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Adorável Marquês Deborah Simmons

Clássicos Históricos Especial nº 95 Publicado originalmente em: 2000 Título original: The Gentleman Thief EDITORA NOVA CULTURAL LTDA. Copyright para a língua portuguesa: 2000

Digitalização: Palas Atenéia Revisão: Valéria Gouveia Formidável! Inglaterra, 1818 Georgiana Bellewether não podia entender por que a família escolhera passar as férias em uma tediosa estação de águas termais. Nada ali era capaz de estimular sua mente inquisitiva… até a noite em que o colar de espemaldas de lady Culpepper foi roubado! Ela precisava usar seu prodigioso raciocínio para esclarecer o crime e manter as mãos longe do enigmático homem de preto… o atraente lorde Ashdowne! O marquês de Ashdowne, Johnathon Saxton, entediava-se com a falta de emoção que marcava seus dias. Mas quando a exótica Georgiana Bellewether literalmente tombou em seus braços, ele soube que se envolvera em uma árdua tarefa. A mulher era um desastre em pessoa, e ele queria sobreviver àquela confusão!


CAPÍTULO I N inguém levava Georgiana Bellewether a sério. Fora agraciada pela natureza com um corpo bem moldado, de curvas perfeitas, longos cabelos cacheados e olhos azuis, frequentemente comparados à água límpida. Entretanto, tal dádiva tornara-se um verdadeiro desgosto em sua existência. As pessoas a viam somente uma vez e logo decidiam que ela não possuía cérebro. A maioria dos homens não concebia a inteligência como uma das aptidões femininas. No caso de Georgiana, eles apenas a enxergavam como uma tola. Era terrível. Sua mãe, embora adorável, tinha personalidade fútil. O pai, apesar de nobre, não abria mão do aspecto ruidoso que o caracterizava. Georgiana não duvidava de que seria mais feliz caso se parecesse com ambos. Infelizmente, após quatro gerações, ela fora a única Bellewether que herdara as qualidades de seu tio-avô Morcombe, um notório erudito de mente célebre. Tão logo aprendera a falar e ler, Georgiana passara a devorar as mais variadas maneiras de estudo, sobrepujando as governantas da família, a academia local para jovens damas e o tutor de seu irmão com igual fervor. Contudo, solucionar mistérios era sua maior paixão. Abominava o fato de ter nascido mulher, pois essa condição a impedia de ingressar na equipe de investigadores de Bow Street, em Londres. Em vez de rastrear pistas e capturar criminosos, era obrigada a se contentar com pequenos folhetins que compunham a escassa literatura de Chatham's Corner, o pequeno vilarejo onde reinava seu pai como nobre e xerife. Aquele ano, jurou a si mesma, seria diferente. A família, que costumava manter tradições, deslocara-se a Bath para passar o verão. E Georgiana tencionava aproveitar ao máximo a estada na benéfica cidade. Com certeza, poderia colocar em prática suas habilidades naquela famosa estação termal, repleta de turistas. E, sem dúvida, a população de Bath possuía uma natureza muito mais sagaz que os habitantes rurais aos quais estava acostumada. Porém, após uma semana frequentando o Pump Room e caminhando pelas principais avenidas da cidade, Georgiana teve de enfrentar o desapontamento. Embora adorasse explorar novos locais, ela não havia conhecido ninguém interessante. Pior, não acontecera nem sequer um fato com o qual pudesse se distrair. Respirou fundo e fitou o salão da residência de lady Culpepper, ansiosa por encontrar algum interesse maior entre os convidados da exuberante festa. No entanto, viu apenas viúvas e cavalheiros comuns que transitavam por Bath naquela época do ano. Várias senhoritas, mais jovens que ela, permaneciam ao lado das respectivas mães, esperando laçar um marido entre os abastados visitantes. Diferentemente delas, Georgiana se dispunha a conhecer alguém com uma mente mais ampla, cheia de ideais, cujos interesses comungassem com os

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dela e que não pensasse no casamento como o único objetivo de vida. De repente, divisou em meio à multidão uma figura elegante, trajada de preto. Intrigada, Georgiana arregalou os olhos. Não seria preciso ter cérebro para deduzir que a aparição do marquês de Ashdowne era incomum. Os altos membros da sociedade inglesa raramente frequentavam Bath. Um homem bonito e carismático, pertencente à classe de Ashdowne, preferia ficar em Londres ou acompanhar o príncipe regente a Brighton. Ou então, refletiu Georgiana, optaria por desfrutar de festas escandalosas em sua elegante mansão. Desde que ouvira rumores da chegada do marquês, ela havia suspeitado do súbito interesse de Ashdowne em Bath. No fundo, gostaria de descobrir a razão que o trouxera àquela cidade, porém não fora apresentada a ele. O marquês instalara-se havia poucos dias, causando um verdadeiro furor entre as jovens senhoritas, incluindo as irmãs de Georgiana. Era difícil vêlo com perfeição devido à multidão de mulheres que o rodeava na festa. Ashdowne possuía uma das luxuosas casas de Camden Place, a região mais valorizada da cidade. E aquela era a primeira vez que ele se misturava à população comum de Bath. No mínimo, o marquês viera aproveitar as águas milagrosas de Bath. Mas Georgiana achava a idéia absurda, já que ele devia ter pouco mais de trinta anos e não aparentava estar doente. Sem sombra de dúvida, o homem não sofria de nenhuma moléstia, Georgiana concluiu em pensamento, quando conseguiu ter uma boa visão do marquês. Ele exalava saúde. A bem da verdade, o marquês de Ashdowne era o homem mais saudável que Georgiana já vira, decidiu ela, quase perdendo o fôlego. Era alto, provavelmente um metro e oitenta, e esbelto. Não transparecia magreza, mas sim músculos muito bem desenvolvidos. Sobretudo, o marquês possuía graça e requinte, qualidades que Georgiana não esperava encontrar nos debochados membros da alta sociedade. Era um homem viril, uma característica que a pegou de surpresa enquanto vistoriava a elegância explícita do marquês. Os cabelos eram negros e bem cortados, os olhos possuíam o azul do mar e os lábios… Georgiana não pôde encontrar palavras para descrevê-los. As curvas sutis e a pequena protuberância no lábio inferior pareciam irreais. Ashdowne, ela ponderou, fora contemplado com uma beleza máscula além da razão. Era capaz de despertar o interesse de qualquer ser na face da terra. A conclusão foi chocante, embora Georgiana soubesse que o julgamento inicial fosse baseado somente em aparência. Alguém tão rico e poderoso não podia ter sido abençoado, também, com grande capacidade mental. Enganara-se. Ao fitá-la, os olhos do marquês de Ashdowne exibiram o brilho inconfundível da inteligência. A explícita vistoria de Georgiana fluíra de tal forma que acabara por chamar a atenção do marquês. Entre tantas pessoas, Ashdowne parecia muito interessado nela em particular. Mortificada de vergonha, Georgiana recuou. Quando o marquês, em resposta, franziu a testa, ela sentiu-se corar. Em um gesto repreensivo, desviou o olhar. Estivera apenas estudando o homem, tal qual fizera com outros

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convidados. E, no fim, terminara por aborrecer-se diante do olhar intimidador do marquês. Ashdowne devia vê-la como as outras jovens que praticamente se derretiam a seus pés. Georgiana esgueirou-se entre os convidados e, ao aproximar-se do imenso pátio diante do salão, deu-se conta de que perdera uma ótima oportunidade de conhecê-lo. Fantástico! Exasperada, sacudiu a saia, sabendo que havia deixado os sentimentos interferirem na investigação. Nem sequer podia imaginar um detetive de Bow Street abandonando um caso porque o suspeito o encarara de modo tão profundo. Com um suspiro de irritação, Georgiana retornou ao salão, mas seu lugar fora preenchido por outras mulheres, jovens e de idade mais avançada. Então, sua mãe apareceu, persuadindo-a a dançar com um dos rapazes. Por experiência, ela sabia ser inútil argumentar com a sra. Bellewether. O sr. Nichols, Georgiana logo descobriu, um rapaz de Kent, fora a Bath com a família pois o pai sofria de dores reumáticas e as águas termais faziam parte do tratamento. Contudo, a conversa não se estendeu além disso. Em poucos minutos, a atenção de Georgiana voltava a um tópico bem mais estimulante. Esticou o pescoço para visualizar Ashdowne sobre o ombro do sr. Nichols. Quando por fim conseguiu, viu-o caminhar em direção ao jardim acompanhado de uma jovem viúva que, aparentemente, abandonara o luto. Quanto às perguntas triviais do sr. Nichols, ela as respondia forçando um sorriso. Ora, não tinha tempo a perder com tolices. Porém, ao notar a expressão aparvalhada de seu companheiro de dança, Georgiana enervou-se. O homem não tirava os olhos do pescoço alvo, rodeado de cachos dourados. E pior ainda, ele fixava-se nos seios avolumados pelo decote que a sra. Bellewether alegara ser a última moda em Paris. Claro, o rapaz nem sequer escutava o que ela dizia e, em momentos como esse, Georgiana via-se tentada a sussurrar uma obscenidade ou confessar um crime hediondo na tentativa de recobrar a audiência. Seus admiradores se resumiam em dois tipos: os que não prestavam a menor atenção ao que ela dizia e os que absorviam cada palavra. Infelizmente, o último, não teria qualquer utilidade tanto quanto o anterior porque não conseguia engajá-los em uma conversa significativa. Os idiotas concordavam com tudo que ela dizia! Teria de se acostumar a tal condição, pensou ela com certo desaponto. Sua mãe sempre pregava as virtudes do casamento e da paternidade, mas como conceber a idéia de passar uma vida inteira ao lado de um homem sem atrativos intelectuais? De que forma, vivendo em uma minúscula cidade do Texas, ela poderia conhecer alguém? A educação entre os pequenos nobres surgia casualmente, e mesmo aqueles que obtiveram o mínimo de conhecimento pareciam embriagados diante da beleza feminina de Georgiana. Era a maldição de sua existência. Portanto, para a decepção da mãe, ela desencorajava os pretendentes e resignava-se à vida de solteirona, na qual ganharia liberdade para se vestir e agir da maneira que bem desejasse, vivendo da herança que seu tio-avô Morcombe lhe prometera. Foi um alívio escutar os últimos acordes da melodia. Alegando sede, Georgiana pediu ao animado sr. Nichols que lhe trouxesse um refresco. Passar

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alguns instantes longe dele seria gratificante. — Ele não é maravilhoso? — a sra. Bellewether sussurrou no ouvido da filha. — Fiquei sabendo por fonte fidedigna que ele receberá do avô um adorável pedaço de terra em Yorkshire, o que lhe proverá cerca de mil libras ao ano! A voz entusiasmada da mãe impeliu Georgiana a proferir uma réplica grosseira. Mas, se não fosse o sr. Nichols, outros homens lhe seriam apresentados. Então, ela apenas assentiu e voltou a vasculhar o salão à procura de Ashdowne. Para sua surpresa, ele se encontrava na pista de dança, movimentandose com tanta desenvoltura que Georgiana se surpreendeu ante as estranhas sensações que percorriam seu corpo. — Com licença, mamãe — ela murmurou, afastando-se. — Mas o sr. Nichols… Ignorando os protestos da matriarca, Georgiana misturou-se aos convidados. Embora houvesse perdido sinal de Ashdowne, respirou aliviada por livrar-se das investidas da mãe e do sr. Nichols. Devagar caminhou entre as pessoas, observando e escutando. Era um de seus passatempos favoritos, pois sempre havia a chance de conseguir informações importantes. Não se tratava de fofocas, claro, mas algo pertinente à investigação. Nesse caso, precisava de dados acerca de Ashdowne. No entanto, não ouviu nada de útil, somente que ele era elegante, charmoso e outros adjetivos semelhantes. Ganhara o título de marquês após o falecimento do irmão mais velho e, de acordo com uma nobre senhora, Ashdowne multiplicara a própria fortuna, sem manter o aspecto arrogante que caracterizava os abastados. As conversas giravam ao redor do mesmo tema. Ashdowne parecia ser impoluto e tedioso. Em um impulso perverso, Georgiana sentiu-se determinada a descobrir algum deslize do marquês. — Ah, Georgie! Desapontada, ela virou-se e encarou o pai ao lado de um cavalheiro de aparência sóbria. Outro pretendente, suspeitou, reprimindo a urgência de sair correndo porta afora. — Sr. Hawkins, aqui está Georgiana, minha filha mais velha! Uma garota adorável, como lhe disse, e muito esperta. Tenho certeza de que achará interessante conversar com ela. Conhecendo o pai, Georgiana não duvidou das segundas intenções daquela súbita apologia a suas habilidades mentais. — Georgie, este é o sr. Hawkins. Ele acaba de chegar a Bath e pretende estabelecer-se aqui como vigário. É também muito erudito. Georgiana sorriu e tentou cumprimentar o sr. Hawkins com certa educação. Ele era atraente, embora severo. Mas algo naqueles olhos cinzentos disse-lhe que o homem não possuía uma alma generosa. — É um prazer conhecê-la, srta. Bellewether — Hawkins reverenciou. — De uma dama tão jovem não se espera entender as intrincadas racionalizações filosóficas. Na verdade, receio que a maioria dos homens ficaria impressionada diante de meu conhecimento, já que devotei minha vida ao estudo. Antes que Georgiana pudesse confessar sua admiração por Platão, o filósofo fundador da lógica, o sr. Hawkins prosseguiu:

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— Devo admitir que Rousseau incitou uma grande discordância, o que foi uma infelicidade na França. Não vejo como responsabilizá-lo pelo destino fatídico dos franceses. — Então o senhor acredita que… Georgiana começou, mas Hawkins cortou-a. — Os homens mais brilhantes pagam um preço alto pela própria genialidade — ele declarou. Não demorou muito para notar que o pomposo vigário incluía-se entre os perseguidos da academia. Georgiana sentiu-se desanimar. Não encontraria nenhum estímulo intelectual uma vez que o sr. Hawkins tinha o hábito de mostrar seu conhecimento e não de conversar. Disfarçando um bocejo, ela permaneceu onde estava, enquanto o vigário dissertava um misto de teorias confusas, o que representava quão pouco ele compreendia acerca de filosofia. Por isso seu pai mostrara-se tão ávido para se livrar do homem! Rapidamente Georgiana também perdeu a paciência. — Oh, a anfitriã! — ela exclamou, tentando em vão desvencilhar-se. Contudo, o sr. Hawkins não a deixaria escapar. — Surpreende-me que tenha aberto a casa para pessoas de classe inferior à dela. Por experiência própria, sei que os nobres não são cordiais com os menos afortunados. Embora lady Culpepper fizesse questão de demonstrar a nobreza, Georgiana não a considerava pior que a maioria. — Confesso que ela poderia ser mais graciosa, mas… — Graciosa? — Hawkins interrompeu-a, expressando desdém. — Ela e seus comparsas não são conhecidos pelo excesso de cortesia, mas sim por impor riqueza e poder sobre nós. Eu os vejo como seres frívolos sem nenhuma preocupação, exceto os próprios caprichos. A veemência do sr. Hawkins surpreendeu-a. Porém, a fúria repentina desapareceu, sendo substituída pela passividade. — Um homem em minha posição deve ser complacente diante da sociedade — ele acrescentou. — Imagino que sua vocação seja convencer as pessoas a serem mais caridosas — Georgiana comentou. — É gratificante saber que pensa dessa forma, mas não espero que uma dama tão linda compreenda a complexidade de minha posição — ele retrucou e Georgiana ficou tentada a chutá-lo nos joelhos para oferecer-lhe uma nova posição. — Na realidade, srta. Bellewether, rezo para que seja a graça divina que me libertará de uma noite tediosa. Se havia imaginado que o vigário era tolo o bastante para não reparar em Georgiana, ela enganara-se. Enquanto falava, o sr. Hawkins fixava o olhar no decote ousado. Como religioso, ele a estudava com avidez exagerada. — Se me der licença, sr. Hawkins, preciso procurar minha mãe — Georgiana mentiu e ocultou-se entre a multidão, antes que o homem iniciasse outro discurso maçante. Depois de explorar a festa, mantendo os olhos e os ouvidos bem atentos, parou atrás de um enorme vaso de planta, onde pôde escutar várias conversas, todas elas cansativas. Por fim, aborrecida, resolveu mudar de local quando, de súbito, ouviu o som de vozes sussurradas. Sem dúvida, haveria algo a suspeitar.

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Silenciosa, Georgiana aproximou-se e se misturou à folhagem da planta, na tentativa de visualizar os suspeitos. Viu, então, um cavalheiro robusto, um tanto calvo, que ela logo reconheceu como sendo lorde Whalsey, um visconde de meia-idade. Rumores diziam que ele procurava uma esposa rica em meio às visitantes de Bath e, na verdade, faria sucesso com as mulheres, se bancasse o tolo. Ao espiar por entre as largas folhas da planta, Georgiana pôde vê-lo ao lado de um homem, e ambos pareciam terrivelmente sérios. Ela chegou mais perto. — Bem? Você conseguiu? — Whalsey indagou, expressando certa agitação na voz. — Não exatamente — o outro homem retrucou. — Como assim? Pensei que fosse pegá-lo hoje à noite! Droga, Cheever, jurou que faria o trabalho e… — Espere um minuto — o homem chamado Cheever interveio. — Tudo sairá a contento. Houve uma complicação, e nada mais. — Que tipo de complicação? — Whalsey gritou. — Você sabe onde encontrá-lo! Por isso viemos a essa estúpida cidade! — Claro que está aqui, mas não tão visível a ponto de poder pegá-lo, certo? Precisei fazer uma busca e não tive a oportunidade exata porque há sempre um idiota por perto. Esquecendo-se de Ashdowne, Georgiana prendeu a respiração e embaralhou-se ainda mais à folhagem. — Quem? — Whalsey perguntou. — Os servos! — Hoje é sua última chance. O que está fazendo aqui? — Também preciso me divertir um pouco, concorda? — Cheever argumentou. — Não é justo vê-lo dançar e cortejar as mulheres enquanto faço o trabalho sujo! O rosto de Whalsey ficou transfigurado. Ele abriu a boca como se fosse gritar. Mas, para a decepção de Georgiana, o visconde recobrou-se e abaixou o tom de voz. — Se quiser mais dinheiro, saiba que não o tenho… Frustrada pelas palavras inaudíveis, ela inclinou-se um pouco mais. A planta, enraizada no belo vaso, pendeu para frente. Alarmada, Georgiana agarrou um dos galhos, esperando sustentar o tronco e a si mesma. Contudo, perdeu o equilíbrio. Por um instante fugidio, Georgiana encarou os rostos horrorizados de lorde Whalsey e Cheever. Enquanto assistia a ambos fugirem da queda iminente, ela não reparou no outro homem que se aproximava. Somente após virar-se violentamente para a direção oposta, ela o divisou. Mas foi tarde demais. Georgiana e a planta tombaram sobre ele, fazendo com que os três se estatelassem no chão. Ao longe, Georgiana escutou exclamações. No entanto, pouco importava, estava ocupada em se desvencilhar das folhas que a cegavam. Encontrava-se sobre o carpete, com as pernas entrelaçadas as do homem, e seu vestido havia levantado, expondo os tornozelos. O pior de tudo era que não conseguira escutar maiores detalhes acerca do plano nefasto de Whalsey e Cheever. Maldição! Afastando os cachos dourados, Georgiana tentou sentar-se. No mesmo

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momento, escutou um gemido e notou que seu joelho colidira com uma certa porção da anatomia masculina. Exasperada, ela fez menção de se afastar, mas, impedida pelas anáguas, tornou a cair. Mais exclamações ecoaram em torno dela. De súbito, ao perceber duas mãos fortes agarrando-a pela cintura, Georgiana ergueu o rosto e sentiu-se gelar. A face, que outrora transparecia arrogância, agora expressava puro desagrado, incrementando ainda mais os traços elegantes. Os lábios cerrados se curvaram. — Por Deus, pare de se mexer! — ele ordenou. — Ashdowne! Alarmada, Georgiana piscou algumas vezes e, então, as mãos poderosas a ergueram. Em questão de segundos o marquês a colocou de pé. Ela recuou um passo, mas Ashdowne segurou-a. O repentino calor daquele toque deixou-a atordoada. Como fogo, a pele parecia queimar sob a seda do vestido, produzindo ondas quentes pelo corpo. Curioso. Georgiana encarou seu oponente, transfigurada. De perto, ele era ainda mais bonito; os olhos azuis brilhavam com tamanha intensidade que ofuscavam os dela, tornando-os insípidos. No mesmo instante, sentiu uma estranha sensação percorrer-lhe o ventre. Ashdowne soltou-a, expressando o desagrado ao limpar com a própria mão a sujeira do elegante traje. O marquês a fitava como se Georgiana fosse um mosquito irritante o qual gostaria de esmagar… ou, ao menos, livrar-se. Chocada ante o constrangimento, murmurou desculpas que mais pareciam palavras desconexas de uma admiradora imbecil. Então, Georgiana, que acreditava ter passado da idade de ruborizar, sentiu as faces queimando de vergonha. Não era, de forma alguma, uma daquelas donzelas obcecadas por casamento. Em um gesto de desespero, tentou encontrar uma maneira decente de convencê-lo do contrário. Mas as evasivas se perderam com a chegada de sua mãe, acompanhada de dois criados munidos de apetrechos para limpar o chão. — Georgie! O que estava fazendo? Inspecionando a planta? — a sra. Bellewether perguntou, estudando o arbusto. Em seguida, voltou-se à filha. — Uma moça adorável, mas pouco graciosa, creio. — O comentário de seu pai deixou-a mais constrangida, assim como os risos caçoístas das irmãs. — Está tudo bem, srta. Bellewether? Para completar o quadro, o sr. Nichols apareceu novamente. E por que não, considerando o espetáculo que ela encenara? — Ninguém é capaz de se mover com uma planta dessa monta no meio do caminho. E acredito que qualquer um corra o risco de se acidentar. — Ele meneou a cabeça e fitou a barra do vestido que se rasgara. Mortificada, Georgiana sacudiu a saia e suspirou. Sua mãe indicou-lhe uma cadeira, e o sr. Nichols ofereceu-lhe o refresco agora quente. Enquanto o tumultuo prosseguia, Georgiana lutou contra a vontade de desaparecer. Era o alvo de todos os olhares, uma perspectiva terrível para alguém que tentara ser discreto. Havia instigado o interesse da nobreza justamente quando conseguira escutar algo relevante. Bufando de raiva, ela ignorou a mãe e vasculhou os convidados à procura de lorde Whalsey e seu cúmplice; porém só podia enxergar Ashdowne. Embora aparentasse conversar com a anfitriã, o marquês não desviava o olhar

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de Georgiana. Os lábios atraentes estreitaram-se, como se ele a culpasse pelo desagradável incidente. Maldição! Não lhe pedira ajuda, nem sequer o tinha visto amenizar a situação. Logo, ele não podia responsabilizá-la, já que fora o único a atra palhar a investigação. Com certeza, Georgiana teria feito melhor sem o marquês, ponderou com o rosto em chamas. Precisava explicar-se, contudo, mais uma vez, a abertura a um diálogo seria impossível. E por culpa dela própria! Um investigador de Bow Street jamais agiria com tanta infantilidade. Ao contrário, aproveitaria a chance para inquirir Ashdowne em relação a sua presença em Bath e analisaria as respostas, tentando obrigá-lo a admitir algum motivo escuso. Georgiana não sabia o motivo, contudo, estava determinada a descobrir. Quando voltou-se ao objeto de suas reflexões, quase soltou um grito de surpresa ao notar que ele desaparecera. Lady Culpepper agora conversava com uma senhora idosa. Perplexa, Georgiana suspirou e sacudiu a cabeça, fazendo os cachos saltitarem. O homem surgia e desaparecia como que por encanto. Nem o maior ilusionista do mundo seria capaz de tal façanha. Teria ele poderes sobrenaturais? Não, impossível. — …como água límpida. — A voz do sr. Nichols desviou-lhe a atenção e, forçando um sorriso, Georgiana tentou demonstrar autocontrole. Conseguiu sustentar a tarefa por alguns minutos, antes de abandoná-la e retirar-se. Alegando precisar de ar fresco após o infeliz acidente, Georgiana caminhou pelo salão, procurando, em vão, Whalsey e Cheever. Quando avistou o sr. Hawkins se aproximando, ela precipitou-se ao jardim, onde respirou, aliviada. O ar da noite carregava a essência das flores que circundavam as alamedas de pedra. No céu, via-se somente estrelas cintilantes. Qualquer outra jovem encantar-se-ia com o clima mágico, nunca Georgiana. Intrigada, imaginava quem estaria oculto pela escuridão da noite. Teriam Whalsey e seu cúmplice encontrado um local mais privativo para discutir aquele assunto tão suspeito? Somente o inato bom senso de Georgiana a alertava contra os devaneios e escorregadelas. Abominou as regras que a privavam dos desígnios dos homens e a sujeitava às estruturas da sociedade. Um investigador de Bow Street poderia ir aonde desejasse, fosse de madrugada ou nos piores bairros de Londres. Que maravilhosa seria a vida, ela pensou, se nunca precisasse preocupar-se com maneiras escusas de adentrar uma festa como aquela. Passou vários minutos imaginando a ilustre carreira que conquistaria, caso houvesse nascido homem. Georgiana teria ficado horas sonhando, se não fossem as risadas que surgiram atrás dos arbustos. Respirou fundo e decidiu voltar à festa, antes que sucumbisse ao romantismo. Sem dúvida, sua mãe a procurava. Estava ficando tarde e logo o clã Bellewether voltaria para casa. Depois de fitar mais uma vez a beleza da noite, Georgiana atravessou o pátio e entrou no salão. Preparava-se para encontrar a família quando um grito estridente ecoou pelo ar. Assustada, ela se virou em direção ao som e divisou a anfitriã, lady Culpepper, descendo a escadaria, seguida pela senhora idosa. As duas damas pareciam abaladas. Georgiana correu ao pé da

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escadaria a tempo de escutar a mulher mais velha balbuciar algo a respeito de um colar. De repente, ouviu-se outro grito de horror, e a multidão ficou em polvorosa. — O famoso colar de esmeraldas de lady Cul pepper foi roubado! — alguém gritou. A notícia percorreu o salão, o resto da casa e, provavelmente, toda a cidade de Bath. Georgiana, que recusou mover-se até escutar a história inteira, foi privada do primeiro relatório proferido pela senhora de idade, chamada sra. Higgot. Recolhendo fatos objetivos, Georgiana soube que as damas falavam das jóias de lady Culpepper quando a sra. Higgot expressou admiração pelo colar de esmeraldas, muito conhecido na sociedade por ser uma peça de inestimável valor. Lady Culpepper, para perpetuar seu esnobismo, resolveu exibir o colar. Então, as duas mulheres foram ao quarto da anfitriã, onde encontraram o porta-jóias aberto, sem a peça em questão, e a janela escancarada. Como um criado permanecera no corredor, vigiando a porta do cômodo a noite toda, presumiu-se que o ladrão houvesse escalado a residência e invadido o quarto através da janela. Um homem muito talentoso, segundo comentários. A despeito de Georgiana ter forçado o irmão, Bertrand, a acompanhá-la na verificação ao redor da casa, não havia nada a ser descoberto na escuridão. As tentativas de questionar as duas damas também foram frustradas. Na verdade, a festa terminou em consideração à terrível perda de lady Culpepper. Todos se despediram expressando choque e lamentando o crime hediondo na pacata Bath. Todos exceto Georgiana.

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CAPÍTULO II E ntusiasmada ante o primeiro desafio de sua vocação de detetive, Georgiana levantou-se bem cedo na manhã seguinte. Sentou-se à escrivaninha de mogno na sala de leitura, onde anotou cada detalhe que pôde recordar da tumultuada festa. Infelizmente, foi incapaz de visualizar a cena ou questionar os princípios, mas sentiu-se grata por estar presente durante o furto. O mistério em si aguçava-lhe os sentidos. Além de incomum, o crime fora bem articulado e repleto de ousadia. Ela sorria, enquanto tentava organizar situações e fatos que acreditava ser importante. A hora, claro, era de interesse. Quando lady Culpepper estivera no quarto, antes de retornar ao salão com a sra. Higgot? E quanto ao criado que vigiara o cômodo? Ele não ouvira nada? Havia permanecido a noite toda diante da porta ou abandonara seu posto? E o aposento de lady Culpepper? Seria ligado a outros? Georgiana adoraria vasculhar o quarto à procura de pistas, inclusive examinar o portajóias em questão. De acordo com o relato das duas mulheres, o conteúdo da caixa fora deixado para trás, apesar das valiosas peças que compunham o arsenal de lady Culpepper. Por que roubar somente o colar? Georgiana ficou intrigada. Teria o ladrão pouco tempo para agir ou se prevenira acerca de quanto peso poderia carregar? Um homem capaz de escalar a parede externa de uma mansão não se intimidaria diante da incontável soma que poderia obter com o roubo das jóias. Entretanto, Georgiana achava difícil acreditar que alguém se valesse de tanto esforço por um simples colar! Talvez ele tenha utilizado uma corda, pensou. Incerta quanto à lógica de tal suposição, ela resolveu perguntar a Bertrand acerca da força masculina. Sobretudo, pretendia verificar a residência à luz do dia. Oh, se pudesse ver o local do crime… Havia algo de familiar no fato de o porta-jóias estar aberto, mas não conseguia atinar o quê. Georgiana fez uma rápida anotação e passou à lista de suspeitos. Sua mão tremia de emoção, não só pelo desafio, mas pela grande oportunidade. Se conseguisse solucionar o mistério e apresentasse o culpado às autoridades, ela finalmente alcançaria o respeito tão almejado. Sorridente, imaginou-se recebendo honrarias pelo trabalho, ainda mais se conseguisse reaver a jóia roubada. Maior que a recompensa era a possibilidade de iniciar uma carreira repleta de investigações. As pessoas viriam de todos os cantos do país somente para consultar Georgiana Bellewether. A despeito das maravilhosas fantasias, voltou a atenção à tarefa em mãos. Estava determinada a identificar o homem que furtara o colar de lady Culpepper. Por mais experiente que fosse, um membro da comunidade criminal não ousaria assaltar uma casa pertencente à nobreza, durante uma recepção frequentada por inúmeros convidados e servos. Não havia lógica. O gatuno não perderia tempo vasculhando os quartos. De forma alguma. Ele sabia exatamente onde encontrar o prémio. Georgiana, de repente, recordou a conversa que ouvira atrás da planta. Sem dúvida, lorde Whalsey e o

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sr. Cheever tramavam algo nefasto, porém, seria impossível imaginá-los cometendo um crime de proporção épica. Forçando a memória, ela tentou redigir o diálogo, incluindo a queixa do sr. Cheever em relação à quantidade de criados que o impediam de pegar "aquilo". Oh, era simples demais, Georgiana pensou, recordando os detalhes da conversa. Mesmo assim, o sr. Cheever e o homem que o contratara encabeçavam a lista de suspeitos. Contudo, ela pretendia considerar todas as possibilidades. Dos presentes naquela casa, quem mais poderia ser o responsável? Talvez um criado. Algo raro, considerando que nenhum deles encontraria tempo para escalar a parede durante a recepção. Gostaria de inquirir os empregados de lady Culpepper a fim de obter tais informações. Quanto aos convidados, Georgiana achou difícil nomear candidatos dada a inabilidade daqueles que frequentavam Bath. A maioria das pessoas não era esperta o bastante para arquitetar esquemas; outros, os mais honestos, não se atreveriam a iniciar uma vida de crimes. Entre os rostos que visualizava, Georgiana deslumbrou o vigário e lembrou-se de seu discurso frenético contra os ricos. Imaginou se o clérigo seria capaz de roubar o colar. O veneno em suas palavras haviam perturbado sua mente. Sem hesitar, ela o considerou como segundo suspeito. Mais uma vez, refletindo acerca dos convidados, Georgiana descartou as viúvas, os senhores de idade e as jovens senhoritas. Todos seriam incapazes de entrar e sair pela janela. "Não, o culpado era alguém muito ágil, leve, mas forte o suficiente para escalar a parede, capaz de ocultar-se na escuridão da noite, usando roupas pretas? Os olhos de Georgiana se arregalaram ante a imagem de Ashdowne sob os elegantes trajes negros. O marquês, que aparecia e desaparecia com facilidade incrível, teria aptidão de fazer qualquer coisa, inclusive escalar a parte externa da casa. Afinal, ao erguer Georgiana com tamanha facilidade, ele mostrara a extensão de sua força. A lembrança a fez corar. Reviveu a sensação de sentirse diminuta diante do garboso nobre. Furiosa consigo e com o charmoso homem, que conseguira perturbá-la usando seu poder de sedução, Georgiana resmungou impropérios. Ele estava tramando algo! Claro, Ashdowne era saudável demais para precisar de banhos termais. Porém, sua presença em Bath poderia estar relacionada a uma dama, Georgiana ponderou com certo desapontamento. Era comum ver membros da alta sociedade envolvidos com esposas, viúvas e outras mulheres disponíveis. De alguma maneira, Georgiana esperava mais daquele que possuía o olhar tão inteligente. Então, meditou acerca das mulheres presentes na festa. Foi custoso encontrar pretendentes viáveis. Para ela, as damas na casa de lady Culpepper não pareciam valer esforço algum. Contudo, os homens tinham pensamentos imprevisíveis. Georgiana vira Ashdowne acompanhado de uma viúva. No entanto, a senhora havia dançado com distintos cavalheiros. O marquês, em determinado espaço de tempo, sumira de vista, e isso acontecera várias vezes, ela lembrouse uma vez mais. Os inexplicáveis desaparecimentos a convenceram a acrescentar Ashdowne à lista de suspeitos e ainda a grifar o nome dele.

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Embora não tivesse nenhuma ligação com o sr. Nichols ou qualquer outro admirador, Georgiana não podia incluí-los na lista porque não pareciam possuir a postura ousada de um obscuro ladrão. Além disso, segundo Bertrand, na hora do crime, os jovens rapazes encontravam-se na sala de jogos, engajados em algum tipo de disputa. Havia questionado o irmão a fim de verificar se tais homens possuíam certa agilidade. Por fim, acabara com poucos suspeitos. Claro, o ladrão po deria ser um desconhecido que, porventura, tinha conseguido participar da festa. Uma perspectiva pouco provável, porém aceitável. Georgiana precisava obter os nomes dos convidados, entrevistar os servos e conversar com lady Culpepper. Colocando a lista de lado, ela escreveu um bilhete para lady Culpepper, solicitando um encontro de extrema urgência. Decidiu enviar a nota naquela manhã, através de um criado. Quanto mais cedo obtivesse informações, melhores seriam as chances de reaver o colar de esmeraldas. Apesar do brilhantismo contido no roubo, Georgiana não duvidava das próprias habilidades e visualizou a solução do mistério. A imagem do sr. Cheever despontou de novo em sua mente, mas ele não demonstrava esperteza para algo tão elaborado. Na verdade, por mais absurdo que pudesse parecer, Georgiana admirava o culpado. Finalmente, encontrara alguém à altura de seus talentos. Respirou fundo, resignando-se. Pena que o homem era um criminoso. Após longas horas de espera, Georgiana recebeu a resposta de lady Culpepper, no início da tarde. Para evitar a curiosidade das irmãs, ela teve de empreender várias manobras para escapar de sua casa e chegar à elegante mansão. O mordomo conduziu-a a uma sala, onde a anfitriã se encontrava acomodada em uma confortável poltrona. — Entre, jovem! — lady Culpepper chamou-a. Georgiana adentrou o luxuoso cómodo, decorado em mármore branco, e com imensos candelabros de cristal. Os móveis guardavam o brilho da noite anterior, mas a proprietária parecia mais envelhecida à luz do dia. Enquanto sentava-se, Georgiana sentiu o olhar analítico da nobre senhora. — Obrigada por me receber, milady — ela começou, educadamente. — E devia estar grata mesmo — atacou lady Culpepper, com arrogância. — Tenho recusado encontros devido a minha péssima condição. Diga-me, o que há de tão urgente para conversar comigo? Sabe algo sobre meu colar? Georgiana assentiu. A mulher endireitou o corpo e agarrou o braço da poltrona. Os olhos da anfitriã brilharam duvidosos, um detalhe que mostrou quão esperta era lady Culpepper. — Bem? — ela indagou, impaciente. — Revisei o incidente com as informações de que disponho e cheguei a alguns suspeitos — Georgiana respondeu. Dado o estranho olhar de lady Culpepper, ela acrescentou: — Considero-me adequada para resolver o mistério e espero encontrar uma solução definitiva em breve. Porém, eu gostaria de inquirir os criados e, se puder, fazer-lhe algumas perguntas. — Quem é você? — lady Culpepper quis saber. — Georgiana Bellewether, milady — ela respondeu, imaginando se a

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mulher tinha boa memória. Se fosse esquecida, o caso se tornaria mais difícil de investigar. — Uma ninguém! — lady Culpepper exclamou, indignada. — O que a fez pensar que poderia invadir minha casa e… — Mas a senhora me convidou, milady — Georgiana protestou, sem delongas. — Que impertinência! Concordei em vê-la porque acreditei que soubesse algo sobre o roubo de meu colar! — Mas eu sei! Posso ajudá-la, se… — Ah! Uma garota tola que pensa saber mais que seus superiores! — Asseguro-lhe que minhas habilidades são muito conhecidas na cidade onde moro, embora em Bath… — Um vilarejo sem importância, tenho certeza! — Lady Culpepper torceu o nariz, e Georgiana optou por outra estratégia. — O que tem a perder, milady? — arriscou. — Não quero recompensa, só desejo favorecê-la como puder. Um brilho diferente passou pelos olhos da mulher ao ouvir a palavra recompensa. — Pois não espere nenhum prémio — lady Culpepper retrucou. Por um momento, ambas ficaram em silêncio. Georgiana não vacilou, manteve o olhar desafiador sobre lady Culpepper. — Muito bem. Faça suas perguntas, e depressa. Tenho assuntos mais importantes a resolver. Não pretendo perder tempo com uma tola de Bath. Após um pequeno questionário, Georgiana descobriu que o porta-jóias foi encontrado aberto e seu conteúdo intato, exceto pelo colar de esmeraldas. A porta estava trancada, e o servo que a vigiava jurou não ter visto ninguém. — E por que colocou um criado para vigiar o quarto? Ele sempre faz isso durante as festas que organiza, milady? Lady Culpepper pareceu surpreendida com a pergunta, mas não perdeu a arrogância. — Não é de sua conta, jovem! Chega de perguntas. — Mas, milady! O protesto de nada adiantou. A premissa de poder falar com os criados também foi recusada, enquanto a irritação de lady Culpepper crescia. Georgiana não se impressionara com a mulher. Conforme argumentava, lady Culpepper mostrava-se inescrupulosa, levantando dúvidas sobre seus antecedentes. — Tem idéia de quem poderia ter roubado o colar? — Georgiana insistiu. — Um convidado ou servo? — Certamente que não! Nenhum de meus conhecidos é criminoso! Claro, estamos em Bath, e eu não merecia tamanha crueldade por abrir minha casa à escória que vive nesta cidade. Tão logo obtenha meu colar, vou voltar a Londres, onde sou mais seletiva em relação a meus convidados. Cautelosa, Georgiana não quis mencionar o alto número de roubos na notória cidade londrina. Então, assentiu com respeito. — Tem inimigos ou alguém que pretendesse se vingar da senhora? De súbito, Georgiana notou a expressão de interesse em lady Culpepper. Se a anfitriã enfureceu-se por causa da maliciosa sugestão, foi impossível saber.

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— E suficiente, criança! Já perdi muito tempo com tantas besteiras. — O tom de voz não admitia oposição. Com um gesto de desdém, lady Culpepper pediu ao mordomo que acompanhasse Georgiana até a porta. Não houve tempo nem sequer de agradecer a "gentileza" da anfitriã. Insatisfeita, ela retirou-se da mansão. Tinha a nítida sensação de que a mulher merecia o roubo do colar. Porém, o importante para o bom desempenho de um detetive era não permitir que as emoções atrapalhassem a investigação. Uma vez do lado de fora, Georgiana avisou ao mordomo que iria caminhar pelo jardim, deixando-o, boquiaberto, à soleira da porta. A passos lentos, ela rodeou a mansão até encontrar a janela do quarto de lady Culpepper. Durante o dia a visão era bem melhor. Havia um arco que circundava a janela, onde o ladrão poderia se apoiar para invadir o cómodo. Pensativa, ela imaginou que, em vez de escalar a parede, o ladrão poderia haver se esgueirado por outro quarto e, através do arco, entrado nos aposentos de lady Culpepper. A manobra parecia precária, e Georgiana sentiu o coração disparar devido à altura. Mesmo assim, um homem ágil não teria medo e empreenderia tais movimentos muito bem… — Está brigando com as plantas outra vez? De tão absorvida em pensamentos, Georgiana assustou-se com a voz grave e, ao virar-se, jogou a bolsa sobre o homem que se achava bem atrás dela. — Cuidado! — Ele a segurou pelo pulso, evitando a colisão. — O que leva em sua bolsa? Pedras? Perplexa, Georgiana fitou a mão coberta pela luva negra, Em seguida, encarou olhos muito azuis. — Ashdowne! Quero dizer, milorde! Perdoe-me. Os sedutores lábios do marquês sorriam enquanto ele ajeitava a roupa magnífica. Georgiana passou os olhos pelos ombros largos, detendo-se no tórax amplo. O corpo viril deixoua um tanto estonteada e, com esforço, conseguiu encará-lo no rosto. — O que faz aqui? — perguntou, desconfiada. Ashdowne franziu a testa e fitou-a com certo desgosto. Era o mesmo olhar do qual Georgiana fora vítima na noite anterior. Novamente, sentiu-se um inseto irritante ante a postura ofensiva do marquês. Ela continuou calada, aguardando a resposta. Ashdowne inclinou a cabeça, como se examinasse o estranho espécime à frente. — Vim oferecer minhas condolências a lady Culpepper, claro — ele disse, mostrando que suas ações não eram assunto de Georgiana. — E você? — Ashdowne olhou a parede que outrora havia ocupado o interesse dela. — Eu fazia o mesmo — Georgiana retrucou, tentando controlar-se. Se Ashdowne a atraíra na noite anterior, trajando roupas pretas e movendo-se sob a penumbra, ele era ainda mais deslumbrante com os raios de sol realçando a pele dourada. As sobrancelhas negras brilhavam, e os olhos azuis pareciam tão vívidos que chegavam a roubar o fôlego de Georgiana. E aqueles lábios… Constrangida, ela baixou o rosto. Se a simples visão daquele homem mobilizava-lhe os sentidos, o melhor seria desviar sua atenção, antes que cometesse algum desatino. — Sei — Ashdowne murmurou, revelando que não acreditava na explicação, mas por polidez aceitaria a resposta como verdadeira. — Não creio

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que fomos apresentados, srta…. — Bellewether. —- Ela ficou aliviada por sua voz soar tão tranquila. — Eu… devo lhe pedir desculpas pelo… pequeno incidente de ontem à noite. — Admito que um vaso de planta não é o local mais adequado para um encontro — Ashdowne brincou. — Oh! Eu não estava… Assim que as palavras surgiram, Georgiana percebeu o erro. Bastava olhar para aqueles lábios e já se sentia a mais estúpida das criaturas. Lutando contra o próprio pesar, ela desviou o rosto e fitou as flores que rodeavam a alameda da propriedade. — Não pretendia encontrar ninguém — declarou. — Na verdade, eu estava escutando e aprendendo. Uma velha mania que possuo, devo dizer. Nunca se sabe que temas interessantes podemos descobrir. — Ah, fofocas — Ashdowne concluiu, displicente. Georgiana encarou o colarinho do marquês, determinada a conversar sem desmaiar. — Não estou preocupada com boatos e mexericos. Interesso-me apenas por fatos. Fatos pertinentes ao evento de ontem — ela começou. — Possuo um talento nato para solucionar mistérios, milorde, e pretendo usá-lo a fim de desvendar o crime ocorrido nesta residência. Orgulhosa de si, Georgiana o fitou. No entanto, a expressão do marquês era inatingível. Ele não demonstrou zombaria, tampouco pareceu ameaçado. A postura enigmática desapontou-a, já que Ashdowne não confessou de imediato nenhuma ilegalidade. Absorto, ele a observava de um jeito que Georgiana achava ofensivo. — E como tenciona fazer isso? Os lábios se curvaram em um sorriso sutil, como se ele estivesse duvidando das qualidades intelectuais de Georgiana. A bem da verdade, era uma atitude com a qual ela já se habituara. Fazia parte de sua aparência. Se, ao menos, ela fosse semelhante a Hortense Bingley, a solteirona que assombrava a livraria de Upwick, ou a srta. Muck-lebone, que usava um par de óculos e era conhecida por brandir sua bengala sobre os jovens. Certa vez, na época de colégio, Georgiana pegara emprestado um par de óculos de uma colega imaginando que o instrumento de leitura ocultaria sua beleza física e, dessa forma, seria mais respeitada por todos. Ledo engano; seus pais haviam colocado um fim na tentativa. Desde então, era obrigada a suportar aqueles que a julgavam somente pela aparência, tal qual o marquês. — Tenciono descobrir o culpado através do raciocínio, milorde — Georgiana alegou, aborrecida por ter de fitá-lo. — Estudando os fatos, avaliando as possibilidades mais prováveis e apresentando uma conclusão. — Após uma breve reverência, ela arrumou os cachos mais rebeldes e começou a se afastar. — Se me der licença, preciso ir embora. Bom dia, milorde. — Não tenha pressa. — Para a infelicidade de Georgiana, Ashdowne resolveu acompanhá-la. — Achei seus comentários fascinantes. Por favor, prossiga. O semblante aparentemente sério dizia-lhe que Ashdowne não acreditava na capacidade de Georgiana. Poucos homens o faziam, e aquele ceticismo a irritava sobremaneira. Se duvidava do seu talento à investigação, por que ele fingia interesse? — Acho difícil — ela resmungou, continuando a andar.

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— Mas seus métodos são muito interessantes — Ashdowne insistiu e fitou-a com intensidade. Para o alívio de Georgiana, logo aproximaram-se da entrada da residência, onde o marquês era esperado. Aflita, ela aproveitou a oportunidade para escapar daquele interrogatório. — Receio que precise me retirar. Talvez em outra hora — murmurou e abriu o portão com as mãos trêmulas. Ciente de quão rude estava sendo, mas ressentida por ele manter o ar zombeteiro, Georgiana correu, sem olhar para trás. Enquanto se apressava pela rua, escutou passos que indicavam a entrada do marquês na casa. Foi preciso um grande esforço para não verificar o olhar especulativo que sentia sobre si. Somente ao chegar na esquina, Georgiana deu-se conta de que não apenas perdera uma grande oportunidade de questionar um de seus suspeitos, mas se deixara abalar com a presença marcante do marquês. Com a descoberta veio a auto censura. Não estava sendo uma profissional, mas Ashdowne parecia exercer um efeito muito peculiar sobre ela. Jamais se comportara como uma idiota na presença de alguém! Tal constatação deixou-a ainda mais furiosa. Na ponta dos pés, Georgiana esforçava-se em vistoriar a multidão que se encontrava no Pump Room. Havia esperado horas pela chance de espiar lorde Whalsey, que ali passava longas horas todas as tardes. Na realidade, o Pump Room era o local de encontro social dos membros da sociedade, dia após dia. Ao menos, era o que Georgiana dizia a si mesma quando notou suas forças esvaindo-se. Embora Whalsey fosse esperto o bastante para manter a rotina, ela acreditava que o visconde podia estar a caminho de Londres. Era um pensamento frustrante para alguém que pretendia investigar o principal suspeito. Mais uma vez, Georgiana amaldiçoou sua condição, a qual lhe tolhia a liberdade de ir e vir. O Pump Room representava o único lugar onde poderia encontrar lorde Whalsey, e tinha de admitir que já estava ficando cansada da vigília. Suas irmãs haviam resolvido passear no jardim e os outros conhecidos haviam se dispersado. Apenas Bertrand, contente e desocupado, conversava com dois rapazes os quais ela tivera de desencorajar. A bem da verdade, fora fácil dispensá-los porque o assunto do dia se resumia no roubo do colar e nas conjecturas acerca do culpado. Ela escutara as opiniões com certa impaciência, pois os rumores não tinham consistência. A maioria das viúvas tinha certeza de que um grupo de rufiões, que estabelecera moradia em Bath, era o responsável pelo crime. Georgiana precisou se controlar para não gritar diante de tamanha sandice. O ladrão não pertencia a uma gangue. Trabalhava sozinho, ela concluiu. Novamente, a visão de Ashdowne surgiu-lhe à mente, tentou ignorá-la. Precisava concentrar-se em Whalsey e seu comparsa, que eram fortes candidatos. Piscando várias vezes, esquadrinhou o salão. Suas intermináveis horas de vigilância foram recompensadas ao divisar o visconde. Ele caminhava entre os presentes; cumprimentou as viúvas ricas, antes de se servir da água tépida que tornava Bath famosa.

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— Lorde Whalsey! Boa tarde! — Georgiana aproximou-se. Dias antes, haviam sido apresentados, no entanto, o visconde não mostrava o menor sinal de reconhecê-la. Ele fitava apenas o decote ousado. Escondendo o mal-estar que a atitude lhe causava, ela tentou sorrir. — Eu não o vi deixar o baile ontem à noite. Resolveu retirar-se mais cedo? A despeito da inocência, a pergunta fez Whalsey encará-la no rosto. Em segundos, ele pareceu aflito e ansioso. Georgiana sentiu-se triunfar. — E quanto ao outro cavalheiro que o acompanhava? Sr. Cheever, se não me engano? Trêmulo, Whalsey parecia o pecador em pessoa. Georgiana imaginou que seria fácil obrigá-lo a confessar o crime. — Escute, srta…. — Bellewether. — Ela sorriu, confiante. — Lembro-me de ter visto o senhor e seu amigo falando de um assunto muito importante e imaginei… — Eu não sabia… — Whalsey a interrompeu, em choque. — Conseguiram finalizar o que pretendiam? Alarmado, o visconde levantou-se. O movimento foi tão veloz que o conteúdo do copo que Whalsey segurava caiu sobre o vestido de Georgiana. Com o impacto da água quente, ela deu um passo para trás, em direção ao palco usado pela orquestra. Georgiana tentou recuperar o equilíbrio, mas acabou tombando e levou consigo o suporte do palco. Durante a queda, ela empurrou o violinista, que colidiu com o colega ao lado. Em questão de segundos, os músicos tombaram no palco como uma fileira de dominó. Após uma série de ruídos, a música estancou de repente, e os presentes viraram-se para Georgiana. Deitada sobre o palco e com um braço em cima do violinista, ela notou a rápida fuga de lorde Whalsey. Resmungando, jogou os cachos dourados para trás e divisou um par de mãos enluvadas à frente. Olhou para cima e sentiu-se tonta ao sinal de Ashdowne, alto e charmoso, inclinando-se sobre ela. — É muito perigosa, srta. Bellewether — ele comentou, rindo. Com a mesma facilidade da noite anterior, o marquês levantou-a. Os músicos, ao verem o olhar determinado de Ashdowne, precisaram de maior esforço para se aprumarem e prosseguirem o trabalho. Os demais presentes retornaram a conversar. Impressionada, Georgiana perguntou-se de onde viria tamanha influência a ponto de evitar rumores ou constrangimentos. — Obrigada. Mais uma vez — ela murmurou, enquanto o marquês a afastava da orquestra. — Pelo visto, está sempre pronto a me socorrer, milorde. — Admito, srta. Bellewether, que possui certa tendência a causar acidentes. E concluo, para minha infelicidade, que estou sempre por perto — ele comentou. Seria um insulto? Georgiana pensou, enquanto sacudia discretamente a blusa molhada sobre o corpete. A despeito de roupas justas serem a moda de Londres, ela não tinha a menor vontade de se sentir presa à umidade do tecido colado ao corpo. De algum lugar, Ashdowne conseguiu um xale, e qual colocou sobre os ombros de Georgiana. Antes disso, os intensos olhos azuis fixaram-se no colo alvo. Os bicos dos seios intumesceram em seguida.

