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Ano I - Nº 36

04 a 10 de Maio de 2013

Preparando-nos para a grande celebração de Pentecostes, colocamos em suas mãos nosso Informativo nº 36. Agradecendo a todos as manifestações de apoio e incentivo ao nosso singelo trabalho que temos recebido, vindos das mais diferentes regiões o Brasil e de outros países, queremos abrir um novo espaço em nosso informativo para que você possa escrever. Envie-nos sua mensagem. Colabore conosco neste empreendimento semanal, que graças a Deus tem alcançado seus objetivos. Venha cerrar fileiras conosco. Unidos poderemos construir um mundo melhor com justiça para todos, fraternidade e solidariedade.

“Últimos desejos de Jesus”

“Teologia e Trabalho: relação a construir”

“Jesus se despede dos Seus discípulos. Vêos tristes e acovardados. Todos sabem que estão a viver as últimas horas com o seu Mestre. Que sucederá quando lhes falte? A quem acorrerão? Quem os defenderá? Jesus quer infundir-lhes animo descobrindo-lhes os seus últimos desejos.” Partindo desta premissa, José Antonio Pagola nos leva a refletir sobre a dimensão do amor de Jesus por nós. Leia na página 02.

“A minha Paz vos dou”” “O Pai e o Filho vêm habitar conosco, entre nós e dentro de nós. Aí onde está o Filho encontra-se também o Pai.” Com esta certeza afirmada, Marcel Domergue, convida-nos a meditar sobre a morada de Deus, proporcionando-nos uma rica interpretação sobre sermos nós o templo vivo do amor e da paz. Página 02.

“Os Profetas e a Pobreza” Sob este título, Padre Zezinho discorre com brilhantismo a respeito de um tema polêmico e muito atual: “a Teologia da Prosperidade. O que há, de fato, por trás da oratória e dos “shows” montados em nome da fé, defendendo a defendendo a riqueza a qualquer custo como condição única para a felicidade? Lei com atenção a reflexão na página 03.

Na página 4, você encontrará a reflexão feita pela teóloga Maria Clara Bingemer sobre este dois temas, e as ambiguidades decorrentes deles. Maria Clara desenvolve sua reflexão a partir das falas do Apóstolo Paulo, e atualiza para nossos dias. Vale a pena uma leitura atenciosa desta reflexão.

O Papa Francisco nos brinda com trechos de sua homilia proferida na missa celebrada na Casa Santa Marta na qual chama nossa atenção sobre os “Cristãos corajosos que transmitem a fé e desafiam Jesus na Oração”. “Não podemos ser mornos” nos diz o Papa. Leia na página 04.

“Na Verdade o povo não tem poder algum” Com esta afirmação, o Jurista Fábio Comparato, concedeu uma entrevista de extrema profundidade sobre questões sociais, política e econômicas que atingem a todos nós. Sem sombra de dúvida, uma matéria que merece nossa leitura e atenção. Leia na página 05. Nas páginas 06 e 07 você encontrará nossa agenda de eventos e reuniões, além do endereços eletrônicos nos quais você poderá encontrar material muito rico para estudos e trabalhos de pesquisa. Tenham todos ótima leitura.

Novas atuações juvenis Padre Rafael Lopez Villasenor

O papa Francisco, que viajará ao Rio de Janeiro para participar da 28ª Jornada Mundial da Juventude, com o lema "Ide e fazei discípulos entre todas as nações" e acontece entre os dias 23 e 28 de julho, encontrará uma juventude com fortes inquietações próprias do tempo, como jovens que vivem o conflito do avanço tecnológico, do mistério do emprego, da violência urbana, entre outras ansiedades. Nesta conjuntura, a religião torna-se um fator de escolha numa sociedade que enfatiza inúmeras possibilidades de opções, mas reduz acessos e oportunidades. A juventude de hoje tem novas atuações, diferentes das décadas dos anos 60 e 70, em que os jovens tiveram forte participação no movimento estudantil, na pastoral da juventude e nos partidos políticos; nos anos 80, a juventude esteve mais presente nos movimentos sociais de oposição aos regimes autoritários; desde os anos 90, existe uma síntese entre velhas e novas formas de atuação, com uma participação social bem diversificada no uso das novas tecnologias de comunicação e de informação. A cultura midiática fez com que os jovens sejam agentes ativos de comunicação. A internet criou a "aldeia global". A juventude não vive mais sem os instrumentos de comunicação como microcomputador, celular, internet, redes sociais... eles estão sempre conectados dominando o mundo cibernético e criando novas relações. Tudo isso, levou a uma abertura ao mundo e aos problemas globais, que afetam a vida e o planeta, como as questões ecológicas e planetárias que nascem e florescem nas redes sociais. O avanço da tecnologia não impediu à juventude se envolver e se relacionar com a Igreja. Assim o ciberespaço passou a ser um lugar de evangelização e de diálogo com a cultura midiática, de intercambio de experiências da fé e da religião através das redes sociais. Inclusive, a religião migrou para o espaço virtual criando uma prática religiosa fora do templo e do espaço físico. Os jovens, muitas vezes, podem cair na ilusão que o nicho em que eram colocados os santos, agora pode ser substituído pelo computador e pode servir também para entrar em contato com Deus, que os pedidos e as orações podem ser feitas através da prática virtual e não precisam ser levados até a igreja. Basta clicar e se pode fazer oração, receber ajuda espiritual, acender velas, dar testemunhos... tudo de forma virtual, sem a necessidade da comunidade física, isto pode desvirtuar o verdadeiro sentido da fé na juventude.

