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EDITORIAL Depois de obstáculos e adiamentos, está finalmente concluído o primeiro número da //PARALELO//, uma publicação cooperativa que trata também, mas não só, do tema dos direitos dos animais. Este projecto não surge do nada. Surge pela extrema necessidade de acrescentar mais pensamento, comunicação e discussão ao movimento de direitos dos animais em Portugal, não só dentro de si próprio mas também com outros movimentos sociais que partilham com a defesa dos direitos dos animais algo tão profundo como a luta pelo fim de toda a opressão. E isto é essencial, se não queremos um movimento cheio de razão mas sozinho. Por querer ser um espaço aberto à opinião diferente e à opinião divergente que compõem a diversidade deste movimento, a //PARALELO// cria também uma oportunidade

CRÉDITOS Número 1 - Abril 2010

Equipa Editorial Sara Feio & Hugo Evangelista Contacto artigos@live.com

para o pensamento crítico e para a formação e não para a formatação. É um espaço de todos os seus participantes, para que possam partilhar as suas experiências, conhecimento e ideias. Neste primeiro número damos destaque a uma das principais lutas que está a ser travada neste momento contra a construção de biotério central no Município da Azambuja, incluindo uma entrevista a uma das cientistas que participa na Plataforma de Objecção ao Biotério. Destacamos ainda os artigos sobre feminismo, que mostram o paralelismo da objectificação das mulheres e dos animais para alimentação criada artificialmente pela publicidade e pelas empresas que criam e recriam comportamentos para aumentar o volume de vendas. Este é, portanto, um projecto sem paralelo, que contará com todos os que nele quiserem participar e do qual nos orgulhamos de fazer parte. A Equipa Editorial

Colaboraram neste número -Marinhenses Independentes Anti-Touradas -Mariano Soares -Maria Pinto Teixeira -Cristina Vieira -Maria Dias & Luísa Bastos -Irina Castro -Rui Pedro fonseca


CONTEÚDOS 2 // Uma Bandarilha Por Localidade //

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// Associativismo, Política e Protecção Animal //

8 // Vegetarianismo Ético // // Biocídio // 12 14 // Entrevista POB // // O Papel da Igreja Católica // 18 22 // PeTA Vs. Feministas // //A “Naturalidade” do Mito da Carne // 26 32 // Making a Killing // NOTA: Os artigos aqui publicados são de exclusiva responsabilidade dos seus autores e não vinculam a opinião da equipa editorial da //PARALELO//


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Uma

Bandarilha Por Localidade

Marinhenses Independentes Anti-touradas

A tauromaquia encontra-se, mais do que nunca, negativamente afectada por uma crise de aceitação social e de apoio político, bem como pela actual crise económica que lhe é transversal. É expectável que, a médio prazo, seja extinta. Porém, existem factores preocupantes que a estão a segurar. Os aficionados estão, cada vez mais, a unir-se pela defesa daquilo a que chamam os valores da “Festa dos Toiros”, conseguindo assim, continuar a iludir algumas pessoas e a “comprar” algumas outras. Empresários do sector vão mantendo as touradas bem-aceites por pessoas menos informadas, através de manobras como a beneficência. Há uma clara aposta em novas áreas geográficas, que além de contribuir para a subsistência de alguns negócios do ramo, pode originar novos

aficionados. Estes factores, conjugados com outros, vão alargando o prazo de sobrevivência da tauromaquia. E enquanto a indústria tauromáquica, ainda que condenada à extinção, não é abolida, são milhares as criaturas animais que vão sendo, ano após ano, vitimadas. Ir reduzindo o número de vítimas não resolve o problema como um todo, mas para os indivíduos indefesos que vão sendo poupados faz toda a diferença. Qualquer corrida de touros, que estando programada para determinada data, seja adiada ou cancelada, pode contribuir, em termos de balanço final, para que algumas criaturas escapem a um sofrimento atroz, envolto em aplausos. Se através da negação de autorizações municipais a espectáculos tauromáquicos que delas


3 dependam, é possível reduzir este número de indivíduos vitimados, então, isso por si só, já justifica que se exerça, nesse sentido, influência e pressão junto das autarquias. Um factor potenciador do sucesso será o desenvolvimento de sinergias entre associações protectoras de animais (com experiência no combate à tauromaquia) e grupos compostos por cidadãos independentes residentes nos concelhos visados. Conseguir que alguns municípios não autorizem uns quantos espectáculos sanguinários, é muito positivo, não só pelos motivos apontados, como também porque contribui para o enfraquecimento da indústria tauromáquica. Sempre que se conseguir ir mais além, fazendo com que determinados municípios se declarem anti-touradas – cada nova localidade anti-touradas que surgir será como que uma “bandarilha bem espetada” na tauromaquia, até à “estocada final”. Esta é, claro está, a nossa opinião – a de meros cidadãos, minimamente informados, informalmente organizados –, coincidente com a da generalidade das organizações defensoras dos animais, cremos; e é com base nela que, por estarmos a assistir a uma tentativa de introdução da tauromaquia na nossa terra (onde não há memória de terem existido corridas de touros até 2008) achámos por bem, actuar.

O nosso objectivo principal é conseguir a declaração da Marinha Grande como cidade anti-touradas. Não temos a certeza de que o alcançaremos, o desafio é complexo, mas em circunstância alguma deixaremos de envidar todos os esforços nesse sentido. Estarmos no activo já valeu a pena, pois, em articulação de esforços com a Associação ANIMAL, conseguimos evitar a terceira corrida de touros que esteve anunciada para o nosso concelho. E, enquanto lutamos por esta causa, cometemos a imodéstia de pensar, e de aqui referir que – somos um bom exemplo daquilo que os cidadãos comuns podem, e devem fazer para (tentar) levar os decisores políticos a tomar medidas conducentes ao fim dos maustratos injustamente cometidos contra os animais.

http://mgranti-touradas.blogspot.com/


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ASSOCIATIVISMO, POLÍTICA e PROTECÇÃO ANIMAL

Mariano Soares

Terra Livre(Açores)

“Amamos mais o lucro que a vida, estamos mais empenhados em salvar o sistema económico-financeiro que a humanidade e a Terra” Leonardo  Boff, teólogo brasileiro

Neste texto, pretende-se dar início a uma reflexão sobre a possibilidade ou não de na sociedade actual, capitalista e neoliberal, haver respeito para com os animais não humanos e tentar encontrar explicações para o facto da questão animal não ser uma causa das associações ambientalistas.


