__MAIN_TEXT__
feature-image

Page 1


João e Joana pararam diante do grande relvado e perguntaram, ao mesmo tempo: — Que edifício será aquele? — Com tantas estátuas à entrada só pode ser um museu. Aproximaram-se das imponentes figuras de pedra: Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões, Eça de Queirós. Estes escritores já eles conheciam da escola. Curiosos, fixaram os olhos nas grandes letras de metal. — É a BIBLIOTECA NACIONAL! A maior do nosso país. Podemos aproveitar para ler uns livrinhos de banda desenhada… Foram andando até à grande porta monumental, ornada de baixos relevos e entraram. Mas logo um segurança os fez parar. — Só pode tirar cartão de leitor da Biblioteca Nacional de Portugal e consultar as obras quem tiver mais de 18 anos. — Mas não podemos entrar? — Só se for para verem uma exposição ou visitarem o edifício. Já ali está aquele professor japonês à espera da guia. Logo os amigos resolveram juntar-se ao visitante.

7


Entretanto, mais alguém se aproximou. Era um senhor pequenino, que parecia ter viajado do passado na máquina do tempo: todo vestido de preto, com uma condecoração ao peito. Usava uma cabeleira postiça branca e uns estranhos óculos sem hastes. — Trabalhei 20 anos na Biblioteca e gostaria de ver os seus progressos. A guia, que entretanto aparecera, empalideceu. — Ai, que susto, o senhor parece mesmo um retrato da Sala do Conselho! — Sou Ribeiro dos Santos, 1.º bibliotecário-mor da Real Biblioteca Pública da Corte, nomeado por sua Majestade a Senhora D. Maria I. Às suas ordens — apresentou-se a estranha personagem, beijando-lhe a mão. A funcionária acedeu a fazer a visita com os quatro. Pediu-lhes que se sentassem numa sala e começou a contar.

8


Esta biblioteca tem mais de 200 anos. Começou por se chamar Real Biblioteca Pública da Corte, depois Biblioteca Nacional de Lisboa e agora é Biblioteca Nacional de Portugal. Teve outras instalações, mas o edifício em que nos encontramos foi inaugurado em 1969. A ideia de fazer uma grande biblioteca era já muito antiga. D. João V e D. José, no século XVIII, gastaram avultadas quantias, comprando obras belíssimas e raras. Havia o sonho de construir de raiz um monumento que guardasse essas preciosidades e permitisse que os estudiosos as consultassem. Estávamos na época do Iluminismo e a importância da cultura era cada vez mais reconhecida. Anteriormente, existiam algumas bibliotecas religiosas que facilitavam a leitura pública, o que não bastava. Mas o projeto não se realizou porque aconteceu uma grande desgraça. — O terramoto! O terramoto! — exclamou o japonês. — Tantos livros destruídos debaixo dos escombros, queimados, inundados…


A concretização dessa ideia teve de ser adiada e, com base na biblioteca da Real Mesa Censória, em 1796, no reinado de D. Maria I, foi publicado o alvará que a criou, assinado por seu filho. — A rainha não sabia escrever?! — troçou o João. — Pelo contrário. Aos 4 anos já lia e escrevia em português e castelhano, mas Sua Majestade fora atacada de uma incurável enfermidade mental… — explicou Ribeiro dos Santos. — A biblioteca inicial, chamada Real Biblioteca Pública da Corte, abriu no torreão ocidental da Praça do Comércio, antigo Terreiro do Paço, em Lisboa, num segundo andar. — O lugar era lindo e central! E as instalações deviam ser recentes, mandadas construir pelo Marquês de Pombal — comentou Joana. — Tem razão — disse o senhor de lunetas. — Lisboa reerguia-se, mas muitos dos seus tesouros tinham desaparecido. Nomearam-me 1.º bibliotecário-mor e aquilo que encontrei foram livros por classificar, alguns a desfazerem-se. Havia obras dos colégios dos Jesuítas, que tinham sido extintos, obras que escaparam ao terramoto à mistura com outras, recentes. Mas eu calculava que, no meio de tanta desordem, existiria fazenda preciosa: livros raros, únicos até. E não me enganei. Era preciso fazer, não a biblioteca ideal, mas a possível — continuou o bibliotecário-mor. — Rodeei-me de pessoal especializado, trabalhei, trabalhei para constituir «um riquíssimo depósito não só de todos os conhecimentos humanos, mas também dos meios para conduzir os homens (…) à virtuosa sabedoria.» O meu desejo era tornar os livros acessíveis a toda a gente. Felizmente recebi valiosas doações e comprei a particulares e em leilões documentos ímpares, como a Bíblia de Cervera. — Que ainda hoje é o maior tesouro da Biblioteca! — entusiasmou-se a guia e prosseguiu.