1ª Leitura: At 15, 1-2. 22-29 - Salmo: Sl 66 (67) 2ª Leitura: Ap 21, 10-14.22-23 Evangelho: Jo 14, 23-29


L I T U R G I A I T U R José Antonio Pagola G I A Jesus se despede dos Seus discípulos. Vê-os tristes e acovardados. Todos sabem que estão a viver as últimas horas com o seu Mestre. Que sucederá quando lhes falte? A quem acorrerão? Quem os defenderá? Jesus quer infundir-lhes animo descobrindo-lhes os seus últimos desejos. Que não se perca a Minha Mensagem. É o primeiro desejo de Jesus. Que não se esqueça a sua Boa Nova de Deus. Que os Seus seguidores mantenham sempre viva a recordação do projeto humanizador do Pai: esse “Reino de Deus” de que lhes falou tanto. Se o amam, isto é o que hão de cuidar primeiro: “o que Me ama, guardará a Minha palavra… o que não Me ama, não a guardará”. Depois de vinte séculos, que fizemos do Evangelho de Jesus? Guardamos fielmente ou o estamos a manipular a partir dos nossos próprios interesses? Acolhemos no nosso coração ou vamos esquecendo-o? Apresentamo-lo com autenticidade ou ocultamo-lo com as nossas doutrinas? O Pai envia-vos em Meu nome um Defensor. Jesus não quer que fiquem órfãos. Não sentirão a sua ausência. O Pai lhes enviará o Espírito Santo que os defenderá do risco de desviarem-se Dele. Este Espírito que captaram Nele, enviando-os aos pobres, impulsionará também a eles na mesma direção. O Espírito “ensina-os” a compreender melhor tudo o que o ensinou. Ajudará a aprofundar cada vez mais a Boa Nova. “Recorda-lhes” o que escutaram. Educa-os no seu estilo de vida. Depois de vinte séculos, que espírito reina entre os cristãos? Deixamo-nos guiar pelo Espírito de Jesus? Saberemos atualizar a Sua Boa Nova? Vivemos atentos aos que sofrem? Para onde nos empurra hoje o Seu alento renovador? Dou-vos a Minha paz. Jesus quer que vivam com a mesma paz que puderam ver Nele, fruto da sua união íntima com o Pai. Oferece-lhes a Sua paz. Não é como a que lhes pode oferecer o mundo. É diferente. Nascerá no seu coração se acolhem o Espírito de Jesus. Essa é a paz que há-de contagiar sempre que cheguem a um lugar. O primeiro que difundirão ao anunciar o Reino de Deus para abrir caminhos a um mundo mais são e justo. Nunca hão de perder essa paz. Jesus insiste: “Que não trema o vosso coração nem se acovarde”. Depois de vinte séculos, porque nos paraliza o medo em relação ao futuro? Porquê tanto receio ante a sociedade moderna? Há muita gente que tem fome de Jesus. O Papa Francisco é um presente de Deus.

Em: www.eclesalia.wordpress.com/2013/05/03

Tudo nos está a convidar para caminhar em direção a uma Igreja mais fiel a Jesus e a o seu Evangelho. Não podemos ficar passivos.

Marcel Domergue

A morada de Deus No evangelho de hoje, encontramos muitas palavras que nos falam de estabilidade e permanência. Quem ama mantém-se fiel à palavra do Cristo. E esta fidelidade será correspondida pela fidelidade de Deus que estabelece a sua morada naquele que ama. Não pensemos em nenhuma espécie de troca, tipo dar e receber: o amor que manifestamos é já a presença, a habitação de Deus. A questão da moradia de Deus entre os homens é uma constante na Bíblia. O Templo, com o "Santo dos Santos", é a imagem da presença permanente e ativa de Deus. Mais tarde, quando o povo exilado na Babilônia estiver privado do Templo, a observância da Lei ("fidelidade à Palavra") será a morada de Deus. Desde o princípio do evangelho de João, esta questão reaparece: "Onde moras?", perguntam os discípulos, em João 1,38. Em 2,20, Jesus fala do "templo de seu corpo", mas é no evangelho de hoje que encontramos a resposta definitiva à questão do lugar em que Deus reside: "viremos e faremos nele a nossa morada". Mas, uma vez que se trata de amor, do amor unificante de Deus, é todo o corpo eclesial do Cristo que é a residência de Deus. Esta é a nova Jerusalém de que nos fala a segunda leitura, a cidade santa "descendo do céu" e de que o centro, o templo, é o próprio Deus. Cidade a uma só vez fechada, ou seja, protegida, e aberta para todos, pois guarnecida de portas que dão para todas as direções. A nova morada O Pai e o Filho vêm habitar conosco, entre nós e dentro de nós: notar o plural do versículo 23. Aí onde está o Filho encontra-se também o Pai. Ora, na leitura do evangelho de hoje e em todo o discurso após a Ceia de que este faz parte, Jesus nos fala ao mesmo tempo de sua permanência entre nós e de sua partida. "Enquanto estava convosco", diz ele, no versículo 25. Mas, no momento em que está falando, às portas da Paixão, de alguma forma ele já partiu. O que temos, então, a permanência do residente ou a ausência do que parte? Haveria contradição nesta passagem do evangelho? Certamente que não, mas até aí a habitação de Deus entre nós só podia ser contemplada de fora. O templo era visto do seu pátio, pois era proibido entrar em seu centro, onde repousava a Arca da Aliança. E o que havia na Arca? As tábuas da Lei. Em outros termos, a Palavra de Deus, gravada em tábuas de pedra expostas num trono situado fora do alcance dos que a ela haviam de se conformar. Com a vinda do Cristo, a situação modificou-se com certeza: por ele e nele, Deus habitou o nosso mundo não mais situado no Templo, mas presente em todo tempo e lugar. No entanto, os seus discípulos podiam vê-lo fora de si mesmos; ele lhes era exterior. Este modo de presença é que irá desaparecer. Por ela, o Cristo podia certamente se achegar aos homens através de seus sentidos corporais; e a provação de não ver mais nada nem ouvir diretamente será cruel, mas necessária para que a habitação de Deus seja perfeita, para que agora ela se passe ao interior de cada um e de todos. Habitados pelo Espírito de Deus Em 1 Coríntios 3,17 e 6,19, Paulo diz que somos o templo de Deus e que nossos corpos são o templo do Espírito. 1 Pedro, 2,5 diz aproximadamente a mesma coisa. Se tudo isso se fez invisível para nós, foi porque dali por diante tudo se tornou um só corpo conosco. Por isso é que, no mesmo momento em que anuncia a sua partida, Jesus anuncia também a vinda do Espírito. Pelo Espírito, tudo que pertence ao Cristo e, por consequência, a Deus torna-se nosso e "permanecerá para sempre conosco". O Espírito não tem nada de particular a nos ensinar, nenhuma mensagem pessoal, mas irá repetir para nós tudo o que Jesus nos disse. Por que esta repetição? Porque temos que ouvir novamente esta ou aquela palavra de Jesus em função do que temos que viver. Pelo Espírito, a palavra de Jesus deixa o domínio das generalidades para vir se encarnar bem ali, onde nos encontramos. Por isso, em meio às sugestões e solicitações que nos atacam, vamos poder discernir a voz do Espírito. Esta é a voz d'Aquele que nos defende, nos assiste e nos consola, conforme o sentido mais rico do nome "Defensor". Compreende-se que a presença interior do Espírito possa nos dar segurança e nos trazer a paz. Por isso, no mesmo momento em que nos anunciou o dom do Espírito, Jesus nos disse: "Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou”.

