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dos jogadores; 4) o culto aos heróis – nas rodas as grandes figuras da capoeira são sempre invocadas ou lembradas; 5) a ginga – a dança balançada e maneirosa exprime liberdade, arte e desafio do corpo.

Com essas atitudes, pensamos que mestre Bimba buscava trazer à tona a voz de tantos que se calaram no decorrer da história da escravidão no Brasil. Seus alunos, ao mesmo tempo em que aprendiam a se defender com os recursos da Capoeira Regional, aprendiam também, nas aulas ou nas vivências coletivas, a dinâmica do homem negro na sociedade brasileira, conviviam com suas práticas e, assim, o mestre atraía muitos “brancos” para o modo africano de se viver, já que esses tomavam contatos com o candomblé, o samba, a culinária afro-brasileira, as brincadeiras, as festas, entre outras atividades. Também, para mestre Bimba, os instrumentos musicais e o canto, por ocasião das rodas de fruição da Capoeira, eram imprescindíveis. Fato que reforça a importância dada por ele a elementos da cultura africana, uma vez que os relatos orais e os cantos são instrumentos significativos na perpetuação cultural de alguns povos da África. Pelas fontes analisadas, constatamos que ele era exímio tocador de berimbau, demonstrando seu conhecimento dos toques existentes e inovando com a criação de outros para utilizá-los no jogo da Capoeira Regional. Além disso, era possuidor de uma voz potente, como pudemos comprovar na audição do disco Curso de Capoeira Regional73. Notamos também, quando ouvimos o disco, que o coral de resposta das ladainhas e cantos corridos, entoados pelo mestre, era composto somente por vozes femininas, assemelhando-se ao responsório dos pontos de candomblé, o que remete ainda mais a Capoeira Regional às tradições africanas. No entanto, atribuem a ele a retirada do atabaque74 da charanga da roda de Capoeira Regional, compondo-a somente com o berimbau, o pandeiro e as palmas. Essa supressão, somada ao seu discurso em defesa da Capoeira como uma manifestação de origem brasileira, revela talvez que, no jogo de “conformismo e resistência” (CHAUÍ, 1986), seria necessário recuar em alguns pontos para poder avançar em outros. Transitando no limiar da resistência cultural e da ressignificação da Capoeira, iremos verificar, no jogo político em prol da criação de uma nova forma de praticá-la, as cerimônias promovidas no Centro de Cultura Física e Capoeira Regional, para os alunos 73

Trata-se de MESTRE BIMBA. Curso de Capoeira Regional Mestre Bimba. Salvador: RC, 1979. 1 disco sonoro, 33 1/3 rpm, estéreo.

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A Educação Física Na Roda De Capoeira... Entre A Tradição E A Globalização - Paula Cristina D  

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