiu a frustação lutando contra a razão, dizendo a ele que ninguém havia morrido por não satisfazer a luxúria. Libertando Sarah de seu abraço, ele se deitou de costas. A confusão transpareceu na voz dela: _ Que foi? Fiz algo errado? William se esforçou para não rir da pergunta. Quão irônico era que sua esposa, que todos consideravam uma rameira, se preocupasse de ter feito algo que o desagradou. Quando ele não respondeu, ela se sentou ao lado dele e deslizou a mão por seu peito. _ Tem algo que eu possa fazer para.... _ Não. - Ele afastou sua mão: _ Não há nada que você precise fazer. Só fique parada. Depois que Sarah sentou-se ao lado dele, William afastou as cobertas, voltando-se. Ele acariciou seu rosto. _ Sarah, se eu perguntar uma coisa, você me responderá honestamente? Ela permaneceu muda, por alguns momentos, mas finalmente movimentou a cabeça, concordando. _ Quem Arnyll está perseguindo? Quando ela começou a vacilar, ele segurou seu rosto, olnado em seus olhos, fixamente. 109


_ Sarah, eu preciso saber. Ela se retraiu, depois respondeu: _ Eu não sei. Eu o encontrei apenas uma vez e a Rainha nunca falou dele. William se deitou, puxando Sarah com ele, num abraço carinhoso. Ele olhou fixamente o teto da barraca. A tocha se apagara do lado de fora, deixando-os na escuridão. Sarah havia dito a verdade? Infelizmente, se fosse assim, isso significava que Arnyll estava atrás de William e do Conde. Por que, quem o mandou? O que poderia querer com eles? Suas perguntas foram deixadas de lado, ao sentir as lágrimas de Sarah se derramando em seu peito. William não gostava de lágrimas. E, apesar de não ter nenhuma razão para se sentir culpado, ele o fez. Lágrimas eram inúteis e o sentimento de culpa sempre foi sua fraqueza. Ele puxou Sarah mais para perto, tentando confortá-la. Mas o suave aperto de seu abraço não a surpreendeu. Ela estava dormindo e chorando! William suspirou. Riu de sí mesmo. Estava casado com a mulher mais bela, sensual e desejável que já encontrara. E não confiava nela. Como poderia, se Sarah havia admitido estar vigiando ele e Hugh para a Rainha? E, pior de tudo, ele suspeitava que ela não fosse o que fingia ser. Ouvindo a respiração suave, William percebeu que ela se acalmara, e suavemente, acariciou seus cabelos. _ Ah, Sarah, o que vou fazer com você?

Sarah olhou, fixamente, por cima da cabeça de seu cavalo. Suas costas e ombros doíam, horrivelmente, por estar cavalgando, na maior parte do tempo, nos dois últimos dias. Ontem, havia acordado com uma sensação horrível de remorso, que ainda não havia passado.

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Apesar de ter jurado que não derramaria lágrimas por ele, sabia que tinha caído num sono agitado e chorado enquanto dormia, sem nenhuma razão. Para piorar a situação, em algum momento, durante a noite, sentiu que William acariciava seus cabelos. Sua voz tinha sido suave, quase… terna. Obviamente, Sarah havia sonhado com isso: ou seria um pesadelo, dos muitos que tinha? A forma como ele a ignorou, depois de quase terem feito amor, o modo como a havia deixado dormir sozinha na noite passada, evitando Sarah também durante o dia... Obviamente ele não queria ter nada com ela. Principalmente, por que seu desinteresse a fazia se sentir tão estranhamente vazia? Em vez estar triste por William a ter deixado de lado, Sarah devia estar aliviada. Mas não estava. William havia mudado de idéia sobre consumar o casamento. Sarah abaixou a cabeça, para esconder o rubor em sua face, quando se lembrou das carícias que trocaram. Se ele não tivesse mudado de idéia, não o teria impedido de possuí-la. Os boatos sobre ela ser uma prostituta teriam sido demais para ele? Ou teria feito algo que o fez perceber que não era tão experiente, apesar de sua reputação? Infelizmente, Sarah não sabia. Como poderia? Nunca tinha estado nua na cama de um homem antes. Sua experiência em ser a prostituta da Rainha tinha se limitado em permitir beijos roubados e fazer promessas, que nunca eram cumpridas. Nem podia entender porque William ficara tão aborrecido, ao desconfiar que sua esposa fosse virgem. E ela certamente, não ia perguntar. Quando muito, mais uma vez, teria que admitir uma mentira para ele. Sua vida podia se tornar pior? Não era suficiente que as informações que Eleanor queria estavam sendo mais difíceis de conseguir do que pensara a princípio? Ou que seu marido estava zangado com ela? Mas Sarah também teve a impressão que William não acreditou na sua resposta sobre Arnyll. Ela tinha dito a verdade. Somente umavez ela encontrou Stefan Arnyll.

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Ele tinha estado nos aposentos da Rainha. Calafrios a percorreram de cima a baixo, quando se lembrou dele. Ela tinha estado por pouco tempo com ele e lhe pareceu uma eternidade. Arnyll tinha sido cortês, mas algo frio e maligno espreitava através de seu olhar penetrante. Aquele único encontro, disse a Sarah tudo o que precisava saber — ele era vil e mesquinho. Depois disto, ela o evitava, sempre que podia. Apesar de William não acreditar, ela não tinha a menor idéia por que Arnyll os estava seguindo, ou mesmo quem era ele. Eleanor devia estar brava. William já estava furioso. E Sarah, estava se odiando, naquele momento. _ Nós pararemos aqui. A voz de William a surpreendeu, tirando-a de seus pensamentos sombrios. Ela não o ouvira se aproximar. Sarah se virou para responder, mas sua boca ficou seca, ao ver o modo como ele estava vestido. Nunca o havia visto usar aquele tipo de vestimenta na corte. Calças cobriam suas pernas. Muito justas, não escondia os poderosos músculos de suas coxas. Mas aqueles músculos, tão bem definidos, pelo menos estavam cobertos por algo, ao contrário de seus braços. Em vez de uma túnica, William vestia uma camisa sem mangas, que não escondia os bíceps desenvolvidos. Apesar de menor, lembrava um tipo de armadura usada pelos antigos gladiadores romanos. O pequeno pedaço de roupa, sem mangas, caía sobre um cinto largo de couro, que lhe cingia a cintura e servia para acentuar a largura de seu peito. Mas, no final, o que o fazia parecer um antigo guerreiro, eram as espadas, amarradas com correntes, presas em forma de cruz, em suas costas. Ele, obviamente, não se importava com sua própria segurança. A ausência total da cota-de-malha, que devia proteger seu corpo, e também a falta do capacete provavam isso. Seu marido dava mais importância para o ataque que para a defesa. Se bem que, com suas armas, roupas e aquela expressão feroz, quem pensaria que ele não estava adequadamente protegido?

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Não que Sarah estivesse reclamando da vista, mas, pelo menos, observar aquele homem fabuloso tirava seus pensamentos das dores que sentia pelo corpo todo, pela marcha forçada. Sarah lançou um olhar para o céu. Como era difícil segurar sua língua... Finalmente, recuperando a fala, ela disse: _ Mas, ainda não está escurecendo. _ Eu posso ver isso. _ Então, nós devíamos continuar... Os cabelos de William caíam, desalinhados, por seu rosto. _ Eu disse que vamos parar! Ela resistiu ao desejo estranho de afastar as mechas castanhas de cabelo do seu rosto. Sarah fechou seus olhos, certa que estava ficando louca. O que estava acontecendo com ela? Depois de não falar com a esposa por quase dois dias, William lhe dava ordens e ela só conseguia pensar em seu corpo e seus cabelos! Guiou seu cavalo para um local, no meio da estrada. _ Como queira, meu senhor, nós paramos. William concordou e conduziu o cavalo para longe. Cinco dos seis guardas que viajavam com eles, o seguiram. O sexto, parou ao lado dela. _ Minha senhora? Ela olhou fixamente para ele, tentando lembrar de seu nome. Finalmente, recordou. _ Eu estou bem, Matthew, junte-se aos outros. Eu os seguirei em alguns momentos. _ Não. - O jovem lançou um olhar de relance, em direção a William. _ Eu acho mais seguro que a senhora não fique sozinha. Seu marido não parecia se importar, por que este rapaz deveria? _ Eles não estão tão longe. Ela movimentou a cabeça para mostrar os cavaleiros, que seguiam a umacerta distância, perguntando: _ O que pode acontecer comigo? _ Eu não sei, minha senhora. 109


Senhora! Ela não tinha sido chamada assim, desde que havia deixado à corte da Rainha. Aquele rapaz a havia chamado assim por duas vezes e Sarah se deu conta que gostava disso. Sarah olhou, de relance, para seu marido. Sabia que podia estar entrando em águas profundas. Ela não conhecia William o suficiente para determinar se, recebendo as atenções de outro homem, até onde iriam os ciúmes dele, mesmo Sarah não tendo feito nada para estimular aqueles cuidados. Não queria ser a responsável por seu marido mandar este jovem, prematuramente, para a cova. _ Por favor, Senhor Matthew, eu gostaria de ficar sozinha por alguns momentos. O modo como o jovem franziu o cenho, demonstrou que não estava gostando daquela sugestão, mas acabou por concordar. _ Eu não gosto disso, mas se a senhora quer assim… _ Quero. Felizmente, ele não discutiu e a deixou só. Quando ele foi juntar-se a William e os outros homens, Sarah relaxou, e apeou do cavalo. Os raios de sol que atravessavam pelos galhos das árvores eram mornos. Ela fechou seus olhos e ergueu seu rosto para o sol. Uma brisa leve deslizava, suavemente, por suas faces. Sarah inalou profundamente, aspirando o cheiro de mato. Isso era bom! Ela poderia ficar ali pelo resto da vida. Um braço forte enlaçou sua cintura e a ergueu. Ela gritou: _ Deixe-me ir! Sarah começou a bater nele com as mãos, pegando o intruso desprevenido, antes de poder ver quem a estava agarrando. _ Pare! Ao ouvir o rugido de William, Sarah congelou. Ela olhou, fixamente, para ele. _ O que você estava pensando ao surgir desta forrma? Ele a ergueu. _ Eu? O que você está pensando ao sentar aqui sozinha e sem ninguém para protegê-la? 109


Quando ele a abaixou, Sarah se afastou pra longe. _ Eu podia ter machucado você. _ Com o que? Seu grito? Seu tom arrogante aumentou a fúria de Sarah. _ Não ria de mim! Ela se aproximou e cutucou um dedo contra seu tórax. _ Se eu tivesse um punhal à mão, podia ter te ferido. _ Não faça isso! Ela estreitou os olhos. Cutucando em seu tórax novamente, perguntou: _ Não fazer o que? _ Isso. - William agarrou sua mão: _ Não faça isso! Ela se soltou, cutucando seu tórax, novamente. _ Sarah, eu estou avisando... Seu tom não era de raiva, soou mais irritado, mais frustrado, que furioso. Sarah tinha a impressão que ele era tão aberto a argumentos quanto ela. Já era tempo de esclarecerem as coisas entre eles. Quando ela foi cutucá-lo novamente, William deu um passo adiante, forçando Sarah a retroceder. Em vez de parar, ele manteve a caminhada, forçando-a a ir dando passos para trás, até que o tronco de uma árvore a deteve. Espremida entre a árvore em suas costas e o tórax dele à sua frente, Sarah suspirou. Olhou pra ele, perguntando: _ Está tentando me assustar? _ Não. Se eu estivesse tentando fazer isso, você já estaria apavorada. _ Você pensa que pode me amedrontar? Ele tomou seu queixo, entre os dedos: _ Minha querida esposa, eu matei homens armados com as mãos nuas, para poder receber comida. Eu estou certo que seria muito fácil assustar você, se fosse essa a minha intenção. Matou homens armados com as mãos nuas, para conseguir receber comida? Sua declaração girou, loucamente, em sua cabeça. Que tipo de senhor exigiria algo tão horrível? Nenhum que ela podia pensar. 109


Certa de que William estava tentando amendrontá-la, Sarah se afastou, fugindo do seu toque. _ Sim, eu sei que você poderia me assustar. Entretanto, para isso, você teria que prestar atenção em mim, o que eu duvido que aconteça. _ O que está errado, Sarah? Está zangada porque eu a ignorei e a deixei por sí? Não há motivo para se sentir assim. _ Claro que eu estou zangada! _ Agora você sabe como é ser ignorada. _ Você está me dizendo que fez isso, intencionalmente? Eu ignorei você para trazê-lo de volta à razão. _ E, para você, o que é me trazer de volta à razão? _ Eu não estava contente por ter sido forçada a entrar neste casamento. _ E nem eu. Chocada com sua admissão, ela lembrou a ele: _ Você que exigiu este casamento! _ Eu exigi o casamento com a prostituta da Rainha. Pergunto-me se estou sendo enganado! Discutir isso seria um enorme engano. Ela devia ser submissa, em vez de se rebelar. Aquilo tinha sido o que Sarah temia. William percebeu sua inexperiência. Antes de pensar numa resposta, William se colou ao seu corpo. _ É tudo uma mentira, Sarah? Existe algo de verdade sobre você? A Rainha, prontamente, aceitou este casamento, pois deste modo, você podia espionar a mim e ao Conde. Quando ela permaneceu muda, ele perguntou: _ Vai negar isso, agora? Ela agitou a cabeça. _ Não. Eu não nego. Mas eu contei isso a você. _ Claro que você contou. Muito depois que nós deixamos a corte da Rainha e só depois de eu praticamente, a obrigar a admitir. _ William, eu...

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_ E sobre sua família? Seu pai e sua mãe, a razão pela qual foi trazida para a corte... Algo do que me contou era verdadeiro? _ Sim. - Ela quase sufocou, mas confirmou e concluiu: _ Sim. Era tudo verdade! Ele abaixou sua cabeça e ameaçou, suavemente, contra sua orelha: _ Não comece a chorar. Ela sentiu a garganta apertada. _ Eu matei minha mãe e meu pai se afastou de mim. _ Não, você não matou sua mãe! Não iria discutir com ele. William não estava lá. Ela sempre soube que o acidente de sua mãe tinha sido sua culpa. _ Que tal Arnyll? Você me disse tudo o que sabe? Sarah movimentou a cabeça, concordando. _ Sim. Sim, tudo. Eu juro que disse tudo o que sei. William continuou. _ Eu me casei com a rameira da Rainha? Ela olhou para ele. Os olhos de William pareciam lançar chamas, desmentindo o tom gentil de sua pergunta. Oh, ele estava enfurecido! E sua ira pareceu acender a de Sarah. _ É isso que quer? Estar casado com uma meretriz? _ Ao menos, era o que eu esperava. Longe de Sarah negar. Os boatos sobre ela comprovavam sua reputação. Empertigando-se, engatou seus dedos no cinto largo de sua cintura. _ Então, tenha a certeza, uma prostituta como esposa é o que você tem! Quando ele não disse nada, ela soube que teria que convencê-lo. Sarah sorriu e foi descendo o cinto. _ Isso o assusta? Sarah adorava sua rapidez. Ofegou quando Wiliam a prensou contra árvore. Não fez caso do bater enlouquecido do seu coração, ou da ira que brilhava nos olhos dele. _ É isto, William. Mostre-me o quanto você quer uma prostituta! 109


_ Não me tente, Sarah. O tom rouco de sua voz, e a luxúria crua em seus olhos, despertou seu próprio desejo, tornando Sarah ainda mais audaciosa. _ E por que não deveria? Não é o que você quer? Ou isso vai fazer com que me despreze ainda mais? _ Isto não é possível. Com o corpo prensado contra o de William, era impossível não sentir o membro duro contra sua barriga. Ele não fez nenhuma tentativa para escondê-los, deixando-os no campo de visão de seus homens. Sarah compreendeu que aquilo nada mais era que uma batalha de vontades. Uma que ela não estava disposta a perder. _ Eu não odeio você, William. - Sarah deslizou suas mãos pelos braços musculosos, arranhando, suavemente, com suas unhas, subindo por seus ombros para alisar seu pescoço. _ E eu não penso que você me odeie. Antes de William poder dizer qualquer coisa, Sarah emaranhou os dedos em seus cabelos e o puxou para perto, sussurrando contra seus lábios: _ Beije-me, William... Para seu alívio ele, prontamente, aceitou o convite. Seu beijo não era gentil, mas ela não esperava que fosse — nem queria. Sarah não queria toques suaves e delicados. Ela estava furiosa. William também. Ela queria transformar sua ira em paixão, e então deixar que ela queimasse para depois, se extinguir em sí mesma. Se estivesse errada e ele achasse isso revoltante, que assim fosse! Longe de ficar indignado, William marcou com fogo seus lábios, reinvindicando tudo, e ainda assim, Sarah queria mais. Ela o estava seduzindo tanto quanto ele a ela. Sarah entrelaçou suas pernas nas dele, gemendo quando ele deslizou as mãos por suas nádegas, apertando-a, firmemente, contra ele. Ele interrompeu o beijo, com um gemido estrangulado, e enterrou seu rosto contra o pescoço dela. _ Sarah, o que está fazendo? 109


Ela apertou ainda mais suas pernas nas dele, não querendo que William parasse. _ Só estou lhe dando o que procura. _ Ah, Sarah, não tem experiência para brincar com fogo dessa maneira. Você pode se queimar. _ Então me queime, William. Você esqueceu? Eu sou a rameira da Rainha! _ Eu não esqueci. A brisa que passava não era suficiente para esfriar o calor de seu corpo. Ela se agarrou nele, esfregando o corpo no de William. Mas ele a empurrou. _ Tenho muito trabalho a fazer. Sarah pegou sua mão e tentou puxá-lo para ela. _ Existe trabalho esperando por você aqui. Ele, facilmente, escapou de sua mão. _ Sarah, não é hora, nem lugar, para nos entregarmos à luxúria. Aye, William a estava testando. Cerrando os dentes, ela disse: _ Então vá! Sarah passou por ele, para pegar seu cavalo, quando foi agarrada pelos braços fortes. Ele a ergueu contra seu tórax, só para reacender a paixão. Contra sua orelha, William advertiu rouco: _ Mais tarde, Sarah. Depois que o acampamento estiver pronto e tivermos comido, nós daremos rédeas soltas à luxúria, como você deseja. Antes de Sarah poder emitir algum som, ele a soltou e seguiu para o acampamento, deixando Sarah envolta numa névoa de desejo e necessidade.

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Capítulo Nove

William se abaixou atrás de uma moita, pulando para tentar pegar algumas lebres. Ele havia trazido dois guardas para caçar com ele, deixando os outros quatro para proteger Sarah. Depois de várias horas, conseguiram pegar duas lebres, mas ele não estava achando suficiente. Seu corpo ia exigir mais comida, se ele quisesse cumprir a promessa que havia feito à Sarah, com relação àquela noite. Seu pulso se acelerou só de pensar em fazer amor com ela à noite toda. As paixões daquela mulher, motivadas pela raiva ou pela luxúria, incendiavam rapidamente. Como as suas. William era dolorosamente ciente disso, quando ela tentou convencê-lo que era uma prostituta experiente. Se estivessem em um local isolado, a teria possuído lá mesmo. Não existia nenhuma dúvida, em sua mente, que sua esposa lhe roubava todo o juízo. Entretanto, ela também não parecia muito racional, na maioria das vezes. E isso era bom. William havia apreciado muito sua exibição de paixão. Em vez de se encolher ante sua raiva, ela o enfrentou. Uma vez que isso nunca lhe tinha acontecido antes, tinha que admitir sua admiração por Sarah, que o enfrentou de igual para igual. Fosse por ter uma grande força de vontade, ou não ter nenhum pingo de juízo, William não se importou. Seu plano de ataque funcionou. Um movimento sob os arbustos, prendeu sua atenção, e ele se moveu em direção a Paul, que estava à sua esquerda, e então acenou para Simon, mais adiante. Os dois guardas, furtivamente, rastejaram para o movimento, seus arcos em posição. Um grito cortou o silêncio. Pássaros revoaram, gralhando ruidosamente, das árvores. A lebre, que já estava na mira dos três, correu. William estremeceu, ao ouvir o grito de terror de Sarah.

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Ele alcançou acima de sua cabeça e deslizou ambas as espadas das bainhas, correndo loucamente para o local de onde vinha o grito. No intento de achar Sarah, ele tropeçou no corpo de um dos guardas. Os outros três se encontravam mortos, espalhados pelo local. _ Sarah! – O grito de William não teve resposta. Os dois guardas vieram atrás dele. _ Senhor William? - A surpresa era vísivel na voz deles. William inspecionou o local. Os cavalos tinham sido levados. Dois pares de pegadas, próximas ao tronco, onde William tinha visto Sarah, pela última vez, o levou a acreditar que pelo menos duas pessoas a haviam levado. Voltou sua atenção para os guardas mortos. A seta se projetando pelos seus pescoços, lhe dizia que eles morreram depressa. Estremeceu quando viu o corpo de Matthew — esta tinha sido a primeira missão do rapaz. Ele não devia ter morrido tão jovem. William se debruçou sobre o corpo do guarda, examinando e avistou uma missiva, dobrada na extremidade, colocada em sua armadura, próxima ao pescoço. A caligrafia era pequena, não mais que um rabisco, mas ele entendeu as palavras. William respirou fundo, sentindo o estômago se revolver. Arnyll havia capturado sua esposa, para entregá-la à Aryseeth. Memórias de seus anos de cativeiro, e o inferno que tinha vivido, inundaram sua mente, fazendo suas pernas tremer, sob o peso de seu terror. Não por ele, mas por Sarah. Ninguém merecia aguentar o que ele tinha aguentado, muito menos sua esposa. Toda sua força de vontade seria tirada dela. Os métodos empregados a levariam, rapidamente, à morte. William preferia tomar seu lugar a deixá-la com semelhante destino. Uma opção expressa no pedaço de papel. Uma opção que ele sabia que não seria honrada. Não tinha nenhuma escolha, a não ser viajar para Kendal. Se estivesse certo, e Sarah não fosse libertada em troca dele, William preferia matá-la, antes de deixar que ela suportasse as torturas de Aryseeth. Seria o único ato de amor que ele teria oportunidade de conceder a ela. 109


_ Meu lorde? William afastou os terríveis pensamentos, e voltou-se para os guardas, ordenando: _ Achem os cavalos! Antes dos homens deixarem o local, ele adicionou: _ Permaneçam juntos e alertas. Enquanto eles fossem à busca dos cavalos, William enterraria os mortos. Uma vez que tivesse feito isso, ele enviaria os dois guardas para achar o Rei Henry. E ele iria sozinho ao encontro de Sarah. Pela primeira vez, William se ajoelhou. E fez algo que nunca tinha feito por ele mesmo — rezou pela segurança de Sarah.

_ William matará você por isto. Do chão, Sarah olhava, fixamente, para Richard de Langsford e Stefan de Arnyll próximos a fogueira do acampamento, adicionando: _ E eu espero que ele faça isso, lentamente. Mal podia acreditar que estes dois haviam matado quatro guardas, e a raptaram, em questão de minutos. Mas as correntes que prendiam seus pulsos, a fez ver a realidade do ataque. Não era para menos que William tinha querido descobrir tudo o que ela sabia sobre Arnyll. Naquele momento, Sarah desejou não o ter evitado, na corte. Talvez, então, tivesse tido algumas informações para dar a William. Sarah fechou seus olhos, ante o pensamento absurdo. Ela não teria dado, mesmo que soubesse informações ao seu marido. Ele teve que, praticamente, arrancar as poucas que obteve dela. _ Para onde vão me levar? Arnyll riu de sua pergunta, e não forneceu nenhuma resposta. Ele simplesmente movimentou a cabeça para seu companheiro. Langsford se aproximou. O ódio animal em seu rosto não era um bom presságio.

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Sarah recuou, horrorizada, contra a árvore, desejando poder se esconder dentro do tronco. Ela admitiu seu erro, quando um sorriso breve cruzou sua boca. Forçando-se a não demonstrar medo, ela desafiou. _ O que fazem com pessoas como eu?’ Ela movimentou a cabeça em direção a Arnyll. Richard levantou a mão, lhe desferindo uma violenta bofetada. _ Feche sua boca! Agitando sua cabeça, tentando afastar a tontura, Sarah ignorou sua ordem. Ela já tinha sido golpeada com mais força que isso e tinha um nariz quebrado para demonstrar. A bofetada de Richard somente lhe havia cortado os lábios. Ela cuspiu seu sangue nele, então caçoou: _ Faça isto novamente e William esmagará você com suas mãos nuas. Realmente, não se importava se Richard a golpeasse novamente ou não. Duvidava que ele seguisse com vida, quando seu marido os encontrasse. Isso era o que Sarah esperava — que William viesse procurar por ela. Certamente, ele não retornaria ao acampamento, encontraria seus homens mortos e, simplesmente, partiria Não acreditava, nem por um momento, que ele teria essa atitude. Mesmo que ele viesse buscá-la, somente por considerá-la sua, e não por qualquer outro sentimento, Sarah estaria agradecida. Ela não merecia, ou esperava qualquer sentimento da parte de William. Não depois do modo como mentiu para ele. Richard agarrou sua trança e a enrolou em sua mão. Começou a sacudí-la até que seus dentes bateram um contra o outro. _ Depois do fez para mim, devia ser grata por estar viva. Sarah sabia que se referia ao fato de ter ajudado Adrienna a escapar. O plano era que o Conde fosse encontrado em sua cama, enquanto Richard devia certificar-se de que Adrienna estivesse na dele — ainda que tivesse que usar a força para isso. Sarah percebeu que Richard apreciava ter que empregar a força, e ajudou a Adrienna a escapar, antes que fosse tarde. O olhar fixo de Langsford não parecia humano e se perguntava se William viria em seu socorro a tempo. Conseguiria salvá-la, antes que aquele homem ou seu amigo, a machucassem seriamente? 109


Arnyll surgiu ao lado dela. Ele colocou uma mão no ombro de Richard, e disse, _ Não danifique o nosso prêmio. _ Eu mereço tocar nela. A reclamação de Langsford soou como uma birra de criança, a quem tinham negado alguma coisa. _ Oh, eu nunca disse que você não podia tocar. Arnyll agarrou Sarah pelo vestido e a jogou aos pés de Richard. _ Mas existem maneiras de fazer isso, sem deixar marcas visíveis. A coragem de Sarah desapareceu, como por encanto, naquele momento, ao ver o olhar cruel de Arnyll. Até mesmo Richard estremeceu e o observou atordoado. Stefan de Arnyll era um demente e ela não tinha nenhuma vontade de testar seus limites. _ Logo, você aprenderá que deve temer, sempre que eu olhar para você. Senhor querido, ela rezou. Que William a encontrasse depressa. Arnyll se afastou. Sarah quase desfaleceu de alívio. Deslizou pelo tronco da árvore, sem se importar com a dor em seus pulsos, causada pelas correntes. _ O que sabe sobre seu marido? Arnyll a cutucou com o pé, quando ela não respondeu. _ Nada. Para seu desânimo, era a verdade. Ela não sabia nada sobre ele. Nem sua idade, onde viveu, onde nasceu e se tinha irmãos, ou ainda, se seus pais ainda eram vivos. A risada de Arnyll a pegou de surpresa. Sarah olhou para ele. _ Você nunca se perguntou onde ele conseguiu as inúmeras cicatrizes, que tem no corpo? Sim, claro que se perguntou, mas nunca se atreveu a indagar William a este respeito. Imaginava que, um dia, ele contaria, mas não ia confessar isso àqueles homens. Ficou calada, esperando que Arnyll e Richard lhe dessem mais informações que pudesse usar. Se, por qualquer razão, William não conseguisse salvá-la, Sarah precisaria delas, para talvez encontrar um modo de escapar. 109


_ Senhora Sarah, seu marido é nada além de um escravo. Um guerreiro treinado para lutar e matar em combates. Novamente, Arnyll riu. Mas, foi um riso baixo, sarcástico. _ Bronwyn e seus companheiros escaparam de seu dono. Arnyll se agachou, ficando à altura do rosto de Sarah: _ Eu fui encarregado de levá-los de volta, usando você e as outras esposas, como isca. Quem seriam esses companheiros? O Conde, talvez? Richard adicionou: _ Você poderá ensinar a Adrienna tudo que aprendeu na cama, como prostituta. Ela quis gritar que não era uma prostituta, tinha sido um disfarce e nada mais. Mas, segurou sua língua. Arnyll passou a mão por seu pescoço, antes de apertar seus dedos ao redor da garganta de Sarah. Ele sorriu, com expressão feroz. _Você e as outras mulheres compartilharão o destino de seus maridos. Porém… - ele pausou, fingindo preocupação, apertando seu pescoço, a ponto de Sarah sentir falta de ar _ …seus casamentos serão anulados, já que escravos não têm permissão para se casar. Mas não tema. Nunca precisará se preocupar por não ter com quem compartilhar a cama. Aryseeth cuidará disso. Quando Arnyll a soltou, Richard perguntou a ele: _ Terminou com ela? _ Sim, por enquanto. Richard avançou para ela, só para ser parado por Arnyll. _ Nós já teremos que responder por seus lábios machucados. Então, deixe-a sozinha, Langsford. _ Mas você disse... Arnyll empurrou Richard no chão, fazendo-o cair aos pés de Sarah.

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Num instante, Arnyll estava sobre ele. Um punhal apertado contra sua garganta fez Richard não reagir. _ Eu mudei de idéia. A voz de Arnyll era baixa, pouco mais que um grunhido. _ Nós seremos afortunados se Aryseeth só nos chicotear, por já a termos marcado. Eu não irei sofrer mais, só porque você não consegue se controlar. _ Está bem. - Richard afastou-se de Arnyll: _ Eu a deixarei em paz. Arnyll assentiu. _ Se isso o fará mais feliz, se encarregue de amarrá-la muito bem na árvore, para passar a noite. Depois que Arnyll foi se sentar, perto da fogueira, Richard foi até os cavalos e voltou, pouco depois, com um enorme pedaço de corda. Ele pareceu sentir um grande prazer em amarrála, passando a corda por cima de seus seios, ajustando e reajustando, demorandamente, alisando-a. Finalmente, ele teceu um apertado nó. Ele se agachou para lhe amarrar as pernas. _ Isso deve bastar. Você não irá a qualquer lugar. Richard observou Arnyll, então adicionou: _ Embora, eu apreciaria isto se você tentasse. Queria que ela tentasse se soltar dos apertados nós? Isso a machucaria ainda mais. Sarah se recusava a dar a ele essa satisfação. Forçou um sorriso e provocou: _ Não, Estou bastante confortável aqui. Quando ele a deixou só, recostou sua cabeça contra a árvore. William tinha sido um escravo? Ela não sabia bem o que isso significava. Oh, sim, sabia que ele havia estado cativo, mas o que Arnyll queria dizer quando mencionou que William havia sido treinado matar sob comando? Aparentemente, ele, muitas vezes, resistiu às ordens e por isso fora chicoteado.

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Ela estremeceu ante a imagem que formou em sua mente. A idéia de alguém erguendo um chicoteie para seu enorme marido, era inconcebível. Sabia, com certeza, que, de alguma forma, tiveram que contê-lo. Mas, como eles o dominaram? Que tipo de homem faria tal coisa? Que tipo de bárbaro insensível abusaria de outra pessoa daquela forma? Sarah respirou fundo, na esperanças de conter as lágrimas. O medo tomou conta dela. Temia o que estava por vir!

Capítulo Dez

Com uma determinação assassina, William cavalgou para Kendal. Uma viagem sem descanso, parando somente quando estava muito escuro para ver e começando, novamente, ao amanhecer, o levou a alcançar seu destino em pouco mais de um dia. Entretanto, temia não ter sido rápido o suficiente para impedir que Aryseeth tivesse começado o treinamento de Sarah. O pensamento o adoeceu. Sua esposa rebelde só conseguiria ser morta, se abrisse sua boca para enfrentar Aryseeth. Ou pior, seu próprio temperamento explosivo a enfraqueceria. Quanta vez William tinha visto isso acontecer, com outros homens? Eles eram trazidos dos calabouços para o palácio, onde eram elogiados por suas habilidades. Estes eram os homens Aryseeth trazia para lutar contra um oponente muito mais fraco, para inflamar sua arrogância e dar à eles uma falsa confiança. Eles então eram jogados num enorme buraco escuro, com os ratos e os corpos dos homens que haviam matado. Se, de alguma forma, sobrevivessem a uma semana de escuridão, solidão, sede, fome e loucura, seriam levados para as celas.

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Enlouqueciam mais facilmente homens que não tinham nenhum controle sobre suas emoções. Também existiam homens que tinha tamanho e força física para resistir às torturas de Aryseeth. Sarah não tinha nenhuma das duas coisas. Ela estaria totalmente indefesa em suas mãos. William sentiu o peito apertado. Ele não devia desperdiçar sua energia imaginando o que podia acontecer. Teria tempo para isso, mais tarde. O que ele precisava fazer agora era chegar logo a Kendal e libertar sua esposa. De repente, outro cavaleiro bloqueou seu caminho, parando a poucos metros, no meio da estrada. William amaldiçoou, puxando as rédeas do seu cavalo; o animal relinchou, em protesto, parando quase em cima do cavalo do outro. Quando teve o animal sob controle, ele gritou com o outro homem: _ Pelo amor de Deus, Hartford, que diabos está fazendo aqui? Guy, o Conde de Hartford, outro antigo companheiro de calabouço, que foi libertado com ele e Hugh, sorriu para William e disse: _ Esta é uma bela saudação. William aproximou seu cavalo, e deu um amigável soco no ombro do antigo companheiro. _ Assim é melhor? O homem esfregou seu ombro: _ Não muito. Ele estudou William um momento, então perguntou: _ A caminho de Kendal? William gemeu: _ Eles têm Elizabeth, também? Embora ele nunca andasse com mulheres, Guy sempre falava de sua esposa — como se fazendo isso, conseguisse manter a sanidade. _ Sim. Eu imagino que eles têm algum amigo seu, também? _ Minha esposa Sarah! 109


_ Esposa? Você tem uma esposa? Quando isto aconteceu? Como fez para encontrar uma mulher disposta a se casar com você? William encolheu os ombros: _ Eu não lhe dei nenhuma escolha. A risada de Guy retumbou no ar. _ Acredito nisso. _ Fico satisfeito de saber que posso divertir você. Sisudo, Guy perguntou: _ Você estava com Hugh? _ Não quando Sarah foi capturada. Nós nos dividimos em dois grupos. Ávido para voltar para a estrada novamente, ele sugeriu: _ A menos que haja alguma razão para que você não possa conversar e cavalgar, nós estamos perdendo tempo, permanecendo aqui. Guy esporeou seu cavalo, perguntando-se, em voz alta: _ Que aconteceu com o homem que sempre disse que a paciência e o controle era o caminho para se ganhar as batalhas? _ Então, eu não tinha uma esposa. _ É supreendente como uma mulher muda as perspectivas de um homem, não acha? Guy o alcançou, batendo, levemente, no ombro William. _ Relaxe, Bronwyn, não nos será útil se estiver nervoso. William olhou fixamente para ele, perguntando: _ Relaxar? Eu farei isso assim que Sarah estiver em meus braços. Guy olhou de relance para o céu, ja escurecendo com o final da tarde. _ Nós devíamos montar um acampamento para passar a noite. Alcançaremos Kendal amanhã cedo e podemos esperar pela chegada de Hugh. _ Isto, presumindo que seqüestraram a esposa dele, também. _ Conhece Aryseeth muito bem. Alguma vez ele fez as coisas pela metade? _ Não. - William se deu conta de que a suposição de Guy, provavelmente, estava certa. _ Eu não me surpreenderia nada, se Hugh já não estiver lá. 109


_ Apesar de tudo que Hugh já fez, pelo menos, ele não é tolo suficiente para atacar só. Espero que ele compreenda que nós estaremos chegando brevemente e espere. William apontou para uma clareira próxima. _ Este é um lugar tão bom quanto qualquer outro para pernoitar.