Em: www.cebi.org.br/2013/05/03

L I T U R G I A


Padre Zezinho

Você viu e vê a fé que leva ao sucesso. Não passa dia sem que não veja. Está nos templos cheios; na mídia, em espaços comprados a peso de ouro; nas ruas e avenidas, em concentrações e marchas o enorme e estrondoso apelo que vem com a pregação do sucesso e da “fé que acontece e faz acontecer!” Não vê e não ouve quem não liga seus aparelhos! Os pregadores do Cristo glorioso e do bem estar do Reino estão vencendo! Com nos tempos de Isaias e Amós, século VIII aC e Jeremias século 7, havia os profetas da denúncia e da renúncia e os profetas da conquista e da cooperação. E disse-me o SENHOR: Os profetas profetizam falsamente no meu nome; nunca os enviei, nem lhes dei ordem, nem lhes falei; visão falsa, e adivinhação, e vaidade, e o engano do seu coração é o que eles vos profetizam. (Jeremias 14 : 14) Tenho ouvido o que dizem aqueles profetas, profetizando mentiras em meu nome, dizendo: Sonhei, sonhei. (Jeremias 23 : 25) Eis que eu sou contra os profetas, diz o SENHOR, que usam de sua própria linguagem, e dizem: Ele disse. (Jeremias 23 : 31) Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Não deis ouvidos às palavras dos profetas, que entre vós profetizam; fazem-vos desvanecer; falam da visão do seu coração, não da boca do SENHOR. (Jeremias 23 : 16) E vós não deis ouvidos aos vossos profetas, e aos vossos adivinhos, e aos vossos sonhos, e aos vossos agoureiros, e aos vossos encantadores, que vos falam, dizendo: Não servireis ao rei de Babilônia. (Jeremias 27 : 9) Dois tipos de profecia trocavam farpas. Uns a dizer que tudo daria certo e que Deus levaria o povo à vitória. Outros a dizer que a corrupção chegara aos templos, aos profetas e aos sacerdotes. O capitulo 23 de Jeremias é revelador. A religião em Betel, no reino de Israel ao norte, mancomunava com os poderosos e não tolerou Amós que denunciava aquele conluio. Em Jerusalém, ao sul, 100 anos depois Jeremias lança um repto contra os que tinham alugado sua profecia e transformado a fé em negócio pessoal. O versículo 30 mostra um Deus irado contra os profetas ladrões da palavra do Senhor. Faziam Deus dizer o que eles queriam dizer. Não era a Palavra de Deus que chegava ao povo, mas a palavra dos profetas que manipulavam a palavra de Deus.(Jr 23,25-27) Com esse tipo de conversa Jeremias não era nem poderia ser amado. Lá como cá, um profeta não tem o direito de julgar o outro. Os dois tipos têm o direito de expor sua profecia que o tempo revelará se veio ou não veio do céu. Talvez os profetas do bem estar e do sucesso estejam certos, talvez não! De vez em quando eles soltam indiretas contra os crentes de outra fé que “veneram a pobreza”! Que sejam também eles questionados sobre suas certezas! Números não provam uma eleição e o próprio Jesus deixa claro que curas, estupendos milagres, conversões em massa não dão ao pregador da fé em Cristo nenhuma garantia de que ele mesmo entrará no Reino dele. ( Mt 7,15-23) A chave para este assunto de influenciar o povo, possuir mais e obter sucesso pessoal e financeiro está em Mt 25,13-46. Lá, Jesus elogia os empreendedores que puseram seus dons para render frutos para o Reino e alerta que tipo de empreendimento dá direito a um lugar ao lado dele: o daquele que destina aos outros o que conseguiu e não comete a loucura e acumular suas conquistas em favor de si mesmo.(Mt 13,22; Lc 18,24) E indo mais longe, Jesus ameaça com castigo maior o que usa da religião para proveito pessoal, devorando as casas das viúvas a pretexto de longas orações( Mc 12,40) Os que mostram Jesus ainda na cruz, ou escondido no sacrário, ou a propor ao jovem rico que venda seus bens, dê aos pobres e o siga; (Lc 18,22) os que apontam para o Jesus que mostrava a pobreza assumida pelos nascidos pobres e pelos nascidos ricos como um valor do Reino… estes perderam pontos e companheiros. Se uma igreja me mostra que Jesus quer que eu ocupe os primeiros lugares e obtenha sucesso financeiro, é claro que entre orar nove dias em memória do rico Francisco de Assis que escolheu ser pobre e participar de correntes para obter sucesso financeiro, a maioria vai às correntes de orações pela prosperidade da sua família! No dizer de um dos pregadores dessa visão: “ Eles são crentes, mas não são bobos”. Os bobos seríamos nós que ainda citamos as passagens do Antigo e do Novo Testamento em favor do desprendimento e da pobreza como valores que santificam. Entendo que os colegas pregadores da fé cristã e defensores da riqueza abençoada, inteligentes e bem articulados que são, defendam seu ponto de vista com biografias e citações. Sua pregação é um enorme outdoor colocado no caminho do fiel que deseja sair do sofrimento e da pobreza. Estampa pessoas alegres e de sucesso a dizer: -“Eu era enfermo, pobre e infeliz, mas encontrei Jesus e ele me libertou. Hoje tenho mais do que pedi e consigo tudo o que peço. Venha conhecer o Jesus que eu conheço”. A fé para eles incide em cada célula do viver. Por que, então, negar ao crente o direito ao mais? Por que dissociar a fé do lucro e da conta bancária? Se se pode fazer amigos no Reino e para o Reino com as riquezas adquiridas, por que não tê-las? (Lc 16,9) Ao pregador amigo que citava, entre mais de vinte, também esta passagem lembrei-lhe que na minha Bíblia havia um adendo à palavra “riquezas”. Jesus teria dito “riquezas da injustiça” … Citei também mais de vinte passagens em favor de uma vida centrada no suficiente e no bastante: “riqueza moderada e pobreza digna!” Salomão começou pedindo luzes. Não pediu riquezas ( ). Mas terminou seu dias nadando em ouro, um precursor bíblico do tio Patinhas e… adorando os deuses de suas