5 Embora sempre presente no nosso espírito, consideramos que a necessidade da reflexão veio à tona aquando da recente campanha contra a introdução da sorte de varas (e touros de morte), nos Açores. Assim, algumas pessoas aconselhavam-nos a não introduzir, nas nossas posições públicas, argumentos de carácter económico e ou político e outros, ligados ao movimento ambientalista, questionavam a razão de uma ONGA- Organização Não Governamental de Ambiente de âmbito regional estar, entre as pessoas singulares e colectivas, envolvida na mencionada campanha, alegando que a questão dos maus tratos (tortura, no caso em apreço) nada ter a ver com a defesa do ambiente. O não ou o quase nulo envolvimento da maioria das ONGAS na campanha contra a sorte de varas tem várias razões de que destacamos as seguintes: a quase inactividade de muitas delas, a baixa participação dos associados, a transformação de algumas em extensões dos serviços governamentais, o facto de outras não passarem de prestadoras de serviços e o entendimento de ambiente como uma mera questão de carácter “científico”, a ser tratado, apenas, no âmbito da biologia, da ecologia e da engenharia do ambiente, ignorando o facto dos problemas ambientais serem problemas sociais. Não sendo a temática do bem-estar animal ou dos direitos dos animais

abordada ao longo do currículo escolar de alguns dirigentes associativos e não trazendo a sua abordagem qualquer mais-valia, pensam eles, ao seu curriculum vitae, fica, à partida, excluída das suas preocupações. Por outro lado, apesar das suas declarações de amor ao ecocentrismo, continuam, na prática, agarrados aos velhos valores do antropocentrismo, não atribuindo qualquer valor intrínseco aos animais, a não ser àqueles que consideram que desempenham algum papel importante na manutenção dos ecossistemas. Sendo o referido o que se passa nas associações ambientais, por que razão houve um silêncio quase absoluto, por parte das associações de defesa dos animais em relação a uma causa que lhes deveria ser muito querida, o não incremento dos maus tratos animais, no caso da campanha mencionada aos touros? Por algumas das razões apontadas para as ONGAS e pelo facto da maioria dos activistas actuar por amor e compaixão para com os animais e não tendo uma visão global delimitam o seu campo de acção ao estado dos canis municipais e ao bem-estar dos cães e gatos. Outra razão, bastante forte, está relacionada com o facto dos principais dinamizadores das associações de protecção dos animais não possuírem consciência política ou, tendo-a, por uma razão ou outra, não querem perder as migalhas que as suas organizações recebem por parte de políticos e governantes, aos


6 mais diversos níveis, adeptos da tortura animal legalizada. Por último, será que a promoção dos direitos dos animais pode ter algum sucesso na sociedade actual? É sabido que o objectivo primeiro do capitalismo é a maximização dos lucros e a socialização dos prejuízos, contando para tal com o imprescindível apoio dos Estados, intitulem-se eles liberais, democratas, populares ou socialistas, escravizando parte dos humanos e desrespeitando os animais. Com a crise mundial em que estamos mergulhados, tem havido recuos nos direitos sociais e laborais e a democracia consiste apenas em eleger, de vez em quando, quem melhor vai servir os interesses capitalistas, depois de campanhas publicitárias muito semelhantes às de quem pretende vender sabonetes. Mas não são só as pessoas as vítimas, os animais não ficam à margem. Só assim se compreende a vergonhosa tentativa de introduzir touradas picadas (e touros de morte, a seguir) e o aparente sucesso conseguido com a introdução recente de touradas à corda e vacadas na ilha de São Miguel com o único objectivo de tentar salvar a tauromaquia de alguns terceirenses, que é uma indústria em dificuldades que só sobrevive graças a apoios, declarados ou escondidos, de fundos europeus, governamentais e autárquicos.

Mas, nem tudo está perdido, na sociedade açoriana, também, tem havido alguns avanços de que são exemplos, o empenho de muitas pessoas na campanha contra as touradas picadas, o número crescente de colaboradores na campanha SOS- Cagarro e o cada vez maior número de pessoas que trata convenientemente dos seus animais de companhia. O desrespeito para com os animais merece, de todos nós, uma posição firme de denúncia pública dos prevaricadores e uma profunda reflexão acerca das causas que levam à sua persistência e de como combatê-las. Para nós, a causa profunda do deplorável estado em que se encontram os animais radica no modelo de sociedade que, para conseguir os seus objectivos, transformou grande parte da humanidade e dos animais em máquinas descartáveis. Daí considerarmos que, embora respeitando todas as motivações, a luta pelos direitos dos animais deverá assumir um carácter assumidamente anti-capitalista.

http://terralivreacores.blogspot.com


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Vegetarianismo Ético Maria Pinto Teixeira Associação Animais de Rua

Peter Singer, no início do seu mundialmente famoso livro “Libertação Animal”, por muitos considerado a Bíblia do vegetarianismo, conta um episódio passado no Reino Unido em que uma defensora dos direitos dos animais o convidou para lanchar e conversar sobre o tema da defesa animal, e lhe serviu sanduíches de fiambre. Em 1989, 14 anos mais tarde, na edição revista do livro Peter Singer refere que felizmente hoje em dia os activistas do Movimento de Libertação Animal e os membros das Associações de Defesa Animal são já todos vegetarianos e não servem sanduíches de fiambre aos seus convidados.

Embora isso possa ser verdade no Reino Unido, não o é certamente em Portugal nem em muitos outros países. Na realidade, muitas (atrevo-me mesmo a dizer a maioria) das pessoas que simpatizam com a causa da defesa dos animais e é contra as formas de exploração de que milhões de animais são vítimas às mãos dos humanos, continua a contribuir para a mais brutal de todas estas formas de exploração, e que maior sofrimento causa ao maior número de animais em todo o mundo: a indústria da criação intensiva de animais para alimentação. Há vários motivos para que seja assim: a) A maioria das pessoas nunca visitou um matadouro ou uma unidade de