Sarah rastejou para um canto, na parte de trás da barraca o mais longe da entrada quanto possível. A corrente, ao redor do seu tornozelo, seguia atrás dela, de uma forma desajeitada. Sua respiração estava agitada. Como William sobreviveu ao cativeiro? Ela estava ali só há dois dias e, alegremente, tomaria sua própria vida, se tivesse uma arma nas mãos. Aquele porco gordo, Aryseeth, realmente, a havia maltratado. Batia nela, constantemente. Mas isso não importava para Sarah. Era mais. As ameaças, as descrições verbais do que tinha intenção de fazer com ela, uma vez William estivesse morto. O homem demontrava grande prazer em detalhar o que, ele jurou, seria morte de seu marido. A tal ponto, que Sarah baixou a guarda, e transtornada, ante as visões que ele descrevia, ela deu vários chutes em Aryseeth. Suas maldições selvagens haviam sido silenciadas com o dorso de sua mão. Os xingamentos não pareceram incomodar Aryseeth, mas aquela reação provocou nele uma luxúria vil. Antes de Sarah compreender o que estava acontecendo, ele a puxou em um abraço apertado. Felizmente, não fez nada além de dar alguns beijos desajeitados em suas faces e se foi, depois de jogá-la num canto. Sarah se perguntou quanto tempo isso duraria. Mas o incidente lhe ensinou uma lição valiosa. Uma exibição de emoções alimentava a maldade de Aryseeth. Quando foi arrastada de volta para sua barraca, ela resolveu que, de agora em diante, manteria as emoções sob controle. Ouvindo suas ameaças e as aterrorizantes histórias sobre William, ela permaneceria muda. Ela não moveria um músculo de seu rosto… até mais tarde. Sua tentativa de permanecer 109


impassível havia terminado num desastre completo, mas, pelo menos hoje, ela havia conseguido protelar o inevitável. Talvez amanhã conseguisse resistir ao abuso verbal e mental, Sarah sufocou em um soluço. Amanhã… Quantos mais amanhãs ela teria? A ponta da barraca foi ligeiramente aberta. Sarah saltou e enxugou seu rosto para que, quem quer que fosse não visse nenhum rastro de lágrimas. Um homem, que ela não reconheceu, entrou pela abertura estreita. Entregou a Sarah um pequeno embrulho. Sem saber o que era Sarah franziu o cenho. O homem agitou sua cabeça, antes de desembrulhar o pacote, para mostrar a comida. Sua boca salivava na visão e no cheiro do alimento. Sarah não conseguia lembrar se William e os homens pararam para comer, há dois dias atrás ou não. Também não entendeu porque aquele homem lhe trazia comida. Sarah tomou o pacote, levantando suas sobrancelhas, em uma pergunta muda. O homem bateu levemente o topo de sua cabeça, então ergueu sua mão o mais alto que pôde… altura do céu? Ele baixou sua mão e tocou em seus ombros com ambas as mãos, antes de estendê-las, mostrando umas duas vezes na largura seus ombros. A altura… alta… larga… larga… Ela sorriu quando as palavras fizeram sentido em sua mente. _ William. Você conhece William? Ele deve ter entendido o nome porque vigorosamente moveu a cabeça. Ao ouvir um som fora da barraca, ele apontou no pacote e gesticulou, indicando que ela comesse rapidamente. Ela fez o que ele sugeriu. Aparentemente, trouxe a comida para Sarah sem permissão e ela não quis que ele sofresse por seu ato de generosidade. Quando terminou, Sarah devolveu o pano para ele. _ Agradeço a você. Ele moveu a cabeça, antes de se dirigir a entrada da barraca, curvando-se, repetidamente, à medida que ia saindo. 109


Agora, com o estômago cheio, Sarah se sentiu um pouco mais forte. Talvez ela pudesse aguentar mais um dia... Mas só um! Se William não chegasse amanhã, Sarah não sabia o que faria.

_ Lá está ele. William apontou um dedo para Hugh, aliviado por Guy ter acertado em sua suposição, que o encontrariam esperando por eles, em Kendal. Apesar de terem acordado cedo e erguido acampamento logo que o sol começou a subir, levou a maior parte do dia para cavalgar até Cumbria. Eles juntaram-se Hugh na extremidade de um precipício. Flanqueando-o, eles obervaram, fixamente, o vale abaixo, pontilhado com as barracas brancas de Aryseeth. Hugh olhou de relance para ele, antes de perguntar: _ Sarah e Elizabeth? William e Guy responderam ao mesmo tempo: _ Sim. _ O que vocês estão planejando? - Hugh perguntou, num tom estrangulado. Já que, em sua mente, existia apenas um plano de ação, William respondeu: _ Lutar para libertá-las. O que você estava planejando? _ Eles me querem, em troca da liberdade delas. Guy bufou. _ O que fez você desenvolver uma opinião tão alta de si mesmo? _ Eu não discutirei isto com você. Hugh ergueu suas rédeas. Mas antes dele poder partir, William o alcançou e agarrou as rédeas. _ Você não vai se entregar. Nós lutaremos. Juntos. _ Eu não vou partir sem uma luta. William rolou seus olhos: _ Claro que não. É isso que acontece quando um homem não treina com seus homens. Você se tornou suave. 109


Hugh amaldiçoou e, malogradamente, tentou livrar as rédeas de seu cavalo. _ Você não mudará minha decisão. Guy perguntou: _ O que faz você pensar que Aryseeth libertará as mulheres? Se você fizer essa troca, ele terá outro guerreiro para suas batalhas nas arenas, e também três novas mulheres para adicionar ao seu palácio. Isso prendeu a atenção de Hugh. _ Então nós lutamos. William grunhiu, em resposta. _ Estão prontos? Hugh olhou para o céu e disse: _ É um bom dia para morrer. No que Guy respondeu: _ É um dia melhor para viver.

Um empregado arranhou a ponta de sua barraca. Aryseeth gesticulou para um guarda dentro da barraca, que permitisse a entrada do empregado. _ Por que perturba minha refeição? Aryseeth rosnou, gostando de ver o tremor no corpo do empregado. O homem entrou na barraca, rastejando de joelhos, mantendo seus olhos baixos, até que chegou aos pés de Aryseeth. Ele então se deitou no chão, seu rosto na sujeira e seus braços estendidos, esperando, silenciosamente, permissão para falar. Aryseeth o deixou naquela posição até comer mais um bocado, mastigou, e então, deu outra uma mordida na perna de carneiro que saboreava. Finalmente, ele perguntou: _ Bem? O que é? _ Meu senhor, os homens estão chegando. Aryseeth resistiu ao desejo de gritar de vitória. Ele sabia que os homens viriam. Sua afronta, em ter suas mulheres tiradas deles, precisaria ser aplacada. 109


Nenhum homem ficaria passive ao perder tão belas posses. Não era por isso que havia viajado toda aquela distância, sofrido naquele tempo inclemente? Para retomar suas posses? O velho Rei Sidatha tinha sido tolo ao conceder a liberdade para tais guerreiros. Felizmente, o novo Rei escutou a voz da razão. Então, quando enviou Aryseeth para a Inglaterra negociar um acordo comercial, ele também ordernou-lhe trazer estes homens de volta — e não se importava de que forma isso fosse conseguido! Se erguendo de seu encosto de travesseiros, como se tivesse todo o tempo do mundo, ele caminhou pela barraca, parando, de vez em quando, para dar outra mordida na perna de carneiro. Uma vez fora da barraca, Aryseeth viu que os três guerreiros estavam armados da forma como os treinou. Eles também estavam vestidos como cativos. Talvez estivessem desejosos de retornar para seus cuidados. Se bem que, se assim fosse, isso acabaria com seu prazer. Os homens quebraram o silêncio primeiro, pedindo suas esposas. Aryseeth estalou seus dedos. As pontas das barracas se abriram e cada mulher foi levada para fora, amarradas e puxadas por cordas. Aryseeth observou os homens, atentamente. Para seu pesar, nenhum deles moveu um músculo. Para irritá-los, ele perguntou: _ Quais de vocês permutarão pela vida de suas mulheres? Como ele esperava, o Conde Hugh respondeu: _ Nós não permutaremos nada. Nós somos preparados para levá-las embora. Aryseeth não podia ter imaginado uma resposta mais favorável. Fingiu estar chocado: _ Eu tenho quatorze homens disponíveis. Vocês lutariam contra todos? Hugh movimentou a cabeça, em direção a Arnyll e Langsford. _ Com eles serão dezesseis. Aryseeth movimentou a cabeça. _ Dezesseis contra três. Langsford exclamou: 109


_ Eu não participo de combates! Aryseeth gesticulou para seus guardas. Dois deles flanquearam Langsford, e o arrastaram até ele. Friamente, Aryseeth meteu a mão dentro de sua bata e puxou uma lâmina afiada. _ Luta ou morre. Langsford agitou sua cabeça e caiu de joelhos. _ Eu não faço... A faca deslizou suavemente através da garganta do homem. Aryseeth se afastou, para não sujar seus chinelos de sangue, assim que Langsford desabou a seus pés. Hugh disse: _ Agora são quinze contra três. Arnyll se aproximou e ajoelhou-se na frente de Aryseeth. _ Eu sou, agora, um homem livre. Eu não o servi bem, ao trazer estes homens para o meu amo? _ E você me servirá bem agora, também. _ Meu Senhor, eles me matarão. Aryseeth olhou o homem, de cima a baixo. _ Eu não esperaria outra coisa deles. Gesticulou para seus guardas. _ Leve-o e o prepare para amanhã. Com isto, Aryseeth girou e voltou para dentro de sua barraca. William juntou-se a Hugh e Guy, que se aproximaram de suas esposas. Quando ele olhou para Sarah, quase não conseguiu sufocar um grito de fúria. A visão de seus belos lábios, inchados e ensanguentados, e outros indícios de ferimentos, o fizeram se voltar contra o guarda mais próximo. Hugh cutucou seu ombro, dizendo: _ Calma, William. Deixe isto para amanhã. Seria difícil, mas ele entendeu a advertência. Aryseeth usaria a sua reação contra ele, e isso só acarretaria mais danos para Sarah. 109


William respirou, profundamente. Enquanto Guy teve que levantar sua esposa Elizabeth, do chão, William e Hugh era tiveram que tomar as cordas e puxar suas senhoras para a barraca. Já que não havia contado a Sarah nada sobre sua vida, antes de retornar a Inglaterra, era esperado que ela o interrogasse, exaustivamente, e o repreendesse, uma vez que estivessem sós. Ele merecia, por permitir que ela se envolvesse naquela situação, sem qualquer conhecimento que pudesse ajudá-la. William sabia que seria incapaz de passar a noite, naquela barraca, com Sarah. Apenas o simples pensamento de entrar no abrigo, lhe fazia mal. Mas ele queria, precisava se certificar que Sarah não havia sido machucada, além do que podia ver. Uma vez que entraram na barraca, William desatou a corda de seus pulsos, levando Sarah em direção de uma luminária a óleo. Seu estômago estava embrulhado, enquanto verificava seus ferimentos. Ele tocou em sua bochecha. _ Sarah, houve mais alguma coisa, além disso? Seu queixo tremeu, enquanto ela piscava,tentando afastar as lágrimas, que se formavam. _ O que importa isso? Ele roçou o dedo, através de sua bochecha. _ Desde que, de boa vontade, vou arriscar minha vida, importa muito pra mim. Quando ela o encarou, ele colocou sua outra mão em seu ombro. William sabia que não devia ficar ali. Ela perderia o pouco de força de espírito que ainda tinha. E William passaria a noite, cercado por memórias que havia tentado esquecer, em vez de descansar para o que o amanhã lhe traria. Uma lágrima quente deslizou por seu dedo. _ Você não me respondeu. Ela agitou sua cabeça: _ Não. Eles só me ameaçaram de me machucar ainda mais.

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William soube aquele se ele, Hugh e Guy não tivessem sucesso, no dia seguinte, Aryseeth cumpriria aquelas ameaças — e outras, muito piores. Mas por aquela noite, ela estava segura. Desde que permanecesse nesta barraca, ninguém iria incomodá-la. A parte difícil seria convencê-la a ficar — sem ele. William não permaneceria entre estas paredes de tecido mais que o necessário. O peso de correntes imaginárias quase o sufocou, tornando sua respiração mais difícil. Era imperativo que ele deixasse esta barraca — depressa. Mas soube que Sarah não escutaria a razão. Tinha duas opções — ficar e ser incapaz de lutar com sua potência total, ou instigar a fúria de sua esposa, para provocar uma briga e ser expulso dali. A batalha amanhã exigiria sua atenção completa — mental e fisicamente. Qualquer coisa menos significava a morte certa. Mas, uma briga com Sarah, podia ser remediada mais tarde, quando ela seria capaz de entender seus motivos. A idéia lhe provocar um forte sentimento de culpa, mas não seria a primeira vez que se sentia assim. Ele respirou fundo, preparando-se para a coisa mais cruel que já tinha feito, então disse: _ Eles não a machucarão mais, agora eu estou aqui. Seus olhos se arregalaram, como se ela achasse seu comentário ultrajante — e era, mas ele não iria admitir isso. Antes de poder dizer qualquer coisa, William a colocou sobre uma cama, em um dos cantos da barraca. _ Você está cansada, Sarah. Deite e descanse. Como William imaginava, ela se agarrou nele. _ Não. Eu preciso de você, William. Eu preciso de você mais que preciso dormir. Ele a empurrou para longe, prevenindo: _ Você pode não precisar dormir, mas com a luta de amanhã, eu preciso. Ela se estendeu na cama. _ Está bem, então vamos dormir juntos. _ Não. Fora do alcance de Sarah, ele se dirigiu para a entrada da barraca. _ Eu não encontrarei descanso perto de você. 109


Sentando-se, rapidamente, sua esposa olhava fixamente para ele, em choque. _ William? Com sua mão no pano que cobria a entrada, ele perguntou: _ O quê, Sarah? O que você quer que eu faça? _ Não me deixe. Ele viu o brilho das lágrimas que corriam por suas faces. Ouviu o medo e a mágoa em sua voz, mas o peso que sentia no peito, o obrigava a sair. _ Sarah, vá dormir! Sentindo o tom suave de sua voz, sufocando os gritos que ia dar, ele imprimiu um tom severo, que não sentia: _ Você é esposa de um guerreiro. Aja como tal. William abaixou o pano atrás dele, cortando o som indignado de Sarah. Bravo com ele mesmo e a situação em geral, William atravessou, tempestuosamente, a área do acampamento. Quando ele e os outros homens haviam entrado no acampamento de Aryseeth, William viu um agrupamento de pedras, próximos à extremidade do riacho. Seria um bom lugar, para passar a noite. _ Pare, escravo. Sentiu a ponta afiada de uma espada, contra suas costas. William girou, lentamente, e olhou, fixamente, para o guarda. _ Afaste esta arma de mim! O homem cutucou o tórax de William com a ponta da espada. _ Está me dando ordens? Isso não era evidente? _ Tire isto, ou vou enfiá-la no seu peito. Um sorriso cruzou a boca do guarda. _ Você parece ter esquecido de seu lugar. Apontando para o chão, o homem ordenou: _ De joelhos! Se esse guarda queria bancar o idiota, para William estava ótimo. 109


William tomou, com rapidez, a espada, e bateu com o punho da arma o peito do guarda. A seguir, lhe deu uma rasteira, derrubando-o. Segurou a arma contra a garganta do guarda. Passadas rápidas se aproximaram, fazendo William firmar a lâmina afiada no pescoço do homem, que tremia aos seus pés. _ Parem. A ordem de Aryseeth ecoou da porta de sua barraca. Os guardas que correram para William com suas espadas desembainhadas, imediatamente pararam. William soltou a espada e caminhou para o riacho. Quando os homens fizeram um movimento para segui-lo, Aryseeth ordenou que eles o deixassem sozinho. A ordem o surpreendeu, mas William não tinha nenhuma intenção de perguntar o porquê daquela atitude. Ele subiu sobre as pedras e sentou na grama do outro lado, usando uma pedra enorme como cama. William pegou uma pedrinha, observando o riacho. De tudo de pior que poderia acontecer, jamais havia esperado por isso. O que havia sido um grande engano de sua parte. Com o envolvimento de Arnyll devia estar alerta para o pior. E agora, não era só sua vida que estava em perigo, mas a da sua esposa. Sua nobre esposa! Ela devia estar apavorada, e ele não podia fazer nada para ajudá-la. Lançou a pedra no riacho. Havia jurado proteger Sarah e falhado, horrivelmente. Ela estaria em melhor situação presa em uma das celas de Eleanor que ali. Estaria melhor em qualquer lugar, menos ali. William duvidava que a Rainha a mantivesse em uma cela, para sempre. Uma vez que sua ira se dissipasse, Eleanor teria libertado Sarah. E, apesar da corte de Eleanor não ser mais que uma prisão disfarçada com elegância, pelo menos lá, Sarah não seria torturada. Se tivesse permanecido om a Rainha, ela podia ter eventualmente casado com um homem de posses. 109


Alguém com um título, ouro e propriedades. Alguém com honra. Ao invés disso, agora Sarah sabia que havia se casado com um humilde escravo. William rilhou os dentes, lutando contra a dor de reconhecer que ele teria que desistir de sua esposa. Ela merecia mais que um homem que se tornou um assassino para sobreviver.

William tinha estado enganado, ao pensar que estes dias pertenciam ao passado. O guarda que havia derrubado o fez ver isso. Sua resposta para a ameaça tinha sido o ataque. Se Aryseeth não o mandasse parar, William sabia que teria atravessado o pescoço do homem com sua própria espada. Não foi sua reação violenta que o aborreceu. O fato é que não havia sentido nenhuma culpa só uma necessidade escura, um desejo vil de tomar a vida do homem. Se por um milagre, fossem bem sucedidos e saíssem vivos daquela luta, ele se asseguraria que Sarah nunca mais passasse por este tipo de perigo novamente. Mais importante, ele a faria conseguir tudo o queria. William não faria parte deste futuro. Sarah não merecia estar amarrada a um assassino.

Capítulo Onze

Sarah e as outras duas mulheres, Adrienna e Elizabeth, permaneciam ao longo do perímetro da arena improvisada, esperando a batalha começar. Os guardas os trouxeram mudos, para o centro. Ela estava certa que as outras esposas estavam tão preocupadas quanto ao que estava por vir, e como eles agüentariam isto, quanto Sarah. A esperra era infernal, e o terror aumentava. 109


O sol fraco do amanhecer permitiu a Sarah esquadrinhar as colinas, perguntando-se sem sentir, em voz alta: _ Deve haver um modo de sair daqui. _ Só se seus homens sobreviverem. Aryseeth parou na frente delas. _ Mas não conte com isso. Você precisa aceitar o fato que vai se juntar à minha família. Ele continuou a descrever os encargos das mulheres com detalhes. Sarah fechou sua mente para suas fantasias doentes. Sua atenção estava completamente presa nos três homens parados na arena. Sarah esteve vagamente ciente que abriu a boca, maravilhada com a visão. William nunca pareceu mais poderoso que agora. Sua presença — forte, confiante, e dominante lhe acendendo o desejo. Ele capturou seu olhar, devolvendo-o. Seu escrutínio a fez estremecer. Seu corpo e a respiração se aceleraram. Ele a acariciou com um olhar ardente, que pareceu tão real quanto um toque físico. E tudo que Sarah podia fazer era permanecer quieta e calar seu gemido de desejo. Em uma tentativa para se distrair, Sarah quebrou a conexão visual. Ela relançou um olhar para os outros dois homens. A tentativa tinha sido um engano, por que não lhe forneceu nenhuma distração. Se observar William já era impressionante, o retrato dos três homens juntos era empolgante. E quando eles distenderam seus bíceps e expandiram seus tóraxes, no que era seguramente, uma exibição pública de força, Sarah soltou a respiração: nem tinha percebido que a estava segurando, então sussurrou: _ Meu, meu, meu. Se qualquer homem ali pensasse que estes homens perderiam hoje, logo veriam seu erro. A esperança que Sarah tinha do sucesso dos homens cresceu, se tornando uma certeza completa. Estes guerreiros não eram só formidáveis — eles eram invencíveis. Aryseeth os estudou com um olhar experiente, conforme eles entravam na arena improvisada. 109


Os homens alcançaram o centro da arena, e permaneceram em um círculo, de costas um para o outro. Hugh agitou sua espada, como se avisando Aryseeth que desse a ordem de ataque. Ele se moveu, atrás das mulheres. Seis de seus bem-treinados guardas vieram correndo, das barracas em direção à arena. Para desgosto do Aryseeth, a primeira escaramuça terminou extremamente rápido. Hugh despachou três dos guardas. William terminou com as vidas de dois homens, enquanto Guy matou um. Então, os guerreiros enfrentavam bem espadas? Como iriam se sair contra chicotes e correntes? Ele assobiou novamente e mais cinco guardas apareceram. Estes homens eram peritos com armas de qualquer tipo. Movimentavam uma comprida corrente em uma mão e um longo chicote na outra. Para o desgosto de Aryseeth, William riu. O riso se transformou em maldições, quando Stefan passou em torno dos guardas e então, se posicionou de costas para eles. Seria sábio se Stefan mantivese seu olhar nos guardas que ele ia desertar, pois eles não hesitariam em matá-lo. Em vez de dar ordem para fazer isso, Aryseeth encolheu os ombros. Depois de um ato tão aberto de deslealdade, não importava. Se Arnyll sobrevivesse a esta batalha, ele iria morrer nesta noite, por sua traição. Hugh e William soltaram suas espadas, e saíram do círculo. Guy e Stefan moveram-se, virando as costas um para o otro. Aryseeth soube que os dois homens iriam lutar formando uma unidade única, com quatro braços. Ele esperava que isso acontecesse, em certo ponto da batalha. Afinal, era um modo excelente para proteger sua retaguarda, enquanto se concentrava no inimigo em sua frente. O que ele não esperava era que Hugh facilmente alcançasse num piscar de olhos, um guarda pela garganta e quebrasse seu pescoço. Nem esperava que William pegasse, no ar, uma chicotada que lhe desferiu um dos guardas, puxando o inábil pela sua própria arma. A surpresa do guarda deu a William os segundos 109


suficientes para puxá-lo contra si. O tolo mereceu ter seu pescoço esmagado entre os bicep de William. Mas os guardas restantes causaram ferimentos. Seus chicotes e correntes abriram feridas na carne dos guerreiros, em muitos lugares. O sangue corria livremente de cada uma delas, tingindo o chão. Quando somente dois guardas permaneciam vivos, Aryseeth sorriu para ele mesmo e assobiou uma última vez. Os guerreiros não sairiam ilesos do próximo ataque. Vinte de seus melhores homens desceram a colina a cavalo, entrando na arena. Seus cavaleiros conseguiriam a vitória sobre os homens. A barreira que eles formavam, facilmente faria com que os guerreiros e suas mulheres vissem que sua liberdade findava. Os quatro homens brandiram suas espadas. Cada marido olhou sua esposa, como se despedindo, antes de formar um círculo, pela última vez. Eles não precisavam se preocupar com isso. Aryseeth deu a seus cavaleiros ordens rígidas para não matar os guerreiros, somente mutilar, para que cessassem aquela batalha. Ele se aproximou das esposas. _ Talvez agora, aceitem o inevitável. Seus homens não podem vencer. Mal as palavras saíram de sua boca quando a mulher chamada Elizabeth apontou para a colina, do outro lado do acampamento, gritando: _ Olhem! Querido Deus, olhem! Aryseeth lançou um olhar naquela direção e amaldiçoou. Pelo menos cinqüenta homens desciam pela colina. O cavaleiro que vinha à frente carregava uma flâmula. Conforme eles desciam à colina, a flâmula se agitava na brisa, exibindo o leão do Rei Henry. Então, estes homens tinham valor suficiente para seu Rei vir para salvá-los? Aryseeth levantou sua mão, ordenando a seus próprios cavaleiros para se deterem. Ele então se voltou e rumou para sua barraca. Para Aryseeth o jogo ainda não estava acabado — só adiado. Ele não podia e não iria retornar a Sidatha sem os homens. Teria que gastar mais tempo, mais ouro e um novo plano de ação. Mas não importava — ele não falharia com seu senhor. 109


Ele parou na entrada da barraca e apontou um dedo para Arnyll, que fugia. Alguém teria que pagar por este retrocesso e este bobo era dispensável. Dois de seus guardas interromperam a fuga e o mataram. William correu em direção de Sarah, parando somente para testemunhar a morte de Arnyll. Por um breve instante, lamentou. Ele queria ter matado Stefan. Mas o remorso era grande e ele se voltou para Sarah. William a pegou em seus braços, antes dela cair no chão. _ William… Sarah murmurou seu nome, com um suspiro. Ele suavemente enxugou as lágrimas de seu rosto, jurando que isto nunca aconteceria novamente. De agora em diante, ela estaria segura. O rei Henry parou ao lado deles. _ Bronwyn, você está bem? - O Rei estava olhando fixamente para o sangue ainda gotejando de um corte de William. _ Precisa de um médico? William olhou a ferida, que para ele pareceu um pequeno corte, não mais que um arranhão. _ Não. Isso não é nada. A maior parte do sangue não é o meu. Só então Sarah olhou para o Rei. _ Obrigado por vir em nosso socorro, meu senhor. Henry arregalou os olhos: _ Senhora Remy? _ Bronwyn! - Sarah corrigiu: _ William e eu nos casamos. O Rei olhou surpreso, para William. _ Você se casou com a informante da minha esposa! _ Sim. Antes do Rei se dirigir para os outros homens, William perguntou: _ Poderia ter alguns momentos de seu tempo, antes de me separar de vossa companhia? Henry moveu a cabeça, em direção ao acampamento de Aryseeth. _ Eu ficarei aqui por uns dias. Venha antes de partir. Ele olhou por sobre o ombro, adicionando: _ Se precisa de roupa ou comida, os homens descarregarão os cavalos logo. 109


William curvou sua cabeça: _ Agradeço ao Senhor. Sarah descansou a cabeça contra seu peito. _ Que negócios têm com o Rei? _ Nada que lhe diga respeito. - William mentiu. Não tinha nenhum negócio com o Rei, e a ninguém interessava isso, nem mesmo a Sarah. Mas ele não queria lhe dizer acerca do assunto que tinha tartar, antes de falar com Henry. No momento, ele só queria achar um lugar onde pudesse ficar a sós com sua esposa. E logo — antes que apenas abraçá-la não fosse suficiente. William se afastou, dizendo: _ Fique aqui mesmo, não se mova. William se dirigiu para o local onde ele e os outros homens haviam escondido mantimentos. Ele recuperou a bolsa de couro contendo comida, apenas alguns restos e a levou. Se Guy ou Hugh precisassem de qualquer coisa, eles podiam pegar das provisões que o Rei havia trazido. William voltou para junto de Sarah e a levou ao local onde havia passado a noite. Eles subiram na elevação natural de pedregulhos e pedras, para a grama, entre as pedras e o rio. Ele soltou seu material no chão e puxou sua esposa em um abraço. Sarah passou seus braços ao redor dele e enterrou seu rosto contra seu peito. _ Eu estou tão brava com você que podia gritar! William passou a mão pelo cabelo. Não podia culpá-la, por isso preferiu ficar calado. A ajudou a subir a elevação e, depois de se sentar na grama, a puxou para seu colo. Sarah olhou fixamente para William. Nunca havia se sentindo tão sozinha como ontem à noite. Aquele homem já significava para ela mais do que podia explicar. Pelo que ouviu de Aryseeth e Arnyll, William passou muitos anos em cativeiro. Como alguém podia ter suportado tal vida, sem se tornar um animal, estava além de sua compreensão.

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William era um homem enorme, forte e sempre a tratou com ternura. Até quando estava furioso, ele não a havia agredido fisicamente. Ela descansou a bochecha contra seu peito e acariciou seu braço. _ Por quanto tempo esteve cativo? _ Quinze anos. Sarah franziu o cenho, pelo tom distraído da voz de William. Mas continuou: _ Como isso lhe aconteceu? William encolheu os ombros, explicando: _ Meus pais morreram, e o novo senhor me mandou embora. Alguns homens acharam-me vagando ao longo de um rio e me bateram na cabeça com um pedaço de pau. A próxima coisa que lembro é de estar a bordo de um navio rumo ao outro lado do mundo. _ O novo senhor lhe mandou embora? Por quê? _ Porque ele era irmão do meu pai e mentiu para o Rei, dizendo para ele que eu também havia morrido, quando, em verdade, assassinou meus pais na esperança de ficar no controle das terras. Espantada que alguém fizesse semelhante barbaridade, Sarah perguntou: _ Por que você não procurou o Rei Henry quando retornou? _ Stephen era o Rei quando meus pais foram mortos. Meu tio era leal à Stephen e não à mãe de Henry, Matilda. Ambos os lados precisavam de ouro, desesperadamente. Eu duvido que Henry tenha se importado com a traição de Bronwyn quando veio para seu lado. William estava certo. Ela perguntou, querendo ouvir dele, embora já soubesse a resposta: _ O que fazia no cativeiro? _ Matava homens. Sarah não precisou ver a expressão em seu rosto para saber o quanto aquela declaração o incomodava. A tensão de seus músculos sob seus dedos, e o pulsar acelerado de seu coração sob sua bochecha, lhe disse da imensa raiva que William sentia. _ William, você não teve nenhuma escolha. Você fez como lhe foi comandado. Ela agora compreendia por que ele, uma vez, havia usado aquela palavra para descrever sua relação com a Rainha. 109


Mas existia uma grande diferença entre ser ordenada a fazer uma tarefa e ser comandada. Desobedecer a uma ordem teria conseqüências, claro, sofrer alguma punição leve, ou, na pior das hipóteses, uma visita a uma cela. Desobedecer a um comando significava morte imediata — como Langsford descobriu ontem e Arnyll hoje. O peito de William se elevou, quando ele deu um profundo suspiro. _ Sempre existem escolhas. _ A morte não é uma escolha. Ainda que fosse, você era muito jovem para fazer tomar uma decisão tão radical. _ Mas se eu tivesse feito esta escolha, não teria tanto sangue em minhas mãos. Eu nunca teria me tornado um animal, que viveu só para lutar e matar. Sua voz era áspera e Sarah procurou por um meio para provar a William que ele não era um animal, um assassino. Ela tocou em sua face e acariciou os lábios de William. _ Talvez, mas você nunca foi um animal, como Arnyll. É óbvio que ele gostava da batalha e as matanças o agradavam muito. O bufar de William a surpreendeu. _ Aye, ele gostava da matança, mas não da batalha. Ele não era um guerreiro e nunca poderia ser. Arnyll não era nada além de um informante, lançado entre os cativos da mesma categoria para espionar para Aryseeth. Sarah engoliu em seco, a vergonha lhe travando a garganta, tornando difícil de respirar. O que podia dizer em resposta aquele comentário que não que agia da mesma forma para a Rainha Eleanor? Nada! Então ela tomou a dianteira. _ Você uma vez disse a mim que, às vezes pequenos pedaços de informações terminarem em morte. Por quê? O corpo de William estremeceu. Sarah o abraçou, sussurrando: _ Não, William, não há necessidade de falar disto. Deixe isso no passado.

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Eles se sentaram em silêncio por longos momentos. Finalmente, ela o sentiu relaxar. Logo, o bater do coração e a respiração de William voltaram a um ritmo normal. O que ela não sentiu foram seus braços ao redor dela. O sentimento horrível que algo estava terrivelmente errado, a fez olhar para ele. _ William? Ele olhou para tudo, menos para ela. Sarah tocou em sua bochecha. _ O que está errado? Quando ele não respondeu, ela deslizou suas mãos atrás de sua cabeça, mas nada o fazia olhar para ela. Sarah sentou-se em seu colo. Senhor querido, o que havia feito? Talvez ele tivesse comparado ela e Arnyll. _ William, eu sinto muito ter espionado para a Rainha. Perdoe-me. Eu nunca quis prejudicar ninguém. Eu só... Ele colocou um dedo contra seus lábios. _ Silêncio. Você fez o que tinha que fazer para sobreviver. Afinal, tudo que viu e ouviu... Ainda imagina que eu não sei o que isso quer dizer? Nada do que tenha feito pode se comparar àquele animal vil. Talvez ele estivesse certo, Sarah podia não ter cometido atos vis, mas os homens eram bastante rancorosos, às vezes. _ Onde dormiu, na última noite? William passou um braço ao redor dela, fazendo Sarah se recostar as costas contra o seu tórax. _ Aqui. Eu dormi aqui. _ Por quê? Como pôde me deixar sózinha, sabendo como eu estava assustada? William descansou sua cabeça contra o pedregulho e suspirou: _ Sarah, eu não podia ficar naquela barraca. Todos os homens que já matei me assombram quando estou lá. Tudo isso me faria não conseguir dormir lá. Eu escolhi correr das memórias, ao invés de enfrentá-las.

