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Amada Amante Until You're Mine

Lisa Higdon

Inglaterra, 1814 Amantes nas aparências... ou de verdade? Sem um níquel no bolso e sem emprego, a atriz Laura Lancaster se vê desamparada na cidade de Londres, enfrentando a degradante perspectiva de se tornar concubina de um homem rico, se quiser sobreviver. Para pôr um fim aos boatos maldosos espalhados por seus adversários políticos, Julian Norcliff precisa de uma mulher. Não de uma mulher qualquer, mas uma que saiba representar com eficiência o papel de sua amante... apenas nas aparências. Laura e Julian não imaginavam que aquela pequena farsa pudesse despertar uma atração tão explosiva entre ambos. E embora eles se rendessem ao desejo, aquele recém-descoberto enlevo estava ameaçado, pois mais escandalosas do que a atual situação de Laura eram as circunstâncias de seu passado... Um passado que guardava segredos capazes de separá-la de Julian, e de deixá-los ansiando por uma felicidade impossível...

Digitalização e Revisão: Crysty


Lisa Higdon - Amada Amante (CH 399)

Querida leitora, Você vai ler a emocionante história de uma mulher determinada a viver a vida sem comprometer sua reputação e sua virtude. A atriz Laura Lancaster concorda em posar de amante de um aristocrata inglês envolvido num escândalo, mas as coisas se complicam quando lorde Lockwood se torna uma tentação à qual ela não consegue resistir. O caso dá margem a outro escândalo quando a esposa dele é assassinada e Laura é acusada do crime... Leonice Pomponio Editora TRADUÇÃO Patrícia Chaves e J. Alexandre Copyright © 2004 by Lisa Higdon Originalmente publicado em 2004 pela Kensington Publishing Corp. PUBLICADO SOB ACORDO COM KENSINGTON PUBLISfflNG CORP. NY,NY-USA Todos os direitos reservados. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência. Proibida a reprodução, total ou parcial, desta publicação, seja qual for o meio, eletrônico ou mecânico, sem a permissão expressa da Editora Nova Cultural Ltda. TÍTULO ORIGINAL: Until You're Mine EDITORA Leonice Pomponio ASSISTENTES EDITORIAIS Patrícia Chaves Paula Rotta Silvia Moreira EDIÇÃO/TEXTO Tradução: Patrícia Chaves e J. Alexandre Revisão: Giacomo Leone ARTE Mônica Maldonado ILUSTRAÇÃO Hankins + Tegenborg, Ltd. MARKETING/COMERCIAL Andréa Riccelli PRODUÇÃO GRÁFICA Sônia Sassi PAGINAÇÃO Dany Editora Ltda. © 2008 Editora Nova Cultural Ltda. Rua Paes Leme, 524 - 10 andar - CEP 05424-010 - São Paulo - SP www.novacultural.com.br Premedia, impressão e acabamento: RR Donnelley

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Prólogo Londres, 1813 — O divórcio está fora de cogitação, milorde. — Não é preciso me lembrar disso. — Julian Norcliff, sexto conde de Lockwood, pousou o olhar em seu secretário e administrador, Malcolm, antes de concentrar-se na ampla vidraça que descortinava as ruas descoloridas de Londres. Carruagens molhadas circulavam debaixo da chuva fria, e um sopro de vento gelado agredia os pedestres e fustigava os galhos das árvores. A fumaça de uma floresta de chaminés pairava sobre os telhados, adicionando escuridão e fealdade à paisagem. O conde apoiou a mão na esquadria de madeira, mas já não prestava atenção à cena urbana e cinzenta. — Se o divórcio fosse possível, eu teria me livrado daquela mulher há muito tempo. Sua mulher. Julian Norcliff se recusava a pronunciar o nome dela. Havia aceitado o casamento sem ilusões. O dele não era a primeira união conjugal celebrada em função de dinheiro ou da ambição dos parentes para assegurar a fortuna da família por mais uma geração. No entanto, ele não permitiria que nenhuma mulher transformasse sua vida num inferno. Sem esperar muito da esposa, evitara questionamentos, providenciara uma generosa pensão, e até mesmo fingira não notar os olhares dela para outros homens. Faria tudo para mantê-la a distância. Agora, as coisas tinham ido longe demais, mesmo em se tratando de Eleanor. — O médico assegurou que ela poderá viajar, após alguns dias de repouso. — Malcolm tossiu discretamente, num sutil lembrete de que, como de hábito, ele tomara providências para, em meio ao caos, prevenir um rumoroso escândalo. Era um fiel cão de guarda, pensou Julian cinicamente, sempre pronto a proteger a reputação dos Lockwood. Muito melhor seria que isso fosse desnecessário. —Quando ela se recuperar, milorde — prosseguiu Malcolm —, providenciarei para que lady Lockwood saia discretamente da cidade. Algumas semanas no campo, em Shadowhurst, farão bem a ela e dissiparão os boatos que correm na cidade. Julian encarou o secretário, depois andou nervosamente pelo escritório. — Ela não irá a Shadowhurst.


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— Prefere mantê-la aqui em Londres? — A voz de Malcolm soou um tanto alterada. — Milorde, é possível que haja um inquérito, a pedido do legista. Julian se deteve junto à mesa, equipada com copos e jarras de cristal, e serviuse de conhaque. Inalou o aroma forte antes de saborear o primeiro gole. — Um homem morreu. Alguém terá de responder por isso. O suposto invasor da casa de Eleanor era um bem conhecido velhaco chamado Fielding, famoso pelas encrencas que arranjava, mas não um assaltante. Ainda assim, ela insistira em dizer que Fielding havia forçado sua entrada na residência, ameaçado-a de morte se ela não lhe entregasse as jóias, o dinheiro e... o próprio corpo. Então, Eleanor desmaiara e não vira mais nada. Muito conveniente. Da porta, Julian vira a cena íntima e saíra para a rua, chocado. — Não é aconselhável que lady Lockwood continue em Londres, senhor — alertou Malcolm. — Imagino. —A bebida aqueceu Julian. — Pretendo vê-la fora da capital e, de preferência, fora do país. — Fora do país, milorde? — Roma, Viena, onde ela escolher. Mas não poderei tolerar a presença de Eleanor em Shadowhurst. — Entendo. E isso seria... definitivo? — o secretário quis saber. — Por certo, Eleanor sentirá minha falta menos do que eu sentirei a dela. — Julian secou o copo de conhaque e observou o rosto anguloso de Malcolm. — Você é quem lida com minhas contas. Providencie para minha esposa uma mesada suficiente, mas não generosa demais. — Claro, senhor. Talvez devêssemos considerar que... — Considerei tudo o que podia. Ou ela aceita viver no exterior, ou enfrentará as diligências policiais sem a minha proteção. Seria uma bela vingança, Julian ponderou. Quase desejou que Eleanor recusasse a idéia de viajar.

Capítulo I Covent Garden, 1814 — Gostaria de provar meus bolinhos de carne?


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Prevenida contra abordagens na rua, Laura Lancaster sabia que era melhor afastar-se do homem que carregava uma bandeja presa por cordões ao pescoço. Mas os quitutes cheiravam bem e pareciam recém-saídos do forno. Ela tateou a bolsa a fim de contar as moedas que lhe restavam. Seriam suficientes para pagar tal extravagância? — Meus bolinhos são frescos, com tempero caseiro — acrescentou o vendedor ambulante. — E também tenho tortas de maçã. Bem, Laura daria preferência a um suculento bife com arroz, antecedidos por fatias de pão com manteiga. Mas isso estava além de suas possibilidades. Cada tostão era importante para quem não passava de uma atriz de modesta reputação. Se não economizasse, nunca poderia pagar a passagem de navio de volta para casa. Esse anseio era quase tão doloroso quanto a fome que sentia. Seus dedos finalmente passaram as moedas ao homem, depois seguraram duas tortas doces, cujo aroma de maçã e canela era irresistível. — Mais um tostão, e pode levar um bolinho salgado também — ofereceu o eficiente vendedor, enquanto fixava o rosto de Laura, semicoberto pelo lenço que ela havia tirado da bolsa para segurar as guloseimas. Foi como um almoço de domingo em casa. Uma onda de saudade a invadiu, mesclada à dor do desespero. Laura se encontrava longe de seu lar, como se vivesse outra vida, marcada pela simplicidade, se não pela penúria. Daria tudo para voltar ao aprisco onde o céu era azul, o sol era quente e ela era amada... Com esforço, ela anulou o surto de sentimentalismo. Era tarde da noite. Os sinos da Igreja de St. Giles bateram as horas, e Laura ainda precisava percorrer as ruas populosas de Covent Garden, o bairro dos teatros e boates, que também servia de centro de abastecimento aos varejistas londrinos, que ali adquiriam legumes, verduras e frutas, todas as manhãs, em barracas que atravancavam as calçadas. Ao menos, a chuva havia cessado. Dobrando a Bow Street, Laura passou pelo prédio do teatro principal do lugar, com o pórtico coberto, destinado a carruagens, e as máscaras esculpidas da Tragédia e da Comédia decorando a fachada. A opulência era de causar admiração em quem, como Laura, estava habituada a casas de espetáculos mais simples, com fachadas de pedra nua e palcos estreitos. Como o Teatro Greene, por exemplo. Ainda enxugando migalhas com o lenço, ela apressou-se rumo ao Greene e deparou com uma pequena multidão reunida junto à entrada dos artistas. Uma ponta de apreensão a invadiu. Não podia ser um incêndio, já que não havia sinal de fumaça. Reconheceu os colegas que já deviam estar trocando de roupa no camarim, e não parados à porta bradando insultos.


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Laura ouviu que falavam de Tom Costley. Aproximou-se e tocou o braço de Jeremy Pinch. — Qual o problema com Tom? Pensei que eu é que estivesse atrasada. — Tom não se atrasou. Ele desapareceu. — O quê? Jeremy meneou a cabeça e passou a Laura uma folha impressa. — Leia. Por ordem do prefeito de Londres, esta propriedade e todas as suas instalações estão embargadas, por falta de pagamento de impostos e taxas. Fica estabelecida uma multa de cinco libras para quem ultrapassar a linha de isolamento. A vista de Laura registrou, atrás das pessoas aglomeradas, a fita amarela que abraçava o prédio do Teatro Greene. Ignorou os outros e concentrou-se em Jeremy, aparentemente a pessoa mais equilibrada entre aqueles artistas da noite. — E o nosso pagamento? Faz semanas que não vemos a cor do dinheiro — ela choramingou, em vão. Nos olhos de Jeremy, viu resignação. Quatro libras esterlinas por semana asseguravam a Laura o aluguel do sótão onde morava com três outras mulheres e a compra de um mínimo de alimentos. O senhorio era generoso o bastante para esperar quando ela pedia mais prazo. Agora, tinha apenas o suficiente para uma semana adicional de locação e nenhum centavo para tortas de maçã ou bolinhos de carne. O sacrifício estava se tornando maior do que o suportável. — Sei o que fazer — avisou Jeremy, cocando o queixo. — Vamos todos ao bar Angel, afogar nossas mágoas em rum. Um murmúrio de aprovação ressoou entre os artistas, e o grupo rumou rua abaixo, em conjunto. Jeremy abraçou Laura pelos ombros e conduziu-a pelo beco estreito que se abria entre os edifícios. — Há muitos outros teatros em Londres, que pagam melhor e em dia — ele a consolou. — Alguns pagam em comida: pão e queijo — disse Laura tristemente. Calado, Jeremy sabia que era verdade. — Amanhã mesmo você pode marcar um teste, querida. E depois outro e outro mais. Aceite qualquer coisa que lhe oferecerem, sem pensar em nós. Laura apreciou a preocupação de Jeremy em confortá-la, mas ele devia estar tão aflito com o repentino desemprego quanto os demais membros da trupe. Imaginou se ele possuía algum dinheiro guardado, além dos tostões que ela tinha na


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bolsa. Encontrar trabalho logo era indispensável para seu objetivo de retornar aos Estados Unidos, onde não precisaria se humilhar para viver com certo conforto. Ela reteve as lágrimas por meio de sucessivas piscadelas, depois explodiu: — De que adianta acharmos outro teatro, se eles fecham seguidamente, sem aviso prévio? Creio que não exista mais público para tantas espeluncas aqui em Covent Garden. — Laura, querida. Tudo isso faz parte da nossa profissão. — Bonito de se falar, mas não gosto desse papel. Vá ao Angel sem mim. Quero tirar a noite para dormir bastante. O semblante de Jeremy se fechou, mas ainda assim ele era bonito, com seus cabelos claros e brilhantes olhos azuis. Bateu no peito com a palma da mão e recitou dramaticamente: Doce Phoebe, não escarneças de mim. Diz que não me amas, mas sem amargura... Laura sorriu sem querer. Completou, curvando a boca: — "Não serei teu algoz. Fugirei, porque não posso injuriar-te." Quarto ato, cena cinco, de Como lhe Aprouver. Uma das mais belas passagens de Shakespeare. — Terceiro ato — ele a corrigiu. — Faça-me companhia durante o dia, amanhã. — Com que dinheiro? — Uma pequena gruta, e seremos felizes — Jeremy brincou. — Tenho moedas suficientes para nós dois, Laura, e não aceito uma recusa. Na verdade, ela temia ser obrigada a freqüentar Seven Dials, área eleita por prostitutas e pela escória de Londres. Suas três colegas de quarto conseguiam sobreviver como costureiras e eram decentes. Talvez ela pudesse esquecer o sonho de uma carreira teatral, aprender corte e costura e manter-se digna, trabalhando nas oficinas da Igreja de St. Giles. — Está bem, pelo menos vou com você ao Angel. Mas não quero me demorar. — Em vez de nos amofinarmos com teatro e trabalho, melhor nos aquecermos com rum — Jeremy opinou. Ele tinha razão, Laura concluiu. Filho de um reverendo, Jeremy havia enfrentado a família para se tornar ator em Londres, mas Laura e sua melhor amiga, Célia Carteret, eram sozinhas e não tinham a quem dar satisfações. Deveriam, por isso mesmo, se amasiar com algum protetor rico. — Mais emoção! De novo! Laura acabara de interpretar o trecho de um texto romântico, num teste, mas


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não agradou ao arrogante diretor de cena. Repetiu as falas. — Já basta — disse o diretor, fazendo Laura reconhecer seu fracasso na busca de uma nova colocação. — Não é adequada ao que preciso, srta. Lancaster. Esta peça exige uma atriz com presença de palco, com mais entusiasmo. — Posso sugerir que me passe outro texto? — Laura perguntou com ousadia. — Este é um amontoado de tolices. Espanto e ultraje tomaram conta do rosto do diretor, bem como do autor, que era o único ocupante da platéia. Laura fez uma saída triunfal, sem nada acrescentar. Ao sair para a rua pela porta lateral do teatro, uma lufada de vento gelado a atingiu, e ela cruzou os braços, sobrepondo as abas do casaco de lã puído, enquanto avaliava mentalmente suas opções. Era quase meio-dia e ela passara por dois testes, com nenhum dos quais poderia contar. No primeiro, fora dispensada por tratar-se do papel de um robusto soldado romano, não de uma mulher esguia. Era revoltante que aos homens fosse permitido interpretar papéis femininos, mas não o contrário. Um folheto amassado passou esvoaçando perto dela e caiu num bueiro, de onde vários pares de olhinhos de ratazanas esfomeadas a fitavam, assustadas. Com um estremecimento, Laura prosseguiu pela calçada e passou em frente à porta aberta de um bar.. O som abafado de risos e uma onda de calor a atingiram, bem como o vapor de uma chaleira, antes que a porta voltasse a se fechar. A promessa de um fogo acolhedor e de companhia era sedutora. Laura sabia que seria bem-vinda, pois aquele local era um ponto de encontro de atores e atrizes "entre papéis", como costumavam dizer. Mas ela venceu a tentação, ignorando os protestos de seu estômago vazio, e prosseguiu para mais um teste. Pensou em Jeremy e Célia, e imaginou como estariam se arranjando. Célia sempre conseguia trabalho com facilidade, graças à sua beleza e seu humor contagiante. Ela nunca parecia faminta, nem cansada, nem desesperada, e Laura se perguntava como ela conseguia isso. Jeremy dera a entender que Célia devia ter outras fontes de renda, mas não entrara em detalhes. Ser atriz não era o objetivo de vida de Laura, talvez por isso não se saísse tão bem quanto os colegas. Não se dedicava, como eles, de corpo e alma à atividade que, para ela, era simplesmente um meio de vida, uma profissão melhor do que muitas outras que poderiam ser exercidas por uma mulher solteira sem posses nem cartas de recomendação. Pelo menos, era uma escolha melhor do que aquela feita por sua mãe. Laura afastou o pensamento. Aquela não era hora para melancolias. Caso não conseguisse logo um papel, seria forçada a trabalhar como costureira ou encarregada de limpeza. No primeiro caso, teria de aprender o ofício e aguardar uma máquina de costura disponível nas oficinas assistenciais da Igreja de St. Giles. No segundo, sabia que o serviço de doméstica na casa de ricaços era muito disputado, por propiciar moradia e alimentação, e exigia referências que ela não possuía.


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Caminhando pelo bairro, Laura ouviu o apito de um navio pronto para zarpar. Pensou nas guerras napoleônicas que convulsionavam a Europa, mas tendiam a acabar, agora que Bonaparte estava exilado na ilha de Elba. Em vez do céu enfumaçado por bombas, Laura já podia sonhar com os campos verdes da Virgínia, nos Estados Unidos, com o ar limpo da região e com um verdadeiro lar. Motivada pelas lembranças de casa, ela se sentiu mais animada. O próximo teste marcado seria o definitivo, daria certo. Com esse pensamento otimista, respirou fundo e seguiu pelas ruas sujas e barulhentas em direção ao Teatro Figg's. Laura debruçou-se sobre a mesa repleta de pós faciais e outros produtos de maquiagem. Alguns perfumes artesanais exalavam fragrâncias agradáveis. Entre animada e nervosa, ela se preparava para estrear no Figg's, quando escutou um clamor vindo da porta do camarim. Era sempre assim. Havia muitos concorrentes, dispostos a sabotar qualquer colega para conseguir um papel. O dela era pequeno, e fora obtido graças a Célia Carteret. Antes de sair do vestiário, ocupado também por Célia, Laura ergueu os braços a fim de remover os grampos que lhe prendiam os cabelos acima da coroa de lata que usaria em cena. Deixou as madeixas caírem naturalmente, sem escová-las. Examinou sua imagem no espelho e ouviu a contagiante risada de Célia. — E então? — perguntou a amiga. — Está pronta? — Bem, decorei minhas duas falas, mas meus cabelos não parecem os de uma rainha. — É preciso discipliná-los. — Célia apontou uma série de ganchos e presilhas que poderiam colaborar na tarefa. — Pelo menos, temos um camarim nesta espelunca. — Você tem — corrigiu Laura. — Mas é uma boa amiga e me permite usá-lo. — Bobagem. Temos de ajudar uma à outra. Você faria o mesmo por mim. Passe-me a escova grande. Tentarei domar sua cabeleira. Não deve desperdiçar nenhuma chance, embora eu saiba que ele ficará de olho em mim. "Ele" era Roscoe Morton, autor, produtor e diretor teatral, que não perdia nenhuma estréia, sobretudo se a bela Célia Carteret estivesse em cena. Era sua atriz favorita e a rodeava com seu assédio, embora tivesse o poder de demiti-la. Estava ciente, porém, de que Célia atraía muitos homens solitários e sonhadores para a platéia. A intervenção da amiga melhorou a aparência de Laura, que agradeceu e se sentiu mais confiante. — Agora, coma alguma coisa. Um admirador enviou ao camarim este cesto com frutas e queijos.


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— Claro, obrigada. Assim economizo mais alguns trocados. — O estômago de Laura recebeu bem, para começar, as fatias de pão branco que ela adorava. — De quem são estas iniciais? A fina toalha de linho alvo que recobria o cesto continha um monograma bordado. — Visconde de Belgrave. É um novo conhecido meu. Novo conhecido? Laura compreendeu tudo. Jeremy já havia insinuado que Célia aceitava a companhia de aristocratas avessos a bordéis, mas não a teatros mambembes. — Encontrei-me com ele ontem à noite e avisei-o de minha estréia. Ele gosta do papel de meu... protetor. — Pensei que fosse seu fã — disse Laura cautelosamente. — Ignorava que houvesse algo mais sério. — Sério? — Célia mostrou-se surpresa. — Belgrave só é sério com cavalos e jogos de azar. Mas gosta de viver bem, bonito e viril como é, além de rico. — Você me parece bastante prática, Célia. — É uma questão de sobrevivência. Passei seis anos de minha vida nos degraus de St. Giles, pedindo esmolas, e não pretendo voltar. Não morei em mansões, mas tive casas limpas e mesa farta por algum tempo, durante a infância. Na juventude, tornei-me atraente para os homens. No palco e na cama... — Mas Belgrave não é casado? O que acontecerá se ele... partir para outra? — Eu partirei para outra também. Adoro Belgrave, mas quem sabe? Talvez encontre outro mais rico e generoso que ele. Laura riu da amiga, o que não significava desaprovação. As agruras que sofrerá na vida haviam-na ensinado a não julgar ninguém. Aproveitou a frente livre do espelho para mirar-se. — E se um dia você se casar? — indagou. — Não existe esse perigo, eu lhe asseguro. — Célia se aproximou para ajudar Laura com alguns adereços. — O casamento não me atrai. Você é que devia tirar proveito de suas bonitas pernas. Roscoe as elogiou, ainda ontem. Um tanto embaraçada, Laura esticou a saia que havia subido com seus movimentos. — Meu papel é secundário — ela alegou em defesa própria. — Vá por mim. Muitos cavalheiros não estão interessados na importância do papel de uma atriz, mas em outros prazeres que elas possam lhes oferecer. Laura terminou de comer no instante em que Célia foi convocada a entrar no


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palco. Recebeu a ovação do público, o que era comum. Com Célia, não com Laura. Eram bem diferentes entre si, apesar das sugestões desavergonhadas que a outra fizera. Se Laura quisesse vender seu corpo, teria seguido os conselhos da mãe. — Por Cristo; Malcolm, isso não passa de boato. Recuso-me a acreditar em algo tão ridículo. Julian ouviu seu secretário respirar fundo, exibindo rugas de preocupação no rosto normalmente inexpressivo. — Boato ou não, milorde, o povo anda comentando e avaliando se é ou não verdade. Julguei ser meu dever mantê-lo informado. — Fico muito grato. Julian relanceou o olhar pela pilha de correspondência acumulada em sua mesa de trabalho. Eleanor que fosse para o inferno! Amaldiçoá-la lhe parecia melhor do que deixar-se afligir por rumores. Ela estava na Europa, no continente, longe dos boatos que a sociedade de abutres de Londres cultivava. Vaidosa e fútil, também adorava ser o centro das atenções. Assim, por que sair de circulação? — A maioria acha que o senhor e milady se separaram — disse Malcolm. — Como são perspicazes! — Julian ironizou. Pegou o primeiro envelope da pilha, abriu-o e constatou, irritado, que se tratava apenas de um comunicado sobre a adesão de um político ao partido liberal. — Sim, milorde. De qualquer modo, especulam, sobre o motivo. — E desde quando os mortais meditam sobre as razões dos deuses? — respondeu Julian, inspirado. — Deixe que pensem o que quiserem, pois assim ocupam suas mentes vazias. — É verdade, senhor. — Uma tossidela discreta chamou a atenção de Julian. Malcolm parecia constrangido, olhando quase assustado para seu patrão. — Seu comportamento é que levou a mencionar um assunto tão desagradável, milorde. — Explique, por favor. — Com sua permissão, milorde, algumas pessoas de projeção julgam ser estranho um homem na flor da idade privar-se de certos... prazeres. — Quanta consideração! — Julian mais uma vez zombou, porém sentiu embaraço. — Preocupam-se com minha vida particular, quando existem um Napoleão e um príncipe consorte devastando a Europa! E as treze colônias americanas foram reconhecidas como independentes da Inglaterra!


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Malcolm não podia discordar, porém o tema ali ficava distante da política. — Especula-se que o senhor suspira pelo amor perdido — ele acrescentou. — Eu suspiro? — Julian chegou ao auge da irritação. — Por Eleanor? — Sim, milorde. Ou pior. — O que seria pior do que chorar por Eleanor? Dessa vez, o secretário encarou o patrão. Tomou coragem para dizer-lhe: — Os mais maldosos afirmam que o senhor cedeu a uma natureza perversa e agora prefere rapazes que gostam de vestir-se de mulher. — Ah! Travestis! — Felizmente, Julian julgou o comentário mais engraçado do que ofensivo. — Poupe-me dos detalhes. Só faltava um homem decente e trabalhador ser visto como sodomita. Melhor estar suspirando por minha esposa infiel. — Senhor, afirmam que... — Malcolm hesitou. — Que lady Eleanor elegeu um substituto para... as atividades que milorde interrompeu. — Fascinante! Como descobre tanta bobagem, Malcolm? É muita fantasia para tão pobre realidade! — Claro, senhor. Entenda que se trata de puro boato, sem a menor credibilidade. Sou-lhe grato pela compreensão. — Veja bem, Malcolm. Nada podemos fazer quanto aos rumores. Negá-los somente despertará mais acusações. — Compreendo, senhor. Mas era óbvio que Malcolm não compreendia, por exemplo, que os boatos ultrajantes contra o patrão tivessem uma conotação mais política do que moral. Maldita política! O Parlamento se tornara um antro de conspiração, daí Julian preferir a vida tranqüila do campo a exercer o mandato dia após dia. Shadowhurst era seu refúgio, seu santuário. — E importante não ficarmos angustiados com tudo isso — ele decretou, sorrindo. — Desconheço meios de extinguir boatos maldosos, a não ser eliminando metade da população. Como vou encarar o príncipe regente se desafiar alguns de seus assessores favoritos para um duelo de pistolas na praça? — Claro, senhor. Impossível. — Malcolm parecia profundamente infeliz. Mantinha a coluna bem ereta, sem esboçar nenhum gesto de aproximação. Era como havia agido durante toda a vida. Tinha sido bem-educado, e tudo aquilo devia ser devastador para ele. — Devo servir seu chá agora, milorde? Julian estudou seu empregado por um momento. — Malcolm, sabe de algum método para combater esses rumores? — Tenho uma sugestão, senhor. — Os olhos dele brilharam pela primeira vez


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no dia.— Não procure negar os boatos sobre suas... ligações. Em vez disso, desmintaos com suas ações. — Devo lutar boxe para provar minha masculinidade? — Sugiro algo mais simples, milorde. Escolha uma amante bonita e simpática, que possa conduzir pelo braço, em público, e talvez mostrar paixão por ela. Ninguém mais dirá que o senhor perdeu a virilidade... — Fora de questão — retrucou Julian. — Não quero uma amante. No momento, já carrego uma enorme bagagem de problemas, e por isso prefiro evitar mais confusão. — Não precisa ser um arranjo permanente. — Malcolm sustentou o olhar, certo de que seu conselho era sólido. — Encontre uma jovem libertina, mas não profissional, que esteja com dificuldades financeiras. Essas mulheres costumam fazer poucas exigências. — Diga isso ao príncipe regente. Ele não prima pela discrição ao manifestar seus interesses amorosos. — Julian sentou-se à maciça mesa de carvalho e metal que havia sido de seu pai. — Na verdade, você fez uma proposta razoável, Malcolm. Ele fez uma pausa e prosseguiu: — Apenas não quero sujeitar-me a uma chantagem nem permitir que os boateiros façam maldades com você, que sempre foi um funcionário leal. Mas, se o fato de ter uma amante pode acabar com a especulação em torno de minha preferência sexual, não vejo mal algum em escolher uma. Creio até que você já fez isso, não? Malcolm esbugalhou os olhos brilhantes, e seu rosto ficou vermelho. — Tem razão, senhor. Inteirei-me de certas possibilidades, pesquisando na área de Covent Garden. Atrizes iniciantes são muito discretas. — Acertou nos critérios, Malcolm. Eu jamais teria intimidade com uma mulher que vende o corpo por profissão. Mas seria estimulante conhecer uma jovem bonita e honesta, que esteja disposta a fazer esse tido de acordo. Por mais improvável que isso me pareça. Julian sabia que muitos colegas seus haviam errado ao confiar demais nas parceiras e revelar segredos militares ou políticos com o intuito de se valorizarem. Alguns passavam dados sobre manobras do Exército, a fim de apaziguar uma amante enfurecida. Tinha ocorrido um grande escândalo quando o duque de York permitira que a sra. Clarke conhecesse dados sigilosos, liquidando com sua promissora carreira. Ele nunca seria tão tolo ou ridículo, pensou Julian. E não somente por causa de sua posição. Havia inimigos que só aguardavam um pequeno deslize para denunciálo. Estes, porém, descobririam que perdiam seu tempo.


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Gritos ecoaram nos bastidores do teatro, atraindo a atenção dos últimos espectadores que saíam da platéia. O rosto de Roscoe Morton estava rubro, e tremia de indignação. — Ficou maluca? Tem noção de quem acabou de agredir? Laura o encarou com ar de desafio, sem se deixar intimidar. — Sei muito bem quem é esse verme bêbado, que fica metendo o bedelho onde não é chamado, inclusive no meu camarim. — Ele é lorde Emory, sua desmiolada! É um barão! — Barão ou não, ele me assediou! Isto é um teatro ou um lupanar, para você permitir que bêbados entrem aqui e agridam seus artistas? Roscoe parecia prestes a explodir de raiva. — Eu não fiz nada para encorajar lorde Emory — Laura prosseguiu. — Ele é que ficou atrás do biombo e me puxou pelo braço quando eu trocava de roupa. — Você quase o matou — acusou Roscoe com voz estrangulada. — Que exagero. Bati na cabeça dele com uma lata de talco, e ele que se dê por agradecido por não ter nada mais pesado à mão no momento, senão eu poderia tê-lo ferido seriamente. Laura desviou o olhar do diretor para o barão, que ainda praguejava e se debatia às cegas, dificultando a intervenção dos que tentavam ajudá-lo. Asno pomposo. Ele a assustara tremendamente, pulando feito um felino de trás do biombo. Laura percebera no último instante o movimento, pelo canto do olho, antes de ele avançar em cima dela, com os braços estendidos e gritando: "Ah, ah, te peguei!" Fora o suficiente para que ela reagisse por instinto, atacando-o para se defender. Agora o barão tinha o rosto inteiramente coberto por talco, contrastando com um filete de sangue que escorria do corte em sua testa. Parecia um palhaço. Ainda abrindo e fechando a boca como um peixe recém-fisgado, Roscoe emitiu um som engasgado. — Estamos arruinados — choramingou, trêmulo. — Menina idiota, idiota! Lorde Emory é nosso principal patrocinador. Laura suspirou, desalentada, enquanto Roscoe, soluçando, se largava pesadamente sobre o banquinho diante da penteadeira. Foi um alívio quando Célia se aproximou e o encarou, com firmeza: — Pare de se lamuriar, Roscoe — disse ela, sem rodeios. — Por que não vai fechar o caixa, enquanto eu cuido de Emory?


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Subitamente mais calmo, Roscoe se levantou, obediente, mas parou na porta e olhou para trás, encarando Laura. — Nunca mais cometa uma asneira como essa, menina! Laura e Célia se entreolharam depois que ele saiu, pisando duro. — Um final melodramático, não? — Laura suspirou. — Não dê importância, isso passa logo. — Célia voltou-se para o homem de pé atrás dela. — Pode, por gentileza, ajudar a acalmar Emory, milorde, enquanto eu vejo o que consigo fazer para aplacar o gênio de Roscoe? Lorde Charles Belgrave encostou-se no batente da porta com um largo sorriso no rosto redondo. — Pressinto certa desavença por aqui. — Milorde é muito perspicaz, como sempre. Parece que lorde Emory se envolveu num incidente um tanto desagradável e precisa de assistência. E de aulas de bom comportamento. Ele atacou esta moça. — Não me diga — retrucou Belgrave, examinando Laura com interesse, de cima a baixo. Laura então percebeu que seu vestido estava fora do lugar, aqui e ali, e uma parte usualmente coberta da coxa direita estava à mostra, depois do breve entrevero corporal com Emory. Ajeitou a roupa, recusando-se a se mostrar culpada. Belgrave sorriu. — Se Emory molestou uma jovem tão adorável e talentosa, merece ser repreendido — disse Belgrave. — Cuidarei disso. Quando ele saiu junto com Emory, amparando-o para que pudesse caminhar, Célia sorriu de modo encorajador para Laura. — Tenho uma garrafa de conhaque no camarim, querida. Sirva-se de um cálice, enquanto vou escovar as penas de pavão de Roscoe. Laura assentiu, mas no fundo não acreditava que a amiga conseguisse realizar o feito de acalmar Roscoe. Ele estava furioso, ela vira nos olhos dele a raiva e o desamparo, por saber que seu sucesso dependia do patrocínio de homens ricos e poderosos. Laura entendia aquele sentimento, porque ela mesma já se sentira assim muitas vezes. Fortalecida pelo conhaque, acabou de se vestir e pôs de lado a roupa de cena. Duvidava que fosse usá-la novamente. O teatro estava silencioso, depois que os espectadores haviam saído e os atores e contra-regras terminaram suas funções. Laura ouviu o som dos passos de Célia no


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corredor, conforme ela voltava para o camarim. — Bem, minha amiga, Roscoe reconheceu que você teve motivo para fazer o que fez, mesmo não estando muito satisfeito. — Então... — Eu dei a entender que lorde Emory não gostaria que se espalhasse a notícia de que ele foi agredido na cabeça por uma atriz, com uma lata de talco — Célia a interrompeu. — E sugeri também que você tem um protetor bem mais poderoso que Emory, alguém que ficaria muito aborrecido se soubesse que você foi molestada, quanto mais atacada. Foi o que o acabou convencendo a esquecer o assunto. Laura riu, incrédula. — Célia, você é fantástica! — Já me disseram isso — respondeu Célia, brejeira. — Agora venha, vamos brindar à nossa vitória sobre Roscoe e aquela peste do Emory. Belgrave me confidenciou que Emory não presta mesmo. Aposto que existe muita gente que gostaria de fazer com ele o que você fez. O sorriso de Laura esmoreceu. — Pois é, mas ganhei um inimigo poderoso, e não tenho protetor nenhum, infelizmente. Nenhum cavaleiro em armadura brilhante para me salvar dos dragões. Célia deu de ombros. — Isso pode mudar. O truque é saber quem você pode ou não ofender. — E como saber isso? — Descubra tudo o que puder sobre os nobres, quem se dá com quem, quem tem rixa com quem, quem é parente de quem. A maioria é aparentada entre si, por laços de sangue ou por casamento. Por isso é preciso tomar cuidado com o que se diz, porque o menor deslize pode ser fatal. — Como você sabe de todas essas coisas, Célia? — perguntou Laura, admirada. — Você não é da aristocracia, e no entanto é tão familiarizada com essa gente. Célia sorriu. — Comecei a aprender o ofício de criada com seis anos, na casa de um conde. Comecei na cozinha, depois passei para os quartos, e enquanto eu limpava e esfregava, ficava prestando atenção ao que as damas usavam, aprendi a falar como elas, aprendi a ler sozinha e esmiuçava as colunas sociais dos jornais. Modéstia à parte, fui esperta, mas também tive sorte. Com quinze anos, eu já esquentava a cama do patrão. — Quinze anos? — A mesma idade que Laura tinha quando seu mundo mudara tão drasticamente... — O conde era amável e generoso, e me ensinou muita coisa — prosseguiu


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Célia. — Me ofereceu uma boa quantia em dinheiro quando decidi ir embora para tentar carreira no teatro. Mas me conte sobre você... Eu diria que está fugindo de algum homem. Atordoada, Laura meneou a cabeça afirmativamente, antes de se dar conta disso. Não era uma história que gostasse de partilhar ou de se lembrar. Não até que estivesse segura, em sua casa. — Marido? — arriscou Célia. — Namorado? Ou algum pretendente indesejável? Laura negou com a cabeça, embora a amiga estivesse se aproximando da verdade. Percebendo sua expressão aflita, Célia pousou a mão em seu braço. — Não precisa responder, querida, está tudo bem — Célia sussurrou. — Não, não está tudo bem — respondeu Laura, com um sorriso trêmulo. Respirou fundo antes de acrescentar: — Talvez nunca fique tudo bem... Eu sei que você aproveitou o máximo do que a vida lhe ofereceu, e admiro você por isso. Você é inteligente, bonita, corajosa. Eu não. Eu sou... medrosa. Célia riu, com simpatia. — Ah, sim, tão medrosa que jogou uma lata de talco na cabeça de lorde Emory! Se isso é ser medrosa... — Ele me assustou, e eu reagi instintivamente. Se tivesse tido tempo para pensar, decerto eu teria fugido dele. — O que também não teria sido de todo ruim. Fugir já salvou a minha pele várias vezes. Mas olhe, você não precisa me contar nada. Só quero que saiba que pode me procurar se quiser conversar, e que não irei julgá-la. De repente, pareceu a Laura que o fardo de guardar um segredo vergonhoso se tornara mais leve e menos chocante. — Eu sei, obrigada. Você talvez seja a única pessoa capaz de me entender. Eu convivo com uma infâmia há dois anos... Não, mais. Sete. É que antes, eu não percebia o que estava acontecendo. A voz de Laura fraquejou, enquanto as imagens desfilavam por sua mente, primeiro do ponto de vista da adolescente, e depois da jovem mulher: o choque, a vergonha, o medo e o incessante anseio por uma vida que desaparecera. Uma vida que não passara de ilusão. Célia saboreava seu conhaque em silêncio, enquanto esperava pacientemente que Laura dissesse o que a atormentava, até que o desabafo veio em forma de frases desconexas, que traíam sua dor: — Desde criança, eu ouvia falar de Paris, de como era uma cidade maravilhosa e de como ela... minha mãe... queria que eu fosse morar lá com ela. Então meu pai morreu. A Virgínia ficava muito longe, e eu tinha só cinco anos, e com


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meu pai morto, minha mãe não queria mais ficar nas colônias. Ela fez uma pausa para tomar fôlego. — Acho que meus avós ficaram aliviados. Minha mãe era diferente, era... irrequieta, impaciente. Hoje eu entendo como ela deve ter sentido saudade da terra natal e da vida que sempre tinha tido. Ela então voltou para lá, e depois que meus avós faleceram, eu fui morar com ela. Mas depois... eu vim para Londres, porque... eu não queria aquele tipo de vida. — Que tipo de vida? — perguntou Célia. O rosto de Laura ficou vermelho. — Minha mãe... bem, no começo parecia tudo maravilhoso, a linda casa, os bailes elegantes, as sedas, os cetins, as jóias... Eu achava que a vida dela era perfeita. Mas aí... aí fiquei sabendo que o homem que eu pensava ser marido de minha mãe não era marido coisa nenhuma. Minha mãe era uma cortesã, linda, esplendorosa, que se vendia pelo lance mais alto, e o tal sujeito era um conde, protetor dela. Para mim, foi um choque. Mas choque ainda maior foi quando o conde sugeriu que o filho dele fosse meu protetor. Laura olhou para Célia, que meneou a cabeça, com expressão compreensiva. — Eu fui criada pelos meus avós, depois que minha mãe foi para a França, e era bastante ingênua. Fiquei pasma, chocada mesmo... — E sua mãe, ela queria que você aceitasse a proposta? — Queria. Ficou surpresa quando eu recusei, e depois ficou zangada. Disse que eu era uma filha ingrata, que eu já tinha quase vinte anos e que tinha de saber como era o mundo. — E então você não teve escolha... — Isso. O filho do conde foi em casa me conhecer, e era da pior espécie que um homem pode ser. Nunca pensei que pudesse existir alguém tão arrogante e desprezível. — Ele forçou você a... — Não, mas tentou. — Laura nunca havia falado a ninguém sobre a noite em que fugira de Paris, querendo esquecer todo aquele pesadelo. — Mamãe e o conde tinham ido a um banquete em homenagem a Napoleão. Eu estava arrasada, ainda mais com a iminência de uma guerra, e queria ir embora para a Virgínia. Claro que não seria mais a mesma coisa, sem meus avós, mas um tio meu havia herdado a propriedade, e pelo menos lá eu me sentiria em casa. Eu estava tão agitada naquela noite que desci até a biblioteca para pegar um livro e ler um pouco, para me acalmar. Era bem tarde, as luzes estavam apagadas, havia só uma lâmpada fraca acesa no hall, e os criados estavam dormindo. Laura retorceu as mãos, nervosa. — Quando eu entrei na biblioteca, dei com o infame lá, sentado, olhando para mim, como se estivesse me esperando. Nossa, foi apavorante! Ele se levantou e


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andou na minha direção, falando bobagens, parecia meio embriagado. Eu dei meiavolta e saí correndo, batendo a porta para retardá-lo. Me escondi no primeiro lugar que encontrei, atrás da porta da despensa. — E ele não achou você? — Não. Mas ficou furioso. Eu o ouvi praguejar, dizer que minha mãe sabia o que era melhor para mim, que eu nunca deixaria de ser uma... — Laura se calou, e seu rosto ficou vermelho. — Que canalha! — exclamou Célia. — E sua mãe, ficou muito brava quando soube? — Não lhe dei a oportunidade. Quando o infeliz finalmente foi embora, arrumei minha mala e saí também. — Mas você tinha dinheiro? — Tinha pouca coisa, o suficiente para passar a noite num quarto de pensão. No dia seguinte penhorei minhas jóias e consegui comprar passagem para Londres. No navio, havia um grupo de artistas de teatro, e a chefe deles foi falar comigo e me deu o cartão dela, disse que tinha andado me observando e que achava que eu tinha talento para o palco. — Laura suspirou. — Pelo jeito, ela é a única pessoa no mundo que pensa assim. — Você tem talento — confirmou Célia. — Mas dá para perceber que você não se entrega de alma e coração. Laura, ouça o que eu digo: os homens reparam em você. Por que você acha que Emory foi atrás de você, no camarim? Por causa do seu papel de pastora ingênua? Claro que não. Foi porque você é bonita. Você pode usar sua beleza a seu favor e deixar que ela a leve além dos palcos. Moças bonitas existem aos montes, mas você é diferente. Você tem classe, tem... presença, entende? Laura se lembrou do diretor que dissera que lhe faltava presença e sorriu. — Acho que você também é a única que acha isso, minha amiga. — Nada disso — retrucou Célia. — Emory também acha, e Belgrave também. Ele disse que você é artigo de primeira categoria. Você não está mais em Paris, querida, está em Londres, e aqui você pode ter um grupo de protetores, homens que vão paparicar você e lhe dar tudo o que você precisa. Eu, por exemplo, durmo em lençóis limpos e perfumados e tenho fartura de comida. Belgrave é muito bom para mim. Se eu quisesse, não precisaria trabalhar, mas eu adoro o teatro. Estou aqui porque quero, e isso é o que faz toda a diferença, percebe? Sou eu que decido minha própria vida. — Eu entendo, mas acontece que tenho alguns valores que faço questão de respeitar, não pelos outros, mas por mim mesma. Eu poderia estar levando uma vida confortável e de mordomias em Paris, como minha mãe, mas foi justamente disso que eu fugi. Como vou poder me olhar no espelho, se violar meus próprios princípios?


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— E eu lhe pergunto, como poderá se olhar no espelho, se morrer de fome e de frio nos degraus de uma igreja? — replicou Célia, com uma sinceridade quase brutal. — A vida é feita de escolhas, minha querida, e às vezes é preciso ter coragem para viver a vida. Sem argumento, Laura encarou os olhos muito azuis e francos de Célia. — Se eu fosse... no caso de eu querer escolher um... protetor — murmurou ela —, eu não saberia como fazer isso. Célia deu um sorriso reconfortante. — Deixe comigo. — Leite ou limão? — Leite, por favor. Laura observou madame Devereaux verter leite na xícara de chá. — Merci — murmurou, aceitando a delicada xícara de porcelana. — Acho uma gracinha você falar francês tão bem — disse madame Devereaux num inglês impecável. — Os ingleses se encantam com moças francesas, sabia? — Minha mãe é francesa — explicou Laura. — Meu pai era americano, filho de ingleses. Madame Devereaux descartou a ascendência britânica de Laura com um gesto de mão. — Isso não tem a menor importância. Para todos os fins, você será francesa, certo? — Era uma mulher de meia-idade, franzina e elegante. — Célia comentou sobre nossos arranjos, n'est-ce pas? — Oui, madame — murmurou Laura. — Ótimo. É essencial que compreenda meu objetivo. Providencio companhias interessantes a certos membros da aristocracia, que também são escolhidos a dedo, recomendados uns pelos outros. E também, é claro, pelo Banco da Inglaterra. — Madame Devereaux sorriu quando Laura ergueu os olhos para ela, ligeiramente surpresa. — É preciso ser prática. Proporciono um serviço valioso a cavalheiros influentes, e não posso correr riscos. Por isso, é primordial que as damas que seleciono tenham um comportamento esmerado e obedeçam as regras. — Oui, madame — Laura concordou mais uma vez. — Muito bem. Seu sotaque é um charme, e você é muito graciosa. Cabelos lindos, olhos expressivos... Será fácil encontrar logo alguém interessado em você. — Madame Devereaux fez uma breve pausa, antes de perguntar: — Você ainda é virgem?