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criação intensiva de animais, logo nunca viu (nem ouviu) a agonia prolongada que constitui a vida das vacas, porcos e galinhas que sofrem dentro deles, até ao dia em que sofrem uma morte cruel e lenta no momento do abate. b) A força do hábito. Quase todas as pessoas são habituadas desde a infância a comer carne e não só lhes custa a imaginar como poderiam sobreviver sem ela, como não desejam abandonar o prazer que retiram das refeições compostas por carnes de animais. c) As pessoas tendem a simpatizar mais e a sentir mais compaixão pelos animais que lhes são mais próximos e com quem convivem diariamente (cães e gatos) do que com aqueles que nunca tocaram ou observaram de perto. Daí que fiquem chocadas com a criação de cães e gatos para alimentação em alguns países asiáticos mas não se choquem com a criação muito mais maciça e brutal de outros mamíferos como as vacas ou os porcos para o mesmo fim. A estes motivos acresce um outro, que se prende com o facto de muitas

pessoas se preocuparem com os animais apenas por gostarem deles. Por sentirem compaixão por eles, por se enternecerem com o olhar desolado dos cães abandonados com que se cruzam. No fundo, por se sentirem sentimentalmente ligados a eles. Gostam mais do seu animal de estimação do que de todos os outros animais da mesma espécie, gostam mais de gatos do que de cães ou mais de cães do que de porcos, e dirigem a sua consideração e instinto de protecção apenas aos animais da sua preferência. Assim, não baseiam a sua conduta perante os animais em princípios éticos ou morais, mas nas suas emoções. Na realidade, todos os animais merecem ser tratados de acordo com o seu valor intrínseco, independentemente da nossa simpatia por eles. Devem ser respeitados enquanto indivíduos que são capazes de sentir dor e prazer, e que por isso não podem ser considerados como meros instrumentos de satisfação dos nossos interesses. É um princípio de Justiça básico que assim o exige. Apesar disso, o homem continua


10 a matar e torturar animais em larga escala para satisfazer os seus interesses mais supérfulos, sendo o mais cruel e gritante exemplo disso a criação em série de animais em condições absolutamente desumanas para satisfazer as suas preferências gastronómicas. Penso que hoje em dia, ao contrário do que se passava há uns anos atrás em que os defensores do vegetarianismo tinham que procurar persuadir as pessoas de que o regime vegetariano é saudável apresentando uma miríade de tabelas de valores nutricionais dos alimentos, declarações de organismos de saúde internacionais e de nutricionistas reputados, etc, já não é necessário procurar fundamentar a afirmação de que o regime alimentar vegetariano é saudável e nutricionalmente adequado à alimentação dos seres humanos. É a própria OMS que o afirma e informação avalizada sobre o tema pode ser encontrada em livros e publicações da especialidade e na internet. Ultrapassado este primeiro obstáculo, existe também um importante argumento a ter em conta para a adopção do regime alimentar vegetariano: o argumento ecológico. Deixo apenas alguns dados para análise: a) Os vegetais fornecem pelo menos 10 vezes mais proteínas por hectar do que a carne.

b) Mais de metade da água consumida nos Estados Unidos é gasta na criação de gado. c) Meio quilo de carne exige 50 vezes mais água do que a quantidade equivalente de trigo, concluindo a revista Newsweek que “a água necessária a um boi de 500 kg faria flutuar um contratorpedeiro”. d) A criação intensiva de animais é a indústria responsável por uma parte substancial da poluição dos nossos recursos hídricos. e) Nos últimos 25 anos foram destruídas quase metade das florestas tropicais da América do Norte para plantações de cereal para alimentação de gado. f) Por fim, citando Peter Singer, o maior argumento de todos, uma vez que se aplica tanto aos defensores dos animais como a quem estende as suas preocupações éticas apenas aos seres humanos: “ a comida desperdiçada na produção de animais nas nações ricas seria suficiente, se fosse adequadamente distribuída, para pôr fim tanto à fome como à subnutrição em todo o mundo”. Daí que seja lícito afirmar que o respeito pelos animais não é concorrente com o respeito pelos seres humanos. É, pelo contrário, complementar.


11 Por tudo isto, o vegetarianismo merece pelo menos ser considerado como uma hipótese séria para uma atitude mais justa perante os animais, os seres humanos, e o próprio planeta. Por último, uma palavra às pessoas que aceitam os argumentos acima expostos mas que afirmam que não vale a pena deixar de comer carne porque “uma só pessoa deixar de comer carne não vai diminuir o número de animais que é criado nas unidades de criação intensiva” ou que “o animal que têm no prato já está morto e nada o pode ressuscitar”: É evidente que a criação intensiva de animais não vai acabar de um momento para o outro, assim como é inverosímil pensarmos que todas as pessoas se vão tornar vegetarianas de uma só vez. Cada pessoa consome em média 4.022 animais ao longo de toda a sua vida. O máximo que podemos almejar, e essa será já uma grande vitória, é juntarmo-nos aos milhões de pessoas que já tomaram essa decisão e se recusam a comer a carne de animais torturados e mortos e, assim, diminuir gradualmente a procura de produtos animais, diminuindo o lucro obtido por esta indústria e levando a que menos animais sejam criados intensivamente e abatidos no futuro. A este argumento acresce um outro, talvez ainda mais importante, para deixarmos de consumir produtos derivados da indústria da carne: o facto de estar-

mos a fazer a coisa certa; de sabermos que não contribuímos de forma directa para o florescimento de uma actividade que causa um sofrimento intenso a milhões de animais todos os anos. Madre Teresa de Calcutá dizia: “o meu trabalho pode ser uma gota no oceano, mas sem ele o oceano seria menor”. Em jeito de conclusão, fica um trecho da obra do conhecido filósofo Tom Regan, “The Case for Animal Rights”: “But prejudices die hard, all the more so when, as in the present case, they are insulated by widespread secular customs and religious beliefs, sustained by large and powerful economic interests, and protected by the common law. To overcome the collective entropy of these forces-against-change will not be easy. The animal rights movement is not for the faint of heart. Success requires nothing less than a revolution in our culture’s thought and action.”

www.animaisderua.org


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Biocídio Cristina Vieira

Após o fracasso da cimeira de Copenhaga e da clara incapacidade dos líderes mundiais resolverem os problemas que mais preocupam os cidadãos, urge reflectir sobre o papel directo que podemos desempenhar nas escolhas fundamentais que condicionarão o nosso futuro. Uma dessas escolhas que marcarão o século XXI prende-se inevitavelmente com os direitos dos animais. O movimento de oposição à experimentação animal conta com o apoio activo e inequívoco de cientistas, médicos, investigadores, veterinários, biólogos e filósofos, que facultam a fundamentação teórica para a abolição desta prática. Estando provada a ineficácia deste método experimental, é por demais evidente o seu propósito economicista. A Fundação Champalimaud decidiu entrar no ramo do comércio esclavagista para gerar receitas. Contactada uma autarquia, o apoio foi total e imediato, na mira do velho paradigma do “desenvolvimento económico da região e da criação de postos de trabalho”. Até aqui,

nada de estranho. O estranho é que entidades como a Universidade de Lisboa ou a Fundação Gulbenkian tenham decidido renegar os princípios éticos que deviam sempre nortear as suas escolhas e entrar também no negócio. O estranho é que aqueles que são pagos para gerir a Fundação de Calouste Gulbenkian tenham traído a sua memória, financiando um campo de concentração para animais. A ele, que se fixou em Lisboa fugindo da perseguição nazi e do destino de um campo de concentração.


