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Histรณrias

da CPT

Um pequeno livro virtual com histรณrias da Comissรฃo Pastoral da Terra


Índice 03 Histórias da Pastoral da Terra 04 Lutas e Aprendizado 05 Parabéns, CPT! 07 Vô Chico me ensinou 09 Poesia de Pedro 12 A mulher de Zé Onias 15 11 anos com a CPT 17 Prosa das estrelas: Rio de sonho 19 Visitas de nossas vidas


Histórias da Pastoral da Terra Em 40 anos de luta, a Comissão Pastoral da Terra conseguiu reunir centenas de militantes, apoiadores e apoiadoras, agentes e pessoas que caminharam junto às lutas dos povos do campo, das águas e das florestas. Ao fazer memória desses 40 anos, tentamos reunir histórias desses e dessas, sem os e as quais a resistência da CPT junto ao povo não seria possível. De forma espontânea, reunimos através das redes sociais tais histórias. Fizemos memória junto a cada um e cada uma, de seu contato com a Pastoral. Emocionamo-nos junto a eles e a elas

por Cristiane Passos

nesse relembrar carregado de emoções mais diversas, cuja vida e luta se misturam. A CPT foi amadurecendo e muitos de seus militantes, da mesma forma, o foram junto a ela. Famílias se criaram, junto a ela. Pensadores e pensadoras se formaram, junto a ela. Pessoas se formaram, junto a ela e à luta do povo pobre da terra. Agradecemos a contribuição de todos e todas que aqui estão retratados e retratadas, como uma pequena parte da grande teia de militantes que a CPT teceu em todo o país, e em várias partes do mundo.


Lutas e aprendizado por Fernando Luiz Araújo Costa Minha história com a CPT? Eu lembro de Padre Alfredinho no bairro das Indústrias que falava em CPT, eu lembro de vários padres que falavam em Reforma Agrária, eu lembro do Grito dos Excluídos que sempre ia e vou, eu lembro das Romarias da Terra e do grito de nossos Pastores como Dom Hélder, Dom Marcelo, Dom José Maria Pires e Dom Luiz Gonzaga Fernandes... eu ouvi desde pequeno relatos

de assassinatos no campo! Eu escutei sobre a morte de Margarida Maria Alves, eu conheço a história de Elizabeth Teixeira, eu aprendi com essa igreja que é preciso lutar por um mundo igual! Eu não só leio, estudo e ensino, mas milito, acredito e defendo uma Reforma Agrária justa e humana para todos do meu país! "Nem pobre e nem rico" (Dom Hélder Câmara


Parabéns, CPT! Por Jacques Távora Alfonsin Gente amiga e companheira. Eu acho que, quando Nosso Senhor nos recomendou que a gente procurasse sempre viver conforme o Seu Reino e a Sua Justiça sabia muito bem que o nosso reino e a nossa justiça sempre teriam muita dificuldade em se inspirar livremente no amor. Criamos leis e tribunais que, como todo o mundo sabe e a CPT também, durante sua já longa e fecunda história, fica difícil contar, a cada ano, quanta gente e quanta terra morrem, pela violência injus-

ta, própria de grande parte das decisões administrativas e das sentenças, sempre explicada, mas não justificada, pelo “respeito devido à ordem, à segurança e à lei”. Não há questionamento aí sobre o número de vítimas que esse tipo de dominação cria e reproduz, comprovando a ausência do amor e da justiça nessas decisões. Junto a elas, como fez Jesus Cristo, a CPT não desanima, persevera anunciando a Sua Palavra, denunciando a injustiça social, defendendo


a dignidade e a Presença de Deus Encarnado em suas/seus filhas/os, ainda crucificadas/os como Ele, permanentemente caminhando rumo à Terra Prometida, a daqui e a do céu, de acordo com o Reino de Verdade, Justiça, Amor e Paz.