13


— Em breve se verificou que os livros já não cabiam todos naquelas instalações. Era necessário um espaço amplo para os volumes que existiam mais os que iam chegando. Em 1837, como não havia dinheiro para novas construções, optou-se pelo Convento de S. Francisco da Cidade, enorme e abandonado, onde se instalaram também a Faculdade de Belas Artes e outros organismos. Era lá que se depositavam todos os livros e quadros vindos das ordens religiosas extintas, transportados em carroças ou barcos à vela, como foi o caso da Livraria do Mosteiro de Alcobaça, que embarcou em Peniche. Das 183 000 obras que vieram então dos conventos muitas venderam-se a peso porque estavam roídas ou estragadas, leiloaram-se outras. Um pequeno número foi distribuído por várias bibliotecas ou trocado. Mas a maioria veio engrandecer o núcleo já existente. Afinal, aquele espaço também não era minimamente adequado; velho, degradado, húmido, atraía bicharada indesejável. Na sala de leitura os leitores ficavam tão mal instalados que um dos diretores até pensou pô-los a ler na igreja! — Que triste sorte, a da Biblioteca Nacional! — suspirou o Doutor Ribeiro dos Santos.

15


Foram-se fazendo estudos sobre os fundos da Biblioteca e, sempre que possível, compraram-se edições portuguesas antigas ou preciosidades como o Cancioneiro de Luís Franco Correia, amigo de Camões, e Birds of America, uma das mais belas obras do século XIX. Lutou-se para que o Depósito Legal se concretizasse. — Que é isso do Depósito Legal? — perguntou o João. — É um depósito, um armazém para onde mandam os livros de Direito? — Fique sabendo que o Depósito Legal consiste na obrigação de as tipografias oferecerem um determinado número de exemplares do que publicam à nossa biblioteca. Eu é que o criei — esclareceu o velho senhor. — Então a Biblioteca Nacional de Portugal é a verdadeira memória cultural do nosso país — concluiu a Joana, com ares de sabichona. — Exatamente, gentil menina — disse o cavalheiro de lunetas.

16


— Só é pena nós, os mais novos, não podermos consultar essa memória — lamentou o João. — Depois dizem que temos falta de memória… Eu, por exemplo, até queria ler as primeiras revistas aos quadradinhos! — O pior era se te punhas a pintar os bonecos, como é tua mania! — troçou a amiga. Todos se riram. Mas a guia é que não achou graça e contou que, a seguir à República se procurou fazer da Biblioteca Nacional uma biblioteca popular, para onde se iam ler romances cor de rosa, folhetos e até havia uma sala infantil! — Pobre memória nacional! Devia gastar-se bem depressa — atalhou o japonês. — Para tal, por esse mundo fora, existem as bibliotecas escolares, as municipais, as itinerantes. A funcionária acenou com a cabeça pois também cá não faltam, e aproveitou logo para aconselhar os jovens a procurem essas bibliotecas onde até podiam requisitar livros para lerem em casa.


Ribeiro dos Santos ficou preocupado. Para ele a Biblioteca Nacional era um tesouro e devia ser dirigida por pessoas altamente responsáveis. — Pois foi isso que aconteceu depois — asseverou a guia. — A Biblioteca até teve um período de ouro. — De ouro? Enriqueceu? Descobriu-se, emparedado pelos antigos frades, um tesouro de moedas de ouro? — imaginou logo o João. A senhora abanou a cabeça e explicou que esse período se distinguiu pelo alto nível dos seus colaboradores. Quando Jaime Cortesão foi diretor, surgiu o chamado Grupo da Biblioteca. Trabalharam com ele Raul Proença, escritor e notável especialista em bibliotecas, que fez novas regras de catalogação, António Joaquim Anselmo, que escreveu bibliografias, António Sérgio, Aquilino Ribeiro.


Como o convento de S. Francisco ficava ao lado do Chiado, reuniam-se na Biblioteca vários intelectuais que costumavam frequentar os cafés e as livrarias. Criaram-se oficinas tipográficas, publicaram-se numerosas obras, entre elas o Guia de Portugal.

Jaime Cortesão foi pessoalmente a Itália para adquirir outra preciosidade, o Cancioneiro de Colocci Brancuti, agora designado como Cancioneiro da Biblioteca Nacional.

— Mas ouvi dizer que essa gente famosa teve de fugir para o exílio com o Estado Novo — lembrou Joana. — Assim foi… — suspirou a guia.

