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golpe de misericórdia, nesta forma de prática da Capoeira na capital baiana, abrirá definitivamente os caminhos para que ocorressem vários desdobramentos relativos à sua liberalização e reinvenção cultural. Essa nova configuração passa a acolher em seu interior formas ambíguas de sua representação, hoje tão presentes em sua manifestação, como o esporte e a ginástica, mas também a música, a dança, o ritual e a perpetuação das tradições africanas. Esses novos rumos tomados pela Capoeira com certeza foram inesperados para aqueles intelectuais que a imaginavam uma prática em vias de ser elitizada, já que se forjou no bojo da comunidade de menor poder aquisitivo de Salvador. Dessa maneira, ela adquiriu um caráter negro e popular46, apoiada pelo regime governamental que vigorava na época, jogando assim com várias instâncias do poder. Vejamos então, quantas voltas o mundo deu para que esse fato se concretizasse a partir da década de 1930.

IV - As repercussões da educação física e do Estado Novo na Capoeira durante a década de 1930 em Salvador/BA. “Bahia, nossa Bahia, Capital São Salvador, Quem não conhece a Capoeira, não é bom conhecedor ...”47

A Capoeira em Salvador/BA só irá se destacar, de forma decisiva, a partir de 1930. Antes desse período, existia sua manifestação nessa cidade, como em outros locais do território brasileiro, porém os dados recolhidos sobre este tema ainda não foram suficientes para se elaborar um registro documental minucioso, como ocorreu no Rio de Janeiro. Entretanto, os estudos de Pires (2001, p. 236) sobre a Capoeira em Salvador, no início do século XX, nos apontam que sua manifestação se aproximava, em certa medida, daquela existente no Rio de Janeiro, onde era utilizada basicamente como um meio de defesa, resistência e divertimento da camada subalterna da população, se destacando, dentre seus praticantes, uma grande quantidade de negros. Mas, apesar de haver essas semelhanças, alguns fatores as diferenciavam, como os conflitos envolvendo sua prática, que se caracterizavam mais pela ação individualizada do que pelos conflitos das maltas.

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Expressão cunhada por Reis (1997, p. 98). Trecho de uma ladainha de capoeira cantada por PASTINHA, Vicente Ferreira (mestre Pastinha), no disco MESTRE PASTINHA E SUA ACADEMIA. Mestre Pastinha e sua academia. Salvador: Fontana, 1979. 1 disco sonoro, 33 1/3 rpm, estéreo. 47

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A Educação Física Na Roda De Capoeira... Entre A Tradição E A Globalização - Paula Cristina D  

ENTRE A TRADIÇÃO E A GLOBALIZAÇÃO Universidade Estadual de Campinas Faculdade de Educação Física Campinas/SP Outubro/2002 Paula Cristina da...

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