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Anne O’Brien

Amor Divino

Tradução/Pesquisa:GRH Revisão: Maria Emilia Leitura Final:Deia Formatação: Ana Paula G,

Nota da Revisora Maria Emilia: Livro bom. Gostei. A autora manteve os personagens com características mais próximas da época, o que não é muito comum. Fora isso não tem muita embromação e as emoções acontecem no tempo certo. E tem um pouco de aventura e mistério também. 1


Nota de leitura final deia: Gostei do livro, tem romance, tem suspense.Adorei ‘Malinder, O Negro’, como nosso mocinho é conhecido..rsrsrsrsrs...Tem uma prima dele, meio atirada, que cria algumas situações irritantes para a mocinha,mas como sempre, os homens não percebem a rivalidade entre as mulheres..rsrsrsrs...Gostei!

Argumento: Nas fantasmagóricas profundezas do priorado de Llanwardine, Elizabeth de Lacy está a ponto de se tornar uma freira quando lhe dizem que tem que se casar com o inimigo ferrenho de sua família. Lorde Richard Malinder deve providenciar um herdeiro, e sua união com a família de Lacy pode ser proveitosa… mesmo que fosse apenas para manter por perto seus inimigos… Elizabeth não tinha esperado sentir uma atração tão intensa, nem encontrar um Richard tão gentil, compreensivo e incrivelmente charmoso. Seus braços pareciam fortes sob


suas mãos e o desejo e a antecipação aumentavam enquanto se dirigiam diretamente ao leito conjugal…

Um Welsh Marche*, 1460 No priorado de Llanwardine, em Welsh Marche, na área fronteiriça entre a Inglaterra e Gales, a pequena sala tinha paredes e chão de pedra e um telhado ondulado. Uma umidade fria impregnava tudo, proporcionando um brilho desagradável à luz da única lamparina. Dava a impressão de que o cômodo estava em desuso fazia muito tempo, exceto naquela noite escura em que duas mulheres e uma gata não podiam deixar de tremer de frio e de medo. A porta estava garantida por dentro com uma tranca, as venezianas fechadas para evitar olhares curiosos. As mulheres estavam sentadas uma de frente à outra e entre elas havia um áspero tampo de madeira apoiado sobre dois cavaletes, no qual em um dos cantos a gata estava deitada com uma bola. As duas figuras estavam cobertas por capas escuras. Uma delas, a de mais idade, era Jane Bringsty, uma mulher gorda, de rosto redondo e vestida com as roupas de uma criada. A outra era Elizabeth de Lacy, filha de umas das principais famílias aristocráticas do Distrito. Pálida e magra era ainda jovem, e ia vestida completamente de negro e levava a touca branca e negra das freiras. Em silêncio, tirou de um saco de lona quatro velas de sebo, que dispôs


formando um quadro diante de sua criada. Jane colocou um prato de barro no centro, encheu-o de água e levantou o olhar. —Tem certeza milady? —Tenho — ela respondeu apesar de seus dentes baterem de frio. —Se for assim… Jane olhou à gata, que deu imediatamente à volta para lavar as patas e as orelhas com estudada indiferença. Com um suspiro de resignação, a mulher remexeu em um bolso e tirou alguns pacotinhos antes de acender as velas, das quais começou a sair uma fumaça acre e densa, quase em tanta quantidade quanto da luz. —A arte da adivinhação é perigosa — ela disse, mudando de postura sobre o tamborete—. E se nos seguiram? E se nos descobrem aqui? —Não nos seguiram, e este hospital está vazio — respondeu, apoiando as mãos na mesa com as palmas para baixo e os dedos separados. Nenhum anel adornava aquelas mãos de nódulos inflamados e pele avermelhada. Apertava os lábios e sua boca ficava reduzida a uma linha fina. —Mesmo assim — respondeu, olhando-a com atenção. Tinha um rosto encovado e sombras tão escuras como hematomas sob os olhos. A moldura que lhe proporcionava a touca não servia para realçá-la, mas ao contrário: as chamas trêmulas e indecisas distinguiam mais seus defeitos. Elizabeth franziu o cenho, irritada. —Faça-o logo, Jane. Você é muito melhor adivinha que eu. —Tenho mais prática, isso é tudo. De um dos pacotes tirou um punhado de folhas de Artemisa e se dispôs a ler o futuro de sua ama. Primeiro espremeu na mão algumas folhas e as colocou nas chamas para que desprendessem seu aroma penetrante. Com os olhos fechados inspirou profundamente e a seguir jogou o resto na água. —Venha para mim pelos Poderes da Palavra — ela entoou apenas em um sussurro, enquanto com o dedo indicador da mão esquerda desenhava patrões aleatórios no centro do recipiente, e seguiu assim


enquanto inspirava profundamente seis vezes. A seguir se deteve para contemplar e interpretar o desenho que tinham feito às folhas. —O que vê? —Cale-se e espere. Elizabeth entrelaçou as mãos para ficar quieta. —E então? Não podia esperar mais. —Tudo está turvo, milady. Nuvens. Um derramamento de sangue — Jane elevou o olhar—. Morte. —A minha? —Não. Para você… uma viagem, provavelmente. Um castelo escuro, mas não sei se o que a aguarda nele seja uma boas-vindas ou um rechaço, um amigo ou um inimigo. Não posso dizê-lo. —Graças a Deus! —exclamou. Uma viagem. —Cale-se, milady. Não é apropriado o nomear aqui. Elizabeth assentiu, mas seguiu perguntando sem deixar de ela mesma olhar para a tigela de barro como se pudesse entender suas imagens. —Quando será essa viagem? Logo? Ou me ficarei velha irremediavelmente antes de partir? Estarei… Elizabeth de Lacy ficou em silêncio imediatamente, com o olhar cravado no que via. Na superfície das águas removidas apareceu um rosto coroado por um cabelo escuro que parecia alvoroçado pelo vento. Olhos cinza, de olhar intenso e tormentoso, pareciam olhá-la com determinação desde aquele rosto extraordinariamente belo. O nariz era reto, as maçãs do rosto marcadas, o queixo firme. Sem dúvida era bonito. E enquanto se admirava por sua simetria e perfeição teve a sensação de cair presa por seu olhar, de que aquele ser se colocava sob a sua pele e grudava em seus ossos. Sentiu um nó formar-se no peito. Era aquilo uma possessão? Respirou fundo e se deu conta de que estava contendo a respiração. Seria obra do maligno? Seria boa ou má aquela conexão com um desconhecido? Uma estranha consciência sensibilizou sua pele e um fino véu de suor molhou a parte de acima de seu lábio superior apesar da umidade e do frio


na sala. Ela levou uma mão aos lábios enquanto os olhos do desconhecido a olhavam severos. Não podia imaginar aqueles lábios curvando-se em um cálido sorriso. Não havia cordialidade neles; apenas um duro e frio cinismo. —Quem é? —perguntou em voz baixa—. Parece um homem capaz de alterar o sonho. A imagem seguia olhando-a fixamente, retendo seu olhar como se fosse capaz de meter-se em sua cabeça e ler os segredos de seu coração, de modo que ela corou. E talvez aqueles lábios se curvassem mal perceptivelmente em um sorriso. Ou talvez fosse só um movimento da água. Elizabeth umedeceu os seus. Jane se separou da mesa e bastou que passasse sua mão para que aquilo voltasse a ser um prato com água e ervas. —Não sei lhe dizer. Esta noite tudo está cinza e indefinido. Mas vejo dois homens nas sombras, ambos no contorno de sua vida. —Dois? Eu só vi um. —Dois — insistiu—. Ambos de cabelo escuro. Um é digno de confiança, mas o outro vai provar ser um temível inimigo. Elizabeth apoiou o queixo nas mãos entrelaçadas, ainda embargada pelo rosto que tinha visto materializar-se sobre a água. —Muito bem, mas como saberei qual é qual? Como poderei distingui-los? —Utilize sua cabeça e seu coração, milady. Do que outro modo poderá consegui-lo? —Eu o farei se conseguir escapar deste lugar. Um profundo desespero tinha impregnado sua voz, e Elizabeth baixou a cabeça como faria qualquer outra monja, mas não para orar. Parecia imensamente cansada. Quando voltou a levantá-la, seus olhos escuros estavam opacos e sem brilho. Sua criada roçou suas mãos com as dela em um gesto de compaixão, ao qual Elizabeth respondeu respirando profundamente e se acomodando. —Jane você trouxe o que pedi?


—Sim. Não foi difícil. As freiras me vigiam muito menos do que a você — abriu os outros pacotes sobre a mesa. Isto é o que queria: celidônia. As pétalas cheias e as folhas em forma de coração daquelas flores temporãs estavam deprimidas e tristes. Elizabeth assentiu. —Excelente. Para escapar ao encerramento não desejado ou a qualquer tipo de reclusão. Que Deus me ajude, mas a necessito. O que é todo o resto? Jane abriu outros pacotes sobre a mesa e expos uma mistura de raízes feias e folhas secas. —Verbena, para ajudá-la a escapar dos inimigos. E aspérula, para assegurar a vitória. Elizabeth tomou com dois dedos um galhinho lenhoso. —Confrei para a segurança e o amparo em uma viagem. Posso necessitá-la se sua visão for certa. Pela primeira vez seus lábios esboçaram um sorriso mínimo e o olhar que tinha cravado em sua serva se esquentou. —Não fazemos nenhum dano dando um empurrãozinho ao destino, milady —Jane guardou tudo em uma pequena bolsa de couro fechada por um cordãozinho e a ofereceu a sua senhora—. Leve-a junto à pele, milady, e se assegure de que não a vejam outros olhos que os seus. Elizabeth a colocou sob suas roupas. —Eu a levarei, e pedirei a Deus e a sua misericordiosa mãe que trabalhem para não ficar louca neste lugar. —Suponho que não fazemos nenhum mal em convocar quantos poderes possamos em sua ajuda milady — Jane apagou as velas com um gesto rápido e se levantou. O gato se levantou também e se esticou prazerosamente, disposto a partir—. Voltemos antes que alguma das irmãs repare em sua ausência e flexione o braço direito em nome da Sagrada Obediência. —Amém! —replicou Elizabeth com todo seu coração, que já tinha provado o sabor do chicote.


Em seu coração e em seu pensamento, era Elizabeth de Lacy, e não a irmã Elizabeth, algo que ela nunca seria, quem fervia de ira e rebeldia, tremia de amarga frustração. Sua vida em Llanwardine era insuportável, começando pela horrível comida, passando pelo frio congelante e as noites sem fim, até a água de gelo na qual era sua obrigação esfregar as taças e terrinas que usavam as irmãs de maior idade. Ao levantar o que restava das velas, as mangas se escorregaram para trás, deixando descoberto uns braços magros e punhos muito frágeis, muito delicados, como se fossem quebrar na primeira provocação. Nunca tinha sido uma menina robusta, mas agora a palidez da pele de seu rosto a deixava quase transparente, e os rastros violáceos que sublinhavam seus olhos os deixavam profundos. Tinha os dedos avermelhados e ásperos pelo trabalho duro e as frieiras. Sabia que devia comer mais, mas era impossível lhe fazer passar pela garganta algo que não fosse um pedaço de pão duro ajudado por uma colherada do gordurento cozido que serviam. Era uma batalha constante entre sua cabeça e seu ventre, mas a gordura do cozido ficava na boca e o sabor rançoso das verduras revolvia seu estômago. Iria passar o resto de seus dias naquele desterro? Ficaria velha e morreria ali? Não. Não! Não podia acreditar que a vida fosse ser para ela apenas aquele suplício de pobreza e obediência, privações e sofrimentos até o dia de sua morte. Tinha apenas vinte e um anos e Deus sabia bem que não tinha recebido o chamado para ser freira. Ele via e compreendia seus sofrimentos e não podia querer acorrentá-la a semelhante destino, apesar da determinação de seu poderoso tio, sir John de Lacy, em mantê-la encerrada ali até que se dobrasse e lhe jurasse obediência. E não, nunca poderia contrair casamento com Owain Thomas com o único fim de conseguir outra aliança para sua família na Welsh Marches. Jamais! Ela estremeceu ao se recordar de sir Owain, um cavalheiro alto e


fraco, já quase sem cabelo e velho o bastante para ser seu pai, um rascunho de homem que se inclinou sobre sua mão com a luxúria escapando pelos olhos e se transmitindo por suas mãos de dedos ressecados e ásperos. Ao aceitar casar-se com ela, seus olhos a tinham encarado com a frieza de um réptil, e recordar o contato com ele à fez estremecer. Fosse o que fosse o que a vida lhe proporcionasse, ao menos tinha escapado desse horror. Elizabeth se encaminhou à cozinha do priorado, onde uma vez mais afundaria as mãos naquela água gelada. A sua mente voltou o rosto que tinham conjurado, o olhar intenso do homem de cabelo escuro que a tinha feito tremer. Não tinham sido as gélidas correntes do lugar o que tinha movido seus hábitos, mas sim algo dentro dela que ele tinha feito florescer. Richard Malinder, senhor de Ledenshall, estava concentrado limpando a lamina de sua espada e compunha naquela tarefa uma imagem agradável, se é que tivesse chegado a saber disso ou lhe importasse. Sua constituição e temperamento eram os de um soldado, e as finas rugas que sulcavam seu rosto denotavam determinação e certa inflexibilidade. No brilho de seus olhos havia um incômodo cinismo. Era moreno de pele, com o cabelo negro, os olhos de um cinza escuro e o nariz reto e bem formado, perfeito para a arrogância. Tinha as maçãs do rosto bem marcadas, a boca perfeitamente desenhada e era capaz de certo encanto em seus gestos, mas naquele momento apertava os lábios com seriedade. Em resumo, era um homem atraente, ou ao menos isso as mulheres estavam acostumadas a dizer, mas de temperamento vivo e imperioso, de modo que não era fácil lidar com ele. Um dos Malinder Negros, que podia encantar e atrair, mas cujo caráter era tão forte quanto sua aparência. O motivo pelo qual franzia o cenho naquele momento era a mensagem enviada por De Lacy e que tinha chegado fazia menos de uma hora, umas notícias que tinham lhe causado profunda surpresa.


Maude de Lacy, a filha de dez anos de sir John de Lacy, a menina que estava destinada a ser sua esposa, tinha morrido de uma febre. Não o tinha pressentido. Como ia imagina-lo se que a menina tinha apenas dez anos. Lamentava sua morte, sem dúvida, e tinha enviado as palavras de condolência adequadas a seu pai, sir John de Lacy, senhor de Talgarth. A morte da única filha de sir John era muito dolorosa, embora Richard mal fosse capaz de encontrar entre suas lembranças algum detalhe pessoal daquela criatura de cabelo castanho vestida de azul intenso, que corria rindo atrás de um cachorrinho no pátio de sua casa. Foi à única ocasião em que a viu, quando se selou seu compromisso. Mas sob sua aflição corria uma corrente de alívio carregada de culpa. Aquele casamento ia ser uma aliança que seu coração nunca tinha desejado, um acordo político no qual a menina tinha sido simplesmente uma moeda de troca utilizada na luta pelo poder na fronteira. Estava claro que sir John pretendia o apanhar em uma união com os Lacy da qual não pudesse escapar, com o fim de que pudessem dominar a Marche entre eles. Mas sir John seria um aliado incômodo nas presentes circunstâncias. A lealdade dos De Lacy para com a casa dos York não encaixava com o apoio dos Malinder ao rei Henry de Lancaster. Tampouco o tinha muita graça ver-se prometido a uma menina tão pequena. Entretanto, tinha que reconhecer a necessidade de voltar a casar-se depois do falecimento de Gwladys, sua esposa. Já era hora de dar um herdeiro a seus domínios, disse-se enquanto seguia limpando a lamina da espada com um pano macio. Contanto que sir John não tentasse remediar aquele repentino colapso das negociações lhe oferecendo outra noiva da família. E se lhe propusesse que fosse sua sobrinha, Elizabeth de Lacy, que ocupasse o lugar de sua filha no leito nupcial dos Malinder? Richard deixou de lado a espada e apoiou as costas na cadeira. Elizabeth de Lacy. Uma moça difícil, com interesse demais nas escuras


artes. Conhecia sua reputação, já que os rumores se estendiam com toda rapidez pela Marche. Nada de bom se dizia dela. Uma garota brusca, de rosto anguloso… bom, na verdade já era uma mulher, e de língua afiada. Pouca resistência, pouca beleza, poucas emoções femininas em resumo, era ainda uma menina quando teve que assumir o controle da casa de sua família em Bishop’s Pyon e a educação de seu irmão menor depois da morte de seu pai, e permanecia solteira apesar de sua idade. Se acrescentasse à mistura sua falta de pudor ao falar e seus conhecimentos de nigromancia… Richard fez uma careta. Não, certamente não era uma noiva atraente. De qualquer modo era pouco provável que a oferecesse. Os rumores diziam que a tinha enviado ao priorado de Llanwardine para tomar os votos sob a autoridade de lady Isabel de Lacy, sua tia avó, que era a prioresa ali. Se John podia dizer que a moça tinha descoberto sua vocação, mas a maledicência dizia que tinha saído de sua casa para não encontrar-se com sir John. —De qualquer modo, tampouco a quero — ele disse ao sabujo que estava sentado junto a ele antes de levantar-se—. Seja qual for à razão pela qual Elizabeth de Lacy tenha ouvido a chamada de Llanwardine, só posso dizer obrigado, Meu Deus! Em um cômodo circular da torre que fechava a grande fortaleza que os Lacy tinham em Talgarth, mais ao norte, um homem colocou a túnica negra dos magos em cima de sua roupa. Nicholas Capel, sacerdote renegado, nigromante, leitor de horóscopos e conselheiro pessoal em todos os assuntos não ortodoxos de sir John do Lacy, acendeu uma única vela. O professor Nicholas Capel era um homem de ambição sem fim e fina perversão, e segundo ele tudo estava a ponto de florescer e dar um fruto especial.


Poder! Que mais se podia desejar? O poder para manipular, para dobrar um homem a sua vontade como as peças de um tabuleiro de xadrez. O poder para destruir, se fosse necessário. Acomodou-se atrás da mesa em uma cadeira de braços e encosto alto pintado com símbolos estranhos e cujas pernas eram como espadas cobertas de sangue. Retirou o pano de veludo que cobria um cristal, e apoiando as palmas abertas sobre a madeira, olhou atentamente à bola de cristal. —Que futuro aguarda aqui? Ao lado da bola havia três pedaços de um pergaminho rasgado, escritos com a letra de Capel. Três nomes. John de Lacy, seu senhor naquele momento… ou ao menos isso acreditava o feroz magnata. Sorriu. De Lacy jamais seria seu amo. Richard Malinder de Ledenshall, cujo poder ia aumentando na Marche, e seguiria crescendo se não se tomassem as medidas necessárias para freá-lo. E a seguir seu próprio nome, pelo qual todo mundo o conhecia: Nicholas Capel. —Nossos destinos estão conectados — cobriu os três nomes com as mãos—. Sei. Mostre-me o futuro! O que lhe mostrou a bola o surpreendeu. Era uma figura feminina de cabelos escuros, alta e magra. —Quem é você? A figura deu a volta e ele viu seu rosto. —Elizabeth de Lacy? —sussurrou—. Eu não esperava isso. Na bola de cristal as figuras apareciam em silêncio, quase como se executassem complicados passos de dança, até que John de Lacy e ele desapareceram e no centro da esfera ficaram Elizabeth de Lacy e Richard Malinder. Com uma cadência suave foram se aproximando um do outro como se puxados por cordas invisíveis. Sorriram. Malinder lhe ofereceu a mão e Elizabeth pôs nela seus dedos para que ele pudesse beijá-los delicadamente. Então lhe ofereceu os braços e ela deu um passo para deixar-se abraçar. A cena desprendia intensidade quando ele se inclinou


para beijá-la, e ela o permitiu agarrando-se a ele, tão perto que era como se fossem um só ser. A saia escura de seu vestido lhe envolveu as pernas, sua cabeleira lhe descansou no ombro, e o beijo foi interminável, enfeitado com uma intensa paixão. Capel franziu o cenho. —De modo que você também vai ter seu próprio papel, Elizabeth de Lacy. Parece que os dois estão destinados a ser amantes, e isso me surpreende. Pode ser que ao final não seja tão boa ideia deixar que apodreça solteira em um priorado. Possivelmente deva ignorar sua teimosia e te encontrar um novo caminho. A cena mudou. Richard desapareceu e Elizabeth ficou sozinha. Em seus braços um menino recém-nascido de cabelo escuro. Um amontoado de nuvens escuras ameaçava uma tormenta. Capel sorriu e depois de jogar o pano sobre a bola se recostou na cadeira e apagou a vela, sumindo os amantes no esquecimento. Permaneceu um longo tempo às escuras, tecendo, desfazendo e voltando a tecer em sua cabeça até que a tapeçaria resultante servisse a seus propósitos. Utilizaria seus poderes a favor de John de Lacy enquanto servisse a seus interesses. Era vantajoso ser o poder atrás da luva de ferro do qual ninguém suspeitaria. E depois? Bem depois, tudo seria revelado. Mas de uma coisa tinha certeza: Richard Malinder e Elizabeth de Lacy deviam ser reunidos para serem usados como uma porta à grandeza.


Dois Elizabeth de Lacy permanecia de pé do outro lado da porta cravejada da câmara privada da prioresa, entretida em arrumar as dobras de seu hábito e a touca de noviça. Tinha sido convocada a seus aposentos e estava muito nervosa, embora não pudesse adivinhar que pecado teria cometido e pelo qual já não tivesse sido castigada. Bateu com suavidade. Uma vez recebida à ordem de entrar se deteve na soleira, olhando primeiro surpresa e depois com desconfiança. —Entre irmã Elizabeth. Obedeceu a aquela voz serena e bem modulada. Inclinou-se primeiro perante a prioresa com as mãos ocultas pelo seu hábito e o olhar baixo, antes de dedicar uma reverência a seu tio, sir John de Lacy. Elizabeth não prestou atenção à elegância e comodidade que havia naquele cômodo, completamente diferente das celas do priorado nas quais ela vivia. Toda sua atenção estava posta no homem que permanecia de pé junto à cadeira da prioresa. E ao segundo homem que também de pé permanecia um passo mais atrás. O que acontecia ali? —Tem visita, irmã Elizabeth. Elizabeth sentiu o poder de sua presença quando ele a olhou. A energia de seu tio enchia a sala, embora não sua pessoa. De estatura media, magro, musculoso, com o cabelo escuro e os olhos azuis que falavam do sangue Gales que corria na família De Lacy durante gerações, sir John irradiava uma força controlada. Sua expressão denotava impaciência, oculta atrás de uma máscara deliberada de indiferença. —Tem um bom aspecto sobrinha.


Elizabeth inclinou a cabeça com arrogância como resposta, seu único amparo contra aqueles olhos de olhar penetrante. Sabia bem qual devia ser seu aspecto e não podia oferecer uma imagem agradável à vista, com aquele hábito negro que lhe roubava a escassa cor que restava em suas faces, ainda mais evidente sem o amparo do véu. Não pensava em sorrir, nem tampouco em lhe dar a boas-vindas. Tampouco ia reconhecer a presença do homem que acompanhava seu tio, Nicholas Capel. Alto, impressionante com seu cabelo até o ombro, a sua era uma presença habitual em Talgarth. Que função desempenharia para seu tio? A de conselheiro? A de servo? Tinha a impressão de que aquele homem não serviria a ninguém mais alem de a si mesmo. Dizia-se que era sacerdote expulso por ter cometido pecados inconfessáveis, mas em sua opinião era um nigromante que servia ao diabo. Vestido de negro da cabeça aos pés, seus olhos sem fundo a despiam de tudo que usava exceto da carne que cobria seus ossos. Ela estremeceu. —Tomei uma decisão no que respeita a seu futuro, Elizabeth. Seu coração deu um salto no peito, embaixo daquele tecido negro e grosseiro que irritava sua pele. Um inesperado raio de esperança a atravessou, e teve a impressão de que todos os pressente notaram, mas não permitiu que se mostrasse em sua expressão. —E que decisão tomou, sir John? —Vai voltar para casa — Elizabeth olhou brevemente à prioresa, mas não encontrou nada nela—. Bom, não exatamente para casa, mas sim vai deixar o priorado. —Entendo. Mas não entendia nada. Alguém bateu com suavidade à porta e a abriu. Era um jovem que conseguiu devolver a Elizabeth pela primeira vez a cor que há tanto tempo tinha perdido. —David! Não sabia que estava aqui. —É que estava me ocupando dos cavalos…


Em outro momento teria acorrido imediatamente para saudá-lo. Em outro momento teria se jogado nos braços do irmão que tinha criado na infância, apertando-o contra seu peito. Em outro momento o prazer de contemplar suas feições, sua expressão familiar e risonha a teria feito rir, beijando-o na face e lhe alvoroçando o cabelo. Mas sob o severo olhar da prioresa, da desconfiança de seu tio e do olhar sinistro de Capel, não se moveu de onde estava e esperou. —Elizabeth! — ele exclamou, e esquecendo todo protocolo, foi ao seu lado para tomá-la pelos ombros e beijá-la na face. Depois a estudou atentamente com seus olhos azuis tão De Lacy—. Não podia deixar de aproveitar a ocasião de vê-la. —Tem um bom aspecto. Como está Lewis? —E nosso irmão quando não esta bem? Já lhe contou sir John? —Não. Não me contou nada — ela respondeu, lhe apertando as mãos com força antes de soltá-lo. Seria muito fácil deixar-se levar pelas emoções e não devia demonstrar suas debilidades. Ainda não tinham lhe falado qual era o plano que tinham reservado para ela—. O que quer de mim tio? — perguntou-lhe voltando-se para sir John—. Por que tenho que voltar para casa… ou não voltar exatamente? Melhor sabê-lo quanto antes, por mais desagradável que pudesse ser a resposta. —Minha filha Maude morreu. —Sim — sua expressão se suavizou um pouco—. Nós soubemos, e eu sinto muito. A prioresa interveio rapidamente. —Não estamos tão encerradas aqui c para não nos inteirarmos de tudo o quanto ocorre. Já oferecemos nossas preces ao senhor pela alma dessa criança sir John. Ele assentiu, mas continuou dirigindo-se a sua sobrinha. —É minha intenção que ocupe o lugar de Maude no enlace acordado com lorde Richard Malinder de Ledenshall, e seja você quem honre o contrato nupcial.


Elizabeth conteve o fôlego. Que surpresa. Livrou-se das garras de Llanwardine, mas a que preço? Voltava a ser uma peça na partida de xadrez que De Lacy mantinha para obter ainda mais poder na Welsh Marches. —Deveria ter imaginado não é? Volto a ser uma noiva, mas desta vez vou me casar com um partidário da casa de Lancaster e não da dos York. Vou casar com o inimigo. Seus ardis parecem ter se tornado mais arteiros, tio. Ignorou a tosse afogada de seu irmão e cravou o olhar em sir John, que parecia vermelho de ira. Preferiria não arejar suas diferenças diante de lady Isabel, mas o que isso importa agora? —Você vai descobrir que Malinder é uma possibilidade muito mais agradável que sir Owain. Sua política não tem que a preocupar — ele replicou, deixando claro que não ia tolerar desobediência ou que seguisse expondo as roupas sujas da família—. Terá uma escolta daqui até Ledenshall, o lar de Malinder. —De modo que não vou poder ir antes até em casa, a Bishop’s Pyon. —Tio — interveio David—, não acha que seria mais adequado… —É melhor que viaje diretamente a seu novo lar, milady — Capel falou em tom conciliador—. A cerimônia pode celebrar-se assim que chegue. «Melhor para quem?», ela se perguntou. Elizabeth se limitou a abaixar o olhar. Que opinião merecia aquela inesperada mudança? Meses atrás mal teve tempo de pestanejar antes de rechaçar a proposta de casamento com sir Owain Thomas, mesmo sob o risco de incomodar seu tio. Mas naquele momento já estava há certo tempo em Llanwardine, e tinha aprendido uma dura lição. Aquela nova proposta seria sem dúvida melhor, mais satisfatória que a vida que levava ali. Muitas vezes tinha chegado a pensar que qualquer vida seria melhor do que aquela, por exemplo, quando a chamada nas horas primas a arrancava da cama e a levava para a capela gélida. Quando as mãos ficavam duras de frio ao cavar no gelo para extrair as últimas raízes do inverno na horta.


Mas Richard Malinder… o que sabia dele? Corriam inumeráveis rumores a respeito dele, de sua crescente autoridade, do poder cada vez maior de sua espada e de seu punho em nome do rei Enrique, da casa dos Lancaster. Malinder o Negro, que tinha perdido sua primeira esposa em uma gravidez que levado a ela e a criança. Queria casar-se com esse homem? Era o inimigo. Um partidário dos Lancaster, que apoiava ao homem que reclamava seus direitos ao trono com o nome de Enrique IV, enquanto que a tinham criado para seguir à outra linha sanguínea, a dos Plantagenet, a casa dos York. O que resultaria em casar-se com um homem cujas inclinações políticas se opunham frontalmente às suas? A angústia cresceu. Insistiria em que mudasse suas alianças? E se fosse assim, poderia fazê-lo? Outra ideia lhe veio à cabeça. Chamavam-no de Malinder o Negro. Seria o seu belo rosto que tinha visto desenhar-se na água? Seria ele um dos homens morenos que tinham aparecido na profecia de Jane e que podia ser igualmente amigo ou inimigo? Não havia modo de saber. Os homens de sua vida eram todos morenos: seus irmãos Lewis e David. O próprio sir John. Inclusive aquela temível criatura chamada Nicholas Capel, que naquele momento lhe sorria como se fosse capaz de ler inclusive em sua alma. A predição de Jane não tinha lhe dado nenhuma pista. Devia decidir se queria aquele casamento e decidir já. Sir John já a olhava franzindo o cenho. Bem, por que não aceitar a oferta? Todos os homens eram ambiciosos e egoístas, uns seres nos quais não se podiam confiar. Richard Malinder apenas iria querê-la como avalista da paz entre duas famílias que potencialmente podiam enfrentar-se na Marche. E para que desse um herdeiro a casa Malinder, é claro. Isso ela poderia aceitar. Ao menos ele não era uma casca seca, nem tão velho como os outros. Afinal acabou sendo uma decisão simples. Aquele casamento ia proporcionar lhe os meios necessários para sair dali, a chave de uma porta fechada e


trancada, e o destino talvez quisesse lhe oferecer outra oportunidade antes que o casamento chegasse enfim, prendendo-a a uma vida cheia de regras e forçada a obediência. Poderia pôr ponto final ao controle de sir John sobre sua vida. E que a Virgem a ajudasse, porque e ia fazê-lo! Conceder sua mão em casamento ao senhor de Ledenshall lhe daria posição, autoridade, certa independência e uma via de fuga de seu cativeiro. No final ia ser a decisão mais fácil de todas as que tinha tomado. —Muito bem, sir John. Eu me casarei com Richard Malinder. Sir John sorriu satisfeito. —Que assim seja. —E ele aceitou minha mão senhor? Tinha que perguntar-lhe. Precisava saber qual tinha sido sua reação diante da possibilidade de ter a ela como esposa em lugar de sua prima Maude. —Ainda não está tudo acordado, mas não haverá dificuldade alguma. Vai aceitá-la. Seu dote será tão abundante que seria uma loucura a rechaçar. “Ainda não contou certo?”. “Ele nem sequer sabe!” —Nesse caso, é óbvio que aceitará, se você se dispuser a comprar sua decisão — a inexplicável esperança que tinha abrigado de que Richard Malinder pudesse querê-la por ela mesma morreu em seu peito—. Que absurdo foi ter perguntado isso. Uma vez que haviam partido as visitas, Elizabeth ficou a sós com sua tia avó. —Têm muitos talentos e dons que oferecer para Richard Malinder — lady Isabel lhe assegurou. —Talentos? Dons? Jamais tive prova disso. Meu pai não mostrou afeto algum por mim, e Owain Thomas me queria por meu sangue Lacy — Elizabeth engoliu em seco para afogar a comiseração que ameaçava transbordar. Não estava disposta a se deixar levar por ela—. E agora só me aceitam como substituta. Substituta da esposa falecida para lorde Malinder. De minha prima Maude. Não por minha pessoa — a resposta soou


temperamental—. Que felicidade posso esperar, ou ao menos que tolerância em um casamento onde já somos inimigos antes de colocar os anéis? —Sempre há esperança — a prioresa era uma mulher severa, mas atingia certa compreensão—. Antes que nos deixe, quero lhes dizer algo e quero que me escute com atenção: se alguma vez se encontrar precisando de ajuda, já sabe onde pode procurar refúgio. Agora mesmo a área está tranquila, mas eu temo que não será sempre assim. Se voltar a se declarar a guerra entre os York e Lancaster, vai se encontrar no olho do furacão, como todos nós. Se o perigo for grande, você e os seus sempre serão bem-vindos aqui. Não duvide. Logo irá soar o sino das terças. Rezaremos uma Ave Maria para que cheguem bem em Ledenshall. Alguns dias mais tarde, o ruído de cascos de cavalos sobre as pedras do pátio fez com que Richard Malinder abandonasse os documentos que estava examinando para aproximar-se da janela. O que viu abaixo o fez sorrir encantado, uma expressão que não era muito generosa no rosto do senhor de Ledenshall. Desceu as escadas de dois em dois degraus para dar a boas-vindas aos Malinder Vermelhos, comandados por um homem que desmontou e se virou para ajudar uma dama a desmontar entre palavras de encorajamento. Parte da escolta começou a levar os cavalos para outro lado, enquanto outros se ocupavam de descarregar a bagagem carregada nos animais e em uma pequena carreta. —Rob! Veio pensando em ficar? —perguntou surpreso ao ver aquele monte de caixas e pacotes que ia se reunindo sobre as pedras do pátio. —Vim para as bodas — Robert Malinder, apelidado o Vermelho por seu cabelo, respondeu sorrindo e se virou de mau humor para a mulher que estava atrás dele, tirou-lhe o pé do estribo e lhe disse mal educado se pensava em descer do cavalo antes do anoitecer. —As notícias viajam rápido — se surpreendeu Richard—. Conforme parece, soube do evento antes que eu!


Os primos estreitaram a mão direita em reconhecimento de parentesco, amizade e alianças políticas. Robert Malinder. Alto, forte, ruivo e de olhos verdes. Branco de pele, embora naquele momento estivesse um tanto vermelha pelo frio. Não se parecia com os Malinder de Ledenshall exceto em sua estatura e corpulência, mas era inconfundivelmente um dos Malinder Vermelhos dos Moccas. —Sempre é bom para nós saber o que os De Lacy andam tramando — Robert explicou sem necessidade—. E temos nossas fontes — hesitou apenas um instante—. Lamentamos saber da morte de Maude. Antes que pudesse elaborar uma resposta que não o comprometesse, sua atenção ficou apanhada em outra coisa. —E bem, meu querido Richard. Será que não pensa em me dar as boas-vindas, depois de ter feito tão longa viajem apenas para vê-lo? Notou um toque suave no braço e se voltou com um sorriso de boasvindas. Em um momento seu estômago fez um nó e seu sorriso se murchou. Gwladys! A imagem de sua esposa encheu tudo antes que o sentido comum e a brutal realidade tomassem o controle. Claro que não era ela. Gwladys estava morta. Piscou várias vezes olhando o rosto que tinha à altura do ombro e se sentiu ridículo. Gostaria que a moça não tivesse notado sua reação inicial. Mas a semelhança estava ali, tão forte que era incômoda: cabelo loiro acobreado delicadamente preso, oculto em sua maior parte pelo capuz da capa de viagem. Os mesmos olhos verdes como esmeraldas realçados por longas pestanas. Sobrancelhas bem desenhadas, nariz reto e pele imaculada. Creme e rosa em comparação com as faces avermelhadas de Robert. Anne Malinder era uma beleza e Gwladys e ela eram primas, ambas compartilhando os traços da família. —Anne. Não havia tornado a lhe ver desde… — desde suas bodas, quando não tinha olhos para nada mais que sua esposa e ela era ainda apenas uma daminha de honra na celebração—. Desde antes que crescesse!


Richard, incomodado por necessitar de boas-vindas adequadas, examinava a irmã de Robert cuja cabeça já alcançava seu ombro. —Pois já veja: cresci o suficiente para me casar — ela respondeu, e suas espessas pestanas cobriram o brilho de seus olhos—. Convenci meu irmão para que me trouxesse com ele porque me ocorreu pensar que sua nova esposa talvez necessite de um pouco de companhia feminina. E não a de uma aia, embora acredite que seja alguns anos mais velha que eu. —Foi um pensamento muito considerado. —Claro. Devemos lhe dar as boas-vindas embora seja partidária dos York e um pouco velha para se casar — ela declarou, inclinando a cabeça. Seus olhos verdes brilharam como duas pedras preciosas. Richard a olhou franzindo o cenho, mas o rosto da menina brilhava com uma inocente complacência. Seguia tendo a mão em seu braço e se deu conta de que até suas mãos eram como as do Gwladys: pequenas, magras, feitas para usar belos anéis. Abaixou-se e a beijou nas faces. —Bem-vinda a Ledenshall, Anne. —Não me restou mais remédio que trazê-la — protestou Robert. Os cavalos e os homens de armas por fim se dispersaram em busca de calor e de um pouco de comodidade depois da viagem, uma vez tendo colocado toda a bagagem em seu lugar com rápida eficácia. Os primos, depois de admirar a qualidade dos animais de montaria dos Malinder entraram também no salão principal. —Não importa. Lorde Richard pediu a uma criada que trouxesse mais cerveja, pão e carne. —É que me ameaçou de vir sozinha se eu não estivesse disposto a acompanhá-la e não deixou de chatear a nossa mãe até que conseguiu. Anne pode ser um verdadeiro incomodo quando se aborrece ou quando lhe negam algo — Robert tirou luvas e a capa, deixou-os em um banco e começou a soltar o cinturão com no qual se prendia a espada, não sem amaldiçoar sonoramente suas mãos torpes e congeladas—. Suponho que se


aborrece por não ter companhia feminina de sua idade. E com a promessa de umas bodas no horizonte… bom, tive que trazê-la— ele sacudiu as botas dando umas patadas contra o chão—. Está um tempo detestável para viajar! —Terá toda a companhia que quiser durante os próximos dias. Recuperado depois da surpresa inicial de vê-la, tinha podido relegar o desconforto a um canto. Encheu a jarra de cerveja de Robert, que a bebeu encantado. Um vapor esbranquiçado começava a brotar de suas roupas e de suas botas úmidas. —Isto está melhor — disse, passando-a mão pelo rosto. A criada chegou com pratos de comida e acrescentou um pouco mais de lenha ao fogo. O cão voltou a deitar-se junto à lareira, uma vez passada a excitação dos recém-chegados. —Tiveram uma viagem tranquila? —Muito — com o dorso da mão ele limpou a boca—. Os galeses parecem tranquilos por sua vez. E com este tempo… ninguém se move. —Descanse os pés um momento. Robert resmungou algo enquanto seguia bebendo junto ao fogo. Logo, deixou-se cair em uma cadeira e pôs os pés em uma banqueta. —Vamos me conte tudo. Assim vai se aliar com os De Lacy, apesar da morte de Maude. —Sim. Vou me casar com a sobrinha de sir John. Richard cravou o olhar em sua jarra de cerveja. O nome de Elizabeth de Lacy tinha substituído rapidamente ao de Maude no contrato nupcial. Em interesse da paz em March, o casamento Malinder - de Lacy se manteria se ele, Richard Malinder, concordasse com isso. Respirou fundo. Sir John era um homem obcecado por sua ambição, e quanto ao professor Capel, seus olhos de obsidiana tinham brilhado com um interesse conspirador durante todo o processo, e embora tivesse permanecido em silêncio e se mostrou respeitoso em relação aos protagonistas do ato, havia algo nele que lhe dava repulsa. —Suponho que sabe onde se coloca.


—Assim espero — respondeu mantendo o tom leve de voz—. E sim, ouvi os rumores, mas não é possível que seja tão ruim quanto dizem. Antes não a quis; e mais: jurei que não teria nada a ver com ela, mas mudei de opinião. Sir John está entusiasmado e não vi razão para que atrasar todo o processo. —Desde que mantenha os olhos e os ouvidos bem abertos quanto às intenções de De Lacy — lhe aconselhou Robert, de repente muito sério—. Mantenha suas costas vigiadas. Sir John deve ter um motivo oculto… sempre tem. Quando vai acontecer a cerimônia? —Logo. Ela virá diretamente para cá do priorado de Llanwardine. É de boa família, tem idade suficiente para casar-se e foi criada para ser uma competente castelã. É o tipo de mulher perfeita para mim porque necessito de um herdeiro. E, além disso, tem um dote extraordinário. Olhou para seu primo com um inesperado brilho divertido no olhar, atravessou a sala, abriu a tampa de um pesado cofre de carvalho e remexeu em seu interior até encontrar um cilindro antigo e desgastado de pergaminho, que desenrolou e alisou sobre a mesa prendendo-o com uma jarra e a mão. Em seguida, apoiando-se sobre a mesa, leu atentamente até encontrar o parágrafo que procurava. —Devia ver isto, Rob. O que lhe mostrava era um mapa de traçado tosco e tinta que já estava perdendo a cor, que representava a extensão das posses da família Malinder. Eram formidáveis vistas assim, representadas naquela tinta azul índigo. Por um lado estavam as terras dos Malinder Negros, que formavam um sólido bloco na March central e oriental, com Ledenshall situado na Welsh Marches ocidental. E a seguir as posses de seus primos ruivos, principalmente ao sul de Gales. Os Malinder eram uma família poderosa. —É formidável — corroborou Robert—. Malinder Negros e Vermelhos unidos.


—É. E por isso é compreensível que de Lacy tema nossa influência e deseje congraçar-se conosco. Mas olhe para o dote da moça. Sir John diz que seus títulos provêm da linha materna de sua família, os Vaughan de Treetower, uma família com importantes conexões na March, e essas propriedades ficariam incorporadas às nossas — Richard se referia aos territórios estipulados no contrato matrimonial e assinalou a localização dessas terras—. Aqui, e aqui também. E esta faixa de terreno — foi passando o dedo pelas terras com as quais contribuiria sua futura mulher—. Eu diria que sir John as escolheu cuidadosamente — ele acrescentou pensativo. Robert assentiu. Se as terras da Elizabeth fossem ficar incorporadas às dos Malinder, Richard seria dono de um território compacto, quase um bloco sem fissuras. —Mais que generoso o dote. —Muito talvez? —Richard se levantou e deixou que o pergaminho voltasse a enrolar-se antes de guardá-lo no cofre. Depois se sentou sobre a tampa e apoiando os antebraços nas pernas, olhou para seu primo—. Parece um movimento bastante irrefletido. Consolidar meu poder desse modo na zona central da March a custa do seu próprio… sir John não é tolo. Por que o terá feito então? Porque valoriza meus encantos e quer ver-me sentado à mesa de sua família? Robert grunhiu. —Não me ocorre nada menos provável. —Nem a mim. Ele pôs muito empenho em me convencer a aceitar sua proposta, e ela é muito mais vantajosa para mim que quando concordei em me casar com Maude. Por quê? —Terá tanta vontade de se livrar da garota? —Não. Não acredito — Richard passou as mãos pelo cabelo e as entrelaçou sobre a nuca, e contemplou suas pernas cruzadas franzindo o cenho, quase como se elas pudessem lhe oferecer a resposta que procurava —. Se o problema fosse à garota em si, por que não deixá-la no priorado de


Llanwardine onde só possa ser irritante para a prioresa? Não. Sir John tem algo em mente e para isso precisa aliar-se comigo. Será que o está fazendo para que não preste muita atenção no que faz ele na March? Poderia ter comprado minha anuência com muito menos, já que não tenho disputas abertas com ele a menos que vá longe demais e apesar de sua aliança com a casa dos York, de modo que não há nada que não esteja vendo — o sol arrancou um brilho em seus olhos ao virar a cabeça—. O que tenho claro é que sir John considera Elizabeth e suas propriedades como a isca da armadilha. —E você o rato inocente? Robert apoiou o quadril contra a borda da mesa e pegou a jarra de cerveja. —Mm… não tão inconsciente. Mas qual é a armadilha? Isso é o que não sou capaz de discernir. —Como eu disse antes, primo… têm que ter olhos na nuca. —É o que penso em fazer, porque há outra pergunta: será que o queijo que pensa colocar para caçar ao rato, quer dizer, a própria Elizabeth de Lacy, desconhece este ardil? Ou por acaso é parte interessada no escuro e sinistro plano de sir John? Richard deixou sua própria pergunta vagar no ar. Nunca havia se sentido inclinado a tais balbúrdias, e, entretanto tinha que reconhecer que o casamento apresentava grandes vantagens para ele. Uma esposa com umas invejáveis posses… sempre que se mantivesse alerta, não correria perigo. E se a moça não era suportável ou moderadamente atraente, iria lhe importaria muito? Desde que fosse capaz de levar as rédeas de Ledenshall em sua ausência e trazer ao mundo a seus filhos, seria uma esposa aceitável. —Surpreende-me que se exponha a selar uma aliança com uma família que estaria disposta a arrancar o rei Enrique do trono e pôr em seu lugar o duque dos York — comentou Robert.


—Em minha isso opinião isso seria inclusive vantajoso, Rob. Melhor ter uma janela pela qual espiar aos nossos inimigos a que nos peguem despreparados, de modo que se for verdade que sir John está conspirando contra mim… —E Elizabeth de Lacy vai ser essa janela. —Por que não? —A jovem conta com minha simpatia — Robert brindou com sua jarra—. Objeto de intriga em ambos os lados da aliança. Richard se levantou para encher a jarra. —Duvido que cheguemos a isso, mas basta de maquinações por hoje. O contrato já está assinado. A dama parece considerar o casamento comigo preferível a passar a vida em um convento ou nos braços de Owain Thomas, assim deveria me sentir lisonjeado e honrado — declamou com um toque de aço no olhar e na voz—, desde que seja consciente de que uma vez que tenha cruzado essa soleira, sua lealdade deverá ser para comigo e não para sua família. Não tolerarei que participe da política da família De Lacy. Robert elevou de novo sua jarra. —Então, se já estão decidido, bebamos pelo êxito deste novo empreendimento. Richard elevou sua jarra. —Amém! À saúde de minha frutífera união com Elizabeth de Lacy!


Três Elizabeth chegou a seu novo lar em plena tormenta. O grupo chegou sem cerimônia alguma ao pátio exterior, cavalos e cavaleiros em uma caótica maré de cascos e barro sob o aguaceiro. Richard olhou para o céu, saturado de nuvens cinza, e se fosse supersticioso o teria interpretado como uma premonição de catástrofe. Tudo o que faltava era um par de corvos que passassem grasnando apavorados. Então os portões se abriram com um gemido e em seguida se fecharam atrás deles. Os servos apareceram para cuidar das necessidades dos viajantes. Dois homens jovens, irreconhecíveis com suas capas e respectivos capuzes, davam as ordens. Deviam ser irmãos de Elizabeth. Desceram dos cavalos e tinham ido ajudar das damas, mas Richard se adiantou depois de procurar com o olhar a mais jovem das duas, bem equipada contra a tormenta. Como um gesto de boas-vindas se adiantou para ajudar sua prometida a descer do cavalo. —Venha, milady. Não é a boas-vindas que eu gostaria de lhe oferecer. Deixem-me a ajudar… Não respondeu. Tinha o rosto meio escondido pelo capuz e ele se colocou ao lado de seu esgotado cavalo e rodeando sua cintura a ajudou a desmontar, mas a única resposta que recebeu foi um grunhido de advertência. Entre as dobras de sua capa apareceu um tufo de cabelo escuro


e umas garras letais que lhe deixaram um superficial, mas ensanguentado arranhão no dorso da mão. Tão grande foi à surpresa, que Richard ficou imóvel contemplando o arranhão, e seu grunhido de dor se pareceu muito com o do gato que estava enroscado nas dobras da capa de Elizabeth. Ao olhar de novo para cima se encontrou com dois pares de olhos fixos nele, uns felinos e sem dúvida contrariados, dourados e sem piscar, cravados nele desde dentro da capa; os outros, escuros, igualmente fixos nele, como um animal selvagem observaria um caçador da segurança de sua toca. Inquietos, desconfiados e ao mesmo tempo desafiantes, gato e ama o examinaram. Elizabeth foi primeira em falar. —Me perdoe milord. Assustou-a. As palavras de boas-vindas de Richard haviam se dissolvido na lama. —Eu a surpreendi? Você veio desde Llanwardine com uma gata no colo? —Tinha que trazê-la e não havia outro modo de fazê-lo. Durante um momento seus olhares se entrelaçaram, o dele atônito, o dela defensivo. Então Elizabeth piscou para tirar a água que tinha ficado nos cílios e o contato se quebrou. —Não se preocupem — respondeu Richard para não continuar com a conversa. A chuva aumentava—. Vamos sair deste tempo infernal. O animal também. Se puder evitar que volte a me atacar, eu a ajudarei a desmontar. Agarrando-a com firmeza pela cintura, a ela e à gata, elevou-a para depositá-la no chão. Pesava como uma pena. Foi um alívio ver que deixava o felino nos braços de sua criada antes que ele a pegasse por um braço para convidá-la a entrar no salão, onde aguardava uma pequena recepção. Notou sem duvida certa reticência por sua parte, mas por quê? Não tinha lhe parecido tímida nem ter falta de confiança naquele primeiro contato. Tinha o olhado diretamente nos olhos. Então, por que se continha? Não era a reação própria de uma mulher teimosa e desenvolvida, que era como


tinham lhe pintado Elizabeth de Lacy, e Richard franziu o cenho. Ia ser sua esposa e senhora de Ledenshall, assim aquela absurda relutância não ia lhe ser permitida e com decisão a empurrou suavemente para o salão. Os servos se ocuparam da capa empapada. Havia um bom fogo aceso do qual todos se aproximaram. Serviu-se vinho. Para o bem ou para o mau, sua prometida já estava em casa. O primeiro era o primeiro, pensou Richard e procurou entre o grupo pelo irmão mais velho de Elizabeth. Não foi difícil localizá-lo. A estatura dos De Lacy e sua cor de pele era a marca generalizada nos sobrinhos de sir John. Richard fez um à parte com aquele jovem e magro de vinte e poucos anos, que o olhou com uma expressão não de todo hostil. Era o momento de iniciar a construção de pontes entre as duas famílias. —Tenho que lhe agradecer por ter acompanhado sua irmã até aqui — ele disse, apertando sua mão. —Não me deram escolha milord. Sir John o ordenou. —Felizmente já estão todos aqui. Um mau dia para uma viagem tão longa — o desconforto de suas posturas políticas era evidente para ambos, mas por um consentimento implícito e comum, decidiram deixá-las de lado para outra ocasião—. Imagino que será bem vindo beber algo refrescante. Richard fez um gesto e uma das cridas ofereceu uma jarra de cerveja ao jovem. Lewis aceitou e bebeu, e seu senso de humor aflorou pela influência do calor e da cerveja. —Minha irmã se alegrará de ter chegado. Postergar a viagem estava fora de qualquer possibilidade. Eu duvido que fosse possível convencê-la a permanecer em Llanwardine mais uma só noite. Talvez você deseje que eu a presente formalmente — ele sugeriu. —Eu já tive uma apresentação um tanto dolorosa faz um instante — respondeu sorrindo, e ficou feliz em ver o moço relaxar ao lhe mostrar o arranhão na mão—. Sobreviverei, embora não possa lhe dizer o mesmo da gata.


—Ha! Selvagem e imprevisível… mas a menina dos olhos de lady Bringsty e, portanto, intocável. —Tem certeza? —perguntou, sorrindo. —Certamente eu não me arriscaria! Mas Elizabeth é muito mais amigável que sua gata — aventurou e com um sorriso malandro, acrescentou—: ao menos, a maior parte do tempo. Mas eu tomaria cuidado com lady Bringsty se estivesse em seu lugar. Com o cenho franzido seguiu a direção do olhar de Lewis. Do outro lado da sala estava a mulher que protegia e apoiava a Elizabeth de Lacy. —A voz da experiência — sentenciou com um sorriso—. Eu agradeço pelo conselho. E quando tinha começado a andar em direção às duas mulheres, uma mão o agarrou pela manga. —Tenho que lhe dizer algo mais, Malinder, e me atreveria a dizer que não vai gostar. Richard se voltou e viu que Lewis falava sério de novo, quase tenso, como se fosse entrar em terreno lamacento, mas decidido a fazê-lo de qualquer jeito. —Elizabeth negará, mas não teve uma vida fácil. Nosso pai, Philip de Lacy, nunca sentiu afeto por algum de seus filhos, enquanto que sir John apenas a considera um meio para conseguir um fim. Foi um ato desprezível enviá-la para Llanwardine. Elizabeth merece ao menos alguma alegria, certa dose de felicidade, porque até agora teve muito pouco disso em sua vida — cravou seu olhar brilhante nos olhos de Richard e de repente este teve a sensação de que ele era mais velho que a sua idade—. Se lhe fizer mal… eu juro que me prestara contas por isso, Malinder, sem me importar quem é. Richard ficou olhando as feições apaixonadas do moço, sem alterarse com sua ameaça, surpreso pela profunda lealdade do jovem e da mostra que inesperadamente tinha lhe dado a respeito da existência de Elizabeth do Lacy. Gostava de Lewis de Lacy precisamente por essa brutal lealdade.


—A dama receberá toda a consideração possível da minha parte. Posso liberá-la do controle de De Lacy, se isso for o que quer dizer. E eu espero que possa ser feliz aqui. Tinha falado em um tom leve, consciente do calor abrasador no olhar de Lewis. Então o moço concordou. —Isso é o que desejo para ela. Venha e lhe apresentarei. Elizabeth… Lewis se aproximou dela, tocou seu braço e ela se voltou lentamente. E foi assim como Richard Malinder obteve sua primeira imagem verdadeira da mulher que era sua prometida, que provocou nele uma reação cândida que o surpreendeu. Um rato ao meio afogado teria tido um aspecto melhor que o dela. Apesar da capa grossa que usava a tormenta a tinha ensopado até os ossos, o que não causava um efeito precisamente favorecedor. O traje escuro que levava não era um hábito de freira, mas acabava igualmente pouco atraente com suas dobras empapadas e enlameadas totalmente grudadas em seu corpo. Era alta — seus olhos ficavam virtualmente de frente aos seus—, mas estava muito magra o que a deixava muito angulosa. Reparou em seus pulsos ao vê-la beber a cerveja quente: os ossos eram quase visíveis através da pele translúcida, as clavículas saindo pelo decote fechado do vestido. A touca empapada grudava em seu crânio e emoldurava um rosto no qual o que mais chamava a atenção eram as maçãs do rosto fundas e um nariz reto e fino, já que o cabelo estava completamente coberto pela touca. Sua pele apresentava um aspecto descolorido, pálido, e na bochecha tinha um respingo de barro. Parecia tensa, esgotada pela falta de sonho. Sua boca era generosa, com um lábio inferior carnudo que certamente brilharia em um sorriso se é que alguma vez sentisse vontade de sorrir, mas naquele momento parecia tenso e linear. Uns olhos escuros e insondáveis o observavam com receio e as sobrancelhas, de uma fina curva, elevaram-se ligeiramente. Como esperava sua resposta? Com certa dose de confiança?


Com inquietação bem dissimulada? Fossem quais fossem os sentimentos que escondia, aquela mulher não era uma presença cativante. Quando se aproximou dela e Elizabeth de Lacy se virou para conhecê-lo formalmente, Richard viu que seus olhos se abriram e que uma luz lhe brilhava neles. Ela apertou com mais força a taça que tinha na mão, a cor iluminou suas maçãs do rosto e seus lábios pálidos se entreabriram como se fosse expressar algum pensamento. Mas deve ter mudado de opinião porque os fechou e abaixou o olhar. Sua reação diante dele… tinha sido surpresa? Temor? O que estaria pensando? Mas sua pergunta ficou relegada ao notar um movimento ao lado de Elizabeth. Anne Malinder se aproximou em silêncio como se pretendesse oferecer apoio a Elizabeth em uma ocasião tão tensa quanto aquela. Embelezada em um damasco azul e rico, sua cabeleira loiro avermelhada coberta com um véu transparente e sua face delicadamente rosada, era a viva imagem da feminilidade, com suas curvas arredondadas e sua surpreendente beleza. Uma imagem involuntária lhe veio à memória: a de Gwladys, que também gostava da cor azul. A imagem lhe proporcionou uma desafortunada e terrível comparação com a que ia ser sua nova esposa. Seu coração caiu aos pés. Richard, um homem de maneiras impecáveis, voltou deliberadamente sua atenção a Elizabeth, cuidando para que seu torvelinho interior não se refletisse exteriormente, e ao tomar sua mão de dedos longos e frios, ele se perguntou se haveria na anatomia daquela mulher algum ponto de sangue quente. —Bem-vinda a Ledenshall, Elizabeth de Lacy. Ele levou sua mão aos lábios em uma saudação breve e formal. Seus dedos estavam tão gelados quanto suspeitava, tinha a pele áspera, os nódulos inflamados e vermelhos. Já recuperada do que a tivesse inquietado, Elizabeth inclinou a cabeça com um movimento quase imperceptível.