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Laura quase engasgou com o chá, tamanho o sobressalto que a pergunta lhe causou. — Me perdoe, mas é necessário perguntar, mademoiselle Lancaster. Preciso saber tudo. — Sim, eu sei... Eu ainda não... Quero dizer, sim, sou. — Bon. — A mulher sorriu, satisfeita. — Isso é ótimo. É um atributo que os cavalheiros valorizam bastante. Sabe como é, todo homem gosta de ser o primeiro. Bem, seu nome será Laurette. O que acha? Confusa, Laura hesitou para responder, e Célia interveio: — E um nome lindo — aprovou. — E muito parecido com seu nome verdadeiro, praticamente um diminutivo. Você vai se acostumar logo. Imagine eu, que tive de mudar de Maggie para Célia! — Quando assumimos um novo nome, fica mais fácil assumirmos também uma nova vida — explicou madame Devereaux. — Bem, Laurette, tenho de levá-la à modista para encomendar roupas novas. Acho que você ficaria bem num vestido de seda verde, de cintura alta e saia rodada. Sem babados, somente, talvez, um debrum dourado na barra e nas mangas... Atordoada, Laura ouviu as badaladas do relógio de carrilhão, enquanto refletia sobre suas opções. Pedaços de lenha queimada ainda estalavam na lareira, aquecendo a sala acolhedora e elegantemente mobiliada. Não havia aspereza nem grosseria nos modos de madame Devereaux; ao contrário do que Laura imaginara, ela era uma mulher refinada e amável. Como se lhe adivinhasse os pensamentos, madame Devereaux sorriu. — Meu pai era marquês, e minha mãe era filha de um conde — explicou. — Ambos foram mortos na Revolução Francesa, e eu escapei por pouco com vida. Sou uma exilada de meu país natal, e a Inglaterra se tornou meu lar. Nesta vida, é preciso adaptar-se às circunstâncias. E então, ma petite, o que você resolve? — Sabe de uma coisa — intrometeu-se Célia novamente, ignorando a hesitação de Laura. — Acho que, melhor ainda que o verde, musselina branca, ou mesmo veludo branco, cairiam muito bem, pois ressaltariam ainda mais a pureza de Laurette. — Tem razão! — Madame Devereaux bateu palmas, entusiasmada. — Com florzinhas e fitas nos cabelos, como uma deusa grega! Enquanto Célia e madame Devereaux discutiam que vestido ela iria usar, Laura ficou sentada, em silêncio, retorcendo os dedos ao redor do guardanapo de linho em seu colo. Ela ainda não aceitara a proposta, mas as outras duas pareciam assumir que ela diria "sim". Ela fugira de Paris e comera o pão que o diabo amassou durante dois anos, para nada. Que diferença fazia entregar-se ao filho do conde ou a


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um lorde desconhecido? O resultado seria o mesmo. Ela seria igualzinha à sua mãe, exatamente como Aubert Fortier profetizara. Fechando os olhos, Laura forçou-se a deixar de lado todo o esforço vão, a fuga, o medo, a longa batalha contra o destino. Fora tola em acreditar que conseguiria escapar. — Lorde Lockwood, é um prazer conhecê-lo. — Igualmente, madame. — Julian inclinou-se sobre a mão estendida de madame Devereaux, escondendo a impaciência para enfrentar a noite que tinha diante de si, embora só pudesse culpar a si mesmo por ter aceitado o convite. Evitava aquele tipo de evento, pois não gostava de ser usado, nem de permitir que outras pessoas fossem usadas. Ele se deitara com mulheres antes de se casar, mas em circunstâncias diferentes. Gostava de companhia feminina quando havia diálogo e mútuo consentimento em ir para a cama. Era assim que ele preferia. Fora unicamente por causa da insistência de Malcolm que ele concordara em comparecer. Seu secretário lhe garantira que a reunião seria agradável e discreta, mas enganara-se. Não havia nada de agradável num grupo de jovens espalhadas pelo salão, tal qual estatuetas de porcelana numa vitrine, e a discrição foi por água abaixo no instante em que ele reconheceu lorde Sartain conversando lascivamente com uma moça que parecia ter a idade da filha dele. O impulso de ir embora foi contido por madame Devereaux, que chamou o garçom que passava ali perto, servindo conhaque. — Se preferir, milorde, pode se sentar na sala ao lado e ouvir boa música — sugeriu ela, perspicaz. Julian agradeceu com uma mesura e um sorriso, e madame Devereaux o conduziu até a saleta contígua ao salão, um cômodo aconchegante, com paredes revestidas de papel florido. A iluminação indireta incidia sobre poltronas estofadas e banquetas, onde várias damas conversavam em voz baixa. Sobre um tablado montado entre as duas portas de vidro que se abriam para o jardim, uma pequena orquestra de violinos tocava música de câmara. Sentindo-se mais descontraído, Julian tomou um gole de conhaque, enquanto percorria os olhos pelo recinto, observando as mulheres ali presentes. À medida que ele passava o olhar de uma para outra, recebia ora um sorriso tímido, ora uma inclinação de cabeça mais ousada, porém todos os gestos eram convidativos. Por mais que se sentisse seguro e bem acolhido, no entanto, Julian era um homem que gostava de desfrutar o sabor da conquista e da entrega final. Não que isso fizesse alguma diferença naquele momento, pois ele não estava


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ali para se divertir, e sim para escolher uma mulher que pudesse representar o papel de sua amante. Teria de ser alguém com quem ele simpatizasse, pois seria necessário uma convivência estreita, ou a pequena farsa não surtiria efeito. Qual seria a reação de Eleanor, quando soubesse?, pensava Julian, enquanto bebericava seu conhaque. Sem dúvida, ficaria chocada, e depois furiosa. Ela nunca gostara de dividir com ninguém as atenções de quem quer que fosse e, presunçosamente, achava que o marido ficara desgostoso demais com seu comportamento para dar o troco na mesma moeda. Os violinos silenciaram, e alguém começou a tocar piano. Julian olhou na direção do tablado e ergueu as sobrancelhas, surpreso. Uma jovem com lindos cabelos avermelhados, trançados com minúsculas rosas e fitas brancas estava sentada diante do instrumento, correndo graciosamente as mãos sobre o teclado. Parecia envolta pela melodia, alheia aos dois cavalheiros que a observavam de perto, embevecidos. Intrigado, Julian também se aproximou. A moça tinha uma beleza exótica. Onde madame Devereaux encontrara aquele anjo? Modos impecáveis e moral duvidosa, Julian lembrou-se das palavras de Malcolm, que em seguida rira do próprio senso de humor. A moça levantou o rosto, e os olhares de ambos se encontraram, porém em momento algum ela parou de tocar. Julian fixou a vista nos lábios rosados e sensuais, que contrastavam com o vestido recatado. O tecido branco vaporoso, debruado em dourado, não escondia as formas do corpo esguio e delicado, com curvas nos lugares certos. As mangas curtas deixavam à vista os braços delicados, e um xale do mesmo tecido fora costurado ao decote, caindo graciosamente para trás, até terminar num laço nas costas, logo abaixo da cintura. Ela parecia... virginal. Pura. Uma deusa. Um dos rapazes que estava assistindo a ela tocar chegou ainda mais perto e inclinou-se ao lado do piano, e quando a atenção da moça se desviou para ele, a expressão de seu rosto se tornou mais sisuda. Antes, quando ela olhara para Julian, havia um leve ar de sorriso em seus olhos verdes, emoldurados por cílios longos e escuros. Julian tomou mais um gole de conhaque, encostado a uma pilastra de mármore ladeada por dois enormes vasos com palmeiras. Era surpreendente encontrar naquele tipo de ambiente uma mulher que parecia deslocada. Quando ela terminou de tocar, e os acordes dos violinos voltaram a ressoar no ambiente, o baronete que a observava de perto segurou-a pelo braço, sem muita delicadeza. — Já soube que você é Laurette — disse ele, com igual rispidez. — Quer me acompanhar, por favor?


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Para espanto de Julian, a moça chamada Laurette desvencilhou-se dele com um safanão, enquanto se levantava da banqueta do piano. O rosto do rapaz ficou vermelho e trêmulo de indignação, e ele avançou para ela, tornando a segurá-la pelo braço, dessa vez puxando-a para si. Então, para surpresa de todos na sala, Laurette virou-se e espalmou a mão no rosto do baronete, numa sonora bofetada. A música silenciou repentinamente e todos os olhares se voltaram para a cena. — Sua... O que você pensa que é, sua... sua... — gaguejou o baronete, com os olhos esbugalhados de fúria. Nesse instante, madame Devereaux entrou apressada na sala, visivelmente transtornada, e encaminhou-se na direção dos dois. — O que é isso, minha filha? — perguntou, sem perder a classe, num tom que mesclava repreensão e carinho. — Peço-lhe perdão, madame — respondeu Laura, desviando o olhar, e falando baixo porém com firmeza. — Eu não consigo... Não posso mais... fazer isso. Eu... Madame Devereaux segurou o braço de Laura, mantendo a atitude carinhosa, e olhou para o baronete. — Desculpe-me, milorde... Talvez não tenha compreendido direito que... nada aqui deve ser forçado. — Ela olhou ao redor. — Peço desculpas a todos pelo inconveniente. Por favor, espero que este incidente desagradável não estrague sua noite, e que todos continuem se divertindo. Madame Devereaux inclinou a cabeça para os músicos, num sinal para que continuassem a tocar, e conduziu Laura para a extremidade oposta da sala, ignorando o ultrajado baronete, que saiu pisando duro, seguido de perto por dois ou três amigos. Julian acompanhava com o olhar à medida que madame Devereaux e Laurette passavam perto de onde ele se encontrava, observando tudo em silêncio. — Sinto muito, madame — ouviu a moça dizer em francês. — Eu não consigo fazer isso... simplesmente não consigo. Que estranho, pensou Julian. Madame Devereaux continuava falando com gentileza, mas Laurette balançava a cabeça vigorosamente, e uma das rosinhas brancas que enfeitavam seus cabelos caiu ao chão. Por alguma razão, Julian sentiu-se impelido a pegá-la, e seus dedos tocaram o tapete persa macio que enfeitava o piso de ardósia da saleta de música. Ele aproximou a florzinha artesanal do rosto e inalou a fragrância de água de colônia de sândalo, surpreendendo-se que uma cortesã usasse um perfume tão fora de moda, em vez de uma essência mais marcante, cítrica ou floral, conforme ditava a última


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tendência em voga. Que coisa extraordinária... Por um momento, o cinismo natural de Julian deu margem a dúvidas sobre a integridade moral de Laurette. Ela poderia estar representando, claro, fingindo... Mas sua intuição lhe dizia que era muito improvável que aquela jovem fosse uma cortesã, tão improvável quanto que seu verdadeiro nome fosse Laurette... — Non, non, monsieur! Não faça assim, por favor! — Laura se desvencilhou das mãos ávidas do marquês embriagado que se inclinava sobre ela com olhar lascivo. Sua cabeça latejava de tensão. Ela não se deixara convencer por madame Devereaux a ficar, e nem mesmo o sutil comentário de que um único encontro lhe garantiria a passagem de navio para a América a persuadira a reconsiderar. Mas aquele lorde de hálito fétido a vira sair da casa e a seguira, encurralando-a numa viela estreita ao lado da casa. O medo a fez enregelar, muito mais do que o vento frio que soprava, quando o marquês soltou uma gargalhada repulsiva. — Garota tola! Eu vi você lá dentro, sei que tipo de mulher você é, portanto pare de bancar a virgem recatada, porque pretendo pagar muito bem por seus favores, meu anjinho de jade... — Não! — Laura exclamou, abandonando toda e qualquer tentativa de continuar representando, no desespero para fugir. — Eu não sou o que o senhor está pensando... A mão do marquês se fechou em torno do pescoço de Laura, os dedos se apertando levemente para calar-lhe os protestos. Encostando-se nela, ele riu baixinho. O cheiro de corpo mal lavado e de vinho velho invadiu as narinas de Laura, causando-lhe náuseas. Com as costas pressionadas contra a parede áspera de tijolos, era impossível fugir. Os lampiões da rua principal mal iluminavam o local onde eles se encontravam, transformando-se em meros pontinhos de luz diante dos olhos de Laura, conforme ela tentava respirar. Será que era assim que ela iria perder a virgindade, num beco imundo e malcheiroso, com um membro da aristocracia desabotoando as calças para possuí-la contra uma parede dura que lhe espicaçava as costas através do tecido da roupa? Então, de repente, Laura conseguiu respirar. Com um acesso de tosse, enquanto o ar retornava a seus pulmões e o sangue voltava a circular, ela se deu conta das vozes de dois homens que se aproximavam apressados pela viela, afugentando o covarde marquês, que saiu correndo em sentido contrário. Laura reconheceu um deles como o nobre de cabelos dourados que a observara discretamente enquanto ela tocava piano. Lorde Lockwood era o nome dele. Laura se lembrava, porque madame


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Devereaux o mencionara, após o incidente com o baronete, quando a levara para fora da sala de música para conversar. Dissera que ele era um conde, um cavalheiro muito bem-educado, ao contrário de outros insolentes que, por mais que ela tentasse evitar, não conseguia impedir que comparecessem aos eventos. Madame Devereaux tentara convencê-la a se deixar apresentar a lorde Lockwood, mas Laura não concordara, ainda incomodada com a lembrança da proximidade repugnante do baronete. Agora ela estava amontoada num beco sórdido, sendo observada pelos dois homens que vieram em seu socorro, e nada no mundo poderia ser mais degradante do que aquilo. Depois de se certificar de que o marquês fora embora, Julian deu um passo à frente e estendeu a mão para ajudar Laura a levantar-se. — Ele a machucou, senhorita? Laura balançou a cabeça. — Não. Eu... muito obrigada, milorde. — Não há de quê. Tem transporte para voltar para casa? Posso chamar um cabriolé? — Eu agradeço muito — ela aceitou, sem alternativa. A idéia de voltar para a casa de madame Devereaux lhe dava arrepios. Laura olhou de soslaio para o conde. Aparentemente, madame Devereaux não mentira quando afirmara que ele era bem-educado. Estavam chegando à rua principal, e a luz de um lampião incidiu diretamente sobre o rosto de lorde Lockwood. Era um rosto másculo, anguloso, aristocrático. Ele a segurava respeitosamente pelo cotovelo, como um perfeito cavalheiro. No entanto, se comparecera a um evento na casa de madame Devereaux, era óbvio que fora com a intenção de escolher companhia. Uma contradição, pensou Laura, intrigada. Cumprindo a palavra, o conde chamou uma carruagem de aluguel e ajudou Laura a embarcar, instruindo o condutor a levá-la ao endereço que ela lhe fornecera. Colocou uma moeda na mão do homem e recuou, despedindo-se com uma leve inclinação de cabeça e um cumprimento em francês: — Bonne nuit, mademoiselle. A carruagem partiu com um leve solavanco, e quando Laura olhou pela janela, o conde já sumira de vista. Que homem intrigante, esse lorde Lockwood.


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Capítulo II — Que rosas lindas! — exclamou Célia. Laura contemplou, entre estarrecida e maravilhada, o ramalhete de rosas brancas sobre a penteadeira do camarim. O reflexo no espelho dava a impressão de serem dois belos buquês. — Quem mandou? Laura balançou a cabeça. — Não tem cartão, e já estavam aqui quando cheguei. Jeremy viu o entregador, disse que usava libre verde e dourada. — Hum! Lacaio de algum nobre, provavelmente um admirador secreto da festa de madame Devereaux — deduziu Célia. — Que meigo... Laura não respondeu. Célia ficara surpresa ao saber do que acontecera na festa, uma semana antes. Madame Devereaux mandara um mensageiro entregar vários cartões de visita de cavalheiros que haviam conhecido Laura naquela noite e se interessado por ela, mas nenhum deles era de lorde Lockwood. Não que ela esperasse que ele entrasse em contato, na verdade; ele se mostrara cortês porém distante, apenas amável para com quem julgava ser uma cortesã. E jamais associaria essa cortesã com uma atriz pouco conhecida. Laura estendeu a mão e tocou a superfície aveludada de uma pétala, depois cheirou o ramalhete e suspirou. O perfume a fazia lembrar-se dos tempos de infância, do sol da Virgínia, da voz de sua avó cantarolando melodias alegres. Célia se recostou na penteadeira e arqueou uma sobrancelha. — Madame Devereaux me pediu para lhe dizer que a oferta ainda está de pé. Pode voltar lá quando quiser. — Não posso voltar, Célia. — Ela suspirou fundo. — Foi... humilhante. Bem que eu gostaria de ser como você, mas não consigo. Você é corajosa, esperta, arrojada. — Você se subestima, Laura. Madame disse que você encantou vários cavalheiros, naquela noite, inclusive o esquivo Lockwood. — Esquivo? — Laura franziu a testa, em dúvida sobre se a amiga se referia ao mesmo homem em quem ela estava pensando. — Sim, amiga. Esquivo como o diabo numa sacristia. A esposa dele está no continente, envolvida em escândalos amorosos, e, segundo dizem, ele está arrasado. Correm também rumores de que o conde prefere a companhia de seu secretário à de mulheres. Mas acho que é boato, porque se fosse verdade, ele não teria ido à festa de madame Devereaux. — Tem razão — concordou Laura, tentando conciliar a imagem do homem que conhecera com a de um marido atormentado pela infidelidade da esposa, sem conseguir imaginar que uma mulher fosse capaz de traí-lo. Aquilo devia tratar-se de


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outro boato maldoso. — Você parece não ter idéia de seu próprio valor, querida — continuou Célia. — Você pode ter ofendido um baronete, mas atraiu a atenção de pelo menos outros quatro cavalheiros, sendo que um deles é lorde Lockwood. — Mas ele é casado! — Sim, mas você se lembra do que eu lhe disse? Que os homens casados são uma companhia muito melhor do que os rapazes solteiros, que não pensam em outra coisa senão em sexo? Um ligeiro sorriso curvou os lábios de Laura. Era estranho pensar em Lockwood sob aquele ponto de vista, mas no fundo admitia que acharia agradável ter uma experiência íntima com aquele homem. Jeremy bateu de leve na porta e espiou para dentro do camarim. — Está na hora, meninas — avisou ele. — O povo está irado, hoje. Sherman esqueceu sua fala e foi vaiado, e a peruca dele caiu para fora do palco. Imperturbável, Célia ajustou a cintura de seu vestido de cetim. — Sherman é um canastrão — disse ela. — Não há uma vez em que ele não esqueça as falas. Pena que não tenha caído do palco junto com a peruca. Laura deu uma última olhada no espelho para verificar o arranjo de flores na cabeça e saiu atrás de Célia, sorrindo. Quando sua última cena terminou, Laura se retirou do palco junto com a ovelhinha com a qual contracenava. O animal havia balido tão alto que ela tivera de gritar para que a platéia ouvisse sua voz. — Você vai virar ensopadinho se não aprender a se comportar direito, entendeu? — repreendeu Laura, colocando a ovelha dentro de um caixote e oferecendo-lhe um pouco de feno. Em seguida afagou a cabeça do animal e se dirigiu pelo corredor de volta ao camarim. De repente, estacou abruptamente. Encostado à parede, com os braços cruzados sobre o peito e um sorriso cínico nos lábios, lorde Lockwood a observava com uma sobrancelha erguida. — Na minha opinião, a ovelha é melhor atriz do que o canastrão que perdeu a peruca — disse ele. O coração de Laura disparou, e ela não conseguia pensar em nada para dizer. — Talvez a ameaça funcionasse melhor com ele do que com o bichinho — acrescentou Julian, quando Laura simplesmente ficou olhando para ele, emudecida. — Estou incomodando, srta. Lancaster? — De modo algum, milorde — ela reencontrou a voz. — Apenas fiquei


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surpresa. — Não está habituada a ver cavalheiros parados à porta de seu camarim? — Julian a provocou. — Não, milorde... Muito menos cavalheiros da sua estirpe. — Ah. — Ele alargou o sorriso. — Como... Como me achou aqui? — indagou ela, enrubescendo. — Perguntei a madame Devereaux onde poderia encontrá-la. — Oh! — O rosto de Laura ficou ainda mais vermelho. — Perdoe minha impaciência, mademoiselle, mas precisamos ficar aqui no corredor, perto dos caixotes dos animais? Não há algum outro lugar mais agradável onde possamos conversar? — Claro, claro... Me desculpe. — Laura obrigou-se a se mover. — Tem o meu camarim. Meu e de Célia. — Célia? A jovem exótica que interpretou magistralmente no terceiro ato? Muito bem, então, vamos lá. — Julian recuou para lhe dar passagem. Era enervante saber que ele a seguia pelo corredor. O que tinha aquele homem que a deixava tão perturbada, desajeitada e sem-graça? Quando entraram no camarim, o clima se tornou ainda mais desconcertante. Julian teve de abaixar a cabeça para passar, e encostou-se à parede, olhando em volta para as roupas, algumas penduradas, outras espalhadas por toda parte, para os acessórios e cosméticos sobre a penteadeira. — Nunca estive num camarim de artistas, antes — disse ele. — É interessante. O olhar de Julian se deteve no jarro com água onde Laura arranjara as rosas, e nesse instante ela imaginou se teria sido ele quem as enviara. —Vim convidá-la para jantar comigo hoje, srta. Lancaster. Me daria o prazer de sua companhia? Laura pestanejou. Aquele homem era completamente diferente de Emory, gentil e cavalheiro, ao invés de estúpido e prepotente. No entanto, ela sentia que justamente esse fato quase o tornava ainda mais perigoso do que o outro. — Jantar, milorde? — Sim, um jantar simples, uma refeição leve, dois ou três pratos apenas, e, no máximo, uma garrafa de vinho. Laura voltou-se para a penteadeira e tirou uma rosa do jarro, aproximando-a do nariz para sentir o perfume, como se considerasse o convite. O que lorde Lockwood queria dela? Ele fora até ali com algum propósito em mente, isso era óbvio. Será que fora ele quem lhe mandara as rosas? Laura não queria perguntar,


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porque se estivesse enganada, lorde Lockwood consideraria presunção de sua parte imaginar que poderia ter sido ele. — E então? — perguntou Julian, quando o silêncio se prolongou. — Chegou a alguma conclusão do motivo pelo qual vim aqui convidá-la para jantar? — Não — respondeu Laura, com sinceridade. — Pode me dizer qual é? Julian a fitou em silêncio por um momento, antes de falar: — Você é uma mulher singular, srta. Lancaster. Posso eliminar a formalidade e chamá-la de Laura? Os olhos dela se arregalaram ao ouvi-lo pronunciar seu nome. — Meu nome é Julian Norcliff, conde de Lockwood, apenas a título de apresentação. Por favor, me chame de Julian — disse ele, com uma inclinação de cabeça. Como Laura permanecesse muda, Julian prosseguiu: — Bem, como eu dizia, você tem modos refinados, uma maneira culta de falar, e seu francês é excelente, mesmo com o sotaque estrangeiro. Imagino que tenha aprendido a falar francês desde criança, ou então que tenha morado algum tempo na França. Você chegou a Londres com uma trupe de artistas vindos de Paris e, antes de trabalhar neste teatro, você fazia o papel de uma senhorinha idosa no Teatro Greene, antes de ele ser fechado, quando o dono perdeu todo o dinheiro do patrocínio no jogo e o governo interditou o prédio. Você está morando em Carrier Street... uma região não muito salutar para se viver, diga-se de passagem... dividindo um quarto com outras três moças, costureiras assistentes de um alfaiate em Bond Street. Como os salários estão sendo pagos com atraso, você está em dificuldades financeiras. Foi por isso que você compareceu à soirée na casa de madame Devereaux? Atônita, Laura de repente teve a impressão de que lorde Lockwood sabia tudo sobre ela, que sabia por que fugira de Paris, que sabia quem era sua mãe... Mas então deu-se conta de que não era possível. Ainda assim, como ele conhecia tantos detalhes de sua vida? E por quê? Percebendo que ele esperava que cuidadosamente as palavras que disse a seguir:

dissesse

alguma

coisa,

avaliou

— Sabe bastante sobre mim, milorde... — Julian — ele a corrigiu. — Julian — Laura repetiu baixinho. — Aceite meu convite para jantar, e também ficará sabendo de muitas coisas a meu respeito. Laura apenas o observou em silêncio, achando os modos dele um tanto arrogantes.


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— Permita-me afirmar que será extremamente benéfico para você — acrescentou Julian. — E que, se recusar, nunca saberá se deveria ter aproveitado a oportunidade. Perplexa com a maneira como ele expunha seu pensamento, Laura decidiu arriscar. — Está bem—concordou, esperando não estar cometendo a maior asneira de sua vida. — Eu vou jantar com você, se me deixar escolher o lugar. Julian sorriu. — Ótimo. O coração de Laura bateu mais acelerado ao ver aquele sorriso, e ela se sentiu como se tivesse acabado de pular num precipício. — É um lugar muito agradável — aprovou Julian, olhando ao redor. — Você vem sempre aqui? Laura reprimiu o riso. Sem dúvida, o conde nunca havia entrado num pub popular, pelo menos não em um como o Angel, freqüentado por artistas e onde a cerveja corria solta. Com certeza ele ia a bares elegantes e exclusivos, com toalhas de linho nas mesas e música suave tocando ao fundo. Ali no Angel, um grupo de músicos semi-embriagados tocava canções barulhentas, e a fumaça de cigarros e charutos pairava feito uma bruma sob o teto baixo de madeira. — Às vezes — respondeu ela, enquanto se sentavam a uma mesa de nicho, observados por alguns olhares curiosos. A resposta de Laura dava a impressão de que ela ia ali com muito mais freqüência do que ia na realidade. Na verdade, para ela, comer no Angel era uma extravagância, e ela só ia quando Jeremy ou um de seus colegas se oferecia para lhe pagar uma cerveja ou, no máximo, uma batata assada. Naquela noite, contudo, como era convidada do conde, ela poderia se refestelar com o prato típico da casa, carne assada com batatas coradas. O garçom não demorou a servi-los, e ao ver o prato fumegante e suculento à sua frente, Laura teve de engolir a saliva para impedir que escorresse por seu queixo abaixo, bem como se conter para não avançar na comida como uma selvagem esfomeada. Com um esforço supremo, comeu com modos e devagar, acompanhando o ritmo e os movimentos de Julian, cortando pacientemente a carne em pedacinhos pequenos e levando-os à boca em garfadas discretas, em vez de devorá-la em duas ou três enormes abocanhadas, como gostaria de fazer. De qualquer forma, naquele momento estava mais interessada em forrar o estômago do que em saber o motivo pelo qual o conde a convidara para jantar. Isso ela em breve ficaria sabendo, já outra refeição como aquela, só Deus sabia quando ela


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poderia ter outra vez. Felizmente, Julian teve a consideração de esperar que ela terminasse para então falar, dessa forma poupando-a de ter de interromper a ingestão de tão delicioso alimento para responder, o que quer que fosse. — Laura, tenho uma proposta a lhe fazer, e gostaria que pensasse a respeito com carinho, porque o benefício será mútuo. Laura limpou os lábios com o guardanapo rústico de algodão e fitou-o, entre perplexa e curiosa, esperando que ele prosseguisse. Julian não demorou a explicar: — O fato é que eu preciso de uma mulher que concorde em me fazer companhia com certa freqüência, e você, sem dúvida, está enfrentando sérias dificuldades financeiras. Laura continuou olhando para ele em silêncio, prevendo o que viria a seguir, e a agradável sensação de saciedade começou a dar lugar a um vazio na boca do estômago. — Estou disposto a lhe oferecer uma situação bastante confortável — disse Julian. — E depois que o meu intuito for alcançado, eu a recompensarei com uma quantia generosa. — E o que essa... situação... exigiria de mim? — quis saber Laura. — Ficar à sua disposição para atender a... todo e qualquer... desejo ou necessidade de sua parte? — Se eu quisesse os serviços de uma rameira, eu saberia onde encontrar uma, Laura — respondeu Julian, com frieza. — Eu especifiquei que preciso de uma mulher que me faça companhia, literalmente. — Companhia? — Sim, isso é tudo o que espero de você. Que vá comigo ao teatro, à ópera, a festas, enfim, a qualquer compromisso social para o qual eu a requisite. Nada mais, além disso. Tem a minha palavra como garantia de que não solicitarei de você nada além do que está sendo conversado aqui. Companhia, pura e simplesmente. Laura o fitou, incrédula. — Mas... por que precisa que eu lhe faça companhia, milor... Julian? — Tenho meus motivos, que não interessam a ninguém mais. Trata-se de uma proposta de negócios, digamos, um acordo comercial. — Entendo — murmurou Laura, embora não entendesse nada. — Está me propondo que represente o papel de sua amante, apenas nas aparências. É uma proposta interessante... Julian contraiu os lábios, e um brilho estranho iluminou seus olhos. — Quando a conheci, na festa, madame Devereaux estava barganhando você


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pelo lance mais alto, levando em conta a sua virgindade. Pois eu estou lhe oferecendo não só o preço mais alto, como você continuará preservando sua alegada pureza. Depois que o nosso contrato terminar, você estará livre para entregá-la a quem bem entender. Laura ficou chocada com a crueza das palavras de Julian, e a evidente descrença em seu tom de voz. O pior é que ela não tinha como contra-argumentar. Sujeitara-se a se prostituir para poder comprar uma passagem de navio e voltar para a América, por que não aceitaria uma proposta que a deixaria com a dignidade intacta, mesmo que com a reputação um pouco manchada? Sua cabeça começou a latejar, e a fumaça fazia seus olhos e sua garganta arderem. Ela precisava pensar, precisava refletir com muito cuidado, para não vir a se arrepender depois, de um jeito ou de outro. — Vou pensar a respeito de sua proposta — disse, finalmente, e Julian assentiu com um gesto de cabeça. Que Deus a ajudasse... — Pare aqui, Charlton. Ao comando de Julian, o cocheiro parou imediatamente a carruagem. Não havia lampiões naquele trecho da rua, nos limites do cortiço mais famoso de Londres. Mais um pouco, eles entrariam num submundo de marginais, ladrões e assassinos. O quarto de Laura ficava num edifício desmantelado e imundo, que parecia meio inclinado para a frente sobre a rua estreita. Os esgotos a céu aberto impregnavam o ar com um cheiro acre, e dos becos que cortavam as fileiras de casas e prédios baixos vinham ruídos sinistros e pouco acolhedores. Julian insistira para que Laura o deixasse levá-la para casa, e, sentada no banco de veludo da carruagem, corroída pela vergonha, ela aceitou a mão que Charlton lhe estendia, para ajudá-la a descer. — Foi uma noite muito agradável, Laura — murmurou Julian. — Pense na minha proposta. — Sim, e... obrigada. Ele inclinou de leve a cabeça e ficou observando, enquanto o cocheiro a acompanhava até a entrada do prédio. Nuvens esparsas se espalhavam no céu noturno, e a claridade da lua era suficiente para que Julian visse Laura se aproximar da porta. Havia uma mala e uma valise no primeiro degrau, e Julian fez um sinal para que o cocheiro esperasse. — O que é isso? — ele a ouviu perguntar ao homem de pé sob o pórtico. —


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Por que minhas coisas estão aqui na rua? O sujeito de expressão mal-humorada resmungou, sem preâmbulos: — Foi despejada, senhorita. Aluguel atrasado... — Não está atrasado! — protestou Laura. — Eu paguei adiantado! Agora, só no outro domingo... O senhorio balançou a cabeça, irredutível, e Laura quase gritou, exasperada: — Eu lhe dei o dinheiro! Julian observava, impassível. Deveria se sentir culpado por sua participação naquela tramóia, mas depois de ver onde Laura era obrigada a morar, o sentimento de culpa se amenizava. Mulher nenhuma deveria viver naquelas condições, ser humano nenhum, na verdade. Fazendo um sinal para o cocheiro, Julian abriu a porta da carruagem e desceu. — Senhor — disse, se aproximando. — Eu pagarei o aluguel da senhorita. O homenzinho tornou a balançar a cabeça. — Já aluguei a vaga para outra pessoa. Ele estava agindo exatamente conforme fora orientado a fazer. Laura voltou-se para Julian, furiosa. — Você não vai dar nem um tostão a ele, Julian. Eu já paguei o aluguel desta semana, e o sr. McFinn sabe muito bem. Não sei por que ele está fazendo isso, mas eu não vou aceitar! Eu paguei! McFinn continuou balançando a cabeça teimosamente, e por fim Julian voltouse para Laura. — Sua vaga já foi alugada, é inútil levar esta discussão adiante. Deve haver outro lugar mais decente do que este para você morar. — É claro que há — retrucou ela, ríspida. — Mas nenhum que eu possa pagar. Este foi o melhor que eu consegui, dentro do meu orçamento. — Vamos encontrar alguma coisa — prometeu Julian. E virando-se para o cocheiro: — Charlton, leve as coisas da srta. Lancaster para a carruagem. Charlton obedeceu, e McFinn virou-se, entrou no prédio e fechou a porta, com uma discreta inclinação de cabeça para Julian, que retribuiu o gesto, sem que Laura percebesse. Era óbvio que o homem estava mais que satisfeito com a quantia que embolsara na véspera, e desempenhara sua parte da farsa com maestria. Julian, por sua vez, estava mais que satisfeito em poder tirar Laura daquele antro. Ela continuava estática, fitando a porta fechada sem compreender o que acontecera, até que Julian pôs a mão em seu ombro.


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— Tarde demais, Laura. Venha comigo, vamos dar um jeito e decidir o que fazer. Laura virou-se devagar e o fitou, e um raio de luar se refletiu nos olhos dela, revelando o brilho prateado de lágrimas. Naquele momento, vendo-a tão vulnerável, Julian desejou acreditar na afirmação de madame Devereaux de que Laura era virgem. — Parece que você conseguiu o que queria, lorde Lockwood — murmurou ela, consternada. Ele meneou a cabeça. — Eu sempre consigo. — Espero que o quarto lhe agrade, senhorita. Era apenas um comentário polido, Laura sabia, pois o mordomo grisalho que a conduzira ao terceiro andar da residência do conde Lockwood irradiava desaprovação por todos os poros. Ele ficou parado na soleira, olhando-a com expressão severa, como se temesse que ela roubasse os castiçais de prata e saísse correndo. — E muito bonito — respondeu Laura educadamente, recusando-se a deixá-lo perceber que notava sua contrariedade. Sabia que os rumores entre a criadagem seriam inevitáveis, mas, no que dependesse dela, não forneceria munição para comentários de espécie alguma. Com uma breve inclinação de cabeça, o mordomo recuou e fechou a porta, deixando-a sozinha com seus pensamentos, e no mais absoluto silêncio, coisa à qual ela não estava acostumada, pois no cortiço, o barulho era incessante, fosse dia ou fosse noite. Laura olhou para a cama de casal, que uma criada sonolenta arrumara primorosamente, assim que ela chegara, sob a supervisão do mordomo, que ficara parado na porta feito um obelisco, até ver a moça concluir a tarefa e dispensá-la com um gesto de mão. Havia dois enormes travesseiros envoltos em fronhas brancas de algodão acetinado. Um lençol branco, do mesmo tecido, forrava o colchão alto e macio, e outro igual fora esticado por cima, com a vira bordada meticulosamente dobrada sobre um cobertor grosso e felpudo. Uma bolsa de água quente fora colocada entre os lençóis, para aquecer a cama, e Laura ficou com medo de estar sonhando quando se sentou e sentiu o conforto da cama. Nunca se deitara em nada parecido com aquilo, em sua vida. O carpete sob seus pés era espesso e macio, o pequeno fogo aceso atrás da grade da lareira era acolhedor, e aquela cama e aqueles travesseiros a abrigariam e embalariam seu sono como uma nuvem.


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De repente, Laura foi acometida por uma sensação estranha, uma intuição de que não fora trazida para aquele quarto por acaso. Era curioso que Julian Lockwood a tivesse procurado, sabendo tantos detalhes de sua vida, e de repente ela se visse acomodada na casa dele, num aposento luxuoso, confortável e aconchegante, tudo com o que ela sempre sonhara. Só faltava ele estar por trás daquele inesperado e injusto despejo! Pensando bem, não fazia sentido o que acontecera. O sr. McFinn sabia muito bem que ela pagara o aluguel adiantado, e simplesmente ficara ali, balançando a cabeça e teimando que ela não pagara. Será que... Bem, no dia seguinte ela averiguaria essa questão. Naquele momento, estava cansada demais, até para desfazer suas malas e trocar de roupa. O máximo que teria forças para fazer era tirar os sapatos e enfiar-se entre aquela roupa de cama macia e perfumada. Os raios de sol se infiltraram por uma fresta entre as cortinas de veludo, incidindo diretamente no rosto de Laura. Lentamente, ela abriu os olhos e fitou espantada o dossel pouco familiar da cama. Então, no instante seguinte, lembrou-se dos acontecimentos da véspera e voltou a se encolher debaixo das cobertas, sentindo um agradável arrepio pelo contraste entre o ar fresco do quarto e o calor da cama. Durante a noite, o fogo da lareira se extinguira, e a temperatura ambiente esfriara, porém a simples réstia de luz solar que atravessava o quarto era suficiente para aquecer o corpo e a alma de uma criatura combalida como ela, que nos dois últimos anos não dormira numa cama decente. Não queria parecer ingrata, mas por mais que se sentisse rodeada de conforto e aconchego, o fato de saber que fora enganada a desagradava profundamente. Não gostava de ser manipulada, e considerava muita petulância do conde achar-se no direito de fazer isso. Então ela se lembrou da frase que ele dissera, na noite anterior, que sempre conseguia o que queria. Não restava a menor dúvida de que havia um dedo dele naquela história, e isso não ficaria assim. Os pensamentos de Laura foram interrompidos por uma discreta batida na porta, e o tilintar de porcelana precedeu a entrada de um lacaio uniformizado que trazia uma bandeja. — Milorde achou que a senhorita preferiria tomar o desjejum no quarto — informou o rapaz, colocando a bandeja numa mesinha laqueada perto da janela. — Gostaria que eu abrisse as cortinas? — Sim — respondeu Laura, hesitando se deveria ou não acrescentar "por favor". Aquela gente da nobreza tinha uma maneira toda peculiar de tratar os criados, e ela não queria cometer nenhuma gafe, para evitar falatórios. Imperturbável, o lacaio puxou as cortinas, e o sol invadiu o quarto. Laura


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respirou fundo, inalando o delicioso aroma de café, que instantaneamente lhe abriu o apetite. Depois que o rapaz fez uma mesura e saiu, fechando a porta, ela se levantou e ergueu as tampas dos réchauds de prata, deleitando-se com a visão de ovos mexidos com bacon, torradas com manteiga, croissants com queijo e geléia, e um bule de café e outro de leite, além de uma porção de salada de frutas. Sem vacilar, Laura pegou o bule de café e se serviu, na delicada xícara de porcelana chinesa. Afinal, se ia enfrentar lorde Lockwood, era melhor que o fizesse estando bem alimentada! Julian chegou ao clube exclusivo da aristocracia, em Piccadilly, mais cedo que de costume e cumprimentou com um gesto de cabeça vários conhecidos, alguns dos quais haviam passado a noite inteira ali, jogando. Julgando prudente não estar em casa quando Laura acordasse, ele saíra bem cedo, decidindo tomar o desjejum no clube. Deixara instruções com o mordomo para que mandasse servir o café da manhã da hóspede no quarto, e com Malcolm para que não a deixasse sair de casa desacompanhada até ele voltar. Julian esperava, com isso, dar a Laura tempo suficiente para refletir sobre sua proposta e tomar a decisão de aceitá-la. Do seu ponto de vista, era o acordo perfeito, para ambos os lados. Ele precisava de uma mulher que tivesse graça e formosura para lhe fazer companhia nos eventos sociais, e Laura precisava de um protetor que lhe desse casa e comida. Ele estava lhe oferecendo mais que isso: uma generosa quantia em dinheiro para que Laura pudesse retornar à América tão logo a encenação terminasse e ele não precisasse mais dela. Qualquer outra mulher naquela situação teria pulado de alegria pela oportunidade, mas Laura ficara olhando para ele com expressão quase indignada, como se ele lhe tivesse feito uma afronta. Julian se perguntara por que motivo ela teria fugido de Paris. Apesar do sotaque e de sua situação atual, era evidente que ela era uma jovem bem-criada. Se o que madame Devereaux dizia era verdade, ela não estava atrás de um homem infeliz no casamento, nem de um amante. Na opinião de Julian, a relutância de Laura em cobrar um preço por sua suposta virgindade lhe dava certa distinção. Laura Lancaster era uma contradição. Uma moça amável e bem-educada, e uma atriz capaz de oferecer a ilusão de sua virgindade pelo lance mais alto. Qual seria sua verdadeira personalidade, afinal? Um enigma, que Julian tinha intenção de desvendar. — Bom dia, Julian. Saindo de seu devaneio, Julian ergueu o rosto da xícara e apertou os olhos ao se deparar com seu irmão mais novo. — Randal? O que está fazendo de pé antes das três da tarde?


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— Ainda não fui dormir — retrucou o rapaz, insolente, e apontou para o bule sobre a mesa. — Posso tomar um pouco de seu chá? — É café. Sirva-se à vontade. — Julian fez um gesto, convidando o irmão a se sentar. — A que devo a satisfação de sua companhia? Randal sentou-se e torceu o nariz. — Café... Nunca vi alguém gostar tanto dessa coisa horrorosa. Que tal pagar um chocolate quente para seu irmãozinho favorito? Não vou conseguir dormir de estômago vazio... Julian suspirou e ergueu a mão para chamar o garçom. Pediu chocolate quente e torradas com manteiga, e foi somente depois de rapar a xícara e o prato que Randal falou: — Imagine a minha surpresa ao saber que, enquanto sua esposa viaja pelo continente, você está se enrodilhando intimamente com seu secretário... Julian não ergueu os olhos de seu prato, no qual cortava um pedaço de ovo frito. — Você deve estar freqüentando lugares da pior categoria, Randal, para ouvir boatos sórdidos como esse. E infundados. O que me admira é você ter a coragem de repetir essa barbaridade. — Bem, eu só repito o que escuto, não invento nada. E de qualquer forma, que outro homem, além de mim, se atreveria a repetir isso para você sem correr o risco de levar um soco no meio da cara? — Não se considere imune, meu caro. A idéia de quebrar o seu nariz tem um certo apelo para mim, neste momento — respondeu Julian, serenamente. Randal sorriu. — É isso que eu admiro em você, Julian, esse seu auto-controle inabalável. Farto do joguinho de palavras, Julian inclinou-se para a frente. — O que você está fazendo aqui, posso saber? — Cranford me disse que você estava aqui. — Você passou em casa a esta hora da manhã? Randal brincou com a colher, virando-a de um lado para outro na mão, um sinal de que estava nervoso. — Diga logo o que quer, e sem contar uma novela antes, por favor. — Está bem, é muito simples. Estou sem um tostão outra vez. — De quanto você precisa? — Quinhentas libras. Brummel me emprestou mil, para pagar o que perdi no


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jogo ontem, mas disse para eu pagar só metade agora, a outra metade eu posso pagar aos poucos, a juros moderados. — Ah, moderados? Você tem noção de que esse sujeito é um agiota, Randal? Quando é que você vai criar juízo nessa cabeça? — Desgostoso, Julian balançou a cabeça. — Vou lhe dar o dinheiro, mas vou descontar de sua mesada. O bom humor de Randal retornou instantaneamente. — Obrigado, irmão. Espero poder retribuir um dia. Julian fez um gesto de pouco-caso. — Direi a Malcolm para providenciar o depósito em sua conta. — Ah, Malcolm... Um homem para todas as horas — disse Randal com sarcasmo. — Chega, Randal! — murmurou Julian, baixinho, e o sorriso de Randal se desvaneceu. — Tem razão, chega mesmo. Odeio ver você sendo alvo de chacota, Julian. Subitamente, o tom de voz de Randal ficou sério, e Julian sentiu que o irmão estava genuinamente preocupado com sua reputação. Era pouco mais que um garoto, com vinte anos de idade, irresponsável e irreverente, mas tinha bom coração e um afeto sincero por ele. — Faça alguma coisa para calar a boca dessa gente, Julian! Diga a Eleanor para voltar, nem que você tenha de trancá-la na adega se for preciso, mas dê um jeito de acabar com esses rumores maldosos. — Em breve eles irão parar de falar. Qualquer novo escândalo que aconteça na sociedade, e vão esquecer que eu existo. — Não tão em breve assim — profetizou Randal. — Talvez, na verdade, já seja até tarde demais. Julian olhou para o rosto do irmão, tão jovem, porém abatido e marcado pelos hábitos devassos e pelo estilo de vida boêmio e insalubre. — Vou à feira de cavalos — anunciou, levantando-se. — Quer ir comigo? Randal empurrou a cadeira ruidosamente para trás e se pôs de pé, com renovado vigor. — Comprar uma nova montaria é sempre um programa atraente. — Eu vou comprar. Você só vai olhar — disse Julian, e Randal riu. Laura tinha acabado de se lavar e se trocar, quando ouviu uma batida na porta do quarto. Alisou a saia e ajeitou os cabelos com as mãos, antes de se apressar para abrir, mas não era Julian, conforme ela imaginara. Era um homem magro, de estatura média, com cabelos escuros ralos e rosto


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fino e austero. Ele a fitou por uns segundos e inclinou a cabeça cortesmente. — Bom dia, srta. Lancaster. — Bom dia. O homem sorriu e se apresentou: — Meu nome é Malcolm. Sou secretário de lorde Lockwood. Passou bem a noite, senhorita? — Muito bem, obrigada. Laura ficou parada, com a mão na maçaneta da porta, sem saber o que fazer. Certamente, não poderia convidá-lo a entrar no quarto, mas ele entrou assim mesmo, com passadas largas, e ela virou-se, deixando a porta aberta, e cruzou as mãos à frente do corpo, aguardando o que mais ele tinha a dizer. — Milorde me pediu para lhe fazer uma oferta por seus serviços. Sei que ele já conversou a respeito com a senhorita, mas é minha incumbência definir os termos do acordo. Mas que covarde!, pensou Laura, enfurecida. Mandar o secretário discutir esse assunto comigo! — Ah — ela se limitou a murmurar. Malcolm fitou-a, com as mãos cruzadas atrás das costas. — Pelo que entendi, srta. Lancaster, a senhorita é atriz por profissão. Laura assentiu com um movimento de cabeça. — Trata-se de um acordo muito simples, na verdade — começou ele. — Sua função, senhorita, será acompanhar milorde a diversos eventos sociais, na medida em que ele a solicitar. O intuito é que a senhorita represente o papel de amante dele em público, sem nenhuma implicação posterior de qualquer espécie além da financeira. Em troca, milorde a recompensará com uma generosa soma em dinheiro, quando o acordo terminar. Laura apreciou a maneira clara e discreta como Malcolm formulou a proposta, e respirou fundo antes de responder: — Sempre fui uma pessoa muito franca, sr. Malcolm. Portanto não será agora que usarei de meias palavras. Com respeito às funções que são esperadas de mim, quero que fique bem claro que compartilhar a cama de lorde Lockwood não será uma delas. As sobrancelhas de Malcolm se arquearam até quase desaparecerem sob o couro cabeludo, no alto da testa. Por um momento, ele ficou emudecido, mas logo se recuperou e inclinou ligeiramente a cabeça para o lado ao perguntar: — Se preferir, senhorita, especificarei essa cláusula por escrito, no contrato.