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Ela podia entender isso. Quantas vezes ela mesma havia escolhido empurrar as lembranças para o fundo da sua mente? Ela tocou em seu rosto. _ Então me deixar zangada foi o caminho mais fácil para escapar? William alisou sua bochecha contra sua palma, antes de deslizar a mão para seus lábios. _ Sim. Pode me perdoar? _ Oh, William, eu te agradeço. _ Agradece-me? Pelo quê? _ Você veio por mim. Eu não podia pedir mais. William rolou uma mecha do cabelo de Sarah entre os dedos. _ Você é minha esposa, como podia não vir por você? _ Você podia ter deixado Aryseeth me levar da Inglaterra, e então, dizer que morri. Seria mais honrado. _ Oh, aye, isso seria muito honrado, não seria? Principalmente, sabendo bem os tormentos que iria sofrer. _ E honra é a única razão que o fez vir me buscar? Ele a esmagou contra seu tórax. Seus lábios esmagaram os de Sarah, deixando-a ofegante e querendo mais. Ele interrompeu o beijo para enterrar seu rosto no pescoço dela, perguntando: _ O que mais seria? Se Sarah não o conhecesse, pensaria que seu marido guerreiro estava próximo das lágrimas. Seguramente, só imaginara o tremor em sua voz. Quis discutir com ele, para gritar que ele podia ter vindo porque a desejava. Ou porque era importante para ele, uma pessoa que William não deixaria morrer. Qualquer coisa diferente de sua honra. Mas não era o momento para argumentos ou palavras severas. Tinha sido uma longa noite para eles dois e uma manhã brutal. Então, Sarah acariciou seu cabelo, se sentindo reconfortada por saber que ele estava vivo e abraçando-a. 109


_ Eu agradeço. Agora, fique quieto. Ele ergueu sua cabeça para sussurrar contra sua orelha. _ Ao seu dispor. Sarah fechou seus olhos e relaxou, contra o corpo de William. _ Estou tão cansada. Podia dormir aqui mesmo por dias. Suas mãos se fecharam ao redor da cintura de Sarah, antes dele erguê-la de seu colo. _ Existe uma cura para isso. Sarah se agitou, reclamando: _ Eu não estava procurando por uma cura. _ Nós temos a noite toda para dormir. - Ele riu. _ Agora mesmo, eu quero um banho. Sarah caminhou para o rio e se ajoelhou na margem. Com um profundo suspiro, ela espirrou água em seu rosto. _ A água está muito fria? Ela agitou sua cabeça: _ Não muito. _ Bom. – William desceu da pedra para a grama. Ele então se sentou, tirando suas botas, antes de começar a se despir. William queria mais que apenas sentir a água espirrada contra sua pele. Ele queria afundar no rio e deixar o fluxo limpar toda a sujeira, o sangue e a raiva febril que se agitavam, silenciosamente, em seu peito. Sarah ofegou, quando o viu passar despido. _ William! - Ele a olhou, por sobre o ombro. _ E se alguém vir você? Ele havia perdido toda modéstia há muitos anos atrás. O surpreendeu que ela não. Não havia muita privacidade na corte da Rainha. _ Eu não tenho nada de diferente de outros homens, que não possa ser visto. Uma vez que a água alcançou seus quadris, William mergulhou no rio. Emergindo, abriu os olhos vendo a água se agitando a sua volta, levando para longe o horror de Aryseeth e seu próprio sangue. 109


_ Acha isso frio? Ele abriu um olho, então giroui sua cabeça para ver Sarah sentar na margem. Estaria pensando em se juntar a ele?’ _ Não mudou de temperatura, desde que eu perguntei a você. _ Eu só lavei meu rosto. É frio contra seu corpo? Ela estava observando-o e juntou-se a ele no rio. Se a água estivesse fria, ela teria pensado melhor. Aquele pensamento foi suficiente para fazê-lo sentir calafrios — mas não de qualquer frio. Ele estava ainda fresco de uma batalha — sera que Sarah não tinha entendido o que ele queria dizer? Qualquer paciência dentro dele tinha sido afastada. Precisaria ser mais claro? Ah, mas possuir Sarah não seria suficiente para acalmar a luxúria da batalha prolongada. _ Não, Sarah, não é frio. _ Mas é fundo. Ele levantaria-se e daria a volta para mostrar o quão fundo era o rio, se estivesse certo que ela não iria fugir como um coelho assustado à vista de sua ereção. _ Eu posso sentar no fundo. Novamente, ela olhou para a água, com desejo. _ Eu não sei nadar. _ Eu sei. Embora, se ela juntasse a ele, não haveria este tipo de atividade.Incerta, Sarah perguntou: _ Você tem sabão? Sabão! Aquele pedido inesperado levou alguns momentos para ele entender. Ela realmente queria um banho? William juntou um punhado de areia do fundo do rio. _ Isto funcionará como sabão. Ela fez um muxoxo. _ Você não deixará eu me afogar? Esta pergunta era, sem dúvida, a mais sem sentido que Sarah já havia feito. Desinteressado, William se ergueu, a água deslizando por seu corpo à medida que ele vinha em direção a ela. 109


Uma vez chegando à margem, ele a carregou para cima de uma pedra e removeu suas botas, meia-calças e cinto. _ Aye, Sarah, depois de arriscar minha vida em uma batalha de morte por você, eu seguramente, deixaria você se afogar. Antes de poder responder, ele a levantou da pedra e puxou seu vestido e a camisa por sua cabeça. Sarah cruzou seus braços sobre os seios e sentiu o ar frio tocando sua pele. William a ergueu em seus braços e a levou para o rio. Quando ele entrou na água e se sentou, ela gritou, agarrando-se em seu pescoço. _ Você mentiu. Está fria. Fria?Com sua carne molhada, apertada contra a sua, suas pernas enroladas, firmemente ao redor de sua cintura, ele estava longe de sentir frio. Estava queimando. E se ela não estivesse sentindo o mesmo, então ele estava fazendo algo errado. William puxou seus braços e os passou ao redor de seu pescoço. _ Passe isso. _ O que? Ele pegou um punhado de areia. _ Você quis um banho. Ela relaxou suas pernas e deslizou para seu colo. Os olhos de Sarah abriram-se, de repente. _ Oh. - Um sorriso sedutor, lentamente curvou sua boca, quando ela balançou seus quadris contra ele. _ O banho não pode esperar? William pausou, então soltou a respiração, diante do tom abafado de sua voz e a suave fricção de seus movimentos. Ele podia muito facilmente possuí-la agora. Mas queria mais que uma rápida relação sexual. Ele se debruçou para beijar seu pescoço, e falar junto de sua orelha. _ Se você não tomar seu banho agora, eu não posso prometer que você conseguirá. Ela pareceu analisar a situação e se debateu. Pouco disposto a deixar Sarah pensar, William rodeou sua cintura e a puxou para mais perto. 109


William suavemente esfregou seu corpo com a areia. Ele passou suas mãos por seus braços, ombros e pescoço antes de passar por seus seios, estômago e quadris. Sarah segurou em seus ombros e fechou os olhos, obviamente apreciando suas atenções quase tanto quanto ele. William, de repente, compreendeu que este seria um dos momentos que ele se lembraria quando se separassem. Uma memória que queimaria em seu coração, somente para fazê-lo sentir mais falta dela. Ele podia se salvar da dor que viria empurrando-a para longe. Mas não podia se negar o prazer de sentir sua pele suave embaixo de suas mãos, ou o som dos suspiros de Sarah em seus ouvidos. Incapaz de falar , William gesticulou, pedindo que Sarah desse a volta. Ele a esfregou de novo, correndo suas mãos mais embaixo, para acariciar o corpo curvilíneo de Sarah. Com as pernas separadas, para manter-se agarrada nele, Sarah estava aberta a seu toque. Do som ofegante de sua respiração, William sentiu que ela antecipava seu toque. William sorriu para sí mesmo. Tinha toda intenção de não ser egoísta, não apressar nada naquela noite. Ele esfregou a areia, ao longo do comprimento de suas pernas. Depois de livrá-la da areia, rapidamente William correu um dedo entre suas coxas, alisando suavemente. A carne tenra tremia sob seu ousado toque. Seu ofego de surpresa, seguido por um gemido suave, o incentivou. Mas quando Sarah fez um movimento para girar em seus braços, ele a segurou. Com uma mão em seu ombro, ele sussurrou contra sua orelha: _ Não, Sarah, fique assim.

Capítulo Doze 109


Um tremor pareceu agitar a Terra em baixo dos pés de Sarah. William, com voz rouca, sussurrava ardentemente, em sua orelha, fazendo-a ansiar coisas que podia apenas imaginar. Sua mão forte em seu ombro a manteve quieta, quando ela quis se debruçar novamente contra seu tórax, para se firmar. O lento e arrastado toque, desenhando círculos minúsculos entre suas coxas, assaltando seus sentidos. Não era somente o bater acelerado de seu coração. Nem era pelo sangue que corria ardente em suas veias. Em seu pouco tempo juntos, ela aprendeu a esperar aquelas sensações sempre que William a tocava. Era como se um amante — seu amante — buscasse aprender sobre seu corpo, uma agonizante exploração a cada vez. Ele a acariciava com as pontas de seus dedos, até que os nervos em baixo de sua pele se agitassem, incontrolavelmente. Quando seu toque deslizou para cima, uma vez mais, sua respiração era tão rápida quanto seu o bater de seu coração. Quando William colou sua boca contra o pescoço de Sarah, sua respiração morna correu quente através de sua orelha, enviando mais faíscas de desejo por sua espinha. Pronta para se tornar sua esposa em mais que somente no nome, Sarah virou sua cabeça, dando a ele ainda mais carne para provocar. Ela amou o modo como William a fazia sentir, em chamas, querendo, antecipando. Até mesmo agora, quando a enlouquecedora necessidade a fez pensar que gritaria de frustação, ela se sentiu amada e viva. E só quando sentiu que não podia mais aguentar, ele a girou e a ergueu em seus braços saindo do riacho. O ar frio da noite enrugou seus mamilos, mas ele afastou o frio, sugando primeiro um depois o outro, conforme a levava rapidamente para a margem. Sem palavras, ele lentamente a adorou, com toques, os lábios exigentes. Ela murmurou seu nome, sentindo aquela necessidade violenta exigindo satisfação. Desesperada por algo mais, Sarah o agarrou. Em vez de aceitar seu abraço, William pegou seus pulsos com uma mão, segurando-os.

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Não lhe deixou nenhuma escolha, senão se submeter. E depois de um momento breve de pânico, ao ver a expressão feroz, possessiva, impressa nas duras feições de seu rosto, Sarah, de boa vontade, se rendeu a sua paixão. A cada toque, cada carícia na carne sensível, a estranha fome enviava um ardor para aquele ponto entre suas coxas. Arqueando-se em direção a ele, ela implorou: _ William, por favor, por favor, eu preciso de você... Antes de terminar seu pedido, ele laçou seus pulsos acima de sua cabeça e se deitou sobre ela, sussurrando, rouco: _ Shh, quieta, eu estou aqui. A voz dele a encheu com um calor, que combinou com sua súbita posse. Sarah se agarrou nele, congelando, quando uma dor afiada irrompeu, só para passar da mesma forma como veio. William parou, se erguendo em seus antebraços, o olhar fixo nela. A raiva surda em seus olhos. Ela soube que ele finalmente compreendeu que a mulher que chamavam de prostituta da Rainha era não uma rameira. Ele podia pensar nisso mais tarde. Ser sentir ultrajado o quanto desejasse... Depois. Mas agora — agora ele podia afugentar esta loucura, tomando seu corpo. Ela arqueou seus quadris contra ele. _ William, por favor. Ele gemeu, e por um momento, Sarah temeu que ele a afastasse. Mas, ao contrário, ele a apertou contra seu tórax. Sarah adorou o modo como ele a possuiu, reivindicando-a como sua. Ela gemia, o ritmo dele a conduzia para um lugar além das palavras, quando o sentiu estremecer violentamente, alcançando a satisfação. Ofegante, William se deitou de costas, levando-a junto, para descansar sobre ele. Sarah sentiu o retumbar agitado de seu coração contra sua úmida bochecha. William suavemente acariciou seus cabelos, perguntando: _ Machuquei você?

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Ele não tinha nenhuma idéia do porquê de Sarah estar chorando. Nenhuma pista do porque as lágrimas vieram ou quando começaram. Ela se ergueu levemente, seus antebraços descansando no tórax de William, e olhou para ele. _ Só um pouco e só por um momento. William roçou seu polegar através de sua bochecha. _ Então estas são o quê? Lágrimas de culpa? Ela arqueou uma sobrancelha para ele. _ Já que você está preocupado, esta seria a resposta apropriada, não seria? O que você pensou que eu faria, William? Você me disse que se casou de boa vontade, com uma rameira, de forma que era o que esperava ter. Como eu podia admitir que esta história fosse mentira? _ Um simples “eu sou virgem” teria sido suficiente. Ante seu tom severo, Sarah começou a se afastar, mas ele a segurou. _ Há algo mais que eu devo saber Sarah? Qualquer outra coisa? Desde que Sarah queria convencer a Rainha Eleanor a mudar de idéia, certamente não iria dizer a ele que sua morte já tinha sido planejada. Ela acariciou sua bochecha, em seguida, William virou o rosto, afastando-se da carícia. _ Sim, William, deve saber que eu estava contente por você pensar que eu era uma prostituta. Se soubesse que sua esposa era uma virgem sem experiência, iria fazer amor comigo? Antes de William responder, Sarah adicionou: _ Talvez minhas lágrimas não sejam de culpa, mas pelo momento mais indescritível de alegria…. _ Alegria? As bochechas de Sarah se incendiaram. Ela traçou círculos em seu tórax e olhando suas mãos, enquanto os fazia. _ Luxúria, talvez? _ Talvez? - Ele acariciou os quadris arredondados. _ Eu penso que existe uma dúvida aqui. 109


Ela riu suavemente, com sua arrogância, então beijou seu tórax suado. Se erguendo levemente, ela movimentou a cabeça indicando o rio e sugeriu: _ Se ainda tiver forças, existe água fresca bem perto.

William olhou fixamente para cima, vendo o céu escuro. Sons do acampamento ao longe, vinham misturados com o suave murmúrio das águas que corriam no rio. Sarah dormia sua respiração suave. Seu segundo banho tinha sido brincalhão, embora rápido devido ao frio súbito que se abateu, conforme a madrugada chegava. Uma vez secos e vestidos, eles comeram. William enroscou um dedo ao redor uma mecha errante de seu cabelo úmido. Sarah estava tão cansada que tirou uma soneca, entre mordidas de comida. Ele tinha facilmente persuadido sua esposa a se entregar. Agora que ela dormia, era o momento certo para falar com o Rei. Mesmo que não tivesse a mínima vontade de se afastar dela. Por que quando ele retornasse deste encontro, tudo seria diferente. William fechou seus olhos, só para ser tomado por visões de Sarah — rindo, chorando ou na agonia da paixão. Que loucura era essa? Como uma mulher podia afetá-lo tanto? Ele daria sua vida por ela. E ela sabia disso. Um conhecimento que somente tornaria seus dias, dali em diante, ainda mais difíceis. Este pequeno pedaço de mulher iria, com certeza, fazer de sua vida um inferno. O fato de que até aquele dia, Sarah tivesse sido virgem, mudava as coisas. Agora, por causa da mentira dela, William teria que esperar algumas semanas para dar prosseguimento a seus planos. Mas no fim, ela seria protegida dos perigos que o mundo oferecia. Aquela certeza lhe daria forças para seguir adiante com sua idéia. Lentamente, puxando o braço em que Sarah apoiava a cabeça, William se debruçou sobre ela e lhe deu um beijo no rosto. _ Um dia, Sarah, eu rezo para que você me perdoe. 109


William a libertou de seu abraço e então seguiu para encontrar o Rei. Como ele imaginava um par de guardas estavam posicionados perto, do outro lado das pedras. Ele chamou um deles e solicitou que vigiassem sua esposa. Certo de que os homens manteriam sua palavra, William rumou para o acampamento.

_ Bronwyn. William girou, e virou sua cabeça e voltou-se para o Rei Henry. _ Meu senhor. Se tiver um momento... _ Claro que tenho. Caminhe comigo. O Rei ofereceu a ele uma taça de vinho e William acenou a cabeça, tomando um gole. Henry também bebeu o conteúdo, antes de perguntar: _ O que é tão importante para fazer você deixar a cama da sua nova esposa? William assistiu Aryseeth, acompanhados por quatro dos guardas do Rei atravessar o acampamento. A ira ferveu em seu sangue e ele apertou seus punhos, tentando controlar sua raiva. Ante a vacilação, Henry girou a cabeça para seguir a linha de visão de William. Ele se voltou e tocou o ombro de William. _ Bronwyn, eu não uso nenhuma coroa neste momento. Fale livremente. Com os dentes cerrados, William quase se descontrolou. _ Aquele homem devia ser morto. _ Claro que devia, eu não discordo. Mas se recorde, você e Wynnedom o trouxeram para mim com uma oferta de comércio que eu não podia recusar. Se eu o matasse agora, como selaríamos o acordo? Como saberia o que fazer para salvar os outros no cativeiro? Você também não quer libertá-los? _ Claro que eu quero. _ Então o que você espera que eu faça? Se eu o matar e aos seus homens, não existirá nenhuma chance para negociar a libertação dos outros. 109


_ Não precisa fazer nada. Eu alegremente, tomarei sua vida. O Rei movimentado a cabeça, afirmando: _ Você não vai fazer isso. Não arriscará as vidas dos outros. O que pensa que Sidatha fará quando ele descobrir que seu escravo está morto? Acredita que, de repente, ele descobrirá o erro de seu modo de vida e libertará todos os escravos? Quando William olhou para seus pés, Henry continuou: _ Ou não percebe que ele simplesmente achará alguém para substituir Aryseeth? Alguém possivelmente é até mais demoníaco? William duvidou que tal homem existisse, mas reconheceu a lógica nas palavras do Rei. Mas essas palavras não acalmaram sua impotência diante daquela situação. Henry se postou em frente a ele, como se prevenindo William de dar outro passo. _ Eu tenho visto a maldade do homem. Na frente de meus olhos, ele matou seu próprio escravo, por um motivo torpe. E então, como se nada de mais tivesse acontecido, ele me procurou propondo um acordo: especiarias e pedras preciosas por homens, para usar em seus jogos doentios. _ Meu senhor, existe uma diferença entre ver a maldade e viver sob seu jogo. Tentando afastar a escuridão que ameaçava tomar conta de sua mente, William deu um suspiro. _ Hugh e eu juramos libertar os outros homens. Nós prometemos que não descansaríamos, enquanto eles não fossem livres. _ E você assume que é responsável pelo que acontece com outros? Henry retomou seu caminho. _ Eu sei bem o que é responsabilidade, William. Eu sou responsável pelas vidas e o bemestar de todos aqueles que residem em minhas terras. Você acredita que eu acho esse seu juramento errado? _ Não, mas... _ Mas o que? Qual é a diferença? Você fez um voto para libertar os outros homens. Eu fiz um voto para manter meu povo bem. Para mantê-los seguros. Alguns dos homens que estão nas celas de Sidatha, são meus assuntos. Eu não esquecerei deles, William. Esta é a 109


razão por que eu quero negociar com o diabo Aryseeth. Então, até que eu possa assegurar a segurança daqueles homens, não posso permitir que você mate o homem. E William sabia que,enquanto Aryseeth não estivesse morto, o mestre de escravos não descansaria, tentando conseguir levá-los de volta, em cativeiro. Enquanto Aryseeth vivesse, haveria perigo — para ele e para Sarah. William parou e respirou fundo. Era agora imperativo colocar seu plano em ação. _ Eu busco um benefício, meu lorde. _ Desde que ele não envolva Aryseeth e seu sangue, pergunte. _ Eu solicito uma petição a Igreja para a anulação de meu casamento. _ O que? Henry se voltou com seus olhos arregalados, com surpresa. Ele esfregou sua fronte, arrastando a mão por seu rosto. _ Em que se baseia? _ Enquanto Aryseeth viver, Sarah não estará segura. _ Você busca negociar comigo? – Henry perguntou. _ Eu não trocarei a vida de Aryseeth por seu casamento. William soube que precisava se explicar, e depressa. _ Não, meu senhor. Eu verdadeiramente busco somente a segurança dela. Eu a levaria de volta a corte da Rainha. Livre de mim, e livre para casar com alguém merecedor de sua mão. Henry olhou fixamente para ele por alguns momentos, observando como William ia digerir o que tinha para dizer. _ Você é merecedor de sua mão. _ Não. Eu não honrei o voto de protegê-la. _ William, não foi sua culpa que Sarah tenha sido apanhada. _ Sim, foi. - Ele havia prometido proteger, mantê-la em segurança, e falhou. Se não fosse sua culpa, então era de quem? _ Então, em vez de enfrentar a dura tarefa de proteger sua esposa, você sente que seria mais seguro abandoná-la? Se for desse modo que o Rei queria ver sua decisão, William não iria discutir. 109


Não se quisesse pedir a Henry que intercedesse junto a Igreja. _ Ela estaria mais segura no meio das pessoas de sua classe, do que com um guerreiro escravo. Por um momento, quando Henry estreitou seus olhos, William pensou que ele refutaria este fato. Mas o Rei esfregou seu queixo e perguntou: _ Que meios devo usar? Algo não parecia certo; esta conversação estava sendo mais leve do que ele imaginava. Incapaz de descobrir o que causou seu desconforto, William respondeu: _ Ela foi forçada, meu senhor. Nem a Rainha, nem eu, lhe demos qualquer outra opção. _ Mas ela não ficou ante da Igreja e jurou que tomou você de sua própria e livre vontade? _ Aye, mas era isto, ou enfrentar uma cela. - William explicou. _ Ela não pareceu, para mim, ter o olhar de uma mulher que se casou sob ameaça. William bufou. _ Meu Rei, eu vim para livrá-la das maquinações de Aryseeth. Ela teria adorado qualquer homem que fizesse o mesmo. _ Quem sabe? - Henry moveu a cabeça, indicando o acampamento: _ Ainda que eu concorde com isso, eu não tenho homens que possa dispensar. Eu não posso dar as costas, com segurança, para Eleanor. William não esperava que ele fizesse isso. _ É minha responsabilidade. Eu a levarei para a Rainha. O Rei encolheu os ombros, fazendo William paarar... O sentimento de que algo etava muito errado, se fortaleceu. Henry levantou uma mão, como se quisesse apaziguá-lo. _ Eu enviarei quatro homens junto com você e uma missiva para minha esposa explicando a situação. Irá facilitar a entrada de Sarah na corte. O alívio que William esperava sentir, não veio. Ao contrário, seu peito se apertou, como se alguém o esmurrasse. _ Obrigado, meu lorde. _ Há alguma possibilidade de que Sarah esteja levando seu filho, William? William tossiu, quase sufocando. Ele já havia considerado isso. 109


_ Sim, existe. E se isso acontecer, eu a manterei como minha esposa. Henry assentiu com a cabeça. _ Então será o que faremos. Você escolta Sarah até a Rainha Eleanor. Eu enviarei uma missiva, que chegará antes de vocês, de forma que ela os esteja esperando. Também enviarei uma longa missiva para a Igreja, instruindo a Eleanor que inclua suas fervorosas desculpas por forçar Sarah a aceitar o casamento. Enquanto isso, você permanecerá na corte. _ Rei Henry, eu não posso fazer isso. _ Oh? – Henry soltou uma imprecação. _ Eu disse a Wynnedom que treinaria seus homens. _ Wynnedom terá que arrumar outra pessoa. Eu tenho homens capazes de treinar seus guardas. Não está muito distante daqui, enviarei alguém para lhe explicar a situação. A última coisa que William queria fazer era ficar na corte, com Sarah tão próxima. _ Mas... _ Mas nada. Este é o trato, Bronwyn. Aceite ou não. A Igreja levará algum tempo para responder a petição. E se Sarah já estiver grávida, esqueça a anulação. - Henry riu e tocou no ombro de William, batendo palmas uma vez mais. _ Não me olhe como se o simples pensamento de ficar na corte fosse horrível. Não será uma permanência longa. Não importando o número de dias, William sentia como se fosse uma eternidade. Nada disposto a deixar passar o bom humor e a ajuda do Rei, William movimentou a cabeça. _ Eu aceito sua oferta. Com um suspiro, Henry murmurou algo que William não pode ouvir. Mas logo, aumentando o tom de voz, o Rei disse: _ Bom. Tudo estará pronto, assim que o dia raiar. No momento, lhe desejo uma boa noite e que consiga explicar tudo isso à Senhora Sarah.

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Depois de pedir licença para se retirar, William ficou um bom tempo afastado, pensando. Era melhor explicar tudo a Sarah, depois que eles partissem,pela manhã. Ele não sabia como ela reagiria àquelas notícias. Era provável que não concordasse com esta mudança de planos, e ele podia ter dificuldades de trazê-la a razão. William a estaria deixando de lado. Duvidava que qualquer mulher visse tal atitude de um modo racional. Especialmente, após terem se tornado amantes. Sua esposa confiou em suas emoções, em lugar da lógica ou da razão. Se ela se ofendesse, discutiria por muito tempo. Por outro lado, ela foi forçada a se casar. Uma anulação poderia ser a resposta para suas orações. Ele não tinha nenhum modo de saber, com certeza. William estava ainda perdido em pensamentos quando chegou aos pedregulhos e. silenciosamente, despediu os guardas. William subiu sobre uma pedra plana e olhou fixamente para baixo, onde Sarah dormia tranquilamente. O quão duro seria fazê-la acreditar que ele não se importava, que não gostavam um do outro, que uma anulação seria a melhor saída para os dois. Qualquer sentimento que teve era somente baseado em luxúria, enquanto os de Sarah não eram nada mais que gratidão e a recente descoberta do desejo. William sabia que deitar com ela seria um pecado mortal, mas ele perguntou-se quanto sua intenção somaria ao pecado. O inferno não o assustava. Ele já sobrevivera a um inferno. Nem temia viver o resto de sua vida em solidão. Tudo que ele sabia, com certeza, era que a segurança de Sarah era mais importante do que qualquer outra coisa. O que William receava era que Sarah se sentisse afrontada e cegamente, resistisse àquela idéia. E isso resultaria na falta de oportunidade de ter a vida que ela merecia. Ele lamentava muito o fato de ter metido Sarah em seu meio. O que fez para ela era imperdoável. Ser incapaz de proteger sua esposa era pior que meramente um pecado mortal. William tinha sido deixado só e desprotegido no mundo e ele não queria o mesmo para ninguém, muito menos para sua esposa. O Rei havia julgado conveniente mandar Aryseeth embora, em vez de matar o homem, 109


William teria que estar atento pelo resto de sua vida. Saber disso só aumentou a sua determinação para ver Sarah segura e longe dele. _ No que está pensando, William? Ele se assustou quando sentiu o toque da mão de Sarah contra seu tórax e o som de suas palavras o tirou de seus pensamentos. Ele tinha estado tão perdido na escuridão de sua mente, que ele não havia visto Sarah acordar. William tirou a mão de seu tórax e agitou a cabeça. _ Nada. - ele respondeu, severamente, como se sua presença o aborrecesse, quando na verdade, gostaria d apertá-la em seus braços. _ Eu não penso em nada, estou somente aproveitando o silêncio ao meu redor. Sarah retrocedeu. Na luz da fogueira do acampamento, ele viu a confusão em seu rosto. Apesar de sentir o coração apertado, William não disse nada para amenizar o tom duro em sua voz. _ William? Sarah tentou abraçá-lo, mas ele se desvencilhou de seus braços. O que havia feito? O que havia acontecido enquanto dormia? Ela caminhou para o fogo, segurando suas mãos acima do calor para aquecer as mãos, apesar de que suas veias se enchiam, com um medo desconhecido. Sarah silenciosamente, amaldiçoou sua natureza calada. Se ela permitisse aquelas palavras duras e o mau humor de William agora, o que aconteceria em uma semana, ou um mês? Ela voltou para seu marido. _ Aconteceu alguma coisa? Ele torceu a boca, carrancudo, fazendo Sarah pensar que não responderia. Mas, eventualmente, ele disse: _ Não, nada. Volte para a cama. Como havia mudado tão facilmente de um amante apaixonado para aquele homem frio, como se nada tivesse acontecido? Ela caminhou, a passos largos, para perto dele, determinada, antes que ele escapasse para aquela nuvem escura, que parecia envolvê-lo.

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_ Venha, agora, William. É bastante aparente que algo aconteceu para causar esta mudança no seu modo de agir. Ela avançou, para tocar em seu rosto. Com uma velocidade ela não esperou, William pegou seu pulso. _ Que aconteceu? _ Foi isso que perguntei. - Sarah puxou seu braço, tentando libertá-lo dos dedos de William. _ Você está me machucando. Ele a afastou, largando seu braço. _ Afinal, neste dia eu não encontrei nenhum momento de paz _ Paz? Você quer que um momento de paz? Ela olhou fixamente para ele. _ Eu estou indo para a cama. Junte-se mim quando se livrar desse mau humor. Antes de estragar sua explosão de raiva com lágrimas, Sarah se deitou e puxou um cobertor sobre ela.

Capítulo Treze

Sarah rangeu os dentes, incomodada pela dor que pulsava entre seus olhos. Entre o constante andar do cavalo embaixo dela, e o sol brilhante, inexorável, acima dela, Sarah estava certa de que sua cabeça estouraria. Ela deu um mudo lamento e cautelosamente colocou sua mão sobre a fronte, para espiar no sol, que estava aquecendo o lado errado de seu rosto.

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Eles rumavam para o Sul. Mas as terras de Wynnedom ficavam no norte e no leste. Pelos Santos, seu marido estava perdido. Eles não falaram um com o outro desde que haviam pedido licença ao Rei para partirem, naquela manhã. Mas Sarah não tinha nenhum desejo para passar mais tempo na estrada que o necessário e incitou seu cavalo para um passo mais rápido. Surgindo atrás de seu marido, ela chamou: _ William. _ O que? - Ele não se voltou, para olhar para ela e seu humor era não melhor do que tinha sido ontem à noite. Sarah tomou fôlego, lutando para controlar seu próprio temperamento. _ Nós estamos indo na direção errada. _ Não. Não estamos. Seu tom soou como uma advertência que se usa com uma criança petulante. _ Sim. Nós estamos. - Ela o corrigiu no mesmo tom, adicionando: _ Wynnedom tem terras ao norte e leste daqui. _ Eu sei onde Wynnedom tem terras. - Seu tom foi áspero: _ Eu não preciso de você para me dizer isso. Os quatro guardas que o Rei Henry ordenou que os escoltassem, aumentaram a distância dela e de William. Este movimento intencional a fez seu ciente de que algo estava errado. Algo que os guardas conheciam. E se seu súbito distanciamento era uma indicação disso. Aparentemente, William não era a única pessoa que pensava que Sarah podia ser um estorvo. Sarah estreitou seus olhos, tanto da dor, como da desconfiada complacência: _ William! _ O que? Novamente, sua voz carregada de raiva a deixava no limite. Ela torceu as rédeas do cavalo, jogando sua frustração no couro espesso em lugar de no homem exasperante à frente dela. _ Para onde estamos indo? _ Poitiers. 109


Suas respostas... Estava perto de conseguir saber o que… Ela piscou, ante a brusca resposta. Poitiers? Certa que ela ouvira mal, Sarah perguntou a ele novamente: _ Onde? _ Poitiers. Ela estacou. William manteve o trote até perceber que ela não mais o seguia. Ele voltou-se para enfrentá-la. A impressão de que ia enfrentar um oponente veio à mente de Sarah. Sua mão erguida, como uma lança, pronta para a luta. _ O que você quer dizer com Poitiers? _ Eu estou devolvendo você à corte da Rainha. _ Oh, por que razão só está me contando agora? William gesticulou para os guardas se afastarem mais, antes dele responder: _ Isto é um engano, Sarah, para nós dois. Eu estou levando-a de volta para a corte da Rainha para sua própria segurança. _ Um engano? - Confusa, ela perguntou: _ Qual é o engano? _ Nosso casamento. Um punho que acertasse seu estômago não teria machucado mais. E o conhecimento de sua rejeição óbvia machucou muito, levou sua respiração. Quando ela havia permitido que William entrasse em seu coração? Como ele se moveu furtivamente passando pelas paredes que Sarah havia erguido cuidadosamente ergueria contra qualquer pessoa? Confusa por sua própria resposta e brava com ele, Sarah perguntou: _ O que eu fiz de errado? Não tive desempenho satisfatório em sua cama? Sarah não tentou esconder o sarcasmo em sua voz. William agitou a cabeça. _ Isso não tem nada a ver com minha decisão. Você não fez nada errado. Os pensamentos de Sarah eram um redemoinho, tanto que ela mal ouviu sua resposta. _ E como nosso retorno à corte consertará esse engano? Vacilou ao usar aquela palavra.