—Obrigado milord Malinder. É uma honra para mim que deseje contrair casamento comigo — seu olhar seguia sendo franco—. Estou muito grata de estar aqui. Sua voz o surpreendeu um pouco. Era grave e suave, com uma profundidade que era muito atraente. Seu coração afundou ainda mais. No momento era aquela a parte mais atraente daquela mulher. Elizabeth se concedeu um pouco de tempo para admirar o quarto que ia ser o dela. Com o teto de madeira e as paredes de gesso decoradas com flores que o passar do tempo havia tornado de cores delicadas, um chão de ladrilhos formando mosaico… tudo isso a envolvia em um manto de riqueza e comodidade. Um fogo ardia na lareira de pedra e umas velas de cera tinham sido acesas em um alto candelabro para obrigar às sombras a retirarem-se. A cama, oh, maravilha, tinha umas cortinas de seda estampadas e uma cabeceira, e o dossel preso ao teto por cordas de seda e borlas. Depois das privações em Llanwardine era um puro sonho se imaginar deitada ali, sob o cobertor de seda e sobre o luxo de um colchão de penas e uns finos lençóis de linho. Um baú de carvalho, uma cadeira de penteadeira, um lavatório com seus acessórios. Elizabeth foi examinando tudo com um suspiro de puro deleite. Naquela casa tiveram muito trabalho para conseguir que se sentisse bem-vinda, e a tensão que lhe oprimia o coração como um punho afrouxou um pouco. Tinha as mãos apertadas ao lado do corpo e lentamente as abriu. Antes de poder expressar seu agradecimento sua atenção foi apanhada pelo que viu ante o fogo: uma maravilhosa banheira de madeira. E baldes de água fumegante que os servos tinham deixado ali. Com uma gratidão que não podia expressar com palavras, tirou o vestido que estava grudado em seu corpo. Seu aspecto ao chegar não poderia ter sido pior. Não queria nem imaginar embora no fundo soubesse como devia ter sido. Que desagradável surpresa devia ter sido para Richard Malinder ver sua


prometida pela primeira vez como se acabassem de tirá-la arrastada de um rio. Seu único consolo era que só podia melhorar. Um sorriso cínico se desenhou em seus lábios ao recordar sua reação ao vê-la. Richard Malinder era sem dúvida o homem cujo rosto tinha aparecido na bola de cristal. As mesmas feições atraentes, o mesmo cabelo negro. E ao pousar nela seus olhos cinza havia sentido como derretiam seus ossos e um desejo de toca-lo que com muita dificuldade conteve. Era tudo o que uma mulher podia desejar em um marido se lhe importava a beleza física. Era uma verdadeira tragédia que ela não pudesse igualar-se a ele em beleza. Mas não devia esquecer que seu futuro marido era um partidário de Lancaster, e, portanto, seu inimigo. Seria uma estupidez se deixar seduzir por um rosto. E o que era o que Jane havia lhe dito em sua advertência? Dois homens morenos: um amigo, o outro inimigo. Se Richard Malinder acabasse sendo seu inimigo, não devia baixar a guarda. Tinha percebido claramente a tensão nele ao aproximar-se, até que suas boas maneiras o tinham obrigado a agir com galanteria. Era o momento que temia. Tinha tido que se esforçar em apresentar um exterior neutro que não revelasse o medo que sentia no coração. E ele se mostrou tão frio e formal que com certeza devia gostar tão pouco daquele enlace quanto a ela. Uma pena que não tivesse nada que pudesse recomendar para fazê-lo mudar de opinião. Nada comparado com a encantadora priminha que até naquele momento a observava com a cabeça inclinada e um brilho divertido no olhar. Seus escassos pertences já estavam ali. Jamais uma noiva de uma família poderosa tinha ido ao lar de seu prometido tão mal provida. Jane Bringsty deixou a gata no chão, e o animal ocupou sua cesta habitual da qual contemplava o que acontecia com um olhar hostil antes de dedicar sua


atenção a sua pelagem empapada com intensa concentração. Gostaria que pudesse ser tão fácil para ela acomodar-se naquele novo ambiente. Jane Bringsty, ajudada por uma voluntariosa Anne, começou a abrir os pacotes sobre a cama com a intenção de encontrar um vestido adequado, o que era impossível, reconheceu Elizabeth, que conhecia o conteúdo. Enquanto, com as mãos rígidas de frio, tirava os grampos da pesada touca e ao baixar os braços sentiu e ouviu a reação. Sabia perfeitamente a que correspondia. Ela tinha acabado por acostumar-se… ou quase. —OH… —Anne a olhava fixamente. —As freiras — ela se obrigou a lhe explicar— acreditam que o cabelo comprido fomenta a vaidade e distrai uma mulher de sua vocação e do verdadeiro significado da vida. Pelo menos não me barbearam a cabeça. Poderia ter sido pior. —Não muito! —respondeu Anne com devastadora franqueza. O que dizia era verdade, embora seu comentário fosse pura malícia. Um cabelo extremamente curto lhe cobria a cabeça, cortado de qualquer maneira, e que por isso com muita dificuldade lhe cobria o crânio. Consciente de que não ia ter controle algum sobre o que ia ocorrer a seguir, Elizabeth se preparou mentalmente, agradecida pelas velas serem poucas. Tirou o vestido e depois a anágua até ficar nua, tremula e úmida, junto à banheira. Uma pequena corrente de ar lhe roçou a pele do ombro e do pescoço, como se uma porta acabasse de abrir, e teve um pressentimento que a empurrou a elevar a cabeça e olhar para trás. Era certo: a porta estava entre aberta e ali, imóvel na escuridão, havia uma figura escura. Certamente teria batido na porta e ao não receber resposta, tinha decidido abrí-la para perguntar se necessitava de algo. Aquilo estava sendo o pior dos pesadelos. Richard Malinder ia estar a par de seus mais íntimos segredos. Permaneceu imóvel, tanto quanto ele, com os olhos e a boca aberta, consciente do que devia estar vendo. Seu rosto não revelaria emoção


alguma, mas podia imaginar que pensamentos abarrotariam sua cabeça. Horrorizada o viu baixar o olhar para seus ombros, suas costas, as nádegas, as coxas e de novo ao rosto. Apesar de ter sido um gesto rápido e ligeiro, teve a sensação de que seu olhar tinha tomado posse de cada centímetro de sua pele… e o resultado tinha que ter sido deprimente. Que vergonha! Sentiu um estremecimento mitigado apenas pela ideia de que a luz escassa da sala dissimularia o mais desagradável de suas cicatrizes. Mas isso não era o pior. Virgem do céu! Ele se atreveria a entrar? Sentiria a necessidade de dizer algo, de chamar ainda mais a atenção sobre ela? E se fosse assim se veria obrigada a abandonar a pouca dignidade que restava e agarrar com um puxão suas roupas e cobrir sua vergonha? Rezou pedindo que tivesse sensibilidade suficiente para retirar-se e não humilhá-la mais. Não bastava que sua linda prima pudesse ver em primeira mão seu castigo? Como se tivesse podido ouvir seu rogo, como se lesse a angústia de seu rosto, Richard Malinder fez uma leve inclinação e se retirou fechando a porta. Tudo aquilo não tinha durado mais que uns segundos, mas para ela tinha sido como se fosse toda uma vida de exposição, de escrutínio, de julgamento. Enquanto isso, Anne Malinder, que não percebeu nada, olhava para Elizabeth com seus olhos verde esmeralda. —Mas o que lhe fizeram? Elizabeth se viu como Anne devia estar vendo-a. Como Richard Malinder deve tê-la visto. Seus ossos mal estavam cobertos de carne. As costelas podiam ser vistas sem dificuldade, bem como os quadris e os ombros. Tinha os seios pequenos e sem desenvolver. O seu podia ser o corpo de um menino por sua magreza, apesar de sua idade e de seu sexo. Se Richard procurava esposa para lhe dar filhos, não tinha escolhido bem. Mortificada pela vergonha, como se suas deficiências fossem todas culpa


dela, Elizabeth deu as costas a aquela audiência não desejada para escolher uma camisola e ocultar-se daquela inspeção, um movimento que permitiu que a luz das velas iluminasse seus vergões prateados, já curados, mas visíveis, e que Anne Malinder os visse. Um silêncio carregado de tensão saturou o quarto, que um instante depois foi quebrado por um tímido risinho. A prima de seu prometido cobriu a boca com as mãos, mas Elizabeth soube que não havia piedade naqueles olhos brilhantes. —O que acha que dirá Richard quando a vir? Pela primeira vez olhou de verdade à menina que estava junto à cama com um de seus simples e antiquados vestidos em suas belas mãos, e imediatamente reconheceu nela o perigo. Não havia amizade naqueles faiscantes olhos verdes. Mas sua observação não deixava de ser certa. Aquela jovem era tudo o que ela não era. Bela, bem educada, suave, desenvolvida na sociedade daquela casa. E prima de lorde Richard. Não teve nenhuma dúvida respeito de suas intenções: queria Richard para ela, e lamentava por sua presença ali. Sua franqueza denotava uma inocência infantil, mas reconheceu sua astúcia. Seus vestidos estavam sem dúvida na última moda e realçavam uma figura da qual ela carecia. Não era de estranhar que lorde Ledenshall tivesse posto a mesma cara que teria se fosse golpeado com um machado de guerra ao ver como arteiramente se situava junto a aquela que ia ser sua esposa… Richard se importaria com o aspecto que ela tivesse, desde que sua aliança lhe proporcionasse os frutos pretendidos e pudesse lhe dar um herdeiro? Ela não era mais que a substituta de Maude afinal. Não devia esquecê-lo. —Me perdoe milady — sorriu Anne, adotando uma expressão contrita como de quem reconhece ter cometido uma indiscrição e quer


pedir desculpas—. Não deveria ter falado com tanta franqueza. Não pretendia te ofender. Mas à moça tinha problemas para dissimular o brilho de triunfo no olhar. «Sim pretendia!», pensou Elizabeth, engolindo as palavras. Consciente de que tinha nela um inimigo, alarmada pela reação de Richard Malinder diante do que tinha visto Elizabeth lhe devolveu o sorriso perfurando-a com seus olhos negros como a noite. —Por que se desculpa? Não disse nada mais que a verdade, tenho que reconhecer. Talvez eu possa lhe revelar o que pensa milord quando souber. E se considerar que pode saber suas palavras, certamente. E agora… — ela continuou lhe dando as costas—, estou desejando desfrutar desta banheira! Elizabeth, consciente de que tinha alimentado sua inimizade, meteuse na água quente com um suspiro de alívio. Que recepção à prometida de Richard Malinder. Suspirou. Iria pensar sobre tudo isso no dia seguinte. No momento as linhas de batalha tinham ficado claramente desenhadas. Uma vez na cama, a ponto de adormecer, não podia deixar de dar voltas a uma impressão. Até que ponto ele a teria visto naquele breve exame? Tinha sido um instante e ela estava quase na penumbra, mas teria bastado para fazê-lo lamentar de sua decisão? Não tinha podido ler nada em seu rosto, mas podia imaginar. Desilusão no mínimo, mas possivelmente repulsa, ultraje. E o que diria quando ele a visse nua e a plena luz em seu leito nupcial? Porque teriam necessariamente que consumar o casamento . Ele não se casava com ela por seu intelecto nem por sua educação pouco convencional, não é? E se a tocasse apenas por necessidade, porque não tivesse escolha, ou pior ainda, por pena? A ideia lhe encolheu o coração.


Richard se retirou rapidamente de um domínio tão íntimo e feminino e permaneceu em silêncio uns minutos junto à porta. A impressão que levou se podia comparar com a espetada de uma lança bem afiada na carne, não menos. Não deveria ter ido. O que era que tinha visto naquele breve instante, no que tinham ficado cravados seus olhos, esquecendo-se de todo o resto? Uma noiva com marcas de chicote nas costas… OH sim, tinha certeza, embora a intensidade do castigo desconhecesse pela luz pobre da sala. Uma noiva que o olhava com medo nos olhos. Teriam utilizado o látego para obrigá-la a casar-se com ele? A possibilidade de que o tivessem considerado necessário lhe acelerou a respiração. Tinha a impressão de que tudo que desejava Elizabeth de Lacy era passar uma noite em seus braços, como se o ato do amor não fosse para ela mais que um assalto, e o toque de sua carne algo que tinha que suportar. Pediu a Deus que não tivesse medo e que não se separasse dele. Não poderia tolerar, de verdade não poderia, que sua esposa voltasse a afastar-se dele.

Quatro


Ledenshall parecia um lugar frio e lavado em excesso pela chuva. Assim Elizabeth o via de sua câmara. Soprava um vento desagradável, mas não tinha intenção de ficar deitada. —Agora este é meu lar — ela disse com firmeza ao quarto vazio. Semanas de regras e badaladas do sino constantes a tinham feito despertar antes da alvorada. Com os primeiros movimentos do castelo, à medida que os servos iam começando suas tarefas do dia, e sem nenhuma pressa para tomar o café da manhã, Elizabeth sentiu desejos de explorar. Colocou o vestido que tinha mais à mão, apesar de que o tecido fosse áspero e desagradável e que teria feito lady Anne sorrir com malícia, e o cobriu com uma pesada capa forrada de pele que tinha pegado emprestada. Era muito mais curta que seu vestido, já que mal chegava ao meio de sua perna, entretanto era quente e luxuosa, melhor que qualquer coisa que ela tinha. Fechou-a no pescoço e sentiu um pequeno estremecimento de prazer ao notar o toque e a suavidade da pele, e teria saído para iniciar suas investigações se não tivesse recordado um pequeno detalhe com uma careta de desgosto. Procurou um simples véu de linho e o colocou sobre a cabeça para ocultar sua vergonha dos olhares curiosos. Durante uma hora se deixou levar por seu desejo sem que ninguém para impedi-la ou proibi-la de algo. Das salas principais da família em uma ala comparativamente nova desceu ao grande salão, relíquia do castelo original com sua torre quadrada. Ali as janelas eram ainda flecheiras, os tetos altos, os espaços vastos e as correntes letais, suficientes para deslocar a fumaça e fazer as tapeçarias que decoravam as paredes tremerem. Depois foi às cozinhas, onde com um breve sorriso e uma palavra de saudação Elizabeth aceitou um pedaço de pão, antes de pegar a escada que conduzia às defesas exteriores, de cujas ameias contemplou as colinas nuas e as árvores sem folhas e o caminho enlameado que conduzia de volta a Llanwardine.


Seu ânimo melhorou. Pela mãe de Deus jamais retornaria ali! A seguir desceu de novo para dirigir-se aos estábulos enquanto sacudia os miolos de pão das mãos e do adamascado da capa. A capela. Despensas e armazéns, uma autêntica toca de corredores e portas, tudo foi percorrendo e todo o tempo foi consciente dos olhares e os comentários em voz baixa de soldados e servos que sabiam que aquela recém-chegada curiosa ia ser sua nova senhora. Richard Malinder, madrugador também, ficou vendo-a investigar. Viu o movimento, viu-a sair do salão principal levando uma capa muito usada que estava curta e conduzir sua figura alta pelo pátio. Percebeu sua energia, o passo leve e confiante da dama que explorava seu lar. Sua curiosidade, sua agilidade ao subir rapidamente as escadas e parar para admirar a vista de todos os ângulos. E falava com as pessoas ao passar junto a eles: os soldados da guarda, com seu administrador, mestre Kiplin, que respondeu a alguma pergunta com um leve assentimento e um gesto de seu braço. Com as moças que trabalhavam na leiteria. Com qualquer um que cruzasse seu caminho. Era como se a criatura pálida e reservada do dia anterior tivesse renascido como uma mariposa, uma mariposa um tanto insignificante, uma traça provavelmente — ele sorriu—, a partir de uma larva. Deveria falar com ela. Tinha concordado em casar-se com ela, não? Teve que conter um suspiro ao recordá-la nua e vulnerável, desconfiada como um cervo ante os cães de caça. Já não restava tempo para lamentações, de modo que subiu a escada ao encontro de sua prometida, que apoiada em um dos parapeitos de pedra contemplava as distantes colinas galesas. Elizabeth se virou rapidamente ao ouvir suas botas na pedra e seu olhar era solene, observador, atento, mas direto também. Esperando adivinhar seu humor.


—Vejo que a viagem não lhes causou nenhum dano. —Não. Estou bem recuperada da umidade. Obrigado, milord. Não disse nada mais. Permaneceu imóvel, precavida, enquanto ele avançava. Depois ele lhe ofereceu a mão como um convite, e Elizabeth colocou a dela em sua palma sem hesitar. Richard sentiu despertar seu interesse. Talvez não fosse tão desconfiada a não ser um pouco séria, cuidadosa em não revelar muito de si mesma até tê-lo conhecido melhor. Então lhe surpreendeu ao fazê-lo virar a mão para tocar o arranhão ainda avermelhado. —Sinto o ocorrido. Ele arqueou as sobrancelhas. —Espero que o animal não esteja oculto embaixo das dobras de sua capa esta manhã— ele disse com humor. —Não. Sua boca esboçou um mínimo sorriso, e seus olhos azuis escuros que refletiam a cor intensa da capa, adquiriram um brilho dourado dos raios do sol. —Deseja que a chame de Beth? Ou Bess? — ele perguntou—. Como a chama sua família? —Elizabeth — respondeu com seriedade. —Então eu a chamarei Elizabeth também — o detalhe era revelador. Alguma vez teriam utilizado com ela um nome informal que sugerisse afeto?—. Merece sua aprovação? —O que? —Ledenshall — ele fez um gesto que abrangia o que tinham ao seu redor—. Seu novo lar. —Certamente — respondeu, e uma cor rosada subiu por seu pescoço, como se a tivesse pego em uma espécie de grosseria—. Espero que não tenha se importado. —É óbvio que não. É seu lar e é livre para desfrutá-lo — respondeu, reparando na contradição entre confiança e vulnerabilidade, e pensou o que poderia lhe dizer para que se sentisse mais cômoda—. Lamento que tenham


tido que passar esta prova sozinha. Seu tio deveria ter estado aqui para recebê-la. Ela corou ainda mais. —Eu estou certa de que podemos nos arrumar sem ele, milord. Sir John é a última pessoa que esperaria que se preocupasse em tornar mais cômoda minha chegada aqui. Portanto o que se dizia sobre a distância entre tio e sobrinha era verdade. Elizabeth tinha ficado o olhando diretamente nos olhos, com a cabeça inclinada, alerta, e Richard não estava acostumado a que uma jovem o olhasse de um modo tão sério, sem um sorriso ou um convite no olhar. Estava lhe medindo, sem dúvida. Suas palavras o surpreenderam ainda mais. —Sejamos sinceros, milord. Nós dois sabemos que estou aqui como substituta de minha prima Maude por desejo de sir John — declarou—. E para você as conexões da família De Lacy poderiam ser uma vantagem na Welsh Marches. Não tem por que fingir entre nós. Você não me queria e eu sei, mas imagino que sir John deve ter sido muito persuasivo com meu dote, que suponho deve consistir principalmente nas terras de Vaughan que recebi de minha mãe. E é óbvio, necessita de um herdeiro Malinder. E eu farei tudo que esteja ao meu alcance para agradá-lo. Isso sim que era falar claro. Mas se suas palavras o deixaram perplexo, ele tratou de ocultá-lo e lhe respondeu do mesmo modo. —Se tudo o que dizem é verdade, eu garanto que ser senhora de Ledenshall lhe será muito mais agradável que a vida que levava como freira em Llanwardine. As vantagens são numerosas para ambos os lados. A cor de suas bochechas piorou como se tivesse lhe dado uma bofetada e lamentou sua falta de fineza. A resposta dela não se fez esperar. —Isso é verdade. Lamento que tenham perdido a Maude. Prometia ser uma mulher de grande beleza e espírito. O que podia responder a isso? O silêncio foi se estendendo até que ficou claro que não esperava palavras bajuladoras por sua parte.


—Sei muito bem qual é a imagem que me devolve o espelho, milord — ela se virou um pouco para olhar além dos muros—. Tentarei ser para você tudo o que uma esposa deve ser. Não deve se inquietar por minha lealdade, se é que o preocupa, porque não desejo que seja uma dificuldade entre nós — desta vez o surpreendeu que abordasse um assunto tão espinhoso, quase como se tivesse podido ler seu pensamento. Tinha que reconhecer o valor de sua sinceridade, dado que se conheciam ha tão pouco tempo—. Minha família é partidária da casa dos York. Você e eu fomos criados como inimigos do berço, e eu sempre considerarei que os direitos ao trono dos Plantagenet são superiores aos desse pobre e louco rei Enrique. Mas lhe juro que minha lealdade no casamento estará com você. Richard olhou a sua noiva com uma complexa mistura de estupefação e admiração e decidiu ser tão claro quanto ela. —Meu juramento é o de apoiar ao rei Enrique, seja qual for seu estado, porque ele é o rei por direito próprio, enquanto que os Plantagenet levam a traição no sangue — ele sorriu um pouco ao ver que ela recebia sua acusação erguendo-se—. Vejo que nesse assunto nunca poderemos estar de acordo, mas com tanta sinceridade entre nós, tudo irá bem. —Espero que sim. Ambos somos adultos e valorizamos a lealdade e a sinceridade entre um homem e sua esposa. Desagradam-me a falsidade e as meias verdades. —A mim também. Como ela era forte embaixo daquela aparência de fragilidade, que capacidade para o controle dada as circunstâncias, embora também fosse pouco reconfortante sua presença. Tinha a impressão de estar negociando uma aliança com um inimigo em potencial estando às bandeiras de guerra ainda erguidas em ambos os lados. —E a cerimônia de nossas núpcias? —perguntou sem preâmbulos. —Logo. Não há razão para prolongar a espera — ele se apoiou contra o parapeito para contemplar as emoções que passavam pelo rosto


dela—. Se é que é de seu gosto, é claro… suponho que não devo subestimar a quantidade de tempo que uma mulher necessita para estas coisas. —Não tenho objeção alguma, porque me falta experiência. Suas palavras eram acompanhadas de um imperceptível movimento de ombros, como se não lhe importasse. Embora ele a olhasse arqueando as sobrancelhas, o instinto lhe dizia que não era verdade. Sim se importava, mas não estava disposta a admitir. Certamente não admitiria nada de nada diante ele… no momento. Pegou suas mãos de novo e as envolveu com seus dedos calejados pelo uso das rédeas e da espada. As seus não estavam muito melhor, pensou; não eram suaves, estavam completamente avermelhados, com os nódulos inflamados, a pele rachada e as unhas descascadas e quebradas. Não eram as mãos de uma dama de bom berço, e imaginar como devia ter sido sua vida em Llanwardine o fez apertar os dentes. —Aqui não terá que esfregar o chão, milady. —Graças a Deus — respondeu olhando as mãos com desagrado—. Estão assim por ter que arranhar a terra gelada para extrair raízes. E de romper o gelo da água para esfregar a louça depois das refeições. —Frieiras? —perguntou não sem certa compaixão, e as tocou com os dedos. Elizabeth suspirou. —Eu temo que sim. E nos pés. Jane Bringsty me aplicou unguentos de poejo, mas não serviram que nada. —Aqui cuidaremos de você. Não vou permitir que uma dama que vai casar com um Malinder sofra deste modo. Ele voltou a olhar as mãos delas ainda nas dele. Estavam destroçadas e deviam doer, mas tinha os dedos longos e finos, e umas unhas ovais muito belas. Bem cuidadas seriam umas mãos bonitas, o que lhe recordou que devia lhe oferecer algum símbolo de sua união, mas para um anel ainda


era cedo. Esperaria que ela pudesse levá-lo com orgulho e satisfação. Mas já sabia exatamente o que ia lhe dar. Elizabeth não tentou soltar-se, e quando em um nobre gesto de cavalheirismo Richard se inclinou para beijar suas mãos destroçadas pelo trabalho, sentiu que ela apertava ligeiramente as dele. Aquele pequeno gesto de confiança o comoveu e surpreendeu, de modo que se sentiu animado a virá-las e depositar um beijo na palma, que ao contrario era tão suave que ficou um instante mais ali, as esquentando com sua respiração para depois, ao erguer-se, viu que o observava com os olhos muito abertos. Ficou enfeitiçado por seu fundo violeta e sentiu vontade de acalmá-la e acariciá-la como faria com um potro recém-domado. Durante um instante não fizeram outra coisa que olhar-se, até que ela retirou suas mãos e o momento se rompeu. —Desçamos. O vento sopra forte aqui — ele disse, e a conduziu escada abaixo—. E tem que tomar o café da manhã. Tenho que lhe apresentar quem ainda não conheça na casa. Ao chegar ao pátio ele colocou a mão dela em seu braço para voltar para aos salões, sem dúvida satisfeito com o que tinha ocorrido. Podia ser uma mulher franca até a beira do desconforto, uma pessoa com a qual não ia ser fácil viver, muito obstinada e decidida, mas pelo menos tinham conseguido chegar a um acordo entre eles. Enquanto isso, Elizabeth de Lacy se esforçava por conter a luz de esperança que tinha lhe esquentado o coração. «Cuidado!”», ela se advertiu. Seria muito fácil permitir que ele rompesse as barreiras que tão eficazmente tinha construído ao longo dos anos para proteger da dor seu coração. Mas Richard Malinder era um homem respeitador. Tinha-lhe mostrado uma compreensão que não esperava, e seu braço era forte. —O que foi? — ele perguntou com um sorriso, como se tivesse se dado conta do que estava pensando. Mas Elizabeth, depois de pensar um pouco, limitou-se a negar com a cabeça e a baixar o olhar. Como dizer a


aquele homem que se preocupava com sua felicidade e o estado de suas mãos, que era incrivelmente bonito? Que seu cabelo escuro alvoroçado pelo vento, as linhas e os planos de seu rosto faziam palpitar o coração dela? Um repentino golpe de vento puxou sua capa e seu véu. Ela jogou as mãos à cabeça para segurá-lo, consciente apenas do magnetismo daquela figura que tinha tão perto e com a qual logo ia unir se. Consciente apenas de que queimava o sangue onde ele havia tocado. O rastro de sua boca na palma ainda queimava como um ferro quente. Antes que se separassem na porta principal, seus caminhos se cruzaram com o de Robert, que tinha estado observando descaradamente sua chegada, e com uma inclinação e um sorriso se despediu de Elizabeth. —Uma pena que… Mas não terminou a frase ante o olhar de advertência de seu primo. —Não se preocupe, eu sempre fui um pouco curto de tato — e depois, sem poder reprimir-se, acrescentou—: Mas não vai negar que não é precisamente uma gracinha! Richard ficou olhando para seu primo enquanto procurava a resposta adequada e de repente se encontrou pensando em Gwladys. Bela e desejável de rosto e corpo, o sonho de qualquer homem. Recordava-se de ser jovem e estar apaixonando-se perdidamente por sua beleza indiscutível, de sua resposta física diante ela, do desejo de beijá-la, acariciá-la, possuí-la. Lembrava-se do orgulho que lhe inspirava como esposa e as esperanças que lhe tinha dado conceber seu casamento com ela. Como lhe cortava a respiração e seu instinto respondia assim que como o olhar. E agora Elizabeth… uma mulher complicada que despertava nele… o que? Não estava certo. —Não, não é uma gracinha, mas ao menos é sincera. Acredito que seria incapaz de fingir — respondeu sem dar-se conta da aspereza de seu tom até que viu Robert o olhar surpreso—. Diferente de Gwladys, que…


Não continuou. Robert sentiria curiosidade em saber onde terminava aquele irrefletido comentário que ele não deveria fazer feito. Mas ao menos estava certo de que seu primo não perguntaria. E ele se descobriu saltando da formosa Gwladys para Elizabeth de Lacy. Não era um salto tão incômodo como podia ter imaginado. Não é bonita, mas tampouco é insossa. Fala com as pessoas. Tem uns belos olhos. Se expressa abertamente, sem fingimentos. Seu contato é firme e respondeu ao toque de minha mão. Roçou o arranhão como se lhe importasse minha dor. Respondeu quando beijei sua mão. Como seria…? Como seria beijá-la na boca? Richard acabou chamando-se de idiota. Elizabeth encontrou refúgio em seu quarto, onde pôde avaliar e admirar-se do efeito que Richard Malinder causava nela. Mal tinha se ajoelhado diante do fogo que tinham acendido quando a porta abriu e apareceu lady Anne, a viva imagem da moda feminina. Usava uma sobreveste aberta nos lados e arrematada com pele, que se ajustava ao seu vestido de um verde intenso apertado até o quadril, com uma saia que caía em dobras marcadas a partir de um cinturão com pedras combinando, um modelo que sem dúvida pretendia chamar a atenção para as suaves curvas da moça. O véu transparente não ocultava de modo algum seu maravilhoso cabelo. —Elizabeth, se necessitar de algo para as bodas, Richard vai amanhã a Hereford — anunciou dando-se importância. —Obrigado. Falarei com ele — respondeu. Anne se sentou comodamente junto ao fogo, entrelaçou as mãos e sorriu. —Acho que terá tempo para ir visitar lady Joanna. Houve um longo silêncio no qual contemplaram as bolinhas de pó suspensas no ar que o sol iluminava. Aquelas palavras não eram nem um pouco inocentes, e sim carregadas e letais, e Elizabeth estava bem ciente disso, de modo que levantou o rosto e esperou.


—Não sabe? Claro… é normal — Anne arregalou os olhos, a viva imagem da compaixão—. Mas é melhor que saiba o que todo Ledenshall sabe. —E do que se trata? —perguntou por fim—. Quem é Joanna? —A amante de Richard. Todo mundo sabe que tem uma amante em Hereford. «Ah!» —E você, pensando em meu bem-estar, acreditou que era seu dever me informar, não é? —É claro. Você acha que fui pouco sensível? Perdoe-me, querida Elizabeth, mas pensei que gostaria de sabê-lo. Não pretendia te incomodar com isso. Eu nunca iria querer feri-la deliberadamente. Seu sorriso era afligido. Seu olhar, não. Incrível que fosse capaz de não perder as estribeiras. Que surpresa. Inclinou a cabeça e a olhou fixamente. Quando falou o fez com uma voz régia, serena. —Os assuntos de Richard concernem apenas a ele, sem dúvida. E pode ser que a mim também quando estivermos casados, mas certamente não concerne a você. —Claro que não. É óbvio. Perdoe meu engano. Mas o estrago já estava feito. Quando voltou a ficar sozinha, Elizabeth permitiu que a fúria que levava dentro passasse das chamas às cinzas. Assim Richard tinha uma amante em Hereford chamada Joanna. É claro que queria conhecer esse detalhe de sua vida, e sem dúvida Richard podia tomar uma amante se isso o agradava, mas preferia não ouvi-lo da língua viperina de lady Anne. Apertou os punhos. Não podia explicar como tinha sido capaz de conter-se e não atacar a aquela criatura maliciosa, verbalmente ao menos. Mas cravou as unhas nas palmas da mão ao recordar da quão incrivelmente bela que era Anne Malinder, particularmente quando o sol iluminava seu cabelo dourado avermelhado e reverberava em seus olhos cor esmeralda.


Seus pensamentos voltaram para seu prometido e seu coração encolheu. Tinha-lhe parecido um homem amável em seu encontro nas ameias, e sim, ele o era, mas apenas porque não lhe importava nem um pouco. Não necessitava de uma relação íntima com ela além da estritamente necessária para conceber um herdeiro. Que absurdo tinha sido permitir que essa semente de esperança arraigasse em seu coração. Elevou a cabeça, ergueu-se e jogou mão do orgulho como tantas vezes tinha feito em sua vida. Conseguiria levar a bom porto aquele casamento e utilizaria Richard Malinder como ele tinha previsto utilizar a ela, se isso era tudo que podia fazer. Administraria o castelo de Ledenshall com sua melhor capacidade. Iria se vestir para o casamento como se esperava de uma noiva da família Malinder. Desafiaria a determinação de lady Anne em feri-la e magoá-la, e jamais mostraria debilidade alguma perante ela nem respondia a seus sarcasmos. Se a frente de batalha tinha sido desenhada no dia anterior, naquele momento se declarou a guerra. Naquele estado de ânimo se encontrou com Jane Bringsty, que foi procurá-la com um passo firme e decidido pensando em lhe oferecer bons conselhos e poções de ervas. —Há algo que deve fazer antes de passar mais noites embaixo deste teto, milady. Jane lhe entregou um pequeno frasco com uma substância verde e pegajosa que desprendia um aroma bastante desagradável. Elizabeth enrugou a testa. —Use e não se preocupe. Vai lhe cair bem. Sem protestar mais, Elizabeth aplicou obedientemente aquele unguento de poejo nas mãos, o que lhe trouxe a lembrança dos lábios de Richard Malinder em sua maltratada pele. —O que é o que devo fazer antes de passar mais tempo aqui? — perguntou-lhe, contendo o fôlego quando aquela massa começou a lhe arder na pele. —Se desfazer dessa mulher… de lady Anne Malinder.


Elizabeth olhou sobressaltada para sua donzela e não encontrou a picardia que esperava em seu rosto a não ser um pouco mais denso e severo. —Acredito que estamos de acordo, Jane — respondeu. —Não a suporto, mas voltará para Moccas assim que as bodas terminem. —Amanhã já seria tarde. Um pouquinho de beladona no vinho seria suficiente, não com intenção de machucar, é claro, mas… —Não, Jane — ela a cortou severamente—. Não fará tal coisa. Não tenho medo dela. —Pois deveria. É um verdadeiro perigo. —Voltou a consultar as folhas? —E se o tiver feito? —respondeu movendo-se pelo quarto para dobrar a capa emprestada antes de virar-se para sua ama com o olhar sério —. Mas eu não preciso fazê-lo. E a você tampouco, se for sincera. É fácil ler suas intenções. Eu vê-lo por seus interesses, mas ela não. —O que viu? A curiosidade a empurrava a perguntar, embora intimamente se repreendesse por animá-la a tais coisas. —Não muito, mas o bastante para saber — satisfeita, ela tampou o frasco—. O homem moreno que busca seu mal continua aqui, mas agora isso não importa. Anne Malinder é uma ruiva de língua venenosa da qual sai inveja e ciúmes pelos olhos. Ela o quer para ela, e se seguir meu conselho, uma pequena enfermidade a convenceria a voltar para casa e se afastar de você e de seu senhor. Posso apostar que não teria vontade de dançar com dor nas pernas e nas tripas. Imaginá-la prostrada assim era encorajador e Elizabeth desfrutou por um instante da imagem. Logo olhou indignada para Jane e para sua própria complacência. —Me ouça bem, Jane: não o fará. —Pois vai lamentar! —Está me sugerindo que lorde Richard não vai ter a capacidade ou a inclinação de resistir a Anne Malinder?


—Que homem seria tão tolo em resistir a um corpo como o dela e a um convite tão descarado? —espetou, com os braços nos quadris—. Use a cabeça, milady. Ela se veste como quem vai a uma festa na corte, mostrando uma boa porção de decote tendo em conta que estamos no inverno. —É possível — a imagem da Anne com um precioso vestido de veludo esmeralda se materializou ante seus olhos—. Mas cada uma se veste como quer. —Um pouco de pó de acônito serviria — continuou Jane—. Tremeria como tivesse malária, e não teria mais remedeio que cobrir-se. A ideia a fez sorrir. —Oh não, Jane! —insistiu, apesar do quão sugestivo era a ideia. —Muito bem, milady — Jane respondeu irritada, e com a poção na mão se dispôs a sair do quarto, mas se deteve na porta—. Vai lamentar. Depois não diga que não a adverti isso. E a fechou. A gata saltou em suas pernas em busca de algumas caricias, bocejou e cravou seus grandes olhos nos de sua dona. E Elizabeth pensou que eles pareciam com o olhar verde de lady Anne. —Eu sei. Vivemos rodeados de influências, umas benignas e outras malignas — passou a mão pela cabeça e o lombo negro da gata, o que conseguiu um imediato ronrono de prazer—. Richard Malinder é moreno como as asas de um corvo, mas não é o homem das predições de Jane. Eu o vi. Na bola, em Llanwardine e senti um laço especial com ele embora dissesse a mim mesma que não era assim — afundou os dedos em seu pelo e a gata arqueou as costas—. Não é meu inimigo. Não pode sê-lo — murmurou—, mas o que ele pensa de mim? E Elizabeth se deixou levar pelos devaneios.


Cinco Nos dias que precederam às bodas, Elizabeth se sentia suscetível e afligida, embora no fundo o problema fosse que estava sozinha. Lewis tinha voltado para Talgarth para informar a sir John que tinha chegado bem. David também a tinha abandonado para unir-se a Richard em sua visita a Hereford. Inclusive seu prometido se foi, e sua despedida, à vista de todos no pátio, tinha sido formal, apressada e inquietante. —Deus lhe guarde milady. Estarei de volta para a cerimônia. Uma breve inclinação de cabeça, um apertão em sua mão e se afastou para montar em seu garanhão baio. Isso era tudo o que ia dizer? Talvez fizesse isso assim por ser influenciado pelas circunstâncias, já que estavam rodeados de soldados e carretas carregadas, ou talvez a antecipação por voltar a ver sua amante, o impedisse de concentrar-se em outra coisa, mas enquanto o via segurar as rédeas de sua montaria, não estava disposta a lhe conceder o benefício da dúvida. Ele estava-se despedindo dela como se para ele não tivesse a menor importância, e o olhar que lhe dedicou foi mal humorado. Quis a casualidade que Richard percebesse isso e durante um momento que pareceu muito longo ficou olhando-a; depois entregou as rédeas ao seu escudeiro, tirou as luvas e voltou para junto dela.


—Não há modo adequado de que um noivo se despeça de sua doce prometida. Elizabeth sorriu ante o cinismo de suas palavras. Devia ter lido seus pensamentos. Mas ele pegou seu rosto entre as mãos e passou os polegares pelas suas bochechas, e antes que ela pudesse se afastar a beijou na boca diante de toda a audiência. Calor e poder. Uma posse breve, mas intensa. Sentia-se incapaz de pensar em algo e o ar não chegava aos seus pulmões, e quando ele se separou e a olhou arqueando as sobrancelhas, não encontrou o que dizer. Seria aquilo um cortejo? Ou talvez uma forma de dobrá-la a sua vontade. Ele lhe parecia um homem implacável, como ficou demonstrado quando a puxou para que o acompanhasse até seu cavalo. Uma vez na sela se inclinou para aproximar-se. —Sorria para mim, Elizabeth. Mas ela se manteve séria, com o queixo erguido. —Talvez sorria quando eu voltar. E partiu, deixando-a só no pátio. De repente ela se sentia abandonada, e não fazia mais que aguardar sua volta, embora nunca o tivesse admitido perante alguém. Não deixava de aguçar o ouvido tentando perceber o som dos cascos dos cavalos, de vozes fortes no pátio, do aviso dos guardas no portão ou nas ameias, do ruído das corentes ao abaixar a ponte, mas sempre se tratava de convidados que chegavam para o casamento. Como ele podia lhe importar tanto? Apenas o conhecia há vinte e quatro horas, disse-se com um suspiro enquanto observava o caminho das ameias. Quem sabe tivesse decidido chegar no tempo exato para prometerlhe fidelidade no altar. Talvez ele pouco se importasse, já que seu casamento se apoiava apenas em razões políticas. E a ela tampouco deveria se importar. Com certeza para ele dava no mesmo ter que casar-se com o traje de viagem coberto pelo pó do caminho, manchado de suor depois de uma semana de subida pela Welsh Marches. Por que então a ela se


preocupava com seu próprio aspecto, quando para Richard Malinder só importaria a aliança política que selaria seu casamento ? Os dias foram passando e a hora das bodas se aproximava. O que estaria fazendo que o retinha tanto tempo fora? Provavelmente Anne Malinder tinha razão e sua visita a Hereford tinha a ver com sua relação com uma mulher chamada Joanna. Era como se uma mão gelada apertasse seu coração, mas ocultava sua ansiedade atrás de um exterior solene, aperfeiçoado com uma longa prática. Mas sua paciência ia se esgotando dia a dia. Enquanto isso, ela sentia-se cada vez mais frustrada pelas bemintencionadas tentativas de melhorar seu aspecto e as críticas menos que sutis de lady Anne a seus defeitos. —Sinto-me como um ganso que engordam para um banquete — murmurou quando lhe deixaram um prato de empanada de veado, crocante e dourado, enquanto costurava seu vestido de noiva. Mesmo assim, agradecida, tentou comer. Tinha que fazê-lo se não quisesse que Richard ficasse horrorizado perante sua falta de carne sobre os ossos. Se ele pudesse contar suas costelas facilmente, a afastaria com um olhar enojado. Sem dúvida Joanne tinha tentadoras curvas que atraiam Richard ao seu leito, então ela tinha que comer. Sentia-se virtualmente sitiada por Jane, que cobria de poções e unguentos suas mãos, além de fazê-la beber, apesar de seus protestos, uma infusão de casca de salgueiro para clarear e proporcionar brilho a sua pele. Mas era possível, pensou não sem certa satisfação, que a aliança deslizasse facilmente além de seu nódulo em lugar de ficar presa. Para seu cabelo o que precisava era de um milagre. Em seus piores momentos de depressão, recordava de como tinha sido: comprido, grosso e liso. Negro, com o brilho das plumas de uma gralha. Tão negro quanto o de Richard. Imaginou, sem poder conter o sorriso, como seria que ele pudesse deslizar sua mão por ele, antes que se obrigasse a voltar para a realidade.


Seguia tendo-o curto e quase grudado ao crânio como o pelo de um animal. O lavava no embriagador líquido a base de flores de lavanda maceradas em vinho que Jane jurava que era um remédio eficaz, mas o crescimento de seu cabelo seria questão de tempo, algo do que não dispunha antes do casamento, então teria que preparar um véu que pudesse cobrir a maior parte do dano. Não podia, e não estava disposta a fazê-lo, casar-se com a touca de uma freira. O vestido de noiva tinha sido medido, cortado e confeccionado em um luxuoso veludo de um vermelho intenso, a cor do melhor vinho de Bordeaux, o que poderia trazer cor para suas pálidas bochechas e que tinha sido desenhado para cobrir suas marcadas clavículas e seu busto pequeno. Tinha sido um curioso milagre que Richard Malider tivesse tido o detalhe de oferecer-lhe isso. —Vai ser um vestido lindo — anunciou Anne Malinder—. E que lástima que seu busto não seja generoso o bastante para usar um corpete. Eu sim poderia fazê-lo. De fato, o vestido que confeccionei para a ocasião é um modelo que a própria rainha Margaret usou. Sua figura sim que é proporcionada — Anne olhou para Elizabeth antes de continuar. — Acredito que é costume utilizar um fio do cabelo da noiva quando se costura seu vestido para que traga boa sorte — ela acrescentou enquanto movia a agulha, não mais afiada que sua língua, com maestria—. Duvido que isso seja possível, Elizabeth querida. Poderíamos pôr um dos meus se quiser. Seria perfeito. Elizabeth sabia como se controlar e reteve as palavras que lutavam para sair de seus lábios, mas a senhora Bringsty saltou em sua defesa. —Não são necessários tais artifícios, milady. Há outros encantos que a mãe natureza proporciona que podem benzer esta união. E no decote do vestido se costuraram várias folhas de erva donzelas e de lunaria para pedir boa sorte e felicidade no casamento , um amuleto que Elizabeth contemplou com tristeza. Ia necessitar de algo mais que um


punhado de folhas para benzer seu casamento , particularmente se seu futuro marido estava desfrutando de uma animada relação com aquela tal de Joanna. O assunto que tinha levado Richard a Hereford ocupou mais tempo do que esperava, já que tinha uma responsabilidade particular em fazê-lo, tão inevitável que o fez voltar para Ledenshall menos de vinte e quatro horas antes do enlace, o que, se houvesse pensado atentamente, teria percebido

que

acarretaria

consequências.

Encontrou

Ledenshall

mergulhado em um ar festivo, cada mínimo espaço disponível ocupado por um parente próximo ou longínquo. Também descobriu que sua noiva o esperava no pátio, uma noiva que tinha pouco tempo para ele e que o tinha recebido dura, séria, dedicando apenas a ele e a seu irmão David algumas palavras ao passar. Nem ao menos um sorriso, que era o mínimo que cabia se esperar entre uma dama e seu apaixonado. Quase ao igual a sua partida. —Bem-vindo a casa. Seu tom dizia tudo. Richard desmontou. —Elizabeth… atrasamos-nos. —Eu sei. —Encontra-se bem? —Sim. Franziu o cenho. Sua brutalidade o incomodava. De modo que pelo visto estava decidida a levar a sua aspereza até suas últimas consequências, não? Pois bem… sério frente a ela, sem deixar de olhá-la aos olhos, ofereceu-lhe a mão com a palma para cima, ação clara a qual devia responder. Mas sua encantadora noiva cruzou as mãos nas costas. Richard se manteve firme, consciente de que todos os olhos estavam postos neles. O orgulho o fez apertar a mandíbula. Não ia tolerar que o desafiassem daquela maneira em seu próprio castelo, e menos ainda por uma moça que não era sua esposa. Esperou. E esperou até que Elizabeth, ruborizada e a contra gosto, apenas roçou sua mão com a dela e ele,


instintivamente, segurou-a com força quando ela tinha intenção de afastála. Depois a levou aos lábios e a beijo devagar. —Elizabeth, eu não a abandonei, como pode ver. —Não, milord. Mas a tensão de sua mão não cessava. Era isso o que temia? Que sua ausência fosse um rechaço? Não podia ser, agora que já a tinha em sua casa como sua prometida. A um requerimento de mestre Kiplin deu a volta para dispor da carga que levavam os animais e quando voltou a virar-se tudo que viu foi à figura de sua noiva que se afastava, com os ombros formidavelmente retos, para a porta. —Bom… — ele passou a mão pelo cabelo revolto e sentindo crescer a ira até que viu o sorriso do David e arqueou as sobrancelhas—. O que é que disse? —Nada —ele riu—. E não disse nada há dias. Esse é o problema. —E o que deveria ter feito? —Voltar antes. Como vê, Elizabeth tem caráter. —Já o vejo — ele respondeu, lhe dando uma palmada nas costas—. Então, acha que devo temer sua vingança? David se pôs a rir. —Eu não tenho medo de Elizabeth. Richard sorriu. O que esperava ele de sua prometida? Certamente muito mais do que tinha recebido. Tinha se despedido com o cenho franzido e o tinha recebido do mesmo modo. O atraso não tinha sido de tudo culpa dele, mas Elizabeth de Lacy não se incomodou em averiguar sua causa antes de lhe jogar a culpa. Seu gênio começou a ferver de novo, e se desiludiu ao compreender que o acordo, a compreensão que pareciam ter alcançado em sua conversa, evaporou-se em sua ausência. Dado que não era próprio dele deixar as coisas sem resolver, dirigiuse a casa e a alcançou no grande salão. —Madame! Seu tom imperioso a fez para apesar de que tinha posto um pé no primeiro degrau.


—Milord. Alcançou-a dando grandes passos. —Quando volto para minha casa, espero encontrar uma esposa que me dá graciosamente as boas-vindas, e não com uma harpia de voz áspera. Não penso em dar um espetáculo para a minha gente, nem permitir que os intrigue com sua falta de propriedade e boa criação. Meu atraso não foi minha decisão, nem deveria você como esposa questioná-lo — sua irritação era grande e não considerou a força nem a direção de suas palavras—. Esperava que os falatórios que correm pela Welsh Marches sobre sua obstinação e falta de cortesia não fossem mais que meras intrigas sem fundamento e puro exagero. Viu-a apertar os punhos e os lábios, perder a cor e respirar fundo depois do ataque de suas palavras. Seus olhos, de repente escuros, não se separaram dos dele e teve que admirar sua coragem, mas sem se deixar afetar pelo sofrimento, inclusive pela dor que via em sua expressão. Seguiu decidido a deixar claro seu ponto de vista sobre o respeito que devia haver no casamento . —Não admito desculpas para um comportamento grosseiro em minha casa, milady. Ela desceu por fim o olhar. —Não, milord. Não há desculpa possível. —Espero que me receba e a meus convidados com amabilidade. —Sim, milord. Desculpe-me. Agi mal. —Então, estamos de acordo. —Sim, milord. Não voltarei a ser culpada de… maus modos. Esperou para ver se dizia algo mais, surpreso por sua anuência, mas como ela seguia de pé com a cabeça baixa e a ele não ocorria nada mais a dizer e inclusive começava timidamente a lamentar sua escolha de palavras, deu meia volta e saiu. Elizabeth o viu partir. Sem dúvida tinha cometido um engano, mas como confessar que tinha sido o medo o que a tinha feito agir assim? Medo de comparar-se com a bela Anne Malinder, que sem dúvida urdia sua trama


para ser a substituta da igualmente encantadora Gwladys. Medo de sua relação com a amante em Hereford. A vergonha a cobriu dos pés a cabeça. Richard tinha razão, e ela não sabia como arrumá-lo. O desespero a fez tremer, mas se obrigou a subir as escadas com a dignidade de uma rainha. No alto a esperava Anne Malinder vendo tudo, observando-a, esperando-a com um sorriso de verdadeiro deleite. —Vejo que Richard já retornou. Discutiu com ele? —Não. Entendemo-nos à perfeição. A moça deu um passo para ela. —Voltará para os braços de Joanna sem perder um minuto se você voltar a discutir com ele — ela riu—. Seu comportamento não é próprio de uma doce prometida, mas eu falarei com ele por você. Sempre pude dirigir ao Richard, inclusive quando era uma menina, algo que agora já não sou. Não se preocupe Elizabeth, que eu me ocuparei de suas necessidades. —Não me cabe nenhuma dúvida! Tinha sido a gota que enchia o copo. Deixou atrás a sua rival e se encerrou em seu quarto lamentando os enganos que tinha cometido e sem encontrar um modo de desculpá-los. Enquanto isso, no pátio do castelo, Richard seguia rememorando a tristeza daqueles olhos azuis e quase lamentava a ira de suas palavras. Só lhe faltava que a senhora Bringsty se plantasse diante dele com intenção de lhe falar. —Preciso falar com você, milord. —Não tenho tempo agora — replicou, e teria passado reto se ela não o tivesse agarrado pela manga—. E então? —espetou. —Não a mostre em público, milord. E antes que pudesse lhe perguntar algo, desapareceu. Mas tampouco precisava lhe perguntar ao que se referia. Não necessitava de seu aviso… ou talvez sim, porque com tanta pressa não tinha tido tempo de pensar nas repercussões para Elizabeth do antigo costume de que o noivo e a noiva virtualmente se despojassem de suas roupas diante dos convidados, um hábito que fazia parte das celebrações das bodas quase tanto quanto o


intercâmbio de promessas perante o sacerdote. A lembrança da marca das chicotadas que tinha nos ombros o fez decidir. Apesar do ocorrido, não podia submetê-la aos olhares de todas aquelas pessoas. Lamentava ter lhe falado desse modo. Havia cantos ocultos e incômodos em sua noiva dos que ainda nem sequer tinha se aproximado. A porta da câmara circular que Nicholas Capel tinha em Talgarth estava bem fechada. Não podia permitir que alguém pudesse presenciar a cerimônia que ia celebrar. O casamento era iminente, e tinha chegado o momento de passar à ação. Bastaria modelar duas figuras com a cera de duas velas. Apertou, arredondou, limou e lavrou até que conseguiu ter duas figuras sobre a mesa, homem e mulher, torpemente modelados, mas facilmente reconhecíveis nus e sexualmente explícitos. O casamento estava assegurado, mas não faria mal dar um empurrão ao destino. Capel entrelaçou as mãos em um gesto de autoridade. —Vamos reunir ao casal, com ou sem seu consentimento. Asseguremos-nos de que Malinder seja capaz de ter um herdeiro com ela. Capel jogou água em uma terrina de prata com símbolos cristãos lavrados na borda, e murmurou palavras em latim para benzê-la. Depois ele salpicou as duas figuras com o líquido sagrado. —Nomeio-os a ambos: Richard Malinder. Elizabeth de Lacy. De um pequeno pacote tirou várias coisas: dois cabelos escuros da cabeça de Richard Malinder e outros dois de Elizabeth de Lacy, compridos como os tinha antes de ir para Llanwardine. A seguir, colocando-os em torno do pescoço das figuras, as colocou cara a cara, peito contra peito, pernas contra pernas, e com arame as uniu. —Que sua união seja eficaz e frutífera — murmurou com uma venenosa satisfação e um sorriso de triunfo. Como era crédulo John do Lacy, e com que facilidade se convenceu de que deteria a autoridade. Que fácil era conseguir que seguisse seus conselhos se fizesse dançar o poder diante de seu nariz como se fosse uma


cenoura, um pêssego suculento que cairia da árvore por apenas estender a mão. Mas não ia ser De Lacy quem ia recolher a fruta madura. Richard ofereceu a mão a sua noiva, e Elizabeth pôs a sua delicadamente na dele. Ele assentiu para lhe dar ânimo, e apertou com suavidade seus dedos para que juntos pudessem subir os degraus que os separavam do altar no qual os aguardava o sacerdote. Mas antes tinha que lhe dizer algo. —Perdoe minhas palavras de ontem. —Não há nada que perdoar. Sou eu quem deve lhe pedir desculpas por minha falta de cortesia. —Eu as aceito. Com suas novas roupas, Elizabeth se sentia forte e confiante. Inclusive uns débeis raios de sol tinham decidido benzê-la e acompanhá-la naquele dia. Seu escasso calor a consolava, animando-a a relaxar. Logo deixaria de ser Elizabeth de Lacy. Manteve a cabeça alta, a postura erguida, segura de sua classe e posição como senhora de Ledenshall. Por que não ia ser feliz? Afinal se equivocou, porque Richard Malinder não tinha intenção de casar-se com ela com sua roupa de campanha e o pó de quatro dias de viagem. Justamente o contrário. Estava magnífico. Seu cabelo brilhava ao inclinar a cabeça para recebê-la. Suas roupas eram de brocado verde e negro cujo estampado consistia em ondas fluídas. A túnica chegava até o joelho e era debruada com uma pele escura, e a posição que ocupava ficava clara aos olhos de todos graças ao cinturão de ouro e pedras preciosas com que tinha na cintura e no qual pendurava uma espada, e aos anéis que trazia nas mãos. Uma pesada corrente de ouro e pedras descansava sobre seus ombros. Richard Malinder podia interpretar o papel de cortesão assim como o de soldado ou senhor de uma fortaleza. Que mulher não desejaria casar-se com um homem assim? Elizabeth o olhou nos olhos e o que viu em seu rosto a tranquilizou: o brilho de


compreensão do que ia ser uma dura prova para ela naquele dia, mas também uma clara admiração. E vê-lo coloriu suas bochechas. Richard só era consciente da mão fria que levava na sua e das sutis diferenças entre aquela mulher e a inquieta criatura com a qual tinha trocado opiniões na muralha fazia menos de uma semana. Certamente tinha estado ocupada em sua ausência. Alta e elegante, o rico veludo que a envolvia e que formava a cauda do vestido, as linhas fluídas de seu corpo eram toda graça e suavidade, nada tinham a ver com a lembrança que tinha de uma mulher sem encanto nem atrativo. As mangas de seu vestido acabavam em uns punhos de pele, sobre os quais flutuavam umas mangas cortadas que caíam vaporosas até roçar a parte inferior do vestido. O sol brilhava nas dobras de um véu que lhe roçava os ombros. Assim não era precisamente uma gracinha, não é? Bem, mas por Deus que não se parecia em nada com a criatura empapada cuja gata tinha lhe deixado uma boa lembrança no pulso. Possivelmente fosse também capaz de convencer a sua proprietária de que não precisava mostrar as unhas. Quando se colocavam ante o sacerdote tudo começou a ganhar claridade e intensidade para Elizabeth, inclusive o fato de que uma nuvem escura tinha abafado o sol e que todos os convidados se amassavam em suas capas. Não era uma premonição. Não. Com voz clara Richard detalhou o dote com o qual contribuía sua noiva, cuja importância foi uma surpresa inclusive para ela, embora pensando bem devesse ter sido necessário para comprar aquele ia ser seu marido. Certamente o preço que John de Lacy tinha pagado era muito alto. Gostaria que Richard chegasse à conclusão de que havia valido a pena. Depois tudo ocorreu tão depressa que quase ficou sem fôlego. Por fim era Elizabeth Malinder em lugar de esposa de Cristo, e seus lábios se roçaram em um beijo simbólico. Em seguida um anel de ouro profusamente


entalhado entrou com suavidade, com muita suavidade, além de seus nódulos até ficar em seu lugar definitivo. O banquete teve lugar no grande salão. Elizabeth compartilhou a taça e o prato destinado aos noivos com seu marido ante os gritos de júbilo dos presentes, que já começavam a esvaziar suas taças de cerveja e vinho, que eram rapidamente enchidas de novo. Em uma tentativa inútil de não pensar nas horas que estavam por chegar, procurou sua família entre o burburinho das pessoas. Ali estava sir John, moreno e apático, com um toque de arrogância e condescendência. Ao seu lado estava sua segunda esposa, lady Ellen, calada e introvertida. Também podia ver Lewis um pouco mais longe, vestido para a ocasião, mas com um ar solene, nem contente nem natural, o que era pouco comum nele. E David, animado e contemplando tudo com um brilho no olhar. Naquele momento seguiu a direção do olhar de sir John e viu que observava a Richard. Calibrando, medindo, com os lábios apertados e algo no olhar que não podia decifrar, mas que sem dúvida não era agradável. Ao seu lado se sentava mestre Capel. Sua presença sim era uma surpresa. Viu-o inclinar-se para murmurar algo no ouvido de sir John, e este sorriu. Seu tio sempre andava maquinando algo. O banquete estava a ponto de acabar, e um estremecimento de antecipação e preocupação lhe percorreu as costas, uma sensação que a fez recordar com nitidez das palavras de Anne Malinder: «O que dirá Richard quando a vir?» Anne se tinha posto a rir para tirar importância de seu comentário e Elizabeth sentiu uma arcada na garganta ao imaginar a seu marido deixando-a seminua em público. Teria visto o alcance de suas cicatrizes? Ela lhe causaria repulsa? Nem sequer ia poder ocultar-se embaixo de uma cabeleira solta quando os convidados invadissem a câmara nupcial. Quando


lhe tirasse o véu. O que diria de verdade? Que comentário cruel e humilhante trocariam os convidados entre si? —Qual é o problema? — Richard perguntou-lhe em voz baixa. Devia ter estado observando-a, e lhe comoveu que se preocupasse com ela. —Nada, milord, além do fato de que me sinto observada em todos meus movimentos, tanto por sua família quanto pela minha. —E isso lhe importa? É a senhora de Ledenshall e pode fazer o que lhe agrade. Olhe para mim — ele lhe pediu ao ver que ela baixava o olhar com um sorriso que suavizou a austeridade de suas feições—. Vamos dar aos nossos convidados algo sobre o qual especular. Elizabeth se encontrou sorrindo também. —O que sugere? Antes que se desse conta, ele inclinou-se e a beijou na boca, não como na igreja, mas sim de um modo mais quente, cheio de promessas. Quando se separou, Elizabeth ficou olhando com os lábios entreabertos, as bochechas avermelhadas e um estranho calor no ventre. —Certamente dará o que falar — murmurou. —Isso eu espero! E para surpresa e deleite dela, voltou a beijá-la. Com a lembrança da boca de sua esposa, Richard aproveitou a oportunidade de circular entre os convidados. Todos seus sentidos estavam em alerta apesar das numerosas doses que tomou, já que estava claro que Elizabeth não era a única De Lacy que mostrava sinais de tensão. —Lewis. Procurou uma cadeira desocupada e se sentou junto ao jovem. —Milord… —Richard! — ele lhe disse sorrindo—. Seu irmão já me faz sentirme mais livre usando meu nome de batismo. —É que meu irmão não sabe o que é o respeito — ele respondeu tentando sorrir. —Está muito sombrio para uma ocasião como esta. Algo o aflige? Houve uma breve pausa até que Lewis tomou uma decisão. —Não. Só que… eu diria…


—Pode falar. Sou muito discreto… para um partidário de Lancaster, quero dizer — ele brincou com a esperança de tirar o veneno que estava incomodando o irmão de Elizabeth, mas não conseguiu. —Não é nada — em seu rosto seguia a expressão severa e olhou para outro lado—. Não tenho desculpa, e não deveria me mostrar assim nas bodas de minha irmã. Alegro-me por você… e por ela. Suas palavras não lhe deixavam outra opção que mudar de tema, mas sem dúvida Lewis tinha uma preocupação que o acossava. —Que Deus benza sua união — as mãos de Ellen de Lacy apertaram as de Elizabeth com mais força do que a ocasião requeria—. Espero que possa dar um filho a seu marido. Eu não pude. —Eu realmente sinto muito. Elizabeth sabia da dor que Ellen suportava, mas nunca a tinha escutado falar tão abertamente disso. Era uma dama muito reservada e que vivia sob o julgo de seu marido, de modo que guardava seus pensamentos para si. —E deve sentir muita falta de Maude. —Sim. Todos nós temos saudades. Gostava dela como se fosse minha própria filha, mas sir John esperava poder ter um herdeiro. —Estou certa de que não a culpa, Ellen — estava tudo menos certa, mas não sabia o que lhe dizer para consolá-la da dor que via em seu olhar. Lady Ellen tinha ficado grávida em duas ocasiões de um varão, mas tinha perdido aos dois. —Dá na mesma. —Não é feliz? —aventurou-se. Ellen apertou suas mãos. —Não se preocupe Elizabeth, e desfrute do dia de suas bodas. Mas Elizabeth sabia que não tinha respondido a sua última e pouco delicada pergunta, e acreditou perceber uma tremenda infelicidade antes que a dama se virase. Tudo era inexplicavelmente inquietante.


