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A Outra (In Bed With a Stranger)

Mary Wine

Inglaterra, 1578 Unidos pelo destino Para assegurar o futuro de seu clã, Brodick McJames precisa se casar. E Mary Stanford, filha de um conde inglês, é a escolha perfeita! Brodick nunca viu sua noiva, mas isso é irrelevante, pois tudo o que ele quer é uma mulher que lhe dê um herdeiro. Ao descobrir que está prometida a um homem a quem não ama, Mary decide mandar a meio-irmã Anne em seu lugar. A mulher que chega a Alcaon é bem diferente do que Brodick esperava, e a paixão que floresce entre eles promete mais do que um simples casamento de conveniência. Enciumada ao perceber a felicidade da irmã, Mary fará de tudo para desfazer a troca... No entanto, quando o destino aproxima um homem e uma mulher apaixonados, é preciso muito mais do que um plano para separá-los...

Digitalização: Vicky B. Revisão: Crysty


Mary Wine - A Outra (Julia Historicos 1588)

Mary Wine escreveu mais de vinte romances, já recebeu vários prêmios e é amplamente elogiada pelos leitores, pela crítica e por outras autoras, entre elas, Lora Leigh, bestseller do New York Times. Ela combina talentosamente a paixão por História com a inspiração e criatividade para criar belos contos de amor.

Querida leitora, Neste conto ao estilo de A Gata Borralheira, Anne Cooper é a filha ilegítima do conde de Warwickshire, e pouco mais do que uma criada para Philipa, a senhora do castelo, e sua filha, Mary. Prometida a um escocês que precisa encontrar uma esposa apenas para perpetuar o nome do clã, Mary se recusa a casar com um homem a quem considera um bárbaro e manda a irmã em seu lugar. Contudo, o inesperado acontece quando Anne e Brodick se encontram. E desde o momento em que se conhecem, o casamento de conveniência transforma-se em uma convivência apaixonada. Ao descobrir a felicidade da irmã, Mary percebe o erro cometido e resolve desfazer a troca, a qualquer custo... Este é meu tipo de romance histórico. Faz com que você mergulhe no tempo, com personagens adoráveis e uma encantadora história de amor... definitivamente, uma leitura imperdível! Leonice Pompônio Editora

Copyright © 2009 by Mary Wine Originalmente publicado em 2009 pela Kensington Publishing Corp. PUBLICADO SOB ACORDO COM KENSINGTON PUBLISHING CORP. NY, NY - USA Todos os direitos reservados. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência. TÍTULO ORIGINAL: IN BED WITH A STRANGER EDITORA Leonice Pomponio ASSISTENTES EDITORIAIS Patrícia Chaves Vânia Canto Buchala EDIÇÃO/TEXTO Tradução: Silvia Marina Caldiron Rezende Revisão: Giacomo Leone ARTE Mônica Maldonado MARKETING/COMERCIAL Andréa Riccelli PRODUÇÃO GRÁFICA Sônia Sassi PAGINAÇÃO Ana Beatriz Pádua Copyrigh © 2010 Editora Nova Cultural Ltda. Rua Butantã, 500 — 10a andar — CEP 05424-000 — São Paulo - SP www.novacultural.com.br Impressão e acabamento: RR Donnelley

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Capítulo I

Castelo de Warwick, 1578 — Ela não deve tocar nas minhas pérolas. — A bela condessa de Warwick encarava a amante de seu marido. — Aquiete-se. Ela usará as pérolas e está dito. — O conde entrou e falou em um tom sereno, mas com uma inconfundível nota de autoridade. Os criados presentes abaixaram a cabeça em sinal de deferência ao senhor da casa. Mas eles ouviram cada palavra. O descontentamento da senhora do castelo espalhou uma onda de agitação entre a criadagem. Sua ira vinha fermentando desde que ela descobrira que a amante do lorde estava grávida. Aquele era um acerto de contas esperando para ser ajustado. — Ela deve usar as pérolas e o vestido novo que mandei você encomendar para depois do nascimento da criança. Philipa mordeu o lábio, contendo a resposta sarcástica que lhe viera à mente. Abaixou a cabeça para esconder a fisionomia contraída e fez uma mesura ao marido. Quando ergueu o rosto, seus lábios estavam lisos como antes, uma testemunha dos anos de treinamento nas mãos de sua governanta. As mulheres precisavam ser muito mais controladas do que os homens em um mundo governado por eles. — Não terei nenhum consolo, milorde? Será que devo ser reduzida a testemunhar meu próprio lugar sendo ocupado por sua amante? O senhor me fará passar vergonha diante de todos os meus criados? O conde ergueu um dedo em riste bem diante do nariz da esposa. — Você não vale nada! Não passa de uma vadia mimada que não tem vergonha de agir descaradamente! — Ele cerrou o punho, que balançava diante dos olhos alarmados de Philipa. — Ouça bem o que digo! Não tolerarei desonestidade nesta casa! Declaro diante de todos que você não receberá nenhum tipo de consolo e que os tapetes e toda a tapeçaria do seu quarto serão removidos. Seus elegantes vestidos e jóias serão trancafiados e o seu armário de especiarias será lacrado para que você passe a viver sem nenhum tipo de conforto. A condessa hesitou, mas encobriu a boca antes que soltasse uma réplica mordaz e assim selasse o seu destino. O conde pegou-a pelo braço, virando-a para encarar a sua amante, Ivy Copper, que, sentada na cama, amamentava a filha recém-nascida. Os cabelos de Ivy desciam sedosos sobre o ombro oposto enquanto ela celebrava o seu dia de glória. Philipa esperara secretamente que a amante de seu marido morresse de febre de parto, mas lá estava ela, esbanjando saúde. Até mesmo seu leite tinha descido para assegurar que a bastarda ficaria alimentada e forte. — A verdade é que você está com vergonha, Philipa. Envergonha-se da própria covardia. — O conde a virou para encará-la. Um calafrio perpassou seu corpo quando ela sentiu o odor masculino. Seu corpo frágil saboreou o momento. Era preciso ter muita disciplina para evitar a cama do marido. 3


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— Você é mesmo uma covarde, Philipa. Abandonou a minha cama por medo do parto. Olhe para a minha filha agora. Deus abençoa os bravos. — Seu olhar suavizou-se por um segundo. — Volte para a minha cama e cumpra com o seu dever de esposa. Se o fizer, juro que não haverá outras para tomar o seu lugar. Nenhum filho bastardo será colocado acima dos seus filhos. Philipa balançava a cabeça de um lado para outro enquanto tentava se desvencilhar. O medo a possuía e trancava suas palavras no fundo da garganta. Dar à luz era mortal! Mais da metade de suas amigas tinha ido para o túmulo, levadas pela febre pós-parto, ou pior, porque seus bebês se recusaram a sair de seus ventres. Elas morreram em agonia, depois de horas de dor sem fim. O conde bufou desgostoso. Apontando o dedo para a esposa, ergueu tanto a voz que ela reverberou pelas paredes do quarto. — Então você deverá colocar aquele colar de pérolas ao redor do pescoço da minha amante e acompanhá-la até a igreja. Quero que seja a madrinha da minha filha. — O senhor espera que eu reconheça a bastarda? — Chocada, Philipa mordeu o lábio trêmulo. — E quanto a Mary? Eu lhe dei uma filha também, milorde! — E você foi devidamente honrada por isso. — Ele soltou-a e passou as costas da mão pelo rosto delicado. — Eu a honraria novamente sem rancor se você retornasse para a minha cama como uma esposa deve fazer. — E abaixou o tom para que Ivy não ouvisse: — Eu colocarei minha amante de lado, Philipa, por você e um filho legítimo. Somos casados e é seu dever carregar um filho meu tanto quanto é meu direito levá-la para a minha cama. Dito isso, o conde a deixou para ir se juntar ao grupo de visitantes que tinha vindo comemorar o fato de Ivy ter sobrevivido ao parto. Agora era a vez de ela ser o centro das atenções, e dentro de duas semanas, se ainda estivesse viva, seria o dia da cerimônia em que a nova mãe seria purificada pelo clérigo e aceita de volta à Igreja. A bastarda poderia então receber o sacramento do batismo. As tradições eram muito mais antigas do que qualquer um podia se lembrar. Se Ivy morresse antes do dia da cerimônia, seria enterrada em solo não consagrado. Se o bebê morresse antes de ser batizado, um enterro no cemitério da igreja também lhe seria negado. Os ruídos do mamar macio da criança encheram o quarto enquanto Philipa observava o marido se inclinando sobre a amante para beijá-la. Os lençóis da cama estavam em desordem. Tapeçarias de lã grossas cobriam a cabeceira e tinham sido penduradas como cortinas ao longo das laterais da cama. Os lençóis eram de um linho fino, e o lençol, manchado do dia do parto, encontrava-se orgulhosamente exposto na janela. Todos os visitantes faziam questão de tocar no lençol quando passavam por ele, em sinal de boa sorte. Ivy usava uma camisola tirada do próprio guarda-roupa de Philipa. O tecido delicado reluzia sobre a pele alva da moça. Havia vinho quente à sua disposição e bolo assado com especiarias do estoque particular do lorde para as visitas. Tudo estava grandiosamente arrumado do mesmo modo que estivera quando Philipa e sua filha, Mary, haviam sido mostradas pela primeira vez. A única diferença foi a ama de leite que amamentara a criança, pois sendo uma nobre, Philipa não poderia se dar o luxo de alimentar a própria filha. Ela fitou os seios da amante do marido enquanto o leite escorria pelas bochechas do bebê e o conde ria satisfeito. Ele limpou o leite com as próprias mãos. Ivy sorria e era coberta de atenções e elogios a ela e à sua cria. A cena deixou um gosto amargo na boca de Philipa. Ela estremeceu ao lembrar-se 4


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do que teria de fazer para desviar as atenções do marido para si. Isso não estava ao seu alcance. Não outra vez. Foram necessários dois dias para trazer sua filha ao mundo. Dias que pareceram sem fim enquanto a dor consumia seu corpo. Na verdade, não poderia mesmo ter amamentado a filha, pois após o parto tudo o que conseguia sentir era ódio da criança por toda a dor que a fizera passar. E o ódio havia se estendido ao marido devido à sua exigência por mais filhos. Sua mãe tivera de aturar a mesma situação com seu pai, mas os tempos haviam mudado. A Inglaterra tinha uma rainha, e Mary poderia herdar tudo. Elizabeth Tudor cuidaria do assunto. Os homens teriam de conformar-se com um ponto final aos seus poderes sem fim sobre as mulheres da família. Virando-se com um farfalhar de anáguas, Philipa foi embora. Que a bastarda fosse reconhecida! Isso não mudaria nada o fato de ela ser a dona de tudo. O conde poderia ser chamado de volta à corte, e Ivy e sua filha iriam se ver com ela. — Como a criança se chamará? Toda a congregação aguardava para ouvir o nome. Uma criança nunca recebia um nome antes de ser batizada, para evitar que Satã pudesse enviar seus demônios para roubar a alma do inocente. — Anne — Philipa falou bem alto. Sendo a madrinha, era ela que escolheria o nome. — Em homenagem à falecida mãe da rainha. O sacerdote quase derrubou a criança dentro da pia batismal. Philipa bateu os cílios inocentemente. Um murmurinho se ergueu dentro da igreja, mas ela não se importou. Anne Bolena tinha perdido a cabeça muito antes de a filha se tornar a rainha da Inglaterra. Seu marido, o conde de Warwick, havia sido proibido de comparecer ao batizado ao lado de Ivy, numa tentativa de purificar completamente a criança. Philipa fitou o clérigo, e ele mergulhou a criança, como costumava fazer com todas as outras. Anne gritou ao ser retirada da pia batismal. Philipa franziu a testa quando o bebê ficou vermelho, e todos os presentes deram vivas em sinal de aceitação. Se a criança não tivesse gritado para se livrar do demônio, então seria afastada da comunidade cristã. Mas Anne gritou alto o suficiente para alcançar até a última fileira. Pelo menos ela dera um nome de mau agouro à pirralha. O padre murmurou uma prece antes de enrolar a criança em um cueiro e entregá-la à madrinha, que a carregou para fora da capela. No momento em que entrou no corredor privado que conduzia aos seus aposentos, ela confiou o bebê a uma criada. Mas o que Philipa não viu foi o olhar de desaprovação que as criadas lançaram às suas costas ao rodear a criança para acolhê-la. — Algumas pessoas são cruéis e sem coração! Um bebê é uma bênção para toda a casa! Todo mundo sabe disso. A senhora irá se envenenar com tanta maldade. Isso vai trazer tempos sombrios para todos que vivem neste condado. Escrevam as minhas palavras — profetizou a criada mais velha, olhando para a condessa, que seguia altiva pelo corredor. — Venha ver, mamãe. Os cisnes estão chocando. Philipa sorriu. A filha saiu em disparada pelo corredor, com a ama em seu encalço. — Claro que a mamãe vai ver, minha preciosa — assegurou, seguindo a garota até a porta. Olhando para baixo, ela sorriu ao ver o modo como os cabelos de Mary brilhavam ao sol. A menina tinha sangue azul. Tudo nela era nobre e elegante. Ao contrário da bastarda de Ivy. 5


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Mary era perfeita e legítima. O coração de Philipa se encheu de um júbilo, que morreu em um piscar de olhos quando vislumbrou Ivy no outro lado do jardim. A vadia estava de barriga novamente e as más línguas diziam que dessa vez era um menino. — Olhe, mamãe! — Mary apontou na direção dos cisnes, mas Philipa havia perdido toda a alegria do momento. Ela encarou a amante do marido. — Milady deve reconsiderar e convidar seu marido para se deitar na sua cama — opinou Alice, a dama de companhia. Contrariada, Philipa se voltou para a moça, girando a delicada saia de lã, porém a criada manteve o semblante firme. — Ele pode mandá-la de volta para seu pai com um pedido de divórcio. É o seu dever, milady. A senhora precisa dar um filho ao conde. — Mas, e se eu der à luz outra menina? — Philipa estremeceu. — Você ouviu o que a parteira disse, Alice. Meus quadris são muito estreitos. Se Mary fosse um bebê maior... Eu poderia... poderia... Alice meneou cabeça em solidariedade. — Milady, o primeiro parto é sempre mais difícil. Dê um filho ao lorde e garanta a sua posição. Então deixe que a garota Copper agüente o resto. Todo o corpo de Philipa enrijeceu quando ela apertou as coxas sob a saia. Só de pensar em dar à luz era o suficiente para fazer com que seu corpo ficasse frio como a neve. Não podia. Preferia viver. Não morrer em uma poça do seu próprio sangue. — Não farei isso, Alice. Nunca mais me deitarei com meu marido! Juro! Mesmo que isso signifique me enviarem de volta para meu pai. Philipa sentiu as lágrimas descendo por suas faces enquanto olhava para Ivy. Seu coração se encheu de inveja, um sentimento que ajudava a espantar o medo. Foi assim que o ódio começou a tomá-la. Uma aversão intensa por Ivy e pela filha bastarda e por tudo o que elas tinham lhe roubado encheu seu coração. Ela odiava as duas. Odiava, odiava... odiava. — Termine de se arrumar logo, Anne. A senhora está nervosa hoje. — Como se houvesse alguma chance de ela não estar. Joyce torceu o nariz e lançou um olhar severo para a sua protegida. — Segure a língua. Ela está acima de você e foi colocada por Deus. Anne abaixou a cabeça, segurando a bandeja com o desjejum da condessa do castelo. Precisava de fato segurar a língua. Mas não era por si mesma que o fazia, já que pouco se importava com seu conforto, e sim com o da sua mãe. Philipa não puniria apenas a ela caso se sentisse contrariada, mas teria todo o prazer de descontar a sua fúria na mãe de Anne também. Com um suspiro conformado, seguiu Joyce até a ala oeste. Anne tinha acordado sozinha aos primeiros raios de sol para poder estar presente quando fosse o momento de despertar Philipa. A obrigação era sua desde que se tornara mulher. Nos primeiros meses, seus punhos doíam por causa do peso da bandeja de prata, mas agora ela a carregava com firmeza. Philipa tinha ordenado que Anne a vestisse todas as manhãs. Assim teria certeza de que ela havia dormido no quarto das damas de companhia, que ficava atrás da cozinha, e sob os olhos atentos da governanta. Não haveria nenhum encontro secreto para Anne. Esperava-se que seu corpo permanecesse virgem e intocado. 6


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O motivo era simples. Apesar de ter nascido bastarda, seu sangue era azul. Philipa podia até detestar olhar para a moça e sua família, mas era uma mulher inteligente. Nada lhe passava despercebido. E o sangue de Anne poderia ser útil em alguma negociação de casamento. Havia fidalgos menos importantes que valorizavam uma esposa de sangue nobre. Era como se Philipa visse a filha bastarda de seu marido como uma cortesã, servindo aos caprichos de algum mercador gordo. Fossem quais fossem os planos que tinha em mente, ela os manteria em absoluto segredo. Anne permaneceu parada e em silêncio, enquanto o cortinado em torno da cama era aberto e Philipa virava a cabeça para fitar as criadas. Seus olhos percorreram cada uma, inspecionando os uniformes desde a touca até as meias. Nenhum detalhe passava despercebido. Seus lábios nunca pareciam sorrir e havia sempre uma ruguinha de desaprovação em sua fronte. Um quadro na antessala a retratava na juventude, vestida de noiva, mas pouco havia restado daquele brilho na mulher que estava na frente de Anne. Esta observou Philipa sob os cílios enquanto as criadas abaixavam a cabeça em sinal de deferência. — Senti frio nos pés durante a noite. As cobertas foram cuidadosamente dobradas até a metade da cama, e Philipa se sentou. Travesseiros fofos foram colocados às suas costas para melhor acomodá-la. — A lareira não foi acesa corretamente; o calor do carvão se dissipou. Nenhuma das criadas disse uma palavra sequer. Elas simplesmente abaixavam a cabeça cada vez que ouviam uma crítica, mas não paravam de se mover, eficientes, pelo quarto, sempre caladas e sem contestar. As pesadas cortinas de tapeçaria foram puxadas para os lados com todo o cuidado que o material caro requeria. As cinzas da enorme lareira foram limpas rapidamente e lenha nova foi colocada, iniciando novas chamas para aquecer o quarto. Anne esperou até que a condessa estivesse acomodada antes de colocar a bandeja sobre seu colo. Philipa se pôs a inspecionar o que estava escondido sob as cúpulas de prata na bandeja. Seus lábios se cerraram, formando uma linha reta quando ela largou uma das tampas sobre seja lá o que a cozinheira havia preparado. — Diga à cozinheira para se apresentar ao meio-dia. As criadas não deram muita importância, pois estavam acostumadas a ser o alvo de todas as reclamações. Aquele não seria um bom dia para a cozinheira. Philipa começou a comer, ao mesmo tempo em que observava as criadas com olhos críticos. Cada uma tinha aprendido a se mover com passos leves, para ver se assim conseguia passar despercebidas. Todos os olhos sempre estavam voltados para baixo por receio da condessa. — Estou pronta para me levantar. — Philipa largou os talheres com um tilintar. A bandeja foi retirada quase no mesmo instante. Outra criada puxou as cobertas até os pés da cama. Anne juntou-se às moças que traziam a água para começar a despir a senhora. Dependendo do humor daquele dia, poderia levar até duas horas para vesti-la. As criadas rodearam-na para lavar-lhe os pés e as mãos, antes de calçar as meias de lã tricotada. Uma fina chemise desceu pela cabeça e logo em seguida foi a vez da anágua. O vestido era maravilhoso, o tecido de lã coberto com milhares de delicados pontos bordados que formavam um belo e intrincado desenho. Mesmo sendo início de primavera, ainda faziase necessário o uso de um xale. Warwick era o condado mais remoto em terras inglesas antes de chegar à Escócia. A presença do lorde do condado era constantemente 7


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solicitada na corte devido à importância de suas terras fronteiriças. Anne sentia muita falta do pai. Bons tempos aqueles em que o conde ficava mais tempo em casa. Seus lábios se torceram e ela os reteve em uma linha firme, antes que Philipa se sentisse ofendida com um sorriso ou algum sinal de alegria. Mas ao lembrar-se do pai, foi impossível conter o brilho dos olhos. Ivy sempre se enchia de alegria quando ele retornava de suas viagens, e rodopiava alegremente, apesar da idade, quando as sentinelas rompiam pelos portões, avisando a chegada do nobre. Era o que acontecia naquela manhã. O conde havia passado todo o inverno na corte. Quatro longos meses para suportar o humor amargo de Philipa, sem a adorável atenção de seu pai. Ele adorava Anne e sua família, mas estava preso à tradição. Philipa era a senhora da casa, e Anne estava sob as suas ordens. Mesmo assim, sua situação era muito melhor do que a de muitas outras moças da sua idade. Possuía um teto sobre a cabeça e comida na mesa. Além de um bom vestido de lã e sapatos que foram feitos para ela, e não herdados de terceiros. Anne tinha muito que agradecer. Uma senhora infeliz era bem menos do que muitos tinham de suportar. Pelo menos Mary não estava em casa. Anne estremeceu. A filha legítima do conde era dona de um coração de pedra e não tinha nem um pouco de vergonha de demonstrar isso. Mary choramingava como um bebê e podia ter ataques piores do que os de uma mulher ensandecida. E seus destemperos podiam chegar a ponto de rasgar um vestido novo só porque o traje não havia ficado tão fino quanto um que ela vira na corte. Philipa costumava encobrir tais rompantes conseguindo mais dinheiro para os cofres da propriedade a fim de satisfazer os luxos da filha. Anne franziu a testa ao desviar o olhar da senhora da casa. Na verdade, era Anne quem levantava os fundos para acalentar os mimos de Mary. De acordo com a tradição, os livros contábeis deveriam ser mantidos por Philipa, que, por sua vez, deveria ensinar o ofício à filha. Mas não era o que acontecia no condado de Warwick. Depois de cuidar da sua obrigação de vestir a senhora, Anne costumava passar o resto do dia, e até parte da noite, trabalhando nos livros da propriedade. Seu pai tinha cuidado para que ela e seus irmãos recebessem educação. Mesmo assim Philipa era quem determinava onde eles iriam aplicar seus conhecimentos. O dever de Anne era cuidar dos livros contábeis da propriedade e se certificar de que o orçamento estivesse em dia. Cada vez que Mary exigia mais ouro, era Anne quem enfrentava o desafio de arranjar algum sem que o conde percebesse. Os fundos para tais extravagâncias costumavam vir da venda de algumas ovelhas ou dos tecidos de lã confeccionados pelos criados da casa. Anne odiava ver o desperdício. O condado de Warwick poderia ser muito mais forte não fosse pelos constantes saques em nome da vaidade. Uma batida pesada soou à porta. Uma das criadas saiu correndo para ir abrir. — O senhor acabou de chegar, milady. A fisionomia de Philipa se contraiu. — Bem, terminem de me vestir, suas lerdas. As moças se apressaram. — Por que sou amaldiçoada com a pior criadagem de toda a Inglaterra? Estas famílias daqui de Warwick só colocam filhas idiotas no mundo. Ninguém disse nada, o descontentamento foi compartilhado somente através de olhares. Anne se levantou aliviada assim que concluiu seu dever. Philipa a encarou 8


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quando ela não se curvou devidamente ao se levantar. — Bastarda! Anne se apressou em apresentar a deferência devida. — Quem nasce bastardo morre no pecado. Agradeça à Igreja por ter tido piedade de você, pois de outro modo nunca teria sido batizada. — Sim, madame. O insulto nem chegou a magoar profundamente. As chicotadas da língua ferina de Philipa já tinham cicatrizado havia anos em Anne. Nesse momento, num farfalhar de sedas, Mary entrou no quarto. — Papai acertou o meu casamento! Oh, mamãe, eu não quero ir para a Escócia! Em prantos, Mary se atirou nos braços de Philipa. — Diga que eu não preciso ir, mamãe. Por favor! — Lágrimas copiosas escorriam de seus olhos. — Diga a ele que eu não irei para nenhuma cama na Escócia. — Basta! Todas no quarto se viraram quando o senhor do castelo entrou. Mesmo com os cabelos grisalhos, ele não parecia menos poderoso. Até mesmo Philipa abaixou a cabeça em sinal de deferência, forçando a filha a repetir o mesmo gesto. — Meu nome será amaldiçoado se você me envergonhar, Mary. Trata-se de uma união sólida com o jovem Brodick. Ele já tem um título. — Título escocês — Mary disse entre soluços. — Os tempos mudaram, querida. Em breve seremos todos uma única nação, unidos sob um rei nascido na Escócia. McJames é um bom partido, muito melhor do que muitas das suas amigas da corte terão. O conde olhou para a esposa, mas seu olhar se desviou logo em seguida para Anne. Esta não pôde conter um sorriso de boas-vindas, apesar de estar de cabeça baixa. Um brilho reluziu nos olhos de seu pai, mas Mary percebeu e olhou com ódio por sobre o ombro da mãe. Seu pai enrijeceu, seu olhar retornou para a Philipa. — O representante do conde de Alcaon estará aqui em uma semana. Só regressei para trazer Mary de volta para casa. Retorno para a corte ao raiar do dia. — Ele apontou um dedo para Mary. — Você irá assumir o seu lugar assim como eu acertei, e basta de lágrimas. Sua infância chegou ao fim, Mary. Cuide disso, Philipa. — Ela precisa mesmo se casar, milorde? O rosto do conde se contraiu. — Deus do céu, mulher! Mary já tem vinte e seis anos. Ela torceu o nariz para cada pretendente que arrumei. Não se discute mais. A culpa é toda minha por ter dado ouvidos às duas. Mary já deveria estar casada há anos, mas eu tentei esperar até que ela concordasse com um partido, ou que trouxesse até mim alguém que lhe agradasse. Já se passaram oito anos desde que nós a colocamos na corte. — Mas ele é um escocês, papai. — É um conde, mocinha. — Mary recuou quando o pai se aproximou. — Um homem cujas terras fazem divisa com as nossas, o que faz dele um ótimo marido para você. 9


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Mary soluçou ainda mais alto, e o pai virou-se contrariado para Philipa. — Cuidará disso, milady? Esta é a única filha que você teve para criar, e a ingrata só sabe reclamar e chorar pelo ótimo casamento que foi acertado. O que espera de mim, Mary? Quer ser uma solteirona? Uma daquelas cortesãs desgraçadas com um filho bastardo no ventre? Sua mãe não deu à luz nenhum filho homem, por isso não haverá muitos lordes dispostos a se casar com você. Mary encolheu os ombros e se levantou, seus olhos arregalados de horror. O pai a encarava e ela balançava a cabeça de um lado para outro. Anne não sentiu nenhum pingo de pena da meia-irmã; o mundo era mais cruel com as filhas, pois carregavam a pecha de suas mães. Philipa não dera um herdeiro ao marido, motivo pelo qual Mary era considerada uma opção ruim para uma esposa. — Bem, parece que finalmente está enxergando a verdade dos fatos. Mais um ano e quem irá querer desposá-la? Está na hora de se casar e ter filhos. Isto não é um noivado, Mary. Você está casada por procuração. O jovem McJames não estava disposto a esperar mais tempo para os preparativos de um casamento. O acordo está selado. Agora você é uma esposa com deveres a cumprir — assim dizendo, o conde deu as costas e se retirou. Seus homens o seguiram, depois de terem testemunhado toda a conversa. Como esposa de um conde, Mary teria de aprender a lidar com os muitos olhos que vigiariam cada movimento seu. — Mamãe, você precisa permitir que eu leve Anne comigo. Preciso de ajuda para cuidar dos livros. A garganta de Anne se contraiu ao sentir o olhar que Mary lançava em sua direção. Eram os mesmos olhos de Philipa ao avaliar uma égua que pretendia comprar. A senhora voltou-se para Anne, que abaixou a cabeça, apesar de estar fervendo de raiva por dentro. — Saiam todas! Exceto Anne. Joyce olhou para Anne sem nada poder fazer e seguiu com as outras. — Aproxime-se, Anne. — Philipa estava em seu território. A voz parecia ainda mais autoritária. Anne se aproximou a passos leves. Ela até podia ser obrigada a servir a senhora da casa, mas isso não queria dizer que tivesse medo. Medo era para as crianças e os tolos. — Tire a sua touca. A touca de linho era presa à cabeça por uma tira fina em torno do queixo. Havia um único botão à esquerda que a prendia e mantinha os cabelos ocultos. Com os cabelos soltos, Anne olhou para Philipa, esperando. Não demorou a sentir-se observada por um bom tempo, os olhos cruéis da senhora percorreram cada detalhe. — Saia. — Anne colocou a touca de volta e seguia para a porta, quando Philipa falou: — Você tem se empenhado nos seus estudos, garota? — Sim, milady. Mas não graças à senhora. Anne estudava com afinco, pois aprender fazia parte das suas habilidades inatas. Estava dentro dela e ninguém poderia lhe roubar. — Vá cuidar dos livros e permaneça lá. 10


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Anne abaixou a cabeça, pois temia que sua voz não soasse suave ou respeitosa o bastante. O casamento de lady Mary não era motivo para Philipa ficar tão mal-humorada. Qualquer pessoa com um pouco mais de bom-senso deveria estar esperando por tal anúncio havia anos. Além do mais, o dote de Mary, juntado às terras do marido, iria garantir uma vida muito mais próspera do que a atual. Era um ótimo casamento, sem dúvida. Mas Mary era muito infantil para entender como a comida chegava até a mesa. Anne sabia de onde vinha cada grão para fazer o pão. Sabia quando a colheita era escassa ou quando as ovelhas não procriavam como deveriam. Era preciso sabedoria para balancear tudo e assegurar que haveria comida o bastante para passarem o inverno. — O que milady queria? Joyce estava escondida em um canto do corredor. — Ela ordenou que eu fosse cuidar dos livros. Aposto que planeja saquear os cofres novamente para renovar o guarda-roupa de Mary. — Você herdou essa língua ferina do seu pai. Somente um nobre falaria assim. Melhor tomar cuidado, garota, pois a milady não gosta de você. — Sei disso muito bem. Joyce suavizou sua fisionomia. — Oh, minha ovelhinha, sinto muito por tudo. Ela é uma pessoa de espírito mau. Você tem sido uma filha fiel. Seu pai deveria orgulhar-se do modo como você respeita aquela mulher amarga. Anne sentiu o rosto corar. Seu pai estava em casa. Pelo menos ela poderia saborear em segredo a alegria de saber que ele iria visitar o quarto de sua mãe naquela noite. O conde sempre o fazia quando se encontrava em casa, para desgosto de Philipa. Às vezes Anne suspeitava de que ele o fizesse só para irritar Philipa. Anne saiu apressada pelo corredor, seus deveres mantiveram-na ocupada até tarde da noite. Um sorriso brilhou em seu rosto à medida que ela se aproximou dos aposentos da mãe. O quarto era um pouco frio no inverno, mas Ivy havia se recusado a mudar mesmo quando o conde sugerira. Ivy não queria confusão. Sua família teria de viver com Philipa enquanto o conde estivesse na corte. A senhora da casa tinha lhe dado o quarto, portanto ela deveria estar satisfeita com isso. Frio no inverno ou não. Anne abriu a porta. A luz amarela bruxuleante das velas reluziu em sua pele clara. — Aí está a minha menina. Minha esposa alega que você é a pior criada que ela já teve de tolerar. — Boa noite, papai. — Anne abaixou a cabeça em um gesto de respeito. O conde assentiu em aprovação, mas sua fisionomia permaneceu indecifrável por um longo tempo antes que ele abrisse os braços. Anne correu para abraçá-lo, rindo enquanto o apertava com força. Quando o conde finalmente a soltou, bateu com o dedo na ponta do nariz da filha amada. — Você é uma boa menina por não reclamar. Nada agrada à minha esposa, mas isso não é sua culpa. — Prometo tentar trabalhar com mais afinco amanhã, papai. O conde sorriu. 11