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— Eu prefiro, sim — respondeu Laura, com dignidade. — E também não gostaria de ser obrigada a parar de trabalhar. Quero continuar atuando na peça e ter liberdade para seguir em frente com minha vida profissional. — Pois não, srta. Lancaster. Milorde não lhe pedirá que abandone sua carreira artística... contanto que concorde em ser levada ao teatro e trazida de volta por um de nossos cocheiros. Mais alguma sugestão? — Por enquanto, não. Só quero deixar bem claro que ainda não aceitei a proposta. Ainda estou pensando a respeito, em consideração à gentileza de Lorde Lockwood em me socorrer ontem à noite e me hospedar em sua casa. — Perfeitamente, senhorita. — Malcolm fez uma mesura educada. — Vou redigir o contrato e trazê-lo para sua avaliação. Depois que o secretário se retirou, Laura ficou olhando para a porta de madeira escura e maciça, perguntando-se se estaria cometendo uma insanidade ao concordar com aquela farsa. Não que ela tivesse algo a perder. Se o conde realmente respeitasse os termos do contrato, sua reputação perante a sociedade poderia até ser um pouco prejudicada, mas e daí? Logo em seguida ela iria embora da Inglaterra e recomeçaria vida nova na América, com sua moral intacta e dinheiro no bolso. Laura foi à janela e contemplou a rua lá embaixo. A paisagem era bem diferente da de St. Giles. Circulavam por ali pessoas de boa aparência e bem vestidas, além de carruagens e cabriolés de luxo. Realmente, pensou Laura, contemplando o jardim bem cuidado e o gramado impecável da residência do conde, era uma proposta para lá de sedutora. — Espero que os termos do contrato estejam satisfatórios, senhorita. Laura repassou os olhos pelas páginas mais uma vez, ainda relutante e apreensiva. Os termos eram simples e diretos, e muito mais generosos do que ela imaginara. — O acordo inclui uma casa para eu morar? — indagou ela, erguendo os olhos do papel, atônita. — Sim, senhorita — confirmou Malcolm, com ar altivo. — Inclusive, permitame observar que o sobradinho está à sua disposição desde já, independentemente de a senhorita aceitar ou não a proposta. E a senhorita contará com uma eficiente equipe de criados. Não muito numerosa, mas da maior competência possível. Laura meneou a cabeça. O tom de voz de Malcolm dava a entender que ela seria uma tola se recusasse. E Laura reconhecia que era tentador. Só havia vantagens para ela: se concordasse em posar de amante do conde durante a temporada política, ela receberia um salário mensal equivalente ao que ganhava ao longo de um ano no teatro, além de moradia, todas as despesas pagas e, ao final das sessões do Parlamento, passagem em primeira classe para a América, mais um bônus em dinheiro equivalente a três salários.


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Não era uma proposta apenas tentadora, era irresistível e irrecusável. Célia Carteret espalhava pó-de-arroz no rosto quando viu Laura entrar no camarim. Sem desviar os olhos do espelho, cumprimentou: — Olá! — Chegou cedo, hoje — comentou Laura, sem olhar na direção do espelho, de onde Célia continuava a observá-la. Tirou o cachecol e o casaco e jogou-os sobre uma poltrona. — Normalmente você chega quando as cortinas do palco já estão subindo... — O mesmo pode-se dizer de você — replicou Célia, virando-se para encarar a amiga, com um sorriso matreiro nos lábios. — Vamos lá, desembuche logo. — Como assim? — Não se faça de desentendida. Estou sabendo que Lockwood levou você para jantar no Angel ontem, e que você foi embora na linda carruagem branca dele. E então, quero saber de tudo. Laura deixou-se cair sentada numa banqueta e suspirou. — Eu fui despejada. — Não! Mas que... Olhe, não se aflija, amiga, você pode ficar comigo enquanto não arranja outra acomodação. —Acho que eu já arranjei outra acomodação — respondeu Laura, olhando para Célia com expressão de incerteza. Célia ergueu as sobrancelhas. — Lockwood? — perguntou, baixando o tom de voz. Laura meneou a cabeça. — Ele me fez uma proposta. Célia deu um pulinho e bateu palmas de alegria. — Eu sabia! Ele se encantou com você! — Nem um pouco. Ele não me quer como amante, apenas como companhia. — Você está brincando! —Não. É sério. Dormi completamente sozinha e tranqüila esta noite. — Onde? — Na casa dele, em Mayfair, acredite se quiser. E ele me fez uma proposta tentadora, para representar o papel de amante dele, só nas aparências, em troca de casa e comida e um salário irrecusável. Os olhos de Célia se arregalavam cada vez mais, à medida que Laura falava. — Que coisa incrível! Mas é... só nas aparências mesmo? Tem certeza?


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— Absoluta. Ele deixou isso bem claro, inclusive no contrato por escrito, que eu ainda não assinei. Quero ler outra vez com calma, mais tarde. — Como é que é? Será que estou entendendo direito? Você ainda não aceitou a proposta? — Estou bem inclinada a aceitar, mas ainda não dei minha palavra final. Não sei se é a decisão correta. Célia suspirou. —Vou lhe dizer uma coisa, minha querida. Lorde Lockwood é um homem decente. A não ser pelo escândalo que envolve a esposa, nunca ouvi falar nada contra ele. — Me conte sobre a esposa dele — pediu Laura. — Dizem que ela está em Viena, no momento, levando uma vida um tanto escandalosa — começou Célia. — Sabe como é, dormindo com um e com outro... No princípio, diziam que ele a tinha mandado embora de casa, mas depois a história mudou. Aparentemente, ela é que quis ir embora, junto com um amante, depois que um invasor foi morto dentro da casa de Lockwood. Ninguém o acusou diretamente, mas depois que lady Lockwood foi embora do país, correm rumores de que ele está envolvido. Laura empalideceu, e Célia balançou a cabeça. — Não se preocupe, querida. Se fosse mesmo Lockwood quem tivesse matado o sujeito, seus adversários políticos já teriam espalhado a acusação aos quatro ventos. Imagine se iriam deixar escapar uma oportunidade como essa de derrubá-lo! Uma batida na porta indicou que estava quase na hora do início do espetáculo, e Laura apressou-se a vestir sua roupa de camponesa. — Espero que você tenha razão — murmurou, com voz fraca. — Vai dar tudo certo, Laura. Lockwood é um cavalheiro rico e bonito. Seus problemas finalmente acabaram, querida. Célia esperava, com todas as suas forças, que aquilo fosse verdade. Laura ficou feliz ao ver Becky, a criadinha simpática que havia ido a seu quarto pela manhã para retirar a bandeja do desjejum, abrir a porta do sobradinho assim que a carruagem parou junto ao meio-fio. Conforme o combinado, Charlton estava esperando por Laura à saída do teatro, para levá-la diretamente ao sobradinho, que também ficava localizado no elegante bairro de Mayfair, a uma curta distância da residência do conde. Conforme instruções de Julian, a bagagem de Laura já tinha sido levada para lá, e estava tudo pronto para recebê-la.


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Depois de acompanhar Laura até a porta e vê-la entrar, Charlton se despediu com uma mesura, deixando-a aos cuidados de Becky. — Ficarei aqui à sua disposição, senhorita, até que encontre uma criada de sua escolha. — No que depender de mim, não escolherei nenhuma outra senão você, Becky — disse Laura, e a jovem corou de satisfação. Laura olhou ao redor da sala pequena, porém convidativa. Do lado de fora, a construção era toda de pedra, e as paredes internas eram revestidas de lambris de madeira, assim como as tábuas do piso. Cortinas vaporosas enfeitavam as janelas, e um fogo acolhedor crepitava na lareira, em frente a um grosso tapete de lã e um sofá estofado de tecido xadrez. Parecia um chalezinho de campo no meio da cidade, e Laura simpatizou imediatamente com seu novo lar temporário. — Eu acabei de assar um bolo, senhorita, já está na mesa, esfriando, e preparei também sanduíches de salmão — disse Becky. — Gostaria de conhecer o andar de cima da casa, enquanto ponho água para ferver para o chá? — Ótima idéia — aprovou Laura, já sentindo o estômago roncar de fome. Enquanto subia os degraus acarpetados e deslizava a mão pelo lustroso corrimão de madeira, Laura se lembrou da escada escura e suja que levava a seu quarto, no prédio em St. Giles, e refletiu como sua vida mudara da noite para o dia, literalmente. Malcolm foi o primeiro visitante de Laura, logo pela manhã. Sentada à mesa quadrada de jantar, localizada num aconchegante nicho envidraçado anexo à sala, Laura molhou a pena de ganso em um tinteiro e assinou todas as folhas do documento que selava seu contrato com o conde. — Alguma dúvida, srta. Lancaster? — perguntou o secretário, em tom solene. — Nenhuma — respondeu Laura, entregando a ele os papéis. — Está tudo certo. — Muito bem — disse ele, guardando as folhas dentro de uma pasta de couro e deixando uma via com Laura. — Marquei um horário para hoje à tarde com uma modista de renome e da confiança de milorde, para que a senhorita encomende um novo guarda-roupa, adequado aos compromissos sociais de milorde. Ela cuidará também dos acessórios necessários, como chapéus, luvas e calçados. Milorde me instruiu também a providenciar uma supervisora. — Supervisora? — Laura franziu a testa. — Sim, senhorita, para dar-lhe aulas de etiqueta e orientá-la sobre como se comportar em sociedade. — Malcolm deu uma tossidela. — Enquanto em companhia de milorde, a senhorita encontrará pessoas importantes, de poder e influência, e deve


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estar preparada para conviver e conversar com elas, para evitar qualquer situação embaraçosa ou constrangedora. Laura olhou para o secretário em silêncio, por um momento. — Muito bem — disse, finalmente, depois de respirar fundo. — Admito que faço certa confusão com títulos de nobreza e formas de tratamento. Mas talvez eu deva mantê-lo informado sobre meu histórico educacional, para que o senhor não faça confusão, daqui por diante. Estudei no Colégio Feminino Spentwell, na Virgínia, e com dezessete anos vim para a Europa, mais especificamente, Paris, onde tive aulas de música e de francês com mademoiselle Villiers. Aprendi a bordar, a pintar com aquarela, a dançar o minueto e a valsa. Aprendi a escrever cartas e li todos os livros de literatura recomendados para meninas. Toco piano e tive aulas de canto orfeônico. Será que falta alguma coisa na minha formação cultural que o conde possa exigir? Malcolm pestanejou, aturdido, e abriu e fechou a boca várias vezes, sem emitir um único som. Por fim, tossiu discretamente e respondeu: — Não, srta. Lancaster, não posso imaginar mais nada que o conde espere da senhorita, além da capacitação que já tem. Para ser franco, a senhorita superou até mesmo as minhas expectativas. Laura se levantou, indicando que a entrevista estava terminada. — Por favor, diga ao conde que estou ciente e de acordo com as cláusulas do contrato, e que me empenharei em cumpri-las. Assim como espero que ele também cumpra a parte que lhe cabe. Bom dia, senhor. — Bom... dia, senhorita. Agasalhado em seu sobretudo e chapéu, Malcolm saiu, encolhido para se proteger do vento frio, em direção à carruagem que o aguardava, e Laura tinha certeza absoluta de que ele repetiria a Julian, palavra por palavra, a conversa que haviam acabado de ter. Ótimo. — Senhorita — Becky alertou, olhando pela janela —, a carruagem de milorde chegou. É hora de ir! Embora o coração de Laura batesse acelerado, ela conseguiu responder com serenidade: — Estou pronta. Exteriormente, ela estava pronta, sem dúvida. Depois de uma semana visitando a costureira e salões de beleza, estava radiantemente chique, elegantemente vestida para ir ao teatro de ópera. Por dentro, no entanto, Laura não se sentia preparada para enfrentar Julian e lidar com seu charme irresistível. Não sabia exatamente por que, mas sentia-se meio encurralada; por outro lado, não tinha, verdadeiramente, escolha. Era a única maneira de conseguir sair da situação


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lastimável em que se encontrava e poder viajar de volta para a América. — A senhorita está linda! — exclamou Becky, unindo as palmas das mãos, genuinamente maravilhada. — Obrigada, Becky — Laura agradeceu, lançando um último olhar ao espelho para ajeitar a estola de seda dourada sobre o vestido verde, e verificando os lindos cachos de seus cabelos, parcialmente presos, parcialmente soltos. Não sentia nenhuma insegurança quanto à própria aparência, mas ainda a apavorava a idéia de posar de amante do conde em público. A suntuosa carruagem, com o brasão de armas da família pintado na porta, era escoltada por quatro lacaios, e um deles segurou a porta aberta para Laura, ajudando-a a entrar no interior suavemente iluminado. Para surpresa de Laura, o próprio conde também estendeu a mão para ajudá-la a subir, e depois que ela se encontrava sentada no confortável assento de veludo, de frente para ele, Julian sorriu. — Está deslumbrante, Laura — elogiou. — Obrigada. — Laura desviou o olhar para as próprias mãos, cobertas por luvas de algodão indiano. — Faz algum tempo que não vou à ópera. — Ah, sim? E você gosta de ópera? — Gosto muito. Principalmente, de madame Catalani. O conde arqueou as sobrancelhas. — Já teve oportunidade de ouvir madame Catalani? — perguntou, admirado. — Sim. Em Paris — respondeu Laura, enrubescendo, tentando adivinhar se o conde acreditava nela ou se achava que ela era uma fraude completa. Observou-o enquanto ele olhava para fora, com um sorriso levemente cínico curvando-lhe os lábios. Julian Norcliff, o sexto conde de Lockwood, a escolhera como companhia, para que todos pensassem que era sua amante, e mais uma vez Laura se perguntou o que se passava na cabeça da esposa daquele homem, para largá-lo e trocá-lo por outro qualquer. De certa forma, foi um alívio quando a carruagem finalmente parou em frente ao teatro. Durante a noite inteira, Julian surpreendeu-se olhando continuamente para sua protegida, que, conforme Malcolm previra, se revelava uma agradável surpresa. Laura era espirituosa sem ser inconveniente, era desejável sem ser vulgar. Havia um frescor único em sua beleza, infinitamente mais cativante do que a exuberância artificial das cortesãs que madame Devereaux costumava recrutar, e era intrigante que madame Devereaux insistisse em afirmar que Laura era virgem. No intervalo, Julian saiu do camarote de braço dado com Laura, ciente dos


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olhares mal disfarçados por trás dos leques e dos cochichos trocados por trás das mãos enluvadas. Tudo o que ele queria, porém, era proporcionar um espetáculo. Julian sentiu uma satisfação inesperada ao desfilar com aquela beldade a seu lado, pelo corredor iluminado por velas e lâmpadas a gás, apinhado de gente. Era obrigado a reconhecer que a idéia de Malcolm fora perfeita. Tinha certeza de que, no dia seguinte, a notícia de que lorde Lockwood tinha uma nova amante em sua cama se espalharia por toda a cidade de Londres.

Capítulo III

— Espero que esteja tudo correndo bem, milorde. Julian folheou as páginas do Times, sem erguer os olhos. — A repercussão foi maior do que eu esperava, Malcolm. Apenas trinta e seis horas depois de minha aparição em público com a srta. Lancaster, meu nome aparece, veladamente, é claro, em vários artigos e colunas do jornal, e seguramente está passando de boca em boca também. — Ele baixou o jornal. — Isso deve acabar com os rumores de que sou inclinado a apreciar a companhia de rapazes. Ou, mais especificamente, de meu secretário. — Sem dúvida — concordou Malcolm, com expressão satisfeita, como a de um gato lambendo os bigodes molhados de leite. — Parabéns, Malcolm. Estou muito contente com os resultados de seu plano. — E a jovem Laura, milorde? A companhia dela é agradável? — Surpreendentemente agradável — respondeu Julian, esquivando-se de confessar que se sentia cada vez mais fascinado com Laura. Além de linda, ela era uma mulher inteligente, cativante e tentadora. — Ao que tudo indica, ela surpreendeu a todos também — disse Malcolm, enquanto colocava uma salva de prata com a correspondência ao lado do lugar de Julian na mesa. — Parece que se comportou de maneira admiravelmente adequada. Uma grande atriz, pelo visto. — Talvez. — Julian dobrou o jornal e colocou-o de lado. Os raios do sol matinal se infiltraram pela vidraça da janela, refletindo-se na pequena bandeja de prata e fazendo-a brilhar. Julian ficou pensativo por um momento e depois acrescentou:


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— Embora eu suspeite que esse comportamento adequado de Laura se deva mais a uma maneira natural de se comportar do que à capacidade de representar. O que você conseguiu descobrir sobre ela? — Pouca coisa, por enquanto, milorde. Ela veio da França com uma companhia de teatro mambembe e começou a se apresentar com eles aqui em Londres. Poucas semanas depois, o grupo foi embora, mas a srta. Lancaster ficou. Sua melhor amiga é outra atriz, Célia Carteret, cujo protetor é lorde Belgrave. — Outra discípula de madame Devereaux? — Parece-me que sim, milorde. Sabe como é, essas atrizes são tão mal pagas, e... Malcolm continuava falando, porém Julian já não o ouvia. Seu pensamento estava focado em Laura, enquanto ele rememorava sua voz melodiosa, seus traços delicados, sua graciosidade, o misto de sensualidade e inocência, tudo o que o deixava encantado. A ponto de ter perdido o sono naquelas últimas noites, pensando nela... De repente, Julian se deu conta de que Malcolm o fitava, aguardando uma resposta. — Como? Perdão, não ouvi o que você disse. O secretário tossiu baixinho. — Eu perguntei, milorde, se devo mandar tirar a mesa. — Sim, sim, claro — respondeu Julian. — Vou terminar de ler o jornal na biblioteca. Era constrangedor ser surpreendido perdido em devaneios com uma atriz de terceira categoria, e Julian apressou-se a buscar a privacidade da biblioteca, antes que se embaraçasse ainda mais. Pálidas rajadas de neve voavam pela viela lateral do teatro, e um manto branco cobria as pilhas de lixo. Laura contemplava a paisagem, refletindo que era apropriadamente fria e fraudulentamente bela. — Estarei à sua espera depois do espetáculo, senhorita. — Está bem, Trenton — disse ela, aceitando a mão do cocheiro que fora designado exclusivamente para seu serviço e erguendo a barra da saia ao descer da carruagem, para que não encostasse no chão molhado. Laura atravessou a calçada, apressada, e empurrou a porta da entrada dos artistas, emergindo na claridade difusa do corredor. Os dias eram curtos naquela época do ano; escurecia cedo, e ainda faltavam mais de três meses para que a primavera viesse substituir o inverno rigoroso. — Olá! — ela cumprimentou, ao passar pelos ruidosos grupos de artistas que


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transitavam no corredor, mas as vozes silenciaram imediatamente ao vê-la chegar. Inquieta, Laura entrou no camarim que dividia com Célia. A amiga ainda não tinha chegado; estava atrasada, como de costume, e Laura tirou a peliça de lã e pendurou-a num gancho na parede. Por que os outros artistas estavam com aquelas caras? Haviam olhado para ela com uma expressão estranha, quase hostil. Célia forneceu a resposta àquela dúvida, assim que entrou no camarim, com sua usual exuberância, e jogou um jornal dobrado em cima da penteadeira. —Veja só, você, quase tão famosa quanto lady Chatterley! — gracejou a amiga. — Como você conseguiu, eu não sei, mas seu nome está sendo comentado em toda a Londres, de St. Giles a Westminster! — Oh, meu Deus! — Laura pegou o jornal e passou os olhos pelas manchetes. — Por que fizeram isto? — É muito simples, querida. — Célia tirou a capa com um floreio e penduroua ao lado da de Laura. — Eles não se atrevem a mencionar o nome de Lockwood, é claro, mas não têm escrúpulos em usar o seu. Apesar disso, todo mundo está cansado de saber que "L., um conde cuja esposa está explorando todos os recantos de Viena" é Lockwood. E que sua nova e adorável companheira é atriz em Covent Garden, que pode ser vista todas as noites representando o papel de uma camponesa, com as pernas quase inteiramente nuas. Que as outras atrizes da companhia estão verdes de inveja e que Roscoe está eufórico. Fiquei sabendo que os ingressos para a apresentação de hoje se esgotaram, e que isso se deve a você. Londres inteira quer conhecer "a bem-dotada atriz que conseguiu"... como é mesmo que disseram?... "tirar o reservado lorde de sua reclusão e trazer aos olhos dele um brilho inusitado". Qualquer coisa assim. Lindo, não? Laura ouvia a voz de Célia em meio a um torpor mental, enquanto seus olhos passeavam, sem enxergar, sobre as linhas do jornal. Que insinuações maldosas! Agora, a cidade inteira achava que ela não passava de uma prostituta. Na verdade, em algum recanto de sua consciência, Laura soubera que aquilo seria inevitável, mas imaginara que os comentários seriam mais amenos, mais sutis, não tão descarados, vulgares e... humilhantes. Gemendo, ela enterrou o rosto nas mãos. — Não vou conseguir aparecer no palco hoje! — Deixe de bobagem. — Célia deu um passo à frente e pôs a mão no ombro de Laura. — Você ficou famosa, querida. Além do mais, você sabia que isso iria acontecer, uma vez que consentisse com a proposta de Lockwood. Esse pessoal da sociedade, que não tem o que fazer, é assim mesmo, eles se divertem com qualquer pequeno escândalo. Se fosse com alguém menos preeminente, ninguém ligaria, mas Lockwood é importante, é um conde, e membro do Parlamento, daí essa repercussão toda. Não ligue, querida, logo deixará de ser novidade. Enquanto isso, aproveite a


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fama. Laura levantou a cabeça. Célia estava diante do espelho, prendendo os cabelos em um coque no alto da cabeça, com grampos. — Eu não consigo — repetiu Laura, com voz fraca. — Eu não sou como você. Bem que eu gostaria de ser, nas não sou. Com que cara vou aparecer no palco, sabendo que todo mundo pensa que estou dormindo com o conde? — Não seja boba. Por acaso, alguém estava preocupado antes com quem você dormia ou deixava de dormir? Não, minha querida. Embora seja o seu nome que aparece nas notícias, na realidade Lockwood é o alvo das fofocas. E de qualquer maneira, é muito melhor as pessoas pensarem que você tem qualidades suficientes para atrair um homem como Lockwood, e que está numa posição, digamos, privilegiada, do que acharem que você é um pé-rapado que não tem onde cair morto. Laura vacilou, antes de murmurar, insegura: — Será? — Claro, pode acreditar em mim! Agora vamos lá, seja uma boa menina e vista a sua roupa. Ainda um tanto contrafeita, Laura se sentou diante da penteadeira enquanto Célia lhe prendia os cabelos e colocava a peruca que fazia parte da fantasia de camponesa. Em seguida levantou-se, vestiu a roupa pelos pés e ajeitou os babados. — Talvez você tenha razão — falou, resignada, colocando o jornal de lado. — E que eu não imaginava que fosse tão... tão... — Tão rápido? — completou Célia. — Pois é, os mexericos são assim mesmo, mais velozes que a luz. Mas não se preocupe, porque do mesmo jeito que aparecem, desaparecem. * * * Foi mais fácil do que Laura imaginara, e ela ficou aliviada quando sua última cena chegou ao fim e pôde sair do palco, sob uma ruidosa chuva de aplausos e ovações. Ela agradeceu com uma graciosa vênia e um dar de ombros singelo, ciente de que os aplausos não eram para sua atuação na peça, e sim para a posição que conquistara, como amante de Lockwood. Era impressionante como as pessoas adoravam um escândalo. O sorriso de Roscoe ia de orelha a orelha, enquanto ele fechava o caixa da bilheteria, que nunca faturara tanto em uma só noite. Ele alcançou Laura e a deteve antes que ela saísse para a rua. — Você não vai nos deixar, não é, agora que tem um protetor? — ele


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perguntou, e Laura balançou a cabeça. — Não, ficarei até o fim da temporada de apresentação da peça. — É assim que se fala! A continuar assim, em menos de uma semana terei o dinheiro para pagar Emory. — E é claro que eu também receberei um bônus. Afinal, acho que mereço, não? — disse Laura, achando graça na expressão de espanto de Roscoe. — Um bônus? — repetiu ele, depois suspirou. — De quanto? — Um xelim por noite, para cada membro do elenco. — Um xelim por noite?! Para cada um? Impossível, sinto muito. — Por semana, então. Laura sorriu. Um xelim a mais por semana era um bônus considerável, para todos os artistas que trabalhavam ali. — E vou querer um acordo por escrito e assinado — acrescentou, notando a expressão contrariada de Roscoe. A peça ficaria em cartaz até a antevéspera de Natal, e esse adicional no salário seria mais que bem-vindo para seus colegas, refletiu Laura, enquanto subia na carruagem, um charmoso tílburi puxado por dois cavalos baios. Mais duas semanas, e ela estaria novamente sem trabalho, a não ser pelo papel de amante de Lockwood. Quando Laura chegou em casa, Becky foi ao seu encontro no vestíbulo, com uma expressão ansiosa no rosto. — Tem uma visita esperando pela senhorita na sala — avisou a criada. — Ah, sim? — O estômago de Laura se contraiu, e suas mãos começaram a tremer, enquanto ela tirava as luvas. — Quem é? — Malcolm. Um inesperado desapontamento a apunhalou, e Laura assentiu com a cabeça. Por um segundo, imaginara que pudesse ser Julian, tola que era. — Sirva um chá, Becky, por favor. — Já estou fazendo, senhorita. Devo servir o chá com biscoitos? Laura sacudiu a cabeça. — Não, só chá está ótimo. O mínimo de civilidade era suficiente para o secretário de Julian. Certamente, Malcolm não esperava que lhe servissem lautos lanches na casa da falsa amante de seu patrão. Malcolm se levantou quando Laura entrou na sala, a expressão serena e avaliadora, como sempre.


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— A senhorita tornou o sobrado realmente aconchegante — elogiou Malcolm. — Obrigada. — Laura inclinou a cabeça em agradecimento e sentou-se de frente para ele, na beirada da poltrona ao lado da lareira. — Milorde ficou muito satisfeito com seu desempenho, na noite da ópera. —Eu gosto muito de ópera. Foi um divertimento interessante. — Que ótimo. E os empregados são de seu agrado? — Muito. A cozinheira é excelente, o condutor é bastante responsável, e Becky é uma gracinha. Muito cuidadosa com a roupa e bastante jeitosa na arrumação da casa. — Ela realmente estava sendo mal aproveitada na cozinha — reconheceu Malcolm. — Mas o que o traz aqui, numa noite tão fria? — Assuntos de negócios. Milorde pediu-me para informá-la de que precisará de seus serviços daqui a três dias, num evento noturno. — E enviou o senhor como mensageiro? — Laura ergueu as sobrancelhas, e o rosto de Malcolm ficou vermelho. — Não, obviamente que não. Fosse somente pela mensagem, milorde teria lhe enviado por um portador. Eu vim também para lhe trazer isto. — Ele tirou do bolso do casaco uma pequena caixa de veludo, que entregou a Laura. — Milorde pede que use durante o evento, com as roupas apropriadas. Ele irá buscá-la pessoalmente, com sua própria carruagem, na saída do teatro, portanto pode avisar seu cocheiro de que ele estará dispensado, nessa noite. Após uma breve hesitação, Laura pegou a caixinha e a abriu. Um delicado colar de pérolas estava aninhado no veludo, e ela o ergueu diante dos olhos para descobrir uma minúscula rosa de marfim pendurada no centro do colar. Seus dedos tremeram levemente. — A rosa dos Lancaster, presumo — comentou Malcolm. Laura sorriu e balançou a cabeça, sem desviar os olhos da jóia. — Não. A rosa dos Lancaster é vermelha. A branca é dos York. Laura sabia que a rosa branca significava algo mais além disso, para Julian, mas não sabia ao certo o quê. E dali a três dias, ela o veria novamente. — Mandei engraxar seus sapatos de noite, milorde — informou o mordomo, enquanto Julian se barbeava diante do espelho, em seu quarto de vestir. — No lugar aonde vou hoje, não precisarei dos sapatos de noite, Cranford. Achando graça na expressão de desdém de Cranford, Julian reprimiu um


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sorriso. Não existia criatura mais esnobe na face da Terra do que o mordomo de um lorde. Julian acreditava que mais uma noite em público seria suficiente para resgatar sua reputação, bem como a de sua suposta amante. Com o irmão Randal passando uns dias fora, na propriedade rural de Surrey, ele se sentia mais sossegado e livre para aproveitar a oportunidade de conhecer melhor sua adorável atriz de Covent Garden. Queria descobrir o que era verdade e o que era mentira, do que se dizia a respeito de Laura Lancaster. O ar frio atingiu o rosto de Julian quando ele saiu do calor da carruagem para a calçada em frente ao teatro. A peça já tinha começado, mas ainda havia tempo para assistir ao último ato. Julian ficou de pé, nos fundos do auditório, vendo a platéia aplaudir e assobiar para a graciosa camponesa que entrava no palco, usando saia curta e meias longas cor de pele, dando a impressão de que suas pernas estavam nuas. Nos braços, como sempre, trazia a ovelhinha mascote da peça. As falas da personagem de Laura haviam mudado desde a última vez em que Julian assistira à peça, e ela agora instigava a platéia a rir de suas observações cáusticas, com uma mão apoiada no quadril enquanto sua voz forte e melodiosa soava no recinto do teatro. Enquanto a platéia explodia em gargalhadas, Julian sorria, apostando intimamente que parte daquela fala, fazendo alusões zombeteiras e acusações veladas ao governo, era improvisada pela própria Laura, e não parte do roteiro da peça. Era audaciosa, a mocinha, refletiu ele. Assim que Laura saiu do palco, Julian deu a volta até os fundos do palco e encontrou-a tentando aquietar a ovelhinha, que se debatia nos braços dela. — Julian — murmurou Laura, surpresa. — Eu não esperava que chegasse tão cedo. — Estou percebendo. Aqui, me dê esse bicho antes que você caia sentada no chão. — O nome dela é Phoebe, e ela está com fome — disse Laura, apressando-se em direção ao caixote. — Phoebe? Foi você quem deu esse nome à ovelha? Laura fez que sim com a cabeça, enquanto colocava Phoebe dentro do caixote e lhe oferecia um feixe de feno. — Eu me afeiçoei a ela. Roscoe disse que quando a peça terminasse, ela iria direto para a mesa dele, para ser servida como ensopadinho na ceia de Natal. Então eu a comprei.


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Julian arqueou as sobrancelhas. — Você comprou a ovelha de Roscoe? — Sim. E por um preço nada barato. — E onde você pretende criar essa ovelha? No jardim do sobrado? Laura balançou a cabeça. — Célia conhece um fazendeiro que vai concordar em ficar com ela, quando ela crescer. — Sim, certamente para ir direto para o abatedouro e virar ensopadinho do mesmo jeito. — Julian suspirou e em seguida propôs: — Eu posso mandá-la para minha casa de campo. Meu mordomo de lá tem um neto que, sem dúvida alguma, vai se encantar com Phoebe. O menino é louco por animais, e saberá cuidar dela melhor do que ninguém. Phoebe lambeu a mão de Laura, e ela sorriu, satisfeita. Então, pôs-se na ponta dos pés e beijou o rosto de Julian, numa espontânea demonstração de agradecimento, antes de sair correndo em direção ao camarim, deixando o conde estático no meio do corredor. Foi Célia quem abriu a porta do camarim, quando Julian bateu na porta, poucos minutos depois. Ela se afastou e abriu mais a porta, convidando-o a entrar com um gesto de braço. — Seja bem-vindo, milorde — falou, sorridente, estendendo o gesto na direção de Laura. — Já contemplou visão mais bela em sua vida? Julian olhou para Laura e sorriu também, meneando a cabeça. — Nunca — respondeu, admirando o belíssimo vestido verde e branco que substituíra a roupa de camponesa. Uma faixa dourada de cetim amarrada sob o busto e uma estola franjada de seda verde completavam o traje, iluminando os olhos de Laura com um brilho cor de esmeralda. No pescoço, ela usava o colar de pérolas, com o delicado pingente em forma de flor quase lhe chegando à curva entre os seios. Estava realmente deslumbrante, e Julian perguntou-se, intrigado, se ela teria noção do efeito que causava nele. Esperava que não. Na carruagem, Julian sorriu ao ver Laura suspirar ao apoiar os pés sobre a camada de tijolos aquecidos que revestia o piso, cobertos por uma manta. — Você me acostuma mal, desse jeito — brincou ela. — E a mim próprio. Também gosto de aquecer os pés. Laura baixou o olhar. — Acho que fui um tanto presunçosa agora, não? — Não tão presunçosa como em sua fala final, na peça. Você acha mesmo que


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todos os pares do reino roubam dinheiro destinado ao trabalho assistencial? — Oh, não, de jeito nenhum! — respondeu Laura. — Alguns estão velhos demais, ou doentes, ou até são covardes demais para isso. Nesse caso, deixam a tarefa a cargo de seus assessores. O sorriso maroto de Laura deixou Julian convencido de que ela era a responsável pela fala adicional, conforme ele suspeitara. Julian sorriu. — Você gosta de viver perigosamente, não é, Laura? — A vida, por si só, não é perigosa? — O cinismo é perigoso. Sempre há aqueles que se sentirão ofendidos. — "Para enganar o tempo, fazei-vos parecer com o tempo..." — ela começou a citar, e Julian balançou a cabeça. — "A todos parecei flor inocente, mas sede a serpente que na flor se esconde..." Eu entendo a sua lógica. — Entende? Então, não acha que isso abrirá muitos olhos que teimam em não enxergar? São tantos os que sofrem, e tão poucos os que tomam consciência dessa verdade. — Você não pode salvar o mundo, flor inocente. O sorriso de Laura se esvaiu quando ela virou o rosto para observar a paisagem do lado de fora da janela da carruagem. Havia um estranho quê de ingenuidade naquela moça, apesar de ser atriz, cortesã e acompanhante profissional. Uma jovem que conhecia citações de Shakespeare, e provavelmente de filósofos gregos, que conseguia se fazer passar por prostituta ao mesmo tempo que alegava ser virgem. Um enigma, uma contradição, um mistério que Julian ansiava por desvendar, revelando camada por camada, como as pétalas de uma rosa, até alcançar a essência de que era feita aquela mulher. Que Deus lhe valesse, porque ele estava ficando fascinado por Laura Lancaster. Fazia tanto tempo que sentira aquele excitamento, aquela curiosidade, aquela ansiedade para estar com uma mulher. Talvez Malcolm tivesse razão, afinal, quando sugerira que uma amante seria o antídoto ideal para o tédio e a melancolia que com tanta freqüência o acometiam. Uma amante muito mais linda do que ele jamais poderia sonhar... Uma amante que não era de fato amante, e sim apenas nas aparências... Uma amante de quem ele estava começando a gostar demais, para seu próprio conforto... Em breve sua reputação estaria regenerada, e quando isso acontecesse, a presença de Laura Lancaster não seria mais necessária em sua vida. O que ele faria com ela, então?


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A cada momento que passava ao lado de Laura, crescia a dúvida de Julian a respeito de ela ser de fato uma mulher da vida, na mesma medida em que perdia força a sua convicção quanto a ela não ser virgem. Havia uma inocência em Laura, uma pureza que não condizia com a natureza de uma cortesã, nem mesmo com a de uma mulher experiente. Era uma sensação enervante. Ele desejava Laura com uma ferocidade perturbadora, e no entanto sentia-se relutante em arruinar-lhe a virtude. Era enlouquecedor. E mais enlouquecedora ainda era a decisão que ele tomara recentemente. Pela primeira vez em cinco anos, Julian passaria o Natal em Londres, em vez de em sua propriedade de campo. E ele se perguntava por quê. — Vamos, depressa! Lotação esgotada! — Roscoe passou os dedos pelos cabelos ralos, deixando-os arrepiados para cima enquanto olhava ao redor, com os olhos esbugalhados. — A casa está cheia! Durante dois meses mal conseguíamos vender um terço da lotação, e agora, na noite de encerramento, o teatro está tão cheio que não cabe mais uma única pessoa no auditório! Estou feito! Que sucesso estrondoso! — Você sabe de quem é o sucesso, não sabe? — retrucou Jeremy, arqueando uma sobrancelha e inclinando a cabeça na direção de Laura. — Desde que ela começou a andar por aí de braço dado com um conde, todos os ilustres da cidade ficaram curiosos para conhecê-la. — Não apenas "um conde" — interveio Célia —, mas ninguém mais ninguém menos que Lockwood. É Laura quem está atraindo o público, e você sabe disso, Roscoe. Dê a ela o crédito merecido. Sem dar o braço a torcer, Roscoe dispensou com um gesto a insinuação de Célia. — E a peça que está fazendo sucesso. Eu sabia que conseguiria. E ainda mais, depois que acrescentei aquelas falas na cena da... — Depois que Laura acrescentou as falas — interrompeu Célia. — E se quer que nos apressemos para não atrasar a última apresentação, tratem de cuidar dos seus assuntos, vocês dois, e nos deixem trocar de roupa. Assim que Roscoe e Jeremy saíram, Célia fechou a porta do camarim e recostou-se nela, observando Laura. —Você está bem?—perguntou, preocupada com a palidez da amiga. — Sim... — respondeu ela, com voz fraca. — Eu estou bem... E que... Esse pessoal todo está aí por minha causa? — Não se preocupe. Não é só hoje, há duas semanas o teatro lota todas as


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noites, e você tem se saído maravilhosamente bem. E uma atriz famosa, agora! Célia sorriu, porém Laura permaneceu séria. — Ele... Ele está na platéia, hoje. Célia franziu a testa. — Ele? Ele, quem? — Então, Célia percebeu a quem Laura se referia. — Ah, Lockwood? Laura assentiu com a cabeça, e Célia sorriu. — E você está nervosa por causa disso, não é? Eu entendo. Sabe, Laura? Acho que esse homem significa mais para você do que você quer admitir. Reparei que nas duas últimas semanas você está... dispersiva. Ele ainda não tentou nada com você? Laura olhou para Célia com expressão de surpresa, e esta deduziu que sua suposição estava certa. Com que, então, o conde assumira a proteção de Laura em nome de sua reputação, apenas, mas ainda não se aproveitara da acompanhante a quem pagava tão generosamente. Interessante. — Ele ficou a noite toda, na semana passada. A resposta evasiva e o fato evidente de que Laura evitava o olhar da amiga confirmavam as suspeitas de Célia. Quaisquer que fossem os motivos de Laura para manter em segredo a natureza de seu relacionamento com Lockwood, Célia esperava que ela não viesse a sofrer com isso. Laura era uma moça inocente e ingênua, apesar de ter sobrevivido sozinha em Londres, a duras penas, durante dois anos. — Que bom — respondeu Celia, virando-se para o espelho para aplicar pó-dearroz, sem deixar de observar a amiga pelo reflexo do espelho. Uma leve batida na porta soou antes que esta se abrisse e Jeremy enfiasse a cabeça no vão, com uma ruga de apreensão no semblante normalmente jovial e descontraído. — Você vai perder sua parte — ele avisou Célia, antes de olhar para Laura. — E você, com certeza, terá outros compromissos depois da apresentação, e não poderá ir conosco ao Angel. — Eu... Parece-me que milorde tem outros planos — respondeu Laura, franzindo a testa. — Mas talvez... — Não, não — interrompeu Jeremy. — Não se apoquente por causa disso. Vá desfilar para as celebridades. Nós brindaremos à sua saúde, muito embora seja uma falta de tato da parte desse... — Francamente, Jeremy — interveio Célia, virando-se para encará-lo com expressão fulminante. — É uma falta de tato da sua parte vir aqui perturbar Laura quando é você quem está apoquentado por causa dela. — E desde quando esse assunto é da sua conta? — retrucou Jeremy, enrubescendo de indignação. — Você também não tem ido ao Angel ultimamente.


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— Não é a minha ausência que aborrece você. Você está Com ciúme, admita. E deixe Laura em paz! Célia tinha razão, e sabia bem disso. Ela percebera, nas últimas semanas, como Jeremy ficava mal-humorado toda vez que se tocava no nome de Lockwood. Era óbvio, para qualquer um que prestasse atenção, que Jeremy tinha uma queda por Laura, e não era de hoje. Mas Célia não permitiria que ele fizesse Laura pagar as conseqüências disso. — Dê o fora! — ordenou Célia, quando Jeremy começou a protestar, e deu um passo à frente para fechar a porta na cara dele. Em seguida, voltou-se para Laura. — Vá à confraternização no Angel, se tiver vontade. E não se preocupe com Jeremy. Rex estará lá, e cuidará de Jeremy se ele cometer algum excesso. Laura sorriu debilmente e assentiu com a cabeça. — Eu sei, mas... mesmo assim... eu não fazia idéia de que Jeremy... tivesse esse sentimento por mim. — E não é só ele, minha amiga, acredite. Você é que se subestima. Agora vamos, senão Roscoe vai ter um ataque! Ainda trêmula, Laura colocou Phoebe de volta no caixote e lhe ofereceu uma maçã. A sessão vinha transcorrendo esplendidamente bem, e ela estava contente com a reação do público às suas improvisações, as quais ela a cada dia mudava ou acrescentava alguma coisa nova, com a permissão de Roscoe. Laura precisava se apressar, porque logo a peça terminaria e Julian viria a seu encontro, e ela tinha de perguntar a ele se podia ir à confraternização no Angel antes de comparecerem ao evento marcado para aquela noite. No camarim, Laura tirou a roupa de camponesa e pendurou-a num cabide; estava pegando o vestido de noite quando ouviu uma batida à porta. Só de meias e camisa de baixo, ela torceu para que não fosse Julian e, segurando o vestido à frente do corpo para cobrir-se, entreabriu a porta, preparada para pedir só mais alguns minutos. Não foi, no entanto, com o conde que Laura se deparou, parado no umbral, mas sim com o rosto sonso e arrogante que fazia parte de seus pesadelos. Tarde demais, Laura empurrou a porta para fechá-la, mas Aubert Fortier antecipou a reação e bloqueou-lhe os esforços, segurando a porta com o pé. — Mais non, ma petite chou — reprovou Aubert. — Isso são modos de tratar um velho amigo que veio de longe para vê-la? Laura sentiu uma onda de repulsa invadi-la, tão forte que lhe roubou o ar dos pulmões. O filho do protetor de sua mãe continuava tão asqueroso como em suas lembranças, embora já tivessem se passado dois anos desde a última vez em que o vira.


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— Saia do meu camarim! — ela exigiu quando recuperou a voz. — Ah, mas certamente que não, chérie. Você está tão linda, mesmo com toda essa maquiagem no rosto. Parece que os últimos dois anos foram generosos com você. Sua mamem está preocupada... — Foi ela quem mandou você aqui? — Oh, não, de jeito nenhum! Eu descobri você por acaso. Atrás dele, no corredor, podia-se ouvir o ruído crescente de atividade. Logo alguém apareceria. Julian, talvez, ou Célia. O último ato estava quase no fim, e em breve ela seria salva. Como se lhe adivinhasse os pensamentos, Aubert sorriu maliciosamente, transformando as próprias feições numa caricatura horripilante. — E a noite de encerramento. Os aplausos se prolongarão por mais tempo. Temos alguns minutos de privacidade. — Não preciso, nem quero, privacidade com você. Saia imediatamente, ou chamarei alguém para tirá-lo daqui. Laura empinou o queixo, ainda agarrada ao vestido, recusando-se a deixá-lo perceber como estava apavorada. Aubert, porém, limitou-se a rir baixinho, produzindo um som repugnante, e ignorando a advertência de Laura, entrou e fechou a porta, encostando-se nela com os braços cruzados. Laura recuou, até quase tropeçar na banqueta da penteadeira, sem afastar os olhos do rosto dele, nem por um segundo. — Diga logo o que quer e vá embora! — E se o que eu quero for... você? Ainda assim vai me mandar embora? — Se o que você quer sou eu, sinto muito, está perdendo seu tempo, porque eu não quero você nem pintado de ouro! — respondeu Laura, a fúria suplantando o medo. Aubert fitou-a com os olhos semicerrados, e seu sorriso esmoreceu um pouco. — Então é uma sorte que eu não esteja aqui por sua causa. Não, eu tenho outros... interesses. Quer saber quais são? — Não, não quero — retrucou ela, ríspida. — Os seus interesses não são da minha conta. — Oh, petite, pois eu acho que são, sim. Ou será melhor eu ir falar diretamente com o lorde? — Falar o quê? Ele sabe do meu passado. — Será? Acho que ele não sabe tudo. — Olhe, realmente, eu não acredito que você seja tão tolo a ponto de achar que


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pode vir aqui me ameaçar e me meter medo. — Pois é, veja só como são as coisas. Você não acredita, mas eu sou. — Aubert passou a ponta dos dedos magros pelo queixo de Laura, e sorriu ao vê-la se encolher. — Tenho pensado em você, nesses últimos dois anos, sabe, e em como você foi tola por fugir de mim. Não quer notícias de sua mãe? Não tem curiosidade de saber como ela está? — Eu sei que ela está bem. Minha mãe sabe tomar conta de si mesma. — Tem razão. Uma mulher notável, sua maman, que sabe aproveitar as oportunidades que a vida oferece. — Aubert estreitou os olhos. — E que sabe também quando é chegado o momento de ceder. — O que você quer dizer com isso? Que devo ceder a você o que não cedi dois anos atrás? Se for assim, está muito enganado, milorde. — Não seja tola, Laura — retrucou ele, ácido. — Não foi para isso que vim aqui. Há muitas mulheres mais do que dispostas a me satisfazer... Não preciso ficar perseguindo uma tonta como você. Os dedos de Laura se dobraram com mais força sobre o tecido de veludo creme do vestido. Havia alguma coisa maligna em Aubert Fortier, e ela deu um passo para o lado para apoiar o corpo na penteadeira, com medo que suas pernas não a sustentassem. — Diga logo o que quer — repetiu, irritada. — E acabe com essa palhaçada. Tenho mais o que fazer do que ficar aqui ouvindo suas asneiras. — Não duvido — murmurou Aubert, voltando a se encostar à porta, com as mãos cruzadas para trás, e estudando Laura de cima a baixo com os olhos semicerrados, fazendo-a ter de se controlar para não socá-lo. — Dá para entender o interesse de Lockwood por você. Você está bem mais gostosa agora do que há dois anos... Laura suspirou e desviou os olhos, e Aubert continuou: — Muito bem, vou explicar o que quero de você. Depois você pode ir até seu protetor e conseguir, com todo o jeitinho, que ele lhe dê o que eu preciso. Aubert afastou-se abruptamente da porta e deu um passo à frente, provocando um sobressalto em Laura. — Meu querido papa considerou por bem cortar a minha mesada, de uns tempos para cá. E eu contraí algumas dívidas de jogo nesses infernais cassinos de Londres, e preciso de dinheiro para pagá-las. E você vai conseguir esse dinheiro para mim. — Você ficou louco! — exclamou Laura, temendo que seu coração saltasse para fora do peito. — Eu não tenho dinheiro! — Não, mas Lockwood tem, muito mais do que precisa. Estou sabendo que


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ele montou uma casa para você, e certamente está lhe pagando uma vultosa mesada. Eu quero duas mil libras, para começar, e depois, pagamentos regulares de quinhentas libras por mês. Senão, lamento, mas serei obrigado a relatar ao lorde as verdadeiras circunstâncias de seu passado. Aquilo era tão ultrajante que Laura riu, um erro do qual ela logo se deu conta, ao ver o semblante de Aubert tornar-se ainda mais nefasto. — Não só eu jamais conseguiria essa quantia de Lockwood, mesmo que quisesse, como também duvido muito que ele se importasse com o fato de minha mãe ser uma cortesã. Veja a minha própria posição... Acha mesmo que ele se importaria? — De saber que sua maman é uma cortesã? Nem um pouco. Mas talvez, como um dos mais ilustres membros do Parlamento, ele fique preocupado ao saber que sua maman é a prostituta do principal embaixador do rei da França. Afinal, que impressão passaria se fosse divulgado no Times que a amásia de Lockwood é filha da prostituta de um gabaritado oficial francês? Especialmente em vista do fato de o irmão do rei ter recentemente delegado poderes ao Exército. E agora, é claro, com Napoleão exilado em Elba e fazendo alarde sobre a inquietação reinante na França... Concorda que isso poderia colocar o conde numa situação bastante complicada? Eu diria que, na melhor das hipóteses, pode comprometer a carreira política dele, isso se ele não for acusado de traição, caso venha à tona que está envolvido com uma mulher que muito possivelmente troca segredos de Estado com a mãe, que por sua vez está de amores com um general francês. A situação política ainda está tão volátil... Laura olhou para ele horrorizada. De fato, estava. E mesmo não sendo verdade, ninguém acreditaria. Aquilo poderia causar um trágico dano à reputação de Julian. Bastava ser uma notícia plausível, e o estrago estaria feito. Como ela iria sair daquela enrascada? Precisava retardar Aubert, pelo menos por algum tempo, até encontrar um meio de resguardar a imagem pública de Julian daquelas calúnias. Laura balançou a cabeça e olhou para Aubert. — Eu... Eu não tenho como conseguir todo esse dinheiro. Talvez trezentas ou quatrocentas libras, quinhentas no máximo. —Veja o que consegue — retrucou Aubert. —Vou mandar um portador até sua casa. Já me informei do endereço. E tenha em mente que, se tentar me engabelar, providenciarei para que o Times publique um artigo completo sobre o assunto. Enquanto isso, você tem duas semanas para conseguir completar as duas mil libras. Eu odiaria que Lockwood sofresse as conseqüências da sua inabilidade. Quando o movimento no corredor aumentou, Aubert abriu a porta e parou por um momento na soleira, sorrindo para Laura.