Seis Elizabeth tirou o vestido e o dobrou. Ficou com a anágua e tirou o elaborado véu para por uma touca de linho presa por um diadema simples. Ainda não ia ficar com a cabeça descoberta. Jane teria continuado agitando ao seu redor, mas Elizabeth já estava cansada e lhe pediu que saísse para sentar-se na borda da cama e esperar com as mãos entrelaçadas. Tinham-lhe dado um monte de conselhos por ser virgem, embora a maioria já tivesse ouvido antes e acreditava que era melhor ignorar quase todos. Inclusive lhe deram uma taça de vinho aquecido para acalmar seus nervos, mas decidiu não bebê-la. Preferia enfrentar Richard Malinder com a cabeça em seu devido lugar. Não demorou. Richard e seu ruidoso acompanhamento subiram as escadas e ouviu seus passos no corredor. Teria sido impossível não ouvir os gritos e a risada, as piadas grosseiras a suas custas, assim para preparar-se levantou e se colocou de costas para o fogo, de modo que ficasse parcialmente oculta pelas cortinas da cama. Uma coisa era enfrentar a aquela prova com a coragem dos de Lacy e outra bem diferente era convidar a especulação. A porta se abriu e a animação entrou. Elizabeth


engoliu em seco para tentar descer o nó que o medo tinha formado em sua garganta, obrigando-se a permanecer erguida e com o olhar para frente. Richard não entrou, mas sim ficou na porta e dando as costas para ela impediu a passagem daqueles que pretendiam entrar. —Esta noite não passam daqui, amigos. Tinha falado com a voz tranquila e alegre, mas carregada de firmeza e completamente sóbria. —Tem vergonha, não é, Richard? —Melhor falar que tenho experiência. Já passei por isso antes — declarou, sem mover-se nem um centímetro e com a mão na fechadura como barreia—. Já recebi todos os conselhos que podia precisar naquela ocasião. Alguns vieram inclusive de vocês mesmos. E não me serviram. —Pode ser que não, mas após não deixou de pô-los em prática, não é, patife? Uma gargalhada encheu a sala. —Como queira, mas o que está claro é que esta noite não os necessito. Boa noite, cavalheiros. No grande salão os espera toda a cerveja que possam engolir. Bebam a minha saúde e a de minha esposa até que já não sejam capazes de levantar o braço. E bateu com a porta nos narizes deles. Seus gritos e graças foram se apagando. —Graças a Deus. Eu me esqueci do quão escandalosos podem chegar a ser. Vou ficar surdo durante uma semana. Elizabeth não podia acreditar na boa sorte que tinha tido. Ele o teria feito por ela? Sua consideração a comoveu, e estava claro que seus comentários pretendiam acalmar seus nervos. —Você esteve magistral. E foi muito atencioso de sua parte. —Pura sobrevivência, pode me acreditar. Quando Richard começou a soltar o cinturão da espada, Elizabeth se aproximou rapidamente para segurá-la, e a corrente de ouro, que deixou sobre a tampa de um cofre. Se ele se deu conta de como recuperava a confiança quando tinha no que ocupar a mente e as mãos não o disse, mas entregou o broche de ouro e rubis que lhe fechava a túnica no pescoço. Ela


deixou-o de lado e o ajudou a tirar a sobreveste de pele e os anéis. Quando ficou de camisa e calção esperou. Ele a olhou aguardando também, e um calafrio lhe percorreu as costas. Depois sorriu. —Agora… em algum lugar há… — ele olhou a seu redor antes de ir até um dos cantos—. Fiz com que o subissem antes — disse, lhe oferecendo um pacote de considerável tamanho—. Tive que voltar para a Hereford por causa disso, e quase me faz me perder meu próprio casamento — sorriu—. Espero que você goste, milady… e que não volte a me chamar a atenção por isso. Elizabeth teve o decoro de corar e morder o lábio ao se recordar da brutalidade com que o tinha recebido, deixando-se levar pelo medo de que tivesse passado aqueles dias nos braços e curvas de Joanna. Depois de seu confronto tinha chegado à conclusão de que não era um homem ao qual se devesse desafiar sem um bom motivo, e mesmo assim havia lhe trazido um presente. —O que é? — ela disse, pegando o pacote nas mãos. —Não vai saber se não o abrir. Elizabeth controlou outro estremecimento de prazer, mas ao mesmo tempo se repreendeu por não ter pensado e ter algo para lhe oferecer. Soltou o laço que fechava o pacote e sobre a cama apareceu uma capa. Uma exclamação de prazer escapou de seus lábios. Veludo azul, escuro como a noite, delicado como qualquer objeto que se fosse usar na corte de um rei, adornado com zibelina e um maravilhoso capuz para protegê-la do frio. —Precisava de uma — ele disse, sentando-se na cama com um sorriso enquanto ela acariciava seu presente, maravilhando-se com sua suavidade e qualidade antes de pô-la sobre os ombros. A capa caía em suntuosas dobras até seus pés e se movia com exagerada elegância enquanto ela passeava pelo quarto. —Pentesilea, sem dúvida — ele comentou.


—Hum? —A rainha das amazonas, se bem me lembro. —Isso mesmo — ela replicou, recordando de seus conhecimentos dos textos clássicos e do assédio de Troia—. Mas morreu na batalha. E lutava com os seios de fora. —Isso mesmo — ele respondeu. Elizabeth seguiu indo e vindo com a capa até deter-se diante dele. —É… linda — ela lhe disse com os olhos brilhando de prazer, e levou a pele à bochecha—. Suponho que não resta mais remedeio que o perdoar por ter retornado tão tarde. —Certamente. E também tenho isto — acrescentou—. Vai necessitar disso também. Ofereceu-lhe outro pacote muito menor, do tamanho da palma de sua mão. —Outro presente? Fez algo que eu deva saber e que quer que eu perdoe? —ela lhe perguntou franzindo o cenho. Ele se pôs a rir a gargalhadas, um som robusto que encheu o quarto e tingiu de vermelho as bochechas de Elizabeth. —Não, eu juro que não. Mas sim, trata-se de outro presente. É minha esposa e é um prazer para mim lhe presentear. Era um broche para segurar a capa, mas não se parecia em nada com qualquer outro que tivesse visto, com seu desenho de círculos entrelaçados. Uma combinação de leões em miniatura e cervos com galhadas e línguas de ouro saltava e rugia em sua mão, e a orla dourada e vermelha brilhava a luz das velas. Era uma joia cheia de vida e cor que a fez sorrir. —Como o soube? —Tenho minhas fontes. —O emblema de minha mãe, Matilda Vaughan do Treetower. —Eu sei. —Prenda-o para mim — ela exclamou surpresa e imensamente feliz. —Eu o encomendei de um ferreiro de Hereford, e me pareceu muito apropriado para você, uma dama tão feroz. —Você acha isso? —ela lhe perguntou o olhando no rosto, convencida de que estava rindo dela, mas não era assim.


Richard decidiu não responder, e se limitou a lhe servir uma taça de vinho. —Sente-se comigo — ele disse. Elizabeth não queria separar-se da capa, e a deixou sobre a cama ao sentar-se. Ele se serviu de vinho e a olhou muito sério. —Eu sugiro minha esposa, que brindemos por nosso compromisso: pela lealdade e a honra. Para que ninguém se interponha entre nós, não importa quem seja e não importa o motivo. Elizabeth assentiu. —Brindemos por isso. —E por nosso futuro juntos. Elevaram a taça e beberam o vinho quente até que com um dramático calafrio, Richard deixou a taça de lado. —Muitas especiarias para meu gosto. Agora tenho que a levar para a cama ou aguentar todo tipo de comentários sobre minha virilidade. Ele ficou de pé e abriu a cama, mas não soltou os lençóis. —O que há? — ela perguntou, embora tivesse dado a impressão de saber. —Venha e olhe — os lençóis de linho estavam cobertas de folhas secas, pétalas de flores e pequenos caules—. O que é isto? Elizabeth tampou a boca com a mão, indecisa entre começar a rir ou amaldiçoar a sua donzela. Jane não ia deixar nada ao azar. —Não vou lhe dizer isso. Os olhos de Richard brilharam. —É minha virilidade ou sua fertilidade o que se persegue com isto? Elizabeth sorriu. Menos mal que não estava zangado. —Ambas as coisas, imagino — respondeu, removendo com um dedo as folhas de visco e aveleira para ajudar à concepção e as de lavanda para despertar o desejo. Inclusive parecia ter moído bolotas, às quais tinha acrescentado milefolio e pétalas de rosa para assegurar uma união feliz e duradoura. —É coisa de Jane, e tenho que lhe dizer que suas intenções sempre são boas.


—Ah, sim? —duvidou enquanto afastava tudo aquilo com a mão—. Parece-me mais que pretende que tenhamos urticária. Melhor não saber o que pôs no vinho quente. Venha, milady. Provemos os lençóis — ele disse, a puxando suavemente pelos pulsos—. Permita-me tirar seu véu. E o fez. E olhou. Elizabeth teria preferido fechar os olhos, mas queria ver qual era sua reação. O desespero a deixava imóvel. Richard não disse nada, nem fez comentário algum, nem alternou um milímetro sua expressão. Desatou os cordões de suas anáguas e deixou que caíssem ao chão, deixando-a indefesa diante ele. De novo se negou a fechar os olhos para não ver a compaixão ou o desgosto em seu olhar. Queria ser capaz de enfrentar isso, assim engoliu seco e esperou vendo como ele percorria seu corpo com os olhos até chegar de novo ao seu rosto. Respirou fundo com os dentes apertados. —Dê a volta, Elizabeth. Ela o fez e teve que conter as lágrimas que ameaçavam brotar quando ele não a olhava. —Me olhe — ele esperou que ela se virasse por completo antes de falar. Sua voz era baixa, mas firme, e não pôde detectar nem piedade nem repulsa, pelo que ficou eternamente grata—. Elizabeth… Elizabeth, não me tinha dado conta. —Do que? —perguntou, umedecendo-os lábios ressecados. —De que estava… de que era assim. Elizabeth conteve de novo o desejo de chorar. —Acreditava que tinha me visto. Que sabia do pior. Naquela primeira noite… —Foi só por um instante na escuridão. Acreditei ver as marcas de um chicote, mas não tinha nem ideia disto… Llanwardine? —perguntou olhando seu cabelo, e levantou uma mão como se quisesse tocá-lo, mas a deixou cair. —Sim.


—E isto? —perguntou, olhando as cicatrizes claras que marcavam suas costelas. Ela estremeceu ante seu olhar, seu rosto impassível, e demorou um momento para decidir lhe dizer a verdade. —Só em parte. Viu-o apertar os dentes e acreditou que compreendia. —Espero que não tenham usado esse tipo de persuasão para convencê-la a se casar comigo. —Não. Era Owain Thomas a quem não podia suportar. Mas… é que não era uma noviça obediente. —E tampouco comia. Sabia que ele estava vendo os ossos da clavícula saltados, os seios quase esgotados, os quadris estreitos, e tentou diminuir a importância disso. —Sua cozinheira organizou toda uma cruzada para me fazer engordar. E não pôde conter um estremecimento ao estar nua ali com o frio colando à pele. Sua resposta foi imediata. —Me perdoe. Fui muito descuidado. Rapidamente ele colocou a capa sobre seus ombros, e ela imediatamente se sentiu quente em suas dobras de zibelina. Assim pôde mascarar seu alívio. Aquela noite estava disposta a aceitar sua compaixão. Não queria inspirar piedade, mas era melhor que asco. Era admirável sua sensibilidade, sua consideração, e sentiu que o tremor de seus membros parava. Até que Richard levantou um braço e deixando-se levar por um impulso passou a mão por seu cabelo. Sem pensar ela se encolheu e arregalou os olhos. Ele retirou imediatamente a mão, como se a tivesse posto sobre uma chama. —Não se separe de mim. Eu nunca lhe faria mal. Como pode pensar isso? —seu tom era áspero e em seus olhos havia sentimentos que não


sabia interpretar. Inclusive chegou a lhe parecer ira, ou provavelmente desespero, embora não soubesse que explicação dar. —Não pretendia fazê-lo. É que me surpreendeu. Sonhei que o fazia e eu gostava, embora em meu sonho meu cabelo fosse como antes, comprido, espesso… e não assim. Envergonho-me de meu aspecto. Richard relaxou visivelmente. O que teria pensado que acontecia? Era evidente que algo o tinha afetado, algo que ela tinha feito ou dito. Mas fosse o que fosse, o momento parecia ter passado. As linhas duras que rodeavam sua boca se suavizaram. —Não há por que envergonhar-se. A culpa não é sua. É lindo seu cabelo, Elizabeth, e mais suave que a pele de uma marta — declarou, e se aproximou para beijá-la na têmpora—. Logo seu cabelo voltará a ser longo e muito formoso, e quando for assim, eu o acariciarei como fiz em seu sonho. Elizabeth sorriu e contemplou uma luz de esperança no futuro. Tinha perdoado suas palavras e estava lhe dando amostras de sua profunda benevolência, de uma compreensão que não teria podido imaginar. —Quer apagar a vela? — ela pediu, e ele o fez. A escuridão resultou ser uma bênção para ambos. Para Elizabeth porque a envolvia em um manto de anonimato quando ele voltou a tocá-la com extraordinária intimidade. Algo capaz de esconder seu escasso conhecimento, sua falta de confiança em sua capacidade de agradar, suas ansiedades. Era muito consciente de sua falta de encanto e a escuridão acalmou seus temores. No escuro não importava. Se em seu rosto aflorava desgosto ou uma mera tolerância ele não o veria. Assim só teria que suportar. Mas suportar não foi à palavra que abriu caminho em seu pensamento. Mas sim um inesperado prazer. Seus temores começaram a derreter-se no calor das carícias de suas mãos e no delicado toque de seus lábios no rosto. O sentir ao seu lado, seus músculos firmes, sua pele,


acabou sendo surpreendente tão surpreendente quanto o prazer que descobriu nisso. Se ele podia tocá-la, ela também poderia fazê-lo, e sentiu um forte desejo de fazê-lo, assim deixou suas mãos vagarem pelos firmes planos de seu peito e seus ombros, uma viagem íntima e própria. Tão atraente, tão masculino. Como não ia desfrutar daquele poder, embora em sua cabeça se perguntasse aonde tudo aquilo ia levá-la? Para Richard a falta de luz facilitava a tarefa de seduzir e tentar. As sombras ocultavam a falta de perícia dela que poderia inquietar a qualquer noiva inexperiente. Entretanto, não havia estupidez em suas respostas, mas sim delicadeza e elegância, e quando seus primeiros temores se dissiparam tornou mais confiada. Tinha a pele suave como o veludo, seus movimentos eram graciosos e femininos, e quando para sua surpresa ela se estendeu contra ele, pressionando seu peito, quadris e as coxas com um profundo suspiro, despertou seu desejo imediatamente e se avivou. Mas ia conter se. Falava-lhe em voz baixa para acalmar seus temores, sabendo que era uma mulher que necessitava da convicção do intelecto mais que a sedução da carne, de modo que ia falando à medida que acariciava e descobria. Pensamentos ímpios e doces pensava Elizabeth, mas tão apetitosos. Palavras sussurradas em seus lábios, sobre seu cabelo, contra a pulsação acelerada sob a pele do pescoço. Sabia que eram adulações ridículas, mas que lhe proporcionavam um tremendo prazer, ao mesmo tempo em que reconheciam sua inocência. Mas também foram tornando mais imperativas ao esquentar sua boca e seus beijos mais profundos, sua língua deslizando entre seus lábios para possuí-la. A pele se arrepiou, mas a sensação não a desagradou. Compreendeu a urgência na tensão de seus músculos, na necessidade de sua intensa ereção que lhe roçava a perna. Um estremecimento lhe percorreu o corpo inesperadamente, um nó de calor no ventre ao compreender que a necessitava. Seus temores de que tivesse que


vencer a repugnância para tomá-la por pura necessidade se dissiparam ao sentir sua boca em um de seus seios. Apesar de tudo, Elizabeth se sentia encantada. Lentamente, muito lentamente, enquanto que com a língua a acariciava e excitava, foi deslizando uma mão por seu ventre e mais abaixo e ao mesmo tempo sua pele experimentava pequenos estremecimentos. Em um instante conteve o fôlego e ficou rígida, mas pouco a pouco voltou a relaxar e ao mover uma perna roçou sua ereção. Então foi a vez dele de conter o fôlego, seu controle fazendo equilíbrios sobre o fio de uma navalha. Seria fácil deixar-se levar, mas se apoiou nos antebraços para respirar fundo. Elizabeth ficou imediatamente rígida em seus braços como se fosse vítima do olhar de Medusa. —O que houve? Fiz algo errado? Eu não sabia… Havia voltado o pânico. Então seus medos não andavam muito longe. Richard a silenciou com a boca, suavemente, apesar da necessidade que sentia de enterrar-se nela e tomar o que era dele. —Não. Nada. É apenas prazer — murmurou. Ela permaneceu um instante mais sem mover-se, como se calibrando suas palavras. —Certamente, sabe como utilizar as palavras, Richard Malinder — ela disse, e voltou a relaxar. Aquela mulher sabia o quanto era sedutora? Certamente não. —Doerá? —perguntou, embora na verdade não fosse uma pergunta. —Sim — ele respondeu com sinceridade, moderada por um toque dos lábios e uma carícia de suas mãos—. Mas não será insuportável, se eu for habilidoso o bastante. —Estou segura de que o é — em seus olhos prendeu um atenuado brilho da lareira e Richard ficou consciente de que o observava, atenta a todos seus movimentos, ainda desconfiando, ainda refletindo—. Confio em você.


Tal confiança em seus talentos foi à gota final. Procurou com a mão e descobriu a umidade que havia entre suas coxas antes de colocar-se sobre ela e penetrá-la até que se sentiu preso em suas profundezas. Houve desconforto e dor, mas foi momentâneo, e tal como ele tinha prometido, não foi insuportável. Elizabeth ficou quieta, conteve o fôlego, consciente apenas do peso de sua posse e do perfil de seus ombros iluminados pela luz do fogo. Enchia seus pensamentos, seu corpo, sua visão. Em seu quarto frio em Bishop’s Pyon para onde a tinha levado seu tio, nas celas de Llanwardine onde o casamento com Richard Malinder não tinha sido sequer imaginado, ela jurou que nunca outorgaria esse tipo de poder a nenhum homem. E tinha se equivocado. Entregou-se às demandas daquele homem com uma necessidade urgente, com uma falta total de contenção. Inclusive quando ele se permitiu levar para alcançar sua própria satisfação, deixando-a sozinha com o sabor insinuado das sensações deliciosas que lhe percorriam o corpo, mas que ao mesmo tempo permaneciam fora de seu alcance, suada, com seus membros frouxos, Elizabeth voltou a olha-lo surpreendida por aquela nova consciência de si mesma. —Já está feito. Pouco tempo depois, recuperado o sentido e o pulso, Richard desabou ao seu lado. Elizabeth virou. Isso era tudo o que podia dizer? Já pensava em partir? Não gostaria que se aconchegasse junto a ele deixando-se rodear por seus braços, que era o que ela desejava? De repente se sentiu tremendamente tímida, mas se obrigou a lhe perguntar por que precisava saber. —Fui… — ela engoliu em seco—… o que esperava? «Fui um absoluto desastre comparada com a inimitável Gwladys?» Com o olhar perdido na escuridão, aguardou sua resposta.


—Elizabeth Malinder — não havia censura em suas palavras, a não ser apenas uma espécie de humor preguiçoso—. Você é tão pouco corajosa? Não me parecia uma covarde. Estava rindo dela? —E não sou! Não me desgostou! E se cobriu com os lençóis até debaixo do queixo. —Graças a Deus! Uma mulher sincera! —Richard afastou os lençóis e a acariciou lentamente desde seu ombro até o punho para levar no final sua mão aos lábios como fez em outra ocasião—. Melhorará milady. E agora, venha aqui. E a abraçou com força, retendo-a mesmo que ela lutasse por sua liberdade. Não conseguiu libertar-se, mas sim se encontrou apanhada contra aquele belo corpo que tanto admirava. E Richard sentiu que toda a tensão a abandonava, e que inclusive sorria. —O que você tem? Ela ocultou o rosto. —Que é verdade que não me desgostou. —Que belo elogio! —ele riu, sentindo seu cabelo contra a bochecha —. Tentarei melhorar. Logo. Talvez não fosse demorar muito, tendo em conta o que sentiu quando lhe surpreendeu a beijando meigamente na bochecha. Uma pequena explosão de triunfo lhe percorreu o corpo junto com uma exultante sensação de ter obtido seu objetivo, que nada tinha que a ver consigo mesma a não ser com ele. Mais satisfatório ainda que as artes adivinhatórias. Jane Bringsty não a tinha advertido. E com esses pensamentos, adormeceu. Richard não era capaz de conciliar o sonho. Sua atenção estava acelerada e não podia esquecer o que acabava de descobrir. A vida não tinha sido fácil para ela, era o que Lewis tinha lhe dito, e seu ódio de John de Lacy se intensificou. Desapaixonadamente repassou as impressões que sua esposa lhe tinha causado. Sim, era magra, fraca provavelmente, mas não carecia de


encanto. Tinha uma pele firme e suave e uma figura que não parecia sugerir que a concepção pudesse ser fácil para ela, mas com os cuidados que pensava lhe oferecer floresceria. Seus pensamentos voltaram de repente para presente ao senti-la suspirar. De modo que aquela mulher era Elizabeth de Lacy, uma complicada trama de medos inibidores, sinceridade temível e emoções intensas. Apostaria seu melhor garanhão que suas respostas não eram incutidas pelo dever ou pela esmerada educação da criada que fazia o papel de mãe. Havia fogo nela, ou possivelmente uma fonte de paixões transbordante que ele poderia descobrir. Mas uma incômoda premonição o assaltou enquanto apoiava a bochecha sobre seu cabelo: não ia ser uma tarefa fácil ganhar a dama e domá-la, se é que era isso o que realmente queria. Ele não procurava mais que compreensão, afeto no melhor dos casos, e, entretanto… a ideia o pegou despreparado, mas não o desagradou. Seria uma experiência que valia a pena tentar, talvez até mesmo para os dois. —Milord! Milord Malinder! Em algum momento entre as horas mais escuras da meia noite e o pálido amanhecer do final do inverno alguém chamou discretamente à porta de seu quarto e ouviu um sussurro urgente, forte o bastante para despertar seus ocupantes, mas não a toda a casa. Richard despertou e o que sentiu primeiro foi o calor de Elizabeth abraçada a ele, aconchegada em seus braços. —Milord! Deve vir imediatamente! O chamado e a voz se tornaram mais urgentes de modo que se levantou com um gemido, acendeu uma vela e pôs os pés no chão. —O que há? —perguntou Elizabeth,sonolenta. —Não sei. Uma urgência que não pode esperar — bocejou, estremeceu de frio e passou as mãos pelo rosto—. Certamente algum dos convidados que caiu no fosso depois de exceder com a cerveja —resignado começou a por as meias e a túnica—. Durma, Elizabeth. Não demorarei.


Aproximou-se para beijá-la no cabelo e abrigá-la com as roupas da cama antes de recolher espada e o manto para se proteger do frio da noite. A porta se fechou e voltou a reinar o silêncio. Elizabeth se deslizou sobre o lençol para colocar-se sobre o rastro de calor que tinha deixado seu corpo e continuou dormindo. No pátio, em um canto sombrio entre a capela e a torre, Richard se agachou junto a um corpo caído de barriga para baixo no lugar que as sombras eram mais escuras. Mestre Kiplin, Simon Beggard, capitão da guarnição de Ledenshall, e um dos guardas esperavam incômodos por sua reação. Simon mantinha em alto um lampião e a conversa foi em sussurros. Era melhor não alertar a ninguém ainda. —Quem o encontrou? —Eu, milord — respondeu o guarda—. É meu turno. Por esta parte há ratos, assim desci para ver… e quando me deparei com isto, despertei ao capitão Beggard. Richard tocou o corpo, que já estava frio. Não havia dúvida: estava morto. O lampião, cuja chama oscilava com o vento forte, era suficiente para revelar a mancha escura que empapava suas roupas entre as omoplatas. Um dos convidados, veludo e damasco, coberto de sangue e de barro. Eram roupas de festa. —Aproxime a luz. Mestre Kiplin me ajude a vira-lo. Moveram o corpo para que a luz atingir seu rosto e Richard respirou fundo ao ver a confirmação de seus piores temores. Tinha reconhecido o cabelo escuro, a constituição magra, o damasco das roupas. —Isto é mau, milord — disse Simon Beggard. —Não poderia ser pior. Richard se levantou com uma expressão indecifrável. —O que faremos milord? —O que? —Richard seguia com o olhar cravado no corpo. Faria o que fosse necessário fazer e se preocuparia depois com as consequências—. Levem-no à capela. É o mais perto e adequado no momento, imagino. A presença de Deus frente a uma morte violenta e inútil.


Suas instruções não podiam ocultar à ira que o invadia perante semelhante derramamento de sangue, inútil e possivelmente desastroso. Transportaram o corpo e o depositaram no banco de madeira na parede do fundo. Richard tirou a capa e o cobriu com ela. A luminária iluminou um rosto vazio, os olhos totalmente abertos possivelmente pela surpresa, os lábios relaxados, a pele cinzenta e com um tom cerúleo. Uma repentina corrente fez ondular a capa e o cabelo. —Roubo milord? —perguntou Simon Beggard em voz baixa, mas sua voz reverberou no teto. —É possível. Não têm joias — Richard as recordava. Não restava nem sinal dos caros anéis que usava. Pode ser que também uma corrente. E tinham levado a espada—. Que Deus nos ajude, porque nos espera uma dura noite de trabalho. E começou a dar ordens. —Mestre Kiplin, vá procurar sir John. Tente não despertar todo o castelo. Quanto menos gente houver aqui, melhor. Amanhã já teremos mais do que suficiente. Simon vá procurar sir Robert. Pergunte ao guarda viu alguém depois da meia noite, ou algo fora do normal, mesmo que lhe pareça uma tolice. Saíram rapidamente deixando ao guarda junto ao cadáver. —Mantenham fechada a porta até que eu volte — Richard disse, e por um instante se deteve nos degraus nos quais tinha pronunciado suas promessas naquele mesmo dia—. Tenho que dizer a minha esposa. Elizabeth despertou por completo, ainda feliz, quando Richard entrou no quarto com um lampião e se aproximou da cama. —O que acontece? Ele sentou-se na borda da cama, deixou a lanterna e pegou suas mãos. —Trago más notícias, Elizabeth. Ela se apoiou em um cotovelo. —Era verdade que alguém caiu no fosso? Mas a alegria desapareceu de sua voz ao ver sua expressão. —Necessito que se levante.


—Me diga o que ocorreu. Não tinha sentido dar rodeios. —Seu irmão. Lewis. Está morto. Houve um instante de intenso silêncio. Elizabeth sentiu que as palavras se congelavam e ficavam sólidas dentro de seu peito, a impedindo de respirar. Não podia falar. Não podia pensar. Suas mãos se agarraram às dele e o sangue abandonou seu rosto à luz da luminária. Sentia os olhos ardendo, mas secos, embora cheios de angústia, e de repente o afastou para levantar-se da cama. —Leve-me ao seu lado? —Sim. Ajudou-a vestir-se, a pôr os sapatos, a se abrigar com sua capa nova e a cobrir a cabeça com o capuz para lhe oferecer intimidade. Gostaria de poder protegê-la da dor tão facilmente. Em seguida lhe deu a mão e a conduziu para junto de seu irmão. Elizabeth se ajoelhou junto ao corpo de Lewis e afastou a capa. Alguém tinha lhe fechado os olhos e colocado às mãos sobre o peito para que parecesse em paz, e Elizabeth lhe tocou o rosto, os lábios. Depois as mãos. —Lewis… ai, Lewis — sua voz se quebrou ao o nomear, e passou as mãos por seu peito, pelos ombros, como se procurando a ferida fatal—. Como morreu? —Uma ferida de arma branca — respondeu Richard—. Nas costas. Estava junto a ela como uma sombra protetora, com a mão em um ombro, e ela agradecia sua presença. —Não posso acreditar que não volte a despertar. Que nunca volte a me falar. Foi ele quem me acompanhou até aqui desde Llanwardine — ela passou a mão pelo cabelo, roçando suas têmporas—. Eu o amava. Era uma das poucas pessoas que me amavam. E agora está morto. Richard a fez levantar-se e a abraçou, e ela se agarrou a ele. Através de sua dor percebeu a força de seus braços consolando-a como o fizeram suas palavras, embora seu coração estivesse partido em dois.


—O culpado pagará Elizabeth, seja quem for. —Não resta dúvida. Uma voz áspera trovejou da porta, e Elizabeth sentiu que a afastava e a colocava atrás de suas costas, quase como se quisesse protegê-la do que pudesse ser dito. Sir John de Lacy estava completamente sóbrio, assim como o capitão de sua guarda em Talgarth, sir Gilbert de Burcher, um soldado corpulento que estava junto a ele. Elizabeth sentiu a tensão de seu tio enquanto olhava para Lewis, ela e Robert, que tinha seguido a sir John, e por último a Richard, que aguardava de pé no centro da capela, diretamente na linha de visão de sir John, junto ao corpo morto de seu herdeiro. —Quem tem o sangue de meu sobrinho em suas mãos? —Não temos provas. Apenas a faca — Richard lhe mostrou a adaga cuja lâmina estava empapada de sangue até o punho—. A deixaram junto ao corpo. Mas quanto a seu dono… é uma faca simples e comum que poderia pertencer a qualquer. —Um gesto arrogante deixá-la assim, junto ao corpo. Uma voz nova, suave e perigosa, carregada de implicações. Elizabeth reconheceu a presença de Nicholas Capel, que tinha saído das sombras. Sentiu seu olhar percorrê-la de alto abaixo e estremeceu involuntariamente. Sir John se aproximou de seu sobrinho. —Exijo vingança — resmungou, os lábios brancos como um pergaminho. —Contra quem? —perguntou Richard—. Não se viu a ninguém no pátio depois das celebrações. Meu capitão segue interrogando aos guardas, mas não temos provas contra ninguém. —A quem sugere você, Malinder? Custa-me acreditar que um De Lacy fosse capaz de cometer semelhante crime contra a pessoa de meu herdeiro. Elizabeth conteve o fôlego ante semelhante acusação. O que era aquilo? Seu tio estava disposto a acusar a um Malinder por aquele crime? —De modo que pensa que foi um Malinder.


Os olhos de Richard jogavam fogo ao repetir em palavras seus pensamentos. —Sir John está muito afetado. Não pretendeu implicar tal coisa — interveio Capel. —Basta! —espetou—. Todo mundo chegará à conclusão mais óbvia. Viemos como convidados a sua casa, em busca de uma aliança duradoura com nosso mais recalcitrante inimigo na Welsh Marches. Viemos de boa fé e cheguei a lhe confiar a minha sobrinha, e agora meu herdeiro está morto. Inclusive você, Malinder, deve aceitar que as provas parecem enormemente pesadas. Ao seu lado, a imobilidade de Richard parecia uma ameaça em si mesmo. Embaixo daquele exterior controlado Elizabeth podia sentir seu temperamento arder, e até com a dor pela perda de seu irmão rogou para que aquela contenção continuasse. Quando viu que a mão de Richard se fechava ostensivamente sobre o punho de sua espada, aproximou-se e o agarrou pela manga. Qualquer coisa para impedir um confronto que transformasse a celebração de seu casamento em um massacre. Brevemente a olhou e soube captar a mensagem. —Não há provas que possam assinalar a um culpado, de modo que lhe sugiro que contenha as acusações, sir John. Sem provas não seria acertado alimentar a inimizade contra minha pessoa e os meus. —Medirei minhas palavras enquanto esteja sob seu teto, embora desprotegido — espetou—. No que ficou a aliança selada com seu casamento e a esperança de amizade? —dirigiu-se a Elizabeth, que seguia com a mão posta em seu braço—. Está unida a este homem ante a lei e Deus, mas tome cuidado com quem confia nesta casa, Elizabeth. Meu conselho é que não confie em ninguém. —Eu o terei em conta, milord. Foi tudo o que pôde dizer. O horror era muito espesso. Richard acusado de assassinar seu irmão a sangue frio.


Não podia sequer contemplá-lo, assim optou por adiantar-se e cobrir o corpo de Lewis com a capa até debaixo do queixo e beijá-lo na testa. A seguir, antes que a emoção pudesse transbordar, saiu da capela sem dizer uma palavra a mais e sem voltar olhar para trás. Mais tarde, a sós na capela, Robert olhou para seu primo com o cenho franzido. —Não posso acreditar no que aconteceu. Quase dá medo casar-se. —E eu quase me sinto tentado de te dar a razão. Richard se levantou e contemplou o cadáver do jovem que tinha estado disposto a lhe oferecer sua amizade. O homem que umas horas antes parecia inquieto, mas que não tinha podido compartilhar com ele suas preocupações. «Era uma das poucas pessoas que me queria», havia dito Elizabeth, o que o tinha feito desejar poder afastá-la dali, daquela tragédia, e consolá-la com carícias. Mas tudo o que tinha podido fazer era permanecer de pé ao seu lado e presenciar como encarava a dor. E ao recordar de sua angústia sentiu uma onda de compaixão, seguida imediatamente por um frio estremecimento de temor. —No que pensa? —Que antes que acabe este dia, meu nome ficará unido ao de um crime brutal e imerecido. Meu lar, meu casamento, minhas motivações… tudo arrastado pela lama por culpa deste assassinato — ele se voltou para seu primo e a ira que tinha brilhado em seus olhos ao enfrentar sir John se tornou gelo—. Sir John não partirá de Ledenshall sem fazer pública minha relação com o crime, e eu não estarei em posição de refutar suas acusações apesar de ser inocente, já que suas palavras conterão argumentos apoiados na velha questão entre os Malinder e os de Lacy e atrairá a atenção pública, além de desatar especulações de todo tipo. Fez uma pausa e recordou o acontecido na última hora. Seu pensamento se deteve em um em particular. —Acha que o acusará abertamente? Mas que motivo você teria para fazer algo assim?


—Pense um pouco, Rob. Pense em minha posição dentro da dinâmica da família De Lacy graças a meu casamento — Richard moveu a cabeça e saiu da capela sem ter a resposta que queria oferecer a sua esposa. Uma resposta que pudesse salvar um vislumbre de esperança, a possibilidade de entender-se com Elizabeth, de manter vivas as cinzas de seu casamento . Tinha atiçado o fogo e se sentou junto a ele, esperando, do mesmo modo que o tinha esperado naquela mesma noite antes que a morte fazer sua presença para destroçar e dividir. Para lhe partir o coração em pedaços pela dor. “Morto. Assassinado. Meu irmão está morto”. Sua cabeça parecia incapaz de assimilar o que seus olhos tinham visto. Continuava com a capa sobre os ombros. Não tinha acendido as velas, de modo que a sala seguia às escuras, mas não havia paz nem consolo no ar, e nem sequer o calor do fogo conseguia devolver a temperatura a seu sangue. —E então? Ela virou-se ao ouvi-lo entrar. Toda a esperança que tinha depositado em seu futuro juntos, o prazer surpreendente que tinha desfrutado nos braços de seu marido, tinham ficado destroçados e substituídos pela desolação e a dor que sua mente ainda se negava a assimilar. A acusação de sir John tinha ficado cravada, embora ainda não havia entendido tudo. —Eu deixei Lewis aos cuidados do reverendo. Ele organizou o necessário para que amanhã seja levado para Talgarth, mas a decisão é de sir John. Richard tirou o cinturão com a espada e o deixou de lado antes de verter água na bacia para lavar as mãos. —Sabe de algo mais? Parecia profundamente cansado. —Nada. Ninguém ouviu nem viu nada—. Ele se aproximou dela enquanto secava as mãos em uma toalha de linho, observando-a, atento a qual fosse sua reação depois do ocorrido—. Ninguém se recorda de quando Lewis saiu do salão. Sabemos que suas joias e sua espada desapareceram, e


encarreguei a Simon Beggard que reviste as acomodações dos servos, mas duvido que encontremos algo. Quem quer que as tenha levado imaginaria que se levaria a cabo uma revista. A única coisa que falta é revistar as acomodações dos convidados… Conteve um gemido de protesto, porque sabia que algo assim não se podia fazer. Tinha levado consigo uma garrafa de vinho do Bordeaux, serviu-se de uma taça e a bebeu em um gole. E como se de repente tivesse perdido o controle, jogou a taça contra a parede, constatando depois com desgosto como o vinho tinha manchado as tapeçarias e como a taça de metal, amassada pelo golpe, rodava pelo piso. Elizabeth nem sequer se encolheu. Não sentia nada. —Me desculpe. Foi imperdoável — ele disse, fazendo um esforço por conter sua raiva e sentando-se ao seu lado—. Já escutei as palavras de sir John — disse—. O culpado tem que ser um Malinder porque é impensável que seja um de Lacy. E você o que pensa, Elizabeth? —parecia lhe importar sua opinião—. Prometemos nos respeitar mutuamente e confiar um no outro faz apenas umas poucas horas, mas esta morte… esta morte colocou um enorme obstáculo em nosso caminho e não nos conhecemos o suficiente para poder contorna-lo. —Prometemos não permitir que algo se interponha entre nós — recordou, e sua voz lhe pareceu que provinha de outro mundo. —É verdade. E agora Lewis, com sua morte, fez precisamente isso. E as acusações de sir John nos separaram ainda mais. Elizabeth pressentiu uma incontrolável amargura debaixo da raiva. Tinha que tomar uma decisão, uma decisão impossível. —Você não o fez. —Não. Tenho um álibi excelente, não acha? Estava em seu leito. Mas um de meus homens poderia ter usado a adaga seguindo minhas ordens. Ainda não me conhece o suficiente. Como lhe culpar se decide me responsabilizar?


A dureza de sua voz, quase buliçosa, conseguiu abrir caminho na dor que a deixava aturdida, obrigando-a recordar de sua ternura, de sua consideração. Aquele homem não era seu inimigo. Elizabeth analisou o que lhe diziam a cabeça e o coração. Não, não o conhecia, mas desejava com todas suas forças confiar nele. Entretanto, não podia esquecer completamente das palavras de seu tio: “Está unida a este homem ante a lei e Deus, mas tome cuidado com quem confia nesta casa Elizabeth. Meu conselho é que não confie em ninguém.” —Não teriam apunhalado Lewis pelas costas. —Não. Nunca — concedeu, levantando-se para andar pelo quarto—. Mas se tivesse pagado pelos serviços de um assassino, não teriam se preocupado com esses detalhes. Compreendeu que o que estava fazendo era pintar o pior cenário possível diante dela antes que sir John o fizesse. Parou de repente e sem virar-se, apenas inclinando a cabeça, acrescentou: —Você me acha capaz de ordenar o assassinato do irmão de minha esposa em nossa noite de núpcias, ao mesmo tempo em que a tinha nos braços, ao mesmo tempo em que a beijava? —Richard… — as lágrimas que se esforçava em conter conferiam aspereza a sua voz, mas engoliu seco e continuou. Sabia que tinha que fazêlo, sabia que tinha que perguntar, e o instinto lhe dizia que ele não mentiria —. Prometemos ser sinceros um com o outro, que escutaríamos ao nosso instinto, e que não permitiríamos que os outros nos manipulassem. Eu o conheço o suficiente para saber que é um homem fiel à sua palavra, e que me dirá a verdade. —Sem duvidar — perceber a agonia de sua voz o fez deter-se e ajoelhar-se perante ela para olhá-la nos olhos. A seguir lhe ofereceu as mãos como quem sela um juramento de lealdade ante um rei. Sério e reverente, inclinou a cabeça ante ela—. Juro ante Deus que jamais seria capaz de causar a morte de um membro de sua família a sangue frio. Eu


não matei Lewis, nem ordenei ou autorizei que alguém o fizesse. Não sou responsável por sua morte. É minha esposa, e a protegerei e honrarei até o dia de minha morte. Elizabeth contemplou sua cabeça inclinada, as ondas despenteadas de seu cabelo, que desejou poder acariciar como agradecimento e aceitação de seu juramento. «Eu não matei Lewis». Mas ainda não podia fazê-lo, ainda que desejasse acreditar. Então Richard elevou o olhar e permaneceu ante ela, apanhado na tensão que havia entre ambos. O que ela viu em seus olhos, fosse incerteza ou fúria, a empurrou a apertar suas mãos. —Sim. É o que queria que dissesse. Não tinha se dado conta antes de quanto estava assustada, ou de em que medida precisava aceitar o juramento de Richard Malinder e confiar nele, mas diante deles se estendia o sangue e a violência que fazia anos ficava entre as duas famílias e que naquele momento se materializava no corpo sem vida de Lewis. As lágrimas começaram a rodar por suas bochechas ao perceber o quão profundo era o abismo que os separava. —Pode confiar em mim e aceitar minha palavra? —É o que desejo. Tentarei fazê-lo. —Sei que é difícil para você. Seu irmão morreu sob meu teto e sua relação comigo é… bem, é como uma fortaleza sem alicerces. Como posso esperar que ponha seu coração e sua alma em minhas mãos depois de tão pouco tempo? Suas palavras, brutalmente francas, deram no alvo. Assim como a desoladora realidade da morte do Lewis. Já não podia controlar os soluços que a sacudiam e tampou o rosto com as mãos para permitir que a dor, que tanto tempo tinha contido, saísse para fora. —Ah, Elizabeth… Ele a puxou para que se sentasse no chão junto a ele, diante do fogo, e a abraçou com força para que chorasse sobre seu ombro. E ela chorou por Lewis e por ela mesma. Pelo abismo aberto aquele dia entre duas poderosas famílias, entre ela e Richard, enquanto seu marido a embalava nos braços,


murmurando palavras de consolo, lhe oferecendo o calor e a segurança de seu corpo. Não podia pedir nada mais, embora a acusação de sir John se erguesse entre eles. Quando por fim os soluços foram acalmando-se, Richard a tomou em braços e a levou para a cama, e ali continuou abraçando-a até que o esgotamento a fizesse adormecer. Ele permaneceu acordado até que o céu começou a clarear, ruminando os acontecimentos, temendo que a paz na Welsh Marches tivesse ficado quebrada se sir John decidisse vingar-se dele. Outra sanguinolenta ferida na luta pelo poder das casas dos York e Lancaster, com Elizabeth no olho do furacão, presa entre sua família de nascimento e a recém-adquirida por casamento . Sofria por ela, e enquanto pousava delicadamente os lábios em sua têmpora, fez outra promessa que pretendia guardar até o dia de sua morte. —Juro perante Deus que descobrirei o assassino, Elizabeth. E o porei diante de você para que faça justiça. Então eu vou ganhar sua confiança. E que Deus lhe concedesse a força e a sabedoria necessárias para saber se esquivar as flechas que sir John do Lacy dispararia antes de tirar o pó de Ledenshall dos sapatos quando o dia amanhecesse. A ira e a dor por ela fizeram uma fenda nele, amarga como o sedimento do lúpulo na cerveja.


Sete Elizabeth percebia o que tinha a seu redor como se o visse através do tecido de um véu. Como se quisesse zombar do acontecido, o céu amanheceu aberto, de um azul pálido e imaculado, limpo e diáfano depois do orvalho. O sol brilhava com a claridade do inverno e aquela formosura contrastava horrivelmente com suas emoções de dor e fúria impotente, que destroçavam a cena que tinha lugar no pátio de Ledenshall. A maioria dos De Lacy e Malinder haviam partido na alvorada, guardando seus trajes de bodas, incômodos e conscientes do temor criado pela violência. Apenas restavam no pátio sir John e lady Ellen, já montados, sem ter pronunciado nenhuma das habituais expressões de despedida. Nicholas Capel aguardava com sir Gilbert de Burcher e sua escolta a certa distância, à direita da carroça que levaria o corpo de Lewis para seu lar. E de pé, perto do grupo, mas um pouco afastado, estava David, com suas roupas de viagem e segurando as rédeas de seu cavalo. Nas poucas horas transcorridas desde o banquete seu rosto se tornou pálido e esgotado. —Monte, rapaz. Não podemos esperar mais por você. O tom desanimado de sir John chamou a atenção de Elizabeth, que rígida, de novo com touca e véu, a capa caindo em linhas retas até os pés, comportava-se com dignidade, apoiando-se na presença de seu marido a sua direita. Não havia modo de saber o que Richard sentia naquele momento, embora vendo como estavam marcados os tendões de seu pescoço e mandíbula, deduzisse que se mantinha sob controle para concluir aquele triste assunto de modo tão rápido e indolor quanto fosse possível, e mantendo as formas corretas. Mas as palavras de seu tio abriram a porta para algo totalmente inesperado.


—David? — ela olhou de repente para seu irmão. Não tinha percebido seu traje nem seu cavalo—. David vai partir agora? Quase não podia controlar o pânico. Perder David ao mesmo tempo em que Lewis era quase insuportável. —Ele vem comigo — respondeu seu tio, olhando para ele e não para ela, o desafiando a rechaçar o pedido de sua irmã. Estava claro que já tinham falado do assunto. —Não! — ela disse negando com a cabeça e em voz baixa, apesar de sentir vontade de gritar de dor— Permita que fique. —Ele vem comigo. David ignorou a ordem, entregou as rédeas para um criado e se aproximou de sua irmã para abraçá-la, torpe pela dor, mas consciente de que era necessário. —Elizabeth — ele disse em voz baixa—. Eu ficaria… e mais, preferia ficar em vez de voltar para Talgarth, mas não me resta opção. Ele utiliza minha pouca idade para me controlar, e minha posição agora que Lewis… — ele engoliu seco—… agora que sou o herdeiro de Lacy. —Mas por quê? —o desespero lhe deu um nó na garganta ao saber que ia ficar ali sozinha com sua dor, em uma família que ainda era de desconhecidos para ela. Sem soltar os braços de seu irmão, voltou-se para seu tio—. Por que não pode ficar? Aquelas feições escuras, o rosto austero e enrugado, não continha nem um pingo de compaixão. —David é meu herdeiro, e não vou permitir que fique aqui. —Rogo-lhe isso, tio — não queria suplicar—. Apenas por uns dias. —Tenho que lhe dizer isso de outro modo, sobrinha? —replicou, aproximando-se mais de seus anfitriões e elevando a voz—. Será que sua dama de companhia não soube usar sua magia para ver o coração daqueles que as rodeiam? Daqueles que desejam a perdição de nossa família? Jamais deveria ter proposto esta união. O que aconteceu aqui ontem à noite me confirmou as suspeitas que sempre mantive a respeito dos Malinder Negros.


—Que necessidade eu tenho de usar magia? —Elizabeth o olhou desafiante, tanto para proteger Jane Bringsty quanto aos Malinder—. Está cometendo uma injustiça com lorde Malinder, que recebeu aqui como… —Não tenho herdeiro direto — ele a interrompeu, o que fez com que lady Ellen contivesse o fôlego diante de semelhante humilhação pública—. Lewis foi assassinado, e depois de David, quem herdaria todas as terras que os de Lacy têm na Welsh Marches? Suponho que não necessita que lhe diga isso, não? Você é óbvio. E quem seria o principal beneficiário dessa herança? «Richard!» aquilo foi como um golpe direto no coração. —De modo que me diga: tenho que ser mais claro? Não penso em permitir que David permaneça um segundo mais neste lugar desprotegido — ele cuspiu. —Sir John tem razão. Capel tinha aproveitado o momento para aproximar-se com seu cavalo, e embora seu tom fosse tranquilo e conciliador, havia em seus olhos um brilho inquietante—. É melhor, dadas às circunstâncias, que o jovem David venha conosco. Elizabeth olhou para seu irmão e depois para seu marido. David, incômodo com aquele intercambio no qual ele era involuntariamente o centro da atenção; Richard, impávido e calado, mas sem deixar de olhar para o homem que estava destruindo deliberadamente seu bom nome e sua reputação de homem de honra. Seria possível que seu marido, a sangue frio e em sua noite de núpcias, tivesse orquestrado a morte de Lewis para reforçar sua posição gente a herança de Lacy? Tudo em que Elizabeth podia pensar era no juramento que ele lhe tinha feito na noite anterior, em sua sinceridade, na integridade que tinha percebido em seu olhar ao se ajoelhar diante dela. Daria o que fosse para não acreditar em sua culpa, mas o peso da incerteza era quase insuportável e tão evidente quanto o corpo de Lewis. Seu sangue mancharia aquela relação recém-forjada até que a


verdade fosse exposta. Sentiu que ele ficava rígido ao seu lado e que a ira emanava dele como ondas, mas seu domínio era impecável. Era esperado algo assim? Talvez. —David não corre perigo algum aqui, e nunca correrá — ele disse com uma voz de gelo—, do mesmo modo que Lewis não morreu por minhas mãos ou por meu desejo. Não pretendo me apropriar das terras dos De Lacy. Sir John elevou uma mão como se não quisesse escutar suas palavras e sem dizer nada mais puxou as rédeas de seu cavalo e se afastou, fazendo um gesto ao condutor do carro fúnebre para que começasse a se mover. A partida com todo seu veneno e toda sua malícia estava em marcha. Lady Ellen se voltou para ela um instante, com os olhos carregados de remorso. —David! —grunhiu sir John. Mas o jovem não se deixou pressionar. —Não é decisão minha — ele ainda disse a sua irmã depois de beijála na bochecha—. Não posso dar crédito às acusações de sir John, e você tampouco deveria fazê-lo. Você se magoaria muito, e não deve permiti-lo. —Suas palavras tocam meu coração. Era apenas um jovem, e sua maturidade a surpreendeu. Possivelmente a morte de Lewis o tinha feito crescer. Beijou a mão de sua irmã e depois se voltou para Richard enquanto lhe estendiam as rédeas—. Desfrutei de sua companhia, Richard. Apertaram as mãos como despedida e Richard se obrigou a sorrir. —Sempre será bem-vindo aqui, tanto por você mesmo quanto pelo bem de sua irmã. —Eu sei. Virei se e quando me for é possível, mas pode ser complicado… cuide bem dela. —É minha intenção fazê-lo. Ele subiu na sela. —Sei que não foi você quem matou meu irmão. Elizabeth se agarrou à mão de seu irmão uma vez mais, até que o movimento do cavalo a obrigou a soltá-la.


