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DESIRE MEU AMOR Desire My Love

Miranda Jarrett

Desire Sparhawk achava que um inglês decente só morto. A simples visão de um uniforme britânico congelava-lhe o sangue. Mesmo assim, o capitão Jack Herendon fez o fogo correr em suas veias! Jack Herendon jamais imaginara que sua inimiga americana fosse uma mescla de beleza, coragem e paixão. Na verdade, Desire era a mulher de seus sonhos... e a mulher a quem, por dever, ele deveria trair!

Digitalização: Tinna Revisão: Nádia


Desire meu amor

Miranda Jarrett

Copyright © 1994 by Susan Holloway Scott Publicado originalmente em 1994 pela Harlequin Books, Toronto, Canadá. Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma. Esta edição é publicada por acordo com a Harlequin Enterprises B.V. Todos os personagens desta obra, salvo os históricos, são fictícios. Qualquer outra semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência. Título original: DESIRE MY LOVE Tradução: Cristina Laguna Sangiuliano EDITORA NOVA CULTURAL uma divisão do Círculo do Livro Ltda. Alameda Ministro Rocha Azevedo, 346 - 9a andar CEP 01410-901 - São Paulo - Brasil Copyright para a língua portuguesa: 1995 CÍRCULO DO LIVRO LTDA. Fotocomposição: Círculo do Livro Impressão e acabamento: Gráfica Círculo

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PRÓLOGO

Canal da Mancha Novembro de 1797 Na guerra, não havia lugar para sentimentos. Alguns homens sobreviviam, outros não. Quando, naquela tarde, Jack viu a pequena embarcação francesa arriar sua bandeira diante da fragata inglesa Aurora, teve o bom senso de agradecer a Deus por ter sido poupado mais uma vez, mais um dia. Sozinho, agora, ele caminhava de um lado para o outro no deque do Aurora, envolto pela escuridão que se misturava ao mar, sentindo o vento frio e salgado castigarlhe as faces. Não havia lugar para sentimentos... Ainda assim, mais uma vez seus dedos mergulharam no bolso do casaco, para tocar as cartas que ele retirara da cabine do americano, a bordo do Anne-Marie. Não haviam sido endereçadas a ele. Aquelas cartas continham muito amor, lembranças íntimas, que jamais deveriam ser lidas pelos olhos de um estranho. Embora o dever obrigasse Jack a ler cada palavra, ele se odiava por tê-lo feito, assim como odiava o fato da caligrafia elaborada lembrar-lhe tanto de Júlia, seu riso, bom humor e da coragem, que fora tão maior que a dele. Retirou a mão do bolso, afastando-a das cartas. Era melhor deixar que Júlia permanecesse no passado distante, onde a dor de sua perda não pudesse feri-lo. Deveria pensar no presente, ou melhor, tentar reparar o futuro que a triste tarefa daquele dia podia ter destruído. Dos porões, elevou-se o som abafado das comemorações. A voz de um marinheiro bêbado elevou-se numa canção desafinada, que foi bruscamente interrompida pelos demais. Jack sorriu, apesar do peso que oprimia seu peito. Ao menos, seus homens compreendiam seu estado de ânimo, mesmo sendo incapazes de descobrir o motivo. A embarcação francesa que haviam capturado, estava carregada de seda e conhaque contrabandeados, o que tornaria cada homem a bordo mais rico. Tudo isso, sem ter derramado uma só gota de sangue inglês. Fora um belo dia de trabalho, Jack pensou com amargura, e sua tripulação tinha todo o direito de sentir-se orgulhosa. Somente ele, como capitão, e em breve, seus superiores no almirantado, saberiam que ele deixara de seguir suas ordens. Ordens estas que, se seguidas à risca, poderiam ter mudado o rumo daquela maldita guerra contra a França. Porém, o que esperava por Jack agora, era a corte marcial, o desprezo e a piedade dos companheiros, a perda da honra, de seu posto e de seu navio. Uma vez, fora expulso daquela maneira, banido de tudo o que andava. Agora, mais velho, não estava certo de que sobreviveria a uma segunda vez. Não era de admirar que Júlia ocupasse seus pensamentos naquela noite. Jack sentiu as cartas em seu bolso, sem ter de tocá-las. A importância delas pesava tanto quanto sua consciência. Mas não lhe restava alternativa. Em vinte anos, jamais falhara a seu rei, ou à Marinha. E não o faria agora. A americana que escrevera as 3


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cartas seria facilmente localizada. Ele lhe diria o mínimo necessário e lhe prometeria tudo o que ela pedisse, até chegarem a Paris, onde a forçaria a arriscar a vida por um país e uma causa aos quais ela não pertencia. E que os sentimentos fossem para o inferno.

UM

Providence, Rhode Island Janeiro de 1798 É claro que um cavalheiro deseja me ver, Zeb — disse Desire, ao assinar seu nome na última nota de carregamentos. — Sempre há um, não é mesmo? — Ah, sim, senhorita. Mas este é diferente. — Constrangido, Zeb apoiou o peso do corpo na perna de pau que, quinze anos antes, o obrigara a deixar de ser um marinheiro nos navios da família Sparhawk, para ser mordomo em sua casa. — Muito diferente. — Não pode pedir-lhe que volte amanhã? — ela perguntou cansada, levantandose do banco alto, atrás da escrivaninha. Havia revisado a contabilidade da companhia desde o amanhecer, parando apenas para uma refeição rápida. Tudo o que queria agora era uma xícara de chocolate quente e o conforto de sua cama. — Já não pude jantar com minha avó — continuou, fechando os livros —, e você sabe que ela não aprova visitas de negócios a esta hora. A menos que se trate de um assunto muito urgente, ou que seja alguém trazendo notícias de meu irmão. Não foi capaz de disfarçar a esperança em sua voz. Esperança que Zeb logo destruiu: — Não, senhorita. Não acredito que ele traga qualquer notícia esperada — afirmou, apontando com o polegar para a porta de entrada. — E, se recebermos notícias do capitão Obadiah, não será de um estrangeiro elegante como aquele. — Suponho que não — ela concordou. Seu irmão mais novo partira há seis meses e, até então, não mandara notícias. Era tempo demais para uma simples viagem de Boulogne. Desire tentava convencer-se de que milagres aconteciam todos os dias no mar, que Obadiah não tardaria a atravessar a porta com alguma desculpa alegre para sua demora. Porém, no fundo de sua alma, sabia que as tempestades e os naufrágios eram mais comuns que os milagres. Assim como sabia que ela e a avó eram as únicas pessoas em Providence, que ainda não haviam perdido as esperanças com relação ao retorno do jovem capitão Sparhawk. Com um suspiro, forçou-se a concentrar a atenção em Zeb e no homem à sua espera. — Ele disse como se chama? — Não, senhorita. É pomposo demais para isso. — Zeb não disfarçou o desprezo. Por mais que a avó de Desire se esforçasse para transformá-lo num mordomo 4


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apresentável, ele jamais perderia a independência de marinheiro ianque, para guardar suas opiniões para si. — Mas ele disse que viajou de longe e pediu para falar-lhe em particular. Tenho certeza de que não é da Nova Inglaterra. — Disse que é um cavalheiro? Por uma vez, Desire desejou que Zeb houvesse se enganado em seu julgamento. Cavalheiros eram proprietários de navios, capitães ou empresários, que esperavam mais hospitalidade do que ela se sentia disposta a oferecer, naquela noite. Distraída, esfregou as mãos nos braços gelados e, só então, notou que nevava lá fora. — Sim — Zeb confirmou com segurança. — Terá de recebê-lo na sala, sem dúvida. — Nesse caso, é melhor não fazê-lo esperar mais tempo. "Leve-o até a sala, Zeb, e ponha mais lenha na lareira. Sirva-lhe licor, ou rum, se ele preferir. Irei num instante. Assim que Zeb se afastou, Desire olhou para sua imagem refletida no espelho e suspirou desolada. Embora possuísse os cabelos negros, a pele clara e os olhos verdes dos Sparhawk, suas faces apresentavam-se pálidas de cansaço, e havia sombras escuras sob seus olhos. Aparentava o cansaço acumulado de seus vinte e seis anos e era o retrato vivo da solteirona que sua avó temia que viesse a ser. Tentou ajeitar o cabelo, prendendo as mechas que haviam se soltado do coque no topo da cabeça, e endireitou os brincos, para que pendessem livres de suas orelhas. Afastou-se do espelho, alisando as dobras do traje de lã vermelha. O vestido reto, de cintura alta, combinava com sua estatura, e a tonalidade escarlate era a que lhe caía melhor. Naquela noite, porém, nada disso ajudaria. Com um suspiro exasperado, apanhou o xale, atirou-o sobre os ombros e dirigiu-se à sala. Para sua surpresa, o estranho não se virou quando ela abriu a porta. Ao contrário, continuou diante da lareira, de costas para ela, o casaco azul-marinho ainda abotoado, com flocos de neve derretendo sobre os ombros, as mãos espalmadas diante do fogo fraco que Zeb acabara de acender. O aposento formal apresentava-se quase tão frio quanto o vento que soprava do lado de fora das imensas janelas envidraçadas. Desire relutou em perturbá-lo. Além do mais, que outra oportunidade teria de estudá-lo de maneira tão crítica? Além dos homens de sua família, não havia outros em Providence que parecessem tão altos, mesmo ao lado daquela lareira enorme. E poderia garantir que se tratava mesmo de um cavalheiro, pois contava com um bom alfaiate. As linhas elegantes do casaco ajustavam-se com perfeição aos ombros largos, e os cabelos longos e castanhos encontravam-se presos num laço perfeito de seda preta. Um tanto fora de moda, aqueles cabelos longos. A maioria dos jovens passara a cortar seus cabelos curtos, seguindo o estilo francês. Talvez, a moda republicana ainda não houvesse atingido o país daquele homem. O que explicaria, também, o fato dele ainda não ter se virado para cumprimentá-la. Desire voltou a pensar na xícara de chocolate quente e em sua cama. — Boa noite, senhor. Aceite minhas desculpas por tê-lo feito esperar — finalmente falou, pronunciando as palavras com clareza, para o caso dele não falar inglês fluentemente. — E, desculpe também, o fogo tão pobre. — Ora, não se desculpe, madame. — O inglês dele era perfeito, embora definitivamente, ele não viesse da Nova Inglaterra. — Sofri tormentos piores por recompensas infinitamente menores do que a companhia de uma dama tão adorável. E, 5


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afinal, estou em débito com a senhorita, por ter concordado em me receber em hora tão adiantada. — De fato — Desire comentou com uma careta. Ele ainda não se voltara para fitála. Como podia saber que ela era adorável? Estava habituada aos modos simples e rudes dos mercadores e marinheiros, com quem lidava todos os dias. Os outros homens que conhecia não costumavam dizer coisas tão galantes. Ao menos, não a ela. — Disse ao meu mordomo que tem um assunto urgente a tratar comigo? — É verdade. Com um suspiro, ele finalmente virou-se. Desire quase deu o vexame de suspirar, também. Por que Zeb não a avisara que se tratava do homem mais bonito que já vira? Ele tinha o nariz reto, o queixo firme e quadrado e, mesmo à luz do fogo, seus olhos eram do mais perfeito azul, como o céu de verão, levando-a a imaginar cenas poeticamente tolas. Então, ela se deu conta de que suas faces já não apresentavam o menor resquício da palidez anterior. Não se lembrava de ter corado com tamanha intensidade, desde os dezesseis anos. Felizmente, o homem pareceu não notar. Tamborilou os dedos no mármore polido do consolo da lareira e contraiu os -lábios, como se fosse assobiar. Então, ergueu os olhos para Desire, com um sorriso tímido, inclinado para o lado, como um garotinho apanhado em flagrante numa traquinagem. Por aquele simples olhar, Desire concluiu que o galanteio não significava nada para ele, como ela havia imaginado. E, reconhecer tal fato através daquele sorriso, era o mesmo que partilhar com ela um segredo, uma confidencia não pronunciada, que a desarmou muito mais do que qualquer discurso bonito poderia. Com disciplina, ela tentou suprimir o sorriso que já ameaçava curvar-lhe os lábios. O estranho estava ali para discutir negócios, não para deleitar-se com seus flertes. Os irmãos de Desire não confiariam nela para tomar decisões em nome deles, se ela fosse se desmanchar diante do primeiro homem bonito que aparecesse à sua frente. — Qual é o assunto, senhor? — perguntou. — Como mencionou, já se faz tarde. — Queria me desculpar, madame. — Ele voltou a sorrir, fazendo com que a rigidez de Desire derretesse como a neve. — Sou o capitão lorde John Herendon, mas ficaria honrado se me chamasse de Jack, como meus amigos fazem. — E fácil compreender o porquê, se considerarmos o nome de batismo que seus pais lhe deram. — Embora soubesse que não deveria usar o apelido dele, bem como não deveria permitir que ele insinuasse que eram amigos, Desire descobriu-se a tratá-lo da mesma maneira informal com que conversaria com os irmãos, de quem sentia tanta falta. — Lorde John Herendon! Nesta cidade, um rapaz não receberia muita simpatia dos amigos, possuindo um nome como este. — Ah, mas meu nome é John, ou Jack, como preferir. — Ele cruzou as mãos atrás das costas e manteve as pernas afastadas, um vício adquirido pelos anos a bordo de um navio. Desire devia ter adivinhado que se tratava de um marinheiro, pelo tom bronzeado do rosto em contraste com o colarinho branco. — Não há afronta nenhuma em meu nome. — Eu... — Referiu-se ao meu título, madame, não ao meu nome de batismo — ele explicou com tranqüilidade, os olhos brilhando de divertimento. — Meu pai é o quinto marquês de Strathaven, e meu irmão Creighton, o sexto. Como sou apenas o filho mais novo, restou-me o título de lorde. Capitão lorde John Herendon. 6


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Desire endireitou os ombros, sentindo todo o prazer da companhia daquele homem dissipar-se no ar. — Então, é inglês. — E você, americana — ele comentou com a mesma tranqüilidade, embora o sorriso abandonasse seus lábios. — Algum problema? Perturbada, ela baixou os olhos para o chão. Como poderia explicar o que os ingleses haviam lhe tomado, roubando a verdadeira alma de sua família? — Seu irmão me advertiu que você seria assim, tão instável quanto o clima — Jack.falou com suavidade, aproximando-se um passo. — Mas não me disse que era tão bonita. Ela ergueu o queixo, ignorando o elogio, assim como a nova sinceridade por trás das palavras. — Que irmão? — O único que tive o prazer de conhecer, o capitão Obadiah Sparhawk. Ele me pediu que lhe entregasse isto — Jack retirou um envelope do bolso. Com um gritinho excitado, Desire agarrou a carta. O envelope apresentava-se amarrotado, o endereço borrado, mas o lacre contendo a impressão funda da águia do anel de seu irmão continuava intacto. Porém, à medida que lia a breve mensagem, a ansiedade de Desire transformou-se em preocupação. — Não compreendo — ela murmurou confusa. — Depois de ler estas poucas linhas, não duvido que ele esteja doente, como diz aqui. Mas não é do feitio de Obadiah pedir-me que vá encontrá-lo na Inglaterra. Ele sempre prefere fazer tudo sozinho, sem ajuda de ninguém. E não há uma palavra sobre seu navio, sua tripulação e sua carga. O inglês franziu o cenho. — Ele não mencionou as circunstâncias em que escreveu, o verdadeiro motivo para desejar sua presença lá? Apertando a carta contra o peito, Desire sacudiu a cabeça. Estava aflita demais para questionar por que Obadiah confiaria no homem parado à sua frente. — Seu irmão deve ter suspeitado que a carta seria lida pelos guardas, o que poria toda a tripulação em risco. — Jack suspirou e cocou o queixo, mostrando-se incerto sobre o que dizer e deixando Desire ainda mais apreensiva. — Srta. Sparhawk... Serei o mais objetivo possível. Seu irmão encontra-se em terríveis dificuldades no momento. Ele foi capturado a bordo de uma embarcação francesa, repleta de produtos contrabandeados. Está preso como espião, em Portsmouth. Desire empertigou-se, indignada. — Nunca ouvi tamanha mentira em minha vida! Um espião! Meu irmão é um americano honesto, dedicado ao comércio legal nos navios de nossa família. Como alguém poderia sequer imaginar que ele tenha qualquer tipo de ligação com os franceses... — Em meio aos pertences dele — Jack interrompeu-a, com voz gentil —, foram encontradas cartas incriminadoras de um francês chamado Monteil. — É claro que Obadiah recebe cartas dele. — O medo acirrou ainda mais a ira de Desire. Independente do que o inglês dissesse, ela não poderia negar a estranheza da carta do irmão. Ao mesmo tempo, a suspeita de que seu jovem e despreocupado irmãozinho havia se metido em sérias encrencas tornava-se cada vez mais profunda. — Gideon de Monteil faz negócios com nossa família há mais de trinta anos. Trata-se de um 7


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comerciante de vinhos de Paris, um homem decente e honrado, que meu pai sempre se orgulhou de ter como amigo. — É também um homem de extremo poder nos meios políticos. Sua influência com o novo governo é amplamente conhecida. — Sem o sorriso a iluminar as feições másculas, Desire deu-se conta de que o inglês era mais velho do que ela imaginara. Devia ter, no mínimo, trinta anos. — Seu irmão está certo em acreditar que sua única esperança é você. Se conseguir apresentar alguma defesa, cartas de cavalheiros americanos, empenhando suas palavras que Obadiah Sparhawk é o que você diz, e mais nada, além disso... e se você for a Portsmouth... — Mas, não posso deixar Providence — Desire interrompeu-o agitada. — Obadiah sabe disso! Com meus irmãos no mar, devo cuidar de todos os negócios da família: o armazém, a loja e os empregados. Além disso, não posso deixar minha avó sozinha aqui durante meses, e me ausentar para ir à Inglaterra. — Bem, senhorita, a decisão é sua. — Disse Jack, apanhando as luvas. — Tem responsabilidades aqui. Posso compreender sua posição. Além do mais, uma viagem nesta época é sempre difícil. — O que sabe de minha vida? — Desire inquiriu, notando o quanto ele ficara contrariado com sua resposta. Mas por que deveria qualquer satisfação àquele homem? — O que sabe de mim, ou de meu irmão? — Sei apenas o que vejo, senhorita. — As palavras foram duras, deixando clara a hostilidade que ele não se esforçava por esconder. — Na verdade, é possível que sua viagem seja inútil, no final. Seu irmão lhe contou sobre a natureza de sua doença? Disse como foi atingido por um tiro, durante a luta que se travou, antes da captura do navio francês? — Tiro? — ela repetiu num fio de voz. Nada daquilo fazia sentido. Seu país vivia tempos de paz. — Sim — Jack confirmou, sem ao menos tentar poupá-la. — Uma prisão não é o melhor lugar para um ferimento de mosquete curar, e um carrasco não substitui um cirurgião. O estado de seu irmão não era nada bom, quando o deixei. A esta altura, pode estar morto. Como posso forçá-la a fazer uma viagem tão longa, nestas circunstâncias? Desire respirou fundo, esforçando-se para manter o controle. Quando o irmão deixara de escrever, ela imaginara todo tipo de desastre que pudesse se abater sobre um homem do mar. Mas nem lhe passara pela cabeça algo parecido ao que acabara de ouvir. Seu irmão, prisioneiro dos ingleses, acusado de espionar para os franceses, ferido e doente, numa cela imunda. ― Ah, Obie, como isso foi acontecer? Jack mantinha os olhos no chão. — Perdoe-me, senhorita. Não tive a intenção de ser cruel. Desire teria se mantido firme, se Jack não houvesse se desculpado. Agora, fitava-o através das lágrimas. — Então, por que veio até aqui, para me dizer essas coisas? — Pelo bem de seu irmão, nada mais. Manterei a promessa que fiz a ele e lhe oferecerei um lugar em meu navio. Embora não se trate de uma embarcação de luxo, não encontrará nada mais rápido, para chegar à Inglaterra e seu irmão. Estou hospedado no Coggeshall, mas pretendo partir na próxima terça-feira. — Por que está fazendo isso? É inglês. Se acredita que meu irmão trabalha como espião para os franceses, então, l são inimigos. Não possui qualquer razão para ajudá-lo, ou a mim. 8


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— Acontece que o conheci no Caribe, muito antes disso tudo acontecer. E gostei dele. — Jack ergueu os olhos sombrios pelo remorso. -.— Fui à procura dele, assim que soube de sua prisão. Apesar das cartas, não acredito que ele seja culpado. Jack voltou a enfiar a mão no bolso de onde retirara a carta. — Ele me disse que, se você duvidasse de mim, eu devia lembrá-la da ponte Weybosset e entregar-lhe isto. Fora no verão em que Desire completara oito anos, antes da guerra terminar. Obadiah já tinha quase cinco anos. Ambos levavam moedas que seu pai encontrara no navio inglês que capturara, um mês antes. A velha senhora que vendia os doces coloridos de que eles tanto gostavam, ainda não havia montado sua barraca no mercado. Assim, Desire e Obadiah haviam ido até a ponte, para atirar pedras no rio. — Afaste-se da grade, Obie — ela ordenara com autoridade. — Lembre-se do que vovó lhe disse. Numa atitude deliberada, ele subira na grade, equilibrando-se sobre ela. — Ela nunca vai saber, Dês, a menos que você conte. Ele erguera a moeda contra o sol da manhã, a fim de admirar-lhe o brilho, e caíra no rio. — Obadiah! Sem pensar, Desire subira na grade e pulara no rio, determinada a salvar o irmão. Conseguira mantê-lo com a cabeça fora da água, até três marinheiros resgatarem-nos. Enquanto ela tossia, embaraçada diante dos marujos, que observavam divertidos seu vestido arruinado, o irmão sorrira e lhe mostrara a moeda que ainda tinha na mão. — Veja, Dês — ele dissera com orgulho. — Por sua causa, não perdi minha moeda. Naquele dia, Obadiah não comprara doces. Decidira que a moeda contendo a figura da rainha Maria e do príncipe William, era um amuleto da sorte. Desde então, carregara-a sempre consigo, no bolso direito do colete. Desire olhou para a moeda na mão do inglês e não foi mais capaz de conter as lágrimas. — Acalme-se, querida — ele murmurou. — Não tive a intenção de fazê-la chorar. Como se fosse a atitude mais natural a tomar, Jack passou um braço em torno dos ombros de Desire e puxou-a para si. Como soubesse que ele havia contado a verdade, ela fechou os olhos e abafou os soluços contra a lã macia do casaco dele. Naquele momento, não importava o fato dele ser um inglês. Jack era atencioso e importava-se com a vida de seu irmão. Além disso, oferecia-lhe o conforto de que ela tanto precisava. Sentia-se tão cansada e assustada, que não seria capaz de enfrentar aquilo tudo sozinha. Ele segurou seus ombros com ternura. — Agora, pare com isso — falou num sussurro. — Não vai resolver nada com lágrimas. Tenho certeza de que Obadiah não gostaria de vê-la chorando por ele. — Como posso não chorar, depois de ver a moeda da sorte de Obadiah em suas mãos? Ele jamais se separou dela! Você não podia saber... mas eu escrevi a ele no Natal, lembrando-o de como pulara no rio e perguntando, de brincadeira, se ele havia usado a moeda para comprar algo. Nunca imaginei que ele duvidasse de mim, a ponto de entregar a moeda a você! Num gesto quase rude, Jack segurou-lhe o queixo, forçando-a a fitá-lo. — Ele nunca duvidou de você — declarou com firmeza. — Não duvide dele pois, em tudo o que passou, ele nunca deixou de confiar em você. 9


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O rosto dele encontrava-se tão perto do Seu, que Desire pôde sentir o calor das palavras de encontro à pele. Prisioneira das mãos firmes, porém ternas em suas faces, ela sequer tentou afastar-se. Trêmula, deixou-se apoiar no corpo forte. Fechou os olhos, e sentiu o poder dos músculos pressionados contra seu próprio corpo, a delicadeza dos dedos que acariciavam suas faces. E, então, os lábios dele pousaram nos dela, quentes e firmes, movendo-se com gentileza. Chocada, Desire ouviu a voz da razão a implorar que pusesse um fim àquele interlúdio. Porém, viu-se prisioneira do desejo e sentiu os lábios se abrirem lentamente, num convite sedutor. Jack não a pressionou. Deu-lhe tempo para que se familiarizasse com as novas sensações, deixando que seu desejo crescesse, até que ela o quisesse com a mesma intensidade. Ele mostrava o caminho, ela o seguia. A princípio, hesitante, atordoada pela descoberta do que um beijo podia causar. Desde Robert, homem algum atrevera-se a beijá-la e, nem por uma vez em sua vida, Desire sentira-se daquela maneira. As mãos de Jack deslizaram das faces de Desire para suas costas e cintura, a fim de apertá-la contra si. A lapela do casaco de lã roçou no pescoço nu de Desire que, num arroubo de atrevimento, desabotoou o casaco e pousou a mão no colete macio. Ao sentir a aspereza da gola da camisa engomada sob seus dedos, ela se perguntou por que os homens insistiam em usar roupas tão desconfortáveis. Jack descolou os lábios dos dela, com um suspiro profundo. — Doce Desire — murmurou, depositando beijos rápidos e suaves ao longo do pescoço de Desire, provocando-lhe estremecimentos de prazer. — Não é de surpreender que seu irmão não tenha me contado tudo sobre você. Com um suspiro relutante, ela abaixou a cabeça e afastou-se, lamentando o fato dele tê-la feito lembrar-se de Obadiah. Não podia nem pensar no que teria de enfrentar, caso um de seus irmãos a visse naquele momento, comportando-se como uma das mulheres vulgares das docas. O pior era que não conseguia arrepender-se do que acabara de fazer. Onde estava com a cabeça para... Horrorizada, focalizou o olhar na abertura do casaco de lã pesada. A gola engomada que tocara há poucos momentos, exibia a delicada trança dourada na bordas. E os botões do colete eram ornados com a inconfundível âncora da Marinha Britânica. Num gesto abrupto, afastou-se alguns passos, sentindo a desgraça do que acabara de fazer impedi-la de respirar. — Vá embora — ordenou. — Agora! Jack permaneceu impassível, sem tentar desculpar-se ou, nem mesmo, questionar as razões para tal reação. Dando-se conta de que o beijo nada significara para ele, Desire sentiu-se ainda mais envergonhada. — Não é bem vindo a esta casa, capitão. — Passou os braços em torno dó corpo que, numa traição pouco honrosa, continuava a lamentar a perda do que nunca deveria ter procurado. — Saia agora e não volte nunca mais! De costas para o fogo, Jack manteve as feições envoltas pela sombra. — Pelo bem de seu irmão, senhorita, não sairei daqui sem uma resposta. — Meu irmão! — ela quase gritou. — Não posso imaginar o que fez meu irmão confiar em um capitão da Marinha Real Britânica! Desire virou-se, a fim de esconder as lágrimas que molhavam seu rosto. — Há dezesseis anos, um outro capitão inglês abordou o navio de meu pai. Tratava-se de um outro inglês honrado, de boa família, que se recusou a acreditar, quando meu pai lhe contou que um tratado de paz fora assinado em Yorktown. Chamou-o 10


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de ianque mentiroso e ordenou o ataque que matou meu pobre pai e metade de seus homens. Pode entender isso? Sua honra inglesa e sua preciosa Marinha assassinaram meu pai! — Eu não sabia — Jack murmurou. — Se soubesse não teria vindo. Desire ouviu os passos dele afastando-se, ouviu o ruído da porta abrir-se e fechar-se. Então, sozinha na sala mal iluminada, chorou pelo pai, pelo irmão e por si mesma.

DOIS

Jack apostaria a alma como ela não sabia de nada. Tratara-a com galanteios, encurralara-a e quase a ameaçara. Ainda assim, não vira nada além de inocência naqueles lindos olhos verdes. E, então, idiota que era, ele a beijara. Inquieto, Jack passou a mão pela grade da ponte. Devia ser bem mais de meianoite. Ouvira o guarda noturno gritar a hora havia tempo. Mesmo usando luvas, Jack sentia os dedos amortecidos pelo frio. Mas continuou a caminhar pelas ruas e docas da cidadezinha, incapaz de enfrentar o insuportável bom humor do dono da estalagem, ou dos homens reunidos no salão, com suas garrafas de rum, ansiosos para contar suas histórias ou provocar uma briga. Tanto fazia o que viesse primeiro. Considerando-se a atitude dos habitantes da Nova Inglaterra com relação ao seu uniforme, Jack provavelmente encontraria a briga em primeiro lugar. Maldito uniforme! Antes, sentia-se orgulhoso dele, especialmente dos galões e divisas douradas que o distinguiam como capitão. Usava-o há tanto tempo, que chegava a sentir-se desconfortável em roupas civis. Em terra, as mulheres eram atraídas pelos galões dourados. Mas Desire Sparhawk era diferente. Jamais esqueceria o choque no olhar dela quando se dera conta de quem ele era. Por que diabo as cartas não haviam lhe dado qualquer indicação sobre o modo como o pai dela morrera? Tomou mais uma das ladeiras que subiam pela encosta do morro. O que o incomodava não era só o fato da irmã de Sparhawk haver se revelado uma beldade, alta e esguia, apesar das curvas arredondadas nos lugares certos, pele clara e lisa, cabelos negros emoldurando as faces delicadas... o sonho de qualquer marinheiro. Fora a tristeza que ele reconhecera em seus olhos que o tocara fundo, a vulnerabilidade que parecia contrastar tanto com a casa rica e as roupas elegantes. Mais uma vez, pensou nas cartas alegres que ela escrevera ao irmão e, então, sentindo-se miserável, lembrou-se de como as usara para amontoar mentira sobre mentira, até fazê-la chorar. Fora fácil saber exatamente como atingi-la, usando seu amor pelo irmão. Com cinismo amargo, Jack pensou no que Júlia teria dito, se o tivesse visto naquela noite. Não, não fora uma atuação digna de orgulho. As mentiras haviam sido cruéis. O que a pobre Desire Sparhawk faria, quando soubesse a verdade? Bem, quando isso acontecesse, ele já teria cumprido sua missão com ela. Desire o teria levado até Monteil e alguma outra pessoa teria a incumbência de dar explicações, pedir desculpas e colocá-la num navio de volta para casa. Ora, o que ele fizera não era pior do que qualquer dos embustes utilizados na guerra: bandeiras falsas, canhões camuflados nos portos e dúzias de farsas. Até então, Jack utilizara todos aqueles truques, apreciando o desafio de enganar um oponente. Se conseguisse abreviar a guerra com a 11


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França, salvaria a vida de incontáveis ingleses e, no balanço final, os sentimentos de uma única mulher americana não teriam peso algum. Fora um grande tolo ao beijá-la. Desire mostrara-se tão doce e indefesa em seus braços, surpreendentemente inocente e ingênua, e ele não fora capaz de pensar em mais nada. Suspirou contrariado, ao lembrar-se da facilidade com que perdera o controle, quando só pretendera confortá-la. E pensou no quanto seria fácil arruinar a própria vida e colocar seu país numa posição mais vulnerável na guerra, por um prazer passageiro. Entretanto, por mais adorável e solitária que fosse, aquela mulher não valia tamanho sacrifício. Teria de tomar cuidado para não se sentir tentado novamente. Depois de ter passado oito meses no mar, suas pernas começaram a doer pelo exercício da caminhada pelas ladeiras de Providence. Jack passou em frente a uma taverna que, poucas horas antes, encontrava-se repleta de sujeitos barulhentos e, para sua surpresa, encontrou-a fechada. Então, lembrou-se de que estava na Nova Inglaterra e que, com a meia-noite, chegara o Sabbetth, que seria absolutamente respeitado, até mesmo em Rhode Island. Cansado, tomou o caminho de sua estalagem, satisfeito com a idéia de que não encontraria mais ninguém acordado. Pela manhã, teria tempo suficiente para conversar. Depois disso, voltaria a visitar a Srta. Desire. E rezaria para encontrar as palavras que a fariam mudar de idéia de uma vez por todas. Porém, de certo modo, ele chegava a desejar que tal mudança não ocorresse. — E então, Desire? — Mariah Sparhawk perguntou à queima-roupa, quando voltava com a neta da missa de domingo, pela manhã. — Quando pretende me falar sobre o cavalheiro que esteve em nossa sala de visitas, na noite passada? — Cuidado com o gelo, vovó — Desire advertiu-a e guiou-a para longe da neve congelada, esperando com isso distrair-lhe a atenção da pergunta. — Eu disse que devíamos vir de carruagem, hoje. — Ora, Desire! Imagine se vou desfilar como a rainha da Inglaterra, só por causa de um pouco de neve, por causa dos quatro quarteirões que andamos de casa até a igreja! — Bem mais baixa que a neta, Mariah fitou-a por baixo da renda que enfeitava seu chapéu, decidida a não se deixar distrair por um assunto tão banal quanto o clima. — Ele é tão atraente assim? — Zeb não tem o direito de ficar me espionando! — Desire exclamou, corando. — Como ele sé atreve a correr para lhe contar cada coisa que acontece? — Ele não me disse nada, criança — Mariah corrigiu-a em tom suave. — Nem uma palavra. E não foi necessário. Posso ser velha como Matusalém, mas continuo muito lúcida e tenho audição perfeita. De minha cama, ouvi o barulho da porta, quando ele chegou e saiu. Vocês ficaram tempo demais na sala, para que se tratasse de um dos comerciantes que você recebe com freqüência. Portanto, concluí que se tratava de um estranho. E, se ele não fosse nada interessante, você já teria me contado tudo, detalhe por detalhe. Deixou que ele a beijasse, não foi? — Vovó! — Ah, vejo que estou certa e acho muito bom que tenha sido assim. — Ela sorriu, as rugas franzindo seu rosto onde, antes, a pele clara e macia iluminava suas feições alegres. Mariah afagou a mão que Desire usava para segurar-lhe o braço. — Se quer saber, deixei que seu avô me beijasse, antes mesmo que soubesse meu nome. E, em quarenta e seis anos, nunca me arrependi. — Foi diferente! 12


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A avó costumava usar o passado para dar conselhos a Desire, como se o que havia acontecido há tanto tempo, quando a região ainda era uma colônia quase deserta, o mar repleto de piratas, as cidades habitadas por damas e cavalheiros bem comportados, fizesse algum sentido agora. — Vovô era diferente. Como você poderia não querer beijar um homem tão simpático e agradável? — Desire acrescentou. — Naquela época, ele era o maior mulherengo da colônia. E eu arrisquei meu bom nome, só para ser vista na companhia dele, e mais ainda, quando fugi em seu navio. Aquele homem não merecia morrer em paz, em sua própria cama, depois da vida libertina que teve, antes de se casar comigo. — Mariah suspirou e seus lábios curvaram-se num sorriso nostálgico, como sempre acontecia quando se lembrava do marido, Gabriel. — Bem, ele era mesmo diferente. — Pois não foi assim com o capitão Herendon — Desire declarou tensa, desejando chegar logo em casa e pôr um fim àquela conversa. — Não faço a menor idéia de que tipo de homem ele seja, o que não faz a menor diferença, uma vez que não pretendo voltar a vê-lo. — Ora, estou ouvindo seu irmão Jeremiah, não você — A avó censurou-a, franzindo o semblante, como se houvesse chupado um limão. —Aquele menino é tão sério e antiquado, l quanto um pastor de Boston! Você deveria se esforçar para encontrar um marido enquanto Jere está no Suriname, e estar seguramente casada e com um filho, quando ele voltar. Depois daquele caso infeliz com o sujeito de New Bedford, ele parece decidido a deixá-la para titia. Desire suspirou, perguntando-se por que a avó tinha de lembrá-la de Robert justamente naquele momento. Robert Jamison ou o capitão Herendon... ela não saberia dizer qual dos assuntos era pior. Ao menos, estavam chegando em casa onde, como de costume, sua avó se retiraria para um cochilo antes do almoço, e aquela conversa horrível teria um fim. Mas não tão cedo. — Então, o homem que a beijou — Mariah continuou —, não só é bonito, mas é um capitão e... — Vovó, ele é inglês. As palavras permaneceram suspensas no ar frio, apagando a alegria das feições de Mariah. Caminharam por alguns momentos em profundo silêncio. A avó apoiou-se no braço da neta, começando a sentir os efeitos da caminhada somados ao peso de sua idade. — Ele é inglês — repetiu afinal. — Todos nós já fomos, e nem faz tanto tempo. Você mesma nasceu na condição de súdita do rei George. — Não, vovó, você não está entendendo. Já seria ruim o bastante, se ele fosse simplesmente um inglês. — Desire corrigiu-a com veemência. — Mas o capitão Herendon é um nobre rico e capitão da Marinha Britânica, todo coberto de medalhas que, certamente, conquistou roubando e matando navegantes indefesos como meu pai! Lembre-se de que foi um inglês como ele que riu de meu pai e fez de mim e meus irmãos, todos órfãos! — E claro que me lembro, Desire — Mariah falou com voz suave. — Seu pai foi meu primeiro filho, meu pequeno Jon. Como eu poderia esquecer de como ele morreu? Perdê-lo tão jovem quase partiu meu coração. E seu avô... Ah, como ele sofreu! Mas, ao contrário de você e Jeremiah, não consigo culpar um país inteiro pela crueldade de um só homem. 13


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Desire baixou os olhos para a neve no chão. Tarde demais, deu-se conta de que magoara a avó. E odiou-se por isso. — Desculpe, vovó. Não tive a intenção de fazê-la lembrar-se de coisas tão terríveis. Porém, como é comum às pessoas de idade avançada, Mariah já dirigira os pensamentos para outras coisas. — Ah, Desire! Acho que esqueci minha bíblia na igreja. Posso ir sozinha até em casa, enquanto você volta lá para apanhá-la. Aquela bíblia foi presente de minha irmã e não confio naquele garoto esquisito que limpa os bancos depois da missa. Desire assentiu e beijou a face empoada a avó. Mariah parecia cansada, o brilho dos olhos apagado. Mais uma vez, a neta arrependeu-se da explosão. Em pouco tempo, pensou, a avó também deixaria de fazer parte de sua vida. — Confie em si mesma, minha filha — Mariah falou com um sorriso. — Siga seu coração, não a sua cabeça... ou a de seu irmão. Este é o melhor conselho que posso lhe dar. Enquanto caminhava apressada de volta à igreja, Desire refletiu sobre o conselho da avó e concluiu que podia ser mesmo bom, mas impossível de seguir. Seu pai passara pouco tempo em casa, quando ela era criança. Chegava a ficar meses no mar. Porém, suas lembranças dele eram nítidas. Lembrava-se de sua risada alegre, seus modos gentis, os olhos verdes que ela mesma herdara, as bonecas delicadas que ele entalhava para ela com sua faca de marinheiro. Como a mãe havia morrido logo após o nascimento de Obadiah, quando Desire era pouco mais que um bebê, o pai tornara-se o alvo de todo o seu amor de filha. Lembrou-se, então, de como haviam festejado o final da guerra, quando o pai poderia voltar a praticar seu comércio em águas pacíficas. Duas semanas depois, o capitão Jon Sparhawk se fora, um sobrevivente de uma guerra longa e amarga, assassinado em tempos de paz, em seu próprio navio, com o filho Jeremiah, de catorze anos, chorando ao seu lado, Desire conhecia todos os detalhes, pois o irmão lhe contara tudo. E ela jamais se esqueceria. Não poderia. Embora compreendesse o que a avó tentava lhe dizer, alguém tinha de carregar a culpa pela morte de seu pai. Algum inglês... Mas, tinha de ser o capitão Herendon? Não importava se ela o havia deixado beijá-la. Ele fora à sua procura para ajudar sua família, não para fazer-lhes qualquer mal. Sentiu a culpa invadir seu coração, ao dar-se conta de que não mencionara a carta de Obadiah à avó. Tratou de apressar o passo. O céu apresentava-se encoberto, o ar frio e úmido. Exceto por duas crianças que carregavam um balde de água, Desire encontrava-se sozinha na rua deserta. O vento marítimo agitava as folhas secas dos salgueiros e obrigava-a a baixar a cabeça. O inverno era sempre assim em Rhode Island, cinzento e incerto. E, naquele dia, o clima combinava com o estado de espírito de Desire. Entrou na igreja e, sem perder tempo, dirigiu-se ao banco dos Sparhawk que, embora só houvessem se instalado em Providence durante a guerra, haviam com sua posição e prosperidade, conquistado um banco próximo ao altar. Ali, ela encontrou a bíblia, apanhou-a e virou-se para sair, ouvindo o eco dos próprios passos. — Srta. Sparhawk? Desire sobressaltou-se ao reconhecer a voz. — Não tive a intenção de assustá-la — Jack desculpou-se. — Por favor, me perdoe. 14


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Ela estava ainda mais bonita do que ele se lembrava, as faces coradas pelo vento, os cabelos escuros revoltos debaixo do chapéu. Mas, por mais atraente que ela fosse, Jack não se deixaria cair naquela tentação mais uma vez. — Esteve me seguindo? — Desire inquiriu. — O velho marinheiro que trabalha em sua casa informou-me de que você estava aqui. Desire assentiu, como se a explicação fizesse sentido, embora seus pensamentos se encontrassem tão confusos, que ela mal ouvira as palavras. Aquele homem não devia estar ali, na igreja, ou em sua vida. Era um inglês; por nascimento, era seu inimigo. Estivera tão certa de que jamais voltaria a vê-lo, que encontrá-lo ali fez seu coração disparar. Forçou-se a encará-lo com ar impassível. — Pensei que houvesse compreendido que não tenho o menor desejo de vê-lo, capitão Herendon. — Ah, sim, eu me lembro. — Como ela fosse americana, Jack decidiu ignorar a omissão do título em seu nome. Ouvira dizer que o embaixador americano nem sequer se curvava para o rei. — Ontem à noite, a senhorita me mandou embora de sua casa. Mas não acho que tenha o direito de fazer o mesmo aqui, na igreja. Aproximou-se dela, olhando em volta com interesse. Segurava o chapéu nas mãos, e os cabelos dourados apresentavam-se revoltos pelo vento. Havia desabotoado o casaco, deixando à vista o colete listrado de verde e caqui, muito diferente do uniforme que vestia na véspera. — Nunca havia entrado em uma capela de dissidentes, antes. — Não é uma capela — Desire corrigiu-o —, é uma igreja. E, neste país, costumamos ser chamados de batistas, não de dissidentes. — Vejo que voltei a ofendê-la e você jamais vai acreditar que não tive essa intenção. — Jack suspirou irritado consigo mesmo. Havia passado tanto tempo no mar, que se esquecera de como galantear uma mulher. E não queria continuar a cometer aqueles erros com ela. — É comum encontrarem-se candelabros Waterford em igrejas batistas? — Os americanos não são selvagens, capitão Herendon. Todos nós já fomos ingleses um dia, e não faz tanto tempo. — Olhou para o candelabro, como se o visse pela primeira vez, perguntando-se o que a fizera repetir as palavras da avó. — Minha amiga Hope Brown doou este candelabro, quando se casou com Thomas Ives, há seis anos. Jack apreciou os pequenos arco-íris que o reflexo das bolinhas de cristal formaram no rosto de Desire. Não era uma mulher jovem, ao menos, segundo os padrões vigentes. Mas havia nela uma falta de malícia que o intrigava, e Jack descobriu-se relembrando os momentos que haviam partilhado na noite anterior, antes que aquele antagonismo se erguesse entre eles. — Por que não se casou, Srta. Sparhawk? — Tratava-se de uma pergunta perigosa e pouco delicada, mas ele estava curioso. Nem mesmo os americanos poderiam ser perversos a ponto de deixar uma mulher tão linda e, também, tão rica, solteira pelo resto da vida. — Certamente, tem muitos pretendentes. — E o senhor, certamente, tem uma esposa. — Desire fitou-o irritada, imaginando se ele também a julgava uma solteirona sem futuro. Ou pior. O que Obadiah havia contado àquele homem? — Ouvi dizer que todos os aristocratas ingleses casam-se entre si, a fim de evitar que seu sangue se misture ao de simples mortais. 15


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Jack franziu o cenho e conteve uma resposta ácida. Não era de admirar que ela continuasse solteira, com uma língua afiada como aquela. — Não tenho esposa, senhorita, nem a perspectiva de uma. Não possuo fortuna alguma, além do que recebo como salário, o que me torna um mau partido. Não valho a pena, por mais que meu sangue seja puro. — Depois de fitá-la com um estranho brilho nos olhos azuis, acrescentou: — Se fosse casado, não teria beijado você. — Como eu poderia saber? — ela falou, desejando que ele se afastasse. Estando tão próximos, ela se lembrava com nitidez de como se sentira nos braços dele, na noite anterior. — Considerando-se minha experiência com a honra dos ingleses, não tenho a menor intenção de deixar que isso volte a acontecer. — Está certa — ele concordou sombrio. —. Não voltará a acontecer. Não voltaria a acontecer porque ele não poderia correr o risco, não porque não quisesse. Parado ali, tão perto dela, podia ver a sombra delicada dos cílios sobre a pele clara e lisa, bem como a umidade provocante nos lábios rosados. Ah, tudo o que desejava era tomá-la nos braços de novo e beijá-la, afastando de suas vidas as palavras amargas e hostis, recuperando a doçura que experimentara na noite anterior. Porém, o tom decisivo da voz de Jack feriu Desire, que baixou os olhos, a fim de esconder a mágoa. Ora, era exatamente o que ela queria! Então, por que a rejeição doía tanto? — Srta. Sparhawk? Desire não queria a piedade, ou a simpatia, de Herendon. Mas reconheceu ambas na voz dele. Ergueu o queixo e fitou-o com ar de desafio. — Dê-me uma razão honesta para eu acreditar no que me contou sobre Obadiah. Ele a fitou incrédulo. Ninguém jamais duvidara de sua palavra daquela maneira. — Além de um carta escrita por ele, de próprio punho? Além da moeda que lhe dei? Que mais posso fazer? Ela manteve o olhar frio. — O que está me pedindo não é pouco. — E você, minha cara, me pede ainda mais. Preste atenção ao que vou dizer, pois não direi isso de novo. Você culpa uma nação inteira, incluindo a mim no processo, pelas atitudes de um único homem. Mas, pelo bem de seu irmão, estou disposto a perdoá-la. E, pelo bem de seu irmão, tudo o que peço é que acredite em mim, ao menos o bastante para ajudá-lo. Desire assentiu, desejando com desespero encontrar outra alternativa além daquela que sabia que teria de escolher. Por que seu irmão Obadiah fora confiar justamente naquele homem? — Pensarei no que disse. Tenha um bom dia, capitão Herendon. — Dois dias, senhorita — ele lembrou-a. — Tem dois dias para tomar sua decisão. Pretendo deixar Providence na terça-feira. Partirei com ou sem você. — Vovó, você precisa ler isto — Desire anunciou, assim que voltou da igreja, estendendo a carta de Obadiah para a avó. Mariah estendeu o braço e estreitou os olhos. Então, com um gesto impaciente, empurrou o gato de seu colo para o chão e virou-se para a luz que entrava pela janela. — Meu Deus, no que foi que esse menino se meteu, desta vez? — falou afinal, o cenho franzido de preocupação. — Quando recebeu esta carta, Desire? — Foi o inglês quem trouxe — a neta explicou, sentando-se numa poltrona. — Foi por isso que veio até aqui, ontem à noite. E se ele merece algum crédito, então Obadiah 16


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encontra-se em situação muito pior do que a carta revela. Falando depressa, Desire repetiu toda a história que o capitão Herendon lhe contara, além de sua proposta de levála à Inglaterra, para que ela pudesse salvar o irmão. — Ferido e preso — Mariah repetiu, sacudindo a cabeça e alisando a carta em suas mãos. As lágrimas que brilhavam em seus olhos deixaram Desire chocada, pois a avó nunca chorava. Pelo menos, não em público. — Deus misericordioso, o que está acontecendo com esta família? — Gostaria que Jeremiah estivesse aqui — Desire falou aflita. O irmão mais velho não confiava em qualquer inglês. Ele seria capaz de lidar com o tal capitão com uma firmeza que ela jamais teria. — Jeremiah saberia qual a atitude mais correta a se tomar. — Mas ele não está aqui, Desire — a avó replicou em tom de censura. — E nem voltará a Providence, em tempo de fazer alguma coisa para ajudar Obadiah. As lágrimas haviam desaparecido dos olhos de Mariah, dando lugar a uma firme determinação que a fez parecer muitos anos mais nova. — Eu não tenho dúvidas quanto ao que fazer, e você não deveria ter, também. Afinal, será que não a eduquei como devia? Não vou mais tolerar seus choramingos pela ausência de Jeremiah. Ninguém mais pode resolver esta questão. Obadiah precisa de você. E você irá para a Inglaterra.