concubinas… Todo aquele sucesso financeiro não o fez mais adorador e mais sábio. O personagem bíblico mais abençoado com riquezas não serve de modelo a nenhum cristão. Nem Gedeão que ficou rico agredindo outros povos e outras religiões. Terminou seus dias amargando a morte de setenta filhos, assassinados por um deles. Ele que associara a fé com vitórias, campanhas bélicas e vitórias de seu aguerrido grupo, perdeu-se no caminho das vitórias. O crente e combativo Gedeão que como um impiedoso rolo compressor esmagara os inimigos de seu povoe e de sua fé, usando e abusando do nome de Deus, terminou o seus dias pagando na própria carne e na própria casa todo o mal que fizera aos outros em nome da vitória de sua teologia! Está lá no livro dos Juízes em três pesados capítulos! Porque será que não mostra os erros dele, de Sansão e de outros brucutus da fé que sacrificaram os outros para chegar aonde chegaram? E porque não falam do excelente catequista e mártir Eleazar que deu a vida pelo seu povo e não tirou nenhuma? Já vi correntes de Gedeão e nunca vi correntes de Eleasar… Entendo e concordo que a fé deve mesmo permear todas as células do viver e, pela mesma razão entendo que a fé deve regular o fluxo de riquezas no mundo, sobretudo na vida do “justo que viverá da fé”.(Rm 1, 17) Se é da fé que viverá o justo, o pregador e o profeta que ensina a Justiça do Reino aos outros (Mt 6.33) e se o Reino de Deus não visa comida, nem bebida , mas paz e alegria no Espirito Santo ( Rm 14,17); e se, ainda, em Lucas 6,20 e em a pobreza não é vista como defeito ou abandono de Deus, mas como valor que liberta a pessoa para o Reino, ( Mt 19,21) então temos uma grande polêmica a nos desafiar nos outdoors da estrada que leva ao Reino! Tenho sobre a mesa cinco livros em defesa da riqueza abençoada. Mas tenho dezenas de outros em defesa da pobreza abençoada e assumida em função do Reino de Deus. Percorro um por um os profetas e santos que eram ricos ou poderiam ser ricos e escolheram ser pobres. Moisés que fora criado na corte egípcia, Isaias que era membro da família real de Judá, Buda que veio da riqueza, Francisco e Clara de Assis, Thomás de Aquino, só para citar alguns, seguiram o caminho de Jesus e de Paulo. Trilharam a via do não confortável para confortar os outros. Amós, Isaias, Jeremias e Paulo não procuravam a profecia. Ela veio ao encontro deles. Espernearam, mas entenderam. Não poderiam tirar nenhum proveito pessoal de sua missão. A descrição é de Paulo: Contristados, mas sempre alegres; como pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo, e possuindo tudo. (II Coríntios 6 : 10) Aos que tiravam vantagem e saiam da pobreza para a riqueza por conta da fé Jeremias, Isaias e Jesus lançaram duro repto. São de Jesus as sentenças em Mateus 23: 4 Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com o dedo querem movê-los; 5 E fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens; pois trazem largos filactérios, e alargam as franjas das suas vestes, 6 E amam os primeiros lugares nas ceias e as primeiras cadeiras nas sinagogas 14- Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que devorais as casas das viúvas, sob pretexto de prolongadas orações; por isso sofrereis mais rigoroso juízo. 15 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós. 15 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós. Reflete Karen Amstrong no seu magistral livro : Uma História de Deus: que “os israelitas preferiam uma religião de observância ritual menos exigente no Templo de Jerusalém ou nos velhos cultos da fertilidade de Canaã”. E acentua: “Continua sendo assim. Apenas uma minoria segue a religião da compaixão; a maioria das pessoas religiosas contenta-se com a adoração na sinagoga, na igreja, no templo, na mesquita. Oséias afirmava que Deus queria era hesed (amor) e não vítimas e holocaustos; queria daat (ser conhecido; intimidade e diálogo). Jesus repete Amós em Mateus, ao dizer: Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento. (Mateus 9, 13) No tempo de Jesus a religião outra vez estava deteriorada porque os detentores da doutrina falavam uma coisa e viviam outra. Na cadeira de Moisés estão assentados os escribas e fariseus. 3 Todas as coisas, pois, que vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem; 4 Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com o dedo querem movê-los; 5 E fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens; pois trazem largos filactérios, e alargam as franjas das suas vestes (Mt 23, 1-5) Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós. (Mateus 23 : 15) Jesus não via zelo missionário em quem buscava recompensa por sua fé: Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. (Mateus 6 : 2) Quem fizesse algum bem não deveria divulgá-lo. Nem mesmo a mão esquerda deveria saber da caridade da mão direita.( Mt 6,3). Ninguém se exibisse orando ou dando esmola. (Mt 6,4-6). Se fossem elogiados por terem feito algum bem deveriam dizer que não fizeram nada mais do que seu dever. ( Lc 17,10) Deveriam fugir dos elogios. Diante dos pregadores da fé que eram pobres a menos de dez anos e de repente passaram a ostentar grande riqueza, alegando que Deus lhes dera aqueles bens, quase que como recompensa por anunciá-lo; e diante dos outros que depois da profecia deixaram tudo e seguiram os caminho da fé; diante do pregador que enriqueceu e do que ficou mais pobre ou pobre permaneceu, o fiel que pensa sua fé terá que pesar os prós e os contras. Ter o que, para que fim e a serviço de quem? Pegasse hoje pelas periferias e campos teria Jesus o que seus pregadores hoje têm? Que tipo de carro ele usaria? Como seria a casa onde moraria?