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Curioso. Vários homens a haviam fitado daquela maneira sem causar nenhuma reação, Georgiana ponderou, cobrindo-se com o xale. Devido a confusão em que se encontrava, ela não reparou onde Ashdowne obtivera o xale, tampouco achou ofensivo o modo como a fitara. Na verdade, sentiu certa euforia por atrair tanta atenção. Um sentimento justo, já que em todas as ocasiões comparava-se a uma idiota perto do marquês. Porém, Ashdowne logo recuperou a postura desinteressada. Sua expressão revelava um homem superior àqueles que só se preocupavam com a vida mundana. E, novamente, Georgiana sentiu-se um inseto desprezível. Se ao menos possuísse asas e pudesse voar para longe… — Suponho que tantos desastres façam parte de sua aspiração, incomum. Contudo, começo a pensar que precisa de alguém para protegê-la de si mesma — ele completou. Assustada, Georgiana o encarou. Pretendia o marquês queixar-se com seu pai? Ora, não havia leis contra acidentes casuais e sem relevância. O que o homem poderia fazer contra ela?, pensou, intrigada. No entanto, quando Ashdowne sorriu de modo malicioso, Georgiana obteve a reposta. Ele poderia fazer o que desejasse. A possibilidade a fez estremecer. — E como pareço ser a maior vítima de suas investidas, talvez eu deva me oferecer ao cargo — Ashdowne proferiu, surpreendendo-a.

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CAPÍTULO III J ohnathon Everett Saxton, o quinto marquês de Ashdowne, ficou surpreso com a expressão alarmada de sua acompanhante. Ao longo dos anos, fora admirado e cortejado pelas mais belas damas, que o contemplavam sob olhares lânguidos e apaixonados. No entanto jamais fora fitado daquela maneira. Como de costume, as reações da srta. Georgiana Bellewether eram peculiares e imprevisíveis, fugiam à compreensão. Talvez o fato de oferecer-se como uma espécie de guardião à jovem errante estivesse longe de ser um elogio, mas o evidente desagrado não era o que ele esperava. A elegante aparência de saxão e o requinte, característica relevante entre os membros da alta sociedade, proporcionavam a Ashdowne uma relação garantida com o sexo oposto. E, sendo marquês, chegava a receber mais atenção que o necessário à vaidade. Ser bajulado apenas pelo fato de possuir um título constantemente eliminava o entusiasmo inicial. Porém a srta. Bellewether jamais seria acusada de aproximar-se por causa do rótulo nobre, Ashdowne concluiu. Embora demonstrasse certa gratidão pela atenção do marquês, parecia indignada e quase atemorizada, como se o considerasse uma pessoa indesejável. Aparentemente, o destino o ligara à única mulher cujo comportamento muito se assemelhava ao de uma lunática, desencorajando qualquer inclinação para receber o título de marquesa. Aliás, uma perigosa lunática, ele qualificoua. A princípio, Ashdowne não suspeitara de nada. Ao vê-la no baile de lady Culpepper, ficara atraído pela jovem, tal qual qualquer homem com sangue nas veias. Georgiana Bellewether era bem dotada. Possuía um corpo capaz de enlouquecer a mais pura das criaturas. Com as fartas curvas, os cabelos cacheados e o delicado rosto angelical, ela seria aclamada em Londres e receberia ofertas dos mais variados partidos, apesar da origem simples. Ou reinaria soberana entre todas as mulheres, como a maior descoberta após os cipriotas. Claro, o sucesso dependeria de seu silêncio e discrição, Ashdowne ponderou. Infelizmente, quando Georgiana Bellewether começava a se mover, o chão se abria em grandes erosões, causando o maior desastre entre os cristãos. Na noite anterior, ela conseguira derrubá-lo e a ignóbil sensação ainda o perseguia. Por sorte, o acidente havia ferido apenas o orgulho do marquês; caso contrário, a festa teria tomado rumos imprevisíveis. Mas tal episódio não fora o único. Desde então, ela o abatera com a bolsa mais pesada do mundo e, sozinha, conseguira desmantelar uma orquestra inteira. Ashdowne jamais testemunhara tamanha confusão armada por somente uma dama. E, além de um desastre iminente, Georgiana ainda se designava uma investigadora! Cada homem presente naquele baile possuía hipóteses acerca do roubo, e alguns diziam-se capazes de agarrar o ladrão. Com certeza, nenhuma dama admitiria interesse no caso. Ashdowne não sabia se ria ou a despachava no primeiro navio. Por fim, optara por vigiá-la. Tempos atrás, aprendera a escutar a voz da

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intuição a qual, agora, alertava-o no sentido de fixar atenção na srta. Bellewether. Talvez se sentisse apenas atraído pelo perigo físico que ela representava ao tolo que ousasse aproximar-se. Ou haveria algo mais? Ashdowne não tinha certeza. Tinha de admitir certa curiosidade em relação ao próximo acidente que provavelmente provocaria. Seu interesse se restringia à bizarra fascinação de observar pessoas publicamente expostas. Era a natureza humana que desejava testemunhar calamidades e, a despeito do ano inteiro de reclusão, Ashdowne ainda se achava humano. Qualquer que fosse o motivo, era um homem desafiado pelo destino, e não poderia ignorar a srta. Georgiana Bellewether. Ela era, na pior das hipóteses, divertida. E, exceto o recente problema relacionado à cunhada, Ashdowne não se recordava de ter enfrentado situação tão intrigante. Foi com perplexidade que notou quão mundana sua vida se tornara desde que assumira o título de marquês. Não estava pronto para abraçar a monotonia fútil imposta pela nobreza. Na verdade, seu irmão havia se encarregado da educação dirigida ao comportamento conservador e comedido. Somente após ter herdado o título, Ashdowne percebera o tédio que envolvia o mundo dos negócios. Claro, poderia ter recusado as responsabilidades que sobre ele caíram, mas dezenas de pessoas, desde os colonos das fazendas até os criados da família, dependiam dele. Vira-se imerso no desempenho de funções relacionadas ao cargo que herdara e, embora não lamentasse, sentia-se mergulhado em um oceano inóspito e somente agora emergia para respirar. Na superfície encontrara aquela intrigante jovem dama! — Não é necessário — a srta. Bellewether afirmou. A voz soava ofegante, como se ela ainda se recuperasse de sua última aventura. Ashdowne reconhecia a própria ousadia ao fitá-la naquela roupa molhada que realçara os seios túrgidos pelo contato com a água de Bath. Tentou pensar em outro tema. Deus, devia estar sedento por uma mulher a ponto de se interessar por Georgiana Bellewether! — Deixe-me ao menos acompanhá-la até sua casa — ele sugeriu, ignorando o desejo. — Onde está hospedada? Satisfeito, Ashdowne escutou-a murmurar o local, embora já soubesse o endereço. Fizera questão de investigar aquela que se colocara em seu caminho e havia descoberto tudo que podia acerca da atrapalhada srta. Bellewether. Aliás, lady Culpepper o auxiliara muito nesse particular. A ultrajada matrona se queixara da jovem impertinente que havia invadido a mansão para informá-la de que solucionaria o mistério sobre o roubo do colar de esmeraldas. Lady Culpepper, indignada, destilara seu veneno, e Ashdowne se divertiu com a pretensão da jovem turista. Cidadãos comuns raramente intervinham em investigações criminosas. O que Georgiana tramava, afinal? Mais uma vez, Ashdowne fitou a dama em quêstão. Era difícil imaginá-la liderando uma invéstigação com aqueles cachos dourados emoldurando o rosto angelical. Era evidente que a srta. Bellewether havia se recuperado do susto, pois não mais se agarrava ao xale que ele pedira emprestado a uma senhora. Contudo, não parecia relaxada. Ela mantinha o olhar à frente, queixo erguido com altivez, como se

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estivesse pronta para fazer um pronunciamento importante. Ashdowne chegou mais perto para escutar a próxima insanidade. — Agradeço sua assistência, milorde, mas lhe asseguro de que não precisa se expor a… — Nenhum tipo de tortura? — Ashdowne completou. Embora não fosse capaz disso, a pequena dama fez uma careta que evidenciava o profundo desagrado. Jogou os cachos para trás com uma atitude de superioridade, muito charmosa na opinião de Ashdowne. Céus, devia estar mesmo precisando de diversão! — Mas, diga-me, como vai a investigação? — ele perguntou, a fim de descontraí-la. — Muito bem! — Georgiana exclamou, com intenção de desafiá-lo. — Na verdade, estou quase certa da identidade dos responsáveis. — Responsáveis? Então há mais de um? Para surpresa de Ashdowne, ela fitou-o desconfiada. Imaginou o que passaria pela mente de Georgiana quando o olhava. Havia uma ponta de mistério perceptível somente ao observador mais atento. O pensamento provocou um arrepio, como se alguém caminhasse sobre sua cova. Preocupado, ele endireitou os ombros e aguardou a resposta. Quando se pronunciou, Georgiana foi ainda mais surpreendente. — Não me sinto à vontade para discutir o caso — murmurou, evitando encará-lo. A seriedade das palavras fez desmoronar a postura aristocrática do marquês. Quem pensava que era, aquela possuidora de uma vasta cabeleira? Por um instante, ele não sabia se ria ou a estrangulava. Como estavam à vista de vários transeuntes, a segunda alternativa não era das melhores, tampouco contribuiria para sua causa. Com esforço, Ashdowne engoliu a réplica enquanto tentava restabelecer a condição de neutralidade. O fingimento não fazia parte de sua performance, de modo que, não obteve o sucesso desejado. — Bem, eu certamente não pretendo interferir na investigação — ele disse, cauteloso. — Pelo contrário. Talvez, se lhe oferecesse meu auxílio, como assistente, poderia se sentir mais confortável para discutir o assunto. Georgiana encarou-o, incrédula. Ashdowne resolveu aguardar em silêncio. — Oh! Nunca considerei… — ela deteve-se. Ashdowne permaneceu impassível enquanto os olhos azuis o estudavam. Porém, tornava-se complicado manter a calma quando o que desejava mesmo era agarrar aquele pescoço delicado… ou talvez os seios alvos pouco cobertos pelo decote. — Eu sempre trabalho sozinha — ela murmurou, olhando para o chão. Era uma atitude que a srta. Bellewether adotara na presença de Ashdowne. Apesar de não entender o significado, ele não acreditava estar relacionado à modéstia ou deferência. — Ah — exclamou decepcionado. — Mas, como homem, posso ser útil — insistiu. Aflita, ela o encarou, e as faces ruborizaram. Ashdowne foi invadido por um absurdo senso de triunfo. Ao menos, se pensara que a oferta continha um peso muito pessoal, Georgiana não era diferente dele. — Quero dizer que sou capaz de transitar entre os membros da sociedade, em lugares que a senhorita não pode frequentar — Ashdowne

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explicou. De repente, ele se viu hipnotizado por aqueles olhos azuis. Deu um passo à frente, sentindo uma estranha expectativa ferver-lhe o sangue. Fazia muito tempo que não tinha um encontro íntimo com uma mulher. E a jovem a seu lado estimulava-lhe os sentidos com aquela pele macia, cabelos brilhantes e lábios ávidos por um beijo. — Georgie! — O chamado veio do interior da residência, destruindo o momento mágico que, por um instante, surgiu entre ambos, assustando a srta. Bellewether. Teria sido o apelido que a desagradou ou o longo minuto que passaram imaginando possibilidades tentadoras? Ashdowne tinha de confessar que o aborrecia o fato de sentir-se atraído por ela. — Vou ponderar sobre sua oferta — ela informou, em um tom de dispensa. Em seguida, como se temesse encará-lo de frente, Georgiana virou-se e correu para casa. Deixou-o parado junto ao portão tal qual um vendedor ambulante. Ao ouvir o som da porta se fechando, Ashdowne ficou chocado. Não podia lembrar a última vez que fora dispensado. Mesmo quando jovem, a aparência, o charme e dinheiro lhe asseguravam a entrada em qualquer ciclo social. Respirou fundo e, a passos largos, voltou a caminhar. Tinha certeza de que não havia sido apenas a timidez que a afugentara. Embora não fosse um santo, ele não instigava terror no coração das virgens. Então o que a fizera fugir? Ashdowne não sabia, mas pretendia descobrir. Sua intuição continuava alerta e não tencionava deixar a srta. Georgiana Bellewether perturbar sua vida. Lorde Whalsey não se encontrava em lugar algum! Georgiana soltou um suspiro de frustração. Ela se juntara à família na esperança de acuá-lo outra vez, mas ele e o sr. Cheever estavam ausentes. O que faria agora? Whalsey podia muito bem estar no Pump Room, ou no concerto, ou, pior ainda, a caminho de Londres para vender o colar! Georgiana desanimava cada vez que refletia sobre o próximo passo. Podia apresentar suas observações ao magistrado, mas a experiência lhe dizia que tais cavalheiros duvidariam de seu talento. A evidência, composta de uma conversa e uma reação culposa, não seria suficiente como prova, e lorde Whalsey fugiria com o produto do roubo! Afastando um cacho que caíra sobre a testa, Georgiana apoiou-se na balaustrada da elegante residência. Alegara dor de cabeça quando um jovem a convidara para dançar, e refugiara-se no terraço que dava acesso ao pequeno jardim. Em silêncio, tentou concentrar-se na investigação, mas os pensamentos foram logo interrompidos. — Ah, srta. Bellewether. Que novo desastre está contemplando? — A pergunta foi efetuada por uma voz tão profunda e familiar que a deixou sobressaltada. Reprimindo um grito, ela mirou a sombra próxima à porta, onde divisou a figura requintada de Ashdowne. Há quanto tempo ele estaria ali? Era terrível imaginar que não notara a

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presença de Ashdowne. Georgiana estremeceu. O marquês não se assemelhava aos nobres comuns. Na verdade, era diferente de qualquer homem que ela conhecera. — Eu… — As palavras sumiram quando ele caminhou sob o luar, novamente vestido de preto e com a expressão enigmática. A pulsação de Georgiana aumentou, e a pele arrepiou-se. Esfregou os braços, na tentativa de espantar as sensações. Para sua infelicidade, o gesto não ajudou e Ashdowne aproximou-se. — Espero que tenha pensado em mim — ele confessou. Georgiana arregalou os olhos. Imaginava ser imune aos homens, no entanto, tudo acontecia diferente em relação a Ashdowne. Tal qual uma moléstia, ele perturbava-lhe os sentidos e habitava sua mente, apesar dos esforços de bani-lo do pensamento. Agora, diante daquele sorriso enigmático, o marquês a sacudia por completo. De qualquer forma, ela não pretendia admitir sua fraqueza ao arrogante nobre. Então, ergueu o queixo e fitou apenas o colarinho do traje negro. Ashdowne riu, aparentemente se divertindo com tamanha obstinação. — Não? Bem, vim até aqui para convencê-la. Ele sussurrava como um gato, e Georgiana estremeceu. — Convencer-me de quê? — ela indagou, recusando-se a fitá-lo nos olhos. — A me aceitar… Georgiana respirou fundo. — …como assistente — Ashdowne acrescentou, antes de ela exalar o ar. — Estou lhe oferecendo meus préstimos para colaborar na investigação. O que me diz, srta. Bellewether? Hesitante, ela arriscou um breve olhar. A princípio, vira Ashdowne como qualquer outro homem, um esnobe tão certo da própria superioridade que seria incapaz de acatar as teorias inteligentes de Georgiana. E naquele momento, ele parecia sério. Não mais demonstrava a expressão arrogante que a fazia sentir-se um inseto. Ao contrário, Ashdowne refletia interesse verdadeiro. Pela primeira vez, um homem desejava ouvir sua opinião e não parecia ocultar segundas intenções. O olhar de Ashdowne permanecia alerta como sempre. O brilho azulado revelava o predador à espreita. Ele se mantinha em silêncio, mas Georgiana podia sentir a expectativa fluindo no ar. Sentia-se a um passo de solucionar o mistério. Desviando o rosto antes que desfalecesse, ela se agarrou a balaustrada. Tentou negar a chance de discutir com qualquer um detalhes de sua investigação e abandonar a crescente necessidade de ser alvo do interesse daquele atraente homem. A tentação era grande! Queria mesmo revelar informações acerca de seus suspeitos? A idéia provocou um pequeno tremor, mais pela emoção que por desagrado. Mais uma vez, ponderou sobre o que fazer a respeito de lorde Whalsey e do sr. Cheever. Ante a culpa de ambos, parecia idiotice desconfiar de Ashdowne. Não, Georgiana pensou enquanto fitava a figura sombria à frente. Nunca seria idiotice manter-se cautelosa perto do marquês porque, sob o luar, ele inspirava perigo de uma maneira que Whalsey e Cheever jamais

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conseguiriam. Ciente dos riscos que corria na presença do magnífico fidalgo, Georgiana soube que não poderia ficar a sós com ele. Sua mãe ficaria horrorizada! Porém, aquela ameaça seria útil, já que Ashdowne se mostrava disposto a fazer qualquer coisa. Ele submeteria Whalsey e Cheever a seu poder com facilidade, Georgiana decidiu. — Talvez eu possa utilizar sua assistência — ela sussurrou, observando a escuridão da noite. — Sim? A palavra surgiu como um suspiro, no entanto, confundiu-lhe os sentidos novamente. Desorientada, Georgiana voltou a se concentrar. — Descobri a identidade dos ladrões. Mas temo que fujam, antes que algo seja feito para impedi-los. — Ah! O que sugere? — Ashdowne perguntou. Não houve risadas ou zombaria. Não existia nem sequer um lapso de contentamento nos modos do marquês. Georgiana respirou aliviada. De certa forma, possuir um assistente não era tão ruim. Poderia partilhar hipóteses, incrementando a investigação. — Não estou bem certa — ela admitiu. — Não tenho evidências suficientes para apresentar ao magistrado, que provavelmente não se dará ao trabalho de me ouvir. — Georgiana deteve-se para pensar na enorme injustiça que sofria. — Receio que a única opção seja confrontar um dos culpados. — Srta. Bellewether. — O tom grave da voz exigia atenção. Georgiana encarou os olhos ainda mais brilhantes sob o luar. — Não vai confrontar um criminoso. Espantada com aquele comando, ela preferiu não argumentar. Afinal, poderia usar a objeção de Ashdowne como meio para obter seu objetivo. — Bem, talvez o senhor possa fazê-lo — ela arriscou. — Quer que eu confronte o homem? — Ashdowne ficou surpreso. — Seria uma boa tarefa para um assistente, não acha? E eu estarei presente para direcionar a conversa. Tenho dúvidas de que consiga a confissão do crime porque, quando falei com um deles no Pump Room, tornou-se muito agitado. Os adoráveis lábios de Ashdowne estreitaram-se. — Está me dizendo que algum bruto molestou-a essa manhã? — De certa maneira… — Teve sorte por ele não extrapolar! Não pode pressionar bandidos como se estivesse tomando chá. Não sabe do que homens desse tipo são capazes! Cortariam sua garganta em troca de somente um centavo! — Oh, entendo o que diz e concordo — Georgiana replicou. — Leio todos os jornais de Londres, especialmente os artigos policiais e as ações heróicas dos detetives de Bow Street. E devo afirmar que esse ladrão não é um criminoso comum. Ashdowne não parecia aliviado. Na verdade, o rosto endureceu e os lábios se estreitaram ainda mais. Para o espanto de Georgiana, ele a agarrou pelos braços. Aflita, ela testemunhou a abrupta transformação de seu companheiro. O charme do marquês de Ashdowne foi substituído por uma fúria ameaçadora. Presa pelas mãos fortes, Georgiana sentiu um misto de temor e excitação. O toque poderoso causava-lhe arrepios. — Srta. Bellewether, não se atreva a confrontar qualquer pessoa, apesar

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da aparência inofensiva que o cidadão possa apresentar — ele declarou. — Eu… — Georgiana tentou protestar, em vão. Não o havia contratado como assistente e, mesmo assim, aquele homem arrogante lhe dizia o que fazer. Não imaginara nada disso, mas Ashdowne sempre fazia o inesperado. E para confirmar tal opinião, enquanto Georgiana observava os olhos azuis, ele inclinou o rosto e a beijou. Já havia sido beijada antes, claro. Contudo os rapazes de sua minúscula cidade nunca estimularam gestos mais íntimos. Sempre achara desagradável ter os lábios de alguém sobre os dela. Até aquele momento. Ashdowne simplesmente excedia a pobre experiência dos rapazes interioranos. Ele explorava os lábios de Georgiana como um mestre. O primeiro toque foi um roçar suave, uma carícia que a deixou ansiosa. Em vez de atendê-la, Ashdowne traçou a linha delicada do queixo, das faces e da testa, onde um cacho dourado tombou. Então, ele afagou a mecha loira, com deliberada lentidão. — Você é puro deleite, sabia? — Ashdowne murmurou entre os cabelos cacheados e, para o infinito prazer de Georgiana, ele capturou novamente os lábios rosados. A medida que o marquês a incitava, ela se deixava levar pelas chocantes sensações. Abraçou os ombros largos, libertando um suspiro de prazer ao acariciar as formas musculosas. O gesto era tão quente e sólido que ela sucumbiu ao desejo de explorar as poderosas costas. Encorajado pela ousadia de Georgiana, Ashdowne aprofundou o beijo. Ao sentir o toque quente em sua boca, ela prendeu a respiração, como se assim pudesse congelar o efeito avassalador que sentia no próprio corpo. Curioso… Como algo tão estranho podia ser tão delicioso?, Georgiana pensou, absorvendo o sabor de Ashdowne. Seria aquele o gosto personificado… da paixão? O pensamento invadiu-lhe os sentidos. Ela percebeu, então, que não poderia se submeter à figura do marquês. Não deveria permitir que as elegantes mãos lhe agarrassem as curvas do pescoço, enquanto entreabria os lábios para mais carícias. Não era normal colar os seios ao tórax, coberto Pelo traje requintado. E, além de tudo, ela não podia gemer a cada tremor que sentia entre os braços experientes. Ao longe, Georgiana ouviu passos, seguidos por murmúrio de lamentação de Ashdowne. — Quem são os suspeitos? — ele sussurrou no ouvido de Georgiana. Foi preciso alguns instantes para ela atinar comi a pergunta. Nesse ínterim, Ashdowne afastou-se, deixando os braços de Georgiana soltos. — Suspeitos? — ela repetiu, ofegante. — Oh, lorde Whalsey e o sr. Cheever. — Ah. — Ashdowne começou a caminhar sob as sombras. — Farei com que a casa de Whalsey seja vigiada. Georgiana piscou várias vezes, desapontada. Controlou a vontade de chamá-lo, mergulhar outra vez naquele corpo viril e implorar por mais carícias. Mas o marquês havia desaparecido. — Srta. Bellewether! O som de uma voz assustou-a. Ela virou e viu o sr. Hawkins, o tedioso vigário, aproximar-se.

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— Vejo que fiz bem quando resolvi sair para tomar ar. A senhorita não deve ficar aqui sozinha; — ele disse, fitando o decote de Georgiana. Felizmente estava escuro, caso contrário, o rubor em cada centímetro da pele dela seria evidente. — Oh, eu pretendia entrar — Georgiana replicou. Embora parecesse frustrado, o sr. Hawkins ofereceu-lhe o braço para escoltá-la à festa. Tentando organizar os pensamentos, Georgiana piscou ao entrarem no salão. De imediato, notou a presença de lady Culpepper, conversando com um cavalheiro moreno. — Suponho que ela tenha se recuperado do susto — o sr. Hawkins comentou, encarando lady Culpepper. Era um comentário estranho para um vigário. Georgiana sentiu o bom senso retornar aos poucos. — Talvez o cavalheiro a esteja confortando. O sr. Hawkins resmungou algo incompreensível. — Quem é ele? — Georgiana perguntou, observando o homem com interesse. Ele era alto, bonito e vestia roupas caras, apesar de nada convencionais. — Um dos homens mais ricos e arrogantes do país — o sr. Hawkins respondeu, com desdém. — Ele é parente de metade da nobreza britânica, e possui mais dinheiro que todos. — Talvez seja parente de lady Culpepper também. — É o que dizem. No mínimo, ele trouxe alguém de Londres para recuperar o colar de lady Culpepper. Como se ele ligasse! Está sendo bem pago, sem dúvida. Por ter se virado tão rápido, Georgiana notou uma mecha de cachos caindo sobre seus olhos. Impaciente, jogou-a para trás com o coração em disparada. — E quem ele trouxe de Londres? — indagou. — Um investigador de Bow Street. Mas o rapaz vai se arrepender de ter vindo quando for lidar com esses dois — o sr. Hawkins acrescentou. No entanto, Georgiana não prestava atenção. Pensava apenas no detetive de Bow Street e na expectativa de, após tantos anos de pesquisa, conhecer um membro dos investigadores de elite em pessoa! Olhou ao redor à procura de Ashdowne, e não o encontrou. Irritou-se com aquela frequente mania de desaparecer. Talvez ele estivesse vigiando a casa de lorde Whalsey, concluiu. Gostaria de conversar com o investigador de Bow Street aquela noite, mas tranquilizou-se. Sabia que Ashdowne se encarregara do principal suspeito. Na manhã seguinte, iria apresentar-se ao detetive. Se tudo corresse bem, resolveria o caso antes dele e pegaria os culpados até o meio-dia. Com sorte, Whalsey ainda estaria com o colar de esmeraldas, e ela entregaria a jóia a lady Culpepper pessoalmente. Em consequência, a arrogante nobre forçosamente teria de mudar sua opinião acerca de Georgiana Bellewether. Com certeza, todos mudariam de opinião a seu respeito e a levariam a sério, ela pensou, vibrando de alegria. E então, iniciaria a tão almejada carreira como uma renomada detetive!

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CAPÍTULO IV D o outro lado da rua, tentando parecer recatada, Georgiana observava a residência de lady Culpepper. Era difícil manter discrição porque estava parada naquele local desde o momento em que saíra de casa pela manhã. Começava a perceber estranhos olhares dos empregados que trabalhavam nas luxuosas mansões do bairro. Mesmo assim, recusava-se a abandonar a missão a qual se impusera. Cedo ou tarde, o detetive de Bow Street, que chegara na noite anterior, teria de inspecionar a cena do crime. E Georgiana pretendia conversar com ele tão logo o visse. Entretanto, o hábito de dormir até mais tarde de lady Culpepper parecia protelar a inevitável entrevista. O único movimento diante da casa fora dos criados e de um homem baixo que mais se assemelhava a um vendedor. Meia hora depois, quando o mesmo indivíduo saiu da mansão, Georgiana não lhe deu importância… até vê-lo atravessar a rua em sua direção. Ela não tinha a menor disposição de perder tempo com um vendedor ambulante. Precisava manter os olhos na casa de lady Culpepper a fim de aproveitar a chance de conhecer o detetive. — Perdoe-me, senhorita — o homem abordou-a educadamente, e Georgiana assentiu. Parou em frente a ela, forçando-a a esticar o pescoço para visualizar a porta da casa. — Parece muito interessada naquela residência. Importa-se em me dizer por quê? Perplexa com a pergunta direta, ela estudou o estranho. Embora as roupas fossem de corte simples, eram decentes. Soltou um gemido impaciente, mas tentou ser graciosa. | — Não ficou sabendo? Um investigador de Bowl Street foi contratado para descobrir o infame que roubou o colar de lady Culpepper — ela explicou. Ao franzir a testa, o homem mostrou-se espantado. Não devia ser muito velho, contudo as marcas no rosto revelavam uma vida dura. Em geral, Georgiana adoraria ampliar seu ciclo de relações, mas não naquele dia. Estava muito ocupada. Nem sequer tinha tempo para relatar detalhes do roubo, já que ele parecia novo em Bath e alheio ao evento. — Desculpe-me, mas o que a senhorita tem a ver com o fato? — o homem indagou, sem ocultar a curiosidade. — Estou à espera dele! — Georgiana exclamou, desejando que ele não tomasse seu tom como dispensa. Ele não o fez. Para o desagrado de Georgiana, o estranho continuou a obstruir-lhe a visão com sua forma atarracada. Não deu sinal algum de desistência, apenas inclinou a cabeça redonda. — Wilson Jeffries, a seu serviço, senhorita. Oh, ele não iria desistir? Georgiana tentou enxergar certa atividade na frente da mansão. — Senhorita? Por que desejava me ver? — Você? — Ela piscou, Atônita. O homem assentiu e ensaiou um sorriso. — Sim. Sou de Bow Street. Georgiana desviou a atenção da casa de lady Culpepper para o oficial. Na realidade, teve de admitir sua decepção. Wilson Jeffries não era o que ela

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havia fantasiado sobre um dos maiores especialistas de Londres. Claro, imaginara um espécime mais jovem, com a musculatura necessária para subjugar qualquer criminoso que esbarrasse nele. Porém viu-se observando um homem de estatura média, ombros arredondados e um cansaço pesaroso no olhar. Naquelas roupas simples e de comportamento passivo, ele mais parecia um vendedor de loja do que um investigador treinado. Wilson Jeffries nem sequer inspirava esperteza. No mesmo instante, Georgiana decidiu que fora uma bênção encontrá-lo. Sem dúvida, aquele detetive de Bow Street precisava de sua ajuda. Feliz consigo própria, sorriu e aproximou-se dele. — Ora, sr. Jeffries, não se trata do que pode fazer por mim, e sim, do que eu posso fazer pelo senhor. Quando ele a encarou assustado, Georgiana explicou-se com certa medida de confiança: — Tenho feito algumas investigações por conta própria e estudei esse caso minuciosamente. Estava lá quando tudo aconteceu, sabe. — E tem alguma informação acerca do roubo? Jeffries parecia duvidoso, mas Georgiana não se deu por vencida. Fazia parte da natureza masculina descrer de suas habilidades. Porém, o detetive não conseguiria manter aquela atitude durante muito tempo. Recobrando o entusiasmo, ela deu um passo à frente e baixou o tom de voz. — Para ser honesta, após refletir, cheguei a três suspeitos — confessou. — Verdade? — Wilson Jeffries perguntou. — Sim! E ficarei feliz de partilhar minhas deduções com o senhor, incluindo a identidade do ladrão! — Faria isso? Wilson Jeffries era um homem de poucas palavras com certeza. Georgiana se perguntou se ele usava tal estratégia para tirar vantagem no curso de um interrogatório ou se era seu estilo. Talvez, no futuro, ela pudesse auxiliá-lo a aprimorar a técnica, oferecendo-lhe algumas sugestões. — Eu adoraria seguir uma carreira como a sua, infelizmente, sou vítima de minha própria condição — Georgiana admitiu. — De qualquer maneira, isso não me impede de solucionar mistérios, insignificantes em sua maioria. No entanto, o caso de lady Culpepper é um crime de verdade! E estou disposta a oferecer-lhe meu talento para resolver o problema o mais depressa possível. — Entendo — Jeffries disse, no entanto, não parecia entender. Talvez fosse um pouco lerdo, ela pensou, apelando para o benefício da dúvida. — Vamos caminhar? — Georgiana sugeriu. Como o investigador fosse um forasteiro, ela faria questão de espantar os curiosos de Bath. Jeffries parecia perplexo. E quando ela o puxou pela manga do casaco, começou a andar. — Interrogou os criados? — Senhorita, eu… — Não importa. Tenho certeza da identidade do ladrão. — E como chegou a essa certeza, senhorita? — Bem, como lhe disse, avaliei três fortes suspeitos — Georgiana explicou, feliz ao expor sua teoria. — A princípio, considerei Ashdowne…

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— Lorde Ashdowne? O marquês de Ashdowne? — O investigador ficou paralisado até que Georgiana cutucou-o novamente para que continuasse a caminhar. — Admito agora que seja um absurdo — ela prosseguiu. — Contudo, tenho o pressentimento de que ele esteja aprontando alguma coisa, pois não se justifica sua presença em Bath. Por que um homem tão saudável quanto lorde Ashdowne necessitaria das termas? — No mesmo instante, Georgiana lamentou o comentário inadequado e sentiu-se ruborizar. Ainda se lembrava de quão sadio, musculoso e sólido era Ashdowne. Atormentado, Jeffries tentou sorrir. — Por experiência própria, senhorita, sei que é impossível adivinhar as intenções dos membros da sociedade. Tratava-se de uma frouxa admissão para alguém cujo trabalho era descobrir motivações ao crime. Mas um homem ciente dos próprios limites poderia ser suscetível à assistência de um nobre arrogante, Georgiana refletiu, agora caminhando com segurança. — Seja como for, eu o descartei como suspeito porque se mostrou interessado na investigação. Lorde Ashdowne ofereceu-se para me auxiliar e está vigiando a casa do culpado enquanto nós conversamos. — Agora? Um sorriso tímido despontou na face taciturna de Jeffries, mas Georgiana o ignorou. Não queria prolongar a discussão sobre o marquês. Ficara acordada quase a noite toda pensando em Ashdowne e seus beijos e, no final, concluíra que a presença do investigador seria um alívio para finalizar o caso. A associação com seu único assistente logo teria fim, eliminando de vez qualquer contato mais profundo com o garboso nobre. A despeito de Georgiana apreciar a companhia de Ashdowne, ele representava uma forte ameaça ao bom senso. Ora, ela mal conseguia raciocinar quando o marquês estava por perto! E isso não fazia bem àquela cujo interesse principal era exercitar a mente. Não. Ashdowne era muita distração. Georgiana obrigou-se a pensar no assunto em questão. Ergueu três dedos e, em seguida, abaixou um, depois outro. — Também suspeito de um certo sr. Hawkins, de Yorkshire — ela confidenciou. — Mesmo? Sorridente, ficou satisfeita de ver aumentar o interesse de Jeffries. — Sim. Ele veio a Bath para estabelecer moradia e… — Está acusando o vigário? — Jeffries interrompeu-a. — Decerto — ela admitiu. — De maneira geral, aqueles que escolhem a vida religiosa estão acima de suspeita. No entanto, tenho certeza de que alguns cometem os mesmos pecados dos homens comuns. E o sr. Hawkins não é um vigário como a maioria. Já conversei com ele duas vezes, e seu discurso me pareceu muito peculiar. Georgiana aproximou-se ainda mais do detetive para confidenciar a informação. — Ele alimenta um ressentimento profundo contra os ricos. E como procura um novo posto, imagino que ele precise de fundos. — Está me dizendo que um membro do clero invadiu o quarto de lady

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Culpepper, roubou o colar e fugiu pela janela? — Wilson Jeffries perguntou, duvidoso. — Por que não? Posso garantir que ele tem algo contra os abastados e, em particular, contra lady Culpepper. Para a imensa gratificação de Georgiana, Jeffries tornou-se pensativo. — Entendo. Mas mudou de idéia em relação a ele? — Não. Eu apenas encontrei um culpado mais apropriado. — Depois de cumprimentar um casal de transeuntes, Georgiana segurou o terceiro dedo e falou em voz baixa: — Na noite do roubo, escutei a conversa, muito suspeita aliás, de dois homens. Um deles reconheci como sendo lorde Whalsey e o outro descobri que se chama sr. Cheever. — Lorde Whalsey? — Jeffries repetiu. — Perdoe-me, senhorita, mas todos os suspeitos pertencem a nobreza ou ao clero? Não me diga! Vou adivinhar. Há ainda um duque, certo? Georgiana ficou chocada. O homem não só fora grosseiro como também a acusara. — Asseguro-lhe de que não escolhi esses homens pelo título — ela replicou, com toda dignidade. — Além disso, Whalsey é somente um visconde, cujos bolsos vazios o levariam a engendrar um crime. Infeliz, Jeffries meneou a cabeça. — Primeiro, acusa um marquês, depois um vigário, e agora um visconde. Senhorita, creio que possui uma fértil imaginação. Desanimada, Georgiana sentiu que o estava perdendo. — Está sugerindo que essas pessoas jamais infringiriam a lei? — Não. — Então tem de me ouvir! Não procurei Whalsey e seu comparsa. Por acidente acabei escutando uma conversa entre ambos. Forçando a memória, Georgiana relatou a experiência atrás da planta, ocultando o calamitoso acidente com Ashdowne. Ficou desapontada por Jeffries não tomar notas e resolveu sugerir-lhe tal facilidade mais tarde. Por enquanto, estava determinada a convencê-lo da verdade contida em suas deduções. Então, contou-lhe a respeito do confronto que tivera com o visconde no Pump Room. Haviam atingido o centro de Bath quando ela finalizou. Teve o grato prazer de vê-lo roçar o queixo em sinal de reflexão. — Parece-me ruim, senhorita, entretanto, não posso abordar o visconde sem evidências concretas. — Ao menos pode questioná-lo, não? — Georgiana protestou. O talento interrogativo dos detetives de Bow Street era legendário. — Estou certa de que ele irá confessar em três tempos! — Não sei — Jeffries murmurou, meneando a cabeça. Impaciente, Georgiana estava prestes a perder a calma. Passara a vida enfrentando céticos e idiotas, e jamais esperou que aquele profissional duvidasse dela. Era um dos melhores! Era um herói! Como Jeffries não a levava a sério? Preparada para exigir o interrogatório de Whalsey, Georgiana virou-se depressa. Sua bolsa balançou, tentando-a a usá-la para botar algum juízo na cabeça dura daquele detetive. Porém ignorava a penalidade por desacato a um oficial da lei. Felizmente, foi salva pelo som de seu nome.

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— Srta. Bellewether! Vejo que está ocupada a essa hora da manhã. Ashdowne! Georgiana jamais imaginou que se sentiria grata com presença do marquês. Conteve a vontade súbita de jogar-se naqueles braços tão poderosos. A felicidade devia estar estampada em seu rosto, porque Ashdowne hesitou por um instante, surpreso com tanto entusiasmo. — Ashdowne! Que bom vê-lo! — Estou lisonjeado. — Ele beijou-lhe a mão. — A que posso atribuir este repentino interesse por minha pessoa? Ignorando o modo como o marquês segurou a bolsa de Georgiana, ela indicou Jeffries. — Milorde, este é Wilson Jeffries, o detetive de Bow Street que está investigando o roubo do colar de lady Culpepper. — Jeffries — Ashdowne cumprimentou o homem. — E o que há para investigar? Sem dúvida, a senhorita lhe deu o benefício de sua experiência? — ele indagou a Georgiana. Apesar de incerta a respeito da seriedade daquelas palavras, ela notou a expectativa do marquês. — Sim, mas ele não acredita em mim! Pode imaginar? Ashdowne parecia ofendido. — Verdade? — Ele se voltou a Jeffries. Pela primeira vez, Georgiana teve o prazer de testemunhar o poder da nobreza. O pobre investigador encolheu os ombros quando Ashdowne o encarou. Jeffries havia se recusado a ouvi-la e, no entanto, teve de se render diante da credibilidade do marquês. Satisfeita consigo, ela se sentiu garantida com a escolha do assistente. Ashdowne mostrava-se cada vez mais útil. Após um momento de silêncio, Jeffries clareou a voz. — Suponho que eu deva ter uma conversa com lorde Whalsey, se achar aconselhável. — Absolutamente — Ashdowne replicou com secura. Empolgada, Georgiana imaginou se algo seria capaz de animar o marquês. E corou ao conjecturar as possibilidades. — De fato, eu insisto — Ashdowne disse. — Por que não vamos todos à casa dele agora? Deixei um de meus homens vigiando a residência e sei que lorde Whalsey ainda não saiu. — Enquanto falava, o marquês oferecia o braço a Georgiana e acenava ao detetive que, relutante, acompanhou-os. Incapaz de conter a emoção, Georgiana olhou para Ashdowne com extrema gratidão. Talvez fosse muito para o contido marquês. Ele parecia incomodado antes de sorrir por delicadeza. Aliás, estava sendo polido demais na opinião dela. Porém, a ansiedade deixou pouco espaço para longas suposições. Ela retribuiu o sorriso e antecipou as perguntas que faria a fim de auxiliar o pobre sr. Jeffries a obter a confissão de Whalsey. Como esperado, o suspeito estava degustando o desjejum quando chegaram. O nome de Ashdowne garantiu-lhes a entrada e foram conduzidos a um pequeno salão, onde o anfitrião os receberia. Lorde Whalsey parecia ávido para cumprimentar o marquês pois adentrou a sala, reverenciando Ashdowne. Porém, seu entusiasmo se dissipou ao avistar Georgiana, e o rosto do visconde tornou-se pálido. — Você! — ele exclamou, recuando.

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Aquela reação agradou Georgiana. Diante dela, Whalsey não ousaria negar o crime. — Presumo que já conheça a srta. Bellewether — Ashdowne falou. — E esse cavalheiro é Wilson Jeffries, um investigador de Bow Street. — O quê? — Whalsey ficou apoplético. — Bom dia, lorde Whalsey — Jeffries o cumprimentou. — Gostaria de lhe fazer algumas perguntas, se for possível. — Certamente que não! O que significa isso? - Whalsey indignou-se. — Nada que possa agitá-lo dessa maneira, milorde. Estou em Bath para investigar… — Jeffries deteve-se quando escutou Whalsey bufar. — Deu ouvidos a ela, não? — Whalsey acusou, apontando para Georgiana. Ela sorriu. O reconhecimento incriminava mais o visconde. — Não pode acreditar na conversa absurda dessa… criança. É uma lunática! Precisa de um guardião. — Ah! Essa tarefa é minha — Ashdowne disse, simpático. Surpresa e, de alguma forma, sentindo-se acolhida pelo apoio do marquês, Georgiana fitou Ashdowne com carinho. Entretanto, as palavras que pretendia dizer se perderam quando um criado abriu a porta. — O sr. Cheever, milorde! Tão logo foi anunciado, Cheever entrou no salão. No mesmo instante, Whalsey encarou, apavorado, o recém-chegado. Georgiana suspeitou de uma fuga repentina de Cheever, se Jeffries não escolhesse aquele momento para agir. — Sr. Cheever, por favor, junte-se a nós. Gostaria de lhe fazer algumas perguntas. Cheever permaneceu estático, enquanto Whalsey colocou-se entre o investigador e seu comparsa, como se pudesse impedir o interrogatório. — Ele é um detetive de Bow Street — o visconde explicou a Cheever, utilizando um tom significativo. Georgiana sorriu para Ashdowne. — Por favor, sente-se — Jeffries pediu a Cheever. A voz, embora cordial, possuía um comando admirável. Georgiana teve vontade de bater palmas e abraçá-lo. Whalsey, contudo, não partilhava do mesmo entusiasmo. Ele tocou o peito e bufou mais uma vez. — É um ultraje! — declarou, enfático. — Invadiu minha casa, questionou-me, e ainda ataca meu convidado. Não permitirei tamanha ofensa! Retire-se agora mesmo, sir. Quando Cheever fez menção de se levantar, Whalsey enervou-se. — Você não! Você! — Ele apontou para Jeffries. — Que essa ousadia não se repita ou serei obrigado a destituí-lo da posição que ocupa. Pensativo, Jeffries não se moveu. Cheever, por outro lado, sentou-se na beirada de uma poltrona e fitou, ansioso, uma pequena mesa. O único item sobre a superfície do móvel era uma caixa de madeira que pouco combinava com a elegância do espaço. Georgiana prendeu a respiração. Enquanto Whalsey continuava a reclamar da presença de suas visitas, ela levantou-se e caminhou em direção à mesa que tanto fascinava Cheever. De imediato, notou a expressão horrorizada do homem, a qual alertou seu comparsa. O visconde precipitou-se até Georgiana. — Saia daqui, sua plebéia!

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Triunfante, ela ignorou o aviso e deu um passo à frente. Enfim conseguira atingir seu objetivo; aquela caixa só podia conter um elemento. Ladrões confiantes, em geral, escondiam o fruto do roubo em um lugar visível e desmerecedor de atenção. Circundando a pequena mesa, Georgiana apontou a caixa. — Sr. Jeffries, creio que encontrará o item roubado aqui! — ela afirmou, tentando controlar a exaltação. Sem dúvida, era o momento de glória! Então o pandemônio teve início. De punhos fechados, Cheever se ergueu, mas Ashdowne foi mais rápido e postou-se diante do pobre homem. Whalsey, desesperado, caiu na poltrona e puxou um lenço com o qual começou a se abanar. Enquanto o visconde se lamentava, Jeffries aproximou-se de Georgiana. — Vou dar uma olhada, milorde — o investigador anunciou. Ninguém se mexia. Ao lado de Georgiana, Jefíries pegou a caixa. Quando ergueu a tampa e divisou o conteúdo, ela soltou um suspiro de desaponto. Não havia nenhum colar, cujas esmeraldas brilhavam reluzentes. Georgiana notou que a caixa continha somente uma garrafa preta. Ao entreabrir os lábios para expressar o choque, escutou o grunhido de Whalsey. — Não pode me responsabilizar! — ele exclamou. — Não fiz nada! Foi Cheever quem trouxe essa caixa ontem! Aparvalhada, Georgiana encarou Cheever, que agarrava os braços da poltrona, como se não conseguisse decidir o que fazer. Ele fitou Whalsey e, depois, o investigador, expressando puro desespero. — Certo, eu trouxe a caixa, mas só porque ele me pagou para fazê-lo. Roubei a garrafa e a fórmula também, obedecendo às ordens desse idiota! Era tudo para ele. O que vou fazer com um tônico capilar? — Tônico capilar? — Georgiana repetiu. — Isso mesmo — Cheever confirmou. — É uma fórmula secreta, criada por um certo dr. Withipou que vive em Bath. Lorde Whalsey queria o líquido, mas quando o médico se recusou a vendê-lo, ele me chamou. Foi idéia dele! Forçou-me a roubar a fórmula. — Cheever encarou o investigador. — Deve haver centenas de médicos em Bath. Estou certo de que um deles poderia ajudá-lo com seu… problema, sem precisar apelar para o roubo — Ashdowne declarou a Whalsey. O desinteresse pela calvície masculina ou em como curá-la fez Georgiana manifestar-se. — E quanto ao colar? Whalsey e Cheever a fitaram. — As esmeraldas de lady Culpepper — ela esclareceu. Cheever arregalou os minúsculos olhos. — Espere um minuto, senhorita. Não sei nada sobre isso. Sou inocente, juro! Não roubei colar algum. — Nem eu! — Whalsey gritou. — Posso estar sem reservas no momento, mas todos sabem que obtenho dinheiro através do casamento, não roubando. É a queda de cabelos que me preocupa. Como vou encontrar uma viúva rica se ficar careca? Um homem não pode usar peruca o tempo todo! Preciso manter meus cabelos! — ele exclamou, veemente. Jeffries levantou a garrafa, e Georgiana pôde ver que continha um líquido escuro. — E acha que isso vai resolver? — o detetive indagou.

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— Oh, certamente! Essa fórmula faz crescer cabelos em uma bola de bilhar — Whalsey afirmou. — O médico jurou — Cheever completou. — Precisa ver a cabeleira que ele possui. — Uma crina que nasceu com ele — Georgiana murmurou, decepcionada. Depois de uma investigação cuidadosa, ela não havia recuperado as esmeraldas. E o nefasto esquema que escutara terminara naquilo: dois homens brigando por causa de um tônico capilar! Era decididamente uma desilusão. — Receio que, a despeito da irrelevância desse líquido, ele foi roubado — Jeffries anunciou. — E pretendo devolvê-lo ao verdadeiro dono. Quero a fórmula também, por favor. Com outra bufada, Whalsey retirou um papel do bolso e entregou-o ao detetive. — É a única cópia? — Jeffries perguntou. — É! — Muito bem. Entrarei em contato, caso o médico queira prestar queixa contra os senhores. — Foi culpa dele! — Cheever voltou a acusar Whalsey. — Não fiz nada. Você que me abordou, seu ladrão de galinhas! Os dois ainda brigavam quando Georgiana, Ashdowne e Jeffries deixaram a residência em absoluto silêncio. Cansados demais para falar, os três desceram os degraus da casa. De tão absorvida pela própria frustração, Georgiana não escutou o som de uma risada. Assim que atingiram a rua, a gargalhada tornou-se audível. Estaria Ashdowne rindo dela? Indignada, preparou-se para revidar quando, ao notar a expressão do marquês, ela se deteve. Ashdowne, que sempre sustentava a postura austera, agora sorria abertamente. — Tônico capilar! — ele murmurou. E então soltou uma gargalhada sonora. Observando aquele belo rosto descontraído, Georgiana sentiu a tensão se dissipar. Afinal, Ashdowne não estava debochando dela, mas sim da mais tola situação que já havia vivenciado. Antes que se desse conta, ela também começou a rir. Para o espanto de todos, Jeffries juntou-se a eles. As gargalhadas, os três faziam um espetáculo nas ruas de Bath. Com os olhos enevoados de lágrimas, Georgiana tropeçou na calçada, mas não caiu porque Ashdowne, sempre atento, impediu um novo acidente. Fora a experiência mais prazerosa que partilhara com um homem, ela decidiu ainda rindo. Somente mais tarde, depois de despedir-se de seus companheiros, Georgiana percebeu a triste verdade. Se Whalsey e Cheever eram inocentes, ela agora possuía apenas dois suspeitos. E Ashdowne era um deles.

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CAPÍTULO V A shdowne esticou-se no desconfortável canapé grego de seu quarto e apoiou os pés sobre um pufe. Reservara a casa, incluindo os móveis decadentes, apenas para temporadas de verão. A frente havia um armário de vidro, estilo rococó, de cujo interior emanava um aroma singularmente misterioso. Ali estava guardada toda espécie de objetos pouco usados e justamente por isso fascinantes: um par de candelabros de prata, um licoreiro de cedro, um barómetro com figuras entalhadas de madeira e, bem no fundo, um navio antigo. Na prateleira do centro uma bacia redonda de prata encontrava-se sobre uma bandeja também de prata. Ambos objetos não combinavam, mas haviam sido usados como conjunto, fazia uns cem anos, segundo a tradição familiar. A bacia era formosa de linhas simples e nobres, com a marca do gosto aus tero que reinava em princípios do século passado. Não era a primeira vez que certos ambientes o contrariavam, mas a pretensa decadência o incomodava sobremaneira. Tudo agora parecia irritá-lo e odiava o bairro de Camden Place. — Preciso de uma bebida — disse ao ver o mordomo. Sendo um irlandês prudente, Finn não se assemelhava a nenhum outro criado; contudo, era o único empregado que tinha acesso direto ao marquês. Estavam juntos havia muito tempo, e a relação se sustentava em confiança mútua. Ashdowne sabia que a lealdade de um homem como Finn não podia ser comprada. — Teve uma manhã difícil, milorde? — Finn perguntou. Depois de servir uma farta porção de vinho do porto, ofereceu-a a Ashdowne. Em seguida, encheu uma taça para si e sentou-se diante do patrão. Os habitantes de Camden Place jamais imaginariam o marquês de Ashdowne degustando uma boa bebida na companhia de seu criado, ele pensou, sorrindo. — Não tão difícil — admitiu e tomou um gole do vinho, deliciando-se com o rico buque. Ainda que desdenhasse aquela casa excessivamente decorada, alguns luxos, como o fino porto, valiam o custo. Sempre soubera disso, refletiu, provando outro gole. — Como seu dia pode ser pacato quando a jovem Bellewether está envolvida? — Finn indagou, o sotaque irlandês ainda evidente. — Sim, tem razão. Ela é incomum. — Ashdowne omitiu o sabor especial que dava graça a qualquer argumentação de Georgiana. Tal prova permanecia ausente desde a noite anterior quando ele a beijara, beijo havia significado um jogo. Na verdade, um modo de ganhar a confiança da jovem, uma sedução necessária. Então por que tentava a qualquer preço esquecê-la? Por que desejava repetir a façanha quando a via? Ashdowne moveu-se incomodado no canapé, algo que não passou despercebido pelo sagaz mordomo. Finn observou-o, pensativo. — O que aconteceu hoje? O investigador prendeu o pobre Whalsey? Ashdowne sorriu. — Receio que não. A evidência do crime era uma vasta quantidade de tônico capilar. — Não! — Pinn soltou uma gargalhada.