19


João, que tinha pouca paciência para longas explicações, quis saber como é que a Biblioteca se mudou para o Campo Grande. E ficou a saber que foram precisos 174 anos para que o desejo de António Ribeiro dos Santos, de ter uma biblioteca condigna, se concretizasse. — Foi demais! — exclamou o velho bibliotecário-mor. — Eu, que vinha da Biblioteca da Universidade de Coimbra, essa maravilha, bem gostava de ter visto no meu tempo, na capital do reino, uma biblioteca como a de São Marcos de Veneza! Ou, pelo menos ampla, adequada, condigna. Com a emoção, até as rendas das mangas lhe tremiam e a cabeleira abanava, ficando em riscos de cair. — Não se enerve — disse o oriental. — Há sempre um dia em que os nossos sonhos se realizam… — As atuais instalações parecem-me ótimas. — observou a Joana. — E ficam mesmo perto da cidade universitária. Os professores e estudantes, se não encontrarem na biblioteca universitária aquilo que procuram, chegam aqui num instante para lerem. — Ou para namorarem no jardim, ouvindo os melros a cantar… — acrescentou, com a habitual irreverência, o João. O Doutor Ribeiro dos Santos exigiu respeito e todos se calaram menos a guia.


Esta disse então que o novo edifício, de autoria do arquiteto Porfírio Pardal Monteiro era, finalmente, um monumento de interesse público. Além de muito bem estruturado, tinha no exterior e no interior magníficas obras de arte: estátuas, pinturas, tapeçarias, um baixo relevo em cerâmica, mobiliário original.


— É um autêntico palácio do século XX, com todas as condições para Biblioteca Nacional. Até me sinto comovido… — confessou o velho senhor. Quem o olhasse, bem havia de reparar que as suas grossas lunetas estavam húmidas. De tristeza, por não ter podido ser bibliotecário-mor neste edifício? Ou com saudades dos árduos tempos em que estivera à frente da instituição?


— Quando é que começamos a visita a sério? — insistiu o João, que tinha bicho carpinteiro e não conseguia ficar muito tempo sentado. Mas a guia não quis deixar de frisar que, por muito boa que seja uma biblioteca, ela tem de evoluir, adaptar-se aos novos tempos, às novas necessidades. Exteriormente o edifício fora acrescentado com a ampliação da torre para guardar os quatro milhões de documentos que ali se encontram depositados.

Criaram-se também novas salas com as mais modernas condições. Os documentos valiosos estão bem guardados e mantidos com temperaturas e graus de humidade ideais.

24


O maroto do João interrompeu mais uma vez: — Ai o meu ideal era ser livro… viver com todas essas comodidades! Mas a guia ignorou a gracinha e continuou. A partir de 1986 a Biblioteca Nacional de Portugal começou a ser informatizada. Os antigos catálogos com fichas de papel foram dando lugar a outros, mais modernos. Instalou-se também a PORBASE, que permite a qualquer pessoa, mesmo do outro lado do mundo, consultar o catálogo da Biblioteca Nacional de Portugal e de mais de uma centena de bibliotecas cooperantes. Por outro lado, a digitalização, especialmente de jornais antigos e raridades, passou a permitir ler essas obras no monitor dum computador pessoal. — Então têm aqui computadores! — entusiasmou-se o João. — Podemos jogar neles, escrever aos amigos, procurar sítios divertidos? — Ora aí está uma das razões para os menores não frequentarem a Biblioteca Nacional de Portugal. Podiam ter tentações impróprias — concluiu o professor japonês. — Esta biblioteca é para estudiosos: universitários, bolseiros, investigadores de todo o mundo. O Doutor Ribeiro dos Santos, exaltado, confessou: — Eu fiz um poema a uma descoberta de Newton. Acho que também vou dedicar os meus versos à informática, essa esplêndida invenção posta ao serviço dos livros. A guia finalmente pediu-lhes que se levantassem para conhecerem, com os próprios olhos, a Biblioteca. — Espero que nos mostre agora o caminho que segue um livro desde que chega aqui — pediu o João. — É isso mesmo que eu vou mostrar — disse a funcionária, com um sorriso. E iniciaram o percurso.

25


— Os livros, os jornais, as revistas e outros documentos entram por Depósito Legal. — Por isso é que nós vimos camionetas a descarregar pacotes nas traseiras. Mas ninguém os arruma? Amontoam-se caixas e mais caixas de papelão no corredor — observou a Joana. — Uma das funções da Biblioteca é distribuir por diversas bibliotecas os vários exemplares que recebe — explicou a guia. — Estes partirão em breve. Há livros que seguem para a Biblioteca Municipal Central de Lisboa, do Porto, outros vão para Coimbra, Évora, Açores, Madeira e outros destinos, até para o Rio de Janeiro. — Muito bem! Muito bem! Estou certo de que vão alimentar o Real Gabinete Português de Leitura que um grupo de emigrantes portugueses mandou construir nessa cidade brasileira! — exclamou com entusiasmo o Doutor Ribeiro dos Santos, que passara a juventude no Brasil. — Para aqui vêm também as ofertas de particulares e instituições. Mais uma vez Ribeiro dos Santos aplaudiu e revelou que ele próprio oferecera à Biblioteca Nacional dezenas de obras de sua autoria, em prosa e em verso, sobre literatura, linguística, ciências civis, eclesiásticas e outros temas. — O senhor devia mesmo ser um sábio! Um cérebro! — concluiu João. — Por isso é que lhe deram essa condecoração tão vistosa… — E que condecoração é a que o jovem usa? — perguntou, intrigado, o primeiro diretor da Biblioteca, fitando a camisola do rapaz. Todos desataram à gargalhada. — É o emblema do Benfica, um clube de futebol. — Quanto mais sabemos mais descobrimos a nossa ignorância. Mas que lugar há mais indicado para me informar sobre futebol do que a biblioteca?

