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Uma Mulher Tentadora The Perfect Temptation

Leslie LaFoy

Londres, 1864 Insuportável... Insolente... Estranho... Sandra Radford era tudo isso e muito mais. Mas Aiden não dava a mínima. Se ele não fosse seu último recurso para salvá-la de um apuro, ela certamente o teria dispensado depois daquele olhar atrevido que ele lhe lançara... Um olhar que fizera seu coração disparar com um desejo que ele jamais tinha experimentado. Quando o perigo dá as caras, contudo, e segredos do passado vêm à tona, a resistência de Sandra se desfaz e ela acaba buscando conforto em seus braços. E, a cada momento que partilham, Aiden deixa de ser o homem do qual ela precisa para se tornar aquele que ela deseja... Mas o que irá acontecer quando todos os segredos forem revelados? Digitalização e Revisão: Crysty


Leslie Lafoy - Uma Mulher Tentadora (CH 403)

Querida leitora, Para Aiden, Sandra é a combinação perfeita da discrição inglesa e do exotismo oriental. Mas este celibatário jurou jamais se render ao amor e, em vez disso, decidiu ajudar um amigo em seu escritório de investigações. Seu novo trabalho é proteger a bela Alexandra e seu pequeno pupilo contra uma ameaça sombria. Porém, defenderse contra os encantos da srta. Radford será outra questão... Este é um romance rico em detalhes culturais e históricos, uma história de amor com suspense e perigo que vai deixar você encantada! Leonice Pomponio Editora

Copyright © 2004 by Leslie LaFoy Originalmente publicado em 2004 pela St. Martin's Press PUBLICADO SOB ACORDO COM ST. MARTINS PRESS NY, NY — USA Todos os direitos reservados. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência. Proibida a reprodução, total ou parcial, desta publicação, seja qual for o meio, eletrônico ou mecânico, sem a permissão expressa da Editora Nova Cultural Ltda., TÍTULO ORIGINAL: THE PERFECT TEMPTATION EDITORA Leonice Pomponio ASSISTENTES EDITORIAIS Patrícia Chaves Paula Rotta Silvia Moreira EDIÇÃO/TEXTO Tradução: Cecília Florence Borges Rizzo Revisão: Giacomo Leone ARTE Mônica Maldonado ILUSTRAÇÃO Thomas Schlück MARKETING/COMERCIAL Andréa Riccelli PRODUÇÃO GRÁFICA Sônia Sassi PAGINAÇÃO Estúdio Editores.com © 2008 Editora Nova Cultural Ltda. Rua Paes Leme, 524 — 10a andar — CEP 05424-010 — São Paulo — SP www.novacultural.com.br Premedia, impressão e acabamento: RR Donnelley

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Capítulo I

Londres, Inglaterra Janeiro de 1864 John Aiden Terrell virou-se de costas para a lareira e, pela janela, observou a neve que caía. Odiava o inverno. Quase tanto quanto passara a odiar Barrett Stanbridge e a considerá-lo um prepotente desgraçado. As três últimas semanas haviam sido um verdadeiro inferno pelo que lhe tinha feito em nome da amizade. Acima de tudo por ter insistido com ele para se manter sóbrio a fim de sentir cada momento da infelicidade excruciante. E o frio? O inverno gélido de Londres penetrava até os ossos e amortecia a circulação. Apenas vir de Haven House ao escritório de Barrett de manhã era um sacrifício. Bateu os pés no chão e friccionou as mãos dormentes. — Você se importa de parar com essa movimentação? — o alvo de suas queixas indagou sem erguer os olhos do que escrevia. — Não, claro. Vivo para satisfazer suas vontades. Barrett apontou para a bandeja de café do outro lado do escritório e sugeriu: — Tome uma xícara. — Não quero café e sim um gole de conhaque — Aiden respondeu. — São nove e meia da manhã, e você não vai beber conhaque. Nem agora, nem mais tarde, pois está em período de abstinência. Não adiantava nada protestar contra as regras impostas pelo amigo, mas ainda lhe restavam uns fiapos de orgulho. — Como já mencionei várias vezes, não estou interessado em me regenerar — Aiden replicou. — E, em todas essas vezes, eu lhe disse que seu pai me pediu para pôr você de volta no caminho certo. Costumo cumprir meus deveres — Barrett comentou sem parar de escrever. — Nunca palmilhei o caminho certo e você sabe disso tão bem quanto ele. Eu preferia estar morto em vez de levar esta vida insípida que você considera melhor. — Quando o encontrei caído, pensei que estivesse morto. Se uma carroça tivesse passado sobre seu corpo, você não teria sentido nada — Barrett comentou sem erguer o olhar. — Sem dúvida, minha única intenção. Então, o amigo o encarou.

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— Se você estivesse consciente para ver seu estado, teria ficado mortalmente embaraçado, pois provocaria nojo num porco. Comentários como esse tinham sido freqüentes desde quando Aiden ficara sóbrio o suficiente para entender alguma coisa. Não agüentava mais. — Se eu tivesse pensado direito, não teria vindo para Londres — resmungou. Barrett não disse nada, mas Aiden calculou o comentário silencioso: "Se você tivesse pensado direito, não teria ido a Charleston". Aiden virou-se para a lareira e estendeu as mãos para as chamas. — A percepção tardia é sempre perfeita, Aiden. Você não pode se recriminar pelo que não viu na ocasião. — Ah, posso, sim. Apenas me observe — ele replicou com raiva da piedade. Uma batida na porta o poupou de ouvir nova admoestação. Em vez de oferecê-la, Barrett deu permissão ao secretário para entrar. O homem abriu a porta e parou no limiar. — Desculpe a interrupção, senhor. Uma srta. Radford está na ante-sala. Eu lhe sugeri que marcasse hora para amanhã, mas ela insiste tratar-se de assunto urgente. Barrett olhou para além do secretário e sorriu um pouco. — Pegue o casaco da moça, Quincy, e a faça entrar aqui. — Vou indo embora. Não quero me intrometer numa conversa particular — Aiden avisou. — Fique onde está, John Aiden. — A ordem foi dada num tom que só um exoficial do Exército era capaz de usar. Aiden imobilizou-se, parte por hábito e parte instigado por algo indefinido. — Seja qual for o problema dela, irá cair sobre você. Já está na hora de começar a produzir — Barrett declarou. Sarcástico, Aiden sorriu enquanto avisava: — Pois saiba que vou informá-la de que nada será feito sobre seu maldito anel que sumiu, ou algo assim, até a neve derreter. — Não fazemos idéia do motivo que a trouxe aqui — Barrett disse ao levantarse. — Talvez seja um membro desaparecido da família. Se for encontrado, o pagamento será régio. E seu, claro. Quem faz o serviço ganha o dinheiro. — Não me interesso por ele — Aiden retrucou, ansioso para escapar das garras de Barrett por uns tempos e de Sawyer também. Não havia um único momento de sua vida em que não ficasse livre da supervisão de um dos dois.

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— Vejo que você se livrou do respeito próprio e não se importa mais em ganhar a vida. Talvez deva pensar no prazer delicioso de usufruir um tanto de gratidão feminina. Afinal, faz quase um ano, John Aiden. Você já manteve a virtude por tempo suficiente. O fato de Barrett subestimar sua mágoa profunda o exasperou. Sem se conter, Aiden exclamou: — Você não passa de um maldito! — Motivo pelo qual seu pai me, escolheu para salvá-lo — o outro replicou. — Pelo amor de Deus, tenho vinte e seis anos, e ser tratado como criança é ultrajante! Não quero, nem preciso ser salvo, mas deixado sozinho e em paz. — Você teve a oportunidade, mas não a usou bem — Barrett disse ao olhar para a porta e exibir um sorriso formal. — Srta. Sandra Radford, senhor. Quincy afastou-se para o lado e a moça entrou no aposento. Aliás, deslizou numa nuvem do que deveria ser uma seda dispendiosa. Eram duas peças, blusa e saia, Aiden notou, indicação de que ela não contava com uma criada para ajudá-la a se vestir. A moça parecia bem inglesa, de estatura média, pele clara e caracóis pretos que emolduravam a aba de um chapeuzinho elegante. O rosto era bonito, e as curvas da silhueta eram realçadas pelo espartilho. Não que homem algum se atrevesse a admirar abertamente tais predicados. A srta. Radford podia estar lindamente envolta, mas, sob a seda, ficavam evidentes o coração e a alma de uma mulher que se considerava em pé de igualdade a uma duquesa, mesmo sem criada. Aiden esforçou-se para sorrir. Mulheres privilegiadas eram sempre desagradáveis, salvo raras exceções. E a srta. Radford não parecia ser uma. — Bom dia, srta. Radford — Barrett a cumprimentou ao ir ao seu encontro. A moça estendeu a mão sobre a qual ele curvou-se e a apertou de leve ao acrescentar: — Barrett Stanbridge a seu dispor. — Bom dia, sr. Stanbridge. Aprecio sua boa vontade em me receber apesar de eu não ter hora marcada — ela respondeu, com voz de pessoa culta. — Não foi problema algum — Barrett afirmou com um sorriso e apontou para Aiden. — Permita que eu lhe apresente meu auxiliar, o sr. John Aiden Terrell. — Sr. Terrell — ela disse com um menear de cabeça, mas os olhos encontraram os dele. A curiosidade de Aiden, adormecida havia tanto tempo, reavivou-se. Obviamente ele a tinha perturbado. Por quê? — Srta. Radford — cumprimentou.

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— Por favor, sente-se e nos diga em que podemos servi-la — Barrett aparteou, indicando uma das cadeiras diante da escrivaninha. — Aceita uma xícara de café? Aiden terá prazer em lhe servir uma. Aiden, o lacaio obediente, ele protestou em silêncio. Enquanto se sentava, Sandra o fitou por uma fração de segundo. — Aceito, se não for trabalho — respondeu e voltou a olhar para Barrett já sentado em sua cadeira. — Leite? Açúcar? — Aiden indagou, lacônico. — Nenhum dos dois, obrigada — ela respondeu, mas sem fitá-lo. Interessante. Aiden havia pensado que ela pediria duas colheres de açúcar e meia xícara de leite. Não porque preferisse desse jeito e sim para ter alguém que executasse suas ordens. — Quem me indicou seu nome foi a sra. Emmaline Fuller — Aiden a ouviu dizer a Barrett. — O irmão dela, Sawyer, trabalha para o sr. Carden Reeves que, segundo Emmaline, é um grande amigo seu. — Ah, sim, conhecemos Sawyer. E o sr. Terrell está hospedado na casa dos Reeves enquanto a família se encontra fora do país. — No Egito. No projeto de uma ponte. Carden é arquiteto — Aiden explicou ao se aproximar da escrivaninha e entregar-lhe a xícara de café. — Obrigada — ela agradeceu, sem fitá-lo. Era difícil saber se a moça se sentia intimidada ou se o dispensava. Contudo, ele não estava disposto a ser ignorado. Se Barrett tencionava encarregá-lo de seu problema, ele iria se inteirar de tudo desde o início. Com um pouco de sorte, a confundiria tanto a ponto de forçá-la a mudar de idéia e ir embora. Isso, ou Barrett assumiria o caso. Depois de sentar sobre o canto da escrivaninha, Aiden cruzou os pés e os braços. — Por que se tornou necessário a senhorita pedir à sra. Fuller para lhe indicar um investigador particular? Houve a perda ou o roubo de uma peça valiosa de sua propriedade? — ele indagou. O olhar de Sandra perpassou pelas pernas dele, mas desviou-se depressa para Barrett. — Não sei como nem por onde começar — ela disse. — Que tal pelo início? — Aiden sugeriu, sarcástico. — Por favor, ignore a mordacidade dele — Barrett pediu. — Meu auxiliar está meio impaciente esta manhã. Como podemos ajudá-la, srta. Radford?

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— Preciso de um protetor para um menino — ela respondeu. — Seu filho? — Barrett indagou. — De certa forma, sim. Sou responsável por seu bem-estar, educação e segurança. — É sua tutora legal? — Não de acordo com as leis da Inglaterra. — Com quais, então? — As do pai dele. Nesse passo, não estavam progredindo e Aiden aparteou: — Srta. Radford, lamento, mas não tenho paciência em hora alguma do dia. Não poderia começar pelo início e nos poupar o trabalho de decifrar esse enigma? Ela lhe dirigiu um olhar letal que o fez sorrir. Divertia-se com sua pretensão de poder subjugá-lo com o gesto de censura. Ela virou-se para Barrett antes de começar a contar: — Meu pai trabalhava para a Companhia Índia Oriental Inglesa. Após sua morte, minha mãe foi aceita como preceptora por uma família indiana nas províncias do Norte. Quando ela faleceu, assumi seu cargo. — Quando foi isso? — Barrett quis saber. — Logo após a Rebelião Sepoy. — Ou seja, seis ou sete anos atrás. Mas a senhorita devia ainda ser criança para ocupar tal cargo — Barrett comentou. — Eu tinha dezenove anos. Posso lhe garantir que era, como ainda sou, bem competente. Então, ela devia estar com uns vinte e cinco anos, Aiden calculou. — Como o senhor deve saber, a Rebelião Sepoy mudou as estruturas política e econômica da Índia. Com o colapso da Companhia Índia Oriental, algum de seu poder foi redistribuído entre líderes nativos — ele a ouviu dizer. — Que se saiba, nem sempre de maneira pacífica e aceitável — Barrett comentou. Sandra assentiu com um gesto de cabeça e tomou um gole do café antes de continuar: — Os hindus sempre se envolveram em questões políticas. Tendo o poder como alvo, o antigo jogo tornou-se de apostas mais altas e de métodos mais mortais. Três anos atrás, temendo pela vida do filho, meu empregador providenciou para que eu o trouxesse a Londres. Devemos permanecer aqui até ele considerar a Índia e a própria posição seguras para nossa volta. Projeto Revisoras

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— Que idade tem o menino? — Aiden indagou, na esperança de tratar da questão em si. — Dez anos — ela respondeu sem fitá-lo. — E por que a senhorita pensa que ele esteja em perigo? — Barrett quis saber. — Notei que estávamos sendo seguidos quando andávamos pela cidade, sr. Stanbridge. Eu gostaria de pensar que se tratava de um batedor de carteiras à procura de uma vítima. Porém, dada a situação, não posso assumir que seja algo tão inofensivo. Aiden franziu a testa. Por Deus! Ela não considerava perigosa a ameaça de um batedor de carteiras? Irritado, indagou: — Como o menino se chama? — Mohan — ela respondeu com frieza. — Se o pai de Mohan se preocupa tanto com a segurança do filho, por que não mandou um batalhão para protegê-lo em Londres, forçando-a a procurar por nós? Dessa vez, ela o encarou e respondeu como se falasse a uma pessoa simplória: — Um batalhão, sr. Terrell, atrairia atenção e, com ela, o perigo que está se tentando evitar. O pai de Mohan preferiu uma solução mais discreta e mandou dois de seus homens de confiança para nos acompanhar, disfarçados de serviçais da casa. Um morreu de uma febre durante nossa viagem. Como temesse revelar nosso paradeiro aqui, requisitando um substituto, decidi ficar só com um. Infelizmente, quatro meses atrás, ele foi apanhado numa briga de rua. Sofreu uma pancada na cabeça que o deixou parcialmente paralisado e com o raciocínio de uma criança. Os médicos me avisaram que não havia mais nada a fazer por ele. Então, três semanas atrás, mandei-o de volta para a família na Índia. Na mesma ocasião, avisei o pai de Mohan sobre nossa situação e lhe pedi para providenciar substitutos. Até chegarem, eu gostaria de contar com os serviços do sr. Stanbridge para garantir a segurança de Mohan. Barrett, e não ele, Aiden notou. Deus existia! Mas como já contasse com a atenção da srta. Radford, queria aproveitá-la. — Por que não mandou avisar o pai de Mohan quando o homem sofreu a pancada em vez de esperar até se encontrar nessa situação precária? — Aiden investiu. — Sr. Terrell, eu pensava que ele se recuperaria, e enviar notícias seria arriscado. Há pessoas à espera para interceptá-las a fim de localizar Mohan. Manter contato é sempre perigoso e deve ser evitado ao máximo — ela respondeu em tom calmo, embora os olhos faiscassem de raiva. — Se essas pessoas encontrassem o menino, o que fariam? — Barrett perguntou. Projeto Revisoras

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— No início, o prenderiam e exigiriam um preço pelo resgate. No fim, o matariam brutalmente. — Bem, poderá levar meses para os guardas do pai de Mohan chegarem aqui — ele comentou num tom que Aiden reconheceu como a abertura da fase de negociações. — Compreendo, sr. Stanbridge — ela afirmou enquanto enfiava a mão no bolso da saia e continuava: — Estou preparada para lhe pagar o que o senhor pedir durante a execução de seu trabalho. — Será considerável — Barrett declarou em tom calmo. — O pai de Mohan é generoso e ama muito o filho — ela afirmou ao tirar do bolso um saquinho de seda preta, amarrado com um cordão dourado. Entregou a ele e acrescentou: — O rajá me confiou recursos necessários para cuidar do menino em qualquer situação. Aiden viu Barrett desamarrar o saquinho e virar o conteúdo na palma da mão. Quase derrubou o queixo ao ver o colar de brilhantes e rubis. O trabalho era magnífico, as pedras cintilantes e límpidas. — Se o senhor preferir em dinheiro, eu mesma posso convertê-lo em moeda — ela ofereceu enquanto Barrett punha o colar no saquinho. Ele sacudiu a cabeça e o guardou no bolso do paletó. — Não será necessário, srta. Radford. Aiden respirou aliviado e observou a moça. Nesse curto espaço de tempo, tinha aprendido pouca coisa a seu respeito. Queria descobrir mais antes de Barrett determinar qual dos dois se incumbiria do caso. — Apenas por curiosidade. Os hindus virão bater em nossa porta para pedir o retorno da jóia de sua coroa? — ele indagou. — De forma alguma. Esse colar está na família de Mohan há séculos — ela garantiu. — O pai de Mohan é rei? — A Índia tem muitos reis, sr. Terrell. — Eu sei. O pai de Mohan é um deles? Barrett apressou-se em interferir: — Srta. Radford, embora deplore a abordagem um tanto brusca de meu auxiliar, devo dizer que ele tem razão para fazer tais indagações. Para proteger o menino de maneira adequada, precisamos saber quais serão as conseqüências. O que os homens estão dispostos a fazer para alcançá-lo faz muita diferença. — O pai de Mohan é rajá — ela respondeu. — E Mohan é herdeiro do trono, certo? —Aiden calculou.

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— Sim. — E onde está Mohan agora? — Barrett quis saber. — Com Emmaline Fuller. Ela havia deixado o menino com uma senhora idosa? Por Deus! — Espero que ela aparente ser bem mais forte do que Sawyer. Caso não, a única coisa que interromperá o seqüestro do menino será um compromisso diplomático entre os dois países — disse Aiden. — Não sou tola, sr. Terrell. Tratei dois homens para manter guarda do lado de fora da loja até eu voltar. Estão armados e têm fama de atirar bem. Ela havia arranjado dois malandros de rua, Aiden refletiu. — Por que não conservá-los até o rajá mandar seus guardas? Não custarão tanto quanto nós. — Existem certas normas que precisam ser respeitadas, sr. Terrell. Os dois homens não são do tipo com quem Mohan possa conviver por tempo algum. Serão úteis apenas esta manhã. — Tenho certeza que sim — Barrett concordou depressa. — Assim como sei que a senhorita achará o sr. Terrell muito competente. Ele tem seus defeitos, mas é um homem muito experiente. — O sr. Terrell vai contratar guardas com horário de serviço? — Não, esse encargo é meu — Barrett respondeu. — Decidi que o sr. Terrell será o protetor de Mohan vinte e quatro horas por dia e até a guarda do rajá chegar. A senhorita e o menino estarão em muito boas mãos. — O sr. Terrell vai morar conosco? — ela indagou. — É o melhor para garantir a segurança do menino. Exceto se tal arranjo lhe der motivo de preocupação — Barrett respondeu. Ela alegaria a reputação a fim de evitar a convivência nas próximas semanas?, Aiden conjeturou e decidiu provocá-la. — Por acaso está pensando em mudar de idéia, srta. Radford? — Não — ela respondeu meio trêmula. — Imagino que o senhor vá à sua residência para pegar itens de uso pessoal antes de se juntar a mim e Mohan. — Mandarei buscá-los. Para onde deverão ir? — À loja Blue Elephant em Bloomsbury — Sandra respondeu ao levantar-se com um leve farfalhar de seda. Barrett apressou-se a acompanhá-la até a porta e disse:

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— Minha mãe sempre elogia essa loja. Pelo que ela diz, é o lugar ideal para comprar peças de prata e artigos do Extremo Oriente. Aiden não pôde entender o resto da conversa, pois os dois atravessavam a ante-sala. Se tivesse um pingo de juízo, fugiria por uma das janelas. De nada adiantaria, pois Barrett iria procurá-lo, determinado a cumprir a obrigação assumida. Melhor, Aiden supunha, seria acomodar-se à situação e fingir estar cooperando. Só assim escaparia, por uns dias, do esquema de Barrett. Se a duquesa tentasse impor os seus, ele a desiludiria. — Quincy já lhe entregou o casaco e foi providenciar uma carruagem — Barrett avisou ao retornar e ir direto ao cofre a fim de guardar o colar. — Mandarei avisar Sawyer por você, Aiden. Caso precise de mais alguma coisa é só me avisar. — Diga uma coisa, continuo trabalhando no caso da prata? — Por um golpe de sorte, sim. — Depois de fechar, a porta do cofre, acrescentou: — Tome cuidado. Nossa srta. Radford pode ser muito mais do que aparenta. — É mesmo? Não notei — Aiden disse numa voz arrastada ao se dirigir para a porta. Sandra sentou-se no banco da carruagem e cruzou as mãos no colo. Lamentava não ter tido, por falta de coragem, um acesso de raiva. Barrett Stanbridge era tudo que Emmaline havia dito; homem distinto, cavalheiro e profissional competente. O assistente dele, porém, era outra questão. John Aiden Terrell não passava de um sujeito muito pouco civilizado. Os cabelos dele eram compridos demais e meio embaraçados, destacando os olhos verdes mais lindos que Sandra já vira. Eles quase tinham lhe tirado o fôlego, mas, então, notara o brilho sarcástico neles. Isso, mais os ombros largos, os movimentos espontâneos e elegantes dele a levaram a compará-lo a um tigre. Pensou no perigo disfarçado sob a maneira indolente desse animal. Apesar de difícil, ignorou-o. Ele tinha tentado tumultuá-la, meio sentado na escrivaninha, as pernas musculosas bem destacadas. Sem dúvida tinha abandonado o cavalheirismo. O homem era, quando muito, um libertino confuso. Ela devia ter protestado contra o arranjo feito pelo sr. Stanbridge, pois preferia evitar qualquer contato com o sr. John Aiden Terrell. Ele a deixava muito... Bem, assustada, não. Por ser bem diferente dos cavalheiros que havia conhecido, ele a deixava curiosa. Seu coração disparava cada vez que os olhares de ambos se cruzavam, e ela prendia a respiração ao ouvir-lhe a voz. E a maneira com que ele se mexia... Por Deus, o homem era uma festa para olhares despudorados.

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Tudo, enfim, muito perturbador. Sim, Sandra decidiu, John Aiden Terrell a perturbava muito. Devia ter recusado quando o sr. Stanbridge lhe comunicara a escolha dele, mas ficara calada. Terrell a tinha provocado até o orgulho dominar seu bom senso. Agora, via-se presa a ele pelo futuro imediato. Só lhe restava tomar cuidado e lembrar-se de que a proteção de Mohan vinha em primeiro lugar. Se Terrell não se mostrasse à altura da tarefa, ela não hesitaria em despedi-lo. Comum pouco de sorte, talvez antes do anoitecer. A portinhola da carruagem alugada abriu-se, Terrell entrou e atirou-se no banco à sua frente. Estava sem chapéu e enfiou as mãos nos bolsos do sobretudo enquanto dizia: — Presumo que a senhorita tenha dado seu endereço ao cocheiro. A carruagem partiu antes que ele terminasse de falar e de Sandra se dar ao trabalho de confirmar. Em vez disso, explicou: — Quero deixar um ponto bem claro, sr. Terrell. No escritório, o senhor classificou minha situação de precária. Não, é apenas um tanto incerta. Aliás, era... espero. Uma sobrancelha aloirada ergueu-se, sumiu sob os cabelos caídos na testa e um sorriso curvou-lhe os lábios, revelando covinhas no rosto bonito. — Pois continua sendo, srta. Radford. O tempo para alguém puxar o gatilho é de meio segundo. — Ninguém da Índia usará arma de fogo. Uma lâmina metálica seria a escolhida. É uma tradição — ela esclareceu, tentando conter a irritação. — Isso a leva a se sentir melhor? — Fui treinada em defesa pessoal — informou, fitando-o com firmeza. — É perita o suficiente para virar a arma de um atacante contra ele mesmo? Não, porém não revelaria a verdade ao tigre sentado a sua frente. Com voz calma, respondeu: — Eu lhe garanto, sr. Terrell, ser capaz de atrapalhar um atacante o tempo suficiente para Mohan escapar para segurança. — Ele fugiria ou ficaria a seu lado para ajudá-la? O homem tinha a persistência de um cão de caça, mas nenhum de seu encanto. — Mohan foi instruído a fugir em tais situações. — A senhorita não respondeu a pergunta. Aliás, um hábito seu, sabe? — Aiden comentou ao inclinar-se para a frente e fitá-la bem dentro dos olhos. — Mohan é do tipo de criança que pensa em si mesmo primeiro e não nos outros? Sandra não entendia por que ele insistia tanto nesse ponto, mas respondeu:

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— Desconfio que, numa situação ameaçadora, Mohan cometeria a tolice de ficar para me proteger. — Atitude elogiável de cortesia e coragem. Hoje em dia, as crianças pensam mais em si mesmas. — Mohan não pode se dar ao luxo de ter tais ideais. Um dia, ele será rajá e a sobrevivência dele é muito mais importante do que consideração pelos outros — Sandra esclareceu. — Do que servirá um rajá covarde? Quem lhe obedecerá de boa vontade? Isso assumindo, claro, que ele venha a ter a firmeza de um líder — ele argumentou ao recostar-se no banco. O que Aiden Terrell entendia de liderança? Ele não passava de um subalterno a trabalho de alguém disposto a pagá-lo. — Mohan será, um dia, um líder muito competente e corajoso. A sobrancelha aloirada tornou a erguer-se. — Será também sensato? — É meu dever ajudá-lo a adquirir sabedoria e experiência necessárias para exercer o poder pelo bem de seu povo. Aiden suspirou, comprimiu os lábios e fixou o olhar na ponta das botas. Após um longo momento, fitou-a. — É costume na Índia evitar responder a perguntas? — Como assim? — Sandra perguntou, confusa com a mudança de assunto. — Pronto. A senhorita fez isso outra vez. Vejo que tem dificuldade em dar respostas diretas, srta. Radford. No curto espaço de tempo em que nos conhecemos, suas respostas têm sido de três tipos: meia verdade, informação desligada da pergunta ou uma tentativa de mudar de assunto. A senhorita não é totalmente honesta a não ser que seja forçada. Por quê? Porque é um meio de sobrevivência numa corte na Índia, Sandra respondeu mentalmente. — Não vejo como meu comportamento pessoal lhe diz respeito, sr. Terrell. O senhor foi contratado com o único propósito de proteger Mohan. E embora seu dever e o meu sejam o mesmo no momento, nossa associação não exige nada além de relação de negócios. Ele inclinou a cabeça para o lado e sorriu. — Essa resposta um tanto longa vai para a categoria de mudança de assunto. Por que faz isso?

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A conversa não ia nada bem. Sandra se sentia sob assédio, o que a desagradava. — O senhor é um homem de curiosidade muito imprópria — declarou, na esperança de forçá-lo a ser mais respeitoso. — Informação desligada da pergunta. — Mais uma vez inclinou-se para a frente a fim de prender-lhe o olhar. — Vamos voltar ao ponto em que a senhorita tentou desviar minha atenção. Mohan será um líder sensato? Ele não ia mesmo se sujeitar a convenções sociais. — É muito cedo para dizer. Afinal, Mohan está com apenas dez anos. Tem a compreensão de uma criança. Aiden não conteve um sorriso. — Isso lhe foi fisicamente doloroso, não foi? — E a possibilidade o agrada sobremaneira. — Meia verdade desligada da pergunta. Um quarto tipo de resposta sua. Estou impressionado. Ele devia ser o homem mais insuportável de Londres. Não, da Inglaterra inteira. Talvez até do mundo. A perspectiva de aturar as perguntas e o sarcasmo dele era insuportável. — Existe uma razão para essa sua compulsão em me provocar? Eu o lembro de alguém com quem o senhor antipatiza? — A senhorita não parece ter dificuldade em fazer perguntas diretas. — Uma verdade relacionada, sr. Terrell. Talvez até uma tentativa de mudar de assunto. Mas não uma resposta — ela afirmou, ríspida. O largo sorriso dele franziu o canto dos olhos e provocou um choque bem no centro do peito de Sandra. — É a senhorita não parece gostar de evasivas mais do que eu. Que tal declararmos uma trégua? Ou devemos continuar nesta esgrima verbal até um de nós arrancar sangue? Uma trégua? Por Deus, não! Ela precisava manter a maior distância possível entre ambos. Ele conseguia minar sua concentração e lhe provocar sentimentos quase incontroláveis. — Não aprecio suas maneiras, sr. Terrell. Além de desrespeitoso e sarcástico, o senhor dá a impressão de estar pouco interessado na tarefa de que foi incumbida. Ele riu com desdém. — Faz menos de quinze minutos que fui encarregado do trabalho. A maior parte desse tempo foi gasta, sem sucesso, na tentativa de lhe arrancar respostas Projeto Revisoras

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diretas. Isso significa que, até agora, a senhorita não merece meu respeito. Bem, quanto ao sarcasmo... Não gosto de ser tratado como um lacaio bajulador, srta. Radford. — Especialmente por mulheres — Sandra esclareceu, temendo enraivecê-lo. — Ainda mais por moças com senso exagerado de importância. O homem havia percebido que ela não era do tipo de lhe suplicar para livrá-la de todo mal. E já que não correspondia a seus ideais de feminilidade, o sr. Terrell não se via obrigado a ser cortês. Não era a primeira vez que a acusavam de ser pouco feminina, mas a farpa penetrava mais fundo do que nas outras. Estranho. Com dignidade, Sandra exibiu um sorriso e disse: — Ao que tudo indica, sr. Terrell, não vamos conseguir trabalhar bem juntos. Talvez fosse melhor mandar o cocheiro voltar ao escritório. — Desde que a senhorita compreenda que sou o mais próximo de um cavalheiro que Barrett Stanbridge pode lhe designar. Se está procurando servilismo abjeto, terá de procurar outro investigador particular. Servilismo seria perfeito. Era a maneira com que os homens quase sempre a tratavam. Um dos benefícios por ser preceptora da realeza, o único membro inglês da mansão do rajá. — O sr. Stanbridge será o ideal, pois se conduz de maneira muito apropriada — ela declarou. Aiden ofereceu outro largo sorriso, o que a assustou. — Se Barrett estivesse interessado em proteger o pequeno rajá, teria se oferecido e a senhorita e eu teríamos terminado nosso encontro na porta do escritório. Ela se viu em apuros. Dominou o medo e, calmamente, anunciou: — Então, terei de procurar outro investigador. — Onde? A senhorita já entrevistou todos os bem conceituados de Londres — ele disse, rindo. — Como assim? — Sandra indagou, perplexa por ele saber disso. Aiden esticou as pernas, cruzou os braços no peito e sorriu. Ela sentiu o estômago contrair-se. — A senhorita contou que mandou o guarda acidentado para a Índia três semanas atrás. Dada a sua determinação em proteger o menino, duvido que tenha passado esse tempo sem procurar alguém para substituí-lo. Como não encontrasse um que atendesse a seus requisitos, foi se aconselhar com Emmaline. Barrett é um investigador secreto e só se ouve falar nele por referências pessoais. Seguindo a

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lógica dedutiva até o fim... restam-lhe duas opções, srta. Radford. Eu, ou ficar sozinha. Talvez ele fosse um protetor eficiente de Mohan. Raciocinava com precisão e clareza. Porém, ela não estava disposta a lhe ceder o controle de qualquer situação. — Que credenciais e experiências tem, sr. Terrell? Ele riu baixinho e devia estar pensando: Mudança de assunto. Pelo menos achava graça e não a atormentava. — Muito poucas, na verdade. Aos dez anos, e com irmãos mais novos, descobri o que se passa na mente de meninos. Além disso... Barrett decidiu que devo levar uma vida produtiva. Percebi que, no momento, é mais fácil concordar do que brigar com ele. — O senhor sempre escolhe o caminho mais fácil? — Raramente. Estou num período de reabilitação. Ela imaginou o quanto de progresso haveria. Aiden deu a impressão de ler seu pensamento e acrescentou: — Ainda não estou satisfeito. Mas como a vida de uma criança corre perigo, me arrastarei em frente. Ela notou-lhe a resignação no tom de voz. Havia passado a vida inteira se arrastando dia após dia. Mesmo assim... — Não considero sua atitude muito animadora, sr. Terrell. Ele ficou sério e-o brilho dos olhos esmaeceu. — Pelo tempo necessário, farei o que for preciso para proteger Mohan. Sua opinião sobre mim no processo não terá importância. Ela não entendeu por que isso a perturbou tanto, pois a liberava. — O que iguala meus sentimentos quanto a seu conceito sobre mim, sr. Terrell. — Ótimo. Estamos de acordo. Pela primeira vez. — Será a única, provavelmente. — Não. Outro ponto é essencial. Sou responsável pela segurança do menino e tomarei decisões a esse respeito. A senhorita concordará em respeitá-las. — Apenas se eu as considerar sensatas. Não abrirei mão de meu julgamento para o senhor e a ninguém mais. Fez-se silêncio, durante o qual a carruagem diminuiu a velocidade e parou diante da loja de Emmaline. Aiden inclinou-se para a frente, segurou o trinco da portinhola e declarou:

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— Sou um homem razoável. Estou disposto a discutir qualquer problema que surja, mas até um limite. Depois dele, não tolerarei dissidência de sua parte ou de Mohan. — Prepotência de sua parte — Sandra afirmou em tom frio. Ele sorriu, exibindo as covinhas e provocando-lhe um arrepio. — Posso esgrimir com os melhores. Encontrou seu parceiro, Duquesa — ele garantiu, piscando e, então, abriu a portinhola e pulou para o chão coberto de neve. Perplexa e furiosa demais, Sandra continuou sentada. Duquesa? E o que o piscar significava? Provocação? Ele estava ali fora, em pé, com a mão estendida a fim de ajudá-la a descer. — Só quando o inferno congelar — ela resmungou ao erguer a saia, descer sozinha e ignorá-lo. — John Aiden! Sandra dirigiu o olhar para a voz da mulher que vinha em direção a eles, da chapelaria de Emmaline. Nunca tinha visto a moça atraente, mas reconheceu a criada que a seguia. Sandra viu o sinal desta para não revelar que se conheciam. A patroa, sra. Geoffrey Walker-Hines, ficaria mortificada se a verdade viesse à tona. — Ouvi dizer que você tinha voltado a Londres! — a outra exclamou e, sorridente, estendeu as duas mãos para Aiden. — Que prazer revê-lo, Aiden! — Também é um prazer revê-la, Rose — ele disse com um sorriso forçado. — Você está radiante como sempre. Como vão Geoffrey e o filhinho? A menção do marido não a impediu de abandonar o decoro. Firmada nas mãos de Aiden, ficou na ponta dos pés, beijou-o no rosto e prensou os seios no peito dele. — Ambos estão muito bem — respondeu ao se afastar, mas sem soltá-lo. — E agora já temos uma filha. Elizabeth nasceu quase dois anos atrás. Você deve ir jantar conosco uma noite destas para conhecê-la. O sorriso de Aiden tornou-se mais forçado ainda, Sandra notou. — Irei na primeira oportunidade — ele prometeu. — Direi a Geoffrey para providenciar seu conhaque preferido. E sinta-se à vontade para levar sua amiga. Sandra viu-se alvo do olhar firme e hostil da mulher. Lembrou-se de todas as conversas que havia tido com a criada e as transações efetuadas. Não havia motivo para tal animosidade. A discrição absoluta havia sido mantida. — Mil perdões, senhoras — Aiden disse ao soltar as mãos depressa, segurar o cotovelo de Sandra e apresentá-las: — Sra. Geoffrey Walker-Hines e srta. Sandra Radford.

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Rose dirigiu-lhe um sorriso que só outra mulher reconheceria como venenoso. — Se você está com Aiden, deve ter a paciência de uma santa. — De forma alguma — Sandra disse antes de mentir: — É um prazer conhecêla. — Igualmente — a outra retribuiu a mentira para voltar a dedicar atenção a Aiden. — O convite fica aberto e para quando lhe for conveniente. É muito bom tê-lo de volta. Sentimos sua falta. O sorriso forçado quase sumia quando ele recomendou: — Dê minhas recomendações a Geoff. — Darei — ela prometeu e dirigiu-se à carruagem. Antes de subir, acenou e disse: — Até então, Aiden querido. Ele retribuiu o gesto e, baixinho, disse: — Apenas como simples informação. Geoffrey Walker-Hines é um desperdício como bom marido. — Concordamos numa segunda questão — Sandra admitiu. — Como a senhorita o conhece? — Não pessoalmente. Os serviçais deles têm vendido peças de prata de herança nos últimos seis meses para pagar dívidas domésticas. — Como sabe disso? — Negocio com prata. — Essa foi uma meia resposta. Mas posso deduzir o resto. E fácil calcular por que os Walker-Hines estão em situação precária. Geofrey é jogador e gosta de ter amantes cujos gastos não pode sustentar. John Aiden Terrell também mantinha amantes ou preferia ligações passageiras com mulheres casadas? A julgar pelo beijo de Rose... Sandra censurou-se mentalmente. A vida pessoal de Terrell não lhe dizia respeito. — Impossível não imaginar por que ela se casou com esse homem. — Achou melhor ser esposa de Geoffrey do que ficar... Aiden calou-se, mas Sandra sabia a palavra, pois a tinha ouvido muitas vezes. — Solteira — terminou por ele ao puxar o cotovelo. — Nesse ponto, jamais concordaremos, sr. Terrell. Melhor não se casar do que passar a vida infeliz. Os olhos escureceram e os lábios crisparam-se antes de ele afirmar numa voz baixa e sombria: — Há destinos piores para se suportar do que um casamento infeliz, srta. Radford. — Apontou para a porta da loja e sugeriu: — Vamos entrar?

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Sandra assentiu com um gesto de cabeça. Mal o conhecia e pouco se importava com ele, mas crueldade involuntária também era inaceitável. Perturbada com a tristeza óbvia, ela tentou aliviá-la dizendo: — Lamento se reavivei algo pesaroso, sr. Terrell. Não foi minha intenção. Embora tênue, o sorriso dele foi de gratidão. Tornou a segurar seu cotovelo e a levou rumo à porta da loja. — Emmaline sabe que Mohan é herdeiro de um trono? — indagou. — Tive de lhe contar. Caso contrário, ela não saberia como eu precisava dos serviços de um investigador socialmente aceito. — Vejo que entrevistou todos os outros. — Eu não disse isso. Ele riu baixinho, o som provocando-lhe uma sensação estimulante. O corpo relaxou enquanto a mente a advertia de que a habilidade de Aiden Terrell era um perigo diferente de todos os que já havia enfrentado. Um arrepio percorreu seu corpo' e Sandra tentou descobrir o que o provocava. Não era apreensão e, muito menos, repugnância. De certa forma uma ânsia agradável como... Expectativa, deu-se conta com o coração aos pulos. Deus do céu, o que havia de errado com ela? Precisava se manter afastada do tigre o máximo possível. Se ao menos houvesse protestado quando Barrett Stanbridge lhe dera a chance, ou se existisse outra pessoa que pudesse contratar! Sandra puxou o cotovelo e rumou para o fundo da loja. — Por favor, me acompanhe — disse em tom autoritário, desejando que ele lhe virasse as costas e sumisse de sua vida.

Capítulo II

Aiden não queria notar o movimento sedutor de sua saia e nem segui-la. Mas refletiu que apenas olhar não era traição e, afinal, precisava conhecer o menino a quem cabia proteger. Com a consciência aliviada, caminhou entre chapéus, luvas e bolsas em exibição. Havia uma cortina cobrindo a passagem para o fundo da loja e atrás da qual a srta. Radford desapareceu sem olhar para trás.

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Tentado a ir a um bar no cais, parou ao ouvir uma exclamação de surpresa na voz da duquesa. — O que está fazendo?! — Sua Excelência queria chá e biscoitos — respondeu uma voz de mulher que Aiden calculou ser Emmaline. — Mohan! Aiden já abria a cortina quando ouviu uma criança dizer em tom pomposo: — Sim, srta. Sandra? Ela não pôde responder, pois ajudava uma mulher idosa, ajoelhada, a se levantar. Estava difícil, pois a outra não queria largar uma bandeja de prata com um aparelho de chá. Mohan, um menino franzino, de pele bronzeada e sentado numa cadeira, observava a cena, os pés numa pilha de almofadas de veludo, Aiden notou. — Emmaline, você é inglesa e não se curva para ninguém, exceto para nossa rainha. Ainda meio abaixada, Emmaline imobilizou-se e a fitou. — Mas Sua Excelência disse que você se curva a ele o tempo todo. — Ele é Mohan e não "Sua Excelência", e gosta muito de inventar tolices — Sandra afirmou em tom severo enquanto Aiden se aproximava de Emmaline, tirava a bandeja de suas mãos e a ajudava a ficar em pé. A duquesa agradeceu com um gesto de cabeça e continuou a falar: — Jamais me curvei a ele ou a seu pai. Mohan vai sofrer as conseqüências por tê-la humilhado. — Não humilhei a sra. Fuller. Por bondade, lhe dei a chance de demonstrar sua reverência por mim e minha posição. Aiden mordeu a língua e decidiu que seria melhor deixar a duquesa disciplinar o menino atrevido. Deu um passo para trás e a viu, com as mãos nos quadris enfrentar o pequeno tirano. — Nós discutiremos este incidente quando chegarmos em casa. No momento, você pedirá desculpa à sra. Fuller. Mohan não parecia disposto a obedecer. Aiden podia ver-lhe a revolta nos olhos escuros e o corpo franzino tremer de raiva; Sem dúvida uma criança problemática. — Mohan? — ela disse, enérgica. Aiden admirou-lhe a firmeza e, então, viu um sorriso matreiro no rosto de Mohan. Sem olhar para Emmaline, ele continuou a encarar a preceptora de maneira atrevida.

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— Sra. Fuller, lamento muito que a srta. Sandra considere imprópria sua atitude. Sandra ergueu o queixo, mas estava chocada demais para reagir. Aiden manteve-se imóvel, à espera de que ela resolvesse a questão. Mas foi até o menino sorrir, vitorioso. Deu uns passos para a frente, prendendo-lhe a atenção. — Muito bem, rapazinho, vamos tentar outra vez. A cabeça de cabelos negros mexeu-se ao olhá-lo de alto a baixo. — Quem é o senhor? — O homem que o porá sobre seus joelhos e lhe dará umas boas palmadas se você não se desculpar. — O senhor não se atreveria. — Se você quiser comer em pé durante uma semana inteira, tente me desafiar. — Srta. Sandra, este homem é rude — ele disse com desdém. — Bruto e malvado também — Aiden acrescentou, disposto a impedir Sandra de interferir. O menino havia se excedido e não escaparia ileso. — Esta é a última vez que você terá a chance de ser civilizado. Peça desculpas à sra. Fuller como a srta. Radford o instruiu. Mohan o encarou e, nervosa, Emmaline disse: — Ai, isso não é tão importante e não vale tanta confusão. — Vale, sim — Sandra afirmou antes que Aiden o fizesse. — Mohan, suas desculpas são necessárias e ficaremos aqui até que elas sejam dadas. Você não comerá nem beberá pelo tempo que isso levar. Mohan fitou Aiden por uma fração de segundo e desviou o olhar para Sandra. Encolheu a postura arrogante, mostrando que ela não cederia. Com o olhar no chão, o menino começou: — Desculpe... Mas Aiden o interrompeu: — Não, você vai ficar em pé e fitar a sra. Fuller. Mohan levou uns instantes para obedecer. — Desculpe por ter abusado de sua bondade, sra. Fuller. Isso não se repetirá — ele afirmou depressa e num fôlego só. — Obrigada, Mohan. Aceito suas desculpas — Emmaline afirmou e suspirou aliviada. Mais calma, Sandra disse:

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— Bem, com a questão resolvida, vamos às apresentações. Mohan, este é o sr. John Aiden Terrell. Ele foi encarregado de cuidar de sua proteção até que seu pai envie um substituto para tal. Sr. Terrell, aqui está Mohan Singh. E, claro, a sra. Emmaline Fuller, proprietária desta loja, irmã de Sawyer e minha amiga. Depois de um gesto rápido de cabeça para o menino, mais de advertência do que de saudação, Aiden ofereceu um sorriso para Emmaline e curvou-se. — É um prazer conhecê-la, madame. — Sawyer fala a seu respeito com grande consideração, sr. Terrell. Alegro-me por finalmente conhecê-lo. Fico tranqüila com o fato de Sandra e Mohan estarem sob mãos tão eficientes. — E eu sei que você ficará muito mais tranqüila se formos embora, Emmaline. Muito obrigada por ter cuidado de Mohan esta manhã — Sandra agradeceu, já se dirigindo à cortina que separava a loja. A amiga a seguiu a fim de acompanhá-los até a saída. — Não foi problema algum, Sandra. Se precisar outra vez, é só pedir. Mohan correu a fim de passar na frente de todos, mas Aiden o segurou pela gola do casaco. — Quer queira, quer não, você vai praticar boas maneiras. As damas sempre vão na frente. Só quando chegarem à porta, você pedirá licença e a abrirá para elas. Entendeu? O "sim" dele foi mais de ressentimento do que de aceitação, mas Aiden o soltou. As senhoras já estavam perto da porta quando Sandra parou. — Emmaline, onde estão os dois guardas que contratei? — Não faço idéia. Andavam ali fora, mas, de repente, só havia um policial que enfiou a cabeça na loja e perguntou se estava tudo bem. Eu lhe garanti que sim e ele se foi. E os dois não voltaram. — Bem, se o fizerem a fim de receber o pagamento pelo serviço, por favor, peça para me procurarem. Se voltarem? Aiden revirou os olhos. Apenas Newgate, o famoso presídio, os manteria longe dali. Ao perceber que a conversa chegava ao fim, ele apontou a porta para Mohan. Ao mesmo tempo. Emmaline dizia: — Estou muito contente por você não precisar mais contratar esses tipos asquerosos. Prometa ser prudente caso eles a procurem. — Sempre sou, Emmaline — Sandra afirmou e aprovou, com um sorriso, a atitude de Mohan.

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Ah, sim, contratar malandros de rua tinha sido muito prudente, Aiden refletiu com sarcasmo. Curvou-se para Emmaline e acompanhou os dois para a rua. Em silêncio e com Mohan a seu lado, Sandra começou a andar, deixando Aiden por conta própria. Se ele não tivesse certeza de que Barrett o caçaria e tornaria sua vida miserável... Entre uma rocha e o chão duro não restava escolha, ele refletiu ao enfiar as mãos nos bolsos do sobretudo e segui-los. Um pouco adiante deles, saindo de um prédio e suspensa por correntes, uma placa pintada de azul e cortada na forma de um elefante dizia: "Loja Blue Elephant, Artigos da Índia e do Extremo Oriente". Aiden suspirou e resignou-se a encarar as tarefas à sua espera e que se acumulavam a cada minuto. No início, a proteção de um futuro rajá não parecera complicada, mas, ao conhecê-lo, as dúvidas surgiram. Isso sem mencionar o fato de a srta. Radford ser dona de uma loja e talvez negociar com prata roubada. Ela não parecia do tipo de exercer tal atividade, porém, havia contratado dois malandros de rua. O instinto dele já havia falhado antes, e Rose Walker-Hines era um exemplo disso. Nunca tinha imaginado que ela fosse tão sexualmente predadora, embora admitisse tê-la apreciado por uns meses. Mas isso pertencia ao passado, refletiu. E não existia a mínima chance de a afetada e altiva srta. Radford entretê-lo de maneira tão deliciosa e depravada. Não que ele não estivesse disposto a ensiná-la. Aiden estremeceu e, desgostoso, fez uma careta por ter esquecido não só a resolução como também a honra. Havia feito uma promessa sagrada e a tinha respeitado sem tentações ou pesar por um ano. Agora, as lembranças de ardentes noites de prazer retornavam. Ele precisava manter a mente focalizada no trabalho à frente. Pensar em Sandra Radford como qualquer coisa a não ser sua empregadora, e talvez ladra, não adiantaria nada. Tinha de se concentrar no serviço e não ficar imaginando Sandra nua, rolando com ele na cama. Mohan Singh. Sim, ali estava algo terrível o suficiente. Como se exercer proteção e investigar roubo às escondidas não bastassem, o destino tinha agregado a criança mais rude que já tinha conhecido. Havia algo positivo nesse último ponto. Qualquer pessoa, idiota o bastante para raptar Mohan, logo o traria de volta. Enquanto o menino estivesse fora e ele e Sandra sozinhos... — Maldição! — resmungou, furioso com o rumo dos pensamentos e perturbado com a imagem de Sandra nua nos braços dele. — Sr.Terrell? Ele piscou e viu-se diante da vitrine da Blue Elephant e a duquesa observandoo. — Pretende entrar logo ou devo fechar a porta?