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— Sei que você o fará. Assim como sei que mesmo assim Philipa não ficará satisfeita. Mas não estou aqui para falar da minha esposa. — Ele sorriu ao se aproximar de Ivy. Puxou-a para mais perto e pousou um beijo carinhoso em seu rosto. — Senti muita saudade de vocês. — Conte-nos sobre a vida na corte, papai. — Bonnie, a filha mais nova, esperava ansiosa por aquelas histórias. O conde ergueu um dedo. — Vou contar sobre a festa mascarada que o conde de Southampton ofereceu na semana passada. Bonnie sorriu animada. Satisfeita, Anne fitou a irmã, e então se inclinou para apanhar mais uma fruta desidratada do prato. A mesa humilde que sempre contava apenas com mingau de cereais e soro de leite, nessa noite oferecia frutas, bolinhos de aveia e cerveja. Brenda certamente havia surrupiado algumas tortas de frutas da cozinha para descontar os desaforos que Philipa lhe fizera naquela manhã. Tais delícias eram feitas apenas para a senhora do castelo, mas uma vez que ela não entendia nada de cozinha, as criadas costumavam ir à desforra, usando mais ingredientes do que o necessário. Philipa teria um ataque se visse os filhos de Ivy comendo a mesma comida fina que era servida a ela e a Mary. A mesa farta alegrava, mas as atenções do conde eram o maior motivo de júbilo para todos. O quarto estava bem iluminado naquela noite, o som de risadas escapava pelas portas. Quando Anne, por fim, foi se deitar, seu coração estava enlevado. Nenhum dos insultos de Philipa poderia reduzir o amor que o pai tinha por ela. A senhora do castelo podia se achar poderosa, mas nunca conseguiria quebrar os laços que ligavam Anne ao conde. Todos tinham algum desgosto na vida para suportar. O desprezo de Philipa constituía seu fardo. Mas isso não era nada com que Anne tivesse de se preocupar muito. O conde de Warwick pulou sobre a sela de seu acavalo com a mesma habilidade que qualquer um dos homens da sua comitiva. Anne observava da janela do segundo andar, e sua irmã, Bonnie, compartilhava a última visão do pai. — Você acha que o papai vai trazer um marido para você da próxima vez? Bonnie tinha catorze anos, ainda sem ter consciência da dureza que era ser fruto de uma união não consagrada. Todas ali contavam com um bom abrigo, mas logo a caçula da família iria crescer, e então seria obrigada a enxergar a realidade. — Não sei, querida, porém tentarei não me preocupar com isso. Papai sempre cuidou de nós da melhor forma. — Acho que ele irá lhe trazer um cavalheiro. Algum que tenha ganhado o título por ter prestado algum serviço à rainha, que o consagrou cavalheiro com as próprias mãos. — Bonnie falava entre risos e suspiros, perdida em devaneios. Anne não teve outra opção senão divertir-se com o momento. — Talvez o tal cavalheiro esteja esperando que você cresça. — Você acha mesmo? — Os olhos de Bonnie reluziram pela surpresa. 12


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— Com certeza. Todas as cidades daqui até Londres sabem o tesouro que você é. Terá que escolher entre todos os pretendentes que irão se apresentar. — Você só está me provocando. — Bonnie entortou a boca. — Isso não é nada bom. Posso ficar convencida. — Não, querida, só estou me juntado a você no seu mundo de sonhos. Você não me negaria este prazer, não é mesmo? Bonnie ergueu a mão, acenando para o conde. O senhor bateu com as esporas no cavalo e saiu pelos portões. Anne fechou as janelas, pois sabia que o conde não olharia para trás. Ele nunca o fazia. Philipa e Mary estavam paradas nos degraus da frente, em seus lugares como senhoras da casa. — Você terá um marido, Anne, sonhei com isso na noite passada. Anne meneou a cabeça e fechou o ferrolho da janela, assegurando-se de que estava bem trancada. — Bonnie, você sabe o que a mamãe falou sobre os seus sonhos. A garota permaneceu firme, erguendo o queixo com teimosia. — Sim. Mas o fato é que sonhei e só estou contando porque você é aquela que ele virá buscar. Sei também que na próxima primavera, você terá um bebê crescendo em seu ventre. Será um menino e ele vai nascer antes da colheita. Eu vi. Não tema, você não morrerá no parto. Um calafrio percorreu a espinha de Anne. Bonnie tinha o poder de prever o futuro. Toda a família sabia disso e tentava esconder. Pessoas eram queimadas por bem menos. Com a rainha já com certa idade, os magistrados locais governavam com punhos de ferro. — Você contou para mais alguém? Bonnie meneou a cabeça. — Você sabe que prometi à mamãe que não falaria sobre os meus sonhos. Só quebrei a minha promessa porque foi com você. — Muito bem, querida, tome cuidado para não falar a respeito com mais ninguém. Cavalheiros não gostam de mulheres que agem como corvos, tagarelando o dia todo. — Mas ele virá buscá-la, Anne. Eu o vi montado em um corcel negro. Carregava uma espada enorme nas costas, tal qual aqueles escoceses que vimos na feira na última primavera. — Lady Mary é quem está casada por procuração com um escocês, não eu. Foi isso que você viu no seu sonho. — Não, eu vi você. Eu o vi entrando a cavalo pelo pátio à sua procura. Ele tem olhos escuros como a meia-noite. Uma parte de Anne queria muito acreditar nas palavras da irmã, mas ela a silenciou. A vida era dura. Confortar-se com sonhos infantis não a ajudaria em nada. Isso só serviria para tornar ainda mais pesados quaisquer fardos que Philipa pudesse colocar sobre seus ombros. Joyce e as outras criadas da casa que sonhassem com o amor, mas não ela. Bonnie logo iria aprender isso também. O sangue de seu pai era ao mes mo tempo uma maldição e uma bênção e não havia como ela encontrar o verdadeiro amor. Nunca. — Você está é de mau humor, isso sim. Pensei que esse fosse o seu desejo — Brodick McJames criticou o irmão. — Você sabe muito bem que posso me casar de 13


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acordo com os meus desejos, Cullen. As terras dela fazem limite com as nossas. O dote aumentará as terras McJames. E não são apenas as terras; mas o solo é fértil e com água. O pai da minha esposa não tem mais nenhum filho legítimo, toda a propriedade passará para as nossas mãos um dia. — Pois eu ainda afirmo que você não parece nada satisfeito, apesar de todas as vantagens que essa união trará a todos nós. — Cullen apanhou um pedaço de bolo de aveia, mas não o mordeu. — Talvez esteja preocupado com a cama. Você sabe muito bem, meu irmão, que nem todos os homens são abençoados como eu. Mas isso não é motivo para sentir inveja da habilidade que tenho com as moças. Inveja é pecado — comentou Cullen com um sorriso de escárnio. — Você não passa de um falastrão, meu caro irmão. — Só estou dizendo a verdade. Sabe que nasci privilegiado... — Guarde isso para as moças, sim? Cullen riu, assim como os homens que estavam próximos. Brodick se levantou e caminhou para longe do acampamento. Seu irmão tinha razão ao perceber o mau humor. O fato de estar indo buscar sua esposa deveria ser motivo de grande alegria. O casamento era muito bom, quanto a isso não restava dúvida. Ótimo para seu povo, mas isso não mudava o fato de que ele levaria para sua casa uma dama da corte inglesa. Brodick sabia muito bem o que aquilo significava, pois já tinha estado na corte e iria alegremente para a sepultura se tivesse de colocar os pés naquele local outra vez. As mulheres de lá eram criaturas falsas e enganadoras, e usavam mais pintura em suas faces do que os guerreiros das terras altas quando iam para os campos de batalha. Seus vestidos eram criações grotescas que escondiam as formas femininas, roubando quaisquer interesses que um homem pudesse vir a sentir por elas. Exceto pelos seios. Seu humor melhorou um pouco ao se lembrar do modo como as damas da corte pintavam os mamilos por causa dos decotes tão baixos de seus vestidos. Não era um homem ciumento por natureza, mas também não estava disposto a carregar a pecha de marido traído. A esposa inglesa só iria mostrar os mamilos para ele. Aqueles pensamentos só serviram para piorar ainda mais seu mau humor. Olhando para a fronteira das terras que se estendia diante de seus olhos, Brodick soltou uma imprecação. Tirando as terras que os unia, ele e a esposa inglesa eram tão diferentes um do outro como a noite e o dia. Não iria permitir que ela agisse de modo vergonhoso, e ela poderia odiá-lo por isso. Havia poucas esperanças de que tal união pudesse ser pacífica; muito menos prazerosa. Sendo o filho mais velho, era seu dever se casar, um fardo que carregava sobre os ombros. Estranho que Cullen não compreendesse a evidência das razões de sua revolta. Com um bufar, Brodick chutou uma pedra. Estava destinado a se casar com uma mulher que iria trazer prosperidade ao seu povo. Ele era o conde de Alcaon e não havia como fugir do que o destino lhe reservara. Assim, respirou fundo e se encheu de orgulho. Ser um nobre significava muito mais do que ver as cabeças se abaixarem em sinal de respeito. Quando seu pai fora atingindo na perna por um machado durante uma batalha, a responsabilidade de liderar os soldados McJames recaíra sobre seus ombros. Na verdade, sempre tivera preferência pela guerra ao casamento. Firmando sua determinação, vislumbrou as terras inglesas que em breve seriam suas. De certo modo, o casamento era como uma batalha, de onde somente os mais 14


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fortes saíam vencedores. Brodick iria reclamar sua esposa inglesa e plantaria em seu ventre a semente dos McJames para selar o acordo. — Lady Mary está tomando banho e você deve atendê-la. Brenda, a cozinheira, falou ao despejar água em dois caldeirões de cobre que estavam sobre o fogão. — Espere a água ferver. Esfregando os olhos, Anne olhou para o fogo. As chamas hipnotizaram seus olhos cansados, enquanto resistia ao desejo de fechá-los por mais alguns momentos de descanso. — Pegue isso. Chega de cochilar. Anne riu. — Ontem fui dormir tarde, mas a noite foi boa. Brenda sorriu. A água ferveu e Anne colocou o jugo de madeira sobre os ombros para carregar os caldeirões. — Ande rápido e tome cuidado para não se queimar. Anne subiu a escada até o primeiro andar. O vapor se elevou dos caldeirões de cobre quando ela bateu na porta dos criados, nos fundos do quarto. A passagem era tão secreta que poucos moradores do castelo sabiam de sua existência. Mary ainda estava vestida. Confusa, Anne olhou para ela. Metros de linho estavam estendidos sobre cavaletes para que se mantivessem aquecidos, e mais caldeirões com água jaziam alinhados ao chão para enxaguar. Um caro sabonete francês repousava sobre uma bandeja de prata, esperando para ser usado. — Coloque a trava na porta. Mary olhou tão chocada quanto Anne quando Philipa deu a ordem, franzindo o cenho para a filha. — Depressa. Precisamos de privacidade. Nada de sussurros entre a criadagem. A menos que tenha mudado de idéia, filha. Nesse caso, você irá se banhar. Mary meneou a cabeça em negativa e correu em direção à porta. Colocou o pesado travão de madeira e se voltou para Anne. — Despeje a água na banheira. — Claro... — Anne fechou a boca assim que se deu conta de que estava falando. Os olhos de Philipa se contraíram e um leve rubor coloriu suas faces. Anne apanhou um dos caldeirões, enrolando parte da sua saia sobre a alça quente e esperou pelas palavras duras da senhora. Mas não houve nenhum ruído além do da água sendo despejada na banheira. Anne apanhou o segundo caldeirão e o esvaziou. — Tire o vestido, Anne. Anne virou-se para fitar as duas, certa de que entendera errado. Mas elas mantinham os olhares fixos nela. — Você vai tomar banho. Mary e eu a ajudaremos. — Aqui? Anne não se importou se sua voz tinha soado suave o suficiente ou não. Philipa certamente estava alterada pelo vinho. Havia um sorriso cruel em seus lábios, quando bateu palmas para apressá-la. 15


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— Sim, aqui. Você irá tomar um banho dos pés à cabeça. Finalmente fará valer cada moeda que fui forçada a gastar com você, sua mãe e as suas crias. Dispa-se. Já! Anne encarou a mulher. O ódio daquela senhora era tamanho que chegava a lhe destruir o rosto. Agora ficava claro e entendia por que Philipa não se parecia em nada com o retrato de cima da lareira; sua alma estava podre e corroída pelo ódio. — Dispa-se, Anne. Você ocupará o lugar de Mary com o tal conde escocês. — Não farei tal coisa. — Anne falou em um ímpeto, pois o choque a impediu de conter a resposta. Mary bufou ao sentir o tom, mas Anne não lhe deu atenção. Philipa sorriu. Um gesto lento e sinistro que causou calafrios em Anne. — Não vai? Ou você me obedece, ou eu coloco sua mãe para fora daqui. E será nesta noite mesmo. Anne ofegou, horrorizada. — Meu pai nunca permitirá tal coisa. — Meu marido não está aqui. E se eu colocar sua mãe para fora, ela já estará morta há muito tempo quando ele voltar daqui a meses. Anne levou a mão à boca para ocultar o terror. — Isso é assassinato, milady. Um pecado mortal. — Eu chamo de justiça. — Philipa destilou sua ira. Ergueu uma das sobrancelhas ao se recuperar. — É muito simples. Mary é uma moça bem-nascida e não tem estômago para ser tocada por um homem, muito menos um escocês grosseiro. Você, por outro lado, é cria de uma vadia, por isso será capaz de agüentar algumas noites com um homem. Afinal, usar o corpo não deve ser uma tarefa tão difícil assim para você. — Minha mãe é uma mulher honrada. Ela nunca teve outros amantes. — Se ela tiver algum caráter, tanto melhor. Espero então que você tenha sido criada com algum senso de responsabilidade. — Philipa acenou com a mão, dispensando qualquer resposta. Em seguida, tocou na tira que prendia a touca de linho de Anne. Abriu o botão e soltou os cabelos de Mary. — Você irá banhar-se e vestir-se como estou mandando. — Não posso. — A voz de Anne não vacilou. — Mas você vai. Trate de me obedecer direitinho, mocinha, e representar bem o seu papel se não quiser que sua família sofra um destino cruel. Anne arregalou os olhos para o delírio da senhora do castelo, que sorriu ao vê-la tão amedrontada. — Pelo visto, consegui atrair a sua atenção agora. Você vai ocupar o lugar de Mary, ou casarei sua irmã antes do anoitecer com o pior homem que encontrar! Quanto aos seus irmãos, conheço algumas prostitutas que estão precisando de marido. Um casamento pode ser exatamente do que elas necessitam para se arrependerem das suas vidas devassas. — A senhora é desprezível! — Anne se recusou a conter a língua. — Sou a senhora deste castelo e a minha palavra é lei aqui. Philipa esperou com os olhos brilhando de triunfo. Em seguida, apontou para a banheira, a fisionomia dura como pedra. 16


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— Não sou uma mentirosa. Eu não saberia como enganar um homem. — Não será preciso mentir. Você é filha do conde. Está sendo enviada para a cama de um escocês. Fique de boca fechada e tudo sairá bem. Quando estiver grávida, deverá implorar para voltar para casa para ter a criança ao lado da sua mãe, e Mary assumirá o seu lugar, levando o filho junto. Vê? É tudo muito simples. — Certamente a senhora não acredita que esse conde seja tão estúpido a ponto de não notar que a esposa foi trocada depois do parto. — O homem é um escocês. Eles são amantes da guerra. O conde vai plantar um filho em você e depois partirá para mais uma guerra entre clãs. Nenhum homem tem interesse por uma mulher grávida, e os escoceses preferem as mulheres selvagens dos seus clãs. Na certa, ele deve ter uma amante. Por isso, logo a sua cama deixará de ser interessante, principalmente depois que ele souber que você espera um filho. Quando o bebê nascer e ele voltar para conhecer o herdeiro, já terá se passado mais de um ano. Mudar de lugar será fácil. O escocês nem irá se lembrar da cor dos seus olhos. Além do mais, você e Mary são muito parecidas. Guarde as minhas palavras, é melhor que você gere um varão. — Eu não posso tomar parte desse plano. Meu pai prometeu Mary para esse homem, e não a mim. — De certa forma não o estou desobedecendo. Ele deu uma das filhas em casamento, portanto... Como condessa deste castelo, posso fazer a escolha. — Mas a senhora não tem o direito de mentir. Desonestidade é um pecado mortal. Philipa franziu o cenho. — Faça a sua escolha, mocinha. Tire o vestido e tome banho ou prepare-se para ver sua mãe caminhando portão afora, enquanto seus irmãos ficam presos neste castelo. Uma acusação de roubo deverá ser o suficiente para que os guardas a atirem na rua. Com seu pai na corte, em quem você pensa que o capitão vai acreditar? Na senhora desta da casa ou em você? Anne olhou dentro dos olhos de Philipa e tudo o que viu foi um brilho de pura maldade. Um olhar de relance na direção de Mary mostrou outra mulher que prezava seu próprio conforto acima das vidas dos criados. Não havia nenhuma amostra de piedade no rosto de sua meia-irmã. Mas ocupar o lugar dela no leito matrimonial... Anne estremeceu, incapaz de conceber tal idéia. Concordar com tal barganha igualava-a a uma prostituta. Uma mulher reduzida a usar o próprio corpo para pagar pelas suas necessidades. Entretanto, não lhe restava outra opção. Ela optaria pelo amor da sua família acima de tudo. Lentamente, abriu os botões do colete. — Muito bem. Estou feliz em ver que você resolveu usar a razão. — Philipa ficou satisfeita. — Ajude-a, Mary. Temos que nos apressar para que isso termine antes que uma das criadas perceba. Mary ajudou Anne a tirar o restante do traje. Philipa torceu os lábios com desdém. — Com seios fartos como esses, você irá engravidar logo. Fiz uma escolha inteligente ao vigiar a sua pureza. Se não o tivesse feito, você já estaria com uma penca de bastardos como sua mãe. — Não sou promíscua. Philipa lançou-lhe um olhar de desprezo. 17


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— O que você é não faz a mínima diferença em sua atual situação. Furiosa, Anne se sentou em um banquinho para tirar as botas. Seria mais prudente ocultar seus sentimentos, pois, do contrário, sua família sofreria as conseqüências nas mãos daquela megera. — Apresse-se. — Mary ajoelhou-se e começou a tirar a outra bota. — Não temos muito tempo. Anne sentiu-se envergonhada. Nunca tinha ficado nua na frente de ninguém. Mary se levantou, pegou uma escova e começou a passá-la pelos cabelos de Anne. — Levante-se e pare de se cobrir! — ordenou Philipa. Anne levantou-se, e deixou os braços soltos ao lado do corpo. Philipa examinou-a dos pés à cabeça com os lábios contraídos. — Ande logo, ou o escocês não vai acreditar que a sua nobre noiva se banhou antes de ele chegar. O perfume suave de lavanda foi agradável ao olfato de Anne quando Mary despejou um balde de água sobre sua cabeça. Em seguida veio mais um e mais outro, até que seus cabelos estivessem completamente molhados. O fogo da lareira aquecia seu corpo nu. Nunca tinha usado um sabonete perfumado, assim deslumbrou-se com a sensação de deslizar a barra sobre a pele. Mary apressou o banho. Em quinze minutos, Anne estava em pé diante da lareira com uma toalha de linho em torno do corpo. O desespero tentou se apossar da situação, mas ela resistiu. Não foi uma tarefa fácil, mas o pânico não a ajudaria em nada. — Tenho certeza de que isso não vai funcionar — disse Anne. — E se o conde desejar passar algumas noites em Warwick antes de voltar para as suas terras? Philipa escarneceu com uma risada maléfica. — Ele é escocês. Certamente estará com pressa de voltar para casa. Ouvi dizer que os senhores dos clãs invadem uns aos outros quando ficam sabendo que algum lorde está distante. Mais um motivo para eu não enviar minha única filha para aquela terra de bárbaros. — Philipa balançou a chemise limpa. — Mas não importa se o conde decidir ficar. Direi que Mary está doente, e você ficará escondida até que ele esteja pronto para partir. — Vista isto. — Mary entregou um par de meias a Anne, que ela admirou. O fino tecido era algo que nunca sonhara em calçar em seus pés. — Você precisa ficar pronta logo. Em seguida, veio a delicada chemise e um vestido que pertencia a Mary. Por cima, foi colocada uma túnica acolchoada e um corpete para realçar as curva do corpo. Mary escovou os cabelos da irmã até que secassem e então fez uma trança firme. — Pronto. Você deve usar um véu quando se encontrar com o escocês, para que nenhum dos criados da casa perceba. Até lá, ficará em um quarto no andar de cima e só sairá quando eu for buscá-la. Não faça nenhuma bobagem, mocinha. Tente algo e jogarei sua mãe na rua sem um pedaço de pão ou uma capa para se proteger do frio. Philipa apontou na direção da porta. Anne seguiu, mas não abaixou a cabeça. Em vez se curvar, encarou a senhora de frente, recusando-se a mostrar deferência. O rosto da megera ficou roxo de raiva. — Suba logo e pense no que pode acontecer com a sua família caso resolva continuar me desafiando. — Depois, Philipa dirigiu-se à filha: — Mary, pegue o uniforme. Você terá de usá-lo para sair do condado de Warwick. Ninguém poderá vê-la. Se isso 18


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acontecer, todo o nosso esforço terá sido em vão. A escadaria dos fundos estava escura. Um lance estreito de degraus de pedra levava até a torre, usada pelos arqueiros em tempos de cerco. Atualmente, era lá que os livros contábeis da propriedade eram mantidos, pois não havia outro caminho para chegar ao cômodo não fosse passando pelo quarto da senhora. Anne subiu, sentindo um calafrio a lhe penetrar até os ossos. Sentiu uma pontada no coração. Nunca tinha ficado longe da sua família. Podia parecer bobagem estar se lamentando pela oportunidade de deixar o castelo, mas aquele era o único lar que ela conhecia. Anne se arrepiou ao entrar no quarto exíguo. O cômodo era tão pequeno que era possível encostar as mãos em uma parede e tocar com um dos pés a parede oposta. Pouca luz natural penetrava ali, pois só havia seteiras, pequenas aberturas por onde os arqueiros lançavam suas flechas. O vento soprou e ergueu a lateral da sua saia, causando-lhe ainda mais arrepios. Só podia estar sonhando. Um pesadelo do qual logo iria despertar. Ao passar os dedos pelo tecido do vestido, admirou-se com o corte perfeito. Mas o traje não havia sido feito para ela. O espartilho estava um pouco comprido na cintura, cutucando-lhe os quadris. Teria de consertar isso, mas certamente esse não era o momento. O marido de Mary poderia chegar a qualquer instante. Na verdade, seu marido. Anne considerou a idéia. Não tinha medo dos homens, apesar de nunca ter se deitado com um. E se o escocês não gostasse dela? Nem imaginava como faria para atraí-lo para a sua cama. Um frio que lhe percorreu a espinha colocou-a em estado de agitação ao pensar no dever que a aguardava. Talvez devesse evitá-lo. Se gerasse o bebê que Philipa ordenara, não teria mais utilidade. A condessa era capaz de tudo, até mesmo de matar. Respirando fundo, tentou se acalmar para não entrar em pânico. Era preciso pensar. Descobrir um meio de contar a seu pai. Não poderia contar ao escocês sobre a enganação, pois este a mandaria de volta para casa, diretamente para as mãos de Philipa. A idéia de ver sua doce irmã Bonnie sendo obrigada a casar-se revirou seu estômago. Seu pai era a única pessoa que tinha o poder de proteger a ela e à sua família. Ele o faria. Anne acreditava naquilo. Tinha de acreditar, era sua única esperança. Poderia escrever uma carta para o pai. Virando-se ao redor, olhou para a mesa, onde já tinha passado horas a fio cuidando dos livros da propriedade. Sim. Lá havia papel e tinta. Mas como conseguiria enviar a carta? A corte era um local incerto com nobres ao redor da rainha. Somente um homem experiente seria capaz de colocar as cartas nas mãos de seu pai. Mesmo assim, Anne se recusou a considerar-se derrotada. Philipa poderia matá-la, disso tinha certeza. Contudo, se sobrevivesse, sempre haveria o risco de a verdade ser descoberta. Sentou-se e escreveu cuidadosamente a carta. Assim que terminou, dobrou-a, fechando-a com cera, e não com o selo da casa. Enfiou-a então entre os livros contábeis e rezou para que seu pai viesse para casa no dia de pagamento da criadagem. Ainda faltavam quatro meses, mas o senhor costumava pagar pessoalmente seus empregados. Enquanto a carta não fosse encontrada, Anne teria de usar de todas as táticas que 19


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pudesse imaginar para evitar que o escocês consumasse a união. Precisava de tempo. Uma pontada de culpa a atingiu. Era a primeira vez que planejava não ser gentil com um estranho, mas não lhe restava outra alternativa. Anne o conduziria em uma perseguição divertida, evitando as carícias do futuro marido o máximo possível. O tempo passou devagar. Anne aproveitou para colocar os livros em ordem, pois detestava ficar parada sem ter o que fazer. Não estava acostumada ao ócio. Seu estômago roncou por horas antes de Mary aparecer com uma refeição quase na hora do pôr do sol. — Não estou acostumada a servir, por isso esqueci de lhe trazer algo no meio do dia. — Mary colocou a bandeja sobre a mesa com um estalo, virou-se e olhou ao redor do pequeno quarto. — Mamãe disse que você terá de dormir aqui. Vou lhe arranjar uma cama. É tão cansativo esperar por esse marido que nunca aparece... Mamãe falou que não poderei voltar para a corte antes que você tenha um bebê. Espero que se apresse.

Capítulo II

Anne acordou mais cansada do que quando adormecera. Seus olhos ardiam e as mãos doíam de segurar as beiradas da capa para se proteger do frio. Seu corpo estava enrijecido depois de uma noite no chão duro e frio. Os dedos dos pés pareciam pedras de gelo dentro das botas. Os primeiros raios de sol penetraram através das seteiras, incidindo no exato ponto onde ela estava deitada. Levantou-se para sentir o calor dos raios aquecendo suas faces. — Cavalheiros chegando! Anne arregalou os olhos ao ouvir o anúncio que ecoou do pátio abaixo e correu até a seteira mais próxima, mas os portões do castelo ainda estavam fechados. Além das muralhas, uma bandeira azul e branca tremulava a distância. O capitão da guarda correu até a escada no topo da muralha. — É a comitiva do conde de Alcaon. Reunir as tropas. O sargento tocou um sino enorme que ficava na outra torre de observação. Os homens começaram a sair correndo de suas tendas, abotoando os coletes e prendendo as espadas à medida que surgiam no pátio central. A bandeira ainda estava distante, pois o castelo tinha sido edificado no alto de uma colina de difícil subida. Era chegado o momento... — Depressa! Mary gritou, nem se dando o trabalho de subir a escada. Gesticulava para que a irmã a seguisse até os aposentos de Philipa. Anne sentiu um nó no estômago ao descer os degraus, certa de que sua alma descia para as profundezas da maldição a cada passo. — Finalmente! Espero que a noite tenha lhe dado algum juízo. — Philipa já estava vestida e parecia muito nervosa. — Não se esqueça do nosso acordo. Mary, coloque nela aquele capelo francês com véu. 20


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Mary apanhou a peça de cima de uma cadeira. A borda era grande o bastante para descer sobre a cabeça e cobrir as orelhas completamente. Havia um longo véu na parte de trás que chegava à altura da cintura. Um segundo pedaço de tecido era preso na frente do capelo e feito de um algodão indiano muito delicado. Dava para se enxergar através da trama fina, mas não com muita nitidez. As damas costumavam usar véus como aquele quando nevava a fim de proteger a maquiagem. — Ficou perfeito. Isso deve evitar que os criados desconfiem de algo — notou Philipa. De repente, foram surpreendidas por uma batida pesada na porta. — Esconda-se, filha. Rápido, minha ovelhinha. Mary deu meia-volta e correu em direção à escada que levava ao andar de cima. Philipa sorriu, mostrando um raro brilho de felicidade em seus olhos. Luz esta que se desfez no momento em que olhou para Anne. — É melhor não se esquecer das instruções que lhe dei. Assim que estiver esperando um filho, diga ao conde que você precisa estar ao lado de sua mãe na hora do parto. Até mesmo um selvagem escocês não irá lhe negar esse conforto. Mais uma batida na porta. — Entre. O capitão da guarda apareceu e curvou-se diante de Philipa. — O conde de Alcaon espera pela senhora no pátio, milady. — Estamos prontas. — Philipa segurou no braço de Anne, apertando com força. *** Anne paralisou assim que olhou pela primeira vez os homens que esperavam por ela. Eram enormes. Muito maiores do que qualquer um que já tinha visto. Os corpos másculos eram torneados de músculos. Os olhos dela pousaram sobre as mangas das camisas dobradas e a amostra de pele desnuda exposta. O frio da manhã não parecia incomodá-los; na verdade, eles estavam todos no apogeu da juventude. A maioria trajava o tradicional kilt escocês. E em vez de camisas com mangas compridas e punhos, vestiam um tipo de túnica. Os gibões eram de couro, e as botas estavam amarradas sobre as panturrilhas até a altura dos joelhos. Os kilts eram confeccionados com metros de pano, tecidos em vários tons para compor a estampa xadrez em azul, amarelo e alaranjado. Cada um tinha uma espada pesada presa nas costas. "Ele está vindo para buscar você..." As palavras de Bonnie ecoavam em sua mente quando um homem se destacou do grupo. Seus cabelos eram negros como a noite, e os olhos, azul-escuros. As mangas da camisa estavam dobradas quase até os ombros, mostrando o quanto seus braços eram fortes. Ele parecia uma estátua romana, todo músculos. — Sou Brodick McJames. Philipa se inclinou, puxando Anne pela cintura para garantir que ela a seguira adequadamente no cumprimento. — Seja bem-vindo ao condado de Warwick, milorde. Por favor, aceite a nossa hospitalidade. — Philipa se inclinou um pouco mais, mas o escocês não se impressionou com a demonstração de respeito; seus olhos passaram pela senhora e pousaram 21


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diretamente na forma encoberta e silenciosa de Anne. Ele estudou sua cabeça abaixada, tentando ver através do véu. Anne rezou em segredo para que o homem aceitasse a oferta de Philipa para passar algumas noites. Essa poderia ser sua chance de desmascarar o plano tolo. — Sinto não poder aceitar o seu gentil convite. Preciso retornar para a minha terra. — Compreendo. — Philipa falou rápido demais, porém ocultou a exaltação com um suspiro suave. Ele demonstrou surpresa, mas não por muito tempo. — Ótimo. — A voz de Brodick era grave e profunda. Pelo tom, percebia-se que ele que estava acostumado a liderar. — Dou a minha palavra à senhora que sua filha chegará sã e salva. — Subiu os degraus da frente, deixando a impressão de que crescia ainda mais a cada passo. Quando parou diante delas, seus ombros estavam acima da altura do nariz das duas. — Obrigada, senhor. Em toda a sua vida, Anne nunca tinha ouvido Philipa soar tão submissa. Ela virou a cabeça para fitar a megera, espantada de ver tamanha demonstração de falsidade. — Agora, Mary, cumpra com o seu dever e saúde o seu lorde respeitosamente. — Milorde. — Anne abaixou a cabeça, permanecendo assim por um momento. — Milady. — Ele ergueu a mão com a palma voltada para cima. Um arrepio percorreu o corpo de Anne quando olhou. Eva deve ter sentido o mesmo calafrio quando vira a serpente no paraíso. Philipa deu um beliscão em Anne, que aceitou a oferta colocando sua mão sobre a dele. Com uma força controlada, a enorme mão envolveu a sua por completo. O escocês puxou-a para mais perto, seus olhos o tempo todo tentando ver através do véu. Um de seus homens esperava aos pés da escada, segurando uma égua. Erguendo a barra da saia para poder colocar o pé no estribo, Anne ofegou ao sentir que agora as mãos fortes estavam ao redor da sua cintura. Seus pezinhos ficaram suspensos no ar enquanto ele a colocava sobre o lombo da égua. O conde lançou um sorriso para ela que, por um momento, transformou seu rosto no de um garoto. Ele esperou Anne se ajeitar sobre a sela. — Montar — ele ordenou aos outros soldados, enquanto subia no próprio cavalo. O animal era preto como carvão e seus olhos cintilavam. Eu o vi montado em um corcel negro... Anne ergueu os olhos para encará-lo. Ele segurou as rédeas com firmeza com uma das mãos, dominando o animal. Seus olhos sempre fixos em Anne, instigado pelo mistério de vê-la através do véu. Anne se lembrou das palavras de Bonnie. Na próxima primavera, você terá um bebê crescendo em seu ventre... Mas ela não podia. Tinha de haver um meio de evitar isso. Determinada, não olhou para trás, e sim para as costas largas do homem que teria de enganar. Segurando firme nas rédeas, permitiu que o olhar passeasse por aqueles ombros bem largos. Mesmo assim o corpo parecia harmonioso sobre o corcel negro. Manter as mãos desse homem distantes iria ser um desafio e tanto. 22


