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A NOIVA ESCOLHIDA The Bride Hunt

Jane Feather

Londres, 1906. Você como recompensa! Quando entrou no escritório de Gideon Malvern, tudo que Prudence esperava era que ele aceitasse sua proposta: defender o polêmico jornal que ela e as irmãs publicam anonimamente na cidade de Londres, e que está sendo injustamente processado. Em troca ela se propõe a encontrar a mulher perfeita para se casar com ele e ajudá-lo a criar a filha. Prudence sabe que o famoso advogado é capaz de defender o jornal sem deixar vir a público a identidade das três. Para um homem que não recusa desafios, Prudence Duncan é uma tentação irresistível. Além de contar com ele para defender um caso complicado, ela desperta em Gideon o desejo de descobrir a intrigante mulher que se esconde por trás daquela fachada de austeridade e, quem sabe, convencê-la a ser a candidata número um em sua lista de pretendentes a esposa...


Capítulo I Londres, 1906 — Aqui estão, srta. Prue. — A sra. Beedle pegou uma pilha de envelopes de uma prateleira alta na cozinha. — São poucas as cartas, hoje. Oh, esta tem um ar sério. — Ela separou um envelope comprido, de papel encorpado, e observou o nome do remetente, timbrado no alto, com indisfarçável curiosidade. Prudence bebericou o chá e não fez a menor tentativa de apressar a anfitriã. A sra. Beedle tinha um ritmo próprio de fazer as coisas... exatamente como o irmão dela, Jenkins... um homem que combinava os deveres de mordomo com os de amigo, assistente e, às vezes, cúmplice das três irmãs Duncan, na casa delas, na Manchester Square. — Alguma notícia da srta. Con? — perguntou a mulher, depositando finalmente os envelopes na mesa e pegando a chaleira. — Oh, recebemos um telegrama ontem. Eles estão no Egito no momento. — Prudente estendeu a xícara para tornar a ser servida. — Mas visitaram Roma e Paris antes. Parece uma viagem esplêndida. Ela soou saudosa, mas, de fato, as seis semanas de lua-de-mel da irmã mais velha haviam passado bem devagar para Prudence e a irmã caçula, Chastity. Manter a casa funcionando normalmente, equilibrar as parcas finanças que obtinham com o trabalho secreto, e ao mesmo tempo assegurar que o pai continuasse alheio à verdadeira situação da família, exigia um esforço ainda maior para apenas duas das irmãs. Mais de uma vez, ao longo das semanas anteriores, Prudence e Chastity tinham se visto obrigadas a lutar contra a tentação de forçar o pai a enxergar a realidade; uma realidade que ele próprio causara com investimentos imprudentes logo depois da morte da mãe delas. Em respeito à memória da mãe, porém, tinhamse mantido em silêncio. Lady Duncan teria protegido a paz de espírito do marido a qualquer custo e, portanto, as filhas tinham de fazer o mesmo. Quando somavam aquela luta diária à difícil missão de publicar o jornal Mayfair Lady quinzenalmente, sem a experiência editorial de Constance... sem mencionar a administração da Cupido, sua agência matrimonial... não era de admirar que ela e Chastity estivessem exaustas. A sineta da loja de doces na parte da frente da casa tocou, anunciando a entrada de fregueses, e a sra. Beedle adiantou-se depressa para atender junto ao balcão, alisando o impecável avental branco. Prudence bebeu o chá e serviu-se de uma segunda fatia de pão de gengibre. Havia uma atmosfera acolhedora e tranqüila na cozinha atrás da loja, e ela suspirou, grata pelo breve momento de descanso das várias preocupações. Distraidamente, olhou os envelopes enviados para o Mayfair


Lady. O jornal usava como endereço de correspondência a loja da sra. Beedle, em Kensington, uma vez que as editoras tinham de manter anonimato. O envelope espesso e comprido, de fato, destacava-se entre os demais. O endereço timbrado no canto superior esquerdo dizia: FALSTAFF, HARLEY & GREENWOLD. Prudence sentiu uma certa apreensão. Aquilo parecia ser uma firma de advogados. Ela pegou uma faca, pensando em abrir o envelope, mas deixou-a de lado em seguida. As irmãs Duncan tinham um acordo tácito de abrir juntas a correspondência pertinente às duas empreitadas. E se aquela trouxesse más notícias, como algo lhe dizia que era o caso, era melhor não abri-la sozinha. Prudence guardou todas as cartas na grande bolsa e despediu-se da sra. Beedle, que já voltava à cozinha, prometendo voltar na semana seguinte. A tarde estava fria e já escura, embora ainda fossem quatro e meia. O outono parecia ter chegado mais cedo do que o costume naquele ano, pensou ela, caminhando depressa para chamar um tílburi de aluguel. Depois que subiu no pequeno veículo e entreteve-se observando as ruas de Londres, perguntou-se como estaria sendo a tarde da irmã. Em seu papel de Tia Mabel, conselheira sentimental da coluna da Cupido no jornal, Chastity estava escrevendo respostas para algumas cartas de leitoras em busca do príncipe encantado. Enfim, no bairro de Mayfair, Prudence desceu do tílburi e pagou o condutor. Atravessando a calçada, subiu a pequena escada no número dez da Manchester Square. Jenkins abriu a porta quando ela colocou a chave na fechadura. — Achei que fosse mesmo você, srta. Prue, quando ouvi o ruído da chave. — Fui visitar sua irmã. Ela mandou lembranças. Prudence trocou mais algumas palavras com o leal mordomo, que lhe informou que lorde Duncan ainda não estava em casa. Subiu, então, a escadaria para ir ao encontro de Chastity na sala íntima que as irmãs tinham passado a dividir desde a morte da mãe, quase quatro anos antes. Era uma sala agradável, apesar de gasta pelo tempo e apinhada de objetos. Chastity estava sentada à escrivaninha perto da janela. — Oh, que bom que você chegou. Finalmente terminei isto... — exclamou ela, com um suspiro, indicando a pilha de cartas a sua frente — ...e tenho algo que estou ansiosa para mostrar. — Levantando, apanhou um jornal e exibiu-o com um floreio, os olhos brilhando. — Jenkins o trouxe há cerca de meia hora. — É o Pall Mall Gazette! — Sim. Con disse que aconteceria. — O quê? — Prudence pegou o jornal e, ao olhar para a primeira página, logo obteve a resposta. A manchete dizia: "Membro da Aristocracia Envolvido em Grave


Escândalo". — Respirando fundo, começou a ler o artigo: — "O conde de Barclay foi acusado nas páginas do jornal anônimo Mayfair Lady de violentar suas jovens criadas e abandoná-las grávidas e sem dinheiro nas ruas..." A voz morreu em sua garganta enquanto continuou lendo, sabendo que, àquela altura, Chastity já devia saber o artigo de cor. Quando terminou, olhou para a irmã, que a observava, em expectativa. — Eles chegaram a entrevistar as mulheres que Con usou no artigo. — E fazem a própria condenação do aristocrata lascivo ao seu estilo inimitável. Um artigo cheio de fervor quase religioso, condenando veementemente um comportamento tão deplorável, enquanto deleitam os leitores com detalhes escandalosos. — É exatamente o que esperávamos que acontecesse — declarou Chas, satisfeita. — E apenas um mês depois do artigo original ter sido publicado no Mayfair Lady. Nosso artigo só causou alguns sussurros de especulação e um ou outro olhar ultrajado na direção de Barclay por parte das matronas mais rígidas da sociedade. Os próprios amigos do conde não deram a menor importância ao artigo, e ele, por sua vez, também pareceu ignorá-lo por completo. Pensei que fosse assunto encerrado a esta altura. Mas quando este artigo do Gazette chegar às ruas e aos clubes e salões da sociedade, Barclay será execrado. — Sim — concordou Prudence, inquieta. Abrindo a bolsa, pegou o envelope que a intrigara. — Isto chegou com a correspondência. — O que é? — Pelo timbre, parece ser de uma firma de advogados. — Oh. Sem demora, as duas abriram o envelope e leram a carta longa, de aspecto formal, em papel igualmente nobre, juntas no sofá a um canto. — Que droga! — exclamou Prudence quando terminaram. Apesar dos termos, legais assustadores e confusos, a mensagem era bem clara. — Por que Barclay está nos processando por calúnia e difamação... ou melhor, ao Mayfair Lady... e não ao Pall Mall Gazette? — perguntou Chastity. — Eles foram bem mais acusadores do que nós. — O Gazette só saiu hoje. Nós fizemos a denúncia há um mês. Barclay teve todo esse tempo para tomar providências. E se vencer este caso, poderá processar o Gazette em seguida.


— O que faremos? — Chastity mordia o lábio inferior, enquanto relia a carta. — Aqui diz que eles buscarão a punição máxima possível em favor de seu cliente. O que isso quer dizer exatamente? — Não faço idéia... nada bom, você pode ter certeza. Precisamos de aconselhamento. — E de Con. — Céus, o que Max vai pensar disto? — Será péssimo para a carreira dele se for a público o fato de que sua esposa escreveu o primeiro artigo. — Não podemos deixar que ninguém descubra, pelo bem de todas as nossas atividades, mas não vejo como poderemos esconder isso de Max. — Prudence pegou a carta das mãos da irmã. — Oh, eu não tinha visto isto, bem aqui perto do final... "Além do processo por calúnia e difamação referente aos relacionamentos de nosso cliente com empregadas, também buscaremos substancial indenização pelas insinuações que colocam em dúvida suas práticas financeiras". — Será que o Pall Mall Gazette usou aquelas insinuações que fizemos? — Chastity apanhou o jornal que deixara numa mesinha ao lado do sofá. — Eu não vi nada a respeito. — Eles provavelmente tiveram o bom senso de deixar o assunto de improbidade de lado. Não há provas contra ele, ou ao menos, nenhuma que tenhamos apresentado. Tenho certeza de que devem estar em algum lugar, mas estávamos tão ansiosas para denunciar Barclay que simplesmente publicamos tudo que pensamos. — Prudence suspirou. — Como somos tolas e ingênuas! — Já fomos, não somos mais. — Agora é tarde. Só nos resta tentar remediar a situação de algum modo. Vamos precisar de um advogado, é claro. — E como arranjaremos um? Papai deve conhecer alguém. Acha que poderíamos sondá-lo a respeito? — Sim, com todo o tato. Mas talvez ele nem sequer conheça o tipo de advogado de que precisamos. — Alguém que não cobre caro. — Chastity declarou o óbvio. Prudence sacudiu a cabeça. — Esse tipo de advogado cobra caro. Mas podemos tentar. Talvez haja algum meio de conseguirmos. O som de passos soou na escada e em seguida no corredor, e a porta foi aberta abruptamente após uma rápida batida. Lorde Arthur Duncan parou na soleira, o rosto muito vermelho.


— Nunca vi nada igual — declarou. — Patifes! Deveriam ir todos para a prisão. Oh, vejo que vocês já leram. — Ele fez um gesto para o exemplar do Pall Mall Gazette aberto sobre o sofá. — É uma calúnia absurda, aviltante! Foi uma coisa aquele pasquim efeminado de mexericos fazer acusações infundadas... nenhum homem que se preze dá importância ao que um grupo de covardes cabeças-devento tem a dizer... mas quando um jornal renomado, apesar de sensacionalista, como o Gazette começa a apontar dedos, não há como saber aonde o mundo vai parar! Arthur Duncan se sentou numa poltrona perto da lareira, e Chastity foi lhe servir um cálice de xerez, enquanto Prudence guardava discretamente a carta e o envelope da firma de advocacia na gaveta da escrivaninha. — Lorde Barclay está muito aborrecido? — perguntou a filha caçula. — Aborrecido? Ele está furioso. — E o que o conde fará a respeito? — indagou Prudence, enquanto se detinha diante da lareira para atiçar o fogo. — Bem, ele processará aquele tal Mayfair Lady, para começar. O tablóide ficará arruinado depois que Barclay e seus advogados acabarem com ele. Não terá um níquel em seu nome e seus editores terão sorte se escaparem da prisão. — Imagino que estejam recorrendo aos serviços dos melhores advogados do ramo — comentou Chastity. — Oh, sem dúvida, os melhores que o dinheiro pode comprar. — Em Londres, existem muitos advogados bons entre os que atuam nos tribunais? — perguntou Prudence, voltando ao sofá. — Nunca conhecemos nenhum. — Não é de admirar, querida. Não estou dizendo que você e suas irmãs não poderiam competir com as mentes mais brilhantes, mas esses homens não freqüentam os mesmos círculos que vocês, moças, apreciam. Costumam ir a clubes masculinos, não aos eventos sociais dos grandes salões. Prudence mostrou-se perplexa. — Será, mesmo? Diga os nomes de alguns advogados realmente bons e Chas e eu veremos se soam familiares. — Bem, deixem-me ver. — Arthur Duncan parecia ter se acalmado relativamente na companhia reconfortante das filhas. — Os advogados de Barclay... Falstaff, Harley & Greenwold... indicaram Samuel Richardson para representá-lo no tribunal. Algum desses nomes soa familiar?— perguntou ele com um sorriso triunfante. — Aposto que não. — Não, de fato não — respondeu Prudence com.toda a naturalidade. — Venceu essa. Cite algum outro.


O pai franziu o cenho, pensativo. — Malvern — disse, enfim. — Gideon Malvern. Um jovem e renomado advogado com uma carreira promissora, ordenado cavaleiro por seus serviços. — Arthur riu. — Acho que foi por servir ao próprio rei... Um dos amigos de Sua Majestade se viu numa situação complicada, e Malvern o defendeu. Mas aposto que não ouviram falar dele também, apesar de suas ligações com a realeza. Dizem que seus serviços são disputados hoje em dia. O homem é ocupado demais para socializar. Além de ser membro do Tribunal Superior de Justiça, também tem clientes particulares. Ele se levantou. — Bem, tenho de ir me arrumar. Vou jantar com Barclay. Devo mostrar solidariedade. Não podemos deixar esse tipo de... — Fez um gesto desdenhoso na direção do Gazette — ...esse tipo de infâmia tirar a paz de um homem honesto. — Depois de beijar a fronte das filhas, deixou a sala. — Homem honesto! — exclamou Prudence com profundo desprezo. — Papai não é cego, nem tolo. O que há, afinal, em Barclay que ele admira tanto? — Bem, acho que é porque Barclay o apoiou quando mamãe morreu — disse Chastity, olhando fixamente para o fogo. — Papai ficou tão abalado... e nós também. Abaladas e exaustas depois de cuidarmos dela durante aqueles últimos meses. Prudence meneou a cabeça devagar. Os últimos dias de vida da mãe tinham sido terrivelmente dolorosos, e todo o láudano receitado não fora suficiente para abrandar o sofrimento. Incapaz de presenciar a agonia da esposa, Arthur se recolhera à biblioteca da casa, onde lorde Barclay lhe fazia companhia, enquanto as filhas se revezavam em vigília junto ao leito da mãe. As três não tinham energia para abrandar a dor do pai inconsolável... não até muitos meses depois, época em que lorde Barclay já se tornara o confidente mais íntimo de Arthur. Prudence soltou um longo suspiro. — Bem, não há nada que possamos fazer para mudar isso agora. Vamos ver o que conseguimos descobrir sobre esse Gideon Malvern. — Se ele prestou serviços ao rei e até foi ordenado cavaleiro, é porque deve ser mesmo brilhante. — Precisamos de um exemplar recente do Quem é Quem para sabermos mais a seu respeito. O exemplar em nossa biblioteca é de décadas atrás. Iremos até a livraria amanhã e procuraremos o nome dele no guia para uma rápida consulta. — O Quem é Quem não nos dará um endereço particular, Prue. — Não, mas poderá nos fornecer alguma informação sobre onde ele trabalha e, então, procuraremos seu gabinete. Se o homem é mesmo tão importante e


conhecido, meu palpite é de que deve ter um escritório de advocacia em algum lugar nas imediações da área de Temple. — Mas não podemos simplesmente abordá-lo em seu gabinete. Teríamos de seguir certas formalidades, tentar marcar um horário. — Se ele é assim tão ocupado, nossa única chance de conseguir ajuda será surpreendendo-o. Se lhe dermos tempo para pensar, o homem provavelmente se recusará a nos conceder um horário. — Tem razão. — Chastity levantou-se e espreguiçou-se com ar cansado. — Iremos à livraria amanhã cedo. Está quase na hora do jantar, e estou com fome. Poderemos ler o resto da correspondência mais tarde. Vamos descer? A sra. Hudson prometeu que faria uma deliciosa torta com as sobras do assado de ontem. — E deve estar mesmo boa — disse Prudence, resignada, enquanto seguia a irmã. Tinham de agradecer o fato de poderem contar com a prestimosa sra. Hudson, a cozinheira e governanta da casa, que, como Jenkins, fazia milagres com um orçamento tão apertado... e milagre ainda maior em não deixar que o pai percebesse que estavam falidos. Prudence e a irmã entraram na livraria em Piccadilly minutos depois de ter sido aberta. Encaminharam-se à seção de referência nos fundos da loja e encontraram o que estavam procurando. — Deveríamos usar a biblioteca pública para pesquisar — sussurrou Chastity. — Não é correto fazer isso numa livraria. Tenho certeza de que os donos prefeririam que comprássemos a edição atualizada de Quem é Quem. — Sem dúvida. Mas é um dinheiro que não temos, e só precisamos de uma página — lembrou Prudence, enquanto folheava cuidadosamente o almanaque. — Ah, aqui está, a letra M. Deixe-me ver os sobrenomes... hum... pronto! Malvern. "Sir Gideon Malvern; Middle Temple. Indicado para o Tribunal Superior de Justiça, 1898. Ordenado Cavaleiro, 1902. Educação: Winchester. New College, Oxford..." O esperado — murmurou ela, erguendo a cabeça. — Bem, isso nos fornece o que precisamos. — Não há mais nada, como algo pessoal? — perguntou Chastity, olhando por sobre o ombro da irmã. — Oh, veja isto. Aqui diz que ele é divorciado. "Casou-se com Harriet Greenwood, filha de lorde Charles e lady Greenwood, 1895. Divorciou-se, 1900. Uma filha, Sarah, nascida em 1896. — Divorciado... — murmurou Chastity. — É algo incomum.


— Muito, mas não nos afetará em nada. Já sabemos onde encontrá-lo, ou ao menos seu gabinete. Vamos até a rua Middle Temple olhar algumas placas de nomes. — Prudence fechou o guia e colocou-a de volta na prateleira. Do lado de fora, pegaram um tílburi de aluguel até Victoria Embankment. — A questão agora é como nos aproximar desse homem famoso — comentou Prudence, ajeitando a aba do chapéu. — Tem alguma idéia, Chas? — Nada específico. Por que não tentamos descobrir se ele pode falar conosco hoje mesmo, dizendo que é algo urgente? — Duvido que nos receba hoje. Talvez até esteja em algum tribunal esta manhã. De qualquer modo, como falei, o importante é o elemento surpresa. O primeiro passo é garantir que seja marcado um horário para explicarmos a situação. Isto é, se não nos atirarem na rua antes de termos chance de abrir a boca. — Bem, nós parecemos bastante respeitáveis. Era verdade, refletiu Prudence. Seu conjunto de saia longa e casaquinho de lã azul-marinho, com um chapéu simples, era discreto e elegante. O vestido do dia de seda cor de vinho de Chastity era um pouco mais adornado, mas não ostentoso. Ela escolhera a roupa de ambas cuidadosamente, querendo passar a impressão ao advogado de duas damas sérias e respeitáveis. Admitia que estava curiosa a respeito do próprio advogado. Era jovem... e divorciado. Era uma condição incomum nos círculos sociais que elas freqüentavam, e carregava um considerável estigma. Se bem que mais para uma mulher do que para um homem, pensou, enquanto ouvia na mente a voz de Constance, a sufragista ferrenha, sempre protestando contra a injustiça das leis da sociedade em relação às mulheres, tanto nas questões jurídicas quanto nas convenções do dia-adia. De quem teria sido a culpa naquele caso? De sir Gideon ou da esposa? Se pudessem descobrir, talvez tivessem alguma indicação de como lidar melhor com o advogado. O tílburi parou em Victoria Embankment, e elas desceram, parando por um momento para olhar para as águas do Tâmisa. O céu estava nublado, apenas uns tênues raios de sol conseguiam penetrar a densa camada de nuvens e tocar a superfície turva do rio. O vento forte arrancava folhas amareladas dos carvalhos em Temple Gardens, atrás delas. — Está frio demais para ficarmos paradas — disse Prudence, fechando o casaco, enquanto a irmã fazia o mesmo. — Vamos caminhar pela rua Middle Temple. Você andará por uma calçada, e eu pela outra. Cada porta em ambos os lados da rua exibia uma placa de bronze com a lista dos ocupantes dos prédios altos e estreitos. Cada nome era seguido da ocupação: Advogado. O nome de Gideon Malvern foi encontrado na metade da rua,


Prudence acenou para Chastity, que atravessou em sua direção. — Aqui está. — Ela indicou o nome na placa. Chastity girou a maçaneta reluzente, e a porta abriu-se para um pequeno vestíbulo de aspecto velho e gasto. As irmãs trocaram um olhar, mas Prudence deu de ombros. Conhecia o suficiente sobre a prática do direito para saber que não devia julgar o advogado pelo ar decadente de seu local de trabalho. Escritórios naquela área eram altamente valorizados e acessíveis apenas a uns poucos privilegiados. Era uma questão de orgulho e tradição que conveniências modernas não invadissem os sagrados gabinetes. — Devemos subir? — sussurrou Chastity, indicando a escada estreita de madeira logo adiante. — Foi para isso que viemos. — Prudence soou mais confiante do que se sentia. Subiu na frente, a irmã seguindo-a de perto. A porta no alto da escada estava ligeiramente aberta, e Prudence bateu duas ou três vezes, aguardando. Uma voz grave indicou que entrasse. — Senhora? — Um homem de uns sessenta anos observou-a com ar surpreso detrás de uma mesa repleta de papéis. — Senhorita — corrigiu-o ela, enquanto o homem lançava um olhar ao carrilhão, que batia as onze horas. — Em que posso ajudá-la, senhorita? — perguntou ele, levantando-se. — Eu gostaria de ver sir Gideon Malvern — declarou Prudence, olhando ao redor com interesse. Quase todas as paredes ficavam invisíveis por trás de estantes abarrotadas de livros volumosos. Havia um telefone na parede próxima à mesa do funcionário, uma cara e moderna comodidade que a surpreendeu ainda mais do que as lâmpadas a gás. O funcionário abriu um volume em sua mesa e estudou-o atentamente. — Sir Gideon não tem nenhum horário marcado para agora, senhorita. — É porque não marquei nenhum, mas gostaria de fazê-lo. Quero falar com sir Gideon sobre um processo judicial, um que tenho certeza de que ele achará interessante e lucrativo. — A última mentira saiu dos lábios dela sem a menor dificuldade. O homem estudou-a longamente e, enfim, respondeu com exasperante altivez: — Sou o assistente de sir Gideon. Se tiver os documentos relativos ao caso, eu os examinarei e avaliarei para ver se ele pode se interessar.


— Costuma tomar as decisões de sir Gideon por ele? — perguntou Prudence com o mesmo quê de arrogância na voz. — Pensei que um advogado tão brilhante fosse capaz de fazer isso sozinho. — Todos os casos a serem considerados por sir Gideon são apresentados a ele por mim — declarou o assistente com firmeza. Pareciam ter chegado a um impasse. Prudence sabia que, se saísse, não poderia voltar, mas, se simplesmente entregasse os papéis que levava na bolsa, não tinha garantia de que não iriam diretamente para a lixeira já lotada ao lado da mesa do funcionário. Daquele modo, manteve-se firme em sua posição. Thadeus estudava a dama adiante com ar pensativo. Ocorria-lhe que seu chefe tinha uma atitude excêntrica em relação aos casos que aceitava. Não era raro Gideon representar um caso que Thadeus considerava uma completa perda de tempo, indigno até da atenção de um advogado como ele. Quando manifestava sua opinião a respeito, o chefe dava de ombros e comentava que a mente de um homem precisava de algo fora do comum de vez em quando como estímulo, para se manter aguçada e bem. O assistente se perguntava o que ele acharia da inesperada visitante. Uma dama de inegável classe e considerável determinação, concluiu. Prudence olhou para a porta de comunicação fechada. — Sir Gideon está em seu gabinete? — Não, senhorita, e posso adiantar que eleja tem compromissos para quando voltar. Deixe os papéis do caso, e eu garanto que ele os verá. Do contrário, terei de lhe pedir licença, pois há trabalho a minha espera. Sabendo que não restava escolha, Prudence tirou da bolsa um exemplar do Mayfair Lady, com o artigo assinalado, algumas anotações das entrevistas de Constance com as vítimas de Barclay e a carta dos advogados do conde. —Tudo o que sir Gideon precisará para entender a situação está aí — explicou, ao notar que o assistente observava o pouco material com incredulidade. — Com a exceção de seu nome, senhorita. — É um processo judicial contra o Mayfair Lady, o único nome que sir Gideon precisa. Thadeus estudou-a, um indício de sorriso em seus lábios finos. — Não conhece meu chefe, senhorita. Asseguro que ele vai precisar de muito mais do que isso. — E terá, se decidir aceitar o caso. Nesse meio tempo, uma mensagem enviada a este endereço chegará às minhas mãos. — Ela lhe entregou um papel dobrado com o endereço da loja da sra. Beedle. — É um assunto da máxima


urgência e espero uma resposta de sir Gideon até o final da semana. Ele não deverá levar muito tempo para tomar uma decisão. Somente quando se retirou, Prudence percebeu que Chastity não estivera atrás dela o tempo todo, como pensara, mas que preferira esperar do lado de fora, embora tivesse ouvido tudo através da porta. — Céus, aquele homem parecia um centurião — disse num tom baixo, enquanto ambas desciam a escada. — Sim, mas você o enfrentou magnificamente. — Só espero que ele mostre os papéis ao chefe. — Prudence pousou a mão na maçaneta da porta da rua, falando por sobre o ombro. A porta abriu-se abruptamente, quase atirando-a de lado, e ela se esforçou para manter o equilíbrio, ainda segurando a maçaneta. — Oh, perdoe-me, não percebi que havia alguém do outro lado — disse uma agradável voz masculina. Ela ergueu os olhos até o dono da voz, perplexa demais para responder. Foi difícil obter uma impressão precisa no interior escuro do vestíbulo, mas o homem era alto e de porte distinto. — Sir Gideon Malvern? — perguntou diretamente. — Sim, ao seu dispor, senhora. — Houve um ar inquiridor na resposta cortês. Ele lançou um olhar na direção de Chastity, que ainda estava ao pé da escada. — Senhorita — disse Prudence, estendendo a mão. — Seu assistente explicará a situação. — Muito bem. — Gideon apertou-lhe a mão com firmeza. — Estou intrigado. — Consultou o relógio de bolso em seguida. — Eu pediria que explicasse tudo, mas, infelizmente, terei de estar no tribunal dentro de meia hora. — Seu assistente sabe onde nos encontrar — disse ela com um ligeiro sorriso. — Bom dia, sir Gideon. — Bom dia, senhorita. — Ele inclinou a cabeça, uma expressão cordial nos olhos cinzentos, e colocou-se de lado para lhe dar passagem. Depois, sorriu para Chastity com o mesmo ar inquiridor de antes. Ela deu bom dia e seguiu a irmã até a rua, a porta se fechando atrás de ambas. — Ao menos, isso garante que aquele assistente pouco cooperativo não jogará fora os papéis — falou Prudence. — Sir Gideon disse que estava intrigado e, portanto, perguntará o que estávamos fazendo aqui. O funcionário terá de contar. — Exato — concordou Chastity. — Foi uma manhã produtiva.


— Agora, só nos resta esperar que ele nos envie uma mensagem. — Prudence soltou um suspiro, sentindo-se vagamente inquieta. Embora tivesse sido um encontro momentâneo... e muito agradável... houvera algo nos olhos de Gideon Malvern que a desconcertara, mas que não conseguia definir. — Fale-me sobre nossas visitantes — pediu Gideon a Thadeus, enquanto ainda retirava as luvas e o casaco. — Visitantes? Eu vi apenas uma. — Eu, na verdade, não as vi direito — disse Gideon, adiantando-se até seu gabinete e sentando-se detrás da grande mesa de carvalho. — O vestíbulo estava escuro demais. Acho que devemos colocar uma lâmpada a gás lá também. Mas, voltando às damas, pareceram... interessantes — acrescentou com um sorriso sugestivo. Thadeus permitiu-se franzir o cenho com ar de reprovação. — A única que conheci era respeitável. — Oh, que entediante... E o que ela queria, afinal? — Que a represente num processo. — Thadeus mostrou os papéis que fora buscar em sua mesa na ante-sala. — Ainda não tive a oportunidade de ler os detalhes. Gideon olhou para o exemplar do Mayfair Lady. — Ela disse como se chamava? — Não, apenas citou o nome do jornal e deixou um endereço para contato, que obviamente não é o dela. — Também não me disse como se chamava, nem a outra que a acompanhava. Parece que essas damas querem manter-se anônimas, mas por quê? — Gideon reuniu os papéis. — Vou levar isto comigo para ler durante o intervalo do julgamento. Cada caso que tive nos últimos seis meses foi extremamente maçante. Preciso de uma mudança, de um desafio. Talvez o problema dessas damas me proporcione ambas as coisas. Enquanto Prudence e Chastity almoçavam em casa a sós, uma vez que o pai saíra para ir ao clube, elas comemoravam a chegada de um telegrama de Con e Max, avisando que retornariam em breve. Prudence ponderou que preferiria ter melhores notícias para dar à irmã, mas, ao menos, as providências possíveis já haviam sido tomadas. Agora, só restava esperar que o advogado decidisse ajudá-las. Naquele meio tempo, havia outras coisas com que se preocupar, como a reunião à tarde. Uma vez por semana, as Honoráveis Senhoritas Duncan, como eram conhecidas, promoviam uma reunião para amigos e conhecidos que haviam se


tornado a fonte perfeita para a obtenção de clientes para a Cupido. As irmãs reuniam uma quantidade de damas e cavalheiros solteiros, que, obviamente, não sabiam que haviam sido escolhidos como possíveis parceiros para um futuro compromisso, caso a oportunidade se apresentasse. Uma idéia de Con, tida como ultrajante, mas amplamente aprovada, fora de colherem donativos para caridade, para solteironas indigentes daquela vez, como meio de levantar fundos para as taxas da Cupido. Naquela tarde, elas receberiam para a "causa" um total de cento e vinte guinéus das ricas lady Lucan e lady Winthrop. A filha e o filho das duas senhoras, sem fazer idéia, tinham sido alvo da Cupido, formando um casal dos mais apaixonados, e o casamento estava marcado para breve. Jenkins e a sra. Hudson se desdobravam para preparar uma reunião agradável, e apoiavam incondicionalmente os meios de obtenção de fundos empregados pelas irmãs Duncan. — Será que Susanna Deerfold virá hoje à tarde? — perguntou Chastity, ecoando os pensamentos da irmã. — Achei que ela estava se entendendo muito bem com William Sharpe na semana passada. — Plantamos algumas sementes — concordou Prudence.— Se vierem, pensei em sugerir que visitem o museu juntos. Os dois falaram muito sobre esculturas gregas na semana passada e parece que têm esse gosto em comum. — E uma vez que os tivermos colocado no alegre caminho rumo ao altar, pediremos uma doação para a caridade? — Oh, sim, Chas, mas não para "solteironas indigentes" e, sim, talvez para algum fundo de ajuda na preservação dos tesouros da Grécia. — Isso não é ilegal... algo semelhante a fraude? Levantar dinheiro sob falsos pretextos? — Claro que é. Mas, neste caso, apenas estamos cobrando por nossos serviços de uma maneira diferente, uma vez que nossa agência tem de ser mantida em segredo. O que importa é que é um trabalho honesto, o nosso ganha-pão, mesmo que os clientes não saibam disso. Sem mencionar que ganhamos pouco com os jornais que conseguimos vender secretamente nos pontos de distribuição. — Tem razão. — Bem, então vamos subir para nos arrumar e fazer o possível para que nossa reunião seja um sucesso.


Capítulo II

Gideon deixou de lado o exemplar do Mayfair Lady, com o cenho franzido. Tornou a ler a carta da firma de advogados, pegou novamente o jornal e foi até a ante-sala, onde Thadeus organizava uma papelada na mesa. — Eu tenho algum horário livre para receber a senhora que esteve aqui e deixou o exemplar desse jornal? Thadeus tirou a agenda debaixo de uma pilha de papéis. — O caso lhe interessa? — Eu diria mais que me irrita. — Gideon atirou o jornal na mesa. — Já havia visto esta publicação circulando pela cidade, é claro, mas nunca me dei ao trabalho de lê-la. Presumi que fosse cheia de mexericos femininos e artigos sobre moda. — E não é? — Tem sua parcela disso, mas também parece ser alguma espécie de publicação sufragista. O assistente torceu os lábios com ar desdenhoso. — O que as mulheres fariam com o direito de voto? Gideon deu de ombros. — Pelo que sei, o júri ainda está tentando responder essa pergunta. Mas este artigo... — Bateu com o dedo indicador no jornal. — Parece-me que Barclay está em pleno direito de processar a publicação. O artigo é, sem dúvida, maldoso. — Mas e se for verdade? — Bem, geralmente onde há fumaça há fogo, mas este tipo de pasquim sensacionalista é pior do que os pecados que pretende expor. Vou dizer a quem quer que tenha escrito este escandaloso artigo difamatório exatamente o que penso do Mayfair Lady. A simples idéia de que tenham procurado a mim para defender tal torrente de acusações é aviltante. Quem, afinal, pensam que sou? Um advogado novato à caça de clientes? Gideon estava furioso, refletiu Thadeus, enquanto consultava a agenda. Começava a sentir pena da mulher que entraria, desavisada, numa cortina de fogo. — Tem um horário livre na próxima quinta-feira, às quatro da tarde.


— Então, envie uma mensagem ao endereço que a visitante deixou, solicitando a presença dela em meu gabinete nesse horário. — Eu a enviarei através de um mensageiro agora mesmo. — Oh, e lembre-se de informar que minha taxa para uma consulta inicial, mesmo sem garantia de aceitação do caso, é de cinqüenta guinéus. — Certamente. O reluzente automóvel verde parou diante do número dez na Manchester Square. Max Ensor inclinou-se para beijar a esposa nos lábios. — Voltarei para buscar você dentro de duas horas, e então entrarei para cumprimentar seu pai e suas irmãs. Constance abriu um sorriso, os olhos brilhando. — Está certo, querido, mas não há necessidade de apressar seus assuntos na Downing Street. — Não farei isso. Apenas planejo que o primeiro-ministro me veja novamente, caso ele tenha esquecido minha existência durante o recesso de verão. — Duvido muito. Você é um membro brilhante do Parlamento. Sem mencionar que seria impossível esquecer sua existência em qualquer que fosse a circunstância... — Pare de me bajular. Não vai ganhar nada com isso — gracejou ele e tornou a beijá-la. Desceu, então, do carro e abriu a porta do passageiro. — Não se apresse, querido. Depois de seis semanas longe... embora tenha sido em nossa maravilhosa lua-de-mel — acrescentou Constance com um sorriso sonhador —, eu e minhas irmãs temos muito o que conversar. Max observou-a enquanto ela usava a própria chave para entrar na casa e, depois que a porta se fechou, voltou ao carro e dirigiu na direção de Westminster e da casa do primeiro-ministro em Downing Street. Constance mal fechara a porta quando Jenkins apareceu. — Ora, srta. Con... Ou melhor, sra. Ensor. — Não, Jenkins, eu não conseguiria me acostumar a outra coisa que não fosse Con — disse ela, aproximando-se e beijando-o na face. — Com tem passado? Parece que estive ausente durante uma eternidade. A sra. Hudson está bem? — Todos estão bem, srta. Con — declarou o mordomo, o sorriso contente destoando do tom formal. — As senhoritas Chas e Prue estão na sala íntima no andar de cima.


— Não, estamos aqui! — exclamou Chastity, entusiasmada. — Con, recebemos seu telegrama, mas não pensamos que fosse chegar tão depressa. — Desceu a escada rapidamente, seguida de Prudence. — Max e eu chegamos a Londres ontem, tarde da noite, mas eu mal podia esperar para ver vocês! As irmãs se abraçaram, e Jenkins sorriu, satisfeito, enquanto observava as três cabeças de tons variados de ruivo balançando de uma maneira que conhecia tão bem. — Levarei chá à sala íntima — anunciou. Constance subiu as escadas de braço dado com as irmãs. — Onde está papai? — No clube, como de costume, mas não deve demorar a voltar — respondeu Chastity. — Oh, ótimo. Agora, quero que me contem tudo o que aconteceu desde que parti. — Primeiro, queremos que nos conte sobre a lua-de-mel — disse Prudence. — Seus telegramas foram tão breves. Max levou mesmo você para visitar as pirâmides? A propósito, como ele está? — Muito bem. Voltará dentro de umas duas horas para ver vocês e papai. Con, então, começou a contar sobre as românticas passagens por Paris, Roma e pelo Cairo. — Ah, antes que eu me esqueça, trouxe várias roupas para vocês de Paris, entre outras lembranças. Uma carruagem trará um dos baús da bagagem da minha nova casa para cá depois. Não havia lugar no carro. Uma batida à porta precedeu a entrada de Jenkins com uma bandeja de chá e biscoitos. — Como está a sra. Beedle? — perguntou Con, enquanto as irmãs removiam os papéis que lotavam a mesa de centro para dar espaço para a bandeja. — Muito bem, agradeço por perguntar — disse Jenkins, começando a servir o chá. — Espero que ela tenha recebido muitas cartas para o Mayfair Lady. — Prue recolheu a última remessa há poucos dias — comentou Chastity, enquanto a porta se fechava atrás do mordomo. Prudence soltou um longo suspiro. Não podiam adiar o momento de contarem tudo à irmã indefinidamente, embora ela mal tivesse acabado de chegar. — Sim, havia uma carta inesperada.


Constance franziu o cenho, notando a mudança na expressão dela. — O que houve? Prudence adiantou-se até a escrivaninha, voltando ao sofá com uma folha de papel. — Você se lembra do artigo que escreveu sobre o conde de Barclay? — Sim. Como poderia ter esquecido? Bem, eu sabia que teria grande repercussão... todas nós sabíamos. — Ele está nos processando... ou melhor, ao Mayfair Lady... por calúnia e difamação — contou Chastity. — Mas ele não pode fazer isso. Era tudo verdade e estava bem documentado — declarou Constance. — Aqui está uma cópia da carta dos advogados dele. — Prudence entregoulhe o documento que copiara pacientemente antes de ter deixado o original com o assistente de Gideon. — Barclay não tem o que argumentar. Eu tinha o nome de três mulheres que ele havia seduzido e abandonado. — E o Pall Mall Gazette também divulgou a história, como esperávamos — explicou Prudence. — Mas o artigo deles acaba de sair. Deixará Barclay em maus lençóis. — Ela apontou para o último parágrafo da carta. — Acho que é aqui que está o verdadeiro problema. Constance leu-o. — Oh, puxa... A acusação de improbidade financeira. Eu não deveria ter citado isso no artigo. Não tinha nenhuma prova concreta, embora eu sabia que é verdade. — Ela lançou um olhar consternado às irmãs. — Lamento muito. — Não é culpa sua. — Prudence retirou os óculos para limpar uma mancha com o lenço. — Chas e eu apoiamos o que você escreveu. Nós sabemos que Barclay tem dívidas de jogo e que alguns de seus negócios são suspeitos. — Mas não tínhamos provas — lembrou Constance. — Eu me deixei levar pela empolgação de expor os crimes dele contra aquelas mulheres e achei que podia citar a desonestidade junto, pois ninguém ia questionar isso. Pelo fato de o restante ser irrefutável. — Bem, Barclay questionou — declarou Prudence, tornando a colocar os óculos. — Obviamente, ele acha que se conseguir nos processar com êxito por isto, então estará vingado das outras acusações também. E, depois, poderá ir atrás do Pall Mall Gazette. Após uma vitória no tribunal, ninguém ousará falar sobre seus crimes sexuais. Constance atirou o documento na mesinha de centro com ar desgostoso.


— Vocês têm alguma idéia? — Bem, nós tomamos as providências possíveis até agora. — Prudence explicou sobre Gideon Malvern. — A sra. Beedle nos enviou um garoto de recados esta manhã com uma mensagem de que ele nos receberá na próxima quinta-feira, às quatro da tarde. Obviamente, eu não quis dar este endereço a ele, ao menos não u esta altura. Deixei o endereço de correspondência do próprio jornal como contato. Constance meneou a cabeça com ar de aprovação. — Bem, então não há muito a fazer até podermos ver esse advogado. Fico me perguntando se Max o conhece. E deve cobrar caro, se é um profissional desse gabarito. — Sem dúvida — disse Prudence com ar desanimado. — Ele já mandou avisar que sua taxa inicial é de cinqüenta guinéus. Mas, além disso, como manteremos nossos próprios nomes fora do caso? Barclay poderá processar o Mayfair Lady, mas alguém vai querer saber quem, de fato, está por trás do jornal e escreve os artigos. As irmãs não fizeram nenhum comentário imediato diante daquela verdade. O ruído da porta da frente se fechando abruptamente rompeu o silêncio. — Papai — falou Chastity. — Ele ficará tão feliz em ver você, Con. — Eu imagino que ele tenha tomado totalmente o partido de Barclay nessa questão — declarou Constance sem surpresa alguma. Adiantou-se até a porta. — Descerei para vê-lo e, depois, conversaremos mais. O pai saudou-a calorosamente, conduzindo-a até a sala de estar principal, onde perguntou sobre a viagem e Max e demonstrou sua imensa satisfação em rever a filha mais velha. Ainda aborrecido com o assunto e determinado a defender o amigo, não deixou de citar o lamentável episódio com Barclay, execrando o "infame e covardemente anônimo pasquim Mayfair Lady", que dera início às "'calúnias" e o maldito Pall Mall Gazette, que prosseguira com a difamação. Àquela altura, Prudence e Chastity haviam se reunido aos dois na sala e dito ao pai que já haviam comentado algo a respeito com a irmã. Arthur Duncan fez um esforço visível para se recompor, dizendo que não queria arruinar a recepção de boas-vindas à filha e, sim, celebrá-la como devia ser feito. Instruiu Jenkins a separar uma garrafa do melhor champanhe para quando Max chegasse. Prudence mordeu o lábio inferior, diante de outra fonte de suas preocupações financeiras. A recusa do pai em aceitar o estado precário de abastecimento da adega a levava a uma constante tensão. Com a ajuda do mordomo, que sempre improvisava um pretexto para justificar a falta deste ou daquele vinho mais caro e


requintado, ela precisava se desdobrar para manter um pequeno estoque e dispor de algo para servir que o pai julgasse satisfatório. As três irmãs voltaram a se reunir na sala íntima naquele intervalo de tempo e a retomar o preocupante assunto. — Espero que esse sir Gideon Malvern não seja tão preconceituoso contra um "infame pasquim covardemente anônimo" — disse Prudence numa imitação quase perfeita do pai, embora seu ar fosse grave. — Especialmente quando souber que há três mulheres por trás da publicação. Houve um momento de silêncio e, então, Constance disse: — Perguntaremos a Max se ele o conhece. Talvez ele possa interceder em nosso favor. Você está com um ar duvidoso. Por quê? — Oh, só estou me perguntando se você vai querer que Max leia o artigo em questão. Você o conhece melhor, é claro, mas... Constance fez uma careta. — Sei o que quer dizer. Mas não vejo meio de impedir que ele saiba, especialmente com papai alardeando o assunto aos quatro ventos. — O fato de que a esposa terá de se defender num processo de calúnia e difamação não será nada promissor para a carreira dele. — O que é uma das principais razões para preservamos nossa identidade a qualquer custo. Mas não vamos mais pensar nisso no momento. Falem-me sobre como vão as coisas com a Cupido. Conseguiram arrecadar mais algum dinheiro? E surgiram mais clientes em potencial? Prudence e Chastity colocaram a irmã a par da mais recente reunião que haviam promovido e das cartas especificamente destinadas à coluna da Cupido no jornal. Jenkins, então, avisou que o sr. Ensor chegara e estava no salão principal com lorde Duncan, aguardando-as para brindarem com champanhe. Elas desceram a escadaria e ouviram a voz possante do pai quando ainda estavam no corredor. Trocaram olhares significativos. Arthur já estava manifestando com grande fervor sua indignação contra a calúnia sofrida pelo amigo. A julgar pela rapidez do monólogo, o genro não fazia tentativa de responder. — Oh, droga — resmungou Constance. — Ele ja deve ter mostrado o artigo a Max, e eu nem sequer tive chance de prepará-lo. — Engolindo em seco, endireitou os ombros e abriu a porta da sala de estar. — Chegou cedo, Max. Você disse duas horas. Viu o primeiro-ministro? — Lançou um olhar à pequena mesa entre os dois homens. Tanto o Pall Mall Gazette quanto o Mayfair Lady estavam ali, as páginas abertas nos artigos repletos de acusações.