Ela subiu em uma das ameias apenas para ver como se afastava a triste procissão. Toda sua família partia o emblema dos De Lacy, prata sobre campo vermelho, via-se entre as árvores. Tanto sangue, tantas diferenças irreconciliáveis. Viu David virar-se mais uma vez antes que as árvores da borda da aldeia os engolisse. Como ia poder formar uma opinião sem um mapa que a guiasse naquela nova relação, sem contar com o apoio da tradição em uma nova família? Só podia contar com uma coisa: que seu coração e seu instinto se opunham violentamente cada vez que sua cabeça tentava dar razão à maldade e ao rancor de seu tio. Pronunciou as palavras em silêncio, elevando ao mesmo tempo uma oração na qual pedia poder acreditar sem fissuras que Richard Malinder não era o responsável pela morte de Lewis. Seu irmão também acreditava nisso. Deu a volta e começou a descer as escadas que a conduziam para sua nova vida, lutando contra o desespero e a desconfiança, perguntando-se o que ia dizer a Richard Malinder quando chegasse ao pátio onde sem dúvida ele ainda a aguardava. A Elizabeth incomodou bastante que Richard mal se desse conta de que voltava, já que estava concentrado na conversa que mantinha com Robert Malinder. —O que você faria agora sir John se foi, Rob? —Encarregaria alguém para que envenenasse sua cerveja, ou que atravessasse com meu aço em uma noite escura — Robert corou ao perceber, embora fosse muito tarde, a semelhança entre o que acabava de dizer e os mais recentes acontecimentos—. Perdoe-me milady. Foi um comentário irrefletido e cruel. Ela negou com a cabeça. Foi tudo o que pôde fazer. —A sensibilidade nunca foi o ponto forte de Rob — respondeu seu marido, e a surpreendeu ao pegar a mão para pô-la em seu braço e acariciar seus dedos frios. Um gesto intuitivo de propriedade, de unidade, que a consolou um pouco—. Além de pensar em como levar a cabo sua vingança


— ele continuou, e apertou com mais firmeza sua mão quando ela fez um gesto de retirá-la—, a que acha que se dedicará na Welsh Marches? —Bom! —Robert passou a mão pelo rosto quando chegaram a um pedaço ensolarado do pátio. Richard aproveitou para fazer a sua esposa adiantar-se e subir as escadas que conduziam ao parapeito. Tudo isso sem lhe soltar a mão—. Se estivesse em seu lugar, faria tudo o que estivesse ao meu alcance para lhe criar problemas. Pode ser que atacasse algum de seus castelos. —Exato. Portanto tenho que pôr em marcha imediatamente uma demonstração de força — Richard olhou para sua esposa, pesaroso—. Ninguém esperaria de mim que andasse daqui para lá na Welsh Marches no dia seguinte de meu casamento, mas o melhor a fazer é uma demonstração com punho de ferro antes que sir John possa voltar para Talgarth e organizar-se. Robert assentiu. —Quer companhia? —Se estiver disposto a vir —Elizabeth sentiu que Richard lhe apertava a mão quando a promessa de ação entrou em sua corrente sanguínea—. Duas horas. Deixarei Simon Beggard e uma guarnição completa aqui. Vai estar preparado, Rob? —É óbvio — ele respondeu, e se apressou a começar com os preparativos. Richard fez o mesmo. Soltou a mão de Elizabeth com apenas o esboço de um sorriso e a abandonou na escada para dirigir-se em busca dos soldados. Se acreditou que sua posição como esposa de um Malinder podia supor um direito exclusivo à atenção e ao tempo de seu marido, enganarase por completo. Ela bem que poderia ser uma pedra do parapeito na conversa que tinham mantido, exceto pela força e o calor da mão dele, é claro. Duas horas mais tarde, Richard a viu de pé nas escadas que conduziam ao grande salão, envolta em sua capa e com o vento puxando


seu véu, e não pôde evitar se sentir um tanto culpado, embora também tivesse que admitir que sua partida supusesse certo alívio. A dolorosa morte de Lewis ia demorar a cicatrizar, e quando tivesse transcorrido um tempo prudencial poderia descobrir quais eram seus pensamentos. Entretanto, deixá-la em um momento como aquele lhe parecia uma decisão sem qualquer sensibilidade, abandonando-a com o único consolo de seu rechaço às acusações de sir John. Mas não podia fazer outra coisa. Permitir que os de Lacy minassem sua autoridade na fronteira e que atacassem sua propriedade era impensável. Com a menor provocação, toda a Welsh Marches poderia elevar-se em armas, e com a propensão dos galeses a meter-se em conflitos… Porém a culpa seguia lhe roendo as vísceras e o desejo de ficar era intenso. Ali estava ela, alta e erguida, o orgulho e a dignidade de seu sangue abrigando-a como as dobras da magnífica capa. Não restava a menor dúvida de que faria respeitar sua autoridade em sua ausência. Apesar de tudo que ocorreu nas últimas vinte e quatro horas, ou possivelmente por isso, confiava em sua lealdade. Mas abandoná-la naquele momento não era uma boa estratégia. Pálida e abatida pela falta de sonho, havia rastros de sofrimento sob seus olhos e na linha de sua boca. Seus pensamentos não faziam mais que suceder uns aos outros em círculos, e teve que reprimir um gemido. —Elizabeth — ele se aproximou dela olhando-a nos olhos—. Isto não fazia parte de meus planos. —Eu suponho que não. —Vai ser uma rápida saída pela Welsh Marches. Voltarei assim que as circunstâncias me permitam. —Sim. —Vocês será a autoridade máxima aqui em minha ausência. Não abra as portas para ninguém exceto para mim. Eu diria que nem sequer ao seu tio enquanto eu não estiver de volta, mas acredito que não lhe ocorrerá


vir depois do que ocorreu ontem à noite — ele tomou suas mãos—. A menos que seja para levá-la de volta a Talgarth longe de minha influência, se acreditar que sou o autor da morte de Lewis. Aquelas palavras levavam uma pergunta implícita, que ela se apressou a responder. —Sir John não virá, e eu não iria com ele. É o que desejava ouvir? —Sim. Precisava sabê-lo. E Richard se deu conta do que era o que lhe tinha deixado tão preocupado enquanto preparava a saída. —Sou sua esposa, e meu dever está aqui. Não havia alegria em sua declaração, mas não restava mais remédio que aceitá-lo. Com o tempo talvez mudasse seus sentimentos. Um raio de sol abriu caminho entre as nuvens e foi iluminar o broche que fechava a capa dela. Gostou que tivesse decidido usa-lo. Os animais brilhavam com fogo e luz, e não pôde resistir a tocá-lo. —Brilha com tanta intensidade quanto seu espírito, milady. Sou um homem muito afortunado de ter uma esposa com tanta força e determinação. Richard se inclinou para beijar sua mão, deixando-a com seu sabor, com seu contato. Viu o sangue subir a suas bochechas e escurecer seus olhos. —Até logo. Tenha coragem, Pentesilea! Pegou as rédeas e montou, fazendo um gesto para que Robert e os soldados o precedessem para sair. Mas ela abandonou sua posição e desceu correndo as escadas. —Richard! —ela o chamou e ele se deteve. Quando chegou a seu lado, pôs sua mão sobre a dele, que segurava as rédeas—. Que Deus o proteja. —Reze para que assim seja, milady. Mais tarde, naquela mesma noite, antes de retirar-se para uma cama vazia, Elizabeth se sentou sozinha em seu quarto. Tinha pedido a Jane que saísse, mas que deixasse a gata, uma decisão que havia lhe rendido um olhar severo de sua dama de companhia. Estava sentada no silêncio,


rodeada de sombras. Um irmão assassinado e o outro em uma distância imposta. Seu tio estava decidido a fazer acusações públicas de cobiça e morte, jurando vingar-se pelo sangue derramado. Conhecia os perigos, a presença da morte em qualquer momento de descuido, uma flecha perdida. Um ataque deliberado. Doía-lhe o coração, e varias vezes passou a palma da mão pelo esterno, como se aquela pressão rítmica pudesse acalmar sua dor. Como ia poder passar o tempo lendo, bordando ou jogando xadrez quando suas lealdades e emoções estavam sendo despedaçadas? Sabia o que devia fazer, mas devia fazê-lo em silêncio, secretamente. —Por que não confeccionar um amuleto? — ela perguntou à gata sonolenta. — Não faria mal a ninguém, e se pudesse proteger ao Richard… A gata saltou da cama com as orelhas alertas e a cauda movendo-se de um lado para o outro com nervosismo, como se compreendesse o dilema de sua ama. Elizabeth tomou como aprovação, acendeu uma vela e se sentou diante dela. Sobre a mesa estava a coleção de ervas e folhas do jardim em toda sua agonia invernal. —Verbasco para a coragem… embora não o necessite. Acredito que Richard é um homem valente. Confrei para a segurança nas viagens. Verbena e gálio —murmurou, pegando com dois dedos—, para a vitória e para escapar às ameaças dos inimigos. Fez com elas uma bola tão prensada quanto pôde e foi para a cama em busca de algo que necessitava e que podia estar nos travesseiros ou na roupa da cama. Sim, como esperava um cabelo negro facilmente reconhecível, já que era muito comprido para ser dela. Acrescentou-o à bola e o atou com um fio vermelho de seda que tinha encontrado em uma mesa de costura. E logo, ao mesmo tempo em que fazia mais três nós, murmurou—. Os ato para que o protejam. —É tudo o que posso fazer — acrescentou depois—. Não poderá usa-lo, mas posso convocar sua força protetora em seu nome. Se meu tio


decidir atacar… não, não pode ser. Quem matou Lewis? Por Deus, que não tenha sido Richard Malinder. Mas a gata não respondeu. Apenas se limitou a olhá-la sem pestanejar. Elizabeth suspirou, completou o encantamento e acariciou a gata das orelhas até a cauda com suavidade antes de colocar a bolinha na cabeceira da cama oculta atrás das cortinas, onde ninguém pudesse vê-la ou que a confundissem com um repelente de traças. Quando a gata começou a ronronar, sentou-se a seu lado. —Fiz o quanto pude. Rezei a Deus lhe pedindo que volte são e salvo, e tenho apenas um dia de casada. Não sei ainda o que sinto por ele, mas não estou predisposta contra ele. O animal saltou da cama e se espreguiçou esticando-se.

Oito Elizabeth e Jane estavam no canto entre as novas acomodações e o muro exterior original do castelo. Mesmo com o frio que fazia naquela manhã de março, era óbvio que aquilo tinha sido um horto com seus sulcos paralelos, seus estreitos caminhos e pavimentações.


—Alguém neste castelo deve ter algo mais que um interesse passageiro. Note nisto — a nova senhora do Ledenshall inspecionava uma trepadeira frutífera que crescia sobre a parede mais protegida daquele espaço—. Acredito que é um pessegueiro. Mas agora tudo está selvagem e abandonado. Tudo estava asfixiado pelas ervas daninhas. —Lady Gwladys certamente não — comentou Jane. Gwladys! Elizabeth sentiu a acostumada pontada de ciúmes no coração. A incomparável Gwladys. Mas deu de ombros. —Bem. Então as plantas não despertavam seu interesse. —Dizem que poucas coisas despertavam. Dizem que… Mas se deteve. —Que mais dizem dela? —Não muito. Que era muito bonita — Jane fez uma careta de desgosto—. O certo é que aqui não são dados aos falatórios. Se quiser saber algo mais de lady Gwladys, terá que perguntar a lorde Malinder. —Pode ser que eu o faça. Elizabeth se dispôs a perambular pelos caminhos quase apagados, pulando atoleiros, consciente de que tinha um tremor de inquietação no ventre. Lady Anne entrou com seu passo elegante no quadro para unir-se a elas, mas se deteve na beira dos terraços, levantando as saias com uma deliciosa careta de desagrado. A pele escura que usava em torno do pescoço suavizava suas feições e iluminava seu cabelo. Era, sem dúvida, uma jovem muito bela. —Ah, estão aqui. Não sabia a quem pertenciam as vozes. O que perderam aqui? —perguntou, contemplando os atoleiros e o barro—. O que estão fazendo? —Planejando iniciar uma horta. Elizabeth deu a volta para sair. Anne tinha diminuído o prazer que se dispunha a desfrutar. —Deve esperar que Richard volte — ela disse. —Sim, claro.


—Minha querida Elizabeth… — ela adotou um tom e um ar encantador—, não deve danificar suas mãos — disse, mostrando seus dedos longos e elegantes—. Richard gosta que uma mulher tenha as mãos suaves e femininas. Já me disse isso. —Nesse caso, deveria tomar cuidado, não é? Talvez fosse melhor que não saísse de casa. —Certamente que contribuiria — Anne respondeu muito séria—. Mas já vejo as mãos destroçadas de Llanwardine, se não me engano. Elizabeth resistiu em ocultar as mãos nas dobras de suas saias, o que tinha sido seu primeiro instinto. —É possível que Richard volte esta mesma semana, e gostará de ter um pouco de companhia feminina depois de passar dias e dias marchando pela Welsh Marches, todo cheio de pó, piolhos e companhia masculina — Anne enrugou o nariz—. Você canta Elizabeth? —Não. —Toca o alaúde talvez? —Não. Sabia fazer ambas as coisas e muito bem, mas não estava disposta a competir com ela. —Eu faço as duas coisas é claro. Minha mãe considerava que eram aptidões essenciais para uma dama que desejasse fazer de seu lar um lugar cômodo e acolhedor para seu marido. Será um prazer para eu cantar e tocar para Richard. —Não deseja voltar para casa quando Robert retorne? —perguntou Elizabeth e apertou o passo. Tinha começado a cair um bom aguaceiro. —Sim — ela respondeu antes de desviar-se para um refúgio—. Acreditava que ainda poderiam desfrutar de minha companhia. As relações com a família são muito importantes, não é? —Embora em certas ocasiões também possam chegar a ser insuportáveis — as palavras tinham sido murmuradas por Jane, que não tinha podido conter mais sua frustração—. Sinto-me mais tentada do que nunca em envenenar a taça dessa mulher antes que termine o dia de hoje.


Vomitar e ter cãibras abdominais lhe daria algo no que pensar. E uma pequena dose de humilhação faria bem a sua alma. Elizabeth sentiu vontade de lhe dar razão, mas era melhor não animar Jane quando ela estava com essa disposição. —Nem pense em fazê-lo Jane, ouviu? —Claro que ouvi. Têm muitos princípios, milady. É meu dever, como o foi desde dia em que nasceu, procurar sua felicidade. —Mas para isso não é necessário envenenar a prima de meu marido. —Não é a prima de seu marido quem me preocupa, e sim a mulher que deseja ser amante dele. —Jane, ela não… ele não o faria! —Pois isso é exatamente o que essa mulher deseja. Você vai permitir? Sob seu próprio teto? Bastaria que ele levantasse uma sobrancelha para que ela corresse para meter-se em sua cama. —E pensa que meu senhor me trataria com semelhante falta de respeito? —Não! Não é isso o que quero dizer, mas olhe milady: acredito que lady Anne estaria disposta a interpretar mal qualquer gesto por parte de seu senhor marido. Os homens são tolos quando enfrentam uma mulher tão manipuladora quanto ela. —Tudo o que faz é paquerar. Jane riu. —Paquerar! Tem muita mais malícia nisso. E era certo, Elizabeth reconheceu com um suspiro. —Pois não o faça nada. Eu a proíbo. Jane abriu a boca para voltar ao ataque, mas mudou no último momento. —Tome cuidado — foi tudo o que disse antes de partir em direção a suas acomodações, deixando Elizabeth rodeada de folhas mortas. Esperava ter deixado claro quais eram seus desejos naquele assunto, mas não podia estar segura. Aquela noite, em sua própria câmara, Jane Bringsty desprezou as ordens de sua senhora com uma ausência absoluta de culpa. Ninguém devia minar a felicidade de Elizabeth de Lacy. Ninguém! A gata e ela estavam


contemplando as evoluções do rato que tinha na jaula. O animal farejou o conteúdo do prato, o pão empapado em uma substância azul escura e logo deu fim em seu conteúdo. Diante da audiência que a contemplava sem compaixão, o rato começou a retorcer-se e a saltar de dor, até que caiu de lado e não voltou a se mover. —Morta — murmurou contrariada, e levou a jaula para a pilha de lixo para se desfazer do cadáver—. Tenho que ter mais cuidado e ser mais precisa na quantidade. A beladona pode resultar num veneno arriscado, e embora a tentação seja grande, não posso matá-la. Mesmo que ela seja como uma cadela no cio—. Olhou à gata com um sorriso travesso —. Causaríamos muito barulho. A gata se roçou contra suas saias como se estivesse de acordo. —Apanharemos Anne Malinder. E se ela decidir cravar suas garras no senhor de Ledenshall, já saberemos o que temos que fazer, não é? Quando Richard voltou, cansado, mas satisfeito com seus esforços na fronteira, Elizabeth não foi imediatamente recebê-lo, já que estava ocupada brigando com a massa de raízes e ervas da horta. Ouviu o grito de aviso da sentinela, o atrito metálico e o gemido do rastelo ao levantar-se. Quando conseguiu arrumar um pouco a roupa, a pequena força armada estava já desmontando com muito ruído, confusão e conversas. Ali estava ele, no centro da algazarra, desmontando de seu garanhão. Chegava, como todos outros, coberto de pó e suor da campanha, com armadura, botas e capa salpicadas de barro. Parecia um soldado mercenário, quase igual a aqueles que se dedicavam à pilhagem na fronteira, mas então por que ele acelerava seu pulso e o coração batia como um tambor? De repente se sentiu consciente de sua própria aparência, por desgraça não muito melhor que a dele, uma saia velha com a barra manchada de barro. Inclusive o fino tecido de seu véu parecia ter recolhido todo o tipo de semente seca e rastros de barro. E quanto a suas mãos… tal como Anne a tinha advertido, eram um caso perdido, já que não tinha


podido esfregá-las para tirar os restos de terra. Que triste impressão ia causar naquele homem cuja opinião tanto lhe importava. Suspirou exasperada ao mesmo tempo em que limpava as mãos na saia sem conseguir nada, e se dispôs a aproximar-se. Anne Malinder chegou antes dela. Claro. Tinha estado o esperando com aquela capa “favorecedora” que não cobria por completo seu belo vestido, nem disfarçava seu amplo decote. Um véu leve realçava o formato oval de seu rosto, suas sobrancelhas cuidadosamente desenhadas, os surpreendentes olhos verdes cravados sem disfarce e provocadores nele. Não podia fazer nada exceto fechar os olhos e comparar-se irremediavelmente com ela. E recordar as acusações ofensivas de Jane. Quando voltou a abri-los presenciou uma cena que sem dúvida tinha sido cuidadosamente planejada pela dama como se fosse um capítulo dramático de uma história de cavalaria. O cavalheiro que voltava de atacar uma tarefa difícil, cansado e sofrido, sério e solene, disposto a satisfazer sua dama. A mulher, refinada e elegante, pondo uma mão no braço de seu campeão enquanto o olha com atrevimento. O cavalheiro inclinando-se para escutar as palavras dos tentadores lábios de sua dama. Quantas vezes não tinha visto aqueles mesmos gestos executados por aquela Malinder? Pôs-se a andar para integrar-se a um quadro no qual não havia lugar para ela, sem sentir-se nem refinada, nem elegante, mas sim, como Morgana, um espírito maligno que se interpunha entre eles. Chegou a tempo de ouvir como Anne sussurrava no tom mais doce possível. —Eu senti sua falta Richard. Espero que você também o tenha feito… mesmo que seja só um pouco. Richard sorriu olhando para sua prima. —Anne… é claro que … Não pôde saber o que mais ele haveria dito por que ambos se deram conta de sua presença.


—Estava dizendo ao Richard o quanto sentimos sua falta, Elizabeth querida, e que nos alegramos muito de que tenha retornado são e salvo. O sorriso de Anne era brilhante, e a evidente troca do singular pelo plural fez ranger seus dentes, assim como o bater de suas pálpebras de cílios grossos. Deliberadamente se obrigou a sorrir com a mesma complacência. As palavras foram muito mais difíceis de dominar. —Bem-vindo a casa milord. Tudo o que sua prima disse é verdade. —Elizabeth. Ele sorriu olhando-a fixamente, e com uma mão tão suja quanto à dela, acariciou-a do ombro ao pulso. Como se de verdade sentisse algo por ela. Como se quisesse lhe perguntar: está bem? Conseguiu assimilar sua dor? Sentiu que o seu sangue todo subia às bochechas quando ele se aproximou e lhe beijou a têmpora justo ao lado do véu. —Dá a impressão de que esteve ocupada em minha ausência — comentou ao reparar em seu aspecto, surpreso. —Assim é. Elizabeth respirou fundo desesperada. Ele estaria consciente de que Anne mantinha sua mão perfeita em sua manga? Parecia cansado, esgotado, mas bem, e umas linhas de sujeira emolduravam seus olhos e sua boca. Talvez estivesse muito fatigado para reparar na saudação de sua prima. E não resistiu quando o puxou pelo braço para conduzi-lo para dentro. Elizabeth ouviu suas palavras à distância. —Venha, Richard. Deve estar cansado e sedento. Pedirei à cozinheira que prepare uma dessas empanadas de cordeiro que vocês tanto gosta. «Será possível? Empanada de cordeiro! E por que eu não sabia que ele gosta desse prato?» Com a moral à altura de seus chinelos manchados de barro deu a volta e se encontrou frente a frente com Jane, que devia ter visto tudo do alto da escada. Sua cara dizia tudo. Jogava faíscas pelos olhos e olhava zangada para todo mundo, inclusive sua patroa, ou talvez especialmente a


ela, que se negava a abrir os olhos e ver o que estava ocorrendo diante de seu nariz. Implacável, olhava-a nos olhos movendo a cabeça. Tanto se tinha entendido o que queria lhe dizer quanto se não, Jane deu a volta imediatamente com uma agilidade surpreendente em um corpo tão robusto e desapareceu amaldiçoando todo mundo, deixando que Elizabeth a seguisse em seu ritmo… enquanto tentava não se aprofundar na dor que sentia no coração. Uma hora depois, os soldados exaustos se reuniam no grande salão para contar com todo luxo de detalhes o êxito da expedição empreendida e para assegurar de que todos os redutos Malinder estavam seguros. Os criados levaram bandejas bem abastecidas de carne e a cerveja começou a circular livremente. O volume de ruído cresceu ao ritmo da comida e da bebida, e as explicações dos soldados foram ficando cada vez mais valentes e ousadas. Era uma atmosfera de celebração a qual Richard não pôs restrição alguma, de modo que o banquete foi o auge da campanha até que apenas restaram ossos e sobras para os cães. De sobremesa se serviu vinho quente e doces. No entanto, lady Anne não demorou a começar a se mover inquieta em seu assento. O sangue saiu de seu rosto, a deixando com uma cor esverdeada que ficava estranha com a cor de seu cabelo, e viu que agarrava sua taça com uma mão crispada enquanto que levava a outra ao ventre. —Acho que comi muito — ela disse mordendo o lábio inferior—. Muitos doces, certamente. Sua pele se tornou assustadoramente pálida e um véu de suor brilhava em seu lábio superior. —Talvez seja o vinho quente, que está muito temperado. Falarei com a cozinheira para que não abuse da noz moscada. Elizabeth a olhava fixamente e suas suspeitas começaram a crescer ao ver como suava e como escureciam suas pupilas.


Um gemido afogado foi à resposta que Anne pôde lhe dar. Viu-a levantar-se e apoiar-se na mesa. —Tenho que ir… o vinho! Acho que… — ela levou a mão à boca—. Não me sinto bem… dói-me a cabeça… E dando meia volta, quase tropeçando com os outros, saiu a toda pressa do salão, cobrindo-a boca com as mãos. Elizabeth teve a sensação de ter virado pedra. Aquilo nada tinha a ver com as especiarias do vinho. Sabia exatamente a que se devia e sentiu que o medo a agarrava, um medo que se viu abonado ao ver que, seja por má sorte ou por coisas do destino, Jane entrava naquele momento no salão pela porta que o conectava com as cozinhas. A expressão que adotou ao ver Anne passar foi de inocência, mas para o olho perito de Elizabeth era inconfundível. Por acaso não tinha sido Jane quem tinha servido o vinho a todos? Não podia deixar de olhá-la, acossada como se sentia por uma terrível suspeita. Ela elevou ligeiramente as sobrancelhas quando se deu conta de que sua ama a olhava fixamente e com suprema satisfação manteve seu olhar. Era possível que inclusive sorrisse levemente. E Elizabeth soube! Teve que agarrar-se a borda da mesa. O que podia fazer ou dizer? Se Jane era culpada, também ela o era. Não podia articular uma palavra, não podia compreender em sua extensão total o horror do que Jane fazia. A tensão ficou insuportável naquela atmosfera impregnada pelo aroma de carne assada e fumaça de madeira. Inclusive era difícil respirar. E se Anne Malinder perdesse a vida? De repente ficou de pé. —Me desculpe milord. Tenho que me ocupar de uns assuntos. Deixo-o em companhia da cerveja. Jane… necessito de sua ajuda. Nem sequer olhou para Richard… não se atreveu por temer o que podia ver, ou o que sem dúvida ele interpretaria de sua própria rigidez. Suas tripas ardiam e estava quase tão pálida quanto Anne tinha estado. Sem esperar para ver se Jane a seguia, saiu do salão para um hall vazio em que


pudesse ter um pouco de intimidade. Uma vez ali se virou para encarar sua dama de companhia. —O que lhe deu? —Nada forte. Não morrerá — ela respondeu erguendo o queixo. Não estava arrependida—. Sei o que me faço. —Jane… eu te proibi que… —Sei que o fez milady, mas ela merece cada segundo de desconforto que vai padecer. Essa mulher não é melhor que uma rameira — a expressão de Jane se carregou de malícia—. Eu a adverti disso, mas já que você não quis me escutar, decidi lhe baixar um pouco a ousadia. —Jane! Será que não se dá conta do que fez? —Foi fácil, milady — ela respondeu, deliberadamente interpretando mal a pergunta com um brilho de triunfo nos olhos—. Vocês não ia fazê-lo, assim tive que ser eu. Estava claro que ia ser incapaz de convencer Jane de que o que tinha feito estava errado, assim ficou olhando-a. Não ia se arrepender, e Elizabeth sabia que devia repreender sua dama por sua crueldade, mas ao mesmo tempo entendia por que tinha dado semelhante passo e não podia culpá-la completamente por saber ler o caráter de Anne. —Beladona? —Sim. Ensinei-a bem. —Suponho que no fundo deveria dar graças a Deus porque não é outra coisa. O acônito a teria matado. —Vai se recuperar logo. Talvez assim volte para Moccas. Se seguisse meu conselho, milady… Mas o conselho de Jane morreu em seus lábios e seus olhos se arregalaram. Elizabeth experimentou um calafrio e soube que já não estavam sozinhas. Lentamente deu a volta e viu confirmado o pior de seus temores. Richard. Richard, que mal podia controlar a ira que escapava das feições de seu rosto e da incredulidade de seu olhar. Ele moveu-se sem fazer ruído e com uma enervante graça se plantou junto a elas. Seus olhos se pousaram na Elizabeth, não em sua serva.


—Me fale deste incidente. Eu me equivoco ao interpretar o que acabo de ouvir e ver entre você e sua dama de companhia? Com certeza estou equivocado. Suas palavras soaram suaves e ameaçadoras. Elizabeth, com o coração na garganta, procurou uma explicação que pudesse derreter aquela fúria. Era difícil interpretar mal sua conversa, e agora esperava uma explicação, embora a condenação aguardasse disposta sob suas palavras. Embora durante um segundo se dissesse que não deveria acusá-la com tanta facilidade, desgraçadamente o ocorrido não deixava outra opção. Mesmo assim, tentaria proteger Jane. —Não entendo a que se refere milord. Sua primeira intenção foi dar um passo atrás, mas não o fez. Procurava febrilmente umas palavras que pudessem sufocar a ardência da acusação, mas não as encontrou. —Sim entende. Entende perfeitamente. Não é tola — ele a agarrou pelo pulso e a puxou sem saber que seus dedos estavam cravando em sua carne, embora soubesse que ela merecia—. O que sabe de tudo isto Elizabeth? Diga-me que estou enganado. Ela engoliu em seco procurando freneticamente por uma explicação. Ia contra sua natureza mentir, mas lhe dizer a verdade faria com que sua ira recaísse sobre a cabeça de Jane. —Não, Elizabeth. Não me equivoco, não é? —sua voz era apenas um sussurro, mas não por isso menos ameaçadora quando a obrigou a se separar uns passos de Jane—. É responsável pela reação de Anne por algo que comeu ou bebeu? —Por que seria? Ele ia se atrever a acusá-la desse modo sem ter provas? —Aqui ocorreu algo — ele disse com aspereza—. Você tem uma reputação, minha senhora, que a precede. Dizem que conhecem as artes escuras —esperou um segundo antes de continuar—. A envenenou? Não havia modo de negá-lo, assim aproveitou a brecha que se abriu entre eles para fazer a admissão.


—Não. Não é veneno, e não morrerá. Um mero desconforto do qual se recuperará em breve. O que podia dizer? Negar todo conhecimento seria, dadas às circunstâncias, ridículo em extremo. —No vinho? Elizabeth nem sequer olhou para Jane, que permanecia imóvel escutando-os. —Sim. No vinho quente. —Envenenou a minha prima? —a ira com que a olhou ao descobrir que suas suspeitas eram certas, a queimou —. Posso saber por que, em nome de Deus, quis machucar Anne? Suponho que deveria me alegrar de que não tenha envenenado minha taça e não a sua. Acaso sir John lhe pediu que se vingasse em qualquer um que leve o sobrenome Malinder por causa da morte de Lewis? Umas quantas gotas… do que? Em minha cerveja, e a vingança da família De Lacy estaria completa. Não confiava nela. A morte de Lewis pairava sobre eles, assim como os velhos confrontos entre os Malinder e os De Lacy. Elizabeth viu a verdade e a temeu, mas estava decidida a proteger Jane e sua própria honra. —Beladona. E não, milord — ela fez uso de toda a sua dignidade para enfrenta-lo. Como se atrevia a condená-la sem provas?— Se de verdade tivesse sido minha intenção o matar e vingar a morte de meu irmão, não teria usado beladona, e sim acônito. É muito mais difícil de rebater. Sua morte teria sido assegurada e sem remédio — ela sorriu com amargura—. Ou se sua morte tivesse sido meu objetivo, ainda mais eficaz teria sido cravar uma adaga entre suas omoplatas enquanto dormiam em meu leito. Richard pareceu surpreender-se de que tivesse admitido abertamente sua culpa. —Quer dizer, que é culpada. Elizabeth sentiu que Jane se aproximava e imediatamente a segurou pelo pulso. Para apoiá-la ou para adverti-la. Mas não deixou de olhar ao


senhor de Ledenshall. Antes que Jane pudesse falar, Elizabeth fez uma confissão. —A responsabilidade é toda minha como você suspeita. Atribua aos ciúmes de uma mulher se for seu gosto, porque Anne Malinder possui todos os atributos dos quais eu careço —voltou o rosto mas manteve a voz firme, quase brutal—. Vá Jane. Não a necessito. Conhece o remédio que aliviará lady Anne. Não queremos que sofra em excesso. Sua família não o desejaria. Vá! — ela repetiu com toda a autoridade que pôde quando Jane foi falar—. Não têm nada o que fazer aqui, e não quero que diga nenhuma palavra sobre este assunto. O resultado pendia de um fio. Elizabeth queria que Jane obedecesse e por fim esta assentiu e fez o que lhe pedia. Deixou o casal se enfrentando em um espaço de veneno e virulência muito pior do que a beladona teria podido provocar. Elizabeth arrancou por fim sua mão da prisão de Richard, mas seguiram se encarando. —Não posso acreditar no que acabo de ouvir de seus próprios lábios. —Entretanto, não lhe custa nada me acusar, certo? E sem provas. Sem sequer saber de ao certo se sua prima tinha sido envenenada. —Pelos pregos de Cristo, Elizabeth! Era impossível não ver o olhar de culpa que havia entre vocês. Você e essa sua dama endiabrada. Sua cumplicidade estava escrita em seus rostos. —Era fácil pensar assim se não confia em mim, e se está decidido a agir sem provas. Observou-o um instante sem deixar de se impressionar pela magnitude de sua ira, que parecia emprestar intensidade a suas feições e poder aos seus esplêndidos olhos. Respirou fundo para acalmar as chamas que sentia no estômago perante o magnetismo de Richard Malinder antes de aferrar-se à sensação de injustiça. Como se atrevia a julgá-la e condenála? A injustiça que estava cometendo a fazia atacar outro assunto de peso.


Não ia ser ela a única a carregar a culpa. Podia lamentar suas palavras, mas o desespero a empurrava. —Levou-o a Hereford sua viagem pela Welsh Marches? —Sim. E o que? O que tem isso a ver com que tenha envenenado minha prima? —Já que o que está se tratando aqui é a confiança, suponho que terá encontrado tempo de visitar sua amante em Hereford. E que não tenha transcorrido a visita discutindo o preço da lã. —O que? Se a surpresa ante sua admissão tinha sido grande, aquela foi maior. Por um momento ficou mudo, apenas capaz de olhar para sua esposa, uma mulher que se atrevia a questionar seus atos e sua integridade. —Esperava que ninguém me contasse? —continuou, negando-se a que sua fúria a silenciasse. Toda a amargura que tinha lhe provocado sabêlo, a humilhação de que pudesse encontrar satisfação física com outra mulher, aflorou naquele momento—. Pois saiba que o fizeram, inclusive antes que nos casássemos. Aparentemente é algo do qual se fala abertamente aqui. Não estava nem um dia em Ledenshall quando me informaram de sua relação com uma mulher em Hereford. Acredito que se chama Joanna, não? E, entretanto diz que sou eu quem não lhe inspira confiança. As promessas que fez diante do sacerdote não duraram muito, não é? Dias, talvez? Eu diria que poucas coisas inspiram tão pouca confiança quanto esta. Richard franziu o cenho. —Não é seu assunto quem eu visito em Hereford — espetou. —Ah, não? — ela só conseguia pensar em que não o tinha negado, portanto devia ser verdade—. Sou sua esposa, e acredito que um assunto assim me concerne. —Isto é absurdo milady, e não tem nada a ver com o caso que nos ocupa. Admitiu o delito. Como se atreve a usar veneno contra um membro


de minha família? — ele caminhou até a janela e voltou—. Por acaso me casei com uma bruxa? Com uma envenenadora? —E me casei eu com um assassino e adúltero? Pronunciou aquelas palavras antes de poder contê-las. Que terrivelmente destrutivas eram em seu poder. Estavam em sua boca, no ar que havia entre eles, no contra-ataque efetuado antes de poder refletir. —A morte de Lewis segue sem ser explicada. Anne ficará incômoda algumas horas, mas não tentei matá-la. Mas meu irmão sim está morto! O que não deixou mais nada a dizer entre ambos. Elizabeth respirou fundo para desfazer-se da bílis daquela acusação. —Richard… eu não… —Já disse o suficiente. Elizabeth resistiu ao desejo de vê-lo partir. Não ia permitir que visse a dor em seu olhar, nem a devastação que sentia porque ele acreditasse que fosse capaz de utilizar uma arma tão desprezível quanto o veneno para conseguir seus próprios fins. Que esperança restava agora de conseguir confiança? A possibilidade tinha sido destruída por Jane, que tinha acreditado agir no melhor interesse de sua senhora. Elizabeth se pôs a rir, mas sua risada soou vazia pelo desastre que a aguardava. Se não ria, começaria a chorar. Foi à cozinha e ali encontrou Jane preparando uma infusão de casca de salgueiro que ajudaria Anne Malinder. Seria fácil, muito mais fácil que fechar o abismo que aberto com o Richard. Não tinha nem ideia de que caminho seguiria sua relação com seu marido.

Nove


Anne Malinder se meteu na cama, muito esgotada, muito ultrapassada pelos vômitos e a diarreia para questionar a fonte do problema que lhe atacava o ventre com tanta violência. Como Jane Bringsty havia predito, a beladona foi facilmente combatida e expulsa de seu sistema. Depois de três dias tudo que restará para recordar à dama sua má sorte era uma dor intensa entre os olhos e o estômago sensível que se alterava com a menor menção de comida. Pôde levantar-se da cama, sentar-se junto ao fogo em seu quarto e tomar um pouco de vinho. Não haveria efeitos duradouros. Era a única boa noticia em Ledenshall. Richard Malinder perambulava por seu castelo em uma nuvem de mau humor. Mantinha-se a distância de todo o mundo, afundando-se em pergaminhos sobre os imóveis e os aluguéis. Era estranho, diziam os habitantes do castelo, ver seu senhor tão parcimonioso com as palavras. Richard seguia dando voltas à situação em cuja raiz só havia um problema: Elizabeth. Como tinha se deixado convencer por John do Lacy a casar-se com ela? Mal tinham transcorrido uns dias da cerimônia e sua vida era um inferno. O que podia lhe dizer quando tinha admitido ser responsável por um ataque sobre o bem-estar de sua prima, e possivelmente contra sua vida? E ela, que tinha administrado a terrível droga, ainda tinha a temeridade de acusá-lo pelo assassinato de seu irmão. Depois de tudo o que tinha acontecido entre eles, quando ele acreditava ter chegado a uma aparente compreensão, quando se descobria desejando voltar para casa para poder estar com ela o surpreendia exibindo o mais puro ódio contra toda a família Malinder. Como podia ter sido tão inocente? Estava a ponto de perder o controle e deu um golpe num monte de documentos que tinha sobre a mesa e do qual saiu uma nuvem de pó. Como podia ter acreditado sequer por um instante que aquele casamento podia ser feliz? A ira não cessava de arder em seu interior.


Mas havia algo que não o deixava desfrutar dessa ira, uma consciência que o obrigava a enfrentar à verdade que havia em na outra acusação. Tinha dado por certa sua culpa inclusive antes que ela confessasse. E se de verdade tinha interpretado mal a situação… com uma careta pensou na possível injustiça. Mas no final tinha confessado! Recordava bem as palavras de Richard sobre venenos e o frio do aço, e Elizabeth tinha estado presente quando as pronunciou. E, entretanto, não podia acreditar que fosse capaz de usar um veneno. Mas o tinha admitido, não? E acusa-lo de que ter uma amante em Hereford… para deslocar a atenção de seus próprios pecados, é claro. A sensação de injustiça voltou a criar vida. Terrivelmente infeliz, Elizabeth se retirou para seu quarto, onde se viu obrigada a tomar medidas desesperadas para aplacar ao menos uma de suas feridas. Não era razoável, mas a tristeza a empurrava. Em qualquer caso não conseguiria afundar ainda mais no abismo que a separava de Richard. Ao dar-se conta de que tinha perdido um par de luvas e visto que se recordava de tê-los consigo no quarto de Elizabeth, Richard foi buscá-los. Poderia ter enviado um criado para pegá-los, mas isso teria sido pura covardia. Se sua esposa e ele não tinham nada que dizer-se, que assim fosse. Bateu levemente à porta e entrou. Descobriu sua esposa sentada diante da lareira, iluminada pelas velas e a expressão de seu rosto quando a olhou era de desconforto. —O que fez? Ante ela, no chão, havia uma terrina cheia com um líquido e velas. Com um gesto rápido passou a mão sobre o líquido e as velas. —Nada. —Não minta, Elizabeth. O que é isto? Aproximou-se dela e a apreensão cresceu. Nigromancia em Ledenshall? Nunca o permitiria.


—Estava tentando adivinhar. Elizabeth se levantou, limpando as cinzas das saias e olhando-o abertamente nos olhos. —Adivinhar? —sabia a que se referia e sentiu que o coração dava um salto. Sua voz passou a ser um murmúrio por temer ser escutado, mas não dissimulou sua ira—. Você se atreve a fazer tais práticas em minha casa? Acha que eu gostaria que prendessem minha esposa e a queimassem na fogueira por bruxaria? Elizabeth se ergueu desafiante. —Dado que só você e eu sabemos o que eu fazia aqui, duvido que isso pudesse ocorrer. Richard passou por cima do desafio. —E o que faz? Tenta encontrar outro meio de se desfazer de minha prima? Assim ele estava decidido a atacá-la com aquilo uma e outra vez, sem prova. —Não preciso adivinhar nada para isso— Elizabeth hesitou um segundo antes de voltar a avivar o fogo—. Estou tentando ver o rosto do assassino de Lewis. —Ah! Então era isso. E viu o meu rosto em sua bola de cristal? —Não — ela respondeu com sinceridade—. Não vi nada de nada. Só escuridão. —Mas não confia em mim. Não pode aceitar minha palavra de que sou inocente. Duvido que alguma vez o faça — ele arrematou com uma inefável amargura. Elizabeth não podia permitir que suas palavras a abrandassem, já que ele tampouco confiava nela. —Não tenho experiência em minha vida que possa me animar a confiar em um homem. Não o conheço, Richard Malinder; não sei nada de você além de suas palavras de inocência, que bem poderiam ser vazias. Uma admissão desesperadamente fraca que Richard não ia admitir. —Como pode ser tão indiscreta? — ele reclamou com um gesto da mão no ar—. Ao menos, espero discrição de você — disse, segurando as


cortinas da cama. Duas figuras de cera, obscenas em sua crua sexualidade, caíram em sua mão. De repente ficou imóvel. Ouviu que Elizabeth tomava ar. —Elizabeth! —Richard olhou a sua esposa com incredulidade—. Responda-me porque isto é ainda pior. O que é? Elizabeth não podia ocultar seu horror. —Bruxaria! —sussurrou. —Bruxaria! Bom, você sabe melhor do que eu. E se estas… estes objetos são o que parecem… Você me acha incapaz de lhe fazer um filho sem a ajuda desta obscenidade? Seus olhos, sempre tão serenos, ardiam. —Não… não é coisa minha. —Tão limitadas lhe parecem minhas habilidades como homem? Não recordo que se queixasse de meu desempenho, nem que lhe parecesse incapaz de romper sua virgindade. Elizabeth não podia afastar o olhar daquelas duas criaturas de cera. —Eu não as fiz. —Então deve ter sido sua dama de companhia. Lembro-me das ervas que havia em nosso leito na noite de núpcias. Diga a ela que venha aqui — ordenou e fez um movimento como se fosse atirá-las ao fogo. —Não! — ela gritou, lhe agarrando o braço. —Por que não? —Não o faça, eu lhe rogo. Esta magia é… complicada. O fogo poderia os danificar se derreterem. E Richard viu tal angústia em seu rosto que abaixou a mão. —Faça vir a sua dama. Calada e firme, Jane parou bem na soleira da porta, olhou o quarto com o cenho franzido e foi até aos bonecos de cera. Elizabeth a viu ficar imóvel. —Você fez isso? — Richard quis saber—. É coisa sua? —Não, milord. —Posso acreditar em você? — ele perguntou, as olhando para ambas. —Essas imagens são daninhas. Pretendem impor a vontade de outra pessoa, e Jane nunca me faria mal — Elizabeth respondeu por ela.


—Mas a mim sim poderia querer fazer mal! Quem pode saber o que traz entre as mãos? —Não, milord — Jane respondeu—. Eu não faria mal a você; só a aqueles que pretendessem fazer mal a minha senhora. Lady Elizabeth se preocupa mais por você do que imagina inclusive mais do que ela mesma imagina. Por que eu ia querer lhe machucar? —Assim deveria lhe ser agradecido! —o que estava ocorrendo em sua casa o estava afetando muito, e não era capaz de pensar em outra resposta—. Se desfaça imediatamente disto. Suponho que sabe como fazêlo. E colocando-os na mão de Jane, saiu da quarto. —De quem são? Quem os pôs aí? Elizabeth se atreveu a expressar o temor que as acusações de Richard a tinham feito guardar para si mesma. —Não sei. Tampouco sei como chegaram até aqui. Sentia a tensão de Jane, algo que não servia precisamente para tranquilizá-la. —Alguém muito interessado em seu casamento — ela continuou com um sorriso débil—. Não se preocupe milady. Destruirei esta abominação sem que a afete. Não permitirei que lhe façam mal. Deveria me ter deixado lhe disser a verdade — acrescentou. —Você acha? Bom… certamente a partir de agora não confiará em mim, não acha? A verdadeira profundidade do abismo que separava aos senhores de Ledenshall ficou assumiu um tom mais funesto quando dois dias mais tarde Richard entrou no pequeno salão onde Elizabeth tomava o café da manhã. Agindo por impulso e respondendo a sua educação como senhora do castelo, e possivelmente com a intenção de ajeitar as coisas, Elizabeth se levantou e serviu para seu marido uma cerveja. Sua expressão foi glacial ao olhar para a taça e depois para sua mulher. —Obrigado, mas não.


E se aproximou da mesa para servir-se ele mesmo de cerveja em outra taça, deixando-a com a que tinha preparado nas mãos. Viu como suas bochechas ficavam da cor da cera e os olhos se escureciam de pesar. —Richard. Sua voz era clara e autoritária, quase como se tivesse ordenando uma batalha de uma das ameias do castelo. Alta e erguida, aproximou a taça aos lábios, bebeu um gole e depois outro, sem deixar de olhar para seu marido. Logo outro mais. —Com isto bastaria para me proporcionar uma horrível morte, ou isso acredita — deixou a taça sobre a mesa—. Se continuar viva, estarei presente na refeição do meio-dia, como sempre. Vocês decidirá, Richard, se quer compartilhá-la comigo — ela passou ao seu lado, toda arrogância e orgulho—. Como vê, ainda não sofri seus efeitos. —Elizabeth… Richard esticou o braço, mas ela o ignorou. Seguiu andando e fechou a porta a suas costas com extrema suavidade. Demônios do inferno!Que diabos o tinha empurrado a provocá-la desse modo, além do mau humor que tinha após outra noite sem dormir? Equivocou-se ao rechaçar o ramo de oliveira que tinha lhe oferecido. Sua ação tinha sido imerecida e descortês, inclusive cruel, mas o empurrava uma profunda dor que sentia no coração e que era incapaz de superar. Ervas e flores secas entre os lençóis era uma coisa. Manias de velhas. Mas usar artes adivinhatórias, figura de cera… gelavam-lhe o sangue. Tão pouca consideração mereciam suas habilidades amorosas? Ele a havia sentido tremer sob suas mãos. Na cama não se queixou de nada. É mais: tinha respondido com paixão, estremeceu com suas carícias. O que a teria empurrado a recorrer a semelhante bruxaria para atraí-lo ao seu leito? Sua virilidade nunca havia sido questionada. Quanto à nigromancia, como podia fingir ignorância ou aceitação de semelhantes práticas diabólicas por parte de sua esposa e sua dama de


companhia? Fechar os olhos não era uma possibilidade. Entretanto a tinha ferido… uma vez mais! Sua falta de controle pôs suas emoções em xeque, mescladas com a franca admiração que sua esposa despertava nele. Como o desafio de ter bebido a cerveja de sua taça tinha sido como um golpe na sua cara com uma luva e ela sabia. O que havia dito sua dama? Que palavras tinha usado que tinha prendido sua atenção e que não podia esquecer? «Lady Elizabeth se preocupa mais por você do que imagina, inclusive mais do que ela mesma imagina». O que devia fazer agora? Elizabeth chorou inconsolável, como não tinha feito desde a morte de sua mãe quando era uma menina. Como podia ser tão cruel? Como podia pensar tão mal dela? O dano era irreparável, como se demonstrava por sua ausência a cada noite em sua cama. Sentia o coração vazio e tão desolado como o leito. Jane Bringsty abriu os braços para consolá-la, murmurando palavras que pretendiam acalmar seus soluços. —Sh… Você se importa muito com esse homem, não é? — murmurou. —Sim. —Ele pode ser o cavalheiro de cabelo escuro da bola de cristal — disse, a bochecha apoiada sobre a cabeça de Elizabeth—. Pode ser seu inimigo. —Não. Não é. Ou não o seria se eu mesma não o houvesse posto contra mim. Como pude agir assim, Jane? —Ele lhe fez mal, e você se limitou a devolver o golpe. —Não pensei. E agora me odeia. —Não a odeia. —Eu sou tão pouco atraente Jane, que preciso recorrer à magia negra para chamar sua atenção, como ele me acusou? Tenho tão poucos atrativos que tenho que recorrer ao veneno para me desfazer de uma rival? Sei que não posso me comparar com Anne Malinder …


—Sinto lhe ter causado dor, minha menina. Elizabeth se levantou e secou as lágrimas. —Sei que o fez por mim, mas o abismo que nos separa não admite a construção de pontes. —Por acaso havia alguma possibilidade antes? — Jane perguntou com amargura—. Rapidamente ele a julgou e condenou. Que respeito há nisso? E isso era o que mais pesava para Elizabeth, na alma e no coração. Richard se obrigou a pensar a fundo, e os resultados foram desagradáveis. Quando as labaredas de sua ira se reduziram a uma mera palpitação, o senso comum começou a abrir caminho na maré. Não parecia próprio de Elizabeth usar veneno. O fio de uma espada talvez, mas não veneno. Então, em quem recaía a culpa? Não era óbvio? Numa figura rechonchuda com um par de figuras na mão, que sabia o que fazer com ela, como as fazer desaparecer… Jane Bringsty. Tinha o conhecimento necessário, disso tinha certeza, mas quanto às quais podiam ser seus motivos… como podia saber o que motivava uma mulher como ela? A pergunta chave era: Elizabeth sabia o que sua dama de companhia trazia entre as mãos? Teria lhe dado à permissão para fazê-lo? Mas será que a senhora Bringsty necessitava da permissão de sua ama para aplicar suas negras artes? A moderação que acabava de descobrir cambaleou ante a possibilidade de que ambas pudessem agir em conivência, mas outra dose de senso comum o fez ver que, apesar do pouco tempo que as conhecia, estava convencido de que a senhora Bringsty era perfeitamente capaz de atuar por iniciativa própria e sem dar a mínima para as consequências. O mais provável era que Elizabeth tivesse agido por um sentimento de honra mal dirigido para proteger a sua dama, enquanto que ele… ele apenas tinha sido intolerante e parcial. Não tinha sido nem amável nem compreensível…


Com sua atitude tinha jogado no lixo o acordo original de serem sinceros um com o outro, de impedir que as pressões exteriores os dividissem. Com que facilidade tinha caído no pântano da desconfiança e das acusações. E dado que as primeiras palavras iradas quem tinha pronunciado fora ele, a carga recaía sobre seus ombros; era ele quem devia fazer as pazes com ela. Um vago desconforto se alojou em seu interior. Era pior que partir em campanha contra o inimigo. Deus o protegesse das mulheres difíceis e obstinadas. Encontrou Elizabeth em seu quarto. Chamou, esperou que ela o convidasse a entrar e fechou a porta devagar a suas costas. Devia ser cuidadoso com a estratégia que ia usar se queria alcançar a paz com aquela batalha de vontades. Estava sentada no batente da janela, meio encolhida nos almofadões com um livro sobre os joelhos e a gata adormecido a seus pés. Da porta pôde ver que se tratava de um pequeno livro de orações, dourado e colorido com tons brilhantes, e encadernado com um rico couro. Mesmo assim teve a impressão de que não tinha sua atenção no missal. Ela levantou a cabeça ao vê-lo entrar, mas nem falou nem se moveu. A luz estava as suas costas e tocava as bordas de seu véu. Não podia ver seu rosto nem qual tinha sido sua reação ao vê-lo, de modo que não restava mais remédio que confiar no instinto e na integridade inata para tratar com ela como merecia. Talvez assim conseguisse desfazer o nó de culpa que tinha agasalhado nas entranhas. Aproximou-se devagar até ficar diante dela, mas se deteve antes que pudesse sentir-se intimidada. —É… um livro muito bonito — ele disse com suavidade. —Sim. Foi um presente da prioresa de Llanwardine quando me parti — ela passou a mão sobre os caracteres negros, surpresa de não escutar de seus lábios mais recriminações como esperava—. Disse-me que não tinha vocação para religiosa, mas que possivelmente suas palavras, a beleza do que está escrito nele, me proporcionariam paz.


—E é assim? —Não — sua voz era apenas um sussurro—. Não me ajudou a encontrá-la. Ele deu mais um passo. —Prometemos que falaríamos um com o outro, Elizabeth. Que seríamos os mais sinceros possíveis. —Sim. Parece que faz um século disso. —Por que não me disse a verdade? Por que me ocultou que tinha sido coisa de sua dama de companhia? Elizabeth se surpreendeu. Fechou o livro, deixou-o de lado e ficou em pé. —Como sabe? —Quando parei de estar furioso com você, percebi que não podia têlo feito, e, portanto só restava uma possibilidade óbvia. Por que não me contou? Elizabeth lhe respondeu com uma candura devastadora. —Porque Jane é minha serva, o que a faz minha responsabilidade. E porque me achou culpada antes de sequer saber que existia um delito. Não pode negar isso. Não, não podia fazê-lo, assim que se desculpou. —Foi minha culpa. Interpretei mal seus olhares e me equivoquei. Não tenho desculpa. O silêncio se estendeu entre eles. Elizabeth permaneceu com os braços estendidos ao longo do corpo. «E agora o que digo? O que quererá de mim?» Então Richard baixou a cabeça com grande formalidade. —O engano foi meu. Você pode me perdoar, minha esposa? —Sim — seu coração encolheu, mas ainda não podia sentir-se aliviada—. Mas Jane é a culpada. E sua prima sofreu. Ele respirou fundo. —Por que? O que pôde motivá-la a fazer isso? Elizabeth olhou para outro lado pela vergonha que lhe davam seus motivos, mas ele pôs as mãos em seus ombros para obrigá-la a olhá-lo. —Me deve dizer isso. Elizabeth suspirou.


—É que… Anne não deixa de ficar com você para reclamar sua atenção me roubando isso… o que admito não é difícil de conseguir. Jane está com ciúmes por mim, e pretendia lhe dar uma lição. A surpresa foi tão grande para ele que se pôs a rir. —Mas se é minha prima! Uma menina, às vezes um pouco chata com seus ares de importância. Desfruta de poder usar roupas elegantes e de captar a atenção de quem está ao seu redor. Sendo a única mulher da família, sempre foi convencida e mimada. Conheço-a desde criança e lhe repito isso: é apenas uma menina. —Então tenho que lhe dizer que não a olhou com atenção ultimamente milord — ela respondeu—. Já não é uma menina, e não deixou nem um momento de nos dizer isso. Ele arqueou as sobrancelhas. —Eu acreditava que se queixava de que tivesse podido olhá-la com muita atenção! —Disso não poderia lhe acusar — o certo é que nunca o tinha visto lhe dando esperanças—, mas não significa que Anne não tenha postos seus olhos em você. E não pode negar que ela tenta constantemente flertar com você. —Não. Isso eu percebi, mas mesmo assim, não é mais que uma menina atordoada. —Embora eu me esforçasse, eu não poderia ser nem a metade engenhosa que ela é. Entendo que se parece muito com Gwladys. É muito bonita — ela admitiu, entrelaçando as mãos para evitar que tremessem. —Sim, é — ele aceitou, aceitando as consequências—, e sim, se parece com Gwladys, agora ainda mais que antes. De verdade suspeitava que pudesse ter uma aventura com ela apenas um par de semanas depois de nosso casamento? —não sabia se devia se sentir adulado por sua preocupação, ou aborrecido porque tivesse acreditado capaz de fazê-lo, até que se deu conta olhando para o azul safira de seus olhos da profunda dor que lhe tinha causado o comportamento de Anne e seu próprio descuido.


Deveria ter imaginado. Deveria ter visto o que acontecia. Sorriu com certa tristeza pela dor que lhe tinha infligido e depois esticou o braço para lhe acariciar a bochecha. Um gesto carregado de ternura que acabou por derreter os cristais da resistência de Elizabeth. —Sou inocente de todas as acusações, Elizabeth, exceto de minha inconcebível inocência na hora de julgar a situação. Anne não é um perigo para você. Acredita em mim? Ela inclinou a cabeça para olha-lo e assentiu. —Sim. Lamento as coisas que disse. —E eu. Você sabe que eu não matei seu irmão. —Não sei. Você jurou não ter tido nada que ver com isso. —Mas é algo que segue pendente entre nós como uma negra entidade de desconfiança, não é? Elizabeth… Olhou-a franzindo o cenho, como se procurasse a palavra adequada. —Sim? —Foi Anne quem lhe disse que tenho uma amante em Hereford? —Sim. Joanna. —Ela foi durante um tempo, mas bem antes que você chegasse já tínhamos rompido — as faces dele ruborizaram —. É minha esposa, e não lhe faria mal nem a humilharia mantendo uma amante. Prometi honrá-la e minhas promessas seguem intactas, apesar de suas acusações. —OH. Eu acreditava que… —Pois agora já não têm que dar mais voltas. Eu disse a verdade. —Sim — lhe dava trabalho dizer aquelas palavras, mas sentiu um alívio enorme—. Era odioso para mim — ela admitiu—. Podia compreender sua necessidade, mas a achava detestável. —Lamento que nos tenhamos afastado tanto — disse ele com um sorriso triste—. Quando voltava para casa descobri que sentia vontade de te ver, mas de repente me vi preso no meio de um drama inesperado. Não é precisamente o que desejava. Ele pegou suas mãos nas deles, palma com palma, o contrário do gesto daquela primeira noite juntos. Imensamente tranquilizador. Mas


quando as mangas do vestido se recuaram e ele viu o resto das contusões que tinha, ficou imóvel. —Eu fiz isto? —Sim — ela respondeu, mas não havia condenação em sua voz, e, além disso, veio com as mãos para entrelaçar seus dedos com os dele—. Estava muito zangado. —Me perdoe — ele lhe pediu em voz baixa, horrorizado ante a constatação de que tinha sido capaz de marcá-la sem querer, e prometeu a si mesmo que jamais voltaria a fazê-lo—. Nunca faria mal de propósito, embora pareça que já o fiz. Suspirou e se inclinou para beijar suas marcas. —Não temo você. —Não há desculpa para isto. —Não há. Nem para você, nem para mim. Richard a olhou nos olhos e passou os nódulos dos dedos pela bochecha. —Talvez possa lhe compensar. —Talvez — ela respondeu, e as mariposas que sentia no estômago revoaram de novo. Provavelmente era possível que as feridas curassem. —A gata está adormecida, não é? —perguntou com um sorriso. —Sim. —Então, me arriscarei — e foi beijando um a um seus dedos para depois colocar as mãos sobre seu peito—. Se prestar atenção, se dará conta de que meu coração pulsa mais depressa do que o normal. Necessito-a, minha senhora, se é que não corro nenhum perigo em acompanha-la ao leito. —Será bem-vindo. Apesar de suas palavras, para Elizabeth não foi fácil. Havia muito entre eles, muitas palavras iradas de ambas as partes para abrir os braços e a mente a aquela intimidade. Ela estremeceu um pouco, tensa, consciente de novo de suas carências. Mas Richard lhe desabotoou o vestido com facilidade e o deixou cair no chão quando ela teria se aferrado a ele, e lhe fez amor devagar, com irrestrita ternura, inexoravelmente quando sentiu


sua resistência. Empregou uma paciência ilimitada para conquistar sua desconfiança, para vencer a dor que sabia que devia ter sentido, para curar a ansiedade germinada nas sementes amargas que Anne Malinder tinha enterrado nela. O choque de suas vontades foi suavizando-se gradualmente, foi dissipando-se, dissolvendo-se graças às carícias de suas mãos e de sua boca. Carícias suaves, doces pressões. Um remédio para as feridas que ambos tinham infligido e que serviu para que Elizabeth se convencesse de que podia voltar a suspirar em seus braços, a desfazer-se. E a confiança voltou. —Sinto muito — ele murmurou, e suas palavras soaram afogadas contra seu peito—. Sinto não ter acreditado em você. E sinto as palavras que disse. —E eu sinto ter me deixado levar pelo mau gênio —quase não pôde acabar a frase ao sentir que ele lhe lambia um mamilo—. Minha falta de fé em sua integridade. Não houve mais palavras. A boca de Elizabeth desenhou um caminho sobre o ombro de Richard até chegar ao ponto na base de seu pescoço no qual melhor podia sentir seu pulso. Ali se deteve para saborear a força da vida que lhe empurrava enquanto com as mãos se atreveram a lhe acariciar as costas e os quadris. A paciência de Richard foi ficando curta até que desapareceu. —Necessitamos do poder das figuras de cera? —perguntou, olhandoa nos olhos. —Não — ela respondeu sem pestanejar—. Não necessita mais que seu próprio poder. Penetrou-a com força, profundamente, o que lhe produziu uma vergonhosa satisfação, e Elizabeth se encontrou sorrindo quando tinha acreditado que nunca voltaria a sorrir. Então o desejo físico apagou todas as lembranças desagradáveis, todas as diferenças que tinham surgido entre eles.