28


29


— E se os livros chegam aqui em caixas com baratas ou outros bichos nojentos? — perguntou o João. — Só quem trabalha em bibliotecas é que conhece os seus «monstros» — disse, com ligeira ironia, o antigo diretor. — Monstros? — entusiasmou-se o João que era louco por aventuras. A guia desdobrou então um cartaz onde apareciam criaturas redondas ou esguias, peludas ou peladas, algumas com muitas patas. — Ai… — suspirou a Joana. — Que medo! Que horror! — Estes monstros devoradores roem, escavam túneis, destroem tudo o que apanham por perto — continuou o famoso visitante. — São o terror de qualquer bibliotecário. — Acho que vou desistir da visita. Se nos aparece algum… — tremelicou a Joana. — Até já sinto comichões. A guia acalmou-a. Há métodos para nos livrarmos deles. — Sei que em certas bibliotecas, como a de Mafra, vivem morcegos que os devoram — lembrou o João, para impressionar. — Morcegos? — exclamou a rapariga. — Ainda tenho mais horror aos morcegos, dizem que se emaranham nos cabelos… A guia afirmou então que a Biblioteca Nacional não recorria a esses animais.

32


— Possivelmente utilizam inseticidas — sugeriu o japonês — Mas tal método tem os seus perigos para a saúde humana. — Vocês folheiam um livro, levam o dedo à boca e caem logo mortos! — disse o João para aterrorizar a colega. A guia voltou a sorrir. — Que exagero! Pois aqui também não usamos inseticidas. Colocamos os livros numa espécie de tenda completamente fechada a que retirámos o oxigénio. Sem poderem respirar, os «monstros» não sobrevivem.

— Simples e curiosa técnica — aprovou o sábio, tomando notas num o caderno de bolso. Avançaram para outra sala, com diversos funcionários a tirarem livros de carrinhos.

34


Aqui as obras são catalogadas, classificadas e levam um autocolante com uma letra e um número — explicou a guia. — É a cota. João debruçou-se sobre um livro: Os Três Porquinhos. — Em minha honra podiam pôr o seguinte autocolante: J de João, 12 dos anos que tenho! E como há uma cor no fim, podem pôr vermelho do Benfica. — Em tudo faz falta a lógica! Nas cotas dos livros é fundamental — disse o Doutor António Ribeiro dos Santos, já a perder a paciência.

— Claro! — concordou a guia. — A letra J só se usa para jornais. O número tem a ver com a antiguidade na biblioteca e finalmente as letras finais dizem respeito ao tamanho dos livros. P para os mais pequenos, V para os médios e A para os maiores. — Quem vai adivinhar uma coisa dessas?! — refilou o rapaz. — A Biblioteca Nacional de Portugal é que indica a todas as outras bibliotecas do país as normas gerais a seguir, mas ela própria segue usos internacionais como a Classificação Decimal Universal (CDU). E lá continuaram, subindo de elevador até um andar sem janelas, onde uma fraca luz entrava por uma espécie de seteiras.

35


— Esta torre tem 11 andares, como veem, cheios de estantes —, disse a guia. — Isto é um sítio ótimo para um filme de ação. Polícias e ladrões podem correr e esconder-se atrás dos comboios de livros e espreitar para fora, por estas janelas tão estreitas que só me fazem lembrar seteiras nas paredes dos castelos — observou o João. — Cuidado com as armadilhas! — avisou a empregada do piso. — Armadilhas? — entusiasmou-se mais o João. — Sim, armadilhas para apanhar algum desses bichos que comem livros… O rapaz quis logo vê-las. Eram simples caixinhas onde os bicharocos ficavam colados se, por acaso, aparecessem. Que desilusão! Joana olhava o comprimento do piso. 130 metros! — Eu até gostava de trabalhar aqui mas pedia para trazer uns patins… — disse a ela. — Ou até um skate — lembrou o João. O Doutor Ribeiro dos Santos nunca tinha ouvido falar em tais objetos e ficou a imaginar para que serviriam. Tinha de ir consultar urgentemente um dicionário moderno. — Quantos livros tem atualmente a biblioteca? — perguntou ele. — Julgo que tem mais de três milhões, mas o que lhe posso garantir é que, se fossem colocados, lado a lado, ocupariam a estrada daqui até Setúbal!