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_ O rei Henry prometeu enviar uma petição à Igreja, para solicitar a anulação de nosso casamento. Você estará livre para se casar, depois. Ela sentiu que sua boca se abriu, mas não se importou se parecesse com alguma louca. A rigidez de seu corpo, as costas muito eretas e o súbito engasgo, fêz William compreender que ela estava em choque. Mas seu coração e sua cabeça lhe provocavam tanta dor que a única coisa em que Sarah pode pensar foi gritar com William. _ Sobre o que diabo está falando? Anulação? Você perdeu a razão? Os homens de Aryseeth acertaram sua cabeça? _ Sarah... _ Não! - Ela ergueu sua mão, como se assim fosse parar suas palavras. _ Pare, William. Qualquer comportamento elegante abandonou Sarah, quando as lembranças do ato de amor vieram a sua mente.. Uma lembrança que agora parecia rir dela. _ Você tirou de mim a única coisa que tinha para dar e agora pensa em me largar, como um trapo usado? Sarah pausou apenas o suficiente para respirar fundo. _ Confie em mim, Sarah. Ela repetiu suas palavras de alguns dias atrás. _ Confiar em você? Pelo amor de Deus, por quê? Para então roubar meu coração como um ladrão, só para jogar fora depois? Sarah suspirou, tentando encontrar um fragmento de dignidade para não se humilhar mais. Incapaz de pensar com coerência, ela admitiu: _ Senhor Querido, eu fui uma tola em confiar em você. Ela aceitou o risco e descobriu que ele não valia o preço que pagaria. Quando ela aprenderia? Deu sua confiança e seu coração, só para tê-lo jogado em seu rosto, pela idiotice de ter se aberto e confiado? Sarah olhou fixamente para William. O leve rastro de um sorriso, inclinando um lado de sua boca a machucou tanto, quanto suas palavras. 109


_ Está gostando disso, William? Vai recordar a dor que me causou, até que encontre a próxima mulher, tola o suficiente para acreditar em suas mentiras? Ele se aproximou da sela do cavalo, pegando as rédeas, aparentando uma total despreocupação. Seu olhar desinteressado sufocou as perguntas que se assomavam na boca de Sarah. Ela fechou seus olhos firmemente e cerrou sua mandíbula. Por favor, Senhor, por favor, não me deixe chorar agora. Mais tarde, talvez, mas não agora. Quase certa de poder conter as lágrimas, ela se retesou, aprumou seus ombros e fitou William. _ Você estava certo. Este casamento foi um engano. Vamos para Poitiers, meu lorde. Para sua satisfação, havia retomado a arte da duplicidade facilmente. Mentir para ela era o único modo de se defender da dor. Seria o único meio que ela teria pelos próximos dias. William movimentou a cabeça, mas não disse nada. Ele acenou aos guardas, antes de se voltar para arrumar suas coisas, para continuar a jornada.

Disposta a fazer o possível para que aquela viagem levasse o menor tempo possível, Sarah não reclamou sobre da marcha forçada que William impôs, até que ficou muito escuro para ver a estrada adiante. Mas agora, a única parte de seu corpo que não queimava, pulsava, ou doía eram seus pés. As cobertas em baixo de seu corpo eram muito finas para amenizar o desconforto entre seu corpo dolorido e o chão duro. Ela tentou fixar seus pensamentos nas estrelas, mas sua mente não parava de lhe lembrar do que havia lhe incomodado todo o dia. O que ela fez? Duas mãos familiares, levando comida — uma maçã, queijo, pão, seco e carne — bloqueou a vista das estrelas. _ Coma. Ela afastou as mãos de William. _ Eu não estou com fome, na verdade. 109


O pensamento de pôr comida em seu estômago a fez sentir-se nauseada. Ele não partiu como ela esperava. Ao invés disso, William se sentou ao lado dela. _ Você tem que comer algo, Sarah. _ Eu não tenho que fazer absolutamente nada. Para contrariá-lo, ela perguntou: _ Que diferença faz para você? _ Não faria nenhuma, se não estivesse pretendendo morrer de fome. _ Por que você se incomodou em me salvar de Aryseeth? Não seria melhor, mais fácil, simplesmente me deixar com ele? Sarah o aborreceu de propósito. Não existia nenhuma razão pela qual ele não deveria estar tão bravo quanto ela. Mas não esperava que William agarrasse a frente de seu vestido e a puxasse para ele. _ Pare com isto. Você comerá, nem que eu tenha que forçar a comida garganta abaixo. Os palavrões estavam na ponta de sua língua. _ Vá para… - Mas não conseguiu terminar o xingamento. _ Deixe-me só, William. Só me deixe só. _ Eu irei, já que não estamos mais casados. Até então, você precisava fazer como eu queria. A cor sumiu do rosto de Sarah. Ela quis xingá-lo, quis bater seus punhos contra o tórax poderoso. Mas uma palavra, uma pergunta continuava martelando em sua cabeça: Porque ele estava fazendo aquilo? Um dia atrás, ela teria feito esta pergunta com o coração leve. Um dia atrás, ele a provocou, a abraçou, fez amor com ela. Por que agora queria abandoná-la? Mas temeu a resposta para sua pergunta, era melhor se calar. Sarah olhou para ele, procurando por qualquer emoção, qualquer vestígio de que ele poderia pensar nela como algo mais que uma responsabilidade temporária. Não havia nenhuma emoção, nenhum sentimento em seu rosto. Nada que daria uma pista sobre seus pensamentos. A situação pareceu mais íntima com a luz do fogo iluminando seu olhar.

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Sarah estudou seu olhar severo, sem vacilar. Ela já havia visto o vislumbre daqueles olhos, com manchas douradas na agonia da paixão. Testemunhou o reluzir causado pela raiva. E uma imperceptível centelha, quando ele a provocava. Mas aquele olhar fixo, enfadonho, não mostrava nenhum traço de vida ou emoção — nem paixão, raiva, nem a zombaria divertida. Na raiva que se escondia dentro dela, rasgando seu coração, ela compreendeu que algo — algo que ela não podia ainda nomear — estava terrivelmente errado. Algo tão terrível que ele havia decidido abandoná-la, algo que o atormentava. Até que soubesse o que era, seria incapaz de ajudálo, ou se ajudar. Sarah sustentou seu olhar, tentando vislumbrar um pouco de vida, quando ela pegou uma maçã. _ Eu não tenho uma faca. William a observou, franzindo as sobrancelhas. Não confiou naquela súbita mudança de assunto. Só podia significar que Sarah estava tramando algo. William não queria que ela pensasse que podia formar um plano que mudasse suas intenções. Queria que Sarah acreditasse que ele não mais a desejava como sua esposa. Por isso, a tinha humilhado. Tirou seu punhal da bainha e o deu para ela. A arma era muito afiada para usar como talher, mas teria que servir. Sarah olhou fixamente para a arma, então voltou sua atenção para seu tórax. Era mais provável que ela achasse que ele merecia ter a lâmina enterrada em seu peito. Porém, não pretendia lhe dar esta satisfação naquela noite. Ele se inclinou junto dela, advertindo: _ Nem pense nisto. Ela piscou, enquanto literalmente, apunhalou a maçã. _ Não pensar em que? A lâmina cortou a maçã, os dedos de Sarah trabalhando com uma feroz rapidez. William pegou suas mãos e tirou dela a faca e o alimento. 109


_ Não pense em fatiar nada além dessa fruta. Quando seus olhos se arregalaram, com surpresa, William compreendeu que havia cometido um engano. Ela estava observando atentamente, sua expressão. E o tom de sua voz. Sarah não poderia não ser um experiente guerreiro, mas ela havia aprendido a prestar atenção em seus oponentes. William havia esquecido disso. Afinal, como espiã da Rainha, ela havia aprendido a decifrar as emoções de uma pessoa por seus movimentos, o olhar vacilante, ou as diferenças sutis no modo de falar. Se ela pensava que podia enganá-lo, observando e rodeando, estava enganada. Ele poderia ter, inconscientemente, deixado transparecer um rastro de emoção esta noite, mas não iria cometer aquele engano, novamente. De agora em diante, ele iria manter um ferrenho controle sob toda e qualquer emoção. Um feito que poderia ser mais fácil de falar do que de fazer. William fatiou a maçã e deu alguns pedaços para Sarah. Usando a parte inferior de sua túnica para limpar a lâmina, embainhou o punhal. _ Coma e vá dormir. Nós saíremos cedo, amanhã. Sarah mordeu uma fatia de maçã e olhou para ele. _ Está ansioso para se livrar de mim, não está? _ Não vejo nenhuma razão para nos demorarmos. Ele se virou, e quando se afastou, ouviu a voz de Sarah, num sussurro suave, dizer: _ Você é um mal mentiroso, William. Tinha feito tudo certo. Ele manteve um tom de voz quase aborrecido ao se dirigir a ela. Deixou uma carranca em sua expressão. Então, o que ela viu? O que Sarah pensou ouvir em sua voz? Ou eram simplesmente especulações para pegá-lo desprevenido? Sarah viu suas costas endurecerem por um breve momento e soube que William ouviu o que havia dito. Era sua intenção. Que ficasse alerta, achando que podia pegar suas mentiras. Quanto mais ele tentasse esconder suas emoções, mais fácil seria ver quando William tentasse enganá-la. 109


Sarah não tinha se tornado a espião da Rainha por nada. Sempre foi boa em perceber a expressão de um olhar, uma mudança no tom de voz... As pessoas costumavam pensar que mascarando sua expressão, ou tentando controlar os movimentos do corpo, seria o mais sábio quando queriam esconder a verdade. Em algumas pessoas, um olhar parado, ou um corpo imóvel foi o primeiro sinal de que algo não estava certo. E outras falavam mais rápidas ou mais lentas, ou mudavam o tom da voz, quando tentavam esconder algo. E existiam aqueles como seu marido. Os fáceis de desmascarar, que tinham as emoções estampadas nos olhos. Todo o resto podia estar em harmonia perfeita, não se percebendo nada na expressão de seu rosto, no modo como se moviam, ou pelo tom de sua voz. Mas a mais leve diferença no matiz de seus olhos, ou um leve piscar, mostrava mais do que eles pretendiam. Talvez William não gostasse dela. E talvez acreditasse, verdadeiramente, que seria melhor para ela voltar para a corte. Mas Sarah não acreditava nisso. Qualquer uma das duas hipóteses a machucava mais do que devia, e se Sarah não conseguisse as informações das quais precisava, existia só uma pergunta caso respondida, poderia fornecer as armas para Sarah lutar contra essa decisão dele. Por quê? Como ela iria descobrir era um mistério. Algum descanso poderia ajudar. E, também, alguma comida. E assim o fez. Porém, notou que ele ficou cauteloso quando ela parou de perguntar e pareceu se curvar a sua vontade. William, obviamente, esperaria mais brigas da parte dela. Sarah virou seu rosto, afastando o olhar do grupo juntado em torno da fogueira de acampamento e sorriu. Oh, ele conseguiria sua briga, mas não o tipo que estava procurando. William, uma vez lhe disse que podia perceber quando ela estava tramando algo. Bom. Ela daria a ele algo para se preocupar. Se ele estava preocupado sobre Sarah estar tramando algo, era só porque temia que ela arruínasse seus planos. E se William tinha receios sobre isso, tinha todos os motivos: Sarah estava determinada a frustar seus planos de abandoná-la na corte, apesar de que, para

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William, não deixaria escapar nada sobre suas intenções. Muita coisa estava em jogo, e Sarah quase lamentava o que iria fazer.

Capítulo Quatorze

William avistou a estrada adiante. Embora a jornada do palácio de Sidatha para a Inglaterra tenha levado quase um ano, não parecia tão longa como essa. Não tendo muito conhecimento da área, ele deixou os guardas o convencerem a tomar outra rota. Eles insistiriam que tornaria a viagem menos longa. Menor em distância, talvez, mas não em tempo. Era uma rota mal cuidada, um terreno áspero. Se William não conhecesse Sarah, pensaria que a mulher que montava atrás dele, rindo e conversando com os guardas, estava tendo um grande prazer em ver esta viagem prolongada. Talvez não exatamente feliz, mas ela não parecia aflita. 109


Quem a observasse, distraidamente, não imaginaria que aquela mulher esivesse tramando alguma coisa. Claro que ela como era — podia William esperar outra coisa? A preocupação sobre o que ela planejava fazer estava levando William à loucura. O que era, provavelmente, parte de seu plano. Sarah o faria perder a razão, então declararia que eles não podiam ter o casamento anulado porque ele não estava em seu juízo perfeito, para solicitar isso. Considerando que estava com ganas de estrangular os guardas de Henry, que conversavam com Sarah, seu plano, certamente, iria funcionar. _ William! Ele deu um gemido, quando ouviu Sarah chamá-lo. Voltou à cabeça para olhar para ela por cima do ombro. _ O que? Sarah indicou, com a cabeça, um local na beira da estrada, sorrindo e fazendo um beicinho. Então perguntou: _ Se nós pararmos para uma refeição, vamos nos atrasar muito? Ele forçou sua mente para se concentrar e afastar a idéia de beijar aqueles lábios adoráveis, e respondeu: _ Eu disse que você comesse algo esta manhã. _ Eu não me sentia bem. Mas, agora estou com muita fome. Se isso não for nos atrasar muito… _ Claro que nos atrasará. Mas será difícil ganhar as boas graças da Igreja se deixar minha esposa morrendo de fome. Sua resposta provocou um olhar de fúria da parte da dama. Agora, ela parecia pronta para amaldiçoar. Wiliam a enfrentou: _ Sinto cheiro de comida. Talvez exista uma aldeia adiante, nós pararemos lá. Esperava que fosse uma aldeia. Uma área pública forneceria o lugar perfeito. Haveria menos chances para que ele e Sarah tivessem muito contato. No momento, William não queria estar a sós com ela.

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Seria muito fácil, no momento, iniciar uma discussão, que ele sabia que não iria terminar a seu favor. Estava muito bravo, na verdade, cheio de ciúmes, ante o simples pensamento de Sarah se casando com outro. Isso era algo que William precisava superar. A pergunta era — como? Talvez a pergunta devesse ser — por quê? Antes de poder achar as respostas, eles estavam no centro de um agrupamento de cabanas. Era um local suficientemente público, para ele. William desmontou, então ajudou Sarah a appear de seu cavalo, antes que qualquer um dos guardas pudesse oferecer a sua ajuda. Com as mãos em sua cintura, ele a colocou no chão. Quando sua cabeça estava próxima da sua, Sarah se encostou, roçando o rosto contra o dele. William estacou momentaneamente divertido com o leve toque, antes de ordenar. _ Sarah, não. Para seu assombro, ela obedeceu, sem discutir. Uma vez que a colocou no chão, Sarah pousou as mãos contra seu tórax. _ Por que está fazendo isso conosco? Sem esperar por sua resposta, ela se afastou, levando junto com ela os guardas do rei Henry. Os dois mais jovens largaram suas tarefas para se certificar que Sarah estivesse confortável. Um deles conseguiu um barril vazio para ela se sentar, enquanto o outro trouxe água para beber. William cerrou os dentes, quando uma onda de raiva irracional tomou conta dele. Duvidava que pudesse evitar aquele tipo de atenções com ela na corte, então isto era algo que precisava se acostumar. Caso contrário, ele mesmo iria parar na prisão, na primeira vez que abatesse algum de seus admiradores. Um homem de idade avançada e alguns habitantes da aldeia se aproximaram para espiar a pequena comitiva. Um dos guardas mais velhos se dirigiu trôpego, para perto de uns arbustos e caiu de joelhos, com ânsia de vômito. Claro, não importando sua própria saúde, sua esposa julgou conveniente prestar ajuda ao homem doente. Se aproximando rapidamente dela, William gritou: 109


_ Sarah, saia já daí. Tarde demais. Ela já estava ajoelhada ao lado do homem, verificando seu rosto, para ver se tinha febre. _ Se levante. - William pegou seu braço: _ Deixe os outros homens verem o que ele tem. _ William, ele precisa de ajuda, está doente. _ Aye, e você não tem nenhum conhecimento do que o adoeceu. Está colocando sua própria saúde em risco. Sarah entendeu sua preocupação? Claro que não. Ela se afastou, colocou as mãos na cintura e cravou seus olhos nele. _ Ele não parece febril. É mais provável que tenha comido ou bebido algo, esta manhã, que não lhe sentou bem no estômago. William se inclinou sobre ela, intencionalmente buscando intimidá-la. _ Eu pensei que você fosse espiã da Rainha — não seu médico. Deixe os homens cuidarem dele, Sarah. Alguém menor e mais fraco de espírito o teria escutado. Um homem adulto teria seguido sua ordem. Sua pequena esposa, por outro lado, se voltou para ele e o advertiu: _ Você desistiu do direito de me ter como esposa. Perdeu o direito de me dar ordens. Então não diga o que posso ou não fazer. William pegou seu queixo na mão. _ Eu nunca prejudiquei uma mulher em minha vida, Sarah, mas... Para sua surpresa, ela o interrompeu com uma gargalhada, dizendo: _ Nem vai prejudicar agora. Pior que vê-la ignorar suas ordens, era saber que estava certa. William se aproximou muito perto para o gosto dela. E ainda pior que saber que Sarah estava com a razão, era o fato de admirar sua audácia. Ele sentiu a tensão tomar conta de seu corpo, ao ver o modo como Sarah piscou os cílios. A respiração dela era morna e convidativa sobre seus lábios.

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Antes de poder tocar seus lábios, um grito de horror ecoou, separando-os. William a afastou e sacudiu a cabeça, tentando disfarçar a traiçoeira névoa de desejo, então se voltou para ver de onde vinha o som. Uma mulher de cabelos brancos, com o conteúdo de sua cesta, agora vazia, à seus pés, olhava fixamente para ele, chocada. Ela deixou a cesta cair de seus dedos, então fez o sinal de uma cruz, sussurrando o que, para William, pareceu uma oração ou uma maldição. O homem de idade avançada que se aproximou, antes do guarda passar mal, veio para o seu lado. Tirou o capuz de sua cabeça, torcendo-o em suas mãos, quando perguntou: _ Meu senhor, quem é? _ Quem sou? Sarah colocu a mão na boca, dando uma risadinha, pela sua inabilidade para formar uma pergunta decente. William lhe deu um olhar de advertência, antes de perguntar ao homem: _ Quem você acha que eu sou? _ É o filho do Senhor Simon?

Quase dezessete anos passaram por sua mente, numa fração de segundos, como se não fossem nada além de um pesadelo. William estremeceu, enquanto as memórias que havia enterrado giravam violentamente por sua cabeça. Sarah tocou em seu braço, dando a ele o apoio que precisava, já que suas pernas pareciam não obedece-lo. Um apoio que William compreendeu que necessitava muito. Ele respirou fundo, sentindo a garganta apertar-se: _ Gunther? Os braços finos o abraçaram. _ Nós pensamos que você estava morto.

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William devolveu o abraço, olhando por sobre a cabeça quase calva do homem para o guarda. Estranhamente, o guarda doente agora parecia bem. Os homens do Rei o haviam conduzido por aquela rota, intencionalmente. Haviam obedecido a ordens do soberano. Ele olhou de relance para Sarah. O refletir das lágrimas que brilhavam no canto de seus olhos, lhe convenceu que ela estava inocente nesta manobra. Quando ela tentou se afastar dele, William, instintivamente, a alcançou e manteve próxima. _ Não, não se afaste. Gunther o enlaçou e começou a caminhar ao lado dele. _ Ah, William, fez bem a este velho coração ver você. A mulher, que havia gritado, juntou-se a eles. Ela esteve o tempo todo atrás de Gunther e silenciosamente, observava William. Levou alguns momentos, puxando suas memórias, para perguntar: _ Berta, é você? - A mulher movimentou a cabeça, então se atirou nos braços de Gunther, soluçando. William indicou Sarah, que permanecia a seu lado. _ Esta é a Senhora Sarah, minha esposa. William parou, perguntando-se por que aquelas palavras saíam tão facilmente de seus lábios, quando logo não seriam mais verdadeiras. _ Sarah, este é Gunther, mordomo do meu pai, e sua esposa, Berta. Ele se debruçou e adicionou: _ Seja cuidadosa, Berta é muito sagaz. O riso logo afugentou as lágrimas da mulher, e ela se afastou do abraço de Gunther. _ Você veio para casa. William observou o pequeno conjunto de cabanas. _ Parece estar tudo do mesmo modo, mas faz tanto tempo, não lembro de muitas coisas. O que aconteceu por aqui? _ O irmão de seu pai nos dispensou, logo que você desapareceu. Gunther encolheu os ombros.

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_ Nós não tihamos para onde ir. E ele não pareceu se importar por tomarmos este pequeno pedaço de terra, para viver. William torceu a boca, emitindo um grunhido. _ E meu tio foi bom com vocês? Berta silvou, então respondeu: _ Foi ótimo, depois de morto. _ Chega por agora, Berta. - Gunther bateu levemente em seu ombro: _ Ele, inesperadamente, faleceu há mais ou menos dez anos atrás. _ O castelo? _ Permanece vazio. _ Meu lorde. - O guarda, milagrosamente curado, o abordou, lhe estendendo uma bolsa, que provavelmente, conteria uma missiva enrolada. Ele manteve sua distância, tirando o conteúdo e estendendo o rolo de papel. _ O rei Henry me ordenou que lhe entregasse, quando chegássemos. William tomou a carta das mãos do homem. _ Há qualquer coisa mais que eu deva saber sobre isso? O guarda hesitou, antes de agitar sua cabeça. _ Não. _ Não? Ou não devo saber já? Com uma volta rápida, o guarda se afastou, juntando-se aos outros homens. William gemeu ante a saída precipitada. Estava quase com medo de ler, certo que conteria algo de que não gostaria. Seu estômago se revolveu, quando removeu o rolo de papel da bolsa, e observou a mensagem. O castelo Brownyn e as terras ao redor são seus, reconstrua, fortaleça, e proteja para a Senhora Sarah de Bronwyn. Nas mortes do senhor e senhora, a propriedade passaria para seu filho ou filha mais velhos. Porém, caso a criança não da Senhora Sarah não for de sangue Bronwyn, a propriedade reverterá para a Coroa. Pela terceira vez ele releu a missiva, as palavras girando na página. Sarah tocou em seu braço. 109


_ William? Com grande cuidado, ele enrolou a missiva, colocou na bolsa de couro e enfiou em sua túnica. _ Nós discutiremos isto mais tarde. Muito mais tarde — depois que ele tivesse tempo suficiente para afastar a névoa vermelha que tomava conta de sua vista, ante a afronta do Rei. Ignorando olhar, William voltou-se para Gunther. _Você disse que o castelo parece vazio? Por quê? _ A princípio, nós não sabíamos o que fazer e esperamos o Rei mandar um novo senhor. Quando nenhum chegou, cuidar dos homens e do castelo do senhor Arthur era extremamente difícil, éramos poucos para muito trabalho. William entendia. Ele já havia notado que na aldeia não viviam mais que uma dúzia de pessoas, a maioria de idade avançada. _ E então… - Gunther se calou, um olhar confuso erguendo sua sobrancelha. _ Alguns anos atrás, coisas estranhas começaram a acontecer no castelo. Berta olhou para cima: _ É assombrado, meu lorde. Ela movimeu a cabeça, vigorosamente, como se o movimento tornasse sua crença menos absurda. _ Por almas. Bem, claro que era assombrado por almas. O que mais assombraria um castelo? William fechou seus olhos, segurando o sarcasmo para ele mesmo, e esfregou a ponta de seu nariz. Tornando a declaração ainda pior, Gunther adicionou: _ Todos nós pensamos que era o seu espírito que, finalmente, voltava para casa. Mas, já que não está morto, talvez sejam seus pais que caminham pelas ameias. No momento, usar o humor parecia a melhor saída. _ Eles assombram durante o dia? Berta olhou para ele, como se tivesse perdido a razão: _ Claro que não. _ Então eu darei uma olhada no castelo. 109


Gunther se apoiava ora num pé, ora noutro. _ Meu senhor? _ Sim? - William ouviu a própria tensão em sua voz, a impaciência crescendo. _ Não existe muito para ver. Bronwyn tinha sido nada mais que uma pequena fortificação. E, nestes anos todos, não ter muito para ver podia significar que estava tomado por um matagal, sofrido um incêncio, coisas assim. _ Eu ainda quero ver. O velho servo o levou pelo caminho estreito. Seguiram por um bosque povoado principalmente por árvores e amoreiras, mortas e caídas no chão que dificultavam a passagem. Sarah e os quatro guardas os seguiram. Por que passaram por aquela floresta morta, que separava a pequena aldeia do castelo? William esquadrinhou o local com os olhos. Aquilo não podia ser Bronwyn, nem mesmo em seus piores pesadelos podia ter imaginado algo assim. Ele girou os ombros e abriu, sem tocar, um caminho com sua espada, cortando as ervas daninhas. Uma vez próximo ao castelo, William agitou sua cabeça. Enquanto o portão e as torres pareciam em boas condições, o resto da paliçada de madeira, que formavam as paredes, havia desmoronado. A natureza havia declarado guerra à Bronwyn e, aparentemente, estava levando a melhor. Ele e os dois guardas mais jovens começaram a cortar mais ervas daninhas na muralha. Os estábulos haviam virado em pedregulhos enegrecidos pelo tempo. O pavilhão central, pelo menos, parecia em bom estado. Os degraus de pedra, que levavam a torre, pareciam intactos, pelo menos não haviam se desintegrado debaixo de seus pés. Porém, os degraus de madeira no piso da fortificação estavam apodrecidos, impossibilitando a entrada da torre por aquele lado. William ergueu uma sobrancelha, e ordenou aos outros: 109


_ Permaneçam atrás de mim. Ele golpeou, com o punho de sua espada contra um pedaço podre de parede. A parede se quebrou e ele perscrutou o lado de dentro. Para sua surpresa, a parte de dentro parecia em ordem. Ele tirou a cabeça para fora e olhou para Gunther. _ Alguém está ficando aqui. Gunther e Bertha responderam, em uníssono. _ Fantasmas, nós dissemos a você, meu lorde. William cerrou os olhos. Aquele dia parecia estar se tornando uma provação. Uma esposa que lhe desobedecia constantemente. Os guardas que o enganaram para que tomasse uma estrada diferente. Uma aldeia e pessoas que lhe devolveram mais lembranças que poderia imaginar. Uma missiva do Rei Henry que lhe dizia que William teria suas terras, ou a anulação de seu casamento, ambos não. A missiva era um triste gracejo. E o seu castelo não era nada além de uma torre, tomada por ervas daninhas, vegetação e, de acordo com Gunther, fantasmas. E agora? Ele vagamente ouviu Sarah prender a respiração, antes de desabar a seus pés.

_ Sarah, acorde! A voz de William pareceu estar vindo de uma grande distância. Ela tentou atender seu pedido, mas não conseguia encontrar a saída da névoa que a cercava. _ Sarah. - A cama afundou, com o peso de William. Cama? Onde ela estava? Lutando contra o desejo de voltar a dormir, Sarah virou a cabeça e forçou seus olhos a ficarem abertos. Só os fechou novamente quando viu o clarão da luz de uma tocha. _ Está acordada? Ela protegeu seus olhos com a mão. _ Eu acho que sim. Onde nós estamos? _ Bronwyn. Ele a puxou, arrumando os travesseiros atrás dela e a reclinou, suavemente, contra eles. _ O que aconteceu? 109


William lhe estendeu um naco de pão. _ Eu esqueci de alimentá-la. Você desmaiou. _ Oh. Eu estava me sentindo enjoada. Ela olhou de relance a câmara. _ Para uma fortaleza em tal abandono, este quarto parece bem arrumado. _ Estou certo que podemos agradecer aos fantasmas por tal feito. Ela quase sufocou com o pão e William lhe estendeu uma taça com água. _ William, isto não é possível. Os fantasmas são espíritos, eles não podem varrer e limpar. _ Não é engraçado? William se moveu para sentar em um banco, ao lado da cama. _ Aparentemente, alguém está enganando os aldeões há muito tempo. Entre mordidas, Sarah perguntou: _ E o que você vai fazer em relação a isso? _ Fazer o quê? Não tenho nada com isso. _ Como não? Ele se debruçou, recuperou o rolo de papel do chão, e o deu para ela. _ Aqui, leia. Sarah deu outra mordida no pão e o estalou em sua boca antes de pegar a missiva. William segurou a taça para ela. Quando Sarah leu a última linha, quase se sufocou com o pão. Tirou a taça da mão dele, dando um grande gole. Quando parou de tossir, ela leu a missiva novamente. _ Este tem que ser um gracejo cruel. Sarah se voltou para ele. _ William, eu não tive nada a ver com isso. Ele tomou a missiva de sua mão e pôs na bolsa. _ Eu nunca achei que você tivesse. Sarah se enfureceu. Ele estava sendo cortês e preocupado com ela... Algo não estava certo. Ela procurou seu rosto. _ O que está fazendo, Sarah? 109


Rapidamente, girou a cabeça, e disse: _ Nada. Ele se debruçou no banco. _ Eu estou muito cansado dos seus jogos. _ Jogos? Ela torceu as cobertas nas mãos. _ Você me ouviu. Procura por algo em meu rosto. Algo que lhe dê uma pista sobre o que estou pensando. O que observou? Sarah teve que lhe dar crédito. Não muitas pessoas compreendiam o que ela estava fazendo. Ela não estava ainda pronta para dizer a ele que observava para ver se quaisquer manchas de douradas reluziam em seus olhos. Se Sarah lhe dissesse, ele acharia um modo de evitar seu olhar. Então, ela disse: _ Eu estava tentando determinar se sua carranca era por estar cansado, ou por estar irritado. William podia se manter imóvel, impassível, e a ignorar, tentando enganá-la. Mas ele não podia fazer nada para mudar a reação de seus olhos. Ela sempre veria as pupilas aumentadas e o vislumbre dourado de paixão, ou o reluzir do divertimento, e até o refletir da raiva. _ E como faz para descobrir qual a causa? Ela encolheu os ombros. _ Eu pensei que, se seus olhos estavam vermelhos, você estava cansado. E se não é por isso, eu acho que está com raiva. Ante seu olhar fixo, ela adicionou: _ Isto é só um jogo, William. Eu não conheço seus pensamentos. Só posso saber se você está cansado ou com raiva. Antes de poder inventar outra mentira para distraí-lo, William se ajoelhou na cama, debruçando-se sobre ela. _ Que tal seus olhos, Sarah? Como eles mudam, conforme seu humor? 109


Seu coração bateu tão forte, que Sarah achou difícil respirar. Ela queria que William a tocasse que a beijasse. Necessitava seu toque, seus lábios sob a sua pele. Mas não se, em pouco tempo, ele a abandonasse. Ela olhou fixamente para ele, sabendo que aquilo podia machucar mais que qualquer coisa. _ É bem vindo a tentar descobrir por si mesmo.