TRÊS

Pontual ao extremo de chegar sempre antes da hora, Jack já se encontrava diante do estaleiro Thompson, quando os sinos da igreja anunciaram dez horas. Parado do outro lado da rua, fingia estudar os lampiões de latão expostos na vitrine de uma loja de velas, quando viu o inconfundível perfil de Desire refletido no latão polido. Ela passou sem notar sua presença. Vestia uma longa capa preta, com o capuz caído nas costas e um lenço vermelho sobre os cabelos. Sem saber por que, Jack ignorou o impulso de virarse e chamá-la. Ao contrário, esperou que ela atravessasse a rua, observando o reflexo de sua imagem tornar-se menor, até transformar-se em, uma mancha vermelha no latão. Jack virou-se, sentindo-se tolo por não tê-la chamado. Era fácil acompanhá-la a distância, pois era a única mulher de sua classe andando pelas docas. Ficara surpreso quando recebera o bilhete, pedindo que a encontrasse no estaleiro. Na Inglaterra, nenhuma das damas que conhecia se atreveria a tanto. Mas Desire caminhava por entre os trabalhadores rudes com tamanha segurança, que Jack ficou desconcertado. Uma jovem decente simplesmente não conversava com estivadores ou marinheiros, aceitando e respondendo seus cumprimentos, como quem passasse por ali todos os dias. Bem, ao que parecia, era exatamente o que ela fazia. Com um suspiro, colocou o chapéu e seguiua. Estava tão concentrado em alcançá-la, que nem notou a maneira como os trabalhadores paravam para observá-lo com evidente hostilidade. Vestindo uniforme ou não, Jack não era o tipo de homem que passasse despercebido em quaisquer circunstâncias. E, em Providence, onde tantas famílias ainda partilhavam laços de sangue e lealdade que duravam muitas gerações, não havia um homem nas docas que não 17


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soubesse que aquele era o capitão inglês, que andara perguntando sobre a Srta. Desire. Todos sabiam e nenhum deles gostava. Ela parou à margem do rio, para conversar com um homem que Jack imaginou tratar-se do chefe da construção. Desire apontou para a embarcação incompleta, enquanto o homem sacudia a cabeça. Quando avistou Jack, ela sorriu rapidamente e suas faces coraram, o que o agradou. Porém, não interrompeu a conversa para juntar-se a ele,, o que não o agradou nem um pouco. Jack permaneceu onde estava, o corpo tenso e ereto, as mãos cruzadas nas costas. Não estava habituado a ser ignorado e era justamente o que ela estava fazendo. — Tenha um bom dia, mestre Thompson! — Desire despediu-se e afastou-se do homem. Caminhou com passos rápidos e furiosos na direção de Jack. Tinha o cenho franzido e os punhos cerrados. Olhou para ele como se houvesse se esquecido de sua presença ali, e fez um sinal com a cabeça para que a seguisse. — Desculpas é tudo o que ouço daquele ali! — falou indignada — Vou lhe dizer uma coisa: não se pode guardar um único segredo nesta cidade! Já correm boatos de que estou de partida para me encontrar com Obadiah e que não restará nenhum Sparhawk, exceto minha avó, para cuidar dos negócios por aqui. E aquele cão vadio e preguiçoso já encontrou uma lista de motivos pelos quais o navio não estará pronto antes de Junho. Junho! Pode acreditar? — Fico surpreso de que um homem aceite ordens de uma mulher — Jack replicou com acidez, sem humor para simpatizar com a indignação de Desire. Acreditara que a decisão dela em acompanhá-lo à Inglaterra acabaria sendo tomada, mas lá estava ela tratando do assunto como se fosse fofoca. Pois poderia ir para ò inferno, se recusasse! — Poucos aceitam. — Eles tem de aceitar, uma vez que sou eu quem paga seus salários - ela retrucou com irritação. Então, parou por um instante para fitá-lo por cima do ombro. — Está atrasado, sabia? Jack sentiu-se profundamente tentado a atirá-la no rio. — Você me fez ficar esperando. Os olhos verdes, tão claros à luz do sol, estreitaram-se. Então, Desire virou-se e continuou a caminhar depressa. Ali estava uma ianque insolente e de língua ferina, pensou Jack, enquanto observava o vento agitar os cachos negros presos no topo da cabeça de Desire. Não, havia uma palavra melhor para mulheres que assumiam negócios masculinos daquela maneira, uma palavra que ele não conseguia encontrar na memória. Vir alguma coisa. Sabia tratar-se de uma palavra arcaica, embora não houvesse dado muita atenção aos clássicos, em seus tempos de escola. Não seria "virgem", na idade dela, com sua beleza e atrevimento, apesar dele não conseguir pensar num homem capaz de atravessar toda aquela resistência. Vir... Virago, lembrou-se triunfante, que servia para descrever uma mulher que se comportava como homem e... Desire pisou numa poça ainda congelada e escorregou com um pequeno grito. Seu corpo projetou-se para trás, a saia esvoaçando, e bateu de encontro ao peito de Jack. Num gesto automático, ele passou os braços em torno da cintura dela, a fim de segurá-la e oferecer-lhe apoio. Apesar da capa de lã grossa, tomou consciência imediata da maneira como o corpo dela pressionou o seu, o perfume feminino obscurecendo-lhe a 18


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capacidade julgamento e inundando seus sentidos com a lembrança de tê-la beijado e o desejo louco e virá-la e beijá-la novamente. — Está bem, senhorita? — ele perguntou, segurando-a com firmeza. Embora ela só tivesse perdido o equilíbrio, podia ter se machucado. Desire parecia atordoada, muito quieta. Apoiava-se nele, quando Jack esperara que ela lutasse para se libertar depressa de seus braços. Suave e delicada. Nada de virago, agora. — Srta. Sparhawk? — Tire suas mãos inglesas imundas da senhorita! — trovejou o homem que se encontrava logo adiante. — Solte-a para que possamos lhe ensinar as maneiras que estão lhe faltando! Com um sobressalto, Desire pôs-se de pé e afastou-se de Jack. Onde estava com a cabeça para deixar-se imobilizar daquela maneira? À sua frente, o rosto do leal Enos Park apresentava-se lívido de ódio, enquanto suas mãos apertavam o cabo do machado. — Calma, Enos. Não foi nada — Desire falou. Enos perdera um irmão na guerra e outro num ataque de uma gangue inglesa, e Desire sabia o quanto ele gostaria de vingar os dois. — Eu escorreguei e ele tentou me ajudar. Por favor, Enos, volte ao trabalho. Do contrário, esse navio jamais estará pronto para navegar. Porém, o homem de ombros largos limitou-se a sacudir a cabeça, enquanto um grupo de trabalhadores se juntava ao seu redor, todos ansiosos pela luta. — O que o capitão Jeremiah diria, se deixássemos esse miserável sair ileso? Os outros murmuraram sua concordância e Desire deu-se conta de que estava muito perto de perder qualquer influência que possuísse sobre seus empregados. Ergueu a voz com bravura, embora pudesse ela mesma notar o tom de desespero nas próprias palavras. — Meu irmão não aprovaria que se derramasse sangue, por um motivo tão banal. — E quanto àquele mentiroso que se atreveu a enganá-la? — gritou alguém em meio ao grupo. — O capitão Jeremiah não teve a menor piedade. E ele nem era inglês! Desire encolheu-se, como se houvesse sido atingida por um golpe físico. Nenhum segredo, pensou desolada. Era mesmo impossível guardar qualquer segredo naquela cidade. — Por favor, tudo o que peço... — Já chega. — Com um gesto gentil, porém firme, Jack empurrou-a para o lado. Aqueles homens não tinham o direito de atacá-la, só porque ela se encontrava em sua companhia. Parecia que todos naquela cidade estavam ansiosos por uma boa briga, e ele já estava cansado de agir com civilidade. Daria ao encrenqueiro o que ele queria. — Afaste-se, senhorita. Aturdida, Desire só pôde fitá-lo boquiaberta. Jack era mais alto que Park. Era forte, mas seu físico não possuía a musculatura poderosa do outro. Enquanto ele continuava parado ali, a fitar o, oponente com indiferença estudada, Desire só conseguia ver a tragédia que o aguardava. Seria possível que Jack não se desse conta do perigo que corria? Se não saísse depressa dali, Park o mataria. E ela jamais encontraria Obadiah em tempo de salvá-lo. Nem sequer descobriria onde o irmão se encontrava. E tudo porque aqueles dois homens haviam decidido usá-la como desculpa para um briga. Agarrou o braço de Jack, mas ele se limitou a sorrir, o mesmo sorriso charmoso e sedutor que ela vira na noite em que haviam se conhecido. — Prometo não demorar muito — ele falou, entregando-lhe o chapéu. — Então, poderá me contar por que me chamou aqui. Mas, enquanto Jack sorria para Desire, Park atirou-se sobre ele, o machado erguido sobre a cabeça. Ela gritou num aviso, embora soubesse que era tarde demais. 19


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Apesar de tudo isso, Jack não precisava de aviso algum. Num movimento instintivo, girou o corpo, saindo do caminho de Park, que passou por ele, carregado pelo impulso do peso do machado. Furioso, Park virou-se para Jack, a fim de voltar ao ataque. No momento em que o homem tentava recuperar o equilíbrio, Jack desferiu-lhe um soco certeiro no queixo, derrubando no chão congelado. Antes que Park pudesse recuperar-se, Jack arrancou o machado de suas mãos e atirou-o para longe. —.Eu avisei, senhor — Jack falou com fingida gentileza —, que já era o bastante. O grupo de homens caiu num silêncio profundo, que humilhou Park ainda mais do que o fato de ter sido derrubado por um inglês. Com um rugido animal, ele se pôs de pé, retirou uma faca da cintura e partiu para cima de Jack novamente. Com um golpe ágil, Jack segurou-lhe o punho, mas o impacto do corpo do outro tirou-lhe o equilíbrio e os dois foram para o chão. E rolaram de um lado para o outro, gemendo e chutando, lutando pelo controle da lâmina. Os homens ao redor pareceram ganhar vida e puseram-se a gritar, incitando Park ao ataque. — Acabe com esse covarde, Enos! — gritou um dos que se encontravam mais próximos. — Ponha-o para correr, como fizemos na guerra! Jack ouvia cada palavra e podia sentir seu oponente tornar-se confiante demais, enfraquecendo à medida que a concentração se dispersava. Mais um momento, e Jack teria maior vantagem sobre ele. Aprendera com um indiano a importância da paciência, sempre que uma faca estivesse envolvida numa briga. Sabia esperar. Era uma pena que não pudesse retalhar o sujeito com sua própria faca, pois era o que ele merecia. Mas só Deus sabia o que se entendia por justiça naquele país ridículo, e Jack não tinha a menor intenção de acabar enforcado por assassinato. O rosto de Park apresentava-se escarlate e coberto de suor, os olhos semicerrados pelo esforço. Mais um minuto, pensou Jack com frieza, mais um minuto e teria o homem à sua mercê. Mas o minuto passou e Jack não teve o que esperava. — Pare com isso agora, Enos — Desire gritou —, e deixe o capitão Herendon em paz! Pelo canto do olho, Jack a viu, a capa preta esvoaçando, as feições determinadas, enquanto ela apanhava um remo e girava-o na direção de Park. Atingiu-lhe a mão com tamanha força, que Jack sentiu o golpe no próprio braço. Park gemeu de dor e largou a faca, ao mesmo tempo em que rolou para o lado, libertando-se de Jack. Desire atingiu-o mais uma vez, nos ombros, e ele se pôs de joelhos, protegendo-se com as mãos. Os homens que assistiam assobiaram e riram de sua covardia. Desire estendeu a mão para ajudar Jack a levantar-se, mas o fez com um gesto impaciente que mais se parecia a uma ordem do que uma oferta de ajuda. Seus cabelos haviam se soltado dos grampos e caíam embaraçados sobre um dos ombros. Suas faces apresentavam-se coradas e o cenho franzido indicou a Jack que a raiva dela não se dirigia apenas a Park. Assim seria melhor, pensou ele, pois estariam quites. Não se lembrava de ter ficado tão furioso com uma mulher, como estava naquele momento, com a Srta. Desire Sparhawk. Ignorando a mão estendida, ele se pôs de pé sozinho. Sem olhar para ela, espalmou as mãos na roupa, limpando a sujeira do casaco e passou-as pelos cabelos. Com cuidado, tocou a testa onde fora atingido ao cair, e fez uma careta. Era certo que, durante dias, exibiria um belo galo. Avistou o chapéu no chão, onde Desire o atirara e, com um palavrão sussurrado, abaixou-se para apanhá-lo. — Capitão Herendon. 20


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Ele não se virou. Alisou o chapéu com cuidado, sentindo a fúria que ela irradiava, como se fossem os raios do sol do Caribe, — Capitão lorde John Herendon! — Desire pronunciou cada nome e título entre dentes, provocando nele o impulso de sorrir. Jack contou até dez antes virar-se, pois acreditava ser a paciência um dos dons mais preciosos. Então, esperou que ela falasse, assumindo uma postura tão imponente, quanto se estivesse a bordo de seu Aurora. E valeu a pena. Deliciou-se ao vê-la empertigar-se, na tentativa de encará-lo de igual para igual. — Capitão Herendon, se já terminou seus assuntos particulares, gostaria de trocar algumas palavras com o senhor. Se não se importa, é claro. — Lançando um olhar irado para os trabalhadores que continuavam parados à sua volta, descaradamente interessados na conversa, acrescentou: — Em particular. Vamos até o escritório. Jack seguiu-a em silêncio até a construção simples, de um só cômodo, que servia de escritório ao estaleiro. Ela mantinha as costas eretas e a capa firmemente presa em torno dos ombros. Ao menos, Jack notou, ela abandonara o remo. Desire esperou que ele fechasse a porta atrás de si para, então, despejar toda a intensidade de sua ira. — Tem noção do que poderia ter acontecido lá fora? Sabe o perigo que correu? Poderia ter sido morto por aquele homem! — Sei muito bem o que aconteceu, senhorita — ele respondeu devagar, atirando o chapéu sobre a mesa. — Aliás, acho que sei melhor do que você. Nem por uma vez, Jack a vira tão agitada antes, as faces coradas e os olhos verdes brilhando como esmeraldas. Com prazer perverso, notou que ela ficava ainda mais atraente. Quando a beijara naquela primeira noite, com gentileza e ternura, tivera a intenção de confortá-la. Agora, vendo-a diante de si, o corpo tenso, preparado para uma batalha, desejou transformar o fogo da raiva em paixão e senti-la contorcer o corpo febril sob o seu. Tal idéia apanhou-o de surpresa, fazendo com que ficasse tão furioso consigo mesmo, quanto se sentia com relação a ela. Ainda assim, ao mesmo tempo em que tentava afastar o impulso, aproximou-se um passo, então mais outro. Desire sacudiu a cabeça furiosa e, com fúria igual, ele a segurou pelos ombros. Ela perdeu a voz, não querendo acreditar que ele se atrevera a segurá-la daquela maneira. Nem mesmo seus irmãos a tratavam assim, desde que eram crianças. E aquele homem, com seu rosto bonito, atraente e impassível, não tinha o menor direito de tocá-la. Com a rapidez de um raio, ela ergueu a mão para esbofeteá-lo mas, com o mesmo instinto que lhe servira tão bem durante a briga com Park, Jack segurou-lhe o punho. — Nada disso, senhorita — falou com voz enganosamente calma. — Queria conversar e é o que vamos fazer. Mas Desire não queria conversar. Ao menos, não daquele jeito. Tentou afastar-se, mas ele puxou-a para mais perto, prendendo-a de encontro à parede, usando seu corpo para isso. Com habilidade, posicionou as coxas entre as dela, impedindo-a de tentar golpeá-lo com o joelho, no único ponto em que era vulnerável. Ao mesmo tempo, deixou-a numa posição vergonhosa, totalmente exposta e consciente da pressão dos músculos quentes e fortes contra seu corpo. Ela o fitou com olhos faiscantes, ressentindo-se do poder que o tamanho e a força dele exerciam sobre ela. — Você pode ser lorde — murmurou entre dentes —, mas não é um cavalheiro. Jack franziu o cenho. 21


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— Ora, Srta. Sparhawk, eu esperava algo mais original da senhorita. Mas, talvez, só possa sentir-se à vontade, com um remo de madeira na mão. — Devia me agradecer por eu tê-lo ajudado! — Ah, mas eu estou transbordando de gratidão! — Os dedos dele apertaram-lhe o punho com mais força. Estavam tão próximos, que Desire pôde ver com clareza os pontos mais escuros nos olhos azuis pálidos, a sombra da barba bem feita, o ferimento na testa que já começava a inchar. — Não pedi sua ajuda e não a queria. Sou perfeitamente capaz de me defender sozinho. E só luto para vencer. Incapaz de continuar a sustentar-lhe o olhar, Desire fechou os olhos. Um grave erro pois, sem a visão para distraí-la, cada centímetro de seu corpo registrou a pressão do corpo dele no seu. Tentou afastar-se dentro do minúsculo espaço que lhe restava, mas ele a seguiu, piorando ainda mais a situação. Desire disse a si mesma que era o medo que fazia seu coração bater tão depressa, e a raiva que tornava sua respiração tão difícil. Medo e raiva, não solidão... Apesar dos olhos se manterem fechados, os lábios de Desire se entreabriram num convite inconsciente. Ou, talvez, não fosse tão inconsciente assim. Jack soltou-lhe o punho e sorriu ao perceber que ela não fez menção de afastar-se. Afastou a capa pesada que ela usava, deixando o perfume feminino invadir-lhe os sentidos. Ela aderira à moda atual, usando poucos saiotes e nenhum espartilho. Quando acariciou-lhe a curva da cintura e dos quadris, apertando-a contra si, Jack sentiu o próprio corpo reagir de imediato ao calor que ela irradiava. Deslizou a mão até um seio, ouvindo a respiração dela prender-se na garganta, ao mesmo tempo em que o mamilo enrijecia sob seus dedos. Desire era doce, quente e diferente de todas as mulheres que conhecera. E, naquele momento, Jack não queria mais nada, além de perder-se naquele calor convidativo. Jack Herendon não passava de um estranho, com a vida de seu irmão nas mãos. E, ainda assim, Desire sabia que ele estava prestes a beijá-la, e sabia que não faria nada para impedi-lo. Pior, queria que ele o fizesse. Sentiu-se mergulhar num oceano de sensações, que a privaram que qualquer resquício de razão. Podia sentir-lhe o hálito quente de encontro à face, assim como o calor que se espalhava por todo o seu corpo. Como aquele homem era capaz de transformar sua raiva em desejo, levando-a a querer desesperadamente ser tocada e acariciada? — Maldito! — murmurou, ainda de olhos fechados. — Devia ter deixado Enos matá-lo! Jack ergueu a mão e acariciou-lhe o rosto com a ponta dos dedos. — Por que não deixou? Desire estremeceu ao toque. — Porque, se qualquer coisa acontecesse a você, eu jamais voltaria a ver meu irmão. O irmão. Ela faria qualquer coisa pelo irmão, até mesmo permitir que um inglês a levasse para a cama. E ele soubera disso desde o início, pois lera as cartas. Na verdade, confiara em tal devoção para acreditar na possibilidade de sucesso. Desire representava o meio que o levaria a um fim, uma maneira de redimir-se, e jamais haveria nada além disso entre os dois. Então, por que as palavras delas o atingiram de maneira tão intensa? — Então, já tomou sua decisão — Jack concluiu e afastou-se, dolorosamente consciente do quanto estivera perto de perder o controle e fazer amor com ela ali mesmo, junto à parede, como um marinheiro bêbado que toma uma prostituta. — Tenho escolha? Ela permaneceu imóvel, a expressão impassível. Apenas as faces afogueadas davam uma pista do que acabara de se passar entre eles. 22


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Jack suspirou. — Não, acho que não. Desire assentiu, ajeitou a capa em torno dos ombros e saiu. Jack praguejou baixinho, convencido de que ela fugiria, pois ele lhe dera motivos de sobra para tanto. Porém, no momento seguinte, a porta se abriu e ela entrou; trazendo um lenço contendo um punhado de neve. — Ponha isto na testa — ela ordenou com frieza. — O frio impedirá que o inchaço continue. Ele obedeceu. — Perdoe-me, senhorita... — Não — ela o interrompeu, voltando a corar, embora mantivesse a voz firme. — Não peça desculpas. Tive tanta culpa quanto você. — Srta. Sparhawk, por favor... Jack parou de falar quando viu o brilho da advertência nos olhos dela. A neve começava a derreter de encontro à sua testa, e gotas de água escorriam, trazendo consigo o perfume de Desire, impregnado no lenço, assim como a lembrança da sensação de tê-la nos braços. Ele suspirou, sem saber como preencher o silêncio constrangedor que se erguera entre eles. — Definitivamente, não sou muito bom nisso, não é? — admitiu. O olhar de Desire foi triste. Ela precisara de toda a sua força de vontade para voltar e encará-lo, como se o que acontecera significasse para ela tão pouco quanto obviamente significava para ele. — É muito melhor nisso que eu. — Acha que somos capazes de concordar numa trégua? — Em tudo? Jack considerou a pergunta com cuidado, temendo revelar mais do que devia em sua resposta. — Em tudo o que importa. — Nesse caso, sim. — Desire assentiu e manteve a cabeça baixa. — Embora eu não acredite que tenha muita escolha nisso, também. — Nenhum de nós tem, minha querida. O tom de lamento na voz dele deixou-a confusa, pois não fazia sentido. Desire teria compreendido se ele soasse frustrado, ou ainda zangado. Mas o inconfundível senso de perda nas palavras dele, bem como em sua expressão, aproximava-se muito do que ela mesma sentia. Embaraçada, torceu as mãos diante do corpo. — Errei ao tentar interferir na briga entre você e Enos. — Você disse que não devíamos pedir desculpas. — Mas veja o que aconteceu a você — ela protestou, estendendo a mão para o lenço ensopado e examinando o ferimento com olhar crítico. Na verdade, sentia-se satisfeita por haver encontrado um assunto menos embaraçoso. — Está inchando depressa, embora eu tenha certeza de que Enos tenha levado a pior. Eu devia ter deixado você resolver a questão sozinho. Luta bastante bem, considerando-se que é um inglês. — Considerando-se que minha vida estava em jogo, não vi alternativa. — Tê-la tão perto constituía uma provação para Jack. — Mas você provou ser capaz de se defender, também. 23


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— Obrigada. — Ela deu um passo para trás, a expressão repentinamente maliciosa. — Meu avô e meu pai foram corsários e minha avó, em sua juventude, mandou alguns piratas assassinos para o inferno. — Surpreendente — Jack falou com ironia. Pensando na maneira como ela interferira na luta com Enos, não estava nem um pouco surpreso por saber que a sede de sangue corria nas veias da família. — Todos eles ingleses, posso apostar. — Apostou errado. Isso foi há muito tempo, quando nossos inimigos eram franceses e espanhóis. — Basta fingir que ainda são, e fará uma viagem muito confortável a bordo do Aurora. — Jack observou-a ajeitar os cabelos, antes de amarrar o lenço na cabeça. Não havia notado os brincos antes. Eram pequenos camafeus romanos, entalhados em ouro. Muito elegantes e muito valiosos. Somada ao candelabro Waterford, digno de um palácio, a iluminar uma igreja batista, a antigüidade de ouro nas orelhas daquela mulher bonita e inteligente, que não hesitava em meter-se numa briga nas docas, constituía contradições demais para um homem em seu juízo perfeito. — Garanto que vão paparicá-la como se fosse uma rainha. — Aurora é o seu navio? — Desire - perguntou com interesse. — Não me disse nada a respeito e eu temi perguntar, pois você poderia ser esse tipo de capitão descuidado, que não dá a mínima para sua embarcação. Sua tripulação virá nos apanhar aqui, amanhã? Ou devemos encontrá-los em Newport, em águas mais profundas? Jack conteve uma risada. — Srta. Sparhawk, o Aurora é um navio de novecentas e noventa e oito toneladas, com trinta e oito canhões. O que seus camaradas americanos iriam pensar, se aparecesse em seu rio, amanhã? Deixei o Aurora em águas seguras, em Halifax. Mas, não pense que só porque vai viajar num navio de grande porte, pode carregar dúzias de baús. — Posso levar tudo de que preciso em um baú — ela afirmou confiante. — Não se trata de uma viagem de prazer. E sempre me cuidei sozinha, por isso, não precisa se preocupar com a possibilidade de eu levar uma ama. — Ótimo. — Jack perguntou-se se ela não insistiria em levar algum tipo de acompanhante. A maioria das mulheres se recusaria a viajar desacompanhada, com quase trezentos homens a bordo. Era verdade que preferia tê-la sob sua tutela exclusiva. — Reservei passagens para nós dois em uma embarcação menor, que parte amanhã. Com a mão no trinco da porta, Desire esperou que ele apanhasse o chapéu sobre a mesa. — Tinha tanta certeza de que eu concordaria? — perguntou. — Pelo bem de seu irmão, preferi acreditar que acabaria concordando. Por que a mentira parecia muito pior, agora? Ela sorriu com timidez. Mesmo ferido e amarrotado, ele era bonito o bastante para tirar-lhe o fôlego. — Obadiah tem muita sorte por contar com você como amigo. Desta vez, Jack não foi capaz de forjar um sorriso. — Tem mais sorte ainda por ter você como irmã. — Ele e Jeremiah fariam o mesmo por mim. — Desire abriu a porta e o vento agitou as franjas do lenço em torno de seu rosto. — Somos os três muito parecidos, nesse aspecto. Acho que a maioria dos irmãos e irmãs são assim. Jack não respondeu. Sabia melhor que ninguém quanto os laços entre irmãos e irmãs podiam ser fortes. Mas não admitiria isso para ninguém. 24


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Especialmente para Desire Sparhawk. O sol havia se escondido havia muito tempo, quando Desire subiu os degraus para entrar em sua casa. Passara o dia recolhendo testemunhos para a defesa de Obadiah e colocando os negócios da família em ordem. Sentia-se confiante de que eles continuariam indo bem, enquanto estivesse ausente. Agora, só lhe restava arrumar a bagagem e ela sacudiu a cabeça devagar diante da última e cansativa tarefa. Jamais fizera tanto em um só dia. Ainda assim, não conseguira tirar o capitão Herendon da cabeça o dia todo, lembrando-se de cada momento que passara com ele naquela manhã. Nem mesmo os trabalhadores no estaleiro Thompson haviam conseguido mantê-la em segurança. Tentara lembrar-se de que ele era um inglês autoritário e arrogante, além de bonito demais para ser levado a sério. Mas, então, lembrava-se do quanto ele gostava de Obadiah, e de como sorria para ela, como se ambos partilhassem um segredo, e de como seus olhos se mostravam tristes e solitários, quando ele pensava que ela não notaria. A pura e triste verdade era que gostava do homem. E, embora soubesse o que teria de enfrentar quando Jeremiah descobrisse, ela bem que gostara do modo como ele a defendera de Enos Park. Fazia apenas três dias que o conhecera, Desire pensou com um suspiro. Talvez por ele ser amigo de Obadiah, sentia como se o conhecesse há muito tempo. Ou, como era mais provável, porque não tinha escolha senão confiar nele para levá-la à Inglaterra, ao encontro do irmão, ela precisava desesperadamente acreditar que tomara a decisão certa. Ah, mas como ainda duvidava de tal decisão! Poderiam concordar com uma trégua a cada dia e, ainda assim, cada vez que se via perto dele, Desire sentia o ar ao seu redor tornar-se pesado e difícil de respirar. Por mais que tentasse explicar tal sentimento com sua lógica, não podia negar o fato de jamais ter se sentido daquela maneira com outro homem. Nem mesmo com Robert. Ver o capitão Herendon todos os dias, enquanto estivessem no mar, quando ela estaria longe de sua casa, uma estranha nos domínios dele... Perguntou-se se a tensão entre eles diminuiria por conta do tédio, ou aumentaria até tornar-se insuportável. Com a mão pousada no trinco da porta, Desire olhou para os telhados das casas na encosta no monte e para o porto, onde se podiam avistar os mastros das embarcações ancoradas ali. No dia seguinte, estaria a bordo de um daqueles navios, iniciando a viagem mais longa de sua vida. Rezou com fervor para que não viesse a se arrepender. Zeb já acendera o lampião que iluminava o hall de entrada mas, para surpresa de Desire, as velas da sala também encontravam-se acesas. Assim que começou a desamarrar a capa, a avó apareceu na porta. — Desire, querida, ainda bem que chegou! — O rosto de Mariah exibia profundas rugas de preocupação, e suas mãos entrelaçadas exibiam uma palidez mortal. — O Sr. Macaffery está aqui há mais de uma hora, esperando para lhe falar. — O Sr. Macaffery está aqui? — Desire lançou um olhar para o relógio de parede. O escritório do Sr. Macaffery fora sua primeira parada, naquela manhã, na tentativa de obter testemunhos em defesa de Obadiah. Desire confirmara sua expectativa de que a amizade do homem por sua família era mais que leal, mas isso não era motivo para ele estar em sua casa àquela hora. — Precisa ouvir o que ele tem a dizer, antes de fazer qualquer outra coisa, Desire. Se tudo for verdade... Ah, aquele pobre menino! Desire inclinou-se e passou os braços em torno da avó. — Vovó, como a situação pode ser pior do que sabemos? Obadiah está na prisão, mas eu pretendo libertá-lo. E, quando o fizer... 25


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— É pior, Desire! Mal posso acreditar no que ele jura ser verdade sobre seu irmão! — Continuo jurando, Sra. Sparhawk, porque é a verdade. — Macaffery encontrava-se na porta da sala, o corpo franzino recortado contra a luz da lareira. — A verdade é que seu neto Obadiah é mesmo um espião. E, se já não foi morto pelos ingleses, certamente será, antes que a Srta. Desire chegue lá. Que Deus me ajude, Sra. Sparhawk, mas esta é a verdade.

QUATRO

- Verdade ou não, Desire, as informações trazidas por Herendon estão corretas — afirmou Macaffery, enquanto Desire permanecia atrás da poltrona da avó. Embora o fogo na lareira já estivesse fraco, o chá continuava intacto nas duas xícaras pousadas na mesinha entre as cadeiras, um sinal de que o encontro de Mariah com o advogado fora longo, mas nada cordial. — Quando seu irmão foi capturado, estava engajado em atividades de pirataria por este país. Desire sacudiu a cabeça com veemência. — Mas, daí para chamá-lo de espião, e aceitar as acusações dos ingleses contra ele! O advogado franziu o cenho e olhou para as mãos entrelaçadas. — Bem, talvez a palavra "espião" seja forte demais para o que Obadiah esteve fazendo — ele se corrigiu —, mas os ingleses consideram-no culpado o bastante para enforcá-lo, se é que têm essa intenção. Para ser honesto, não acredito que eles o façam, mas tenho o dever de informá-la sobre o pior que pode acontecer. — O senhor o conhece, Sr. Macaffery. Sabe como ele ri e brinca com todos que o conhecem. Pode imaginá-lo participando de algum tipo de intriga? — Ninguém que o conhecesse poderia imaginar. E é justamente o que o tornou tão perfeito para a missão — ele respondeu com firmeza. — Escute, Desire. Há muitos homens neste país que acham que uma guerra com a França seria um grande feito, uma maneira corajosa de mostrar que os americanos não vão se submeter ao modo como os franceses vêm explorando nossos mercadores e esnobando nossos diplomatas em Paris. Mas esses homens ignoram o fato de que não possuímos um exército, ou uma Marinha, ou o dinheiro para formá-los. Esqueceram-se do que uma guerra pode fazer a um país. — Meu irmão se lembra — Desire falou com um sorriso tenso. Por mais jovem que Obadiah fosse, quando a última guerra terminara, ele se lembrava tão bem quanto ela e Jeremiah. — Ele se lembra de nosso pai. — Também me lembro de seu pai — Macaffery assentiu com pesar. Não havia segredos sobre os Sparhawk que Macaffery não conhecesse. Fora amigo de infância do pai de Desire e o único que optara por viver em terra e cursar a faculdade, em vez de lançar-se no mar. E, também, fora o único a integrar o exército do general Greene, durante a guerra, em vez de se tornar corsário. Mas, enquanto o pai permanecia jovem para sempre na lembrança de Desire, o Sr. Macaffery sobrevivera para envelhecer, tornando-se curvado e calvo, por debaixo da peruca que insistia em usar. Ele se inclinou na cadeira, antes de continuar: 26


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— Quando certos amigos do presidente Adams sugeriram que ainda existiam meios de se evitar um conflito tão desastroso, Obadiah foi contactado, pois conhecia monsieur Gideon de Monteil. Ou melhor, cidadão Monteil, como é conhecido agora. E, justamente por se lembrar do que a guerra fez à sua família, Obadiah concordou em encontrar-se com o homem e pedir por uma solução mais pacífica. — Estendeu a mão e pousou-a no braço de Desire. — Compreende agora, minha querida, porque eu não podia dizer-lhe isto esta manhã, em meu escritório, antes de consultar as outras partes envolvidas? — Mas, então, por que o presidente não explica a situação aos ingleses? — Desire inquiriu. — Ele, certamente, poderia libertar Obadiah! O queixo de Mariah ergueu-se em desafio. — Responda à menina, Colin. Se é que tem uma resposta a oferecer. Desire não é nenhuma tola. Eu lhe disse que ela não se deixaria levar como um carneirinho. — Eu jamais insinuaria tal coisa, Sra. Sparhawk. — Irritado, Macaffery enterrou o queixo no colarinho engomado, dando a Desire a nítida impressão de que a avó e o advogado travavam uma batalha por sua alma. — Minha querida Desire, por favor, deixeme explicar. O presidente não deve saber de nada disso. Ele não pode. É claro que sabe, mas não pode dizer uma palavra para defender seu irmão. Do contrário, arriscaria atrair a ira dos ingleses sobre nós. — Compreendo — Desire murmurou, sentindo a moeda da sorte de Obadiah em seu bolso. Lembrou-se mais uma vez do garotinho perdendo o equilíbrio sobre a grade da ponte Weybosset. Ele sempre fora seu irmãozinho, sorridente e despreocupado e, ainda assim, havia tanto sobre ele que ela nem sequer desconfiara. O que mais poderia fazer, senão agir com a mesma coragem que ele demonstrara? — A resposta está bastante clara, não é? — ela falou devagar. — Assim que meu irmão estiver em segurança, irei à França e falarei pessoalmente com Gideon de Monteil. — Desire, você não tem de fazer nada disso — a avó interferiu em pânico. — Tudo mudou, agora. Foi por isso que o Sr. Macaffery lhe contou tudo. Não precisa ir. Eu jamais esperaria que você se arriscasse tanto. Mas Desire sacudiu a cabeça. — É o que devo fazer, vovó. Sabe disso tanto quanto eu. Por Obadiah e por papai, também. Devo ir. Desire percebeu os olhares trocados entre a avó e o advogado. Mariah mostrouse furiosa, enquanto Macaffery não escondeu seu triunfo. Ora, os dois já haviam discutido a possibilidade antes dela chegar, e nenhum deles acreditara que ela seria voluntária para tal missão. — Não faz idéia do quanto sua decisão me agrada, Desire — o advogado declarou com satisfação. — Seu pai ficaria muito orgulhoso. Terá a completa gratidão de seu país e, é claro, do presidente Adams. — Pois que aquele covarde vá arder no fogo do inferno! — gritou Mariah com amargura. — Não tente virar a cabeça da menina com essa conversa, Colin. Você e Adams são farinha do mesmo saco. Já não fez mal o bastante? Já me roubou um de meus netos com suas intrigas e planos e, agora, quer me tirar outro. — Vovó, por favor! — Desire ajoelhou-se ao lado da avó, segurando-lhe as mãos. A mulher tremia de raiva e suas feições apresentavam-se distorcidas pela dor antecipada da separação. — Trarei Obadiah de volta e voltarei sã e salva. Eu juro. Mas trata-se de algo que preciso fazer. Não tenho escolha. 27


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— Não acredite nisso, Desire. Sempre existe uma escolha. — Muito bem. Eu escolho ir adiante. — Então, vá. — Mariah desviou os olhos para o fogo, a fim de esconder a emoção que eles denunciariam. — Você tem o sangue dos Sparhawk nas veias... demais para sobrar espaço para um mínimo de bom senso. Autoritários e nobres, cada homem da família mostrou-se ansioso a arriscar o próprio pescoço a fim de consertar um mundo todo errado. Mas nunca pensei, Desire, que veria esse mesmo traço em você. — Ah, vovó — Desire murmurou —, você é tão nobre e honrada quando vovô. E tão corajosa, também. Não vou deixá-la responsabilizar os Sparhawk sozinhos pelo que sou. Foi você quem me criou, e quem eu procurei, todas as vezes em que vovô, papai e Jeremiah, iam para o mar. Desde pequena, sempre quis ser igual à senhora. Como pode acusar-se por fazer o que a senhora também faria, no meu lugar? A avó enlaçou os dedos nos dela, ainda olhando para o fogo. — Não posso, criança, e é por isso que me dói tanto — falou em tom suave. — Eu é que estou agindo como uma velha tola, que tem medo de ficar sozinha. Você está certa. Não farei nada para impedi-la. Mas trate de voltar e trazer aquele tolo do seu irmão com você. — Prometo, vovó. Desire abraçou a avó, chocada mais uma vez ao constatar o quanto a velha senhora parecia frágil. Voltaria sã e salva e em pouco tempo. Não desapontaria a mulher que a criara com tanto amor. Macaffery limpou a garganta, embaraçado por se sentir um intruso. — Desire, é claro que não pretendo mandá-la numa viagem tão arriscada sozinha. Como já disse à sua avó, coloco-me à sua disposição para acompanhá-la. Não posso ver a única filha de um velho amigo lançar-se no mar, em companhia de um estranho. — Ora, mas que marinheiro você daria, Colin! — Apesar de toda a sua infelicidade, os olhos de Mariah brilharam de divertimento. — Sei que já reservou sua passagem, de Providence para Halifax, mas o que o faz pensar que o capitão Herendon estenderá o convite a você? — E como ele poderia fazer o contrário, sem comprometer sua posição como cavalheiro? — O advogado virou-se para Desire. — A confiança de Herendon é a chave para tudo. Enquanto ele acreditar na inocência de Obadiah, usará sua influência em nosso favor. Mas, se suspeitar da verdade, o melhor que poderá fazer será negar ajuda a você. E, o pior, será contribuir para a condenação de seu irmão. Não pode deixar que ele desconfie de nada, Desire. Contrariada, Desire não respondeu. Não havia dúvidas de que sua lealdade para com o irmão vinha em primeiro lugar, mas não a agradava a idéia de esconder a verdade do capitão Herendon. O homem fora da Inglaterra até ali, na tentativa de salvar Obadiah. Usar sua confiança e amizade daquela maneira, parecia-lhe uma atitude pouco honrada. E, embora ela soubesse o quanto dependia daquilo, não podia esquecer-se da empatia surgida entre eles... ou do conforto que ele lhe oferecera e que ela jamais poderia esperar encontrar de novo. — Vovó tem razão, Sr. Macaffery — falou com cuidado. — O capitão Herendon pode não querer levá-lo. Ele me disse que mal teria espaço para a minha bagagem. — Ah, mas ele vai ter de encontrar espaço para mim, ou vai se haver comigo! — Colin cerrou os dentes. — Lembra-se do que aconteceu à filha dos Snow, há dois anos? 28


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Fugiu para o mar com aquele capitão de Salem e voltou para casa, cinco meses depois, esperando um filho do patife. — Com todo o direito, levando-se em conta que ela se casou com o sujeito — Mariah corrigiu-o. — Deixe de ser fofoqueiro, Colin. Desire não é Ananiah Snow e duvido que se comporte da mesma maneira. Já lhe disse que não foi esse o motivo que me levou a concordar com o seu plano. — Gostaria que parasse de chamar de plano o que... Mariah ergueu a mão, silenciando-o. — Trate de me ouvir! Se Desire vai libertar o irmão, poderá precisar de você para negociar nos tribunais ingleses. E, se vocês estão mesmo decididos a procurar o tal Monteil, você ao menos sabe falar francês. Mas, quanto à conduta pessoal de Desire, confio em minha neta plenamente e não vou admitir suas insinuações maldosas. Desire notou que Macaffery corava. — Mas homens são homens — ele insistiu. — Especialmente, alguns aristocratas arrogantes, habituados a conseguirem tudo o que querem. Desire mal ouvia a discussão, sentindo-se como se não estivesse mais naquela sala. Pouco importava se o capitão Herendon estava habituado a conseguir tudo o que queria. E também não importava se o velho Sr. Macaffery acreditava que ela precisava de um acompanhante. Dali por diante, Desire teria de pensar no inglês como nada além de um inglês. Nunca fora adepta de mentiras. Por isso, teria de ter cuidado com cada palavra que dissesse ao capitão Herendon, para não colocar em risco a vida de seu irmão. Se pretendia salvar Obadiah e ajudar seu país, teria de pôr de lado os sentimentos infantis que ainda possuía com relação a certo e errado, lealdade e confiança, amizade e traição. E, acima de tudo, deveria esquecer a rara alegria que encontrara nos braços do inimigo. Ela havia mudado de idéia. Não apareceria e tudo o que lhe restaria para oferecer a Monteil, seria uma porção de desculpas vazias e um pacote de velhas cartas. Jack caminhou de um lado para outro do porto, onde o pequeno navio Katy encontrava-se ancorado. Toda a carga, bagagem e provisões já haviam sido embarcadas. Vários marujos despediam-se de esposas, filhos, namoradas, todos lançando olhares nervosos na direção de Jack. A briga no estaleiro e o hematoma na testa haviam conquistado mais respeito que seu título e posição social jamais haviam obtido. Como Jack houvesse pago muito bem pelas duas passagens, na verdade pagara bem acima do valor real, o capitão Fox concordara em esperar mais um quarto dê hora pela Srta. Sparhawk. Porém, o capitão deixara claro que não estava disposto a esperar muito mais. Naquele exato momento, ele examinava ostensivamente a ampulheta. Jack ignorou-o. Se fosse preciso, daria a ele mais algumas moedas, para que virasse a ampulheta mais uma vez. Talvez ela houvesse descoberto a verdade, o que seria razão suficiente para que decidisse nunca mais vê-lo. Ou, então, simplesmente decidira que a viagem era arriscada demais, para ser feita em companhia de um estranho. Especialmente em se tratando de um estranho que parecia absolutamente incapaz de manter-se longe dela. Pela milésima vez, Jack perguntou-se por que aquela mulher o fazia perder a capacidade de raciocinar com clareza, quando havia coisas tão importantes em jogo. Passara muito tempo longe do Aurora. Devia ser esta a razão de suas dificuldades. Não nascera para a vida em terra, e aqueles laços familiares com que vinha lidando, o levavam a pensar em Júlia com freqüência maior do que nos últimos dez anos. O melhor seria pensar que o mar era o seu lar. Precisava voltar à regularidade da rotina 29


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de bordo, um mundo familiar e bem ordenado, onde ele sabia exatamente o que esperar e, em contrapartida, sabia o que era esperado dele. Lá, Desire Sparhawk seria quem se encontraria em terreno desconhecido. E, com a responsabilidade do comando a ocupá-lo, ela deixaria de ocupar seus pensamentos durante o dia, e seus sonhos à noite. Mas... e se nunca mais voltasse a vê-la? — Capitão Herendon! Não desejando mostrar-se ansioso, Jack forçou-se a esperar que Desire o chamasse pela segunda vez para, então, virar-se. Ela lhe acenava de uma carruagem dirigida pelo ex-marinheiro da perna de pau que trabalhava em sua casa. Embora vestisse a mesma capa preta da véspera, Desire trocara o lenço vermelho por um chapéu cor de cereja e luvas amarelas. As peças não eram nada apropriadas para a viagem, mas Jack sentiu-se tão aliviado e feliz por vê-la, que sequer pensou em reclamar. Curvando-se numa mesura formal, cumprimentou-a: — Bom dia, Srta. Sparhawk. — Ah, por favor, não diga nada, capitão! — ela falou, enquanto corria para a parte traseira da carruagem e começava a soltar as tiras que prendiam sua bagagem, sem esperar pela ajuda do velho marinheiro. — Sei que estamos atrasados que o senhor deve estar furioso, mas Black Simon fugiu e eu não poderia deixar minha avó sozinha, enquanto ele não fosse apanhado. — Black Simon? — Jack franziu o cenho, tentando ligar o nome a alguém conhecido. — Espero que o patife tenha sido encontrado. Ela lhe lançou um olhar estranho e, com uma careta pouco feminina, puxou o baú com as duas mãos, no momento que o empregado perneta chegava para ajudá-la. — Não precisa me olhar desse jeito, capitão — queixou-se irritada, limpando as mãos na capa. — Black Simon é o gato de minha avó, e não algum pobre africano usado como escravo. Posso assegurá-lo de que minha família jamais explorou um ser humano. — Eu não disse isso — Jack defendeu-se. Então, em sua mente, formou-se com clareza a imagem de Desire subindo numa árvore, a fim de resgatar o gato fugitivo, tratando-o da mesma maneira direta com que lidara com Enos Park. Jack teve de esforçar-se para conter um sorriso pois, pela expressão no rosto dela, rir naquele momento não seria uma atitude das mais sábias. — Não, não disse — ela admitiu com relutância. — Mas sei que todos os ingleses acreditam que o comércio de Rhode Island baseia-se no tráfico de rum, melado e escravos. — Com um suspiro exasperado, mudou de assunto: — Detesto me atrasar. Sei que é comum as mulheres fazerem isso, mas também sei o que um atraso pode custar a uma viagem de navio. Pode-se perder um dia, por causa das marés. — Não está tão atrasada assim, senhorita. Geralmente, Jack detestava qualquer tipo de atraso. Mas, talvez porque ela se mostrasse tão preocupada e contrariada, sentiuse disposto a perdoá-la. Além disso, em dois ou três minutos, estariam prontos para partir. A tripulação do Katy lançara-se ao trabalho, assim que viram Desire chegar, enchendo o ar com seus gritos e ordens, para partida. E o velho marinheiro da perna de pau já desaparecera no navio, incumbindo-se de instalar a bagagem de Desire. Jack sorriu e ofereceu-lhe o braço. — Vamos, então, Srta. Sparhawk. E que seu gato fujão vá para o inferno. Mas, para sua surpresa, ela recuou um passo, a exasperação substituída pelo pânico. Desire sacudiu a cabeça, recusando a oferta de ajuda para subir pela prancha com tamanha veemência, que Jack não conseguiu encontrar o menor sentido na situação. Desde quando oferecer o braço a uma dama se tornara uma ofensa mortal? 30


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— Capitão Herendon, bom dia! — Jack não reconheceu o homem miúdo que, de repente, apareceu entre ele e Desire, com a mão estendida. — Colin Macaffery, advogado, senhor. Muito prazer. Jack observou com olhar frio a mão estendida. — Ainda não tive o prazer de ser apresentado ao senhor, tive? — Não, senhor, ainda não. Mas espero que possamos nos conhecer muito bem nas próximas semanas. — Ignorando a reação fria de Herendon, Macaffery recolheu a mão estendida para trás das costas e estudou o capitão de cima a baixo. Não era de se surpreender que Desire parecesse fascinada pelo inglês. Que mulher não ficaria, diante de um sujeito como aquele? — Viajarei em companhia da Srta. Sparhawk, tanto no papel de advogado da família, quanto no de amigo íntimo de seu falecido pai. Jack lançou um olhar para Desire, que assentiu em concordância, embora não demonstrasse a convicção que ele esperava. Se ela não queria a companhia do sujeito, o que ele estava fazendo ali? Jack não o queria, também, mas a menos que Desire protestasse, não haveria um meio decente de recusar a presença do acompanhante. Teve um vislumbre do total fracasso de sua missão e sentiu todo o prazer provocado pela decisão de Desire dissipar-se. Advogados costumam enxergar emboscadas e maquinações onde não existem. Quanto de verdade aquele seria capaz de descobrir? Macaffery fez um gesto para Desire, que se apressou em colocar-se a seu lado, mantendo a cabeça baixa, a fim de evitar a pergunta nos olhos de Jack. Não era do feitio de Desire submeter-se daquela maneira. O que a fizera agir de maneira tão diferente? Devia estar subindo pela prancha de braço dado com ele, e não com aquele anão! Mal humorado, Jack seguiu-os. Tentando afastá-la da cabeça, Jack aproximou-se da amurada, quando as cordas foram atiradas e a embarcação deslizou pelo rio, na direção da baía e do oceano mais além. Sendo um homem do mar, Jack costumava esquecer-se da vida, observando os detalhes de uma embarcação em movimento. Desta vez, porém, não conseguia desviar a atenção da jovem de cabelos negros, a poucos metros de distância, a capa esvoaçando à brisa suave. A seu lado, Macaffery agarrava-se à amurada, como se temesse ser atirado para fora do navio. E, mesmo naquele vento fraco, seu corpo mostrava-se rígido e tenso. Ora, o sujeitinho não era apenas um advogado, mas também tinha medo do mar. E o homem acabou de despencar no conceito de Jack. Macaffery retirou um lenço do bolso e secou o suor da testa. — Vou conversar com o capitão Fox, Desire, e pedir que navegue com maior cuidado. A água não está nada calma. Se preferir, pode ficar aqui. — Por favor, não faça isso! — ela gritou. — Quero dizer.... esta é nossa última oportunidade de apreciar Providence por meses. Pode falar com o capitão depois. — Desfrute da paisagem você, minha querida, mas não conte com a minha companhia. Tenho certeza de que o capitão Herendon lhe fará companhia. — Por favor, Sr. Macaffery! Mas ele já se afastava na direção do capitão, curvado e vagaroso como um caranguejo. Desire olhou incerta para a cidadezinha ao pé da montanha, onde nascera e crescera, dividida entre despedir-se do lugar que tanto amava e o desejo de não se ver sozinha com o inglês. Jack tomou a decisão por ela e aproximou-se. — Sou tão temível assim, e minha companhia tão desagradável? — perguntou. — Ou será que já a ofendi novamente?