— Assombroso! — exclamou o Doutor Ribeiro dos Santos. Já pensaram que aqui dentro está uma floresta? — Não vejo qualquer árvore — disse a Joana. — Pois então de que são feitos estes livros? De papel. E a pasta de papel vem das florestas. Quantos pinhais estarão aqui? — interrogou-se o sábio. — De facto… — concordou o japonês — e, como antes de se usar a madeira para fazer papel, se utilizava o pano, o algodão e linho que aqui se encontram davam para vestir uma cidade… E como antes ainda se usava pergaminho, quantas ovelhas, carneiros, cabras, vitelas terão dado a vida pela cultura?

— E o que fazem se descobrem que um livro está em mau estado? — quis saber a Joana. — Vai para o restauro! — explicou a guia. — Se quiserem sigam-me, que vos mostro como se faz essa recuperação.


No piso térreo ficava a oficina de restauro. — Preferia um restaurante pois já estou cheio de fome — comentou o João, especialista em refilar. Parecia um laboratório, com bancadas impecáveis, funcionárias de batas brancas e uma série de frascos, frasquinhos, pincéis, pinças e outras coisas que tais. Naquele momento, estava na «sala de operações» um livro todo manchado de humidade e roído.


— Eu não aproveitava isto! Que porcaria! A funcionária escandalizou-se. — Olhe para este aqui ao lado. Ainda estava em pior estado e agora parece um brinquinho. Tirámos as manchas, colámos um papel especial nas beiras ratadas, retocámos a pintura das gravuras. As folhas soltas foram cosidas e, quando se compuser a encadernação, até parece novo.

— Excelente trabalho! — gabou Ribeiro dos Santos. — Se no meu tempo eu dispusesse de uma oficina destas, muitos livros danificados se teriam salvo. Então a guia falou-lhes da campanha «Salve um livro», que tem levado pessoas individuais ou empresas a pagarem o arranjo de uma obra. Alguns restauros são extremamente caros, mas outros estão ao alcance de qualquer amigo dos livros. — Eu quero salvar um livro! — ofereceu-se logo o japonês de barbicha. Um livro sobre o Oriente, de preferência. — Eu também! Que ideia genial! — exclamou o senhor de cabeleira, abrindo uma bolsa bem recheada. Os jovens encolheram-se. Só tinham o passe do metropolitano na algibeira. Quando deixaram essas instalações, Joana perguntou: — E agora?

42


— Podem ver a encadernação. Por aqui têm passado grandes mestres do ofício. Alguns fazem maravilhas, gravando na pele com uma fina folha de ouro. — De ouro verdadeiro? — admirou-se o João. — Claro — explicou Ribeiro dos Santos. — O ouro não oxida, mantém-se belo para sempre. Mas havia também outras encadernações mais simples, sem ornamentações ou letras douradas, em pele, tecido, material sintético, até cartão.

— Eu gostava de aprender este ofício — confessou a rapariga. — Podem fazer-se encadernações maravilhosas, em vários estilos. Mas os livros servem para serem consultados, por isso a guia conduziu em seguida os visitantes noutro percurso, o do leitor.

43


46


Começaram pela Referência, onde se tira o cartão de leitor. Aí se procuram as obras nos computadores e se requisitam também no computador. — Já não há fichas em papel? — espantou-se o primeiro diretor, que não estava familiarizado com os novos hábitos. — Ainda existem mas já não se fazem mais. Se quiser até lhe mostro as mais antigas a que, por vezes, recorremos, em caso de dúvida. Foi com entusiasmo que Ribeiro dos Santos as manuseou. E lá encontrou também as suas obras. — Vamos agora entrar na mais bela das nossas salas — propôs a guia.

47


A sala era lindíssima, com os seus 224 lugares e a tapeçaria de Guilherme Camarinha, ao fundo, representando as várias fases da produção da Leitura Nova de D. Manuel I. À esquerda, estendia-se uma ampla varanda com cadeirões de verga, que dava para um roseiral. — Que maravilha! Que perfume! Que claridade! — exclamou a Joana. Mas o Doutor estava mais interessado na forma como os livros e jornais chegavam à sala.


— De elevador — explicou a guia, conduzindo-os de seguida a duas salas contíguas: a de fotocópias e a de microfilmes. — Estas máquinas são um portento — gabou o doutor, observando as fotocopiadoras. — Copiei tanto à mão, desde estudante… Gastei os olhos a ponto de ficar cego. Valeu-me uma menina, minha afilhada, que tinha a bondade de ler para mim.

Entretanto João já se tinha esgueirado para o sítio dos microfilmes. — Isto parece uma sala cheia de televisões! Livros para ler num ecrã! Que máximo! — É a maneira que temos de proteger as obras mais consultadas, mais estragadas ou mais raras — explicou a guia. Mas havia outras salas de leitura e a guia não quis deixar de as dar a conhecer.