Max acompanhou o olhar dela e, então, estudou-a com uma expressão contrariada. — Eu o vi — respondeu, sucinto. Saudou as cunhadas com ar mais caloroso, embora houvesse um quê de reserva que não costumava existir em seu bom relacionamento de cunhado com elas. — Eu estava acabando de contar a Ensor sobre este absurdo — esbravejou Arthur, gesticulando na direção dos jornais na mesa. — Se algum dia eu descobrir quem escreveu aquele primeiro artigo caluniador, serei capaz de chicotear o patife em praça pública. — Não posso dizer que o culpo — declarou Max secamente, lançando outro olhar à esposa. — Bem, vamos esquecer isso por ora. Ah, Jenkins, você trouxe o champanhe! A meia hora seguinte foi uma tortura para as três irmãs, um momento de agradável confraternização para Arthur Duncan e uma espera interminável para Max. Quando, enfim, terminaram o longo brinde e contaram em detalhes uma viagem pelo rio Nilo, Max e Constance despediram-se de Arthur e ela conduziu o marido pela escadaria na direção da sala íntima com as irmãs. — Precisamos conversar. — Sim — resmungou Max, enquanto subiam. — Você tem muitas explicações a dar. Max fechou a porta da sala íntima depois que todas entraram. Olhou ao redor e, então, adiantou-se até a escrivaninha, onde havia um exemplar do jornal Mayfair Lady. Um silêncio pesado pairou na sala enquanto ele tornava a ler o artigo. — Tive a tola esperança de que isto fosse apenas a imaginação me pregando alguma peça — resmungou quando terminou de ler. Enrolando o jornal, bateu-o de encontro à perna enquanto olhava para Constance. — Evidentemente, você escreveu isto. — Sim, semanas atrás, antes de termos nos casado. A exasperação de Max abalou sua compostura. — Pelos Céus, mulher, perdeu completamente o juízo? Ela deixou de lado o ar de desculpas no mesmo instante. — Não use esse tom comigo. E não vou ser chamada de mulher nessa maneira depreciativa.


Prudence e Chastity trocaram um olhar e, então, sentaram lado a lado no sofá e observaram a discussão do agitado casal com curiosidade. — O que espera que eu diga? — retrucou Max. — Não poderia lter-me avisado que iria trucidar Barclay? Este é o ataque mais impiedoso a um homem respeitado... — Ataque impiedoso? Espere um minuto... — interrompeu-o Constance, incrédula, ao mesmo tempo em que as irmãs levantavam. — Não há nada de respeitável ou decente em Barclay — declarou Prudence, os olhos brilhando com convicção sob as lentes dos óculos. — Constance entrevistou todas as três mulheres mencionadas no artigo... — E eu vi os filhos delas e as condições miseráveis em que estavam vivendo — declarou Constance. — Elas não mentiram, Max. — Pode imaginar o que é ser violentada por seu empregador e, depois, ser atirada na rua grávida, sem referências para um novo trabalho... sem dinheiro, sem um teto? — acrescentou Chastity, veemente, e Max quase recuou fisicamente das três irmãs, que o encaravam feito domadoras de leões. — Não estou defendendo Barclay. Mas isto é demais. — Abriu novamente o jornal. — É um ataque tão pessoal. Um completo extermínio de caráter. — Ele não tem caráter — retrucou Constance asperamente. — O homem é um canalha, estuprador, ladrão, trapaceiro, golpista... — Onde estão as provas para as últimas acusações? Prudence fez uma careta. — Quanto a essas, temos apenas rumores. Max virou-se abruptamente para fitá-la. — Essa será sua defesa? Rumores? — Olhou para a cunhada. — Pensei que você fosse mais sensata, Prudence. Constance baixou os olhos para o tapete, notando a ênfase do marido. Era verdade que ela nem sempre era tão prudente e comedida como a irmã do meio. Prudence, por sua vez, corou, mas respondeu com firmeza: — É evidente que teremos de estar melhor preparadas em nossos argumentos. Uma vez que tivermos contratado um advogado para defender o Mayfair Lady. — Achamos que encontramos um — acrescentou Chastity. — Sim, sir Gideon Malvern — prosseguiu Prudence. — Ele nos receberá na próxima quinta-feira. Estávamos nos perguntando se você o conhece.


Em vez de responder, Max explodiu: — Como, afinal, vocês conseguirão manter a identidade de cada uma em segredo num tribunal? — Ainda não sabemos — admitiu Constance. — Esperamos que sir Gideon possa ter alguma idéia. — Sim. Você o conhece? — persistiu Prudence. — Ele é um membro do Tribunal Superior de Justiça e trabalha na rua Middle Temple... — Sim, eu sei disso — retrucou o cunhado, ríspido. Prudence lançou um olhar à irmã mais velha, que deu de ombros num gesto de resignação. Não chegariam a lugar algum ressentindo-se do tom de Max àquela altura. Precisavam de qualquer esclarecimento que ele pudesse oferecer. — Gostaria de um uísque? — Chastity abriu um sorriso conciliador. Max estreitou os olhos e avaliou as três irmãs, que se esforçavam visivelmente para apaziguá-lo, ao mesmo tempo em que lutavam para conter a indignação diante da abordagem arrogante dele do problema. Abriu um largo sorriso de repente. Era um momento para ser saboreado. Uma pessoa raramente levava a melhor sobre as irmãs Duncan. — O que é tão engraçado? — indagou Constance, desconfiada. — Não é sempre que tenho vocês três na palma da mão. — O sorriso dele alargou-se. — Está certo, já se divertiu a nossa custa — revidou a esposa, Irritada. — Agora, fale-nos o que sabe sobre esse advogado. — Vocês fazem idéia de quanto um advogado como Malvern vai cobrar? — Não estamos sem recursos — declarou Prudence, veemente. — Temos fundos para emergências, Max. Não que seja de sua conta — acrescentou e, de imediato, arrependeu-se do comentário rude. — Desculpe. Não quis ser indelicada. Apenas estou tensa com toda essa situação. — Você não está sozinha — apressou-se Constance a dizer. — Sei que cuida da maior parte da administração dos negócios, mas estamos todas juntas nisso. Prudence conseguiu abrir um leve sorriso. — Eu sei. Só não posso imaginar o que acontecerá se perdermos. — Bem, Gideon Malvern pode percorrer um longo caminho para garantir que vocês não percam — disse Max, oferecendo o comentário encorajador que sabia que as irmãs apreciariam mais do que mera simpatia. — Ele tem a reputação de ser o mais inovador e capaz advogado nos tribunais. Raramente perde um caso.


Aquilo estava muito bem, refletiu Prudence. Exatamente o que queriam. Mas como, afinal, iriam pagar pelo que queriam? Apesar de sua bravata, não via maneira possível de arcarem com os honorários de um preeminente advogado. Os cinqüenta guinéus iniciais já fariam falta. Se não tivesse sido pela taxa recolhida para a Cupido como suposta doação de caridade para as solteironas indigentes, ela teria de estar vasculhando a mente à procura de algo para penhorar, como já se vira obrigada a fazer tantas vezes. As irmãs sabiam daquilo teoricamente, mas, às vezes, Prudence tinha a sensação de que não sentiam as dificuldades na prática tão claramente quanto ela. A administração das finanças da família era sua responsabilidade. O que era natural, uma vez que era a contadora, a administradora, a prática entre as três. Não se ressentia da responsabilidade, mas ocasionalmente tinha a sensação de que a carregava sozinha. — Talvez Malvern seja o ideal para vocês porque gosta de desafios — prosseguiu Max. — Ele escolhe seus casos; pode se dar a esse luxo — acrescentou, observando-as, nem um pouco convencido pelas declarações defensivas de Prudence sobre recursos. — É conhecido até por aceitar um caso de graça se realmente o achar interessante. — Viu três pares de olhos semelhantes brilhando em alerta. — Ou também por fazer um acordo prévio, ficando com uma parte da indenização recebida pelo cliente, caso ganhe. — Parece justo — comentou Prudence, pensativa. — Ele é pago para ganhar. — Vocês terão de persuadi-lo de que o caso é interessante e desafiador o bastante para que o tempo que ele dedicar valha a pena. — Bem, não creio que isso será difícil — falou Constance com um breve riso. — Deve ser um desafio maior do que o costume de aceitar como clientes três mulheres revolucionárias que insistem em permanecer anônimas. — Esse problema eu deixo em suas mãos mais do que capazes, garotas. — Max fez uma pequena mesura. — Vamos, Constance? Ainda temos de visitar minha irmã Leticia. — Sim — disse ela com relutância. — Nós nos encontraremos na Fortnum's para o chá esta tarde, Prue. Poderemos conversar sobre nossa estratégia, então. Digamos... às quatro da tarde? Prudence confirmou com um gesto de cabeça. — Max, esse sir Gideon sempre defende? Ou trabalha como advogado de acusação também? — Ele é especialista em defesa. — Bem, já é alguma coisa — declarou Chastity. — Apenas temos de convencê-lo de que seria uma injustiça julgar o Mayfair Lady culpado.


— Eu sugiro que apenas uma de vocês vá a essa reunião marcada com ele — disse Max. — Por quê? — perguntou Constance, colocando suas luvas. Max hesitou, procurando a resposta mais diplomática possível. — Malvern é um homem intimidante, mas vocês não iriam querer que ele se sentisse acuado — respondeu, enfim. — Não sei qual é a visão geral dele das mulheres, mas eu apostaria que nunca deparou com um trio como vocês. — Acha que ele terá preconceito contra nós? — indagou Prudence com certa indignação. — Só porque somos independentes, modernas... mulheres com visão à frente de nosso tempo? — Não sei, mas, a julgar pelas técnicas de confronto pelas quais Malvern é conhecido, acho que o melhor que vocês têm a fazer é surpreendê-lo de algum modo, tentar fazê-lo baixar a guarda, para que não tenha tempo de reagir contra vocês. — Foi o que eu fiz? — Constance sorriu, provocando-o. — Nem sequer dei a você chance de reagir contra mim quando nos conhecemos? — Oh, não vamos ter essa conversa, Constance — declarou Max com firmeza, abrindo a porta da sala íntima. — Apenas dei minha opinião. Podem aceitála, ou não. — Provavelmente, nós a aceitaremos — assegurou Prudence, pensativa. Depois que a irmã e o cunhado se foram, Chastity virou-se para ela e notou sua expressão preocupada. — Nós sairemos desta, Prue. Temos de sair. E mesmo que esse sir Gideon seja intimidante, você será páreo para ele, acredite. — Eu? E quem disse que eu perdi no par ou ímpar? — Apenas me pareceu óbvio. Nem sequer cogitei outra possibilidade. — Chastity franziu o cenho, perguntando-se por que aquele fora o caso. — Veremos o que Con pensa hoje à tarde. Talvez ela mesma queira tratar do assunto com o advogado. — Foi ela quem escreveu o artigo — argumentou Prudence. Mas sabia, pelo nó que havia em seu estômago, que a tarefa de convencer Gideon Malvern caberia a ela. Mais uma vez, lembrou de quando o vira na penumbra do vestíbulo de seu escritório. Ficara mais ciente de uma presença forte em vez de ter conseguido se deter em detalhes como características físicas. Mas notara decididamente que os olhos dele eram cinzentos. E que possuíam um certo ar penetrante... um brilho que se fixara nela feito o fogo de uma tocha. E aquela voz... sim, gostara muito da voz dele.


Prudence sentia-se mais otimista naquela tarde, enquanto se sentava a uma mesa tranqüila da Fortnum's com as irmãs. Como poderia ser tão difícil convencer um advogado da legitimidade de um caso?, perguntou-se, observando o movimento na elegante e movimentada casa de chá. Bem, elas podiam não ter prova alguma das acusações de desonestidade contra o conde, mas talvez houvesse um lugar para começar a procurar. A idéia surpreendeu-a. Por que não haviam pensado naquilo antes? Parecia óbvio agora. Mas, talvez, as três tivessem ficado cegas por causa da lealdade do pai ao amigo. E foi a primeira coisa que teve de comentar com as irmãs depois que uma garçonete lhes serviu chá e fizeram sua seleção de um carrinho que empurrava com bolos confeitados, tortas cremosas, doces e demais guloseimas. — Eu estive pensando em certas coisas e tive uma idéia — declarou. — Referente ao caso? — Chastity inclinou-se para a frente, ansiosa. — Sim, algo acaba de me ocorrer em relação a essa questão ile improbidade financeira. — Vá em frente — encorajou-a Constance, levando a xícara de chá aos lábios. — Está certo. Quando papai afundou sua fortuna naquele plano lunático para se construir uma ferrovia que atravessasse o deserto do Saara... — E perdeu cada níquel que possuía — acrescentou Chastity. — Exatamente. Bem, ele não nos consultou, não é mesmo? E se tivesse consultado mamãe, ela teria dado um basta à idéia absurda com uma simples palavra, mas, é claro, já não estava mais conosco. — É verdade — disse Constance, observando-a atentamente. — Mas quem estava por perto? A única pessoa a quem papai passou a dar ouvidos, que o influencia totalmente? — Barclay — responderam as irmãs em uníssono. — Sim, Barclay. O homem que nunca saiu do lado dele, que o confortou e manteve-se como um dedicado amigo ao longo de todo o sofrimento. Mas e se... — Prudence baixou a voz, inclinando-se em cima da mesa, as irmãs aproximando-se mais automaticamente. — E se Barclay só estava tentando se aproveitar de um homem desequilibrado pela dor? E se colocou papai naquele esquema visionário com seus próprios interesses? — Papai apenas comentou que era uma empresa de investimentos qualquer que estava por trás do projeto — disse Chastity, franzindo o cenho. — Sim — concordou Prudence. — E que esperava que as ações triplicassem em valor no primeiro ano.


— Mas a empresa faliu — completou Constance devagar. — Caso tenha existido uma empresa — declarou Prudence com ar grave. — Não é difícil falsificar documentos. Barclay podia ter inventado a tal empresa do nada e convencido papai de que era idônea. Aposto que existe alguma documentação em algum lugar entre os papéis de papai. Se pudermos ligar Barclay ao esquema, estaremos a salvo. Qualquer um pode ver que a venda de ações de uma ferrovia trans-saariana é, no mínimo, suspeita. Fraudulenta, para ser mais exata. — Oh, muita esperteza de sua parte — comentou Constance num tom manso. — Você não é apenas um rostinho bonito, certo? Prudence abriu um sorriso triunfante. — Não sei por que não pensamos nisso antes. — Estávamos ocupadas demais tentando lidar com as conseqüências :— apontou a irmã mais velha. — O absoluto colapso das finanças da família. — O único problema é que papai vai parecer um completo tolo — lembrou Chastity. — Se tivermos de expor sua... como dizer... insensatez... insanidade temporária... no tribunal, ele será motivo de chacota. Nós sabemos como a profunda dor o deixou transtornado, mas quem mais vai levar isso em consideração? — Talvez possamos encontrar um meio de deixá-lo fora disso — sugeriu Prudence. — Se conseguirmos reunir provas para denunciar o esquema, não teremos de dizer quem foi vítima dele. — A menos que o advogado insista — disse Chastity. — Você terá de mencionar o assunto quando se reunir com ele declarou Constance. — Acho que tem de ser você a ir a esse encontro. Acredito que Chas seja da mesma opinião. — Ela lançou um olhar à irmã caçula, que confirmou com um gesto de cabeça. — Entende mais de finanças do que nós. E não haverá meio de sir Gideon não levar você a sério. As pessoas sempre levam. — É verdade — endossou Chastity. — Tudo em você irradia racionalidade e sensatez, Prue. — Isso me faz parecer tediosa — resmungou Prudence. — Como se eu fosse sisuda, introspectiva. Tenho certeza de que é por causa dos óculos. — Ela empurrou os óculos pelo nariz delicado num gesto de enfado. — Não é só isso — assegurou Constance. — É a sua personalidade. Mamãe sempre dizia quanto você era capaz de entender uma situação instantaneamente e ver todas as suas ramificações muito antes do restante de nós. Sir Gideon não irá


ignorá-la como se fosse uma garota fútil da sociedade, uma cabeça-de-vento que não pensa em nada além de moda e mexericos. -- Duvido que ele pensaria essas coisas de você também. — Mas poderia pensar algo semelhante de mim — observou Chastity, ressentida. — Poderia me achar uma jovem volúvel, que só gosta de flertar e não tem nada na cabeça. — Chas! — exclamaram as irmãs. — Não diga tolices. — Bem, essa costuma ser a primeira impressão que transmito. — Oh, eu asseguro, não dura. Mas primeiras impressões neste caso são decisivas. Concordo com Constance. Terá de ser você, Prue. Prudence soltou um suspiro resignado. — Que assim seja, então. Usarei meus óculos de lentes mais grossas e manterei meu ar mais austero — declarou ela, tentando soar espirituosa. Em seu sorriso, porém, faltava convicção, o que passou despercebido em meio ao raro momento de descontração das irmãs.

Capítulo III

— Bem, o que acham? — Prudence parou diante das irmãs na sala íntima na tarde de quinta-feira e aguardou a avaliação de ambas. — Você parece uma mistura de freira e professora — comentou Constance. — Não, está mais parecida com uma bibliotecária do que com uma freira — opinou Chastity. — Tem um ar sério, respeitável, experiente e intelectualizado. — Esse era o efeito que eu esperava conseguir. — Prudence adiantou-se até um espelho que havia a um canto e inspecionou sua imagem com ar crítico. — Gosto especialmente deste chapéu de feltro cinza-escuro. — Ergueu o véu azulmarinho fixo ao chapéu que lhe caía discretamente até logo abaixo do nariz. — O chapéu é debruado, chique e combina perfeitamente com o conjunto de saia e blusa cinza-chumbo — acrescentou Constance. — Você poderia estar quase de luto. Prudence soltou um suspiro trêmulo.


— Sei que Max estava bem-intencionado quando fez seus comentários, mas só de imaginar o ar intimidante, combativo de sir Gideon fico tão nervosa que acho que acabarei perdendo a fala. — Tolice — declarou Chastity com firmeza. — Você não deixou que aquele assistente pouco amistoso dele a intimidasse no outro dia e não deixará que o advogado o faça também. — Espero que não. Se ele é o melhor que há na cidade, não posso correr esse risco. Temos de atraí-lo para o nosso lado. Constance meneou a cabeça, encorajadora. — A propósito, é melhor fazer de conta que não temos preocupações financeiras. Uma vez que ele tiver concordado em nos defender, poderemos negociar. — Parece desonesto, mas não há escolha. — Prudence calçou um par de luvas azul-marinho e apanhou uma grande bolsa. — Estou levando os cinqüenta guinéus, embora eu acredite que ele irá nos enviar a conta. Porém, se o homem for ofensivo e intratável, ao menos terei a satisfação de pagar de imediato. Também tenho cópias de tudo que deixei com o assistente; apenas para o caso de o material ter-se extraviado no escritório — acrescentou ela com ironia. — Eu só gostaria de ter algo concreto como prova das acusações de improbidade. — Mas você pode dizer que sabemos de um meio de obter tais provas — lembrou-a Constance. — Nós achamos que sabemos — enfatizou Chastity. — Não pretendo deixar nenhuma dúvida no ar — declarou Prudence e baixou o véu. — É melhor eu me pôr a caminho. Já são quase três e meia. As irmãs acompanharam-na em uma carruagem de aluguel até Temple Gardens. — Nós a esperaremos aqui — disse Constance, beijando-a na face. — Não, esperem por mim na Fortnum's. Parece que vai chover e não quero me preocupar com vocês ficando ensopadas. Não tenho idéia de quanto isto vai demorar. — Quanto mais demorar, mais esperançoso será o resultado — comentou Chastity. — Nós a aguardaremos na Fortnum's, então. Prudence desceu da carruagem, acenou para as irmãs, que a observavam da janela, e caminhou, resoluta, até a rua Middle Temple. Diante da entrada do escritório de advocacia de Gideon Malvern, fez uma pausa, preparando-se. Então, determinada, girou a maçaneta e marchou pela


escadaria estreita. Bateu uma vez à porta de cima e entrou sem esperar para ser convidada. O mesmo funcionário estava sentado atrás da mesa. — Tenho um horário marcado com sir Gideon — declarou com firmeza, mantendo o véu no lugar. O assistente consultou a agenda, como se precisasse confirmar o dado e, então, estudou-a. — A representante do Mayfair Ladyl — Como bem sabe — disse ela, perguntando-se por que o velho homem insistia em fazer seus jogos. — Acredito que cheguei bem no horário — acrescentou com um gesto na direção do carrilhão, que batia as quatro horas naquele momento. — Direi a sir Gideon que está aqui. — O assistente do advogado deixou a mesa e desapareceu silenciosamente pela porta de comunicação na parede oposta. Prudence aguardou. A porta que dava para o gabinete abriu-se por completo, e o homem com o qual ela deparara no térreo na visita anterior surgiu na soleira. — Então, tornamos a nos encontrar, senhorita — disse, saudando-a na voz agradável que ela recordava e que, por alguma razão estranha, arrepiou-a. — Queira entrar, por favor. Prudence aproximou-se e, com um murmúrio de agradecimento, entrou no gabinete. O assistente tornou a avaliá-la e então relirou-se, fechando a porta. Gideon indicou uma cadeira diante da mesa. — Por favor, sente-se, senhorita... Desculpe, ainda não sei seu nome. Prudence ergueu o véu do chapéu. — Tudo que for dito nesta sala permanecerá confidencial, certo? Mesmo que decida não aceitar o caso. — O que quer que seja dito entre um advogado e um cliente, em potencial ou não, é mantido em sigilo absoluto. Prudence meneou a cabeça. Sabia disso, evidentemente, mas precisara que fosse declarado. — Meu nome é Prudence Duncan — apresentou-se. — Sou uma das editoras do Mayfair Lady. — Fez um gesto na direção do exemplar do jornal aberto na grande mesa de carvalho antes de sentar. Gideon ocupou sua poltrona de couro e estudou-a atentamente. — Parece que me lembro de que havia duas de vocês antes. — Na verdade, somos três.


Gideon raramente se surpreendia, tendo uma carreira como a sua, mas admitia que estava intrigado. A dama em seu escritório tinha pouca semelhança com a imagem misteriosa que guardava dela do breve encontro de ambos no vestíbulo. Naturalmente, fora difícil vê-la com clareza na penumbra. A mulher sentada a sua frente parecia comum, sem nenhum atrativo que chamasse a atenção. Não podia ver direito os olhos dela, escondidos como estavam por trás de óculos pesados, quase grotescos. As roupas, embora de qualidade, lembravam um uniforme cinzento, e ele a achou sisuda, recatada demais e desinteressante. O que não combinava nem um pouco com a imagem de uma mulher capaz de escrever alguns dos artigos indubitavelmente inteligentes do jornal. Prudence estudou-o com igual intensidade. Ficou satisfeita em notar a surpresa inicial dele, mas algo naquele olhar lhe causava: nervosismo, e um peculiar desapontamento. O homem a estava avaliando e, sem dúvida, fazendo um julgamento depreciativo. Ele, por sua vez, era atraente. Devia ter uns trinta e sete ou trinta e oito anos, com fartos cabelos castanho-escuros, meticulosamente penteados, e aqueles olhos penetrantes. Sobrancelhas espessas destacavam-se na fronte larga, o nariz reto contribuindo para a harmonia dos traços acima de uma boca serena. Os olhos aguçados, porém, não continham a menor afabilidade. Seria a ela ou a causa, que ele estava menosprezando? Ou aquela era sua expressão habitual? — E quem são as duas outras editoras? — perguntou Gideon quando o silêncio pareceu se prolongar demais. — Minhas irmãs. — Ah. Ele alisou o jornal sobre a mesa, e Prudence reparou nas mãos grandes e nas unhas impecáveis. Pareciam mais as mãos de um pianista do que as de um advogado. Usava um anel de sinete de esmeralda, e as abotoaduras de diamante nos punhos da camisa, assim como o alfinete na lapela. Nada ostentoso, apenas uma discreta e elegante indicação de riqueza e poder. Tudo na presença dele confirmava aquela impressão. Era um homem de extrema confiança em si mesmo e em sua posição no mundo. Também era, de fato, intimidante. Mas Prudence não tinha intenção de deixá-lo saber que ela percebera isso. Cruzou as mãos enluvadas sobre o colo, depois de colocar a bolsa na cadeira ao lado. — Deixei todos os dados pertinentes à situação com seu assistente e vejo que tem um exemplar do jornal com o artigo em questão. Portanto, presumo que esteja a par dos fatos, sir Gideon. — Tal como eles foram relatados. Estou correto em acreditar que a honorável srta. Constance Duncan casou-se recentemente com o sr. Ensor, o político? — Sim. Mas isso não deve influenciá-lo de modo algum.


Um brilho zombeteiro surgiu por um instante nos olhos dele. — Eu asseguro, senhorita, que nada me influencia, exceto minha avaliação de uma situação e inclinações próprias. — Fico contente em saber. Uma pessoa não desejaria ser representada no tribunal por um advogado que se deixasse desviar da verdade por causa de algum capricho pessoal. Os olhos dele ficaram subitamente velados, a expressão no semblante indecifrável, e Prudence não soube se o atingira ou não. Era aquela a fisionomia que sir Gideon mantinha no tribunal? Não deixando transparecer nada? Se fosse, era uma arma das mais eficazes. Ela se viu resistindo à vontade de romper o silêncio com alguma tagarelice irrelevante qualquer. Gideon apontou para o artigo no jornal aberto no meio da mesa. — Escreveu isto, srta. Duncan, ou foi uma de suas irmãs? — Na verdade, foi minha irmã mais velha. Mas a autoria do artigo não importa. Estamos todas juntas nisso. Ele sorriu. — Um por todos e todos por um. Os três mosqueteiros ganhando vida e circulando pelas ruas de Londres. Ou, melhor dizendo, mosqueteiras... Prudence cerrou os punhos no colo, esforçando-se para manter a compostura. Não disse nada, mantendo a expressão inalterada, ciente de que, graças às lentes dos óculos, não era possível ver a raiva e a indignação em seus olhos. — O que é que você e suas irmãs querem que eu faça para ajudá-las, srta. Duncan? — Gideon manteve a voz calma, mas o tom frio evidenciava sua contrariedade. — Gostaríamos que defendesse o Mayfair Lady no processo de calúnia e difamação de lorde Barclay. Apesar de aborrecida e desconcertada, Prudence sentiu alívio por chegar ao centro da questão. Talvez o advogado tivesse algum problema em tratar de negócios com mulheres, mas quando chegasse o momento da decisão pela defesa da verdade, que ele já devia ter entendido quando lera o artigo, deixaria de lado seus preconceitos. Gideon manteve-se em silêncio por um momento, olhando para o jornal. Ergueu, então, os olhos, fitando-a com firmeza. — Sabe, srta. Duncan, eu acharia isso algo muito difícil de fazer. Lendo este artigo, sinto total empatia pelo conde. É um artigo ultrajante, maldoso, e suas autoras merecem a total punição da lei. Se estivesse processando o jornal, eu


exigiria o máximo possível de indenização e punição por danos, e não descansaria enquanto este... — Ele correu a mão com ar desdenhoso pelo jornal — ...este pasquim recheado de mexericos não fosse tirado de circulação. Gideon levantou-se. — Perdoe-me a franqueza, srta. Duncan, mas existem realidades que a senhorita e suas irmãs parecem não ter compreendido. As mulheres não têm preparo para entrar nesse tipo de batalhas. Este é um ataque emocionado, irresponsável, a um membro da aristocracia, destinado a causar o máximo de constrangimento, e que atingiu o objetivo. O conde tem o direito de ser indenizado pela dor e o sofrimento causados por esse artigo leviano, baseado cm rumores. Devo sugerir que, daqui em diante, mantenham seus mexericos dentro de seus círculos sociais de amigas e fiquem longe de papel e caneta-tinteiro. Gideon saiu detrás da mesa, enquanto Prudence permanecia sentada, completamente estupefata. — Agora, se me der licença, srta. Duncan, tenho trabalho a fazer. — Adiantou-se até a porta e abriu-a. — Thadeus, acompanhe a honorável srta. Duncan até a rua. Atordoada, Prudence levantou e deixou-se conduzir do gabinete. Em questão de segundos, viu-se sob a chuva fina que caía na calçada diante do escritório de advocacia. Consultou o pequeno relógio de corrente dentro da bolsa. Quase quatro e vinte. Em menos de meia hora, fora submetida a um severo sermão e dispensada feito uma colegial culpada. Max a avisara para surpreender o advogado, para mostrar iniciativa, e ela deixara a oportunidade escapar. Ainda ouvia reverberando em sua mente a voz do advogado, tão mansa e, ao mesmo tempo tão implacável, fazendo seu discurso ofensivo, recriminador. Ninguém nunca ousara falar com ela daquela maneira. Prudence girou nos calcanhares, virando-se para a porta outra vez e escancarando-a. Nem mesmo Gideon Malvern, ilustre membro do Tribunal Superior de Justiça, iria se sair bem daquilo. Gideon quase saltou da poltrona, sobressaltado com o retorno abrupto de sua visitante. Mas aquela não era a mesma mulher que acabara de sair dali. A aparência era a mesma, mas a atitude era bem diferente. Aquela mulher irradiava energia. Ainda não podia ver os olhos dela por trás das grossas lentes dos óculos, mas quase sentia a ira que irradiavam. — Não entendo o que o faz pensar que tem o direito de tratar a mim, ou, aliás, a qualquer cliente, com tanto desprezo e condescendência — declarou Prudence, pousando a bolsa sobre a mesa do advogado. — Uma vez que já havia julgado a questão a seu modo preconceituoso, não compreendo por que concordou


em me conceder um horário. A menos, é claro, que tenha desejado apenas se divertir a minha custa. Talvez as mulheres sejam meros joguetes para o senhor. Ela retirou as luvas dedo por dedo, enquanto falava. — Não me concedeu sequer a gentileza de fingir que estava conduzindo uma consulta apropriada aqui. Imaginou que eu viria a uma reunião de negócios despreparada para falar sobre o material que havia deixado com seu assistente? Temos provas mais do que suficientes para sustentar nossas acusações contra lorde Barclay. Pelo que entendo da lei, se há provas, não há calúnia e difamação. Estou, por acaso, enganada? — Ela arqueou as sobrancelhas com ar irônico. Gideon levou um momento para se recobrar, respirando fundo, enquanto a visitante removia os óculos para limpar as lentes com um lenço rendado. Os olhos dela foram uma inesperada revelação. Eram de um verde-claro límpido, e vividos, com um brilho de ruiva e inteligência. E estavam fixos nele, enquanto ela limpava as lentes, com um desprezo que o preeminente advogado dirigia aos outros com freqüência, mas nunca recebera antes. — Estou enganada, sir Gideon? — repetiu Prudence, enquanto recolocava os óculos. — Normalmente não estaria, srta. Duncan. — Gideon se levantou, encontrando a voz, enfim. — Mas a natureza anônima das acusações faz com que não sejam tão verossímeis e duvido que um júri veja com simpatia o que parece ser... o que poderia parecer uma covarde punhalada pelas costas. — Fez um gesto na direção das cadeiras diante da mesa. — Não gostaria de sentar? — Estou bem assim. Vejo que o anonimato pode apresentar dificuldades, mas não temos realmente escolha nessa questão. Não poderíamos publicar o jornal se nossa identidade fosse conhecida, como o senhor já teria notado se tivesse analisado a situação com inteligência e boa vontade por um minuto. Terá de encontrar um meio de fazer nossa defesa levando em conta a necessidade de anonimato. Gideon abriu a boca, mas Prudence não lhe deu chance de falar. — Presumo que tenha se dado ao trabalho de ler as anotações que minha irmã fez durante as entrevistas com as mulheres que foram vítimas do conde. Talvez queira revê-las e refrescar sua memória. — Ela o encarou, desafiadora. — É claro que, se continuar a fazer seu julgamento precipitado do assunto, eu pagarei a taxa de consulta, de cinqüenta guinéus... embora eu não possa chamar esta conversa exatamente de consulta... e o deixarei com seus preconceitos. Tirando um maço de cédulas do fundo da bolsa, pousou-o sobre a mesa com desdém. O advogado jamais faria idéia de quanto o gesto lhe custou. Gideon ignorou o dinheiro.


— Sente-se, srta. Duncan. Isto poderá levar alguns minutos. Aceita uma xícara de chá? — Ele pousou a mão numa sineta prateada sobre a mesa. — Não, obrigada — disse Prudence, sentando-se. A fúria e o ultraje a tinham levado até ali, mas agora que a ira inicial passara, sentia-se trêmula. — Oh, mas eu insisto. — Gideon tocou a sineta, e Thadeus abriu a porta logo em seguida. — Traga-nos chá, por favor, e algumas torradas e rosquinhas. O homem retirou-se silenciosamente, e Prudence declarou: — Estou sem apetite. Isto não é uma visita social. — Não, mas é a hora do chá — observou ele com serenidade. — E eu certamente estou pronto para o meu. Apanhando uma pasta de arquivo de uma pilha a sua frente, abriu-a e começou a ler alguns papéis. Prudence não disse nada, apenas estudou-o com atenção. Reconheceu as cópias que fizera das anotações da irmã e sentiu a raiva se renovando ao perceber que ele realmente não se dera ao trabalho de lê-las antes. Thadeus entrou com uma bandeja de chá, e o aroma convidativo de rosquinhas fez com que Prudence se arrependesse de sua arrogante recusa. — Devo servir, sir? — indagou Thadeus. — A menos que a srta. Duncan queira fazer as honras. Gideon ergueu o rosto e abriu um sorriso que a fez sentir-se como se estivesse na presença de um homem totalmente diferente. O sorriso iluminou os olhos dele e suavizou os traços fortes, sérios, deixando-o mais jovial e atraente. Prudence sacudiu a cabeça numa breve negação, e o assistente serviu o chá em delicadas xícaras de porcelana. Ela aceitou a que lhe foi entregue e serviu-se de uma torrada, pois seria indelicado recusar, àquela altura. Gideon tomou seu chá e comeu rosquinhas tranqüilamente, enquanto continuava lendo e fazendo anotações num bloco de papel a seu lado. Enfim, ergueu os olhos. — Muito bem, admito que não vi razão para examinar o material restante depois que li o artigo e a carta dos advogados. Talvez eu tenha agido precipitadamente, mas ainda não vejo nada aqui para provar a acusação de improbidade financeira. — Sua voz soava fria e inexpressiva como antes, mas o sorriso desaparecera, e os olhos estavam mais atentos. — Há uma certa falta de provas quanto a isso; todas concordamos — declarou Prudence num tom calmo. — Porém, estamos convencidas da verdade dessa acusação.


— Estarem convencidas é bem diferente de terem provas para convencer um júri num tribunal — retrucou Gideon. — Temos uma boa idéia de onde procurar provas para sustentar a acusação — assegurou ela, pousando a xícara vazia na mesa. Ele a encarou com ar inquiridor. — Poderia explicar melhor, srta. Duncan? — Não no momento. — Prudence achou mais sensato guardar algumas cartas na manga até que ele tivesse se comprometido a aceitar o caso. Se contasse sobre os negócios do pai com Barclay e ele ainda se recusasse a representar o jornal, teria exposto o pai desnecessariamente. Não importava que fosse um dado confidencial, ela não gostava da idéia daquele arrogante desdenhando de seu pai... só revelaria tudo se fosse imprescindível. — Mas posso assegurar que sabemos exatamente como obter o que é preciso. Gideon limitou-se a arquear as sobrancelhas. —. A senhorita disse que sua irmã escreveu o artigo em questão, se bem me lembro. — Sim, Constance. — Ela é a responsável pela maior parte do que é escrito? — Quando se trata de assuntos políticos, especialmente os relativos ao sufrágio feminino, sim. — E qual é seu papel na execução desse... — Ele indicou o jornal na mesa. — Dessa publicação? Prudence notou o indício de desprezo na voz dele outra vez, e sua raiva se reavivou. Pôs-se de pé, enquanto falava: — Eu cuido da parte dos negócios. A administração, as finanças e assuntos dessa natureza. Agora, se me der licença, está claro que não temos mais nada a discutir e, portanto, não tomarei mais de seu valioso tempo. Obrigada pelo chá. — Recolheu as páginas que continham as anotações de Constance e guardou-as na bolsa, deixando as cédulas na mesa. Gideon levantou-se também. — Discordo. Acho que ainda temos muito a discutir. Prudence fez uma pausa enquanto calçava as luvas. — O senhor nem tentou disfarçar seu desprezo pelo Mayfair Lady. Tenho certeza de que julga ser o trabalho de amadoras. O que talvez não entenda... — Não coloque palavras em minha boca, srta. Duncan. Nem pensamentos em minha mente. — O senhor nega?


— Não vou negar que tenho dúvidas quanto aos méritos deste caso. Mas estou disposto a manter a mente aberta, enquanto você tentar provar que posso achar interessante defendê-lo. Ele tornou a sorrir, e Prudence esforçou-se para não se deixar encantar por todo aquele charme. Tinha certeza de que era artificial, usado quando era conveniente ao advogado. — Jante comigo hoje à noite — convidou Gideon, o sorriso se alargando. — Juro que irei pronto para ouvir, sem idéias preconcebidas, sem preconceitos, aberto a quaisquer argumentos. O que poderia ser mais justo que isso? Prudence ficou tão surpresa que se viu momentaneamente sem palavras. Ele transformara uma reunião de negócios num encontro social e, mais do que isso, havia algo inegavelmente sedutor em sua atitude. O homem conhecia o poder de seu sorriso, do timbre agradável da voz. Mas por que usá-lo naquelas circunstâncias? Desejaria algo dela? Só havia um meio de descobrir. — Não vou recusar a oportunidade de persuadi-lo — respondeu, enfim, esperando soar calma e controlada, não desconcertada e perplexa como estava. — Então, aceita meu convite? — Certamente. Embora eu não veja o que uma conversa a uma mesa de jantar possa resolver, já que não chegamos a um consenso aqui. — Então, terá de esperar para ver — respondeu Gideon, desconcertando-a outra vez. — Talvez eu a surpreenda. Se me der seu endereço, enviarei um automóvel para ir buscá-la às oito da noite. Teria sido mais cortês se ele mesmo tivesse se oferecido para ir buscá-la, pensou Prudence. Estava aborrecida, mas o bom senso dizia que ignorasse sua reação pessoal em favor de mais uma chance para obter o apoio do advogado. Além do mais, embora relutasse em admitir, o homem a intrigava. Por um lado, mostravase rude, arrogante, altivo, desdenhoso, e por outro, no entanto, sabia ser charmoso, carismático e cativante quando queria. Sem mencionar que era extremamente atraente. Também devia ter uma mente brilhante, genial, uma rara qualidade que ela sempre achara irresistível num homem. — Moro no número dez da Manchester Square. Ela adiantou-se até a porta, sem fazer nenhuma tentativa de abrandar a resposta abrupta com um sorriso de despedida. Gideon, porém, contornou a mesa e chegou até a porta primeiro. Pegando a mão dela por um momento, curvou-se num gesto galante. — Ficarei no aguardo de nosso jantar, srta. Duncan. Eu a acompanharei até lá fora. — Apanhando um grande guarda-chuva do suporte próximo à porta, levou-a


pela escada até a rua. A chuva apertara àquela altura. — Aguarde aqui. Trarei uma carruagem de aluguel. Antes que Prudence pudesse protestar, ele a deixou sob o abrigo da porta do vestíbulo e começou a desviar de poças na calçada, protegido pelo guarda-chuva. Ela estava ainda mais confusa. Pelo que vira do comportamento do homem até então, teria esperado que ele encarregasse o assistente dessa tarefa, caso não a tivesse deixado se arranjar sozinha na chuva. Um homem de curiosos paradoxos, de várias facetas, sem dúvida. Uma pequena carruagem dobrou a esquina e aproximou-se, parando diante da porta.Gideon desceu e segurou o guarda-chuva acima de Prudence, até que ela estivesse confortavelmente acomodada no interior da carruagem. — Aonde devo dizer ao condutor que a leve? — A Fortnum's. Tenho um segundo chá à espera. Gideon riu, um som descontraído, natural, que ela não ouvira antes. — Não é à toa que tenha desdenhado do meu chá. Até a noite, senhorita. — Acenou, e Prudence viu-se retribuindo o gesto, dando-se conta de que sorria. Com o cenho franzido e ar pensativo, Gideon retornou ao gabinete. O que, afinal, estava fazendo? O caso era impossível; soubera disso desde que lera a primeira linha do artigo. Não nutria simpatia alguma pelas editoras do Mayfair Lady. O artigo em questão era um mexerico maldoso numa publicação devotada a opiniões políticas e declarações indignadas sobre o tratamento injusto às mulheres. Não havia meio de que aquela cabeça-dura de olhos expressivos e temperamento voluntarioso pudesse persuadi-lo a encarar o caso de outro modo. Então, por que fora convidá-la para tentar... por que condenara a si mesmo a uma noite de absoluto tédio com uma inevitável conclusão desagradável quando dissesse, como pretendia, que não tinha, e nunca tivera, intenção de defender o jornal no processo? Gideon perguntou-se por um segundo se haveria alguma maneira de retirar o convite. Poderia enviar uma mensagem à Manchester Square dizendo que surgira um imprevisto, expressar seu pesar, e nunca mais tornar a pousar os olhos na srta. Duncan. Ele olhou para o maço de cédulas na mesa. A voz dela ecoou em sua mente, cheia de raiva e indignação. Relembrou seu gesto desdenhoso quando largara as cédulas na mesa. A menos que estivesse enganado, a honorável srta. Duncan não era inteiramente o que parecia. Talvez a noite não fosse uma completa perda de tempo, afinal. Apertando os lábios, ele colocou as cédulas numa gaveta sob a mesa e trancou-a. A carruagem de aluguel deixou Prudence na Fortnum's, quase vazia àquela hora, e ela foi sentar com as irmãs à mesa onde a aguardavam. Relatou cada


detalhe da conversa com Gideon, desde a arrogância inicial dele e a reação tardia mas eficaz dela, até o inesperado convite para jantar. As irmãs ouviram com um misto de indignação, incredulidade e perplexidade. Sabiam que Prudence raramente se exaltava, más quando ficava furiosa não deixava pedra sobre pedra. — Ele convidou você para jantar, a fim de tentar persuadi-lo a aceitar o caso? — repetiu Constance, boquiaberta. — Que tipo de prática de negócios é esse? — Eu não sei. — Prudence deu de ombros e esvaziou a xícara de chá. — Mas eu não podia recusar a oportunidade, não é? — Você se lembrou que sir Gideon é divorciado? — perguntou Chastity. — Talvez ele não seja tão rigoroso em sua vida pessoal. — Oh, para dizer a verdade, acabei esquecendo desse fato. — Divorciado? — Era a primeira vez que Constance ouvia sobre aquele interessante detalhe. — Sim, nós pesquisamos sobre ele no Quem é Quem — explicou Chastity. — É divorciado há seis anos. E tem uma filha. Prudence manteve o olhar fixo num ponto qualquer. — Sabem, em certos momentos foi quase como se ele estivesse flertando comigo. Vez ou outra deixava aquela arrogância detestável de lado e passava por uma mudança quase completa de personalidade. Foi estranho. — Não é incomum um homem divorciado flertar — observou Constance. — Ao contrário. Embora eu ache antiético um advogado flertar com uma cliente em potencial. — A menos que não tenha a menor intenção de nos aceitar como clientes. Se for um libertino, um imoral, pode estar querendo tentar se aproveitar de Prue. — Oh, Chas! — As irmãs riram, mas o humor não durou muito. — Ora, por que um libertino imoral iria se interessar por mim, nestes trajes? — retrucou Prudence. — Eu pareço uma solteirona beata. — Creio que essa imagem deva ter se dissipado um pouco quando ficou zangada — comentou Constance com um sorriso seco. — Você tirou os óculos? — Eu não sei, eu... Oh, Céus, Con, e se tirei? As irmãs não disseram nada, apenas a observaram com as sobrancelhas arqueadas. — Então, você aceitou o convite dele — disse Chastity, enfim. — Já falei que sim. Eu não podia deixar passar a oportunidade. — Ele é atraente?