Capítulo Quinze

_ Quer que eu faça isso mesmo? Sarah sabia que isto não seria fácil. Mas precisava saber o que havia mudado entre eles. Antes de William escapar, fisicamente e mentalmente, ela enroscou os dedos em sua túnica e o segurou próximo à cama. _ Por que não, William? O que mudou para que me repudie tão firmemente? _ Eu disse isso? Ele afastou as mãos de Sarah de sua túnica, e então se sentou no banco. _ Eu não lembro de ter repudiado você. Para ser honesta, nem ela. _ Ainda que você não tenha usado esta palavra, você demonstra isso. _ Seria mais fácil para você acreditar nisso? _ Por quê? Eu não mereço, ao menos, saber por que vou ser abandonada? Ele tocou em sua face, suavemente, sua mão morna contra sua carne. _ Esta discussão não seria mais fácil na corte, onde você estará cercada pelas pessoas que conhece, em lugar de ser travada numa cama, sozinha num quarto comigo? _ Não, William. Não seria. Eu não quero público, e eu não posso agüentar outro passar outro dia, sem perguntar o que fiz de tão errado. _ O que você fez? 109


Ele olhou fixamente para ela. _ Sarah, você não fez nada errado. Ela não estava certa se devia rir ou chorar, diante daquela discussão tão absurda. William, obviamente, sentia algo por ela. E Sarah sabia que podia, facilmente, se apaixonar loucamente por ele, com algum incentivo. Ainda assim, eles estavam discutindo a anulação de seu casamento. _ Então, você diz que não me repudia e que eu não fiz nada errado. William. Não são essas as razões para querer terminar com nosso casamento. _ É difícil explicar. _ Você devia tentar. William tinha que compreender que não podia pedir que ela aceitasse aquela decisão, sem maiores explicações. _ Sarah, você não merece isso. _ Você não conseguirá que eu concorde com este tipo de argumento. _ Eu quis dizer que você não merece estar casada com um homem que não possui nada. Nenhum título, nenhuma riqueza, nada. Sarah, repentinamente, entendeu o perigo de se casar com alguém sem o benefício de um noivado, ou namoro: não houve tempo para eles se conhecerem. Nenhum tempo para descobrir o que o outro pensava, ou com o que sonhava e o que cada um esperava do futuro. As únicas coisas que eles tiveram a oportunidade de descobrir, durante seu curto casamento, era o muito que apreciavam se beijar, fazer amor, provocar um ao outro, com desejo. Isso, obviamente, não era suficiente para William. _ William, eu não sou mais uma criança, com sonhos de menina. Eu não me importo com um título, só com o homem. Quando Sarah pronunciou aquelas palavras, compreendeu que eram verdadeiras. Enquanto, antes havia usado este argumento para não se casar com ele, agora isso não mais importava. 109


_ E você tem alguma coisa. Sarah ergueu a mão, indicando a câmara. _ Você tem esta fortaleza. _ Até mesmo isso não é meu. É seu. _ Você conhece bastante bem o Rei Henry, ele fez isto somente para lhe convencer a mudar de idéia. Ou para que, pelo menos, pare e pense. Henry não iria dar terras para Sarah sem um motivo, antes a daria para um inimigo. Terra era terra, no estado que estivesse, tinha um grande valor. _ Você podia ter morrido. Ou pior. Agora eles estavam chegando ao ponto crucial do problema. Ela ouviu a raiva e desânimo em sua admissão. _ E eu não morri, você veio me libertar. Você me salvou dos horrores que Aryseeth tinha planejado. _ Era meu dever. O rosto de William se avermelhou: _ Já que foi minha culpa você ter sido capturada. Seu dever? Ela escolheu ignorar aquela parte de sua explicação, no momento, enfocando a idéia de culpa que William carregava. _ Como podia ser sua culpa? _ Eu a deixei sozinha. Não, não havia deixado. _ Você me deixou com quatro guardas armados. _ Que não tinham nenhum treinamento para enfrentar os homens de Aryseeth. Ela contrapôs: _ Que derrotaram os homens de Arnyll. _ Obviamente, eles eram incapazes de fazer isso uma segunda vez. Sarah se sentou, tentando entender seu argumento. _ Vejamos, eu entendo desta forma: você acha que falhou em seu dever de me proteger, então decidiu me abandonar, como uma forma de compensação? Sarah agitou a cabeça, na falta de lógica daquela explicação absurda. 109


_ Não. Ele fixou o olhar nela. _ Eu estou lhe compensando, lhe dando a oportunidade de se casar com alguém que possa cuidar melhor de você. Ninguém podia cuidar melhor dela que William. Mas estava curiosa para saber seus pensamentos. _ Melhor para cuidar de mim de que forma? _ Duvido que Aryseeth descanse enquanto não levar Hugh, Guy e eu para o cativeiro novamente. Isso a coloca em risco, também. Um risco que não estou disposto a correr. Você precisa se casar com um homem que possa mantê-la segura, Sarah. _ Não importando o que eu penso sobre esta decisão? Entendia a preocupação de William em relação ao escravo Aryseeth. Era uma vergonha o Rei não ter ordenado à morte daquele animal. Até então, Sarah não podia imaginar ninguém melhor para protégé-la que William. _ Você não está em posição para julgar a questão de uma forma racional. Ela não podia pensar de forma racional? E William achava que ele sim, podia? Ela realmente não quis ouvir sua resposta. _ Você se sentiria em dívida com qualquer homem que viesse para resgatá-la. _ Este é o único sentimento que não tenho em relação a você. _ Se estiver se referindo ao que compartilhamos na cama, lhe asseguro que não passa de luxúria, não envolve nenhum sentimento mais profundo. O coração de Sarah batia forte. Teve que se segurar para conter sua ira, que ameaçava lhe sufocar. _ Quer dizer que eu gemeria e me retorceria para qualquer homem? Seus olhos soltaram faíscas, mas ele movimentou a cabeça. Se perdesse o controle, não teria mais nenhuma idéia de como enfurecê-la, embora começasse a sentir-se irracional, com aqueles comentários absurdos. Infelizmente, Sarah estava se tornando tão irracional quanto ele, e William se sentiu impotente para terminar com aquela discussão. 109


O arrogante sabe-tudo, satisfeito consigo mesmo, assistia seu rosto se avermelhar, com fúria contida. Ela bateu com os punhos na cama e cravou seus olhos nele. _ Talvez, marido, nós devessemos testar a verdade desta sua tese. William agarrou Sarah pela frente de seu vestido e a puxou para cima da cama. Quase grudando o nariz no dela, ele rosnou uma ordem: _ Não experimente ou... _ Ou o quê? _ Você está louca, minha esposa, e age como tal. _ Sua esposa? – Sarah gritou: _ Eu não sou mais sua responsabilidade. Seu dever. Então que diferença faz o que eu faço? Em algumas semanas, os votos que fizemos não terão mais valor. _ Por Deus, mulher, desde que eu sou seu marido, você fará como eu disser. Ela ponderou sua resposta, por apenas alguns momentos, sabendo que aquela discussão podia terminar mal e pesou suas chances. Sarah empurrou seu tórax: _ Tire as mãos de mim, e me deixe sozinha. _ Você pensa que pode me dar ordens? Com uma voz ferina, adicionou. _ Você me ouviu. William, abruptamente, a puxou. Ela desabou na cama, com ele prensando seus pulsos contra o colchão. Inutilmente, Sarah tentou se libertar. _ Fique quieta. - Ele segurou seu rosto entre as mãos. _ Você é mais fraca que eu, Sarah. Não lute comigo. Eu tirarei as mãos de você quando eu quiser. _ Então você é o mais forte, o melhor, pronto. - Ela gritou, empurrando-o. _ Deixe-me sozinha. William cortou seu grito, tomando seus lábios, varrendo os protestos, lhe deixando sem escolha e exigindo uma resposta. Sarah mal conseguia controlar um leve sorriso, contra os lábios dele. Era tudo o que queria. Logo ele interrompeu o beijo; correndo os lábios por sua orelha, ele sussurou, rouco: 109


_ Você é uma meretriz ardilosa! _ O que mais podia você esperava? A risada que Sarah lutava para conter escapou. Ele apertou seus pulsos. _ Eu estava certo. Você tem as habilidades de uma feiticeira. Sarah encostou-se nele ainda mais. _ E eu estou casada com um bruto, que pensa que pode me dar ordens. _ O jogo que está fazendo é muito perigoso, Sarah. _ Oh, William, você se preocupa muito. Sarah esfregou o rosto contra o dele. _ Somente porque eu posso enfurecê-lo, não significa que você vai perder o controle e me machucar. Você tem muita honra para fazer algo assim. William retesou o corpo e o seu súbito afastamento a gelou tanto como se lhe tivessem mergulhado em água gelada. Sarah o ouvir suspirar. _ Venha, é hora de nos juntarmos aos outros. Sarah estreitou seus olhos. De forma que era isto. Não só ele acreditava que havia falhado em seu dever de protegê-la, como também acreditava que, tendo feito isso, sua honra estava manchada. Para um guerreiro, dever e honra eram tudo. Sarah entendia, mas como ela, que não conhecia nada sobre batalhas e sobre as noções de honra dos homens, faria para convencer William de que estava errado? William estava certo pelo menos num ponto. Eles precisavam voltar para a corte da Rainha. Não para uma anulação, mas porque Eleanor era a única mulher que poderia ajudá-la. Isto é, se depois deste último fracasso, a Rainha a recebesse. Talvez, então, conseguisse sua ajuda para descobrir um caminho para manter seu casamento. Sarah tomou a mão que William oferecia. Ele a puxou de cima da cama e alisou a saia enrugada de seu vestido, resmungando: _ Sabe o que devem estar pensando? 109


Sarah cutucou seu ombro, divertida. _ Que nós estávamos fazendo o que maridos e mulheres fazem na intimidade. _ Não duvido. O canto da tapeçaria de um dos cantos pareceu se mover. Sarah piscou não muito certa de que o movimento realmente aconteceu. Novamente, o movimento se repetiu. Ela colocou um dedo nos lábios de William, e então apontou para a parede puída. Uma vez mais, o canto ondulou, como se movido por uma mão invisível. Sarah se encostou mais em William. Mas ele correu para a tapeçaria e a puxou da parede. O som apressado de passos e sussuros amedrontados ecoaram por detrás de uma porta aberta, que a tapeçaria escondia na parede. _ Fique aqui. Acho que nós descobrimos os fantasmas de Bronwyn. Sarah se sentou na extremidade da cama, esperando William voltar com os ‘fantasmas’ que espantaram os aldeões. Ela não teve que esperar por muito tempo: William voltou pela porta com dois meninos. Uma mulher jovem seguia atrás deles. Ele soltou os meninos no chão. _ Expliquem-se. Para o total espanto de Sarah, a mulher jover, não mais que uma menina, deslizou o vestido por seus ombros, deixando-o cair a seus pés. A menina abordou William, rebolando os quadris de forma sugestiva. _ Se você nos deixar ir, pode me possuir. Sarah arregalou os olhos, em choque, muda ante a proposta da menina. Aquela criança mal tinha idade para se casar. Onde havia aprendido tal comportamento? Por seus movimentos sinuosos, sedutores e olhares insinuantes, estavam diante de uma sedutora nata ou alguém totalmente sem juízo. Enquanto Sarah não conseguia articular nenhuma palavra, pasma com a declaração da menina, foi William quem chamou sua atenção. Que homem saudável não se sentiria tentado com aquela menina? 109


Sarah sentia um zumbido nos ouvidos, a raiva crescendo em proporções gigantescas. Quando viu a reação de seu marido, como que pregado no chão, o olhar fixo na visão na frente dele, mais sua fúria aumentou. Finalmente, ele respondeu. _ E o que eu iria fazer com você? Ele apontou para o vestido no chão. _ Ponha suas roupas agora. Sua resposta amenizou a fúria de Sarah, até a garota o ignorar, movendo-se mais próxima apenas para colocar suas mãos contra o tórax do guerreiro. Antes de qualquer palavra poder deixar os belos lábios daquela sedutora, Sarah grunhiu. _ Talvez sua ordem não tenha sido clara. Ela agarrou o vestido do chão e o emperrou no espaço entre a menina e William: _ Se vista! O rosto da menina se avermelhou sob o escrutínio de Sarah, e ela, depressa se vestiu. William voltou-se para confrontar os meninos. Amontoadaos juntos, contra a parede, eles se encolheram. Sarah sentiu pena dos rapazes. Eles se mostravam aterrorizados ao que, seguramente, parecia para eles um predador pronto para se lançar sobre a presa. Mas logo, não mais se apiedou, quando lembrou de Gunther, Berta e os outros vivendo em palhoças. William cruzou seus braços e apenas olhava fixamente para eles. O que foi suficiente para que um dos meninos se lançasse em direção da porta, tentando escapar. Logo o menino viu que não devia menosprezar a velocidade de William. Quem confundisse seu tamanho com lentidão, nunca o havia visto em movimento. O menino o havia subestimado. Ele não precisou dar dois passos, para agarrar o garoto pelos ombros. _ Você não vai fugir. William o sacudiu e o empurrou próximo ao seu companheiro acusando: _ Então são vocês os fantasmas de Bronwyn. 109


Desde que ele não havia feito uma pergunta, os meninos sabiamente seguraram suas línguas. A garota não foi tão sábia. _ São estranhos aqui. O que importa para vocês? Para seu espanto, Sarah a empurrou para juntar-se aos meninos. Deixaria William lidar com os três, porque ela, de repente, se sentiu muito cansada para se importar, e deitando na cama, se recostou nos travesseiros. William olhou para ela, como se estivesse tentando decidir se os expulsava do quarto e deitava com ela ou tirava mais informações dos três fantasmas. Sarah decidiu por ele. _ Eu estou bem. Continue. William se voltou para confrontar os três. _ Há quanto tempo vocês estão enganando os aldeões para mantê-los longe? A menina ergueu a cabeça, jogando os cabelos sobre seu ombro. _ Nós não temos que dizer nada a você. _ Aí é que se engana garota. Tem que me contar tudo. _ Quem você pensa que é? Sarah arregalou os olhos ao ouvir o tom agressivo da menina. Ela não compreendia o quão perigoso era falar assim com um homem, um estranho, armado? Sarah virou a cabeça para esconder um sorriso divertido e lembrou-se de si mesma, com aquela idade. Claro que a menina entendia. Ela estava assustada e aquelas palavras de desafio eram suas únicas formas de defesa. Especialmente, porque William já havia desdenhado de sua propostace, com a esposa ciumenta presente, ela compreendeu o quanto tinha sido perigosa sua oferta. _ Quem eu penso que sou? A impaciência retumbou na sua voz. _ Eu sou o Senhor de Bronwyn e você dirá a mim o que eu quero saber. Sarah olhou para o grupo, curiosa para ouvir sua resposta. O mais alto dos dois meninos se adiantou para responder: _ Meu senhor, eu sinto muito, nós não sabíamos. Nós temos estado aqui no castelo… 109


Ele parou, como se incerto: _ Faz muito tempo. Talvez três ou quatro invernos. Viemos para cá logo depois da morte de nossos pais, no incêndio. O menino menor abraçou a garota, buscando conforto. Ela lhes lançou um olhar furioso, enquanto retribuía o abraço carinhoso. Sarah se espantou, queria perguntar algo para aquelas três crianças, mas se conteve, para não interromper. Três ou quatro invernos? Nenhum deles parecia ter mais de quinze anos. _ Por que não vão para a vila? A menina respondeu, arrastando o dedão do pé, de um lado para outro, pelo chão. _ Eles não sabiam que nós estávamos aqui. Nossos pais sempre nos advertiram para que nos afastássemos da vila. Eles diziam que as pessoas que viviam lá deviam ser loucas, para viver daquele jeito, ao invés de viver no conforto do castelo. Então, nós os evitamos. Por isso, fingimos ser fantasmas. Mantinha as pessoas afastadas. _ Nós dormimos a maior parte do dia. Um dos meninos apontou para a cama, adicionando: _ Aqui! Então, de noite, nós iluminamos os aposentos e fazemos sons engraçados, quando víamos que alguém se aproximava. William agitou sua cabeça: _ Que idade vocês tem? O menino mais alto movimentou a cabeça, em direção aos outros. _ Joyce tem dezesseis anos, Alfred tem dez anos. Eu sou Charles e tenho quinze anos. _ Bem, Joyce, Alfred e Charles, você virão para a aldeia conosco esta noite. Vão ver que estão enganados. Aquelas pessoas não são loucas. Nós decidiremos o que fazer com vocês amanhã. _ Mas, meu senhor, eles não vão ficar zangados, quando descobrirem que nós os enganamos? _ Claro que não! Sarah se juntou a ele: _ Não depois de nós explicarmos a situação. Ela olhou para William. 109


_ Não devíamos retornar antes de escurecer? Ele concordou e pôs a mão em sua cintura, para escoltá-la para fora do quarto. Sarah viu um vislumbre de ódio nos olhos de Joyce, e soube que deveria falar com a menina ainda hoje — antes que a menina fizesse algo impensado, que só iria machucá-la.

Sarah apenas imaginou que os aldeões não estariam bravos com as crianças. Ficou aliviada quando percebeu que estava certa. Logo que os trouxeram para a aldeia, Gunther e Berta imediatamente, tomaram as três crianças sob sua proteção, e o restante dos habitantes logo fez o mesmo. Os dois meninos estavam agora morando com um casal, cujos filhos já tinham seus próprios lares — enquanto Joyce iria ficar com Gunther e Berta. Embora os três irmãos não fossem viver sob o mesmo teto, as choupanas eram próximas e se veriam todo o dia. William se debruçou na pequena mesa da cabana de Gunther. _ Berta, eu tinha esquecido de como saber cozinhar bem. Agradeço. A mulher corou, batendo com seu avental nele. _ Você não apareceu para comer. Ela voltou-se para Gunther. _ Há um jarro de sidra e um fogo esperando por vocês, lá fora. Sarah riu pela forma como os dois homens foram para lá. _ Isto é uma maneira muito boa para mandá-los para fora. _ É tudo uma questão de treino, minha senhora. Além disso, a sidra de Bronwyn é muito tentadora para que eles a ignorem. Sob circunstâncias normais, Sarah nunca teria escolhido sidra para matar a sede. A bebida devia ser muito amarga. Mas Gunther e Berta lhes ofereceram hospitalidade. Eles compartilharam sua comida e ofereceram a cabana ao lado da deles. Sarah levou a taça aos lábios. _ É feito com canela? 109


_ Sim. Canela, cravo-da-índia e mel. Talvez não fosse muito amargo, afinal. Ela bebeu a sidra e lentamente colocou a taça na mesa. _ Eu não sei nada sobre como fazer sidra, mas existem alguns monges na Normandia que podiam se beneficiar de seus segredos. Berta riu e despejou mais em ambas as taças. _ O segredo são as maçãs. Nem muito maduras, nem muito verdes e poucas maçãs adicionadas ao processo fornecem uma sidra no ponto. Isto é, nem muito doce, nem muito amarga. _ Deve ter levado anos para acertar a combinação. _ Só alguns. A princípio, o Senhor Bronwyn, pai de William, fez pequenas porções. Foi misturando os ingredientes, até que ficou do seu gosto. Sarah esvaziou rapidamente a taça. _ O homem, obviamente, tinha um excelente paladar. _ Sim, ele tinha. Berta encheu suas taças vazias. _ Mas lembre, se você beber a sidra de Gunther, não terá o mel ou as especiarias. Eu adiciono na minha por que fica mais do meu gosto. _ Então, é isso que a família de William fazia? Eles cultivavam maçãs? _ Sim. Nós mantivemos os pomares da melhor forma que conseguimos. Mas Gunther não é mais tão ágil e os rapazes não estão interessados em ficar aqui. Então, no ano passado a colheita não foi tão bem-sucedida como em outros anos. Berta suspirou, completando: _ Foi um desgosto ver uma colheita tão farta apodrecer nas árvores. Sarah não sabia nada de árvores e colheitas. Mas havia um decreto real que colocava Bronwyn em suas mãos. _ William ajudava a cultivar os pomares quando era criança?

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_ Às vezes, mas não freqüentemente, minha senhora. Seu pai estava determinado a ver seu filho estudar. William ocupava a maior parte de seus dias com o padre da aldeia, estudando ou procurando meios de evitar suas lições. _ Então, ele era um típico menino. Quando viu Sarah esvaziar outra taça de sidra, Berta advertiu: _ Cuidado, Senhora Sarah, pode ser suave quando desce pela garganta, mas o efeito vem como um coice. A mulher estava certa. A sidra começava a fazer seus estragos. Sarah fixou seu olhar na taça pela metade. Ao sentir um súbito calor tomar conta de seu corpo, imaginou que a sidra começava a dar seu coice. _ Eu não diria que William era um típico menino. - Berta ficou calada, por alguns momentos, antes de continuar: _ Ele era mais cordato, mais amável que a maioria dos meninos de sua idade. Eu sempre pensei que era por causa de seu tamanho. _ O que quer dizer com isso? Berta se debruçou próxima a Sarah e cochichou. _ Me prometa que nunca dirá que eu lhe contei. _ Nem uma palavra, Berta, eu prometo. _ Ele não sabe que eu o vi, mas uma vez quando pensava que ninguém estava por perto, William foi até os estábulos, atrás de sua cachorra. Ela havia acabado de dar a luz e William estava tão intrigado pelos filhotes minúsculos que ele não conseguiu resistir a ir dar uma olhada. Berta pausou para espiar para fora. Depois de se certificar que os homens ainda estavam por lá, ela disse, _ Seu pai ordenou que ele para deixasse a cadela e os filhotes em paz, até que eles fossem maiores e pudessem ser pegos sem se ferir. Mas William não obedeceu. Sarah fechou os olhos, sabendo que a história iria terminar mal.

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_ Aquele dia, seu pai entrou nos estábulos e o surpreendeu lá. Em vez de pôr o filhote de cachorro no chão e admitir que houvesse desobedecido, ele depressa empurrou o animalzinho para trás. _ Oh, não! _ Oh, sim, minha senhora. Quando seu pai deixou os estábulos, William descobriu que, acidentalmente, machucara os quadris do filhote. A pobre criaturinha mal podia andar e William ficou apavorado que seu pai descobrisse e mandasse matar o filhote. Eu vi o que aconteceu porque Gunther e eu tínhamos usado nosso tempo livre para namorar, no local que ficava na parte de cima dos estábulos. Sarah sentiu o coração se apertar de pena daquele menino que William fora. _ E você não desceu para ajudá-lo? _ Céus, não! A criança não teria conversado comigo, então eu enviei Gunther para falar com ele. _ Que idade tinha? _ William devia ter uns cinco ou seis anos. Ele não machucou aquele filhote de cachorro de propósito. O menino teria quebrado seu próprio braço ou perna antes de prejudicar o filhote. Mas depois disto, ele foi mais cuidadoso com tudo. Ele nunca mais tocou em alguém ou algo, se pensasse que, com isso, podia ferir ou danificar. O estômago de Sarah se embrulhou. E este menino tinha sido forçado a matar homens para sobreviver? Ela desviou o olhar da porta aberta, de onde avistava seu marido e perguntou, suavemente: _ O que aconteceu com o cãozinho? _ Quando o pai de William soube o que aconteceu, ele deu uma surra de corrente no traseiro de William e então o forçou a gostar do animal. O animal cresceu e se tornou o melhor cão de caça e guarda daqui. Berta levantou da mesa e permaneceu na porta, por um momento, antes de adicionar: _ Quando William desapareceu, o cachorro procurou-o por semanas. Uma noite, simplesmente foi dormir e não acordou. Gunther enterrou o cachorro próximo a sepultura dos pais de William. 109


A mulher torceu o avental em suas mãos. _ Foi um dos dias mais tristes de nossa vida. Nós sentimos como se, enterrando o cachorro, estivéssemos enterrando o Senhor William. _ Obrigado por me contar, Berta. Sarah enxugou as lágrimas que teimavam em cair de seus olhos. _ Minha senhora, vai ficar em Bronwyn? Não querendo dar falsas esperanças a mulher, Sarah respondeu, honestamente. _ Eu gostaria, mas eu não sei como, Berta. _ Há qualquer coisa que Gunther e eu possamos fazer ou dizer? Infelizmente, Sarah não tinha uma resposta para aquela pergunta. _ Estes últimos dias têm sido duros para William. Acho que seria bom para ele, no momento, permanecer por aqui. Sarah se encaminhou para a porta, quando Berta lhe chamou a atenção. _ Eu não prometo nada, mas conversarei com ele. Talvez ele veja algumas vantagens em permanecer aqui por algum tempo.

Capítulo Dezesseis

William lançou uma vareta no fogo. Sentiu olhar fixo de Sarah em suas costas e olhou, por sobre seu ombro, quando a viu se aproximar. Ela parou atrás dele e colocou a mão suavemente em seu ombro. Sem pensar, William tomou sua mão, perguntando: 109


_ Está cansada? _ Muito. Ele assentiu, então, depois de dar boa noite aos outros e a Gunther, levou Sarah para a cabana. William não queria nada além de se esticar em uma cama, com Sarah ao seu lado. Escutar o som suave de sua respiração no descanso do sono seria um fim reconfortante para este dia. Mas William sabia que seria impossível ficar perto dela e não a abraçar, beijar e tocar. Ele podia ser egoísta e pensar só em suas próprias necessidades e desejos, mas não com Sarah. Ela não merecia ser usada. Além disso, com a graça de Deus e da Igreja, em alguns meses ela seria a esposa de outro homem. Ele já tinha lembranças suficientes para atormentá-lo; não precisava adicionar mais. Quando eles alcançaram à entrada, ele parou e acariciou sua bochecha. William forçou uma tranqüilidade que não sentia. _ Eu desejo que tenha sonhos agradáveis, Sarah. Ela o olhou fixamente, sua expressão já advertindo que Sarah não iria terminar esse dia de modo pacífico. _ Sonhos agradáveis? Ele empurrou a porta aberta, dizendo: _ Vá para a cama. Eu a verei pela manhã. Ela não se moveu: _ Eu não vou dormir só, William. _ Já que eu não vou dormir com você, tenho que discordar. Sarah estreitou seus olhos, cruzando os braços contra seu peito e se escorando na porta aberta. _ Você disse a todos aqui que eu sou sua esposa, não foi? _ Sim. Mas… Sarah ergueu sua mão, interrompendo a resposta. 109


_ Mas nada. Nós ainda estamos casados. Sarah sussurava, não querendo que ninguém mais escutasse suas palavras. Mas ele ouviu a ameaça cortante em sua voz. _ Até que a Igreja anule nosso casamento, eu não dormirei sozinha. Então, venha para dentro comigo, ou eu juro, William… Sarah deixou sua advertência no ar, permitindo que ele entendesse suas palavras como quisesse. _ Para alguém que não tinha nenhum desejo de casar comigo, você está agindo como... _ Uma bruxa. - ela completou sua frase: _ Você devia estar contente por que eu não o humilho, perante essas pessoas. Eu posso fazê-lo, entretanto, se você desejar assim... Ele olhou de relance para o centro da aldeia. Havia pelo menos uma dúzia de aldeões ao redor do fogo. _ Você não faria isso. Sarah ergueu uma perna e abriu a boca, com claras intenções. William quase a empurrou para dentro da cabana, rapidamente fechando a porta atrás deles. Ele se debruçou contra a porta: _ Existe mais alguma coisa que queira exigir? _ Sim. Ela apontou para um dos cantos do quarto. _ Você pode iluminar o quarto e também, fechar a janela. Quando ele não se moveu, Sarah suspirou. _ William, você não precisa agir como se eu fosse obrigá-lo a fazer algo contra a sua vontade. Eu simplesmente não quero dormer sozinha em um lugar estranho. Não importa o quanto tentou, ele tentou, ele não conseguiu sufocar uma risada. Deus, ele sentiria falta da sinceridade daquela mulher! _ Qualquer coisa assusta você, Sarah? Ele acendeu a luminária de óleo, então a colocou na mesa mais próxima da cama. _ Qualquer coisa ou tudo? Sarah se sentou na extremidade da cama e tirou suas botas. 109


_ Sim, muitas coisas me assustam. Mas você me causar qualquer dano não é uma dessas coisas. Então ela era uma raridade entre as mulheres. Desde que se tornara um homem, ele ainda não encontrara nenhuma fêmea que não tivesse horror a seu tamanho. Elas o temiam sem saber nada dele. William se sentou próximo a ela na cama. _ Você não me acha esquisito? Ela deu as costas para ele. _ William, por favor! Sarah começou a pentear seu cabelo, parecendo pensar, até que, finalmente, respondeu: _ Não, William, eu não penso que é esquisito. Sarah olhou de relance, por sobre o ombro. _ Amarre para mim? Indeciso, William se aproximou e começou a ajudar Sarah a prender os cabelos. Ele puxou as pequenas mechas, expondo cada vez mais de sua carne com cada movimento. _ O que eu não entendo é por que você parece agir como se quisesse que eu sentisse medo. Eu temia meu pai e aprendi que tanto medo só fazia com que ele tivesse mais ganas de me bater. As mãos de William estremeceram. Seu coração martelava em seu peito. Ele respirou fundo, imaginando que ela gostaria de falar do passado. _ Então você imagina que se não demonstrar medo, ninguém vai machucá-la? Ela agitou a cabeça. Seu cabelo caiu desordenado sobre seu ombro, as mechas acariciando as mãos de William. Suavamente se enrolavam ao redor de seus pulsos, como sedosas correntes. _ Eu não sou imbecil, William. Eu compreendo que alguns homens gostam de causar danos às mulheres. Se pensasse que você é um desses homens, eu seria mais cuidadosa. Ele afastou as mechas ainda soltas. Afastando-as, ele se inclinou e tocou suavemente com os lábios o pescoço de Sarah.

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_ Então, por não ter medo de mim, você acha aceitável dizer ou fazer qualquer coisa que deseje, sem se importar com o que eu quero? Ela suavemente suspirou, e ofereceu mais de sua carne ao toque, puxando mais do vestido por seu ombro. _ Diga a mim de seus desejos, William. Diga a mim o que quer que eu faça. O que ele queria que ela fizesse? Nada. Mas isso não signifava que não ele não queria fazer alguma coisa. Apesar de que a idéia de conceber uma criança não fosse aceitável, se continuasse com aqueles beijos, isso seria inevitável. William sorriu, quando se deu conta das intenções da esposa. Claro, era possível que fosse esta a sua idéia. Ele arrastou seus lábios para a carne suave de seu ombro e deslizou os braços ao redor de sua cintura. _ Eu quero que me deixe tocar em você, beijar você, sem expectativas de algo mais. Quando ela se moveu como se fosse se afastar, ele a segurou. _ Não. Eu não quero que se mova, eu não quero que faça nada, Sarah. _ Eu… Eu não estou entendendo. William moveu os lábios através de seus ombros e pescoço, saboreando o gosto e o cheiro dela. Quando deslizou do pescoço para sua orelha, Sarah estremeceu e ele interrompeu a carícia, para sussurrar: _ Sarah, eu quero ter uma lembrança para levar comigo pelo resto de meus dias. Só uma lembrança que durará para sempre. Sarah sentiu a respiração falhar. A carne em baixo de seus lábios se convulsionou conforme ela inspirou, profundamente. _ Mas, William, nós podemos ter mais que lembranças para durar para sempre. William enganchou seus dedos em seu vestido e o puxou até seus cotovelos. Enquanto observava seus dedos junto da pele exposta, ele, uma vez mais, lembrou a Sarah: _ Eu não mudarei de idéia, Sarah. Você está retornando a corte. Ela ergueu a cabeça: 109


_ Você não gosta nem um pouquinho de mim? William sentiu sua dor e soube que não era isso que ela queria perguntar. Sem interromper a exploração gentil de seu corpo, ele tentou explicar. _ Eu me importo muito com você. Se não fosse assim, eu agora não estaria pedindo sua permissão, já a teria jogado de costas na cama. Nem estaria tão preocupado com seu futuro. Os ombros de Sarah estremeceram e ele soube que ela estava tentando esconder as lágrimas. William a sentou em seu colo e tomou seu rosto entre as mãos, enxugando suas lágrimas. _ Não existe uma forma fácil de dizer isto, Sarah. Se você estiver perguntando se eu posso amar você, então a resposta é não. Ela o empurrou, tentando se levantar. _ Deixe-me ir. _ Não. Ele acariciou seu pescoço, antes de começar a traçar uma carícia em suas costas. _ Eu me importo com você, mais do que já me importei com alguém, neste mundo. Eu quero que você tenha muito prazer. Mais que isto, eu quero que você esteja segura. Eu preciso saber que está livre de qualquer perigo. Ela parou de lutar e descansou a cabeça contra seu ombro. _ E isto não é amor? Seu coração se enterneceu quando as mãos de William circularam por seus seios. _ Não, Sarah. O amor é egoísta e covarde. O som de suas respirações alteradas encheu o silêncio que reinava na cabana. Sarah correu a língua por seus lábios e fechou os olhos. _ E isso não é egoísta de sua parte? Ele acariciava sua pele com os dedos. Quando ela estremeceu com o contato, William perguntou: _ Como pode ser egoísta lhe dar prazer?

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Sarah não teve nenhuma resposta para essa pergunta. Ela só conseguiria pensar novamente, quando a lúxuria abandonasse seu corpo. Para não implorar que ele parasse com aquele tormento e fizesse amor com ela de uma vez, ela sussurrou: _ O amor não é egoísta. _ Não? William parou, subitamente e permaneceu mudo até Sarah abrir os olhos e se fixar nele. _ Qual foi à primeira coisa que seu pai disse para você, depois do acidente de sua mãe? _ Ele me acusou de ter a feito morrer. _ Não foi? Ele a acusou de matar sua esposa e seu filho ainda no ventre. _ Você mesmo disse que foram palavras ditas sem pensar, num momento de raiva. _ E eu estou certo de que eram. Isso não anula o fato de que elas vieram de seu coração. Palavras severas, egoístas que declaravam sua dor e perda. Ela não podia discutir essa lógica. No momento, ela não podia afastar a névoa do desejo para discutir qualquer coisa. A palma de sua mão era morna contra sua pele enquanto William acariciava suas costas e seus braços. _ A Rainha já a fez fazer alguma coisa por amor à ela? _ Sim, ela… Sarah franziu o cenho, fechando os olhos, ao compreender que ele, possivelmente, estava certo. _ E quando você completou aquela tarefa para ela, não se sentiu fraca ou talvez, usada? Sarah assentiu com a cabeça. Ela o sentiu crescer embaixo dela. _ Sarah… - sua respiração era quente contra sua orelha. _ Sarah, deixe-me gostar de você, sem esperar mais de mim. Deixe-me lhe dar prazer, sem pedir qualquer outra coisa. Permita-me criar minhas próprias lembranças. Sarah abriu seus olhos e o estudou, por entre as lágrimas. William não a estava forçando, nem aborrecendo. Pequenas labaredas douradas cintilavam em seus olhos. Ela prendeu a respiração ante a paixão que vislumbrou no fundo de seu olhar. 109


Se ela não fosse capaz de convencê-lo que abandoná-la seria um erro, esta poderia ser a última vez que William deixaria a paixão comandar suas ações. Incapaz de falar, ela relaxou em seus braços. Ele a deitou na cama e depressa tirou sua roupa. Mas quando Sarah tentou arrancar sua camisa, ele afastou sua mão. _ Não. Se debruçando sobre ela, alisou seu rosto, beijando seus lábios. _ Não faça nada, Sarah. Nada além de deixar as sensações tomarem conta de você. Sentindo-se uma tola, ela fechou os olhos e permaneceu imóvel. Mas não fazer nada era díficil. Especialmente, quando Sarah queria se colar no corpo de William, tocar nele de uma forma que jamais esquecesse. Ela queria sentir sua carne sob seus dedos, localizar as cicatrizes em suas costas com seu toque. Queria sentir as batidas de seu coração contra seus seios. Sarah queria fazer para ele o que William fazia, neste momento, para ela. Mas duvidava que ele permitisse. William deixaria que Sarah tocasse em seu corpo com tanta reverência, como ele estava fazendo com o seu? Quando estremeceu e um gemido suave escapou de seus lábios, William deslizou para explorar a carne sensível em suas coxas. Sarah agarrou as cobertas, com força, transtornada pela necessidade de algo mais. Como seus beijos podiam provocar tanto queimor em seu corpo? Ela estava em chamas, ofegando, enquanto William deslizava a boca por suas pernas. Sarah arqueou o corpo, tentando prolongar aquela loucura. E quando William cedeu, lhe permitindo fazer o que queria, quase implorou que ele a abraçasse. William a segurou em seus braços, beijando-a até deixar seu corpo todo trêmulo, e Sarah sentiu como se fosse desmoronar. Ele se deitou ao seu lado, e ela escondeu o rosto em seu peito, não querendo que William visse as lágrimas que não podia conter.