Dez Do oeste vinha um bom tempo e a guarnição de Ledenshall pôde dedicar-se a treinar para grande alívio de seus homens. Era um trabalho duro, mas a exigência física aliviava a monotonia dos meses de inverno. Os guerreiros da casa Malinder esticavam e fortaleciam seus músculos, aperfeiçoando suas habilidades com a espada e a adaga, a lança e a alabarda no combate corpo a corpo. Em todas as partes do castelo se ouvia o entrechocar do metal, as os gritos de ordens do sargento. As peças das armaduras, que tão facilmente se oxidavam e emboloravam, foram


desembrulhadas, limpas, polidas e reparadas. Os arcos foram esticados de novo e substituíram as plumas das flechas. Mas inevitavelmente o trabalho se tornou aborrecido, e numa manhã clara colocaram uma série de fardos de palha na zona de práticas fora dos muros e foi organizado um campo de tiro para realizar um concurso que inspirasse interesse e certo grau de concentração. Desse modo, como o senhor de Ledenshall bem sabia, se acrescentaria um pouco de pimenta ao treinamento. E de fato os homens tomaram como uma festa. O sol brilhava, fazendo desaparecer o saudosismo do inverno. Colocaram bancos para a audiência, mestre Kiplin se ofereceu para cuidar das apostas e milagrosamente apareceu um grande barril de cerveja. Alguns servos que puderam escapar de suas tarefas saíram para apreciar o concurso, e Elizabeth ocupou seu lugar. Jane Bringsty se colocou atrás dela com os braços cruzados. Inclusive Anne saiu de seu quarto apesar do vento, bem embrulhada em suas peles de inverno, consciente de que realçariam sua beleza. O concurso começou. Usavam o arco longo, muito apreciado por sua precisão, velocidade e longa trajetória das flechas, além da força final com que dava o golpe. Seis flechas para cada participante que deveriam cravadas na distante, mas facilmente identificável mancha colorida. Os músculos do ombro e do braço se flexionavam e se estendiam para esticar aqueles impressionantes arcos de madeira de teixo com os extremos arrematados em chifre e a corda de crina prensada. Robert Malinder era muito bom e se gabava disso com uma típica, mas encantadora falta de modéstia e um arco bastante extravagante. A audiência aplaudia, assobiava e apostava nele, já que sua grande experiência era por todos conhecida. Mas Elizabeth queria ver como competia seu marido na final. Era ridículo e sabia, mas queria que ganhasse que a vitória fosse dele. Que tola! Mas sabê-lo não fez que desejasse menos que ele tivesse o triunfo.


E não demorou em levar uma desilusão, já que logo viu que não ia ganhar, e que não esperava que o fizesse, pois inclusive ele mesmo o admitiu, dando de ombros e acomodando-se no banco junto a ela para observar as evoluções de seus homens e animá-los. O arco não era seu esporte e nunca o tinha sido, e sua falta de perícia era aceita com bom humor. Afinal, ninguém podia duvidar da excelência do senhor de Ledenshall com a espada e sua habilidade com a lança montado em seu cavalo nas justas. Aí sim que demonstrava seu verdadeiro valor. Mas no final não se importou. Elizabeth o viu ocupar seu posto e colocar-se de lado em frente do alvo, aguentando as brincadeiras de Robert sobre qual era o objetivo que pretendia alcançar e se todos deviam se proteger. Contemplou como seus músculos se esticavam sob a túnica com movimentos suaves como a água, com as pernas abertas, e como se levava o arco à frente de seu rosto, com aquela longa flecha, enquanto a brisa alvoroçava seu cabelo. A concentração de seu rosto era máxima, seu olhar firme e por fim soltou a flecha. Viu e ouviu seu próprio comentário jocoso sobre sua falta de perícia e o ouviu rir a gargalhadas quando não conseguiu atingir o arco. Elizabeth viu e ouviu, permitiu que seus olhos desfrutassem das linhas longas e magras de seu corpo e suspirou. Seu sangue ardia nas veias e sentia as bochechas avermelhadas e pensou, contendo o fôlego, que era ainda mais tola do que pensava. A prova chegava a seu fim. Mestre Kiplin se adiantou para fiscalizar o pagamento das apostas enquanto Richard contemplava às pessoas ali reunidas. —Alguém mais dos pressente deseja pôr a prova suas habilidades? Talvez tenhamos um campeão que ainda não se deu a conhecer. Desde seu banco, Elizabeth retorcia as mãos. Quanto desejava voltar a esticar o arco, sentir sua força ao deixar escapar a flecha. Fazia tanto tempo.


—Minha mãe não me permitiria — Anne murmurou em voz baixa, como se tivesse pressentido suas intenções. —Que atrevimento! Tenho certeza que Richard tampouco o aprovaria. Suas palavras acabaram por fazê-la decidir, e ficando em pé disse: —Eu. Eu quero participar — declarou em voz alta—. Se alguém estiver disposto a apostar um par de moedas, é claro. Olhou a seu redor. Tinha despertado a curiosidade de alguns e os comentários de outros. —Isto sim que eu não esperava — Richard disse, lhe oferecendo a mão para que se adiantasse—. Presumo que devo ser eu quem cobre a aposta. Elizabeth se colocou na linha, feliz com sua resposta e se afastou o véu preso na gola pescoço do vestido para que não a incomodasse. Já tinha tirado a capa. Richard escolheu para ela um dos arcos menores, com seis das melhores flechas, finas e arrematadas com suas plumas de ganso cinza e se colocou ao seu lado. Sorria, seus olhos brilhavam e parecia satisfeito com o inesperado momento. Elizabeth pegou o arco, mas não o esticou. —Qual é sua aposta, milord? —O que você oferece milady? —Meus seis disparos irão acertar o alvo. Não me arriscaria a me pôr em ridículo — ela declarou com um sorriso. —Detecto o pecado de orgulho em você? Nesse caso, aposto um nobre de ouro que não é capaz de fazê-lo milady — ele se virou e elevando a voz, perguntou—. Você ouviu mestre Kiplin? —Certamente. E o acho vergonhoso milord! A dama merece seu apoio. —E um pouco mais de fé em meu talento. Só um nobre, milord? Richard a olhou em silêncio e percebeu a curva provocadora de seus lábios e o movimento de suas pálpebras. Quantas facetas ocultas tinha a mulher com a qual se casou impelido apenas pelo desejo de assinar uma forte aliança na Welsh Marches, com a esperança de alcançar uma relação fácil e tolerante com fins políticos. Com a esperança de que ao menos não


se repelissem um ao outro. E, entretanto sua esposa se atrevia a o desafiar e ele gostava. O que sentia por ela era… bom, não estava certo, mas seguramente não era tolerância. Então ela o olhou por cima da mortífera arma que segurava com tal segurança, e seu coração disparou. Tudo que podia ver, tudo no que podia pensar naquele momento era naqueles olhos azul índigo que o atraíam para suas profundezas, das que já não poderia escapar. Ele afogou-se naquele intenso azul pleno de doçura. O calor do sol nos ombros, as conversas ao seu redor cessaram. Tinha os lábios entreabertos como se o chamasse a tomá-los, e já sabia bem quão sedutores podiam ser. Estavam apenas a uns centímetros de distância, e seu corpo estava próximo o bastante para que lhe chegasse o aroma das ervas que utilizava para banhar-se, o calor de sua pele, como se as camadas de linho e seda não existissem. O desejo se manifestou em seu ventre imediatamente e seus músculos se esticaram. Foi aquilo o que lhe fez darse conta de onde estavam. —Richard? Obrigou-se a inclinar-se diante dela para aceitar a aposta. —O orgulho acima de tudo, Elizabeth — ele sussurrou em seu ouvido e ela estremeceu—. Muito bem! —anunciou—. Dois nobres de ouro que não pode acertar o alvo. Uma risada despreocupada veio das pessoas ao redor. Confiante, segura de si mesmo, Elizabeth ocupou seu lugar, levantou o arco, colocou a flecha, esticou o arco até que chegou à sua orelha como a tinham ensinado. Concentrou-se no alvo, e deixou que aquele fino míssil voasse. E ele foi cravar se no fardo de palha. É óbvio que sim. Não tinha nenhuma dúvida. Fez-se o silêncio na audiência. Sentia o olhar de Richard nela. Com uma serenidade absoluta pegou outra flecha e fez o mesmo. Depois outra. E outra. Tranquila, sob controle, talvez com um leve movimento de cabeça quando preparou a última flecha, mas as seis acabaram cravadas no alvo. E duas delas dentro da marca


vermelha. Um rugido de apreciação se elevou do povo e Elizabeth se voltou para Richard, com as bochechas avermelhadas, os olhos brilhantes, cheia de êxito. Vitoriosa. —Perdeu milord. Deve-me dois nobres de ouro. —Isso parece. E eu sempre pago o que devo — e lhe tirando o arco das mãos, rodeou-a pela cintura—. Aparentemente não tenho mais que me preocupar pela defesa deste castelo quando estiver ausente. E se inclinou para beijá-la na bochecha, mas a seguir o fez nos lábios, o que a fez avermelhar ainda mais. Ganhou seu reconhecimento, sua admiração. Sua aprovação pública. —Quem lhe ensinou com tanta eficácia um esporte tão masculino? —Foi Lewis — ela respondeu com naturalidade, mas não quis abaixar o olhar quando viu que ele se entristecia perante a lembrança. Mas não queria que sua dor pudesse truncar um evento feliz—. Sentia prazer em enervar sir John. Lewis era um grande arqueiro, acredito que inclusive melhor que Robert. —E você também é. Acho que Lewis ficaria orgulhoso de sua pupila hoje. Dela e de sua coragem. Richard não podia ter falado melhor, ao menos na opinião de Elizabeth. Pegou sua mão, palma com palma, e deixou que o calor acalmasse sua dor. —Richard! Anne Malinder, insistente apesar de sua palidez e sua formosa fragilidade, chegou junto a eles e pôs sua longa e elegante mão no braço de Richard para chamar sua atenção e afasta-lo de Elizabeth. —Impressionaram-me suas habilidades. Esteve magnífico. Sem fôlego, Elizabeth esperou. Iria ver o que Anne fazia? Seguiria sendo imune a seu talento para flertar? Richard se pôs a rir. —Nesse caso deve estar cega, Anne. Aqui têm à campeã do dia. Não eu, a não ser minha esposa. Uma fina linha sulcou a testa de Anne.


—Você acha adequado que a senhora de Ledenshall se exiba desse modo? —É óbvio. Minha esposa esteve magnífica na competição. Seu sorriso foi para Elizabeth e ela respirou fundo em um momento de intensa e cega claridade. Entre o ouro que tinha apostado contra ela e aqueles descarados elogios, sentia… o que sentia? O que tinha feito? Apaixonou-se por Richard Malinder? Não tinha experiência no amor, mas era como se a flecha tivesse acertado diretamente no coração, marcando-a por toda vida. Certamente teria dado um passo atrás ante uma declaração aberta de amor, mas dar-se conta daquela intensa emoção a ultrapassou, enchendo sua mente e seu coração. Mas um repentino desespero a empurrou a manter os lábios selados. Como podia carregar Richard com uma emoção que ele não desejava inspirar nela? —Nesse caso, faria bem em me ensinar, Richard querido? —insistiu Anne, abaixando o olhar para ocultar o brilho enciumado de seus olhos. —Não, priminha. Seu irmão o fará muito melhor que eu — deu um passo atrás para obrigá-la a tirar a mão de seu braço e levando a de Elizabeth aos lábios, beijou-a—. Celebremos sua vitória com uma taça de vinho. E dando as costas a Anne Malinder, eles afastaram-se dela. Possivelmente fora aquele conquista sem importância. Possivelmente fosse o reconhecimento geral, ou até inclusive o orgulho que viu no rosto de seu marido. Fosse o que fosse Elizabeth abriu os braços e o leito para o seu senhor com uma desconhecida confiança e uma boa disposição. Quando ele se ofereceu a lhe demonstrar sua pontaria em outro campo que não era o do arco, ela o animou sem reticências, e sob a maestria de suas mãos e sua boca descobriu toda uma tapeçaria de sensações desconhecidas para ela, e uma falta de controle inimaginável até então. Imediatamente tentou libertar-se. —Não! Deve parar agora…


—Nem o sonhe. Você deve desfrutá-lo. Ele continuou acariciando com a língua a base de seu pescoço até chegar ao suave monte de seus seios, onde lambeu a cúpula de seu mamilo. E quanto a suas mãos, viajavam sem limite algum entre suas pernas. —Eu… Se tivesse sabido o que em realidade era aquilo… conteve a respiração ao sentir seu fôlego no ventre e cravou as unhas nos ombros dele. —Território inexplorado —murmurou Richard, esquentando sua pele com o fôlego —. Considere uma aventura. Você tem medo Elizabeth? —Não. Nunca… E teve que agarrar-se com ainda mais força aos já maltratados ombros de Richard porque os tremores que sentia no ventre, ardentes e doces, a fizeram explodir com uma luz cegante, como em uma daquelas ilustrações da queda de estrelas fugazes que tinha visto em um dos mais questionáveis livros de Jane. —OH! —Não tem muito que dizer — respondeu Richard com um sorriso travesso, ainda segurando-a, esperando que passassem os tremores. E a seguir, com surpreendente velocidade, colocou-se de modo que a deixou apanhada entre o colchão e seu corpo, de modo que não pudesse escapar. E não é que restasse a energia necessária para fazê-lo. —Parece muito satisfeito — ela comentou, ainda tremendo depois do esplendor de seu descobrimento. Richard sorria e seus olhos brilhavam na escuridão. —E estou — respondeu, beijando o vale entre seus seios—. E agora, minha amazona está disposta a utilizar suas artes de mulher para me torturar além do que posso suportar? Elizabeth se lançou a isso e obteve o mais satisfatório dos resultados, impelida por sua nova confiança, enquanto Richard, excitado e dolorosamente preparado para ela, alcançou seu clímax graças a ela.


Apenas podia maravilhar-se da profundidade do desejo que aquela complexa mulher despertava nele.

Onze —Richard, sinto falta de David. Richard acabava de voltar da viagem no qual tinha acompanhado Robert e Anne pela Welsh Marches de volta a Moccas. Tinha estado fora quase duas semanas, e Elizabeth não se permitiu admitir nem diante si mesma nem diante ele o quanto tinha sentido sua falta. Os dias de sua ausência tinham lhe parecido eternos. Quase não tinha conseguido aguardar que desmontasse, e o tinha seguido até seus aposentos. Richard parecia não tê-la ouvido, de modo que insistiu. —Gostaria que pudesse estar aqui. —Eu sei — ele respondeu enquanto tirava a pesada jaqueta de couro e soltava o cinturão da espada com um suspiro de alívio—. E não vejo


remédio para isso enquanto que David permaneça sob a autoridade de seu tio. Talvez, quando for mais velho, poderá ter um pouco mais de liberdade. Elizabeth apertou os lábios. Cada vez estava mais longe de sua família, e não recebia carta alguma deles, e nenhum tipo de comunicação. Não era de se esperar o contrário, mas sentia falta de David e enquanto seu marido estava ausente e passava as noites sozinha, chorava e sonhava com Lewis. —Poderia ser. Mas gostaria que soubesse… —Gostaria de saber quem empunhava a adaga ou a quem pertencia o ouro que pagou ao assassino. Queria saber se era meu. Incômoda e sobressaltada, Elizabeth franziu o cenho. Era incrível o quão intuitivo Richard podia ser com seus pensamentos. —E eu não posso fazer nada para ajudar — ele continuou, e pegou seu rosto pelo queixo para que o olhasse—. Exceto possivelmente nisto… Surpreendendo-a ele se inclinou para frente, empurrou-a suavemente pelo pescoço e pousou seus lábios nos dela, uma carícia leve que durou pouco, mas que depois, quando ambos já tinham tomado ar, renovou-se e voltou mais profunda, mais intensa. Aquele beijo durou mais do que esperavam, e Richard não a soltou ao acabar, mas sim seguiu retendo seu rosto nas mãos. Tinha o surpreendido ser capaz de ler com tanta claridade seu pensamento. Muitas coisas o tinham surpreendido ultimamente, como por exemplo, o quanto que tinha sentido falta de sua esposa naqueles últimos dias. Como uma e outra vez se descobria pensando no que ela estaria fazendo, se estaria segura em sua ausência, se estaria contente. Será que ela pensava menos nele? Não se atrevia a pensar nessas coisas, embora se visse obrigado a admitir que sentisse falta dela. Não, não esperava nada daquilo, e se sentia incômodo até certo ponto. Franziu o cenho ao contemplar seu rosto voltado para ele. A desconfiança seguia estando aí, por mais que tentasse negá-la. E não havia muito que pudesse fazer a respeito. Mas o


beijo tinha despertado seu sangue e seus apetites. Nada lhe daria mais prazer que tombá-la sobre a cama, tirar aquele vestido grosso de lã por mais elegante que pudesse ser, e redescobrir a pele pálida e firme que havia debaixo. Nada havia nada melhor que deitar-se junto a ela, pele contra pele, e afundar-se em sua carne para moderar a exigência imperativa que devia ser tão óbvia para ela quanto era para ele. Podia fazê-lo naquele mesmo instante… Mas voltou para o presente ao recordar que a estava olhando com o cenho franzido e então roçou a bochecha dela com os dedos para tranquiliza-la. —Não pretendo lhe culpar. —Não. Eu já imaginava, mas a ferida continua aberta, não é? Ela fez uma careta por sua própria debilidade, mas ele moveu a cabeça para limpar o desejo urgente que o assediava e poder enfrentar às ansiedades de Elizabeth. Estava se tornando uma necessidade para ele fazêlo. —Bom, minha preocupada esposa, a fronteira está mais tranquila do que nunca, assim se desejar poderia levá-la a Talgarth para visitar seu irmão. —Pode ser — ela respondeu e conteve o fôlego, não só por seu beijo, mas sim porque desejava que tomasse essa decisão, que se arriscasse. —Não quero pôr sua vida em perigo — ele disse, pesando os riscos —. Mas suponho que podemos confiar que sir John seja capaz de tratar conosco de um modo civilizado. Imagino que não vá querer manchar sua própria morada. E afinal, você é de seu sangue. Lady Ellen ficará encantada de te ver — ele sorriu, e o gesto foi devastador para ela—. Enviarei um mensageiro para avisá-lo de nossa chegada. Assim não poderá fingir que o pegamos de surpresa — acrescentou com cinismo—. Eu não gostaria que nos repelisse como se fôssemos uma força hostil. —Dentro de duas semanas é o aniversário de David.


—Então, que melhor momento para que o visite uma irmã que o adora? Elizabeth lhe devolveu o sorriso e impulsivamente o beijou nos lábios, um gesto improvisado que surpreendeu a ambos. —Ultimamente parece que estamos de acordo em tudo, minha senhora! —Assim parece milord. —Se pudesse dispor de um banho de água quente, se importaria em me ajudar a tirar todo o pó do caminho? Assim poderia me apresentar diante de você em condições de beijá-la devidamente… e de lhe dedicar algum outro gesto que demonstre a alta estima em que a tenho… — acrescentou, roçando a mandíbula dela com a ponta do polegar—. E você poderia me demonstrar como uma esposa recebe seu marido depois de uma longa ausência. Richard a apertou contra si sem se importar com o pó e o suor e se apoderou de sua boca, enquanto com uma mão percorria seu corpo desde o nascimento dos seios até o quadril. E ali se deteve, e ergueu a cabeça. Voltou a mover a mão para percorrer a curva de seu quadril, a curva da cintura e a inegável colina de seu seio. Olhou-a surpreso, mas com um brilho de malícia nos olhos. —Curvas? De onde saíram? Seu reconhecimento lhe causou um prazer desmedido. —Bem deve ter sido quando você não olhava. —Mm… talvez eu devesse te examinar mais de perto — ele disse, e voltou a pegar seu rosto entre as mãos, já consciente da nova forma mais cheia de suas bochechas, seus magníficos olhos, do delicado arco de suas sobrancelhas. E isso renovava a exigência de sua virilha, a força de sua ereção, que sentia latejar. E daquela vez sua boca lhe transmitiu uma promessa que lhe acelerou o pulso e o sangue—. Esse banho, poderia não demorar muito? —sussurrou. —Tão pouco quanto imediatamente.


Elizabeth se voltou para ocultar a repentina onda de calor que subiu ao seu rosto, o prazer que cantava em seu coração. Sim, tinha sentido falta dele, sem se importar com as dúvidas e as incertezas, e poderia lhe receber em seu lar. —Bom o que acha que ocorrerá, minha senhora? Irão abrir os portões, ou sir John nos receberá com uma chuva de flechas? Richard mudou de postura sobre a sela. O grande grupo havia parado em uma colina para contemplar a principal fonte de poder da família De Lacy. Diante deles se elevavam os imponentes muros de pedra cinza de Talgarth, com a ponte levadiça elevada e o restelo abaixado. Elizabeth não soube o que responder. No peito levava um nó de apreensão e compreendia a desconfiança de Richard. —Talvez não devêssemos ter vindo. —Lembre-se que não pude escolher — ele respondeu com ironia. Elizabeth o olhou. Tinha os lábios apertados e franzia o cenho. —Lamento, mas você estava de acordo. —Tinha que a trazer para lhe demonstrar que o bem-estar de David me preocupa, especialmente depois de que você e sua família me acusaram de matar Lewis. Elizabeth mordeu a língua. Ainda restava um resíduo de amargura entre eles, que costumava aparecer quando Richard baixava a guarda. A acusação de sir John e sua ambivalência na hora de aceitar sua declaração de inocência seguiam ardendo. Um silêncio incômodo se estendeu entre eles. —Há uma gralha nesse galho da esquerda — interveio Jane Bringsty, que cavalgava atrás deles—. Está nos olhando. Não é uma boa premonição. Ninguém respondeu. Elizabeth contemplou a cor irisada das plumas da ave. Não, não era um bom presságio, mas já tinham chegado até ali, assim instigou seu cavalo tocando seus flancos com os calcanhares e continuaram para Talgarth.


Os Malinder iam passar apenas dois dias em Talgarth. Sua chegada não foi rechaçada nas portas da impressionante fortaleza, mas ficou claro que aceitavam sua presença nela a contra gosto. Quando seus cavalos e sua escolta foram conduzidos por seus alojamentos, os Malinder foram convidados a entrar em grande salão com toda a frieza que sir John dedicaria a um inimigo, para cuja presença não restava mais remédio que tolerar. No estrado estava o próprio sir John olhando-os com frieza, lady Ellen sorrindo ao seu lado e arriscando-se a ser alvo da ira de seu marido ao receber aos recém-chegados com carinho. Atrás deles estava mestre Capel, negro e áspero como um dos corvos que grasnavam por cima das ameias. Ou possivelmente mais como uma ave de rapina, pensou Elizabeth, ao sentir a força de seus olhos ao olhá-la. E a seguir estava David, que respondeu imediatamente à chamada de seu coração: apesar das advertências de sir John, saltou do estrado para abraçar sua irmã com alegria. —Elizabeth! E Richard. Tenho tanto que lhes contar. Passaram anos desde… bom, desde que nos vimos pela última vez. Elizabeth experimentou um enorme alívio ao encontrá-lo bem, mas que durou pouco. Assim que passou o instante das boas-vindas seu rosto se apagou imediatamente como a chama de uma vela sob o apaga velas, seus lábios se apertaram e seu rosto adquiriu uma maturidade forçada e prematura. Havia problemas, com certeza, mas não poderia abordá-los até que estivessem sozinhos. —Parece-me que cresceu — lhe disse—. Já está quase tão alto quanto eu. David ia responder, mas foi chamado à reserva por sir John, que reconheceu imediatamente a presença de visitas em sua casa. Richard respondeu com igual compostura e com uma leve inclinação de cabeça. Ellen expressou sua complacência e mestre Capel permaneceu em seu


habitual silêncio. Então os Malinder foram conduzidos às acomodações dos convidados. —Conhece algum remédio para o mal olhado? —Richard murmurou para Elizabeth enquanto subiam as escadas atrás do silencioso mordomo de sir John. Elizabeth, surpreendida diante um pedido tão inesperado, virou-se para olhar Jane, que os seguia de perto. —Sim — admitiu. —Então sugiro que o utilize. Pelo bem de todos. —Mestre Capel? Elizabeth também tinha percebido o brilho feroz que se ocultava atrás do aspecto sereno de seus olhos. Era quase impossível não perceber. Era o ardor, quase o antagonismo de uns olhos que procuravam cada segredo, cada fraqueza. Ela estremeceu-se ao recordar. Richard esperou que o mordomo partisse e a porta estivesse fechada. —Mestre Capel, sim. Pergunto-me que função tem nesta casa. O que pode ter sir John para reter um homem como ele a seu lado? —Dizem que é um nigromante — Jane interveio. Elizabeth suspirou. —Eu acredito. Eu não gosto que David esteja aqui. —Tampouco eu — Richard deu uma olhada às acomodações que tinham lhes atribuído—. Capel me faz pensar em morcegos e sapos — fez uma careta e se aproximou da janela. De ali podiam contemplar colinas de Brecon cobertas de névoa que os rodeavam—. Irei me sentir melhor quando tivermos partido deste lugar. Acho que vou ter que dormir com a adaga sob o travesseiro. Tinham levado um presente para David: um falcão de plumagem cinza escura com as asas e a cauda listrada, equipado com correias, campainhas e um capuz com borlas. Um precioso exemplar filhote dos falcões de Richard, uma ave que voaria maravilhosamente e que traria muitas alegrias a David. Mas o moço não pôde nem ver nem desfrutar de seu presente porque eles mal estavam à uma hora ali quando avisaram que


tinha sido vitima de uma febre que o confinaria a sua cama. Quando Elizabeth, assustada, insistiu em vê-lo, encontrou-o recostado contra uns almofadões, semi-inconsciente, febril e incomodado, avermelhado e com uma erupção na pele. Movia-se inquieto quando pôs a mão na sua testa, e nem respondia a suas palavras, nem reconhecia sua voz. Mestre Capel estava junto à cama com as mãos entrelaçadas sobre suas roupas negras. —O que ele tem? —perguntou-lhe com ansiedade. —Nada grave milady. —A peste? —perguntou, quase sem atrever-se a pronunciar a palavra maldita—. Não parece, mas… —Não, não é a peste. Não há nada que temer milady — a voz de Capel soava profunda e surpreendentemente doce, certamente parecida com os tons aveludados da serpente que tentou Eva no paraíso—. Um desses acessos de febre que os jovens costumam ter quando se excedem em suas demonstrações de força. Vai se recuperar em seguida com descanso e sono. —O que estão fazendo por ele? —perguntou-lhe pegando uma mão de David entre as suas—. Tenho certos conhecimentos sobre febres. Poderia… —Não é necessário, milady. Tenho meus próprios métodos — ele avançou para ajudá-la a levantar-se da cama pondo uma mão firmemente em seu cotovelo para que não pudesse resistir — Aconselho que se retire. Seu irmão deve descansar. E se sua febre acabar por ser contagiosas, eu não gostaria que você a levasse como uma lembrança de seu gentil visita. —Acha que estou em perigo? —Não — respondeu, e seu olhar parecia cheio de conhecimento, de compreensão. Quase parecia sincero—. Mas seu bem-estar é nossa preocupação. Deve dar um herdeiro a Ledenshall, um filho que no futuro possa reclamar as terras da família Malinder. —Bom… — aquela inesperada conversa a fez duvidar—. Assim espero, sem dúvida.


—Seu tio sempre se preocupa por você, embora às vezes suas maneiras um tanto bruscos possam ocultá-lo. —E me fez sair da sala como se fosse uma serva que o estorvasse — ela contou mais tarde a Richard—. É mais: me proibiram de voltar pelo bem da minha própria saúde. — David está em perigo? Sua esposa ia e vinha pelo quarto, tão tensa quanto uma raposa em uma caçada. —Ele diz que não, mas na realidade não sei. A febre se apresentou de repente, e mestre Capel tem as chaves de seu quarto. Como não vou me preocupar? Richard a olhou franzindo o cenho. —Acredito que deveríamos partir. Seja qual for o problema, não lhe fazemos nenhum bem ficando aqui. Eu preferiria a ter de novo na segurança dos muros de Ledenshall. —E deixar David assim? Mestre Capel diz que não corre perigo, mas nem sequer posso entrar em seu quarto! E vendo seu medo e o brilho das lágrimas em seus olhos, a preocupação de Richard desbancou à ira pela forma que sir John os estava tratando. —Lady Ellen não permitiria que lhe fizessem nenhum mal — expôs, rezando que assim fosse e que Elizabeth se deixasse convencer—. Quero lhe afastar daqui, amanhã a primeira hora. Está de acordo? A segurança de Elizabeth começava a ser sua preocupação principal, e a urgência de consegui-la galopando montada em um veloz corcel. Abraçou-a contra seu peito, surpreso pela necessidade que sentia de tê-la perto. E Elizabeth se deixou tranquilizar por seus braços, respirou fundo e se apoiou nele. —Suponho que é o melhor — suspirou. Richard a apertou mais. —Então, vamos para casa.


Os Malinder já tinham montado e estavam preparados para partir. Sir John, que não tinha tentado fazê-los mudar de ideia, deixou a despedida nas mãos de sua esposa, que com um sorriso fraco se aproximou de Elizabeth. —Cuidarei dele — ela lhe assegurou—. Para mim David é o filho que não tive. Não deixarei que lhe ocorra nada. Elizabeth pegou sua mão. —Não sabe o quanto lhe agradeço por isso. —Tenho algo para você — disse em voz tão baixa que Elizabeth teve que abaixar-se da sela para ouvi-la. Ellen tomou sua mão como se fosse se despedir, e em sua palma deixou um objeto pequeno e duro. —De David — ela disse, lhe apertando a mão—. Consegui passá-lo sem que os guardas o vissem. Estava lúcido e me disse que lhe desse isso — Ellen deu um passo atrás e sorriu de novo—. Sei que é boa no manejo das ervas. Meu jardim cresceu maravilhosamente esta primavera e o confrei cresce por toda parte, assim como o levístico. Talvez possa lhes dar uso. —Eu o farei lady Ellen. Mas apesar da normalidade de sua resposta, apertava com força o objeto que tinha na mão e o coração tinha transbordado. Com certeza todos os que estavam ao seu redor podiam ouvir. A voz de Ellen voltou a ser um sussurro. —Tenho medo. Richard aproximou seu cavalo. —Podemos ajudar? —Ellen — trovejou a voz de sir John—. Deixe-os ir. Têm uma viagem muita longa pela frente sem que você os entretenha. —Sim, milord. É óbvio. Que Deus os acompanhe. Não, não pode me ajudar, Richard. Vá para casa e cuide de Elizabeth, que eu cuidarei de David, não tema. E saíram sob o enorme restelo em direção as colinas centrais da Welsh Marches, Elizabeth acompanhada de exasperados temores. Sabia exatamente o que era que Ellen tinha lhe entregue e que ela tinha guardado no corpete de seu vestido.


Assim que desmontaram em Ledenshall, Elizabeth não se demorou. Sem dizer uma palavra, recolheu as saias e subiu correndo as escadas do grande salão para dirigir-se a seu quarto, aonde Richard chegou pouco depois e a encontrou sentada diante do fogo, agasalhada em um pesado robe de veludo e sem véu. Não tinha visto tal angústia em seu rosto desde a morte de Lewis. Um pergaminho estava desdobrado sobre um pequeno cofre que tinha ao lado e havia duas joias ao seu lado. Estava as olhando fixamente, tinha perdido a cor nas bochechas e seus olhos gotejavam horror. A rica cor verde do robe só realçava a palidez de suas bochechas e de seus lábios. —Elizabeth — ele fechou a porta. Devia ser pior do que se imaginava—. O que há? Diga-me! Ela negou com a cabeça, como se pretendesse impor um pouco de coerência em seus pensamentos. —Não sei. Não estou segura — ela agarrava com força aos braços da cadeira—. Não, não é certo. Acredito que sim que sei, mas não quero acreditar. Richard colocou um tamborete em frente dela e apoiou os antebraços nas pernas, mas preferiu não tocar nas joias até que ela estivesse preparada. Tampouco falou até que ela tivesse os pensamentos ordenados e o olhasse no rosto. Quando o fez, seu coração se encolheu ao ver a angústia que palpitava em seus olhos. —OH, Richard… — ela escolheu o círculo prateado com uma ametista no centro e o mostrou sobre a palma—. Conheço este anel. David o deu a Ellen para que ela me desse. —E? —Pertence… pertenceu ao Lewis. Richard arqueou as sobrancelhas e tomou o singelo anel de mãos de sua esposa. —Tem certeza?


—Sim. Não posso estar errada. Eu o dei de presente. Quando eu era jovem e muito tola, queria lhe dar um presente… seu cavalo tinha quebrado uma pata e foi sacrificado. Era tão jovem e estava tão triste, embora tentasse ser valente, mas eu sabia que chorava por seu cavalo. Não tinha nada mais para lhe dar. O anel tinha pertencido a nossa mãe, e certamente à mãe de sua mãe também. A inscrição está muito gasta, pode ver, e a pedra não está bem esculpida. Foi uma tolice, mas eu queria que o tivesse — ela secou uma lágrima—. Mesmo então o anel era muito pequeno para que pudesse coloca-lo assim que o pendurou em um cordão no pescoço e me prometeu que o levaria sempre. E que eu saiba sempre o levou sob a túnica. —Talvez o tenha dado ao David — ele disse, tentando oferecer alguma explicação que não fosse a evidente. —Não, não acho. Eu o dei de presente para ele, e não acredito que o desse a alguém. Ele tampouco acreditava. —Mas como? —perguntou, depois de um breve silêncio, apontando a outra joia. —Ah, o broche. Estava escondido no pacote de ervas que Ellen me deu. Empurrou o pedaço de papel e o broche para ele. Continha apenas três linhas. Encontrei isto em poder de seu tio. Sei que há mais. Vai reconhecê-lo. Só posso imaginar o que implica. Era um broche, uma peça bonita de ouro e rubis em cabochon. Richard admirou seu peso e o trabalho do ouro, embora sentisse um nó no estômago ao perceber o que significava. Se seus temores eram certos, a tristeza que verteria sobre Elizabeth seria tremenda. A posse daquela gema distinguiria o responsável pela morte de Lewis. Os rubis ardiam à luz das velas como um fogo em suas vísceras. —Quando o viu pela última vez? — ela perguntou-lhe ante seu silêncio.


—Não sei com certeza — respondeu, mas não queria pôr em palavras seus temores—. O trabalho do ourives é magnífico. Uma peça esplêndida, italiana diria eu. —Sim. E de um valor considerável, assim nunca a usou. Foi um presente de meu pai para Lewis, uma joia de família. —Entendo. E seus temores se viram confirmados. —Quando o vi pela última vez estava em seu chapéu para segurar uma pluma, no chapéu que Lewis usava em nossas bodas — como se o significado de suas palavras, da situação que representavam lhe aparecesse perante os olhos pela primeira vez, Elizabeth cobriu o rosto com as mãos —. Não me atrevo a pensar como pôde chegar às mãos de David e Ellen — se levantou de repente para caminhar ao outro lado do quarto só para descarregar parte de sua fúria, afastando as saias de seu robe com um chute —. Sei o que suspeito. Só pode haver uma resposta, e é que ele matou Lewis. Sir John o matou… ou fez que o matassem. É a única explicação possível para que estas peças acabassem em Talgarth. E o broche nas mãos de sir John. Não duvido da palavra de Ellen. E que outra razão pode haver? —seus pensamentos seguiam fluindo a toda velocidade—. Agora tem David em suas mãos, e eu não posso fazer nada a respeito. E deu um golpe com as mãos no alto do encosto da cadeira que ocupava. —Ainda não têm mais que provas circunstanciais — respondeu Richard com a voz de um homem que agia de acordo com a lei, apesar da ira que tinha começado a arder em seu estômago perante semelhante brutalidade. Mas precisamente por isso tinha que tentar manter sua imparcialidade, sua capacidade de raciocínio. De equilíbrio. Se ela não fosse capaz de raciocinar com serenidade, ele devia ser pelo seu bem.


—É a única explicação. Do que outro jeito chegaram ali? — Elizabeth começou a andar de novo—. Por que Ellen as entregou para mim com tanto segredo? —Sim — suspirou. — Nisso eu tenho que concordar. —Vai me ajudar? Estava no outro extremo do quarto quando se virou para olhá-lo. A luz fraca das velas ocultava a maior parte de sua angústia, mas sua voz tremia. Era um grito desesperado pedindo ajuda que ele não podia ignorar. Entretanto, sabia que devia pesar as provas e considerar devagar o melhor meio de agir. —A fazer o que, exatamente? —A resgatar David e a conseguir que sir John pague por seu crime abominável. Que outra coisa poderia ser? — ela perguntou, levantando os braços com impaciência. Richard respirou fundo e avaliou a gravidade do que ela estava lhe pedindo e como ela reagiria se visse em sua resposta uma negativa ou um conselho. —Me escute Elizabeth: acho que David não corre perigo em Talgarth. Acredito que sir John lhe atribuiu um papel em seus planos, quaisquer que sejam. Certamente vai utiliza-lo; provavelmente pretende moldá-lo do jeito que ele queira, para encaixá-lo em seu desejo de como deve ser o herdeiro da família De Lacy, mas não o matará. —Não quero que tenha que ficar ali como um prisioneiro enquanto um assassino o molda, como você diz. Você realmente acha que a repentina enfermidade de David que o manteve quase inconsciente e confinado em seu leito foi pura coincidência? Não. Eu temo por sua vida. —Não, eu não acho que tenha sido uma coincidência, e sim uma maneira de evitar que mantivesse uma conversa íntima com você. Certamente a febre foi provocada pelas habilidades de mestre Capel. Mas agora que já não está lá, David não sofrerá dano algum. O dele é o único


sangue De Lacy, além do seu, que poderá herdar as terras de Talgarth depois da morte de sir John. —Mas se apenas se trata da herança… se isso significa tanto para meu tio, por que matar Lewis? —Eu não sei. —Meu tio matou meu irmão — ela repetiu, como se não pudesse assimilar o verdadeiro significado. Depois olhou para Richard—. Deve ser levado perante a justiça. —Estou de acordo, mas o que eu posso fazer? — ele levantou-se para aproximar-se dela—. Temos um caso contra sir John que não resistiria a um julgamento. Nenhuma testemunha para depor e que pudesse dizer a verdade, nem alguma prova que possa demonstrar incontestavelmente sua culpa. Seus criados não irão declarar algo contra ele se derem valor a seus bolsos, e pode ser que inclusive as suas vidas. Tudo o que temos são duas joias que foram descobertas fora de seu lugar habitual — ele se sentia tão frustrado e furioso quanto ela, mas sabia controlar-se melhor—. Não sou um desses deuses antigos que podiam se vingar lançando um raio contra o ofensor, sem ter que assumir as consequências e as responsabilidades, e sem ter que prestar contas a um superior — Elizabeth continuava andando e só se deteve quando ele se plantou diante dela—. Não posso resgatar David a menos que me aventure a um assédio completo contra Talgarth. Pense nisso, Elizabeth. Mas naquele instante ela era incapaz de raciocinar. —O sangue de meu irmão pede vingança, milord — ela disse com os olhos arregalados—. E o tudo que lhe ocorre para me dizer é que não há provas! —Eu sei, e sei que está sofrendo, mas a vingança deve se limitar ao âmbito da justiça, e para isso é necessário reunir provas. —Assassinou Lewis e pretende jogar em você a culpa disso diante de todas as pessoas. Deliberadamente espalhou a semente da dúvida inclusive


em meu próprio coração. Você pode desculpar semelhante desonra? Pretende me dizer que não merece castigo? —Não, mas eu acho que você não está se atendo a razão. Têm que descansar. Vai adoecer se não souber deixá-lo de lado por esta noite. —Razão? O que tem que a ver a razão com tudo isto? — ela retrucou furiosa. O que podia lhe dizer? Já tinham acabado suas palavras. Ela estava além do consolo, mas voltou a tentar. —Venha comigo para cama, e amanhã voltaremos a analisar tudo. —Você não se importa! Por acaso não é homem o bastante para me ajudar? Com um movimento rápido e um golpe de sua mão aberta, derrubou um candelabro e sua vela sem pensar no perigo da chama nas cortinas ou no chão. Aquilo foi o que pôs Richard em movimento. —Basta, Elizabeth! —ele disse, a puxando pelas suas mãos—. Claro que me importa. E lhe prometo que farei o que esteja ao meu alcance. E ao olhar o seu rosto viu como as lágrimas de angústia começavam a substituir às da ira. Como sofria por ela. Tudo o que desejava era poder diminuir sua tortura. —Por acaso eu tenho que procurar a vingança sozinha? — ela sussurrou, agarrando-se a ele. —Não — ele respondeu, comovido até tal ponto que era quase incapaz falar—. Será que já não lhe disse que é minha? Não está sozinha nisto. Seus olhares se entrelaçaram com força e de repente se sentiram conscientes um do outro. O desejo explodiu ardente e implacável como uma chama. Richard a apertou contra ele e a reteve quando ela começou a resistir ante uma investida tão inesperada de seu sangue. Tinha pretendido ser delicado, acalmar sua dor, apagar sua ira a base de carícias e palavras como fez da última vez, mas soube naquele mesmo instante que a doçura não serviria para nada. Além disso, se sentia sobrecarregado, com os


sentidos de cabeça pra baixo pela necessidade. Desejava-a e ponto. Desejava-a naquele instante, cheia de orgulho e determinação em obter justiça para Lewis. Deixou que seu instinto decidisse e que o corpo dominasse à cabeça, que seus braços a segurassem com força antes de inclinar-se e beijá-la, e não com o beijo que pretendia ser uma sugestão, e sim como um gesto saturado de desejo que a fez separar os lábios para que ele pudesse afundar a língua em sua boca. O fogo se avivou imediatamente para consumi-los, para dominar tudo. A angústia e o desespero que Elizabeth levava dentro dela se transformaram em exigência e também o prenderem, fazendo ambos arderem, lhes roubando o ar, fazendo-os tremer. Não foi uma sedução. O desejo e a necessidade, surpreendendo a ambos, assumiram o controle e empurram Richard a pegá-la em seus braços para levá-la à cama. Seu robe não apresentava para ele dificuldade alguma, tampouco sua roupa mais formal, e os objetos desapareceram para que a pele de ambos pudesse se unir. Suas carícias se reencontraram com as novas curvas de sua esposa, embora estas ficassem relegadas a um segundo plano no exato momento, e sua boca se apoderou da dela, pressionando-a com o corpo, lhe exigindo uma resposta. Elizabeth estremeceu se arqueando contra ele, agarrando-se em suas costas e seus ombros, coração com coração, pernas com pernas, o mais perfeito dos emparelhamentos. Os lençóis se enredavam em seus corpos e eles se desfizeram deles com impaciência. Ele penetrou-a com um único movimento. —Elizabeth! —gemeu seu nome e ficou quieto, com os olhos fechados e ardendo de calor, intoxicando-se com seu corpo como o mais desejado dos prazeres, ainda mais quando ela elevou os quadris para que pudesse chegar ainda mais dentro. Ambos permaneceram imóveis um momento.


—Elizabeth de Lacy — murmurou, surpreso, com uma luz de incerteza no olhar—, o que é você? E depositou uma linha de beijos na curva elegante de seu pescoço antes que a necessidade voltasse a apoderar-se dele e começasse a mover-se dentro dela, contra ela, seu ritmo contagiando-se a seu corpo, animando-a a acompanha-lo, consciente apenas de seu domínio. A sensação cresceu em seu interior até que só pôde gemer e tremer perante aquele desconhecido poder, mais doce, porem muito mais intensos que antes. E teve que se agarrar a ele ante o medo de ser incapaz de resistir ou de controlar a resposta de seu corpo. —Tenho medo — ela gemeu, mas o prazer a sacudiu de tal maneira que não pôde dizer nada mais. E Richard tampouco lhe deu a oportunidade, mas sim continuou guiando-a com uma mão especialista, com carícias firmes que anularam sua vontade até que gritou surpresa e extasiada. Só então, depois de um férreo controle, rendeu-se à mulher que considerou sua cativa, surpreso de sentirse indefeso em seus braços. Depois, um considerável tempo depois, quando tinha conseguido reordenar seus dispersados pensamentos após aquele assalto emocional, Elizabeth se encontrou nos braços de Richard, esgotada. Triste, é claro, mas sem o asfixiante peso da dor. Em algum momento da tormenta, uma dose de satisfação a assaltou, apropriou-se de sua energia e permaneceu em seu interior como um rio de águas tranquilas que a acariciava e acalmava. E quanto à intensa emoção que a levou a responder a todas suas demandas, ainda resistia em lhe dar um nome. Ou à explosão de prazer letal que tinha viajado por seu sangue e que contra todo o bom senso a tinha empurrado a exigir dele. Sentiu como ardiam suas bochechas ao recordar seu comportamento. Melhor que estivessem nas sombras. Uma vozinha abria caminho obstinadamente em sua cabeça.


«Se apaixonou por ele. Por mais que o negue, a prova está em seu próprio sangue. Não pode seguir evitando a verdade. Você o ama». E contra semelhantes palavras, não havia defesa. —Richard — ela se virou para olha-lo, apoiada como estava sobre seu peito, consciente do batimento acelerado de seu coração e sua respiração desordenada. Agradava-lhe muito que ele fosse tão afetado quanto ela—. Fui injusta com você. —Sim, é verdade — ele replicou, beijando-a na cabeça—. Se não estou enganado mostrou uma opinião bem pobre de minhas habilidades, tanto como senhor de Ledenshall e, quanto o que ainda é ainda pior, como homem. Ela se pôs a rir. —Há não! Necessito de experiência, mas suas habilidades são… milagrosas, eu diria. E acariciou seu peito, feliz para ao ouvi-lo rir. —Assim eu espero. Embaixo daquela risada, Richard se sentia sobressaltado por sua falta de controle com Elizabeth. A atração que ela demonstrava por ele o tinha surpreendido, assim como o respeito que tinha chegado a sentir por ela. Mas a necessidade de fazê-la sua, de possuí-la por completo se transbordava. Não se tratava apenas de uma conexão física, mas sim de algo mais profundo que o empurrava para ela. Franziu o cenho. Certamente não era mais que compaixão pela dor que lhe tinha infligido seu próprio tio, que era quem deveria tê-la apoiado e protegido. Talvez também houvesse certa dose de admiração por sua força de vontade ante o assédio. E respeito, é óbvio. Sim, devia ser isso. Não era difícil para ele sentir admiração e respeito. E como ia imaginar se que ia ser tão tentadoramente feminina sob suas palavras duras e sua franqueza… tão desejável. Ambas. A luxúria sempre era uma resposta fácil. —Sir John de Lacy pagará por seus delitos. Mais cedo ou mais tarde. Não permitirei que saia impune e não pague pela dor que lhe causou. É


minha esposa, e é meu dever e meu desejo a proteger e impedir que lhe façam mal. Foi um juramento solene que ambos reconheceram como tal, e que destruiu todas as barreiras que se ergueram entre eles pelo sangue derramado de Lewis. Haveriam outras, no futuro, já que Elizabeth não era tão inocente para imaginar que viveriam para sempre em um mar de rosas, mas ao menos aquele desprezível crime ficaria em seu lugar. —Nunca deveria ter duvidado de você. —Não deveria, é verdade, mas como você mesma disse em uma ocasião, não me conhecia. Nosso casamento não estava destinado a ser fácil, e pode ser que agora possamos encontrar um caminho mais reto entre os dois. —Você me perdoa por minha falta de confiança? —Poderia fazê-lo — ele respondeu, e rapidamente se colocou sobre ela—, mas acredito que preciso saber que não vai voltar a duvidar com tanta facilidade de minhas habilidades. Viu o brilho de seus olhos, a curva irresistível de seus lábios, a linha de seus ombros e voltou a sentir-se prisioneira. —O que sugere? O que poderia lhe oferecer para ressarci-lo? Sentiu que voltava a ter uma ereção sobre suas coxas, e lhe rodeou o pescoço com os braços para puxa-lo e o convidar para o festim de sua boca. E Richard não vacilou em aceitar o seu convite. Richard fez o quanto pôde. Não hesitou em comprar informação de viajantes davam ouvidos aos murmúrios. David tinha sido visto montando ao lado de seu tio, junto a ele também em Hereford. Parecia gozar de boa saúde e montava seu cavalo com energia. Nada que pudesse preocupar sua irmã. Elizabeth e Jane voltaram a usar a bola de cristal, mas esta lhes revelou pouco, embora tampouco pressagiasse desastres. —Não prova nada — disse Jane. —Mas se você não o vê.


—David está são e salvo. Era toda a segurança que sua amiga estava disposta a lhe oferecer. Enquanto isso, os senhores de Ledenshall observavam um ao outro sem que nenhum deles quisesse admitir a surpreendente profundidade do sentimento que se desenvolveu entre eles, desde aquela noite de paixão desenfreada.

Doze O inverno deu lugar à primavera, e com ela os maltratados caminhos ficaram mais transitáveis, e com isso chegou à estação de feiras e mercados. Os Malinder de Ledenshall, com dois sólidos carros de bagagem e uma grande escolta, dirigiram-se a Leominster na ocasião da feira de maio, esperando desfrutar dos postos de venda, do aroma das especiarias, da música e do entretenimento na rua principal e do mercado de grãos; na grande praça do priorado se colocou um poste decorado com ramos de carvalho, flores e laços. Richard se dispunha a ir cuidar de uns assuntos que tinha na Hospedaria Talbot, mas antes olhou para Elizabeth com uma severidade pouco habitual nele. —O que há? —perguntou ela. Com os lábios apertados e expressão solene apesar da felicidade que reinava ao seu redor, Richard a surpreendeu, porque quando ela pensava que ia tocar sua bochecha com a mão, embora em público e em uma rua tão abarrotada como aquela não fosse o correto, limitou-se a ajeitar seu véu. Aquele gesto tão íntimo e simples lhe gerou um autêntico prazer.


—Teme por mim? Não vou correr nenhum perigo — ela o tranquilizou, pondo a mão em seu pulso—. Imagino que deu instruções a seus homens de que não me percam de vista. —Nunca me perdoaria se lhe acontecesse algo. A felicidade naquele momento foi tão brilhante para Elizabeth quanto as novas rosas que tinha na horta de Ledenshall. Richard raramente dava voz a seus sentimentos. Alguma vez chegaria a lhe dizer que a amava? Sentiria alguma vez essa emoção por ela, a noiva que não queria? Seu amor por ele teria que bastar, e ela ficou contemplando-o, vendo desaparecer seus ombros entre o povo. Sua escolta não teve muito no que ocupar-se, exceto talvez em manter aos ladrõezinhos a distancia ou controlar aos mendigos que pediam sem cessar. —Milady por compaixão! Elizabeth sentiu que lhe puxavam a manga. Estava no pátio de uma estalagem vendo a um grupo de músicos, acrobatas e bailarinos itinerantes atuarem enquanto tomava uma taça de cerveja que era bem-vinda como meio de combater o crescente calor. Um menino andrajoso e sujo, com um cabelo tão emaranhado e comprido que mais parecia o pelo de alguma das ovelhas Ryeland que eram vendidas na rua principal, com um chapéu enfiado até as sobrancelhas, agachou-se a seu lado e lhe estendeu as mãos manchadas por alguma enfermidade. O menino tinha despertado sua compaixão, e não permitiu que sua escolta o afastasse sem mais, não sem antes lhe pôr uma moeda na mão. —Milady — ele insistiu em puxar sua manga. Elizabeth abaixou o olhar e reparou em seu chapéu rasgado—. Vá ao priorado e entre pela porta sul. Antes do meio-dia. Isso foi tudo antes que um dos homens de sua escolta o separasse com um empurrão dado com a bota. Deveria prestar atenção em um mendigo andrajoso e comido pelas pulgas? Quem podia querer falar com ela e temia fazê-lo em uma rua à vista de todos? A única solução para


satisfazer sua curiosidade era ir, claro. Nada podia lhe ocorrer em chão sagrado, com as idas e vindas dos monges e o resto da comunidade em um dia de mercado, assim decidiu dirigir-se à porta sul. Ali não havia ninguém, que era quase o que esperava, mas assim ao menos poderia rezar uma oração pela alma de Lewis. Elevou a mão para empurrar a pesada porta quando uma sombra caiu na entrada ao seu lado. Uma figura apareceu e se camuflou nas sombras do pórtico. Ela se virou, alerta, e colocou a mão na adaga que levava discretamente sob a capa. Com o sol perfilando sua figura, reconheceu ao moço do pátio da estalagem. —O que quer de mim? — ela perguntou-lhe, mantendo firme a voz apesar do pulo que lhe deu o coração quando o moço se aproximou. Pensava em atacá-la? Roubá-la? Seria um assassino enviado por sir John? Puxou a adaga e sua lamina brilhou nas sombras. O moço continuou aproximando-se. —Onde está? — perguntou Richard, procurando entre o povo do mercado da manteiga. —Foi ao priorado milord — respondeu um homem de sua escolta. O temor afetou Richard. Tinha conseguido dissimular o medo que sentia pela segurança de David em Talgarth para acalmá-la, mas a segurança de Elizabeth não era um assunto fútil, e um calafrio de alarme lhe percorreu as costas. —O que quer de mim? —repetiu Elizabeth. —Terra sagrada — a voz do moço tinha perdido o ar patético que tinha no pátio da estalagem, e em seguida tirou o desfeito chapéu e a pele de ovelha sob a qual tinha oculto seu cabelo escuro—. Terreno sagrado, irmãzinha querida. Não necessita da adaga. —David! Por amor de Deus! Mas o que.. —Calada! —preveniu, e puxou sua manga como tinha feito antes para fazê-la entrar no priorado, junto à tumba de um antigo prior—. As paredes têm ouvidos, pelo menos em Talgarth.


—O que faz aqui? —perguntou-lhe, pondo a mão em seu braço coberto de sujeira—. O que houve? —Tinha que partir, mas me vigiavam… Olhou por cima do ombro para o altar, iluminado por umas velas. —Como chegou até aqui? —Isso não importa. Basta que tenha chegado. Sei que recebeu o anel. —Sim, mas tem que… A porta que ficava a sua direita se abriu. Ouviram passos. Um movimento de David fez brilhar a lamina da arma que levava, e ao mesmo tempo em que empurrou Elizabeth para que ficasse à sombra da tumba. Mas não demorou a visivelmente relaxar-se e inclusive rir. —Richard! —Bom, pelo menos os dois estão armados, o que suponho que deveria me alegrar —foi seu comentário. Mas pôs sua mão na de Elizabeth, um gesto tranquilizador que a fez suspirar. Deixou que ficasse com a adaga e que a pendurasse no cinto. —Eles o seguiram? —É possível… ou provável — respondeu David, desafiante—. Não penso em voltar para Talgarth. Não me importa o que digam. Elizabeth se deu conta de que seu irmão estava muito perto do pânico por seu modo de expressar-se. E aparentemente Richard também percebeu, porque não se opôs: —Fique aqui e esconda essa adaga a menos que queira chamar a atenção. Espere junto à grade dentro de trinta minutos. Passaremos na frente com a carroça e pararemos por algum motivo… que ainda não me ocorreu. Suba nele e se esconda sob as compras. Meus homens não o impedirão. Haverá uma roupa para poder se disfarçar. E não levante a cabeça até que cheguemos a Ledenshall. —Vou fazer isso — ele assentiu com um sorriso que brilhou na escuridão, e embainhou a adaga—. Não sabe o grato que estou! —Me agradeça depois. Vamos, Elizabeth. Vamos por a pantomima em curso.


—Bem! Agora me conte o que fazia o herdeiro da família De Lacy escondido no priorado de Leominster com as roupas de um mendigo. De volta a Ledenshall e já no salão privado, colocaram cadeiras e tamboretes em torno de uma mesa redonda. David, já esquecido do disfarce de mendigo, bem lavado e com umas roupas emprestadas por Richard que ficavam um pouco grandes, engoliu a metade da jarra de um gole e limpou a boca com o dorso da mão. —Assim está melhor. Mas acredito que ainda pica. —Fale David! —urgiu Elizabeth. —Por onde começo? — ele perguntou-se com um ar de cansaço. Havia tristeza em seus olhos. Elizabeth lhe estendeu as mãos para oferecer consolo, mas ele a rechaçou para tirar das dobras de sua túnica outra joia que imediatamente captou a luz quando a depositou sobre a mesa. Era um pendente, desenhado para ser usado em uma corrente de ouro como símbolo da posição de um homem; um pendente volumoso e com muito ouro, no qual estavam engastadas umas luminosas safiras. —Do Lewis? Elizabeth o pegou nas mãos e o que estava acontecendo à fez dar-se conta de que David já não era um menino. Os fatos mais recentes tinham lhe arrebatado à juventude e a inocência. Não reconhecia a joia, mas mentalmente estabeleceu a conexão. —Sim. Uma compra recente — ele sorriu com tristeza—. Lewis tinha a ambição de um cortesão e eu o atormentava por isso, ria dele… Gostaria de não o ter feito. Elizabeth assentiu. —Suponho que o usava em nosso casamento, não é? —Sim. —Às safiras se atribuem propriedades mágicas — murmurou, examinando a joia—, mas não puderam preservar a vida de Lewis — e inclinando-se para frente agarrou os pulsos de seu irmão—. Fale-me do anel David.


—Pensei que o reconheceria. Encontrei-o nada menos do que nas mãos de Gilbert de Burcher, o comandante da guarnição de nosso tio. —De Burcher? Richard, que tinha permanecido em silencio até aquele momento, levantou-se de sua cadeira e afastou a jarra de cerveja que mal havia tocado. —Sim, do Burcher. Caiu de sua bolsa quando a deixou de lado junto com a túnica para um treinamento. Não se deu conta de que eu a recolhi e guardei isso. Tampouco disse algo sobre sua perda. Imagino que não deve ter demorado a perceber que não a tinha, mas não causou alvoroço por isso. Provavelmente não se atreveu. —Um presente de sir John pelos serviços prestados? —Richard sugeriu. —Sim. Ou Gilbert ficou com ele porque tinha muito menos valor que o resto das pedras. Pode ser que pensasse que seu senhor não sentiria falta dele — David franziu o cenho—. Outra coisa: de Burcher possui agora recursos econômicos que não tinha antes. Dedica-se a jogar sem escrúpulos. —E se bem me lembro— Richard acrescentou—, sir Gilbert esteve aqui com sir John para o casamento. —Vocês acham que ele obedeceria às ordens de sir John… até o ponto de chegar ao assassinato? —perguntou Elizabeth, ao que Richard respondeu sem vacilar. —Conheço-o, e é um grande soldado, mas sem nenhuma compaixão. Acredito que teria sido capaz de fazê-lo sem remorsos. —Estou de acordo — disse David—. Venderia sua alma pelo melhor preço, e seguiria as ordens de sir John mesmo que o levasse ao próprio inferno. —E este pendente — Elizabeth o retinha na mão como objeto de seu irmão—, como chegou a suas mãos? —Foi coisa de Ellen. Aparentemente o encontrou em Talgarth, mas não quis me dizer onde.