13 A hierarquização de formas de vida para justificar a exploração dos mais fracos pelos mais fortes permitindo que aqueles possam ser sacrificados para o bem destes, teve o seu ponto alto no holocausto. Hoje, todos nos sentimos chocados com o tratamento que os nossos antepassados deram aos judeus, aos negros, às mulheres, às crianças, aos condenados, aos deficientes. Mas continuamos a fazer o mesmo às outras espécies animais usando exactamente os mesmos argumentos. Os crimes não mudam; apenas a identidade das vítimas. Os nossos netos perguntar-nos-ão porque pactuámos no holocausto animal, porque não demos voz às vítimas, porque optámos por não ver, não pensar, não actuar. E nós não poderemos apontar o dedo a alguns e dizer que não sabíamos. Porque ninguém acreditará que na época em que a verdade está ao alcance de um clique, fosse possível não sabermos. Os dirigentes da Universidade de Lisboa, da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação Champalimaud, consideram que os princípios morais ou éticos não devem ser estendidos aos animais e que as suas vidas serão usadas no superior interesse da humanidade. Este é sempre o entendimento que preside aos genocídios, muito útil para disfarçar os interesses económicos que os motivam. E nós, cidadãos, continuamos a ignorar ou levantamos as nossas vozes contra a

iniquidade? Informe-se, leia, desconfie dos argumentos dos que ganham a vida com o negócio da exploração animal, visite o blog da Plataforma contra o Biotério (www.pob.pt.vu) e veicule a sua posição.

Bibliografia Bauman, Zygmunt. Modernity and the Holocaust. Ithaca, NY: Cornell University Press, 1989 Caplan, Arthur L., ed. When Medicine Went Mad: Bioethics and the Holocaust. Totowa, NJ: HumanaPress, 1992 Chicago, Judy. Holocaust Project: From Darkness into Light. NY: Vicking Penguin, 1993. Patterson, Charles. Eternal Treblinka – Our Treatment of Animals and the Holocaust. NY: Lantern Books, 2002 http://www.AnimalExperiments.info/ studies/studies.htm http://www.HumaneLearning.info/


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ENTREVISTA a Luísa Bastos por Maria Dias

Como surgiu a sua ligação à POB? Juntei-me à Plataforma já depois dela ser formada. Quando tomei conhecimento de que havia um projecto para a construção de um biotério de grande dimensão em Portugal fiquei surpreendida. Não queria acreditar que a política de investimento na ciência fosse sofrer tal retrocesso. Assim, decidi fazer parte da plataforma que está a tentar alertar as entidades envolvidas no projecto do biotério da Azambuja para as falácias desta abordagem. A sua área profissional são os modelos in silico. Considera que em Portugal esta tecnologia é suficientemente utilizada na investigação biomédica? O desenvolvimento e a utilização de modelos in silico nas ciências biomédicas é uma área recente, quando comparada com a experimentação animal. No entanto, nas últimas décadas, a inves-

tigação em modelos in silico tem crescido imenso e tem sido uma das muitas soluções que contribui para a diminuição da experimentação animal em vários países. Em Portugal parece-me que ainda se dá mais relevo ao velho método do que aos novos. Vejamos o caso da educação de profissionais de saúde. Países como os EUA e a Alemanha têm em quase todas as suas faculdades de medicina e enfermagem simuladores, que incorporam modelos in silico, para garantir a educação e o treino eficientes dos estudantes e profissionais de saúde. Ou seja, como já se confirmou que a educação através do uso de animais é ineficiente e que o uso de pacientes humanos levanta sérias questões éticas, tem-se vindo a apostar no desenvolvimento de ferramentas alternativas para melhorar as capacidades profissionais de médicos, enfermeiros, etc. Em Portugal, já se começaram a implementar estas ferramentas em algumas faculdades, mas a sua utilização é ainda diminuta. A resistência à mudança é grande e a mudança tem sido motivada por poucos. Mas é assim aqui e no resto do mundo. Precisamos é da persistência e da determinação de quem quer mudar para melhor. Mesmo no meio clínico, onde reside informação essencial para o desenvolvimento de modelos in silico do organismo humano, existe ainda pouco apoio a projectos para o desenvolvimento destes modelos. No entanto, acredito que tal se deva à falta de competências


15 organismo vivo, sem precisar de utilizar esse organismo. Ou seja, a máquina substitui um número ilimitado de organismos vivos. Se os modelos forem desenvolvidos de uma forma sistemática, incorporando o conhecimento que vamos adquirindo por outros meios, como por exemplo por exames clínicos, a capacidade e a exactidão desses modelos é cada vez mais elevada.

nesse meio para desenvolver e lidar com modelos in silico. Algumas destas competências podem passar pela formação dos profissionais de saúde, mas pode também passar por incluir outros profissionais no meio clínico, como por exemplo, engenheira/os biomédica/os. Embora já tenhamos profissionais deste ramo da engenharia, estes ocupam ainda muito pouco espaço na área clínica. Quais são as mais valias destes modelos para a investigação biomédica? Uma das mais valias destes modelos é que permitem um número ilimitado de simulações, isto é, experiências. Entre muitas outras coisas, isto dá a possibilidade aos investigadores de estudarem e testarem as suas hipóteses sobre um

Estes modelos podem ainda providenciar uma estrutura que permite o estudo continuado do organismo vivo, permitindo em última análise a previsão da evolução temporal desse organismo sem ou com intervenção clínica. Por exemplo, na detecção de uma doença num paciente, um modelo in silico pode ser parametrizado para o individuo, tomando o comportamento do organismo desse paciente específico. Tal permitirá estudar, sem invasão do doente, qual será a evolução esperada da doença encontrada e qual a evolução perante diferentes terapias. Com base nessa informação, a equipa clínica poderá decidir de forma mais fundamentada qual será a terapia mais adequada ao paciente em questão. Tal informação individual não pode ser obtida por ensaios randomizados ou experimentação animal. Na primeira, a informação clínica obtida é a resposta típica, mas não exclusiva, que os pacientes têm a um dado tratamento. Na segunda, há uma diferença de espécie e certamente de cenário que podem tor-