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Sandra notou-lhe a hesitação e sentiu-se magoada. Já era deprimente ele mostrar, pela expressão, não gostar do arranjo da vitrine, no qual ela gastara horas, mas resistir a entrar... Depressa, virou-se a fim de controlar as emoções. Por que se importar com a opinião dele? Afinal, não era um freguês ou um amigo. Não passava do guarda de Mohan, uma presença masculina para desencorajar raptores. Começou a fechar a porta, mas ouviu: — Com licença? Assustou-se com a voz dele tão perto e com a resistência da porta. Olhou para trás e o viu com um pé dentro e outro fora. O olhar desconfiado dele encontrou o seu, o que a fez passar logo para o outro lado do capacho enquanto o pulso disparava. Ele entrou e fechou a porta. Mohan, que subia a escada, parou e virou-se. — Não gosto de suas maneiras, sr. Terrell. São desrespeitosas. — Aqueles que não respeitam os outros não têm o direito de exigir respeito — Aiden afirmou. Verdade pura, Sandra admitiu em silêncio e sem fitá-lo. Por que ele a afetava tanto? — Não é hora para se discutir isso, Mohan. Suba — ela ordenou. — Foi apenas uma brincadeira inofensiva. — Mentir e humilhar as pessoas nunca é inofensivo — Sandra afirmou, frustrada com a obstinação dele. — São atitudes de pessoas vulgares. Você é superior a isso. Agora, por favor, retire-se para seu quarto e reflita sobre os alicerces de um bom caráter. Logo irei vê-lo para tratarmos desse assunto. Ele olhou para além de Sandra, fez uma careta e subiu, batendo os pés nos degraus. Ela começou a desabotoar o casaco, pensando se seria possível declarar o dia terminado se ainda não era meio-dia. Havia suportado o suficiente para considerá-lo o mais longo de sua vida. — Ele é sempre tão petulante? Não, o dia não tinha terminado. Ainda restava Terrell. Sandra começava a tirar o casaco quando sentiu as mãos dele em seus ombros. Era um gesto atencioso, mas o efeito era terrível. O coração ameaçou sair pela boca. — Por alguma razão, Mohan está arrogante hoje — ela respondeu, tentando se concentrar enquanto Aiden, ao tirar-lhe o casaco, corria as mãos por seus braços, provocando uma sensação desnorteante. — Mas lhe garanto que sou perfeitamente capaz de fazê-lo se comportar bem — afirmou ao pôr alguma distância entre ambos. — Não convém ameaçá-lo com castigos físicos, sr. Terrell. Não se dão palmadas num futuro rajá. Projeto Revisoras

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Ele pôs seu casaco numa poltrona e começou a tirar o próprio. — A senhorita não sabe bem como educar meninos, não é? — Mohan não é um menino comum — ela disse, embora não pensasse em educação de crianças e sim em mãos estimulantes. Ele pôs o casaco sobre o seu na poltrona e a fitou. — Sob toda a aparência de realeza, Mohan é um menino como qualquer um deste mundo. E como eu já tive dez anos, posso lhe garantir que todos eles gostam que as regras lhes sejam determinadas com a maior clareza. Sim, regras firmes eram necessárias, especialmente as pessoais. Era essencial estabelecê-las com Aiden Terrell. Mas como não soubesse como agir sem parecer fraca, Sandra decidiu manter a conversa sobre Mohan. — E um direito seu ter suas opiniões. Mas, como tutora de Mohan, cabe a mim determinar os parâmetros de disciplina. — Sou apenas um empregado temporário — ele resumiu, os olhos dardejando faíscas verdes. — Posto de maneira rude, mas correta. — Indiferente à raiva dele, apontou para a escada. — Se fizer o favor de me acompanhar, eu lhe mostrarei seu quarto. Sandra seguiu na frente e bem consciente da pessoa dele. Pela maneira ruidosa com que respirava, o sr. Terrell parecia furioso. No dia seguinte, além de se controlar melhor, talvez até engolisse o orgulho e pedisse desculpas por ter se irritado. Quem sabe isso os ajudaria a conviver em paz, ela refletiu. — Este será seu quarto enquanto trabalhar aqui — Sandra anunciou, ao parar e abrir uma porta. Aiden entrou, mas parou. Enquanto observava o aposento, ela acrescentou: — A outra porta dá para o quarto de Mohan. Meus aposentos ficam do outro lado do dele. Aiden afastou depressa a nova imagem carnal bem clara. — Interessante — murmurou, na esperança de ser diplomático, pois não queria irritá-la outra vez. Sandra Radford retribuía à altura, o que, ele havia descoberto, lhe provocava as mais incríveis fantasias. E um colchão coberto de seda no chão, almofadas e cortinas de seda, tudo em vermelho vivo e preto, não ajudavam a apagá-las. Deus do céu! Ele nunca tinha visto um quarto tão apropriado para sedução. — Sei que a decoração não é do gosto ocidental, mas o quarto era de Lal e o agradava. Enviei seus pertences para a Índia e, como seu substituto também será indiano, não vi motivo para mudar nada no quarto. Espero que o senhor encontre algum conforto nele.

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Conforto?! Só se tivesse uma mulher nua e disposta atrás do biombo no canto. Se não fosse o maldito Barrett, ele estaria ditosamente embriagado num bar do cais, e não lutando para controlar impulsos inoportunos. — Alguma coisa não o agrada, sr. Terrell? Assustado, ele exibiu um sorriso e mentiu: — Não, nada. É um quarto surpreendente e tenho certeza de que ficarei muito confortável nele. — Pois bem. Eu o deixarei sozinho para explorá-lo. Misericórdia! Ele precisava escapar das fantasias e não mergulhar nelas. Segurou Sandra pelo pulso e disse: — Isso farei mais tarde. Seus olhos estavam imensos e ele podia sentir-lhe o pulso disparado sob os dedos. O próprio coração apressou-se para Igualar a cadência. Depressa, explicou: — Preciso vistoriar a casa inteira. Tão logo o faça, poderei Identificar os pontos fracos e corrigi-los. — Mas Mohan está esperando. Sua voz, um murmúrio aveludado, acariciou-lhe cada sentido. Largou-a e recuou uns passos, temeroso do que poderia fazer. — Deixe Mohan esperar. Ele tem muito para refletir e pode usar esse tempo. Aiden via o medo em seu olhar. Do quê, não podia imaginar e arrependeu-se por tê-la posto contra a parede para facilitar a própria fuga das fantasias. Já ia retirar o pedido quando ela levantou o queixo e, numa voz suave e sedutora, disse: — Muito bem. Suponho que devamos começar pela porta de entrada, ir até a parte de trás e, depois, aqui em cima. Enquanto ela rumava para a escada, Aiden respirou fundo. Tinha prometido a Mary Alice que não haveria outra. Jamais. Uma voz conhecida ecoou-lhe na mente. Faz quase um ano, John Aiden, e você já manteve a virtude por tempo suficiente. Um ano? Ele havia jurado pela eternidade. Por Deus, ia matar Barrett Stanbridge por causa disso. No centro da loja, Sandra ansiava que o ritmo do coração voltasse ao normal. Era ridículo fugir de um homem dentro da própria casa. Ainda mais um que estava ali para protegê-la e as pessoas sob seus cuidados. Precisava controlar as reações a Terrell. Afinal, era seu empregado. Fechou os olhos e murmurou: — Distância e frieza. Sandra baixou as mãos, abriu os olhos e encarou-o, decidida a assumir o comando da situação. Com um gesto largo, disse:

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— Como o senhor verá, a loja ocupa todo o andar térreo. Aiden correu o olhar em volta e perguntou: — A senhorita trouxe tudo isto quando veio da Índia? — Resta pouco do carregamento inicial. Costumo receber novos de um mercador de Dwarka. Deve chegar um qualquer dia desses. — Se ele sabe onde a senhorita está... — Trata-se do tio preferido de Mohan e de inteira confiança. — Posso lhe fazer uma pergunta mais pessoal? — Creio que uma recusa não o impedirá de fazê-la. — É verdade — ele admitiu, sorrindo. — Mas caso a senhorita responda, será de maneira direta e honesta? — Não posso saber, se ignoro do que se trata. — É justo, mas vou tentar. Por que a loja em Londres? O pai de Mohan poderia ter adquirido uma propriedade no campo e instalado os dois num isolamento seguro. Por que preferiu estabelecer a tutora real como negociante no coração de uma cidade imensa? Terrell considerava isso um assunto pessoal? Mais confiante em sua habilidade para controlá-lo, Sandra relaxou. — Embora a Companhia Índia Oriental Inglesa, nos últimos tempos, tenha perdido o poder de governar a Índia, é certo que a autoridade britânica não se renderá tão cedo. Os rajás sabem disso e pensam que, para exercer o poder nessa situação, precisam compreender os sistemas da própria Inglaterra. Sem fazer comentário ou nova pergunta, Aiden pegou uma moldura entalhada e admirou-a em silêncio. Sandra prosseguiu: — Parte do motivo para trazer Mohan à Inglaterra foi mergulhá-lo na cultura britânica a fim de ser um líder melhor quando chegar a época certa. Escondê-lo numa propriedade no campo não atingiria esse alvo. — Uma resposta parcial, mas aceitável — ele disse ao largar a moldura e pegar outra. — Agora, por favor, responda a outra parte. Por que a estabeleceu como negociante em vez de acomodá-los numa casa e proporcionar-lhes uma vida digna da realeza? — No início, essa era a intenção do rajá. Mas sugeri que seria mais instrutivo para Mohan levar uma vida comum. No fim, o rajá concordou comigo. — Sua opinião sempre vence? — Aiden indagou ao largar a moldura. Todo esse tempo, não a tinha fitado uma única vez. — Nem sempre, mas geralmente. Projeto Revisoras

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Mas então, o olhar dele encontrou o seu enquanto surgia outro sorriso que a sobressaltava. — Isso não me surpreende nem um pouco — ele afirmou. Porém, algo a incomodava, Aiden percebeu por seu olhar nervoso. Num gesto meio trêmulo para atrás da loja, ela disse: — Se me acompanhar, eu lhe mostrarei as outras salas. Ela saiu como se fugisse, levando-o a indagar-se o que tinha feito para provocar tal reação. Ah, ele lhe fizera um elogio, meio indireto, e também oferecera um sorriso. — Esta aqui é uma das três salas de tecidos — ela informou. Aiden olhou em volta. Havia prateleiras do chão ao teto e ao longo das paredes, repletas de tecidos. O chão era forrado por um tapete azul e uma escrivaninha ocupava o centro da sala. Num canto, ficava um manequim envolto em tecido. As cores eram azul, verde e roxo em vários tons. Em silêncio, a srta. Radford passou para a outra sala e ele a seguiu. A disposição era idêntica, mas os tecidos, de cores mais quentes, exibiam tonalidades de vermelho, amarelo e laranja. Outro tapete, escrivaninha e manequim. A terceira sala o desapontou. Era dividida ao meio, com tecidos pretos e cinzentos de um lado e, do outro, brancos e vários tons de bege. O tapete era branco e o manequim envolto em preto. A ausência de cores o fazia se sentir roubado. Ainda refletia sobre a reação quando a srta. Radford passou para a quarta sala. Ali também havia prateleiras, mas, em vez, de tecidos, estavam cheias de objetos de prata. Havia o suficiente para a mesa de banquetes do Castelo de Windsor. Caixas de madeira estavam empilhadas, algumas abertas para exibir o conteúdo brilhante. Se houvesse prata roubada no meio desse grande sortimento, ele teria dificuldade para descobrir. — Não acredito já ter visto tanta prataria junta. — É assoberbante, não acha? No início, eu não negociava com prata, mas surgiu a oportunidade e os lucros eram tão tentadores que não resisti. Também tem sido bem instrutivo para Mohan. — Não posso imaginar um rajá interessado nos talheres da mesa — Aiden disse na esperança de ser um comentário neutro. A última coisa que queria era provocar-lhe novo silêncio. — Na verdade, a lição vem da comparação da aparência pública com a realidade secreta. A sra. Walker-Hines é um exemplo prefeito. Ela se exibe como se gozasse de ótima situação financeira. Esta manhã, sua criada carregava as compras feitas na loja de Emmaline para todos verem. Em segredo, vende prata para saldar essas e outras contas.

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— Com os serviçais encarregados das vendas — Aiden acrescentou, observando seu sorriso. Embora tranqüilo, revelava vida e energia. — Claro. Ela tem de manter as aparências. Se as vendas caírem no domínio público, ela poderá alegar desconhecer o fato e acusar os serviçais de roubo. — Uma tática muito baixa — ele comentou e observou-a. Diabo se ela não era digna de ser admirada. Delicada, não tocava os objetos, mas os acariciava. Alheia à apreciação dele, Sandra explicou: — Para pessoas como Rose Walker-Hines, as aparências valem mais do que a lealdade. Uma lição que Mohan tem dificuldade para entender. Exibição é algo estranho na ideologia dele. Aiden discordava. Mohan já tinha mostrado ser bem ostensivo, mas não mencionaria isso. O lado protetor de Sandra Radford era bem marcante. — Ideologia dele? Interessante — comentou. — Hinduísmo é um sistema de crenças e práticas complexas, mas flexíveis. Nesta casa, mantemos só uma proibição religiosa, o consumo de carne bovina. Se o senhor quiser saboreá-la, terá de comer fora. Exceto essa concessão, meu objetivo é tornar a vida diária de Mohan a mais inglesa possível. — Ele não se opõe? — Embora com uma típica visão indiana do mundo, ele é bem tolerante. — Esclareça isso, por favor — Aiden pediu, curioso e gostando do som de sua voz. — Bem, o universo está numa constante mudança. Ao aceitar isso, pode-se determinar o destino da próxima vida com exercícios de bons pensamentos, boas palavras e ações. As tarefas, lições e desafios desta vida são determinados no nascimento. E pelas ações da vida anterior, portanto, inescapáveis. — Para mim, parece um tanto fatalista — ele disse. — Apenas na superfície. Aiden respirou fundo e perguntou: — A senhorita aceita essa possibilidade? Ela sorriu. — Sou inglesa e, como tal, acredito ser dona do meu destino. Meu trabalho como preceptora de Mohan é infundir um tanto dessa idéia em seu hinduísmo. — Ele está aprendendo? — Certos dias são bons, outros, ruins, sr. Terrell. Como tudo na vida. Se ele considerasse apenas os últimos minutos, se sentiria otimista. Eles haviam encontrado uma maneira de conversar sem discutir. Projeto Revisoras

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— Acha que poderia me chamar de Aiden? — sugeriu na tentativa de fortificar uma incipiente ligação. — Quando estivermos a sós, claro. "Sr. Terrell" me faz pensar que meu pai esteja por perto, o que me deixa nervoso nestes dias. — Vou pensar — Sandra respondeu com um leve sorriso e relanceando o olhar por ele. — Imagino que seu pai desaprove algo que o senhor tenha feito. — Verdade atenuada. — Mas, sem querer entrar em detalhes, mudou de assunto ao apontar para a janela. — Aquilo lá, é a cozinha? — É, sim. Venha comigo e eu o apresentarei a Preeya. Ela é nossa cozinheira e governanta. Uma curta distância ligava a sala das pratas ao quintal onde ficava a cozinha. Perto da porta, havia um cabide com agasalhos, mas Sandra não pegou um e saiu, instigando Aiden a ser cavalheiro. — Não quer um xale ou algo parecido? Diga o que prefere e eu o pegarei. Ela riu outra vez e respondeu: — Não, obrigada. A distância é curta e não está muito frio. Não em comparação com as temperaturas do Himalaia. — Ouvi dizer que essa região é uma parte linda da Índia. E verdade? — Aiden perguntou. — Um paraíso. Um pouco semelhante à versão inglesa dos meses de calor. Muitos comandantes militares ingleses passam o verão lá a fim de escapar das horríveis temperaturas do Sul. No inverno, neva muito. — Sente saudades de lá? — Aiden perguntou. Seu sorriso esmaeceu e, apesar de seu esforço para mantê-lo, ele notou ser forçado. Sem querer, havia tocado num ponto sensível e lamentava. Preferia muito mais a Sandra Radford relaxada à desconfiada e na defensiva. — O senhor é um homem de mil perguntas, sr. Terrell — ela reclamou ao passar na frente, abrir a porta da cozinha e anunciar: — Preeya, trouxe alguém para conhecê-la. Essas foram suas últimas palavras que ele entendeu. Sandra Radford passou a falar no que ele presumia ser uma torrente de hindu. Apontou para ele e para uma mulher baixa, gorducha e de cabelos grisalhos, perto do fogão. Ela usava sapatilhas de pano bordado e parecia envolta em jardas de tecido. Abandonou a panela, virouse para ele com as mãos unidas diante do corpo, curvou-se e disse algo que soou como "Namastay". Aiden, claro, não sabia o que queria dizer. Porém, retribuir a saudação parecia imperativo, então, a imitou. A recompensa foi um largo sorriso dela e um olhar de aprovação de Sandra.

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No instante seguinte, as duas passaram a ignorá-lo. Preeya voltou a mexer a panela e Sandra a falar em hindu. Não, ele retificou, ao lembrar-se de uma aula dada na escola tempos atrás. A língua mais comum falada na Índia chamava-se hindi. Seu conhecimento sobre a Índia limitava-se a ter visto cartas marítimas do oceano Índico. Ele também ignorava tudo sobre a culinária indiana. Mas os odores na cozinha de Preeya eram penetrantes e fortes. Não os identificava, exceto os de canela e cravo. Num canto, havia pimentas secas penduradas num barbante, e na mesa, abaixo delas, uma cesta com arroz. Além desses itens, o resto lhe era estranho. Com o fogo crepitando na lareira e no fogão, a cozinha estava quente demais. O vapor condensado escorria pelas vidraças e Aiden resistia à vontade de afrouxar a gravata e o colarinho. Viu Preeya sorrir e acariciar o braço de Sandra, que fez uma careta e balançou a cabeça. Então, Preeya sacudiu uma enorme colher de pau no ar, num gesto que não precisava de tradução. "Saiam de minha cozinha" era compreendido no mundo inteiro. Aiden lembrou-se das vezes em que a cozinheira de sua mãe lhe tinha ordenado para sair do caminho. Sandra quase não lhe deu tempo para se despedir de Preeya com uma curvatura. Apressou-se para alcançá-la, porém rebelou-se por ela sempre lhe determinar o caminho e os passos. O movimento rápido, no limite de sua visão, fez Sandra virar-se depressa. Uma parte sua relaxou ao ver Terrell balançando-se, pendurado num galho da macieira ao lado. Outra parte ficou tensa com a visão que ele apresentava. Com os pés longe do chão e as roupas esticadas, cada músculo do corpo prendeu seu olhar. Deus do céu, o homem era uma escultura magnífica. Desde os ombros largos até o abdômen e... O rubor forçou-a a erguer o olhar para o rosto dele. O sorriso imenso iluminava os lindos olhos verdes. O efeito, como sempre, foi devastador. Seu coração disparou. — Sr. Terrell? — chamou, incapaz de desviar os olhos e desesperada para fazê-lo parar. — Meu pai não está aqui — ele respondeu ao aumentar a velocidade, o que retesou mais as roupas. — Aiden — ela cedeu depressa, vendo-o balançar mais alto. — Estou gelada até os ossos. Por favor, vamos entrar? Gelada? Pois sim, Aiden refletiu. Não era o frio que lhe coloria as faces. Ele reconhecia a reação feminina a uma atração inesperada. Não, a duquesa não era de pedra. Apenas na aparência. Esse ponto, a julgar por seu rubor, se esfacelaria depressa.

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A consciência protestou, mas ele a ignorou. Não via mal algum em apreciar a propensão de uma mulher a ser seduzida. Decidido a não permitir mais tais pensamentos, Aiden escolheu onde saltar mais adiante. Ao vê-lo largar o galho, Sandra gritou e fechou os olhos. Ele caiu em pé, rindo. Virou-se para trás e viu que ela havia cedido à curiosidade. Abrira os olhos e seu rubor acentuou-se ao perceber que ele a observava. — Fale sobre Preeya e por que foi escolhida para acompanhá-la para cá — Aiden pediu enquanto se dirigiam à porta dos fundos. Apesar da excitação, Sandra o atendeu: — Preeya foi a terceira esposa de um dos tios do pai de Mohan. Após sua morte, ela foi morar sob a proteção do rajá, segundo imagino, por um ato de gratidão. Quando rapazinho, ele havia morado com o tio, e Preeya, ao notar sua saudade, o tinha tratado com o maior carinho. Não importa o motivo. Ela considera uma honra estar aqui conosco. O quarto dela fica em frente ao seu. — Preeya lembra uma avó — Aiden comentou ao passar na frente e abrir a porta. Sandra entrou e disse: — Uma avó hindu, talvez. Ela não tem o mínimo interesse em adotar costumes ingleses. — Notei. Não sou tão tolo quanto pareço — Aiden afirmou, rindo. Tais palavras davam a impressão de querer manipulá-la, mas sem dar a perceber. Porém, Sandra não permitiria que ele a imaginasse cega e fraca. Determinada a corrigir-lhe o equívoco, encarou-o. — Estou longe de considerá-lo tolo, sr. Terrell. E... — Já progredimos para Aiden. Não vamos retroceder — ele sugeriu, sorrindo. Sandra o ignorou e prosseguiu: — E duvido muito que exista uma mulher que não o considere atraente. Imagino que um bom número delas lhe tenha confessado isso de várias maneiras. O sorriso de Aiden alargou-se, o que ela também ignorou. — Quanto à perícia mental, garanto-lhe que não tenho dúvidas sobre sua inteligência. O senhor me dá a impressão de encontrar pouca coisa que lhe desafie a capacidade. Ele ficou sério no mesmo instante e a observou. Sandra percebeu ter tocado num ponto sensível, uma pequena vitória, e resolveu se retirar. — Se me der licença, vou ver Mohan. Ele já teve tempo suficiente para refletir. Preeya trará o almoço quando estiver pronto. Não respeitamos um horário exato, Projeto Revisoras

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portanto, não se afaste muito. O aposento em frente ao meu é a sala de jantar. Eu o verei... — Preciso verificar os cômodos do segundo andar antes do fim do dia — ele a interrompeu com voz fria. — Ficarei a seu dispor depois do almoço. Como deve ter notado, não temos mordomo e porteiro. Por isso, talvez fosse bom... — Eu ficar perto da porta para receber Sawyer quando ele chegar com meus pertences — Aiden a interrompeu outra vez, ciente de que ela queria pôr a maior distância possível entre ambos. — Exatamente. — Muito bem — ele murmurou, notando sua tensão sumir. — Então, o verei no almoço — Sandra disse ao se afastar. Com o coração aos pulos, ela subiu a escada, sabendo que havia se enganado nas conclusões iniciais. Terrell não era nem um pouco como qualquer homem que ela conhecera. Não exibia a insolência de seu pai, nem a realeza do rajá, e muito menos a presunção dos membros da corte. Entretanto, possuía um corpo de beleza escultural. Era curioso, franco, impulsivo e fascinante. Não media as palavras, opiniões e ações pelo que pensassem a seu respeito. Enfim, um homem decente e um verdadeiro cavalheiro. Apenas em um ponto, ela havia acertado logo. Aiden Terrell era, de fato, como um tigre e apreciava a excitação de uma caçada. Isso significava que ela precisava exercer a máxima cautela, pois corria o risco de ser devorada. Porque, Deus a ajudasse, achava tudo nele atraente demais! Sandra parou no corredor e olhou para a porta de seu quarto. Como seria bom fechar-se lá dentro e dormir por umas horas. Mas tal indulgência era impossível. O dever se impunha. Não importava detestar a idéia de confrontar Mohan, o que não podia ser adiado. Ele tinha sido um terror naquela manhã, embaraçando-a diante de Emmaline e de Terrell. O fato de ele ter sido forçado a intervir fora horrível. E pior, ter ameaçado Mohan para obedecer. As crianças inglesas não tinham o direito de humilhar as pessoas, ainda mais os adultos. Ela havia explicado isso a Mohan muitas vezes e, apesar dos fracassos anteriores, via-se forçada a fazê-lo novamente. Antes de perder a coragem, Sandra bateu na porta do quarto de Mohan. Ele não respondeu. Tornou a bater, a irritação crescendo. Como de novo não obtivesse resposta, abandonou as boas maneiras e entrou. Sentado na cama, ele a encarou. — Não lhe dei permissão para entrar. Como ainda não fosse rajá, Sandra o ignorou.

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— Você se lembra da conversa que tivemos dias atrás sobre a importância de criar primeiras impressões positivas? — Não gosto daquele homem. — Ele também não se importa muito com você. E suas decisões e atitudes são o motivo para o relacionamento entre os dois ter começado mal. Portanto, é seu dever reparar o dano que causou. — Quero que ele seja despedido. Sandra agarrou-se ao resto de sua paciência. — Em primeiro lugar, isso é impossível. Não há ninguém para substituí-lo até os guardas de seu pai chegarem. Você não tem escolha a não ser se adaptar à situação, o que significa ser atencioso, hospitaleiro, além de exibir uma atitude amigável. Sem dar atenção à cara feia de Mohan, ela prosseguiu: — Em segundo lugar, esconder as dificuldades onde não podem ser vistas não as elimina e elas continuam a exigir uma solução. Você, por descuido, causou péssima impressão sobre a Índia ao sr. Terrell. Se você não a corrigir, não mostrar que vem de um povo bondoso e digno, ele não só ficará com uma idéia errada de seu país como a passará adiante. Sem dúvida você não quer... — Quero ir para casa. Hoje — ele a interrompeu. Claro. Que criança não haveria de querer estar no seio da família? — Compreendo isso, Mohan. Esperemos que logo seu... — Eu lhe ordeno para tratar dos arranjos. — Não farei isso — Sandra negou-se, sua simpatia por ele murchando sob o calor da raiva crescente. Paciência, ordenou a si mesma. — A Inglaterra é cheia de gente suja. Ela respirou fundo e contou até cinco. — Você viu pouco da Inglaterra fora de Londres. Portanto, sua opinião baseiase na ignorância. Pessoas sujas existem no mundo inteiro e a Índia tem sua quota. — Pois nunca vi nenhuma lá. — Isso porque você mora num palácio, onde tais pessoas não têm permissão para entrar. Existe uma razão específica para sua contrariedade hoje, Mohan? Ele endireitou o corpo e ergueu mais o nariz. — Sou um príncipe. Não tenho de justificar minhas ações. E ela também não tinha de coibir Aiden Terrell. Nesse momento, a idéia dele de disciplina era bem tentadora.

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— Esse tipo de atitude é que provoca golpes nos palácios. Mas como você está muito longe dessa realidade, deixe-me informá-lo de outra mais imediata. Seu comportamento presente é inaceitável, o que deixa sua companhia bem desagradável. Por isso, você vai almoçar aqui sozinho. E ficará neste quarto até se achar capaz de se comportar de maneira civilizada. Sandra saiu do quarto e já ia fechar a porta quando Mohan declarou: — Não tocarei na comida. — Como quiser. Mas lembre-se de que leva vinte e um dias de jejum para uma criança morrer. E se você não encontrar logo uma maneira de se controlar, estará desperdiçando comida e uma encenação de infantilidade. — Eu a odeio, e também à Inglaterra e à rainha! — ele gritou enquanto Sandra fechava a porta. Ela encostou a testa no batente e fechou os olhos. Mohan tinha apenas dez anos. Estava longe de casa e da família, num mundo muito diferente do seu. Sabia exatamente como ele se sentia, pois lembrava-se da experiência semelhante quando a mãe e ela haviam encontrado abrigo no palácio do rajá. Naquela época, era um pouco mais velha do que Mohan e seu mundo tinha mudado drasticamente. Havia suportado a nova situação e se adaptado a outro estilo de vida com dignidade e esperança. Duas qualidades que, infelizmente, Mohan não possuía. Se ao menos pudesse lhe incutir a visão de um amanhã distante e promissor... Apontar exemplos não adiantara. Nem explicações cuidadosas e claras. Instrução sobre boas maneiras não tinham provocado nele mudanças visíveis. Mas isolá-lo no quarto seria a única correção restante? Estaria admitindo o fracasso? Se fosse competente não precisaria recorrer a castigo tão severo e impiedoso. Sandra endireitou o corpo e dirigiu-se a seu quarto, onde entrou e sentou-se no sofázinho, continuando a refletir. Para crédito seu, ainda não tinha recorrido a castigos físicos e nem delegado a questão de disciplina a Aiden Terrell. Ou sugerido que a compartilhassem. Algo positivo, não era? Perplexa, Sandra olhou em volta, mas sem ver. Não podia pensar numa razão pela qual devesse se sentir contente por continuar a suportar o peso do encargo sozinha. O esforço para ser mãe, pai, preceptora e amiga a esgotava. Seria uma fraqueza imperdoável ceder uma pequena parte dos deveres? Apenas por pouco tempo? Ela não se importava com o que Aiden Terrell pensasse a seu respeito, garantiu a si mesma. Ele ficaria ali por poucas semanas, no máximo um mês. Tão logo o substituto de Lal chegasse, Aiden iria embora e ela nunca mais o veria. O que importaria se ele a considerasse fraca e ineficiente?

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Nada, exceto para seu orgulho. Isso lhe deixava duas opções: ou suportaria o orgulho ferido ou continuaria a luta dos últimos cinco anos como a mãe enfrentara antes. A sugestão de Preeya, claro, não era realista. Tornar Aiden Terrell seu amante e marido? Pai substituto de Mohan? Ah, ah! Exasperada, Sandra suspirou, encostou a cabeça numa almofada e fechou os olhos. Apenas um cochilo ligeiro, prometeu a si mesma. O mundo sempre parecia mais bonito visto por olhos descansados. Na sala da frente, Aiden sentou-se numa poltrona, o único móvel em estilo inglês na loja, e olhou em volta. Dizia-se que o arranjo das casas refletia a natureza dos donos. O que a loja Blue Elephant revelava sobre Sandra Radford? Não havia nada simples no lugar. Tantas peças de decoração tornavam impossível uma avaliação completa. Cada vez que o olhar voltava a um certo ponto, descobria-se algo que não se notara a primeira vez. Embora nada desse idéia de ostentação, percebia-se o requinte e a beleza. E apesar de tudo estar arranjado de maneira informal, havia uma certa ordem naquele caos. Aiden concluiu que a loja era um foco de incoerências. Mas isso não lhe dizia nada sobre Sandra Radford. Tratava-se da exibição de seus artigos e ela não lhe parecia do tipo de desnudar a alma para fregueses estranhos. Não, Sandra não confiava prontamente nas pessoas. Seria por causa de sua preocupação com a segurança de Mohan? Ou simplesmente não confiava nele? Um sorriso retorceu-lhe os lábios. A julgar pelo brilho em seus olhos e o rubor nas faces, lá no quintal, talvez ela não confiasse nem em si mesma. Seu bom humor evaporou. Se Sandra Radford estivesse ou não disposta a ser seduzida, não importava. O que valia a pena considerar era sua aparente desconfiança. Ele tinha um trabalho pela frente e, se não contasse com sua confiança, proteger Mohan seria muito mais difícil. Aiden franziu a testa, irritado com a dificuldade para exercer o serviço. O fato de Mohan já ter provado ser uma criança antipática não o estimulava a fazer um esforço. Apostava o colar no cofre de Barrett como Sandra estava lá em cima, lutando para não bater a cabeça na parede de frustração. O ruído de alguém batendo em vidro chamou-lhe a atenção. Viu Sawyer na calçada, espiando pela janela. Levantou-se e foi abrir a porta para recebê-lo. — Bem-vindo ao inferno, Sawyer — disse quando o mordomo dos Reeves entrou. — O senhor parece muito à vontade nele. Lady Lansdown adoraria passar o dia nesta loja. — Não vejo nada que se pareça com a decoração de Será.

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— É a disposição de tudo e a combinação de cores que ela aprovaria. Sem dúvida apreciaria o espírito artístico de sua nova empregadora, senhor. — Sandra Radford com espírito artístico? — Aiden caçoou. — Sawyer, você não faz idéia de como está enganado. Ela não é nem um pouco como Seraphina. É muito rígida e faz questão de decoro e de manter distância. — Com sua permissão, senhor, afirmo que tais qualidades não a impedem de ter um espírito artístico. — Então, está enterrado bem fundo — Aiden resmungou. — Como águas tranqüilas correm, senhor. — Ergueu a valise que carregava. — Trouxe seus pertences como o sr. Stanbridge me pediu. Onde devo guardá-los? Aiden poderia cuidar disso, mas queria muito que Sawyer visse a decoração chocante de seu quarto. — Venha comigo — disse ao levá-lo rumo à escada que subiram. Depois de escancarar a porta, Aiden afastou-se para que Sawyer tivesse uma visão completa. Sobrancelhas grisalhas arquearam-se. — O que acha disso? — Tem-se a impressão, senhor, de que quando não estiver ocupado com seus deveres, espera-se que passe as horas... Ah, o homem perdia a fala. Aiden sorriu e pressionou-o: — Fazendo o quê? — Refestelando-se, creio, no conforto e no luxo — Sawyer respondeu com franqueza. Aiden não disfarçou o desapontamento e apontou para o colchão. — Não deito no chão há uns vinte anos. — Nesse caso, tinha seis, senhor — Sawyer calculou e entrou no quarto com a valise. Por Deus, sempre tranqüilo. — Obrigado, Sawyer. — Posso lhe fazer uma pergunta, senhor? — o outro indagou ao abrir a tampa de uma arca toda entalhada. — À vontade — Aiden respondeu e suspirou. — O senhor tem uma idéia geral da cultura indiana? — Nenhuma. Caso tenha alguma, compartilhe comigo. Enquanto arrumava as roupas da valise na arca, Sawyer explicou:

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— Nunca estive lá, mas quando servia o Exército de Sua Majestade, convivi com vários soldados que tinham. Embora eles não apreciassem a comida, elogiavam outros aspectos da vida na Índia. Acima de tudo, como os nativos davam valor aos prazeres terrenos. — Que espécies de prazeres terrenos? — Aiden indagou, intrigado. — Comer, beber e... ah, gozar de conforto. Esse era o problema com Sawyer. A hesitação dele, quase sempre, significava mais do que as palavras. — Você poderia definir "conforto", Sawyer? — Basta dizer, penso, que a satisfação física, em todas as formas, é considerada uma busca normal e a obtenção regular dela torna a existência muito melhor. Ao contrário de Sawyer, Aiden não achava isso suficiente. Satisfações físicas cobriam um vasto número de atividades humanas. — Essa última parte parece muito com algo dito pela duquesa. — Duquesa, senhor? — A srta. Radford. E seu tutelado exibe todos os sinais de ser descendente de Satã — Aiden afirmou. — Bem, pelo que eu saiba, ela passou muito tempo na Índia. Pessoas com essa experiência costumam se expressar de maneira singular. — Ela morou a vida toda lá, exceto nos últimos tempos aqui em Londres — Aiden explicou ao cutucar o colchão com a bota. — Eu diria então, senhor, que a decoração deste quarto é uma prova de que á srta. Radford entende como os indianos vêem a vida. Se estivesse em seu lugar, sr. Terrell, eu me sentiria tentado a mergulhar nessa oportunidade excepcional. Sawyer já ia dizer algo mais, porém, fechou a boca. — Desculpe pela intromissão, sr. Terrell. Eu não sabia que seu homem já tinha chegado — Sandra falou da porta. Ele virou-se e cuidou das formalidades. — Srta. Radford, apresento-lhe Sawyer. A srta. Sandra Radford, Sawyer — e em silêncio, acrescentou: a duquesa. — Emmaline o elogia muito. É um prazer conhecê-lo. — O prazer é meu, srta. Radford. Tomo a liberdade de lhe dizer que sua loja é uma festa para os sentidos. — Ora, muito obrigada, Sawyer. Amabilidade sua. Eu me esforço para mantêla interessante. Aceita almoçar conosco? Projeto Revisoras

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— Obrigado, srta. Radford, mas não posso. A caminho para cá, parei na loja de Emmaline e prometi almoçar com ela. — Quem sabe noutra ocasião — ela sugeriu com um sorriso mais franco do que o oferecido a Aiden. — Quando estiver livre, sr. Terrell, junte-se a nós. Mal desapareceu de vista, Sawyer comentou baixinho: — Ela parece ser bem simples e amigável, senhor. Sim, podia ser agradável quando queria, exceto com ele. — Vou acompanhá-lo até a porta — Aiden disse de cenho franzido. Ao chegarem lá, Sawyer tornou a falar: — Mantenho minhas recomendações, senhor, de explorar águas profundas enquanto tem chance. O senhor nunca esquecerá ou se arrependerá da imersão. — Obrigado por ter trazido o que eu precisava, Sawyer. De vez em quando, aparecerei lá. — Se mandar me avisar, pedirei à cozinheira para preparar uma boa carne — prometeu, curvou-se e se foi rumo à loja da irmã. Aiden fechou e trancou a porta. Sawyer sabia da proibição indiana de carne. Isso colocava tudo o que havia dito sob uma luz diferente. Observou a variedade de cores e texturas ao redor. De fato era uma festa para os olhos, além de fazer bem à alma. Tentou identificar o sentimento e decidiu que "liberado" era a definição mais próxima. Como se tudo lhe dissesse: Você pode, sem dúvida. Assimilou a idéia devagar. Isso afastou as sombras que o deprimiam antes da chegada de Sawyer. Ao prometer que não haveria outra, o sentido era jamais amar outra mulher. Havia uma diferença marcante entre fazer amor com uma e amá-la. Só raramente as duas ações coincidiam. Deus sabia que não havia nutrido o mínimo laivo de amor por Rose além da apreciação do fato de ela fazer qualquer coisa quando e Onde ele quisesse. Parecia evidente que Sandra Radford não seria depravada como Rose fora, mas, se estivesse disposta a ser seduzida, longe dele virar as costas a tal oportunidade. Não seria nada além de um breve relacionamento físico. Isso não comprometeria seu juramento. Poderia imergir em águas profundas sem a menor ponta de remorso. Por que não tinha visto isso antes? Ora, por ter passado o último ano tão embriagado que não veria a própria mão diante do rosto. Era irritante admitir que o pai e Barrett estivessem certos sobre os benefícios da sobriedade. Com um largo sorriso, dirigiu-se à escada e à sala de jantar. Era preciso usar essa recente descoberta para melhorar as condições gerais de sua existência. Riu ao lembrar-se das palavras de Sawyer. Uma pessoa devia se esforçar para gozar o máximo de conforto.

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Porém, havia um bom número de passos a serem dados antes de isso se tornar possível. Conquistar a confiança de Sandra era o primeiro. Não ia ser fácil e ele não fazia idéia de como agir. Talvez tratar bem Mohan surtisse o efeito desejado. Mas só de pensar nisso o fazia ranger os dentes. Bem, teria outra idéia, refletiu ao entrar na sala de jantar. Aiden viu Sandra sentada à cabeceira da mesa, o prato coberto por uma cúpula de prata. Preeya sentava-se no centro de um dos lados, o próprio prato também protegido. Em frente a ambas havia lugares arrumados. O oposto a Preeya contava apenas com guardanapo e talheres. Além disso, o outro tinha um prato coberto. Aiden parou sem saber qual era seu lugar. Preeya resolveu a questão ao apontar para o em frente ao de Sandra. Ele agradeceu com um sorriso e disse enquanto se sentava. — Desculpem, senhoras, por mantê-las à espera. Preeya trocou umas palavras em hindi com Sandra que as traduziu: — Ela afirmou que não se importa por esperar por um homem atraente. — A senhorita lhe explicou que ela está alimentando meu orgulho? — Disse algo nessa linha — Sandra respondeu ao descobrir o prato. Preeya também o fez e Aiden as imitou. — Mohan não vai nos fazer companhia? — Ele está almoçando em reclusão — Sandra respondeu. — Calculo que o tempo dele gasto em reflexões não surtiu efeito. — O comportamento de Mohan hoje está sendo um dos piores. Ele devia estar começando a pôr as manguinhas de fora. Típico de meninos de dez anos, mas Aiden não ia comentar isso com Sandra. Dedicou-se então a observar a comida. Constava de peixe ensopado, arroz com pedaços de frutas e uma porção de algo amarelo e de odor penetrante. Depois de provar o peixe, indagou: — Como Mohan passa o dia? Estudando? — As manhãs são dedicadas aos livros e à escrita, as tardes gastas com os negócios da Blue Elephant e as noites com leitura recreativa e jogos de tabuleiro. Ele sentiu muita pena da criança. Se não havia mais nada além disso, o menino devia sofrer um tédio imenso. Ah, era isso, Aiden deu-se conta, a maneira de controlar a situação. Grata, Sandra confiaria nele. E confiança era a chave. Ele não teria de ranger os dentes para suportar Mohan. Bastaria assumir o comando da existência do menino. Era um plano brilhante.

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Barrett estava certo, quando ele punha a alma em alguma coisa... Por Deus, ia ser facílimo.

Capítulo III

O coração de Sandra ameaçava sair pela boca. Aquele homem tinha um sorriso que ofuscaria qualquer luz. E aqueles olhos verdes insinuavam diabruras. Se não se mantivesse firme, seria ela o prato do almoço em vez do peixe. — Ora, não me surpreendo que o menino se comporte tão mal. Eu também o faria. Se a senhorita me forçasse a viver dessa forma, eu fugiria ou cortaria os pulsos. Ele está morto de tédio. Meninos dessa idade precisam correr e brincar. Têm muita energia para ficar entre quatro paredes o dia inteiro. — Mohan não é um prisioneiro — ela protestou. — Com freqüência, vamos à cidade. — Fazer o quê? — Apreciar leilões, ver os navios atracar no porto e admirar cavalheiros e damas passear pelas avenidas. Vamos quase todos os dias ao mercado e, de vez em quanto, assistimos a uma peça. — Mal posso conter a excitação que tudo isso me provoca — Aiden ironizou. Não era excitante e sim a maneira segura para o cumprimento das tarefas diárias. — O que o senhor gostaria que ele fizesse com o tempo disponível? — Sandra indagou para não se esquivar do desafio. — Alguém ensinou Mohan a cavalgar? — Não temos cavalos, sr. Terrell. — Ele sabe jogar críquete? — Com quem e onde? No meio da rua, entre as carruagens? — E quanto a futebol ou rúgbi? — Aiden persistiu. — Por Deus, não! — ela exclamou, apavorada com a idéia de Mohan se envolver com esportes tão violentos e perigosos.

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Ele calou-se a fim de comer umas duas garfadas, mas sua esperança de que o interrogatório tivesse terminado evaporou-se quando ele perguntou: — Que tal esquiar e patinar no gelo? Não são muito másculas, mas as crianças apreciam essas atividades, ainda mais no meio do inverno, quando não se tem muito para fazer. — Mohan não se interessa por esporte algum. Inútil indagar sobre outros — ela declarou com firmeza. — Ele tem algum animal de estimação? Cachorro, gato? — Mohan jamais manifestou vontade de ter qualquer um deles. Aiden fez nova pausa para comer, mas, dessa vez, ela não ousou ter esperança. Também comeu um pouco e ficou à espera do reinicio do debate. Preeya olhava de um para outro, mas não perguntava nada. Mais tarde, quando estivessem as duas a sós, ela gostaria de se inteirar da conversa e do significado de certas palavras. — Ele não sabe caçar, pescar e nem velejar, certo? Sem dúvida o homem era previsível, Sandra admitiu e suspirou. — Sr. Terrell, Mohan vai ser rajá e não precisa saber como praticar tais esportes. — Ele será o homem mais entediado e maçante a ocupar um trono — Aiden afirmou. — Mais importante, no momento, ele é um menino muitíssimo entediado. Comporta-se mal porque é a única coisa que lhe proporciona um pouco de excitação. Por que ele se encontra nessa situação penosa? A senhorita não dispõe de meios para pagar instrutores de equitação ou de vela? — Temos recursos financeiros consideráveis, sr Terrell — Sandra declarou com firmeza. — Porém, existe a questão da segurança. Lal, o guarda que retornou à Índia, era de opinião que Mohan seria raptado ou ferido mais facilmente se vagasse pela cidade. Concordei com ele. — Pois se eu tivesse a intenção de raptá-lo, ficaria muito contente ao saber onde sempre poderia encontrá-lo. — Existe ainda a questão de protegê-lo contra acidentes — Sandra prosseguiu. — Mohan poderia cair do cavalo e quebrar o pescoço. Ou do barco e se afogar. Não vou nem mencionar os ferimentos sofridos pelos tolos que jogam futebol e rúgbi. — Então, a senhorita devia proibir Preeya de acender o fogo lá na cozinha. Cada vez que ela o faz, existe o risco de um incêndio que, facilmente, atingiria a casa e mataria Mohan — Aiden argumentou com um sorriso irônico. Preeya, ao ouvir o próprio nome, os observou, preocupada. Mas Sandra apressou-se em tranqüilizá-la. Então, virou-se para TerrelL

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— O senhor está sendo absolutamente ridículo. — Não mais do que a senhorita. Viver é arriscado, o que não se pode evitar. Ao levantar de manhã, podemos escorregar no tapete, cair, bater a cabeça na guarda da cama e abrir uma brecha. — O senhor não notou que não há uma cama em seu quarto? — Não vamos discutir minúcias. A senhorita é muito inteligente e entendeu bem o que eu quis dizer. Não deveria tratar Mohan como se ele fosse uma peça frágil de porcelana e sim como uma criança normal, com permissão para assumir riscos razoáveis. Se a senhorita agir assim, a atitude dele melhorará muito e sua frustração não será tão grande. — Não estou frustrada — ela mentiu ao baixar o garfo para que Terrell não visse como sua mão tremia. — Diabos se não está! Sandra o encarou com os olhos arregalados, surpresa não tanto pela linguagem chocante e sim por ele perceber esse seu sentimento. Havia tentado muito escondê-lo. Ter falhado era assustador, mais do que embaraçoso. Respirou fundo, forçou-se a sorrir e deu de ombros enquanto dizia: — Temos de concordar em discordar neste ponto. E também nas atividades diárias de Mohan. Bem, não está sendo fácil, Aiden refletiu. Ele havia subestimado seu senso de independência. E também sua tendência a ser maternal. Mas se Sandra pensava que ele ia desistir, ignorava sua persistência, bem como a aversão ao tédio. Nesse ponto, ele e Mohan combinavam. Embora cansativo, continuaria a pressioná-la até que ela não tivesse mais ânimo para dar um passo. Estaria tão cansada que só lhe restaria confiar nele se quisesse repousar aquele corpinho de curvas perfeitas. — Diga uma coisa. A senhorita sabe cavalgar? Ela suspirou e fechou os olhos por um segundo antes de dizer: — Não, não sei. — Caçar, pescar, velejar? Sandra deu a impressão de querer atirar-lhe o garfo. — Não, claro. Nem esquiar e patinar no gelo. E não jogaria futebol, críquete e rúgbi mesmo se me apontassem uma arma. — Não gostaria de aprender? —Aiden sugeriu e não conteve o riso ao vê-la tornar a arregalar os olhos. — Não os esportes mais viris. Eu pensava nos outros. Poderíamos começar com cavalgar. Ensinar dois não requer mais esforço do que a um só. Projeto Revisoras

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— O senhor presumiu que dei meu consentimento para Mohan se envolver em tais atividades. Pensei ter deixado claro... — Não presumi coisa alguma — ele a interrompeu, sorrindo. — E a senhorita deixou bem clara sua posição. Agora, permita que eu deixe a minha. Não me importo em ter sua permissão ou não. Tomei uma decisão e vou mantê-la. Dessa vez, Sandra o fitou com olhar furioso. — Sim, srta. Radford. Esta é uma das situações que mencionei mais cedo na carruagem. Eu decido. A senhorita e Mohan concordam sem protestar. — O senhor, positivamente, é um ditador. Ele deu de ombros. — Nasci para comandar. E faço isso com competência enquanto a senhorita não está em posição de me desafiar. — Levantou-se e acrescentou: — Gostaria de terminar nossa inspeção da casa como me prometeu. Eu a espero no corredor. Ele não lhe deu chance de fazer objeção. Virou-se para Preeya, curvou-se e disse: — Obrigado pela refeição. Não faço idéia do que era, mas estava deliciosa. Saiu da sala pensando que, afinal, tudo tinha terminado como calculara. Até agora, pelo menos. Havia a possibilidade de Sandra Radford segui-lo com o único propósito de despedi-lo. Sandra olhou para o prato ainda pela metade e imaginou o que Terrell faria se ela se recusasse a segui-lo. Preeya inclinou-se e disse em hindi: — Nunca é bom discutir com um homem, minha cara. Eles não gostam de pensar que as mulheres também podem ser fortes. — Somos tão capazes quanto os homens sob todos os aspectos. — Concordo. Mas isso não significa que eles apreciem se inteirar do fato. E há muito a se ganhar em mantê-los na ignorância. — Como o quê? — Além de um ambiente tranqüilo e uma digestão bem-feita, isso os torna amantes mais atenciosos — Preeya explicou. Por Deus, ela havia conhecido o homem poucas horas atrás! Admitia ser muito atraente, tinha um físico magnífico, falava bem e agia com certo cavalheirismo. Mas tais qualidades não preenchiam o mínimo exigido para se estabelecer um relacionamento íntimo. — Como afirmei, quando você mencionou isso antes, não tenho a intenção de aceitá-lo como amante. Ele simplesmente não me interessa como tal. Preeya tocou-a na mão e riu baixinho. Projeto Revisoras

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— Minha cara, você é a pior mentirosa deste mundo. Deveria desistir de tentar, pois só consegue se constranger. Não era a primeira vez que Sandra ouvia tal acusação. Em vez de protestar em vão, sugeriu novo argumento: — Ele é pretensioso quanto às idéias para ser levado a sério. — Ouvi os sons e reparei na expressão dos dois. Para mim, pareceu uma rixa de namorados. — Pois não era! — Então sobre o que os dois discutiam com tanto empenho? — Como cuidar de Mohan da maneira certa. Ele insiste que o menino precisa ter tempo para cavalgar, velejar e outras atividades perigosas. — Ah, seu cavalheiro quer que Mohan se comporte como um menino, e você, como um príncipe. — Ele é um príncipe — Sandra enfatizou. — Mohan é ambos, um menino e um príncipe. Os dois estão certos. Tente encontrar uma maneira para que ele possa usufruir do bom senso e da visão de ambos — Preeya sugeriu. Como sempre, ela estava certa, Sandra admitiu enquanto a raiva passava. Sentia-se, agora, indefesa e cerceada. — Ele não é meu cavalheiro — afirmou, agarrando-se à única certeza sentida. — Mas quer muito ser. Por que outra razão se esforçaria para ajudá-la na orientação de Mohan? Nada exige isso dele. A oferta é fruto do desejo de significar algo para você — Preeya afirmou. Pois ela lhe dispensava a ajuda para qualquer coisa, exceto para proteger Mohan. Precisar de pessoas nos deixava em débito com elas. Os seus já eram suficientes. — Enquanto você pondera sobre essa verdade, lembre-se de outra, Sandra. Ele sabe que você apenas finge não achá-lo atraente. Os olhos dele podem ver através de mil véus. Talvez você devesse se perguntar se não é inútil e uma tolice continuar a utilizá-los. Inútil, sem dúvida. Mas tolice? Seria uma bem maior deixá-los cair, permitir que Terrell espiasse dentro de sua alma. Melhor ele apenas suspeitar de sua ética superficial do que desvendar a verdade desonrosa. — Sandra querida? Ela reconheceu o tom e preparou-se, imaginando que palavra Preeya tinha escolhido dessa vez.