—Em posse de sir John — disse Elizabeth—, ou ao menos isso dizia na carta que me enviou junto com o broche. Suponho que vêm do mesmo lugar. —Sim. É muito desgraçada, embora o oculte bem. Ajudou-me a escapar para que pudesse me afastar de Talgarth. Não sei do que suspeita, mas queria que eu fosse. Com sua colaboração consegui me esconder em uma carroça — David esfregou o ombro. Os caminhos eram ruins—. Esperava ver seus homens na feira. Não imaginava que encontraria diretamente você —tomou outro gole e olhou para sua irmã com preocupação—. Espero que não culpem Ellen pelo meu desaparecimento. Sir John pode ter a mão dura. Certamente pode declarar-se inocente e atribuir minha fuga a minha má cabeça, ou a que sou um malcriado. —Possivelmente — Elizabeth tentou sorrir—. Acha que Ellen deporia contra sir John? David se pôs a rir com aspereza. —É óbvio que não! Não sobreviveria. —Possivelmente queira fazê-lo por se tratar de um assassinato. Eu o faria! —Claro que sim! —E eu! —uniu-se Richard—. Acredito que deve aceitar que Ellen seguirá obedecendo às exigências de sir John. Nem todas as esposas são tão resolvidas quanto você. Elizabeth sentiu que o sangue se amontoava em suas bochechas. —Por que estava tão doente quando estivemos em Talgarth? —Eu também lhe estive pensando nisso. Não durou muito, mas tive muita febre e tinha a cabeça atordoada. Recuperei-me surpreendentemente rápido após a sua partida. Mestre Capel disse que eram os humores de meu corpo, e que suas poções os tinham reordenado — ele fez uma careta ao recordar—. Acho que não queriam que falasse com você. —Isso é o que pensamos — Richard respondeu enquanto analisava as palavras do jovem.


—Há algo mais, Elizabeth: mestre Capel queria saber o dia e a hora de seu nascimento. Ela o olhou surpresa. —E as deu? David franziu o cenho, incômodo. —Sim. A pergunta me pegou de surpresa e não vi razão para não dizer-lhe apesar de agora desejar não tê-lo feito. Não sei para que ele queria saber, embora quem sabe o que esse homem faz em suas acomodações? Pode ser que seja coisa de minha imaginação e nada mais. —Assim espero — os pensamentos de Elizabeth foram a toda velocidade, mas não queria falar disso. Não queria preocupar Richard—. Duvido que tenha importância. Talvez esteja reunindo a história da família para engrandecer sir John — ela se voltou para Richard, que a olhava em silêncio e pensativo. Claro que ele não podia ver as implicações de tudo aquilo com tanta claridade quanto ela—. O que vamos fazer agora? —Fazer? Richard ergueu o rosto como se pudesse ler seu pensamento. —Contra sir John. —Não podemos fazer nada dentro da lei — respondeu—. Sir John negará todas as nossas acusações e ninguém poderá dar testemunho direto do crime. —Sim, mas… —Elizabeth — ele suspirou—, já tivemos antes esta mesma conversa, e não tem sentido que voltemos a ela. Já conhece minha opinião. As notícias que David nos trouxe serviram para corroborar o que pensávamos, mas não muda em nada a situação. Ante a lei estamos sem argumentos. Ela olhou para o outro lado. Aquela situação se interpunha entre eles. Richard se levantou, pôs as mãos com suavidade sobre seus ombros para lhe transmitir seu calor, mas seu rosto seguiu impassível. —Vou deixa-los sozinhos para que possam imaginar todo tipo de cruéis castigos contra sir John, mas eu não quero fazer parte deles e farei tudo o que esteja em meu poder para impedir que possam tomar uma


decisão que os ponha em perigo ou que possa arrastar à Welsh Marches a um luta armada — ele olhou então para David—. Espero que possa lhe dar um bom julgamento da situação, David. Sua irmã, compreensivelmente, está mais inclinada aos extremos. E saiu da sala deixando Elizabeth dividida entre a culpa e sua própria teimosia e frustração. —Tem razão e você sabe — ele disse—. Não podemos fazer nada contra sir John. —Vai perdoar a morte de Lewis? — ela espetou intolerante, mas imediatamente lamentou haver feito semelhante acusação. —É óbvio que não. Acaso precisava perguntá-lo? —Não, mas acredito que deveríamos… —Não penso em tomar parte em um assassinato, ou no que seja que anda pensando. —É tão teimoso quanto Richard! —acusou-o, mas sorriu no fim. —E eu pensei que me receberia em Ledenshall com carinho. Como eu poderia esperar algo assim? Elizabeth se levantou com intenção de apagar as velas, mas David a deteve. —Uma coisa mais. —Do que se trata? —Quando mestre Capel me perguntou o dia de seu nascimento, também me perguntou pelo de Richard. Eu não sabia, assim não pude dizer-lhe. Elizabeth se esqueceu das velas e seus temores tomaram forma. —Sim. Fez bem. Mas não disse nada. Não tinha sentido assustar mais ao David. Elizabeth acorreu imediatamente ao poço de sabedoria que era Jane Bringsty. —Jane, se queria praticar os segredos da astrologia e pretendesse realizar uma carta astral… Apesar do adiantado da hora, Jane estava ocupada dobrando roupas de Elizabeth para coloca-las em uma prensa de roupa, mas ao ouvir suas palavras ficou imóvel.


—Quer que o faça, milady? —Não, mas se tivesse que fazê-lo, necessitaria do dia e da hora do nascimento? —Sim. Para determinar sob que influência de que planeta nasceu o interessado. —E para que serviria essa carta? —Bom… a verdade é que eu o tenho feito em contadas ocasiões — Elizabeth se surpreendeu em saber que alguma vez o tinha feito—, e certamente não recentemente, mas o faria para descobrir seu estado de saúde. Mental e corporal. O efeito dos planetas em sua vida e temperamento. E também o usaria para… Mas não terminou a frase e franziu o cenho. —Para? A Elizabeth custava respirar. Jane confirmaria seus piores temores? —Para conjurar o dia e a hora de sua morte — ela lhe disse com inquietante franqueza. Elizabeth se limitou a assentir. —Eu achava isso. Assim que o nigromante de sir John se atrevia com a astrologia, não é? Com que fim? Para que queria o dia e a hora de nascimento de Richard e o dela? Não gostava da direção de seus pensamentos, nem tampouco podia compartilhar com alguém suas preocupações. Não ia falar lhe disso com Richard, porque já havia motivos suficientes de atrito entre eles. E quanto à sir John… para ela tinha as mãos manchadas de sangue. Se Richard e David não estavam dispostos a ajudá-la, seria ela mesma quem iria procurar um modo de castigá-lo. Tinha paciência. Esperaria que chegasse o momento adequado e o teria tudo planejado para esse instante. Nada de poções secretas nem de encantamentos de duvidoso efeito, como lhe aconselharia Jane. Sir John devia responder por seu desprezível crime em público. Mas devia aumentar suas precauções. Tinha que encontrar um modo de fazê-lo que não envergonhasse Richard. «Jamais me perdoaria isso se


lhe ocorresse algo», havia dito numa declaração de um marido possessivo a sua esposa, mas sem a carga do amor. Ela levaria essa carga por decisão própria, com alegria, apesar da dor que a acompanhava. Com todo o peso dessa emoção em sua alma, podia repetir as palavras de Richard. Seu marido não devia ser comprometido: nunca a perdoaria se alguma de suas ações pudesse acarretar uma condenação para ele. Não a amava, mas seu amor por ele coloria todas as decisões que tomava. Richard não devia sofrer por nenhum ato dela.

Treze Elizabeth estava no solar, a sala com janelas em que se podia tomar o ar fresco, os pés apoiados em um descanso para os pés, meditando. Desejava não sentir tanta pressão no peito e que seu coração não pulsasse com tanta força. Com certeza Richard poderia ouvi-lo. Estava no mês de junho, na véspera do dia de São João, ocasião tradicional de festejos, competições de força e habilidade na Welsh Marches, a oportunidade perfeita para levar a cabo sua vingança contra sir John. Mas para conseguir teria de mentir a Richard, que a estava esperando.


Engoliu seco e o olhou. Era difícil enfrenta-lo, mas se obrigou a não desviar o olhar. —Eu decidi que não vou — ela declarou. —Por que? —Não me sinto bem — ela mordeu um lábio—. Minha cabeça… e o estômago doem. —Dói a cabeça — ele repetiu sem dissimular sua descrença—. Tanto que não pode ir à feira de São João? Sua determinação não fraquejou. —Sim. Richard empurrou suavemente seu queixo. —Por que não acredito? —Não tenho nem ideia, milord. Não está em minha natureza fingir. Não confia em mim? Doía-lhe que fosse assim, embora soubesse que merecia sua censura pelo que estava planejando. Richard a olhou inclinando a cabeça. —Não esta grávida, não é? Elizabeth corou. —Não — ela respondeu—. Você seria o primeiro, a saber, se fosse isso. A ideia lhe produziu um doce estremecimento de antecipação. —Então, não vou poder lhe convencer a me acompanhar? —Não! E rezou porque não insistisse mais. Mentir para Richard lhe dava dor no coração e na cabeça. —Como quiser. Acreditava que por fim ele tinha aceitado seu desejo, mas de repente ele se agachou diante ela, e rápido como um falcão a beijou na boca. —Pois me parece que está ótima minha senhora — e voltou a beijála com paixão, lambendo seus lábios, com a mão em sua nuca para mantêla cativa—. De fato, eu a acho deliciosa demais para que se encontre tão mal. Poderíamos celebrar o solstício do verão aqui só os dois se for seu desejo. É mais do que hora de que conceba um filho, e que melhor momento que este?


Com os olhos totalmente abertos, Elizabeth não encontrou o que dizer. —Não diz nada? Por que eu esperaria que me convidasse a sua cama? Cuidado Elizabeth. Outro beijo lhe roubou o pouco fôlego que restava, e o olhar especulador que lhe dedicou antes de sair da sala a enervou. Suas bochechas ardiam, seu coração parecia um tambor, a respiração era entrecortada e o corpo tinha ficado frouxo. Estava enganada, ou de verdade tinha detectado desilusão em seu rosto? Por que tinha que fingir e manda-lo embora? Respirou fundo para aceitar a necessidade de fazê-lo: Richard não podia, não devia estar envolvido no arriscado passo que ia dar. Na solidão era mais fácil concentrar-se no plano previsto, recordar a história que se contava de um de seus ancestrais nos longínquos dias da conquista. Sybil de Lacy, uma gloriosa heroína de sua infância, um assunto de interminável fascinação para ela, tinha sido capaz de cravar uma adaga no assassino que tinha matado a seu senhor porque queria casar-se com ela. Poderia imitá-la? Se não podia agir de acordo com a lei, o faria fora dela e cobraria sua vingança executada por sua própria mão, como tinha feito Sybil. Desse modo libertaria Richard e David dessa carga. E quanto à qual seria a repercussão para si mesma, nem sabia nem se importava. Tudo que tinha em mente era que o sangue de seu irmão seria vingado. A alma que a espreitava em sonhos conseguiria por fim descansar. —Ele já foi? — a sua fiel Jane lhe perguntou. —Sim — esta respondeu, olhando pela janela—. Se estiver decidida a fazer algo útil, venha comigo. Rapidamente saiu pela porta do quarto de Richard e começou a procurar com urgência entre cofres e baús. Achou o que procurava envolto com um pano áspero. —Leve isto — disse, entregando a Jane um pacote—. Se reúna comigo nos estábulos dentro de meia hora. Mande preparar dois cavalos.


—Se esqueça de uma vez de tudo isso! Não sei o que pretende fazer, mas pressinto o perigo. Elizabeth se esquivou. Tinha-lhe acabado a paciência. —Esquecer é justo o que quero. Não faça nada, diz milord, e por uma vez vejo que ambos concordam. Mas não penso em permitir que meu tio escape sem pagar por ter vertido o sangue de Lewis! Se Richard não for fazer nada, eu sim o farei. E dizendo isto, dispôs-se a pegar um par de objetos emprestados do recinto dos soldados. Um quarto de hora depois pegavam suas montarias em direção da feira de São João. Toda a Welsh Marches tinha ido à feira do solstício do verão. As cores distintas de cada família se estendiam por toda parte, os emblemas ondulavam na brisa cálida e tanto a casa dos York como a dos Lancaster contavam com uma grande representação. Mas durante aquele dia suas diferenças ficariam esquecidas. O sol brilhava, a cerveja corria abundantemente e os conflitos ficavam relegados a um segundo plano pela causa da unidade local e da celebração. Richard tinha aguardado pelo evento, como todos os anos, mas naquele momento apertava os dentes, frustrado. Deveria ser capaz de desfrutar da ocasião, mas inexplicavelmente não podia deixar de pensar em Elizabeth, no seu comportamento estranho e na aspereza de suas palavras. E no fato de que não tivesse pedido que ficasse. «Não confia em mim?», tinha-lhe perguntado irritada. Bem nem sempre. De fato, estava se perguntando o que se trazia nas mãos. Quando Elizabeth adotava aquela expressão inocente, era quando ele mais temia. Como sabia melhor do que ninguém podia ser teimosa, imprudente em sua lealdade a aqueles aos quais amava. Difícil, intransigente e caprichosa, mas mesmo assim a admirava. Despertava a curiosidade nele, desfrutava do fogo de sua união física… seu corpo despertou imediatamente ao imagina-la levando seu herdeiro em seu seio,


antes que deliberadamente afastasse seus pensamentos desse caminho e se centrasse no último comportamento de Elizabeth. Sua intuição lhe dizia que algo não ia bem, mas depois do episódio do veneno podia acreditar que mantivera sua dama controlada, e que ela não transpassaria a linha do que se considerava um comportamento aceitável da senhora de Ledenshall. Talvez houvesse uma explicação perfeitamente razoável, embora não fosse sua habitual forma de agir. Talvez pretendesse manter-se afastada de seu tio para evitar qualquer confronto. Ele se distraiu com a chegada de Anne Malinder, magnificamente vestida, exibindo seu prometido, Hugo Mortimer de Wigmore, rico e de bom berço. Richard não caiu. Podia perceber o inquisitivo olhar daqueles penetrantes olhos verdes até a distância, e pela primeira vez se alegrou de que nem Elizabeth nem Jane Bringsty estivessem presentes. Então acompanhado por David e com assuntos puramente masculinos em mente, abriu caminho para ir à busca de Robert Malinder, que estava presenciando, com uma jarra de cerveja na mão, uma competição de arqueiros. —Richard! — ele cumprimentou, preparando duas jarras de cerveja —. E David. Eu achei que estava em Ledenshall. Seu tio aprova que confraternize com o inimigo, ou escapou sem sua permissão? Certamente o tato não figurava entre as virtudes de Robert. Mas David não o estava escutando. Ficou imóvel e tinha o olhar cravado em um ponto a meia distancia. Em seguida agarrou Richard por um braço. —Richard! Mas seu cunhado não parecia querer lhe dar atenção. —Ande, vá tomar outra jarra de cerveja e procure algum arqueiro com o qual falar mais parece uma pulga no lombo de um cão. —Mas, Richard, olhe! Olhe ali! Queria que o menino o deixasse em paz e olhou para onde ele apontava.


A figura de um jovem alto e magro com uma capa pendurando no braço ia caminhando pela parte exterior do tumulto sem olhar nenhuma só vez para o espetáculo. Em um instante o reconheceu e o sangue gelou em suas veias. —Deus bendito! —Eu pensei que era Lewis — murmurou David—, mas é claro, não pode ser. Mas se me perguntassem isso, eu diria que… —Sei exatamente o que diria — interrompeu Richard. —Ela o fazia quando era pequena: colocava a roupa de Lewis, pegava um cavalo e saía. Até que nosso pai lhe tirou o habito com uma boa palmada. O que estará fazendo? —Como eu vou saber o que minha esposa está fazendo? —replicou. Já tinham saído atrás dela usando dos cotovelos e das desculpas, mas havia muita gente. —E por que leva um arco e um feixe de flechas? — perguntou Robert, que os seguia—. Ela não pretende participar de um concurso tão público como este, não é? —Não — Richard respondeu olhando para David, e pela forma que o moço lhe devolveu o olhar, soube que os dois pensavam o mesmo—. Mas poderia considerar… e se o fizer, a festa de São João se converterá em um campo de batalha. Foram saindo do grosso do tumulto e puseram-se a correr. Elizabeth se maravilhava em ser capaz de manter o sangue frio como o gelo e a respiração tranquila. Da colina em que tinha se colocado teve que entreabrir os olhos para enfocar John de Lacy. Seria fácil lançar aquelas flechas arrematadas com plumas de ganso contra aquele homem arrogante e cruel para que o espírito de Lewis pudesse descansar em paz. Não tinha nenhuma dúvida. Todas tinham sido analisadas e descartadas. Sybil de Lacy estaria orgulhosa dela. A sombra de um sorriso tocou seu rosto, e sem pensar mais, escolheu uma flecha.


Richard a viu imediatamente no lugar que tinha escolhido. A capa descansava a seus pés com o feixe de flechas, todas exceto uma, que estava colocando no arco. Toda sua atenção estava posta na distante figura de seu tio, o assassino, claramente visível entre as pessoas por sua túnica de azul intenso e seu chapéu enfeitado com uma pluma, e Richard conteve o fôlego quando a viu levantar o arco, apontar e esticar a corda. Serena, destemida e decidida. Levaria a cabo seu plano, ou perderia a coragem no último instante? Não. Não podia contar que ela ainda pararia pensar. Se arriscaria a pôr em perigo a vida de outros? Mas sua pontaria era excelente, e consideraria que o risco era justificável para vingar Lewis. Estava pálida, mas tinha os lábios apertados pela concentração. Ela teria parado para considerar as repercussões se alcançasse seu objetivo? O peso de uma condenação por assassinato cairia sobre suas costas, e com tantas testemunhas sem dúvida a condenariam. Sentiu que uma gota de suor lhe corria pelas costas. Com certeza ela não parou para considerar aspectos tão corriqueiros de sua decisão. Todas aquelas ideias passaram por sua cabeça à velocidade de um raio enquanto decidia o que devia fazer. Se gritasse para distraí-la chamaria a atenção sobre eles, algo que queria evitar, e tampouco tinha certeza de que conseguiria fazê-la desistir. Se esperasse estar perto o bastante para lhe arrebatar o maldito arco, já podia ter atirado a primeira de suas flechas. Deus! Mas tampouco pôde evitar sentir certa admiração por uma mulher que considerava levar a cabo semelhante plano e que o executasse com tal perfeição. Se o olhar de falcão de David não a tivesse localizado, a flecha teria saído de seu arco e teria ido cravar se no negro coração de De Lacy sem que ninguém se inteirasse. A decisão sobre como atrapalha-la escapou de suas mãos. —Não! Elizabeth pare! —gritou David, elevando os braços e movendo-os freneticamente para chamar sua atenção—. Não! Não o faça!


Elizabeth ficou imóvel, mas não abaixou o arco, limitando-se unicamente a olhar em sua direção. Richard ficou atônito ao entender a expressão de seus olhos. E tudo o que podiam fazer era correr a toda a velocidade que lhes permitissem as pernas na subida. Elizabeth não se moveu nem um milímetro, e seguia apontando com o arco. Viu-a respirar fundo e soube que não iam chegar a tempo. Como temia, viu a flecha sair do arco e voar por cima das cabeças de quem estava mais próximo para tomar a direção de seu objetivo. Um grito surgiu de entre o povo, confusão, vozes iradas, enquanto Elizabeth voltava a colocar outra flecha no arco, esticava a corda, apontava como se tivesse todo o tempo do mundo para enviar uma flecha inofensiva a um fardo de palha, como tinha feito em Ledenshall. Empurrado por um temor maior que qualquer outro que tinha sentido em sua vida, Richard tomou a única decisão possível. Antes que pudesse soltar a flecha, Elizabeth sentiu um golpe tremendo no flanco, de uma força tão grande que a derrubou no chão e ficou sepultada sob um considerável peso. Como último recurso, Richard tinha se jogado contra ela como teria feito contra um inimigo em combate mortal. Não é que fosse uma solução muito fina, ele pensou enquanto permanecia jogado sobre ela, recuperando o fôlego, mas tinha sido decisiva. Elizabeth não podia acreditar no que estava acontecendo. Estava pálida como a cera e seus olhos brilhavam como brasas. Uma fúria cega parecia emanar dela aos borbotões. Durante uns segundos se perguntou se estaria ferida, mas não havia tempo para isso. As pessoas já os rodeavam e um clamor de vozes se elevava em torno de sir John, que talvez não estivesse vivo. —Não posso respirar — sua mulher o olhava carrancuda—. Está me esmagando. Como se atrevem a intervir? Está me machucando! Deixem que eu me levante.


—Pelos pregos de Cristo, Elizabeth, esse é o menor de seus problemas! E enquanto se levantava mordeu a língua por não deixar escapar as palavras acesas que brigavam para sair e queimar a ambos, antes de puxar sua mulher pelo pulso para levantá-la do chão. Seria um desastre que o vissem brigando com ela sobre a grama, junto a um arco e uma aljava cheia de flechas, se é que John de Lacy jazia morto com uma flecha similar cravada no peito. —Não deveria ter me detido! Deixe-me terminar! Estava tão furiosa que era incapaz de raciocinar. Richard não soltou seu pulso e tentou recuperar a calma. Sair daquele embrulho ia requerer mais sorte do que habilidade. —Sir John vive, mas está ferido. No braço ou no ombro, não sei — Robert disse enquanto chegava junto a eles—. Ao menos segue em pé. —Bom. Então há esperança. Recolheu a capa do chão e a colocou em Elizabeth sobre os ombros, com o que ficou coberta dos pés a cabeça quando colocou o capuz. A seguir a empurrou para que ficasse atrás de Robert como se fosse um jovem escudeiro que esperava a seu senhor. —Não diga uma palavra, nem se mova até que eu lhe diga isso! Tentem ficar invisível — ele gritou com a esperança de que sua ira a empurrasse a obedecer—. Se dá valor a sua vida e a sua liberdade, fará o que lhe digo. A sua, ou a minha? — ela reagiu, mas ele não permitiu nem uma fresta de resistência. Não havia tempo—. É o escudeiro de Robert e vai esperar atrás dele para lhe render seus serviços. Mantenha o olhar baixo, o rosto abafado e a boca fechada. Sem esperar que concordasse ele deu a volta. Um grupo de soldados de Lacy tinha começado a percorrer a feira a toda pressa, alguns brandindo a espada. Tinham estimado acertadamente a direção da flecha. Rezando


para que sua sorte seguisse brilhando, recolheu o arco e a aljava e os pôs nas mãos de David. —Mas o que…? —Interprete o papel como se sua vida dependesse disso, e pode ser que seja assim. É um moço atordoado, sem disciplina nem juízo, e inexperiente com um arco. Um moço que merece uma boa palmada por sua estupidez de hoje. Isso foi o suficiente. David adotou o ar arrogante de um jovenzinho e uma expressão de tristeza. —Esperemos que seu tio não queira levar mais à frente suas pesquisas quando vir de quem se trata. Se alguma vez teve a intenção de ser um ator, agora é o momento. Richard sacudiu o pó da túnica, passou uma mão pelo cabelo e adotou o ar de confiança e autoridade a ponto de sobejar uma situação tão ridícula quanto aquela enquanto rezava para que sua imprevisível mulher com semelhante veia vingativa se mantivesse calada. —Malinder! —sir John chegou até eles ofegando. O sangue manchava a manga de sua túnica e l gotejava pelos dedos—. O que é o que fazem? Pretende pôr em perigo outra vida de minha família, tendo a meio mundo por testemunha? Com um gesto da mão indicou a seus homens que rodeavam ao culpado. —Sir John… o que posso dizer? —Richard também tentou usar todo o talento de ator que pudesse ter. Uma desculpa, um toque de humor, uma amostra de ira—. Graças a Deus que não está gravemente ferido. —Não graças a você — ele replicou. —Não sou o culpado, milord — explicou, abrindo as mãos—. Aqui têm o culpado. E de um puxão apresentou David ao seu tio. —David! —o rosto de sir John se congestionou de sangue ao ver seu sobrinho—. David? —repetiu com aspereza.


Fingindo-se cheio de confiança e mau humor, David inclinou a cabeça desafiante. —Só estava praticando. Eu tenho que participar do torneio e não queria deixar em mau lugar meu sobrenome contra os arqueiros de Glamorgan. —Disparou nas pessoas? Ele deu de ombros com insolência. —É um insensato! Feriu-me com uma flecha! —Foi um acidente. Já lhe disse que estava praticando — ele repetiu, e olhou a roupa de seu tio—. Acho que a ferida não é grave, senhor. Sir John parecia a ponto de estourar ante tanta insolência e Richard decidiu intervir. —Praticando com tanta gente ao redor? Suponho que apontava à águia que sobrevoava a feira agora a pouco, não é? E onde supunha que ia cair a flecha? Poderia ter matado a alguém! —Richard interpretava à perfeição o papel de tutor, mostrando um esplêndido desgosto ante a atitude do jovem—. Visto que vive sob meu teto a pedido de sua irmã, cujos desejos e felicidade são minha prioridade, aceitará minha autoridade e meu julgamento. Não penso em tolerar desobediência ou indisciplina! —sem avisar lhe deu com a mão um bom golpe em um lado da cabeça que o derrubou no chão, nem tanto pela força quanto pela surpresa, mas conseguiu o efeito desejado—. Poucas vezes vi uma amostra de tal soberana estupidez em um jovem que aspira ser cavalheiro. Deveriam ter te aplicado a necessária dose de disciplina faz tempo. Hoje poderia ter tingido suas mãos de sangue. —Mas não foi assim. David permaneceu sentado no chão. —Não. A sorte sorriu para você, com uma boa fortuna que não merece. Sir John só está ferido. Se levante. David o fez e seguiu mostrando-se tão irracional e descortês como antes.


—Sir John poderia fazer que o açoitassem até seu último fôlego. Converteu-nos em objeto de especulação de todas as famílias da Welsh Marches — Richard o olhou com desprezo e depois se voltou para De Lacy —. Apresento-lhe de novo minhas desculpas, sir John. Talvez você mesmo deseje lhe aplicar o castigo. —Sim… bom — ele permaneceu em silêncio um momento mais—. Não é necessário — acrescentou, já sem a agressividade de antes—. É jovem e aprenderá a lição. Richard respirou fundo, consciente da fúria que Elizabeth continha com muita dificuldade. Como era possível que John de Lacy não se desse conta? Mas aparentemente não tinha reparado na insignificante figura coberta com uma capa e com o olhar baixo que aguardava atrás de Robert Malinder. —Necessita que o atendam, milord — ele disse, apontando seu braço —. Ainda sangra. —É uma ferida superficial — respondeu olhando para David—. Já é hora de que volte para Talgarth. Necessita de disciplina, bons modos e treinamento antes que lhe permita ocupar meu lugar. A seguir inclinou a cabeça como reconhecimento ante os Malinder e desceu a colina em direção ao torneio de arqueiros que já tinha começado. David manteve a cabeça baixa e movia a terra com um pé até que seu tio se perdeu entre o povo. —E então? Conseguimos? — perguntou sem levantar a cabeça, mas sorrindo de orelha a orelha. —Acredito que sim. Interpretou à perfeição seu papel! —Richard sorriu enquanto recolhia o arco e as flechas—. Acredito que tem um veio de comediante. Agora estou em dívida contigo. E graças a Deus, tem a cabeça dura! David se pôs a rir para tirar a tensão.


Tudo tinha terminado, disse-se Richard com um suspiro de alívio. Ao menos até que chegassem em casa e tivesse que enfrentar à ira de Elizabeth. Em Ledenshall, Elizabeth abandonou a capa, asfixiada de calor, e o chapéu de veludo, mas ficou com a túnica e as meias de Richard. No caminho de volta para casa tinha começado a refletir sobre seus atos. E não é que lamentasse o que tinha feito. Não podia lamentá-lo! Mas os perigos que implicava uma ação tão pública e provocadora lhe tinham ficado nitidamente expostos. Sem a intercessão de seu marido e seu irmão, as coisas teriam ido de um modo bem diferente, particularmente para Richard, apesar de seu bem esboçado plano. Mesmo assim, não podia arrepender-se do que tinha feito. —Não sei o que lhe dizer. A voz de Richard não continha uma condenação, mas sim mais uma aceitação o que só serviu para fazer crescer seu sentimento de culpa. —Não pode dizer nada. Sei o que todos pensam — ela levantou o queixo—. Mas se não tivessem me detido, a morte de Lewis estaria vingada. —E a você teriam levado coberta por correntes e haveria uma corda lhe aguardando. De todo modo não estou convencido de que vamos ficar impunes. Muita gente viu o ocorrido. Ninguém interveio, nem se atreveu a apontar com o dedo, já que sir John parecia ter engolido nossa farsa, mas não acredito que as coisas acabaram por aí. Tenho certeza que ouviremos falar que o arqueiro não era David, a não ser a senhora de Ledenshall disfarçada. —Sybil de Lacy se vingou cravando uma adaga no coração de seu inimigo! —Mas vocês não é Sybil de Lacy! E ela, seja quem for, deveria ter sido mais preparada! —exclamou, batendo um punho na mesa—. Suponho que ela também deve ter sido a fofoca da fronteira.


Era verdade. Ela equivocou-se permitindo que as emoções controlassem seus atos. A culpa cresceu, mas não deu seu braço a torcer. —Pois deixe que falem. Não tenho nada mais a dizer. Vou deixar que você continue destruindo minha moral, minha família e meu caráter, a favor de sua moral acomodada. Eu não estou com humor para arrependimentos — e acrescentou depois—. Ninguém se preocupou em saber se estava bem depois de que me jogasse contra o chão! —Você mereceu — ele espetou. E se era possível caminhar graciosa vestida com túnica, meias e botas, Elizabeth o fez. Não podia adiar mais. Uma vez que seu gênio, e o dele, esfriaram, Richard enquadrou os ombros e seguiu sua mulher. Ela já tinha tirado seu traje emprestado, como se de repente a lembrança do dia fosse incômoda, e o tinha jogado sobre a cama. Obviamente o estava esperando, com as costas retas e o queixo levantado. Embora não o olhasse de frente, falou antes sequer de que tivesse fechado a porta. —Não o diga. Sei que não deveria tê-lo feito. Sei que deveria ter pesado a satisfação pessoal e as consequências… e não o fiz. Mas mesmo assim, desejava ter tido êxito. Richard não se aproximou dela. Permanecia com as costas contra a porta e sua voz soou completamente fria, apesar de que seu gênio ardia ainda. —Se tivesse conseguido, todos nós estaríamos agora no centro das atenções. Você chegou a considerar em profundidade as repercussões políticas deste assassinato? Com tantos senhores presentes, acompanhados por suas escoltas, com a palavra guerra nos lábios e no coração, a morte do De Lacy com uma flecha lhe transpassando o coração teria sido a chama que acenderia o confronto. Teria sido a primeira feira de solstício de verão que teria como resultado um banho de sangue… com os Malinder e Os de Lacy no olho do furacão. Gela-me o sangue só de imaginar.


Elizabeth seguia sem o olhar. —Eu só podia pensar no Lewis. Eu errei. Aquela confissão era transcendental, e Richard deixou vagar um pouco seus pensamentos. Parecia sentir-se tão só e triste… assim que sua esposa tomava emprestadas as roupas de Lewis quando desejava escapar de ser uma moça? Até que Philip teve que convencê-la empregando a força de seu braço, sem dúvida. A ira que tinha cozinhado em seu interior durante toda a tarde afrouxou um pouco e sentiu a necessidade de tirar um pouco de peso dos ombros. Ela errou, sim, e tinha estado a ponto de arrastá-los ao desastre, mas compreendia a motivação e a dor que a tinham empurrado a fazê-lo. Sem fazer ruído se aproximou dela, abraçou-a e a apoiou contra seu corpo enquanto contemplava o entardecer. Em um primeiro instante ela permaneceu tensa, mas logo relaxou com um suspiro. —Acreditava que ainda estava muito zangado — ela disse, mortificada. —E o estou, mas me parece que não há nada que possa lhe dizer que você mesma não tenha dito. Que sentido teria então a criticar com minhas palavras se você mesma já tinha feito esse trabalho? Também eu não posso fazer nada que não seja confiar em que recupere o juízo, além de encerrá-la na torre ou não tirar a vista de cima de você nem por só um segundo — ele apoiou o queixo em sua cabeça e percebeu que por mais estranho que pudesse parecer, estava tendo uma ereção—. Sabe que há quem a chame de a Fera Negra dos Malinder? Não sabia se estava sendo engraçado ou se desmotivava a notoriedade de sua esposa. —O que? Elizabeth se virou para olhá-lo. —Aparentemente há quem viu de verdade o incidente, e como usava uma túnica e uma capa escura… eu ouvi falarem quando partíamos.


—OH! — ela permaneceu um instante em silêncio—. Eu pus David em perigo, não é? Quando assumiu a culpa em meu lugar, quero dizer. —Você pôs a todos em perigo. Seu tio já deve estar em Talgarth repassando o ocorrido na cabeça, dando voltas nos detalhes que não casam. Como explicar que estivéssemos todos na colina vendo David lançar uma flecha que acabou cravando-se em seu tio? Sir John chegará provavelmente à conclusão de que fui eu quem o convenceu a tentar. Uma conspiração familiar, digamos: que fosse um De Lacy quem matasse a outro De Lacy — mas de repente se deu conta do que acabava de dizer—. Mas isso já foi o que aconteceu com Lewis. Perdoe-me, Elizabeth. Não pretendia ser tão áspero. Ela suspirou. —Sinto — ela o disse em voz muito baixa, mas com um sentimento profundo. —Eu sei. Sabia que o lamentaria assim que deixasse que essa sua cabeça dura governasse seu coração. Ela não respondeu. —Não deve voltar a fazê-lo — continuou Richard em voz baixa—. Nem isso, nem qualquer outra coisa que possa ferir sir John ou comprometer nossa posição. Uma faísca é tudo que se necessita para incendiar a Welsh Marches. —Só queria fazer algo… fazê-lo sofrer como Lewis sofreu. E você não… Richard decidiu não reabrir a ferida e permaneceu em silêncio, abraçando-a, rodeando a de calor e consolo. —Tem que me prometer isso Elizabeth. —De acordo. —Diga. —Prometo que não farei nada que ponha em perigo a vida de sir John. —Embora não faça nada para salvá-lo se for o caso. Respirou fundo outra vez.


—E prometo não fazer nada que comprometa sua honra. É o suficiente? —Com isso basta. Quantos problemas me causou! —Mm… e tomei emprestadas suas roupas. —É uma mulher valente, Pentesilea. Uma verdadeira amazona, com ou sem suas roupas. Mas da próxima vez, deixe em casa o arco — a fez virar-se entre seus braços e lhe passou mão pela bochecha—. Eu a machuquei ao derruba-la? Foi tudo o que me ocorreu. Elizabeth suspirou e apoiou a bochecha em sua palma da mão. Enchia-lhe o coração que estivesse de acordo e que se preocupasse. Embora não a amasse, aquela doçura era já mais do que tinha sonhado, e lhe estava agradecida por isso. —Não. Um par de arranhões, nada mais. E eu me merecia isso. —Nunca — ele respondeu, e a beijou com suavidade nos lábios. Em Talgarth, Nicholas Capel respirou fundo, colocou sua túnica negra e se concentrou no que tinha diante de si. As cartas que tinha sobre a mesa eram italianas, de cores intensas e carregadas de poder. O Louco. A Imperatriz. O Enforcado. A roda da Fortuna. Todas elas, em suas mãos, trabalhariam para Nicholas Capel. Estudou a carta que tinha na mão direita. Sabendo o momento exato do nascimento de Elizabeth, não tinha sido difícil descobrir sua carta astral e assim poder olhar mais de perto seu destino. Recordou da imagem que tinha visto em sua bola de cristal: Richard Malinder e Elizabeth de Lacy frente a frente, as mãos entrelaçadas, a ponto de beijar-se. Seus corpos se uniam ao encontrarem-se seus lábios, tal como ele tinha esculpido em cera. Satisfeito, considerou a pergunta que ia fazer. —Está grávida? Uma breve pausa. Sua respiração mal movia a chama que tinha junto ao braço. —Será um varão? Uma a uma foi virando as cartas para revelar sua mensagem. Arregalou os olhos.


—Sim! Acariciou suavemente a superfície das cartas como se pretendesse absorver seu poder. Tinha chegado o momento de agir. Se Elizabeth era fértil, se já levava em seu ventre um varão como diziam as cartas, cada coisa estava em seu lugar para que Malinder morresse. Apagou a vela. Do mesmo modo se apagaria a vida de Malinder. Nicholas Capel sorriu.

Quatorze O dinheiro estava trocando de mãos entre Richard e um pastor quando Robert entrou no salão principal de Ledenshall. —Quem era esse? —Um pastor de Pembridge — Richard respondeu em um tom pensativo—. Um grande grupo de invasores galeses está preparando algo, ou assim pensa ele. Imagino que deveria ir dar uma olhada. Uma demonstração de força também não estaria ruim. Ao menos serviria para deixar de lado a catástrofe em seus pensamentos. Livrou-se de uma batalha em Northampton, um choque desesperado no qual o exército dos York tinha saído vitorioso. O rei


Enrique, bloqueado e em inferioridade numérica, tinha caído prisioneiro nas mãos dos partidários dos York, e sua esposa e seu filho tinham fugido para proteger sua vida. A ideia de que o duque de York podia chegar a ser rei da Inglaterra o espreitava na vigília e no sono. Percorreram os caminhos mais próximos com uma patrulha bem disciplinada e armada. Nada. Tudo tranquilo. —Imaginações de um pastor bêbado, eu suponho — comentou ao final. Começava a chover, e as nuvens que surgiam pelo oeste ameaçavam mais—. Voltemos para casa. Não vamos conseguir nada ficando por aqui e com este tempo. Os galeses devem ter partido faz dias, se é que estiveram aqui. Entretanto, Richard sentia uma espécie de pressentimento que não o deixava em paz. Talvez a tranquilidade fosse exagerada. Ao seu sinal, a patrulha pôs aos cavalos a galope. Um pouco mais adiante, avançando devagar para eles, um grupo de viajantes apareceu depois de uma curva do caminho com carroças carregadas, um pequeno rebanho de gado e um grupo heterogêneo de cães. O lugar no qual os grupos iam se cruzar não era o melhor, já que se estreitava com as árvores, que ao não havia sido destruído tinham sido invadindo, além das ervas daninhas e o mato rasteiro. Richard fez um gesto a seus homens para que se detivesse e se ficassem em um lado e assim dar passagem aos viajantes. O gado foi o primeiro a passar, com a cabeça encurvada e uma frustrante lentidão, até que um feroz latido partiu de entre os arbustos a sua esquerda. Seguiu um agudo grito de dor e uma algazarra de ruídos tão ensurdecedora quanto uma matilha de cães atrás de um rastro. O resto do grupo abandonou seus deveres de vigilância e correu para socorrer seu companheiro. —Cuidado! Emboscada! Atenção às árvores!


Richard elevou a voz por cima do vozerio quando reconheceu o que acontecia. Por que tinha demorado tanto em perceber? Figuras a cavalo saíram de entre as árvores de ambos os lados do caminho enquanto uma chuva de flechas que partiam do bosque começou a cair sobre eles como se fosse chuva. Não havia lugar para que os atacantes ou as vítimas tomassem posições no caminho enquanto o gado continuasse entre eles, e ao dar-se conta disso e depois de um silencioso sinal, quem tinha preparado a emboscada abandonou o seu plano e se retiraram de novo para o bosque. —Por ali! Richard apontou para a direita ao mesmo tempo em que puxava a espada. Os soldados se dividiram em dois grupos e saíram atrás dele, lançando-se à floresta com gritos e o retumbar dos cascos dos cavalos. Tudo terminou tão rapidamente quanto tinha começado. Ágeis e ligeiros, impossíveis de apanhar entre tanta o mato, os pôneis e seus cavaleiros se fundiram com o bosque, de um modo que Richard não teve outro remédio que convocar a seus homens para voltar à estrada. Um dos pastores tinha o braço atravessado por uma flecha, e um dos soldados tinha sido atingido no ombro, justo acima do colete de couro, mas nenhuma das duas feridas era grave. —Deviam ser os invasores galeses que lhe falaram. Ao menos temos um deles. Uma vez reagrupados para voltar para casa, Robert desmontou a borda do caminho para virar um cadáver que não tinham visto até então. —Não tem emblema nem cores distintivos. Deve ser um galês sim. Richard se agachou junto ao corpo. Cabelo escuro, olhos frágeis e entrecerrados pela morte, o assaltante era alto e estava bem formado, diferente da constituição mais musculosa dos galeses. —Não o conheço — ele disse. Ia levantar quando o brilho de um objeto de ouro chamou sua atenção. A adaga do morto, que ainda permanecia presa ao cinturão da


espada com sua capa de couro lavrado, o punho muito decorado e adornado com pedras semipreciosas ao estilo italiano, com uma proteção finamente entalhada. Soltou o fecho que o prendia ao cinturão. Aquela peça era única, nada a ver com a adaga que levaria um simples soldado. Ou um ladrão galês. —O que você acha Rob? Haviam retornado a marcha e Richard seguia remoendo o ocorrido. —Não sei o que pensar — respondeu seu primo—. Um ataque surpresa de ladrões oportunistas? —Eu diria que não — muito sério, ele abaixou-se para evitar um galho baixo, e voltou a contemplar a adaga que levava na mão. Certamente não parecia o tipo de arma que pudesse pertencer a um ladrão vulgar —. Era um grupo grande, bem escondido e no lugar mais vantajoso para seus propósitos. Uma verdadeira emboscada, mais que um encontro fortuito. Mas se éramos nós seu objetivo, ou se o era o grupo de viajantes e seu gado… —Eu sei bem no que apostaria! —E eu. Se pudesse descobrir a identidade desta arma… Richard a guardou na bota. —Eu diria que alguém lhe odeia, primo. —E eu acredito nisso. Richard pôs a seu cavalo num trote. Voltaria sobre isso mais tarde, quando tivesse tempo para pensar, mas a impressão de que aquilo não tinha sido um ataque aleatório ganhava força. Alguém ansiava sua morte, e não por acaso, e sim com determinação. Elizabeth também se sentia incômoda. Richard estava ensimesmado, de mau humor e com pouca paciência. Tinha ocorrido algo que ele não lhe estava contando. Sabia da derrota do rei em Northampton, e que tinha sido feito prisioneiro, e isso bastaria para que Richard andasse taciturno. Também havia a possibilidade de que as tensões entre eles não tivessem desaparecido desde sua tentativa de atravessar com uma flecha o negro coração de seu tio. Mas havia algo mais.


Richard estava tremendamente preocupado, até o ponto que tinha a sensação de estar vivendo permanentemente sob nuvens de tormenta. Assim Elizabeth se sentia mal. Nos últimos dias ela tinha dado a pensar que tinha uma possibilidade para tirar seu senhor daquele mau humor… se tivesse um herdeiro pelo qual lutar, um futuro que considerar não só para si mesmo e sim para um filho que levasse seu sobrenome. Tinha que acelerar as coisas e daí o saquinho de nozes que levava no cinturão, já que qualquer mulher inteligente sabia que levar uma noz com sua casca ajudava a ficar grávida. Esse desejo também explicava as sementes de papoula que jogava no vinho. Era simplesmente questão de tempo. Quanto ao papel que Richard tinha que interpretar naquela obra, não podia queixar-se. Não mostrava reticência alguma para compartilhar seu leito. Desejava-a, e sua virilidade estava fora de qualquer dúvida. Mas algo faltava: ternura, atenção talvez. Havia uma falta de dedicação apesar de sua invariável delicadeza. E esse era o problema. Enquanto antes a tomava sempre com uma paixão irrefreável, às vezes com humor, sempre com consideração por seu próprio prazer, agora se mostrava… distante. Continuava beijando-a, abraçando-a, levando-a para o prazer… mas era como se contivesse tanto seus pensamentos quanto suas reações. Como se temesse abrir-se para ela dizendo muito ou mostrando muitas emoções. E de seus pensamentos e preocupações, dos sonhos que turvavam seu descanso e das inquietações que lhe faziam franzir o cenho, mantinha-a completamente à parte. Às vezes, quando suas respectivas necessidades físicas tinham sido saciadas,saia sem lhe dar nenhum tipo de explicação e se retirava para seu quarto. Todo isso não deveria preocupar Elizabeth de Lacy, que tinha chegado ali do priorado de Llanwardine sendo uma noiva não desejada. Aquela Elizabeth não tinha ilusão a respeito de seu casamento já que sabia


que não era mais que um acordo prático. Mas agora lhe importava. Encheu uma terrina com ervas perfumadas para tranquilizar-se e esmagou os ramos de lavanda com as mãos para separa-los das flores. Com firmeza, em silêncio, inesperadamente, sem pretensão, o amor tinha se apoderado dela do mesmo modo que aquele penetrante aroma enchia seus sentidos. Lembrava-se de tê-lo admitido, embora a contra gosto, no dia que Richard pagou a quantidade apostada depois dela ganhar o concurso de arco e flecha. Desde então o amor que sentia por ele, forte e dominante, tomou conta de tudo, enchendo cada espaço por menor que fosse, em seu coração e em sua cabeça, e já não podia escapar dele. E não era apenas pela beleza de seu rosto ou de seu corpo. Nem por como cuidava dela, por seu apoio incondicional quando a dor a dobrou depois da morte de Lewis, ou quando a deixou louca até o ponto de atentar contra a vida de seu assassino. Também não era por sua honra, ou seu sentido da justiça, nem por sua capacidade de enfrentar a uma crise e conseguir tirar proveito dela. Recordava do desastre da feira de solstício de verão com um estremecimento de horror. Recordava sua disposição sem fissuras de que ela chorasse de dor, empapando a túnica, sem que nem por um instante mostrasse esse sentimento tão masculino de desconforto ante os sentimentos de outro ser humano. Então, a que se devia seu amor? Não podia dizê-lo. Tudo que sabia com certeza era que o amava. Seu corpo firme combinado com suas ternas carícias. Ou a paixão que se desprendia de sua boca e de suas mãos e que a fazia arder. Ele não a amava, é claro. Apertou com mais força os ramos de lavanda. Mas sentia falta do homem que falava com ela. Que ria com ela. Que sabia despertar seu corpo para um prazer que nem sequer sabia que existia. —Maldita seja sua sombra… — murmurou entre dentes. Sentia falta da intimidade que tinha começado a dar por garantida. E seu coração doía


ao suspeitar que Richard não fosse feliz e sentia-se incapaz de fazer algo a respeito. Como ia poder fazê-lo se ele nem sequer lhe dirigia a palavra? Doía-lhe ser incapaz de romper sua carapaça. Gwladys, a dama de todas as virtudes e todos os talentos, teria sabido acalmá-lo com suaves palavras e elegantes beijos! Richard havia voltado a ausentar-se. Ia percorrer suas terras e nem sequer lhe havia dito aonde ia ou por que. Ela sentia falta dele. Sentia-se sozinha sem ele. E desesperadamente inquieta por uma razão que não conseguia imaginar. E foi precisamente isso o que a empurrou a tomar uma decisão: ia a Bishop’s Pyon. O que Richard podia ter que objetar a isso? Por alguma razão, de novo essa incerteza, sentia a necessidade de voltar para lugar no qual tinha passado seus anos de infância. —Vou a Bishop’s Pyon — disse a Jane—. E não vá me dizer que Richard não o deixaria, porque ele não está aqui para aprovar ou desaprovar. Eu vou. E aquela desobediência lhe proporcionou um prazer inaudito. Quando Ledenshall apareceu por fim diante de seus olhos, foi difícil para Richard r livrar-se da nuvem negra que parecia tê-lo engolido fazia dias. Gostaria se devesse apenas ao aprisionamento e o estado mental do rei, embora fosse verdade que ele nem sequer reconhecesse seu próprio nome, e seu filho ainda não tinha completado dez anos. Aparentemente não havia nada no caminho do duque de York até o trono. Seria possível que ele reconhecesse o duque como rei da Inglaterra? Nunca! Nem vivo nem morto! Mas no momento essa não era sua principal preocupação. As repercussões do conflito na Welsh Marches eram mais imediatas, já que a lei e a ordem se desintegraram alarmantemente e a segurança já não podia ser garantida. Seu estômago revolvia só ao recordar a cena que seus homens e ele acabavam de deixar atrás e que tinha sido incapaz de evitar. Os corpos de


inocentes viajantes esparramados sem vida em uma sarjeta. O sangue e os membros enredados, mulheres, crianças e homens. Roubados, nus e passados na faca. Não tinha estado ali quando os ladrões atacaram e o resultado tinha sido que os viajantes tinham pagado com a vida. A responsabilidade de tudo isso lhe pesava sobre os ombros. E se Elizabeth tivesse caído presa de semelhantes monstros? Melhor nem pensá-lo. E quanto ao ataque dos galeses… Teria sido fortuito, ou se tratava de uma emboscada perfeitamente preparada na zona de mais vegetação e onde o caminho se estreitava que tinha ficado sobrepujada pela inesperada chegada de um rebanho? Seria ele seu objetivo? E se fosse assim, de quem era o ouro que tinha pagado aos mercenários? Um nome seguia aparecendo persistentemente em seu pensamento. Mas não havia modo de saber, portanto por que permitia que continuasse avinagrando seu humor? Demônios… deveria tê-lo deixado atrás fazia dias. Ledenshall estava diante dele, familiar, acolhedor, e sentiu que seu espírito se aliviava. Estava há muito tempo deixando que tudo aquilo o afetasse. Melhor deixar de lado seus temores pelo futuro, manter firme sua autoridade na Welsh Marches e limitar-se a esperar que os acontecimentos se desenvolvessem em Londres. Suas profundas reservas sobre o futuro rei não afetariam em nada o confronto entre partidários dos York e dos Lancaster. Mas antes de tudo tinha que falar com Elizabeth, o que já deveria ter feito fazia semanas. Um faisão saiu assustado dos arbustos que cresciam ao lado do caminho e voou o que fez seu cavalo dar uns coices e se deslocar nervoso para o outro lado. Como se a cor ruiva do animal tivesse despertado suas lembranças, a sua memória acorreu à lembrança de Gwladys. Não podia


haver duas mulheres tão diferentes quanto Elizabeth e ela. Uma tão bela que podia lhe deixar sem respiração. A outra… Mas que desastre tinha sido seu casamento com Gwladys. Assaltada permanentemente por inexplicáveis temores e nervos que não tinham nada a ver com a realidade, sua mulher sempre o tinha olhado como um coelho que observava uma águia. Temia-o. Possivelmente temesse a todos os homens. Ao menos temia e rechaçava a relação íntima entre marido e mulher, a tal ponto que deitar-se com ela tinha sido um pesadelo para ambos. Por mais ternura, por mais paciência e consideração que mostrasse apesar de sua juventude e inexperiência, Gwladys não suportava que a tocasse sem estremecer-se de rechaço, até o ponto de passar dias trancada em seu quarto bordando, escutando música e rezando. Seu contato com o povo de Ledenshall se reduzia ao mínimo. Era tão bela quanto a imagem da virgem que havia na capela, e como ela carecia de alma, com seu sorriso vazio e seus olhos inexpressivos. Gwladys sempre se mostrou fria e insensível. Quando se deitava com ela tinha a sensação de fazê-lo com uma estátua de pedra até o ponto de que se proteger com os travesseiros, cobrindo-se com as mantas até o pescoço. Se não fosse uma lembrança tão dolorosa para ele, o teria feito rir. Mas Elizabeth não era nem fria nem insensível. Não rechaçava suas carícias. Tinha provado que era uma mulher tremendamente complexa. Decidida, sincera até um ponto quase alarmante, mas ao mesmo tempo vulnerável, agoniada pela tristeza de seu passado e as crueldades do presente. Gwladys tinha sido bela, mas Elizabeth… diante de seus olhos se materializou a imagem de umas maçãs do rosto elegantes, uns magníficos olhos profundos como a noite, uns cabelos, que embora fossem curtos, já dava para afundar as mãos em suas sedosas mechas, a suave linha da mandíbula e o queixo. Elizabeth possuía uma atração muito pessoal, e


pensar nela o fez estremecer de desejo. De repente a necessidade de vê-la, de tocá-la, ficou quase insuportável. Sem questionar a pressa Richard aplicou as esporas nos flancos do cavalo, esporeando pelos remorsos que sentia por seu comportamento daquelas últimas semanas, nas quais deliberadamente a tinha afastado dele para que não tivesse que suportar a carga das preocupações que constantemente o assaltavam. Não tinha sido nem um bom marido nem um amante atento, mesmo sabendo que seu comportamento a magoava. Pensar em como tinha aceitado as demandas de seu corpo lhe provocou uma imediata e surpreendente luxúria. Já era hora de arrumar o que tinha quebrado. Elizabeth merecia outro comportamento de sua parte, e ao aproximar-se da porta da muralha, deu-se conta de que sorria. Mas o sorriso desapareceu de seu rosto assim que entrou em casa e se encontrou com mestre Kiplin, que fez uma reverência como saudação. —Milord. Acreditava que era a senhora… mas possivelmente tenha decidido ficar para passar a noite ali. Mal há luz. —Onde ela está? —Foi a Bishop’s Pyon milord. —Bishop’s Pyon! —O irmão de milady foi com ela, milord — ele contrapôs preocupado por sua resposta—. E o comandante Beggard a acompanhou com uma escolta armada. —O que? —a resposta foi tão violenta quanto o ataque de uma serpente—. E se pode saber por que demônios teve que ir ao Bishop’s Pyon? —Bem milord… —Os caminhos são perigosos. Há mais de uma dúzia de bandos beligerantes na área. Vou procura-la. Montou de novo em seu cavalo e partiu para Bishop’s Pyon com um medo terrível no coração.