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nar os dados praticamente irrelevantes no meio clínico. Por todos estes motivos, os protocolos definidos através das conclusões dos ensaios randomizados e das experiências com animais produzem por vezes maus resultados clínicos. Contudo, são os melhores resultados que estes métodos podem garantir. Os modelos in silico têm o potencial de melhorar estes resultados. Ou seja, de garantir melhores cuidados de saúde. Qual é a posição da POB em relação à experimentação animal? A Plataforma de Objecção ao Biotério defende que Portugal deve seguir a lei e as directivas da União Europeia quanto à utilização de animais para fins experimentais. Isto implica que as alternativas existentes à experimentação animal têm de ser utilizadas já, e tem de haver um investimento no desenvolvimento de novas alternativas como parte de uma

política para a diminuição da experimentação animal. A experimentação animal já falta de eficácia na melhoria da saúde humana. Por exemplo, já existe cura para quase todos os tipos de cancro em roedores e ainda não se conseguiu desvendar uma cura para humanos. Novos investimentos em animais de laboratório são um travão para a saúde humana e para a ciência. Ciência essa que precisa de “sair do quadrado” e explorar novos paradigmas que façam evoluir o conhecimento do organismo humano. A experimentação animal é um método caro e pouco eficaz, que trava o progresso. E portanto, acreditamos que tem de haver um redireccionamento de investimentos na investigação, que promovam a evolução de métodos científicos que já provaram o seu potencial, não só para um melhor conhecimento do organismo, mas também para o desenvolvimento de melhores cuidados de saúde.


17 Quais são as alternativas à experimentação animal? São imensas. Mas atenção ao termo alternativa. Alternativa não significa apenas substituir o animal por uma ferramenta para aplicação num mesmo processo. Vão muito além disso. As alternativas incluem métodos científicos alternativos. Alterar métodos científicos implica muitas vezes a formação de profissionais com novas competências – o que leva o seu tempo e requer criatividade e a aposta de fundos nessa criatividade. Só para dar um exemplo, na Suíça foi criada uma fundação pelos 3Rs (reduction, refinement, replacement). Esta fundação tem como objectivo principal reduzir o número de animais utilizados para fins experimentais no país. Demorou 20 anos a diminuir a experimentação animal em 80%. Neste período foram apoiados projectos de alternativas in vitro, por exemplo usando culturas de células para estudar a acção de parasitas que causam doenças em humanos e outro animais, alternativas ex vivo, como por exemplo o uso de culturas do núcleo de ossos para testar implantes, e alternativas in silico, por exemplo para efectuar teste toxicológicos. Um outro projecto, desta vez Europeu, tem como objectivo final desenvolver um humano virtual – o Virtual Physiological Human. De entre dezenas de projectos, alguns modelos já estão a ser

utilizados no meio clínico para testar terapias antes destas serem administradas nos pacientes. Por exemplo, um dos modelos permite prever o resultado de uma operação cardíaca em função da anatomia e fisiologia do paciente. A Fundação Champalimaud dedica-se sobretudo à investigação nas áreas do cancro e da neurociência. Quais são as alternativas à experimentação animal nestas áreas? Nas áreas de ciências da saúde há uma alternativa com um potencial de sucesso elevadíssimo que é a aposta na investigação clínica com um alto apoio de (e investimento em) tecnologias de obtenção de informação e modelação e simulação do organismo humano em diferentes escalas temporais e espaciais. Modelos in silico para esse fim já estão a ser desenvolvidos no âmbito do Virtual Physiological Human no estudo de doenças como o cancro da mama e Alzheimer. Uma vez que considera que a Fundação Champalimaud não deveria construir o biotério, que alternativa lhes proporia? Dado que o objectivo da Fundação Champalimaud é o de ajudar o desenvolvimento da ciência em Portugal; dado que já existem inúmeras alternativas à experimentação animal, que não estão a ser utilizadas em Portugal; e dados os pobres resultados da experimentação animal; a Plataforma de Objecção ao


18 Biotério propõe à Fundação que invista num centro 3R. Isto é, que invista numa instituição que apoie o desenvolvimento e a implementação de alternativas à experimentação animal nos institutos de investigação portugueses. No que concerne à experimentação animal, considera que a legislação e respectiva fiscalização são suficientes em Portugal? A legislação em Portugal é permissiva e flexível. Existem orientações e não regulamentos nas condições de alojamento e nas condições experimentais. A delegação de responsabilidade na condução de experiências é confusa. Por exemplo, a condução da experiência pode ser feita por pessoa competente ou autorizada, ou supervisionada por tal pessoa; a responsabilidade é da autoridade central, ou seja, da Direcção Geral da Pecuária, ou delegada para as autoridades veterinárias regionais e locais, ou a(o) investigador(a)-coordenador(a). Com esta legislação é até difícil perceber como poderia haver fiscalização, dado que não existem grandes limitações na lei. Que mensagem final deseja deixar aos leitores desta reportagem? Principalmente esta: Ortodoxia e ciência não são compatíveis. Métodos ineficazes e eticamente questionáveis não podem continuar a ser utilizados


19 só porque sempre foi assim. Principalmente se é sabido que esses métodos afectam milhares de vidas humanas e não-humanas por ano. É preciso mudar de rumo nas ciências da saúde. É preciso compreender a importância da multidisciplinaridade para o desenvolvimento de ferramentas e métodos científicos eficazes na busca do conhecimento do organismo humano. Para tal, é necessário o desenvolvimento de políticas de financiamento que estimulem um novo paradigma científico.

Argumentos a favor da experimentação animal como o de precisarmos de um organismo completo para testar fármacos ou que a ciência sofreria um atraso se houvesse um desinvestimento na experimentação animal, são contrariados pelos resultados demonstrados dos dois lados.

No dia 24 de Abril a POB realiza a segunda marcha de protesto contra a construção do biotério da Fundação Champalimaud. A marcha começará às 14h30 na Rotunda do Saldanha (Lisboa) em frente à Fundação Champalimaud (Atrium Saldanha) e seguirá até à Fundação Calouste Gulbenkian.


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O Papel da Igreja Católica Cristina Vieira

A Igreja Católica em Portugal continua a ser a grande promotora de touradas, o que suscita graves dúvidas relativamente à ética doutrinária. Um texto do Papa Pio V, datado de 1567, reforçando um decreto saído do Concílio de Trento desse mesmo ano, é muito claro na condenação desta prática, dizendo que “o espectáculo das touradas é indigno de ser visto pelos cristãos”, “com espectáculos desta natureza mais se ofende a Deus do que se lhe presta culto”, e afirmando que “estes espectáculos nos quais se correm touros e feras no circo ou na praça pública nada têm a ver com a piedade e caridade cristãs.”


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Relativamente aos prevaricadores, estes são condenados à excomunhão perpétua e que, “se algum deles aí morrer, não se lhe dê sepultura eclesiástica.” Nada neste discurso é ambíguo ou dúbio nem pode ser sujeito a interpretações. Parece-me, pois, legítimo os católicos questionarem a que Igreja pertencem: à que repudia espectáculos de violência sobre animais ou à que os promove?

de paz universal, patrocinando espectáculos de sangue a troco de dinheiro. Parece-me que o importante é prevenir o crime, qualquer que seja a identidade das vítimas; é tão grave e indigno provocar e maltratar um touro até à morte numa praça pública como foi obrigar cristãos a lutar com leões, também numa praça pública e também para gáudio das multidões.