50


À sua porta viam uma grande estátua de D. Maria I, a fundadora da Biblioteca. O Doutor Ribeiro Sanches não pôde deixar de lhe fazer uma vénia. Estava tão habituado! — Está mesmo parecida, ou não fosse a estátua do grande Machado de Castro! Ainda o conheci, tal como conheci Bocage e quase todas as grandes figuras da minha época. — Conheceu Bocage? — admirou-se João. — Então deve saber imensas anedotas dele. — Que falsa ideia tem o jovem do grande poeta arcádico! A sua graça e rebeldia levaram a atribuir-lhe histórias jocosas, indevidamente.

51


Por sorte, encontravam-se sobre as mesas algumas obras, bem exemplificativas do material considerado reservado: um cĂłdice medieval, em pergaminho, com iluminuras, um livro impresso do sĂŠculo XVI, uma obra de arte moderna de grande valor, com assinatura do autor.

52


53


Todos se entusiasmaram com as minuciosas e belas iluminuras. — Quem fazia este trabalho? — quis saber Joana. — Geralmente, eram monges com grandes dotes para o desenho. Um livro iluminado era caríssimo por ser pintado à mão e demorava muito a executar — explicou o 1.º bibliotecário-mor. Eu mandei comprar em Haia uma das obras com mais belas iluminuras: a Bíblia de Cervera. — Que é uma das grandes preciosidades desta biblioteca — frisou a guia. Ao balcão, um leitor perguntava se o incunábulo que pedira demorava muito a chegar. — Que palavra mais esquisita, incunábulo! — observou o João. — Será um livro feito a partir de nabos? Já nada me admira! Todos abafaram o riso, enquanto a funcionária explicava: — Trata-se simplesmente de uma obra impressa nos primeiros tempos da imprensa, até ao ano de 1500.

54


Mais adiante, o rapaz descobriu num leque uma declaração de amor escrita nas suas tiras e o professor japonês parou, extasiado, diante de um poema manuscrito de Fernando Pessoa. — De onde vêm estes últimos documentos? — Do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, que tem comprado e recebido muitos espólios, alguns pertencentes aos mais famosos escritores: Eça de Queirós, Fernando Pessoa, José Saramago… O Doutor Ribeiro dos Santos encolheu os ombros: não conhecia nenhum. — E de gente do meu tempo, há novidades? — perguntou então. — Temos a Coleção Pombalina, comprada aos herdeiros do Marquês de Pombal. Vai gostar de a conhecer. Nos Reservados está também toda a obra de Camões e quanto a ela diz respeito. — Bem o merece o grande épico — disse o japonês, recitando baixinho o início de Os Lusíadas na sua língua natal. — Agora, vamos visitar outra sala — anunciou a guia.

55


À porta da sala havia um grande mapa que todos quiseram observar com atenção. Tinha desenhos de montanhas, castelos, navios, até de grandes peixes. — Aqui se podem consultar as cartas. Elas é que deram o nome à Cartografia. — Cartas? Cartas de jogar? Cartas políticas ou de amor? — perguntou logo o João. — Meu jovem, então não sabe que a Cartografia se refere a cartas de marear, mapas, atlas? — insurgiu-se Ribeiro dos Santos.


Na sala havia vários computadores que intrigaram o antigo diretor da Biblioteca. Mas foi para eles que João logo se encaminhou e foi no seu ecrã que viram belos mapas ilustrados com monstros marinhos, pois se julgava que no mar desconhecido havia figuras terríveis como o Adamastor.

— Não há aqui mapas de piratas? Peço umas fotocópias e podem ter a certeza de que descubro um tesouro. Vou ficar milionário! — Cartas de piratas não temos — esclareceu a bibliotecária, mas possuímos cartas muito curiosas, feitas para enganar quem as comprava. Os reis pretendiam guardar os segredos das Descobertas e mandavam desenhar cartas falsas para ninguém chegar aos locais que tinham descoberto. — Eram muito espertos! — concluiu o rapaz. — Nesta sala se podem também consultar documentos de iconografia — disse a guia. — Que palavra mais esquisita! — exclamou o João. — Com a sua idade podia ter um pouco mais de cultura. Aqui se devem guardar gravuras, desenhos, quadros… — foi enumerando o bibliotecário-mor. — E formas de expressão artística mais moderna como fotografias, cartazes, postais — acrescentou o japonês. — Estão a ver, o Doutor Ribeiro dos Santos também não sabe tudo. Nunca viu uma fotografia! Incrível! — comentou o rapaz.

58


A guia procurou apaziguar os ânimos, pedindo para lhe trazerem gravuras do século XVIII. Veio um álbum sobre o Terramoto de 1755. — O grande desastre nacional! A ruína de uma capital, que permitiu que sobre ela se erguesse a nova cidade das luzes idealizada por Pombal — exclamou o velho senhor. — Não tem nada mais engraçado? — perguntou João, franzindo o nariz. Para o satisfazer, a bibliotecária foi buscar um postal cómico.