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— O que quer dizer "viris"? Só Preeya para pinçar tal palavra de uma conversa em inglês. — Quer dizer másculos, masculinos. Homens verdadeiros. — Sei, como seu cavalheiro. — Sim, mas ele não é meu — Sandra insistiu. Preeya levantou-se e enquanto recolhia os pratos, disse: — Ele está em pé ali no corredor. Não é sensato deixar homens esperando por tempo demais, apenas o suficiente para não considerarem certa sua chegada. Sandra teve a sensação de que o último conselho de Preeya não se aplicava apenas à promessa de mostrar os quartos para Terrell. Porém, não conseguia refletir com clareza. Por isso, levantou-se, agradeceu a boa refeição e rumou para o corredor a fim de cumprir uma promessa que preferia não ter feito. Aiden não fazia idéia sobre o que as duas mulheres haviam conversado, mas o efeito em Sandra era óbvio. Ele já tinha visto marinheiros num barco à deriva com semblantes mais animados. Mas Sandra não pretendia despedi-lo, tinha certeza. Estava sem energia para tanto. A fim de animá-la um pouco, disse: — Apenas como informação, aprecio um bom jogo de rúgbi. Ela olhou-o de esguelha ao passar na frente e declarou: — Não me surpreendo nem um pouco. Aqui é o salão ou sala de estarinformou ao abrir uma porta. Entrou e Aiden a seguiu. Ao oposto da sala de jantar, esta não era tipicamente inglesa. Um sofá, uma poltrona, igual à outra lá embaixo, e alguns móveis de madeira entalhada exibiam o gosto inglês. O resto parecia muito com seu quarto. Tapetes com desenhos intrincados forravam o chão. Havia um, tipo de preguiçosa, coberta por xales, e almofadas de vários tamanhas e cores. As luminárias não passavam de cilindros de cobre, cheio, de buraquinhos, Uma espécie de cômoda com gavetas ficava no lado oposto da lareira. No topo dela havia uma estatueta de mulher com quatro braços retorcidos. Potinhos com varetas a rodeavam. — Parece muito confortável. Uma combinação de estilos inglês e indiano — ele comentou. — A parte indiana é muito mais atraente e confortável — ela disse. Como Sandra se mostrasse disposta a conversar e ele, curioso a seu respeito, comentou: — A senhorita fala como se estivesse um pouco desapontada com seus conterrâneos.

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— É difícil reconhecer a superioridade do estilo inglês quando se está sentado num sofá duro. — Então por que não manter a verdade óbvia e atirar-se nas almofadas? — Estou empregada porque sou inglesa. E, como tal, meus costumes são considerados competitivos. Se eu sugerir que os dos indianos são superiores aos meus, não há necessidade de me empregarem. — Então a senhorita vive uma mentira? — ele perguntou. — Nunca aleguei ser uma existência ideal, mas é um tanto segura. — Desde que a senhorita mantenha as aparências. — Ajuda, se não pensarmos nas impropriedades. — O que é, é — Aiden citou o que ela falara sobre as crenças de Mohan. — O senhor aprende depressa — Sandra afirmou ao passar por ele e bloquearlhe a saída do salão. — Meu quarto é lá — informou ao apontar com a mão direita e, depois, indicar o lado oposto com a esquerda, deixando clara a intenção para Aiden. — Eu gostaria de vê-lo, por favor. Ela o fitou como se pesasse a decisão. — Meu aposento não é de sua alçada — declarou com desconfiança. — Peço-lhe para discordar. Há três quartos deste lado do corredor. O meu, lá na ponta, eu já conheço. Tem cinco janelas e duas portas. Uma destas dá para o quarto de Mohan e a outra, para o corredor. Duas das janelas dão para os fundos da casa e as outras três para o leste da cidade. Se eu quisesse invadir a casa, bastaria subir numa das árvores desse lado, quebrar a vidraça e entrar. Ela continuou a fitá-lo, desconfiada. Imperturbável, Aiden insistiu: — Seu quarto, srta. Radford, deve ser igual ao meu. Preciso ver o que existe do lado de fora para facilitar a entrada de alguém disposto a alcançar Mohan. — Eu lhe garanto que minhas janelas são bem seguras. O tom ainda era desconfiado. — Por favor, quero ver isso por mim mesmo. Ela mordeu o lábio inferior e Aiden percebeu que ela acabaria cedendo. Paciente, esperaria a fim de ganhar-lhe a confiança. Por Deus, estava tão linda ali em pé, com os caracóis negros emoldurando o rosto e a expressão meio confusa. Em silêncio, ela rumou para seu quarto. Aiden não conteve um suspiro de alívio e a seguiu. Com a mão na maçaneta, ela o encarou e disse: — Não haverá comentário algum de natureza particular.

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Aiden reprimiu a vontade de rir e fez uma cruz sobre o coração, mas arrependeu-se do voto no instante em que ela abriu a porta. As janelas tinham persianas cujos painéis de madeira, com intrincados arabescos, produziam delicados movimentos de luz e sombra em tudo no quarto. Exceto a cama de quatro colunas e um sofazinho, o resto não era em estilo inglês. A colcha ficava entre um dourado-escuro e âmbar. Almofadas, de todas as cores do arco-íris e dos mais variados tecidos, amontoavam-se na cama e em cada canto do quarto. Um tapete espesso, em tons de vermelho, verde e dourado, cobria quase o soalho inteiro. Peças de prata e ouro ficavam na penteadeira, esta uma obra de arte em entalhe artesanal. Mas nada disso se comparava com o que se via sobre a cama. Pelo jeito, Preeya havia lavado e passado roupa de manhã cedo. Estendida sobre a colcha e em contraste com a cor escura, estava uma camisola branca, de seda transparente e com renda nas cavas e no decote. E também calções do mesmo material e acabamento. Entre eles havia um robe de seda cor de açafrão, mas tão sedutor quanto as outras peças. Sandra Radford tinha gosto excelente e também sabia o que os homens consideravam erótico. Quem haveria de imaginar? Ele não. Entre as últimas descobertas, esta era a melhor que fizera em muito tempo. Mas seria sensato guardar o prazer para si mesmo. Com esforço, reprimiu o sorriso e dirigiu-se às janelas. Abriu uma delas e observou a vista a oeste da cidade. Nada de árvores ou de casas vizinhas, apenas as do outro lado da rua abaixo. Ninguém poderia entrar neste quarto a menos pela porta e a convite de Sandra, o que ele achava improvável. Maldição. Todas essas peças deliciosas, escondidas e sem ser tocadas por mãos masculinas. Uma tragédia de rasgar o coração e que ele precisava corrigir. — Já viu o suficiente? — ela indagou ao vê-lo dirigir-se à porta. Por Deus, não, ele respondeu em silêncio, tornando a lutar contra o sorriso. A alegria esmoreceu quando se viu diante dela e a fitou. Havia tantas emoções em seu olhar... Apreensão e coragem, mágoa e ansiedade. Gostaria de estreitá-la nos braços e roçar a face em seus cabelos. Não era pedir muito, mas era cedo demais. Ela sabia. Estava ali no arfar rápido de seus seios e na maneira de entreabrir os lábios para respirar. Ele também podia ver em seus olhos. Tentação, curiosidade, uma ponta de incerteza que bastaria um beijo para apagar. Até soltá-la. Então, Sandra se lembraria e sua desconfiança aumentaria por ele ter afastado seus temores de maneira insensível. Não. Apenas quando sua apreensão passasse e ela tivesse certeza absoluta. E nada mais justo do que ele lhe dar um aviso das intenções. Tossiu baixinho e respondeu com firmeza: — O suficiente. Por enquanto.

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Sandra forçou-se a respirar. A expressão do olhar dele tornava isso quase impossível. Se tentasse falar, ele se inclinaria e a beijaria. Delicada e deliciosamente. Era impossível resistir. Pensou no risco e no prazer excitante. — O quarto de Mohan, por favor — Aiden murmurou. Ele oferecia uma prorrogação. Bastaria desviar o olhar para a magia romper, ou tocá-lo para ele a tomar nos braços. Aiden deu um passo para trás, impedindo-a de se fazer de tola. Com as pernas bambas e um misto de alívio e frustração, Sandra rumou para o quarto de Mohan. Bateu e, como na vez anterior o menino não atendesse, abriu a porta. Ele continuava sentado no colchão, os braços cruzados no peito e o queixo erguido em sinal de desafio. Desta vez, porém, o chão entre o colchão e a porta estava forrado com a comida do almoço. Chocada, Sandra não conteve uma exclamação e, logo atrás, Aiden resmungou algo. — Mohan! Você vai limpar esta sujeira imediatamente! — ela ordenou, furiosa. — Preeya pode fazer isso — ele replicou, erguendo mais o queixo. — De forma alguma. Ela já tem trabalho suficiente. Você criou este desastre e vai corrigi-lo. Agora! Mohan continuou a encará-la com olhar de desafio. Ela refletiu sobre os castigos possíveis e decidiu pela continuação do confinamento. Sem mais refeições. — Muito bem — ela começou. — Então tenho... — Nós vamos sair. Você tem cinco minutos, rapazinho, para limpar isto aqui e mostrar-se apresentável. Não perca tempo — Aiden disse por sobre seu ombro. Perplexa por ele interferir, Sandra o encarou. — Sr.Terrell... — Isso pode esperar um pouco — ele declarou. — O quarto de Preeya, por favor. Não era o momento nem o lugar para discutirem sobre ele apossar-se de tal autoridade. Calada, Sandra foi abrir o quarto de Preeya. Da porta mesmo, Aiden inspecionou o aposento e aprovou com um gesto de cabeça. — O senhor vai querer ver o sótão também? — ela indagou, na esperança de ouvir um "sim", pois lá seria o lugar ideal para acertarem a questão. — Ele tem janelas? Projeto Revisoras

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— Não, apenas seis frestas para ventilação, sendo três na frente e três atrás. Ah, sim, e uma janelinha redonda que não dá passagem para ninguém. — Bem, por enquanto a descrição basta. Em que estado se encontra o estábulo? Ele tem lugar para carruagem? Confusa com a mudança de assunto, Sandra murmurou: — Como assim? — O estábulo. A construção de pedra um pouco além da cozinha. Ela tem uma porta larga de entrada. — Sei qual é. Mas por que está perguntando? Não há nada lá dentro e não vejo o que ela tem a ver com a segurança geral. — Daremos uma olhada lá antes de sairmos — Aiden disse ao passar por ela, de volta ao quarto de Mohan. — O senhor não respondeu à minha pergunta. Ele não olhou para trás, agarrou a maçaneta e abriu a porta. — O tempo acabou. Se você não levantar já e sair do quarto dentro de dois segundos, rapazinho, vou deitá-lo nos meus joelhos e você não conseguirá sentar durante um mês. Sandra já ia interferir quando ele largou a maçaneta e acrescentou; — Traga seu casaco. Mohan tinha cedido. Ela soltou o ar que havia prendido ao vê-lo limpando o quarto. — Aonde está me arrastando? — o menino exigiu, quando já saía. — A uma aventura — Aiden respondeu ao apontar para a escada. — Eu o encontro lá embaixo em um instante. Mohan foi, batendo os pés, as mãos crispadas ao longo do corpo. Aiden indagou baixinho enquanto o observavam: — Sua conta bancária está em seu nome? Inteirar-se da verdade não daria a ele direito algum, pois sua assinatura era necessária. — A renda do comércio com prata ponho em meu nome e a da Blue Elephant na de Mohan. Mas sou sua procuradora. — Perfeito — ele disse ao dirigir-se à escada. — Estaremos no estábulo à sua espera. Tente não levar muito tempo, pois temos o que fazer esta tarde. E não esqueça a procuração de Mohan.

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Perplexa, Sandra continuou parada. Mal passava das duas horas. Por volta das dez, ela havia entrado no escritório de Barrett Stanbridge. Ou seja, quatro horas atrás, ela ainda tinha absoluta autoridade nesta casa. Agora... Como um homem podia assumir absoluto controle em tão pouco tempo? Ele ordenava e Mohan obedecia. Emitia opiniões e ela as acatava. Seus protestos, ele ignorava. E como se tudo isso não fosse ruim o suficiente, parecia querer beijá-la, o que não a insultava e nem repelia. Era como se ele, ao passar pela porta, a fizera perder a noção de tudo. Na Índia, gozava a fama de não ser submissa a homem algum. Havia forçado muitos oficiais? do Exército de Sua Majestade a procurar socorro. Até o rajá pisava de leve a seu redor! Mas não Aiden Terrell. Ele não havia dito que nascera para comandar e o fazia muito bem? Não estava mentindo. Também havia dito que ela encontrara um parceiro à altura quando se tratava de ser voluntariosa. Era um homem enfurecedor, mas também atraente e encantador quando queria. Aqueles cabelos despenteados, as covinhas ao sorrir e os incríveis olhos verdes. Como brilhavam quando ele ria. Com esforço, Sandra afastou tais imagens. Se tivesse um resto de dignidade, pegaria um livro e iria ler no salão em vez de se aprontar e ir ao estábulo. Mas, se fizesse isso, ele não viria procurá-la. Apenas daria de ombros e levaria Mohan só Deus sabia aonde e para quê. Com eficiência, Aiden Terrell eliminara suas escolhas. Sandra bateu o pé, rangeu os dentes e foi se aprontar. Aiden abriu os dois lados da porta do estábulo e, depois, observou Mohan espiar o interior escuro. — É um lugar sujo — o menino comentou, tentando não se mostrar fascinado. — Na verdade, está em muito boas condições. Apenas varrer e arejar farão maravilhas — Aiden afirmou, sorridente, e apontou para a esquerda. — Se você abrir as janelas daquele lado, farei o mesmo deste. Mas só um pouquinho. — Para que este lugar é usado? — Mohan indagou. Aiden abriu uma janela e alargou o sorriso ao ouvir o menino fazer o mesmo. — É um estábulo e lugar para estacionar carruagens. — Mas não temos uma. E nem cavalos, como o senhor pode ver. Por que estamos abrindo as janelas de um lugar vazio? — Bem, se você fosse um cavalo, gostaria que sua nova casa fosse abafada? — Vamos comprar cavalos? — Mohan indagou, fingindo indiferença. — Cinco deles. Três para cavalgar e dois para a carruagem.

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— Também vamos comprar uma carruagem? Aiden continuou a abrir janelas enquanto respondia: — Seria tolice comprar cavalos para carruagem sem ter uma, certo? — Será uma aberta para que nos admirem enquanto passeamos? Aiden riu ao notar o entusiasmo crescente do menino. — Se for o que você escolher. Mas lembre-se de que serão passeios muito frios nos próximos meses. — Vou poder escolher a carruagem? — Com certa orientação, sim — Aiden explicou. — A srta. Sandra não entende nada de carruagens — Mohan comentou. Aiden abriu a última janela de seu lado. — Nesse caso, é uma boa coisa que eu entenda, não acha? — A srta. Sandra sabe no que estamos envolvidos? Tinha conseguido. Os dois já eram conspiradores amigos e unidos contra os temores maternais de Sandra Radford, a duquesa. Mas já estava na hora de Mohan largar a barra de sua saia. Aiden encostou-se na grade de uma das baias. — De um modo geral, ela faz idéia — respondeu. — E está de acordo? — Mohan indagou ao subir e sentar na grade da baia em frente. Aiden deu de ombros e sorriu. — Com o tempo, ela verá tudo como eu. Apesar do esforço para se mostrar otimista, Mohan comentou: — Sabe, às vezes a srta. Sandra é um tanto teimosa. — Notei isso. — Meu pai diz que até ela aprender a ser menos teimosa, não dará uma boa esposa. — Nesse caso, talvez seja bom que ela não esteja casada — Aiden comentou, diplomático. — Mas meu pai diz que ela seria uma amante bem aceitável. Aiden riu. — Não posso imaginá-la satisfeita com tal solução. E você?

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— Meu pai é rajá. As pessoas têm de obedecer a ele. Até a srta. Sandra, mesmo que não concorde. Mohan pensava que o rajá podia exigir que Sandra Radford fosse sua amante? Sem dúvida ele não tinha noção como tal ligação acontecia. Lembrou-se de um trecho de conversa e sorriu. — Diga uma coisa. Alguma vez o rajá ordenou a ela para se curvar na sua frente? — Ele exigiu da sra. Radford, mãe da srta. Sandra, que explicou os costumes ingleses a meu pai. Ele, homem sensato e honrado, decretou uma solução. A srta. Sandra mantém sua decisão e só baixa o queixo para reconhecer a presença e a autoridade de meu pai. — Bem conciliatório — Aiden comentou. — Muitas pessoas na corte acham a srta. Sandra desrespeitosa e não gostam de sua presença lá. — Nesse caso, penso que estejam contentes com sua temporada aqui na Inglaterra — ele disse a fim de descobrir o que mais o menino queria contar. — Essas pessoas vão se opor muito à volta dela. — Se está querendo me dizer algo, Mohan, diga logo. — A srta. Sandra teme que os inimigos de meu pai venham até aqui para me fazer mal. E eu tenho medo que os amigos de meu pai também venham para matá-la. Com um nó no estômago, Aiden refletiu sobre a informação. — Ela suspeita que a oposição dessas pessoas seja tão forte assim? — Como o senhor notou, ela é teimosa, mas também inteligente. De fato era, e Mohan também. Bem acima da idade dele. — Você pensa que algumas delas já estejam aqui? — Aiden indagou, confiando na avaliação do menino. — Os inimigos de meu pai, talvez. Os amigos ainda não. — Estes virão quando você for chamado de volta à Índia. Até então, o interesse deles é mantê-la aqui — Aiden comentou. — Vejo que é muito inteligente, sr. Terrell. Estou quase convencido de que foi sensato a srta. Sandra contratá-lo. — Não diga! — Eu gostaria de um garanhão branco para cavalgar por Londres. — O que você gosta e o que vai receber são duas coisas bem diferentes — Aiden disse, rindo.

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— Ora, a gente tem de tentar. — É verdade. Vá ver se encontra umas vassouras para limpar este lugar enquanto aguardamos a srta. Radford. Ele esperava que Mohan dissesse que isso era serviço de Preeya, mas quando o viu se dirigir ao lugar dos arreios, considerou sinal de sucesso certo. Deixou-o por conta própria, ciente de que ele apreciaria a liberdade e trabalharia direito. Ainda encostado na baia, refletiu. Quanto tempo restava até o rajá chamar o filho e a preceptora de volta para a Índia? Uma semana? Um mês? Um ano? Os assassinos chegariam antes da carta ou Sandra já estaria morta antes de recebê-la? Talvez por um mês ele estivesse ali para protegê-la. Mas se o chamado chegasse depois da vinda do substituto de Lal, ele teria de explicar-lhe que a proteção de Sandra era tão importante quanto a de Mohan. Seria o suficiente e ele poderia ir embora sem peso na consciência. Mas por que ela não lhe tinha dito nada? Sem dúvida aquele era o trajeto mais embaraçoso que Sandra já havia feito. Sentado à sua frente, Terrell ou olhava pela janelinha ou a observava como se ela fosse um inseto exótico. Tentou indagar o que o perturbava, mas Mohan não parava de falar desde o instante em que tinham entrado na carruagem de aluguel. Só Deus sabia o que acontecera no estábulo antes de ela chegar lá. Mas só podia ser algo muito bom, pois Mohan estava mais excitado e contente do que ela jamais o tinha visto. Por outro lado, Terrell mostrava-se distraído. A carruagem diminuiu a marcha e parou. No mesmo instante, Mohan abriu a portinhola e pulou fora sem que Sandra pudesse impedi-lo. — Mohan! Não saia correndo por aí! Cuidado! — ela gritou em vão. Aiden desceu e ofereceu-lhe a mão para ajudá-la. Estavam num campo coberto de neve e cheio de carruagens de todos os tipos. E Mohan já se embrenhava entre elas. Aquilo era perigoso. — Deixe o menino correr e subir nelas — Aiden disse ao largar sua mão e oferecer-lhe o braço. — Não vai quebrar nada. — Exceto um braço ou uma perna — ela protestou ao perder Mohan de vista entre as carruagens. — Meninos não só caem como levantam depressa. — Virou-se para trás e disse: — Por favor, cocheiro, espere por nós. — E se ele se machucar com o tombo? — Sandra perguntou ainda sem enxergá-lo. — Então, terá algo interessante para contar aos outros meninos. Nunca subestime o valor social de uma cicatriz. Quanto mais feia, melhor.

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— Homens são criaturas muito estranhas, sr. Terrell. Ele riu e o braço sob sua mão relaxou um pouco. — A senhorita tem preferência por algum tipo de carruagem? Mohan quer uma aberta para ser admirado quando dirigir pela cidade. Dirigir? Deus protegesse Londres se ele, um dia, pegasse as rédeas. — Creio que uma fechada seria mais prática... — Sr. Terrell! Srta. Sandra! Ambos olharam para o lado da voz de Mohan. — Aqui! — ele gritou ao apontar para a esquerda. — E a carruagem perfeita! Venham ver. Sandra relanceou o olhar para Aiden, que sorriu. Ela refletiu que ele era o homem mais fascinante e magnífico que já tinha visto. Foi preciso um esforço sobrehumano para desviar o olhar. Mas não conseguiu aquietar o coração traidor. — Ela não é perfeita, sr. Terrell? — Bem, as aparências são apenas uma parte da perfeição. Se não rodar bem, não importa o quanto seja bonita. É sempre sensato inspecionar a estrutura toda antes de se tomar uma decisão. Vamos fazer isso com cuidado. Em silêncio e devagar, os dois rodearam a carruagem, observando detalhes. Finalmente, Aiden disse ao tocar uma das rodas: — Oh, isto aqui promete problemas. Olhe, Mohan. Está vendo a saliência? O menino chegou mais perto e passou o dedo em cima da roda. — Devia haver alguma coisa na estrada — comentou. — Pode ser, ou algo mais sério. Olhe ali — Aiden disse ao apontar para um dos raios da mesma roda. — Note como a cor da tinta está um pouco diferente das outras. — É mesmo. Isso quer dizer algo importante? — Talvez — Aiden respondeu enquanto apalpava mais raios. — Ah, isto não está nada bom. Passe o dedo neste aqui, e no seguinte. Mohan obedeceu, franziu a testa e, depois, examinou vários raios. — Estes três estão com saliências. Os outros, não. Por quê? — Não posso dizer com certeza, mas suspeito que quebraram e não foram bem consertados. — Deve ter sido uma pedra grande na estrada. — Vamos entrar embaixo da carruagem e examinar os eixos. Um manipulador mestre, isso era o que Aiden Terrell era. Projeto Revisoras

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Com calma e perfeição, traçava o caminho e levava os outros a alcançar o ponto desejado. Mohan não tinha consciência de que a carruagem estava lhe sendo tirada peça por peça. Sandra sorriu, sabendo que, quando a inspeção terminasse, ele teria desistido de comprá-la e certo de a decisão ter sido dele. Aiden tinha notado a saliência na roda no instante em que tinham se aproximado da carruagem. Isso queria dizer que havia negociado os termos com ela, ciente de que o veículo era inaceitável, com ou sem seu aval. Ela também havia sido manipulada. Tinha toda a razão para estar brava, mas não estava. Na verdade admirava a habilidade dele para conseguir o que queria sem ser autoritário. Havia sorrido e lisonjeado. De fato, era um mestre. Ela precisava se lembrar disso no futuro. — Aquela saliência não é bom sinal, certo? — Mohan indagou. — Claro. Sugere que a carruagem sofreu um acidente. Está vendo esta rachadura aqui? Também não é bom sinal. Sandra viu os dois saírem de sob a carruagem e a observarem em silêncio por algum tempo. Finalmente, Mohan indagou: — Ela não pode ser consertada melhor do que já foi? — Não sem um preço muito alto — Aiden respondeu. — Aliás, ela não foi realmente consertada. Tentaram apenas disfarçar os estragos na esperança de o comprador não notá-los até depois de a compra ser efetuada. — Quiseram me tapear? — Mohan indagou, indignado. — Não você em particular, mas qualquer pessoa que veja apenas o vermelho e o dourado. — Pois não deixarei me enganarem. — Sensato de sua parte. Vamos procurar outra? — Aiden sugeriu. —Vou por este lado. Se gostar de uma, aviso — Mohan disse ao afastar-se. — Agiu muito bem, sr. Terrell — Sandra elogiou. — Aiden, lembra-se? — Aiden — ela corrigiu ao levantar-se. — Você não só me poupou o embaraço de ser vista nesse monstro como também ensinou Mohan a ser precavido. Se seu trabalho de investigador não der certo, reflita sobre ser professor. — Bem, não sou investigador. Se aceitei proteger Mohan foi para retribuir um favor a Barrett. Depois, talvez volte ao mar. — Você não parece muito entusiasmado com a idéia.

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— É uma longa história — Aiden disse numa voz tensa, ao olhar por sobre o ombro. — Parece que Mohan encontrou algo que mereça ser inspecionado. Vamos até lá? Sandra permitiu que Aiden a conduzisse por entre as carruagens, ciente de que ele havia aberto uma porta pessoal sem pensar. Então, ao dar-se conta, a fechara depressa. — Espero que a próxima escolha seja mais apropriada do que a vermelha. Quanto a histórias, prefiro as longas, pois são mais interessantes do que as curtas — ela aventurou-se a dizer. — Não naquele caso. Firme e conclusivo. Não estava disposto a compartilhá-la com ela. Observou-o de esguelha e viu-lhe o rosto tenso. — Srta. Sandra! Olhe para cá! — Mohan gritou. Ela o encontrou à direita, sentado na boléia de uma carruagem de onde apontava para um capinzal. — Lá no fim do campo! Os pavões para Preeya — gritou, excitado. Sandra largou o braço de Aiden e o rodeou, tentando enxergar as aves na vegetação. — De todos os lugares! — exclamou. — Preeya quer muito um pavão. Faz tempo que insiste nisso, mas não tive sorte. Preciso levar aqueles dois, Aiden. Não importa o quanto custem. Por Deus, ela estava linda. Tão entusiasmada e alegre. Os olhos tinham um tom azulado. — Pavões — ele disse e umedeceu os lábios. Comprar as aves, acomodá-las na carruagem alugada e levá-las para casa iria gastar o tempo que ele pretendia usar na procura de cavalos. Mas se Sandra queria pavões, ele adiaria os planos para o dia seguinte. Um pequeno gesto, comparado ao fato de ele ter atingido seu alvo mais importante. Sandra já confiava nele. Era bom saber que a vida ainda oferecia os prazeres de um jogo bem armado. E melhor ainda descobrir que, apesar de ter ido até o inferno e voltado, ele não havia perdido o jeito. — Muito bem, Sandra. Se Preeya quer pavões, vamos buscá-los. Ainda sonolenta, Sandra enfiou a cabeça sob o travesseiro. Ah, o grasnar inconfundível dos pavões ao amanhecer! Era como estar de volta à Índia. Exceto que lá, uma criada traria sua refeição matinal na cama. Aqui, ela precisava se levantar,

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vestir-se e descer se quisesse se alimentar. Preeya podia estar adorando as aves; ela, porém, não permitiria que essa lembrança de casa lhe apagasse o bom senso. Sandra suspirou, espreguiçou-se e, sentou-se, lutando para manter os olhos abertos. Estranhou a batida na porta. Seria Preeya? — Sim? — perguntou. Sem o menor aviso, Mohan abriu a porta e entrou. — Bom dia, srta. Sandra. Logo atrás dele, entrou Aiden. — Bom dia, srta. Radford. Mohan carregava uma escrivaninha portátil, a pena enfiada atrás da orelha. Aiden, sem paletó e com as mangas da camisa arregaçadas, segurava uma trena. Sorriu e piscou para ela. — Desculpem — Sandra balbuciou ao se proteger com as cobertas. — O que estão... — Não se preocupe, desde que mantenha as cobertas no lugar — Aiden disse, ainda sorrindo e seguindo Mohan até as janelas. — O que os dois estão fazendo? — ela indagou. — Não é óbvio? Medindo as janelas — Mohan respondeu enquanto anotava algo no papel e Aiden abria a trena. — Para quê? — O sr. Terrell e eu vamos levar as medidas para um ferreiro fazer grades — ele explicou. Ao mesmo tempo que seguiam trabalhando, Mohan acrescentou: — O sr. Terrell desenhou um modelo muito bonito. A senhorita vai gostar. Quando terminarmos, vamos procurar cavalos. Dois para a carruagem que escolhi e três para cavalgar. Depois de trazê-los para casa, vamos construir um cercado mais firme para os pavões. Eles destruíram o que o sr. Terrell fez ontem à noite. — Lembrem-se de que estava escuro e frio, e eu, sob ataques — Aiden advertiu, bem-humorado. — Como está sua perna? — Sandra perguntou, rindo. — Dolorida. Ele tirou bons pedaços. Mentira. Aiden havia levado apenas umas bicadas. — Talvez o senhor fique com cicatrizes para mostrar a outros rapazes. Aiden teve de desviar o olhar e controlar o sorriso antes de dizer o que precisava. Projeto Revisoras

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— Com o que temos para fazer, calculo que fiquemos fora boa parte do dia. Antes de sairmos, avisarei Preeya a fim de não preparar almoço para um batalhão. — Não sou convidada para ir junto? — Sandra indagou ao mesmo tempo que rezava: Meu Deus, tenha misericórdia de mim! Aiden se surpreendeu e falou em tom de desculpa: — Mohan disse que a senhorita não poderia ir porque chegou novo carregamento de mercadorias. — De fato, ele está certo. Tenho trabalho para fazer aqui. Que horas são? — Nove e pouco — Mohan respondeu. — Faz tempo que estamos em pé. Temos muito para fazer hoje. — Nunca dormi até tão tarde — Sandra murmurou. — Não é pecado, sabe? — Aiden disse a caminho da porta. Sorriu, piscou e acrescentou: — Mas essa camisola é. Então desapareceu no corredor. Mortificada, Sandra gemeu. Talvez Aiden não tivesse visto nada antes de ela se proteger com as cobertas. Levantou-se e foi se olhar no espelho da penteadeira. — Por Deus — choramingou, ciente de que se cobrira tarde demais. A fração de um segundo bastaria. A gaze fina de seda não ocultava nada, só realçava suas curvas e os mamilos escuros. Flanela! Ela precisava fazer uma camisola de flanela. E preta. Com botões até o queixo. E rezaria para que Aiden, pelo menos uma vez, a visse e se desse conta de que ela não era uma devassa.

Capítulo IV

Aiden soprou a fumaça do charuto na luz do entardecer. Sob qualquer ponto de vista, o dia tinha sido um sucesso. Observou o novo cercado para os pavões, feito com estacas e uma enorme rede de pescar. À tarde, tinha feito o cercado. Mohan não era mais o menino mal-humorado e tornara-se uma companhia agradável. Além de inteligente, concentrava-se nas tarefas.

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A compra dos cavalos também havia sido excelente. Os dois pretos eram para a carruagem, e os outros três para cavalgar. Aiden sorriu e soprou mais fumaça do charuto. Mohan, além das outras qualidades, possuía bom senso. O desejo por um garanhão branco tinha sumido ao ficar diante de um que batia as patas no chão. O palafrém irlandês, castrado, tinha sido a escolha seguinte e com a qual Aiden concordara. Para ele fora um baio árabe, alto, com incrível vivacidade e um passo macio. Para Sandra, escolhera também um baio, mas pequeno e dócil. A seguir, tinha sido a ida ao ferreiro. O homem ficara feliz com o tamanho do pedido e prometera entregar as ferraduras dentro de alguns dias. Aiden não via necessidade de urgência para as grades das janelas. Ninguém ainda perseguia Mohan como Sandra temia. Aliás, nem a ela. Ótimo. A falta de ameaças lhe permitia concentrar-se em algo mais pessoal. Como tornar a vê-la de camisola. Isso tinha sido um prêmio inesperado, e as lembranças o tinham inspirado o dia inteiro. Rindo, apagou o charuto na neve, cobriu o toco com ela e rumou para casa. Mal passou pela porta de trás, parou ao ver uma silhueta estranha, delicada e de curvas bem-feitas sair da sala das pratas. — Sr. Terrell! Ao ouvir a voz, ele a reconheceu. — Olá, Polly. O que a traz à Blue Elephant? — Negócios para milady. Com prata, ele calculou. — E como vai lady Tyndale? Bem? Polly suspirou e balançou a cabeça. — Ela ainda está vivendo separada do marido. Já faz dois anos. Desde a última vez que vimos o senhor aqui em Londres. — Lamento saber. — Mas não me surpreendo — pensou em silêncio. — Vão acabar se reconciliando. — Duvido muito. — Milorde é do tipo que guarda rancor — Polly comentou. Toda a Londres sabia disso. Charlotte tinha brincado com fogo. O que tornava a tentação de seduzi-la quase irresistível. Polly sorriu e indagou: — Devo dar suas lembranças a milady? Não enquanto ele tivesse a mínima esperança de tornar a relação com Sandra mais íntima. Nem mesmo em caso contrário. Se Charlotte soubesse que ele estava ali, apareceria no dia seguinte para se vingar de seu papel no desastre. Embora pequeno. — Acho melhor não reavivar o passado, Polly. Lorde Tyndale não é o único a guardar rancor. Projeto Revisoras

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— Entendo, sr. Terrell. — Fez uma mesura e acrescentou: — Foi um prazer revê-lo. — E eu a você, Polly. Cuide-se. Ela sorriu e virou-se para a sala das pratas. — Obrigada pela ajuda, srta. Radford. Não precisa me acompanhar. Encostado à parede, Aiden a seguiu com o olhar até a saída, ciente de que Sandra, parada à porta para o corredor, o observava. — O que foi? — indagou com ar inocente. — Só por curiosidade. Existe uma mulher em Londres que você não tenha levado para cama? Aiden deu a impressão de estar percorrendo uma lista. — Polly — disse finalmente. — Se você convidasse, ela aceitaria. — É mesmo? — Humpf... — Com a interjeição irritada, ela voltou para a sala das pratas. Rindo e dando-se conta de que havia sentido falta sua à tarde, Aiden a seguiu. — Como Polly saiu daqui de mãos vazias, calculo que Charlotte está vendendo prata para sobreviver. — Está, sim, mas não faço idéia do porquê. Um faqueiro muito especial criado por Roberts e Belk apenas no ano passado. Pela aparência, nunca foi usado. — Entregou-lhe um garfo. — Magnífico, não acha? De prata e ouro, era muito rebuscado para o gosto dele, mas Aiden fez apenas um gesto com a cabeça. O trabalho perfeito também devia contribuir para um preço exorbitante. Ao entregá-lo de volta, disse: — Se conheço bem Charlotte, imagino que isso tenha sido presente de um admirador. — Pelo jeito, ela não o admirava o bastante para convidá-lo para jantar — Sandra comentou, rindo. — Com certeza ele não estava interessado em jantar. Não é por isso que homens dão presentes a Charlotte, sabe? Com um meio sorriso, ela o fitou. — Eu não sabia. Obrigada por me informar do que deve ser de conhecimento dúbio. Por Deus, ele não sabia como havia acontecido, mas Sandra Radford tinha se tornado a mulher mais adorável que havia cruzado seu caminho. E conhecimento Projeto Revisoras

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dúbio era sob o qual Barrett trabalhava se pensasse que ela estava envolvida em operações escusas. Nada mais longe da verdade. Mas não diria nada até Barrett indagar se ele tinha investigado. Então, daria uma explicação. — Por falar em saber, como você descobre se a prata que lhe oferecem não é roubada? — indagou ao olhar em volta. — É fácil. Pode-se reconhecer a que foi adquirida legalmente pelo tipo de pessoa que vem vendê-la. Criadas, mordomos e cocheiros de damas são muito mais confiáveis do que a maioria dos ladrões. Mas quando comecei a negociar, um bom número de pessoas tentou me vender peças roubadas. Logo espalhou-se a notícia de que eu não as comprava. Hoje raramente aparece alguém com tal propósito. — Esses talvez sejam novos no comércio ilegal — Aiden disse, na esperança de que ela soubesse algo sobre isso. Uma descrição ou um nome seria bem mais do que Barrett contava até o presente. — Atualmente são muito jovens e não fazem a mínima idéia do valor da prata. Quando aparecem, tenho a tentação de arrastá-los pela orelha até suas mães. — Não adiantaria. É bem possível que elas contem com o dinheiro para ir ao mercado. — Eis o motivo por que não faço isso. É horrível passar fome. Aiden estranhou. Os oficiais ingleses na Índia recebiam salários régios. E então, primeiro como filha de preceptora real e, depois, como tal, Sandra não devia precisar de nada. — Como a srta. Sandra Radford teria noção de uma existência de penúria? — indagou com suavidade. — Meu pai tinha muitos vícios, os piores, jogo e bebida. Minha mãe esperava até ele chegar de madrugada e cair inconsciente na cama. Então, revistava seus bolsos. O dinheiro que encontrava era gasto para pagar o aluguel da semana e ir ao mercado. — Então, ela o deixou e foi ser preceptora na corte do rajá? -----Aiden perguntou. — Bem, mais ou menos. A resposta evasiva o fez imaginar algo mais. — Ele não as tratava bem? — Você conheceu muitos bêbados alegres e afáveis? Sandra respondera à pergunta com outra, sua estratégia defensiva, o que indicava que ele tocara num ponto sensível. A delicadeza o impedia de insistir, mas, por outro lado, achava que

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jamais a entenderia caso não lhe confiasse sua história. Embora ignorasse o motivo, sabia ser importante para ele. — Sua mãe o matou? — perguntou rudemente na esperança de forçá-la a dar uma resposta direta. — Não. Mas não verteu lágrimas quando um de seus comparsas de jogo o fez. O homem veio nos procurar para cobrar o dinheiro que meu pai lhe devia. Como não tínhamos, fugimos de Bombaim. — E foram procurar o rajá — Aiden concluiu a fim de ajudá-la na descrição penosa. — Depois de algum tempo. Onde está Mohan? A resposta lacônica e a mudança abrupta de assunto mostravam que ele não teria sucesso pela segunda vez. Ao menos por enquanto. — Preeya está supervisionando o banho dele. Mohan se sujou muito hoje. Vim buscar roupas limpas para ele. E para mim também. Sou o seguinte na fila da banheira. — Espero que sim — Sandra disse, rindo ao pegar uma lanterna e sair para o corredor. — Imagino que, então, uma aventura com o mestre do estábulo está fora de questão — ele disse ao segui-la. Sandra riu mais e pôs a lanterna na mesa da sala da frente. — A julgar por sua aparência, penso que você conseguiu adquirir os cavalos desejados. Mudança de assunto. Não estava surpreso, apenas desapontado. — Ah, sim. Depois, fomos providenciar a entrega da carruagem. Foi bem limpa, lustrada e os cavalos estão felizes, mastigando aveia. Amanhã, vamos encilhar o que compramos para você e iniciar suas aulas de equitação. — Veremos. Imagino que Mohan o forçou a começar com as dele hoje. Como ele se portou? — Muito bem. Não mostrou medo algum do cavalo. Vai ser um daqueles cavaleiros que parecem ter nascido na sela. — Você vai se esforçar para impedi-lo de se arriscar, não vai? — O cavalo dele é um palafrém, acostumado a ser cavalgado por damas. E será puxado por uma corda até Mohan provar, várias vezes, ser competente. — Obrigada, Aiden. Isso me deixa mais tranqüila. E seu sorriso de gratidão o aquecia muito.

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— Bem, acho melhor ir pegar as tais roupas e voltar a cozinha — ele disse, dirigindo-se à escada e para longe da tentação. Sandra o seguiu com o olhar antes de voltar a trabalhar. Era um homem fascinante demais para seu próprio bem. E ao que tudo indicava, era decente e honrado. Ao mesmo tempo, Aiden não se opunha a aceitar ofertas livremente feitas. E se a mulher do momento desejasse o pagamento de seus favores, ele o faria. Se um homem tinha dado a Charlotte um caríssimo faqueiro de Roberts e Belk, o que Aiden tinha lhe dado? Não que se visse forçado a ser tão extravagante. Era um homem atraente, encantador e o tipo de amante que mulheres como lady Tyndale preferiam. Mas também parecia não ser mesquinho. Ora, perder mais de um segundo com esse assunto era indecoroso. Damas não tinham tais reflexões. Aliás, nem lhes ocorria ter. — Um par de anéis de safiras. Sandra ergueu o olhar e viu Aiden parado ao pé da escada, com as roupas nos braços e um sorriso matreiro. Há quanto tempo estaria ali? Teria ela pensado em voz alta? Por Deus, esperava que não. Franziu as sobrancelhas, tentando descobrir o que anéis de safiras tinham a ver com qualquer coisa. — Você estava pensando no que dei a Charlotte. Era incrível que ele lesse seus pensamentos, mas já tinha feito isso antes. Precisava tomar cuidado. — Anéis são um presente pessoal muito caro. Ela não teve medo que o marido os notasse à mesa de uma das refeições? O sorriso dele alargou-se. — Não eram para seus dedos. Charlotte tem certas partes íntimas perfuradas para jóias. Sandra o fitou boquiaberta. Ouvira falar nesses costumes chocantes, mas nunca em alguém que os tivesse feito. — Era interessante — ele admitiu, mas achando que a tinha chocado o suficiente, acrescentou enquanto se virava para ir embora: — Fico muito satisfeito por não ter me casado com ela. — Aiden? — ela chamou, sem resistir ao impulso. Ele parou e virou-se com ar interrogativo. Para seu desalento, a coragem a abandonou. Não se indagavam essas coisas, a consciência a censurou. — Não. Eu não tive nada a ver com o fato de lorde e lady Tyndale estarem vivendo à parte. A culpa pertence a Barrett. E foi espetacular. Projeto Revisoras

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Por Deus, ela não precisava de tal informação. Querê-la era sinal de interesse lascivo e caráter imoral. O que queria dizer, claro, que ela era uma péssima pessoa. — Não vamos demorar muito para voltar — Aiden avisou e, dessa vez, afastou-se de fato. Decidido que não teria nada a perder se fizesse umas perguntas, Aiden enrolou uma toalha na cabeça e saiu de trás do biombo para a frente da banheira. Preeya estava em frente ao fogão e o menino sentava-se numa banqueta perto dela. Então, Aiden indagou: — Mohan, o que você sabe sobre como a srta. Radford e a mãe foram parar na corte de seu pai? — Elas chegaram quando eu era bebê. Por isso, não me lembro. Uma afirmativa estranha, mas ele não ia desistir. — Preeya saberia? O menino deu de ombros e começou a falar em hindi. Depois virou-se e, com um sorriso, disse: — Preeya quer saber por que o senhor pergunta. — Diga-lhe que quero entender Sandra, suas razões para ser como é e sua maneira de agir. Mais uma vez, Mohan falou a Preeya na língua nativa deles. Sorridente, ela olhou por sobre o ombro para Aiden e pôs-se a responder. Só quando terminou, o menino traduziu. — Preeya diz que meu pai viu a srta. Sandra num dos templos. Ela era criança e estava roubando as ofertas de alimentos. Ele mandou seus homens a seguirem e levá-la com a mãe para a corte de justiça. Quando meu pai ouviu sua história, sentiu muito dó delas e as tomou sob sua proteção. Preeya diz que se o senhor quiser saber sua história antes e depois disso, deverá perguntar à srta. Sandra. Cabe a ela lhe contar. — Não acredito que ela me atenda, não importa quão educadamente eu lhe peça. Mohan e Preeya voltaram a confabular e Aiden notou que ela não mais hesitava em continuar a falar. — Preeya diz que a srta. Sandra tenta convencer as pessoas de que não precisa de ninguém e prefere cuidar sozinha de sua vida. Afirma que ela seria muito mais feliz se abandonasse essa ilusão. Acha que isso precisa acontecer e que o senhor é o homem mais capaz de conseguir convencê-la. — Agradeça a ela por sua confiança em mim — Aiden pediu.

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— Ela quer que o senhor saiba que a srta. Sandra foi criada nos aposentos das mulheres. — Por que isso é importante? Nova confabulação em hindi, mas, dessa vez, mais rápida. — Acho que o senhor vai ter de perguntar à srta. Sandra. Preeya diz que não pode lhe contar mais nada sem lhe trair a amizade. Muito justo. Ela já tinha revelado o suficiente. — Agradeça-lhe mais uma vez, Mohan. Estou satisfeito. Apenas sob certos aspectos. A imagem de Sandra ainda criança, descalça, maltrapilha, roubando alimentos para sobreviver o deprimia. Agora entendia por que ela não confiava logo nas pessoas. Sandra ajeitou melhor o bordado sob a luz da lareira. Do outro lado vinha o ruído do tabuleiro de xadrez sendo arrumado. Olhou para Preeya, que lhe sorriu. — Muito bem, vamos começar com os pontos importantes — Aiden disse. — Você sempre mexe para proteger seu rei, Mohan. — Ele é o mais importante. — Não em xadrez. Quando a rainha é capturada, o jogo está praticamente terminado. — Por quê? Os homens são mais importantes do que a mulheres — Mohan protestou. — O que os homens fariam sem elas? — Ora, o que quisessem. — Poucas vezes isso seria inteligente ou apropriado. Não existiria civilização sem as mulheres — Aiden comentou. — Meu pai não pede a opinião de minha mãe, nem de suas outras esposas, para nada. Ele é o rajá, elas são as súditas. — Bem, calculo, Mohan, que seu pai esteja ciente de que seus atos são sempre notados por todas as suas mulheres e que, mais cedo ou mais tarde, terá de responder por eles. Sandra sorriu. Aiden Terrell entendia bem de política doméstica. — Ah, ah! — Mohan caçoou. — Não estou certo, srta. Radford? — Muito — ela respondeu e Aiden continuou: — Há uma coisa que você precisa saber sobre mulheres, Mohan. Elas falam entre si e de uma forma diferente que os homens uns com os outros. Mulheres são

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mestras em ação coordenada. Se decidissem organizar os próprios exércitos, os homens estariam perdidos. — Como o senhor sabe disso? — Tenho mãe e seis irmãs. Felizmente, são mulheres bondosas, pois meu pai, meus irmãos e eu estamos à mercê delas. Meu pai dá ordens, mas se minha mãe não as apoia, ficam sem efeito. — Então, seu pai não tem energia. — Se ele estivesse aqui, você seria jogado contra a parede, por dizer isso. — Sua mãe interferiria e o faria me pedir desculpas. — Engana-se. Ela acharia que você estava recebendo o castigo merecido e aprendendo a ficar de boca fechada. — Então, ela é um fantoche. Sandra não se surpreendeu quando Aiden suspirou de frustração e lhe perguntou: — Você consegue explicar isto? Eu, não. De fato, não. Mohan não era uma criança que aceitasse conceitos. Tinha de refletir antes de tirar conclusões. Ela sorriu para Aiden e largou o bordado rio colo. — Mohan, você se lembra de quando seu pai levou Kali para casa? — Lembro, sim. — Como ficou o ambiente no palácio enquanto ela morou lá? Ele pensou por um momento. — Não se ouviam risadas, as mulheres não sorriam e meu pai ficou furioso com as mulheres por não tratarem Kali bem. — E onde está Kali agora? — E esposa de um dos administradores de meu pai. — E as conseqüências desse casamento? — Ela foi embora do palácio e as mulheres voltaram a rir. Então meu pai, que não estava mais bravo, levou Chun para casa. — As risadas pararam com a chegada de Chun? — Não. Com o terreno preparado, Sandra iniciou a instrução em si: — Isso porque as mulheres gostaram de Chun e aceitaram a escolha de seu pai. O mesmo não aconteceu com Kali, por muitas razões que você ainda é muito jovem para entender. É suficiente para nosso propósito desta noite dizer que seu pai percebeu a antipatia das mulheres e tomou as providências para restaurar a paz. Projeto Revisoras

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Ninguém foi fantoche de ninguém. As decisões foram tomadas para a felicidade geral. — Ela lhe deu um momento para pensar e, então, indagou: — Você entendeu a lição nisso tudo? — Acho que sim. Ainda não, mas conseguiria com o tempo. — Talvez possa refletir mais sobre isso quando começar a cochilar. Agora, cama. — Mas o sr. Terrell e eu nem começamos nossa partida de xadrez — Mohan protestou. — Jogaremos amanhã à noite — Aiden prometeu. — Se a srta. Radford disse que está na hora de você ir dormir, não há o que discutir. Mohan olhou de um para o outro e levantou-se com um misto de cara feia e resignação. Ao ouvi-lo dar boa-noite em inglês e hindi, Preeya dobrou o bordado e ergueu-se das almofadas, anunciando que também iria se recolher. Sandra desejou boa-noite a ambos e os acompanhou com o olhar. No silêncio que se fez a seguir, ela se deu conta de que estava a sós com Aiden Terrell. — Se não for indiscrição perguntar, por que Kali não foi aceita pelas mulheres? — Como explicar com delicadeza? — Não se preocupe como minha sensibilidade. Ela não é tão frágil —Aiden garantiu, sorrindo ao sentar-se a seu lado. — Presumi isso. Meu cuidado é com a minha. — Sandra riu e pegou o bordado. Sem fitá-lo, explicou: — Há uma atitude geral nos aposentos da mulheres quanto ao relacionamento individual com o rajá. O que é do momento resume-se a isso. Quem é chamada para passar a noite nos aposentos dele não provoca ciúme nas outras. Kali, porém, tentou mudar isso. Suas horas passaram a ser dedicadas a nos indispor umas contra as outras e em limitar os favores do rajá só para ela. — Em outras palavras, ela não sabia compartilhar. — Ela não queria e não compartilhava nada. Mohan não entende bem a dinâmica do que aconteceu e prefiro não esclarecê-lo ainda. Mas o fato era que o pai estava infeliz com a maneira de tratarmos Kali. Ele próprio não gosta de ser tratado com frieza. — Ah, a ação coordenada sobre a qual alertei Mohan. Quase posso sentir dó do homem — Aiden disse. — Quase?! — Isso mesmo. Qualquer homem que tem mais do que a parte que lhe cabe não merece piedade pelas complicações que surjam.

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Sandra pôde ver a curiosidade nos olhar dele. Suavemente, disse: — Eu não era uma de suas companheiras. Pelo canto dos olhos, ela viu-lhe o sorriso radiante. — Já que você tocou nesse ponto... por que... — Porque sou inglesa — Sandra o interrompeu e, antes de ele lhe fazer outra pergunta que não quisesse responder, levantou-se. — Creio que também está na hora de eu me recolher. Boa noite, Aiden. Ele levantou-se. — Está bem, Sandra. Boa noite. Durma bem. — O mesmo para você, Aiden — ela murmurou, o coração disparando ao notar-lhe o olhar perscrutador em seu rosto. Precisou de muita autodisciplina para passar por ele e não olhar por sobre o ombro na esperança de que a seguisse. Melhor levantar-se antes do aviso dos pavões e ficar sem o café da manhã do que ser vista de camisola outra vez, Sandra consolou-se ao enfiar a mão na palha à procura de outro castiçal. A noite tinha sido de grande inquietação. Duas vezes havia acordado com falta de ar e o coração disparado como se Aiden estivesse deitado a seu lado. Se ao menos tivesse se sentido aliviada. Passos na escada a deixaram tensa. Relaxou e sorriu ao ver Mohan. — Bom dia, srta. Sandra. O sr. Terrell pediu para avisá-la de que já vai descer. — Obrigada. Existe uma razão especial para eu receber tal aviso? — Sua primeira aula de equitação é agora de manhã — ele respondeu em tom paciente. — Ah, eu tinha esquecido — Sandra mentiu. — Estou muito ocupada hoje. Tenho de esvaziar os engradados e ver como exibir as novas peças. Não vejo como ter tempo para aula de equitação. — É do cavalo que tem medo? Ou das instruções do sr. Terrell? Garanto que ele é muito competente. — Não tenho medo de nada, mas trabalho vem antes de diversão — ela afirmou ao encontrar o outro castiçal. — Por quê? — Porque se eu não trabalhar não haverá dinheiro para carruagem e... — Foi quando ela viu, pela janela, dois homens se aproximando da porta. — Mohan, vá para cima e fique lá até eu chamar. Felizmente ele obedeceu um instante antes de eles abrirem a porta e entrar.