Quinze Elizabeth não passou a noite em Bishop’s Pyon. Na verdade não sabia por que lhe tinha ocorrido à ideia de ir até lá, um inexplicável desejo que só podia atribuir a seu nervosismo naqueles últimos dias, ou ao desejo de reviver alguns dos momentos mais felizes de sua infância, quando sua mãe ainda vivia. A breve visita não lhe proporcionou satisfação alguma, e se alegrava de voltar para Ledenshall. Além disso, possivelmente Richard já houvesse retornado. Havia outra razão pela qual desejava ir de Bishop’s Pyon: seu inexplicável encontro com Nicholas Capel. Ele não tinha lhe explicado por que estava ali; apenas que viajou para atender uma solicitação de sir John. Mostrou-se educado e respeitoso. Inclusive tinha perguntado por sua saúde enquanto a olhava com um profundo interesse, particularmente ao seu rosto, mas também da cabeça aos pés. Tinha sido difícil não se encolher


diante de semelhante exame. Inclusive tinha chegado a segurar seus pulsos sem que ela pudesse evitar, para olhar a fixamente à seu rosto como se pretendesse ler algo nele. —Mestre Capel! —exclamou, dando um puxão, mas ele não a soltou. —Da última vez que nos vimos, milady, em Talgarth sua saúde me preocupou— ele disse com suavidade—. Só desejava me convencer de que já se encontra bem. —Sim eu estou bem. Por que não ia estar? —Por nada, milady. Eu fico mais tranquilo. E a soltou. Não a tinha ameaçado em nenhum sentido, e, entretanto… seguia tendo consciência de sua tentativa de fazer um mapa astral, e um calafrio lhe percorreu as costas. Logo chegou David, e pôs um ponto final a qualquer discussão pessoal. —Seu tio gostaria fosse visita-lo em Talgarth, milady. —Obrigado, mestre Capel. Eu irei considerar. Mas é óbvio não ia fazê-lo. Não tinha nada que dizer a sir John. E sim, se alegraria de estar de volta a Ledenshall. Era estranho que já o considerasse sua casa. E que sentisse aquele intenso desejo de ver Richard esperando-a no pátio, disposto a descê-la da égua com seus braços fortes, sorrindo só para ela. O que tinha acontecido em tão pouco tempo? Nenhum outro homem lhe tocava tão fundo quanto ele. Nenhum outro homem podia lhe roubar o coração e o fôlego, lhe inflamar o sangue com apenas um olhar, com o menor toque de suas mãos. Nenhum outro tinha roubado seu coração como aquele homem fronteiriço que tinha sua felicidade e sua satisfação na palma da mão, que parecia agora decidido a criar uma distância entre eles que antes não existia, e que Deus sabe onde estaria naquele momento! Jamais tinha amado a um homem como amava a Richard Malinder. Ai está! Já tinha usado as palavras exatas, embora tivesse sido apenas para


si mesma. Sentiu que o sangue se amontoava nas suas bochechas imaginando-se de novo em seus braços, beijando-o, com ele a envolvendo em um milagroso estado de felicidade. Inclusive podia até mesmo saboreálo, cheirá-lo, imaginar suas mãos sobre sua carne nua, de tal modo que não podia deixar de pensar no deleite que era capaz de lhe proporcionar o Malinder Negro. E nesse momento, quando já se aproximavam à colina cuja descida os levaria às portas de Ledenshall, ali estava ele, a todo galope. Salpicado de barro e suado, assim como à companhia que o escoltava, com os pendões Malinder ondulando no ar sem vento. Ali estava, como se seus pensamentos tivessem podido invocá-lo por arte de magia. Tinha o cenho franzido e os dentes apertados. —É Richard. Vem nos receber — disse David,mesmo sabendo que não era necessário. Elizabeth sentiu que seu coração dava um salto, e que lhe dava trabalho respirar, como já sabia que ocorreria, e seu rubor se tornou quente enquanto se preparava para o confronto. Mas Richard se limitou a colocar-se junto a eles, de modo que a discussão ficava postergada. Limitou-se a saudá-la com uma brusca inclinação de cabeça, de modo que ficava claro que não estava de humor para falar do que fosse e Elizabeth não tentou iniciar uma conversa com ele. Para que? Melhor deixar para David. Quando chegou a seu quarto, Elizabeth estava furiosa. Meia hora de subida acompanhada pelo bate-papo de seu irmão e seu marido tinham esgotado sua paciência. Tirou a capa e as luvas e as atirou na cama. Eles a tinham ignorado por completo, os dois. Sob sua displicência estava furioso. Sob a tranquila conversa com o David, a ira fervia. Ela o tinha visto na tensão com a qual segurava as rédeas, no gélido fogo de seus olhos. Pois não ia aguentar! Uma coisa era admitir que o amasse até as últimas consequências, mas se ia ter uma troca sincera de pontos de vista com


Richard, não estava com humor para mostrar-se complacente. Estava cansada, sentia-se ignorada e não estava de bom humor. Primeiro Capel examinando-a como se fosse uma criatura estranha de suas cartas mágicas; depois Richard, cavalgando para seu lado com um cenho de tormenta, sem dúvida furioso por sua decisão de viajar para Bishop’s Pyon. Ia ouvi-la quando se dignasse a aparecer. A porta de seu quarto se abriu. Era Jane, que levava uma jarra de água e uma bacia. —Jane, estou gelada e morta de cansaço. Ela tentou se livrar do mau humor enquanto Jane preparava a água e uma taça de vinho quente, e logo acrescentava uns troncos à lareira. A seguir a ajudou a tirar o vestido, as meias e esquentou seus pés e mãos. Em seguida lhe colocou uns chinelos macios e um roupão que a envolvia em suas acolhedoras dobras desde debaixo de seu queixo até o chão, presa por uma faixa à cintura; depois, tirou-lhe o véu e penteou seu cabelo, que já formava uma cabeleira curta. Quando o vinho já estava quente e o aroma das especiarias enchia a sala, Jane lhe serviu em uma taça. —Deduzo que lorde Richard não está muito contente. —Não, e desconheço a razão. Nosso intercâmbio de palavras foi muito breve no momento — ela tomou um gole—. Suponho que pode ser por minha visita a Bishop’s Pyon… mas não, não está contente. —Mm… Jane tinha se plantado diante dela com os braços na cintura. Elizabeth não tinha reparado nisso, já que tinha o olhar posto no ramo de canela que girava em sua taça de vinho. —Não quer me falar. Só grita comigo como se fosse uma serva, ou um dos cães que se deitam sob seus pés. Como posso o ajudar se não souber o que lhe acontece? — era bom falar do que a estava preocupando há semanas—. Se ele quisesse me contar.·. Também franzindo o cenho, Jane aproximou um candelabro e com ele na mão examinou o rosto de sua senhora. —E agora o que? —perguntou Elizabeth.


—Deixe-me lhe dar uma olhada — ela disse, aproximando mais a luz. As sobrancelhas com seu belo desenho, os olhos escuros um tanto cansados, o rosto oval, agora mais arredondado, mas conservando suas elegantes maçãs do rosto. Deixou o candelabro e pegou a mão de sua senhora para examinar sua palma e percorrer com um dedo suas linhas. —Sei… —Sei o que? Elizabeth afastou a mão de um puxão. Era a segunda vez no mesmo dia que alguém a tratava como se fosse um inseto estranho. —Juro, Jane, que não estou com humor para adivinhações. —Nada de adivinhações milady — o rosto de Jane se enrugou em um estranho sorriso—. Está tudo claro para quem sabe ler. Está grávida. —O que? —Talvez tenha sido uma boa estação para as nozes. —Não! Não pode ser. Eu não sabia… —Desde quando é necessário saber para ficar grávida? Eu o vejo em seu rosto, tão claro como um meio-dia de verão. —Não! —É tolice acirrar-se ao contrário, milady. Já aparece. Está de poucas semanas. —De poucas semanas — ela repetiu, enquanto tentava esclarecer suas emoções. Estava aturdida. Surpreendida. Encantada. —Milord pode não ter falado muito com você, mas o resto parece ter feito com maestria. Elizabeth levou as mãos aos lábios. Seria essa a causa de sua inquietação? O que Richard diria? —Jane! Se for verdade… nem pense em falar disso com alguém. —Não sou dada aos falatórios milady. Elizabeth a olhou meio de lado. —Quando quiser que alguém saiba… quando quiser que ele saiba, serei eu quem vai falar. Jane partiu e Elizabeth permaneceu na cadeira junto ao fogo. A gata saltou para seu regaço como se percebesse sua necessidade de consolo. Não era aquilo o que desejava? Talvez. Era o que Richard queria: um herdeiro


para seu sobrenome. Mas não ia contar. Ainda não. Ela tinha que assimilálo antes. Levou a mão ao ventre e saboreou a ideia com prazer. Mas antes ela e seu marido tinham que esclarecer algumas coisas. Quando Richard entrou em seu quarto sem bater, se achou vítima de um ataque direto e rápido como o de um falcão. Elizabeth se levantou, soltando à gata sem compaixão e avançou para ele. Tinha a cabeça erguida, os ombros para trás e as costas retas. Preparada para a batalha. Suas intenções não estavam claras nem sequer para si mesmo quando fechou a porta, mas o terror que tinha lhe causado sua irrefletida viagem, isso sem mencionar seu empenho em não parecer nem sequer um pouco arrependida, empurrou-o a batalha. Recordava-se de sua decisão anterior de lhe falar, de abrir seu coração, inclusive de aceitar consolo, tudo isso ficou esmagado como uma mosca. Ele tinha se detido apenas para tirar a capa e a espada antes de subir as escadas de dois em dois, seus pensamentos sendo atropelados pela ira justificada. Não ia permitir que por um capricho se desse ao luxo de sair a campo aberto. Não ia permitir que pusesse sua vida em perigo, de modo que o resto de seus pensamentos ficou imediatamente exilado em sua cabeça, seu coração se gelou e o peito contraiu. Era sua esposa, sua mulher, e a amava. Precisava protegê-la. Não podia imaginar sua existência sem ela, e por isso ela não tinha o direito de expor-se desse modo ao perigo. Amava-a apesar de ser teimosa como uma mula. Quando a tinha visto avançar para ele, tudo que queria era subi-la em seu próprio cavalo e levá-la para casa… até que a viu elevar o queixo e o olhar desafiante. E mesmo assim, apesar disso, e por isso, amava-a… Amava? Não! O amor não tinha lugar entre suas emoções. O amor debilitava a um homem, comprometia suas decisões. A vida com Elizabeth seria muito mais fácil se fosse apoiada no respeito, inclusive no afeto.


Mas seu coração se empenhava em estelar se o contra o peito. O que sentia pela Elizabeth era muito mais forte que o afeto, muito mais intenso que o simples desejo de proteger. Mas quando tinha ocorrido aquilo? Não tinha nem ideia. Ainda estava se recuperando da surpresa de seu descobrimento quando suas primeiras palavras chegaram aos ouvidos, tão sutis e conciliadoras como um direto no queixo. —Antes que digam algo, me deixe lhe deixar algo claro, Richard: posso ir a Bishop’s Pyon sempre que me parecer oportuno. Não necessito de sua permissão. Sabia que devia controlar seu gênio, morder a língua. Aquela mulher era seu amor não? Mas de novo o resto de pânico que havia sentido ganhou a partida. Seguia obstinado a sua garganta. Mas ia tentar manter a calma, ser razoável, embora ela não o fosse. E dana-se! —Não se você se põe em perigo com isso, minha senhora. Não é livre para arriscar sua vida e sua segurança quando lhe agradar. Fará o que eu lhe diga. —Em perigo? Eu não estive em perigo! —Em perigo, sim. Pelos ladrões. Pelos bandidos que acampam por todo o país aproveitando-se das circunstâncias. —Confia em Simon não? Ele me acompanhava. —Sim, mas se dá conta de que é um alvo perfeito? Ela voltou a elevar o queixo e um impulso perverso a animou a continuar. Estava disposta a provocar algumas chamas a mais. —Pelo amor de deus mulher! Será que não se dá conta de seu valor como refém? Ou até mesmo como objeto de um roubo. Parou para pensar sequer no valor de sua capa? Nesse maldito broche que fui tão estúpido para lhe dar de presente. Nos cavalos. A lei e a ordem não existem na fronteira com o rei prisioneiro e os galeses entrando e saindo a seu bel prazer. Assim é impossível garantir a segurança dos viajantes. E você nega a existência de perigo! —Está bem! Não tinha pensado.


Elizabeth estava furiosa porque se deu conta de que ele tinha razão. E estava comovida porque se preocupava com ela. —Alguma vez você pensa? —a fúria confiscou seu controle, e ele se encontrou dizendo coisas que prometeu não mencionar—. Hoje mesmo vi o horrendo resultado de um roubo a menos de cinco milhas daqui, em minhas próprias terras. Quer que lhe conte isso? Corpos nus atirados na sarjeta, viajantes inocentes, mulheres, crianças e seus maridos, despojados de sua dignidade, assaltados e saqueados para roubarem suas joias. E a vida. Isso é o que temia que pudesse lhe ocorrer. Seu coração encolheu, mas não deu marcha para trás. Não podia distanciar-se nem dar um passo atrás. Uma fúria cega palpitava em seu interior, ardia em seus olhos pedindo ação. Ambos ficaram olhando-se, fixamente, bufando como gatos se enfrentando em um telhado, dispostos a saltar um sobre o outro. O ar estava carregado. —Não vai se por em perigo — continuou Richard, com o rosto em chamas—. Espero como esposa minha que é, que seja discreta, mas me parece que você não conhece o significado dessa palavra. A Fera Negra dos Malinder é a fofoca da Welsh Marches. Estava perdendo o controle, e ela sabia. —Farei o que me agrade — ela espetou. E esperou contendo o fôlego. Richard a agarrou pelos ombros. —Não, não o fará se com isso se puser em perigo. Não quando sua lealdade entra em conflito com as minhas. E a sacudiu, mas sem perder o controle de sua força. —Ah, era isso. Você pensou que ia me unir a meu tio para participar dos planos dos yorkistas contra você no seio dos De Lacy? —Não, claro que não… —Que injusto! Como se atreve a me desonrar assim? —Se cale… —Não vou calar-me! — ela soltou-se de suas mãos para caminhar até o outro lado do quarto e voltar dali—. Já tive silêncio mais que suficiente de você durante estes últimos dias. É mais do que hora de que me


fale e me conte o que é o que está lhe deixando de mau humor, como uma vespa em um monte de maçãs. —Elizabeth, eu lhe advirto que não vou tolerar… —Não vai tolerar o que Richard? —Elizabeth atravessou o quarto agarrou a lapela de seu marido com as duas mãos e o beijou na boca—. Não? O que é que não vai tolerar? E de novo voltou a lhe beijar. Ambos ficaram desconcertados. Elizabeth foi primeira em recuperar-se e dizer o que tinha na cabeça. O que ia perder? —Eu me importo. Preocupa-me vê-lo infeliz e intranquilo. Aborreceme vê-lo distraído e preocupado. Detesto que me deixe de fora de suas preocupações como se não significássemos nada um para o outro, mesmo que tudo que compartilhemos seja uma cama e não consigamos concordar com quem deve levar a coroa. Voltou a beija-lo apaixonadamente. —E o que têm a dizer agora? —Isto… muito pouco — seus pensamentos ficaram pendurados no ar—. Elizabeth… —Richard! —repreendeu-o. Ainda não estava satisfeita. E ele se encontrou perdido no brilho de seus olhos, e sem saber como começou a derramar as palavras que tinha destilado em seu coração enquanto voltava para Ledenshall. Os sentimentos que o tinham lançado a essa fúria irracional quando descobriu sua ausência. —Será que não se dá conta de que a amo? — E como ela ia dar-se conta se nem eu mesmo sabia? —. A possibilidade de perdê-la, ou de que algo possa lhe ocorrer me destroça. Não tem nada que ver com a política, nem com as alianças de sua família. Eu dou a mínima que seja partidária dos York ou dos Lancaster. Se a atacassem, se lhe fizessem mal, eu mesmo acabaria ferido. Se a assassinassem… viver sem você seria impossível. Eu te amo…


Era muito estranho ouvir-se dizer aquelas palavras em um quarto silencioso. Esperar por sua resposta… —Ah, Richard… Não podia ler nada em sua expressão. Tudo que fez foi umedecer os lábios com a língua. Ele pegou suas mãos nas dele. —Eu te amo, Elizabeth, embora não possa dizer por que cheguei a amar a uma mulher tão dogmática e teimosa como você. —O mesmo eu posso dizer de amar um homem arrogante e dominante que quer me impor obediência a todo custo. Ele escutou sua resposta e lhe custou um momento ser capaz de assimilar uma declaração de amor tão surpreendente como aquela. Na verdade, como tinha sido também a dele. Mas de novo foi Elizabeth quem se recuperou antes. Respirou fundo, deixando claro que sua exasperação era naquele momento mais evidente do que seu amor. Dava a impressão de que ainda não compreendia nada. Como podia ser tão lento? Ia ter que deixar-lhe claro como a água! —Eu te amo, Richard Malinder, e que Deus me ajude! E agora o desafio a que permaneçam em silêncio. Tolo… meu muito adorado tolo. E em um segundo estava em seus braços. Quem fez o primeiro movimento não se poderia dizer, mas esse foi o resultado. —Estou sujo. —Não me importa. Eu também estou. Caíram na cama. —Temia por você. Não podia suportar lhe perder. Te amo. —Demonstrem-me isso. Demonstre-me o quanto. —Vai vê-lo o agora mesmo. A cabeça teve um papel muito pequeno no que ocorreu a seguir. Foi uma necessidade absoluta, um fogo que ardia entre os dois, que consumia e abrasava todas as suas diferenças. Beijos desesperados, mãos movendo-se desmandadas, roupas que tiradas de qualquer maneira até que não houvesse nada que os separasse. As mãos de Elizabeth, suaves como a seda sobre seu peito, sobre seu ventre, em seus quadris, agarrando sua ereção, estiveram a ponto de fazê-lo perder o controle.


—Não! Ainda não! E respirou fundo para recuperar o domínio de seu corpo. Agarrando-a pelos pulsos, Richard os segurou por cima da cabeça enquanto devorava seus lábios. E a seguir, antecipando essa mesma doçura entre suas coxas, e porque já não podia resistir mais, com um movimento decidido a penetrou. —Richard… A voz da Elizabeth se dissolveu naquele fôlego quebrado e arqueou o corpo ao florescer as sensações e obrigá-la a pedir mais. —Me olhe, Elizabeth. Fique comigo O beijo que lhe deu foi todo ternura, todo delicadeza, apesar do tumulto que os tinha unido naquele momento. —Sim… — murmurou quando começou a mover-se dentro dela, a possuir e encher, e se estremeceu sob seu peso, já sentindo sua urgência—. Sei quem é, Richard. E lhe devolveu a carícia com adoração. —E eu sei quem é você. Foram as únicas palavras que trocaram durante um tempo, até muito depois de que tivessem chegado ao clímax e Richard acabasse afundando o rosto em seu cabelo. A respiração recuperou seu ritmo normal e o sangue se esfriou. O pensamento demorou um pouco mais a voltar ao normal, atônito como estava pela explosão de paixão que os tinha arrastado, até que os aromas que permaneciam entre ambos despertaram os sentidos de Elizabeth e ela enrugou o nariz. Pó, cavalo e couro. Não era desagradável, mas desejou um bom banho de água perfumada, embora não sentisse vontade de mover-se, assim apoiou a bochecha no peito de Richard e desfrutou de escutar seu coração pulsando com força. —Eu te amo, Elizabeth. Poderia beijar a terra que pisa. Por que me foi tão difícil me dar conta? Richard a abraçou com mais força contra seu corpo. Tinha vivido com ela, discutido com ela, e Deus sabia que tinham estado em desacordo.


Mas pegando seu rosto entre as mãos examinou cada traço, tão querido para ele. Como não tinha visto sua beleza depois de Gwladys, será que ela o tinha cegado e danificado para outras mulheres? E ali tinha estado todo o tempo. Um cabelo sedoso, uns olhos de olhar intenso e misterioso. Uma beleza única. Por que não a tinha visto nem reconhecido até aquele momento? Suas curvas deliciosas, firmes e delicadas ao mesmo tempo, sedutoramente suaves ao contato de sua mão e sua boca. —Porque não me queria — respondeu Elizabeth com o coração na mão. —Acho que não sabia o que queria, mas agora sim sei. —Não sou rival para Gwladys — ela suspirou—. Isso não pode negar. —Não. Não se parece nada com ela graças a Deus! —Richard pôs um dedo em seus lábios quando foi dizer algo—. Mas não falemos mais de Gwladys esta noite. Eu lhe disse o quão bonita é? —Não — ela teria virado para outro lado se ele o tivesse permitido —. Ninguém nunca me disse. E certamente eu dava pena quando cheguei a você. Beijou-a meigamente nos lábios. —Então eu vou dizer isso. Brilha como o sol no horizonte, como a mais cara de minhas joias. É mais preciosa que todas minhas terras, que todas as minhas posses. É toda minha vida. Elizabeth não pôde responder. Estava muito cheia de emoção, satisfeita estando deitada junto a ele e se deixando ir por aquele mar de felicidade incomensurável. Amavam-se. Um milagre, tão brilhante e precioso quanto seu Livro de Horas. Um milagre no qual quase não podia acreditar, mas acaso ele não o havia dito com suas próprias palavras? Assim como ela tinha feito. Não o tinha demonstrado com o corpo? Assim como ela tinha respondido, e pensar nisso a fez corar. Pensaria nisso mais tarde; agora aproveitaria pausadamente, porque ainda não tinham terminado. Não


ia soltar ainda ao senhor de Ledenshall do anzol, embora ele pudesse beijar o chão que ela pisava, conforme dizia. De verdade havia dito isso? —Richard, me diga por que a derrota de Enrique o preocupa tanto. Por que não pode ou não quer apoiar a um York, se é que temos que aceitar a um rei da casa dos York Plantagenet? —Mm? Elizabeth lhe deu com uma cotovelada nas costelas. —Preciso saber. —E quando não? Achava que estava adormecida. Eu estava — ele se moveu o bastante para lhe cobrir o ombro de beijos—. Mas agora já não estou — murmurou. —Richard! — ela protestou, mas estremeceu—. Richard diga-me o que o incomoda. Por que é tão terrível para você que um membro da casa dos York ocupe o posto do rei Enrique? Ambos têm sangue real. —Já vejo que o amor não a suavizou — protestou, mas algo já tinha mudado em seu coração, e contou tudo: seu desespero pela instabilidade de Enrique, por sua incapacidade para dirigir o país. A destruição da lei e da ordem a que havia visto expostos sob seu comando. Todas as preocupações que tinham feito tão desagradável sua marcha pela fronteira. Elizabeth já sabia de tudo aquilo, mas do que não tinha nem ideia e a que ele se referiu foi o vergonhoso comportamento do duque de York depois da batalha de St. Albans. Richard Plantagenet, e depois o duque, ordenaram a execução de sir Thomas Malinder, o pai de Richard, decapitando-o. —Meu pai não tinha por que morrer. Poderiam tê-lo enviado para a prisão, ter pedido um resgate por ele como pediram por outros líderes dos Lancaster. Foi um assassinato político com o qual pretendiam tirar um rival da Welsh Marches. Foi um ato vingativo e sangrento que não posso perdoar. Sinto não ter lhe contado isso. É habito que eu tenho de guardar meus pensamentos e não compartilhá-los. —Eu o perdoarei apenas se não voltar a fazê-lo.


Quis que o momento não ficasse muito sério, embora se sentisse comovida por ele ter compartilhado algo tão pessoal e amargo para ele com ela, e com uma mão acariciou seu peito como se pudesse alisar os rastros da dor e conseguir um futuro livre disso. O velho duque tinha acabado morto em Wakefiel no mês de dezembro anterior, e seu título tinha recaído para seu filho de dezessete anos, Edward, conde de March. —Tudo o que se pode fazer em minha opinião é esperar e deixar que os acontecimentos se desenvolvam em seu próprio ritmo. Pode ser que Edward, o novo duque, seja um homem mais fácil de seguir. —Esperemos que assim seja. Richard pegou sua mão e a beijou na palma. Elizabeth compreendeu o gesto. Por que teria se mantido calado por tanto tempo? Mas não lhe falou da emboscada, nem tampouco de sobre quem recaíam as suspeitas em sua averiguação. Ainda estavam começando e não era o momento de carregar aquele incipiente amor com temores por sua segurança.

Dezesseis A festividade do solstício de inverno chegou, e Elizabeth já tinha certeza: iam ter um filho. Ainda não disse nada, já que em muitas ocasiões se perdia o nenê antes que se soubesse de sua existência, mas tinha deixado de ter o período e embora sofresse as alterações próprias de seu estado, graças a uma infusão de folhas balsâmicas, conseguia aguenta-las bem. —Eu não lhe disse? — Jane se gabou enquanto ajudava a sua senhora a pôr um elegante vestido de brocado da cor de ametistas com


umas luxuosas sobremangas que caíam até o chão, um esplêndido decote e um corpete salpicado de pérolas. E Elizabeth a perdoava. Era uma maravilhosa notícia pela qual só podia se alegrar. Tinha decidido que contaria a seu marido na noite de Reis, fazendo disso um presente, e lhe agradava esperar um pouco mais e desfrutar adiantado de sua felicidade. No jantar beberam, trocaram as taças, continuaram bebendo um na marca que os lábios do outro tinha deixado na borda do copo, olhando-se nos olhos e expressando com isso todas as emoções que não se atreviam a pôr em palavras. Algo que nem se atreveram a imaginar no banquete de seu casamento. Logo, deixando ali aqueles que com certeza beberiam e festejariam até a alvorada, retiraram-se para suas acomodações. Elizabeth serviu uma taça de vinho e se sentou junto a ele, levando consigo as taças de estanho e uma caixinha entalhada. —Tenho um presente de Reis para você, milord — ela disse passando a mão sobre a delicada madeira da tampa. —Ah, sim? E do que se trata? —Quando nos casamos você me ofereceu vários pressente, e agora queria lhe dar eu um como símbolo do amor que sinto por você. Richard a beijo no cabelo pegou a caixa de suas mãos e abriu a tampa adornada. Havia um pacote de veludo e o abriu: era um jogo de xadrez em marfim, maravilhosamente esculpido, com um cavalheiro montado em seu cavalo, os braços em alto para empunhar a espada, a lança e o escudo. Possivelmente podia tratar-se, estudando atentamente a magnífica cota de malha e as dobras da sobreveste, um cruzado de anos atrás. Era de um corte magnífico, uma antecipação das magníficas torres, bispos e peões que completavam o jogo. —São magníficos — Richard pegou a figura do rei na mão, com sua coroa, sua espada e suas roupas régias—. O que acha que será: York ou Lancaster? Elizabeth suspirou e se apoiou nele.


—O certo é que não sei. E neste momento, a verdade é que não me importa. —Que esposa mais complacente você está hoje! —exclamou, colocando o rei junto a sua esposa de costas reta e expressão severa—. E o que eu posso lhe dar eu em troca, minha senhora? —Você já me deu um presente — respondeu, abaixando o olhar. Ainda ia fazer lhe esperar um pouco mais, embora não muito. Ardia de vontade de contar. —Além da capa e o broche, não. E lhe ofereci isso antes de chegar a te querer — ele respondeu, abraçando-a pela cintura. —Não me refiro a isso — ela respondeu, e tomou um gole de vinho. A seguir o olhou nos olhos—. Deu-me um filho. Levo em meu seio seu herdeiro, Richard. A emoção cresceu ao ver como suas palavras tinham chegado ao coração dele. Seu sorriso encheu seu rosto de luz, como se tivesse ganhado uma batalha. —Um filho! —ali estava em seu rosto. O deleite. A rápida preocupação por ela. Como o adorava por isso—. Quanto faz que… quanto tempo faz que sabe? —Jane me disse isso apenas uma semana depois de que ocorreu! —É a predição de uma bruxa? —Não. Jane é muito hábil lendo os signos, mas agora eu tenho certeza. Meu corpo me disse. Eu diria que faz três meses. Ela virou-se para encara-lo. —Como não sei o que lhe dizer, acredito que devo te beijar. E o fez, derrubando naquele toque dos lábios toda a ternura e o sentimento de posse que levava dentro tanto para ela quanto para seu filho que estava por nascer. —Terá um herdeiro antes do próximo verão — ela sussurrou quando pôde. E nenhuma outra coisa ia satisfazê-lo além de leva-la para a cama e amá-la uma vez mais. Elizabeth sentiu que não podia ser mais feliz. O futuro lhe sorria.


O futuro se tornou ameaçador na forma de um mensageiro real que trazia um documento urgente. —Elizabeth, eu tenho que ir — Richard disse de repente—. Vai acontecer uma batalha e me convocaram a me unir ao exercito da rainha, em nome do rei, com a força que seja capaz de reunir. De repente ele se viu apanhado no pensamento dos preparativos de uma viagem com os suprimentos de guerra, por uns caminhos alagados, até que percebeu que Elizabeth não tinha respondido e levantou o olhar com um sorriso deliberado. —Não morrerei, eu lhe prometo isso. Estarei de volta antes que você note. —Você não pode saber. Eu rezarei por sua segurança. Aproximou-se dele. O nó de ansiedade que tinha estado presente desde os primeiros dias de seu casamento e inclusive depois da brilhante gloria de descobrir o amor que sentiam um pelo outro, ainda seguia presente nela como um grão de areia em uma pérola. Aquele não era o melhor momento para perguntar, mas sabia que devia fazê-lo. Mesmo que fosse por puro egoísmo, mas podia não haver outra oportunidade de fazêlo. «Perguntem a ele», havia lhe dito Jane. E ia fazê-lo. —Richard… me dirá uma coisa antes de ir? —O que quiser. Ele não percebeu a inquietação que se refletia em seu rosto. —Sei que é uma tolice, mas… fale-me de Gwladys. Nunca me fala dela. —O que quer saber? Elizabeth franziu o cenho. —Você a amava? Continua levando-a em seu coração? Claro. Era isso. Ele não o tinha considerado, nem sequer lhe tinha ocorrido pensar que Elizabeth, em sua vulnerabilidade quando chegou de Llanwardine, tinha vivido com o temor de que seu coração seguisse nas mãos de sua primeira esposa. Richard deixou de lado a carta e a abraçou apoiando sua testa contra a dela.


—Amava-a? —repetiu Elizabeth. —Se a amava? Não, não a amava. —Eu pensava que a tinha amado. Que a amava muito para vir a me amar. Era muito bonita. —Elizabeth! Já não te falei que te amo? —Richard lhe acariciava o cabelo—. Não têm nada a temer de Gwladys. Não é um espectro que me exija lealdade, que possa pisar na barra de vestido cada vez que se vire. —Eu não sabia. Nunca tínhamos falado dela. Elizabeth esperou, e Richard soube que teria que lhe dar explicações, e o fez do modo mais simples que foi possível. —Gwladys era uma mulher muito bela, mas a intimidade do casamento a aterrorizava. Suportava minhas demandas porque considerava que era meu direito, mas nunca encontrou prazer algum nisso. Encolhia-se cada vez que a tocava, ela detestava que o fizesse, o que me fazia sentir como um bárbaro. Tentava ser delicado, respeitador, mas ela não notava a diferença. Duvido que diferenciasse entre uma sedução e uma violação. Para ela era um alívio que não fosse ao seu leito. Meu único consolo era pensar que teria rechaçado a qualquer homem, mas eu era muito jovem e sempre conservei a dúvida se era eu o problema. —OH… A Elizabeth não ocorreu nada que pudesse acalmar uma ferida tão profunda e pessoal. Um véu de tristeza obscureceu seu olhar e em silêncio amaldiçoou à preciosa Gwladys pela dor que tinha infligido a seu marido. De repente recordou de algo. —Agora me lembro… quando nos deitamos juntos pela primeira vez, eu me encolhi quando foi tocar meu cabelo, ou melhor dizendo, o cabelo que não tinha. Senti vergonha. Ele esboçou um sorriso triste. —E eu pensei… bom, já imagina o que pensei quando me pareceu que não queria que a tocasse. Não poderia passar pelo mesmo uma segunda vez. Gwladys e eu nos conhecíamos por toda a vida, desde que éramos crianças — ele lhe ofereceu uma mão para que fossem sentar se nos


almofadões do batente da janela, que através de seus vidros entrava o sol e esquentava tudo—. Acreditava que por sermos amigos, que nós tínhamos afeto suficiente para que pudesse se transformar em amor e no que nossas famílias consideravam um casamento desejável. Mas me equivoquei. Inclusive a amizade que tínhamos murchou. Gwladys foi retirando-se pouco a pouco para seu mundo de bordados e rezas. Desempenhava seu papel como esposa e senhora de Ledenshall sem uma mancha, mas só no estritamente necessário. Quando perdeu ao menino na gravidez, não voltei a visitar seu leito. Foi um alívio para ela e para mim também. —Sinto ter lhe recordado tudo isso. —Tanto quanto sinto eu lhe ter preocupado. Suponho que deveria ter lhes contado isso faz tempo — Richard lhe levantou o rosto a empurrando suavemente pelo queixo e secou uma lágrima com a ponta do polegar—. Não tema, Elizabeth. Têm todo meu coração, meu amor e meu respeito. Ainda não sabia? —Sei agora — seu sorriso foi brilhante e o desejo palpitou em seu olhar—. Eu não me afastarei de você, Richard! —Já o vejo — ele respondeu rindo, e a beijou na testa—. E também deve saber minha amazona, que você é para mim mais formosa que qualquer outra mulher, no passado e no futuro. A dúvida que ainda albergava seu coração de não ser digna de seu amor se dissolveu em felicidade. Ninguém rondava os pensamentos de Richard que não fosse ela. O dia da partida de Richard chegou. Elizabeth despertou muito cedo, tanto que a luz só era capaz de criar cinzas no quarto silencioso. Em algum momento da noite se virou para Richard e ele, embora adormecido, tinha a rodeado com seu braço para tê-la perto. Tinha a mão posta sobre seu peito e notava o tranquilo subir e descer de sua respiração. Seu perfil se destacava com aquela luz incipiente, as pestanas escuras desenhando a curva de seus olhos, o cabelo ondulado e escuro. Gostaria a luz se apressasse e pudesse


estudar seu rosto sem que ele percebesse, para gravar aquele momento para sempre, porque naquela mesma manhã partiria com seus homens para a inevitável batalha em nome do rei prisioneiro. Morte ou glória. A escuridão seguiu cedendo e Elizabeth seguiu desfrutando de seu calor, sua proximidade, seu aroma, a marca de sua carne na própria. Quanto o amava. E o milagre era que ele amasse a ela, e ainda mais que Gwladys já não fosse uma sombra a espreitando. O ciúme que cercava seu coração se derreteu. Se ao rei Enrique fosse restituído o trono havia a possibilidade de que Richard pudesse voltar para casa e que ambos pudessem viver com certa normalidade. Mas só Deus sabia quando voltaria a vê-lo. Não conseguia pensar em outra alternativa. Incapaz de seguir permanecendo imóvel, ela ergueu a mão para tocar seu cabelo e riscar a linha de seus lábios com um dedo. E sentiu que sorria. —Esta acordada — ele murmurou, voltando-se para ela para beijá-la no ponto em que o pescoço se unia ao ombro. —Sim. —Quase posso a ouvir pensar. —Só o muito que o amo — ela murmurou, contente de que despertou—.Eu sentirei muita saudade Richard. Abraçou-a com força para saborear sua pele e o perfume de ervas de seu cabelo antes de ter que deixá-la. E também se permitiu fazer amor, para lhe deixar a lembrança da força de seu desejo uma vez mais. Ela se esticou com um suspiro ao sentir como encaixavam à perfeição, e Richard controlou o ritmo de seu movimento naquele quente santuário que era apenas dos dois. Delicado, terno, sem a paixão abrasadora que às vezes os consumia, foi um encontro lento e longo que poderia acompanhá-los quando os dias e a distância se estendessem para separá-los. Até que Elizabeth se estremeceu contra ele e Richard deixou que sua rendição chegasse. Até que os dois ficaram tombados um junto ao outro, a respiração acelerada, mas por fim satisfeitos.


Ela abraçou-se a ele como se não fosse deixá-lo partir, embora soubesse que não devia fazê-lo. A carga que deviam suportar as mulheres era a da espera, e de ocupar suas mãos e sua mente para poder afastar o medo do resultado da batalha. Como se tivesse lido seu pensamento, Richard se apoiou em um cotovelo para olha-la no rosto. Estava sério. —Necessito que leve as rédeas do castelo por mim, Elizabeth. Em meu nome e no de seu herdeiro. Que proteja a minha gente e minhas terras. Você o fará? —Com todo meu coração, meu amor… Uma batida à porta do quarto cortou a conversa. —Milord! Milord! O tom era muito assustado, e a voz tão jovem que Richard saltou da cama, colocando por cima uma manta para abrir a porta. Era um dos ajudantes da cozinha. —Mestre Beggard me envia para buscá-lo, milord — o menino estava sem fôlego, e tinha os olhos arregalados—. Diz que vá imediatamente. Assediam-nos. —Quem nos assedia? O que ocorre? —Mestre Beggard me pediu que lhe dissesse que é uma força hostil. —Lhe diga que vou agora mesmo. O moço saiu correndo. —O que está acontecendo? — Elizabeth perguntou com ansiedade, recordando a outra ocasião em que Richard tinha sido arrancado de seu lado. Foi na noite da tragédia de Lewis. —Não sei, mas o averiguaremos em seguida. Do balcão se desfrutava de um ponto de observação perfeito para calibrar o problema. Richard chegou junto a seu comandante e olhou para fora. Diante do castelo, desdobrando-se já junto às muralhas em ambas as direções, havia uma considerável força de guerreiros e arqueiros. Carros com mantimentos se viam na zona onde estava se levantando um acampamento. Certamente não pretendiam tomar aos habitantes do castelo de surpresa. As ordens se transmitiam a gritos, as maldições flutuavam no


ar úmido enquanto os homens manobravam com o equipamento para colocá-lo em seu lugar, ou descarregavam o necessário para atender aos animais. Era uma força formidável, preparada para ficar. —Um assédio, milord? —perguntou Simon. —Deve ser. Parecem dispostos a ficar. Robert se uniu a eles, alertado pelo alvoroço e a agitação crescente. —Esta visita não parece trazer boas intenções — ele disse rindo, embora sem humor—. A quem advém preparar um assédio em pleno mês de fevereiro e estando a situação entre os York e Lancaster em um ponto tão crítico? —Não sei — Richard voltou a olhar para frente, consciente de algo que não foi mencionado—. O que vê Rob? —Além de um contingente grande e bem organizado que parece decidido a tomar o castelo? —Olhe-os, Rob! —Ah! —Robert assentiu—. Sem rosto e sem nome. Mas foi Simon Beggard quem pôs em palavras o pensamento. —Não há distintivos, milord. Nem pendões, nem estandartes, nem arauto… ao menos que eu veja. Não sabemos quem nos ataca. —E o mais provável é que pretendam nos manter nessa ignorância — Richard respondeu—. Quem viria contra nós desse modo? Necessitarão ao menos de três meses para nos render. Temos provisões suficientes e nosso fornecimento de água é seguro. No que estão pensando, pelo amor de Deus? Com certeza sabem que eu não vou negociar. —Aí têm a resposta — disse Robert assinalando ao caminho pelo que se aproximavam cavalos, lenta e trabalhosamente, arrastando pesadas rodas atrás deles—. Quem quer que seja tampouco pretende negociar — os cavalos levavam quatro grandes canhões—. É um inimigo poderoso, Richard. Alguém que pretende fazer um buraco nas muralhas do castelo e entrar. Richard ficou contemplando como os canhões se colocavam em suas posições, declarando sua horrível finalidade. Alguém, escondido atrás do


anonimato, pretendia destruir a muralha. E já que não havia arauto que seguindo a tradição os convocasse a parlamentar antes que começasse o ataque, os atacantes não estavam interessados em oferecer condições para a rendição. Os habitantes de Ledenshall receberam logo o primeiro disparo de canhão, logo seguido por outro e outro mais. Ao fim de uma hora, as pedras da muralha começavam a sofrer. O resultado final não podia ser mais óbvio. —O que faremos? —perguntou Robert, alheio ao pó cinza que cobria suas sobrancelhas vermelhas—. Não podemos ficar aqui sentados enquanto nos amassam. Richard via claramente qual ia ser o resultado: a parede iria cedendo e se criariam grandes aberturas. Os guerreiros da casa Malinder lutariam até o final para defender Ledenshall, disso não tinha dúvida, mas e ao final? A rendição. A captura. A morte. —Estamos apanhados como ratos esperando a que os cães tenham a oportunidade de nos partir o pescoço — ele analisou. Não havia modo de sair de Ledenshall que não fosse enfrentando-se ao inimigo. Alem disso, é claro, havia a poterna, uma pequena porta que dava no fosso, totalmente em desuso e coberta de vegetação. Seguindo as ordens de Richard, os homens se reuniram em torno da mesa do salão principal. Poderia ter esboçado seu plano desenhando-o no pó acumulado em sua superfície. —Estamos em perigo. Olhou a cada um dos rostos que tinha a seu redor. Não tinha sentido fingir, mas sua voz se mantinha serena e seus gestos gotejavam confiança. Quando um míssil impactou no primeiro andar da torre que tinham sobre suas cabeças nem sequer se encolheu. —Se ficarmos aqui, eles irão nos matar ou nos farão prisioneiros. Proponho um plano. Usaremos a poterna, justo ao amanhecer, quando os


homens são mais suscetíveis. Rob, você e Simon ficarão aqui comandando a resistência, como se ainda continuássemos apanhados. Responderão com fogo para chamar a atenção e abrirão as portas principais como se tivéssemos pensado em sair por ali. Assim distrairemos sua atenção e não estarão prestando atenção no fosso quando abrir a poterna. Richard esperou para ver Robert assentir a contra gosto. —Quero tirar as mulheres daqui. Se as muralhas cederem, não acredito que possam sair daqui sem sofrer danos. Vamos pô-las a salvo e eu irei à busca de homens armados em minhas terras. Então voltarei a levantar o assédio. Quatro ou cinco dias no máximo. —De onde tirará os cavalos? —perguntou Robert. —Da estalagem… ou isso eu espero. Tentarei que um homem saia na escuridão e os advirta. —Posso ser eu? — David perguntou com os punhos apertados sobre a mesa e os olhos cravados em Richard, lhe rogando e desafiando ao mesmo tempo. —É claro — respondeu. Já tinha levado em consideração o orgulho dos De Lacy. Como ia pô-lo fora de perigo sem deixar em embargo sua capacidade?—. Vai se disfarçar de camponês e virá comigo. Necessitarei de ajuda para tirar as mulheres. David assentiu. O disfarce contribuía ao sentido de aventura. —Eu o farei. —Bom menino! Achava que ia discutir comigo sobre isso Agora, irei comunicar a notícia. —Não penso em ir! Não vou deixa-lo aqui! No solar Elizabeth o enfrentava. A enfurecia que quisesse tirá-la do castelo e afastá-la dele. —Não estou perguntando Elizabeth — ele respondeu, apertando os dentes. Mas já esperava algo assim, não?—. É uma ordem. Suas palavras não sortiram grande efeito. —Não vou consentir que me tire daqui envolta em algodões. Ficarei ao seu lado e brigarei contra quem quer que se atreva a atacar nosso lar. Contra qualquer um que ouse pôr sua vida em perigo.


Apesar de tudo tinha que admirar seu espírito de luta, mas aquele não era o momento. —Me escute, minha louca — ele a afastou da perigosa janela e levou-a para o centro do cômodo, obrigando-a a sentar e escutar, segurando-a pelas mãos—. Olhe-me e escute. Não sabemos que objetivo tem este ataque. Não sabemos se se aplicam neste caso as regras habituais porque aparentemente não, e não posso estar seguro de que se negociar ou inclusive se me render, poderá sair ilesa. Tampouco podemos resistir indefinidamente a sua capacidade de artilharia. Trata-se de alguém que está muito decidido a nos derrotar, assim não espero quartel. Este plano… sei que parece uma fuga, mas acredito que ajudará a equilibrar as forças. Tenho que saber que está a salvo. Uma vez que tenha saído daqui e não corra perigo, terei um problema a menos na cabeça. Tenho que me ocupar de meus homens e do povo de Ledenshall. Pense nisso. Suas palavras tinham sido claras e simples, e chegaram com facilidade ao intelecto de Elizabeth, a sua consciência através do véu da incerteza e do medo. E é claro não lhe disse nada que ela já não tivesse pensado. Mas não podia tropeçar. Não podia o abandonar a sua sorte. Richard viu a negativa escrita em seu rosto. —Eu te amo, Elizabeth… é toda a minha vida, e sua segurança é e sempre será minha maior preocupação —pôs as mãos sobre seus ombros—. E se algo me ocorresse, que Deus queira que não seja assim, o filho que leva em você assegurará a continuidade do legado Malinder — como ia poder resistir a algo assim?—. A deixarei em um lugar seguro e irei em busca de uma força formada por meus próprios arrendatários com a qual voltarei para romper o assédio. É a única saída. Têm que me dar razão. E ela deu. —Tenho medo — admitiu, apoiando-se contra seu ombro. —Eu sei. Mas é uma mulher valente, e fará o que tiver que fazer. Como Malinder e como De Lacy.


Não poderia tê-lo dito melhor. Elizabeth levantou a cabeça e o olhou. Estava pálida, mas parecia decidida. —Me diga o que quer que eu faça. —Preciso te levar para um lugar seguro. Ainda não decidi aonde, mas… —A Talgarth? Nem morta! —Não! Talgarth, não. —Sei aonde podem me levar — ela disse de repente—. Sei onde estaremos a salvo. Mas deve me prometer que me resgatará dali. —É óbvio que a resgatarei. Richard a beijou com paixão, com imensa ternura. Logo se levantou e pôs em suas mãos uma roupa facilmente reconhecível. —Ponha isso— ele lhe disse, contendo a risada—. Se formos viajar através do campo e contra um inimigo desconhecido, tomaremos todas as precauções possíveis. Pode se vestir de rapaz com minha benção.

Dezessete A noite estava escura, as nuvens eram baixas e soprava um vento gélido que trazia rajadas de chuva; uma noite perfeita para escapar. Durante as horas mais escuras, pouco depois da meia noite, dois homens por


separadamente escapuliram pela poterna para esgueirar entre as linhas, evitando os fogos e as tendas. Não ouviram nada que pudesse indicar uma captura. Richard respirou fundo, aliviado. Pouco antes do amanhecer, com uma tímida claridade aparecendo no leste, um pequeno grupo se reuniu no jardim vestido de modos muito desiguais, mas todos envoltos em capas escuras e cobrindo a cabeça. Richard viajaria como se fosse um personagem de importância da cidade, e sob sua capa levava uma espada e uma adaga. Elizabeth vestida de homem e David com uma adaga no cinto e outra na bota, passariam por seus criados. Jane Bringsty se vestiu de esposa de um comerciante, e desde que não parassem para olhar atentamente, tudo o que veriam seria um pequeno grupo de viajantes bem abrigados contra o frio. Enfim Richard apertou a mão de Robert. —Faça uma boa demonstração de força, Rob. Dependemos disso se quisermos que isto dê certo. E todos se puseram em marcha com Richard na frente, David na retaguarda, e se afundaram na luz cinza carregada de chuva. A sorte estava com eles quando saíram pela pequena porta. Capas escuras, nuvens baixas, uma repentina rajada de chuva. No momento crucial uma chuva de flechas voou das ameias de Ledenshall em direção do canhão para chamar a atenção e distrair aos atacantes. O grupo ouviu o ruído da enorme porta principal ao abrir-se, como se planejassem escapar por elas, com gritos ásperos, o pisotear dos cascos e um par de notas de trombeta. Richard elevou o rosto. Robert tinha planejado bem, e Richard se obrigou a esquecer da segurança de sua casa, de sua família, ante a urgência da missão que tinha diante de si. Chegaram logo à estalagem, onde os aguardavam três cavalos já selados. Jane Bringsty subiu em um, David em outro, e Elizabeth se apoiou no estribo de Richard para montar na sua garupa. E saíram a galope,


deixando para trás o ruído e o brilho das chamas sobre o castelo, onde os arqueiros de Robert estavam fazendo um magnífico trabalho. Por fim, Llanwardine. Já era noite escura, por isso as monjas já haviam se retirado a seus leitos duros. Os muros do Priorado pareciam ameaçadores. Não havia luzes, mas detiveram seus cavalos diante da porta e desmontaram. Um gemido escapou de Elizabeth; doíam-lhe os músculos depois da interminável viagem. Mais de uma vez adormeceu agarrada à cintura de Richard, a bochecha apoiada sobre o áspero tecido que o cobria, aferrandose ao seu calor e a sua proximidade, à força de seu corpo e de sua vontade; em sua mente apareciam imagens preocupantes e pavorosas das quais era impossível fugir até que não conseguia separar a realidade dos sonhos. —Quem poderia dizer que me alegraria de estar aqui — ela murmurou. Richard fez soar o sino da porta e ouviram seu eco no interior, mas não perceberam nenhum sinal de que houvesse alguém ali. Voltou a soa-lo com impaciência, e então ouviram o ruído de passos que se aproximavam. Uma pequena portinhola com barrotes se abriu na enorme porta e Richard se aproximou. —Somos viajantes que foram pegos pela noite e solicitamos a hospitalidade do Priorado. Não temos más intenções. Eu sou Malinder de Ledenshall, e trago duas mulheres comigo que necessitam de um lugar seguro para descansar. Ouviram uma chave girar e o estalo continuado de uma corrente antes que se abrisse a porta e os iluminasse o brilho de uma lanterna. Ali estava a prioresa em pessoa, com a luz no alto para ver os rostos de quem chamava a sua porta. Seus olhos viajaram por todo o grupo e de novo voltaram para Elizabeth quando esta tirou o capuz. —Disse que poderia vir se estivesse em dificuldades. —E são bem-vindas. A prioresa abriu a porta e os convidou a entrar no santuário.


Eles conseguiram ter um instante de intimidade. Apesar das roupas tão grosseiras com as quais se vestiram eram um casal magnífico naquele salão nu e o iluminavam com o calor e o amor que havia entre eles. Pareciam feitos um para o outro, sem dúvida. —Adeus, Elizabeth. Que Deus a guarde. —Que ele o mantenha com vida. Nenhum dos dois encontrava outras palavras, ambos afogados no medo do futuro. Havia muita probabilidade de que não voltassem a ver-se seguravam as mãos enquanto se devoravam com os olhos, até que Richard se inclinou sobre os lábios de sua mulher e depositou um beijo suave como uma promessa. —Voltarei para te buscar. —Sim — ela respondeu, lhe apertando as mãos—. Não tenho nenhum objeto dar para que o acompanhe. —Não necessito. Tudo que preciso saber é que está a salvo aqui. —Nós dois estaremos, o neném e eu. —Sim, mas, sobretudo você. E se ocorrer o pior… — ele pôs um dedo sobre seus lábios quando ela foi opor se a esse pensamento—. Se eu tiver que morrer, eduque a criança como eu teria gostado, como meu herdeiro. Vocês terá o poder até que ele seja major de idade. —Assim o farei — seus olhos brilhavam, mas Richard sabia que não ia chorar—. Agora deve ir. Só havia tempo para um último beijo, uma última declaração desesperada pela perda. De amor e de paixão impossível. Tudo o que não podia dizer foi posto naquele beijo para que ele pudesse recordar de seu sabor enquanto estivesse longe. E ela recordaria dele por sua vez. —Têm todo meu amor. Não posso suportar, Richard… —Como você tem o meu. Seja valente, Elizabeth, meu amor. Meu coração. Minha vida. E partiu deixando-a sozinha, com o coração cheio de amor, com o pensamento cheio de temor. Richard percorreu a Welsh Marches para reunir parceiros em sua ajuda. Partiram para o Ledenshall tão rápido quanto foi possível, e para que


os informassem enviaram exploradores, que ao voltar lhes disseram de que o exército de assédio devia ter suas próprias fontes de informação. Deviam saber que a força Malinder se aproximava porque tudo que restava deles que recordasse seu ataque era uma série de feias fortificações e quatro canhões. Assim que os pendões e estandartes anunciaram sua chegada à colina, Robert e Simon Beggard saíram da fortaleza para inspecionar o iminente colapso de uma parte da muralha. —Chegou bem a tempo, Richard — o rosto de Robert se iluminou com um sorriso—. Melhor tarde do que nunca. Os primos apertaram as mãos sem necessidade de dizer algo mais. Richard examinou as fissuras no muro e deu um chute em um monte de escombros que tinha a seus pés. —Não queriam ser vistos. —Não. Alguma ideia? —Acho que sim. Tinha tido tempo de refletir durante a longa jornada por suas terras, e só um nome voltava uma e outra vez a sua cabeça como o instigador de tudo aquilo. Não saberia dizer por que, mas tinha certeza que sabia quem era o responsável. Só havia um homem na Welsh Marches que podia comandar semelhante força, além dele mesmo. Até o momento carecia de provas, por isso devia ater-se à lei. Mas tinham posto em perigo a vida de Elizabeth e seu lar tinha padecido os rigores de um ataque. Já não podia continuar sentado sem fazer nada. O resto do dia se passou fazendo os reparos mais urgentes nos muros enquanto Richard ia inventariando os danos. Podia ter sido pior. Uma seção do muro ia ter que ser reconstruída, embora os alicerces não parecessem ter sofrido. As cozinhas, onde David tinha pedido pão e carne para os recémchegados, além dos estábulos, teriam que ser reconstruídos em sua totalidade, mas a estrutura do torreão estava intacta. Ao menos Elizabeth teria um lar ao qual voltar. Robert estava ao seu lado contemplando os danos. Os dois homens tinham marcas de exaustão no rosto.


—Um dia mais e essa seção teria caído para dentro — apontou Robert, reconhecendo o que ambos sabiam—. Não teríamos podido mais manter o castelo. —Tem minha gratidão, Rob — Richard afastou o olhar daquela destruição. Tinha tomado uma decisão por fim. O que ia pedir lhe era muito, mas ia fazê-lo de qualquer jeito—. Agora tenho que lhe pedir um favor. —Outro? — ele protestou, se apoiando contra o muro e limpando o rosto com a manga—. Tinha pensado em ir para casa. —De Lacy está envolvido em tudo isto. Tem que ser ele. Se lhe pedisse isso, você e seus homens cavalgariam comigo contra ele? Robert não chegou a responder. Os cascos de uma força ligeira que se aproximava pelo caminho chamou sua atenção. —Temos visita — comentou Richard—. E a julgar pelas bandeiras, é um de Lacy. Em Llanwardine, rodeada e se separada do mundo pelas Montanhas Negras, o tempo avançava pesadamente para Elizabeth, apesar de que tentava não pensar na comida horrorosa e no alojamento desconfortável. Ao menos lhe oferecia guarida. Mas era o não saber o que deixava seus nervos a flor da pele e a impedia de dormir a noites. Em Ledenshall teria sido possível enterrar suas preocupações embora tivesse sido apenas durante umas horas, em alguma atividade, mas em Llanwardine, nos gélidos dias do mês de fevereiro, quando a horta não tinha nada mais que erva, só dependia de sua própria força e coragem para aferrar-se à esperança. Não recebiam visitas. Não tinham notícias. E Elizabeth, com suas roupas emprestadas de freira, foi ajoelhar se na capela do priorado em busca de consolo, um consolo que jamais pensou em encontrar ali. O vasto espaço entre seus arcos e o silêncio a ajudaram a esvaziar sua cabeça do terror que a mantinha paralisada, ajudando-a a pensar racionalmente. Ali pediu à Virgem pela segurança de Richard.


Tudo que podia fazer era esperar, e rezar para que aquele hábito negro que usava não fosse uma espantosa premonição do que a aguardava no futuro. —Tia Ellen! —exclamou David, tão surpreso quanto Richard—. O que faz aqui? Ellen de Lacy não fez um movimento de entrar no pequeno salão ao qual a convidavam, mas permaneceu na soleira com uma estranha imobilidade, envolta em uma capa salpicada de lama na barra. Pelo que podia se ver sob o capuz, seu rosto habitualmente impassível estava pálido e tinha os lábios apertados. Sua inesperada presença em Ledenshall tinha deixado Richard atônito, mas um desconforto premonitório se alojou em seu ventre. Não podia ser portadora de boas notícias. —David. E Richard… — suspirou—. Graças a Deus. Haviam me dito que os encontraria aqui. Richard reagiu por último, mas com cautela, agarrando-se à vaga esperança de que seus temores fossem infundados. —Ellen… não deveria ter vindo até aqui com uma escolta tão reduzida. É muito perigoso tal como estão as coisas. Imaginar a uma mulher de linhagem viajando quase sozinha pela Welsh Marches o angustiava, e rapidamente ele lhe ofereceu seu braço para fazê-la entrar, consciente da aparente fragilidade sob sua determinação, quando se tirou a capa ele a recolheu, e colocou uma cadeira junto ao fogo. —Desculpe a falta de comodidade. Tivemos alguns problemas… —Não importa — ela cortou com impaciência, olhando fixamente para Richard—. Tenho que lhe falar — sua expressão ficou de repente desfigurada pela tristeza, e a mão que apoiava em seu pulso se tornou uma garra. Surpreso diante de tanta emoção, Richard percebeu o quão esgotado ela estava—. Refleti muito sobre isto, e estive a ponto de desistir de vir até aqui…


Ellen ficou silêncio quando David voltou com taças de vinho. Aceitou uma, mas não bebeu, e começou a falar com incerteza no princípio, mas sua voz foi tomando firmeza. —Sei, ao menos em parte, o que ocorreu em Talgarth. Tenho olhos e vejo. E também escuto… embora seja atrás das portas, que Deus me perdoe! Percebe o que me vi empurrada a fazer? Semelhante comportamento em minha própria casa! Não me é próprio remexer entre os documentos de meu marido, procurando Deus sabe o que… caixas fechadas, gavetas e cofres. Inclusive cheguei a interrogar aos serviçais. Um temor desconhecido a asfixiava. Deixou de lado a taça, entrelaçou as mãos no colo, abriu-as, logo voltou a segurá-las. Richard as segurou com firmeza para ajudá-la. —Deveria me envergonhar, mas não é assim. —Me conte o que sabe Ellen. Diga-me o que a trouxe até aqui. —Sim, sim claro — ela fechou os olhos um momento para concentrar-se, e depois começou com a voz firme—. Você sabe da morte de Lewis. Não era uma pergunta, e sim uma afirmação, e os olhava para ambos, David e Richard, que não esperava um enfoque tão direto. —Sabemos da joia que enviou para Elizabeth, e as que deu a David. Disse que estavam em posse de sir John. —Sim. Em seu quarto. Roubei-as dali — ela declarou com os olhos totalmente abertos, como se espantada por sua própria admissão, mas sem lamentá-la—. Só me ocorre uma razão pela que pudessem estar ali. Sir John devia saber de onde provinham e qual era a identidade de seu proprietário, de modo que também devia saber qual era a mão que empunhava a espada que tomou a vida de Lewis. Foi Gilbert de Burcher. Sei que foi ele. E depois impediram que David tivesse contato com Elizabeth e com vocês quando vieram a Talgarth com o falcão — David assentiu quando Ellen se voltou para ele—. Foi coisa de Capel. Ele tem uma mão boa com as ervas e os remédios.