Um abraço muito carinhoso em vocês, pelo aniversário de um testemunho tão vivo da Vontade e do Amor do Pai, da Graça Libertadora e Redentora do Filho, da Luz e da Comunhão do Espírito Santo, bem como das bênçãos de Nossa Senhora. Do amigo e companheiro Jacques.


Vô Chico me ensinou Por Andrei Thomaz Costa Oss-Emer Então, esse é o desafio: relatar as histórias da CPT. Eu tenho histórias da CPT pra contar. Histórias que vêm de berço e que me remetem à pequena vila de Engenho Velho, município de Catuípe, região das Missões, Estado do Rio Grande do Sul. Digo que a história que eu tenho pra contar sobre a Comissão Pastoral da Terra vem de berço, pois meu falecido avô João Francisco Costa participou da história da CPT ao estar sempre presente na Romaria Da Terra Do Rio Grande Do Sul.

Eu era criança e ele não podia me levar, mas me contava. Me contava que a Terra é nossa Mãe, que não devemos dar veneno pra Terra, pois quem ama não maltrata. O Vô Chico, como o chamávamos, me ensinou que não devemos ter gaiolas, mas devemos plantar o mato, para que os pássaros venham até nós, como até hoje vêm na agrofloresta que ele nos deixou. O Vô Chico me ensinou que a vida em comunidade era a maior de todas as alegrias, pois na comunidade aprendemos a respeitar aqueles que estão mais próximos de nós, e


aprendemos a cuidar dos que mais necessitam. O Vô Chico me ensinou que os povos indígenas, os quilombolas, os sem-terra não são vagabundos (como diziam os donos do poder), mas são gente como a gente, sofridos, oprimidos pelo sistema. O Vô Chico me ensinou que a Monsanto sempre mente, e que os transgênicos jamais deveriam ter chegado às nossa Terras. O Vô Chico me ensinou que jamais se desiste dos nossos sonhos, e que toda luta por justiça é digna. O Vô

Chico me ensinou que a Terra deve ser de quem trabalha nela. O Vô Chico me ensinou que sem um projeto político concreto de reforma agrária os jovens não terão mais força de permanecer no campo. O Vô Chico me ensinou que devemos acima de tudo buscar o Reino de Deus e sua justiça, e que tudo mais virá por acréscimo. Obrigado Vô Chico, obrigados tantos lutadores e lutadoras do povo que não deixam que a chama se apague.


“Nasceu você um pouco maldita, quase clandestinamente, filha da paixão pelos pobres da Terra. filha do Reino dos Céus que é Reino da Terra também. Mal vista em casa, odiada fora. Pastoral da água de Batismo ou do azeite da Crisma ou do Trigo e do Vinho da Ceia, a Igreja as vive tradicionalmente. Mas Pastoral da Terra? Como se a água e o azeite e o trigo e o vinho não fossem leite e sangue e ternura e pranto da Terra Mãe... Você é a Pastoral matriz do pão nosso de cada dia, da economia histórica da salvação, depois que o Verbo se faz carne


na terra do ventre de Maria. Fora, odiada: pelo latifúndio e suas UDRs, pela ditadura militar e seus carrascos, por todas as arcaicas oligarquias e coronelatos prepotentes e pelo novíssimo devastador neoliberalismo - latifúndio do mercado, ditadura econômica, oligarquia de exclusão. Pastoral fecunda, você já semeou muita semente agitadora nas mitras sonolentas de alguns bispos. E já fez nascer ou renascer muitos sindicatos de trabalhadores rurais. E propiciou utopia e surco para muita juventude. E suscitou no país e na Pátria Grande toda e além mar muita consciência e muita solidariedade. Irmã gêmea do CIMI,


irmã mais velha e mais curtida de muitas outras pastorais específicas. Mãe, filha, companheira de muitos e muitos agentes de pastoral. Ecumênica nem sempre compreendida. Macroecumênica como a terra e a chuva e o sol do Deus da Vida. Ara de tantos mártires - eles e elas, que em você passaram pela grande tribulação e em você lavaram seus corpos e seus sonhos com o sangue do Cordeiro, bendita CPT, pastoral de fronteira, evangelho de risco, profecia pé no chão e enxada na mão e cantiga na boca dos Novos Céus e da Nova Terra!”.