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— Bom dia, senhora — cumprimentou o chamado Rupert. Sandra conseguiu sorrir e responder: — Bom dia, cavalheiros. O outro, Willie, passou para a frente e olhou em volta. — Temos um negócio para acertar — declarou. — É verdade. Os senhores, no outro dia, foram embora antes de eu voltar e lhes pagar pelo serviço. Eram quatro xelins se bem me lembro. — Decidimos que oito seria mais adequado. Nós nos arriscamos pela senhora. Sim, passear em frente a uma chapelaria era muito arriscado, Sandra pensou, mas mordeu a língua e forçou-se a sorrir. — Muito bem, oito xelins, então — concordou, disposta a pagar o que exigiam a fim de vê-los logo fora da loja. — Por favor, esperem aqui enquanto vou buscar o dinheiro. Mal pisou na sala das pratas e pegou a latinha com moedas, ouviu passos às suas costas. Virou-se, mas viu a porta bloqueada. — Eu lhes pedi para me esperarem na outra sala. Rupert percorreu o olhar pelas pratas e comentou: — Tem muita coisa bonita aqui, não acha, Willie? Várias pesadas demais para levar de uma vez só. Devem valer o resgate de um rei. — De fato. — O outro olhou para Sandra e sorriu, maldoso. — Ou de uma mulher bonita. Ela não podia respirar ou dar um passo. Como se visse a si mesma a uma grande distância, segurando a latinha, disse: — Levem estes trocados, e também qualquer peça que quiserem, e vão embora. A esperança surgiu ao ver Willie estender as duas mãos para a latinha, mas evaporou-se quando ele a pegou só com uma e usou a outra para prender-lhe o pulso. A pele ardia e um grito escapou de sua garganta ao ser atirada para a frente. Aos tropeções, pisou na bainha da saia e chocou-se com Rupert. Um braço a segurou em volta da cintura, tirando-lhe o ar dos pulmões. Sem querer, deixou escapar outro grito. Então, só restou a sensação de uma lâmina fria e afiada prensada em sua garganta. — Grite outra vez e será a última vez que ouvirá sua voz — Willie resmungou em seu ouvido enquanto a puxava para a porta.

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Sandra arrastava os pés. Se a levassem de casa, nunca mais voltaria, nem veria mais Mohan e Preeya. — Levante os pés! — ele ordenou, apertando o braço em volta de sua cintura e sem lhe dar chance de protestar por ser carregada ao corredor. Rupert, logo atrás, o advertia a se apressar. — Solte a moça! Já! — Na extremidade do corredor, Aiden segurava firmemente um revólver na mão estendida. Com voz calma, ordenou: — Solte-a ou eu o matarei. O alívio fez os joelhos de Sandra fraquejarem. Ela escorregou para o chão, mas o braço que a segurava a puxou para cima, tirando-lhe o ar enquanto a faca firmou-se em seu pescoço. — Feche os olhos, Sandra. Ela obedeceu, confiante em Aiden. Ouviu-se o ruído de metal, das moedas na caixinha. E então, o estampido seco e repentino enquanto um peso bateu em suas pernas e a puxou para baixo pela saia. O braço apertou-a outra vez. Ao mesmo tempo, era puxada para trás. Os pulmões queimavam, impedindo-a de respirar. Lágrimas quentes escaldavam-lhe os olhos e o coração ameaçava explodir. — Jogue o revólver no chão, chefe, ou cortarei seu pescoço, juro! Sandra estremeceu com a ameaça. Aiden manteve o olhar firme ao longo do cano da arma, ciente de que a chance de Sandra viver seria abater o maldito. Avisouo: — Se você piscar, meterei uma bala em seus miolos! — Não pode atirar em mim sem acertar nela. Devagar, Aiden destravou o gatilho. — Última chance. Solte-a! O sorriso deu lugar a uma careta e, por uma fração de segundo, o homem desviou o olhar para a frente da loja. — Ponha a mão para trás e abra a maldita porta — o sujeito disse no ouvido de Sandra. Aiden observou-a virar, com cuidado, a cabeça da pressão da faca e esticar a mão direita para trás a fim de encontrar a maçaneta. Só mais uma fração, querida, ele a instruiu em silêncio. Um pouquinho mais para eu atingir o alvo. É só do que preciso. Ele agarrou a oportunidade no mesmo instante em que Sandra cedeu o espaço necessário. O estampido foi ensurdecedor, a fumaça, acre e densa. Embora ouvisse o grito de Sandra, ele viu a cabeça do homem vergar para trás, o corpo cambalear e a

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faca cair no chão. Sabia que precisava alcançá-la antes que ela caísse sobre o corpo a seus pés ou o que escorregava às suas costas. Ainda com o revólver na mão, cobriu o espaço entre ambos e a pegou pela cintura no instante em que seus joelhos dobravam. — Peguei-a — murmurou numa voz áspera. Aos soluços e murmurando-lhe o nome, Sandra apoiou a cabeça no ombro dele que a beijou na testa, ergueu-a nos braços e a levou para a escada. — Srta. Sandra! — exclamou Mohan assustado, no alto da escada. — Ela está bem — Aiden garantiu. — Fique aí em cima! — Sim, senhor. Aiden viu a poltrona na sala da frente e pensou em levar Sandra até lá. Ficou gelado ao ver um rosto espiando por uma das janelas. Um par de olhos arregalados num rosto moreno de homem fixaram-se nos seus por um instante. Ambos assustaram-se com o contato inesperado e Aiden sentiu um arrepio ao longo da espinha. O estranho virou-se e sumiu. Nesse momento, a energia dele também. Sentou-se no primeiro degrau da escada, aninhou Sandra nos braços e respirou fundo numa luta para banir a imagem da mente. — Meu Deus, Aiden — Sandra balbuciou, ainda em prantos, ao erguer o rosto e fitá-lo. Ele queria beijá-la. Longa e vagarosamente, até ambos esquecerem o que acabava de acontecer. Conseguiu se controlar e sorrir. — Fiz uma confusão em seu corredor. Lamento muito. — Não me importo — ela murmurou sob nova torrente de lágrimas. — Desculpe, estou tentando não chorar. Ele tirou um lenço do bolso e lhe entregou. — Tudo bem. Chore à vontade. Mais tarde, farei o mesmo. Sandra pegou o lenço, enxugou o rosto e perguntou: — Como você pode ser tão calmo? Ele sorriu, afastou seus cabelos molhados do rosto e disse: — Eu não lhe seria da mínima utilidade se me descabelasse. O olhar dele, ao fitá-la... Não havia mais aquela expressão sinistra com que havia lidado com os atacantes. Este Aiden Terrell, o que a amparava e confortava, era irresistível de uma maneira muito diferente. Seria tão fácil esquecer seus temores e aceitá-lo! Ele não a magoaria. Não tiraria vantagem de sua fraqueza.

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A expressão meiga desapareceu num abrir e fechar de olhos, bem como a delicadeza com que a segurava. Tenso, ele virou a cabeça e empunhou o revólver, que apontou para a porta que se abria. — Ah, sra. Fuller — disse ao baixar a arma e guardá-la no bolso. — A senhora chegou na hora exata. Poderia ir chamar um policial para nós? Diga-lhe que é urgente. Ela olhou para Sandra, assentiu com um gesto de cabeça e se foi. Aiden suspirou e sorriu num misto de apologia e de serenidade. Isso só serviu para estimular a tentação de Sandra que, temendo o silêncio e para se proteger, disse: — Obrigada por vir em meu socorro. — Sou especialista em salvar donzelas em perigo, sabe? — ele gracejou com olhar matreiro. Ela não sabia. E também ignorava que o olhar risonho do homem pudesse ser tão sedutor. No momento, tal informação era mais importante do que qualquer outra. Precisava pôr alguma distância entre ambos antes de se atirar na armadilha encantadora. Olhou para o degrau para ver se havia espaço para se sentar e sair do colo dele. — Não, Sandra — Aiden disse ao virar-lhe o rosto para ele. O sorriso fora substituído por determinação. — Mantenha sua atenção em mim. Não olhe para lado algum. E converse comigo. Não queria que ela visse a carnificina o que a levava a apreciar tal bondade. Mas se ela desse voz ao que pensava... O que Aiden faria se ela lhe roçasse os lábios com os seus? De leve, só por um momento. Se ele indagasse o motivo, diria ser um beijo de gratidão, uma verdade parcial. Mas existia um motivo mais forte do que esse. Queria sentir o sabor dos lábios dele. E era uma carência que, se não fosse satisfeita, ocuparia um lugar em sua lista de frustrações. Talvez Aiden esperasse mais do que ela estava disposta a dar. Tigres jamais afagavam a presa em vão. Decidiu abandonar a idéia. Se oferecesse apenas um pouco de si mesma deveria estar disposta a entregar tudo. Era uma mistura estranha de receio e carência. Uma parte sua queria levantarse e fugir da tentação. Outra a instigava a satisfazer o desejo, disposta a aceitar as conseqüências. No fundo, esperava que Aiden decidisse por ela. Forçou-se a dizer algo apropriado. — Como você sabia que eu precisava de socorro? — Mohan me avisou que os malandros que você contratou como guardas na outra manhã estavam aí e eu agi por instinto. — Eles iam exigir meu resgate em prata. Projeto Revisoras

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Algo plausível que merecia crédito, mas ele olhou para a janela e lembrou-se de como o assaltante de Sandra também o tinha feito, bem como do estranho do lado de fora logo após. — Contratá-los foi uma terrível e enorme tolice — ela acrescentou. Ele não ia discutir com Sandra. Ela os havia trazido para seu mundo, os dois tinham abusado da sorte e estavam mortos. E ela já se sentia mal o suficiente. Ao senti-la estremecer, aconchegou-a mais entre os braços. — Está com frio? — perguntou. — Não sei — Sandra admitiu com novo surto de lágrimas. As idéias se chocavam com as lembranças recentes. O corpo tremia a cada lampejo na memória e ela não conseguia controlar as reações. — Não é nada além do choque. Vai passar com o tempo, Sandra — ele garantiu ao pôr o revólver de lado e abrir o paletó. Puxou-a para mais perto e a envolveu com as abas dele. Quando for substituído por outras sensações mais fortes, ela refletiu. Podia ouvir-lhe as batidas fortes do coração e sentir o calor da pele através da camisa. O cheiro dele era tão bom! Como o de terra e vegetação trazido pelo vento. Respirou fundo, deixando que ele lhe acalmasse o espírito. — Como sabe que é choque? — perguntou ao virar-se a fim de poder fitá-lo. — Você já fez isso antes? — Já, sim. Uma admissão simples, mas tão triste que lhe confrangeu o coração. — Ah, Aiden — murmurou ao tocá-lo no rosto. Ele não lutou contra a consciência. Graças a seu meigo convite e ao desejo incandescente dele, seria inútil. Curvou a cabeça e roçou os lábios nos dela suavemente. Seu suspiro foi de aprovação e a mão na face dele, de comando. Com o coração disparado, Aiden aceitou e obedeceu, deliciando-se com os lábios doces e aprofundando a posse de sua boca. Brasas adormecidas libertaram chamas e ele gemeu, aturdido com o calor que lhe percorria as veias. Relutante e certo de ser a atitude mais prudente, Aiden afastou os lábios. Mas, por Deus, ele não queria ser sensato no que dizia respeito â Sandra. Ela entreabriu os olhos e, ao ver sua expressão sonhadora, as boas intenções dele quase se esfacelaram. Numa voz rouca, murmurou: — Você, Sandra Radford, é uma mulher incrivelmente tentadora. — E você não é um homem tentador? — ela o provocou, acariciando-o na nuca.

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— Isso torna a situação muito perigosa, minha cara duquesa. Se não pusermos alguma distância e bom senso entre nós nos próximos segundos, serei capaz de devorá-la aqui mesmo na escada. Ela riu baixinho e puxou as mãos para o colo. — Então, me ajude a levantar — pediu. Sandra lhe dava um adiamento e parte dele sentia-se grata por tal gesto. Atendeu-a, embora se lembrasse do longo jejum amoroso. Levantou-se, deu um passo para trás e abotoou o paletó para que ela não visse a prova de sua frustração. Como não devia olhar para o corredor, segundo o conselho de Aiden, Sandra admirou-lhe os ombros largos. Teve de respirar fundo. Todos aqueles anos ouvindo a conversa das mulheres do rajá não a tinham feito entender o poder do desejo físico. Agora, sim, ele vibrava em seu corpo, inegável em sua simplicidade e, ao mesmo tempo, misterioso. Que Deus a ajudasse, pois queria explorá-lo, provar e sentir até a última medida de sua promessa. Tudo por causa de um beijo delicioso. Não era a primeira vez que era beijada, mas os outros empalideciam em comparação a este. Precisava parar de sorrir para ele, controlar as atitudes. Aiden ia pensar que era a mulher mais fácil que já encontrara. Bem, estava fascinada por ele e pelo que lhe oferecia, o que a deixava em péssima situação. Num gesto nervoso, ele umedeceu os lábios com a língua, mas, então, olhou por sobre o ombro dela e sorriu. — Como vai, senhor? Tivemos uma pequena crise aqui esta manhã. Sandra olhou para a porta por onde Emmaline e o policial acabavam de entrar. — Ah, sra. Fuller, seria possível levar Sandra lá para cima e lhe dar uma xícara de chá? E, por favor, mantenha Mohan e Preeya ocupados enquanto converso com o policial. — Pois não, sr. Terrell — ela disse ao se aproximar de Sandra e pegá-la pela mão. — Vamos, minha querida. Sandra olhou por sobre o ombro e viu que Aiden já conversava com o policial, mas não podia distinguir as palavras. Ah, sempre no comando. Embora apreciasse essa faceta dele, gostava muito mais da humana e tão espontânea. — Naquele dia, eu sabia que eles causariam problemas. E, agora de manhã, ao vê-los passar por minha loja, suspeitei que vinham para cá. Então, eu soube outra vez. Estou muito aliviada com o fato de o sr. Terrell estar aqui e ter conseguido despachálos — Emmaline comentou enquanto subiam a escada. Os joelhos de Sandra dobraram e ela agarrou-se ao corrimão. A amiga amparou-a pela cintura e disse umas palavras de ânimo que não tiveram muito Projeto Revisoras

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efeito. Sandra tentou se controlar, pois não podia se dar ao luxo de desfalecer cada vez que alguém mencionasse o acontecido. Era forte e já havia enfrentado tragédias e perigos antes. E sem o auxílio de Aiden. Haveria outros percalços no futuro. Faziam parte da vida. E, quando surgissem, Aiden não estaria mais a seu dispor. Por mais que o apreciasse, não podia depender dele. Era um homem maravilhoso, mas também uma presença temporária em sua vida. Seria capaz de se cuidar quando ele se fosse. Sandra ergueu o queixo, sorriu para Emmaline e continuou a subir a escada. O sorriso que Aiden lhes deu da porta do salão não tocava os olhos. Sandra não sabia o que dizer para aliviá-lo da tristeza. — Os corpos já foram removidos e a mulher da limpeza está quase terminando. O policial disse que talvez não haja mais investigações. Podemos seguir nossa vida normalmente — ele informou sem preâmbulos e de um fôlego só. Emmaline levantou-se do sofá e disse: — Então, vou voltar para minha loja. — Eu a acompanharei até lá — Aiden ofereceu. — Não será necessário. — Irei de qualquer forma — ele declarou e olhou para os outros. — Enquanto eu estiver fora, os três aprontem-se, porque vamos sair. — Aonde vamos? Comprar mais cavalos? — Mohan quis saber. — Existem certas questões que precisam ser resolvidas e não quero deixá-los sós enquanto eu estiver fora. Então, vamos todos. — Posso ir junto levar a sra. Fuller? — Mohan indagou. — Vá pegar seu casaco. Voltaremos logo — Aiden avisou. Sandra assentiu com um gesto de cabeça. Estava preocupada com a tensão dele, visível até no corpo. Ele a tinha confortado e merecia retribuição. Quando saíram, Preeya comentou: — Ele ficou muito perturbado com o que aconteceu. — E está determinado a não demonstrar — Sandra disse. Assim como eu, reconheceu ao pegar o bordado. Sabia como agir quando Aiden voltasse. A melhor solução seria reassumir a "vida diária regular" com ele. O beijo podia ter mudado um pouco a situação, mas era preciso se ajustar a qualquer sinal que ele desse e seguir em frente. O mais importante era ele ter um motivo para sorrir nas próximas horas. — Eu me sinto muito aliviada por você ter tido o bom senso de contratá-lo, Sandra. Se ele não estivesse aqui... Projeto Revisoras

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— Prefiro não pensar nas possibilidades — Sandra a interrompeu, determinada a manter o autocontrole ainda frágil. — Acho melhor nos aprontarmos para sair. — Nós?! — Ah, desculpe. Esqueci de traduzir para você. No momento, Aiden e Mohan foram acompanhar Emmaline até sua loja. Quando voltarem, vamos todos a algum lugar. Aonde, não sei, mas ele disse que não vai deixar nenhum de nós três aqui sozinhos e desprotegidos. — É um bom homem esse seu cavalheiro. — Ele não é... — Sandra começou o protesto, mas calou-se. Era seu protetor. E mais. Um amigo, talvez? Sandra suspirou, abandonou o esforço de analisar os sentimentos e avisou: — Vou me aprontar. Aiden tornou a agradecer a Emmaline e saiu da loja com Mohan, mas parou ao ver Rose Walker-Hines aproximando-se. Por Deus, que outras coisas terríveis o aguardavam nesse dia? — John Aiden! — ela exclamou, estendendo as mãos. — Por que sempre o encontro na porta da chapelaria? — Pura coincidência, Rose — ele respondeu ao pegar suas mãos a fim de mantê-la à distância, o que ela não permitiu. Depois de prensar os seios no peito dele, beijou-o no rosto. No instante em que ela se afastou o suficiente para fitá-lo, Aiden deu uma tossidela e olhou para Mohan. Rose notou. — Quem é seu amiguinho? Não vai nos apresentar? Ansioso para escapar dali o mais depressa possível, ele a atendeu: — Rose, Mohan Singh. Mohan, esta é a esposa de um amigo meu, sra. Geoffrey Walker-Hines. — Milady. — Ora, você é um menino muito educado — ela elogiou ao vê-lo se curvar, mas passou a ignorá-lo no mesmo instante. Roçou as mãos pelas lapelas de Aiden enquanto dizia: — Você não mandou nos avisar quando vai jantar conosco, John Aiden. Prometeu que iria — falou e fez beicinho. E ele, uma vez, se sentira atraído por tal encenação coquete? Devia estar insano. — Minhas desculpas. Tenho estado muito ocupado estes dias e me esqueci.

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— Que tal este sábado? Não diga que já tem compromisso. Aiden não fazia idéia do que Sandra pretendia fazer no sábado à noite, mas fosse o que fosse, ele não iria se privar disso para ficar com Rose Walker-Hines. — Na verdade, já tenho, sim. — E para o sábado seguinte? — ela indagou num tom irritado. — Lamento, Rose, mas é um compromisso permanente. — Ora, ela não deve mantê-lo na coleira todas as noites! — esbravejou, mas mudou para um tom adocicado. — Geoffrey joga baralho no clube todas as noites de quarta e sexta. Numa delas seria possível para você? — Não nesta época. Talvez dentro de algumas semanas. Não quero prometer nada que não possa cumprir. Espero que entenda. — Sem dúvida, entendo. Também sei como tais compromissos podem mudar de repente. Ainda mais com você. Ele teve vontade de dizer que a carapuça servia bem em sua cabeça, mas trocar insultos não adiantaria nada. Em vez disso, deu de ombros e sorriu. — O convite continua em pé, John Aiden. — Tornou a prensar os seios no peito dele e a beijá-lo no rosto. — Por favor, não seja rude para ignorá-lo para sempre — disse brava ao dirigir-se à chapelaria. — Foi bom vê-la de novo, Rose — ele mentiu mais uma vez. — É sempre um prazer vê-lo, John Aiden. E eu adoraria ver mais de você. Logo. Rose virou-se e ele fez o mesmo com um suspiro de alívio por escapar ileso. Ela teria sido sempre uma predadora sem tato? Enquanto seguiam para a Blue Elephant, Mohan indagou: — Se ela é esposa de seu amigo, por que o convida para ir à casa dela quando o marido não está? — Ah, você notou isso? Esperava que não. — Ela é sua... namorada? Aiden percebeu que o menino já tinha percepção suficiente para saber certas verdades. E como essa parte educativa estava fora do alcance de Sandra, ele a administraria. Bem, por sua reação, ele não tinha sido o primeiro homem a beijá-la. Se vivesse cem anos não esqueceria seu olhar quando a tinha ameaçado possuí-la na escada. No entanto, juraria pela própria alma que ela era virgem. Como Sandra podia ser, ao mesmo tempo, tão sensual e inocente? Isso o deixava curioso. Havia uma longa estrada do beijo até a consumação máxima. Quanto ela a tinha percorrido? Até onde se deixaria levar?

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— Fui muito delicado? Devo tentar ser menos sutil? — Mohan indagou, interrompendo-lhe as reflexões. Admirado com a persistência do menino, Aiden riu. — Aqui entre nós homens, Mohan, Rose foi minha amante. Mas nos separamos algum tempo atrás. — Antes de ela se casar com seu amigo? — Bem, primeiro, ele não é meu amigo; dizemos coisas assim por cortesia. Segundo, foi depois de eles se casarem. — Se ela fosse uma das esposas do meu pai, ele o mataria. — Esse tipo de comportamento é encarado de maneira diferente na Inglaterra. É bem comum homens casados terem casos. E mulheres também, às vezes. Se todos forem discretos, a prática é aceita. — Por que um homem se casa com uma mulher e, depois, deixa que ela se deite com outro? Gosta dela o bastante para trazê-la para sua casa, mas não tanto a ponto de querê-la só para si mesmo? — Algumas pessoas não se casam por amor, mas por outros motivos. Dinheiro e posição social são os mais comuns. Importam-se menos com a pessoa e mais com quanto podem lucrar da união. Se isso está garantido, ignoram aventuras físicas. Pessoalmente, eu considero uma vida vazia. — Mesmo assim, tem aventuras com mulheres casadas? Aiden suspirou baixinho. — Tenho, sim, sempre que possível. — Por quê? O menino estava ainda bem desinformado e mostrava curiosidade normal. Como responder sem lhe contar mais do que poderia usar no momento? Lembrou-se de como o pai havia lhe explicado anos atrás. — Olhe, Mohan, há várias categorias de mulheres. Na primeira estão aquelas em quem não se pensa de nenhuma forma física. Como a mãe e as irmãs, — E a rainha. — Exatamente. Então, há outras em que se pensa dessa maneira, mas em que nem se ousa pensar em tocar. Como Seraphina, a esposa de meu amigo Carden. É uma mulher linda e excepcional. Se fosse solteira, eu estaria na fila para cortejá-la. Com um gesto de cabeça, Mohan mostrou entender e Aiden continuou: — Então há as mulheres com quem eu e você nos casaríamos. São como Seraphina, mas solteiras. Seus interesses e atenções serão, um dia, só para o marido, e elas não andam por aí oferecendo seus favores antes de conhecê-los. Respeitamos

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mulheres assim por causa de sua firmeza de caráter e virtude. Não as cortejamos a menos que tenhamos a intenção de ser fiéis. — E nada mais é aceitável? — o menino indagou. — Sim, se você for um monge ou estiver embriagado — Aiden admitiu. — Você ainda não tem idade para apreciar os tipos de estímulos que um homem sente, Mohan. Dentro de quatro ou cinco anos, sim, acredite em mim. Então, lembre-se de que as mulheres dadivosas são uma escolha razoável desde que você use o bom senso e tome certas precauções. — Quais? Boa pergunta, mas a resposta implicaria mais informações de que o menino precisava ou poderia usar no momento. — Vamos deixar essa parte para outro dia, está bem? Aliás, já fui longe demais. Ah, e pelo amor de Deus, não mencione esta conversa a Sandra. Ela me esfolaria vivo. — A que categoria a srta. Sandra pertence? Dolorosa, a resposta estampou-se na mente dele. Não tinha o direito de tê-la beijado e desejar atraí-la para a cama. — É como Seraphina. O tipo de mulher com quem um homem se casa por amor. — Foi o que pensei. O senhor, às vezes, olha para a srta. Sandra como meu pai olha para minha mãe. Espera se casar com ela? — Ora, já é casada com seu pai — Aiden respondeu, esquivando-se da pergunta e furioso consigo mesmo por ter se traído. — Quero dizer a srta. Sandra, o senhor sabe muito bem. Está tentando não me responder. Contrafeito, Aiden respondeu: — Eu não estou planejando me casar com Sandra Radford. — Ainda bem. Meu pai ficaria muito aborrecido se ela se casasse com outro. Aiden segurou o menino pela gola do paletó e quase gritou: — O que está dizendo? Seu pai pretende se casar com ela? Mohan deu de ombros. — Talvez meu pai. Ou outro rajá. — Mas você me disse que ele a considera teimosa demais para ser boa esposa! — Ela está melhorando a cada dia, não acha? Minha mãe sempre disse que a srta. Sandra mudaria com o tempo e o homem certo.

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Ele não queria pensar nas possibilidades. Não em relação a Sandra. — Quantas esposas seu pai tem? — Quando saí da Índia, quatro, e doze amantes. E pelo que o senhor me explicou hoje, ele tem muito daqueles estímulos. Dezesseis mulheres à disposição e para manter satisfeitas? — Por Deus, acho que sim. Ou isso ou ele é louco. — O senhor não vai contar à srta. Sandra o que sabe do futuro, não é? Por favor. — Por que, é segredo? — Penso que sim. Nunca se falou sobre isso na presença dela. Eu mencionei porque gosto do senhor e não quero que alimente esperanças por algo que não pode ter. — Obrigado — resmungou. — O senhor está aborrecido. — De certa forma, sim — Aiden mentiu ao recomeçar a andar. — Até agora, o dia foi horrível. — E ainda é cedo. De fato. E se o resto fosse como as horas até agora, ele pensaria seriamente em se matar. Que momento mais inconveniente para lembrar não só que fora criado para ser um cavalheiro como também as informações mais úteis que o pai tinha lhe dado. Havia aberto uma porta com Sandra que não deveria. Como fechá-la sem lhe ferir os sentimentos ou insultá-la? Por Deus, agir bem seria fácil se ele quisesse.

Capítulo V

Era a terceira parada durante o que mais parecia ser um passeio por Londres. A primeira fora numa pensão, onde Aiden procurava um tal de O'Brien. Nenhuma explicação tinha sido dada enquanto desciam da carruagem e tomavam a subir sem vê-lo. A segunda foi no escritório de Barrett Stanbridge, mas só Quincy estava lá. Aiden tinha falado com ele em tom baixo e, com a resposta, obtivera gestos nervosos. Sem explicação alguma, levou-os de volta à carruagem. Projeto Revisoras

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Na terceira, Sandra viu-se diante de uma enorme mansão enquanto Mohan ajudava Preeya a descer. — É uma casa linda — elogiou na esperança de Aiden finalmente explicar alguma coisa. — Além de arquiteto, Carden é conde, e Seraphina é uma artista famosa. Incrível o que se pode fazer com quantias ilimitadas de dinheiro e talento, não acha? — ele comentou. Carden estava no Egito e era para quem Sawyer trabalhava, ela lembrou-se. Era ali que Aiden morava antes de se tornar segurança de Mohan?! — A Blue Elephant deve lhe parecer um casebre — disse, sentindo-se diminuída. — De jeito nenhum — ele respondeu enquanto os levava à escadaria! — Sua casa é bonita e confortável. — Você não pensou assim à primeira vista. — Bem, admito que estranhei um tanto aqueles detalhes coloridos da Índia, mas passei a apreciá-los bastante. — Por quê? — ela o pressionou para saber se era apenas gentileza. — Não sei. Talvez porque ofereçam uma aparência despretensiosa e nem um pouco cansativa. Pensando bem, combina com você — ele disse ao oferecer-lhe o braço e levá-la pela escada. De trás da porta de madeira maciça chegava o ladrar de vários cães. Aiden sorriu e tocou a aldrava. — Quantos cães seus amigos têm? — Sandra indagou. — Seis, mas levaram dois ao Egito. —Tornou a bater a aldrava. — Com essa comoção toda, Sawyer não pode nos ouvir. Por isso mesmo, ele abriu a porta. À frente deles, no centro do vestíbulo, ficava uma enorme mesa redonda com um vaso de cristal e flores. A recepção perfeita. — Por Deus, Sawyer! — Aiden gritou para ser ouvido acima dos latidos e ao adentrar pelo caos. — Perdão por não lhes abrir a porta, senhor. — Sawyer gritou do topo de uma escada, encostada ao lado de uma janela. — Como pode ver, estou tentando aplacar uma rebelião no zoológico. Quatro cães enormes, pulando e latindo já seriam suficientes. Mas acrescentar uma gata e cinco gatinhos encarapitados na sanefa da cortina, miando e rosnando, completavam o pandemônio. Sandra olhou por sobre o ombro para ver se Mohan estava assustado, mas o menino exibia um largo sorriso.

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— Bem, os gatos desceriam se não fosse a ameaça dos cães. Desça daí, Sawyer, e vamos pôr ordem neste lugar — Aiden sugeriu. — Os cães estavam presos, mas soltaram-se quando peguei o primeiro gatinho — o mordomo explicou ao descer. Endireitou a roupa e assumiu seu papel: — Bemvinda a Haven House, srta. Radford. — Olá, Sawyer — ela respondeu e apresentou: — Estes são Mohan Singh, meu pupilo, e Preeya, nossa governanta. — Muito prazer, menino e senhora. — Ele os cumprimentou com uma mesura. — Por favor, me dêem licença para eu ir prender estes cães barulhentos. — Pego Lucy e Tippy para você — Aiden ofereceu ao segurá-los pelas coleiras e dirigir-se ao corredor. Sawyer pegou os outros dois, que foram acompanhados pelos miados da gata e dos gatinhos. — Gosto desta casa, srta. Sandra — disse Mohan em hindi. — Não podemos ter uns animais também? — Já temos os pavões — ela respondeu, lembrando-se da conversa com Aiden sobre o tédio de Mohan e a falta de um animal de estimação. — Quero dizer um que possamos ter dentro de casa e nos distrair. Um gato ou um cachorro. Quem sabe vários. — Caberá a você cuidar deles, Mohan — ela avisou. — Eles podem ser boa companhia, mas são também uma obrigação da qual não se pode esquecer. — Prometo cuidar bem deles. — Prometo pensar em seu pedido — ela declarou. — Talvez Sawyer saiba onde possamos arranjar um gato — Mohan sugeriu. Se Sandra gostasse de jogar, apostaria umas coroas sobre que gatos Sawyer lhes arranjaria. — Penso que ele precisaria ser convencido de sua boa vontade para cuidar do animal antes de informá-lo. Você acha que seria um bom exemplo se convencesse os gatos a descer da sanefa? Para crédito do menino, ele não hesitou. — Se a senhorita e Preeya segurarem a escada, tentarei. Nenhuma das duas disse uma única palavra ao se postarem nas laterais da escada. Não seria necessário, pois ambas pensavam a mesma coisa. Mohan tinha se tornado uma criança muito mais feliz e simpática desde o dia em que Aiden Terrell entrara em suas vidas. Adotar uma família de gatos era uma pequena recompensa pela grande mudança operada em Mohan.

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— Como eles conseguiram levantar o trinco da copa, acho melhor trancá-los no canil, senhor — Sawyer afirmou. Aiden assentiu com um gesto de cabeça e saiu para o quintal. — De onde surgiram os gatos? Não estavam aqui quando fui embora — Aiden indagou enquanto trancava o portão do canil. — Na verdade estavam, senhor, mas ficavam no estábulo. Quando começou a nevar, a gata os trouxe para a porta de trás, à procura de um lugar mais quente — Sawyer explicou. — E você não pôde recusar. — Não, claro, senhor. Tentei confiná-los numa caixa no quarto da srta. Beatrice. Tudo deu certo até a sra. Blaylock, esta manhã, sem querer, não fechar bem a porta ao lhes levar comida. — Então, armou-se a confusão. — Exato. Mas não antes de ela sair para gozar seu dia de folga. Sawyer era a solução. Um plano perfeito. — Que tal não ter essa trabalheira toda por uns dias? — Está sugerindo que eu tire uma férias, senhor? Bondade sua... — Bem, algo parecido. As sobrancelhas grisalhas de Sawyer arquearam-se. — Por favor, continue, sr. Terrell. Aiden sabia como lidar com ele. Numa voz fria, contou: — Hoje de manhã, dois marginais foram à Blue Elephant e tentaram seqüestrar Sandra a ponta de faca. Sawyer empalideceu, olhou para a casa e disse: — Obviamente e graças a Deus, não conseguiram. — Isso porque os matei a tiros. — Tenho certeza de que foi absolutamente necessário, sr. Terrell. Espero que também veja o fato sob essa luz e não sinta remorso — Sawyer disse numa voz suave. — Estou tentando — Aiden admitiu com um dar de ombros. Esse era o problema em conhecer Sawyer tão bem. O homem também o conhecia. Decidido, passou para a fase seguinte do plano. — Depois de tudo, ocorreu-me que não posso proteger três pessoas ao mesmo tempo. Se saio com Mohan, Sandra e Preeya ficam sozinhas em casa e na cozinha. Não posso vigiar os três num só aposento, pois seria aborrecido para todos. Então, que tal ser meu ajudante por umas poucas semanas? Apenas durante o dia. Projeto Revisoras

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Assumirei a responsabilidade pela segurança de Mohan enquanto você será a intimidadora presença masculina nos mundos de Sandra e Preeya. À noite, sempre ficamos os quatro no salão. Disso posso cuidar sozinho e você poderá vir dormir em sua cama. Está interessado em me ajudar a protegê-los? — Não sou um profissional nesse campo, senhor. — E eu, sou? Pensei em contratar O'Brien, mas não o encontrei. Foi melhor, pois ele é meio rude. Então, fui procurar Barrett. Também não tive sorte. Quincy pensa que ele foi a Gales cuidar de um caso, mas não tem certeza. Barrett nunca diz aonde vai. — O senhor fala como se estivesse aflito. — Pois estou mesmo, Sawyer. — Se pensa mesmo que posso ajudar em vez de atrapalhar... — Que Deus o abençoe, Sawyer — Aiden disse e o tocou no ombro. — Falarei com Barrett para lhe pagar por seu trabalho. — Mas só posso dispor de meu tempo até o retorno iminente da família. Então, meus deveres aqui terão precedência. — Claro. Eu não pensaria de outra forma. Pode começar amanhã? — Sim. A que horas devo chegar? — Nove está bom? — Muito bem, senhor, estarei lá às nove. — Obrigado, Sawyer. Você é um santo. Agora, vamos ver como podemos tirar os gatos da sanefa sem estragar as cortinas. — Se o senhor tem esperança de também se tornar um santo, leve-os para casa. Aiden sorriu. — Ótimo! Um menino precisa ter animais de estimação, não acha? Aiden acordou e só viu a escuridão. Podia ouvir o arfar da respiração, as batidas do coração e sentir a queimação no ombro. Tocou a cicatriz e, como sempre, o calor foi passando até sumir no reino dos pesadelos. E também como sempre, as imagens horríveis começaram a esmaecer, mas não ao todo. Dessa vez, a lembrança permanecia e o coração não voltava ao ritmo normal. Decidiu analisar as mudanças. Seus olhos tinham sido azuis. Os cabelos dourados sob a luz do sol e ela era tão delicada que ele a chamava de sua boneca chinesa. Lembrava-se de tudo.

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Então por que não podia atrair sua imagem verdadeira para o sonho? Por que o corpo desfalecido no convés ensangüentado do navio tinha cabelos pretos? Por que tinham sido os olhos escuros de Sandra que o fitavam sem ver? Imperdoável se ele tivesse esquecido esses detalhes preciosos. Mais do que ter lhe falhado naquele dia tão cheio de promessas e em que o sol brilhava sobre o mar azul. Sentou-se, passou as mãos pelo rosto e forçou-se a se concentrar na casa imersa no silêncio noturno. Passou-se um longo tempo, mais do que nas outras vezes, para a respiração e o coração voltarem ao ritmo normal. Ele precisava de uma bebida. Quanto mais forte melhor. Não muito, só uma pequena dose, o suficiente para nublar-lhe a mente, prometeu a.si mesmo. Só assim voltaria a dormir. Talvez Sandra guardasse alguma no salão, pensou ao vestir a camisa e a calça. Não beberia muito, contudo, a reporia no dia seguinte. Antes de ouvi-lo murmurar de surpresa, um lampejo esbranquiçado fez Sandra saber que Aiden estava à porta. Desviou o olhar do livro para ver se o penhoar a cobria bem, alisou o gatinho no colo a fim de se acalmar e então fitou-o e sorriu. — Vejo que você também não pode dormir, Aiden. Meio em pânico, ele perguntou: — Você se importa em ter companhia? Em vez de notar-lhe o peito, visível pela camisa entreaberta, ela deveria dizer que já ia se retirar. Também não deveria prestar atenção à cintura da calça largada na altura dos quadris estreitos. Mas, por Deus, ela era humana. Que mal faria apenas olhar? Nenhum, desde que se comportasse. — É um prazer ter sua companhia. Entre e fique à vontade. Posso lhe emprestar um gatinho. A consciência dele lhe disse que se arrependeria muito se não desse uma desculpa qualquer e sumisse dali. Porém, uma outra voz afirmou que um arrependimento a mais ou a menos não faria diferença no destino de sua alma. A voz irresponsável o levou a olhar para a bainha do penhoar de seda bege sob a qual se via a curva delicada de um pé e a ponta da camisola de gaze creme. Sentada em almofadas, os cabelos soltos, caídos sobre os ombros, gatinhos acomodados em seu colo, a luz bruxuleante das velas e da lareira... Ele não estava morto. Aliás, nesse momento, sentia-se feliz por estar bem vivo. A consciência que se danasse. Desde que Sandra não se enrodilhasse nele como se quisesse ser acariciada, tudo ficaria sob controle. Sandra fingiu estar brincando com os gatinhos, pois não queria ser apanhada observando-o. Mas era impossível não admirá-lo, pois o homem era magnífico. Não

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achava estranho que ele tivesse as melhores mulheres de Londres e sim que elas o deixassem escapar. Não que tivessem escolha, pensou ao vê-lo se sentar na pilha de almofadas a seu lado. Como os tigres, Aiden apreciava a caçada para se deixar domesticar. Ela deveria ter isso sempre em mente. Também lhe seria útil, no momento, manter o olhar nos gatos e a conversa ligeira e animada. — Acaba de me ocorrer que você sabe mais sobre mim do que eu sobre você. — Então fale sobre você, Aiden Terrell — ele brincou. — Ah, por favor, faça isso. Detalhes pitorescos não são necessários — ela disse, arriscando-se a fitá-lo. Com olhar malicioso, ele sorriu no mesmo instante. — Bem, se eu deixar fora orgias e episódios escabrosos, não sobrará muito. Sou o mais velho de doze filhos. — Doze?! Aiden conhecia seus limites e observar Sandra acariciar os gatinhos os ultrapassava. Deitou-se de costas nas almofadas e fixou o olhar no teto. — Seis irmãs e cinco irmãos. Meus pais apreciavam ordem e planejamento cuidadoso. Fui educado pelos melhores preceptores que o dinheiro podia pagar e sempre com a idéia de que, um dia, eu comandaria os negócios da família. Minha instrução é excelente, mas, para ser honesto, eu detestava cada minuto na sala de aula. Se tiver sorte, logo serei deserdado. Tenho me esforçado bastante para isso. — Sua família mora em Londres? — Não, em St. Kitts. Nas ilhas de Sotavento. — No mar do Caribe? Isso fica tão a oeste daqui quanto a Índia a leste. Como veio parar em Londres, Aiden? — O negócio da família é de frota mercante, a maior parte no Atlântico. Alguns anos atrás, meu pai trouxe a família para cá para que eu e meus três irmãos abaixo de mim recebêssemos quatro navios que ele havia encomendado. Um estava atrasado nos estaleiros e eu fiquei para esperá-lo. Enquanto passeava por aí, conheci Barrett e Carden. — Ainda está esperando o navio ficar pronto? Se apenas... — Recebi a entrega há mais de dois anos e levantei velas como um filho bom e obediente. — Então você não é marinheiro, e sim capitão de navio. — E parte proprietário também. — Tenho certeza de que Mohan adoraria visitar seu navio. Projeto Revisoras

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— Bem, seria difícil. Consegui afundá-lo um ano e meio atrás. — Oh! — Desapontamento. A esperança surgiu e Sandra indagou: — Você veio a Londres para receber outro navio? Bastaria dizer "sim" e eles mudariam de assunto. Não precisava ser honesto com Sandra. E a verdade não era nem um pouco bonita. — Estou em Londres, que foi o mais longe que consegui tropeçar antes de cair exausto com a cara no chão. — Você não me parece do tipo que tropeça com freqüência, Aiden. — Mas, quando o faço, é em grande estilo. — O que aconteceu? É por causa da perda do navio que seu pai está bravo com você? — Furioso seria mais preciso. — Mas se ele está no negócio de frota mercante há muitos anos, sabe que acidentes acontecem sem ser por culpa do capitão ou da tripulação. — Às vezes acontecem porque o capitão faz algo imperdoável. — O que você fez? Tão meiga. Se mudasse de assunto, ela não protestaria. Se lhe mentisse, ela perceberia, mas aceitaria porque seria a coisa mais bondosa a fazer. — Como você deve saber, os americanos estão tendo uma luta sangrenta entre eles nos últimos anos. Os Estados do Norte estabeleceram um bloqueio naval contra os do Sul. Tentei furá-lo. — Por alguma razão particular? Sandra perscrutou-lhe o rosto. Ele podia sentir seu olhar meigo. Viu que não tinha escolha a não ser lhe contar tudo. Ela merecia saber o resto. — Seu nome era Mary Alice Randolph. Dos Randolph da Carolina do Sul. Estava em Londres desde o início da guerra deles e ela estava ansiosa por voltar a Charleston. E eu queria me casar com ela e prometi levá-la lá. — Aiden teve de respirar fundo para contar o resto da verdade. — Ela morreu na primeira barragem que enfrentamos. Foi-se antes de eu ter tempo de alcançá-la e dizer adeus. Sandra sentiu o coração despedaçar-se. — Oh, Aiden... Lamento muito. Como deve ser profundo seu sofrimento. Ele virou-se de lado e a fitou. Tristeza e surpresa mesclavam-se no olhar dele. — Você é a única pessoa que já me disse isso. A única! — Então, beijou-a na testa e murmurou: — Obrigado.

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Ela não sabia o que dizer, pois sentia-se meio perdida. Mesmo assim e de maneira estranha, não era uma sensação incômoda. Apesar da confusão, tinha certeza de que ele não a deixaria se fazer de tola. — Apesar disso — ele continuou —, consegui sobreviver ao ataque e ao naufrágio. Nós que escapamos, fomos tirados da água, jogados num porão, levados a Nova York e julgados como combatentes inimigos. Levou seis meses e custou uma fortuna a meu pai para nos tirar da prisão da União. — Mas tenho certeza de que seus pais ficaram aliviados ao recebê-lo são e salvo em casa — Sandra disse, certa de levá-lo a falar de um aspecto menos sombrio. Aiden não conteve um riso irônico. — A alegre reunião familiar não durou mais de quinze segundos. Num ponto de um sermão furioso que se seguiu, saí porta afora e nunca mais voltei. Sandra não estava acertando, mas sentia-se na obrigação de tentar fazê-lo se sentir melhor. — O que o fez voltar a Londres? Encontrar os amigos? — Na verdade, não sei. Nem sei como cheguei aqui. As últimas quatro semanas são as únicas em que me mantive sóbrio. Calculo que, a certa altura, decidi me afastar o máximo possível de meu pai e vim para cá. E como já disse, cheguei depois de cair com a cara no chão e não me importar de me levantar e tocar a vida. — O favor que você deve a Barrett Stanbridge. O que o levou a aceitar o cargo de proteger Mohan. Foi por insistência dele que você parou de beber? — Ele afirmou que um ano era suficiente para um homem ficar mergulhado na tristeza. Essa é uma das poucas coisas que ele me disse e que posso repetir para uma dama. Por algum tempo, eu não conseguia considerá-lo como amigo, mas começo a pensar que talvez ele esteja certo. — Fico contente por ele ter interferido em sua vida. Senão, eu estaria à mercê daqueles dois homens agora. — Se eu não estivesse aqui, você já estaria morta, Sandra. — Nesse caso, aprecio mais sua sobriedade. — Quão profundo é seu apreço? Oh, o mestre estava em sua melhor fase. Depressa, Sandra avaliou as escolhas e, afoita, descartou todas. Embora não tivesse a experiência dele, contava com o elemento surpresa. Desviou o olhar, passou os dedos pelo colarinho e segurou as bordas da camisa aberta. De propósito, puxou-o para ela, inclinou-se para a frente e fitou-lhe os lábios. A respiração de Aiden escapava depressa por entre os lábios entreabertos. E então, parou de respirar um segundo antes de ela tocar-lhe os lábios com os seus. Por

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puro prazer, Sandra prolongou o contato, apreciando a maciez dos lábios e a meiguice da aceitação dele. Só quando Aiden murmurou seu nome e a acariciou ao longo do braço, foi que ela se afastou. — Obrigada, Aiden, por estar aqui — murmurou ao soltá-lo, o pulso disparado e os sentidos em ebulição. Aiden sabia que aquele era o momento que tanto ansiava. Sentia-se consumido por um desejo tão imperioso que quase lhe tirava o fôlego e o deixava trêmulo. A consciência, no entanto, alfinetou-o, lembrando-o de que estava agindo irracionalmente. Mesmo assim, queria saber se existia uma chance. A mínima bastaria. Seria paciente se fosse preciso. — Posso lhe fazer uma pergunta pessoal, Sandra? — Pergunte o que quiser, más eu me reservo o direito de responder ou não. — Você se imagina casando? — indagou sem preâmbulos. — Honestamente? Não. De vez em quando, sonho em ser raptada por um príncipe encantado, num corcel branco. Mas sei que isso jamais acontecerá. — Poderá, sim. Com um riso suave, Sandra argumentou: — Só numa chance remota, mas se isso acontecer, ele me largará logo. Não tenho o temperamento para ser uma boa esposa, Aiden. Sou teimosa e independente demais. Como se isso não bastasse, nunca aprendi a flertar, desmaiar no momento oportuno ou hesitar sobre pequenas decisões. O mundo está cheio de mulheres muito mais certas para o casamento do que eu. Não há razão para um homem me escolher em lugar de uma delas. Aiden não concordava, mas ainda não queria revelar a opinião. — A idéia de ficar sozinha para sempre não a preocupa? — Nunca estou sozinha. Aqui em Londres, tenho Mohan, Preeya, você, Emmaline e, a partir de amanhã, Sawyer. E, na Índia, a casa está sempre cheia e movimentada. — Não é a isso que me refiro exatamente — ele declarou, frustrado, mas não querendo indagar abertamente. — Se a idéia de nunca me deitar com um homem me preocupa? Aturdido, ele balançou a cabeça. — Isso foi... — Muito franco? Os hindus são mais abertos nessas questões do que os ingleses. É a resposta é "sim" às vezes, mas na maior parte do tempo, não. Este é o ponto de nossa conversa de onde me recuso a dizer algo mais. Projeto Revisoras

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Tudo que ele queria saber estava em "algo mais". Três dias na sela, Aiden refletiu enquanto se dirigiam ao quintal, provocavam um certo desconforto num homem, embora não o enfraquecesse. Especialmente se fazia mais de ano que ele não pensava em cavalos e certas partes do corpo. Graças a Deus pelos longos banhos quentes. Havia dois prêmios de consolação nas cavalgadas. O primeiro era Mohan estar se tornando um excelente cavaleiro e o segundo eram os cuidados que Sandra lhe dispensava quando ele não disfarçava o mal-estar. O único inconveniente era sentirse cansado ainda cedo à noite e não usufruir mais de suas atenções. A maior vantagem, refletia, era que havia algo de aconchegante na maneira de ela acordá-lo, ajudá-lo a levantar-se das almofadas e mandá-lo ir dormir no próprio quarto. Seria ainda melhor se ele tivesse a presença de espírito de convidá-la a acompanhá-lo. — Talvez nós não devêssemos tirar a corda de meu cavalo. Aiden olhou para Mohan e franziu a testa. — Você acha? — Estou muito bem sem ela, mas é a aflição da srta. Sandra que me incomoda. Ela não vai gostar de saber que não usamos mais a corda, pois se preocupa comigo sem necessidade — o menino explicou. — Não contaremos a ela que abolimos a corda. — O senhor acha que ela não vai se postar à janela e olhar pelas novas grades, à espera do nosso retorno? — Se for assim e ela protestar, eu lhe garantirei que você merece tal liberdade e é capaz de manejá-la. — E ela vai acreditar em sua palavra, sr. Terrell? — Ah, vai sim. — Então, o senhor será o primeiro homem a ter influência sobre ela. — Como sabe disso? Você só tem dez anos e não pode ter visto muitos homens tentar convencê-la de alguma coisa — Aiden argumentou enquanto os dois apeavam. — Oficiais ingleses iam ver meu pai o tempo todo e notavam a srta. Sandra. E quando a sra. Radford ainda vivia e a levava às festas deles sempre uns dois oficiais as acompanhavam na volta. Vi muitos deles dizer palavras bonitas à srta. Sandra. Apesar de atenciosa, ela não se abalava. Com o tempo, eles desistiam. O que, na verdade, ele ia acabar fazendo, pensou Aiden.