— Não para mim — respondeu Prudence depressa demais. — Mas posso ver como algumas mulheres o julgariam bonito. Eu simplesmente não gosto do tipo machista e com ar de superioridade. As irmãs apenas menearam a cabeça. — Admito, porém, que ele tem uma voz agradável. E, quando seu sorriso é autêntico, algumas mulheres poderiam achá-lo charmoso. — Mas você não se deixou levar pela demonstração de charme — disse Constance. — Não, nem um pouco. — Bem, será interessante ver o que a noite trará — declarou Chastity num tom neutro. Prudence limitou-se a menear a cabeça, em silêncio.

Capítulo IV

Prudence olhou para o relógio em seu quarto. Eram quase oito horas. Dissera ao pai que jantaria na casa de amigas naquela noite, e ele próprio já saíra para ir ao clube. Chastity jantaria com Constance e Max, portanto ela estava sozinha para lidar com suas incertezas. Verificando sua imagem no espelho pela última vez antes de descer, esperou ter feito a escolha acertada. O vestido de lã marrom de modelo ultrapassado e simples era mais apropriado para um velório, mas servia a seus propósitos. — O automóvel já chegou para buscá-la, srta. Prue — anunciou Jenkins quando a viu descendo a escada em direção ao vestíbulo. — Obrigada. Não precisa me esperar acordado. Estou levando minha chave. — O chofer disse que foi enviado por um tal sir Gideon Malvern — comentou o mordomo casualmente. — É um senhor idoso, srta. Prue? — O olhar intrigado com que ele a percorreu, no vestido feioso, foi discreto, mas seu significado ficou claro demais. Jenkins não estava acostumado a ver nenhuma das damas da casa vestida de maneira deselegante. — Não, ao contrário — respondeu ela, vestindo o casaco por cima do vestido. — Ouvi dizer que há um advogado com esse nome. Muito famoso.


— Sim, era do assistente dele a mensagem que sua irmã pediu que um garoto de recados entregasse aqui alguns dias atrás — explicou Prudence, referindo-se à ajuda da solícita sra. Beedle. — Depois de uma consulta nesta tarde, continuaremos as negociações durante o jantar. Precisamos demais dos serviços dele, por isso deseje-me sorte. Espero estar parecendo séria e respeitável, pronta para uma conversa produtiva, não para um mero jantar social. — Ela arqueou uma sobrancelha, pedindo a opinião dele. — Foi certamente essa impressão que me passou — respondeu Jenkins com tato, acompanhando-a pelos degraus da frente até onde um motorista uniformizado aguardava ao lado da porta aberta de um veículo preto. — Tenho certeza de que seus assuntos se resolverão. Prudence agradeceu ao mordomo e sorriu em despedida, sentando-se no banco traseiro do automóvel. — Para onde iremos? — perguntou ao chofer. — Long Acre, senhorita. — Ele fechou a porta e foi sentar-se ao volante. Prudence acomodou-se melhor no assento, ponderando que a principal avenida de Covent Garden era uma estranha escolha de local, levando em conta as circunstâncias. Os restaurantes em torno da Opera House e os teatros de Drury Lane eram concorridos demais e era bem possível que houvesse pessoas que a conhecessem. Se fosse vista com Gideon, inevitavelmente haveria falatório e, talvez mais tarde, quando o julgamento começasse, alguém se lembrasse de tê-los vistos juntos e especulasse a respeito. Era uma situação arriscada. Parecia tolice agora não ter perguntado aonde ele a levaria, mas não pensara nisso antes. O motorista dirigiu devagar até chegarem às ruas estreitas e movimentadas em torno de Covent Garden. O carro parou diante de uma casa de ar discreto com janelas fechadas e uma porta que dava diretamente para a rua. O chofer ajudou Prudence a descer e conduziu-a até a porta. Ela observou a casa. Não ostentava nenhuma placa, nem dava qualquer indício de ser um restaurante. Na verdade, parecia uma residência particular. A porta abriu-se momentos depois que o chofer bateu com a aldrava de bronze. Um cavalheiro em traje escuro e austero saudou-a. — Senhorita, sir Gideon está a sua espera no salão vermelho. Salão vermelho?, perguntou-se Prudence, intrigada, enquanto o homem a guiava por um vestíbulo elegante de mármore branco e preto e teto ornamentado. Uma escadaria com corrimão dourado ficava ao fundo. — Por aqui, senhorita.


O homem conduziu-a pela escada e por um amplo corredor com várias portas, através das quais se ouviam vozes masculinas e femininas e o tilintar de cristal e porcelana. Prudence estava cada vez mais curiosa. O homem parou diante de uma porta dupla, bateu uma vez e, então, num gesto floreado, abriu-a de lado a lado. — Sua convidada, sir Gideon. Prudence entrou numa grande sala quadrada, mobiliada como uma sala de estar, exceto por uma mesa de jantar iluminada por velas e arrumada para dois diante de uma ampla janela com vista para um jardim abaixo. Logo ficou óbvio por que o lugar era conhecido como salão vermelho. As cortinas eram de veludo vermelho, e a requintada mobília estofada de tecido adamascado da mesma cor. Gideon Malvern estava parado perto da lareira acesa, bebericando um drinque. Deixando o copo de lado, adiantou-se para recebê-la. — Boa noite, srta. Duncan. Deixe-me pegar seu casaco. Ele estava impecavelmente vestido num elegante traje de noite, e Prudence, enquanto removia a echarpe com que protegera os cabelos, teve um momentâneo arrependimento diante de sua cuidadosa escolha de vestuário, Com o objetivo de deixar claro ao advogado que aquele encontro não era uma ocasião social, decidira manter a imagem de solteirona sisuda que criara no gabinete dele naquela tarde. Na verdade, agora achava que exagerara um pouco, metendo-se num horrível vestido marrom que desenterrara de um armário de cedro que não tinha sido aberto durante uns dez anos. Não fazia idéia de onde o vestido surgira. Certamente não era algo que sua mãe teria usado. Ela desabotoou o casaco com alguma relutância e deixou que Gideon o pegasse e entregasse ao homem que a acompanhara pela escada. Ele fez uma leve mesura e retirou-se, fechando a porta dupla com gentileza. Gideon estudou sua convidada, uma sobrancelha arqueando-se de leve. Estava tentando imaginar como uma dama, ainda mais tão jovem, era capaz de se vestir com tamanha falta de bom gosto. O vestido de noite que usava era ainda pior do que o sisudo conjunto com que aparecera em seu escritório naquela tarde. E com aqueles horríveis óculos como acessório, poderia facilmente ter passado pela avó de alguém. Ele respirou fundo, sentindo um odor característico. Seria impressão, ou havia um cheiro de bolas de naftalina emanando daquele deplorável vestido marrom? — Gostaria de um xerez?— perguntou educadamente. — Obrigada. Prudence estava ciente da reação dele a sua aparência. Era exatamente o que pretendera, mas, ainda assim, sentia-se mortificada. Estava muito mais


acostumada a olhares de admiração do que ao misto de pena e desdém do advogado. — Por favor, sente-se. — Gideon indicou um dos sofás e, então, serviu-lhe um cálice do vinho. Tornando a pegar seu drinque, acomodou-se no sofá oposto. — O que é esta casa? — Um clube exclusivo. Achei que um restaurante talvez fosse um lugar público demais. — De fato, não seria aconselhável que fôssemos vistos juntos. Gideon estava de pleno acordo. Sua reputação social ficaria arruinada se tivesse sido visto em público em companhia de uma criatura tão deselegante e sem graça. Observou-a discretamente por mais um momento. Ela usava os cabelos presos num coque severo e antiquado. Mas o penteado não conseguia disfarçar a cor dos cabelos lustrosos. Eram de um tom de ruivo escuro, vibrante. Não, algo não estava certo ali, ponderou ele. Não conseguia descobrir o que, mas havia algo de misterioso na honorável srta. Duncan. Lembrou-se daquele momento em seu gabinete quando ela retirara os óculos e lançara-se em seu ataque. A imagem daquela mulher não parecia condizente com a da que estava sentada ali agora. E, depois de tudo que lera no fim da tarde, não se arriscaria a tirar conclusões precipitadas sobre nenhuma das irmãs Duncan. — Se bem me lembro, srta. Duncan, disse que cuidava da parte financeira e administrativa da publicação. Presumo que seja uma espécie de consultora. — Eu não diria isso exatamente. Eu me descreveria mais como uma assistente contábil. Gideon riu. — Oh, não seja modesta, srta. Duncan. Estou convencido de que é bem mais do que uma assistente contábil. Assim como sua irmã é uma habilidosa redatora. Admito que seus artigos impressionam. Prudence mostrou-se surpresa. — Andou lendo exemplares do Mayfair Lady desde esta tarde? — Descobri uma fonte inesperada de edições anteriores — respondeu Gideon secamente. — E, o que é mais curioso, sob meu próprio teto. Minha filha e a governanta dela parecem ser ávidas leitoras de seu jornal. — Ah, sua filha,sim. — Parece não estar surpresa com isso. — Lemos sobre o senhor no Quem é Quem. Ele ergueu as sobrancelhas.


— Então, sabe mais sobre mim do que eu sobre você, srta. Duncan. Prudence sentiu que corava, como se tivesse sido acusada de bisbilhotice. — O Quem é Quem é um guia de consulta pública — declarou. — Além do mais, se não tivéssemos lido a seu respeito, não teríamos sabido como encontrá-lo. — Ah, uma mera pesquisa, é claro. — Sua filha mora com o senhor? — perguntou ela, admirada. — Na verdade, ela freqüenta o North London Collegiate para sua formação. A governanta que contratei para reforçar os estudos dela cuida de aspectos mais amplos da educação de Sarah. A srta. Winston é uma mulher de meia-idade, experiente, além de paciente e atenciosa. E parece que o sufrágio feminino é de interesse particular dela, daí sua familiaridade com o Mayfair Lady. Aquele era, de fato, um homem de muitas surpresas, refletiu Prudence, incapaz de negar que seu interesse fora despertado. A escola para moças North London Collegiate, fundada em 1850, pela pioneira Francês Buss, um dos ícones femininos da mãe de Prudence, fora o primeiro externato a oferecer uma educação rigorosa a meninas. A srta. Buss, assim como a falecida lady Duncan, fora uma fervorosa defensora dos direitos das mulheres, bem como de sua educação. Prudence sorveu um gole de xerez. — Quer dizer que acredita no benefício da educação das mulheres? — É claro que sim. — Gideon estudou-a com ar inquiridor. — Imagino que isso a surpreenda. — Depois de seu discurso preconceituoso desta tarde sobre como as mulheres não estão preparadas para enfrentar batalhas, num tribunal e coisas assim, acho isso inacreditável. Segundo me recordo, o senhor aconselhou que eu e minhas irmãs mantivéssemos os mexericos restritos a nossos círculos sociais e ficássemos longe de papel e caneta-tinteiro. Gideon pareceu imperturbável com a evidente contradição. — O fato de eu apoiar a educação das mulheres não interfere na minha avaliação de que a maioria delas não está preparada para tratar de assuntos no meu meio. Se não fosse assim, haveria pouca necessidade de meu apoio para a causa. Ele a fitou longamente, avaliando-a, e Prudence sentiu-se inquieta. Era como se o homem pudesse enxergar através dela, da fachada que estava apresentando, e descobrir a verdadeira Prudence que havia por baixo. — Sua filha... — começou, tentando desviar a atenção dele. — Minha filha não vem ao caso aqui. Basta dizer que, sob a orientação da srta. Winston, ela se tornou uma grande adepta do sufrágio feminino.


— E o senhor também é? — A pergunta foi rápida e direta. Sem pensar, Prudence tirou os óculos, como costumava fazer em momentos tensos, limpando-os na manga do vestido enquanto o fitava. Gideon respirou fundo. Olhos maravilhosos. Não pertenciam à solteirona insípida. Então, que jogo a srta. Duncan estava fazendo ali? Ele tinha toda a intenção de descobrir antes que a noite terminasse. — Ainda não me decidi sobre esse assunto — respondeu, enfim. — Talvez deva tentar me convencer dos prós, enquanto também tenta me persuadir a aceitar o caso e defender seu jornal. — Gideon curvou os lábios num ligeiro sorriso, os olhos brilhando. Prudence recolocou os óculos depressa. Aquele olhar era intenso demais para sustentar. E havia um tom íntimo naquela voz aveludada que lhe arrepiava a pele. Cada instinto seu emitia um alerta. Mas um alerta contra o quê? Racionalmente, ele não podia estar atraído por ela, mas sua voz, seus olhos e seu sorriso diziam que sim. O homem estaria fazendo algum jogo? Tentando desorientála? Prudence procurou se concentrar. Havia um trabalho a fazer. Tinha de persuadilo de que acharia o caso interessante e... Ela gelou. Aquilo era parte do que tornaria o caso interessante para ele? Um jogo cruel, elaborado, de falsa sedução? Havia algo acontecendo ali que lhe passara despercebido? Prudence pensou no Mayfair Lady, na montanha de dívidas que estavam apenas conseguindo começar a enfrentar. Pensou no pai, que até então fora poupado da verdade, como a mãe teria se desdobrado para fazer. Com tudo aquilo em risco, podia muito bem fazer o jogo de Gideon Malvern e divertir-se quando o derrotasse, Endireitando os ombros, disse com um quê de severidade: — Vamos falar do assunto de nossa defesa. Da forma como minhas irmãs, Chastity e Constance, e eu vemos as coisas, nossa fraqueza reside no fato de ainda não termos provas concretas da desonestidade de lorde Barclay. Porém, sabemos como encontrá-las. Por ora, temos várias provas para sustentar nossa acusação de libertinagem. — Vamos nos sentar para jantar. Prefiro não falar sobre isso de estômago vazio. Prudence pousou o cálice na mesa de centro e levantou. — Fico impressionada com sua disposição. Tenho certeza de que deve ter tido um dia atarefado no gabinete e no tribunal, e agora está preparado para trabalhar durante o jantar.


— Não, você fará o trabalho — observou Gideon, conduzindo-a até a mesa. — Eu apenas desfrutarei meu jantar, enquanto você tentará me convencer de que devo aceitar o caso. — Puxou uma cadeira. Prudence se sentou, os lábios apertados. Aquele era o mesmo homem com quem conversara à tarde. Arrogante, seguro de si, totalmente no controle. E bem mais fácil de lidar do que o outro... charmoso e cativante... o qual pudera apenas vislumbrar ligeiramente. Gideon tocou uma sineta antes de sentar. — O clube tem uma reputação considerável por sua cozinha. Escolhi o menu cuidadosamente. Espero que aprove. — Uma vez que já avisou que não terei oportunidade de desfrutar o jantar, sua solicitude parece hipócrita. Eu teria ficado contente com um ovo cozido. Gideon ignorou o comentário e passou a Prudence uma cesta de pãezinhos quentes, enquanto dois garçons se moviam com discrição à volta de ambos, enchendo taças de vinho e servindo uma leve sopa de entrada em pratos fundos de porcelana. Ao contrário do que sugerira, ele deixou-a apreciar a saborosa sopa e, depois, o prato que se seguiu, peixe assado com molho leve e acompanhamentos. Fez apenas um ou outro comentário sobre a sofisticada comida antes de, finalmente, tocar no assunto que os levara até ali: — Não haverá meio de lutar contra o processo judicial de Barclay sem que você e suas irmãs revelem as respectivas identidades. Foi um comentário tão abrupto que Prudence ficou confusa por um momento. Pareceu mais um ataque do que uma continuação da conversa amena de até então. Ela piscou, ordenou rapidamente os pensamentos e preparou-se para a batalha. — Não podemos fazer isso. — Não posso pôr um jornal no banco dos réus. Passei quase duas horas lendo edições anteriores de seu jornal, srta. Duncan, e não acredito que você e suas irmãs não sejam inteligentes o bastante para imaginar por um minuto que podem escapar do tribunal. — Não podemos ocupar o banco dos réus. Nosso anonimato é essencial ao Mayfair Lady. — Por quê? — Ele pegou a taça de vinho e levou-a aos lábios. — Não acredito que não seja perspicaz para responder a essa pergunta sozinho. Minhas irmãs e eu não podemos revelar nossa identidade porque publicamos teorias e opiniões que, pelo fato de sermos mulheres, seriam automaticamente ignoradas se nossos leitores soubessem quem as escreveu. O


êxito do jornal depende do mistério em torno da autoria das colunas e artigos e da editoria da publicação. — Sim, entendo que as pessoas não conversariam abertamente com vocês se soubessem que poderiam estar se expondo aos irônicos, se não maliciosos, artigos do Mayfair Lady. — Nossos artigos não são maliciosos — retrucou Prudence, as faces afogueadas. — Irônicos, às vezes, sem dúvida, ou até indignados. E não aceitamos desaforos, mas não somos maliciosas em nossos comentários. Apenas declaramos o que é verdadeiro, expomos o que julgamos injusto, preconceituoso e coisas assim. — Fazem denúncias... Srta. Duncan, vou deixar algo claro. Se não conseguir vencer esse processo, seu jornal deixará de existir. Se bem entendi, caso sejam obrigadas a revelar sua identidade, o jornal também se extinguira. Agora, diga, que ajuda legal posso oferecer? Então era isso. Segundo a avaliação de sir Gideon, ela e as irmãs não tinham a menor chance de vencer. Afinal, era um jogo. Mas por quê? Por que ele se dera ao trabalho de convidá-la para aquele jantar sofisticado, apenas para desconcertá-la? Bem, quaisquer que fossem as razões, ela não aceitaria a derrota facilmente. Mais uma vez, retirou os óculos e limpou as lentes com o guardanapo. — Talvez, estejamos pedindo o impossível, mas, pelo que soube a seu respeito, o senhor se especializou em impossibilidades. Não estamos preparadas para perder o Mayfair Lady. A publicação quinzenal prove um necessário meio de sustento, tanto o jornal quanto a agência Cupido, divulgada através de uma coluna, como deve ter visto. Jamais obteríamos clientes para esse serviço em: nosso círculo social se as pessoas soubessem com quem estão lidando. Isso deve ser óbvio, não? — A Cupido... É aquela espécie de agência de casamentos que vocês anunciam na referida coluna. Eu não me dei conta de que vocês mesmas dirigiam esse serviço. — Gideon parecia divertido e ligeiramente incrédulo. — Acredite ou não — declarou Prudence com frieza —, estamos nos saindo muito bem nisso. Ficaria surpreso com a quantidade de casais aparentemente improváveis que conseguimos reunir. — Calou-se quando os garçons retornaram para servir uma lagosta recheada e tornar a encher os copos com vinho. Ambos provaram a saborosa iguaria e, enfim, Gideon sacudiu a cabeça, comentando: — Você e suas irmãs são certamente um trio empreendedor. Com os óculos ainda esquecidos no colo, Prudence estreitou os olhos para fitá-lo. De imediato, percebeu que isso era um erro. Cada vez que tirava os óculos, a expressão de Gideon mudava, desconcertando-a. Colocou-os novamente e franziu o cenho, determinada a lidar com o impossível.


— Empreendedoras ou não, temos de ganhar este caso. — Sei... E eu devo colocar um exemplar de jornal no bancai dos réus e defendê-lo. Apenas supondo que tenhamos vencido essa dificuldade, há uma outra. Você se importaria em me dizer como propõe que eu defenda a publicação das acusações de improbidade financeira feitas ao conde? — Já comentei antes que temos uma boa idéia de como conseguir as provas. — Perdão, mas creio que apenas essa declaração não basta. — Terá de ser assim por ora. Ainda não posso ser mais específica. — Prudence sorveu um gole de vinho e pousou as mãos na mesa, inclinando-se para a frente. — Precisamos de um advogado da sua categoria. Estamos lhe oferecendo um caso que certamente achará desafiador. Minhas irmãs e eu não somos rés incapazes. Agiremos ativamente em nossa defesa. — E têm condições de pagar meus honorários, srta. Duncan? — Gideon a observava agora com inconfundível divertimento, as sobrancelhas levemente arqueadas. Prudence não esperara a pergunta, mas respondeu sem hesitar: — Não. — Como eu pensei. — E o que o levou a pensar assim? — E algo instintivo, no ramo em que atuo. Presumo que seu cunhado, Max Ensor, não tenha se oferecido para apoiá-las. Prudence sentiu o rubor espalhando-se pelas faces. — Constance... nós... jamais pediríamos isso a ele. E Max não esperaria que o fizéssemos. O jornal é um empreendimento nosso. Constance é financeiramente independente do marido. — Algo incomum. — Não somos mulheres comuns. E é por isso que estamos lhe oferecendo o caso. Se vencermos... e nós venceremos, porque nossa causa é justa... teremos satisfação em dividir com o senhor a indenização que recebermos, na proporção que determinar. Sem mencionar que, perdendo, lorde Barclay arcará com todas as custas do processo, incluindo os seus honorários, além dos do advogado dele. O que não podemos é revelar nossa identidade. — Acredita que irão vencer só porque a causa é justa? — Gideon deu aquele riso sarcástico que ela detestava. — O que a faz pensar que a legitimidade de sua causa garantirá justiça nos tribunais? Não seja ingênua. Prudence sorriu com frieza.


— Essa, sir Gideon, é exatamente a razão pela qual aceitará o caso. O senhor gosta de lutar, e as melhores batalhas são as mais difíceis de vencer. Estamos encostadas na parede, e se perdermos, ficaremos sem nosso sustento. Meu pai verá acabadas suas ilusões, e nós teremos falhado com minha mãe. Pode resistir a uma batalha que tem tantas coisas em jogo? Gideon estudou-a. — Foi designada como porta-voz por causa de sua capacidade de persuasão, Prudence, ou houve outro motivo? — Nós dividimos as tarefas de acordo com as circunstâncias — respondeu ela, ríspida. — Qualquer uma de minhas irmãs o teria persuadido de bom grado, mas tinham outras coisas a fazer. — Teriam me persuadido? — Gideon riu, divertido. — Sabe, você teria conseguido me persuadir mais facilmente sem a... — Sacudiu a mão no ar num gesto expressivo. — Sem a encenação... sem os sorrisos tímidos e esse vestido medonho. — Ele balançou a cabeça. — Saiba que isso simplesmente não é convincente. Ou você melhora a habilidade de representar, ou desiste da encenação. Sei perfeitamente que é uma dama sofisticada. Também sei que é culta e não tolera desaforos. Não os tolero tampouco e, portanto, peço que pare de me tratar feito tolo. Prudence soltou um longo suspiro. — Não foi a intenção. Só queria ter certeza de que me levaria a sério. Eu não queria parecer uma dama da sociedade fútil, frívola... uma cabeça-oca. — Oh, acredite, isso você jamais conseguiria. Aquele sorriso desconcertante estava nos lábios dele outra vez, e ela nem sequer tirara os óculos. Prudence deu a cartada final. Teria de fazê-lo mais cedo ou mais tarde e, ao menos agora, apagaria aquele sorriso perturbador. — Muito bem — disse em tom definitivo. — Aceitará o caso? Houve um momento tenso de silêncio, rompido pela volta dos garçons com uma tábua de queijos, nozes, uvas, figos e uma garrafa de vinho do Porto. Prudence manteve-se quieta na cadeira, com um nó no estômago e um ligeiro tremor nas mãos que apertava no colo. Havia apostado tudo naquela pergunta em forma de ultimato. Se Gideon dissesse que não, a chance se perdera. Ela não tinha mais argumentos, nem meios de persuasão. — E então? — insistiu depois que tornaram a ficar a sós e não pôde mais suportar o longo silêncio. — Está disposto a nos defender? Gideon entreabriu os lábios para dar a resposta que pretendera desde o início, mas as palavras pareceram criar vida própria. Perplexo, ouviu-se dizendo:


— Sim. O alívio fez Prudence sentir os joelhos amolecendo. — Pensei que fosse recusar. — Eu também — admitiu ele com franqueza. — Eu não tinha a menor intenção de dizer "sim". — Mas não pode mudar de idéia agora e voltar atrás em sua palavra. — Não, creio que não. Gideon deu de ombros, resignado, e sorveu um gole do vinho adocicado. Como bom advogado que era, não costumava ceder a impulsos. Então, se sua concordância não fora impulsiva, o que o impelira a aceitar? Uma pergunta interessante a ser explorada com calma. Prudence sorveu o vinho, ansiosa demais para servir-se das delícias à mesa. Gideon não se mostrara nem um pouco entusiasmado em relação ao caso, o que significava que não lhe daria a devida dedicação. O fato de elas não poderem pagar os honorários limitaria o número de horas empregadas? Respirou fundo. — Se não pode se dedicar ao caso com total atenção, acho que seria melhor se o recusasse, afinal. Ele a observou com expressão severa. — Achou que eu aceitaria um caso e não lhe daria minha total atenção profissional, srta. Duncan? — A voz de Gideon, embora controlada, soou dura e incrédula. — Que tipo de advogado pensa que sou? — Do tipo que cobra caro — respondeu Prudence, sem se deixar intimidar. — Fiquei me perguntando se teria uma escala variável de honorários, proporcionais aos esforços empregados. Nada mais justo, afinal. — Eu jamais aceitei um caso ao qual não tenha dedicado minha plena e total atenção — declarou Gideon, altivo. — Que isto sirva de aviso, srta. Duncan. Nunca mais coloque em dúvida minha integridade profissional. Prudence não soube o que dizer. Fora apanhada de surpresa pela força da reação dele, mas supunha que lhe ferira inadvertidamente o orgulho. Algo que teria de ser cautelosa para não repetir dali em diante. Eles terminaram a sobremesa em silêncio e, quando Gideon sugeriu que tomassem o café diante da lareira, sua voz readquirira o tom neutro, agradável. Mas isso não aquietava os receios de Prudence, que previa que aquela não seria uma parceria fácil de administrar. Gideon Malvern era um homem complexo, de muitas facetas, imprevisível. E, de algum modo, ela e as irmãs teriam de arrumar um meio de pagar os honorários. O orgulho da família Duncan também era intenso.


Teve uma idéia, de repente, enquanto ambos bebericavam o café diante do fogo crepitante da lareira. Sim, era a solução perfeita. Pousando a xícara e o pires na bandeja sobre a mesa de centro, ergueu os olhos para estudá-lo. — Eu gostaria de conversar sobre a questão de seus honorários. — Certamente. Se Barclay perder o caso, de fato, terá de pagar todas as custas legais, as dele como também as suas. E, além disso, solicitarei ao tribunal uma indenização ao Mayfair Lady, cuja reputação foi prejudicada por esse processo descabido. Se, portanto, nós vencermos... o que, aviso, não será fácil nas atuais circunstâncias... minha parte será de oitenta por cento da indenização concedida. Prudence assimilou as palavras, mantendo a expressão neutra. — Pelo que soube, é divorciado, não é mesmo? Ele franziu o cenho. — O que isso tem a ver com o assunto? — Deve ser difícil educar uma criança, especialmente uma filha, sem uma esposa. — Eu não acho. — Gideon estreitou os olhos. — E ainda não entendo em que esse tópico se relaciona aos meus termos. Ou você os aceita, ou não. — Bem, acontece que tenho uma sugestão mais interessante. — Oh? — Ele arqueou as sobrancelhas, mais uma vez intrigado. Esperara perplexidade e até mesmo ultraje diante de sua proposta de partilha, não aquela reação calma, comedida. — E qual seria? — Um acordo à moda antiga. Uma permuta de serviços. — Prudence fitou-o diretamente nos olhos. — Em troca de suas taxas legais, a Cupido compromete-se a encontrar para o senhor uma esposa e madrasta para sua filha. — O quê? — Gideon encarou-a, boquiaberto. — É um trato simples, na verdade. É claro que, se fracassarmos em encontrar a companheira certa, então a partilha de oitenta por cento se mantém. — Ela sorriu placidamente. — E, mesmo se perdermos o caso, ainda manteremos nosso compromisso. Arranjaremos uma esposa para o senhor. De um jeito ou de outro, sairá ganhando. — Acontece, srta. Duncan, que não estou à procura de uma esposa. — Talvez não esteja, ativamente, mas se a pretendente certa aparecesse, com certeza não a recusaria. Uma companheira para a vida, uma mãe para sua filha. É muito difícil para uma menina crescer sem a influência materna. — Acredite ou não, um divórcio é o bastante — retrucou Gideon, o maxilar subitamente rígido. — Não só para mim, como para qualquer criança. Mas não


saberia dizer, não é mesmo, srta. Duncan? Candidatos a marido não têm se enfileirado a sua porta. Prudente permaneceu imperturbável diante do comentário sarcástico. Não ò deixaria saber que o fato de ainda estar solteira não a abalava nem um pouco. Não havia sido por falta de pretendentes que não se casara, mas porque nenhum deles a interessara. Ignorando o comentário, quis prosseguir com o assunto e perguntar quem fora responsável pelo divórcio, mas não conseguiu. Era uma pergunta indiscreta demais. — Entendo sua relutância. Uma má experiência passada fez com que se fechasse a uma nova. Mas o fato de um primeiro casamento ter fracassado não significa que acontecerá o mesmo com o segundo. Acho que a tentativa é válida — Ela entrelaçou as mãos no colo. — Além do mais, o senhor não tem de concordar com nada, apenas deixar que façamos algumas sugestões, que indiquemos possibilidades. Conforme formos trabalhando juntos e conhecendo-a melhor, teremos uma idéia mais clara de que tipo de mulher lhe agradará mais. Gideon não estava acostumado a fazer um comentário indelicado e ser ignorado. Observando-a com renovado interesse, respondeu brusco: — É uma idéia ridícula. Não tenho tempo para fantasias românticas. — Ah, mas o que estou propondo é o oposto da fantasia romântica. Apenas sugiro que indiquemos algumas possíveis candidatas e que as avalie. Se alguma o interessar, providenciaremos um encontro para que a conheça. Sem compromisso. Como mencionei antes, não tem nada a perder. Gideon teve a impressão de que a srta. Duncan não desistiria facilmente. Seu interesse aumentou, embora não estivesse em nada relacionado à proposta. Tinha mais a ver com a maneira como ela mantinha a cabeça erguida e aquela aura de competência e determinação, concluiu. Algo que contrastava com a fachada de timidez e austeridade. Presumiu que não poderia haver mal algum em concordar com aquela barganha absurda, uma vez que não resultaria em nada. Talvez fosse divertido entrar no jogo por algum tempo... e até útil descobrir como as irmãs Duncan trabalhavam. Deu de ombros. — Não vou impedi-las de tentar, mas vou avisando que sou um homem difícil de agradar. Acho que contarei com aquela divisão de oitenta por cento. — Se vencermos. — Não costumo perder. — E nós não costumamos fracassar — retrucou Prudence no mesmo tom calmo de superioridade. — Então, temos um trato? — Ela estendeu a mão, e Gideon a apertou, selando o acordo.


— Se você insiste. — Oh, pode não estar levando isto a sério, mas nós o surpreenderemos — declarou Prudence, aparentando mais confiança do que sentia. — Terá de perdoar meu ceticismo. Mas, como diz, não tenho nada a perder. — Então, acho que chegamos a uma conclusão satisfatória esta noite. — Temos de concluí-la? Detesto encerrar uma noite social em tom de negócios. — Os olhos de Gideon adquiriram uma expressão intensa, e, quase sem perceber, Prudence estudou os lábios másculos e sensuais. — Foi uma noite de negócios — declarou, levantando-se. — Você usa óculos o tempo todo? — Quando quero enxergar. Na verdade, estou mais interessada numa boa visão do que em minha aparência. — Disso eu duvido. Espero vê-la em seu verdadeiro estilo na próxima vez que nos encontrarmos. — A aparência que decido apresentar depende da impressão que quero causar — retrucou ela. — Poderia pedir que tragam meu casaco, por favor? Gideon foi até a mesa e tocou a sineta. Virou-se, então, para observá-la, com um leve sorriso nos lábios. — Há um homem em sua vida, Prudence? Novamente pega de surpresa pela pergunta, ela respondeu com a habitual firmeza: — Não no momento. O sorriso dele alargou-se. — Já houve algum? Os olhos dela faiscaram sob os óculos. — Não vejo em que isso possa lhe interessar, sir Gideon. Sou sua cliente; minha vida pessoal não tem nada a ver com o assunto que estamos tratando. — Eu só queria saber se... Felizmente, o retorno do garçom ao toque da sineta interrompeu Gideon, poupando Prudence daquele confronto. Gideon pediu os casacos e deu instruções para que seu carro fosse deixado à porta. Virou-se, então, para ela, com expressão séria.


— Bem, para evitar futuros mal-entendidos, mais uma coisa deve ficar clara. Seus assuntos pessoais estão prestes a se tornar da minha conta. Os seus e os de suas irmãs. Nenhum aspecto da vida de vocês ficará isento de perguntas. Prudence encarou-o, exasperada não apenas com a declaração ultrajante, mas também com a maneira calma, tranqüila e confiante como foi feita. — Do que está falando? — É muito simples. Agora, sou o advogado de vocês. E, nessa posição, terei de fazer a todas algumas perguntas de caráter pessoal. Tenho de saber tudo sobre vocês. Não posso correr o risco de surgirem surpresas no tribunal. — Como poderão surgir surpresas se ninguém saberá quem somos? — Minhas vitórias diante do júri se devem ao fato de eu nunca deixar nada ao acaso. E se você e suas irmãs não podem garantir irrestrita cooperação, lamento dizer que nosso trato está desfeito. Prudence franziu o cenho. Entendia o ponto de vista dele, mas ressentiu-se do tom prepotente. — Verá que estamos todos no mesmo barco. Para encontrarmos uma moça apropriada para ser sua noiva, também teremos de fazer perguntas pessoais. — Há uma diferença. Posso optar por não responder, uma vez que não estou tão interessado em encontrar uma noiva quanto vocês estão em preservar seu meio de sustento. Têm muito mais a perder do que eu, como bem sabem. Prudence percebeu que aquilo era um jogo e achou melhor encerrá-lo. — Acho que não temos mais nada a conversar esta noite. — Talvez não — concordou Gideon, apaziguador. Pegou o casaco dela que o garçom lhe entregava e ajudou-o a vesti-lo. Em seguida vestiu seu sobretudo e calçou as luvas, enquanto Prudence amarrava a echarpe sob o queixo. — A noite está fria — comentou ele num tom casual, como Se a conversa tensa final não tivesse acontecido, e conduziu-a pela escadaria até o vestíbulo, segurando-a gentilmente pelo cotovelo. — Eu a deixarei em casa em breve. O veículo estava em frente ao clube, com o motor ligado. Gideon abriu a porta do passageiro e para Prudence e deu a volta paia se sentar ao volante. — Aguardarei você e suas irmãs em meu gabinete amanhã, às oito e meia — declarou, guiando o automóvel com habilidade pelas ruas apinhadas em torno da Opera House. — Quero que me expliquem como conseguirão provas para refutar a acusação de Barclay. Não posso preparar um caso enquanto não tiver as provas em mãos.


— Não terei as provas amanhã. Mas temos uma pista. Amanhã explicarei melhor. — E suponho que devo me sentir grato por isso — disse Gideon, parando o carro suavemente junto ao meio-fio, em frente ao número dez da Manchester Square. Virou-se de lado e, antes que Prudence pudesse responder ao comentário irônico, segurou-lhe o rosto entre as mãos e beijou-a nos lábios. Foi um beijo brevee gentil, que pegou Prudence de surpresa. Quando Gideon se afastou, sem desviar os olhos dos seus, ela estava atordoada demais para reagir. Sentia o rosto queimar, de indignação e vergonha, mas estava emudecida. — Bem, isso satisfez minha, curiosidade — disse Gideon, petulante. — Estava com vontade de beijar você desde que entrou em meu gabinete hoje à tarde. — Como... Como se atreve a... O que acha que... — Não precisa ser dramática — disse ele, com um sorriso zombeteiro que enfureceu Prudence, embora ela não o demonstrasse. — Além do mais, achei que isso poderia ajudar você a ter uma idéia melhor do tipo de mulher mais adequada para mim, quando começar a procurar. E vice-versa, claro, pois também terá uma noção do meu potencial como amante. — O senhor é um patife, sir Gideon. Nossos clientes não se comportam dessa maneira. Mas tem razão quanto a eu ter uma idéia mais clara de que tipo de mulher procurar. Sem mais uma palavra, Prudence virou-se e abriu a porta do carro, antes que Gideon tivesse tempo de dar a volta para ajudá-la. Mesmo assim, ele saiu do carro para se despedir. — Amanhã, às oito e meia em meu gabinete, não se esqueça — disse, enquanto Prudence caminhava em direção aos degraus que levavam à porta da frente de sua casa. — Sim, senhor. Até amanhã — respondeu ela, seca, sem voltar o rosto para olhá-lo. Gideon esperou vê-la entrar, para voltar a se sentar ao volante. Enquanto dirigia para casa, perguntava-se o que o acometera para agir daquela forma. Não era um homem impulsivo. Nunca fora. Apesar de suas reservas em relação àquele caso, acabara decidindo aceitá-la. E então, cedendo a um impulso juvenil, beijara-a de assalto, como se fosse um adolescente tolo, não um homem adulto, ponderado e controlado. O que tinha aquela mulher contraditória, que o levava a se comportar de maneira tão atípica? Prudence mal fechara a porta quando as irmãs desceram a escadaria depressa para saudá-la. Logo após o jantar, Max recebera uma mensagem e tivera


de sair para uma reunião extraordinária que se estenderia noite adentro, portanto Constance decidira ir com Chas para casa a fim de esperarem juntas pela irmã e saber como havia sido a conversa com o advogado. Enquanto subiam até a saleta de estar íntima, as duas irmãs não puderam deixar de comentar sobre a péssima escolha do vestido. — Achei que teria um efeito favorável, para induzir sir Gideon a simpatizar com a nossa causa — explicou Prudence, mortificada. — Mas parece que não adiantou. — Não? — perguntou Chastity, surpresa. — Isso é muito intrigante, Prue. Mas você poderia nos livrar desta ansiedade toda e dizer se ele concordou em aceitar o caso? — Sim, ele o aceitou, finalmente. — Prudence sentou numa poltrona diante do fogo acolhedor da lareira. — Mas estou começando a achar que é uma péssima idéia nos envolvermos com esse sir Gideon Malvern. — Não conseguiu lidar com ele? — Pensei que podia, mas não posso... ao menos não sozinha. — Você está bem? — perguntou Constance, preocupada. — Sim... mais ou menos. — Prudence tocou os lábios, que ainda pareciam sensíveis demais, e contou sobre a maneira inesperada como Gideon a beijara. — Ele é do tipo conquistador, então? — comentou Constance com ar de desprezo. — Ele certamente gosta de pensar que sim. Prudence respirou fundo, aceitou o cálice de xerez que Chastity lhe ofereceu e, tratando de ordenar os pensamentos, relatou tudo que acontecera naquela noite, desde o momento em que o chofer a deixara no clube exclusivo para jantar com sir Gideon. Contou que o persuadira a aceitar o caso, sobre os termos dele em relação aos honorários e divisão da indenização ao jornal, caso ganhassem a causa. Constance e Chastity acharam a divisão injusta, mas concordaram que não tinham escolha senão aceitar as condições do advogado. Prudence explicou, enfim, que havia sugerido como forma de pagamento prestarem a ele um serviço da Cupido. — Foi uma idéia brilhante, Prue! — exclamou Chastity. — Que tipo de mulher seria ideal para ele? Prudence riu baixinho, em tom de ironia. — Melhor seria perguntar que tipo de mulher o suportaria? Vocês não gostarão dele, eu asseguro. O homem é arrogante, presunçoso, autoritário, rude... Bem, a lista de defeitos é interminável.


— E ele tem o hábito de beijar mulheres à força — acrescentou Constance, sacudindo a cabeça. — Oh, eu o teria esbofeteado, mas ele me apanhou de surpresa de tal maneira que tudo o que consegui fazer foi encará-lo, boquiaberta. — Ele é assim tão abominável? — especulou Chastity. — Não o achou atraente, ao menos? Ou interessante de algum modo? — Certamente esse sir Gideon deve ter algumas boas qualidades — disse Constance, estudando atentamente a irmã. — Achei um raro ponto favorável a maneira como você nos contou que ele cria a filha, deixando-a estudar no North London Collegiate e ler o Mayfair Lady com a governanta dela, que é sufragista. — Talvez ele seja um bom pai — disse Prudence. — Ou não. Pelo que percebi, tem a custódia da filha, mas talvez impeça a mãe de vê-la. Seja como for, eu o achei detestável. — Ela tornou a suspirar. — Mas ainda acredito que seja um advogado brilhante e isso é tudo o que nos interessa. Apenas terei de me esforçar para não demonstrar demais minha antipatia. O importante é que ele concordou em aceitar nosso caso. Talvez eu o tenha vencido pelo cansaço, não sei... De qualquer modo, teremos a reunião de amanhã em seu gabinete para esclarecermos todas as dúvidas e dar-lhe condições de preparar o caso. O que Prudence duvidava que descobrisse era por que Gideon não parecera se abalar com sua reação zangada ao beijo. Homem odioso!

Capítulo V

Na manhã seguinte, no quarto, Prudence avaliou seu guarda-roupa. Era tempo de abandonar a malfadada tentativa de se passar por uma solteirona tímida, rigorosa e sem atrativos. Mas ainda tinha de evitar todo e qualquer indício de frivolidade. Queria algo que dissesse... Dissesse o quê? Ela mordeu o lábio inferior. Que imagem queria passar a Gideon naquela manhã? Algo decididamente profissional. Nada sofisticado demais que demonstrasse que se esmerara para se vestir... mas nada excessivamente sóbrio também. Algo apropriado para uma reunião de negócios numa manhã fria de outono, mas com um quê a mais de elegância. Embora odiasse admitir, seu orgulho ficara ferido por causa do "disfarce" da noite anterior.


