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popular nacional deste período. Por isso, temos o interesse em apontar o maior número de elementos que possam nos ajudar a compor o cenário onde as práticas familiares à Capoeira estavam inseridas. Os batuques50, que se realizavam de forma natural por ocasião das festas particulares, cujo pretexto para sua realização poderia ser a comemoração de um aniversário ou uma festa para o santo51, tinham geralmente a configuração de uma comemoração civilizada diante das regras de conduta social do período, sendo que existiam dois espaços antagônicos na casa: na sala da frente o modo ocidental de se comemorar, no terreiro, o modo africano de celebração. De acordo com a descrição de Roberto Moura, [...] Na sala o baile, onde se tocavam os sambas de partido entre os mais velhos, e mesmo música instrumental quando apareciam os músicos profissionais negros, muitos da primeira geração dos filhos dos baianos, que freqüentavam a casa. No terreiro o samba raiado e às vezes as rodas de batuque entre os mais moços...(MOURA, 1983, p. 67)52.

Este sistema, muitas vezes negociado com as instâncias repressivas para não ser punido, ofereceu aos seus participantes o legado da cultura negra. O batuque – entendido nesta referência como a luta/dança dos negros – participou desse processo de reinvenção cultural negra. No entanto, não sabemos ainda se a Capoeira desse período influenciou a prática do batuque ou ocorreu a recíproca, ou mesmo se esse processo se configurou como uma troca cultural. Independentemente da resposta, o que percebemos é que a Capoeira irá agregar a legítima configuração de manifestação cultural africana, apesar de já ter havido no Rio de Janeiro Imperial, como vimos anteriormente, a miscigenação dessa prática nas relações sociais entre escravos e imigrantes. Dizemos isso porque foi nas confraternizações nas casas das baianas e nas festas tradicionais de largo, como a de Nossa Senhora da Penha, que a Capoeira e o batuque apareceram cercados pelos preceitos e rituais característicos da

África no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Funarte, 1983, pp. 57 – 70, e de BEVILAQUA, A. M. et alli. Clementina cadê você? Rio de Janeiro: LBA: FUNARTE, 1988, p. 33 - 34. 50 A palavra batuque ainda tem a mesma conotação apontada anteriormente, como um modo de se fazer uma música na qual os instrumentos de percussão se destacam em relação aos demais. 51 Neste caso, a palavra santo tem o significado de orixá. 52 O batuque ao qual o autor se refere trata-se do batuque baiano, que, segundo CÂMARA CASCUDO (1988), era uma modalidade da capoeira. Seu acompanhamento musical assemelhava-se ao da Capoeira, com a utilização de pandeiros, berimbaus e ganzás. Além disso, se entoavam cantigas. A luta envolvia dois jogadores por vez, os quais deveriam unir as pernas com firmeza e aplicar rasteiras um no outro. O principal era evitar cair e “por isso mesmo era comum ficarem os batuqueiros em banda solta, isto é, equilibrados numa única perna, a outra no ar, tentando voltar à posição primitiva” (CARNEIRO, E. apud CASCUDO, L. C., 1988, p. 115)

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A Educação Física Na Roda De Capoeira... Entre A Tradição E A Globalização - Paula Cristina D  

ENTRE A TRADIÇÃO E A GLOBALIZAÇÃO Universidade Estadual de Campinas Faculdade de Educação Física Campinas/SP Outubro/2002 Paula Cristina da...

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