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— Sim! — Ashdowne também riu. Quando havia sido a última vez que se divertira? Não conseguia lembrar-se de ter rido tanto quanto naquela manhã. Tampouco pôde rememorar o prazer de experimentar a sensação dentro de si. A recordação o inquietava. Após vários anos, ninguém mais seria capaz de estimulá-lo além da jovem Bellewether? — Tônico capilar? Por isso o visconde está sempre usando chapéu! — Finn bateu as mãos sobre os joelhos. — Mas onde ele conseguiu a poção? — Whalsey e seu cúmplice, o sr. Cheever, tramaram para roubar a poção de um físico que a inventou. O que significa que nossa srta. Bellewether não é tão tola quanto pensávamos. — Ashdowne constatou, agora sério. — Embora não saibam nada sobre o colar, Whalsey e seu amigo agiram como dois gatunos. — Se é o que diz — Finn murmurou, entre risos. — No entanto, duvido que o detetive pense assim. — Talvez. Talvez não — Ashdowne replicou. Jeffries parecia ser decente, não como outros oficiais da lei conhecidos pela desonestidade. — Sossegue, milorde! — Finn aconselhou. — Nem o ladrão mais estúpido irá molestar a jovem tagarela. — É provável que não — ele concordou, movendo-se mais uma vez perturbado. E não era somente o estofamento duro do canapé que o incomodava. Havia certa culpa, e não conseguia descobrir a origem da estranha sensação. Não fizera nada além de seguir o esquema da jovem Bellewether. De fato, ela ficara grata quando Ashdowne usara a própria influência sobre Jeffries. Grata demais. Talvez fosse esse o problema. Ashdowne não conseguia esquecer o sorriso de Georgiana ao induzir o investigador a acompanhá-los à residência de lorde Whalsey. Ninguém jamais em sua inexpressiva existência o havia olhado daquela maneira. Ashdowne parecia ter capturado a lua e as estrelas para oferecer a ela! Amantes do passado longínquo lhe haviam manifestado gratidão após uma noite inventiva, mas o gesto não se comparava ao olhar significativo. A expressão de Georgiana despertara vida no corpo de Ashdowne. Era pura adoração. Tomou um imenso gole de porto. Adulação desmerecida, completou para si. Não estava interessado naquela absurda investigação, queria apenas garantir que o impacto das descobertas não caísse sobre ele. Sua opinião a respeito da incansável srta. Bellewether começava a mudar e, por isso, Ashdowne sentia vergonha. Ela havia mostrado coragem na casa de Whalsey, uma atitude digna de admiração. Georgiana agia conforme as idéias fluíam em sua mente. Perseguia o próprio curso, sem importar-se com a opinião alheia. O que o incomodava talvez fosse exatamente esse aspecto. Ele também se alimentara de uma necessidade que poucos podiam compreender. Mas tal assertiva implicara em riscos perigosos. Portanto, quando Georgiana falou em confrontar criminosos, ele reagira por instinto. A autônoma srta. Bellewether estava apta a envolver-se em problemas cujo perigo Ashdowne já havia testemunhado. Não obstante, por mais que evitasse a preocupação, ele tinha consciência dos danos que a jovem podia sofrer. Claro, era natural querer proteger uma jovem dama, em especial depois de ela ter-lhe lançado aquele

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olhar magnífico. Mas, desde a morte do irmão, Ashdowne recusava-se a dar crédito aos sentimentos. Georgiana o enervava demais, logo não valia a pena perder tempo e energia com ela. — Não me diga que a pequena tagarela o afetou, milorde? O tom zombeteiro de Finn despertou Ashdowne de seus devaneios. Na verdade, espantou-se com a acurada percepção do irlandês. — Claro que não — ele respondeu. — Certo! — Finn exclamou, fingindo concordar. — No entanto, tem de admitir que ela é linda e possui o corpo perfeito para deliciar um homem. — É verdade — Ashdowne concordou. Todavia as mais belas formas femininas jamais o afetaram tanto! Não era a aparência, mas sim a expressão do olhar que o atraía. Porém, ele não tencionava confidenciar ao mordomo que a jovem Bellewether o olhava como a um deus. Finn se mataria de rir. — Suponho que seja gratificante saber que a moça não ambiciona seu título — Finn ponderou, coçando o queixo. — Sim. Georgiana jamais poderia ser acusada de tais aspirações. Em relação a Ashdowne, ela fazia questão de conservar a dúvida; e, sendo o oposto de outras donzelas casadouras, preferia mistérios intrigantes ao casamento. — E quanto aos atrativos da jovem? — Finn perguntou. — Atrativos? — Ashdowne fitou o criado. — Não sei se ela tem algum. — O fato de achá-la interessante não significava que se sentia atraído por ela. O beijo representara um ato necessário, nada mais. A bem da verdade, na maior parte do tempo, não sabia se ria dela ou se a estrangulava. Finn levantou-se. — Bem, como não está interessado nela, devemos nos aprontar para retornar ao mausoléu? Os ancestrais de Ashdowne teriam se condoído, caso escutassem tal termo em relação a um dos bens da família. O legado Ashdowne era antigo. Com pesar, percebeu que deveria iniciar reformas nas propriedades, mas sentia-se rebelde quanto a isso. Preferia permanecer em Bath mais algum tempo. Por necessidade ou prazer? Importava o motivo Ashdowne sabia que sim. Porém disse a si mesmo que a estada prolongada seria em favor dos próprios interesses. — Creio ser melhor ficarmos mais um pouco, apenas para verificar o curso dos acontecimentos. — Por mim tudo bem. Não tenho vergonha de confessar que os próximos passos da jovem estimulam minha curiosidade — Finn revelou, antes de esvaziar o copo. Pensativo, Ashdowne considerou as palavras sábias do irlandês. Sorriu. Não podia negar certa expectativa em relação a Georgiana. — De acordo. A situação está se tornando mais interessante que o esperado — ele assentiu. Afinal, ante a exoneração de Whalsey e Cheever no referente ao colar, Georgiana logo encontraria um novo suspeito. E Ashdowne que, desde o último ano, não encontrara nada tão excitante, de repente viu-se ansioso para participar do próximo esquema.

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— Certifique-se de que seu coração não esteja pulsando por aquela amalucada — Finn aconselhou. — Já vi um belo rosto ser a ruína de um homem. E devo lembrá-lo de tudo que tem a perder. — Não há perigo, garanto-lhe. Não estou disposto a sucumbir aos encantos da jovem aspirante a detetive, Finn. Afastando a lembrança do ardente beijo, Ashdowne concentrou-se na sucessão de eventos. Após desvendar o roubo do Tônico capilar, os métodos de Georgiana não mostravam tanta idiotice quanto parecia. — Mas existe algo que me preocupa — declarou. — O que é, milorde? — Os pensamentos dela começam a fazer sentido — Ashdowne confessou, alarmado. Levando na brincadeira, Finn gargalhou. Ashdowne tentou acompanhálo, mas não pôde ignorar a voz intuitiva que sussurrava em seus ouvidos. Georgiana encontrava-se pensativa na sala de leitura, sentada à escrivaninha e com o queixo apoiado nas mãos. Uma vez superado o choque inicial, ela logo percebeu o humor hilariante da situação grotesca de lorde Whalsey. E viveu a experiência inédita de compartilhar risadas com um homem, especialmente em se tratando de Ashdowne. Entretanto, a intimidade da experiência, como de hábito, ocorria quando estava próxima ao marquês. Tal pensamento causou um efeito peculiar nela. A sensação, além de tornar-se repetitiva, começava a surtir efeitos no coração e em outras partes de sua anatomia. Por fim, acabou forçando-se a optar pela lógica do raciocínio, abandonando Ashdowne. Precisava de solidão para superar a decepção. Tudo parecia ir tão bem, a investigação, a assistência do marquês, o cuidado do detetive de Bow Street. Até o instante em que aquela caixa foi aberta, e ela se viu tomada pelo desapontamento. Ao invés de esmeraldas, a misteriosa caixa continha uma garrafa de tônico capilar. Bufando de raiva, puxou um cacho que tombara sobre a testa. Só de pensar no tempo gasto com Whalsey, ela tinha vontade de gritar. E agora seria ainda mais dificultoso convencer o sr. Jeffries de suas teorias. Na pior das hipóteses, Whalsey e Cheever estavam envolvidos em um crime. O querido Ashdowne deixara isso bem claro depois que se recuperaram do ataque compulsivo de risos. Querido Ashdowne. Georgiana endireitou os ombros. Não podia se referir ao assistente de maneira tão carinhosa. E também não precisava ser muito esperta para saber que essa referência era a menos adequada para considerá-lo. Contudo a lógica lhe dizia que necessitava dele ou, no mínimo, de sua influência para com o sr. Jefíries. Isso, sem mencionar o livre acesso a locais que lhe eram proibidos, poder circular à vontade era de superior importância a fim de desmascarar o culpado. Com uma ponta de tristeza percebeu que a emoção de trabalhar ao lado do marquês tinha pouco a ver com a lógica. Seria um tremendo esforço desviar-se de emoções românticas, mas o conseguiria. Afinal, a carreira profissional exigia certos sacrifícios, e tinha mais fé nas próprias habilidades que nas do sr. Jeffries, apesar de ele ser considerado um renomado detetive. Duvidava de que o pobre homem fosse capaz de descobrir o ladrão sem a

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ajuda dela. Precisava banir as fraquezas do corpo e trabalhar com Ashdowne. Teria apenas de evitar chegar perto dele. Então jurou a si mesma que não haveria mais beijos! Ignorando a sensação de perda originada pela decisão, Georgiana voltou a se concentrar nas anotações. Preocupada, releu a pequena lista de suspeitos, antes de eliminar os nomes de Whalsey e Cheever. Restavam somente o sr. Hawkins e Ashdowne. Só poderia ser o vigário. A imagem do elegante marquês escalando a parede da mansão parecialhe ridícula. Georgiana admitia que se precipitara em seu julgamento. Considerar o nobre um suposto ladrão era um engano imperdoável. Se deixasse de lado os sentimentos calorosos, conseguiria pensar em outro motivo. O homem parecia possuir tudo. Por que desejaria o colar de lady Culpepper? Embora não soubesse a razão de Ashdowne estar em Bath, apontá-lo como responsável pelo roubo seria absurdo, tal qual insinuara Jeffries. Apesar de preparada para riscar o nome do marquês, ela hesitou com a pena na mão. Novamente, um fato resvalou-lhe a mente. Mas o quê? Colocou a pena na mesa e concentrou-se. Havia um detalhe a respeito do roubo que não conseguia enxergar, algo importante… Após longos momentos de reflexão não obtivera nada além do que já sabia. Devia ser o vigário, pensou, jogando os cachos para trás. Desmascarálo seria difícil, pois não havia prova do motivo e oportunidade. Mas Georgiana nunca desistia diante de desafios. Aquele, em especial, a proveria da recompensa que havia esperado obter a vida toda. Era sua chance e não a perderia por causa da vaidade de um lorde. Contudo, necessitava de ajuda. Uma vez decidido a permanecer em Bath, Ashdowne ansiava pelos dias que viriam. Havia despachos a serem feitos, claro. No entanto, de alguma forma, até os negócios da família lhe pareciam menos desagradáveis naquele inóspito vilarejo. Ashdowne ensaiou um cumprimento educado, mas antes que pudesse dizê-lo, Georgiana disparou a falar: — Suponho que eu deva me desculpar, embora não veja nenhum problema em minha visita. Estou grata por encontrá-lo em casa. Pretendia enviar-lhe um bilhete, mas não sabia quanto tempo a mensagem levaria para chegar. Não pude esperar! Aliás, cada minuto pode significar que o colar roubado desapareça, e o ladrão consiga fugir da cidade! A sensação de desconforto surgia novamente com facilidade alarmante conforme acompanhava o discurso. A jovem estava sendo coerente! Ashdowne teve vontade de chamar Finn para verificar se o fenómeno era contagioso ou apenas um mal-estar passageiro. Porém, forçou um sorriso de entendimento. — Está se referindo ao colar de lady Culpepper, presumo? — ele indagou, só para se certificar de que a compreendera. Também sentiu uma ponta de decepção ao constatar que a causa do entusiasmo não era ele, mas seus préstimos como assistente. Georgiana assentiu sem esconder que o encarava como se o marquês fosse um indivíduo obtuso. — O desespero me impeliu a vir até aqui — ela explicou. — Quando

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mamãe me pediu para levar Araminta e Eustácia às compras, implorei a Bertrand que me acompanhasse até sua residência porque sabia que ela não me perdoaria se eu viesse sozinha. — Bertrand — Ashdowne repetiu, fitando o rapaz que agora se recostava na parede, forrada de seda clara. Qualquer irmão teria dissuadido a irmã de arquitetar tal esquema. Mas Ashdowne suspeitava de que seria impossível mudar as decisões de Georgiana. Então resolveu manifestar sua gratidão. — Obrigado por escoltá-la. — Fico aliviado por não sermos expulsos de sua residência — Bertrand confessou. — Disse a Georgie que isso aconteceria, se fossemos à casa de um marquês, em Camden Place, sem avisar! O rapaz parou de falar, e Ashdowne pôde notar que os irmãos não se assemelhavam em nada. — Fique certo de que não o expulsarei de minha casa — ele declarou, antes de dirigir-se a Georgiana. — Agora, srta. Bellewether, em que posso servi-la? Bertrand soltou uma exclamação, evidenciando seu choque. — Não acredito que esteja levando a sério toda essa baboseira de minha irmã sobre os suspeitos do crime, milorde — ele balbuciou. O comentário deixou Ashdowne em dúvida quanto a defender ou não Georgiana. Para sua surpresa, encontrou uma réplica à altura. Encarou o rapaz, demonstrando a postura soberana a fim de colocá-lo em seu lugar. — Asseguro-lhe que levo sua irmã muito a sério. Constrangido a princípio, Bertrand parecia não entender o nível que relação entre a irmã e o marquês. Aquela reação fez Ashdowne refletir acerca dos jovens que já haviam cortejado Georgiana. No mínimo, rapazes imaturos tal qual Bertrand, que não conseguiam enxergar além da beleza física. Dispensando Bertrand, Ashdowne voltou-se a Georgiana para mais uma vez ser vítima daquele olhar. Ela o fitava como se o marquês fosse o único ser a compreendê-la. Chocado consigo mesmo, Ashdowne a olhava, enquanto a emoção o dominava de forma enervante. Culpa, desejo e certo orgulho apresentavam-lhe um sentimento novo e inominável até que conseguiu recuperar o autocontrole. — Não se apoquente com Bertrand — Georgiana sugeriu, interpretando mal o silêncio de Ashdowne. — Dê-lhe algo para comer, assim ele não pensará em mais nada. Diante daquela declaração primitiva, ele piscou algumas vezes, aparvalhado. — Perdoe minha negligência. Vou pedir o almoço — disse, embora já houvesse passado á hora da refeição. Chamou Finn, que apareceu em seguida, e ordenou-lhe que trouxesse uma bandeja. Minutos após, o mordomo voltou com uma farta variedade de sanduíches, chá e biscoitos. Como Georgiana previra, Bertrand sentou-se próximo à bandeja e começou a devorar os alimentos, sem prestar atenção ao que ocorria a sua volta. Ashdowne observava o rapaz, estarrecido, até Georgiana puxar-lhe a manga do casaco. — Passei algumas horas pensando e concluí que devemos agir rápido,

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se quisermos solucionar o caso! Aquela aflição deixou-o arrasado, mas Ashdowne mascarou o sentimento. — E quanto ao sr. Jeffries? Agora que está em Bath, ele vai descobrir a identidade do ladrão. Afinal, é seu trabalho. Desdenhosa, Georgiana fez uma careta e jogou os cachos dourados para trás. — Sr. Jeffries! Um homem agradável, admito. Seus préstimos, milorde, são mais efetivos que os dele. O pobre investigador jamais chegará a conclusão alguma sem nossa assistência, e lady Culpepper nunca voltará a ver aquele colar. — E que tragédia isso seria — Ashdowne comentou. — Estou lisonjeado por seu voto de confiança. O que sugere? Não acredita que Whalsey e Cheever ainda sejam responsáveis, certo? — De forma alguma! — Georgiana novamente o fitou como se ele fosse obtuso, e Ashdowne tentou parecer mais atento. — Não eram os únicos suspeitos! Agora tenho outro em vista, porém preciso de provas. Pensativa, ela entreabriu os lábios, e Ashdowne teve vontade de beijálos. Conteve-se. — Está pretendendo outra confrontação? — Oh, não — Georgiana respondeu, considerando quanto seu assistente estava sendo inútil. — Como lhe disse — prosseguiu —, não possuo provas que atestem minha teoria. Mas o homem teve motivo e oportunidade. E mais, adapta-se ao perfil de quem é capaz de escalar as paredes da mansão de lady Culpepper. — Ah, sem dúvida um detalhe importante que limita a lista de suspeitos — Ashdowne deduziu, tentando parecer mais eficiente. — Exato! — Georgiana o recompensou com um sorriso por ele entender seus métodos. Um bom assistente aceitaria a recompensa com extrema humildade, Ashdowne pensou, adorando o espetáculo. — E como vai obter as provas necessárias? — perguntou, curioso. Estava ansioso para ver o que a jovem faria em seguida. Ela era, sem dúvida, a criatura mais extraordinária do mundo. — Temos de invadir a casa dele! — O quê? — Apesar de estar preparado para qualquer atitude inesperada, a declaração de Georgiana o assustou. Incomodado, olhou sobre o ombro e viu Bertrand ainda devorando os sanduíches e o chá, completamente alheio à conversa. Ashdowne meneou a cabeça, imaginando que perdera a capacidade de compreendê-la. Com certeza, ela não pretendia… — Pensei muito a respeito dessa idéia e não vejo alternativa — ela afirmou. Atônito, Ashdowne analisou a pequena loira e imaginou-a cometendo um arrombamento. Nunca em sua vida conhecera alguém como Georgiana Bellewether. Era enervante, inconveniente e divinamente contagiante, tal qual uma superdose de vida que qualquer um lamentaria. — Estou certo de que sugere infringir a lei — ele, por fim, conseguiu dizer. Sendo nobre e o único naquela sala com bom senso, sentiu-se no dever de desencorajá-la ao que poderia ser descrito como um plano lunático. Georgiana considerou as palavras por alguns instantes. Ashdowne

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imaginou rodas girando dentro daquela linda cabeça. Ela precisava de direção, algo que não pretendia prover-lhe, pensou com certa culpa. Impedi-la de concretizar o novo esquema já seria o suficiente, concluiu, mais aliviado. — Sim, acredito que nossa busca seria ilegal. Contudo, sendo em favor da investigação, não vejo como alguém possa objetar — Georgiana raciocinou. — Bem, aquele cujo lar será invadido poderá nos responsabilizar, e o sr. Jeffries também. — Ashdowne reprimiu a risada. — Duvido de que nosso ilustre investigador de Bow Street entenda o arrombamento como alternativa necessária ao caso. — Maldição! — Georgiana exclamou. Satisfeito, Ashdowne teve a audácia de acreditar ter proporcionado certa coerência à jovem. Arrombamento! Nem sequer podia imaginar os resultados, se a desastrada Georgiana levasse o plano adiante. Seria sua ruína! — Não vai me ajudar, milorde? Por um momento, achou ter escutado mal. Mas a delicada criatura diante dele o fitava com evidente decepção. Em uma tarde somente, Ashdowne passara de deus venerado para algoz desumano e implacável. Tratava-se de um peso que não se adequava aos ombros do marquês. Não apenas a desencorajara de cometer um desatino, como também a fizera desprezar tamanho esforço! Pior ainda, com ou sem ele, a jovem amalucada tencionava adentrar a casa de outrem sem ser convidada. — Tudo bem — ela murmurou, confundindo a opressão horrorizada de Ashdowne. — Entendo. Um homem em sua posição, um marquês, não pode se envolver em situações que maculem o título de nobreza. Ashdowne teria recobrado a compostura, se ela não lhe houvesse tocado o braço como um gesto de compaixão. O toque suave e o penalizado olhar azulado foram sua derrocada. Ao pensar na vida obscura dos membros da aristocracia, sedução, jogatina, duelos e em seu próprio passado questionável, ele não conseguiu conter-se. Soltou uma gargalhada tão espontânea que Bertrand parou de comer para olhá-lo, e Finn, que escutava atrás da porta, entrou na sala a fim de verificar o que acontecia. Por sua vez, Georgiana encontrava-se preocupada apenas com a investigação. — Isso significa que irá me ajudar?— indagou, esperançosa. Entre risos e tosses, Ashdowne assentiu. Um homem de bom senso jamais tomaria parte das intrigas de Georgiana, as quais, sem dúvida, estavam destinadas à catástrofe total. Estou condenado, ele pensou. No entanto, a constatação não o assustou porque havia muito, aceitara o fatídico destino.

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CAPÍTULO VI A despeito dos protestos de Ashdowne, ambos saíram do Pump Room sem a companhia de Bertrand. Georgiana não tinha a menor intenção de mantê-lo a seu lado durante a investigação. Oh, amava o irmão, mas Bertrand não era a pessoa com a qual ela pudesse exercitar sua mente sagaz. Quando devia cumprir alguma obrigação, o desempenho de Bertrand baseava-se na lei do mínimo esforço. Seu único interesse era na fazenda da família, e todos acreditavam que ele seguiria os passos do pai como delegado de Chatam's Corner. No mais, Georgiana o considerava inútil. Ao notar a expressão de espanto de Ashdowne, ela continuou resoluta. — Ele só nos causará aborrecimento — disse, veemente. — Além do mais, não precisamos que Bertrand nos acompanhe em um simples passeio. O arrombamento, era um caso a parte, e ela não quis discuti-lo em lugar público. Ashdowne manteve-se calado, embora o movimento de sua sobrancelha indicasse quão duvidoso estava sobre a propriedade que pretendiam invadir. Georgiana ignorou o problema, pois não pretendia ser questionada quando a investigação estava em jogo. A bem da verdade, Ashdowne revelou-se um triste pedestre. Em Camden Place, por instantes, Georgiana não acreditara que ele a acompanhasse e sentiu-se impelida a esconder a frustração. Apesar de entender a posição do marquês, ela esperava que o nobre demostrasse um pouco mais de entusiasmo. Ele havia concordado em participar da tão relevante empreitada, ficando pendente a maneira pela qual seria realizada e quando. Georgiana optou, óbvio, por conduzir o evento naquela noite. Ashdowne declinou da proposta quase enfurecido. — Como encontraremos as provas necessárias na escuridão da noite? — ele questionara a idéia. Somente depois de avaliar o argumento, Georgiana acatara a observação sem relutância. Entrariam na casa de Hawkins durante o dia. Quando Ashdowne comentou que muitas pessoas notariam a invasão à luz do dia, ela foi obrigada, mais uma vez, a dar-lhe razão. Talvez houvesse subestimado o homem, porque o marquês se mostrava legitimamente envolvido com a tarefa de arrombamento. Animada, Georgiana descobriu o endereço do sr. Hawkins no livro que todos os visitantes assinavam tão logo chegavam a Bath. Ela chamou Ashdowne, puxando-lhe a manga do casaco, e, apreensivo, ele a escoltou. Dirigiram-se às portas e foram interrompidos a meio passo da saída. — Georgie! Ao som da voz de Araminta, Georgiana estremeceu. Não havia escapatória. Sua irmã os avistara, seguida de Eustácia. — Enfim encontrei-a! Por onde andou? Mamãe mandou que você nos acompanhasse… — Araminta perdeu a fala, assim como a volúvel Eustácia, diante da presença de Ashdowne. De repente, Georgiana sentiu certo orgulho, uma sensação de posse a qual não tinha o direito. Afinal, o elegante marquês era apenas seu assistente,

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nada mais, disse a si mesma ao fazer as apresentações. — Milorde, estas são minhas irmãs, Araminta e Eustácia. — Srtas. Bellewether, é um prazer conhecê-las. — Ele fez uma reverência cortês, e ambas começaram a rir, constrangidas. Porém tudo as fazia rir. Georgiana sempre tentara descobrir a fonte de tanto divertimento e, havia muito tempo, desistira de partilhar do bom humor de suas irmãs. — Milorde — Eustácia cumprimentou-o, escondendo-se atrás da outra irmã. — Milorde — Araminta repetiu o gesto, enrolando uma mecha de cabelo. Para o desagrado das duas irmãs mais novas, ambas haviam herdado cabelos castanhos, os quais tentavam clarear com algum tipo de poção fedorenta. Georgiana surpreendeu-se com o comportamento das irmãs. Felizmente, exceto pelas risadas, elas se apresentaram com discrição e não tão espalhafatosas quanto o pai. — Nós a procuramos por toda parte, Georgie! Eustácia exclamou, fitando Ashdowne. — Sim! Onde estava? — Araminta indagou, sem a acidez habitual. — O marquês e eu passeávamos e resolvemos parar no Pump Room. Já estávamos de saída — Georgiana avisou-as, aproximando-se de Ashdowne. — Georgie! — Mamãe disse… Georgiana cortou os protestos com o olhar, e as irmãs, como de costume, não a levaram a sério. — Aonde vai? — Araminta perguntou. — Vamos fazer um passeio de carruagem pelas cercanias da cidade — ela improvisou. Era uma boa desculpa porque Ashdowne logo ficaria entediado com as duas. Como culpá-lo? A falação incessante das irmãs sempre causava enxaqueca em Georgiana. — Oh, que maravilha! Vamos lhes fazer companhia! — Eustácia gritou. — Mamãe mandou que nós ficássemos com você — Araminta argumentou. — Ela disse que… — Desculpe, mas vamos encontrar outro casal. Não há espaço! — Georgiana puxou a manga de Ashdowne. Sem esperar pela resposta, ela caminhou entre a multidão e não olhou para trás até atravessar as portas do Pump Room. Ashdowne, seguiu-a, sorrindo. — Georgie? — Um hábito de família — Georgiana explicou. Durante anos a fio tentara eliminar aquele nome. Como alguém tom um apelido tão ridículo poderia ser levado a sério? — O qual despreza — Ashdowne reparou. —-Família interessante. Mal posso esperar para conhecer seus pais. — Embora eu os ame profundamente, vai achá-los muito parecidos com meus irmãos. Meu pai, sendo barulhento demais, irá ofender sua aristocracia, milorde. Minha mãe, apesar de devotada, é quem escolhe minhas roupas. Ashdowne expressou um olhar fascinante, capaz de ruborizar qualquer mulher pela intensidade. — Tem certeza de que não foi adotada? A princípio, Georgiana espantou-se com a pergunta, logo depois a achou de muito bom humor e começou a rir. As boas intenções do marquês cativavam seu jovem

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coração, e ela sentia desabrochar uma certa afeição por ele, algo, na verdade, que a deixava em estado de alerta. Jamais gostara da companhia de outros rapazes e com Ashdowne acontecia o contrário. Ele a tratava com respeito e às vezes até parecia admirála. Além de escutá-la, também parecia entendê-la. O coração de Georgiana palpitava com o marquês caminhando a seu lado, e achou melhor impor certa distância enquanto se dirigiam à casa do sr. Hawkins. Por mais deleitável que fosse, não lhe faria bem enamorar-se pelo charme do marquês. Em vez disso, deveria focalizar a atenção no objetivo principal. E jurou a si mesma que Ashdowne não seria o único a levá-la a sério. Com a determinação renovada, desviou o rumo da conversa para a investigação. Localizaram a residência de Hawkins a distância. Era um bairro decadente, mas ainda fazia parte da região nobre de Bath. Ashdowne deu algumas moedas a um menino para que ele batesse à porta do vigário. Ninguém respondeu. Enquanto caminhavam pela alameda que dava acesso à pequena casa, Georgiana mal pôde conter a satisfação. Até então, o exercício de suas habilidades se restringira ao plano mental. Agora, em plena execução, encontrava na investigação uma perspectiva de atuação física, muito mais estimulante. E tinha de confessar que a presença do marquês acrescentava certo tempero à aventura. — Parece-me que há ainda um andar superior — Ashdowne comentou, olhando para cima, e Georgiana assentiu. Tentava a todo custo concentrar-se na tarefa, ao invés de admirar o homem ao lado. O marquês, parecia bastante experiente em movimentações fortuitas pois com extrema agilidade se escondia entre as sombras do pequeno espaço que outrora exibira um jardim florido. Georgiana seguiu-lhe o exemplo, esgueirando-se pelos arbustos ressecados. Tão logo atingiram a entrada, ela girou a maçaneta e, espantada, fitou a porta. Quem em Bath se daria ao trabalho de trancar as portas? Era óbvio que aquele comportamento do sr. Hawkins confirmava as suspeitas acerca de seu caráter. Com certeza, o colar de esmeraldas encontrava-se escondido dentro da casa, caso contrário, por que o vigário haveria de trancar a residência? Tal hábito lhe apresentava uma difícil situação. Como conseguiriam conduzir a busca? Georgiana olhou a janela mais alta, certamente inacessível. Então fitou Ashdowne, que a observava, mantendo um sorriso sutil nos lábios. De repente, o marquês retirou algo do bolso e inseriu-o na fechadura. Em segundos, escutaram o som da tranca e a porta se abriu. — Oh! — Georgiana ficou admirada. — Ashdowne, não tenho nenhuma dúvida. É o assistente mais esperto que já vi. — Por acaso, conheceu outro? — ele indagou, aproximando-se. — Outro o quê? — Georgiana sempre se sentia meio zonza ao lado do marquês. O calor que emanava daquela figura vigorosa parecia contaminá-la, embora ele não a tocasse. — Assistente — Ashdowne repetiu e fechou a porta tão logo entraram. — Não — ela respondeu, ofegante. — Nesse caso, dispenso o elogio. — Ele deu alguns passos e, então,

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virou-se. Georgiana somente sorriu, na tentativa de esconder a vontade de rir. Meneando a cabeça, o marquês começou a se mover no interior da sala, tal qual um gato vistoriando o novo território, os olhos azuis permaneciam atentos, e o corpo ocultava-se nas sombras. Por um instante, Georgiana ficou fascinada. — O que estamos procurando? — Ashdowne inquiriu-a, de súbito. Teria ela esquecido a causa tão depressa na presença daquele homem? — O colar, claro — murmurou, recuperada. — E onde ele poderia estar? — Ashdowne indagou, rindo. — Não sei! Vamos olhar tudo. Sob protestos, ele voltou a se esgueirar, erguendo algumas tampas e abrindo armários. Georgiana tentou pensar com coerência, embora fosse complicado na presença do marquês. O que Hawkins faria com o produto do roubo? Depois de ponderar, chegou à conclusão de que o ladrão não esconderia a jóia ali, e sim, longe de olhos curiosos. Ela se precipitou em direção à escada. No andar superior, supervisou a mobília limpa porém envelhecida. Notou a qualidade sóbria dos móveis que pouco revelava a depravação esperada do criminoso. Contudo, um homem capaz de executar aquele roubo em particular não deveria ser comum, Georgiana refletiu. Então se pôs ao trabalho. Fiscalizou sob o colchão, nos cantos e entre os trajes de mau gosto. Estava terminando a busca quando Ashdowne apareceu, com olhar especulativo. — Divertindo-se? — Estou verificando todas as possibilidades! — Georgiana relatou com o intuito de oferecer um pouco de entusiasmo ao assistente, que não parecia envolvido na investigação. Ashdowne permaneceu por perto, enquanto ela prosseguia, determinada a ignorá-lo. Havia completado o circuito no interior do quarto quando notou uma pilha de cobertores em um canto. Eles cobriam um baú e, ávida por descobertas importantes, Georgiana arrastou-o pelo chão. Puxou as cobertas e experimentou a fechadura que não se encontrava presa a nenhum cadeado. — Encontrei algo! — exclamou, abrindo a tampa do baú. Dentro dele, divisou uma enorme corda, que mais se parecia um adereço de cortinas. Georgiana podia imaginar que uso Hawkins faria daquele instrumento, talvez para amarrar suas vítimas! — O que é? Assustada, ela estremeceu ao escutar o sussurro. Não havia reparado que Ashdowne se encontrava tão próximo. Esquecera de que ele se movia em silêncio. Para encobrir o susto, ela sacudiu a corda. — Veja! — Pegou outro item do baú e ergueu-o, triunfante. — Uma máscara negra! — Tratava-se de um adereço típico para bailes de máscaras, usado a fim de ocultar a identidade do criminoso, ela deduziu. Voltou a vasculhar o baú e descobriu um chicote. — Uma arma! — Claro, uma pistola seria mais adequada para incriminar Hawkins, mas… com aquele chicote havia outros objetos incomuns. Ashdowne clareou a voz. — Georgiana, não creio que sejam apetrechos de um ladrão.

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— Não sei. Parecem-me muito suspeitos! — ela retrucou, ainda vasculhando o baú. — Suspeitos, sim — ele continuou, reprimindo a risada. — Mas não da maneira que imagina. Negando a derrota, Georgiana pôs a cabeça dentro do baú e sentiu algo roçar seu nariz. Uma pena? Ergueu o rosto, mas foi invadida por uma súbita vontade de espirrar. A força do espirro jogou-a de encontro à tampa e, aos berros, ela caiu de cabeça dentro do baú. Seus quadris ficaram empinados no ar e, com os pés, tentava apoiar-se no assoalho. Embora não corresse risco de sufocamento, a posição era um tanto incômoda. As saias levantaram, e as mãos esmagavam as provas do crime. Aflita, tentou se libertar, mas escutou um barulho a deixou em pânico. O que acontecia atrás si? Onde estava Ashdowne? Ainda com o rosto mergulhado naquela estranha coleção, Georgiana especulou se o vigário ou o servo não haviam retornado e agora ameaçavam o marquês. Somente quando conseguiu se equilibrar, ela percebeu que o som que escutara era, na verdade, a risada de Ashdowne. Indignada, empurrou a tampa que lhe havia tombado sobre os ombros e livrou-se dos fundos do baú. O tão eficaz assistente, ao invés de socorrê-la, estava sentado no assoalho encostado à parede, às gargalhadas. Para piorar a situação, ele alisava a própria barriga, como se não pudesse conter o riso. Georgiana esperava que Ashdowne tivesse uma terrível dor no abdômem. — Bem! — ela exclamou, arrumando os cachos. De súbito, Ashdowne parou de rir e fitou-a. Então, soltou outra gargalhada sonora e inclinou a cabeça para trás. Desconfiada, Georgiana tocou os cabelos levemente. Seus dedos encontraram a pena, que parecia estar presa em algum grampo. Irritada, ela puxou a pena e jogou-a no baú. — Ficou melhor? — perguntou a Ashdowne, furiosa. As gargalhadas transformaram-se em um riso leve enquanto ele a encarava com os olhos marejados de tanto rir. A cena deveria aborrecê-la mas, ao vê-lo tão bonito, relaxado e humanamente acessível, ela sentiu o coração derreter. Preferia ter Ashdowne rindo dela a qualquer outro homem fitando seus quadris. A risada não era cruel mas hilariante. Georgia sorriu ante a expressão suave do marquês, uma faceta muito distante do homem frio que conhecera. A fim de esconder o afeto repentino, virou-se, pegou os cobertores, posicionou-os sobre o baú e arrastou a caixa até o canto onde a encontrara. Recuou para verificar se pusera o baú no mesmo local. Após uns instantes, deu mais um passo e tropeçou nas pernas de Ashdowne. Então, viu-se cair entre braços fortes que a seguraram e sobre o colo musculoso. Fitou Ashdowne, aparvalhada. Ele limpou as lágrimas com a luva e sacudiu a cabeça. — É deliciosa, srta. Bellewether. — Bem, fico contente por lhe proporcionar divertimento — ela retrucou, tentando recompor-se. Ashdowne aproveitou a oportunidade e segurou-a com firmeza. — Ah, eu precisava rir — disse. — Havia esquecido quanto necessitava… — As palavras morreram no ar enquanto Ashdowne baixava o rosto. Os lábios de Georgiana se entreabriram para encontrar os dele.

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Continuavam tão gentis quanto na primeira vez. Havia uma vaga noção de que não deveria beijá-lo, principalmente no quarto do sr. Hawkins. Mas Georgiana não conseguia raciocinar quando se aproximava de Ashdowne. A mente rendeu-se à necessidade do corpo. Como se estivesse durante anos subjugada aos caprichos do cérebro, o repouso de Georgiana encontrou morada na atenção de Ashdowne. Abraçou Os ombros largos, sentindo a força dos músculos com deleite. Ele a sustentou sobre um dos braços e aprofundou ainda mais o beijo. Oh, era sem dúvida a sensação mais gloriosa do universo! Georgiana apenas apoiou-se nos ombros dele, enquanto lábios afoitos percorriam-lhe das faces à orelha, onde empreenderam carícias fantásticas com o delicado lóbulo. Que curioso! Então Ashdowne começou a beijar-lhe o pescoço e incitou um gemido de puro prazer na garganta de Georgiana. Ele murmurou palavras encorajadoras e deslizou a mão, que se encontrava na curva da cintura, até atingir um dos seios e afagá-lo. Georgiana, atônita, prendeu a respiração. O corpo que ela sempre repudiara parecia adquirir vida própria, estremecia e vibrava de forma bastante peculiar conforme os movimentos sensuais prosseguia: Georgiana desejava… desejava… Conseguiu soltar o ar, de repente. Então Ashdowne ousou mergulhar a mão enluvada no decote do vestido e afagou o mamilo, que logo se tornou túrgido. — Oh, Ashdowne — Georgiana murmurou, absorvendo as sensações. Moveu-se sobre o colo dele, à procura de outra posição e sentiu algo diferente roçar-lhe o quadril. — Deus! — exclamou. — Oh, sim, Georgiana… O que quer que Ashdowne pretendesse dizer perdeu-se ao som da fechadura da porta. O ruído ecoou pela casa. Ficaram paralisados, escutando apenas a respiração ofegante de ambos. Em seguida, ouviram o ranger das dobradiças. Antes que Georgiana pudesse raciocinar, Ashdowne levantou-se e puxou-a até a janela. Ele abriu a veneziana em três tempos e pulou sobre o parapeito, em um movimento rápido. Ágil como um gato assustado, carregou-a para fora em questão de segundos. Espantada, Georgiana deu-se conta de que estavam no telhado, e Ashdowne, sem hesitar, guiou-a entre chaminés e telhas, pulando de uma à outra até atingirem um enorme carvalho. A queda não era infinita, mas de onde se achava, Georgiana divisou o chão a metros de distância. Ashdowne movia-se com destreza, mantinha a mão presa na dela ou a carregava enquanto a ajudava a descer. Por fim, ela conseguiu alcançar o solo e colou-se ao corpo viril na esperança de protelar a sensação de segurança. Permaneceram naquela posição por algum tempo. Mas quando ele abraçou-a pela cintura, Georgiana caiu em si. Ashdowne havia arruinado boa parte do elegante traje, além de arriscar sua liberdade, caso fossem pegos em flagrante dentro da casa. De súbito, o plano pareceu mais tolo que inspirador. Sentiu remorso por dissuadi-lo a compactuar com aquela loucura. Envergonhada, fitou-o, e a expressão do magnífico rosto descrevia satisfação. Ele pendeu a cabeça para trás e riu sob as folhas da árvore que os ocultava. Observando-o, Georgiana se perguntou se o homem era capaz de

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zangar-se. Ele devia ter o riso solto ou uma tendência forte ao humor em momentos singulares. Quando conseguiu controlar-se, Ashdowne abaixou o rosto. — Obrigado — sussurrou. Os olhos azuis bridavam de um jeito que a confundia. — Pelo quê? — Pela aventura — Ashdowne explicou. Antes de lhe dar chance à réplica, murmurou: — Havia esquecido como era e agradeço-lhe a lembrança. — Esquecido o quê? — Georgiana sentia-se cada vez mais confusa. — A vida é uma aventura — Ashdowne declarou e, sob a sombra do carvalho, roubou-lhe um beijo rápido e decidido. Estonteada, ela não sabia o que dizer. Observou-o segurar-lhe a mão e conduzi-la. Aventura? Recobrado do ataque de risos, o marquês a guiou pelos quintais rumo às ruas de Bath. Georgiana teve a nítida impressão de que ela era a assistente, envolvida em uma força superior a qualquer mistério. O sol já se punha quando chegaram à residência dos Bellewether. Entretanto, Georgiana estava tão longe de solucionar o caso quanto o investigador de Bow Street. A única solução simples escorregava entre seus dedos a cada momento. E o assistente, útil quando se tratava de arrombamento, era parte do problema. Ashdowne, admitiu a si mesma, tinha o poder mágico de perturbá-la. A presença imponente atuava sobre ela como uma droga poderosa, confundialhe a mente e atrapalhava os sentidos em um grau elevado. Ao recordar a sensação de ter o seio acariciado, ela se sentiu desorientada e horrivelmente constrangida. Teria mesmo respondido ao toque sensual com tanto abandono? Desejar um homem era algo que pertencia à vida fútil de suas irmãs. Desdenhara og atributos femininos. Sempre havia se considerado superior a tolices carnais, inteligente e esperta demais para sucumbir ao charme de qualquer indivíduo. Ashdowne, porém, parecia ter a capacidade de reduzi-la a uma donzela incoerente em questão de segundos. Era decididamente vexatório. Pior, o curioso fenómeno surgia nos momentos em que ela mais precisava do cérebro, e quando estava prestes a alcançar sua almejada carreira de detetive. Georgiana soltou um suspiro exasperado. A despeito de ocultar os sentimentos ao assistente, via-se incapaz de se concentrar. Ashdowne era muita distração! Manobras drásticas seriam necessárias. Por mais que gostasse do marquês e apreciasse sua ajuda na investigação, precisava ser mais severa. A decisão era dolorosa. E se agravou quando o encarou diante da residência Bellewether. Alto e charmoso, Ashdowne a fitava com um brilho especial que mantivera desde a fuga da casa do vigário. Os lábios se curvaram em um sorriso que transmitia leveza de alma, um detalhe que ela não havia reparado. O coração de Georgiana se apertou, enquanto considerava o que seria melhor para o marquês. Porém recusava entregar-se aos sentimentos. Tampouco pretendia contemplar aqueles traços do homem que se tornara tão querido. Ela encarou o colarinho de Ashdowne e preparou-se para dispensar seu primeiro e único assistente. — Ashdowne, eu… — Georgie! Você apareceu finalmente! Georgiana resmungou ao escutar

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o grito do pai. Não só fora interrompida em um momento crucial, como também seria obrigada a apresentar Ashdowne quando o que mais queria era afastar-se dele. — As meninas me disseram que você estava com… — O sr. Bellewether deteve-se ao divisar o marquês. — Ah, quem é esse? Com certeza não é lorde Ashdowne — ele falou, embora conhecesse muito bem a identidade do marquês. Tentando não gritar, Georgiana voltou-se a Ashdowne. — Milorde, posso lhe apresentar meu pai, sr. Bellewether? Como sempre, seu pai mal deu a chance de Ashdowne cumprimentá-lo e logo disparou a tagarelar. — Milorde! Que prazer! Minha pequena Georgie está na companhia de um dos mais ilustres visitantes de Bath! — Ele fitou a filha, orgulhoso, como se conhecer o marquês fosse um tipo de elogio. Georgiana fez uma careta. Apesar de sentir na pele a presença de Ashdowne, ela não passava o tempo correndo atrás de um marido como as jovens de sua idade. Nem sequer queria o marquês como assistente! — Sim, mas ele já estava de saída — ela informou, ignorando a expressão surpresa de Ashdowne. — Não pode ir embora, milorde — o sr. Bellewether interveio. — Não, sem antes conhecer minha família! Venha — convidou-o, indicando a casa. — Preciso lhe apresentar a sra. Bellewether. Estou certo de que será uma honra para ela, se nos der o prazer de sua companhia durante o jantar. Alarmada, Georgiana encarou o pai. Mesmo antes de resolver despedir seu assistente, ela jamais o colocaria sob o fogo cruzado de sua família. Agora que estava preparada para terminar o relacionamento, não desejava manter contato com o marquês. Convidá-lo a entrar parecia um meio de reforçar aquela relação perturbadora. — Oh, creio que milorde tenha outro compromisso hoje à noite — Georgiana inventou, dando a Ashdowne uma desculpa para declinar do convite. Claro, nunca lhe ocorrera que o homem, cujos olhos pareciam sugá-la, aceitaria ficar para jantar. Então, ao escutar a súbita negativa, Georgiana fitouo, surpresa. — Na verdade, não tenho nada planejado para esta noite — Ashdowne declarou. Os lábios sorriram de modo maquiavélico, è Georgiana suspeitou de que ele aceitara o convite apenas para contrariá-la. Mas por quê? Talvez ele pensasse que havia necessidade de continuar a discutir o caso. Dando-lhe o benefício da dúvida, Georgiana meneou a cabeça, na esperança de Ashdowne compreender o sinal, aproveitando um momento de distração de seu pai. O movimento causou apenas espanto. O marquês voltou a sorrir. — De fato, sr. Bellewether, ficarei honrado em aceitar seu convite. — Embora estivesse diante do anfitrião, Ashdowne fitava Georgiana como se a desafiasse. Ultrajada, ela estreitou os olhos, enfurecida. No entanto não podia fazer objeções porque seu pai proclamava, em altos brados, o orgulho de receber o distinto cavalheiro. Parecendo gratificado também, Ashdowne acompanhou o sr. Bellewether até a residência. Georgiana irritou-se diante de tantas mesuras, as

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quais durariam pouco após conhecer a família e seus disparates. Talvez ela pudesse tirar vantagem da situação, pensou mais animada apesar do constrangimento. Dessa maneira, estaria quase livre da difícil tarefa de dispensar seu assistente. Na realidade, não haveria necessidade de despedi-lo. Uma refeição com os Bellewether seria o suficiente para convencê-lo a desistir da companhia de Georgiana.

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CAPÍTULO VII A s preces de Georgiana pareciam ter sido atendidas. Tão logo entraram na residência, encontraram Araminta e Eustácia discutindo, aos berros, na sala de visitas. — A fita é minha! — Araminta dizia, segurando entre os dedos uns poucos metros de fita cor-de-rosa. Eustácia puxava a outra extremidade do estreito tecido que se esticava ao máximo. A cena assemelhava-se a dois cães irados, brigando por um pedaço de osso. — Não é, não! Mamãe deu para mim! — Não deu! — Araminta pontuou as palavras com um violento puxão, fazendo Eustácia estatelar-se no assoalho. — Meninas! Meninas! — o sr. Bellewether chamou-lhes a atenção. Virando-se a Ashdowne, Georgiana o desafiou com o olhar. Em vez de divisar horror no rosto do marquês, notou a expressão displicente quando ele inclinou-se para sussurrar em seu ouvido: — Vejo que você não é a única travessa da família. Ultrajada, Georgiana esboçou um sorriso. Travessa? De maneira alguma! Não se parecia em nada com as irmãs. Ensaiou uma réplica à altura mas não teve chance de pronunciála porque Araminta e Eustácia notaram a presença do visitante. Elas logo se aprumaram, enquanto a fita, causadora da discórdia, foi esquecida no chão. No mesmo instante, as duas começaram a rir. — Milorde! — Após a reverência, circundara Ashdowne e o cortejaram da forma mais deselgante possível. Era positivamente constrangedor. Georgiana precisou morder a língua para não colocar um fim naquele circo ridículo. Seu pai não ajudou em nada quando fez as apresentações sem reparar no péssimo comportamento das filhas mais novas. Quando Araminta empurrou a irmã mais velha a fim de ficar ao lado do marquês, Georgiana teve ímpetos de puxar os cachos fartos da menina e jogá-la no chão ao lado da fita cor-de-rosa. Por sorte, reconheceu a sensação como sendo estranho sentimento de posse que tivera naque manhã em relação a Ashdowne. Mais calma, conseguiu controlar o impulso. Tais sentimentos eram naturais, pensou, já que ele trabalhava como seu assistente. Mas não por muito tempo. Contrariada, Georgiana permitiu que Araminta ocupasse sua posição, pois, em sã consciência, não poderia reclamá-la. Desolada com a separação, ela ia afastando-se quando Ashdowne a impediu, segurando firme em seu braço. Como e por que ele fizera aquilo, Georgiana não sabia explicar. O fato era que o marquês havia manobrado as irmãs a fim de recuperar a posição junto de Georgiana de modo também possessivo. Embora dissesse a si mesma que Ashdowne apropriava-se do dever de assistente, não pôde evitar a onda de felicidade causada pela atitude do marquês. Apesar de ele ter aceito o convite, Georgiana não acreditava que fosse ficar para o jantar. Quando o momento chegou, Ashdowne mostrou-se lisonjeado. E conforme a noite prosseguia, continuava a ser educado e agradável, dois traços fortes do grande fidalgo, os quais ela desconhecia. Conseguiu inclusive administrar a ávida atenção das irmãs e

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empreender uma conversa jovial com o dono da casa. Ao mesmo tempo, ele amenizava a sutil reserva da sra. Bellewether preocupada com a presença de um nobre à mesa. Felizmente Bertrand não apareceu, ou a visita à residência de Ashdowne naquela manhã teria sido comentada, perturbando a atmosfera harmônica. Bertrand devia estar jantando com amigos, enquanto o marquês com todo charme cativava o restante da família. Era admirável e irritante ao mesmo tempo. Georgiana não precisava de motivos para gostar de Ashdowne, especialmente porque ele representava muita distração. Em primeiro lugar, não o queria à mesa, a presença contínua impedia-lhe a concentração. Precisava refletir sobre o caso, mas quando o homem sentou-se a seu lado, Georgiana sentiu o calor afetar-lhe todos os sentidos. Por que estava sendo tão gentil com uma família que mal conhecia? Georgiana imaginara que algumas horas de convivência seriam o bastante para afugentá-lo, mas Ashdowne parecia à vontade entre os membros da casa. Por natureza, começou a suspeitar daquela atitude. Se ele pensava que uma das obrigações de assistente era socializar-se com os parentes da futura detetive, cometera um erro. O homem não tinha dever algum. Porém, o pobre não sabia ainda, Georgiana ponderou, mais determinada a encerrar aquela relação. No entanto, por mais que tentasse criar um momento de privacidade para conversar com Ashdowne, ela via seus esforços se perderem em meio à falação da família. A frustração aumentava a cada minuto, e piorou quando tiveram de escutar as irmãs cantando e tocando piano. Embora fossem suportáveis como musicistas, Georgiana não tinha disposição para aproveitar o pequeno espetáculo. O ligeiro quê de perplexidade ou de agastamento, que Georgiana mostrara ao ver as irmãs, foi vencido pelo marquês com grande elegância. Exibiu um humor radiante e acompanhou a apresentação com tranquilidade. — E você, Georgiana? — Ashdowne murmurou :— Não vai se juntar a elas? — Não, a menos que queira escutar acordes agudos, os quais irão prejudicar sua digestão — ela resmungou. A risada espontânea chamou a atenção de todos; sua mãe franziu a testa, seu pai sorriu, e as irmãs interromperam o canto. Claro que não houve chance de um importante diálogo entre ambos. Georgiana soltou um suspiro exasperado. Impaciente, começou a bater a ponta de um dos pés no chão. Por fim, Ashdowne cessou o ruído ao tocar o delicado pé com a bota lustrosa. O olhar insatisfeito de Georgiana incitou outra gargalhada sonora. Como ele podia ficar ali, fingindo apreciar a medíocre habilidade musical das irmãs quando ela precisava fugir daquele interlúdio? Georgiana bufou. Nunca sabia que tipo de comportamento esperar do homem. A princípio, o achara rude, mas Ashdowne alterara esse julgamento e se revelara um intelectual de respeito. Entretanto, ao decidir aceitá-lo na investigação, devido ao espírito inteligente apenas, ele tornou-se bem-humorado, charmoso e… sensual. Além de instigante, a natureza errática do marquês estimulava um lado suscetível de Georgiana. Talvez porque a vida fosse muito monótona, e a família e os amigos possuíssem um comportamento previsível. Enfim, tinha

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encontrado em Ashdowne algum prazer renovador. Não obstante, visualizava o fim da associação. Uma vez livre do assistente, poderia retornar ao estado de existência lógica e racional, no qual o único estímulo seria mental. E, se o corpo feminino ficasse desapontado, Georgiana não tinha a menor intenção de escutá-lo. De repente, Ashdowne levantou-se e aplaudiu, despertando-a dos devaneios. O abominável entretenimento havia terminado. — Obrigado pela música — ele agradeceu para alívio de Georgiana. — E agora, srta. Bellewewier, creio que prometeu me mostrar o jardim. Por um instante, ela apenas o encarou, atordoada. Então percebeu que o marquês finalmente respondia as suas súplicas. — Oh, sim. — Ela se levantou. — O jardim? — A mãe demonstrou desaprovação, mas o pai sorriu e reforçou a proposta. — Vá visitar o jardim com o marquês, mas não se demore. — O sr. Bellewether piscou para a filha sem a menor sutileza, causando-lhe maior embaraço. Com certeza, ele não imaginava que ficariam sozinhos com o objetivo de… flertar? Georgiana corou. Ashdowne permaneceu impassível e ofereceulhe o braço com a graça habitual. Caminharam lado a lado em direção às portas que davam acesso ao jardim, sob os protestos das irmãs. O espaço era pequeno, as alamedas estreitas e cobertas pelas sombras, como muitas em Bath. A chuva que caíra durante o jantar havia deixado o aroma de terra molhada, algo que Georgiana achava desagradável. Frustrada, adentrou o jardim, perguntando-se o que o vigário estaria fazendo. Já teria ele se livrado da evidência? Então Ashdowne aproximou-se, e os pensamentos a respeito do caso desapareceram como que por encanto. O perfume das flores, que outrora lhe parecera enjoativo, envolvia-a criando um clima romântico, como se aquele mundo pertencesse somente a ambos. Georgiana abominou a sensação, mas não conseguiu negá-la. O calor de Ashdowne a contagiava, causando estranhas reações em partes da anatomia feminina. Ela recuou, à procura de sustento, mas não havia nenhum. Sabendo que deveria pronunciar-se antes de perder-se por completo, Georgiana clareou a voz e fixou o olhar em Ashdowne. — Milorde… — Georgiana, não vejo necessidade para um tratamento tão formal entre nós — ele replicou em um tom que.a fez estremecer. Aflita ante as reações incompreensíveis, ela fechou os olhos, rememorando as mãos que a acariciaram e lutou contra a letargia crescente. — Ashdowne — tentou novamente. Abriu os olhos e falou antes que fosse tarde demais: — Receio que tenha de dispensá-lo. Não quero sua ajuda. O silêncio que se seguiu foi dilacerante. Georgiana ousou fitar o rosto do ex-assistente. Em raras ocasiões, Ashdowne revelava a si mesmo; logo, com certa surpresa, ela notou a expressão Atônita nos traços do elegante marquês. Jamais o vira tão vulnerável. Na verdade, o eloquente nobre perdeu a fala diante da declaração de Georgiana. Se não se sentisse culpada, acharia graça daquele repentino espanto. — Sinto muito, Ashdowne, mas é muita distração para mim — explicou. — Não consigo me concentrar no caso.

