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escravos em ânsia de liberdade; seu princípio não tem método; seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista”97 É válido lembrarmos que mestre Pastinha conseguiu atingir um objetivo diferente do de mestre Bimba, pois manteve vivo, na prática da Capoeira Angola, o jogo repleto de sutilezas, artimanhas que se aproximam mais à cultura africana, apesar de a Capoeira Regional não negar sua identificação com os negros escravos no Brasil. Dessa forma, cada um ao seu modo, mesmo com divergências, construiu as características de base para a Capoeira que praticamos atualmente. Foi a partir desses dois mestres que ela adquiriu elementos comuns na sua prática, sendo realizada em rodas, com acompanhamento de instrumentos musicais e cantos. O berimbau ganhou sua forte dimensão de representatividade para o jogo, a "ginga" adquiriu um papel fundamental para seu aprendizado, inseriu-se o costume do uso de uniformes para a sua prática, as academias foram designadas como o local adequado para os treinamentos e o mestre de Capoeira tornou-se a "pedra fundamental" para seu grupo ou academia, tendo as funções de ministrar as aulas, administrar o espaço e orientar seus alunos. Um outro ponto importante é que, com essas alterações, a Capoeira passou a se constituir um símbolo nacional e, principalmente, baiano. Esse elemento fez com que se iniciasse um processo ligado à indústria cultural, tendo por base essa manifestação. Dessa forma, a Capoeira passa a fazer parte do roteiro turístico, gerando uma série de conflitos entre as academias e alguns mestres. E é nesse mesmo momento histórico que se abre a possibilidade de remuneração para aqueles que ministram aulas desta manifestação cultural. Com o apontamento desses dados, encerramos a abordagem da reinvenção da Capoeira em Salvador, para mais adiante voltarmos a tratar dessas propostas, relatando os desdobramentos ocorridos com elas e o que aconteceu com mestre Bimba e mestre Pastinha. Por enquanto, permaneceremos ainda na década de 1940, analisando mais uma proposta relativa à Capoeira, baseada, porém, em uma concepção totalmente diferenciada daquela dos mestres soteropolitanos.

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De acordo com Letícia V. S. Reis (1997, p. 142), estes dizeres ficavam fixados na parede da academia de Capoeira de mestre Pastinha.

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A Educação Física Na Roda De Capoeira... Entre A Tradição E A Globalização - Paula Cristina D  

ENTRE A TRADIÇÃO E A GLOBALIZAÇÃO Universidade Estadual de Campinas Faculdade de Educação Física Campinas/SP Outubro/2002 Paula Cristina da...

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