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Eles seguiram viagem ao longo do dia. As duas paradas foram às margens de um rio para que os cavalos pudessem beber água. Os pés de Anne estavam dormentes e ao desmontar ela sentiu as pernas formigando. Nunca tinha passado tantas horas sobre um cavalo. Distraída, passou a mão no pelo macio da égua. — É mesmo um belo animal. — Virando a cabeça, Anne deparou com um dos homens de McJames a alguns passos apenas. Ele a estudou com os olhos azuis do mesmo tom do céu de verão. — Sim, ela é muito bonita. Ele bateu com firmeza sobre a anca da égua. — Meu irmão a criou. Os cavalos McJames são os melhores da Escócia. — Posso notar. O escocês tentou ver o rosto de Anne através do véu. Ao perceber que ela não iria lhe dar uma chance, seu olhar desceu para o corpo, inspecionando-a do mesmo modo que o fizera com a égua, pouco antes. — E o mais importante, ela é muito forte. Soltando as rédeas, Anne permitiu que a égua pudesse caminhar livremente em direção ao rio. A maioria dos homens olhava em sua direção agora, estudando-a enquanto Anne se aproximava da água. O conde já estava montado em seu corcel, fitando o horizonte de um ponto mais alto com a fisionomia concentrada. A impressão era de que nunca relaxava. Depois de varrer toda a área ao redor, permitiu que seu olhar pousasse em Anne. Ela sentiu as faces enrubescendo, e o calor refletindo no restante do corpo. Quando se deu conta, estava olhando de volta para o conde, incapaz de quebrar a conexão. Ele franziu a testa antes de virar o rosto. Seu orgulho de mulher se eriçou, o rubor em suas faces tornou-se ainda mais incômodo. Como podia corar por causa do conde? E por que recebera aquele olhar de desdém? A ira confundiu-a ainda mais. Tentou convencer-se da pouca importância que tinha se o conde gostava ou não dela. Se ele a achasse repulsiva, tanto melhor. Isso certamente o manteria afastado da sua cama. Uma risada máscula reverberou quando o irmão do conde voltou trazendo a égua de Anne pelas rédeas. Ele piscou para ela, oferecendo a mão para ajudá-la a montar. Mas, em vez de aceitar, Anne segurou na sela, pisou firme no estribo e subiu sobre o animal com um impulso. — Nunca vi uma inglesa que pudesse fazer isso. Talvez meu irmão tenha feito uma escolha melhor do que poderia ter imaginado. Olhando para o escocês, Anne sentiu uma imensa vontade de erguer o véu para que ele pudesse ver a careta que ela lhe fazia. Mas o impulso teve de ser contido. O homem sorria de orelha a orelha, seus olhos brilhavam traiçoeiros. — O senhor parece conhecer bem as inglesas, estou certa? — Passei uns tempos na corte da sua rainha, por isso falo com procedência. A senhorita não é exatamente como eu esperava, de acordo com o que meu irmão me 23


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contou. — Brodick fítou-a com um olhar crítico, que a fez pensar qual seria sua opinião a seu respeito. — De minha parte, prefiro não formar nenhuma opinião antes de conhecer uma pessoa. Ele ergueu uma sobrancelha e riu divertido. — Desse tom eu me lembro bem. As inglesas devem ser descendentes das Valquírias, pois o vento do norte sopra frio de dentro de vocês. Geladas como a neve quando querem congelar um homem apenas com palavras. Anne conteve o impulso de se desculpar, já que ficar amiga daqueles homens não seria bom, considerando sua situação delicada. — Meu nome é Cullen. — O escocês ofereceu a ela um pequeno embrulho. — Coma algo. Levaremos dois dias de viagem para chegarmos ao castelo de Sterling. A senhora vai precisar de forças. — Obrigada. — A voz dela soou suave ao aceitar a oferta. Cullen prendeu na sela do cavalo um cantil de couro cheio de vinho. Anne sentiu as faces corando novamente, dessa vez de vergonha por ser tão falante. Precisava conter-se e fazer seu papel, pelo menos até que seu pai descobrisse a situação. Cullen meneou a cabeça. — Bem-vinda à família. A voz dele tinha um tom rude, que Anne mereceu por ter sido tão arrogante. O arrependimento a tocou enquanto ele caminhava na direção do seu cavalo. O conde não deu mais nenhuma parada até que o sol quase já tivesse se posto. Somente uma faixa rosada coloria o horizonte, quando ele ergueu a mão e todos os cavalos pararam. Os homens desmontaram e começaram a montar o acampamento. O local escolhido era abrigado entre as árvores. No chão, algumas pedras manchadas de fuligem indicavam que uma fogueira já tinha sido feita no mesmo local. Dois soldados se encarregaram da nova fogueira, e outra dupla reuniu os cavalos em um canto onde eles passariam a noite. O restante dos homens falava em voz baixa, e Anne podia ouvir com clareza cada palavra, pontuada pelo inconfundível sotaque escocês. A solidão a envolveu com a frieza do aço, apertando-a a cada gesto e detalhe de um costume distinto do de seu povo. Suspirou e caminhou em direção ao rio. Podia ouvir o burburinho de um riacho que não estava à vista. Precisou subir numa elevação para vislumbrar as águas límpidas. Sem pensar duas vezes, desceu o barranco. O cantil de pele, que lhe fora dado no início da viagem, estava cheio de vinho doce, e não de água. Mesmo assim a bebida havia sido bem-vinda para molhar a boca, que muitas vezes secava por causa do frio. Firmando os pés sobre uma pedra, Anne nem se deu o trabalho de olhar ao redor quando ergueu a saia quase até a altura das coxas, antes de se abaixar para encher o cantil. O ar frio da noite roçou-lhe a pele desnuda acima das meias, causando-lhe arrepios. Endireitou-se ao terminar de encher o cantil. Anne surpreendeu-se ao encontrar Brodick a dois passos de distância de onde estava. Assustada, recuou, sem se preocupar com a proximidade do rio. Os saltos das suas botas afundaram no terreno lamacento, o cantil foi ao chão, e seu corpo oscilou, tentando recuperar o equilíbrio. O conde estendeu a mão e a segurou pelo pulso. Puxou-a com força desmedida, inadvertidamente fazendo-a colidir com seu tórax. O contraste de temperatura da água 24


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fria com o corpo quente causou um torpor que quase a derrubaram de fato. Anne arregalou os olhos quando o braço musculoso e desnudo de Brodick deslizou ao redor das suas costas, prendendo-a no lugar com firmeza. — Por acaso pretendia fugir durante a noite? Não havia nenhuma dúvida quanto à ira que pontuava a voz grave. Ele franziu o cenho, a fisionomia marcada pela desconfiança. — Eu simplesmente queria encher o cantil. — E fez isso sem dizer a ninguém para onde estava indo. Saindo sorrateira pelas sombras. — Nem me dei conta disso. Mas deveria. Tinha sido um erro. Mary teria pedido para alguém encher o cantil. — Eu apreciaria se não saísse de perto dos meus homens. Só faltava termos de resgatá-la das mãos dos homens de outro clã qualquer que a encontrassem vagando desacompanhada. Se não se importa com o que podem lhe fazer, tenha um pouco de consideração com o sangue que derramaremos quando tivermos de lutar para pegá-la de volta. — Não quero que ninguém lute por minha causa. — Anne ficou horrorizada com a perspectiva. — Tenha isso em mente, então. Não permitirei que ninguém fique com algo que me pertence, milady. Fuja, e eu a trarei de volta. — As palavras de Brodick foram duras e impiedosas. — Eu não estava fugindo. Ele bufou, claramente duvidando do que ouvia. — Você nunca vai tirar esta coisa do seu rosto? Pensei que fosse contra a lei ser freira na Inglaterra. Anne ergueu o queixo e deparou com um par de olhos azul-escuros encarando-a profundamente. Olhos escuros como a noite... Ela estremeceu. Os olhos do escocês se estreitaram e sua mão, que a amparava nas costas, sentiu o tremor da reação. Rubor subiu pelas faces de Anne ao inalar o odor da pele masculina, causando-lhe um súbito torpor. Com um movimento brusco, ela tentou se desvencilhar. — Sei que já esteve na corte, por isso não vejo a necessidade de continuar fingindo inocência, Mary. Não sou o primeiro homem a tocá-la. Anne arregalou os olhos quando ele a segurou com ainda mais firmeza. Seus braços pareciam feitos de aço. — Não estou fingindo nada, milorde. Um segundo depois o capelo francês era removido, soltando-se junto dos longos cabelos. Ele estudou o rosto delicado por um longo momento antes de soltá-la. — Eu serei o juiz desta questão. Anne atolou um pé na lama ao tentar aumentar a distância entre eles. Uma fagulha de surpresa flamejava nos olhos azul-escuros, enquanto ele permanecia bloqueando-lhe o caminho, usando o rio e o próprio corpo para mantê-la à sua mercê. 25


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— Milorde foi claro o suficiente. Anne tentou passar por ele, sem se importar com o roçar dos corpos. Havia muitas coisas do qual ela poderia ser acusada, menos de ser devassa. — Ótimo — concluiu Brodick, seguindo barranco acima. — Agradou-me ver o seu rosto debaixo do véu em vez do de uma cortesã, toda coberta de pintura. — Ele se aproximou e roçou com um dedo a face macia. — Sim, estou satisfeito. Anne estremeceu diante da suavidade do toque. De repente, o conde não parecia mais irado. Ruborizada, Mary virou o rosto para se desvencilhar do olhar penetrante e da estranha sensação, que se apossava de seu corpo. Em parte gostaria de ouvir os elogios. Um homem como aquele estava muito acima da posição que jamais sonhara ter um dia. — Olhe para mim, Mary. Ouvir o nome da sua meia-irmã em vez do seu foi como se um balde de água fria tivesse sido jogado sobre a sua cabeça. Anne se virou lentamente, lutando para ocultar as emoções antes de encará-lo mais uma vez. — Não gosto de mulheres tímidas. O tom rude a irritou de novo. — O senhor pode me enviar de volta para casa. — Ela baixou os olhos, fazendo de tudo para aparentar covardia. Por uma fração de segundo, seu coração se encheu com a esperança de que ele pudesse rejeitá-la. — O senhor deveria me mandar para meu pai. Ele está na corte. Uma mão firme a segurou pelo queixo, erguendo-o para que seus olhos se encontrassem. — Está mais do que claro que você já esteve na corte, aquele lugar cheio de esquemas e artimanhas. — Brodick avançou um passo e seus lábios se entreabriram suaves, quase em um sorriso. — Por acaso pareço ser do tipo que se rende tão facilmente? O odor másculo invadiu seus sentidos quando o conde inclinou a cabeça, provocando-a ainda mais com o hálito quente. — Você não sabe nada sobre os escoceses. Não temos medo de olhares frios. Na Escócia, sabemos como aquecer nossas mulheres. Baixando a cabeça, Brodick a pegou desprevenida, tocando-lhe os lábios com os seus. A primeira reação de Anne foi afastar-se. O calor do contato correu por todo o seu corpo fragilizado. Quando seu esforço foi minado, deu-se conta de estar presa entre os braços fortes outra vez, colada contra a parede de músculos. — Isso não é tudo. — Brodick a puxou ainda mais, apertando-a tanto a ponto de Anne sentir-lhe os batimentos do coração. — Não vou perder esta oportunidade de beijar minha esposa. De novo seus lábios se tocaram, dessa vez lentamente. Anne amoldou-se no abraço envolvente, impulsos novos e incompreensíveis despertavam em sua mente e corpo. Aquele carinho em nada se assemelhava aos outros que já tivera na vida, ligeiros e roubados. Para Brodick não havia pressa alguma. Tocou-a com a ponta da língua para primeiro degustar o sabor da boca bem desenhada. Só então aprofundou ainda mais o beijo. O abraço já não era mais tão dolorido. Ele bem sabia como dominar a própria força, embora até então tivesse demonstrado o contrário. 26


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Nunca em toda a sua vida Anne imaginara que um toque pudesse ser tão intenso. Suas mãos estavam espalmadas sobre o peito largo e ela podia sentir as pontas dos dedos latejando, vivas com a nova sensação. Era bom demais tocar aquela pele bronzeada. — Assim está bem melhor. Os olhos de Brodick transbordavam de satisfação. O brilho intenso a hipnotizava a ponto de prendê-la, não permitindo que sua atenção fosse desviada. Sob o efeito daquela estranha magia, Anne esqueceu-se completamente do perigo em que se deixara envolver. — Pelo que estou vendo, o casal não está interessado em jantar. A voz de Cullen soou zombeteira. Anne arregalou os olhos, embaraçada. No instante seguinte, empurrou o peito que antes acariciava. Brodick franziu o cenho ao soltá-la, e dirigiu um olhar de reprovação para o irmão. — Você não se parece com o meu criado pessoal. — Mas você não tem nenhum mesmo. — Cullen sorriu como um garoto travesso. — Quem disse que não? E o homem é esperto o bastante para ficar invisível assim como você deveria fazer. Cullen começou a caminhar na direção dos dois, apesar do tom rude do irmão. Piscou para Anne quando se aproximou. — Isso é jeito de se portar diante de uma dama inglesa? Assim ela vai pensar que não passamos de selvagens, como pensa a maioria dos ingleses. Brodick olhou para Anne e seus lábios se curvaram em um sorriso arrogante de quem se divertia bastante. Não estava nem um pouco arrependido por ter roubado o beijo. — Uma coisa é certa, ninguém pode rotulá-lo de irresoluto — Anne disse, encarando-o, sem saber se deveria estar brava com ele pela ousadia ou consigo mesma por ter gostado tanto. Cullen riu a valer. — Tem certeza de que deseja mesmo ficar com ela, irmão? Acho que gostei da moça. Brodick ergueu uma sobrancelha e cruzou os braços sobre o peito. — Eu estava justamente tentando conhecê-la melhor quando você nos interrompeu. — Deixe a jovem jantar primeiro, antes de saírem por aí para consumar a união. Anne ficou chocada ao ouvir a palavra "consumar". — Certamente não será nesta noite! — Ela balançou a cabeça. — E nem aqui! — Que motivo teria para me negar este direito? Anne viu-se em águas perigosas. Como afastaria o conde quando ele tinha todo o direito de posse sobre ela? — Você não me pareceu muito preocupada enquanto nos beijávamos há pouco. — Brodick se aproximou. — Talvez o local não esteja de acordo com os seus padrões, milady. — O tom de voz dele era de puro escárnio e zombaria. 27


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— Não podemos nos esquecer das tradições a serem seguidas. — A mente de Anne trabalhava freneticamente para encontrar uma saída para o impasse. Ela respirou fundo para acalmar o coração e pensar melhor nas próximas palavras. — Milorde, não era minha intenção impor empecilhos. No entanto, só tenho uma virgindade e tenho que assegurar que ela se mantenha intacta para meu marido. — Mas eu sou seu marido. — Brodick recuou um passo. Anne ergueu o queixo, não podia se acovardar. — Mas ainda não fui inspecionada, e é possível que depois disso, o senhor deseje repensar esta união. — Bem, moça, era exatamente isso que eu estava tentando fazer quando meu irmão apareceu. Terei todo o prazer em executar essa tarefa. Cullen franziu o cenho como se estivesse com inveja do irmão. — Isso não tem cabimento. — Discordo. — O conde reassumiu o tom de comando. — Creio que tenho todo o direito de conferir a dignidade de minha esposa. — Não serei inspecionada pelo senhor. — E por que não? — Ele a encarou. Anne se endireitou, altiva. — Porque o senhor não é uma parteira. O que poderia saber sobre o corpo de uma mulher? Os lábios sedutores se torceram num sorriso enquanto seus olhos pousaram sobre os seios arredondados. Anne sentiu os mamilos se enrijecer ao imaginá-los beijados pelo seu suposto marido. A idéia de permitir tal ousadia era sedutora, pois só assim descobriria se seria tão bom quanto o beijo que acabara de experimentar. — Posso lhe assegurar que conheço o bastante sobre o sexo frágil. Uma chama de ciúme ardeu dentro de Anne ante o tom de malícia oculto. Ele certamente tem uma amante... As palavras de Philipa brotaram de sua mente, e ela ergueu o queixo, determinada a não se deixar possuir tão facilmente. — Luxúria não tem nada a ver com a fertilidade de uma mulher. A inspeção de uma noiva deve ser feita por uma parteira experiente ou pela mãe do noivo. Esse é um assunto sério, milorde. Se eu passar a noite com o senhor, amanhã de manhã corro o risco de ser enviada de volta para meu pai sem ninguém para me defender. Anne moveu alguns passos colina acima, na direção do acampamento. — Sua mãe deveria ter executado essa tarefa. — É costume que a família do noivo escolha a parteira. Todos sabem disso. O senhor poderia refutar quem quer que minha família escolhesse. — Essa era uma tradição que datava de séculos. Anne deveria ter se lembrado antes. Quando uma mulher se casava por procuração, seu dote passava legalmente para as mãos do marido. Caso fosse devolvida para o pai sob uma alegação qualquer, a luta por vias legais poderia durar anos, até que a família da mulher conseguisse recuperar o dinheiro e as terras do dote. Quando a batalha chegava ao fim, a noiva rejeitada já estava velha demais para se casar e acabava seus dias na miséria, dependendo da boa vontade de parentes para tudo. 28


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Na verdade, a tradição da comprovação da virgindade protegia a mulher, pois se uma parteira experiente anunciasse que a moça era forte e fértil, não havia corte que pudesse anular o casamento. Em um mundo governado por homens, era a perdição para uma mulher quando o destino levava uma criança muito cedo, ou pior, quando uma esposa não conseguia conceber. — Inspeção antes da consumação é uma tradição em nossos países. A fisionomia de Brodick obscureceu, indicando claramente que ele não estava acostumado a ser contrariado. Anne se manteve firme, encarando o descontentamento sem baixar o nariz. — Agora estou ainda mais certo de que gosto mesmo de você, moça. — Cullen soou jovial, exatamente como soam os irmãos mais novos quando querem provocar os mais velhos. — Com alguém como você por perto, não preciso de inimigos. Cullen não se curvou diante das palavras ameaçadoras, em vez disso sorriu. Mas o conde ainda o encarava. — Deixe-nos a sós. — Havia um inegável tom de comando na voz do conde. A fisionomia brincalhona do rapaz se desfez e ele saiu obediente. O sol já tinha se posto por completo, deixando-a sozinha na escuridão ao lado de Brodick. — Qual é o seu jogo? — dardejou ele, calmamente. Já o conhecendo um pouco, Anne não se iludiu imaginando que ele tivesse baixado a guarda. Já ouvira seu pai usar o mesmo tom, e nada de bom costumava resultar daquilo. — Responda, milady. Por acaso esta tentando evitar que a nossa união seja consumada? — Não se trata disso. — Eu acho que é uma covarde, isso sim. — Se o desagradei, o senhor pode me mandar de volta para meu pai. Uma risada cínica foi a resposta. O belo rosto estava agora quase encoberto pelas sobras da noite, os contornos do corpo imenso iluminados pelo brilho do luar. Por um momento, pareceu que estavam dentro de um conto de fadas. Anne observou as mãos de Brodick se movendo em sua direção, fascinada com o jogo de sombras produzido pelo luar. — Posso ver em seus olhos que me deseja, moça. As mãos pousaram sobre a cintura delicada, os dedos prendendo-a com firmeza. Com um puxão, ela se viu envolvida nos braços poderosos. Brodick passou um braço nas costas de Anne, enquanto a outra mão a segurava com firmeza na altura da nuca, prendendo-a em uma armadilha sem escapatória. — Eu não teria sobrevivido por tanto tempo como conde de Alcaon se desistisse tão facilmente. A sorte favorece os ousados. Ele a beijou de novo. Dessa vez seus lábios pressionaram os dela com ardor, forçando-a a abrir a boca, permitindo que a língua de Brodick a penetrasse. Ela se contorceu, incapaz de conter os impulsos que perpassavam seu corpo. O odor masculino dominava seus sentidos, libertando desejos nunca experimentados. 29


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Brodick invadiu sua boca provocando, seduzindo até que Anne não pudesse mais se conter, rendendo-se aos anseios de ambos. Aquela dança estranha enviava o prazer até a alma de Anne, embalando-a em uma doçura inebriante, permitindo que esquecesse toda a determinação. Quando imaginou que desfaleceria diante de tão inusitada experiência, ele se afastou. Porém, não teve tempo de sentir a falta do calor contagiante porque uma trilha de beijos foi traçado ao longo de seu rosto delicado. Anne estremeceu; a pele de seu pescoço implorava por ser tocada por aqueles lábios, e seu coração batia disparado. — Você terá a sua inspeção, moça, assim como também irá provar o sabor de um desejo não satisfeito. Em seguida, ele a soltou. Anne cambaleou inebriada, e o ar frio da noite a envolveu impiedoso. A separação do abraço a fez tremer. Brodick a segurou pelo queixo, e tinha agora um quê de deboche nos lábios. — Você vai demorar a adormecer esta noite tanto quanto eu, e talvez ao nascer do sol pare com essa bobagem de querer voltar para casa. Ele segurou o rosto de Anne com as duas mãos, prendendo-a para mais um beijo. Dessa vez nem se deu o trabalho de provocar e seduzir. Sua boca tomou-a por completo sem pedir licença, a língua penetrou profundamente. Anne soltou um leve gemido enquanto o desejo se apoderava de todo o seu ser. Em seguida, seus lábios se separaram, para que Brodick seguisse com beijos rápidos por caminhos nunca antes explorados. Ela jamais poderia ter imaginado que aquelas partes de seu corpo pudessem ser tão sensíveis. Suas mãos grudaram como garras no tecido da camisa de Brodick, em um impulso insano de tirá-la para que assim pudesse tocá-lo por completo. Ela não compreendia tal idéia ou como tinha lhe ocorrido. Tudo o que sabia era que cada vez mais parecia difícil respirar, e o medo a suplantava. Mas não era medo de Brodick, era algo pior. Recava o que poderia fazer com ele. Brodick, por sua vez, estava na mesma situação de dúvidas e anseios, esforçou-se para conter o impulso de continuar, cruzando os braços sobre o peito como para impedirse de abraçá-la novamente. — Acho que agora já deu para me conhecer melhor, milady. Já deve ter percebido que a nossa cama não será fria. Você terá a sua inspeção, mas, depois disso, terá de abandonar as suas reservas. Não tolerarei isso. — Ou o quê? O senhor não pode modificar a minha natureza. Acho melhor aproveitar esta noite para refletir se a nossa união vai dar certo ou não. — Por que eu iria perder tempo com isso quando percebo a paixão que se esconde atrás dessa sua fachada de frieza? — Ele se aproximou novamente. — Não preciso mudar o seu jeito, moça. Só tenho que fazer a minha parte para trazer à tona a sua outra natureza. O horror a dominou, enquanto ela conseguiu apenas balançar a cabeça negando. — Sim, moça, você retribuiu meu beijo, e isso é tudo o que preciso saber. Descobriremos juntos o caminho para que a nossa união dê certo. Negue que está ardendo de desejo. Diga que os seus mamilos não estão enrijecidos. — O senhor não deveria dizer tais coisas. — Não devo dizer a verdade, então? Estamos casados, não é nenhum pecado falarmos sobre nossas experiências. Lentamente, Brodick afastou a mão do rosto ruborizado de Anne, que implorava 30


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pelo toque mesmo que inconscientemente. — Negocio nosso casamento com seu pai faz mais de dois anos. Não pretendo desistir só porque você não valoriza esse forte elo, que acabo de provar que existe entre nós. Nosso casamento foi realizado mais para o benefício de outros do que de nós mesmos. É melhor começar a pensar sobre todas as pessoas que terão uma vida melhor por conta disso. — Ele se aproximou mais um pouco para que Anne pudesse ver melhor seu rosto nas sombras da noite. — Tenha em mente que Brodick McJames nunca receberá ordens nem mesmo da sua própria esposa. Você me pertence. E devemos compartilhar uma cama... com freqüência. Pretendo beijar cada centímetro de pele do seu corpo. Ele a soltou, dando-lhe um leve empurrão na direção do acampamento. Anne estava tão alerta que firmou os pés no chão, recuperando o equilíbrio. — Eu não pertenço a ninguém. Foram palavras demasiadamente ousadas. As mulheres tinham uma vida dura, e os homens da família exerciam grande poder sobre elas. Essa era a lei tanto na Inglaterra quanto na Escócia. Brodick não estava errado ao externar seu ponto de vista extremista. Todas as cortes concordariam com ele. — Venha para o acampamento comigo, já que faz tanta questão de honrar a tradição. Concordo que é costume em um casamento como o nosso. Quem sabe depois que uma parteira pronunciar que está apta para conceber meus filhos, você sossegue. Suponho que seja normal que uma virgem sinta certo nervosismo na primeira vez que o marido a beije. Mesmo que tenha aprendido rapidamente a arte da sedução. — Aquilo foi mais do que um beijo... — Anne fechou a boca antes que a sua ignorância nesse campo aflorasse ainda mais. Nunca tinha imaginado que um homem pudesse colocar a língua dentro da boca de uma mulher. Os dentes de Brodick refletiram a luz prateada do luar. — Tem razão, foi apenas um preâmbulo... Ele não dava a mínima importância a tal inspeção da parteira. Mas se era esse o costume, não iria agir como um selvagem. Anne jamais imaginara que fosse tão bom sentir a pressão do corpo de um homem contra o seu. Era como descobrir um tesouro de sentimentos ocultos no fundo de seu coração. Talvez Philipa estivesse certa, e ela de fato fosse uma devassa como sua mãe. Sua fisionomia se alterou ao lembrar-se do amor da mãe por seu pai. Aquele sentimento era uma maldição. Tratava-se de algo capaz de levar um homem à loucura e arrastar uma mulher para longe da sua família. Muitos médicos rotulavam o amor como uma moléstia muito próxima da insanidade. Entretanto, não conseguia pensar em sua mãe como uma insana ou em seus irmãos como frutos de um ato impuro. O amor tinha de ser mais do que aquilo, algo que ainda não havia sido compreendido por completo. Afinal, estavam na época das descobertas. Homens tinham cruzado o oceano e relatado histórias sobre novas terras habitadas por selvagens. Era preciso sufocar o ardor que consumia seu peito. Banir da mente a lembrança do quanto fora bom se ver envolvida nos braços de um homem. O jantar havia sido ótimo. Quando a noite os envolveu por completo, o fogo foi um amigo bem-vindo, pois o vento frio varria o acampamento, causando arrepios. 31


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— A senhora vai precisar disto durante a noite. A pesada capa de lã que Anne usara para se aquecer na noite anterior lhe foi oferecida por outro homem que não os irmãos McJames. O mesmo voltara para lhe fazer o mesmo oferecimento. Ela apanhou a capa, e ele tocou na aba da boina de lã em sinal de respeito. — Meu nome é Druce e somos primos agora, por conta do seu casamento. — Com uma expressão pensativa, ele a observou enrolar-se na capa. — O pai do seu marido e o meu eram irmãos. Então, Druce também era um nobre de sangue azul, e mesmo assim viajava junto dos outros sem nenhum tipo de privilégio. Cada homem conquistava o respeito em vez de esperar que este lhe fosse concedido devido à sua filiação. Anne achou o fato admirável. Talvez até demais, pois lutava contra o desejo de se afeiçoar a esse povo. Os homens celtas tinham se mostrado muito mais atraentes do que ela jamais imaginara. — Obrigada. — Não precisa ficar com medo de dormir ao ar livre. Colocaremos sentinelas de plantão. E os escoceses não são tão selvagens quanto a senhora foi levada a acreditar. — Confio no julgamento de meu pai. — A senhora é uma boa filha por pensar assim. — Druce sorriu. — Esteja certa de que não foi enviada para as mãos de bárbaros, não importa o que tenha ouvido. Anne sentiu as faces corando levemente. — Bem... sei que não devemos acreditar em conversas fiadas. Raramente elas são verdadeiras. Druce riu do comentário e apontou para o chão. — É melhor se acomodar e dormir um pouco. Brodick costuma acordar bem cedo. Guarde as minhas palavras. Anne buscou um local onde pudesse se acomodar para o merecido descanso. Quando estava fechando os olhos, sentiu o corpo quente de Brodick se aconchegando ao seu. — Relaxe. É normal que marido e mulher durmam um ao lado do outro. Não entendo por que está tão tensa, considerando que preza tanto pelas tradições. Ele sorriu e Anne dirigiu-lhe um olhar fulminante. A brincadeira não tinha graça alguma. Brodick se deitou e virou-se de lado para olhá-la de frente. Em seguida, apoiou o queixo sobre o braço. — Venha para mais perto de mim. — Insinuante, ele bateu no chão. — A menos que eu lhe provoque fortes emoções. Anne deitou-se de costas, fechando os olhos para ignorá-lo. Brodick riu, e o som grave a atingiu profundamente, fazendo com que perdesse as forças para continuar de olhos fechados. — O senhor é muito convencido, milorde. Quando, na verdade, não passa de um homem igual a tantos outros. Apesar de ter falado baixo, ele a ouviu. Em vez de se ofender com o insulto, Brodick achou graça. Aproximou-se e prendeu os ombros dela ao chão. Uma tensa emoção a envolveu ao sentir o calor do hálito quente roçando a sua boca. 32


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— Terei o maior prazer de mostrar o quanto sou diferente, moça. — E ele a beijou. O beijo reacendeu as chamas da paixão que tinham sido atiçadas lá na margem do rio. Quando seus lábios se distanciaram, Anne estava ofegante. — Não vejo a hora de estarmos em um lugar mais reservado amanhã à noite. Você verá um mundo de diferenças entre conhecer os homens que a rodeiam e seu marido. Ele se deitou de volta, mas permaneceu de lado. Anne sentia o olhar fixo enquanto tentava apagar a sensação deixada pelo beijo, que fazia seu corpo ansiar por mais. Os pensamentos perturbaram seu sono, e ela se virou e revirou sobre o chão duro. Abriu os olhos mais de uma dúzia de vezes durante a noite, vislumbrando as formas dos homens ao seu redor. Sua mente agitava-se com a idéia de tentar fugir do acampamento, mas logo mudou de opinião ao pensar na família. Se fugisse, estaria abandonando-os nas mãos de Philipa. Um gemido suave atingiu seus ouvidos quando Brodick se mexeu. Ele se aproximou, abraçou-a na altura da cintura e a puxou para ainda mais perto. — Precisamos descansar — ele sussurrou em seu ouvido. Anne se sentiu aquecida e inalou o odor másculo, que despertou ainda mais seu desejo. Mexeu-se, tentando encontrar um meio de escapar do calor e do cheiro que tanto a atraíam. — Continue se esfregando assim em mim e terá de viver sem a sua inspeção. Ela ofegou, olhando ao redor, mas todos os homens pareciam acomodados em locais mais distantes. Os lábios de Brodick roçaram sua nuca e uma mão deslizou lentamente sobre seu ventre, mantendo-a imóvel. Apesar de todas as camadas de saias e a capa, era impossível não sentir a excitação do conde. E Anne foi tomada pelo desejo. — Percebe como combinamos bem? — ele comentou. — Luxúria não é sinal de compatibilidade — ela rebateu. Brodick ergueu a cabeça para que seus olhos se encontrassem na penumbra. — Foi um bom começo. — A ousadia dele continuou a ponto de suas mãos tocarem os seios de Anne pela primeira vez. — Pare com isso. — Você é minha esposa. Por que eu iria parar se o seu rosto diz que está adorando? Anne sentiu uma onda de prazer quando as carícias não cessaram. Inútil a batalha contra o próprio corpo que reagia àquele toque de um jeito tão intenso. — Feche os olhos e durma, antes que eu perca a paciência e a leve de volta para o rio para resolver de vez esta questão. Continue me provocando e terá de cumprir com o seu dever de esposa. Várias respostas ocorreram a Anne, mas ela calou uma a uma. Após um beijo suave no rosto, Brodick se acomodou com a mão ao redor da cintura dela, puxando-a para ainda mais perto de seu corpo. — Eu não sou um bruto, Mary. Continuar me evitando não vai facilitar em nada. Existem coisas que quanto mais rápido fizermos, melhor. Assim não sobra tempo para você continuar temendo. Anne resmungou. Ele riu e beijou na nuca por um bom tempo antes de se acomodar. Mais uma vez ela tentou dormir, porém seu inconsciente estava interessado em outras atividades... 33


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*** Brodick se levantou antes do nascer do sol e foi cuidar dos cavalos. — Essa capa é muito volumosa para cavalgar — Druce disse a Anne. Foi preciso coragem para entregar o agasalho, pois a manhã estava fria. Mas o escocês tinha razão. Se ela tentasse se sentar sobre a sela com todo aquele volume, provavelmente acabaria caindo ao primeiro solavanco. — Fique com isto, moça. — Cullen deu uma piscadela ao colocar outra capa de lã sobre os ombros dela. — Deixamos o seu baú para trás, mas não as suas roupas. Tudo está amarrado no lombo de uma das éguas. Anne se aconchegou sob a capa, grata pelo calor. Tecida de lã e com acabamento de veludo nas barras, a vestimenta tinha grandes fendas nas laterais próprias para montar. Cullen juntara-se aos homens, cujas vozes ganhavam volume à medida que o sol se erguia. Mas estava faltando o corcel negro. Erguendo o queixo, Anne fitou a estrada à procura do conde. Lá estava ele, num ponto mais alto e com o olhar perdido no horizonte. — Dá para parar de despir o homem com os olhos, moça? Estou começando a ficar com inveja. Cullen trouxe a égua até Anne, sua voz pontuada de zombaria. — Não estou... — A idéia de despir Brodick ficou presa em sua mente. — Não está? — Cullen riu. — Claro que não. — Alcançando o apoio da sela, ela ergueu o pé e se apoiou no estribo. Uma mão forte a impulsionou na altura dos quadris, fazendo-a hesitar. O olhar contrariado que Anne lhe lançou do alto do cavalo, não o fez se arrepender. — De nada — respondeu o rapaz, batendo na aba da boina, mantendo a ironia na voz. E sem esperar pelo provável protesto dela, Cullen deu um tapa no flanco da égua, que pegou a trilha. A montaria subiu animada em direção ao conde, enquanto os outros homens terminavam de montar. Ao se aproximar, Anne imaginou ter visto um sorriso satisfeito nos lábios do conde, mas ele se virou, mostrando as largas costas, antes que ela pudesse ter certeza. — Sterling! — A voz de Brodick ecoou no silêncio da madrugada quando sua mão se ergueu com o punho cerrado. — Sterling! — os homens responderam, o grito soando como um desafio. Até mesmo os cavalos pareceram captar o entusiasmo de seus cavaleiros. Ivy Copper abraçou Bonnie mais apertado do que o normal. — Aconteceu algo errado, mamãe? — Não, querida, é que as mães sempre olham para os filhos como se eles ainda fossem bebês — respondeu, segurando com as duas mãos o rostinho da filha, e sorriu. Bonnie retribuiu o abraço antes de sair dançando pelo quarto. — Preciso ir ou me atrasarei. Vamos tecer hoje. Basta de fiar ou tingir lã. 34