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— A justiça me força a admitir que o senhor é diferente. Ela não mantém a mesma distância do senhor. Portanto, acho que podemos deixar meu cavalo sem a corda — Mohan acrescentou enquanto levavam as montarias ao estábulo. — Às vezes penso que você é um velho no corpo de um menino — Aiden resmungou, — Talvez eu seja. O movimento fora do estábulo era furtivo e silencioso. Aiden sacou o revólver e postou-se entre Mohan e o intruso. Mãos ergueram-se no mesmo instante. — Por favor, não! — Ora, veja quem surgiu. Mohan, este é o sr. Barrett Stanbridge. — Senhor — o menino cumprimentou. — Já que você está com aparência saudável e satisfeita, presumo que o sr. Terrell vem desempenhando bem sua tarefa — Barrett declarou ao observar Mohan. — Minha satisfação não importa, senhor. É a srta. Sandra quem julga a situação. Barrett franziu a testa e Aiden aproveitou o momento para dizer: — Mohan, vá avisar à srta. Sandra e Preeya que temos uma visita para o jantar. O sr. Stanbridge e eu cuidaremos dos cavalos. — Pois não, senhor. — Depois, fique lá dentro. — Por onde você andou, Barrett? — indagou quando os dois já começavam a desencilhar os animais. — No campo. Meu pai me chamou para o sermão anual sobre aceitar as obrigações que o nome Stanbridge exige. Quincy me informou que você esteve no escritório à minha procura. — Quatro dias atrás. Ele me disse que você estava em Gales. — Nunca digo a Quincy aonde vou. Se o fizesse, ele mandaria pessoas atrás de mim e pilhas de papéis para eu assinar. Do que você precisa? — Não preciso mais. Resolvi o problema contratando Sawyer. Ele é meu auxiliar para manter os olhos abertos por aqui, das nove às cinco horas. Espero que você o pague bem. — Por que não contratou O'Brien? — Pensei nele, mas depois mudei de idéia. Eu queria alguém que pudesse ficar dentro de casa e O’Brien não é muito refinado.

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— É verdade. Por que você precisa de um segundo homem? Afinal, está protegendo só um menino. Aiden emudeceu. Como pôr em palavras? Não tinha pensado nisso até então. Só saber que existia era suficiente. Para Barrett, porém... Pôs duas porções de cereal e uma braçada de feno no cocho da baia antes de cruzar para o lado de Barrett. Então, admitiu: — Algo não está certo nesta história. Passei dias expondo Mohan pela cidade e não peguei nem a sombra do sujeito. O único assalto foi a Sandra pelos dois malandros que ela contratou na manhã de sua ida ao escritório. Foi o que pareceu ser na superfície. — Quincy guardou toda a reportagem do Times para mim. O que o faz pensar que exista algo além do que uma tentativa de roubo? — Logo depois, olhei pela janela da frente da loja e vi um indiano espiando para dentro. Quando o encarei, ele sumiu. — Talvez estivesse passando por aí, ouviu os tiros e não resistiu à curiosidade — Barrett sugeriu. — Ele não estava curioso, e sim determinado — Aiden respondeu enquanto punha comida no cocho do cavalo de Mohan. — Não está exagerando um pouco? Você tinha acabado de matar dois homens. Sob tensão, o cérebro fica um tanto superativado. — Pode ser — ele disse, indiferente. — Mas você não acredita. — Mohan me contou que membros da corte do rajá se opõem à presença de Sandra. — Porque ela é inglesa? — Penso que seja mais complicado do que isso, mas ser inglesa deve estar na raiz da questão. Sandra não disse abertamente, porém, deu a entender que a mãe era mais do que preceptora real. — Era uma das consortes do rajá? Sandra seria filha deles? — Barrett conjeturou, intrigado. Pela mente de Aiden passou a imagem de uma pele tocada por um sol estrangeiro e de olhos escuros. Balançou a cabeça a fim de dissipar a fantasia exótica. — Elas foram levadas para a corte quando Sandra era criança. Mohan disse que, quando voltarem para a Índia, o pai a tornará mais uma de suas esposas ou arranjará seu casamento com outro rajá.

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— Ouvir isso o perturbou? Seja sincero. Ele notou o tom provocativo de Barrett. — Nada disso — Aiden respondeu, negando-se a ser atraído para uma discussão pessoal. — Estou olhando para as peças de um quebra-cabeça para entender o desenho geral. Posso perceber que alguém se oponha à volta de Sandra. Digamos que o rajá se case com ela e tenham filhos, uns dois meninos. Haveria meioingleses na linha de sucessão ao trono. — Porém, bem no fim da linha. Os filhos que ela tivesse com o rajá não seriam uma ameaça séria aos herdeiros mais velhos. — Eu sei. Por isso não faz sentido considerar Sandra uma ameaça. Nem se pode acusá-la de impor costumes ingleses à vida deles e, dessa forma, constrangêlos. De muitas maneiras, ela é mais indiana do que inglesa. — Sob certos aspectos, isso seria interessante. Como não estivesse interessado em compartilhar tais detalhes com Barrett, ele perguntou: — Por que, então, alguém se oporia tanto a seu retorno a ponto de vir a Londres e tentar matá-la? Barrett deu de ombros. — Você está apenas tirando conclusões. Tudo que sabe é o relato do menino sobre pessoas contra sua presença lá e, portanto, não quererem sua volta. — E um indiano espiando pela janela na manhã em que tentavam raptá-la. — O que pode ser coincidência. Você tornou a vê-lo? Não tinha. E o fato de estar sutilmente procurando-o reforçava a sensação de desconfiança a respeito de Sandra. — Está bem, não tenho prova alguma. Mas resta a impressão, Barrett. E ela me arrepia. — Isso se chama desejo, John Aiden. Quanto mais você resistir, pior fica. Leve a mulher para a cama e você se sentirá melhor — ele sugeriu, entre divertido e paciente. Aiden pensou em ignorar o conselho, mas sabia que o amigo não desistiria até esclarecê-lo bem. — Em primeiro lugar, conheço a diferença entre sensualidade e perigo. Em segundo, Sandra não é o tipo de mulher que se leva para a cama e depois se descarta com um "muito obrigado". — Ora, você está um tanto sensível quanto a isso, não? Dá a impressão de que alimenta sentimentos sinceros por ela — Barrett comentou.

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— Isso não é da sua conta. O único motivo pelo qual estou mencionando esse ponto é instigar seus miolos para saber por que ela corre perigo e como posso protegê-la. — Não faço a mínima idéia. A não ser sugerir que a amarre a você pela cintura e tornozelo enquanto empunha um revólver carregado. Também dormir com um olho aberto é boa idéia. — Por que alguém gasta um bom dinheiro para contratá-lo, Barrett? — Eu sei lá! Mas as pessoas fazem isso sempre. Incrível, não? Aiden suspirou, irritado. — Por falar em investigações — Barrett prosseguiu —, o que você descobriu sobre seu comércio com prata? Ou não se deu ao trabalho de investigar? Como já tinha antecipado a pergunta, Aiden estava preparado para responder. — Sandra não negocia com estranhos. Cada transação sua é com alguém conhecido, quase sempre com serviçais da maior confiança de senhoras que poderíamos encontrar nas reuniões sociais de sua mãe, Barrett. — Tem certeza absoluta? O fato de ele questionar sua palavra e a honestidade de Sandra era muito irritante. — Claro que sim — Aiden respondeu e, em silêncio, ameaçou: — Insista outra vez e eu o deixarei caído no chão. Barrett o observou por um instante. — Você acha que ela saberia onde adquirir prata roubada se quisesse? Quanto a insultos e insinuações o amigo extrapolava os limites. — Por que pergunta? Barrett reprimiu um sorriso. — Percebi o tom de suspeita em sua voz, John Aiden. Começo a me ofender. — Ofenda-se à vontade, pois não me importo. Por que está perguntando? — Estou imaginando se ela não poderia me ajudar a encontrar o faqueiro de prata de lorde Westerham — disse Barrett. — E consegui-lo de volta antes de lady Westerham chegar de Paris, dar por falta dele e começar a fazer perguntas. — Bem, se ele fosse um pouco mais cuidadoso com quem traz para casa e tira as calças, não estaria nessa situação. — Verdade. Mas isso não muda o fato de ele precisar ter o faqueiro de volta. E está disposto a pagar todas as despesas para obtê-lo. Você acha que Sandra Radford poderia nos ajudar com isso? Era um pedido razoável, mas Aiden não gostava da idéia de Sandra assumir a incumbência. Porém, não lhe competia decidir. Projeto Revisoras

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— Você terá de perguntar a ela. — É o que farei caso você dê permissão. Surpreso, ele irritou-se mais. — Sou seu segurança e não seu dono, Barrett. O amigo o observou antes de indagar: — Posso lhe dar um conselho pessoal, John Aiden? — Não. — Mas vou dar assim mesmo, pois consciência é a coisa mais persistente e desagradável. — Não quero ouvir — Aiden declarou ao dar dois passos para a porta antes de Barrett bloquear-lhe a passagem. — Você não tem escolha — Barrett disse numa voz triste. — Sua meiga Mary Alice está morta, Aiden. Não há nada que você possa fazer para mudar isso. Aiden rangeu os dentes e decidiu aturar o sermão. Tão logo terminasse, ele poderia sair dali e esquecê-lo. — Suponho que haja mais — resmungou ao encarar o amigo. Barrett balançou a cabeça e, numa voz suave, disse: — Olhe, John Aiden, não é uma traição covarde à memória dela você achar Sandra atraente. Se não achasse, eu estaria preocupado com você. Três quartos da razão para eu designá-lo para seu caso foi a esperança de que ela fosse a tentação perfeita para você. E estou felicíssimo por ela, aparentemente, ser. Apenas lembre-se. Sexo é bom, mas não passa de sexo. Nada mais. O estômago de Aiden contraiu-se e seu coração trovejou no peito, incitado por várias emoções. Ódio, mágoa, arrependimento. E a mais amedrontadora, um alívio assoberbante. — Você está ultrapassando a linha, Barrett. Há limites numa amizade. — Sei que estou. Se não achasse importante, não me arriscaria. Mas não tenho certeza se a distinção entre desejo e dever está muito clara para você. Preciso saber se, finalmente, você obteve uma perspectiva saudável das coisas. — Por quê? — Porque na última vez que se sentiu atraído por uma mulher você quase se matou pelo sonho de possuí-la. A raiva fervilhou, e também a sensação de estar sendo assediado. — Você agora ultrapassou a linha! — afirmou numa voz enrouquecida pelo desespero. — Foi uma escolha deliberada — Barrett murmurou com voz triste. — Você não pode esperar que Sandra Radford ocupe o lugar deixado por Mary Alice Projeto Revisoras

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Randolph e reassuma a ilusão gloriosa que seu grande amor deixou. Leve Sandra para a cama se quiser. Seria humano de sua parte. Mas entenda que não terá de se casar com ela por causa do privilégio. Nunca ame uma mulher mais do que a si mesmo, John Aiden. Mantenha a cabeça nos ombros e tenha juízo. Diga que pode fazer isso com Sandra e eu não abrirei mais a boca. Deus do céu! Era sobre isso toda a conversa? O que ele pensava sobre fazer amor com Sandra? — Sei a diferença entre amor e sexo, Barrett — disse, com firmeza. — Não amo Sandra. Simpatizo com ela e a acho interessante. Também admito querer levá-la para a cama. Aliás, penso nisso o tempo todo. Mas não alimento ilusões tolas quanto ao que sinto por ela e nem tenho a intenção de propor-lhe algo. Minha cabeça está bem firme nos ombros e tenho tido juízo. Obrigado por se preocupar comigo, mas não é necessário. Barrett não disfarçou o alívio. — Creio que você venceu a crise. Graças a Deus. Perplexo, Aiden balançou a cabeça e passou por ele dizendo: O jantar deve estar pronto. Ele havia caído na armadilha. Bem como Sandra. Barrett tinha juntado os dois na esperança de que ele a seduzisse e disposto a sacrificá-la em nome... Em nome de quê?, Aiden indagou-se enquanto saíam do estábulo. Por que causa Sandra deveria sacrificar a virtude? Para que ele se sentisse melhor? A fim de atraí-la para um mundo onde se deitar com uma mulher não passava de um passatempo casual? Nada em relação a Sandra era casual. A esperança de Barrett que se danasse. Gostava dela como era e não mudaria nada em sua pessoa, mesmo se pudesse. Sandra não se lembrava de outra ocasião em que se sentira aliviada com o fim de uma refeição. Manter a conversa fluindo havia sido dificílimo. Barrett fizera sua parte no esforço, mas Mohan mantinha-se traduzindo para Preeya e esta não contribuíra com nada. Quanto a Aiden... Ele tinha ficado imerso nos pensamentos durante o jantar inteiro. Quando tentavam incluí-lo na conversa, a pergunta tinha de ser repetida. Mas as respostas lacônicas os forçaram a desistir. Sandra levantou-se com a intenção de ajudar a tirar a mesa. Porém, antes de começar, Barrett disse: — Srta. Radford, imagino se poderia me ajudar com algo. — Se estiver a meu alcance — ela respondeu. Do bolso interno do paletó, ele tirou uma faquinha de manteiga que lhe entregou. Projeto Revisoras

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— O que pode me dizer sobre esta peça? — É prata de lei — ela respondeu, estranhando o pedido. Aiden, ao lado, continuava com olhar perdido. — O modelo é "Fiddle" e está muito em moda. — Virou-a e exclamou: — Ah, a marca é de James Ross, o mais famoso prateiro de Glasglow, o que torna esta peça muito cara! — Devolveu-a enquanto dizia: — Infelizmente, tem um monograma, o que reduz seu preço. — Por acaso a senhorita não tem nenhuma peça semelhante? Por que ele queria peças de um faqueiro com o monograma "W"? E por que trouxera uma faquinha no bolso? Desconfiada, indagou: — Como o senhor sabe que negocio com prata? E por que trouxe essa faquinha no bolso? Barrett sorriu. — Uma noite destas, contei a minha mãe, durante o jantar, que John Aiden estava trabalhando para a senhorita. Ela, então, mencionou que uma amiga sua havia comprado uns garfos de prata em sua loja. Sandra não se lembrava de tal transação e a suspeita aumentou. — O senhor está procurando substitutos para esse faqueiro? — Esta é a única peça que tenho. Procuro o resto dele. E pensava, que ela o tinha? A insinuação era óbvia, o que a enfureceu. Aiden não a olhava. A conversa não parecia surpreendê-lo. Também suspeitava que ela negociava com prata roubada? Não, ele já a conhecia bem e teria descartado a idéia. Estaria preocupado porque ela se sentiria insultada, magoada e furiosa? Estava certo e isso era para crédito dele. Certa de ser melhor enfrentar a questão de frente, indagou: — As peças que o senhor está procurando foram roubadas? Com um sorriso agradável e proposital, Barrett explicou: — Uma hóspede recente de lorde Westerham levou o faqueiro enquanto ele dormia. Lady Westerham deve voltar de Paris no fim da semana, e ele gostaria de não ter de explicar a falta dos talheres. — E o contratou para encontrá-lo — ela concluiu. — Sim, e eu gostaria de incumbi-la da tarefa. Está disposta a aceitar? O pagamento será excelente. — Bem como o risco — Aiden aparteou. — Saiba que, se aceitar a proposta de Barrett, não irá procurar sem mim.

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Havia várias emoções nos olhos dele, mas irritação e embaraço eram as mais óbvias. Pelo jeito, não estava gostando da história. — E quem protegerá Mohan em sua ausência? Ele não pode ir conosco por causa dos lugares e das pessoas — ela argumentou. Aiden olhou para o amigo. — O menino precisa de roupa para cavalgar e um bom par de botas. Você pode providenciar isso com ele enquanto Sandra e eu cuidamos de sua investigação. — Suponho... — Ótimo — Aiden o interrompeu. — Amanhã está bem para você, Sandra? Quanto antes, melhor. — Há um leilão amanhã cedo na Christie's, a que eu esperava ir, mas dadas as circunstâncias... — Não vejo motivo para você perdê-lo. Iremos lá, e depois cuidaremos da prata roubada. Gastaremos o dia com isso. Barrett cobrirá nossas despesas e o preço da prata quando a encontrarmos, não é? — perguntou, virando-se para ele. — Se a encontrarmos — Sandra o corrigiu antes de Barrett falar. — Existe a chance de ter sido derretida. O monograma identifica as peças e torna mais difícil a venda. Quem compra de um ladrão corre menos risco se derretê-la antes de vender a prata. Quando o faqueiro foi roubado? — Duas semanas atrás — Barrett respondeu. Antes de ela conhecer os dois. Deviam ter começado a procurar logo com uma lista de pessoas de quem suspeitavam haver comprado o faqueiro do ladrão. Estaria ela na lista? Aiden tinha boas respostas para dar. Deus o protegesse se não fossem boas! — Seremos diligentes em nossos esforços. Mas acho justo avisá-lo de que as chances de encontrar o faqueiro intacto são mínimas, sr. Stanbridge. Posso fazer uma sugestão? Se encontrarmos um de Ross Fiddle, sem monograma, ele poderia ser gravado e lady Westerham não notaria a diferença. — Quais são as probabilidades de encontrar um? Sandra tentou, mas não conseguiu sorrir. — Espero que lorde Westerham tenha outro lugar para morar. Se tivessem me procurado no dia do roubo, teriam chances maiores do que agora. — Eu não sabia então que poderia contar com sua ajuda. Não, na época ele a considerava uma comerciante de peças roubadas. Aiden a tinha visto sob a mesma luz? Ele havia lhe perguntado sobre prata roubada no dia em que Polly trouxera o faqueiro de Roberts e Belk. A indagação havia sido por curiosidade, como ele tinha afirmado? Ou baseada em suspeita?

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— Bem, embora eu deteste comer e ir embora, tenho de me retirar. Por ter passado parte da semana fora, meus relatórios estão atrasados e preciso dar conta deles depressa. Obrigado pelo ótimo jantar, srta. Radford. Meus cumprimentos a Preeya — Barrett disse ao despedir-se. — Eu o acompanho até lá fora, Barrett. A que horas é o leilão amanhã, Sandra? — Aiden indagou. — Começa às nove. Devemos sair daqui às oito para conseguir bons lugares. — Vai ter de queimar as pestanas esta noite, Barrett. Melhor não perder tempo — Aiden aconselhou ao apontar para a porta da sala. — Obrigado, srta. Radford, por se dispor a me ajudar com a investigação. Estarei aqui amanhã antes das oito. Ela assentiu com um gesto de cabeça e o acompanhou com o olhar. Aiden, de cara fechada, o seguiu. Mas antes de transpor a porta, Sandra não se conteve. — Aiden? Antes de você ir até lá fora, posso... Ele retrocedeu e parou bem à sua frente. Com firmeza, disse: — Sim, você era suspeita. E sim, ele me pediu para verificar as possibilidades. Só fiz isso porque sabia que ele viria nos pressionar como fez. Mas eu sabia a verdade mesmo antes de tocar no assunto. Você não tem nem um fio de cabelo desonesto. Quem a conhece sabe disso. Ela acreditou e sentiu vontade de abraçá-lo pela cintura. Em vez disso, reclamou: — Eu deveria estar ofendida por terem suspeitado de mim. A tensão de Aiden sumiu e ele exibiu um sorriso matreiro. — Deveria? Era impossível ficar brava com ele. Aliás, sem razão. — Penso que estamos quites. —Você também suspeitava de mim? — Suspeitar, não, mas tive impressões pouco lisonjeiras. — Tais como? — Pensei que fosse um bajulador, e não um cavalheiro. — Bem, como me esforço para ser cavalheiro só quando me lembro, concordo que tenha certa razão — ele declarou, sorrindo. — Também pensei que fosse um malandro descarado, apreciador do prazer imediato.

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— Sem dúvida posso ser, caso você se sinta atraída por um homem desse tipo — ele disse com um brilho malicioso no olhar. Alguma vez a tentação viera num pacote mais atraente e cativante do que Aiden Terrell? — Você se sente, não é? — ele insistiu. O coração de Sandra começou a bater na garganta, de expectativa e desejo. Deus do céu, quando ele sorria daquele jeito, sua sensatez evaporava. — Não — ela conseguiu mentir. — Se você também assumisse que sou excepcional, estaria certa — ele murmurou com uma piscadela. Sandra não duvidava. Meio sem fôlego, disse: — Tais habilidades magníficas seriam um desperdício em mim. Perplexo, Aiden a fitou enquanto a malícia sumia do sorriso. — Se não fosse possível Barrett surgir ali na porta à minha procura, eu lhe provaria já como está errada. Ela manteve cada fiapo de bom senso e os braços pendidos ao lado do corpo. — Ninguém poderá acusá-lo de falta de autoconfiança. Sem perder o bom humor, ele deu de ombros, se afastando. — Cuidaremos da sua falta de autoconfiança quando eu voltar — prometeu. Uma vivida imagem carnal surgiu-lhe na mente. Depressa, disse: — Engana-se. Estou lhe dando boa-noite agora, Aiden. Ele parou e virou-se com um olhar que lhe tirou o fôlego. — E quanto a Barrett? — lembrou-o ao vê-lo voltar. — Ele pode esperar. Aiden passou um braço por sua cintura, outro pelos ombros e, fitando-lhe o olhar, curvou a cabeça. Não foi um beijo leve como os outros e sim ardente e possessivo. Imersa numa vertigem abençoada, Sandra abandonou a reserva. Ao sentir-lhe a língua delinear seus lábios, suspirou e permitiu-lhe a entrada. Quando o abraço se estreitou e ele a saboreava mais profundamente, perdeu-se em ondas de sensações deliciosas. E ao pôr-se, desinibida, a saboreá-lo, o gemido dele foi como fogo líquido incendiando uma carência que lhe percorreu o corpo todo. De um ponto remoto da consciência de Aiden, veio uma voz, avisando-o de que estava à beira do penhasco. Mas antes, tinha de deixá-la decidir se aceitaria ou não despencar-se com ele. Doía dar ouvidos à sensatez, mas Aiden forçou-se a largar

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sua boca e virá-la de costas, com a cabeça sob o queixo dele. Estreitando-a entre os braços, respirou fundo várias vezes. Por Deus, ela era extraordinária! Tão receptiva e sem artifícios... Desejava-a por inteira. Só esperava que ela não o reduzisse a uma pilha de cinzas. Sorriu, pois valeria a pena. Porém, a consciência o avisava, a escolha seria dela. Levá-la, desavisada, além do ponto de não-retorno não seria certo. Sandra merecia respeito e ele a deixaria ir, mesmo se isso o matasse. Abriu os olhos e, de propósito, observou onde estavam, e refletiu sobre as tarefas a serem executadas. — Tenho de ir. Já — murmurou e, com delicadeza, a afastou. Acariciou-a nos ombros, no pescoço e quase voltou atrás. O coração contorcia-se. — Sim, agora, ou não serei capaz de ir. Boa noite, Sandra. Ela abafou uma exclamação de protesto. Restava apenas o martelar do coração e a carência profunda em seu âmago enquanto o via se afastar. Nesse momento, seu entendimento floresceu. Até onde podia se lembrar, havia vivido cada dia a seu turno, satisfazendo as vontades de outros e sempre repetindo que, um dia, a recompensa viria. Seria algo que, em sua magia, faria toda a solidão e o vazio de seus dias passados terem valido a pena. Sandra olhou para as sombras do corredor. Nunca havia imaginado ser possível se sentir tão viva como naquele momento. Como tinha sido ingênua! A recompensa não era uma coisa concreta, mas uma sensação em seu íntimo. Uma alegria, um fascínio, uma vontade de se atrever a obter muito mais. Era como descobrir a vereda e iniciar a viagem. Onde terminaria... Sandra respirou fundo. Não importava onde terminasse e sim ser capaz de percorrê-la, mesmo que por pouco tempo, com John Aiden Terrell.

Capítulo VI

Os pavões iam morrer, Aiden decidiu enquanto atravessava o corredor de cima. A maneira pela qual a paz matinal seria restaurada ainda não fora decidida. Torcer os pescoços prometia mais satisfação do que tiros, mas levaria mais tempo. Pelo barulho que vinha do quintal naquela manhã, a pressa em despachá-los era o que importava. Quando chegasse lá, Preeya já os teria alimentado e voltado para a cozinha. Ótimo, pois seria melhor matá-los se ela não estivesse por perto.

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Já estava no fim da escada quando duas manchas malhadas passaram por ele, quase fazendo-o perder o equilíbrio. Imobilizou-se no instante em que mais três seguiam atrás dos outros. — Eles escaparam! — Mohan gritou de uns degraus acima. Aiden olhou para a sala da frente e viu Sandra com um gatinho em cada mão enquanto ria com a confusão na barra de sua saia e capa. Uma onda de melancolia o dominou. Como sentiria falta do som de riso, do brilho da esperança, da emoção de alegrias inesperadas. Queria ir para casa. E levar Sandra, Mohan, Preeya, os gatos e até o malditos pavões. Naquele dia. Impossível. Isso não aconteceria jamais, admitiu, triste. Fixou a visão e viu que Sandra tinha posto os gatinhos dentro de um xale. Sorrindo, ela passou a trouxa para Mohan. Com o coração apertado e temendo sofrer novo acesso de melancolia, ele percorreu o olhar pela loja. Franziu a testa. Onde tudo tinha ido parar? Quando havia desaparecido? Pela porta, olhou a sala de tecidos azuis. As prateleiras estavam quase vazias. — Bom dia, Aiden. Ele acabou de descer a escada e perguntou: — Você foi roubada? Quando isso aconteceu e por que não me contou? — Você passou os últimos três dias ensinando Mohan a cavalgar. E eu gastei esse tempo atendendo uma torrente de fregueses. Isso acontece cada vez que chega um novo carregamento de mercadorias. Nem preciso atraí-los. Sé não fosse pelo leilão e se não fossemos procurar talheres roubados... — Levantou as mãos num gesto de frustração. — Como você vê, preciso pôr ordem no que restou. Ainda com o coração apertado, Aiden não podia afastar o olhar de Sandra. Estava tão linda e feliz! Forçou-se a pôr de lado o impossível e disse: — Você precisa de novo carregamento, não é? Ela olhou em volta e suspirou. — O tio de Mohan tem rotas regulares de comércio, e Londres é o ponto de partida para elas. Quando passa por aqui outra vez, não tem muito espaço no navio para minha mercadoria. Eu poderia vender três vezes mais do que recebo, mas não devo abusar dele. Sem saber como, a idéia surgiu, audaciosa e clara. — Talvez você precise de um novo fornecedor. Outro capitão. — Está oferecendo seus serviços, sr. Terrell? Ele também gostava como seus olhos brilhavam ao compartilhar do gracejo. — Acho que podemos entrar num acordo que ambos apreciemos.

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Por alguns dias de cada vez, com meses intercalados. O perfeito relacionamento com a amante perfeita. Mas só se ela ficasse na Inglaterra, Aiden acrescentou mentalmente. — Aiden, o sr. Stanbridge chegou. Ele sorriu meio sem-graça, ciente de ter sido apanhado sonhando. — Pois vamos, então — disse ao oferecer-lhe o braço. Barrett já descia da carruagem quando o dois chegaram à calçada. Depois de ajudá-la a subir no veículo, entregou a chave da casa ao amigo com a seguinte recomendação: — Lembre sempre de trancar a porta, meu velho. Sawyer deve chegar logo. Até então, por favor, cuide de Preeya também. E, se você não se importar, vamos usar a carruagem e o cocheiro pelo resto do dia. Sinta-se à vontade para usar qualquer transporte do estábulo. Antes de Barrett abrir a boca, ele disse ao cocheiro: — Siga para a Christie's. Temos de estar lá antes das nove. Em seguida, entrou na carruagem, fechou a portinhola e sentou-se no banco de costas para a frente. Olhou pela janelinha e viu o amigo rindo na calçada ao acenar para o cocheiro. — Foi muito presunçoso de sua parte — Sandra o criticou. — Tem de ser assim com Barrett, ou então acabará sob suas ordens. É o oficial do Exército que existe nele. — E resistir é o capitão de navio que existe em você. — São disputas amigáveis e eu não tenho ganhado muitas ultimamente. Barrett é bem-humorado. Caso contrário, não seríamos amigos. — Acomodou-se melhor no banco e pensou na perspectiva de um dia maravilhoso. — O que você pretende comprar na Christie's? — É a venda de bens de um espólio, o que torna tudo mais divertido. E como uma aventura. Além de adquirir o que interessar à Blue Elephant, uma de minhas freguesas me pediu para comprar objetos para seus aposentos particulares. — Por que ela mesma não compra? — Porque tem péssimo gosto e confia no meu. — Pelo que vi em algumas casas, ela não é a única que precisa de ajuda. Você poderia tornar isso um negócio lucrativo. — Se eu ficasse na Inglaterra era o que eu faria. É divertido ser paga para gastar o dinheiro dos outros. Ao perceber o potencial no comentário, ele o agarrou. Perguntou como se a idéia nunca lhe tivesse ocorrido antes: — Por que você não fica? Com todos os seus negócios, você ganharia mais aqui do que como preceptora real na Índia. Projeto Revisoras

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Seu sorriso apagou e foi em tom de resignação que ela respondeu: — Dinheiro não é tudo, Aiden. — É verdade — ele concordou, procurando nova abordagem. — O que a prende à Índia? Sua mãe é falecida. Você tem outros parentes lá? — É complicado, Aiden. Levaria muito tempo para explicar. — Sou paciente. — Não é nem um pouco — Sandra afirmou, rindo. — Discordo. Não aceitei, todas as manhãs, suas desculpas para não ir cavalgar comigo e Mohan? Por acaso a pressionei? — Está bem. Em algumas coisas você é paciente. — Esta é uma delas. A história mais longa começa com uma palavra. Por que quer voltar para a Índia? — Eles me receberam lá quando eu não tinha para onde ir. Deram-me um lar. Pertenço àquelas pessoas. Não é uma família como a sua, mas gostam de mim e se preocupam comigo. Isso não existe para mim aqui em Londres. Só conto com Mohan, Preeya e Emmaline. — E comigo. — E com você. Mas se eu ficasse, nunca mais veria Mohan e Preeya. Só restaria Emmaline, pois sem Mohan aqui, você também iria embora cuidar da vida. Seus argumentos eram compreensíveis, mas ele não ia desistir. — Você poderia fazer novos amigos, Sandra. Facilmente. Ela sorriu com expressão paciente. — Não pertenço a este lugar. Sou inglesa e, ao mesmo temporão. Não era o que ele esperava ouvir, mas se havia uma verdade sobre Sandra... — Bem, você não é indiana — ele afirmou. — Ser indiana é mais do que uma questão de raça, Aiden. É a maneira de encarar o mundo, a vida. Você tem de concordar que o meu jeito de abordar questões não é tipicamente inglês. As pessoas percebem isso, sabem que sou diferente delas. Você é uma rara exceção. A reação comum é manter distância atenciosa, mas fria. — Pois perdem por causa da ignorância e da intransigência. Enquanto ela sorria agradecida, Aiden gemia em silêncio. Ele não poderia ter oferecido comentário mais superficial. Pior do que patético. Não só tinha aceitado sua opinião como se deixado sem saída para argumentar. Além da visão acanhada, da tolice...

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— Mesmo assim — Sandra lhe interrompeu a autocensura —, com honestidade, uma parte minha deseja muito ficar aqui. O alívio de Aiden foi tão grande quanto a surpresa. Com esperança renovada, perguntou: — Por quê? A Blue Elephant? — Em parte, mas muito mais porque a vida aqui é bem previsível. — Previsível? Como assim? — Os limites são claros, Aiden. A maneira certa de agir, ser, sentir, pensar... Aliás, não é necessário pensar. Basta seguir com os outros e satisfazer as expectativas da sociedade. E estas são tão estreitas quanto universais. É isso que as torna atraentes. Levar a vida seguindo as regras é seguro. Seguro. A consciência trouxe à tona a esperança e as intenções para serem sondadas. Intimamente, Aiden estremeceu. As fantasias dele dependiam de Sandra viver segura, mas presa às regras. Sim, ele poderia manipulá-la. Era perfeitamente capaz. Porém, seria desumano e errado. Sandra merecia respeito, tomar as próprias decisões e escolher o rumo de sua vida. — Viver e morrer pelas regras também é enfadonho — Aiden declarou honestamente e com a sensação de estar perdendo algo precioso. — Segurança vale uma existência insípida? Devagar, seu olhar prendeu-se ao dele. — Se você tivesse me perguntado isso na manhã em que fui ao escritório de Barrett Stanbridge, eu teria respondido com um inequívoco "sim". Mas agora... — Exibiu um sorriso tímido. — Às vezes, em certas situações, com algumas pessoas... Como você disse no dia em que nos conhecemos, viver é arriscado. Estou aprendendo que se arriscar de vez em quando nem sempre é desastroso. Houve um momento de hesitação e reflexão. Enquanto a carruagem diminuía a marcha, Sandra sorriu pesarosa e acrescentou: — Infelizmente, tal constatação apenas dificulta a escolha. A única solução que vejo é passar a vida velejando entre a Índia e a Inglaterra. — Há muitas pessoas que fazem isso — Aiden afirmou, enquanto imagens vividas lhe inundavam a mente: velas enfurnadas e Sandra em pé na proa, banhada de sol e os cabelos agitados pelo vento. — Eu sei, mas sou péssima navegante. Aiden sabia que não podia sonhar com a possibilidade. A consciência lhe dizia que a nova esperança era pouco diferente da antiga. Não era segura. A dura experiência lhe ensinara isso.

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— Então, vamos ter de encontrar outra solução para você — ele declarou ao abrir a portinhola a fim de descerem para a salvação do mundo real. Levar Mohan a leilões não era difícil. Bastava tocá-lo nos joelhos quando ele, entediado, não parava quieto. Aiden, por outro lado, não demonstrava tédio algum. Aliás, parecia refletir horrores, mas a muitas milhas de distância do leilão. Também percebia-se que algo desagradável lhe ocupava a mente. Mostrava-se sombrio como se decidisse o destino da humanidade. Nada que Sandra fizesse prendia-lhe a atenção por muito tempo. O pensamento dele parecia vagar entre lances, até do mesmo item. Ela havia perdido um relógio ouropel por não tê-lo feito se levantar a tempo. — O próximo item para lances é um desenho a pena e tinta da famosa artista inglesa, D. Terrell. A seu lado, Aiden dirigiu o olhar atento para o quadro coberto, sendo colocado no cavalete. Sandra observou a peça. Era grande o suficiente para o espaço acima de um consolo e a moldura espessa, esculpida e embelezada com prata espanhola. O tópico, o quanto o vão da cortina de veludo preto a permitia ver, era um homem com o olhar meio sobre o ombro. Sem dúvida dirigido à amante. A artista havia capturado muito bem a expressão sedutora... Sandra abafou uma exclamação. Conhecia a curva daquele sorriso, o brilho matreiro dos olhos. — Senhoras, desviem o olhar por um momento — o leiloeiro pediu. Umas poucas cabeças femininas viraram-se enquanto duas pessoas tiravam a cortina de veludo. Sandra ouviu Aiden gemer e afundar-se na cadeira. Certa de que aqueles ombros, torso, cintura, quadris e pernas eram de Aiden, ela lhe perguntou baixinho: — Quem é D. Terrell? — Minha mãe. "D" é de Darcy — ele respondeu com esforço. — E quem é o homem? O físico dele parece o seu. O sorriso também, mas o rosto é diferente, mais duro. Num tom de queixa, ele disse: — Puxei o de minha mãe. — E eu, da minha. As pessoas sempre sabiam que éramos mãe e filha — Sandra admitiu, achando graça na reação de Aiden. Quem diria que ele se sentiria embaraçado com qualquer indício de sensualidade? — É seu pai no desenho? — Ele morreria antes de admitir isso. O filho também o faria. Sandra dirigiu a atenção ao início dos lances. Cutucou Aiden. Projeto Revisoras

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— Dê um lance. — Não! Sandra riu e indagou: — Você não gostaria de tê-lo? — Por Deus, não! Por que gostaria de ver meu pai nu? Ela pagaria na vida futura por apreciar tanto esse momento. Um lance foi feito. Outro solicitado. Levantou a mão e fez o seu. Aiden quase pulou da cadeira. — Sandra! — Estou adquirindo para minha freguesa — ela explicou no tom de quem faz uma aquisição calma. Em resposta, Aiden fechou os olhos e gemeu: — Meu Deus! Sandra fez novo lance e avisou: — Aiden, você está vermelho. Uma imagem passou-lhe pela mente, não menos clara do que sua breve aparição. O homem sentado a seu lado, retorcendo as mãos e tão corado quanto uma jovem noiva, era o mesmo que, em seu corredor, tinha calmamente matado dois homens. John Aiden Terrell tinha muitas facetas. E cada uma delas a fascinava. Ele lhe causava admiração, a divertia e desafiava. Estar com ele a fazia sorrir ao amanhecer e lamentar as despedidas à noite. A conscientização tomou forma aos poucos. Prendeu a respiração e focalizou a atenção em sua posição nos lances. Esperava que a distração afastasse a admissão do fato, porém, a verdade não podia ser negada. O martelo bateu e o leiloeiro anunciou: — O D. Terrell vai para a carteia três-trinta e oito! Perplexa, Sandra olhou para a sua. Três-trinta e oito. O que prenunciava o fato de comprar o quadro no mesmo momento em que se dava conta de estar apaixonada pelo filho da pintora? Outra admissão seguiu a primeira. O preço que pagaria na vida futura, por torturá-lo agora de manhã, seria mínimo no cômputo geral. Porém, amar Aiden... Isto iria lhe custar muito caro. Olhou para a carteia tentando acreditar que, se não protegesse o coração, passaria o resto da vida lamentando tê-lo conhecido. Aiden respirou fundo o ar gelado e prendeu-o a fim de esfriar-lhe o sangue. Havia muito pelo que ser grato, refletiu enquanto conduzia Sandra para a fila de carruagens que aguardavam os passageiros. O desenho era um dos mais circunspectos de sua mãe. Havia uns que não poderiam ser exibidos em público. E ele não tinha de carregá-lo, na saída da Christie's, graças ao serviço de entrega deles.

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Melhor ainda era não ter de rodar pela cidade com o pai, do banco da frente, tentando seduzir Sandra. Ele observou a fila de carruagens e o grupo de cocheiros que conversava na calçada, à procura do de Barrett, quando Sandra comentou: — Acho que tudo correu muito bem, não concorda? — Se sua idéia... Ele piscou e tornou a olhar. O homem perto de uma carruagem tinha sumido. — Aiden? O que foi? — Desculpe. Estava procurando o cocheiro de Barrett e, por um instante, pensei tê-lo visto — ele mentiu. — Você gostaria de comer alguma coisa agora ou depois de caçarmos talheres de prata? — Ainda não estou com fome. Ele tinha de estar por ali. Não podia ter evaporado no ar. — Lá está ele! — Sandra exclamou, disparando-lhe o coração. — Duas carruagens adiante da Taverna St. Bart. O cocheiro de Barrett. Aiden correu o olhar pela fila. Nada. Nem uma sombra. — Aonde devo lhe dizer para nos levar? — Whitechapel Road — ela respondeu. Boa escolha, refletiu enquanto os dois seguiam pela calçada. Whitechapel era uma área pobre, mas bem inglesa. Um hindu seria notado. Ele havia surgido duas vezes e, sem dúvida, haveria uma terceira. E quando isso acontecesse, o desgraçado se veria olhando para a ponta de um revólver e respondendo a perguntas. — Como não sei nada sobre prata, penso que você deve encaminhar a busca — disse enquanto ajudava Sandra a subir na carruagem. — Fingirei que sou seu marido entediado e passarei o tempo olhando as vitrines. — E o que meu pobre e querido marido espera ver? Um rosto indiano assustado. Mas, até então... Sandra tinha o sorriso mais lindo do mundo! Lábios feitos para beijar e tão receptivos que lhe faziam o sangue vibrar. O que ele não daria para mandar o faqueiro de Westerham para o inferno e mandar o cocheiro levá-los a Haven House, onde passariam a tarde fazendo amor. Com um sorriso matreiro, respondeu: — A esperança de ser recompensado louca e apaixonadamente por minha paciência. Seu sorriso foi imediato e vibrante. Apontou-lhe o dedo indicador e declarou: — Esse, Aiden, é o mesmo olhar malicioso de seu pai.

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— Dava certo com minha mãe. E quanto a você? — Seu grande tentador. — Maior do que você? Que tal nos rendermos? — Aiden sugeriu. — Temos de encontrar os talheres. Prometemos a Barrett. — Está bem. Para aliviar sua consciência, procuraremos por umas duas horas. Depois disso, o resto do dia é para gastarmos como quisermos. — O que você tem em mente? — Pensaremos em alguma coisa. Somos ambos muito criativos. Sandra riu e ele jurou ter ouvido os anjos cantar. Nos primeiros quarenta e cinco minutos, Aiden cumpriu o prometido. Seguiu Sandra de loja em loja, examinou vitrines e fingiu apreciar o movimento da rua. Depois da décima sexta loja, ele suspirou, forçou-se a sorrir e comentou que estavam gastando esforço inútil, além de tempo precioso. Após uma hora, não tentava mais sorrir. Uma hora e quinze minutos depois, apenas andava atrás de Sandra, olhando o movimento, dando a impressão de querer armar confusão. Frustrada, Sandra pensava em matá-lo. Passaram por uma pequena porta, ela relanceou o olhar pela vitrine entulhada de objetos, deu dois passos e retrocedeu. Algo tinha lhe prendido a atenção. Dirigiu-se à porta. — Sandra, por favor! — Aiden gemeu. — Essa não passa de uma loja de bugigangas. — Vi uma colherinha de prata na vitrine. Onde há uma peça deve haver outras. Ele suspirou e avisou enquanto Sandra entrava: — É a última loja, juro. É uma perda de tempo. Sandra discordava. Havia aprendido algo importante na última hora e pouco. Apesar de ser um homem encantador, Aiden não tolerava tédio. Jamais o levaria junto outra vez para fazer compras. — Posso ajudá-la? Atrás de um balcão rústico, sentava-se uma mulher idosa com um vestido velho e um xale de crochê remendado, que inclinou-se para a frente para poder enxergar. — Bom dia, senhora — Sandra cumprimentou. — Minha irmã vai se casar e estou procurando talheres de prata para lhe dar de presente. Vi uma colherinha na vitrine. A senhora teria mais para formar um faqueiro?

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— Tenho três deles, completos — ela respondeu, apontando para a esquerda de Sandra, que levou algum tempo para encontrá-los. Estavam amarrados com barbante e ela os pôs no balcão. Dois eram em estilo Shell, um com um "A" gravado e o outro com um "K", mas o terceiro... Sandra olhou incrédula. O Fiddle de Westerham. — Quanto está pedindo por este? — perguntou ao erguer o conjunto para a mulher poder apalpá-lo e identificar. — É um assim que está querendo? — Talvez sirva — Sandra começou com cautela. — Seu nome de casada será Timmons. Se o preço for bom, valerá a pena mandar um prateiro remover o monograma. O "W" não seria apropriado. Ela ouviu Aiden praguejar logo atrás. A mulher inclinou a cabeça e indagou baixinho: — Alguém mais está aí? — Meu marido. Ele odeia fazer compras. A mulher riu. — Não existe um que goste. O que acha de cinco libras? Novo custaria umas vinte. Alguém que conhecesse prata cobraria dez. Perplexa, ela perguntou: — Pelo faqueiro todo? — É muito? Minha neta o trouxe aqui para mim. Presente de admiradores, e ela não sabia o que fazer com isso. Não recebo prata aqui com freqüência para saber o que pagam por ela. A ignorância estava custando, à mulher, o lucro de que obviamente precisava. Mas ninguém ia a lojas de segunda mão a não ser à procura de barganhas. Se oferecesse mais, a mulher tomaria isso como ato de caridade e se ofenderia. Sandra não queria insultá-la, mas, muito menos, roubá-la. Aiden aproximou-se do balcão e disse: — Cinco libras é aceitável, senhora. Ao mesmo tempo que Sandra lhe dirigia um olhar consternado, a velha mulher disse: — Vendido. Ele perguntou enquanto enfiava a mão no bolso interno do paletó: — Qual é o seu nome, senhora? — Para que o senhor quer saber? — Nunca faço negócios com pessoas cujo nome desconheço. Sei que isso é meio estranho hoje em dia. Os negócios tornaram-se frios e impessoais. Prefiro o sistema antigo. Projeto Revisoras

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— Dora Elmore — ela informou. — E o seu? — Reginald Majors. E esta é minha esposa, Millicent. Reginald? Milicent? Por que Aiden estava inventando aqueles nomes?, Sandra conjeturou. Ele pegou a mão livre de Dora e pôs uma nota de cinco libras na palma, dizendo: — É um prazer fazer negócio com a senhora, sra. Elmore. — É, sim — Sandra acrescentou ao vê-la roçar os dedos na nota. — Obrigada por ter o que precisávamos. Estou contente por tê-lo encontrado. — Não estariam precisando dos outros dois faqueiros? — Dora indagou. — Não aparecem muitas pessoas procurando prata ou com dinheiro para pagar por ela. Sandra olhou para os outros dois no balcão. — Também cinco libras cada um? — Seriam outras dez libras. — Millicent?! Como o faqueiro de Westerham, os dois valiam muito mais. Mas era melhor Dora Elmore ganhar algum dinheiro naquele dia do que a prata ser jogada no lixo quando ela morresse, Sandra refletiu e olhou para Aiden. — Reginald, suas irmãs também se casarão um dia. Podemos guardar estes dois para elas — disse, continuando a charada. Aiden piscou, pegou mais duas notas de cinco libras e as pôs na mão da mulher. — Muito bem, sra. Elmore, levaremos os três. E obrigado por me poupar de procurar presentes de casamento no futuro. A senhora não calcula como lhe sou grato. — Estou mais ainda — Sandra disse baixinho. — Obrigada, sr. e sra. Majors. Que Deus os abençoe — Dora disse. Saíram, Aiden carregando os três pacotes e Sandra vendo a mulher rir para o dinheiro nas mãos. Quinze míseras libras. Deveriam ser trinta, Sandra pensou, triste, enquanto seguiam para a carruagem de Barrett. — Você viu sua expressão? Ela nunca segurou quinze libras de uma vez só— Aiden comentou. — Nunca segurou nem duas de uma vez só. E o triste dessa história é esta prata toda valer o dobro do que ela pediu. Eu estava tentando encontrar uma maneira de oferecer a quantia justa quando você interferiu e aceitou as cinco libras.

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— Oh, me desculpe! — ele exclamou, surpreso. — Pensei que você estivesse tentando pagar menos. Eu não estava preocupado com o preço do faqueiro, desde que o pegássemos. — Não faz mal. Só lamento por ela. Idosa, quase cega, meio aleijada e pobre. Com uma neta que parece ser não só rameira como também ladra e não muito esperta. — Por que você diz isso? — Primeiro porque ela roubou o faqueiro com monograma e, segundo, quando não conseguiu passá-lo a um receptador, o deu para a avó vendê-lo numa loja de bugigangas em vez de mandá-lo derreter e vender a prata. — Sabe — Aiden comentou rindo quando alcançavam a carruagem —, as pessoas têm sorte por você ser honesta, porque daria uma ótima ladra. — Abriu a portinhola da carruagem e dirigiu-se ao cocheiro: — Banco Seaman's, por favor. Sandra conteve a curiosidade até partirem. Então, indagou: — Por que vamos a um banco? — Lorde Westerham deu duzentas libras a Barrett para comprar o faqueiro de volta. — Deus do céu, Aiden, eu não calculava que alguém pudesse ficar tão desesperado. Duzentas libras? É uma quantia absurda! — E devolver-lhe cento e quinze vai contra meu feitio. Ele nunca vai sentir falta desse dinheiro. — Você não vai ficar com ele, não é? — Sandra indagou, apreensiva. — De certa forma, sim. Vou colocá-lo num fundo com ordem para, no primeiro dia de cada mês, duas libras serem enviadas em nome de sr. e sra. Reginald Majors para a sra. Dora Elmore, em Whitechapel, pelo resto de sua vida. Se ela falecer antes de o fundo se esgotar, o resto deverá ser enviado a um orfanato. — Foi por isso que você inventou os nomes? — Só espero que eles não existam. Falei os primeiros que me vieram à mente. — E se Dora sobreviver ao fundo? — Porei mais dinheiro nele pelo tempo que for necessário. Vinte e quatro libras por ano não é muito. — Você é um homem muito bom, John Aiden Terrell. Alguma mulher já resistiu a você? — Lady Ogden. Mas ela não conta, porque, segundo os rumores, prefere mulheres.

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Com o coração leve, Sandra o avaliou. Sabia que ele não lhe servia, pois era tentação sem compromisso, alegria sem restrições. Quando os caminhos de ambos se separassem, seu coração iria sofrer de saudade. Mas era tarde demais para evitar tal conseqüência, pois ela já havia ido longe demais. Não ganharia nada se retrocedesse. Não tinha certeza que bem lucraria em seguir em frente, mas conhecia Aiden o suficiente para saber que a jornada para descobrir seria magnífica. — Em que está pensando, Sandra? Ah, tão meigo, tão sedutor! Ele sabia muito bem em que ela pensava. — Em que nenhum de nós dois nunca será santo. Aiden arqueou as sobrancelhas. — Desapontada? — Nem um pouco. Devagar, ele expirou o ar. — Se não estivéssemos a meio quarteirão do banco... Sandra olhou pela janelinha, imaginando quanto tempo levaria para acertar a questão do fundo. Só esperava que não perdesse a coragem em algum lugar do saguão. Um sino bateu a meia hora. Aiden sorriu enquanto, mais uma vez, seguiam para a carruagem. Meio-dia e meia. Haviam assistido ao leilão, recuperado o faqueiro de Westerham, aberto o fundo, e Sandra estava prestes a ceder. Era incrível o que se conseguia quando se fazia algum empenho. A única frustração era ter gastado tanto tempo observando Whitechapel Road e não ter visto nem sinal do indiano desconhecido. Seria bom resolver essa questão também, mas ele não estava disposto a abandonar os planos por causa dela. O desgraçado que tentasse entrar em Haven House! — Terrell! Com a mão na portinhola, ele fez Sandra entrar e virou-se. — Hawkins? Prazer em vê-lo depois de tanto tempo! — Intervenção divina! — Como assim? — Aiden perguntou, rindo. — Crumb está fora com uma perna quebrada, o que nos deixa sem um jogador para o Desafio Fora de Temporada. Você o substituirá? — Gostaria muito. Quando será o jogo? — À uma hora, no Campo Prichard. Estou indo para lá agora, mas meio atrasado. Se tivesse saído antes do escritório, não teríamos nos encontrado. Só pode ser um sinal do destino! — Hoje?! — Aiden se espantou. — Mas nem me lembro de onde está meu uniforme.