Podem ser especulações, mas se ele sugeriu que aprendêssemos com ele podemos tirar nossas conclusões. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. (Mateus 11 : 29) Não leveis nem alforjes para o caminho, nem duas túnicas, nem alparcas, nem bordão; porque digno é o operário do seu alimento. (Mt 10,10). Há qualquer coisa na pregação da teologia da prosperidade que não coaduna com os dizeres de Jesus. Nas parábolas, como na do homem que ficava cada dia mais próspero Jesus provoca os que acumulam riquezas contando a história de um próspero empreendedor que raciocinava: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; e direi a minha alma: Alma, acumulaste muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus. (Lc 12,18-21) Experimente o leitor ouvir um inteligente pregador da teologia da prosperidade e um inteligente pregador da teologia da libertação. Ou leia dos livros: um em defesa da fé que cumula de bens e outro em defesa da fé que manda distribuí-los e ter o menos possível. Verá páginas de citações bíblicas e testemunhos pró riqueza e pró pobreza voluntária. Depois pergunte-se se Jesus, Paulo, Thomás de Aquino, Francisco de Assis, Mahatma Ghandi tinham capacidade para ser ricos. E por que escolheram ser pobres? Finalmente interrogue-se: pregador da fé cristã pode tornar-se milionário? O histórico de suas reservas antes de começar a pregar e alguns anos depois revela o quê? Quem tem maior chance de estar certo? Aquele cuja conta aumentou ou aquele cuja conta permaneceu no mesmo nível ou até diminuiu? Jesus diria o quê a este respeito?… Em: www.padrezezinhoscj.com

Maria Clara Lucchetti Bingemer A teologia cristã tem uma relação complexa com o trabalho e um entendimento ambíguo deste. Por um lado, o apóstolo Paulo afirma que cada pessoa tem de trabalhar,pois "quem não trabalha não tem o direito de comer".O livro do Gênesis, que relata a Criação feita por Deus do mundo e do cosmo, afirma que o trabalho encontra sua fonte no próprio Deus que trabalhou para criar o mundo. E aqui o judaísmo se diferenciava do pensamento greco-romano, para o qual o trabalho "braçal" era indigno dos cidadãos, devendo ser feito apenas pelos escravos. Por outro lado, o trabalho está colocado debaixo de maldição desde a "Queda" de Adão e Eva - trabalho do homem com suor e canseira; trabalho de parto da mulher com dores e suores. É o castigo pelo pecado original e, portanto, tem muito mais uma dimensão de pena do que de prazer. O Novo Testamento confirma a visão da necessidade do trabalho que Paulo ratifica com palavras do próprio Jesus: "Meu Pai trabalha sempre e eu também trabalho”. Afinal, de que trabalho se trata, este que o próprio Deus não cessa de executar, e que seu Filho, encarnado e andando pelo mundo, também exerce continuamente? Pode tratar-se de um castigo algo que o próprio Criador executa sem cessar, ao preço de afadigar-se divinamente? Pode ser apenas suplício e dor, algo que o Filho contempla como sendo a atividade constante de seu amado Pai? Neste Dia do Trabalho, vale meditar em algumas implicações da fé cristã para uma teologia do trabalho. Sobretudo em tempos onde a presença de um trabalho enobrecedor e criativo corre o risco de desaparecer, engolido por um ativismo febricitante e louco, onde o emprego tomou o lugar do trabalho e é exercido apenas para sobreviver, enriquecer e consumir, sem nenhuma conotação de criatividade, gozo ou transcendência. Há pessoas que são empurradas a executar um trabalho que as embrutece porque senão morrem de fome. E há outras que trabalham cada dia mais para poder acumular os bens sem os quais creem não poder viver. O fim de umas e outras é uma morte prematura, seja por infarto, hipertensão ou depressão e suicídio. A filósofa francesa Simone Weil experimentou na carne as agruras do trabalho operário em fábricas da primeira metade do século XX. Ali sentiu que, à medida que passava os dias em frente