Prudence, como suas irmãs concordariam, tinha um gosto impecável para se vestir. Sempre sabia o que era adequado a cada ocasião, e Chastity e Constance seguiam prontamente sua orientação. Apesar das dificuldades financeiras mais recentes da família Duncan, elas sempre haviam mantido o guarda-roupa atualizado, graças a reformas nas numerosas peças de excelente qualidade adquiridas em tempos menos árduos. Acabou optando por um conjunto de saia longa e casaquinho de lã preto, discreto e elegante, que costumava usar quando queria se sentir confiante para algum tipo de confronto. E confiança era exatamente o que precisava no momento. Combinou-o com uma blusa de seda vermelho-escura e, em vez de usar chapéu, preferiu prender os cabelos no alto da cabeça, dispondo-os em camadas, num penteado elaborado. — Perfeito! — aplaudiram as irmãs, quando Prudence se reuniu a elas para o desjejum às sete da manhã. Constance, que enviara uma mensagem a Max avisando-o sobre a reunião com o advogado naquela manhã, dormira em seu antigo quarto de solteira. Disse com um sorriso: — Agora que está claro que você colocará sir Gideon de volta em seu lugar, prepare-nos um pouco para esta manhã. Precisamos ir prontas para o ataque... ou defesa? — Para as duas coisas, penso eu — respondeu Prudence com um suspiro. Gideon chegou mais cedo do que o costume ao escritório naquela manhã, após uma noite maldormida, e começou a pesquisar nos arquivos sobre algum processo judicial em que o réu fora anônimo. Não achou nenhum. Quando Thadeus chegou, algum tempo depois, encontrou-o com a cara enfiada em mais um livro volumoso e um ar aborrecido. — Está com algum problema? — perguntou o assistente, servindo-lhe a habitual xícara de café bem forte, como gostava. — Preciso encontrar algo sobre clientes anônimos. — Gideon esfregou os olhos e tomou um gole de café. — Houve um caso, em 1762, creio eu, em que os réus ficaram ocultos no tribunal atrás de uma cortina. — Sem demora, Thadeus foi até as estantes em sua sala e voltou com o volume em questão, aberto na página correta. — Não sei o que seria de mim sem você, Thadeus — disse Gideon, começando a ler o registro. — Obrigado — respondeu o assistente com satisfação. — Providenciarei para que as damas entrem assim que chegarem.


Gideon terminou o café enquanto lia atentamente. Tinha o início de uma estratégia agora. Ao ouvir a porta do escritório se abrir, às oito e meia em ponto, levantou-se e contornou a mesa para receber as três irmãs, que Thadeus acompanhou até o interior do gabinete. Com um sorriso cordial, ele avaliou discretamente suas clientes e ficou impressionado com a imagem que elas apresentavam. A despeito da óbvia individualidade na aparência e personalidade, as três pareciam partilhar de uma inteligência combativa, o mesmo tipo de intelecto apurado que se destacava no conteúdo do Mayfair Lady. Sem dúvida alguma, seriam excelentes num tribunal, se ao menos ele pudesse colocá-las diante do júri. Gideon, porém, enfrentaria aquela dificuldade com determinação. Em meio as suas ponderações, deu-se conta de que era alvo da avaliação silenciosa de Constance e de Chastity e não pôde deixar de se perguntar o que Prudence contara às irmãs sobre a noite anterior, que culminara naquele beijo roubado. Ela própria não deixava transparecer nenhuma emoção, mantendo a expressão séria por trás de uma par de óculos de aro dourado muito fino, mais delicados que os que usara na véspera. — Bom dia, sir Gideon — disse ela formalmente. — Minhas irmãs, Constance Ensor e Chastity Duncan. Prudence fez as apresentações, e depois de cumprimentar as três com um aperto de mão, Gideon indicou as cadeiras diante da mesa. — Por favor, sentem-se. Elas se sentaram com modos elegantes e repousaram as mãos no colo, em silêncio. Gideon reparou que todas tinham olhos verdes, pele alva e perfeita e cabelos avermelhados, e mais uma vez lamentou para si não poder contar com a presença daquele belo trio no tribunal, pois seria um fator bastante positivo em favor da causa que iria defender. Voltou a se sentar na poltrona de couro atrás da mesa e olhou para Constance. — Sra. Ensor, pelo que entendi, é a autora do artigo ofensivo. — O artigo em questão — declarou ela. — Não o considero ofensivo. — Seja como for, o artigo decididamente ofendeu lorde Barclay. — Algumas pessoas se ofendem com a verdade. — Sim, algo inexplicável — observou Gideon, pegando na mesa o exemplar polêmico do Mayfair Lady. — É curioso imaginar por que um homem se ofenderia ao ser acusado publicamente de estuprador, canalha, trapaceiro e ladrão.


Colocando o jornal de lado, observou as irmãs, que sustentaram seu olhar sarcástico sem se intimidar. — Pensei que já tivéssemos esclarecido esse assunto ontem — respondeu Prudence. — E também lidamos com a questão de que nenhuma de nós em particular é responsável por esse processo judicial. Estamos todas envolvidas na mesma proporção. O réu é o Mayfair Lady, e nós três somos responsáveis por sua edição. — Vocês não estão tornando minha tarefa mais fácil. — Não pretendemos torná-la mais difícil do que o necessário — disse Prudence. — Nossa opinião sobre lorde Barclay está claramente exposta no artigo. Se não acreditássemos na veracidade dessas declarações, não as teríamos feito. Lançou um olhar às irmãs e viu que ambas estavam satisfeitas com sua liderança no assunto. Também viu que elas já haviam percebido que, sob a fachada calma e cordial, transparecia o lado rude e autoritário de Gideon Malvern. Ele tornou a olhar para o jornal. — Sim, está claro que vocês todas são campeãs entre as mulheres emancipadas. Presumo que também sejam sufragistas. — O que nossas opiniões políticas têm a ver com isso? — indagou Prudence. — Um júri pode não simpatizar com elas. — E precisamos conquistar a simpatia do júri — disse Constante. — Se permitem a franqueza, acho que isso vai ser difícil de conseguir. Chastity inclinou-se para a frente. — Está tão desesperado que a remota chance de receber oitenta por cento de uma possível indenização é motivação suficiente para aceitar defender uma causa na qual obviamente não acredita? Nas raras ocasiões em que Chastity se deixava levar pela indignação, era capaz de superar suas duas irmãs juntas. Prudence e Constance trocaram um breve olhar, mas não disseram nada. Gideon apertou os lábios por um momento e respondeu com evidente desdém na voz: — Pensei que a agência matrimonial de vocês fosse me arranjar uma esposa adequada como forma de pagamento por meus serviços. — Talvez devesse adotar modos mais agradáveis, sir — interveio Prudence. — Não podemos fazer milagres. — Nem eu, srta. Duncan. O jornal de vocês é polêmico mesmo quando não ataca direta e pessoalmente um membro da alta sociedade. Estou apenas


levantando a questão de que um júri formado por doze homens provavelmente não irá se colocar contra um dos seus a favor de um grupo de mulheres subversivas. — Não necessariamente — retrucou Prudence. — Existe uma grande probabilidade de alguns deles, senão todos, concordarem com o que foi dito no jornal. — Sim — reforçou Chastity. — Eles podem ter suas próprias queixas contra lorde Barclay e achar mais do que justo que ele receba a punição que merece. — Não posso basear uma defesa em hipóteses, senhoras. Preciso de algo sólido em que apoiar a acusação. Por este motivo pedi que viessem aqui hoje, para que me ponham a par dos fatos concretos que originaram as acusações de roubo e trapaça contra o conde. Prudence respirou fundo. — Não temos nada concreto ainda. Mas suspeitamos de que Barclay tenha agido de má-fé ao envolver nosso pai num plano fraudulento que resultou na perda da fortuna que ele possuía. — E Prue está convencida de que encontrará provas disso entre os documentos de papai. Gideon franziu o cenho. — Isso me soa mais como vingança pessoal. É algo que não será bem visto por um júri. — Uma vez que ninguém saberá nossas identidades, não terão como fazer uma associação — observou Prudence. Gideon balançou a cabeça e inclinou-se para a frente. — Acreditam mesmo que a defesa de Barclay permitirá que vocês fiquem anônimas? Eles moverão céu e terra para descobrir os responsáveis pelo jornal, e farão questão de arruinar vocês no tribunal. — Não precisa falar nesse tom condescendente — exasperou-se Prudence. — Não estamos cegas para a realidade. — Perdoem-me, mas acho que estão. Gideon recostou-se na poltrona e lançou um olhar duro e frio a Prudence. — Senhorita, tem alguma razão pessoal para essa vingança contra o conde? Ele já fez alguma investida contra você? — Não — respondeu Prudence, chocada. — Nunca. — Espera que o júri acredite que a intenção por trás dessa difamação a um respeitável membro da sociedade foi unicamente um senso de dever moral para o bem da comunidade?


— Não... quero dizer, sim — Prudence corrigiu-se, com dificuldade para se expressar com clareza. — Não há nada pessoal nesse assunto. Lorde Barclay arruinou... Gideon ergueu a mão num gesto imperioso, silenciando-a. — Não precisamos ouvir a repetição de suas acusações escabrosas, srta. Duncan. O júri notará que são acusações de algumas criadas, jovens, facilmente manipuláveis, provavelmente mais do que dispostas a receber vantagens de seu empregador em troca de seus próprios favores. É uma situação bastante comum. Prudence levantou-se um instante antes das irmãs. — Como se atreve? — Apontou um dedo acusador na direção dele por sobre a mesa. — Que tipo de monstro perverso e machista se julga no direito de ser? Não precisamos ouvir mais uma palavra sequer. Ela girou nos calcanhares na direção da porta, mas Gideon inclinou-se depressa por cima da mesa, segurando-lhe o pulso. — Sente-se. Quero ouvir sua resposta. — O tom dele foi peremptório, enquanto ela tentava se libertar. — Sentem-se de volta, todas vocês. — Céus, ele é muito pior do que você descreveu, Prue — declarou Chastity. Gideon ficou perplexo com o comentário, e Prudence aproveitou a oportunidade para libertar o pulso, massageando-o exageradamente. — Desculpe-me se a machuquei — murmurou Gideon, imperturbável. — Perdão, senhoras. Eu só estava tentando mostrar a realidade. Por favor, sentem-se. As três obedeceram, e Prudence falou, mais calma: — Entendo que queira nos pôr cientes da situação e da hostilidade que poderemos enfrentar no tribunal. — Exatamente. — Mas já explicamos que não poderemos aparecer em público para depor. Estamos andando em círculos aqui. — Não exatamente. Acho que sei de um meio para quebrar esse círculo. Uma de vocês terá de ocupar o banco dos réus no tribunal, representando o jornal. Tenho certeza de que conseguem arranjar um véu escuro e pesado, que esconda por completo o rosto. — Creio que sim. — Prudence lançou um olhar às irmãs. — O que acham disso? — Você teria de disfarçar a voz — observou Constance. — Mas pode treinar para isso.


— E se Con e eu usarmos véu também, poderemos nos sentar na sala do tribunal — disse Chastity, pensativa. — Ao menos, estaremos lá para dar apoio moral. — E por que eu é que tenho de ir para a linha de fogo? — perguntou Prudence. Ninguém respondeu, e ela deu de ombros, resignada. Fora a principal peça naquilo tudo desde o início, portanto fazia sentido que assumisse a vanguarda. — É arriscado — comentou. — Tudo neste caso é arriscado — lembrou-a Gideon. — A propósito, como responderia a pergunta que lhe fiz há pouco, quando for interrogada pelo advogado de lorde Barclay? — Bem... provavelmente eu diria que... — Não elabore. Quero uma resposta espontânea. — Diria que nós reunimos provas suficientes com as jovens que foram violentadas e abandonadas pelo conde de Barclay... e com as pessoas que as ajudaram de algum modo... para sustentar as acusações. Além disso, a imprensa divulgou o assunto... — A imprensa marrom, senhorita. O Pall Mall Gazette, que vive de sensacionalismo. O assunto foi citado no Times, no Telegraph, no Morning Post Não. — Gideon apontou um dedo para ela em advertência. — Nenhuma pessoa respeitável dá crédito ao jornalismo sensacionalista. Se essa for a única prova, não vejo possibilidade de o júri votar a seu favor. — Está dizendo que, apesar de todas as nossas provas, não temos uma base sólida para as acusações? — Com certeza, os advogados do conde tentarão desacreditar as provas de vocês de todas as maneiras que puderem. — Gideon recostou-se em sua poltrona, estudando as três atentamente. — Eu estava tentando demonstrar como a situação pode ser precária mesmo quando se tem provas substanciais para as acusações. Quando não se tem nenhuma, como no caso da improbidade financeira... — Já prometi que obteremos essas provas também — replicou Prudence. — Sim, mas eu reservarei minhas ponderações para quando as vir realmente. Gideon notou que ela apertou os lábios, sem resposta, e que ele vencera daquela vez. Sorriu consigo mesmo, enquanto apanhava um dos papéis da pasta de arquivo e o revia. Era uma sensação de triunfo descabida, quase infantil, em especial para um dos advogados mais prestigiados do país, acostumado a vitórias grandiosas. Mas não pôde evitar o sentimento. Exibiu a carta dos representantes de lorde Barclay ao prosseguir:


— Falstaff, Harley e Greenwold são excelentes advogados e indicaram Sam Richardson para conduzir o caso no tribunal. Foi inevitável. Eles sempre trabalham juntos, e Richardson é um profissional de renome. Assim sendo, senhoras, temos de estar bem preparados. Para início, daremos andamento às formalidades legais. Eu prepararei a carta de resposta aos advogados de Barclay, comunicando que sou o advogado de defesa do Mayfair Lady, e providenciarei para que seja entregue hoje à tarde. Então, só teremos de aguardar que uma data seja marcada para o julgamento. Nesse meio tempo, prosseguirei com meus outros casos, enquanto vocês tentam reunir o máximo de provas que puderem para sustentar a defesa. Gideon se levantou. — Agora, se me derem licença, tenho uma audiência em Old Bailey às dez horas. Foi um encerramento firme, mas perfeitamente cordial, e Prudence e as irmãs se puseram de pé, segurando suas bolsas e luvas. — Nos manterá informadas? — perguntou ela. — Oh, sim, diariamente. Temos pela frente um trabalho de treinamento e preparação intensivo para seu depoimento no tribunal, portanto em breve entrarei em contato. Quando já rumavam de volta para casa numa carruagem de aluguel, Constance comentou: — Aquela última parte da conversa foi inteiramente dirigida a você, Prae. Nosso advogado, apesar de toda aquela arrogância, não é tão hostil quanto tenta aparentar. Eu diria que ele está interessado em você. — Se for assim, ele tem um jeito estranho de demonstrar — retrucou Prudence, secamente. — Oh, mas eu acho que Con está certa — interveio Chastity. — Mesmo depois de você tê-lo repreendido daquela maneira. Fico surpresa que ele tenha conseguido se recobrar. — Pois é — resmungou Prudence, com o semblante sisudo. — Ele que se atreva a encostar a ponta do dedo em mim outra vez, e vai se arrepender amargamente! Constance e Chastity trocaram um olhar significativo. — Bem, quem sabe vocês acabem se entendendo um dia — sugeriu Chastity. — Ele é atraente... — Eu me lembro que antipatizei com Max logo que o conheci, achava que era arrogante, prepotente... — disse Con. — No fim, nós dois percebemos que o que acontecia era que nenhum dos dois queria admitir o que sentia pelo outro.


— Mas eu não sinto nada por sir Gideon! — protestou Prudence. — Mal o conheço, e o acho muito desagradável, se quer saber. A única coisa que espero dele é que nos defenda com êxito no tribunal. Prudence sentiu uma estranha irritação perante o ar divertido no rosto das irmãs. Não via nada de engraçado naquilo, e em qualquer outra circunstância, sabia que não se sentiria afetada pelas provocações sem maldade de Chas e Con. Mas as insinuações delas com relação a Gideon Malvern a deixavam enfurecida. — Bem, se é assim, podemos nos reunir hoje à tarde em minha casa e preparar uma lista de possíveis candidatas a esposa para sir Gideon — propôs Constance. — Pelo menos traçar um perfil do tipo de moça que devemos procurar. — Sim — apoiou Chastity. — Agora que nós três o conhecemos, será mais fácil trocar idéias e dar sugestões. Constance e Chastity trocaram mais um breve olhar entre si, para logo tratar de olhar para fora e fingir apreciar a paisagem.

Capítulo VI

Prudence e Chastity passaram a tarde na elegante residência nova de Constance, as três tentando chegar a um consenso sobre qual seria a candidata ideal para apresentar a Gideon Malvern. Quando as irmãs perguntaram a Prudence se ele dera alguma indicação de que tipo de mulher preferia, ela hesitou. O que ele dissera mesmo, depois que a beijara no carro? Alguma coisa como ela ter uma noção melhor do tipo de amante que ele poderia ser... Mas Prudence não se sentia à vontade para repetir às irmãs esse comentário. — Não — respondeu por fim. — Ele só disse que não pensa em se casar e que é um homem difícil de agradar. — Muito animador — murmurou Constance, irônica. — Mais chá? Prudence estendeu a xícara em silêncio, reconhecendo que a irmã tinha razão. Ela não conseguia sentir entusiasmo com a tarefa de procurar uma noiva para sir Gideon, embora a idéia tivesse sido sua. A princípio, parecera ser a solução ideal, como forma de pagamento pelos serviços do advogado. Não pensara que encontrar uma mulher adequada para ele se revelaria uma tarefa ingrata, talvez infrutífera.


Prudence tentava se convencer de que o problema todo era sua grande preocupação com o processo judicial. Quanto mais pensava a respeito, mas parecia difícil obterem uma vitória no tribunal, e evidentemente essa apreensão influía em seu estado de espírito, tornando tudo mais difícil. Constance observou-a e trocou um olhar com Chastity, que meneou a cabeça com ar compreensivo. Havia algo errado com a irmã delas. Prudence era sempre prática, eficiente, equilibrada. Enquanto as outras duas eram mais suscetíveis a baques emocionais, Prudence nunca perdia o controle e o bom senso. Sua capacidade de concentração era admirável, mas naquele momento não era o que as duas irmãs viam. Por alguma razão, Prudence estava reagindo de maneira incomum ao seu temperamento. Uma criada surgiu à porta para entregar uma correspondência, explicando que a carta havia sido originalmente enviada à Manchester Square, e que o sr. Jenkins julgara importante mandar um mensageiro levá-la até ali. — E para você, Prue — anunciou Constance, observando o envelope antes de passá-lo às mãos dela. — Do escritório de sir Gideon. Ele não perdeu tempo, mesmo... Prudence abriu o envelope e leu a carta em silêncio. Virou-se, então, para as irmãs: — Ele diz que recebeu resposta imediata dos advogados de Barclay, reconhecendo-o como o advogado oficial do Mayfair Lady no caso em questão. Sir Gideon disse que enviaria uma carta a eles esta tarde. — Ela franziu o cenho com ar preocupado. — Fico me perguntando se é um mau sinal eles terem respondido tão depressa. — Será um alívio resolvermos logo esse assunto — comentou Constance. — O que mais ele diz? — Chastity inclinou-se para a frente. — Gideon avisa que eles estão solicitando uma data em breve para o julgamento e que não vai contestar isso. Quer me encontrar hoje à noite para começar a me preparar para o julgamento. — Prudence entregou a carta à irmã mais nova. — Seria de se pensar que ele tentaria adiar o início do julgamento o máximo possível, não? Ainda não temos as provas contra a acusação de fraude. — Ainda não tivemos chance de verificar os papéis de papai — lembrou Chastity. — Faremos isso na primeira oportunidade. — Eu sei. Está tudo acontecendo depressa demais. — Bem, devemos ter pelo menos um mês para preparar tudo — declarou Constance num tom encorajador. — Casos não vão a julgamento da noite para o dia. — Tem razão — concordou Prudence, com um leve sorriso.


— Assim sendo, acho melhor eu enviar uma mensagem de volta para dizer que estarei lá... Onde mesmo? — Pegou a carta de volta e procurou o endereço. — Número sete da rua Pall Mall. Pensei que seria no gabinete... — Talvez ele tenha outro escritório — sugeriu Chastity. Prudence deu de ombros. — Descobrirei logo mais. — Vai levar a lista para mostrar a ele? — indagou Chastity, indicando o bloco de anotações com os nomes de possíveis candidatas e a descrição do perfil de cada uma. — Ou ao menos perguntar se ele tem alguma preferência em especial? — Não levarei a lista, mas perguntarei sobre as preferências. — Prudence se levantou. — Vamos, Chas, são quase cinco horas. Constance acompanhou as irmãs até a porta da frente, e enquanto as três se despediam, Max parou o carro diante da casa e subiu os degraus. — Estão indo embora? — Viemos apenas para o chá — explicou Chas. — Bem, esperem um minuto e pedirei a Frank que as leve para casa antes de guardar o carro. — Ele beijou a esposa e afastou-se para chamar o mordomo, Eram quase sete horas quando Cobriam parou a carruagem em frente ao número sete da rua Pall Mall. Prudence admirou a casa alta e elegante, em estilo georgiano, com sua reluzente porta preta de entrada, escada de mármore branco com corrimão duplo e fachada com janelas amplas. Aquele lugar não era um clube exclusivo. A menos que estivesse muito enganada, era a residência de Gideon Malvern e, mais uma vez, ele a surpreendia. Cobham abriu a porta da carruagem e ajudou-a a descer. Prudence pediu que ele voltasse dentro de uma hora pára buscá-la, e o velho cocheiro sugeriu que esperaria numa taverna nas imediações, se ela assim concordasse. — Certamente — concedeu Prudence com um sorriso, antes de subir os degraus e erguer a aldrava de bronze em formato de cabeça de leão. Ela bateu e a porta foi aberta imediatamente por Gideon, ainda com a mesma roupa que usava quando estava no escritório, como se tivesse acabado de chegar do trabalho naquele instante. — Uma carruagem — disse ele com um sorriso, observando o cocheiro conduzindo-a pela rua. — É caro manter cavalos em Londres. — Deu um passo para o lado, segurando a porta.


— Sim — concordou Prudence, entrando num espaçoso vestíbulo. — Mas nada se comparado a um automóvel. Acredite, eu verifiquei isso. Meu pai estava ansioso para ter um, até que percebeu como eram pouco confiáveis. — Podem ser imprevisíveis. — Ele sorriu, afável. — Posso pegar seu casaco? — Obrigada. — Prudence guardou as luvas nos bolsos e tirou o casaco, revelando um discreto e elegante vestido de tafetá azul-escuro. — Costuma tratar de negócios em sua casa? — Apenas quando têm de ser conduzidos depois do horário de expediente. — Ele indicou uma porta aberta ao final de um longo corredor. — Quando estou sem tempo, srta. Duncan, tenho de sacrificar parte do meu lazer, e é mais confortável fazê-lo aqui. Prudence seguiu na direção indicada e viu-se numa biblioteca acolhedora, decorada num estilo tipicamente masculino. A mobília era de carvalho e couro, um tapete persa cobria parte do assoalho reluzente, cortinas de veludo escuro adornavam as janelas altas. Não havia espaço disponível nas estantes de livros que ocupavam três das quatro paredes do cômodo. — Gostaria de beber alguma coisa? — perguntou Gideon, fechando a porta. — Não, obrigada. Gideon serviu-se de uma dose de uísque e indicou uma poltrona confortável diante da mesa de carvalho onde repousava uma única pilha de papéis e nada mais. Prudence se sentou e foi diretamente ao assunto: — Por que os advogados de Barclay responderam tão depressa a sua carta? Isso é um bom sinal? — Nem bom, nem mau. Eles podem achar que o caso já está ganho e querem resolvê-lo logo, ou podem estar com algumas dúvidas e querem saber que informações concretas vocês têm. — Tão logo eu e minhas irmãs pudermos examinar os papéis de meu pai, teremos todas as provas de que precisamos. Gideon sentou-se na poltrona de couro atrás da mesa e fitou-a com o olhar tão inexpressivo quanto o tom de voz. — Bem, como mencionei hoje de manhã, esperarei ver essas provas para então prosseguir adiante. Por ora, vamos lidar com o que temos. A postura dele era totalmente profissional, e embora Prudence soubesse que devia se sentir tranqüila com isso, sentiu-se estranhamente desapontada. — Muito bem — disse com serenidade, dobrando as mãos sobre o colo. — O que quer saber? Gideon pegou uma folha de papel e a caneta-tinteiro.


— Preciso de alguns fatos, de maneira rápida e objetiva. Quando o jornal começou a circular? — Não sei ao certo. Foi minha mãe que o criou, e quando minhas irmãs e eu começamos a ajudá-la, Con estava com uns quinze anos, e eu com catorze. — Acho melhor não envolvermos sua mãe nisto. As coisas se complicariam demais. Quando foi que você e suas irmãs assumiram o controle do jornal sozinhas? — Há cerca de quatro anos, quando minha mãe morreu. — Certo. E já foram processadas antes? — Não, nunca. — Mas receberam alguma crítica, reações adversas, alguma queixa dos leitores? — Não muitas. — Quantas? Mais de dez? Menos de cinco? — Provavelmente mais de dez. — Então, concorda que o Mayfair Lady é uma publicação polêmica, controversa? — Gideon escrevia enquanto falava, sem prestar atenção à fisionomia de Prudence conforme disparava suas perguntas. — Sim. — Vocês se determinam a ser ofensivas? — Claro que não! Que tipo de interrogatório é esse? — O mesmo tipo que será feito a você no tribunal. E se demonstrar alguma petulância ou indignação, perderá a simpatia do júri e dará munição ao advogado de acusação. Se perder a compostura, será derrotada. Prudence suspirou. — Está certo. Prossiga com as perguntas, então. Antes que me diga, sei que isso tudo é para o meu próprio bem — acrescentou irônica. — Agora continue, por favor. Tenho de ir embora às oito horas. Por um breve momento, Gideon pareceu ficar surpreso, mas logo retomou a expressão de calma e neutralidade. — Você e suas irmãs costumam manter contato com... — Foi interrompido por uma batida à porta. — Sim? — Sua voz não soou convidativa. A porta se abriu, e uma menina apareceu na soleira. — Desculpe interromper, papai, mas Mary já foi, e eu tenho uma porção de citações literárias para identificar. Não consigo encontrar todas. — Os olhos da


menina se transferiram de Gideon para Prudence, e por um segundo ambas se observaram com mútua curiosidade. — Estou com uma cliente, Sarah — disse Gideon num tom gentil. — Ajudarei você mais tarde, prometo. Agora, venha um instante até aqui. A menina aproximou-se sem hesitar, e ele levantou-se, beijando-a na fronte. — Depois também quero que me conte como foi seu dia. Agora, deixe-me apresentar minha cliente. Srta. Prudence Duncan, esta é Sarah Malvern, minha prodigiosa filha de dez anos. A menina sorriu e apertou a mão de Prudence. — Prazer em conhecê-la, srta. Duncan. — O prazer é meu, Sarah — sorriu Prudence. — Agora, querida, tenho de retomar minha reunião. Se já satisfez sua curiosidade... — Não era curiosidade — negou a garota, embora tivesse um brilho maroto no olhar. — Preciso mesmo de ajuda no meu trabalho de escola. — Claro, claro. — Os lábios de Gideon se curvaram levemente. — Torne a subir. Ajudarei você daqui a cerca de uma hora. Sarah meneou a cabeça e recuou até a porta, sorrindo mais uma vez para Prudence antes de se retirar. — Sua filha demonstra paixão pelos estudos — comentou ela em tom de aprovação. Gideon sorriu, orgulhoso, num raro momento de espontaneidade. Pelo pouco que ela vira, era possível perceber que ele era um pai dedicado e amoroso. — É verdade. Além de gostar de literatura, Sarah tem uma vocação especial para a matemática. Também toca flauta. — Música e matemática tendem a ser talentos que se complementam — observou Prudence. — Ela é, de fato, muito inteligente. A propósito, esta conversa me fez lembrar de algumas perguntas que preciso fazer. — Abrindo a bolsa, pegou seu próprio bloco de anotações. — Minhas irmãs e eu começamos a preparar uma lista de possíveis candidatas a esposa para o senhor, e há alguns pontos que gostaríamos de esclarecer. Gideon recostou-se na poltrona de couro e cruzou os braços, com expressão pouco encorajadora. — Devo avisá-la de que tenho pouco tempo para trabalhar neste caso, srta. Duncan. Se quer desviar parte desse valioso tempo do assunto que é de seu interesse, a escolha é sua.


— Parece-me que teremos de trabalhar em conjunto. Tem seu trabalho a fazer e eu tenho o meu, mas estão interligados. Bem, nós presumimos que apenas consideraria candidatas que se afeiçoassem a Sarah, é claro. Alguém em quem ela possa confiar, com quem possa contar e se sentir à vontade. — Se está me perguntando se eu pensaria em me casar outra vez apenas para dar uma mãe a Sarah, a resposta é não. — Gideon sacudiu a cabeça, categórico. — Essa me parece uma das piores razões possíveis para que duas pessoas se unam, e não posso imaginar nenhuma mulher que se preze conformando-se com um acordo desses. Não, se um dia eu tornar a me casar, será porque conheci uma mulher que julguei adequada para mim. É claro que eu hão me interessaria por alguém que não gostasse de Sarah. Além do mais, tenho a impressão de que minha filha aceitaria sem restrições uma pessoa escolhida por mim. Ele desdobrou os braços e apoiou os cotovelos na mesa. — Bem — continuou Prudence. — Temos uma candidata com grande chance de ser aprovada. Q nome dela é Agnes Hargate. É uma mulher afável e atraente. É viúva, com um filhinho de cinco anos. Isto representa um empecilho? Ela ergueu os olhos das anotações e ajustou os óculos de aro dourado para estudá-lo. — A perspectiva não me entusiasma — admitiu Gideon. — A verdade é que a idéia de um segundo casamento não está nos meus planos, pelo menos para o futuro próximo. Creio que, no momento, nenhuma mulher despertará meu interesse. Mas diga-me, srta. Mayfair Lady, a senhorita e suas irmãs têm o hábito de confabular com mulheres das ruas? Prudence estava prestes a dar uma resposta indignada quando compreendeu que, mais uma vez, Gideon agia como se estivessem num tribunal, ela no banco dos réus e ele no papel de advogado de acusação. — Eles não saberão sobre nós — observou. — Já concordamos em que eu serei a representante, incógnita, do Mayfair Lady. Eu e ninguém mais. Portanto, não há por que supor que farão essa pergunta. — Não tenha tanta certeza. É melhor estar prevenida para tudo, para não ser pega de surpresa. Eles não medirão esforços para descobrir quem está por trás da publicação do jornal. Não me surpreenderia se contratassem um detetive particular. Eu lhe asseguro que ficarão tão contrariados quanto eu em colocar uma folha de jornal aberta sobre o banco dos réus. — Acredita que chegarão a tanto? — perguntou Prudence, entre descrente e apreensiva. — Não custa ficar de sobreaviso — aconselhou Gideon.


— Quanto tempo acha que temos até o julgamento? — Umas três, quatro semanas, talvez. Sam Richard é bastante influente, e não tenha dúvida de que ele vai conseguir marcar a data mais próxima possível, à conveniência dele. — Mas creio que o senhor também seja influente, nesse meio, não? — alegou Prudence. — Sim, mas não uso minha influência dessa maneira. Daí a minha insistência para que me traga o quanto antes as provas que mencionou ter, para termos tempo de preparar a nossa defesa. O carrilhão bateu a primeira de oito badaladas, lembrando Prudence de que era hora de encerrar a reunião. Ela se levantou, e Gideon ajudou-a a vestir o casaco, para então acompanhála até a porta. As lâmpadas a gás da rua estavam acesas, e Cobham fumava seu cachimbo na boléia da carruagem, parada logo adiante junto ao meio-fio. Indiferente ao ar frio da noite de outono, Gideon conduziu Prudence pelos degraus até a calçada e abriu a porta da carruagem para ela. — Acredita que conseguiremos? — ela perguntou, antes de entrar. — Não tenho escolha, minha cara. Confiança é metade de uma batalha ganha. Não posso ir ao tribunal esperando perder. — Entendo que não, mas espera, de fato, conseguir? Prudence tirou os óculos e fitou-o ansiosa, sob a luz fraca da lâmpada que projetava reflexos acobreados em seus cabelos. O brilho que iluminou brevemente os olhos de Gideon foi tão enigmático quanto sua resposta: — Daqui por diante, tudo é possível, senhorita. — Srta. Prue, chegou mais uma carta de sir Gideon hoje cedo — anunciou Jenkins, depositando o envelope ao lado do prato de Prudence, à mesa do desjejum, na manhã seguinte, — Se me permite dizer, o advogado parece ser um assíduo correspondente. — Espero que isso signifique que ele é igualmente assíduo em seus esforços em nosso favor — retrucou Prudence, tentando aparentar indiferença. Abriu o envelope com uma pequena faca e examinou o conteúdo. — Você não tem razão para duvidar — interveio Chastity. — Não, creio que não. — Prudence suspirou. — Acontece que ele me deu a nítida impressão ontem à noite de estar contrafeito em aceitar nos defender e que


considera inútil qualquer esforço nesse sentido. Eu diria que ele sente que está perdendo seu tempo, e que a forma que encontramos de recompensá-lo por sua assistência jurídica, oferecendo um serviço de qualidade da Cupido, para ele é o mesmo que nada, já que faz questão de deixar claro que não está interessado em encontrar uma esposa. Prudence amassou a carta e atirou-a no fogo aceso na lareira. — Eu acho que ele vai insistir em receber os oitenta por cento — acrescentou, tomando um gole de café. — Talvez ele não estivesse com disposição para conversar sobre o assunto das pretendentes justamente quando você e a filha dele tinham acabado de se conhecer — contemporizou Chastity. — Ele deve ter ficado constrangido. — Não me pareceu ficar, nem um pouco — retrucou Prudence. — Ele agiu com toda a naturalidade, quando nos apresentou e quando falou sobre a menina. Aliás, deixou bem claro que a filha não tem nada a ver com uma possível decisão dele dé se casar novamente. Deu a entender que não a menina precisa de uma mãe substituta, mas que por outro lado receberá de braços abertos a pessoa que, eventualmente, ele venha a escolher para se casar. A verdade é que ele não está interessado, e não está levando a sério nossa proposta da Cupido. — Bem, enquanto ele não falar claramente que não quer, vamos continuar tentando — sugeriu Chastity com seu habitual otimismo. — O que ele dizia na carta? — Ele pede, de maneira surpreendentemente cordial, que eu reserve o dia de amanhã para uma sessão de preparo mais intensivo para enfrentar o tribunal. — No escritório dele? — Não sei, ele diz apenas que virá me buscar aqui em casa às oito e meia da manhã. — Mas... amanhã é domingo! — lembrou Chastity. — Ele deixou claro, na nossa conversa de ontem, que temos de correr contra o tempo, se quisermos ter uma chance de ganhar. E como as principais interessadas somos nós, não tenho escolha senão concordar. Pouco depois, Arthur Duncan reuniu-se às filhas para o café da manhã, e Chastity não pôde deixar de notar como o pai parecia animado, apesar da chuva torrencial que caía lá fora. — Ora, o que é uma chuvinha à-toa? — comentou ele, sorridente. — Vou com Barclay a uma reunião com os advogados dele. Eles querem que eu compareça ao tribunal para testemunhar a favor de meu amigo.


Prudence tinha acabado de levar sua xícara aos lábios, e engasgou violentamente com o café. Largou a xícara sobre o pires e começou a tossir, cobrindo a boca com o guardanapo, os olhos lacrimejando. — É mesmo, papai? — Chastity forçou um sorriso. — Quanta bondade de sua parte. — Ora, é o mínimo que posso fazer por um velho amigo num momento de necessidade. Obrigado, Jenkins — disse Arthur ao mordomo, que começava a servilo. — Será uma reunião demorada? — perguntou Prudence, depois que se recobrou do choque e recuperou a fala. — Não faço idéia. A julgar pelos honorários exorbitantes que esses profissionais cobram, deveria durar o dia inteiro, ainda que estejam trabalhando num sábado. De qualquer modo, não me esperem para o almoço. Se terminarmos o assunto com esses advogados a tempo, Barclay e eu almoçaremos no clube. — Não esqueceu que jantaremos com Constance e Max hoje à noite, não é mesmo? — Claro que não, querida. Voltarei no mais tardar no final do dia para me arrumar e sair junto com vocês. Foi uma pena Barclay não ter podido aceitar o convite. Parece que um parente dele está para chegar à cidade. — Haverá outros amigos seus lá, sem dúvida — assegurou Prudence. — Será uma noite agradável. — Especialmente sem Barclay, acrescentou para si mesma. Eram deploráveis as ocasiões em que tinham de suportar a presença do odioso conde e fazer de conta que estava tudo maravilhoso. — Sim, será muito bom — concordou Arthur. Depois que terminou a refeição, ele se levantou e beijou cada uma das filhas na fronte. — Agora, se me dão licença, tenho de ir. Não quero me atrasar. Depois que o pai saiu, Prudence virou-se para a irmã: — Tem que ser hoje, Chas. — Examinarmos os papéis de papai? — Sim. Talvez seja uma oportunidade única, sabendo que ele vai estar ausente por várias horas e que não corremos o risco de ele chegar de repente. — Tem razão. Devemos enviar uma mensagem a Con? — Sim, vou pedir a Jenkins que mande um garoto de recados a Westminster agora mesmo. Com as três juntas, se houver alguma coisa para encontrar, encontraremos.


— Temos de impedir que papai vá a esse julgamento — disse Constance, pouco mais tarde, sentada com as irmãs na sala íntima, na casa do pai. — E se ele reconhecer a sua voz, Prue? Mesmo que você disfarce bem, você é filha dele. — Eu sei. E Gideon terá de interrogá-lo também. Será terrível. — Tudo que dissermos a ele sobre papai servirá de arma para seu interrogatório. — Chastity sacudiu a cabeça com ar pesaroso. — Não vejo como podemos levar isso adiante. — Temos de encontrar um meio — declarou Prudence com veemência. Se perdermos e a verdade vier à tona, papai ficará inconsolável... além de totalmente falido. — Então, você terá de representar como nunca fez na vida — declarou Chastity, aceitando a dura realidade. — Precisa praticar um timbre de voz que não vacile sob pressão, e que nem de longe faça lembrar a sua. — O que temos a nosso favor é que nem em sonho papai pode imaginar que temos alguma coisa a ver com o Mayfair — observou Constance. — Para começar, ele tem certeza que os editores são homens, escondendo-se atrás de um grupo fictício de mulheres anônimas. Pelo que entendi, Barclay acha a mesma coisa. Então, mesmo que papai tenha a impressão de algo familiar na representante do Mayfair Lady no tribunal, nunca vai associar a uma de nós. — Espero que tenha razão. — Prudence se levantou. — Agora, vamos. Não convém perdermos mais tempo. Jenkins já deve ter acendido a lareira na biblioteca, como pedi. — Adiantou-se até a escrivaninha e abriu uma gaveta. — Tenho a chave do cofre. — Como a conseguiu? — Meses atrás. Mandei fazer uma cópia. Não posso controlar as finanças se não souber o que papai está gastando. Todas as contas dele estão no cofre e, portanto, eu as vejo antes que vençam. Assim posso me certificar de que haja dinheiro suficiente na conta dele para pagá-las... ou ao menos para que não fique defasada demais. Constance pôs a mão no ombro da irmã. — Prue, por que não nos contou isso? — É a minha função. Não vi razão para preocupar vocês com meu jeito sorrateiro de agir. Não gosto da idéia de me intrometer nos assuntos pessoais de papai, mas já que ele não me conta nada espontaneamente, tive de encontrar um meio de saber das coisas sem o conhecimento dele. — Prue, querida, esse não é um fardo para você carregar sozinha — disse Chastity. — Nós a teríamos ajudado se tivesse nos contado. Não precisa se sentir culpada.


— Talvez não, mas eu me sinto. Agora, vamos nos enterrar um pouco mais nesse lamaçal de mentiras. — Prudence virou-se e saiu da sala, seguida pelas irmãs. — E como foi a conversa de ontem? — quis saber Constance, quando as três entraram na biblioteca. — Acha que nosso advogado está sabendo lidar com o caso? Prudence fechou a porta e, após um momento de hesitação, trancou-a. — Sir Gideon foi agressivo com suas perguntas, mas fez isso para me mostrar como o advogado de acusação agirá e quer que eu esteja bem preparada. Também comentou que os advogados de Barclay podem contratar um detetive para descobrir nossa identidade. — Detetive? — repetiram as irmãs em uníssono. — Acho que é quase inevitável que façam isso — admitiu Prudence. — E por onde começariam? — ponderou Constance. — Oh, pelo Mayfair Lady, é claro. — Sim, foi o que pensei. Eles podem começar a fazer perguntas nos locais onde o jornal é vendido. Ninguém nos conhece, é óbvio. Quando vamos recolher nosso dinheiro, estamos sempre ocultas por grossos véus, mas... — Prudence sacudiu a cabeça. — Ainda assim, é alarmante. Talvez no início da semana possamos ir até alguns dos pontos de venda que usamos... a Chapéus Helene, o Robert's de Piccadilly e outros... apenas para saber se alguém andou fazendo perguntas incomuns. — Faremos isso — concordou Constance. — Talvez possamos ficar mais tranqüilas. Venham. — Prudence foi até a parede oposta da biblioteca e tirou um grande quadro da parede, pousando-o no chão. Usou, em seguida, a chave para abrir o cofre que estava oculto atrás e tirou dali uma papelada, entregando-a a Chastity. — Há tantas coisas aqui... Aposto que há muitos papéis antigos. — Estendeu a mão até o fundo do cofre, retirando o resto dos papéis, e levou-os até a mesa de cerejeira, onde a irmã caçula colocara os demais. Constance, por sua vez, começava a verificar as gavetas da mesa. — Estamos à procura de algo que pareça um documento legal, um contrato, algo assim. Alguma folha que contenha o timbre de uma firma de advocacia, ou coisa parecida. — Prudence pegou uma parte da papelada e sentou no sofá, enquanto Chas verificava a outra parte, sentada à mesa. — Não notei nada incomum nas outras vezes em que examinei o cofre, mas também nunca fiquei vasculhando à procura de alguma coisa diferente. Preocupei-me apenas com as contas. Constance tirou uma pasta da primeira gaveta.


— Prue, quando tornará a ver o advogado? — Amanhã. Eu gostaria de ter algo concreto para mostrar... O que é isto? Chastity e Constance olharam para ela, em expectativa. — Encontrou alguma coisa? — Não sei... — respondeu Prudence devagar. — Parece um bilhete, está assinado "Barclay". Sem data. Diz o seguinte: "Conforme nosso acordo da semana passada, a programação dos pagamentos deverá ser antecipada para aproveitarmos o mercado favorável atual. Fui avisado pelos diretores de que as taxas de juros aumentarão no próximo mês, o que não nos será vantajoso". — Mas aí não está escrito que acordo é esse? — Não, Chas. Não há nada específico. Mas parece que ele está pedindo dinheiro. Gostaria que, ao menos, houvesse uma data. — Deixe-me dar uma olhada. — Constance se aproximou do sofá e pegou o papel. — Bem, não é recente. Tem uma mancha antiga aqui no canto. Além disso, está amarelado, e a tinta desbotada. — Então, vamos supor que este bilhete tenha sido escrito há três anos e meio, na época do investimento de papai na Ferrovia Trans-Saariana. Está falando de taxas de juros, pagamentos... — Mas não há indicação do que seja. — Talvez eles tenham feito um acordo verbal — sugeriu Chastity. — Se Barclay estava tramando algo fraudulento, não iria querer nada por escrito. — Com certeza, papai não concordaria em investir num negócio deste vulto sem pelo menos um registro por escrito — ponderou Constance. — Será que não? — duvidou Prudence. — Um homem que acreditou numa quimera no deserto do Saara? Nenhuma delas teve argumento contra aquilo. — Vamos examinar todos os papéis minuciosamente, para ter certeza de que não estamos deixando passar nada. — Prudence dobrou o papel e o colocou de lado. — Vou separar tudo que possa ter alguma importância, para mostrar a sir Gideon amanhã. Como advogado, ele saberá dizer se este bilhete, por exemplo, serve como prova consistente. Uma hora depois, Prudence olhava para as pilhas de papéis num estado emocional que beirava o desespero. — Pronto. Olhamos tudo detalhadamente... e não achamos nada! — Deve haver mais alguma coisa que possamos fazer — disse Chastity com um profundo suspiro.