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— O futuro dele está em suas mãos, petite chou. Faça a sua parte. Que catástrofe, pensou Laura, olhando para a porta fechada por um longo momento depois que ele se foi, sentindo-se cambalear à beira do abismo da ruína completa. — Eu ainda me pergunto como este pub acabou por receber o nome de "Angel" — comentou Julian, quando entraram no salão apinhado de gente. — Mais parece a ante-sala do inferno, isso sim. — Não precisamos nos demorar aqui — retrucou Laura. Julian olhou mais uma vez para ela, intrigado com a palidez de seu rosto e seu humor estranho. Ela parecia tão alegre e faceira no palco, e de repente, mostrava-se abatida e calada. — Ficaremos o tempo que você quiser — disse ele. — A peça foi um sucesso, graças a você. — Não acho que tenha sido a minha atuação que atraiu os curiosos, Julian. O tom de voz de Laura era inexpressivo, desprovido da jovialidade e bom humor aos quais eleja estava acostumado. Talvez fosse tristeza, por causa do fim da peça, mas Julian suspeitava que fosse mais que isso. Laura não parecia apenas melancólica, ela parecia... apreensiva, preocupada. Assim que entraram no pub, Julian e Laura foram rodeados pelos outros artistas, nenhum dos quais parecia contrafeito pelo fato de o mais recente membro do elenco ter roubado o foco nas últimas semanas. Ao contrário, estavam todos empolgados, comentando entusiasmados sobre a próxima produção. Célia abriu caminho em meio ao aglomerado de pessoas e aproximou-se de Laura, acompanhada por um homem que Julian reconheceu. Ele sorriu de leve e imaginou se também estaria parecendo tão deslocado e pouco à vontade quanto Belgrave. — Que mundaréu de gente, não? — comentou Belgrave, num tom mais resignado do que irritado. — Célia adora essa agitação. Julian sorriu e meneou a cabeça em resposta. — Realmente, isto está um bocado cheio hoje — concordou. — Não que seja muito diferente de um fim de semana no meu chalé de caça. Só sinto falta de um vinho de qualidade, para me sentir em casa — brincou Belgrave, bem-humorado, enquanto Célia e Laura conversavam com os colegas. — Por falar nisso, Lockwood, convidei um grupo para passar alguns dias lá, na próxima semana. Eu ficaria honrado se você fosse também. O que acha de aproveitar o recesso de fim de ano do Parlamento e respirar o ar do campo? Julian seguiu o olhar de Belgrave na direção das duas mulheres. — Leve-a com você, se assim lhe aprouver, Lockwood. Célia também irá.


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— Ah, sim? — Sim, eu me sinto compelido a evitar as intermináveis festas, ceias e jantares, nesta época do ano. E é impressionante a quantidade de pessoas que conheço que sentem essa mesma necessidade. Julian riu baixinho do comentário de Belgrave. Lembrava-se de como seu pai ficava exasperado diante da perspectiva da visita de tias e primos do interior, que vinham para as festas de fim de ano e ficavam por semanas a fio. E de como ficava aliviado depois que partiam. — É a época ideal para passar alguns dias sossegados no campo, com cavalos, cães e raposas — insistiu Belgrave. Julian se surpreendeu ao se sentir tentado a aceitar, e foi o que fez, mesmo sem ter certeza se agradaria a Laura passar alguns dias no campo. Imaginou-a sentada na relva, em meio a flores silvestres, e imaginou como séria bom, quando a primavera chegasse, levá-la consigo para sua casa em Shadowhurst. — Laura, o que foi?—perguntou Célia, inclinando-se para perto do ouvido da amiga e falando baixinho, em tom preocupado. — Você está tão quieta, calada... Está aborrecida com Lockwood? — Não, não — murmurou Laura. — Julian é sempre muito bom, um cavalheiro perfeito. É que... estou com uma dor de cabeça insuportável. Não deixava de ser verdade. A visita de Aubert Fortier fora tão desgastante que sua cabeça agora latejava, inclemente. — Eu tenho um pó solúvel, um remédio muito bom, se você quiser... — Não, obrigada. — Laura balançou a cabeça. — Já vai passar. Célia segurou a mão da amiga. — Você está triste porque a peça terminou, é isso? Em breve começará outra. Roscoe estava comentando que pretende aproveitar todo o elenco na próxima produção. Ele está muito entusiasmado. Laura forçou-se a sorrir. — Essa é uma ótima notícia, Célia. Já estou me sentindo melhor... — E você é uma péssima mentirosa, Laura — volveu Célia. — Qual é o problema, querida? O que está acontecendo? Você é uma atriz aclamada, tem um protetor maravilhoso, devia estar radiante de felicidade, e no entanto fica com essa cara de quem está indo para a forca... A prisão e o enforcamento em praça pública por traição seriam os menores de seus problemas, se Aubert levasse adiante sua ameaça. Na melhor das hipóteses, a reputação de Julian seria manchada, e na pior, ele teria um destino igual ao dela. Laura franziu a testa, tentando recordar se os nobres condenados à morte


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eram enforcados ou fuzilados. Não que fizesse, realmente, grande diferença, mas ela não conseguia se lembrar... Rex Pentley escolheu esse momento para se aproximar e provocar Laura, com seus modos galantes. — Adorável Laura, a mais bela de todas as rosas de Lancaster! — exclamou ele, fazendo um floreio para presenteá-la com uma rosa vermelha. — Obrigada. Ela aceitou a rosa, sem se surpreender ao perceber que era feita de tecido. Certamente, tratava-se de mais uma das muitas "mágicas" de Rex. — E um guinéu de ouro atrás de sua orelha! — Com outro floreio, Rex tirou uma moeda de entre os cachos de Laura. — E melhor você parar com isso — resmungou Célia. — O conde pode não gostar dessas suas gracinhas com Laura. De fato, Laura notou, com certa surpresa, que Lockwood a observava com olhar frio e os lábios contritos numa linha estreita. Ele se encontrava a certa distância, de pé ao lado de Belgrave, o que o fazia parecer ainda mais alto e elegante, em contraste com o atarracado e barrigudo visconde. Julian era tão lindo... e tão distinto, bondoso, não merecia ser vítima do ardil maldoso de Aubert. Mas como ela conseguiria duas mil libras? Era muito dinheiro! Se ao menos Aubert desistisse, sumisse dali... Rex riu e curvou-se sobre a mão de Laura, sem chegar a tocá-la com os lábios, sorrindo maliciosamente. — Estou a seu dispor, adorável dama, para qualquer tipo de ajuda que venha a precisar. Mágica? Ilusionismo? Basta pedir! — É uma pena que você não possa fazer pessoas desaparecerem de verdade, Rex, porque isso seria tudo o que eu gostaria, no momento. Agora vá, antes que Lockwood ache que é você quem tem de desaparecer. Empertigando-se, Rex virou-se na direção do conde e fez uma mesura respeitosa. Então, falou por sobre o ombro. — Eu posso fazer pessoas desaparecerem, minha querida. E só me dizer quem e quando. Com isso, ele se afastou, abrindo caminho em meio à multidão. — E verdade, será? — murmurou Laura, seguindo-o com o olhar. — O quê? — Que ele pode fazer pessoas desaparecerem? Célia revirou os olhos e sorriu, achando que Laura estava brincando.


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— Só se for no sentido convencional, minha amiga. Ou seja... — Então, percebendo a expressão séria no rosto de Laura, falou, preocupada: — Não, pelo amor de Deus, não vá me dizer que... quem, Lockwood? — Claro que não! — Laura gesticulou, impaciente. — Mas, Célia, eu acho que preciso muito de um conselho seu. — Ah, eu sabia que alguma coisa estava acontecendo. Mas aí vêm Belgrave e Lockwood. Conversaremos numa outra hora, está bem? Laura assentiu com a cabeça e forçou-se a sorrir para Julian, quando ele se aproximou. Por dentro, no entanto, sentia-se desesperada, sem enxergar uma solução para o maior problema que já enfrentara na vida.

Capítulo IV

— Realmente, senhorita, parece que está levando bagagem mais do que suficiente para apenas alguns dias — observou Malcolm, enquanto ajudava a levar as malas para a carruagem. — Me avisaram para ir prevenida, Malcolm, porque faz muito frio no campo. Por isso estou levando roupas quentes. — Tem razão. Também gosto de estar preparado, gosto de saber tudo. Felizmente, em geral eu sempre sei tudo. Laura franziu a testa. Que homem esquisito, aquele Malcolm... Pomposo, afetado... Parecia até que conseguia ler seus pensamentos, que sabia o que ela tinha de fazer para se livrar de Aubert. Será que alguém contara? Será que alguém mais estava sabendo, algum criado, por exemplo? Será que ela fora traída? — Então, se você sabe tudo, deve saber também que não quero embaraçar o conde me vestindo de maneira inadequada. — Sim, embora não se trate de um caso exatamente discreto — disse Malcolm, deixando claro a opinião que tinha sobre Laura. Ela enrubesceu, sentindo-se devidamente colocada em seu lugar, ou seja, uma simples cortesã que estava viajando para o campo com seu protetor. Laura se consolou com o pensamento de que Célia também estaria lá, e que poderiam conversar sobre o problema com Aubert. Ela só esperava que Julian não lhe pedisse para usar o colar de pérolas que ele lhe dera, porque ela o vendera, para


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conseguir o dinheiro que Aubert estava exigindo. Se bem que era uma solução temporária, apenas, porque Aubert voltaria, ela tinha certeza disso. Sabia que não poderia comprar o silêncio dele por muito tempo. Aubert era ganancioso demais, desprezível demais. Ela precisava dar um jeito de se ver livre dele para sempre. Quem sabe ele fosse exilado para a França, ou atraído para fora de Londres por algum motivo, qualquer coisa assim, contanto que fosse embora de vez. Por ora, Laura estava aliviada simplesmente por sair da cidade, onde vivia sobressaltada, esperando deparar com Aubert espreitando-a a cada esquina, a cada sombra. Maldito. Becky esperava por Laura na porta, e ajudou-a a vestir a capa, excitada com a idéia de viajar. — Eu nunca saí da cidade! — exclamou ela, entusiasmada. — Nunca fui além das margens do Tâmisa! — Então, com certeza, você vai adorar a viagem — respondeu Laura, sorridente. — Dizem que é um lugar lindo, mesmo nesta época do ano. Charlton entrou no vestíbulo e olhou resignado para os dois enormes baús. — Coloque-os no bagageiro do tílburi — ele instruiu um dos lacaios. — Milorde quer viajar a uma certa velocidade. Assim que foi conduzida até a carruagem, Laura percebeu que o grupo viajaria em dois veículos: ela e Julian iriam num landau, um coche menor do que a carruagem que normalmente trafegava na cidade, e Becky e o valete de Julian seguiriam num tílburi, com a maior parte da bagagem. — Estou vendo que veio preparada para qualquer eventualidade — comentou Julian, indicando com um gesto de cabeça as pesadas malas que os lacaios carregavam para o outro coche. — Gosto de estar sempre prevenida. Laura sorriu discretamente e Julian riu baixinho. Alisando a saia de veludo com a mão enluvada, ela encontrou o olhar do conde por um segundo e depois olhou para fora. Julian a deixava nervosa ultimamente, mesmo quando era afável, como naquele momento. Devia ser por causa do sentimento de culpa que ela se sentia tensa na presença dele, a consciência de que Aubert poderia arruiná-lo se ela não encontrasse um meio de impedi-lo. Como poderia se mostrar alegre e ser uma boa companhia, com uma espada pendurada em cima de sua cabeça? — Noto que está levando trabalho. — Laura indicou o maço de papéis que Julian segurava. — Para ajudar o trajeto a passar mais depressa? — Não obstante sua agradável companhia, estes assuntos são urgentes e necessitam de minha atenção imediata. Mas há aqui algo para você também.


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Malcolm incluiu este envelope para que eu lhe entregasse. Ao que me consta, são informações que você solicitou. Surpresa, Laura tirou as luvas e flexionou os dedos. A temperatura no interior da carruagem estava mais amena do que do lado de fora, mas ainda assim, os dedos de Laura estavam enrijecidos pelo frio. Enquanto abria o envelope e retirava de dentro uma folha dobrada, Laura estava consciente do olhar observador de Julian. Suas mãos tremeram ligeiramente quando ela desdobrou o papel. Era uma lista de agências de viagens marítimas, conforme ela pedira a Malcolm por ocasião da assinatura do contrato. Havia também uma pequena relação de imóveis à venda em Maryland e na Virgínia, obtidas numa imobiliária local, certamente antecipando o êxito das negociações de trégua em Ghent. Laura ergueu o rosto e olhou para Julian, que comentou com naturalidade: — Malcolm disse que você gostaria de garantir uma passagem para a América, tão logo terminem as hostilidades. — Oh, e... — Foi assinado um tratado de paz em Ghent, na véspera do Natal. A notícia estará em todos os jornais, amanhã, mas eu soube ontem à noite, por meio de um emissário. — É uma ótima notícia — murmurou Laura. — Sim. Um problema a mais resolvido. Agora o Parlamento poderá se dedicar a outros assuntos, a questões internas. Julian voltou a atenção para os documentos, e Laura ficou olhando para ele, pensativa. Seria assim, então, tudo fácil e rápido. Quando sua presença não fosse mais necessária, Julian a descartaria como a uma bota velha. Mas, afinal, não era esse o acordo? Não era isso o que ela queria? Naturalmente que sim, e ainda mais, depois do malfadado reencontro com Aubert Fortier, quanto antes aquilo acabasse, melhor. Ambos estariam em segurança, então, ela num navio a caminho da América, e Julian em sua prestigiada posição como membro do Parlamento. Era para o bem de todos. Como se explicava, então, aquele sentimento de perda, de frustração que ela experimentava? Aquela ridícula vontade de chorar? Dobrando os papéis, Laura recolocou-os dentro do envelope e se pôs a observar a paisagem pela janela da carruagem. Londres foi ficando para trás, à medida que a carruagem rodava a uma velocidade considerável na estrada de Birmingham. Northamptonshire ficava cerca de oitenta quilômetros a noroeste, e o chalé de caça de Belgrave se situava em


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Wicken, próximo ao condado de Buckinghamshire. As construções urbanas e áreas densamente povoadas aos poucos foram sendo substituídas por pradarias e vilarejos acolhedores, que faziam Laura se lembrar da Virgínia. Cercas de madeira e muretas de pedra abrigavam pastos de gado e rebanhos de ovelhas, e algumas chaminés lançavam no ar rolos de fumaça proveniente da lenha que queimava nas lareiras. Agrupamentos de árvores ladeavam a estrada a pequenos intervalos, os galhos desfolhados recobertos de montículos de neve. Ao meio-dia, fizeram uma parada numa estalagem em King's Langley, para trocar os cavalos, fazer uma refeição leve e um breve descanso. Uma carruagem preta e marrom, com rodas vermelhas, estava parada em frente à entrada, com o símbolo do Correio Real pintado na porta, as rodas afundadas nos sulcos do solo formados pela terra congelada. O condutor tocou um apito, chamando os passageiros, que saíram do calor e do aconchego da estalagem, encolhidos sob o vento gelado, apenas quatro afortunados se sentando dentro do veículo, os demais se acomodando nos bancos precários na parte de cima. Usando a farda real vermelha, o cocheiro subiu para á boléia e o veículo saltou para a frente. O landau de Julian esperou que a carruagem oficial saísse, para estacionar em seu lugar. Imediatamente, um grupo de cavalariços apareceu para cuidar dos cavalos, e Charlton abriu a porta da estalagem para que Julian e Laura entrassem. Não havia sinal do tílburi com a bagagem, que ficara para trás assim que saíram da cidade. Julian havia mandado reservar antecipadamente um quarto com banheiro e saleta, para que ele e Laura pudessem comer e descansar em privacidade. Depois de se refrescar no banheiro, Laura foi se sentar diante de Julian, à pequena mesa quadrada da saleta revestida de lambris de madeira, onde havia acabado de ser servida uma refeição composta de pães, manteiga, queijo, presunto, sopa de legumes e torta de galinha, além de um jarro de cerveja e outro de água. Laura estava sentada de costas para a lareira, sentindo o agradável calor do fogo envolvê-la enquanto ela se servia. — Vejo que seu apetite voltou — comentou Julian, observando Laura comer com gosto. — Isso é ótimo. — Não tenho certeza se é tão bom assim — Laura respondeu, molhando um pedaço de pão quente na sopa fumegante. — Ora, mas claro que é. Eu gosto de ver você comer. — E se eu ficar gorda feito um barril? Vai gostar do mesmo jeito? Julian riu. — Mesmo que isso acontecesse, não mudaria essa sua língua atrevida, penso


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eu. — E eu que pensei que você apreciasse o meu senso de humor! Julian fitou Laura diretamente nos olhos. — Ah, mas eu aprecio... E como! Muito mais do que eu imaginava que iria apreciar. Você é... única, Laura. Laura prendeu a respiração, e não conseguiu engolir o pedaço de pão que colocara na boca, sentindo-se acuada pelo olhar intenso de Julian e pela súbita pulsação do coração batendo na garganta. Havia um timbre baixo e rouco na voz dele, agora, ao passo que, durante a viagem, eles mal haviam trocado meia dúzia de palavras. O clima entre ambos se tornara íntimo, e subitamente Laura tomou consciência de que havia uma cama no cômodo contíguo. Suas faces se tingiram de vermelho, e ela perguntou-se, receosa, se o conde teria mudado de idéia a respeito do acordo, se estaria esperando mais do relacionamento agora do que antes. E se fosse isso? O que ela faria? Entretanto, o momento mágico se desfez quando uma batida na porta precedeu a entrada de Charlton, avisando que os cavalos já estavam prontos para prosseguir viagem. — Termine sua refeição — recomendou Julian, voltando-se para Laura com um sorriso levemente cínico no rosto — Não pararemos mais até chegar a Wicken. Finalmente, Laura conseguiu engolir o pão e tomou o restante da sopa, perdendo novamente o apetite para as demais iguarias sobre a mesa. Em seu lugar, um outro tipo de necessidade surgira, uma que ela não ousaria satisfazer. Não com o conde... pois seria a sua ruína. Julian e Laura chegaram ao chalé de Belgrave pouco depois do anoitecer. "Chalé" era uma denominação modesta, pois só a casa principal possuía trinta cômodos, entre salas, dormitórios, banheiros e dependências de serviço, fora o alojamento dos criados e os estábulos. A paisagem inteira estava recoberta de neve, o solo, os telhados e os galhos das arvores cintilando à luz das estrelas que brilhavam no Armamento. Julian seguiu Laura para dentro da casa, admirando a silhueta de seu corpo quando um lacaio a ajudou a tirar a capa, e o brilho das lâmpadas a gás refletido nos cabelos dourados. Célia apareceu na curva da escada para saudá-los e em seguida conduziu Laura para o andar de cima, elevando a voz para avisar Belgrave. Em seguida voltouse para Julian — Vou acompanhar Laura até o quarto, milorde, enquanto a criada dela não chega. Daqui a pouco desceremos para jantar.


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Julian ficou parado no vestíbulo até ver Laura desaparecer escada acima. A voz de Belgrave o trouxe de volta ao momento presente. — Venha tomar um conhaque conosco na sala de estar — convidou o dono da casa, aproximando-se para apertar a mão de Julian. — Já temos boa companhia. Westbury está aqui e Langston também. Estou esperando mais convidados O tempo não está dos melhores, não é mesmo? Mas nunca é ruim demais para caçar. Julian tinha sua própria opinião àquele respeito, mas guardou-a para si, enquanto seguia Belgrave até a espaçosa sala de estar. Westbury, ele conhecia relativamente bem, mas Langston, apenas de vista, e cumprimentou os dois homens com uma inclinação de cabeça enquanto aceitava um cálice de conhaque que um mordomo uniformizado lhe oferecia numa bandeja. O assunto girou em torno de política, depois caçadas, e por fim cavalos, até que Westbury e Langston se mostraram interessados em conhecer o novo cavalo de raça que Belgrave comprara. Julian preferiu ficar saboreando seu conhaque enquanto os três iam visitar os estábulos. Apreciou a quietude, lembrando-se de que logo a casa estaria repleta de gente. O fogo na lareira era acolhedor, o silêncio era rompido apenas pelo tiquetaque do relógio de carrilhão. Ele esticou as pernas e examinou suas botas, enquanto saboreava o conhaque. Tinha sido boa idéia ir até ali, concluiu afinal. Seria uma pausa bem-vinda, antes de voltar à rotina da vida na cidade e das sessões do Parlamento. Talvez ali, com a amiga Célia por perto, Laura se descontraísse e voltasse a exibir a expressão alegre que perdera nos últimos dias. Fosse cansaço ou alguma preocupação que a perturbava, Julian esperava que, ali no campo, ela esquecesse as atribulações. Os pensamentos de Julian foram interrompidos quando Célia entrou na sala. Ele se levantou, esperando ver Laura aparecer também, mas Célia estava sozinha. — Boa noite, milorde — cumprimentou ela, com um sorriso. — Vejo que resistiu à tentação de ir conhecer a nova aquisição de Belgrave para seus estábulos. Célia fez um sinal para que Julian voltasse a se sentar e ocupou a poltrona de frente para ele. — Preferi desfrutar do calor aconchegante desta sala e deste saborosíssimo conhaque, senhorita. Ela continuou sorrindo. — Houve um tempo — falou, após alguns segundos — em que eu limpava salas como esta. Hoje eu bebo chá nelas. Se eu tiver sorte, nunca mais precisarei limpar uma lata de lixo. Mas caso precise, não vou morrer por causa disso. Já não tenho tanta certeza com respeito a Laura.


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— Está subestimando Laura, srta. Carteret. Acredito que ela seja capaz de realizar qualquer tarefa, se assim o quiser. — Julian colocou o copo vazio na mesinha ao lado do sofá e voltou a fitar Célia, percebendo que havia alguma intenção no fato de ela ter descido sozinha. — Há algo importante que queira me dizer? — Sim, há. Eu o julgo um homem bastante decente, milorde. Quando Julian ergueu uma sobrancelha, surpreso, os lábios de Célia se curvaram num sorriso cínico. — Não é uma opinião que se estenda a muitos da sua estirpe, milorde. Talvez se surpreenda se eu lhe disser que tenho em baixo conceito a maioria dos membros de sua classe social. — Nesse caso, talvez se surpreenda também em saber que tenho a mesma opinião desfavorável sobre muitos da minha classe social. Mas não creio que seja esse o assunto que tenha vindo discutir comigo. — Tem razão, milorde. Vim falar sobre Laura, como já deve ter percebido. Eu gosto muito dela, e estou preocupada. Julian franziu a testa. — Ela não está bem? — Não, ela está ótima. Descerá em alguns instantes. Célia hesitou por um momento, deixando Julian cada vez mais confuso. Então, para surpresa dele, perguntou: — Eu vim para me certificar de que todos os seus desejos sejam cumpridos. Julian arqueou as sobrancelhas, incerto sobre a que sentido ela se referia. — Bem... Não há por que se preocupar, senhorita, uma vez que tenho uma equipe de criados bastante eficientes. Célia piscou devagar e suprimiu um suspiro. — Milorde, tem intenção de dormir no mesmo quarto que Laura? — Realmente, srta. Carteret, não vejo por que deva se preocupar com uma questão que é pertinente somente a mim. — Perdão, milorde, mas é pertinente a Laura também. Por isso lhe pergunto. Julian apreciou a lealdade de Célia. Agora entendia por que Belgrave se sentira atraído por ela. Não tinha apenas um rostinho bonito e uma personalidade forte; possuía também um profundo senso de lealdade, uma integridade raramente encontrada em atrizes de Covent Garden. Ela podia ser uma oportunista e ter reputação duvidosa, mas tinha honestidade de sentimentos, uma qualidade que Julian reconhecia e valorizava. — Admiro a sua lealdade, srta. Carteret.


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— Isso não responde a minha pergunta, milorde. — Tem razão — disse ele. — Não responde. A frustração se estampou no rosto de Célia, mas o que quer que fosse que ela pretendia dizer a seguir permaneceu um mistério para Julian, porque nesse instante Laura entrou na sala, com um sorriso indecifrável no rosto. — Espero que não tenham flertado muito durante minha ausência, Julian — brincou ela, corando levemente e desviando o olhar. Julian riu. — Na verdade, não. Embora, aqui no campo, a liberdade seja maior, e os olhares curiosos em menor número... ou não tão curiosos, por assim dizer. — Percebendo que ela sorria, constrangida, Julian mudou de assunto. — Cranford e Becky já chegaram? — Ainda não... Nesse instante, ouviu-se um movimento do lado de fora, e o mordomo de Belgrave abriu a porta do vestíbulo para dar passagem a um ruidoso grupo de convidados que acabara de chegar. Mal todos entraram, o tílburi que trazia Cranford, Becky e a bagagem também chegou. — Vou mostrar meu quarto a Becky, para que ela mande levar as malas — avisou Laura, pedindo licença a Julian e atravessando a sala em direção ao vestíbulo, com Célia em seus calcanhares. Julian ouviu as vozes das moças, os cumprimentos e saudações, e lembrou-se da pergunta que Célia lhe fizera. O que ele pretendia, afinal? Julian sabia o que queria. Isso ele sabia muito bem, não tinha a menor dúvida, e o que ele queria era surpreendente, inconveniente e extremamente inadequado Porém, inevitável. — Tem certeza de que não houve nenhum engano? — Laura olhou para o rosto de Charlton, ansiosa, e deduziu que o cocheiro não tinha resposta para aquela questão. — Esta bem, não faz mal. Pode deixar aqui, obrigada O lacaio colocara a mala de Julian ao lado das suas, uma silenciosa indicação de que dividiriam o mesmo quarto Erguendo o rosto, ela encontrou o olhar curioso de Célia. — Algum problema? Laura balançou a cabeça negativamente. Não queria falar sobre isso na frente de Becky e Charlton. Como ela não pensara naquilo antes, como não se lembrara de que, ali as acomodações poderiam ser diferentes? Era algo que nem mesmo lhe passara pela cabeça. Não até aquele momento ate assomar-se à sua frente a perspectiva quase certa de que ela e Julian dormiriam no mesmo quarto, talvez na mesma cama.


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Laura respirou fundo, e depois que Charlton saiu do quarto e Becky desceu para buscar água quente, ela virou-se para Celia, que já tinha adivinhado o pensamento da amiga. — Você não esperava dormir na mesma cama com ele, não é? Laura balançou a cabeça. — Não. Eu devia ter pensado nisso, devia ter previsto. Mas nem me ocorreu que ele pudesse... desrespeitar o nosso acordo. — Não é o fim do mundo, você sabe disso, não? — Eu sei, mas... Mas era. O sentimento de Laura por Julian se tornava cada dia mais forte, ela sonhava com ele todas as noites, e quando estavam juntos, ela se surpreendia observando-o, admirando o brilho dourado de seus cabelos, as mãos fortes, perdendo-se numa contemplação que poderia vir a ser a sua ruína. — Acordo? — ecoou Célia, tardiamente. — Como assim, desrespeitar o acordo? Que acordo é esse? Laura suspirou, sabendo que pareceria uma tola aos olhos da amiga. — Você vai me achar uma tonta, mas eu concordei em ser acompanhante do conde apenas em público, e nos eventos sociais, mas não... não intimamente. — Oh! — Célia exclamou. — Quer dizer que Lockwood não procurou você na cama? Laura meneou a cabeça. — Não só não procurou, como essa foi uma das condições do contrato que assinamos, por escrito. Célia olhou para Laura, estupefata. Era evidente que nunca ouvira falar de situação semelhante, antes. Ela deixou-se cair sentada num pufe. — Foi condição dele? Ou sua? — Dele, mas confesso que concordei de muito bom grado. Eu sei que parece estranho, também achei, no início. Não conseguia entender por que ele colocava uma casa à minha disposição, me cobria de mordomias, me tratava como sua amante, e sem... sem... — Sem você dormir com ele — completou Célia, olhando pensativa para a porta, como que esperando que o próprio Julian entrasse e confirmasse tudo. — É espantoso. Incrível, mesmo. Por que será que ele se deu todo esse trabalho... a menos que... a não ser.. — Célia voltou a fitar Laura. — Alguma vez ele comentou com você sobre a esposa? — Não, nunca. Ouvi os comentários, claro, de que ela está na Europa, vivendo


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uma vida libertina, envolvida em escândalos. — Sim, mas você ouviu todos os comentários? Ficou sabendo de tudo? Quando Laura fez que não com a cabeça, Célia inclinou-se para a frente e falou, baixando a voz: — Dizem que Lockwood se casou à força, que o pai praticamente o empurrou para o altar. Ele e a mulher mal passaram algumas horas sob o mesmo teto, parece que se odeiam. Por isso nunca tiveram o herdeiro tão esperado pelo avô. Dizem que o velho conde morreu de desgosto. Não sei se foi mesmo, tenho minhas dúvidas, porque afinal ele já tinha uma idade bem avançada. Mas... é isso. Aí está, mais um suculento item para a lista de mexericos das altas-rodas. — Bem, então, em vista de tudo isso, seria natural o conde ter uma amante, penso eu — disse Laura, depois de um momento. — Sim, sem dúvida. Ele teve alguns namoricos, mas nada sério, nem oficial. Você é a primeira que ele toma sob proteção. — Mas eu não posso dormir com ele. Isso me arruinaria. — Não seja boba. Você já está arruinada. Laura balançou a cabeça. — Não estou dizendo nesse sentido. Minha reputação já não era das melhores, e posar de amante de Lockwood faz pouca diferença. Eu... É por outro motivo. — Uma coisa importante que você precisa saber, Laura e que você não pode se apaixonar por um homem da posição dele, entendeu? Isso seria a pior coisa que poderia acontecer com você. Você não se apaixonou por ele, não é? Por favor, Laura, diga que não! — É claro que não, que idéia! — assegurou Laura, mas para seus próprios ouvidos a frase não soou convincente. Era absurdo, mas de fato ela gostava de Julian mais do que deveria. Sabia disso. Até aquele momento, porém, não se atrevera a admitir essa verdade nem para si mesma. A idéia de dormirem no mesmo quarto deveria horrorizá-la, enfurecê-la, mas, em vez disso, tudo o que ela conseguia pensar era em como seria maravilhoso ficar perto dele, sentir os lábios dele sobre os seus, as mãos dele em seu corpo... Sem se dar ao trabalho de fingir que acreditava na amiga, Célia suspirou. — É claro que não — repetiu, balançando a cabeça. — Meu Deus, Laura, e agora? O que você vai fazer? Como lidar com isso? Você tem alguém esperando por você na América? — Não. O único parente que me restou, além de minha mãe, é um tio, que herdou a casa de meus avós e me deixou sem nada. Se minha mãe não tivesse me mandado uma passagem para eu ir para a França, eu estaria na América hoje do


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mesmo jeito que estou aqui. Sozinha. — Aqui você não está sozinha. — Não, aqui eu tenho você. — Laura sorriu, agradecida. — Você tem sido uma grande amiga, Célia. Não sei o que teria acontecido comigo se eu não a tivesse conhecido. As duas ficaram em silêncio por um instante, ouvindo a lenha estalar na lareira. — Como você sabe de tanta coisa sobre Julian? — Por Belgrave. Ele adora uma boa fofoca. Mas sabe, eu acho que ele gosta de você mais do que quer admitir. — Belgrave? — Laura arqueou as sobrancelhas. — Não, sua boba, Lockwood. As duas riram, e o coração de Laura saltou dentro do peito. Seria verdade? Será que Julian gostava mesmo dela? As vezes Laura tinha a impressão de que havia algo mais, de que ele se sentia atraído por ela, mas então se lembrava da enorme diferença que existia entre ambos e perdia as esperanças. Embora não fosse impossível, era muito incomum verem-se casamentos entre pessoas de classes sociais tão diferentes. E, de qualquer forma, Julian já era casado. O máximo que ela poderia ser era amante dele. Uma situação impossível. — Vamos — chamou Célia. — Estou ouvindo a sineta, chamando para o jantar, portanto Belgrave já voltou dos estábulos. Continuaremos a conversar numa outra hora. Sim, pensou Laura, pois ainda não contara a Célia sobre seu problema com Fortier. Precisava encontrar uma solução, e Célia a ajudaria a pensar em algo. Talvez Rex Pentley pudesse ajudar a fazer Fortier desaparecer. Então ela poderia ir embora da Inglaterra e não se preocupar mais com Fortier nem com o conde. Nunca mais precisaria pensar em Julian. Mas ela pensaria... Laura sabia que nunca mais o esqueceria. Nunca. A conversa após o jantar não foi das mais interessantes. Julian já não agüentava mais ouvir Rutland se gabar de seus cavalos, e depois que as mulheres subiram para se recolher, mais impaciente ainda ele ficou, até que pediu licença e sé retirou. Os outros cavalheiros pareciam mais interessados em prolongar a noite, bebericando licor e conhaque, mas também, nenhum deles tinha uma mulher como Laura à sua espera no quarto. Julian estava curioso para saber o que ela tinha achado de sua iniciativa de dormirem juntos. Se não ficara satisfeita com o arranjo, não o demonstrara durante o jantar; se bem que Laura era bastante contida quando estavam na companhia de outras pessoas. Julian gostava muito mais quando estavam a sós, porque nessas


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ocasiões ela era divertida, espirituosa, ágil de raciocínio, evocando na mente dele fantasias sensuais e deliciosas. Julian bateu de leve na porta do quarto antes de abri-la. Laura estava usando um conjunto de camisola e penhoar de cetim azul-claro com debrum dourado. O fogo crepitava na lareira, aquecendo o aposento e lançando uma claridade alaranjada sobre os cabelos soltos de Laura, que emolduravam graciosamente seu rosto. Ela ergueu a cabeça e entreabriu ligeiramente os lábios ao vê-lo entrar, deixando evidente a sua insegurança. O coração de Julian acelerou. Ela está esperando por mim... Julian fechou a porta e atravessou o quarto na direção de Laura, com passos silenciosos sobre o carpete espesso e macio. Segurou-lhe as mãos frias entre a suas e fitou-a dentro dos olhos, que pareciam dois lagos de inocência, medo e indecisão. Por um momento, Julian teve a sensação de que poderia mergulhar e se perder naquele olhar. Como era possível uma mulher ser tão encantadoramente bela, tão suavemente doce e deslumbrante? Julian puxou-a para si e viu os olhos dela se abrirem mais quando inclinou a cabeça e enterrou os dedos nos cabelos sedosos, trazendo o rosto dela para mais perto e capturando os lábios rosados e tentadores com os seus, provando-lhes a doçura e o quase imperceptível tremor. Um desejo primitivo tomou conta do corpo de Julian, fazendo o sangue correr mais rápido nas veias, o coração bater mais forte e a respiração se acelerar. Laura era tão macia, tão feminina, tão adorável... Fazia muito tempo que ele não se sentia assim com uma mulher nos braços, e a tentação reprimida nas últimas semanas finalmente explodiu, desenfreada. Julian libertou a boca de Laura e deslizou os lábios pelo rosto dela, até o lóbulo da orelha, e ela estremeceu ao sentir as mãos másculas em seus ombros, afastando o penhoar parou trás e por seus braços abaixo, até tirá-lo completamente Laura inclinou a cabeça para trás, mal conseguindo reprimir um gemido. Julian teve de se conter para não arrancar imediatamente a camisola e possuir Laura com volúpia. Queria acarinhá-la devagar, proporcionar-lhe o mesmo prazer que estava sentindo, prolongar aquelas sensações alucinantes. Sob o tecido da camisola, era possível visualizar o formato dos seios os mamilos salientes evidenciando o desejo que ela também sentia. Incapaz de se controlar, Julian segurou-lhe os seios entre as mãos, estimulando-os com uma carícia sensual, e inclinou a cabeça para beijar o mamilo esquerdo por sobre o tecido enquanto baixava a alça direita da camisola para espalmar a mão sobre o outro seio, massageando-o vagarosamente. Laura arqueou o corpo para trás e deixou escapar um gemido mais alto e rouco.


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Julian então passou a beijar o outro mamilo, e o contato direto da língua quente e úmida na pele provocou em Laura uma sensação de prazer indescritível. Mais uma vez, Julian precisou reprimir o impulso de jogá-la em cima da cama e dar vazão à excitação que o dominava Mas conhecia bem demais a técnica da sedução para saber que a afobação não favoreceria em nada. Quando ele finalmente ergueu a cabeça, com a respiração ofegante, Laura se agarrou a seus braços, num gesto quase desesperado, e em seguida recuou e se afastou, criando para Julian a sensação de um sonho bom interrompido abruptamente. — Não — protestou ela, trêmula e com o rosto muito pálido. — Não podemos, Julian... O acordo... Se Laura tivesse jogado uma bacia de água fria no rosto de Julian, o impacto não teria sido maior. Ele estreitou os olhos e obrigou-se a recuar também, reprimindo-se para não voltar a puxá-la para si. — Sim? O que tem o acordo? — Você disse que... Ficou claro no contrato que nós não... que você não queria... Você mudou de idéia, Julian? Julian ficou olhando para ela por um longo momento. No fundo de sua mente, ocorreu a possibilidade de que Laura pudesse querer exigir mais dinheiro ou benefícios em troca de dormirem juntos, mas logo ele descartou essa possibilidade. Laura podia ser uma atriz, mas naquele momento não estava atuando. Estava sendo ela mesma, autêntica e sincera. Julian podia ver a dúvida nos olhos dela, podia ver o desejo e a frustração, a vontade e a incerteza. — O que você quer? — Julian indagou, pegando Laura de surpresa. Ela não tinha certeza absoluta do significado daquela pergunta. Não sabia se ele estava lhe dando o direito de escolha, ou se queria saber qual seria a exigência dela em troca de um favor a mais. Seu rosto enrubesceu violentamente, num misto de raiva e embaraço. — O que eu quero? — revidou ela, sem saber o que responder. — De você? Eu não quero nada, Julian. Só não estou bem certa quanto ao que você quer. Julian respirou fundo. — Por hoje, eu só quero dormir — ele respondeu por fim. — Amanhã conversaremos sobre o nosso acordo. Julian sabia que não conseguiria pensar claramente no estado emocional em que se encontrava, com o corpo ardendo de desejo insatisfeito. Frustrado e sem jeito, ele virou-se e reparou no sofá ao lado da lareira. Uma manta fora estendida sobre ele, e um enorme travesseiro e um cobertor dobrado esperavam no canto, prontos para serem usados.


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Ele olhou de volta para Laura, com uma sobrancelha arqueada. — É para mim — apressou-se ela a explicar. Julian, porém, sacudiu a cabeça. — Durma na cama. Eu durmo no sofá. — Mas você é muito mais alto que eu, e a cama é mais confort... — Já dormi em espaços bem mais apertados quando servi na Marinha — Julian interrompeu, irritado. — Durma você na cama. Laura assentiu com a cabeça e segurou o penhoar à frente do corpo, dando um passo atrás, cautelosa. Julian sabia que estava disfarçando razoavelmente bem a tensão e a fúria que sentia naquele momento, e decidiu que era crucial afastar-se por algum tempo para conseguir se acalmar longe da presença dela. — Vou deixá-la à vontade, por ora, para que se recolha. — Ele fez uma mesura formal, deu meia-volta e saiu. O baque surdo da porta se fechando proporcionou a Julian uma satisfação mínima. Pelo menos, ele saíra de cena com a dignidade intacta. Era uma pena que Malcolm não estivesse ali para que ele pudesse descarregar sua raiva, se bem que Julian sabia muito bem que isto seria infantilidade, pois estava plenamente consciente de que o problema era seu. Ele concordara com o plano de Malcolm sem imaginar que se sentiria tão atraído por sua pretensa amante. Talvez fosse o caso de tomar mais um ou dois cálices do saboroso conhaque de Belgrave. Poderia ajudar um pouco, pelo menos por enquanto. Laura pestanejou quando Julian saiu e fechou a porta. Ainda estava trêmula, não por causa da última reação dele, mas pelas sensações que ele despertara em seu corpo. Na verdade, não queria que Julian tivesse parado de beijá-la e acariciá-la, queria que ele tivesse continuado e feito alguma coisa para saciar aquele anseio que latejava entre suas pernas. Fora em parte o desespero, em parte o senso de ética, que a impelira a lembrá-lo do acordo, mas no fundo ela lamentava que Julian tivesse levado tão a sério, em vez de ignorar o assunto. Com as pernas bambas, deixou-se cair sentada na cama, sentindo-se profundamente angustiada, apesar da maciez do colchão e do conforto da roupa de cama perfumada, que prometiam uma noite de sono aconchegante e repousante. O que ela faria agora? Não havia nada que pudesse dizer sem que parecesse tola ou dissimulada, e não queria se arriscar a nenhuma das duas possibilidades. No dia seguinte, conversaria com Célia, e talvez as duas juntas conseguissem pensar numa maneira de sair daquela confusão. Ela gostaria tanto de poder contar tudo a Julian, sobre Aubert Fortier, sua mãe e o general francês, mas como faria isso sem parecer que estava envolvida? Para um homem que já fora traído pela esposa, ele com certeza acharia que ela o estava traindo também. Se demorasse muito para contar, ele ficaria sabendo por Aubert, pois Laura não dispunha do valor absurdo que este estava exigindo. Ela conseguira


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apenas adiar temporariamente a chantagem, com as poucas centenas de libras que lhe rendera o colar de pérolas. Em breve, Aubert voltaria a procurá-la, e ela simplesmente não sabia o que fazer. Laura enfiou-se debaixo das cobertas, decidindo que era inútil sofrer por antecipação. Não conseguiria pensar em uma solução sozinha, de qualquer forma; precisava falar com Célia, tinha certeza de que a amiga teria alguma idéia para ajudála. Agora, tudo o que lhe restava fazer era tirar Julian Norcliff, o sexto conde de Lockwood, do pensamento. Laura acordou com um estalido. Espiou por cima do cobertor, e seu coração deu um pulo quando ela viu Julian colocando mais lenha na lareira. Não o ouvira entrar, e não fosse o ruído da lenha estalando, ela nem teria se dado conta de que ele voltara e dormira logo ali, a poucos metros de distância. As chamas se inflamaram, lançando uma claridade dourada sobre Julian, que estava de peito nu, usando apenas um par de ceroulas brancas, com o cós desamarrado e caindo displicentemente sobre o quadril estreito. Sentindo-se atrevida, porém incapaz de parar de olhar, Laura continuou observando-o por sob as pálpebras semi-cerradas, de tal forma que, caso ele olhasse em sua direção, pensasse que ela estava dormindo. Laura nunca imaginara que um corpo masculino pudesse ter formas tão bonitas. Ele era esplendidamente másculo, forte e poderoso, uma visão de tirar o fôlego, tão magnífico e belo como a estátua de David, de Michelangelo. Havia uma aura de vigor ao redor de Julian, uma força que ia além dos músculos e se estendia ao caráter, à personalidade. Era uma qualidade que o destacava, principalmente entre os outros cavalheiros, conforme Laura observara na véspera, durante o jantar. Julian era o mais simpático, charmoso e carismático de todos, o mais gentil e educado, o mais refinado, o único que tratava a todos com a mesma cortesia, fosse homem ou mulher, nobre ou serviçal. Os demais, com exceção de Belgrave, talvez, que era um tanto simplório, eram emproados e pernósticos, até mesmo no tratamento com suas respectivas acompanhantes. Langston, então, chegava a ser vulgar, e Laura o achara insuportável. O fato de as mulheres ali presentes não serem vistas como "damas" no mais puro sentido da palavra não dava aos homens o direito de tratá-las mal. Não que as mulheres, por sua vez, fossem muito melhores do que seus respectivos protetores. A maioria era também intragável, e por isso ela e Célia tinham sido as primeiras a desejar boa-noite e subir para seus quartos, para evitar aquelas companhias desagradáveis. — Você agüenta essas criaturas? — Célia cochichara, em tom de protesto, quando as duas chegaram ao andar de cima. — Se eu ouvir Ivy Tremayne dizer mais uma vez que o negócio de Drummond é enorme como o de um cavalo, juro que sou capaz de enforcá-la com aquela echarpe de onça que ela usa!