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Desire fechou os olhos, enquanto sacudia a cabeça com um suspiro. Era errado estar ali com ele, e mais errado ainda sentir o coração disparar diante da lembrança do que acontecera no escritório do estaleiro. — Nesse caso, poderia fazer a gentileza de me mostrar os pontos mais importantes de Providence? — Jack pediu, voltando a debruçar-se na amurada, a fim de dar a ela algum tempo para se recuperar. Não lhe faltaria oportunidade para perguntar-lhe o que a fizera parecer tão assustada no porto. Assim que vira a cor se alterar no rosto de Macaffery, Jack concluíra que o advogado não seria um acompanhante dos mais constantes. Um estômago fraco como aquele poderia mantê-lo trancado na cabine, confinado à sua rede, até a Nova Escócia. — Sempre achei que o melhor ângulo para se conhecer uma cidade, é da água. — Talvez tenha razão — Desire concordou, satisfeita em poder desenvolver um assunto tão inocente —, embora o rio seja tão estreito neste ponto, que se poderia ter a mesma paisagem da outra margem. — Estendeu o braço e começou: — A torre mais alta é a nossa igreja, que você já conhece. O edifício abaixo, aquele com arcos, é o mercado. À direta, as duas torres pertencem à igreja dos congregacionistas. A mansão isolada na montanha pertence ao Sr. John Brown. A casa de Joseph Brown é aquela com o estranho telhado em curva. E a nossa é ali... não, ali, na Benefit, com o telhado azul e janelas escuras. Esquecendo-se do homem a seu lado, Desire olhou para o que já se transformava numa mancha azul, e que representava sua casa. Todas as vezes que fora ao porto acenar adeus ao pai e aos irmãos, sempre detestara ser ela quem ficava. Agora, que se via de partida, descobriu que deixar tudo o que amava não era assim tão fácil. Com a confusão da fuga de Black Simon, mal tivera tempo de despedir-se da avó, limitando-se a um abraço e um beijo rápidos, nos degraus da casa, com o gato pródigo firmemente preso nos braços de Mariah. Agora, era tarde demais para dizer à avó o quanto sentiria sua falta e o quanto a amava. — É difícil partir, não é? — Jack perguntou em tom gentil. Os olhos de Desire estavam cheios de lágrimas e, quando ele pousou a mão na sua, ela não resistiu. — Dizem que a volta é o momento da maior felicidade. — Tudo aconteceu tão depressa. Mal tive tempo de dizer adeus, e aqui estou eu, a caminho da Inglaterra. E só Deus sabe o que vai acontecer por lá, ou quanto tempo terei de ficar. — Mesmo através da luva, ela podia sentir o calor da mão de Jack sobre a sua. E, embora soubesse estar errado, ainda apreciava o conforto que ele lhe oferecia. — Não fosse por Obadiah, eu jamais faria esta loucura. — Preocupar-se com seu irmão não é loucura. — Nesse caso, só posso rezar para que tudo dê certo. — Desire secou as lágrimas e tentou sorrir. Sempre se considerara uma mulher sensata mas, toda vez que via aquele homem, parecia pronta a se dissolver em lágrimas, como uma garotinha mimada. — Imagino que tenha viajado tanto, que já perdeu a conta de quantas vezes deixou seu lar para trás. — Na verdade, não. — Bem abaixo da aba do chapéu, estava o galo na testa de Jack, um lembrete mudo do que os dois haviam partilhado na véspera. O perfil recortado conta o céu azul do inverno, ele olhava para a cidade, embora seus olhos vissem outra coisa, algo perdido no passado distante. — Deixei meu lar uma única vez. E nunca mais voltei. Desire fitou-o com curiosidade, surpresa por seu tom de voz e pela maneira como suas feições se fecharam, protegendo-o de mais perguntas. Em Rhode Island, a maioria dos marinheiros saía em sua primeira viagem quando ainda eram garotos. Certamente, 32


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em vinte anos ou mais no mar, ele havia voltado para casa ao menos uma vez. A casa e a família de Desire eram tão importantes para ela, que lhe era difícil acreditar que alguém pudesse sentir-se diferente. — Nunca? — Nunca. — Jack retirou a mão da dela. — Mas seu amigo está de volta e vou devolvê-la aos seus cuidados. Tenha um bom dia, Srta. Sparhawk. Antes que ela pudesse protestar, ele virou-se e deixou-a, caminhando com naturalidade pelo deque. Em contraste marcante, o progresso do pobre Macaffery era dolorosamente lento. Compreendendo agora as brincadeiras da avó quanto às habilidades marítimas do advogado, Desire perguntou-se como o pobre diabo ficaria, quando chegassem ao mar aberto. — Fox é o sujeito mais teimoso que conheci — ele queixou-se. — Recusa-se a atender meu pedido para que navegue com moderação e ainda me ofende com palavras de baixo calão! — Não pode esperar que ele se comporte de maneira diferente, Sr. Macaffery — Desire explicou, ainda observando o capitão Herendon, que se encontrava na amurada oposta, as mãos cruzadas atrás das costas, as pernas afastadas. — Todo capitão é o senhor de seu próprio navio. E nenhum deles gosta de ter suas ordens questionadas. — E a sanidade dele que estou questionando, navegando nesta velocidade absurda. — Esfregou a mão na boca várias vezes. Seu rosto estava pálido e só mesmo uma grande força de vontade o impedia de dar adeus ao seu café da manhã. — Mas, ao menos, você não teve o mesmo problema com Herendon. — Herendon? — Desire desviou os olhos do capitão para o advogado, mas foi tarde demais, pois suas faces já exibiam o tom escarlate da culpa. — Sim, Herendon. Acha que não notei o modo como ele olha para você? Não, não tente negar. Já sei do que aconteceu ontem, no estaleiro Thompson. Perguntando-se quanto a história fora aumentada ao ser contada e recontada, Desire sentiu o rubor tornar-se mais intenso. — Posso garantir que não foi nada como o senhor ouviu. — Foi um presente divino — o advogado declarou. — Encoraje-o a fazer confidencias e, depois, conte-me tudo o que descobrir. Com os ingleses em evidente hostilidade com a França, tudo o que ele disser pode nos ajudar a evitar uma guerra contra o nosso país. Herendon é muito respeitado pelo almirantado britânico, para ser um simples capitão de fragata. O pai dele deve possuir algum título de nobreza. — Ele é marquês — Desire falou, pouco satisfeita com o rumo que a conversa tomava. Sempre soubera que Colin Macaffery era um advogado que não media escrúpulos para defender os negócios de sua família, mas aquela era a primeira vez que tomava contato direto com aquelas qualidades. — O capitão Herendon me contou que é apenas lorde, mas seu irmão é visconde e o pai é o marquês de Strathaven. Macaffery assentiu em aprovação. — Eu sabia que você levava jeito para esta missão. Ouça e descubra tudo o que puder sobre Herendon. Então, tentaremos plantar as sementes da desgraça em torno dele. — Por que eu faria algo para desgraçá-lo? Ele tem sido mais que amável!

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— Pode ser amável, mas não é nada esperto. Aposto que seus superiores não sabem que ele veio à sua procura, na tentativa de salvar um americano com simpatias francesas. Uma ou duas palavras nos ouvidos certos podem destruir a carreira dele. Por um longo momento, Desire permaneceu chocada demais para falar. — O capitão Herendon arriscou a própria carreira para ajudar meu irmão, e o senhor quer que eu arruíne sua vida em troca? Macaffery lançou-lhe um olhar frio. — Seus irmãos não teriam esse tipo de escrúpulos, Desire. Ele é inglês e você, americana. Devo lembrá-la do que um capitão como ele fez a seu pai? Pensei que tivesse boa memória. Não, pensou Desire desolada, sua memória era boa. Lembrou-se dos irmãos, do pai e do avô, e de como haviam arriscado suas vidas pelo que acreditavam ser certo. Lembrou-se do pai e das pequenas bonecas que ele esculpia, do avó, que sempre a tratara com tanto carinho, de Obadiah com seu bom humor inabalável, de Jeremiah com sua atitude protetora. Sem virar-se, pensou no homem parado diante da amurada oposta. Era verdade que ele fora amável e compreensivo com ela, e que aquele sorriso poderia levar um anjo a cometer um pecado. Mas o que tudo aquilo significava, se comparado à sua família? Desire segurou a grade com força. O navio contornara Fox Point, e a torre da igreja era a única coisa que ainda podia ser vista da cidade. Logo, aquilo também ficaria para trás, assim como seu lar e seu passado, tudo o que ela era. A avó lhe garantira que sempre existiam escolhas. Desire fizera a sua e não hesitaria em levá-la adiante. Mas, como poderia ter sabido o preço que pagaria?

CINCO

Jack praguejou consigo mesmo, imaginando que Desire deveria considerá-lo o mais rude dos homens. E, como poderia pensar diferente, se ele lhe dera as costas, no primeiro dia de viagem, quando ela lhe fizera a mais simples das perguntas? Era fácil imaginar o que ela estaria dizendo àquele advogado empolado: que ele era frio, mal educado, o último homem em quem poderia confiar. — Ande, inglês maldito! Mexa-se, ou vou atirá-lo ao mar, miserável! — resmungou o marinheiro mais próximo. — Sim, é com você que estou falando, cretino! Sobressaltado, Jack abaixou-se para cuidar da vela que se encontrava a seus cuidados, ignorando os insultos. Havia se voluntariado para ajudar a tripulação reduzida do Katy, a fim de esquecer Desire através dó trabalho. Se não fosse capaz sequer de manter a vela na posição necessária, então merecia todos os xingamentos em que o marinheiro ianque pudesse pensar. Embora suas mãos estivessem endurecidas pelo vento frio, Jack concentrou-se na tarefa à sua frente. Há cinco dias, desde que haviam deixado a baía de Narragansett, o tempo apresentava-se horrível, com ventos fortes e mar encapelado. O inverno era tão rigoroso quando o que Jack experimentara no Mar do Norte. Segurando-se com cuidado na corda esticada entre os mastros, encaminhou-se lento e curvado até o convés. Embora não existisse a menor chance de encontrar algo quente para beber ou comer, pois com o 34


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tempo em tão péssimo estado, não se podia acender o fogo, ele se daria por satisfeito com roupas secas e o sossego de sua cabine. Mas Jack estava habituado aos inconvenientes do mar. Automaticamente, voltou a pensar em Desire Sparhawk e em como deveria estar sofrendo, sendo aquela a sua primeira viagem. Não só era a primeira viagem, mas também a primeira vez em que ela se ausentava de casa. Calculou que Macaffery estaria passando muito mal, não podendo oferecer-lhe companhia. Ao mesmo tempo, a tripulação encontrava-se ocupada demais para dar qualquer atenção a ela. Jack já perdera a conta de quantas vezes considerara a possibilidade de atravessar o corredor estreito que separava sua cabine da dela. Para perguntar como ela estava passando, só isso, e acalmar-lhe os medos e diminuir-lhe a solidão. Quem sabe, pudesse convidá-la para um copo de vinho, algumas fatias de presunto frio com biscoitos, em sua cabine. Mas, mesmo aquele gesto simples exigiria alguma explicação para a atitude brusca que ele tivera da última vez em que a vira. Assim, decidiu esquecer o convite e beber seu vinho sozinho. Era mais fácil e muito melhor assim. Melhor não importar-se com o que ela sentia, ou pensava. Importar-se, àquela altura, representava um luxo que ele não podia se dar. A única utilidade de Desire para ele, seria de levá-lo até Gideon de Monteil. E não havia razão alguma para ela tomar conhecimento dos motivos pelos quais ele deixara sua casa, quase vinte anos antes. — Então, o senhor foi mesmo ajudar os outros lá fora, capitão? — Silas Fox perguntou surpreso, ao deparar com Jack no corredor. Mais jovem e menor, o capitão do Katy sorriu sem jeito. Habituado ao comércio com os britânicos do Canadá, Fox impressionava-se com o título daquele passageiro e, mais ainda, com sua posição de capitão de uma fragata de trinta e oito canhões. — Eu lhe disse que não era necessário. — Não precisa se preocupar com isso — Jack falou com sinceridade. Passara a gostar de Fox, que era um bom capitão e um homem decente, além de ser um dos poucos americanos a não se mostrar louco por uma briga. — Só espero ter conseguido ajudar sua tripulação. Mas peço-lhe que não diga uma palavra a meus homens, que me viu trabalhando daquela maneira. Do contrário, vão esperar que eu os ajude da mesma forma. Fox cocou a cabeça. — Não é provável que eles fiquem sabendo, principalmente porque o vento já está amainando. Vim para cá, com a intenção de informar o mesmo à Srta Sparhawk, para que descanse sossegada. Sabem como são as mulheres, não é? — Ela tem passado mal? — Jack perguntou preocupado, amaldiçoando-se por ter se mantido afastado. Fox sorriu com malícia mesclada de timidez. — Para dizer a verdade, não sei, capitão. Tratei de ficar bem longe dela, pois estamos perto demais de Providence e o senhor sabe o que os irmãos dela são capazes de fazer. Jack suspirou, cansado de ter adivinhar tudo sobre os Sparhawk. — Não, Fox. Para ser honesto, não faço a menor idéia. — Nesse caso, é melhor eu lhe contar, capitão — Fox advertiu-o. — Não que o senhor seja tão covarde quanto eu, mas Jeremiah Sparhawk pode ser perigoso, quando fica irado. Cuida da irmã, como se fosse feita de ouro, especialmente depois que o velho capitão morreu. Mesmo passando a maior parte do tempo no mar, ele ainda é uma ameaça. Embora seja bonita daquele jeito e herdeira de parte da fortuna da família, a pobre moça nunca teve pretendentes, exceto um, o baleeiro de New Bedford. Acho que ela gostava dele, pois ouvi falar em casamento. Mas, um dia, Jeremiah voltou e ouviu o tal Jamison gabando-se do bom negócio que faria com aquele casamento e dizendo coisas 35


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pouco respeitosas sobre a senhorita. E Jeremiah quase cortou o sujeito em pedaços e atirou seus restos no mar. Jack lembrou-se da reação de Desire quando ele lhe perguntara sobre pretendentes, na igreja. E, também, de quando o sujeito no estaleiro fizera insinuação quanto ao destino do baleeiro. — Sim, pobre moça. — Muita gente em Providence acredita que ela vai morrer solteirona, e tudo por causa do irmão. Eu não teria aceitado recebê-la a bordo, se não tivesse o senhor e o Sr. Macaffery para dar as devidas explicações a Jeremiah. — Fox espiou o corredor atrás de Jack, olhando para a porta da cabine de Desire. — Acho que vou deixar para informá-la sobre o tempo em outra hora. Ela deve estar dormindo, ou fazendo alguma dessas coisas de mulher. Até logo, capitão. Obrigado pela ajuda. Jack observou-o afastar-se apressado dos aposentos de Desire, como se ela tivesse uma doença contagiosa. Ora, pensou, ele mesmo não vinha agindo melhor. Parou diante da porta e hesitou. Não querendo perturbá-la, colou o ouvido à porta e não escutou nada. Já era tarde, quase dez horas, e ela deveria mesmo estar dormindo, como Fox sugerira. Com o vento finalmente mais calmo, a embarcação já não balançava tanto e era possível que Desire houvesse encontrado sua primeira oportunidade de real descanso em cinco dias. Mas, antes que pudesse afastar-se, a porta se abriu. — O que deseja, capitão Herendon? — Desire perguntou, segurando o xale em torno dos ombros, sobre a camisola. — Apenas desejar-lhe uma boa viagem. Tratava-se de uma desculpa vazia, mas era tudo o que Jack poderia oferecer no momento. Na verdade, tinha sorte por ter conseguido pronunciar as poucas palavras sem gaguejar. Ela vestia uma camisola azul decotada, que fazia sua pele parecer com pérolas. Numa das mãos, segurava a escova. Os cabelos encontravam-se soltos, caindo-lhe sobre os ombros. A intimidade sugerida pela aparência dela agradou-o e Jack foi invadido pelo impulso de enroscar os dedos nos cabelos sedosos, puxá-la para si a fim de sentir-lhe a maciez da pele, e provar mais uma vez a promessa de prazer contida nos lábios bem desenhados. — Passei cinco dias sem a sua atenção — ela replicou com frieza, sem perceber o quanto o afetava —, e se guardou seus bom desejos para si todo esse tempo, não preciso deles agora. Ou melhor, guarde para si todos os desejos e sorte, para o caso de encontrar-se com Jeremiah... o senhor e o capitão Fox! Esquecendo-se das fantasias românticas, Jack empertigou-se. Mesmo tendo ouvido sua conversa com Fox, ela não tinha motivo algum para tratá-lo de maneira tão rude. — Acredita mesmo que eu vá precisar? Desconcertada, Desire franziu o cenho. — Precisar de quê? — De sorte. — Com gestos lentos, ele retirou a echarpe que prendia o chapéu à sua cabeça. — Vejo que ouviu o que o capitão Fox estava me dizendo. — E vai acusar-me de falta de educação, quando eram vocês quem fofocavam? — ela protestou, corando diante da insinuação de que estivera ouvindo atrás da porta. — Fox teve a intenção de me fazer uma advertência, não de fofocar. — Ela o fazia sentir-se como um desocupado qualquer, cochichando pelos cantos e maldizendo a vida alheia. Sentiu a irritação crescer. Ora, ela não sabia que cavalheiros jamais faziam 36


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fofocas? — Se o que Fox me contou for verdade, então seu irmão mais velho só se incomoda com homens que pretendam pedir a sua mão. Como nunca tive a intenção de cortejá-la, imagino que não tenho qualquer motivo para temer Jeremiah Sparhawk. A menos, é claro, que a senhorita pretenda contar-lhe uma história diferente. Desire arregalou os olhos indignada. — Acredita mesmo que eu mentiria para o meu irmão? — Considerando-se a sua idade e o advogado que carrega a seu lado, para lhe servir de testemunha, creio que seria uma idéia bastante tentadora. Embora não fosse receber o menor crédito nos tribunais ingleses. — Como pode imaginar que eu tomaria uma atitude tão baixa? E como pode ser tão convencido, a ponto de achar que estou tão desesperada para me casar, que seria capaz de recorrer a um truque tão desprezível? — Não imaginei que fosse capaz, mas achei melhor me certificar. Tenha uma boa noite, Srta. Sparhawk. Jack girou nos calcanhares e entrou em sua cabine, deixando Desire parada na porta, ainda sob o choque da indignação. Um instante depois, ouviu-a bater a porta com força. Praguejando baixinho, Jack tirou o casaco e atirou-o no chão. Aquela história estava ficando pior do que uma farsa de novela: a bela e ofendida dama, o cavalheiro com sua honra em questão, acusações e insinuações terríveis, portas batendo. Nem por um momento passara-lhe pela cabeça que ela pretendesse apanhá-lo numa armadilha e forçá-lo a casar-se. Então, por que diabo dissera aquilo? Movendo-se cuidadosamente no escuro, acendeu o lampião. A cabine era tão pequena, que mal havia espaço para seu baú. Jack sentou-se na cama para tirar as botas. Bem, quisera manter distância de Desire e não poderia ter encontrado maneira mais eficaz de consegui-la. Mas ela tinha razão. Nenhum homem honrado discutiria a vida de uma dama com tamanha liberdade, especialmente quando ela se encontrava tão perto. De dentro do baú, retirou a garrafa de vinho que considerara dividir com Desire. Como tal chance estivesse fora de cogitação e ele estivesse cansado demais para importar-se, retirou a rolha e bebeu um longo gole, sem preocupar-se em procurar por um copo. O vinho era mais doce do que ele imaginara, doce demais para aplacar a raiva que sentia de si mesmo. Quando ouviu a batida na porta, limitou-se a resmungar em resposta. Assim que entrou na cabine, Desire foi invadida pelo impulso de sair correndo. À luz do lampião, o capitão Herendon parecia-se muito mais com uma besta selvagem pronta a devorá-la, do que com o lorde refinado que ele dizia ser. Estava recostado na cama, com uma garrafa na mão, os olhos vermelhos de cansaço e o rosto coberto pela barba crescida por três dias. Mas ela teria ainda muitas semanas em companhia daquele homem e só tornaria as coisas piores se não lhe desse as devidas explicações o quanto antes. — Gostaria de trocar algumas palavras com o senhor, capitão Herendon — ela disse, passando por cima do casaco jogado no chão. Ele não fez menção de levantar-se, mas ela não esperava que o fizesse. Não havia cadeira e Desire não tinha a menor intenção de juntar-se a ele na cama. Assim, permaneceu de pé, segurando o xale bem apertado em torno do corpo. Baixou os olhos para o chão, sentindo-se incapaz de sustentar o olhar estranho que ele lhe lançava. E, tarde demais, deu-se conta de que deveria ter ao menos vestido algo mais decente. — Já que ouviu o capitão Fox, gostaria que me ouvisse, também. Jack abaixou a garrafa e sorriu, mas não olhou para ela. — Estou ouvindo. 37


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- O que o capitão Fox e os outros dizem sobre Jeremiah é injusto — ela começou. — Foi mais culpa minha, que de Jere. Eu tinha apenas dezesseis anos quando conheci Robert Jamison e, como ele fosse primo de uma amiga, nós nos víamos com freqüência maior do que deveríamos, naquela idade. Robert tinha vinte e um anos e já era suboficial num navio baleeiro, com grandes expectativas de tornar-se capitão, depois de mais uma ou duas viagens. As atenções dele me lisonjeavam. Ele fazia belos discursos sobre nosso futuro juntos e eu me deixei levar pela conversa. Mas ele não foi... delicado comigo e terminou nosso romance. Jeremiah ficou furioso quando soube. Escondidos sob o xale, os dedos de Desire contorceram-se diante da lembrança do irmão dizendo-lhe calmamente, durante o jantar, que ela não precisaria mais preocupar-se com Robert Jamison. Fora só na missa do dia seguinte, que ela soubera, horrorizada, que Jeremiah arrastara Robert para fora de uma taverna e o espancara no meio da rua, deixando-o inconsciente, com o nariz e três costelas quebrados. Somente a influência do avô junto ao delegado impedira Jeremiah de ir parar na prisão. — Mas Jere fez o que fez por amor, não por ciúme ou orgulho — falou com tristeza. — Ninguém compreendeu. Ele me ama e sofreu ao me ver magoada. Reagiu da única maneira que sabia. Ainda assim, Jeremiah jamais soubera do pior. Ninguém na família sabia e, até então, Desire ainda rezava toda noite para que nunca viessem a saber. Havia se encontrado com Robert na casa da prima dele, quando não havia mais ninguém em casa. E confiara nele e subira para o andar de cima, onde os dois haviam trocado beijos apaixonados, até Desire dar-se conta de que Robert esperava muito mais. Tentara impedi-lo mas, entre pragas e palavrões, ele lhe rasgara a roupa e pusera-se sobre ela, imobilizando-a. Desire não reconhecera o menor sinal da alegria e do prazer que sua avó mencionara que viriam quando ela se deitasse com um homem. No chão duro de pinho, perdera não só a inocência, mas também a fé infantil no amor. Chorara, nem tanto de dor ou medo, mas de amarga vergonha, pois acreditara quando Robert a chamara de mulher fria e insensível, imprestável para ser esposa de qualquer homem. E ele tinha razão. Uma a uma, todas as amigas de Desire casaram-se, até que restou só ela sem marido e filhos. Assim como Silas Fox, todos em Providence culpavam Jeremiah por isso, mas ela sabia por que homem algum a cortejara, depois que Robert partira. Homem nenhum, isto é, até o capitão lorde John Herendon aparecer na sala de sua casa, com seus galões dourados e sorriso encantador, e beijado seus lábios antes dela ter se dado conta de que ele era seu inimigo. Não, ele já não era seu inimigo. A partir do momento em que Desire decidira confiar nele, a fim de salvar Obadiah, Jack deixara de ser seu inimigo. Mas, o que ele era, então? E, pior, desde quando ela despojara o nome dele dos títulos e formalidades e passara e pensar nele como Jack, simplesmente, conforme ele lhe pedira em seu primeiro encontro? Olhou para ele, que mantinha a expressão protegida pelas sombras, e encontrou pouco do galante oficial que beijara naquela primeira noite. Teria cometido um erro ao confiar nele, assim como errara ao confiar em Robert Jamison, tantos anos antes? — Mas Jere não terá nada contra o senhor, capitão Herendon, nem contra mim — declarou. — Ele saberá que vim com o senhor por causa de Obadiah, e não por qualquer outro motivo. Sabe que eu faria qualquer coisa por Obie, assim como ele faria por mim. Jack recolocou a rolha na garrafa e guardou-a no baú. Com um suspiro, inclinouse e apoiou os cotovelos nos joelhos e segurou a cabeça com as mãos. — Por que está me contando tudo isso, Desire? 38


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— Depois do que o capitão Fox lhe disse, achei que deveria conhecer a verdade — ela murmurou. — Achei que ia querer... — Diabos, não quero! — ele a interrompeu com voz rude. — Será que não compreende? Não quero saber nada de você ou de sua família infernal! Desire abaixou a cabeça, sentindo as lágrimas arderem em seus olhos. Tentara confiar àquele homem um dos mais profundos segredos de seu coração, e tudo o que conseguira fora irritá-lo. Como pudera esquecer-se de que mundo ele vinha? Aos olhos daquele lorde inglês, ela não passaria de uma solteirona provinciana, dada a confissões melosas e lágrimas. Mas não choraria na frente dele de novo. Não lhe daria a satisfação de ver suas suspeitas confirmadas. — Desculpe-me por ter tomado o seu tempo, capitão. Soube que o senhor ajudou os marinheiros durante a tempestade, portanto devia saber que está cansado. Todo esse tempo sozinha me tornou cansativa, tenho certeza. Nunca estive no mar, mas a viagem está sendo mais difícil do que eu esperava, fechada o tempo todo naquela cabine minúscula, depois de tudo o que Jere e Obie me contaram... Parou de falar de repente, dando-se conta de que voltara a mencionar os irmãos. Mas, como poderia evitar, se eles eram parte tão importante de sua vida? Cerrou os punhos e forçou-se a conter as lágrimas. — Eu não sabia o que esperar. É só isso. — Então, venha comigo. Sem compreender, ela ergueu os olhos e deparou com as mãos de Jack estendidas num convite. — Venha, vou lhe mostrar o mar, como sonhou que seria. Agora, Desire. Desire fitou-o e notou que, na semi-escuridão, os olhos dele ficavam ainda mais claros, como os de um lobo. Hesitou, sem saber se podia confiar nele, e sem si mesma. Mas Jack não estava disposto a esperar. Com movimentos ágeis, levantou-se da cama, apanhou o cobertor e, com um gesto grandioso, colocou-o sobre os ombros de Desire. Na verdade, o gesto foi grandioso demais, considerando-se o tamanho da cabine. Tal idéia trouxe um sorriso aos lábios dela. — Ora, ora — ele falou —, um sorriso. No mesmo instante, Desire desejou que ele também sorrisse e, assim, suavizasse as linhas duras de seu semblante. — Não sou uma pessoa triste por natureza, capitão Herendon. — Então, sou eu quem a deixa triste? — Entre outras coisas. A lã áspera do cobertor guardava o calor e o odor másculo do corpo dele. — Está dizendo que estou entre outras coisas que a deixam triste, ou que a faço sentir outras coisas, além de tristeza? — Referia-me a outras coisas, simplesmente. — Desire observou-o vestir o casaco com movimentos surpreendentemente graciosos, para um homem tão grande, num espaço tão pequeno. — Você fala melhor e é mais educado do que todos os marinheiros que conheci. Chego a duvidar que seja um deles. — Ah, mas eu sou um marinheiro. — O sorriso finalmente curvou os lábios de Jack, mas a amargura em sua voz não trouxe o conforto que Desire esperava. — Independente do que mais eu possa ser, sou um marinheiro. Agora, vamos com cuidado. Não vá tropeçar. 39


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Desire deixou que ele a guiasse pelo corredor e pelos degraus estreitos que levavam ao deque. A primeira coisa que a atingiu foi o vento frio e forte, que parecia prestes a cortar-lhe a pele. Então, viu a beleza do mar à noite e esqueceu-se do frio. Desde criança, ouvira falar daquele outro mundo, descrito em detalhes pelo pai, o avô, irmãos e tios. Mas nem todas as descrições poderiam tê-la preparado para o que via. As últimas nuvens afastavam-se com o vento, enquanto a lua cheia iluminava o céu salpicado de estrelas. Uma visão que ela jamais fora capaz de imaginar, nem mesmo em seus sonhos mais ousados. Notou que a superfície da água ainda se apresentava ligeiramente encapelada, com pequenas ondas a refletir os raios de luar. Sob seus pés, o Katy parecia um ser vivo, desligando sobre a água, a vela principal içada, impulsionando-os em direção ao seu destino. Com o vento batendo em suas faces e uma nuvem de minúsculas gotículas de água a envolvê-la como pequenos diamantes, Desire sentiu-se mais viva do que nunca. Não era de admirar que Jere e Obie, assim como todos os outros marinheiros que conhecia, se mostrassem sempre tão ansiosos para voltar ao mar. Jack ouviu seu pequeno grito de prazer, antes que o vento carregasse o som para longe. E sorriu diante da expressão ingênua e maravilhada naquele rosto delicado. Teria sido mais seguro deixá-la na cabine, mas se o fizesse, estaria impedindo-a de viver aquele momento. Outras mulheres reclamariam do frio e da água salgada que destruiria seus vestidos. Ao contrário, Desire permanecia ereta, o rosto erguido para poder sentir melhor o vento a castigá-la, enquanto os cabelos negros esvoaçavam atrás de si. Jack observou-a, deliciado pelo prazer da descoberta dela. De alguma maneira, soubera desde o início que ela reagiria assim. Se Desire era capaz de sentir toda aquela magia a bordo de uma embarcação tão pequena quanto o Katy, então ele mal poderia esperar para vê-la a bordo do Aurora, com o dobro do tamanho e dez vezes mais potente e veloz. Desire ergueu os braços, de maneira que o cobertor em torno de seu corpo funcionasse como uma segunda vela. Num impulso, deu um passo para a frente, afastando-se de Jack. No instante seguinte, o braço dele encontrava-se em torno de sua cintura, puxando-a de volta. — Vá com calma, menina — ele murmurou ao seu ouvido, apertando-a contra si. — Não pretendo perdê-la para o mar. — Eu não fazia idéia de que seria assim — ela falou, pousando as costas no peito dele com tamanha naturalidade, que Jack perguntou-se se ela havia se esquecido de quem a segurava. — Acho que estamos no lugar mais lindo do mundo. — Ora, não seja tão poética — ele disse com bom humor. — Está vendo aquela linha mais escura, a oeste? É o Estado americano do Maine. Mas Jack compreendia o que ela queria dizer. Sempre amara o mar à noite e, partilhar com ela aquele prazer, era o mesmo que oferecer-lhe o mais raro presente que poderia dar. Seu braço apertou-a com firmeza maior. Desire possuía excelente senso de equilíbrio e não precisava que ele a segurasse, mas num arroubo de egoísmo, Jack relutou em soltá-la. Abraçar Desire e desfrutar com ela o prazer que o mar proporcionava ao luar trouxe-lhe mais paz do que ele fora capaz de encontrar em toda a sua vida. Mesmo embrulhada num cobertor áspero, ela continuava a ser maravilhosa em seus braços. Não demoraria a soltá-la. Esperaria só mais um instante... 40


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Desire sabia que deveria afastar-se. Jack podia fingir que a segurava, somente em nome de sua segurança mas, por mais inexperiente que fosse, ela sabia o suficiente para não tombar por sobre a amurada. Ainda assim, gostava da sensação de ser abraçada por ele, oscilando junto com o navio. E gostava do modo como seus corpos se encaixavam, o dele firme e musculoso, o dela macio e cheio de curvas. Ah, sim, como ela gostava, mesmo considerando que o gesto significava pouco para um homem como ele. Jack adoraria sua companhia, desde que ela não o incomodasse com suas próprias preocupações. Porém, ali em alto mar, longe de Providence e sob o feitiço da lua cheia, as regras segundo as quais ela governava sua vida, pouco valiam. A decência e o decoro pareciam não existir e tudo o que importava era o céu repleto de estrelas e o homem de cabelos castanhos, que a abraçava com tanto cuidado. Pousou a cabeça no ombro dele, ainda admirando o cenário de magia. — E tão lindo, que chego a desejar que o dia nunca mais amanheça. A voz dele soou baixa e suave ao seu ouvido: — Terá muitas noites a bordo do Aurora. Se o tempo não estiver bom, a travessia pode demorar semanas. — Poderia demorar meses, que eu não me importaria. — Obadiah se importaria. Ela suspirou com tristeza. — Tem razão. — Ergueu a cabeça e tentou afastar-se dele, sentindo-se culpada por agir de maneira tão frívola, enquanto o irmão sofria. O que estava fazendo era errado e deveria sentir-se envergonhada de seu egoísmo. Mas, em seu íntimo, sabia que Obadiah compreenderia. E, ali no mar que ele tanto amava, sentiu-se mais próxima do irmão do que jamais sentira antes, sendo deixada na imensa casa de janelas azuis, na rua Benefit. — Deve me achar tão cruel e insensível! — Você jamais conseguiria ser cruel, Desire — Jack corrigiu-a, puxando-a ainda mais perto e pousando os lábios em seus cabelos. — Não devia me chamar assim — ela protestou sem a menor convicção. — Chamá-la por seu nome de batismo? Que mal pode haver nisso, enquanto estivermos no mar? Basta me chamar de Jack, e você será a minha Desire. Desire virou-se, pretendendo protestar, mas foi apanhada de surpresa pelos lábios quentes que pousaram sobre os seus. Esquecida dos protestos, retribuiu o beijo. Depois de haverem partilhado a beleza daquela noite, aquela intimidade parecia inevitável. Desta vez, ela não resistiu e entregou-se ao prazer de sentir aquele homem. Sentiu o coração disparar e a respiração tornar-se tão irregular quanto a dele, à medida que aprofundavam o beijo e a barba crescida roçava a pele fina de suas faces. Sentiu as mãos dele sob o cobertor, percorrendo suas costas, deslizando por seus quadris, de uma maneira que a fazia relaxar e tornar-se mais tensa, ao mesmo tempo. Jack queria mais de Desire, mais do que poderia roubar-lhe no deque daquele navio. Sua alma carente suplantava o desejo crescente que tomava conta de seu corpo. Aquele não era o lugar, nem poderia aquela ser a mulher que combateria a solidão que era sua constante companheira. Com relutância, descolou os lábios dos dela. Por mais envolvidos que estivessem, ele não podia esquecer-se de que não se encontravam sozinhos. E devia poupá-la da maledicência da tripulação. Com delicadeza, afagou os cabelos negros e sedosos. — Ah, sim, você será a minha Desire — murmurou. Desire fechou os olhos, lutando contra a tentação. 41


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— Desire, sim, mas não sua — ela falou, a respiração ainda entrecortada. — Do contrário, vai acabar se vendo em maus lençóis com Jeremiah. Ele pousou um dedo nos lábios dela. — Um irmão dê cada vez, querida — falou com um sorriso. — Não posso lidar com todos vocês de uma só vez. — Os Sparhawk somos uma família formidável. Desire sorriu com tristeza e pousou a cabeça no peito de Jack. — A minha é igual. Também somos três. Sou o mais novo, como o seu Obadiah. Mas duvido que meu irmão mais velho partiria em defesa da irmã, ou na minha, com a mesma ferocidade do seu Jeremiah. Por que ele estaria lhe contando essas coisas? Jack nunca falava da família e, menos ainda, sobre si mesmo. — Tem uma irmã? Desire jamais o imaginara tendo uma irmã. Não só porque ele não a mencionara antes, mas porque parecia tão independente, livre dos laços que a ligavam com tanta intensidade à família. — Júlia. Lady Júlia, a beldade de Rosewell, como meu pai costumava descrevêla. Ela e eu preferíamos outras versões, como Lady Júlia, a bárbara de Rosewell, ou a tresloucada de Rosewell. Jack olhou para o mar, lembrando-se de como a irmã mais velha fingia-se de vesga e lhe mostrava a língua, quando o pai se encontrava de costas, de maneira que Jack não conseguisse conter o riso e acabasse ouvindo intermináveis sermões do pai. Mas ele faria qualquer coisa por Júlia. Ao mesmo tempo em que o fazia rir nos momentos errados, ela também o defendia nos momentos certos, sendo a melhor amiga e defensora, a capita do navio pirata imaginário de sua infância, além de ser a substituta da mãe ausente. Apesar dos vinte anos que haviam se passado, ainda se lembrava com clareza do vestido de seda branca, todo enlameado, bem como da risada alegre que ecoava no ar, enquanto ela corria, os cabelos soltos ao vento. Enroscou os dedos nos cabelos de Desire. As duas eram muito parecidas, tanto em sua lealdade, como em sua coragem. — Acho que Júlia... aprovaria você — falou. Desire sorriu. — Gostaria de conhecê-la. Jack não respondeu, sentiu uma onda gelada invadi-lo e destruir a magia da noite. As lembranças podiam ser perigosas. Ao mesmo tempo em que Júlia fora a única razão pela qual sua infância em Rosewell fora suportável, também fora a responsável pelo final devastador daquela fase de sua vida. — Não será possível — falou com voz tensa, pegando Desire pelo braço. — Júlia está morta. Venha, vou levá-la para baixo, antes que congele.

SEIS

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Por mais que Desire desejasse silêncio, as batidas na porta não cessariam enquanto ela não respondesse. Com um gemido, virou-se na cama, puxando o cobertor sobre a cabeça. Só conseguira pegar no sono pouco antes do amanhecer e não queria ser acordada tão cedo. — Srta. Sparhawk? Srta. Sparhawk, trouxe café quente e torradas, por ordem do capitão Fox. Mas o café já está esfriando, de tanto esperar que a senhorita acorde — anunciou uma voz de garoto. Em seguida, ele voltou a bater na porta. — Srta. Sparhawk? — Já vou — ela respondeu com voz rouca. Atordoada de sono, Desire levantouse e colocou o cobertor nos ombros, por cima da camisola, antes de abrir a porta. Então, lembrou-se de como Jack a envolvera com o cobertor da mesma maneira, na noite anterior. Teria tudo aquilo acontecido de verdade na noite anterior? O garoto corou ao perceber que ela não estava vestida. — Desculpe incomodá-la, senhorita, mas o capitão me deu ordens expressas para trazer o seu café da manhã, com os cumprimentos dele. Pudemos acender novamente o fogo. — Agradeça o capitão Fox por mim e diga-lhe que foi muita gentileza dele. — As torradas na bandeja estavam queimadas e secas, sem manteiga ou geléia para torná-las apetitosas. O café na caneca de louça não parecia mais promissor. Porém, pela boa vontade do capitão Fox, Desire decidiu esforçar-se e aceitar a oferta. — E obrigada a você por ter sido tão paciente. Eu não pretendia ficar na cama até tão tarde, mas dormi muito mal à noite. — Sim, senhorita. A expressão no rosto do menino foi de ingenuidade estudada, o que fez Desire corar. — Ao menos, este café parece forte o bastante para me despertar de vez, não é? — ela comentou com falso bom humor. A tripulação do Katy constituía-se de apenas doze homens. Aquela altura, todos eles já deviam saber que ela ficara até de madrugada no convés, nos braços do inglês. A única pessoa a bordo que talvez não soubesse de nada era o pobre Sr. Macaffery, ainda confinado à cabine, sofrendo com o estômago fraco. — Sim, senhorita, é como o capitão Fox gosta. — O garoto limpou a garganta um tanto sem jeito, antes de continuar: — Meu nome é Will Carr, senhorita, è meu primo Jacob Bartolomeu trabalha para o seu irmão, a bordo do Swan, e acho uma atitude muito grandiosa a sua, atravessando o mar para salvar o capitão Obadiah. Ficamos sabendo de tudo, lá em casa. Minha mãe e minha tia não param de rezar para que a senhorita consiga libertar seu irmão das mãos dos filhos da..., desculpe, dos ingleses, e trazê-lo de volta para casa, junto com meu primo e o Swan. Se precisar de alguma coisa, senhorita, é só me chamar. Will Carr. — Obrigada, Will — Desire falou com um sorriso sincero, imaginando se o garoto fazia idéia do quanto a confiança de sua família significava para ela. — E agradeça ao capitão Herendon, também..Foi ele quem me trouxe a carta de Obadiah e, sem sua ajuda, eu não estaria a caminho da Inglaterra, agora. Will balançou a cabeça sem muito entusiasmo e deixou Desire com seu café da manhã. Ela suspirou, raspou a parte queimada das torradas e mergulhou-as no café, a fim de umedecê-las. Apesar das orações da mãe de Will, não havia dúvida de que ele correra a encontrar-se com os demais marinheiros, a fim de contar-lhes escandalizado a maneira como Desire defendera o inglês miserável, depois de ter permitido que ele a beijasse. E ela não negaria. Inglês ou não, defendera Jack e o faria de novo. 43


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Duas semanas antes, teria concordado com Will em que não existia um inglês bom sobre a face da Terra. Porém, em meio à desgraça que se abatera sobre Obadiah, Jack Herendon era a sua única esperança de trazer o irmão de volta para casa, são e salvo. E, também, prometera a Colin Macaffery que faria o possível para conquistar a confiança de Jack, a fim de descobrir possíveis segredos e ajudar o seu país. Como poderia fazer isso, sem defendê-lo? Mas aqueles já não eram seus únicos motivos. Sem que ela percebesse, seus sentimentos por Jack haviam mudado. Distraída, pôs-se a desfazer as torradas em pedacinhos. O que mudara? Quando começara a importar-se com ele? Quando Jack a beijara, na noite anterior, ela retribuíra. Poderia encontrar todas as desculpas do mundo, mas jamais poderia negar a verdade nua e crua. Bastava que ele a tocasse, para que o sangue disparasse em suas veias e seu coração ameaçasse saltar do peito. E quando ele a beijava e abraçava... Ora, não havia nada em sua experiência que ela pudesse usar para uma comparação! Mas não tinha qualquer garantia de que Jack sentisse a mesma magia, de que o que era tão raro e especial para ela não passasse de lugar comum para ele. Jack vinha de um mundo de riquezas e privilégios inimagináveis para Desire. A gentileza com que a tratava e a amizade que dedicava ao seu irmão não eram o bastante para sustentar sonhos de um futuro juntos. Era possível que ele houvesse adivinhado o que ela não contara sobre Robert, e esperasse que fosse igualmente ingênua com ele. Com um suspiro determinado, afastou os restos das torradas queimadas. Não tinha mais dezesseis anos e não cometeria o mesmo erro pela segunda vez. O melhor seria manter-se consciente do efeito que Jack exercia sobre ela e proteger-se com maior cuidado, do que errar de novo, apenas pelo prazer passageiro de alguns beijos roubados. Sua solidão e as feições bonitas de Jack não justificavam o risco. Trataria de ser mais cuidadosa, pelo próprio bem, assim como pelo bem de Obadiah. Porém, ao mesmo tempo em que se decidia a aumentar a distância entre eles, Desire lembrou-se da dor que tomara conta das feições de Jack, quando ele falara da irmã falecida. Embora houvesse sentido no próprio coração a perda dele, esquivara-se de tentar oferecer-lhe conforto, especialmente por ele ter deixado tão claro que desejava ficar sozinho. Um homem orgulhoso como Jack preferiria sofrer sozinho. Provavelmente, temia ter falado demais a respeito de sua vida, ao mencionar o nome de Júlia. Mas o fato dele ter perdido uma irmã explicava sua compreensão diante do que havia acontecido com Obadiah. Por isso, Desire desejava que ele lhe permitisse, ao menos, tentar aplacar a dor em seu coração. Quem sabe, com o tempo, ele mudasse. E, por mais leal que fosse ao seu país, Desire jurou para si mesma que nem uma palavra sobre o pesar de Jack chegaria aos ouvidos de Colin Macaffery. Vestiu-se apressada e prendeu os cabelos numa trança simples, deixando-a cair nas costas. Como a tempestade passara, ela pretendia voltar ao deque, e aquele era o penteado mais sensato para enfrentar o vento. Mas suas faces apresentavam-se ressecadas pelas gotículas de águas salgada da noite anterior e, ignorando com firmeza a porta fechada da cabine de Jack, Desire dirigiu-se ao convés, levando a bandeja vazia. Como o fogo se encontrasse aceso, talvez conseguisse persuadir o cozinheiro a esquentar um pouco de água para um banho. A julgar pelo barulho produzido pela tripulação, que cuidava de suas tarefas matinais, Desire dormira bem mais que o habitual. Não era de admirar que as torradas houvessem queimado. Um outro som podia ser ouvido acima dos ruídos do trabalho, algo que ela não ouvira antes, a bordo do Katy. Desire apurou os ouvidos. 44


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Quem quer que estivesse tocando a flauta na cozinha, possuía mais talento do que se costumava encontrar no mar, onde mesmo o pior dos músicos era bem recebido, para ajudar a combater o tédio. As notas soavam suaves e firmes, sem hesitação, e Desire sorriu ao reconhecer a melodia de Flowers of Edinburgh, uma das favoritas de seu avô. Sem demonstrar esforço, o músico transformou-a numa música própria, variando as notas de diversas maneiras, antes de retornar à melodia original. Aquele homem possuía a segurança que nenhum professor de música era capaz de ensinar. Ouvi-lo era um raro prazer e Desire decidiu que precisava dizer isso a ele. A cozinha do Katy era pequena e contava apenas com uma mesa de madeira e dois bancos pregados à parede. O cômodo vazio, como era comum entre as refeições, encontrava-se quase às escuras. A única luz era a que entrava pelas minúsculas janelas junto ao teto. No canto mais claro, em um dos bancos, Jack estava sentado, a cabeça dourada inclinada sobre uma flauta de prata. Embora os cabelos se encontrassem impecavelmente presos por uma fita, ele vestia roupas parecidas ao restante da tripulação: calça larga, colete de lã por baixo do casaco, a camisa aberta no colarinho. Pelo canto do olho, ele percebeu a chegada de Desire e parou de tocar, fitando-a com expressão sombria. Fora até ali, na tentativa de fugir, tocando onde acreditara que ela hão ouviria. Depois do que acontecera na noite anterior, não tinha vontade de vê-la. Não conseguira encontrar um motivo para ter falado da irmã para Desire. Por que não deixara Júlia no passado, junto à dor que a lembrança dela sempre trazia? Afinal, ele não era nenhum tolo sentimental e simplório. Era um lutador, um capitão na Marinha mais poderosa do mundo. Já se arriscara e desobedecera suas ordens até o limite, indo à América. Se falhasse agora, jamais seria capaz de fazer o que devia. E, nesse caso, seria melhor apresentar seu pedido de exoneração ao comandante-chefe de Halifax, e pouparse de desonra de enfrentar a corte marcial. Desire era linda, mesmo parada na porta, incerta de que seria bem recebida. Ora, ela não tinha culpa se o afetava daquela maneira. Se, ao menos, o irmão dela a houvesse amado, como ele amara Júlia! Não pensava no tempestuoso Jeremiah, pronto a lutar pela honra da irmã. Não, pensava no outro, Obadiah. Por que ele não destruíra as cartas? — Por favor, não pare de tocar por minha causa — ela falou, com genuíno pesar. — Vim elogiar quem quer que estivesse tocando. Nem me passou pela cabeça que poderia ser você. Jack apoiou a flauta no ombro. — Primeiro você duvida de que sou capaz de comandar um navio. Depois, fica incrédula ao descobrir que sei tocar um pouquinho. É incrível que ainda me considere capaz de caminhar! — Seu talento vai muito além de tocar um pouquinho, como deve saber — ela protestou em tom defensivo. — Você é melhor do que todos os músicos que já ouvi, incluindo os que tocam para viver. O sorriso de Jack foi cínico. — É melhor ter cuidado, querida. Os músicos não são cavalheiros, e um cavalheiro jamais deveria ser músico. — Ora! — Desire fora até lá para elogiá-lo e não estava disposta a permitir que ele usasse isso para criar uma discussão. — Segundo os seus padrões, um cavalheiro também não poderia ser marinheiro. Ao menos, não a ponto de comandar um navio de não sei quantos pés e quantos canhões. E, quanto a andar, talvez você devesse ser carregado numa liteira, por servos vestidos de branco, como dizem que acontece com o 45


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rei, a fim de provar que se encontra acima de coisas como caminhar, típicas de nós, reles mortais! — Em vez de brincar, você deveria considerar a possibilidade de eu não ser um cavalheiro. — Não posso imaginar o que se considere um cavalheiro em seu país. Só posso dizer que ouvir você tocar é um raro prazer e gostaria que continuasse. — Outra hora. — Jack pousou a flauta na mesa e suspirou. Jamais conseguiria explicar a paz que encontrava na música. E não se sentia disposto a tentar. — Toco pelo meu próprio prazer, e não para os outros. — É uma pena que pense assim — Desire falou e pousou os olhos nas mãos dele. Eram grandes e riscadas de cicatrizes antigas, com dedos grossos e calejados. Não eram as mãos de um aristocrata fútil, mas de um marinheiro trabalhador. — Eu lhe disse, toco para mim mesmo. Desire ignorou a insistência na voz dele. Jack falara tão pouco de si, que ela se sentiu relutante em abandonar aquela pequena pista que poderia mostrar-lhe quem era aquele homem. — Não sei como a tripulação inteira não veio até aqui para ouvi-lo. Ele lhe lançou um olhar cético. — Ora, Desire, está se esquecendo de que não sou o sujeito mais popular a bordo do Katy. Ela franziu o cenho, irritada pelo comportamento dos compatriotas. — Os ianques são uns cabeça-duras! — Devo concluir que você já não pensa como eles? — Jack perguntou, erguendo uma das sobrancelhas. Desire corou e pressionou os lábios. Como ele a levara a dizer mais do que pretendia? — Você é amigo de meu irmão e minha única esperança de libertá-lo. — E vai me defender somente pelo bem de Obadiah? — Sim. Jack perguntou-se por que deveria esperar uma resposta diferente. Apontou para o banco diante de si. — Sente-se. — Você não me quer aqui e, de qualquer maneira... — Sente-se, Desire, por favor. Acabei adquirindo o hábito de dar ordens. Não me leve a mal. Ela se sentou tensa, colocando a bandeja sobre a mesa. Por mais errado que fosse, Jack não se arrependia por tê-la beijado. Jamais se esqueceria do calor dos lábios dela nos seus, bem como da força do mar e do vento mescladas à beleza do espírito daquela mulher. Desejava Desire mais do que qualquer outra mulher que conhecera. E sabia que ela também o queria. Além de possuir vasta experiência com as mulheres para perceber, Jack também sabia que Desire seria incapaz de disfarçar seus sentimentos, mesmo que assim o desejasse. Era possível que ela não se esquivasse a um romance durante a viagem. E que maneira melhor ele encontraria de conquistar-lhe a lealdade, ao menos até encontrarem Monteil? 46