Será consentâneo com o espírito de paz e harmonia exaltado pelo Evangelho a promoção de um espectáculo em que se maltratam animais para regozijo de uns e ganho financeiro de outros? Será que o papel da Igreja é ao lado dos poderosos e dos vencedores, ou ao lado dos fracos e dos vencidos sem qualquer discriminação ou preconceito por género, raça ou espécie? Penso ser chegada a altura de a hierarquia eclesiástica adoptar uma posição inequívoca sobre esta questão.

A Igreja tem primado por tardar no apoio aos desamparados: calou-se durante o tráfico de escravos, porque eram só negros; calou-se durante o holocausto porque eram só judeus; cala-se hoje porque são só animais. Como a teóloga Christa Blanke, devemos perguntar quantos mais milhões de animais terão de morrer às mãos dos homens pelos motivos mais triviais, até que a Igreja descubra que Deus também ama os que têm penas, pêlo, garras, cascos ou cornos?

Sempre houve sacerdotes que não estiveram à altura da fé que professam, mas isso não é preocupante: são homens e erram. Isto é outro assunto. É a própria hierarquia da Igreja que publicamente contraria a sua vocação de unir os homens, de espalhar uma mensagem

É imperioso e urgente rever o papel social da Igreja, numa atitude de respeito pelo outro, reconvertendo as praças de touros em centros de vida em vez de morte, em centros de paz em vez de violência.


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PeTA Vs. Feministas Irina Castro


23 PETA - People for the Ethical Treatment of Animals - é uma ONG fundada nos anos 80, dedicada aos direitos fundamentais dos animais. Desde então, uma das suas estratégias de campanha foca-se no uso da imagem da mulher para promover o lema “Animals are not ours to eat, wear, experiment on, or use for entertainment”. As campanhas lançadas pela PETA são conhecidas em todo o mundo. Desde “All Animals have the Same Parts” até “Beaten Lonely and abused: Boycott the circus”, passando por “Bare Skin not Bear Skin”, “Be an angel for animals: always adopted never buy”, entre centenas de muitas outras. Em todas elas, sem excepção, a mulher é usada, explorada, humilhada e aviltada, tudo em nome da protecção dos animais. Esta exploração chega ao intolerável em campanhas com slogans como “Save the Whales. Lose the blubber: Go vegetarian” e “Fur Trim. Unattractive”, levando mulheres por todo o mundo a revoltarem-se contra este tipo de opressão, expondo slogans “PeTA where only women are treated like meat.”(1) Torna-se bastante óbvio que as imagens usadas nestas campanhas não são acerca do consumo de carne ou uso de peles, visto as mulheres que integram estas campanhas representarem os estereotipoas de beleza. Recai a escolha, portanto, naquelas que são tidas

como sexualmente atraentes para os homens e, por consequente, a mensagem é perdida.

Mas não são só os anúncios publicitários os principais veículos de opressão das mulheres. A difusão da ideia de que a mulher que usa peles é cruel, superficial, materialista e acéfala, promove a misoginia chegando mesmo a originar acções violentas contra mulheres. O incentivo a retaliações físicas contra mulheres é ainda mais evidente nos filmes que se encontram alojados no sítio da PETA, onde mulheres que passeiam com casacos de pele são atacadas, espancadas e despojadas das suas roupas, tudo em nome do lema “Fur is Dead” e da propagação visual da ideia de igualar o abate de animais à execução de uma mulher. O principal argumento para este tipo de anúncios é que o recurso ao sexo é a maneira mais fácil de marketing: o nudismo cativa atenção, saciando o apetite milionário da pornografia, que trata seres humanos como objectos.


24 Outro argumento muito usado é que este tipo de anúncio difunde a ideia de que os corpos das mulheres são seus, promovendo a libertação da sexualidade feminina. Ora estes dois argumentos não poderiam ser mais opressores para a mulher. Por um lado, a objectificação da mulher e pelo outro, a falsa ideia de libertação da sexualidade feminina, pois esta não representa verdadeiramente a sua sexualidade. Uma representação adequada da sexualidade feminina seria muito mais variada, tradicionalmente menos bonita e aparentemente menos exploradora. Ingrid Newkirk, presidente e co-fundadora da PETA defende a organização com base em argumentos como: “O facto é que somos o maior grupo, porque temos sucesso em conseguir atenção. Podemos fazer todo tipo de coisas durante uma campanha, mas a única coisa que chama a atenção é a mais escandalosa. E a reacção prova, de cada vez, que estamos a fazer o trabalho certo, e por isso não vamos alterar esta faceta - além de todas as outras coisas que fazemos que a maioria nunca ouve falar, porque ninguém se importa.” in Satya, Janeiro de 2001

No entanto, não posso deixar de levantar a questão ao leitor: serão os meios usados justificáveis para atingir o objectivo de um tratamento mais ético dos animais? Só nos Estados Unidos e na Inglaterra


25 55 mil milhões animais são abatidos por ano para consumo de carne, mas quantas mulheres são sujeitas a violência como consequência das inconsequentes campanhas publicitárias da PETA? As campanhas com recurso a imagens de animais mortos e abusados são de longe muito mais eficientes e realistas em campanhas do que o recurso à exploração da imagem feminina. Assim sendo, é urgente uma reforma das campanhas publicitárias das associações de direitos dos animais, incluindo a PETA, que abrace uma epistemologia feminista e rejeite todas as formas de opressão sobre o patriarcado e o capitalismo.

existem mais de uma centena de organizações com a mesma base ideológica da PETA, mas com uma abordagem muito menos sexista na propagação da sua mensagem.(2) A realidade é que a estratégia adoptada pela PETA é a de um marketing flagrante de exploração e violência contra mulheres, para alcançar os seus objectivos e vender o seu produto. Sendo que a questão não está na escolha do modo de vida do indivíduo, o ser ou não ser vegetariano, usar ou não usar peles, a questão está na promoção de descriminações para a difusão de um ideal.