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Laura deixara escapar uma gargalhada e em seguida cobrira a boca com a mão, rindo até as lágrimas. Concordava inteiramente com a amiga, e ficara mais que contente por ter uma oportunidade de sair de perto daquelas mulheres ordinárias e homens sem classe, por várias vezes tendo se sentido constrangida com o rumo das conversas e evitando olhar para Julian. Será que ele se sentia da mesma forma, ou achava aquilo tudo natural? Será que ele viera procurá-la logo depois, com a intenção de seduzi-la, julgando-a uma mulher fácil, que se entregaria a qualquer um, contanto que fosse bem paga? O pensamento era angustiante, intolerável. Julian continuava se movimentando pelo quarto em silêncio, como que tomando cuidado para não acordá-la. Ainda espiando por entre os cílios, Laura viu-o caminhar em direção à bacia de água, sobre a cômoda. Era um ritual masculino intrigante, o ato de se barbear, do qual ela se lembrava de ver o pai fazer, quando era pequena. Fascinada, ela ficou observando Julian pelo espelho, enquanto ele ensaboava o rosto e depois passava a navalha, com movimentos experientes. Quando terminou, Julian enxugou o rosto e as mãos e começou a vestir sua roupa de montaria, que consistia de calça de couro justa, botas de couro de cano alto, camisa branca e paletó vermelho. O traje era completado por um barrete de lã, que ele levou na mão ao sair do quarto, não sem antes lançar um olhar na direção da cama. Laura ficou paralisada de medo que ele percebesse que ela estava acordada e observando-o, mas Julian não disse nada; simplesmente a estudou por um momento e depois saiu, fechando a porta sem fazer barulho. Laura ouviu os passos dele se distanciando no corredor, e sentiu-se novamente desolada... * * * Eleanor Norcliff inclinou-se para a frente na carruagem, olhando para a paisagem familiar além das docas do Tâmisa. Navios de carga e de passageiros se enfileiravam ao longo do cais, ostentando bandeiras da França, Dinamarca e Espanha. Estava de volta ao lar, finalmente. E bem a tempo de se preparar para a próxima temporada na sociedade. Em breve as funções sociais teriam início, atingindo o auge em plena primavera. Quando começasse o verão, em junho, a maioria voltaria para suas residências no interior, e então ela tomaria uma decisão. Julian se arrependeria de tê-la mandado embora. Como se não bastasse ele a ter humilhado, deixando clara a sua contrariedade em ter se casado com ela, ainda a deixara à mercê dos fofoqueiros. Agora ela retornava à cidade como uma qualquer, sendo que sempre fora uma pessoa diferenciada. Logo, porém, ela recuperaria sua posição de prestígio. Eleanor tinha um plano


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para fazer Julian enxergar o erro que cometera, e sentir na pele o que era ser renegado. Ah, sim, ele lamentaria o dia em que fora tão cruel com ela! A casinha nos limites de Mayfair era discreta e despretensiosa, e serviria de acomodação temporária até ela resolver tornar público o seu regresso. Ainda assim, era uma moradia ultrajante para quem sempre vivera rodeada do bom e do melhor. Eleanor deu um leve tapa na mão de sua criada quando esta demorou para começar a lhe desabotoar a capa. — Sua tonta, imprestável! — Sinto muito, milady — balbuciou a garota, engolindo em seco para reprimir as lágrimas. — Menina preguiçosa... Vou receber uma visita daqui a pouco, e é bom que esteja tudo pronto e arrumado, senão você vai sentir mais ainda! Eleanor olhou ao redor, contrafeita. Era difícil encarar uma casinha tão simples e modesta depois de ter se hospedado nas mais luxuosas villas da Itália, com vista para o mar. Já era tarde quando o visitante chegou, e Eleanor estava furiosa com o atraso. Virou-se para ele com um olhar fulminante, quando a criada o conduziu até a pequena sala de estar. — Milady — ele cumprimentou, sorridente, mas o sorriso desapareceu quando Eleanor exigiu saber por que ele não viera imediatamente. — Não recebeu meu recado? Enviei um mensageiro, lá do porto, assim que desembarquei daquela banheira flutuante! E mesmo assim, você chega a esta hora, para me atender? Ele a fitou, muito sério. — Eu não a esperava antes de amanhã à tarde, milady. — De fato, era amanhã a data prevista para a chegada do navio. Mas uma tempestade no mar do Norte forçou o capitão a mudar a rota, e acabamos chegando mais cedo do que o planejado. Mas eu imaginei que você estivesse ansioso para me ver. Eleanor baixou os cílios sobre os olhos azuis e observou o homem à sua frente. Ao ver o rosto dele corar, com uma expressão que mesclava embaraço e prazer, ela sorriu e virou-se para a lareira, aproximando as mãos do fogo para aquecê-las. —Ah, mas eu estava ansioso, milady, é claro. Estou muito contente em vê-la. Milady deve saber... deve ter idéia de quanto a sua ausência foi sentida. — É mesmo? E meu marido? Será que Julian também sentiu a minha falta? O silêncio que se seguiu foi eloqüente.


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— Estou vendo que você não tem resposta para a minha pergunta. Muito significativo, isso. — Milorde não pode saber de jeito nenhum que a senhora voltou. Ele ficaria furioso. — Ah, é? Azar o dele. Ele ficará sabendo, quando eu achar que chegou a hora. Até lá... ninguém mais saberá. Será nosso pequeno segredo. Após mais uma breve pausa, o visitante comentou: — Sua volta foi um tanto... precipitada. — Sem dúvida. — Divertida, ela foi até o sofá e se sentou, com um floreio da saia rodada, e depois ajeitando-a cuidadosamente sobre as pernas. Os homens às vezes eram tão tolos... Mas, enfim, eram um mal necessário. — Francamente, meu caro Malcolm, eu já não agüentava mais aqueles aldeões. Verdade que eles são bonitos, atraentes e vigorosos, mas não são ingleses. — Não, tem razão. Não são ingleses — Malcolm concordou. — Os italianos são tidos como passionais, ardentes, mas... o escândalo envolvendo aquele rapaz foi deveras intenso. Relegou a segundo plano os rumores de Viena. — A culpa não foi minha se o rapaz era perturbado a ponto de se enforcar. Esses italianos são impetuosos demais. O que eu podia fazer? Seria impossível ficar em Florença, depois dessa tragédia. Por certo, Julian entenderá. — Talvez, milady. Talvez, depois que ele compreender os seus motivos. Mas sugiro que tenha o cuidado de falar com milorde depois de se certificar de que ele está de bom humor. — Hum... Acho que você tem razão. — Eleanor se serviu de uma xícara de chá. — Sente-se, Malcolm. Fico cansada só de olhar para você aí em pé. Precisamos conversar sobre como contornar essa ridícula insistência de Julian em me manter exilada de meu próprio lar. Todo empertigado, Malcolm se sentou na poltrona de frente para Eleanor, olhando para ela com expressão embevecida. Oh, sim, ele era muito útil, Malcolm. Um secretário competente, que cuidava de todas as contas da casa com eficiência, e que tinha acesso à conta de Julian. Muito conveniente. Inclinando-se para a frente, ela ofereceu a Malcolm uma visão privilegiada de seu decote, enquanto lhe servia uma xícara de chá. Os olhos dele pareciam vitrificados quando aceitou a xícara e desviou o olhar do busto para o rosto de Eleanor. — Malcolm, conte-me o que Julian tem feito, desde que saí da Inglaterra. Continua enfadonho e cheio de si? — Às vezes. — A xícara de Malcolm tilintou sobre o pires. — Houve uma certa comoção depois que a senhora partiu, é claro, e começaram a correr certos rumores


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maldosos que precisavam ser silenciados. Eu tomei providências nesse sentido, e agora os rumores são de outra natureza. — Ah, sim? Que ótimo. Muito bem, Malcolm, parabéns. Fico feliz em saber disso. E qual é a natureza dos rumores atuais? — Lockwood tem uma amante. Uma atriz de Covent Garden, originária das colônias. — Americana, você quer dizer? — Eleanor bateu palmas, satisfeita. — Perfeito! Uma pessoa totalmente inadequada, imagino. A situação não poderia ser mais favorável, pensou Eleanor. Ela ameaçara arruinar Julian se ele fosse imbecil a ponto de achar que poderia privá-la da posição que adquirira por direito, como sua esposa. Talvez ela fosse persona non grata em alguns ambientes, mas havia muitas pessoas da sociedade que a receberiam de braços abertos quando soubessem como ela fora afastada do convívio social por um marido cruel. Em breve ela reconquistaria o seu lugar. Muito em breve. O almoço após uma caçada era sempre um evento de grandes proporções. Julian subiu até o quarto, esperando que Cranford estivesse lá para ajudá-lo a se livrar do traje enlameado e vestir uma roupa limpa. Para sua surpresa, no entanto, em vez de Cranford, era Laura quem estava no quarto, deitada no sofá, com uma compressa fria sobre os folhos. — Olá -— Julian cumprimentou, e Laura levantou a borda da compressa. — Você não está bem? — É só uma dor de cabeça. Já vai passar. Julian ficou em silêncio por um instante, indeciso sobre o que dizer. — Ah — falou, depois de alguns momentos. — Sabe onde está Cranford? — Ele estava por aí, há pouco—respondeu Laura, tirando a compressa e sentando-se no sofá. — Como foi a caçada? — Foi bem... até Langston não conseguir fazer seu cavalo saltar sobre uma cerca e quase se espatifar no chão. E Belgrave, que estava logo atrás, também por pouco não caiu. — Deve ter sido embaraçoso. — Sim, um pouco — concordou Julian. — Mas fora isso, correu tudo bem. Ele começou a desabotoar o colarinho engomado. — Onde será que Cranford se meteu? — Perdão, senhor — desculpou-se o mordomo, entrando no quarto e fechando a porta. — Por favor, permita-me remover suas botas.


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Julian se sentou numa banqueta e Cranford se agachou diante dele. Para deixá-los mais à vontade, Laura se levantou e caminhou até a janela alta, onde se pôs a olhar para o jardim. Uma luz pálida se infiltrava pela vidraça e pelas cortinas parcialmente abertas. Uma camada de neve recobria o peitoril do lado de fora. Emoldurada pela claridade prateada, como se fosse um halo à sua volta, Laura parecia um anjo da neve, ainda mais vestida com uma túnica branca, amarrada na cintura por uma faixa verde-escura. Parecia etérea, virginal, fora do alcance, pensou Julian, olhando para ela, enquanto Cranford o ajudava a tirar a camisa. — Gostaria de se aprontar para o almoço agora, milorde? — perguntou o mordomo, solícito, abrindo uma gaveta da cômoda à procura de uma muda de roupa limpa. — Ainda não, Cranford. O almoço será servido daqui a uma hora, no mínimo. Está dispensado por enquanto, eu o mandarei chamar daqui a pouco. Cranford fez uma mesura e se retirou, fechando a porta silenciosamente. Com os sentidos aguçados, Julian atravessou o aposento até onde Laura estava parada, junto à janela. Por alguns instantes, ela não se moveu nem falou. Até que, ainda com o olhar fixo na paisagem branca, ela disse baixinho, quase como se falasse para si mesma: — Eu me lembro de quando nevava na Virgínia. A primeira nevasca do ano era sempre a mais bonita. Era tão clara, e limpa, e eu adorava correr lá para fora e tentar pegar os flocos com a ponta da língua. A sensação da neve caindo no meu rosto era tão boa... e quando os campos estavam todos cobertos, parecia que eu estava em outro país. Ficava tudo tão diferente, tão lindo... e eu fingia que estava bem longe dali, num lugar muito distante. E agora... Quando Laura se calou, Julian completou a frase para ela: — E agora você daria tudo para estar lá. Laura virou-se e olhou para ele. — Sim. Oh, sim! Mas já faz tanto tempo, nada mais deve estar como antes. Não sei, na verdade, se algum dia conseguirei me sentir em casa novamente. Julian ficou em silêncio por um momento. Ele poderia dizer que ela tinha razão, que nunca mais as coisas voltariam a ser como quando ela era criança. Não era preciso conhecer a fundo os motivos que a haviam levado a atravessar o Atlântico, da América para a Europa, para saber que era impossível alguém retornar ao lar depois de uma longa ausência e encontrar tudo como era antes. — Sei como se sente—ele murmurou, por fim. — Também faz muito tempo que saí do único lugar que eu amo acima de qualquer outro, e quando voltei, cinco anos depois, já não era mais a mesma coisa. Tudo havia mudado. Muitos rostos familiares já não estavam mais lá, e eu me senti... um estranho em minha própria casa. — Mas alguma vez voltou a se sentir em casa?


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— Sim, mas depois de muito tempo. E nunca mais voltará a ser como quando eu era garoto. Eu já tinha visto tanta coisa, passado por tantas experiências... Além disso, quando voltei, eu já tinha herdado o título, bem como a propriedade. Eu tinha passado cinco anos na guerra, a bordo do Prometheus, de Sua Majestade. Tudo o que eu conseguia pensar enquanto estava fora era em Shadowhurst. Eu sonhava todas as noites com minha casa, pensava nela durante o dia, quando deveria estar concentrado em outras coisas. E quando eu finalmente voltei, estava tudo diferente do que eu me lembrava. Fiquei aborrecido e desapontado. — Julian suspirou. — Mas no fim, acabei percebendo que não era Shadowhurst que tinha mudado. Era eu. — Shadowhurst — Laura repetiu o nome. — Deve ser um lugar lindo. — E, para quem gosta de ovelhas e campos e chalés, em vez das ruas movimentadas da cidade. — Eu acho — disse Laura, depois de um momento — que se nunca mais eu voltar a ver uma rua da cidade, não vou ficar nem um pouco triste. Julian sorriu. — Temos muita coisa em comum. Eu tenho exatamente a mesma sensação. O olhar de Julian se deteve na pele alva do colo de Laura, visível acima do decote da túnica, e ele não resistiu a tocá-la, passando a ponta dos dedos sobre a frágil saliência dos ossos, até a cavidade na base do pescoço delicado. —Você devia usar o colar de pérolas hoje à noite, no jantar — murmurou ele, imaginando como ficaria lindo o contraste da jóia, com o pingente da rosa de marfim, sobre aquela pele maravilhosa. O coração de Laura deu um pulo dentro do peito. — Eu... Eu... não... — Ela balançou a cabeça, desamparada, sentindo o sangue lhe fugir do rosto. — Se você quiser, é claro — apressou-se Julian a acrescentar, percebendo o constrangimento de Laura. — Se você preferir usar outro, mais do seu gosto, não há problema nenhum. — Oh, não, Julian! É um colar lindo, maravilhoso! É que... eu... eu não o trouxe comigo. Os olhos de Julian se apertaram ligeiramente, e ele franziu a testa. — Não? Por quê? Laura hesitou por um momento, depois respirou fundo, antes de responder: — Ele não está mais comigo. Julian arqueou as sobrancelhas. — Você o perdeu? Laura balançou a cabeça e desviou o olhar para a janela.


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— Não. Eu o vendi. — Vendeu?! — O choque inicial na voz de Julian foi substituído pela irritação. — Mas por que você vendeu o colar? O dinheiro que lhe dou não é suficiente? Laura olhou de volta para ele. — Foi um presente, não foi? Portanto o colar era meu, e eu podia fazer com ele o que quisesse. — Sim, mas... — Não me sinto confortável com você pagando tudo para mim, Julian. Há certas coisas que não fico à vontade para lhe pedir. Por isso vendi o colar, para... para pagar uma dívida. — Você devia ter me dito que precisava de mais dinheiro. Desconcertado, Julian ficou olhando para Laura, lamentando a perda do colar mais por ela mesma do que por si próprio. A jóia não tinha grande significado para ele, mas tinha ficado tão linda no pescoço de Laura... Ele a observou demoradamente. Laura poderia ter mentido para ele, mas não o fizera. Em vez disso, dissera a verdade, confessara que havia vendido o colar, quando teria sido mais fácil dizer que o perdera. Bem, pelo menos, a honestidade dela era admirável. — Avise-me quando precisar da alguma coisa — disse ele, brusco. — Não precisa me dizer para quê, se não quiser, mas não quero que fique vendendo presentes para pagar suas contas. Quando Laura permaneceu em silêncio, um pensamento inquietante passou pela cabeça de Julian. Será que ela tinha um amante escondido? Algum homem a quem ela sustentava? Por um instante, a dúvida o atormentou. Por mais que não achasse que Laura fosse desse tipo de mulher, o que ele sabia sobre ela, na realidade, além do que Malcolm lhe contara? Muito pouco. A cautela o advertia para não confiar cegamente nela, lembrava-o de que eleja fora enganado antes, mas o instinto contradizia qualquer suspeita de que ela pudesse ser desonesta. Teria sido tão mais fácil mentir a respeito do colar, e ele nunca ficaria sabendo da verdade. Não, no fundo, Julian sabia que podia confiar em Laura. Ela também confiaria nele, quando se sentisse pronta para isso. Segurando o queixo de Laura com um dedo dobrado, Julian a fitou dentro dos olhos. — Não precisa ter medo de me dizer o que você precisa, Laura, ou de me contar o que a preocupa. Estou disposto a ajudar, no que eu puder. Para surpresa de Julian, os olhos dela se encheram de lágrimas, e ela baixou a


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cabeça. — Há algumas coisas que não posso contar, ainda, mas pela primeira vez, você me deu esperança, Julian. Ele sorriu. Pelo menos, era um começo. Apoiando a mão no ombro de Laura, Julian apertou-o de leve e deslizou os dedos sobre o tecido macio da túnica, desejando sentir um contato direto com a pele, ainda mais macia. Precisou fazer um esforço para se controlar, pois era um tormento estar tão perto daquela mulher sem ceder à tentação de sentir o corpo dela debaixo do seu, provar a doçura daqueles lábios. Durante um longo tempo, os dois ficaram ali parados, se olhando em silêncio. Julian sentiu um calor estranho invadi-lo, em contraste com a neve gelada que recomeçava a cair do lado de fora, batendo suavemente na vidraça da janela. A atmosfera que os envolvia era de paz, uma paz intensa e aconchegante, apesar das emoções tumultuadas que acometiam a ambos. A sensação de paz, no entanto, desapareceu ante a pergunta que Laura fez a seguir: — Fale-me de sua esposa. — Não há muito o que dizer. Ela está em Viena. Ou melhor, já deve estar na Itália, a esta altura. Julian afastou a mão do ombro de Laura. — Que pena que o casamento de vocês esteja estremecido... — Não é pena nenhuma. É um alívio, isso sim. Julian se sentiu contrafeito com a idéia de que Eleanor pudesse, de alguma forma, interferir em seu relacionamento com Laura. Afinal de contas, o casamento deles nunca fora uma união verdadeira, embora, para todos os efeitos, fosse. Para Julian, não passava de uma farsa, com a qual ele concordara por interesse próprio, para evitar ser induzido a qualquer outro casamento arranjado. — Um alívio? — estranhou Laura, franzindo a testa. — Como assim, um alívio? Casamento é para a vida toda, Julian. Você tem de tentar se reconciliar com sua mulher, solucionar os problemas. Julian olhou para a janela, por sobre o ombro de Laura, incapaz de olhar para ela e pensar em Eleanor ao mesmo tempo. Ele deveria contar a verdade a Laura, dizer que encontrara Eleanor com as saias levantadas e a cabeça de outro homem entre suas pernas, apenas uma hora depois do casamento. Mas Julian tinha vergonha de contar. Era humilhante demais. Até mesmo a lembrança do choque e da indignação que sentira tinha o poder de arrasá-lo. Ele deveria ter concordado logo no início em casar-se com a graciosa filha de lorde Drumley, como era do gosto de seu pai. Se tivesse se casado com ela,


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certamente teria dado ao pai o neto que ele tanto queria, e, mesmo que fosse um casamento sem amor, teria havido mais respeito, de ambas as partes. Mas acabara cedendo à insistência do pai tardiamente, vendo-o já adoentado, e o resultado fora desastroso, custando-lhe a reputação, o futuro, a felicidade e o herdeiro que ele nunca tivera. Julian e Eleanor nunca haviam dormido juntos; o casamento nunca fora consumado, embora ninguém soubesse desse detalhe, com exceção deles dois. Ela fizera de tudo para levá-lo para a cama, mas depois de encontrá-la com as saias para cima, num vão sob a escada, Julian não pretendia ter um filho com ela, pois nunca teria certeza absoluta de que a criança era sua. — Infelizmente, reconciliar-me com Eleanor é algo que está fora de questão. Pelo menos, para mim. Eu tenho meus motivos. Julian não se sentia preparado para dar maiores explicações. Não via razão para desabafar com Laura e expor sua própria vulnerabilidade, falando dos pecados de Eleanor. Não levaria a nada. Laura olhava para ele em silêncio, ainda fazendo-o se lembrar de um anjo, sua silhueta esguia vestida na túnica branca, desenhada contra a claridade igualmente branca da janela. Aquela visão mística, porém, esvaneceu quando Cranford bateu na porta e entrou em seguida. — Já tocaram o primeiro sino, chamando para o almoço, milorde — avisou o mordomo. — Milorde pretende descer para almoçar? — Sim — respondeu Julian, sem desviar o olhar da figura de Laura. — Vamos descer para almoçar.

Capítulo V

O almoço foi uma tortura. Laura sentia-se constrangida, sentada ao lado de Julian, à mesa, desconfortavelmente consciente daquela proximidade. Estava arrependida de ter perguntado sobre a esposa dele; Julian ficara visivelmente contrariado, mas na hora, a pergunta havia lhe escapado espontaneamente, e quando ela se dera conta da indiscrição, era tarde demais. Assim que a refeição terminou, Laura alegou uma dor de cabeça, o que não era mentira, e subiu para o quarto, acompanhada de Célia. As duas precisavam arquitetar um plano para deter Aubert Fortier, plano esse que, inevitavelmente, teria de incluir Rex Pentley.


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— Tem certeza de que ele não vai se importar? — indagou Laura, ansiosa. — Rex? Imagine! Ele vai adorar. — Célia sorriu. — É o tipo de coisa que ele gosta de fazer, e faz bem. Rex já tem um pé atrás com esses narizes empinados da aristocracia, e esse tal de Fortier não parece ser flor que se cheire. Ah, não, Rex vai se divertir imensamente. E é claro que você também poderia contar a Lockwood. Acho que ele também ficaria bem contente em despachar Fortier. — Eu não posso contar. É... vergonhoso demais. — Que Fortier esteja tentando extorquir você? Ora, por quê? Não... Ah, já sei. Você está se referindo à sua mãe, é isso? Laura baixou o olhar e sentiu o rosto arder. Era verdade. Ela se envergonhava da mãe, do modo como esta se comportava em relação aos homens. — Está tudo bem, minha querida — Célia confortou a amiga. Não se preocupe mais com esse assunto, e confie em Rex. Ele saberá como lidar com Fortier. Calada, Laura observou as sombras que se formavam nos cantos do quarto, à medida que a tarde avançava. Os lampiões estavam acesos, e o fogo crepitava na lareira, aquecendo o aposento. — Obrigada, Célia — ela agradeceu, após alguns minutos de silêncio. — Não vejo a hora que tudo isso acabe e eu possa voltar para minha casa. — Está se referindo à América? Quer dizer que já decidiu sobre Lockwood? — Como assim? O que quer dizer? — Quero dizer, se você está preparada para abrir mão de tudo o que ele pode lhe oferecer, Laura. O que você acha, que tudo vai ser muito fácil quando você chegar na América? Espera encontrar um fazendeiro rico, casar-se e ter muitos filhos? Lá você estará sozinha, querida, por isso, pense bem antes de tomar uma decisão. Aqui, pelo menos, você tem amigos, e tem Lockwood, o melhor protetor que uma mulher poderia desejar. Célia fez uma pausa e acrescentou, depois de suspirar: — Pode dizer, honestamente, que não tem vontade de estar com ele? — insistiu, tornando-se quase irritante. — Eu seria capaz de apostar que você quer. Pelo menos, aqui na Inglaterra, há pessoas que se preocupam com você. Na América, você não poderá confiar nem contar com ninguém, além de você mesma. Mais uma vez, Célia estava certa, refletiu Laura. Lembrou-se do que Julian dissera, sobre o passado nunca mais voltar e as coisas mudarem constantemente. Durante dois anos, ela acalentara o sonho de voltar à sua terra, mas a realidade poderia ser muito diferente de seu sonho. Em algum momento, ela teria de tomar uma decisão. Sua situação não era nada fácil. Decidisse ela por ficar ou por partir, estaria se arriscando... e os riscos não eram pequenos, ela bem o sabia.


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Estava escurecendo quando Julian subiu para o quarto. Ele ganhara algumas centenas de libras no jogo de cartas, deixando Langston ainda mais mal-humorado. Langston ainda não se recuperara do susto e do vexame de quase cair do cavalo, e estava cansado de ser alvo das piadinhas dos companheiros. Bem, Langston teria de aprender do modo mais duro. Eram as adversidades que faziam o ser humano aprender e amadurecer, assim como acontecera com ele, Julian. O período em que servira na Marinha Real contribuíra imensamente para seu crescimento interior, ensinara-lhe a ter paciência e autocontrole. Depois Eleanor... fora a mais árdua de todas as lições de vida. A traição o ferira profundamente. Não que Julian a amasse, mas magoara-o o fato de a esposa se importar tão pouco com ele e com sua própria posição, a ponto de arriscar tudo só para ter um caso com um baronete. Além disso, Eleanor era uma pessoa insuportável. Houvera mais de uma ocasião em que Julian sentira ganas de matá-la. Teria sido tão fácil pôr as mãos ao redor daquele pescocinho e torcê-lo até ela parar de respirar, mas ele combatera a tentação. Parando diante da porta do quarto que dividia com Laura, Julian refletiu sobre a enorme diferença entre as duas mulheres. Enquanto Eleanor era infiel e egoísta, Laura era leal e generosa. Até mesmo Cranford já se referira a ela sem o tom de crítica e desaprovação que usava para a maioria das pessoas. Isto, por si só, era revelador. Quando Julian abriu a porta, Laura virou-se da janela para olhá-lo, e mais uma vez ele teve a impressão de estar diante de um anjo de candura. — Como foi o jogo de cartas? — ela perguntou, porém todos os sentidos de Julian estavam voltados para as sensações e emoções que aquela visão angelical lhe despertava. — Seus cabelos estão soltos — murmurou ele. Era um comentário insignificante, mas, por alguma razão, parecia relevante naquele momento. A vontade de Julian era enterrar primeiro as mãos naquela cascata de fios dourados, e depois o rosto. — Sim. Eu estava com dor de cabeça, e todos aqueles grampos pareciam agulhas me espetando. Você está bem? — Nunca estive melhor. Julian deu três passos na direção de Laura e parou. Ela o olhava como se soubesse o que ele queria, como se pudesse ouvir o coração dele batendo forte, como se percebesse o forte anseio que o premia. Seus lábios se entreabriram levemente, e a pulsação era visível na linha do pescoço delicado. Os olhos verdes se arredondaram ainda mais, e a respiração dela se tornou entrecortada. Deixando toda a cautela de lado, Julian deu mais um passo à frente e tomou Laura nos braços.


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Ela se rendeu. Um gemido abafado escapou de seus lábios quando ela ergueu o rosto e Julian a apertou contra si, inclinando a cabeça para lhe cobrir os lábios com os seus. Arrebatado pela sensação mágica da boca de Laura se abrindo sob a sua, ele lhe explorou o interior com a língua, saboreando aquela doçura irresistível. Julian percebeu a agitação de Laura, o tremor das mãos quando ela as apoiou em seus ombros e depois as deslizou pelas costas de seu casaco, abraçando-o gentilmente. Espontaneamente, os lábios de Laura se abriram mais, para receber os de Julian, e ela moveu timidamente a língua, tentando acompanhar o ritmo dele, num duelo hesitante, erótico e delicioso. O desejo cresceu dentro de Julian, e ele teve de refrear o impulso de se deitar sobre Laura, ali mesmo no chão. Pressionando-a de leve, ele a guiou até a cama, alta, ampla e confortável, que parecia pronta para recebê-los, coberta por uma manta azul-escura e com dois enormes travesseiros de penas de ganso. Não houve nenhum protesto por parte de Laura, somente aquela rendição silenciosa que Julian vira nos olhos dela. Quando se aproximou da cama, ele parou, deliciando-se com a sensação causada pela pressão do corpo de Laura, entre ele e a borda de madeira da cama. Com a respiração ofegante, Julian segurou o rosto de Laura entre as mãos e fitou-a dentro dos olhos. — Eu não vou machucar você — disse ele, com voz baixa e sonora. — Eu sei. Aquelas duas meras palavras tocaram Julian com a intensidade de um vulcão. Por um instante, ele ficou paralisado, emocionado demais na confiança que Laura demonstrava ter por ele, para sequer se mover. Era uma dádiva preciosa, algo para ser acarinhado, protegido. Fitou-a por um instante e depois, inclinando a cabeça para encostar sua testa na de Laura, deslizou as mãos pelos braços dela e enlaçou um braço ao redor da cintura estreita, empurrando-a gentilmente contra a cama e deitando-se parcialmente sobre ela. Julian teve de recorrer a todo o seu autocontrole para ir devagar, acariciando suavemente as curvas femininas, quando seu desejo era arrancar aquela túnica e as roupas de baixo, expondo a seus olhos a nudez com a qual ele sonhava havia várias noites, e a qual, ele tinha certeza, era esplendorosa. Ele roçou as mãos sobre os seios de Laura e começou a puxar a túnica para cima, até a cintura. Por baixo da túnica, ela usava um calção de cetim, que lhe cobria as coxas até acima dos joelhos, terminando com um babado de renda enfeitada por uma fita cor-de-rosa, e que lhe modelava os quadris de maneira extraordinariamente feminina e perfeita. Julian suspirou e fechou os olhos, e quando tornou a abri-los, Laura envolveu o pescoço dele com os braços e puxou-o para si, oferecendo mais uma vez os lábios.


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Julian capturou-os de bom grado, sentindo que daquele ponto em diante não haveria volta, que o tênue fio de controle que lhe restara estava escapando de suas mãos. Ele a beijou com voracidade, enterrando os dedos nos cabelos macios e esmagando-lhe a boca com os lábios sôfregos, incapaz de agir com vagar, calma e delicadeza, conforme pretendia. Laura correspondeu com a mesma intensidade, abraçando-o impetuosamente, como se o ardor do beijo contagiasse a ambos. Pressionando o corpo ainda mais sobre o de Laura, Julian se encaixou entre as pernas dela, sem parar de beijá-la. Uma onda de prazer o avassalou, mesmo com o tecido das roupas se interpondo entre sua pele e a dela, provocando um doce e exótico tormento. Erguendo o corpo, Julian começou a abrir a túnica; não havia botões, apenas pequenos colchetes embutidos na dobra do tecido. Deslizando a mão, ele logo a livrou da peça de roupa, deixando-a somente de calção e corpete. Era tentador o modo como os seios dela pareciam querer saltar do decote rendado do corpete; ela arqueou o corpo para trás e Julian viu a sombra dos mamilos aparecerem, num convite explícito e sensual para que ele os acariciasse. Dos lábios entreabertos de Laura escapavam suspiros roucos e gemidos de prazer, e sem vacilar por nem mais um segundo, Julian saiu de cima dela, pôs-se de pé, tirou as botas e em seguida a camisa, a calça e a roupa de baixo, ficando inteiramente nu na frente dela. Laura deveria sentir vergonha, ou culpa, mas tudo o que sentia era um misto de frio e calor que a fazia tremer. Por dentro, ela ardia de desejo, porém sua pele estava toda arrepiada, de temor e de alucinante expectativa, enquanto Julian se despia diante de seus olhos. O corpo dele era perfeito, alto e bem-proporcionado, o peito largo recoberto de pêlos escuros encaracolados, que se estreitavam numa linha fina até o baixo-ventre. Quando ele se inclinou novamente sobre ela, Laura reparou, fascinada, na sombra escura da barba, já visível no maxilar. Como crescia rápido, pois ainda naquela manhã ela o vira barbear-se... Com o coração disparado, Laura acariciou o rosto, os ombros e o peito de Julian, antes de deslizar a ponta dos dedos pelas costas dele, maravilhada com o movimento sinuoso dos músculos fortes. Instintivamente, as mãos dela circundaram a cintura de Julian, das costas para a frente, até alcançarem o membro rígido. Laura o envolveu entre os dedos, vacilante, e em seguida afastou as mãos, incerta. Julian, porém, sorriu e segurou a mão dela, guiando-a outra vez até o centro de sua virilidade. Laura fechou os olhos, deliciando-se com as sensações que a invadiam, suspirando de prazer incontido e ansiedade para entregar-se àquele homem. Ele levantou o rosto e a fitou intensamente, e naquele instante, Laura soube que o amava, e que tudo o que queria era ficar ao lado dele, para sempre. Não queria que aquele momento acabasse, não queria ir embora para a Virgínia, só queria demonstrar sua infinita paixão a Julian Norcliff, o sexto conde de


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Lockwood, o homem mais bonito, mais charmoso e mais atraente que existia na face da Terra. Laura gemeu alto quando ele afastou uma alça de seu corpete, expondo um seio e tomando o mamilo na boca, enquanto acariciava o seio com a mão. Em seguida, ele voltou a beijá-la na boca, e Laura sentiu a pressão do membro latejante forçando lentamente a entrada, começando a invadir seu corpo. A intensidade do prazer diminuiu consideravelmente quando Laura de repente sentiu alguma coisa se romper dentro de si, causando uma dor cortante. Aquilo era inesperado, e bem diferente do que ela imaginara. Por outro lado, ver a reação de Julian e senti-lo contorcer-se de prazer em cima dela lhe proporcionava uma alegria indescritível; fazia-a sentir-se feminina, desejada... completa. Tanto que ela foi incapaz de conter as lágrimas que lhe assomaram aos olhos; lágrimas resultantes de uma estranha e curiosa combinação de dor e emoção, e mesmo naquele momento, com sua pouca, ou nenhuma, experiência, Laura sabia que a dor logo cairia no esquecimento, mas que a emoção que sentia ficaria em seu coração para sempre, independentemente do que o futuro tivesse reservado para ela. Julian e Laura permaneceram abraçados por um longo tempo, completamente imóveis, mergulhados no silêncio rompido apenas pelo tique-taque do relógio sobre a lareira e pela neve batendo na vidraça da janela, enquanto a noite caía por completo. Julian rolou para o lado na cama, percebendo que Laura adormecera. Contemplou por alguns instantes o rosto angelical, iluminado apenas pela claridade difusa das chamas que ardiam na lareira. Sabia que o ato de amor fora em parte desconfortável para ela, sentira-a se contrair e se retesar de dor debaixo dele, e não tinha certeza se ela atingira o clímax. Sabia que ela ficara bastante excitada no início, e num dado momento tivera a impressão de que ela se contorcia, no auge do prazer, mas isso fora antes de ele penetrá-la. No entanto, em nenhum momento Laura se queixara nem lhe pedira para parar. Com ou sem dor, entregara-se incondicionalmente a ele e lhe proporcionara os melhores e mais prazerosos momentos que ele já experimentara nos braços de uma mulher. Agora, vendo-a dormir a seu lado, ele sentia uma ternura imensa, uma necessidade de proteger Laura, de não deixar que nada de ruim lhe acontecesse e de realizar todos os seus sonhos e desejos. Nunca se sentira assim com relação a mulher nenhuma, antes. Julian sabia que estava numa enrascada. Não conseguiria deixar Laura partir. Em sua mente, via-se desejando torná-la sua mulher, mesmo sabendo que isto seria complicado. O fato de ele ser casado não era empecilho, uma vez que poderia se divorciar. As uniões entre pessoas de classes sociais muito diferentes não eram vistas com bons olhos pela sociedade, porém isso também não o incomodava. Sua


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preocupação era com relação à sua posição no Parlamento; embora houvesse precedentes de aristocratas e políticos que se casaram com mulheres de classe inferior, era um trunfo de que seus oponentes poderiam lançar mão para prejudicálo, ele sabia disso muito bem. A união com Laura poderia arruiná-lo, bem como a tudo o que ele estava tentando construir no Parlamento. Nos últimos anos, ele se engajara em causa atrás de causa, tudo para esquecer a traição da esposa infiel; e agora se dispunha a jogar tudo para o alto, por causa de uma mulher. Não por uma mulher qualquer... por Laura. Por Laura, Julian se sentia pronto para enfrentar tudo e todos, e não sabia dizer ao certo se isto era um sinal de maturidade ou o contrário. Naquele momento, não conseguia raciocinar com clareza, não tinha certeza de nada, a não ser de que estava se apaixonando por Laura Lancaster. — Quem, diabos, é você? — Aubert Fortier olhou, entre zangado e apreensivo, para o homem que o acuava no beco, ao lado do teatro. — Digamos que sou mesmo o diabo em pessoa — respondeu Rex Pentley, dando outro passo à frente, enquanto os capangas que ele contratara formavam um semicírculo no redor de Fortier. — E que você vai conhecer o inferno mais cedo do que imagina, se não parar de incomodar a dama. Fui claro? — Dama? Por acaso está se referindo àquela filha de uma vadia? — Fortier riu, produzindo um som desagradável. — Suas ameaças são inúteis. Não sou o único que sabe quem Laura realmente é. — Mas será o único culpado se ela sofrer qualquer inconveniência, está me entendendo? Ela é minha amiga, e não gosto que ninguém faça mal aos meus amigos. Rex recuou e fez um sinal com a cabeça. No segundo seguinte, os quatro homens que o acompanhavam avançaram na direção de Fortier, que tentou inutilmente se defender, com socos e pontapés; foi logo rendido pelos quatro brutamontes, e Rex sentiu imensa satisfação em assistir à cena, embora tivesse prometido a Laura que não encostaria a mão em Fortier. Não prometera, contudo, que não contrataria homens treinados para bater, e percebera o mesmo sentimento no olhar cúmplice de Célia, que se limitara a sorrir, em tácito consentimento. Quando Fortier já estava sangrando e caído no chão, quase inconsciente, Rex se aproximou, agachou-se perto dele e falou, com toda a calma: — Isto foi só uma pequena amostra do que pode ser o inferno, para quem se mete a engraçadinho com os meus amigos, entendeu? Portanto, tome cuidado e ouça a minha advertência. Se eu vier atrás de você novamente, não queira saber o que o espera. Você vai preferir a morte, acredite. A única resposta de Fortier foi um gemido profundo. Rex acenou com a


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cabeça, passou por cima do vulto amontoado no chão e saiu do beco. Os outros quatro homens o seguiram, desaparecendo na neblina, depois de terem sido generosamente remunerados pela prestação do serviço. Rex esperava ter resolvido o problema. Se não... Bem, ele avisara o maldito francês. Não tinha escrúpulos em fazer o que fosse necessário para proteger as pessoas de quem gostava, e ele gostava muito de Laura. Achava-a linda e fascinante, e embora soubesse que ela estava fora do seu alcance, não hesitaria em dar uma lição merecida a qualquer um que a fizesse sofrer... fosse o filho de um nobre francês, fosse um conde inglês. — Quem é? — Eleanor ergueu o rosto, com uma ruga na testa. — Não pode ser Malcolm, ele acabou de sair... — Eu não sei, milady. É um cavalheiro muito elegante. — Ah, sei. Elegante — resmungou Eleanor, irritada. — Ele não lhe disse o nome? — N-Não, m-milady — a criada recuou, assustada com a raiva nos olhos e na voz de sua patroa. — Pare de gaguejar, sua tonta, e faça o sujeito entrar. Se for um vendedor, eu vou puxar suas duas orelhas, ouviu bem, sua estúpida? A menina se apressou a ir abrir a porta para o visitante, e Eleanor franziu ainda mais a testa ao deparar com o homem bem-apessoado que se aproximou para cumprimentá-la, com arranhões e hematomas no rosto aristocrático e um olho inchado. — Madame — murmurou ele, com sotaque francês, enquanto se curvava sobre a mão que ela lhe estendia. — Vejo que não exageraram quando me falaram sobre sua beleza. Eleanor sorriu de leve, observando atentamente o rapaz. Era um jovem refinado, impecavelmente vestido, embora parecesse ter acabado de sair de uma luta de boxe. — Senhor, posso saber o que o traz aqui? — Eleanor retirou a mão e viu os olhos do homem percorrerem-na audaciosamente de cima a baixo, antes de voltarem a se deter em seu rosto. — Um assunto do seu interesse, creio eu. — Como pode ser, senhor? Eu nem mesmo sei o seu nome. Ele se curvou numa mesura. — Aubert Fortier, comte du Soulange. Um conde francês! Eleanor prendeu a respiração.


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— O senhor... foi exilado da França? — Somente pela distância, madame. — Fortier sorriu. — Meu título se manteve graças à diligência de meu pai. — Que extraordinário! — ela comentou, indicando a poltrona defronte da lareira. — Sente-se. Pedirei chá para nós, enquanto me conta o motivo de sua vinda. — O motivo é Lockwood — começou ele, sem preâmbulos, e sorriu ao ver Eleanor hesitar com a mão sobre a sineta. — Eu sabia que ficaria surpresa, madame. Ao contrário do que imagina, temos muito em comum. Fiquei sabendo que a senhora e seu marido estão... estremecidos, por assim dizer, e que ele arranjou uma amante. Que, por coincidência, é uma antiga amiga minha. Então eu pensei, quem sabe, possamos nos aliar... — O senhor presume coisas demais, não? — respondeu Eleanor, com frieza, embora uma chama de esperança se acendesse em seu íntimo. Finalmente, teria um aliado em sua luta para recuperar o que era seu por direito. A pensão que Julian estipulara para ela mal dava para pagar uma empregada medíocre, e sua própria renda era insignificante. Se aquele francês tinha algum plano para triunfar sobre Julian, ela estava mais que ansiosa para saber qual era. Eleanor arqueou uma sobrancelha, e ele meneou a cabeça afirmativamente. Oh, sim, ele a compreendia. E, melhor ainda, ela o compreendia. Ali estava um homem que não hesitaria em fazer o que fosse preciso para atingir seus objetivos. Já estava na hora de ela conhecer um homem corajoso e determinado. A maioria deles não valia nada, só pensavam no prazer do momento, não na prolongada doçura do gosto da vingança. Eleanor inclinou-se para a frente, de modo que Fortier pudesse ver o início da curva de seus seios, sobre o decote redondo do vestido, e disse baixinho: AMADA AMANTE

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— Mas, sabe, estou sempre aberta para ouvir idéias inteligentes. — Como eu esperava... Uma mulher com a inteligência à altura de sua beleza. Ah, sim, sem dúvida, aquela aliança era muito, muito promissora... O frio de fevereiro deu lugar às chuvas de março, e Laura refletiu que nunca se sentira tão feliz. Nem mesmo os rumores que inevitavelmente se seguiam às suas aparições em público ao lado de Julian abalavam sua felicidade. Célia estava certa, ela se sentia delirantemente feliz com ele. Julian chegava no sobradinho exausto, todas as noites, depois de passar o dia nas sessões do Parlamento, tentando resolver problemas como alta no preço dos alimentos, taxas de importação e exportação, impostos, direitos dos agricultores e


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criadores de gado, além de questões políticas. Laura o confortava como podia, e muitas vezes Julian pedia a opinião dela sobre alguns assuntos, sendo ela uma mulher politizada e sensata. Até que chegou a noite que Laura temia. — O que foi, Julian? — perguntou, quando Julian entrou, com expressão abatida. Ele se estirou no sofá, antes de responder: — Eleanor está de volta a Londres. Laura levou a mão ao rosto e arregalou os olhos. — Também foi surpresa para mim — confessou ele. — Você a viu? — Não. — Julian balançou a cabeça. — Um conhecido meu a viu, no centro da cidade, e me contou. O que me surpreende é ela não ter me procurado ainda, fazendo algum pedido ou exigência. Em silêncio, Laura entregou a Julian um cálice de conhaque, e ele apertou a haste com força, entre os dedos, antes de tomar um gole. — Quer que Becky sirva o jantar agora? — perguntou Laura. — Pode ser... Não estou com muita fome, mas vou comer alguma coisa. — Ele suspirou. — Não fossem esses problemas em ebulição no Parlamento, poderíamos ir passar alguns dias em Shadowhurst. Gostaria de conhecer minha propriedade de campo, Laura? — Oh, sim. — Ela sorriu. — Gostaria muito. Você fala tanto de Shadowhurst que até consigo visualizar a casa, a paisagem... A tensão enrugou a testa de Julian, e ele estendeu a mão para Laura, num convite silencioso para que fosse se sentar a seu lado no sofá. Ela atendeu ao chamado imediatamente, aconchegando-se nos braços dele. — Você morou na França — disse Julian, após um momento de silêncio, — O que acha que o povo de lá faria, se Napoleão não estivesse exilado na ilha de Elba? Laura pensou um pouco, antes de responder: — Bem, eu morei na França há mais de dois anos, quando Napoleão ainda estava firme no poder. O governo dele beneficiou muita gente, e é claro que os franceses o vêem com outros olhos, diferentemente dos ingleses... — E se Napoleão voltar? Se sair do exílio e voltar a ser imperador? Laura se afastou um pouco para olhar para Julian. — Ele voltou?