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Havia considerado e rejeitado a idéia, por ser um golpe muito baixo. Não tinha a menor intenção de seduzi-la em nome de seu país e gostava demais dela para magoá-la além do necessário. Mas, qual o mal se ambos desejavam o mesmo? Por que não desfrutar o prazer nos braços um do outro e, ao mesmo tempo, garantir o sucesso de sua missão? Notou as mechas delicadas que haviam se soltado da trança. Ah, como gostaria se sentir-lhe os cabelos macios sob os lábios! Afastou tais pensamentos e falou: — O que lhe serviram no café da manhã? Apesar da péssima qualidade do desjejum, Desire lembrou-se das boas intenções de quem o servira. — Eu não estava com fome. — Posso imaginar. Prometo que comerá bem melhor a bordo do Aurora. Meu cozinheiro aprendeu seu ofício em Paris e prepara pratos deliciosos. E tenho certeza de que vai se esforçar ainda mais, quando souber que teremos uma senhorita a bordo. Jack sentia-se ansioso por compensá-la pela viagem ruim que enfrentavam a bordo do Katy. Seus aposentos no Aurora eram espaçosos e confortáveis, e ele não via a hora de tê-la consigo. — Também mantenho uma adega respeitável a bordo. Tenho certeza de que vai gostar. Porém, Desire não se sentia tão ansiosa em trocar vinhos e pratos sofisticados pelas boas intenções da tripulação do Katy. — Obrigada, mas não precisa se preocupar comigo. — Terá o que a irmã de Obadiah Sparhawk merece. E o prazer de sua companhia compensará qualquer sacrifício. Contrariada, Desire não respondeu. Imaginou refeições elegantes, partilhadas a dois, onde ele esperaria tê-la como prato final. — Desire, o que há? — ele inquiriu em tom gentil. — Preferia que continuasse a me criticar, a vê-la assim, tão quieta. Embora sorrisse, Desire permaneceu em silêncio, incapaz de explicar o que sentia. — Está assim por causa do que aconteceu ontem à noite, no deque? — ele insistiu. — Não foi culpa sua. — Nem sua. — Irritado, ele bateu o punho na mesa. — Se algum daqueles marinheiros foi lhe passar um sermão... — Não, ninguém mencionou nosso encontro... mas quebramos o compromisso de uma trégua. — Se bem me lembro, a trégua dizia respeito às discussões, e não a encontros pacíficos. — Capitão Herendon, por favor... — Jack. Costuma tratar com tanta formalidade os homens que beija? — Jack, por favor, me escute. Isto não está certo e você conhece os motivos tanto quanto eu. 47


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— Está se referindo a Obadiah? Desire, o que partilhamos ontem à noite... o vento, o mar e aquele beijo... não fez mal algum a qualquer de nós. Se quiser, jurarei que não voltará a acontecer. Não acredito que queira assim, mas concordarei com sua decisão. Mas lembre-se de que Obadiah é diferente de seu outro irmão. Ele não agiria como um cão de guarda, especialmente comigo. — Não preciso de um cão de guarda! — ela protestou. — Não? Então, por que trouxe Macaffery com você? Como esperasse pela pergunta desde o primeiro dia, Desire já ensaiara a resposta. — O Sr. Macaffery é advogado de minha família há décadas. Achei que ele deveria me acompanhar devido à seriedade da situação de Obadiah. Posso precisar de conselhos legais, mas nunca de um cão de guarda. Não sou uma criança! Jack sorriu. — Ora, Desire, isso jamais me passou pela cabeça. — Estávamos falando de Obadiah — ela insistiu, tentando levar a conversa para terreno mais seguro. Jack apoiou o braço na mesa e o queixo na mão. — Obadiah sempre me pareceu um homem sensato. Ele compreenderia e até a perdoaria, se acha que cometeu um erro. — Mas você não tem certeza disso. — Não? Desire, você é muito parecida com ele. Percebi isso, quando a vi pela primeira vez. — Achou-me parecida com Obadiah? — Por que a surpresa? Você mesma me disse que os. Sparhawk são todos muito parecidos. — Disse isso pensando na família como um todo, incluindo tios e primos. Jeremiah e eu somos muito parecidos com meu pai e meu avô, nos cabelos, olhos e altura. Mas Obadiah é diferente. Ele puxou para a família de minha mãe, tendo cabelos mais claros e compleição mais robusta. Mas você sabe disso, pois o conhece. Não é, Jack? Desire esperou pela resposta, lutando com as dúvidas. Ora, era óbvio que Jack conhecia seu irmão. Do contrário, como teria trazido a moedinha da sorte de Obadiah? E por que a teria procurado, se não fosse muito amigo de seu irmão? Mas, então, por que Jack estava demorando tanto a responder? — Jack? — ela chamou, incapaz de disfarçar o desespero que a invadira. Era estranho o quanto necessitava acreditar nele. — Conhece Obadiah, não conhece? — Claro que conheço, querida. Acontece que, lembrar dele como está descrevendo agora e considerar como estava quando o vi pela última vez, não é fácil. — A tristeza nos olhos dele era legítima, quando estendeu as mãos para segurar as dela. — Conheço Obadiah há anos. Por que outro motivo teria procurado você? Aliviada, ela sorriu. — No fundo, eu sempre soube. Do contrário, não estaria aqui, com você. Mas, quando disse que somos parecidos... — Eu me referia ao seu modo de agir, suas paixões, sua lealdade. Foi por isso que fiquei tão contente por ele ter me escolhido para procurá-la. — Eu também — ela confessou com timidez. Sentindo a mão dele apertar a sua, Desire concluiu que não tinha qualquer motivo para duvidar dele. Mais uma vez, pensou em quanta sorte Obadiah tivera, ao conquistar um amigo como Jack. 48


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Acima de suas cabeças, a sineta tocou quatro vezes, anunciando o final do turno. Com um suspiro, Jack soltou-lhe a mão. — Venha, querida. Se ficarmos aqui, acabaremos almoçando com a tripulação — falou, levantando-se. — Prometi a Fox que o ajudaria na leitura dos mapas, ao final do turno. — Posso ir com você? — Desire perguntou ansiosa. — Se não se importa em ser vista na companhia de um inglês, venha. — Jack apanhou a flauta. — Segure-se e mantenha-se longe da amurada e da tripulação. — Sim, capitão — ela concordou com um sorriso, antes de correr à cabine para apanhar a capa. Jack observou-a partir e praguejou consigo mesmo. Mentiras, pensou, eram tantas as mentiras que estava acumulando, todas sobre o alicerce precário da confiança de Desire. Há pouco, chegara muito perto de pôr tudo a perder. Teria de ser mais cuidadoso e ater-se aos poucos fatos que conhecia. Como poderia ter adivinhado que o irmão mais novo era o único diferente na família? Afinal, o que restara de Obadiah Sparhawk mal fora suficiente para um funeral decente. Tantas mentiras... O que aconteceria a ambos quando ela descobrisse a verdade? Os dois capitães revezaram-se no sextante. Primeiro, Fox manuseou o instrumento com nervosismo, mais adivinhando do que calculando. Então, Jack assumiu o controle, explicando cada passo para suas conclusões. Embora não fosse difícil compreender o processo, Desire mantinha os olhos no mar, a leste. Adorava a sensação de velocidade da embarcação e sentia-se mais viva com o vento frio a castigar-lhe as faces. Decidiu que mais tarde tentaria convencer o Sr. Macaffery a juntar-se a ela no deque. Sentia pena do coitado, trancado na cabine, bebendo chá. Certamente ele se sentiria melhor se respirasse um pouco de ar fresco. Porém, apesar de gostar de ficar no deque, Desire não podia deixar de notar o modo como a tripulação se mantinha a distância, lançando-lhe olhares estranhos. Por causa de Jeremiah, estava habituada a ser evitada pelos homens, exceto quando a procuravam para tratar de negócios. Mas sentia uma certa hostilidade por parte daqueles homens. Lembrou-se da expressão de Will Carr, quando ela defendera Jack. Seria considerada desprezível por aqueles homens, só por viajar na companhia de um inglês? Sorriu quando Jack tomou-lhe o braço e afastou-a dali. — Apesar de ser um bom sujeito, Fox jamais aprenderá navegação — ele disse. — Tenho meninos de doze anos em minha tripulação, capazes de manipular a bússola e o quadrante com facilidade infinitamente maior. — Mesmo assim, ele vem se dando bastante bem. E dono do Katy e sustenta esposa e filhos numa casinha bem construída e arrumada. Por que ele iria querer mudar? — Porque o mar é imprevisível e devemos possuir todos os recursos possíveis, a fim de evitar tragédias. No Aurora, contamos com cinco sextantes, muito mais modernos do que este. — Ah, o Aurora — ela provocou. — Ouvindo você falar, às vezes chego a duvidar de que tamanha jóia realmente navegue pelos mares. — Pois espere e verá com seus próprios olhos. Mas, se a ofendi, não falarei mais nada. Eu devia saber que é um erro falar da minha maior paixão a uma dama. Desire riu e os dois puseram-se a caminhar pelo deque, de um lado para o outro, num silêncio agradável. Após alguns momentos, ela falou: 49


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— Ouvi o capitão Fox dizer que chegaremos a Halifax em uma semana, se o vento se mantiver assim. Então, estará de volta ao seu adorado Aurora. — Poderíamos ir mais depressa, se Fox me desse ouvidos. — Ah, Jack, não comece de novo! — Está bem — Jack concordou com um sorriso. — Estava apaixonada pelo Sr. Jamison, de New Bedford? Desire parou de repente e tirou o braço do dele. — Por que se. importaria com isso? — Porque tudo o que diz respeito a você me importa. Agora, dê-me seu braço. Já disse que não pretendo perdê-la para o mar. Diga-me, Desire, você o amava? Desire fitou-o por um momento. Por que ele queria saber? Sentiu-se relutante em falar. — Eu tinha dezesseis anos. O que poderia saber sobre o amor? — E sabe mais agora? — ele perguntou com seriedade. Desire virou-se e segurou a amurada com as duas mãos, olhando para o mar e pensando em como responder uma pergunta como aquela. Não viu o cabo que sustentava um imenso barril de rum fugir ao controle dos marinheiros que trabalhavam a poucos metros de distância. Nem ouviu os gritos aflitos dos homens, que tentavam segurá-lo. Mas virou-se quando Jack gritou seu nome e viu a expressão de pânico em suas feições, quando ele estendia a mão para ela, a fim de tirá-la do caminho do barril que descrevia um arco no ar, impulsionado pelo próprio peso de uma tonelada.

SETE

Jack não se encontrava em posição para salvá-la. Desire seria feita em pedaços e atirada ao mar, bem diante de seus olhos. Isso não podia acontecer. Ele não poderia carregar na consciência a morte de mais um inocente. Em desespero, gritou seu nome, atirando-se para ela. Desire virou-se, prestes a sorrir, mas avistou o barril e, num reflexo rápido, estendeu a mão para Jack. Ele a puxou contra o peito, girou o corpo e atirou-se no chão. Uma fração de segundo depois, o barril arrebentou a amurada com o impacto e caiu no mar. Jack rolou para o lado e perguntou: — Está ferida? Desire sentou-se e apalpou o chapéu, irreversivelmente estragado. Então, viu o rombo na amurada e as ondas, que já não lhe pareciam adoráveis, mas cruéis e ameaçadoras. Sem perceber, pôs-se a afastar-se para trás. — Diga, Desire, por favor! Está ferida? — Jack repetiu, envolvendo-lhe os ombros com um braço. — Não. — Ela se levantou devagar, tentando em vão esboçar um sorriso. — Estou assustada, só isso. Nós quase morremos, não foi, Jack? — Graças a Deus, você está viva! 50


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Jack puxou-a para si e, por sobre os cabelos negros, viu os responsáveis pelo acidente, ainda parados próximo ao deque. O marinheiro que cortara a corda ainda empunhava a sua faca. Seu reflexo merecia elogios pois, se o barril voltasse, poderia causar danos irreparáveis. Porém, o modo como o encarava, com profunda insolência, incomodou Jack. Nenhum dos americanos ofereceu ajuda ou desculpas. Nenhum deles demonstrou qualquer remorso pelo acidente quase fatal que seu descuido provocara. Se é que se tratara de um acidente. — Srta. Sparhawk! — Fox aproximou-se apressado e preocupado. — Está ferida? — Não, mas não devemos isso a seus homens — Jack respondeu com fúria contida. — Que diabos eles estavam fazendo, Fox? Fox mostrou-se ofendido. — Foi um acidente, Herendon. O barril se soltou, quando aquela corda partiu. Foi uma infelicidade vocês estarem bem em seu caminho. — Sim, e de quem seria a infelicidade se ambos tivéssemos morrido? — Escute, Herendon, só vim perguntar sobre o bem estar da senhorita! — E eu o agradeço por isso, capitão Fox — Desire interrompeu-os, não querendo tornar-se o centro de um conflito. Afastou-se de Jack, mantendo-se ereta. Também notara a expressão dos homens que os observavam e queria sair dali depressa. Não lhe passara pela cabeça que fossem capaz de tamanha hostilidade. E, ao pensar que eles haviam chegado tão perto de causar-lhe mal, sentiu vertigens, mas decidiu não permitir que notassem sua fraqueza. Era uma Sparhawk, e não uma covarde. — Fique tranqüilo, capitão, estou bem. Fox fitou-a duvidoso. — Está muito pálida. — Já disse que estou bem. Foi um acidente. Agora, gostaria de voltar à minha cabine. Tentou caminhar, mas os joelhos vergaram sob o seu peso. No mesmo instante, Jack estava a seu lado, a ampará-la. —Vamos lá, querida — ele sussurrou. — Não vou deixá-la cair diante dos outros. Sabendo que não conseguiria andar sem ajuda, aceitou-a. Manteve a cabeça erguida, até descerem os degraus do convés. Então, quando ninguém mais os via, Jack tomou-a nos braços. — O que está fazendo? — ela protestou. — Jack, por favor, ponha-me no chão! — Não, senhorita. — Ele abriu a porta da cabine dela e acomodou-a na cama. — Fique aqui e descanse. Mulher alguma deveria ser submetida ao que lhe acaba de acontecer. — Pare com isso, Jack! Já disse que estou bem! Não sou uma das suas frágeis damas inglesas. E já disse que não preciso de um cão de guarda! Ele a fitou incrédulo. — Quer parar de bancar a valentona e me ouvir? Não houve acidente algum. Alguém neste navio, talvez toda a tripulação, quer nos ver mortos. — Compreendo que tenham motivos para não gostar de você, mas o que teriam contra mim, se... — Desire parou de falar, dando-se conta do quanto estava sendo indelicada. — Desculpe, não quis dizer isso. Ele sorriu.

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— Ora, só disse a verdade. Seus compatriotas querem me transformar no bode expiatório de toda uma guerra. O seu erro parece ser simplesmente o fato de aceitar a minha companhia. — Mas isso não é justo, Jack! — E não teria sido justo se você houvesse morrido. Se vai partilhar comigo a culpa por minha nacionalidade, então aceitarei a responsabilidade e farei com que me obedeça. — Não cumpro ordens, Jack. Nem as suas, nem... — Desire! — Macaffery entrou na cabine e correu para ela. — Vim logo que me contaram sobre o acidente. Está ferida? Não temos um médico a bordo, mas podemos forçar Fox a parar na costa, uma vez que ele foi o responsável... — Estou bem, Sr. Macaffery. Não precisa se preocupar. E o senhor, como está? Ele ainda parecia péssimo, a pele esverdeada e os olhos fundos. As roupas não se apresentavam limpas e, em lugar da costumeira peruca, ele usava uma touca de dormir. — Tão bem quanto poderia, a bordo deste barquinho miserável. Mas não estou me queixando, pois sabia o que enfrentaria, quando me ofereci para acompanhá-la. Mas estou arrasado, porque minha indisposição poderia ter custado a sua vida, uma vez que não tenho estado em condições de protegê-la, conforme prometi à sua avó. — Ela está bem, Macaffery — Jack interrompeu-o, irritado pela intrusão indesejada. — Foi Jack quem me salvou do acidente — Desire falou, lançando um olhar a Jack, num pedido silencioso para que ele não mencionasse suas suspeitas diante do advogado. — Ele arriscou a vida para isso. Jack compreendeu e concordou. — Acidentes desse tipo matam muitos marinheiros. Foi uma sorte a Srta. Sparhawk ter saído sã e salva. Com ar contrariado, Macaffery agradeceu: — Obrigado pelo serviço prestado à senhorita. Jack já ia protestar, quando viu outro pedido nos olhos de Desire. — Coloco-me à inteira disposição da senhorita — falou. — Nesse caso, Herendon, acredito que não se incomode em deixar-me a sós com ela. Jack lançou-lhe um olhar frio. — Capitão lorde John Herendon, senhor. Envergonha minha família ao omitir meu título. — Envergonharia a mim mesmo, se o considerasse um homem superior aos outros, em função do acidente de seu nascimento. — Dadas as circunstâncias, Macaffery, eu... — Jack, por favor — Desire interrompeu-o, pousando a mão em seu braço. — Ficarei bem com o Sr. Macaffery. Acredite. Jack não queria deixá-la, especialmente na companhia do advogado. Porém, a expressão nos olhos dela não lhe deixava escolha. Beijou-lhe a mão e despediu-se: — Estarei em minha cabine, caso precise de alguma coisa. — Não devia provocá-lo daquela maneira, Sr. Macaffery — Desire protestou, assim que a porta se fechou. — Afinal, ele salvou minha vida. 52


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— O que não me surpreende — Macaffery replicou com cinismo. — Tenho de usar todos aqueles títulos bárbaros e arcaicos, enquanto você pode chamá-lo de Jack e receber beijos nas mãos! Desire sentiu as faces arderem. — Foi a primeira vez que ele fez isso! — E não será a última. Mas não pretendo criticá-la. — Os lábios dele curvaram-se num sorriso maligno. — Enquanto eu passava mal, confinado à minha cabine, você conseguiu fazer com que o nosso capitão ficasse enfeitiçado por você. Meus parabéns! — Mas eu não fiz nada! Durante os dias de tempestade, não vi o capitão Herendon nem uma vez! — Considerando-se o breve período de tempo, sua conquista merece ainda mais elogios. Agora, conte-me o que descobriu sobre ele. Devagar, Desire encolheu-se. O que descobrira sobre Jack? Que ele tocava flauta, que tinha um irmão ainda vivo, com quem pouco se importava, que perdera a irmã, de quem gostava muito, que era expert em beijos, brigas e navegação, que era teimoso e impetuoso, gentil e leal, e que arriscara a vida para salvá-la. E, também, descobrira que gostava dele, muito mais do que seria prudente ou apropriado, mais do que poderia esperar ser correspondida. — E então, garota? Deve ter descoberto alguma coisa — Macaffery mostrou-se impaciente. — Homens como ele não costumam guardar segredos das mulheres que beijam. E não se mostre chocada. Se pretende deixar que Herendon a beije no deque, para que todos vejam, deve esperar os comentários que virão. — Sinto muito — ela murmurou, lembrando-se da confiança da avó -em que ela seria capaz de comportar-se adequadamente. — Não pretendia ser tão atirada. — Tem todas as razões para ser atirada, se isso vai ajudá-la a ganhar a confiança de Herendon. Quanto a mim, pouco me importa se for para a cama com ele. — Sr. Macaffery! — Não banque a ingênua comigo, Desire. A virtude das mulheres não passa de um estado temporário, o que não é tão importante, se levarmos em conta o modo como seu pai e irmãos arriscaram suas vidas. Além do mais, todos sabem que somente a primeira vez tem real importância para uma mulher. E, depois da partida apressada do Sr. Jamison de Providence, acredito que isso não seja um problema para você. — Ninguém sabia disso, exceto Robert e eu! — Nem eu, até este exato momento. — A expressão de satisfação no rosto dele provocou náuseas em Desire. — Pela maneira como Jeremiah quase matou Jamison, eu já suspeitava, assim como todos os moradores de Providence, mas ninguém poderia afirmar. Bem, que sirva de lição para que você aprenda a controlar sua língua. — O senhor foi amigo de meu pai — ela falou com amargura. — Aceitei sua companhia, assim como sua experiência e conselhos. Confiei no senhor! E o senhor me insulta e me aconselha a me deitar com um homem, na esperança de que ele me conte algo importante, tudo em nome do patriotismo. O que meu pai diria se soubesse disso? — E o que Jeremiah faria, se soubesse que sua santa irmã abriu as pernas aos dezesseis anos, para o primeiro homem que conseguiu tocá-la? É tarde demais para fazer joguinhos comigo, Desire. Sabia muito bem o que era esperado de você, quando concordou em vir. Não vou permitir que mude de idéia agora. Vai continuar a agir como tem feito com Herendon, especialmente em Halifax. E é melhor lembrar-se de tudo o que descobrir. 53


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— O que descobri, Sr. Macaffery, é que o senhor não passa de um homenzinho vil e desprezível, o pior covarde que já conheci. — Ficará desapontada se eu lhe disser que não ligo a mínima? — Ele parou com a mão no trinco da porta. — E trate de não se envolver com o seu querido Jack a ponto de esquecer de sua lealdade para com o seu país. O que quer que os ingleses tenham feito a Obadiah, vai parecer brincadeira, se comparado ao que farei a você e sua preciosa família, se decidir mudar de idéia. Assim que a porta se fechou, Desire afundou o rosto nas mãos e deu vazão ao desespero que a invadira. Jack bateu na porta da cabine de Desire, assim que ouviu Macaffery sair. Ela demorou a abrir e, quando o fez, seu rosto exibia profunda tristeza e Jack perguntou-se se ela estivera chorando. Talvez ela só houvesse se dado conta do perigo que correra há poucos instantes. Ou, o que era mais provável, o maldito advogado lhe dissera algo que a deixara naquele estado. Assim que Jack entrou, ela voltou a sentar-se na cama. — Então, você voltou. — Prometi que cuidaria de você e é o que vou fazer. Notando que a aparência dela era pior do que logo após o acidente, Jack quase perguntou novamente se ela havia se ferido. Deixou a porta entreaberta, a fim de evitar maiores maledicências. — Enquanto estiver comigo — ele continuou —, estará segura. Sua companhia será bem vinda a qualquer hora do dia, ou da noite. Quando estiver sozinha, quero que tenha isto com você. — Retirou uma pistola do bolso e começou a mostrar-lhe como usála. Desire segurou a pistola e interrompeu-o. — Sei atirar. Meu avô insistiu para que eu aprendesse junto a meus irmãos. Também sei usar mosquetes e rifles. — Ótimo. Guardarei a outra comigo. Espero não precisarmos disso, mas é melhor ter cuidado. Ela assentiu, olhando para a arma. — É só isso? — Não é o bastante? — ele perguntou em tom de brincadeira. Embora mantivesse a adaga presa à cintura da calça, achou que não era necessário dizer isso a ela, pois alguém poderia estar ouvindo a conversa. — Quero saber se voltou só para me dar a pistola. Confuso, Jack observou-lhe a expressão desolada. — A pistola foi o principal motivo, mas se houver alguma coisa que eu possa fazer... — Ah, Jack... Ele não estava preparado para o que viu nos olhos dela, quando ela finalmente os ergueu para fitá-lo. Vira o mesmo no semblante de homens que se afogavam: uma mistura de terror e desespero, mesclada de resignação ao destino. — Abrace-me, Jack — ela murmurou. — Por favor, abrace-me por um instante. Jack sentou-se a seu lado e abraçou-a, pronto a protegê-la contra qualquer demônio que a perseguisse. E ficaram assim durante muito tempo, até o dia terminar e a escuridão tomar conta da cabine. E foi então que Jack deu-se conta de que jamais existiria um romance entre eles, não no mar, não um passatempo para tornar sua viagem mais agradável. 54


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— Enviarei uma mensagem ao Aurora — Jack informou-a. — Virão nos apanhar, assim que dobrarmos Pennant Point. Vai ter aquele jantar que lhe prometi, Desire. — Tudo o que eu quero é o melhor chá que seu cozinheiro francês possa preparar — ela falou, protegendo-se contra o vento gelado. Jack riu, mas era mesmo o que ela queria. Desire tinha a impressão de que jamais conseguiria aquecer-se novamente. Apesar das roupas pesadas por baixo da capa de lã, ainda sentia-se congelada até os ossos. A mão de Jack envolveu a dela e, embora ambos usassem luvas, Desire sentiu o coração disparar. — Trate de ficar firme, querida — ele advertiu. — Não a trouxe até aqui, para perdê-la quando já quase podemos avistar Halifax. — Ora, você não dá a mínima para Halifax! — ela provocou. — É a perspectiva de voltar à sua amada fragata que o deixa tão animado. Assim que avistar os mastros, poderei saltar gritando para o mar, que não vai sequer perceber. Ele balançou a cabeça com ar solene. — É melhor você não me testar. Não sei se poderei provar que está errada. Desire riu e apertou-lhe a mão. Apesar do frio, de Macaffery, da tripulação hostil, quando tinha Jack a seu lado, ela se sentia feliz. Ele não só tratara de mantê-la segura durante toda a viagem, mas também lhe oferecera uma amizade preciosa. Para passar o tempo, ele lhe dera explicações detalhadas sobre navegação, contara sobre lugares que visitara e batalhas em que lutara. Ao mesmo tempo em que evitava questões pessoais, como a família, sua casa, seus sonhos, também não perguntava sobre Macaffery ou Jamison. E nem voltara a beijá-la ou abraçá-la, depois da noite em que os braços dele haviam sido o único conforto contra o desespero. Finalmente, a trégua que haviam tentado estabelecer em Providence, tornara-se realidade. Mas, ainda, quando ele a segurava para dar apoio, a faísca da paixão fazia-se sentir, ameaçando atear fogo no coração de ambos. Desire não o questionou. Compreendia suas razões, assim como as próprias. Porém, a compreensão em nada ajudava-a a acalmar o desejo que ele lhe despertava, ou as fantasias sobre o que poderia acontecer, se ele não se separasse dela para dormir. O que aconteceria, quando estivessem a bordo do Aurora, onde Jack seria o capitão absoluto, e ela uma espiã? Gostaria de saber exatamente o que Macaffery desejava saber. Embora odiasse a si mesma por trair a confiança de Jack, temia o que Macaffery poderia fazer contra sua família. Ele tinha acesso a todos os documentos dos Sparhawk, uma vez que todos confiavam nele cegamente. Ninguém acreditaria se ela contasse como fora ameaçada, especialmente, depois que ele lhes contasse sobre Robert. E era por isso que ele queria tanto que ela se tornasse amante de Jack. Nem o patriotismo, nem a liberdade de Obadiah, aplacariam a ira de Jeremiah, se ele soubesse que ela dormira com um inglês. Um inglês. Fazia tempo que não pensava em Jack dessa maneira. Olhou para o rosto que passara a conhecer tão bem, a pele bronzeada pelo sol, as inúmeras linhas em torno da boca e dos olhos, comprovando a experiência de uma vida dura. Ah, como desejava acariciar aquele rosto, beijar aqueles lábios e afastar daqueles olhos toda a tristeza que tentavam esconder! Jack baixou os olhos para ela e sorriu. E Desire devolveu-lhe o sorriso, sentindo o corpo todo aquecido. 55


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Não fazia mais sentido negar. Desire estava a um passo de se apaixonar por ele, por mais estúpido que isso pudesse parecer. Desire trancou o baú e olhou em volta. Como já entravam no porto de Halifax, ela voltara à cabine, a fim de preparar-se para partir no momento em que Jack o desejasse. Poderia brincar e provocá-lo, mas jamais subestimaria o significado do Aurora para ele. Além da bagagem a cuidar, Desire queria esconder-se de Macaffery que, finalmente, saíra para o deque, com seu andar rígido e caretas grosseiras. Com a viagem tão próxima do fim, a tripulação divertia-se às costas dele, imitando-o, julgando-o um palhaço pomposo. Mas ela sabia da verdade e perguntou-se quanto das excentricidades do sujeito não passavam de disfarces para seus verdadeiros propósitos. Examinou a cabine mais uma vez, verificando se não se esquecera de nada. — Srta. Sparhawk — Will Carr chamou da porta. — Vim apanhar suas coisas. Ordens do capitão. — Obrigada, Will. — Desire sorriu e notou que o garoto não se mostrava tão alegre como da outra vez. — Quando encontrar sua mãe e sua tia, diga-lhes que farei o possível para trazer seu primo Jacob de volta. O menino ficou tenso. — Obrigado, senhorita. Eu lamento os incômodos que sofreu durante a viagem. Sinto muito. Percebendo que ele falava do barril, Desire acalmou-o: — Está tudo bem, Will. Sei que não teve culpa. — Tive sim. Enquanto os outros falavam sobre a senhorita, coisas que não eram verdades, eu fiquei quieto. Foi um erro. — Ora, Will, não se culpe. Estarei longe do Katy ao entardecer, mas você continuará a bordo, pelo menos até chegar a Providence. Compreendo que não possa arriscar-se com seus companheiros, só para me defender. — A senhorita é boa demais — ele falou com pesar. — Tenha cuidado. O que aconteceu com o barril não foi acidente. Existe alguém querendo o seu mal. Tenha muito cuidado, principalmente quando estiver em meio aos ingleses.

OITO

Encostado a um mastro, Colin Macaffery observava Desire, que esperava sentada sobre o seu baú a chegada do barco de Herendon. Pensou em como os traços bonitos e elegantes reforçavam a herança dos Sparhawk, que caminhavam pela vida com tanta facilidade. Fora assim com Jon, pai de Desire, Macaffery pensou com amargura. O outro nascera com riqueza, poder e o nome que fazia tantos se curvarem. E fora Colin quem sempre ficara à sombra, esforçando-se para se manter, enquanto Jon aproveitava a vida pelo mundo. Fora Colin quem encontrara os meios para salvar o carregamento ilegal de rum, que mantivera o patrimônio dos Sparhawk intocado, durante a revolução, enquanto Jon se casava com a moça mais bonita da cidade para, então, lançar-se ao mar. 56


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Mas nada daquilo tinha importância, agora. O nome não protegera Jon dos canhões britânicos, enquanto Macaffery continuara vivo, prosperara e conquistara poder muito maior do que qualquer Sparhawk poderia sonhar. Mas Desire não era apenas bonita. Era inteligente, também, diferente do irmão mais novo, que já deveria estar morto, depois de fracassar na missão mais simples que poderia ter recebido. Desire faria melhor, como já estava fazendo. Macaffery sorriu ao ver como Herendon inclinava-se sobre Desire, o sol refletido nos galões dourados do uniforme, que ele voltara a vestir, depois de entrarem em águas britânicas. O olhar devotado que o capitão lançava à senhorita era o início do que, em breve, selaria seu destino. Pensou com satisfação no dinheiro que gastara com o acidente com o barril. Não pretendera matá-la, apenas assustá-la. Mas fora o bastante para transformar Herendon em seu herói salvador. E, por mais que ela mencionasse sua virtude, Macaffery apostaria muito mais, como ela estaria na cama de Herendon muito antes de voltarem a por os pés em terra. Só teria de fingir-se doente e ficar fora do caminho dos dois. A natureza humana se encarregaria do resto. Se tivesse sorte, Herendon plantaria um filho no ventre de Desire, o que o faria segui-la até a França e Monteil, sem deixar qualquer dúvida do que fizera à mulher aos seus cuidados. Então, bastaria dizer as palavras certas aos ouvidos certos, para que o escândalo fermentasse. Tudo se encaixara com perfeição. O presidente Adams seria acusado por enviar uma moça inexperiente ao encontro do homem mais poderoso da França, a amante de um oficial da Marinha Britânica, irmã de um confirmado espião. Adams acabaria deposto e os correspondentes de Macaffery, federalistas de Boston, Salém e outras cidades, finalmente teriam a oportunidade de financiar um presidente de seu agrado. E Macaffery seria recompensado com um gabinete, ou uma embaixada na Europa. E tudo viria do escândalo provocado por aquela bela mulher, que ria para o capitão pomposo. As vezes, Macaffery concluiu, a vida era mais justa do que ele sempre havia sonhado. Desire sentou-se ao lado de Jack, atrás de Macaffery, no bote que os levaria ao Aurora, tentando ignorar os dez pares de olhos fixos nela. Os homens uniformizados não conseguiam parar de olhar para ela, ao mesmo tempo em que se esforçavam para manter a expressão impassível. A curiosidade igualava a intensidade da honra que sentiam por serem marinheiros a serviço do capitão lorde John Herendon. Desire lançou um olhar para Jack que, perdido em pensamentos, ignorava seu desconforto. Mas, agora, estavam no mundo dele, enquanto ela se tornara a forasteira. Percebera isso no momento em que o vira no deque no Katy. O uniforme mudava tudo. Embora ele risse como sempre, Desire soubera no mesmo instante que o Jack com quem passara as últimas duas semanas se fora. Mas quem, perguntou-se com tristeza, havia tomado o seu lugar? — Lá está o meu Aurora — ele anunciou com orgulho. Desire olhou para os diversos navios de guerra ancorados no porto. Eram todos maiores que as embarcações que saíam de Providence. E assustadores, também. Não foi difícil reconhecer o Aurora. Maior que as demais embarcações, apresentava linhas modernas e pintura impecável. A figura de proa era a própria Aurora, com os cabelos loiros, os braços estendidos para o amanhecer, a túnica rósea deslizando 57


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por um ombro, para revelar um seio nu. Ao lembrar da atenção da tripulação, Desire desviou os olhos no mesmo instante. — Sou seu capitão, desde que foi lançada ao mar, em noventa e seis — Jack falou com carinho. — E o Aurora nunca me deu outra coisa, senão sorte. Se dera sorte a ele, a quem daria azar? Desire contou dezenove canhões, apenas no lado que podia avistar. Era fácil imaginar como uma fragata daquelas transformaria um navio mercante em frangalhos, em poucos minutos. Um navio americano. Lembrou-se do pai. O silêncio de Desire surpreendeu Jack. A bordo do Katy, ela se mostrara ansiosa para aprender tudo sobre a embarcação, e ele não via a hora de fazer o mesmo com o Aurora. Bem, disse a si mesmo, talvez um navio de guerra a deixasse um tanto assustada. Quem sabe, depois que se familiarizasse, voltaria às perguntas. Assim ele esperava, pois sentia falta da curiosidade genuína dela. Quando o bote finalmente chegou, Desire ergueu os olhos para a amurada alta e perguntou-se como subiria. Não fora fácil descer do Katy, pela escada de corda. O Aurora possuía degraus esculpidos na amurada, com alças aos lados. Escorregadio e perigoso. — Não se preocupe, querida — Jack falou, ao perceber-lhe a expressão duvidosa. — Pedirei que lancem uma cadeira para içá-la. No instante seguinte, ele subia pela amurada, até desaparecer, ao mesmo tempo em que gritos de boas vindas ecoavam. Desire inclinou-se para Macaffery. — Que história é essa de cadeira? — perguntou baixinho. — Ora, é você quem pertence à família dos navegadores, não eu! Mas, se mantiver os sentidos em alerta, tenho certeza de que descobrirá muitas coisas sobre os hábitos ingleses. Desire recuou, compreendendo a mensagem cifrada. Até então, não dissera uma palavra sobre Jack e suas atividades, e era evidente que Macaffery começava a ficar impaciente. Teria de contar-lhe algo em breve, ou arriscar as conseqüências. O marinheiro mais próximo inclinou-se para ela. — Desculpe, senhorita, mas não pude deixar de ouvir sua pergunta. Trata-se de uma cadeira improvisada. Ah, sim, meu nome é Connor, senhorita. — Obrigada, Sr. Connor — Desire sorriu para o rapaz de rosto redondo e ar infantil —, mas não faço idéia do que seja. — Trata-se de uma maneira de levar senhoras e senhoritas a bordo, sem colocar em risco sua modéstia. — Ainda bem que não terei que subir pela amurada. Já estava começando a ficar apavorada. Um dos marujos gritou algo para Desire. Connor ergueu os olhos e sorriu. — Pronto, senhorita. Agora, basta sentar-se aqui e deixar que a suspendam. Desire descobriu que a "cadeira" não passava de uma tábua, presa por duas cordas. Questionou se não seria melhor tentar a escalada como os homens, mas não poderia demonstrar covardia diante de todos aqueles marinheiros atentos. Lembrou-se das histórias que a avó lhe contara sobre a mocidade e decidiu que aquilo não era nada, se comparado a combater piratas, como Mariah fizera. Reunindo toda a calma que foi capaz, Desire ajeitou-se na cadeira improvisada e segurou-se nas cordas. Sentiu o pânico invadi-la no instante em que foi içada. Sempre detestara alturas e tratou de fechar os olhos e evitar imaginar onde se encontrava. 58


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— Muito bem, Desire —. Jack chamou. — Seja bem vinda a bordo! Ela abriu os olhos no momento em que dois marujos puxavam a cadeira para o navio. Com um grito, atirou o corpo para frente e descobriu que já se encontrava em segurança. — Não foi tão mal, foi? — Jack perguntou com um sorriso. Desire fitou-o furiosa. Como ele podia ser tão insensível, sabendo que ela jamais estivera no mar? Já ia responder quando deu-se conta de que toda a tripulação encontrava-se reunida ao seu redor, e tratou de calar-se. Embora soubesse que o Aurora fosse um navio de guerra, teve um choque ao deparar com os uniformes, os mosquetes, as espadas e os canhões. Há muito que tais coisas não faziam mais parte de sua vida, desde que a guerra terminara. Porém, encontrava-se a bordo de uma fragata de guerra, cujo objetivo era destruir o inimigo. E a tripulação constituía-se de ingleses, iguais àqueles que haviam assassinado seu pai. — Desire? — Jack chamou-a com voz gentil, tentando-a puxá-la para a frente. Como ela permanecesse imóvel, com expressão indecifrável, ele olhou para os homens que aguardavam ansiosamente o momento de serem apresentados a ela. Jack franziu o cenho, amaldiçoando-se por não ter previsto aquela situação. Como não tinha o hábito de levar mulheres a bordo, despertara a curiosidade dos seus duzentos e sessenta e seis homens, que agora olhavam fixamente para ela. Podia muito bem imaginar como ela se sentia, depois da experiência desagradável que enfrentara em Providence. — Sr. Dodge, conversaremos mais tarde — falou em tom casual, porém firme. — A Srta. Sparhawk está exausta pela viagem e devo levá-la à sua cabine. Dê continuidade ao trabalho, por favor. Segurou a mão de Desire com firmeza e levou-a. Embora permanecesse em silêncio, ela agora observava tudo ao seu redor, prestando atenção a cada detalhe. Ao chegarem à cabine, encontraram Harcourt, o criado pessoal de Jack, ocupado em arrumar os aposentos, com a ajuda de três homens. Jack não deu atenção ao guarda parado em sua porta, pois ele fazia parte da rotina. Porém, notou os olhos arregalados de Desire, diante do mosquete nas mãos do soldado. — Mandei preparem este aposento para você — informou-a. — Possui uma porta de comunicação com a cabine principal, que você poderá trancar, assim como certamente fará com a porta de entrada. — Claro — ela concordou, imaginando que ele teria com o que se ocupar e preferia não ser importunado. Jack sorriu. Embora desejasse mantê-la perto de si, também queria deixar claro que a respeitava, e não haveria maneira melhor do que deixá-la à vontade. — Embora já não estejamos a bordo do Katy, achei que ficaria mais segura aqui. Desire chegou a desejar estar a bordo do Katy. — Vai dormir na cabine principal? — Não. Ficarei na cabine contígua, onde costumo dormir. Você viajará na cabine que costumo usar durante o dia. Ela assentiu, imaginando a incoerência de, com tantos homens a bordo, destinarem tamanho espaço ao capitão... e a ela, agora. — Onde o Sr. Macaffery vai ficar? 59


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— Ele viajará junto aos oficiais. Achei que se sentiria melhor lá — Jack explicou, ainda incerto sobre o relacionamento de Desire com o advogado. Quando ele abriu a porta, Desire concluiu que Jack estivera certo. A cabine nada tinha a ver com o cubículo que haviam lhe dado no Katy. Além de amplo, o aposento era decorado com bom gosto, oferecendo conforto muito maior do que ela havia esperado. Mas não foi isso o que chamou sua atenção de imediato, e sim os dois canhões afastados de suas aberturas na amurada, tomando parte do espaço da cabine. A presença das armas num quarto de dormir a teria feito rir, se não a perturbasse tanto. Jack esperou em silêncio, desejando que ela sorrisse, ou dissesse algo. Desde que a vira pela primeira vez, sonhara com o momento de levá-la ao seu navio, que era na verdade o seu lar. E esperara vê-la sorrir, ouvir-lhe as brincadeiras e os elogios, pelo modo eficiente como ele administrava sua embarcação. Mas, ao contrário, ela permanecia em silêncio distante. Jack queria a sua Desire de volta, a mulher destemida que se envolvia em brigas nas docas, que se fascinava com a beleza do mar ao luar, que o beijava com paixão incontida. Pelo canto do olho, notou a linha de homens que o aguardavam. Passara mais de um mês ausente e podia calcular a infinidade de problemas que teria de resolver. E ainda havia o comandante-chefe de Halifax, a quem deveria visitar, por uma questão de cortesia. Afinal, sabia que estendera suas ordens aos limites, ao atravessar o Atlântico, à procura de Desire. Seria sensato manter boas relações com o comandante, para o caso de precisar de mais uma carta em sua defesa, diante do almirantado. Olhou para Desire e decidiu que explicaria tudo mais tarde. Depois que ela houvesse descansado, pediria a Gaston que preparasse um jantar especial e instruiria Harcourt para que usasse a melhor louça de que dispunham. Com boa comida, bom vinho, ela se sentiria mais relaxada. Pensando nisso, Jack sentiu o ânimo elevar-se. — Desire — falou —, tenho um milhão de coisas para cuidar agora, mas me sentiria honrado se você aceitasse jantar comigo, depois de descansar um pouco. Só nós dois, mais ninguém. Por favor. Ela respondeu sem fitá-lo. — Como quiser, Jack. — Ótimo! Encontrarei você na cabine principal, às seis horas. Sei que é cedo, mas a Marinha mantém horários rígidos. — Notando a impaciência de seus homens, tratou de falar depressa: — Se precisar de alguma coisa, basta pedir a Harcourt. Até mais tarde, querida. Embora tivesse vontade de beijá-la, Jack decidiu sair para não assustá-la, especialmente diante da platéia inquieta. Afinal, teriam tempo a sós, mais tarde. Desire ouviu-o fechar a porta e, imediatamente, disparar intermináveis perguntas aos homens que o aguardavam. À medida que a voz se distanciava pelo corredor, passos agitavam-se de um lado para outro. Apesar do grande número de homens a bordo, todos pareciam muito ocupados. Somente Desire não sabia o que fazer. Envolveu o corpo com os braços, sentindo-se infeliz. Se ele houvesse, ao menos, segurado sua mão, antes de sair... Se houvesse dado um sinal de que se lembrava do que haviam partilhado a bordo do Katy... Mais uma vez, olhou para os canhões. Se, ao menos, ele não fosse um capitão inglês, mas apenas o seu Jack, o homem pelo qual ela se apaixonara, não quem realmente era... Desire aprontou-se uma hora antes do horário determinado por Jack. Harcourt lhe trouxera água para um banho e, chocado com o estado do vestido que ela pretendia usar, levara-o da cabine e o devolvera impecavelmente passado. Apesar de sentir-se grata, 60


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Desire desconfiou que o criado estava muito mais preocupado em agradar seu amo, do que a ela. Parou diante do espelho e observou-se com nervosismo. O vestido escarlate era o mais luxuoso que possuía, mas ainda não era formal o bastante para jantar comum lorde. E, por mais bonitos que fossem seus brincos de camafeu, Jack e Harcourt certamente esperavam que usasse pedras preciosas ao jantar. Foi então que ouviu a batida na porta que dava para o corredor. Ao abrir, deparou com um homem gordo, vestindo avental por cima da roupa de marinheiro. Ele trazia uma toalha de linho em um dos braços e uma caixa de madeira no outro. — Desculpe-me por incomodá-la, senhorita, mas o Sr. Harcourt disse que precisaria dos meus serviços. Tomkins, a seu dispor. Desire sorriu sem vontade, imaginando que tipo de serviços Harcourt decidira que ela precisaria. — Desculpe, Sr. Tomkins, mas não fui informada sobre seus serviços. — É bem do feitio do Sr. Harcourt! Trabalho como barbeiro para os oficiais da tripulação, mas antes disso, era cabeleireiro de senhoras, em Londres. Ficarei honrado em cuidar dos seus cabelos, senhorita. Como houvesse arrumado os cabelos da maneira habitual, com toda simplicidade, Desire considerou a sugestão como uma boa idéia. Tomkins entrou, fez um sinal para que se sentasse e abriu a caixa, que possuía um espelho na tampa e guardava um verdadeiro arsenal de pentes, escovas e grampos. — Tem cabelos magníficos, senhoritas — ele declarou, assim que começou a escová-los. — Parecem fios de seda. Não pode imaginar o prazer que me dá, depois de tanto tempo cuidando de cabelos masculinos. — Bem, nunca tive um cabeleireiro. Em Providence, as mulheres cuidam de seus próprios cabelos, exceto as que são velhas demais, ricas demais, ou simplesmente preguiçosas. — Em Londres, nenhuma dama sequer pensaria nisso. E, se pretende continuar na companhia do capitão lorde John Herendon, deve seguir os ditames da moda. Embora soubesse que não devia fofocar sobre Jack com o barbeiro do navio, Desire não resistiu e perguntou: — Ele é muito conhecido em Londres? — E como poderia não ser? Possui um título de nobreza, vira a cabeça de todas as mulheres que o vêem e ainda tem comendas e uma espada dada pelo rei, em reconhecimento pelos serviços que prestou com o Aurora. É um herói, senhorita, e muito rico. — Ele me disse que não possuía fortuna. — Foi só uma questão de modéstia, senhorita. Ou então, trata-se dos parâmetros da nobreza. Sendo filho mais novo, ele não herda as propriedades, apenas o ouro. Mas, se olhar ao seu redor, verá a riqueza da mobília e decoração, as melhores louças e cristais, bem como os uniformes impecáveis da tripulação. E tudo isso sai do bolso do capitão. Esta guerra com os franceses transformou-se numa mina de ouro para capitães corajosos como ele. — Ele já enfrentou muitos navios inimigos? — Como um tigre, senhorita. Apesar de cavalheiro, o capitão é um homem bravo e destemido. E se vocês, ianques, se juntassem a nós nesta guerra, como o capitão deseja, acabaríamos com os franceses de uma vez! 61


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Desire não conseguia imaginar Jack como um tigre feroz em batalha. Por outro lado, sabia que aquela era sua vida e que ele jamais teria alcançado o posto atual, se não fosse bom no que fazia. Pior ainda era descobrir que ele desejava a guerra que ela pretendia ajudar a impedir. Apesar das provocações de Macaffery, não chegara a acreditar que ela e Jack realmente se encontrariam em lados opostos naquele aspecto. Sentiu profunda tristeza por isso. Perguntou-se o que ele faria se soubesse que ela pretendia completar a missão iniciada por Obadiah. Concluiu que, se tivesse bom senso, trataria de esquecer o jantar e evitar uma situação constrangedora para ambos. — Veja como está linda! — Tomkins anunciou, posicionando o espelho para que Desire pudesse mirar-se. — Um penteado à moda antiga, para combinar com os camafeus! Desire olhou o próprio reflexo, sem acreditar no que via. O cabeleireiro produzira uma verdadeira obra de arte, trançando uma fita escarlate com mechas de cabelo, formando assim uma tiara que afastava os cachos perfeitos de seu rosto. O resultado eram olhos maiores, o contorno das faces mais definidos e um ar elegante que ela mal acreditava ser capaz de ostentar. Ao ouvir o sino tocar, Tomkins juntou suas coisas e anunciou: — Meu trabalho está completo, senhorita. Obrigado pelo prazer que me proporcionou. Desejo-lhe um jantar agradável em companhia do capitão. Desire pôs-se de pé. — O que devo fazer? Devo esperar que ele me chame? Tomkins fitou-a com olhar rígido. — Ora, o capitão sendo como é, já deve estar à sua espera. Mas a senhorita é uma dama e deve apresentar-se quando assim quiser. Ela parou diante da porta, endireitou os ombros e respirou fundo. Mal bateu na madeira entalhada e a porta se abriu. — Boa noite, Desire — Jack cumprimentou-a. — Você é, definitivamente, a mulher mais linda que já vi.

