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Fraternidade e Saúde Publica “Que a Saúde se Difunda Sobre a Terra.”

Campinas, 29 de Março de 2012

Srs. Administradores do bem-público Srs. Vereadores

As Comunidades Eclesiais de Base espalhadas pelo Brasil estão refletindo sobre a justiça e a profecia no campo e na cidade como preparação para o grande encontro Intereclesial que acontecerá em janeiro de 2014. Neste ano a CNBB convida a sociedade brasileira a refletir na Campanha da Fraternidade sobre as políticas públicas para a saúde. Estamos nos empenhado neste estudo e de modo especial olhando para a realidade de nossa cidade e para a grande região metropolitana que tem Campinas como um grande pólo. A profecia no antigo Israel e também a profecia de Jesus de Nazaré e das Comunidades Cristãs originárias lançam fortes críticas aos projetos dos reis (Os 1,4; 13,11; Am 7,11: Is 7,17) ; à corte (Am 4,1s; 6,1s: Sf 1,8; 1Rs 16,1s; 21,17s);aos funcionários da corte (Is 1,21s; 5,8s; 10,1s; 22,15s); ao exército (Am 2,14-16; Is 5,22); aos sacerdotes do templo e aos falsos profetas (Am 7,17; Os 4,4s; Mq 2,5-7; Jr 23,9s), aos comerciantes (Am 2,6; 8,4-8) e aos “latifundiários” (Am 5,11; Mq 2,1-5: Is 5,8-10). A crítica recai sobre estes grupos e seus aparatos porque são sinal visível de riqueza, poder, corrupção e abuso da confiança.

Vemos que a antiga profecia luta contra os

dominantes e suas instituições de enriquecimento ilícito, porque estes se utilizaram do poder, ao deixar de lado o serviço ao povo e o bem comum. A leitura sobre a justiça e a profecia bíblica suscitou provocações em nossas comunidades ao vermos a nossa Campinas na crise política marcada pelos desgovernos, más administrações, corrupções e o grande descaso para os direitos do povo na área da saúde, da educação e de outros tantos setores sociais. O povo está atento! Para que as nossas ações em prol de nossas comunidades e de toda sociedade campineira tenha ares proféticos, bem como, possamos zelar pela saúde política e social de nossa cidade e pela saúde do povo, exigimos que a atual administração pública e a Câmara dos Vereadores tomem como ponto fundamental e tarefa urgente os seguintes pontos:


a) Na perspectiva de um primeiro passo para se buscar uma vida política sã e a credibilidade do conjunto político-administrativo de nossa cidade, faz-se necessário a apresentação de relatório das arrecadações e dos gastos, indicando em que setores foram destinados o dinheiro público.

Apresentem para a população uma ação política

condizente com os conceitos de “cidadania”, “participação” e “justiça”. Caso contrário, vocês repetirão o que já presenciamos e denunciamos no último ano: corrupção, roubalheira, defesa de interesses político-partidários, etc. b) Uma preocupação com a saúde do povo e com políticas públicas que apontem para possíveis mudanças e melhora do quadro deplorável de nossas instituições de saúde. Os espaços de saúde de nossa cidade estão se transformando em produtores de doenças. E assim, os nossos ambulatórios, hospitais, centros de saúde públicos são reflexo da doença social, política, econômica que paira em nossa cidade. É preciso força política e projeto ousado para reverter este quadro. O descaso dos governantes ate o presente momento para com as nossas instituições de saúde revelam a chaga e a carie que está corroendo a nossa cidade. Faz-nos lembrar da profecia de Israel contra o Estado de Israel: “Quando Efraim viu a sua enfermidade, e Judá, a sua chaga, subiu Efraim à Assíria e enviou ao rei Jarebe; mas ele não poderá curar-vos, nem sarar a vossa chaga” (Os 5,13). E podemos fazer um paralelo com a nossa situação: “Quando Campinas viu a sua enfermidade e São Paulo a sua chaga, subiu atrás das alianças políticas e das artimanhas de salvação democrática; mas esses instrumentos não poderão curar a nossa sociedade, nem sarar a chaga de nossa doença política”. Ao invés de buscarem apoios políticos, econômicos, sociais e religiosos para esconder as práticas corruptas e saqueadoras dos bens públicos, sejam os primeiros a dar o passo para uma retomada da ética e da moral em nossa cidade e possam contribuir para uma ação conjunta com outros setores de nossa sociedade para combater esse vírus que está vivo e latente. c) Um maior empenho das secretarias responsáveis na desburocratização dos meios de adquirir por parte do poder público, os medicamentos necessários e imprescindíveis à vida de muitas pessoas que sem o auxilio do remédio padecem numa dura via sacra de posto em posto de hospital em hospital na busca do medicamento para aliviar o seu penar. O sofrimento de nossa população martirizada por um sistema deficitário de saúde nos remete a dor daquelas pessoas enfermas, excluídas e banalizadas pela sociedade que iam ao encontro de Jesus. Aquelas pessoas encontravam no Homem de Nazaré uma pessoa que entendia o penar de uma vida dura de trabalho e luta por dignidade e não media esforços para restaurar a sua humanidade. Assim, também nós clamamos por maior atenção a este povo marginalizado que sofre desumanizado morrendo nas longas filas na das unidades de saúde e nos corredores dos hospitais por falta de leitos.