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Ivy acenou para a filha, esperando até que o som de seus passos desaparecesse no corredor, para só então baixar a guarda e permitir que as linhas de preocupação aflorassem em seu rosto. Anne havia partido do castelo. Preocupada, Ivy andava de um lado para outro. Nenhum dos seus filhos jamais saíra do condado de Warwick. Talvez fosse tolice sua estar tão nervosa, pois era normal que os jovens viajassem, mas a idéia não lhe servia de consolo. Temia que algo tivesse acontecido, apesar de o bom-senso lhe dizer que tudo não passava de preocupação de mãe. Seria tão bom se o conde Warrick estivesse em casa. O pensamento serviu ao menos para acalentar um pouco seu coração. Ela sempre desejava que Henry estivesse por perto. Como não poderia? Afinal, amava-o profundamente. Seus sentimentos eram correspondidos, além de ser tratada com deferência por ser muito melhor que a maioria das amantes. Ele nunca saíra do seu lado, nem mesmo quando a sua barriga estava enorme, e inclusive agora que os anos tinham passado tão depressa. Amor... Esta era a sua dádiva. Tinha de se convencer de que estava tudo bem. Mesmo que Philipa tivesse levado Anne para a cidade com ela e Mary, não havia nada com que se preocupar. A senhora da casa podia até tratá-la com certo desdém, mas não seria capaz de arriscar a ira do marido cometendo alguma crueldade. Anne voltaria no verão, e então a sua família estaria reunida novamente. Sterling se erguia no alto de uma colina. Suas cinco torres eram grandes estruturas redondas, cada uma com mais de dois metros de largura e três andares de altura. Atrás havia um fosso que protegia o castelo dos invasores. Muralhas maciças ligavam as torres, a bandeira azul e dourada dos McJames tremulava no ponto mais alto da construção. Os homens soltaram gritos de vivas quando o som dos sinos repicando ao longe foi trazido pela brisa de final de tarde. Havia dois portões na muralha de pedra. Isso era uma curiosidade, uma vez que castelos eram construídos para resistir a cercos. Ter dois portões significava que era preciso o dobro de homens para proteger os pontos fracos. Camponeses começaram a sair de suas casas, saudando os homens que retornavam. A terra estava remexida, esperando pelo plantio e indicando que o solo de Sterling era fértil. Brodick seguiu para o imenso portão norte, seus homens logo atrás. Mas não entrou de imediato. Em vez disso deu meia-volta e, quando Anne se deu conta, o negro corcel surgiu diante de seus olhos, impondo todo o seu poder. O conde combinava com o quadro. Ele freou o cavalo a apenas alguns passos de distância e se inclinou para apanhar as rédeas da égua de Anne. Em seguida, aproximou-se ainda mais e passou o braço ao redor da cintura da esposa, trazendo-a para cima do seu cavalo, colocando-a à sua frente. Ela se segurou como pôde, apavorada e com medo de cair. Os homens riram, assim como Brodick. — O que o senhor está fazendo, milorde? Ele se inclinou até que ela sentiu o hálito quente soprando em seu ouvido e 35


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causando-lhe arrepios na nunca, pavimentados logo em seguida por beijos ligeiros. — Estou agindo de acordo com as minhas tradições, quando um McJames traz sua esposa para o castelo pela primeira vez. Para seu conhecimento, as coisas nem sempre foram assim... tão civilizadas. Anne estremeceu. A cozinha do condado de Warrick sempre era animada com as histórias sobre as invasões dos escoceses que costumavam roubar suas esposas. O casamento depois da cama era normal entre membros dos clãs celtas. — Confesso que existem algumas tradições que me agradam mais do que outras, moça. Fugir durante a noite com você teria sido algo que eu gostaria muito de ter feito. As negociações com seu pai foram cansativas demais. — Se não me engano a negociação assegurou ao senhor o direito ao dote que tanto almejava. — Ah, mas ter você sentada nessa posição tão próxima a mim é muito mais estimulante. Brodick mordiscou-a na ponta da orelha, e ela se assustou ao sentir o corpo inteiro reagir. O conde achou graça e não se furtou em repetir o ato. — Pelo visto, você concorda comigo. Bem-vinda a Sterling. Ele cruzou o portão mantendo-a bem pressionada contra seu corpo. Anne se sentia mais como uma prisioneira do que como uma esposa, cujo casamento tinha sido cuidadosamente negociado. As pessoas enchiam o pátio central, e suas vozes se ergueram em júbilo enquanto Brodick cavalgava rumo aos degraus que levavam a uma das torres de pedra. Ele puxou as rédeas. — Eu trouxe para vocês a nova senhora deste castelo. — A voz de Brodick soou altiva. De repente, Anne se viu no centro das atenções, sendo carregada para seu novo lar. Ela passou as mãos ao redor dos ombros fortes para se firmar. — Bem-vinda ao meu lar — o conde de Alcaon disse com orgulho, e Anne foi tomada de culpa. O conde merecia algo melhor. A multidão se aproximou, ávida por vê-la mais de perto. — Mais tarde — anunciou ele, afastando-se de todos. Havia um tom de alerta naquela voz imperativa que causou um aperto no coração de Anne. Apesar de não conhecê-lo muito bem, tinha certeza de que ele não era do tipo que permitia que alguém saísse ileso depois de enganá-lo. Subitamente, temeu pelo dia em que a farsa fosse descoberta. Brodick colocou-a no chão e, de mãos dadas, subiram a escadaria de uma das torres. — Sterling é maior do que o condado de Warwick. Tome cuidado para não se perder. — Ele a fitou com um olhar profundo. — E não fique vagando por aí sem companhia. Os clãs vizinhos não são bem-vindos. — Cuidado com o que diz. — Com um dedo em riste, uma jovem de cabelos escuros o interrompeu. — Desse modo, a moça vai se enfiar embaixo das cobertas, morrendo de medo, pensando que os escoceses são selvagens sanguinários. — E é isso que eu amo no nosso povo — Cullen completou o comentário abraçando a moça pela cintura. Ela reclamou sorrindo. 36


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— Pare de bagunçar o meu cabelo, seu bruto. Brodick apertou os dedos de Anne. — Esta é minha irmã, Fiona, mais vaidosa, impossível. A moça inclinou a cabeça, pousando as mãos sobre os quadris. Era linda, muito mais bonita do que qualquer outra que Anne já vira. — Preocupar-se com a beleza é um elogio. Pior é você, que só pensa nos seus cavalos, não é, irmão querido? Brodick franziu o cenho, cerrando as pálpebras para encarar a irmã. — Tenho orgulho dos meus cavalos. São os melhores animais da Escócia. A repreensão de Fiona fez Anne rir, um som suave que acabou escapando de seus lábios sem querer. O conde desviou o olhar para ela. — Não preciso das duas unidas para me contrariar. — Seu tom foi severo, porém os olhos brilhantes denotavam o clima de alegria. — Para ser sincera, gostei muito de ter uma aliada. Estou cansada de ser a única mulher deste castelo. — Fiona deu um sorriso jovial que fez Brodick soltar um leve gemido. — Esta época do ano é ótima para casamentos — disse o conde. — Só quando os porcos voarem — provocou Fiona. Pouco depois, entravam os três no salão principal. As duas apreciaram o modo como todos os homens sentados ao longo da mesa pararam de falar para tocar nas abas de suas boinas em sinal de respeito quando eles entraram no salão principal. Anne admirou-se como a irmã dos McJames lidava com as atenções de tantos homens. — Sou muito jovem para me casar. Convença o parvo do meu irmão disso, por favor. — Então, acho que é melhor correr para a igreja e começar a rezar, pois descobri que seu irmão é tão cabeça-dura quanto um velho. — Anne não pôde resistir ao tom de provocação. Cullen e Druce riram. Fiona sorriu. — Você tem razão. Apesar disso, desejo que os dois sejam muito felizes nesta nova união. Fiona se afastou de queixo erguido, balançando seu corpo cheio de energia. — Ela ainda vai levar algum pobre homem à loucura. — Já está fazendo isso comigo. — Brodick balançou a cabeça, virando-se em seguida para Anne. — Acho que precisamos cuidar de algumas tradições, milady. Não quero fazê-la esperar. Mas eu o deixarei esperando... Anne não gostou nem um pouco de seus próprios pensamentos. — Não sou tão velha que o senhor precise se apressar, milorde. Uma suave risada escapou dos lábios de Brodick, mas não era de divertimento. Ele a puxou para mais perto, fitando-a no fundo dos olhos. Então abaixou a voz para que a resposta ficasse apenas entre ambos. — Eu fui à Inglaterra para buscar minha esposa, e é o que pretendo ter na minha cama esta noite. 37


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Capítulo III

Anne andava de um lado para outro no quarto, concentrada na batalha que logo mais teria de travar. Era preciso encontrar uma solução, um modo de mantê-lo distante. Um sininho preso à porta tilintou e, em seguida, uma senhora de meia-idade pôs a cabeça para dentro do aposento. — Milady, meu nome é Helen. — A mulher terminou de abrir a porta, hesitando diante do olhar fixo de Anne. — Pode entrar, Helen. — Por aqui — a mulher chamou dois rapazes que a seguiam. Estes entraram em seguida, trazendo várias roupas. — Colocarei as suas coisas em ordem. Temo que os vestidos tenham amassado um pouco. Mas isso não é nada em que não se possa dar um jeito. — As viagens sempre amassam as roupas. Até mesmo dentro de um baú. — Anne seguiu os rapazes e pegou um dos vestidos. Depois de esticar a peça, percebeu os olhares surpresos em sua direção. Outro erro. Lady Mary jamais cuidava dos próprios trajes. — Obrigada por terem trazido as minhas coisas — disse e colocou o vestido sobre uma cadeira. Em seguida, apanhou outra peça, dessa vez sorrindo quando o fez. Helen observou atenta, estudando-a por um longo momento. Com um aceno de aprovação, a mulher apontou para os rapazes. — O que deu em vocês? Por acaso pensam que todas as damas inglesas são mulheres mimadas que não sabem cuidar das suas casas? Helen sorriu para Anne. — O conde me enviou para atendê-la, pelo menos até que a senhora escolha uma criada. A cozinheira esquentou água, e esses rapazes trarão a banheira para que possa tomar um banho antes de a parteira chegar. — Não é preciso tanto trabalho. Posso me banhar no quarto de banho. Helen ficou surpresa. Abriu a boca, mas hesitou antes de dizer algo. Anne pegou outro vestido para disfarçar a estranha situação. Precisava agir com confiança, do contrário ninguém acreditaria na sua posição. — Fui instruída para preparar o banho da senhora neste quarto, de acordo com a sua posição, milady. Não seria adequado compartilhar o quarto de banho com todos os outros. — Não estou acostumada a receber ordens do seu lorde. — Anne paralisou por um momento, numa tentativa de se conter. Brodick era o senhor da casa. Um fato que não devia ser ignorado. Ela até podia não ser a sua verdadeira esposa, mas se o contrariasse, acabaria despertando a ira dele, e não haveria ninguém para defendê-la. Até mesmo 38


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Philipa segurava a língua quando seu nobre marido se encontrava sob o mesmo teto. — Pensei em poupar tempo, Helen. Carregar baldes e mais baldes e uma banheira até aqui é um desperdício, quando posso muito bem caminhar até o quarto de banho. Tenho certeza de que todos têm muitos deveres para cuidar, e eu não preciso adicionar mais um. Helen espantou-se durante um momento de silêncio. Assim que se recuperou, ela sorriu. — Pelo visto, milady é muito inteligente. Na verdade, foi uma boa surpresa. — Helen se virou para se dirigir aos ajudantes. — Desçam e avisem Bythe para verificar se a banheira está pronta para a senhora. Depois, fiquem a postos do lado de fora do quarto de banho para garantir a privacidade. Helen acenou para os dois saírem e, em seguida, cruzou o quarto e olhou para a pilha de roupas. — Bem, agora precisamos de uma chemise limpa e talvez daquela capa que a senhora estava usando. Não será preciso vesti-la por completo, uma vez que será inspecionada pela parteira logo mais. Anne virou-se de costas para esconder a insegurança. — Por acaso há alguma parteira experiente aqui em Sterling? — Não. Pelo menos não temos nenhuma que a senhora pudesse considerar dessa forma. O conde e o irmão partiram para Perth para buscar Agnes. Ela faz partos há décadas e é uma profunda conhecedora do assunto. Então Brodick não queria correr nenhum risco de que ela viesse a desaprovar sua escolha. Anne sentiu as paredes se fechando ao seu redor, a armadilha de Philipa a pressionava, dificultando-lhe a respiração. Helen pegou uma chemise e sorriu ao erguê-la. — Esta é linda. Creio que o conde irá gostar de vê-la usando. Vamos escovar os seus cabelos e deixá-la ainda mais linda para quando chegar o momento de se deitar na cama com seu marido. Helen abriu a porta, esperando que Anne prosseguisse para o banho. Tensa, Anne sentiu um nó no estômago, mas com muito esforço foi adiante. — Não precisa se preocupar. O conde é um homem muito bom. A sua noite de núpcias será tão boa que, quando o sol despontar no horizonte, a senhora irá lamentar-se por ter de se levantar da cama para cuidar da vida. Isso era exatamente o que Anne temia. Desenvolver uma afeição por Brodick não seria nada inteligente. Estava cansada de ter tudo pela metade. Sua vida sempre fora cheia de injustiças, e hoje ela sentia o peso disso mais do que nunca. Anne colocou o corselete sobre a cama e se virou para seguir Helen. Brodick sofreu para forçar seu cavalo a caminhar em ziguezague para não se distanciar muito da carruagem que eles traziam. Agnes não montava em cavalos, alegando que os animais eram muito nobres e finos para ela. Era a mulher mais idosa da vila onde morava e estivera presente no nascimento dos irmãos McJames, na época era jovem e trabalhava como criada em Steling. — Por que está fazendo isso? — Cullen havia abandonado seu costumeiro tom zombeteiro. 39


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Brodick resmungou algo entre dentes cerrados, sua paciência já se esgotara havia muito. Não precisava do olhar do irmão acusando-o de bruto e selvagem. — Não foi idéia minha. Não demorou muito para puxarem as rédeas dos cavalos em frente à casa de Agnes. A cabana de pedra tinha vários fardos de ervas secas, dependurados ao longo das vigas para secar. Dois homens afiavam uma pedra pontuda sob o beiral. Eles se ergueram quando viram Brodick e Cullen se aproximando. Obrigar a esposa a se expor a uma inspeção nunca havia passado pela cabeça do conde, mesmo que esse fosse o costume e assunto de seu interesse. A mãe de Mary tinha o nome maculado pelo fato de ter dado à luz apenas uma menina, o que não significava uma boa referência para a filha. Casamento era para união e dote, mas Brodick ficaria preso a Mary pela lei. Se ela não lhe desse filhos, ele nunca teria herdeiros legítimos. — Nunca imaginei que você pudesse ser tão duro com a moça. — Já disse que não foi idéia minha. Coloque isso na sua cabeça e lembre-se de que eu estava mais do que disposto a consumar o casamento na noite passada. Essa exigência foi de minha esposa. Cullen franziu o cenho, seu semblante obscureceu. A maioria das pessoas imaginava que ele não se preocupava com nada, porém Brodick sabia muito bem que o irmão tinha o sangue McJames correndo nas veias. — Mas por que ela iria querer ser inspecionada? — Cullen estava desconfiado. — O procedimento é feito para satisfazer os interesses da família do noivo. Mary não tem nada a ganhar com isso e muito menos a perder. — Exceto tempo ou a possibilidade de ser enviada de volta de acordo com o que a parteira disser. — Você faria isso? — Não. — Firme e resoluto, Brodick lançou um olhar determinado para o irmão. — Ela vai ficar comigo. — Mas a que custo? Não consigo imaginar você preso a uma esposa que se recusa a honrar a união. Será que Mary ama outro? — Cullen cocou o queixo. — Ouvi dizer que as damas inglesas têm se casado por amor, pois a rainha está velha demais para continuar controlando-as com rédeas curtas. — Essa é uma possibilidade... — Brodick não tinha considerado a hipótese. Sua esposa havia sido criada na corte inglesa. — Ela insistiu que eu a mandasse de volta para o pai na corte. — Talvez fosse melhor mesmo — declarou Cullen. — Você não precisa de uma esposa contrariada. Ela irá se voltar contra você. Provavelmente não lhe dará filhos. Muitos homens teriam concordado com Cullen. Não era raro que uma esposa contrariada não gerasse herdeiros. Todos sabiam que uma mulher tinha meios para controlar a fertilidade. Mesmo assim, o sabor do beijo doce que ela lhe dera aflorou aos lábios em seus lábios lembrando-o de que fora capaz de tocar algo muito belo no fundo de sua esposa. Mary não reclamara nenhuma vez durante a viagem, não pronunciara uma única palavra atravessada por ter dormido no chão. — Ela não é uma moça mimada — disse o conde. Cullen assentiu, suas dúvidas aplacaram-se um pouco. 40


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— De fato, ela se comportou muito bem durante a viagem. Conheço poucas moças escocesas que não teriam reclamado por terem de dormir na estrada junto a um bando de homens. — Talvez ela esteja com medo de que eu a mande de volta para o pai, arruinada, depois de ter me deitado com ela. Ouvi dizer que isso costuma acontecer na Inglaterra. — Eu seria capaz de lhe dar uma surra se você pensasse em fazer algo do gênero. Brodick sorriu, exibindo os dentes muito brancos. — Isso é, se você conseguisse. Odeio ter de lembrá-lo de que nunca conseguiu me vencer no braço. — Mas cuidarei para vencê-lo com a esperteza. — Você está confundindo inteligência com fanfarrice. — Os homens que estavam trabalhando na pedra baixaram a cabeça ao reconhecer o conde. — Preciso levar Agnes para Sterling — anunciou Brodick. Um momento depois, a parteira apareceu. Ela ainda conseguia caminhar com as costas eretas, apesar de seu passo já não ser mais tão rápido como antes. Seus cabelos estavam grisalhos. O xale dos McJames estava orgulhosamente estendido sobre o ombro direito e preso com um broche de prata que fora dado de presente a ela pela mãe de Brodick. — Milorde. — A voz de Agnes era profunda e um pouco rouca devido à idade avançada. — Em que posso lhe ser útil? Brodick desceu da sela, mostrando à mulher respeito ao se dirigir a ela no mesmo nível. Agnes abaixou a cabeça em reconhecimento ao título e se aproximou. — Vim lhe pedir que me acompanhe até Sterling — anunciou ele, dando uma pausa para continuar. — Ouvi dizer no mercado que o senhor foi até a terra vizinha para buscar sua esposa. — Agnes escolheu as palavras com cuidado. — O senhor tem alguma dúvida com relação a ela? — Minha esposa pediu para que a tradição da inspeção fosse mantida. Os dois homens se entreolharam e Agnes tocou em seu broche de prata. — É a vontade dela, milorde? — Sim. — Traga a minha capa, Johnny. Vou para Sterling — instruiu ela. Brodick contornou o cavalo, inconformado com a situação. Agnes permitiu que um de seus filhos a ajudasse a subir na carruagem. Cullen tinha razão; era possível que a sua esposa estivesse apaixonada por outro homem. Bufando, Brodick não deu a entender que não gostara da idéia. Na verdade, sentiu ciúme. O inusitado sentimento o surpreendeu, pois nunca sentira aquilo por uma mulher. Esperar encontrar paixão ardente no casamento era um risco. Era previsível que Mary iria querer ser devolvida ao pai. Ele era um escocês e, apesar da iminente união de ambos os países, os dois povos ainda tinham um péssimo conceito um do outro. Havia escoceses com título de nobreza que o consideravam um louco por Brodick ter realizado tal união. Talvez fosse mesmo. Mesmo assim, isso não parecia ser o bastante para dissipar seu interesse por Mary. Talvez se esconder atrás de um véu tivesse sido parte de um estratagema para frustrar as expectativas do marido. Brodick ergueu o punho no ar e soltou seu grito de 41


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comando. — Sterling! A esposa teria seus direitos garantidos e naquela noite estaria em sua cama para que ele pudesse começar a lhe mostrar quanto a desejava. Brodick se sentiu um homem de sorte por estar apaixonado por Mary. Uma coisa era certa, ela não seria mandada de volta ao pai. Brodick McJames nunca se rendia. Era sua esposa inglesa quem iria se render. Esse era um desafio pessoal que ele teria de vencer em nome da satisfação de seu próprio desejo. Brodick retornou ao pôr do sol. Helen puxou Anne escada abaixo para verem a carruagem sendo puxada para dentro do pátio principal por uma dupla de bois. — Olhe. O lorde trouxe Agnes — anunciou Hellen, apontando para a carruagem. — Ela já ajudou tantos bebês a vir ao o mundo que nem dá para contar. Tudo vai dar certo agora, milady. Dois homens tentaram ajudar Agnes a descer da carruagem, mas ela caminhou com as próprias pernas. Subiu os degraus sem oscilar e cumprimentou Anne. — Boa noite, milady. A parteira irradiava confiança e sabedoria. Seu olhar era daqueles que penetram até a alma da pessoa. Anne se remexia insegura, com receio de que a mulher pudesse ver através da sua fisionomia. Brodick tomou a mão de Anne e a trouxe para mais perto para que suas palavras ficassem somente entre eles. — Fiz o que me pediu, Mary. Quero deixar claro que não fui eu quem exigiu a inspeção. Não faz nenhuma diferença para mim se esse costume ainda vigora ou não. Pretendo honrar o nosso casamento de qualquer maneira. Aquilo foi muito generoso. Muito mais do que qualquer mulher poderia esperar. Ele a fitou, esperando por uma reação. Anne desejou se derreter aos pés daquele homem, pois nunca tinha estado diante de tanta generosidade. Isso a fez lembrar-se do modo como seu pai agia com sua mãe. Lágrimas embaraçaram seus olhos, pois a culpa pesou sobre seus ombros, e os joelhos ameaçaram ceder. Aquele homem rude era capaz de amar, ela viu isso em seu olhar. — O senhor deveria me mandar de volta para meu pai. Para a corte. — Seu tom era de uma súplica que ela não podia disfarçar. — Como retornar ao condado de Warwick significava correr o risco de ser colocada na rua junto com a mãe, seu pai era a única esperança. A fisionomia de Brodick enrijeceu e ele a empurrou para dentro da torre. — Você está apaixonada por outro? — Não. — Então explique-se, Mary. Basta de joguinhos. Por que não consegue aceitar o nosso casamento? O medo apertou a garganta de Anne, como se o ar não pudesse mais passar. Ela não o conhecia e não podia colocar a segurança da sua família nas mãos de um estranho. Se o conde descobrisse a farsa de Philípa, poderia simplesmente mandá-la de 42


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volta para casa e lavar as mãos para o caso. — As coisas não são tão simples assim para as mulheres, milorde. Com a nossa rainha em idade tão avançada, muitas moças têm sido mandadas de volta para seus pais caso não agradem. Os homens regem o mundo, por isso preciso tomar muito cuidado. O senhor irá aumentar as suas terras, enquanto eu não tenho nenhuma esperança de ser feliz. Brodick soltou a mão de Anne. — O senhor não me procurou porque sentia algum afeto por mim, mas somente para fazer um bom casamento. Não sabemos nada um sobre o outro. — O que é mais do que normal na nossa situação, milady. — A voz de Brodick saiu pontuada de desconfiança. — Por isso não entendo essa sua insistência em ser mandada de volta para seu pai. Cheira a covardia, mas ao mesmo tempo você se coloca diante de mim firme como aço. O elogiou a surpreendeu. Ele segurou-lhe o queixo. — Faça a sua escolha, milady. Pode se deitar na minha cama com ou sem a inspeção, mas tenha em mente que irá passar a noite comigo. Em seguida, Brodick recuou um passo, todo o seu corpo tenso, mas com a frustração controlada. Isso fez com que o respeito de Anne por ele aumentasse ainda mais. Não eram poucos os homens capazes de levantar a mão para uma mulher que se recusasse a satisfazer seus desejos. — Levará tempo para que nos conheçamos, milady. Tivemos um bom começo, porém eu não a trouxe para cá para cortejá-la como se fosse uma donzela ingênua. Não vou me contentar com beijos inocentes. Você já passou dessa idade também. — Mas poderíamos conviver por alguns meses antes de consumarmos o nosso casamento. Tenho certeza de que o seu povo adoraria ver o líder se casando na igreja. Serviria como um bom exemplo cristão. — Estamos na Escócia, milady. Terei de lutar contra mais da metade dos meus vizinhos, que virão tentar se apossar das minhas terras, caso fiquem sabendo que a minha esposa ainda é virgem. O choque a manteve calada por um momento. — Para mim isso é uma barbárie. — Não, mas é tão escocês quanto eu. — Brodick cerrou os lábios numa linha reta. A paciência de Anne estava por um fio. Esse era o problema com os nobres... eles sempre acreditavam que sabiam de tudo. Bem, ela era dona de si mesma, seus pensamentos eram seus e de mais ninguém. — O senhor não tem como saber o que se passa dentro da minha mente, milorde. — Tenho uma boa idéia do que está fomentando atrás deste rosto bonito. — Ele ergueu uma sobrancelha. — Seu plano é ser mandada de volta para a corte, onde algum rapazote deve ter virado a sua cabeça com poesias tolas. — Já disse que não estou apaixonada por ninguém. A expressão do conde enrijeceu. — Então não está satisfeita porque sou escocês. Anne balançou a cabeça. Negar a acusação foi uma reação imediata. Talvez tivesse sido melhor deixá-lo pensar que ela odiava a origem dele, já que tais atitudes 43


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eram comuns na Inglaterra. — Você está me enlouquecendo. Brodick se aproximou, despertando uma reação imediata no corpo de Anne. Ela recuou sem olhar para trás, enquanto o conde continuava avançando até pressioná-la contra a parede. Ele espalmou as mãos sobre a pedra fria, estavam a centímetros de distância. Os batimentos cardíacos de Anne dispararam ao sentir o provocante odor másculo. O olhar de Brodick se fixou nos lábios dela, percebendo a pele macia formigar de desejo. Ela nunca havia notado que o cheiro dos homens era tão sedutor. O tempo deixou de fazê-los reféns. Naquele momento, sentiu-se suspensa, concentrada apenas em Brodick e no seu corpo. O desejo evaporava dos poros em cada centímetro da sua pele, que ansiava por ser tocada por ele, acariciada. Aquilo era insano. — Esperarei por Agnes para me dizer o que você decidiu. — A voz do conde soou pesada de excitação. Brodick se inclinou e os lábios de ambos se encontraram. O beijo acabou logo após ter começado, mas a sensação repercutiu até na ponta dos dedos dos pés de Anne. — Não se esqueça do que lhe falei, milady. Eu a terei esta noite. Ele se afastou e caminhou pelo salão principal da torre. O povo observava do lado de fora, os pescoços esticados tentando ver o que se passava dentro do castelo. Os olhares confusos de cada um foram o bastante para Anne constatar que ninguém imaginava o que havia acontecido entre aquelas paredes. Brodick parou para trocar algumas palavras com Agnes. A parteira assentiu e se aproximou de Anne. Não disse nada durante um bom tempo, inspecionando Anne da cabeça aos pés com um olhar de quem era detentora da sabedoria. Ela tocou então no broche de prata, que prendia seu xale sobre um dos ombros. — Está precisando dos meus serviços, milady? — Sua voz soou suave, cada palavra cuidadosamente pronunciada. — Ou devo retornar para a minha casa? A tentação cutucou fundo em Anne. Ela estava tão envolvida no plano de Philipa que até mesmo a mínima possibilidade de ser considerada inapta não podia ser descartada. Preservar sua privacidade estava fora de questão. — Eu ficaria imensamente grata em ter a sua opinião. Agnes franziu a testa, mas Anne manteve a cabeça erguida e prosseguiu: — Um casamento como este não deve seguir adiante caso haja alguma dúvida. Um conde não pode ser tão negligente quanto à escolha da esposa. Ele precisa de um herdeiro. Se eu não puder lhe dar um, será melhor dissolver a nossa união agora, antes que haja desapontamentos. A parteira deixou de lado a expressão de descontentamento e meneou a cabeça concordando. — A senhora é uma mulher muito justa. Agnes seguiu rumo à escadaria que levava ao andar de cima, mostrando que conhecia muito bem o castelo. — Vamos resolver esta questão, milady. Percebo que é uma pessoa consciente. Mais nobres deveriam mostrar a mesma sagacidade. — Mais uma vez a senhora avaliou Anne com muito critério. — Isso faria do mundo um lugar melhor. A mãe do conde de Alcaon também foi inspecionada por mim antes do casamento. Sua mãe foi inteligente em 44


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lhe ensinar a respeitar a tradição. Os costumes têm o seu lugar. Anne precisou esforçar-se para conseguir se mover. De repente, percebeu que o plano de Philipa estava dando certo e que ela não tinha idéia de como impedir o avanço. Nenhuma. Brodick estava tenso e preocupado como havia muito tempo não se sentia. Ele não queria que Agnes se aproximasse de Mary. O surto de emoção o preocupou, pois tinha sido muito forte. Era o tipo de coisa de apenas ouvira falar, sem jamais imaginar que fosse algo que pudesse acontecer com ele. — Nunca o vi assim tão impaciente. — Deixe-me em paz, Cullen. Não estou com espírito para brincadeiras. O irmão não se retirou, mas o sorriso brincalhão desapareceu por completo quando ele se aproximou. — Nem eu. Esse negócio de casamento é muito mais complicado do que eu imaginava. — Muitas coisas estão dependendo do parecer de Agnes. — Brodick não pensava apenas no dote. Ele queria Mary na sua cama. O fato de saber que ela estava nua naquele exato momento no quarto minava-lhe as forças. — Não precisa devolvê-la caso Agnes diga que ela não é forte o bastante. Brodick assentiu, mas voltou a andar impaciente. — De acordo com a tradição, eu deveria devolvê-la ao pai. — Você é um McJames, ninguém a levará para nenhum lugar sem o seu consentimento — argumentou Cullen. — Sei disso. Mas não seria cortês. Não é minha vontade ver a moça sofrendo. — Está mais do que claro para todos onde você quer vê-la. Na sua cama e o mais rápido possível. — É assim tão obvio? — Brodick parou. — Para quem o conhece, sim. — O tom de brincadeira retornou. — Você está tão patético que nem vejo mais graça em provocá-lo. Nunca imaginei que chegaria o dia em que o veria implorar por um bocado de mel. — Só almejo uma família. Isso é algo inerente ao gênero masculino. Perseguir uma gata selvagem em busca de algumas rodadas de divertimento já não me satisfaz mais. Preciso tomar um rumo e saber que tem uma mulher esperando por mim na minha cama. Que talvez até reze para que eu volte são e salvo para casa. Quero vê-la embalando o nosso filho, alimentando-o com o próprio leite, pois está feliz por ser a minha esposa e por cuidar dos meus filhos. Brodick sorriu para o irmão. Eles sempre gostaram de se provocar mutuamente. A única pessoa que os fazia perder a paciência era a irmã. Fiona se escondia atrás da feminilidade para derrotar os dois em se tratando de uma boa discussão. — Espero que você consiga tudo isso, Brodick. — Cullen estava sério e pensativo. — Mesmo assim, ainda suspeito da sua esposa. Para mim, algo não está muito claro. Brodick concordou. — Isso não vem ao caso. Depois que Agnes terminar a inspeção, apresentarei 45