59


Os jovens estavam, no entanto, mais interessados na música, pois faziam parte do coro da escola. Espreitaram o piano e João colocou uns auscultadores nos ouvidos. Mas logo os tirou ao ver surgir num carrinho um livro de coro enorme. — Porque é que se usavam livros tão grandes, com notas e letras descomunais? — quis saber a Joana. — Para todos os cantores conseguirem ler ao mesmo tempo. Eram tão pesados que só duas pessoas os conseguiam carregar. — Também foram escritos sobre pele de ovelha? — perguntou a rapariga. — Não havia ovelhas com tamanho suficiente. Eram de pele de vaca! — esclareceu Ribeiro dos Santos. — Até as vacas deram a vida pela cultura, coitadas! — Há aqui muitas obras que nenhuma pessoa viva ouviu — notou uma funcionária da Música.

62


— Mostre-nos alguma, por favor — pediu o doutor e, para espanto de todos, pôs-se a entoar baixinho uma música antiga, com a sua voz afinada mas um pouco enrouquecida. Depois, aflito, pediu desculpa. Não passara a vida a dizer que numa biblioteca se deve manter o silêncio? Os jovens riram, riram. E o João não conseguiu ficar calado. — Estas melodias antigas não são o meu forte... por acaso não há por aqui música moderna? Apetecia-me ouvir um rap... — Tu és demais! — exclamou Joana. E seguiram a guia que ia a sair. Ao descerem para o átrio do segundo piso, Joana admirou-se ao ver várias pessoas com bengalas de alumínio a dirigirem-se para a porta junto ao elevador. — Há aqui alguma conferência para cegos? — perguntou ela.

63


— Temos uma secção para invisuais onde se fazem livros em braille, audiolivros e até uma revista chamada Ponto e Som. — Gostaria de a conhecer — disse o Doutor Ribeiro dos Santos. — Eu próprio fiquei cego e lembrem-se de que alguns grandes escritores partilharam dessa condição, como o grande Homero e António Feliciano de Castilho. No meu tempo, estávamos dependentes de uma alma generosa que se dispusesse a ler para nós.

64


— Hoje, tudo mudou — observou um amável bibliotecário. — Há obras em braille, que nós lemos com as pontas dos dedos. Vários voluntários nos dão apoio, fazendo gravações. E recentemente a informática têm-nos facilitado muito a vida. Podemos ler e-books, obras em suporte digital, em várias línguas, através dos nossos computadores especiais. Quando se afastaram, a guia contou que a biblioteca tinha ao seu serviço deficientes motores, surdos, indivíduos com problemas do foro mental. A todos era dada a oportunidade de demonstrarem que eram pessoas válidas nas suas tarefas. O grande jardim envolvente, por exemplo, era todo cuidado por estas pessoas. — Um belo exemplo de integração! — exclamou o professor japonês. A visita estava a chegar ao fim. Muito mais haveria para ver, como o anfiteatro, o novo cofre-forte onde se guardam, em segurança, numa atmosfera e temperatura ideais, as nossas preciosidades. — Antes de sairmos, gostava que a senhora me respondesse a umas perguntinhas que fui apontando — pediu o João à guia. — Afinal, o rapaz parece curioso e interessado — observou o Doutor Ribeiro dos Santos. João apresentou então uma folha que deixou a senhora espantada. Tinha escrito o seguinte:

65


O japonês ficou com os olhos mais em bico. O antigo 1.º bibliotecário arregalou os seus, e ajeitou as lunetas para ver melhor o papel. A guia pegou numa caneta que o rapaz lhe estendeu e foi respondendo. Qual é o maior livro que possuem? Tem quase o tamanho de uma porta, 168 cm, e apresenta encadernação em madeira. Foi publicado nos Açores e chama-se Açor Eterno. O seu autor foi Manuel Ferreira. Qual é o mais pequeno? É The Lord´s Prayers e mede 5x5 mm. Meio centímetro! Trata-se de um minúsculo livrinho de oração do Pai Nosso em 7 línguas. E tem uma encadernação em pele gravada a ouro.

66


Qual é o documento mais antigo? Uma carta de doação, de 1010, escrita em latim, sobre pergaminho. Qual é o livro impresso mais antigo? A Bíblia de Gutenberg, de 1454-1455. Qual é o livro impresso mais antigo, em português? Tratado de Confissom. Foi impresso em Chaves em 1489.

67


João esfregou as mãos de contentamento. — Tive muito prazer em conhecer-vos — disse a guia, com o seu sorriso sempre amável. — Muito, muito obrigado — agradeceram todos. O Doutor António Ribeiro dos Santos perguntou as horas. — Desculpem, mas estou atrasado. Em breve vai começar uma sessão na Sala do Conselho e ninguém pode reparar que fugi do retrato. Com uma despedida galante se afastou, no seu passo curtinho mas apressado. — Não contem a ninguém que aqui estive. Mas felizmente consegui satisfazer duzentos anos de curiosidade!