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Após a justificativa, ele a fitou por um longo instante. Em seguida, começou a rir, fazendo Georgiana pensar se a insanidade era um caráter hereditário na família do marquês. O homem parecia encontrar humor em tudo! Talvez, como as irmãs, Ashdowne visse divertimento em situações que ela não podia enxergar. — Perdoe-me — ele recuperou-se. — Mas você é tão… imprevisível. Não parecia um elogio. Georgiana jogou os cachos para trás. Não havia pensado o mesmo a respeito dele? — Pois eu diria algo semelhante em relação a você! — Verdade? — Ashdowne sorriu de forma encantadora. — Que interessante — murmurou. Georgiana voltou a sentir aquela sensação familiar de rendição quando ele se aproximou. — Não! — exclamou, erguendo as mãos. — Não pude raciocinar durante o jantar. Você é enervante demais. Dessa vez, o sorriso de Ashdowne foi tão provocativo que as pernas dela bambearam. — Enervante? — ele repetiu, dando um passo à frente. Nervosa, Georgiana recuou e encostou na parede da casa. — Gosto de ser enervante — Ashdowne declarou. Com uma das mãos apoiada na parede, ele usou a outra para acariciar os cabelos sedosos. Observou as mechas douradas como se jamais as tivesse visto. Enrolou um cacho entre os dedos e fascinou-se com a maciez dos fios. A contragosto, Georgiana admitiu certa fascinação também. Respirou fundo, e Ashdowne voltou a fitá-la. — Mas tentarei ser menos enervante para que possa se concentrar no caso — alegou, sincero. — Qual é o próximo passo? Retornando os pensamentos à negligenciada ii vestigação, ela percebeu que tinha pouca escolhi Então revelou a primeira coisa que lhe veio à mente? — Suponho que deva seguir o vigário a fim de verificar se ele revela alguma culpabilidade. — Receio que eu não possa permitir isso — Ashdowne sussurrou tão próximo que Georgiana sentiu a gentil carícia da respiração. — Como assim? — A despeito das sensações inebriantes, ela ficou indignada com o autoritarismo do marquês. — Sou seu guardião, lembra-se? Tonta, Georgiana apenas assentiu. A momentânea rebeldia dissipou-se. — Preciso garantir que não crie problemas para si mesma. Portanto, esqueça essa idéia absurda de me dispensar. Certo? — Ashdowne perguntou. No fundo, ela queria menear a cabeça em negativa, mas viu-se concordando, outro exemplo do poder que seu corpo mantinha sobre o cérebro. — Obrigado. — Os lábios de Ashdowne pareciam hipnotizá-la. — Prometa-me que não fará nenhuma tolice hoje à noite, e estarei a sua disposição amanhã — acrescentou. A sua disposição? A idéia a afetou profundamente. Queria provar aqueles lábios maravilhosos, sentir o beijo ardoroso dominando-a por inteiro. Prendeu a respiração a espera do toque sensual. E, de repente, ele afastou-se, confundindo-a outra vez. — Não a quero perambulando pela cidade à noite. Não é seguro para

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ninguém. Sua investigação terá de esperar até amanhã. — Investigação — Georgiana repetiu. Oh, o caso! Distanciou-se da parede e de Ashdowne. Então respirou fundo a fim de dispersar o desejo. — Creio que está fugindo de nosso controle. Temos de agir e rápido — disse com veemência. A medida que a mente clareava, ela começou a andar pelo jardim, certa de que poderia raciocinar. — Acha que o vigário já se livrou do colar? — Não. — Ótimo. Nesse caso, ainda temos chance de recuperá-lo! Só precisamos pegar o sr. Hawkins cometendo algum ato suspeito. Talvez ele não tenha escondido o colar em sua casa, mas em outro lugar.. Por isso vamos vigiá-lo. — Que assim seja — Ashdowne concordou. — Mas prometa-me que não vai tentar segui-lo, ou a alguém mais, sozinha. Georgiana fez menção de argumentar, porém o semblante implacável do marquês a impediu. — Oh, está bem — murmurou. — Promete? — ele indagou, aproximando-se. — Prometo. — Boa menina. Agoniada, ela pretendia negar aquela nova aproximação, mas Ashdowne parecia tão alto, elegante, seguro de si, uma figura sombria e muito mais… Sentiu-se tonta na mesma hora. Esforçou-se para não sucumbir. — Tem de concordar em não ser… uma distração. — Ela recuou novamente. — Se vamos trabalhar juntos, como é de seu agrado, devemos manter nossas mentes direcionadas à investigação e evitar comportamentos… semelhantes aos que ocorreram na casa do vigário. O rosto de Georgiana ruborizou. Ficou grata por estar sob a escuridão da noite, embora Ashdowne voltasse a rir. Ele não a levava a sério! — Nada pode ser mais comprometedor que.. um flerte — ela prosseguiu. — Precisamos… Ashdowne a interrompeu quando chegou ainda mais perto. — Você é uma completa fraude, Georgiana Bellewether. — O timbre gentil da voz reforçou as palavras. — O que quer dizer? — Georgiana não foi capaz de esconder a indignação. O marquês expressava-se de maneira diferente, um misto de ternura e determinação. — Não importa quanto esforço dispense para fingir, você se conduz pelo coração, não pela cabeça — Ashdowne declarou. Enquanto ela tentava encontrar uma forma de protesto, ele tomou-lhe o rosto entre as mãos e acariciou as faces rosadas, incitando-a mais uma vez. — Só porque é inteligente, esperta e sagaz acha que pode ser pragmática quando, de fato, é a mulher mais romântica que já conheci — o marquês confessou. — Não é verdade — Georgiana replicou, em um sussurro, e calou-se quando os lábios másculos cobriram os dela. O toque foi suave, como se ele estivesse provando o sabor sem saciar a sede. Justamente quando Georgiana entregou-se, à vontade de colar-se ao corpo viril, Ashdowne recuou, deixando-a insatisfeita.

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O sorriso gentil foi tão inesperado quanto o fato de ele caminhar em direção à porta, de onde o chamado da sra. Bellewether se fez ouvir. — Uma romântica incurável — Ashdowne disse. Pela primeira vez, tomada pela poderosa força da paixão, ela não soube argumentar. Ashdowne não confiava nela. De acordo com seus cálculos, tinha tempo suficiente para retornar a Camden Place, não muito além disso. A promessa que lhe fizera, quando estonteada de paixão, não valeria nada tão logo recobrasse a lógica. Por conveniência Georgiana esqueceria a jura e voltaria a animar-se com a investigação, ávida para cometer outra sandice. Até lá, ela teria de se submeter ao interrogatório da família, sem dúvida, referente à súbita associação com o marquês. Se Ashdowne julgara corretamente, a mãe daria certos avisos à filha, e o pai celebraria o fato de Georgiana ter conquistado a atenção de um nobre. Com certeza, o interrogatório e a toalete da noite manteriam Georgiana ocupada, pelo menos por algum tempo. Ashdowne suspeitava de que a tarefa de entreter a incansável srta. Bellewether requeria disponibilidade, paciência, uma boa dose de ousadia e talentos variados. Concluiu, em seguida, que era o único homem qualificado para a posição. Infelizmente, a conclusão não lhe pareceu tão assustadora quanto antes. No início, Ashdowne desdenhara o comportamento exuberante e irracional de Georgiana, porém agora sentia-se encantado. Que outra mulher possuiria tantas facetas? Onde mais a razão e a imaginação poderiam estar juntas? Quem teria o desprendimento de rir de si mesma? Durante anos Ashdowne se disciplinara para antecipar todas as possibilidades, no entanto, a jovem Georgiana sempre o surpreendia. Quanto mais conhecia aquela mente incomum, mais ela se antecipava e o espantava. Com certa afeição, lembrou-se do rosto expressivo quando conseguiu abrir a fechadura da residência do vigário. Em vez de chocar-se, Georgiana ficara impressionada e o recompensou com o olhar admirado que tanto o afetava. Onde, em Londres, ele encontraria uma dama tão agradecida por suas habilidades? Ashdowne jamais conhecera uma mulher inconformada com a própria beleza. Georgiana tratava a dela como um incômodo. Claro, os vestidos que a mãe escolhia eram horrorosos e quase indecentes. Ele teria optado por modelos mais discretos, de mangas bufantes e cintura acentuada, que revelariam a adorável timidez, sem despertar muito interesse nos homens. Apesar dos trajes, Georgiana continuaria espontânea, verdadeira. Sob algodão ou seda, ela ignoraria seus atributos em favor de interesses intelectuais e desafiaria a convenção social com sua personalidade marcante. Frequentemente, ela fazia caretas que deixavam Ashdowne na dúvida se devia rir ou beijá-la. Na verdade, nunca sabia como agir diante da tão estimulante Georgiana Bellewether. Bem, tinha uma boa noção do que gostaria de fazer com aquela criatura voluptuosa, pensou, notando a reação em seu corpo. Por um longo e delicioso momento, imaginou-a nua, a gloriosa forma somente para ele. Ele baniu as imagens. Por mais tentadora que fosse, Georgiana Bellewether era uma linda virgem que não lhe pertenceria nunca. Lembrou-se de como já havia ultrapassado os limites do decoro naquela

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tarde. Claro, não pretendera tocá-la, mas tinha se divertido ao observá-la vasculhar o quarto do vigário. E o deleite se transformara em atração, cuja intensidade sobrepujou a proposta inicial. Contudo, ele não esperava ser correspondido com tanto ardor. Tudo sobre Georgiana Bellewether era uma intrigante descoberta, em especial a paixão inocente que ele havia testemunhado. Ashdowne parou diante da porta de sua residência em Camden Place a fim de saborear a lembrança. Muita distração? Não tencionava revelar à graciosa loira que o sentimento era recíproco. Contudo não podia se dar ao luxo de preocupar-se, não naquele momento. Entrou na casa e chamou Finn, enquanto se dirigia ao estúdio. A lamparina havia permanecido acesa, iluminando a pesada mesa e a mobília exótica. Ashdowne optou por amparar-se no mantel da lareira. Estava agitado demais para sentar-se. Finn adentrou o estúdio, fechando a porta atrás de si. — Como foi o arrombamento? — o irlandês perguntou, sorrindo. Ashdowne afastou-se da lareira. — Brincadeira de criança — retrucou, como estivesse ofendido. Desatou o nó da gravata e deixou-a, com distinta elegância. — E o vigário? — Finn prosseguiu, entre risos — Ele também andou roubando o tônico capilar? — Creio que a única culpa do pobre homem é possuir um gosto perverso por práticas sexuais. — Ashdowne sorriu, sarcástico. — Não acredito, milorde! — Finn exclamou. — O que a jovem senhorita pensa disso? Sabendo que não poderia esconder muitos dados de Finn, tampouco revelar demais, Ashdowne aguardou alguns instantes. Não estava disposto a contar ao irlandês o que havia partilhado com Georgiana no quarto de Hawkins. — Ela é inocente demais para entender, felizmente — disse, enfim, ignorando a culpa por ter se aproveitado de tamanha ingenuidade. — E, em certas ocasiões, muito tola — Finn afirmou, enquanto ajudava o marquês a retirar o casaco. Esfregando o rosto, Ashdowne percebeu uma parte de si rebelar-se contra o rótulo tão injusto a Georgiana. — Não é tão estúpida quanto parece — murmurou. — Afinal, descobriu as artimanhas de Whalsey e Cheever, embora o crime fosse de outra dimensão. Sim, por trás daquela fachada tola escondia-se uma mente brilhante. Sagaz ao extremo, Ashdowne ponderou. Isso, sem mencionar a fértil imaginação. A chave para o enigma talvez fosse essa. Real ou imaginário, algo sempre ocupava a esperteza de Georgiana. Mesmo a mais mundana das rotas atraía as frágeis tentativas de espionar, de inventar intrigas onde não havia nenhuma, descobrindo uma ou duas conspirações. E as calamidades que aconteciam durante o processo… bem, até agora ninguém saíra ferido, Ashdowne teve de admitir com certo humor. Mais cativante que uma noite no teatro, as parvoíces de Georgiana eram encenações das quais ele podia participar. Sob qualquer circunstância, a jovem donzela não perdia a desenvoltura.

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Ashdowne sorriu. Tombando sobre a orquestra ou acusando Whalsey, Georgiana sempre se divertia. — Talvez ela seja esperta demais para o próprio bem — Finn comentou. — Pode ser… A família Bellewether, de estilo singular aliás, não era confiável a ponto de garantir a segurança de Georgiana, Ashdowne refletiu, preocupado. Não a compreendiam e tampouco faziam idéia das situações em que se metia. Ele sim, e por isso havia convocado Finn. — Tenho um trabalho para você, se quiser — Ashdowne disse, encarando o mordomo. Depois de esticar o casaco, Finn assentiu. — Eu sei. Devo vigiar as tramóias degradantes do vigário, se me perdoar a expressão? — ele indagou. — Não, o vigário não — Ashdowne o corrigiu. - Ele não representa ameaça alguma. É a srta. Bellewether. Quero que a siga. Ela é capaz de causar problemas no momento em que viro as costas. — Acha que a jovem está tramando algo? - Finn perguntou, agora pensativo. Mais uma vez Ashdowne meneou a cabeça em negativa, enquanto contemplava o estranho instinto protetor em relação a Georgiana. Nunca havia se considerado honrado, mas não podia estático e vê-la meter-se em encrencas. Sob a densidade do silêncio, Finn estudou as feições de seu patrão. — Desenvolveu uma afeição comprometedora pela jovem senhorita, milorde? Os sentimentos por Georgiana não podiam ser descritos em tais termos. No entanto, ele não pretendia examiná-los mais profundamente; preferia deixar os devaneios para seu amigo e criado. Encarou Finn, sem revelar nenhuma reação, a não ser a ordem de comando. — Apenas vigie-a, Finn. Não confio em ninguém mais para fazê-lo. — Está certo, se admitir que a acha interessante — ele exigiu, divertindo-se. Ashdowne soltou uma gargalhada. — Oh, é interessante, sim. A bem da verdade, Georgiana era tantas coisas que tornava-se difícil traduzir aquelas facetas incríveis em palavras. Mas tinha o pressentimento de que Finn não mudaria de assunto até conseguir uma explicação. Ashdowne fez uma pausa, reflexivo. — Há quanto tempo você não encontra uma mulher capaz de fazê-lo rir? — inquiriu. O mordomo citou uma certa dama da sociedade, notória pelos casos selvagens e escandalosos que mantinha. — Não me refiro a esse tipo de divertimento, falei da mais pura alegria de viver. — Ashdowne sorriu. — Em todos os sentidos, Georgiana está se divertindo, vivendo uma aventura pessoal. Por mais que seja fruto da imaginação fértil, ela digere cada momento com prazer e disposição. — Uma aventura, certo? — Finn repetiu. — Eu conheci um homem que costumava viver dessa maneira. Tenso, Ashdowne não gostou da lembrança.

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— Foi há muito tempo, Finn. — Nem tanto! — Era outro estilo de vida, Finn. — Ah! Um homem é capaz de criar a própria vida — o irlandês murmurou e caminhou até a porta. Ashdowne sabia que não conseguiria nenhuma compaixão do amigo fiel, e muito menos a queria. Embora o considerasse de absoluta confiança, o ladrão de rua que se tornara mordomo não poderia entender as responsabilidades de um marquês ou quanto elas pesavam sobre os ombros de Ashdowne. — Bem, se a jovem senhorita pode impedi-lo de se transformar em seu irmão, estou a favor dela — Finn comentou. O comentário causou uma repulsa nos brios de Ashdowne. — Não sou meu irmão — disse o mais friamente possível. — Fico feliz em saber, milorde. — Finn retirou-se, silencioso, deixando Ashdowne a sós no estúdio. Não pretendia se transformar no irmão, assegurou-se, porque o falecido marquês jamais rira de verdade, como Ashdowne fizera naquele dia. A recordação despertou um sorriso e o alarmante desejo de ver Georgiana Bellewether outra vez Agora. E sempre.

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CAPÍTULO VIII A shdowne nunca se dera ao sacrifício de acordar cedo. Tal qual muitos nobres de estirpe, preferia longas horas de sono até o meio-dia. Assumir os deveres do irmão havia alterado seus hábitos sob certos aspetos, no entanto, não se lembrava de ter despertado ao alvorecer. Enquanto observava o movimento das criadas, que lhe preparavam o rápido desjejum, suspeitava de que Georgiana não permaneceria repousando por muito tempo. Deixando de lado a imagem de lençóis cobrindo o corpo quente e desejável, ele tomou uma xícara de café e praticamente engoliu uma torrada. Queria se convencer de que precisava substituir Finn, que passara a noite em vigília, porém não podia negar certa expectativa. Era o tipo de ansiedade havia vivido no passado e a guardara em sua a desde então. O que Georgiana faria agora? A pergunta ainda ecoava em sua mente ao som dos próprios passos apressados, no silencioso bairro onde a família Bellewether residia. Escondido entre as sombras, Ashdowne ficou aliviado ao encontrar Finn desperto e alerta. O criado parecia mais satisfeito que o patrão. — Está realmente empolgado, não, milorde? — Finn interpretou a atitude madrugadora de Ashdowne. — Faz anos que não o vejo tão bemdisposto a essa hora da manhã. A última vez, creio, foi quando aquela francesa dispensou o amante ciumento e… Depois de cortá-lo com o olhar frio, Ashdowne examinou a casa de Georgiana. — Nenhum problema? — Nada, milorde. — Finn sorriu. — A garota ficou tão quieta quanto um rato. — Não saiu da residência? — Não. É muito comportada — Finn comentou. Além de aliviado, Ashdowne sentiu-se orgulhoso. Georgiana havia cumprido a promessa, afinal. Talvez fosse uma mulher de palavra, mesmo tendo a vontade submetida à paixão que fluía tão facilmente entre ambos. O desejo ainda vivo deixou-o com culpa, mas dispensou a sensação. — E agora? — Finn perguntou. — Volte para Camden Place e descanse — Ashdowne ordenou. — Vou assumir seu posto. — Estou ciente disso, milorde. — Finn deu uma piscadela. — Tenho plena confiança em sua habilidade de domar uma mulher, mesmo que seja a srta. Bellewether. — Obrigado — Ashdowne agradeceu com secura. No entanto, enquanto observava a saída do irlandês, imaginou se a fé de seu amigo não era exagerada. Alguém, de fato, conseguiria deter Georgiana? Ele sorriu ao perceber que pretendia descobrir a resposta. Discreto, esgueirou-se atrás de um carvalho, não muito distante da casa. Não teve de esperar por muito tempo. No mínimo, o resto da família ainda se preparava para o café da manhã quando Georgiana saiu pela porta da cozinha, vasculhando os arredores, como

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se pressentisse alguém à espreita. Claro, havia uma pessoa, Ashdowne sorriu, aproximando-se devagar. Apesar de ser cautelosa, não era páreo para a destreza do marquês. Georgiana só o notou quando Ashdowne posicionou-se ao lado dela. — Está me procurando, Georgiana? — perguntou, inclinando-se sobre o ombro delicado. Sobressaltada, ela se virou rápido, mas Ashdowne já estava preparado para segurar a pesada bolsa no ar. — Ashdowne! Você me assustou! Pare de se esgueirar sorrateiro perto de mim! — Ela puxou a bolsa, ofendida. O semblante insatisfeito incrementou o desejo de beijá-la. A sensação foi tanto assustadora quanto prazerosa. Incapaz de resistir, Ashdowne tocou a ponta do minúsculo nariz e riu da expressão perplexa. — O que faz aqui? — ela indagou. Os cílios finos encobriram os doces olhos azuis, os lábios se entreabriram, convidativos. Ashdowne reparou que o desejo ia além de um simples toque. Respirou fundo e recuou um passo. — Esperando por você, claro. Embora eu soubesse que não sairia sem mim após me dar sua palavra solene. O rubor que tomou conta do lindo rosto obrigou Ashdowne a segurar a risada. Como aprendera a frustrar as ações inesperadas de Georgiana, aquela transparência parecia ainda mais encantadora. Ele iria relevar a quebra da promessa e queria mostrar-lhe isso antes de… De quê? Não sabia! — Eu… estava indo a seu encontro — ela murmurou, de olhos baixos. Sem dúvida, Georgiana não era boa mentirosa. Tampouco tinha aptidões para isso, como ele. Ashdowne mais uma vez sentiu uma pontada de culpa, algo constante nos últimos dias. Quando se achava na companhia da lasciva srta. Bellewether, não existia dificuldade em esquecer as diferenças sociais entre eles, mas estavam ali, vastas e soberbas. — Não vá a minha casa sozinha, Georgiana — ordenou com mais intensidade do que pretendia. — E não faça promessas que não possa cumprir. — Mas mantive minha promessa! — ela protestou, e os olhos azuis se tornaram mais brilhantes, amolecendo o coração de Ashdowne. Se não tomasse cuidado, Georgiana o teria na palma da mão em pouco tempo. — Eu só queria começar mais cedo — ela alegou. — Não sei quando um cavalheiro de sua categoria se dispõe a iniciar o dia. As últimas palavras foram rebuscadas de desdém e transformou o fato em insulto. Ashdowne não podia recriminá-la pelos próprios hábitos. Riu, apesar de sentir-se escravizado por ela e alertado pelo bom senso. — Eu lhe disse que estaria a sua disposição — lembrou-a, sem elaborar a verdade oculta naquela declaração. Notou o rubor na pele alva, e a resposta ressoou dentro dele. Imaginou as faces rosadas por algo diferente de constrangimento, pelo calor de carícias sensuais. Embora fosse um especialista em esconder emoções, Ashdowne deve ter deixado transparecer parte de seu desejo porque Georgiana endireitou os ombros e recuou. Um ato físico que ele já presenciara outra vezes. — Devo lembrá-lo, Ashdowne, de que nossa relação se restringe somente ao trabalho — ela pronunciou. — Não quero que me distraia de meus

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objetivos. A repentina seriedade o fez desfalecer. Porém, conteve o desejo e a vontade rir. — Claro — ele assentiu. Cética, Georgiana caminhou até a rua, e Ashdowne a seguiu, contente por saber que o dia lhe reservava mais diversão. A vida, afinal, era uma aventura. Ao final daquela tarde, Georgiana teve de admitir que o interesse na investigação estava se esvaindo. Ashdowne continuava presente, mas insistira em fazê-la almoçar ou alimentar-se antes do jantar. Supunha que um homem possuidor de formas musculosas como as do marquês necessita de proteína suficiente para preservar aquele corpo fascinante. Contudo, ela relutou em tirar os olhos do sr. Hawkins mesmo que apenas por um momento. O vigário não havia feito nada de incomum. Ele saíra de casa por volta do meio-dia e fizera sua parada habitual no Pump Room, onde conversou com várias matronas, supostas benfeitoras Nenhum movimento revelou alguma atividade nefasta, para o desaponto de Georgiana. Do Pump Room, Hawkins acompanhou uma das matronas a sua residência, antes de parar nas lojas da rua Milton. Para um homem de poucos recursos financeiros, ele havia feito muitas compras, Georgiana refletiu. Bem, na verdade não podia dimensionar quanto o vigário gastara, pois ele não carregava nenhum pacote. — Acha que ele desconfia que o estamos seguindo? — Georgiana perguntou, aflita com a possibilidade. Ashdowne a encarou como se ela o houvesse insultado. — O pobre homem não tem idéia — disse e, então, parou para fitá-la, pensativo. — A menos que ele possa escutar meu estômago se queixando. — Ashdowne! — Ela considerou a necessidade do marquês, mas não por muito tempo porque o suspeito voltou a se movimentar. Puxou a manga de Ashdowne, e ambos caminharam pela calçada até se deterem diante da vitrine de uma chapelaria feminina. Georgiana fingiu observar um par de luvas enquanto observava o oposto da rua através do reflexo no vidro. O Hawkins entrava em outro estabelecimento. Discreta, Georgiana olhou sobre o ombro e gemeu, desconsolada. O homem havia entrado em uma padaria. Ashdowne ameaçou rebelar-se e possuindo uma fraqueza por sobremesas, ela sentiu a determinação diminuir. Mas manteve-se firme. O sr. Hawkins era a última chance para sua carreira de detetive deslanchar. Logo não tinha intenção de perdê-lo de vista por causa de doces ou tortas cremosas. — Faça o que quiser, mas pretendo permanecer aqui — disse ao marquês, com determinação. Ansiosa para se livrar dele, Georgiana notou que Ashdowne apenas suspirou e riu. Então, sentiu uma suave sensação de prazer ante aquela presença constante. Tratava-se de um assistente muito prestativo, sem dúvida. Sabia que vigiar o vigário o dia inteiro era tedioso, ainda mais se estivesse sozinha. Após tanta insistência, desistira de usar termos formais para se referir ao marquês. Sua mãe com certeza não aprovaria, mas tão logo entregassem o vigário ao detetive de Bow Street, a investigação e a assistência de Ashdowne

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estariam encerradas. Em vez de conforto, ela sentiu um vazio profundo atingir-lhe a alma, como um bolo que se espatifara no chão. Apelando à lógica e tentando ignorar a imagem do bolo, Georgiana resmungou ao ver o sr. Hawkins surgir, devorando algo que comprara na padaria. E pior, ele mastigava o alimento de maneira grotesca. Quando chupou os dedos lambuzados de creme, Georgiana sentiu-se enojada. — Fique quieto — Ashdowne repreendeu seu estômago. Apesar de não ter ouvido o famoso ruído de um estômago vazio, Georgiana observou a mão do Marquês alisando o abdómen musculoso. Imagens fartas de pratos tentadores resvalaram-lhe a mente. Com a mesma facilidade, ela recordou a emoção de sentir o corpo viril enquanto Ashdowne a acariciava e a deixava zonza. Sentiu a pele arrepiar-se, e subitamente achou que o cérebro parecia adormecido. — Também está com fome? A voz de Ashdowne invadiu-lhe os sentidos, tal qual creme de chocolate. Georgiana estremeceu, antes de fitá-lo nos olhos. Do que ele estava falando? Ruborizou ao dar margem aos pensamentos errantes. Então, precipitou-se atrás do vigário. Durante as horas seguintes, o suspeito não fez nenhuma parada comprometedora, não teve encontros clandestinos nem conversou com pessoas de baixo escalão. Tampouco mostrou comportamento duvidoso. Após caminharem pelas ruas, acabaram de volta ao Pump Room. Ashdowne não se queixou, mas Georgiana estava enfurecida. — Oh, esse homem não vai fazer nada interessante? — reclamou, antes de se apoiar em um muro de pedra. — Creio que ninguém é tão intrépido quanto você, minha querida — Ashdowne comentou, encostando-se no muro. Irritada, Georgiana abaixou-se, tirou um dos sapatos e começou a batêlo no muro, até que pedaços de pedra caíram no chão. — Posso ajudá-la em algo? — Ashdowne perguntou, fitando o pequeno pé com ares de posse. — Não! — Georgiana exclamou, sentindo-se novamente minúscula perto dele. — Poderia massagear seu pé — o marquês sugeriu. Aquele tom de voz sensual aqueceu-a internamente. Apressada, ela calçou o sapato. — Não tente me adular — avisou-o. — Estou muito aborrecida. — Devo agarrá-lo pelo pescoço e exigir que confesse? — Ashdowne indagou. Georgiana sorriu. Embora o plano tivesse mérito, o sr. Hawkins era de diferente calibre, não se intimidaria tão facilmente quanto lorde Whalsey. — Não — murmurou. — Vamos continuar a vigiá-lo. — Até padecermos de fome. — Sim. Quando pensava em se separar para que ambos pudessem se alimentar, o sr. Hawkins entrou em um café e pediu uma refeição. Na surdina, Georgiana e Ashdowne sentaram-se a uma mesa sob as sombras do salão e jantaram em um clima quase agradável. Foi forçada a desistir da suculenta sobremesa quando o sr. Hawkins terminou a refeição. Georgiana sentiu-se muito mais animada ao voltar à rua e

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segui-lo em direção a uma das termas. Não era tão grandiosa quanto a King's Bath, e muito menos conhecida como outras da cidade. O lugar pequeno e simples devia ser também barato, tal qual notou Ashdowne. Após aguardarem poucos minutos, entraram na terma. Os balneários mais famosos abriam suas piscinas naturais durante algumas horas da manhã apenas. Georgiana notou que havia vários banhistas submersos na água negra. Embora o prédio fosse construído com a conhecida pedra clara de Bath, aquela piscina não possuía cobertura, Uma vantagem nos dias ensolarados, mas uma péssima opção para dias chuvosos. Escondida atrás da arcada, ela observou o vigário falar com a atendente e dirigir-se aos degraus. De súbito, Hawkins tirou um livro do bolso do casaco, colocou-o em baixo do braço e pisou nas águas medicinais. Depois de afundar até a altura dos ombros, mais ou menos, o vigário abriu o livro como se fosse lê-lo. Georgiana notou que ele estava mais atento à companhia feminina ao lado que às páginas de leitura. — Estranho — Ashdowne murmurou. — Pelo que você me contou, eu jamais o imaginaria como um clérigo tão devotado a ponto de ler a Bíblia enquanto se banha nas termas. — Não acho que ele esteja lendo! — Georgiana bufou. — Suponho que venha aqui só para observar as mulheres de roupas molhadas. — Algumas termas ofereciam trajes adequados mas, mesmo assim, as roupas grudavam à pele, estimulando a imaginação dos mais ousados. Intrigado, Ashdowne fitou-a e levantou uma das sobrancelhas. Georgiana manteve-se resoluta, já que o marquês continuava a achar graça em tudo. — Reparei que o sr. Hawkins possui um interesse marcante em bustos femininos — ela explicou. Ashdowne percorreu o decote do vestido com os olhos, detendo-se na protuberância dos seios. — Bem, é melhor ele manter o interesse longe de você — avisou, utilizando um tom sério que atingiu a sensibilidade de Georgiana. Com esforço, ela desviou a atenção de seu atraente companheiro para o suspeito. O vigário caminhava submerso na piscina, conservando a Bíblia nas mãos. Comprovando a teoria inicial de Georgiana, Hawkins cumprimentava as damas quando estas passavam e estudava, sem a menor discrição, detalhes da anatomia nos momentos em que elas se encontravam distraídas. O sr. Hawkins prosseguiu o passeio até que a sra. Fitzlettice, uma viúva rica e temperamental, entrou na piscina. Ao vê-la, o vigário fechou o livro e olhou em volta, desconfiado. Convencido de que ninguém o observava, escondeu o volume atrás de uma pedra solta na lateral da piscina. Espantada, Georgiana encarou Ashdowne que também parecia perplexo. — Viu aquilo? — Cada detalhe — ele respondeu. — Vou até lá! Quando Georgiana se moveu, Ashdowne segurou-a firme pelo braço. — Espere! Hawkins a verá! O comando, embora a desagradasse, foi pronunciado com tanto discernimento que ela teve de obedecer. Ashdowne estava certo, claro. O vigário e a viúva permaneciam perto demais do esconderijo do livro,

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bloqueando a ação de Georgiana e do marquês. — E se um de nós os distrair enquanto o outro pega o livro? — ela sugeriu, esperançosa. O assistente continuou calado, considerando a sugestão. Maldição! Só porque ele a testemunhara em situações vexatórias não significava que qualquer iniciativa terminaria em desastre. Georgiana fez de falar, mas Ashdowne meneou a cabeça. — Pode me ensinar a fazer isso? — perguntou. — Não. — Ashdowne empurrou-a para dentro e fechou a porta. De imediato, viu-se rodeada pelo vapor quente e úmido. Contudo, o odor pungente das famosas águas parecia mais fraco em virtude da ausência de teto sobre a piscina. Georgiana tentou caminhar sob a escuridão à procura de apoio para não tropeçar. Ashdowne, que parecia possuir os sentidos de um gato, acendeu uma pequena lamparina presa à parede. A iluminação era ínfima, porém não suscetível à brisa do vapor. Caminharam devagar até a piscina. Tão logo se aproximaram, as pedras se tornaram escorregadias e Ashdowne segurou-a pelo braço, ajudando-a a chegar até os degraus. Então ele parou. Georgiana sentiu o pesado silêncio percorrer-lhe os ossos. A terma, apesar de mínima perto das outras, era cavernosa sob a escuridão, sem atendentes ou matronas para ocupá-la. No céu aberto sobre eles, estrelas cintilavam, enquanto a luz pálida da lua se refletia na superfície da água. Georgiana estremeceu. — Vou entrar — Ashdowne avisou-a. — Espere aqui e cuidado com a lamparina, porque não quero ficar encharcado na escuridão. Quando se virou a fim de reclamar, notou que Ashdowne tirava o casaco. Bem diante dela! Observou-o flexionar os músculos das costas de uma maneira perturbadora. Alheio às sensações de Georgiana, ele deitou o casaco sobre um degrau seco e sentou-se para tirar as botas. Tomada por uma súbita tontura, ela acomodou-se no chão. De alguma forma, suas pernas ameaçaram bambear. Estava muito perto de Ashdowne, percebeu e afastou-se alguns centímetros. Por mais que tentasse, não conseguia desviar os olhos daqueles movimentos tão interessantes. A camisa devia ser preta porque o rosto era a única parte revelada pela fraca luz da lamparina. Até as meias deviam ser pretas, Georgiana notou ao olhar para baixo. Disse a si mesma que não havia nada de chocante quanto ao fato. Porém, o ritual íntimo a confundia. Virou o rosto, finalmente, mas então escutou o barulho da outra bota caindo no chão. Oh, Deus, ele vai retirar as meias? Furtiva, moveu os olhos e divisou um pé descalço. O objetivo principal que a levara àquele local desapareceu e foi invadida pelo peculiar desejo de tocar Ashdowne. Georgiana gemeu e, felizmente, ele não a escutou, pois já se levantava. — Quero que fique aqui — Ashdowne ordenou, e ela assentiu. Apoiando o queixo sobre a mão, Georgiana observou-o descer os degraus até a água escura cobrir os tornozelos, os joelhos, as coxas e… De repente, lamentou não haver mais luz para apreciar as costas de Ashdowne. Nunca notara tão detidamente o corpo de um homem, e ficou desolada quando ele desapareceu na piscina.

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Logo à frente, viu-o mover-se e tranqúilizou-se. Observou a imagem do marquês quase oculta pela penumbra. Aonde ele estava indo? Georgiana levantou-se e pisou no degrau escorregadio. — Creio que é mais à esquerda — disse e apontou em direção ao local onde o livro podia estar escondido. — Georgiana — Ashdowne murmurou entre os dentes. — Mandei que permanecesse quieta — ordenou. Embora não o visse, ela ofendeu-se com aquele tom. — Só tentei direcioná-lo — retrucou. — Não o faça. Sente-se no degrau e fique aí. Dessa vez não houve engano. As palavras continham uma ameaça severa. Georgiana irritou-se. — Devo lembrá-lo, Ashdowne, de que é o assistente, e eu, a detetive. — Você tem a tendência de provocar calamidades. Agora fique calada e não se mexa! Comandos arbitrários sempre a deixavam revoltada, ainda mais vindos de um homem arrogante que insistia em lhe orientar as ações. Ela deu um passo à frente. — Escute, Ashdowne… — começou, mas seu pé esbarrou em algo. Apavorada, Georgiana ouviu a bota do marquês rolar degrau por degrau. Maldição! Aquela terma tinha de ser tão escura? Ele devia ter pego uma lamparina maior, não uma de chama minúscula. Não era uma atitude condizente a um homem que difundia o próprio fascínio. Antes que o calçado afundasse na piscina, ela se precipitou, mas nem sequer conseguiu agarrar a ponta do cano. Escutou o barulho da bota colidindo na água. — O que foi isso? — Ashdowne indagou. — Nada. — Georgiana aproximou-se devagar da água. A bota teria afundado? Talvez pudesse enxergar o couro negro flutuando na piscina. Se conseguisse se esticar e alcançar a bota… Ajoelhou-se na beirada e inclinou o tronco. Assim que esticou o braço, viu a bota afastar-se com as pequenas ondulações da água. Chegou mais perto da beira e voltou a esticar-se, mas o movimento foi extremo. Por um longo instante, tentou manter o equilíbrio, sabendo que iria se arrepender por não ter escutado Ashdowne. Bufou, antes de mergulhar, de cabeça, na água morna. CAPÍTULO IX G eorgiana ficou desorientada ao cair na água escura. Afundou devagar devido ao peso do vestido que molhava aos poucos. Tão logo seus pés tocaram o fundo, conseguiu endireitar o corpo e erguer a cabeça até a superfície. Entre tosses e espirros, inspirou o ar quando um par de mãos agarrou-lhe a cintura. — Eu disse para ficar quieta, Georgiana! A ira contida na voz de Ashdowne não deixava dúvidas, e o semblante severo tornou-se ainda mais intenso. Ela balbuciou algumas explicações, mas o marquês estava muito próximo. E molhado. Ofegante, Georgiana tocou os cabelos negros que, encharcados,

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soltavam gotas de água sobre os poderosos ombros largos. Com certeza, Ashdowne havia mergulhado para salvá-la, pensou, notando a camisa preta colada aos músculos do tórax. Enquanto o coração batia de forma acelerada, ela entreabriu os lábios, tentando recobrar a respiração normal. O vapor pareceu, de súbito, sufocante. — Você está bem? — Ashdowne indagou, e ela foi forçada a fitá-lo no rosto antes de responder. Durante um longo tempo em silêncio, Georgiana observou os olhos azuis, os quais passaram a brilhar com maior intensidade. Ashdowne a olhava sem disfarçar o desejo. Impulsivo como um animal selvagem, envolveu-a nos braços e sugou-lhe os lábios com uma volúpia jamais imaginada por Georgiana. Além da densidade da noite, a tepidez da água negra misturou-se ao calor do corpo de Ashdowne. Ele deslizava as mãos sob as roupas de Georgiana, estimulando áreas nunca tocadas de forma tão sensual. Dedos afoitos percorriam-lhe as costas, os ombros e, antes que ela se desse conta, o vestido cedera até a cintura, e os seios entumecidos pressionavam o peito másculo. Então ele a tocou. Georgiana soltou um gemido lânguido e inclinou-se para trás enquanto Ashdowne explorava as curvas sinuosas. Conforme os dedos úmidos escorregavam sobre a pele alva e macia, as sensações aumentavam, avassaladoras. De repente, os lábios irresistíveis pousaram sobre os mamilos, especulando um, depois o outro. Sensações diversas a invadiam, vibrações in-controláveis originadas nos seios difundiam-se pelo corpo e se concentravam na região do ventre. Georgiana movia-se, sem parar, na esperança de aliviar aquela emoção. Por fim, a coxa musculosa de Ashdowne afastou, de leve, as pernas esguias. As carícias roçavam o local que a queimava por dentro, e ela reprimiu um suspiro de satisfação. Seu querido marquês sabia exatamente o que fazer! — Oh, Ashdowne… — murmurou, agarrando-se a ele para não se embrenhar nas águas. A camisa preta começou a se abrir. Georgiana ousou acariciar-lhe a pele morena, úmida e firme. Percebia com prazer que a água estimulava os sentidos. Foi o último pensamento coerente antes de se render àquele domínio sensual. — Ashdowne… — sussurrou outra vez. Então sentiu a parede lateral da piscina pressionando-lhe as costas. Escutou o chocalhar tranquilo da água e, no céu, viu as estrelas cintilantes a observá-los. De súbito, Ashdowne beijou-a novamente. Abraçou-o pelo pescoço, puxando-o para si, enquanto a poderosa coxa insistia nas carícias. As sensações daqueles movimentos agiam profundamente, ultrapassando a compreensão do ato. Georgiana, absorvida pelas reações até então desconhecidas, deixou-se levar, incapaz de raciocinar e fraca demais para protestar. Emitia somente gemidos conforme os movimentos se intensificavam. Murmurando palavras de conforto, Ashdowne levantou-a. Em seguida, ergueu as anáguas e postou-se entre as pernas delgadas. Logo, a parte mais íntima de Georgiana tornou-se exposta sob a água. Sem dar chance a protestos ou constrangimentos, Ashdowne colou-se a ela. Georgiana sentiu o calor intenso da masculinidade, separado de sua nudez

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apenas por poucas roupas. A experiência ia além da imaginação. Não havia como sentir-se mais próxima a Ashdowne. Estonteada, ela se movia no esforço de cessar os sentimentos crescentes, à medida que o corpo viril empreendia um ritmo primitivo. Quando parecia não mais suportar a necessidade, a escuridão, a água e Ashdowne a envolveram. Sentiu-se inflamar pelas chamas incandescentes da paixão e restou-lhe somente expressar um grito de prazer inacreditável. Georgiana teria se afogado, entregue à luxuriosa piscina das termas de Bath como a brisa de verão, se Ashdowne não a segurasse. Sem forças nas pernas, sucumbiu quando ele a agarrou entre os braços com uma firmeza digna de admiração. O gemido de Ashdowne ecoou no silêncio da noite. O corpo másculo tremia, contagiado pela exultação de Georgiana. Teria ele sentido as mesmas sensações inebriantes? — Oh, Ashdowne. — Georgiana deitou a cabeça sobre o ombro largo, incapaz de emitir outras palavras. Existia apenas o som de sua respiração sôfrega que, aos poucos, retornava à normalidade. Poderia ela recuperar a sanidade após o que vivera? Georgiana começou a notar a debilidade de raciocínio. Que milagre Ashdowne fizera acontecer sobre ela? Que magia era aquela que somente ele podia conjurar? Enfim, o marquês ergueu o rosto, e Georgiana adquiriu coragem para fitá-lo. O semblante deixava transparecer satisfação, no entanto, a curva sutil dos lábios a confundiu. Ela abriu a boca para falar, ou talvez beijá-lo com maior ardor, quando um barulho quebrou o silêncio. A porta. Aflita, Georgiana se mexeu. Ashdowne tapou-lhe os lábios e submergiu com ela até que seus rostos ficassem ligeiramente na superfície. Ambos estavam tensos. A lamparina, que Georgiana se encarregara de guardar, jazia no degrau da piscina, e a pálida luminosidade refletia finos feixes sobre a água. — Milorde? Ao som da voz de Finn, Ashdowne respirou, aliviado, e Georgiana sentiu os músculos relaxarem. Porém, o marquês não se levantou, permaneceu onde estava, segurando-a sob a água. De súbito, ela notou que as saias flutuavam na superfície, e o corpete encontrava-se em algum lugar próximo à cintura. Mortificada, tentou expressar seu constrangimento, mas foi logo impedida pelos dedos de Ashdowne que lhe abafaram o gemido. — O que é? — ele indagou a Finn. — Está aqui há muitas horas, milorde, e imaginei ter escutado um grito. Fiquei preocupado, mas vejo que me enganei. Leve o tempo que precisar, senhor, e perdoe-me a interrupção — Finn disse, tentando conter a risada. — Tivemos alguns imprevistos. Contudo não demoraremos muito a encontrar o que viemos procurar — Ashdowne assegurou ao criado. Somente depois de ouvir a porta se fechar, o marquês a soltou. Gentil, ajudou-a a ficar de pé e vestir o corpete. Tudo pareceu voltar ao normal com tanta naturalidade que Georgiana se surpreendeu. Entorpecida pelos acontecimentos, permaneceu onde estava, observando-o dirigir-se à pedra solta e resgatar o livro. Por isso haviam ido à terma? Pelo livro? Encantada e submissa ao charme exótico de Ashdowne, Georgiana apagara qualquer resquício de pensamento em sua mente.

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Esquecera-se de seu interesse principal, a investigação! Ainda sob os efeitos mágicos da paixão, os movimentos tornaram-se lentos, a ponto de o marquês tomar-lhe a mão para conduzi-la até ao local onde deixara a lamparina. A luz difusa indicava o caminho dos degraus da piscina. — O que é isso? — ele perguntou. Envergonhada, Georgiana viu-o retirar a bota, outrora lustrosa, que boiava sobre as águas negras. Por sorte, Ashdowne não pôde vê-la corar. — Parece uma bota — ela murmurou. — Ah! E me é muito familiar — Ashdowne acrescentou, lançando um olhar repreensivo o qual ela se recusou a enfrentar. Ao saírem da piscina, ele jogou a bota ensopada no chão. Georgiana não poderia mais se esconder através da penumbra. — Eu… — ela ensaiou. — Não importa. Não vou lamentar a perda de uma bota quando… — As palavras o traíram. Sorrindo, Ashdowne afagou a face rosada. Georgiana fechou os olhos e tremeu. — Foi por uma boa causa — ele disse, com a voz rouca. — Está ficando tarde, e preciso levá-la para casa antes que pegue um resfriado. A possibilidade parecia fora de propósito uma vez que a presença de Ashdowne a aquecia. No entanto Georgiana assentiu com passividade. — Torça seu vestido o melhor que puder e depois olharemos o livro. O livro! Georgiana endireitou os ombros. Os Pensamentos errantes voltaram à evidência. A euforia causada pelo toque de Ashdowne transformouse em outra espécie de emoção, o entusiasmo pela investigação voltou, de súbito, a ocupar-lhe o espírito aventureiro. A despeito da ansiedade, ela controlou-se e torceu a barra das saias. Ashdowne, por sua vez, calçou as botas e vestiu o casaco. Claro, o vestido estava arruinado. Mas, como era uma das péssimas escolhas de sua mãe, ela pouco se importou. Os pensamentos encontravam-se voltados para o livro. Trêmula, Georgiana encarou Ashdowne. Apesar do estrago do traje bem talhado do marquês, ele conseguiu manter a classe e a elegância quando entregou-lhe o volume. No mesmo instante, Georgiana percebeu um repentino sentimento por ele, uma forte emoção, diferente da que sentira havia pouco. Ashdowne poderia ter inspecionado a evidência sozinho, porém, ofereceu a ela a honra de verificá-la. O gesto deu origem a algo mais profundo no coração de Georgiana. Depois de tentar secar as mãos na saia molhada, ela pegou o livro do vigário. Era um momento solene e de grande expectativa. Abriu-o com extremo cuidado. Contudo, para sua frustração, não havia nenhum compartimento ocultando o colar. A bem da verdade, o volume continha desenhos estranhos. Georgiana forçou a visão e notou imagens de um homem e uma mulher, ambos nus. — Mas isso não tem a menor importância! — reclamou. — Depende do ponto de vista, eu diria — Ashdowne comentou. Bufando de raiva, ela sacudiu o livro e nenhuma jóia despencou por entre as páginas. Então começou a folheá-lo. Não havia compartimento algum, apenas desenhos. Incapaz de acreditar no que via deixou o volume aberto e observou um dos desenhos que mostrava um homem segurando uma mulher cujas pernas entrelaçavam a cintura do parceiro. Estudou a gravura sob vários

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ângulos. — Isso é possível? — perguntou. Ashdowne clareou a voz. — Sim. Certamente. Perplexa, Georgiana atinou para o fato de que aquele desenho era quase réplica do que ela e Ashdowne haviam feito na piscina. Se tivesse erguido as pernas… Soltou um suspiro ao recordar o imenso prazer. Abrupta, virou a página e viu o mesmo tipo de posição íntima, embora dessa vez o homem estivesse posicionado atrás da mulher. — Oh, meu Deus — Georgiana sussurrou. O vapor morno da terma sufocou-a novamente quando sentiu a presença de Ashdowne atrás de si. Como seria caso o marquês chegasse mais perto e colasse seu corpo ao dela, tal qual mostrava o desenho? Gemeu e virou a página. Na figura seguinte, a mulher encontrava-se ajoelhada diante do homem, e acariciava com os lábios uma parte específica da anatomia masculina. Tomada por espanto e curiosidade, Georgiana quase derrubou a evidência. O rosto corou ao lembrar-se das carícias do marquês. De que maneira Ashdowne reagiria, se ela empreendesse a mesma posição… O calor da terma roubava-lhe o fôlego. Fechou o livro. Sob o pesado silêncio, as ondas de calor se dissiparam, dando lugar ao desaponto. Estivera correta quando deduziu que o livro não era a Bíblia; porém, tampouco tratava-se de um esconderijo secreto para o colar. — Não entendo — Georgiana resmungou. —. Por que ele trouxe o livro até a terma? — Acredito que suas suspeitas iniciais estavam corretas, Georgiana. O sr. Hawkins não frequenta as termas por causa de sua saúde, e sim pela excitação de ver as damas em roupas molhadas. Imerso na água a… prova de pensamentos pecaminosos não seria visível. Ao tornar-se consciente da explicação de Ashdowne, ela soltou um suspiro de fatiga. O único suspeito, além de gatuno, devia sofrer de uma moléstia incurável. — Sim. Espero que seja apenas isso que o sr. Hawkins faça aqui — Ashdowne confessou. — Ou a idéia de entrar nesta água fétida torna-se incômoda… exceto, claro pelo meu pequeno lapso. Embora Georgiana não entendesse as palavras do marquês, algumas delas faziam sentido, como "incômoda" e "lapso". Então, endireitou o corpo e fitou o pescoço de Ashdowne. A camisa estava aberta, e ela pôde apreciar os músculos do peito exuberante, uma distração que anulava qualquer poder de concentração. — Lamento ter criado tantos problemas ao convencê-lo a vir aqui — murmurou. — Não vejo nenhum problema — Ashdowne disse, segurando as mãos macias e delicadas. — Você, srta. Bellewether, é tão divertida que estar a seu lado torna-se… um prazer imenso. As últimas palavras foram pronunciadas de modo mais significativo. Georgiana corou até a raiz dos cabelos. Grata por ele não poder ver o rubor explícito em sua face, sentiu uma lânguida sensação envolvê-la. Em seguida, desviou o rosto. Até onde seu assistente levaria aquele flerte? Os desenhos do livro tanto a alarmaram quanto a excitaram. E, como a curiosidade era uma forte

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característica de sua personalidade, interessava-se pelas experiências humanas das mais variadas formas. Entretanto, a sociedade era implacável, e sua mãe, em particular, não aprovaria aquele tipo de pesquisa. Desvencilhando-se, ela olhou para o chão. — Quanto ao prazer… — Ela se calou, confusa diante da presença de Ashdowne. — Perdoe-me, Georgiana — disse ele, acariciando o rosto delicado. Apesar de relutante, ela se voltou ao gesto, tal qual uma flor em direção à luz do sol. —- Não pretendia ir tão longe, embora eu só lamente você não ter encontrado o que procurava. Ou encontrou? Georgiana não tinha certeza. Às vezes o homem se utilizava de enigmas para se expressar. Como poderia raciocinar, se ele continuava a absorvê-la com sua presença? Afastando-se, ela tentou se concentrar. — Devo lembrá-lo de que temos de manter nossas mentes dirigidas à investigação e… nada mais. — Como? — Ashdowne indagou, em um tom divertido. Agora refeita e mais atenta ao caso, Georgiana preferiu ignorá-lo. — É óbvio que o colar não está no livro, no entanto, o sr. Hawkins é ainda o principal suspeito. — Fez uma pequena pausa para refletir sobre o vigário. — Cedo ou tarde, irá cometer um deslize e revelar-se. Nesse meio tempo, ficaremos de olho nele. — Tem razão — Ashdowne concordou. — Ante tantas evidências, eu não me importaria de permanecer próximo ao bom vigário. Georgiana repreendeu o assistente com o olhar, e ambos ciaram na gargalhada. Ainda aos risos, saíram da terma e caminharam pelas ruas escuras de Bath. Ela voltou a sentir certa exaltação de ânimo. A frustração fora esquecida, sendo substituída pela deliciosa sensação de aventurar-se, esgueirar-se entre as sombras, tal qual verdadeiros investigadores. Contudo, pela primeira vez em sua vida, Georgiana tinha dúvida quanto ao estímulo que a impelia. A causa seria a investigação em si ou o assistente? As dúvidas de Georgiana permaneceram até o dia seguinte. Embora acreditasse que tal emoção embotava-lhe o raciocínio, impedindo um julgamento claro e objetivo, a descoberta das peculiaridades do sr. Hawkins haviam estimulado o entusiasmo de continuar a segui-lo. Talvez não houvesse estabelecido distância suficiente de seu suspeito, refletiu e deixou de lado o pensamento frustrante para ponderar mais tarde. A preocupação contínua com o assistente tornava-se idéia fixa. Georgiana não conseguia sustentar nenhum pensamento coerente. Mas não era covarde a ponto de negar a profunda consciência de Ashdowne, um fator ainda pior que a distração sofrida anteriormente. E quem poderia culpá-la após o que haviam partilhado na terma? O que acontecera, de fato, Georgiana não sabia. Lembrou-se dos estudos profundos acerca da reprodução humana e concluiu, certa, que sua virtude permanecia intata. Porém, seria difícil continuar sendo a mesma após o momentâneo interlúdio. Depois de entrar sorrateira em casa, os acontecimentos da noite se repetiram em sua memória com muita insistência. Quando, enfim, conseguiu adormecer, os sonhos surgiam repletos de imagens de Ashdowne e, ao

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despertar, sentiu a alma em conflito. A sensação de cansaço, calor e frustração perseguiram-na durante o período da manhã. Quanto mais tentava convencer-se de que a associação com o marquês possuía um caráter profissional, mais complicado era direcionar a energia apenas à investigação quando outro tipo de relacionamento a perturbava. Para piorar, Ashdowne encontrava-se lindo e maravilhoso à luz do dia durante o encontro que tiveram a fim de discutir o caso. Georgiana se flagrava observando-o, em vez de concentrar-se no roubo. Notou o movimento sutil dos cachos negros em contato com o colarinho, a suave curvatura dos lábios, os gestos das mãos e os músculos das coxas. E lembrou-se. Conhecia a sensação de ter aquele corpo colado ao seu, a textura da pele molhada e o calor das carícias. Trêmula de prazer, ela queria esquecer o que acontecera enquanto, ao mesmo tempo, desejava repetir a experiência. Nunca estivera tão confusa; até nos casos mais difíceis havia mantido o raciocínio claro e bem direcionado. Como acréscimo à confusão, Ashdowne apareceu frio e elegante, alheio às mazelas do mundo. Georgiana teria deduzido que imaginara o momento íntimo, se não fosse o brilho ocasional dos olhos azuis que refletiam paixão. Tais olhares intrigantes a faziam pensar em quão longe Ashdowne levaria aquela relação. Apesar da possibilidade tentadora de mergulhar nos mistérios insondáveis do ato amoroso, ela sabia que uma donzela nem sequer poderia conceber idéias semelhantes. Muito menos ignorar certa preocupação a respeito do marquês. Teria ele o mesmo comportamento com outras mulheres? Georgiana não pretendia incluir-se na lista de amantes por mais curiosa que estivesse em aprender acerca dos prazeres da paixão. Abominaria ver Ashdowne jogado a seus pés, como a maioria dos jovens admiradores. No íntimo, gostaria que ele sentisse algo por ela, um afeto moderado talvez, e muito respeito pela habilidade nata de detetive. Infelizmente, não pôde deduzir nada na expressão sóbria de Ashdowne e tampouco sentia-se à vontade para tratar de um assunto tão pessoal Precisava concentrar esforços somente na investigação. Contudo, até aquele momento, o sr. Hawkins fizera pouco para despertar algum interesse. De fato, o dia do vigário progrediu de modo semelhante ao anterior. Havia passado a manha em sua residência, aliás, um descanso desmerecido, antes de visitar o Pump Room, onde ficou conversando com várias viúvas, enquanto Georgiana e o parceiro tentavam parecer discretos. Se estivesse sozinha, tinha certeza de que se sairia muito bem. Ashdowne era charmoso e grande demais para passar despercebido pela multidão. Preferia que ele usasse um disfarce, porém o marquês, como sempre, riu diante da sugestão e tocou-lhe a ponta do nariz. No esforço de evitar outro toque, Georgiana abandonou o assunto. Agora ela percebia a idiotice de sua renúncia. A despeito de estarem escondidos atrás da orquestra, uma matrona os avistou e, acompanhada da filha em idade para casar, aproximou-se do marquês. Bufando, Georgiana preparou-se para escapar, mas sem sucesso pois Ashdowne segurou-a pelo braço. — Vou seguir o vigário — ela sussurrou, tentando se desvencilhar. — Não vai. —Ashdowne a encarou como se estivesse se divertindo

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quando, na verdade, ele a mantinha prisioneira. Georgiana fez menção de protestar, mas perdeu a oportunidade de falar. — Meu Deus! Que prazer vê-lo em nosso amado Pump Room! Não esperávamos ter a honra de sua presença esta tarde. Não é, querida? — a mulher indagou à filha. A moça, uma loira alta, assentiu, obediente, e sorriu constrangida para o marquês. Enfastiada, Georgiana queria sair dali. Em vez disso, ensaiou um sorriso falso. O esforço foi um desperdício, já que a atenção estava voltada apenas ao marquês. — Lembra-se de minha filha, Forsythia, milorde? — a matrona perguntou, puxando a garota. Ashdowne murmurou algo convencional o que resultou no relato das inúmeras qualidades de Forsythia, as quais perdiam apenas para a beleza da moça, segundo os olhos da mãe. Georgiana, porém, possuía uma opinião mais crítica, principalmente em relação à falta de maneiras de ambas. Na verdade, queria puxar a manga de Ashdowne a fim de que as damas a notassem. Ao mesmo tempo, não pretendia chamar a atenção para si. Ainda assim não conseguia evitar o sentimento de posse pelo marquês. Afinal, ele era seu assistente, e Forsythia não devia fitá-lo de forma tão atrevida. Caso desse vazão aos impulsos, Georgiana teria esmurrado os olhos da outra jovem, uma atitude lamentável para alguém de mente lógica e objetiva. Sempre havia se considerado superior ao resto da população feminina, carregada de futilidades. No entanto, agora parecia vítima do mesmo tipo de tolice. Aliás não se conhecia mais. Quem era culpado? Ashdowne! Fitando o companheiro, que conversava com as admiradoras, percebeu que havia se esquecido do sr. Hawkins. Ele poderia escapar enquanto estava ali amarrada a Ashdowne. Cerrando os dentes, ela afastou-se do assistente e foi puxada de volta pelo braço forte. — Perdoem-me, já conhecem a srta. Bellewether? — Ashdowne perguntou, de maneira casual, sem largar Georgiana. — Srta. Bellewether, permita-me apresentá-la a Forsythia e sua mãe…Ele encarou a matrona à frente. — Creio que não recordo seu nome, senhora. — Sra. Gilcrest — a mulher respondeu, parando de sorrir. — Diga-me, milorde… — Ah, deve nos desculpar… — Ashdowne fitou o outro extremo do salão, como se algum conhecido lhe chamasse a atenção. Antes que a mulher fizesse menção de continuar, ele se afastou, puxando Georgiana consigo até se esconder atrás de dois homens, que pareciam cochilar em suas cadeiras. — Não é possível! — Georgiana murmurou, quando ele finalmente a soltou. Seria irritante ter de dividi-lo com tantas devotas. — Agora que foi visto, seremos abordados por todas as pretendentes e suas respectivas mães! — Quieta — Ashdowne disse, indicando a entrada. Georgiana não estava disposta a receber ordens, Mas a curiosidade tornou-se maior que a irritação. Ela se voltou à porta do Pump Room e divisou o vigário conversando com lady Culpepper em pessoa. A cena era ainda mais intrigante uma vez que o sr. Hawkins desdenhava a mulher. — Veja, ele a está tiranizando — sussurrou.