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oficialmente minha esposa à família. Não fará muita diferença no que ela estava pensando. Tudo o que importa é o nosso futuro. Mary se encontrará em um país estrangeiro, cercada de estranhos. E normal que precise de um tempo para se acostumar. — Essas são as palavras de um verdadeiro McJames. Brodick sentiu a ansiedade cedendo. Ele era um McJames, e Mary iria ter de se acostumar com aquilo. Agnes surgiu no topo da escadaria e ele sentiu um peso sobre os ombros, apesar da resolução. Mary tinha razão em um ponto. Os homens não faziam a menor idéia de como o corpo feminino reagia ao casamento. Eles só buscavam por coisas que a natureza designara para atrair o interesse deles. Era por isso que os casamentos não passavam de um negócio. Entretanto, aquele era o modo mais inteligente de se lidar com a situação. Um homem não podia se deixar levar pelo desejo, ou acabaria fazendo uma péssima união. Ele era um homem grande; levar uma mulher muito miúda para a cama seria o mesmo que sentenciá-la à morte. Inspeções tinham sido estabelecidas para evitar incompatibilidades. Brodick precisava se disciplinar, conseguir ignorar sua forte e crescente atração por Mary. Mas ele não estava conseguindo. O conde caminhou na direção de Agnes com determinação. — Milorde. — Ela abaixou a cabeça, esperando que ele perguntasse a sua opinião. Era assim que uma vassala devia se comportar diante de um lorde. — Minha esposa tem condições de assumir as suas obrigações? — Creio que sim. A satisfação se apossou de Brodick, mas Agnes ergueu uma mão enrugada. — Ela está preocupada e teme seguir o mesmo caminho da mãe, que não produziu nenhum varão. Sua esposa receia desapontá-lo, pois considera a produção de filhos uma responsabilidade muito séria. — A vida é cheia de incertezas. Não se pode desperdiçar os dias sem nunca tentar. Qualquer mulher, que se casasse comigo, teria a mesma preocupação. A parteira torceu os lábios, desaprovando o tom. A reprimenda o atingiu em cheio, lembrando-o que diante de Agnes, ele, no fundo, ainda era um menino. A mulher o fitou com um olhar duro. — Uma esposa que se preocupa em não desapontar o marido tem tanto valor quanto uma que é ávida por satisfazer os desejos da juventude. Achei que a sua esposa é uma mulher que pensa além de seu tempo. — A senhora tem a minha gratidão. Agnes abaixou a cabeça, antes de fazer um sinal para seus acompanhantes. — Que o casamento de vocês seja abençoado com filhos saudáveis. Esperarei ansiosamente pelo chamado desse castelo no outono. Brodick estendeu uma bolsinha para Agnes. Ela deu uma olhada, mas se limitou a tocar no broche de prata. — A senhora é uma mulher determinada. — Obrigada, milorde. Com um sorriso, a parteira virou-se para sair. Ela nunca aceitara um pagamento da família do conde. O broche tinha sido dado de presente pela mãe de Brodick como um modo de contornar sua teimosia. 46


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O cortinado ao longo da cama estava puxado para manter o calor. Ajoelhada, Anne esticou um braço e tocou um dos grossos painéis de tapeçaria. Aquilo era um luxo que nunca imaginara poder ter um dia. Os lençóis eram lisos e macios. Sentia-se desconfortável com tanta pompa. O sentimento de culpa roubou-lhe todo e qualquer prazer, pois sabia que aquele não era o seu lugar. — Você realmente tem tanto medo assim de mim? Anne teve um sobressalto, a voz de Brodick veio das sombras. Era macia e ponderada como se ele estivesse falando com uma criança. — Ou tudo não passa de um jogo para me estimular a devolvê-la para seu pai? Mais uma vez a culpa a impediu de erguer a cabeça. O conde merecia alguém muito melhor. Mas o orgulho ordenou que Anne não permitisse que Brodick continuasse imaginando que ela não passava de uma covarde. — Não tenho medo do seu toque. São as suas insinuações que inflamam a minha ira. Algumas passadas suaves no piso de pedra. A sombra foi se avolumando até que o conde surgisse a sua frente. Ele a estudou, o olhar passeou pelas madeixas que desciam em ondas suaves pelos ombros. — Não posso negar nada do que acaba de dizer. — Brodick tocou carinhosamente nos cabelos sedosos. O rosto exibia uma expressão de encantamento que a fez sentir-se bonita, algo que nunca experimentara. — Apesar de todas as suas reservas durante a viagem, havia uma chama oculta dentro de você. — Ele parecia estar se divertindo à custa do aborrecimento de Anne. — Não é possível que esteja feliz por ter descoberto isso. Brodick sorriu. — Existe uma grande diferença entre paixão e amargor. Ele a aprovava. Estava implícito no tom da voz dela. Anne mordeu o lábio inferior em uma tentava de conter um sorriso de satisfação. A aprovação tinha um significado ainda maior, pois vinha de um homem que ela estava começando a admirar cada vez mais. Brodick não era uma concha vazia com um título, mas um homem que trabalhara duro para conquistar a confiança do seu povo. Os olhos azul-escuros desceram até parar na altura dos seios ocultos pela camisola. De repente, Anne se lembrou de que estavam sozinhos. E no quarto dela. — Não deveria estar aqui, milorde. — Foi seu pai que a ensinou a dar ordens? — A voz soou grave, impaciente. — Pois costuma fazer isso comigo com freqüência. Acho que já está na hora de ouvir o que eu quero. — O senhor quer que eu me deite na sua cama. Já ouvi isso. — As palavras saíram rápidas, a emoção transbordando na voz. — E você quer que eu a devolva a seu pai. — Brodick franziu o cenho e pousou um joelho sobre a cama, testando a reação da esposa. Um calafrio passou pelos delicados braços desnudos, deixando a pele arrepiada visível. O olhar atento de Brodick não deixou escapar o detalhe. — Percebi que não me pediu para mandá-la de volta para sua mãe, mas sim para a corte. E de admirar que eu lhe pergunte quem a espera na 47


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corte? O colarinho da camisa dele estava aberto, expondo parte dos músculos fortes. O estrado estalou com o peso de Brodick quando ele se inclinou para a frente, juntando-se a ela na cama. Mas ele se moveu lentamente, cuidando para não espantá-la. — Explique por que deseja voltar para a corte. — Já o fiz... Eu lhe disse... Preciso ver meu pai. — Anne cerrou os lábios quando o percebeu mais próximo. Fascinada, ela ansiava pelo contato boca a boca. Era o que mais queria. Brodick acariciou-lhe o rosto com a mão quente. — Sim, vejo isso nos seus olhos. Você ama profundamente seu pai. — Não há como negar. O polegar do conde traçou a linha do lábio inferior de Anne. Uma doce sensação a invadiu e se espalhou pela pele, migrando para os seios. — É por isso que não a devolverei. Eu invejo seu pai por ser alvo de tamanha devoção e anseio por uma chance de conquistar o mesmo lugar no seu coração. Ele a beijou, enquanto a envolvia em seus braços, deitava-a de costas na cama. Anne estremeceu, uma onda de sensações varreu seu corpo. A cama parecia um paraíso oculto onde eles poderiam brincar sem ter de se preocupar com absolutamente nada. Nunca em toda a sua vida ela sonhara que um abraço pudesse ser tão bom. Os braços de Brodick eram fortes, porém ele a segurava com cuidado, como se tivessem sido feitos do tamanho exato para segurá-la. Mesmo assim, Anne tentou se desvencilhar, virando-se para um lado e depois para o outro, mas foi controlada pela pressão do corpo forte, aumentando o contado. E então o inebriante odor másculo invadiu seus sentidos ao mesmo tempo em que a língua de Brodick invadia sua boca. Ela estremeceu, tonta de desejo, e seus corpos se entrelaçavam no mesmo ritmo de suas línguas ensandecidas. — Gosto do modo como conversamos sem o uso de uma palavra sequer. — A voz de Brodick soou rouca, enquanto ele se sentava. Admirando-a, ele deslizou a mão sobre o ventre macio, descendo pelas coxas até alcançar a barra da camisola, para erguê-la e revelar a pele alva. — Está sentindo a paixão que vibra entre nós? Lentamente, o conde foi erguendo mais e mais a veste, mas Anne não se importou; sua alma implorava por liberdade. — Você é linda. Uma verdadeira visão. Em seguida, Brodick tirou a própria camisa. Um puxão no cinto, e as pregas do kilt se desfizeram. Um beijo ardente assumiu o comando. Anne estava envolvida na corrente de energia que os unia, ávida por descobrir que outras delícias estavam por vir. Enquanto entrava no ritmo das línguas afoitas, suas mãos percorriam aqueles ombros largos, as linhas dos músculos das costas e cada pedaço do corpo que se ajeitava sobre o seu. — Isso mesmo, continue me tocando. Ele tomou os seios com avidez entre as mãos. Anne nunca havia percebido o quanto aquela região do seu corpo era sensível. 48


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Brodick prosseguiu com as carícias até que seus lábios desceram sobre um seio, que ele sugou sequioso. Anne deixou escapar um gemido. O doce prazer a preencheu por inteiro, aquecendo-a como se fossem raios de sol. Ele ergueu a cabeça para olhá-la. Um gemido de frustração ecoou pelo quarto. — Minha querida esposa. Havia um forte teor de posse naquele tom de voz grave. Ansioso por continuar a viajar pelo corpo benfeito, ele desceu com as mãos até o ventre. Cada músculo do corpo curvilíneo contraía-se sob a pressão delicada dos dedos dele. Anne chegou a delirar com as carícias, que culminaram ao chegar ao ponto sensível entre as pernas bem torneadas. — Brodick... Ela ofegava sem saber se por espanto ou excitação. Nunca imaginara ser tocada entre as coxas. — Eu lhe disse que os escoceses são bons na arte de aquecer suas mulheres. Acredite em mim, ainda não prontos. Anne não disse nada, consumida pela excitação, se entregou ao prazer da nova carícia. Mais um suspiro de frustração quando ele substituiu os dedos pelos quadris, ajeitando-se e afastando-lhe as coxas. Um farfalhar da roupa de cama chegou aos ouvidos de Anne antes de ela sentir o primeiro toque do membro intumescido. Ele a segurava trêmulo, enquanto avançava. Iniciou a penetração surpreendendo-se não só pela receptividade como pelo clamor de Anne que suplicava por mais. Brodick parou, esperando que ela relaxasse um pouco. Mas ela o puxou, como que dando ordens. Ele obedeceu, recomeçando lentamente e com todo o cuidado até finalmente possuí-la. Anne tentou afastar-se da dor, porém com o peso do próprio corpo másculo manteve-a parada. Ela teve a sensação de que seus pulmões tinham se esquecido de respirar, enquanto a dor ia se acalmando até transformar-se em uma lembrança distante, substituída pelo prazer. Brodick beijou-a suavemente na boca, convidando-a a abrir os lábios. Em seguida, flexionou o corpo novamente e devagar penetrou-a novamente. Anne queria mais, aquele ritmo não a estava satisfazendo. Assim entrou na mesma cadência dos movimentos, aumentando-a, instigando-o a acompanhá-la. Sem demora, ele a acompanhou, deixando escapar um gemido. O prazer a possuiu enlevando-a em um nevoeiro espesso. A sensação foi tão inesperada que ela estremeceu violentamente, chegando a debater-se. De repente todo o seu corpo pulsou em um êxtase profundo. Aos poucos, cada um de seus músculos foram relaxando, e a tensão foi gradativamente sendo substituída por uma calma celestial. Brodick a beijou antes de rolar para o lado num movimento suave. Ele a acomodou sobre o ombro, envolvendo-a num gesto de proteção e carinho. E assim eles permaneceram por um longo momento até recuperar a razão. — Milorde... — Há pouco você me chamou de Brodick. 49


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A resposta morreu nos lábios de Anne ao sentir que ele a desejava, roçando a masculinidade ereta na lateral da sua coxa. — Pode me chamar de "meu amor" ou de uma dúzia de outras coisas, mas nunca pelo meu título. Aqui não é lugar para classe social ou hierarquias. Nesse quarto somos apenas um homem e mulher, compartilhando o deleite de nos conhecermos. — Mas não somos como os outros. A nossa união... — Basta. Você perde muito tempo pensando em coisas que ninguém compreende de fato. Não tem nada de errado em aproveitarmos o momento. Brodick beijou-lhe a nuca, cobrindo um seio com a mão. — Não está pensando em dormir aqui, não é? — Anne não se importou que a pergunta soasse rude, tudo o que queria era ganhar distância daquelas mãos que a estavam levando à loucura... mais uma vez. — Não faz nem um ano que meu pai morreu. Eu ainda não me mudei para o quarto que ele ocupava, e este é bem melhor que o meu. Mandei decorá-lo especialmente para você. Esta cama foi feita para concebermos os nossos filhos. — Ele a abraçou com mais força e posse. — Espero que tenha gostado tanto quanto eu. Estava evidente nos olhos dela o quanto havia gostado. — Já lhe disse uma vez, mantenha-me acordado e terá de me entreter. — Havia uma ponta de provocação e malícia na ameaça. Anne tentou inutilmente se desvencilhar. Mas seu rosto ardia só de lembrar-se do quanto a experiência tinha sido boa. Era muito tentador simplesmente deixar-se envolver por aqueles braços e saborear o momento. Ela sabia que era uma tolice permitir que a emoção suplantasse a razão. Mas não conseguiu impedir na medida em que o cansaço a dominava. Anne sentiu o ombro ser acariciado. Sonolenta, murmurou algo. A sensação era boa demais. Abriu os olhos para descobrir quem estava sendo tão carinhoso. Sua mente entrou em estado de alerta quando deparou-se com o rosto masculino. Ele estava com os cabe los despenteados e o corpo totalmente nu. Anne se levantou, mas não conseguia tirar os olhos daquele corpo magnífico. Ele se virou, fitando-a com aqueles olhos de meia-noite. — Você combina com a minha cama. Sim, acho que vou gostar de despertar a seu lado. Anne puxou a pesada coberta até a altura do queixo. Brodick riu, e ela ficou esperando por outra provocação. Mas ele se abaixou para apanhar a camisa que jazia no chão. O kilt estava largado aos pés da cama. Brodick vestiu a camisa e, em seguida, enrolou o kilt ao redor dos quadris, formando as pregas com habilidade sob o cinto, e indicando que ele não era o tipo de homem que esperava pela ajuda de outros para se aprontar. Anne o achou adorável, e isso a assustou. O medo a invadiu enquanto olhava para o homem que a cada dia ganhava mais espaço em seu coração. Se fosse pelo menos um pouco parecida com Philipa, poderia então ignorá-lo com facilidade.

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Anne não sabia lidar muito bem com a falta de ocupação. Antes do meio-dia, impaciente, andava de um lado para outro. Cada uma das criadas do castelo parecia determinada a alimentá-la até estufar. As bem-intencionadas mocinhas e mulheres traziam bandejas, todas cuidadosamente preparadas para agradar não apenas ao paladar, mas aos olhos também. Mary, muito mimada, nunca se importara em desfazer dos esforços das outras pessoas para agradá-la. Já Anne sabia o quanto era difícil esquentar o ferro de passar com carvão para alisar cuidadosamente a toalha que iria cobrir a bandeja. E foi muito sem jeito que olhou para a criada e decidiu que não iria continuar agindo contra a sua natureza. — Creio que já está na hora de eu conhecer a cozinheira. A criada se endireitou. — Eu a trarei até aqui agora mesmo, senhora. — Não. Ela deve estar ocupada preparando o almoço. Irei com você até a cozinha. A garota ficou indecisa. Anne, porém, se recusou a ser dissuadida. Estava cansada de sentir-se inútil. Jamais saberia como agir com a arrogância de Mary. — Qual é seu nome? — Ginny, senhora. Eu a ajudei com a sua toalete esta manhã. — Lembro do seu rosto. Seja gentil e mostre-me o caminho para a cozinha. Já está na hora de eu começar a trabalhar, agora que todas as tradições deste casamento já foram cumpridas. Ginny se inclinou em sinal de respeito. — Não sabemos muito bem o que fazer para agradá-la. — A menina hesitou, sua boca se fechou no meio de um pensamento. — Porque sou inglesa, você quer dizer. A iminente união colocaria um fim a séculos de guerras entre os dois países. Alguns questionavam a decisão da rainha Elizabeth de não se casar, mas Anne via o benefício disso. A paz não era motivo suficiente para que uma mulher permanecesse solteira? Tinha sido uma das melhores monarcas da história e ampliado o poderio econômico do país. Quem iria imaginar que a opção da rainha por permanecer solteira seria o melhor caminho para o futuro de seu povo? Elizabeth costumava dizer que ela era casada com os seus súditos. Anne entendia a sabedoria disso. Ela seguiu Ginny até a cozinha, que ficava nos fundos da torre. Em uma mesa, duas mulheres sovavam massa de pão. Ambas ergueram os olhos ao ver Anne entrando. — Esta é Bythe, a chefe da cozinha. — Ginny apontou para uma senhora robusta, que meneou a cabeça respeitosamente. — Bem-vinda, senhora. Bythe claramente não sabia o que fazer. Anne respondeu com um sorriso calmo e olhou para a mesa mais próxima, onde havia peixe fresco, as escamas ainda molhadas. — Vejo que a senhora sabe como lidar com as coisas por aqui. A fisionomia da cozinheira relaxou um pouco. Anne desabotoou os punhos e dobrou as mangas. — Mas em uma cozinha sempre tem trabalho para mais um par de mãos. Ela pegou uma faca e a segurou com mão firme, com a outra mão, apanhou o 51


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peixe escorregadio. Com destreza removeu as escamas, limpou por dentro, retirou a espinha, inspecionando cuidadosamente para ver se não tinha restado mais nada. Enquanto o fazia, Anne sentia o peso de cada par de olhos. Terminou de cortar sem erguer os olhos do trabalho uma vez sequer. Em seguida, depositou a carne de peixe em uma assadeira e apanhou outro. — Vejo que sua mãe a ensinou a mexer na cozinha, senhora. — Bythe pegou outra faca. Com um corte certeiro, outro peixe era preparado para ser cozido. — Uma vez que ouvi dizer que a senhora morou na corte inglesa durante alguns anos, fico surpresa em ver como é tão prática e habilidosa. Anne depositou outro peixe na assadeira. Ela não queria mentir, dizendo que havia trabalhado na cozinha da corte. Porém, precisava encontrar uma resposta. — Fui mandada para a cozinha do condado de Warwick quando completei onze anos. — Isso era verdade. — Minha mãe trabalhou a vida toda nesta cozinha — contou Bythe. — Eu era tão pequena quando aprendi a fazer pão que precisava subir em um banquinho para alcançar a mesa. O trabalho foi retomado ao redor, mas não a conversa. As outras apenas ouviam, esperando para julgar o caráter de Anne. Ela era a nova dona, ainda assim uma inglesa. Muitos acreditavam que os dois povos não podiam coexistir. Mais de uma esposa inglesa passara anos confinada em seu quarto, permanecendo como uma estranha no novo lar escocês, mesmo depois de dar à luz uma segunda geração. Anne tinha pena do destino que aguardava sua irmã. Mary com sua natureza mimada e vaidosa, seria muito infeliz em Sterling. Ela, porém, estava adorando. Mais um daqueles pensamentos inesperados que lhe ocorriam com cada vez mais freqüência. Talvez seu coração estivesse amolecendo. Anne tentou se concentrar no trabalho. Mas seu corpo se recusou a esquecer que havia passado a noite com Brodick. O desejo despertou partes de seu corpo que dois dias antes ela nem se lembrava possuir. E se sentiu feliz e perdida na própria insanidade. A luxúria era bem-vinda, pois Anne sabia que logo seria satisfeita novamente. Adoraria ter um bebê. Contudo, a idéia a trouxe de volta à dura realidade, varrendo a febre insana. O desejo de ter uma criança era um segredo a ser guardado no fundo do coração. Viver sob o julgo de Philipa tinha lhe roubado aquela alegria. Enterrara esse sonho nas profundezas de sua mente para evitar a dor de não poder alcançar tal dádiva. Mas Brodick partilhava do mesmo sonho. A tentação de oferecer isso a ele a entusiasmou, apesar de saber que não poderia encontrar a sua felicidade ali. — Acabei de ouvir algo muito interessante — disse Cullen, rindo. Brodick revirou os olhos, pois estava mais interessando em encontrar a esposa. Sorriu ao imaginar o que o aguardava entre quatro paredes. — Soube que a sua esposa passou o dia na cozinha. — Fazendo o quê? — Você soou um tanto desconfiado para um homem cuja esposa acaba de provar sua pureza. — Não brinque comigo. Em breve você irá se casar, e eu tenho boa memória. Um véu de arrependimento cobriu o rosto de Cullen. 52


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— Desculpe, esqueci que você não agüenta uma provocação. — O rapaz riu. — Logo você ficará sabendo. Ela preparou o seu jantar. Espero que o seu estômago seja mais tolerante do que a sua paciência para suportar uma brincadeira. Brodick olhou para a mesa, com receio do que iria comer. Morar na corte não ensinava uma mulher a amassar o pão. Mas como senhora da casa, sua esposa poderia fazer o que quisesse na cozinha. Nenhuma das criadas iria discutir com ela, mesmo que visse algo anormal. — Nunca o vi tão pálido desde o dia em que papai o apanhou com a sua primeira mulher na cama. Brodick riu, o som do riso ecoou pela sala de jantar. A aparência da comida parecia boa e normal para os seus olhos. Mas o sabor já era outra questão. — Quero ver se vai continuar com essa cara quando perceber que o seu prato foi temperado com veneno — declarou o conde para o irmão. — Ainda duvida da minha idoneidade, milorde? — indagou Anne ao entrar na sala de jantar. Brodick corou, a doce reprimenda doeu mais do que uma bofetada. Ele tinha sido rude, apesar de ter respondido aquilo só para não perder a disputa verbal para Cullen. — A provocação foi para meu irmão, milady. Anne parou, fitando os homens sentados à mesa, seus lábios cerrados numa linha reta. — Entendi... Ela passou pelo marido segurando uma enorme torta de carne que espalhava o cheiro de condimentos no ar. Colocou a torta na mesa e cortou-a com uma faca. — Suponho que seja bom ir me acostumando desde já a como serão as coisas entre nós. Anne serviu uma generosa fatia em um prato e o entregou ao marido. — Pensei que tivesse dito que as suas palavras tinham sido para Cullen. O senhor desconfia que seja capaz de cometer uma traição? As conversas paralelas cessaram abruptamente, os homens lançaram olhares preocupados para o casal. Com uma ruga na testa, Anne cortou um pedaço da fatia de torta e levou à boca, mastigou e engoliu rapidamente. — Não consigo fazer uma refeição acompanhada de suspeitas. Dito isso, saiu num rompante da sala. Mas o fez com maestria, acostumada que era em ocultar suas tristezas. Brodick estranhou a reação. *** Anne lutou contra as lágrimas enquanto se movia rapidamente entre as mesas. Estava tomada pela dor ao entrar no corredor. Não devia dar importância. Aquilo não fazia sentido. Por que se importar tanto se o conde duvidava da sua comida ou não? Deixasse que ele e cada um dos seus homens fossem para a cama com a barriga roncando. Contudo, a desconfiança a magoava. Ela havia lhe dado sua virgindade para provar que era pura. Aliás, evitou ir para o quarto onde o perfume do amor ainda recendia, o que naquele instante a machucaria ainda mais. 53


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Saindo pela porta principal da torre, ela seguiu pelo pátio. Ainda havia muitos mistérios em Sterling a serem desvendados. Parou ao se aproximar dos estábulos. Os cavalos relincharam nas baias. O odor acre de feno permeava o ar. Era lua crescente, assim havia pouca luz iluminando o cenário. Ao longo das muralhas, as tochas acesas e presas a suportes de ferro, a cada cinco metros, cumpriam seu papel. Não havia nenhuma tocha próxima ao estábulo por receio de incêndio. Ninguém se arriscaria a perder um único animal caro por causa de uma simples fagulha lançada pelo vento. Uma réstia de luz vinda das muralhas era suficiente para iluminar o caminho. Anne entrou no estábulo, e esticando o braço, tocou na pelagem aveludada do mais próximo. — Eu não disse que suspeitava que você tivesse envenenado a minha comida de propósito — Brodick falou baixinho, saindo das sombras e deixando escapar a preocupação mal disfarçada. — Há uma grande diferença nisso. — Porém ficou lá, parado, com medo de tocar no prato que eu lhe oferecia. — Sua ira parecia não fazer muito sentido, mas ela não conseguia se conter. — O que espera de mim? Que eu fique sentada à toa esperando pelo seu retorno? — Anne o encarou com um dedo em riste. — Para então me deitar na cama e me colocar ao seu dispor? — A idéia não é nada má. — A frase saiu apimentada pelo desejo. Brodick a segurou pelo pulso e a puxou para mais perto. Ela trombou contra o peito largo, e o conde a envolveu em seus braços. — Pelo visto, encontramos mais paz na cama... Acho a idéia muito atraente. Sabe o que mais me impressiona? Olho para você e fico louco feito um rapazinho inexperiente. Em seguida, beijou-a, pedindo por redenção, mas Anne se contorceu. Com um gemido, ele seguiu os lábios que tentavam escapar, prendendo-a numa armadilha, enquanto sua língua invasora conquistava território. — Passei o dia pensando no momento em que ficaríamos juntos novamente. Anne mal resistia ao chamado do próprio desejo, a confissão acabou por derrubar quaisquer barreiras. — Eu também pensei em você — confessou. — Tenho certeza de que existe muito mais entre nós do que uma paixão pura e simples. Convença-se de uma coisa, nunca a mandarei de volta para seu pai. Embora as palavras tenham sido ditas em tom ríspido e possessivo, para Anne soaram como um afago. Brodick a ergueu até a altura do próprio peito como se ela não passasse de uma criança. — Você é minha! Não me importo se tiver de lembrá-la disso incontáveis vezes. Ele a carregou para uma baia vazia. O feno que cobria o chão era novo, cheirando a limpo e fresco. Brodick se ajoelhou e a deitou no chão para, em seguida, cobri-la com o próprio corpo. E mais uma vez fizeram amor como se nada mais existisse no mundo além deles e daquele momento. Anne respirou ruidosamente no silêncio da noite. Gotículas de suor brotavam de seus poros, e o ar dar noite soprava frio contra suas pernas expostas. O contraste da temperatura dos corpos era ainda mais excitante. O peso do corpo másculo e quente a aquecia. — Eu a magoei? — Ele beijou-lhe os lábios antes de se erguer para fitá-la por 54


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completo. — Somente quando olhou desconfiado para a mim. — Eu estava tão ocupado pensando no momento em que a teria nos meus braços outra vez que nem me preocupei com o jantar. — Mas seu irmão... — Ele estava me provocando. Por isso revidei com uma resposta áspera. O lábio inferior de Anne tremeu. Ela queria muito acreditar no que ouvia. — Uma vez que você não teve irmãos, não pode imaginar como é a relação de provocação que existe entre homens. Juro que isso é apenas um maneira de mostrar afeto. Brodick sentou-se e gentilmente puxou a saia de Anne para protegê-la do frio. Uma pontada de dor perfurou seu coração quando ela refletiu sobre a verdade daquilo que o conde havia acabado de dizer. Anne sempre provocava Bonnie, e seus irmãos eram capazes de tudo quando disputavam algo entre si. Somente sua mãe era capaz de fazêlos calar. — Acho que terei de ter paciência até que acredite no que eu digo. — Vamos embora. É melhor eu levá-la para o quarto antes que acabe pegando um resfriado. Ele a ajudou a ficar de pé. Em seguida começaram a tirar o feno preso na roupa e no cabelo um do outro. Um riso suave escapou dos lábios de Anne, surpreendendo-a. Ela não ria assim havia anos. — Vamos para a cama. — Ele falou alto, para que suas palavras reverberassem através das paredes. O rosto de Anne ficou escarlate, mas ela se sentiu feliz em ouvir que o marido queria que todos soubessem que ele estava feliz por tê-la na sua cama. Muitas nobres casadas não eram tão desejadas.

Capítulo IV

Os sinos repicavam nas muralhas. A princípio pareceu um som distante que foi invadindo aos poucos como se fizesse parte do sonho de Anne. Acordou de supetão quando Brodick se levantou. — O que é isso?— ela perguntou — Problemas. Apressado, ele saiu à procura das roupas espalhadas pelo quarto. Fosse lá o que estivesse ameaçando o castelo, Anne queria estar a par. Por ser a esposa do líder do clã, ela seria um provável alvo. 55


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Sem se preocupar com a própria nudez, apanhou a camisa do marido e lhe entregou, chegar até os homens na muralha era a prioridade. — Obrigado... — Embora surpreso, ele se deixou ajudar. Enquanto calçava a botas, Anne apanhou sua espada. O peso da arma fez com que as suas mãos tremessem. Afinal, podia estar enviando-o para a morte. Não havia como saber o motivo que despertara os sinos. Em sendo na calada da noite, certamente não era um aviso de boas notícias. Anne escondeu as preocupações. Pois isso também fazia parte do dever de uma esposa. — Vista-se e junte-se às mulheres no porão, e lá espere por segundas ordens — ordenou Brodick com a espada em punho. — Sim. — Quando começava a vestir-se sentiu um braço forte enlaçando-a pela da cintura. — Preciso de um beijo de adeus. — Sim, milorde. — Obrigação que Anne desempenhou com prazer. Logo estava sozinha e com frio. Não tinha mais nada a fazer, a não ser esperar. E rezar. Metade dos homens retornou ao amanhecer. Anne correu procurando entre os rostos, mas Brodick não se encontrava entre eles. — Ajudem com os feridos! Houve comoção e vários homens foram atendidos ali mesmo no pátio. O sol da manhã iluminou as manchas de sangue. No entanto, os combatentes não pareciam tristes, e isso causou uma sensação de alívio na maioria das mulheres, menos em Anne. Por algum motivo se sentiu isolada pelos olhares frios lançados em sua direção. Aquilo não fazia sentido, porém a sensação persistiu ao longo da manhã. As preocupações se aquietaram quando os homens sentaram-se às mesas para tomar o café da manhã. Todos os presentes ajudaram a carregar as bandejas e encher os jarros, assim garantindo que todos recebessem a devida refeição depois de terem arriscado suas vidas. Ginny só parou ao ver que todos já estavam servidos. A jovem se aproximou de Anne. — A filha de Helen entrou em trabalho de parto na noite passada. Ela foi para Perth para ajudar e agora só poderá voltar depois que o bando dos McQuade tiver sido mandado de volta para o covil de onde não deveriam ter saído. — Entendo. Ginny não permaneceu para dar mais informações. A garota virou as costas sem ao menos fazer antes um gesto de reverência. As outras criadas seguiram o exemplo, dirigindo a Anne olhares atravessados. Ela sentiu a garganta se estreitar, roubando-lhe o ar. Depois de uma acolhida tão calorosa, os criados agora não viam motivos para continuar tratando-a com gentileza. Esse não era um destino incomum das inglesas que se casavam com escoceses. O lorde podia até ordenar que seu povo se curvasse, mas nenhum homem tinha o poder de forçar qualquer criado a gostar de uma estrangeira. De sua parte, Anne preferia encarar a verdade a viver na ignorância. Apesar da dor 56


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da mágoa. Ela deixou a sala sem saber para onde ir. Mais uma vez estava sozinha. O desespero que a tinha invadido quando Philipa revelara seu plano voltou. E agora era muito mais intenso. Ele vai plantar um filho em você e depois partirá para mais uma guerra... As palavras de Philipa dilaceraram os poucos momentos de alegria que Anne havia vivido em Sterling. — Malditos invasores! — praguejou Brodick. — Pelo jeito, quem está com a barriga cheia é a sua esposa, depois do encontro no estábulo. Brodick voltou-se para Cullen, notando-lhe o ar de preocupação. — Como foi se deixar amolecer por causa de uma mulher? Isso estragou metade da minha diversão. Pensei que você fosse apenas se casar, não perder o coração para a moça. — Não aconteceu nada disso. — Ah, não? E está pronto para me derrubar por eu ter mencionado o que você não se importou em bradar para que metade das tropas ouvisse na noite passada. Se isso não é amolecer, então não sei o que é. Brodick sentiu a ira se atenuar. Cullen tinha o direito de dizer aquilo, pois de fato falara alto para assegurar que todos soubessem o que tinha acabado de acontecer. O verdadeiro motivo para o seu mau humor agora era a frustração; puro desejo de estar ao lado da esposa amada. — Não resta dúvida de que eles estão escondendo canhões. — Druce declarou olhando adiante. — Não resta dúvida — Brodick confirmou. O que significava que ele e seus homens estariam envolvidos em uma batalha que não terminaria tão cedo, e da qual não poderiam fugir. Era seu dever de líder proteger seu povo. Com a rainha inglesa à beira da morte, os clãs fronteiriços estavam agitados. Brodick precisava defender suas terras com punhos de aço para que não fossem tomadas pelo inimigo. Honraria o sangue de um McJames. Esse era seu dever e de mais ninguém. Brodick montou no cavalo para ir enfrentar o desafio com uma energia renovada. O motivo era simples, havia uma doce esposa, que contava com a força da sua espada para levá-lo de volta para casa o quanto antes. — Vamos pôr esses invasores para correr, homens! Gritos ecoaram naquele frio fim de tarde. Os soldados montaram em seus cavalos, com os olhos reluzindo de determinação. A primavera chegou com toda a sua glória, e o povo de Sterling retomou o trabalho, o plantio da próxima safra. Os dias se transformaram em semanas, sem que o conde retornasse. Anne ocupou o tempo fiando, grata por poder escapar dos olhares furtivos que ainda recebia. Helen ainda permanecia em Perth, cuidando da filha. Anne sentia muito a sua falta. 57