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— Sim. Correm rumores de que ele saiu de Elba há cerca de uma semana, e que está a caminho de Paris. Vários regimentos militares já aderiram às suas tropas. — Oh, não! — ela exclamou. — Guerra de novo? — É inevitável — Julian balançou a cabeça, pesaroso. — O rei Luís XVIII pode deixar a desejar como monarca, mas ele não é ambicioso como Napoleão. Luís se contenta apenas em se sentar no trono, não está interessado em conquistar o mundo. — Luís é um gordo indolente — atalhou Laura, encolhendo os ombros.—Essa é a verdade, mas não acho que a França esteja pronta para um novo conflito armado. — Eu também não achava. Aparentemente, nos enganamos. A alegria que Laura sentia pouco antes se evaporou como se nunca tivesse existido. A paz era algo tão frágil... Um pensamento inquietante afligiu Laura naquele instante, e ela segurou o braço de Julian. — Você... terá de lutar? — perguntou, apreensiva. Julian fitou-a com expressão sorridente, apesar do cansaço. — Não. — Ele balançou a cabeça. — Não que eu não quisesse... Seria gratificante pôr as mãos em Bonaparte. Mas Wellington dará um jeito nele, em breve. Venha cá. Julian puxou Laura para si e a abraçou. Beijou-lhe a testa, os olhos, o rosto, os lábios. Becky avisou que o jantar estava servido, e eles comeram depressa, ansiosos para subir ao quarto e dar continuidade ao que haviam começado. Durante algum tempo, Laura esqueceu-se das leis, de Eleanor e de Napoleão Bonaparte, enquanto se entregava aos beijos e às carícias de Julian, mergulhando na magia que ele criava cada vez que a tocava. Abraçados, os dois alcançaram juntos o clímax, saboreando a serenidade e a paz do momento. Aquela era a maior de todas as consolações, era reconfortante, absolutamente tranqüilizante, para o corpo, a mente, a alma e o coração. Julian nunca dissera que a amava, nunca pronunciara as palavras, mas seus atos provavam isso, todos os dias, e isso era tudo de que Laura precisava. Até então, fora suficiente. Mas agora, olhando para o teto iluminado pela lareira acesa, ouvindo Julian ressonar baixinho a seu lado, Laura pensou na volta da mulher dele a Londres. O que será que ela queria? Reaver o marido? Será que a esposa de Julian sabia de sua existência? Sabia que o marido dormia quase todas as noites naquele pequeno sobrado, em vez de ir para sua elegante residência em Mayfair? E se soubesse, o que ela faria? O relacionamento com Julian tinha evoluído depressa, desde a estada na casa de campo de Belgrave. Laura tinha se apaixonado perdidamente por ele. Já não pensava mais em voltar para a América, as lembranças do passado já não eram dolorosas. Ela tinha pensado até em escrever uma carta para a mãe, dizendo que


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sentia saudade e querendo saber notícias. Mas isto era algo que Laura não podia fazer, de jeito nenhum. Mesmo com Rex tendo ameaçado Aubert e garantido que ele não voltaria a importuná-la, ela não podia correr o risco de entrar em contato com sua mãe, ainda mais à luz dos recentes acontecimentos. A situação política entre Inglaterra e França estava muito delicada, e qualquer insinuação de envolvimento com os franceses poderia representar a ruína de Julian. Não, era melhor esperar um pouco para entrar em contato com a mãe. As coisas se resolveriam naturalmente, pelo menos, ela assim esperava. No entanto, contemplando as sombras alaranjadas no teto e na parede, Laura sentiu um súbito e terrível pavor. Sua garganta se apertou, e ela agarrou com força a borda da coberta, enterrando o rosto no travesseiro. Não, nada de mau podia acontecer! Mas ela sabia que o destino podia ser traiçoeiro quando tudo estava correndo às mil maravilhas. Ela só rezava para que, o que quer que acontecesse, ela pudesse ficar com Julian. Julian espiou tristemente pela janela. Uma multidão causava tumulto nas imediações do Parlamento, gritando ameaças, exigindo mudanças nas leis agrícolas. Ele havia prevenido os outros parlamentares de que o povo se achava à beira de uma rebelião, mas poucos lhe deram ouvidos. Agora, tropas armadas tinham sido chamadas a fim de controlar os protestos. Enquanto isso, Bonaparte reunia exércitos para invadir parte da Europa. O rei fugira de Paris. O desastre total se anunciava. Ponderando as opções, Julian decidira levar Laura para Shadowhurst, onde ela ficaria mais segura. A repressão aos manifestantes cresceu, mas Julian nada podia fazer. A Inglaterra estava no limiar de grandes mudanças. Ele sentia isso, e no entanto o futuro lhe parecia brilhante. Se uma transformação era inevitável, Julian queria ser parte dela, mudar sua vida também. E começaria por Eleanor. Eleanor se arrumava diante da penteadeira quando foi interrompida pela criada. — O que foi? — perguntou, irritada como sempre. — Tem uma visita, milady. Ele... ele diz que é seu marido. Eleanor deixou cair a escova de cabelos. Julian?! Ela estava despreparada para uma visita de surpresa e teve de armar uma estratégia de emergência a fim de recebê-lo. — Ele está na sala? — Não, milady, está esperando no vestíbulo. — Venha aqui, sua tonta!


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A jovem se aproximou e Eleanor lhe deu uma sonora palmada no braço. — Trate de aprender a receber uma visita, menina estúpida! A garota deu meia-volta e saiu correndo, e Eleanor voltou a olhar para o espelho. Finalmente, Julian a procurava! Se ao menos Aubert estivesse ali, com ela... Não, não, pensando bem, era melhor que não estivesse. Ainda havia uma chance, pensou, de se entenderem e voltarem a viver juntos. Olhou-se ao espelho e viu uma mulher bonita e elegante, que poucos homens rejeitariam. Os cabelos louros emolduravam feições delicadas, o vestido florido correspondia à última moda. Mai s um pouco de pó facial, e ficaria pronta, magnífica. Ajustou com os dedos o vestido ao corpo e desceu os degraus. À primeira vista, Julian lhe pareceu espetacular, alto e lindo, sob a luz dourada dos lampiões. Mas a expressão com que ele a fitava era dura, severa. — Muito bem, até que enfim... — ela começou, irônica. — Conte-me, como está sua mais recente amante? Ouvi dizer que o cabelo dela puxa para o ruivo, e que ela é atriz... e americana! Realmente, Julian, seu pai deve estar se revirando no túmulo. Que vergonha! — Tem mais prática do que eu, Eleanor, em matéria de vergonha. Ou melhor, na falta dela. — Um sorriso arisco curvou os lábios de Julian, que estava achando Eleanor ridícula. — O que está fazendo aqui? Eu não a proibi expressamente de voltar a Londres? Está querendo que eu corte a sua pensão? Eleanor limitou-se a sorrir. — Como soube que eu tinha voltado? Malcolm havia prometido não contar. Eleanor confiava no secretário, não acreditava que ele a traísse, mas é claro que nunca se sabia o que um homem era capaz de fazer quando acuado... — Não importa. Eu ficaria sabendo, de qualquer jeito. Os rumores a seu respeito se espalham depressa, e para longe. Estou sabendo do rapaz italiano que se enforcou... pobre coitado! Foi por isso que você veio embora? O rosto de Eleanor ficou vermelho. — É lógico que não! — ela exclamou. — Que absurdo. Não tive nada a ver com isso. As pessoas é que são maldosas. Ninguém escapa das fofocas, nem você. Primeiro, de caso com o secretário, agora com essa atriz americana... O que falta falarem de você, Julian? — Não estou preocupado — retrucou ele, ríspido. — E vamos deixar Laura fora desta conversa. — Vamos? — Eleanor estreitou os olhos, sem deixar de exibir seu sorriso artificial. — Por quê? Por que faríamos isso, Julian? Você levou em consideração o histórico de vida dela? Acha que a sociedade vai aceitar uma mulher que você


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conheceu no infame bordel de madame Devereaux? Foi um golpe certeiro. Eleanor percebeu que havia alfinetado diretamente no âmago da questão. A boca de Julian se estreitou numa linha fina, e os olhos dele pareciam soltar chispas. Ele ficou visivelmente furioso, e o sorriso de Eleanor ficou parecendo o de um felino. — E, as pessoas vão falar, pode esperar, meu querido — ela acrescentou. — Haverá até quem desconfie que ela é uma espiã. — Eleanor, suas insinuações são totalmente infundadas. Malcolm investigou e não encontrou nada de errado na vida de Laura. Ela estava na França quando a guerra começou e, ainda que estivesse aqui, ela nunca teve acesso a informações do governo. — Ah, não, claro que não. Sim, Malcolm era esperto. Não contara o que sabia. Ah, que maravilha! Agora ela e Aubert só precisariam pôr em ação o último plano, e Julian estaria arruinado para sempre. Era uma pena, porque ele teria sido um marido e tanto. Um grande político. Ela arrumaria Julian, e não restaria nada para ele, nada nem ninguém, além do dinheiro que ele tinha e da propriedade de campo. Ele teria que ir se refugiar lá, e lá ficar para sempre; e ela permaneceria em Londres, uma figura que despertava a simpatia de todos, que nunca suspeitara da perfídia do marido. Afinal, ela passara tanto tempo fora do país! Como poderia saber de alguma coisa? Se era para ela ser privada de seus direitos de esposa estimada e respeitada, ela ocuparia seu lugar na sociedade como uma mulher que desprezara o marido sem caráter. — Eu procurei um advogado, Eleanor — anunciou Julian, fazendo o sonho de vingança dela evaporar. — Estou pensando em pedir a anulação do casamento. — Não seja ridículo! — ela protestou. — Estamos casados há muito tempo, para pedir anulação. Você não vai conseguir, sem uma boa justificativa. — Creio que a não-consumação do casamento seja justificativa suficiente. — Não seja ingênuo. Vou jurar até a morte que você me levou para a cama seis vezes logo no primeiro dia, que não há um único tampo de mesa em sua casa em cima do qual não tenhamos copulado. Acha que algum juiz vai acreditar que você não honrou seus votos matrimoniais? — Talvez... se eu tiver um depoimento por escrito de um certo baronete que fornicou com você embaixo da escada antes de a recepção do casamento terminar. — Julian sorriu diante da expressão de espanto de Eleanor. — E se ele não acreditar, de qualquer modo eu vou me divorciar de você, portanto, não faz muita diferença. Estou disposto a lhe pagar uma pensão, seja o que for, para que você suma da minha frente e vá para a casa de seu pai, no interior, e fique por lá.


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— Nunca! Eu não vou sair daqui, e nunca vou lhe conceder o divórcio! Meu lugar é aqui! E você não se livrará de mim assim tão facilmente, Julian! Vou lutar até o fim, vou barrar todos os seus passos! O pânico tomou conta de Eleanor, causando uma sensação de sufocamento. Se Julian se divorciasse dela, se conseguisse com que aquele baronete, de cujo nome e de cujo rosto ela nem se lembrava, depusesse contra ela, ela seria menosprezada por toda a sociedade, e ninguém mais se importaria com ela. Oh, não, ela planejara tudo tão cuidadosamente, ela e Aubert! Planejaram conquistar a simpatia de todos por uma esposa injustiçada, uma dama a quem o marido dera um jeito de afastar para poder se divertir com uma atriz, uma mulher baixa e sem berço. Uma esposa enganada... um marido mau caráter. Era perfeito! Obviamente, Malcolm teria de ser silenciado. O coitado acabara se apaixonando por Eleanor, mas logo ele não teria mais serventia. Ela lhe ofereceria uma generosa quantia em dinheiro, mas se isso não fosse suficiente... Bem, não queria pensar nisso, no momento. Estavam tão perto, agora, ela e Aubert, tão próximos de conseguir o que queriam... Teriam de se apressar, antes que Julian desse entrada com uma ação de divórcio litigioso, senão tudo estaria perdido. — Em breve você receberá os documentos de meu advogado — prosseguiu Julian, sem se abalar. — Eu sugiro que você tenha o bom senso de assinar tudo, sem espernear. Se você se recusar a me dar o divórcio, eu vou deixar você sem um centavo. Se você não criar obstáculos, eu serei generoso. A escolha é sua. Uma situação desastrosa se assomava diante de Eleanor. Ela precisava pensar, precisava ganhar tempo... Eleanor baixou os olhos por um momento e depois ergueu o rosto para fitar Julian, com uma dignidade e uma compostura que estava longe de sentir. — Está bem — disse, finalmente. — Vou considerar sua oferta. Tem a questão do meu dote, é claro, e a propriedade que eu herdei de minha mãe. — Constitua um advogado para você, para que ele a oriente, e tudo será feito de acordo com a lei — sugeriu Julian. Ele fez uma pausa e olhou pensativo para Eleanor, antes de acrescentar: — Nós nunca tivemos um casamento de verdade. Eu teria honrado meus votos, se você não tivesse tornado isso impossível. — Eu sei — concordou Eleanor, calmamente. — Você é um homem honrado, Julian. Julian franziu a testa. Obviamente, ele não esperava que ela capitulasse tão depressa. Ótimo. Ela conseguira fazê-lo baixar a guarda. Tanto melhor, assim ela o pegaria desprevenido quando desse o golpe de misericórdia. Julian descobriria que cometera um grande erro ao achar que podia descartá-la como se ela fosse um sapato velho. Ah, sim. O declínio de Julian Norcliff, conde de Lockwood, começaria... e


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terminaria... com Laura Lancaster. — Que paisagem maravilhosa! O dia estava claro, e a temperatura agradável, no condado de Kent, o calor amenizado pela brisa fresca que soprava sobre a estrada e as infindáveis plantações. Laura sorriu, apertando entre os dedos a bolsinha sem alça que combinava com os sapatos. — Você acha, mesmo? — Julian retribuiu o sorriso, fitando-a com os olhos semicerrados. — Eu sempre adorei este lugar. É longe de Londres o suficiente para se ter sossego, e perto o suficiente para vir e voltar no mesmo dia. A propriedade de Julian ficava apenas quinze quilômetros ao sul de Maidstone, a capital do condado situado cerca de sessenta quilômetros a sudoeste de Londres. Os arredores de Shadowhurst eram exatamente como Laura imaginara, campinas floridas e pradarias verdejantes, entremeando-se com vales e colinas. Com Londres para trás, Julian aparentava estar mais relaxado. Fazia tempo que Laura não o via tão descontraído, na verdade, desde que voltaram do chalé de Belgrave. As últimas semanas haviam sido tensas demais, com todos os problemas enfrentados no Parlamento, a inquietação por causa de Bonaparte, os contratempos, tudo contribuindo para sobrecarregar Julian emocionalmente. Julian continuava compartilhando com Laura suas dúvidas e apreensões, ouvindo as opiniões dela sobre tudo, com exceção do assunto da esposa. Julian não tocara nenhuma vez no nome de Eleanor, desde que contara a Laura que ela retornara a Londres; não fizera nenhum comentário, e Laura, por sua vez, não se sentia à vontade para perguntar. Não sabia se ele fora vê-la, se falara com ela, não sabia nada. Se bem que, talvez, fosse melhor assim. A estrada sinuosa que circundava a serra de repente se transformou num retão a perder de vista, atravessando campos floridos e plantações de maçã e de cerejas. Nas encostais das colinas e nas margens da estrada, construções pitorescas se intercalavam com pastos de gado e de rebanhos, delimitados ao longe por cercas de madeira. Laura lembrou-se de sua ovelhinha. — Phoebe vai estar lá? — perguntou. — Será que poderemos vê-la? — A sua ovelha? Pelo que sei, Tommy, o neto do mordomo, a adotou completamente, inclusive tendo sugerido à mãe que a deixasse participar do convívio familiar dentro de casa. — E ela deixou? — Laura arregalou os olhos, e Julian sorriu. — Com certas restrições, ao que me consta. Ela pode dormir no quarto de Tommy à noite, mas ainda não obteve permissão para comer à mesa. Laura riu, embevecida. Tudo em Julian a encantava, inclusive o senso de humor. Era difícil não ficar olhando para ele o tempo inteiro, precisava se forçar a


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olhar para fora, porque sua vontade era não desgrudar os olhos daquele rosto másculo e bonito. Sentados de frente um para o outro, na carruagem, de vez em quando o joelho de Julian roçava no seu, enviando arrepios de prazer ao longo de seu corpo e aguçando-lhe os sentidos. Era impossível ignorar aquele homem. Em tão pouco tempo, ela se apaixonara tão perdidamente por Julian! Em três meses, apenas. Era espantoso. Dois longos anos de anseio para retornar para casa haviam evaporado, sido banidos por algo que ela nem mesmo acreditava que fosse durar, mas com que, apesar disso, ousava sonhar. Entregar-se a Julian fora a coisa mais ousada que ela já fizera na vida, fora mais ousado do que deixar a Virgínia o ir para Paris, mais ousado do que sair da casa de sua mãe e ir rumo ao desconhecido. E, verdadeiramente, Laura Tinha consciência de que era uma insanidade ter qualquer esperança de que aquele relacionamento pudesse ser duradouro. Mas, ainda assim, o coração falava mais alto do que a razão. A primeira visão que Laura teve de Shadowhurst teve como pano de fundo o pôr-do-sol, quando o céu começava a se tingir de tons alaranjados e dourados, que se refletiam nas águas prateadas do rio Medway e lançavam uma claridade difusa sobre a mansão, fazendo-a parecer uma enorme pedra preciosa incrustada no arvoredo verde-escuro. Era uma construção majestosa, com um imponente pórtico na entrada. A marola suave do rio quebrava contra uma massiva mureta de pedra, e uma ponte sustentada por arcos ligava as duas margens, acima da água cintilante. Julian olhava para Laura, como que esperando que ela manifestasse sua opinião. —Que lindo! — ela exclamou por fim, voltando-se para ele. — É simplesmente maravilhoso! Entendo agora como deve ter sido difícil ir embora deste lugar. — Sempre é — disse Julian, recostando-se no assento, com um sorriso torto nos lábios. — Por isso vivo impaciente para voltar. Ainda há algumas reformas que quero fazer, mas o principal já foi feito. — Está muito diferente de quando você era criança? — quis saber Laura, imaginando-o um menino pequeno correndo e fazendo peraltices naqueles jardins paradisíacos. — Foram feitas algumas mudanças, principalmente nas instalações internas. A cozinha e os banheiros foram modernizados, foi instalado aquecimento central, esse tipo de coisa. Quando a carruagem cruzou a ponte e enveredou pela alameda que levava à entrada da casa, Laura sentiu a emoção que tomava conta de Julian, o alívio e a alegria de chegar em casa. Ele nem esperou que o cocheiro abrisse a porta da carruagem. Assim que os cavalos pararam, ele mesmo abriu a porta e saltou para fora, estendendo a mão para ajudar Laura a descer.


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— Seja bem-vinda a Shadowhurst! — exclamou ele, com um largo sorriso no rosto. A felicidade de Julian era contagiante, quando ele conduziu Laura até o pórtico de entrada, onde os criados e criadas da casa estavam enfileirados para recebê-lo. Julian cumprimentou a todos cordialmente, ao mesmo tempo que os apresentava a Laura. A cada nome que ele dizia, os dois eram contemplados com uma inclinação de cabeça dos homens ou uma graciosa mesura das mulheres. — E este é Thomas. — Julian indicou o mordomo uniformizado. — O neto dele, Tommy, é quem cuida de Phoebe. Laura sorriu. — Eu agradeço muito — disse ela, quando Thomas fez uma mesura respeitosa. — A ovelha cresceu bastante, milorde. Nós colocamos um guizo no pescoço dela, para que não seja confundida com as outras. Era óbvio que Thomas achava que uma ovelha não era o animal ideal para ser bichinho de estimação, mas era educado demais para expor claramente a sua opinião. Laura disfarçou um sorriso. Os passos de ambos ecoaram no saguão de entrada, de paredes revestidas por madeira nobre, com nichos que abrigavam pequenos bustos e estatuetas a lembrar deusas gregas. No final da galeria, começava um gracioso lance de degraus que conduziam ao pavimento superior. Em seguida, no corredor, portas abertas desvendavam o Tico interior dos quartos, alguns recentemente repintados de branco, outros com paredes revestidas de papel adamascado. As lareiras eram de mármore, com colunas e pilastras á sustentar aparadores duplos, onde reapareciam os ornatos de estilo grego, em figuras encantadoras. Cenas de caçadas estavam pintadas em grandes painéis. No conjunto, tudo era especialmente adorável. — Você pode ter seu próprio quarto, se preferir — falou Julian, sem no entanto apontar a Laura qual seria. A mão no braço dela era um gesto de cortesia, ainda que possessivo, a fim de não denunciar precipitadamente aos criados a posição de Laura em sua vida. Tratava-a com contido respeito. Ela entrou num quarto que dava vista para os jardins dos fundos. Maravilhouse com os arbustos podados em formato de animais e com a cascata de água que abastecia uma piscina retangular. O dormitório, branco e verde-claro, era bem iluminado e arejado, com móveis leves no lugar da mobília escura e pesada que caracterizava outros aposentos. — É adorável — Laura comentou, ao perceber Julian atrás dela e sentir seu


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toque caloroso através do grosso casaco de lã. — Foi o quarto de minha irmã, quando menina. — Sua irmã? — Ela se surpreendeu. — Pensei que tinha somente um irmão. — Ela morreu de febre-amarela, aos dezesseis anos. — Julian tensionou os músculos da face e desviou os olhos para a janela. — Eu estava a serviço, na Marinha. Só soube do acontecido quando aportei em Trípoli e recebi uma carta de minha mãe. Pouco tempo depois, ela também faleceu. Laura deslizou a mão pelo braço dele, no intuito de confortá-lo. Sabia como era perder um ente querido, enfrentar o vazio deixado, impossível de preencher. Novas pessoas podiam tomar o espaço vago, mas ninguém efetivamente substituiria os que se foram. Vendo-se livre do séquito de empregados, Julian a enlaçou por trás, em silêncio, e beijou-lhe a nuca. A escuridão da noite principiava a cair sobre as árvores e trilhas. A luz de um lampião salvou o quarto do breu, assim como as chamas alaranjadas da lareira. — No campo, o jantar é servido mais cedo — ele informou. — Você tem uma hora para descansar, antes do toque da campainha. Sem mais palavras, Julian saiu, certo de que o quarto da irmã era o escolhido por Laura. Sozinha, ela pensou nos sentimentos dele ao voltar do mar e encontrar tudo mudado em Shadowhurst. Talvez tivesse mudado também, amadurecido, por mais que lhe fosse penoso enfrentar suas perdas. Lembrou-se de seu lar em Longacre, na Virgínia, uma típica casa de fazenda, com cerca de ripas brancas onde havia passado seus anos mais felizes. Ao contrário de Julian, Laura nunca poderia voltar. O lugar agora pertencia a um tio hostil, que jamais estimulara seu regresso. Aquele severo parente, irmão de seu pai, entendia que Laura só tinha direito de permanecer ali até completar sua maioridade legal, aos dezesseis anos. Na prática, havia expulsado a sobrinha, dando-lhe apenas dinheiro para a passagem até Paris, a fim de reunir-se à mãe. Laura descobrira assim o quanto era indesejada em Longacre, embora alimentasse por anos a fio a fantasia de um retorno às origens. A mãe, Fleurette Lancaster, tinha dito ao amante que Laura contava treze primaveras, roubando-lhe três sem o menor escrúpulo. Obrigara a filha a sustentar a mentira. E por mais três anos Laura guardou o segredo, até a noite em que Aubert Fortier veio à casa dela em Paris. Já no primeiro instante, Laura deduziu que sua mãe havia enviado aquele homem, que vendera a ele sua virgindade. Como aceitar tamanho vexame? Conseguira fugir, mas agora estava na mesma condição da mãe; uma protegida, uma amante sem perspectiva de casamento. Esperava apenas que Julian a amasse como era amado.


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Duas agradáveis semanas se escoaram na exploração das terras de Shadowhurst e seus atrativos. Uma charrete com condutor fora colocada à disposição de Laura, e na maioria das vezes Julian a acompanhava, vestido em mangas de camisa, pois estava trabalhando. Ele lhe explicava com entusiasmo a rotação de culturas agrícolas e o novo método de drenagem dos pântanos. De noite, Julian dormia geralmente na própria cama, no quarto adjacente ao de Laura. Com isso, a suíte principal da casa permanecia vazia, qual um lembrete da verdadeira posição de Laura na hierarquia familiar. Ela procurou não se aborrecer com o detalhe, focando-se em Julian e em tudo que ele lhe dava. Fora de Londres, ele se tornara diferente. Cinismo e cautela haviam sido trocados por riso e provocação sensual. Laura julgou que nunca seria tão feliz como quando partilhava carícias com Julian. Por duas vezes, Julian viajara até Londres, cavalgando um de seus garanhões em vez de solicitar uma carruagem. Na volta, reportava que a cidade continuava tumultuada. Era mais seguro permanecer no campo, idéia que Laura adorou, principalmente quando podia desfrutar a companhia de seu protetor. — Venha — ele a convidou, certa manhã. — Estou levando cestas de piquenique até um chalé no bosque. Espero que saiba cavalgar. — Sim, claro. Apenas não consigo passar muito tempo no lombo de um animal. — É perto. — Ele riu. — Mas posso pedir para você uma égua cega. — Sem exagero — ela contrapôs, indignada, e Julian prolongou a risada. Na verdade, ele já escolhera para o passeio duas esplêndidas montarias, que estavam seladas à espera do casal. A égua baia reservada a Laura aceitou bem o afago que ela fez no pescoço e na crina, repetindo um gesto habitual de seu pai. O animal pateou o chão, satisfeito, e pareceu acolhedor para uma amazona de pouca experiência. Um rapaz da fazenda ajudou Laura a montar, enquanto o cavalo de Julian, seguro pelas rédeas, dava voltas no terreno, impaciente por galopar. Para ela, a cena reproduzia uma imagem do passado, quando se atrevera a cavalgar ao lado do pai. Agora, com um sorriso a Julian, confirmou que estava pronta para partir. Ele carregava às costas um grande farnel com alimentos e bebidas. Mas a carga não o atrapalhou depois que cruzaram a ponte e o ritmo das montadas se acelerou por trilhas estreitas, ornada de árvores e sonorizada pelo canto de pássaros. Laura movia-se calada, saboreando os momentos de paz e segurança ao lado de Julian. No caminho, ele foi apontando os lugares de destaque: um equipamento de drenagem de água, uma casinha em que bombas de sucção poderiam secar um pântano em questão de horas. Por menos que o assunto fosse do interesse de Laura,


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ela gostava de ouvir a voz do conde, a fluir leve e solta pelo ar puro da colina. Ao passar perto dos quintais dos camponeses, Laura viu rostinhos rosados de crianças saudáveis e bem alimentadas. Julian comentou: — Descobri que é mais produtivo contar com trabalhadores satisfeitos do que com homens famintos, doentes e maltrapilhos. Quem não se adapta a essas minha normas... — É despedido — ela atalhou. — De modo irrevogável. Tenho meus limites. Gente preguiçosa se dá melhor nas docas ou nas fábricas que se multiplicam pelo país. Ele parou o cavalo em frente a um chalé de pedras, a poucos metros da estrada. Uma mulher saiu à porta, de avental, junto com duas crianças agarradas à saia dela. Ensaiou um gesto de cortesia e sorriu quando o conde lhe passou o farnel. — Espero que sua nova moradia seja satisfatória, senhora. — Muito, milorde. — A mulher lançou um olhar curioso a Laura, que puxava com força desnecessária as rédeas da égua. — Encontrará pão, queijo e sal na cesta, além de carne defumada. Creio que nossa cozinheira incluiu biscoitos para as crianças. A igreja do vilarejo também lhe mandou mantimentos e roupas. — Sim, milorde. Depois do incêndio... pensamos ter perdido tudo. Só não ficamos na miséria graças a pessoas bondosas como o senhor. A referência ao fogo explicava as pedras novas que revestiam a chaminé, bem como a área carbonizada do quintal, onde se amontoavam tábuas queimadas. Julian verificou rapidamente o estado do local e partiu de novo, fazendo sinal a Laura. A nova trilha cortava florestas e campos. — Metade da casa ardeu, antes que os moradores extinguissem o fogo — ele comentou. — Escaparam ilesos, apesar de perderem roupas, alimentos e móveis. — É uma casinha acolhedora — disse Laura, ainda admirada com a atitude de Julian. Tinha pensado que as cestas de piquenique eram para eles. — A sra. Brewer é uma boa camponesa. A família dela está comigo há muito tempo. — Quanto tempo? — Laura inquiriu, com repentino interesse pela história familiar do conde. — Sempre existiu uma família Norcliff em Kent? — Pouco provável. — Ele riu brevemente. — O primeiro conde foi um corsário a serviço do rei Henrique VIII. Alguns de seus descendentes morreram em batalhas, outros viveram mais tranqüilos e terminaram seus dias nas próprias camas. Meu ancestral direto entrou para a política, e aqui estou, aos trinta e dois anos, com a cabeça ainda em cima do pescoço. Parece promissor...


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— Então, você descende de um pirata! — Sabia que você iria apreciar esse pormenor. Procuramos, eu e Randal, não mencioná-lo em reuniões sociais. Minha mãe até nos proibiu de falar do assunto, até que um retrato do corsário, encontrado não sei como, foi exibido numa galeria. Então, os esqueletos da família vieram à luz. Se quer saber, acho divertido. Rindo, Laura ajeitou o chapéu, que o vento teimava em deslocar. Nuvens se engrossavam, o ar era úmido, pesado, e até os cavalos pressentiram a aproximação de uma tempestade, resfolegando alto durante o galope. Gotas pesadas começaram a cair, enquanto Julian e Laura se apressavam através do último vale que os separava de seu destino. Ela cavalgou logo atrás dele e foi-lhe difícil manter o equilíbrio: além do balanço irregular da égua, o cavalo da frente eventualmente jogava com as patas bocados de lama sobre o rosto de Laura. No entanto, tinha de permanecer colada a Julian, a fim de não perder-se e piorar a situação. Então, ele retesou as rédeas e levou o animal até debaixo de duas árvores que, por causa das copas entrelaçadas, formavam um razoável abrigo contra a chuva. A égua acompanhou os movimentos e parou. Julian desceu do cavalo e veio ajudar Laura a desmontar. Ficou penalizado com o estado dela, e por isso quase a empurrou para dentro do chalé. Tinham chegado! —Tente limpar-se, enquanto amarro os animais e procuro lenha seca para a lareira. — Após o pedido, desapareceu de volta ao temporal. Laura tinha o vestido de veludo grudado à pele. O chapéu também estava ensopado e provavelmente iria para o lixo. Examinando o lugar, ela deparou com o estado de abandono: móveis gastos, louças quebradas, cobertores roídos por traças. Devia ter sido uma residência confortável. Felizmente, ainda havia vidros nas janelas, sólidas vigas de madeira o uma lareira que funcionava. O ar geral de desolação sugeria que os moradores tinham sido expulsos dali. A chuva produzia goteiras no teto, porém a área próxima à lareira permanecia seca e, com boa vontade, desfrutável. Julian retornou com uma braçada de lenha, aparentemente estocada num depósito coberto. Sem demora ele arrumou as achas e acendeu o fogo, com o isqueiro que encontrara jogado entre as brasas dormidas. — Eu deveria ter me lembrado das tempestades inesperadas que caem por aqui — disse em tom de desculpa. — Dê-me alguns minutos, e esta cabana se tornará habitável. Sem chapéu ou boné, a cabeça dele estava encharcada e a água pingava dos cabelos claros sobre os olhos. Laura sentiu um pouco de pena, pois Julian se empenhava em agradá-la, não se importando com ele próprio. — Logo estará quente aqui dentro, e poderemos nos secar enquanto a


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tempestade acaba. Meneando a cabeça em concordância, Laura desabotoou o colete que fazia parte de seu traje de montaria. Considerava-o frívolo, em Londres, mas agora o tinha na conta de essencial. Ergueu a barra do vestido de veludo, afastando-a do ch ão sujo. Suas botas também se achavam cobertas de lama. Uma ruína. Venceu qualquer laivo de timidez e retirou o traje e o corpete, estendendo-os sobre uma cadeira quebrada. Depois, sentou-se numa tora com o propósito de remover as botas molhadas. Conseguiu. Massageou os dedos dos pés quase congelados. Permaneceu tremendo perto da lareira, seminua em sua camisa de baixo, calção íntimo e meias. Julian bateu no ar um dos cobertores do beliche, tirando a poeira, e usou-o como tapete sob os pés de Laura. Manipulou o fogo de modo a avivá-lo. Após um minuto, olhou para sua protegida, com a vista aguada pela fumaça, e tossiu. — Aqui — ele propôs, conduzindo Laura a uma esteira de palha. — Não parece tão ruim. Está seca, pelo menos. — Ajoelhou-se e pousou a cabeça no alto das pernas dela. — Nunca deveria tê-la trazido para cá. — Não seja tolo. — Laura deslizou a mão pelos cabelos ensopados de Julian, com a intenção de devolvê-los ao lugar. — Já passei por situações muito mais desconfortáveis, posso assegurar. — Não comigo. Sou responsável por você e prometi que jamais sentiria fome ou frio de novo. Ele falara sério e o coração de Laura passou a bater erraticamente, por causa da comoção experimentada. Julian se incomodava. Verdadeiramente se preocupava com ela. Era apaixonante. De olhos fechados, ela usufruiu a competente massagem que o conde fez em seus pés. Sentiu-se acalorada, e não só graças à lareira, mas também ao toque dele e ao empenho em contentá-la. Enquanto a chuva continuava ferindo o telhado e as janelas do chalé, Julian fez suas mãos trabalharem de forma mágica nos músculos de Laura. Ela vibrou quando os dedos dele se insinuaram até o limite do calção íntimo. Estremeceu. — Ainda com frio? — ele interrogou, fitando os olhos verdes que Laura, arfante, acabara de reabrir. — Sim... Não. — Sorriu, confusa, e Julian pareceu compreender o efeito que seus toques causavam nela. — Talvez não seja o melhor lugar — disse ele, espalmando a mão sobre a pele da amante. — Mas estamos absolutamente sozinhos e ninguém virá nos atrapalhar... Julian desatou uma liga, depois a outra, e alcançou os fechos do calção, tudo sem nenhum protesto por parte de Laura. Ao contrário, ela suspirava pela


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complementação das carícias. — Muitas camadas de roupa — ele comentou. — É como despetalar uma rosa... A camisa de baixo já estava nas mãos do amante, que havia tirado seu casaco, mas conservava o resto, inclusive as botas de cano alto que revestiam a calça justa de montaria até a metade das pernas. Era injusto, pensou Laura, que estivesse quase nua enquanto o parceiro permanecia vestido. Ainda vergado diante dela, Julian apartou-lhe os joelhos com as mãos e aninhou a cabeça ali, perto de sua intimidade, pressionando o tecido do calção com a boca. Entre suspiros, Laura apertou o homem contra si, na descoberta de uma nova e deliciosa fonte de prazer. Não demorou para que Julian se despisse e capturasse os seios dela. Ele a deitou em seus braços, tocando o corpo inteiro que pedia suas carícias a fim de secar por completo e recuperar o calor natural. Removeu a última barreira e, murmurando o nome de Laura, possuiu-a com vigor, sobre o tapete improvisado. Terminaram abraçados quando os espasmos do êxtase os lançaram num oceano de volúpia. Laura sentiu-se afundando, prestes a afogar-se, mas nada mais importava. Apenas aquele momento de glória, no qual Julian trouxera seu corpo à vida e sua alma ao sonho de felicidade. Céus, como ela o amava! — A chuva parou. — Julian anunciou, enquanto Laura, de pálpebras cerradas, cochilava em seu colo. Ele tinha estendido o dispendioso casaco sobre ela, sem se incomodar por amassá-lo ou estragá-lo mais do que a tempestade já fizera. Isso porque Laura era tudo o que queria e necessitava. Havia que louvar a sorte de encontrá-la. Julian sentiu o receio tardio de poder tê-la perdido no meio da multidão em Londres. Não fosse pela insistência de Malcolm, sugerindo-lhe que adotasse uma amante de fachada, ele não conheceria a felicidade de descobrir aquela criatura arredia, mas absolutamente fascinante. No entanto, temia a existência de algum segredo que ela ainda não contara. — Precisamos ir? — Laura indagou, batendo os cílios longos. — Aqui é tão acolhedor. Você faz tudo tão certo... — Os dias são curtos nesta época — ele disse. — Se não voltarmos antes do anoitecer, Thomas colocará seus homens à nossa procura, julgando-nos perdidos na mata. Pouco tardou para que ela se vestisse, sob o olhar encantado do amante. Quando Laura prendeu o último botão do colete, Julian chegou a lamentar que ela se tornasse tão elegante de novo, escondendo a fêmea misteriosa que existia debaixo das camadas de linho e veludo. A flor perfumada que ele, somente ele, conseguira despetalar.


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— Estamos perto de Shadowhurst, querida. Chegaremos logo. — Podemos voltar aqui, Julian? — Ela acabou de calçar as luvas, contente por ser chamada de "querida". — Gostei do chalé. Agora parece muito menos desolador do que quando entramos. — E você que ilumina qualquer casebre — ele galanteou, inspirado. — Mas por que deseja retornar? — O lugar é pitoresco. E faz-me lembrar de que a vida não é só ouro e seda. Não desejo me tornar uma pessoa esnobe. Esnobe. Era isso o que Julian vinha tentando introduzir na mente dos que não acreditavam na existência de gente sem teto e sem comida. A autocomplacência da maioria dos ricaços irritava o lorde, embora fosse um deles e nunca tivesse beirado a miséria. Ele apertou a mão enluvada de Laura. — Pode vir quando quiser. Vou dar o chalé a você. — Assim, sem mais nem menos? — Ela ficou assombrada. — Assim mesmo. Pertencia à minha antiga ama, que já morreu. O filho dela mudou-se daqui e o lugar esteve abandonado por todos esses anos. — Eu... eu não sei o que dizer, Julian. — Um sorriso tímido surgiu nos lábios dela. — Pois não diga nada. E um presente. Malcolm cuidará da documentação. A viagem de volta decorreu rápida e tranqüilamente. Quando cruzavam a ponte, já perto da casa, Julian viu uma carruagem, com a cabine vazia, dando entrada no galpão anexo. Pareceu-lhe familiar, mas só quando se aproximou e percebeu o brasão pintado na porta teve certeza: Randal. Como, se ele detestava o campo? De fato, era seu irmão caçula, que o aguardava na sala, marchando com impaciência de um canto a outro. — Ainda bem! Onde estava? — Randal mostrou-se aborrecido até ver Laura atrás de Julian e moderar seu ímpeto. — Perdão, srta. Lancaster. Falava com meu irmão, é claro. — É claro, lorde Faraday — ela disse, sorrindo. — Perdoe-me pela pressa, mas fomos colhidos pela chuva e devo trocar de roupa. — Chuva de palha? — Randal acercou-se de Laura e retirou um pequeno ramo da planta que se grudara a seus cabelos. Provinha da esteira utilizada por Julian no chalé. — Não seja idiota, Randal — falou Julian calmamente, ladeando Laura a fim de mostrar que estava ali para defendê-la. — Havia palha no abrigo que


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encontramos. — Eu disse algo de errado? — Randal simulou inocência. — Sob uma tempestade, não há nada mais inteligente do que se abrigar. — Está bem. Pode ir cuidar-se, Laura. — Ela se ausentou, enquanto Julian já perdia a calma inicial. — O que o traz, Randal, à odiosa Shadowhurst? — Problemas, Julian. Graves problemas. — O visitante fechou a porta da sala e voltou-se para o irmão. — Sempre adorou um melodrama — Julian comentou, servindo dois copos de conhaque. — Do que se trata? — Traição. — Deus do céu! E quem é o traidor? Randal encarou o irmão com os olhos castanhos cheios de apreensão. — Você!

Capítulo VI

— Lamento dizer, meu caro irmão, que você ficou louco! — A tensão de Julian cresceu na proporção em que Randal rechaçava essa hipótese. — Não, falo a verdade. Existem comentários de que a srta. Lancaster vem passando segredos militares, obtidos de você, para os franceses. — Disparate! — Ouça, Julian, há uma base sólida nos boatos. Segundo eles, você estaria furioso com os liberais, no Parlamento, por sabotarem seus esforços para mudar as leis do milho. Pior, a mãe da srta. Lancaster tornou-se amante do general Laborteaux, cônsul de Napoleão Bonaparte. — Droga! — Julian praguejou. — É mesmo — Randal admitiu. — Os rumores correram tão depressa que resolvi prevenir você antes que os escutasse de bocas alheias. — Bocas de quem? — Da Guarda Real.


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Julian apertou os dedos em volta do copo de conhaque. — Isso já foi muito longe — comentou. — Mas você sabe que é mentira. — De que adianta eu saber? — Randal contrapôs sem demora, marchando até a lareira, onde apoiou o braço no aparador. — Não sou o idiota que imagina. Também quero descobrir quem está fazendo isso. — Há legiões de desafetos dispostos a me arruinar. Alguém com quem me desentendi no Parlamento, alguma pessoa que insultei sem intenção, amigos de Eleanor... — O conde guardou uma pausa. — Randal, você ouviu falar de Eleanor ultimamente? — Pelo que sei, está na Itália. Por quê? — Já voltou a Londres — Julian atualizou o irmão. — Estive com ela há menos de um mês, antes de trazer Laura para cá. Os distúrbios de rua na capital vinham se tornando perigosos. — Viu Eleanor em Londres? — Randal não disfarçou a surpresa. — Se ela retornou, por que não está armando nenhuma confusão? Não que eu pretenda incentivá-la, mas sua esposa deixou muitos amantes na mão, rejeitados. Não se esqueça disso. — Não, você tem razão. Alguma notícia de lorde Drumley? — O pai de Eleanor? Que me conste, continua em Yorkshire criando porcos. É um velho teimoso. Melhor que ignore o que a filha tem aprontado. Você esperava que ele também estivesse em Londres? — Não exatamente, mas Eleanor parece ter algum apoio financeiro, fora a quantia que Malcolm lhe deposita mensalmente, em meu nome. Alugou uma casa razoável perto de Mayfair e já tem criada, cocheiro e carruagem. — Julian ficou pensativo e bateu sua palma na testa. — Claro! Malcolm deve saber se houve um aumento expressivo no saldo dela. Falarei com ele. — Veja, Julian, isso tudo é muito interessante, mas nada tem a ver com os boatos de traição à pátria. — Ao contrário, Randal, creio que existe uma conexão. O rumor é grave, pois compromete não só a mim como a Laura. E é o tipo da manobra que Eleanor gostaria de fazer. Questão essencial: quem a escutou? Ela deve ter enredado um oficial do Exército ou um parlamentar, e assim os comentários maldosos começaram. — Realmente, Malcolm, você parece desleixado. Por que demorou tanto a vir? Já o aguardo há horas! — Eleanor fez beicinho e fitou o visitante através dos longos cílios negros. Obteve o efeito desejado: ele sorriu como um adolescente apaixonado. — Esses malditos grupos de manifestantes estão por toda a cidade — justificou-se. — Mas cheguei, e com boas notícias.


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— Assim espero. Pensei que você tinha se esquecido da promessa de me ajudar. — Nunca, nunca! — Malcolm protestou, focalizando lady Lockwood com olhos ávidos. Excelente. Era a reação que ela esperava. — Sei que não me trairia, Malcolm. Afinal, estamos juntos nisso, e você não quebraria seu voto de silêncio sobre mim. — Não vou lhe faltar, juro — ele completou. — Bom. — Como de costume, ela inclinou-se a fim de servir o chá e proporcionar a visão parcial de seu alvíssimo busto. Um desafio ao autocontrole do secretário de Julian. — Quais as novidades que trouxe com você? — Apesar dos boatos sobre a prisão de lorde Lockwood, ele não vai ser detido, num primeiro momento. Será convocado a prestar depoimento sobre suas ações e explicar as ligações com a srta. Lancaster. — Escapará da cadeia, então? Gostaria de vê-lo atrás das grades, mas talvez ele nos seja mais útil do lado de fora. Precisamos ter acesso às contas dele. Você foi esperto, Malcolm, ao manipular o dinheiro de Julian de um modo que ele jamais perceberá. Desconfortável no sofá que ocupava, o secretário entrecruzou os dedos e estalou as juntas. — Manipulação? É mais forte do que isso. Você tem recebido mais dinheiro do que o combinado, por um ano e meio. Espero que não gaste à toa a verba... extra. Alarmada, ela pôs-se de pé. — O que quer dizer? O conde pode me cortar a pensão? Como sabe, não tenho um centavo poupado. Nem é tanto dinheiro o que recebo, senão alugaria uma casa melhor e não viveria como pobre. Malcolm, sabe que dependo de você. Por sorte, é inteligente o bastante para resolver qualquer impasse. Ele ergueu a vista até o rosto de lady Lockwood. — Acredito que sim. Posso aclarar os fatos entre você e meu atual patrão. Afinal, tudo não passou precisamente de um mal-entendido. — Claro que sim. — O tom dela subiu. — E para você, meu caro, foi um período terrível. Se resolver demitir-se agora, conte com minha recomendação. — Não tive escolha na época, como bem sabe. Julian quis me atirar aos lobos, caso eu não concordasse em exilar você na Inglaterra. Menos mau que ele não conseguiu bani-la sem alguma recompensa. — Agora, porém, você pode perder o emprego, se ele vier a saber que está envolvido na divulgação dos boatos de traição à pátria. — Suponho que sim. O conde fará tudo para salvar a reputação dele.


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Eleanor examinou Malcolm e respirou forte, a fim de acalmar-se. — Só para salvar a preciosa reputação! — ela então ecoou. Para aquela dama de moral duvidosa, Aubert Fortier estava coberto de razão. O conde de Lockwood se tornaria um problema, caso ela não agisse com cuidado. Tinha acesso a Julian Norcliff e achava que subsistia nele um resquício de paixão por ela, ainda que fosse tão-somente o desejo lúbrico por seu corpo. — De qualquer modo, madame, ficou isenta do inquérito policial e do interrogatório do legista. Seria bastante desagradável para uma mulher como Eleanor Lockwood. — Diga-me mais uma vez, Malcolm. Julga que eu matei Fielding? — Jamais pensei assim! — O secretário mostrou-se exaltado. — Nunca falou, mas pode ter pensado. Pensou ou não? — Sei que é inocente, madame. Foi um horrível acidente, como declarou. — Claro que foi. Ele bateu a cabeça ao cair da escada, alcoolizado. — Eleanor relaxou contra o encosto da poltrona. De novo, Fortier tinha razão. Por saber demais, Malcolm se transformaria num estorvo. Ele levantou-se e fez uma reverência à dama. — Falta muito a fazer, por isso já vou embora. Julian retornará rapidamente do campo, ao conhecer os rumores. Quero aproveitar bem o tempo que resta na casa, sem ele. — Julian permanece fora da cidade, com sua pequena concubina. É muita audácia! — Assim Eleanor plantou um sorriso na expressão pétrea do secretário. — Por certo, madame. Eles residem atualmente em Shadowhurst. — Que maravilha, não? — ela ironizou. No passado, quando Julian queria afastar-se de Eleanor, ia para sua propriedade rural. Agora, passava bastante tempo lá, com a amante. A vingança que ela tramava iria ser deliciosa. Sozinha na sala, ela caminhou até a lareira. Fortier estava atrasado, como de costume. Ele nunca chegava quando prometia chegar, mas sempre aparecia quando Eleanor desistia de aguardá-lo. Era um cavalheiro raivoso e contraditoriamente divertido, um homem de gostos incomuns e maneiras extrovertidas. Tinha fama de bom amante, como todo francês, mas ao levar uma parceira para a cama recorria à violência e à dor a fim de excitar-se. Intrigada, Eleanor viu Fortier chegar ao escurecer do dia, molhado de chuva e com hálito de gim. Ela torceu as narinas diante dele, mas o visitante pareceu apenas estranhar a desaprovação.


