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escravos africanos e que [...] O nome da Capoeira Angola é conseqüência de terem sido os escravos angolanos, na Bahia, os que mais se destacaram em sua prática” (PASTINHA, 1988, p. 26). A partir da década de 1940, vemos a presença mais regular deste mestre no cenário da capoeiragem em Salvador, o que não significa que ele não tivesse estabelecido uma relação com esta manifestação cultural em um período anterior, muito pelo contrário, mestre Pastinha aprendeu Capoeira aos dez anos de idade80 com um negro natural de Angola chamado Benedito. O motivo que o levou ao aprendizado desta arte foi o de constantemente apanhar de um garoto mais velho que morava em sua rua. Contava mestre Pastinha que, depois de algum tempo que treinava Capoeira, assim que topou com esse garoto, pronto a lhe dar a surra costumeira, lembrou-se de seu mestre. Então, à medida que o seu adversário investia, Pastinha se abaixava e assim o fez por umas duas vezes, até que, quando o garoto não esperava, ele lhe deu um golpe com o pé. Então a mãe do menino, que via a cena, interveio e Pastinha não passou mais por situação semelhante81. Por esse motivo – ele passou a nutrir uma admiração por essa luta que favorecia o mais fraco em detrimento do mais forte - o mestre afirmava que [...] esse jeito de lutar de brincadeira, como ainda fazemos hoje, era a maneira do escravo se exercitar, disfarçando-se de bailarino na frente do feitor, [...] capoeirista é mesmo muito disfarçado, ladino, malicioso. Contra a força, só isso mesmo. Está certo (REVISTA REALIDADE, 1967 apud REIS, L. V. S., 1997, p. 142)

Ainda nos valendo de mais um de seus relatos, sobre sua infância e juventude, vamos descobrindo quem foi mestre Pastinha. De acordo com suas palavras: Aos doze anos, eu fui para a escola de Aprendizes de Marinheiros. Lá ensinei capoeira para os colegas. Todos me chamavam de 110. Saí da Marinha com vinte anos [...] Vida dura difícil. Por causa de coisas de gente moça e pobre, tive algumas vezes a polícia atrás de mim. Barulho de rua, presepada. Quando tentavam me pegar eu lembrava de meu mestre Benedito e me defendia. Eles sabiam que eu jogava capoeira, então queriam me desmoralizar na frente do povo. Por isso bati alguma vez em polícia desabusado, mas por defesa de minha moral e do meu corpo [...] Além do jogo, trabalhei de engraxate, vendia gazeta, fiz garimpo, ajudei a construir porto em Salvador. Tudo

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Ele nasceu em 1889, conforme vimos em Pires (2001, p. 272). Esta história é baseada em seu depoimento no documentário PASTINHA, uma vida pela Capoeira! Direção: Antônio Carlos Muricy. Produções Cinematográficas. Rio de Janeiro: Brian Sewell, 1999. 1 fita de vídeo – VHS/NTSC. 81

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A Educação Física Na Roda De Capoeira... Entre A Tradição E A Globalização - Paula Cristina D  

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