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[ Veículos ]

Secretaria de Comunicação Social do Governo do Estadual do Rio de Janeiro

Blindados para uso policial

Uma necessidade cada vez mais presente

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T&D SEGURANÇA


Paulo RobertoBastos Jr./ Helio Higuchi

Um rápido flash back Em 1921, a Polícia Militar do Rio de Janeiro, na época a capital federal, teve a primazia da utilização de veículos automotivos blindados na América do Sul, com a aquisição de dois Automitrailleuse White, franceses, um veículo sobre rodas usado na Primeira Guerra Mundial. Em meados dos anos de 1920/30, as Forças Públicas de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, utilizaram blindados sobre rodas e sobre lagartas, produzidos localmente até a Revolução de 1932 e, após esse movimento, o emprego de blindados ficou restrito ao Exército, exceção feita às Polícias Especiais do Rio de Janeiro e São Paulo, porém, em ambos os casos, esses equipamentos tinham apenas a função de dissolver manifestações políticas. Em São Paulo, ganhou fama o uso de blindados holandeses da Wilton-Fijenoord 6X6 e motos blindadas belgas, da FN, mas esses veículos tiveram uma carreira efêmera. O retorno desse tipo de recurso se deu nos anos de 1960/70, nas polícias do Rio de Janeiro e de São Paulo, com a aquisição de alguns veículos para CDC importados e nacionais, como os VDT da Carrocerias Grassi e os UBTP e UBC da Sulamericana Carrocerias. Na década de 1990, houve uma reformulação desses equipamentos com o surgimento de veículos mais modernos, como os Massari Centurion, PMESP

as ultimas décadas, está ocorrendo uma profunda mudança no modus operandi das forças policiais em situações confronto, e isso em decorrência do maior acesso por parte da marginalidade a armamentos mais potentes, o uso de técnicas efetivas para sua utilização e sua capacidade de resposta, aumentando a similaridade das operações policiais com as militares. Além disso, as políticas de preservação da vida humana, seja dos policiais envolvidos nas operações, seja das populações presentes nos locais conflagrados, têm obrigado a adoção de armamento e táticas muito específicas. É nesse ponto que os chamados veículos táticos blindados têm um grande destaque. Originalmente idealizados para missões de Controle de Distúrbios Civis (CDC) com a utilização de jatos d’água e lâminas para remoções de barricadas, sua versatilidade possibilitou a migração para tarefas de cunho mais tático, quer dizer, o apoio direto a ações de combate ao crime, tanto pela inserção ou recuperação de forças táticas em locais de conflitos, como para a remoção de eventuais vítimas. Essa nova missão tem demonstrado, principalmente em função das incursões das Policias Militar e Civil do Estado do Rio de Janeiro a redutos antes inexpugnáveis da criminalidade, um forte redutor de baixas entre os policiais, diminuindo, ainda, os efeitos colaterais que possam atingir civis não envolvidos. Em alguns casos, a simples presença desses veículos já intimida, força o abandono do terreno e minimiza os embates.

O destaque dado pela mídia nos últimos anos, e as crescentes aquisições desses equipamentos por forças policiais de todo o Brasil tem registrado o aumento da importância dos chamados “Caveirões” na segurança pública, embora sua aplicação não seja uma idéia recente.

VEÍCULOS CDC MASSARI CENTURION do 3º BPMChq da PMESP, em uma ocorrência de reintegração de posse, no final da década de 1990, no Jardim Falcão, em São Paulo (SP), onde houve o emprego simultâneo dos veículos

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Coleção do capitão Sergio Rodrigues Gonzalez

VEÍCULO CCDC VDT, da Grassi, conhecido popularmente como “Brucutu”, da PMESP no desfile de Sete de Setembro de 1974

PMSE

adotados pelas Polícias Militares de São Paulo e do Distrito Federal, e do compacto Bernardini AM-IV, adquirido também pelo Distrito Federal e por Sergipe. No entanto, a aplicação tática era a mesma dos anteriores. Na virada do século houve uma nova mudança que resultou a aplicação atual blindados na polícia brasileira. O aumento na capacidade combativa dos grupos criminosos resultou em um aumento desproporcional de baixas, principalmente nas forças da lei e tornou-se necessária a presença de veículos protegidos em zonas de conflito, para patrulhamento, incursão ou no apoio direto, o que é uma solução já adotada em diversas partes do mundo. Essa mudança no escopo tático indicou que era preciso material mais adequado e, novamente, isso começou com os organismos policiais do Rio de janeiro.