1- Nikki Craft, activista política Americana, feminista radical, artista e escritora. http://www.nostatusquo.com/ACLU/PETA/ peta.html 2- Alternativas a PETA: http://dir.yahoo.com/Science/Biology/ Zoology/Animals__Insects__and_Pets/Animal_ Rights/Organizations/?b=80


26 A segunda metade do século XX fica marcada por crescentes modificações na alimentação que tiveram lugar nos países ditos desenvolvidos e nos países em desenvolvimento. O desenvolvimento das populações e o aumento demográfico têm vindo a reforçar a demanda por alimento e, por conseguinte, têm conduzido a uma intensificação das actividades agrícolas e agropecuárias. Para além do crescimento populacional, da proliferação das novas tecnologias e do sistema económico liberalista vigente, as classes médias e classes baixas adquiriram um maior poder de compra, podendo assim investir em outras necessidades que não as necessidades básicas de subsistência. [1]

A “Naturalidade” do Mito da Carne

Rui Pedro Pedro Fonseca Fonseca Rui

As modificações das políticas económicas têm vindo a ter influências directas na qualidade nutritiva dos alimentos, tendo vindo a registar-se aumentos de alimentos pré-processados, aumentos de alimentos de origem animal e aumentos de alimentos com mais açúcar e gordura. Estas mudanças, acompanhadas pela redução da actividade física humana, têm originado significantes aumentos das taxas de doenças crónicas associadas à alimentação que incluem a obesidade, ataques cardíacos, diabetes, hipertensão e certos tipos de cancro. [2] Porque tem um peso fundamental na economia, o sector da agropecuária tem sido fortemente explorado. Nos Estados Unidos, um país seguido como modelo pelas suas políticas económicas e culturais [3],


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[4]

a produção de carne aumentou significativamente entre 1950 e 2007, tendo vindo a estagnar o abate de animais em 9.5 mil milhões no ano de 2007 e 2008, o que se repercutiu nas práticas alimentares das populações. [4] No entanto, não é unicamente a oferta da produção alimentar que determina os gostos e as escolhas gastronómicas dos consumidores. Na nossa sociedade faz parte do “senso comum” que a alimentação à base de carne de vaca, por exemplo, seja parte integrante da cadeia alimentar humana. Comer um bife de vaca é tão “natural” na nossa sociedade como comer um bife de cão é tão “natural” na China. Mas do ponto de vista dos ocidentais, esta ideia de comer animais domésticos, como o cão e o gato, com

os quais (tradicionalmente) se criaram fortes laços afectivos, originam repulsa e, em muitos casos, a indignação, porque na nossa sociedade não se percepciona o cão como alimento, uma vez que é um animal convencionalmente doméstico. Por experiência empírica, ouve-se dizer, por parte de indivíduos que lidam com animais domésticos, que por vezes “só lhes falta falar” e que “têm sentimentos”; declarações que mostram o grau de relação que muitas pessoas têm com cães e gatos, o que pressupõe a existência de complexas afinidades. Já na China, cães e gatos são utilizados como alimento, o que sugere que muitos dos chineses não têm qualquer tipo de laços ou de afinidades com estes animais. Voltando às vacas, na Índia este é um animal sagrado que não está incluído nas práticas


28 alimentares dos 1.100 milhões de habitantes. Enquanto espécies de indivíduos que habitam o planeta, há portanto uma verdadeira subordinação estrutural de todas as espécies de animais em relação à espécie humana, existindo nessa grande camada de milhares de espécies de animais umas mais subordinadas do que outras, umas mais exterminadas do que outras e algumas mais protegidas do que outras – variantes que se modificam consoante as regiões. A inclusão de carne na nossa alimentação é tão “natural” quanto a expectativa que se cria para que os homens sejam “naturalmente” masculinos e para que as mulheres sejam “naturalmente” femininas. Ou seja, a percepção que as sociedades têm em relação aos animais e sobre a sua inclusão, ou não inclusão, na alimentação não pode ser considerada meramente “natural”, assim como não pode ser desassociada de um conjunto de convenções de códigos, crenças e práticas culturais. Só os humanos têm a capacidade de produzir e reproduzir valores culturais. A cultura «é o processo de produção de sentido que confere sentido não só à realidade ou natureza exterior, mas também ao sistema social de que ela faz parte e às identidades sociais e actividades diárias [como a alimentação] das pessoas pertencentes a esse sistema.» [5] As representações culturais produzem significados e enquanto discursos têm consequências porque regulam

práticas sociais, condutas, estruturam identidades e definem a forma como se vêem e pensam as coisas. As representações culturais de animais só podem estar pré-dispostas sob o ponto de vista dos humanos, conferindo assim um papel determinante sobre as formas pelas quais os indivíduos humanos percepcionam os animais. A adaptação do comportamento do indivíduo em relação ao mercado alimentar equivale a uma adaptação do consumidor em relação ao produtor. O consumidor não se adapta em relação aos reais interesses (de ordem económica) do produtor, mas adapta-se a um conjunto de valores patenteados pelo sistema de representação cultural que estão ao serviço de quem tem a tutela da produção. O consumo de carne é, mais do que nunca, um consumo “naturalmente” cultural. E importa aos agentes produtores conservar a sua posição na estrutura económica, através da perpetuação do enraizamento destas convenções “naturais”. Só através do incentivo ao consumo de animais de abate é que se podem consolidar e dogmatizar estes mecanismos “naturalmente” culturais. Daí o recurso à publicidade como um dos grandes motores das estruturas de produção. Para produzir capital económico é necessário que as estruturas de produção utilizem a estética como um instrumento ideológico a partir do qual se extraiam formas de percepção do produto, do sujeito e do mundo. A ideologia da indústria


29 animal tem de ser sedutora e, portanto, a mística tem de ser bem composta para que durante o processo de significação de um anúncio de um produto de origem animal o sujeito se reconheça, ou seja, para que a partir de sistemas de sentido já existentes exista alguma forma de identificação entre o sujeito e o produto. Existem diversas formas de representar os animais da agropecuária, todas apresentam uma acção que se fecha com um happy end: os animais podem ser representados como estando sorridentes, como se insinuassem estar contentes por irem parar ao prato do consumidor; há ainda a tendência em representar o indivíduo humano consumidor como livre e consciente quando consome produtos de origem animal. Estas mensagens articulam tradicionalmente modos de relação entre géneros, amigos, família, classes sociais, situam o indivíduo em rituais sociais que legitimam o consumo de animais na alimentação. A construção de enredos que incidam sobre o consumo de animais é fundamental para instaurar uma identidade ao mercado, mas também para instaurar “identidade individual” e a auto-afirmação a um sujeito. A sedução de um anúncio vale-se pela utilização de mecanismos de associação do produto a estímulos de felicidade, ao status, a signos de prestígio (enraizados nos códigos da moda), com o fim de o sujeito criar prazer no reconhecimento em relação ao produto. Independentemente da forma como se representem