das máquinas, os pensamentos iam fugindo e escapando de sua mente. As cadências das máquinas e o ritmo da produção eram muito rápidos. Simone havia sido sempre lenta para os trabalhos manuais e não estava habituada a agir sem pensar. Ela fazia a triste descoberta de que a sociedade moderna se edifica sobre trabalhos para os quais o ser humano deve obrigar-se a não pensar. E constatou que se não houvesse o repouso hebdomadário, que fazia com que as ideias voltassem a circular em sua cabeça, ela estaria logo convertida em uma besta de carga. No entanto, experimentava igualmente que em meio à dureza do trabalho, tão pesado para ela que jamais exercera um trabalho manual, aconteciam lampejos de solidariedade fraternal que a consolavam. Cada vez que sentia na pele a mordida da queimadura do forno, o soldador que se encontrava à sua frente lhe dirigia "um sorriso triste, cheio de simpatia fraterna”, que lhe fazia "um bem indizível”. E quando, depois de uma hora e meia, o calor, a fadiga e a dor a faziam perder o controle dos movimentos, impedindo-a de baixar a tampa do forno, um metalúrgico se precipitava e baixava-o para ela. Isso a inundava de gratidão e reconforto. E Simone então reflete sobre esta dupla face do trabalho, de embrutecimento, mas igualmente do exercício da solidariedade. Ela diz que, mesmo sofrendo tudo isso, está feliz ali onde está. Declara: "Tenho o sentimento, sobretudo, de haver escapado de um mundo de abstrações e de me encontrar entre os homens reais – bons ou maus, mas de uma bondade ou de uma maldade verdadeiras. A bondade em uma fábrica é qualquer coisa de real quando ela existe; pois o mínimo ato de benevolência... exige que se triunfe da fadiga, da obsessão do salário”. Quando Simone Weil saiu da fábrica, após um ano de trabalho, sentia que sua juventude havia ficado para trás e ela se encontrava marcada pelo ferro em brasa da escravidão. Escravidão essa que, segundo ela, é "o trabalho sem luz de eternidade, sem poesia e sem religião”. Todo trabalho, para ser criativo e realizador, deve ser ungido por essa transcendência que nos diz que não somos animais nem bestas de carga, mas participantes ativos no trabalho do Criador, que jamais abandona a obra de suas mãos. http://www.adital.com.br-03/05/2013

A "coragem" é a palavra que identifica o verdadeiro cristão, a coragem de "transmitir a fé." Papa Francesco foca num dos conceitos mais caros a ele durante a Missa celebrada na Casa Santa Marta: o anúncio forte do Evangelho, em qualquer tempo ou lugar, pelos cristãos não “mornos”, mas corajosos. O Santo Padre concentrou toda a sua homilia num único convite: não ser “mornos”, nem mesmo no momento mais íntimo da vida de fé que é a oração, mas sim pedir ao Senhor a "graça da coragem" e da "perseverança". Todos nós, explicou o Papa, somos cristãos porque recebemos em dom a "fé em Jesus ressuscitado, que nos perdoou os pecados com a sua morte e nos reconciliou com o Pai". Assim, não só devemos transmitir esta fé que nos foi dada, mas também "anunciá-la com a nossa vida, com a nossa palavra". E o transmitir a fé implica uma certa dinâmica do cristão: “Transmitir isso requer de nós que sejamos corajosos”, disse o Pontífice; algumas vezes, porém, é uma coragem muito mais “simples” do que se pode imaginar. Para explicar melhor, Papa Bergoglio contou uma história pessoal: "Eu me lembro - disse – que quando era criança, minha avó toda Sexta-feira Santa nos levava para a Procissão das Velas e ao final da procissão chegava o Cristo morto e a avó nos fazia ajoelhar e nos dizia, a nós crianças: ‘olhem que está morto, mas amanhã estará ressuscitado!”. Através destas simples palavras de esperança entrou no pequeno Bergoglio “a fé em Cristo morto e ressuscitado". "Na história da Igreja – observou porém o Santo Padre – houveram muitos que quiseram escurecer um pouco esta certeza forte e falam de uma ressurreição espiritual”. Mas não, exclamou, “Cristo está vivo!” e é “também está vivo no meio de nós”, e todos devemos ter a força para anunciar esta Boa Nova. Mas a coragem - "aquela parresia" - não é necessária apenas para a evangelização, mas também na oração que, segundo Papa Francesco, é como um "desafio" que Jesus nos envia, quando diz: "Tudo o que pedirdes em meu nome, eu o farei para que o Pai seja glorificado no Filho". "Isso é forte!", afirmou o Santo Padre. O problema é se nós realmente temos a coragem de enfrentar este ‘desafio’: “Temos a coragem de ir a Jesus e pedir-lhe: ‘Mas, você disse isso, faça-o! Faça que a fé continue, faça que a evangelização vá pra frente, faça que esse meu problema seja resolvido...’. Temos essa coragem na oração? Ou rezamos um pouco assim, quando dá, dedicando pouco tempo à oração?". Um exemplo de verdadeira coragem vem da Sagrada Escritura, disse o Papa, onde os grandes pais Abraão e Moisés tiveram a audácia de "negociar com o Senhor em favor dos outros, em favor da Igreja”. Este ardor de milênios atrás, ainda é mais urgente hoje, porque - disse Bergoglio - "quando a Igreja perde a coragem, entra na atmosfera de tepidez". "Os cristãos mornos, sem coragem" - acrescentou - "fazem tanto mal para a Igreja", porque "a tepidez te leva para dentro, começam os problemas entre nós; não temos horizontes, não temos coragem, nem a coragem da oração dirigida aos céus e nem mesmo a coragem de anunciar o Evangelho". Não só isso, "estamos mornos - concluiu o Papa - e temos a coragem de envolver-nos em nossas pequenas coisas, nossos ciúmes, nossas invejas, carreirismos, de seguir adiante egoisticamente, em todas estas coisas. Mas isso não é bom para a Igreja ... ". Portanto, a exortação é clara: "A Igreja deve ter coragem!" E "todos nós devemos ser corajosos na oração, desafiando a Jesus".