NOVE

Desire mal ouviu o elogio, assim como não percebeu o brilho de admiração nos olhos de Jack. Nem poderia ter prestado atenção a qualquer coisa, senão à beleza perfeita e máscula de Jack, à luz das velas. O uniforme do dia fora trocado por outro, muito mais luxuoso, fazendo jus aos títulos que ele possuía. — Você parece mesmo um herói — Desire falou, lembrando-se das palavras de Tomkins. — E você, a heroína que todos os heróis procuram. Naquela noite, Desire teria suplantado a beleza das mais elegantes damas da corte, com seu vestido vermelho, que realçava a pele clara, produzindo o efeito da mistura de rubis e pérolas. As linhas simples 62


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do traje valorizavam as formas esguias e belas, que dispensava o excesso de rendas e plumas, tão em moda na Europa. Mas não era a beleza que mais atraía Jack, e sim a maneira como ela sorria, como inclinava a cabeça para fitá-lo, a falta de afetação. Enfim, tudo o que a transformava na sua Desire. A ligação que os unia era tão profunda, que chegava a assustá-lo. Naquela noite, no deque do Katy, descobrira uma proximidade que só sentira junto da irmã, Júlia. E, sabendo que no final acabaria perdendo Desire, não queria envolver-se tanto. Deveria comportar-se simplesmente como um homem prestes a jantar com uma mulher bonita. Tomou-lhe a mão e puxou-a. — Embora não seja um herói, espero que aceite beber um copo de vinho em minha companhia. Harcourt não acreditou que uma senhorita se aprontasse na hora marcada e pediu ao cozinheiro que atrasasse nosso jantar. Desire sorriu. — Não pensei que ele fosse tão preconceituoso. — Harcourt alistou-se na Marinha para escapar de uma esposa megera. Não pode esperar que sua opinião sobre as mulheres seja das melhores. — Acontece que detesto me atrasar. Estou pronta há uma hora. Ela sorriu, pensando que apesar do uniforme, Jack continuava a ser o mesmo. Não o perdera. Ele apenas estivera ocupado. Confiara em Jack antes e não tinha motivos para deixar de fazê-lo. — Verdade? — ele inquiriu com um sorriso surpreso. — Fico lisonjeado. — Senti sua falta — Desire declarou com simplicidade. — Separei-me de você por uma tarde, apenas. — Não. Separou-se de mim, assim que avistou o Aurora. A bordo do Katy, você estava sempre a meu lado. Sei que não pode ser assim, agora, mas gostava de como era antes. — Eu também, querida. — Jack levou a mão de Desire aos lábios e beijou-a. — Mas não estou convencido de que nosso tempo juntos acabou. — Cuidado com o que promete, Jack. — Não é preciso. Sempre cumpro minhas promessas. Jack levou-a até a escotilha, de onde Desire avistou o mar prateado pelo luar. Surpreendeu-se por descobrir que já não era possível enxergar a costa da Nova Escócia. Tudo acontecia tão depressa, desde que Jack entrara em sua vida. Ele lhe entregou um copo de vinho. — Seja bem-vinda à minha cabine. Venha sempre que desejar, mesmo que eu não esteja aqui. A porta nunca será trancada do meu lado. — É muita generosidade sua. Não gosto de ficar fechada em um aposento sem janelas. — Eu sei — ele falou, lembrando-se da noite maravilhosa, no deque do Katy. — Pode passear pelo meu deque, também. E não cite minha generosidade, pois minha oferta deve-se ao mais puro egoísmo. Jamais dividi meus aposentos com uma mulher tão adorável. — Você usou a mesma palavra, quando foi à minha casa pela primeira vez, antes mesmo de ter me visto. — Estava com medo do que veria. Afinal, você poderia não passar de uma velha desdentada! Felizmente, não me decepcionei. — Como posso saber se está dizendo a verdade? Jack molhou a ponta do dedo no vinho e tocou de leve os lábios de Desire para, então, tocar os próprios. 63


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— Você sabe. É uma mulher linda, Desire. É a minha Desire. Ela desviou os olhos, temendo a intensidade das próprias reações. Havia um novo elemento pairando entre eles, agora, um toque de intimidade maior do que ela jamais sonhara possível encontrar com um homem. Se não tivesse cuidado, enveredaria por caminhos sem volta. — Então, não sou uma velha desdentada e você não é um herói — falou em tom de brincadeira. — Não, não sou. Mas não posso negar que tive um bocado de sorte. — Somente sorte não lhe daria isto — ela fez um gesto indicando os aposentos suntuosos, quatro vezes maiores do que as cabines dos mais ricos mercadores. A mobília era tão elegante quanto aquela usada em terra, nas casas mais luxuosas. — Ninguém conseguiria tanto, por um mero golpe de sorte. — É verdade — ele admitiu. — Para chegar onde estou, tive de sacrificar boa parte de minha vida, e trabalhei duro para isso. A sorte nos traz oportunidades, mas somos nós que devemos saber usá-las. Desire lançou-lhe um sorriso por cima do ombro. — Cuidado, lorde Jack. Seus sentimentos são perigosamente democráticos. — Quero que os sentimentos vão para o inferno! E não vou deixá-la chamar-me de lorde Jack. Soa tão vulgar! — Está bem. Não o chamarei assim diante de seus homens. Mas, se você pode me chamar de sua Desire, então serão o meu lorde Jack. — Criatura insolente! — ele exclamou e puxou-a para si. Desprevenida, Desire perdeu o equilíbrio e caiu de encontro ao peito largo, o copo de vinho voando de sua mão para cima do sofá. — Ah, Jack! Veja a sujeira que fiz! — Deixe isso por conta de Harcourt. — Mas, o vinho vai manchar o couro... — Já disse para deixar isso de lado. — Jack sentou-se devagar, levando-a consigo. Com movimentos lentos, deslizou as mãos pelas curvas dos quadris arredondados. — Tenho de lembrá-la de que deve obedecer ao capitão? Desire jamais se vira naquela posição, praticamente deitada sobre um homem. A seda fina do vestido permitia-lhe atentar para cada detalhe de seus corpos unidos, perfeitamente moldados um ao outro. Embora soubesse que deveria sentir-se envergonhada e constrangida, não conseguia sentir nada além de um profundo prazer. O vinho, pensou ela, roubara-lhe os pudores. Na verdade, ela pouco se importava. As mãos de Jack acariciavam-lhe as costas, puxando-a para ele. Ela se deixou levar sem resistência, perdendo-se na beleza daquele rosto viril e encantador. Com a ponta dos dedos, tocou-lhe os lábios e murmurou: — Ah, meu capitão lorde Jack... Ele gemeu baixinho e colou os lábios aos dela. Porém, embora suas mãos continuassem as carícias provocantes na cintura e nos quadris de Desire, ele não pretendia beijá-la como ela havia esperado. Apenas roçando os lábios, murmurou palavras apaixonadas, provocando-a, levando-a a querer mais e mais. Impaciente, ela buscou a profundidade do beijo, num gesto ousado e atrevido, sentindo um intenso calor espalhar-se pelo corpo. E aquele calor nada tinha a ver com o vinho, mas sim com Jack. Somente Jack. Seu corpo refletia o que seu coração já sabia há muito. 64


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Mas, com delicadeza, Jack afastou-se. Se não parasse naquele momento, seria tarde demais para ambos. Queria beijá-la, mas não calculara que ela reagiria de maneira tão intensa. E a surpresa deliciosa quase o levara a quebrar a promessa de não seduzi-la. — Temos a noite toda pela frente, querida — falou com voz rouca. — Esperei demais para devorá-la de uma só vez. Teremos cinco pratos para o jantar, segundo Harcourt... — Para o diabo com Harcourt — ela o interrompeu, mordiscando-lhe o queixo. Jack colou os lábios ao ouvido de Desire e sussurrou: — Cinco pratos, Desire, e um beijo depois de cada um deles. Então, a sobremesa. E prometo não me apressar. Existem coisas que não devem ser apressadas. E não terei a menor pressa com você. Ela se ergueu, apoiando-se nos braços. — Você é mesmo egoísta, como me disse. Ele sorriu com prazer. — Isso acontece porque sou o capitão. Desire suspirou resignada. Cinco pratos, cinco beijos como aquele, parecia um arranjo bastante interessante. Quanto à sobremesa... bem, esperaria para decidir na hora. Tocou a medalha de ouro que pendia sobre o peito de Jack. — Todos os capitães recebem medalhas assim? — Não. Lutei ao lado de Jervis e Nelson no ano passado, contra os espanhóis, em St. Vincent. Todos os capitães que estiveram lá receberam medalhas. Mas poderia ter sido diferente. Nelson agiu sem ordens e, se não tivéssemos vencido, nem comissão receberíamos. — Eu não sabia — Desire falou, pensando que jamais ouvira falar em Jervis, Nelson, ou St. Vincent. Jack tocou a medalha. Pensara muito no que acontecera em St. Vincent nos últimos tempos. Sua decisão de ir até Rhode Island fora muita parecida à de Nelson, na ocasião. E Jack só podia rezar para que o desfecho fosse igualmente satisfatório. Mas, para onde o seu sucesso levaria Desire? Puxou-a para si e, ao deparar com o sorriso luminoso nos lábios dela, deu-se conta do quanto aquele sorriso se tornara importante para ele. Quando aquela missão terminasse, jamais voltaria a vê-la. Num gesto instintivo, apertou-a com força, como se pudesse protegê-la do que estava por vir. Desire segurou a medalha, sem conseguir imaginar Jack como o guerreiro que certamente seria. — Não pode negar que é um herói, lorde Jack. Quer dizer que gosta mesmo de sangue e glória? — ela perguntou em tom suave. — Sangue e glória soam fortes demais. — Gosta ou não? — Claro que sim. Mas, para mim, a glória significa fazer o que é certo e honrado por meu rei e meu país, servi-los da melhor maneira possível. Por nascimento, eu deveria estar caçando raposas e herdeiras, nos jardins de Londres, assim como meu irmão deve fazer até hoje. Embora eu não houvesse escolhido este rumo, sinto-me satisfeito que minha vida tenha sido diferente. — Outro golpe de sorte? — Sorte, destino, ou simplesmente o péssimo humor de meu pai. Mas vou lhe dizer uma coisa. Mil vezes ter uma morte honrada, em batalha, do que morrer de tédio no interior. 65


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Desire fechou os olhos, desejando que ele não houvesse dito aquilo. Afinal, seu pai morrera em batalha e, pelo que Jeremiah lhe contara, fora uma morte horrível. — Quanto às lutas — Jack continuou, sem perceber o quanto a afetava —, a verdade é que sou muito bom. Sou capaz de lutar com armas ou sem elas, utilizando apenas minha força e habilidade. Gosto de vencer e, na maioria das vezes, é o que acontece. Desire não duvidou de tais palavras e lembrou-se da fúria que ele mostrara por ela ter interferido na luta contra Enos. Agora, tudo fazia sentido, embora ela preferisse continuar não compreendendo. — Todo guerreiro digno de tal título sente o mesmo, Desire. Do contrário, não é capaz de acreditar na causa pela qual luta. Aposto que seu pai, toda vez que entrava em batalha, pensava em você e sua mãe. Sabendo que lutava por vocês, encontrava a força necessária para ir adiante. Ele não teria vivido tanto tempo, se não pensasse assim. Ela fechou os olhos contrariada. Seu pai fora diferente, um homem bom e gentil. — Então, gosta de viver na companhia dos canhões — murmurou. Jack não compreendia por que ela não percebia o que era tão simples. Quando se vira perdido, a Marinha o salvara, dando-lhe o foco de que tanto precisava. — Esta é a minha vida, Desire. Ainda não encontrei nada melhor. E assim que eu sou. — Seja você quem for, Jack, fico contente que não seja meu inimigo. Quando ela descobrisse a verdade, ele seria o pior inimigo que ela poderia ter... — Nunca mais — ele falou, preferindo acreditar que ela se referia ao seu país. — Somos muito parecidos. Apesar dos esforços da tripulação do Katy, não tenho a menor intenção de voltar a lutar contra os americanos. — Como assim, "voltar" a lutar? — ela inquiriu, sentando-se. Jack suspirou. — Meu pai me lançou ao mar em setenta e cinco, quando eu tinha dez anos. Tenho trinta e três, agora. Basta calcular. Fui marujo com Black Dick Howe em Boston, depois com Rodney no Caribe, até me tornar tenente em oitenta e um e voltar a Gibraltar. Embora tenha lutado na guerra americana, combati os franceses a maior parte do tempo. — Mas podia ter matado meu pai! Ou meus irmãos, tios, primos! — Ora, Desire, isso foi há vinte anos! Eu não passava de uma criança, obedecendo ordens! — Era mais velho que Jeremiah, e ele não hesitaria em matá-lo. — Desire levantou-se de um pulo. — Não posso ficar com você, Jack... Não assim. — Vai me deixar por causa de um passado que nada teve a ver conosco? — Não posso me esquecer de tudo com tanta facilidade — ela confessou com voz amargurada. — Trata-se de minha família, meu país... Não posso evitar. — Quer dizer que você pode ser leal ao seu país e à sua família, mas eu devo ser considerado inimigo, por acreditar em algo diferente? Ela assentiu, sentindo uma profunda dor no coração. — Não posso ficar com você, Jack, sabendo que se tivesse de obedecer suas ordens, não hesitaria em matar meu pai, meu irmão, ou até eu mesma. Virou-se e saiu, antes que as lágrimas vencessem aquela batalha, antes que exibisse sua fraqueza e se esquecesse de quem ele era. E do que ele jamais seria em sua vida. 66


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Ao ouvi-la bater a porta atrás de si, Jack gemeu e deixou-se cair na cadeira. Sempre acreditara que a Marinha seria o bastante para ele. Agora, pela primeira vez, não tinha tanta certeza disso. Se Desire o odiava por coisas que jamais haviam acontecido, o que faria quando descobrisse que ele havia matado seu irmão mais novo? — Tem certeza do que está vendo, Sr. Connor? — Jack inquiriu, tomando a luneta do tenente. — Sim, senhor — Connor respondeu nervoso. O capitão não costumava chamar oficiais à sua cabine, nem muito menos, pedir-lhe a opinião sobre uma embarcação visível no horizonte. — Trata-se de um navio mercante, senhor, provavelmente americano. — E concorda que podemos alcançá-lo em uma hora? — Ah, sim, senhor. Com este vento... — Basta dizer sim ou não, Sr. Connor. — Sim, senhor. Toda a tripulação sabia que o encontro do capitão fora um fracasso. Primeiro, haviam se animado ao ouvir o cozinheiro contar que o jantar fora devolvido intocado, pela esperança de que o capitão houvesse passado uma noite inesquecível. Mas, então, o marujo que montara guarda à porta do capitão contara que a senhorita -se retirara antes do jantar ser servido. Dissera também, que ela havia chorado até de madrugada, enquanto o capitão tocara melodias melancólicas em sua flauta, até o amanhecer. As deduções foram comprovadas pelo humor terrível do capitão, quando este apareceu durante a vigília de Connor. — Muito bem, Sr. Connor. Continue navegando na direção no navio. — Sim, senhor — Connor bateu continência, satisfeito pelo término da conversa. — E, Connor? Peça à Srta. Sparhawk que venha para cá imediatamente. Jack notou o brilho de surpresa nos olhos de Connor, antes que os anos de treino o fizessem recuperar a expressão impassível. Assim que o tenente se afastou, Jack perguntou-se quanto tempo demoraria para que toda a tripulação soubesse que ele mandara chamar Desire. Estava acostumada àquele tipo de escrutínio, mero resultado dele ser a figura solitária e temida, que detinha o poder sobre todas as vidas a bordo do Aurora. E nem teria de ser um gênio para imaginar as hipóteses levantadas: avanços exagerados, protestos virginais, as lágrimas de Desire... Ah, sim, ele também ouvira. Mas, quem acreditaria na verdade? Desire o ferira mais em um quarto de hora, do que qualquer outra mulher, em vinte anos. Diferente das outras, ela exercia sobre ele um poder perigoso com suas palavras, tanto quanto com seus beijos apaixonados. Ela o desafiava, assim como a tudo em que ele acreditava. Pior, Desire o fazia duvidar de si mesmo. Mas não a deixaria continuar. Era o capitão lorde John Herendon, da fragata britânica Aurora, e não permitiria que uma americana com idéias distorcidas pusesse sua honra em questão. Trataria de mostrar-lhe o que seu trabalho significava para ele, de uma maneira que ela jamais se esqueceria. Jack voltou a olhar para o navio à sua frente. Já estavam próximos. Era estranho que se encontrassem na mesma rota, como se houvessem arranjado o encontro. Em circunstâncias normais, não perdia tempo inspecionando navios mercantes, pois eles raramente ofereciam qualquer ameaça. Desta vez, porém, pelo bem de Desire, teria todo o cuidado. Ansiosa, Desire apressou-se a seguir o marujo que trouxera a mensagem. Jack queria vê-la. Não fazia idéia do que poderia dizer, depois do que acontecera na noite 67


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anterior. Não compreendera por que Jack usara palavras tão frias, como se quisesse ferila intencionalmente. Era verdade que se deixara levar pelos próprios sentimentos, mas ainda não acreditava que ele pudesse ser tão frio e cruel. Se fosse assim, não seria capaz de gostar tanto dele. Encontrou-o sozinho no deque. — Boa tarde, senhorita — ele a cumprimentou com voz tão fria quanto o vento. — Espero que tenha dormido bem. — Não dormi melhor que você. Jack... desculpe-me por ter saído daquele jeito. Sei que agi errado, mas estava desesperada. — Se você fosse um homem, Desire, eu a desafiaria para um duelo, em nome de minha honra manchada. — Honra manchada? Foi você quem deixou claro que se tornaria meu inimigo, caso a sua abençoada Marinha lhe ordenasse! — É diferente com você e sua família? O que faz as suas lealdades serem melhores que as minhas? Acha que o simples fato de ter nascido na Nova Inglaterra a torna superior a mim? — Vejo que ainda não compreendeu. — Não, senhorita, não compreendo. — Apontou para o navio que se encontrava muito próximo, agora. — Como americana, achei que gostaria de testemunhar o que vai acontecer agora. Desire olhou para a direção indicada e viu a embarcação, que parecia minúscula e lenta diante do Aurora. No deque, a tripulação aguardava a aproximação resignada. Mas, o que chamou a atenção de Desire, foi a bandeira listrada de vermelho e branco, com um dos cantos em azul. — É um navio americano — falou incrédula. — Sim. — Mas, são americanos, Jack! — Eu sei, Desire. Se não fossem, eu os deixaria seguir viagem. Só então, Desire deu-se conta de que os canhões haviam sido posicionados para o ataque e que a tripulação aguardava as ordens de Jack. Como pudera encontrar-se do lado errado, naquele pesadelo que matara seu pai? — O que está fazendo, Jack? Sabe tanto quanto eu, que nossos países não estão em guerra! Não pode atirar contra um pacífico navio mercante! — Estou apenas cumprindo minhas ordens, como capitão deste navio. O rosto de Desire estava pálido, enquanto ela olhava frenética do navio americano para os canhões do Aurora. Pela expressão em seus olhos, Jack concluiu que ela estava revivendo a morte do pai. Observou-a com expressão impassível. Atingira seu objetivo: causara-lhe a mesma dor que ela lhe infligira. Então, por que se sentia tão mesquinho, tão pouco satisfeito?

DEZ

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Horrorizada, Desire sacudiu a cabeça. — Não acredito que tenha ordens de disparar contra um navio desarmado e matar toda a tripulação! Jack, nem mesmo... — Nem mesmo um inglês poderia ser tão cruel? Lamento desapontá-la, senhorita, e não ser o terrível vilão que imaginou. Como disse, nossos países não estão em guerra. Não tenho tempo, razão, ou ordens para destruir uma embarcação como aquela. Com um gesto impaciente, Desire apontou para os canhões. — Então, para que tudo isso? Por acaso, pretendia me intimidar? — Você não, mas seus compatriotas. — Jack virou-se. — Sr. Connor! Avise o capitão que descerei num instante. Este navio veleja bem demais, para contar somente com ianques em sua tripulação. Aposto que vou encontrar alguns ingleses lá. Jack falara alto de propósito, a fim de que a tripulação ouvisse. Não sabia por que, mas a caça a desertores era bastante popular entre os marujos. Desire também o ouvira. — Vai recolher homens daquela embarcação, para servir em seu navio? — ela inquiriu furiosa. — Quanto tempo eles terão de servir a sua Marinha, antes que possam voltar para suas casas e famílias? — Desire, não estou caçando americanos. Apenas ingleses desertores. — Como pode identificá-los? Você mesmo disse que ingleses e americanos são muito parecidos. Temos a mesma aparência, falamos a mesma língua. Ou vai me dizer que eles se entregam de livre e espontânea vontade, arrependidos da traição à Sua Majestade? Jack fitou-a sem responder, sentindo o controle da situação escapar-lhe. Embora a busca por desertores fosse prática comum, ele sempre a considerara como uma vingança desprezível. Havia navios, cujos capitães eram cruéis, transformando sua embarcação numa quase prisão. Se um marujo desertasse nessas condições, Jack acreditava que estava certo. Além disso, se fosse trazido de volta à força, um homem assim jamais voltaria a ser um bom marujo e espalharia o descontentamento pela tripulação. E Desire tinha razão. Nem sempre era fácil distinguir ingleses de americanos. Porém, fora longe demais para mudar de idéia. Desire notou que Jack estava tão furioso quanto ela. Como ele pudera encenar aquela farsa terrível, despertando-lhe o medo pelo pior, apenas para continuar a discussão da noite anterior? Observou Connor falar com o ofendido capitão do navio, enquanto outros homens faziam a busca. Podia apostar que voltariam de mãos vazias, como Jack provavelmente calculara desde o início. Satisfeita por haver, ao menos, mostrado a ele que podia ser igualmente determinada, e pelo confronto ter se dado em público, onde ela estava a salvo dos beijos de Jack, Desire virou-se. — Está frio, aqui, Jack. Seja se divertiu às minhas custas, vou voltar à cabine. — Não vai, não. — Não vejo por que deva ficar aqui, enquanto você... — Fique. — Foi uma ordem. Como ele a segurasse pelo braço, ela nem tentou afastar-se. — Por quê? Porque é o capitão? 69


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— Digamos que sim. Desire jamais o vira tão irado, o brilho azul de seus olhos quase desumano. Teria ultrapassado os limites dele, desta vez? Com o coração apertado, permaneceu onde estava. Pouco a pouco, Jack foi relaxando o aperto em seu braço, como se temesse que seu pássaro predileto lhe escapasse. Finalmente, soltou-a. Para surpresa de Desire, os ingleses retornaram trazendo três homens desconsolados. Certamente, fariam falta à tripulação do navio mercante, que não contava com mais que vinte marujos. Connor empurrou dois dos homens diante de Jack. — Rogers e Hill, senhor, ex-marinheiros do Swiftsure. Aqui estão seus uniformes — acrescentou, exibindo os casacos inconfundíveis. — E este é Loomis, que navegou com a esquadra do canal por dois anos. Jack não esperava encontrar ingleses a bordo do navio mercante, mas estava desolado demais com sua situação com Desire, para importar-se. Dirigiu-se aos desertores: — Não sei como foram tratados no passado, mas terão a oportunidade de iniciar vida nova a bordo do Aurora. Descobrirão que aqui há justiça e satisfação para todos, desde que cumpram com suas obrigações e concordem em servir ao seu rei. — Mas eu não sou inglês, senhor! — Loomis protestou. No mesmo instante, Connor golpeou-o. — Cale a boca diante do capitão, ou vai se arrepender. Apesar de abalado, Loomis insistiu: — Perdoe-me, capitão, mas não sou inglês! Servi na sua Marinha como castigo por ter sido apanhado bêbado num bar de Liverpool. Sou americano, nascido em Rhode Island. — Rhode Island! — Desire repetiu excitada, sem notar a reação que sua interferência provocara na tripulação do Aurora. — Onde, em Rhode Island? — Portsmouth, senhorita. — Confuso, Loomis fitou-a com ar fascinado. — Desculpe, senhorita, mas é parente do capitão Gabriel Sparhawk? Naveguei com ele no Revenge, em minha primeira viagem. A senhorita se parece tanto com ele! — Sou Desire Sparhawk, de Providence. Gabriel era meu avô — ela explicou, maravilhada. Encontrar um homem que navegara com seu avô há tanto tempo parecia um milagre. — Precisa dar ouvidos a ele, Jack. Este homem não é inglês. Ele navegou com meu avô, no navio que pertencia à minha avó, antes de se casar. Não pode mantê-lo aqui. Mande-o de volta, antes que o navio se afaste e seja tarde demais. Não houve o menor movimento a bordo do Aurora. Até mesmo Loomis mantevese imóvel, aguardando a inevitável explosão do capitão. Todos sabiam que Desire tinha razão, mas ela cometera um pecado mortal. Atrevera-se a declarar publicamente que o capitão errara e, pior, ordenara-lhe que corrigisse o erro. Se ela fosse um homem, pensou Jack, ele mandaria que a amarrassem e lhe dessem trinta chibatadas. O que ela acabara de fazer desafiava a autoridade absoluta do capitão e abalava a hierarquia cuidadosamente construída sobre obediência e respeito. Porém, se ela fosse um homem, ele não se encontraria naquela situação ridícula. — Sr. Connor, mande este homem de volta ao seu navio, com meu pedido de desculpas ao capitão. — A calma de Jack surpreendeu a todos, exatamente como ele esperava. — E, no futuro, seja mais cuidadoso em seus interrogatórios. 70


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Com ar solene, virou-se para Desire. Sabia que todos esperavam por uma explosão irada, talvez até mesmo um gesto mais agressivo. E ela bem que merecia! Mas Jack estava determinado a provar que continuava em pleno controle de si mesmo, de seu navio e, acima de tudo, daquela mulherzinha impertinente. — Srta. Sparhawk, deve descer comigo. Agora. — Ninguém questionaria o comando autoritário de sua voz. Nem mesmo Desire teria ignorado o tom. Sorriu com nostalgia para Loomis, lamentando a impossibilidade de recordar com ele os tempos do avô, mas ele manteve os olhos no mar, esperando a ordem para voltar ao bote. Só então ela deu-se conta de que todos os homens a bordo evitavam olhar para ela. E não era tola. Era evidente que cometera alguma gafe grave. Assim, abaixou a cabeça com humildade e deixou que Jack a levasse para baixo. — Jack, perdoe-me se... — Não. — Com um gesto, Jack dispensou o guarda à sua porta. Não queria platéia para sua discussão com Desire. — O que você fez é imperdoável. Questionou minhas ordens diante de meus homens, desafiando minha autoridade. Estamos num navio de guerra e minha palavra é lei. Embora soubesse que ele tinha razão, pois fora criada em meio a capitães e marujos, detestou o modo como ele lhe falara. — Jack, não tive a intenção... — Mais uma vez — ele a interrompeu —, colocou sua família acima de tudo, inclusive do bem estar de todos a bordo. Gostaria de nunca ter ouvido falar em nenhum Sparhawk! — Ao menos, sabemos agir de maneira honrada. Nenhum de nós faria o que você fez, deixando que eu pensasse que ia atacar o outro navio! — Acreditou no que queria acreditar. Só porque sou um inglês, sou vilão. E, porque é uma Sparhawk, você é perfeita. Furiosa, Desire ergueu a mão para esbofeteá-lo, mas ele imobilizou-a no ar. — Eu o odeio! — ela declarou entre dentes. — Odeio você e sua Marinha, e se houvesse outro meio de salvar meu irmão, eu o aceitaria de bom grado, só para não ter de olhar para você de novo! — Nesse caso, tratarei de satisfazer a nós dois, Srta. Sparhawk. — Jack abriu a porta de comunicação e empurrou-a para a cabine que ocupava. — Passará o resto da viagem confinada à sua cabine. Está proibida de subir ao deque e de conversar com qualquer um a bordo. Suas refeições serão trazidas aqui e comerá sozinha. E tenha o cuidado de evitar a minha presença, porque não quero ver você mais do que quer me ver! Antes que Desire pudesse responder, a porta se fechou com um estrondo. Jack manteve sua palavras, assim como Desire. Ela passava os dias sozinha em sua cabine sem janelas, vendo apenas Harcourt que lhe servia as refeições, sem pronunciar uma palavra. Desire passava o dia lendo, ou bordando, à luz fraca das velas, até ouvir as badaladas da meia-noite, quando se despia, deitava-se e fingia dormir. Como acontece com qualquer prisioneiro, os ouvidos de Desire tornaram-se muito apurados e, através das paredes de madeira que a separavam de Jack, ela passou a conhecer a rotina dele em todos os detalhes. Ouvia suas refeições solitárias, suas reuniões com os oficiais, as aulas de navegação aos marujos e, quando finalmente terminava o dia, os acordes suaves da flauta. 71


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Deitada imóvel na escuridão, Desire ouvia. Jack podia ser rígido e autoritário durante o dia mas quando tocava, era incapaz de ocultar os sentimentos. As notas que cortavam a noite carregavam a mesma solidão que feria a alma de Desire, e ela sabia que ele estava tão infeliz quanto ela. E chorava sozinha, em silêncio, abafando os soluços no travesseiro. No oitavo dia, Harcourt não resistiu à piedade e deixou a porta para a suíte principal aberta, uma vez que Jack já tomara seu café da manhã e saíra. Sabendo que ele não retornaria antes do anoitecer, Desire levou sua sacola de lãs e agulhas para um dos bancos sob a janela, por onde o sol brilhava, e pôs-se a tricotar meias para Obadiah. Ao mesmo tempo, esforçava-se para pensar no irmão e esquecer o que ela e Jack haviam feito naquelas almofadas. Dois dias mais tarde, quando ela tricotava ao sol, Macaffery finalmente a encontrou. — Não deveria estar aqui — ela falou assim que o viu. — Nem você, Desire. — Ele se sentou ao lado dela, a barba feita, a peruca bem penteada e empoada, as roupas impecáveis. Era evidente que os enjôos haviam passado. — Não foi fácil encontrar um marujo disposto a aceitar suborno, para me deixar falar com você. — Não tenho nada a dizer, Sr. Macaffery. Eu e o capitão não nos vemos, portanto, não tenho nada a lhe contar. Macaffery sacudiu a cabeça com fingido pesar. — Ora, Desire, não me diga que já se esqueceu dos termos de nosso acordo. Nada mudou. As mudanças em suas circunstâncias não me dizem respeito, especialmente quando você dispões de poder para alterá-las. — O capitão decidiu que eu ficaria confinada à cabine e não há nada que eu possa fazer quanto a isso. — O capitão? O que aconteceu com o íntimo e charmoso "Jack"? Creio que este seria o primeiro passo para a sua libertação, embora não esteja sofrendo nem um pouco por aqui. Precisa ver o cubículo que me deram e Os companheiros desagradáveis que tenho de suportar às refeições. Desire levantou-se, sentindo-se incapaz de suportar a proximidade dele por mais tempo. — Não está entendendo. Ele não quer me ver, até chegarmos à Inglaterra. Então, ficaremos juntos apenas pelo tempo necessário para libertar Obadiah. Ele jamais me faria confissões. — Ora, pare com isso, Desire! Todos sabem o que disse ao capitão sobre o desertor. Chegaram a apostar que, mesmo sendo mulher, levaria umas boas chibatadas. E ficaram desapontados ao saber que isso não aconteceria. É evidente que Herendon está caído por você. Trate de cuidar melhor de sua língua afiada e aproveitar a sorte com o nosso bom capitão. Estamos viajando em alta velocidade e não lhe resta muito tempo. — Sr. Macaffery, não posso fazer o que me pede. Não somente porque não pretendo me vender dessa maneira, mas também porque Jack... o capitão não está interessado em mim. — Será que não percebe? Você é a primeira mulher que Herendon trouxe a bordo. Está louco por você. Os marujos comentam o ar sonhador de seu capitão. Tente deixar a porta aberta, esta noite, e ele logo lhe revelará profundo interesse. — Com uma risadinha maldosa, acrescentou: — Quanto às suas objeções, Desire, trate de lembrar-se 72


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de nossa última conversa. Pense em Jeremiah e em sua avó. O orgulho não a levará a lugar algum. Farei o que tenho de fazer. — Que diabo está fazendo aqui, Macaffery? — Jack inquiriu da porta. — Esta é a minha suíte particular. Saia já daqui! — Ora, Herendon, você tornou impossíveis meus encontros com a Srta. Sparhawk, mesmo sabendo que viajamos juntos. Vim verificar se está sendo bem tratada. — Sem pressa, Macaffery levantou-se e dirigiu-se para a porta, despedindo-se de Desire. — Tenha um bom dia, menina. Pense no que lhe disse. Voltaremos a conversar em breve. Assim que o advogado saiu, Jack começou a desabotoar o casaco. — Foi Harcourt quem a deixou entrar aqui? A atitude casual disfarçava as emoções provocadas pelo choque de simplesmente vê-la de novo. E lá estava ela, como ele havia sonhado, os olhos verdes brilhantes, as faces coradas, os lábios entreabertos em surpresa. — Desculpe. Sei que também não deveria estar aqui. Sairei agora mesmo. Desire encaminhou-se para onde deixara os apetrechos de tricô. — Fique — ele ordenou. Agora que ela estava ali, não a deixaria escapar. Desire hesitou, olhando para o refúgio de sua cabine. Porém, não queria aquele refúgio, queria Jack, apesar da razão gritar que aquilo era loucura. Sentia-se acariciada pelo olhar cheio de desejo com que ele a estudava. Sentiu o coração disparar e permaneceu em silêncio. Jack parou diante dela, um momento antes de ceder à tentação de tomá-la nos braços. — Fique, Desire. Por favor. Não se tratava de mais uma das ordens do capitão, mas de um pedido humilde. Embora Desire reconhecesse a diferença, continuou incapacitada de falar, pois ele se encontrava perto demais, alterando-lhe assim os sentidos e o raciocínio. — Macaffery estava importunando você? Ela sacudiu a cabeça, rezando para que Jack não tivesse ouvido a conversa. Um homem honrado como ele jamais compreenderia. — Ele é apenas um homem esquisito. — Ele é muito insolente. Devia tê-lo deixado em Halifax, ou mesmo em Providence — Jack declarou. — Vou mandá-lo de volta no primeiro navio que cruzar conosco. — Não! — Desire gritou, lembrando-se das ameaças de Macaffery. Ele certamente a culparia se Jack o expulsasse do navio. E, o que diria a Jeremiah e a sua avó? — Por quê? — Jack inquiriu, sem compreender por que a simples menção de Macaffery perturbava-a tanto. — O sujeito é insuportável! — Imagino que todos os advogados o sejam — ela tentou sorrir, mas foi em vão. — Vou precisar dele para libertar meu irmão. — Não vai precisar dele, Desire. Cuidarei de tudo o que precisar para salvar Obadiah. Já lhe prometi isso antes. — Disse que lamentava ter conhecido um Sparhawk, mas não posso culpá-lo. Por que um homem como você se importaria com Obadiah? — Porque me importo, diabo! — ele falou em tom rude. — E me importo com você. 73


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Com um passo, Jack cobriu a pequena distância que os separava e tomou-a nos braços. Desire ergueu o rosto para ele e, na fração de segundo que se sucedeu, ele notou que a surpresa nos olhos dela havia cedido lugar ao mais puro prazer e felicidade. Então, beijou-a, apagando as mágoas que os haviam separado. Apertou-a nos braços e sentiu-a derreter-se contra seu corpo. Acariciou-lhe as faces, os cabelos, desfazendo o penteado elaborado, até os cachos negros tombarem sobre os ombros delicados. Quando descolou os lábios dos dela, cobriu seu rosto de beijos, enquanto ela murmurava seu nome num fio de voz. Mergulhando no desejo intenso, Desire deu-se conta de que era daquilo que sua avó falava, quando mencionava as maravilhas que se passavam entre um homem e uma mulher. Era aquela a magia, a felicidade que ela jamais encontrara nos braços de Robert Jamison, mas que agora parecia um verdadeiro milagre, junto a Jack. Ele se afastou, apenas para livrar-se do casaco e do colete. Desire puxou-lhe a camisa para fora da calça, a fim de deslizar as mãos por dentro do linho macio e acariciarlhe as costas musculosas. Quando voltaram a beijar-se, ela sentiu que já não poderia controlar-se, mesmo que assim o desejasse. — Desire, meu amor — ele murmurou ao seu ouvido. Adorou vê-la ao sol da manhã, a pele rosada pelo ardor do desejo. Ergueu-a do chão e sentou-a sobre a escrivaninha, ao mesmo tempo em que beijava-lhe o pescoço. Com um gemido contido, ela arqueou as costas e, num movimento instintivo, as pernas dela enroscaram nos quadris de Jack, como se ela pedisse mais... — Capitão Herendon, perdoe-me! — Harcourt falou constrangido. Jack virou-se imediatamente, escondendo Desire atrás de si. — Eu bati, mas ninguém respondeu e... — Droga, Harcourt, o que você quer? Jack ouviu Desire tentando ajeitar as roupas, depois de colocar-se no chão. O momento de magia se perdera para sempre e ele sentiu a frustração invadi-lo pelo que ambos haviam perdido. Embora o rosto redondo de Harcourt se apresentasse escarlate, a urgência de sua mensagem não poderia esperar. — Trata-se daquele navio francês, senhor. Estão navegando depressa, bem na nossa direção. O tenente Parker pede que o senhor suba imediatamente, antes que seja tarde demais.

ONZE

O deque do Aurora, Desire observou o navio francês que se aproximava depressa. Avistou os canhões com a mesma nitidez com que distinguiu a bandeira tricolor. Pelo que ouviu das conversas entre Jack e seus oficiais, concluiu que a embarcação inimiga era maior, mais pesada e melhor armada que o Aurora. Além disso, se continuassem se aproximando naquela velocidade, os franceses os alcançariam em menos de uma hora. Olhou para Jack, que empunhava sua luneta, o casaco esvoaçando ao vento, os cabelos batendo no rosto. Era um homem bonito. Sentiu o coração apertar ao pensar que, há poucos minutos, ele fora todo seu. Estremeceu de prazer à lembrança das sensações 74


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que as carícias dele haviam despertado em seu corpo. Ele a tocara como se ela fosse a coisa mais preciosa no mundo, levando-a a acreditar, por um instante, que a amava. Mas nada daquilo fazia sentido, agora. O seu Jack a chamara de "meu amor" e "minha Desire", mas o capitão lorde John Herendon jamais fugira de uma batalha, e não o faria agora. Assim que Jack gritou suas ordens, iniciou-se uma grande correria. Desire era a única a não ter qualquer tarefa a desempenhar na preparação para a batalha. Cercado por uma dúzia de homens, Jack continuou a dar instruções, até que seus olhos pousaram em Desire. Então, abriu caminho por entre os oficiais para alcançá-la. — Deve descer para o depósito de provisões. Lá estará segura, até tudo isto terminar. Sei que vai agir com coragem, pois é uma Sparhawk. Desire assentiu e tentou gravar na memória cada detalhe daquele rosto que tanto amava. Jack afagou-lhe os cabelos com ternura. — Prometa que não vai morrer, Jack! Por favor! — implorou. Ele sorriu e sacudiu a cabeça de leve. Só então, Desire lembrou-se de que Jack só fazia promessas que poderia cumprir. — Sinto muito, Desire — ele murmurou, tomando-a nos braços. — As coisas deveriam ter sido diferentes. Depois de beijá-la, num adeus amargo, Jack virou-se e desapareceu no tumulto da preparação. Desire não resistiu, quando um marinheiro segurou-lhe o braço, para levála até o depósito. Virou-se ainda uma vez, e viu Jack dando mais ordens, enquanto Harcourt o ajudava a vestir o casaco de galões dourados. Ora, mas ele seria um alvo fácil demais para qualquer francês... — Vamos, senhorita. O capitão ordenou que não perdêssemos um minuto. — O marinheiro não escondeu sua impaciência e Desire deixou-se levar. A cabine principal estava irreconhecível, assim como a dela e a de Jack. As paredes e a mobília haviam sido retiradas, para que os canhões pudessem ser deslocados até as aberturas no casco. — Desculpe, senhorita, mas devemos nos apressar — insistiu o marinheiro impaciente. Desceram outro lance de escada e chegaram ao depósito, onde havia pilhas e pilhas de sacos de cereais. O lugar era muito escuro, frio e úmido. Havia um único lampião, insuficiente para iluminar o grande depósito. — Pronto, senhorita — declarou o marinheiro. — Ficará segura aqui, enquanto damos àqueles franceses o que eles merecem! — Espere, eu... — Desire começou, mas o jovem já desaparecera no topo da escada. — Ah, os jovens são iguais aos mais velhos — declarou uma voz feminina vinda da escuridão —, estão sempre ansiosos para provar sua coragem, se é que a matança pode provar alguma coisa. Sobressaltada, Desire virou-se e deparou com uma mulher de rosto redondo, sentada numa pilha de sacos de cereais, amamentando um bebê. — Você só pode ser a Srta. Desire Sparhawk, a moça que o capitão trouxe da América. Sou Mary Clegg, esposa de Samuel Clegg, chefe da artilharia. Estaria ao lado dele, agora, não fosse pelo bebê... Sente-se, querida. A menos que algum marujo tenha trazido uma clandestina, somos as únicas mulheres a bordo. Não há por que fazermos 75


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cerimônia, se vamos ficar juntas, enquanto os grandes homens lá em cima acertam suas rusgas. — Obrigada, Sra. Clegg. — Desire sentou-se e, ao observar o bebê sugar ruidosamente o seio da mãe, sorriu. — Seu filho é muito bonito. — Obrigada — Mary agradeceu com um sorriso orgulhoso. — Ele é bem grande, para um bebê de três semanas. Nasceu no porto de Halifax, enquanto esperávamos pelo capitão. — Deu à luz a bordo do Aurora? — Desire perguntou incrédula. — Sem uma parteira? — Claro! Samuel me deu toda a ajuda de que eu precisava. O Aurora é o meu lar e tenho uma vida feliz aqui. Cuido dos jovens marinheiros, quando ficam nostálgicos por saudades de casa, e quando precisam de consertos em seus uniformes. Conheço boa parte do mundo e, em troca, sirvo ao meu rei e meu país. — Como espera criar um filho a bordo de um navio de guerra? — Desire continuava chocada. — Ora, com um pai, uma mãe e duzentos e sessenta tios para mimá-lo, ele não vai precisar de mais nada — Mary explicou com uma risada. — Já criei dois filhos assim e só posso me orgulhar deles. Ambos navegam no Persophine, o navio do pai, que Deus o tenha. — O Sr. Clegg não é o seu primeiro marido? — Não. O primeiro foi Jemmy Burke. Foi atingido por uma bala, na batalha de Finisterre, contra os espanhóis. Morreu em meus braços. Quantas esposas tiveram essa sorte? Desire perguntou-se se muitas esposas gostariam de ter tal sorte. Sua incerteza ficou evidente em suas feições. — Ah, está pensando demais no perigo, senhorita — Mary falou com sabedoria. — Meu irmão desprezou o mar por ser muito perigoso. Acabou quebrando o pescoço, enquanto consertava o telhado da casa do vigário. Desire suspirou. — Como posso não pensar no perigo, se meu pai morreu quando uma fragata atacou seu navio? — Meu pai foi ao Taiti e voltou, com o capitão Cook, e morreu em sua própria cama, aos setenta anos. Deus nos leva quando chega a nossa hora. Sentir medo não faz a menor diferença. — Mary inclinou-se para Desire e falou em tom conspiratório: — Mas não é em seu pai que está pensando, é? Está pensando no belo capitão que a trouxe até aqui, não está? Desire sentiu as lágrimas arderem em seus olhos. — Ele vai morrer e eu o perderei, antes mesmo dele ter sido meu de verdade — balbuciou. — Eu sabia! Só porque o capitão nunca trouxe uma mulher a bordo, estão todos achando que a senhorita é amante dele. Mas eu sabia que não, pois vi o modo como ele olha para você. É o coração dele que precisa de você e não o... Bem, você sabe do que estou falando. — Nada disso fará diferença se ele morrer — disse Desire com tristeza. — Não se preocupe senhorita. Alguns homens lutam por esporte, outros por dinheiro, e alguns porque não sabem fazer outra coisa. Mas o nosso capitão Herendon luta para provar alguma coisa a alguém. Talvez, para si mesmo. Vi isso em seus olhos e 76


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sei que nunca perdeu uma batalha. E o tipo de homem desesperado demais para se deixar matar. Desire não tinha tanta certeza. Jack possuía tudo o que um inglês poderia desejar: riqueza, poder e um título de nobreza. O que teria a provar para alguém? — Mas o tenente disse que o navio inimigo é maior e mais forte, e que só venceríamos se tivéssemos sorte — argumentou. — Isso é conversa de homens, para se sentirem mais poderosos depois da vitória — Mary comentou com desdém. — Os franceses não só cortaram a cabeça do pobre Luís, como também de seus melhores oficiais. Agora, contam com pouquíssimos marinheiros e nenhum capitão tão bom quanto os nossos. Sendo americana, Desire não compreendia bem o raciocínio de Mary. Se acreditava que os franceses haviam cometido um erro, o que teria a dizer sobre a revolução em seu próprio país? — O francês que está nos atacando — Mary continuou —, deve estar atrás do capitão Herendon em pessoa, pois ele é um dos capitães de fragata mais famosos. Ou, então, sabe que o irmão dele é marquês. Se capturar o Aurora, ficará rico. Mas o nosso capitão lhe dará uma lição. Não se preocupe. Ouviram um estrondo distante. — Estão atirando em nós, mas erraram de longe! — Mary sorriu. Em seguida, a explosão foi mais intensa e mais próxima, indicando que os canhões do Aurora respondiam ao ataque. Desire tapou os ouvidos, sentindo o coração disparar de medo. Mary, porém, alargou o sorriso. — Meu Samuel já está dando duro! Ah, como eu gostaria de estar ao lado dele, para partilhar a excitação da batalha! Nem mesmo as palavras de Mary trouxeram conforto a Desire, que se pôs a imaginar as cenas sangrentas que se seguiriam. Voltou a pensar em Jack no deque, orgulhoso de seu uniforme. Jeremiah dissera que aquela era uma maneira horrível de morrer. Estremeceu, incapaz de controlar o pavor que a dominou. Mary tomou-lhe a mão. — Não pode ficar apavorada desse jeito — falou. — Você ama um homem que adora esta vida. Deve aceitá-la como parte dele... ou encontrar outro homem para amar. — Como suportar isso, Mary? Não fica imaginando se seu marido está vivo ou morto? — Claro que sim. Mas, em vez de me preocupar com o que não posso mudar, trato de dizer sempre ao meu Samuel o quanto o amo, para que ele nunca se esqueça. Outro tiro sacudiu o navio. Desire não dissera a Jack que o amava. Se ele morresse, jamais saberia. O bebê acordou assustado e começou a chorar. Mary tomou-o nos braços para acalmá-lo. Apavorada, Desire começou a acariciar a criança, buscando conforto no gesto simples. De repente, o Aurora sacudiu com um estrondo terrível, e Mary ergueu a cabeça com expressão tensa. — Fomos atingidos — murmurou imóvel. Não havia como confundir os sons da madeira de quebrando, de um canhão tombando ao mar e, o pior aos ouvidos de Desire, os gritos dos feridos e moribundos. Aterrorizada, Desire começou a levantar-se, mas Mary segurou-a pelo braço. 77


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— Sente-se. Ficaremos aqui até nos chamarem. — Embora mantivesse a voz calma, Mary exibia palidez mortal. — Não podemos fazer nada, senão rezar. Foi o choro do bebê que despertou Desire. Desorientada, ela se endireitou e esfregou os braços rígidos e gelados. O barulho das ondas contra o casco, o ranger da madeira e os gritos dos homens lá em cima soavam tão rotineiros e familiares, que ela chegou a se perguntar se a batalha não passara de um pesadelo. — Há quanto tempo estamos aqui? — perguntou. — Não sei. Talvez já seja de madrugada — Mary respondeu sem o menor sinal da alegria de antes. — Nós vencemos? — Desire nem se deu conta de que havia se incluído na pergunta. — Não perdemos. Do contrário, você já estaria lutando para livrar-se dos abusos de algum francês de nariz empinado. Mas devem ter nos causado danos graves, para estarmos navegando tão devagar. Passos pesados ecoaram pela escadas, seguidos de um grito de alegria. — Mary! Que visão divina para estes velhos olhos! — Samuel! — Mary lançou-se nos braços do marido, os olhos cheios de lágrimas. — Graças a Deus, não foi ferido! — Ora, você devia saber que eu jamais a abandonaria, nem ao bebê. Sem soltar a esposa, Samuel girou o corpo e olhou para o filho com tanto amor, que Desire encolheu-se, sentindo a própria solidão tornar-se mais intensa. — Ele não me deu trabalho algum — Mary informou com orgulho. — Será um soldado tão valente quanto o pai! Agora, conte-me o que aconteceu. A expressão de Samuel tornou-se sombria. — Não foi fácil, Mary. Os franceses vieram para cima de nós em alta velocidade e, embora o capitão tenha desviado nossa rota, para atacá-los, eles nos deixaram sem um dos canhões e, pior, explodiram o leme e todos os homens na proa. Nós poderíamos têlos afundado mas, sem leme, os malditos fugiram. — Afastando-a a fim de fitar-lhe os olhos, Samuel acrescentou com gentileza: — Perdemos um grande número de homens, Mary. É melhor se preparar. O pavor de Desire crescia a cada palavra. Todos os homens na proa haviam morrido, tão perto do lugar que Jack ocupava habitualmente... — E quanto ao capitão Herendon? — perguntou, incapaz de esperar mais. — Onde está ele? Surpreso por descobri-la ali, junto da esposa, Sam Clegg demorou alguns segundos para responder, alimentando assim os medos de Desire. — O capitão... bem... deve estar com o médico e os outros feridos. — Ferido! — ela gritou e correu para a escada..— Espere, senhorita! Não pode entrar lá! Mas Desire já não o ouvia, pois corria desesperada ao encontro de Jack. Por favor, meu Deus, não permita que aconteça a Jack o que aconteceu com papai! Tentou dominar o pânico. Ser ferido em uma batalha no mar era, muitas vezes pior do que morrer de uma vez, pois a morte era inevitável e o sofrimento, medonho.