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— Calma, ma chérie. Terá de sofrer punição pela má acolhida, porém mais tarde. Agora estou cansado demais. Ele se esparramou no sofá, focando Eleanor com aparente indiferença. O coração dela se aqueceu quando Fortier sorriu-lhe, curvando a boca. — Talvez você possa pensar numa forma de alegrar a noite, hein? Antes, conte-me se nosso amigo Malcolm fez tudo conforme desejávamos. — Sim, claro que fez. É muito talentoso, cheio de recursos inusitados. Só imagino se continuará sendo agradável depois de saber de você. Fortier abanou a mão no ar, descartando Malcolm e qualquer preocupação maior com ele. — Não tem importância, desde que todo o resto esteja em movimento — afirmou ele. — Após a prisão do conde, você ficará com a fortuna dele. — Exatamente — confirmou Eleanor, fustigada pela languidez e argúcia do cúmplice francês. — Ficará à minha disposição. E talvez eu encontre novos prazeres ao viajar pelo mundo. Num gesto brusco como o bote da serpente, Fortier a agarrou pelo punho, ainda deitado. Trêmula, ela cedeu à força masculina e deitou-se no pequeno espaço ao lado dele. — Aqui, bem perto de você — disse o francês —, está uma fonte de prazer que não se arrependerá de experimentar, chérie. Eleanor julgou irresistíveis os olhos escuros e predadores do amigo e eventual novo amante. Era impossível menosprezar tanto desejo explícito. Além disso, Fortier jamais a dividiria com outra. Seria totalmente fiel. Ela reagiu com um arrepio quando teve seus seios tocados e a boca amassada pelos lábios de Fortier. — E inviável. Recuso-me até mesmo a pensar nessa idéia. — Muito bem, Julian — opinou Randal. — Se prefere ver Laura na cadeia, a seu lado, ou enforcada na colina destinada aos estrangeiros, então mantenha a moça aqui. A essa altura, Julian havia substituído a calma pela fúria. O maldito Randal tinha falado algo que fazia sentido. Poderia haver muita confusão e injustiça. Talvez Laura fosse executada antes dele, como espiã da França atuante em território inglês. O conde cerrou os olhos, consumido pela adversidade. — Preciso protegê-la, sem dúvida — ele afirmou sem gritar. — Laura é inocente e não deve ser presa por minha causa. Meus inimigos, parece, procuram um bode expiatório.


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— As autoridades queriam culpados pelos distúrbios violentos nas ruas. Você se tornou vulnerável. Deve refutar as acusações o mais depressa possível, Julian, ou corre o risco de ser encarcerado. — Não farão isso — ele rebateu. — Podem até tentar, mas não conseguirão fazer com que eu confesse um crime que não cometi. Tenho meus métodos de ação, centrados no Parlamento. Mas você está certo quanto a Laura. Ela deve ser a primeira a receber proteção. Suspirando fundo, Julian agitou os braços no ar, como se pedisse a intercessão divina, e repassou na mente diversas opções. Nenhuma era inteiramente satisfatória. Como não existia prova real de que Laura estava envolvida numa conspiração, uma carta anônima ou um simples depoimento poderiam incriminá-la. Achar uma solução tornava-se urgente. — Julian... — chamou Randal ao recolher sua capa e fazer menção de sair. — Você sabe muito bem que terá de mandá-la embora, não? — Sim, eu sei. Droga! — Sem olhar para o irmão, Julian tentou assimilar a crua realidade dos fatos. Ele se achava agora muito próximo de Laura, para desistir dela. Perto demais para engolir uma derrota. No entanto, inexistia outra escolha, se o problema consistia em dar segurança a ela. Teriam forçosamente de afastar-se. Como contar? Laura insistiria em permanecer ali, caso pensasse que Julian enfrentava problemas. Ele conseguiria convencê-la a deixar a Inglaterra, em nome da integridade pessoal? Onde Julian encontraria forças para vê-la partir? — Becky, você é um anjo. — Mesmo de olhos fechados, Laura sorriu à criada que havia lhe preparado um banho de tina e agora esfregava suas costas com espuma. — Nem imagina como eu precisava disto. — Deduzi que a senhorita gostaria de banhar-se, depois de molhada pela chuva. Consegui ajuda para subir os baldes. — Fez bem. — A água quente distendia os músculos de Laura, as mãos de Becky os massageavam. Flocos de sabão flutuavam na tina, e ela abriu os olhos a fim de colhê-los nos dedos, sentindo o leve perfume que já invadia todo o aposento. Havia lavado os cabelos e juntado os fios no alto da cabeça, presos por grampos. Becky murmurou algo e Laura voltou-se para ver Julian à porta do quarto. Ele pareceu surpreso, e sorriu um tanto constrangido. — Deveria ter batido, mas a porta estava só encostada e ouvi sua voz. — Não se desculpe. É sempre um prazer recebê-lo — disse Laura com especial suavidade, antes de dispensar Becky. — Mas assustou minha criada e agora tem de


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lavar minhas costas, no lugar dela. Julian tirou o casaco, arregaçou as mangas da camisa e aproximou-se da tina. — Como nunca fiz isso antes, você pode sair arranhada por minhas unhas. — Não acredito que seja tão desastrado. Com nada. A água quente lançada pelo conde sobre os ombros de Laura escorreu por seus seios. Ela realizou um leve movimento a fim de espalhar a carícia pelo resto do corpo. Não esperava que Julian de fato lhe esfregasse as costas, porém ele o fez, atendendo a um impulso. Laura, sentada dentro da tina, imergiu para remover a espuma remanescente. De olho na toalha, ponderou se ela mesma ou seu protetor é que devia enrolá-la no tecido felpudo, quando levantasse. —Viajaremos até Londres pela manhã — informou Julian com bastante tato, mas Laura arregalou os olhos. — Tenho bastante trabalho à espera. Meus inimigos acharam uma nova maneira de me atacar. O coração de Laura a avisou que a expressão impassível do conde era falsa. — O que fizeram? — ela perguntou, emocionada. — Espalharam rumores, improcedentes, mas perigosos por despertarem a ira das autoridades, inclusive as militares. Por enquanto, é só o que posso dizer. Preciso agir depressa. — De que maneira? — Ela sentiu um leve tremor quando o conde lhe segurou a mão e a fitou com ar desolado. — E imprescindível que você saia da Inglaterra. — Não! — A beira do descontrole, Laura apertou com força os dedos de Julian. — Não deixarei você sozinho nessa luta. Nada existe que não possamos superar juntos. — Minha cara, você ficou sem escolha. Corre mais riscos do que eu, e é necessário partir. — Não me importo. — Eu sim. — Julian procurou manter um tom remoto e frio. — Enquanto permanecer na Inglaterra, você constituirá um perigo para mim. É uma emergência, se preferir chamar assim. Ele livrou sua mão, apanhou a toalha e cobriu Laura a partir das costas. Reprimiu a vontade de render-se aos encantos dela, mas sua estudada indiferença magoou Laura. — Temos um acordo esplêndido — Julian amenizou. — Mas agora chegamos ao fim. Provisoriamente, talvez.


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Cada palavra a feria como uma lança espetada no coração. Fitando o conde, Laura procurou alguma emoção no tom dele. Não encontrou. Julian deslocou-se até a lareira acesa e, para ocupar-se, arrumou brasas que estavam fora de lugar. Ela vestiu seu robe com raiva, soltando a toalha no chão. Sem se preocupar em enxugar-se, puxou o cinto de pano até provocar dor. — Muito bem, milorde — conseguiu falar com igual distanciamento. — Devo fazer os arranjos necessários? — Já cuidei disso. Randal vai acompanhá-la a Londres, amanhã cedo, e mobilizará Malcolm para obter uma passagem até Paris. De primeira classe, claro. Terá dinheiro depositado em sua conta, que pode ser sacado a qualquer momento. Efetivamente, Julian parecia não falar com Laura, mas com as figuras de mármore esculpidas acima da lareira. Lá se achavam Netuno e diversas sereias, em parte cobertos por ondas. Diante de tudo aquilo, ela pensou se não seria melhor afogar-se no mar. — Obrigada — Laura murmurou, enquanto Julian continuava entretido com os carvões que queimavam. Bruscamente, ele voltou-se e encarou a protegida com o olhar tão severo que ela teve de recuar. — Não me olhe assim! — Julian esbravejou. — Sabemos que é impossível ficarmos juntos para sempre. Era inevitável que, um dia, as coisas mudassem. — Sim, claro — Laura anuiu, assustada. — Sou grata por tudo o que fez para mim. — Sua tristeza era tanta que até o ato de respirar se tornara doloroso. Como seguir vivendo em meio à agonia? — Grata? — Ele curvou a boca na horrível imitação de um sorriso. — É adorável! Suponho que nós dois esperamos demais, um do outro. Não a verei de novo depois desta noite, Laura. Seria... inútil. — Sim, seria. Por um longo minuto, ambos sustentaram uma troca de olhares, ao som das brasas que estalavam. Talvez, ela pensou, Julian ouvisse o coração dela partir-se dentro daquele mortal silêncio. O conde, porém, dirigiu-lhe um último e embaciado olhar, depois saiu do quarto e da vida dela. O tempo voltou a fechar. O inverno dava seu derradeiro sopro, com muito vento e chuva fria, congelando botões de flores e árvores frutíferas. Laura ocupava a carruagem à frente do irmão de Julian, enquanto Becky se espremia num canto, a dormir ruidosamente. Maidstone ficara para trás, Londres distava agora apenas trinta quilômetros. Chegariam antes do anoitecer. —Ela sempre ronca durante o sono? — Randal perguntou, apontando a criada.


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— Não notei, porque Becky dorme separada de mim. — A continuar assim, ela dormirá sozinha pelo resto da vida — Randal profetizou, mas sem malícia. Ele estava em situação difícil, Laura compreendia, por também sentir a ausência de Julian, que partira de madrugada, a cavalo. — Talvez ela seja feliz com seu sono pesado — Laura observou, sem resposta. Randal limitou-se a erguer as sobrancelhas. O que ele poderia dizer? Julian havia terminado o relacionamento sem aviso prévio nem motivo, a não ser vagas referências a um perigo iminente. Nada do que o irmão dele alegasse reduziria seu choque, sua dor. Laura já não sonhava com mudanças na situação, pois tinha esperado tudo de Julian e sofrerá uma cruel decepção. A infelicidade pesava no peito dela. Becky acordou com o impacto da roda da carruagem numa pedra do caminho, resmungou alguma coisa e voltou a dormir, sob o olhar crítico de Randal. Laura o examinou com vagar. Era mesmo bonito o irmão do conde, muito parecido com ele. Jovem, possuía traços ainda em formação, mas em poucos anos seria uma pessoa deslumbrante. Fechando os olhos, Laura tentou superar a angústia que as lembranças de Julian despertavam. Ele a havia abandonado bem no momento em que ela pensava num futuro em comum e ousava sonhar com a felicidade vitalícia ao lado do conde. Voltaram a sua mente os dias do passado na Virgínia, onde haveria de ter um refúgio somente seu, onde não sentiria saudade da Inglaterra. Laura devia ter cochilado, pois acordou em sobressalto, graças a um ronco mais forte de Becky. Deparou com Randal olhando e sorrindo para ela. Acomodou-se no assento e sentiu as bochechas um pouco rubras. — Eu ronquei? — Oh, não, srta. Lancaster. Ainda que o fizesse, preferiria ouvi-la, no lugar de sua criada. — Ela é uma boa menina — Laura disse defensivamente, e Randal concordou. — Claro, só precisa ter um quarto longe dos demais moradores de uma casa. — Ele espiou pela janela. — Estamos perto. Tomarei providências para garantir seu sossego. Julian lhe contou? Laura descansou as mãos cruzadas na barriga. — Sim. Você deve providenciar minha passagem de navio para a América. Acha que poderei embarcar logo? Julian tem pressa... — O comércio com a colônia foi reaberto e nem Bonaparte conseguiu barrar a navegação.


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— Felizmente — ela opinou. — Pensa assim de verdade? — O tom seco de Randal foi suavizado pela surpresa que ele demonstrou no rosto. — Claro. Por que eu desejaria que a Inglaterra fosse prejudicada em seu comércio internacional? — Não é o que eu quis dizer. Você não está feliz por retornar à América, está? — Não, mas não fique surpreso. Talvez esperasse que eu mentisse, fingindo alegria por deixar seu irmão. Pois não estou contente, e é melhor que você saiba. — Um toque de irritação soou na voz dela. — Já sei. — Randal estreitou os olhos. — Você o ama. — Sim, muito. Aparentemente, o sentimento não foi recíproco. — Não tenha tanta certeza, srta. Lancaster. — Mais uma vez, o jovem sorriu, na sua maneira peculiar de obter aprovação. — Julian nunca... amou uma mulher, antes. — Nem a esposa dele? Era uma questão válida, mas Randal atalhou bruscamente: — Especialmente a esposa! — Tal resposta deixou Laura intrigada. — Sei que foi um casamento arranjado, mas por que Julian ficou tão aborrecido com os escândalos causados por Eleanor, se ele não a amava? — Francamente, ele não se importaria se ela dormisse com metade da Inglaterra, contanto que fosse discreta. Discrição, porém, não fazia parte do mundo de Eleanor. — Parece que não... — Julian não faz idéia de que eu sei, mas a história do baronete imbecil que se encontrava secretamente com Eleanor espalhou-se por toda a Londres. Antes, na noite de núpcias, Julian a flagrou com Fielding, que morreu ao cair ou ser empurrado da escada. Se era para criar escândalo, Eleanor se excedeu. Foi investigada como suspeita do crime. Randal fez uma pausa para respirar. Laura desconhecia que ele pudesse ser tão loquaz. — Julian optou pela discrição — prosseguiu. — Mais por nosso pai do que por ele, já que o velho estava doente e ansioso por ter um herdeiro. Por esse motivo, o divórcio sempre esteve fora de questão. Imagino se Julian ainda quer reconciliar-se com Eleanor. Confusa, Laura encarou o visconde de Faraday. O que ele tentava dizer-lhe? — Acho que não. — Novo sorriso. — Não desista de Julian, senhorita.


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— Foi ele quem desistiu de mim, milorde — ela replicou suavemente. — Não tive escolha. Era uma acusação procedente. Julian havia abandonado Laura. Avisada por meio de um recado de lorde Lockwood, Célia foi aguardar Laura na casa dela, onde pediu ao mordomo que providenciasse uma refeição leve, à base de sopa. Já sabia de tudo, incluindo os boatos comprometedores. Queria apoiar a amiga e convencê-la de que nada de ruim aconteceria. Mas Eleanor havia voltado a Londres e Fortier costumava vir da França a fim de visitá-la. Haveria alguma conexão entre tais fatos e os rumores? Belgrave dissera a Célia que isso era absurdo, porque lady Lockwood, sem ser recebida em nenhuma casa decente, não teria tido a oportunidade de divulgar os comentários maldosos. Mais ainda, como homem inteligente, Belgrave afirmara que Julian era um cidadão exemplar, e nunca um traidor da pátria. No entanto, um juiz pensaria da mesma forma? Laura entrou, atrasada, e foi coberta de abraços pela amiga. Na sala, Randal foi apresentado a Célia e, sempre galante, comentou que Belgrave era uma pessoa de sorte. — Então, vocês não sabem da história inteira? — Célia inquiriu. — Não — disse Laura, exasperada. — Julian nada revelou a mim, além do que a quebra de nosso acordo poderia ser provisória. — Acordo? — Randal ignorava a existência de um contrato entre seu irmão e Laura. — Aquele cabeça-dura! — criticou Célia, sem esconder sua indignação. — Os homens são tolos, amiga. Escute, há um terrível boato sobre ele ter fornecido segredos militares a você, que por sua vez os passou a sua mãe em Paris, com o fim de ajudar Napoleão Bonaparte. Dizem que ela é amante de um general francês. Laura empalideceu. Relanceou o olhar até Randal, que apenas balançava a cabeça. — Por que Julian não me contou isso? — Laura mostrou-se contrafeita. — Creio que posso responder — Randal interveio. — Meu irmão tem intenções nobres. Daí querer colocá-la no primeiro navio para a América, a fim de poupá-la dessas insinuações repulsivas. A distância pode colocar um fim nelas. — É querer demais — Célia afirmou, provocando lágrimas em Laura. — Mas, se Julian deseja poupá-la, deixe. Você sempre quis voltar à Virgínia... — Não assim, nem agora. Randal manteve silêncio. Melhor que Célia amparasse Laura, pois a conhecia melhor do que ninguém.


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— Não é tão terrível, amiga. — Ela bateu a mão no ombro da outra. — Com certeza é! — Laura exaltou-se. — Ele devia ter me contado. Eu jamais o deixaria sozinho com um problema tão grave. — Justamente por isso Julian não lhe contou tudo. Não seja tola. O conde escapará com apenas um arranhão em sua reputação. Já você, poderá ser presa e deportada. Ou, pior, executada por traição, se o magistrado não se convencer de sua inocência. Faça como Julian pediu. Com você aqui, ele não terá tranqüilidade para agir. Laura demorou-se a pensar e enxugou as lágrimas. — Você provavelmente está certa. As noções de perigo é que são diferentes. Julguei que Julian me quisesse perto dele, embora saiba que não poderá se casar comigo, por causa de Eleanor. — Justamente — Célia aproveitou a deixa. — Eleanor e Fortier parecem ter algo a ver com a divulgação dos comentários. —Aubert Fortier? — Randal interveio, estupefato. — Como estaria envolvido? — Bem, ouvi certas coisas... Tudo muito nebuloso, ainda. — Mas Fortier é um facínora — opinou Randal. — Trapaceia no jogo de cartas e parece gostar de pisotear as pessoas. Não é absurdo suspeitar de uma ligação dele com Eleanor, proveitosa para ambos. Se Fortier deseja prejudicar Julian, logo descobrirei. Quanto a Eleanor... talvez seja a hora de termos uma conversa em família. Randal saiu em seguida, disposto a iniciar todos os contatos impostos pelas circunstâncias. Oculto pelas sombras da noite, protegido atrás do gradil de ferro da casa vizinha, Rex Pentley avistou Aubert Fortier saindo da residência de Eleanor Lockwood e tomando uma carruagem alugada. Antes dele, o jovem visconde de Faraday, que Rex havia ajudado a ganhar no jogo, a pedido de Laura, fizera uma visita igualmente rápida. A noite era agitada nos domínios da esposa oficial de Julian Norcliff. Assim que a carruagem dobrou a esquina, Rex esgueirou-se pelo quintal da casa e entrou pela porta destrancada da cozinha. A serviçal ali presente levou um grande susto e fez menção de gritar. — Não sou ladrão — ele antecipou-se. — Leve-me à sua patroa e não tocarei em você. Rex surpreendeu Eleanor na sala. Poderia apostar que ela havia recebido um bom dinheiro de Fortier. Mas por quê? — Quem é você? — perguntou lady Lockwood. — Diga logo o que veio fazer e deixe-me descansar. Fortier o mandou?


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— Por que ele faria isso? — Não brinque comigo. Ou me responde direito ou chamarei alguém para botá-lo fora daqui, imediatamente. — Agora é a senhora que brinca. Não vi nenhum criado em serviço, esta noite. Eleanor manteve o queixo erguido, porém as sobrancelhas baixaram. Pela primeira vez, Rex notou inquietação nos olhos dela. Os cabelos, soltos a partir de um coque, ganharam movimento quando Eleanor girou a cabeça, e brilharam à luz do lampião e da lareira. — Minha criada... — murmurou. — Não virá, por medo de mim. Agora, temos de discutir um certo assunto. Eu a aconselho a ser muito honesta comigo. Os que não foram, se arrependeram. Um lampejo de temor cruzou-lhe a face. — O quê... o que você quer? —- Respostas. Respostas concretas. — Rex sorriu de modo sinistro. — Por que fez isso, Randal? — Julian focalizou o irmão, sentado perto do fogo, e só mereceu um olhar frio em contraposição, o que o levou a praguejar. — Tenho certeza de que Eleanor não foi sincera com você. Ela geralmente tem sua própria versão da verdade. — Estou convencido de que ela ajudou a criar ou espalhar os boatos. — E provável, mas diante de uma simples suspeita alegará que está sendo difamada pelo marido que a rejeitou. — Julian pôs-se mais sério do que já aparentava. — Eu deveria ter me divorciado de Eleanor dois anos atrás, depois daquela farsa do acidente com Fielding. — Acredita que não foi um acidente? — Randal admirou-se. — Nunca haverá certeza — retrucou Julian. — Mas acho que ele teve alguma ajuda para despencar da escada. A cabeça estava quebrada como um ovo. — Então, Fielding não invadiu a casa. Já se achava lá dentro, com Eleanor. Sabe o que significa? — Assassinato? — Julian confirmou. — Mas não posso provar, e uma denúncia só causaria mais tagarelice. Se Fielding não estivesse com minha mulher, nada teria acontecido. — Foi quando você a mandou embora? — Randal quis saber. — Sim. — Como faz agora com Laura Lancaster. Julian estreitou os olhos e disfarçou a mágoa.


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— Os motivos são inteiramente diferentes — explicou. — Expulsei Eleanor para proteger o nome dos Lockwood. Livrei-me de Laura para proteger a vida dela. — Eleanor odeia Laura, você sabe. E odeia você também, mas, se resolver voltar para ela, imagino que será alegremente aceito. — Muito improvável — atalhou Julian. — Aprendi que Eleanor não suporta uma negativa. Randal levantou-se, orgulhoso da iniciativa de ter procurado a cunhada. — Talvez seu erro seja mandar Laura para tão longe. Talvez ela nunca mais volte da América. Não se incomoda com isso? Ela está apaixonada por você, meu irmão. E você, embora não admita, também se apaixonou por ela. — Não seja tolo, Faraday. — Empregar o título de Randal impunha distância. — O tolo não sou eu. É você! Julian acercou-se do irmão e enunciou suas palavras com absoluta clareza: — Laura não ficaria em segurança, em nenhum lugar da Europa. Escolhi a América conscientemente. Mais adiante, quando tudo passar, se ela quiser retornar a Londres, nós discutiremos o assunto, sem interferências. E caso você prefira, Malcolm pode se encarregar da passagem de Laura. — E teimoso como uma mula, Julian. — Randal meneou a cabeça tristemente. — Mas também é um par do reino e tem influência. Não acha que um juiz levaria em conta seu depoimento, contra o de Eleanor? Era tentador. Talvez Julian pudesse então conservar Laura a seu lado. — Consultei um advogado. Eu e você sabemos que as regras são diferentes para nobres e plebeus. Laura se exporia à acusação de ser responsável pela discórdia entre mim e Eleanor. Não devo arriscar. Era a pura verdade. Quando Julian pensava em Laura no banco dos réus, sofria um sentimento agudo de desespero. Não podia correr risco algum, no que se referia à integridade física de quem ele ainda se considerava um fiel protetor. — Sabe quem sou? Laura cravou os olhos na mulher que fizera a pergunta. Loura, de baixa estatura, muito charmosa, a visitante retribuiu o exame com a frieza de seus olhos azuis. Passando por Laura como se tivesse todo o direito de estar ali, lady Lockwood dirigiu-se ao sofá, erguendo a saia o suficiente para não roçar no chão que, provavelmente, considerava sujo. O gesto irritante não abalou a curiosidade de Laura no sentido de, quem sabe,


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dirimir muitas dúvidas numa conversa franca com Eleanor. — Posso saber o que veio fazer aqui, milady? — Não é segredo. Fingir inocência não combina com você. Laura conteve meia dúzia de respostas ácidas, enquanto Eleanor examinava a casa acolhedora de nariz torcido, como se estivesse infestada de vermes. Seguiu-se um pesado silêncio, até que lady Lockwood mostrasse impaciência. — Você parece ter um pequeno exército a seu dispor, pronto para batalhar em sua defesa. É admirável. E esclarecedor. — Como assim? — Laura acautelou-se, ganhando tempo. — Entendeu perfeitamente — a condessa alfinetou, com uma emoção que Laura só podia adivinhar, a partir dos lábios trêmulos de Eleanor. — Nada menos de três pessoas me procuraram, pedindo para eu desistir de qualquer idéia de vingança contra você. No entanto, ninguém me defendeu quando fui acusada de um crime horrível, dois anos atrás. Nem mesmo meu nobre marido. Por mais superioridade que Eleanor desejasse aparentar, Laura percebeu a mágoa atrás daquelas palavras Sentiu certa culpa por amar Julian, angústia por causar sofrimento em outra pessoa. Não lhe ocorrera, ate então, que Eleanor podia estar apaixonada pelo marido ausente e vivera reprimindo tal emoção. Saber que lady Lockwood fora infiel desde o primeiro dia não absolvia Laura da sensação de má conduta. — Lamento ouvir isso, milady — disse sinceramente. — Deve ter sido horrível sentir-se desprezada. — Tem razão — A visitante cravou os olhos azuis em Laura. — Por isso, pare de me enviar seus amigos com argumentos em seu favor. De pouco adianta, pois nada tenho a ver com os boatos. — Não lhe mandei ninguém — Laura esclareceu. — se alguém a procurou, foi por vontade própria. Talvez não faça diferença para você, mas eu e lorde Lockwood nos separamos. —Sem surpresa — afirmou a condessa, inabalável — Julian perde o interesse por uma mulher assim que obtém seu troféu. Prefere a caça à captura. Não que me importe. Não tenho amor por ele. Ainda bem, porque parece que Julian tornou-se um traidor da pátria. A Inglaterra perdoa muitos pecados da aristocracia, mas a traição não é um deles. — Os rumores são totalmente falsos — Laura retrucou com calma. — Faltam provas de minha culpa ou da dele. Não tenho contato com minha mãe há cerca de dois anos. — Melhor reservar sua defesa para o tribunal. Os promotores e juizes têm meios de chegar à verdade.


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Laura não reagiu quando Eleanor encaminhou-se à porta de entrada, em passos leves, e voltou-se para a anfitriã com um sorriso. — Espero não vê-la nunca mais, srta. Lancaster. Tenha um bom dia. Aliviada, Laura notou que Becky tinha permanecido escondida junto à porta oposta, com os punhos cerrados, pronta a defender a patroa a bofetadas, caso necessário. — Essa cobra pegou alguma coisa de sua escrivaninha. Eu vi — relatou a criada. — Foi antes de a senhorita descer. Laura alcançou a pequena mesa, em que jaziam contas e correspondências, penas e tinteiros. Intrigada, examinou os papéis. Nada parecia faltar. Não, onde estava o carimbo de chumbo, contendo suas iniciais, que usava para lacrar envelopes? Seria útil a Eleanor, se esta quisesse incriminá-la mediante uma comparação com cartas anteriores. Era premente que ela fosse embora da Inglaterra. Com o tempo, as suspeitas cairiam no vazio. Apressaria Randal na compra da passagem para a Virgínia. Precavida, separou e guardou em lugar mais seguro os documentos de crédito do dinheiro que Julian lhe havia concedido. Oh, Julian. Tão generoso, tão apaixonante. — Aubert, é você? — Eleanor rolou os olhos, acordando de um sono agitado após escutar barulho no quarto. Ninguém respondeu. Ela não esperava que Fortier passasse a noite toda em sua cama. Onde ele pernoitava, em Londres? Jamais dissera, porém a satisfazia de modo selvagem, fazendo seu corpo doer, antes de despedir-se. Tipo estranho, o francês não se incomodava por deixar marcas roxas na pele de Eleanor. Maldito! Ela se livraria dele assim que a situação permitisse. Por enquanto, ele ainda era útil. Resmungando, ela sentou-se no leito, zonza de sono, mas contente por Fortier tê-la deixado sozinha. Ele lhe dava medo, porque um dia poderia tornar-se mais violento e... Ergueu-se, calçou os chinelos e procurou o robe, enquanto atribuía o ruído a algum objeto que sua indolente criada deixara cair. O robe não estava à mão, e sim caído no piso, perto da lareira onde brasas já gastas proviam um modesto calor e pouca luz. Ao abaixar-se para apanhar a peça de roupa, Eleanor sentiu um sopro frio em suas costas nuas. — Quem é? Quem está aí? — gritou, nervosa. Havia se entregado a Fortier em meio a veladas ameaças, e ele retaliava na forma de um contato sexual que representava mais dor que prazer. Mas não invadiria seu quarto assim. Trêmula de frio e pavor, ela empunhou o atiçador de ferro da lareira, que seria


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uma boa arma de defesa. Mas Eleanor o utilizou, antes de mais nada, para reavivar o fogo a fim de aquecer o quarto devidamente. Alguns golpes sobre o carvão, agachada, e as brasas arderiam melhor. Tão logo levantou-se, voltou a experimentar um estranho golpe de vento. Alguma porta ou janela estaria aberta na casa? A sensação real, porém, era de que uma pessoa se encontrava oculta atrás dela. Alarmada, ergueu o atiçador. — Quem... Algo como um punho masculino a atingiu na lateral da cabeça. Ela recuou, vibrando no ar, sem direção, a peça de ferro. Segurou-a numa só mão, fazendo a outra tatear à frente de si. Atordoada, topou com um tórax de homem. Aubert? Devia ter falado alto, pois logo sentiu os nós dos dedos do invasor socando seus lábios. Em segundos, amargou o gosto de sangue na boca. Por que alguém, incluindo Fortier, bateria nela assim? Ele a machucava, na cama, mas chamava aquilo de "marcas da paixão". Outro golpe desceu sobre a face de Eleanor, derrubando-a no chão. Ela se arrastou, apavorada dentro do desespero para livrar-se do ataque, porém o agressor a seguiu. Ajoelhou-se ao lado dela e apertou as mãos em torno do pescoço da vítima, com força crescente. —Vadia desprezível — foi o derradeiro som que ela ouviu. — Você merece morrer.

Capítulo VII

Laura murmurou um incentivo a Becky. — Esse é o último baú. Agora você pode descansar. — Sim, senhorita. — O rosto da criada refletiu a infelicidade com que ela arrumava parte das roupas e pertences da patroa na arca de madeira. — Precisa mesmo ir? — Receio que sim, Becky. Mas Célia será boa para com você. Gostará de trabalhar na casa dela, tenho certeza. — Agradeço por ter me convidado a acompanhá-la. Se eu não tivesse tanto medo do mar, de navios... — Tudo bem, Becky. Chegando à Virgínia, encontrarei uma nova empregada.


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E você está certa. É uma viagem longa e nem sempre as águas são amistosas. — Não consigo aceitar que saia da Inglaterra. Pelo menos, fiquei livre de trabalhar sob as ordens daquele Malcolm... Laura evitou render-se à emoção. Lembrou-se de que na viagem anterior, da América para a Europa, ela se achava à beira da miséria. — Tudo vem para o melhor, Becky — acabou dizendo com firmeza. — Sentirei muito sua falta. Você trabalha duro. — Se a senhorita diz... — A mocinha simples e sensível enxugou algumas lágrimas. — Permite-me falar uma coisa? — Claro, Becky. O que é? — Charlton, o cocheiro, contou-me que lorde Lockwood vive na mais completa tristeza, desde que voltou do interior. O mordomo, Cranford, está desesperado com o mau humor do patrão, que o proibiu de mencionar o nome da senhorita. Sinal, segundo Charlton, de que o conde ainda está apaixonado. Laura fechou os olhos e suspirou. Se fosse verdade, ela não estaria se aprontando para partir, a despeito de qualquer rumor ou perigo. Lutariam juntos, em vez de capitular tão facilmente. Se fosse verdade... — Posso fechar o baú? — Becky a interpelou. Antes de fazê-lo, porém, dois guardas armados e um inspetor de polícia entraram rispidamente na sala e ordenaram a Laura que descesse de seu quarto. Ela obedeceu, embora Becky tentasse bloquear a porta. Manteve-se calma, apenas porque não se tratava de mais uma visita de lady Lockwood. Era simplesmente a lei em seu encalço. — Newgate? — Célia citou o nome do principal presídio de Londres e fitou com horror a criada que chorava. — Quando? — Uma hora atrás, senhorita. Oh, foi terrível. Mal a deixaram apanhar um casaco grosso para levar com ela. E disse que eu deveria contar-lhe imediatamente, pois saberia o que fazer. — Sim, mas agora pare de chorar e repita com exatidão as palavras do inspetor. Entre soluços, Becky cobriu o rosto com as mãos. — Ele disse que, como a srta. Lancaster não soube explicar onde estava, na noite passada, era conhecida como amante do conde e pretendia sair da Inglaterra amanhã, ela se tornara suspeita... — Mas por que a prenderam? Traição?


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— Assassinato — Becky emendou. — Lady Lockwood, a esposa do conde, foi encontrada morta. Estrangulada. — Meu Deus! — Abalada, Célia ocupou o sofá e fitou o fogo da lareira. Laura, detida sob a acusação de matar Eleanor! Era terrível! Ela teria de pensar bem no que fazer. Talvez fosse ver a amiga sem demora, em Newgate, e certamente contratar os serviços de um advogado. No entanto, a polícia londrina tinha fama de extrapolar suas funções e prender o primeiro provável suspeito de qualquer crime. Os oficiais da lei não se esquivavam de mentir a promotores e magistrados, pois recebiam prêmios em dinheiro por esclarecimento de delitos. — E quanto ao conde? — inquiriu Célia. — Ele já está a par da situação? — Viajou para o campo. Não há mais ninguém que possa ajudar minha patroa, além da senhorita. A criada recaiu num pranto convulsivo. Célia raciocinou rápido. Poderia pagar propina ao diretor do presídio, a fim de garantir a Laura uma cela melhor, mas não conseguiria soltá-la. Belgrave seria útil no caso. Não, melhor recorrer a Randal, visconde de Faraday e irmão de Julian, que já conhecia Laura e gostava dela. Havia mais um detalhe: se Julian estava fora da cidade, então não poderia ter estrangulado sua esposa, no calor de uma discussão. Não tinha importância. Célia devia concentrar-se em ajudar Laura. Do contrário, ela poderia vir a ser executada como assassina. — Faça como vou lhe dizer — instruiu a criada, erguendo-se com determinação. — Não conte a ninguém sobre o que aconteceu com Laura, entendido? — Perfeitamente, senhorita. — Becky engoliu em seco. — O que mais? — Separe um par de trajes quentes, meias grossas e botas. Também vou precisar de uma cesta com vinho, queijo, carne defumada, o que você tiver. — Todos os dias? — Não, se tivermos a sorte de subornar o diretor da prisão. Agora se apresse. Laura corre o risco de ser maltratada, se pensarem que não existe ninguém a interceder por ela. Pouco depois, com a cesta e uma valise de roupas nas mãos, Célia tomou a charrete de Belgrave e rumou à residência de Randal. Provavelmente ele estava em casa, pois era cedo demais para suas incursões em boates e cassinos. A não ser que tivesse ido ao Hyde Park, a fim de impressionar mulheres e conquistar alguma delas. Uma vida desperdiçada. Célia teve sorte. O mordomo a barrou, alegando que o patrão não queria ser incomodado, mas Célia forçou a entrada e foi falando: — Informe o visconde de que se trata de um assunto da maior urgência,


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referente ao irmão dele. O criado demorou a mexer-se, e Célia teve vontade de gritar com ele. Mas esperou que Randal saísse de seu estúdio e viesse até a sala. — Srta. Carteret, que surpresa! O que... — Podemos conversar em particular, milorde? — Lançou um olhar de censura ao mordomo que, curioso, permanecia ali. — Infelizmente, tenho más notícias. Randal indicou o caminho para o estúdio, cuja porta trancou. Laura respirou fundo ao ouvir o som da fechadura. — Laura Lancaster foi presa pelo assassinato de lady Lockwood. Perplexo, mas em silêncio, Randal circulou pelo aposento e encheu dois copos de conhaque. Célia mostrou-se grata pela coragem em forma de líquido que lhe foi oferecida. — O que preciso fazer? — perguntou o visconde, arqueando as sobrancelhas. — Tire-a de Newgate. Isso levará algum tempo, portanto eu trouxe suprimentos para Laura. Terá de falar com um advogado e um juiz, para descobrir como poderá libertá-la. E necessária uma pessoa com influência. — Julian já sabe? — Creio que não, pois está fora, em Shadowhurst. É inviável esperá-lo. Você conhece as condições dos detentos em Newgate. Randal exibiu um esgar de contrariedade ao confirmar. — Então — Célia emendou —, vamos torcer para que sua posição e influência tenha efeito sobre os magistrados. Só não há tempo a perder. — Sim — o visconde concordou. — Não falharei com Laura nem com meu irmão. Você possui dinheiro suficiente para o pagamento de propinas? — Sem problema. — Célia depositou seu copo de bebida e voltou-se para a saída, apressada. Ao abrir a porta, Randal colheu o braço dela com espontânea atenção. A própria Célia não imaginava, dentro de um quadro adverso, reagir com arrepios ao toque do visconde, que quase a hipnotizou com seus olhos castanhos. Ela notou, distraidamente, que as sobrancelhas dele eram mais escuras do que os cabelos, alourados, que encimavam o rosto bonito. — Pensa que Laura é culpada? — ele indagou em tom grave. — Não. Ela jamais machucaria Eleanor, apesar de tudo. Randal soltou o braço de Célia, meneando a cabeça. Ambos sustentaram os olhares, como se estudassem as intenções mútuas. Era possível sentir uma tensão especial no ar.


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— Vamos agir depressa, srta. Carteret — ele quebrou o clima. De volta à charrete, Célia estranhou que o visconde de Faraday não tivesse perguntado como sua cunhada havia morrido. Nem expressara choque ou pesar. Parecia que lady Lockwood inspirava pouca tristeza por sua morte. Paredes de pedra, gritos assustadores, vapor pesado a infestar a atmosfera. Os detentos de Newgate clamavam inocência, mas também havia cascatas de risos jorrando de dentro das celas. Encolhida num canto, com a cabeça entre os joelhos, Laura procurava manterse nas sombras e passar despercebida. Sem dinheiro para praticar suborno, como era comum ali, ela havia sido atirada numa grande, fria e úmida câmara com mais uma dúzia de mulheres. Algumas eram prostitutas que, à falta de alternativa, tinham trazido suas crianças. Bebês choravam, meninos gemiam e garotinhas se abraçavam às mães. Um cheiro ácido empestava o ambiente. Laura não tinha ilusões quanto a seu destino. As audiências se davam uma vez por mês e a promotoria já apresentara sua versão dos fatos, enquanto a acusada precisava implorar ao juiz para ser ouvida. Não faltavam casos em que essa apelação era negada, e a pessoa suspeita era condenada às galés ou à deportação, sem ter tido a chance de defender-se. Como muitos eram enforcados por mero roubo, Laura não via chances para ela, num caso rumoroso de homicídio. Seu desespero passara tanto do limite que ela permanecia calma, conformada. Existia em Newgate uma ala feminina, independente, onde as detentas ficavam em celas arejadas, limpas, individuais. Mas tudo ali devia ser pago. Desprovida até de brincos para negociar, Laura tinha preferido conservar os sapatos de couro, contra o frio, que um carcereiro pedira em troca da mudança de alojamento. Naquele instante, ela descobrira que poderia dar os calçados por uma cama rústica em que conseguiria dormir ou descansar. Depois, percebeu que, se dormisse, provavelmente acordaria sem seu casaco de inverno. Ainda com a face enterrada no ângulo de seus braços cruzados, Laura tentou alimentar a esperança de que Julian viria tirá-la dali. Surgiria entre as barras de ferro, falaria seu nome, e a porta se abriria, graças a um mandado de soltura. Ela sairia de Newgate como mulher livre. Quase podia ouvir a voz de Julian chamando-a: — Laura! Laura Lancaster, você está aí? Era tão real, tão forte, que ela ergueu a cabeça e olhou, na expectativa de ver o cavaleiro andante Julian chegando para salvar sua dama. Então, a porta realmente foi destrancada e um guarda obeso abriu caminho entre as presas até o canto em que Laura jazia. Ela custou a firmar a vista na pessoa que seguia o agente. Não era Julian, claro, mas Célia.


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— Célia! Graças a Deus que veio — Laura balbuciou. — Não sabia quanto tempo mais eu iria agüentar. — Imagino, amiga. Venha comigo. Agora terá sua própria cela, individual. Ainda não é a liberdade, mas é melhor do que isto. — Célia olhou em torno, estarrecida. — Foi preciso um pouco de conversa e algum dinheiro, porém você ganhará privacidade e poderá dormir sem medo de ter o pescoço cortado durante o sono. Vamos logo, antes que o carcereiro aumente o preço. Embora pouco confortável, a nova cela parecia o paraíso em comparação com a anterior. Havia uma janela alta, gradeada, um colchão velho, e Laura ficaria sozinha. Célia passou-lhe a valise de roupas e a cesta de alimentos, que ela atacou de imediato, esfaimada. A garrafa de vinho, porém, tinha sido confiscada na entrada do presídio. — Trouxe-lhe ainda um vidro de colônia, para você se perfumar — disse Célia, arrancando um sorriso da amiga, o primeiro em muitas horas. Nenhuma delas admitia seus reais temores. — Quando lorde Lockwood voltar da fazenda, Laura, ele pleiteará sua inocência junto ao tribunal. Mas, logo ao ver-se sozinha, Laura não pôde evitar um pensamento: Julian iria interceder por ela, caso a julgasse culpada pela morte da esposa? Acomodada no colchão, novamente abraçou os joelhos dobrados e rezou para que o conde não a abandonasse nem duvidasse de sua inocência. Quem quer que tivesse matado Eleanor, também matara as chances de Laura saber se Julian a havia realmente amado. — O que pretende insinuar? — Julian encarou Cranford, que suportou o olhar com certa preocupação. — Fiquei fora de Londres por dois dias, e agora encontro tudo isso? Não acredito. É impossível. Tem certeza do que disse? — Tenho, milorde. As autoridades estão inquietas e querem falar com o senhor, na sala. — O mordomo removeu um fiapo do casaco do patrão. — Avise que descerei em seguida. — Permita-me apresentar minhas condolências — falou Cranford, hesitante. — Por minha perda? — Julian retorceu a boca num esgar estranho. — E triste, mas a morte de Eleanor não representa uma perda para mim, Cranford, como bem sabe. — Minhas condolências são para sua outra perda, milorde. — Outra perda? — Entendi que a impetuosa jovem que esteve aqui, alguns meses atrás, prepara-se para deixar o país.


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— E verdade. — Julian franziu a testa. — Logo que for viável. Instruí Malcolm para tratar dos detalhes. — Está contente, milorde? — Que pergunta é essa? — Será como sempre disse que queria: uma vida livre de mulheres entediantes. — Vá para o diabo, Cranford. Não é o que desejo, no momento. — Muito bem, milorde. Só quis ter certeza... — O idoso mordomo, porém, não tinha certeza de que Julian houvesse captado sua ironia. Ele fechou a porta do quarto ao sair, deixando o conde a preparar-se para seu confronto com a polícia. A presença de um promotor de Justiça, na companhia dos guardas, indicava problemas. A magistratura inglesa, em reação aos boatos sobre subornos, havia implantado um prêmio de quarenta libras esterlinas para cada policial cuja voz de prisão resultasse em condenação. Era muito tentador para os mal pagos oficiais da lei. — Bom dia, senhor — ouviu Julian ao alcançar a sala. — Não para minha esposa, infelizmente. Podem me relatar o que de fato aconteceu? — Ele gesticulou apontando o sofá e as poltronas. — Os peritos ainda estão investigando, milorde. Parece que temos um pescoço quebrado — disse Patrick Calhoun, o promotor. — Uma queda? — Não. Existem marcas em torno do pescoço de lady Lockwood, o que aponta para um crime premeditado. — Foi assassinato, então — Julian falou calmamente. — Infelizmente sim. O juiz Townsend me pediu para acompanhar estes oficiais na tomada de seu depoimento. Consideramos melhor fazer isso aqui do que na delegacia. — Com toda a certeza. — Julian meneou a cabeça. Townsend contava quase trinta anos de experiência como magistrado. Havia visto, e julgado, todas as causas que alguém pudesse imaginar. Os policiais não fugiram do usual em suas perguntas: onde Julian estava na hora do crime, se os serviçais da casa podiam atestar suas alegações, se tinha algum suspeito... — Há inúmeros candidatos — retrucou o conde —, pois Eleanor não era de natureza dócil. Um dos policiais, Jack Lavender, ergueu a vista para ele.


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— Disse que tinha negócios em Kent e não regressou a Londres até esta manhã. Está correto, milorde? — Sim, está. — Como seu irmão, o lorde Faraday, se dava com sua falecida esposa? Julian respeitou uma pausa. De que modo a polícia descobrira que Randal havia visitado Eleanor? Não era boa notícia, exceto se o irmão pudesse provar onde estivera depois de tê-lo deixado, viva, e em qual horário. No momento em que os homens da lei se foram, Julian reteve a nítida impressão de que ele também era considerado suspeito. Já não sabia como agir. Tão difícil quanto ver Laura de novo, seria persuadi-la a embarcar imediatamente para a América. Antes, era importante. Agora, imperativo. — Mas que droga! Pare de choramingar e me conte onde sua patroa está. —A paciência de Julian se esgotava diante do nervosismo de Becky, que nada falava com coerência. — Está... fora... Oh, é terrível, milorde. — Becky soluçou, e enxugou o rosto com o avental. — Vieram buscá-la... A polícia a levou sem permitir que escrevesse um recado ao senhor. Cristo! Ele tinha chegado tarde! — Quando? — perguntou, cheio de tensão. — Quando vieram buscar Laura? — Faz dois dias, milorde, e a levaram diretamente para Newgate... Dois dias na sinistra penitenciária? Laura, presa juntamente com prostitutas, assaltantes, assassinos, estupradores? Era demais, para qualquer ser humano dotado de um mínimo de honestidade. — Temos cartas com lacre como provas, milorde. — O promotor fitou Julian de modo especulativo, tentando decidir se ele era culpado de traição, conforme rezavam os boatos. Mostrou um maço de papéis. — Estas foram escritas a uma certa sra. Fleurette, que vem a ser a amante do general Laborteaux, homem de confiança de Napoleão Bonaparte. Creio que estejam redigidas em código, o qual já deciframos em parte. Julian estudou o atarracado profissional, de aparência ridícula, mas famoso pela tenacidade. Teria de ser cauteloso em sua conduta ou palavras, ou poderia comprometer-se e, pior, colocar Laura em perigo. — Como sabe que a srta. Lancaster escreveu essas cartas? — Estão timbradas com o lacre pessoal dela. Aparentemente, sua esposa interceptou a correspondência, e a srta. Lancaster resolveu acabar com ela. — Consta que minha mulher foi estrangulada — rebateu o conde de pronto.