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No entanto, era a falta do marido que mais a afligia. Seus sonhos eram aquecidos pelas lembranças das noites compartilhadas com o amado. Via o rosto, ouvia a voz e sentia o peso das mãos em seu corpo, até despertar queimando de paixão e notar que estava sozinha na cama. As sombras da noite se aproximaram ao final de mais um dia. Anne respirou fundo numa tentativa de aquietar a ansiedade. Comer na sala com todos tinha se transformado em uma tortura que preferia evitar. Os olhares das criadas tinham se tornado ainda mais ferinos, uma vez que não havia ninguém para repreendê-las. Ela não pretendia se impor. Mesmo porque era uma impostora. Talvez todos tivessem percebido a sua culpa. Os nobres eram colocados acima dos outros por desejo divino. Havia muita controvérsia e discussão para determinar se os bastardos de sangue azul tinham ou não sido concebidos sob a mesma graça divina. Será que ela estava abaixo da mais pobre mendiga ou acima das criadas que a fitavam com olhares gélidos? Anne não tinha certeza de qual era sua verdadeira posição, e por isso preferiu se calar. Simplesmente recorreu às longas horas de trabalho solitário diante da roca de fiar para aplacar a ansiedade. O fogo da lareira havia muito se extinguira e ninguém viera reacender. Anne não se importou e se enrolou na capa de lã para se proteger do frio. Nunca tivera uma lareira acesa somente para ela em Warwick. E já que seu destino era voltar para lá, convinha não se acostumar aos confortos que teria de deixar para trás. Afinal, estava muito mais preocupada com o que Brodick iria fazer quando descobrisse que ela não era a esposa que ele tinha ido buscar no sul. Já podia antecipar sua ira. Cada momento de ternura que haviam compartilhado viraria pó assim que a verdade viesse à tona. Temia por esse momento, porém não via um meio de escapar. Ao contrário de Philipa, não acreditava que Brodick não fosse notar a diferença entre ela e Mary. A náusea persistiu, tornando a idéia de comer repulsiva. Semanas se passaram. Muitos dias sem que Anne falasse com uma alma sequer. Era como se fosse um fantasma transitando pelo castelo sem ser vista pelos outros ocupantes. Brodick não se importou com as provocações de Cullen, pois estava radiante por voltar para casa. Não era a primeira vez que passava um mês longe do lar. A dura verdade era que tampouco seria a última. Naquela noite seguia o luar de regresso a Sterling com o coração batendo em descompasso ao pensar na querida esposa. Ele percebeu o olhar fixo de Cullen. — Não vai fazer mais nenhuma provocação, irmão? Tem certeza de que não está com febre? Mas Cullen não sorriu. — Cheguei à conclusão de que estou com inveja de você. Druce emparelhou-se com os dois, interessado. — Será que ouvi direito? Será mesmo verdade que o pequeno Cullen acaba de admitir ter visto alguma vantagem no casamento? — Sempre reconheci o valor de um dote, mas nunca compreendi o valor de ter 58


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alguém esperando em casa pelo meu retorno. É disso que estou com inveja. Ria se quiser, mas você também não tem ninguém rezando pela sua volta. — Talvez eu também admita que esteja começando a ver as vantagens de um casamento. — Druce franziu a testa. Brodick imaginou se sua amada esposa estaria mesmo rezando pelo seu retorno. — Bem, eu gostaria muito que um de vocês resolvesse roubar a filha de McQuade e se casasse com ela. Assim não teríamos mais de sair perseguindo os invasores das nossas terras. — Bronwyn McQuade? Druce e Cullen proferiram o nome ao mesmo tempo. Cullen balançou a cabeça, negando. — Você está louco. A mulher é uma megera. — Ouvi dizer que ela usa o belo rosto para atrair os homens antes de dilacerar a vítima com a língua ferina. — Druce riu ao comentar. — Nenhum de nós jamais esteve sob o mesmo teto que a moça — alegou Brodick. — Tudo o que dizem pode não passar de mentiras. — Não serei eu a descobrir a verdade. — Druce parecia firme em sua determinação. — Quero encontrar uma moça meiga, não uma batalha de proporções épicas todas as noites. — Muitos me alertaram contra minha esposa. Disseram que os ingleses criam mulheres fracas e insanas. — Brodick encolheu os ombros. — Reconheço humildemente e agradeço que tudo tenha se mostrado o oposto. O topo da primeira torre de Sterling despontou no horizonte. Brodick esporou o cavalo. Cullen e Druce observaram o galope apressado do lider rumo ao lar. — Isto é mais entusiasmo do que um homem recém-casado deveria ter. — Cullen não soou tão confiante quanto gostaria. A inveja ainda o corroía. — Acho que sou obrigado a admitir que somos os infelizes que não têm ninguém que nos faça correr daquele jeito de volta para casa — concluiu Druce. Cullen olhou para o primo como uma sobrancelha erguida. — Isso significa que você está considerando Bronwyn McQuade? — Não — Druce respondeu demasiado alto, fazendo o primo rir com escárnio. — Tem certeza? Pois para mim, isso pareceu um "sim". — Você primeiro, rapaz. — Druce contorceu o rosto e sua voz soou baixa e brincalhona: — Quero ter certeza de que ela esteja bem alimentada antes que eu me aproxime daquelas garras. — Bem, não são todos os homens que foram abençoados com a minha coragem. Uma dupla de soldados riu à custa de Druce, que apontou um dedo para o primo. — Mal posso esperar para vê-lo domar a fera. Você não será o primeiro homem que Bronwyn despacha com o rabo entre as pernas. Cullen contraiu o cenho quando mais cabeças se viraram para ouvir a conversa. Druce sorriu, divertindo-se com o desconforto do primo. — A menos que você tenha perdido a coragem. Risadas o cercaram, irritando 59


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Cullen ainda mais. — Você vai ver. — Será? Mal posso esperar. — Você verá. — Cullen esporou o cavalo e saiu em disparada à frente. Os risos às suas costas eram irritantes. A ideia de mexer com uma mulher tão complicada não o agradava nem um pouco. Mas seu irmão estava certo. O casamento com Bronwyn poderia trazer a paz. Além do mais, sob aquela fachada de brincalhão, havia um filho que tinha sido criado com o mesmo senso de dever de Brodick. Casar pelo bem do clã McJames seria seu futuro. E Bronwyn McQuade, na verdade, era um caso a se pensar. Se ele ao menos pudesse pensar num jeito de se aproximar da moça sem acabar com o pescoço numa corda colocada pelo pai e os irmãos dela... Esse sim era um risco real. Não domar a fera. Não havia uma mulher que fosse forte o suficiente para resistir ao seu charme. Até que seria divertido perseguir a moça teimosa só para ver quanto tempo ela iria demorar a se render aos seus encantos. Os sinos não tocaram ao seu retorno. Brodick tinha ordenado que o costume fosse abandonado depois da morte de seu pai. Pois não se sentia merecedor de tão aclamado regresso até que provasse seu valor como novo líder de Sterling. E isso não era algo que podia ter sido feito nos três anos apenas desde que herdara o título. Naquela noite Brodick cruzara os portões com orgulho. Todo o desconforto das últimas cinco semanas desaparecera ao olhar para o pátio em paz. Soldados de plantão caminhavam sobre as muralhas. Havia tochas acesas e todos os habitantes dormiam em paz. Esse era o dever de McJames. A espada pendurada às suas costas nunca lhe parecera tão pesada. Mas ele se sentia feliz por regressar ao lar. O quarto de Anne estava muito frio e escuro. Brodick franziu o cenho. Suas suspeitas aumentaram ao olhar para a lareira. Não havia nada ali; nem mesmo cheiro de fumaça, indicando que não era acesa havia dias, possivelmente semanas. Uma estranha sensação de medo o acometeu enquanto caminhava lentamente na direção do leito. O cortinado da cama estava fechado, somente uma fresta aberta aos pés. Dentro, a mais absoluta escuridão. Será que ela havia fugido de volta para o pai? Temeroso, puxou uma das beiradas da cortina, tocou na cama e sentiu uma pequena elevação. Só então respirou mais aliviado. Dobrou os joelhos e sentou-se aos pés da cama. Anne se moveu, assustada ao sentir o tremor na cama. — Milorde? Anne estremeceu, tomada de júbilo. Estendeu então uma mão na ânsia de tocá-lo, pois precisava sentir o calor da pele para ter certeza de que aquilo não era um sonho. — Creio que já lhe disse para me chamar de Brodick quando estivermos na nossa cama. Brodick se moveu antes que os dedos dela pudessem alcançá-lo. Anne suspirou ao sentir o abraço. 60


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— Brodick... — Ela o acariciou, e ele soltou um gemido. — Diga outra vez. — Seja bem-vindo de volta ao lar, Brodick. Seus lábios se encontraram num beijo longo e demorado. — Que roupa é esta que está usando para dormir? Anne tentou impedir que ele se afastasse, mas não conseguiu. — Você está usando uma capa para dormir? — Para me manter aquecida durante a sua ausência. Ele tomou o rosto delicado entre as mãos. — Desse jeito vai acabar virando a minha cabeça. — Ansioso, abriu a capa, ávido por poder tocar naquela pele macia por inteiro. — Não vai precisar mais disso agora. Prometo que a manterei aquecida. Receptiva, Anne abriu os braços e se entregou ao toque suave. A solidão do último mês pareceu ter durado uma eternidade. Uma noite apenas não seria suficiente para aplacar as chamas que brotavam de seus corpos incandescentes. Não havia fogo no quarto. Brodick se ajoelhou em frente à lareira e passou a mão sobre as cinzas frias. Uma ruga profunda se formou em sua testa. No horizonte, um tom suave de rosa coloria o céu, visível através das cortinas abertas. A lareira não era acesa havia mais de uma semana no mínimo. Ele sabia disso. Seu olhar pousou desconfiado na direção da cama. Anne ainda dormia encolhida. Nos candelabros, só restavam os tocos de vela. A fúria se apossou de Brodick ao olhar ao redor e constatar que outras tarefas não tinham sido cumpridas durante a sua ausência. Anne se moveu à procura do aconchego do amado. Um nó se formou na garganta de Brodick ao ver o rosto delicado se contorcendo, quando os dedos não encontraram nada além dos lençóis frios. Ela abriu os olhos, buscando, desesperada, pelo marido. Era a expressão mais atormentada que o conde já vira. Um olhar de saudade... por ele. Anne se sentou assustada e olhou ao redor até encontrar Brodick fitando-a fixamente. Só então respirou aliviada. — Por que não há velas aqui? — indagou ele com o cenho franzido. Ela desviou o olhar, pois não tinha intenção de denunciar a criadagem. — Não há motivos para se preocupar tanto. Anne saiu da cama e correu para apanhar as roupas, lutando contra a náusea. Para tentar conter o desconforto, pegou um pedaço de pão que se encontrava sobre a penteadeira. — Você tem jantado aqui? E só pão com cerveja? Não é para menos que está com o rosto tão fino. — Brodick soou ameaçador. — Onde está Helen? Tenho algumas perguntas para fazer a ela. Anne ergueu a mão, mas ele já tinha se dirigido à porta chamando a criada. 61


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— Helen não está aqui. A filha dela deu à luz na noite em que você partiu. Não há motivo para que fique tão transtornado. Família é algo muito importante. Eu não preciso de ninguém me paparicando o tempo todo. Brodick lançou um olhar severo de volta. — Onde está Ginny, então? Temos muitas criadas em Sterling. Helen não deveria ter partido sem deixar uma substituta no lugar. Ela tem servido Sterling há anos para cometer um lapso como esse. — Já disse que não preciso ser mimada. — Mimada? — Os olhos agora brilhavam ensandecidos. — Nem mesmo os ajudantes do estábulo vivem sem o calor do fogo e a luz de uma vela. Ou você deu ordens a Ginny para deixá-la nestas condições? Mas Brodick não esperou pela resposta. — Não quero saber. Mesmo que tivesse dado uma ordem estúpida como essa, ela não deveria ter lhe dado ouvidos. Nesta época do ano não faz calor suficiente para dormir sem uma lareira acesa aqui no segundo andar. Ginny conhece Sterling melhor do que você. Não vejo motivo para tal omissão. Você estava tremendo de frio na noite passada. Ele já tinha ultrapassado o umbral da porta antes que Anne tivesse tempo de dizer algo. Desesperada, correu para tentar impedi-lo de gritar com seu povo. Ela se recusava a ser como Philipa, sempre recebendo falso respeito enquanto às suas costas todos falavam mal. — Milorde, leva tempo para que todos me aceitem. Brodick já se encontrava no andar de baixo quando parou e virou-se para Anne. — Como? Isso não é uma questão de aceitação. Você é minha esposa. — Ele fez uma pausa, tentando recuperar a compostura. — Não que eu não me importe com a sua opinião, mas é uma questão de saúde, milady. Da sua saúde. — Já lhe disse que não sou frágil. A capa me manteve aquecida, e não fui deixada sem confortos. É preciso que compreenda os anos de guerras que separam os nossos povos. Brodick enrijeceu como se lutasse para recuperar o controle e não gritar. — Não sou eu que tenho de ser o compreensivo aqui. E você, minha querida esposa, não vai proteger ninguém que tenha se portado de modo tão vergonhoso enquanto estive fora, protegendo este castelo. Assim ordenando, foi até ela, tomou-lhe a mão e saiu arrastando-a. Na entrada da sala de jantar, Druce observava o casal se aproximando. — Segure minha esposa, Druce. Tenho assuntos a tratar com os criados — pediu Brodick. — O que está acontecendo? O conde não a deixou responder. Ao contrário, seguiu repreendendo-a. — Você é muito boa... até demais. Não vou tolerar tal comportamento dentro da minha casa. — Brodick saiu gritando pelo nome da criada. Apesar de ter se controlado, foi difícil não explodir. Ginny respondeu às acusações com um olhar obstinado e desafiante, que não mostrava nenhum sinal de arrependimento. As outras criadas alinharam-se a seu lado, mostrando total apoio. Ele já esperava por aquilo, mas mesmo assim foi espantoso ver a animosidade declarada nos rostos das 62


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mulheres. Se sua esposa fosse uma mulher maldosa, talvez até pudesse entender. O primeiro comentário foi dirigido para a cozinheira, que também o fitava sem reservas. — Nunca imaginei que tivesse um coração tão duro. Você tem uma filha que também está casada. Bythe vacilou, não porque o conde havia gritado, mas porque a voz dele soou calma e suave. A maioria das criadas hesitou em continuar com a afronta. Algumas baixaram os olhos. — Vocês deveriam pensar em quanto deve ser difícil casar e mudar para longe de casa e dos seus familiares. Minha esposa não trouxe nem mesmo uma dama de companhia, mas agora reconheço o erro que cometi. Pensei que os meus criados iriam cuidar muito bem dela e que não seria preciso uma dama inglesa para lhes dizer o que e como fazer para agradar à senhora. Mais de um rosto ficou pálido, mas o conde não sentiu pena. — Vocês vão dizer qual o motivo para tamanho desrespeito? Minha esposa é uma pessoa tão... difícil assim de lidar? Algumas das criadas mais jovens olharam para Bythe e Ginny e de volta para o senhor do castelo. As duas mais velhas permaneceram de boca fechada. — Descobrirei toda a verdade e ainda hoje. — Olhando para a fileira de moças uniformizadas e rostos baixos, Brodick apontou para uma delas. — Mogen, diga qual o motivo que as levou a parar de atender minha esposa. — Isso não vai adiantar nada, milorde. Anne entrou na cozinha, o orgulho reluzindo em seus olhos. — Eu disse para você segurá-la. — Brodick encarou o primo, perguntando-se em que momento exatamente sua vida tinha virado de pernas para o ar. Druce ergueu um dedo e apontou para Anne. — Ela me mordeu. — Minha nossa! Não sobrou ninguém neste castelo que se lembre de que eu sou o senhor por aqui? — Repreender os seus criados não vai mudar o que eles realmente sentem, milorde — declarou ela. — E o que você quer dizer com isso? — Brodick a encarou. Seu tom era controlado, embora fosse possível sentir a frustração lutando contra o controle. — Eu poderia ter me imposto. — E por que não o fez? Anne virou as palmas das mãos para cima e meneou a cabeça. — Não é do meu feitio obrigar os outros a gostar de mim, milorde. Prefiro ser julgada pelos meus méritos. Ser aceita pelo que sou. Posso lhe garantir que sou forte o bastante para sobreviver sem uma lareira ou velas. O sol da primavera aquece e ilumina durante o dia, e não sou tão teimosa a ponto de não apanhar a minha capa quando a noite cai. Brodick a encarou de novo, dessa vez com olhos cheios de admiração e respeito. 63


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— Não há motivos para se preocupar tanto assim comigo. Como Agnes lhe disse, sou saudável — completou Anne. Brodick se virou para Bythe. — Explique por que não gosta da minha esposa, mulher. A cozinheira se retesou e contraiu os olhos. — À mesa de jantar, o senhor disse, para todos ouvirem, que ela tentou envenenálo. Esposa ou não, o senhor é o meu lorde e a quem devo toda a minha lealdade. — Está louca, mulher? — Druce indagou. — Lady Mary pode ser inglesa, mas nunca vi nenhum gesto ou um sinal de maldade nela. — Mas ela o mordeu, senhor. Druce soltou uma sonora gargalhada. — Isso não é nenhum sinal de ruindade. Só mostra que o meu primo tem muita sorte por ter conseguido uma esposa tão determinada. — Havia um tom de calor na voz de Druce que fez Anne olhar surpresa para ele. O escocês respondeu com um olhar complacente que arrancou um bufar do primo. Brodick voltou as atenções para a esposa, lutando contra a vontade de partir para cima das criadas. Anne lamentou que tudo aquilo estivesse acontecendo. — Acalme-se, milorde. Existem algumas coisas que não devem ser impostas. Eu prefiro conquistar a lealdade. Algumas poucas semanas não representam nada comparadas ao verdadeiro valor de saber que cada gesto de respeito a mim dispensado realmente é verdadeiro. Mais de uma das criadas engoliu em seco. Bythe parecia confusa. — O senhor disse na frente de todos, milorde, e se recusou a comer. Mais de vinte homens e mulheres me contaram a mesma história. — Como ela poderia ter me envenenado quando o tempo todo estava cozinhando sob os seus olhos? — Brodick ergueu uma sobrancelha. — Ou vai me dizer que não sabe o que se passa na sua cozinha? — Apontou então para o molho de chaves que Bythe tinha preso à cintura. — É tão descuidada com as suas chaves que qualquer um pode apanhar ervas sem permissão? Bythe cobriu os lábios com a mão e balançou a cabeça. O conde encarou as outras criadas. — Não passou pela cabeça de nenhuma de vocês que alguém poderia ter percebido algo? Ou devo assumir que tais ervas tão perigosas estejam destrancadas? O rosto da cozinheira ficou vermelho, a mão segurando firme o molho de chaves. Ser a responsável pela cozinha significava também encarregar-se das ervas que serviam tanto para temperar quanto para curar. Ninguém tinha acesso àquelas especiarias sem que ela destrancasse o armário onde ficam estocadas. As chaves eram um símbolo da sua posição em Sterling, por isso nunca as perdia de vista. Abriu a boca para falar, mas nenhuma palavra passou por seus lábios. Anne deu as costas para todos, mais certa do que nunca de que a sua própria culpa estava aparente. Ela não merecia a defesa de Brodick. A mais pura verdade era que realmente o estava prejudicando, fazendo algo muito ruim; roubando o dote que ele havia investido tanto esforço para assegurar. Tinham sido dois anos de trabalho e negociação que ela estava destruindo. Era certo de que Deus agia através das mãos das criadas para forçar uma confissão. Anne sentiu um peso no estômago, a culpa lhe deu náusea. Correu para a sala de 64


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jantar antes que colocasse tudo para fora ali mesmo. — Milorde a aguarda no pátio interno para saírem para uma cavalgada. A criada abaixou a cabeça antes de se retirar do quarto. Anne suspirou. Respeito não significava nada quando era forçado. Lágrimas inundaram seus olhos, pois a situação não era nada agradável, mas chorar não iria ajudar em nada. Talvez confessar, sim... Apesar da culpa, mal podia esperar para se encontrar com Brodick, uma última vez. E então ela confessaria. Mas antes, iria se deitar com seu amor. Um sorriso se espalhou por seu semblante. E o motivo era simples, o marido esperava por ela. O conde e líder de Sterling queria sua companhia para cavalgar. Eles acabariam tendo um encontro em algum local secreto, e isso fez seu coração bater mais rápido. Mesmo que estivessem juntos por conta de uma ilusão, ele a queria. Não como amante, mas como esposa. E Anne saboreou a idéia. Era a única coisa que ela teria antes que a amarga verdade viesse à tona. Brodick era uma bela visão. Forte e perfeito. Anne parou nos degraus da frente da torre e sorriu ao ver o modo como ele a aguardava. Não estava montado no cavalo, mas sim esperando ao lado da égua que ela iria cavalgar. E estendeu a mão quando ela apareceu, para ajudá-la a subir na sela. — Creio que já está na hora de eu lhe mostrar um pouco das terras do clã McJames. Brodick ergueu-a, colocando-a sobre o lombo da égua e lhe entregou as rédeas. — Obrigada, milorde. Ele torceu o nariz como um garoto. — Eu não poderia chamá-lo pelo seu primeiro nome diante de todos — ela disse. O conde montou o corcel e olhou de relance para as pessoas curiosas que os observavam. — Fez bem. De repente, Anne entendeu, e isso a fez sentir vontade de chorar mais uma vez. Brodick estava dando uma demonstração pública de afeto, numa tentativa de fazer com que o povo passasse a gostar da sua esposa também, sem imposições. Era uma atitude inteligente e tão tocante que ela teve de baixar os olhos para disfarçar o brilho das lágrimas. — Você é tão bom, Brodick! — Carinho é algo que não deve faltar no nosso casamento, moça. — Ergueu o rosto cabisbaixo. — Só porque o nosso casamento é uma união de nobres, não significa que não possamos ser felizes e nos amarmos. Ele sorriu e inclinou a cabeça para trás. — Venha comigo. O dia está agradável e vou lhe mostrar um pouco da Escócia, esta terra de beleza incomparável. O casal transpôs os portões. Em poucos minutos, o castelo ficou para trás, 65


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deixando Anne sozinha com o amado. O sol aquecia seus rostos, a primavera finalmente vencera o inverno. Eles seguiram em frente num galope relaxante. Subiram uma colina, e Anne deu toda a liberdade ao animal para correr. Um vale se entendia abaixo, rico e verde com as novas plantações. Brodick a ultrapassou e puxou as rédeas. A égua se assustou, frustrada por ter sido parada, e, impaciente, começou a pisar em círculos, mas ele a segurou com firmeza. — As terras de McQuade começam do outro lado daquele rio. — Havia um tom sério na voz de Brodick, que chamou a atenção de Anne. — Você não se dá bem com os seus vizinhos, certo? As palavras de Philipa sobre o hábito dos escoceses de invadirem uns aos outros vieram-lhe à mente. — O velho lorde não é amigo dos McJames. — Brodick encolheu os ombros. — Ele tem uma antiga rixa com meu pai que se estendeu a mim. Passamos o último mês e meio tentando expulsar os McQuade das nossas terras. — Entendi. — Você não pode cruzar o rio. Mantenha distância. Não deve cavalgar sozinha. Meus homens foram instruídos a não permitir que você transponha as muralhas sem uma boa escolta. — Mas qual o motivo de tanto ódio entre os seus povos? Brodick franziu o cenho e meneou a cabeça, negando-se a responder. — Se é tão perigoso a ponto de eu não poder andar sozinha, não seria mais prudente que soubesse o motivo de tanta cautela? — Minha mãe estava noiva de McQuade, mas ele a perdeu para meu pai em um jogo de dados — respondeu ele depois de hesitar por um instante. — Isso é um absurdo! — Mas era exatamente o tipo de história sobre os escoceses que Anne havia ouvido na cozinha do condado de Warwick. — Não na Escócia. — Brodick sorriu diante da fisionomia surpresa da esposa. Um brilho malicioso reluziu em seus olhos. — Já não lhe disse que você é muito ousada? Anne balançou a cabeça, dividida entre a vontade de repreendê-lo e a de rir por ter ouvido a mais pura verdade. — E você não passa de um sedutor, isso não posso negar. A expressão de Brodick passou a refletir paixão e desejo. — Tome cuidado com as palavras que usa para me qualificar. Posso decidir viver de acordo com elas. — É tudo o que eu espero. — Anne o encarou, a ousadia ardendo em suas veias. Uma louca vontade de provocá-lo fluía por todo o seu corpo. — Mas só a esperança não vai satisfazer os meus desejos. Preciso de muito mais. — Sua ousadia não tem limites. Cuidado. Continue agindo assim e irá colher o que plantou. — E o que exatamente seria isso, milorde? — Ela pronunciou o título com ênfase, sabendo muito bem que o irritaria. Ele a encarou, mas o olhar não era de raiva, e sim de desejo. 66


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— Talvez você esteja precisando descobrir o que um escocês faz quando rapta uma mulher. — Isso se conseguir me pegar. Anne bateu as rédeas, dando à égua toda a liberdade para correr. O animal saiu disparado, num galope veloz. Inclinando-se sobre o pescoço da égua, Anne olhou para trás rindo. Brodick a seguia de perto. Como um invasor determinado a capturar sua presa. Seus olhos brilhavam com determinação quando o corcel relinchou. Brodick soltou um grito que quase levou Anne à loucura. Ela seguiu em frente. O casal continuou subindo a colina e entrou por um caminho entre as árvores. O coração de Anne martelava, o sangue corria tão rápido que estava difícil ouvir o mundo ao redor. Em toda a sua vida nunca tinha se sentido tão viva. Pelo som dos cascos dos cavalos, ela percebeu que Brodick diminuía a distância que os separava. O corcel já se encontrava a poucos passos da sua égua, os dois animais estavam quase cabeça com cabeça quando um braço firme a entrelaçou na altura da cintura, puxando-a para o lado. De repente, Anne ficou sem fôlego, enquanto seu corpo pairava suspenso no ar. Brodick a colocou na própria sela, segurou-a com firmeza e puxou as rédeas. O corcel empinou sobre as patas traseiras. — E agora que a capturei? — Ele desmontou num movimento rápido e a segurou pelos cabelos para simular ameaça. — Acho que vou gostar de estar à sua mercê. Ele tirou-a do alto do cavalo e a envolveu num abraço, enquanto suas bocas se uniam, sedentas de paixão. Do que se passou a seguir, somente os pássaros foram testemunhas. Mais uma vez Anne se entregou nos braços do seu amor, deixando de lado todas as dúvidas e inseguranças que o futuro reservava. Quando, finalmente, abriu os olhos para despertar do que mais parecia ter sido um sonho, se deu conta de que Brodick a observava com uma expressão indecifrável no rosto. O vento soprou frio, causando um tremor em Anne, que olhou para o horizonte e notou as nuvens negras cobrir o céu. — Jamais imaginei que pudesse desejar tanto uma mulher. — O modo como disse soou mais como um lamento. Anne nunca tinha conhecido um homem que a impressionasse tanto quanto seu marido. — Talvez eu ainda não saiba ao certo. — Havia algo de malicioso em seus olhos. — Alguns homens pensam que sentir amor pela esposa é um destino pior do que a morte. A palavra "amor" a surpreendeu. Seu pai a amava. Ela amava a mãe e os irmãos. Mas amor entre um homem e uma mulher era algo negado à sua herança de bastarda. Entregar seu coração ao amor seria o mesmo que um convite à dor. Anne sabia disso, e mesmo assim seus sentimentos a dominaram. De repente, sentiu-se tão feliz que nem sabia ao certo se estava na Terra. Brodick olhava para o seu rosto com uma expressão cuidadosamente contida. Seus lábios se curvaram quando ele falou, tentando ocultar as emoções. — Veja o que você fez, moça. Roubou o meu coração. Agora terei de levá-la de volta para o meu castelo e mantê-la lá para sempre, do contrário definharei de tanto amor. 67


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Piscou para ela. — É assim que os escoceses fazem. Ficamos com o que roubamos. Em seguida, ele se levantou para ir buscar os cavalos. Amor. Tudo era surpreendente e ainda mais precioso do que Anne jamais pudera imaginar. Nenhum sonho juvenil jamais a teria preparado para aquelas sensações. Os anos sob o jugo de Philipa nunca pesaram tanto quanto naquele momento. Seus joelhos enfraqueceram e os ombros envergaram sob o peso do fardo. Amor... ao mesmo tempo um dom e uma maldição. Os rostos dos seus familiares surgiram em sua mente, enquanto seu coração pulsava pelo homem que voltava em sua direção. Ficar com Brodick e amá-lo significava abandonar a família a um destino cruel. Anne não tinha a menor idéia do que iria fazer. Nenhuma. Brodick puxou as rédeas do cavalo quando Sterling despontou no horizonte. Ele permaneceu imóvel por um momento olhando firme para as torres. — Temos companhia. — Acha mesmo? Brodick assentiu. E apontou na direção da torre mais distante. — Está vendo aquela bandeira? Não é minha nem de Druce. Olhando na direção indicada, Anne avistou uma bandeira azul e verde tremulando ao vento. — É da corte. A voz de Brodick soou grave, e isso era algo que ela entendia muito bem. Até mesmo os condes estavam sujeitos aos desejos do rei. Ele bateu com os joelhos para apressar o cavalo, e a égua saiu a galope para acompanhar. Brodick desceu da sela assim que entraram no pátio. Em seguida, aproximou-se para ajudar Anne a desmontar. — Vá descansar. Terminaremos o que começamos mais tarde. Descansar. Anne riu da sugestão, mas ele já estava se afastando, seguindo na direção do seu secretário, que se encontrava parado nos degraus, esperando. Nesse mesmo momento uma carruagem estalou ao entrar no pátio. — Aí está você, moça! — A voz de Helen esbanjava alegria. A senhora teve que esperar até que os animais parassem por completo antes que outro homem viesse abrir a traseira da carruagem. — Minha filha deu à luz um menino muito forte. É o meu primeiro neto. E foi batizado com o nome de Ian. Naquela noite. Anne entrou na sala de jantar e um calafrio de preocupação formigou em sua nuca ao perceber o clima que pairava no ar. Até mesmo Cullen, que normalmente era o mais despreocupado, parecia mais abatido. Druce se ocupava esmigalhando um pedaço de pão, enquanto seus pensamentos pareciam correr longe. Brodick acenou para ela, mas continuou refletindo, olhando para a caneca de cerveja. — Ele é um bastardo — reclamou Cullen, quebrando o silêncio. 68


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Druce grunhiu, soando como se tivesse concordado. A expressão de Brodick obscureceu ainda mais. — Isso não é o problema em questão. O tio dele tem acesso aos ouvidos do rei. Precisamos ser cuidadosos ao responder às acusações. — Os malditos invasores queimaram dúzias de casas. — Cullen parecia pronto para sacar a espada. Mas Brodick conteve a cólera do irmão com um menear de cabeça. — Gastei cinco semanas mandando-os de volta para casa. Ninguém sabe disso melhor do que eu, mas eles foram se queixar com o rei, dando a entender que nós os invadimos. James não vai tolerar isso de nenhum clã. Foi por isso que enviou os seus homens, para mostrar que está de olhos atentos. — Isto tudo não passa de pura bobagem. Foram os McQuade que invadiram as nossas terras. — Druce engoliu o pão junto de um gole de cerveja. — Vou até a corte para resolver de vez essa pendência. Brodick assentiu, mas a sua expressão continuava obscura. Quando pousou o olhar sobre Anne, franziu o cenho. — Sinto muito, querida, pela péssima companhia que está tendo à mesa de jantar. — Pelo que parece ser um bom motivo. Com uma mão, Brodick encobriu a dela. — Certamente proteger as terras McJames é mesmo um bom motivo. Mesmo assim não anseio partir para a corte. Houve uma comoção no outro extremo da sala, quando cinco homens surgiram e exigiram que alguns soldados cedessem os assentos para eles. Apesar de também estarem trajando kilts, usavam gibão por cima das camisas, e as cores do xadrez de seus trajes eram azul e verde. Os soldados McJames olharam para Brodick em busca de comando, mas estava mais do que claro que eles queriam mesmo era testar os punhos nos recém-chegados. O conde fez um sinal com a cabeça, e os soldados cederam os assentos. Os recém-chegados zombaram antes de assumirem os lugares. — Vejo que tem hóspedes. — Anne observou o grupo com desdém. — E são muito rudes. — Sim. O tipo de companhia que eu poderia passar sem — Brodick resmungou. Druce lançou um olhar penetrante na direção dos intrusos. — Todos nós poderíamos. Malditos cães reais. Estão aqui para nos fazer dançar de acordo com a música de James, e tudo porque estávamos defendendo as nossas terras. Os enviados do rei gritaram, batendo as canecas sobre a mesa. Nenhuma criada ergueu os olhos. — Agora sim está linda. — Helen se virou ao terminar de arrumar a Anne. Em seguida colocou mais uma tora na lareira. — Bem, eu vou me retirar para que espere pelo seu marido. Tenha uma boa noite. Esperar para confessar... Anne engoliu em seco, tentando manter a determinação de fazer o que prometera 69