— O banco! — exclamou Prudence de repente. — Precisamos ter acesso aos registros bancários. Constance meneou a cabeça. — O gerente do banco deve conhecê-la porque você trata de todas as transações referentes às contas da casa. Talvez ele a deixe examinar os registros pessoais de papai. — Não o sr. Fitchley. Ele é rígido demais em relação às regras e tenho certeza de que julgaria antiético examinar uma conta pessoal sem autorização do titular. — Prudence caminhou até a janela e contemplou por uns segundos a chuva que açoitava as árvores e canteiros do jardim dos fundos. — Talvez eu consiga uma autorização de papai por escrito. — Como? — indagou Chastity. Prudence virou-se para a irmã. — Ele assina tudo que coloco a sua frente. Contas, encomendas para a casa, qualquer coisa. Geralmente, nem presta atenção ao que está escrito. — Ela observou a reação das irmãs, enquanto compreendiam aonde queria chegar. — Não acho isso uma coisa certa de se fazer — censurou Chastity. — A idéia não me agrada nem um pouco. — Nem a mim, querida. Mas não vejo outra saída. Escreverei uma autorização e a colocarei no meio de outros papéis que ele tem para assinar. Vou pedir a ele que assine tudo no fim da tarde, logo antes de sairmos para ir à casa de Con. Ele estará entretido, bebericando seu uísque, se preparando para o jantar. Nem vai olhar para o que está assinando. — Que coisa horrível — comentou Constance —, mas não temos outra escolha. Uma vez que tiver a autorização assinada, você poderá ir ao banco na segunda-feira de manhã. — Vou redigir agora mesmo. Depois, Chas e eu arrumamos tudo aqui, enquanto você vai para casa cuidar dos preparativos para o jantar de hoje. Prudence selecionou entre a papelada em cima da mesa uma folha timbrada com o nome do pai, sentou-se e pegou a caneta-tinteiro. Constance e Chastity permaneceram a seu lado enquanto ela escrevia a autorização. Quando ela terminou, ambas concordaram que parecia oficial. — Estamos fazendo isto para o bem dele próprio — afirmou Constance, ao notar a expressão consternada que o jeito prático de Prudence não conseguia ocultar. — Isso mesmo — apoiou Chastity. — Este é verdadeiramente um caso em que os fins justificam os meios.


Capítulo VII

Mal havia amanhecido, e Prudence já estava desperta, depois de uma noite de sono agitado. Acordara algumas vezes de madrugada, inquieta, pensando nos eventos da noite anterior. Com a ajuda de Chastity, conseguira que o pai assinasse a autorização ao banco sem se dar conta do teor do documento, em meio aos outros papéis. Mas a tensão e o peso na consciência a haviam deixado com as pernas trêmulas e o coração aos saltos. Não parava de repetir para si mesma que estava fazendo aquilo pelo bem do próprio pai. Ela só esperava encontrar as provas necessárias para incriminar Barclay... ou tudo estaria perdido. O que a fez lembrar do encontro daquela manhã. Prudence sentiu o coração disparar quando pensou em Gideon. Era apenas ansiedade, ponderou, preocupação com o fato de ainda não ter nada de concreto para apresentar quando ele aparecesse para buscá-la pela manhã. Gideon acordou cedo, com o pensamento em Prudence. Sentia-se desafiado por aquela mulher, como se ela própria fosse um caso que tivesse de vencer. Não a vira no dia anterior, mas não parará de pensar nela. Gideon tentava se convencer de que não era em Prudence que pensava, e sim no processo todo e no julgamento que estava por vir. Sendo Prudence a peçachave que determinaria o êxito do caso, ele tinha de se concentrar em prepará-la com rigor, sem deixar margem para erros. Enquanto tomava seu desjejum sozinho, uma vez que Sarah ainda dormia, Gideon pensou no longo dia que havia planejado. Queria que o encontro com a cliente fosse em um lugar diferente, longe do escritório ou da biblioteca de sua casa. Num ambiente mais descontraído, Prudence se sentiria mais à vontade, e o treinamento seria mais produtivo. Gideon esperava, com isso, conseguir conhecer mais sobre a personalidade de Prudence, descobrir se o comportamento e as reações dela seriam diferentes, se havia uma possibilidade de ela se mostrar menos na defensiva, menos desafiadora e combativa. Sabia, por experiência própria, que um juiz e os jurados não simpatizariam com uma atitude de rebeldia.


Queria, e precisava, abrandar as reações dela, persuadi-la da importância de conquistar a simpatia do júri, treiná-la para dosar a agressividade, e assim aumentar as chances de vitória. Havia também algo incontrolável na maneira como reagiam um ao outro que Gideon gostaria de explorar melhor. Só precisava ser cauteloso para não fazê-la esquivar-se ainda mais. O automóvel preto parou diante do número dez da Manchester Square pontualmente às oito e meia da manhã seguinte. — Ele chegou! — exclamou Chastity da janela da sala íntima, de onde estava observando a praça. — Não é um chofer, é ele mesmo que está dirigindo. Pegue suas coisas, enquanto isso vou avisar a ele que você já vem. Ela correu para descer a escada. Prudence foi até o quarto, onde estudou seu reflexo por um momento no espelho. Alisou o casaco de lã cereja sobre os quadris e ajeitou as pregas da saia longa axadrezada. Estava ciente de um certo nervosismo, o pulso acelerado, as faces levemente coradas. Não fazia idéia da razão para estar inquieta. Gideon Malvern não a assustava. Lidara perfeitamente bem com ele desde o primeiro encontro e, embora a sessão de preparo daquele dia pudesse ser desagradável, sabia que era apenas destinada a preveni-la contra os imprevistos que poderiam surgir no tribunal. Não, não havia motivo para ansiedade, disse a si mesma enquanto vestia um sobretudo por cima do conjunto, colocava um gracioso chapéu e calçava as luvas. Pegou a bolsa, que continha suas anotações e o antigo bilhete de lorde Barclay, e saiu do quarto em direção às escadas. Gideon e Chastity conversavam no vestíbulo, com a porta da frente entreaberta. Ele a saudou com um sorriso quando a viu descendo. Em seguida despediu-se galantemente de Chastity, dizendo que esperasse a irmã apenas à noite e que não se preocupasse, pois ela estava em boas mãos. Aquele homem era impossível, pensou Prudence, irritada, enquanto se deixava conduzir até o carro e se acomodava no assento. Que tipo de comentário tolo fora aquele? E afinal, aonde pretendia levá-la que ficariam o dia inteiro fora? Ela conteve a curiosidade e admirou a paisagem da manhã agradável e ensolarada, com temperatura amena. — Desculpe por ter feito você acordar cedo num domingo, mas levaremos quase três horas para chegar a nosso destino. — Três horas! — exclamou Prudence, aturdida. — Céus, para onde vamos?


— É uma surpresa. Eu já disse, creio, que o elemento surpresa costuma ser a essência de uma campanha de sucesso. — Nos tribunais. — Oh, certamente lá — concordou Gideon, rindo. — Mas hoje é domingo e, portanto, não falaremos sobre tribunais. — Mas achei que fosse me preparar para o dia do julgamento. — Bem, sim, é claro, mas não como antes. Não arruinaremos um belo dia com tensão excessiva. Além do mais, em geral não trabalho nos finais de semana, o que mantém minha mente sã. Prudence não soube o que dizer de imediato. Rumava num carro a um destino longínquo e desconhecido, por razões agora não tão claras, em companhia de um homem do qual gostava menos a cada minuto. — Então, o senhor mentiu — disse, depois de um silêncio prolongado. — Apenas para me fazer passar o dia em sua companhia. — Está sendo dura demais — protestou Gideon com um leve sorriso. — Comentei com você antes que conhecê-la melhor é uma parte importante na preparação do caso. Prudence não teve como argumentar diante da lógica do comentário. — Além disso, gostaria que parasse de me chamar de "senhor" —pediu Gideon. — Vamos deixar os formalismos para o tribunal. Fora dele, não há necessidade. — Está bem — concordou Prudence, dando de ombros. — Bem, eu imaginei que você ao menos passasse os domingos com sua filha. — Oh, eu faço isso, mas Sarah planejou outras coisas para hoje. Vai cavalgar no parque com a srta. Mary Winston e receber amigas da escola em casa para um almoço especial e algumas atividades. Como vê, ela é que não tem tempo para o pai — gracejou ele. Prudence olhou para Gideon e teve de admitir com relutância que ele era, de fato, bonito. E, para sua surpresa, estava sendo afável e simpático naquele dia. Mas só até a mudança de humor seguinte, pensou de repente, determinada a não se deixar influenciar por aquele charme, certamente estudado. — E então, aonde vamos? — insistiu. — A Oxford. Devemos chegar a tempo de almoçar no Randolph. Depois, pensei em darmos um passeio pelo rio. — São oitenta quilômetros até lá! Vai dirigir três horas na ida e três na volta em um dia?


— Adoro dirigir, e este carro é extraordinário. Fará cerca de trinta quilômetros por hora sem problemas, embora a estrada ainda não seja apropriada para estes veículos. De qualquer modo, a paisagem é aprazível e está um dia bonito depois da chuva de ontem. Além do mais, não vou dirigir três horas seguidas. Vamos parar para tomar café em Henley, onde abastecerei o carro. Enfim, será uma viagem das mais agradáveis. Faz alguma objeção? — Não pensou que eu poderia ter planos para hoje à tarde? — perguntou Prudence, contrafeita. — Bem, presumi que você teria me enviado uma mensagem se a minha sugestão não fosse conveniente — sorriu Gideon. — Não imaginei que iríamos a tanta distância de casa — retrucou ela. — Mas agora que já estamos aqui, tenho de me preocupar com o que é importante. A propósito, tenho uma informação que talvez julgue útil. — Deixe-me desfrutar o domingo um pouco primeiro, Prudence. Desanuviar a mente. Haverá tempo bastante para trabalho mais tarde. Ela tinha de dar razão a Gideon, naquele aspecto. Ele precisava relaxar e descansar um pouco de vez em quando. Abordaria o assunto do bilhete de sir Barclay a seu pai num momento mais oportuno. — Bem, talvez possamos nos ocupar com outra coisa, então. — Tirou da bolsa o bloco de anotações e um lápis. — Uma vez que vamos ficar sentados lado a lado durante as próximas três horas, podemos fazer algo produtivo. Gideon pareceu alarmado. — De que está falando? — Esqueceu que minhas irmãs e eu estamos encarregadas de encontrar uma noiva para você? Ele suspirou. — Não, mas também não estou com disposição para falar sobre isso agora. — Lamento, mas você concordou em considerar nossas sugestões. Se conseguirmos encontrar uma esposa para você, significará a diferença entre recebermos vinte por cento ou cem por cento de indenização. É um assunto da maior importância para nós. — Você é mesmo implacável. Está certo, se quer fazer esse jogo, vamos em frente. — Não é um jogo. E insisto que também leve o assunto a sério. Fizemos uma lista das qualidades que achamos que julgará importantes. Se puder dar uma nota, numa escala de um a cinco, para cada uma quando eu as citar, será de grande ajuda.


— Prossiga. — Gideon adquiriu uma expressão interessada. Prudence estudou-o, desconfiada. Apesar do ar sério, notou que ele curvava os lábios quase imperceptivelmente. — Primeiro, a idade — começou ela. — Tem alguma preferência? — Acho que não. — Pelo menos uma faixa de idade, não? Por exemplo, quantos anos você tem? — Trinta e oito. — Certo, foi o que nós calculamos. E então, a idéia de uma menina jovem o agrada, ou prefere alguém com idade mais próxima da sua? — Não me entusiasma a idéia de casar com uma jovem inexperiente, não. — Certo, então uma mulher madura seria mais adequada a você. — Madura... hum, não estou certo a esse respeito. É uma palavra que evoca imagens de solteironas desesperadas ou viúvas melancólicas. Acho que nenhuma das categorias me atrai. É claro que você também tem de levar em consideração as dificuldades envolvidas em encontrar uma mulher adequada para um homem divorciado de trinta e oito anos, com uma filha de dez. — Minhas irmãs e eu estamos cientes de que essas dificuldades são bem maiores para as mulheres do que para os homens — declarou Prudence, colocando de maneira sucinta a longa conversa que tivera com as irmãs sobre como o divórcio ainda era malvisto pela sociedade, principalmente para as mulheres. — Você tem muitos pontos a seu favor. — Quanta gentileza. Fico lisonjeado. — Não fique. Apenas quis dizer que sua profissão de prestígio e sua situação financeira provavelmente compensarão suas desvantagens com todos... exceto aqueles seguidores mais rígidos das normas sociais. — Oh, entendo. Fui devidamente colocado em meu lugar. Prudence teve de se conter para não rir. — Bem, então o ideal seria alguém no início da casa dos trinta, não? Até, digamos, trinta e cinco anos. Percebi que não gostou quando sugeri Agnes Hargate, mas sua recusa tem a ver com o fato de ela ser viúva e ter um filho? O que quero saber é se tem alguma prevenção contra mulheres viúvas, se é uma exigência que sua noiva seja solteira. — De modo algum, isso não é um empecilho para mim. Desde que ela não insista em manter perpétuo luto pelo falecido, é claro. Também não faço objeção a uma solteirona, desde que ela não esteja desesperada. — Gideon lançou-lhe um rápido olhar antes de voltar a concentrar a atenção na estrada campestre. — Más


acho que a faixa de idade ideal para você procurar seria entre vinte cinco e trinta. Na verdade, vinte e sete ou vinte oito anos seria a idade perfeita. — Está bem. — Prudence fez uma anotação no bloco. — Já é um ponto de partida. Prudence sabia muito bem o que estava por trás daquilo. Gideon sabia que ela tinha vinte e sete anos e estava querendo desconcertá-la. Mas não conseguiria. Respirou fundo e perguntou com naturalidade: — Vejamos, o que mais? Ela tem de ser bonita? — A beleza está nos olhos de quem a vê. — Não seja evasivo. A aparência de uma mulher importa para você? — Vamos deixar essa pergunta de lado. Não sei a resposta. — Pela primeira vez ele parecia falar a sério. Prudence deu de ombros. — E a educação? Que importância tem para você em uma escala de um a cinco? — Bem, até uma semana ou duas atrás, eu teria dito uns dois e meio. Agora, é decididamente cinco. Prudence anotou a resposta. — Não vai me perguntar o que me fez mudar de idéia? — Não. Não é relevante. De que tipo de personalidade gosta? — Afável, complacente — respondeu Gideon sem hesitação. — Uma mulher que conheça seu lugar, que saiba o momento de se calar, que esteja ciente de que sou eu quem toma as decisões. Aquilo foi demais. Prudence apanhou a bolsa do chão do carro e guardou o bloco de anotações, mal contendo a irritação. — Está certo, se não quer levar a sério... — Mas eu só respondi a sua pergunta. Não acha que alguém exigente e persistente como eu desejaria uma companheira que apreciasse essas qualidades... — Não são qualidades. No seu caso, são defeitos. — Bem, é uma questão de ponto de vista. Gideon deu de ombros e entrou por uma estrada secundária, onde uma placa de sinalização indicava: "Henley - 3 km". Prudence ficou em silêncio, observando a paisagem campestre de outono. A maior parte da vegetação naquela área era rasteira, as folhas das poucas árvores


estavam avermelhadas, os arbustos carregados de amoras silvestres. Apesar do sol, ventava e parecia fazer mais frio naquela imensidão, e ela sentiu-se grata por ter vestido um casaco grosso por cima da roupa. — E esses defeitos a incomodam? — indagou Gideon quando o silêncio se prolongou. — Como já mencionei antes, não me interesso por nada que diga respeito a você, a não.ser o que se refere a sua habilidade de vencer o caso no tribunal. — Então, vamos falar sobre você. Alguma vez pensou em se casar, Prudence? — O que isso tem a ver com o caso? Gideon pareceu ponderar a pergunta por um momento. — Eu preferiria que, no tribunal, você não se revelasse uma solteirona amarga, irritadiça, que odeia os homens. Prudence soltou um suspiro contrariado, mas ele prosseguiu calmamente: — Como mencionei antes, pode ter certeza de que o advogado de Barclay fará o que puder para colocar você numa posição desfavorável perante o júri. Eu gostaria de apresentar uma mulher calorosa, afável, que se mostre determinada a proteger as mais vulneráveis de seu gênero de humilhação e exploração. Uma mulher que seja comedida ao falar, mas resoluta. Que demonstre compaixão e amabilidade para com os homens, exceto, é claro, para aqueles que não merecem. Prudence mexeu-se no assento, sentindo-se subitamente insegura. — Acha que eu passo uma impressão desfavorável, nesse sentido? — Às vezes. Quando deixa se levar pela raiva e pela indignação. Gostaria que aprendesse a se controlar melhor. — Porque tentarão me provocar ao máximo no tribunal? — Sim. Acho que deve estar preparada para isso. Prudence assentiu. Gideon tinha todo o direito de apontar aquilo, mas ela não pôde deixar de se sentir pouco à vontade diante da verdade. Eles seguiam devagar pela rua elevada que margeava o rio Tâmisa, em Henley, entre as carruagens que circulavam em meio a um ou outro veículo motorizado. Nos gramados verdejantes às margens do rio, as pessoas desfrutavam o sol matinal, enquanto barcos a remo deslizavam pelas águas serenas. Gideon entrou por uma passagem em arco no amplo pátio dos fundos de uma refinada hospedaria. Desligou o motor, saltou do carro e contornou-o pela frente para ir abrir a porta do passageiro.


— Entre e peça café para nós — sugeriu. — Eu me reunirei a você em poucos minutos, depois que tiver colocado mais combustível no carro — explicou, tirando uma lata do compartimento fechado atrás do motor. Prudence alongou os músculos discretamente e disse que o aguardaria. A Red Lion tinha uma sala confortável logo além da recepção e do bar. Uma funcionária simpática prometeu café e pães quentes e, pegando o casaco e o chapéu de Prudence, guiou-a até o toalete das senhoras. Quando ela saiu, depois de lavar as mãos e o rosto e pentear o cabelo, encontrou Gideon sentado a uma mesa diante de uma ampla janela com vista para um jardim. — Eu sugeriria uma caminhada ao longo do rio, mas quero estar em Oxford para o almoço. — Por que temos de percorrer todo o caminho até lá? — Prudence sentou e serviu-se de um pãozinho de cobertura açucarada, enquanto ele enchia xícaras com café fumegante para ambos. — Por que não paramos aqui mesmo? É um lugar agradável. Gideon franziu o cenho, como se estivesse intrigado com a pergunta. — Eu planejei levá-la a Oxford. — Mas você pode mudar de idéia... ou não? — Quando faço planos, gosto de segui-los. — Gosta, ou precisa? Gideon adoçou o café com ar pensativo. Era uma pergunta que nunca fizera a si mesmo, mas a resposta foi imediata. — Preciso. — Fitou-a por sobre a mesa com um sorriso irônico. — Isso me torna muito rígido e previsível? Prudence tomou um gole do café quente e saboroso. — Eu diria que sim. Terei de me lembrar desse detalhe quando estiver à procura de candidatas. Algumas mulheres acham isso reconfortante... saber que alguém não mudará de idéia. — Algo me diz que você não é dessa opinião. — Acertou. — Parecemos estar nos concentrando nos meus defeitos esta manhã — observou Gideon, servindo-se de um pãozinho doce. — Esperei que tivéssemos um dia agradável, conhecendo melhor um ao outro.


— Não é o que estamos fazendo? Com defeitos e tudo? — argumentou Prudence. — E, por falar nisso, se o advogado de Barclay vai me atacar, não seria melhor você fazer primeiro as perguntas hostis que ele possa me dirigir? Dessa maneira, posso ir me preparando para responder com a devida compostura, no momento decisivo. — Era uma das táticas que eu estava considerando. Mas cada vez que começo a perguntar alguma coisa, você contra-ataca ferozmente. — Ah, é porque eu não havia percebido que era uma tática. Agora que sei que tudo isto é apenas um treino e que você não está manifestando suas opiniões pessoais, vou me esforçar para moderar minhas respostas. — Prudence tirou os óculos e limpou-os num guardanapo, sem se dar conta de que era um gesto automático cada vez que se sentia tensa. — Estou certa em presumir que você não está manifestando suas próprias opiniões? — Não faria diferença se eu estivesse. Minhas opiniões não vêm ao caso. Gideon deixou a xícara de café de lado e estudou Prudence, observando os reflexos dourados que o sol produzia nos cabelos dela, nos olhos expressivos e nas feições delicadas como porcelana. — Para responder a sua pergunta anterior — disse com uma expressão indecifrável —, concluí que a aparência de uma mulher é essencial para mim. Prudence arqueou as sobrancelhas. — Ela precisa ser lindíssima? — Não, não foi o que eu quis dizer. Ela deve ser interessante... pouco convencional. Não sei se me faço entender. — Sim, eu entendo. Prudence queria fuzilar Gideon com o olhar e, ao mesmo tempo, sorrir. Mas sua intuição avisava que não devia fazer nenhuma das duas coisas. A não ser que estivesse preparada para baixar a guarda. Ele tentava atraí-la para aquele jogo enigmático, que não era sedução, mas também não era um flerte banal. Era como um convite sutil para participar de uma dança exótica. Uma vozinha em seu íntimo, a qual Prudence se esforçava para ignorar, perguntava: "E por que não?". A resposta não poderia ser mais clara. Ela e as irmãs precisavam da completa assistência profissional daquele homem. Ela precisava da total concentração dele na questão, ou perderia a sua própria. Não havia espaço para nada além de uma relação estritamente profissional entre os dois. Além disso, lembrou a si mesma, ela o detestava.


Quando ficou claro para Gideon que não conseguiria uma reação mais interessante, sugeriu num tom de voz neutro: — Está pronta para prosseguir viagem? — E eu tenho escolha? — Você apreciará o passeio, prometo. Em questão de minutos, estavam de volta ao carro e à estrada. — Quanto falta para chegar a Oxford? — quis saber Prudence. — Cerca de trinta quilômetros. Chegaremos dentro de uma hora ou um pouco mais. A estrada é ótima. Poderei rodar na velocidade máxima permitida. Prudence ajeitou melhor o casaco em torno de si, ponderando que o entusiasmo de Gideon em sacolejarem velozmente ao longo de uma estrada incrustada de raízes não era algo que ela partilhasse. A perspectiva de uma viagem de retorno de três horas não era nada animadora. Quando estivessem partindo de Oxford, o sol estaria se ponto e a temperatura baixando. Seu companheiro de viagem, que assobiava alegremente, evidentemente não tinha tais preocupações. — Você consegue tirar uma tarde livre durante a semana, se precisar? — perguntou, voltando aos negócios. — Se for um dia em que não tenha de ir ao tribunal, e não tenha a agenda tomada por clientes, sim. Por quê? — Minhas irmãs e eu costumamos fazer uma reunião social em casa uma vez por semana, para apresentar casais em potencial. Tudo acontece em sigilo, sem que ninguém saiba que estamos por trás da Cupido, naturalmente, mesmo aquelas pessoas que enviam cartas à coluna do jornal. Ocorreu-me que você poderia avaliar algumas das possíveis candidatas, numa tarde, sem que elas façam idéia disso. Gideon suspirou e aceitou o inevitável. — E já tem algumas possibilidades em mente? Além da tal Agnes-não-sei-dequê? — Agnes Hargate. E acho que está perdendo uma oportunidade valiosa em não se dispor a conhecê-la. Talvez gostasse dela. Não quis nem mesmo ouvir uma descrição. — Foi uma reação instintiva. No instante em que você a mencionou, eu soube que essa senhora e eu não nos daríamos bem. — E como pode ter tanta certeza disso? — Bem, eu tenho. Prudence tornou a pegar o bloco de anotações na bolsa e verificou os poucos nomes que constavam da lista que ela e as irmãs haviam feito.


— Está certo, vamos tentar novamente. Talvez você se dê bem com Lavender Riley. Tenho certeza de que posso fazê-la comparecer a uma reunião em casa, se você estiver livre numa quarta-feira. — Não — declarou Gideon com firmeza. — Não estará disponível numa quarta-feira? — Não, eu não me interessaria por essa Lavender Riley. — Como pode saber? Não falei nada sobre ela — disse Prudence, exasperada. — Disse o nome. Esqueci de mencionar que nomes são muito importantes para mim. Talvez deva anotar isso. Eu jamais poderia viver com uma mulher chamada Lavender. — Isso é ridículo. Você pode chamá-la por um apelido. — Não adiantaria. Todas as outras pessoas a chamariam de Lavender. Eu jamais me livraria do nome. — Se vai continuar fazendo objeções fúteis... — Prudence se calou abruptamente. Era inútil persistir naquele tipo de debate, estava se expondo ao sarcasmo de Gideon e não obteria nenhuma informação relevante. Mas mesmo sem ser encorajado, ele prosseguiu: — Sabe, gosto de nomes com significado, como o seu e de suas irmãs. Prudence... é um belo nome. — Você está fazendo troça. — Ao contrário, estou fazendo um elogio. — Um elogio vazio, se me permite dizer — replicou ela, perguntando-se se era possível detestar ainda mais aquele homem. — Como você é teimosa... Tudo o que eu digo, você rebate. Eu esperava com este passeio fazer com que você relaxasse, se descontraísse, porque assim ficaria mais fácil preparar você para o tribunal. Mas, infelizmente, não é o que está acontecendo — disse Gideon, seco. Prudence não respondeu de imediato, porque na verdade não havia resposta. Ela reconhecia que Gideon tinha sua razão. — Bem, me desculpe — murmurou, depois de um longo silêncio. — Não era a minha intenção contrariá-lo. Diga de que maneira posso colaborar. — Eu gostaria de conhecer a Prudence calorosa, inteligente, amável. Se é que ela existe — acrescentou Gideon, desviando os olhos da estrada para fitá-la. — Ela existe, sim — disse Prudence, séria.


— Pois então, eu gostaria muito de conhecer esse lado da sua personalidade, porque será de importância crucial na hora do julgamento. Prudence meneou levemente a cabeça, concordando, Ela própria não sabia ao certo por que, desde o início, resistira ferrenha-mente ao apelo daquele passeio, lutando contra os esforços da Gideon para fazê-la se descontrair. — O dia está lindo e temos um almoço delicioso a nossa espera — continuou ele, num tom de voz mais calmo e como se quisesse reforçar seu ponto de vista. — Vamos passear de barco no rio, e voltar para jantar em Henley, e no começo da noite eu a deixarei em casa. Não lhe parece uma maneira agradável de passar o dia? — Tem razão, é irresistível — admitiu Prudence, sentindo a tensão se dissipar. — Se prometer não me aborrecer, mostrarei meu outro lado. — Não posso prometer — retrucou Gideon. — Não posso, pelo simples motivo que não é intencional. Por isso, peço que me dê o benefício da dúvida, se alguma coisa escapar. — Está bem. Mas, em troca, quero que ouça duas coisas que tenho a dizer a respeito do caso. Não precisamos discutir sobre isso agora, mas quero que saiba do que se trata para que pense no que devemos fazer. — Sou todo ouvidos. — Primeiro, meu pai comparecerá ao tribunal como testemunha, para depor a favor de Barclay. Prudence tentou observar a reação de Gideon, mas não houve nenhuma. Ele limitou-se a menear a cabeça. — Não acha isso constrangedor? Pior, não acha uma coisa... terrível? — Na verdade, não. — Mas você terá de interrogar meu pai! — Eu tentarei abalar a confiança dele na honestidade do amigo, sem dúvida. — Mas não será desagradável com ele? — Não, a menos que ele torne isso necessário. Prudence notou que Gideon parecia calmo demais diante do que, para ela, era uma possibilidade horrível. — Tenho medo que ele me reconheça... ou melhor, que reconheça a minha voz. Não sei se serei capaz de disfarçar minha voz u ponto de enganar meu pai. — O que tem em mente? — perguntou Gideon, curioso.


Prudence riu. Ela e as irmãs haviam decidido que devia adotar o sotaque francês que Chastity usara ao ir se encontrar com o primeiro cliente da Cupido. — Oh, mas eu sou de Paris, moi. En France, não fazemos tais perguntas às damas, monsieur. Non, non, é uma grande indiscrição, compreende? Nosso Mayfair Lady é um jornal respeitável. "Respeitável" é como dizem aqui na Inglaterra, n'est cepas! — Consegue falar com esse sotaque carregado pelo tempo que for preciso? — perguntou Gideon, rindo. — Sim, claro. Meu conhecimento de francês é suficiente para que eu o misture um pouco com o inglês, e assim parecer convincente. É como se eu fosse uma parisiense que veio para a Inglaterra há algum tempo, entende? Ainda tenho sotaque, às vezes misturo as duas línguas, mas consigo me comunicar bem em inglês. Achei que era uma boa idéia. — Uma misteriosa francesa oculta por um véu — ponderou Gideon. — Será certamente intrigante. E talvez desperte a simpatia do júri. Nós, homens ingleses, costumamos ter um certo fascínio por... como poderei dizer?... pela reputação desinibida das francesas. Os jurados podem se mostrar menos hostis às opiniões expressas no Mayfair Lady se acreditarem que não são de alguém de seu próprio país, mas de uma mulher estrangeira, da qual se pode esperar um pouco mais de ousadia. — Então, é uma boa estratégia. — Será ótima, desde que você consiga manter a encenação, mesmo diante de um interrogatório implacável. — Praticarei com minhas irmãs. — Isso também dependerá do fato de sua identidade permanecer oculta na ocasião do julgamento. Como mencionei, os advogados de Barclay farão todo o possível para descobrir quem está por trás do jornal. — Durante a semana, pretendemos investigar para saber se houve alguém fazendo perguntas estranhas nos vários locais de distribuição do Mayfair Lady. — Bem pensado. Qual é a segunda coisa? Prudence tirou da bolsa o bilhete do conde e leu. — Não tem data, mas parece antigo. — Não é o suficiente. Encontre essa programação de pagamentos, datas, o que seu pai estava comprando. Não vou mexer nesse vespeiro sem que haja provas contundentes. — Você poderia interrogar o conde sobre o bilhete. Talvez fazer um pouco de pressão.


— De maneira alguma. Não há dados nesse bilhete que justifiquem ser apresentado como prova. Você terá de investigar mais. — Na verdade, tenho uma autorização para examinar os registros bancários de meu pai. Irei ao Hoare's amanhã. — Como conseguiu? — A surpresa de Gideon era evidente. — Foi um subterfúgio. Não é algo de que me orgulhe. Assim sendo, podemos deixar isso de lado? — Claro. Veja. — Ele apontou para os contornos distantes dás cúpulas de Oxford, que reluziam no vale abaixo da estrada. — Estaremos lá em menos de meia hora. — É estranho, mas nunca fui a Oxford — comentou Prudence, determinada a afastar as preocupações da mente. — A Cambridge, sim. — Prefiro Oxford, mas sou suspeito. — Estudou no New College? — Sim. Pararam diante do Hotel Randolph, na Beaumont Street, quando os relógios da cidade anunciavam o meio-dia. Um porteiro uniformizado os conduziu ao suntuoso saguão do hotel, de onde uma ampla escadaria levava aos andares superiores. — O toalete das senhoras fica logo além — indicou Gideon. — Aguardarei você no restaurante. Quando Prudence se reuniu a ele, havia uma taça de champanhe em seu lugar à mesa. — Tomei a liberdade de pedir um aperitivo. Se preferir outra coisa... — Não, está perfeito. — Ela se sentou e tomou um gole. — É bom para elevar o ânimo. — E tenho a impressão de que é disso que você precisa. Deixe-me tentar contribuir para isso também, no dia de hoje. — Gideon tocou a mão dela, em cima da mesa. — O que me diz? Aquela jornada inteira começava a adquirir um novo significado, pensou Prudence, embora ainda não estivesse pronta para decifrá-lo. Libertando a mão gentilmente, abriu o cardápio. — O que recomenda? Presumo que conheça bem este restaurante. — Sim. — Gideon aceitou a mudança de assunto. Se Prudence não queria dar uma resposta espontânea, era melhor não insistir. — A comida é excelente. Está com fome?


— Sim. — Nesse caso, sugiro cordeiro. — Perfeito! Prudence tirou os óculos para limpar as lentes e sorriu. Gideon conteve a respiração diante de um sorriso encantador que vira raras vezes. Naquele momento, sentiu-se recompensado. Prudence se recostou na cadeira e bebericou o champanhe, enquanto admirava .pela vidraça das janelas altas o Memorial do Mártir, na praça em frente, e os estudantes andando de bicicleta ao longo da St. Giles. Seu humor havia melhorado consideravelmente. De repente, sentia-se descontraída, contente, na expectativa de um almoço agradável. Gideon examinava a carta de vinhos, e ela aproveitou a oportunidade para estudar seus traços discretamente. A despeito da implicância inicial, tinha de admitir que ele era um homem bonito e que fazia tempo que não sentia aquele tipo de atração por alguém. Perdera a virgindade um ano depois da morte da mãe. Ela e as irmãs haviam feito um pacto. Como nenhuma delas fazia questão de se casar, haviam decidido que não morreriam sem saber como era ter intimidade com um homem. Fixaram o prazo de um ano, e depois que um ano se passou, nenhuma das três era virgem. Prudence achava que a sua experiência fora boa. Pelo menos, não fora desagradável. Mas havia faltado alguma coisa, não havia proporcionado o êxtase esperado, sobre o qual ela e as irmãs tinham lido às escondidas em livros proibidos. Agora, sem mais nem menos, olhando para as mãos de Gideon, via-se imaginando como seria ser acariciada por elas. Desde que ele a tinha beijado, no carro, ela tentava repudiar todo e qualquer pensamento ou sensação boa que a lembrança do beijo pudesse evocar. Mas, embora a chocasse admitir, ela estava muito atraída por Gideon. Como era possível desejar alguém que detestava? Gideon ergueu os olhos da carta de vinhos, interrompendo o devaneio de Prudence. — No que está pensando? Prudence corou e foi tomada por crescente constrangimento, em especial quando Gideon a fitou como se pudesse ler sua mente. Felizmente o garçom se aproximou nesse momento, e ela aproveitou para recobrar a compostura. — Vejo que é uma boa conhecedora de vinhos — elogiou Gideon quando Prudence aprovou e comentou sua escolha.


— Ficaria surpreso em saber quanto — sorriu ela, pensando em tudo que havia aprendido sobre vinhos em meio às suas desesperadas incursões com Jenkins à adega, para garantir que sempre houvesse algo do agrado de seu pai. — Sabe, acho que há pouco sobre você que me surpreenderia. Conte como se tornou uma especialista. Prudence franziu a testa. Ela e as irmãs guardavam absoluto segredo a respeito das questões que envolviam a manutenção da casa e dé como tinham de se desdobrar para que não faltasse o essencial. Ninguém, nos círculos sociais que freqüentavam, podia saber que fazia cerca de três anos que os Duncan lutavam contra a ruína financeira, dia após dia. A Cupido e o Mayfair Lady começavam a render alguma coisa, mas ainda estava longe de ser o suficiente. De qualquer modo, ela ponderou, não podiam esconder nada do advogado. Ele já estava a par das dificuldades financeiras e do que as causara. Apenas não sabia que Arthur Duncan era de tal maneira poupado que não fazia a menor idéia da real situação. Prudence esperou que o garçom servisse a sopa e se afastasse, e então começou a explicar. Gideon espalhou patê numa torrada, saboreou-a e ouviu em silêncio enquanto ela contava tudo detalhadamente. — Acham que estão fazendo um favor a seu pai mantendo-o na ignorância? — indagou, por fim. O tom de censura aborreceu Prudence. — Achamos que sim — respondeu áspera. — Oh, não é da minha conta, eu sei. Contudo, às vezes, uma opinião de alguém de fora pode ajudar. Você e suas irmãs estão tão envolvidas na situação que talvez estejam deixando de enxergar algo. — Não creio — discordou ela, percebendo que estava na defensiva, mas incapaz de evitar. — Acontece que conhecemos papai muito bem. E também sabemos o que mamãe teria desejado. — Como está a sopa? — perguntou Gideon calmamente. — Ótima. — E o vinho, foi aprovado?. Ele sorriu, charmoso, cativante, e Prudence sentiu a irritação desvanecer. — Sem dúvida. Depois do almoço, deram uma volta a pé pela cidade até Folly Bridge, onde Gideon alugou um barco. Ele remou sem esforço pelas águas plácidas, e Prudence desfrutou o sol da tarde que os envolvia como um halo dourado. Correndo a mão languidamente pela superfície do rio, fechou os olhos e prestou atenção aos sons a


sua volta, risos, vozes, o canto dos pássaros, o ritmo suave dos remos batendo na água. Londres parecia tão longínqua, e o clima tenso do trajeto daquela manhã já superado. Gradualmente, percebeu que os ruídos provenientes de outros barcos tinham se desvanecido, restando apenas os sons da natureza, os pios de uma ave, o murmurinho das águas. Abriu os olhos devagar e viu que Gideon a observava intensamente. Prudence sentiu um arrepio ao longo da espinha e prendeu a respiração. Céus, no que estava se envolvendo? Foi com esforço que desviou os olhos e pôs-se a observar a paisagem ao redor com aparente indiferença. Ele, por sua vez, começou a contar alguns episódios da época em que estudava em Oxford e como apreciava os momentos de lazer no rio, em especial na época de calor, quando nadava ali com os amigos. Prudence riu a valer dos relatos cômicos e sentiu alívio em constatar que a tensão sensual entre os dois desaparecera. Tinha ciência, porém, de que voltaria em breve e, ao mesmo tempo, temia e ansiava por isso. — Bem, acho melhor darmos meia-volta — declarou Gideon, finalmente, observando o céu através dos ramos dos salgueiros que beiravam a margem. — Quando o sol for embora, a temperatura vai cair bastante. Manobrando o barco com habilidade, ele remou de volta até o ponto de partida. Caminharam até a St. Giles e tomaram um café no hotel, onde haviam deixado suas coisas. Confortavelmente aquecida pelo casaco, no interior do carro, Prudence voltou a ficar ciente da tensão entre eles. Algo havia mudado ao longo daquele dia. Havia alguma coisa no ar, algo indefinível, mas sem dúvida diferente. Aquela seria uma longa... e imprevisível... jornada de volta.

Capítulo VIII

Em Henley, Gideon e Prudence pararam na mesma hospedaria onde haviam tomado café de manhã, a Red Lion. Foram recebidos como clientes ansiosamente esperados, e depois conduzidos a uma acolhedora sala de jantar particular, onde o fogo crepitante na lareira provia um calor reconfortante. Garrafas de uísque e xerez


encimavam o aparador, e enquanto Prudence tirava o casaco, Gideon serviu drinques para ambos. — Parece que conhecem você muito bem aqui — observou ela, pegando seu copo e sentando-se numa poltrona confortável ao lado da lareira. — Este é meu recanto favorito desde os tempos de Oxford. É um lugar pequeno, mas oferece todo tipo de comodidades modernas. — Gideon ocupou a poltrona oposta. — Tomei a liberdade de fazer o pedido do jantar com antecedência. — Por telefone? — De que outro modo? — Ele bebericou o uísque. — Fiz a ligação do hotel, pouco antes de partirmos. — A Red Lion é renomada por seu pato assado com laranja. Espero que goste. Os olhos dele estavam novamente intensos, a voz aveludada, o jeito atencioso. — Sei que vou adorar. Prudence forçou um sorriso, tomada por súbito nervosismo, percebendo que suas mãos estavam frias e o estômago contraído. O que quer que fosse, aquilo não deveria estar acontecendo. Gideon deixou o copo de lado e levantou inesperadamente, vencendo a distância entre os dois. Inclinou-se para a frente e apoiou as mãos nos braços da poltrona onde Prudence estava, aproximando o rosto do dela. Incapaz de desviar o olhar, e com o coração disparado, ela se reclinou no encosto, deixando a cabeça pender para trás, expondo o pescoço, num gesto que expressava aceitação. Suspirou baixinho, e em seguida Gideon se apossou de seus lábios. Foi um beijo diferente daquele primeiro que ele roubara, no carro. A pressão dos lábios era firme, mas suave, como se ele quisesse deixá-la desvencilhar-se caso desejasse. Prudence, porém, queria ser beijada, e entreabriu os lábios, dando livre acesso à língua que invadiu sua boca sensualmente. De olhos fechados, começou a corresponder com um ardor crescente, rendendo-se a uma necessidade que sobrepujava tudo o mais. Recostada na poltrona, abraçou Gideon, enquanto o beijo se tornava arrebatador. Pararam apenas para recobrar o fôlego, e Prudence, enfim, pousou as mãos no colo, relutante em interromper aquele momento de puro deleite. Gideon abriu um sorriso, ainda se apoiando nos braços da poltrona, o rosto muito próximo ao dela. — Isto é absurdo — murmurou Prudence. — Não devia acontecer... — O mundo é cheio de surpresas. Seria um lugar muito enfadonho se não fosse assim. Não concorda?


— Sim, mas há diferentes tipos de surpresas. Algumas não deveriam acontecer. — Por que não? — perguntou ele num tom divertido. — Porque não devemos confundir as coisas. — Não estamos confundindo nada — rebateu Gideon. — Não há por que um relacionamento amoroso interferir no trabalho. As imagens que as palavras dele evocavam fizeram o coração de Prudence bater mais depressa, afastando momentaneamente seu pensamento da realidade do dia-a-dia, das incertezas, das preocupações. Não ofereceu resistência quando ele a ajudou a se levantar, deixando de lado a cautela, concentrando-se apenas na intensidade daqueles olhos cheios de promessas de um prazer inesquecível. — Prefere jantar primeiro?—sussurrou ele depois de lhe beijar as pálpebras com ternura. Não havia dúvida quanto ao significado da pergunta, e Prudence não era do tipo que fazia jogos tolos. Gideon, porém, estava lhe oferecendo uma chance de ponderar a situação, de fazer uma escolha consciente, de voltar atrás, se quisesse. Mesmo sem a névoa do beijo envolvendo sua mente, ela continuava desejando aquele homem com uma intensidade assustadora. — O pato assado pode esperar? — Claro. — Gideon sorriu. — Espere aqui — pediu, deixando a sala. Prudence colocou os óculos de volta e esvaziou o copo de xerez, olhando fixamente para as chamas na lareira. Aonde quer que aquilo tudo a levasse, não se sentia inclinada a parar, nem mesmo para pensar nas conseqüências. Sobressaltouse quando a porta se abriu novamente, apesar de estar esperando por isso. Virou-se para ver Gideon parado na soleira, segurando uma pequena valise, e com a outra mão estendida, num convite. — Ficaremos mais confortáveis no andar de cima. Prudence deixou-se conduzir. Não estava mais no controle de nada e, pela primeira vez na vida, não desejava estar. Subiram por uma escadaria até um corredor estreito, coberto por uma passadeira vermelha. Entraram num quarto acolhedor, dominado por uma cama de casal. As tábuas de carvalho do assoalho reluziam à luz do fogo que crepitava na lareira, e cortinas aveludadas cobriam as janelas. — Aconchegante — murmurou Prudence. Gideon estudou-a, procurando algum sinal de sarcasmo, mas não havia nenhum na expressão dela. Começava a ser dominado por um nervosismo atípico. Fizera amor com inúmeras mulheres e nunca se sentira inseguro, com exceção das primeiras vezes, quando era ainda um rapazinho inexperiente.