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— Como? — Ashdowne perguntou. — Após anos de estudo, aprendi a conhecer a mente criminosa — Georgiana explicou. — Suponho que nosso ladrão obtenha um prazer perverso ao zombar da suplicante porque sabe que o objeto de valor inestimável, a ela, está em seu poder. — Tem razão quanto ao lado perverso — Ashdowne concordou. — Mas me parece que ele está pedindo um favor à dama. Talvez o bom vigário queira ganhar os dividendos que a família CulPePper possui em Sussex. Para evitar argumentos, ela dispensou a suposição. Enfim, o vigário fazia algo interessante. Então, manteve o foco no homem, a despeito da perturbadora proximidade do assistente. — E, Georgiana querida, um dia desses você precisa me iluminar com seu conhecimento a respeito da… mente criminosa — Ashdowne sussurrou, sedutor, fazendo-a estremecer ante a sensação já familiar. Embora zonza, Georgiana notou quando lady Culpepper adentrou o salão. O vigário foi abandonado com uma expressão infeliz no rosto. Contudo ele não se deixou abalar pela frustração e logo se recobrou, mascarando o sentimento. — Viu? — indagou a Ashdowne, em um tom triunfante. — O quê? Sei que ele não gosta da mulher, o que não é nenhuma novidade pois poucas pessoas a apreciam — o marquês retrucou. Por necessidade, a conversa não se prolongou. O suspeito voltou a se movimentar. Na tentativa de não chamar atenção, ambos permaneceram no mesmo local, atrás dos cavalheiros adormecidos, enquanto observavam o vigário. Como o Pump Room não estivesse apinhado de visitantes, não havia dificuldade em manter os olhos no sr. Hawkins. Eram as interrupções como as da sra. Gilcrest que a incomodavam. Até aquele momento, haviam conseguido evitar membros da família Bellewether e os poucos conhecidos de Georgiana, mas Ashdowne era alvo de cobiças e logo seriam notados novamente. Dessa vez, foi ele quem soltou um murmúrio de alerta, e Georgiana preparou-se para ver outra matrona a perturbá-los. Entretanto, deparou com a figura de um homem diante deles. Era alto como Ashdowne, possuía cabelos negros e sagazes olhos verdes que, no entanto, pareciam passivos. Surpresa, Georgiana reconheceu o sr. Savonierre, o nobre que havia enviado o investigador de Bow Street a Bath. Por tê-lo visto somente a distância, não havia reparado em certos detalhes, mas agora via que o sr. Savonierre era uma figura cativante. Moreno e elegante, à primeira vista ele se parecia com Ashdowne. Mas as feições eram duras e emanavam uma frieza muito distinta à do marquês. Georgiana sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. — Ashdowne. — Savonierre inclinou a cabeça, mas sua expressão não traduzia cordialidade, e os olhos emitiam faíscas, como se existisse algum segredo entre eles. Algo naquele homem abalava as estruturas de Georgiana. Ashdowne devia ter pressentido o mesmo, pois respondeu o cumprimento sem o menor entusiasmo. Em geral, ele se mostrava sereno e educado, mas havia uma certa tensão no ar. Quem era aquele homem? — Usufruindo das águas? — Savonierre perguntou. — Que estranho

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encontrar um nobre de talentos tão particulares aqui em Bath. Ou talvez, após o último evento, o fato não seja tão incomum — Savonierre murmurou, insinuando algo que Georgiana não compreendeu. — Não tão incomum quanto sua visita — Ashdowne replicou. — Imaginei que Bringhton lhe agradasse mais. Estou aqui por um forte motivo. Um dever tamiliar, na verdade. Com certeza, sabe que tenho algum parentesco com lady Culpepper, não? —Savonierre indagou. Quando Ashdowne assentiu sem demonstrar interesse, o recémchegado sorriu, tal qual um predador. Ele se aproximou, de forma ameaçadora, e Georgiana recuou. O marquês continuou estático. — Vim assim que soube do roubo das esmeraldas — Savonierre explicou. Olhou a multidão. — Admito que fiquei decepcionado com o investigador que contratei. Já faz quatro dias, e ele ainda não revelou o responsável pelo crime. Georgiana também estava desencantada com o sr. Jeffries, mas sabia que a morosidade do investigador lhe dava certas vantagens. — Tenho minhas suspeitas — ela informou, intrometendo-se no assunto que mais adorava. Antes que pudesse prosseguir, Ashdowne interrompeu-a. — Conhece a srta. Bellewether? É uma detetive amadora e vem acompanhando o caso muito de perto. — Verdade? — A atenção de Savonierre voltou-se a ela. A intensidade do olhar sombrio a fez estremecer. Embora agarrasse qualquer oportunidade para expor suas teorias, sentiu-se desconfortável ante aquela pessoa. A garganta parecia travar enquanto Savonierre mantinha uma súbita mudez. Pela primeira vez, ela foi incapaz de elaborar um pensamento lógico. — Talvez eu possa me sair melhor que o sr. Jeffries — disse, tão logo conseguiu falar. Ao invés de zombar como os outros, Savonierre olhou Ashdowne e virou-se a Georgiana com um sorriso nos lábios. Os olhos esverdeados começaram a brilhar com maior intensidade. — Talvez sim, srta. Bellewether. Entretanto vou aguardar o momento certo para ouvi-la. O tom de Savonierre sustentava uma promessa sinistra. Georgiana prendeu a respiração até ver o indivíduo se distanciar. Então, soltou o ar bem devagar. — Quem é ele? — perguntou a Ashdowne. — E por que o odeia tanto? Por um instante, o marquês ficou em silêncio. Apenas observava Savonierre com uma expressão devastadora, como se fosse atacar seu pior inimigo. Ansiosa, Georgiana puxou-lhe a manga do casaco. Ashdowne a fitou, frio e distante. — Ele desenvolveu alguma desavença comigo, mas não imagino a razão. De qualquer forma, é um homem muito poderoso e não merece confiança pois abusa do poder que tem para submeter os fracos a sua vontade. Após lançar um último olhar em direção a Savonierre, Ashdowne readquiriu a postura natural. De repente, tomou o braço de Georgiana e conduziu-a entre os frequentadores do Pump Room. A princípio, ela imaginara ser um gesto de cavalheirismo por parte do

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marquĂŞs, mas logo reparou que o sr. Hawkins havia desaparecido.

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CAPÍTULO X F elizmente, para o alívio de Georgiana, ela e Ashdowne logo avistaram o vigário saindo do Pump Room. Porém, ao contrário do dia anterior quando fizera um longo passeio pelas lojas, o sr. Hawkins tomou a direção oposta ao centro comercial. Mantendo certa distância, seguiram o suspeito pelas ruas estreitas até atingir um bairro, localizado nas cercanias de Bath. Não se tratava de um local nobre como a região que o vigário habitava, tampouco perigoso na opinião de Georgiana. Sentia-se segura na companhia de Ashdowne e, a despeito da recusa do marquês em dar continuidade à caçada, ela não via por que tanta precaução. — É o lugar perfeito para um criminoso se revelar — Georgiana argumentou. — Ele vai tentar vender a jóia roubada neste território. Vamos pegá-lo em flagrante! — Pois é disso que tenho medo — Ashdowne murmurou insatisfeito, mesmo assim, continuou fiel à detetive. A posição do marquês era irrelevante. Georgia estava de novo absorvida pelo caso e já visualizava um resultado positivo. Apesar da relutância de Ashdowne, ela sentiu o entusiasmo crescer. O sr. Hawkins, decididamente, tramava algo escuso. Quando ele entrou em uma alameda e parou diante de uma casa, Georgiana quase bateu palmas de alegria; sem dúvida o clérigo faria um movimento suspeito. Com um olhar furtivo, Hawkins observou ao redor antes de bater à porta. Não notou Ashdowne nem Georgiana escondidos atrás de um prédio no fim da alameda. Em segundos, a porta se abriu, e o vigário desapareceu. Georgiana correu pela calçada, ansiosa por uma verificação mais detalhada do lugar. Entretanto, a alameda continuava deserta e nada havia de extraordinário que revelasse a culpa do gatuno. Então, caminhou até os fundos da residência, onde encontrou um jardim maltratado. Ali, havia uma porta entre duas janelas altas. Georgiana acenou a Ashdowne e subiu em um pedaço de pedra para espiar pelo vidro. Divisou apenas uma minúscula cozinha às escuras. Decidida a não esmorecer, desceu da pedra, ergueu a barra das saias e subiu no monte de lixo a fim de olhar pela outra janela. Nada conseguiu ver pois a altura do vidro somente seria alcançada se houvesse uma escada disponível. Estava prestes a pedir ao assistente que empilhasse algumas pedras quando escutou ruídos dentro da sala a qual tentava espiar. Na verdade, eram sons estranhos. Intrigada, aproximou-se do Prédio e apurou os ouvidos. A princípio, só pôde ouvir gemidos distantes, Pontuados por um barulho estridente. De repente, os sons se tornaram mais agudos, e os gemidos pareciam gritos de dor. Georgiana encarou Ashdowne, alarmada. — Ele está assassinando alguém! — sussurrou, em pânico. Então uma certa entonação, permeada de gritos, pareceu-lhe familiar. Reconheceu a voz do sr. Hawkins. — Não. Alguém o está assassinando! Aflita, Georgiana precipitou-se à porta, decidida a impedir a carnificina.

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Apesar de ele ser um ladrão e, às vezes, uma criatura repugnante, não poderia ficar parada e assistir ao fim do sr. Hawkins. — Não! Espere! —Ashdowne chamou-a, e Georgiana não lhe deu ouvidos. Abriu a porta e adentrou a cozinha, onde vários aromas de comida se misturavam com um perfume doce. Parou um instante para recuperar o fôlego quando o berro agonizante de Hawkins ecoou. Apressada, correu à sala e deteve-se ao ver a cena grotesca. O bom vigário, tão estóico e superior durante as breves conversas, estava apoiado sobre uma cadeira de veludo, tendo o traseiro nu apontado para cima. Ao lado, uma mulher usava roupas bizarras e segurava um chicote. Era uma encenação inacreditável. Georgiana não tentou ajudá-lo e perguntouse por que ele continuava a apanhar, se não havia nada que o prendesse à cadeira. Na verdade, o vigário parecia desejar a punição da mulher. Contudo, Georgiana notou, o chicote era feito de um material versátil, incapaz de causar danos às costas do clérigo. O homem movia o corpanzil ávido pelo tratamento, e gritava por clemência. A mulher, usando botas de cano alto e um casaco que mal lhe cobria a nudez, parecia entediada com o exercício. Ela empunhava um chicote real e o estalava no chão, enquanto utilizava o falso sobre o sr. Hawkins. A situação era tão chocante e absurda que Georgiana engasgou e riu ao mesmo tempo. Sem fala, ficou estática até sentir o calor de um toque em suas costas. Era Ashdowne, claro, mas como estivesse nervosa, ela pulou de susto, atraindo a atenção da outra mulher. Ela se virou para o lado dos intrusos, mais irritada que constrangida por ter sido pega naquelas circunstâncias. — Um cliente de cada vez — esbravejou e voltou-se ao vigário. — Se a idéia foi sua, pode esquecer. Trabalho sozinha! Sou uma artista e não me envolvo em orgias. — O quê? — Hawkins ergueu o rosto e, chocado, começou a recolher as roupas espalhadas pelo chão. — O que estão fazendo aqui? — gritou para Georgiana e Ashdowne. Em seguida, voltou-se à companheira. — Se pretende me chantagear, tenho novidades para você, mulher. Não obterá nada de mim! — Cale-se, homem! Não conheço esses dois! — ela exclamou, sacudindo os dois chicotes. — Peço desculpas pela intrusão. — Georgiana achou que intervir era necessário. — Mas estou investigando um roubo e tenho motivos para acreditar que você é responsável pelo crime. — Eu? — a mulher perguntou. — Não sei de roubo algum, senhorita. Só faço o que me pagam para fazer. Se algumas pessoas precisam mudar o cenário, não posso ser culpada por isso, certo? — Acalme-se, senhora, estamos falando com seu cliente — Ashdowne explicou. Aproximou-se e disse algo à mulher. Georgiana notou que ela estava sorridente quando o marquês se afastou. No mínimo, recebera uma boa soma em dinheiro. — Bem, vou deixá-los à vontade para tratar de… negócios. — A mulher retirou-se, sem mais protestos. Hawkins, no entanto, estava lívido. — Como ousam? — ele atacou, embora fosse difícil manter a dignidade

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escondido atrás de um punhado de roupas. Como sempre, Ashdowne não se deixou intimidar. — Foi assim que perdeu seu último cargo? — perguntou. Apontou o chicote que a mulher usara e encarou Hawkins. — Aproximou-se demais para abusar de mulheres religiosas? — Não fiz isso! A culpa foi de lorde Fallow! Eu confortava sua esposa durante as ausências do marido. De repente, ele tomou meu gesto como afronta e me expulsou sem razão — Hawkins replicou. Como se recobrasse a compostura, ergueu uma das mãos enquanto a outra segurava as roupas. — E o que faço em minha vida privada não é da conta de ninguém! — Desde que não console a mulher de outrem — Ashdowne completou. — Nossa preocupação é com o colar de lady Culpepper — Georgiana interrompeu. — Se devolvê-lo agora, tentaremos convencê-la a não prestar queixas. Hawkins encarou-a de forma tão ameaçadora que ela sentiu-se arrepiar. Ou o homem era um ator exemplar, ou não sabia nada a respeito do colar. Determinada a negar a última conclusão, Georgiana levantou o queixo, demonstrando superioridade. — É óbvio que não gosta de lady Culpepper e… — E da classe a qual ela pertence que não gosto! — Hawkins exclamou. — Um bando de hipócritas! Impõem a própria riqueza sobre nós — afirmou, fitando Ashdowne. — Mas não roubei aquele colar! Como poderia? Fiquei o tempo inteiro no baile e não escalei a parede da mansão. Se quer saber, a jóia talvez nem tenha sido roubada. A bruxa deve estar esperando o dinheiro do seguro enquanto vende as esmeraldas. Não era a primeira vez que Hawkins expunha tal teoria. Em nome da imparcialidade, Georgiana considerou a possibilidade de a acusação ser verdadeira. — Talvez possa nos dizer onde estava na hora do roubo — Ashdowne sugeriu. Indignado, Hawkins fitou o marquês. — Por que eu, milorde? Havia centenas de pessoas no baile. Qualquer um poderia cometer o crime, mas preferem me acusar. Por quê? E algum tipo de castigo pela visão que tenho da aristocracia ou se trata de outra vingança de lorde Fallow? — Rígido de fiiria, o vigário começou a vestir a calça. — Ele não Pode me responsabilizar pelo roubo! Eu estava com certa dama na despensa. — Mesmo? — Ashdowne arregalou os olhos. — Mesmo! Se acha que estou mentindo, pergunte à mulher. Era a sra. Howard! Georgiana ficou chocada. Conhecia a senhora em questão e o marido, o sr. Howard, no entanto Hawkins não demonstrava nenhum constrangimento. O homem, sem dúvida, merecia ser chicoteado, pensou. Como ele gostava de apanhar, a punição não representava sofrimento. — E agora, se me dão licença — Hawkins disse. — Agradeço-lhes se me deixarem sozinho! — Recolhendo o que lhe restava de dignidade, o vigário caminhou até a porta, alheio à camisa que se encontrava solta fora da calça. Pasma, Georgiana observou-o retirar-se. Foi demais para ela. Começou a rir da cena e de tudo que ocorrera. Quem poderia imaginar que o pomposo vigário pagaria uma mulher para espancá-lo? Parecia tão absurdo que ela

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chegou ao limite da histeria. Na tentativa de se conter, ela voltou-se a Ashdowne. Foi em vão. O marquês mal conseguia segurar-se. Tão logo o vigário fechou a porta, ambos caíram na gargalhada. Assim que se recuperou do acesso de riso, Georgiana começou a murchar tal qual uma flor exposta ao clima inconstante da Inglaterra. Os ombros tombaram, o sorriso esmoreceu e, embora estranho, Ashdowne sentiu que o sol havia partido. Ele a teria tomado nos braços para convencê-la a esquecer Hawkins e o colar roubado, mas se deu conta de que aquela casa que o vigário frequentava não era o lugar mais adequado. Claro, um cavalheiro jamais deixaria uma donzela perambular naquele bairro, muito menos entrar naquela residência promíscua. Entretanto, Ashdowne nunca se considerara um cavalheiro. Tampouco envergonhou-se de presenciar a cena devassa, a qual representava apenas o início do ritual. A bem da verdade, achou a situação hilariante, assim como Georgiana. Não era o tipo de mulher que se escandalizava ante as adversidades do mundo, feito a cunhada de Ashdowne. Anne teria desmaiado à visão da nudez de um homem cuja amante o chicoteava. Jovens comedidas, criaturas tediosas de fato, reagiriam com choque e horror. Georgiana era diferente. Abraçava as infinitas facetas da vida, ávida por novas experiências, sedenta por conhecimento e voraz por mistérios. Ashdowne reviu a última observação. Durante o curso de suas aventuras, Georgiana causava algumas calamidades. Portanto, ele precisava estar próximo para protegê-la de si mesma. E, nesse particular, era o único candidato ao cargo. Ela não corria riscos de perigo físico, no entanto, era exaustiva emocionalmente toda aquela intensa atividade. Decidido a consolá-la, Ashdowne levou-a a uma casa de chá, onde a presenteou com as mais ricas sobremesas. Deixou de lado as próprias emoções e tentou confortá-la, observando-a brincar com a colher. — Não foi culpa sua — ele disse. — A teoria inicial fazia sentido. E era verdade. O vigário enfatizara a aversão que nutria pelos membros da aristocracia. Na opinião de Ashdowne, se Hawkins não possuía mérito para tramar um crime estupendo, Georgiana não podia ser responsabilizada por isso. Talvez ela não percebesse que seria necessário um talento preciso e coordenado para realizar tal façanha. — Como iria saber que o vigário estava na despensa? Ele é muito discreto quanto a suas necessidades — Ashdowne emendou. — E — ela murmurou, antes de mergulhar a colher no creme de chocolate. De súbito parou e fitou o marquês. — Acha que o sr. Hawkins estava mentindo? A sra. Howard confirmaria a história? A mulher em questão se negaria a admitir a ligação com o vigário. Ashdowne não acreditava que a mente de Hawkins fosse lúcida o bastante para criar um álibi tão coerente. — Não penso que o vigário teria capacidade de inventar essa história, se não fosse verdadeira — ele argumentou, infeliz por desapontar Georgiana. Desanimada, ela suspirou e puxou um farto cacho dourado que lhe caíra na testa. Fascinado, Ashdowne observou os lábios carnudos moverem-se sutilmente. Respirou fundo, tentando lembrar-se do que pretendia dizer.

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— Vou conversar com o sr. Jefíries a respeito de nossa descoberta, apesar de suspeitar que Hawkins seja apenas um péssimo vigário, não um ladrão. Manteve-se calado e continuou a observá-la quando, enfim, ela levou a colher aos lábios, provando o doce. De olhos fechados, Georgiana suspirou, deliciada com o chocolate. Ashdowne, mais uma vez, encantou-se com a manifestação de prazer. Queria vê-la expressar a mesma reação por ele e não pela sobremesa. O creme poderia ser usado de maneira deliciosa, pensou, malicioso. Gostaria de espalhá-lo pelos seios alvos e… Perplexo com o rumo dos pensamentos, observou-a lamber a colher. O chocolate, aliás, devia ser espalhado sobre ele mesmo e Georgiana o honraria com aqueles lábios adoráveis. Ela parecia ser muito boa nisso. Ashdowne soltou um suspiro profundo. Estava ciente de que o fascínio pela srta. Bellewether excedia aos limites da boa conduta, incluindo a que estabelecera para si mesmo. Jamais tencionara ir além de um beijo inocente, mas houve o pequeno episódio na terma, no qual ele a libertara ao agir como um garoto inconsequente. Sem arrependimentos, Ashdowne sorriu. Fora uma experiência muito prazerosa e ansiava por repeti-la cada vez que olhava Georgiana. Ele a desejava. Havia provado somente a maciez dos seios, não o resto do corpo sedutor. Sentia a vontade selvagem de admirá-la nua. O breve encontro pareceu incrementar seu apetite para um verdadeiro ato de amor. Vendo-a degustar o creme com deleite, Ashdowne desejou ser o objeto daquela satisfação. Queria as mãos delicadas sobre si, os lábios, as curvas sinuosas envolvendo-o. A intensidade do desejo surgia alarmante. Mesmo ignorando as ligeiras reservas, o interesse sexual poderia acarretar problemas para ambos. E não somente pela posição de Georgiana. Também havia a questão do roubo. Quando ela passou a língua no canto dos lábios para retirar uma pequena porção de chocolate, Ashdowne começou a suar. Achava-se um homem experiente, bem informado sobre jogos de sedução, no entanto, a inocente sensualidade de Georgiana o perturbava. O desejo foi tão doído que deixou escapar um gemido, — Concordo totalmente. Esse creme é maravilhoso — Georgiana comentou, largando a colher. Arregalou os olhos ao fitar Ashdowne. — Você nem sequer tocou o doce! Vamos, experimente um pouco — insistiu. Para o desaponto de Ashdowne, ela pegou uma porção do creme com a colher e lhe ofereceu. Embora reconhecesse os riscos, ele não pôde resistir. A pulsação se acelerou. Deixando-a perceber a intensidade do desejo em seus olhos, ele provou o chocolate. A mão de Georgiana tremeu, e Ashdowne capturou-a pelo pulso. De forma lenta, saboreou a sobremesa, enquanto observava os olhos azuis faiscarem de paixão. Por um longo momento, Ashdowne, que se gabava da habilidade de lidar com situações imprevisíveis, sentiu a casa de chá vazia, sem clientes. Somente uma vaga idéia de que havia pessoas ao redor o impediu de tomá-la nos braços e beijar aqueles lábios tentadores, a pele alva do pescoço até culminar na região mais feminina. Ofegante, ele apelou para sua existência urbana e soltou-a.

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A colher tombou na mesa, alertando-os. Ashdowne repreendeu-se em pensamento. E se alguém os tivesse visto? Como pudera se comportar de modo tão sugestivo em lugar público? O fato de aparecer ao lado de Georgiana com tanta frequência já levantava comentários maldosos. Infelizmente não obteria resposta a tantas indagações porque se achava incapaz de raciocinar quando Georgiana estava por perto. A presença marcante dificultava a precaução, fazia-o ignorar a intuição, agir por impulso e alimentar o súbito apetite por ela. Era turbulento e ao mesmo tempo tão exultante que mal conseguia se autocontrolar. — Acho que é o bastante — ela disse, desviando o rosto de um jeito irritante. A despeito das reações físicas de seu corpo, Ashdowne não a queria longe. Precisava levá-la a Camden Place, dispensar todos os criados e fazer amor com ela sobre cada uma das mobílias daquela casa. — Oh, o que vamos fazer? — Georgiana queixou-se. A responsabilidade de reprimir a perigosa atração que crescia entre ambos era dele. Novamente respirou fundo e soltou o ar bem devagar. Então baniu as imagens evocadas pelo desejo e ensaiou a postura de assistente atencioso, de um homem cuja honra… — Agora o sr. Jeffries vai se sentir mais inclinado a duvidar de minhas teorias — ela reclamou. Chocado, Ashdowne percebeu que não era o desejo insatisfeito que a aborrecia, e sim, aquele bendito caso. Precisou conter a risada a fim de manter a expressão interessada. — Você é homem, não tem noção dos obstáculos que tenho de enfrentar — Georgiana explicou-se. — O género masculino lhe assegura respeito, por mais absurdas que sejam suas ações. Até Bertrand, que perdeu oportunidades valiosas de adquirir conhecimento, é levado mais a sério que eu! Embora fosse difícil imaginar aquele garoto enfadonho impondo respeito a alguém, Ashdowne concordou com o ponto de vista de Georgiana. Era um comentário triste e constante entre os homens, Porém, ele jamais se importara com a opinião de semelhantes. — Basta olhar para mim para ver uma boneca repleta de cabelos cacheados, uma criatura que desperta apenas admiração pela aparência. Não consigo mudar a opinião das pessoas! Minha decantada beleza não é uma bênção, é uma maldição! Ashdowne começou a sentir o peso de sua participação naquele predicado. Uma onda de culpa o invadiu. — Está avaliando sua aparência de maneira incorreta, Georgiana — argumentou, tentando abafar o mal-estar. — Sempre lutou contra ela quando, na verdade, devia tirar vantagem dessa qualidade. — Como? — ela indagou, parecendo interessada. A culpa o mobilizou outra vez. — Nas mãos de uma exímia costureira você seria incomparável. Vistase com elegância realçando as dádivas da natureza que foi pródiga para com você, exiba sua beleza e apresente-se ao mundo. Quando as pessoas se aproximarem, mostre-lhes que tem inteligência também. Deixe o belo abrir-lhe as portas e use o cérebro para mantê-las abertas! — Que portas? Não há ninguém aqui além de velhos afetados e mulheres fúteis! — Georgiana exclamou.

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— Não em Bath, mas em Londres. — Ashdowne espantou-se com a própria sugestão. — Lá você poderá frequentar os salões mais elitistas, onde as discussões não se limitam às últimas fofocas. Há política, literatura e arte para alimentar a alma. — Ele sabia que esses lugares eram frequentados por grupos pertencentes à nobreza, as portas se abriam pelos títulos possuídos e não pelo mérito pessoal. Imaginar Georgiana agitando os intelectuais o fez sorrir. Pensativa, ela o fitou por algum tempo. Talvez estivesse impressionada com o discurso esfuziante. Ashdowne, de repente, viu-se esperando pelo olhar. Afinal, merecia gratidão. Já podia visualizá-la entre as sociedades mais exclusivistas. Ledo engano. Ao invés de fitá-lo como um deus, Georgiana bufou, exasperada. — Como vou me estabelecer em Londres, Ashdowne? Meu pai nunca quis morar em cidades grandes. Já começou a se queixar de Bath porque sente falta da vida pacata do campo. É um homem de rotina e detesta perturbações. Foi a vez de Ashdowne ficar aparvalhado ao notar quão ridículo fora seu discurso. Havia falado como se pudesse apadrinhá-la quando, na realidade, não podia. Não tinha nenhum parentesco com Georgiana. Ficou desapontado, o entusiasmo se esvaiu, deixando-o vazio. — Perdoe-me — murmurou, sentindo-se tolo. A situação que descrevera seria a ruína de Georgiana, caso ela aparecesse sozinha na companhia de um marquês. Porém, em um impulso egoísta, não conseguia vê-la com ninguém mais. — Tem parentes em Londres? — Não — ela resmungou. — Ninguém que possa visitar ou esteja disposto a abrigá-la? —Além de mim, Ashdowne pensou. Concentrada, Georgiana expressou uma fisionomia adorável. Ele precisou lutar contra a vontade de beijá-la. — Bem, há meu tio-avô, Silas Morcombe. —- Talvez seu tio a receba — Ashdowne sugeriu, aliviado. — Pode ser. No entanto duvido de que minha mãe concorde. Ela o considera senil e teme que seja incapaz de garantir o comportamento adequado. Tio Silas é bacharel, sabe, não se preocupa com nada além de seus estudos. Não creio que ele se disponha a me acompanhar aos salões, mesmo que tenha tempo. Georgiana suspirou e apoiou o queixo nas mãos. Ashdowne admirou-lhe a beleza. — Não. O melhor seria me tornar famosa, assim as pessoas viriam até mim — ela concluiu. — Se pudesse solucionar esse caso, ganharia o respeito que tanto almejo. Através de solicitações, eu enfim poderia usar minha experiência. Os olhos de Georgiana adquiriram novo brilho. Os lábios curvaram-se, e Ashdowne foi dominado por um sentimento estranho o qual não quis examinar. Recolheu-se na insana docilidade até que ela voltou a falar. — Sabe, meu maior desejo é tornar-me uma espécie de consultora e ter pessoas do país inteiro apresentando-me seus mistérios. O encantamento de Ashdowne desapareceu com extrema rapidez. No início, achara divertido e se envolvera com os esforços de Georgiana para

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solucionar o roubo do colar de lady Culpepper. Contudo, jamais havia imaginado que o motivo iria além da gratificação de descobrir o responsável. As tentativas alucinadas convergiam a um único objetivo: a realização de um sonho. A culpa que Ashdowne se recusara a admitir agora pesava-lhe sobre os ombros. Tentou encontrar uma solução bem mais complexa. Queria se convencer de que a realização do sonho não estava ligada apenas àquele roubo das esmeraldas. Haveria outros enigmas, embora não tão infames quanto o último evento de Bath. E quanto a Londres? Talvez pudesse coagir o tio ou alguém mais a hospedá-la. Ashdowne tinha o poder de forçar a cunhada a tutelar Georgiana, porém, não tinha fé no julgamento de Anne. A imagem de Georgiana perdida, desamparada entre os homens londrinos era uma cena terrível de se contemplar. Não confiaria jamais ao letrado tio-avô, o qual não garantia o comportamento adequado, a segurança de Georgiana. A única pessoa confiável era ele próprio. E a dedução originou uma série de pensamentos selvagens. As maléficas possibilidades o atordoaram de tal maneira que precisou esforçar-se para manter o semblante normal. Claro que a esperta Georgiana logo notou o repentino silêncio e virou-se para fitá-lo. — Oh, querido, está tão desanimado quanto eu! Que insensível eu sou a ponto de não considerar sua frustração — ela confessou, tocando o braço de Ashdowne. E, como não conseguisse organizar nenhum pensamento coerente, ele apenas assentiu, ansioso por refugiar-se em casa, onde enfim avaliaria as sensações conflitantes. Precisava ficar sozinho, com certeza. Suas habilidades mentais deixavam muito a quando fitava certos límpidos olhos azuis.

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CAPÍTULO XI A shdowne continuava perturbado quando chegara a Camden Place, após acompanhar uma inconformada Georgiana à casa do pais. A rápida caminhada pouco contribuíra para amenizar a turbulência interna. Sentia-se quente e agitado, como alguém que sobrevivera à luta, ou um homem atormentado, dividido entre o bom senso e centenas de idéias selvagens. — Preciso de uma bebida — disse a Finn logo que entrou no estúdio. Sentou-se em uma das cadeiras duras, irritando-se com o desconforto daqueles velhos móveis. — Certo, milorde. — Finn fechou a porta e apressou-se em servir uma dose ao patrão. — E quanto a senhorita? Abandonou-a a mercê dos pró prios planos? Aquelas palavras tocaram a sensibilidade de Ashdowne, os músculos enrijeceram, aumentando sua tensão. Estivera tão consumido pelos pensamentos fantasiosos que esquecera o hábito abominável de Georgiana em provocar calamidades quando sozinha. — Por enquanto, ela está sem suspeitos — murmurou, mais para se convencer do que ao criado. Finn cruzou a sala em silêncio e entregou a taça de cristal ao patrão. Ashdowne resmungou um agradecimento e fitou o vinho do porto na esperança de encontrar respostas no líquido denso. Relatou com detalhes os eventos da atribulada tarde para divertimento de Finn. A risada sonora do mordomo foi bem vinda. No entanto o desconforto de Ashdowne devia estar aparente, pois o sorriso do irlandês logo cedeu lugar à preocupação. — Deve deixar que o vigário assuma a culpa — ele opinou. — De quê? Do roubo? — Ashdowne perguntou. A confirmação de Finn, ele meneou a cabeça. —-A culpa do vigário se restringe a polémicas decadentes. E ele está certo quanto ao fato de classificar os membros da sociedade em um bando de hipócritas. — Parou para degustar o vinho. — Hawkins insinuou que o colar de lady Culpepper nunca foi roubado. Afirma que faz parte de um plano maroto para obter o dinheiro do seguro. — Ele diz isso? — Finn e Ashdowne trocaram olhares significativos. — E a senhorita, milorde? O que ela fará agora? Creio que em breve encontrará outro suspeito. — Talvez o interesse pelo roubo desapareça finalmente — Ashdowne previu, esperançoso. — Não sei, milorde. Ela parece muito determinada. — Sim — Ashdowne concordou. Se ao menos Georgiana se interessasse com a mesma paixão por ele… O desgosto se transformou em espanto ao perceber que começava a sentir ciúme da investigação. A que profundidade ele estaria mergulhando? Movimentou os ombros na tentativa de dissipar a tensão que o perseguia desde o instante em que Georgiana confessara seu sonho. — Pelo menos pode distraí-la — Finn sugeriu. — Posso, mas… — Ashdowne deteve-se quando o irlandês deu-lhe um tapa de leve nas costas.

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— Esta é a resposta, milorde. Não tenho dúvidas de suas habilidades nesse particular. Ashdowne esboçou um sorriso. Era um conforto saber que Finn tinha fé no patrão. Na verdade, não podia assegurar que alguém conseguisse manter Georgiana distraída por muito tempo. Um homem teria de possuir grande quantidade de energia. — Devo vigiá-la até que tenhamos certeza de que a jovem está entretida com outros assuntos? — Finn perguntou. — Sim. Obrigado — Ashdowne murmurou, enquanto tentava controlar as batidas aceleradas do coração. Sempre se orgulhara de ser um cavalheiro nobre, rebuscado e protagonista de alguns casos de amor. Então por que a possibilidade de distrair Georgiana o excitava tanto? Não sabia. Absorvido pelas questões perturbadoras, mal notou a partida de Finn. Nem o porto ou a conversa com o fiel amigo serviu para organizar os pensamentos conturbados. A indecisão o incomodava porque, em geral, achava-se um pensador meticuloso, claro e objetivo. Sua vida sempre fora esquematizada com minúcias e bem planejada. Entretanto, agora tudo se modificara, e ainda havia o agravante de sentir-se desorientado a cada movimento sensual da pequena loira. A despeito do clamor contrário de sua consciência, Ashdowne suspeitava de que nunca mais voltaria a ser o mesmo homem. A noite contemplativa havia restaurado o equilíbrio interno de Ashdowne, não a razão. Queria tudo na mais perfeita ordem, embora o corpo inteiro se rebelasse. Bem, nem todas as partes, somente uma porção capaz de fazê-lo hesitar. Além das penosas dúvidas, não era o único a se precipitar. A ironia da situação não o arruinara inteiramente. Portanto, deixaria as questões seguirem seu rumo. A natureza calculista, apesar de protestos, levouo à residência dos Bellewether, onde persuadiu Georgiana a passear de carruagem e escapar da falação insistente das irmãs mais novas. Na realidade, ela cogitou em recusar o passeio, e Ashdowne viu-se subitamente ofendido com a rejeição. Enquanto restabelecia o orgulho próprio, alimentou o desejo de provar que Georgiana, no íntimo, apreciava a companhia dele. Tratava-se de uma sensação primitiva, semelhante a dos invasores escandinavos que sequestravam jovens noivas desconsiderando a culpa. Ashdowne, claro, era mais civilizado. Novamente Movimentou os ombros a fim de dissipar a constante tensão. Alguns ditadores do bom comportamento classificariam de vulgar ou descortês a atitude de Ashdowne, sozinho, escoltar uma jovem mulher. Ora, ele e Georgiana jamais seguiam hábitos convencionais, uma justificativa bastante eficaz para dispensar qualquer acompanhante. Além disso, não conseguiriam discutir a adorada investigação diante de outra pessoa. Foi a explicativa que Ashdowne encontrara para desculpar a atitude inadequada e indigna de um nobre cavalheiro ao passear de carruagem pelos arredores da cidade acompanhado de uma jovem donzela. E o pai de Georgiana, por falta de bom senso e excesso de otimismo, fora leviano em confiar a filha ao marquês. Apesar de desejar um futuro garantido à primogênita, o sr. Bellewether não salvaguardava a segurança de

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Georgiana. Ashdowne irritou-se com a atitude displicente do homem. Jurou que quando ele tivesse uma filha, cuidaria melhor dela. E, por mais incrível que parecesse, a idéia de criar filhos não o incomodou. Imaginou crianças de cabelos cacheados brincando no jardim da mansão em Londres. Sorriu, ao sentir a batida descompassada do coração a qual se tornava frequente. Depois de ajudar Georgiana a subir na carruagem, Ashdowne acomodou-se ao lado dela e respirou aliviado por não terem de passar a manhã seguindo o pobre vigário. O prazer de possuir a srta. Bellewether só para si antecipava sensações libidinosas, embora fizesse esforços para se controlar. A alegria durou pouco ao reparar que a investigação permanecia entre eles. Georgiana encontrava-se calada, o rosto adorável transmitia tristeza, e os ombros estavam ligeiramente caídos, quando ela apoiou o queixo na mão, Ashdowne concluiu que jamais tivera a seu lado uma jovem tão desapontada. Não sabia se gargalhava ou se ofendia. Assim era a adorável Georgiana. De qualquer modo, continuava a ser uma mulher instigante, pensou satisfeito, embora não lhe agradasse vê-la infeliz. Após sucessivos esforços de apontar os prédios de Bath ou iniciar conversas para estimulá-la, ele chegou a considerar a idéia de sugerir outro suspeito. O absurdo da possibilidade e a necessidade de conduzir a carruagem o impediram de cometer desatinos. Para seu deleite, Georgiana endireitou o corpo quando atingiram as colinas verdejantes que rodeavam a pequena cidade. Ashdowne também se sentiu impelido a apreciar a floresta de carvalhos. Escolheu um lugar pitoresco, amarrou os cavalos, retirou as luvas e estendeu o casaco, sobre a grama. Tentou convencer Georgiana a sentar-se, mas a jovem parecia hipnotizada pela bela paisagem. — É lindo — Ashdowne murmurou, visualizando a cidade que se fundara entre as montanhas. — Sim. — Georgiana apontou uma construção de pedras no centro de Bath. — Veja como podemos enxergar as casas! — Estreitou os olhos, como se tentasse focalizar um local em particular. De repente, piscou. — Imagino como seria esta vista através de uma luneta. Por um momento, Ashdowne encarou-a espantado e em seguida, começou a rir. Georgiana ignorou o clima romântico e voltou-se às aplicações práticas do passeio. Se ela não fosse tão divertida, teria se ofendido. Qualquer outra mulher nem sequer pensaria nos acontecimentos da cidade, qualquer outra mulher tampouco veria suspeitos em todas as esquinas. Uma única perspectiva de Georgiana tinha o poder de estimulá-lo ou de frustrá-lo. Pelo menos uma vez, queria a atenção voltada somente para ele, e não ao caso. — Com certeza, deve haver algo mais interessante em Bath, além do roubo, que desperte seu interesse — comentou, seco. — Sim, mas continuo atraída pelo roubo. Pressinto que apenas um detalhe me escapa — ela refletiu. Ashdowne era o que lhe escapava, porém tentou manter os desejos libidinosos em xeque. Por trás do ar casual que apresentava ao mundo, estava ciente de tudo que se passava a seu redor. Era necessário. Tinha de analisar cada detalhe e planejar com critério, pois um pequeno erro de cálculo poderia ser fatal.

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Nunca se dera ao luxo de extrair algum divertimento do trabalho. No entanto, desde que conhecera a srta. Bellewether, o controle pessoal se esvaía. Como naquele momento. Comparou-se a Aquiles indo à luta sangrenta ou Sansão implorando uma chance a Dalila. A noção de que Georgiana significava sua ruína estava, de alguma maneira, misturada à idéia de que também poderia ser sua salvação. Ashdowne não conseguia discernir. Precisava render-se à força dominante e se deixar levar pela maré. Com o intuito de inspirar o delicado perfume dos cabelos revoltos, Ashdowne aproximou-se. Percebeu-a vacilar e gratificou-se pelo orgulho recuperado. Georgiana parecia atraída por ele, apesar de mostrar o contrário. A teimosia tornou-se um desafio, causando ondas de excitação através do corpo. Ele chegou mais perto, tocou-a nos ombros e aconchegou-a entre os braços. Georgiana ficou algum tempo absorvendo aquele abraço até que, de súbito, empurrou-o. — Pensei que tivesse concordado em manter a relação no plano profissional — ela o acusou, ruborizada. — Na verdade, tenho a intenção de manter o relacionamento em outro nível — Ashdowne confessou. Alheia à importância daquelas palavras, Georgiana recuou e levantou as mãos para afastá-lo. Sorriu ante a expressão assustada da jovem. Nenhuma mulher jamais recusara os ataques do marquês ou lutara contra eles. E a aparente rejeição somente estimulava a paixão. Nunca a forçaria a nada. Ashdowne sabia que seria fácil persuadi-la, mas pretendia tê-la em seus braços por livre e espontânea vontade. — Não se aproxime! — Georgiana exclamou, ciente das intenções do marquês. — Minha mente não funciona direito quando você chega muito perto de mim. Os lábios rosados refletiram uma leve tensão. Ashdowne queria soltálos, mas permaneceu onde estava. Quando ergueu a mão para acariciar o lindo rosto, ela o empurrou. — E sem toques! — E se eu segurar sua mão apenas? — Ashdowne tentou parecer inocente. — Bem, eu… Sem esperar pela resposta, ele tomou-lhe uma das mãos e aguardou a reação. Georgiana somente fitou-o, temerosa, como se o conhecesse muito bem. — Certo, só minha mão. Ashdowne riu de puro deleite, antecipando a eventual rendição. Jamais fora um indivíduo infame, pronto para violentar jovens inocentes, mas aquele jogo com Georgiana era excitante demais. Já havia conseguido o privilégio de fazê-la gemer suspirar e extasiar, tinha lhe proporcionado o completo abandono e o faria novamente. Contudo, não tencionava apressar nada. Sem empreender movimentos repentinos que a assustassem, deixou-se ficar ali, segurando a mão macia, como se fosse o gesto mais natural do mundo. Então, devagar, começou a acariciar a pequena palma, protegida pela luva. Queria despi-la para sentir a pele sedosa tal qual acontecera na terma.

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A lembrança o invadiu, e o desejo ardente atingiu-o. Ashdowne admirou o fino pulso, encantado com a suavidade. Levou-o aos lábios e o beijou. Sorriu ao perceber a pele arrepiada. Fitou o belo rosto, já ruborizado, e reparou no fascínio dos olhos azuis. Mais seguro, Ashdowne mordeu a barra da luva e puxou-a. Georgiana arregalou os olhos e entreabriu os lábios. Com extrema gentileza, revelou uma das mãos e depois, a outra. De propósito, demorou, como se despisse o corpo feminino. O ritual lento aprimorava a paixão. A visão daqueles dedos finos e sublimes provocou-lhe um gemido. Ashdowne beijou a palma rosada enquanto tentava conter a iminência urgente do desejo. O perfume suave de Georgiana invadiu-lhe os sentidos. Saboreou a textura desenhando pequenos círculos. Em seguida, traçou os dedos com os lábios, prolongando o toque em cada uma das junções. Por fim, ele ergueu o rosto e a encarou. Levou um dos dedos à boca. Sugou-o, observando os brilhantes olhos azuis apreciarem o gesto sensual. Em resposta, Ashdowne sentiu o calor queimar-lhe o corpo, porém, conteve-se. Além do movimento de sugar os dedos delicados, ouvia-se somente o som da respiração ofegante de ambos. Devagar, mordeu a minúscula unha. Ela suspirou, começando a oscilar. Ashdowne a carregou e deitou-a sobre o casaco que estendera sobre a grama. O altíssimo grau de excitação parecia absorvê-lo, tudo em consequência das suaves carícias que fizera nas mãos de Georgiana. Impaciente, postou-se em cima dela, ávido por explorar o resto do corpo curvilíneo. Algo o impediu. Estava se precipitando. Apoiando o peso sobre os próprios braços, Ashdowne estudou o adorável rosto e parou. As faces continuavam coradas, os lábios, entreabertos, e a cabeça inclinada para trás demonstrando a reciprocidade do desejo. Os olhos estavam fechados. — Georgiana, olhe para mim. As pálpebras se levantaram. Um brilho indefinido surgiu antes que os olhos se fechassem outra Vez. Ashdowne continuou na mesma posição, sobre ela. Cada parte de seu corpo clamava por satisfação imediata. Bastava apenas abaixar-se e… Em um gesto brusco, ele rolou para o lado e cobriu o rosto com um dos braços. Seria simples possuí-la ou satisfazer a ambos, sem usurpar-lhe a virgindade. Sentiu-se uma fraude. De algum modo, ele a privaria da escolha. Mais absurdo ainda era querer que Georgiana mantivesse os olhos abertos durante o ato amoroso. Precisava vê-la recebê-lo, desejá-lo em completa rendição. Sem dar importância ao que havia entre eles. Irritado, Ashdowne viu-se tão insensato quanto Georgiana! Primeiro, começou a entendê-la, o que já era alarmante, e agora pensava de maneira bizarra e confusa. Nada parecia fazer sentido. Murmurando impropérios, ele se levantou e observou Bath ao pé da colina. — Ashdowne? Percebeu-a puxar sua manga, não ousou encará-la. O que veria naqueles olhos? Paixão estonteante? Desaprovação? — Apenas a mão, lembra-se? — ele disse de forma leve e com a elegância que há muito aperfeiçoara. — Só posso tocar sua mão e nada mais. — Ashdowne?