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Ela não podia deixar que ele a abandonasse que William permitisse que outros homens a cortejassem... Sarah não queria ninguém mais. Ninguém, não importava seu título, o quanto tivesse em riquezas e ouro. Ela preferia viver naquela cabana com William que em qualquer lugar outro. E se não pudesse ter o que queria, preferia viver o resto de sua vida só. Ela podia guardar suas memórias em seu coração, para todo o sempre. O que poderia fazer? William suavemente deslizou seu braço por baixo de sua esposa, adormecida. A luminária de óleo já havia queimado há um longo tempo. Todos lá fora já haviam abandonado a fogueira, e ido para suas casas, horas atrás. Ele se sentou na cama e afastou o cabelo do rosto de Sarah. Ela soluçou, dormindo, e William podia imaginar os pensamentos que lhe atormentavam os sonhos. Não havia a menor dúvida de que Sarah iria buscar um caminho para fazê-lo mudar de idéia. Se nada mais conhecia de sua esposa, sabia da determinação dela quando colocava algo na cabeça. Ele tristemente sorriu. Não importava a paixão que sentia por ela, não a sujeitaria ao tipo de vida que podia oferecer. Não quando estava em seu poder lhe dar algo melhor. Só lamentava ter sido ela a criar aquela situação toda. Como podia ter feito aquilo? Por outro lado, se não tivesse exigido este casamento, ele nunca iria descobrir uma paixão, ou uma fome, tão intensa, que o fazia se sentir vivo, pela primeira vez em muitos anos. Devia agradecer a Sarah por este presente. E ele faria tudo para assegurar que pagaria essa dívida. William se levantou da cama e cruzou a cabana. Ele parou na porta e olhou para a cama. Sua garganta se apertou. Se acreditasse em amor, esta seria a única mulher com quem gostaria de compartilhar esse sentimento. Ele saiu para o ar frio da noite, fechando a porta atrás dele. Mas amor, realmente, não existia para William. E Sarah merecia mais do que podia oferecer. 109


Capítulo Dezessete

_ Puxem! William berrou. Os homens mais velhos batiam em suas túnicas suadas e gritavam para os seis cavalos unidos que puxavam as paredes de madeira. Os cavalos entrincheiraram-se, e lentamente, iam erguendo uma a uma. Ele, os homens restantes, e algumas das mulheres mais jovens, correram para colocar suportes de madeira, para escorar as paredes. William enxugou o suor da sobrancelha. A reconstrução daquele lugar não seria uma tarefa fácil. Mas ele queria ver os aldeões vivendo dentro das muralhas, antes de escoltar Sarah de volta para a corte. Seria muito fácil deixar que os guardas do Rei Henry a esoltassem, porém essa ordem tinha sido dada a ele. Felizmente, a armação estava resistindo às rodas do vagão se movendo, conforme Sarah e Berta arrastavam outra carga de escombros da torre. Seguiram para uma área próxima ao rio, que usariam para queimar os pedaços quebrados e podres de madeira. William agitou sua cabeça conforme o vagão passava. Dois de guardas do Henry seguiam atrás. Pelas suas expressões mal-humoradas, era óbvio que não haviam gostado de serem conduzidos por mulheres. Mas era culpa deles. Deviam ter tomado às rédeas do cavalo e feito o serviço. _ Meu lorde. Gunther apontou para o campo. _ Os outros estão vindo. Quando viu quase vinte pessoas se dirigindo para a fortaleza, resolveu se compor. Vestiu rapidamente a túnica. 109


Não havia necessidade de fazer um espetáculo dele mesmo para estranhos. Gunther havia levado metade de um dia para parar de olhar fixamente para as cicatrizes esbranquiçadas de suas costas. E outra metade para parar de fazer perguntas que William nunca responderia. Quando Gunther se aproximou, William indicou as pessoas que se aproximavam. _ Eu não sei quem são estas pessoas, Gunther. Eu apreciaria seu socorro. Ele não disse ao homem mais velho que o estava sondando, simplesmente para observar como se sairia, quando, brevemente, William deixasse a segurança da fortaleza em suas mãos. Sua intenção era se certificar que Gunther conseguiria lidar com tal responsabilidade. Mas estes últimos dois dias o mostraram que o homem era mais que capaz. O grupo parou em frente de William. Depois de cumprimentar tirando o chapéu, um homem se aproximou. _ É o Senhor William? Ele algum dia se acostumaria a ser chamado de Senhor? Duvidava. Corrigiu o homem: _ William. Gunther xingou: _ Perdoe sua senhoria, Timothy, ele não está ainda acostumado a essas formalidades. _ Meu lorde. Aparentemente, este rapaz prestava mais atenção em Guther do que nele. _ Nós somos da outra aldeia. O antigo lorde nos considerava bandidos por que abandonamos nossos postos. William não podia culpá-los por isso. Lembrava-se de sua infância e, conhecendo o irmão de seu pai duvidava que qualquer pessoa fosse tratada com justição por ele. _ Eu não vejo nenhum bandido diante de mim. Eu vejo somente pessoas que foram obrigadas a sair daqui. São bem-vindos a retornar, se esse for seu desejo. Suspiros de alívio ecoaram entre as pessoas. 109


William lançou um olhar por cima de seu ombro e viu que os habitantes da aldeia de Gunther se postaram atrás dele. Os homens soltaram as pás que seguravam. E as mulheres deixaram as pedras cairem de suas mãos. Surpreendido com a atitude agressiva, ele voltou-se para Gunther. _ Há algum problema que eu deveria saber? O homem mais velho fitou o grupo. _ Não. Parece que, depois de todo este tempo, eles esqueceram seus modos. William relaxou, conforme observou os olhares de culpa e embaraço que cruzaram em seus rostos. Ele dirigiu sua atenção para o homem chamado Timothy.. _ Eu me desculpo pela atitude deles. _ Não há necessidade. Nós também temos estado muito tempo sem a companhia de outros e provavelmente, teríamos feito o mesmo. Pelo canto do olho, William assistiu os inícios de uma nova amizade. Alfred, o mais jovem do grupo, estava desafiando um menino de seu tamanho, da outra aldeia. William acenou na direção dos meninos. Timothy e Gunther assistiram como um dos rapazes se atirou sobre o outro. Alfred fez o primeiro movimento, agarrando o outro menino. Os dois lutaram, rolando no chão enquanto lançavam socos fortuitos, de vez em quando. Como William soube que aconteceria, a briga terminou antes mesmo de começar. Ignorando que os adultos estavam assistindo, os meninos se levantaram e caminharam juntos para a fortaleza. William se voltou para os homens. Os estudou, imaginando se uma boa disputa não poderia fornecer um divertimento e unir as duas aldeias. _ Não, meus lorde. Obviamente seus pensamentos eram fáceis de desvendar. 109


_ Eu não vou rolar no chão com Timothy, nem com ninguém. Gunther esfregou seu pescoço. _ A menos que, claro, que isso me livre de consertar a muralha. William acenou em direção à parede: _ Se você deseja se escapar da muralha, é mais que bem-vindo a ajudar escorar as paredes. Gunther bufou: _ Lhe agradeço, mas prefiro a muralha. _ Por onde podemos começar meu lorde? - Timothy perguntou. William disse: _ Quando as mulheres retornarem, nós vamos fazer uma pausa para o almoço. Gunther é mais que capaz de decidir quais tarefas devem tomar. E, já que conhece as habilidades de seu pessoal, pode ajudá-lo nisso. _ Meu senhor… Eu… Tem certeza? Gunther coçou sua cabeça. _ Faz muito tempo desde que cuidei de algo tão grande quanto Bronwyn. _ Tem alguém mais que queira assumir esta responsabilidade? Quando todos se calaram, William disse: _ Então, Gunther, é você. O mover das rodas do vagão anunciou o retorno das mulheres. O som prendeu a atenção das pessoas. Timothy suavemente assobiou, antes de dizer: _ Então, de modo que existe uma bela mulher nesta aldeia. Ele perguntou a Gunther: _ Como a manteve escondida aqui todo esse tempo? O homem olhou para Sarah como se quisesse fazer dela sua refeição do meio-dia. Irritado, William tocou o ombro de Timothy. _ Não deixe que as aparências o enganem. Aquela mulher, com as bochechas sujas de fuligem, só parece ser um trabalhador da vila. Ele se aproximou para ajudar Sarah a descer do vagão, então se voltou para Timothy. 109


_ Ela é minha esposa. Sussurando, Sarah resmungou para si mesma: _ Estranho, não me sinto sua esposa. William lançou um olhar para ela, franzindo o cenho. Ele a teria ouvido? Talvez fosse bom se tivesse. Sorriu para ele: _ Não é hora de fazermos uma pausa? William olhou-a carrancudo. Mas antes dele poder dizer qualquer coisa, Berta tomou a frente. _ Venha, é hora de comer. Sarah lamentou pela mulher... Uma semana atrás, Berta a encontrou chorando, sozinha na cabana. Ela tinha estado numa tal tristeza que costumava chorar todo o dia, antes de dormir e ao despertar. A mulher mais velha ofereceu conforto até as lágrimas cessaren. Então lhe deu algumas lições para treinar maridos. As lições eram bem-vindas mais como alguns momentos breves de humour que qualquer outra coisa. Algumas das sugestões que Berta lhe deu não teriam sido toleradas, mesmo que William decidisse não abandoná-la. De alguma maneira, Sarah não imaginava que um homem como William cairia em suas artimanhas se simplesmente lhe recusasse o sexo. . Nem imaginava que ele iria adivinhar seu humor ou disposição por não encontrar uma refeição que o agradasse ao retornar a cabana, à noite. William provavelmente, a deixaria com seu mau-humor, enquanto iria caçar e cozinhar sua própria comida. Mas escutando Berta conversar sobre essas coisas, Sarah passava os longos dias de uma forma mais alegre. Saber que outros casais tinham suas esquisitices, que deviam se acostumar. Até casais que tinham sido casados por mais tempo que podiam lembrar. 109


Ela apreciou assistir Gunther e Berta provocarem um ao outro, como se fossem recémcasados. E Sarah podia dizer, por seu sorriso, que William também se divertia com isso. Havia se passado uma semana desde a última vez que ele a abraçou e a beijou. Sentia falta de seu toque e da proximidade à noite, mas não podia reclamar sobre os dias. Depois do primeiro dia, quando fizeram o possível para evitar um ao outro, haviam encontrado uma forma de lidar com a proximidade. Compartilhavam as refeições com Gunther e Berta. Trabalhavam na restauração de Bronwyn lado a lado, o dia todo, e se sentavam próximos, em torno do fogo, de noite. Agora mesmo, William a havia provocado, falando sobre a sujeira em seu rosto. Sarah se sentiu desajeitada, quando ele limpu a sujeira de seu rosto e seu toque se demorou em sua bochecha. Mas aquele momento de vacilação a fez perceber que William estava tão confuso e ansioso quanto ela. William se afastou, e indicou a Sarah para que o seguisse para a aldeia, como se fosse uma coisa normal, como se, de fato, fossem um casal se dirigindo para sua casa. _ Já lhe disse o quanto estou orgulhoso de você? Determinada a não deixar passar aquele momento, Sarah riu. _ Orgulhoso? Por que, porque consigo dirigir um vagão sem bater ou fazê-lo cair? _ Bem, sim, por isso também. Mas, Sarah, eu não conheço nenhuma dama que ajudaria e trabalharia como você tem feito. Por que ela não ajudaria? Afinal, aquela também era sua propriedade ou não? Um dia, seu filho viveria ali. Mas Sarah manteve aqueles pensamentos para ela mesma. _ Se eu não ajudasse, estaria só na aldeia o dia todo, conversando comigo mesma. Sarah olhou para ele. _ Pode imaginar como isso seria aborrecido? _ Se o tempo continuar ajudando, nós terminaremos os reparos na próxima semana. Sarah sentiu o coração falhar uma batida. 109


_ Bronwyn não será restabelecido em uma semana. _ Não. Mas estará seguro o suficiente para os aldeões se mudarem para cá. Uma vez que a muralha seja reparada, eu poderei me afastar por algum tempo, para levá-la para a corte. Ela enterrou os saltos dos sapatos no chão, parando subitamente. Todos os pensamentos dóceis e coerentes pareceram fugir. _ Eu devo implorar seu perdão? William cravou os olhos nela. _ Sarah, você não acreditou que alguma coisa havia mudado, não é? _ Não, meu senhor, por que iria pensar tal coisa? _ Sarah… Ela quase gritou: _ Não! Ela fixou seu olhar nele. _ Não ouse explicar para mim que está fazendo isto para meu próprio bem, ou minha segurança. Eu não sou tão ingênua. Além disso, sou uma mulher adulta, posso tomar minhas próprias decisões sobre a minha segurança, e o que é melhor para mim. Você está me devolvendo para a Rainha por que não me quer como esposa. Pelo amor de Deus, William, seja homem suficiente para admitir isso. Enfurecido, seus olhos brilharam com ira. _ Eu nunca disse isso. _ Não. Não com essas palavras. Sarah agitou as mãos, enfurecida e se encaminhou para a aldeia. Quando passou por William, o empurrou e adicionou: _ Uma esposa iria exigir que assumisse responsabilidades. Ele agarrou seu braço e a puxou. _ O que quer dizer? _ Você me ouviu. Se você permanecer casado comigo, seria responsável por mim. Você seria responsável pela proteção deste castelo. Saindo do sério, ela continuou: _ Você seria responsável por mim, William. Por mim. 109


Ele a afastou, como se o queimasse. _ Eu nunca fugi de minhas responsabilidades. Nunca! Sarah se aproximou novamente. _ Oh, não mesmo? Se aproximando perigosamente dele, Sarah perguntou: _ Que tal as responsabilidades que tem em nosso casamento, em nossa cama? Os olhos de William se arregalaram, antes de se estreitarem e sorrindo ele disse. _ É sobre isso que estamos falando, Sarah? Ela lutou contra o desejo de bater com os punhos contra seu tórax e gritar com ele. Ao invés disso, Sarah agarrou a frente de sua camisa, torcendo o tecido em sua mão. _ Sim. Você tirou de mim a única coisa que eu tinha para dar a um marido e então lançou isso em meu rosto, porque pensou que havia se casado com uma prostituta, não uma virgem. Ele pegou seus dedos em sua mão. Mas quando ele abriu a boca para responder, Sarah gritou: _ Escute-me. William respirou fundo, como lutando para se controlar. _ Eu estou escutando. Ela relaxou os dedos, mas não o soltou. _ Você me ensinou o significado da luxúria, mostrou a mim as alturas do desejo e da paixão. Você conversou comigo. Escutou-me. Você me protegeu. Sentia a garganta se fechar, as lágrimas ameaçando rolar. Sentindo suas forças a abandonarem, ela admitiu: _ William, você me fez acreditar que era possível gostar de alguém sem ter medo de me machucar. Ele fechou seus olhos ao perceber a dor em sua voz. Não queria que isso tivesse acontecido. Nunca quis magoar Sarah. _ Sarah, eu sinto muito. Ela o afastou, com um empurrão. 109


_ Guarde suas desculpas para outra. William assistiu-a ir embora. Sentia como se as palavras de Sarah o estivesem sufocando, liberando emoções que ele não queria nomear. Voltou-se e atingiu uma árvore. O rasgar de sua carne e o quebrar de juntas era um alívio bem-vindo ante a dor que sentia em seu peito Deus, o que ele iria fazer? Gunther subiu para o caminho ao encontro dele. O homem mais velho olhou para a mão de William e agitou sua cabeça. _ Berta mandou que eu procurasse você. Venha, William, venha e coma. _ Eu não estou com fome. William meneou a cabeça, ao ouvir o tom petulante na voz de Gunther. _ Claro que você não está. Se eu perdesse um argumento contra uma árvore, eu também não estaria com fome. Deve comer. Coma! Perplexo, William olhou para o homem mais velho. _ Como ela pode saber? _ Quem? O que? Quando eles seguiram em direção à aldeia, William perguntou: _ Berta. Como ela soube que devia mandar me procurar? Gunther riu: _ Eu não sei. Não pergunto. Quando minha mulher me manda seguir alguém, eu sigo. _ E vocês permanecem casados estes anos todos? Com um encolher de ombros, Gunther respondeu: _ Meu senhor, um dia aprenderá que existem batalhas que não valem a pena serem travadas. William ergueu seu olhar do caminho de sujeira e encontrou os olhos azuis de Sarah, parada logo adiante. _ Oh Senhor! Gunther, você pode estar certo. 109


O homem mais velho só bufou, em resposta.

Capítulo Dezoito

Deitada em sua cama, Sarah olhava fixamente o teto da cabana. Olhava por tanto tempo, que podia dizer que canas precisavam ser substituídas. Seu estômago estava embrulhado e Sarah colocou a mão sobre ele. Esta era a quinta manhã que acordava enjoada e já tinha quase confirmada suas suspeitas. Na semana anterior tinha desconfianças, mas agora já era quase uma certeza: ela estava grávida de William. Normalmente, isso não seria motivo para pesar. Porém, diante das circunstâncias atuais, este conhecimento a estava amedrontando. Não podia dizer a ele. Recusava-se a usar uma criança como um meio para força aquela união. Embora não se importasse com isso, o Rei, ou a Igreja, não aceitariam uma anulação, uma vez que sua condição fosse aparente. Sarah sabia que tinha muito pouco tempo para achar um modo de fazer William mudar de idéia. Ela queria que ele ficasse com ela por amor, não porque sentisse culpa ou por causa de uma criança. De alguma maneira, tinha que fazer William entender que sua honra estava intata. Ele a protegeu melhor que qualquer outro. Mas sempre haveria coisas na vida que ele não poderia controlar. Sarah se preocupava, achando que William se sentiria preso, uma vez que soubesse da criança. 109


Afinal, eles haviam feito amor apenas uma vez, mas ele devia saber que existia a possibilidade de acontecer. Desde o dia em que ele a rejeitou na cabana, eles não compartilharam a cama. Ele não ofereceu nenhuma explicação e ela não perguntou. Se fosse sincera, eles trabalhavam tanto durante o dia que, de noite, só pensavam em se deitar e dormir. O que era uma boa coisa, porque deixou pouco tempo para ansiar pelo calor de seu corpo, antes de adormecer. Mas agora Sarah começava a se perguntar se isso não era um estratagema de William para evitar conceber um filho, antes da anulação. A porta da cabana rangeu ao ser aberta, interrompendo seus pensamentos. William apareceu à entrada, bloqueando a entrada. _ Por que está na cama? Está indisposta? Seu físico poderoso entre o vão da porta e o sol, mesmo com a cabeça curvada para ajustarse no espaço, William era uma figura imponente. Sarah ansiava que ele entrasse na cabana, e se deitasse ao seu lado. Mas sabia que isso não aconteceria. Até que encontrasse um modo de rachar a armadura de aço que William tinha colocado ao seu redor, não existiria nenhuma esperança de que conseguisse enredá-lo em suas teias. _ Eu estou bem, William. Mas quando me levantei, o frio me fez decidir que era uma manhã perfeita para ficar na cama. Sarah duvidava que ele tivesse tido relações íntimas com muitas mulheres durante todos esses anos, de modo que não se preocupou sobre ele descobrir seu secredo. Preocupava-se mais que Berta dissesse a ele. Ontem, a mulher havia lançado seu olhar astuto sobre Sarah várias vezes. Logo, teria que reveler a verdade e pedir sua discrição por mais algum tempo. _ Os vagões estarão aqui daqui há pouco. Ela se sentou e fechou seus olhos contra objeção de seu estômago pelo rápido movimento. William imediatamente se aproximou: 109


_ Você não está bem. Não importava que ansiasse por seu abraço, agora não era o momento. Não se quisesse manter sua condição em segredo. _ Você está se preocupando a toa. Eu estou bem. Para demonstrar a verdade de suas palavras, Sarah levantou-se. _ Veja. Eu somente estou cansada. A vida na corte não me preparou para trabalhar como um aldeão. Quando viu a expressão incrédula em seu rosto, percebeu que não o havia enganado. Para cessar o interrogatório, ela o empurrou para a porta. _ Vá. Eu irei em seguida. Felizmente, William não discutiu com ela. Mas logo em seguida, Berta entrou na cabana, trazendo uma panela vazia, água e alguns pedaços de pão. Fez Sarah se sentar em um banco, lhe dando a panela. _ Você parece bastante verde esta manhã. Incapaz de falar, Sarah inclinou a cabeça sobre a vasilha, enquanto Berta afastava e trançava seu cabelo. _ Terá que dizer a ele logo, minha lady. _ Não ainda. Sarah tomou um gole de água, rezando para não vomitar isso também. _ Eu peço que não conte nada. _ Acho que está cometendo um erro, mas não sou eu quem deve dizer a seu marido qualquer coisa. Coma isso. Berta deu a ela um pedaço de pão. _ Pode ajudar se comer um pedaço, antes de levantar. Mantendo algo no estômago, pode conseguir impeder um pouco da náusea. Entre mordidas pequenas, Sarah perguntou: _ Quanto tempo dura? _ Algumas semanas, alguns meses. É diferente com cada criança. - Berta suspirou. 109


_ Com meu último, o único dia em que eu não passei adoentada, foi o dia em que ele nasceu. Aquilo era desanimador e Sarah perguntou-se em voz alta: _ Por que, em nome de Deus, as mulheres têm mais de um filho, sabendo que vão passar por isso? _ Porque fazer é extremamente divertido, para que nos lembremos disso na hora. O pão engasgou na garganta de Sarah. Ela levantou uma mão, sufocando, _ Chega. _ Você e William se casaram recentemente. - Berta estendeu um pano para Sarah: _ Se envergonha muito facilmente, minha lady. _ Sim. Tudo é muito recente. Ela mudou de assunto antes de se tornar até mais pessoal. _ Achou a cozinha do castelo de seu agrado? _ Com alguns reparos, logo estará de meu gosto. Era um alívio! Ela e William inspecionaram os quartos no castelo alguns dias atrás. O quarto do lorde estava imundo e emitindo um cheiro forte de madeiras podres. Mas graças a Berta e algumas das outras mulheres, eles conseguiram torná-lo habitável, se não apresentável. Outro dos quartos era passável, não tendo exigido muito trabalho, enquanto os outros dois estavam em tal estado que levariam muito mais dias para limpar e esfregar. Felizmente, de um modo geral, parecia bom. Até onde podia dizer o corredor conectando a cozinha ao outro prédio exigia consertos pequenos—uma tábua aqui ou lá, um remendo ou dois no telhado. E a cozinha parecia utilizável. Porém, foi na primeira cozinha em que tinha prestado atenção desde que era criança e Sarah não confiava em seu julgamento. Berta e suas filhas iriam usar a cozinha; era mais que justo que julgassem por si e decidissem os reparos que teriam que ser feitos. 109


_ Que tal o poço? Os homens estavam trabalhando nele por dois dias. Sarah não se agradava da idéia de mover as pessoas para longe da fonte de água, se os homens descobrissem não poder consertar o poço a contento. _ A estrutura finalmente foi consertada. Quando eu os deixei esta manhã, Charles e o pequeno Alfred estava verificando as cordas, limpando totalmente os escombros. _ Verificando as cordas? A preocupação tornou a voz de Sarah mais aguda. _ Dentro do poço? _ Foi fácil. - Berta bateu levemente em seu braço. _ Eles são bons. Provou ser mais fácil para os homens segurar as cordas com os meninos presos a elas, que teria sido para eles segurar seu marido. Sarah não ia discutir aquele ponto. Ela concordou com a idéia que William seria muito pesado para segurar, adicionando: _ Ele não se ajustaria a essa situação, realmente. As rodas do vagão vindo pela estrada, anunciaram a chegada dos outros aldeões. O sorriso largo de Bertha fez o canto de seus olhos se enrugarem, fazendo-a parecer até mais jovem. Ela se apressou para a porta. _ Eles estão aqui. A ver o rosto da mulher mais velha, a excitação em sua voz, Sarah soube que William estava certo. Sua idéia de trazer as duas aldeias para Bronwyn era uma boa escolha. Famílias, por sangue ou amizade, não deviam ser separadas, como estas haviam sido. Pessoas como Bertha e Gunther haviam sido expulsas do castelo, enquanto os outros tinham escapado da mão pesada de seu senhor. Esconderam-se nas colinas e florestas, vivendo como bandidos. William instruiu aos guardas para levar suas palavra para outros na área, dizendo que o novo Senhor de Bronwyn daria boas-vindas a quem quisesse retornar. As pessoas

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chegaram ao castelo no dia seguinte. A tarefa de confraternizar os grupos provou ser mais fácil do que se pensava. Em realidade, a intenção serviu a dois propósitos. Quanto mais pessoas vivessem em Bronwyn, mais haveria segurança. E a fortaleza exigia trabalho, que muitas mãos tornariam mais leve. Seu marido poderia não ter tido experiência para dirigir uma fortaleza, mas ele obviamente não era nenhum bobo. Seria um bom senhor para Bronwyn. Joyce colocou a cabeça dentro da cabana. _ Minha senhora, nós estamos prontos para partir. _ Obrigado, Joyce. Eu montarei com os homens. Sarah deu a menina o último embrulho, que continha os pertences dela e de William. _ Peça a Charles que coloque isso na carroça. Em vez de partir, a menina entrou na cabana. _ Minha senhora, eu… Eu quero me desculpar novamente por meu comportamento descarado. Eu não tinha nenhum direito de agir daquela maneira. Sarah puxou a menina para dentro. _ Joyce, nós já resolvemos isso. Você só fez o que sentiu que devia fazer. Apenas se sentiu compelida a proteger seus irmãos. Você errou em não levar em conta a experiência de seu oponente. _ Eu não entendo nada disso. Como farei para conhecer a experiência de meu oponente? _ Não tenha medo, você aprenderá. No momento, só saiba que você, Charles e Alfred estão seguros. _ Eu agradeço por isso. Um homem jovem entrou. _ Joyce, nós precisamos ir. Os olhos da menina se iluminaram, um rubor tingiu suas bochechas. E pelo modo como ela assentiu, rapidamente, saindo atrás do jovem, Sarah soube que William não era mais que uma memória distante na mente da menina. 109


Saindo da cabana, Sarah se encaminhou para o abrigo que protegia os cavalos da chuva. Havia sido erguido apressadamente, mas manteve os animais secos. Contente por alguém ter se preocupado com os animais, ela agarrou rédeas do cavalo. Mas antes de poder tocar o couro, uma mão cobriu sua boca. Uma voz sussurrou perto de sua orelha: _ Senhora Sarah, eu sou da corte da Rainha. Não grite. Compreendendo que não era Aryseeth que a tinha vindo recapturar, ela quase desfaleceu de alívio. Ela assentiu, movendo a cabeça e ele tirou a mão de sua boca. _ Você quer me matar de susto! - ela exclamou, voltando-se para enfrentar o homem. _ Eu me desculpo, mas não achei outro meio para abordar a Senhora. Por um momento, Sarah ficou muda. Então fechou seus olhos e suspirou. Eleanor havia lhe dito que enviaria seus homens para que lhe mandasse informações. Seu coração pareceu parar, antes de recomeçar a saltar freneticamente. A Rainha também havia prometido enviar homens para matar William. Qual tarefa este homem havia vindo realizar? _ Que notícias têm para a Rainha Eleanor? Sarah não reconhecia este homem. Se ele fosse da corte de Eleanor, não o teria visto? _ Nenhuma que deseje compartilhar no momento. Sarah, lentamente, deu um passo para trás, em direção à saída do abrigo, enquanto falava. _ Mas nós estaremos retornando a corte em alguns dias. Eu falarei com ela então. _ Eu tenho minhas ordens, Senhora Sarah. _ E o que isto significa? Ele olhou para fora do abrigo. _ Eu não vi o Conde de Wynnedom ou sua esposa por aqui. Sarah soube que, se dissesse que eles não estavam mais viajando juntos, William estaria em perigo. Então, mentiu e deu outro passo, tentando se afastar, sem o homem perceber. _ Um Conde e sua esposa não iriam ajudar na tarefa de mudar uma aldeia. Eles já estão em Bronwyn. 109


_ Como os homens são estranhos. O homem agitou sua cabeça. _ Eu choquei-me com o Conde de Wynnedom e sua esposa dois dias atrás. Eles estavam viajando para o norte, para o seu castelo. Sarah moveu-se mais em direção a saída. _ Explicarei tudo para a Rainha quando nós voltarmos para a corte. _ E você irá. Mais cedo que você pensa. Antes de poder gritar, ou se virar para correr, um punho avançou em direção ao seu queixo e Sarah viu tudo ficar escuro.

Certo que tudo estava em ordem, William montou, seguindo o grupo que se dirigia para Bronwyn. Em qual carroça estaria Sarah? Ele havia visto Berta entrar na cabana, mas ela estava agora no primeiro vagão. Então, onde estava a sua esposa? Ela não tinha tantos pertences para levar. _ Meu lorde! - Gunther correu em torno do último vagão, gritando. William desmontou, segurando o homem, antes que ele caísse de joelhos. _ A senhora Sarah, sua esposa… - Gunther arquejou, tentando controlar sua respiração. Ele acenou para a aldeia. _ Ela… foi capturada. Ante a dor afiada, que retorceu suas entranhas, ele deixou o homem deslizar para o chão. _ Quando? Gunther agitou a cabeça. _ Eu não sei... - Ele ofegou: _ Charles viu... William montou em seu cavalo, gritando para os guardas do Rei. Só três deles chegaram. Ele não teve tempo para esperar pelo outro homem. Ordenou: _ Um de vocês fica com os aldeões. Eu não me importo quem. Os outros dois vêm comigo.

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Sem perguntas, um dos guardas foi ajudar Gunther, enquanto os outros dois seguiram William para a aldeia. Quando montaram, ele explicou: _ A senhora Sarah foi capturada. _ Onde estava Randolph? - um dos homens perguntou: _ Ele devia cuidar da segurança da Senhora. _ Isso eu gostaria de saber. - William respondeu. O paradeiro de Randolph ficou óbvio, quando os homens chegaram à aldeia. Charles se ajoelhou ao lado do homem inconsciente, tentando acordá-lo. William ordenou ao menino. _ Deixe-o. Vá buscar Berta e peça que cuide dele. _ Com tantas pessoas ao redor, como esses homens fizeram para se aproximar da Senhora Sarah? _ Só vi um homem. O menino apontou para o sul. _ Ele tomou aquela direção. _ Ela foi com ele por vontade própria? _ Não. Ele a acertou no queixo. A Senhora estava desfalecida e ele a carregou a pé. Ansioso para achar sua esposa antes que se afastassem muito, William movimentou a cabeça em direção aos guardas. _ Consigam os detalhes, então me sigam. Ele partiu, estrada abaixo. Eles não podiam estar muito longe. E, se o homem estava a pé, William tinha grandes chances de alcançá-los. Como isso havia acontecido novamente? Um deles, ou ele ou Sarah, era amaldiçoado. Ambas às vezes, ela estava sob sua proteção. E ambas às vezes, alguém a havia capturado. Quais eram as chances de isso acontecer com outra pessoa? Principalmente, qual era a chance de que ele pudesse evitar que acontecesse novamente? Parecia que nenhuma. William tinha que lever Sarah para a corte da Rainha. Lá, pelo menos, ela nunca havia estado em perigo.

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William não cavalgou nem uma hora, antes de ouvir o som da voz de Sarah. Escondeu seu cavalo, amarrando as rédeas em uma árvore, e prestou atenção no tom de raiva na voz de sua esposa. Sabia que, pela indignação em sua voz, Sarah não se sentia ameaçada. Aquele homem devia estar amaldiçoando sua sorte por ter que realizar tal tarefa. Cautelosamente, escondido pela densa floresta, William rastejou em direção as vozes. Sarah olhou para o homem que a levou de Bronwyn. _ Você sabe que ele vai nos achar. E quando ele fizer... _ Mulher, feche sua boca! O homem se aproximou, enfurecido, erguendo sua mão, como se fosse esbofeteá-la e grunhindo: _ Estou cheio de agüentar seus desaforos. _ Acha que a Rainha ficará satisfeita ao saber como me tratou? Ele caminhou em direção a ela e sorriu. _ Tão satisfeita quanto ficará quando descobrir que não obedeceu a suas ordens. Pensava aquele homem que ela era uma tola? Ele estava tentando enganá-la, para que lhe desse alguma informação que pudesse usar contra ela. _ Você não sabe se isto é verdade ou não. Ele sorriu. _ É bastante óbvio que você não viaja mais com o Conde. _ Isso não significa que eu desobedeci a suas ordens. Sarah mentiria para estes homens sem um rastro de remorso. Qualquer coisa que os impedisse de prejudicar William. _ Se tivesse obtido as informações que a Rainha queria, teria me passado. _ Por que faria isso, quando sei que a encontraria e poderia lhe falar pessoalmente, em poucos dias? _ Porque sabia que a Rainha Eleanor estaria enviando alguém para isso. Você devia saber que eu viria. _ Eu também esperava ser tratada como um membro de sua corte. Parece que eu estava enganada. Talvez você também esteja. 109


O homem riu dela e ergueu um dedo em direção ao seu companheiro. _ Os homens estavam certos. Ela é bastante obstinada, não é? _ Aye, muito. Ele se abaixou e alisou sua canela, enquanto Sarah tentava lhe acertar um chute. _ Existe um modo de fazê-la se calar. Sarah estreitou seus olhos. Enquanto ela temeria tal ameaça vindo de um homem vil como Aryseeth, estes homens instilavam nela mais abominação que medo. Ela advertiu: _ A Rainha o mataria. _ Verdade. - O homem caminhou por trás dela e passou um dedo pelo pescoço de Sarah: _ Poderia valer a pena, entretanto. Eu tenho tempo para decidir. Antes de poder dizer qualquer coisa, ele se afastou. _ Mas eu preciso encontrar seu marido primeiro. Então você e eu podemos ter... Uma boa queda! Sarah investiu em direção a ele, pegando-o fora de guarda e jogando-o no chão. Antes do homem se equilibrar, ela o chutou. _ Isso não lhe parece uma boa queda? O outro homem se apressou, agarrando seus pulsos, e empurrando-a contra uma árvore. _ Estão tentando se matar? Levantando do chão, o homem pegou seu queixo. _ Você pagará por isto. Quando eu retornar, minhas mãos estarão cobertas com o sangue do seu marido. Nós veremos o quanto é valente quando eu as limpar no seu corpo. Este imbecil teria sorte se conseguisse chegar perto de William e sobreviver. _ Você não conseguirá se aproximar o suficiente para encostar-se nele. Só me leve para a Rainha e vá embora. _ Não. Desde que você concordou com este plano da Rainha, sabia que isso aconteceria. Só assim podia se casar com algum rico lorde. _ Você anda ouvindo muitas fábulas. 109


_ Não. Eu penso que não. Ele agitou sua cabeça: _ Há certos tipos de mulher, como você. Insensível e perversa o suficiente para conspirar contra seu próprio marido. Especialmente, se houver promessas de ouro para encher seus cofres. _ Quanto daquele vinho você bebeu? Você perdeu a razão. _ Eu? Não vai querer me convencer que você e a Rainha Eleanor não tiveram este tempo todo conspirando, isso seria uma mentira. Caso contrário, eu não estaria aqui para ver Bronwyn morto. O outro guarda se aproximou trazendo uma corda. Ele a empurrou para o chão contra a árvore, então a amarrou. _ Você se senta lá e pensa sobre ele enquanto eu não retorno. Ele se agachou na frente de Sarah. _ E pense sobre ser boa para mim quando eu voltar. - Ele tocou em sua bochecha. _ Você não quer me ver abrindo a boca na corte sobre a espécie de cadela assassina que é antes de poder encontrar outra vítima. Sarah abriu sua boca para responder. Mas antes da primeira palavra poder a deixar sua boca, a lâmina de um punhal deslizou através da garganta do homem. Da mesma maneira que uma espada se enterrava no peito do outro guarda. Sarah gritou e fechou seus olhos, esperando por sua própria morte. Mas quando se passaram uns momentos e nada aconteceu, ela lentamente, abriu seus olhos e olhou para cima, encontrando o olhar furioso de seu marido. Sarah deu um suspiro de alívio. _ William... _ Não fale comigo, Sarah. Não agora. Ela não teve que perguntar quanta da conversação ele escutou. _ William, o homem estava tentando me confundir. Ele não estava dizendo a verdade. William não respondeu, de fato, ele agiu como se ela não tivesse dito nada. Sarah estremeceu de medo, um frio se espalhando por sua espinha. 109


Três dos guardas do Rei surgiram da mata, atrás dele. William apontou para ela. _ Leve-a para longe de minha vista. Atordoados, os guardas correram para cumprir suas ordens, e cortando as amarras, a ajudaram a se levantar. _ Venha, minha senhora, nós a levaremos de volta à Bronwyn. _ Não! - William berrou: _ Não para lá. Levem-na para a corte. Sarah empurrou os guardas e correu para William. Agarrou seu braço, _ William, me escute... Ele afastou as mãos dela. _ Guarde suas mentiras para seu próximo marido. Este aqui não quer mais você. Ele gritou com os guardas: _ Levem-na para longe daqui! Os guardas hesitaram, como se incertos sobre o que fazer. Um deles respirou fundo e pegou Sarah pelo braço. Ele firmemente apertou, forçando-a a vir com ele, enquanto ela se debatia. _ Maldição! Soltem-me! Gritou, então o chutou. Desesperada para que William soubesse a verdade, ela cravou suas unhas no braço do guarda até que ele a soltou. Uma mão grande e forte se enroscou em torno da parte de trás de seu pescoço e a arrastou para longe do guarda. _ Ele não fez nada para prejudicar você. Pare! Sarah se voltou, agarrando a frente da túnica de William, e clamou: _ William, eu juro por Deus que aquelas palavras não eram verdadeiras. Ele permaneceu tão imóvel quanto uma montanha, se recusando a olhar para ela, e perguntou: _ A Rainha planejava me matar? O coração de Sarah ficou em pedaços. Ela não podia mentir para ele por mais tempo. Mas dizendo a ele a verdade, seu casamento iria terminar. _ Sim, mas... 109


Ele cortou sua resposta com um grunhido. _ E todo este tempo você sabia deste plano? _ William... Ele a empurrou para longe. _ Você me enoja... Tropeçando por cima de um tronco de árvore, ela caiu no chão. Derrotada, ela ficou lá, de joelhos, soluçando. Ele permaneceu de pé, na frente dela. _ Conseguiu obter as informações que Eleanor procurava? _ Não. Sua resposta foi fraca, nada mais que um sussurro sufocado. _ Eu não posso ouvir você. - William levantou sua voz: _ O que disse? William já tinha conhecimento que ela haiva espionado ele e o Conde Hugh. Mas ele nunca perguntaria por que. Nem mesmo agora ele exigia saber a razão, porque para ele isso não mais importava. Ela respirou, sentindo a garganta se apertar, quando respondeu: _ Não. _ Qual foi o trato? A Rainha lhe prometeu um rico lorde para que cooperasse? Incapaz de falar, ela podia somente movimentar a cabeça. _ Já que você lhe falhou estou certo que seu próximo marido não será nada do que você desejou. Ele cerrou seus punhos. Ela não podia culpar William se ele resolvesse bater nela por suas ações passadas, ela merecia isto. E uma parte sua daria boas-vindas a dor física. Poderia diminuir a dor de seu coração. Mas ela não podia deixá-lo machucar o bebê. Sarah se curvou, passando os braços em torno da barriga, protegendo sua criança. Entre soluços, ela clamou: _ Por favor, William, tenha clemência. Eu estou grávida.