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O cheiro de pólvora misturava-se ao de madeira queimada e, à medida que ela se aproximava da grande cabine transformada em enfermaria, sentiu o inconfundível odor de sangue. E ouviu os gemidos dos feridos e moribundos. Fraca por não ter comido nada desde o desjejum, atordoada de fome e medo, fechou os olhos, esforçando-se para não desmaiar. Temia o que veria ao chegar à enfermaria, mas sabia que teria de entrar, se quisesse ver Jack. Atravessou a porta e viu o cirurgião curvado sobre um ferido, avistou a lâmina na mão do médico, bem como a expressão de dor no rosto do outro. Então, descobriu-se a fitar o casaco de um oficial, bem à sua frente. Ele a segurou com firmeza e começou a levá-la para fora. Também fora ferido, pois não usava nada sob o casaco, exceto pela bandagem que lhe cobria o ombro e o peito. Desire recuou e espiou para dentro da enfermaria, ao mesmo tempo me que perguntava: — Por favor, sabe onde está o capitão Herendon? — Veio até aqui só para me encontrar, Desire? Só então, olhou para o homem que a segurava. — Jack! Tive tanto medo por você, que teria ido a qualquer lugar para encontrá-lo! Jack, meu amor, você está bem! Você está bem! Examinou-o com atenção o rosto que temera nunca mais voltar a ver. Ele tinha os cabelos soltos e sujos e suas feições exibiam as marcas da tensão e do cansaço. Mas estava vivo, e ela poderia esperar para ouvir as doces palavras pelas quais ansiava. Num impulso, passou os braços em torno da cintura de Jack e abraçou-o, até senti-lo tenso, sem respirar. Então, soltou-o depressa. Não queria machucá-lo. — Jack, me desculpe! — Tocou de leve a bandagem. — O que aconteceu? — Aconteceu que deixei aquele maldito francês levar a melhor. Levou-a para fora da enfermaria. — Quero saber de você, Jack. Está ferido. — Um estilhaço atingiu-me nas costas, só isso. Nada sério o bastante para você ficar nervosa, a menos que queira lamentar junto a Harcourt, pelo estrago no meu casaco. Embora o comentário soasse como brincadeira, tratava-se de uma advertência para que Desire mantivesse alguma distância. O que ela se recusou a aceitar. Quanto mais o estudava, mais preocupada Desire ficava. Os olhos de Jack apresentavam-se frios, desprovidos de emoção. — Não banque o durão comigo, Jack — falou com suavidade. — O ferimento foi grave o bastante, para fazê-lo vir até aqui, para que o médico o atendesse. — Sempre venho à enfermaria, após uma batalha. E o mínimo que posso fazer pelos homens que fizeram tudo para obedecer minhas ordens. Minhas ordens! Desire fitou-o, dando-se conta de que não era o ferimento que o deixava naquele estado. A aparência de Jack, bem como o tom de sua voz, deixavam claro que ele estava perdido em ódio por si mesmo. Tomou-lhe a mão e tentou manter a voz calma. — Venha comigo, Jack. Não pode fazer mais nada por estes homens, agora. — Acho que já fiz o bastante, não acha? Não sei por que os cretinos seguem minhas ordens! — Porque confiam em você, Jack. Sabem que faz o que é certo, porque sempre foi assim. — Tinha de levá-lo à cabine a qualquer preço. — Se não descansar agora, não será capaz de fazer qualquer coisa por ninguém. 79


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— Lutarei por uma chance de acabar com os malditos franceses, assim que houvermos consertado o leme. Eles não podem estar longe, depois do estrago que causamos. — Jack esfregou as mãos no rosto. — Meu Deus, estou à beira de um ataque de nervos. — Vamos para a sua cabine. Depois que tiver descansado e dormido um pouco, estará em condições de decidir o que fazer. — Diabos, Desire, pare de tentar me consolar! — Não quero consolar ninguém, Jack! — Desire corrigiu-o depressa, usando a longa experiência com o orgulho dos homens de sua família. — Acontece que estou exausta e não gosto de ficar andando pelo navio sozinha. Ficaria agradecida se me acompanhasse. — Ora, devia ter me falado logo — ele se mostrou embaraçado. — Perdoe-me por não ter pensado em você primeiro. Embora tivesse vontade de gritar que era ele quem precisava de atenção, Desire deixou-se levar. Caminhavam lentamente, pois a todo momento um homem aparecia, para informar Jack sobre os progressos dos reparos, bem como para perguntar o que fazer a seguir. Ouvindo-os, Desire deu-se conta de que a batalha não durara mais que meia hora. O Aurora perdera o leme e um canhão mas, aparentemente, infligira danos muito maiores ao navio francês Panthère. Todos pareciam alimentar a mesma esperança de lutar contra os franceses novamente. Mas, enquanto os outros se mostravam otimistas, Jack parecia deprimir-se mais e mais, a cada passo. Quando chegaram à cabine, ele mal deu ouvidos às desculpas de Harcourt. — Capitão Herendon, desculpe, mas não o esperava de volta tão cedo. A cabine ainda não está preparada. Só tive tempo de arrumar sua cama e providenciar um jantar frio. A cama da senhorita também está pronta. Jack tirou o casaco e sentou-se, cuidando para não apoiar-se sobre o ferimento. — Mande lavar este casaco, antes de devolvê-lo ao homem que me emprestou. Agora, deixe-nos, Harcourt. — Mas o senhor ainda nem se despiu, capitão! — Harcourt protestou surpreso. — Eu disse para sair. Depois de lançar um longo olhar para Desire, Harcourt saiu e fechou a porta. Desire observou Jack. Embora mantivesse os olhos fechados e a cabeça abaixada, ele não estava dormindo. Com um suspiro, ela encheu o copo com o vinho que Harcourt deixara junto ao queijo e aos biscoitos. Notou que a cabine onde Jack dormia era muito parecida com a dela. E não pôde deixar de notar que havia apenas uma cadeira, um copo, um prato e um garfo. Mas, como Harcourt poderia adivinhar sua presença? Colocou o copo na mão de Jack. — Beba isto. Vai sentir melhor. Ele abriu os olhos e fitou-a. — Você e Harcourt são bastante parecidos. Acham que um copo de vinho e uma camisa limpa resolvem todos os problemas do mundo. Apesar das palavras amargas, Jack aceitou o copo e bebeu metade do vinho. — Não resolvem, mas ajudam — Desire corrigiu-o. Nunca vira Jack sem camisa, mas não ficou embaraçada como seria de se esperar. O peito largo e os braços musculosos pareciam-se mais com os dos marujos, do que de lordes ingleses. Mas, como 80


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ela tivera a oportunidade de verificar, Jack trabalhava tanto quanto qualquer homem a bordo. — E não me compare a Harcourt — ela acrescentou. — Eu jamais imaginaria que você estivesse em condições de ficar sozinho. — Pois é exatamente o que desejo. — Em qualquer outra noite, eu acreditaria. Mas, hoje, não. — Será que você não entende? — Jack falou com impaciência. — Eu deveria ter capturado aquela fragata. O Panthère deveria ser meu, agora, navegando com a minha bandeira. O capitão e a tripulação deveriam ser meus prisioneiros. — Mas, você quase conseguiu! Se não tivesse provocado danos tão graves, eles não teriam fugido, mas capturado o Aurora. — Meu Deus, Desire! Acha que eu deveria me sentir melhor por isso? Só porque, embora tenha falhado, não fui capturado? Não há meio termo numa batalha. Ou se ganha, ou se perde. O resto não conta. Desire pensou no que Mary Clegg lhe dissera, sobre Jack nunca ter perdido uma batalha, antes. — É por isso que está assim? Porque a vitória é a única possibilidade que admite para si mesmo? — Só existe uma alternativa, minha cara, e já a considerei o bastante. Derrota não é uma palavra que quero ter ligada a meu nome. — Derrota! — Desire não podia acreditar. Desde o primeiro momento em que o vira, reconhecera nele o homem mais confiante que já conhecera. — Ora, Jack, quem olharia para tudo o que você fez, tudo o que tem, e o consideraria um derrotado? — A lista de nomes é interminável. Para começar, há uma dúzia de velhos no almirantado que adorariam me fazer pagar por insolência e incompetência, e por não querer cortejar-lhes as filhas solteiras. Embora ele tentasse soar despreocupado e irônico, sua voz apresentava-se carregada de frustração e uma dor muito intensa. Desire perguntou-se por que ele se odiava tanto. Apesar de sofrer ao ouvi-lo, decidiu deixá-lo continuar, acreditando que o feriria ainda mais se tentasse impedi-lo. — E, também — ele continuou —, há todos os comandantes e capitães abaixo de mim, ansiosos para me verem cair, a fim de disputarem a minha posição. Além deles, existem os almirantes e vice-almirantes, dispostos a qualquer coisa para impedir que eu conquiste o seu lugar. E, finalmente, Desire, meu próprio irmão, herdeiro dos desejos de minha família em me ver afundar. — Por que está fazendo isso consigo mesmo, Jack? — Desire perguntou, estendendo-lhe a mão. Jack fitou-a e desviou os olhos. — Já é tarde, Desire. Vá dormir. — Não. — Eu disse que queria ficar sozinho. — Pode passar a noite toda me dando ordens — ela declarou —, mas não sairei daqui antes de dizer que te amo.

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DOZE

- Você me ama — Jack repetiu com voz cuidadosamente neutra. Ela não sabia o que estava lhe oferecendo, não podia saber o que estava dizendo. — Eu te amo — Desire insistiu, com maior firmeza. E Jack lembrou-se de que uma mulher como ela jamais mentiria num assunto como aquele. Se virasse para fitá-la, veria tal confirmação nos olhos dela, e não teria mais para onde fugir. — Amo você, capitão lorde John Herendon. Ele sentiu as mãos macias a tocá-lo, o corpo quente a pressionar o seu. — Não pode me amar — falou com voz rude. — Se conhecesse a verdade a meu respeito, trataria de fugir de mim, enquanto ainda pode. Quando os lábios de Desire pousaram na pele nua de suas costas, ele fechou os olhos e tentou resistir ao prazer que as carícias dela lhe provocavam. — Eu sei a verdade sobre você — ela falou com voz rouca. — Sei que é bom, sincero e honesto, e sei que te amo mais do que jamais amei alguém. — Não confie em mim, Desire. Jack lutava contra a tentação, ou salvação, que ela oferecia. Porém, jamais em sua vida desejara algo com tamanha intensidade. Com o rosto colado a ele, Desire murmurou uma negativa, fazendo-o sentir-se como se houvesse recebido outra carícia. Segurando-lhe as mãos, Jack virou-se para fitála. Ela ainda tinha os cabelos soltos e ele se perguntou se não teria sonhado com o que acontecera na cabine principal, naquela manhã. O vestido azul encontrava-se amarrotado e sujo, pelas horas passadas no depósito de provisões. Ainda assim, ela lhe pareceu mais bonita do que se estivesse coberta de diamantes pois, depois de tudo o que acontecera, ela ainda queria estar ali, a seu lado. — Não vai sair? — perguntou. — Não — ela murmurou. — Não posso. — Você não é uma menininha, Desire. Sabe muito bem o que significa ficar. — Sei que não existe qualquer certeza nesta vida. Veja — Desire apontou para as inúmeras cicatrizes que marcavam a pele de Jack. — Você poderia ter morrido uma dúzia de vezes. — As cicatrizes fazem parte do uniforme. Vêm junto com as medalhas e galões. — Se sobreviver para usá-las. Quase o perdi, hoje. — Poderá perder amanhã. — Mas, o amanhã só virá depois desta noite. Com gestos delicados, Desire deslizou as mãos pelos ombros e braços de Jack. Ele sentiu o corpo todo ficar tenso, cada nervo despertado por aquele simples toque. Desire notou-lhe a reação e afastou-se hesitante. — Desculpe. Posso não ser uma menina, mas ainda não sei... não sei o que o agrada. — Sim, você sabe... sempre soube — Jack murmurou, puxando-a para si. Desire ergueu o rosto, entreabrindo os lábios, num convite irrecusável, entregando-se ao beijo ardente de Jack, mergulhando nas chamas da paixão, que 82


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irradiavam do encontro de seus lábios para todas as partes de seu corpo. Apoiou-se ao peito largo, confiando em que ele seria forte o bastante para sustentar a ambos. Pressionando o corpo contra o dele, sentiu a prova da paixão que incendiava o corpo de Jack. Naquele instante, soube que ele estava prestes a fazê-la prisioneira daquela paixão. Jack enroscou os dedos em seus cabelos e beijou-lhe o pescoço. Desire estremeceu pelo prazer inesperado. Então, sentiu as mãos firmes e experientes em suas costas, desabotoando-lhe o vestido. No momento seguinte, vestia apenas a fina combinação, que pouco escondia. Os mamilos formavam sombras escuras sob o linho claro, assim como o triângulo macio entre suas coxas também se fazia ver. Desire não conteve um gemido de prazer, quando Jack acariciou-lhe os seios, provocando-lhe sensações intensas e desconhecidas. — Oh, Jack, isto é demais — sussurrou. — Não é nem o começo — ele replicou com voz entrecortada. Com algum esforço, tomou-a nos braços e levou-a para a cama suspensa, que oscilou no ar. Num gesto instintivo, ela se pôs de joelhos e segurou-se nas correntes, em busca de apoio. — Não se mova — Jack ordenou. Sem pressa, colocou as mãos sob a combinação e deslizou-as pelas coxas de Desire, levando no movimento o tecido fino. Quando terminou de despi-la, embriagou-se da visão daquela deusa nua, ajoelhada à sua frente. Desire não desviou os olhos dos dele nem por um instante. Jamais alguém a vira nua e ela se sentiu ousada e feliz por estar diante dele, sem pudores ou vergonha. — Minha Desire... como você é linda! Ela sorriu. — Você também. Desire estendeu os braços para Jack e inclinou-se para beijá-lo. A cama oscilou como um balanço gigantesco, roubando-lhe o equilíbrio. Segurando-a pela cintura, Jack inclinou-se e beijou-lhe os seios, arrancando-lhe profundos gemidos de prazer. Desire enroscou os dedos em seus cabelos e, nesse momento, deparou com a imagem deles dois refletida no grande espelho que enfeitava a parede. Fechou os olhos, entregando-se por completo ao prazer, mas a imagem mantevese viva em sua memória, intensificando ainda mais as sensações provocadas pelas carícias ousadas de Jack. Devagar, ele deslizou uma das mãos ao longo da curva de seus quadris, até encontrar o ponto mais vulnerável entre suas coxas. Desire sentiu o fogo correr por suas veias. Então ele se afastou, deixando-a com uma sensação de vazio, ansiosa pelo contato de seu corpo outra vez. — Espere um momento, meu amor — ele murmurou com voz rouca. — Só um momento, e estarei com você. Jack despiu-se e juntou-se a ela. Desire moveu-se para o lado, a fim de proporcionar-lhe espaço. Ao mesmo tempo, sentiu o coração disparar. Não esquecera a dor que sentira, quando Robert a forçara, há tanto tempo. Mas Jack não era Robert e já lhe proporcionara mais prazer do que ela jamais acreditara possível. Ele a amaria, não a machucaria. Quando, finalmente, Jack posicionou-se sobre ela, Desire descobriu que estava tão pronta quanto ele. Cada nervo e músculo de seu corpo reclamando a satisfação de 83


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seus desejos. Beijou-o quase com desespero e, quando Jack a penetrou, não conteve um grito do mais puro prazer, mesclado de uma felicidade intensa. Passou as pernas em torno dos quadris de Jack, incitando-o a penetrá-la mais profundamente. Adorou senti-lo dentro de si, sentir-lhe os músculos firmes, a pele suada. Não havia humilhação ou dor, mas apenas um esplendor radiante, que só poderia vir do seu Jack. Ah, e sua avó sempre estivera certa... Desire era a própria perfeição, pensou Jack atordoado. Reagia a ele com ardor inesperado, os braços e as pernas a envolvê-lo, as costas arqueando-se para acompanhar-lhe o ritmo. Haviam esperado demais. A paixão que os incendiava não lhe permitiria fazer aquele momento durar tanto quanto ele gostaria. Ouviu a alteração na respiração de Desire, tão irregular quanto a sua. Sentiu-lhe os primeiros espasmos, quando ela se aproximava do êxtase. Então, perdeu o controle e a razão, e mergulhou no prazer, murmurando o nome dela de maneira totalmente irracional. Permaneceram deitados, enlaçados, imersos num silêncio satisfeito, que nenhum dos dois queria quebrar. O sino tocou, os marujos se revezaram em sua vigília, e os sons da rotina do Aurora continuaram, como se suas vidas não houvessem mudado para sempre. Jack apertou Desire contra si, acariciando-lhe os cabelos com ternura. O fato dela não ser virgem não importava. E, embora não houvesse sido o primeiro a amá-la, tinha certeza de que fora por pouco. As reações dela eram provas de sua ingenuidade e inexperiência. E a maneira como ela se mostrara maravilhada e surpresa diante do prazer o deixou encantado. Era autêntica, como nenhuma outra mulher que ele conhecera. E, se não houvesse entre eles nada mais que aquela gratificação, ele já estaria mais que satisfeito. Porém, o que descobrira com Desire era muito mais que isso. Sentia-se feliz ao lado dela, inquieto em sua ausência. Nela, sentia-se completo, encontrando a metade de sua alma que nem sequer soubera lhe faltar, até conhecê-la. Ela lhe devolvera sonhos que ele julgara perdidos para sempre, assim como afastara os pesadelos que durante tanto tempo o haviam perseguido. Deitado ao lado daquela mulher magnífica, compreendeu o significado do que ela lhe dera, o precioso dom de amar. E ele decidiu que não estragaria aquele momento mágico, com a lembrança de que tudo terminaria muito em breve. — Você é uma mulher rara, Srta. Desire Sparhawk — falou. — Consegue me fazer esquecer de perseguir franceses e querer passar o resto desta viagem exatamente onde estou agora. Ela riu como uma criança. — Espero que isso signifique que você está tão feliz quanto eu, meu lorde Jack. — Não. Estou muito mais feliz. Desire... eu te amo. O sorriso dela alargou-se e seus olhos encheram-se de lágrimas. — Também te amo, Jack. Beijou-a mais uma vez, deleitando-se com a paz tão especial que ela lhe proporcionava. Não seria capaz de encontrar palavras para exprimir o que sentia. Refletiu que acabara de descobrir por que os poetas passavam uma vida inteira tentando descrever aquele sentimento maravilhoso. E ele não poderia dar-se a esse luxo. Contava com três — Estou apenas cumprindo minhas ordens, como capitão deste navio. 84


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O rosto de Desire estava pálido, enquanto ela olhava frenética do navio americano para os canhões do Aurora. Pela expressão em seus olhos, Jack concluiu que ela estava revivendo a morte do pai. Observou-a com expressão impassível. Atingira seu objetivo: causara-lhe a mesma dor que ela lhe infligira. Então, por que se sentia tão mesquinho, tão pouco satisfeito? semanas, no máximo, antes de chegar a Portsmouth e, então, a Calais. Amava Desire e era amado por ela. Por enquanto, isso lhe bastaria. Abraçou-a e ouviu o suspiro sonolento de Desire, que não ofereceu qualquer resistência. Logo amanheceria e ele deveria levantar-se e vestir-se. Já podia ouvir o burburinho dos homens que começavam a limpar o deque, uma tarefa árdua, depois da batalha da véspera. E, naquele dia, poderia haver outra, se conseguissem encontrar o Panthère. Jack apertou Desire num gesto protetor, consciente de que, agora, tinha muito mais a perder. — Não me parece justo sentir-me tão feliz, depois do que aconteceu ontem — falou pensativo, sem saber se ela estava acordada para ouvi-lo. — Não pode se culpar, Jack. Poderia ter morrido. — Talvez — ele falou, cuidando para não deixá-la perceber que isso não acontecera por pouco. — Os homens conhecem os riscos. É pelos garotos que lamento. Perdemos três deles. — Sinto muito. — O mais velho tinha treze anos, mas deve ter mentido, para conseguir embarcar. Que pecados esses meninos podem ter cometido, para que seus pais os mandassem ainda crianças para a guerra? — Nenhum pai que ame seus filhos faria isso. Que pecados eles poderiam cometer com tão pouca idade? — A Marinha foi o pior castigo que meu pai encontrou para mim — ele falou com o olhar distante, que sempre usava quando mencionava a família. — Pensou em me vender aos turcos, mas concluiu que eu seria mimado demais. Então, providenciou para que eu embarcasse no Andromache. Um dia, eu estava recitando minhas lições, na sala de aula, em Rosewell. Uma semana depois, eu via a cabeça de outro menino explodir ao meu lado, durante uma batalha contra "os franceses. Mas mereci meu castigo. — Não acredito nisso, Jack! — Desire protestou horrorizada. — Tinha apenas dez anos. O que poderia ter feito para ser banido dessa maneira? — O que não deveria fazer. Era uma noite quente de verão. Seu pai fora passar o mês em Rosewell, com a atriz que era a sua amante na ocasião. Decidiram dar um baile de fantasia para seus amigos fúteis. Ao passar pelas janelas do salão, Jack vira os demônios, arlequins e pastoras, dançando bêbados, os rostos cobertos por máscaras. Encontrara Júlia à sua espera, os cabelos soltos, o vestido largo e os pés descalços. Nas mãos, levava os bolos que roubara da cozinha. — Está atrasado, marujo — ela o censurara. — Outros homens já foram açoitados por isso. Agora, vamos nos apressar, antes que percamos a maré. — Jack, meu amor, olhe para mim — Desire dizia. — Está tudo bem. Ele a fitou com o coração disparado, temendo o que fizera ou dissera.

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— Você abriu o ferimento em suas costas — Desire falou, exibindo os dedos ensangüentados. — Sei que foi minha culpa. Devia ter deixado que descansasse. Deixeme ir buscar Harcourt e o médico. Ela se ajoelhou, pronta a sair da cama. — Não, Desire, fique. — A dor nas costas não era nada se comparada ao risco de perdê-la. — Desire, por favor! Ela fitou-o com desconfiança e medo e Jack forçou-se a disfarçar o desespero e a tontura que sentiu ao tentar levantar-se. — Acredite, querida, não é nada. Sobrevivi a coisas bem piores. Harcourt e os outros terão tempo de sobra para cuidar de mim. E, quanto à sua culpa, se me desse a opção outra vez, eu não mudaria de idéia. — Tem certeza? — ela perguntou com um sorriso incerto. — Claro que sim — Jack respondeu e voltou a deitar-se, com ela nos braços. Ora, mas o maldito ferimento doía de verdade! Desire merecia os cumprimentos, por tê-lo feito esquecer-se da dor por tanto tempo. Quanto a Júlia e Rosewell... eram apenas os fantasmas do passado trazidos à tona pela tensão dos últimos dias. — Agora que, finalmente, tenho você, não posso suportar a idéia de perdê-la. — Ora, mas não vai me perder — Desire fingiu alegria. — Ao menos, não da maneira que temo perder você. Nenhum francês virá atrás de mim. — Ergueu a perna direita, e soltou a liga que ainda prendia a meia, a única peça de roupa que lhe restava. — Tenho carregado isto comigo todos os dias e o farei até ver Obadiah de novo. Se deu a ele sorte para continuar vivo durante todos esses anos, vai dar a mim, também. E, quem sabe, a você. Desire retirou da liga a moeda que pertencera a Obadiah Sparhawk e colocou-a na mão de Jack. Ele teve de fazer tremendo esforço para não atirar a moeda ao mar. Na noite seguinte, o clima durante o jantar não era dos melhores. Dois assentos vazios lembravam um marinheiro morto e outro inconsciente na enfermaria, com poucas chances de sobrevivência. O trabalho era dobrado, pois tinham de terminar os reparos, antes que surgisse a possibilidade de outra batalha. E os homens tinham de compensar a ausência dos mortos e feridos. Embora os vigias houvessem esquadrinhado o horizonte noite e dia, não haviam encontrado sinais do fugitivo Panthere. As esperanças de uma captura haviam desvanecido. A opinião geral era de que o navio havia afundado e se perdera para sempre. Assim, também se foi a esperança da recompensa em dinheiro, produto da venda da embarcação capturada. Porém, mesmo em meio a tantos motivos de tristeza, o desaparecimento dos franceses não era a única fofoca a bordo do Aurora. Os rumores corriam depressa. — Já sabem que o capitão ganhou um outro prêmio, ontem à noite? — perguntou Connor, enquanto distribuía os pratos. — Harcourt tentou manter segredo mas, ao que tudo indica, a mocinha ianque finalmente se rendeu ao lorde John Herendon. Harris riu alto. — O que já não era sem tempo, depois de tanto resistir! Mas, uma coisinha linda como aquela deverá manter o capitão feliz e satisfeito até chegarmos em Portsmouth, não acham? Todos riram, exceto Macaffery que, esquecido à ponta da mesa, sorriu da mais pura satisfação. Aqueles tolos estavam enganados. Ele poderia apostar que aquela coisinha linda manteria o capitão ocupado até chegarem a Calais. 86


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— Se o vento continuar a nosso favor, chegaremos a Spithead amanhã — Jack calculou dezessete dias depois. Dezessete dias e dezesseis noites cujas preciosas horas Desire contara uma a uma. — Primeiro, terei de me apresentar ao lorde Howe, mas certamente seremos mandados a Portsmouth, para reparos. Desire aconchegou-se ao corpo de Jack, sem responder. A noite estava fria e a chuva caía com insistência há horas. Disse a si mesma que deveria estar feliz. Em dois dias, estaria junto do irmão. Com a ajuda de Jack, não tinha dúvidas de que conseguiria libertar Obadiah e descobrir o que fora feito de seu navio. A viagem a Calais para ver monsieur Monteil seria breve, apenas para satisfazer o Sr. Macaffery. Dependendo do estado de saúde de Obadiah e de que navio poderiam tomar para voltar à Nova Inglaterra, ela e o irmão chegariam em casa, para passar o verão. Voltaria para sua casa, sua avó e Zeb, seus amigos e parentes, à escrivaninha repleta de papéis à sua espera. Voltaria a dormir na cama grande e solitária, que não oscilava, voltaria à vida confortável, onde tinha o seu lugar, e cada dia era muito parecido com o anterior. Voltaria a um mundo vazio, sem Jack, sem amor. — Não poderei permitir que fique a bordo, enquanto o Aurora estiver no estaleiro. Mas tenho uma amiga que terá prazer em hospedá-la. Tenho certeza de que vão se divertir juntas. Desire não queria divertir-se com mais ninguém, senão Jack. Desde que haviam se tornado amantes, Jack tivera o cuidado de não mencionar o futuro. Ela, por sua vez, também limitara sua vida ao pouco tempo de que dispunham juntos. Temporariamente, esquecera-se de Jeremiah, do pai e da guerra, e nem se atrevia a pensar no que aconteceria, caso engravidasse. Amava Jack e estava mais feliz do que nunca. Porém, por baixo daquela felicidade, encontrava-se a triste certeza de que amor não seria o bastante para Jack. Desire não teria lugar no mundo aristocrático de Jack, assim como ele jamais poderia se tornar um ianque e discutir a política federalista em tavernas. Jack não lhe prometera nada, pois só fazia promessas que podia cumprir. E eleja começava a distanciar-se dela, facilitando o adeus final, ao hospedá-la na casa de uma amiga. Devia ter experiência em como livrar-se de velhas amantes. Embora doesse pensar em si mesma desta maneira, Desire recusou-se a fugir da verdade. Era a amante do capitão e os marinheiros deviam usar os piores nomes ao se referirem a ela. — É claro que irei vê-la todos os dias — Jack continuou —, embora só Deu saiba o que aqueles cabeças duras serão capazes de fazer ao Aurora, se eu não estiver por perto. E apesar de Jack amá-la com extrema ternura, Desire sentiu-se grata à escuridão que escondeu suas lágrimas.

TREZE

Desire fechou a porta da cabine com todo cuidado, e passou apressada pelo guarda. Acordara antes do amanhecer e de Jack, que dormia profundamente. Não queria ficar a sós com ele naquela última manhã, pois sabia que acabaria chorando e não queria 87


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fazer isso. Por mais que seu coração doesse, tinha de apegar-se ao orgulho. Voltaria à cabine dele mais tarde, quando a mesa estivesse repleta dos oficiais que iriam tomar o desjejum e receber as ordens de seu capitão. O movimento no navio já se iniciara, como acontecia pouco antes do amanhecer. Mary Clegg deveria estar acordada e Desire queria despedir-se e entregar-lhe a touca que tricotara para o bebê. Parou debaixo de um lampião, tentando lembrar-se para que lado ficava a cabine dos Clegg. Como Jack não gostava que ela perambulasse pelo navio, não chegara a aprender o caminho. De súbito, como se houvesse surgido do nada, Macaffery sorria à sua frente. — Desire, querida, que prazer encontrá-la. Estava imaginando como poderia trocar algumas palavras com você. — Sabia muito bem onde me encontrar — ela falou, já virando-se para se afastar. Macaffery segurou seu braço com firmeza. — Claro que eu sabia onde estava e o que anda fazendo, assim como toda a tripulação. Mas o seu capitão deu ordens expressas para que eu não me aproximasse de você. — Não tive nada a ver com isso, eu juro! — Eu sabia. Por que se daria a esse trabalho, se não saiu do lado dele todo esse tempo? — Ele a estudou com insolência, fazendo-a corar. — Então, apesar de seus protestos, não foi tão difícil levá-lo para a cama, hão é mesmo? Ou fez amor com ele no deque, sem cerimônias? — Pare com isso! Eu lhe disse que não tinha nada a dizer, e a situação não mudou. Não vou ajudá-lo. — Não vai? — ele repetiu com um sorriso maligno. — Não, não vou! Irei a Calais para encontrar monsieur Monteil por Obadiah, não pelo senhor. Mas, aproveitar da boa fé do capitão Herendon para espioná-lo... Nunca fiz algo parecido e não começarei agora. — Verdade? — Macaffery arregalou os olhos em fingida surpresa. — A fúria de Jeremiah já não a assusta? Compreendo que ele possa perdoá-la pelo que aconteceu no passado com o tal Jamison, mas se souber que você dormiu todas estas noites com um capitão inglês, a bordo de uma fragata de guerra, com toda a tripulação inglesa apostando todas as noites quantas vezes seu adorado capitão a faria gritar de prazer, antes do amanhecer... Acha mesmo que Jeremiah receberia tal notícia de bom humor? — Ele aceitará, quando Obadiah responder pelo caráter de Jack. — Ah, Obadiah! O motivo desta aventura. Está contando com o seu querido Obadiah para defender você e sua avó, quando eu processar a sua companhia? Assim como todos os comerciantes em Providence, vocês também já fizeram alguns negócios duvidosos, mas podem ser os primeiros a ir aos tribunais. — Obadiah acreditará em mim, quando eu lhe contar como o senhor me ameaçou! Pensa que meu irmão é um tolo, mas está enganado. Obadiah é tão esperto quanto Jeremiah e... — E pode muito bem estar morto. — O sorriso de Macaffery se desfez. — Não considerou esta possibilidade, Desire? — Ele não está morto — ela argumentou com desespero. — Estava mortalmente ferido, quando Herendon o deixou, há meses. Por que sobreviveria? 88


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Sentindo-se fraca, Desire fechou os olhos. Havia considerado a possibilidade de Obadiah estar morto, mas não conseguira aceitar a idéia. Seu irmãozinho jovem, atraente, com sua moeda da sorte... — Não construa sua defesa sobre um homem morto, Desire — Macaffery continuou implacável. — Bem, na verdade, pelo modo como enfeitiçou Herendon, tenho certeza de que não precisará procurar outro protetor. — Ele não me quer mais — Desire falou em voz baixa. — Vai me hospedar na casa de uma amiga, em Portsmouth. Posso lhe garantir que não voltarei a vê-lo depois disso. Vai-me ajudar a encontrar Obadiah mas, além disso, não prometeu mais nada. — Ah, querida, eu lamento — Macaffery falou com genuíno pesar. — Quem poderia pensar que um cavalheiro como ele a abandonaria tão cedo? Desire sentiu a dor da solidão rasgar-lhe o peito. Não houvera ninguém antes dele e ela sabia que não haveria ninguém depois. Não queria sequer imaginar o vazio que seria sua vida sem Jack. — Parece-me que está precisando de um amigo para levá-la para casa em segurança — Macaffery falou em tom solene. — Posso ser esse amigo, se assim desejar. — O quê? Depois de tudo o que me disse, das ameaças contra mim e minha família! O senhor seria a última pessoa sobre a face da Terra, em quem eu confiaria! Um marinheiro aproximou-se, franzindo o cenho ao reconhecer Desire e Macaffery. — O que está acontecendo aqui? — A senhorita sentiu-se indisposta — Macaffery respondeu. — Estava me oferecendo para levá-la a seus aposentos. Desire deu-lhe as costas e encaminhou-se para os degraus, dirigindo-se ao marinheiro: — A senhorita pode perfeitamente se cuidar sozinha. — Já era tempo de aparecer por aqui, Herendon! — trovejou lorde Howe, batendo com o punho na mesa. Aos setenta anos, o almirante parecia transbordar energia. — Quem lhe disse que viajar para a América, sem dar qualquer satisfação e desaparecer durante meses repararia os danos que você causou? Um erro não justifica outro! — Não, senhor, mas se leu o meu relatório... — Para o diabo com seu relatório! Está alistado sob a minha bandeira e o Aurora faz parte da esquadra real. Mas decidiu estender seus domínios até a Nova Escócia! Como se defenderia diante de uma corte marcial? — Trouxe a Srta. Sparhawk comigo, senhor. — Não a conheço. — Srta. Desire Sparhawk, senhor. Irmã do americano. A chave para chegarmos a Gideon de Monteil. A mulher que ele amava. — Está dizendo a verdade? — O almirante franziu o cenho. — Trouxe-a à força? Não acredito que qualquer mulher decente aceitasse viajar em companhia do assassino de seu irmão. — Ela veio de livre e espontânea vontade e concordou em procurar Monteil. Mas achei melhor não lhe dizer que o irmão está morto. 89


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— Você deve saber o que dizer às senhoritas. Mas Jack não soubera o que dizer a Desire. Triste e calada, ela aceitara sua decisão sem protestar. E ele reconhecera a infelicidade em seus olhos. Disse a si mesmo que seria melhor manter alguma distância entre eles, até que ele pudesse descobrir uma saída para o desastre em que suas vidas haviam se transformado. Porém, nem ele mesmo acreditara. Já sentia o peito doer de saudades dela. Suas tentativas de reassegurá-la haviam soado falsas. O adeus fora formal, com os lábios dela frios sob os seus, sem uma oportunidade dele lhe dizer o quanto a amava. Em meio a tantas mentiras, aquela era a única verdade e, provavelmente, a única em que ela jamais acreditaria. O almirante recostou-se na cadeira. — O que pretende fazer com ela? Não pode deixá-la a bordo do Aurora. Poderia hospedá-la junto à esposa do comissário, até providenciarmos sua partida para Calais. — Já tomei as providências, senhor. Está hospedada na casa de lady Fairfíeld. — Levou-a à casa de Minnie? — o almirante empertigou-se. — Não é arriscado hospedá-la na casa de uma de suas ex-amantes, Herendon? — Continuamos amigos, depois que ela se casou, lorde Howe. Tenho certeza de que as duas se darão muito bem. — Isso, se alguma delas sair viva do combate fatal na sala de visitas — o almirante comentou com acidez. — Bem, não lhes daremos tempo para tanto. Quero que a americana vá ao encontro de Monteil o quanto antes e que volte para casa, antes que haja qualquer boato. Fiquei sabendo que as relações entre a França e a América vão de mal a pior. Não quero nos ver envolvidos. Fawcett é o homem perfeito para a missão. Tem mãe francesa e fala o idioma fluentemente. Vou mandá-lo a Calais, com a americana, amanhã. Jack sentiu o coração gelar. Se Desire partisse para a França com outro capitão, ele jamais voltaria a vê-la. Esforçou-se para manter a voz sob controle. — Capitão Fawcett, senhor? Creio que, tendo trazido a Srta. Sparhawk até aqui, eu seria o mais indicado para levá-la a Calais. E, ainda, ela deve ser informada da morte do irmão. — Já fez o bastante, Herendon. — O almirante passou os olhos pelo relatório de Jack. — Lutou contra o Panthère? Espero que o tenha afundado. Aquele capitão Boucher não passa de um patife! — Lorde Howe, imploro que considere... — Não implore, Jack. Não fica bem a um cavalheiro. — o almirante continuou a leitura. — Foi ferido? Como vai o ombro? — Já me recuperei. Lorde Howe... — Folgo em saber. Peça ao meu cirurgião que o examine, antes de sair. E leve o Aurora ao estaleiro imediatamente. Não o quero fora de combate por muito tempo. — Lorde Howe... — Já lhe disse, Jack. Não quero pedintes entre meus capitães. Nem quero alguém que ponha os atributos de uma bela mulher acima de suas obrigações para com o seu rei. Fui claro? — Jack assentiu, cravando os dedos no cabo da espada. Suas obrigações para com o rei, ou seu amor por Desire. Como sua escolha poderia ser mais clara? 90


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— Espero que goste, Srta. Sparhawk — disse lady Fairfield, ao entrarem no quarto. — Jack me avisou em cima da hora, mas não preciso dizer que marinheiros sempre esperam que o mundo gire ao seu redor. — Sim, obrigada — Desire murmurou. Permaneceu parada no meio do quarto, sem palavras, ainda chocada pela surpresa que tivera ao conhecer lady Fairfield. Quando Jack mencionara a "velha amiga", Desire imaginara uma senhora mais velha, gorducha, viúva talvez. Mas Minerva Bennis, condessa de Fairfield, era uma mulher miúda, de cabelos cor de cobre, que parecia dançar em vez de andar. Usava um vestido de musselina indiana com estampas douradas, os cabelos bem mais curtos do que seria convencional e um espalhafatoso chapéu com plumas. Quanto à sua idade, se ela e Jack eram mesmo velhos amigos, deveria ser muito jovem quando se conheceram. Sentou-se no sofá e chamou: — Venha sentar-se ao meu lado, Srta. Sparhawk da América. Sei que deve estar exausta, mas estou muito sozinha, desde que Harry foi para Londres. Não posso perder a oportunidade de uma boa conversa. — Está bem — Desire concordou, tirando o chapéu. A criada apressou-se em apanhá-lo e guardá-lo. Em seguida, abriu o baú de Desire e pôs-se a guardar as roupas no guarda-roupas. — A senhora é muito gentil, condessa — Desire murmurou, ao sentar-se ao lado da condessa. — Por favor, pare com essa história de condessa! O título pertence a Harry, e meu sangue é tão vermelho, quanto de qualquer leitão à venda no mercado. Pode me chamar de Minnie, e eu vou chamá-la de... Ora, só agora me dei conta de que, em sua pressa, Jack não me disse o seu primeiro nome. — Desire — ela disse com tristeza, torcendo para que a condessa não houvesse reparado na rapidez das despedidas de Jack. — Desire Sparhawk. — Que lindo nome! Muito melhor que Minerva. — Minnie sorriu. — Conte-me como conheceu Jack Herendon. — Jack é amigo de Obadiah, meu irmão mais novo. — Desire fez uma pausa, incerta do quanto poderia confiar na condessa. — Obadiah meteu-se em dificuldades com o seu governo e Jack foi à América, para me trazer para cá, a fim de ajudar a libertá-lo. Eu queria estar cuidando do assunto agora, mas Jack insistiu em tomar as providências sozinho. — Jack é sempre ires galante — Minnie comentou, usando as palavras francesas, como se fossem sua própria língua. — Não existem muitos cavalheiros como ele. Mas a verdade é que está morrendo de amores por você, o que explica qualquer galanteio. Ah, aí está o chá. Vocês americanos também tomam chá, não é? Perturbada pelo modo como Minnie descrevera os sentimentos de Jack, Desire ocupou-se de preparar o chá, a fim de esconder a agitação. Quando bebeu o primeiro gole, deu-se conta de que a outra a fitava com um sorriso paciente, esperando por uma resposta. — Ele não me ama — falou afinal. — Pelo menos, não o bastante. Você mesma viu a rapidez com que ele me deixou aqui. — O que vi foi um homem com tanto medo de dizer as palavras erradas, que preferiu não dizer nada. — Então, por que teve tanta urgência em atirar-me aos seus cuidados, se não tinha a intenção de me abandonar de vez? 91


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— Fico contente em descobrir que está furiosa. Pensei que fosse se limitar a chorar pelo tratamento injusto que Jack lhe dispensou. — Eu não choraria na frente dele! — Desire declarou com firmeza. — Por que ele me deixou ficar em sua companhia, a bordo do Aurora? — Porque, aqui — Minnie lançou-lhe um sorriso malicioso —, ele poderá vê-la sempre que quiser e fazer o que vocês dois tenham vontade. Se ficasse no Aurora, o almirante Howe trataria de tomar conta de você o tempo todo. É sabido que o velho não tolera amantes, enquanto eu não só as tolero, como admiro. Ao menos, era assim, até casar-me com Harry. O sorriso de Minnie fez Desire lembrar-se da avó. Então, um pensamento cruzoulhe a mente. O que fazia ali, sentada ao lado de uma condessa de cabelos vermelhos, discutindo assuntos que ela sempre imaginara proibidos às mulheres? O que acontecera a Desire Sparhawk, solteirona de Providence? Apesar do rubor nas faces, Desire não teve dificuldade em imaginar o que ela e Jack poderiam fazer naquela imensa cama de dossel. Mas, por mais tentadora que fosse a idéia, sabia que aquilo não lhe bastaria. — Existem tantas complicações — murmurou. — Sou americana, ele é inglês. E, ainda há a preciosa Marinha britânica... — São ambos altos e bonitos — Minnie interrompeu-a —, com todos os requisitos para proporcionarem imenso prazer um ao outro. Não vejo complicação alguma. — Há outras coisas... — Esqueça! — Minnie inclinou-se para Desire. — Durante dois anos, fui amante de Jack, e ele nunca me olhou do modo como olha para você! Sempre foi gentil e amável, mas nunca me amou, não como ama você! — Também foi amante dele? — Desire repetiu. Embora houvesse suspeitado desde o início, ouvir Minnie admitir seu relacionamento com Jack de maneira tão livre deixou-a perplexa. — Você é a mulher que ele ama, não sua amante. Jamais confunda as duas coisas. Éramos muito jovens. Jack acabara de ser promovido a capitão, ainda nem tinha um navio. E eu, bem, digamos que eu também me encontrava numa fase transitória. Juntos, encontramos carinho, amizade e muita diversão. Mas ele nunca me amou, como ama você. — Mas você o amava, não? — Desire perguntou com delicadeza. — Ora, que mulher não se apaixonaria por Jack? — Minnie argumentou com uma risada nervosa e, imediatamente, virou-se para o guarda-roupa aberto. — Já usou aquele vestido vermelho, com ele? Não posso usar esta cor por causa dos meus cabelos mas, em você, deve ficar divino! Use-o esta noite e garanto que Jack não vai tirar os olhos, nem as mãos de você, até o amanhecer! Porém, no elegante jantar oferecido por Minnie, Desire foi levada à mesa por outro cavalheiro, e o lugar de Jack permaneceu vazio. Usando o vestido de seda vermelha, Desire tentava concentrar-se na história que o jovem a seu lado contava com entusiasmo, mas só prestava atenção à porta, esperando pela chegada de Jack. Mas, quando o jantar terminou, e Minnie levou os convidados para a sala de estar, não havia sinal de Jack, nem um bilhete explicando sua ausência. Enquanto os outros conversavam, Desire retirou-se para uma das janelas e pôsse a observar a rua. Apesar das promessas de Minnie, Jack não apareceria. De todas as desculpas que poderiam explicar sua ausência, as únicas que a preocupavam, eram as que se relacionavam com Obadiah. 92


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Jack lhe dissera que iria à prisão naquela tarde e, certamente, teria lhe mandado notícias. Poderia querer evitá-la, mas era um homem de palavra, e não quebraria a promessa feita a Obadiah. As previsões lúgubres de Macaffery continuavam a ecoar em sua mente. Desire pensou na moeda presa à sua liga e rezou para que parte daquela sorte houvesse ficado com seu irmão. — Pode ser que ele venha mais tarde — Minnie falou, ao aproximar-se. — Talvez, não estivesse com disposição para ouvir as histórias tediosas do coronel Hathaway. — Está tudo bem, Minnie. Não precisa procurar desculpas para ele. — Tem razão — a condessa concordou com um suspiro. — Jack é perfeitamente capaz de inventar suas próprias desculpas. E, depois de faltar ao meu jantar sem dar satisfação, é melhor que tenha uma muito boa! — Minnie olhou pela janela e estreitou os olhos. — Aquele homem estranho está rondando a casa desde o anoitecer. Acho melhor avisar os criados. Se quiser retirar-se, fique à vontade. Meus convidados compreenderão que está cansada. Quando... note bem que eu disse "quando", não "se", nosso capitão decidir aparecer, farei com que vá até seu quarto. Uma vez deitada na cama de dossel, Desire arrependeu-se por não ter ficado na companhia de Minnie e seus convidados. Era estranho ver-se numa cama que não oscilava e, mais estranho ainda, não ter Jack a seu lado, o braço forte e protetor a envolvê-la. Sentiu falta do sino que anunciava cada hora que passava, e do barulho do vento e das ondas. Sem eles, restava-lhe apenas o tique-taque do relógio a um canto e as batidas solitárias de seu coração. Estava na ponte Weybosset novamente mas, desta vez, era ela quem se equilibrava sobre a grade, em vez de Obadiah. E não era mais criança. O vento agitava a seda vermelha de seu vestido, enquanto ela avançava devagar e com cuidado, colocando um pé diante do outro sobre a viga de madeira. Sua avó ficaria furiosa se ela caísse na água e estragasse seu melhor vestido. — Trate de se apressar, Dês — gritou Obadiah, sentado confortavelmente na extremidade da grade. Com uma risada, continuou: — Você é mais lerda que uma tartaruga! — Fique quieto, Obie! Não fosse por você, eu não estaria aqui! — Então, pegue isto — ele disse, atirando-lhe a moeda. — Vai precisar mais que eu. A moeda rodopiou no ar e caiu na palma de sua mão. Desire segurou-a com firmeza e voltou a olhar para Obadiah. Mas não era mais ele quem se encontrava na extremidade da grade, e sim Jack, que a esperava com a mão estendida. O sol forte refletiu em seus cabelos castanhos e nos galões dourados de seu uniforme, forçando-a a proteger os olhos com as mãos. — Não tenha medo, querida — ele gritou. — Devia saber que eu jamais poderia deixá-la. Ela sorriu, estendendo a mão para ele. Então, a grade desapareceu de sob seus pés e ela caiu. A luminosidade dourada que Jack proporcionava transformou-se numa escuridão fria e interminável. Aterrorizada, Desire gritou por Jack, mas ele desaparecera, deixando-a sozinha em sua queda terrível. — Desire, meu amor, acorde! — Jack a sacudia com gentileza. — Sou eu, Jack. Foi apenas um sonho, querida. Desire fitou-o em silêncio, enquanto o pavor do pesadelo se dissipava. Tocou-lhe a face, a fim de certificar-se de que ele era real. Jack beijou-lhe os dedos com ternura. Ele 93


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ainda vestia o casaco molhado da chuva e, por sobre seu ombro, Desire divisou Minnie e dois criados em roupas de dormir, segurando velas. — Perdoe-me por ter demorado tanto, querida — ele murmurou. — Tudo demorou mais do que eu calculava. Mas, agora, estou aqui e não vou deixá-la. — Ah, Jack, senti tanto a sua falta! Beijou-o com desespero, puxando-o para si. Em vez de abraçá-la, Jack segurou-a pelos ombros e afastou-a com gentileza. — Desire, preste atenção ao que vou lhe dizer. O navio de seu irmão partiu para Providence há doze semanas. Deve estar chegando lá. — Então, Obadiah está bem! Ah, obrigada, Jack, obrigada... — Não, querida, espere. O Swan partiu sob o comando de Peter Watson. — Conheço Peter. Ele sempre navega com Obie. — Os olhos de Desire adquiriram uma expressão estranha. — Por que meu irmão não foi com eles? — Desire... Obadiah está morto.