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— Passarei na casa de Crumb, que fica no caminho, e pegarei o dele. Deve servir em você. Deus do céu, lá se ia sua tarde com Sandra! — Faz tempo que não jogo... — Não importa, porque nunca se esquece como jogar. Diga sim, por favor, caso contrário, entraremos com um jogador a menos. Este ano nosso adversário é Blackthorn. Eu gostaria de, pelo menos uma vez, mandar esse time humilhado para casa. Não teremos chance se você não jogar. Blackthorn. Maldição. Se houvesse um jogo que valesse a pena era esse. Aiden virou-se para a carruagem e pôs a cabeça dentro. — Sandra, você se importaria com uma pausa nos planos? Levará perto de duas horas. — Para quê? — Um jogo de rúgbi. Hawkins espiou dentro e aparteou: — Os Blackthorn pensam que são superiores a todos e nós precisamos muito que Aiden jogue. Sandra sorriu com expressão paciente. — Vejo que você se sente atraído pela possibilidade de se estraçalhar e não sou eu quem o impedirá, Aiden. — Posso ir com Hawkins e pedir a nosso cocheiro que a leve para casa, se preferir — Aiden sugeriu. — E quem o levará a um médico depois do jogo se for preciso? Não, irei também. Aiden endireitou-se e olhou para Hawkins. — À uma hora no Campo Prichard. Estaremos lá. O outro afastou-se depressa, depois de dizer por sobre o ombro: —Você é um bom sujeito, Terrell. Aiden sorriu sem-graça e olhou para o cocheiro de Barrett. — Eu ouvi, senhor. Agora, para o Campo Prichard. Se o senhor quer chegar lá à uma, temos de nos apressar. O veículo partiu antes de ele fechar a portinhola. Sentou-se, sentindo-se aborrecido e frustrado. — Lamento muito, Sandra. Eu me comprometi sem pensar. Deveria...

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— Não se desculpe, Aiden. A vida tem seu próprio ritmo e tudo acontece na hora destinada. — Imagino que sim — ele concordou ao olhar pela janelinha. Lá, logo atrás deles, na calçada e com a mão erguida para chamar um tílburi, estava o indiano desconhecido. Não havia tempo para pular fora e enfrentá-lo. E a área bancária não era o lugar para isso. Aiden fez o que pôde. Sandra viu-se puxada para o lado dele, soltou um gritinho e, perplexa demais, não resistiu quando ele, com. um braço em sua cintura e outro nos ombros, a estreitou contra o peito e apontou. — Lá! Subindo no tílburi. Você conhece aquele homem? — Não. Eu nunca o vi — respondeu sem fôlego enquanto a carruagem ganhava velocidade e o outro veículo sumia de vista. Ainda com ela entre os braços, Aiden explicou: — Eu o vi três vezes. A primeira espiando pela janela da Blue Elephant no dia em que você quase foi raptada. E duas vezes hoje. — Tudo que posso dizer é que parece ser xátria. — Explique, por favor. — De maneira resumida, há quatro castas na Índia, do nível mais alto ao mais baixo. Os brâmanes são os líderes religiosos e os professores; os xátrias são os guerreiros e governantes; os vaixias são os comerciantes e banqueiros; e os sudras são os serviçais. Há ainda os intocáveis, mas são considerados tão baixos que não têm condição social. A família de Mohan, obviamente, é xátria. — Como você reconhece a que casta alguém pertence? — Geralmente, pelo tom da pele, mas pode haver exceções. Quanto mais clara a pele, mais alta a casta. Isso, as ocupações e a maneira de vestir. Pela aparência, aquele homem é xátria. — Por que ele a estaria seguindo? — Para encontrar Mohan? — Não creio. Se alguém quisesse achar o menino, bastaria indagar nas docas daqui e da Índia. Você recebe carregamentos regulares de mercadoria. Muitos homens poderiam informar onde a encomenda é entregue. — Os do tio de Mohan são muito leais. Por causa dos laços de família ou por medo, não falariam com estranhos a esse respeito. — Da manhã à tarde dos últimos três dias, cavalguei pela cidade com Mohan. Ninguém surgiu das sombras. Mas a levo à cidade uma vez e lá está ele. É você, Sandra, a presa. Por quê?

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— Você está imaginando coisas, Aiden. Era impossível concordar. — Mohan me contou que algumas pessoas na corte do pai se opõem à sua presença. E verdade? — Ele é muito criança para entender essas coisas. Aiden beijou-a no topo da cabeça e, depois, virou-a para fitá-lo. — Nós já fomos longe demais juntos, minha querida duquesa, para você esquivar-se de minhas perguntas — ele disse ao pegar suas mãos. — Abra-se comigo, Sandra. Não posso protegê-la se ignoro de onde vem o perigo. Ela sorriu com amargura. — Uma das maiores certezas na vida da corte é não se saber de onde vem o perigo. A intriga é uma arte, Aiden. Quem não a maneja bem, morre cedo. Os que sobram para tramar esquemas são os melhores em disfarçar as intenções e esconder os aliados. — Por que alguém haveria de querer prejudicá-la? Inveja? Sandra não conteve o riso. — Pelo amor de Deus, Aiden, por que alguém haveria de me invejar? — Porque você é brâmane e eles invejam sua condição. — Não sou, não — ela contestou, rindo. — Se alguém quisesse me incluir numa casta eu seria vaixia, por que minha família é de comerciantes. Alguns até me considerariam intocável porque sou inglesa e cristã. Não existe motivo algum para alguém me invejar. Aiden não tinha escolha a não ser jogar a carta mais alta. — Talvez alguém pense que você pode se tornar a nova esposa do rajá ou uma de suas companheiras. — Existem regras severas sobre relacionamentos íntimos de castas diferentes. Violá-las provoca riscos pessoais e sociais. — Mohan diz algo diferente. — Ele tem falado demais ultimamente, não tem? — Mudança de assunto, querida. Não vai adiantar. Mohan pensa que você se casará com o pai dele. Sandra ficou boquiaberta e o espírito dele elevou-se. — Não sei por que ele diria uma coisa dessas, Aiden, pois sabe que isso jamais acontecerá. — Ela apertou os lábios e respirou fundo. — O que vou lhe contar deve ficar só entre nós, Aiden. Prometa. Ele assentiu com um gesto de cabeça e Sandra prosseguiu:

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— Se o rajá estivesse disposto a ter uma mulher inglesa, como esposa ou amante, ele e minha mãe não precisariam ter mantido uma ligação clandestina durante anos. O preço para admiti-la teria sido alto demais para Kedar. — Kedar? — O pai de Mohan. O nome dele é Kedar. — Quais teriam sido as conseqüências? — Ter relações íntimas com uma mulher que alguns consideravam intocável? Aqueles que queriam o trono para si mesmos ficariam felizes de usar tal arma contra ele. — Então por que Kedar arriscou ter um relacionamento secreto? — Eles se amavam, Aiden. Ousaram o máximo possível. Kedar tinha de fingir indiferença por ela, mas sentiu-se perdido quando minha mãe, de repente, ficou doente e faleceu. — Quem ambiciona o trono? Quem se opõe ao governo de Kedar? — É a Índia. A pergunta mais fácil para responder seria quem não ambiciona o trono? — Uma verdade afim. Se você tivesse uma lista dos conspiradores, quem estaria nela? Não adiantava tentar distraí-lo. Ele insistiria até onde pudesse. — No topo da lista estariam seu primo Kalin e o irmão mais novo, Hanuman. — Você faz idéia de onde possam estar? — Quando saí da Índia, estavam na corte. Kedar não os deixa fora de seu olhar. — São homens ricos? — Posso ver a linha de seu pensamento, Aiden. Sim, eles têm recursos financeiros para vir à Inglaterra. Mas seria a morte de Kedar e de Mohan que os beneficiaria e não a minha. Eu não tenho a mínima importância. Ele franziu a testa e olhou para as mãos entrelaçadas de ambos. — Voltamos à pergunta original. Quem deseja lhe fazer mal? — Ninguém, Aiden. — E as pessoas que, de um modo geral, se ressentem da presença inglesa na corte? Sandra gemeu e recostou-se no banco. Aiden podia ser inflexível. Com a máxima paciência, ela explicou:

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— Por mais que detestem estar sob ordens inglesas, eles são realistas o bastante para saber que existem vantagens em conhecer os costumes dos governantes. Além disso, não têm o poder e os meios para fazer qualquer coisa a não ser reclamar. Desde que o pai de Mohan mantenha o acordo de trabalhar com os ingleses, a única coisa que lhes resta é serem desagradáveis. No mesmo instante, ele declarou: — Sandra, nunca acreditei que aqueles dois malandros foram à Blue Elephant para roubar prata. Aquilo podia ser a desculpa ou uma segunda idéia, mas não a razão principal. Penso que foram mandados com instruções para raptá-la e a levar para alguém. Ou apenas levá-la para fora e matá-la. Tem de haver um motivo. — Se há, não faço idéia do que seja, a não ser tornar mais fácil pegar Mohan. — Se quisessem isso, eu seria o alvo. Más é você. Deus ajudasse para que ele não confundisse suposição com realidade. Sandra observou-o enquanto ele olhava pela janelinha, frustrado por não ver o que queria. Seu coração confrangeu-se e a irritação passou. Mexeu-se no banco e tornou a encostar-se no peito dele. — Que eu saiba, o uniforme de rúgbi delineia o corpo muito bem. É muito inspirador. Não que você precise da ajuda de roupas. — Você está flertando perigosamente perto do precipício, querida. Aliás, o tempo todo. — Eu sei — ela respondeu, deliciando-se com o calor do corpo dele que passava para o seu. — A certa altura, vou traçar uma linha e desafiá-la a transpô-la. — Sei disso também. Ele mordiscou-lhe a ponta da orelha, murmurando: — Peça para eu não jogar. — Não, você prometeu a Hawkins estar lá. — Do que me arrependo muito — Aiden admitiu. — Tudo acontece na hora certa e nem um momento antes. Ele afastou seus cabelos da nuca e roçou os lábios na pele enquanto dizia: — Paciência não é uma de minhas maiores qualidades. Ela inclinou a cabeça para a frente a fim de facilitar-lhe a carícia. Apesar de sua afirmativa, Sandra tinha certeza de que ele era o homem mais meigo e paciente que já conhecera.

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Aiden desceu da carruagem ciente de que James Crumb era bem mais delgado. A salvação dependia do campo. Depois dos escorregues na lama, o tecido poderia ceder o bastante para ele respirar melhor. — Misericórdia! Ele olhou por sobre o ombro e viu Sandra perto da roda dianteira, observando-o da cabeça aos pés. O que ela lhe provocava com um simples sorriso malicioso. — Querida, isto me serve razoavelmente, por isso, não precisa me olhar dessa maneira — Aiden afirmou. — Desculpe. Divirta-se, mas tome cuidado. Se rasgar alguma coisa, vai revelar o pouco que ficou por conta de minha imaginação. Seguir para o campo era um ato de negação. Pelo canto dos olhos, viu as cores e a movimentação do time Blackthorn. Fixou o olhar nos companheiros e foi andando. — Como você conseguiu conquistar aquela belezinha mestiça? Aiden reconheceu a voz e seu dono imbecil. Para ele não importava ser meia inglesa e meia qualquer coisa. Mas pureza de ancestrais tinha valor para outras pessoas, e Geofrey Walker-Hines era uma delas. Cerrou os dentes e continuou andando na esperança de que o outro se afastasse. — Você mesmo a trouxe da Índia? — Geoff insistiu ao caminhar a seu lado. — Foi lá que passou os últimos dois anos? Maldição. Ele estava de tão bom humor e, agora, aquele idiota de mente tacanha o fazia parar e encará-lo. — Não que faça alguma diferença, mas para sua informação, Geoff, minha mãe é irlandesa-americana. Falando com clareza, eu sou o vira-lata mestiço. Os pais de Sandra eram ingleses. — Você acreditou nisso? Passei meus dois anos de alistamento militar na Índia. Ela parece inglesa, mas sua postura é indiana. Está enganado, Terrell, ela é mestiça. Você era um dos melhores a ver através de pretensões e fachadas. — Pois você era e continua sendo um perfeito imbecil. — Pode ser, mas tenho meus princípios. Estou disposto, contudo, a fazer uma concessão para ela que, aliás, parece deliciosa. E? — acrescentou, olhando para Sandra. Uma raiva feroz o dominou e Aiden cerrou as mãos. Porém, reuniu o resto do autodomínio e as manteve caídas. Bem devagar, disse: — Você ultrapassou o limite da decência. A conversa termina aqui. Insistente, o outro propôs: Projeto Revisoras

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— Quando você se cansar dela... Tenho uma francesa no momento. Podemos trocar. Trocar? Como se Sandra fosse um cavalo ou um cão de caça? Aiden afastou uns passos e gritou por sobre o ombro: — Vá para o inferno, Geoff! — Arre, Terrell, sempre o homem de negócios. Diabo, o que isso tinha que ver com a questão? Aiden continuou a andar, querendo esfriar a cabeça. Geoffrey era um idiota de primeira grandeza. Embora tivesse vontade de esmurrá-lo, refletiu que não valeria a pena. — Muito bem, uma proposta de negócio — Walker-Hines disse ao alcançá-lo. — Dez minutos com ela, dez libras. Ou seja, uma libra por minuto. Enquanto isso, você usa Rose de graça. O que diz? Furioso, Aiden perdeu a fala. Num gesto rápido, ergueu a mão fechada. Foi um prazer ouvir o estalo de músculo contra músculo, de osso contra osso. O idiota caiu sentado, cuspindo sangue e dentes. Indiferente, Aiden flexionou os dedos e curvou-se. — Mantenha-se longe de minha dama. Se eu o vir a dez jardas de distância dela, eu o castrarei lá mesmo, Geoff. Não se esqueça. Walker-Hines tentava se levantar enquanto Aiden retomava a caminhada, rumo aos companheiros. Minha dama. Olhou por sobre o ombro e avistou Sandra ao lado da carruagem. Ela o viu e acenou. Retribuiu e, sorrindo, foi atrás de sua equipe. Sandra era uma mulher incrível e, entre todos os homens do mundo, ela o tinha escolhido. Sua dama. Sua amante. Logo. A vida era boa, afinal. — Ah, Aiden — Sandra murmurou ao vê-lo largar o corpo no banco à sua frente e partirem para a sanidade do lar. Ele sorriu, passou a mão nos cabelos enlameados e disse: — Um banho quente vai ser irresistível. — Não é o barro que me preocupa — ela afirmou ao inclinar-se para a frente, pegá-lo pelo queixo e virar-lhe o rosto. — Sua face e o canto do queixo estão esfolados. — Mas não doem. Ela ignorou a afirmativa e continuou o exame. Puxou-o pelo colarinho aberto e constatou: — Seu ombro também está esfolado. — É mesmo? Não senti nada.

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Só Deus sabia que outros machucados havia pelo resto do corpo. Felizmente, nenhuma fratura. — Aiden! — exclamou ao erguer-lhe a mão direita, horrorizada com os cortes, cobertos por sangue e barro secos, nas juntas entre três dedos. — Admito que esses ardem um pouco. — E você sugeriu que eu desse permissão para Mohan praticar esse esporte pavoroso. Aliás, chamar isso de esporte é generosidade. Nunca vi tamanha violência proposital. — Nós ganhamos — Aiden disse, sorrindo. — Isso valeu a pena sair de lá todo machucado e enlameado? — Claro. Por duas razões. A primeira é o fato de ser a primeira derrota que o time Blackthorn sofre nos últimos quatro anos. Não é uma conquista pequena. E a segunda é eu precisar de uns poucos cuidados de enfermagem. Há certas possibilidades nisso. — Para quê? Mais dores? No rosto sujo de barro e sangue, os olhos brilharam, matreiros. — Na verdade, prazer. Especialmente quando chegarmos naquela parte de você beijar para diminuir as dores. — Você é muito otimista — ela provocou. — De jeito nenhum. Sei que você tem o coração maior e mais mole da Inglaterra. — Sorriu e acrescentou. — Obrigado por ser tão gentil quanto ao jogo e o tempo que levou. Eu costumava jogar quase todos os dias. Ter essa oportunidade hoje foi como voltar no tempo. É como se os últimos dois anos não tivessem existido. — Então, admito que as esfoladuras tenham valido a pena — Sandra disse, desejando que ele gozasse essa paz o tempo todo. Aiden apoiou a cabeça no encosto e, sério, olhou para o teto. — Se você pudesse voltar no tempo e apagar algo que houvesse feito, Sandra, o que seria? Ele estava pensando em Mary Alice, no navio, na tripulação e em todas as perdas que não pudera impedir. Em vão, Sandra vasculhou a mente à procura de algo da mesma magnitude que pudesse lhe contar. Porém, teve de admitir: — Não posso me lembrar de nada. Aiden baixou o olhar e a fitou. — Você não tem nenhum arrependimento na vida? — Bem, arrepender-me de alguma coisa de que tenha feito depende de quando olho para trás. Há um mês, eu teria dito estar arrependida por ter vindo para a Inglaterra com Mohan. Se não tivesse, não estaria na situação difícil de resolver se Projeto Revisoras

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volto ou não para a Índia. Hoje, olhando para trás... Se não houvesse vindo para a Inglaterra, eu não o teria conhecido. Isso contrabalança tudo o mais. Por isso, em vez de estar arrependida, estou feliz por ter vindo. —Você ainda tem de tomar a decisão. — É verdade, mas isso não muda o fato de eu, agora, estar contente por ter vindo. Conhecê-lo é uma prazer maior do que a dificuldade para decidir. Ele a observou por um bom momento. Então, balançou a cabeça e disse: — Você tem uma maneira singular de olhar a vida, Sandra. Mesmo se for possível, vou gastar um bom tempo e muita reflexão para ver tudo do seu jeito. Outro quebra-cabeça para ele resolver. — Que Deus me ajude! Alguém já lhe disse que você tem a tendência para ser um cão desertor? — Se você pensa que sou tão mau, deveria conhecer meu pai — Aiden disse, rindo baixinho. Ele falava pouco do pai, mas sempre com sentimentos fortes. — Sabe, Aiden, é óbvio que você ama seu pai. Deveria fazer um esforço para transpor a fenda que os separa. Se não fizer, isso poderá ser mais um de seus remorsos. Ele deu de ombros. — Mas hoje não é. Se eu não tivesse tropeçado até Londres para escapar dele, não a teria conhecido. E como você está se tornando uma das melhores coisas que já me aconteceram, estou muito contente por ele e eu termos nos desentendido. — Prova de que algo bom sempre resulta de tudo. E também que você pode, sem grande esforço, moldar a maneira de pensar quando quer. Cantarolando baixinho, ele olhou pela janelinha. Sandra deixou-o vagar com os pensamentos. Não era fácil para ele focalizar o lado positivo dos fatos. Esperava que conseguisse. Caso sim, a vida dele seria mais feliz. Então, talvez ele olhasse para o tempo em que tinham convivido e reconhecesse que seu modo pouco convencional de viver tinha lhe mudado a maneira de encarar a própria existência. Por causa disso, ela seria a melhor coisa que lhe tinha acontecido. Era uma esperança nem um pouco realista, Sandra censurou-se. Dos dois, ela era a única apaixonada. Para Aiden, ela não passava de uma a mais num longo desfile de mulheres. Teria de se considerar feliz se ele, dali a cinco anos, lembrasse seu nome. Ela revirou a idéia mentalmente, tentando entender por que ela não a deprimia. Por não passar de uma conquista conveniente, deveria preparar palavras frias que pusessem fim a qualquer caso amoroso. Projeto Revisoras

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A verdade era que estava disposta a aceitar o fato de Aiden não amá-la. Seu amor por ele bastava. Desejava fazer amor com ele, verter todo o coração e a alma nele. O que recebesse em troca seria suficiente. Amá-lo era um presente que dava a si mesma, um muito especial e único na vida. Um presente que precisava ser secreto, decidiu, observando-o. Seria melhor que ele nunca soubesse que o amava. Seu presente para Aiden seria deixar claro que entendia e aceitava a natureza efêmera do relacionamento físico de ambos. Porém, fazer isso sem dar a impressão de estar comprando prata de segunda mão.

Capítulo VII

Acompanhados pelos gritos dos pavões, eles seguiram pelo quintal, rumo à cozinha. — Um dia desses, vou matar esses desgraçados. Avise Preeya para não se apegar muito a eles! — Aiden gritou para ser ouvido. Sandra riu enquanto trocava a chave da cozinha pelo bilhete que Aiden tinha tirado do trinco. — Por favor, diga que não é um pedido de resgate — ele disse às suas costas, ao fechar a porta. — É de Preeya. Ela informa que Mohan saiu com o sr. Stanbridge, pouco depois das dez da manhã, planejando voltar lá pelas quatro e meia. Como todos estivessem fora, Sawyer a levou ao mercado, mas não disse a que horas saíram e quando pretendiam voltar. — Calculo que logo — Aiden disse ao largar os dois faqueiros extras na mesa. — Ela ainda tem de preparar o jantar. A menos que tenha deixado tudo pronto nas panelas e no forno. A cozinheira de minha mãe fazia isso nos dias de folga. Sandra pôs o bilhete e as roupas ao lado dos talheres, tirou a capa e foi verificar no fogão. — Que eu veja, nada de jantar, mas há bastante água quente. Se você bombear um balde de água fria, eu o espero com a quente ao lado da banheira. — Vai se juntar a mim? Por uma fração de segundo a tentação floresceu, mas o bom senso falou mais alto. Projeto Revisoras

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— Com a possibilidade de Mohan, Stanbridge, Preeya e Sawyer passarem pela porta a qualquer minuto? — ela perguntou, rindo ao carregar o caldeirão de água quente para a área de banho atrás do biombo. — Viva perigosamente, Sandra — ele a provocou. Embora desejasse que ambos tivessem um pouco mais de tempo, ela despejou a água quente na banheira de cobre e avisou: — Vou só preparar a água do banho e, depois, irei para casa. — Prefiro que não vá sozinha — ele disse, sério. — Não a quero onde não possa vê-la ou ouvi-la caso grite pedindo socorro. O estranho, ela sabia. O mistério inexistente que ele não podia desvendar. — Está bem, ficarei aqui. A prata precisa ser limpa e eu farei isso enquanto você se banha. — Obrigado. Com o biombo entre nós, não há perigo de ferir sua sensibilidade. A não ser que você espie. — Não farei isso. Esse tipo de comportamento é de adolescentes — Sandra afirmou ao levar até ele as roupas usadas até antes do jogo. Mocinhas espiavam, mas mulheres adultas observavam. De longe, claro, Sandra retificou, sentada numa banqueta junto à mesa. Enquanto fingiam trabalhar. Não que houvesse muito para ser visto através do biombo de madeira entalhada. Os detalhes que faltavam eram supridos por sua imaginação. — Estou pensando em seu dilema sobre voltar para a Índia ou ficar na Inglaterra — ele disse quando já saía da banheira, pegava a toalha e começava a se enxugar. — Sei que está. Por que nunca havia notado como os ombros dele eram largos e o corpo, magro? — Acho que você está analisando pelo lado errado, Sandra. Não é o que mais quer e sim o que menos gostaria de fazer. — Não vejo como a mudança de perspectiva faz diferença, Aiden. — Pois faz. O que a assusta mais? Voltar para a Índia ou ficar aqui? A resposta foi clara e instantânea. — Voltar para a Índia. Existe uma qualidade de vida lá, um tipo aterrador de liberdade. Ou melhor, de expectativa. — De quê? — De sentir. — Sentir o quê? —: ele persistiu ao começar a se vestir. Projeto Revisoras

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— Tudo. Todas as emoções são consideradas de origem divina. Felicidade. Tristeza. Amor. Ódio. Desejo. Negar senti-las é negar a intenção de Deus. — Gosto da inclusão de desejo. — Imagino — ela disse ao ver-lhe as pernas desaparecer na calça escura. — Você se daria muito bem na Índia. Nem tentaria resistir às tentações. —Você estava certa, Sandra. Isto é muito complicado. Vamos ver se entendi até aqui. — Calçou as botas e prosseguiu: — Tendo nascido na Inglaterra e sendo criada na Índia, você não é indiana, tampouco totalmente inglesa. Embora tenha um pé em cada um dos mundos, você se sente como se não pertencesse a nenhum deles. Como estou me saindo? — indagou ao pegar a camisa no cabide. — Até aqui, muito bem. — Essa é a parte mais fácil. Há milhares de pessoas inglesas que compartilham seu dilema — ele disse ao sair de trás do biombo, uma visão de tirar o fôlego, nu da cintura para cima. — O que lhe põe à parte é com que profundidade você sente o conflito e que medidas vê para resolvê-lo. Sandra não se sentia nem um pouco dentro de um conflito. Deus do céu, ele era uma escultura fantástica. — Você é muito racional — ela disse, distraída com o fascínio pelos ombros, peito e braços nus dele. Se houvesse perfeição em forma humana, sem dúvida seria John Aiden Terrell. Ele estava em sua cozinha, vinha em sua direção, praticamente suplicando que o acariciasse. Largou a camisa e o paletó na outra ponta da mesa e, sorrindo, aproximou-se. — Você vai se sentir indiana ou inglesa hoje à noite? — Não sei. A noite ainda não chegou. — E como está se sentindo agora? — Talvez um pouco de cada. O que mais sinto é calor. Era quase um convite. — Posso ajudá-la com isso — ele disse ao estender as mãos e soltar os botões de sua blusa. Sandra prendeu-lhe o olhar. O pulso disparava e ela lutava para respirar. Então, ele afastou o tecido para os ombros e assoprou sobre os seios. Embrenhando os dedos nos cabelos dele a fim de não perder o equilíbrio, ela perguntou: — Você acha, sinceramente, que está ajudando? Apesar de suave, o sorriso dele era matreiro. — Aposto como sentir calor já não é tão incômodo como antes. — Por alguma razão não é tão desagradável. Projeto Revisoras

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Com expressão travessa no olhar, Aiden passou os dedos ao longo da borda do espartilho, provocando-lhe arrepios deliciosos. Ela sorriu e umedeceu os lábios secos. Então, os dedos dele escorregaram por entre as rendas e tocaram os mamilos excitados. — Oh! — Sandra balbuciou ao entregar-se às carícias. — Gosta disto, não é? — Aiden murmurou, sorrindo. — Muito mais do que deveria — ela confessou. — Não existem proibições para o desejo. Você gostou, pede mais. Era um desafio. Se recuasse, ele não a criticaria por sua timidez. Se aceitasse, não haveria mais restrição. Ele lhe daria a lua, as estrelas e todo o prazer que ela conseguisse gozar. — Mais, por favor. Agora, se você não se importar. O sorriso pecaminoso dele fez seu coração quase explodir. — Nem um pouco — ele respondeu ao colocar as mãos nas laterais dos seios, tirá-los de sua prisão e, então, baixar a cabeça. — Deliciosos — declarou ao beijar um dos bicos e, depois o outro. Levada por ondas de sensações potentes, Sandra prendeu a respiração, temendo morrer de desejo. — Oh, Aiden — balbuciou. Mulher alguma teria murmurado súplica tão ardente. Incendiou-lhe os sentidos e quase acabou com as intenções delicadas. Fechou os olhos e fez uma pausa, determinado a manter o andamento sob controle. Não podia apressar a arte de sedução. — Por favor, Aiden. Ele quase cedeu. Estavam na cozinha, disse a si mesmo, e os outros poderiam chegar a qualquer instante. Queria apreciá-la devagar, receber seus gemidos na boca, fazê-la estremecer de desejo e ouvir-lhe as súplicas pelo alívio da tensão. Sandra vergou o corpo para trás, oferecendo-lhe um tesouro. Através do rugir do coração, ele ouviu a própria respiração ofegante. Uma onda de calor e de desejo engolfou Sandra, fazendo-a gritar com o prazer inesperado que Aiden lhe proporcionava e aconchegar-se mais a ele. Uma segunda onda, muito mais poderosa do que a primeira, a dominou, satisfazendo-lhe a carência implacável. — Aiden! — gritou, as pernas cedendo sob as chamas gloriosas que a consumiam.

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Ele a puxou para cima, estreitando-a entre os braços. A sensação de seus seios contra o peito nu, de seus quadris apoiados sobre as coxas dele, o ajuste perfeito... Beijou-a apaixonada e loucamente, alucinado por sua reciprocidade irrestrita. O desejo o tentava a possuí-la ali mesmo no chão. A consciência protestava fracamente quando o mundo exterior os interrompeu. — Os pavões — Sandra murmurou, assustada. Alguém tinha chegado. O fato o fez refletir com clareza. — Eles merecem viver — declarou enquanto afastava Sandra e a firmava nos próprios pés. Não conseguiu resistir e beijou-a mais uma vez enquanto a rodeava. Apanhou a camisa e enfiou os dois braços ao mesmo tempo. — Vou distraí-los e impedir que entrem logo para lhe dar tempo de ajeitar as roupas. Sandra não disse nada e ele, enquanto se abotoava depressa, observou-a. Com expressão alheia e feliz, ela o fitava. — Vista-se, querida — ele ordenou, ao enfiar a fralda da camisa na calça e ver seu sorriso alargar. Por Deus, ela era uma tentação deliciosa. Temia aproximar-se dela, mas se não a despertasse daquele delírio... — Sandra! Com um pequeno susto, seus olhos o focalizaram. Deliciando-se com a visão, Aiden recuou até a porta. — Eu a verei no jantar. De preferência, não, tudo isso de você. Pelo menos não àquela hora. Rindo, Sandra cobriu os seios com as mãos, Aiden retirou-se antes que ela desse fim ao resto de seu bom senso. Nas sombras do estábulo, Aiden esperava que a brisa da tarde lhe esfriasse o sangue e o fizesse recuperar o bom senso. Lá dentro, Mohan e Barrett conversavam, mas era impossível entender o que diziam. Não importava desde que eles não saíssem já lá de dentro. Ele precisava de tempo para disfarçar a lembrança deliciosa de Sandra e para certa parte do corpo voltar ao normal. A última coisa que queria era cruzar com Barrett, antes de a máscara de compostura fria estar no lugar. Seu relacionamento com Sandra era particular e continuaria assim. Não estava disposto a compartilhar o assunto com ninguém. Sandra se sentiria mortificada se pensasse que alguém sabia. Bem, talvez fosse um pouco de exagero seu. Ela ficaria embaraçada e, depois, em sua maneira típica, sorriria e diria algo sobre a experiência fabulosa.

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Bem, como estava sendo honesto consigo mesmo, admitia não ser solicitude pela reputação de Sandra que o motivava a manter em segredo o que se passara entre ambos. Caso se importasse muito com ela, teria mantido p controle e a situação não teria ido tão longe. Fora muita sorte ninguém os ter pegado em flagrante. Se não fosse pelos pavões... Aiden balançou a cabeça. Havia perdido o controle sem querer. Aí estava o problema que não revelaria a Barrett. Egoísmo puro. Sandra era tão diferente de todas as mulheres que ele havia conhecido. Se fosse preciso, venderia a alma a fim de fazer amor com ela. Em algum ponto do caminho, havia se tornado um homem desesperado, faminto. Um daqueles patéticos de quem os racionais sentiam pena. E o mais patético era ele gostar de desejá-la. De maneira inexplicável, havia algo certo na situação. E se o prazer nas carícias iniciais tinha sido tão intenso, Deus sabia que o do clímax provavelmente também o seria. Provavelmente! Sandra o reduziria a um monte de cinzas saciadas e sorridentes. Ele não ia se furtar à chance de tal êxtase fantástico, nem evitar a autocensura. Era egoísta e também vaidoso, mas jamais idiota. Bastaria ser cuidadoso e viver as fantasias sonhadas. A opinião de Barrett seria a mais difícil de ser contida. O jeito seria manter a conversa só nos negócios e longe de assuntos pessoais. O amigo tinha a habilidade de enxergar através de negativas. Não se mentia a Barrett sobre algo importante. Caso o fizesse e escapasse ileso era porque ele permitia. Porém, mais tarde, acertaria as contas. Aiden flexionou os ombros. Felizmente havia muita coisa sobre a segurança de Sandra que precisavam conversar. Saiu das sombras e dirigiu-se à porta aberta do estábulo. Barrett e Mohan já saíam por ela. — Pensei que fossem vocês que os pavões anunciaram — Aiden comentou ao parar no limiar da porta. Ao ver o meio sorriso do amigo, continuou: — Uma ótima notícia, Barrett. No banco de sua carruagem, você encontrará o faqueiro de Westerham. Completo, menos uma faquinha para manteiga. Acho bom você tê-la guardado, pois se pensa que vou procurar uma reposição, desista. — Você o encontrou mesmo? Quanto custou? — Foi Sandra quem achou. As duzentas libras. E foi um trabalhão. A dona da loja era intransigente. O olhar de Barrett caiu em sua mão. — Não foi preciso esmurrá-la, certo?

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— Fui atraído para uma partida de rúgbi esta tarde. Contra os Blackthorn. Walker-Hines joga no time deles. — Deixe eu adivinhar. Com a habitual falta de bom senso, ele se aproximou de Sandra e fez uma proposta indecente. — Se ele a tivesse tocado, seu advogado estaria cuidando de minha fiança, pois eu o teria matado. Mohan sorriu e Barrett balançou a cabeça. — Uma pena que ele tenha tido um pouco de bom senso hoje. — Sorriu. — E o Blackthorn foi finalmente derrotado? — Por cinco a dois. — Parabéns, John Aiden. Mas devo dizer que você não parece muito satisfeito com o sucesso. Qual é o problema? Aiden olhou para Mohan e sorriu. — Preeya foi ao mercado com Sawyer e acho que Sandra está na cozinha cuidando do jantar. Você pode ir lá ver se ela precisa de ajuda? O menino suspirou, mas afastou-se. Mal tinha dado uns passos rumo à cozinha quando Barrett indagou: — Você acha que Sandra está na cozinha? Não sabe? Aiden ignorou a isca, encarou o amigo e perguntou: — O que você sabe sobre a Índia? — Não muito. Por quê? — Vamos até sua carruagem enquanto conversamos — Aiden sugeriu e virouse. Quando já andavam, começou: — Estou montando um quebra-cabeça, mas ignoro tudo sobre a Índia para saber se o desenho faz sentido ou não. — Por sua expressão, penso que você enfrenta problemas. Jogue as peças na mesa e, juntos, tentaremos encaixá-las. — Nem sei por onde começar — ele disse e Barrett riu. — Se bem me lembro, Sandra Radford disse a mesma coisa naquela manhã em que foi a meu escritório. E você não estava nem um pouco interessado em ajudá-la a se explicar. Ora, ele esforçava-se em ser um idiota naquela manhã. Prova do senso de justiça de Sandra ela lhe permitir que se redimisse. — Eu não entendia como seu mundo era complicado. E como também ela é. Mesmo se eu tivesse a eternidade, jamais a entenderia. — Mas você não tem.

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Indireta sutil de Barrett sobre Sandra ser uma relação temporária tanto profissional quanto particular. — Correto. E se estou certo quanto ao enigma, ela também não tem. —Você persiste na idéia de que é ela quem corre perigo e não o menino? — Ela quase foi raptada e vem sendo seguida. Eu o vi hoje de manhã e, depois, à tarde. É o mesmo homem que espiava pela janela naquela manhã. Sandra não o reconheceu, mas acha que ele é da mesma casta de Mohan e do pai. — Isso é importante? — Diabo, não sei — Aiden confessou, frustrado. — O assunto de castas surge com certa freqüência. Quase sempre em relação ao que uma pessoa não pode fazer. — Por exemplo? — Melhor uma pessoa não se apaixonar por alguém de outra casta, pois não terá permissão de vencer essa barreira. — Acho que as expectativas inglesas não são muito diferentes. Exceto que minha mãe já se mostra disposta a aceitar uma nora plebéia caso eu resolva procurar uma. Talvez sejam mais pacientes na Índia quanto à produção de netos. — Qual é a relevância disso? — Nenhuma. Apenas minha cruz no momento. Quem se apaixonou por alguém impossível? Barrett e suas perguntas. Lembrava Mohan, mas bem mais perigoso. — Ninguém. Foi só uma ilustração — mentiu, mantendo a promessa a Sandra. — Eu não mencionava alguém em particular. Antes que Barrett pudesse pressioná-lo, citou outra informação obtida depois da última conversa de ambos. — Sandra me contou que Kedar, o pai de Mohan, tem dois rivais para o trono. O irmão mais novo e um primo. Ambos estão na Índia e sob vigilância contínua. Segundo ela, nenhum dos dois tem o mínimo interesse em vê-la eliminada e sim em remover Kedar e Mohan da linha de sucessão. — Então por que alguém a está seguindo? — Minha pergunta exatamente — Aiden argumentou quando chegavam à carruagem e paravam. — O paradeiro de Mohan não é segredo. Eles não têm de seguir Sandra para encontrá-lo. E quanto à questão de ela se casar com o rajá algum dia... Sandra afirma que Mohan não sabe o que está falando. Seria impossível, pois são de castas diferentes. — Bem, isso impossibilita a teoria de ela produzir um herdeiro meio inglês para o trono, a que eu favorecia. Isso me desaponta.

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— Era a única que eu tinha. Maldição, Barrett. Posso farejá-la, mas não consigo vê-la. Que ameaça ela pode ser? Para quem? — Talvez Sandra saiba algo ou tenha visto alguma coisa que não deveria. — Nesse caso, ela estaria ciente disso, mas afirma que não existe motivo algum para alguém querer lhe fazer mal. — E quanto a Preeya? Você já lhe perguntou? — Barrett sugeriu, — Até hoje de manhã, eu não tinha certeza de que Sandra corria perigo. Chegamos em casa faz pouco tempo e nos desencontramos de Preeya e Sawyer que foram ao mercado. — Um pouco tarde no dia para se estar no mercado, não acha? — Esta casa não segue o relógio. Não um inglês, pelo menos. Quando ela voltar, perguntarei. Mas, Barrett, não acho que ela saiba alguma coisa. Se pensasse que Sandra corria perigo já teria me contado. — Não penso que adiantaria perguntar a Mohan. Ele já mostrou ser uma fonte meio duvidosa de informação. Além do mais, o que um menino de dez anos pode saber? — De qualquer forma, perguntarei. Mal não fará. Ficaram em silêncio, Barrett com o olhar perdido pela cidade. Sentia uma inquietação crescente, uma indagação nebulosa o instigava dos limites da consciência. Se a focalizasse... — A mãe de Sandra e o rajá? — indagou abruptamente. Confuso, Aiden o observou. — O que você quer dizer com isso? — Eu me refiro aos dois que se apaixonaram e não puderam ficar juntos. Eram a mãe de Sandra e o rajá? Por Deus! Bastava dar uma colher de farinha ao homem e ele faria um bolo! — Eu não disse isso — Aiden protestou. Barrett fitou-o e sorriu. — Não precisava. As vezes posso somar dois e dois e chegar a uma conclusão razoável. — Deveria ser segredo. Prometi a Sandra que não contaria a ninguém. — Fique sossegado — Barrett garantiu. — Eu gostaria muito se você pusesse essa sua habilidade de dedução para resolver meu problema. Já faz dias. Por que hoje novamente? — Desculpe, não entendi. Habilidade de dedução vai até certo ponto. Aiden suspirou enquanto a indagação tornava a passar pela mente.

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— Ele espiava pela janela da Blue Elephant no dia em que Sandra quase foi raptada. Então desapareceu. Por que surgiu hoje novamente? — Estamos falando do desconhecido? — Eu o chamo de Sombra Esquiva. — Sandra saiu de casa desde aquela manhã, sem ser hoje? — Não. Porém, ela não saiu naquela manhã. Por que ele estava lá duas vezes hoje? — Boa pergunta. Eu gostaria de lhe oferecer a resposta certa. A única maneira é arrancá-la do indiano. — Teríamos de agarrá-lo primeiro e ele é rápido. Nunca se consegue vê-lo de relance mais do que duas vezes antes de sumir. — Até o melhor comete um erro eventualmente, John Aiden — o amigo garantiu ao dar-lhe um tapa no ombro. — Quando o fizer... Barrett abriu a portinhola, instruiu o cocheiro para levá-lo ao clube e entrou. O cocheiro já tinha as rédeas nas mãos quando a questão adquiriu contornos suficientes para serem percebidos. Aiden admirou-se da simplicidade dela e entendeu tanto as implicações quanto o caminho a seguir. — Barrett! Espere! — Agarrado à janelinha aberta, perguntou: — Você pode voltar aqui mais ou menos às duas da madrugada? — Se você necessita de mim, sim. O que tem em mente? Ele precisava de tempo para pensar nos detalhes, mas a idéia central estava clara. — Deixe a carruagem em casa. Venha com roupas escuras e armado. Explicarei tudo então. — Muito bem. Às duas. Aiden afastou-se e fez sinal para o cocheiro partir. Censurava-se por ter passado o último ano bebendo para não pensar. Agora, que precisava refletir com clareza, achava difícil além de gastar mais tempo. Talvez, se tivesse sorte, de manhã cedo, a inércia do raciocínio não importaria mais. Onde, exatamente, calculou ao observar as casas e os becos em volta da Blue Elephant. O Sombra Esquiva estava lá observando, ele podia sentir. Era a parte menor de sua inquietação. A maior devia-se à certeza de o tempo estar se esgotando depressa. Foi mais para o lado do terreno de onde podia ver melhor a vizinhança. Em algum lugar... Uma carruagem de aluguel parou a poucos passos de distância. A portinhola abriu e Sawyer desceu com uma cesta pendurada no braço. Ajudou Preeya a fazê-lo e

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ofereceu-lhe o braço. Aiden os observou vindo em sua direção, mas sem dar por sua presença. — Boa tarde, Sawyer e Preeya. Sawyer assustou-se, mas, ao reconhecê-lo, respondeu à saudação: — Boa tarde, senhor. Porém, seguiu em frente sem parar o que fez Aiden sorrir enquanto uma possibilidade tomava forma. — Sawyer, você está cortejando? O mordomo parou e virou-se, dando a impressão de estar pensando em várias respostas antes de sorrir e informar: — Sua camisa, senhor, está desabotoada. Aiden baixou o olhar, mas não viu nenhuma casa sobrando. Tocou o colarinho e mal acreditou. De um lado havia um botão a mais. Tinha ficado todo aquele tempo conversando com Barrett como se tivesse um aviso pendurado no pescoço. O desgraçado adivinhara, mas não havia dito nada. O embaraço aumentou quando Preeya se aproximou e estendeu a mão para o peito dele. Perplexo, Aiden a viu soltar um longo fio de cabelo preto de um dos botões. Com um sorriso malicioso, entregou-o a ele. — Obrigado, Preeya — conseguiu dizer. Forçando-se para não sorrir, Sawyer disse: — Caso não faça objeção, senhor, Preeya e eu jantaremos a sós na cozinha. Como se ele estivesse em situação de adverti-los sobre o valor da virtude. — Nenhuma, Sawyer. Fiquem à vontade. Aiden os viu afastarem-se, pensando que a cozinha era um ambiente de influência romântica. Primeiro Sandra e ele e, agora, aparentemente... Gemeu e fechou os olhos. Não havia outra explicação, tinha encharcado os miolos com conhaque. Caso contrário, não teria esquecido que, praticamente, havia convidado Sandra para dormir com ele essa noite. Impossível descartar Barrett e adiar a caçada até a noite do dia seguinte. A ameaça estava lá e, suspei tava, chegava cada vez mais perto. Tinha de ser podada antes de o mal florescer. Só lhe restava esperar que Sandra fosse não só a mulher mais encantadora e excitante que ele já conhecera como também a mais paciente e compreensiva. Tudo a seu tempo certo, Sandra disse a si mesma enquanto escovava os cabelos. O jantar havia saído mais tarde dado ao fato de Sawyer ter ficado com Preeya na cozinha. Depois, um banho quente fora muito bom.

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Agora, porém... Sandra largou a escova e olhou-se no espelho da penteadeira. Estava banhada, perfumada e penteada como deveria uma mulher que ia para a cama com um homem. Não qualquer um e sim Aiden Terrell que, sem dúvida, já tinha perdido a esperança de que ela batesse em sua porta. Sandra queria fazer isso. Se não se atrevesse, passaria o resto da vida desejando ter a chance de voltar atrás no tempo. Admitia preferir que Aiden viesse a sua porta. Era um tanto formal demais apresentar-se a ele e perguntar-lhe se ainda estava interessado em fazer amor. Aiden também devia sentir a mesma coisa ao pensar em atravessar o corredor. Só que, para ele, resultaria a sensação de tê-la forçado a aceitá-lo. Decidida, encarou-se no espelho. Ia ter de reunir tudo que ouvira nos aposentos das mulheres, mais o que tinha lido nos livros antigos e assumir a iniciativa. Quando Aiden olhasse para trás, como certamente o faria, queria que ele se maravilhasse como havia sido seduzido e espoliado. Por uma virgem. Sandra riu, levantou-se e pôs o penhoar sobre o corpo nu. Esperava que ele ainda estivesse acordado e as outras pessoas, imersas no mais profundo sono. E se os deuses fossem benevolentes, logo no início, tudo deixaria de ser formal. Pela réstia de luz na soleira da porta, uma vela brilhava no quarto. Sandra fechou os olhos e ergueu a mão. Ciente de Preeya e Mohan a poucas portas mais adiante, deu só duas batidas leves na porta. Então, abriu os olhos e prendeu a respiração. A maçaneta girou e a porta abriu, revelando Aiden com apenas um lençol enrolado nos quadris. Os ombros nus refletiam a luz suave da vela e os cabelos, como sempre despenteados, caíam na testa num convite a uma carícia. O frio no estômago melhorou enquanto ela o observava. Aiden a aguardava com olhar de fascínio e adoração. Por mais que vivesse, ela sabia que sempre mediria a devoção de todos os homens sob a luz desses olhos que, nesse momento, lhe sorriam. Aonde quer que essa noite os levasse, ela sempre compararia esse instante com a chegada final ao lar. Parte sua ansiava atirar-se aos braços dele e lhe dizer que o amava. Outra queria apenas ficar ali apreciando o magnífico presente que ele era. Aiden podia perceber isso pela posição de seu queixo e em sua respiração curta. Sua duquesa inocente e audaciosa. — Sandra — murmurou estendendo-lhe a mão que ela aceitou, deixando-se ser tirada da soleira da porta que ele fechou a suas costas. Ainda segurando sua mão, ele pensou em dizer algo, mas só podia admirá-la. Por Deus, era a mulher mais linda que ele já tinha visto. Sob a luz da vela, seus olhos estavam escuros e a pele levemente lustrosa. Ergueu a mão livre e passou a ponta dos dedos pela curva de seu queixo. Sempre pensara que o céu teria o perfume suave de flores. Estava enganado. O odor do céu era intoxicante e pungente. Projeto Revisoras

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— Esta tarde, você me perguntou se eu me sentiria inglesa ou hindu agora à noite — ela disse baixinho. — E você respondeu que não sabia. Espero que tenha se decidido. — Na verdade, não. Mas tenho certeza sobre outras coisas. Gosto quando você me abraça, beija e acaricia. E quero, mais do que qualquer coisa neste mundo, saber como me sentirei ao adormecer entre seus braços. O coração dele ameaçou explodir. Lábios tão perfeitos, admirou-se ao tocá-los com os dedos e lembrar-se de como eram deliciosos sob os dele. — Não posso prometer que você dormirá — murmurou. Ela beijou-lhe os dedos, provocando uma quase parada do coração. — Não quero promessas, Aiden — ela sussurrou fitando-o. — O que houver entre nós será tudo que existirá. Não exigirei mais nada. Aiden soltou sua mão e acariciou-a no rosto. — Você sabe o quanto é rara e especial? — Pois me mostre. Que Deus lhe desse a paciência e a habilidade para ser o amante que ela merecia. — Haverá dor, querida. Passageira, mas inevitável — avisou-a, lamentando a participação nela. — Eu sei, Aiden. Fui criada nos aposentos das mulheres. Eu não tinha como contribuir para suas conversas, mas as ouvia com muita atenção. Sua certeza e felicidade aliviaram-lhe o espírito. — Então sabe o que vai fazer? — Aiden perguntou ao soltar a faixa de seu penhoar. — Tenho uma idéia geral — ela respondeu ao flexionar os ombros e deixar a peça cair ao chão. — Minha esperança é que você me ensine os detalhes. Por Deus, Sandra era tudo que ele jamais havia sonhado. Seios altos e firmes, culminados por mamilos eretos. As linhas longas do torso, as curvas dos quadris, as pernas longas e bem torneadas, Tudo tão perfeito para ser tocado. Porém, ele manteve as mãos caídas e forçou-se a tornar a avisá-la: — Você está na linha divisória, Sandra. Pense antes de cruzá-la, pois não haverá ponto de retorno. Ela prendeu-lhe o olhar enquanto soltava o lençol amarrado nos quadris dele. Enlaçou-o pelo pescoço e, sorrindo, disse: — Cansei de pensar. Vamos fazer amor, Aiden?