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O que quer que ela fosse dizer perdeu-se entre o som de patas de cavalos. Ambos avistaram outra carruagem, aproximando-se. — Enfim a encontramos! Ashdowne reconheceu os gritos, e não conseguiu acreditar. Em direção a eles vinham as irmãs de Georgiana, conduzidas pelo irmão, Bertrand. Em pensamento, Ashdowne agradeceu a Deus por ter se comportado como um cavalheiro e não estar, naquele instante, mergulhado no corpo escultural de Georgiana. Perplexo, observou o veiculo parar. As irmãs, munidas de sombrinhas e vestidos rendados, acenaram e riram ante a nobre presença do marquês. — Nós a procuramos por todos os lugares! — Araminta, a mais estridente, exclamou. — Por sorte, a sra. Simms nos disse que você havia tomado esse caminho. — Mamãe mandou buscá-la! — Eustácia informou, lançando um olhar lânguido que Ashdowne logo reprimiu com frieza. Bertrand, como sempre, não disfarçou sua contrariedade. Não havia dúvidas de que preferia estar no Pump Room, ao invés de desperdiçar energia à procura da irmã mais velha. Georgiana olhou os irmãos, como se fossem pessoas estranhas e intrusas, em seguida, lançou um olhar significativo para Ashdowne. Ele assentiu à família. — Sejam bem-vindos — disse e notou o súbito rubor nas faces de Georgiana. Fora a frustração, tinha de admirar a sra. Bellewether, que possuía mais discernimento que o gregário marido. Era sábia por não confiar a virtude da filha a Ashdowne, e Georgiana idem, por não entregar-se a ele. — Bem, creio que devo ir — ela falou, desolada por ter de se juntar aos irmãos. Aproximou-se de Ashdowne. Ele prendeu a respiração. — Eu esperava que pudéssemos encontrar o sr. JeffHes para saber se há novidades sobre o caso — ela confidenciou. Perplexo, Ashdowne encarou-a. Depois do glorioso interlúdio daquela manhã, ela ainda pensava na maldita investigação! Seu orgulho quebrou-se em pedaços, enquanto o resto dele acordava para o lugar de assistente que ocupava no mundo de Georgiana. Em contraposição, era observado com tanta expectativa que conseguiu ensaiar algo apropriado. — Encontre-me no Pump Room após o almoço e veremos o que fazer. — Ele sorriu. — Tente não se meter em confusões sem mim — acrescentou e tocou a ponta do pequeno nariz. O gesto era o único afeto seguro que podia empreender. Georgiana concordou e, após minutos de despedidas, Ashdowne observou os Bellewether desaparecerem entre as colinas. Respirou, rompendo o pesado silêncio, e divisou o cenário que, minutos antes, estivera enfeitado de paixão. Por fim, com gestos lentos, recolheu o casaco. De repente, notou a luva de Georgiana sobre a grama. Pegou-a e acariciou o tecido sedoso entre os dedos. Então colocou-a no bolso e subiu na carruagem. Pensou em devolver o adereço naquela tarde, mas sabia que não o faria. Jamais fora um homem

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sentimental, contudo, entregar a luva estava fora de cogitação. Mais uma vez viu-se impossibilitado de raciocinar. Sentiu-se condenado. Ashdowne estava saturado das obrigações concernentes ao título que herdara com a morte do irmão. Quando por fim conseguiu se concentrar nos papéis espalhados sobre a escrivaninha, Finn bateu à porta. O marquês suspeitou que houvesse alguma emergência pois o irlandês recebera a ordem expressa de não incomodá-lo. — E melhor ser importante — resmungou ao ver o mordomo entrar. — Uma mulher quer vê-lo, milorde. — Finn manteve o rosto passivo. — Levei-a à sala de visitas, conforme suas instruções. Para alguém que passara horas trabalhando, a visita repentina e inadequada só poderia ser da incomparável Georgiana. Ashdowne não hesitou. Ele a advertira sobre ir a Camden Place desacompanhada, porém a teimosia preponderava. Sempre. A frustração daquela manhã ainda persistia em sua mente. Começava a imaginar uma boa maneira de dar-lhe uma lição. Rígido de raiva e a passos largos, marchou até a sala de visitas. Parou à soleira da porta para esmerar-se na ameaça. — Se Bertrand não estiver com você, considere-se uma mulher morta — avisou, elevando o tom de voz. Nunca gritava e não pretendia ceder ao temperamento explosivo, contudo Georgiana tinha a capacidade de tentar um santo. Somente após proferir as palavras Ashdowne notou a desordem da sala. Havia caixas e baús dispersos pelo chão; uma criada permanecia em pé a um canto da sala e uma mulher virou-se para encará-lo. Desorientado, ele atinou que não se tratava de Georgiana. Era uma dama de cabelos negros possuidora de uma figura mais esguia. Reconheceu Anne, a esposa de seu falecido irmão. Os olhos castanhos se arregalaram, e os lábios tremiam de pavor. O mundo parecia despencar sobre ela. Ciente das fraquezas emocionais da cunhada, Ashdowne precipitouse. — Anne! Perdoe-me — desculpou-se, tão logo se aproximou. Anne recuou atemorizada, como se o marquês fosse atacá-la. Infelizmente, a viúva de seu irmão se alarmava com tudo a seu redor e, Ashdowne, apesar das tentativas, nunca conseguira convencê-la do contrário. — O que faz aqui? Ela desfalecia só de considerar a possibilidade de executar longas jornadas. Nunca viajaria sozinha a Bath, se não fosse forçada a fazê-lo. Logo após o falecimento do irmão, Ashdowne e Anne haviam se mudado ao principal legado da família. Mas, saturado da presença maçante da cunhada, resolvera persuadi-la a visitar alguns parentes em Londres. Contudo o resultado fora catastrófico. Anne retornara, jurando evitar qualquer novo tipo de aventura. Porém, agora, aparecia em Bath sem avisar. — Oh, eu sabia que não devia ter vindo — Anne murmurou com voz fina. Antes que Ashdowne pudesse ouvir alguma explicação, ela caiu em prantos e retirou-se da sala, deixando a criada boquiaberta e ele, irritado. Desde que assumira a responsabilidade do título, vinha tentando agir de modo cuidadoso. No entanto as consequências de uma juventude tempestiva

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dificultavam seu desempenho. Não se recordava até então de haver provocado lágrimas em uma mulher a ponto de vê-la fugir como se ele representasse uma ameaça. E não era a primeira vez que Anne apartava-se de sua presença. No início, ele justificara esse estranho comportamento devido ao luto. Por fim cansou-se da frágil sensibilidade da cunhada e resolveu afastá-la para se arrepender mais tarde. Não esperava nenhuma reação diferente daquele eterno temor. Ashdowne pediu à criada que fosse consolar a patroa. Em vez de retornar à correspondência atrasada, teria de passar o resto do dia paparicando a gentil e monótona cunhada. Era a obrigação mais onerosa de seus deveres como marquês. — Então? — Finn apareceu na porta. — Você devia ter me avisado — Ashdowne repreendeu o irlandês. Em seguida, olhou o relógio e correu em direção à escada. Precisava encontrar Georgiana no Pump Room e, apesar do incidente em Camden Place, não pretendia se atrasar. Havia uma série de assuntos pendentes a serem abordados. Entre tantos incluía-se a infeliz investigação acerca do roubo de lady Culpepper.

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CAPÍTULO XII G eorgiana estava trêmula. Andava de um lado para outro pelo quarto, tentando se concentrar, e nada. Havia trocado as luvas várias vezes desde que retornara à casa naquela manhã, e continuava com a sensação de que os dedos não mais lhe pertenciam. Pertenciam a Ashdowne. O fato de jamais acreditar em pieguices e romantismos deixaram de existir. Quanto mais negava, mais se via contagiada pelas deliciosas carícias do marquês sedutor. Seu corpo parecia pegar fogo. Eram sintomas típicos de uma mulher que sofria de distúrbios emocionais provenientes do sexo. Não seriam necessárias habilidades intelectuais para deduzir que outras partes da anatomia, além das mãos, interessavam a Ashdowne. Ele estava muito perto de roubar-lhe o coração. E esse roubo Georgiana não tinha intenção de investigar. Era uma mulher prática, e sua preferência estava voltada a fatos concretos. Nesse caso, os fatos apontavam para uma só conclusão: o marquês de Ashdowne encontrava-se fora de alcance. A absurda atração entre ambos a levaria à ruína, portanto precisava pôr um ponto final na história. No entanto, saber era diferente de fazer. Georgiana torceu os dedos e caminhou mais depressa, indecisa quanto ao próximo passo. De início, pensara em não ir encontrá-lo no Pump Room, só que essa alternativa a desolava. Não queria vê-lo de jeito algum. Em contraposição, mal podia esperar pelo encontro. Não precisava dele… exceto para continuar vivendo e respirando! Ashdowne tinha o poder de influenciar e modificar princípios ao ponto de transformá-la em uma mulher, munida dos piores atributos: ilógica, emocional e romântica. Na mente de Georgiana as damas eram, em essência, criaturas estúpidas que namoricavam cavalheiros e se preocupavam apenas com vestidos novos ou assuntos corriqueiros. Como sempre estivesse interessada na capacidade intelectual do género masculino, nunca quisera se assemelhar as demais. Só em pensar na hipótese de se igualar às irmãs tinha vontade de gritar. Entretanto, descartar o sentimento de euforia que a dominava seria loucura. A verdade era que amava a companhia de Ashdowne. Ele a escutava e a fazia rir. Tocava-lhe o corpo com a leveza de um apurado violinista. Gemendo, Georgiana se jogou na poltrona, apoiou o queixo entre as mãos e percebeu quanto o fato de ser mulher a agradava, afinal. Agora o rosto e a forma que tanto amaldiçoara pareciam uma bênção, um instrumento maravilhoso de prazer aos toques delicados do marquês. E a parte sensível, o coração, dominava o cérebro. Apesar da extraordinária agitação mental, os momentos de reflexão foram nulos. Rendida, ela suspirou e permitiu-se conduzir ao encontro do homem que lhe roubara o coração. Nem sequer precisou procurá-lo. Tão logo entrou no Pump Room a presença marcante do marquês se impôs. Alto, garboso e viril, Ashdowne destacava-se na multidão. Georgiana ficou irritada. Por que o homem não era

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mais circunspecto? Se ao menos usasse um disfarce, como ela havia sugerido! Se não fosse tão rico e tão bonito… Nesse caso não seria Ashdowne, e Georgiana não se interessaria por ele. Oh, um coração inconstante era um malefício para uma mulher! Deixando de lado as conjecturas sentimentais, Georgiana misturou-se aos visitantes, parando, de quando em quando, para escutar conversas. No entanto, os comentários que ouviu não foram satisfatórios. O marquês era o assunto principal das discussões, ele e a cunhada. Cunhada! Ashdowne não mencionara a iminente chegada de parentes naquela manhã quando brincara com os dedos de Georgiana. Ajeitando as luvas, ela deduziu que não houvera oportunidade para o assunto vir à tona. Então por que ele marcara aquele encontro, se estava comprometido com a cunhada? A insegurança tornou-se ainda maior conforme as fofocas fluíam. Matronas admiravam o adorável casal: Ashdowne e a viúva de seu irmão! Quão atencioso fora ao confortar a pobre mulher no legado da família onde habitavam! As suposições vinham de mães e filhas invejosas, Georgiana disse a si mesma. Além disso, ela não tinha nada a ver com o assunto. Mas, quando conseguiu divisar o casal no salão, o coração roubado se apertou. A cunhada de Ashdowne era linda! Alta e esguia, ela prendera os cabelos negros no alto da cabeça e movia-se com graça e delicadeza. Georgiana sentiu-se desengonçada. A abrupta noção das próprias deficiências deixou-a enervada e a fez colidir com um senhor, quase lhe derrubando a peruca. Aflita, tentou arrumar o penteado do cavalheiro, sem chamar a atenção de Ashdowne. Por sorte, o marquês parecia entretido com a adorável parente. Ele inclinou-se e sussurrou algo que fez surgir um tímido sorriso nos lábios encarnados da dama. Os lábios de Georgiana começaram a tremer. Lutou contra a vontade absurda de chorar. Ela nunca choraval Também jamais havia sentido aquele horrendo e dilacerante ciúme. Desde que o contratara como assistente, desenvolvera um sentimento de posse tão profundo que se tornava impossível partilhá-lo com outras pessoas. Suas irmãs e as ambiciosas damas de Bath, que caçavam o título, eram bem diferentes da elegante cunhada. Aquela mulher, obviamente, não estava atrás do título de marquesa e tampouco ria sem parar. Na verdade, ela exibia tanta serenidade e refinamento que Georgiana logo se achou barulhenta, desajeitada e desconfortável em seu corpo. Essa comparação despertou-lhe a sensação de desprezo pela própria condição feminina. Além de possuir todos os atributos que faltavam em Georgiana, a mulher era parente de Ashdowne! Possuía origem nobre e uma ligação familiar que nunca seria rompida. Em vez de sentir pena da pobre viúva e ficar contente porque ambos podiam consolar-se na dor, foi atacada por um sentimento menor: a raiva pela posição de destaque da marquesa. Esse emaranhado de emoções tomou proporções ainda maiores. Tornou-se indomável. A fim de evitar ser vista pelo marquês e pela linda cunhada, Georgiana

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esgueirou-se pela lateral do salão. Não queria encará-los, nem deixar Ashdowne ver a terrível criatura que ela se tornara, ou estender um cumprimento cordial à viúva do irmão quando só sentia antipatia pela mulher. Endireitou os ombros e foi à procura do sr. Jeffries. Estava na hora de interromper a liderança do coração e dedicar-se a um objetivo mais sério: o crime. O desafio mental a livraria de fraquezas femininas. O investigador de Bow Street haveria de ter novas informações. Se refletissem juntos, ela e o sr. Jeffries, poderiam chegar à solução final do roubo das esmeraldas, sem a ajuda do assistente! Afinal, havia iniciado a investigação sozinha, concluiu enquanto enviava uma mensagem à residência do sr. Jeffries. O marquês, a princípio, era considerado um dos suspeitos. Com Whalsey e Hawkins fora do páreo, o único nome da lista que restava era o dele. O pensamento a incomodou. Claro que a idéia de Ashdowne ser o ladrão era tão ridícula quanto divertida. Portanto precisava recomeçar a investigação com clareza e objetividade. Georgiana odiava admitir, no entanto, voltara à estaca zero, não tinha pista alguma. Mas o sr. Jeffries, por mais lento que fosse, a iluminaria. Não precisou esperar muito tempo para que o investigador respondesse a mensagem. Georgiana, que aguardava do lado de fora do Pump Room, acenou quando o viu aproximar-se. — Mandou me chamar, senhorita? — Ele sorria, e os olhos castanhos brilhavam de curiosidade. — Sim. — Puxou-o pela manga do casaco para que chegasse mais perto. — Creio que tenho más notícias ao senhor. — Mesmo? — Jeffries pareceu surpreso. — Mesmo. — Georgiana suspirou. — Acredito que o sr. Hawkins seja inocente… quero dizer …em relação ao roubo da jóia — completou, depressa. o vigário, com suas estranhas propensões, não poderia adequar-se ao sentido puro do termo. — Bem, senhorita, acho que tem razão quanto a isso — ele disse, esfregando o queixo. — Pedi a um de meus colegas que investigasse o último posto do sr. Hawkins. Logo, não penso que ele tenha feito algo pior que uma pequena… indiscrição — Jeffries acrescentou. — Ele alega ter estado na despensa com a sra. Howard na hora do crime. Talvez o senhor queira verificar a veracidade do depoimento. Jeffries olhou-a com um misto de surpresa e admiração. — Farei isso, senhorita. E o manterei sob vigilância, embora não creia que ele esteja de posse do colar. É um tanto bizarro, no entanto, não me parece alguém apto a planejar um assalto tão ousado. — Ele é muito ocupado — Georgiana emendou. — Entre angariar contribuições financeiras e outras… atividades, não vejo como o sr. Hawkins pudesse arranjar tempo! — A senhorita encontrou alguns culpados e não o responsável correto. — Jeffries riu. — Mas se não é o vigário, quem? — Não posso lhe dizer, senhorita. Não me importo em confessar que este roubo me deixou perplexo. Conversei com todos os criados, e ninguém viu nada. Afirmam que o vigia não abandonou seu posto diante da porta do quarto e nem sequer cochilou. Tenho a lista de convidados e a maioria deles é

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suspeita, exceto um que jamais seria capaz de realizar a façanha. — A menos que o responsável seja um penetra — Georgiana refletiu em voz alta. — E passou despercebido. — Jeffries fez uma pausa. — O fato de a porta do quarto estar trancada é intrigante. Isso me lembra… — Ele se deteve e meneou a cabeça. — Não. Faz muito tempo. Georgiana estava prestes a lhe perguntar acerca da última dedução quando avistou o sr. Savonierre entrando no Royal Crescent, um dos endereços mais chiques de Bath. Assustou-se e sentiu um arrepio de frio apesar do calor. Recordou a conversa do dia anterior e virou-se para Jeffries. —- Creio que o sr. Savonierre está impaciente — comentou. — Ashdowne me disse que ele é muito poderoso. Não o fará arrepender-se de investigar o caso, sr. Jeffries? — Georgiana sabia que os mais ricos abusavam da autoridade a fim de oprimir os frágeis. E ficaria arrasada se o investigador de Bow Street perdesse a posição ou fosse substituído. — O olhar sombrio e a língua afiada já me fazem lamentar — Jeffries ironizou. — Contudo, não penso que ele irá puxar minha orelha por cumprir meu trabalho. O sr. Savonierre, embora estranho, é justo, creio. Havia boatos de que a elegante residência, na qual Savonierre entrara, era sua hospedagem em Bath. — Se ele é tão devotado a lady Culpepper, surpreende-me que ele não tenha se hospedado em sua mansão. — Oh, ele chegou a admitir a idéia, porém, depois do roubo, preferiu instalar-se ali. — Jeffries apontou o Royal Crescent. Georgiana ficou em silêncio, ponderando sobre o que escutara. — Ontem o sr. Savonierre disse que veio a Bath assim que soube do ocorrido. Imaginei que ele tivesse chegado com o senhor. — Não, senhorita. Savonierre estava aqui naquela noite. Os criados confirmaram que ele trancou o quarto logo após o assalto e guardou a chave. Com o coração em disparada, ela encarou o investigador. — Como pode ser? Eu não o vi! Savonierre não compareceu ao baile, tenho certeza. Cheguei a pensar de que maneira ele soube do roubo tão depressa. Se já estava aqui, por que não apareceu na festa? E por que espalhou pela cidade que chegou logo depois do incidente? Ciente do rumo que os pensamentos de Georgiana tomavam, Jeffries interveio: — Não, senhorita! Não ouse acusar de ladrão um dos homens mais ricos e poderosos do país! — Por que não? — Georgiana sentiu um novo ânimo. — Acho curioso esse comportamento de se manter oculto até o roubo acontecer. — Ele sempre se comporta assim, senhorita. Esse é Savonierre. Dizem que, com um sussurro apenas, o governo se rende a sua vontade. O príncipe… Georgiana dispensou os argumentos pois não eram pertinentes à investigação. O interessante era que, a despeito do forte laço com lady Culpepper, Savonierre estava escondido em Bath, tal qual Ashdowne! Aliviada com a importante informação, retirou-o da lista de suspeitos e acrescentou Savonierre. Afinal, o homem era um vilão perfeito: sombrio, reservado, misterioso e desagradável. Infelizmente, Jeffries precisava convencer-se daquela possibilidade. — O que um homem como ele iria querer com aquele colar? Possui uma

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fortuna bem maior que a do príncipe! Poderia comprar centenas de esmeraldas e atirá-las ao povo — Jeffries fantasiou, ignorando a teoria de Georgiana. Uma estranha sensação a invadia, porém não sabia defini-la. Reflexiva, observou a elegante residência de Savonierre. Segundo fatos concretos, o homem se encontrava no lugar certo, na hora certa e sob estranhas circunstancias. Entretanto, não era um ladrão qualquer. Savonierre trataria o ato criminoso como um jogo ao qual poderia vencer, e zombaria de tentativas patéticas para identificá-lo. Os devaneios foram interrompidos pelos protestos de Jeffries. — E por que me contratar? Para ser pego? — A camuflagem perfeita — Georgiana murmurou. — Talvez ele se divirta em observar nossos esforços a fim de obter a verdade, enquanto permanece inocente. Savonierre sabe que nunca suspeitaríamos dele. — Mas por quê? — Jeffries persistiu. — Não sei. No entanto, algo me diz que há muito mais em jogo que apenas dinheiro. Ainda cético, Jeffries alertou-a de forma indireta: — Ninguém se atreveria a confrontá-lo, senhorita. É muito perigoso — o investigador de Bow Street murmurou com a voz soturna. — Sim! — Georgiana exclamou, mas já estava convencida. Pretendia provar a Jeffries e a todos quão perigoso e culpado era Savonierre. Afastando-se do detetive, que ainda meneava a cabeça, começou a caminhar para elaborar a próxima estratégia. Não se intimidaria com a reputação do novo suspeito. Savonierre não era feito do mesmo tecido que Whalsey ou Hawkins. Parecia esperto demais para chegar ao ponto de cair em contradição. E seria complicado, quase impossível, segui-lo sem lhe despertar a atenção. Talvez fosse um oponente mais valioso que os outros, Porém não tão difícil de capturar. A ausência do assistente causou-lhe certa apreensão. No entanto, estaria melhor sozinha se considerasse a inimizade entre Ashdowne e Savonierre. Lembrou-se claramente do último encontro, quando ambos haviam se encarado como predadores, embora civilizados. Sorrateiros e elegantes, eles pareciam um par de gatos selvagens. Chocada, Georgiana parou no meio da calçada, alheia ao olhar espantado dos transeuntes. — O Gato claro! — exclamou, espantada com a dedução. Durante todo o tempo pressentira que algo lhe escapava na investigação, a peça fundamental para desvendar o mistério. Agora tudo parecia surgir com extrema clareza. O roubo de lady Culpepper assemelhavase a outros, não em Bath, e sim em Londres. Como ávida seguidora dos casos da equipe de Bow Street e de outros profissionais do ramo, Georgiana lia tudo a respeito de crimes que assolavam a cidade, sobretudo de homens que os solucionavam. E o gatuno mais notório dos últimos tempos fora o Gato. Ninguém conhecia sua identidade, claro, porque jamais fora pego. Apelidaram-no de Gato devido a habilidade que possuía de entrar e sair das casas das vítimas com facilidade, desaparecendo sem deixar traços de arrombamento… e janelas abertas! O crime ocorrido na casa de lady Culpepper parecia idêntico às descrições atribuídas ao ousado criminoso.

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E o porta-jóias estava aberto! Até esse sinal era típico do Gato. Uma das razões de sua estiroa nos noticiários dos jornais era a peculiaridade das escolhas. Ele não roubava mais que uma jóia, a mais cara de todas, e sempre deixava a caixa aberta com todo conteúdo exposto, como se zombasse das autoridades ou das vítimas. O Gato agia entre os mais afortunados, cuja perda nada representaria, e nunca roubava muito. A aparente falta de ambição, somada ao processo audacioso, havia arrebatado a imaginação dos londrinos. Especulou-se que ele fazia parte da elite, claro, pois quem mais poderia ter acesso exclusivo às mansões e às grandes recepções? Na realidade, ele roubava as pedras mais valiosas durante festas e bailes, sumindo, em seguida, sem deixar rastros ou pistas. Muitos membros da sociedade admiravam o Gato, desde que não fossem roubados por ele. Georgiana tinha lido detalhes de vários crimes certa de que, se pertencesse ao círculo social, poderia desmascarar o destemido ladrão. Sempre estivera presa a simples condição do Texas, e os jornais londrinos lhe chegavam através de seu tio, semanas após os crimes terem ocorrido. Nunca fora a Londres, jamais circulara entre os nobres e tampouco o Gato havia sido agarrado. Não se lembrava de quando os artigos começaram a desaparecer dos jornais, no entanto, tinha quase certeza de que o último roubo fora cometido havia mais de um ano. Meses se passaram sem que o Gato voltasse a agir e, em consequência, o público acabou perdendo o interesse. Os tablóides haviam especulado na época que talvez tivesse sido condenado por outro crime efetuado sem grande repercussão, ou fora assassinado pelos criminosos do submundo. Ou então, segundo Georgiana, o gatuno simplesmente mudara de local. Nos arredores de Londres os responsáveis pela lei eram xerifes e magistrados, muitos deles inadequados ao cargo. Alguns eram desonestos, outros despreparados e sem dinheiro para organizar equipes de investigação. E havia pouca comunicação entre as variadas autoridades. Teria o Gato percorrido, no último ano, regiões rurais, furtando jóias aqui e ali, nas residências aristocratas? Se assim acontecera, os crimes permaneceriam sob inquéritos nos distritos locais, a menos que alguém convocasse um investigador de Bow Street, uma rara ocorrência aliás. E a cidade dos jornalistas, a melhor fonte de informação de Georgiana, também não teria acesso aos fatos fora da capital. Talvez Londres houvesse se tornado um lugar visado após tanta publicidade, sendo assim, o Gato teria de se mudar, viajando por cidades como Brighton, onde os nobres gostavam de repousar no verão. E por que Bath? Sem dúvida, não havia uma provisão tão seleta de jóias. Porém, as esmeraldas de lady Culpepper eram famosas. Talvez o Gato tivesse um interesse maior por elas além do valor financeiro. Sentando-se em um muro baixo, Georgiana continuou a ponderar. A imprensa exagerara ao extremo as peripécias ilegais do Gato. Na verdade, subestimará as qualidades do homem. Devia ser muito ágil e bem mais esperto do que ela calculara. O sr. Cheever e o vigário, os primeiros suspeitos, não eram inteligentes o bastante para desempenhar tal empreitada. Nem circulavam nos meios sofisticados onde o Gato havia colocado suas "garras". Contudo, o terceiro suspeito, Savonierre, sim.

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O calor da animação ruborizou as faces de Georgiana. Savonierre frequentava as mansões mais abastadas e, sendo afortunado pelo próprio direito, ninguém o acusaria de atos criminosos! Por que ele seria um ladrão? Porque adorava a emoção do perigo e secretamente desprezava a hipocrisia dos nobres? Que melhor maneira de mostrar seu desdém sem cortar os laços que o prendiam à nobreza? Decidida, Georgiana levantou-se, certa de que agora obtivera um suspeito real. Como iria provar? Precisava descobrir onde estava Savonierre na hora do crime de lady Culpepper, e, também, na ocasião em que os outros foram efetuados. Para tanto, teria de investigar seus movimentos um ano antes e verificar se correspondiam às atividades do Gato. Poderia inquirir os criados de Savonierre, claro, mas não queria levantar suspeitas. Tampouco desejava que o abominável nobre desconfiasse dela. Não, necessitava traçar suas ações sem o conhecimento de Savonierre. O lugar mais adequado para iniciar sua busca seriam os jornais que haviam registrado a existência do Gato. Com um sorriso de triunfo, Georgiana correu até sua casa, sabendo onde encontrar tais artigos. Após longo esforço e exaustiva insistência, os pais resolveram ceder aos intermináveis argumentos da filha, permitindo que ela fosse a Londres visitar o tio-avô. Georgiana suspeitava que a antipatia de sua mãe por Silas Morcombe seria, na atual conjuntura, menos importante que o desejo de separá-la de um conhecido marquês. Então, recolheu a pequena quantia em dinheiro que acumulara e subornou Bertrand a fim de que ele a acompanhasse. Jamais utilizara tais artifícios, mas se tratava de uma boa causa. Preferia gastar suas economias na investigação a comprar adereços femininos nas chapelarias da moda. O coche foi alugado e, embora houvesse passado o dia no veículo, a viagem havia sido mais curta que a de sua cidade a Bath. Por fim, ao entardecer, ela e o irmão foram recebidos pelo entusiasmado Silas Morcombe. Depois do jantar, com Bertrand sentado em uma confortável poltrona, tal qual o pai, Georgiana confidenciou ao tio-avô a natureza de sua repentina visita. — Preciso fazer uma pesquisa em seus jornais — ela disse, enquanto Silas vasculhava a acolhedora sala, repleta de livros e papéis, à procura dos óculos. — Estão em sua cabeça, tio — avisou-o. — Ah, é claro. — Silas ajeitou as lentes e sentou-se. — Onde estávamos? — Nos jornais — Georgiana lembrou-o, ansiosa. — Sim, sim, estão no sótão. Durante anos arquivei exemplares de Morning Post, Times e Gazette. Terá de esperar até amanhã para examiná-los. Procura algo em particular? — Sim. Estou trabalhando em uma nova investigação. — Foi o que imaginei. — A notícia deve ter sido ventilada. As famosas esmeraldas de lady Culpepper foram roubadas e por coincidência eu estava lá! É a investigação mais importante de minha vida. Conto com ela para assegurar meu sucesso. Morcombe resmungou consigo mesmo ao ouvir o nome da vítima. — Culpepper… Ah, sim. Ouvi falar desse evento sob todos os aspectos, como diria sua mãe. — Apesar de não frequentar os lares da nobreza, Silas era

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um homem bem informado e estava sempre atualizado. — Bem, admito que Lady Culpepper não seja das damas mais ricas, mas assaltos não são raros na sociedade — Georgiana comentou. — Não são mesmo. Jogos, minha querida, são a ruína de pessoas como lady Culpepper — Silas proferiu. — Quer dizer que ela perdeu sua fortuna nas mesas de jogo? — Georgiana ficou surpresa. Lembrou-se da acusação do vigário quando afirmou que o roubo havia sido simulado com o fim de obter o dinheiro do seguro. Agora a possibilidade parecia mais aceitável. — Não creio que ela seja presa pelos débitos, mas é uma jogadora inveterada, e há rumores de que suas cartadas não são das mais honestas — Silas explicou. —- Ela… trapaceia? — Georgiana balbuciou. Silas riu da expressão chocada da sobrinha. — Não posso afirmar com convicção, foi o que ouvi dizer. E é fato que ela parece ganhar grandes quantias, especialmente das jovens inexperientes que não conseguem perceber as trapaças. — Oh, que injustiça! — Georgiana exclamou. Como a nova informação poderia repercutir no caso?, refletiu. Lady Culpepper era inescrupulosa apenas no jogo? Teria ido tão longe a ponto de roubar o próprio colar? E quanto a Savonierre? Que papel representaria na história? E o Gato? Após ter descoberto a relação entre o roubo de Bath e o notório ladrão, Georgiana não desistiria facilmente. — Talvez as jovens damas tenham decidido recuperar a soma que lhes foi usurpada, roubando-lhe a jóia — Silas sugeriu. — Pode ser… — No entanto Georgiana não conseguia visualizar nenhuma dama da sociedade aliada ao Gato, ainda mais alguém incapaz de notar as trapaças do oponente. Pensativa, soltou um suspiro, espantando um farto cacho dourado de seus olhos. — Esse caso está ficando bem mais complicado que imaginei — murmurou. Silas sorriu. — É um desafio e tanto para você, querida. — Verdade. O tio-avô tinha razão. Havia muito desejara um teste intelectual e, enfim, encontrara-o. Mas preferia um adversário menos assustador que Savonierre. De alguma forma, desenvolvera carinho e admiração pelo ladrão, um detalhe que não se ajustara a nenhum dos suspeitos, pensou. Era frustrante, porém não havia escolha quando se lidava com criminosos. E Georgiana tinha de encarar as eventuais recompensas como resultado de seus esforços. Durante a viagem de coche havia imaginado o sucesso. As vezes, um certo marques fustigava-lhe a mente; logo o espantava, decidida a solucionar o caso. Em fantasia, via-se desmascarando o Gato! No dia seguinte, leria os jornais à procura de mais informações. Se conseguisse descobrir a identidade do famoso ladrão, seria para o bem de todos, por enquanto, deixar-se-ia levar pelos efeitos da longa jornada e das várias peças em evidência as quais lhe confundiam o raciocínio. — É muito curioso — murmurou. — Muito curioso mesmo.

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CAPÍTULO XIII A pesar da distância e da nova paisagem, Georgiana concluiu que Ashdowne não sairia de seus pensamentos com facilidade. A figura do marquês era frequente nos sonhos que se resumiam a imagens sensuais e misturavam-se a pesadelos, nos quais ele e Savonierre se transformavam em bestas assustadoras. Sem esperança de um sono reparador resolvera se dedicar ao trabalho. Dirigiu-se ao sótão, onde passou o dia inteiro debruçada sobre os jornais. Claro, itens interessantes sempre lhe chamavam a atenção, mas não se permitiu distrair-se com nada além de seu objetivo e limitou-se às ações de Savonierre. Não foi difícil encontrá-las já que o nobre era o favorito das fofocas. — "O sr. Savonierre recebeu em sua nobre residência convidados para um baile elegante na noite passada" — Georgiana leu em voz alta. Anotou a data, ignorando as descrições sobre o cardápio e detalhes da decoração. Então pegou outro jornal. "Um certo rico e renomado sr. S. foi visto no° casamento de lady B"… O artigo omitia os nomes mas na verdade, a maioria deles não se referia à influência que Savonierre exercia sobre o governo, mas à escolha das atraentes companheiras. Georgiana ficou desapontada. Não obstante, o homem sinistro não era o único a preencher os artigos. "O jovem irmão do marquês de A. continua a circular pela cidade. Noite passada, ele foi visto em quatro salões diferentes", diziam as linhas. Por mais que tentasse evitar, Georgiana sentia um aperto no coração. "Johnaton Everett Saxton, o irmão mais moço do marquês de Ashdowne, esteve presente no baile de lorde Graham, rodeado de damas da sociedade. Seu charme carismático o torna favorito na roda feminina". A constante citação de Ashdowne, quando era apenas o irmão do marquês, ocupava páginas e páginas para o desgosto de Georgiana. Infelizmente, ele e Savonierre haviam frequentado os mesmos locais, o que não era estranho, considerando que ambos faziam parte da elite. Contudo, o contínuo aparecimento de Ashdowne a deixava apreensiva. Se não o conhecesse, teria imaginado que ele era o Gato, Georgiana pensou, rindo consigo mesma. Embora tentasse ocultar os sentimentos para não examiná-los, fazia anotações acerca dos movimentos do assistente. Em paralelo, esquematizava as atividades sociais de Savonierre com o intuito de comparar tais informações à lista de quando e onde o Gato havia atuado. O mais interessante era que o ladrão não roubara nada de Savonierre, uma pequena informação que confirmava as suspeitas de Georgiana. No início, ela pretendera somente vasculhar os jornais pára verificar as investidas do Gato ao longo dos anos. Tão logo começou, a tarefa estendeu-se por três dias de pesquisa ininterrupta. Nas edições mais recentes, buscou alguma menção de crimes ocorridos em outras cidades cujos métodos adotados se assemelhassem aos do Gato, nada foi encontrado. Era como se o mestre dos ladrões houvesse desaparecido da face da Terra. Em vários momentos, a concentração foi interrompida pelo tedioso

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Bertrand que exigia retornar a Bath. Georgiana mantinha-se firme. — Vá embora! — gritava, antes de voltar aos jornais. Não ousou admitir, mas descobrira conforto nas vastas linhas impressas porque havia nuanças preciosas entre as variadas declarações. Fatos eram o seu forte, e mostravam-se muito mais fáceis de se lidar que pessoas. Todavia, Bertrand conseguira incitar o tio contra ela. Silas Morcombe surgiu, trazendo uma bandeja de sanduíches, no terceiro dia de pesquisa. Empurrou uma enorme pilha de papéis e sentou-se diante da sobrinha, forçando-a a cessar o pesquisa. — Está obtendo sucesso? — Silas indagou enquanto limpava as lentes dos óculos na barra do casaco. — Estou. Fiz listas e diagramas e, após um exame superficial, creio que minhas suspeitas estão corretas. Não sei como lhe agradecer pela ajuda que sua inestimável coleção tem me dado — acrescentou, sincera. — Fico feliz que tudo isso lhe seja útil. — Silas recolocou os óculos. Os olhos por trás das lentes expressavam inteligência. Georgiana sentiu-se constrangida, tal qual uma estudante que desapontara o professor. Por fim, o tio olhou as prateleiras que rodeavam o sótão. — Bertrand está ficando impaciente — comentou, casual. — Eu sei. De hora em hora ele bate à porta só para me perturbar! — Georgiana queixou-se. — Eu pretendia pesquisar somente as edições mais antigas, mas decidi procurar referências do ladrão nos meses recentes. Por isso o trabalho tem sido demorado — explicou. — É mesmo? — o tio perguntou, e Georgiana sentiu-se corar. — Se está investigando o roubo, pode ficar aqui o tempo que quiser, querida. Mas, se está enfurnada neste sótão com o objetivo de evitar questões mais difíceis a serem examinadas… — Que histórias Bertrand inventou? — Georgiana o interrompeu, mortificada de vergonha. Se a estada na casa do tio era mais agradável que retornar a Bath e ao conflito sentimental, quem poderia culpá-la por se esconder? De certa forma, a urgência em solucionar o caso a pressionava e a determinação se misturava a pensamentos sobre um homem que começava a obscurecer a investigação. — Ele mencionou um certo marquês — Silas disse, gentil. — Meu assistente! — Georgiana protestou. — Ashdowne é meu assistente e nada mais. Desviando-se do olhar do tio, ela pegou um jornal e fingiu lê-lo. De repente, Silas resolveu intervir ido ela menos esperava, ou desejava ouvir! Muito bem. Você aceitaria o conselho de velho? — Claro. — Georgiana sentiu-se rude após tudo que o tio fizera por ela. — Otimo. — Ele sorriu. — Não cometa o mesmo erro que eu, querida. Se continuar imersa em estudos e projetos, vai acabar se esquecendo das pessoas. Georgiana empalideceu, e Silas riu. — Tive uma vida boa e a aproveitei. Seu avô fez uma escolha ainda melhor. Ele tinha Lucinda, sua mãe e os netos… — Silas mergulhou em recordações, surpreendendo Georgiana. — Mas são tão tolos, tio! — Ah, família é família. Apesar da tolice, é uma alegria para um velho cansado. Se enfiar o nariz em livros, jornais ou casos, perderá boa parte da

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vida — ele a preveniu. — É uma linda jovem, Georgiana, e não quero que termine solitária. Dito isso, ele se levantou e caminhou à porta. — Vou deixá-la com sua pesquisa, por enquanto. Georgiana o observou sair, estava perplexa. Jamais imaginara que Silas invejava o irmão, principalmente porque seu avô vivia queixando-se da barulheira dos netos quando o visitavam. Meneou a cabeça, pousando o jornal sobre o colo. As pessoas eram tão difíceis de entender! Por esse motivo ela preferia os fatos. O pensamento levou-a de volta a Ashdowne. Georgiana sentiu certa culpa por não ter sido honesta com o tio. O marquês era mais que assistente. Mas o quê? Tratava-se de uma pergunta que vinha evitando responder. Olhou o jornal e notou outra menção ao nome de Ashdowne. "Uma certa lady C, conhecida pelo talento nas cartas, ganhou uma chocante quantia em dinheiro da marquesa de Ashdowne durante o baile de lady Somerset. Presume-se que o cunhado da marquesa honrará a dívida, e ela, por sua vez, deixará a cidade." — Tio! Escute isso! — Georgiana releu o artigo para Silas, que permanecia à porta. — Parece-me que seu assistente conheceu de perto a duvidosa reputação de lady Culpepper. — Estranho. Ele nunca comentou o fato. Ashdowne tampouco mencionara a cunhada, Georgiana ponderou. Teria ele se indignado com o pagamento de uma dívida que não fizera, ainda mais quando a dama em questão tinha a fama de trapacear? Porém tal perda não era incomum entre os nobres e talvez o marquês nem houvesse notado a "chocante" soma. O terrível pressentimento de que havia muito mais a ser resolvido entre ela e Ashdowne tomou-a de assalto. De súbito, sentiu a necessidade de ouvir explicações referentes ao assunto. Em vez de solucionar o caso por prazer pessoal, os dias de estudo ocasionavam uma série de fragmentos dispersos, pequenas dúvidas e incertezas. Porém, estava claro que se esconder atrás daqueles jornais velhos não ajudaria a completar a investigação. Já era hora de parar de fugir de si mesma. — Espere por mim, tio! — ela avisou-o, enquanto recolhia listas e diagramas. Precisaria de todas as evidências para convencer o sr. Jeffries de que Savonierre era o famigerado Gato. E Georgiana agarrou-se à teoria com a ferocidade do desespero. Tinha de ser Savonierre, pensou. Qualquer um, Ashdowne. Atendendo ao conselho do tio, ela cumprimentou a família com entusiasmo renovado, suportando as risadas das irmãs e a natureza brincalhona do pai. Segundo ele, um certo marquês quase enlouquecera ao saber da súbita viagem de Georgiana e apareceu na residência dos Bellewether mais de uma vez enquanto ela estivera ausente. A boa notícia provocou novo conflito: viu-se dividida entre a repentina alegria e o descrédito. Se dispensava tanta atenção à cunhada, por que Ashdowne notaria a ausência de Georgiana? Mas ele, tão logo soubera do regresso dela, convidara-a para um passeio. Embora elegante e bem-composto como sempre, Ashdowne lhe

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pareceu diferente. Por trás da expressão nobre e da cortesia, não conseguia disfarçar certa tensão que Georgiana jamais percebera. Teria o assistente descoberto uma pista importante à investigação? Ou seria um adeus antes de retornar ao lar com a cunhada? Ansiosa, Georgiana o observava conversar com a família. Expectativa e medo a afligiam. Quando, enfim, conseguiram se livrar das irmãs, apoiados pelo explícito auxílio do sr. Bellewether, ela tinha dúvidas se desejava estar a sós com o assistente. Por um longo tempo, caminharam em silêncio. Intrigada, começou a questionar aquele convite. Tentava encontrar algo interessante para romper a pesada quietude quando ele finalmente falou: — Devia ter me avisado que pretendia viajar— As palavras soaram em tom acusatório. — Eu queria fazer uma pesquisa na casa de meu tio-avô — explicou. — Aquele cuja confiança não é suficiente para escoltá-la em Londres? — Ashdowne perguntou, azedo. — Sim, mas não saímos da residência. Passei os dias lendo jornais velhos. — Jornais velhos? — A voz de Ashdowne revelava ceticismo. — Sim, jornais velhos. — Georgiana parou para fitá-lo. — O que há com você? Longe de mostrar sofrimento, Ashdowne ergueu as sobrancelhas e sorriu, irônico. — Imaginei que devesse ser informado a respeito de seus movimentos. Se bem me recordo, tínhamos um encontro no Pump Room três dias atrás, e você não apareceu. Considerou a hipótese de eu estar preocupado com seu sumiço? Ruborizada, Georgiana lembrou-se da própria covardia ao vê-lo acompanhando da adorável cunhada. — Eu… não pensei que fosse notar — murmurou. — Não pensou que eu fosse notar — ele repetiu. As palavras foram ditas com tamanha calma que Georgiana suspeitou que Ashdowne estivesse zangado, talvez até furioso. O que haveria estimulado a ira? Aparentemente, o não comparecimento ao encontro afetara uma faceta do marquês que ela não conhecia. — Perdoe-me. Eu devia ter dito a você que estava partindo, mas a idéia surgiu de repente, sabe. — E era verdade. — Descobri informações surpreendentes sobre o caso. A expressão de Ashdowne tornou-se ainda mais sombria. — O caso! — Claro. E tão emocionante! Sem dúvida, eu deveria tê-lo avisado da viagem, uma vez que é meu assistente… — Seu assistente — ele ecoou. Os olhos azulados faiscavam de tal forma que fugiam à compreensão de Georgiana. — Sim. — Ela não estava preparada para a emoção que emanava de Ashdowne. Acostumada a fatos e lógica, mal reconhecia os próprios sentimentos. E pior, aquela repentina ferocidade a confundia. — Bem, talvez eu queira ser mais que um estúpido assistente. Gostaria de ser um homem, para variar. Talvez… — Ashdowne ergueu as mãos. — Oh,

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droga. Nem sei mais o que quero. Desde que a conheci, não consigo pensar! Georgiana espantou-se com a veemência, apesar de partilhar a sensação. O que queria dizer com "ser um homem"? Não pretendia auxiliá-la mais? De forma literal, ela verbalizou a preocupação, trêmula: — Não quer ser meu assistente? Ashdowne encarou-a como se ela tivesse duas cabeças. Então, como sempre, soltou uma gargalhada. — Francamente, Georgiana, não sei se a estrangulo ou a levo para a cama. Oh, Deus, como senti sua falta. O coração de Georgiana se derreteu com aquela confissão espontânea, e partes do corpo se incendiaram ante a ameaça de levá-la para a cama, ele aproximou-se, alheio aos transeuntes na rua. — Oh, Ashdowne, não fale assim — murmurou, agoniada. — Por que não? — O marquês tomou os delicados dedos trêmulos e pousou-os sobre o próprio braço. Voltaram a caminhar. Porque você me faz querer algo que não posso ter, Georgiana respondeu em pensamento. — Porque não consigo pensar direito — disse, ao invés de confessar o sentimento. — E eu consigo? — Claro que sim. Não fiz ou disse nada para perturbá-lo — Georgiana argumentou. — Não precisa. Tudo que tem de fazer é estar presente e respirar. — Bem, estamos presos a um impasse. Por mais que a declaração a afetasse, não sabia aonde Ashdowne queria chegar. Como ela, o marquês não parecia à vontade com a proximidade. — Só vejo uma solução — Ashdowne enunciou, parecendo concluir algo desastroso. — Para evitar impasses, no futuro, não se refugie na casa de seu tio sem me avisar. — Espere um instante. Não me refugiei na casa de meu tio. Estava estudando o caso. Ofendida com as palavras de Ashdowne, Georgiana só agora se dava conta de que ele não perguntara sobre a investigação. — Se quiser saber, fiz grandes avanços — ela comunicou, de queixo erguido. — Verdade? — O tom seco transparecia frustração apenas. — Verdade. Mas, se não estiver interessado na investigação… — Georgiana se deteve quando ele parou de caminhar. — Está bem. Vá em frente e relate a incrível descoberta antes que estoure de ansiedade. Sorridente, ela chegou mais perto a fim de partilhar a informação em segredo. — Acredito que nosso ladrão seja o famoso e destemido Gato! — sussurrou, animada. Ashdowne, que em raras ocasiões se revelava, encarou-a, horrorizado. — Já ouviu falar do Gato? — ela perguntou, surpresa. — É claro que já ouvi falar dele. Mas… — Então deve ter percebido que seus métodos são semelhantes aos utilizados no roubo de lady Culpepper. — Não imaginei… Empolgada, ela não o deixou terminar.

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— O Gato nunca foi pego, sabe, e estou convencida de que estava perambulando pelo interior do país, à procura de um novo local para agir. E ele o fez em Bath! — concluiu, triunfante. Sôfrega, aguardou que Ashdowne elogiasse tamanha esperteza ou, ao menos, mostrasse aprovação. Porém, contrariando a expectativa, não pareceu impressionado. Na realidade, o elegante marquês esfregou o rosto, como se tentasse acordar de um pesadelo. — Georgiana, você acredita que o sr. Hawkins seja o Gato? — indagou, exasperado. — Oh, não! Encontrei um suspeito à altura: o sr. Savonierre! — exclamou, maravilhada consigo própria. Ashdowne não correspondeu à animação. Encarou-a com o semblante rígido. — Não. — Meneou a cabeça. — Não, Georgiana. Isso já foi longe demais. — O que quer dizer? — ela perguntou, desapontada. Ora, não havia sido o sr. Jeffries quem reconhecera as similaridades entre o roubo do colar e as ações do Gato. Sozinha, Georgiana fizera as conexões e não se importaria de receber um mero elogio pelo exaustivo trabalho. No entanto, Ashdowne somente a fitava, perturbado. — Você abusou da sorte quando descobriu o plano de Whalsey e Cheever e perseguiu o pobre vigário, mas Savonierre é perigoso. Tem de parar com essa bobagem agora — ele esbravejou. — Bobagem? — Era assim que Ashdowne enxergava a investigação? — O que está dizendo? — exigiu. — Quando pediu-me para contratá-lo como assistente, achei que fosse diferente dos outros homens. Não me diga que é tão condescendente e hipócrita quanto os outros! — Não, não sou. Eu a admiro, Georgiana. Sei que é inteligente demais para seu próprio bem. Não pode acusar o homem mais poderoso do país de roubar uma jóia! A repreensão de Ashdowne foi tal qual uma punhalada no peito. — Por que não? Passei dias traçando os movimentos de Savonierre nos jornais antigos e afirmo que ele se encontrava no lugar certo e na hora certa. — Georgiana, isso não significa nada. Tenho certeza de que dúzias de membros da sociedade estiveram nos mesmos lugares. — Na verdade, não. — Georgiana começava a perder a paciência. Ele a achava estúpida? — Reparei que somente duas pessoas estavam constantemente onde o Gato aparecia. Uma era o sr. Savonierre e a outra, você. Ashdowne fitou-a por um longo instante antes de rir. — É gratificante que minhas ações tenham sido registradas pelos jornais com tanto fervor. Contudo, não devia acreditar em tudo que lê — disse, desdenhoso. Diante do olhar de Georgiana, ele se transformou no reservado e arrogante marquês de Ashdowne. — Minha tola criança, você é esperta, mas não sábia. O tom de voz, carregado de desprezo, reduziu as fantásticas deduções a cinzas. Tola criança? O que aconteceu a Georgiana, minha querida?, ela refletiu, lembrando-se das doces carícias que Ashdowne lhe sussurrara. — Eu não apostaria tanto em meras coincidências, reportadas por

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jornalistas fofoqueiros — Ashdowne aconselhou-a de maneira tão arrogante que ela teve vontade de estapeá-lo no rosto. — Quanto ao Gato, ele se foi. Deve ter sido morto e queimado ao tentar roubar um semelhante. A menos que possa provar o contrário — desafiou-a. — Claro que não posso provar o contrário, assim como você não poderá me convencer de que ele esteja morto. No íntimo, Georgiana teve a nítida impressão de que saberia caso o valoroso oponente estivesse morto. Portanto, ignorou a teoria de Ashdowne, como ele fizera com a dela. Reorganizou os pensamentos e o encarou, Atônita. — O que há com você? — Creio que não gosto de ser apontado como um ladrão qualquer — respondeu, frio. — O Gato está longe de ser um gatuno insignificante e não o acusei de nada, Ashdowne. Disse-lhe apenas que Savonierre é o culpado. — E eu lhe disse para deixá-lo fora disso — Ashdowne vociferou e agarrou-a pelos ombros. — Se pretende insistir na resolução desse mistério, ache alguém mais inofensivo com o qual possa brincar de detetive. Mas fique longe de Savonierre. Brincar de detetive? Desvencilhando-se do toque que outrora a havia estonteado de paixão, Georgiana jogou os cachos para trás, resoluta. — Não tem o direito de ditar ordens! — Ah, não? — Ashdowne ameaçou-a. Embora ainda sustentasse a fachada frívola de marquês, Georgiana notou um brilho atormentado nos magníficos olhos azuis. Ficou petrificada diante da súbita mudança de comportamento. Estavam tão envolvidos na discussão que não notaram a aproximação intrusiva. — Oh, Ashdowne. Esqueceu-se de que se encontra em público? Não sei ao certo, mas me parece que deseja intimidar a dama. Eu hesitei em intervir, no entanto, minha honra de cavalheiro foi mais forte. Posso ajudá-la, srta. Bellewether? Georgiana achava-se tão atordoada que levou alguns segundos para perceber o potencial suspeito diante de si, apresentando-lhe préstimos. — Sr. Savonierre! É o homem que eu queria ver! — Que fortuita coincidência. Vamos passear? — Savonierre convidou-a, oferecendo-lhe o braço. Georgiana aceitou o convite, deliciando-se com a expressão indignada no rosto de Ashdowne. Ele que se atormentasse! Não possuía privilégios sobre ela, muito menos podia ameaçá-la de forma tão vil. Além de decepcionada, sentia-se magoada com aquele comportamento. — Na verdade, a srta. Bellewether e eu estávamos tendo uma conversa particular. — Ashdow-ne bloqueou a passagem de ambos. Savonierre o confrontou, incrédulo. Encarou-o de frente, deixando claro que os modos de Ash-downe o desagradavam. — Creio que a conversa terminou. Estou certo, srta. Bellewether? — Está — Georgiana respondeu, com firmeza. Não havia nada mais a dizer a Ashdowne até que ele se acalmasse e recuperasse o estado normal. Embora os olhos do marquês faiscassem, ela endireitou os ombros e voltou a atenção a Savonierre. — Pode nos dar licença, Ashdowne? Por alguns instantes, Georgiana imaginou que o marquês continuaria

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estático e tomaria satisfações com Savonierre. Quase arrependida de ter aceito o convite, ela o viu afastar-se na mais absoluta insolência. Ashdowne a fitava de maneira acusatória. A despeito de enxergá-lo como vilão, Georgiana sentiu vontade de chorar. Controlada, ajeitou os cachos e passou por ele, sem olhar para trás. Precisava refletir sobre a investigação, ao invés de afundar-se no turbilhão de sentimentos incompreensíveis provocados por Ashdowne. — De fato, eu contava com essa coincidência pois a estava procurando. — O tom suave da voz de Savonierre despertou-a. Encarou o homem ao qual se juntara cegamente. Tentou não demonstrar insegurança, mas pres' sentiu o poder e perspicácia do nobre. — Fiquei me perguntando se a senhorita havia descoberto algo novo a respeito do colar de lady Culpepper — ele explicou, sorrindo como se a atitude de Georgiana o divertisse. Só que você é o responsável pelo roubo, pensou e reprimiu uma risada nervosa que surgiu em sua garganta. Manteve-se calada, tentando coordenar os pensamentos. Savonierre assemelhava-se a Ashdowne sobre vários aspectos. Era alto, moreno, charmoso e possuía um inato senso de poder originado, provavelmente, da enorme fortuna e das boas relações. Porém havia uma premeditação em Savonierre que não se evidenciava em Ashdowne. O marquês podia ser perigoso, ela sabia, pois testemunhara a tensão corpórea, como se cada parte dele estivesse alerta e pronta para atacar. Savonierre, por outro lado, irradiava perigo o tempo inteiro. Nas situações mais simples e inocentes, o exterior polido do homem parecia aprisionar um animal feroz à procura de sua presa. Talvez fosse a postura ameaçadora que a deixasse incomodada diante daquela presença. Ou então a intensidade. Savonierre não fitava o decote ousado, no entanto, Georgiana tinha a estranha sensação de que o homem poderia despi-la. O olhar sombrio era muito penetrante. A maneira cortês, tão exigida entre os nobres, não possuía a menor importância para ele. Aliás, qual seria a preocupação de Savonierre?, perguntou-se. Como se pudesse ler os pensamentos de Georgiana, Savonierre virouse e sorriu, maquiavélico. Sob as luvas, ela sentiu o suor nas mãos, enquanto encarava o suposto criminoso com o coração em disparada. Desde o início, havia levado a sério aquela investigação, mas só agora sentia com clareza o peso da gravidade a que estava exposta, e isso não acontecera quando vigiara Whalsey e Hawkins. — Devo supor que a investigação chegou ao fim? — Savonierre persistiu. Interrompendo as deduções, ela voltou a se concentrar e não consegui responder de pronto. Sua mente, sempre ocupada por Ashdowne, mantinha-se na discussão de minutos atrás e não atinava para a investigação. Determinada a não perder aquela oportunidade por causa do assistente, conseguiu articular uma idéia. Se pudesse encontrar um meio de virar o jogo… — Ao menos descobriu algo que ainda não sei? — Georgiana rebateu, esperando responsabilizar a calçada tortuosa pelo tremor na voz. Savonierre lançou um olhar questionador, e Georgiana manteve-se em silêncio. — Talvez uma visita à cena do crime possa ajudar — ele sugeriu. — A

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bem da verdade, eu pretendia convidá-la à festa íntima que lady Culpepper está organizando para hoje à noite. Esperava poder escoltá-la ao evento a fim de discutirmos detalhes da investigação. Sagaz, Savonierre agia como se as ruas públicas não oferecessem privacidade, tal atitude alertou-a. Georgiana não podia negar o desejo de ver a mansão outra vez, ainda mais através do acesso livre de Savonierre. Talvez pudesse conversar com os criados, pensou enquanto atravessavam uma ponte. — Eu adoraria, obrigada. — Muito bom. Esperarei ansioso por nossa conversa. O poder considerável de Savonierre pareceu engoli-la quando atingiram a metade da ponte. Angustiada com a súbita proximidade do poderoso, Georgiana tentou impor distância, mas ele segurou-a firme. Por fim, conseguiu afastar-se, e o movimento repentino tirou-lhe o equilíbrio. Aflita, levantou os braços na tentativa de se manter em pé. Entretanto, parecia destinada a cair de cabeça no rio sob a ponte até que mãos fortes a puxaram. — Não chegue tão perto da beirada — Savonierre avisou-a de forma assustadora. O homem tentara empurrá-la da ponte ou apenas a ameaçara com a possibilidade? Georgiana lutou contra a necessidade de render-se, confessando as teorias e se desculpando por elas antes de perder a vida. Quando viu a expressão de Savonierre, notou que estava tão atordoado quanto ela. Pela primeira vez, o rico e poderoso nobre parecia ter perdido a pose. O rosto estava lívido, e a respiração, ofegante. Georgiana o estudou, pasma. — Receio que tenha descoberto minha fraqueza — ele proferiu, já recuperando o semblante frio. — Não gosto de alturas — confessou, tomando-lhe a mão e conduzindoa até a outra margem do rio. Os pensamentos fluíam sem cessar. O Gato teria medo de alturas? Era impossível! Georgiana queria argumentar e, no mínimo, revelou certa confusão pois Savonierre fitou-a com olhar ferino. — Espero que possa guardar esse segredo — disse, em tom ameaçador. — Eu odiaria prejudicar uma dama tão adorável — acrescentou, explícito. Assentindo, Georgiana não sabia em que acreditar. Savonierre era inteligente o bastante para demonstrar o medo com o objetivo de mantê-la fora do caminho. Isso, se soubesse que ela havia descoberto sua real identidade. Mas como? Enervada, desejou que Ashdowne não tivesse se comportado mal para que pudesse contribuir naquele problema. O pensamento deixou-a horrorizada. Se Savonierre tinha mesmo medo de alturas, restava somente um homem na lista de suspeitos. Ashdowne.