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Capítulo Dezenove

William olhava fixamente para ela. Ele reconheceu seu terror, testemunhou o mesmo medo em homens que experimentaram o gosto dos primeiros castigos de Aryseeth. Mas ver sua esposa se agachar diante dele, em tal terror, saber que ele causou este medo, lhe fez mal. Ele deixou de lado sua raiva; ainda estaria lá a encobrir sua dor, mais tarde. Agora Sarah precisava estar segura que não sofreria nenhum dano físico. Ele lentamente, se ajoelhou na frente dela, cuidando para não fazer qualquer movimento súbito, que a assustasse ainda mais. _ Sarah. - William abaixou sua voz, lutando manter sua ira sob controle. _ Sarah, pare com isto. Sabe que não corre nenhum perigo. Quando ela não respondeu, ele adicionou: _ Sarah, machucar você não aliviaria minha dor. Só a faria aumentar. Indecisa, ela levantou sua cabeça e olhou para ele. William observou o tremor nela e maldição, quis gritar de frustração. Ao invés disso, ele estendeu suas mãos, palmas para cima, para ela. _ Sarah, venha aqui. Tome minha mão. Quando ela colocou sua mão trêmula sobre a dele, William suavemente, a trouxe para mais perto. Ele acariciou sua bochecha com a parte de trás de seus dedos, enxugando as suas lágrimas. Ela as derramaria mais nos dias que viriam. Quem as enxugaria de suas bochechas? Sarah sentou em seus joelhos lentamente e abaixou o olhar. William apertou suas mãos, passando os dedos através de sua pele. _ Sarah, nós não podemos continuar com isso. Os casais não eram sempre compatíveis. Ele sabia disso.

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Na corte, havia testemunhado inúmeros casais que pouco se importavam um com o outro. Não havia tentado ter o mesmo tipo de casamento? Não tinha sido por isso que exigiu Sarah de Remy, a prostituta da Rainha, para se casar com ele? Era o tipo de esposa que desejara uma que não tentasse enredá-lo em melosas reclamações. Era a mulher que ele queria. Um acordo simples — uma companheira para lhe dar filhos e cuidar de sua casa. Por que então seu peito doía tanto? Por que suas emoções o exauriam, quase lhe roubando os pensamentos? Por que queria a puxar para seus braços em um momento e empurrá-la para longe, no seguinte? Foi pego em sua própria armadilha. Quando ela permaneceu muda, William descansou sua fronte contra a dela. _ Está certa de que leva uma criança? Ela movimentou a cabeça, sussurrando: _ Sim. William fechou seus olhos, deveria sentir uma grande satisfação ao saber disso. E enquanto uma parte dele sentiu uma sensação de realização, que ele sabia que todo o homem experimentava, outra parte sentia uma profunda tristeza. Se sua criança fosse um menino, quem o ensinaria a montar e esgrimir? Quem o guiaria? E se fosse uma menina, quem a protegeria e apreciaria? Quem cuidaria de seu futuro? Estas eram suas responsabilidades e deviam lhe proporcionar contentamento. Deveria haver uma melhor forma de ver essas coisas. Ele não sabia ainda como, mas haveria tempo para pensar sobre isso. _ Sarah, eu juro que não a deixarei sem amparo. Eu cuidarei para que você e a criança tenham tudo que precisarem. Tudo o que quiserem. _ Você é tudo que eu preciso e tudo o que eu quero. Enquanto seria mais amável mentir para ela, mentiras suficientes já haviam sido proferidas e ele não diria mais uma.

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No fim, nada mudaria e somente iriam se somar às mentiras que já existiam entre eles. William acariciou sua bochecha, dizendo: _ Eu sei que você pensa isto agora. Mas, Sarah, eu não posso confiar em você. E você me disse que não confia em ninguém. Se nós formos incapazes de confiar um no outro—não importa o quão doloroso seja a verdade — nós não teremos nada. Ela se inclinou para seu toque. _ Eu não tenho nada mais para esconder. William colocou um dedo sob seus lábios. _ Não. Sarah, não faça. O tempo para confiar e honrar já passou. Os lábios dela tremeram! _ E chorando não mudará nada. O Rei deu a você Bronwyn. Desde que nós permaneçamos casaddos, um dia a fortaleza pertencerá a nosso filho. Mas até que o castelo seja reconstruído e eu tenha conseguido treinar os homens para defendê-lo, eu quero que você retorne a corte. Lá será mais seguro para você. _ O que você vai fazer? Ele não viu nenhuma outra escolha. Uma vez que Sarah estivesse instalada, ele partiria. Não havia sentido ficar na corte. Só o atormentaria. _ No momento, eu vigiarei os consertos em Bronwyn. Depois disso… - ele encolheu os ombros: _ …Eu irei encontrar meu caminho. _ Ache seu caminho para mim, William. Ele enroscou seus dedos por seu cabelo e a puxou para o que deveria ser um gentil beijo de despedida. Mas uma vez que seus lábios se tocaram, qualquer gentileza foi esquecida. Seu coração se enfureceu, esta mulher era sua. Ele a reivindicou, corpo e alma da mesma maneira que ela o fez. Ela levava seu filho e pertencia a ele. William a enlaçou, advertindo: _ Não espere por mim, Sarah. Ele movimentou a cabeça em direção aos guardas: _ Cuidem para que ela chegue em segurança na corte. 109


William respirou fundo, imaginando o que poderia ter sido. Ele quis gritar de frustação. Como podia ter sido tão tolo para acreditar que Sarah havia desistido de manter segredos, parado de mentir para ele, e confiar nele, ainda que fosse só um pouco. Ela saberia o tempo todo que sua morte já tinha sido planejada? Por que William havia considerado retirar sua petição e viver com ela, aqui em Bronwyn? Agora, ele completaria as renovações na fortaleza e treinaria os guardas. Mas ele não podia viver sob o mesmo teto com ela. William asseguraria sua chegada em Poitiers. Essa era sua responsabilidade. E precisava ver o Rei, para explicar por que teve que suspender a anulação. Ele temia que uma missiva pudesse ser muito facilmente mal interpretada e William queria estar certo de que o Rei e a Igreja entenderiam a sua mudança de planos. Ele precisava voltar para Bronwyn. Mas depois disso, não sabia o que ia fazer. Mas podia pensar nisso mais adiante. Neste momento, a única coisa ele quis fazer era se afastar do som dos soluços da sua esposa.

Gunther, Berta e Timothy olharam fixamente para William, como se ele falasse em uma língua estrangeira, que eles não entendiam. William se debruçou na grade mesa da sala de audiências de Bronwyn e tentou explicar. _ A Senhora Sarah retornou a corte da Rainha Eleanor por um tempo. Ela residirá lá até que os consertos em Bronwyn sejam feitos e os homens sejam treinados para defender a fortaleza. O Rei deu Bronwyn para a Senhora Sarah, uma vez que tudo estiver pronto, Eu residirei em outro lugar. _ Imploro seu perdão, meu lorde, - Berta o interrompeu: _ mas você já disse isto. Eu perguntei por que. Uma parte dele quis dizer a Berta que isso não era da sua conta, outra parte sentiu que devia a eles alguma explicação.

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Afinal, apesar de não terem compartilhado uma cama, ou quaisquer momentos íntimos ultimamente, ele e Sarah trabalharam bem juntos, como o senhor e senhora da fortaleza. E só porque escolheu não ter relações íntimas com sua esposa, não significava que fosse contrária a idéia. Sentia falta de seu toque e do som da voz de Sarah mais do que imaginava ser possível. _ Meu lorde? William voltou sua atenção para as pessoas juntas à mesa. Existia uma pequena razão para esconder a verdade deles; eventualmente, eles descobririam. Ele preferia que as informações viessem dele e não de alguém que distorceria os fatos. _ Sarah foi forçada pela Rainha a casar-se comigo. Não foi escolha dela. Eles novamente olharam fixamente para ele, como se ele não falasse em um idioma que eles podiam entender. William explicou adicional: _ Embora seja um acordo aceitável entre nobres, eu não sou de nascimento nobre. Ela devia ter recebido a oportunidade de decidir. Berta bateu na mesa e riu, antes de perguntar: _ Um pouco tarde para isso, não é? Aparentemente, a mulher sabia que Sarah estava levando seu filho. Gunther se debruçou sobre sua esposa. _ Berta, não seja desrespeitosa. Ela olhou para ele e disse: _ A Senhora Sarah está grávida. Seu olhar se voltou para William. _ Quem está sendo desrespeitosa? William bufou. Outro homem, ou alguém menos familiar, não falaria aquele tipo de coisa para ele. William não teria hesitado em dizer a eles para se importar com seus próprios assuntos, ou os colocar em seu lugar. Porém, era Berta. E ela puxou suas orelhas o suficiente no passado para que ele compreendesse que não hesitaria em repetir a tarefa. A mulher não se importava que ele 109


fosse maior, ou mais forte, nem com o fato de que era o Senhor de Bronwyn. Pelo menos, não quando se tratava de Sarah. Isso poderia ter sido diferente se tivesse crescido em Bronwyn. Mas a única lembrança que Berta tinha dele não podia ser muito diferente das suas. Ele havia sido um adolescente em corpo de adulto, quando se viram pela última vez. E pelo que se lembrava, ela o espantou de sua cozinha por tentar roubar uma fruta destinada para fazer uma torta. Mais tarde, quando uma de suas tortas sumiu, ela o havia arrastado, berrando, através do pátio, por uma orelha. Não, ele nunca iria conseguir fazer esta mulher o ver como um homem. William pausou. Que perigoso seria ter como cozinheira a defensora de sua esposa? Especialmente quando tinha a intenção de abandonar essa esposa? _ Berta, preciso contratar alguém para ter uma comida saborosa? Aparentemente ela entendeu o que William queria dizer, porque encolheu os ombros e então disse: _ Não se você conseguir manter sua cabeça fora de sua... _ Berta! - Gunther gritou, cortando sua frase no meio. Embora William, e o mais provável todos que estavam na sala tivessem escutado, sabia exatamente o que a mulher estava para dizer. E concordou. Tinha um castelo para reconstruir, e então fortalecer e uma boa probabilidade de uma criança para sustentar. O pensamento de uma criança, fosse um menino forte ou uma pequena menina, fez a dor aliviar um pouco. Ele não tinha tempo para pensar no que podia ter sido. Ao invés disso, precisava pensar num modo de tornar aquele estranho acordo bom para ele e para Sarah. William alcançou através da mesa e tomou a mão de Berta. Uma pontada de culpa, por não confiar em sua esposa, o fez dizer: _ Como está tão certa de que Sarah está grávida? Sem olhar para seu marido, ela disse: _ Tão certa quanto eu sou da conduta de meu marido. Ele lançou um olhar para Gunther. Berta estava certa. Ela apertou seus dedos. _ Meu senhor, aye, a Senhora Sarah está definitivamente, levando seu filho. 109


Em gratidão, ele assentiu com a cabeça. _ Lhe agradeço. - Então empurrou sua cadeira de volta para a mesa. _ Eu preciso me pôr a caminho. _ Para onde vai? - Gunther e Berta olharam, fixamente, para William. Levou apenas um momento para formularem a pergunta. _ Quando retornará da corte, meu lorde? Isso era uma boa pergunta — uma para a qual não tinha nenhuma resposta. _ Espero que logo. Uma vez que me foi concedida uma audiência, eu precisarei só de algumas horas para falar com o Rei e então voltar. Quando ele se voltou para sair, Berta perguntou, _ E Senhora Sarah? William agitou sua cabeça, ele não tinha nenhuma resposta para ela. Ainda que conseguisse falar com Sarah, não existia nenhuma garantia que encontrassem uma solução satisfatória para ambos. Uma vez tendo voltado à vida na corte, ela mais provável que tivesse apreciado novamente o luxo e não quisesse mais viver em Bronwyn. Ela estava acostumada às coisas boas da vida. De fato, a fortaleza poderia prosperar, mas ele sempre seria um antigo escravo e Bronwyn sempre estaria no meio de parte nenhuma. Dirigiu-se a sua câmara, para se trocar e juntar suas armas. Afivelou o segundo cinto de espada através de seu tórax e deslizou as espadas nas bainhas cruzadas, descansando contra suas costas. Ajustou sua cota de malha e certificou-se de que suas espadas estavam firmes, embainhando um punhal no outro lado de seu cinto. Depois de esconder em uma bolsa pequena, uma roupa mais formal, para usar na audiência, ele lançou-a acima de seu ombro, retornando ao corredor ao corredor. A atividade no local parou subitamente, as pessoas uma por uma, cada par de olhos fixos nele. William se irritou. Nunca havia visto alguém se preparar para uma batalha antes? 109


Ele ignorou os olhares fixos, e foi na direção de Gunther, só para ser parado por Charles e Alfred. Alfred ficou na ponta dos pés para cutucar os bíceps de William, perguntando: _ Onde os conseguiu? _ Eu os comprei em uma feira. No que Charles respondeu: _ Ele é mais debochado que você, Alfred. Você não pode comprar músculos. Você tem que construí-los. O rapaz mais jovem puxou sua manga e esticou o braço. Ele curvou no cotovelo e olhou fixamente para seus próprios músculos, pouco desenvolvidos. _ Eu posso fazer isso, também? William arrepiou o cabelo do menino. _ Nós trabalharemos neles quando eu retornar. Charles se aproximou, quase salivando, quando viu as armas de William. _ Podemos trabalhar naquilo, também? Sua pergunta fez William pausar. Aos quinze anos, o menino era quase um homem. Ele não havia tido ninguém para ensinar as coisas que um homem precisava conhecer. Era muito jovem e sem experiência para estar sozinho. E muito velho para William mandar para ser treinado em outra fortaleza. Além disso, não acreditava que Alfred ou Joyce se comportariam bem, se fossem separados de Charles. O que significava que a tarefa da educação e do treinamento de Charles recaía sobre ele. _ Sim, Charles, nós faremos. A gratidão do menino era evidente em seu sorriso largo. William se voltou para o mordomo de Bronwyn. _Gunther? O homem mais velho se aproximou. _ Sim?

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_ Tenho que encontrar guardas para Bronwyn. Enquanto estiver na corte, eu verei se o Rei tem algumas sugestões. Enquanto isso veja se alguns dos homens, ou meninos mais velhos, desejam treinar para esta posição. Para aqueles que quiserem, se certifique que recebam as tarefas mais pesadas. Vamos começar construíndo seus músculos, aos poucos. Ele deu ao homem a bolsa pequena. _ Eu sei que o comércio mais próximo fica a dois dias daqui. Mas eu não sei quanto tempo vou me demorar e não quero que falte material. Deve existir suficiente ouro aqui para comprar qualquer coisa que você julgar necessário para consertar e prover a fortaleza. William se debruçou, e abaixou sua voz. _ Já que os homens vão estar muito ocupados reconstruindo a fortaleza, compre algumas espadas de madeira para os rapazes, inclusive estes dois aqui. E nós temos meninos crescendo na fortaleza, então se certifique que Berta tenha material extra para encher a despensa. Gunther olhou para dentro da bolsa. Seus olhos se arregalaram. Ele segurou a bolsa firmemente contra seu tórax, olhando ao redor, para ter certeza que ninguém mais podia ver o que estava do lado de dentro. _ Meu senhor, existe suficiente aqui para... _ Qualquer coisa que precisarmos. E tem que admitir, nós precisamos de tudo. Envie Timothy com os vagões e dois homens. Ele passou um braço em torno dos ombros do homem. _ Se não for suficiente, existe mais. William viu Gunther abrir a boca, surpreso. Havia feito a mesma coisa quando ele chegou em Bronwyn ontem de manhã. Aparentemente, o comércio e as negociações entre Sidatha e o Rei Henry estava indo melhor que o esperado. E o Rei estava lhe recompensando com muito ouro. William esperava que as negociações para libertar os outros homens estivessem correndo da mesma forma. Caso contrário, o ouro que estivera usando para reconstruir a fortaleza, não seria nada mais que dinheiro sujo de sangue. Ele não conseguiria viver com aquele tipo

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de coisa em sua alma. Mentalmente, tentou afastar esses pensamentos. Seguramente, o Rei Henry seria bem sucedido. _ Por agora, nós faremos os consertos que conseguirmos. Mais tarde, teremos que fazer o resto do trabalho. Pensando no futuro de seu filho, ele meditou. _ Um dia nós iremos reconstruir em pedra e eu estou certo que isso custará um alto preço. Gunther movimentou a cabeça, então olhou em direção a câmara de William. _ Estou fechando aquele lugar, tentando torná-lo mais seguro. _ Confio que você fará qualquer coisa que ache necessário. William abaixou seu braço. _ Preciso estar a caminho se quiser alcançar Sarah e os guardas. Em vez de se dirigir pelas recentemente instaladas portas na frente do corredor, William seguiu na direção das cozinhas. Passou atrás de Berta e alcançou além dela, para roubar um naco de queijo, sabendo bem o que isso iria lhe custar. Ela se voltou e bateu com um trapo nele. _ Tinha que ser você. As empregadas da cozinha deram uma risadinha, que só fez a mulher mais velha bater com o trapo nele, novamente. _ Você tem prazer nisso? Distraindo estas meninas inocentes de seu trabalho. William esfregou a marca vermelha em seu braço, com agonia falsa. _ Mulher, você feriu dolorosamente seu lorde. _ Aye, e se ele não sair agora de minha cozinha, eu o ferirei ainda mais. Agora vá. Berta largou o pano na mesa e deu a ele um saco. _ Isto é para a Senhora Sarah, tem ajudado de manhã. Agora, vá, veja o que os dois podem resolver. _ Berta, eu não sei se... - Incerto sobre o que dizer, ele deixou sua frase incompleta. Ela agitou a cabeça: _ Só tente, meu lorde.

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Sarah não queria nada além de descer de seu cavalo, enrolar-se no chão e dormir por, pelo menos, uma quinzena. Mas ela se forçou a ficar na sela por pura força de vontade. Algo estava errado! Esta náusea incômoda em seu estômago e a dor na cabeça não tinha nada a ver com a criança. Além disso, as dores eram muito afiadas. Todo som, não importava o quão suave fosse, ameaçava partir sua cabeça. A menor gota de luz solar, fluindo pelas folhas a cegavam. E o suor que escorria de seu corpo, não era pelo calor do dia. Nem eram os arrepios de frio causados por qualquer brisa. Quando luzes e halos brilhantes retorceram sua visão, ela reconheceu os sintomas e temeu estar tendo uma de suas enxaquecas. Do tipo que a deixava cega e mal por dias. Ela não experimentava uma dessas há anos. Este não era o momento para retornarem. As orelhas do cavalo dançavam ante sua vista e Sarah agarrou o alto da sela conforme balançava. Sua cabeça pulsou muito dolorosamente e ela quis chorar, ainda que soubesse que fazendo isso, tornaria a dor pior. Por que havia saído da cama esta manhã? Se houvesse dito a William que não estava se sentindo bem, nada disso teria acontecido. Ela não teria sido capturada pelos guardas da Rainha e William não teria escutado os comentários do guarda. E ela agora não estaria voltando para a corte, sem a companhia do marido. Não se importava se ele ficasse bravo ou não. Pelo menos ela não estaria na estrada, e William estaria perto para ajudar. E precisava de muita ajuda. Sarah fechou os olhos, oscilando na sela, e de repente ela não mais se importou. _ Pelo amor de Deus! O grito de William surpreendeu os guardas que montavam, ladeando sua esposa, enquanto ele se moveu rapidamente para pegar Sarah, antes que caísse da sela. Ele queria somente certificar-se de que todos estavam bem, retirando-se, em seguida, para não ser visto. Mas imediatamente, notara que Sarah estava oscilando em seu cavalo, e chegou mais próximo para ver o que estava errado. 109


Ele cravou os olhos nos homens. _ Há quanto tempo ela está assim? Todos os três homens agitaram suas cabeças. _ Nós não sabemos, meu senhor. Ela nunca reclamou de estar sentindo-se indisposta. Tomando Sarah em seus braços, William conduziu seu cavalo para uma parada e atirou uma perna sobre sua sela, para saltar para o chão. _ Consiga-me alguma água, alguns cobertores. Agora. Enquanto os guardas corriam para obedecer, William se sentou no chão contra uma pedra. _ Sarah. - Ele colocou uma mão em suas bochechas, então sua fronte, e sentiu seu coração saltar. Ela estava queimando. William amaldiçoou. Então rezou. Suas habilidades médicas eram limitadas. Como todo guerreiro ele sabia costurar um ferimento e reajustar um membro deslocado. Fora isso, ele não sabia de nada. Você agasalhava uma pessoa que tinha uma febre? Ou as esfriava? Ele não sabia. Os guardas de Henry não notavam nada errado. Duvidava que eles pudessem fornecer qualquer ajuda. Quando eles retornaram, trazendo o material que solicitou, William ordenou-lhes que montassem o acampamento. O que lhes faltava em habilidade, eles compensaram em velocidade. William sabia que logo iria chover. Infelizmente, o abrigo, apressadamente construído, não resistiria a uma chuva mais forte. Uma vez que colocou a esposa em uma barraca, ele disse os homens: _ O outro guarda e dois homens de Bronwyn deviam chegar logo. Impaciente, os havia deixado pra trás, há algumas horas. _ Quando eles chegarem aqui, nós vamos precisar de fogo, comida e uma provisão de água. Mas, quero três homens guardando este acampamento a toda hora. Entenderam? Ao ver os homens concordarem, William entrou no abrigo com Sarah. Depois de tirar as roupas úmidas dela, ordenou, _ Pendure estas roupas até secarem. William tirou sua túnica, molhou com a água e começou a passar pelo corpo de Sarah. 109


Não tinha idéia se estava fazendo mal ou bem, mas tinha que fazer algo. Antes de terminar, Sarah começou a tremer violentamente, de tal forma que seus dentes batiam. William retirou suas armas, mas as manteve próximas, removeu suas roupas, antes de se esticar na cama, próximo a ela. Puxou outra coberta sobre eles, e a segurou firmemente em torno de Sarah. William esfregou suas costas e braços. Acariciou o cabelo que caía em seu rosto. _ Ah, Sarah, isto foi o que quis dizer sobre não confiar em mim. Por que disse a mim que estava bem, esta manhã, quando na verdade não estava? Sarah ergueu seu braço e afastou a mão de William. _ Pare. - Sua voz era tão fraca quanto seus movimentos. _ Não toque em mim. Estou com muita dor. _ Sarah, eu... Ela gemeu, então sussurrou tão baixinho, que William teve que se aproximar ainda mais para ouvir. _ Silêncio. Sarah murmurou, como se até conversar fosse doloroso. _ Não fale alto. Lentamente, ela se enroscou. Sua respiração pareceu acalmar-se, a medida que se ajeitava para dormir. William suspirou. A dor que Sarah sentia parecia familiar para ela. O que significava que ela já sabia que ia acontecer, quando partiu de manhã. Ele a repreenderia mais tarde. Agora, ele somente podia perguntar por que Sarah, intencionalmente, havia partido sabendo que ia passar mal. Não devia ter hesitado esta manhã. Quando teve a impressão de que Sarah não estava passando bem, William devia ter insistido que permanecesse na cama. Ele não devia ter ido embora até que ela admitisse que estava doente. Não era desse modo, com mentiras e enganações, que queria passar o resto de sua vida. Sarah gemeu com dor, então começou a se contorcer, novamente. O som afugentou suas perguntas e fez a raiva amainar. 109


Ele podia mentir, colocando toda a culpa nela. Não mudaria o fato de que sua esposa, a mãe de seu filho, estava doente. Ainda que o único conforto que pudesse oferecer a ela fosse o calor de seu corpo, ele o faria. Não a deixaria até ter certeza de que ela e o bebê estavam bem. William esticou suas pernas, buscando conforto para o que ele suspeitou, seria uma noite muito longa.

Capítulo Vinte

S arah esticou seus braços e pernas, então estacou. Ela estava em uma cama, com as cobertas jogadas sobre seu corpo, desordenadamente. Pior ainda: ela estava nua embaixo delas. As mãos voaram para seu estômago. O bebê ainda estava seguro? Senhor querido, como ela podia saber com certeza? Antes de abrir seus olhos, ela ergueu sua mão para protegê-los da luz. Um movimento que não lamentou quando viu o sol que entrava na barraca. Como havia ido parar ali? A última coisa de que se lembrava, com clareza, era da enxaqueca chegando. Lembrou de se sentir tão mal, que desejou, ardentemente, que William estivesse por perto, para ajudá-la. Ao invés disso, ela estava só, com três guardas do Rei Henry. E agora estava nua, numa barraca? Ela se levantou, rapidamente, e sufocou ao sentir seu estômago se agitar, violentamente. Deitou-se novamente, agradecida pela prova de que ela ainda estava com a criança em seu ventre. Aparentemente, sua forte enxaqueca não havia afetado o bebê.

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Com um olhar em torno da barraca, ela achou suas roupas. Lentamente, para não induzir uma nova ânsia de vômito, ela se sentou e colocou o vestido. Como iria deixar a barraca e enfrentaria os guardas? Mas não podia ficar ali para sempre. Sarah respirou fundo, antes de rastejar para fora da barraca. Seis homens se sentavam ao redor de uma pequena fogueira. Ela não soube quando ou por que dois dos homens de Bronwyn juntaram-se ao grupo. Ela descobriria isto logo. Por agora, o melhor que podia fazer era cravar os olhos em todos eles, desafiando-os a dizer alguma coisa. Eles pareceram muito embaraçados para abrir suas bocas, ou fazerem algum comentário. Sarah ergueu o queixo em desafio, sabendo por experiência que um pouco de arrogância ajudaria a embaraçá-los. _ Você pode querer isso. Ela não teve que olhar para onde vinha a voz para saber que era William. O alívio afastou seu embaraço. Os guardas não a haviam despido. Sarah olhou para o seu marido, montado no seu cavalo e sacudindo uma sacola no dedo. _ O que é isso? Ele encolheu os ombros: _ Um presente de Berta. Ela disse que você poderia querer isso, pela manhã. Sarah tomou o saco de crostas de pão. _ Agradeço a você. _ Não me agradeça. Agradeça a Berta. _ Eu o farei, quando a ver de novo. Sarah colocou uma mão em sua coxa. _ Mas não foi ao pão que me referi. Eu estava agradecendo a você por estar aqui quando precisei. _ Não sei do que você está falando. Esteve doente? Eu acabei de chegar aqui. Ela olhou para os homens. Eles, intencionalmente, a ignoraram. Hesitante Sarah olhou de novo para William, e disse: _ Você mente. 109


Desmontando de seu cavalo, ele disse: _ Você devia saber. Não podia refutar suas palavras. Quando ela permaneceu muda, William pegou seu queixo, forçando Sarah a encontrar seu olhar. _ Da próxima vez que alguém lhe perguntar se está doente, tente dizer a verdade. Você tem mais alguém em quem pensar agora, além de sí mesma. Você esteve doente por dois dias. O que iria fazer e como iria se sentir se perdesse o bebê, Sarah? Ela ofegou ante aquele pensamento, mas não disse nada, não existia nada para dizer. William estava certo, e Sarah se irritou, ao admitir a verdade. Acaricionando sua bochecha, ele perguntou: _ Você me entendeu? _ Sim. Ele não precisava tratá-la como criança. _ Eu entendi. _ Está se sentindo melhor? Ela moveu a cabeça devagar, tentando não fazer movimentos bruscos para não revoltar seu estômago. _ De um modo geral, sim. _ Bom. Então você não terá nenhuma dificuldade para retornar a Bronwyn. Ela se enfureceu. _ Mas eu não devia morar na corte? _ É isso que quer? Sarah olhou fixamente para William. Ele se assegurou de manter o olhar vazio, para que Sarah não pudesse perceber seus desejos. Havia aprendido a mascarar suas emoções há anos atrás. E agora que ela, tolamente, havia deixado William saber de seus truques, tinha que se certificar que aquela mulher fosse incapaz de ler seu olhar. O que ela queria? Sarah não tinha o menor desejo de retornar a corte. Se sua vida não era fácil antes, seria pior agora.

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Ela falhou em sua missão para a Rainha. Por algum tempo, Eleanor faria sua vida miserável. Mais do que isso, Sarah não queria se separar de William. Compreendia que ele não confiava nela, tinha lhe dado motivos para isso. Mas fazê-lo, novamente acreditar nela, seria difícil, senão impossível, se estivessem vivendo longe um do outro. _ É tão difícil escolher, Sarah? Seu tom severo e o brilho feroz no olhar de William a alertaram que havia demorado tempo demais para responder. Novamente, William estava lhe dando uma escolha, algo que ela não teria na corte. _ Não. Oh, não, William. Eu quero retornar a Bronwyn. Sarah se aproximou mais, tentando fazê-lo entender que a única coisa que importava era estar com ele. _ Então é isto que quer, realmente? _ E você? William olhou para longe, voltando a agitar sua cabeça. _ Não. Eu preciso ir para Poitiers. _ Não! Ele arregalou os olhos, com seu grito. _ O que quer dizer com não? Sarah retorcia as mãos. _ William, a Rainha quer ver você morto. _ Por que isso a incomoda agora? Não é isto o que pretendia o tempo todo? _ Não, não é. Ela agitou sua cabeça. _ Eu discordei desta idéia. Mesmo quando não quis casar com você, nunca desejei sua morte. Achei que encontraria alguma forma de fazer a Rainha desistir deste plano. _ Eu devia deixar que se preocupasse. Mas você não precisa ter medo. O rei Henry se dirigiu para a corte de Eleanor, depois que prendeu Aryseeth. Nada me acontecerá, Sarah.

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Mas eles ainda estariam separados. Sarah sentiu o chão dançar, conforme a nausea agitava seu estômago. William a amparou. _ Ainda está indisposta? Para um momento, ela quis mentir. Ao invés disso, perguntou: _ Se eu disser que sim, ficaria comigo? _ Você ainda usa tais jogos? _ Sim. - Sarah olhou para ele. _ Se o mantiver ao meu lado, sim, William, eu uso. _ Não se sentiria culpada por me manipular assim? _ Claro que sim. Mas pelo menos eu não estaria sozinha. _ Sozinha? Bronwyn não está vazio. Existem muitas pessoas lá para lhe fazererm companhia. _ Talvez, mas não anseio pela companhia delas. Não é delas que eu preciso. William recuperou as rédeas de seu cavalo. Uma vez na sela, ele olhou para Sarah. _ Eu sei. Mas é o melhor que eu posso oferecer a você. Ela colocou uma mão em sua perna. _ William, por que deve ir? Não pode esperar? _ Você sabe que não. William incitou o cavalo à frente, deixando Sarah sozinha, parada ao lado da estrada. William apertou seus dentes tanto que temeu que eles quebrassem. Se a mulher sentada ao lado dela na mesa se aproximasse mais um pouco, levantaria da cadeira. Ele odiou estar na corte. Por que havia dito ao Rei que ficaria até o final da semana, não sabia. William não estava certo que teria estômago para aguentar mais três dias. Devia ter inventado uma desculpa para partir, logo após sua audiência. O Rei o manteve esperando oito dias.