Em: www.zenit.org/2013/05/03


Foto: Sérgio Lima/Folha Imagem

Entrevista concedia pelo Jurista Fábio Konder Comparato à Aline Scarso, Jornal Brasil de Fato

Fábio Konder Comparato

Professor, no próximo ano a Constituição Federal completa 25 anos. Na sua avaliação o Brasil conseguiu alcançar um patamar de país democrático, que respeita os direitos sociais e as liberdades individuais, ou ainda há muita diferença entre o que está estabelecido na lei e o que está posto na prática?

Fábio Konder Comparato – Exatamente aquilo que acaba de dizer por último. Essa diferença entre o que está na lei e o que existe na

prática não é de hoje, é de sempre. E o que caracteriza a vida política brasileira é a duplicidade, com a existência de dois ordenamentos jurídicos: a organização oficial e a organização real. E também no sentido figurado há duplicidade, ou seja, o verdadeiro poder é dissimulado, é oculto. Nós encontramos na Constituição a declaração fundamental no artigo 1º, parágrafo único de que todo poder emana do povo que o exerce diretamente por intermédio de representantes eleitos. Mas na verdade, o povo não tem poder algum. Ele faz parte de um conjunto teatral, não faz parte propriamente do elenco, mas está em torno do elenco. Toda a nossa vida política é decidida nos bastidores e para vencer isso não basta mudar as instituições políticas, é preciso mudar a mentalidade coletiva e os costumes sociais. E a nossa mentalidade coletiva não é democrática. O povo de modo geral não acredita na democracia, não sabe nem o que é isso. Não sabe que é um regime político em que ele tem o poder em última instância e que ele deve decidir as questões fundamentais para o futuro do país. Não sabe que ele deve não somente eleger os seus representantes, mas também poder de destituílos. O povo não sabe que ele deve ter meios de fiscalização contínua dos órgãos do poder, não apenas do Executivo e Legislativo, mas também do Judiciário, que se verificou estar corrompido até a medula, com raras e honrosas exceções. E por que essa mentalidade?

Ora, essa mentalidade coletiva é fruto de quase quatro séculos de escravidão. Quando Tomé de Souza desembarcou no Brasil em 1549 trouxe o seu famoso regulamento de governo, no qual tudo estava previsto, mas só faltava uma coisa, a constituição de um povo. Havia funcionários da metrópole, havia um contingente de indígenas, havia o começo da escravidão, mas não havia povo. E nós não chegamos a constituir esse povo ao longo da nossa história porque o poder sempre foi oligárquico, ou seja, de uma minoria de grandes proprietários e empresários com apoio do contingente militar e da Igreja Católica. Assim nós chegamos ao século 21 numa situação de duplicidade completa. Todos acham que nós vivemos numa democracia e república, mas nós nunca vivemos de modo republicano e democrático. O primeiro historiador do Brasil, Frei Vicente do Salvador, apresentou uma declaração que até hoje permanece intocável, dizendo que nenhum homem dessa terra é repúblico, nem zela e trata do bem comum, se não cada um do bem particular. Não existe a possibilidade de democracia sem que haja uma comunidade em que o bem público esteja acima dos interesses particulares. E o chamado povão, as classes mais populares e humildes já trazem de séculos essa mentalidade de submissão, de passividade. Procuram resolver os seus problemas através do auxílio paternal de certos políticos ou através do desvio da lei. Nós vemos isso cotidianamente, nunca nos insurgimos contra uma lei que consideramos injusta, mas simplesmente nós desviamos da proibição legal. E como mudar essa mentalidade, professor?

É uma boa pergunta, mas a resposta vai ser um tanto desalentadora. Essa mentalidade e costumes foram forjados por uma instituição política colonial, depois imperial e falsamente republicana, mas, sobretudo, pela vigência do sistema capitalista, que entrou em vigor no Brasil no ano do descobrimento. E o sistema capitalista tem essa característica específica, o poder é sempre oculto e dissimulado. Os grandes empresários dizem que não são eles que fazem a lei, mas na verdade são eles que fazem o Congresso Nacional. São eles que dobram os presidentes da República. E os grandes empresários atualmente são os grandes banqueiros, os personagens do agronegócio, os industriais e os grandes comerciantes. Agora, por exemplo, o Partido dos Trabalhadores (PT) acabou admitindo na esfera federal, porque não havia outro jeito, a aprovação de um novo Código Florestal que favorece abertamente os grandes proprietários agrícolas. Então veja, para mudar tudo isso é preciso um trabalho longo e contínuo de educação cidadã. Isto evidentemente a partir de um trabalho de contínua denúncia dessa situação oligárquica. Mas a denúncia dessa situação hoje na sociedade de massas passa necessariamente pelos órgãos de comunicação de massa que estão nas mãos dos grandes empresários. Então a situação é muito pior do que a gente poderia imaginar, mas o importante é não desanimar, não perder o impulso no sentido da denúncia completa. Nenhum sistema de poder permanece em vigor se é desmoralizado perante o público. Nós temos poucas possibilidades de desmoralizar o sistema capitalista, mas uma delas que temos que aproveitar até o fim é a imprensa corajosa e lúcida como é o caso de Caros Amigos e Brasil de Fato. Para além da imprensa, o que os movimentos sociais e sindicais, que cumpriram um papel importante de desmoralização da última ditadura militar, poderiam fazer?