d) Solicitamos uma atenção especial no que tange a saúde pública, pois os dados internacionais já apontam para a insustentabilidade do sistema de saúde. Esta está relacionada a falta de investimento na prevenção, gestores incapacitados, fazendo escolhas incorretas diante dos recursos que se destina à saúde, políticas de saúde que afetam as consquências e não as causas da doença, uma gestão de saúde que não é compartilhada,

um

atendimento

não

humanizado

aos

pacientes.

Assim,

a

sustentabilidade do sistema se vincula: a.

Investimento em prevenção, com utilização de unidades móveis de saúde, sistema bem gerenciado de saúde da família;

b. Educação da população quanto a formas preventivas, alimentação saudável (para caminharmos na contramão da obesidade e consequentes doenças a ela aliada), e práticas de atividades físicas (inclusive com locais comuns comunitários oferecidos pelo poder público); c.

Uma preocupação com a saúde mental das pessoas, possibilitando psicólogos, médicos especializados e sistema de saúde mental próximo às residências, com terapia ocupacional e outros recursos a este tema desenvolvido; o que possibilita uma redução de gastos com remédios.

d. a humanização do atendimento dos pacientes, seja por parte dos funcionários e médicos (aos quais solicitamos treinamento para tal), seja por proporcionar um ambiente mais agradável nos hospitais e postos de saúde. A partir de Jesus Cristo, tratamento com amor. e.

Um investimento em tecnologias que proporcionem o rastreamento de doenças, como a oncogenética (no que tange ao câncer), utilização de unidades móveis entre outros.

f.

A uma gestão que otimize os recursos, fazendo escolhas efetivas no sistema. O grande problema da saúde está na ausência de gestores qualificados para tal. O Sistema Único de Saúde é bom; a rede de gestores nos municípios acaba por depredar o sistema e causar seu afogamento.

g. Incentivar práticas de lazer, espiritualidade, cultura para a população próxima às suas residências, um estado dinâmico de completo bem-estar físico, mental, espiritual e social e não meramente a ausência de doença; h. Possibilitar a participação das comunidades e associações da população em conselhos de saúde, seja municipal, seja dos espaços de saúde do município, proporcionando cada vez mais, como em países com desenvolvimento mais avançado (ex: Canadá) a gestão do sistema de saúde com aval da comunidade. i.

Cuidar de maneira especial das crianças e dos idosos (sobretudo em momento que temos um envelhecimento populacional), proporcionando espaços de cuidado de saúde e profissionais que tenham perfil para tal.


j.

Enfatizamos novamente, sempre tendo como referencial a humanização da saúde.

Pedimos por fim que nossos políticos vendo a situação deplorável da população da cidade de Campinas que tem sido saqueada nos seus direitos e machucada sem compaixão por bandidos inescrupulosos que não hesitam lesar os indefesos , tenham a atitude daquele Bom Samaritano da passagem bíblica (Lc.10, 30-37) que ao ver o viajante caído e a beira da morte se comparece e ajuda a restabelecer sua integridade física e humana. A atitude de Bom Samaritano esperada de nossos políticos nos dias de hoje é chamada Vontade Política, vontade que se resume em ações concretas como: 

Otimização do uso do dinheiro publico;

Agilidade nas concorrências para a compra de medicamentos;

Contratação de profissionais capacitados com abertura de concursos;

Estruturação adequada dos locais destinados ao atendimento da população e de seus equipamentos;

Planejamento adequado do atendimento para que não haja super lotação e longas filas de espera e de agendamento de exames;

Apresentar uma agenda propositiva para a Cidade de Campinas com projetos que visem o bem-estar (saúde do corpo, dignidade humana e igualdade social) das camadas empobrecidas, tais como, projetos de espaço de revitalização das praças, parques e espaços públicos. Que a nova administração da cidade não seja como placas que vemos em alguns estabelecimentos: “Sob nova direção”, mas que seja o início de novos projetos e que se projete uma Nova Campinas: Sem corrupção, roubalheiras e injustiças.

Que neste tempo de Semana Santa possamos refletir sobre a caminhada de Jesus de Nazaré junto ao povo da Galiléia na justiça, na solidariedade e no encontro com Deus. Porém, sabemos que a morte na cruz é a marca do compromisso de Deus com as mudanças na sociedade e a construção do Reino. Vamos seguir os ensinamentos da parábola do fermento: “O Reino dos Céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e pôs em três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado” (Mt 13,33).

Comissão em Defesa da Saúde e a Vida.


carta-ao-prefeito