Não tinha certeza se Prudence era virgem ou não. Normalmente, presumiria que uma moça solteira e de boa família seria virgem, mas já aprendera a não esperar o previsível quando se tratava da Honorável Prudence Duncan. Debateu consigo mesmo se deveria perguntar, mas concluiu que não conseguiria fazer isso com naturalidade e sem parecer desconfortável. O que era algo incomum para ele, pois fazer perguntas difíceis era parte de sua rotina. — Não se preocupe — disse Prudence com um repentino sorriso. — Não tenho uma vasta experiência, mas também não sou completamente inocente. Gideon demonstrou certo constrangimento. — Como adivinhou o que eu estava pensando? — Pareceu-me óbvio que você pensasse nisso, e percebi que estava indeciso e pouco à vontade. Prudence achou reconfortante aquela demonstração de vulnerabilidade que vira de relance. Fazia com que se sentisse mais próxima de Gideon. Talvez ele estivesse tão inseguro quanto ela, e isso os aproximava mais, sem dúvida. Foi até a lareira para aquecer as mãos, apesar de não estarem frias. Então, sentiu os braços de Gideon ao seu redor, o corpo sólido junto às suas costas e foi tomada por uma estranha euforia, o coração mais uma vez descompassado. Ele beijou sua nuca, as mãos cobrindo-lhe os seios por cima do casaquinho, arrepiando-a por inteiro. — Está com roupas demais. Ainda abraçando-a pelas costas, abriu os botões do casaquinho dela e tirouo, para em seguida desabotoar a blusa de seda. Explorou a maciez dos seios arredondados através do tecido fino da combinação, sentindo os mamilos rijos nas palmas das mãos. Já não se sentia nervoso, nem incerto, e percebeu que Prudence era tomada pela mesma vontade premente de sentir o pleno contato de pele com pele. A blusa deslizou até o chão, e ele insinuou as mãos pelo decote cavado da combinação, para segurar os seios, surpreso ao notar que eram maiores do que imaginara. Prudence era esguia, não era do tipo voluptuoso, mas certamente tinha as curvas nos lugares certos. Ela percebeu que estava ofegante enquanto os mamilos ficavam cada vez mais rígidos e sensíveis sob o toque hábil dos polegares dele. Um calor bem-vindo espalhou-se por seu corpo e, com súbito anseio, cobriu as mãos de Gideon com as suas, pressionando-as sobre os seios. Gideon virou-a para si com a mesma urgência, desapertando os botões na cintura da saia longa, que logo se juntou ao restante das roupas. Retirou os grampos


dos cabelos dela, afundando o rosto nas mechas fragrantes. Correu as mãos pela combinação, afagando o corpo quente através do tecido acetinado, deliciado ao perceber que não havia espartilho por baixo. Tirou-lhe, então, os óculos, pousandoos com cuidado no criado-mudo. Prudence começou a desapertar os botões das roupas dele com dedos ansiosos. Gideon ajudou-a, despindo o casaco curto, tirando a gravata e a camisa; conteve a respiração quando sentiu as mãos macias percorrendo seu peito. Livroua, em seguida, da combinação e puxou-a para si, ambos estremecendo com o contato dos seios arfantes comprimindo-se ao peito dele. Permaneceram abraçados, trocando mais um beijo faminto. Gideon, então, deitou-a na cama e livrou-a do restante da roupa de baixo, observando seu rosto ansioso, os olhos luminosos, os cabelos espalhados ao redor. Estava linda e sedutora, ligeiramente trêmula, seu corpo perfeito ansiando por carícias sem fim. Livrou-se da calça e da roupa de baixo e deitou-se na cama. Notando que Prudence o contemplava com verdadeiro fascínio, pegou-lhe a mão e a guiou até seu corpo, para que o explorasse a seu bel-prazer. Ela hesitou apenas por um momento, mas foi tomada por uma paixão avassaladora que dissipava qualquer inibição. Prudence correu as mãos pelos contornos masculinos com vagar. Para um homem que passava seus dias confinado no gabinete com livros de direito e levando casos a tribunais, ele possuía um corpo notavelmente atlético, as pernas musculosas, o abdome rijo, bíceps firmes e desenvolvidos. Ela nunca havia contemplado, nem tocado o corpo de um homem daquela maneira antes. Sua única experiência fora breve demais para tais intimidades. Enquanto o afagava, ouviu Gideon soltando um gemido de prazer e abriu um sorriso involuntário. Ele respirou fundo e segurou seu pulso, murmurando: — Vamos fazer isto devagar. — Estava apreciando muito... — Eu também. Mas quero prolongar estes momentos ao máximo. Agora, é sua vez. — Gideon inclinou-se e acariciou os cabelos dela, adorando vê-los soltos daquela maneira. Beijou a fronte alva, as pálpebras, os lábios rosados. Percorreu-lhe, então, o corpo com lábios quentes e úmidos, descendo até o ventre e as coxas e tornando a subir até os seios numa lenta e doce exploração. Mordiscando e sugando primeiro um mamilo e, depois, o outro, fez com que ela entreabrisse as pernas e percorreu os dedos suavemente pela parte interna das coxas.


Prudence estremeceu com as carícias cada vez mais íntimas, uma onda de deleite tomando conta de seu ser. Nunca tivera um prazer tão intenso e era surpreendente e maravilhoso descobri-lo. Um crescendo de sensações foi se formando até que ouviu a si mesma gritando o nome de Gideon e seu mundo resumiu-se àqueles momentos de absoluto enlevo. — Tão ardorosa — sussurrou ele, sorrindo com gentileza, os olhos brilhando de desejo. Prudence abriu braços convidativos, tomada pela vontade de partilhar aquele prazer com ele. Gideon posicionou-se acima dela, segurou-a pelos quadris e penetrou-a devagar, enquanto sussurrava com voz torturada: — Quero fazer isto durar, mas não sei se consigo... Ela sorriu, deliciada, com as sensações que a dominavam. Era tão bom estarem unidos daquele jeito. Sentia-se completa, realizada. Jogou os braços para trás num gesto de abandono tão sensual que Gideon respirou fundo, atendo-se aos resquícios do controle. Começou a se mover devagar. Prudence soltou um gemido, acompanhando o ritmo da paixão instintivamente, os olhos se fechando enquanto a onda de deleite começava a tomar forma outra vez. Foi um êxtase fabuloso e simultâneo, os espasmos percorrendo o corpo de Prudence, que, enquanto se contraía em torno do dele, tornou impossível para Gideon conter-se mais, fazendo-o entregar-se com igual abandono. Permaneceram abraçados por um longo tempo, ofegantes, re-cobrando-se do impacto do que haviam partilhado. Por fim, Gideon rolou para o lado, entrelaçando os dedos nas mãos dela. — Srta. Duncan, você é magnífica... — Você também é razoável — brincou ela, com voz fraca. — Já posso morrer, agora... — O que quer dizer? — perguntou Gideon. Mas Prudence apenas sorriu e fechou os olhos. Ainda sorria languidamente quando mergulhou num sono profundo. Prudence acordou uma hora depois, percebendo que Gideon conseguira deitá-la por baixo das cobertas sem a despertar. Usando um robe, ele estava fechando a porta do quarto, como se tivesse acabado de falar com alguém. Ao ver que ela acordara, aproximou-se, sorridente. — Está mais descansada? — Sim. — Prudence se recostou nos travesseiros, puxando as cobertas até o queixo. — Onde conseguiu esse robe?


Era uma peça especialmente elegante de brocado de seda e não parecia fazer parte dos itens colocados à disposição dos visitantes de uma hospedaria. — Eu trouxe no carro. — Ele indicou a valise que Prudence se lembrou de ter notado antes. — Quer dizer que planejou tudo isso? — indagou, surpresa, sem saber se gostava da idéia de ele ter saído de casa pela manhã já com um plano de sedução em mente. Gideon sacudiu a cabeça. — Você é muito desconfiada, doçura. Eu não planejei isso. Passei a maior parte do dia tentando acabar com nossa implicância mútua. — Abria a valise enquanto falava. — Acontece que, como motorista experiente, sei que até o carro mais confiável pode apresentar algum problema numa viagem longa e, portanto, estou sempre prevenido. — Ergueu uma peça de seda no ar, desdobrando-a. — Isto é para você. — Pousou-a na cama. Era um robe longo verde-esmeralda, de seda chinesa, ricamente bordado com pavões num azul vibrante. — E lindo, mas temos de ir diretamente para casa. — Vamos jantar primeiro. Já esqueceu o pato com laranja? Prudence afastou as cobertas, lançando um olhar agitado ao relógio no aparador acima da lareira. Eram quase nove e meia. — Tenho de voltar. Minha família ficará preocupada. — Não será o caso — assegurou Gideon com aquela confiança excessiva que costumava irritá-la, mas que, agora, ela julgou bem-vinda. — Milton, meu chofer, sabe melhor do que eu como os carros podem ser imprevisíveis. Por isso não ficou surpreso quando pedi a ele que, se não estivéssemos de volta até as dez horas, fosse até a Manchester Square explicar a sua irmã, Chastity, que tivemos um ligeiro contratempo e retornaremos amanhã. — Mas amanhã é segunda-feira. Não tem de ir para o trabalho? — Meu primeiro compromisso com um cliente será ao meio-dia. Partiremos cedo e chegaremos com tempo de sobra. Prudence puxou as cobertas de volta. — Há algum detalhe que tenha lhe escapado? — Creio que não. — Ele sorriu, malicioso. — Trouxe vários objetos de uso pessoal para nós dois, inclusive uma camisola para você. Mas duvido que precisará dela. — Talvez não. E quanto ao jantar? Não devemos nos vestir e descer?


— Jantaremos aqui no quarto. Ficaremos mais à vontade, e a sala de jantar logo será fechada, de qualquer modo. — Oh. Então, acho que vou levantar e vestir o robe. — O banheiro fica logo em frente. Soube que ninguém está hospedado neste corredor, portanto não teremos de dividi-lo. Prudence vestiu o robe, atando o cinto com firmeza, e saiu para o corredor. O banheiro era pequeno, mas continha o essencial, incluindo uma banheira. Abriu a torneira e, enquanto a água corria, Gideon entrou e trancou a porta. Prudence despiu o robe, consciente de que ele a observava, e deixou que ele se banqueteasse com suas formas femininas. Sentindo o desejo reavivar, Gideon juntou-se a ela na banheira. Não demorou, porém, para que constatassem que era, de fato, pequena para dois, a água escorrendo em abundância pela borda. Gideon saiu, mas pegou a esponja para ensaboá-la, percorrendo sensualmente o corpo de Prudence, criando uma incrível aura de intimidade e de expectativa para logo mais. Ele ajudou-a a enrolar-se numa toalha e entrou na banheira para se lavar. — Embora este lugar seja pequeno demais... — sussurrou, rouco — ...é melhor voltar para o quarto, ou acabarei possuindo você aqui mesmo. Ela encontrou os olhos ardentes de Gideon, e uma onda de excitação a percorreu. Com um risinho, enxugou-se depressa e vestiu o robe de seda, fingindo escapulir. No quarto, viu que uma mesa fora posta diante da lareira, com uma garrafa já aberta de vinho fino, uma cesta de pãezinhos quentes e manteiga. Ela serviu duas taças com vinho e se sentou, partindo um pãozinho e espalhando manteiga sobre ele. O sexo parecia estimular o apetite. Gideon não demorou a voltar envolto no robe de brocado, os cabelos molhados, sedutor como nunca. Provavam o requintado vinho quando houve uma batida à porta. Dois solícitos garçons serviram a entrada, uma farta e deliciosa combinação de frutos do mar. Conversaram, bebericaram vinho e provaram as iguarias, enquanto ocorria a Prudence que jamais tivera uma noite tão perfeita. Longe de lembrar o homem intimidante e hostil que conhecera, Gideon mostrava-se um cavalheiro atencioso e dedicado. Fazia com que ela se sentisse especial em diversos aspectos. O pato assado, enfim, foi servido, com molho de laranja, vagens suculentas e batatas crocantes. Outra garrafa de vinho foi aberta e os garçons se retiraram discretamente. Gideon fatiou parte da ave, levou um pedacinho aos lábios de Prudence na ponta do garfo e piscou um olho.


— É com imenso prazer que um advogado oferece mais um pedaço do paraíso a sua cliente. Gideon foi despertado de manhã pelo contato quente de um corpo macio junto ao seu e por lábios carinhosos. Ele não abriu os olhos, nem se moveu, enquanto Prudence lhe cobria o rosto de beijos. — Não finja que está dormindo — murmurou ela. — Posso sentir que uma certa parte de você está bem acordada. — Moveu o corpo de encontro ao dele para dar ênfase às palavras. — Tem toda a razão. — Gideon abriu os olhos, o desejo evidenciando-se no semblante até então sereno. — Precisamos resolver isso. Afagou as costas dela, deliciado com o contato do corpo curvilíneo, a paixão se alastrando rapidamente entre ambos. Gideon a segurou pelos quadris, ergueu-a acima de si, posicionou-se e a penetrou. — Oh, isto é diferente — disse Prudence, surpresa. — Há uma infinidade de maneiras de se dar prazer um ao outro. Não diga que não leram o Kama Sutra, porque não acreditarei. — Nós lemos, é claro, mas algumas posições pareciam impossíveis, sem mencionar desconfortáveis. — Ela ondulou o corpo, intensificando o prazer dos dois. — Você já tentou todas? — Nunca encontrei uma parceira disposta a levar adiante a idéia. A conversa se dispersou, enquanto começavam a se mover cada vez mais depressa, tomados pela paixão. Gideon observou-a, magnífica no auge do desejo, os cabelos cascateando sobre a pele alva, os olhos brilhando, os seios fartos e empinados oscilando sensualmente com os movimentos. Cobriu-os com as mãos, deliciado com a maciez, e afagou os mamilos provocantes com os polegares. Gideon soube o momento exato em que o êxtase arrebatou Prudence, enquanto seus corpos ondulavam em perfeita sincronia. Fechou os olhos, enquanto os espasmos a percorriam deliciosamente, repercutindo pelo corpo dele. Gideon, então, entregou-se ao próprio clímax, tomado por puro arrebatamento. — Fico me perguntando se alguém consegue se cansar de algo tão bom — murmurou Prudence quando, enfim, recobrou o fôlego. Desde a noite anterior, tinham se amado quatro vezes, e apenas acabara de amanhecer. — Eu não. — Nem eu — concordou ela rindo. — Infelizmente, a vida diária nos faz outras exigências — disse Gideon, espreguiçando-se com ar de contentamento. — Temos de pegar a estrada e voltar antes que sua família chame a polícia.


— Você disse que Chastity seria avisada. — Sim, mas ela vai querer ver você chegar antes que a manhã termine. Quer que lhe prepare um banho? — Por favor. — Prudence se recostou na cama e fechou os olhos com um suspiro. Fora uma noite maravilhosa, repleta de deleites inimagináveis. Mas como ficariam as coisas entre ambos a partir dali? Gideon logo voltou. — Prudence, seu banho está pronto. Levante-se. Não podemos demorar. Ela abriu os olhos, surpresa com o tom imperioso. Durante as longas horas em que tinham feito amor esquecera que ele tinha aquele tom... autoritário, impaciente. Agora, ponderou se aquela manifestação era o normal dele e se o amante terno, atencioso, que dissera tantas palavras carinhosas, sensuais, era apenas um lado ocasional. Levantando, vestiu o robe e rumou para o banheiro. Não se admirou com o fato de Gideon não tê-la seguido. O idílio realmente terminara. Ela tomou o banho depressa e voltou ao quarto. Gideon já se barbeara e vestira, o semblante sério. Até sua postura estava mais rígida. Voltara a ser o renomado advogado, totalmente sob controle, seguro de si mesmo e de sua superioridade. — Vou pedir o café no andar de baixo. Consegue ficar pronta em quinze minutos? — Farei o possível. — Guarde o robe e tudo mais na valise quando tiver terminado. Pedirei a um funcionário que a leve até o carro. Prudence vestiu-se e arrumou os cabelos o mais depressa que pôde. Fechando a valise, olhou ao redor para o quarto cheio de lembranças inesquecíveis e abriu um sorriso sonhador. Fora a noite mais incrível de sua vida. Sacudindo a cabeça, saiu e desceu a escadaria rapidamente. Depois de um desjejum reforçado, durante o qual Gideon permanecera em silêncio, lendo o Times, eles estavam novamente no carro, rodando pelas ruas ainda quase vazias de Henley. Usando um tom casual, Prudence abordou um assunto delicado. — Você gostaria de ter mais filhos? — Ela pegou o bloco de anotações na bolsa. — E você, quer ter filhos? — Ele olhou-a de relance, mantendo-se atento ao volante.


— Perguntei primeiro. Eu quero dizer, se você decidir se casar de novo, naturalmente. — Você pegou esse bloco outra vez. É inconcebível! Acabamos de passar uma noite esplêndida, e você volta a atenção para a tentativa de me encontrar uma noiva? Não acredito nisso. É tão descabido... — Não é. Ontem à noite, você disse que não haveria confusão. Somos clientes um do outro. Espero que faça o melhor por mim, e o esforço será recíproco. Ficou claro que gostaria de uma esposa jovem o bastante para ter filhos, mas não chegamos a conversar se você queria ou não ter mais um. Obviamente, se não for o caso, não posso apresentá-lo a uma mulher que deseje engravidar. Só estou sendo prática. Gideon manteve o olhar fixo na estrada sinuosa, o maxilar rijo. — Não quero ter esta conversa. — Está sendo teimoso. Como posso fazer meu trabalho se você não coopera? Ele limitou-se a sacudir a cabeça. — Muito bem, vamos deixar de lado o assunto de noivas em potencial, por ora. Mas acho que não se importará em pensar sobre alguns fatores. Por exemplo, acha que Sarah gostaria de ter irmãos? A contragosto, Gideon acabou pensando a respeito. Percebeu que não fazia idéia do que Sarah acharia de ter uma madrasta, quanto mais irmãos. — Não sei. Preciso perguntar a ela. Prudence meneou a cabeça. Depois da noite que haviam partilhado, embora não tivesse havido promessas e um envolvimento maior pudesse ser desastroso, ela não podia deixar de querer conhecê-lo melhor. Tinha de admitir que iniciara a conversa sobre noivas mais por curiosidade do que por vontade pessoal de lhe arranjar uma. No fundo, queria saber qual era o verdadeiro Gideon Malvern. Ele cultivava uma aparência de convencionalismo, inflexibilidade, mas sob a superfície deixava transparecer que podia ser o oposto, esquecendo o conservadorismo, mostrando-se aberto a mudanças. Mas qual era a real faceta? Talvez o lado pouco ortodoxo, aberto, fosse uma mera imagem para produzir uma certa reação, e o verdadeiro Gideon fosse o advogado rígido e agressivo, sem tempo nem simpatia por aqueles que não agiam de acordo com suas regras.. — Qual é o objetivo de tudo isso? — perguntou ele, olhando-a com ar intrigado. — Só estou tentando arranjar a esposa ideal para você. — Acho que isso é algo que eu preferiria fazer sozinho.


— Você concordou com os termos. — Apenas concordei em deixar você tentar. — E é o que estou fazendo. Mas por enquanto, vou deixar você se concentrar na estrada. — Ela abriu um sorriso, querendo recuperar a cumplicidade que haviam desfrutado no dia anterior. — Tive poucas horas de sono esta noite, sabe? — acrescentou, marota. — Acho que vou cochilar um pouco. Ajeitando melhor o casaco, recostou-se no assento e fechou os olhos. Não esperara dormir tão profundamente, mas despertou com um sobressalto quando o automóvel parou e viu que estavam na Manchester Square. — Eu dormi o caminho todo. — Sim. — Gideon saiu do carro e deu a volta para abrir a porta do passageiro. — Como um anjo. Prudence viu uma gentileza naqueles olhos penetrantes que a desarmou de imediato. Ali estava, mais uma vez, o outro lado de Gideon Malvern. Ele se inclinou e beijou-a de leve, evocando lembranças inebriantes. — Sempre que você ficar ranzinza, vou me concentrar na imagem da mulher sedutora que tive nos braços. Prudence sentiu uma onda de arrepios percorrendo-a, mas sorriu. — Não sou ranzinza — replicou. — Na verdade, é você que provoca todas essas reações explosivas. Geralmente, sou uma pessoa cordata, de temperamento tranqüilo. Pergunte a minhas irmãs. —Não me darei esse trabalho. Elas defenderão você com unhas e dentes. — Ele a ajudou a descer. — A propósito, procure encontrar alguns registros precisos dos negócios de Duncan com Barclay. Não posso fazer nada sem provas concretas. E vá até meu escritório amanhã à tarde, depois das cinco. Falaremos sobre como você tem de se apresentar no tribunal, o que deve e o que não deve fazer. Gideon acenou, não lhe dando chance de responder, e voltou a se sentar ao volante. Prudence hesitou, as palavras se atropelando em sua mente, mas nenhuma parecia adequada. Esperou até ver o carro desaparecer na esquina da praça e, então, subiu os degraus de casa. Jenkins abriu a porta no momento em que ela inseriu a chave na fechadura. — Srta. Prue, o que aconteceu? — A preocupação era evidente. — É você, Prue? — Chastity apareceu no alto da escadaria. — Sofreu algum acidente?


— Não, eu estou bem. — Prudence subiu rapidamente. — O carro enguiçou. Nós passamos a noite numa hospedaria em Henley. — Beijando a face da irmã, seguiu depressa pelo corredor. — Preciso me trocar. Faz mais de vinte e quatro horas que estou com esta roupa. — Claro. Dormiu vestida? Alguma coisa no tom de voz da irmã fez Prudence parar de repente. Ela virouse devagar. Chas a estudava com um ligeiro sorriso nos lábios. — É evidente que não. — Então, o que usou? — Se eu dissesse que a hospedaria tinha roupas de dormir sobressalentes para hóspedes sem bagagem, acreditaria em mim? — Prudence percebeu que sorria sem querer. — Não. Vai me contar tudo? — É claro! — Prudence riu. — Venha me ajudar a lavar o cabelo. Está todo emaranhado. Depois de contar tudo a Chastity, Prudence estava sentada diante da lareira da sala íntima, secando os cabelos com uma toalha quando Constance chegou. — Você voltou! Oh, felizmente. Fiquei preocupada quando recebi a mensagem de Chas ontem à noite. O que aconteceu? — Prue rendeu-se a um impulso e isso parece ter resultado numa noite de paixão arrebatadora em Henley — contou Chastity num tom casual. — Para resumir — sorriu Prudence. — E como! — Constance se sentou no braço do sofá. — Ele é um bom amante? Prudence corou. — Não tenho muito com que comparar, mas posso garantir a vocês que foi uma noite incrível! Constance abriu um sorriso amplo. — Bem, isso diz tudo. A questão agora, porém, é como esse episódio... — Afetará a relação profissional com nosso advogado? — interrompeu Prudence. — Eu sei, Con. E, acredite, levei isso em consideração. Mas tenho certeza de que não fará diferença alguma. Sir Gideon Malvern, o ilustre advogado, não é a mesma pessoa com quem passei uma noite maravilhosa. Ele muda de atitude com surpreendente facilidade.


— Isso é bom, não é? — perguntou Chastity, com ar de dúvida. — É claro que sim — declarou Prudence, aquietando suas próprias incertezas. — E quanto aos negócios, Gideon disse que aquele bilhete de Barclay não é suficiente para fundamentar as acusações. — Soltou um suspiro. — Assim, não resta outra maneira. Terei de ir ao banco Hoare's amanhã de manhã. Já está tarde hoje. — Pensei que já tivéssemos concordado com esse plano — lembrou Chastity. — Sim, mas tive um fio de esperança de que isso pudesse ser evitado. — A situação está se complicando demais para ficarmos de braços cruzados. — Constance contou que havia ido sozinha aos locais de distribuição do jornal naquela manhã, uma vez que Chastity tivera de ficar em casa, esperando notícias de Prudence. — Como de costume, mantive o rosto oculto sob o véu do chapéu e tentei aparentar que estava apenas fazendo a verificação de rotina, para ver quantos exemplares haviam vendido da última edição. Fez uma pausa, enquanto as irmãs a observavam, em expectativa. — Todos disseram que algumas pessoas andaram fazendo perguntas sobre como o Mayfair Lady lhes era entregue e quem recolhia o dinheiro das vendas. — Detetives — deduziu Prudence de imediato. — Contratados pelos advogados de Barclay. Gideon estava certo. — Sim. E claro que ninguém conhece nossa identidade. Para os distribuidores, somos meras representantes do Mayfair Lady. Estamos sempre ocultas por véus e nada pode trazer ninguém até este endereço. Mas acho que devemos segurar a próxima edição. — Não publicá-la? — Era uma idéia tão absurda que a exclamação de Chastity não causou surpresa. — Talvez seja melhor não publicarmos mais o jornal até depois do julgamento — confirmou Prudence com relutância. — Mas isso seria ceder à pressão deles — protestou Chastity, veemente. — E quanto à sra. Beedle? Eles devem estar planejando investigar no endereço de correspondência do jornal, seja não o fizeram — disse Prudence, preocupada. — Ela jamais nos trairia, mas não podemos permitir que seja importunada. — Irei até lá amanhã conversar com a sra. Beedle — prontificou-se Chastity. — Quanto à suspensão temporária do jornal, concordo com Constance — concluiu Prudence, firme. — É uma simples precaução. Não devemos correr riscos desnecessários.


Já era suficiente que ela tivesse arriscado seu coração envolvendo-se com Gideon Malvern. — Em que posso ser útil nesta manhã, srta. Duncan? Sentada diante da mesa do escritório do sr. Fitchley, no banco Hoare's, Prudence se esforçava para afastar o sentimento de culpa e aparentar naturalidade. Procurando conter o tremor nas mãos, abriu a bolsa e pegou o envelope contendo a carta de autorização. — Preciso examinar os registros bancários de lorde Duncan. Sei que é algo incomum, mas meu pai está preocupado com algumas transações passadas. Pediu para que eu as verificasse. O gerente pegou o envelope contendo o lacre de cera com o brasão de lorde Duncan e abriu-o. — Sei que as preocupações de seu pai não podem estar relacionadas aos serviços fornecidos pelo Hoare's. Os Duncan são nossos clientes há quatro gerações. — Não, é claro. Ele apenas quer refrescar a memória em relação a algumas transações que aconteceram há uns três ou quatro anos. — Prudence sorriu, tímida. — Como sabe, sou eu que cuido dos assuntos financeiros da casa. Meu pai dispõe de pouco tempo para dispensar a essas tarefas. — Sim, sua falecida mãe, a saudosa lady Duncan, dizia o mesmo. — O sr. Fitchley desdobrou a carta de autorização e leu atentamente, enquanto Prudence mal respirava. O gerente se levantou de trás da mesa. — Bem, parece tudo em ordem, srta. Duncan. Se fizer a gentileza de me acompanhar, temos uma sala particular onde os clientes podem examinar suas contas com privacidade. Ele a conduziu pela área principal, toda revestida de mármore, onde ficavam os caixas, até uma saleta do lado oposto. — Fique à vontade, srta. Duncan — disse, indicando a cadeira e mesa junto a uma janela. — Providenciarei para que um funcionário traga os balancetes. Deseja examinar a caixa do cofre-forte também? — Sim, por favor. Prudence aguardou em crescente ansiedade até que, dez minutos depois, dois funcionários entraram, um carregando uma pilha de balancetes e o outro, a caixa do cofre. Um ofereceu café e voltou momentos depois com uma bandeja. Quando ficou a sós, Prudence pegou a chave deixada em cima da caixa do cofre e abriu-a. Algo lhe dizia que, se o pai tivesse alguma coisa que quisesse manter em segredo, ele a deixaria trancada, não exposta num balancete.


Tomando o café quente, colocou a pequena bandeja a um canto da mesa e examinou o conteúdo da caixa. Havia apenas alguns papéis ali, que dispôs sobre a superfície de carvalho. Eram apenas certidões da família, constatou, guardando-as uma a uma de volta na caixa enquanto as examinava, até que chegou à última. Olhou, então, fixamente para o papel, sentindo-se trêmula enquanto lia, incapaz de acreditar no que estava vendo. Era um documento legal. Uma hipoteca da casa na Manchester Square, datada de 7 de abril de 1903. E fora cedida a uma empresa chamada Barclay & Associados. Não foi nada difícil ligar os fatos. O conde de Barclay tinha uma hipoteca da residência deles, uma casa que pertencia à família Duncan há várias gerações. Uma onda de raiva envolveu Prudence. Por quê? O que levara seu pai a entregar a casa que era a herança dele, seu orgulho e de toda a família? Desespero. Não havia outra explicação. Prudence largou o documento na caixa como se fosse um objeto contaminado. Encontrou o balancete de 1903. Os pagamentos haviam começado em janeiro... pagamentos para a Barclay & Associados. A cada mês, a soma era de mil libras. E então, em abril, haviam cessado. Mas nesse mês, seu pai havia hipotecado a casa em favor da Barclay & Associados. Incapaz de continuar efetuando os pagamentos que supostamente se comprometera a fazer, tomara a única atitude possível para cobrir a dívida. Prudence verificou os registros do ano anterior. Os pagamentos tinham começado em outubro. Mas não havia nenhuma indicação sobre a que se referiam. Seu pai estaria sendo chantageado por Barclay? Não, era absurdo demais. Os dois eram bons amigos, pelo menos seu pai sempre acreditara nisso. Prudence pegou da bolsa o bilhete de Barclay que encontrara em meio a papelada da biblioteca. Pagamentos... juros. Examinou novamente a caixa do cofreforte e ali dentro, num vão quase imperceptível no forro, encontrou um documento com a explicação que buscava. Em 5 de outubro de 1902, ou seja, poucas semanas antes da morte da mãe delas, exatamente quando o pai se sentira incapaz de continuar a testemunhar a agonia da esposa, ele concordara em financiar um projeto para a construção de uma ferrovia denominada Trans-Saariana. Comprometeu-se a efetuar pagamentos mensais de mil libras à Barclay & Associados, que gerenciariam o projeto. E quando já não podia mais arcar com os pagamentos, aceitou hipotecar a casa. Prudence enfiou a mão no vão novamente e tocou em algo mais escondido ali. Outro papel... Ela puxou-o para fora. Era uma carta... Meu caro Duncan,


Lamento enviar más notícias. Mas é um péssimo negócio. Houve problemas com grupos locais outra vez, e o clima está tenso. Infelizmente, ninguém parece muito interessado em nosso projeto no momento. O material está no lugar, nosso pessoal, pronto para começar o trabalho. Mas as autoridades que nos apoiavam decidiram renegar nosso acordo. Preocupações políticas, como deve imaginar. Estamos todos num prejuízo total de cem mil libras. Apenas para tranqüilizá-lo, não executaremos a hipoteca, a menos que a situação se torne desesperadora. Barclay Ao que parecia, os credores ainda não tinham chegado ao ponto do desespero, refletiu Prudence. Não havia meio de o pai ter conseguido retomar os pagamentos mensais de mil libras com o dinheiro do apertado orçamento de casa sem que ela soubesse. Então, a hipoteca ainda pairava ameaçadoramente sobre suas cabeças. Seu pai devia estar em grande tormento. E, ainda assim, estava preparado para depor no tribunal em favor do caráter daquele ladrão, traidor, canalha? Era inconcebível. Ela entendia que um homem abalado pela dor pudesse ser enganado, manipulado a tomar decisões desequilibradas, mas já fazia quatro anos que sua mãe morrera! Era tempo de seu pai ter recobrado a estabilidade emocional, e sensatez suficiente para enxergar como fora usado e logrado. Talvez o orgulho impedisse Arthur Duncan de admitir seus erros, ou de confrontar o homem que o lesara. Prudence soltou um profundo suspiro. Qualquer que fosse o estado de espírito do pai, agora havia algo para sustentar as acusações de desonestidade do Mayfair Lady contra Barclay. As credenciais da Barclay & Associados tinham de ser investigadas. A empresa existia como uma entidade legítima? Já existira? A idéia toda de uma ferrovia atravessando o Saara sempre fora absurda. Ao menos para pessoas não enlouquecidas pela dor, refletiu. Mas para fundamentar o caso na Justiça, teriam de provar que o projeto fora fraudulento desde o início. Que Arthur Duncan fora enganado e induzido a investir num falso negócio, a ponto de ser obrigado a hipotecar a propriedade da família quando não conseguira fazer os pagamentos. Subitamente livre do sentimento de culpa, Prudence separou todos os papéis importantes da caixa do cofre e páginas dos balancetes e colocou-os na bolsa. Gideon saberia o que fazer. Prudence cumprimentou Jenkins distraidamente quando chegou em casa. Os documentos na bolsa pareciam ter adquirido peso físico em seu trajeto de volta para casa num tílburi. Toda a familiaridade do vestíbulo em que estava parada pareceu desvanecer-se estranhamente. Porque, era evidente, aquele vestíbulo não pertencia mais legalmente à família Duncan... ao menos enquanto o pai não quitasse a dívida. Ou provasse que era fraudulenta.


— Parece pálida, srta. Prue. Está se sentindo bem? O tom preocupado de Jenkins despertou-a dos pensamentos sombrios. — Sim, claro, só estou um pouco cansada — disse com um sorriso forçado. — Algum recado? — Um mensageiro trouxe uma mensagem de sir Gideon, srta. Prue. Prudence foi tomada por uma onda de momentaneamente, afastou tudo mais de sua mente.

euforia,

que,

embora

— E qual era? — conseguiu perguntar num tom casual. — Sir Gideon mandou dizer que, em vez de se reunirem no escritório, prefere que vá à casa dele mais tarde. Disse que mandará o chofer buscá-la às seis e meia. — Obrigada, Jenkins. Poderia enviar uma mensagem a Constance? Peça que venha até aqui o mais breve que puder, sim? — Certamente. — E Chastity, já voltou da loja de doces de sua irmã? — Sim, chegou há cerca de meia hora. Está a sua espera na sala íntima. Prudence subiu a escadaria rapidamente, tirando as luvas e o chapéu pelo caminho. Chastity tinha acabado de se sentar à escrivaninha, para começar a responder as cartas enviadas para a coluna de Tia Mabel do Mayfair Lady, para quando o jornal voltasse a circular. Virou-se na cadeira ao ouvir a irmã entrar. — Descobriu alguma coisa? — perguntou, ansiosa. — Eu, sim! Prudence confirmou com um gesto de cabeça. — Conte você primeiro. — Pelo que pude apurar, um dos detetives de Barclay também andou rondando a loja da sra. Beedle e fazendo perguntas. Um homem de atitude suspeita esteve lá duas vezes. Não se identificou, disse apenas que estava interessado em conversar com alguém do Mayfair Lady e perguntou se ela sabia onde ele poderia encontrar a pessoa responsável pelo jornal. Comentou qualquer coisa sobre ter boas notícias. — E a sra. Beedle? — indagou Prudence, embora já imaginasse a resposta. — Nas duas vezes, ela disse que não sabia de nada, que apenas recebia as cartas que eram remetidas ao jornal, para seu endereço. Quando o homem perguntou a quem ela entregava as cartas, ela respondeu sem hesitar que toda semana ia lá um rapazinho para recolher as cartas, mas que ela não sabe nada sobre o menino, nem mesmo como se chama, pois não é algo que seja da sua conta.


— Eu sabia que a sra. Beedle não se deixaria induzir a revelar nada! Ela é muito esperta... — Fiz questão de deixar bem claro que confiamos totalmente nela, mas que apenas estamos um pouco ansiosas, pelo fato nosso advogado ter nos alertado sobre a possibilidade de haver detetives nos investigando e que eles seriam persistentes. A sr Beedle assegurou que não vão ouvir nada diferente do que ela disse, caso voltem. — Apenas ela e Jenkins conhecem nosso segredo, desde a época de mamãe, e está totalmente seguro com eles. Não precisamos nos preocupar com isso. Mas, por outro lado... — O que foi, Prue? O que descobriu? Levantando-se da poltrona perto da lareira, Prudence abriu a bolsa e entregou os documentos à irmã, em silêncio. Ela não precisaria de explicações detalhadas para entender as implicações. Chastity leu os papéis, pousando um a um na escrivaninha. Então, ergueu os olhos, a expressão grave. — Con precisa ver isto. — Pedi a Jenkins para enviar uma mensagem a ela. Chastity sacudiu a cabeça, incrédula. — Basicamente, Barclay é o proprietário de nossa casa. — Sim. — Há mais em jogo do que o Mayfair Lady, então. — Teremos de lutar com todas as armas. Vamos esperar Con chegar e, então, conversaremos melhor a respeito. — Claro. Ah, havia duas cartas para o jornal na loja da sra. Beedle. — Chastity pegou-as da mesa e estendeu-as a Prudence. — Acha que devemos ler enquanto esperamos? Estou quase com medo de abrir. Para alívio de ambas, a primeira carta era inofensiva, apenas um pedido de uma leitora para ser apresentada a pessoas que partilhassem de sua paixão por poesia. Ao abrir o segundo envelope, porém, a expressão de Chastity ficou alerta. Em silêncio, entregou a carta a Prudence, que leu em voz alta: A quem possa interessar: Uma parte interessada tem informações que poderão ser consideravelmente úteis aos proprietários e editores do jornal Mayfair Lady, relativas ao atual processo na Justiça. Surgiram provas que lhes serão de grande ajuda em sua defesa. Solicitase um encontro particular, em local da escolha dos editores. A informação que temos é de crucial importância e deverá ser entregue o mais depressa possível. Por favor,


respondam para o endereço acima sem demora. E, por favor, acreditem que somos os mais sinceros admiradores do Mayfair Lady. Prudence ergueu os olhos. — É um embuste — declarou com convicção. — Mas e se não for? — Só pode ser. É uma carta anônima. — Nós também somos anônimas. E se for de um amigo de Barclay, ou melhor, de um ex-amigo que não quer se expor em público? Supondo que ele tenha provas que confirmam a fraude de Barclay, talvez seja uma vítima também, como papai. Será que podemos nos dar ao luxo de ignorar isso? Prudence soltou um longo suspiro. — Eu não sei, Chas. — Você poderia mostrar essa carta a Gideon junto com o restante da papelada. — Sim, eu o verei hoje à noite. Farei isso. — Oh, aí vem Con! — observou Chastity ao som de passos inconfundíveis na escadaria. Constance entrou na sala íntima, notou sem demora o ar consternado das irmãs e declarou: — Precisamos ir almoçar fora. — E a melhor idéia que ouvi desde cedo — concordou Prudence. — Mas leia essa papelada na escrivaninha primeiro. E esta carta. Chastity pegou a carta, juntou-a aos demais documentos e indicou a Con que se sentasse. — Onde vamos almoçar? — Que tal no Swan e Edgar's? — Constance já começava a examinar os papéis junto à escrivaninha. — Perfeito — aprovou Prudence, adiantando-se até a porta. — A comida de lá é ótima, e quero passar numa loja para comprar uma echarpe nova para combinar com meu vestido de noite. Constance olhou para ela. — Verá Gideon logo mais, então? — Sim. Quando terminar de ler a papelada, verá que uma reunião de negócios é urgente. Bem, vou dizer a Jenkins que não ficaremos para o almoço.


— Negócios? — murmurou Constance com uma sobrancelha arqueada depois que Prudence saiu da sala. — Acho que Prue não terá muito tempo para tentar avaliar seus sentimentos por Gideon. Ao menos não esta noite — declarou Chas com um profundo suspiro. — Leia toda a papelada, e você vai entender.

Capítulo IX

O chofer de Gideon apanhou Prudence pontualmente às seis e meia e, para sua surpresa, ela foi saudada por uma animada Sarah Malvern, no vestíbulo da casa na rua Pall Mall. Ela apertou a pequena mão estendida e teve tempo para observar a menina de dez anos mais atentamente do que na primeira vez em que a vira. Era alta e esguia, e tinha um rosto de traços clássicos, mas as sardas lhe davam um ar sapeca. Os cabelos loiros estavam presos em duas grossas trancas, e uma franja reta encimava os olhos vivazes e expressivos como os do pai. — Por aqui, srta. Duncan — disse ela com ar importante. — Vou ser sua anfitriã, enquanto meu pai termina de preparar o jantar. Sarah conduziu-a por um longo corredor até o que parecia ser um quarto de hóspedes. Havia uma penteadeira com uma escova e um pente, um conjunto de jarro com água e bacia e uma toalha limpa, à disposição de qualquer visitante que precisasse. — Pode deixar seu casaco aqui. Enquanto Prudence tirava o casaco, Sarah se sentou na beirada da cama de solteiro e apontou para o vaso no criado-mudo. — Encontrei camélias no jardim. Achei que iria gostar. — São lindas. Obrigada. — Prudence sorriu, enquanto pendurava o casaco num cabide de parede. — De nada. Oh, seu vestido é lindo. Prudence não precisou se olhar no espelho para saber que era verdade. Era umas das criações parisienses com que Constance presenteara as irmãs. De seda pura verde-escura, realçava seus olhos, e o modelo longo e ajustado ao corpo


valorizava a cintura fina e os seios firmes. Ela decidira se vestir como se tivesse recebido um convite para jantar, optando pelo traje, que embora não ostentoso, era elegante e bonito. Prendera os cabelos num coque trançado, enfeitado com um pequeno laço, e usava brincos e colar de pérolas. Sentia-se confiante, segura de sua aparência. Já aprendera que, com Gideon, era sempre prudente estar preparada para surpresas. Sarah levou-a, em seguida, até a sala de estar principal. Era um ambiente agradável, decorado em tons suaves de creme e dourado, com sofás convidativos e estantes embutidas exibindo livros e objetos de arte. Ao contrário da biblioteca, que era o único outro cômodo da casa que ela conhecia, não era sóbrio nem tipicamente masculino. Talvez tivesse sido decorado quando Gideon ainda estava casado com a mãe de Sarah. Ou seria o estilo ao gosto de alguma outra mulher? Teria havido alguém especial na vida de Gideon, depois da separação? Prudence se deu conta de como sabia tão pouco a respeito do homem a quem se entregara com total abandono. Um livro de exercícios estava aberto numa mesa de centro, com canetatinteiro ao lado. — Tenho que resolver um problema de álgebra bem complicado — disse Sarah. — Papai disse que talvez você pudesse me ajudar. — Ah, é mesmo? — perguntou Prudence, sorrindo. — Bem, vamos ver se eu consigo. Ela se aproximou da mesa e Sarah indicou a cadeira, num sinal para que se sentasse. Depois de rabiscar algumas contas numa folha de rascunho, Prudence descobriu a solução do problema e explicou pacientemente à menina, ensinando cada etapa e se certificando de que ela estava acompanhando o raciocínio. — Oh, é fácil! — exclamou Sarah, confiante. Prudence admirou a inteligência dela, porque para uma criança de dez anos, aquele tipo de exercício era bem difícil. Mas, sendo filha de quem era, e aluna do North London Collegiate, não era tão surpreendente assim. E além disso, havia a governanta, que cuidava de Sarah e acompanhava todas as suas atividades. Pelo modo como Gideon falava da srta. Winston, parecia considerá-la muito eficiente e ter grande apreço pela valiosa ajuda que ela representava. De repente, Prudence se perguntou onde a governanta estaria, naquele momento, se seria seu dia de folga, e logo em seguida se deu conta de que, ao que tudo indicava, não havia nenhum criado na casa, naquela noite. — Você disse que é seu pai que está fazendo o jantar? — perguntou ela a Sarah casualmente, sem deixar transparecer curiosidade.