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CAPÍTULO XIV E nquanto agitava seu leque, Georgiana vistoriava o movimento do Pump Room, tendo ao lado, Bertrand com sua habitual fisionomia entediada. Em situações normais, estaria escutando as conversas fúteis das elegantes damas que, cobertas de jóias combinadas aos vestidos drapeados, aguardavam os cavalheiros que as tirariam para dançar. No entanto, naquela noite, o que lhe ocupava a mente era o arriscado encontro com Savonierre. Após o ocorrido na ponte, havia passado horas tentando formular o questionário que efetuaria ao principal suspeito, e a árdua tarefa tornava-se cada vez mais complexa. Talvez devesse começar questionando a chegada em Bath e o local onde ele se achava por ocasião do roubo, refletiu. Precisava inquiri-lo com a máxima cautela, qualquer deslize poderia ser fatal. De repente, avistou o inconfundível e magnífico Ashdowne entre os visitantes do Pump Room. Ele caminhava em sua direção. Georgiana olhou ao redor na esperança de encontrar uma maneira de evitar o confronto, porém a única pessoa próxima era Bertrand, e este não serviria de auxílio. Covardia à parte, não estava disposta a se engajar em outra querela com seu assistente. Se ele ainda se considerasse como tal. Depois do imperdoável comportamento daquela tarde, quando quase a obrigara a esquecer o caso, não o julgava digno da posição que ocupava. Antes de se tornar vítima de um ataque do coração, teria de ignorá-lo. Mas sentiu o peito apertado ao reparar na expressão sofrida de Ashdowne enquanto cumprimentava as matronas e suas filhas. Um súbito arrepio percorreu a espinha de Georgiana. A única salvação naquele momento seria o irmão. Mal havia aberto a boca para uma conversa com Bertrand quando Ashdowne postou-se a sua frente. — Com licença, mas preciso falar com sua irmã — Ashdowne proferiu, autoritário. Georgiana ponderou acerca da possibilidade de recusar-lhe a audiência, porém o olhar repressor do marquês a fez reconsiderar. — Sim, o que deseja? — perguntou quando ele a levou para um canto do salão. Ashdowne podia mesmo intimidar qualquer criatura. Buscou freneticamente coragem para enfrentá-lo. Ao fazê-lo, notou quão perturbado estava. Ele parecia… aflito. Atormentado. Infeliz. O coração de Georgiana se derreteu. Em vez de repreendê-lo, queria acariciar o belo rosto para apagar aquele pesar. — Desculpe-me — ele murmurou. A frase soou tão suave que Georgiana nem sequer escutou. — O quê? — Peço desculpas — disse em voz alta. — Percebi que fui muito grosseiro esta tarde, mas estou tentando protegê-la, Georgiana. Sou seu guardião, lembra-se? Faz parte de meu trabalho. A declaração parecia tão sincera que ela sorriu. Ashdowne sempre se mostrara autocrata, com a explícita tendência de comandá-la, sem dúvida uma falha considerável de seu caráter. Contudo, continuava sendo o homem mais maravilhoso do mundo. A

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fraqueza que se manifestava diante daquela presença cativante começou a se pronunciar. — E quanto à investigação? — Georgiana perguntou, antes que perdesse o raciocínio. — Vamos prosseguir. — Ashdowne suspirou, resignado. A euforia resultante das gentis palavras durou apenas um minuto… até Georgiana avistar a graciosa cunhada entre a multidão. — E sua cunhada? — indagou, fitando a linda mulher. — Já me é custoso ver toda matrona desta cidade empurrar a própria filha em cima de você! Não vou suportar vê-lo paparicar sua cunhada! Quando Ashdowne a encarou perplexo, Georgiana corou. — Certo. Admito. Estou com ciúme, um traço feminino que desprezo, você sabe. E se estou sob sua proteção, Ashdowne, devo ter o privilégio de uma atenção incondicional. Ora, todas as pessoas aqui presentes, praticamente o casaram com a mulher! — Anne? — Primeiro ele a fitou, incrédulo, depois soltou uma risada. — Não posso imaginar um destino pior que esse! — exclamou às gargalhadas. Embora preferisse uma atitude mais circunspecta no Pump Room, Georgiana deleitou-se com a resposta e ficou feliz por vê-lo rir outra vez. Logo, não poderia responsabilizá-lo pela falta de decoro. — Anne é a criatura mais tediosa da Inglaterra. Sei que tenho deveres a cumprir como cunhado, mas a pobre mulher me irrita. Ainda preciso descobrir como ela conseguiu chegar até aqui. É tímida demais! Quando tento me aproximar a fim de saber a razão de sua inesperada chegada a Bath, ela cai em prantos e foge, apavorada. Talvez você possa resolver esse impasse — Ashdowne sugeriu. — E o tipo de mistério que lhe agrada. A doçura no tom de voz comoveu Georgiana. Sentiu-se repleta de alegria. Enfim algo de valor a fazia gratificar-se por ser mulher. O repentino sentimento tornou a expressão de Ashdowne suave e, por um momento, ela temeu que o marquês a beijasse diante de todos. No entanto, ele apenas tocou a ponta do pequenino nariz. — Você, ao contrário da marquesa, é adorável. Apesar de as fofoqueiras não terem notado essa qualidade maravilhosa, eu notei. E gostaria de conversar em particular para prolongarmos nossa associação — ele declarou. Aliviada com a reconciliação, Georgiana sorriu. — Ainda será meu assistente? — Com certeza, entretanto o que tenho em mente é algo mais… — Ah, srta. Bellewether! — O chamado grave de Savonierre pôs um fim no idílio de Georgiana. O momento com o marquês fora tão intenso e ela se esquecera de que havia prometido encontrá-lo naquele local. E lá estava Savonierre, o todo poderoso, exigindo sua atenção de forma imperiosa enquanto Ashdowne, pego de surpresa, olhava-a com ar questionador. — Terá de nos desculpar, Ashdowne, mas marcamos um compromisso — Savonierre informou, tomando o braço de Georgiana. Ela corou sob o olhar especulativo do marquês. No momento, na presença de Savonierre não haveria possibilidade de lhe explicar o esquema arquitetado para aquela noite. Por um instante, passou-lhe pela mente declinar do encontro. No entanto, quando teria outra chance de questionar Savonierre, que, com certeza, havia mentido sobre o medo de altura? E queria, com

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desespero, entrar, mais uma vez, na mansão de lady Culpepper. Suplicando compreensão, ela fitou Ashdowne. Não podia perder a oportunidade de ver a cena do crime. Quando Savonierre puxou-a, de leve, Georgiana lembrou-se do inútil acompanhante. — Eu… trouxe meu irmão, Bertrand. — Após o estranho encontro na ponte, não conseguiria ficar a sós com Savonierre. Deteve-se e encarou o irmão. — Estou indo — Bertrand avisou, posicionando-se ao lado da irmã. Savonierre, apesar do olhar desagradável que lançou ao rapaz, aceitou a companhia aparentando boa acolhida. Ashdowne, ficou imobilizado diante da cena, e Georgiana, quase desfalecida de pesar, passou por ele sem se desculpar. — Adeus por enquanto, milorde — disse. O marquês, ainda surpreso, somente a encarou com os olhos duros e brilhantes. A despeito do rumo da investigação, sentiu uma forte melancolia dominá-la. A esquerda, Bertrand, alheio a tudo, não representava conforto; à direita, Savonierre era a presença fria e periculosa. Que imprudência de sua parte. Pela primeira vez, Georgiana questionou o verdadeiro valor embutido naquele caso. A garganta travou, e o coração pareceu pesado demais. Sentiu remorso, como se houvesse traído Ashdowne de alguma maneira. Era apenas o assistente, disse a si mesma, mas isso não era argumento satisfatório para consolá-la. De repente, ao notar uma pontada no peito, deu-se conta de que, no decorrer das semanas, tinha se apaixonado pelo elegante marquês… em todos os sentidos. A percepção, embora gratificante sob certo aspecto, agravou a melancolia. Se era isso que seu tio-avô Silas perdera, Georgiana não podia endossar o fato. Amor não significava aquela panacéia que a mãe e as irmãs proferiam. Era uma emoção superior onde a dor e a ansiedade se mesclavam. No fundo, ela queria dar meia-volta e correr aos braços de Ashdowne. O único empecilho seria a resposta do marquês diante da confissão. Ficaria horrorizado? Encantado? Constrangido? Georgiana tremeu de medo. E o pior de tudo era que naquele momento estava nas mãos de Savonierre. A descoberta dos novos sentimentos por Ashdowne deveriam ficar ocultos no recôndito do coração. Georgiana tentou ater-se ao homem que lhe daria a rápida resolução do caso. Agora, mais que nunca, a investigação encontrava-se entre ela e a felicidade. Se sentisse falta da sensação protetora do assistente, pelo menos tinha o irmão cuja presença diluía o clima tenso na carruagem. Mais tarde, na casa de lady Culpepper, ficou grata pela companhia de Bertrand, pois a pequena recepção assemelhava-se ao tedioso baile. O seleto grupo de convidados mantinha a atmosfera íntima, apesar das enormes salas da mansão. Somente quando Bertrand se afastou, deixando-a sozinha com o anfitrião, Georgiana começou a lamentar por ter aceito aquele convite. Embora alegasse estar em Bath para apoiar lady Culpepper, Savonierre não demonstrou nenhuma devoção especial à dama. Tratava-a com cortesia e distanciamento. Ao voltar-se para Georgiana, ele expressou o sorriso cínico de sempre.

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— Eu esperava que pudéssemos conversar em particular… a respeito do roubo. — Savonierre levou-a ao salão, onde anteriormente Georgiana havia inquirido lady Culpepper. O local estava deserto, forçando-a a hesitar à soleira da porta. Ela já havia enfrentado admiradores zelosos, porém não podia imaginar Savonierre comportando-se como um jovem afoito e inexperiente. Seria uma temeridade ficar a sós com aquele cavalheiro. As lembranças de Ashdowne e do que haviam partilhado juntos voltaram a distraí-la. Sem dúvida, Savonierre não tentaria nenhuma intimidade, pensou no instante em que ele fechou a porta e a conduziu ao centro do salão. — Por favor, sente-se — disse, indicando uma cadeira. Trêmula, Georgiana obedeceu e ficou aliviada quando o homem escolheu a cadeira oposta e não um dos sofás. Os móveis não incitavam jogos de sedução, mas, mesmo assim, viu-se ansiosa naquele ambiente. — Agora talvez possamos discutir o roubo com liberdade. Notei que a senhorita se constrange na presença… de outros. — Savonierre sorriu. — Não tenho nada a acrescentar. — Georgiana evitava encará-lo enquanto mentalmente formulava perguntas. — Verdade? — Ele a fitou, céptico. — Achei que fosse mais esperta, srta. Bellewether. O tom bem-humorado espantou-a. Estaria zombando dela? Era impossível julgar a sinceridade das palavras proferidas por Savonierre devido à postura reservada. — Receio que eu ainda esteja juntando as peças dos variados eventos que se sucederam — ela comentou, áspera. — Por exemplo, em que dia chegou a Bath, sr. Savonierre? Seria um brilho de surpresa ou humor que passou nos olhos sombrios?, Georgiana pensou. — Ah, agora minha opinião a seu respeito esta justificada, srta. Bellewether. Mas certamente não acredita que eu esteja envolvido no roubo? Precavida, ela não respondeu. Savonierre soltou uma gargalhada cuja sonoridade não possuía o mesmo calor que a de seu assistente. — Oh, é tão interessante. Posso ver por que Ashdowne a estima tanto — Savonierre comentou.— O que quer dizer? — Alarmada ante a menção do nome do marquês, Georgiana o encarou. Os olhos escuros a fitavam de forma tão intensa que pareciam despi-la. Ela pressentia que Savonierre usurpava-lhe a vontade, não da maneira sensual de Ashdowne, mas através da força bruta de sua personalidade obscura. O medo não tinha nada a ver com sedução e, ao mesmo tempo, estava relacionado a apropriar-se da alma. Seria ele um demônio? Sendo objetiva, Georgiana não dava importância a fanatismos, mas aquele olhar penetrante a enfraquecia. Por fim, Savonierre desviou o rosto, deixando-a aliviada mais uma vez. — Ora, não quis dizer nada. — Devagar, ele esquadrinhou o espaço, como se não a mantivesse prisioneira. Quando voltou a fitá-la, Georgiana evitou encará-lo nos olhos. — Todavia, estou certo de que é inteligente o bastante para descobrir o que quis dizer, se desejar refletir a respeito. Sozinha. As palavras do homem pareciam emitir mensagens misteriosas que ela

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não sabia decifrar. Freneticamente, tentou recobrar o raciocínio e admitiu que Ashdowne tivera razão. Savonierre era perigoso demais. Deveria manter-se calma, esperar e olhar tudo friamente. — Estou perdido, srta. Bellewether, porque meu investigador de Bow Street está tão atônito com esse roubo quanto a senhorita. — Savonierre mudou o tópico da conversa, como se nenhuma ameaça sutil houvesse acontecido. — Suponho que alguns casos sejam complicados mesmo a um profissional — Georgiana replicou, reservada. — Talvez. Mas a senhorita me desapontou. Eu tinha certeza de que já havia solucionado o roubo. O súbito comentário tanto a insultava quanto a lisonjeava. — Bem, é difícil para uma estranha como eu ter acesso a todas as informações quando não posso questionar os criados ou ver a cena do crime — ela se defendeu. — Deseja ver o cômodo onde ocorreu o assalto? — Sayonierre perguntou, forçando casualidade. — É claro! É o que desejo acima de tudo! — Georgiana exclamou, sem considerar as palavras. Os lábios de Savonierre se curvaram, mas não existia sinceridade naquele sorriso. — Querida srta. Bellewether, uma vez ciente de sua ávida curiosidade, vou satisfazê-la imediatamente. As faces de Georgiana ruborizaram com a colocação precisa da frase, embora a expressão do homem não estivesse alterada. Percebia, com a sensibilidade de um detetive ou a ridícula intuição feminina, que o cavalheiro à frente não possuía o menor interesse nela. Talvez fosse um daqueles infames que subordinavam mulheres só pelo prazer da conquista. Ou a instigava somente para provocar Ashdowne. A suspeita clareou-lhe os pensamentos de tal forma que Georgiana ergueu o queixo e parodiou o excesso de gentileza. — Quando poderei vê-lo? — Agora, se quiser. Mantive a porta trancada e vigiada para que nada fosse removido. Verá o cômodo tal qual estava após o roubo. Respirando fundo, Georgiana levantou-se quando Savonierre estendeulhe o braço. — Creio que amanhã será o ideal — avisou-o.— Posso vir até aqui ao raiar do dia, se o senhor instruir um dos criados para que me receba. Sentindo o peso do olhar intenso, ela permaneceu impassível até escutar uma risada. — Querida srta. Bellewether, não confia em mim, um cavalheiro de estirpe, para acompanhá-la ao quarto de lady Culpepper? Como Georgiana não respondesse, ele voltou a rir. — Muito bem, minha pequena detetive. Talvez seja esperta o suficiente para desmascarar o ladrão. — Savonierre ainda sorria quando decidiu: — Amanhã, por volta das onze horas, está bem? Pedirei ao sr. Jeffries que a acompanhe. Sem dúvida, estará mais segura com ele, certo? Savonierre parou e encarou-a. Quando Georgiana assentiu, ele pontuou: — Muito bom. Talvez o tolo possa aprender algo útil com seus métodos. — Obrigada.

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Depois que Savonierre abriu a porta e levou-a à recepção para entregála a Bertrand, ela conseguiu respirar devagar. Porém, a atenção do homem continuava sobre ela. — Tenho a mais absoluta confiança na senhorita — disse Savonierre, em tom ameaçador. Então, reverenciou-a e se foi. As pernas de Georgiana bambeavam. Precisou se controlar para não cair nos braços do irmão e um vexame diante dos convidados. Após recuperarse do impacto, começou a refletir sobre o jogo de Savonierre. O que ele ganharia ao deixá-la ver o cômodo? Meneou a cabeça, preocupada com motivos escusos. Georgiana estudou cada centímetro do tapete até atingir a imensa cômoda repleta de objetos. Catalogou os itens e abaixou-se para certificar-se de que ninguém se esconderia sob o móvel sem ser notado. Por fim, ergueu-se e notou uma porta estreita. — Onde esta porta vai dar? — perguntou. — No quarto de vestir — Jeffries respondeu. — Não há nenhuma outra saída. — É possível que alguém tenha se escondido dentro do quarto de vestir antes do baile? Embora intrigado com a questão, Jeffries meneou a cabeça em negativa. — Não. As criadas atarefadas entravam e saíam o dia inteiro, e lady Culpepper passou a tarde se preparando para o evento, creio eu — ele murmurou, mostrando impaciência diante de trivialidades femininas. Sorrindo, Georgiana aproximou-se do investigador. — E as janelas estavam abertas? — Sim. Do jeito que se encontram agora, como fui informado. Hesitante, ela segurou-se no parapeito da janela. Tal qual suspeitara, a curva do enorme arco não estava distante da janela. A sua direita, havia outro, próximo o bastante para servir de apoio. Respirou fundo e olhou para baixo. Horrorizada, divisou o solo que se encontrava a metros de distância. Sim, era possível que um homem invadisse o quarto escalando a parede de um arco a outro. Mas que tipo de pessoa arriscaria a vida daquela maneira? De imediato, a imagem de Savonieire surgiu-lhe à mente: falso, perigoso e capaz de arquitetar jogos estranhos. Ele teria zombado perigo, se não tivesse medo de alturas. Pensativa, ela prosseguiu o exame do dormitório, verificando minuciosamente cada centímetro do lugar. De repente, escutou um murmúrio. Viu o investigador de Bow Street imitando-a, apoiado no parapeito da janela. — Que louco teria coragem de escalar essa parede por algumas pedras preciosas? — Jeffries murmurou a si mesmo. — Podia ter utilizado um gancho, no entanto não há marcas. Observando-o, Georgiana não fez qualquer comentário pois não queria partilhar as próprias teorias por enquanto. Então caminhou devagar, de olhos bem alertas, em direção à cama. No ângulo da janela, abaixou-se para vistoriar o tapete sob o leito maciço. Embora escutasse a voz de Jeffries, não lhe deu ouvidos, estava absorvida pela investigação. O tapete dourado possuía motivos em verde e vermelho, logo foi preciso um olhar cuidadoso para enxergar além dos desenhos. Se fosse escuro, ela

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jamais teria notado os pequenos fragmentos de sujeira. Com redobrada atenção, pegou um punhado, esfregando-o entre os dedos. Não possuía a mesma consistência da poeira que se acumulara no quarto com o passar dos dias. Nem parecia o tipo de terra encontrada nos jardins. Era preta, rica em adubo, e Georgiana ficou chocada ao reconhecê-la. Mesmo ajoelhada no tapete, sentiu-se zonza, como se o mundo ameaçasse partir-se ao meio. Respirou fundo e tentou soltar o ar lentamente, entretanto os pulmões não queriam obedecer a ela. Atrás de si, escutou a voz de Jeffries, alheio ao que se passava. As mãos tremiam; sentiu náuseas e achou que ia desmaiar. Por fim, a dor bloqueou o mal-estar trazendo-a de volta à cruel realidade. E foi essa dor que a ajudou a levantar-se. O pequeno fragmento de terra continuava entre os dedos, como um talismã da traição. Georgiana conhecia aquele punhado de sujeira. Não pertencia a qualquer adubo; sua origem jazia no vaso de planta que ela derrubara na noite do baile. Era a terra que havia sujado seu vestido e o elegante traje de um dos convidados. Ashdowne.

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CAPÍTULO XV L utando contra as lágrimas, Georgiana caiu em si. Percebia agora que seu assistente, o homem que amava, não passava de um reles ladrão e, talvez, o próprio Gato. Dominada pela atual descoberta, seria quase impossível fingir que verificava o resto do quarto. Felizmente, o investigador, não notou a súbita mudança na fisionomia de Georgiana. Absorvido pelas próprias idéias, Jeffries classificava o tipo de roubo como um crime de interesse escuso, talvez a base de herança, ou de seguro de vida ou até de um plano mais complicado para arrancar dinheiro da vítima. Enquanto isso, Georgiana se movia atarantada pelo cômodo. Enxergava apenas a traição de Ashdowne. Por mais furiosa e triste que estivesse, não se sentia preparada para revelar a descoberta. Precisava de tempo para refletir, decidir o que fazer. Através de vastas leituras policiais, e agora por experiência própria, aprendera que não se devia divulgar ou interrogar um suspeito a fundo antes de formar uma idéia nítida do caso. Nesse ínterim, seria forçada a manter as aparências. Era a tarefa mais difícil de sua vida. Jeffries não era tolo e se a observasse bem, notaria algo errado. Quando ele parou de murmurar hipóteses, inclusive da maneira como o ladrão invadira o quarto, Georgiana comunicou que estava pronta para se retirar. Escondeu-se sob as sombras a fim de ocultar a palidez. Havia aprendido tal método com o melhor mestre de todos: o Gato. Porém, o aprendizado permanecia incompleto pois não sabia mentir, trapacear, roubar. E trair. Amargurada e com o coração sangrando, Georgiana seguiu Jeffries até a porta. Pela primeira vez, o tímido investigador de Bow Street mostrou-se determinado a discutir o caso, mas ela desculpou-se, alegando que precisava estar em casa na hora do almoço. Caos Jeffries notasse a agitação, no mínimo entenderia a mudança de comportamento como uma decepção motivada pela frustração de não haver encontrado nenhuma pista. Que ironia do destino! A decepção profunda originava-se daquilo que ela sempre desejara. Ao menos restava-lhe a prova que apontava o ladrão. Mesmo assim, não comentou o fato com o oficial que, gentilmente, ofereceu-se para acompanhá-laGeorgiana declinou a cortesia pois não tinha a menor intenção de voltar a sua casa, onde Ashdowne poderia encontrá-la. Mesmo que ele nao aparecesse, as irmãs fariam questão de lembra-la da existência do marquês. O pai jovial e a mãe distraída não lhe dariam conforto, e ela não poderia revelar a verdade, tampouco os sentimentos que nutria por Ashdowne. Como autômato, começou a caminhar até o parque Orange Grove, rezando para não encontrar conhecido algum no caminho. Seus movimentos eram duros e dispersos, sua mente parecia embotada, e ela seguia apenas os instintos. O objetivo era procurar um refúgio onde encontrasse segurança e abrigo em um canto sossegado entre os enormes pinheiros. Até chegar lá, sentia-se sozinha em um mundo hostil e não ousava examinar mais a fundo seus sentimentos. Mas as mesmas questões continua-

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vam a atormentá-la. Lembrou-se do homem que acreditava conhecer mas que, na verdade, era um desconhecido. Ashdowne. O Gato. O nobre que a havia abraçado, beijado, tocado sua alma e partilhado risadas com ela não era nada além de um ladrão. Não se diferenciava de nenhum criminoso das ruas. Georgiana sentiu o coração em frangalhos. A dor dilacerava-lhe o corpo. Incapaz de se sustentar, sentou-se sobre um tronco caído no solo. Teria Ashdowne apenas debochado dela todo o empo? Seria monstruoso acreditar nisso, mas por lue outro motivo o Gato se ofereceria para ajudá-la i desvendar o crime que ele próprio cometera? Com certeza, a atitude atenciosa nos momentos em que Ashdowne a escutara, fingindo acreditar ftas teorias por ela expostas, não passava de pura encenação. Havia se divertido à custa dela! E Georgiana, que amava vê-lo rir, jamais imaginaria tamanha crueldade. No entanto, estava acostumada a ver as pessoas desdenharem de seus talentos. O que a despedaçara. Georgiana. Mas quem a protegeria de Savonierre? De outros homens? Dela mesma? Ashdowne foi invadido por um pânico repentino só de pensar em desistir de Georgiana. Por esse motivo, lá estava ele, caminhando entre os pinheiros do parque, à procura da mulher que rejeitara seus sentimentos, dando preferência ao frio conforto da investigação de um caso. Quando a encontrou, Ashdowne teve de conter o abrupto desespero. Ela estava sozinha, em uma área deserta, à mercê de qualquer passante malintencionado. Calado, aproximou-se, sem saber qual seria a reação da jovem ao vê-lo. Quando, por fim, Georgiana ergueu os olhos marejados de lágrimas, ele sentiu uma pontada aguda no peito. Se Savonierre a houvesse magoado, Ashdowne mataria o bastardo, sem pensar nas consequências. Temeroso, permaneceu em silêncio, vendo-a se levantar devagar. Uma expressão arrogante dominava as feições outrora tão doces. Com certeza, a recepção não seria nada calorosa, Ashdowne deduziu, desapontado. — Creio que seja bom vê-lo aqui, Ashdowne. Não vou perguntar como me encontrou, já que tem seus meios. Havia uma espantosa amargura na voz de Georgiana. O que Savonierre fizera? — E um homem de muitos talentos, não? Antes que ele pudesse responder àquela declaração, Georgiana virou o rosto. — Sei que é — ela prosseguiu. — Não se dê ao trabalho de negar. Você é o Gato. Ashdowne ficou paralisado por alguns instantes. Então recobrou a postura defensiva de marquês. — Ah, agora sou o vilão. Certo? — Encontrei grãos de adubo no quarto, Ashdowne. Era o mesmo produto contido no vaso que derrubei sobre você — ela afirmou, usando um tom infeliz que cortava o coração de Ashdowne. — Presumo que seja o mesmo tipo de adubo que os criados usam todos os dias para tratar das plantas. Acusou-os também ou sou seu único alvo? Georgiana se virou. Os olhos azuis brilhavam de tristeza. — Depois de tudo que me fez passar, ao menos podia mostrar alguma

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honestidade. Era como se ela o houvesse apunhalado no peito. — Muito bem, mas aqui não é o lugar… — Ashdowne se deteve quando ela gesticulou, impaciente. — Não vou a lugar algum com você. Portanto, poupe-me de sua arrogância. A atitude agressiva deixou-o com raiva. Ele sabia que mais dia menos dia chegaria a hora do confronto final, mas não desejava vivê-lo. Desde o início estivera ciente dos obstáculos que existiam entre ambos, contudo preferira ignorá-los. Afinal, o Gato se fora havia anos. Ashdowne Jamais sonhara que alguém faria a conexão, mas devia ter previsto que Georgiana sim. Sua persistência e sagacidade incomuns entre a classe feminina sempre estiveram à vista de qualquer observador. E no entanto, ele a vira como uma jovem criativa e fantasiosa. Preferira ignorar que ela era possuidora de uma necessidade ferrenha de obter a verdade. E conseguira. — Vai me matar? A súbita pergunta o fez encará-la. De que ela estava falando?, Ashdowne pensou, chocado. — Bem, agora que sei seu segredo, imagino que precise garantir meu silêncio — ela disse, com arrogância e superioridade. Era assim que Georgiana o via? Como um assassino? Ashdowne sentiu o sangue ferver enquanto aumentava a tensão, até então ignorada. — É um grande salto, não acha? Passar de ladrão de jóias a assassino? — Qual é a diferença? — ela indagou, jogando os lindos cachos para trás. — Onde está o limite? Você poderia ser enforcado pelo que fez. Não seria mais simples se livrar daquela que o desmascarou? Cerrando os dentes, Ashdowne tentou controlar a fúria. — Não serei enforcado porque ninguém irá acreditar em você — desabafou, sem pensar. Atônita, Georgiana o fitou como se tivesse sido estapeada. Ele tentou tocá-la, porém ela recuou. — Fique longe de mim! Não consigo pensar quando você se aproxima. Sei que foi essa sua intenção o tempo todo! Impotente ante a delicadeza da situação, ele permaneceu onde estava. Pela primeira vez, não conseguia recorrer à postura superior de nobre. Não havia como negar. A princípio, a sedução foi mesmo necessária. — Nunca pretendi magoá-la — confessou. — Oh, não. — Georgiana riu, irónica. — mentiu desde o início, riu de mim… — Jamais ri de você! — Ashdowne protestou. Quando ela lançou um olhar acusatório, explicou: — Não do jeito que imagina. Ri porque a achei divertida. E ainda acho! Georgiana, não deixe que… — Como consegue arrombar as portas? — ela perguntou, furiosa. — Com um picão de tranca. — Igual ao que usou na casa de sr. Hawkins? — Às vezes, não é preciso. Nem todos admitem, mas é muito comum encontrar portas destrancadas, jóias expostas sobre cômodas, janelas abertas… — Se era isso que ela queria ouvir, que assim fosse.

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— E nesses casos, você simplesmente invade o exterior das casas? — Não. Você tinha razão, claro. Eu nunca escalei paredes. Muito trabalho por pouco — ele confessou com menosprezo. Embora não lhe servisse de auxílio, sentiu-se impelido a relatar tudo. — Pulei da janela de um dos quartos e atingi o outro através dos arcos que enfeitam as paredes externas. — Você podia ter morrido! — Está fingindo preocupação? Que comovente! — Ashdowne riu, sarcástico. — E tudo por causa de um mero colar de esmeraldas! — ela desdenhou. — Ah, neste ponto está errada. Quando ela o encarou, Ashdowne, incapaz de se conter, zombou: — Sim, nem a grande Georgiana Bellewether possui todos os fatos. — Bem? — Importa-se em escutar? Não tenho certeza se devo me explicar. Em tempo algum, Ashdowne partilhara suas motivações, nem com Finn. E naquele momento, enfrentando o julgamento da pequena loira, ele se rendeu. Faria qualquer coisa para recuperar a confiança e a fidelidade de Georgiana. Fitou as árvores, como se nelas pudesse enxergar imagens do passado. — Nasci em uma família tradicional. Felizmente, meu irmão mais velho, William, seguiu os desejos de meus pais. Eu, por outro lado, era muito… aventureiro. Nunca me adaptei às tradições e descobri muito cedo que não me agradava ingressar no destino deplorável dos nobres, e ter de seguir a carreira militar, igreja ou lei. Georgiana sorriu, amargurada. — Fui a Londres em busca de fama e fortuna… ou, na pior das hipóteses, algum prazer. Andei por clubes, festas da sociedade e mesas de jogos. Com o passar do tempo desenvolvi alguns talentos e um charme duvidoso. Ela o ouvia com atenção. A lembrança da vida inescrutável ainda o envergonhava. — No entanto, eu continuava um tanto insatisfeito até conhecer minha verdadeira vocação… por acaso, devo dizer. Foi um furto inofensivo, verdade, só para testar meus limites e, quando tive sucesso… — Ashdowne riu. — Descobri um gosto peculiar pelo perigo. Mas a emoção tinha sentido apenas quando eu privava os ricos e ignóbeis de minha classe de suas jóias caras. E havia aproveitado cada momento. A infâmia embora jubilosa, tornarase um frenesi impetuoso o qual precisava sempre de alimento. Tinha de admitir que enganar amigos e oficiais da lei pesava-lhe na consciência. — No entanto, tudo mudou quando William faleceu — confessou. Achara irônico seu irmão mais velho, que se aventurava apenas em curtas cavalgadas, ter sucumbido à apoplexia, enquanto Ashdowne arriscava a vida roubando os membros da nobreza. Logo descobriu que a função de marquês era muito onerosa. Jurando jamais se transformar em William, escutava calado as duras acusações de Finn com o forte pressentimento de que cedera ao tédio. — O Gato aposentou-se e me voltei a questões legais. — Ashdowne suspirou. — E por que razão resolveu largar a aposentadoria? — Georgiana

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perguntou, ainda indignada. — Nada tão trivial quanto a emoção do perigo, posso lhe assegurar. Gostando ou não, o título consome toda minha energia e atenção. — Teria algo a ver com sua cunhada? Ashdowne ficou impressionado. Sabia que a havia subestimado antes, mas jamais previra uma percepção tão aguçada. — Perdoe-me por duvidar de suas habilidades — ele pediu, reverenciando-a. Georgiana não se comoveu, continuava impassível. Ele tinha a sensação de que explicações não fariam a menor diferença, contudo preferiu prosseguir: — Como mencionei, Anne tem tendência a se tornar tediosa, embora seja gentil. Após o término do luto, eu a persuadi a visitar parentes em Londres. E não tinha idéia de quão temeroso era para ele, acompanhou a cunhada a um dos bailes provincianos de Bath. Anne parecia ansiosa para falar com ele, e, na primeira tentativa, murmurou uma besteira sobre o tempo e retirou-se, apressada. Durante as intermináveis horas seguintes, Ashdowne ponderou acerca da possibilidade de partir. Georgiana o arrasara e o que lhe restava de orgulho o impelia a retornar ao feudo da família, tomar as rédeas de sua vida e esquecê-la para sempre. No entanto eram raras as vezes que recusava um desafio. Havia empreendido façanhas, que outros achavam miraculosas, ao examinar o problema sob todos os ângulos e usar seus talentos e especialidades. Poderia ainda conquistar Georgiana, a despeito do que acontecera? E o mais importante: ele a queria? Os instintos de Ashdowne clamavam a sorte de ter escapado de um casamento com uma jovem amalucada. Porém o coração pulsava a maior das verdades: ele a amava. Sua vontade era render-se e implorar-lhe que esquecesse tudo e voltasse a ser a querida Georgiana. Nunca ficara tentado a se casar. Agora a mente, o coração e o corpo desejavam que ele a fizesse sua. Pela eternidade. Não havia como questionar o fato. Mas e Georgiana? Ela o queria? Ashdowne havia mentido desde o começo, empreendera jogos de sedução e apoderara-se dela, antes de se apaixonar por completo. Contudo, sabia que tais prerrogativas eram ínfimas perto da verdade crucial: para Georgiana ele não passava de um ladrão. Enquanto espantava aqueles cavalheiros que se aproximavam para dançar com a assustada cunhada, Ashdowne teve tempo para justificar o comportamento do passado a si mesmo. Mas não encontrou nenhuma explicação que se adequasse a Georgiana. Podia dizer a si próprio que ela era uma jovem inexperiente, cuja moral seria execrada em Londres devido ao comportamento rebelde e nada convencional. Não obstante, a inocência e o precioso caráter lhe haviam conquistado a admiração. Não existiam objeções quanto a isso. Depois do silencioso percurso na carruagem até Camden Place e de dispensar Finn, Ashdowne ponderou sobre o passado e o futuro, tendo uma garrafa de Pôrto consigo. Por causa do vinho ou pelo estado depressivo, ficou excessivamente moroso durante a madrugada. Pela primeira vez, desejava algo que não podia

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ter e pouco valiam os famigerados talentos para reconquistar Georgiana. A frustração queimava-lhe a alma como as chamas da lareira. Tudo sempre fora fácil em sua vida. Nunca precisara pegar a espada ou os livros para se sustentar. Havia sobrevivido através do charme e da destreza, e ainda chamava tais qualidades de trabalho. Tudo isso servira para alimentar sua arrogância. O Gato não representara somente uma aventura; precisava provar a si mesmo que era tão bom quanto o irmão. Melhor, aliás. Ele havia obtido sucesso por si só, sem recorrer ao título ou à herança. Seus parentes jamais souberam da verdade e, no final, não ganhara respeito ou afeto. Agora possuía o título, a riqueza e a herança. Que bem tudo isso lhe fazia? A existência parecia vazia, sem propósito e… solitária. Oh, tinha amigos e conhecidos, no entanto, apenas Finn o conhecia. E como poderiam conhecêlo, se ele vivera uma mentira? De repente, Ashdowne sentiu a urgente necessidade de uma família, de uma esposa que o conhecesse verdadeiramente e com quem pudesse compartilhar o espírito aventureiro, a alegria de viver. Georgiana. Quando chegara a Bath, mal suspeitara de que a pequena loira, a qual rotulara de cabeça oca, tornar-se-ia o centro de suas atenções, a figura mais importante de sua existência vazia e sem valor. Fizera algum esforço para conquistá-la? Ashdowne resmungou em negativa. Tratara-a com o mesmo egoísmo que marcava aquela vida insensata. A admissão o surpreendeu porque jamais havia se considerado egoísta. Tinha de conceber que essa característica sustentara sua existência. Sempre agira pelo prazer pessoal, quando e como queria, sem se preocupar com o próximo. E tal constatação pesava-lhe sobre os ombros. Somente alguém sem o menor discernimento poderia atribuir-se o poder de arbitrar a fortuna alheia. O desprezo casual pelas vítimas era tão rico e ofensivo quanto desrespeitoso. Achava-se possuidor de honra, porém agora via-se destituído de virtudes. Sim, lady Culpepper merecia ter o colar roubado após o que fizera com Anne, mas quem era ele para decidir e impor a escolha da vingança? Deixando de lado o copo de vinho, Ashdowne, de súbito, soube o que devia fazer. Tratava-se de um passo pequeno, mas seria dado na direção certa. Ou ao menos era o que Georgiana diria. O pensamento lhe encheu de esperança. Ashdowne levantou-se rápido, e bambeou. Não conseguiria engajar-se em nenhuma atividade arriscada após horas de introspecção e vinho. No entanto, ele pensou, sorrindo, havia algo que seria capaz de fazer.

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CAPÍTULO XVI A pesar do não estar em perfeito equilíbrio, devido ao excesso de bebida, Ashdowne conseguiu entrar. Ao pular a janela do dormitório de Georgiana, constatou com uma ponta de vaidade que ainda mantinha sua agilidade. O cômodo era pequeno, e ela não o dividia com as irmãs, uma informação preciosa que obtivera havia dias e a qual facilitava a execução do plano que decidira colocar em prática. Por um longo instante, observou-a sob a fraca luminosidade do luar. Dormia tranquila como uma criança. Os cabelos cacheados, tal qual um manto dourado, espalhavam-se sobre o travesseiro de linho bordado e uma das mãos jazia ao lado. Georgiana, jamais acordaria lentamente, esfregando os olhos e bocejando como qualquer pessoa. Os delicados cílios se ergueram, e o brilho azulado focalizou-o. Alarmada, sentou-se e pegou os lençóis para se cobrir. — Como entrou aqui? — perguntou, em sussurro. — Oh, nós, criminosos depravados, temos nossos meios — Ashdowne brincou, entre as sombras. Um tanto sonolenta, Georgiana piscou várias vezes. E, de repente, a cálida ternura que sentiu ao vê-la transformou-se em outra emoção. Os cabelos em desalinho e as faces rosadas o faziam imaginar o calor do corpo feminino. Ele deu um passo à frente. — Não se aproxime! — Georgiana exclamou, agarrada aos lençóis. Por mais que ela se esforçasse, Ashdowne podia divisar a renda da camisola que revelava o colo alvo. O desejo tornou-se vivo e inegável. — Posso mudar — ele sussurrou, chegando mais perto da cama. — O quê? — Eu mudei, Georgiana, mas posso mudar mais. — Ashdowne sentouse na beirada do colchão e inspirou o perfume adocicado. Sentia que a capacidade de pensar com lucidez não o abandonara. Inclinou-se e segurou o corpo delicado entre os braços. — E para lhe provar, vou devolver as esmeraldas — sussurrou. — Não! — ela gritou. — Quero dizer, sim, devolva o colar. E uma ótima idéia, e não se aproxime porque perco meu poder de raciocínio. — Perfeito, querida. Quero que pare de raciocinar e sinta apenas. Quero a romântica Georgiana esta noite, não a investigadora dominada pela razão. Dê-me outra chance, por favor. — O pedido foi quase um murmúrio suplicante. Aproximou-se e, o que quer que ela pretendesse dizer, perdeu-se no beijo arrebatador. O sabor era doce e sensual. Ashdowne aprofundou o beijo, apossandose de tudo que ela poderia lhe dar. Desesperado, incontido e impetuoso, mal se reconhecia, mas não se importava. O único sentido da vida se resumia naqueles lábios e no corpo virginal que o excitava. Entregue, Georgiana o abraçou. Ashdowne deitou-se ao lado dela, incapaz de interromper o interlúdio para retirar as botas. Estava ciente de que a qualquer momento ela voltaria a racionalizar. E nesse ínterim a faria revelar a paixão. Como as ondas do mar, o desejo se multiplicava em proporções

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descomunais. Georgiana colou-se a ele. Ashdowne, então, afastou os lençóis que os separavam. A camisola, enfeitada de laços e rendas, refletia o gosto da sra. Bellewether. Ele podia muito bem imaginá-la usando seda. O tecido leve seria tal qual uma carícia suave na pele alva e macia de Georgiana, aderindo às curvas fartas. Puxando o decote da camisola, Ashdowne divisou os seios túrgidos. O sangue ferveu com maior intensidade quando abaixou-se para sugar os mamilos. Lembrou-se do episódio na terma e deteve-se, admirado. Aquele momento parecia ter ocorrido anos atrás, em um instante de deleite e surpresa, no qual estivera à beira do desespero. O pensamento, por um segundo, esfriou-lhe os sentidos. Ashdowne riu da própria luxúria. Ele a amava e, pelo menos uma vez, não seria egoísta. Onde encontrara forças não saberia dizer, mas conseguiu apreciá-la durante um longo tempo. Então acariciou o corpo exuberante; suas mãos deslizavam sobre o tecido da camisola, usando-o para incitar-lhe o prazer até que Georgiana tornou-se ofegante. Por fim, despiu-a e recomeçou a explorar as curvas sinuosas, como se assim pudesse descobrir os segredos de forma lenta e cuidadosa. Georgiana não se satisfez. Retirou-lhe o casaco e camisa, antes de acariciar os músculos do tórax. Quando ele sentou-se para tirar as botas, ela o abraçou, pressionando os seios nas costas largas. Ashdowne gemeu. Aparentemente encorajada pelo som, Georgiana começou a beijar-lhe o pescoço e mordiscar os ombros. A urgência do desejo tornou-se quase insuportável. Ashdowne deitou-se na cama e postou-se sobre ela, cedendo à fraqueza. Ao vê-la ávida de paixão e com as pernas entreabertas, sentiu-se esmorecer. Hesitou um momento, procurando forças que não sabia existir, e afagou as pernas esguias desde o tornozelo. Quando ele atingiu o calor suave da feminilidade, Georgiana empreendia, gemendo, movimentos sensuais. Ashdowne sorriu e beijou a região entre as pernas, ávido por provar o maravilhoso sabor da essência feminina. A autêntica Georgiana, não protestou. Abriu-se inteira, tal qual um botão de rosa, deixou-se acariciar e agarrou-se aos cabelos de Ashdowne na tentativa de conter o entusiasmo. Ela gemeu de prazer, e Ashdowne gentilmente segurou-lhe as mãos, fitando a mulher diante de si. Era uma pintura de puro êxtase. Tinha noção de que seria fácil terminar o que começara, satisfazer a própria necessidade com apenas um gesto. Se a penetrasse, macularia a virgindade e talvez até gerasse um filho. A tentação era tamanha que Ashdowne chegou a zombar de seu poder. No entanto, seria uma atitude imoral, desrespeitosa ao extremo. Conteve-se, mesmo porque, decidira mudar seu comportamento displicente e tornar-se um homem digno da confiança de sua amada. Na verdade, ele queria muito mais. Desejava absorvê-la por inteiro, não somente a paixão que aflorava no corpo delgado, mas a mente astuta e o coração romântico. Precisava que Georgiana o amasse. Então, resignado, respirou fundo e afastou-se. A ereção era tão dolorosa que foi um sofrimento vestir-se e calçar as

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botas. Havia passado muito tempo mergulhado na estúpida existência de marquês e atolado em deveres e obrigações. Os prazeres da carne ficaram em segundo plano. Sempre adorara o conforto, inclusive o oferecido por lindas mulheres, e, embora escolhesse as amantes com discernimento, não mais se recordava do rosto daquelas que tivera contato mais íntimo. Agora via-se frente a frente com o único rosto que lhe ocupava a mente, o singular corpo macio que o provocava com a pele alva e curvas tentadoras. Ashdowne cerrou os olhos ante a dor insondável de seu desejo. Mais uma vez resistiria a tentação, pois acima de tudo era um cavalheiro. Inclinou-se sobre Georgiana e beijou-lhe a testa. Escrúpulos podiam ser muito mais dolorosos do que havia imaginado. Georgiana encontrava-se no Pump Room, sem saber em que acreditar. Após a romântica aparição de Ashdowne na noite anterior, sentira-se pronta a perdoá-lo. Contudo, o descanso merecido lhe trouxera de volta a lucidez e agora ponderava. Ele seria capaz de mudar ou seria uma de suas artimanhas para encobrir a culpa e a traição? Pior, pretendia conquistá-la por razões nefastas? Não poderia entregá-lo ao investigador de Bow Street. Era uma grande frustração para quem não medira esforços e trabalhara arduamente para solucionar o misterioso crime, que permaneceria inexplicável aos olhos dos outros. Todos os sonhos de glória se esvaíram. Porém agora não pareciam importantes! A noite com Ashdowne fora de um valor inestimável. Talvez ele estivesse certo, pensou, irritada. Sentia-se mais romântica que pragmática, afinal. Ora, romantismo não se aplicava a uma pessoa que devotara a vida a investigações, refletiu. No final, acabara apaixonando-se pelo criminoso. Mas não havia se maravilhado com o valor do oponente? Ao menos encontrara alguém inteligente o bastante para confrontar. Ashdowne poderia superar o passado? E ela poderia? Tivera algumas horas de sono mas sentia-se tão confusa quanto no momento em que ele a despertou. Preferia ter permanecido enclausurada no quarto para refletir. No entanto a família insistira em levá-la ao Pump Room. Ficou tentada a fingir uma dor de cabeça, mas não o fez, estava cansada de mentiras. Por fim, aceitara o passeio, com relutância. Encontros sociais e multidões nunca a seduziram. Naquela manhã viase acabrunhada e melancólica. Não tinha interesse de escutar as conversas ao redor e tampouco sabia se queria rever Ashdowne. Perdida em pensamentos, ela não notou a aproximação de uma mulher elegante até ouvir um suave cumprimento. Atônita, deparou-se com a marquesa de Ashdowne. — Milady — disse, surpresa. — Por favor, chame-me de Anne. — A cunhada de Ashdowne segurou as mãos de Georgiana. — Ouvi falar de você tantas vezes que já me considero sua amiga. — Ouviu falar de mim? — Georgiana ficou pasma. Os lábios delicados de Anne sorriram. — Oh, claro! De acordo com Johnathon, é a mais inteligente, esperta, linda e corajosa das mulheres! Georgiana engasgou. Podia imaginar Ashdowne enumerando-lhe os defeitos e as inadequações, mas exultando-lhe as virtudes? E para aquele