—De modo que suspeitamos sim que sir John teve algo a ver com a morte de Lewis — Richard disse com toda a tranquilidade na voz que foi capaz—. Mas por que ia realizar semelhante monstruosidade? Lewis era seu sobrinho, e o herdeiro mais capaz que um homem pode pedir. —Deve pensar que eu fiquei louca — ela se lamentou. Parecia a ponto de voltar a chorar, mas tinha o olhar cravado em Richard, como se com isso tivesse o poder de fazê-lo ver e aceitar a verdade—. Tem que ser pelo poder, a terra, a ambição… milord está cego de ambição, cego pelo desejo de possuir toda a Welsh Marches central, sem rival algum, sem interferências. Não imaginam do que é capaz. E Capel tem muito que ver em tudo isso. Durante um momento caiu em um incômodo silêncio. —Siga, eu lhe rogo. Ellen piscou. —Quer sua morte, Richard. —Minha morte! —já o havia dito. Simples e sinceramente. A suspeita que tinha do ataque—. Eu posso acreditar? —Por que não? Pense um momento: insistiu em seu casamento com uma De Lacy. Quando Maude faleceu lhe propôs sem vacilar Elizabeth. Se ela conceber seu herdeiro e você convenientemente desaparecer, deixandoa só e desprotegida, quem cuidaria da enferma viúva e seu filho? Sir John, é óbvio, o solícito tio. Quem governaria as terras dos Malinder enquanto o menino crescia? John de Lacy. Quem estaria disposto a manipular e maquinar até conseguir semelhante posição de força? Olhou para Richard mais uma vez e não precisou dizer nada mais. —Ellen — ele lhe perguntou muito devagar—, sir John sabe que Elizabeth está grávida? —OH, sim. Mestre Capel possui dons extraordinários. Diz que Elizabeth levará a gravidez até o fim e que será um varão — ela disse com desprezo, o que era ainda mais surpreendente dada à doçura de suas feições. —Pode ler os sinais da saúde e da enfermidade do corpo, do estado


da natureza, do passado e do futuro. Juro que deve ter vendido sua alma ao próprio diabo! E utiliza seus poderes para aumentar os desejos de sir John, e os seus próprios. Com suas artes adivinhatórias foi capaz de reconhecer o estado de boa esperança de Elizabeth. Sabe sem nenhum tipo de dúvida. —Mas toda a trama de sir John se apoia em um ponto — Richard tinha recolhido toda a informação que continham as apaixonadas palavras de Ellen e sua cabeça trabalhava febrilmente em todas as implicações—: que eu tenho que morrer. —É claro. Por que não? Matou Lewis, não é? Por alguma razão foi necessário dispor de sua vida. Por que não iria fazer o mesmo com a sua, se o considerar necessário? — ela cravou as unhas em suas mãos—. Viu sua vida ameaçada, Richard? Ocorreu algo recentemente que o tenha obrigado a se pôr em guarda? Eu diria que sim. Ele ficou pensando-o, como se não tivesse feito outra coisa naqueles últimos dias. Era impossível negá-lo. Ellen começou a perder a paciência. —Me fale do assédio, Richard. Isso chamou sua atenção. —O que você sabe disso? —Você vai se surpreender com o que sei. Os homens tendem a ignorar a presença de uma mulher calada que se ocupa de suas coisas e não faz comentários em relação ao que ocorre diante de seu nariz. Como se fosse idiota ou incapaz de entender. E não sou nenhuma das duas coisas! Eu lhe falarei do assédio a Ledenshall se precisar para convencê-lo de minha integridade. Homens sem identificar. Um ataque bem organizado. Sem arautos e sem quartel, porque não havia intenção de que saísse com vida. E quatro canhões para bater nos muros do seu castelo. Os mesmos canhões que passaram ao menos duas noites no pátio de Talgarth a caminho de Ledenshall. Richard respirou fundo. Ellen tinha revelado o que sem dúvida devia ser a verdade.


—De modo que sir John estava atrás do assédio. Como suspeitava. —É óbvio. Não foi difícil conseguir soldados e cavalheiros que não se importassem em combater sem insígnia nem bandeira. —Mas um assédio… — lhe dava trabalho aceitá-lo—. Por que um ataque tão extremo? —Sir John já não conhece a moderação. Um assédio que alcançasse seu propósito lhe teria dado o controle de Ledenshall e de sua Elizabeth com um só golpe. —Entendo — murmurou—. Minha morte teria resultado em seu benefício na Welsh Marches. De Lacy exerceria o controle total, desde que Elizabeth lhe cedesse a autoridade sobre Ledenshall, e o cuidado e a criação de seu filho. E isso ela nunca faria. Mas lhe horrorizou saber o que sem dúvida Ellen responderia. —E acha que sir John não sabe? De verdade acha que não está preparado para enfrentar à resistência de Elizabeth? Destruirá qualquer oposição com tão pouca compaixão quanto a que se tem por um frango quando lhe retorce o pescoço para usá-lo no caldo. —Você diz que ele seria capaz de fazer dano a Elizabeth? Estamos falando de morte? Fez a pergunta que ele mesmo podia responder. A ameaça era real. Mentalmente viajou a Llanwardine, onde umas freiras indefesas guardavam a sua mais apreciada posse. —Se for necessário o faria. Não se arredaria de um assassinato se com isso pudesse conseguir sua visão de poder. Já tem o sangue de Lewis em suas mãos. Que diferença pode supor uma vida mais… ou duas? —lady Ellen apertou a taça entre as mãos. Ainda não tinha terminado—. Sir John tem um bando de malfeitores galeses ao seu dispor. Acredito que já os enviou contra você. —Sim — e de certo modo foi um alívio admiti-lo—. Mas por que Lewis? —perguntou, voltando para a única peça que ainda não encaixava no quebra-cabeça.


—Não sei — Ellen enrugou o nariz—. Lewis era um jovem promissor, e gosto de pensar que foi porque se negou a comungar com os planos de milord. Sir John cometeu um engano e confiou parte de seu plano a Lewis. Acho… confio que Lewis o ameaçou de contar tudo a Elizabeth e a você. E se fosse assim, Lewis não podia seguir com vida. Enquanto você, David… — ela o olhou compassiva—, você seria um herdeiro mais fácil de dirigir, jovem o bastante para ser moldada a imagem e semelhança de sir John. David, que tinha escutado tudo em silêncio, ficou como se o tivessem golpeado na cabeça com uma clava. —E dado que milord conseguiu carregar a culpa da morte de Lewis sobre seus ombros — ela voltava a olhar para Richard—, ninguém se incomodou em questionar a verdade das acusações, sobretudo quando sir John mantinha um fingido luto por seu herdeiro perdido, como quem tem o coração partido — fez uma careta—, quando na verdade o que não tem é coração, como eu sei muito bem. Já não podia me calar mais. Tinha o dever de lhe contar. —De modo que me acusou da morte de Lewis — Richard seguia encaixando as peças que compunham um mosaico tão complicado quanto os que adornavam o palácio real de Westminster—. Você teve que suportar muito. Levou a mão de Ellen aos lábios maravilhando-se da força interior daquela mulher, do valor de uma dama a qual nunca tinha dedicado muito tempo ou consideração. Mas Ellen afastou a mão. —Richard! Estamos perdendo tempo aqui. Deve ir em busca de Elizabeth. É imperativo! Ela corre um grave perigo. —Não, não, você está enganada. Sei onde ela está e se encontra a salvo.


—Não! —Ellen voltou a lhe apertar o braço—. Não se atreva a me tratar com condescendência! Elizabeth não está a salvo. Sei para onde a levou: Llanwardine. Richard teve uma descomunal surpresa. Olhou para David, que negou com a cabeça. Ele não tinha sido a fonte de informação. Ellen ignorou a troca de olhares. —E acredito que sir John já deve estar ali… para leva-la para Talgarth — ela concluiu em um sussurro—. Para leva-la à força se for necessário. —Mas sir John não sabe… — Richard franziu o cenho—. Ellen… como sabe onde está Elizabeth? —Foi Capel quem descobriu. Não se pode subestimar Nicholas Capel — lady Ellen moveu a cabeça amargurada—. Eu tenho medo dele. E o detesto. Ele sabe, embora veja que você ainda têm dúvida. Seu sorriso era triste, mas compreensivo. Tinha dúvidas, mas já não eram suficientes para não enviar David para selar os cavalos, o que lhe deu a oportunidade de fazer a lady Ellen a pergunta que ardia em sua cabeça. —Ellen… por que faz isto? Viu-a cravar o olhar em suas mãos ossudas e brancas e acreditou que não ia responder. Entretanto, quando levantou o rosto viu que sua expressão era satisfeita e ela falou com calma. —A humilhação pode ser uma motivação forte. Meu casamento parecia poder satisfazer a ambas as partes. O casal perfeito para unir propriedades na Welsh Marches — seu sorriso ficou muito triste—. Mas eu não era capaz de levar ate o fim às gestações, e desde que me casei com sir John não houve um só dia de minha vida em que não tenha me recordado desse fracasso. E as coisas pioraram quando Maude morreu… assim digamos que é vingança… nada mais que a reação de uma esposa amargurada e abandonada. E eu poderia tê-lo amado. Mas agora sei muito e não posso suportar esse peso sobre minha consciência.


Ellen se levantou e recolheu sua capa do encosto da cadeira. —Vejo que o amor é possível entre Elizabeth e você. É algo esplêndido, que ilumina tudo o que há ao seu redor. Mesmo que ambos estejam empenhados em negá-lo — ela sorriu—. Gostaria de ter tido essa mesma possibilidade. Mas nunca poderá ser. —Aonde irá agora? —Para casa. A Talgarth. Onde se não lá? Deixou que Richard lhe pusesse a capa sobre os ombros e os dois foram até a porta, onde Richard se deteve para recolher sua própria capa e suas armas, que estavam guardadas em um armário. Ao tirá-lo uma adaga saiu de seu lugar, escorregou e estava a ponto de bater contra o chão quando com excelentes reflexos Richard pôs a mão para que caísse em sua palma. Ellen ficou paralisada. —Essa adaga… Ela a pediu e ele a deixou em sua mão, e ela a examinou com atenção à luz das velas. —O que há? —Richard franziu o cenho olhando a arma que Ellen seguia tendo na mão—. A reconhece? —Sim. Sei quem é seu dono. Eu me pergunto como é que está em suas mãos, Richard. —Me diga o que sabe primeiro. —É uma peça de qualidade, mas está bem gasta — ela passou os dedos pelo punho—. Se tirar a adaga de sua capa — ela a devolveu para que o fizesse—, verá que tem uma marca no final da lâmina. Digo-lhe como chegou aí? — ele a puxou. Era verdade—. Foi empregada contra um inimigo em batalha. Acabou colidindo contra a couraça do seu peito, mas não o matou. Eu o ouvi contar a história muitas vezes sobre uma jarra de cerveja — hesitou—. Em Talgarth. Richard passou o dedo sobre a parte deformada. Era o prego final no ataúde de sir John, afundado ali por pura casualidade. —Então, quem é seu dono?


—Thomas Morgan. Um cavalheiro galês de Builth. Um dos soldados de sir John. Como é que você a tem? —Pertenceu a um homem que tentou me atacar — respondeu Richard, pegando-a pelo punho. —E então, Richard Malinder: tenho que lhe dar mais alguma prova? Que pena que a flecha de Elizabeth na feira do solstício de verão não alcançou seu objetivo. Mas Richard já tinha aberto a porta e descia as escadas. Com um punhado de soldados escolhidos, Richard Malinder voltou a percorrer sob o véu da noite o caminho até Llanwardine, acompanhado de Robert, que a toda custo quis ir com ele. Ia conhecer até a última pedra do caminho. Avançavam em um tenso silêncio, apertando suas montarias. Os músculos cansados de Richard se queixavam, mas não podia parar. Elizabeth não tinha noção do perigo que corria. Ela se achava a salvo ali. O medo cavalgava sentado sobre seu ombro, uma presença cansativa que escurecia todos seus movimentos e que se empenhava, apesar de sua resistência, em lhe apresentar uma imagem sangrenta diante de seus olhos do que podia encontrar em Llanwardine.

Dezoito


Santa Mãe de Deus, Virgem bendita. Vos rogo mantenham meu marido com vida. A voz da prioresa atravessou a angústia das preces de Elizabeth chamando para as completas, a última oração do dia. Que não lhe aconteça nada, eu lhe rogo. Permita que volte com vida. Proteja-o de seus inimigos. Pedia o mesmo uma e outra vez, como quem passa as contas de um rosário, sem pedir nada para si mesma. E logo acrescentou, com vergonha de não tê-lo feito antes, amparo para David e Robert. Atrás dela estava Jane, que vigiava cada um de seus movimentos como uma fêmea de falcão cuidaria de seus filhotes, porque a morte aparecia nas imagens que iam a ela no incenso, em seus sonhos e nas cartas que consultava a cada noite em segredo. Um homem seco e escuro ameaçava sua senhora. Não podia distinguir suas roupas e seu rosto permanecia anônimo, evasivo como a névoa galesa. Sua única certeza era que a morte chegaria na mão dele. Jane se aninhou em suas roupas para se proteger do frio, sossegando suas frustrações. Para que serviam aquelas mulheres com suas vozes ásperas, seus latins vazios, enclausuradas naquele vale desolado? Para que serviam os sinais que lhe estavam dando conhecer, se não podia lê-los? Suas visões costumavam ser muito claras, mas agora não conseguia ver o futuro, envolto como estava nessa névoa densa, mais opaca à medida que iam passando as horas. Será que estava ficando velha? Tudo que podia fazer era ficar em guarda, até naquele lugar de muros altos, rígidas regras e de uma tranquilidade tão gelada que podia transformar em pedra a alma de qualquer um. Mas aquela noite tudo parecia tranquilo. Deixou o olhar vagando entre as freiras já amadurecidas, a elegante figura da prioresa e Elizabeth, tão forte, tão decidida. Ela não ia participar das rezas, mas tampouco estava disposta a perder de vista a sua senhora, que ia sendo afetada pela


inatividade a cada dia que passava. Cuidaria de Elizabeth até que a morte lhe arrancasse o último fôlego. As rezas começaram e Jane suspirou fundo. O serviço terminou e as freiras começaram a sair, as mais fortes ajudando às mais doentes. Naquela gélida e úmida noite de fevereiro se congregaram todas ao pé da escada para acender as velas que as ajudariam a ir a suas celas. De repente algo pareceu revolver-se entre elas e Elizabeth deu um passo para trás. Só se ouviu um murmúrio urgente e ela viu as cabeças com suas toucas negras assentirem e virarem. A prioresa se voltou para Elizabeth. —Temos visita. Desejam falar com você. O coração lhe subiu à garganta e Elizabeth engoliu em seco. —É Richard? —Não, querida. Não é. Eu a acompanharei — ela pôs a mão no braço de Elizabeth, mas olhou para Jane com um incomum gesto de entendimento—. Nós duas a acompanharemos. Lembre-se que não está sozinha, irmã. Tenha coragem. Mas Elizabeth só podia sentir medo. Não era Richard? Quem sabia que ela estava ali, além de seu marido e de seu irmão? Quem ia procurá-la? E se era outra pessoa, seria portadora das piores notícias? Ela jamais teria podido imaginar a identidade dos impacientes visitantes que a esperavam no salão. Não tinham se sentado e pareciam incomodados. Tampouco tinham tirado suas capas de viagem e pareciam ansiosos em partir. Quando abriram a porta eles se voltaram ao mesmo tempo: sir John de Lacy, Gilbert de Burcher e Nicholas Capel. —Sir John — Elizabeth umedeceu os lábios, que tinham ficado secos —. O que o traz à Llanwardine, tio? Mas sua atenção estava posta em Nicholas Capel. Ele estava junto à porta, mas lhe dava a sensação de que era ele quem dominava a cena como se aquela figura sempre vestida de negro e com rosto sério ostentasse a autoridade final naquela pequena sala. Como tinha ocorrido algo assim?


Naquele momento sir John de Lacy lhe pareceu pálido e indefeso em comparação. Mestre Capel inclinou a cabeça ante ela, e o medo gelou sua pele. Elizabeth sentiu que Jane ficava imóvel e emitia uma espécie de rugido surdo, e que a prioresa se colocava a sua direita, aproximando-se sutilmente. Era impossível passar por cima da aura inquietante que flutuava em torno daquele homem, embora não houvesse nada desrespeitoso ou ameaçador em suas maneiras. Grave e formal, ele inclinou-se ante as três mulheres, mas seu olhar e sua saudação foram para Elizabeth. —Milady Malinder é um prazer encontrá-la aqui. As chamas das poucas velas que estavam no salão oscilaram, cobrindo seu rosto de sombras. Elizabeth afastou o olhar dele para pô-lo em seu tio. —Por que estão aqui? — ela repetiu. O medo era como uma capa pegajosa que sentia sobre sua pele. Um pensamento não deixava de golpear em sua cabeça: como ele sabia que ela estava ali? Sir John se aproximou, e poderia ser compaixão o que viu em seu rosto. Ao falar sua voz soou carregada de compreensão e luto. Entretanto, o olhar inquisitivo de Capel a obrigou a o olhar de novo. Não havia compaixão em sua pessoa, dissesse o que dissesse. —Não há modo de lhe dar a notícia com delicadeza, Elizabeth —seu tio disse de repente —. É Malinder. Acabou ferido ao voltar para o cerco. —Não! Não pode ser! Olhou para todos. Richard, morto? Ferido? Não podia ser. Rechaçando a lógica, agarrando-se ao instinto, sua mente resistia. Como não ia ter sentido em seu coração se algo tivesse acontecido com Richard? Tinha que ser um engano. —Ele continua vivo, milady, em Ledenshall —Capel interveio —. Mas foi ferido gravemente. Sir John pensou que gostaria de estar ao seu lado. Deve nos acompanhar. Elizabeth resistiu à gélida escuridão que a ameaçava afogando seus sentidos. Respirar já era um esforço colossal. Se Richard estava ferido de


morte… a imagem esteve a ponto de fazê-la cair de joelhos, assim tomou a única decisão que podia tomar. —Sim. É claro que eu tenho que ir até ele. Sentiu que sir John pegava sua mão, lhe falando como se fosse uma menina. —Trouxemos uma numerosa escolta para garantir sua segurança. Chegaremos antes da meia noite se partirmos agora. Trouxemos um cavalo para você e nos ocuparemos de todas as suas necessidades. Devemos sair imediatamente. Tudo o que podia ver e ouvir eram a urgência, a preocupação e a compaixão. Tudo que podia imaginar era Richard jazendo em Ledenshall, sofrendo dores horríveis e com a morte batendo a sua porta, o peito e o cabelo cobertos de sangue. Naquele pesadelo era como se pudesse tocar à morte que se deteve junto ao seu leito, suas negras vestimentas ocupando tudo, disposta a envolver também a ele. A náusea e o desmaio ameaçavam, mas conseguiu controlar-se. Mas de repente sentiu a mão de Jane Bringsty que a agarrava com força por um braço e piscou, se obrigando a pensar, consciente de estar lutando contra uma barreira de aflição impenetrável. —Chegaremos a tempo? —perguntou, e as palavras chegaram a seus ouvidos como de uma grande distancia. —Assim espero milady. Por isso reze — Capel respondeu sem afastar o olhar de seu rosto, para assegurar-se de que acreditasse, de que obedecesse. Ela sabia, mas não podia resistir—. Mas como diz sir John, deve chegar a seu lado o quanto antes. Seria um engano perder mais tempo aqui. De novo Elizabeth se sentiu seduzida por aquele sotaque, denso como um doce mel e que parecia envolver seus sentidos. —Sim, claro que devo os acompanhar imediatamente. Então ouviu a voz de Jane, insistente, que parecia arrancá-la da borda de um precipício.


—Não o escute, milady. Quem pode garantir que seja verdade que milord está ferido? E para quem imagina que mestre Capel pode estar rezando? Para o diabo em pessoa, eu diria. Eu não gosto, milady — pediu puxando sua manga. —Devo ir para seu lado — ela insistiu, resistindo. Mas Jane não cedia. —Isto não está certo! Escute-me senhora! —Richard está ferido. Era tudo no que podia pensar, e a horrenda visão se aproximava cada dia mais. Estava a ponto de morrer. Por que estava aí perdendo tempo quando seu sangue estava empapando a cama? —Eu não gosto disto — Jane repetiu, agarrando-a pelas saias. Elizabeth se soltou com um puxão e avançou para a porta. E quando saíram e o ar frio lhe bateu no rosto, ouviu a voz preocupada da prioresa. —E por que não esperar à alvorada? E Elizabeth hesitou. Um pensamento abriu caminho em sua cabeça. Quem podia assegurar que fosse verdade? Podia confiar em sir John? Podia confiar em Nicholas Capel? Sabia no fundo de seu coração que não. Como se houvesse sentido sua resistência, sir John se colocou ao seu lado, empurrando-a suavemente para frente. —Não devemos nos atrasar. Partimos imediatamente. —Sim. E eu disse que irei com você. Nicholas Capel sorriu. Elizabeth viu aqueles lábios finos curvarem-se, o brilho de seus olhos escuros que refletia a vitória. E naquele momento soube que estava errando. Naquele estranho e sagrado lugar, tudo estava errado. Como se o mundo se inclinasse mais do devido, empurrado por uma força de propósito perverso. E ela não era a única que se sentia assim. Quando a prioresa se colocou diante de sir John, elevando uma mão para detê-lo, seu tio desembainhou a espada. —Saia do caminho mulher. —Não vou fazê-lo. Questiono sua sinceridade em tudo isto sir John. Pareceu ficar pensando se devia afasta-la com um golpe. Elizabeth esperou segurando o fôlego, quase incapaz de compreender o que estava


acontecendo. Com um grunhido, sir John trocou o punho e com um a parte plana da espada deu um terrível golpe em um braço da prioresa, com tanta força que a boa mulher caiu de joelhos com um grito. —Fique advertida, prioresa. Saia de meu caminho — e dirigindo-se a seu comandante acrescentou— Leve-a para fora. —Sim milord. Gilbert de Burcher agarrou Elizabeth por um braço e a arrastou para a porta, insensível às tentativas dela de chutá-lo, mordê-lo e arranhá-lo. Tudo o que aconteceu naqueles últimos minutos a tinha despertado, fazendo-a consciente do perigo real que corria. Aquilo era um sequestro que bem podia terminar em sangue. Richard estaria ferido ou seria uma desculpa para tirá-la do santuário? O que sir John pretendia com ela e seu filho? A fúria lhe deu a força necessária para brigar. Não tinha a quem recorrer, nada que lhe desse forças exceto sua própria determinação de resistir, e brigou para soltar-se das garras de sir Gilbert empurrada pelo desespero. Nunca se renderia. Nunca permitiria que o herdeiro da casa dos Malinder caísse nas mãos de sir John. A paciência de seu tio se esgotava. Embainhou a espada, empurrou Jane para tira-la do no meio e agarrou Elizabeth pelos braços para sacudi-la próxima a seu rosto. —Economize o fôlego e a força para a viagem! Eu a levarei arrastada até o cavalo se for necessário. Ninguém vai vir te resgatar. Eu te tratarei com consideração, mas não me pressione — e a lançou contra de Burcher —. Vamos! Elizabeth se viu sendo arrastada implacavelmente pelo claustro. —Não! Não vou com você! Elizabeth resistia como podia, e em um descuido arranhou a bochecha De Burcher, arrancando a pele e o fazendo sangrar. —Vadia! Bruxa! Merecem o apelido que lhe deram.


De Burcher ergueu a mão enluvada e Elizabeth soube que ia golpeala. Mas não ia se intimidar com isso. Firmou bem os pés no chão e esperou o golpe. —Eu o aconselho que não toque em minha esposa. Tire suas garras dela ou eu juro ante Deus que cobrarei isso em sangue. Richard! Elizabeth ficou paralisada, sem prestar atenção sequer à dolorosa pressão que a mão daquele animal fazia em seu braço. Voltou-se como pôde para a porta. Richard! Não estava ferido. A morte não o espreitava em Ledenshall. Milagrosamente estava ali, em Llanwardine. Não se incomodou em perguntar como ou por que, mas sim se deixou levar por um intenso alívio. A Mãe de Deus tinha respondido a suas preces. A chegada de Richard poria fim a aquela cena de horror. Tudo se arrumaria. Ao ouvir aquela ordem, todos se voltaram para o arco da entrada. Duas figuras estavam ali sob o dintel esculpido, ocultas atrás das sombras, mas Elizabeth não podia confundir aquela figura alta, e a ordem imperiosa. A luz se refletia na espada que já tinha na mão. Robert, igualmente preparado, estava junto a ele. —Soltem imediatamente a minha mulher — ele repetiu ao ver que De Burcher não se movia. A ordem parecia perfeitamente razoável, quase um pedido, mas ninguém podia ignorar a luz de seu rosto ao avançar. Uma fúria abrasadora o iluminava. Com uma mão soltou o broche que fechava sua capa e a deixou cair. —Malinder… veio —o rosto de sir John se enrugou com um sorriso satisfeito—. Não o esperava, mas por que não? Por que não pôr fim a tudo aqui mesmo? Todos os meus planos frutificariam de uma vez. Não poderia ser melhor — ele se voltou para Burcher, que seguia segurando Elizabeth —. Deixa-a. Mate-o. Richard levantou a espada. —O que é isto, sir John? Necessita de um velhaco como esse para que faça seu trabalho sujo? Por acaso teme me enfrentar?


—Não o temo. E até mesmo um velhaco pode matar. E Elizabeth recebeu um empurrão para que De Burcher pudesse virar, de espada na mão, e enfrentar Richard. —Elizabeth. Uma só palavra que expressava toda a preocupação de Richard por ela. —Estou bem. —Não a feriram? Elizabeth negou com a cabeça e seus olhares se entrelaçaram uns segundos, dizendo tudo. Então ele pôde dedicar toda sua atenção a seu adversário, que já tinha começado a riscar um círculo com a ponta da espada levantada e na outra mão, uma adaga. Elizabeth retrocedeu um passo. Não devia distraí-lo, mas não podia afastar o olhar dele. Richard respirou fundo observando De Burcher, tentando controlar seu gênio, esfriar o sangue que ardia cheio de ira, para poder enfrentar a aquele homem com fria determinação e julgamento claro. Ao entrar no claustro o único pensamento que tinha era o de castigar o homem que tinha maltratado sua esposa. Gilbert de Burcher arrastava sua mulher contra sua vontade, segurando seus pulsos e a carregando com ele. Entretanto, o controle era a chave contra aquele formidável soldado que tinha recebido a ordem de acabar com sua vida. O mesmo homem ao que tinham pagado para matar Lewis de Lacy. —Responderão por seus atos contra minha esposa — ele disse, quando sua respiração e seu temperamento o obedeceram—. E pela morte de seu irmão. —Lewis, não é? E que provas têm disso? —sua resposta foi imediata, com um sorriso zombeteiro—. Vamos lorde Malinder. Vejamos quem ganha esta mão. Richard estava preparado quando De Burcher o atacou com uma agilidade imprópria para um homem tão corpulento, e a batalha foi aberta. Ataque, defesa. Estocada, parada. Ataque, finta. Ambos suportando a


dificuldade das sombras e do pavimento desigual, ambos centrados na vitória porque os dois eram conscientes de que a derrota significaria a morte. Suas espadas, pesadas o bastante para partir um crânio, para partir um osso, subiam e desciam com o ruído de metal contra metal, enquanto as adagas voavam para encontrar pontos fracos, defesas descuidadas. Ambos tinham músculo e agilidade pelo treinamento constante, eram de estaturas parecidas e similares na largura dos ombros. Dois oponentes formidáveis. Elizabeth assistia com horror, incapaz de admirar a destreza de Richard, incapaz de pensar em outra coisa que não fosse ao pior dos resultados vendo a igualdade dos opositores. Ambos ensanguentados, ambos respondendo golpe com golpe. Ela tampou a boca com as mãos quando a espada de Burcher atravessou a manga de Richard e chegou a sua carne. Sentiu a ardência em seu próprio corpo quando Richard fez um gesto de dor antes de lançar-se a um novo ataque. Até que a esperança, com um brilho incipiente, começou a palpitar em seu peito. Richard brigava com uma raiva disciplinada e perfeitamente canalizada, lançando um implacável e constante assalto empurrado pela necessidade de vingança. Sua espada golpeava, sua adaga voava, bebia sangue. Elizabeth sabia que não ia haver trégua, nem clemência para o vencido. E a luta continuou durante uma eternidade, irreal e macabra no claustro de Llanwardine, ante a audiência das esposas de Cristo, sobre o gramado central, sob as arcadas esculpidas. Nada se ouvia exceto os golpes de suas botas, os grunhidos de esforço, as respirações entrecortadas, o vaio da dor quando o aço encontrava a carne. O final tinha que chegar. O esgotamento cobrou seu preço e a borda levantada de um ladrilho decidiu. De Burcher tropeçou e perdeu o equilíbrio por um décimo de segundo, mas bastou para distraí-lo e para que Richard pudesse aproveitar-se com uma finta e um avanço letal. A estocada


final alcançou De Burcher no peito, debaixo das costelas, com o final da ferida para cima, direto no coração. Caiu como uma pedra. Robert se agachou para vira-lo. —Está morto. —Eu sei. Era minha intenção. Sem fôlego, com o suor caindo pelo rosto e o sangue de um corte profundo no antebraço. O fogo do inferno só se apagou de seus olhos quando Robert o tocou no braço e o devolveu ao presente e ao assunto inacabado que o aguardava. Atentos como estavam todos ao confronto mortal, ninguém tinha reparado em Nicholas Capel, o nigromante. Ninguém o viu tirar uma adaga da manga e avançar. Não até que esteve entre os observadores, a lâmina brilhando na luz escassa. De todos os pressente, Jane Bringsty era quem se encontrava mais perto da séria figura. Sentiu que um punho lhe apertava o coração. A escuridão que rodeava mestre Capel era mais densa que a de suas negras roupas. Ali estava a origem de tanta maldade, os poderes escuros que tinham dificultado suas visões. A quem pretenderia atacar? A Elizabeth? Todas as visões de Jane se cristalizaram em uma certeza. É óbvio que pretendia atacar Elizabeth. Por acaso não o tinham revelado isso suas visões, sonhos e cartas? Ali estava o homem escuro que ia atacar a sua senhora, que era seu pior inimigo. Aquela adaga pretendia lhe arrebatar a vida. Não podia ser! Elizabeth e o menino não podiam sofrer, e sem pensar Jane se lançou para diante para desviar o trajeto da lâmina. Mas o nigromante, surpreso, deu a volta, e aquela pequena e terminante figura tentou segurar o punho daquele homem alto e poderoso. A luta era desigual, e o elemento surpresa não bastou. Seja por acaso, seja deliberadamente, a lâmina se cravou com uma terrível facilidade entre suas costelas. Jane caiu aos pés de Nicholas Capel quando Robert, muito tarde, muito lento, separou-o com um empurrão. —Jane!


Elizabeth se deixou cair de joelhos junto a sua amiga, sua adorável companheira, incapaz de compreender aquele inesperado giro do destino depois dos horrores daquela noite. —Jane… Jane! —gritou, superada pela vulnerabilidade total daquela figura enfraquecida, das feições enrugadas que naquele momento revelavam sua idade—. Não! Não pode ser! Tentou fazê-la recuperar o sentido enquanto procurava enlouquecida por sua ferida, mas soube imediatamente que não ia poder fazer nada. A ferida era fatal, embora Jane abrisse os olhos por pura força de vontade. O sangue manchou seus pálidos lábios ao tossir. Muito sangue. A lâmina tinha perfurado seu pulmão, para o que não havia remédio. Richard se ajoelhou junto a elas, empregando sua força para ajudar Elizabeth a levantá-la e apoiá-la contra ele, enquanto a respiração de Jane se tornava ofegante e se afogava em seu próprio sangue. Quando seus olhares se encontraram ambas reconheceram o que já sabiam. Elizabeth leu a verdade, a compaixão, e seus olhos se encheram de lágrimas. Apertou com força sua mão. —Eu vi a morte — disse enquanto Elizabeth seguia tentando tampar a ferida com suas saias—. Mas não pude ver a verdade. Acreditava que era sua morte a que me informavam as cartas, e era a minha. Jane fez uma careta de dor insuportável. —Salvou-me a vida Jane — ela lhe limpou suavemente o sangue da boca e da bochecha, inclinando-se para beijá-la na têmpora—. Sempre me amou e cuidou de mim. Como eu a você. —Foi a filha que nunca tive — falar era um esforço descomunal para ela, mas puxou Elizabeth para lhe sussurrar—: cuide do bebê. Ensine-lhe tudo o que deve saber. —Eu o farei. A prioresa se ajoelhou junto a eles, segurando o braço ferido entre as dobras do hábito. —Por favor… — Jane mostrou os dentes, mas não era um sorriso—. Conheço a morte. Não reze por mim — a dor voltou a reclamá-la e a fez


gemer—. Não nos faria bem nenhum. Eu vou morrer, e vocês não conseguiriam piedade de Deus para mim. Sem prestar atenção ao sangue, Isabel de Lacy se inclinou uma vez mais para beijar Jane na testa. —Então não rezarei por ti — disse, embora fizesse o contrário em seu coração—. Mas te desejo uma feliz viagem, Jane Bringsty. —Obrigado. Protegeu-nos. Salvou a minha senhora. A respiração de Jane se fazia mais entrecortada. —Salvaria a qualquer alma das garras do maligno, e sem dúvida ele esteve presente aqui esta noite. Descanse em paz, irmã. Sejam quais fossem nossas diferenças, fomos uma ao final. —Uma freira e uma adivinha? Quem o diria… Um riso se converteu em tosse. E tudo terminou.

Dezenove A quietude do momento foi quebrada pelo áspero roçar de uma espada que saía de sua bainha. Richard se levantou ao mesmo tempo em que ajudava Elizabeth a fazer o mesmo, e ambos descobriram que sir John de Lacy os enfrentava com a arma na mão. —Matou o meu comandante Malinder, mas ainda não ganhou. Nem o fará. Richard apertou Elizabeth contra seu corpo para enfrentar a seu tio. Ele estava cansado, suas feridas sangravam, mas seu tom era de desafio. —O que pretende agora, De Lacy? Vai me matar já, ou vai querer levar a nós dois até Talgarth? Assim poderá orquestrar minha morte de modo mais conveniente em uma de suas masmorras, enquanto submete Elizabeth a uma estreita vigilância até que nasça a criança. —Sim… bem sim — De Lacy sorriu mostrando os dentes—. Não me ocorre um plano melhor.


Elizabeth ficou imóvel na proteção do braço de Richard. Como ele podia admitir com aquela frieza o ardil e o assassinato? E o que Richard sabia que ela desconhecia? Ela voltou-se para olhá-lo, mas sua atenção estava em sir John. —Não pode me deter Malinder. Meus soldados os escoltarão — disse, erguendo a espada. —Não, De Lacy. Você está enganado. Suas argúcias já não se sustentam. Elizabeth se surpreendia com o quão tranquilo parecia seu marido diante de tal provocação. —O que aconteceu aqui esta noite, a meada de duplicidade já se está cambaleando. Muita gente sabe ou o suspeita. Você realmente acha que ninguém vai suspeitar de um punhado de mortes muito convenientes para você? Vai ter que silenciar a lady Isabel, para começar. E sir Robert. E terá que me matar se quiser ter controle sobre meu filho porque sabe que resistirei a você até a última gota de meu sangue. Jamais lhe entregarei voluntariamente. E Elizabeth tampouco. —Richard! Elizabeth não podia acreditar no que estava ouvindo. —A decisão será sua, certamente — o sorriso se transformou em uma careta—. Ninguém poderá falar contra mim. Neste momento eu tenho, a todos, na palma de minha mão. —E David? Está tão certo de que se renderá a seus manejos, do modo que Lewis se recusou a fazer? E se resistir, também o matará? —Deixe David comigo. É jovem, e aprenderá a reconhecer o que é de seu melhor interesse. Logo lhe ensinarei a glória de sua herança. Não terá rival em toda a Welsh Marches — sir John riu asperamente, fazendo um gesto com a mão que desdenhar da importância do assunto—. Nada pode deter o avanço do que tem que ocorrer — ele olhou para Elizabeth—. Mas primeiro tenho que me ocupar de sua comodidade, querida. —Não entendo…


—Seu tio — disse Richard, vibrando de fúria—, tem uma campanha perfeitamente planejada anterior ao nosso casamento. Pretende me matar e tomar posse de todas as terras dos Malinder através de meu herdeiro. —Isso é verdade? —perguntou, até sabendo que era verdade—. E espera que aceite sua hospitalidade enquanto urdem a morte de Richard? Jamais o farei. Gritarei seus pecados para o mundo inteiro! Sir John se limitou a olhá-la com tanta despreocupação como se fosse uma menina pequena empenhada em sair-se com a sua criancice. Transbordava confiança por todos os poros da pele e sua linguagem corporal era de orgulho. —Lewis me ameaçou do mesmo modo, e não me restou mais opção do que o eliminar. Deveria tomar isso como uma advertência Elizabeth. Ela o olhou boquiaberta ante tal confissão. —Ninguém acreditará em você, minha teimosa sobrinha, mesmo que pudesse encontrar alguém disposto a escutar seus delírios. Sofre de uma enfermidade de mulheres causada pela repentina e inesperada morte de seu marido em uma emboscada galesa. Se chegar aos ouvidos de alguém, atribuirei semelhante historia aos delírios de uma mente transtornada. Além disso, esta se dando muita importância. Você foi e é uma De Lacy antes de ser uma Malinder. Onde está sua lealdade, moça? Virá comigo para Talgarth e quando nascer a criança nós administraremos a herança Malinder juntos. Tremendo, Elizabeth não se atreveu a olhar para Richard, temendo que sua própria debilidade se ela se permitisse contemplar a possibilidade de sua morte, se pensava no sangue que mesmo naquele momento gotejava de seu braço ao chão. Mas não podia permitir o que seu tio pretendia fazer. Não podia deixar que ele se saísse com a sua. Teria que negociar. Naquele momento soube que daria sua vida se não houvesse outra alternativa, mas restava uma possibilidade…


—Sir John! —soltou-se de Richard e plantando-se diante seu tio afastou a ponta de sua espada e o obrigou a olhá-la—. Não podemos chegar a um acordo? Por que não me oferece um trato? Em troca da vida de meu marido, eu lhe devolverei as terras de meu dote. E não é pouca coisa… incrementaria suas posses na Welsh Marches central. Não lhe parece o suficiente? —Quanta lealdade, Elizabeth. Assombram-me — ele zombou—. Não, não é coisa pouca. Afinal tive que pôr uma isca grande para que o rato a mordesse e que não pudesse rechaçar o casamento. Mas essa pequena parcela, comparada com todas as terras dos Malinder que posso tomar, em nome de seu filho… —Também terá que tomar minha vida — ela respondeu, embora soubesse desde o começo que seria um gesto inútil. —Que assim seja. Enquanto isso, Elizabeth, como eu disse, ninguém acreditará em seus delírios. —Sim vão acreditar em mim,eu acho. Aquelas poucas palavras caíram como as pétalas de uma rosa sobre a grama verde no meio de toda aquela tensão. Um som de sapatos de sola macia soou no pavimento e todos se viraram. Ellen de Lacy entrou serena no claustro e se deteve junto a seu marido, tirou o capuz e entrelaçou as mãos. Quem não sabia o que estava se desenvolvendo ali diria que era a imagem perfeita da esposa submissa. —Sir John — ela disse—, deveria soltar sua sobrinha e deixá-la partir — olhou aos presentes —. E ao lorde Richard também. Se lhes ocorrer algo, contarei o que sei, e se você negar não servirá de nada. Há muitas pessoas aqui que sabem a verdade. —Ellen! Isto não é seu assunto! O que faz aqui? —uma máscara de preocupação apareceu em seu rosto, mas o sangue tinha gelado em suas veias e sua pele era cinzenta à luz das velas—. Deveria estar em Talgarth. O sorriso de Ellen, incrivelmente sereno, seguiu em seu lugar.


—Eu estou ausente há vários dias de Talgarth milord. Senti uma necessidade de visitar Ledenshall. E aparentemente, também senti a necessidade de estar aqui — ela declarou, e deu um passo atrás quando ele fez um movimento para agarrar seu pulso—. Eu tenho que limpar minha consciência, milord, porque guardei segredos que nunca deveria ter guardado. Rezei por isso e preciso lavar minha consciência. Acredito que o estado de minha alma imortal depende disso. Sir John avermelhou de repente. —Sua alma imortal? Que bobeira é essa? O que pode lhe atormentar? Ele voltou a lhe oferecer uma mão, mas ela retrocedeu de novo, como se temesse que o contato com ele pudesse poluí-la. —Sei sobre Lewis — ela disse com toda claridade—. E sei o que tinha planejado para Elizabeth, tudo orquestrado entre você milord, e esse homem… essa criatura que chama de conselheiro. Sabia que a vida de Richard estava em perigo, assim decidi falar. —E falar com quem? —de repente De Lacy ficou imóvel, e uma profunda ruga atravessou sua testa—. Quem ia te escutar? — ele inquiriu, tentando fazer uso de sua autoridade sobre uma mulher que jamais em todo o tempo em que estavam casados se atreveu a opor-se a ele. —Eu — respondeu uma voz. Parecia jovem e carregada de emoção. Detrás dela, sob os arcos escuros, apareceu David. Elizabeth sentiu por fim que a esperança era possível quando ouviu de Lacy conter o fôlego, sua arrogância pela primeira vez encarquilhada. Aquilo tinha que ser o fim. Já era muito. Instintivamente De Lacy elevou a espada, e um brilho de metal captou o olhar de todos. Contra quem ia usala? Foi David quem falou. —Não, sir John. Não pode fazê-lo. Pense no que está a ponto de fazer tio. Quer seguir manchando as mãos de sangue? Mas a resposta de sir John foi para sua esposa.


—Ellen… devia ter confiado em mim. —Não podia. Tantas mentiras… no que pensava? E Lewis… mataram Lewis. Não podia permitir que também fizessem mal a Elizabeth. —Você me destruiu. —Não. Você destruiu a si mesmo. Sir John olhou ao grupo de espectadores hostis como se pela primeira vez percebesse a enormidade do que tinha feito. A ponta da espada abaixou. Elizabeth sentiu que Richard apertava a sua na mão. Não duvidava de que ele a usaria para protegê-la, mas já não podia mais. —Richard — ela esperou que ele a olhasse—. Deixe estar. Todos nós sabemos que é o culpado, mas esta noite já houve sangue demais aqui. Não mais, eu lhe peço. Viu-o hesitar. Viu seu desejo de vingança, mas ao final, com gratidão, viu a razão, a compaixão. —Muito bem, esposa — ele disse abaixando a cabeça—. Será como você quer. O sangue de sir John de Lacy não manchará minhas mãos. Sir John embainhou a espada e a noite o engoliu. De Nicholas Capel, vivo ou morto, não restava nem rastro. Elizabeth permaneceu de pé olhando a seu redor. Era impossível assumir tanta brutalidade depois de um período tão longo de inatividade e espera. Era como estar no olho de um furacão, rodeada dos ventos da mentira, violência e morte no claustro de Llanwardine, depois do que tinha restado um silêncio implacável. A seus pés estavam os restos mortais da mulher que tinha lhe dado segurança durante toda sua vida, que a tinha envolvido em confiança, consolo e conselho. Possivelmente esse conselho não tivesse sido sempre o mais acertado ou honesto, certamente quase nunca tolerante, mas sempre teve a finalidade de proteger e alimentar. Ela enfrentou à morte por Elizabeth de Lacy, como tinha sido no final. Era muito difícil de assumir, uma pesada laje que lhe oprimia o peito. As freiras tinham começado a ocupar-se dos mortos e a cuidar de sua prioresa ferida. Que estranho. Piscou para desfazer-se das lágrimas que por fim tinham chegado a seus olhos. A destruição de seu casamento , de sua


vida, não havia partido da hostilidade entre partidários dos York e do Lancaster, mas sim de seu próprio sangue. Todas as maquinações de sir John eram destinadas a conseguir a morte de Richard. Inclusive a sua própria, se não aceitasse seus desejos. Tudo para ficar com o herdeiro da casa Malinder. E apesar de que tivesse atuado sob a influência de Nicholas Capel, isso não o absolvia de seus horrendos pecados, porque tinha seguido suas próprias diretrizes. E ali estava Richard Malinder, o centro de seu mundo, o homem que enchia por completo seu horizonte e que a olhava como se ela enchesse o dele. Ficaram sozinhos no claustro e a atmosfera carregada tinha se dissipando, deixando em seu lugar uma grata tranquilidade, embora as pedras do piso manchadas de sangue dessem testemunho das barbaridades ali cometidas. A única vela que tinham deixado apenas projetava um brilho amarelado que evanescia o resto do lugar em sombras. Durante um momento iam poder ter intimidade. Os dois se olharam de onde estavam lendo com a mente ao mesmo tempo em que com os olhos. Elizabeth contemplou seu cabelo despenteado, as rugas de cansaço que o marcavam em torno da boca por causa da veloz cavalgada que deve ter feito para chegar ali e resgatá-la. Havia sangue em suas roupas, na manga, e seguia tendo a espada obscurecida pelo sangue em sua mão. Mas suas feições e o feroz brilho de seu olhar seguiam sendo o que ela mais amava e queria. Tinha lutado por ela e mataria o homem que lhe teria feito mal sem hesitar. Havia retornado por ela. Enfrentou a seu tio, e no final tinha tido a força necessária para não acabar com outra vida. Para ele, vestida com aquele severo hábito e o véu de linho, ela parecia-se muitíssimo com a freira rebelde que tinha chegado a Ledenshall um ano antes para assumir uma posição da qual esperava obter pouca felicidade. Mas agora era sua esposa e a conhecia, e amava. Via a beleza que havia nela. Teria dado sua vida por ela.


Tinham estado separados muito tempo. Soltou a espada no chão, abriu os braços e ela se apertou contra ele. Assim fácil. Abraçou-a e ela se apoiou contra seu peito com um suspiro que saiu do seu intimo. —Graças a Deus que está a salvo. Rezei para que chegasse este momento. Elizabeth apoiou a testa em seu ombro e respirou o aroma de suor e pó, o metálico aroma do sangue, encheu-se da maravilha de tê-lo ali enchendo seus pulmões, correndo por suas veias até que seu corpo tremeu. —Está bem. Você e o menino — não era uma pergunta, porque tinha visto em seu rosto que era verdade, em seu corpo que se apertava contra ele. Respirou fundo e apoiou a bochecha nas dobras do véu. Logo, para animar um pouco o momento que ameaçava o empurrar a mostrar umas emoções pouco masculinas, levantou o rosto e perguntou rindo—: Não permitiu que voltassem a lhe cortar o cabelo? Uma risada suave foi toda a resposta que necessitava. —Já percebi que não esbanjou o tempo que durou a espera — ele disse, lhe acariciando as costelas e os quadris, e notando a carne que os cobriam. —Não, porque sabia que viria a me buscar — sua respiração lhe acariciou a bochecha—. Este lugar foi um santuário, e não uma prisão para o resto de meus dias. Mas, Richard… foi muito duro esperar sem saber nada e morta de incerteza. Quando sir John me disse que estava ferido e a beira da morte… Um estremecimento a sacudiu da cabeça aos pés e ele a abraçou imóvel, e assim eles permaneceram aconchegados nas sombras, uma só entidade sem divisão. —Eu te amo, Elizabeth — murmurou contra seus lábios. —E eu amo você. —Olhe para mim. E quando ela o fez ele a beijou com tanta ternura e doçura, um contraste tão brutal com o sangue e a morte que os rodeava que seu coração tremeu.


As lágrimas chegaram por fim. Richard as saboreou e sem deixar de a abraçá-la foi secando as que rolavam pelas bochechas. —Sinto não ter podido salvá-la. —Eu a amava muito. Jane foi para mim a mãe que nunca tive. —Então, estou em dívida com ela por cuidar de minha esposa por mim. —Primeiro cuidou de minha mãe e depois cuidou de mim por toda a vida, quando ninguém mais se importava… Não pôde seguir. Chorou amargamente por todas as lembranças e a perda com Richard abraçando-a sem impedir que aquela dor saísse. Por fim conseguiu recuperar a calma. —Jane me salvou a vida. Deixou que a faca que acreditava destinado para mim se cravasse em sua carne. Mas estava errada não é? Agora eu o vejo. —Sim — Richard afastou seu cabelo úmido das bochechas. — Pensou que sua vida corria perigo, mas não podia saber que não era assim. A adaga de Capel não era destinada a você. Você era o pilar sobre o qual se apoiava o plano de seu tio; o tinha sido desde que a deixaram sair de Llanwardine. Capel teria usado a adaga contra mim, ou contra qualquer um que houvesse se interposto no seu caminho, mas tanto sua saúde como a da criança que leva dentro era de vital importância para o futuro de De Lacy. Richard a conduziu a saliência de pedra que servia de banco nas paredes do claustro e que as freiras usavam para sentar e ler ou para desfrutar de suas horas de descanso, e ali lhe contou toda a história de fraudes e conspirações sem escrúpulos tendo todo o tempo as mãos de sua mulher entre as dele. E ao contar aquela historia com palavras se deu conta de quão bem tudo encaixava, a trama de uma tapeçaria que amaldiçoaria sir John de Lacy como traidor e assassino. —De modo que eu era um meio para conseguir um fim. Sempre o fui… um modo de consolidar a posição de meu tio na Welsh Marches. Nosso filho herdaria as terras dos Malinder e lhe teria dado a chave


necessária para incorporar suas posses às dele. Mas por necessidade tinha que desaparecer. —Sim. Ele pegou pelos punhos e o reconfortou sentir seu pulso. —E eu também — ela entendeu, olhando-o com os olhos muito abertos—. Uma vez que tivesse nascido o menino, e se eu resistisse. —Sim. Teria que o ter aceitado como seu tutor — pensar nisso ressuscitou a raiva e sem dar-se conta apertou as mãos até que Elizabeth protestou—. Perdoe-me — disse imediatamente, e se levou seus pulsos aos lábios—. É impossível contemplá-lo sem… — não terminou—. Possivelmente sir John pensou que poderia lhe convencer. —Então é que não me conhece mesmo! E David teria substituído Lewis. Seria seu herdeiro, um que poderia convencer a não fazer perguntas e a limitar-se a obedecer, algo que Lewis não teria feito. —Certamente. Mas pelo que se vê, também não conhece bem o David. O rapaz se parece bastante com sua irmã, e raciocina por conta própria. Ela ficou pensando um momento e em seguida tampou o rosto com as mãos, mas sua voz soou forte. —Que vergonha, Richard. Como podia ter pensado em semelhante final quando me entregou a você em casamento ? E você me aceitou ignorando que tinha planejado sua queda… e sua morte. —Não têm do que se envergonhar. Foi uma arma inocente que usaram contra mim. Não têm culpa de nada — ele empurrou com suavidade seu queixo para que o olhasse—. Como vê, ele não pôde fazer nada contra mim. Estou ileso — no final se levantou da fria pedra, pendurou a mão dela em seu braço e juntos se dirigiram à saída do claustro —. Quer deixar Jane aqui? —Não. É um espírito muito inquieto para ficar aqui — respondeu—. O que pensaria de ver-se rodeada de freiras acendendo velas e rezando por ela? Acho que descansaria melhor em Ledenshall. —Eu vou arranjar isso.


A dor voltou a mordê-la e ela se alegrou enormemente de ter Richard ao seu lado. —Não posso acreditar que esteja aqui — murmurou—. Disseram-me que estava a ponto de morrer. Ela beijou-o na boca com ternura, com delicadeza, confirmando com as palmas de suas mãos que a vida palpitava sob seu peito. —Onde posso ficar até que amanheça? —ele lhe perguntou, exausto. —Venha comigo — pegou sua mão, com a outra segurou a vela e o conduziu até seu próprio quarto, fechando a porta atrás de si —. Isto é o melhor que posso oferecer — uma espécie de risada flutuou no ar no qual se via a respiração—. As irmãs se escandalizariam se soubessem que o trouxe aqui, mas não penso em permitir que nos separem. Viu a acomodação, pouco mais que uma cela, com os olhos de Richard. As paredes com sua brilhante capa de umidade, o chão nu, uma única janela sem vidro pela qual entrava o frio ar da noite. A estreita cama e a ausência de qualquer tipo de mobiliário, exceto um crucifixo nu na parede. Nada que pudesse oferecer comodidade ao convidado. A careta de Richard disse tudo. —Uma verdadeira penitência! E essa cama, se nós formos compartilhá-la, é estreita como um ataúde. Ai! Elizabeth me perdoe… — ele disse ao dar-se conta de sua estupidez. Ela pôs um dedo sobre os lábios dele antes de selar sua boca com os dela e empurrá-lo docemente sobre a cama onde ambos se deitaram com um desconforto ao qual nenhum teria renunciado. Mais precioso que o mais suntuoso dos quartos, melhor que o mais suave dos colchões, o mais fino dos lençóis, aquele duro catre lhes ofereceu tudo que necessitavam. Sem despir-se, o calor de seus corpos abraçados compensou a puída manta com que se cobriram. Por decisão mútua deixaram a vela ardendo até que se consumiu, como se quisessem manter as imagens do que aconteceu naquela noite encerrada na escuridão, enquanto sussurravam palavras de amor, aceitavam serenamente o que tinha estado a ponto de destruí-los e


celebravam uma união inseparável de corpo e mente. Foi a mais doce e mais triste das reconciliações, mas no fim uma estranha satisfação os envolveu. A visão da morte, do assassinato e do medo, foi desaparecendo gradualmente, até que ambos mantiveram silêncio, satisfeitos em apenas estar juntos depois de tudo que os tinha separado. Richard se manteve acordado até a alvorada. Elizabeth pode dormir um pouco até que soou o sino da prioresa chamando para as primas. Sem dizer uma palavra se moveram juntos para consumar uma cura que ambos necessitavam. Beijos doces, doces suspiros, despirem-se minimamente para reafirmar seu amor. O movimento lento das mãos, a respiração entrecortada como o único som no quarto. Colocando-se sobre ela, Richard a encheu, possuiu-a, entregou-lhe toda sua ternura, que Elizabeth recebeu o rodeando com seu corpo e com seu amor, todo o tempo sem deixar de olhá-lo nos olhos, mergulhando-se no amor que via em seu rosto. A respiração entrecortada, completamente perdidos em um mundo que as quatro paredes daquela cela guardavam, moveram-se juntos no mais doce dos ritmos até que tudo se completou. As palavras dela, sussurradas contra seus lábios, expressaram o desejo de ambos: —Me leve para casa, Richard. Me leve para Ledenshall.

Epílogo


Todas as superfícies estavam cobertas com uma grossa camada de pó. Respiravam-no, bebiam-no e o comiam; até os lençóis da cama se tornaram ásperos por causa dele. Entretanto, ambos estavam de volta em casa e o coração de Elizabeth ficou leve como um pássaro. Ellen estava em Talgarth e David se ocupava de cuidar dela. Sir John estava em Londres, pedindo justiça ao novo rei da casa dos York, o jovem Edward. Nicholas Capel tinha desaparecido sem deixar rastro. Elizabeth estremeceu como se uma nuvem tivesse abafado o sol. Seus delitos e os de sir John tinham ficado sem castigo. E quanto ao futuro… melhor não pensar nisso. A bola de cristal não tinha sido usada desde a morte de Jane. Vozes à distância lhe informaram onde estava Richard. A muralha que tinha cedido sob o ataque dos canhões ocupava grande parte de seu tempo. E o resto, ele passava dedicando-se a ela. Elizabeth era consciente do quanto que ele se controlava para não pô-la entre almofadões, o que ela agradecia, e sorriu como um gato estendido no sol ao se recordar da expectativa com que brilhavam os olhos dele ao olhá-la. No parapeito do muro, Richard desdobrou o plano para os novos edifícios que queria construir e olhou para onde Elizabeth se deteve, no alto das escadas que partiam do salão principal, com as saias formando redemoinhos pelo vento, a cintura já mais dilatada, e segurando o véu, um gesto muito feminino. Imediatamente ele foi para seu lado. As ameaças sofridas eram ainda muito recentes para poder esquecê-las facilmente. Perdê-la era impensável. —O que esta fazendo? —E precisa perguntar? Posso escrever meu nome no pó que o cobre tudo! Beijou-a nos lábios acariciando seu ventre, mas não lhe ocorreu dizer que descansasse. Conhecia-a bem.


—Não se preocupe. David será um excelente senhor de Talgarth — lhe assegurou. Tinha pressentido a sombra que ainda empanava seus pensamentos. —Eu sei. Richard passou um braço pela cintura dela e apoiou a bochecha sobre seu véu. Era um privilégio poder desfrutar daquele momento de sol de lá encima e contemplar a atividade do pátio, onde estavam preparando uns blocos de pedra. Até que uma figura felina e familiar se enredou em seus pés, desceu pela escada e atravessou o pátio para dirigir-se aos estábulos com as orelhas alerta, os flancos volumosos e dilatados sob o pelo. —Outra que já pensa no que virá — comentou Richard. —Espero que pelo menos uma das duas obtenha o que deseja — ela sorriu ao ver desaparecer à gata pela porta—. E que os gatinhos tenham melhor temperamento que sua mãe. —Amém. E acredito que minha Fera Negra também está contente. —Mais que contente — ela disse, transmitindo em suas palavras todo o amor que havia entre ambos. —Milord! Do pátio Simon Beggard elevou uma mão quando começavam a mover um enorme bloco de pedra com cordas e alavancas. Richard beijou a mão que Elizabeth tinha pendurada em seu braço resistindo com esforço à tentação de ficar um momento mais ao sol com ela. O futuro se apresentava cheio de promessas. O tempo diria que tipo de homem ia ser Edward de York, o novo rei. Um homem melhor que seu pai, certamente, e possivelmente um rei capaz de trazer a paz a um reino despedaçado pela guerra. —Eles precisam — suspirou Elizabeth, empurrando-o. —Mais tarde eu volto! —suspirou, e desceu rapidamente as escadas para falar da construção da muralha. Com o herdeiro dos Malinder lhe dando chutes no ventre e o coração transbordando de felicidade, Elizabeth ficou no alto das escadas vendo-o trabalhar.


Fim NT. *Welsh Marche é um termo que, no uso moderno, denota uma área indefinida ao longo e ao redor da fronteira entre Inglaterra e País de Gales no Reino Unido O significado preciso do termo tem variado em diferentes períodos. Os termos em inglês Welsh March, O marco do País de Gales, em latim medieval Marchia Walliae, foram usadas originalmente na Idade Média para denotar um território mais precisamente definido, o território entre a Inglaterra e o Principado de Gales , em que senhores Marcher tinham direitos específicos, realizados em certa medida, independentemente do rei da Inglaterra

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Amor divino  

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