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para si mesma. Não havia como retardar aquele momento. Teria de encontrar coragem para confiar no amor que Brodick tinha lhe oferecido. O tempo estava se esgotando. Além do mais, não podia continuar enganando o homem a quem havia aprendido a amar. As velas queimaram até o fim e a lareira se tornou uma cama de cinzas esbranquiçadas. Mas o calor a convidou a se acomodar muito antes que o quarto ficasse escuro. Anne despertou ao amanhecer. Estava sozinha na cama. Um pedaço de tecido escarlate chamou sua atenção, apesar da pouca luz. Ela se levantou da cama e abriu as cortinas para que os primeiros raios de sol iluminassem o ambiente. Havia uma caixa embrulhada com um tecido de seda; sobre ela, uma carta com o lacre de cera e o símbolo do conde McJames. Com mão trêmula, Anne apanhou a carta. Querida esposa, E com dor que parto para a corte, atendendo a um chamado real. Tenha certeza de que somente um rei tem o poder de me tirar do seu lado. Escreva para mim... Suas cartas me darão forças. Brodick Nunca em toda a sua vida ela havia recebido uma carta de amor. Anne colocou a carta de lado e abriu o embrulho de seda para encontrar uma caixa de madeira entalhada com habilidade. Duas dobradiças prendiam a tampa. Ali dentro, havia folhas de papel, um pequeno tinteiro e um mata-borrão de cortiça. Ao lado do tinteiro, duas penas. Havia também uma tira de cera escarlate e um sinete de latão. Quando ergueu o sinete, deparou com o leão dos McJames, representando o conde. Era um presente digno da senhora do castelo. — Pensei ter ouvido a senhora andando pelo quarto — Helen saudou Anne com sua costumeira alegria matinal. — Vejo que encontrou a carta de milorde. Ele estava muito aborrecido por ter de partir. Mas aqueles sapos da corte não quiseram esperar mais nenhum minuto. Anne perdeu o foco, e a voz de Helen ficou perdida ao fundo. Seu estômago revirou e o suor brotou de sua testa. Não havia como conter a náusea. — Não sei o que anda me acontecendo. Agora Helen passava uma toalha úmida em sua testa. — Tragam um pouco de pão. Rápido. — A experiente senhora estalou os dedos para uma das criadas, que saiu apressada e sorridente. Anne olhou na direção da porta, tentando entender por que a moça estava tão feliz. Doença em um castelo era motivo de alarme, e não de alegria. — Que pena que o conde tenha sido chamado na corte. — Helen estava praticamente dançando. — Mas é melhor agora do que quando chegar a sua hora. — Minha hora? — indagou Anne. Helen se virou, a confusão estampada em seu rosto. — Claro, esqueci que a senhora é recém-casada. E que união abençoada a sua! A senhora nem chegou a ter uma regra desde que deixou a Inglaterra, não é mesmo? 70


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Era verdade. Anne arregalou os olhos. O rosto asqueroso de Philipa permeou seus pensamentos. Ela estava grávida. Ficou desesperada ao constatar que agora teria de pensar por uma criança inocente também. — Não fique assim. Este é um momento de alegria. Há muito tempo esperamos por esse dia. Mal posso esperar para ver a sua barriga grande e redonda. Helen continuou falando, e Anne tentou sentir o pequeno ser que crescia em seu ventre. Então, uma onda de horror inundou seu coração. Não podia condenar o filho a nascer como um bastardo. Se ficasse em Sterling, era isso que iria acontecer. Lágrimas desceram copiosas por suas faces. Não poderia confessar quem era. Não agora. Nem nunca. Chegar à corte escocesa não era uma tarefa fácil. Brodick levou cinco dias só para conseguir um lugar para recostar a cabeça. Quando o rei se encontrava na cidade, a maioria das casas melhores era alugada, e os McJames não mantinham uma casa na cidade. Seu pai também evitara a corte. Somente quatro dias depois da sua chegada que ele finalmente ficou pronto para se apresentar ao rei. Se tivesse tentado antes, teria sido perda de tempo. A primeira coisa a ser feita era enviar um bilhete formal para o arauto do rei, avisando que já se encontrava na cidade, como solicitado. James Stewart tinha sido criado por cortesãos. Sua mãe perdera a cabeça anos antes no castelo inglês. Por uma ironia do destino, fora feito herdeiro do trono de Elizabeth Tudor, a rainha que havia assinado a ordem de execução de sua mãe. Mas isso não parecia importar muito agora. Brodick caminhou até a antessala principal e deparou com uma multidão de embaixadores de todas as partes do mundo. Línguas estrangeiras se misturavam no salão: português, francês, italiano e até mesmo espanhol. — Pelo visto, nós, escoceses, ganhamos um pouco mais de prestígio desde a última vez em que estivemos aqui — disse Druce, olhando ao redor. — Isso explica por que James está tão preocupado com as invasões — declarou Brodick. — Sim, explica. Eles paralisaram quando McQuade entrou no salão. O homem parou junto de seus soldados, olhando feio para todos os outros que aguardavam para ser recebidos pelo rei. Os guardas reais guardavam a porta enquanto todos esperavam que o arauto anunciasse seus nomes. — McQuade, cão ladrão! — Calma, Cullen — advertiu Brodick. — Estamos aqui para provar que não começamos a briga. Druce deu um tapinha nas costas de Cullen. — Qual o problema, rapaz? Não gostou de ver a cara do seu futuro sogro? — Será que perdi algo importante? — Brodick observou o bufar do irmão, que dessa vez, inusitadamente, permaneceu de boca fechada. 71


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O camareiro-mor bateu o bastão três vezes no chão. Todos ficaram em silêncio. — Sua Majestade receberá os condes McQuade e McJames. Um rumor de frustração se espalhou entre os homens que não ouviram seus nomes. Brodick seguiu em frente, ansioso por ver o rei e partir dali o quanto antes. Não tinha nenhuma intenção de permanecer além do necessário. Os guardas descruzaram as lanças para que ele e seus homens pudessem passar para a outra sala, que era decorada com bandeiras da casa real. Lá dentro havia três damas, usando vestidos de veludo e seda. Brodick se apoiou sobre um joelho, Cullen e Druce imitaram o gesto. — Vossa Majestade. James Stewart estava sentado em um trono na ponta de um tapete vermelho. — McJames e McQuade acompanhem-me até a minha sala privada. Tragam dois homens cada um. McQuade lançou um sorriso sinistro para Brodick. O homem do outro clã se apoiou sobre um dos joelhos, assim como o conde tinha feito. O rei se levantou e deixou o trono. Brodick se ergueu e encarou os inimigos. — Veio chorar aos pés do rei, McQuade? Sempre soube que você era um bastardo chorão que não sabe perder. Como seu pai. — E você é o filho de um ladrão que espera até que um homem esteja com a cabeça cheia de bebida para só então desafiá-lo numa jogada de esperteza — retrucou o outro. — Meu pai costumava dizer que eu me pareço muito com minha mãe. Uma vez que a conheceu, não concorda com ele? — Ela era minha — vociferou McQuade, cuspindo no chão. — Isso não é verdade, e nós somos as provas vivas de que ela pertenceu ao nosso pai — zombou Cullen, mexendo em uma mecha de cabelos claros como os de sua genitora. — Bem, agora veremos quem ficará com a última palavra. Ele seguiu o rei para a câmara privada. Druce deu outro tapinha no ombro de Cullen. — Belo começo. — Achou mesmo? — Cullen torceu o nariz. Druce inclinou a cabeça para o lado para sussurrar no ouvido do primo. — Acho que seremos uma grande família feliz depois que você conseguir domar Bronwyn. Os dois se encararam com os punhos cerrados. Mas não houve tempo para mais discussões depois que eles ficaram diante do rei e mais uma vez de joelhos. — Levantem-se. James Stewart olhou para McQuade primeiro e depois para Brodick. — McJames, explique por que o senhor feriu vários homens dos McQuade no mês passado. — Porque os apanhei ateando fogo nas casas das minhas terras. 72


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— Isso não é verdade! — exclamou McQuade. — É, sim. Vi isso com os meus próprios olhos — Druce intercedeu, avançando um passo. O rei ergueu uma mão, dirigindo-se para Druce. — O senhor jura? — Juro por tudo o que há de mais sagrado. Eu estava em Sterling para a comemoração do casamento do meu primo. Saí com Brodick e vi as tochas. McQuade não mostrou nenhum sinal de arrependimento. Pelo contrário, o rosto do homem estava iluminado de satisfação. — O que farei com você, McQuade? — James se sentou. — Neste momento os olhos do mundo estão voltados para a Escócia. Não temos tempo para invasões e antigas rixas por causa de uma noiva perdida. — Quero uma parte do dote de volta. Isso irá me satisfazer — McQuade balançou a cabeça. — Você se casou com outra mulher que lhe deu um bom dote. — Mas não me deu terras. Quero as terras que eram minhas de direito — McQuade gritou. — Não há nenhuma possibilidade de isso acontecer. — Brodick já não estava mais calmo como antes. — Você me arrastou até aqui sem justificava. Seus homens invadiram as minhas terras, e tudo o que eu fiz foi mandá-los de volta chorando para casa como o líder deles. — Basta! James se levantou e apontou para McQuade. — Você me fez perder tempo, homem, e não tolerarei isso. As terras ficam com os herdeiros de direito. Não haverá mais discussões por causa de um acordo selado pelo pai de uma noiva trinta anos atrás. Sugiro que arranje bons casamentos para seus filhos, se quer tanto ampliar suas terras. — Mas aquele bastardo se casou com a inglesa que iria dobrar as minhas propriedades. — McQuade agitou o punho no ar. — Eu quero aquelas terras. — Eu já disse que o assunto está encerrado. — O rei impôs sua autoridade com firmeza. Em seguida, olhou para Brodick. — Sua esposa inglesa já se encontra sob o seu teto? Brodick ergueu o queixo tão alto quanto o de McQuade, apesar da emoção muito distinta. — Sim, há três meses. O rei permaneceu calado por um longo momento. — Viu? — McQuade se aproximou do rei. — Viu como ele ousa desafiá-lo? — Isso não é verdade. — Brodick encarou McQuade. — Cuidado com os seus insultos, homem. Não sou um traidor e não ouvirei nenhum homem insinuando o contrário. — Basta! Os guardas do rei reforçaram a ordem do monarca apontando as lanças de maneira ameaçadora. 73


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— Os dois permanecerão na corte durante todo o verão. Não tenho tempo a perder com brigas de vizinhos. — Minha esposa está esperando um filho. O rei ergueu uma sobrancelha ao ouvir o que Brodick tinha acabado de dizer. — Se ela está com o ventre ocupado, então não vai precisar de você tão cedo. Você fica, McJames. Brodick cerrou os punhos. Nem mesmo os guardas do rei atenuaram sua ira. — Preciso de você aqui, McJames. Esta corte está repleta de histórias de lordes que querem continuar invadindo uns aos outros. Seu raciocínio claro será bem-vindo. — James apontou um dedo para ele. — Meu rei... — Tenho dito, homem. — A voz de James se ergueu como um decreto real. — Você irá me servir durante o verão. Depois o mandarei de volta para que esteja presente no nascimento do seu filho. McQuade tentou se esquivar. — Quanto a você, McQuade, permaneça na outra sala esperando pelas minhas ordens. — Vossa Majestade... — Acate o que eu digo, homem. Eu sou o seu rei e não gostei nada de ouvi-lo contando histórias no meu ouvido como se fosse um chorão. Há vários homens lá fora esperando para resolver problemas sérios. E não uma disputa antiga por causa de uma noiva perdida há décadas. Roubar noivas é tão escocês quanto um kilt. Você deveria ter planejado seu casamento em surdina, se não queria que alguém tentasse roubá-la antes da consumação. James ergueu o queixo com todo o orgulho de um rei. — Agora vá. E é melhor que esteja me esperando na outra sala quando a sua presença for solicitada. — Isto é um insulto, mesmo vindo de um rei. James o encarou. — Mas é bem melhor do que ser mandado para a prisão por ter levantado falso testemunho contra o seu vizinho. McQuade deixou a câmara, cabisbaixo. — Aquele homem vai persegui-lo até seus últimos dias. — James balançou a cabeça. — Não resta dúvida de que ele criou os filhos para odiá-lo também. Foi bom você não ter esparramado aos quatro ventos sobre a negociação do seu casamento. Se McQuade tivesse ficado sabendo, poderia ter tentado roubar a sua futura esposa. — Com certeza teria tentado — disse Brodick. James riu. — Bem, mudando de assunto, existem muitos homens que não me querem no trono da Inglaterra. Realmente preciso de você. Temos delegações vindas de todas as casas reais da Europa. Neste verão quero contar com todos os nobres escoceses na corte. — O rei o encarou com um olhar firme. — Preciso de você aqui, e manterei McQuade sob rédea curte para que você não tenha que se preocupar com o seu povo. — E quanto aos filhos de McQuade? — Druce perguntou. O rei assentiu. — Eu os convocarei para esperar ao lado do pai. Mas não posso prometer que isso 74


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irá impedir que eles voltem a invadi-los no outono. — Não preciso de ajuda para mandá-los de volta para casa. — Brodick olhou para Druce e Cullen. Os dois sorriram satisfeitos. — Mas eu preciso de você aqui, McJames — repetiu o rei. Servir o rei era uma honra. Isso, porém, significava ficar longe de Sterling. Brodick escondeu seu descontentamento. A única coisa que o incomodava era o fato de que sua esposa não tinha lhe escrito para dar as boas novas sobre o filho que esperavam. A carta que Anne lhe escrevera tinha sido gentil e suave. Mas não anunciava a novidade. Esta tinha vindo em uma segunda carta escrita por Helen. Ele não sentiu nenhum remorso por ter pedido à criada que lhe escrevesse em segredo, e assim o mantivesse informado. Desse modo não haveria surpresa quando voltasse para casa. Precisava assegurar-se de que a esposa estava sendo bem cuidada. Havia algo de estranho no ar, mas Brodick não conseguia determinar do que se tratava. A única certeza era aquele pressentimento que ocorre a um guerreiro que sabe que está prestes a ser atacado. Mas, por enquanto, iria servir ao seu rei. Esse era o dever de um McJames. — Já estou cansada, mamãe! Vou enlouquecer se for obrigada a agüentar muito mais neste confinamento. Mary Spencer caminhava em círculos. Torceu o nariz ao pegar na manga do vestido. — Odeio esta lã grosseira. Fede a carneiro. Quero meu vestido de veludo preto de volta. Já faz uma eternidade que aquele escocês levou Anne embora. — Faz apenas sete meses. — Philipa soou cansada. — Sete meses e meio. Já estamos no meio do verão. — Mesmo assim, ainda não passou tempo suficiente. Mary resmungou. Philipa esfregou a testa. Já estava farta das exigências dos homens e não se importava mais se a Igreja pregava que esse era o seu dever como esposa. — Não tema, minha ovelhinha. Nosso plano está dando certo. Mais algumas semanas e tudo terá terminado. — Mas, e se Anne não estiver esperando um filho? — É melhor que ela esteja. Philipa sentiu seus ânimos se alterando. Ah, como iria adorar descarregar toda a sua ira sobre os ombros de Ivy Copper e seus bastardos. Era melhor que Anne estivesse esperando um filho. Pois seria muito arriscado permitir que a garota passasse mais tempo na casa do escocês. Os criados já estavam comentando. Anne resmungou ao tropeçar no vestido. Puxando com as duas mãos, ela ergueu a barra do caminho de seus pés. Agora que sua barriga estava enorme, sem um cinto, a barra do vestido arrastava no chão cada vez que ela se abaixava. Isso era frustrante, pois se sentia maravilhosamente bem e não queria ser obrigada a diminuir o ritmo só por 75


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causa das roupas. — Cerque o bando do outro lado, Ginny. Corra! Anne correu para o lado oposto, agitando a túnica no ar para reunir os gansos no cercado. Estava na hora de lavá-los e remover a penugem que havia crescido durante o inverno. O bebê chutou, e Anne acariciou a barriga arredondada. Nesse momento os sinos badalaram. Seus batimentos cardíacos dispararam, quando olhou na direção ao castelo. Uma nuvem de poeira se erguia na estrada, e ela desejou que fosse seu marido regressando. — A senhora precisa voltar para a proteção das muralhas do castelo. Um dos capitães estava sempre ao seu lado quando Anne deixava Sterling. Ela viu que o homem olhava preocupado para os cavaleiros que se aproximavam. — Perdoe-me, senhora, mas precisamos entrar agora. Anne já tinha transposto os portões do castelo em segurança quando os cavaleiros finalmente se tornaram visíveis. Um calafrio percorreu sua espinha, e o bebê chutou no momento em que eles se aproximaram o suficiente para que a bandeira do condado de Warwick pudesse ser identificada. Uma onda de horror perpassou todo o seu corpo, roubando-lhe o fôlego. Mas o pior ainda estava por vir. O homem que liderava o grupo removeu o capacete e balançou os cabelos longos. Aquele era um rosto que Anne desejava ter esquecido. Cameron Yeoman era um homem temido, braço direito de Philipa que mantinha sob rédeas curtas e à custa de muita brutalidade os criados de Warwick. Ele olhou diretamente para Anne, e seus olhos pousaram sobre a barriga enorme. — Bom dia, milady. Sua mãe, lady Philipa, envia saudações. Anne empalideceu. Dando uma risada maldosa, Cameron acenou para que um cavalo se aproximasse. Era Bonnie, sua irmã, que, com olhos amedrontados, cavalgava ao lado do homem forte de Philipa. — Eu trouxe uma carta para a senhora. Lady Philipa me encarregou de entregá-la pessoalmente. Anne desceu o mais rápido que pôde os degraus, apesar de sua barriga, pois não podia suportar o medo de ver sua doce irmã junto daquele monstro. Mais de uma criada de Warwick tinha sofrido algum tipo de abuso por parte dele. Bonnie alcançou uma bolsa de couro de onde tirou uma carta. Anne apanhou a carta, mas estava mais determinada a afastar a irmã do acompanhante. Cameron encarou a barriga novamente, com um sorriso torto nos lábios. — Desça do cavalo, Bonnie — ela ordenou. — Espere. — Cameron ergueu uma mão. O capitão Murry, encarregado da segurança de Anne, havia ficado do lado de fora dos portões, deixando-a à mercê dos visitantes. Até mesmo Helen voltara o trabalho. Todos pareciam querer garantir a sua privacidade para falar com os visitantes, pensando que estavam sendo gentis. Cameron sacou uma folha de papel de dentro do colete. — Isto é um contrato de casamento que me concede plenos direitos sobre a sua doce irmã. Você pode dizer o que quiser, mas nenhum homem neste castelo irá me negar os direitos que tenho sobre minha esposa. 76


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— Não... Ela tem apenas quinze anos! — Pelo visto, compreendeu muito bem a situação. Além do mais, confesso que gosto mais das meninas. — Depravação dançava nos olhos perversos. Ele lambeu o lábio inferior, divertindo-se com a situação. Anne não queria ler as palavras de Philipa, mas ver Bonnie envolvida na trama não lhe dava outra opção. — Seus irmãos serão mandados para o Novo Mundo caso você não volte comigo. Isso era o mesmo que uma sentença de morte. Muitos dos homens e mulheres enviados para o Novo Mundo tinham desaparecido, sem que o destino de cada um jamais fosse descoberto. A carta em suas mãos confirmou as palavras de Cameron. Realmente acredita que seu filho será mais aceito do que você é em Warwick? Volte e deixe que a criança seja aceita como se fosse de Mary. Só assim seu filho será reconhecido como legítimo. Para você, será uma dádiva saber que a criança poderá usufruir todos os confortos que você experimentou como senhora de Sterling. Pense bem antes de se esconder atrás da fronteira escocesa. Philipa foi cruel, mas tinha escrito a verdade. Ainda que Brodick não a colocasse para fora, seu filho iria carregar a pecha de ter nascido bastardo. Anne estremeceu, esfregando a barriga carinhosamente. Não havia alternativa senão fazer o que fosse melhor para o bebê. O inocente que crescia dentro de seu ventre poderia ser tão respeitável quanto o pai ou desprezado como ela. Anne não podia colocar sua própria vida acima da do seu filho. Não poderia haver alegria em seu coração se soubesse que a sua felicidade tinha sido comprada com o sofrimento dos seus parentes. — Há um vale abaixo do castelo que não pode ser visto do alto da muralha. Espere por mim lá. Cameron resmungou, mas Anne se afastou sem esperar por uma resposta. — Sinto muito que o senhor não possa ficar para o jantar. Obrigada por ter trazido Bonnie em segurança — declarou ao voltar para o castelo com a cabeça erguida com altivez. Cameron fez uma careta, mas disfarçou quando Helen se aproximou. — A jovem vai ficar? — Vai, sim. Capitão Murry, o senhor poderia ajudá-la a desmontar? O capitão se virou e cruzou calmamente o pátio. Quando aproximou-se de Bonnie, Anne respirou aliviada. Os homens de Cameron olhavam para o líder, aguardando pelas ordens. Mas este encarava Anne enquanto guardava a licença de casamento de volta no alforje, mostrando que possuía uma arma. — Desejo-lhe uma boa viagem. — Anne encarou Cameron. Ele olhou para Bonnie, mas virou o rosto quanto Anne se colocou na frente da irmã. Em seguida, Cameron subiu na sela e com um último olhar frio deu meia-volta e apanhou as rédeas da égua de Bonnie. — Ele voltará para me buscar — Bonnie disse num sussurro. — Prometeu... Prometeu que vai fazer coisas terríveis comigo. — Não pense nisso — Anne sussurrou de volta no ouvido da irmã, enquanto Helen 77


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observava desconfiada. — Pobre criança, seu rosto diz que você não dormiu nada na noite passada. Anne agradeceu a distração. — Sim, pelo visto viajar não agradou à pequena Bonnie. Você poderia levá-la para a casa de banho, por favor, Helen? Creio que ela esteja precisando de um pouco do conforto das suas mãos habilidosas. — Mas... — Bonnie começou. — Acalme-se, querida. Não existe ninguém melhor do que Helen para isso. Ela tem cuidado muito bem de mim. Tão bem que quase me sinto culpada. Helen se inclinou diante do elogio e com carinho tomou a mão de Bonnie. Anne as seguiu, mas continuou rumo ao quarto do segundo andar que tinha sido seu por tão pouco tempo. Nunca mais se esqueceria daquelas paredes, muito menos do odor... Lágrimas embaçavam seus olhos. No fundo do coração, sabia que seria melhor encarar Philipa a ver Bonnie indo embora com Cameron. A Igreja tinha mais autoridade do que a rainha Elizabeth ou o rei James. Uma licença de casamento seria respeitada nos dois países. Mesmo que o capitão da guarda de McJames não aprovasse a união, ele não poderia evitar que Cameron levasse Bonnie. Anne olhou para a cama, e mais lágrimas desceram. Mas dessa vez estava feliz. Passando a mão sobre o ventre, sorriu pensando nos momentos alegres ali vividos. Lembranças que ninguém poderia roubar. Pegou um travesseiro e o colocou embaixo da colcha para parecer que havia alguém dormindo. Em seguida, fechou o cortinado, deixando apenas uma pequena abertura no pé da cama. Precisava de tempo para se afastar o suficiente de Sterling. Os soldados do clã McJames não poderiam cruzar a fronteira sem a liderança de Brodick. Anne se sentou e escreveu uma última carta para o marido. Contou sobre a criança e quanto estava feliz por isso. Selou a carta, confiante de que seu filho poderia retornar a Sterling e ao seu lugar de direito. Esse era o maior presente que uma mãe poderia oferecer. Era o motivo que costumava levar muitas jovens nobres a se casar sem amor. A noção de que o filho poderia ter uma vida melhor. Por fim, colocou uma capa por cima do vestido e saiu. O pátio estava movimentado. Mas era dos olhos atentos do jovem capitão que Anne precisava escapar. Ele estava ensinando um rapaz a usar arco e flecha. Ela saiu correndo pelo portão enquanto o capitão estava distraído. Se a sorte a ajudasse, ele nunca iria saber que ela deixara seu quarto. Havia muitas pessoas e carruagens na estrada. Ela era apenas mais uma andando entre os outros. Os sinos não tocaram. Anne continuou caminhando, feliz em saber que Bonnie estava segura. O bebê chutou, e ela apressou o passo, determinada a garantir que ele iria nascer como um filho legítimo, e não como um bastado. Cameron apressou seus homens para que viajassem durante a noite. A jornada tinha sido rápida, uma vez que boa parte do caminho de volta era descida. Anne não se importou, pois não conseguiria dormir de qualquer maneira. O grupo cruzou a fronteira inglesa ao amanhecer. Na noite daquele mesmo, dia ela estaria diante de Philipa novamente. 78


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Helen gritou desesperada pela primeira vez em anos. A mulher escancarou as cortinas ao redor da cama, em busca da senhora. Não fazia sentido! As criadas saíram apressadas de seus aposentos, os gritos despertando a todos que dormiam. Os soldados correram para o pátio, a princípio hesitantes, até perceber que o tumulto vinha do quarto da senhora. — Lady Mary desapareceu! — Helen gritou, puxando os cabelos. — Não sei como. Ela arrumou a cama para parecer que estava dormindo lá. Eu deveria ter verificado antes. — Você não pode se culpar — a voz suave de Bonnie chamou a atenção de todos. Ela estava parada à porta, o rosto brilhando de lágrimas. — Philipa sempre a odiou mais do que a qualquer outra pessoa. — A mocinha estremeceu e cruzou os braços ao redor do próprio corpo. — Minha irmã tem uma boa alma, sempre pensa nos outros em primeiro lugar. O capitão Murry a segurou pelo braço. — Conte-me onde está a senhora. Bonnie se encolheu e tentou se desvencilhar. — Não me machuque. Por favor, não me machuque. — Eu a soltarei se me contar o que está acontecendo aqui. Bonnie balançou a cabeça. O capitão soltou-a, mas se colocou entre ela e a porta, deixando claro que iria conseguir o que estava querendo. — Lady Philipa deu ordens para que minha irmã voltasse para o condado de Warwick, do contrário nossos irmãos seriam mandados para o Novo Mundo. — Isso é loucura. Não há nada do outro lado do oceano além da morte para aqueles que são tolos o bastante para navegar até lá. — Helen balançou a cabeça e fez o sinal da cruz. — Foi por isso que minha irmã partiu, pois sabe que lady Philipa teria coragem de cumprir o que prometeu. O capitão ergueu uma mão, pedindo silêncio. — Você disse irmãos? Bonnie assentiu. — Somos duas irmãs e três irmãos, filhos da amante do conde de Warwick. Lady Philipa enviou Anne no lugar da filha dela para conceber uma criança, pois Mary não queria se casar. Anne recebeu ordens para voltar quando estivesse grávida, ou Philipa iria pôr nossa mãe na rua. Como Anne não voltou, lady Philipa ficou furiosa e enviou Cameron para cá com uma nova ameaça, caso minha irmã não obedecesse. Antes, porém, lady Philipa obrigou-me a casar com Cameron, já que sabia que Anne iria me proteger, como sempre fez. — Lágrimas banharam o rosto de Bonnie. Helen ficou pálida e berrou como um urso raivoso: — Capitão Murry, traga a senhora de volta! O capitão pareceu incerto. Ele olhou para Bonnie e então para Helen. — Se ela não é a filha legítima do conde de Warwick, então não é a esposa do conde Alcaon. — Não é esposa? Você é surdo, homem? Ela está esperando um filho do lorde! — Um bastardo — uma das criadas deixou escapar. Helen se virou como um furacão. 79


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— Ela era pura quando o lorde a tomou. Assim como também é filha do conde de Warwick. Escrevam as minhas palavras. A filha legítima é quem irá sofrer por não ter assumido o seu lugar. A esposa do conde enviou Anne como se fosse a noiva. As duas são filhas do conde, o registro do casamento será levado para a corte, pois o nosso lorde foi enganado. A Igreja anulará o primeiro casamento, e então o lorde poderá se casar com a mãe do seu filho. O capitão Murry assentiu, solenemente. — Entendo o que está pensando, Helen, mas existem muitos que irão discordar. — Não temos tempo para debates agora. Você precisa correr para alcançá-la. O capitão meneou a cabeça. — Eles já devem ter cruzado a fronteira inglesa. A senhora planejou tudo muito bem. Eu a teria alcançando se tivesse descoberto o desaparecimento ontem. Precisamos do conde para resolver esta questão. Eles não abrirão os portões do condado de Warwick para nós, muito menos irão admitir tal proeza agora que a prova já não está mais em nossas mãos. — Aquele bebê vai nascer em quinze dias — disse Helen. Murry parou à porta. — Então irei até a corte para avisar a milorde. Dito isso, ele deixou o quarto, seus homens o seguiram.