68


69


QUEM É A FIGURA REPRESENTADA NESTE QUADRO EXISTENTE NA SALA DO CONSELHO DA BIBLIOTECA?

72


EM QUE REINADO FOI FUNDADA A BIBLIOTECA NACIONAL?

QUE TIPO DE DOCUMENTOS EXISTEM NOS RESERVADOS?

A PARTIR DE QUE IDADE SE PODE TIRAR O CARTÃO DE LEITOR?

73


ORDENA, POR ORDEM CRONOLÓGICA, OS LOCAIS ONDE TEM FUNCIONADO A BIBLIOTECA.

74


ORDENA AS SEGUINTES FASES DO PERCURSO DO LIVRO.

75


COMO SE ESCREVIA NO PERGAMINHO?

76


EM QUE MATERIAL ERAM FEITOS OS DOCUMENTOS MAIS ANTIGOS DA BIBLIOTECA?

77


COMO SE CHAMA A MAIS FAMOSA OBRA DA BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL, MANDADA COMPRAR POR RIBEIRO DOS SANTOS? Preenche os espaรงos em baixo.

78


ASSINALA ALGUNS DOS GRANDES INIMIGOS DOS LIVROS.

79


VÁRIOS INTELECTUAIS ILUSTRES FORMARAM O GRUPO DA BIBLIOTECA. Assinala os que não pertenceram ao grupo.

80


PROCURA AS SEGUINTES PALAVRAS NA SOPA DE LETRAS.

81


VAI À PÁGINA 40 RELEMBRAR ALGUNS MATERIAIS QUE SÃO NECESSÁRIOS PARA O RESTAURO E A CONSERVAÇÃO DOS LIVROS E ASSINALA-OS AQUI.

82


QUAIS OS MATERIAIS QUE OS GRANDES MESTRES DA ENCADERNAÇÃO USAM NO SEU OFÍCIO? SE QUISERES REFRESCAR A MEMÓRIA ESPREITA A PÁGINA 43.

83


Procura a Biblioteca Nacional de Portugal na internet: www.bnportugal.pt Aí poderás obter muita informação sobre a Biblioteca, suas exposições e iniciativas. Se clicares em pesquisa, poderás aceder aos catálogos e descobrir obras que te interessem. Podes até encontrar livros e outros documentos digitalizados, prontos a serem consultados.

SOLUÇÕES: Página 72: Ribeiro dos Santos. Página 73: D. Maria I; Obras raras e valiosas; 18 anos. Página 74: Terreiro do Paço, Convento de S. Francisco e Campo Grande. Página 75: Entrada por depósito legal, desinfestação, classificação, depósito na torre e leitura. Página 76: Com uma pena de pato. Página 77: Pele de crocodilo, papel, seda, pele de urso. Página 78: Bíblia de Cervera. Página 79: Insetos, ratos, calor e humidade. Página 80: Gil Vicente, Eça de Queirós, José Saramago e Camões. Página 81: Na vertical, da esquerda para a direita: bibliotecária, papel, música, leitura, internet, gravura, manuscrito, atlas, pesquisa, fotocópia, reservados, autor, microfilme, pergaminho, mapa; Na horizontal, de cima para baixo: camões, estante, leitor, ficha, postais, computador, braille, iluminura, arte, livros, carta. Página 82: Pinça, bata e pincel. Página 83: Linha, cartão e agulha.


VAMOS DESCOBRIR A BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL Edição: Imprensa Nacional–Casa da Moeda Texto: ©Luísa Ducla Soares Ilustrações: ©Mariana Rio Direção de arte: Pato Lógico Design e paginação: Pato Lógico Revisão: Imprensa Nacional–Casa da Moeda Impressão e acabamentos: Imprensa Nacional–Casa da Moeda 1.ª edição em março de 2019 ISBN: 978-972-27-2730-3 Depósito legal: 445855/18 N.º de edição: 1022906 Imprensa Nacional é a marca editorial da www.incm.pt prelo.incm.pt www.facebook.com/imprensanacional editorial.apoiocliente@incm.pt

.

Este livro foi impresso em: Munken Print White 150g (miolo) Symbol Freelife E/E49 Country, Premium White 250g (capa)


9

789722

727303

Profile for pato-logico

Vem Descobrir a Biblioteca Nacional de Portugal (Let's Discover the National Library of Portugal)  

"Let's Discover the National Library of Portugal", written by Luísa Ducla Soares and illustrated by Mariana Rio, showcases us the house that...

Vem Descobrir a Biblioteca Nacional de Portugal (Let's Discover the National Library of Portugal)  

"Let's Discover the National Library of Portugal", written by Luísa Ducla Soares and illustrated by Mariana Rio, showcases us the house that...

Advertisement

Recommendations could not be loaded

Recommendations could not be loaded

Recommendations could not be loaded

Recommendations could not be loaded