Pedro Casaldáliga

(agosto de 1995)


A mulher de Zé Onias 1982, fazia um ano que tinha chegado a Campo Alegre de Lourdes, norte da Bahia, quase Piauí, para uma experiência pastoral na Diocese de Juazeiro. Não demorou e nossa Pastoral era também e principalmente da Terra. Estávamos na campanha que se fazia há 12 anos, em que jovens vindos do Sudeste, de Salvador, de outras paróquias vizinhas, passavam o mês de janeiro nas comunidades rurais, alfabetizando, edu cando e, mais que isso, sendo educados pelo povo sertanejo. Coube a mim fazer a campanha na comunidade de

Por Ruben Siqueira Baixão dos Bois. Ela e mais outras sete, cerca de 400 famílias, todas posseiras antigas, estavam sob ataque de um grileiro de terras. Era um povo que dava passos firmes na organização e na luta e estava decidido a se defender. A tática da grilagem, muito comum na região, era fazer uma picada, chamada “variante”, cercando toda a área pretendida, e exigir que quem estivesse dentro pagasse para ficar ou fosse embora ou seria expulso. As comunidades haviam combinado que o primeiro a ouvir o barulho das foices e machados na operação do “variante”, corresse a avisar as comunidades mais próxi-


mas e estas às outras mais distantes. Rapidamente todos acorriam ao local para empatar a operação. Já haviam feito isto mais de uma vez, e o grileiro retomava em outro ponto. No meio da manhã, chega a notícia de que “variantavam” na comunidade de Barra. Corremos para lá. Em pouco tempo éramos cerca de 400 – “home, muié, minino e cachorro”, como se falava para dizer todos –, estávamos lá “tudim” na “empatação”. O confronto se deu na posse de Zé Onias, um homem grande, tranquilo, caladão. Já sua mulher,

metade de sua estatura, era o oposto, esperta, briguenta, daquelas “que não levam desaforo prá casa”. Respaldada pela multidão de seu lado, com um facãozinho na mão, ela riscava em cruz o chão, passava-o rente ao rosto do filho do grileiro e de seus capangas armados e dizia e repetia gesto e palavra, apontando para a cerca de varas de sua roça de milho e mandioca ainda se formando, o feijão de corda já se dando a colher: “Por dentro de minha mãe, não! Por dentro de minha mãe, não!”.


A coragem da pequenina mulher – talvez aumentada pelo contraste com o tamanho calado de seu marido –, e a verdade de sua fala contagiaram a todos os presentes, de um lado e do outro do conflito. O povo avançou e os grileiros recuaram para não mais retomarem a empreitada. O caso estava na Justiça e aí também o fazendeiro não ganharia. A vitória fortaleceu a luta em toda a região, refletiu-se nas eleições municipais daquele ano, as primeiras livres pós-ditadura, em que o PT em Campo Alegre de Lourdes fez dois dos quatro

vereadores eleitos pelo partido em todo o estado da Bahia, sendo um do Baixão dos Bois. Pelo menos duas coisas aprendi ali. Uma, que devia ficar na região para continuar este tipo de trabalho pastoral, para o qual tinha vindo de São Paulo como seminarista e estudante de teologia apenas para um ano já vencido de experiência. A outra o por que a Comissão Pastoral da Terra é feminina. Como a mulher de Zé Onias, cujo nome nem ficou na história...