O grande problema dos sindicatos que se revelou hoje é que eles não têm espírito público. Eles defendem em geral muito bem os interesses da classe trabalhadora, mas muitas vezes os meios empregados para essa defesa vão contra o interesse público. Quero dar um exemplo que vai provocar um certo escândalo. Eu sou radicalmente contra a greve no serviço público porque o grande prejudicado não é o governo, é o povo. A greve foi um instrumento legítimo de defesa dos trabalhadores nas empresas privadas porque atinge diretamente os interesses dos empresários. No serviço público é diferente. Veja o que aconteceu nas Universidades Federais. Todas entraram em greve. Os alunos declararam greve. Ora, os alunos das Universidades Públicas têm o privilégio de não pagar mensalidades. E como é que são sustentadas essas Universidades? Com o dinheiro do povo, e digo mais, com o dinheiro do povo mais pobre porque 70% dos impostos desse país são indiretos, ou seja, quem tem menos paga mais. É por isso que nós precisamos ampliar a educação cívica e política no sentido amplo da palavra. Eu criei, juntamente com alguns companheiros, há mais de vinte anos a Escola de Governo. Foi apenas um início e eu gostaria que fossem multiplicadas as escolas de formação cívica. Na periferia é preciso multiplicar esse tipo de ensino para que o povo comece desde já a se revoltar. Se fulano vier pedir votos para vereador ou prefeito, é preciso saber quem é o fulano, quem o mandou, quem é o responsável por sua candidatura. Hoje os trabalhadores menos precarizados do Brasil são justamente os servidores públicos porque têm condições reais de questionar a sua situação de trabalho ao enfrentar o seu patrão, que é o governo. Não seria um pouco radical não legitimar a greve no setor como instrumento de luta para conquistar e manter direitos?

Em primeiro lugar, a greve no serviço público não é tradicional, é muito recente. Em segundo lugar, ao invés da greve é preciso estabelecer instrumentos de proteção especial para os servidores públicos como, por exemplo, tribunais de arbitragem, estabilidade, garantia de aumento nos vencimentos pelo menos de acordo com o índice inflacionário e assim por diante. Tudo aquilo que é para favorecer os servidores públicos e lesa o patrimônio do povo deve, a meu ver, ser denunciado e banido. É uma questão que precisa ser mudada. O senhor disse sobre a existência de oligopólio nas empresas de comunicação no Brasil. Se o Executivo, Legislativo e Judiciário não fazem nada contra algo que é proibido pela Constituição, que atitude o povo pode tomar?

Eu acho que cada um tem uma missão e particularmente acredito que cumpri a minha. Eu procurei o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) propondo que se fizesse uma ação direta de inconstitucionalidade por omissão, pela não regulamentação dos dispositivos constitucionais sobre os meios de comunicação de massa. O Conselho não aceitou. Então eu procurei o Partido Socialismo e Liberdade (Psol), que aceitou e a ação foi proposta, que é a ação de inconstitucionalidade por omissão número 10. Mas essa é uma medida meramente política. Do ponto de vista jurídico, o eventual ganho de causa não vai significar muita coisa porque dará uma recomendação ao Congresso Nacional para regulamentar a Constituição. Mas é preciso utilizar- se dessa ação para denunciar o controle que a mídia exerce sobre o Congresso Nacional. E exerce também sobre o Executivo porque o Advogado Geral da União que, de acordo com a lei, está sobre a imediata supervisão do Presidente da República, deu parecer contrário à ação. Até hoje ainda existem instituições criadas pela última ditadura civil-militar como é o caso da Polícia Militar. E apesar das denúncias dos movimentos sociais e de estudantes sobre a violência sistemática cometida pela Corporação, parece que o Estado finge que não acontece nada. Diante disso, o que se fazer?

Bom, em primeiro lugar, não são todos os movimentos sociais que protestaram contra o morticínio [na chácara] de Várzea Paulista [no interior de São Paulo, onde policiais da Rota – Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar – mataram nove pessoas no dia 11 de setembro]. E eu fiquei surpreso com o fato da Arquidiocese de São Paulo ter protestado contra as declarações religiosas de um candidato a prefeito da cidade de São Paulo, mas não ter dito nada sobre esse morticínio planejado e executado friamente. Foram abatidas nove pessoas com 61 tiros. Não houve arranhão em nenhum policial militar. Pois bem, quero lembrar que a Organização das Nações Unidas acaba de se pronunciar insistindo na supressão da Polícia Militar. Esta é uma proposta que eu venho defendendo há vários anos pois não faz nenhum sentido a organização de uma polícia no estilo de forças armadas, porque isso é uma trágica herança do regime empresarial militar.


R E U N I Õ E S COORDENAÇÃO Os membros da Coordenação do IPDM realizarão suas reuniões bimestrais sempre nas 3as Terças-Feiras dos meses impares. 21 de Maio / 16 de Julho / 17 de Setembro / 19 de Novembro As reuniões serão realizadas sempre às 20h00 na Paróquia São Francisco de Assis da Vila Guilhermina Praça Porto Ferreira, 48 - Próximo ao Metro Guilhermina - Esperança

PADRES – RELIGIOSOS – RELIGIOSAS As reuniões entre os padres, religiosos e religiosas e Agentes de Pastorais serão realizadas sempre na Sexta-Feira dos meses pares. 28 de Junho / 30 de Agosto / 25 de Outubro / 29 de Novembro As reuniões serão realizadas sempre às 9h30 no CIFA – Paróquia Nossa Senhora do Carmo de Itaquera Rua Flores do Piauí, 182 - Centro de Itaquera

Grande Encontro com a Teóloga, Socióloga e Escritora

Tema do encontro

Local: Igreja

Santuário Nossa Senhora da Paz

Av. Maria Luiza Americano, 1550 - Cidade Líder – São Paulo – SP

Paróquia São Francisco de Assis Rua Miguel Rachid, 997-Ermelino Matarazzo Fone 2546-4254 Neste encontro, teremos a oportunidade de aprofundar nossos conhecimentos sobre a importância da Palavra de Deus a partir da Constituição Dogmática “Dei Verbum” e da Exortação Apostólica “Verbum Domini”. Não perca esta oportunidade. Organize grupos em sua paróquia, comunidade ou grupo de rua e venham caminhar conosco nesta jornada. Conhecer a Palavra de Deus é conhecer a Verdade que liberta Para maiores informações, envie e-mail para: Caíque: caiqueacolito_saofrancisco@hotmail.com; Murinho: maurinjo1@yahoo.com.br;


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