UIB (UNIDADE DE INTERVENÇÃO BLINDADA), Bernardini AM-IV da Polícia Militar de Sergipe em desfile de Sete de Setembro de 2010

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A virada Sem dúvidas, o Estado brasileiro onde houve e há o maior emprego de viaturas blindadas para fins policiais, assim como a maior cobertura por parte da imprensa, é o Rio de Janeiro. Fruto de políticas de segurança equivocadas, principalmente a partir do governo Leonel Brizola, que permitiu o surgimento de áreas urbanas onde a intervenção estatal era inexistente, transformando os morros em verdadeiros feudos, intocáveis às forças públicas e governados por facções criminosas. Com a mudança na política de segurança, a ocupação dessas regiões revelou-se fundamental. Contudo, o tempo possibilitou que tais áreas se convertessem em verdadeiras fortalezas. Dessa forma, a adoção de veículos táticos blindados ficou evidenciada devido à crescente perda de vidas policiais nessas operações. Em 2000, a empresa paulista TCT Blindados, tradicional fornecedora de veículos para transporte de valores, apresentou o Rhinus Combat, com tração 4X2, blindagem na carroceria com nível de proteção III (ver tabela), como uma possível solução. As autoridades do Rio de Janeiro, que enfrentavam uma situação caótica em algumas regiões sob sua jurisdição, resolveram adotá-lo, com algumas modificações, tendo seu emprego sido iniciado no Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), revolucionando a maneira de atuar da polícia no Brasil. Sua entrada em operação, em 2002, foi tão impactante, principalmente pela redução no número de baixas policiais, levou a Secretaria de Segurança a adquirir dez desses veículos para a Polícia Militar, logo apelidados pela mídia como “Caveirão” (em alusão ao símbolo


do BOPE pintado na carroceria). A Polícia Civil também recebeu uma unidade para a Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE), em 2005, denominando-o de “Pacificador” e, dois anos mais tarde, apresentou um segundo veículo, dessa vez um carro de transporte de valores doado pela TransExpert e adaptado pela empresa Chavante Carrocerias. Em 2009 foi encomendada uma segunda geração desses veículos, produzida pela MIB Blindados, e que tinha como principais diferenças uma maior capacidade de transporte, melhor proteção blindada e mais conforto para seus ocupantes. Por outro lado, tinham uma mobilidade menor. Com os reflexos dos resultados positivos iniciais obtidos no Rio de Janeiro, Minas Gerais adotou solução semelhante nos anos de 1990, sendo seguido, mais recentemente, por Santa Catarina, Alagoas, Mato Grosso do Sul e Bahia.

Problemas Por muito tempo, os blindados, particularmente no Rio de Janeiro, foram muito utilizados nas ocasiões em que as forças policiais faziam incursões aos morros, tendo como missão principal debelar focos de combate e, esporadicamente, ocupar posições. Os blindados obtiveram relativo sucesso, mas revelaram, também, problemas. O principal deles reside no fato de serem baseados em veículos de transporte de valores sobre chassis de caminhões comerciais (a maioria Ford ou Mercedes-Benz), e são de tração 4X2. O aumento de peso das carrocerias, em função da blindagem, resultou num desempenho sofrível, notadamente em terrenos irregulares e com fortes aclives, como é o caso dos morros, além de um excessivo desgaste de peças e componentes, resultando em diversas quebras durante as operações, gerando situações perigosas para seus ocupantes. Essas deficiências, expostas, permitiram o emprego de táticas pelas organizações criminosas para anular as vantagens que esse equipamento dava às forças policiais, como derramar óleo nas ladeiras de acesso aos morros para que rodas desses pesados veículos perdessem a tração; erguer barricadas de concreto; e a colocar pregos e outros objetos para furar ou rasgar seus pneus. Foi exatamente a utilização dessas técnicas que impediu que essas viaturas estivessem na linha de frente das operações para a ocupação da Vila Cruzeiro e Complexo do Alemão, no final de 2010. Assim a aplicabilidade inicial desses veículos foi diminuindo, pois se constatou que não eram adequados para subir fortes aclives, tinham baixa capacidade de manobra em ruas estreitas e não podiam suplantar barreiras. O aspecto psicológico, de causar impacto nos oponentes, logo se dissipou, quando se percebeu que se tratava apenas de carros de transporte de valores adaptados. Em resumo, os “Caveirões” começaram a

participar apenas de patrulhas, com o mais intuito de proteger os policiais do que ser um instrumento intimidatório. Com a decisão de implantar as Unidades de Polícia Pacifi cadora (UPP) nos morros e lugares com elevados índices criminais, as missões que vinham sendo de um policiamento mais ostensivo, voltaram a ser complexas, com a necessidade de aplicar táticas de assalto e conquistar (e dominar) posições, para implantar um posto policial de forma definitiva. Nas operações na favela de Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão, logo ficou patente a ineficiência dos blindados da polícia, e foi preciso a ajuda da Marinha através dos blindados sobre lagartas M-113A1 e CLAnf, do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), os quais, ao contrário dos carros sobre rodas, ultrapassaram com extrema facilidade os obstáculos providenciados pelos criminosos nas ruelas das favelas e pelo impacto causado pelo barulho de seu deslocamento e seu tamanho. Com as lições deixadas, a modernização da frota de blindados da polícia não pode se limitar à aquisição de carros adaptados, oriundos do setor de transporte de valores. Existem no mercado veículos especialmente projetados para distúrbios urbanos e, em casos como o Rio de Janeiro ou municípios onde existam comunidades dominadas pelo crime organizado, ficou demonstrado que é importante também contar com blindados sobre lagartas.