os animais da agropecuária, a finalidade principal é associar a acção de consumo à acção de prazer, com o objectivo de viabilizar o consumo. Democratizou-se o consumo de animais mas, por outro lado, não se têm associado ao seu consumo todos os vestígios penosos que intermedeiam o processo que se inicia desde o seu nascimento até ao momento que se vêem no frigorífico do super-mercado as embalagens com alguns dos seus restos mortais. Por defeito, inerente à própria publicidade, há uma alienação do consumidor em relação à concepção destes produtos de origem animal, criados pela indústria agropecuária: não se dão a conhecer as motivações do produtor; não se dão a conhecer as consequências negativas do consumo de animais no organismo humano; não se dão a conhecer os reais processos de produção de animais (uso de ração, vacinação, adições químicas, etc.); não se fazem constar na publicidade quaisquer vestígios do sofrimento animal; não se quantificam nem se mencionam os impactos da indústria no meio ambiente. Os sistemas de representação cultural têm assim uma influência central nas práticas alimentares dos indivíduos humanos porque legitimam modos de socialização e posicionam o indivíduo de acordo com critérios e padrões. A cultura (dominante) torna-se então num exercício de «violência simbólica» [6]


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La Vache QuiSouffre (auroria – Poderiu)

porque impõe significações como legítimas através do fundamento da sua própria força. É a universalização da ordem cultural (motivada pela economia) que a torna muito pouco mutável, fazendo com que pareça “natural”, e assim comem-se determinados animais porque “faz parte da nossa cultura”. Não tem sido a ética nem a sustentabilidade, mas sim a cultura que tem estipulado ao homem aquilo que na natureza é “comestível” e “não comestível”.

Referências BAUDRILLARD, Jean; 1976; A Troca Simbólica e a Morte I ; Lisboa; Edições 70. BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude; 1974; La Reproduction (Elements pour une théorie du système d´enseignement); Les Editions de Minuit. Callinicos, Alex; “ Introdução ao Capital de Karl Marx”; Revista Espaço Académico, Nº 38, s.p.,(Julho de 2004 – Mensal) ISSN 1519.6186. FISK, John, 1990; Introdução ao Estudo da Comunicação – Porto, Edições Asa. HARVEY, David; 2000; Condição PósModerna; 9ª Ed.; S. Paulo, Edições Loyola. Muñoz, Blanca; Sociologia de la Cultura de Masas; Universidad Carlos III, Madrid. s.p. Reduzir o Consumo de Carne – Uma reforma Urgente docs.google.com Livestocks Long Shadow (environmental issues and options) - http://www.fao.org/ docrep/010/a0701e/a0701e00.HTM Notas 1. cf. 34 Livestocks Long Shadow (environmental issues and options) http://www.fao.org/docrep/010/a0701e/ a0701e00.HTM 2. Idem 3. A fast-food, ou a cultura do hamburger, é uma marca da globalização cultural da American way of life que tem vindo a fazer parte dos padrões de vida para as novas classes médias em países desenvolvidos e em desenvolvimento espalhados pelo planeta. 4. Fonte: http://www.hsus.org/farm/ resources/pubs/stats_slaughter_totals. html 5. Fiske, 1990: 162, 163 6. cf. Bourdieu, Passeron; 1974: 18


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LIVROS // MAKING A KILLING

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A exploração dos animais está errada. Certo. Então porque é que sobrevive? Making a Killing, de Bob Torres, é um livro de 2007 que analisa com clareza e simplicidade o sistema económico capitalista e a indústria animal. Dando ao leitor informação sobre os diferentes actores e relações de poder que existem entre eles, Torres explica os mecanismos que provocam a criação de hierarquias, manipulação e opressão, como forma de acumulação de poder e mais-valia. Na opinião do autor, nesta exploração do trabalho, do peso ou do aspecto do animal, os seres humanos “desanimalizam-no” (seria incorrecto falar em


33 “desumanizar”) e afastam-no do fruto do seu trabalho, da sua natureza e das suas características. Sem deixar de referir as óbvias diferenças, Torres engloba assim vários tipos de violência (precariedade, racismo, sexismo, especismo, destruição do ambiente) que nascem todos, de uma forma ou de outra, da mesma necessidade de obtenção de poder e de lucro característica do capitalismo, e questiona a nossa posição neste sistema ao qual pertencemos e temos algo a dizer. Bob Torres revela as suas origens marxistas e anarquistas, num livro muito útil e que leva a perceber que os direitos dos animais não estão isolados do resto do mundo e que seríamos incoerentes em dar importância a um único tipo de exploração. “Se o movimento insistir em manter um foco estreito e exigir apenas os direitos dos animais não humanos, enquanto promove pessoas, organizações ou movimentos que não se batem pelos humanos, acabam por validar, promover e manter uma sociedade injusta, que tem a particularidade de proteger os interesses dos animais nãohumanos. Em vez de cair nestas armadilhas colocadas pela oportunidade política e ganhos de curto-prazo, o movimento pelo reconhecimento dos direitos dos animais ser parte integrante de um movimento amplo que

questione a hierarquia, a dominação e a exploração, incluindo não só a raça, a classe, o género ou a idade, mas também outras formas como o heterossexismo ou o especismo. (p. 110) Ao rever e fazendo a critica necessária aos diferentes caminhos usados pelo movimento de defesa dos animais, Torres explica como a melhor estratégia é aquela que ataca o coração da indústria animal, ou seja, o lucro. Com isto rejeita certas bandeiras bem-estaristas de algumas organizações que, deixando os animais certamente menos infelizes, deixam também os seus donos mais ricos e fortalecidos. E com isto aponta também algumas soluções de organização e activismo em grupo pelos direitos dos animais interessantes, muito para além do redutor e atomizante veganismo. Muito recomendado a quem acredita que os direitos dos animais é um tema independente e não tem que ver com outras lutas anti-capitalistas; a quem quer compreender com profundidade o porquê da origem e da manutenção das opressões, seja a dos animais ou outras; e a quem procura saber o porquê de algumas estratégias serem mais eficazes. Hugo Evangelista


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O CREA (Caldas da Rainha pela Ética Animal) é um movimento cívico informal cujos participantes podem utilizar para dar voz às suas preocupações relativas ao bem-estar dos animais e à exploração de que estes são vítimas por parte de diversas indústrias. O movimento pretende, através de um esforço conjunto e apoio mútuo por parte dos envolvidos, informar e sensibilizar a população para a Ética Animal e consequências da atitude generalizada na sociedade de preconceito para com os indivíduos animais não-humanos (especismo). www.CREApelosAnimais.info crea.caldasdarainha@gmail.com Junta-te a nós no Facebook e Hi5



//PARALELO// n1