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Não havia como lhe negar nada, ou a si mesmo. Curvou a cabeça e apossou-se de seus lábios, tocando a parte interna do inferior com a ponta da língua. Ela gemeu baixinho e aconchegou-se mais, prensando-lhe o peito com os seios quentes e o abdômen aninhando o membro rijo. Sandra reprimiu um protesto quando ele se afastou e soltou seus braços do pescoço. Mas, ao notar-lhe a expressão, deixou-se levar até o lado do colchão. Lá, ele parou e tornou a beijá-la. Ela tentou diminuir a distância entre ambos, mas Aiden a impediu, beijando-a no lado do pescoço. Com a cabeça inclinada para trás, ela deu passagem livre à maestria das carícias. Já não era mais possível pensar sob o prazer estonteante das emoções físicas e da carência cada vez mais premente. Ele a beijou sob o queixo e traçou a curva com a língua ao descer mais. Sandra sabia aonde ele ia e a tortura alucinante para chegar lá. Impaciente pelo prazer, ela curvou o corpo para tentá-lo. Aiden gemeu, mas cedeu a sua súplica muda. Ela arquejou quando a boca fechou em volta do mamilo e o sugou enquanto a sensação deliciosa incentivava a carência dominadora. Aiden, porém, não lhe deu tempo para explorar a nova experiência. Beijou a curva do seio e, então, desceu mais. — Oh! — ela balbuciou, segura do destino dele. As mãos acariciaram os seios e cingiram os mamilos. As palmas quentes massagearam sua cintura enquanto ele se ajoelhava para beijar seu abdômen. — Aiden — ela gemeu no auge da carência, o coração descontrolado. Ele a ignorou, inflexível e suavemente continuando a beijar-lhe o corpo. Então, não havia mais consciência de nada, exceto das chamas que a consumiam, devagar no início, mas num crescendo até que seu mundo resumiu-se ao anseio de atingir o topo. Então, o prazer e a carência tornaram-se um, impulsionando-a a uma explosão que atingiu cada fibra de seu corpo, dominando e possuindo tudo que ela era. Aiden sorriu, apreciando seu gemido suave e profundo enquanto Sandra, ofegante, desabava nos braços dele. Com cuidado, deitou-a no colchão e pegou o invólucro na mesinha ao lado. Seu abraço desinibido de paixão, sua entrega total ao prazer... Afastou os cabelos úmidos de seu rosto, ciente de nunca haver se deitado com uma mulher igual a ela. Satisfazer Sandra era um prazer incrível e potente em si mesmo. Ao ser beijada e senti-lo acomodar-se entre suas coxas, ela suspirou e murmurou-lhe o nome. Então, ele respirou fundo e pressionou o portal de sua cidadela. Com as mãos nas almofadas de pena de cada lado de sua cabeça, ele aguardou até vê-la abrir os olhos e fitá-lo. Ela sorriu naquela sua maneira matreira e tão peculiar. Projeto Revisoras

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— Você acharia muito egoísmo meu pedir uma repetição? Sandra era, sem dúvida, a criatura mais maravilhosa que surgira em sua vida. Como podia fazê-lo rir e queimar de desejo a um tempo só? Inclinou-se e crivou-a de beijos. — Eu absolutamente te adoro — confessou, rindo. Ela apossou-se de seu lábio inferior e, suavemente, sugou-o. Dominado por uma onda de desejo ardente, Aiden parou de rir e prensou os quadris nos seus. Precisava dela e ansiava que a necessidade fosse recíproca. Sandra ajeitou-se melhor para recebê-lo, mas ele conteve a pressa a fim de proporcionar-lhe o máximo de prazer antes de sofrer a dor. Sua retração foi abrupta e involuntária e ele afastou-se da barreira. A fricção foi deliciosa. Observando seu rosto lindo, ele penetrou novamente, mas não até o fim. Deliciava-se com sua receptividade e o som lânguido de seus murmúrios. Tornou a parar e a retroceder, continuando a fitá-la, certo de seu ardor crescente e do aumento da própria carência. No limite do controle, ele parou e segurou-a pelos quadris. — Não — Sandra declarou baixinho, contendo-o pelos ombros. Aiden gelou com o esforço para se dominar. Entendia sua ordem, mas sabia que adiar não diminuiria suas dores. Disposto a ser paciente, beijou-a e murmurou: — Querida, me avise quando. Ela também o beijou e virou um pouco o corpo para enroscar uma perna na dele. Aiden gemeu ao perder o ângulo de que precisava, mas não se opôs, decidido a lhe dar o tempo que precisava. Só rezava para que não fosse muito longo. — O que... — ele balbuciou quando Sandra esgueirou-se e, ágil, o deitou de costas. Com um sorriso ardente, fitou-o, sentou-se com uma perna de cada lado dele e ajeitou-os tão bem como antes. — O que está fazendo, Sandra? — ele murmurou ao segurá-la pelos quadris a fim de impedi-la de provocar a própria dor. — Uma escolha — ela sussurrou, empurrando-lhe os cotovelos no colchão. Inclinou-se para a frente, a mudança proposital provocando uma fricção intoxicante. Ele aspirou o ar enquanto o coração disparava. Balançando o corpo, Sandra investiu outra vez, parando antes da barreira, mas, desta vez, mais depressa. Ele cerrou os dentes e apertou suas mãos, lutando para que a consciência não fosse arrastada pelo turbilhão da sensação intensa. — Mais, Aiden?

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Nova investida de Sandra, mas tão rápida que o paralisou com o prazer. Tarde demais, tentou impedi-la de baixar o corpo. Por um segundo, houve o êxtase de estarem totalmente unidos, mas, então, foi banido pela conscientização do preço a ser pago. O grito começou em sua garganta e extravasou, atingindo-o no coração. Ele sentou-se, prendeu seus braços às costas e beijou-a, ansioso por compartilhar sua dor. Aos poucos, ela relaxou e, apoiada em Aiden, soltou as mãos. Ele a aconchegou entre os braços, beijando-a ao longo do pescoço. Com os olhos fechados, Sandra tocou a nuca sedosa de Aiden. Fascinada, sentia as batidas dos corações de ambos e deliciava-se com o contato dos seios no peito dele enquanto espirais de fascínio desciam de seus ombros para o pulsar potente da união dos dois. — Seu lance, querida. Quando estiver pronta — ele murmurou. Ela inclinou a cabeça para trás a fim de apreciar-lhe o sorriso animador. Haveria homem mais magnífico na Terra? Como não podia amá-lo do fundo do coração? Seu lance? Ah, sim, para satisfazer-lhe a expectativa. E mais. Excitar-lhe os sentidos e deixá-lo sem fôlego. Ouvi-lo exclamar surpreso e gemer nas profundezas da bem-aventurança. Agiria com a maior alegria. Num gesto deliberado e com as mãos nos ombros dele, o fez deitar-se de costas, mantendo-o dentro do corpo, os quadris imóveis. O coração dele disparava. Podia vê-lo pulsar no pescoço e senti-lo dentro do corpo. Devagar, Sandra mexeu os quadris, formando a figura de um oito, e ele sorveu o ar ruidosamente. A fricção era instigadora e Sandra mexeu-se outra vez, apreciando o estímulo e a ansiedade no olhar de Aiden. Sorriu para ele e repetiu a figura do oito, soerguendo-se devagar dessa vez. — Sandra, onde você aprendeu... E então para baixo, acariciando-o por inteiro. — Querida, sim... — ele balbuciou, ofegante. Sandra repetiu tudo, devagar na subida e depressa na descida. Ele acompanhava seu ritmo, aumentando-lhe a carência. Com os Olhos fechados, ela entregou-se à tempestade que se formava. Aiden estava perto do fim. O ritmo era perfeito, a fricção, intensa. Desesperado, ele tentava conter-se. Por Deus, ela era fantástica. Se tivesse de enfrentar mais um segundo... Seu murmúrio trêmulo anunciava a libertação iminente da agonia de ambos. Aiden arqueou o corpo e a prensou contra ele, fazendo-a deitar-se de costas. Beijou-a ardentemente e renovou os impulsos. Gemeu de gratidão quando ela o acompanhou, apressando o ritmo. Projeto Revisoras

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Ansioso, consumido pela extraordinária intensidade do prazer, penetrou mais firme e completamente. Seu grito foi em parte sufocado por um gemido ao alcançar o clímax, elevando-o ao próprio. Sandra flutuava num mar de satisfação plena, arquejante e ciente do coração disparado. Sombras de prazer percorriam-lhe o corpo, ajudando-a na descida da altitude fantástica. Ah, ter energia de resto para tornar a subir, enfrentar nova ascensão às estrelas. Talvez mais tarde, se pedisse gentilmente, Aiden satisfaria sua vontade egoísta. Ele suspirou quando os sentidos desceram de volta à Terra. Abraçado a Sandra, deitou-se de costas. Ambos ainda estavam ofegantes e com os corações disparados. Ela conchegou-se bem e aninhou a cabeça na curva do ombro de Aiden. Com o olhar no teto e a mente ainda abismada com a magnificência de tudo, ele sorriu. Quando conseguiu pensar e fazer a língua trabalhar, prometeu: — Tão logo eu me recupere, vamos fazer tudo outra vez. Ela riu e o beijou na pele. — Ainda bem que estou como você. Espero que nos recobremos ao mesmo tempo. Ela também estava esgotada? Ótimo. Isso lhe aumentava a sensação de finalidade cumprida. — Sandra, não posso me lembrar de ter me sentido tão satisfeito antes na vida. — Melhor assim. Eu não gostaria de ser a única. Ah, ele poderia se acostumar a isso. Certeza nas próximas semanas. Não planejava fazer nada que a tirasse de seus braços. Depois que o substituto de Lal chegasse e ele não precisasse mais proteger ninguém... Haven House não ficava muito longe. Se conseguisse manter Sandra sorrindo como nesse momento, ela não se negaria a ir visitá-lo. Todos os dias seria bom. Duas vezes por dia, melhor ainda. No futuro mais adiante estava o problema. Como mantê-la ali quando Mohan e Preeya voltassem para a Índia? Teria de refletir sobre isso. Amanhã. Agora estava muito satisfeito para planejar. Aconchegou mais Sandra entre os braços e beijou-a no topo da cabeça. Num suspiro sonhador, ela murmurou-lhe o nome. Aiden sorriu enquanto as pálpebras se fechavam. A vida não era apenas boa, mas perfeita. Entre os braços de Aiden, Sandra acordou assustada com os pavões gritando lá fora. Mal se dava conta de tudo, Aiden resmungou: — Por Deus, eu me esqueci! — Beijou-a depressa e levantou-se, começando a se vestir. — Barrett está aí, preciso ir! — Aonde? — ela perguntou, sonolenta ao vê-lo calçar as botas. — Estamos no meio da noite. Projeto Revisoras

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— Não se preocupe — ele disse, pegando o revólver na mesinha-de-cabeceira. — Não vou ficar fora muito tempo nem ir muito longe. Pôs um casaco preto e curto e, já à porta, parou. — Espere por mim, Sandra. Aí mesmo, por favor. Claramente não havia como detê-lo. — Só se você prometer ter cuidado. — Terei. Durma enquanto pode, querida. Sozinha, Sandra ouviu os pavões e suspirou. Se não fosse por eles, Aiden não acordaria para o compromisso. Barrett teria chegado e ido embora depois de esperar um pouco e ela ainda estaria dormindo entre os braços de Aiden. Ele estava certo. Os pavões tinham de ir. E, sem dúvida, antes da próxima noite. Sandra escorregou para o lugar de Aiden no colchão. Abraçou o travesseiro dele e aspirou-lhe o odor. Sentia-lhe a ausência, desejava que estivesse em segurança e logo voltasse. Esperava que levasse ainda um ano para Kedar mandar buscá-los. Dois seria ainda melhor. A vida inteira, magnífico!

Capítulo VIII

Os pavões já tinham, se aquietado quando Aiden chegou ao andar térreo. Sabendo que isso era sinal de que Barrett não estava no quintal, ele saiu pela porta da frente e trancou-a. Avistou-o no lado extremo da calçada, vestido de preto e fumando um charuto, a chama rubra brilhando no escuro. Quando Aiden se aproximou, o amigo disse: — Esses pavões são um incômodo público. — De fato são irritantes. Eu ia matá-los ontem, mas fui atacado por uma ninhada de gatinhos no caminho. — Para as duas e meia da manhã, você está bem-humorado. Duas e meia? Maldição! — Desculpe, mas peguei no sono. — Bem profundo, pelo jeito. Como não adiantou atirar uma pedrinha em sua janela, não tive escolha a não ser acordar as aves. Projeto Revisoras

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— Pelo menos não continuaram a gritar como às vezes fazem. A ponta do charuto brilhou. Depois de expelir a fumaça, Barrett comentou: — Eu não sabia que você tinha o hábito de dormir com a vela acesa. Medo de monstros? — Não — Aiden respondeu, detestando como Barrett juntava detalhes e tirava conclusões. — Então o livro que estava lendo não era bom. Qual é o título para eu não o ler? Aiden não podia pensar em nada para dizer. Na mente só havia visões de Sandra e de como havia adormecido abraçado a ela. Nem se lembrara de apagar a vela. — Bem-vindo de volta, John Aiden. Sentimos falta sua dos velhos tempos. Naquela época, ele teria sorrido e sugerido que quando se cansasse da amante a passaria para os amigos. Ele havia sido um malandro indiferente. — Não vamos falar sobre isso, Barrett. Não é um caso para se compartilhar. — Entendido. — Ele tirou uma última baforada do charuto, jogou-o na terra e esmagou-o com a bota. — Bem, aonde vamos esta noite? Ótimo. Ele havia traçado a linha e Barrett concordado em respeitá-la. — Caçar — Aiden respondeu. — Aposto como o Sombra Esquiva está nas redondezas, num lugar de onde possa vigiar a casa. — Faz sentido. Suponho que você faça idéia de onde possa ser. — Deve estar escondido no estábulo da casa de uma família que esteja passando o inverno no campo e não note o hóspede indesejável. Calculei que devamos começar pelo beco atrás da Blue Elephant e seguir de lá. Ele não pode estar muito longe. Barrett assentiu com um gesto de cabeça, olhou para as casas ao longo da rua e resmungou: — Só espero que você seja o único a ter pavões. Eles entraram em outro quintal escuro. Depois de uns dez, tinham se aperfeiçoado na arte de esgueirar-se. Examinavam a área inteira ao redor do estábulo à procura de pegadas recentes e, então, paravam à porta. Mantinham olhar e ouvidos atentos antes de abrir o trinco. A seguir, Barrett erguia três dedos, para dobrá-los um a um. Após baixar o terceiro, Aiden abria a porta e Barrett entrava abaixado, empunhando o revólver com o qual fazia um arco largo do centro para a esquerda. Aiden o seguia e completava o arco da direita para o centro.

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Não encontravam nada exceto teias de aranha e pegadas secas. Nas seis primeiras vezes a excitação de um possível perigo os tinha entretido. Mas durava poucos segundos cada vez que chegavam a um estábulo. A ausência de pegadas os desanimava. Mesmo assim, persistiram. Sempre com as armas de prontidão, andavam juntos e em silêncio, as cabeças abaixadas e os olhares fixos nas sombras do chão. — Encontramos — Barrett sussurrou, parando de repente e apontando para a esquerda. — Ele fez uma curva daqui até a porta de trás. Aiden observou a linha de pegadas e assentiu com um gesto de cabeça. Virouse e observou o que poderia ser visto das janelas laterais do estábulo. Via-se não só todo o lado oeste e as paredes de trás da Blue Elephant como também a cozinha, o estábulo e o quintal. Luz escapava pela grade de ferro de seu quarto e os pavões tinham voltado a dormir. — Lugar vantajoso — murmurou ao virar-se para Barrett. — Porta de trás ou da frente? Ele respondeu apenas seguindo para a de trás, de acordo com as pegadas. Aiden o acompanhou, observando as janelas. Nada de luz ou movimento. O trinco abriu sem fazer ruído. Barrett ergueu e baixou o dedo depressa. Aiden entreabriu a porta o bastante para o outro esgueirar-se para dentro. Num instante, entrava atrás dele. Imobilizou-se bem como Barrett. Bem à frente deles estava o homem que tinha visto pela janela de Sandra, em frente à Christie's e subindo numa carruagem de aluguel. Só que, naquelas vezes, ele não estava armado. Agora, empunhava um revólver em cada mão, apontados para eles. E o elemento surpresa? Inútil bem como a afirmativa de Sandra sobre um indiano não portar armas de fogo. Só lhes restava blefar e contar com a sorte. Encarando-o, Aiden disse: — Espero que fale inglês, pois tenho muitas perguntas para lhe fazer e que será melhor se as responder. Vamos começar com quem é e o que faz aqui. — Meu nome é Vadeen — ele respondeu com forte sotaque. — Sou guardacostas do príncipe Sarad, o irmão mais novo do rajá Kedar. Fui enviado para proteger os filhos de Kedar contra qualquer perigo. Eu o vi com o príncipe e a princesa e sei que nós dois temos a mesma missão. As peças do quebra-cabeça caíam no lugar certo com a maior clareza. Se a intenção do homem era tirar o chão de sob seus pés, tinha conseguido. O coração disparado o instigava a ir embora, fingir que o estábulo estava tão vazio quanto os outros. Mas os pés não se mexiam, pois a voz da razão lhe dizia ser impossível escapar da verdade.

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— Princesa? — Barrett repetiu ao endireitar o corpo, o movimento distraindo Aiden da terrível revelação. Vadeen ergueu o cano da arma a fim de seguir o progresso de Barrett, mas parte de sua atenção ficou em Aiden. — Há muitas coisas que você não sabe ainda. Baixarei minhas armas se você e seu amigo fizerem o mesmo. — Está bem — Aiden concedeu, nervoso. — Mas é só no que vamos confiar por enquanto. — Um acordo aceitável — o outro disse. Baixou as armas ao mesmo tempo em que Aiden e Barrett o faziam. — Qual é seu nome? — Aiden. E o de meu amigo, Barrett. Com a cabeça, Vadeen apontou para uns fardos de feno. — O lugar é humilde, mas eu os convido a sentar e ficar à vontade. A história é longa e gastará algum tempo. Ainda dava para ir embora, Aiden pensou. Bastaria virar-se e sair. Só tinha suposições. Voltaria para Sandra e fingiria que não havia perigo, sabia o suficiente para mantê-la segura, eram as únicas pessoas no mundo e elas próprias moldariam o destino. Fingiria não estar vivendo uma mentira que poderia causar a morte de Sandra. Os três moveram-se ao mesmo tempo e sem tirar os olhos das armas nas mãos de cada um. — Muito bem — Aiden disse ao acomodar-se na frente de Vadeen, a arma no colo, o dedo ao lado do gatilho. Barrett sentou-se a sua direita. — Comece a falar. Sou todo ouvidos. — E cheio de suspeitas — Vadeen comentou. — Você pode me culpar? — Não. Um homem receoso vive mais do que um confiante. — Comece a história, Vadeen. — E com a parte da princesa — Barrett aparteou. — Cedo demais para essa parte. Eu a mencionarei no momento certo. — Está bem — Aiden concordou ao afastar as emoções para um canto da mente a fim de se concentrar em detalhes. Ser capaz de separar a verdade da fraude dependia da própria habilidade e de comparar o que ouvisse com o que já sabia. — Cinco semanas atrás — Vadeen começou —, os inimigos de Kedar atacaram com o intuito de matá-lo e se apossarem do trono. Pelo poder de Vishnu, Projeto Revisoras

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fracassaram. Um dos conspiradores foi morto. Chamava-se Kalin e era primo de Kedar. O outro escapou na confusão. Chama-se Hanuman. É o irmão mais novo de Kedar e Sarad. Dois nomes citados por Sandra na véspera à tarde. — Kedar não sabe para onde Hanuman fugiu, mas teme que tenha sido para Londres a fim de eliminar o príncipe e a princesa. Fui enviado para encontrá-lo e impedi-lo de cometer tal crime. Era o que ele dizia. Aiden refletiu. Vadeen podia muito bem ser o agente de Hanuman com o encargo de matar Mohan e Sandra. — Por falar em morte e mal. Você conheceu os dois desgraçados que tentaram tirar Sandra da Blue Elephant? — Não. Vim para cá no navio que trouxe a mercadoria para a princesa Sandra. Os homens que a entregaram me informaram sobre a volta de Lal para a Índia. Eles também me contaram de sua presença na casa. Como eu ignorasse sua capacidade, temi que talvez devesse abandonar minha busca por Hanuman e assumir o encargo de Lal. Em dúvida sobre o que fazer, decidi vigiar e esperar. — Encontrei este lugar numa noite e, na manhã seguinte, vi os dois homens se aproximarem da loja. Como não gostasse da aparência deles e pensando que poderiam entrar na loja, eu os segui. Pretendia interferir se eles se mostrassem perigosos. — Vadeen sorriu e acrescentou: — Foi através da janela que descobri como você é um homem capaz e entendi que o príncipe e a princesa ficariam mais seguros se eu continuasse a procurar Hanuman. O elogio era simpático, mas não significava sinceridade. — O último desgraçado em pé olhou por sobre meu ombro, viu-o à janela e o reconheceu — Aiden disse. — Ele me viu, sim — Vadeen admitiu sério. — Mas amedrontado, de longe e como todos os ocidentais confundem os hindus, creio que ele pensou ter visto Hanuman. É hábito deste usar outras pessoas para alcançar seus fins depravados. Não posso provar, mas acho que aqueles dois trabalhavam para ele. — Está bem — Barrett resmungou, imiscuindo-se na conversa. — Como você não pode provar, vamos deixar esse ponto de lado por enquanto e passar para outra pergunta. Por que Kedar mandou o guarda-costas do irmão e não um dos dele? — Alguns dos homens de confiança de Kedar morreram para protegê-lo. Os que restaram eram necessários lá. Fui escolhido entre os homens de Sarad porque falo inglês e sou confiável — Vadeen explicou, mas olhando para Aiden. — E a seguinte. Se você foi enviado para procurar Hanuman, por que está seguindo Sandra? Mais uma vez, Vadeen não olhou para Barrett ao responder. Projeto Revisoras

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— É a princesa que ele quer. Ao procurá-la, me encontrará. Eu a tenho vigiado para me interpor entre você, Aiden, e Hanuman. Eu o conheço e você, não. Serei eu quem detectará o perigo antes. Se eu falhar, você ficará avisado e estará mais preparado para protegê-la. — Não pensa que o alvo de Hanuman seja Mohan? — Aiden indagou. — Sem faltar com o respeito ao príncipe, a princesa é uma presa mais valiosa. — Por quê? — Barrett perguntou antes de Aiden fazê-lo. — Hanuman já perdeu o trono, mas ele não aceitará o fracasso de boa índole. Quer causar o maior sofrimento possível. O príncipe é o filho mais velho da primeira esposa de Kedar. Porém, há outros e um será rajá após a morte de Kedar. A princesa Sandra é a filha predileta de Kedar. Não pode ser substituída. Sua morte seria um grande golpe para o rajá. — Então, chegamos à história da princesa — Aiden disse, desejando que não estivessem, mas consciente de que a verdade não podia ser ignorada. Por Deus, o coração batia tão forte e depressa que ameaçava sufocá-lo. Vadeen o observou por um longo tempo e, depois, assentiu com um gesto de cabeça. — Quando Kedar era muito jovem e não ainda rajá, o pai o mandou viver uns tempos com o tio materno em Delhi. Ele deveria aprender os costumes ingleses a fim de ser um bom governante quando chegasse a hora de subir ao trono. Assim como Mohan fora enviado a Londres, Aiden refletiu. — Foi em Delhi que ele conheceu uma jovem inglesa. Era filha de um oficial da Companhia Índia Ocidental Inglesa. Apaixonaram-se. O pai dela descobriu o romance e, sendo um homem de mente tacanha, mandou a filha embora durante a noite. Kedar a procurou durante anos e por muitos lugares, mas jamais a encontrou. — Quando o pai morreu, Kedar teve de ignorar seu anseio para cumprir o dever. Tornou-se rajá e aceitou uma esposa. Depois, de acordo com nossos costumes, arranjou outras, bem como amantes. O príncipe Mohan e outros nasceram. O reino foi preservado, mas Kedar nunca esqueceu a jovem inglesa. — Então, um dia num templo... — Aiden aparteou ao afastar o dedo do gatilho. Surpreso, Vadeen arregalou os olhos. — Você sabe o resto da história? — Apenas alguns pedaços contados por Mohan. E algumas conjeturas minhas baseadas em comentários de Sandra. Você pode me contar tudo. — No templo, estava uma menina inglesa, roubando ofertas de alimentos. Kedar a viu e reconheceu a semelhança com a jovem inglesa que tinha amado em Projeto Revisoras

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Delhi. A menina fugiu, mas ele mandou seus soldados segui-la. Voltaram com ela e a mãe. Ser achada num templo e ser parecida com a mãe não tornava a menina uma princesa. Havia algo mais nessa história. Não que fosse difícil de se imaginar. As peças estavam todas ali. Aiden só não queria ver o desenho que formavam. — Finalmente Kedar ficou feliz — Barrett ironizou. Aiden balançou a cabeça. Já era péssimo Barrett estar determinado a ser desagradável, mas o pior era ignorar os detalhes sobre castas e raças na Índia. Ele estava a par porque Sandra lhe havia explicado. E tudo que ela havia lhe contado coincidia com a história de Vadeen. — Bem, Aiden, tente entender o dilema de Kedar. Ele não podia ser feliz. Era o rajá e sabia da existência de inimigos dispostos a usurpar-lhe o trono. Seu amor pela jovem inglesa seria visto por muitos como empecilho para ser um bom governante. Sabia ainda que não podia lhes dar essa arma para ser usada contra ele e a inglesa. Portanto, só lhe restou a escolha de mantê-la nas sombras do coração. — E Sandra? Ela também era segredo? — Aiden perguntou, tentando abafar o desespero. — Sim, Aiden. A mulher inglesa sabia dos perigos na corte de Kedar. Ela jurou que a menina era filha de seu marido. Mas Kedar, além de inteligente, sabia contar. Sempre soube que a filha era dele. Como também não poder reconhecê-la como sua primogênita até que seus inimigos fossem derrotados. — O que acontecerá quando você encontrar e matar Hanuman? — Barrett aparteou. — Quando for seguro, Kedar a reconhecerá como princesa real. Aiden cerrou os dentes. Ia perdê-la. Sandra não tinha escolha a não ser voltar para a Índia. Princesas existiam para suprir as necessidades do reino. Sandra merecia uma vida melhor do que essa. — Sandra sabe que é filha de Kedar? — ele ouviu Barrett indagar. Pergunta sem propósito. Pelo menos para ele. Conhecia Sandra. Se ela suspeitasse ser membro da família real não teria hesitado para decidir se voltava ou não para a Índia. Assumiria o dever sem pestanejar. — Não. Ela parece inglesa. A verdade não lhe foi revelada para que ela não expusesse o trono e a si mesma ao perigo com uma palavra impensada. Aiden ignorou a pressão no peito e fez a pergunta importante: — Mas Hanuman sabe, não é? Caso contrário, Sandra não correria perigo. — Ele suspeita. Para Hanuman é suficiente — Vadeen respondeu.

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— Desculpe meu ceticismo, Aiden — Barrett disse sem disfarçar o sarcasmo. — Não lhe ocorreu pensar como o guarda-costas do irmão de Kedar sabe os segredos do rajá? Não, os fatos pareciam verídicos. Ou Vadeen dizia a verdade ou era o mais hábil mentiroso do mundo. — Quando fui escolhido para procurar Hanuman, ficou decidido que eu deveria saber a verdade a fim de entender a importância de meu sucesso. Foi o próprio Kedar quem me contou tudo. — É? E como ele vai se sentir ao saber que você nos contou a história? — Barrett perguntou. Pela primeira vez, Vadeen dirigiu a atenção a Barrett. — Aiden é o protetor escolhido pela princesa Sandra. Eu o tenho observado e considero seu julgamento sensato. Se eu falhar e Hanuman me matar, é importante que Aiden saiba o perigo que ela corre e como precisa ter sucesso. Você é amigo dele. Assim como o acompanhou até aqui esta noite, o ajudará a proteger o príncipe e a princesa. Por isso nada mais justo do que estar a par da história. Aiden gostou de o hindu pôr um paradeiro nas indagações irônicas de Barrett. — Quando você pretendia me contar tudo isso, Vadeen? — Você me viu hoje na cidade e eu o vi procurando meu esconderijo ao pôrdo-sol. Pensei em procurá-lo amanhã cedo. Mas quando os pavões começaram a gritar de madrugada, percebi que você tinha uma idéia diferente. Então, aguardei-o aqui. — Espero que não o tenhamos feito esperar muito — Barrett disse. — Não. Você mostrou ser eficiente em seu trabalho. Barrett resmungou qualquer coisa e Aiden não lhe deu ouvidos. — Quando Sandra deve se inteirar da história, Vadeen? Pretendia também lhe contar amanhã cedo? — Kedar deixou a decisão por minha conta. Eu tencionava falar só com você amanhã cedo. Bem, vou pôr a mão no bolso interno de meu paletó — ele disse ao largar as armas no colo e erguer as mãos abertas. — Farei bem devagar para não pensarem que estou pegando outra arma. — Um homem receoso vive mais do que um confiante — Barrett aparteou. — É verdade. — Homem de palavra e de aparente bom senso, Vadeen enfiou a mão na abertura da jaqueta e tirou-a com um envelope entre o indicador e o polegar. — Enquanto Kedar me contava a história, ela foi sendo escrita. O lacre é dele. Isto deverá ser entregue à princesa quando eu achar oportuno, ordens dele. — Quando será? —Aiden perguntou com o coração apertado. Projeto Revisoras

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— Deixo a critério seu, Aiden. Já percebi que a conhece bem e ela confia em você — Vadeen respondeu. Aiden pegou o envelope e o pôs no bolso de fora do casaco. — Sandra me contou que serão chamados de volta para a Índia quando o pai de Mohan achar ser seguro. — O príncipe Sarad chegará aqui dentro de uma semana. Ele deverá levar os filhos de Kedar para casa o mais depressa possível. Apenas dias. Aiden queria chorar. Como não tivesse certeza de poder se conter, levantou-se e perguntou: — Você vai ficar aqui ou gostaria de ir para a casa de Sandra? Vadeen balançou a cabeça enquanto ele e Barrett se levantavam. — Às vezes pode-se ver mais a uma certa distância. Ficarei aqui. — Se precisar de alguma coisa... — Pedirei. Você deve fazer o mesmo. Aiden assentiu com um gesto de cabeça e seguiu para a porta. Esperava que Barrett o deixasse sozinho por algum tempo. Já tinha chegado na metade do caminho para a Blue Elephant, num misto de raiva, desânimo e outras emoções quando Barrett o alcançou. Sem preâmbulos, o amigo disse: — Converse comigo. O que está pensando? Aiden não diminuiu o passo e nem olhou para ele. — Nada além de: "Por Deus, deitei-me com uma princesa". — Até então, você não sabia que ela era uma. — Isso ratifica o fato? Ou evita as péssimas conseqüências para ela? — perguntou. — Quando se trata de cometer os piores erros ninguém melhor do que eu. Ora, posso praticar as maiores atrocidades sem pensar duas vezes! Barrett manteve-se calado até chegarem à porta da loja. Enquanto Aiden procurava a chave no bolso, ele perguntou: — O que você vai fazer? — Não sei. Você tem alguma sugestão valiosa para me fazer? Barrett suspirou e desviou o olhar. — Tarde demais para alguma que eu pudesse ter lhe oferecido. De repente, Aiden viu-se dominado pelo desânimo, o peito apertado e as lágrimas ardendo nos olhos. Passou os dedos pelos cabelos e praguejou: — Que maldito desastre!

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— Poderia ser pior — Barrett disse baixinho. Angústia e desânimo deram lugar para o retorno da raiva. — Você tem razão. Talvez esperem que princesas hindus se matem caso sejam defloradas. — Não entregue a carta logo, John Aiden. Espere uns dias. Dê tempo a si mesmo para refletir. — Dentro de poucos dias, Sarad estará passando por esta porta. O que deverei dizer? "Por favor, Alteza, me dê um momento. Existe algo que não contei a sua sobrinha, minha amante"? — Não faça nada esta noite, Aiden. Você se arrependerá amanhã. E esse erro seria maior do que o já cometido? O que mais haveria para se arrepender? — Obrigado por ter vindo, Barrett. Nós queríamos respostas e as obtivemos, embora terríveis — Aiden disse ao inserir a chave na fechadura. Já havia aberto a porta e entrado quando Barrett perguntou: — Você vai ficar bem? — É com Sandra que você deve se preocupar. — Sandra Radford não é minha amiga. — Isso, Barrett, é sua grande perda. Boa noite e obrigado outra vez — disse e fechou a porta antes de o amigo poder dizer mais alguma coisa. Sozinho no escuro, Aiden olhou para a escada, sabendo que Sandra o aguardava lá em cima. Sua lindíssima, estonteante e ardente princesa hindu. Apesar de involuntário, seu erro havia sido cometido. Agiria certo com Sandra. O que tivesse de fazer para protegê-la, ele faria. Sandra abriu os olhos e prestou atenção ao ruído que a tinha acordado. Vinha de perto da janela, meio gemido e meio suspiro. Virou a cabeça e olhou, Aiden sentava-se na arca, ainda vestido como quando saíra. Tinha os cotovelos firmados nos joelhos e a cabeça apoiada nas mãos. — Aiden — chamou baixinho ao sentar-se, coberta pelo lençol. Surpreso, ele levantou o olhar e ofereceu um sorriso tenso. — Não foi minha intenção acordá-la, querida. Volte a dormir. Quando ele se encontrava numa agonia óbvia? — Qual é o problema, Aiden? — Levantou-se, foi se ajoelhar aos pés dele e insistiu: — O que aconteceu? Ele fechou os olhos e encostou-se na parede. Baixinho, indagou:

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— Quem é Sarad? Seu coração quase parou. — Tio de Mohan, o irmão mais novo de Kedar. É ele quem envia as mercadorias para a Blue Elephant. — Você confia nele? — Kedar confia — Sandra respondeu, apreensiva. — O que você sabe sobre Sarad? Pensei não ter lhe contado o nome dele. Ainda com os olhos fechados, Aiden limpou a garganta e indagou: — Você já ouviu falar num homem chamado Vadeen? — Esse é um nome muito comum, Aiden. — É um dos guarda-costas de Sarad. Você o conhece? — A última vez que vi Sarad, eu era uma criança pouco mais velha do que Mohan hoje. Eu não saberia quem são seus guarda-costas. — Você conheceu Hanuman? Por acaso o identificaria se o visse? — Sim, claro. Ele está aqui em... — Se um homem entrasse na loja e lhe dissesse ser Sarad, você saberia se ele estaria mentindo ou não? Sua paciência esgotou-se. — Não vou responder outra pergunta sua, Aiden, até você responder a minha. O que aconteceu esta noite? Ele abriu os olhos, desencostou-se da parede e tirou o envelope do bolso que lhe deu. Então, murmurou: — Está tudo acabado. Ela sentou-se nos calcanhares, o coração disparado de apreensão. O lacre de Kedar. Seu nome em hindi no sobrescrito. Idéias lhe ocorreram. Kedar os estava chamando de volta à Índia. O mensageiro, o homem chamado Vadeen, mencionado por Aiden, estava lá embaixo esperando. Ou as piores desgraças tinham acontecido. A fim de dominar o pânico, Sandra respirou fundo. Com dedos trêmulos, quebrou o lacre e abriu o envelope. De posse do pergaminho, começou a ler. As primeiras palavras causaram alívio imediato. Kedar e todos no palácio estavam bem. Os inimigos tinham sido derrotados. Sandra continuou a ler e, quando chegou ao fim, ficou atônita. As saudações incluíam o pedido de bênçãos sobre a filha. Filha. Ela possuía um pai. Um vivo e amoroso. Kedar. O homem que a mãe havia amado do fundo do coração. — O lacre é de Kedar?

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Sandra desviou o olhar da carta para Aiden. — Sim — respondeu, imaginando por que ele considerava as notícias ruins. Ao contrário, eram boas. — E a caligrafia é do escriba dele. Reconheço ambos. — Você não sabia, não é? Ela balançou a cabeça, achando incrível a teia de enganos que sua vida tinha sido. — Quando eu era criança esperava e fingia. Depois, acabei aceitando o que minha mãe dizia ser verdade. — O que acontecerá agora? — Vadeen cuidará de Hanuman e Sarad chegará dentro de poucos dias para levar Mohan e a mim de volta para a Índia. — E como seu pai agirá ao saber que um canalha inglês fez amor com sua princesa? A sensação de felicidade esvaiu-se ao dar-se conta de que o fato de ser princesa mudava tudo para Aiden. Aflita, pôs a carta no envelope enquanto procurava as palavras certas. Tocou-o nos joelhos e sorriu-lhe. — Em primeiro lugar não vejo razão para ele jamais ficar sabendo disso. Em segundo, penso que eu seria a prova de que ele compreende o poder da tentação e da paixão. Ela podia ver a luta íntima de Aiden. Queria acreditar nela, mas ansiava tocála. — Você será considerada menos digna de ser princesa porque é inglesa? — Por alguns, sim, mas não por Kedar. Ele é um homem justo e magnânimo. Você gostaria dele. — Na Inglaterra, as princesas casam-se com quem oferece vantagens maiores. É o que vai acontecer com você, Sandra? Terá de se casar com quem oferecer o maior lance? — A escolha de marido será minha. E... — Ele se importará muito que eu a tenha possuído antes dele? — Aiden a interrompeu numa voz amarga. — Nunca escolherei um, Aiden. Ninguém me forçará a me casar — ela afirmou, esperando acalmá-lo. — Então, você passará a vida sozinha. Foi a vez de Sandra ficar brava. — Se bem me lembro, é o que você pretende fazer. Por que é uma situação certa para você e não para mim?

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— Você poderia ficar aqui, Sandra. Manter a Blue Elephant. Eu transportaria as mercadorias para você. Ficaria sozinha, esperando que Aiden atracasse no porto, vivendo apenas por aqueles poucos dias no ano. Nos outros rezaria para que nada horrível acontecesse a ele e sempre esperando pelo dia em que lhe dissesse não voltar mais, pois havia se apaixonado por outra mulher. Se não pudesse ser sua companheira sempre, seria melhor romperem. Antes se separarem com boas lembranças do que passar anos nutrindo esperanças que murchariam finalmente. Sabia que podia lhe pedir para voltar com ela para a Índia. Porém, chegaria o dia em que Aiden desejaria não ter feito isso. Era muito orgulhoso para ser um homem dependente, muito inquieto para vagar, sem propósito, pelos corredores do palácio. Não, ele tinha de fazer as pazes com o pai e, um dia, liderar a frota de navegação. Por amá-lo, teria de deixá-lo ir. — Como princesa, tenho deveres além das de preceptora real. Não posso ficar, Aiden. Tomaram a decisão por mim. De certa forma, é um alívio. — Eu sabia que você diria isso. O dever acima de tudo. — Por favor, Aiden, não fique triste. Nem bravo. — Segurou-lhe as mãos. Amava-o muito e não queria se separar dele nem um instante antes do que fosse preciso. — Sabíamos desde o início que não haveria muito tempo para nós. Só que se tornou mais curto do que esperávamos. Ele não se mexeu e continuou calado como se não a tivesse ouvido. Olhava para o teto como se fosse um animal enjaulado. Uma parte sua queria abraçá-lo e outra pegá-lo pelas lapelas do casaco e sacudi-lo. Decidiu-se pelo meio-termo. Soltou-lhe as mãos e pegou uma das botas. — O que está fazendo, Sandra? Finalmente prendia-lhe a atenção. — Uma escolha — ela respondeu ao puxar a bota que não se mexeu. Firmou-se mais no chão e fez nova tentativa. Em vão. — Sandra, você é uma princesa. Sei que não deveria fazer diferença, mas faz uma muito grande. Enquanto tentava pela terceira vez, afirmou: — Sou a mesma mulher que era a meia-noite, Aiden. — Sandra querida, pare — disse ao puxar o pé de suas mãos. Ela ergueu a cabeça e o viu voltar a encostar-se na parede. Mas o olhar de animal enjaulado tinha sumido. Os lábios ameaçavam sorrir. Isso a incentivou a pressioná-lo mais. Ajoelhou-se entre as coxas dele, aninhou-lhe o rosto entre as mãos e fitou-o. Ele ergueu as dele, mas baixou-as enquanto o sorriso incipiente era substituído por determinação.

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Sandra ignorou tudo e perguntou baixinho: — Será que nos negar o prazer me tornará virgem outra vez? — Eu gostaria que fosse possível. — Você se arrepende muito depressa, Aiden — ela o censurou, amando-o mais por sua sensibilidade. — O passado se foi e não pode ser mudado. Não se sabe o que acontecerá no futuro. Tudo que existe é o agora. Este momento no tempo. Vivao comigo. Por favor, vamos nos amar. Ela esperou em silêncio, vendo a tentação lutar contra seu senso de certo e errado, rezando para que o desejo vencesse a batalha. De repente, a expressão de desespero surgiu nos olhos dele. Ofegante, balbuciou: — Se eu lhe pedisse para... Sandra prensou-lhe os lábios com o indicador. — Este momento, Aiden. Não olhe para a frente ou para trás, e sim para mim. Ele não podia mais lutar. Não conseguia fazer nada tal a sensação de desespero. Não era de nobreza e sim de carência pura. Uma necessidade de perder-se no esquecimento delicioso que só ela lhe proporcionava. Que Deus o ajudasse, pois a queria mais do que a própria vida. As comportas se abriram e Aiden atirou-se à correnteza. Abraçou-a de encontro ao peito e prensou os lábios nos seus. Sandra enfrentou o avanço com alegria e a mesma animação dele. Com um gemido de gratidão, ele imergiu na paixão salvadora. Sandra acordou sorrindo e abraçada a Aiden. Sabia que não existia mulher mais feliz e satisfeita no mundo. E se quisesse outra vez... Ficaria grata e não perderia a oportunidade. O que não daria para passar o resto do dia onde estava. Olhou para a janela e suspirou. Não podia impedir a vida de interferir na satisfação. Conseguiu puxar a perna de sob Aiden sem acordá-lo, mas o mesmo não aconteceu com o braço. Ele a impediu e murmurou: — Não vá embora. — Está amanhecendo — ela sussurrou ao beijá-lo na testa e escapar do abraço. — Mohan logo vai se levantar. Durma mais um pouco. Ele a viu pegar o penhoar onde o tinha largado na noite anterior. — Sei que haverá um ponto final mais tarde, mas quero todos os momentos que pudermos ter juntos —Aiden afirmou. O alívio quase a fez gritar. Havia vencido. Não tinha de desistir dele tão depressa.

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— Eu também — admitiu ao vestir o penhoar e pegar o envelope largado ao lado do colchão. Ajoelhou-se perto dele, acariciou-o nos cabelos e acrescentou: — Mas não há chances de aproveitar momentos aqui. Pelo menos durante o dia. Ele sorriu com expressão matreira e sugeriu: — Nós poderíamos ir a Haven House. — Uma idéia atraente. Sob que pretexto? — Que tal uma aula de equitação? — ele indagou. — Ah, daria certo, não? — Sandra disse ao notar que ele afastava seu penhoar dos ombros e expunha-lhe os seios. — Mas minha mãe sempre me avisou que homens e cavalos formavam uma combinação que se deveria evitar a todo custo. — Porquê? — Não sei — ela respondeu ao prender a respiração enquanto a carícia descia para os seios. — Ela insistia muito nisso. — Por esse motivo você arranjava mil desculpas para se esquivar das aulas? — Sim — ela admitiu enquanto Aiden delineava um círculo em volta de um mamilo ereto. Se não o interrompesse, não seria capaz de sair dali. — Por que a mudança súbita de idéia? Ela o beijou na testa, ergueu-se e se afastou antes de responder. — Porque há uma coisa no meio do passeio que quero muito. — Sorrindo para ele, endireitou o penhoar e amarrou a faixa. — E eu quero tanto aquilo que estou disposta a me arriscar. — A que horas você quer ir? — Depois que Sawyer chegar. — Eu a espero no jardim com os cavalos já encilhados. Se você tem botas e uma saia aberta e trespassada na frente, use-as. Ela não tinha a tal saia, mas podia ajeitar uma depressa. Mas por que ele parecia tão animado com a idéia? — Você sabe por que minha mãe me avisou para não cavalgar, não é? Ele riu com olhar malicioso. — Nove e cinco, querida. Uma saia aberta. — Estarei lá — ela prometeu enquanto Aiden se levantava e pegava as roupas. — Volte a deitar e durma mais um pouco — disse, sabendo que ele não tinha dormido mais do que três horas.

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— Não. Tenho de encontrar uma farmácia. Estou sem invólucros e você não gostaria de parar comigo lá na ida a Haven House. — Eles não são necessários. Não estou nos dias de concepção. — Não? Ai, querida, hoje você descobrirá maravilhas. — Nove e cinco. Não se atrase — ela disse da porta, sorrindo. Aiden ria quando Sandra a fechou. Ela ficou parada por um instante, gravando na memória esse som delicioso. Só quando as sombras do que estava para acontecer num futuro próximo invadiram-lhe a mente, seguiu pelo corredor. Junto ao fogão, Preeya levantou o olhar quando Sandra se aproximou. — Muita coisa aconteceu em sua noite — comentou com um sorriso. Como Preeya parecia saber de tudo, Sandra pegou o envelope no bolso e entregou-lhe dizendo: — Mexo os ovos enquanto você lê isto. Preeya tirou o pergaminho do envelope, leu-o e apertou os lábios enquanto perguntava: — Como isto lhe foi entregue? — Um dos guarda-costas do príncipe Sarad está em Londres. Ele deu a Aiden que, por sua vez, me deu. Você não parece muito surpresa com a novidade, Preeya. — Falaremos disso depois. Primeiro quero saber por que você me mostrou a carta. Sandra lhe deu a primeira razão: — Para que você me ajude a contar a Mohan. Ele precisa saber. — Só por isso? — Não. Quando penso no futuro quero chorar. Preeya a levou para sentar-se numa banqueta junto à mesa. — Seu mundo mudou muito, Sandra querida. E de muitas maneiras. Tudo no passar de uma noite. É natural que seus sentimentos estejam confusos. — Serviu duas xícaras de chá e permitiu que Sandra tomasse uns goles antes de lhe perguntar: — Aiden foi bom para você? Amou-a meigamente? — Tanto que eu queria ficar nos braços dele para sempre. — Se estiver destinada, ficará. Você sabe disso. Ela assentiu com um gesto de cabeça. — Aiden está melhor agora de manhã, mas não aceitou as notícias muito bem ontem à noite. Ele é muito bom quanto a arrepender-se.

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— Porque tem coração generoso. Não quer que ninguém sofra. E uma grande bênção ele ter entrado em sua vida. — Você está certa, Preeya, mas, no momento, não me sinto muito abençoada. — Por quê? Vocês brigaram agora de manhã? — Não! — Sandra tomou um gole de chá enquanto procurava palavras que não soassem de comiseração, mas em vão. — Vou perdê-lo, Preeya. Ele é meu só até Sarad chegar. — Oh, Sandra, sua vida tem sido difícil desde o início. Sua jornada não seria simples, eu soube no instante em que a peguei nos braços. Porém, percebi também que sua luta seria compensada. De repente, Sandra percebeu por que Preeya não se surpreendera ao saber que a preceptora real era princesa. — Você tomou parte nisso, não foi? — disse ao apontar para a carta na mesa. — Seu marido era tio de Kedar. Você conheceu minha mãe antes de irmos para a corte. Sorrindo, Preeya assentiu com um gesto de cabeça. — Eu tinha me tornado a terceira esposa poucas semanas antes de Kedar ser mandado para conviver com os parentes. Éramos quase da mesma idade e, em nossa solidão, nos tornamos amigos. Quando Kedar conheceu sua mãe, me confiou sua felicidade. E como fiquei contente por ele, ajudei-os a se encontrarem. Sua mãe também se tornou minha amiga. — Então, ela foi mandada embora pelo pai e perdeu-se para Kedar. E também para mim, embora por pouco tempo. Ela me mandou um pedido de socorro e eu fui procurá-la às escondidas. Eu estava lá com a parteira quando você veio ao mundo. Ela se foi logo e sua mãe me contou que você era filha de Kedar. — Você sempre soube — Sandra murmurou perplexa. — Naquele dia, fiz muitas promessas para sua mãe. Prometi que cuidaria de você se ela não pudesse, que não exporia Kedar ao perigo ao lhe contar de seu nascimento, nem do casamento de sua mãe com o homem a quem você pudesse chamar de pai. Prometi ainda, com grande tristeza, mas respeito por seu amor a Kedar, que deixaria vocês duas se perderem para ele. — E nós nos perdemos. — Nunca para mim, minha Sandra. Sempre soube onde vocês estavam. Eu as observava a distância, pronta para levá-la para a segurança caso sua mãe não pudesse mais protegê-la. Mas quando seu suposto pai foi morto e sua mãe fugiu levando-a, eu não soube o que fazer. Temendo pelas duas, quebrei minhas promessas. Procurei Kedar e lhe contei tudo. — Ele ficou bravo com você? Projeto Revisoras

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— Não, entendeu nossa escolha. E estava muito aflito para encontrá-las para se importar com o passado. Ele queria rever a mulher amada e conhecer a filha desse amor. Kedar não é homem de desperdiçar o hoje e o amanhã, arrependendo-se do ontem. — Como Aiden quer fazer — Sandra admitiu. — Ele mudará. Kedar não foi sempre tão sensato. De muitas formas, Aiden me lembra dele quando tinha a mesma idade. A comparação provocou a curiosidade de Sandra. — Preeya, você soube, desde o momento em que me viu com Aiden, naquele primeiro dia, que nós seríamos amantes e me encorajou a fazer tal escolha. Por quê? — Ora, por que quero sua felicidade e Aiden a fascina e encanta. Você pode negar isso? — Não. Pelo jeito, algo faltava na resposta, pois Preeya arqueou as sobrancelhas, suspirou e indagou: — Qual será o melhor destino, minha Sandra? Ser princesa? Ou amar e ser amada? — Amar e ser amada, claro. — Sem nossa ajuda, a vida já traz muito sofrimento. Ame Aiden e deixe que ele a ame. Acolha a felicidade que tem hoje. Se for seu destino, será — afirmou ao beijá-la no rosto. Sandra esboçou um sorriso. Entendia agora por que, em parte, acreditava na mão invisível da sorte e em parte que o decorrer de sua vida estava nas próprias mãos. Infelizmente, nenhuma das perspectivas oferecia chance de felicidade duradoura. Admitia, porém, que no curto prazo, ela e Aiden tinham planejado um dia promissor. E a reforma de uma saia fazia parte dele. — Hoje Aiden vai me ensinar a cavalgar — anunciou. — Ótimo. Vão deixar Mohan para trás? — Sim. Se acontecer alguma calamidade que exija nossa... — Daremos um jeito sem vocês — Preeya afirmou, interrompendo-a. — E enquanto estiverem fora, contarei a história da irmã a Mohan. — Obrigada. — Vá. Seja feliz hoje. Sandra sorriu e saiu da cozinha balançando a cabeça. Quem haveria de imaginar que Preeya soubesse tudo aquilo? Como fora capaz de guardar o segredo

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por vinte e quatro anos, ninguém mais saberia onde ela e Aiden passariam parte do dia. Ou de muitos dias, se os deuses fossem benevolentes. Na véspera à tarde, ele tinha relutado em voltar à Blue Elephant. E mais do que no dia anterior. Nesta tarde, Aiden observava, pela janela, Sandra tentar convencer Tippy a largar a cordinha que seria atirada longe para ir pegá-la outra vez. Mas a cadela parecia não entender. Rindo, Sandra continuava a explicar as regras do jogo. Neste dia, Aiden não queria voltar à Blue Elephant de jeito nenhum. Em Haven House, Sandra era só dele e não tinha de ser dividida com o irmão e Preeya. Ali a vida era bem inglesa, ordenada e previsível. Não havia o grasnar de pavões, estranhas combinações de alimentos e o tique-taque de relógios marcando a passagem do tempo valioso. Em Haven House, Sandra não era uma princesa hindu e nem preceptora real e sim sua amante, amiga, companheira e seu prazer absoluto. Ninguém entraria pela porta da frente e a levaria embora. Nem Sarad, nem Hanuman. A realidade não podia tocá-los ali. Ela os aguardava na Blue Elephant, cada dia mais perto e certa. O tempo se esgotava. Se ele não voltasse para lá e mantivesse Sandra ali dentro das paredes de Haven House... Ora, nada mudaria o fim. Sarad chegaria, a prancha de seu navio baixaria e Sandra subiria por ela de queixo e ombros erguidos, decidida a cumprir o dever. Não havia nada que ele pudesse lhe oferecer para fazê-la ficar. Não era um príncipe e não tinha palácio. No momento não tinha nem um navio. A vida com ele estaria longe de ser a da realeza. Sandra merecia ser princesa. Um dia, apareceria um príncipe que reconheceria o tesouro raro que ela era e faria tudo para torná-la feliz. E como ele não passava do guarda-costas encarregado de mantê-la viva para aquele dia feliz, teria de levá-la de volta à Blue Elephant antes do escurecer. Pegou o revólver na mesinha ao lado, colocou-o na cintura e levantou-se. — Tippy, sente-se — disse ao chegar perto da cadela teimosa. Esta obedeceu no mesmo instante. — Solte. Sandra cambaleou para trás quando a resistência da corda cessou. — Ora, você podia ter me ensinado isso. — E arruinar parte da brincadeira? — Aiden perguntou. — Hora de voltar para casa, querida. Já estamos bem atrasados. Ela pôs a corda numa cesta e parou para cocar a cabeça de Tippy. — Amanhã continuaremos de onde paramos — disse antes de seguir para o vestíbulo. Com olhar triste, Tippy a seguiu. Ao passar por ela, Aiden murmurou: Projeto Revisoras

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— Eu também, menina.

