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Nesta passagem, notamos a adoção de posturas que ora aproximam o mestre das instituições militares, ora o afastam. O apito pendurado em seu pescoço reflete sintomaticamente a relação sargento-recruta, apontada anteriormente na relação entre o professor de educação física e seus alunos, herança do treinamento militar. Por outro lado, o pagamento de multas pelos atrasados, por mais que ainda nos lembre a disciplina militar, aponta a transgressão à ordem no momento em que o pagamento é a bebida alcoólica, cerveja, demonstrando um clima de descontração. Esses dados contraditórios só reforçam o quanto as relações de mestre Bimba com seu meio social foram construídas de maneira complexa. Mas, voltando às fases de formação do capoeirista, observamos que, conforme o aluno fosse superando os períodos de treinamento e conseguisse demonstrar todo seu conhecimento adquirido no tempo em que teve contato com a Capoeira, aí sim se tornaria um formado, receberia sua medalha e seu lenço de seda pura e poderia dar continuidade aos ensinamentos desta arte76. Vemos, com a inclusão da formatura, a busca de mestre Bimba em legitimar sua invenção, dando a ela o status de um ensino formal com os elementos apropriados do modo de vida ocidental. No entanto, estes entravam em confronto com a forma de relacionamento entre o professor-aluno, porque o mestre é o detentor do conhecimento da Capoeira. Poderíamos dizer que a relação entre quem ensina e quem recebe o ensinamento aproximase muito mais das artes marciais milenares, da cultura oriental, do que da cultura ocidental. Nas comunidades africanas, esse tipo de relação também existe e demonstra que o conhecimento deve ser repassado pela figura ancestral, ou seja, o mais velho é quem ensina, pois possui mais experiência de vida e esta não é alimentada somente pelo acesso à educação escolar. Essa atitude encontrada na Capoeira valoriza em demasia o mestre e a caracteriza de forma marcante. Cabe a ele, entre outras tarefas, reconhecer o momento certo de amadurecimento de seu discípulo e preparar seu ritual de passagem, estabelecido na Capoeira Regional como o batizado. Tal como no candomblé, no qual existem momentos de passagens de seus adeptos determinados pela figura do pai ou mãe de santo, a Capoeira também irá se valer desse mecanismo.

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Para saber mais sobre os rituais de formatura e a metodologia desenvolvida por mestre Bimba, aconselhamos as obras de Almeida (1982); Capoeira, (1992); Vieira, (1995).

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A Educação Física Na Roda De Capoeira... Entre A Tradição E A Globalização - Paula Cristina D  

ENTRE A TRADIÇÃO E A GLOBALIZAÇÃO Universidade Estadual de Campinas Faculdade de Educação Física Campinas/SP Outubro/2002 Paula Cristina da...

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