— É, sim, ele adora cozinhar — respondeu Sarah. — Mas como ele trabalha o dia todo, não sobra muito tempo, então ele só cozinha de vez em quando. Um movimento na porta atraiu a atenção de ambas, e Prudence virou-se para ver Gideon entrar na sala. — Prudence, perdoe-me por não ter vindo cumprimentar você quando chegou — desculpou-se Gideon, indo em sua direção. — Não podia deixar o que eu estava preparando antes de terminar. Espero que Sarah esteja sendo uma boa anfitriã. — Claro, ela é uma companhia encantadora. — Prudence sorriu para a menina. — Mas você não precisava ter todo esse trabalho por causa do jantar. — Foi um prazer. Acabei achando melhor receber você aqui em vez de no escritório. Poderemos falar sobre nossos negócios mais tranqüilamente após o jantar. Quanto a cozinhar, é uma coisa que gosto muito de fazer, quando tenho oportunidade. Ele olhou para Prudence com um sorriso de apreciação que a deixou com o coração acelerado. — Parabéns. Você está encantadora — disse, galante. — Obrigada. Ela tirou os óculos naquele gesto reflexo que era sempre estimulado por insegurança ou incerteza. Curiosamente, a presença de Sarah parecia tornar a situação mais íntima e ao mesmo tempo mais difícil de reagir com naturalidade. Gideon olhou para a filha. — E o problema de álgebra, conseguiu resolver? — Sim, a srta. Duncan me ensinou a fazer e me explicou de um jeito que ficou bem fácil! — exclamou Sarah, entusiasmada. Gideon pegou o livro de exercícios e examinou-o. — Muito bem — comentou, devolvendo-o. — Mary voltou há cinco minutos. Está esperando você para jantar. — Mary foi a uma reunião a favor do direito de voto para as mulheres — contou Sarah a Prudence. — Também é a favor, srta. Duncan? — Sim, com toda a certeza. — Eu também! — declarou a menina, com um sorriso de orgulho, antes de estender a mão para Prudence. — Boa noite, srta. Duncan. Obrigada por ter me ajudado com a lição. — Foi um prazer, Sarah. Boa noite.


A menina beijou o pai, que retribuiu com um abraço afetuoso e expressão terna, e saiu da sala saltitando. — Ela é uma menina maravilhosa — disse Prudence. — O orgulhoso pai também acha — concordou Gideon, sentando-se ao lado dela no sofá. — É evidente que Sarah também tem orgulho de você. Os olhos dela brilharam quando contou que você estava fazendo o jantar. Tem, sem dúvida, um pai de muitos talentos. Então, você cozinha também? É mais uma de suas surpresas? — É um passatempo, quase uma paixão, na verdade — explicou ele. — Espero que aprove o resultado. — É um passatempo incomum. — É uma atividade que liberta a minha mente. Um homem precisa de um descanso dos processos e livros jurídicos empoeirados. — Imagino que sim. Mas pensei que fôssemos trabalhar esta noite... Tenho algo bem interessante para mostrar. — Prudence fez menção de pegar a bolsa. — Não agora. Mais tarde. — São provas da fraude de Barclay. — Ótimo. Depois do jantar, falaremos a respeito. Mas Prudence não se deu por vencida. — Precisaremos checar nos registros pertinentes uma empresa que se intitula Barclay & Associados, para descobrir se existe legalmente. Sabe como fazer isso? — Sim. Conversaremos depois. Prudence encarou-o com frustração. — Os assessores de Barclay de fato contrataram detetives, que estão perguntando por toda a cidade sobre quem está por trás do Mayfair Lady. E uma carta suspeita foi enviada ao jornal. Deixe-me mostrá-la a você. — Depois do jantar. — Gideon inclinou-se e silenciou-a com o dedo indicador em seus lábios. — Preparei uma de minhas especialidades para você e quero que a saboreie com calma. Há tempo e lugar para tudo, e agora é hora de jantarmos. Você está tensa. Procure relaxar um pouco — sugeriu com um brilho nos olhos. Gideon tinha razão, ponderou Prudence. E, quando chegasse o momento de falar de negócios, queria a total atenção dele para as coisas importantes que precisava relatar. — Sarah mora com você o tempo todo? — perguntou num tom casual, enquanto seguiam de braços dados pelo corredor. — Sim.


— Também é algo incomum, não? As meninas costumam ficar com a mãe nessas circunstâncias. — Seria difícil nesta situação, uma vez que não faço a mínima idéia de onde a mãe de Sarah está. — Gideon conduziu Prudence a uma elegante sala de jantar. — E como é possível? — indagou, sem se preocupar em ser indiscreta. A conversa, afinal, tomara um rumo inesperado. — Quando Sarah tinha pouco mais de três anos, Harriet fugiu com um treinador de cavalos — contou Gideon, afastando a cadeira à direita da sua, na cabeceira da mesa, para ela se sentar. — E você não a viu mais desde então? — Prudence não conseguiu ocultar sua reação chocada diante daquela informação, dada num tom de voz tão indiferente que parecia quase entediado. — Não, desde o divórcio. Harriet lembra sempre o aniversário da filha, e isso é o suficiente para mim. E creio que para Sarah também. — O divórcio deve ter sido difícil. — Mais difícil para um homem é perceber que não fazia a menor idéia de que a esposa já estava interessada em outro. Prudence sentiu um vestígio de ressentimento no comentário de Gideon, e achou melhor não persistir num assunto que ainda era doloroso para ele. Velas aromáticas iluminavam suavemente a sala, e um vaso de cristal com as mesmas camélias que Sarah colhera formavam um bonito arranjo no centro da mesa. Novamente a delicadeza dos detalhes a impressionaram, reacendendo a dúvida sobre se haveria um toque feminino no acabamento de renda dos guardanapos de linho, na escolha da porcelana e dos cristais, no cachepot com folhas secas sobre a cristaleira. — Sarah tem habilidade para fazer arranjos de flores — observou. — Isto é, eu presumo que tenha sido ela quem arrumou as flores. — Sim, com a ajuda de Mary. Apesar das inclinações sufragistas, Mary não deixa de valorizar as artes femininas mais delicadas. Você a conhecerá em breve. Acho que gostará dela. — Tenho certeza que sim — comentou Prudence, cautelosa. Gideon falava como se esperasse que a participação dela em sua vida se tornasse maior, mais importante; como se fosse natural fazer amizade com a governanta de Sarah, ajudar a menina com o dever de casa, compartilhar um jantar a dois. Um jantar que ele próprio havia preparado. Como se não visse o que havia entre eles como o romance passageiro ao qual ela se referia quando conversava com as irmãs. Mas, afinal, ela queria que fosse passageiro?


Se Gideon estranhou seu silêncio, não demonstrou. Serviu duas taças com vinho e ambos se serviram de caviar com torradas. Enfim, tocou a sineta ao lado da mesa e não demorou para que uma empregada de uniforme preto entrasse com uma bandeja. — Obrigado, Maggie. Pode deixar que eu sirvo. A criada se retirou e Gideon colocou uma salada de legumes tenros com camarões graúdos diante de Prudence. Observou-a com expressão ansiosa quando ela provou a salada, aguardando o veredicto. — Hum... perfeita — elogiou ela, surpresa com a deliciosa combinação de ingredientes. Ele abriu um sorriso satisfeito e, então, concentrou a atenção no próprio prato. Prudence desfrutou a salada leve e bebericou o vinho requintado, ocorrendolhe que não era o momento apropriado para conversar, muito menos sobre negócios. Continuou com a mesma impressão agradável quando o prato principal foi servido, filés de salmão grelhado com um molho ligeiramente picante e batatas gratinadas para acompanhar. Comeram em silêncio, e Prudence admirou-se com a capacidade de Gideon de preparar algo tão delicioso praticamente de improviso. — Tenho de admitir — disse ela, enfim. — Você poderia ser um chef talentoso se não fosse um brilhante advogado. — É o melhor elogio que já me fez — sorriu ele. Tocou a mão dela em cima da mesa, com um brilho sugestivo no olhar. — Com exceção dos que fez na hospedaria... Prudence corou, as lembranças recentes e tórridas povoando-lhe a mente de imediato, uma onda de sensualidade percorrendo seu corpo. Sorveu um gole de vinho, tentando se recompor enquanto se entreolhavam, a atração mútua poderosa e inegável. Mas aonde aquilo os levaria? De repente, precisou desesperadamente saber a história toda do casamento fracassado dele. — Como lhe passou despercebido o fato de que sua esposa estava se interessando por outro? — perguntou à queima-roupa. A expressão de Gideon se anuviou. — Acho que tem o direito de perguntar, mas geralmente prefiro não falar sobre esse assunto. — Lamento, mas é muito importante que eu saiba. Ele meneou a cabeça. — Eu não notei, pelo mesmo motivo que levou Harriet a buscar companhia fora de casa. Andava sempre ocupado demais, envolvido com o trabalho. E Harriet,


não sem certa razão, se ressentiu da pouca atenção que eu lhe dava. Ela era... presumo que ainda seja... muito bonita. E desejável. Ironicamente, o único homem que não reconheceu isso fui eu mesmo, o marido. — Mas ela tinha uma filha. — Sim, mas no caso dela, pelo menos, o instinto maternal não foi suficiente para compensar a falta de atenção do marido. — Ele soltou um suspiro. — Eu não culpo Harriet. Ela me deu o divórcio prontamente, sem nenhuma animosidade. Nunca mais nos vimos, mas, por meio de um acordo amigável, eu propicio alguns dos luxos que o treinador de cavalos não pode lhe dar e prefiro que o contato dela com Sarah se limite a cartões de aniversário. Podemos encerrar o assunto agora? — Claro. Não quis abrir antigas feridas, mas... — Prudence se calou quando a criada entrou com a sobremesa. — O crédito desta iguaria não me pertence — avisou Gideon. — Eclairs com calda de chocolate são uma das especialidades da sra. Keith, nossa cozinheira. — De qualquer modo, preparar um jantar tão especial depois de um dia de trabalho foi um feito e tanto! — elogiou Prudence, com um sorriso. Provou um éclair e achou o recheio de creme irresistível. — Eu saí mais cedo. A tarde estava tranqüila no escritório. Se bem que a manhã foi movimentada. — Esteve no tribunal? — Sim. Gideon falou sobre um caso que estava defendendo, mantendo a conversa leve e descontraída durante a sobremesa. Voltaram, então, para a sala de estar para o café. — Podemos falar sobre negócios agora? — perguntou Prudence, abrindo a bolsa. — Mostre o que conseguiu. — As boas notícias, ou as más primeiro? — Comece com as boas. Prudence entregou a ele os documentos que pegara no banco e começou a explicar, mas Gideon silenciou-a com um daqueles gestos que a exasperava. — Deixe que eu chegue às minhas próprias conclusões. Tome seu café e sirva-se de licor, se desejar. — Não, obrigada. — Poderia me servir um conhaque, então?


Gideon não ergueu os olhos da papelada, nem quando fez o pedido, nem quando Prudence pôs o copo a sua frente. Ela pegou a xícara de café e andou lentamente até as estantes embutidas, sentindo-se ignorada, embora presumisse que não era esta a intenção dele. Ainda assim, era enervante. — Bem... — disse Gideon, enfim. Prudence virou-se para ele. — Amanhã cedo instruirei Thadeus para averiguar a legalidade dessa tal Barclay & Associados. — Gideon deu um tapinha na papelada ainda em seu colo. — Você fez um bom trabalho. — Que bom — retrucou Prudence, com um meio sorriso que expressava uma mescla de tristeza e ironia. — Porque não foi nada fácil mexer na papelada particular de meu pai, falsificar uma autorização que ele assinou sem saber e mentir para o gerente do banco. Me senti muito mal com tudo isso, e o mal-estar continua. — Mas pense que você fez isso por um motivo justo. Às vezes é necessário tomar medidas extremas visando a uma causa maior. — Gideon se levantou e colocou os papéis numa mesa de canto. — Com isto, asseguro que o conde de Barclay se verá em sérios apuros no tribunal. E então você verá que os métodos escusos que teve de usar valeram a pena. — Então, esses documentos serão úteis? — Acredito que sim. E você os encontrou bem a tempo. O julgamento foi marcado para daqui a duas semanas. — Duas semanas! Acha que é tempo suficiente para nos prepararmos? — Não temos escolha. Comece a praticar seu sotaque francês. — Pelo menos, os espiões de Barclay também não terão muito mais tempo para nos investigar — murmurou Prudence, engolindo em seco. Gideon estudou-a, entendendo sua reação. O que fora uma ameaça a longo prazo tornara-se agora uma realidade iminente. Não era de admirar que estivesse pálida. — E o que vamos fazer a respeito da carta ao Mayfair Lady oferecendo informações para o caso? Deve ser respondida? — perguntou Prudence. Gideon pensou por um momento, com o cenho franzido. — Desconfio que seja uma armadilha. — E se for autêntica? — Você deve fazer o que julgar melhor.


— Isso não ajuda muito... — Bem, eu diria que não vale a pena correr o risco — aconselhou ele. — Mesmo que a carta seja bem-intencionada e contenha alguma informação importante, não precisamos dela. Agora venha até aqui. Estou com vontade de beijar você. A abrupta mudança de assunto surpreendeu Prudence. Por alguns segundos ela ficou olhando para Gideon, assimilando as palavras dele, até que abriu um sorriso maroto. — Sim, senhor! — exclamou, dando um passo à frente. Enlaçou-o pelo pescoço e ergueu o rosto convidativamente. O beijo dele foi faminto, possessivo, reavivando o desejo de Prudence, que se entregou àquele momento, recusando-se a ouvir a voz do bom senso. Foram interrompidos por batidas imperiosas na porta da frente, e Gideon ergueu a cabeça, com uma ruga na testa. — Quem pode ser? — murmurou, intrigado. — Não estou esperando ning... As batidas se repetiram, e Gideon se afastou em direção ao vestíbulo, com passos firmes. Prudence seguiu-o, mas parou no início do corredor, enquanto ele abria a porta. Houve um longo silêncio, que a preocupou. — Harriet — disse ele por fim, num tom de voz seco. — Que surpresa. — Achei melhor surpreendê-lo — respondeu uma voz feminina carregada de tensão. — Tive receio de que se avisasse antes, você não me recebesse. — Eu não faria isso — respondeu Gideon, num tom grave e severo, desprovido de emoção. — Entre. A ex-esposa de Gideon entrou no vestíbulo e olhou ao redor com curiosidade, enquanto ajeitava o chapéu de tafetá preto. Seu olhar pousou em Prudence, parada no corredor que levava à sala. — Oh... Você está com uma visita, Gideon. Não pretendia vir numa hora inconveniente... — Ela atravessou o vestíbulo e estendeu a mão para Prudence. — Boa noite. Sou Harriet Malvern. Prudence apertou a mão dela, atônita com a extraordinária beleza de suas feições. — Prudence Duncan — murmurou, forçando-se a sorrir. — Gideon, pode pedir que peguem minha valise? — pediu Harriet, por sobre o ombro! — Tenho certeza de que você não se importa que eu passe alguns dias aqui. Quero tanto ver Sarah! Onde ela está? Já foi dormir?


— É quase meia-noite — respondeu Gideon com o mesmo ar impessoal. Ele fez um gesto na direção da sala de estar. — Mas vamos nos sentar. Você certamente não verá Sarah antes que eu descubra o que está acontecendo. — Ele é tão enérgico às vezes, já notou? — comentou Harriet num tom baixo e conspirador, olhando para Prudence. — Ao que parece, continua o mesmo de anos atrás. Prudence achou melhor não fazer nenhum comentário. Olhou para Gideon e disse, de modo formal: — Bem, está na hora de eu ir embora, sir Gideon. — Oh, não vá por minha causa — pediu a recém-chegada. — Estou cansada da viagem, vou agora mesmo para o meu antigo quarto. Talvez a sra. Keith possa me levar uma sopa. Ela ainda trabalha aqui? — A sra. Keith está deitada — respondeu Gideon, mal disfarçando a contrariedade. Em seguida virou-se para Prudence: — Pode aguardar na biblioteca por alguns minutos? Não devo demorar. Ela o fitou, aturdida. — Não, eu... preciso realmente ir. — Papai? — A voz de Sarah, no alto da escada, os interrompeu. — Quem estava batendo na porta? — Volte para a cama, Sarah — ordenou Gideon, sem responder a pergunta da menina. — Subirei num minuto. Ele segurou o braço da ex-esposa quando ela começou a se dirigir para a escada. — Ainda não — avisou por entre os dentes. — Vá para a sala de estar. Dessa vez Harriet obedeceu sem protestar. Gideon encontrou o olhar de Prudence. — Espere. Lidarei com isto num minuto. — Como assim "num minuto"? — repetiu ela num tom incrédulo, mantendo a voz baixa, uma vez que Sarah estava acordada e curiosa no andar de cima. — É a sua ex-esposa, não é? — Sim, é. Só quero descobrir o que a trouxe aqui, de repente, depois de tanto tempo. — Sim, claro. Eu entendo, mas não vejo como fará isso "num minuto", como diz. Não é um momento apropriado para eu estar aqui.


Prudence deu meia-volta e foi para o quarto de hóspedes, para pegar suas coisas. Vestiu o casaco com mãos trêmulas, esperando que Gideon, parado na porta com ar desamparado, não notasse como a chegada inesperada da mãe de Sarah a deixara abalada. — Com licença. — Prudence passou por ele e caminhou até a porta da frente, contornando uma pilha de malas que contradizia a intenção de ficar apenas "alguns dias". Gideon alcançou-a e segurou sua mão antes que saísse. — Este é um assunto que não diz respeito a você. Vá agora se achar que deve, mas nada mudou entre nós. — Por que acha que não me diz respeito? — retrucou Prudence, tentando manter a voz baixa. — Passamos uma noite inteira na cama juntos. Aquela mulher é uma parte de sua vida. É a mãe de Sarah. Como pode ser tão... tão insensível... para ignorar tanto a ela quanto a mim, como se tudo isto fosse algo banal e irrelevante? Quer que simplesmente fechemos os olhos, fazendo de conta que não aconteceu nada? Ela sacudiu a cabeça, incrédula, libertou o braço e acenou para uma carruagem de aluguel que passava pela rua. — Boa noite. Gideon não fez mais nenhuma tentativa para detê-la. Apenas aguardou até que ela estivesse no interior da carruagem e voltou ao vestíbulo com expressão taciturna. Prudence ajeitou-se no assento e, com um suspiro trêmulo, procurou entender o que acabara de acontecer. Não era culpa de Gideon que Harriet tivesse chegado de repente. Aliás, era uma infeliz coincidência que a mulher tivesse aparecido do nada justamente quando tinham acabado de falar sobre ela. Mas como ele podia achar que não tinha de contornar aquela situação tão delicada, acreditar que em questão de minutos tudo voltaria ao normal? Que tipo de homem ele era? Prudence imaginou como Sarah reagiria ao inesperado reaparecimento da mãe. Era inconcebível que um homem com a inteligência de Gideon não percebesse que estava com um problema sério nas mãos, e que seria necessário um pouco mais do que alguns minutos para ser solucionado. Prudence continuava tão incrédula na manhã seguinte quanto na véspera, quando finalmente havia adormecido. Contar o incidente a Chastity não havia ajudado a desanuviar a mente, tampouco as horas em que ficara se revirando na cama. Acordou com dor de cabeça e exausta, como se não tivesse dormido nada. Olhou para o relógio e viu que ainda não eram sete horas. Virou-se para o outro lado, sonolenta, quando uma batida na porta a surpreendeu.


— Srta. Prue? — chamou Jenkins num tom manso. — O que houve? — Prudence sentou-se na cama. A porta foi aberta, mas, em vez de Jenkins, foi Gideon quem entrou. Estava impecavelmente vestido, com uma pasta de couro na mão. — O que está fazendo aqui? — Preciso conversar com você. — Ele pousou a pasta numa cadeira. — Sir Gideon insistiu em subir, srta. Prue — explicou o mordomo com ar de desculpas. — Está bem, Jenkins. Sei como sir Gideon pode ser persuasivo. Pode me trazer um chá? — Num instante. Devo ir chamar a srta. Chas primeiro? — Não preciso de dama de companhia, Jenkins. — Tarde demais para se preocupar com isso, meu bom Jenkins, Prudence pensou, mas guardou o pensamento para si. O mordomo saiu, deixando a porta entreaberta. Gideon fechou-a e, pegando uma cadeira, sentou-se de frente para a cama, — Bom dia. Não parece muito descansada — notou. — Dormi mal. Onde está sua ex-esposa? — Na cama, presumo. Harriet nunca teve o hábito de acordar cedo. — Está em sua casa? — Onde mais? — Ele pareceu surpreso, depois estreitou os olhos. — Não na minha cama, se foi o que perguntou. — Não foi. — Por que saiu apressada daquele jeito? Expliquei que estava tudo sob controle. Eu só precisava... — Ele parou de falar quando Jenkins entrou com uma bandeja, que pousou no criado-mudo. Lançou a Gideon um olhar de reprovação e saiu, tornando a deixar a porta entreaberta. Gideon levantou-se e fechou-a novamente. — Apenas uma xícara — observou Prudence com um sorriso e balançando a cabeça, enquanto pegava o bule para se servir. — Jenkins não vê intrusos com bons olhos, não importa a hora do dia. — Não faz mal. Prefiro café, de qualquer modo. Como dizia, eu precisava descobrir o que levou Harriet a aparecer de repente na minha porta, para avaliar a situação. Por que correu daquela maneira, como se estivesse fugindo de alguma coisa?


Prudence bebeu um gole de chá. Era impossível ter um diálogo com alguém tão cego a outro ponto de vista. — Não fugi de nada. Só quis deixar você à vontade para resolver um assunto pessoal. Você mesmo me contou que há anos não tinha contato com sua ex-esposa. E Sarah, ficou contente em rever a mãe depois de tanto tempo? — Mais do que qualquer coisa, ela pareceu ficar confusa com a chegada da mãe. Eu gostaria de ter tido oportunidade de prepará-la, de algum modo. Mas Harriet não tem consideração pelos outros quando age por impulso. — Quanto tempo ela vai ficar hospedada na sua casa? — indagou Prudence, com expressão contrafeita. — Até encontrar outro lugar para ficar, creio eu. Ela deixou o tal treinador de cavalos, e não tem para onde ir no momento. — Você não é obrigado a acolher uma ex-esposa, é? —Legalmente, não. Mas, por uma questão ética, acho que sim. Harriet não sabe cuidar muito bem de si mesma. Não tem espírito prático, é muito insegura, dependente das pessoas. Mas o fato de eu hospedá-la em minha casa não nos afeta em nada. — É claro que nos afeta. Ou você é divorciado, ou não é. Eu me recuso a ter um relacionamento com um homem que está vivendo com outra mulher, seja em que circunstâncias for. Como fica Sarah no meio disso tudo? A mãe voltou a morar em casa, mas o pai está namorando outra mulher? — Ela sacudiu a cabeça e pousou a xícara vazia na bandeja. — Sarah é uma menina sensata, inteligente. Se eu explicar, ela vai compreender. — Mas trata-se da mãe dela. É uma relação sobre a qual você obviamente não entende nada. Sarah sentirá lealdade por Harriet pelo simples fato de ser sua mãe. Não vou me envolver numa situação tão delicada. Não tenho esse direito. E você já tem problemas demais para resolver no momento sem ter de complicar ainda mais com um romance. Vamos deixar isso de lado, por enquanto. — Não permitirei que Harriet interfira em minha vida — declarou Gideon, circunspecto, o maxilar rijo. — Ela já fez isso demais no passado. Você faz parte da minha vida agora, Prudence, e continuará fazendo. — Não a mando seu. — Ela afastou as cobertas e se levantou, a camisola longa oscilando em volta dos tornozelos. — Estou farta dos seus ultimatos. Faço minhas próprias escolhas, e estou lhe dizendo que não quero me envolver em sua vida neste momento. Ou, possivelmente, em momento algum — acrescentou, zangada. — Você é muito diferente de mim. Não consegue enxergar meu ponto de


vista. Nem sequer cogita a possibilidade de eu entender melhor sobre uma relação entre mãe e filha do que você. Gideon se levantou e segurou-a pelos ombros. — Se insiste, farei com que Harriet vá embora. — Você não está me ouvindo! — exclamou Prudence, desvencilhando-se. — Não insisto em nada. Acha que eu o encorajaria a deixar desamparada uma mulher tão dependente, e que, além disso, é a mãe de sua filha? Que tipo de pessoa você pensa que sou? Ela foi até a janela e ficou olhando fixamente para a manhã cinzenta de outono. — Não faço parte de sua vida — continuou, mais calma. — Não posso. Não quero estar com um homem que acha que uma simples declaração de que "não há nada com que me preocupar" é o que basta para levar tranqüilamente adiante um romance clandestino. Prudence virou-se para encará-lo. — Não quero ser seu caso secreto, mantido conforme a sua conveniência. — Oh, pelos Céus! — Gideon mal podia conter a irritação. — Nada do que está falando faz sentido para mim. — Sei que não — respondeu ela, amarga. — É exatamente o que estou querendo dizer. — Tenho de ir trabalhar. — Ele apanhou a pasta de couro. — Conversaremos sobre isto depois. — Não há nada a conversar. Ainda está disposto a ser nosso advogado? Gideon virou-se da porta com olhar faiscante, o rosto como que esculpido em granito. — Está insinuando que eu deixaria sentimentos pessoais interferirem em minha vida profissional? Fora um grande erro, percebeu Prudence, tarde demais. Sabia como Gideon se orgulhava de seu trabalho e profissionalismo, e pôr em dúvida qualquer aspecto referente a isso era, para ele, uma afronta. — Não, não estou — respondeu. — Só achei que poderia ser difícil para você trabalhar para um cliente por quem sente hostilidade. — Está dizendo tolices. Não sinto a menor hostilidade por você. — Ele saiu, fechando a porta com força. Prudence afundou na cama. Tudo naquele encontro deixara um gosto amargo. Ela não havia se expressado com clareza, e Gideon, a sua maneira


habitual, tentara conduzir o assunto com o excesso de confiança e senso de superioridade que tanto a irritavam. De fato, não tinham sido feitos um para o outro. Ela recostou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos. Não o culpava por querer proteger Harriet... ao contrário, era uma atitude louvável, digna de um cavalheiro. Mas ressentia-se por ele não entender que aquilo significava um problema para ela. E isso era, em essência, o que havia de errado naquele relacionamento. Duas pessoas tão diferentes em tudo, com personalidades tão incompatíveis, estavam fadadas a uma relação fracassada desde o início. Talvez fosse melhor acabar de uma vez, antes que o envolvimento emocional se aprofundasse e a situação ficasse ainda mais complicada. Mas apesar de toda aquela reflexão lógica e racional, Prudence continuava se sentindo vazia, frustrada e estranhamente perdida. — Estou tão confusa — comentou ela com as irmãs mais tarde, naquela mesma manhã. — Gideon diz que está interessado por mim, que eu vou gostar da governanta da filha dele, mostra-se contente com a possibilidade de eu ajudar Sarah com o dever de casa, prepara um jantar só para nós dois. E de repente a ex-esposa dele aparece e ele diz para eu não me preocupar, porque o assunto não me diz respeito, que ele vai resolver tudo num instante e que nada entre nós deve mudar por causa disso. Ela tornou a encher a xícara de café e pousou o bule na mesinha de centro, na sala íntima. — Como é possível que ele não veja a contradição essencial nisso tudo? Aquela era a pergunta que as três se faziam repetidamente e para a qual não conseguiam encontrar resposta. — Acho que de agora em diante, até a data do julgamento, o melhor que você tem a fazer é falar com ele somente sobre assuntos referentes ao jornal e ao processo — aconselhou Constance. — Isso manterá a devida distância entre vocês e restringirá as coisas ao âmbito exclusivamente profissional. Deixe que Gideon resolva os assuntos particulares dele, e depois que o julgamento passar, e tudo isso estiver resolvido, você poderá refletir e decidir como se sente e o que realmente quer. — Bem, uma questão já está resolvida — lembrou Chastity com um suspiro. — Podemos esquecer de tentar encontrar uma noiva para ele. Se eleja não estava lá muito entusiasmado antes, imaginem agora, com a ex-esposa em casa. Teremos de nos contentar com a partilha de oitenta por cento. — Vinte por cento é melhor do que a falência — disse Prudence. — Isto, se conseguirmos uma indenização. Não sabemos nem se vamos ser absolvidas, quanto mais se vamos ser indenizadas.


— Tem razão — concordou Constance. — De qualquer modo, o pagamento dos oitenta por cento obviamente está vinculado à indenização, portanto, vamos deixar que Gideon faça a sua parte, e você, Prue, procure ter paciência e não pensar no assunto até que o julgamento termine. — Na verdade, não há muito em que pensar — suspirou Prudence. — Foi um erro ter me envolvido com ele, e eu sabia disso desde o início. Mas não dei ouvidos ao bom senso. Somos totalmente incompatíveis, vemos o mundo sob prismas diferentes. Por isso, não vou mais ficar obcecada com esse assunto. A única coisa é que... — Interrompeu-se bruscamente. — Não direi mais uma palavra. Prometo. Vamos praticar meu sotaque francês. Tentem pensar em perguntas realmente desagradáveis e agressivas, atacando o jornal. Vou tentar responder de maneira adequada. Trabalharam até a hora do almoço e Prudence fez esforço para se concentrar, mas a imagem de Harriet Malvern não a deixava. Como poderia competir com uma mulher tão bonita? Não que ela estivesse competindo, repreendeu-se. Não tinha intenção de reatar o breve romance que tivera com Gideon. O que tinha de fazer era guardar para sempre a doce lembrança dos momentos que vivera nos braços dele. — E, então, teve sorte? — perguntou Gideon a Thadeus, quando o assistente entrou no gabinete. — Oh, sim. Não encontrei nenhum, registro oficial de uma empresa chamada Barclay & Associados. Verifiquei com os advogados que fizeram a hipoteca da casa de número dez da Manchester Square. Não são, é claro, os mesmos que lorde Barclay contratou para este processo e que designaram sir Samuel para a atuação no tribunal. A reputação destes é irrepreensível. Mas os outros, já pela localização do escritório, eu diria que não inspiram muita confiança. Gideon aprovou com um gesto de cabeça. — Ótimo. Prossiga. — Eles se mostraram relutantes a princípio, mas eu os convenci de que a falta de cooperação podia ser prejudicial, que a maneira como praticam a lei poderia acabar sendo investigada. Descobri que essa firma de advocacia, especificamente, esteve envolvida em várias transações anteriores para a Barclay & Associados. Eles têm documentos que mencionam o estabelecimento, mas nenhum registro oficial que prove a legalidade da empresa. — Thadeus entregou a Gideon uma pasta. — Na verdade, eles praticamente admitiram que não registraram a empresa. — Então, esses papéis eram apenas destinados a enganar os desavisados. — Foi a minha conclusão.


— E, se a empresa que está em poder da hipoteca não existe legalmente, isso também é uma fraude. Excelente. Temos tudo o que precisamos. Obrigado, Thadeus. Depois que o assistente se retirou, Gideon verificou a papelada por alguns momentos e, então, afastou-a para o lado, sem conseguir se concentrar. Mulher teimosa, cabeça-dura! Talvez ela entendesse mais sobre mães e filhas do que ele, mas, a julgar pela confusão em que as irmãs Duncan haviam se metido, pareciam saber pouco sobre o que constituía um bom relacionamento entre pais e filhas. Sem dúvida, o inesperado aparecimento de Harriet fora um inconveniente, mas ele assegurara que resolveria o assunto a seu modo. Por que Prudence tinha de complicar tanto as coisas? Praguejando baixinho, Gideon muniu-se de papel e caneta-tinteiro. Era o advogado dela e, no momento, aquilo era tudo que queria ser. — O que ele diz, Prue? — perguntou Chastity, hesitante, depois que Prudence passou um tempo longo demais lendo a carta de uma só página. — É de Gideon, não é? — São apenas detalhes sobre o caso. — Então, podemos vê-la? Prudence entregou a carta à irmã. — Está formal e impessoal. — Isso é bom, não é? — perguntou Chas. — Sim, é claro — murmurou Prudence com frieza. — São apenas negócios, como concordamos. Constance trocou um olhar significativo com Chastity e concentrou-se, em seguida, na carta. — Parece promissora, depois que se decifram todos os termos legais. A empresa de Barclay não existe legalmente e, portanto, não pode exigir pagamentos de papai. Gideon parece dizer que está confiante de conseguir pressionar Barclay no tribunal e induzi-lo a algum tipo de confissão. — Passou a carta para a irmã caçula. — Sim, foi o que entendi — concordou Prudence. Chastity ergueu os olhos da carta. — Ele não menciona nada sobre uma última reunião conosco antes do julgamento. Já sabe tudo o que terá de dizer, Prue?


— Não. Eu sei o que Gideon quer, isso ele deixou claro desde o começo. Quer que eu me apresente como uma mulher calorosa, afável, que conquiste a simpatia dos doze jurados e que não os ofenda de modo algum. Não devia parecer uma solteirona amarga, geniosa e ressentida, pensou Prudence, com um doloroso aperto no peito. No fundo, esta devia ser a maneira como Gideon ainda a via.

Capítulo X

— Acordou cedo hoje, papai — observou Prudence quando entrou na sala do desjejum. Arthur estava formalmente vestido, ainda sentado à mesa, mas parecia já ter terminado a refeição. — Esqueceu que é hoje o julgamento do caso de Barclay? — disse, empertigado. — Tenho de comparecer ao tribunal esta manhã. — Oh, sim, claro. — Prudence foi até o aparador e, com um nó no estômago, descobriu-se sem o menor apetite. — Tinha me esquecido. — Bem, é um dia muito importante — declarou o pai, levantando-se. — Por favor* avise Jenkins que não voltarei para o almoço. Ela e Chastity também não, mas Prudence limitou-se a assentir com um gesto de cabeça e sentou-se. — Bom dia, papai. — Chastity passou por ele na porta. — Já está de pé? — É hoje que ele irá depor no tribunal — disse Prudence antes que o pai respondesse. — Oh, sim, desculpe — respondeu Chastity. — Boa sorte. — Não sei por que acha que vou precisar de sorte — retrucou Arthur. — É um caso ganho. Até o final do dia, aquele pasquim covarde estará aniquilado e fora de circulação de uma vez por todas. Marque minhas palavras. — Ele meneou a cabeça com ar decidido e retirou-se. — Oh, Céus, espero que não! Como está se sentindo, Prue? — Péssima — confessou ela. — Não consigo comer nada. Nem mesmo engolir um pouco de chá. Vou subir e me arrumar para sairmos.


Em seu quarto, Prudence examinou-se no espelho. Estava pálida e abatida, com sombras escuras sob os olhos. Não que a aparência física tivesse alguma importância no momento. Ninguém iria vê-la sob o espesso véu preto que usaria. Evidentemente, Gideon a veria sem o véu quando se encontrassem em seu gabinete naquela manhã, mas não estava preocupado com a aparência dela. Os contatos dele não apenas tinham sido esparsos ao longo das duas últimas semanas, como haviam também sido destinados às três irmãs, abordando exclusivamente o assunto do julgamento. Não tocara no nome de Harriet, nem de Sarah, nem mencionara nada pessoal. Ao que tudo indicava, os dois haviam rompido da maneira rápida e sem complicações que ela pedira. Permanecia com o coração intacto, assegurou a si mesma. Sem mágoas, nem sofrimento algum depois daquela fugaz explosão de paixão na hospedaria. Não era surpresa que a tensão acumulada durante aquelas duas semanas se evidenciasse em seu semblante, refletiu Prudence. Ela e as irmãs estavam em constante estado de alerta, protegendo-se de possíveis espiões ou detetives, suspeitando de cada item de correspondência que entrava na casa. Haviam suspendido a publicação do Mayfair Lady naquele período. Ela e Chastity mal haviam saído de casa, e Constance realizara apenas os deveres sociais que sua posição como esposa de Max exigia. As três haviam se reunido durante horas a fio na sala íntima, repassando cada detalhe do caso, preparando-se para perguntas hostis, conforme Gideon havia demonstrado, e o tempo inteiro Prudence praticava o sotaque francês. Tomada por um nervosismo crescente, ela pediu à irmã que saíssem mais cedo do que o previsto, assim como fizera o pai bem antes, certamente também inquieto. As duas pegaram uma carruagem de aluguel até Victoria Embankment e, então, ficaram caminhando pelos jardins de Temple, falando pouco uma à outra, até que chegasse o horário de Constance ir encontrá-las. O dia estava nublado, as águas do rio cinzentas e turvas, e um vento cortante soprava entre as folhas remanescentes das árvores. Prudence ajeitou melhor o casaco, erguendo a gola, mas ainda tremia. — Está nervosa porque irá vê-lo? — perguntou Chastity de repente. — Não, por que estaria? — Não sei. Apenas achei que sim. — Ele é nosso advogado, Chas. Só estou nervosa com a possibilidade de ele não ter êxito em nossa defesa. — Sim, é claro. Ah, aí vem Con. — Estou atrasada? — perguntou a irmã mais velha, andando depressa na direção das duas.


— Não, nós viemos mais cedo. Não suportei ficar em casa mais um minuto. Constance estudou-a. — Está preparada? Prudence sabia que a irmã não se referia ao depoimento. — Você é tão ansiosa quanto Chas. É claro que estou. Gideon é nosso advogado. Além disso, não significa mais para mim do que uma mera lembrança de um romance passageiro em Henley, que tive duas semanas para superar. E tenho certeza de que a situação é a mesma para ele. Vamos. O Big Ben soou nove horas quando elas chegaram ao escritório de advocacia. Thadeus conduziu-as ao gabinete de Gideon, que pediu ao assistente que lhes levasse chá. Enquanto se sentava com as irmãs diante da ampla mesa, Prudence soube que não superara coisa alguma. Bastara ouvir a voz dele, ver o semblante neutro e cordial, para que seu coração disparasse e todas as lembranças voltassem à tona. Gideon observou a todas, mas deteve-se em Prudence por um momento a mais, e ela teve de se obrigar a sustentar o olhar dele, até que o desviou para a papelada a sua frente. Parecia cansado, quase tanto quanto ela se sentia. Os pensamentos de Gideon eram semelhantes aos de Prudence. Reparou como ela parecia exausta, da mesma forma que ele. As duas últimas semanas tinham sido as piores que ele se lembrava de ter passado na vida, e não apenas devido ao caos que o aparecimento inesperado de Harriet causara no equilíbrio de Sarah. Prudence, sem dúvida, estava correta naquele aspecto. Manter distância dela fora uma das coisas mais difíceis que já se obrigara a fazer. Mas Prudence deixara sua vontade clara. E, assim, ele se dedicara totalmente ao caso, trabalhando muito mais horas do que o habitual. Prudence jamais teria oportunidade de questionar seu profissionalismo outra vez. — Perdoe-me por comentar isto — disse —, mas você não me parece muito disposta esta manhã. — Foram duas semanas desgastantes. Não tenho dormido bem. E, para ser franca, estou com os nervos em frangalhos esta manhã, como deve imaginar. — Havia um quê de acusação nas últimas palavras. — Já era o esperado — declarou Gideon, num tom de voz tão calmo que ela teve de se conter para não lhe atirar um objeto qualquer. — Bem, explicarei o que acontecerá esta manhã. As três ouviram atentamente enquanto ele explicava os procedimentos e Thadeus lhes servia chá. Prudence estava tão absorta que acabou comendo uma


torrada inteira com mel, sem se dar conta. Para sua surpresa, sentiu-se mais forte, com o estômago menos revirado. — Para concluir — declarou Gideon, enfim —, sir Samuel notificou que convocará o Mayfair Lady ao banco dos réus. Ele tentará desacreditar a publicação aos olhos do júri antes que eu tenha chance de fazer a defesa. Pode esperar um interrogatório agressivo, Prudence, mas se ele causar algum dano significativo, terei a oportunidade de repará-lo quando chegar minha vez de chamá-la. — Gideon abriu um sorriso encorajador. — Se eu conseguir arruinar a credibilidade de Barclay o suficiente quando interrogá-lo, é possível que vocês tenham um julgamento relativamente fácil pela frente. — A não ser que eles conheçam nossa identidade — comentou Prudence. — Achamos que não, mas não temos certeza. — Não conhecem. — Como sabe? — interveio Constance. Ele sorriu. — Há maneiras secretas neste ramo de se descobrir certas coisas. — Presumo que não tenha lhe ocorrido que, se tivéssemos sabido disso, teria sido mais fácil para nós, não é mesmo? — apontou Prudence. — Precisei esperar até o último minuto para ter certeza. As coisas podem mudar de um instante para o outro. — Entendo — murmurou Prudence. Pelo menos era um alívio que ela e as irmãs pudessem manter a identidade preservada. — Conversaremos sobre como foi a manhã durante o recesso para o almoço. — Gideon se levantou. — Bem, acho que podemos ir. Constance, você e Chastity devem sentar nos fundos da galeria e cobrir o rosto com véu. Será melhor se ninguém no banco das testemunhas as vir. Enquanto Gideon vestia a toga e a peruca, e suas irmãs ficavam atentas às instruções, Prudence ponderou que ele mantinha absoluta postura profissional, não dando o menor indício de que o que haviam partilhado em Henley significara algo. A reação dela logo que o vira naquela manhã fora uma insensatez, e era melhor que fosse esquecida. O caso seria julgado num pequeno tribunal de Old Bailey, com um número limitado de cadeiras para espectadores, o que, segundo Gideon, era um ponto favorável. Deveria haver alguns repórteres, colunistas de mexericos e, talvez, um ou outro membro da sociedade londrina, movidos pela curiosidade, mas seguramente não confrontariam uma multidão. Na ante-sala, as irmãs cobriram o rosto com os véus e, então, Constance e Chastity foram até a galeria, que já estava quase lotada, e se sentaram atrás de um pilar na última fileira.


Prudence aguardou que Gideon fosse buscá-la. Não estava mais tão apreensiva e esforçou-se ao máximo para se concentrar na missão que tinha pela frente. — Está pronta para entrar? — perguntou Gideon, voltando à ante-sala. — Sim. Como está meu véu? — Impenetrável. Como está o sotaque? — Afiado. — Ótimo. Venha. Gideon pôs a mão no ombro dela, e Prudence sentiu-se reconfortada com o toque, com a sensação de apoio. Ele não a desapontaria. Não naquela situação. As pessoas presentes no recinto do tribunal se viraram para observá-los quando seguiram pelo corredor estreito até a mesa da defesa. Prudence ouviu os sussurros especulativos, mas não olhou ao redor, apenas ocupando a cadeira que Gideon indicou. Ele sentou ao lado dela e pousou seus papéis na mesa, com uma serenidade admirável. Todos se levantaram quando o juiz entrou e ocupou seu lugar na tribuna alteada. Pela primeira vez, Prudence lançou um olhar à mesa oposta. Lorde Barclay tinha um ar ao mesmo tempo complacente e maldoso, notou ela, com profunda aversão. Samuel Richardson parecia mais velho que Gideon, mas, usando o mesmo traje antigo, era difícil distingui-los. Até que começaram a falar. Então, ficou mais fácil. Prudence admirou-se em observar que Gideon, com sua voz cordial e agradável, não foi tão contundente no discurso de abertura, soando quase conciliador. Samuel, por outro lado, mostrou-se intolerante, hostil, a voz elevando-se bastante enquanto acusava a publicação de farsa deliberada para manchar a reputação de um dos mais estimados membros de "nossa sociedade, Meritíssimo". Prudence cerrou os dentes, furiosa. Vira o pai sentado na primeira fileira atrás de Barclay e seu advogado e, ao pensar no que haviam feito a ele, sua ansiedade desapareceu, dando lugar a um forte instinto protetor. Quase podia sentir o espírito da mãe a seu lado. Era uma fantasia absurda, disse a si mesma, mas estava disposta a fazer uso de toda a ajuda que pudesse obter. O testemunho de Barclay só fez aumentar sua determinação. Ele foi desdenhoso, hipócrita e mentiu deslavadamente. Depois que Samuel terminou de interrogá-lo e passou a vez ao colega, Gideon se levantou, sorrindo, e cumprimentou lorde Barclay. — Está sob juramento — lembrou num tom amistoso.