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Henry já havia imaginado que a anulação não seria solicitada. De modo que a petição de William nunca sido apresentada para a Igreja. O Rei demonstrou um grande prazer em dar o documento para ser destruído. E teve um prazer ainda maior em informar a William que a Rainha não iria interferir na vida dos dois, novamente. Embora tivesse visto o olhar trocado entre os soberanos, estava aliviado por saber desta decisão e não lhe interessavam os meios que o Rei usou para conseguir que sua esposa desistisse de seus planos. _ Senhor Bronwyn, não nos falou de sua esposa. Como é a Senhora Sarah? A mulher, sentada a sua direita, fez a pergunta em um tom que indicava que não estava nem um pouco interessada, apenas queria manter uma conversação. _ Ela está bem, considerando seu estado. No momento que as palavras deixaram sua boca, soube que havia cometido um engano. _ Estado? A mulher lançou um olhar para um de seus amigos, através da mesa. Ambas as mulheres reviraram olhos e demonstraram sua descrença. _ Está um pouco cedo para ela estar em qualquer estado, não é? Ele não podia ter ouvido corretamente. E se tivesse, queria ver até onde aquela mulher iria. _ Eu não estou compreendendo... A mulher ciumenta encolheu os ombros e se debruçou sobre ele, como se compartilhando um segredo. _ Não estão casados há muito tempo. Seguramente, até você está ciente que a Senhora Sarah... _ O que? William cortou a frase. Depois de largar sua faca de sobre a mesa, ele perguntou: _ A Senhora Sarah o que? A mulher riu e agitou sua cabeça. _ Por favor, Senhor William, não existe uma viva alma que não saiba sobre a prostituta da Rainha. Não importa como ela o enganou, seguramente não acreditou que é o primeiro, acreditou? 109


A insinuação de que Sarah poderia estar levando no ventre o filho de outro homem foi demais para ele. William se ergueu e olhou para todos. Ele elevou sua voz alta o suficiente para ser ouvido acima do burburinho, e gritou para o Rei: _ Meu soberano? Henry ergueu uma mão, fazendo com que todos os que falavam ao redor, se calassem. Ele então gesticulou para William se aproximar. Mas em vez de se dirigir ao Rei, William permaneceu onde estava. Ele cravou seu olhar nas mulheres, até que elas tremeram em suas cadeiras. Só então, voltou sua atenção para o Rei. _ Eu imploro que perdoe minha insolência, mas eu já agüentei o suficiente de fofocas e mentiras. Ele se afastou da mesa e curvou-se. _ Eu gostaria de partir. Voltando a se erguer, ele adicionou: _ Agora. A Rainha encarou suas damas, com uma expressão enfurecida. O Rei franziu as sobrancelhas, brevemente, antes de, finalmente, movimentar a cabeça, dando seu consentimento. Rapidamente, William se dirigiu para sua câmara, para juntar seus pertences, Henry gritou: _ Deseje a Senhora Sarah tudo de bom e diga a ela que é bem-vinda à esta corte. William assentiu, com um movimento da cabeça. Sorriu, ao ouvir o burburinho que se elevava novamente. O último comentário do Rei, seu convite, não teria sido oferecido a qualquer um. William pulou os degraus de dois em dois. Esperava que as mulheres que acharam tanto prazer em atormentar sua esposa, sufocassem de raiva ao ouvir o convite de Henry. Não se importava por não testemunhar isso. Ele estava indo para casa. William parou dentro da câmara, subitamente compreendendo que o pensamento de retornar a Bronwyn o fez se sentir estranhamente à vontade. Como podia ser? Especialmente, quando já havia decidido que não viveria na fortaleza. Ele planejava residir em uma das cabanas vazias. 109


William rasgou sua túnica e a camisa, que havia usado para o ambiente da corte, lançandoas em uma maleta. Rapidamente, colocou suas vestes de batalha. Enquanto atava o cinto, sua mente se voltou para as mulheres que estavam a mesa. Não foi tanto o que disseram que capturou sua atenção. Foi sua resposta imediata para as insinuações maldosas. Seus músculos tinham ficado tensos, seus sentidos estavam em alerta, seu coração batia tão acelerado, como se estivesse sob ataque. Ele não deixaria que sua esposa fosse atacada por aquelas víboras maldosas. E saltou, imediatamente, em sua defesa. Seu corpo reagiu antes que percebesse as ofensas que seriam proferidas contra Sarah. William empurrou o resto de seus pertences na maleta, amarrando suas armas com a correia. A lógica lhe dizia que ele e Sarah não podiam viver juntos. Não podia confiar nela. Como poderia conviver com essa desconfiança? Sabendo que sói encontraria a resposta para aquela pergunta em Bronwyn, não na corte, ele correu para os estábulos, ansioso para pegar a estrada. Antes do sol se pôr, William queria cobrir tanto chão em direção a Bronwyn quanto possível.

Capítulo Vinte e um

O sol mal começava a descer, quando chegou à fortaleza.

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Estava exausto depois de quatro dias na estrada e mais três dias de esperando o canal estar tranqüilo o suficiente para cruzar. Um alvoroço frenético na muralha o tomou de surpresa. A esta hora do dia, as idas e vindas deviam estar terminando. William se dirigiu à contrução, só para ser parado pelo grito de Timothy. _ Senhor William! O tom da voz do homem fez os cabelos do pescoço de William se arrepiaram. Ele desmontou de sua sela, observando ao redor, como se procurando um inimigo invisível, enquanto agarrava suas espadas cruzadas. _ O que está errado? _ A senhora Sarah está desaparecida. Sua preocupação pela segurança da fortaleza não era nada em comparação ao medo que fez seu sangue congelar. _ O que quer dizer com desaparecida? Ele dirigiu-se ao castelo com Timothy em seu encalço. _ Nós não a vimos desde a última noite. William abriu as portas que davam para o grande salão e entrou, intempestivamente. _ Onde está Berta? _ Aqui, meu lorde. A mulher parou ofegante, ao seu lado. _ Senhor William, eu sinto muito, eu não sei o que aconteceu ou onde ela está. Quando ela não desceu para a refeição da manhã, eu subi para sua câmara e a encontrei vazia. William seguiu para o quarto de Sarah, com Berta correndo atrás dele. Ele relançou um olhar pelo quarto. _ Desapareceu mais alguma coisa? _ Um vestido. Seu pente e os enfeites de cabelo. Eu acho que falta uma coberta, também. Berta coçou sua cabeça, franzindo as sobrancelhas, e completou: _ Eu não vi Charles nem os dois novos guardas. _ Isso é bom. 109


Berta piscou: _ Bom? _ Isso significa que Sarah não foi capturada. Ela se foi por sua própria vontade. Se nenhum dos cavalos está faltando, ela está a pé e não pode estar muito longe, Berta. E se está com dois guardas e Charles, Sarah não está desprotegida. A mulher mais velha se agitou. _ A aldeia. Estava muito nervosa para pensar. Enquanto nós estávamos verificando os pomares, ela deve ter fugido para o vilarejo. William estava a meio caminho da porta, quando respondeu: _ Também penso assim. _ Meu senhor, espere. Impaciente por tomar o caminho, William franziu o cenho. _ Esperar? _ É provável que nem o Senhor nem os homens tenham comido nada ainda. Os homens podem comer aqui, quando retornarem, mas leve alguma comida para o Senhor e a Senhora Sarah. Levará pouco tempo para que eu possa preparar alguma coisa. William viu a sabedoria de sua sugestão. _ Vá para a cozinha e eu irei encontrá-la num instante. Depois que Berta desceu os degraus, ele retornou a câmara. Puxou um cobertor da cama, enrolando-o. Ele e Sarah não voltariam para o castelo naquela noite. Existiam muitas coisas que precisavam discutir—em particular. Ela havia lhe dito que riqueza e títulos de nobreza não importavam mais. William não sabia se acreditava nisso ou não, mas durante o tempo que esteve afastado, soube de várias coisas. Se não confiava plenamente em Sarah, também nunca havia confiado em ninguém. Cedo demais, havia descoberto que dar sua confiança a outra pessoa podia significar sua morte. Ele não confiou nas promessas de ouro e propriedades do Rei, e agora tinha ambos. Talvez fosse a hora de começar a confiar nas pessoas, começando por sua esposa. 109


Também conhecia os planos de Sarah e da Rainha. Sarah havia dito a verdade. A Rainha admitiu que sua esposa não concordasse com a idéia de matá-lo, desde o início e tinha ameaçado não aceitar o casamento, naquelas condições. Acima de tudo, soube, com certeza, que não queria passar seus dias sem Sarah em seus braços. Tinha sido um tolo, ao desejar um casamento sem emoções e amarras. Enquanto a idéia de não se ligar a uma esposa pelos laços emocionais pareceu conveniente, ele temia que logo tivesse uma existência aborrecida e solitária. Preferia ter alguém ao lado dele, o apoiando, alguém que pudesse provocar tanto sua fúria quanto o seu desejo. Uma raiva que poderia converter em outra coisa e gastar a noite toda, calmamente e de uma forma muito mais satisfatória. Mas no fim, a escolha era de Sarah. Eleanor disse que Sarah podia retornar a corte quando quisesse. William esperava que ela não desejasse tal vida. Mas isso era algo que ele precisava descobrir. Acima de qualquer coisa, Sarah era sua esposa. Ela levava seu filho. E ele veria o inferno congelar, antes de abrir mão dela ou de seu filho, sem uma boa briga.

Sarah acordou e empurrou as cobertas. Ela havia tirado uma soneca mais cedo e algo a tinha despertado. As luzes das luminárias de óleo chamejavam através da semi-escuridão cabana. O cheiro de uma fogueira de acampamento flutuou pelas venezianas. Embora tivesse vindo para ficar só com sua miséria, depressa compreendeu que não estava sozinha. Naquela manhã, havia escutado dois guardas sussurrando ao lado da cabana. Sabia que eles somente estavam cumprindo ordens, por isso não os mandou embora. Até aquele momento, tinham permanecido escondidos, como se percebessem que ela queria ficar isolada. Mas havia alguém lá fora. Estremecendo, ela abriu a porta e espiou para fora. _ Você demorou. - William não se afastou do fogo. Olhando-a por cima do ombro ele lamentou: _ Eu pensei que teria que passar a noite aqui fora. 109


Sarah ofegou com surpresa e fez um esforço enorme para não correr e se jogar nos braços dele. Ela se aproximou tão lentamente quanto podia e sentou-se no tronco próximo a ele. _ Você podia ter entrado. William movimentou a cabeça em direção ao caminho e gritou: _ Pode aparecer agora! Sarah não se surpreendeu quando viu Charles, flanqueados por dois guardas, sair do bosque. _ Você não está surpresa? _ Por que eu estaria? Eu os ouvi nos arbustos mais cedo. Mas como você soube que eles estavam aqui? William cutucou uma vara no fogo, remexendo o carvão. _ O bosque estava muito silencioso, quieto o suficiente para ouvir passos apressados. Depois de mandar os homens retornar para Bronwyn, William sentou-se a seus pés. _ Quase matou Berta de susto! _ Eu não quis fazer isso. Sarah estava certa que a mulher saberia onde tinha ido e o motivo de querer ficar sozinha. _ Você não quis dizer e fazer muitas coisas, Sarah. Mas você as fez mesmo assim. Ela não queria nem precisava de nenhuma dor adicional. Não importando tudo que ela fez, ele não era inocente. Como William podia tê-la deixado partir? Ela estava ainda indignada por que ele a deixou para trás. Mas sabia que a tristeza que sentia rapidamente espantaria sua raiva. Sua tristeza pelo fim de seu casamento havia diminuído? Haveria um tempo em que a tristeza se transformaria em ódio? E nesse caso, o ódio também enfraqueceria com o tempo? Ela preferia não sentir nada. Se alguém tivesse lhe dito, tempos atrás, que a falta de atenção machucaria tanto, teria rido. Mas estariam certos. Ela suspirou. _ William, eu não estou com humor para isso. _ Não? Lamentando por você, Sarah? _ Eu não estou... 109


Ela interrompeu a frase. Sim, ela estava se lamentando. _ Por que não deveria? Eu tenho um castelo e não tenho marido. E logo terei um filho sem pai. Eu tenho todo direito de me sentir assim. Quando ela terminou, sua voz subiu. Mas William só olhou fixamente para ela. Sarah teve o súbito desejo de apagar aquele sorriso convencido do rosto dele. _ O que está achando tão divertido? _ Você. Está ficando cada vez mais sentimental. Quando a criança nascer, você vai dar pulos de contentamento em volta dela. Seu sarcasmo a machucou profundamente. A ira desapareceu debaixo da dor. Para seu horror, ela sentiu seu lábio tremer. _ Eu não sou emotiva. William passou a ponta do dedo em baixo de seu olho e mostrou: _ Então o que é isto? Chuva? Quando ela tentou se afastar, ele passou seus braços ao redor de sua cintura e a puxou firmemente contra seu tórax. _ Sarah, pare com isso. Ela tentou ficar imóvel, mas o calor de seu tórax contra ela e a segurança oferecida pela força de seus braços era demais para ignorar. Ela relaxou contra ele. _ O que você está fazendo aqui? _ Eu posso partir se você quiser. William começou a afrouxar seu abraço, mas Sarah se agarrou nele. _ Não, não quero. Quando ele apertou seu abraço, ela suspirou. Mas não soube o que dizer, ou fazer. Queria reverter àquela situação, implorar pelo perdão dele, mas temeu que ele a rejeitasse uma vez mais. Isso seria demais para agüentar. Sarah fechou seus olhos, tentando esconder seu desejo. Certa de que havia controlado suas emoções, ela perguntou: _ Porque veio, William? 109


_ Por causa da anulação. _ Oh! - Claro, por que outro assunto ele teria vindo? Mantendo um braço sobre ela, ele puxou uma missiva de seu cinto e deu para Sarah ler. Abrançando-a e com seu queixo descansando no topo de sua cabeça, ele explicou: _ Isto é a petição para nossa anulação. O Rei nunca a enviou para a Igreja. Suas mãos tremeram, quando ela quebrou o selo de cera e leu o documento. _ Você mesmo podia ter enviado! Ele acariciou sua bochecha com seu cabelo. _ Eu deixo essa escolha para você, Sarah. Sem pensar duas vezes, ela lançou o documento no fogo. Sarah sentiu o peito de William estremecer contra suas costas e soube que ele estava rindo. Que ele risse. Ela não se importava. Ele tomou sua mão e caminhou em direção à cabana. _ Nós precisamos conversar. Seu coração deu um pulo, sua pulsação acelerou. Sarah tentou amainar a alegria em seu coração. Ele ainda não havia dito nada para se alegrar tanto. Uma vez dentro da cabana, William sentou na cama, com as costas contra a parede e suas pernas esticadas. _ Parece que nós temos duas escolhas diante de nós, eu preciso determinar o caminho que iremos seguir. Sarah fechou a porta, então se voltou para enfrentá-lo. _ Você deseja escolher o nosso caminho? _ Seria bastante tolo de minha parte dar a você a escolha. Você lançou a petição no fogo sem perguntar o que eu acho. E se, no futuro eu discordar de suas decisões? Ela ficou muda. Não exatamente muda, mas as palavras que gostaria de proferir não eram adequadas para uma dama. Suas mãos se apertaram e Sarah olhou fixamente para ele. William pareceu relaxado o suficiente para adormecer. Sua cabeça estava inclinadda, os olhos semicerrados.

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Ela enrubesceu e se debruçou sobre ele, pronta para reprendê-lo por sua arrogância. E quando William abriu os olhos, Sarah vislumbrou as manchas douradas em seu olhar, afastando qualquer ira. _ Oh! - Sarah empurrou vertical: _ Você… Você… seu patife! As mãos fortes circularam sua cintura e a agarraram quando tentou fugir. _ Como pode cair numa brincadeira tão fácil, Sarah? Causa pena. Ele se moveu o suficiente para ela se sentar ao lado dele na cama. _ Eu odeio você! – Sarah murmurou baixinho. _ Você precisa pôr um pouco mais de sentimento nesta declaração. Caso contrário, ela soa muito falsa. Ela escolheu ignorar seu comentário, perguntando uma vez mais: _ Além de querer me levar a loucura, o que mais deseja discutir? _ Duas coisas. _ E quais seriam? _ Primeiro, eu pensei que você poderia gostar de saber que parece navio de Aryseeth afundou no Canal. Ela não podia dizer que a notícia a tinha deixado triste. _ Ninguém tentou salvá-lo? _ Eu não sei, mas parece que um dos homens de Henry conseguiu salvar algumas coisas. _ Tais como? _ Os quadros do Palácio de Sidatha. Sarah sentiu a satisfação correr em suas veias. _ Às vezes, o Senhor é bom. _ Com certeza, Ele é! Ela não era tola o suficiente para acreditar que isso era a única coisa que William veio dizer. _ Você disse que existiam duas coisas? Qual é a outra? _ Nós temos duas escolhas diante de nós relativos ao nosso casamento e eu quero isto resolvido agora.

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_ Primeiro você quer uma anulação, então você deixa isto para mim e agora acha que nós devíamos decidir juntos? _ Não. - Ele agitou sua cabeça: _ Uma anulação não é mais uma opção viável, já a queimamos. _ William, eu juro que você verdadeiramente me levará à loucura. Quais são as opções? _ Eu já falei com Rei Henry e Rainha Eleanor. Ela estremeceu, perguntando-se o que ele disse a eles. _ Você tem um lugar na corte quando desejar, mesmo se quiser ir agora. Ela não tinha nenhum desejo de voltar para a corte. Ela preferia viver em uma alquebrada fortaleza ao lado de seu marido. Mas ela não diria isso para ele. _ É bom saber disso já que não me vejo vivendo em algum lugar do bosque. _ Você tem outra casa, Sarah. Seu coração bateu acelerado, com esperança, mas William não pediu para viver em Bronwyn como sua esposa. Talvez ele merecesse tomar um pouco de seu próprio remédio. Sarah estreitou seus olhos, e o empurrou, como se fosse lhe dar um tapa. _ Eu nunca, jamais retornaria para a fortaleza de meu pai. Eu não sujeitaria um filho meu aos cuidados daquele homem. _ Nem eu permitiria que você levasse nosso filho para lá, ainda que esta fosse uma opção. Eu estava falando sobre Bronwyn. Ele olhou para ela, adicionando: _ Porém, é estranho que Bronwyn não lhe passou pela cabeça, como primeira opção. _ Eu nunca pensaria que me ofereceria sua amável hospitalidade. _ O quanto me considera! _ Meu Senhor Bronwyn, o que o fez pensar que me lançaria aos seus pés, mendigando para que me deixasse viver em sua casa? _ Já que é também a sua casa, não. Mas o pensamento cria uma visão interessante. Ela se sentou na extremidade da cama e cravou os olhos nele. _ Preste atenção, William. Nós estamos conversando como se conversa na corte, alternando gracejos com farpas.

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_ Você prefere que eu grite com você? Ou talvez a coloque nos meus ombros e simplesmente carregue você atrás para a fortaleza, como um bárbaro insensível que viesse reinvindicar sua teimosa esposa? Sarah ofegou: _ Você não iria fazer isso. _ Não? - Seu tom rouco de voz, o resplendor de ouro em seus olhos que ela sentiu tanta falta, e a mera menção de reinvindicá-la como esposa fez seu coração pular. William moveu-se, pegando-a pela cintura e a jogando sobre seus ombros. _ William! Sem uma palavra ele a carregou, batendo as pernas, e andou a passos largos para a porta. _ Ponha-me no chão, agora! Você me irrita mais do que meu pai! Ela batia em suas costas com os punhos. Ele parou na porta. _ Você pensa que esta é uma boa hora para gracejos? _Eu só pensei em dar a você um pouco do seu... Sarah fechou sua boca quando ele pegou a maçaneta da porta. _ Você não se atreveria! Estou cansada de ouvir você me dizer o que devo fazer! O frescor dabrisa da noite feita correu através de suas pernas quando ele abriu a porta. Certa de que ele cumpriria sua ameaça, Sarah tentou acalmar a situação. _ William, eu peço desculpas. Por favor, não me humilhe desta maneira. Ele nunca a envergonharia, intencionalmente. William sabia que ela não falava a sério, mas a recusa de Sarah em cogitar a possibilidade de morar nas suas terras o havia magoado. William estacou e chutou a porta fechada. _ Você tem mais ou menos dois segundos para retomar a razão. William a soltou sobre o colchão, permanecendo de pé, ao lado da cama. _ Você escolhe retornar ou não a corte da Rainha. Ou pode ficar aqui em Bronwyn onde nós acharemos um modo de vivermos juntos. Ela ficou de joelhos e o enfrentou. _ Quem pensa que é para me tratar assim? _ Eu sou seu marido. 109


William alcançou e a livrou o cinto de seus quadris: _ E eu estou esperando por uma resposta. Sarah estapeou suas mãos, tentando afasta-lo quando William agarrou a bainha de seu vestido. _ O que o faz pensar que eu vá concordar com isso? _ Eu estou esperando uma resposta. _ Não serei tiranizada por você! Ele dirigiu-se à porta: _ Então seja como você quer. Ela pulou da cama e correu para ele: _ William, espere! Antes de conseguir agarrar seu braço para impedi-lo de partir, tropeçou na barra de seu vestido e aterrisou aos pés dele. William olhou fixamente para ela. Certificando-se que Sarah não estava ferida, mal conteve o riso: Sarah, você está implorando? Para seu assombro, ela abraçou suas pernas com os braços, se encolhendo e murmurando: _ Fique, William. Por favor, fique! Ele a ajudou a se levantar, quando subitamente sentiu as pernas sumirem do chão. A bruxa havia lhe dado uma rasteira! William aterrisou no soalho com uma forte pancada. Sarah investiu sobre ele: _ Parece que ambos vamos rastejar!

Com suas mãos plantadas em seu tórax, ela se debruçou e olhou fixamente para ele. _ O que você dirá se eu resolver voltar para a corte? _ Nada, a escolha é sua. Eu só lhe peço para ser discreta! Imaginar que Sarah usasse discrição já era difícil. Mas pensar nela querendo retornar a corte de Eleanor era muito pior. _ Discrição? - Ela se sentou: - Eu não faço nada! _ O que você não entende? Você viveria na corte, cercada de pessoas. Desde que você é extremamente apaixonada para permanecer celibatária, somente lhe peço que seja discreta quando tomar um amante! 109


_ Tomar um amante? – A confusão estampada no rosto de Srah era impagável. A Senhora Sarah de Bronwyn, antigamente Remy, também conhecida como a prostituta da Rainha, não estava entendendo nada do que ele queria dizer. Obviamente, William teria que se explicar melhor. _ Sim, Sarah, um amante. Um homem que vai levar você para a cama. Um homem para quem você abrirá as pernas, gemendo e se contorcendo. Ele soube o exato momento em que Sarah compreendeu. E esperou ela levanter sua mão. Seria fácil aparar a bofetada no ar. Ela o empurrou: _ Você… Você… Bom Deus, William, o que faz você me dizer essas coisas? Ele a agarrou pela cintura, batendo as mãos no chão. _ Você vai parar? Eu não a estou acusando de nada. Ele se debruçou sobre ela e deslizou a língua ao longo de seus lábios. Quando ela estremeceu sob seu toque, ele agarrou um seio, seu dedo deslizando pelo bico sensível. _ Você é uma mulher apaixonada. Se você retornar para a corte, não pode pensar que passará o resto de sua vida sem ser beijada, tocada ou amada por um homem. Ela tentou fechar seus olhos, mas William viu o brilho das lágrimas que ameaçavam correr pelo canto de seus olhos e continuou: _ Eu não sou tão cruel para exigir isso de você. Eu só lhe peço que, nas poucas ocasiões em que eu me encontrar na corte, você não ostente seu amante na minha frente. Seus lábios tremiam, mas ela perguntou: _ E você? _ Eu seria seu marido de todos os modos, quando nós estivermos juntos. William acariciava seu pescoço, respirando contra sua orelha. _ Mas eu não sou um santo, Sarah. Eu sou tão apaixonado como você! Sarah tentou livrar-se dele, chorando: _ Vá embora. Deixe-me só, William. Ele soube que agora a tinha aborrecido de verdade. Ele também estava certo que levaria muito tempo para acalmar suas emoções e sua raiva. E quando Sarah estava brava falava

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sem medir as consequências. Isso era o que ele queria — ela devia lhe dizer o que realmente lhe passava pela cabeça, sem inventar palavras que imaginava que William quisesse ouvir. _ Não, Sarah. Eu não a deixarei sozinha. Nem agora, nem nunca. Diga-me como fazer este casamento funcionar. Quando ela permaneceu muda, ele quase gritou: _ Sarah, abra seus olhos e olhe para mim! Ela finalmente abriu seus olhos e ele quase afogou naquele olhar. _ Sarah, você afirma que pode ler as emoções no rosto das pessoas. E a espião da Rainha, não consegue ver quando seu marido está implorando para você ficar? Ela estreitou ela olhar e cravou seus olhos nele. _ Você está implorando enquanto me pede que seja discreta na corte? _ Você começou isto. Não me perguntou o que eu faria se decidisse viver na corte? _ Sim, mas… _ Mas o que? Estava me testando? – Enfurecido, William a puxou para ele. _ O que esperava que eu fizesse? Que eu gargalhasse e dissesse que não me importava nem um pouco? _ Você se importaria? - Ele não respondeu. Ao invés disso, ele passou uma das mãos por seu pescoço. _ Você agora perdeu a chance de escolha! – William pousou seus lábios nos dela, acariciando suavemente: _ Vai ficar aqui, Sarah! Ela sorriu com alívio, contra sua boca. _ Eu não estou certa que eu quero. Talvez você deva me convencer. Devo convencer você, afinal foi quem me ensinou a gostar de outra pessoa. _ Você me ama, William? – A respiração de Sarah ficou presa em sua garganta e seu coração pareceu parar: _ Eu entendi bem? Ele passou seus lábios pelo pescoço de Sarah: _ Você me ouviu! _ Nao, eu acho que não ouvi! _ Eu amo muito você, Sarah! Ela suavemente ofegou: _ De verdade? 109


_ Sim, de verdade! Sarah lançou suas próprias palavras contra ele: _ Mas o amor não existe. É egoísta e nos torna fracos! William ruidosamente suspirou: _ Eu estava errado. Muito errado, eu admito. Meu amor por você não é egoísta, me faz querer dar tudo para você. E este amor não me fez fraco. Este sentimento em meu coração me dá forças para enfrentar qualquer desafio. _ Oh, William. - Ela descansou sua cabeça contra seu tórax: _ Eu não sei o que dizer. Eu nunca sonhei que você falaria de amor para mim. _ Você podia dizer que me ama, também. Caso contrário, eu vou me sentir usado! Sarah ergueu sua cabeça para olhar para William: Eu amo você, William, há bastante tempo. Só não queria ver meus sonhos destruídos. Ele firmemente a abraçou: _ Veja as coisas que você me fez! _ As coisas que eu fiz? _ Bom Deus, mulher, você esconde a verdade de mim, você mente toda vez que eu viro as costas! Ela não podia negar aquelas acusações. _ Eu prometo nunca mais mentir para você! Ele riu: _ E eu devo acreditar? _ Sim, William. Se você gostar de mim mesmo, você acreditará que eu amo você demais! _ Se eu gosto de você realmente? - Com um grunhido, William passou as mãos por seu corpo: _ Senhora Sarah, você é o amor da minha vida. Meu coração é seu, vai ser a mãe de meu filho. Você é tudo que sonhei e muito mais. Diga que vai ficar comigo como minha esposa! Sarah hesitou. Ela quis um homem ilustre. Um que iria gostar dela, protegê-la, lhe dar filhos e uma vida com conforto. Ela olhou fixamente para os olhos de William vendo as manchas douradas dançar naquele olhar e soube que ganhou mais do que havia desejado. _ Eu amo você tanto que machuca às vezes, marido. - Sarah alisou sua bochecha. _ Onde quer que você esteja, será a minha casa. Seguirei com você para onde for! 109


Ele riu e suavemente a apertou em seus braços. Com um sorriso maldosamente pecador em seu rosto, ele sussurrou: _ Agora mesmo, eu estou pensando que aquela cama parece muito convidativa, meu amor.

Epílogo

Castelo Bronwyn — junho de 1178 O sol do meio-dia fluía pelas grandes janelas da fortaleza. Uma brisa leve tremulava as colheitas que cresciam nos campos. O alvoroço de atividade na muralha cercada parou quando os passos de um menino ecoaram pelo portão, _ Papai! A voz ecoou nas recentemente construídas paredes de pedra do grande salão: _ Mamãe! No quarto, William suspirou: _ Logo teremos companhia, meu amor! Ele abraçou o corpo ainda trêmulo da sua esposa para sussurrar: _ Você se torna cada vez mais insaciável com o passar dos anos! A risada lânguida de Sarah ecoou em seus ouvidos como uma música suave. _ Fui eu quem arrastou você dos pomares, no meio do dia, para o quarto? Ele encolheu os ombros: _ Talvez não. Mas quando eu a deixei esta manhã, ficou me provocando, se espreguiçando, nua, somente para me instigar, como poderia me libertar daquela visão? _ Eu não fiz tal coisa. Além disso, você podia ter esperado até a noite! 109


_ Mulher, salve-me de acreditar em suas palavras. Se eu tivesse permanecido no campo, teria passado os próximos dias sendo castigado por não reconhecer aquele convite! Sarah bateu levemente na sua bochecha. _ Você é terrivelmente abusado! Ela apressadamente arrancou as cobertas de cima deles, adicionando: _ Sua Senhoria, aproxime-se! Mal as palavras deixaram sua boca quando a porta de câmara se abriu. _ Papai! William roçou seus lábios na orelha de Sarah. _ Nós continuaremos isso depois! Ele então olhou seu primogênito, com falsa desaprovação. _ É assim que você entra numa câmara fechada? O menino imediatamente deixou o quarto, fechando a porta atrás dele. O peito de Sarah agitou-se com o riso, ao ouvir o golpe na porta. William gritou: _ Entre! O rapazinho loiro, solenemente se aproximou da cama, mas ele não podia esconder o regozijo em seus olhos azuis. William perguntou-se se algum dia deixaria de maravilhar-se com a perfeição das crianças que Sarah lhe deu. _ Sim, o que foi Gunther? _ Eles já estão chegando! - Sua excitação era visível tanto como a pressa em sua conversação: _ Os tios Hugh e Guy e suas famílias estão na aldeia. Trouxeram carroças, cavalos e guardas e, oh, Pai, poderia sair para saudá-los? William arrepiou o cabelo do rapaz. _ Eu agradeceria se o fizesse! Sarah adicionou: _ Leve Simon e Eleanor com você _ Eleanor? - A excitação do menino desapareceu de seu rosto: _ Ela é só um bebê!

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_ Faça como sua mãe diz! - William suavizou seu tom severo: _ Nós logo o livraremos dela. Agora, vá, veja se Hugh lembrou de trazer os filhotes de cachorro com ele. O desgosto de Gunther em arrastar junto sua pequena irmã desapareceu na menção dos cachorros. Ele saiu correndo do quarto, desaparecendo no corredor. Sarah lançou as coberturas para o lado. _ Eles chegaram um dia antes. Eu preciso certificar-me de que está tudo em ordem. Antes de Sarah poder levantar-se, ele a puxou para baixo dele. _ Em um momento. Você precisa primeiro, implorar perdão por abusar de mim. _ William... Suas palavras foram sumindo, quando Sarah olhou para ele. _ Oh, não, meu senhor, nós não temos tempo para isso. Terá que esperar até mais tarde. Nós não vemos Hugh, Adrienna, Guy, Elizabeth e as crianças há dois anos. Você os faria esperar, como se fossem estranhos? _ Claro que não, mas eu tenho assuntos mais urgentes em mãos. Ele beijou a curva de seu pescoço, perseguindo o calafrio com sua língua. _ Eu já disse hoje que te amo? Ela enlaçou seus braços ao redor do pescoço de William e brincou com seu longo cabelo. _ Você precisa cortar o cabelo. - Em seu grunhido suave, ela disse: _ Eu sempre esqueço. _ Eu amo você, Senhora Sarah, eu amo as crianças que você me deu, e a vida que nós temos. _ E nós amamos você, William. - Ela beijou seu queixo, enquanto ia correndo os dedos pela suas costas. Sarah se retorceu sedutora em baixo dele: _ Talvez nossos filhos tomem todo o nosso tempo. William tragou um gemido, seu corpo respondendo aos movimentos. _ Tem alguns nomes em mente? _ Nomes? – William ficou perplexo, quando entendeu o que Sarah dizia. _ Eu não ia dizer a você até ter certeza! _ Acredite, Sarah, depois de três crianças, eu sei quando outro está a caminho. Você começa a ficar muito sentimental e completamente insaciável! _ Eu não sou sentimental! 109


_ Não, claro que não, meu amor. Com sua primeira gravidez William aprendeu como ela podia ser sentimental. E aprendeu durante sua segunda gravidez a não discutir com ela. Como Gunther uma vez disse a ele, era mais fácil concordar. Ela o acariciou, perguntando: _ E se eu for insaciável, você está reclamando? William riu: _ Tenho reclamado? _ Não realmente. - Sarah passou os dedos por seus cabelos. _ William, alguma vez lamentou ter me pedido para ficar? Ele traçou uma linha de beijos de seu ombro, até sua orelha, aumentando sua necessidade. _ Se eu lamentei? Não, Sarah, nunca. Por que esta pergunta? _ Às vezes eu me pergunto se você não teria sido mais feliz com alguém menos sentimental e… insaciável! _ E eu teria me aborrecido pela vida afora! William levantou-se em seus cotovelos e a segurou entre suas mãos mornas. _ Nenhum remorso. Se você tivesse querido partir, eu teria implorado que ficasse. Sarah esfregou sua bochecha com sua mão. _ Não precisaria implorar muito, meu amor! _ Bom! - William passou os lábios pelos cantos da boca de Sarah. _ Porque eu não poderia existir sem meu coração, Sarah!

Fim

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Corações domados  
Corações domados  
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