Capítulo V

— Você é uma vergonha — Philipa falou lentamente para que cada palavra causasse o impacto desejado. — Está mais do que claro que não se importa com ninguém além de si mesma. — A senhora de Warwick tirou uma carta da gaveta de sua escrivaninha com os olhos brilhando de triunfo. Anne permaneceu ereta, recusando-se a abaixar a cabeça. Pois nunca mais iria mostrar a obediência cega à senhora do castelo. O semblante de Philipa se contorceu ao perceber a afronta velada. — Foi uma boa idéia eu ter casado sua irmã para garantir o nosso acordo. O simples fato de ter escrito esta carta prova que você e seus irmãos são manchados pela falta de respeito que sua mãe mostrou ter por mim ao dar filhos ao meu marido. Anne sorriu. O gesto enfureceu ainda mais a condessa de Warwick, que ficou vermelha de raiva. — Minha irmã está na Escócia — Anne falou com ousadia. — O quê? Dei ordens para que ela voltasse com Cameron. — Se eu me preocupasse apenas comigo mesma, ainda estaria em Sterling, longe do seu alcance. — Cuidado com a língua, mocinha, sou a sua senhora. Anne não recuou. 80


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— Não mais. A senhora me mandou embora, me deu para outro nobre. Minha lealdade pertence ao lorde de Sterling agora. O medo se estampou no semblante de Philipa. A revelação pareceu tomá-la de surpresa. — Você deve obedecer a mim, bastarda! — Ou o quê? — Anne não iria mais segurar a língua. O fato de ter sido sempre obediente a Philipa não a recompensara de modo justo como a Igreja pregava. Manter-se no seu lugar não significava nada quando a senhora a quem ela oferecia lealdade não era justa nas compensações. Essa era a lição que Anne havia aprendido com Brodick. Ele era um líder porque considerava isso um dever, não um simples tributo herdado por causa do seu nome, e não por mérito. — Colocarei sua mãe para fora! — Talvez seja melhor mesmo que a senhora o faça. Assim, quando ela conseguir alcançar as terras do vizinho, será o fim desta farsa. Creio que meu pai não ficará nada satisfeito ao tomar conhecimento deste engodo. Philipa ergueu um dedo em riste, tentando impor a autoridade com um gesto firme. — Você fará tudo como eu mandei, bastarda! Anne pousou uma mão sobre a barriga. — Estou carregando o filho do conde de Alcaon. Se a senhora tiver uma boa índole, irá anular o casamento de minha irmã e enviar os meus irmãos para servirem na corte ao lado do lorde, nosso pai. Um nó tentou se formar na garganta de Anne, mas ela o suprimiu e continuou: — A senhora não terá meu filho a troco de nada. Meus irmãos não sabem nada sobre isso. Envie-os hoje mesmo para a corte. — Ou o que... bastarda? — Philipa escarneceu. — Você tem tanto a dizer, mas eu sou a senhora aqui. Os portões só serão abertos quando eu mandar. — Em seguida, uma bofetada atingiu o rosto de Anne. — Aqui é o seu lugar. E é melhor que esteja esperando um menino. Philipa se sentou em uma cadeira. Mary parou atrás da mãe. As duas realmente pareciam acreditar ser detentoras de muito poder. Mas elas não se comparavam a Brodick. — Você irá ocupar o meu solar até que o seu dia chegue. Serei benevolente e permitirei que sua mãe venha cuidar de você. É claro que se continuar insistindo em me desafiar, seu filho nascerá exatamente como você nasceu... Ilegítimo. — Estou aqui — Anne respondeu. O que mais havia para dizer? Philipa sabia o que estava falando. — Exatamente. Percebo que ainda restou alguma parte em você que não está totalmente encantada com a luxúria que aquele escocês deve ter despertado. Eu não tinha dúvida de que você iria gostar do contato carnal. É igualzinha à sua mãe. Afastá-la será a única maneira de convencermos todos que Mary deu à luz uma criança. Anne se recusou a fraquejar. Seu filho merecia nascer de acordo com a posição que lhe era de direito. Que Brodick a perdoasse... Anne mal percebera como os dias haviam se passado rapidamente. Estava 81


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ocupada bordando uma tapeçaria. Sua mãe escreveu uma lista e a entregou a Mary, que reclamou por ter que providenciar tudo como se fosse uma criada. Ivy permaneceu firme. Mary atirou um livro contra a parede do quarto. — Mãe, deve haver algum preparado que a senhora pode conseguir com a bruxa Ruth que faça aquela criança nascer hoje! — Pare de reclamar, Mary. Espere o dia chegar. — Philipa encarou a filha. — Só temos uma chance de garantir o seu casamento sem colocar a sua vida em risco. A criança precisa nascer saudável e forte. Para isso, não pode ser forçada a vir ao mundo antes do tempo. Ela espiou por detrás da cortina. Ao ver que estavam a sós, acenou para Mary. A filha se aproximou. — Ruth já cuidou de tudo. — Philipa ergueu uma mão e mostrou um pequeno jarro. Dentro, havia um mistura de folhas e cascas de árvores. Ela depositou o jarro sobre a penteadeira. — Misturada ao vinho, a poção mandará para o sono eterno a pessoa que o beber. Mary hesitou, mas uma expressão de selvagem alegria resplandeceu em seu semblante. — Depois que o bebê nascer, vamos servir um pouco de vinho para as duas... — Exatamente. — Philipa olhou para trás mais uma vez. Quando teve certeza de que Ivy e Anne não tinham ouvido, fez um afago no rosto da filha. — Logo tudo chegará ao fim. Mãe e filha trocaram um sorriso que era pura maldade. — Meu Deus, homem, você parece exausto. — Druce se levantou para oferecer a cadeira ao capitão Murry. O soldado McJames não aceitou o assento. Antes de se dirigir a Brodick, tocou na aba da boina. — A senhora foi levada para a Inglaterra. — Como? Foi impossível determinar qual homem tinha falado primeiro. As vozes de Brodick, Cullen e Druce reverberaram na pequena casa na cidade. O conde ergueu a mão, mostrando autoridade com o gesto. — Como pôde permitir que isso acontecesse? — Ela fugiu do castelo. Preparou a cama para que parecesse que estava dormindo. A fisionomia de Brodick se transformou. — Ainda tem mais, milorde, e não é nada bom — disse o capitão. Brodick ouviu com atenção. Ao final, balançou a cabeça sem conseguir acreditar em tudo o que acabara de escutar. Quem seria capaz de arquitetar um plano tão pérfido? Uma risada de escárnio veio do outro lado da sala. James Stewart deu um soco sobre o tampo da mesa. 82


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— Nunca imaginei que os ingleses fossem tão astutos. — Ele riu e ergueu a caneca de cerveja para Brodick. — Bem, meu amigo, suponho que queira partir imediatamente. Está liberado. Pode ir buscar sua esposa de volta. — Mas ela ainda é sua esposa, milorde? — O capitão Murry se curvou diante do rei, antes de se virar para fazer a pergunta. — Claro que é, homem! Está carregando meu filho. — Brodick encontrava-se em pé. Apanhou então a espada e a embainhou com um movimento rápido. — Sim. Concordo com isso. — Druce assentiu ao alcançar a própria espada. O rei pareceu pensativo por um longo momento. — Ela também é filha do conde de Warwick — explicou Brodick —, e foi a condessa de Warwick em pessoa que a enviou no lugar da outra filha. Disse que era a noiva que eu tinha ido buscar. James Stewart ergueu uma sobrancelha. — Você é um homem muito apaixonado, e eu o invejo por isso. — Ele se levantou. — Concordo com a validade do seu casamento. Mas vou lhe perguntar se ainda deseja ficar ao lado de uma mulher que mentiu para você. Brodick encarou o rei. — Ela não mentiu para mim, já que não disse nada. A condessa deveria ser açoitada por ter abusado da sua posição. — Entendo o seu ponto de vista, homem. Vá buscá-la de volta, e eu cuidarei para que o acordo do casamento seja honrado. Não havia mais nada a ser dito. Brodick deixou a sala acompanhado de Druce e Cullen. O conde subiu na sela com o coração martelando. O que você andou tramando, moça? Não importava. Ele era um McJames, e ela sua esposa. De acordo com as leis dos dois países e pelo direito de posse, iria trazê-la de volta. Anne despertou de mau humor e rejeitou o desjejum. Impaciente, andou um pouco pelo solar. Resolveu retornar o trabalho de tapeçaria; a trama de fios de seda havia trazido Brodick à vida em todo o seu esplendor. Sua mãe estava mais quieta do que de costume nessa manhã, tricotando absorta. Olhando de volta para a tapeçaria, Anne sentiu um calafrio. Foi como se tivesse ouvido o conde cavalgando ao seu encontro. O que era bobagem. Ele virá buscá-la... As doces palavras de Bonnie ecoaram em sua mente. Parecia que elas tinham compartilhado daquele momento havia muito tempo. Seu corpo estremeceu ao lembrar-se da partida de seu pai naquela manhã. O suor brotara de sua testa enquanto ouvira Bonnie falando sobre o filho que ela teria no outono. Através das janelas, dava para ver as folhas avermelhadas. Fardos de cevada aguardavam nos campos, secando nos últimos dias quentes da estação. Anne sentia-se tão solitária... A visão da tapeçaria lhe deu vontade de chorar. Mais uma vez voltou a andar pelo quarto, mas parou ao ser acometida por uma forte contração. De repente, um líquido quente desceu por entre suas coxas. 83


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— Acho que chegou a sua hora, filha. — Ivy se ajoelhou para secar a poça. — Não se preocupe, é assim mesmo. Isso é normal. Anne nem teve tempo de questionar a calma confirmação de Ivy. Sentiu outra contração bem mais forte. Deitou-se, sentindo a dor por todo o corpo. — Inspire e solte o ar lentamente, Anne. Vai fazer bem para a criança. De repente, a cortina se moveu e Mary espiou. — Chegou a hora? Mary não esperou pela resposta de Ivy. Seus olhos brilharam de alegria ao gritar: — Mamãe, mamãe... chegou a hora! Pouco depois, Philipa olhou para dentro do quarto enquanto Anne se erguia. — Vou mandar a cozinheira esquentar água — disse Ivy. — Ótimo — Philipa assentiu. — E controle os gritos, garota, do contrário não conseguirei convencer os criados de que foi Mary quem deu à luz. — Não é hora para ameaças. Teremos muito trabalho pela frente. Parto não é algo fácil. Philipa ficou surpresa com a reação de Ivy. — Não é mesmo. — Por uma fração de segundo uma fagulha de compaixão brilhou nos olhos da senhora, porém morreu rapidamente, e a cortina voltou ao seu lugar. — Mulher amarga e venenosa! — Ivy blasfemou enquanto arrumava os itens que haviam trazido para o quarto. — Não dê atenção a ela, Anne. — Está na hora... está na hora! Mary saiu girando pelo quarto adjacente como se estivesse dançando. — Oh, mamãe, a senhora estava certa! Philipa sentiu uma mistura de contentamento e triunfo. Mary nunca teria de passar pelas coisas a que ela fora forçada quando seu pai a tinha obrigado a se casar. Havia conseguido dar à sua filha uma vida melhor do que aquela que tivera. Esse era o maior presente que uma mãe poderia dar. — Venha aqui, Toby, e me dê uma mão. Joyce ralhou com o filho quando o viu espiando os guardas no pátio abaixo. O tilintar de espadas penetrava através da janela, atraindo a atenção do garoto. Ele passaria a tarde toda observando o treinamento se a mãe permitisse. — Posso ser um cavaleiro, mamãe? — Se um ou dois santos forem bons com você, abençoando-o com força e habilidade, quem sabe... — Sorrindo, Joyce beijou o alto da cabeça do filho. — Precisamos dar um jeito de colocá-lo no caminho do capitão para que ele veja o quanto você está crescendo forte e saudável. E deve olhar diretamente nos olhos do capitão para ele saber que você tem coragem. Toby sorriu. — Mas isso é para mais tarde. Milady vai precisar da água quente, e depois será hora de colocar o jantar na mesa. Por enquanto, você terá de ficar na cozinha com sua 84


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mãe. Joyce se virou para cuidar de seus afazeres. Bateu palmas e depois balançou a grande colher de pau para as criadas. Preguiçosas, elas se aproveitavam da sua boa vontade quando o filho caçula estava por perto. — Coloquem o vinho para aquecer antes que a senhora peça. O som que se seguiu foi o de panelas de cobre, enquanto o carvão era cutucado e o vinho colocado para aquecer. Toby esperou, e então seguiu levando a bandeja com todo o cuidado. Ele ergueu a pesada argola da porta e deixou-a cair sobre a madeira. Pouco depois, a porta se abriu. — Vinho quente, senhora. — Não fique parado aí esperando esfriar. Toby entrou apressado no quarto. — Não se esqueça de levar a bandeja com os restos e a louça suja. O garoto recolheu os guardanapos sujos que estavam sobre a mesa. Em seguida, colocou tudo sobre a bandeja e tomou o cuidado de recolher o pesado cálice de prata também, para que fosse limpo. Ao pegar a bandeja, viu um pequeno jarro ao lado de um livro. O jarro estava cheio de ervas e claramente pertencia à cozinha. Então o colocou entre os guardanapos usados. Ouviu-se um gemido detrás de um cortinado. Curioso, Toby ergueu os olhos, perguntando-se quem estaria no solar. Algo se quebrou às suas costas. A senhora franziu o cenho ao ver seu jarro de vinho caído no chão. — Limpe isso e traga mais vinho! Usando os guardanapos, Toby enxugou o vinho antes de se retirar. Joyce não estava quando ele entrou na cozinha. Molly o olhou trazendo a bandeja de volta. — Milady quer mais vinho quente — ele disse. — Espere até que eu aqueça mais. — Posso olhar os cavaleiros praticando enquanto espero? — Pode. O menino saiu correndo rumo à janela, um sorriso feliz em seu rosto. Ao limpar a bandeja, Molly encontrou o pequeno jarro trazido do quarto. Tirou a tampa e cheirou o conteúdo. O odor não era nada agradável, mas certamente a senhora havia mandado o líquido com Toby para que fosse adicionado ao vinho. Ela coou o líquido escuro em um pano limpo e despejou sobre o vinho que aquecia. Provavelmente, tratavase de algum preparado para aliviar a dor de cabeça que acometera a senhora nas últimas semanas, impedindo-a de sair do quarto. — Toby, o vinho está pronto. O garoto veio correndo para pegar a bandeja e a levou para a senhora. — Deixe aqui e saia — ordenou Philipa. — Mamãe, corra! Acho que chegou a hora! — Mary gritou do quarto anexo. Ela estava parada à porta, segurando a pesada cortina de tapeçaria. — Acalme-se. Se alguém a vir, tudo terá sido em vão — respondeu Philipa. — Mamãe! 85


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— Componha-se, Mary. Não é você que está fazendo o trabalho. Tente manter a dignidade. Onde está o bebê? — Philipa avançou, ouvindo os gemidos de Anne em trabalho de parto. Ivy estava agachada ao lado da filha, que tinha um pedaço de pano entre os dentes para abafar os gritos. — Está vindo, querida, força. Muita força. Philipa observou a criança saindo de dentro da mãe. O bebê reluziu quando Ivy o segurou pelos tornozelos batendo firme na sola dos pezinhos. Com uma sacudida os bracinhos começaram a se mexer e o peitinho se encheu de ar. — Vire-se para eu ver, mulher. Ivy lançou um olhar na direção de Philipa enquanto apoiava o pescoço da criança e a estendia para que pudessem ver o sexo. Sem dúvida era um menino. O bebê ficou vermelho e berrou. — Deu tudo certo. Agora estou satisfeita. Anne estava deitada, todo o seu corpo tremia. Philipa deu as costas às duas e sorriu para Mary. — Viu, minha querida? Tudo aconteceu exatamente como eu havia antecipado. Mary sorriu. — A senhora sempre tem razão, mamãe. — Mais alguns dias e você poderá apresentar seu filho para todos. Vamos escrever para seu pai. Mary sorriu. — E então poderei retornar para a corte? — Sim, minha querida. É importante que aquele escocês não se encontre com você nos próximos meses. Terá de ser inteligente e evitá-lo. Duvido de que ele vá cavalgar até a Inglaterra. Philipa não conhecia Brodick. Anne aninhou o filho. Mesmo que o plano de Philipa tivesse se concretizado, o produto era lindo. — Visitantes chegando! O capitão da guarda gritou enquanto os sinos nas muralhas dobravam. Philipa correu até a janela. — Por Deus! É seu marido! A bandeira McJames tremulava ao sol de fim de tarde, próxima ao portão principal. O conde em pessoa estava à frente da comitiva de cavaleiros, um grupo duas vezes maior daquele que viera buscar Mary. — Fique aqui, filha. Não deixe que ninguém veja a criança. Philipa correu porta afora. Anne ficou olhando para o umbral vazio. Nunca tinha visto a condessa de Warwick correr. Mary estendeu os braços. — Dê-me a criança. Ivy apanhou uma vassoura. 86


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— Saia daqui! — Você se esqueceu do seu lugar, vadia! Ivy agitou a vassoura no ar em um movimento circular. — Eu sei onde é o meu lugar. Assim como sei que lhe darei uma surra se não sair de perto da minha filha e do meu neto! Ela bateu a vassoura com força no piso de pedra. Mary estremeceu e ficou pálida. — Garota estúpida. — Ivy meneou a cabeça. — Seu pai nunca deveria ter permitido que fizessem de você uma fraca. Terei uma palavra com ele quando voltar. Pode contar com isso. Mary arregalou os olhos. Ivy apontou para ela. — Agora fique longe da minha filha. Temos muitas coisas para cuidar. Não tenho tempo para as suas infantilidades. Mary pela primeira vez pareceu envergonhada, suas faces ficaram vermelhas e os olhos cintilaram com lágrimas não derramadas. Anne sentiu um arrepio, mas os sinos aqueceram seu coração. Ivy enxugou a testa da filha com uma toalha umedecida. O bebezinho se aproximou dos seios em busca de alimento. Anne estava feliz, tão satisfeita que parecia que lá fora o sol brilhava somente para ela. Tinha dado um filho a Brodick. Não havia melhor presente que seu amor pudesse conceder. — O seu marido está aqui, entrando pelo pátio — Ivy sussurrou para a filha, porém Mary ouviu e se enfureceu. — Ele é meu marido! Ela não passa de uma bastarda! Revoltada, Ivy se levantou. Anne reteve a mãe pelo pulso, tentando impedi-la, mas o esforço foi em vão. — Não vou tolerar mais isso. Você ouviu? Sofri em silêncio toda a minha vida, agora basta. Anne sorriu ao ver a coragem renovada da mãe. — Veja que garoto forte e saudável acabei de ter. — Ela abraçou carinhosamente o filho. — É como o pai. — Posso ver. — Ivy levou o bebê até a bacia de cobre e, com todo o cuidado, deulhe o primeiro banho. Em seguida, envolveu-o com um cueiro, deixando de fora apenas o rosto e os bracinhos. — Se ele for como seus irmãos, vai querer mamar agora. Anne não teve tempo nem mesmo de baixar a camisola. Passos apressados ecoaram no corredor. — Pare! Este é o meu quarto. O senhor não tem direito de invadir a minha casa, seu... Escocês! — Philipa berrou. — Vou lhe dizer quem tem direitos, milady. Eu tenho o direito de ver minha esposa. Agora saia do caminho ou vou derrubá-la no chão. Mas encontrarei onde escondeu a minha mulher. O conde de Alcaon soou perigoso, mas ao mesmo tempo terno de um modo que Anne nunca tinha ouvido. Ela abraçou o filho, lágrimas inundaram seus olhos. 87


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— Brodick! Estou aqui! A cortina foi aberta com um movimento rápido e ele surgiu à porta, o rosto estava contorcido de fúria. — Juro que eu queria ter forças para dar uma surra em você por ter se exposto a tanto perigo. — Ele tocou no rosto da esposa com mão trêmula. — Veja ao que me reduziu. Não passo de um homem vazio sem você. O bebê soluçou. Brodick estendeu a mão para tocá-lo. — Eu lhe dei um filho. — A voz de Anne saiu embargada de lágrimas, lágrimas de alegria. — Não! — Mary gritou, batendo os pés, o rosto vermelho. — O bebê é meu! Eu sou a condessa! — Você não é a minha esposa! — exclamou Brodick, virando-se, o desprezo pontuando cada palavra. — Ela é, sim, milorde, e é melhor que me ouça. O senhor teve o seu filho. Minha filha é a única que tem direito ao dote. O senhor terá de ficar com Mary como sua esposa legal ou perderá o direito ao dote. Quanto à bastarda, pode tomá-la como amante. Veja como ela é forte. Ainda lhe dará todos os filhos que quiser, e Mary lhe dará as terras que o senhor tanto deseja — dardejou Philipa que até então permanecera imóvel num canto. — Não posso acreditar no que acabei de ouvir. — Cullen estava parado atrás da megera, seu rosto uma máscara de revolta e repulsa. — Gostaria de poder não acreditar, mas a prova está à vista de todos — declarou Brodick. Em seguida, dirigiu-se a Philipa: — Pode ficar com o seu dote. A mulher que amo vale muito mais do que qualquer terra. — Mas você precisa das terras, Brodick. — Anne tomou a mão dele, sem poder vêlo perdendo o que tanto almejara. — Elas ainda são suas, assim como o nosso filho. — Não quero aquela criatura nas minhas terras. — Brodick apontou para Mary, que virou o rosto, ultrajada pela rejeição. — Sou eu que não quer ir para a Escócia. Por que acha que minha mãe enviou a bastarda no meu lugar? Druce se aproximou e fechou a mão ao redor da nuca de Mary. Ela gritou, mas ele não teve misericórdia. — E o mundo ainda diz que nós, os escoceses, é que somos os selvagens — disse ele com menosprezo, antes de arrastá-la até os guardas postados ao umbral da porta. — Segurem-na com firmeza e apontem um punhal se ela começar a falar outra vez. Já ouvimos o suficiente desta mulher por uma vida inteira. Houve um burburinho entre os soldados que se encontravam no outro quarto, antes que Druce se voltasse para Brodick. — Ela estava me dando dor de cabeça. — Mary é legalmente sua esposa! — Philipa agitou o punho cerrado no ar. — Minha filha não é uma bastarda! A megera, então, olhou para o bebê, havia ganância em seus olhos. Ela avançou em direção à cama, mas parou quando Brodick ergueu a espada e apontou para seu coração. 88


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— Não se atreva a tocar na minha família! Não terei misericórdia alguma. — Do meu ponto de vista, parece justo. — Cullen não estava brincando dessa vez. Sua voz era tão forte quanto a do irmão. — A senhora enganou a todos os McJames, e nós não aceitaremos isso. — Deixe-a para o marido. É dever dele resolver a confusão. — Brodick não abaixou a espada até que Druce segurasse a mulher. Ela reclamou e tentou se desvencilhar, mas o escocês a sacudiu como se fosse uma boneca de pano. — Seu casamento será invalidado — declarou Philipa. — Não conseguirá nada se envolver meu marido nisso. — Já enviei uma mensagem para seu marido. Ele precisa voltar para casa e assumir o comando desta propriedade. — Brodick se aproximou de Philipa, a espada ainda em punho. — Mas tem uma coisa que deve ficar claro. Não ficarei com nenhuma outra mulher que não com a mãe de meu filho. Philipa se retraiu inteira ao ser levada para fora do quarto enfurecida. Brodick guardou a espada na bainha. — Cullen. Quero que este quarto seja bem vigiado. — Sim. — E fique de olho naquela dupla até que o conde de Warwick chegue para assumir a situação. Ao desviar o olhar para a cabeceira da cama, sua fisionomia suavizou ao observar a cena. — Saiam, todos. — Brodick olhava agora para Anne. — Preciso de um momento a sós com minha esposa. Seus olhos emanavam uma determinação inabalável enquanto a fitava fixamente. — Meu Deus, mulher. Acho que terei de lhe dar uma surra por semana se continuar assim ousada. A cama oscilou quando ele diminuiu a distância entre ambos, resoluto. — Juro que não vou descuidar de você. Murry vai ficar no seu encalço como se fosse um cão faminto. Assim como darei ordens para que ele traga mais homens junto para que a sua segurança seja completa. Subitamente, Brodick perguntou: — Qual é o seu verdadeiro nome, afinal? — Anne. Ele segurou o queixo delicado. — Por que resolveu fugir de Sterling? Por que se expôs a tantos perigos? Anne corou ao perceber a que a sua fuga o tinha reduzido. — Porque te amo. Eu não podia roubar o seu direito ao dote. Foi a única saída que encontrei. — Ela abraçou a criança com força. — Era a única saída para evitar que o nosso filho nascesse ilegítimo... como a mãe. Anne tentou baixar os olhos, mas a mão de Brodick a conteve. 89


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— Não sei o que fazer de você, mulher. A pequena cama oscilou quando ele se inclinou um pouco mais, sua mão deslizou sobre o rosto e pelos cabelos sedosos. — Eu te amo, não importa a sua origem. — Mas o dote... — Ainda será meu. Você é filha do conde de Warwick, e foi a condessa que a entregou como sendo minha esposa. Você era pura e me deu um filho. Esta é a melhor definição de uma esposa que eu conheço. A mão que pousava na nuca de Anne se moveu num afago. — Deixe que eu cuide dos detalhes legais. Sei muito bem por que você fugiu. Quero saber por que não correu para mim. — Eu te amo, Brodick. Não poderia vê-lo desapontado, mesmo que para isso tivesse de sacrificar o meu coração. Eu te amo muito para ser capaz disso. Um sorriso se espalhou pelo semblante do valente escocês. — Fico feliz em ouvir isso... Anne. Ela sorriu ao ouvi-lo pronunciar seu nome. Dormindo, o bebê se acomodou, e um tremor perpassou o corpo cansado de Anne. — Pegue... pegue nosso filho... — Sua voz vacilou. Ela não tinha mais forças para continuar acordada, seu corpo implorava por um pouco de descanso. Brodick ergueu o filho, e Anne sorriu ao se render à fadiga. O conde nunca tinha segurado um bebê. — Embale-o, milorde, ou ele vai chorar e despertar minha filha. Ela precisa de descanso agora. Druce segurava a mulher, sem permitir que ela transpusesse o limiar da porta. Era muito parecida com Anne. — A senhora é a mãe de Anne? O tom duro de Brodick não escapou aos ouvidos aguçados de Ivy. — Sim, e eu não sabia nada sobre toda essa trama até que Philipa me trancasse neste solar com Anne. — A mulher estremeceu, mas Druce não a soltou até que Brodick desse um sinal. O duque se levantou da cama e se aproximou da senhora. — Eu teria ido embora desta casa só para não ver a minha própria filha sofrendo por causa das minhas escolhas. — Ivy balançou a cabeça com tristeza. — Mas Anne tem um coração puro. É muito mais do que mereço por ter permitido que ela nascesse de uma união impura. — Não me importo com a origem de Anne. Anne se mexeu, murmurou algo enquanto dormia. Brodick saiu pela porta, acompanhado por Ivy. — O senhor é um bom homem. E por isso lhe sou grata. O conde sorriu quando o bebê abriu as pálpebras, mostrando os pequenos olhos azuis. Brodick podia sentir o coraçãzinho batendo contra o seu corpo, ver o pequeno peito se enchendo com o ar da vida. Aquela foi de longe a experiência mais tocante de toda a sua existência. 90


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— Então a senhora poderá me ajudar em uma coisa. — Ele olhou para Druce e Cullen. — Reúnam os criados e os soldados da casa. Tragam Mary. Quero deixar claro que não foi ela quem deu à luz meu filho. — Como desejar, milorde. — Ivy apressou-se a deixar o quarto. Druce sorriu. — Bem, agora quero dar uma olhada no garoto. Anne despertou nos braços de Brodick. Ele a aninhava com o mesmo cuidado e carinho que havia segurado o filho. — Desculpe se perturbei o seu sono, mas eu não podia permitir que continuasse dormindo naquele quarto que lhe serviu de prisão. Anne não teve forças para responder. Sua mão repousou sobre o peito forte e ela sorriu ao sentir o coração do marido. Minutos depois ele a colocou em outro cômodo. Sua mente sonolenta despertou ao ver todas as tochas que tinham sido acessas. — Este leito é bem melhor. Não está voltado para as paredes que você viu como sendo as do seu cárcere. Brodick a acomodou sobre uma cama ampla, coberta com dossel e cortinas. A lareira estava acesa, aquecendo o ambiente. O berço tinha sido colocado aos pés da cama. — Seu filho está com fome, Anne — disse Ivy, trazendo o bebê. O conde ajeitou alguns travesseiros às costas da esposa, e Ivy confiou o bebê aos braços da filha, antes de encarar Brodick por um momento. — Não sairei daqui, mulher. Há três anos espero para ver isto. A minha família. Quando Ivy ajeitou a criança ao seio farto, Anne fitou o marido, em cujos olhos não havia nada além de pura felicidade. No dia seguinte, os sinos badalaram por volta do meio-dia. Os cavaleiros se aproximaram pela estrada, trazendo a bandeira do conde de Warwick. Brodick teve a audácia de esperar pelo conde nos degraus da frente da casa. O senhor de Warwick desmontou e indagou: — Onde está aquela vadia com quem me casei? Sua voz reverberou nas muralhas. Todos paralisaram, pois nunca tinham ouvido o senhor do castelo maldizendo a esposa em público. O conde olhou para o alto. — McJames, sou grato a você por ter desvendado esse plano pérfido. Juro que o recompensarei com o dote prometido. — Subiu os degraus então, parando para oferecer a mão amiga a Brodick. O conde de Alcaon permaneceu parado por um momento, sentindo todos os olhares sobre ele. Aceitou o aperto de mão, e houve uma aprovação muda entre os presentes. — Supus que o senhor não ficaria bravo comigo por eu ter trancado sua esposa e filha. Só o fiz para garantir que as duas não iriam planejar mais nada antes da sua chegada para lidar com a situação. — Não iria me importar nem que tivesse afogado aquelas duas felinas demoníacas. 91


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Brodick entrou no castelo com o conde e subiram a escadaria que levava ao quarto da senhora. — Mas tem alguém que eu gostaria que o senhor visse primeiro. — Brodick abriu a porta. O conde de Warwick o seguiu e franziu a testa ao ver Ivy dentro do aposento. Ela deu um sorriso tão claro quanto o sol de verão. — Venha, meu querido, e veja o nosso primeiro neto. A cor desapareceu do rosto do conde de Warwick. — Anne teve um bebê? — Minha esposa me deu um filho — Brodick declarou orgulhoso. O conde sorriu. Em seguida, deu um tapa no ombro de Brodick que o fez avançar um passo. — Isso sim é que é uma boa notícia! Ivy fez sinal. — Shhh! Ela precisa descansar. — Não estou dormindo, mamãe. — Anne abriu a cortina que separava a antessala do quartos. Trazia o filho nos braços, e um sorriso suave enfeitava seus lábios. — Aproxime-se, papai. Venha conhecer o seu neto. Lágrimas brilharam nos olhos de Brodick. Anne confiou gentilmente o bebê nos braços do pai. Ele pousou um braço ao redor da cintura da esposa, amparando-a. — Não se preocupe. Estou bem. Brodick, contudo, não lhe deu ouvidos e a apanhou nos braços com um movimento suave. — Já não lhe disse que vou enlouquecê-la com toda a minha proteção? Carregou-a de volta ao quarto e a colocou na cama. — Nunca fiquei sem ter uma ocupação. — Assim como nunca teve um filho antes. Anne queria ficar brava, mas então olhou para seus pais. O conde embalava o neto com a testa encostada na de Ivy. Pura felicidade irradiava do casal. — O amor é algo muito lindo, moça. — As palavras de Brodick saíram repletas de emoção. O lorde caminhou pelo quarto e confiou o bebê de volta aos braços de Anne. — Jovem Brodick, vejo que você é um bom marido para minha filha. — Pretendo passar a minha vida tentando, sir. O senhor assentiu. — Fico feliz em ouvir isso. Ninguém permitiu que Anne deixasse a cama, por isso eles passaram a tarde conversando. Apenas um pouco antes de o sol começar a se pôr, a fisionomia do lorde obscureceu, e ele deu um beijo no rosto de Anne. — Agora preciso ir ver minha esposa. — Suas palavras foram graves e tristes. Todo o seu corpo estava tenso quando ele deixou o quarto. Brodick o seguiu. O conde de Warwick abriu com um rompante a porta do quarto onde mãe e filha estavam encerradas. — Philipa... 92


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O aposento se encontrava em total silêncio. Brodick deu uma olhada ao redor, à procura das mulheres. Elas já estavam na cama. Aproximando-se, ele e o conde fitaram a dupla imóvel. O conde tocou na face de Mary e ergueu as pálpebras para examinar os olhos. — Envenenamento, não resta dúvida. — O tom de voz mostrou que ele conhecia muito bem aquele tipo de vingança maldosa usada por assassinos e amantes feridos. — Não pelas minhas mãos — Brodick declarou. O conde parecia pensativo. — Acredito em você. — Ele vasculhou o quarto, ergueu os cálices sujos e então cheirou cada um. Alguém tossiu na cama. Mary abriu os olhos. O conde se aproximou da filha. — Conte-me, Mary, que mal a acometeu? Ela puxou o ar com esforço para conseguir falar. — Mamãe conseguiu cicuta... da vila... para dar a Anne. — Ela arfou. — Estava sobre a mesa e... o... garoto levou... por engano... para colocar no nosso... vinho. Mary buscou pela mão do pai. — Não foi culpa... do menino. A mamãe... planejou o assassinato... e... eu concordei... Colhemos... o que plantamos. — Seus dedos se fecharam sobre a mão do pai. — Perdoe-me. Eu me arrependo dos meus... pecados... por favor... Por favor, papai me enterre em solo sagrado... Eu... imploro o seu perdão... Eu me arrependo... Deus tenha misericórdia de mim... Sua voz falhou e os olhos se fecharam. O conde depositou a mão da filha sobre o peito, meneando a cabeça lentamente. Em seguida, fez um último afago nos cabelos da jovem. — Sinto muito por ter falhado com você, filha. Eu sabia que sua mãe era amarga, mas nunca pensei que ela fosse transformá-la em uma jovem mimada. Pensei que o amor dela por você a mantivesse sã. Mas eu estava errado. Perdoe-me, filha. Philipa morreu primeiro, e Mary a seguiu antes de o sol nascer. O conde de Warwick estava sentado ao lado da cama, largado sobre uma cadeira. Ivy apareceu ao amanhecer. Ela permaneceu parada à porta, os raios de sol a iluminar seus cabelos. Henry Howard, o quinto conde de Warwick, se levantou e foi ao encontro dela. Uma mulher de origem plebéia, era a dona do seu coração. Ele tomou-lhe a mão e beijou-a. — Você aceitaria se casar comigo, Ivy? Para tornar-me um homem honesto e legitimar os nossos filhos? — Eu aceito. Lágrimas embaçaram os olhos de Ivy, mas a primeira lágrima que desceu foi na face do conde. De braços dados, eles saíram do quarto, deixando para trás o casamento de sangue azul. — Volte para a cama, Anne. — Vou ao casamento de minha mãe, Brodick. — E nada nem ninguém iria impedila. — Por todas as vezes em que fui chamada de bastarda, entrarei rastejando naquela igreja, se preciso for. — Todo o seu corpo doía, mas ela continuou a andar. Anne torceu o nariz quando se abaixou para apanhar os sapatos. O marido a tomou nos braços no mesmo instante e a colocou de volta aos pés da cama. Brodick 93


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apoiou o corpo em um joelho e calçou os sapatos na esposa. — Está bem, compreendo por que você quer tanto estar presente. Em seguida, ajudou-a a ajeitar o vestido e colocar a túnica por cima. — Mas nada de dançar. Brodick se virou para apanhar o filho. Anne sentia-se feliz na presença do marido, e fazia questão de aproveitar cada minuto. Os fardos da vida poderiam roubá-lo em breve, mas, por enquanto ela iria agarrar-se a ele e assistir ao casamento da mãe. Ivy foi a noiva mais bela que Anne já vira. O motivo era simples. Ela estava apaixonada. Se era uma bênção ou uma maldição, Anne não sabia. Mas sofria do mesmo "mal", e era com alegria que seguia o exemplo da mãe. Brodick era o dono do seu coração e, se o destino fosse gentil, ela nunca deixaria de amá-lo. Nunca.

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A outra  
A outra  
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