E, dali em diante, mostrou-se implacável. Aquele era o advogado que Prudence esperara, aquele que pudera ver em ação. Impiedoso, persistente, não deixando passar nada, até conseguir arrancar da testemunha as respostas que queria. Samuel fez várias objeções, algumas mantidas pelo juiz, e que Gideon acatou com um meneio de cabeça. Prudence sentiu-se gelar quando o nome de seu pai foi mencionado pela primeira vez. Ela o viu erguendo mais a cabeça com ar surpreso, e depois disso não pôde mais olhar para ele, enquanto Gideon expunha o esquema fraudulento, a situação ilegal da empresa, a exigência de um vultoso pagamento mensal e, finalmente, a hipoteca da casa no número dez da Manchester Square. Depois que o conde foi reduzido a um mero farrapo humano no banco das testemunhas, Gideon retomou seu ar carismático inicial e disse: — Posso concluir, lorde Barclay, que nunca houve a intenção de se construir a assim chamada Ferrovia Trans-Saariana? Peço que considere quantos outros de seus amigos foram persuadidos a investir no que agora se revelaram empreendimentos duvidosos. Quantos outros amigos foram obrigados a ceder à sua empresa ilegal a hipoteca de suas propriedades? — Tudo isso é calúnia! — protestou o conde, pálido, coberto de transpiração. Olhou para o juiz. — Eu faço um apelo, Meritíssimo. — Sir Samuel? — sugeriu o magistrado. O advogado de Barclay levantou-se pesadamente. Quando falou, sua voz grave soou cansada, resignada. — Solicito um recesso e tempo para conversar com meu cliente, enquanto examinamos mais atentamente os documentos em questão, Meritíssimo. O magistrado bateu o martelo. — A sessão recomeçará às duas horas da tarde. Gideon voltou à mesa e tocou a mão de Prudence de leve. — As coisas estão correndo bem, creio eu. Receio não podermos ir almoçar num bom lugar, uma vez que você não pode tirar o véu em público, mas providenciei um lanche agradável em meu gabinete. — Para minhas irmãs também? — Claro. Thadeus as levará até lá assim que a sala se esvaziar e não houver olhares curiosos à espreita. Ele a conduziu para fora do tribunal, ignorando algumas perguntas dirigidas a ambos, até uma rua transversal onde uma pequena carruagem de aluguel os aguardava.


— Como está se sentindo até o momento? — perguntou, estudando-a quando ela ergueu o véu do rosto, no interior da carruagem. — Melhor que Barclay. — Ela riu, um pouco trêmula. — Você acabou com ele. — Quase. — Acha que pode aniquilá-lo mais? — perguntou ela ansiosamente. — Preciso que seu pai termine de fazer isso para mim. — Oh. Prudence compreendeu naquele momento. Seu pai tinha de confirmar que fora induzido, por um homem a quem tinha como amigo, a investir num esquema fraudulento, destinado apenas a lhe extorquir dinheiro. Se ele insistisse em se manter ao lado do amigo, alegando que este nunca o havia lesado, que sempre estivera ciente dos detalhes do empreendimento e que hipotecara a casa por livre e espontânea vontade, o caso estaria perdido para ela e as irmãs. A alegação de fraude perderia todo o respaldo se a pessoa supostamente vitimada declarasse não ter sido prejudicada. E foi o que Prudence explicou a Constance e Chastity, enquanto comiam sanduíches e frutas no gabinete de Gideon e ele fazia alguns esclarecimentos adicionais. Por fim, avisou: — Prudence, presumo que sir Samuel irá chamar o Mayfair Lady primeiro. Ele não pode se arriscar a convocar seu pai logo em seguida ao depoimento de Barclay. — E, com o meu depoimento, tenho de conseguir fazer com que papai mude de lado — declarou ela com firmeza e convicção. Gideon meneou a cabeça. Queria estreitá-la em seus braços, beijá-la e afastar o pânico que transparecia nos olhos dela. Mas, se viesse a surgir uma oportunidade para demonstrações de carinho, aquele certamente não era o momento apropriado. — Muito bem. — Ela suspirou. — Eu gostaria de conversar com minhas irmãs a sós, se não se importa. — Claro. — Gideon se levantou para sair, mas hesitou junto à porta. — Só precisam me comunicar qualquer decisão que seja relacionada ao seu depoimento, Como seu advogado, não posso ser pego de surpresa. — Nós entendemos. As três permaneceram em silêncio por um momento, e então Prudence disse: — Todas nós sabemos o que eu tenho de fazer. — A questão é: de que maneira, sem revelar a sua identidade a todo o mundo? — ponderou Constance.


— Tenho uma idéia. — Chastity inclinou-se para a frente e segredou seu plano às irmãs. Prudence teve a sensação de que havia ocorrido uma mudança sutil na atmosfera do tribunal naquela tarde. Percebia um tom mais alerta nas conversas murmuradas, nos olhares intrigados em sua direção, enquanto todos aguardavam o retorno do juiz. Seu coração batia descompassado, e sentia as faces ruborizadas sob o véu, bem como uma desconfortável camada de transpiração na testa. Gideon, por sua vez, parecia tranqüilo como de costume, sentado calmamente a seu lado enquanto esperavam. Quanto ao pai, estava pálido feito cera, imóvel na cadeira, com o olhar fixo em algum ponto distante. — Todos de pé, por favor — disse o meirinho. O tribunal levantou-se, e o juiz ocupou seu lugar, olhando em expectativa para o advogado de lorde Barclay. — Sir Samuel? O advogado se levantou e declarou num tom grave; — Chamamos o Mayfair Lady ao banco dos réus, Meritíssimo. — A publicação propriamente dita? — indagou o juiz, incrédulo. — Uma representante da publicação, Meritíssimo. Uma... — Houve uma ligeira pausa para enfatizar o insulto. — Uma dama, pelo que entendemos, Meritíssimo, que prefere ser conhecida simplesmente como madame Mayfair Lady. — Incomum — observou o juiz. — Uma publicação pode fazer o juramento? Gideon levantou-se. — Uma representante da publicação pode fazê-lo, Meritíssimo. Se me permite, cito o caso Angus versus o Northhampton Herald, de 1777. O juiz meneou a cabeça devagar. — Faz alguma objeção a uma representante, sir Samuel? — Não, Meritíssimo. Ela é um membro da espécie humana, creio eu. O comentário produziu um murmúrio de espanto no tribunal. Prudence endureceu o olhar através do véu. Gideon não esboçou reação. — Muito bem — disse o magistrado. — Chamamos, então, a madame Mayfair Lady. Prudence se levantou e caminhou sem hesitação até o banco. O meirinho colheu seu juramento e ela se sentou, dobrando as mãos sobre o colo.


Samuel aproximou-se, fazendo-a lembrar um corvo maléfico, com a toga preta farfalhando a sua volta e uma expressão perversa no rosto. — É a responsável por esta publicação? — Ele sacudiu um exemplar do jornal perante o tribunal com ar desdenhoso. — Oui, monsieur... hum, sim, perdoe-me. Sou uma das responsáveis pela edição — declarou Prudence, desdobrando-se para manter o sotaque convincente. — É francesa, pelo que posso notar? — De Ia France, sim. — É um hábito de seu jornal desonrar a reputação de membros de nossa sociedade, madame? — Não — respondeu ela simplesmente, e notou o discreto gesto de aprovação de Gideon. A orientação dele fora para ater-se sempre à simplicidade, e elaborar apenas quando não houvesse escolha. — Como classifica este artigo sobre um dos mais respeitados membros de nossa aristocracia, madame? — Como verdade, monsieur. — Eu o chamaria de calúnia e difamação. — Fomos fiéis a nossa pesquisa. Os outros também assim o fizeram. — Outros! — explodiu o advogado de repente. — O Pall Mall Gazette, talvez. E todos conhecemos o teor sensacionalista daquele tablóide. Suas acusações infundadas, madame, apenas forneceram o pretexto necessário a um conhecido representante da imprensa marrom. — Não foram infundadas, monsieur — declarou ela no carregado sotaque francês. — Tivemos testemunhas. Mulheres que também falaram ao Pall Mall Gazette. — Mulheres perdidas! Das ruas! A sociedade chegou a isto? Colocamos a palavra de uma mulher de reputação duvidosa contra a de um membro da nobreza? — Ele girou teatralmente, gesticulando para a bancada do júri, antes de virar-se novamente para a ré. — Sir Samuel, é assim que chama as mulheres que sofrem abuso daqueles que supostamente têm supremacia sobre elas? Mulheres perdidas, rameiras, meretrizes, prostitutas... — Prudence interrompeu-se, dando-se conta de que esquecera momentaneamente o sotaque e quebrara uma das principais regras de Gideon. Deixara-se levar pela indignação e estava revelando seu verdadeiro eu.


— E essas mulheres são defendidas por harpias, ao que parece — disse Samuel, virando-se novamente para menear a cabeça para o júri, confirmando os temores dela. Prudence respirou fundo. — Divulgar as injustiças cometidas pela sociedade, monsieur, é parte do propósito de nossa publicação. Eu reafirmo que tivemos provas irrefutáveis para as nossas acusações contra lorde Barclay. — E quanto às acusações de improbidade financeira? — Samuel mudou de assunto abruptamente. — O que a senhora... o que este... jornaleco... poderia saber a respeito dos detalhes de negócios entre dois amigos... dois grandes amigos de longa data? Acredito, madame, que a senhora e seus colegas editores, tinham motivos pessoais para querer se vingar do conde de Barclay e inventaram os fatos a sua conveniência. — Não é verdade. — Não é verdade que se insinuou para o conde e que seus avanços foram rejeitados? — Ele estudou-a como se pudesse ver seu rosto através do véu negro. Prudence riu. Não pôde evitar, mesmo vendo que o pai olhava abruptamente em sua direção, com expressão alerta. — Acha isso engraçado, madame? Era evidente que seu riso desconcertara o advogado. Á acusação leviana e mentirosa dele, afinal, fora destinada a abalá-la. — Muito, monsieur — respondeu Prudence. — Minha mãe me ensinou a achar a presunção masculina... engraçada... ridícula. — Deu de ombros e riu novamente. Aquilo podia não tê-la feito cair nas boas graças do júri no momento, mas o pai empalidecera ainda mais, os olhos fixos nela. Teria entendido o recado velado? Samuel, evidentemente, não entendera. Estava exultante agora, certo de que tinha o júri na palma da mão. — Presunção masculina — repetiu em voz alta e clara, lançando um olhar aos jurados. — Eloqüentemente colocado. Bem, então, afirma não conhecer o conde pessoalmente. Assim, torno a perguntar: O que poderia saber sobre os assuntos particulares de negócios entre dois homens, amigos de tantos anos? Homens com os quais não teve nenhum contato, cujo caráter desconhece? O advogado tornou a virar-se para os presentes no tribunal.


— Lorde Duncan está sentado ali, senhores do júri, preparado para testemunhar a favor do caráter do amigo. Ele o faria se seu amigo o estivesse apunhalando pelas costas? Daria a um homem em que não confiasse a hipoteca de sua casa? Eu pergunto, cavalheiros do júri, senhoras e senhores, isso não é estranho? Tornando a virar-se para o banco da ré, fez uma mesura zombeteira e voltou para sua mesa, com um gesto de cabeça na direção de Gideon. Gideon levantou-se. — Não tenho perguntas para a representante do jornal, Meritíssimo. Houve uma exclamação coletiva de perplexidade no recinto do tribunal. A ré acabara de ser desacreditada, e o advogado de defesa não estava fazendo nada para reparar isso. Prudence voltou ao seu lugar. Ele tocou-lhe o joelho, num gesto rápido, mas que transmitiu tudo que ela precisava saber. Não ousara olhar para o pai durante o discurso inflamado de Samuel, mas Gideon o havia observado atentamente. Samuel declarou: — Eu chamo lorde Arthur Duncan, Meritíssimo. Arthur Duncan adiantou-se até o banco das testemunhas.

Capítulo XI

Prudence observava angustiada enquanto o pai fazia o juramento perante o tribunal, com voz calma e controlada. Depois que ele se sentou, Samuel aproximouse e o saudou com um sorriso cordial. — Boa tarde, lorde Duncan. — Boa tarde. — Está aqui para testemunhar a favor de seu amigo, lorde Barclay. — Estou aqui, senhor, para testemunhar num processo judicial contra uma publicação conhecida como Mayfair Lady — declarou Arthur com firmeza. Samuel pareceu perplexo, mas recobrou-se depressa e prosseguiu:


— Certamente, milorde. Esse é o assunto que nos traz aqui hoje. Queira, por favor, dizer aos cavalheiros do júri há quanto tempo é amigo de lorde Barclay. — Conheço o conde de Barclay há quase dez anos. — E ele é um de seus amigos mais próximos. — Samuel observava sua testemunha com ar cauteloso. — Eu o teria considerado como tal, sim. O advogado fechou os olhos brevemente e mudou de tática. — O senhor e o conde fizeram várias transações de negócios juntos, pelo que entendo. — Relevante, apenas uma. — Seria o investimento para o projeto da Ferrovia Trans-Saariana? — Sim. Um empreendimento que, segundo fui persuadido a acreditar, traria um retorno financeiro considerável. — Tais empreendimentos costumam fracassar, infelizmente. — Samuel sacudiu a cabeça, pesaroso. — Todos os investidores tiveram prejuízos nesse caso. — Que eu saiba, o único investidor envolvido fui eu mesmo. E, sim, tive grandes prejuízos. O advogado tornou a sacudir a cabeça. — Como também os teve o próprio lorde Barclay. — Disso eu duvido, uma vez que, na ocasião do óbvio colapso desse empreendimento, ele ficou com a hipoteca de minha casa. Isso não pode ser chamado de prejuízo. O advogado olhou para o juiz. — Meritíssimo... — começou, mas foi interrompido. — O testemunho não está sendo exatamente como esperava, sir Samuel? — Não, Meritíssimo. Solicito um recesso até amanhã de manhã. O juiz sacudiu a cabeça. — Não há tempo para isso. Dispense a testemunha, se desejar, e chame a próxima. — Não posso dispensar a testemunha, Meritíssimo, sem deixá-la ao dispor de meu caro colega. — Samuel indicou Gideon com um gesto de cabeça. — Não, isso é bem verdade — declarou o juiz com ar ligeiramente divertido. Sem escolha, Samuel pigarreou e prosseguiu: — Lorde Duncan, hipotecou sua casa de livre e espontânea vontade?


— Eu o fiz porque, na época, achei que não tinha escolha. Não tinha ciência de que a empresa em que eu havia investido para a construção da suposta ferrovia não existia legalmente. Meu amigo deixou de mencionar esse detalhe. — A ênfase nas palavras foi sutil, mas, ainda assim, pairou significativamente pelo tribunal, agora silencioso e atento. — Não tenho mais perguntas, Meritíssimo. — Samuel voltou a seu lugar. — Sir Gideon? — indagou o magistrado. Gideon levantou-se. — Não tenho perguntas para a testemunha, Meritíssimo. — Parece estar tendo um dia fácil hoje, sir Gideon — comentou o juiz. Gideon limitou-se a fazer uma mesura e voltou a se sentar. Arthur deixou o banco das testemunhas e encaminhou-se para a saída do recinto, ignorando os sussurros cada vez mais altos e os olhares interessados que o acompanharam. Prudence fez menção de se levantar para segui-lo, mas manteve-se no lugar quando Gideon segurou seu braço. O juiz olhou em torno do tribunal. — Mais alguma testemunha, sir Samuel? — Não, Meritíssimo. — Então, sir Gideon, o tribunal é seu. — Não tenho mais nada a acrescentar, Meritíssimo. Prudence não ouviu o restante das formalidades. Não prestou atenção às considerações finais aos jurados antes de se retirarem para a sala onde iriam votar. Registrou vagamente o conselho do juiz de que, se os jurados não considerassem a publicação culpada de calúnia e difamação, poderiam pensar em conceder ao Mayfair Lady uma indenização por danos morais pelo inconveniente causado por um processo judicial desnecessário. Prudence só conseguia pensar que, ao longo dos quatro anos anteriores, ela e as irmãs tinham tentado proteger o pai, fazer por ele o que a mãe teria feito. Agora, porém, numa situação pública e extremamente humilhante, haviam-no forçado a encarar a realidade. Fora idéia de Chastity citar uma expressão que a mãe usava habitualmente. Presunção masculina. Aquele termo sempre fazia Arthur protestar, e no instante seguinte dar risada. Aquilo fora suficiente para ele saber quem estava no banco dos réus. Mas, algum dia, o pai as perdoaria por o terem forçado a expor sua vergonha particular diante de todos? Prudence se deu conta da mão de Gideon em seu braço outra vez, conduzindo-a do tribunal para a pequena ante-sala. Chastity e Constance já estavam lá.


— Papai vai nos perdoar? — perguntou a irmã caçula, como se lesse seu pensamento. — Por quanto tempo ele poderia continuar vivendo uma mentira? — A observação partiu de Gideon, ainda parado na soleira. Elas se viraram para fitá-lo com contrariedade. Ele ergueu as mãos em defensiva e recuou para fora da sala. Nenhum homem em seu juízo perfeito enfrentaria a ira das irmãs Duncan juntas. — Mas é verdade — comentou Prudence após um instante de silêncio. — Por quanto tempo a situação poderia prosseguir dessa maneira? — Já havia terminado — apontou Constance com ar prático. — Sem o testemunho de papai, nós teríamos perdido, com toda a certeza, e mesmo assim ele teria de enfrentar a realidade e... — interrompeu-se, a voz embargada. A porta se abriu, e as três se viraram, para ver Arthur Duncan entrar e fechar a porta atrás de si. — O advogado de vocês disse que eu as encontraria aqui. — Encarou as filhas num silêncio que pareceu se prolongar por uma eternidade. — Como se atreveram? — perguntou, enfim. — Meus papéis particulares? Que direito acharam que tinham de fazer isso? — Não achamos que tínhamos direito algum — respondeu Prudence. — Mas sabíamos que não havia escolha. Não fizemos nada que mamãe não teria feito. — O Mayfair Lady era uma publicação de mamãe — disse Constance com gentileza. Arthur riu baixinho. — Percebo isso agora. Eu deveria ter sabido o tempo todo. — Não podíamos perder para um homem que... — Prudence calou-se quando viu o pai erguer a mão num gesto imperioso. — Não quero ouvir mais nada. Já ouvi o bastante por um dia. Eu as verei em casa. Você também, Constance. Com isso, Arthur retirou-se, fechando a porta silenciosamente. As três irmãs deram um suspiro coletivo, e então Prudence disse: — Posso parecer insensível, mas sinto um imenso alívio... agora que ele sabe, quero dizer. — Sim — concordou Chastity com ar sério. — Imagino que Jenkins e a sra. Hudson também ficarão aliviados — comentou Constance, no instante em que uma batida à porta anunciava o retorno de Gideon.


— O júri está voltando. Prudence... — Ele indicou a porta aberta. — A votação foi rápida. Isso é bom ou mau? — Prefiro não especular a respeito. Vamos. Pelo tom grave, ela notou pela primeira vez naquele dia que Gideon não estava tão calmo e indiferente quanto aparentava. Os jurados retomaram seus lugares, e o veredicto foi lido: — Concluímos que a publicação Mayfair Lady não é culpada da acusação de calúnia e difamação, Meritíssimo. Prudence sentiu o corpo inteiro amolecendo e ficou grata por estar sentada. Mal ouviu o restante, que discorria sobre a isenção de todas as custas e a indenização de mil libras ao jornal por danos morais. Somente quando tudo terminou, ela se deu conta de que tinham saído vitoriosos. Todos os custos legais seriam pagos pelo lado de Barclay, e portanto Gideon receberia seus honorários. Presumivelmente, muito mais do que os oitenta por cento das mil libras de indenização, pensou ela, enquanto se esforçava para que as pernas não fraquejassem durante a saída do tribunal. As pessoas os cercaram, gritando perguntas em sua direção, mas ela mal prestava atenção ao que acontecia a sua volta. Gideon segurava seu braço, amparando-a enquanto a conduzia até a carruagem de aluguel que os aguardava. Ajudou-a a entrar, enquanto repórteres de vários jornais os rodeavam, bombardeando-os de perguntas. Quando se sentou, Prudence se deu conta de que as irmãs já estavam no interior da carruagem. — Como chegaram até aqui? — Graças a Thadeus — disse Constance. Gideon segurou a porta entreaberta e explicou: — A carruagem as levará até um hotel primeiro. Não queremos que sejam seguidas até em casa. Depois que anoitecer, e eles tiverem desistido por hoje, Thadeus as acompanhará até a Manchester Square. — Você pensa em tudo — observou Prudence. — Faz parte do meu trabalho. A propósito, se for conveniente, farei uma visita a você amanhã de manhã para concluirmos nosso negócio. — Oh, sim. Nosso trato. É claro. — Exatamente. — Ele fechou a porta da carruagem e disse ao condutor que seguisse. — Esse julgamento acabou sendo um bom negócio para o nosso advogado, afinal — comentou Constance.


— Sim, os honorários dele serão pagos por Barclay. Duvido que esteja preocupado. — Eu também — concordou Constance. — Mas, se é o caso, por que ele está ansioso para receber sua parte do nosso acordo? — Acredito que Gideon queira resolver esse assunto todo em definitivo — disse Prudence. — Encerrar de uma vez por todas. — Ela deu de ombros. — É o que eu quero também. — Sei que será um alívio — concordou Chastity, num tom gentil. Buscou o olhar da irmã mais velha na penumbra da carruagem. Constance arqueou as sobrancelhas em silenciosa compreensão. Gideon voltou a seu gabinete. Não sentia a habitual euforia após ganhar um caso... na verdade, sentia-se mais como se estivesse iniciando outro. Livrando-se da peruca e da toga, serviu-se de uma dose de uísque e sentou-se à mesa. Tinha um plano de campanha, exatamente como sempre fazia antes do começo de um julgamento, mas não tinha um plano alternativo. Não havia como. Era como um jogo de altas apostas. Tudo ou nada. E não houvera nada na atitude de Prudence para encorajá-lo a dar um passo tão importante. Tivera uma tênue esperança, não sabia exatamente de quê, talvez de algum sinal de que ela sentira sua falta. Mas Prudence havia se mostrado indecifrável, limitando-se a cumprimentá-lo com ar resguardado ao entrar no gabinete de manhã. Tinha de levar em conta tudo que ela enfrentara naquele dia, lembrou a si mesmo. Com tantas preocupações, sua mente não estava focada em questões do coração. Gideon sorveu um gole do drinque e deu um profundo suspiro. Tinha a impressão de que nunca em sua vida se sentira tão ansioso. — Você foi brilhante, Prue. — Constance sorveu um gole de xerez numa sala particular de um hotel discreto próximo a Piccadilly, onde, enfim, as irmãs Duncan podiam relaxar. — Não sei como conseguiu manter aquele sotaque francês sem parecer uma farsante. — Nem eu. Sempre tenho vontade de rir quando imito esse sotaque. Mas hoje não. Em nenhum momento senti vontade de rir. — Nós também não — suspirou Constance. — Mas terminou. Nós vencemos. O Mayfair Lady e a Cupido estão a salvo. E ninguém sabe que estamos por trás de tudo. — Exceto papai — interveio Chastity. — Talvez ele acabe nos entendendo quando conversarmos logo mais — desejou Prudence. — E talvez até nos perdoe. — Sim.


— Ele entenderá — assegurou Constance. Quando voltaram discretamente de carruagem para casa ao anoitecer, acompanhadas por Thadeus, que tomara todas as precauções para que ninguém as visse, não estavam mais tão certas quanto a uma possível reação compreensiva do pai. Bem, ao menos ele ficaria mais tranqüilo quando soubesse que a casa estava salva, pensou Prudence, olhando para o envelope com a hipoteca que Gideon pedira ao assistente que lhe entregasse. Um ansioso Jenkins confirmou que lorde Duncan se trancara na biblioteca e que havia praguejado, de mau humor, quando ele perguntou se havia acontecido alguma coisa. As três explicaram que haviam ganhado a causa, mas que, para tanto, o pai tivera de descobrir a verdade. — Ah — disse o mordomo —, isso explica tudo, então. A sra. Hudson, por sua vez, meneou a cabeça com ar grave. — Bem, ao menos agora a casa ficará um pouco mais fácil de administrar — falou Prudence. — Não teremos mais de fingir, nem arrumar pretextos para as coisas que faltarem. Jenkins sacudiu a cabeça. — Não sei quanto a isso. Não consigo ver milorde se contentando com sobras e vinho de qualidade inferior. — Não — concordou Prudence. — Ainda teremos de nos desdobrar, mas ao menos não vamos nos sentir agindo pelas costas dele. — Acho melhor irmos vê-lo agora — propôs Chastity. — Não podemos mais adiar isso. — Vocês não adiarão nada — anunciou Arthur, parando na soleira da porta da cozinha. — Presumi que vocês, conspiradores, estariam todos aqui. — Lançou um olhar fulminante ao grupo reunido. — Não finjam que não sabiam nada sobre isto, Jenkins e sra. Hudson. — Pai, isso não tem nada a ver com nenhum dos dois — protestou Prudence. — Pode nos culpar quanto quiser, mas Jenkins e a sra. Hudson só tentaram ajudar e tornar a sua vida mais fácil. Um forte rubor espalhou-se pelo pescoço e rosto de Arthur. — Por alguma razão, todo o mundo pareceu achar necessário me poupar das conseqüências de meu próprio erro. Não é um pensamento agradável. — Ele girou nos calcanhares. — Falaremos mais sobre isso na biblioteca. As filhas o seguiram.


— Não precisam fechar a porta — declarou quando elas entraram na biblioteca. — Está claro que não existem segredos para ninguém nesta casa a não ser para mim. As três não fizeram comentário. — Como persuadiram Fitchley a deixá-las examinar meus papéis pessoais? Prudence contou como tinha procedido. — Não pode culpar o sr. Fitchley — disse por fim. — É evidente que não. Entre todas as coisas desonestas... — Ele deu-lhes as costas e pareceu de repente um homem muito velho, abatido. — Deixem-me sozinho. Não posso encarar nenhuma de vocês no momento. Elas se retiraram, fechando a porta suavemente. — Ele não pode encarar a nós, ou a si próprio? — resmungou Constance. Prudence olhava para a porta fechada e, então, disse abruptamente: — Não, nós não vamos carregar toda essa culpa. Venham comigo. — Ela abriu a porta e marchou biblioteca adentro, seguida pelas irmãs perplexas. — Eu disse a vocês... — Sim, pai, nós ouvimos. Contudo, talvez queira queimar isto. — Prudence pegou o envelope que guardara na bolsa e entregou-o ao pai. — Duvido muito que o conde de Barclay consiga executar a hipoteca depois desta tarde. Arthur abriu o envelope e olhou fixamente para o documento de hipoteca da sua casa. — Ele não tem direito legal algum, então? — disse, quase incrédulo. — Não. Na verdade, nunca teve. Uma vez que a Barclay & Associados não é uma entidade legal, eles não podem colocar propriedade alguma em seu nome. Queime isso, papai. Agora. Arthur olhou para as filhas diante de si, apresentando uma frente unida e determinada. Pensou na esposa e em como todas as três eram parecidas com ela. E pensou em como sentia sua falta, cada minuto do dia. Sabia que as filhas também sentiam falta dela. Ponderou sobre como as três eram a imagem viva da mãe. Num gesto determinado, rasgou o documento ao meio e atirou os pedaços no fogo da lareira. Observou enquanto o papel queimava e se transformava em cinzas. Ele ouviu a porta da biblioteca se fechando e permaneceu olhando para o fogo, sozinho com sua dor. — Prue, tem certeza de que não se importa em falar com Gideon sozinha? — perguntou Chastity na manhã seguinte.


— É claro que não me importo. Precisamos colocar o Mayfair Lady em circulação outra vez o mais depressa possível, e não pegamos a correspondência com a sra. Beedle há mais de duas semanas. Con está escrevendo o artigo detalhado sobre o julgamento, esta manhã, e, portanto é incumbência minha tratar com o advogado. Sempre foi, afinal. — Como você achar melhor — disse Chastity, embora ainda com ar duvidoso. — Bem, vou à casa da sra. Beedle. Vejo você mais tarde. Prudence despediu-se da irmã no vestíbulo e foi até a sala de estar, onde se pôs a ajeitar melhor um arranjo de rosas num vaso, até que Jenkins anunciou a chegada de seu visitante. — Bom dia — saudou Gideon da soleira, com tom gentil. — Bom dia. — Prudence fez sinal para que ele entrasse e se sentasse. — Imagino que tenha vindo acertar nosso negócio. — É o que eu tinha em mente. Ela se sentou no sofá e cruzou os braços. — Não acha que é um pouco cedo? — perguntou, ríspida. — Nós nem recebemos as mil libras ainda. Aliás, não entendo por que isso não pode ser resolvido por carta. Presume-se que, uma vez que a indenização seja paga, o dinheiro irá para você. Bastaria subtrair suas oitocentas libras e nos enviar nossas duzentas. — Bem, não creio que eu poderia fazer isso. — Lamento muito, mas não temos o dinheiro. Não posso dar oitenta por cento de nada a você. Gideon estudou os olhos faiscantes dela, percebendo quanto estava irritada. Teve a impressão, porém, de que toda aquela raiva tinha pouco a ver com a suposta razão de sua visita. — Infelizmente, eu me encontro numa situação difícil — murmurou em tom de desculpas, Prudence o encarou, boquiaberta. — Mas o que... Como pode se encontrar numa situação financeira difícil? Não pode esperar que eu acredite nisso. Tampouco creio que oitocentas libras façam alguma diferença em seu saldo bancário. — Não, não fazem. — Então, qual é o problema? — Prudence se mostrava cada vez mais exasperada. — Como já disse, você receberá a sua parte no devido tempo, e isso


encerra nossa negociação. — Levantou-se abruptamente e lançou um olhar significativo na direção da porta. — Não, não encerra por completo — explicou Gideon, com uma calma irritante. Também se levantou, mas ficou parado no meio da sala, com expressão imperturbável. Prudence foi tomada por súbita cautela. — O que quer dizer? — Se bem me lembro, havia um outro aspecto em nosso acordo de negócios. Uma noiva, não é mesmo? Você, ou melhor, a Cupido, iria me encontrar uma noiva em troca de meus honorários como advogado de defesa no processo. Prudence sentiu a necessidade de se resguardar ainda mais. Havia algo de perigoso no ar. Lembrou a si mesma que aquele homem era um especialista em desnortear as pessoas. Vira-o no tribunal e já se sentira, ela própria, como alvo. Escolheu as palavras com cuidado: — Nunca levou nossa idéia a sério, desde o começo. Só fez brincar com o assunto, nunca pretendeu aceitar nossa proposta como meio de pagamento. — Não é verdade. Eu não brinquei com vocês, ou com a troca de serviços. O que eu disse, segundo recordo, é que preferia encontrar minha noiva sozinho, mas fiquei aberto a sugestões que ampliassem as possibilidades. — Oh. — Prudence franziu o cenho. — Está pensando, então, em conhecer possíveis candidatas. Tenho certeza de que encontrará a pessoa ideal. — Não quero, em hipótese alguma, conhecer as candidatas. — Mas então... Gideon venceu a distância entre ambos rapidamente e silenciou-a com um beijo impetuoso. — Fui claro agora? — perguntou quando afastou os lábios, embora ainda mantendo-a em seus braços. — Não sei ao certo. Você ainda não disse nada, efetivamente. Gideon segurou o queixo de Prudence e fitou-a com olhos perscrutadores, deixando-a com o coração descompassado. — A Cupido cumpriu sua parte do trato. Apresentou-me à única mulher que eu poderia querer como esposa. Prudence Duncan, quer se casar comigo? — E... E Harriet? — Foi a única coisa que ela conseguiu dizer. — O treinador de cavalos voltou para buscá-la na semana passada. Gideon se afastou e correu as mãos pelos cabelos num gesto de frustração. Deixou transparecer aquele quê de vulnerabilidade que ela achava tão cativante.


— E Sarah... Oh, eu preciso da sua ajuda. Eu estava errado... Admito isso, e preciso realmente de você. — Você não é o único que erra — disse Prudence num tom suave, tocando o rosto dele com carinho. — Eu também admito que erro. Gideon beijou as mãos dela. — Você aceita se casar comigo? Prudence abriu um sorriso maroto. — Bem — murmurou, pensativa. — Creio que isso nos pouparia oitocentas libras... Ele a puxou para si, estreitando-a nos braços. — Você é a mulher mais impossível que já conheci. — Sim! — exclamou Prudence, rindo. — Eu também detesto você mais do que tudo! — Bem, então parece que chegamos a um acordo. Com um brilho maroto nos olhos, Gideon a beijou apaixonadamente.

Uma hora depois, Constance e Chastity se encontraram nos degraus da frente da casa. — Foi ver a sra. Beedle? — perguntou Constance, saudando a irmã com um sorriso. — Sim, e trouxe uma grande pilha de cartas. Escreveu seu artigo? — Oh, sem dúvida. Espere só até vê-lo. — Mas você não expôs papai ao ridículo, não é? — Chastity franziu a testa, preocupada. — Chas! — Não, é claro que não fez isso. Desculpe. É que estou tão ansiosa... — Por causa de Prue? Ela esteve com ele? — Sim. Imagino que ele já tenho ido embora, a esta altura. Mas você sabe como ela tenta esconder o que sente... quando está magoada, quero dizer. Eu realmente achei que... Constance abraçou a irmã. — Eu também. Mas os dois são incompatíveis. Prue sabe disso. Chastity assentiu e abriu a porta com sua chave. O vestíbulo estava deserto quando entraram, e as duas se entreolharam, estranhando o fato de Jenkins não aparecer, como de costume.


— Talvez ela esteja na sala íntima — sugeriu Chastity, indo na direção da escadaria. Ela e Constance pararam no meio do vestíbulo quando Jenkins surgiu subitamente nas sombras sob a escada e pousou o dedo indicador nos lábios, enquanto com a outra mão fazia sinal para que elas o seguissem. Intrigadas, as duas foram atrás dele até a cozinha. — A srta. Prue está na sala de estar com sir Gideon — informou o mordomo, sussurrando, como se revelasse um segredo de Estado. — Ainda? — admirou-se Chastity. — Ele deveria ter vindo há duas horas. — E de fato veio, mas a srta. Prue não me chamou para pedir nada. E eu achei melhor não ir perguntar se precisavam de alguma coisa. — Fez bem — aprovou Chastity, e olhou para a irmã. — O que acha, Con? Vamos até lá? — E nos arriscar a apanhá-los em flagrante? — Ora, que bobagem... Eles estão na sala de visitas, afinal. — Bem, acho melhor deixar que percebam a nossa aproximação — aconselhou Constance. Chastity riu. — Tem razão. Podemos bater algumas panelas da sra. Hudson — brincou. — Srta. Chas! — exclamou a sra. Hudson, em tom de riso. — Minha sugestão é que bata na porta, srta. Con — disse Jenkins —, e espere alguns segundos antes de abri-la. — É claro, a solução perfeita! — Constance deu uma piscadela, e Jenkins virou-se de lado, mal reprimindo um sorriso. As duas irmãs voltaram ao vestíbulo e deram alguns passos, fazendo os saltos dos sapatos clicar sonoramente no assoalho. Abriram a porta da frente para em seguida fechá-la, deixando-a bater de leve. Repetiram a manobra e, por fim, se encaminharam à sala de visitas. A porta foi aberta antes que tivessem chance de bater. — Eu teria escutado vocês a dez quilômetros de distância — disse Prudence. — Entrem. Precisamos de um conselho. — Oh. — Aquilo era inesperado, pensou Constance. — Bom dia, Gideon. Ainda estão tratando dos acertos finais? — Na verdade, creio que estamos começando. — Gideon se aproximou com a mão estendida. — Bom dia, Constance... Chastity.


Elas o cumprimentaram e viraram-se para a irmã, ambas ao mesmo tempo. — Prue? — Parece que Gideon resolveu aceitar a alternativa para nosso trato. — Oh! — Chastity abriu um sorriso. — E nós encontramos uma noiva para ele? — Parece que sim. Prudence ergueu a mão e exibiu um lindo anel de esmeraldas, que cintilavam à luz do sol que invadia o aposento. As irmãs a envolveram num abraço forte e caloroso. Em seguida abraçaram Gideon, dando as boas-vindas à família. — Você disse que queria pedir nosso conselho — lembrou Constance. — Oh, sim. Eu estava pensando que deveríamos fugir para casar — explicou Prudence. — Uma cerimônia às pressas em Gretna Green não é a minha idéia de um casamento — protestou Gideon. — Mas pense bem, poderíamos pegar o trem noturno até Edimburgo... é bastante romântico... e então... — Prudence se calou. — Você abomina a idéia. — Não vejo razão para nos escondermos. Não acha que já se escondeu demais? — Sim — admitiu ela. — Mas não acho que seria correto um evento grandioso neste momento. O casamento de Constance foi magnífico, mas agora não Seria apropriado algo assim. Todo esse processo foi muito desgastante, para todos. — Olhou para as irmãs em busca de confirmação. — É o seu casamento, querida — disse Constance. O que você decidir fazer, Chas e eu estaremos a seu lado para apoiá-la. Deixaremos vocês a sós agora, para conversarem melhor a respeito. — Ela meneou a cabeça para Chastity, que a seguiu até a porta. Com a mão na maçaneta, Chas virou-se. — Eu acho que Gretna Green é uma péssima idéia, Prue. Então, ambas saíram. — Se pudéssemos esperar um ano... — começou Prudence. — Não! Não quero fazer isso, tampouco. Qual é a possibilidade de termos uma cerimônia discreta, com uma recepção simples, restrita? — Pode ser tão discreto quanto você desejar, apenas com a sua família e com Sarah. — Você não tem família?


— Meus pais já faleceram, e sou filho único. Se você quisesse um casamento grandioso, eu poderia pensar em um bom número de convidados, do meu lado, mas a única pessoa realmente importante é Sarah. — E Mary Winston? — Claro — concordou Gideon. — Mary deve ser convidada. — Então, chegamos a um acordo. — Vou requerer uma licença especial. Podemos nos casar ainda esta semana. — Sim, é melhor fazermos isso logo antes que eu mude de idéia. — O sorriso feliz de Prudence contradizia suas palavras. — Engraçadinha... — acusou Gideon em tom de gracejo, e ambos riram. — Bem, é melhor eu ir falar com seu pai agora. Prudence retorceu os lábios, contrafeita. — Ele está na biblioteca. Mas tenha em mente que meu pai enfrentou choques demais. Pode não estar exatamente... — disse Gideon dando de ombros. — Posso lidar com seu pai, se você puder lidar com Sarah. Prudence meneou a cabeça, com expressão séria. — Vou me empenhar ao máximo — prometeu. — Ela está incerta em relação às coisas no momento... depois de Harriet... você entende. — Eu entendo. Gideon meneou a cabeça, passou a mão pelos cabelos e, beijando-a rapidamente, saiu da sala.

Epílogo — Chas, está pronta? — perguntou Constance, aparecendo no vão da porta do quarto da irmã caçula. — Prue e papai vão sair dentro de cinco minutos. — Sim, claro. Só estou terminando de ajeitar o chapéu. — Prue está linda. Vamos lhe dar os retoques finais — disse Constance e afastou-se.


Chastity hesitou por um momento antes de seguir a irmã. Pegou na penteadeira a carta que separara da pilha de correspondência que lera nos dias anteriores e olhou mais uma vez para a assinatura. Dr. Douglas Farrell. Era um médico que, aparentemente, estava em busca de uma esposa. Uma companheira. Uma mulher que desejasse se envolver no trabalho dele. Seria aquele o mesmo dr. Farrell que ela vira ao acaso comprando doces na loja da sra. Beedle, quando fora buscar a correspondência? Bem, uma pergunta para um outro dia. Aquela era a manhã do casamento de Prue. — Não sei se quero este véu — dizia ela quando Chastity entrou em seu quarto. — Pareço-me demais com uma noiva convencional. — Então, use-o levantado — sugeriu Constance. — Vamos erguê-lo deste jeito e colocá-lo para trás. Pronto! Está emoldurando seu rosto adoravelmente. — È você é uma noiva — sorriu Chastity. — Pode não ser um casamento dos mais tradicionais, mas ainda há uma noiva e um noivo. — Eu sei. Mas gostaria de estar me casando em Gretna Green. — Prudence soltou um suspiro trêmulo. — Além do mais... será que estarei pronta? — É claro que sim — declarou Constance. — Gideon é o único homem com quem você poderia se casar, Prue. Se ainda não sabe disso, não há nada que alguém possa dizer para convencê-la. — É claro que eu sei disso — murmurou Prudence com ar sonhador. — Você está apenas nervosa, o que é normal — assegurou Constance por experiência própria. — No mais, tudo está perfeito. Prudence virou-se para o espelho. Não via defeito algum no vestido de seda creme que usava, nem na pulseira de diamantes que Gideon lhe dera, nem tampouco nos belos brincos com os quais o pai a presenteara naquela manhã. Apesar do coração disparado e das mãos trêmulas, havia um ar radiante em seu rosto. Era verdade. Tudo estava perfeito, pensou de repente, sorrindo consigo mesma, parte da tensão se dissipando. Gideon era o homem de seus sonhos. Amava-o, e ele também a ela. Era tudo o que uma noiva poderia querer. — Estou pronta. Vamos! Igualmente nervoso, Gideon aguardava no altar da capela lateral da igreja em Westminster. Sarah e Mary Winston estavam sentadas no banco da frente. Chastity, Constance e Max ocupavam o primeiro banco da fileira ao lado. Arthur insistira em conduzir a filha pela nave central até o altar.


O organista começou a tocar a Marcha Nupcial. Gideon olhou para a entrada da capela. Prudence, sua noiva, a mulher que jamais sonharia ter como companheira para o resto da vida, era agora a única que conseguia imaginar a seu lado para sempre. Ela caminhava em sua direção, os passos firmes e decididos como de costume. Ainda assim, pôde notar o ligeiro tremor nos lábios dela e soube que estava tão amedrontada e, ao mesmo tempo, tão certa em relação àquele casamento quanto ele. Arthur beijou o rosto da filha e foi ocupar seu lugar. Gideon pegou a mão dela, os dedos de ambos se entrelaçando. Depois dos votos nupciais e da troca de alianças, ele beijou a noiva. Os dois foram até uma pequena ante-sala para assinar o livro de registros e, quando voltaram à capela, estavam a sós. — Nunca — sussurrou Gideon —, nunca nos separaremos. Nunca. Sabe disso? — Sim — sussurrou Prudence de volta. — O que quer que aconteça, nosso lugar é um ao lado do outro. Amo você. — Também amo você, Prudence. Gideon tornou a beijá-la e não houve nada de formal naquele beijo. Foi uma afirmação veemente do amor de ambos, no altar sereno, iluminado suavemente por velas. Prudence, então, olhou ao redor para a capela deserta. — Você queria um casamento discreto em Gretna Green e, bem, isto aqui agora está mais ou menos parecido. Eu fiz um acordo com suas irmãs — explicou Gideon. — Teremos uma animada celebração em família amanhã, mas, por enquanto, somos apenas nós dois. Ela abriu um sorriso feliz. — Aonde iremos? — Ao início de nossa lua-de-mel, cujo destino, por sinal, é uma surpresa. Terá de confiar em mim. — Eu confio — declarou Prudence sem hesitar. — Agora e para sempre!

Ch 364 jane feather a noiva escolhida  
Ch 364 jane feather a noiva escolhida  
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