CATORZE Jack? — Desire mal conseguia pronunciar o nome. Sua cabeça latejava e suas pálpebras pesavam. — Jack? — Ele acabou de sair, Desire — Minnie murmurou, colocando um pano úmido em sua testa. — Estará de volta em uma hora. — Ele disse que ficaria... — Isso foi há quatro dias e três noites, querida. Ele não saiu do seu lado, embora vá enfrentar o diabo na forma do almirante Howe por isso. — Quatro dias! Desire tentou erguer-se, mas a condessa forçou-a de volta aos travesseiros. — Sim. E se está melhor agora, é graças ao remédio que o médico receitou, para ajudá-la a dormir. Você saiu de si. Desire voltou a fechar os olhos. Um remédio para dormir explicava sua sensação de fraqueza e vertigem. Mas Minnie tinha razão. Jack estivera ao seu lado todo o tempo. Fragmentos de lembranças invadiram-lhe a mente, de Jack deitado ao seu lado, abraçando-a com ternura, afastando os cabelos de seu rosto e murmurando seu nome. Lembrou-se, também, da música de flauta mesclada a seus sonhos, de Jack vindo acordá-la com o casaco molhado de chuva, dela mesma equilibrando-se sobre a ponte Weybosset e... que Deus a ajudasse, Obadiah estava morto! Mandara chamá-la, e ela não chegara a tempo. Contara com ela para salvá-lo, mas morrera antes que ela pudesse fazer qualquer coisa. Morrera sozinho, em agonia e desgraça, longe dos amigos e da família. Afinal, a moeda da sorte o abandonara. Obadiah, o irmãozinho que tanto amava, se fora, assim como sua mãe, seu pai e seu avô. Então, por que não estava chorando? Seria efeito do remédio aquele vazio que sentia por dentro? — Sinto muito por você, querida — Minnie murmurou e, pelos olhos vermelhos e inchados, Desire concluiu que a outra havia chorado por ela. — Vir de tão longe, para chegar tarde demais... Ah, imagino como deve se sentir. Desire, porém, não sentia absolutamente nada. Segurou a mão da condessa, na esperança de partilhar alguma sentimento com ela. 94


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— Obrigada por tudo, Minnie. — Ora, não fiz nada. Jack ficou com você a maior parte do tempo. Sei que era amigo de seu irmão e que deve estar sentindo a perda, também. Mas os homens sempre enterram seus sentimentos. E o que dizer, pensou Desire, de mulheres que faziam o mesmo? Por que se sentia tão distante, como se tudo não passasse de um romance trágico? — Cheguei a sentir prazer — Minnie continuou —, ao expulsar daqui aquele outro capitão, que veio procurá-la. Sujeito rude, nem se comoveu com seu estado e insistiu que tinha negócios urgentes a tratar, que estava obedecendo ordens. — O que outro capitão inglês poderia querer comigo? — Não faço idéia. Pergunte a Jack. Ele deve saber. Se Minnie e Jack não estavam preocupados com o tal capitão, então ela também deveria esquecê-lo. Mas Macaffery deveria ter aparecido, especialmente depois de quatro dias. Talvez não soubesse de Obadiah pois, do contrário, seria capaz de procurá-la, apenas para gabar-se de haver acertado em suas previsões. Olhou para a janela e, apesar da cortina fechada, notou que o sol brilhava lá fora. Perdera quatro dias naquela cama e já estava na hora de sair dela. — O que está fazendo? — Minnie protestou ao vê-la levantar-se. — Deve descansar até sentir-se melhor! — Se continuar deitada, não vou melhorar nunca. — Pôs-se de pé e recusou o robe oferecido pela criada; — Traga-me o vestido de lã azul. Vou sair para uma caminhada. Meia hora depois, Desire encontrava-se sozinha, sentada num banco do jardim de Minnie, pois esta recusara-se terminantemente a permitir que ela saísse para a rua. Teve de admitir que fora melhor assim, pois ainda se sentia atordoada pelo remédio e fraca por não ter comido nada além de sopa, por quatro dias. Sentiu-se melhor pelo simples fato de ter saído da cama e de estar respirando ar puro. Porém, o vazio em seu peito não dissipara. Lembrou-se de tudo o que Obadiah tinha de bom, dos momentos maravilhosos que haviam passado juntos. Ele fora a pessoa da família com quem ela mais se identificara, e o amara de um modo especial, com que jamais conseguiria amar alguém. E por que não encontrava lágrimas para lamentar sua morte? Suspirou e examinou o jardim. A chuva cessara e a tarde estava agradável, com o céu azul sem nuvens. Ainda assim, a imagem do inverno persistia nas roseiras e pereiras reduzidas a galhos sem folhas. Observando o solo com maior atenção, Desire descobriu minúsculas folhas verdes a brotar. Perguntou-se se as tulipas holandesas de sua avó já haviam florescido. Obadiah esquecera-se de perguntar ao mercador de Amsterdã se as flores eram vermelhas ou amarelas e havia apostado com Desire sobre a cor. Ah, como suas vidas haviam mudado, desde o último outono! Ainda examinava o canteiro, quando Jack entrou no jardim. Por um momento, ele se limitou a observá-la, gostando muito do que via. Usando um vestido azul e um xale amarelo, os cabelos presos numa trança simples caída sobre um dos ombros, a sua Desire não se parecia em nada com as beldades pomposas que inundavam os salões. E Jack amava-a ainda mais por isso. Ao ouvir a voz dele pronunciar seu nome, Desire virou-se com um sorriso iluminado. Abriu a boca para falar, mas o que disse se perdeu na explosão de um tiro. 95


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Um galho da árvore mais próxima quebrou-se e Desire atirou-se no chão com um grito. No instante seguinte, Jack se colocava como um escudo a protegê-la, ao mesmo tempo em que tentava descobrir o autor do atentado. Porém, tudo o que pôde avistar foi a nuvem de fumaça sobre o muro. Quem quer que houvesse atirado, desaparecera. Desire murmurou um protesto abafado pelo casaco de Jack, que apressou-se em sair de cima dela e tomá-la nos braços. — Será possível que toda vez que estou com você, alguém tenta me matar e você não perde tempo em atirar-se sobre mim, estragando o meu chapéu, ou sujando meu xale de lama! — queixou-se furiosa. — Você está bem? Não se feriu? — Claro que não. — Olhou para o vestido todo sujo de terra. — Ah, Jack, o que Minnie vai dizer quando me vir? — Ela que diga o que quiser! Jack pôs-se a examinar o galho quebrado. Não poderia saber de onde viera o tiro. Poderia ser do muro, ou da janela de uma das casas vizinhas. Quando encontrou a bala, descobriu tratar-se de uma pistola, fácil de carregar e de esconder. — Jack? Ele ergueu os olhos para fitá-la. — Alguém tentou me matar, não é? Ele suspirou e abraçou-a. — Sim, meu amor, embora eu não possa imaginar quem poderia causar-lhe mal. — Jack, o que aconteceu? — Minnie chegou correndo, seguida por um criado. — Ouvi o tiro da sala. Ainda bem que ninguém se feriu. — Pelo menos, não desta vez. Agora que tinha Desire sã e salva em seus braços, Jack não pretendia soltá-la. Apertou-a contra si num gesto possessivo. Embora ela houvesse exagerado, estava certa. Aquilo não deveria ter acontecido de novo. — Isto é inaceitável numa cidade civilizada — Minnie protestou com veemência. Não vou admitir que meu hóspedes sejam molestados em meu jardim! Mandarei chamar os guardas, o delegado e o prefeito... — Não vai chamar ninguém, Minnie — Jack interrompeu-a. — Nem vai contar a ninguém o que aconteceu aqui. Espero não insultar sua hospitalidade, mas vou levar Desire daqui, por alguns dias. — Vai me levar para o Aurora? — Desire inquiriu. — Não, querida. Vamos para um lugar menos óbvio. Está em condições de enfrentar duas horas numa carruagem? — Está louco, Jack? — Minnie interferiu. — Não pode fazer a coitadinha viajar, depois de tudo pelo que passou! Mas Desire nem sequer a ouviu. — Podemos partir quando quiser. Mas, não seria mais rápido ir a cavalo? E mais discreto, também. Jack planejava partir assim que anoitecesse, e não o agradava a idéia de Desire sacudindo sobre uma cela feminina, em estradas que não conhecia. — Mais discreto, porém, mais perigoso. As celas femininas não... — Ora, Jack! Acha que eu viajaria toda torta? Pedirei uma calça emprestada a um dos criados de Minnie. 96


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Ele suspirou resignado. Vestiria trajes civis. Assim, as pessoas prestariam menos atenção a um homem e um garoto a cavalo, do que a um cavalheiro e uma dama em uma carruagem. — Aposto que aprendeu a montar com o mesmo avô que a ensinou a atirar. — Esta é a idéia mais absurda que já ouvi — Minnie protestou. — Recuso-me a fazer parte disso. Diga-me para onde vão, para que eu possa dizer ao delegado onde procurar seus corpos. — Vamos para o último lugar onde esperariam me encontrar: Rosewell. Pela posição da lua, Desire calculou que já passava de meia-noite. Não fazia idéia da distância que ela e Jack haviam percorrido, desde que haviam deixado Portsmouth para trás. Mas fora o bastante para que ela se lembrasse de músculos, dos quais preferia ter continuado esquecida. Agora que os cavalos começavam a cansar-se, viajavam num ritmo mais lento, lado a lado, e Jack mantinha-se em silêncio pensativo. O que ele poderia estar pensando, enquanto voltava para casa, depois de mais de vinte anos? Aqueles campos cinzentos ao luar trariam a ele as mesmas lembranças que Providence e Aquidnech provocavam em Desire? De certa forma, ela se sentia grata pelo silêncio de Jack. Na pressa de partir, não haviam tido tempo para conversar e. somente no momento em que Minnie a abraçara com lágrimas nos olhos, o nome de Obadiah fora mencionado. Mas Desire sabia que era apenas uma questão de tempo. Jack não tardaria a conversar sobre seu irmão. Era natural que buscassem conforto um no outro. Afinal, Jack viajara o dobro da distância para tentar salvar Obadiah. E Minnie dissera que ele sofrerá pela morte do amigo. E, ainda, ela não fora capaz de derramar uma lágrima. — Cansada, querida? — Jack perguntou. Desire sacudiu a cabeça e endireitou as costas. Não admitiria as dores espalhadas pelo corpo, depois de ter sugerido a viagem a cavalo. — Então, está se saindo melhor do que eu — ele confessou. — Ainda bem que já estamos chegando. Desire não acreditou nele, assim como ele não acreditara nela. — Vamos assustar a todos, chegando a esta hora — ela concluiu. — Não deve haver ninguém lá. Imagino que meu irmão já tenha partido para Londres, embora a temporada ainda não tenha começado. — Ele não vai se importar? — Ele nem vai saber. O marquês de Strathaven tem coisas muito mais importantes para se preocupar, do que seu irmãozinho. Mesmo que o irmãozinho esteja invadindo suas propriedades. Surpresa, Desire olhou em volta. — Tudo isto pertence a ele? — Isto e muito mais. Estamos cavalgando em terras de Creighton há uma hora. Trata-se do privilégio de ter nascido sete anos antes de mim. A estrada transformou-se numa trilha, cercada de árvores e arbustos. Jack examinou cada árvore, até que parou o cavalo e desmontou. Aproximou-se de uma das árvores e apalpou o tronco, acima de sua cabeça. De repente, soltou um grito exultante e retirou de um buraco no tronco, uma grande chave.

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— Não tinha certeza de que ainda estaria lá — explicou, ao montar. — Meu irmão vivia se gabando de saber onde eu escondia a chave, e nunca tive a chance de saber se dizia a verdade. Assim que dobraram a próxima curva, depararam com a casa de madeira pesada, imitando chalés humildes e antigos. Jack ajudou Desire a desmontar, apanhou os sacos de comida que Minnie providenciara e destrancou a porta sem dificuldade. Quando entraram, ouviram os guinchos de camundongos assustados. — Sei que não é lugar mais agradável do mundo — Jack comentou, adiantandose para a lareira, a fim de acender o fogo. — Provavelmente, ninguém esteve aqui nos últimos meses. — Então, foi aqui que viveu, quando criança? — Desire perguntou, olhando em volta com interesse. — Não! Esta é a cabana de caça — Jack explicou, enquanto acendia o lampião. — Se quiser, iremos à mansão Rosewell amanhã. Agora, venha comigo. Quero ver uma coisa. Tomou-lhe a mão e levou-a escada acima. Abriu uma porta e ergueu o lampião. —Meu Deus, veja isto! Por uma vez, Creighton não mentiu. Por um longo momento, Desire olhou fixamente para a cama enorme à sua frente. Seria possível acomodar uma família inteira sobre ela! Mas, o que os deixou sem voz, foram os inúmeros chifres pregados à parede, logo acima da cabeceira. Desire cobriu os lábios com a mão, esforçando-se para não cair na gargalhada. Não ficaria bem rir de algo que, evidentemente, pertencia à família de Jack há muito tempo. Mesmo que aquilo fosse a coisa mais ridícula... Não pôde mais conter-se. A gargalhada ecoou no aposento empoeirado. Rezando para que Jack compreendesse, arriscou virar-se para fitá-lo. Ele sorria. — Depois de tudo o que passou, é bom vê-la rir. — Desculpe, Jack. Não deveria rir assim. — Por que não? E a coisa mais ridícula que já vi! — Jack pousou o lampião sobre a mesa e afagou-lhe os cabelos. — Sinto muito, querida. Seu irmão... — Eu sei, Jack, não precisa dizer nada — ela o interrompeu depressa. A dor nos olhos dele a assustava. Se ele sentia tanto, como ela podia continuar tão fria? — Não diga nada. — É preciso. Seu irmão foi um bom homem e a amava. Precisa ouvir isto agora. — Não! Ele está morto e tudo está acabado, Jack! — Nada acaba tão facilmente — Jack corrigiu-a, pensando em Júlia e em como Obadiah realmente morrera. — Olhe para mim, Desire. Não pode mudar o que aconteceu, só porque deseja que seja diferente. Desire desviou o olhar. Não discutiria com Jack. Seria razoável. — Não posso mudar o passado, mas posso decidir o meu futuro. Vou à França para falar com o Sr. Monteil, como Obadiah gostaria que eu fizesse. Então, voltarei para casa. E então, tudo estaria definitivamente terminado. — Não pode fazer isso, Desire. — Jack estava decidido a não perdê-la, fosse para Fawcett, para a França, ou para sua própria teimosia. — Muita coisa mudou. Em questão de semanas, dias talvez, seu país vai declarar guerra à França. E não correrei o risco de tê-la lá, como refém. 98


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— Esta é mais uma razão para eu ir. Talvez possa fazer algo para impedir essa guerra. Não sou mais responsabilidade sua, Jack. Sua obrigação para com meu irmão terminou quando ele morreu. — E quanto à minha obrigação para com você? Virei sua vida no avesso, por uma causa inútil. E veja o que você fez com a minha vida! Jack parou de falar, temendo cair na própria armadilha. Nunca se apaixonara daquela maneira. Não fazia idéia do que uma mulher, ou melhor, aquela mulher adorável poderia causar. Arriscara seu navio, seu posto, sua cabeça, tudo o que fora sua vida até então, apenas para tê-la consigo. Agora, só podia pedir a Deus que não houvesse cometido um erro, que ela sentisse o mesmo por ele. Desire fitava-o, esperando que continuasse, os olhos arregalados de agitação. Não, era medo. O mais simples e puro medo. Por que ela o temeria? A menos que houvesse descoberto a verdade. Incapaz de conter a frustração, Jack esmurrou a mesa. Desire não se moveu, nem desviou o olhar. — Desire, por favor, me ouça! Será que não percebe que estou fazendo tudo isto por você, e não por seu irmão? Eu te amo. Acredita em mim? Não é motivo suficiente? Então, puxou-a para si e beijou-a com violência. Desire retribuiu com intensidade nascida do medo. Sem descolar os lábios dos dela, Jack tomou-a nos braços e levou-a para a cama, onde os cabelos negros espalharam-se sobre a colcha vermelha. Ansiosa, ela desabotoou-lhe o casaco e tirou sua camisa para fora da calça para, então, cravar os dedos em suas costas, puxando-o para si com firmeza. Embora o fogo característico da paixão que os unia estivesse presente, a ternura não estava. Os movimentos de Desire eram tão frenéticos quanto os de Jack, ambos desesperados por aquela união. Jack arrancou-lhe a calça masculina e mal teve tempo de abrir a sua, antes de penetrá-la. Descobriu que Desire estava pronta para recebê-lo. E, no momento em que ela enlaçou as pernas em torno de sua cintura, ele soube que jamais haveria no mundo outra mulher para satisfazê-lo. — Eu te amo, Jack — Desire balbuciou com voz trêmula, quando seu corpo estremecia às primeiras ondas de êxtase. Então, Jack também perdeu-se, mergulhando no clímax da paixão, penetrando-a tão profundamente, que os dois se fundiram num só. Perdera-se dentro de Desire, mas o que encontrara nela era infinitamente mais precioso. Exausta e satisfeita, Desire adormeceu, antes que Jack pudesse lhe confessar tais sentimentos. Com um sorriso, Jack amoldou o corpo ao dela e cobriu-a com seu casaco. Logo desceria para trancar a porta. Embora duvidasse que houvessem sido seguidos, não correria nem mais um risco com Desire. Abraçou-a com ternura e sorriu. Poderia escondê-la ali, como um príncipe de conto de fadas, defendê-la do mundo com sua espada. Porém, a maior ameaça à felicidade de ambos não poderia ser destruída pela força. No dia seguinte, se conseguisse reunir a coragem necessária, daria o primeiro passo para libertá-los do passado que tanto ameaçava seu futuro. E, naquela noite, rezaria para que aquele grande amor sobrevivesse.

QUINZE 99


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- Veja, Desire. Aí está Rosewell — Jack anunciou, quando os cavalos emergiram do bosque. Incrédula, Desire observou em silêncio. Como podia um edifício daquelas proporções ser a residência de alguém? Era maior que todas as casas que ela já vira, mais grandiosa que as igrejas que visitara. Construída de pedra cinzenta, a mansão parecia flutuar no mar de grama e arbustos que a cercava. Desire contou sessenta, isso mesmo, sessenta janelas, apenas de um dos lados da casa. — Pelo menos, Creighton cuidou bem do lugar — Jack comentou. — Está exatamente igual ao que me lembro. Venha, vamos entrar. — Não posso, Jack. Não, vestida deste jeito. Ela ainda vestia roupas de homem e tinha os cabelos presos apenas por uma fita vermelha. — Está encantadora — ele falou com um sorrio. — Além do mais, já lhe disse que não deve haver ninguém em casa, além de meia dúzia de criados. E quero encontrá-los tanto quanto você. A menos que Creighton tenha mudado alguma coisa, há várias outras entradas, além do salão de mármore. — Salão de mármore? — Trata-se da entrada principal. Recebeu esse nome porque o chão é feito de mármore. A maioria dos cômodos têm nomes, do contrário, seria impossível mantê-los em ordem. Jack incitou o cavalo adiante e Desire o seguiu relutante. Como ele podia se referir com tamanha naturalidade a uma casa, cujos cômodos tinham nomes, como se fossem cidades? Esconderam os cavalos em meio às árvores do jardim lateral e desmontaram. Jack contou as janelas, ajoelhou-se debaixo de uma delas e afastou o casaco para apanhar uma faca. Desire viu as pistolas que ele levava à cintura, as mesmas que carregava a bordo do Katy. Embora o acontecimento da véspera tornasse as pistolas necessárias, Desire só conseguia pensar no perigo que as armas representavam. Se alguém estivesse mesmo determinado a causar-lhes mal, aquele lugar isolado seria ideal. A quem poderiam pedir ajuda, se precisassem? Olhando os jardins quietos e desertos, sentiu o desconforto crescer. Jack parecia bastante confiante de que não teriam problemas mas, o que ele estava fazendo, usando a faca para abrir uma das janelas, era invasão! — Jack — chamou-o. — Ainda pensa neste lugar como sendo sua casa? — Rosewell? Nunca pensei assim quando morava aqui, e não penso agora. Não se esqueça, querida, de que não passo de um filho mais novo. Se Creighton morresse, antes de ter herdeiros, eu seria obrigado a assumir o título e as propriedades. Mas, como ele está devidamente casado com uma dama insípida, que cumpriu seu dever dando-lhe três filhos, não tenho a menor esperança. Ah, pronto! Vinte anos depois, os trincos continuam os mesmos! — A janela se abriu e Jack estendeu-lhe a mão. — Venha, querida. Prometo que o passeio será tão interessante, quanto uma visita à Torre de Londres. — Não sei se devemos entrar na casa de seu irmão, Jack — ela protestou hesitante. 100


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— Não deveríamos. Creighton sabe que recebi ordens de jamais colocar meus pés aqui, e é mesquinho o bastante, para me levar a julgamento por invasão. Mas há umas coisas que eu gostaria de lhe mostrar. Por favor, Desire. Faça isso por mim. O tom incerto e vulnerável na voz dele foi irresistível. Incapaz de recusar, Desire entrou. Assim que seus olhos se acostumaram à penumbra, divisou quadros nas paredes, retratando mulheres nos mais diversos trajes, inclusive os de trezentos anos antes. — Este é o salão da beleza — Jack explicou —, em homenagem às mulheres do passado e do presente. E como se nenhum Herendon se casasse com uma mulher feia e, em contrapartida, nenhuma mulher da família se atrevesse a nascer feia. Mas, ali está a pouco dotada lady Strathaven, esposa de Creighton. Nem mesmo os melhores pintores poderiam fazer muito por ela. Desire ia concordar, mas Jack já se colocara diante de outro retrato. — Ora, eu não imaginava vê-la aqui! Pensei que meu pai havia retirado este quadro. Querida, esta é minha mãe. Desire aproximou-se do retrato da mulher lindíssima, que possuía os mesmos cabelos castanhos e olhos azuis de Jack. — É muito bonita — elogiou. — É o que dizem. Não cheguei a conhecê-la. — Também mal me lembro de minha mãe — Desire comentou com tristeza. — Ela morreu logo após o parto de Obadiah, quando eu tinha três anos. — Mas minha mãe não morreu. Pelo menos, que eu saiba. Quando era criança, a ama disse que minha mãe fora à Itália para cuidar de sua saúde. Muitos anos depois, descobri que ela nos abandonara, por um amante napolitano. Considerando-se o tipo de homem que era meu pai, não posso culpá-la. Mas Júlia e eu costumávamos imaginar como teria sido nossa vida, se ela houvesse nos levado consigo. — Jack, eu lamento... — Não lamente, pois ela não lamentou — ele falou com fingida tranqüilidade. Ansiosa para mudar de assunto, Desire olhou em volta. — Onde está Júlia? — perguntou. — Com certeza, está aqui. — Não. Embora a resposta se constituísse de uma única e simples palavra, Desire pressentiu que havia muito mais para ser dito. — Acho que deveríamos ir andando. Alguém pode notar os cavalos. — Ainda não. A excursão mal começou. Jack levou Desire a diversos cômodos, explicando peças de mobília, reconhecendo todas as alterações, sem apreciar nenhuma delas. Era impressionante que se lembrasse de tantos detalhes, depois de vinte anos. Desire imaginou o garotinho morto de saudades de casa, repassando cada imagem na memória, todas as noites antes de dormir. Apesar de tudo isso, Jack pertencia àquele mundo tanto quanto Desire. O Aurora é o mar eram o verdadeiro lar de Jack, assim como sempre fora para os Sparhawk. E, quanto ao título, "capitão" possuía um significado bem maior do que "lorde", para ele. Quando entraram no último cômodo do corredor, Jack abriu as cortinas do quarto menor que os demais. A vista daquele lado era magnífica, com quilômetros de campos e um lago adiante. Enquanto Desire apreciava a vista, Jack retirou o pano que cobria a harpa, sentou-se no banco e pôs-se a tocar o primeiro movimento de uma sonata de Mozart. 101


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Deliciada, Desire virou-se e ouviu até o final, quando ele sorriu, exibindo pela primeira vez um traço de felicidade, desde que pusera os pés naquela casa. — Toca harpa tão bem quanto toca flauta — Desire elogiou-o. — A flauta é mais adequada ao Aurora. Uma harpa desintegraria com a umidade. Imagine o que lorde Howe diria, se eu acrescentasse um afinador à minha tripulação! — Poderia afixar cartazes em todos os portos: "Procura-se marinheiro de bom coração e ouvido perfeito"! — Harcourt ficaria mais furioso que lorde Howe — Jack calculou. — Teria mais uma peça de mobília para cuidar na sagrada cabine do capitão lorde John Herendon. Os dois riram. — Pouco me importa o que Harcourt diz — Desire afirmou —, mas você tem tanto talento para a música, como para... outras artes, digamos. — Herança de minha mãe. Dizem que é muito talentosa em ambas as áreas. — Antes que Desire pudesse dizer qualquer coisa, Jack virou-se e apontou para a parede. — Aí está Júlia. O pintor quase enlouqueceu para conseguir fazê-la ficar sentada. A garota era jovem, pouco mais que uma criança, usando um vestido simples de linho branco, os cabelos soltos até a cintura. Mas, embora fosse linda, Desire logo reparou no garoto a seu lado. Um ou dois anos mais novo, ele também apresentava-se vestido de branco e, na mão estendida, segurava uma rosa. O olhar que lançava para a menina era de total adoração. — É você, não é, Jack? — Desire inquiriu. — Estou surpreso que meu pai não tenha se livrado do quadro. Talvez, tenha pensado no quanto lhe custou e decidido que valeria mais a pena ver meu rosto, a desfalcar seu patrimônio. — Com um sorriso terno, acrescentou: — Mas, para ver Júlia de novo, cada centavo foi bem gasto., — Não há nenhum retrato dela crescida? Deve ter ficado ainda mais bonita que sua mãe. — Este foi o último. Com estas palavras, Jack caminhou até a janela e pôs-se a observar o lago. Manteve as pernas afastadas e as mãos às costas, como fazia a bordo do Aurora. Porém, sua postura exibia uma tensão que Desire jamais notara no mar. Tinha de contar a ela. Jamais contara a ninguém, mas Desire precisava saber para que pudesse compreendê-lo. Ela o amava e o compreenderia. Não o culparia, como os outros haviam feito. Mas não era fácil. Ali, sentia-se de volta aos dez anos. — Este foi o último retrato de Júlia, porque ela morreu naquele verão, afogada no lago. — Como aconteceu? — Desire perguntou em voz baixa. Jack não respondeu de imediato, pois perdeu-se em lembranças. Ele a seguiria a qualquer lugar, faria o que ela quisesse. Brincariam de piratas ao luar. Júlia planejara toda a aventura. — Vamos zarpar! — Júlia ordenou, empunhando uma espada de madeira. — Sim, capitão. — Jack obedeceu, empurrando o barquinho para o meio do lago. Jack remou no ritmo que seu tutor o ensinara. Não deveriam sair de barco sozinhos, mas ele tinha dez anos e Júlia, doze. Eram crescidos demais para dar atenção àquelas regras infantis. Olhando por cima do ombro, Jack sorriu com escárnio. Que os 102


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adultos se ocupassem com suas fantasias, enquanto ele e a irmã procuravam pelo tesouro. Júlia desenhara uma caveira num pedaço de pano e o amarrara ao um galho seco, a fim de usá-lo como bandeira. — Vamos, marujo! Trate de apressar, ou nunca chegaremos ao tesouro! — gritou. — Estou fazendo o melhor que posso, Júlia — Jack respondeu ofegante. — Se acha tão fácil remar, pode ser o marujo e eu, o capitão. — Nem pensar! A bandeira caiu na água e Júlia debruçou-se para apanhá-la. Um dos remos enroscou-se na vegetação aquática e o barco oscilou. — Droga! — Jack praguejou, cuidando de desenroscar o remo. Quando voltou a erguer os olhos, Júlia desaparecera. — Júlia? Júlia, onde está você? — Saímos de barco à noite e ela caiu. Sabia nadar, portanto, deve ter batido a cabeça na quilha, ou eu mesmo a atingi com o remo. De um modo ou de outro, foi minha culpa. — Mas você não passava de uma criança! — Desire protestou, lembrando-se de Obadiah com a moeda na ponte. Se os marinheiros não estivessem por. perto, aquela brincadeira também poderia ter terminado em tragédia. — Não pode se culpar pelo que aconteceu. Podia ter morrido no lugar dela. — Mas não morri — ele falou com a voz tensa pela culpa que ainda carregava —, e Deus sabe que meu pai teria preferido assim. Depois que os jardineiros retiraram o corpo de Júlia do lago, o marquês arrastou Jack para a biblioteca. Embora o menino se esforçasse para manter-se ereto, como fora ensinado, não conseguia parar de chorar. — Seu maldito bastardo! — o pai gritou e esbofeteou-o com tamanha força, que o derrubou. —Você a matou! Matou a minha preciosa e adorada Júlia! Quando o pai começou a chutá-lo, Jack encolheu-se, sem conter os soluços. — Foi por isso que seu pai o mandou para o mar? — Desire inquiriu horrorizada. — Para puni-lo por algo que não foi sua culpa? — Quer ser marinheiro, não quer? Pois é o que será! — o pai rugiu. — Nunca mais voltará a por os pés nesta casa. Vou mandá-lo para o mar mais distante e sombrio e espero que apodreça no fundo do oceano, pelo que fez esta noite. — Mas foi minha culpa! — Jack corrigiu-a. — Se eu tivesse manejado melhor os remos... — Jack, você só tinha dez anos! — Desire aproximou-se e abraçou-o, pousando a cabeça em suas costas. — Amava sua irmã e jamais faria qualquer coisa para feri-la. Não é de admirar que tenha sido tão bom para mim, na questão que envolveu Obadiah. Passou pela mesma coisa. Amava Júlia da mesma maneira que eu amava Obadiah. Agora, ambos estão mortos, mas não foi nossa culpa. Incapaz de suportar o peso da emoção, Jack abaixou a cabeça. — Foi um acidente, Desire. Eu juro. Não pensei que fosse terminar daquele jeito. Mas Desire não ouviu. Em sua simpatia pelos sentimentos de Jack, fora atingida pela realidade da morte de Obadiah pela primeira vez. — Ele morreu, não é, Jack? — murmurou com voz rouca. — Obadiah está morto. A frieza que imperara até então rompeu-se e Desire sucumbiu aos soluços e as lágrimas. Obadiah estava morto e ela jamais voltaria a vê-lo. 103


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Jack virou-se e abraçou-a, afagando-lhe os cabelos e murmurando palavras de conforto. Tentou não pensar na ironia de ter dito inadvertidamente a verdade sobre a morte de Obadiah, sem que ela o ouvisse. Ainda assim, sentiu uma nova luz iluminar-lhe a alma. Desire tinha razão. Amara Júlia demais para lhe desejar qualquer mal. Como poderia ser culpado pela morte dela? Desde que Júlia morrera, Jack não falara com mais ninguém a respeito. As únicas palavras que ouvira haviam sido as acusações do pai. Mas, por amá-lo, Desire o compreendera e lhe oferecera a absolvição que ele esperara por vinte anos. Ah, e ele a amava ainda mais por isso! Notando que os soluços começavam a ceder, segurou-lhe o queixo e beijou-a de leve na boca. — Vamos, meu amor. Está na hora de deixarmos Rosewell. — Nunca mais quero ir embora daqui — Desire murmurou sonolenta, nos braços de Jack, na quinta noite. — Por mim, pode ficar aqui para sempre, se quiser — Jack respondeu com um sorriso, sabendo que ela mergulhava num sono profundo. Sabia, também, que sua resposta não correspondia inteiramente à realidade. Por melhor que fosse viver ali, escondidos, comendo queijo, pão e vinho diante da lareira, e fazendo amor sempre que quisessem, o mundo não tardaria a chamá-los de volta. Ele deixara Connor encarregado de supervisionar os reparos no Aurora e mandara um bilhete vago, sobre assuntos pessoais a tratar no interior, a lorde Howe. Não seria sensato abusar da boa vontade do almirante. Teriam de retornar a Portsmouth em breve e ele daria tudo para saber o que lhes aconteceria depois. Ainda assim, não lamentava sequer um instante passado ao lado de Desire. Os laços que os uniam haviam se tornado mais fortes e profundos nos últimos dias. E Jack jamais se sentira tão feliz e em paz. Olhou para os chifres que ornavam a cabeceira da cama e sorriu. Mais uma vez, decepcionara seus ancestrais e envergonhara o nome da família. Afinal, era o primeiro deles a levar para aquela cama uma mulher que amasse. O fogo morria na lareira, quando Jack mergulhou num sono profundo, ainda apertando Desire contra si. Juntos, dormiram pacificamente, ignorando os sons produzidos pelos cavalos amarrados diante da casa, da chave girando na fechadura da porta de entrada, das vozes sussurradas no andar térreo. Só acordaram quando ouviram os passos na escada e, então, já era tarde demais. Jack ergueu-se para apanhar a pistola, mas petrificou-se ao ouvir o clique da arma apontada contra sua cabeça. Devagar, voltou a deitar-se ao lado de Desire, que segurava o lençol junto ao queixo, com olhos arregalados de horror. Seis homens entraram no quarto. O que segurava o lampião devia ser o caseiro de Rosewell, que possuía a segunda chave. Atrás dele, encontrava-se Fawcett, com expressão rígida, porém triunfante. Estava acompanhado por três marinheiros, o que só podia significar que Jack seria preso e enfrentaria a corte marcial, em Portsmouth. Mas foi o quinto homem quem mais preocupou Jack. Era ele quem mantinha a pistola apontada para sua cabeça e, pelo ódio em seus olhos verdes, era evidente que atiraria sem piedade. Era tão alto e tão forte quanto Jack e tinha os cabelos negros soltos, caindo sobre os ombros largos. Embora nunca o tivesse visto, Jack não teve a menor dúvida sobre sua identidade. Naquele irmão, os traços da família eram inconfundíveis. — Vista-se, Desire — ordenou Jeremiah Sparhawk —, antes que eu mate seu amante diante de seus olhos. 104


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DEZESSEIS

- Atravessei o Atlântico atrás de você - Jeremiah disse a Desire, na manhã seguinte, em Portsmouth. — Fiz o que podia para salvar sua reputação, gastei uma fortuna para obter uma licença especial para que pudesse se casar sem esperar pelos proclamas e, nem por uma vez, você me agradeceu. Desire fitou-o furiosa, através da mesa na sala de jantar de Minnie, onde haviam sido deixado a sós para conversar. — Talvez eu não esteja me sentindo tão grata por sua ajuda. — Pois deveria estar! No momento em que pus os pés em Providence, a cidade toda falava sobre sua partida com um lorde inglês. Minha irmã! Até vovó tinha uma história absurda para contar, sobre Obadiah ser espião e Colin Macaffery viajando como seu acompanhante. Um homem jamais espera encontrar uma situação como essa, ao voltar para casa. — Ainda não sabe, Jere? — Desire falou com lágrimas nos olhos. — Obadiah está morto. Foi ferido quando os ingleses atacaram o navio francês em que ele se encontrava. Jeremiah parou de andar de um lado para o outro e encarou-a. — Morto? — Sim. Morreu antes de eu chegar aqui. — Meu Deus... — Jeremiah sentou-se numa cadeira e permaneceu um longo tempo em silêncio, olhando para o chão. Sem a fúria que o dominara desde a noite anterior, ele parecia mais velho do que Desire se lembrava. As linhas em torno de sua boca haviam se aprofundado e diversos fios brancos entremeavam-se aos cabelos negros. — Tentei ajudá-lo — Desire continuou —, mas não cheguei a tempo. — Assim como eu — ele suspirou e esfregou os olhos. — E, agora, você vai se casar com um dos malditos ingleses que o mataram! — Não pode afirmar uma coisas dessas! Ele pode ter sido ferido por um francês! — Mas foram os ingleses que o deixaram morrer. Nunca pensei que ouviria minha irmã defender um inglês. Mas, também, nunca me ocorreu encontrá-la nua, na cama, com um deles. — Não comece com essa história de novo, Jeremiah! Já lhe disse que Jack é diferente. Era amigo de Obadiah. — Nosso irmão nunca foi bom no julgamento do valor dos homens — Jeremiah falou com frieza. — Não pense que farei amizade com o seu lordezinho, só porque Obadiah gostava dele. Se ele não fosse entrar para a família, eu o mataria aqui e agora, e livraria o mundo de mais um de sua laia. — Eu não disse que vou me casar com ele, Jere. Ao menos, não desse jeito. — Ah, vai sim, nem que eu tenha de fazer os votos em seu lugar. Já fez sua viagem de lua-de-mel ao campo e já está mais do que na hora de ter um marido. — Mas, Jere... 105


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— Vai me ouvir, irmãzinha. O almirante Howe está tão descontente com a situação, quanto eu. Herendon estaria enfrentando uma corte marcial, se eu não houvesse insistido em que ele deveria se casar com você amanhã. — Amanhã! — Sim, amanhã. Portanto, a decisão é sua, Desire. Ou se casa com ele, continua sendo uma Sparhawk e Herendon mantém seu cargo e sua carreira, ou não se casa e os dois terão de assumir as conseqüências por si mesmos. — Está me chantageando, Jere! — Estou, mas prefiro ser chamado de chantagista a ouvir os outros chamarem minha irmã de coisa pior, caso você não se case com aquele sujeito. Desire cobriu o rosto com as mãos. Mal podia acreditar que seu irmão estivesse mesmo agindo daquela maneira. Amava Jack e ele a amava, mas nunca haviam feito promessas de futuro um ao outro. Por menos que soubesse a respeito das normas da Marinha Britânica, duvidava que um simples envolvimento com uma mulher solteira pudesse colocar a carreira de Jack em perigo. Mesmo que o tal almirante Howe fosse o mais rígido dos homens. Afinal, Minnie lhe contara que fora amante de Jack, abertamente, durante dois anos. Havia algo mais naquela história, que ela não compreendia. E não estava certa de que queria compreender. Um pensamento pior cruzou-lhe a mente. O que aconteceria se Jack acreditasse que ela pedira a Jeremiah para forçá-lo a casar-se? Ele a acusara uma vez. Pediu a Deus que o amor de Jack fosse forte o bastante para que ele confiasse nela. Embora não fosse mais uma menina, só se casaria se fosse por amor. Não queria um marido que a desposasse, apenas por ter uma arma apontada para sua cabeça. Ergueu a cabeça devagar e falou com voz controlada e tom razoável. — Quer que eu me case amanhã, mas não será possível. Preciso ir à França, para encontrar Gideon de Monteil. — Monteil? — ele repetiu confuso. — O mercador de vinhos? Não encerramos nossos negócios com ele há cinco anos? Além do mais, o que vai fazer naquela terra, justamente agora? -Pode acabar morta, numa guerra que nem é sua! Desire endireitou-se na cadeira, sentindo a confiança crescer. Jeremiah respeitava seu tino comercial e, se ela conseguisse mantê-lo concentrado nisso, em vez da lembrança dela com Jack na cama, acabaria encontrando um meio de escapar daquele casamento ridículo. — Ele é muito mais que um mercador de vinhos, conforme Obadiah descobriu... — Escute, Desire, sabe muito bem que não costumo concordar com o que Obadiah faz... —Jeremiah interrompeu-se e suspirou, antes de continuar em voz mais baixa: — Com o que Obadiah fazia. Mas não preciso dizer que o pobre garoto nunca foi muito bom nos negócios. — Não se tratava de negócios. Ao menos, não da maneira como o Sr. Macaffery me explicou. — Macaffery! Ah, como eu gostaria de trocar umas palavrinhas com ele! Vovó me disse que ele cuidaria de você durante a viagem, e ainda não vi o menor sinal dele, em Portsmouth. — Deve estar hospedado em algum lugar na cidade. Ele e Jack não simpatizam um com o outro. — Talvez ele seja melhor do que parece. 106


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— Jere, pare com isso e me ouça. — Desire resumiu tudo o que o advogado lhe contara sobre as atividades de Obadiah e sua ligação com Monteil. — Compreende agora por que devo ir à França? — Ora, Desire! E você acreditou? Pense um pouco. É verdade que Monteil foi amigo de papai, mas por que daria ouvidos a Obadiah, ou a você? Somos comerciantes, não políticos. O que sabemos sobre como os países fazem guerra ou paz? — Lembro-me sempre de papai, Jere. E sei que o preço de uma guerra seria alto demais para o nosso país. — Não posso permitir que vá a um país maluco como a França, que já se encontra em guerra. E arriscado demais. Macaffery não deveria ter lhe contado nada disso, nem muito menos, usado sua simpatia por Obadiah para convencê-la. — Jere, se considerar... — Já tomei minha decisão, Desire. Não adianta insistir. Você não vai à França, nem a lugar algum. Vai ficar aqui e casar com John Herendon. Trate de garantir que o bastardo que já pode estar crescendo em seu ventre não receba o nome dos Sparhawk e deixe os assuntos de guerra e paz para os diplomatas e políticos. Jeremiah levantou-se para partir. - Amanhã, às onze horas. O almirante Howe garantiu que seu noivo estará lá e a adorável lady Fairfield concordou em hospedá-la aqui. Desire ficou sentada, de olhos fechados, tentando compreender o seu destino. Jeremiah inclinou-se para beijá-la no rosto. — Sinto muito, Dês. Também não foi esta a minha escolha, mas temos de fazer o melhor possível. Tenho certeza de que fará isso por nós, pois não é do seu feitio agir de maneira diferente. Desire, porém, não tinha a mesma certeza. Protegendo os olhos com a mão, Jack inspecionava o trabalho feito no mastro principal do Aurora, ao mesmo tempo em que ignorava Connor a seu lado. Como não podia dirigir-se ao capitão sem a devida autorização, o mais jovem não parava de tossir e limpar a garganta, na tentativa de chamar a atenção de Jack. — Tem algum comentário a fazer, Sr. Connor? — Jack perguntou, sem olhar para ele. — Nenhum comentário em particular, senhor, mas há rumores... Jack dirigiu-lhe um olhar duro, fazendo-o corar. — Rumores espalhados por Harcourt? — Bem, sim, senhor. Se o que Harcourt diz é verdade, toda a tripulação gostaria de desejar-lhe, e à sua noiva, toda felicidade e prosperidade. Jack suspirou, imaginando o quanto Harcourt teria enfeitado o pouco que sabia, ou seja, que o capitão precisaria de seu uniforme de gala para uma cerimônia em terra, no dia seguinte. — Agradeça a tripulação por mim, Sr. Connor, e diga-lhes que transmitirei seus cumprimentos à Srta. Sparhawk. Connor assentiu. — Gostaríamos de convidá-lo para jantar conosco, senhor. Seria seu último jantar de solteiro... — Agradeço o convite, Sr. Connor, mas esta noite vou preferir retirar-me mais cedo para os meus aposentos. 107


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Jack notou o brilho no olhar do tenente e imaginou que todos acreditariam que ele passaria a noite comendo ostras e ovos, a fim de se fortificar para a noite de núpcias. — Está bem, senhor. Quem sabe, possamos jantar em outra ocasião, em companhia de sua esposa. Com estas palavras, Connor retirou-se, deixando Jack sozinho para observar o mastro e refletir como, em tão pouco tempo, teria uma esposa. Disse a si mesmo que deveria estar feliz. Graças a Desire, recebera apenas uma advertência pela desobediência de suas ordens e não fora punido como merecia. Não haveria corte marcial, uma vez que lorde Howe não queria escândalos. O almirante fora claro ao afirmar que só queria ver os nomes de seus capitães nos jornais devido a seus feitos heróicos, e não por fofocas de alcova. Também fora claro em suas ordens para que Jack se casasse o mais rápido possível com a americana e pusesse um fim aos comentários maldosos. Dissera, também, que Jack não deveria tardar em voltar ao mar para fazer o que nenhum outro capitão de fragata era capaz. Assim, em vez da reprimenda que havia esperado, Jack recebeu elogios, ordens razoáveis e a promessa do almirante em comparecer ao seu casamento. Seu casamento... Por que a palavra carregava tamanho peso? Não era por Desire, pois não haveria no mundo mulher mais perfeita. Era bonita e bem educada, uma companhia adorável e amante apaixonada, espirituosa e honesta, inteligente e corajosa, como poucas mulheres podiam ser. Deixava o vento agitar-lhe os cabelos e a água salgada molhar seu vestido, sem importar-se. E nem mesmo enjoava em alto mar. Ela não era uma das dondocas mimadas que lhe haviam sido oferecidas em casamento. Além disso, com a fortuna que possuía, Jack estava certo de que Desire não estava interessada em seu dinheiro nem, muito menos, em seu título. Não. Quando Desire dizia que o amava, Jack sabia que ela dizia a mais pura verdade, que o amava pelo que ele era. De sua parte, Jack a amava com intensidade assustadora. Com ela, encontrara paz e felicidade e já nem era capaz de imaginar sua vida sem ela. Casar-se com Desire o faria ainda mais feliz. Queria aquela felicidade mais que tudo e, por isso, na manhã seguinte, se casaria com Desire Sparhawk. Daria seu nome a ela e a seu filho, se houvesse um. Agradaria o irmão dela, seu almirante e, acima de tudo, a si mesmo. E tentaria não pensar no que aconteceria ao amor e à confiança de sua nova esposa, caso ela viesse a descobrir que ele matara seu querido irmão mais novo. — Ah, madame Lebeau, está magnífico! — Minnie exclamou, dando voltas em torno de Desire. Desire, por sua vez, examinava a própria imagem refletida no espelho, enquanto madame Lebeau ajustava uma das mangas. Então, aquele seria seu vestido de noiva: um moderno traje em seda branca finíssima, com uma capa branca e azul que descia dos ombros ao chão. A cintura alta e o decote profundo acentuavam-lhe a curva dos seios mais do que qualquer outro vestido que já usara. Nenhuma noiva de Providence sequer sonharia em usar um vestido tão ousado para uma cerimônia de casamento. Mas Desire se casaria na casa de Minnie, sem amigos ou parentes por perto, exceto Jeremiah. Ah, como gostaria que a avó estivesse ali! Passou a mão pelo vestido e pensou que, como esposa do capitão lorde John Herendon, teria de se vestir daquela maneira todos os dias, como Minnie fazia. Sem perceber, apertou o tecido entre os dedos. — Oh, senhorita, cuidado! — protestou a costureira. — Não deve tocar no vestido sem luvas. Esta seda é muito delicada. 108


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Minnie revirou os olhos. — Não dê ouvidos a ela. Este é o seu vestido de casamento e você e seu marido podem fazer o que bem entenderem com ele. E é só o primeiro de muitos. Jack gosta de mulheres bem vestidas e é muito generoso. Vai deixá-la ter tudo o que desejar. Desire não respondeu. Sua infelicidade crescia. A idéia de um marido deixá-la ter o que quisesse não a agradava. Não estava habituada a dar satisfações sobre o que vestia ou quanto gastava, pois não dependia da generosidade de ninguém. Minnie pôs-se na ponta dos pés e ergueu os cabelos de Desire. — Por que não corta a parte da frente, para que os cachos enfeitem seu rosto? Poderíamos colocar algumas plumas brancas aqui e... O que é, Molly? A criada sussurrou algo no ouvido de Minnie e entregou-lhe uma caixa, antes de se retirar. Com um sorriso exultante, Minnie estendeu a caixa para Desire. — Eu disse que ele é generoso! Abra logo, Desire. Estas caixinhas costumam conter os melhores presentes. Com dedos trêmulos, Desire abriu a caixa e deparou com uma gargantilha de safiras, cada uma envolta por uma fileira de diamantes. A grandiosidade do presente deixou-a sem fala, ao contrário de Minnie. — Que coisa maravilhosa! E que sorte ele ter escolhido safiras! Vão combinar com os detalhes azuis do vestido! Ah, Jack sabe como agradar uma mulher! Ainda trêmula, Desire abriu o cartão que acompanhava o presente. "Minha querida Desire, Finalmente coloco em palavras a pergunta que meu coração vem fazendo há tempos. Quer me dar à honra de se tornar minha esposa, meu amor, minha vida? Sempre seu, H." Os olhos de Desire encheram-se de lágrimas. As safiras nada significavam se comparadas àquela simples pergunta. Ah, tudo acontecera tão cedo, tão depressa. — Podem nos dar licença? — Minnie dirigiu-se à costureira e sua assistente, levando-as à porta do quarto. — A Srta. Sparhawk está cansada e, como qualquer noiva, também está nervosa. Depois de expulsar as duas, Minnie levou Desire até o sofá e deu-lhe um lenço. — Está assim porque se sente incerta, não é? — Minha vida é só incerteza, Minnie! — Desire respondeu aos prantos. — Isto não vai dar certo. Jack e eu somos muito diferentes, de mundos diferentes. Como poderemos viver casados? — Diferentes? — Minnie repetiu com ceticismo. —Eu diria que vocês são farinha do mesmo saco! — Mas, Minnie... — Desire, nada nesta vida é certo, exceto que um dia teremos de partir. Mas Jack Herendon te ama tanto, que chega a dar inveja. Se não se casar com ele e puser um fim à infelicidade dos dois, então você não é a mulher que parece ser e tem uma pedra no lugar do coração! — Nunca em minha vida fui tão feliz, quanto nos momentos que passei ao lado de Jack. Mas, quando ele partir no Aurora, vai me deixar para trás. E vou morrer de preocupação. Amo-o tanto, que não posso sequer pensar em perdê-lo!

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— Então, vá com ele! Pense nos lugares que visitarão juntos! Quanto ao perigo, alguns nascem com sorte e outros, sem ela. O seu Jack parecer ter recebido dose dupla. Daqui a cinqüenta anos, ele vai morrer em casa, um almirante velho e gordo. Apesar de tudo, Desire sorriu ao imaginá-lo velho e gordo. — Gostaria que tivéssemos mais tempo. Tudo aconteceu tão depressa. — Tempo para quê? — Minnie inquiriu zombeteira. — Devia agradecer seu irmão, embora os métodos dele sejam um tanto rudes, por ter trazido você e Jack de volta. Jeremiah tem razão quanto à possibilidade de uma criança. Aposto que você não tomou nenhuma precaução para evitar a gravidez. Desire corou. — Eu não sabia que isso era possível. — Mais uma razão para deixar de ser amante de Jack e tornar-se sua esposa. Pare de inventar desculpas e confie em seu coração. Não fazia tanto tempo que sua avó lhe dera o mesmo conselho, pensou Desire. Mariah gostaria de Jack, não só por ele ser alto e bonito e porque a faria rir, mas porque ele sabia como ser forte e gentil, ao mesmo tempo, como fora seu marido. E ainda havia a possibilidade dele lhe dar bisnetos. Desire sorriu ao imaginar-se com o filho de Jack nos braços. Se o amava o bastante para isso, então seu amor também seria forte o bastante para superar qualquer dúvida que ela pudesse ter. Sim, ela o amava demais. Releu o cartão. Jack queria que ela fosse sua esposa, seu amor, sua vida. Como poderia recusar o que ela mesma mais queria na vida? — Ah, Minnie! — Num gesto súbito, Desire abraçou a nova amiga. — Obrigada por tudo! — Faça Jack Herendon feliz e me sentirei mais que recompensada — Minnie declarou, desvencilhando-se do abraço para atender a batida na porta. — O que foi, Marcus? — Um cavalheiro americano chamado Macaffery desejava ver a Srta. Sparhawk, madame — informou o mordomo. — Macaffery! — Desire repetiu. Esperara que ele aparecesse antes. Por que agora, num momento tão delicado? — Sim, senhorita. Está acompanhado por dois ingleses, eu acho, de classe inferior. E, também, há uma criança com eles. Minnie segurou a mão de Desire, ao perceber sua agitação. — Não precisa recebê-los. Marcus é muito eficiente para livrar-se de visitantes inconvenientes. — Não. Preciso falar com ele. — Por um momento, Desire considerou a possibilidade de esperar por Jeremiah, mas concluiu que estaria sendo covarde se o fizesse. Enfrentaria Macaffery e lhe diria que estava farta dele e de suas exigências. Obadiah estava morto, Jeremiah sabia o pior sobre ela e Jack seria seu marido em poucas horas. Que ameaça ele poderia lhe fazer? — Diga a ele que o receberei. — Tem certeza, Desire? — Minnie perguntou preocupada. — Não seria melhor esperar por Jack, ou seu irmão? — Não, Minnie — ela respondeu com firmeza, levantando-se para trocar de roupa. — Este é um assunto que terei de resolver eu mesma.