11 anos com a CPT por Cristiane Passos Em 2005, ainda na faculdade de Jornalismo da UFG, fui indicada para estagiar na Secretaria Nacional da CPT. Uma professora me indicou e achava que eu tinha o perfil por causa da minha militância na comunicação comunitária e do meu trabalho, via faculdade, com o povo Krahô no Tocantins. Entrei na CPT com 21 anos, ainda estudante e muito jovem. De cara enfrentei desafios, principalmente pela falta de informações sobre os confl

itos com os quais a CPT trabalhava. Ouvir sobre eles de forma distante não chega nem perto a encostar e vivenciá-los. Conheci a dura realidade do povo sem terra, camponês e das comunidades tradicionais. A dor da inacreditável permanência do trabalho escravo em nossa sociedade. Mas conheci também outras lutas, outros lutadores e lutadoras, e a fé de um povo que não se abate fácil. Tive mestres como Dom Tomás Balduino, cuja falta


ainda dói. Conheci pessoas incríveis no caminho. Senti e ainda sinto as dores, a dificuldade e o amor de uma vida militante. Tornei-me profissional... cresci como pessoa e como mulher... me pós-

graduei e me tornei mestra, tudo ainda na CPT. Estou aqui há 11 anos e acho que outros tantos virão. Viva a CPT, viva a luta da CPT e do povo do campo.


Prosa das estrelas: Rio de sonho por Bruno Santiago Alface A Lua enorme refletia nas águas do Madeira. Parecia pintura, quase que brigando por espaço com as estrelas que moravam no céu. Nem a usina que invadiu aquelas águas conseguia apagar o brilho da noite. Era pouca morte. Era muito rio. - É sério? É sério! - disse uma estrela pra outra. - Esse lugar é meu e ninguém tira. Minha casa, sabe? Não é de ocupar. É de morar. É como o rio ali de baixo, que nasceu pra ser a veia aberta do mundo. Bombeia a vida pra quem quer viver. Corre quieto. Fluindo os anos da nossa vida e desaguando os sonhos que não descansam.

- Tem pescador sortudo que de vez em quando fisga um deles. - Deles quem? - Dos sonhos, ué. Tem pescador que mora no rio. Entende das maré, conversa co’s tucunaré. É peixe vestido de gente. Tem rio que pro pescador é casa, sabe? Tô te falando. Tem rio que abraça. Que aquece. Que alimenta. Por isso, tem gente que pesca sonho. - O sonho é de quem? - De quem acreditar nele. - Quem tem rio nunca fica sozinho.


por Elson Matias Visita da Mãe Aparecida aos posseiros/as ameaçados/as de despejo da fazenda Paraíso de Pilar-PB - "Negra Mariama chama pra cantar/ Que Deus uniu os fracos pra se libertar/ E derrubou dos tronos os latifundiários/ Que escravizavam pra se regalar..."

Visitas de nossas vidas

por Helio Gouvêa

Nossa história com a CPT é novíssima e acontece agora em uma missão em preparação para a XV Romaria da Terra e das Águas em Campos no estado do Rio de Janeiro. Já visitamos 5 assentamentos e comunidades quilombolas em Campos e Cardoso Moreira.Vimos as mais diversas realidades e conhecemos pessoas maravilhosas com suas histórias e lutas. Sairemos desta missão mais cheios de Vida.


Realização: Comissão Pastoral da Terra (CPT) Textos: Cristiane Passos Fernando Luiz Araújo Costa Jacques Távora Alfonsin Andrei Thomaz Costa Oss-Emer Ruben Siqueira Bruno Santiago Alface Elson Matias Helio Gouvêa Projeto Gráfico: Bruno Santiago Alface Poesia de Pedro Casaldáliga

Este livro foi escrito coletivamente por meio da colaboração de diversas pessoas que, de alguma forma, constroem a história da Comissão Pastoral da Terra em nosso país.


Histórias da CPT  

O livro virtual Histórias da CPT foi escrito coletivamente por meio da colaboração de diversas pessoas que, de alguma forma, constroem a his...

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