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modelo de feminilidade? Anne suspirou. — Devo confessar que tive inveja no início porque não me vejo com nenhum desses atributos. Mas sua coragem me inspirou. Boquiaberta, Georgiana encarou a marquesa. A mulher, a responsável pelo ataque violento de ciúme, queria ser como ela? — Sim, sei que é presunção de minha parte — Anne disse, confundindo a reação de Georgiana. — Porém sinto como se você me tivesse dado forças. — Ela se aproximou. — Eu vim a Bath com uma missão. Porém, Johnathon me intimida de tal forma que não consigo realizá-la! Oh, tentei contar-lhe a novidade várias vezes, no entanto, na hora, meu coração dispara e fico muda. — Ela tocou a garganta. O gesto fez Georgiana imaginar como Ashdowne reagia diante da cunhada. Era arrogante demais para tanto teatro. E Anne mostrava-se tão doce que ela resolveu ser paciente. — Tenho certeza de que Ashdowne jamais se zangaria com você — argumentou. — Oh, ele não se zangou. Mas aquela expressão de superioridade me oprime — Anne confidenciou. — Não! Estou certa de que ele a respeita — Georgiana protestou. — Eu sabia que você era gentil. Posso lhe confessar um segredo? — Quando Georgiana assentiu, Anne chegou ainda mais perto. — Conheci um cavalheiro — revelou, corando. — Fui apresentada a ele durante minha malfadada visita a Londres. O único bem que obtive com aquela viagem, garanto. Ele é uma criatura maravilhosa e me pediu em casamento! De súbito, o ciúme pareceu duas vezes tolo, não só porque Ashdowne e a cunhada eram incompatíveis, mas porque Anne nutria sentimentos por outro homem. Que idiota Georgiana fora! Com um sorriso genuíno, ela tomou as mãos delicadas da marquesa. — Que notícia maravilhosa! — É verdade. — Anne corou novamente. — Como Johnathon é agora o chefe da família, sinto-me impelida a lhe pedir permissão. Porém temo que ele não aprove o cavalheiro em questão porque não possui o mesmo nível social. Georgiana ficou apreensiva. Teria Anne se apaixonado por alguém inadequado como ela o fizera? — Oh, ele é refinado de nascença e muito devotado a mim — Anne emendou, notando a preocupação. — Meu querido William, que Deus guarde sua alma, nunca aprovaria essa união porque o sr. Dawson é comerciante, entende. Um comerciante?, Georgiana perguntou-se intrigada. — Sendo o caçula dos vários filhos do visconde Salsbury, ele não possui título ou benefícios. Na verdade, fez fortuna comercializando implementos agrícolas. A sociedade não o considera, entretanto é o mais gentil dos homens, e eu… — Anne deteve-se, ruborizada. Ao perceber a aproximação de Ashdowne, Georgiana também sentiu-se ruborizar. Ele não dissera nada após ter feito aquelas carícias extraordinárias na cama, e ela tinha quase certeza de que o marquês deixara o quarto insatisfeito. Esse era outro dilema no qual pensava desde a noite anterior. E naquele momento não poderia questioná-lo. Emoções turbulentas convergiam para aquele homem que mentira e

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trapaceara. Pelo bem de Anne, ela deixaria de lado as dúvidas por enquanto. Determinada, Georgiana se postou diante de Ashdowne e puxou-lhe a manga do casaco para fazê-lo chegar mais perto. — Não é maravilhoso? — indagou, sorridente. — Anne vai se casar! Ashdowne, que já parecia surpreso com o comportamento de Georgiana, lançou um olhar espantado à cunhada. Anne, na mesma hora, baixou o rosto, como se temesse pronunciar qualquer palavra. — O sr. Dawson é o filho caçula do visconde Salsbury — Georgiana explicou. — Aliás também é rico e influente. Anne encarou Georgiana, sem dúvida assustada com o último comentário. — Oh, ela está tão feliz!— Georgiana prosseguiu. — É claro que dará sua bênção a Anne, não é? — Ela puxou-lhe a manga do casaco outra vez. — O quê? Oh, claro! — Ashdowne disse. Entretanto, ele parecia indeciso, pálido e infeliz. Georgiana imaginou se o cavalheiro vaidoso, que se achava superior a tudo e todos, fora de alguma maneira magoado. Por ela? A possibilidade originou um sentimento tão profundo quanto a emoção de estar apenas ao lado dele. — Quer dizer que vai nos dar sua bênção? — Anne indagou, esperançosa. — Certamente. Não tenho objeções ao casamento. Por um instante, Anne permaneceu em silêncio. — Ele é comerciante — afirmou ela, orgulhosa. Georgiana admirou-a pela coragem. — Tenho certeza de que Ashdowne não se importa. Ele também é o filho caçula de uma família tradicional e teve de ganhar a vida… da melhor maneira que pôde — Georgiana corrigiu-se, repreendendo-o com o olhar. — A menos, claro, que isso a incomode — acrescentou, voltando-se a Anne. Ainda corada, a cunhada de Ashdowne fitou Georgiana com expressão sombria. — Não. Tenho muito orgulho dele. A suave afirmação de uma mulher que admitia os próprios medos tocou o coração de Georgiana. De repente, Anne mostrou ser muito corajosa. Ela não só acreditava no homem que amava, como também o apoiava. Os sentimentos de Georgiana por Ashdowne retornaram poderosos e confusos ante o testemunho de Anne. Talvez houvesse sido rígida demais ao julgar os débitos de Ashdowne quando, no íntimo, sentia uma profunda admiração pela astúcia, talento e ousadia do Gato. Nem todos os homens seriam capazes de realizar tantas façanhas, ponderou. Ninguém mais teria obtido sucesso enganando as pessoas… exceto ela mesma. — E ele vai pagar minha dívida — Anne murmurou, despertando Georgiana. — Na verdade, Anne, não há motivos para… — Ashdowne começou. — Não, Johnathon. A perda foi obra de minha tolice, e não quero responsabilizá-lo. O querido sr. Dawson diz que é o mínimo que pode fazer já que minha estada em Londres me levou até ele. — Muito bem — Ashdowne concordou e, em seguida, fitou Georgiana. No mesmo instante, suspeitou que Ashdowne desejasse falar a sós com

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ela. Teria devolvido o colar? Se não, poderia fazê-lo naquele momento enquanto todos estavam entretidos no Pump Room. Uma onda de euforia a invadiu, contrapondo-se aos receios que ainda a perturbavam. — Georgie! A voz trovejante do sr. Bellewether a fez encolher-se. Não estava disposta a aguentar a natureza brincalhona do pai, principalmente se o assunto fosse Ashdowne. E, óbvio, as palavras seguintes foram um cumprimento esfuziante ao marquês. — Lorde Ashdowne! Não nos víamos desde que Georgiana voltou de Londres. Pensei que nos houvesse abandonado. — Ele piscou para o marquês. Constrangida, Georgiana teve vontade de desaparecer da face da Terra. Infelizmente, não poderia realizar esse desejo pois a mãe e as irmãs risonhas vinham logo atrás. Anne, por sua vez, esperava pelas apresentações. Quando concluiu que aquela manhã não poderia piorar, Georgiana divisou o sr. Jeffries caminhando em direção a eles, com uma expressão compungida. E agora?, pensou e encarou Ashdowne. Os magníficos olhos azuis brilharam antes de ele adquirir a postura usual de frieza. Para o bem de todos, Georgiana tentou ficar calma. No entanto, Ashdowne não sabia que ela não o entregara ao investigador de Bow Street. E agora não era um bom momento para lhe contar. — Milorde, srta. Bellewether, senhoras — Jeffries estendeu cumprimentos a todos. Embora mantivesse respeito, havia algo sombrio no detetive, como se fosse obrigado a fazer jus a sua posição. Georgiana sentiu um arrepio na espinha, mas empinou o nariz, determinada a não revelar nada do que sabia. Ashdowne podia ser criminoso, porém, nunca o mandaria à forca. Jamais. A despeito das explicações que ele dera no parque, a dor pela mentira soava forte em sua mente. E na noite anterior… O corpo de Georgiana aqueceu-se com a lembrança dos toques sensuais, das carícias que, mesmo na inocência, ela sentia terem sido mais que uma diversão. O passado fora superado. Ashdowne tinha razão. Era hora de cuidar do futuro. E naquele momento, Georgiana reconheceu que o amava apesar dos roubos. E cada experiência que obtivera ao longo de sua existência, o transformara no homem que era, contribuíra para torná-lo afetivo e amoroso. Respirou fundo e tentou frear os novos sentimentos causados pela descoberta. Não podia saltitar de alegria enquanto Jeffries se portava daquela maneira tão peculiar. — Eu poderia conversar a sós com o senhor, milorde? — o investigador perguntou a Ashdowne com uma rudeza espantosa. — Como pode ver, estou ocupado no momento — o marquês replicou, demonstrando a educação digna de um nobre. Georgiana quase bateu palmas. — Receio que nossa conversa não possa ser adiada, milorde — Jeffries avisou. Ele parecia sofrer, Georgiana reparou, comovida. O investigador de Bow Street não poderia estar convencido da culpa de Ashdowne, ou não se mostraria tão diligente. Ou poderia? Talvez Ashdowne não tivesse tido a chance de devolver o colar, Georgiana pensou mais uma vez. Se ele já o fizera, as suspeitas de Jeffries não teriam fundamento. Caso contrário…

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— Bem, faça como quiser, sr. Jeffries — Ashdowne sugeriu. — Não tenho segredos a esconder de ninguém, especialmente da adorável srta. Bellewether. Somente Georgiana notou a inflexão na voz que significava a necessidade de conversar com ela a sós. Não sabia se soltava uma gargalhada nervosa ou se desmaiava diante da ousadia do gesto. — Certo — Jeffries aceitou, parecendo infeliz. — Há algumas questões pendentes, milorde. E...bem, preciso saber onde estava na hora exata em que o roubo ocorreu. Georgiana ficou apavorada. Teria o detetive voltado a atenção para o marquês após descartá-lo como suspeito dias atrás? Enquanto murmúrios e exclamações ecoavam pelo salão, observou Ashdowne, horrorizada. Ele se mostrou seguro, apenas esboçou um sorriso arrogante. — Não conhece outra forma de aproveitar seu tempo, sr. Jeffries? — ele ironizou. — Perdoe-me, milorde, subitamente percebi que o senhor estava entre os poucos cavalheiros da festa cujo paradeiro não me foi informado. Se tiver a gentileza de me dizer onde se encontrava na hora do roubo, retiro-me em seguida. Embora houvesse certa esperança de engano nas palavras do investigador, ele mostrou-se determinado a prosseguir. Georgiana sentiu o pânico invadi-la. — Bem, já que insiste, eu estava no jardim respirando o ar da noite — Ashdowne retrucou, displicente. A expressão de Jeffries endureceu. — E há alguém que possa comprovar isso, milorde? Ashdowne sorriu. — Sim, claro. — E quem poderia ser? Fingindo ofensa, Ashdowne confrontou o investigador. — Não espere que eu diga, Jeffries, porque há uma dama envolvida. Considero-me um cavalheiro, a despeito de nossa visita ao jardim. Georgiana escutou a gargalhada do pai, seguida dos risos nervosos das irmãs. Anne, a seu lado, estava pálida e chocada. Era óbvio que Ashdowne pretendia constranger o detetive a fim de se livrar da suspeita. No entanto, Jeffries não seria derrotado com facilidade. Antes que a idéia se formasse em sua mente, ela manifestou-se: — Isso tudo não é necessário, sr. Jeffries — disse. Ele a repreendeu com olhar, como se lhe avisasse para não expor teorias sobre o caso. Georgiana não o fez. Respirou fundo e ergueu o queixo, resoluta. — Eu me encontrava com o marquês no jardim. Posso atestar o paradeiro de lorde Ashdowne na hora do roubo porque estávamos juntos. Todos os olhos do salão voltaram-se para ela. Georgiana chegou a ouvir o grito horrorizado de sua mãe quando a pobre mulher desfaleceu nos braços do marido. As irmãs riram, Anne empalideceu, e Jeffries pareceu aliviado. Como houvesse mencionado que suspeitara do marquês, o investigador deve ter estranhado o depoimento público, em especial depois de encontrar-se com Ashdowne às escondidas durante o roubo. Pois ele que pensasse, Georgiana concluiu. O único que poderia contradizê-la era Ashdowne.

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Temerosa, levantou os olhos e o fitou. Ao divisar a expressão perplexa, misturada a algo mais que fez seu coração derreter-se, os temores desapareceram. Então, Ashdowne enfrentou Jeffries. — Não foi cavalheiro de sua parte abordar minha noiva desse modo, mas suponho que agora esteja satisfeito. Não? — ele indagou, ameaçador. — Sim, claro, milorde — o investigador murmurou. — Minhas desculpas e… parabéns acrescentou, sorridente. — Obrigado. Posso ver que meu segredo não se encontra mais em segurança — Ashdowne anunciou, fitando Georgiana. Ele a segurou pelas mãos e postou-se diante do casal Bellewether. A mãe, sendo abanada pelas duas filhas, apoiava-se no braço do marido, e todos encaravam Ashdowne, apreensivos. — Creio que a atual situação nos força e revelar nossos planos antes do que pretendíamos. Perdoe-me por não consultá-lo, sr. Bellewether, mas aceito seus melhores votos para meu noivado — Ashdowne declarou. Erguendo as mãos, pediu silêncio à multidão que se agitava. — A srta. Bellewether e eu vamos nos casar. A sra. Bellewether, reanimada por Araminta e Eustácia, voltou a desmaiar. O queixo das irmãs de Georgiana caiu, e Anne sorriu, maravilhada. Atônita com a declaração, Georgiana não conseguiu emitir som algum. Apenas piscava, pasma, enquanto cumprimentos eclodiam ao redor de ambos.

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CAPÍTULO XVII A primeira reação, após o extraordinário pronunciamento de Ashdowne, fora de choque, seguida de uma euforia tão intensa que as pernas de Georgiana bambearam. Ficou grata por ele estar próximo para poder ampará-la. Porém, quando a mente objetiva voltou a trabalhar, percebeu que a repentina proposta havia sido premeditada. Ele cometera um ato de bravura ao anunciar em público um casamento que, sem dúvida, seria repudiado pela nobreza; no entanto, fora feito com o intuito de salvar a reputação de Georgiana. Não a pedira em casamento pelo afeto. Tinha de adverti-lo quanto a isso, pois a gratidão de Ashdowne o conduzira a tomar uma decisão comprometedora. De fato, a suposta união seria um bálsamo para a dor e sofrimento que Georgiana carregava dentro de si. Contudo, ela não queria recompensa. Valeu-se de álibi porque o amava. E, em nome do amor, queria vê-lo feliz e não se sacrificando por um casamento com a filha de um provinciano. Mais uma vez, Georgiana tentou se concentrar. Não podia imaginar-se construindo um futuro na companhia de Ashdowne, partilhando risadas, conversas e sua cama. O fato mais relevante era que nunca se tornaria uma marquesa adequada à nobreza. Embora desejasse, de todo o coração, casar-se com Ashdowne, Georgiana só aceitaria o pedido se os sentimentos do marquês fossem recíprocos. Caso contrário, ela diria a todos que haviam brigado antes de terminar o verão. Assim poderia voltar ao Texas, deixando para trás as inesquecíveis experiências obtidas em Bath. A resolução era muito penosa, mas Georgiana sabia ser a correta. Precisava falar com Ashdowne em particular. Infelizmente, as pessoas que se aglomeraram em volta deles no Pump Room lhe roubaram a esperança. Uma hora depois conseguiram cruzar as portas maciças do salão. Lá, Georgiana puxou a manga de Ashdowne, aflita para fugir da família e dos conhecidos. As manobras sutis de Ashdowne lhes garantiram a fuga. Georgiana caminhou em silêncio até as proximidades de um grupo de carvalhos que se localizava no fim da rua. Então, voltou-se ao marquês e revelou seu pensamento sem preâmbulos: — Não é obrigado a se casar comigo. — Estava ansiosa para verificar as feições de Ashdowne, contudo não se atreveu a fitá-lo nos olhos. Encarou somente o colarinho impecável em um esforço contido para não afetar a razão. — Oh, está enganada, minha querida investigadora — Ashdowne pronunciou, fazendo-a fitá-lo. — Você descobriu os planos nefastos de lorde Whalsey, a perversão do sr. Hawkins e a identidade do Gato. Façanhas importantes, devo admitir. Mas falhou em ver uma única verdade. Ele deu um passo à frente. Intrigada, Georgiana regozijou-se com aquele sorriso sensual. — Quero que seja minha esposa, Georgiana. Eu já a queria antes de seu generoso ato de heroísmo. Vinha tentando pedi-la em casamento havia algum tempo, no entanto algo inesperado sempre acontecia.

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— Mas você não me disse nada na noite passada… em meu quarto — ela protestou, ruborizada com a lembrança. O sorriso de Ashdowne desapareceu. — Não, porque havia muitos obstáculos entre nós. Você praticamente me expulsou de sua vida, lembra-se? Eu tinha certeza de que continuaria a pensar desse modo após nosso encontro de amor. — Ele fez uma pausa, emocionado. — Hoje de manhã, percebi que se importa comigo. Se não, porque motivo mentiria para salvar um ladrão? — Por que motivo, na verdade? — Georgiana sussurrou, reconhecendo o brilho intenso dos magníficos olhos azuis. — Eu a quero, Georgiana, e tanto que acho que vou morrer se não a tiver — Ashdowne confessou. Tocou a face rosada e acariciou um cacho farto. Também preciso de você. Desde que assumi o título, vivi uma vida de tédio e obrigações. Só você foi capaz de aliviar esse peso. E ainda necessito de alguns ajustes, os quais somente alguém possuidor de caráter e bondade poderia realizar. Enquanto ele lhe acariciava o rosto, Georgiana sorriu. Os impedimentos que havia encontrado para justificar que não deveria se casar com um marquês e ladrão aposentado começaram a desaparecer como que por encanto. As palavras seguintes foram o suficiente para convencê-la: — O mais importante de tudo é que a amo. Amo a beleza, a inteligência, o raciocínio lógico que sempre está em disputa com o lado romântico, e o espírito de aventura que ilumina tudo a sua volta. Preciso tê-la a meu lado para me deliciar o resto da vida. Em compensação, prometo manter-me afastado do mundo criminoso, protegê-la de seus rompantes e… — a voz de Ashdowne tornou-se grave — dar o melhor de mim para fazê-la feliz. Ainda mais ruborizada, ela imaginou como aquele homem completo e talentoso a faria feliz. Desejou verdadeiramente estar a sós com ele, e não à sombra de uma árvore no meio da rua. — O que me diz, Georgiana? Vai me dar outra chance? — Oh, Ashdowne! — Deslumbrada com tanta felicidade, ela se esqueceu de onde se encontravam e o abraçou com todo o amor que sentia. — Eu o amo. — Isso é um sim? — ele perguntou, emocionado. — Sim! Inebriada de paixão, Georgiana o fitou. Ashdowne sorriu e percorreu com os olhos os lábios e, em seguida, os seios alvos que pressionavam seu tórax. — Em primeiro lugar, prometo comprar-lhe um guarda-roupa novo. — Não é necessário — ela murmurou, sentindo o corpo arder de desejo enquanto os pensamentos fluíam, selvagens. Ashdowne franziu a testa, intrigado, e afastou-a de si gentilmente. — Não gostaria de se livrar desses vestidos extravagantes? — Oh, sim! É claro! — Georgiana respondeu, voltando a si. — Sempre sonhei em vesti-la — Ashdowne confessou e, tomando-lhe o braço, começou a caminhar sob os carvalhos. Os dedos de Georgiana tremiam. Tentou não pensar na noite de núpcias. Haveria um casamento que, em parte, tivera origem em um momento de tensão quando participaram do insistente questionário de um determinado investigador de Bow Street. Ela parou, de repente, e encarou seu noivo, aflita.

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— Ashdowne, eu estava pensando — Georgiana prosseguiu apesar do resmungo de seu futuro marido: — Não lhe parece estranho o fato de Jeffries efetuar um interrogatório daquela maneira? Ele deveria ser mais discreto, não acha? — Sim. — Ele tornou-se pensativo. — Quando sugeri seu nome a ele… — Georgiana se deteve quando Ashdowne encarou-a horrorizado. Ela desdenhou a reação com um gesto displicente. — Oh, isso aconteceu quando vi Jeffries pela primeira vez, antes de você se oferecer para trabalhar como assistente. Como Ashdowne continuasse espantado, ela fez uma careta. — O fato é que Jefíries deixou bem claro que minha suspeita era ridícula. Não falei sobre isso com você porque, como meu assistente, descartei a possibilidade. Porém, há alguém em Bath, além de mim claro — Georgiana sorriu — que ousasse apontar seu nome a Jeffries e exigisse que ele o interrogasse? Eles se entreolharam, e a resposta surgiu em uníssono: — Savonierre. — E o único influente o bastante para forçar Jeffries — Ashdowne murmurou. — E obrigá-lo a confrontar um marquês em público — Georgiana completou. — Sabe por que ele o detesta tanto? Savonierre deve ter algum motivo para acusá-lo. Se não, por que um poderoso cavalheiro da sociedade mandaria um marquês à forca por causa de uma peça de esmeraldas? Quando Ashdowne não respondeu, Georgiana desconfiou. — Tem de haver algo mais nesse incidente porque tudo me parece muito calculado. E como se ele lhe preparasse uma armadilha, mas como? A menos que… — Ela apertou o braço de Ashdowne. — Savonierre sabe quem você é. — Impossível! Ninguém sabe — ele murmurou com a arrogância habitual. — E se ele suspeita e deseja se vingar do Gato? — Georgiana encarou Ashdowne, desconfiada. — Você roubou algo dele? — Embora minhas ações tenham sido ousadas, nunca cometi um desatino como esse — ele retrucou, irritado. — No entanto, houve aquela gargantilha de diamantes de lady Godbey… — O que isso tem a ver com Savonierre? — Na ocasião, ouvi boatos de que Savonierre havia presenteado a gargantilha à dama como um gesto de seu… afeto. — Entendo. — Georgiana ignorou o "preço" da generosidade e se ateve aos fatos. — E por que ele se importaria com o roubo, se a jóia não mais lhe pertencia? — É um homem muito poderoso e não gosta de ser desafiado… nem indiretamente. — Ashdowne sorriu, sarcástico. — A ironia da história é que os diamantes eram falsos. — Falsos? — Sim. Suponho que lady Godbey não era tão devotada a Savonierre quanto ele gostaria. Ela vendeu a gargantilha verdadeira ou então deu-a a um jovem artista sem recursos, com o qual parecia ter uma forte ligação. Georgiana estremeceu ao constatar que alguém seria capaz de trair

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Savonierre e imaginou a reação furiosa do nobre. Na verdade, era difícil imaginá-lo sendo ludibriado pela amante. — Talvez ele tenha dado a gargantilha falsa a ela. E se sua artimanha fosse descoberta, destruiria a imagem de milionário vaidoso que goza de uma reputação ilibada — Georgiana refletiu. Os lábios de Ashdowne se curvaram em um sorriso indulgente. — Pode ser. Mas desconfio de que lady Godbey conheça mais as próprias jóias que o melhor joalheiro de Londres — comentou. — Sei… — Georgiana descartou a teoria. — Então Savonierre mostrou sua afeição a lady Godbey ao presenteá-la com a gargantilha de diamantes. Porém não sabia que ela mandaria copiar a jóia. Quando o Gato furtou a peça, ele ficou enfurecido. Talvez tenha tomado o roubo como insulto pessoal e jurado descobrir a identidade do ladrão para puni-lo. Com o coração em disparada, Georgiana começou a juntar os fatos outrora desconexos. — Você se aposentou e, por consequência, frustrou o desejo de vingança de Savonierre. Sendo um homem que não aceita derrotas, ele teve de articular um jeito de obrigar o Gato a reaparecer. A euforia incontrolável começou a dominá-la. — Ele sabe que você não tem problemas financeiros, então precisou arquitetar algo muito especial para recolocá-lo no jogo. Quem mais serviria de isca, além de Anne? Savonierre é parente de lady Culpepper, logo seria fácil para ele dissuadi-la a cooperar. Ashdowne fitou-a, céptico. — Não sei, Georgiana. O plano me parece elaborado demais. Uma forma intrincada de obter vingança quando ele poderia apenas me enfrentar. — Sim, mas Savonierre é complexo e intrincado — ela argumentou. — Tenho o pressentimento de que não lhe agrada agir abertamente. Precisa projetar esquemas, armar ciladas, só para se entreter. Embora continuasse duvidoso, Ashdowne respeitou a teoria, e Georgiana quase o beijou por isso. Passar o resto da vida beijando aquele homem seria um presente divino, no entanto, forçou a atenção no caso. — Muito bem. Digamos que esteja certa. E agora? — ele indagou. Tentando não se perder naqueles lábios sedutores, Georgiana focalizou o colarinho e considerou as graves implicações de sua teoria. — É claro que não posso prever o próximo passo de nosso homem. Mas tenho certeza de uma coisa. — De quê? — Savonierre não vai desistir — ela respondeu, trêmula. — Jamais. Ao entrar em casa, Geórgiana foi bombardeada com perguntas e congratulações da família. Embora os amasse muito, desejou fugir com Ashdowne para um lugar distante longe de todos. Porém sua mãe já havia iniciado os preparativos para o casamento, um evento que, em si, causava pouco interesse em Georgiana. Ela precisava de sossego para refletir acerca das intenções obscuras de Savonierre. Felizmente, a euforia familiar foi interrompida com a chegada de um convite. Georgiana deu graças à interrupção… até descobrir quem tinha enviado a convocação. Observou a rebuscada mensagem e perguntou-se por que motivo lady Culpepper organizava uma recepção de última hora para celebrar o noivado.

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Não demorou muito para adivinhar. Claro, Savonierre estava por trás daquela tramóia. O que ele planejava? Tentaria provar que ela não se encontrava na companhia de Ashdowne na hora do crime? Não conseguiria, disse a si mesma. Contudo, não descartava a hipótese de Savonierre alegar que Georgiana e Ashdowne haviam tramado, juntos, o roubo do colar. E se fosse essa sua intenção? Ultrajada, pediu ao mensageiro que levasse sua resposta a lady Culpepper, confirmando sua presença. Não poderia recusar uma festa preparada em sua homenagem. Tampouco Ashdowne. Savonierre havia lhes preparado uma emboscada. Ashdowne não conseguiria devolver o colar antes do anoitecer. E agora qualquer oportunidade seria frustrada com a casa repleta de convidados e sob a fiscalização do atento inimigo. E se ele fosse pego em flagrante? Georgiana precisava conversar com o noivo. Mas não havia tempo, seus pais já a apressavam para o evento da noite. Sua mente agitava-se enquanto fazia a toalete, e continuou a funcionar acelerada na carruagem durante o trajeto à mansão de lady Culpepper, apesar da tagarelice das irmãs. Contudo, o gasto excessivo de reflexão não resultara em uma pista concreta quando parara finalmente diante da luxuosa residência. A recepção calorosa de lady Culpepper, e as atenções dos outros convidados a espantaram sobremaneira. Era uma experiência bem distinta à última visita, quando entrara naquela casa com Savonierre e Bertrand. O clamor pela nova posição de futura marquesa deixou-a bastante entediada. A única pessoa que a interessava era Ashdowne, e ele ainda não havia chegado. Devido ao atraso do noivo, ela teve de enfrentar dezenas de comentários maldosos. A sra. Bellewether, que sempre desconfiara das intenções do marquês, mostrou-se preocupada até que Geórgiana a confortou. — Ele virá — afirmou, sorrindo à mãe. Nunca lhe passaria pela mente que Ashdowne a deixasse à mercê dos vilões. Tal constatação a convenceu de que ele jamais a abandonaria. Ele possuía caráter e senso de honra, apesar do passado criminoso. A maioria dos nobres que a circundava nem sequer chegaria aos pés do garboso marquês. Geórgiana endireitou os ombros, sentindo-se tal qual Anne ao defender seu comerciante. Acreditava em Ashdowne e tinha orgulho dele porque o talento e a inteligência o haviam transformado no homem maravilhoso que era. Savonierre já estava sugerindo que alguém fosse procurar o noivo quando Ashdowne apareceu, elegante e superior como sempre. Alegou que uma das rodas da carruagem se quebrara, obrigando-o a andar. Georgiana sabia que o veículo seria encontrado, não muito longe da residência, com Finn fazendo reparos, necessários ou não. Onde ele estivera de verdade?, pensou, porém não teve a chance de lhe perguntar. Votos de felicidades voltaram a soar pelo salão, seguidos de brindes. Então lady Culpepper anunciou o jantar, e Georgiana foi obrigada a sentar-se próxima a um monótono capitão aposentado, enquanto Ashdowne a observava do lado oposto da mesa. Após o jantar, quando o grupo reuniu-se novamente no salão de festas, Savonierre resolveu mostrar as garras. Segurando uma taça de champanhe,

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ele se aproximou com a expressão fria e calculista que mascarava intenções maléficas. Georgiana ficou mais uma vez alarmada ao ver o sr. Jeffries aparecer, sem disfarçar a expressão de quem estava profundamente aborrecido. O investigador de Bow Street não teria ido à festa para efetuar uma prisão? Ou teria? — Srta. Bellewether, suponho que seu noivado ponha um fim à investigação — Savonierre comentou. Pouco acostumada a ocultar as emoções como Ashdowne, Georgiana mal conseguiu formular uma resposta. — Claro que não — balbuciou, em uma imitação patética dela mesma. — Verdade? — Savonierre sorriu, sarcástico. — Acho difícil acreditar. E quanto a você, Jeffries? — Eu não saberia dizer, sir — o investigador murmurou. — Bem, pela primeira vez, concordo com você — Ashdowne manifestou-se, assustando Georgiana. — Afinal, a dama vai se casar e não terá tempo para besteiras. Embora conhecesse a razão daquele argumento, Georgiana ofendeu-se. Vários cavalheiros escutaram as palavras do marquês e assentiram à tamanha injustiça. Ela ouviu calada, e já se preparava para demonstrar seu ultraje quando Ashdowne prosseguiu: — Oh, não sou contra a investigação — arguiu. — Um roubo dessa monta em Bath? Bandidos escalando as paredes da casa? Não creio. — O tom de descrédito fez o evento parecer ridículo. — O que acha que aconteceu às esmeraldas, Ashdowne? — Savonierre indagou. — Sabe como são as mulheres. Suspeito de que todo o barulho tenha sido por nada, e a dama simplesmente esqueceu o lugar onde deixou a jóia. Savonierre riu. — Receio que tenha de se aprimorar, Ashdowne. Meu oficial revistou o quarto várias vezes e nada encontrou. Certo, Jeffries? — ele perguntou, e o investigador de Bow Street apenas assentiu com a cabeça. Ashdowne não se preocupou. — Ele procurou pistas de um suposto crime, acredito. Mas e o colar? — Ergueu as sobrancelhas, intrigado. — Talvez tenha caído entre as cobertas ou embaixo de algum móvel. Jeffries aproximou-se com a expressão sombria. — Eu o teria notado, milorde. — Talvez, na pressa, lady Culpepper o tenha jogado em uma gaveta. Ou então ela o guardou em outro porta-jóias? Não estou sugerindo um súbito lapso de memória, e sim um simples caso de descuido. As damas hoje em dia possuem tantas jóias que nem sei como conseguem administrá-las. Jeffries, indignado com a possibilidade, voltou-se a lady Culpepper. — Há mais de um local onde guarda suas jóias, milady? — inquiriu-a. — E claro, mas… — Por favor, mostre-me — Jeffries interrompeu-a. — Não! Que ultraje! — lady Culpepper protestou, empinando o nariz aristocrata ao investigador. — Há algum motivo que a impeça de atender um pedido tão razoável? — Georgiana perguntou, com toda delicadeza.

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Mal podendo se conter de ódio, a mulher confrontou a convidada de honra. — Você! — exclamou, pronta para atacar. Porém, recuperando a consciência, lady Culpepper corou, ciente de que jamais poderia agredir a homenageada, cujo noivado estava sendo comemorado em sua residência. Fingiu um sorriso gentil e acenou para Jeffries. — Vamos. E seja rápido porque não pretendo passar a noite em meu quarto enquanto tenho a casa repleta de convidados. Vários elogiaram a graça de lady Culpepper, e outros criticaram a inadequação do investigador de Bow Street. Enquanto todos observavam a anfitriã e Jeffries subirem a escada que os conduziria ao andar superior, Savonierre mantinha o olhar fixo em Ashdowne. De súbito, Georgiana sentiu frio e aproximou-se de seu noivo. Não precisaram esperar muito tempo. Quando Georgiana achou ter ouvido um grito, Jeffries desceu a escada, apressado, com o colar na mão e tendo lady Culpepper a sua retaguarda. Ela não parecia satisfeita por recuperar a jóia predileta. Na verdade, a mulher fitou Savonierre com extremo desagrado. Sem nem sequer olhá-la, o nobre examinou o colar. Ao murmurar que as pedras eram genuínas, a multidão aglomerou-se para espiar as famosas esmeraldas. Todos, exceto Georgiana e Ashdowne. De repente, ela sentiu as pernas fraquejarem e as mãos tremerem de tanto alívio. Concluiu então que, enquanto todos aguardavam sua chegada, Ashdowne colocara o colar em outro porta-jóias. Agora ele não poderia ser acusado daquele crime. E os outros permaneceriam no passado para serem esquecidos. Ashdowne estava salvo. Georgiana apertou o braço musculoso com o intuito de se assegurar de que tudo que presenciava era real. Porém, quando olhou Savonierre, deduziu que sua alegria fora prematura. Pela intensidade expressa no rosto do nobre, ela percebeu que ainda lhes restava a última cartada. Ao vê-lo aproximar-se, Georgiana teve de juntar forças para não fugir de pavor. — Posso conversar com o casal? — Savonierre perguntou, indicando a sala onde ele havia questionado Georgiana. — Certamente — Ashdowne respondeu com cortesia. Entretanto, ela não se sentiu tão segura quanto o noivo, então se postou ao lado dele a caminho da sala. Savonierre fechou a porta tão logo os dois se sentaram. — Parabéns, srta. Bellewether e Ashdowne. Dadas as circunstâncias, devo conceber minha derrota. Savonierre ergueu a mão quando Ashdowne o olhou espantado. — Não. Deixe-me explicar. Certa vez, mantive uma forte ligação com uma dama da sociedade quem presenteei, como um gesto de amizade, uma valiosa gargantilha de diamantes. Embora meu interesse pela dama não tenha durado, podei imaginar minha indignação quando a jóia foi roubada por um ladrão infame, apelidado pelos jornais de Gato. Savonierre sorriu, como se desprezasse tal denominação, no entanto, Ashdowne não reagiu nem sequer demonstrou preocupação. Ele evidenciou

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somente um interesse polido que Georgiara admirou. Por sua vez, ela precisou controlar medo quando Savonierre voltou a falar. — Em minha irritação, resolvi pôr um fim nas gatunagens daquele indivíduo. A bem da verdade as ações do Gato sempre me divertiram até ele ousar tirar o que era meu. A feição dura de Savonierre a fez encolher-se. Georgiana torceu as mãos a fim de conter a agitação. — Levei meses para chegar à identidade do malfeitor. Mas ele acabou optando pela sorte quandc resolveu interromper suas atividades criminosas. No entanto, eu estava confiante de que poderií atraí-lo a um último roubo. — Savonierre dirigiu-se a Ashdowne. — Entendo a emoção do perigo e o prazer de ludibriar a alta sociedade. Poderia até admirar a esperteza do Gato, se ele não houvesse cruzado meu caminho. — Francamente, sr. Savonierre — Georgiana protestou, assustada com o rumo daquele discurso. Ele desconsiderou a interferência. — Um momento de sua indulgência, por favor — disse a Ashdowne. — Incapaz de superar o problema, comecei a armar ciladas para pegá-lo. Frustreime porque o Gato devia estar ocupado demais ou desinteressado pela vida aventureira. Recolhi todas as informações de que dispunha e decidi, enfim, que o ladrão só voltaria à cena, se eu incluísse algo pessoal no jogo. E assim o fiz. O sorriso do homem foi maquiavélico. Ashdowne manteve-se impassível. — Contudo, eu o subestimei. — Embora não demonstrasse, havia certa agressividade na voz de Savonierre. — Montei o cenário perfeito, mas o Gato fez questão de me distrair o bastante para roubar a isca. Logo não pude pegálo em flagrante, como pretendia. Mesmo assim, eu ainda tinha certeza de poder desmascará-lo. Pensativo, Savonierre fez uma pausa. Georgiana acomodou-se melhor na cadeira. — Infelizmente, o investigador de Bow Street que contratei mostrou-se incompetente, mas alimentei grandes esperanças em suas habilidades, srta. Bellewether. — Ele a encarou. — Não contava com o fato de que o ladrão usaria o poder de sedução para persuadi-la a abandonar o caso. — É suficiente, Savonierre — Ashdowne interveio, levantando-se com a expressão rígida. — Não entendo suas insinuações, mas não permitirei que ofenda Georgiana. Um brilho de surpresa surgira nos olhos maléficos de Savonierre? Ela não tinha certeza. — Perdoé-me — ele desculpou-se. Ao resmungar, Ashdowne mostrou quão falso Savonierre lhe havia parecido. E quando aquele homem usava de sinceridade para se expressar?, Georgiana perguntou-se. — É livre para ir, claro, mas esteja avisado de que não descansarei… — Não! — Ashdowne o interrompeu. — Esteja você avisado, Savonierre — murmurou em um tom ameaçador. — O roubo dos diamantes pertence ao passado e, em seu lugar, eu não perderia tempo caçando um homem que roubou uma jóia falsa de sua ex-amante. O melhor seria perguntar a ela o que fez com a gargantilha verdadeira. Savonierre, que nunca mostrava qualquer emoção, estava prestes a

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explodir de ódio. A tão polida civilidade parecia demais para ele. Então, do modo que surgiu, a poderosa sensação desapareceu. Georgiana perguntou-se o que o homem faria então. Tomaria as palavras de Ashdowne como culpa confessa? Ambos seriam jogados na prisão? Para sua surpresa, Savonierre não fez nada disso. Apenas inclinou a cabeça em um gesto de entendimento. — Se estiver certo, devo pedir-lhe desculpas. E, claro, aceitarei seu conselho. Com um sorriso amargurado, ele deu por encerrado o jogo que vinha tramando e deixou Georgiana e Ashdowne boquiabertos ao retirar-se do recinto.

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CAPÍTULO XVIII A impressão era a de que toda a população de Bath havia comparecido ao casamento, fosse por curiosidade ou pela consagração que coincidiu com o fim da temporada de verão. A mãe de Georgiana ficara preocupada pois todos comentavam o aspecto "escandaloso" dos preparativos que correram tão depressa. Entretanto, o pai afirmou que o marquês possuía suas razões e quanto mais cedo estivessem casados melhor. Ashdowne, então, marcara a data, aliviado. Durante as semanas que antecederam a cerimónia, ficara várias vezes tentado a levar Georgiana a Gretna Green em um sentimento exacerbado de posse. Com o objetivo de evitar boatos maldosos sobre a união, acabou por apressar o casamento que aconteceu na velha abadia da cidade, seguido de um requintado desjejum em Camden Place. E à noite, enfim, Georgiana seria dele. Ashdowne respirou fundo. Contava os minutos até que chegasse a hora em que pudesse deixar fluir a arrebatadora paixão que nutria havia meses. Ao fitar a noiva usando um belíssimo vestido de seda azul, sentiu-se impelido a arrancar-lhe a elegante criação que cobria o corpo escultural, tomá-la nos braços e subir a escada de sua residência, esquecendo-se dos convidados. Mas, para não causar nenhum tipo de aborrecimento à esposa, manteve-se ao lado de Georgiana, sorrindo e murmurando tolices ao interminável número de cumprimentos. Claro, nem todos os conhecidos estavam presentes à festa. O maligno lorde Whalsey tinha se unido a uma rica solteirona que adorava a calvície do visconde, e o sr. Hawkins fora expulso da cidade por um marido ciumento, com a ajuda de Ashdowne. Enquanto atendia aos convidados, ele avistou Jeffries se aproximando. Pela primeira vez, sentiu-se incomodado com a chegada do investigador de Bow Street. Por ter vindo de Londres especialmente para a festividade, Jeffries foi direto ao encontro da desatenta Georgiana. — Senhorita? Quero dizer, milady? — o detetive a chamou. Infelizmente, no instante em que ela se virou, a bolsa que segurava colidiu no peito de Ashdowne. Acostumado a acidentes, ele agarrou o pequeno adereço com uma das mãos, e com a outra, segurou a esposa pela cintura que perdera o equilíbrio. Então foi recompensado com um sorriso estonteante, seguido de uma abreviada versão do olhar. Ashdowne suspirou, maravilhado. — Muito bem, milorde. — Jeffries sorriu. — Obrigado — Ashdowne disse, secamente. — Agora vejo que é o guardião da nova marquesa e creio que tem feito um ótimo trabalho — o investigador comentou. — A partir de hoje o trabalho será permanente. — Ashdowne fitou a esposa, apaixonado. — É uma tarefa difícil, mas os benefícios recompensam — murmurou, apreciando o leve rubor nas faces de Georgiana. Agora mais experiente em relação às brincadeiras do marido, ela ensaiou a postura digna de marquesa e assentiu ao detetive. — Obrigada por vir, sr. Jeffries. Sua partida foi tão abrupta que não tive a oportunidade de me despedir e agradecer sua colaboração.

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— Bem, uma vez que não houve roubo, não havia motivo para prolongar minha estada em Bath. Mas gostei muito de nossas conversas, senhorita… ou melhor, milady. É uma mulher incomum, se me permite dizer. — Estou de pleno acordo — Ashdowne retrucou, e enquanto Jeffries os cumprimentava, sentiu-se um tanto culpado. Por mais que tentasse evitar, sempre lhe vinha à mente nas últimas semanas o fato de Jeffries ignorar que Georgiana havia solucionado o caso sozinha. Ninguém saberia a identidade do ladrão, que agora se redimira. O reaparecimento do colar tinha absolvido Ashdowne de qualquer suspeita, no entanto, destruíra os sonhos de Georgiana. E esse detalhe ele não podia esquecer… ou perdoar. De repente, Ashdowne precisou deixar de lado a culpa e receber o tioavô de Georgiana, um cavalheiro de baixa estatura que o analisava através das grossas lentes. — Então você é o marquês de Ashdowne. — Silas o examinava como se ele fosse um espécime raro. Grato por Georgiana nunca ter vivido em Londres ao lado daquele senhor, Ashdowne sorriu. Silas assentiu, aparentemente satisfeito com a inspeção. — Se Georgiana o escolheu, creio que você a merece. E lembre-se, meu jovem, os génios são muito excêntricos. Tem de dar espaço para eles estudarem e, de vez em quando, paparicá-los. Chocado, Ashdowne tentou recordar a última vez que alguém tivera a audácia de chamá-lo de "meu jovem", mas não conseguiu. — Sei disso, sir. E tenho a intenção de manter este génio em particular ocupado por um longo tempo — ele confessou e fitou Georgiana com orgulho explícito. Satisfeito, Silas Morcombe riu e afastou-se. Porém a sensação de culpa voltou a se manifestar em Ashdowne até o momento em que não pôde mais contê-la. Tomando a mão de Georgiana, levou-a a uma pequena sala, onde houvesse alguma privacidade. Quando ela o encarou, ansiosa, sentiu a garganta travar. — Tenho de me desculpar pelas coisas que nunca lhe disse… — Ele respirou fundo e prosseguiu: — Perdoe-me se a privei de um reconhecimento merecido — sussurrou. — Mas falei sério em relação a Londres. Se quiser morar lá, nós iremos. Vou apresentá-la às mentes mais brilhantes para que você possa cintilar entre elas. Georgiana o fitou, surpresa. — Eu me casei com a mente mais brilhante que conheço. Por que preciso de outras? — Ela o observou como se o marido fosse obtuso. — Sei que buscava fama, mas agora sinto-me satisfeita com um único admirador, desde que seja você. Talvez, desde o início, minha busca tenha sido essa. Inseguro, Ashdowne segurou as mãos delicadas. — Se é assim que deseja. É claro que meu feudo é composto de centenas de pessoas, entre empregados e trabalhadores rurais, que podem necessitar de seus talentos. — E, se não quisessem, Ashdowne inventaria algo, qualquer coisa, para despertar o interesse de Georgiana, porque planejava passar o resto da vida procurando satisfazê-la. — Parece maravilhoso, já que adoro um bom mistério. Sabe o que venho descobrindo, Ashdowne? O amor é o maior mistério de todos e não me

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importaria se tivesse de passar meus dias solucionando-o. Na verdade, estou pronta para uma nova aventura… hoje à noite. O tom sussurrado da voz incitou a paixão. Ashdowne gemeu e fez menção de abraçá-la, porém recuou. — Quando os convidados irão embora? — indagou. — Bem mais tarde. O entardecer se aproximava quando os parentes de Georgiana, enfim, se despediram. Todos imaginavam que os recém-casados iriam viajar para o legado da família naquele mesmo dia, mas Ashdowne mudou os planos. Com Georgiana, a residência de Camden Place havia perdido o peso decadente e tinha a impressão de que, a menos que a esposa quisesse perder a virgindade no coche, precisavam permanecer em Bath. Portanto, sob os raios dourados do pôr-do-sol, Ashdowne conduziu sua marquesa ao quarto. Milagrosamente o ambiente lhe pareceu suave com a presença de Georgiana. Começou a despi-la do elegante traje nupcial, tal qual desejara o dia inteiro. E, como antes, quando se encontravam a sós, o tempo pareceu estagnar. Semelhante à noite na terma e no dormitório de Georgiana, Ashdowne sentiu-se embevecido. O sangue borbulhava nas suas veias cada vez que a tocava. Nas semanas que precederam o casamento, ele se mantivera controlado pois temia sucumbir à tentação antes das bodas. Naquele momento de intimidade, ficou grato pela torturante espera. Havia um quê de mistério a cada toque. Fascinado pelas carícias sobre a pele alva, notou emoções insondáveis dominá-lo. — Eu a amo, Georgiana — murmurou, antes de beijar a curva do ombro. Então, deixou o vestido de seda azul cair ao chão e explorou os braços, o pescoço até ater-se às curvas visíveis acima do corpete. — Quero-a por inteiro, Georgiana. Sua mente, seu coração, seu corpo — sussurrou e tocou-lhe os seios. Em reposta, ela gemeu. Ashdowne começou então a acariciá-la sobre as rendas do corpete. O mais delicioso no jogo era poder provar os mamilos, livres de qualquer guarnição. Devagar, puxou o laço que prendia o corpete enquanto afagava as pernas delgadas, os quadris e os ombros. Por fim, quando restaram apenas as meias, o corpo curvilíneo estremeceu com a brisa do entardecer que entrava pelas janelas. — Você é esplendorosa — Ashdowne confessou, extasiado. Georgiana sorriu, constrangida, e ele apontou o coração. — É linda aqui e aqui — in dicou a testa. — Obrigada. Você também — Georgiana murmurou e percorreu-lhe o corpo com os olhos. No mesmo instante Ashdowne teve vontade de se despir. Mas não foi necessário. Surpreendente como sempre, Georgiana aproximou-se e lhe retirou o casaco. Em seguida, desabotoou a camisa e explorou os músculos do tórax de forma lenta e provocativa, quase levando-o ao êxtase. E a inocente esposa não parou por aí. Ousada, deslizou as mãos macias pela cintura até alcançar o centro da masculinidade. Mesmo sobre a roupa, a sensação do toque foi

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inebriante. — Não, doce Georgiana. Ainda não — ele implorou, afastando as mãos afoitas. Porém Georgiana persistiu. Voltou a acariciá-lo e desabotoou a calça, puxando-a até os pés. Em vez de despi-lo, ela explorou as fortes coxas e o fez gemer. De súbito, as carícias cessaram. Quando Ashdowne a olhou, viu-a ajoelhada diante dele, tendo os cachos dourados muito próximos ao calor de seu desejo. Prendeu a respiração e encarou-a, repreensivo. Mas Georgiana, que raramente lhe obedecia, beijou o membro ereto. Onde ela havia aprendido aquilo?, Ashdowne perguntou-se. Trêmulo, deixou-se cair sobre a superfície macia da cama. — É igual ao livro — Georgiana sussurrou, ao notar a expressão de surpresa do marido. A lembrança dos desenhos eróticos que haviam visto na terma resvalou a mente de Ashdowne, segundos antes de Georgiana sentar-se sobre as pernas dele. Os pensamentos desapareceram no instante em que, frenético, terminou de se despir. Ciente de que deveria agir com cautela, Ashdowne tentou refrear a urgência da satisfação, mas o desejo fora reprimido por tempo demais, e sua esposa o tentava ao extremo. Acariciou os cabelos sedosos, o rosto adorável e, enfim, penetrou-a. Tão logo sentiu o calor da feminilidade, soltou um gemido de prazer. — Georgiana… — Queria preveni-la, porém ela se movia, sensual, e a resistência terminou por desaparecer. Segurando os quadris arredondados, aprofundou a união. Ouviu-a gritar e, então, sentiu-se acolhido. A sensação de que Georgiana lhe pertencia fez com que ele se entregasse à plenitude do ato. Ashdowne estreitou o abraço e mergulhou o rosto nos cachos perfumados. De repente, sentiu o toque gentil nas faces. — Está tudo bem — Georgiana o assegurou. — Eu quero lhe dar prazer. Quando os lábios rubros envolveram os dele, Ashdowne deu liberdade aos instintos. Iniciou com movimentos lentos, e depois os incrementou com frenesi. Só podia concentrar-se na intensidade da paixão até que o clímax explodiu. Os tremores violentos cederam gradualmente, e ele se esticou na cama, ainda com Georgiana nos braços. — Não devia ter sido assim — resmungou, ofegante. Havia planejado uma iniciação terna e romântica para sua noiva, e, no entanto, em algum ponto do percurso ela o distraíra. Ao abrir os olhos, Ashdowne encontrou o rosto de Georgiana apoiado em seu peito. Enquanto a observava, ela puxou um cacho dourado da testa. — Por que não? — perguntou. — Era sua vez. — Minha vez? — A última vez, em meu quarto, sei que você foi embora sem… — As palavras deram lugar ao rubor, e Ashdowne comoveu-se com tamanha generosidade. — Oh, meu amor, isso não significa que sua primeira experiência tenha de ser assim. Eu devia ter esperado um pouco mais. Georgiana riu e, ao fazê-lo, os seios roçaram os músculos do tórax. Ele respirou fundo.

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— Temos todo o tempo do mundo para fazermos o que desejarmos. Até aquelas posições do livro — ela sugeriu com um sorriso tímido e provocativo ao mesmo tempo. Aquele livro! Ashdowne imaginou se os tais desenhos não o levariam a exaustão total. Sentindo o desejo renascer, deitou-se sobre Georgiana e sorriu. A marquesa estava certa, pensou. Haviam apenas começado. Beijou as curvas dos seios, disposto a descobrir todos os segredos de sua amada. Em breve, o aprendizado de Georgiana estaria completo. Enquanto isso, teria o inenarrável prazer de capturá-la entre beijos e afagos que incitavam gritos de êxtase. Quando enfim se entregaram ao descanso, os primeiros raios de sol cobriam a cama. Georgiana lhe ofereceu uma nova versão do olhar que o deixou ainda mais apaixonado. — Como lhe disse antes, Ashdowne, você é um homem de muitos talentos — ela sussurrou. Depois de passarem alguns dias no quarto, Georgiana conseguiu convencê-lo a sair da residência para que as criadas pudessem arrumar os aposentos. E quanto a eles, ela afirmara, precisavam tomar um pouco de ar. Apreciando a primeira brisa do outono, Ashdow-ne caminhava nas familiares ruas de Bath. Considerou a possibilidade de passarem o verão seguinte naquela cidade tão peculiar. Talvez em uma casa mais confortável, ponderou. De súbito, Georgiana interrompeu os devaneios quando puxou-lhe a manga do casaco. — Olhe — ela murmurou, em um tom muito familiar. — O quê? — Ashdowne esquadrinhou a área e não notou nada de estranho. Porém não possuía a particular sensibilidade de Georgiana. Fitou-a, intrigado. — Ali! Não acha a atitude daquele homem de terno azul suspeita? — Sem esperar pela resposta, ela prosseguiu, ofegante: — Parece-me que ele está seguindo aquela mulher! — Verdade? — Ashdowne sorriu, maravilhado. — Veja! Ele está bem atrás dela. Acha que devemos segui-lo? — Georgiana perguntou, ansiosa. Observando a esposa, Ashdowne sucumbiu aos encantos da marquesa e cedeu à próxima aventura, a primeira de muitas mais. Então soltou uma gargalhada espontânea. — Por que não?  Sendo uma leitora e escritora voraz, DEBORAH SIMMONS começou a carreira profissional como repórter de um jornal. Ela se voltou à ficção depois do nascimento de seu primogênito, quando o amor por histórias românticas a fez escrever o primeiro livro, publicado em 1989. Vive com o marido, dois filhos e dois gatos em uma chácara de sete acres em Ohio, onde divide o tempo entre a família, leitura, pesquisa e escrita.

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Adorável marquês  

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