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DEZESSETE

Desire abriu a porta da sala de visitas de Minnie com segurança, mas parou confusa ao deparar com Samuel e Mary Clegg, parados ao lado de Macaffery. Perturbado pelo barulho, o bebê tentou erguer a cabeça e Desire notou que ele usava a touca que ela tricotara. Sorriu e estendeu os braços para segurá-lo mas, para sua surpresa Mary não lhe devolveu o sorriso, nem lhe ofereceu o bebê. — A Srta está muito bem vestida para segurá-lo — Mary falou, mantendo os olhos no chão. — E você não deve ter muito tempo a perder, Desire — disse Macaffery —, pois deve estar ocupada com os preparativos para o casamento, amanhã. Meus cumprimentos, minha querida. Macaffery adiantou-se e beijou-a no rosto. Os Clegg observaram em silêncio, evidentemente contrariados e infelizes. — Sentem-se, por favor — Desire convidou, na tentativa de deixá-los mais à vontade. — Gostariam de tomar chá? — Vejo que já assumiu seu papel de grande dama, Desire — Macaffery comentou. — O papel lhe cai muito bem, mas não vamos abusar de sua hospitalidade. O que temos a dizer não vai demorar. Desire assentiu, aflita por não saber o que a esperava. — Fiz esta viagem com um propósito — Macaffery começou —, que ao contrário de você, eu não me esqueci. Enquanto você se divertia com seu amante no campo, continuei minhas buscas por Obadiah. — Não era necessário — Desire falou em voz baixa. — O capitão Herendon descobriu que Obadiah morreu na prisão, antes de nossa partida de Providence, devido aos ferimentos que recebeu durante o ataque à embarcação francesa na qual viajava. Macaffery franziu o cenho. — Curioso... A história que ouvi aqui, em Portsmouth, é um tanto diferente. — Diferente? — Para começar, não há qualquer prisão em Portsmouth. Existem navios velhos, ancorados no porto, onde são mantidos prisioneiros franceses. Não existem prisioneiros americanos. — Talvez eu tenha entendido mal — Desire falou devagar. — Não estou certa se Jack disse Portsmouth ou Londres. — Ora, isso explicaria tudo — Macaffery falou com um sorriso maligno. — É fácil cometer enganos, quando se está desesperado. Por exemplo, pensei que você havia me contado que o capitão Herendon era um grande amigo de Obadiah, da época em que haviam se conhecido no Caribe. Tanto, que arriscou a carreira para ajudá-lo. Desire assentiu. — Sim, foi o que Jack me contou. — Talvez se interesse em saber que o seu querido capitão esteve no Caribe de mil setecentos e setenta e oito a mil setecentos e oitenta e um. Segundo os registros da Marinha, nunca mais voltou lá. Não é estranho que ele fizesse uma amizade tão 111


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duradoura com um garoto que tivesse entre quatro e sete anos de idade? E, para ser franco, não compreendo como sua avó permitiu que Obadiah navegasse ao Caribe em tão tenra idade. — Jack deve ter estado lá em outra ocasião, por conta própria! — Herendon só se manteve afastado da Marinha de noventa a noventa e dois, quando se encontrava ocupado com uma jovem atriz que tomara como amante. Não revelarei o nome da tal senhora, mas aposto que ela poderia jurar que Herendon não viajou ao Caribe durante esses dois anos. Ora, ele falava de Minnie, que havia lhe contado a mesma história. Desire lutou contra o pânico que ameaçava dominá-la, mas suas dúvidas cresciam e se multiplicavam. Jack sempre fora vago quanto ao modo como se tornara amigo de Obadiah. Lembrou-se de quando ele mencionara sua semelhança física com o irmão e, depois, encerrara o assunto com uma desculpa qualquer, que ela aceitara com imensa facilidade... porque já o amava, então. — Não estou dizendo que seu noivo seja um mentiroso — Macaffery continuou. — Obadiah encontrou-se com Gideon de Monteil em Calais e embarcou num navio francês de contrabando para retornar à Inglaterra. O capitão francês cometeu o erro de tentar escapar à abordagem de uma fragata britânica. Um único tiro o fez mudar de idéia, bem como o destino do pobre Obadiah. — Uma fragata inglesa — Desire repetiu com voz distante. — Qual o nome da fragata? — O fato foi noticiado em todos os jornais. O capitão foi muito elogiado por ter obtido tamanha riqueza, sem derramar uma única gota de sangue inglês. Tornou-se ainda mais rico do que já era. Rico o bastante para comprar gargantilhas de safiras e diamantes e para presentear mulheres apaixonadas com vestidos da mais pura seda, pensou Desire desesperada. — Houve vários mortos no navio francês, marujos e um passageiro. Mas, sendo estrangeiros, não despertaram o interesse da imprensa inglesa. — O nome da fragata, Sr. Macaffery! — Ora, Desire, imaginei que a esta altura, você já tivesse adivinhado. — Não! — ela sacudiu a cabeça com veemência. — Como ele poderia saber tanto sobre mim e minha família, se não conhecesse Obadiah? Jack tinha em seu poder a moeda da sorte de Obadiah, bem como uma carta escrita por meu irmão. Não posso acreditar no que está dizendo, Sr. Macaffery. — Ah, minha querida, eu temia que não fosse aceitar a verdade contada por mim. Foi por isso que eu trouxe o Sr. Clegg comigo. Desire virou-se para os Clegg. — É verdade? Sam assentiu. — Sinto muito, senhorita, mas quando o Sr. Macaffery começou a fazer perguntas, tudo veio à tona e eu não podia ficar quieto. — Principalmente, depois de saber que a senhorita ia se casar com ele — Mary interferiu. — O capitão Herendon é um grande homem, mas a senhorita precisava saber a verdade, antes de se casar. — Quero ouvir tudo — Desire ordenou. Sam respirou fundo. — Lançamos um tiro de advertência contra o navio francês, mas os três homens que observavam o Aurora foram atingidos. Quando fomos ao navio, o capitão nos 112


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acompanhou. Fomos rindo, pois sabíamos que o prêmio valeria a pena. Mas o capitão deixou de rir no instante em que viu os homens mortos. O que ele queria encontrar, um rapaz jovem e claro, foi o que ficou em pior estado... desculpe, senhorita! Com esforço supremo, Desire conteve as lágrimas. Não queria ouvir mais, mas precisava saber de tudo. — Continue, por favor. — O capitão revistou as cabines e mandou os marujos carregarem o dinheiro e objetos de valor, mas guardou uma pasta com ele. Era pequena, com a capa bordada em cores alegres. — Havia animais bordados na capa? — Desire perguntou. — Macacos, pássaros e flores? — Sim, senhorita... conhece a pasta? — Eu a bordei, para dar de presente ao meu irmão. Ele costumava guardar suas cartas ali. As cartas alegres que ela lhe escrevia, contando tudo o que se passava em casa e relembrando momentos felizes que haviam partilhado no passado... Cartas que podiam ser lidas por qualquer um, dando a idéia exata do que se passava em Providence... Rascunhos das respostas de Obadiah, de onde sua caligrafia poderia ser facilmente copiada... Sentiu o peito apertar-se, mal podendo respirar. — Por que eu? — murmurou afinal. — Por que ele foi me buscar? — Porque, minha querida, com Obadiah morto, você era a única esperança de Herendon de encontrar Monteil — Macaffery respondeu. — Assim como eu queria que você convencesse o francês a lutar pela paz, Herendon queria que o convencesse à guerra, na intenção de enfraquecer a França e garantir a vitória britânica. Sinto muito, Desire. Foi minha culpa. Se eu pudesse imaginar que ele seria capaz de tamanha perfídia, jamais a teria aconselhado a vir para a Inglaterra. Ele não podia amá-la e ter feito aquela barbaridade, pensou Desire. Confiara nele e ele mentira, mentira e mentira. Jack matara seu irmão e, em troca, ela lhe dera seu coração e seu corpo. Não haveria casamento, vida feliz, filhos... E, que Deus a ajudasse, pois ainda o amava. — Está se sentindo bem, senhorita? — Mary perguntou, inclinando-se sobre ela. — Eu disse, Sam, que não devia ter contado tudo de uma vez. Veja como ela está tremendo. — Estou bem — Desire balbuciou, embora não estivesse e soubesse que jamais voltaria a ficar bem. — Então, preste atenção, senhorita — Mary falou em tom urgente. — O capitão é um bom homem. Ele só seguiu ordens. Não queria ser cruel, mas tinha de fazê-lo. Só não contava em apaixonar-se pela senhorita. — O que vou fazer agora? — murmurou num fio de voz. — Venha comigo para Paris — Macaffery sussurrou ao seu ouvido. — Poderá terminar o que Obadiah começou e encontrar-se com Monteil. Conseguirei um barco para Calais. Partiremos esta noite. Fará o que Obadiah desejaria que fizesse. — Paris. — Ela fechou os olhos. — Esta noite. Depois de navegar no Aurora, Desire sentiu-se insegura na pequena embarcação, que nem cabines possuía. Havia apenas um aposento grande, com bancos, onde ela se instalou o melhor que podia. A tripulação parecia constituir-se de assassinos e Desire 113


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imaginou se viveria para ver a França. Pelo modo como se sentia, não se importaria em morrer no meio da viagem, fosse afogada, fosse atacada por aqueles homens mal encarados. — Esteve calada, desde que deixamos Portsmouth, querida — disse Macaffery. — Não tenho nada a dizer — ela replicou com tristeza. — Sabe muito bem que não vai se livrar de Herendon com tanta facilidade. Ele foi bem rápido em escondê-la, depois do tiro. Sobressaltada, Desire virou-se para ele. — Ninguém sabia disso, além das pessoas que se encontravam na casa. — Trato de me manter bem informado sobre meus interesses. — O barril que quase me matou a bordo do Katy também era do seu interesse? — O que eu teria a ganhar com sua morte? Herendon vai fazer tudo para encontrá-la na França, mesmo que seja apenas para ter a última palavra. — Está enganado — Desire falou, pensando no bilhete que deixara para Jack. — Ele não se importa se eu vou viver ou morrer. — Pare com esse sentimentalismo mórbido, Desire. Foi melhor ter descoberto a verdade antes de se casar com Herendon. Ele é o tipo de homem que... — Não quero mais ouvir o nome dele. E, por favor, guarde suas opiniões para si mesmo. — Desire, terá de decidir se o ama ou o odeia. Sem responder, Desire embrulhou-se na capa e chorou em silêncio até dormir. Desire despertou ao sons de gritos em francês. Desorientada, acordou Macaffery. — Acho que chegamos — falou. Ouviu o apito de outro navio, o som parecido ao do Aurora e sentiu uma pontada de dor. Levantou-se e apanhou sua pequena bagagem. — Vem comigo? — O capitão disse que chegaríamos a Calais pela manhã. Ainda nem clareou. — Talvez, o tempo esteja nublado — Desire insistiu e abriu a porta para sair. Descobriu que não se encontravam no porto, mas sim ancorados junto a um navio imenso. O capitão da embarcação menor discutia com um oficial da Marinha Francesa. Desire tentou recuar antes que a notassem, mas era tarde. Outro homem a vira e corria na sua direção. — Sr. Macaffery, socorro! — ela gritou, quando o sujeito a agarrou pelo braço e arrastou até o oficial, que sorriu e pôs-se a falar francês com ela. — Cuidado — Macaffery advertiu ao aproximar-se. — Os franceses são os maiores canalhas da face da Terra. Ah, bonjour, et regardez-moi, mês amis... Diabos! Qual é a palavra? Os franceses riram e Desire concluiu que não estava segura em companhia de Macaffery. Aqueles homens não ririam de Jack e ele jamais permitiria que a tratassem com tamanho desrespeito... Mas o que estava pensando, afinal? Jack não estava a seu lado para protegê-la e era provável que nunca mais voltasse a estar. Ele mentira e traíra sua confiança. Desire vivera vinte e seis anos sem Jack e teria de voltar a viver assim. Enquanto Macaffery gaguejava com seu francês parco, Desire atingiu o homem que a segurava com sua valise. Quando ele se dobrou de dor, voltou a atingi-lo na nuca. O sujeito desabou para o chão, enquanto ela segurava a valise com firmeza e encarava os demais com audácia. 114


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Então, viu a pistola do oficial apontada na sua direção, ao mesmo tempo em que o sujeito sorria. — Desculpe, mademoiselle — ele disse —, se deixei esta farsa ir longe demais. Vamos falar em inglês. Não quero que tome mais nenhuma atitude tola. Macaffery juntou-se a Desire. — Pode nos explicar, senhor, por que fomos abordados? Somos viajantes sem nada a esconder, ou bagagem valiosa. — Se são viajantes, deveriam escolher melhor suas companhias. Este canalha — apontou para o capitão —, venderia a mãe por cinco francos. Sendo assim, concordou em vender-me o senhor e a senhorita por cinqüenta. — Isso é ridículo! — Desire protestou. — Temos compromissos importantes em Calais, pela manhã. Não pode nos atrasar. Somos americanos livres! Não pode nos comprar ou vender, como gado! — Posso fazer o que quiser — o sorriso do oficial desvaneceu —, porque agora são apenas prisioneiros da república francesa. — Ela fugiu — Minnie informou e entregou a Jack o bilhete que Desire deixara sobre o travesseiro. Ela escrevera no verso do cartão que acompanhara a gargantilha e cada palavra teve o efeito de uma punhalada no peito de Jack. "Ao Cap. Ld. J.H. Descobri a verdade sobre Obadiah e, para minha tristeza, você mentiu desde o início. Posso perdoá-lo pelo que fez, mas não posso perdoar a mim mesma por ter acreditado em você. Não resta mais nada a dizer, senão adeus. Desire" — Quando encontrou isto? — Jack perguntou, sem tirar os olhos do bilhete. — Há quase duas horas. Uma das criadas encontrou-o por volta das dez. Desire disse que estava com dor de cabeça e que não desceria para jantar. Ninguém a viu, desde quatro horas da tarde, quando ela conversou com o tal Macaffery. — Maldito sujeito! Podem estar mais de seis horas à nossa frente. Devem estar a meio caminho da França. — França? Meu Deus, não é um bom lugar para se ir agora! Perdoe-me, Jack. Eu deveria ter tomado conta dela para você. — Não se culpe, Minnie. Mais cedo ou mais tarde, ela teria me deixado — Jack falou, sacudindo a cabeça. — Vai atrás dela, não vai? — Claro. E vou encontrá-la, independente dela me querer ou não. Minnie fitou-o com ar de suspeita. — O que fez a ela é tão ruim assim? — Muito pior do que você imagina, Minnie. Mas amo aquela mulher mais que minha própria vida.

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Em outras circunstâncias, Desire teria gostado de Jean Boucher, com seu rosto redondo e risonho, que a fazia lembrar-se de Obadiah. Mas, como capitão da fragata francesa que a mantinha prisioneira, o bom humor de Boucher só fazia irritá-la. — Sente-se por favor, ma belle femme — ele convidou, quando ela e Macaffery entraram na cabine. — Girbault me disse que capturou dois prisioneiros ingleses, mas não mencionou uma mulher. — Somos americanos! — Desire corrigiu-o. — Mon Dieu! Como fomos prender dois americanos? — Compreende, agora, que não pode nos manter prisioneiros? — ela falou aliviada. — Ah, ma chère, creio que passou muito tempo sem ler os jornais. —Do que está falando, senhor? — Macaffery inquiriu. — Deixamos a Nova Inglaterra há meses. Boucher sorriu. — Seus diplomatas em Paris retiraram-se das negociações, considerando a generosa oferta de meu país insatisfatória. — Não acredito! — Macaffery exclamou. — Marshall, Pinckney, Gerry, não são homens de abandonar negociações! — Estou lhe contando o que sei, como defensor de meu país. Tenho ordens de interceptar navios americanos que se aventurem em nossos mares e aprisionar seus ocupantes. Embora não estivessem num navio americano, são cidadãos americanos e devo mantê-los prisioneiros, até meus superiores decidirem seu destino. — Então, é tarde demais — Desire murmurou. Tarde demais para Obadiah, tarde demais para a paz. Se Jack quisera usá-la para deflagrar a guerra entre América e França, então devia estar contente. Era tarde demais para o amor. — Mas não somos americanos comuns — Macaffery insistiu. — Somos convidados do Sr. Gideon de Monteil, um cavalheiro de Paris. — Monteil? — o capitão repetiu, mudando de expressão. — Sabe de quem estou falando? — Sim, eu sei. Mas lamento que sejam tão inocentes. Quando morreu, o Sr. Monteil encontrava-se sob suspeitas de deslealdade com nosso país. Havia rumores de que suas relações com estrangeiros... como o senhor, eu receio, eram duvidosas. Mas, infelizmente, ele não viveu para se defender. Preferiu matar-se. — Gideon de Monteil cometeu suicídio? — Desire falou incrédula. — Ele foi amigo de minha família durante trinta anos e... — Quieta, Desire — Macaffery interrompeu-a com um olhar duro. — A notícia me entristece, capitão, mas não me surpreende. Monteil era volúvel, sempre incerto quanto a sua lealdade. Chocada pelo que ouvia, Desire manteve-se em silêncio. Nada estava acontecendo conforme havia imaginado e ela viu seu mundo fugindo ao controle. — Terei de mencionar que conhecia.Monteil, monsieur — informou o capitão. — Talvez possa esclarecer algumas das atividades dele para as autoridades. Macaffery assentiu com um sorriso. 116


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— Tenho outro assunto que é do seu interesse, capitão. É melhor cuidar bem desta moça. Boucher sorriu para Desire. — Não será difícil dispensar cuidados especiais a uma senhorita tão adorável. — Ouvi dizer que a França e a Inglaterra costumam trocar prisioneiros e, quando não há nenhum disponível, a transação é feita através de um resgate em dinheiro. — É verdade — Boucher respondeu, sem tirar os olhos gulosos de Desire —, mas vocês são americanos, e ainda não estabelecemos nada parecido com seu país. — Acontece que a senhorita é noiva de um nobre inglês que faria tudo para tê-la de volta, sã e salva — Macaffery falou, ignorando o olhar irado de Desire. Ela sabia que ele estava tentando salvar-lhes a pele, mas ainda assim, não achava justo usar o nome de Jack. — Lorde Herendon é um homem muito rico e não imporá qualquer limite para garantir a segurança da Srta. Sparhawk. — Capitão lorde John Herendon, monsieur. Imagino que ele faça questão que se use todos os seus títulos. — A risada de Boucher ecoou pela cabine. — Parece que, hoje, os deuses estão a meu favor! — Inclinou-se para Desire. — Seja bem vinda ao Panthère, ma chère. Jack ficou ao lado do barco encalhado na praia de Littlehampton. O velho marinheiro que o acompanhava examinou a embarcação. — Sim, capitão. Este é o barco dos irmãos Fournier. Devem ter morrido. Só lamento o carregamento de bebida que deve ter afundado com eles. — E tem certeza sobre o homem que os contratou? — Sim, capitão. Um americano miúdo e mal humorado. Queria passagens para ele e uma amiga. Fournier passou horas exibindo os dólares que recebeu. Jack respirou fundo, recusando-se a acreditar que seus sonhos haviam terminado. Fazia uma semana que Desire fugira com Macaffery e ele havia investigado cada doca, até encontrar o homem que se lembrava dos dois terem partido de Portsmouth, com contrabandistas. O almirante Howe enviara o nome de Fournier a todos os navios ingleses e agentes ao longo da costa francesa. Mas a resposta era sempre a mesma: ninguém abordara a pequena embarcação, nem encontrara dois americanos. A cada dia, Jack sentia a confiança diminuir. Agora, diante dos destroços, via seu mundo ruir em pedaços. A sua Desire, a única mulher que realmente amara, estava morta, afogada com Júlia. E, como ela havia fugido por sua causa, era o culpado por sua morte. Mais uma vez. — Não vou desistir — declarou Jeremiah. — Ela não pode estar morta! — Não pode, mas está — Jack falou em voz baixa. — Isso é tudo o que tem a dizer? — Jeremiah segurou-o pelo braço. — Depois de ter assassinado meu irmão, quer ter o sangue de minha irmã em suas mãos, também? Jack libertou-se e afastou-se. Pelo amor que tinha por Desire, não queria brigar com Jeremiah. Os dois eram do mesmo tamanho e estavam ambos furiosos e magoados. Seria uma luta terrível. — Ela lhe contou o que realmente aconteceu a Obadiah? — Não foi necessário. Quando Desire me contou aquela história de você ser grande amigo de Obadiah, percebi tudo. Além disso, não há nenhuma prisão em Portsmouth. — Então, por que não contou a ela? 117


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— Pela mesma razão que o fez mentir, seu miserável. Amo minha irmã e ela ama você. Não tive coragem de partir-lhe o coração, por algo que não poderia ser mudado. Devagar, Jack estendeu a mão para Jeremiah. — Obrigado. Jeremiah limitou-se a olhar para a mão estendida. — Se minha irmã não voltar, nem mandar notícias, em duas semanas, você será um homem morto, Herendon. Jack abaixou a mão. — Se ela não voltar, eu mesmo lhe darei minha espada para isso. — Quanto tempo ainda vamos ficar aqui, Sr. Macaffery? — Desire perguntou. Todas as manhãs, os dois tinham uma hora para caminharem juntos pelo deque. Era o único momento em que Desire sentia-se em segurança. Embora sua cabine fosse razoavelmente confortável, o respeito demonstrado por Boucher no início começava a transformar-se em intimidade. A exemplo do capitão, toda a tripulação lançava-lhe olhares famintos que a aterrorizavam. — Já estamos aqui há semanas, desde que ancoramos em Boulogne para reparos — murmurou. — Quanto tempo mais Boucher pretende nos manter a bordo? — Seja paciente, Desire — Macaffery respondeu com tranqüilidade. — Esse tipo de negociação leva tempo. — Não temos tempo para sermos pacientes — ela falou, depois de notar o olhar maldoso de um marinheiro. — Boucher tem seus planos. Macaffery conversara com o capitão e descobrira que ele ainda não enviara o pedido de resgate por Desire. Decidira atormentar Herendon com o desaparecimento da noiva e esperar até que o Panthère fosse consertado para, então, desafiar o inglês para uma batalha, em que Desire seria o prêmio. O que Boucher não percebia era que, quanto mais demorasse, menores as chances de seu plano funcionar. Aquela altura, Herendon já devia ter encontrado outra mulher e, se visse Desire magra, pálida e abatida, nem sequer atravessaria a rua por ela. O que dizer do canal da Mancha! — Boucher está encontrando dificuldades para consertar o Panthère, por causa da falta de material nos estaleiros. — Se não formos libertados antes de Boucher voltar ao mar, nunca veremos Providence de novo. Eu só quero voltar para casa! Macaffery sorriu. Em breve, ele estaria voltando para casa. Boucher não tinha qualquer interesse em mantê-lo prisioneiro e permitira que ele providenciasse seu resgate através de um comerciante de Boston, com filial em Boulogne. Mas Desire só saberia disso quando ele já estivesse longe. — Se você tivesse sido mais atenciosa com Herendon, talvez ele estivesse mais ansioso para resgatá-la. — Eu disse ao capitão Boucher que deveria procurar por Jeremiah. Ele pagará. — O capitão prefere negociar com Herendon. — Ele corre o risco de jamais receber dinheiro algum. Desire já não tinha lágrimas para chorar. Cada dia que passava, mais se certificava de que Jack não se importava com ela. Afinal, ele mentira sobre Obadiah e, ao não pagar resgate algum, provava que mentira sobre seu amor, também. 118


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E, ainda assim, ela não conseguia deixar de amá-lo. Jack esperava na cabine de lorde Howe, refletindo sobre as palavras do mais velho: um marinheiro não pode jamais viver em terra, pois só arranja problemas. Talvez ele tivesse razão. Se houvesse ficado em alto mar, onde era seu lugar, Jack não teria conhecido, nem se apaixonado por Desire Sparhawk, ou desobedecido as ordens de seus superiores. E, se não a houvesse conhecido, talvez ela continuasse viva. — Como vai, Herendon? — o almirante cumprimentou-o ao entrar. — Alguma notícia de sua noiva? — Não, senhor. — Sinto muito, Jack. — Obrigado, senhor. Embora ele mesmo houvesse perdido as esperanças de encontrá-la viva, depois de quatro semanas, Jack não suportava reconhecer nos outros a certeza de que ela estava morta. — Perder a noiva na véspera do casamento é uma tragédia terrível — continuou o almirante. — E um grande desperdício, considerando-se o que aconteceu a Monteil. — Monteil? — Jack repetiu surpreso. Não ouvira nada a respeito do francês. — Matou-se com um tiro, ao saber que seria preso e julgado por traição. Somando-se esta fatalidade ao fato dos ianques terem fugido com o rabo entre as pernas, aceitando a guerra inevitável, concluímos que tudo o que você fez nos últimos seis meses foi em vão. Podia ter deixado a pobre moça em Rhode Island, pois não ganhamos nada com isso. Jack não disse nada. Era verdade. As mortes de Obadiah e de Desire haviam ocorrido em vão. Sua luta pela paz não passara de um sonho vazio. — Mas você já ficou tempo demais por aqui — Howe falou. — Tenho uma missão que vai ajudá-lo a esquecer seus problemas pessoais. Soube que o Panthère está ancorado em Boulogne, para reparos. Não há qualquer navio para protegê-los. O que acha de trazê-los para cá? No mesmo instante, Jack pôs-se a calcular chances e riscos. Sim, nascera para aquele tipo de operação. E ainda não superara o ressentimento pela fuga do Panthère. — Eles jamais imaginariam que seríamos ousados a ponto de atacá-los lá. Posso vencê-los de olhos fechados, senhor. — Escute, Herendon, não quero que você vá pessoalmente. Mande seu imediato, Connor. Deixe que ele conquiste sua glória, enquanto você se mantém em segurança. — Com todo respeito, senhor, eu mesmo liderarei o ataque. Com um sorriso, Jack retirou-se. Sabia do perigo que correria, que poderia morrer naquela missão, mas não se importava. Afinal, já não lhe restava mais nada a perder. Dois dias depois, repassando na mente os detalhes da nova missão, Jack observava o último carregamento de suprimentos ser embarcado no Aurora, em Portsmouth. — Soube que vai zarpar — disse uma voz atrás de si. Jack virou-se para encarar Jeremiah e assentiu, sem querer dar detalhes da missão, supostamente secreta. — Soube, também, que sua missão é a de capturar uma fragata francesa, que vem dando muito trabalho à sua Marinha — Jeremiah completou. Jack suspirou, pensando que era impossível manter segredo em uma cidade como Portsmouth. — Partiremos esta noite, mas não devo passar mais que uma semana fora. 119


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Jeremiah estreitou os olhos, fazendo-o lembrar-se de Desire. — Nem pense em sumir, antes de acertarmos nossas contas. — Os franceses também são seus inimigos, agora. Pode vir conosco, se quiser. Desire me disse que você é um demônio, quando luta. Jeremiah sorriu, embora a hostilidade continuasse a brilhar em seus olhos. — Prefere me ver desforrar nos franceses, a estragar seu belo uniforme? — Talvez. Quando voltarmos, é possível encontrarmos Desire aqui. — Reze para que isso aconteça — Jeremiah deu-lhe um tapinha nas costas. — Ainda quero ver o brilho da felicidade nos olhos de minha irmã, quando você finalmente se casar com ela. Jack assentiu, pensando no quanto daria para voltar a ver os olhos de Desire, ainda que fosse por uma única vez.

DEZENOVE

Com o coração aos saltos, Desire pôs-se de pé, ao ouvir a chave na porta. Já comera e fizera sua caminhada pelo deque. Não havia motivo para alguém aparecer àquela hora. A menos que a negociação do resgate houvesse chegado ao fim. Talvez Jack houvesse decidido salvá-la! — Boa tarde, mademoiselle — Boucher cumprimentou-a. — Boa tarde — Desire respondeu desconfiada. Boucher nunca fora até a cabine e sua presença não era um bom sinal. — Já está anoitecendo e eu fui convidado a jantar com alguns oficiais amigos meus, Uma vez que esta é nossa última noite em Boulogne. Desire sentiu as esperanças morrerem. Partiriam pela manhã. Não haviam recebido o resgate e ela estava condenada a continuar nas mãos dos franceses. — Trata-se de uma pequena festa — Boucher continuou e, depois de limpar a garganta, estendeu-lhe um amontoado de seda azul. — Gostaria que vestisse isto. Suas roupas não são apropriadas para a ocasião. Desire olhou para o vestido que ele estendeu à sua frente. — Espera que eu vista isso e o acompanhe? — Sim, mademoiselle. Entenda como um gesto de amizade. Achei que estaria cansada do tédio da prisão. E, amanhã, estarei de volta à guerra. Ela o encarou com desprezo. — Tenha uma boa noite, capitão. Espero que se divirta. Tenho certeza de que encontrará alguma mulher disposta a acompanhá-lo. — Mas eu não quero outra. Quero você. Afinal, não fez qualquer objeção a Herendon. — Então, é isso! Quer me usar para humilhá-lo. Terá de compreender minha decisão de me manter fiel a ele. 120


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Miranda Jarrett

— É orgulhosa demais para aceitar meu convite, não é? Não vou implorar por sua companhia, pois também tenho orgulho. E mais, tenho você. O simpático cavalheiro em quem depositou sua confiança está pouco ligando para o que vai lhe acontecer. Ele só está preocupado consigo mesmo e vai abandoná-la. Então, vai se arrepender por ter recusado minha oferta de amizade. Boucher saiu e bateu a porta atrás de si. Desire permaneceu imóvel, ainda ouvindo o eco das palavras do capitão. De quem mais ele poderia estar falando, senão de Jack, que se recusara a pagar o seu resgate? Com um gemido, sentou-se na cama, enterrando o rosto nas mãos. Tivera tempo de relembrar cada momento que passara ao lado de Jack, desde a primeira noite em Providence, até a última, na cabana em Rosewell. Pensou em tudo o que haviam partilhado. Apesar dele ter mentido sobre Obadiah, fora sincero em sua solicitude com ela. Apesar do que Macaffery dizia, Desire não acreditava que Jack não se importava com ela. Todos os sentimentos haviam sido recíprocos. Jack confiara nela, quando lhe contara sobre o passado, que jamais mencionara a ninguém, levando-a à casa onde jamais voltara em vinte anos. Quanto mais pensava no que ele lhe contara em Rosewell, mais o compreendia. Por trás do heróico capitão Herendon, ainda vivia o garotinho que fora expulso de casa, lutando para obter aceitação e respeito. Uma vez compreendendo isso, era fácil perceber que ele não tivera escolha, senão mentir sobre Obadiah. Como Mary Clegg dissera, Jack estivera apenas obedecendo ordens que, para um capitão de sua reputação, eram sagradas. Devia ter sido muito difícil para ele desobedecer lorde Howe, para levá-la de Portsmouth. E ela continuava a amá-lo. Trancada em sua prisão, tudo o que desejava era a chance de dizer-lhe que o amava, que o compreendia. Queria pedir-lhe perdão por ter fugido, negando-lhe o direito de explicar-se. Se pudesse, trataria de compensá-lo pelo mal que fizera. Se Jack ainda a quisesse, casaria-se com ele assim que o encontrasse. Mas os dias haviam se transformado em semanas e Jack não respondera às exigências de Boucher. Ao que parecia, Desire pusera tudo a perder com sua decisão impensada de fugir. Jamais teria sua segunda chance. Jack jamais voltaria a ser seu. Desire dormia, quando a porta voltou a sé abrir. Girbault, o homem que a levara para o Panthère, arrancou-a da cama e beijou-a. Seu hálito recendia a vinho. Desesperada, ela conseguiu afastar-se e esbofeteá-lo, tirando-lhe o equilíbrio. Vendo a porta aberta, tentou correr para a liberdade. Porém, mesmo do chão, ele a segurou pelo vestido. — Calma, ma petite — ele falou com voz pastosa. — Fez bem em recusar o convite do capitão, pois agora vai poder divertir-se comigo. Eu não deixaria o navio, quando a mais linda das moças da cidade encontra-se a bordo. Empurrou-a para fora da cabine, onde ela ouviu a cantoria e gritos da tripulação. Estavam todos bêbados e havia mulheres com eles. — Agora, trate de esquecer a timidez, ma belle américaine — Girbault advertiu-a, levando-a ao encontro do demais. Por um momento, Desire só pôde olhar boquiaberta para a cena grotesca que se desenrolava à sua frente. Casais bêbados dançavam trôpegos, enquanto homens caíam inconscientes sobre mesas e cadeiras. O pior eram os casais que, sem o menor sinal de pudor, faziam sexo diante de todos, gemendo alto e pronunciando barbaridades. — Não! Por favor, não! — ela gritou, tentando livrar-se. Mas, enquanto lutava com Girbault, outro homem muito maior, agarrou-a pela cintura. 121


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— Caia fora! — Girbault gritou para o marujo. — A cadela americana é minha! Sem dizer palavra, o marujo atingiu-o no queixo, deixando-o inconsciente, caído no chão. Aterrorizada, Desire pôs-se a gritar, esperneando e chutando o marujo enorme que a segurava. Seria violentada e abusada, enquanto os outros assistiriam divertidos. — Pelo amor de Deus, Desire — o homem murmurou ao seu ouvido.— Assim, vai acabar me quebrando uma perna! Desire virou-se e deparou com Jeremiah, com roupas iguais aos outros marinheiros, barbudo e imundo. — Continue fingindo, irmãzinha, ou todos nós estaremos perdidos — ele falou, enquanto fingia agarrá-la. — Escolheu um péssimo lugar para uma reunião de família. Obedecendo a ordem e fingindo lutar, Desire perguntou: — Todos nós? Quem mais está aqui? — Quem mais seria louco o bastante, para tentar, roubar uma fragata francesa de seu próprio porto? — Jeremiah a levava gradualmente para perto dos músicos. — Seu querido lorde. — Onde? — ela girou a cabeça, à procura de Jack, mas o irmão segurou-a com firmeza. — Ele está a bordo. Só não sei o que vai fazer quando descobrir que você está aqui. Vou ter de arrancá-los da cama de novo! — Jack veio me buscar! — Desire falou com alegria. — Pensei que ele não se importava o bastante para pagar o resgate, mas ele veio me buscar! — Ele não veio te buscar. Não recebemos qualquer pedido de resgate. Do contrário, já teríamos libertado você há muito tempo. Pensamos que estivesse morta, no fundo do mar. — Como poderia estar morta, se... Por cima do ombro de Jeremiah, Desire viu o músico que tocava flauta. Embora ele mantivesse a cabeça baixa, o rosto escondido pela aba do chapéu, ela o reconheceria em qualquer lugar. — Vejo que já o encontrou — Jeremiah concluiu. —Agora, Dês, trate de prestar atenção ao que vou dizer. Mas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ouviu-se um apito, os falsos músicos pararam de tocar e substituíram os instrumentos por facas e espadas. Enquanto mulheres corriam gritando e marinheiros bêbados procuravam por suas armas, outros homens armados apareceram no deque e a luta começou. Jeremiah sacou sua espada, pegou Desire pela cintura, e colocou-a ao lado dos músicos. Primeiro o espanto e, depois, a mais pura felicidade iluminou o semblante de Jack. — Meu Deus, você está viva! — murmurou em meio à confusão. Desire atirou-se nos braços dele, mas ele a empurrou para o lado, a fim de enfrentar o francês que avançava com uma garrafa quebrada na mão. Com um golpe certeiro, Jack enterrou a espada no peito do homem. Apavorada, Desire deixou-se arrastar por Jack, para onde outros ingleses lutavam. Olhou em volta, à procura de Jeremiah, mas não pôde encontrá-lo no mar de corpos em luta. — Depressa, Desire! — Jack gritou, levando-a para o deque principal. 122


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Só então, ela notou que o Panthère afastava-se lentamente do porto. Olhou para cima e viu que parte da tripulação do Aurora assumira o comando. — Temos de encontrar Boucher — Jack explicou, sem soltá-la, nem interromper o difícil caminho que levava às cabines. — Ele não está aqui — Desire avisou. — Foi jantar em terra. Praguejando, Jack parou, mantendo a espada em posição de ataque. Desire jamais o vira assim, todos os músculos tensos e preparados para a luta pela sobrevivência. Ele olhou para as velas que começavam a inflar ao vento e, depois, para o porto, de onde não havia qualquer sinal de alarme pela captura do Panthère. Então, Jack sorriu, como um garotinho que levava a cabo a mais engenhosa das travessuras. Desire abriu a boca para dizer o quanto o amava, mas viu o francês armado de uma faca aproximar-se. — Jack, atrás de você! — gritou. Com a rapidez de um raio, Jack virou-se e atingiu o homem com a espada. Desire fechou os olhos, tentando apagar a imagem sangrenta da memória. Jack começou a puxá-la de novo. — Venha. Temos de encontrar o diário de bordo de Boucher — falou. — Por que a pressa? — ela perguntou. — Já tem o navio! — Não, enquanto não estivermos na segurança de Portsmouth. A porta ao lado de Desire abriu-se e ela virou-se sobressaltada. — Sr. Macaffery! — O que está fazendo aqui, Desire? — ele inquiriu nervoso. Estava vestido para viajar, o pequeno baú trancado sobre a cama. — Boucher me disse que você ficaria lá embaixo. Também me contou que não aceitou o convite dele para jantar. Não devia ter feito isso. — Posso saber por que acha que Desire deveria aceitar o convite de um francês? — Jack falou, fazendo-se notar pela primeira vez. Macaffery manteve-se impassível. — Você me julgou mal, Herendon. Nunca acreditei que você desse a mínima por ela. Veja só como está agora. Magra e feia como uma cadela de rua. — Mais um comentário como este e vou cortá-lo ao meio — Jack advertiu-o com frieza. — Está de partida? Quanta gentileza avisar Desire, para que ela fosse com você. — Ela não ia a lugar algum. Paguei meu próprio resgate e estou livre para partir. Por que arriscaria minha segurança por ela? Com Monteil morto, Desire tornou-se absolutamente inútil. — Mas o senhor prometeu à minha avó que cuidaria de mim! — Desire falou, aproximando-se. Agora compreendia as palavras de Boucher. Ele havia se referido a Macaffery, não a Jack. — Disse que se eu viesse com o senhor, poderia ajudar nosso país a ficar fora desta guerra, como Obadiah faria. Vovó confiou no senhor, porque era amigo de meu pai! Num movimento rápido, Macaffery puxou Desire contra si e colocou uma faca em seu pescoço. — Largue a espada, Herendon — Macaffery ordenou. — Vai querer vê-la morrer aqui, por causa da sua teimosia? Sem hesitar, Jack largou a espada. Tinha uma faca na manga e outra na cintura, mas não arriscaria a vida de Desire. 123


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Na distância, ouviu os sinos em alarme. Finalmente, alguém se dera conta de que o Panthère afastava-se do porto. Mas Jack não disse nada, apostando que Macaffery não reconheceria o sinal, nem se daria conta de que em breve, estariam em alto mar, de onde ele não poderia escapar. Desire tentou falar, mas desistiu ao sentir a lâmina gelada de encontro à garganta. Para Macaffery, tanto fazia deixá-la viva ou morta. E, se ele a matasse agora, ela morreria sem ter dito a Jack o quanto o amava. — Você é muito parecida com seu pai, Desire — Macaffery falou com desprezo. — Sempre nobre o bastante para fazer o que é certo. Rebelou-se contra a idéia de ir para a cama com Herendon, mas bastou um acidente a bordo do Katy, e um tiro misterioso no jardim, para atirar-se nos braços de seu herói. Jack praguejou baixinho. Quem mais além de Macaffery tentaria fazer mal a Desire? O advogado riu. — Obadiah não foi melhor. Manipulei os dois, como carneirinhos. Bastou que eu mencionasse a morte do querido papai, para que seus filhinhos idiotas fizessem tudo o que eu quisesse. Desire ouviu o tiro e sentiu o impacto no próprio corpo, quando a bala atingiu Macaffery. No instante seguinte, o advogado escorregava para o chão, ao mesmo tempo em que Jack a tomava nos braços, dizendo-lhe que tudo ficaria bem-. Então, viu Jeremiah, a arma ainda apontada em meio à fumaça do disparo. — Esqueceu-se do último de nós, Macaffery — ele falou. — E eu também não esqueci de papai. Do deque, chegou o som de gritos, numa nova onda de pânico. Desire enterrou o rosto no peito de Jack, trêmula e ofegante. — Desculpe, meu amor, mas precisamos ir — ele falou, puxando-a consigo. — Só Deus sabe o que está acontecendo agora. Assim que chegaram ao deque, Jack descobriu o que se passava. Ao sentir o cheiro da fumaça, concluiu que era tarde demais. — Capitão! — gritou um dos marujos. — Uma das malditas prostitutas derrubou um lampião e... — Use os botes para retirar a tripulação daqui! Embora lamentasse a perda de um prêmio tão valioso, Jack se contentaria em vê-lo afundar. Só teriam de agir rápido, antes que o fogo chegasse ao depósito de munição. Virou-se para Desire. — Você fica com Jeremiah. Ele a levará num dos botes para o Aurora. Estarei com vocês assim que puder. — Então, ele gritou uma explicação rápida para Jeremiah. — Não, Jack! Vou ficar com você! — ela protestou desesperada. — Faça o que seu capitão lhe ordena, querida — ele murmurou e beijou-a. — Eu te amo, Desire. Nunca se esqueça disso. — Também te amo, Jack. E não fugirei de novo. — Herendon! — gritou uma voz autoritária. — Jack! E Boucher! — Desire falou, olhando para o único homem que tentava entrar no navio, enquanto todos se desesperavam para sair. Jack deu um passo à frente, encarando Boucher. — Capitaine Jean Boucher. Lamento conhecê-lo em circunstâncias tão desagradáveis. O francês sacou a espada e adiantou-se. 124


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— Capitão lorde John Herendon, eu não lamento coisa alguma. Se quiser levar meu navio, terá de me levar com ele. Jack sentiu a mão de Desire soltar seu braço. O gesto simples encheu-o de felicidade e amor. Ela o compreendia e o amava. Ainda tinham uma chance de serem felizes juntos. Poderiam se casar, ter filhos, nunca mais se separariam... Pela primeira vez em sua vida, Jack não queria lutar. — Se olhar à sua volta, Boucher, verá que ambos perdemos, desta vez — falou. — O Panthère está em chamas e sabemos que... — Covarde! — gritou o capitão francês. Jack sentiu a mudança trazida pelo desafio. Confiava em suas habilidades como espadachim. Lutaria e venceria. Não era um covarde. Com os punhos cerrados, Desire observou os dois homens posicionarem-se para a luta. Cada um carregava ódio, orgulho e desespero. E ela sabia que aquele que perdesse, morreria. A fumaça tornou-se mais densa, enquanto os vidros se quebravam pelo calor. Desire estremeceu assustada e Jeremiah pousou as mãos em seus ombros, para confortá-la. Ela lhe lançou um sorriso rápido, colocando as mãos sob as dele. O que quer que Jack houvesse ordenado, ela não sairia dali enquanto a luta não terminasse. Refletiu que, embora sempre houvesse considerado Obadiah como o irmão mais próximo, Jeremiah mostrava agora, conhecer-lhe os segredos do coração e da alma. Quase todos os marinheiros franceses haviam desertado Boucher, levando as mulheres consigo. Porém, à luz fraca da madrugada, os ingleses esperavam nos botes próximos ao Panthère, incapazes de abandonar seu capitão. Os dois homens ainda andavam em círculos, num desafio silencioso ao primeiro golpe. De repente, Boucher adiantou-se, a espada descrevendo um círculo prateado no ar. Jack aparou a lâmina na sua e, num jogo do corpo, desequilibrou o oponente. Ofegante, o francês lançou-se mais uma vez sobre Jack, que esquivou-se ao golpe, mas recebeu um corte no braço. Desire soltou um pequeno grito, embora Jack parecesse nem ter notado o ferimento, continuando a luta com vigor e astúcia. Com um grito de triunfo, Boucher ergueu a espada à altura do peito, confiante na vitória. Porém, Jack aproveitou o movimento e enterrou a espada em seu peito. Boucher emitiu um grito de dor e, por um momento interminável, oscilou enquanto a vida se esvaía de seu corpo. Ainda teve forças para oferecer o cabo da espada a Jack, num gesto de rendição. Jack aceitou-o e, no instante seguinte, Boucher desabou sobre o deque do Panthère. — Jack! — Desire abraçou-o com força. — Ah, se você morresse... meu Deus, o que seria de mim se o perdesse! Jack fechou os olhos, abandonando-se ao conforto que somente ela poderia lhe dar. Desire segurou-lhe o rosto entre as mãos e beijou-lhe os lábios. Nunca mais ele a deixaria partir, pois jamais encontraria amor como aquele. — Pelo amor de Deus, Herendon, deixe isso para mais tarde! Jeremiah falou com urgência. —Vamos depressa para o bote! Quando corriam para a amurada, uma explosão sacudiu o navio, e chamas ergueram-se altas no céu. Jack e Jeremiah apressaram-se em descer pelas cordas, a fim de proteger Desire quando ela saltasse a amurada. Então, ela desapareceu na fumaça. — Desire! — Jack gritou em pânico. 125


Desire meu amor

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No mesmo instante, ela voltou tossindo, segurando a bandeira francesa contra o. peito. Do bote mais próximo, Jeremiah gritou: — Pule Dês! — Depressa, meu amor, pule! — Jack incitou-a, sabendo que não haveria tempo para carregá-la. Desire atirou a bandeira para o bote, perguntando-se por que voltara para apanhá-la. Segurou a saia com as mãos e olhou para baixo. Jack a fitava com aflição. O rugido que se seguiu foi ensurdecedor. Finalmente, as chamas haviam atingido o depósito de pólvora. E já não importava se Desire seria capaz de pular ou não.

VINTE

Mais uma vez, Desire encontrava-se sobre a grade da ponte Weybosset. O céu estava negro pela fumaça e as chamas ameaçavam engoli-la. Os pulmões ardiam e os olhos lacrimejavam, mas ela jurou que não cairia como da outra vez. As chamas ainda eram melhores do que a escuridão fria. — Devia ter pulado quando mandei — Jeremiah acusou-a. — Que filha de capitão é você, se nem sabe obedecer ordens? — Por que foi apanhar a bandeira, meu amor? — Jack perguntou. A tristeza em seus olhos era tão profunda, que Desire ignorou as chamas e adiantou-se na sua direção. — Queria mostrar a bandeira a vovó — explicou. — Você tinha a espada e eu queria a bandeira. — Eu lhe darei mil bandeiras, se quiser. — Não será necessário — ela murmurou, alcançando-o enfim. — Seu amor me bastará. — Ela vai ficar bem, capitão Herendon — declarou o médico. — Deve ter batido a cabeça. Teve sorte de ser atirada ao mar. — É uma tola!— Jeremiah resmungou. — Está sempre querendo provar alguma coisa. O que ela acha que vovó faria com uma bandeira? Jack não respondeu. Desire estava pálida, abatida e muito magra, mas ficaria bem. E ela o amava. Finalmente se casaram numa linda manhã de maio, no deque do navio usado por lorde Howe como moradia e quartel-general. O céu estava azul, o sol refletia-se no mar. e a brisa impedia que o calor se tornasse forte. A tripulação do Aurora estava presente à cerimônia celebrada pelo capelão da Marinha. Tomkins, o barbeiro de bordo, fizera questão de arrumar os cabelos de Desire, enfeitando-os com as plumas cedidas por Minnie. E, apesar de não haver música, quantas noivas iniciavam suas vidas de casadas com a homenagem de tiros de canhão? 126


Desire meu amor

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Mas, a melhor parte, era o noivo. Jack estava mais bonito do que nunca e lançava-lhe olhares tão repletos de amor, que Desire sentia o peito apertar-se. Estava feliz pela beleza da cerimônia e pelo almoço oferecido por lorde Howe, assim como pelos presentes recebidos, e Jeremiah a seu lado. Mas o que mais queria era ficar sozinha com Jack e desfrutar da felicidade que só podia encontrar nos braços dele. — Na qualidade de comandante, devo ser o primeiro a beijar a noiva — anunciou Howe. Desire aproximou-se e ofereceu-lhe o rosto. Depois de beijá-la com carinho paternal, o almirante continuou: — Este casamento não só se baseia no amor e no respeito, mas também na coragem. Minnie aproximou-se de Desire e estendeu a bandeira francesa sobre seus ombros. Os homens se levantaram e ergueram os copos num brinde, enquanto Jack a observava com um sorriso largo e orgulhoso. — Como me pareceu que estes dois não se contentam com os namoricos usuais — Howe acrescentou —, decidi providenciar algo diferente. — Retirou do bolso uma caixinha azul, contendo uma medalha. Estreitando os olhos, leu a inscrição: — Concedido em oito de maio de mil setecentos e noventa e oito, com honra e respeito, a lady John Herendon, por sua bravura contra o inimigo de seu grato país. Colocou a corrente no pescoço de Desire, sobre a gargantilha de safiras. Até o almirante ler a inscrição, ela não se dera conta de que, casando-se com Jack, se tornaria inglesa também. Aprendera a odiar os ingleses e, agora, olhando para o rosto sorridente de seu marido, dava-se conta da tolice que aquele ódio representava. Lançou um olhar incerto para Jeremiah, temendo a reação dele ao pequeno discurso. Mas ele sorria, enquanto Minnie sussurrava-lhe algo ao ouvido. Lorde Howe fez um sinal para que Jack se aproximasse e falou: — Por ter se destacado em seus serviços à Sua Majestade e a seu país, gostaria de cumprimentar o mais novo almirante da Marinha Britânica. Todos aplaudiram e Desire sussurrou: — Isso é bom? — Sim, meu amor, é muito bom — ele respondeu, sem esconder a imensa alegria que a promoção lhe proporcionava. — Almirante lorde John Herendon — ela falou. — Soa bem, principalmente, em se tratando do meu marido. — Nada no mundo soa tão bem, quanto ouvi-la chamar-me de seu marido, lady John — ele replicou, tomando-a nos braços. Com um sorriso maroto, Desire protestou: — Acho que vou preferir ser chamada de lady Jack. Jack segurou-lhe o rosto entre as mãos e, enquanto seus lábios procuravam os dela, murmurou: — Pois eu prefiro chamá-la simplesmente de Desire, meu amor e minha esposa. E ela concluiu que aquilo soava muito, muito bem. MIRANDA JARRETT era uma premiada diretora de arte, antes de tornar-se escritora em período integral. Considera-se afortunada por possuir uma carreira que combina história e finais felizes, pois foi o que fez de sua família a proprietária da pizzaria local. Descendente dos colonizadores da Nova Inglaterra, sente especial afinidade com a família fictícia que se tornou tão popular, os Sparhawk, de Rhode Island. Miranda e o marido, músico e compositor, vivem perto de Filadélfia, com seus dois filhos e dois velhos 127


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gatos. Durante o tempo livre, ela pinta aquarelas de paisagens, prepara bolos de chocolate franceses e providencia as ocasionais fantasias do Dia das Bruxas.

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Profile for Patrícia Martins Fonseca

Ch 54 desire meu amor miranda jarrett [sparhawk 07]  

Ch 54 desire meu amor miranda jarrett [sparhawk 07]  

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