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— Acha que a frágil srta. Lancaster seria capaz de dominar e esganar lady Lockwood? O promotor, chamado Shadwell, franziu a testa. — Sua esposa tinha compleição pequena. Pode ter sido difícil, mas não impossível, milorde. — A situação é absurda. Laura Lancaster não faria isso. — A srta. Lancaster adquiriu passagem no navio Perséfone logo depois que lady Lockwood foi assassinada. Fugir da Justiça não é o que se espera de uma pessoa sem culpa. Julian passou a mão pelos cabelos, exasperado e aflito. Com esforço, recuperou a calma para dizer: — Eu é que mandei meu secretário obter a passagem para a América, que é o lar dela. — De fato. — Shadwell dilatou os olhos estreitos. — Contudo, seu secretário não fez o que lhe pediu. O criado da srta. Lancaster comprou o bilhete, por ordem dela. O senhor foi enganado, milorde. Contraindo a face, Julian evitou responder. Não, era impossível. Havia enviado Malcolm ao escritório do agente de viagens, com o dinheiro necessário, antes de trocar Londres pelo interior. Tinha ido a Shadowhurst a fim de bloquear seu impulso de impedir a partida de Laura. O que acontecera para ela mandar o cocheiro Charlton diretamente ao porto? Tentando uma tática diferente, o conde falou devagar: — Como minha esposa pode ter interceptado cartas da srta. Lancaster? Não eram amigas nem se viam. Usualmente, uma mulher não se aproxima da esposa de seu protetor, sr. Shadwell. — Sim, é verdade, mas esse tipo de pessoa pode ter mais de um protetor, e a srta. Lancaster não foi exceção. Temos conhecimento de que um velho amigo dela e da mãe veio de Paris e visitou tanto sua mulher como sua amante. Esse homem, Aubert Fortier, está sendo interrogado. Talvez tenha prevenido lady Lockwood de suas suspeitas. — E então Eleanor investigou sozinha e entrou em luta corporal com a srta. Lancaster? Não consigo aceitar essa idéia. O estilo de lady Lockwood consistia muito mais em difundir rumores, o que ela fez ao insinuar que eu havia passado segredos de Estado à minha protegida. Esperava, com certeza, que eu fosse preso por traição. Shadwell tossiu, numa manobra que não iludiu Julian. O conde estreitou os lábios e indagou acidamente: — Vai me deter por traição, sr. promotor?


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Em tom brando, Shadwell objetou: — Não, milorde. Pelo que concluímos, qualquer informação contida naquelas cartas é superada e inútil. Parecem tiradas de jornais velhos e dos anais do Parlamento. Não que o senhor tenha ficado à margem dos recentes movimentos militares e de reuniões do Conselho de Guerra, mas havia pouco a ser obtido de sua pessoa ou de sua escrivaninha pela srta. Lancaster. — Pensa que sou tolo, Shadwell? — Julian arqueou as sobrancelhas e vergouse na direção da mesa do promotor, onde espalmou as mãos. Prosseguiu num velado tom de ameaça: — Qualquer tentativa de acusar a srta. Lancaster de traição contra a Inglaterra é fútil, mesmo porque ela não é cidadã britânica. Também não é idiota para vender segredos aos franceses de Napoleão, cujos atos despreza. Em vez de procurar um motivo para prendê-la, por que não se dedica a descobrir o verdadeiro assassino de lady Lockwood? — Não é futilidade que uma colona descontente busque vingança na forma de espionagem, milorde. Quem matou sua esposa já está presa em Newgate. Além disso — Shadwell soou como vitorioso —, existe uma testemunha pronta para depor, sob juramento, que a srta. Lancaster se envolveu na venda de informações aos franceses. — Não acredito! Quem é? — O mesmo Aubert Fortier. Julian recostou-se na parede fria, cruzando os braços ao peito. Tinha solicitado a Shadwell estar presente no interrogatório de Fortier e, para sua surpresa, o promotor concordara. Um oficial de Justiça apontou o dedo para o rosto da testemunha. — Então, conte-nos como conheceu a srta. Lancaster. — Perfeitamente. — Fortier lançou um olhar e um sorriso zombeteiro ao conde. — Éramos bem próximos, em Paris. A mãe dela foi amante de meu pai, por certo tempo. Laura e eu nos tornamos... amigos. — Ela foi sua... — Amiga, sim — Fortier falou com malícia. — Uma jovem adorável. Quem não cairia de paixão por ela? — Mas vocês romperam e a srta. Lancaster mudou-se para a Inglaterra. — É verdade. Houve um mal-entendido e ela praticamente fugiu, com uma trupe de artistas. Sempre foi muito impulsiva. A ira cresceu dentro de Julian, diante de tantas mentiras. Fortier sugeria que tinha sido amante de Laura, ainda adolescente, quando o conde bem sabia que fora o primeiro homem dela. O relato inteiro era falso. — Em que época o senhor a viu de novo? Ela lhe pediu para vir? — o oficial continuou.


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— Não, eu a encontrei por acaso no teatro em que era atriz. Ignorava que Laura se colocara sob a proteção de lorde Lockwood. Quando descobri, não quis mais vê-la. Sobretudo ao saber do plano dela para livrar-se da esposa do conde. Ele olhou de novo para Julian, que ficou sem reação. Fortier prosseguiu: — Laura acreditava que, com Eleanor fora do caminho, ela poderia casar-se com o amante. Pretendia incriminá-la por meio de cartas escritas à mãe em Paris. Informei Eleanor desse plano diabólico e decidimos reunir as provas necessárias, ou seja, as cartas, e trazê-las às autoridades. Supostamente, a srta. Lancaster soube de nossa intenção e matou a pobre Eleanor. Uma ocorrência terrível, senhor, terrível. — Decerto que sim. — Shadwell olhou por cima do ombro para Julian, com um brilho de triunfo nos olhos. Quando o oficiar pediu detalhes sobre como Fortier e Eleanor tinham obtido as cartas, o conde focalizou o francês, convencido da culpa dele. Pela própria compleição física, ele poderia, sim, ter estrangulado a vítima num acesso de raiva. Era provável que, além de assassino, Fortier tivesse sido o último amante de Eleanor, possuidora do dom de enfurecer as pessoas. Problema maior: o depoimento de Fortier incriminava Laura, reforçando a opinião do promotor. A menos que Julian conseguisse provar que Fortier mentia, restava pouca esperança para ela. Laura examinou com espanto os lacres violados de suas supostas cartas. — Não são meus. Quero dizer, as cartas não são minhas. A caligrafia é diferente e meu carimbo também. Utilizo um mais simples. E como eu saberia sobre movimentos de tropas ou posições de Wellington? — Alegam que eu lhe contei — Julian afirmou secamente, e ela o olhou com surpresa. — Seu velho conhecido, Aubert Fortier, assegura que você manteve contato com sua mãe e o fez jurar silêncio. Enfim, sua situação é crítica. — E você? Será preso? Alisando o queixo, Julian exibiu um esgar. — Uma vez que as informações vazadas são velhas e sem importância, o promotor supõe que você pesquisou papéis da minha escrivaninha. Fui liberado de qualquer acusação. — Fico contente por isso. — Ela esfregou as mãos, ansiosa. — Laura querida. — O próprio conde estranhou o termo, pronunciado sem o menor esforço. — Fale de novo sobre a visita de Eleanor a você, pouco antes de ela morrer. — Já lhe contei tudo. Não houve discussão. Ela apenas me pressionou para eu não mais mandar pessoas aborrecidas à casa dela. Mas disse que você se cansava logo das mulheres, depois de conquistá-las, e seria acusado de traição a qualquer


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momento... — Ela a ameaçou ou fez alguma coisa estranha durante a visita? — Ah, Becky a viu pegar algo em minha escrivaninha, mas só senti falta de meu carimbo. — Seu timbre pessoal, para cartas? — Sim, o único que usava. Não sei por que o levou, já que custam pouco em qualquer papelaria. — Laura, a polícia encontrou um carimbo em sua mesa. Sofisticado, como o que aparece nessas cartas. — Julian aguardou a reação dela, que tardou. — Impossível. Nunca comprei um timbre desse estilo. — Talvez Eleanor tenha comprado, com suas iniciais, e largado na escrivaninha com o fim de incriminá-la. Ela o fitou com ar aflito, sem convicção de poder provar sua inocência. — Vou interrogar todos os criados — avisou Julian, erguendo-se. — Mas quem você enviou para falar com Eleanor? — Ninguém. Não percebo o que ela quis dizer. Mais sorridente do que contrariado, Julian replicou: — Acho que eu sei. — Deus do céu! Quem? — Meu irmão. Julian deparou com Célia Carteret na sala de visitas de Randal. Ambos pareciam bem à vontade. Falavam baixo, no sofá, e olhavam-se de perto. — Vejo que tem companhia, caro irmão. Cheguei em má hora? — De modo algum — asseverou Randal, levantando-se. — Você aparenta estar preocupado, e justamente discutíamos alternativas para a defesa de Laura. — Alternativas? Você não considera que já causou estrago suficiente? — Como assim? Estrago? — Randal mostrou-se abismado, enquanto Célia não reagiu. — Sua visita a Eleanor — emendou Julian. — Ela procurou Laura para queixar-se, e agora essa atitude pode comprometer a melhor amiga de Célia. A polícia acha que brigaram por causa da ridícula invencionice sobre espionagem. Célia clareou a garganta e falou, antes que Randal se manifestasse: — Nesse caso, milorde, creio que também causei problemas, sem intenção.


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— Igualmente visitou Eleanor? — o conde perguntou sem delongas, mas Célia balançou a cabeça, negando. — Não, porém enviei... um amigo meu. — Santo Deus! — De pé, Julian avançou até a mesa de centro, provida de garrafas e copos de cristal, e serviu-se de uma generosa porção de vinho xerez. — Quem? — Rex Pentley. Julian subiu suas sobrancelhas de modo enfático. — O mago das cartas de baralho? — Rex tem numerosos talentos, milorde. Ah, existe algo importante a discutirmos. Aposto como a polícia desconhece que Aubert Fortier tentou chantagear Laura. — Prossiga — Julian pediu, tateando o cristal. — Uma noite, ele veio ao teatro, após o término da peça, e ameaçou relatar a todos a situação da mãe de Laura, se não recebesse uma alta quantia em dinheiro. Claro, Laura não possuía a soma desejada. Conseguiu parcelar a extorsão e vendeu um belo colar a fim de pagar a primeira mensalidade... Célia fez uma pausa e respirou fundo antes de continuar: — Ela não sabia o que fazer, milorde, para impedir que o senhor descobrisse a condição da mãe como cortesã. Temia perder pontos em sua consideração por ela. Tentei convencê-la de que a revelação não afetaria o relacionamento entre vocês, porém Laura estava muito deprimida. Na volta da casa de campo de Belgrave, mobilizei a ajuda de Rex para dar um susto em Fortier. — Mesmo? — Julian circulou pela sala e depois encarou Célia friamente. — Ele conseguiu? — Rex providenciou para que Fortier levasse alguns socos. Assustado, ele se afastou de Laura, mas não de Eleanor. Assumo a responsabilidade de ter mandado Rex procurar sua esposa, para ver se ela confessava a invenção dos boatos. Célia suspirou, certa de que o conde se surpreendia. — Mas quando Rex chegava na casa de Eleanor, viu Randal saindo — ela acrescentou, olhando de relance para o irmão de Julian. — Depois, foi a vez de Fortier, que entrou e ficou pouco. Só então Rex apresentou-se a sua esposa. Ela exibia alguns machucados, produzidos por Fortier, inclusive uma marca no rosto. Eram amantes, milorde, além de conspiradores. — Não estou surpreso — declarou Julian, bebendo um gole de xerez. — Rex descobriu mais alguma coisa útil? — Lady Lockwood negou qualquer envolvimento com os rumores, mas disse


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ter provas de que Laura vinha se comunicando com a mãe e as usaria quando lhe aprouvesse. Falou ainda que, após sua execução por traição, milorde, ela sairia da Inglaterra para sempre. Teria nas mãos a sua fortuna, embora o título e as propriedades ficassem com seu irmão, caso não fossem confiscados pelo governo. Dessa vez, Julian arregalou os olhos, atônito. — E como ela pensava em retirar meu dinheiro? O Banco da Inglaterra proíbe saques sem a permissão, devidamente assinada, do titular da conta. Sobretudo quando o correntista está preso ou sendo investigado. — Rex tirou uma conclusão razoável, milorde — completou Célia. — Fortier anda falsificando sua assinatura e treinando para forjar outros documentos. — Meu Deus! — Julian meneou a cabeça, desanimado. — Era um par de loucos, incríveis facínoras. Mas me diga, Rex Pentley estaria disposto a testemunhar em favor de Laura? — Com toda a certeza. — Célia sorriu. A vista a partir da cela era sombria. Laura esticou-se até a janela alta da parede, desesperada para enxergar uma nesga de céu e nuvens, em vez do cinzento desolador dos muros do presídio. Não conseguiu, mas era melhor tentar do que sucumbir de vez à desesperança. Alguém havia matado Eleanor. Embora muitos a odiassem, somente Laura parecia ter motivos. Além deles, existiam provas, na forma das cartas que supostamente escrevera à mãe em Paris, que apresentavam seu timbre pessoal, roubado de sua mesa de trabalho. Claro, ela vinha desmentindo que fosse o seu, como faria qualquer pessoa acusada de um crime. Era irônico. Laura nunca mais se comunicara com Fleurette, a genitora, que provavelmente ignorava suas atribulações e, caso soubesse, não se importaria. Haviam discutido sobre Aubert Fortier em clima de ódio, e Laura fugira de casa sem dizer "adeus", a fim de preservar-se do assédio do velho sátiro. De súbito, a porta da cela se abriu. Célia viera buscá-la. Graças ao depoimento de Rex Pentley e aos bons ofícios de um advogado, Julian obtivera do juiz uma ordem para a liberdade provisória de Laura. A prisioneira deu alguns passos tímidos, que se fortaleceram quando ela ouviu a voz familiar de Julian no corredor de acesso. Continuava sendo sua protegida. — Você pode vir conosco, Laura — ele proclamou. — Está livre. Livre! Célia teve o cuidado de chamar um médico pára examinar a amiga. — Ela está bem, doutor? — perguntou na saída do quarto de Laura.


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— Somente um pouco de febre, comum entre detentos. Felizmente, a srta. Lancaster não ficou muito tempo em Newgate, além do que é uma pessoa forte. Olhando com alívio na direção de Julian e de Randal, Célia abriu um sorriso. — Cuidarei pessoalmente da saúde dela — anunciou. Julian exibia uma expressão pétrea, enquanto Randal não escondia o desafogo que experimentava. — Será melhor para Laura — ele comentou. — A não ser que tenha objeções, meu irmão. O conde já havia protestado contra a ida de Laura para a casa de Randal, em vez da sua própria ou da residência na Frith Street. Deixara claro que não gostava de perder o comando da situação. No entanto, admitia ser complicado hospedar a amante, tão pouco tempo depois da morte da esposa. Julgava-se devedor perpétuo de Célia, porque por meio dela, Rex Pentley dera um testemunho fundamental na soltura de Laura. Agora, a polícia estava atrás de Aubert Fortier. Segundo Rex, era ele o assassino da condessa. O médico-legista havia confirmado os hematomas no corpo e no rosto de Eleanor. — Vou permanecer no quarto, com Laura — Célia avisou os dois irmãos. — Não quero que acorde sentindo-se em lugar estranho. Uma chuva persistente batia contra o teto. Célia mantivera a porta entreaberta, a fim de notar a aproximação de visitantes, enquanto Laura dormia profundamente, com os cabelos espalhados sobre o travesseiro. Célia aguardava a chegada de Rex ou mesmo de Charles Belgrave, que se mostrara surpreendentemente prestativo naqueles dias. Pobre Charles! Ansiava por evitar qualquer falatório a respeito dele, a fim de não criar problemas em casa, com a esposa. Ainda assim, ajudara Célia com especial dedicação. Claro que, nas hostes da nobreza britânica, a morte de lady Lockwood era lamentada publicamente, mas em particular muitos suspiravam de alívio, prevendo o fim da onda de escândalos. Não, talvez Belgrave não viesse visitar Laura. Preferia ficar desconectado daquele caso tão rumoroso. Célia não poderia culpá-lo por isso. — Laura ainda dorme? — perguntou Randal, colocando a cabeça dentro do quarto. — Sim. Onde está o conde? — quis saber Célia. — Já foi embora. Aquilo representou uma surpresa. — Pensei que não sairia sem ver Laura de novo. O visconde puxou uma cadeira, mas apenas pousou as mãos no espaldar. — Julian tem muita coisa a fazer e não quer ver Laura nesse estado. Ficou


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terrivelmente abatido por causa dela. — Laura é forte e está bem, como disse o médico. Questão de tempo. — Não é com a saúde que Julian se preocupou. Tivemos sorte por encontrar um juiz sensível e simpático à nossa família. — Desde que não venha a condenar Laura à forca, depois, dou-me por satisfeita. — A voz de Célia soou embargada. — Julian a manterá a salvo — garantiu Randal. — Nem que tenha de colocá-la num navio para a América. — Mandá-la embora ainda é necessário? — Pode ser que sim. — Randal demorou-se num olhar caloroso para Célia. — Mas, se a polícia conseguir uma confissão de Aubert Fortier, quando encontrado, tudo se resolverá. Sentado em sua poltrona predileta, Julian seguia com a vista o arder das brasas em seu estúdio imerso em sombras. Sentia um peso quase insuportável nos ombros. Várias opções lhe ocorreram. John Townsend, o magistrado que o ajudara, agora se empenhava em deter Fortier e convencê-lo a confessar. Senão, Julian poderia abrigar Laura no campo ou desafiar a Justiça mandando-a para a América. Caso ele tivesse a chance de achar Fortier e interrogá-lo primeiro, era de presumir que obteria mais respostas do que a polícia, ou mesmo uma confissão cabal. Faltava um detalhe. Onde estava o carimbo de chumbo de Laura, que sumira de sua escrivaninha? Ela alegara que o timbre usado nas cartas não lhe pertencia. E Julian se lembrava bem dos lacres de cera que vira. Mostravam a estampa de um "L" bastante ornamentado. "L" servia para Lancaster e... para Lockwood. Céus! Como ele pudera ser tão cego? Aquele era o carimbo de Eleanor! Ela teria trocado os timbres no dia em que visitara Laura. Com isso, a peça pertencente a Laura devia estar ainda na mesa de Eleanor. Julian ergueu-se, afobado, e acionou o cordão da campainha. Em sua mesa, rabiscou um bilhete curto e, no verso do envelope, aplicou seu carimbo: outro "L", este limpo e masculino, sem floreios. — Chamou-me, milorde? — Malcolm se apresentou no estúdio. — Sim. Por favor, entregue esta mensagem pessoalmente ao juiz Townsend. É sigilosa. E vital. — Julian percebeu que seu secretário não tinha o semblante normal. — Você está bem, Malcolm? — Sim, milorde. Obrigado por perguntar. Malcolm não podia mesmo estar bem, após a morte de Eleanor Lockwood.


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Pálido, parecia ter envelhecido dez anos em uma semana. Talvez por isso se mantivesse arredio, trancado no quarto. Julian desconhecia a paixão por Eleanor que nutria o sangue de Malcolm. Mas, se ele preferia não falar de seus problemas, não era Julian quem iria forçar a situação. — Vá depressa e aguarde a resposta do juiz. O conde moveu-se até a janela, olhou para a rua através da fresta das cortinas fechadas. Observou a chuva, que produzia um som de cicio, parecido com um murmúrio de mulher. De Laura, para ser mais preciso. De olhos fechados, Julian recordou os momentos de intimidade com ela, sentiu-lhe os braços em torno de seu peito, a delicada fragrância de rosas, os toques carinhosos repletos de audácia e volúpia. Para salvá-la, tinha de desistir dela. Era a única solução, a única certeza. Amargurado, ele admitiu que Laura nunca seria aceita em sociedade, que os parentes de Eleanor tratariam de assegurar tal represália, mesmo que a inocência dela fosse estabelecida. O conde já não se importava com a própria reputação. Dessa vez, ao invés de escorraçar Laura sem explicações, iria recebê-la e dizer como se sentia a respeito dela e do amor entre os dois. Haveria de ser, ao menos, uma boa lembrança, caso Laura partisse. Só que dessa vez ele não seria um covarde. Laura acordou sem pressa e teve tontura ao sentar-se na cama. Deu-se conta de que estava livre e segura, embora não absolvida em definitivo. Menos atordoada, notou a cadeira vazia, na qual Célia havia mantido sua generosa vigília. A última coisa que escutara, antes de adormecer, era que estava na casa de Randal. Pela porta entreaberta, Laura ouviu vozes no corredor. Julian e Randal discutiam, em tom alterado. O conde falava de sua intenção de procurar Fortier e, se possível, contar com o auxílio de Laura nessa busca. Randal dizia que era uma idiotice, capaz de renovar as suspeitas sobre a protegida do irmão. — Por falar em idiotice — reagiu Julian —, o que você pretende com esse flerte com a amante de Belgrave? Acha que ele não vai perceber? No momento de silêncio que se seguiu, Laura voltou a deitar-se, chocada, e cobriu-se até o queixo. Célia e Randal? Não, não podia ser. — Para sua informação, Julian, Célia esteve aqui para ver Laura, não a mim. Você está tentando me distrair de um problema mais essencial: quais os seus planos para Laura? — Conversarei com ela, se ninguém se intrometer. Ouviu-se uma risada hostil por parte de Randal. — E melhor você pensar bem, antes, ou vai se arrepender. — O visconde


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parecia confrontar o irmão com mais coragem do que se poderia esperar. — Ela ama você e você a adora. Mas o que isso importa, se Laura estiver do outro lado do oceano? — ironizou. — Randal... — Julian aparentava ter pedido trégua. — Sei como está mal-humorado. Vou sair de seu caminho, mas lembre-se do que eu disse, meu irmão. Creio que você já tem suficientes mágoas em sua vida, para agora acrescentar mais uma. Com o coração apertado, Laura esperou que Julian entrasse. — Olá, querida. — Ele foi amável a ponto de despertar nela um sorriso. Ocupou a cadeira e colheu a mão de Laura. — Está chovendo de novo. Abril é um mês chuvoso. — Estamos em abril? — ela espantou-se. — Meu Deus! Pensei que... — Você ficou fora de órbita por algum tempo... Mas eu trouxe uma prova de minha grande afeição por você... — Julian mexeu no bolso e tirou um estojo de veludo, que passou a Laura. — Abra e veja. Era um lindo colar de diamantes, com apliques de esmeraldas. Todavia, confundia-se com um adeus, um presente de recordação, para não se esquecer de Julian. — Gostou? — ele perguntou após um momento, e Laura gesticulou confirmando. — E maravilhoso. — Os olhos dela lacrimejaram. — Não chore, querida. Não vê que consegui tirá-la de Newgate e mantê-la segura? Faria tudo... qualquer coisa... para garantir sua segurança. — A vida inteira, Julian, lutei contra riscos. Primeiro, minha mãe. Depois, meus avós e meu tio na América. Talvez estivessem certos em suas exigências. Agora, já é tempo de escolher meu destino. Não estou com medo, como estava quando fugi de Paris e das garras de Fortier. Cansei de correr, Julian. Quero permanecer na Inglaterra. Quero estar com você. Ele a observou, momentaneamente pasmo. — É perigoso demais, Laura. Pode ir a Shadowhurst, onde tem um chalé, lembra-se? Só quando Fortier for encontrado e denunciado pela morte de Eleanor, então poderá voltar. Para seu próprio bem, quero você longe de Londres. — Pesei todos os riscos. Desejo parar de fugir. — Ela respirou fundo. — Julian, não deixarei você. Eu o amo. — Sim, eu sei. — Ele levantou-se e afagou os cabelos de Laura. — Também amo você. Meu irmão é mais perceptivo, nesses assuntos. Mas não conseguiríamos viver bem, debaixo da ameaça de uma condenação, ou prisão, ou não sei o que mais.


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— Se insiste, sairei da Inglaterra, mas não para a América — ela retrucou. — Aonde vai? — Paris. Ficar com minha mãe. Horas depois, a Guarda Fluvial encontrou o corpo de Aubert Fortier, boiando no rio Tâmisa. Estava um pouco desfigurado, e Rex Pentley foi chamado para a identificação. Enquanto isso, Laura sentia-se feliz na casa de Julian, onde havia deixado sua bagagem. Paris era perto e chegara o momento de enfrentar sua mãe. Qual o risco? Uma vez que Fortier fosse localizado e interrogado, ela seria absolvida e poderia retornar a Londres. Plano simples e exeqüível. Julian havia saído, mas a sensação de acolhimento de Laura perdeu-se quando Malcolm surgiu na sala. — Perdão, senhorita, mas há novidades. Precisa vir comigo imediatamente. Tenho uma carruagem alugada, lá fora. — Ir com você? Por quê? Julian está bem? — Sim, está, mas você corre grande perigo. Fortier foi encontrado morto. Deve abandonar Londres antes que a polícia venha incomodá-la. — Mas meu navio só vai zarpar amanhã — ela balbuciou, emocionada. — Irá para o campo, srta. Lancaster. O conde deixou instruções precisas. Nada a impedirá de viajar de Dover a Paris, quando for seguro. Agora, tem de vir comigo. — Bem, estou zonza. — Leve apenas uma valise de mão, com o suficiente para um ou dois dias — insistiu Malcolm, apressando-a ao apontar a maleta. — O quê? Sim, entendo. A valise ficará comigo, na cabine. Como Fortier tinha morrido? Havia confessado o assassinato de lady Lockwood antes de... — Rápido, por favor — Malcolm reforçou. — Ou terei de empurrá-la. — Dê-me tempo de ir ao toalete... — Laura disse, sem acreditar na ameaça. — Nas condições atuais, preciso acompanhá-la. Apenas até a porta, claro. — Claro. — Mas Laura subiu até o quarto verde-claro onde Julian a alojara e onde conhecera os meandros do prazer nos braços dele. O conde estaria realmente ileso? Por que não se comunicara com ela, nem mesmo por meio de um bilhete? Laura sabia que lorde Drumley, pai de Eleanor, se dispusera a tudo diante do juiz, menos acusar o genro como responsável pela morte da filha. Então, era improvável que Julian estivesse preso. Célia viria visitá-la naquela noite, e Laura encareceu a Malcolm a necessidade de informá-la, mas o secretário mostrou-se intransigente. Assim que a carruagem


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rodou, ela quis saber o motivo de usarem um veículo alugado. — Chama menos atenção — explicou Malcolm. — Acha que estamos sendo vigiados? — Laura franziu a testa. — Por que a polícia me seguiria, se pode me prender? — Não faço idéia, senhorita. Estou agindo de acordo com as instruções. Laura acalmou-se um pouco ao ouvir isso. Não podia culpar aquele homem por realizar seu trabalho, obedecendo ao patrão. Acomodou-se melhor no assento duro da carruagem. — O condutor está correndo muito — comentou. — Vai nos levar a Kent? — Sim, foi pago para nos transportar até nosso destino. Já no começo da estrada, Malcolm ressonou. Laura calou-se, suspeitando que era fingimento e ele escutaria até seus resmungos. Estudou as feições do secretário de Julian, concluindo que ele era menos bondoso ou inofensivo do que parecia. Por exemplo, seria capaz de, por razões insondáveis, tramar o seqüestro dela? A pressa do cocheiro e a proximidade de Malcolm a puseram nervosa outra vez. Célia abriu para Randal a porta da casa da Frith Street. — Ela partiu — foi dizendo. — Becky encontrou isto no quarto de cima. Por que fugiu para o campo? O que Julian está planejando? A circular pela sala, Randal leu o recado. Célia moveu a cabeça, inconformada. — E bastante inusitado — ele opinou. — Não creio que Julian fosse mandá-la para o interior, afinal. Acha que Laura viajou por conta própria? — Mas por quê? — Célia rodeou o visconde. — Estava tudo certo quanto a ela ir a Paris, rever a mãe, ou passar alguns dias no campo, até Fortier ser localizado e confessar seu crime. — Melhor falarmos com Julian, o mais rápido possível — propôs o visconde. Na carruagem que tomaram, Célia contou que tinha visita marcada com Laura e, estranhamente, ela partira antes da chegada da bagagem, que pedira para buscar. O detalhe que mais perturbava Célia, porém, era o fato de o bilhete ser achado sob uma jarra de água, no quarto dela. Em condições normais, qualquer pessoa colocaria o recado na mesa da sala, de forma bem visível. Por que Laura o escondera, para Becky encontrar quando arrumasse o aposento? Haveria alguém com ela, alguém que não deveria ler o bilhete? — Julian? — Randal arriscou o palpite. — Não faz sentido. Droga! E se foi Fortier? Meu irmão não queria que Laura voltasse para casa, mas ela insistiu. Agora,


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está em perigo. Pestanejando, Célia alimentou o clima negativo. — Se eu estivesse com Laura, nós duas poderíamos ser seqüestradas por Fortier. Randal julgou que o momento exigia uma mudança de rumo e, serenamente, declarou-se a Célia: — Belgrave é um homem bom e decente, mas, se algum dia vocês dois romperem, lembre-se de que estou por perto e adoro você. — Adora? — ela ecoou como se fosse desfalecer, acolhendo o abraço dele. Célia nunca se ligara a jovens impetuosos. Preferia homens maduros, mais estáveis. No entanto, Randal fazia seu coração disparar. Tinha magnetismo no olhar, no sorriso, nas maneiras descontraídas. E também a aparência de quem a abandonaria tão logo se cansasse dela... Livrando-se do contato físico, Célia sentou-se de novo e frustrou Randal: — Aprecio seu interesse por mim, milorde. Mas é melhor nos concentrarmos em localizar Laura. — Claro — ele acedeu. — Vamos encontrá-la. Depois, retomaremos nosso assunto pessoal. — Julian, Fortier seqüestrou Laura! Estarrecido, o conde focalizou o irmão, que corria até ele, seguido de Célia. — Quando? — Faz pouco tempo, cerca de uma hora. Viemos procurar você diretamente. — Uma hora atrás é impossível — sentenciou Julian. — Mas ela desapareceu. Deixou um bilhete dizendo que você a enviou para Kent. — Mais uma impossibilidade. — O mistério mantido pelo conde enervava Randal além da conta. — Por que não entende? Fortier deve ter raptado Laura. — Só por milagre. Fortier está morto, há dias. E eu certamente não mandei Laura ao campo. Furioso, Randal lhe mostrou o recado escrito: Célia, Julian me enviou a Kent, por segurança. Laura Os rabiscos, quase ilegíveis, denotavam terem sido traçados com pressa. Julian, alarmado, perguntou onde o papel fora encontrado. Da explanação do irmão, sobre o bilhete ficar escondido, o conde concluiu que Laura sofrera alguma coação


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para partir. De quem? — Vamos! — Julian instou o irmão. — Aonde? — Randal quis saber. — Kent. Se Laura disse, é lá que a encontraremos. Mesmo desconhecendo que ela corria perigo, um senso de urgência tomou conta de Julian. Célia foi solicitada a voltar à casa de Laura e permanecer de plantão. — Leve um de meus criados, para sua segurança. Ela apreciou a preocupação de Julian e tomou a carruagem do conde, enquanto este e o irmão montavam os dois melhores cavalos disponíveis. — Este não é o caminho para Kent. — Laura agitou-se na cabine, após espiar pela janela do coche. — Onde estamos indo? — Há muitas estradas para Kent, srta. Lancaster — rebateu Malcolm. — Tomei uma em que não podemos ser seguidos facilmente. Sem alternativa, Laura recaiu no silêncio. Inquieta, notou que cruzava uma área degradada, com muitos sítios abandonados que talvez abrigassem assaltantes e outros marginais. Próximo e distante, Malcolm teimava em ficar calado, sonegando informações a Laura. O que ela poderia fazer? Já desconfiava que Julian nada tinha a ver com aquela viagem, e por algum motivo Malcolm estava por trás de um seqüestro. Mas o que ele queria dela? — Também não é Shadowhurst — disse mais tarde, com firmeza. — Por que paramos? Leve-me de volta a Londres imediatamente, ou terei de denunciar suas ações a lorde Lockwood! — Desça por favor, senhorita. Sei que é um incômodo para nós dois, porém fui forçado a agir assim, em favor de sua proteção. Deveria acreditar? Desde que Laura pressentira o lado malvado e sinistro de Malcolm, não podia deixar-se enganar. Simulou obediência, à espera da primeira oportunidade para fugir. — Claro. Tudo bem. Apenas me surpreendi com esta parada porque você falou que íamos até a propriedade do conde. — Estes terrenos pertencem igualmente a lorde Lockwood, bem como o chalé na colina e o moinho mais adiante. Como administrador dele, conheço todos os bens. Por favor... Laura valeu-se da mão estendida de Malcolm e, uma vez fora da carruagem, viu um chalé desolado, no topo da colina barrenta, recortado contra um céu de chumbo. Não avistou luzes atrás das janelas. Começou a tremer sem controle.


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O secretário de Julian conduziu Laura pelo braço, sobre uma trilha gramada. Do rio próximo, soprava um vento úmido que a brindou com certo alento, pois representava a força da natureza. — Não é luxuoso, porém mais confortável do que o casebre que lorde Lockwood lhe deu de presente. — O tom de Malcolm já embutia a raiva e a inveja que, no entender de Laura, ele fatalmente iria assumir. Trovões fizeram com que Julian reduzisse o galope. Isso lhe permitiu estudar o local, onde sabidamente se escondiam assaltantes de estrada. Nenhum deles, contudo, se arriscaria a atacar dois homens robustos, que cavalgavam animais obviamente rápidos. Mas quem era o cavaleiro que, apressado, os ultrapassou? Julian levou a mão à cintura da calça, onde repousava sua pistola. O homem a cavalo parou um pouco adiante e olhou para trás. — Lockwood? Franzindo a testa, Julian reconheceu o assistente do juiz John Townsend, que o levara para ver o corpo de Aubert Fortier. — Seu cavalo é muito veloz, Stewart. — Verdade, milorde. Estava a sua procura. Rex Pentley acertou na identificação do caminho, por meio de mapas da região. Falou com uma amiga e descobriu que a srta. Lancaster está em Hounslow Heath. — Mas por qual motivo? — Parece que seu secretário Malcolm a raptou. Rex havia combinado com Stewart de esperar o grupo na estrada. Cauteloso, ele guardou a bolsa de dinheiro dentro da camisa. Seu amor à aventura era maior que o medo de topar com infames assaltantes. Gostara de auxiliar o juiz Townsend nas investigações e, agora, não se furtaria a ajudar a suplicante Célia nem a adorável Laura. Os trovões e relâmpagos se intensificaram, o cavalo de Rex parou de pastar, mas ele logo reconheceu o conde e seu irmão, acompanhados de Stewart, que se aproximavam do ponto acertado. A missão de resgate propriamente dita começava ali. — Pentley, conte-me o que sabe — pediu Julian, sem desmontar. — Seu secretário Malcolm está com a srta. Lancaster, no único chalé vazio da colina. — Então, ela se acha em segurança. — Infelizmente não, milorde. John Malcolm matou sua esposa, provavelmente Fortier também, e pode atacar Laura se não chegarmos em tempo.


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— Por que age dessa maneira? — Laura perguntou, enquanto Malcolm acendia lampiões no interior do chalé. — Você foi minha ruína, e agora é minha última esperança de salvação. — Não compreendo. — Completamente tensa, ela julgou uma boa idéia induzir Malcolm a falar bastante, para ganhar tempo de descobrir uma saída. — Lembra-se? — Ele adotou um tom nostálgico. — Eu fui o responsável por sua aproximação com o conde, a quem sugeri que tomasse uma amante, a fim de combater os boatos negativos sobre a masculinidade dele. — Malcolm riu. — Eu iniciei os rumores, para ganhar a atenção de lady Lockwood. Era encantadora. O conde não servia para ela, assim como os outros homens com quem se deitou. — Mas você servia... — O sarcasmo de Laura não atingiu seu captor. — O conde! Nem percebia os méritos de Eleanor. Nome e porte de rainha. E me amava. A mim, um homem sem berço ou título de nobreza, mas devotado a ela, capaz de beijar o chão em que pisava. Fiz tudo por Eleanor, inclusive matar Fielding, que invadiu o quarto de Eleanor, na noite de núpcias, e a possuiu à força. Bati na cabeça dele com o atiçador de fogo e joguei o corpo escada abaixo. Só não o atirei no rio porque não houve tempo. — Mas lady Lockwood é que foi acusada do crime. — Sim, um infeliz imprevisto. Neguei os fatos, porém ela teve de fugir, pois o conde recém-casado já decidira livrar-se da esposa. Na verdade, foi banida pelo marido, e a morte de Fielding, dada como acidente. Planejei limpar o nome dela, porém, impulsiva como era, Eleanor voltou antes de os arranjos estarem completos. Trêmula de ansiedade, Laura ousou dar um passo na direção em sentido da porta, enquanto Malcolm se empolgava com o próprio relato. —Você ficou chocado quando Fortier assassinou Eleanor? — De relance, ela mediu a distância até a saída, mantendo os olhos em Malcolm. — Fortier? Aquele imbecil? Não, ele não matou ninguém. Era violento na cama, mas Eleanor gostava. Eu é que não suportei ouvir os gemidos obscenos. A ferocidade aumentou no semblante do secretário. Como sabia que Fortier não fora o assassino de Eleanor, a menos que fosse ele próprio? Até então, Laura se considerava vítima de seqüestro para extorsão, e agora já temia por sua vida. Talvez a alegada salvação daquele monstro consistisse em matá-la. — Malcolm, você sofreu muito — conseguiu articular. — E lamento por isso. — Sim, mas chegou minha vez. Você será encontrada aqui com alguns documentos comprometedores e um cachecol apertado no pescoço. Só que o cachecol traz o monograma do conde, e ele não escapará da forca.


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— Por que odeia tanto quem sempre confiou em você? — Lorde Lockwood apenas me usou. Retribuí com trabalho duro os trocados que me pagava. Laura experimentou dar mais um passo. A porta estava bem próxima de suas costas. Caso se virasse, poderia erguer a maçaneta e escapar dali para dentro da noite escura. — Longe da porta, srta. Lancaster! — Ele ordenou acercando-se. — Tirar a vida de alguém é desagradável, mesmo quando necessário. Só me doeu matar Eleanor, porque perdi a cabeça. Ela me enganou, junto com Fortier, planejando livrar-se de mim depois que eu cumprisse minhas incumbências. Mas não se apavore. Será tudo rápido e quase sem dor. Ele enrolou um tecido macio no pescoço de Laura e passou a apertá-lo. As chamas das velas na mesa se tornaram pontos borrados aos olhos dela. Mas... Onde estavam as velas? Num castiçal pesado de bronze, que Laura alcançou ao esticar o braço e vibrou na cabeça de Malcolm. Gritando de dor, ele caiu, ainda tentando puxar o cachecol com uma das mãos. Ofegante, Laura disparou porta afora. Do alto de suas montarias, os quatro cavaleiros vasculharam a escuridão, procurando localizar o cativeiro de Laura. A calma e o silêncio eram aterradores. Teriam chegado tarde demais? De súbito, um vulto atravessou a trilha da colina, correndo em desespero. Foi somente o lampejo de um vestido branco, mas Julian não precisou olhar de novo. — Laura! — O grito arranhou-lhe a garganta. Ela não parou, porém. Julian teve de esporear o cavalo atrás dela, até alcançá-la. — Sou eu! Pelo amor de Deus, pare! A silhueta estacou, recortada contra as árvores orvalhadas ao fundo. Julian desmontou e, em poucos passos, proporcionou a Laura o calor e o alívio de seus braços. Ela gritava, ainda trêmula, mas estava viva e saudável. — Malcolm machucou você? — Ao afagar os cachos de Laura, o conde percebeu a tênue linha vermelha causada pelo atrito do cachecol no pescoço da amada. — Ele me mataria se você não viesse me salvar, Julian. — A voz soou entrecortada de soluços. — Nunca mais a deixarei sozinha, meu amor. Seja em Londres, Paris ou mesmo em Shadowhurst. Os olhos bem abertos sobressaíram na face pálida. — Você me ama de verdade, Julian? — Mais do que a própria vida, coração. — Ele a beijou com fervor e assim


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infundiu-lhe a energia de que precisava naquele instante. Quando o conde fez menção de aproximar-se do chalé, acompanhado dos outros três, Laura teve uma crise de pânico. — Malcolm ainda está por perto, Julian! — Mas Randal, Pentley e o agente Stewart vieram preparados para prendê-lo — ele disse, antes de proteger Laura com o próprio corpo. Outro vulto, dessa vez masculino, despontou de um arbusto. Malcolm apontava uma pistola já engatilhada para o conde. — Não seja tolo. Você está cercado. Não torne as coisas ainda piores. — Ser enforcado por um homicídio ou por cinco, tanto faz. Empurre Laura até mim. Eu a manterei viva, se você e seus comparsas não me seguirem. Do contrário, darei um tiro entre os olhos dela. — Como fez com Fortier? — Julian ouviu a risada nervosa do secretário. — Não, terá de me balear primeiro, e então não escapará de meus companheiros. — Vou lhe dar a última chance de salvar duas vidas, milorde. Tenho uma canoa à minha espera, no rio. — Acha que poderá fugir navegando? — Sou bom no remo, milorde. Mais uma qualidade que fez questão de ignorar. Agora, faça como pedi. — Ele ergueu a pistola na direção da cabeça do conde. Julian fingiu que ia empurrar Laura, mas apanhou sua pistola na cintura, sob o casaco. Mirou depressa, surpreendendo Malcolm. Dois estampidos, dois clarões alaranjados, e o braço do conde verteu sangue, enquanto o secretário, incólume, assumia uma expressão de vitória. Julian havia errado, ele não. — Ainda tenho uma bala — disse o conde, fazendo a mira. — Maldito! Melhor morrer baleado do que enforcado. — A escolha é sua. — Friamente, Julian apontou, apesar da dor que sentia. — Não! — bradou Laura. — Se você o matar, ficará igual a ele. Julian desistiu da ação, não tanto devido ao apelo de Laura, mas porque Randal, Pentley e Stewart chegaram por trás e manietaram o criminoso, confiscando a pistola sem munição. Como assistente do juiz, Stewart deu-lhe voz de prisão. Estava terminado. — Você se feriu — Laura murmurou, tocando o casaco ensangüentado de Julian. — É só um arranhão, meu amor. — Também nesse caso, o melhor remédio era um beijo apaixonado. — Você é minha?


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— Para sempre.

Epílogo

O mês de junho em Shadowhurst era um esplendor de cores múltiplas. Na varanda da casa, admirando a paisagem, Julian enlaçou Laura por trás e colou seu rosto no dela. — Faz tempo que sonho com esta cena — disse gentilmente. — A você, ela lembra a Virgínia? Laura girou o corpo a fim de abraçar Julian de frente. — Talvez, mas não sinto falta de lá. Aqui é o meu novo lar, agora pelo resto dos dias. Por um momento, nenhum dos dois falou nada. A brisa soprava suave, o sol brilhava, os jardins exuberantes atraíam borboletas. A distância, o rumorejar do rio e as pastagens para o gado, nas quais, emocionada, Laura conseguiu avistar a ovelha Phoebe. — Nem todos vão aceitar você como minha legítima esposa — sentenciou Julian, com preocupação. — Saiba, porém, que aqueles que realmente importam para mim adoram Laura Lancaster. Ela riu discretamente. — Será um casamento muito simples. Isso o aborrece? — Pelo contrário. Eu me casaria com você sobre uma corda bamba e estaria contente. — Seu irmão e Célia estão empolgados com a idéia de serem padrinho e madrinha. E agora que Napoleão foi derrotado por Wellington em Waterloo, minha mãe virá para a cerimônia. A carta dela me surpreendeu, com tantos pedidos de perdão pelos erros e mal-entendidos. Ela jura, por exemplo, que não me ofereceu a Fortier. Espero que se case com o general, em vez de continuar sendo amante dele. — Assim como está fazendo a filha? — Julian sorriu de leve, depois beijou Laura na boca e na orelha. — Não queira comandar a vida dos outros, amor. É suficiente vivermos a nossa. — Isso significa que você vai parar de repreender Randal pela rotina maluca


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que ele segue? — ela provocou. — De modo algum — Julian redargüiu em tom cavo. — Randal precisa de orientação. Investir o dinheiro dele em jogatina é um passo para o desastre. — Não com Célia como parceira de jogo. Ela vem se tornando famosa em Londres e servirá de freio para o namorado. O melhor da história é que rompeu com Belgrave e não depende mais de ninguém para seu sustento. — Tomara que Randal, namorando Célia, também aprenda a ser independente. — Julian estreitou os braços em torno de Laura. — Chega de falarmos dos outros. Quanto ao nosso futuro, creio que vou providenciar um jardineiro para tratar do seu chalé. Pretende morar lá? — Vou morar onde você estiver, Julian — ela respondeu rapidamente. — Mas o chalé pode ser um bom cantinho para a futura ama de nossas crianças... Ele arregalou os olhos e viu a alegria irradiar-se da face de Laura. — Filhos? Você está... — Ainda não, mas podemos estudar a idéia — comentou Laura. — Por mim, começaria a pôr em prática agora — ele propôs. Suspirando antes de enterrar seu rosto no ombro dele, Laura emendou: — Eu já esperava que você fosse dizer isso.

Ch 399 lisa higdon amada amante  
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