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Capitão PM Paulo Roberto Pereira Junior

VEÍCULO VBCDC AMALCABURIO, Alcatraz Anti-Motim do Batalhão de Policia de Eventos da Polícia Militar de Minas Gerais

O futuro Os confrontos ocorridos entre traficantes e forças do Estado do Rio de Janeiro, entre o final de 2010 e o inicio de 2011, explicitaram as enormes deficiências que os blindados policiais cariocas possuem e a ocupação de determinados locais só foi possível com a chegada de blindados militares. Nessas ocasiões, a fragilidade da locomoção e a baixa confiabilidade mecânica colocou em risco as operações. Esse fato, somado à participação brasileira nas Forças de Paz no Haiti, que tem absorvido muitos conhecimentos sobre o emprego em ambientes urbanos e densamente povoados, vem criando discussões, tanto no meio policial quanto na sociedade, de como deve ser a atuação correta da polícia em situações críticas. A proximidade da chegada de grandes eventos esportivos no País, como a Copa do Mundo de Futebol, em 2014, e as Olimpíadas, em 2016, também devem levar forças de segurança

É preciso mais... Empresas brasileiras chegaram a lançar produtos para o nicho de mercado representado pelos blindados de uso policial. Algumas, até com certa pompa e publicidade, mas nenhuma, além da Avibras, mostrou competência e capacidade técnica para oferecer um produto moderno e de qualidade. Porém, o emprego desses veículos ainda poderá estar comprometido em ações como as realizadas na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão, devido ao fato de ainda serem veículos sobre rodas. Talvez, uma idéia que deva ser estudada, seria a do emprego de veículos sobre lagartas, como os M113 utilizados naquela ocasião e em diversas forças policiais pelo mundo, como uma espécie de veículo rompedor, um moderno aríete. Como se trata de veículos caros de se adquirir e manter, uma solução seria a equipar um pelotão da Força Nacional de Segurança Pública, ou de alguma unidade do Exército, especialmente adaptadas para esse tipo de ação urbana, como o reforço na blindagem, deixando as polícias estaduais com seus blindados de CDC e táticos. (PB)

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pública de todo o Brasil a uma revisão de seus conceitos e equipamentos. A Polícia Militar de Minas Gerais iniciou os estudos para um sucessor dos seus “Brucutus”, nome dado aos veículos adquiridos nos anos de 1990, que originalmente também eram dois antigos transportadores de valores adaptados para trabalhos policiais. Utilizouse, ainda, um protótipo de um jipe Toyota Bandeirante, blindado, e foram realizadas pesquisas com a empresa gaúcha Amalcaburio que originaram dois veículos interessantes: o Alcatraz Antimotim - de CDC para o Batalhão de Polícia de Eventos (BPE) -, e o Alcatraz Pacificador – para confrontos, com nível de proteção IV -, para o Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE). Ambos possuem tração 4X4 e apesar da semelhança externa com veículos de transporte de valores, são projetos totalmente novos, eficazes e baseados em todos os modernos requisitos de mobilidade e proteção definidos pela corporação mineira. A Polícia Militar do Estado de São Paulo, do mesmo modo, está pensando na substituição dos seus Centurion, com ênfase em operações CDC, até mesmo como reflexo das ações para conter a forte violência na favela de Paraisópolis, na capital paulista, em 2009, quando enfrentou meliantes armados no meio da turba e constatou o baixo nível de proteção de seus veículos blindados. No Rio de Janeiro está desencadeado um processo para a escolha de novos vetores, capazes de atender as novas realidades. Em 2009, o BOPE avaliou diversos modelos, entre eles o israelense Sandcat, da Plasan Sasa, o russo GAZ-2330 Tigr, da Gorkovsky Avtomobilny Zavod, e o sul-africano RG32M, da BAE Systems. Algumas alternativas nacionais também foram consideradas como o protótipo do AV-VB4 RE Guará, da Avibras, derivado do AV-VBL 4X4 utilizado nos Sistemas Astros II exportados para a Malásia. O protótipo encontra-se atualmente no Haiti, com o Exército Brasileiro, e pode se mostrar atraente, já que têm as qualidades das modernas viaturas desse tipo, o que levou, inclusive, a própria empresa a lançar uma versão chamada AV-BOPE TP-10, especialmente para este segmento. Em 2007, seguindo uma tendência de diminuição de tamanho para aumentar a mobilidade, foram oferecidos à Polícia Militar do Rio de Janeiro dois blindados baseados nos chassis da pick-up S-10 Blazer e do caminhão IVECO e, em 2008, foi apresentado o VESPA (Viatura Especial de Patrulhamento), desenvolvido pelo Centro Tecnológico do Exército, com o concurso da Agrale.

N.da R: Tecnologia & Defesa-Segurança agradece a inestimável colaboração do capitão PM Paulo Roberto Pereira Junior, da Companhia de Choque da Polícia Militar de Minas Gerais, e do primeiro-tenente Ronaldo Mádio Pereira, do 3º Batalhão de Polícia de Choque, da Polícia Militar do Estado de São Paulo.


Blindados Policiais no Brasil - História