Capítulo IX

Como a mãe estava certa sobre a combinação de homens e cavalos!, Sandra pensou enquanto seguiam, lado a lado, num passo macio. Cavalgar assim era confortável e havia uma vaga promessa sensual. A incerteza desaparecia quando o cavalo encetava um trote. O ritmo ficava mais rápido, mas, sem dúvida, sensual. Era um prelúdio. Quase como os primeiros momentos após se fechar a porta e tentar despir as roupas enquanto se beijavam. O meio galope, entretanto... Ah, era sua marcha favorita! Fácil, macia e sempre a fazia pensar em Aiden e nos prazeres eróticos que teriam quando se deitassem. Pena não ter iniciado as aulas antes. A seu lado, Aiden ergueu a mão, sinal combinado, e Sandra puxou as rédeas, obedecendo as regras estipuladas no primeiro dia. No último quarteirão deviam cavalgar com ele na frente a fim de abrir o portão. Aiden não tinha dado explicação e ela não a pedira. Bastava confiar. Ao vê-lo se adiantar, observou-lhe as costas. O coração confrangeu-se como nos três dias anteriores àquela hora. Neles, havia esperado que Aiden sugerisse ficarem em Haven House para passar a noite, ou para sempre. Se os deuses exigissem tudo que possuía em troca de ficar o resto da vida com ele, os atenderia sem jamais se arrepender. Mas ele não sugerira. A sombra de Mary Alice não lhe deixava espaço nó coração dele. Não era nobre sentir inveja de uma pessoa morta, mas ela sentia. Mary Alice não podia mais provocar o riso de Aiden ou os murmúrios de prazer. Também não podia ser mãe dos filhos dele. Sandra reprimiu as lágrimas, lembrando-se de que ele só daria o que pudesse. Não podia mudar-lhe o passado ou fazê-lo amá-la mais do que tinha amado Mary Alice. À sua frente, acompanhado pelo grasnar dos pavões, ele cavalgou pelo quintal até a porta do estábulo. Apeou e foi ajudá-la. Ela livrou-se da melancolia e sorriu-lhe. — Hora de voltar à Terra — ele disse ao segurá-la pela cintura. — Não quero entrar — disse Sandra, embora pusesse as mãos nos ombros dele e inclinasse o corpo para a frente. — Vamos fazer um passeio ao luar. Preeya ainda não terminou o jantar. Temos tempo. Projeto Revisoras

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Ele a pôs no chão e fitou-a. — Você torna difícil ouvir a voz da razão, querida. — Não sou eu, mas os pavões — ela disse ao abraçá-lo pelo pescoço, fazendoo rir. Então, acrescentou: — Que mal haveria nisso? Só não quero voltar lá para dentro. — Então, venha comigo ao estábulo e me faça companhia enquanto cuido dos cavalos. Era o máximo de tempo que conseguiria. Melhor mais uns minutos a sós com ele do que nada, refletiu ao acompanhá-lo. Com as rédeas das montarias nas mãos, Aiden aproximou-se da porta, mas imobilizou-se. Perplexa, Sandra parou logo atrás. — O que foi, Aiden? — Fechei as tranquetas hoje de manhã — ele respondeu ao sacar a arma da cintura. — Afaste-se e deixe o cavalo entre você e a porta. — Talvez Sawyer tenha tirado a carruagem durante nossa ausência e, na volta, esquecido de fechá-las — ela sugeriu. Aiden balançou a cabeça e empurrou o cavalo para o lado. — Se isto piorar, cavalgue até Barrett o mais depressa possível. Sandra não discutiu e nem lhe disse que, não importava o que acontecesse, não o deixaria. Aiden moveu as tranquetas com a mão esquerda e Sandra, com o coração disparado, prendeu a respiração. Então, a realidade desenrolou-se, as imagens se sobrepondo de maneira rápida. Empunhando a arma, Aiden vasculhava as sombras. Um movimento à esquerda o fez praguejar. Hanuman. As roupas ensangüentadas, o rosto contorcido pelo ódio. O rosnar animalesco, o lampejo da lâmina na tentativa de atacar Aiden. — Não! — Sandra gritou em hindi, saindo de trás do cavalo. — Sou eu quem você quer! O ódio aumentou no olhar ao encará-la e mudar a direção do ataque. O fogo brilhante da explosão e a fumaça sufocante. Hanuman cambaleando para trás, com ódio ainda no olhar, a faca fazendo um arco para baixo e soltando-se dos dedos para o chão enquanto o sangue se espalhava pelo peito dele. Teve-se a impressão de que o tempo parava e a percepção ficava meio fora de foco. Sandra sentia os movimentos, mas não via os passos. Hanuman deitara-se na palha, a visão fora de foco, a respiração arquejante. A cada exalação, o sangue saia pela boca. Seu tio, ela deu-se conta. Queria matá-la, mas para tanto teria de matar Aiden primeiro.

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Ela o viu afastar a faca com um pontapé e, com a mão livre, soerguer Hanuman pela frente da camisa. — Onde está Vadeen? A resposta não passou de um olhar baço e nova golfada de sangue. Aiden largou-o no chão e ergueu-se. — Verifique as baias à esquerda, Sandra, enquanto vejo as da direita. Ele deve estar aqui. De maneira mecânica e dando-se conta do silêncio repentino de Hanuman, ela foi. A inércia terminou quando abriu uma baia e o olhar caiu no homem ferido e sentado junto à grade. — Aiden! — chamou ao ajoelhar-se e prensar os dedos no pescoço do homem à procura do pulsar da vida. Sentiu-o, mas fraco. Ele entreabriu os olhos no momento em que Aiden entrava e ajoelhava-se ao lado de Sandra. — Santo Deus — murmurou e fez uma inspeção rápida dos ferimentos no braço, perna e lado do corpo. Vadeen tentou endireitar as costas. — Não se mexa — Aiden ordenou ao encostá-lo de novo na grade. — Onde há um médico por aqui, Sandra? — A seis quarteirões. Ele tirou a jaqueta que lhe entregou ao se levantar. — Estanque o sangramento pior enquanto atrelo a carruagem. No instante seguinte saía da baia. Sandra examinou o ferimento na perna. Era o pior, pois chegava até o osso. — Hanuman... — Aiden terminou o que você começou, Vadeen. Tudo está bem. Vamos leválo ao médico. Isto vai doer. Sinto aumentar seu sofrimento, mas se não o fizer, você se esvairá em sangue. Sandra amarrou a manga da jaqueta no corte que ia de um lado ao outro no alto da coxa. Então, ele perdeu os sentidos. — Sr. Terrell? — Sawyer chamou, assustado. — Estamos bem — Aiden respondeu enquanto Sandra rasgava a parte de baixo da calça de Vadeen para enfaixar o corte no braço direito. — Esse desgraçado merecia morrer. Por favor, Sawyer, arraste o corpo dele para fora do caminho. — O que mais posso fazer, senhor?

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— Mantenha Mohan e Preeya fora daqui. Aliás, leve Preeya para dentro de casa e não deixe nenhum dos dois fora de seu olhar. Leve isto e não pense duas vezes para usá-lo caso ache necessário. Sandra conjeturava sobre o que acabara de ouvir quando Aiden exclamou: — Pelo amor de Deus, homem! Segure-o com firmeza e finja que sabe para o que serve. Aiden tinha lhe dado o revólver, ela concluiu. — E aonde vão, senhor? — Sawyer indagou. — Diga a Preeya que jantaremos mais tarde — foi a única resposta. — Muito bem, senhor. Pouco depois, Aiden voltava à baia. Ao abaixar-se e ver o ferido desacordado, murmurou: — Melhor assim. Ele não vai sentir ser carregado. Perplexa, Sandra o observou erguer Vadeen e colocá-lo nos ombros. Então, correu até a carruagem e abriu a portinhola. Depois de deitar Vadeen no banco, Aiden postou-se diante de Sandra. Com olhar furioso, indagou: — Que diabo estava pensando? Eu não lhe disse para ficar atrás do cavalo? Podia ter sido morta. — Melhor eu do que você — ela declarou. — Eu poderia colocá-la sobre meus joelhos e lhe dar boas palmadas. Nunca mais faça isso! Está me ouvindo? — Estou, sim. Mas isso não quer dizer que eu vá obedecer. — Quando ficarmos a sós esta noite, vamos ter nossa primeira briga séria — ele esbravejou. — Muito bem. Vou contar as horas até lá. Aiden a segurou pela cintura e a puxou de encontro ao corpo. — Eu a aviso, vencerei. Beijou-a impetuosa e ferozmente, mas sob o calor da raiva, ela sentiu-lhe não só um misto de medo e alívio como também a força de seu desvelo. Era uma dádiva preciosa que não esperava receber e que aceitou com um soluço de gratidão, rendendo-se a ele. Aiden a soltou da mesma maneira abrupta com que a tinha abraçado. — Ainda não terminamos a discussão, Sandra — avisou. Ah, mas o brilho nos olhos dele não era mais só de braveza. Projeto Revisoras

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Desejo e anseio também reluziam neles. Ela virou-se e subiu na carruagem enquanto dizia: — Estarei disposta apenas se você me beijar assim outra vez. Balançando a cabeça, ele fechou a portinhola às suas costas. Se Aiden já não soubesse que Sandra tinha uma energia férrea, as últimas horas o teriam convencido disso. Tanto ele quanto o médico haviam tentado, em vão, convencê-la a ficar fora da sala de cirurgia. Ela havia lavado bem as mãos e contribuído com sua firmeza na sutura dos cortes e com as ataduras. Seu vestido sujara de sangue e os dedos crisparam-se com cãibras provocadas pelo esforço para juntar os lados dos cortes enquanto o médico dava os pontos. Vadeen tinha gemido de dor e ela lhe dera colheradas de tintura de ópio e murmurado encorajamentos até a droga anestesiar parte da dor. E agora, ela suportava um tanto do peso de Vadeen que, apoiado nos dois, seguia para a porta de trás da Blue Elephant. — Não é certo uma princesa ajudar um homem a andar — Vadeen disse numa voz embargada pela droga. — E é certo ela se esquivar e permitir que o homem caia? — ela perguntou. — Renda-se, Vadeen. Você não está em condições de fazer tal argumento valer. — Você já suportou demais, Aiden — o outro afirmou. — Não diga a ela, mas não tenho me sentido tão mal. — Parou ao dar-se conta de algo. — Os pavões. Sandra olhou por sobre o ombro. — Eles sumiram! — Finalmente os vizinhos não devem ter suportado mais o barulho e dado fim neles. Só me surpreendo que não tivessem feito isso antes. Eu bem que tive vontade. — Eles estão com um cheiro bom —Vadeen aparteou. —Você já comeu pavão assado, Aiden? — Não posso dizer que sim — admitiu. Imaginava como não tinha notado o silêncio e o odor delicioso que vinha da cozinha. Talvez porque, com a morte de Hanuman e a afirmativa do médico de que Vadeen se recuperaria, a mente dele decidira tirar férias. — Ele tem quase o sabor de galinha, só que mais forte. Claro. Tudo, diziam, tinha o gosto de galinha, só que diferente. Já havia provado codorna, faisão, perdiz, pombo e nenhum lembrava o sabor de galinha, Aiden refletiu.

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A porta de trás da loja abriu e a luz o cegou. Piscou e viu, lá dentro, seis homens grandalhões. Já ia pegar o revólver quando se lembrou de tê-lo deixado com Sawyer. Vadeen falou em hindi e impulsionou o corpo para a frente, ameaçando derrubar os três. — Alteza — Sandra traduziu, esforçando-se para manter ò equilíbrio. A mente de Aiden clareou. O homem que segurava a lanterna era indiano e devia ser o serviçal do outro regiamente vestido. Mohan estava ao lado dele e os outros deviam ser guarda-costas como Vadeen. Todos vinham em direção a eles. — Não se mexa, Vadeen. Não aumente seus ferimentos ao tentar — o homem recomendou em inglês com um leve sotaque. Fez um gesto para os homens atrás que, depressa, foram tirar Vadeen das mãos de Aiden e Sandra. Enquanto isso, seu senhor dizia: — Vi a prova de seu sucesso, Vadeen. Descanse agora. Você merece. Livre do encargo, Aiden endireitou o corpo e disse: — Imagino que seja o príncipe Sarad. — E eu fui informado que o senhor seria John Aiden Terrell. — Sou, sim. Devagar, Sarad o observou e, depois, fitou-o. — Também fui informado que o senhor foi o protetor de meus sobrinhos nas últimas semanas. Aiden assentiu com um gesto de cabeça. Ciente do que viria a seguir, sentia o coração pesar no peito. — Em nome de meu irmão Kedar — Sarad prosseguiu —, eu lhe agradeço por tudo que fez. Confiei o pagamento por seus serviços a Sawyer, seu serviçal. Ele já arrumou seus pertences e aguarda seu retorno para casa. O príncipe Mohan indicou que gostaria de presenteá-lo com a carruagem e os cavalos que o senhor o ajudou a adquirir. — Obrigado, Mohan. Generosidade sua. — É um prazer para mim, sr. Terrell. Também não posso levá-los comigo no navio. Aiden forçou-se a rir. — Bem, quando não precisar mais deles, mande me avisar para eu vir buscálos. — Deve levá-los agora, sr. Terrell. Partiremos amanhã cedo. — Por que tão depressa? — Sandra balbuciou, a angústia no olhar refletindo a dele, Aiden notou.

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— O perigo já passou e seu pai quer ter os filhos em casa. Se fosse possível partir antes, não passaríamos nem a noite aqui — o tio explicou. Numa voz chorosa, ela insistiu: — Mas minha loja, nossa casa e o que há nelas... — Preeya está orientando meus homens na embalagem de tudo. Ela está lá em cima, caso você queira orientá-la. Aiden viu que Sandra estava prestes a chorar. Sabia quais eram seus sentimentos e a única coisa que poderia fazer era tornar a despedida a mais rápida possível. Os golpes seguintes doeriam menos enquanto estivessem aturdidos. — Diga adeus a Preeya por mim, sim? — ele pediu, tenso. — Claro — Sandra respondeu meio alheia. — Comporte-se, Mohan — Aiden disse ao eriçar-lhe os cabelos. — Sim, claro. É uma honra tê-lo conhecido, sr. Terrell. — A honra é mútua. — Aiden já ia se virar quando perguntou: — Você vai levar os gatos, não vai? Mohan sorriu ao responder: — Vou, sim. Sawyer insistiu. — Aiden, por favor — Sandra murmurou, segurando-o pelo braço. Seus olhos rasos d'água partiram-lhe o coração. — Adeus, Sandra — murmurou ao beijar sua mão. Conseguiu livrar-se do nó na garganta e dizer: — Você será a melhor princesa que a Índia já teve. — Aiden... — Cuide dela — recomendou a Vadeen, determinado a ir embora antes que a tristeza acabasse com o resto da dignidade. — Com a própria vida. Aiden não podia falar e disfarçar as emoções. Despediu-se com acenos de cabeça e continuou andando com o olhar fixo na carruagem. Focalizou a mente na tarefa de amarrar os três cavalos atrás do veículo e ir embora antes de se fazer passar por um tolo choramingas. Sandra conseguiu reter as lágrimas e dirigiu-se ao tio: — Voltarei dentro de uns minutos. Quero me despedir a sós. — Narain a esperará aqui. Não se demore, sobrinha. Ela não tinha tempo e energia para protestar. E demoraria o quanto quisesse. Correu para trás da carruagem com o coração disparado.

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— Você não vai embora arrependido, não é? Não tem motivo algum para isso, Aiden — afirmou ao parar ao lado dele. — Bem, não cheguei a ensiná-la a dançar — ele gracejou. A voz dele estava controlada demais. Aiden sofria tanto quanto ela. Desesperada para prolongar os minutos com ele, ansiosa para aliviar-lhe a consciência, Sandra ergueu as mãos como a mãe a tinha ensinado. — Pois me ensine agora, Aiden. Tenso e com a testa franzida, ele perguntou: — Uma princesa hindu precisa mesmo saber como um inglês dança? — Existe uma diferença entre precisar e querer — ela murmurou com o coração partido. — Quero saber como é dançar com você e guardar essa lembrança com as outras de nós dois juntos. Devagar, ele chegou mais perto, pegou sua mão e passou o braço por sua cintura. — Mantenha distância entre nós enquanto dançamos. Sandra assentiu com um gesto de cabeça. Temia que a tristeza extravasasse. Aiden a guiou para trás e ela o fitou, gravando-lhe as feições. Peça para eu ficar, Aiden, suplicou em silêncio. Peça para eu amá-lo. Diga que tentará encontrar lugar em seu coração para mim também. Ele parou, soltou-a e deu um passo para trás. — Não posso fazer isto, Sandra. Tenho de ir. — Aconchegou seu rosto entre as mãos e murmurou: — Fique em segurança, minha lindíssima princesa. De vez em quando, pense em mim e saiba que eu nunca a esquecerei. — Sempre me lembrarei de você, Aiden. Então, ele se foi sem nem mais uma palavra ou carícia. Ela não podia virar-se e vê-lo desaparecer de sua vida. Ficou onde estava, com as lágrimas correndo pelas faces. As molas da carruagem rangeram. As rédeas estalaram. As patas dos cavalos ressoaram na terra do quintal e, depois, no calçamento da rua. Sandra continuou nas sombras até não ouvir mais nada. — Princesa? O soluço partido da alma escapou pela garganta. Segurando a saia, ela correu para casa, passou pelo guarda atônito e subiu a fim de se refugiar na solidão de seu quarto. Apesar de suave, a batida na porta venceu sua tristeza, dando-lhe esperança. Sandra apressou-se em ir abri-la, temendo que, se demorasse, Aiden a deixaria outra vez. Com o coração explodindo de felicidade, escancarou-a.

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— Preeya — murmurou frustrada e derramando novas lágrimas. Voltou a sentar-se na cama e tentou se desculpar, mas apenas soluçou. — Você não precisa explicar — Preeya disse ao entrar e fechar a porta. — Quase vinte e cinco anos atrás, encontrei seu pai nesta mesma situação. Ele estava com o coração despedaçado pela dor. — Aiden se foi, Preeya. Nunca mais o verei. E o amo tanto... Prefiro morrer do que passar a vida sofrendo assim. — Seu pai me disse as mesmas palavras — Preeya contou ao sentar-se a seu lado. — Vou repetir as que disse a ele. — De leve, afastou-lhe os cabelos do rosto. — Grandes amores são obra do destino. Mas tal sentimento vem sempre precedido por uma prova de sofrimento equivalente à promessa de felicidade. Se você falhar nessa prova, não receberá o que lhe está reservado. Mas se tiver fé e confiar nos desígnios do destino, eles se realizarão. Trêmula, Sandra tentou respirar fundo. — Você tem uma escolha — Preeya advertiu-a. — Pode desejar estar morta e será assim que Aiden a encontrará quando voltar para buscá-la. Ou pode enxugar as lágrimas, acreditar que o amor é eterno e que a esperança por ele jamais se perde. — Nós partimos amanhã cedo, Preeya. Devo esperar que um milagre aconteça até então? — ela indagou sem conter mais lágrimas. — Durante dez anos Kedar procurou sua mãe. Ela, por sua vez, suportou esse tempo antes de poder estar entre os braços do homem a quem amava. A filha deles não herdou sua fortaleza, fé e coragem? Dez anos de tristeza pela separação. E outros dez de amarem-se às escondidas. Essa era a recompensa recebida? — Não herdei, não. Quero algo mais. E agora. Quero Aiden e uma vida com ele. Ser aquela que lhe dará filhos. — Aiden a encontrará onde você estiver e não importa quanto tempo leve — Preeya garantiu. Uma certeza terrível apertou-lhe o coração. Nunca haveria uma vida com Aiden. Enxugou as faces e, desanimada, disse: — Sarad o demitiu e ele se foi. Não vai voltar para me procurar. Preeya balançou a cabeça. — Raro é o homem que, com um olhar de relance, enxerga o que precisa. Dê tempo a Aiden. Ele acabará vendo o que procura. Você deve confiar não só no amor como também em quem ama. Se ele não valesse isso, você não lhe teria dado o coração.

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— Ele não sabe isso. Nunca lhe disse que o amava. Preeya levantou-se e já estava a meio caminho da porta quando virou-se. — Você pensa que o amor só existe quando é posto em palavras? Que ele não o sente em suas carícias? Vê em seus olhos e sorriso? Que não ouviu seu amor em sua voz quando murmurou-lhe o nome e o abraçou no escuro? Pelo bem de Aiden, ela esperava que não. Os remorsos que ele carregaria pelo tempo passado a seu lado seriam muito mais profundos se ele soubesse que havia lhe partido o coração. — Tenha fé, Sandra. Você deve viver confiante — Preeya declarou ao sair. Com os olhos fechados, Sandra ouvia as marteladas com que os homens de Sarad embalavam seu mundo. De manhã, tudo seria embarcado no navio rumo à Índia. A Blue Elephant não existiria mais. E toda a vida, esperança e felicidade entre suas paredes passariam a existir apenas no passado. Aiden sentava-se numa cadeira na sala de jantar. Na mesa, diante dele, estavam a caixinha dourada, forrada de veludo branco, cheia de gemas preciosas, uma garrafa do melhor conhaque de Carden e um copo vazio. A caixinha era linda e as pedras valiam o resgate de um rei. Ou de uma princesa, dependendo de como as visse. Mas era o conhaque que mais lhe ocupava o pensamento. E isso fazia bem umas duas horas, desde que entrara em casa, decidido a se embriagar. Ele havia trazido a garrafa e o copo até ali onde Sawyer tinha deixado uma lamparina acesa. Depois, atirara-se na cadeira e não tinha se mexido desde então. Olhou para a caixinha de pedras preciosas, pensou por que elas lhe tinham sido dadas, lembrou-se da expressão de Sandra quando a largara no quintal e isso tinha sido o fim de seu raciocínio. Só Deus sabia seu sofrimento ao vagar pelas lembranças das últimas semanas, pensando em afogar as mágoas no conhaque. Mas não havia sido capaz de se servir. Sentia-se infeliz. Não havia uma parte do corpo que não doesse. Não queria pensar e nem sentir nada, ainda mais a dor no peito. Também não queria dormir e comer. Muito menos, beber. Algo estranho e inexplicável. Era como se ignorasse o esquecimento abençoado provocado pelo álcool. Por que não queria esquecer era a raiz da questão. A resposta importante o tinha frustrado por cerca de uma hora. Ele a sentia, mas não a entendia. Era uma dádiva não esperar que surgisse no fundo de um copo esvaziado. — Pegue essa garrafa e eu quebrarei suas mãos. Ao ouvir a voz familiar, Aiden ergueu o olhar e viu o amigo se aproximar da mesa. Prova de que, se não fechasse a porta a chave, problemas entrariam. — O que veio fazer aqui? — indagou. Barrett tirou o sobretudo e largou-o numa cadeira ao responder:

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— Passei pela Blue Elephant para vê-lo e fui informado de sua demissão. Temi que você fizesse algo impensado. Então, passei por aqui a caminho de casa. Será que cheguei a tempo? Sem tirar os olhos da garrafa, Aiden resmungou: — Estou sentado aqui há bastante tempo, tentando descobrir por que parei de beber. Qual a razão, Barrett? — Talvez porque esteja um ano mais velho e mais sensato. Aiden bufou. Barrett o observou por um bom tempo. Então, indagou: — O quanto você quer que eu seja honesto? — Diabo, minha mágoa não pode ser mais profunda do que já é. — Está bem — ele disse ao encostar-se no bufê e cruzar os braços no peito. — Não conheci Mary Alice Randolph. Fale sobre ela. Ora, Aiden sabia o que Mary Alice tivera a ver com a vontade de se embriagar, mas o que tinha a ver com Sandra? O motivo para estar sentado ali, fazendo-se perguntas inúteis, em vez de estar na Blue Elephant, vivendo uma paixão ardente entre lençóis de cetim, era ter deixado Sandra para trás. Estava cansado demais para ver o sentido de tudo. — O que você quer saber? Barrett deu de ombros. — Não sei. Qual era sua aparência? Ele podia vê-la claramente. Tinham se conhecido numa festa e ela estava escondida atrás de um vaso com uma palmeirinha. — Era loira, com olhos azuis e pequenina. Sempre usava rosa. — O que a fez especial? Aiden franziu a testa. Ele estava no mesmo canto, escondendo-se de Rose, a ex-amante, desde a tarde. Tinham começado a conversar e... Desgraça, não se lembrava sobre o quê. Estranho e um tanto aflitivo olhar para trás, ver Mary Alice e não recordar nada que ela lhe dissera, ou suas idéias, esperanças e sonhos além de voltar para Charleston. — Você não se lembra, Aiden? — Não. Grande quantidade de álcool tolda a mente. Algumas coisas se perdem. Quase sempre é uma bênção. Essa é a atração de se embriagar. O relógio bateu meia-noite. Só quando a última badalada soou, Barrett perguntou baixinho: — Ela o fazia rir?

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— Não de propósito. Era acanhada e um tanto séria — Aiden respondeu, ansioso para ver a inquisição terminar. — Sabe, Carden e eu sempre imaginamos por que você nunca trouxe Mary Alice para nos conhecer e a Seraphina. — Porque achava que ela não poderia enfrentá-los e se sentiria embaraçada. Pensaria que vocês a achariam uma cabecinha-oca. E eu sabia que Seraphina a intimidaria. Não de propósito, claro. Mas Mary Alice não possuía a autoconfiança de Será. — Ela era boa na cama? Aiden gemeu e olhou para o teto. As perguntas jamais acabariam? — Ela se foi, John Aiden. Não há uma reputação para se proteger. Por Deus, ele sabia. Desviando o olhar, admitiu: — Não sei. Nós nunca fizemos amor. — Não diga! Por que não? — Eu queria me casar com ela. Resposta superficial, sabia, mas estava cansado de olhar para trás e de se sentir incomodado com o que revia. — O que uma coisa tem a ver com a outra? A maioria dos homens quer fazer amor com as esposas, Aiden. E caso você não tenha notado, quase todos não esperam pela legalização da bênção. Por que você estava disposto a fazê-lo? — Ela me pediu. Respeitei sua vontade. — Por quê? — Por Deus, Barrett — ele gemeu, exasperado. — Eu não podia me aproveitar dela. Jovem, saudosa de casa, inocente, frágil e... — Precisava de você. — Exato. — Então, você se encarregou dela. Era uma donzela aflita e você assumiu o papel de seu paladino numa armadura prateada. — Isso soa vazio. Barrett desencostou-se do bufê, firmou as mãos na mesa e inclinou o corpo para a frente. Numa voz firme, declarou: — Discordo, John Aiden. Lamento ser franco, mas já é tempo de encarar a verdade. Você não amava Mary Alice. Certamente gostava dela, uma boa pessoa. Não — disse ao levantar a mão, prevendo o protesto. — Você não a amava. O que amava era ser seu herói. Por isso, ao ver a tristeza em seus olhos azuis, prometeu-lhe

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furar o bloqueio e levá-la para casa em Charleston. Se a amasse, jamais consideraria fazer isso. Você a teria convencido a ficar na Inglaterra onde ela estaria segura. Aiden sentiu o coração pesar no peito. Estava difícil ter certeza de alguma coisa. Sentia a mente nublada e via pontos prateados ao redor da visão. Porém, nada estava errado com a memória. Podia ver os pais em pé na sala, o rosto angustiado da mãe e o furioso do pai. E podia ouvir cada palavra retalhando-o. Numa voz mais amena do que a da memória/ Barrett continuou: — E imagino que seu pai tenha lhe dito a mesma coisa quando conseguiu seu retorno para St. Ritts. — Isso e muito mais — Aiden admitiu ao passar a mão nos cabelos. — Também calculo que, a certa altura da conversa, você teve um lampejo de compreensão do que tinha feito e por quê. Deus permita que você aceite a condição de ser humano e, como tal, ter cometido algo terrível. Aiden baixou o olhar para a mesa. Barrett tinha acertado. Era como se ele tivesse aberto sua cabeça e visto a percepção hedionda explodir em sua consciência. Ele havia se infiltrado numa garrafa para escapar disso. E, até este momento, pudera esquecer tudo. — John Aiden acredite em mim. Todos os homens de vinte e poucos anos cometem coisas estúpidas. É da natureza humana. Eram palavras simpáticas com a intenção de fazê-lo se sentir parte de um grupo grande. — Você cometeu? — Aiden perguntou. — Claro que sim. Você não passa de um amador. Ele não sabia o motivo, mas o fato de Barrett pertencer ao grupo tirava um grande peso de seus ombros. A sensação era tão boa que ele não se conteve e riu. — Você passou um ano se embriagando? — Não. Eu me alistei no Exército na esperança de uma bala me atingir. — Obviamente falhou. — Não foi por falta de tentar. Devo o fato de ainda estar vivo ao tempo, pura sorte e à amizade de Carden Reeves. E no processo, ele tinha conseguido, Aiden sabia, equacionar o que o instigara a querer pular pelo precipício. Suspirou e olhou para aqueles meses da própria vida. Mas não através de uma névoa de remorso e desânimo. Barrett estava certo. E o pai também, um ano atrás. Ele não tinha amado e nem querido se casar com Mary Alice e sim ser seu herói magnífico. De maneira espetacular, tinha falhado a ela e às próprias ilusões. Era um fato irrevogável, mas também do passado.

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— Não posso desmanchar o que foi feito, Barrett. Só me resta lamentar para sempre a tragédia. A única escolha que tenho é aceitar isso e viver ou desistir e morrer. Porém, descobri que viver, mesmo com remorsos, é preferível. Barrett relaxou o corpo e voltou a se encostar no bufê. — Aquele de nós que consegue sobreviver por algum tempo, acaba entendendo isso. Fico contente que você tenha vencido, Como aconteceu isso? Aiden riu. — Graças ao tempo, à sorte e à amizade de Barrett Stanbridge. Você me forçou a viver por uns tempos. Muito obrigado. — A única coisa que fiz foi atender o pedido de seu pai para mantê-lo sóbrio. Se você tem um débito de gratidão é para com Sandra Radford. Foi ela que o fez querer viver outra vez. Aiden sentiu o aperto no coração. — Sim, mas foi você quem me ligou a ela. Sabia muito bem que eu notaria sua beleza e haveria de querer seduzi-la. Sem o menor pudor, você a usou para me salvar. — Não fui muito honrado, admito, mas depois de passar quatro semanas tentando incutir-lhe um pouco de bom senso, eu já desanimava. E você tem de reconhecer que, no fim, deu certo. Sua cabeça firmou-se novamente. Ah, sim, Aiden refletiu, a cabeça voltara a se firmar um tanto. Mas o resto dele retorcia-se e parecia fora de ordem. — Isso é porque você está olhando pelo lado de fora — rebateu tornando a considerar a garrafa e o enigma original. — Bem, eu não contava com você entregando-lhe o coração. Achava que a experiência recente o faria fugir disso. — Ora, uma vez herói, sempre um herói — Aiden ironizou. — Pelo menos desta vez, o resultado não foi ruim como o da última. — Limpou a garganta e acrescentou: — Vou comprar uma cavalo branco. Numa voz arrastada, Barrett perguntou: — Apenas por curiosidade... Sandra o fazia rir? A mente o remeteu ao passado com rapidez e clareza. — O tempo todo. Não que ela contasse histórias engraçadas. Sandra tem uma maneira diferente de ver o mundo e a vida. Não posso explicar de outro modo. — Riu. — É Sandra sendo alegremente Sandra. — O que a fazia tão especial? — Barrett indagou.

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— Tudo — Aiden respondeu sem titubear. — Ela é independente, forte, mas sabe quando e como se curvar. Sabe que vencerá os percalços da vida, por isso, nada a assusta. Aceita o que surge, adapta-se e segue em frente com serenidade. Porém, não é passiva ou tímida. Jamais conheci uma mulher tão honesta e sincera. Com apenas um sorriso ela pode fazê-lo esquecer de respirar. Não que você se importe com essas coisas. — Pelo que ouço, ela era uma amante interessante. As lembranças invadiram-lhe a mente. Sua silhueta sob a luz da vela, seu perfume, a pele sedosa, os cabelos soltos sobre os ombros, a paixão desinibida e a alegria com que ela lhe enchia o coração. A magnífica satisfação de se unirem e o prazer incrível que ela lhe proporcionava. Sabia que, se vivesse mil anos, jamais conheceria outra mulher igual a ela. Sua lindíssima, apaixonada e dadivosa Sandra. — Você sabe o que faz Sandra tão especial? — murmurou enquanto dava-se conta da realidade e o coração disparava. — O quê? — Barrett indagou. — Ela ama sem impor condições. Dá tudo e não pede nada em troca. Você faz idéia do poder disso? — Não. Nunca tive essa sorte incrível. Aiden olhou para o futuro ciente de que todas as manhãs, ao acordar, estenderia a mão para acariciá-la. Mil vezes durante o dia, esperaria ouvir o som de sua voz e de seu riso, ver-lhe o brilho nos olhos. Jamais encontraria isso tudo. Sandra se fora. Ele a deixara ir e se afastara. Era a verdade irrefutável. Aiden tornou a fitar o amigo. — Eu a amo, Barrett. — Eu sei. Venho observando-o nas últimas semanas. Aqui em pé, eu o ouvi revelar os segredos do coração, esperando que você finalmente os interpretasse. Não tenho a menor dúvida, John Aiden, de que você encontrou o amor de sua vida. A questão agora é saber o que fará a esse respeito. Com o olhar perdido, ouvindo as batidas rápidas do coração, Aiden sabia que a decisão já estava tomada, a rota traçada. Barrett pegou a garrafa, encheu o copo e o pôs mais perto. — Se você não for atrás dela saiba que nunca mais na vida será animado e feliz como quando estava com Sandra. Homem algum tem essa sorte duas vezes. — É verdade — ele concordou ao levantar-se, pegar o copo e tomar a bebida de uma vez só. — Maldição, John Aiden, você nunca aprende? — Barrett urrou. — Só pela maneira mais difícil. Conversarei com você mais tarde.

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— Com todos os diabos, aonde vai? — Comprar um cavalo branco. Não vai ser muito fácil fazer isso no meio da noite. Bem a sua frente, a garrafa estilhaçou-se na parede ao lado da porta. Aiden a ignorou e saiu. À luz do amanhecer, Sandra caminhava pelo cais movimentado. Carregava o pára-sol, a valise e tentava não estragar a alegria geral. Na tradição da realeza, Sarad, protegido pelos guarda-costas, encabeçava o cortejo rumo ao navio ancorado logo adiante. Atrás dele, seguia Vadeen, as ataduras escondidas por roupas novas e vistosas. Mohan ia ao lado dele, conversando em hindi, o terno inglês substituído pela seda roxa e vermelha da realeza. Logo atrás, vestida num sari novo, com bordados dourados, Preeya levava o pára-sol e a valise. Ao lado, um sorridente Sawyer carregava a cesta com os gatinhos de Mohan. A uma certa distância e vestida à inglesa, Sandra fechava o grupo. Lutava para não olhar por sobre o ombro. Desejar ter Aiden a seu lado não o traria, disse a si mesma pela milésima vez. Não encontrá-lo só aprofundava a tristeza. Precisava olhar para a frente, a única maneira de passar as próximas horas sem se dissolver em lágrimas. Sarad tinha alcançado a ponta da prancha no cais e conversava com o capitão do navio. Os guarda-costas mantinham-se a uma pequena distância, prontos para proteger qualquer membro do grupo. Eles a observavam e falavam entre si. Sem dúvida criticavam o gosto da princesa pelas roupas inglesas e sua tendência para se atrasar. Por um segundo, Sandra pensou em apressar o passo, mas recusou-se. Estes eram seus últimos momentos em solo inglês e ninguém ia apressá-la a partir. Era princesa e apenas Sarad poderia censurá-la pela demora. Além do mais, quanto mais se atrasasse, maior a chance... Ora, havia um limite entre certeza e esperança tola. Arrastar os pés era o mesmo que olhar por sobre o ombro. Sandra alcançou o grupo da família e parou. O navio balançava com a batida das ondas contra o casco e o barulho era como um acalanto. Sandra fechou os olhos e concentrou-se nele na esperança de que amainasse o latejar no coração. Vadeen gritou algo em hindi, interrompendo sua concentração. Ao olhar em volta, ela notou a tensão dos guarda-costas e a direção de seus olhares. Seguiu-a para ver o que os alarmava. Aiden! O coração exultou. Seu matreiro, adorável e despenteado Aiden cavalgava em sua direção com queixo e ombros erguidos. Não havia homem mais atraente no mundo, nenhum outro conquistaria seu coração como ele o fizera.

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Detalhes a atingiram. Ele não montava no próprio cavalo e sim num garanhão branco que ela desconhecia. Todos a seu redor notavam-lhe o progresso, as expressões num misto de alegria e preocupação. Eram sensatos, admitiu ao vê-lo parar a sua frente e desmontar. Pensar que Aiden vinha por outra razão além de uma despedida formal era a esperança cega de uma tola. Incapaz de continuar sem saber, ela tomou a iniciativa, assumindo o maior risco de sua vida. — Estou contente por ter vindo dizer adeus, Aiden. Em pé a sua frente e com expressão determinada, ele balançou a cabeça e disse baixinho: — Por favor, Sandra, não embarque nesse navio. A esperança inundou-lhe o coração, mas conteve-se. Conhecia Aiden com seus fantasmas e os limites do que ele poderia oferecer de si mesmo. Também não ignorava que não conseguiria viver sem ele por inteiro. Forçou um sorriso e começou a dizer: — Tenho responsa... — Se alguém conhece o preço da responsabilidade e o valor do amor é Kedar. Ele entenderá se você escolher o amor, Sandra. Suas pernas fraquejaram com a loucura da esperança. Trêmula, confessou: — Não quero ficar sozinha, esperando por seu retorno, rezando para que nada lhe aconteça. Não posso viver assim, Aiden. — Então, não irei. Tão calmo e seguro! — Você navega. É seu meio de vida. Bem como o de sua família. Isso exige que você vá. — Você irá comigo — ele argumentou sem hesitação, o olhar procurando o seu. — Manteremos uma rota regular, Índia-Londres. Eu capitaneio e você faz compras. E sempre que você quiser, eu a levarei para ver Preeya e Mohan. Por favor, Sandra, diga que sim. Nenhum compromisso de tempo. Nenhuma declaração de sentimentos. Mas era uma vida juntos. Talvez então, com o tempo, ele passasse a amá-la. Era o suficiente para enchê-la de esperança. Aiden desviou o olhar e indagou: — O que você disse, Vadeen? Surpreendida com o que lhe interrompia o devaneio, Sandra deu-se conta de não fazer idéia de que Vadeen houvesse falado.

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— Eu disse que tinha desanimado. Mas a esperança voltou. Você, Aiden, à maneira inglesa, rodeou, rodeou até quase chegar ao ponto de pedir a princesa Sandra em casamento. Peço que tenha piedade de nós e não rodeie mais. O largo sorriso de Aiden foi instantâneo. Ao vê-lo virar-se para ela, seu coração quase explodiu de alegria. — Ela é princesa. A permissão para se casar deve ser dada pelo rajá, nosso pai — Mohan aparteou. O sorriso murchou, ele deu de ombros e disse: — Muito bem. Se tem de ser assim, será. Pasma, Sandra o viu se aproximar de Sarad. — Alteza, preciso de uma passagem em seu navio. Pagarei o que me pedir. Tenciono ir até Kedar e pedir a mão de sua filha, a princesa Sandra. Ora, ele ainda não a havia consultado! Não tinha sua permissão. Não que ela tivesse a mínima intenção de recusar, mas tudo sendo tratado sem sua aprovação... — Meu irmão há de esperar um preço pela noiva — Sarad declarou. — A menos que o senhor possua algo de muito valor, não vejo propósito em fazer a viagem. — O que ele há de querer? Eu conseguirei. Melhor ser um cavalo branco porque, tanto quanto Sandra podia ver, era a única coisa de algum valor que ele tinha trazido ao cais. E se Aiden pensava que ela ia partir no veleiro e esperar que ele fosse no seguinte... — E difícil dizer. Ela tem um lugar especial no coração do pai e haverá muitos pretendentes dispostos a oferecer grandes riquezas por sua mão — Sarad explicou. Aiden irritou-se, ela podia ver pela maneira de erguer os ombros. Num tom duro, declarou: — Então, iremos até Kedar e lhe pediremos para dizer o que quer e eu mandarei buscar. — Penso que seria melhor o senhor esperar que ele... — Com licença, cavalheiros — Sandra os interrompeu ao se aproximar. — Não permito ser mantida à parte desta questão. Antes que um dos dois protestasse, ela pôs a mão no peito de Aiden e o empurrou para longe do tio. Então agarrando-o pela frente da camisa o fez parar e exclamou, fitando-lhe os risonhos olhos verdes: — John Aiden! O sorriso dele alargou-se. — Você nunca me tratou por John Aiden. Projeto Revisoras

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Sua raiva dissipou-se no mesmo instante. Como o amava. Impossível pensar em viver sem ele. Rindo, admitiu: — Isso porque nunca me irritei com você. Sandra era dele, o amor de sua vida. Sempre seria, ele tinha certeza. Apesar das pessoas que os observavam, passou o braço por sua cintura e a puxou para mais perto. Em seu ouvido, murmurou: — Você é lindíssima e me deixa sem fôlego cada vez que a admiro. Sandra, você significa tudo para mim. A felicidade e a vida. Não posso viver sem você e nem quero. Eu te amo. — Curvou a cabeça e roçou os lábios nos seus. Endireitou-se e, numa voz solene, perguntou: — Aceita se casar comigo, Sandra? Ela o acariciou nos cabelos. — Você não se lembrará de ter jurado nunca ser feliz? Ele havia sido um grande tolo por muito tempo. Só Deus sabia por que Sandra tinha tanta paciência com ele. Para sempre seria grato por essa dádiva. — Às vezes, o que menos se espera vem de onde e quando menos se espera. E às vezes, Sandra, a dádiva é tão magnífica que muda sua visão do mundo. Pus de lado aquele juramento. Ao amá-la, me dei conta de tê-lo feito pelos motivos errados. — Algum dia você porá de lado as juras de amor que me fez? — Nunca. Eu as repetirei pelos motivos certos. Perante Deus e por minha alma, prometerei mantê-las sagradas. Não haverá outra mulher, Sandra. Amarei somente você para sempre. Por favor, fique e diga que me ama. Sua alegria era ilimitada e completa. — O que vier, virá, Aiden. Não sabemos o que será. Mas sei que te amo de todo o coração e que estou destinada a enfrentar a vida sempre em seus braços, protegendo nosso amor. Sim, Aiden, aceito me casar com você. — Obrigado — ele murmurou ao curvar-se e beijá-la com uma reverência que fez sua felicidade extravasar. Porém, quando as chamas da paixão eclodiram, Aiden afastou-se. Sorrindo, ele indagou: — Então, o que faremos, querida? Vamos à Índia pedir a bênção de seu pai? Ela balançou a cabeça. — Kedar sabe que o amor é uma bênção. Desejaremos boa viagem aos outros. De mãos dadas, voltaram para o grupo. Como Sarad não parecesse muito satisfeito, Sandra começou por ele. — Por favor, diga a meu pai que escolhi o amor. Levarei meu marido para conhecê-lo antes de o ano terminar. Projeto Revisoras

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Ele refreou um sorriso e disse — Kedar ficará desapontado, mas, melhor do que ninguém, entenderá sua escolha. Mantenha sua promessa, sobrinha. Seu pai o fará. Sandra assentiu com um gesto de cabeça e virou-se para Mohan. — Serei sempre sua irmã. Se precisar de mim, estarei lá. — Estou feliz por você, Sandra. E contente com o fato de o sr. Terrell ter a sensatez de amá-la. Ela curvou-se, abraçou-o e o beijou no rosto. — Obrigada, irmãozinho. — Nós nos veremos dentro de um ano? — ele indagou, emocionado. — Talvez até duas vezes — Aiden disse ao eriçar-lhe os cabelos. Ao ouvi-lo rir, Sandra virou-se para a despedida mais difícil. — Obrigada, Preeya — disse com lágrimas nos olhos e ao pegar-lhe as mãos. — Por guardar meus segredos e prever minha felicidade. Por compartilhar sua sabedoria e por me fortalecer quando eu enfraquecia. Se Brama me abençoar com filhos, pedirei a Aiden para me levar até você para que seu amor possa vê-los chegar em segurança. — Nada de lágrimas em nossa despedida. Você escolheu bem e com sensatez. Aiden é um homem bom e forte. Haverá muitos filhos. Você irá à Índia com freqüência. Seu pai gostará de brincar com os netos. Eu a verei antes de o ano terminar. Com um longo abraço, Sandra a beijou. Não queria soltá-la enquanto tentava reter as lágrimas. Esforço inútil. Enxugou os olhos com os dedos, afastou-se e virouse para o homem ao lado de Preeya. — Pelo menos não teremos de nos despedir, Sawyer. Mas vou sentir falta sua lá em casa. — Obrigado, srta. Radford. Tenho certeza de que nossos caminhos se cruzarão no futuro. Sem dúvida quando a senhorita e o sr. Terrell visitarem a Índia. — Como?! — Aiden exclamou logo atrás. — Será que ouvi bem? Você estará na Índia quando formos até lá? — Ouviu corretamente, senhor. Tão logo o sr. Reeves chegue, pedirei demissão e deixarei minha vida aqui para uni-la à de Preeya. Perplexa, Sandra olhou para ambos. — Fui encarregado de traduzir uma conversa — Mohan explicou depressa. — Garanto que não descobri nada impróprio.

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— Carden vai me matar. — Aiden riu e estendeu a mão para Sawyer. — Parabéns. Apesar de minha morte iminente, desejo a ambos muitas felicidades. — Obrigado, senhor. Aiden abraçou Preeya e a beijou no rosto. — Aiden desejou felicidade para ambos — Sandra traduziu para a mulher enrubescida até a raiz dos cabelos. Tornou a abraçá-la para dar os parabéns. — Você é muito boa para guardar segredos, Preeya. Mas estou contente com a surpresa e satisfeita por você. — Meu destino surgiu mais silencioso, mas não menos completo do que o seu. A hora das despedidas acabou. Vá embora com Aiden e seja feliz. Eu os verei no fim do ano, minha Sandra. Sim, estava na hora de ir. Ela deu um passo para trás e sorrindo, olhou para todos. — Pronta para ir? — Aiden indagou baixinho ao tocá-la na cintura. Ela assentiu com um gesto de cabeça e, então, deixou-o levá-la pela mão até o cavalo. Aiden montou e sorriu-lhe. — Quer que eu tire o chão de sob seus pés, princesa? Sandra riu e lembrou-se da conversa de ambos e por que ele tinha surgido num cavalo branco. Para apenas, neste momento, realizar o sonho impossível de uma jovem. — Você já fez isso, meu príncipe sedutor. — E eu não estou disposto a largá-la. Jamais. Vire-se, querida, e eu a erguerei. Aiden a acomodou no colo, de frente para ele, e passou o braço livre por sua cintura. Ela aconchegou-se e apoiou a cabeça em seu ombro. Com o próprio mundo, a cabeça e o coração firmemente centralizados, ele a beijou nos cabelos e perguntou: — Você precisa de alguma coisa embarcada naquele navio? Sandra suspirou, contente. — Não. Mandei esvaziar todos os engradados com meus pertences. Apenas tranquei a Blue Elephant a chave e deixei tudo para trás. — Por quê? — ele perguntou ao começar a se afastar do cais. — No fundo do coração, eu sabia que você viria me buscar. Foi um ato de confiança. — Você me conhece melhor do que eu. — Não é assim que deve ser? — Claro que sim. Sandra endireitou o corpo a fim de fitá-lo.

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— Eu te amo, Aiden, com tudo que sou. — Eu sei — ele disse, beijando-a na testa. — Você não está apreensivo porque eu disse a Preeya que nossos filhos nasceriam na Índia, não é? — Eu não sabia. Ninguém me traduziu a conversa. — Ai, desculpe. — Não é necessário, querida. Ouvi meu nome com certa freqüência e não me senti excluído. Penso que é uma boa idéia nossos filhos nascerem na Índia. Eles precisam conhecer o mundo que fez de sua mãe esta mulher incrível. — Sabe, casar-se com uma princesa o torna príncipe. — Príncipe Aiden? Pelo amor de Deus, não conte a ninguém. É ridículo. Sandra percorreu os dedos pelos botões da camisa até a cintura. — Como um príncipe hindu, espera-se que você arranje outras esposas e amantes. — Pois vão ficar desapontados — Aiden conseguiu dizer, apesar de desnorteado por ela soltar o botão da cintura. — Ah, é muito bom saber. Embora desconfiasse do que Sandra ia fazer, via-se apanhado de surpresa. O passo da montaria, combinado com a fricção suave na pele, o incendiava. Gemeu quando ela escorregou a mão, criando a tortura mais intensa que já havia experimentado. — Por Deus, Sandra, você quer que façamos amor aqui mesmo na sela? Seus olhos exibiram um brilho absolutamente profano. Ele quase parou de respirar. Se conseguissem chegar até o estábulo... Ele a ergueu, virou-a para a frente e a acomodou com firmeza entre as coxas. Então, puxou-a para mais perto. — Estamos indo para casa — Aiden prometeu ao instigar o cavalo a encetar um meio galope, enquanto a deliciosa tentação em seus braços ria e apossava-se de cada pedacinho de seu coração.

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Ch 403 leslie lafoy uma mulher tentadora  
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